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ISSN 1413-389X Temas em Psicologia - 2007, Vol.

15, no 1, 57 – 68

Ensino de Psicologia e seus fins na formação de


professores: uma discussão mais que necessária
Priscila Larocca
Universidade Estadual de Ponta Grossa

Resumo
O artigo traz reflexões sobre o ensino de Psicologia na formação de professores, visando
discutir os seus fins educativos. Parte do pressuposto de que esta esfera de análise está
implicada com a organização dos cursos e com a condução do ensino pelos formadores, no
âmbito dos cursos superiores. Ao reconhecer, tanto os professores como intelectuais
transformadores, como a característica teleológica da educação, incita à superação das
concepções ingênuas que concebem o ato de educar como neutro e a formação profissional
docente como técnica. Posiciona a discussão em favor de uma racionalidade crítica
emancipatória, em que o ensino de psicologia é pautado por uma visão omnilateral do homem,
pela problematização do real, pela luta contínua por uma vida coletiva mais justa e mais decente
para todos os cidadãos e pela interlocução dialógica destas pautas com os referenciais teóricos
proporcionados pela Psicologia.
Palavras-chave: Ensino de Psicologia, Licenciatura, Formação de Professores.

The teaching of Psychology and its aims in the teacher


training: A very important issue to be discussed

Abstract
This paper presents reflections about the Psychology professor preparation course in the
professor’s training that aim to discuss its educative purposes. The base assumption is that this
sphere of analysis is related to the teacher training courses’ organization, considering Higher
Education level, as well as the teaching process applied by the teacher educators. By
recognizing teacher educators as active intellectuals transformers and the teleological approach
of the education, it is proposed the overcome of naiveness conceptions which understand the
educational activity as neutral and the professor education as a technical matter. This paper
argues in favor of a critical and emancipatory rationality in which the psychology teaching is
based on an omnilateral view of human being, by the problematization of the real, by the
continuous struggle for a more fair and decent life for all citizens and by the dialogic
interlocution of these matters with the theoretical frameworks of psychology.
Keywords: Psychology Teaching, Pre-Service Courses, Professor Training.

Minha presença de professor, que No ano de 2000 publicamos na Revista


não pode passar despercebida dos Psicologia Ciência e Profissão um artigo
alunos na classe e na escola, é uma intitulado “O saber psicológico e a docência:
presença política. Enquanto presença Reflexões sobre o ensino de Psicologia na
não posso ser uma omissão, mas um Educação”. Neste artigo, abordamos os
sujeito de opções. Devo revelar aos
paradigmas que influenciam a
alunos a minha capacidade de
analisar, de comparar, de avaliar, de profissionalização dos docentes, o papel da
decidir, de optar, de romper. Minha Psicologia na Educação, a necessidade da
capacidade de fazer justiça, de não pluralidade e da contextualização teóricas,
falhar à verdade. Ético, por isso bem como da articulação teoria e prática na
mesmo, tem que ser o meu condução do ensino de Psicologia na
testemunho (Freire, 1996, p. 110) formação de professores (Larocca, 2000a).

Endereço para correspondência: Priscila Larocca. Rua Brasil Pinheiro, 40, Bairro Órfãs, CEP: 84015-265,
Ponta Grossa, Paraná. E-mail: priscilalarocca847@hotmail.com.
58 Larocca, P.

Na construção deste texto, partimos de diríamos, então, que dirigimos à esta


uma afirmação de Castelo Branco (1998), temática um olhar de professora, de uma
num artigo publicado no mesmo periódico profissional da educação, que por muitos
com o título “Que profissional queremos anos vem estudando o ensino de Psicologia
formar?” Nele, a autora refletia sobre as na formação de professores.
demandas de trabalho do psicólogo no Em função do exposto, após a discussão
cenário de mudanças da realidade social sobre os fins do ensino de Psicologia em
brasileira, apontando as sérias dificuldades cursos que formam professores,
deste para definir sua identidade apresentamos, na segunda parte deste artigo,
profissional, quando a sua ação não se situa algumas considerações e possibilidades para
no âmbito clínico. os cursos e para a condução da Psicologia na
Pensando no psicólogo que atua na formação docente.
educação, defendemos, então, que o ensino
de Psicologia de fato não pode almejar os
mesmos fins visados na formação para o
Os fins educativos do ensino de
exercício clínico, o que implica, portanto, a Psicologia na formação de
construção de uma outra identidade professores
profissional, que assuma compromissos Na definição grega clássica de
substancialmente diferenciados daqueles que educação do cidadão, podemos
a formação do psicólogo em geral comporta reconhecer um modelo de
(Larocca, 2000a). racionalidade que é explicitamente
Esta referência sobre reflexões de político, normativo e visionário.
alguns anos atrás visa, neste artigo, Dentro desse modelo, a educação era
posicionar a perspectiva que abraçamos na vista como intrinsecamente política,
discussão do ensino de Psicologia na tendo como objetivo educar o cidadão
formação de professores, ao mesmo tempo para a participação ativa e inteligente
em que constatamos que esta questão ainda na comunidade cívica. Além disso, a
permanece na pauta das inquietações inteligência era considerada uma
daqueles que trabalham na área, merecendo, extensão da ética, uma manifestação e
portanto, ser retomada, aprofundada e demonstração de doutrina da vida boa
ampliada. e justa. Assim, nesta perspectiva, a
Assim, nosso objetivo neste artigo é educação não visava treinar. Sua
analisar o ensino de Psicologia na formação finalidade era cultivar a formação do
de professores com vistas a aprofundar a caráter virtuoso, na busca contínua de
discussão dos fins educativos. Ao liberdade. A liberdade era, portanto,
estabelecermos este objetivo, partimos do sempre alguma coisa a ser criada, e a
pressuposto de que esta esfera de análise dinâmica que inspirava a relação entre
está implicada diretamente com a o indivíduo e a sociedade era baseada
organização dos cursos e com a condução do em uma luta contínua por uma
ensino pelos formadores, no âmbito dos comunidade política mais justa e
cursos superiores de formação inicial de decente (Giroux, 1986, p. 221).
docentes: as licenciaturas.
Antes, porém, de desenvolvermos Giroux, ao apresentar a concepção
nossas análises, é necessário esclarecer ao visionária dos gregos sobre o papel político
leitor que o olhar que dirigimos à temática da educação na sociedade, nos avaliza a
do ensino de Psicologia carrega marcas da colocar a discussão dos fins educativos do
nossa trajetória acadêmica e profissional na ensino de Psicologia, como a reflexão
educação pública, na formação de filosófica central, imprescindível ao
professores e na pesquisa em educação. Se delineamento das demais questões.
“cada um lê com os olhos que têm” 1 , Quando indagamos acerca dos fins a
alcançar com o nosso ensino de Psicologia,
pretendemos questionar sobre a essência da
1
Palavras da eminente professora portuguesa de
Aveiro, Idália Sá Chaves, na Conferência de em psicologia. 28/06/2007. Campinas:
Abertura do evento Diálogos sobre a docência UNICAMP.
Psicologia e Formação de Docente 59

educação que praticamos: se a praticamos em todo ato educacional, concebendo que


como um mero treinamento de indivíduos, aqueles que são ou serão professores de
tendo em vista um bom exercício no mundo Psicologia no ensino médio, ou nas
do trabalho, ou se a dirigimos para além licenciaturas, precisam conquistar clareza
disto: buscando a emancipação humana, sobre o significado primeiro da missão
numa luta contínua por uma vida coletiva profissional que abraçam, que é
mais justa e mais decente para todos os eminentemente educacional. Precisam,
cidadãos. ainda, questionar criticamente as
Tal definição de fins é vital, pois circunstâncias históricas, culturais, políticas
configura aquilo que perseguimos, nossas e econômicas que envolvem a missão
utopias, exigindo da nossa consciência uma profissional de educar e que também se
tomada de posição perante o fenômeno fazem e se fizeram presentes no processo de
educativo: afinal, para que ensinamos? produção dos conhecimentos teóricos e
Com Vieira Pinto (1987), grande práticos que configuram a área da
professor e filósofo da educação brasileira, Psicologia.
aprendemos que a finalidade maior da Supomos que a adoção desta
educação é necessariamente nacional. perspectiva da missão profissional de
Segundo ele, um país é atrasado em face da professor não seja algo tão fácil de assimilar
realidade de vida das suas massas, não das pelos psicólogos que se dedicam ao ensino.
suas elites. Assim, a “transformação da Estes, além de terem diante de si o desafio
existência do povo é o que constitui a de construir uma identificação com a área
substância da mudança na realidade da educacional, porquanto é nela que atuam, ou
nação” (p. 49). atuarão, no nível do ensino superior, ou no
Esta característica teleológica da ensino médio, também se deparam com a
educação, a de sempre visar a um fim, necessidade de desconstruir ideologias que
requer que ultrapassemos as concepções têm marcado a profissão do psicólogo, como
ingênuas e restritas do educar como uma bem coloca Bock (2003): a tendência à
mera preparação ou treinamento de naturalização dos fenômenos psicológicos; a
indivíduos e gerações para serem membros concepção técnica e de neutralidade da
úteis à sociedade. prática profissional; e, ainda, a idéia de uma
Como atividade intencional, histórica, autonomia humana ímpar, representada pela
social e culturalmente situada, a educação autora por meio da figura do Barão de
não se restringe a transmissão dos saberes Münchhausen das histórias infantis – como
formalizados, científicos ou técnicos, mas alguém capaz de sair de um pântano
exige algo maior, pois requer a puxando-se pelos próprios cabelos.
transformação substantiva dos homens que A concepção técnica e neutra da missão
adquirem os saberes, implicando sempre a profissional vem inquietando pesquisadores
intenção política de mudar (ou até mesmo de do ensino de Psicologia. Dois trabalhos
manter) as condições humanas existentes em recentes focalizam esta dimensão de
nossa sociedade. significado. O primeiro debruçou-se sobre o
Uma concepção crítica de educação ensino de Psicologia na área da Saúde
reconhece, portanto, que o ato de educar não (Batista, 2007); enquanto o segundo
é neutro, nem ocorre de modo isolado ou analisou contribuições do ensino de
recortado do contexto sócio-econômico que Psicologia da Educação nas licenciaturas, no
temos. Muito menos o processo ensino- contexto das reformas curriculares
aprendizagem, em qualquer nível, se dá no empreendidas para a formação de
vácuo das condições da vida humana em professores (Almeida, 2005).
nossa sociedade. Por esta razão, se nos Nos dois casos fica evidente a redução
dedicamos ao ensino de Psicologia, da prática profissional, em saúde e
formando professores, “temos que pensar a educação, à sua dimensão técnica ou
Educação e a Psicologia ao mesmo tempo tecnológica. Este tipo de reducionismo da
em que pensamos a sociedade que temos” missão profissional desvela a forte presença
(Larocca, 2002, p. 32). da mentalidade racional-técnica que ainda
Com estas colocações, pretendemos impregna as práticas de formação, a despeito
desvelar o sentido sócio-político existente das reformulações recentemente
60 Larocca, P.

empreendidas nos projetos pedagógicos instrumental de problemas mediante a


curriculares dos cursos superiores. aplicação de um conhecimento teórico
Se quisermos compreender a e técnico, previamente disponível, que
racionalidade técnica, devemos referenciar procede da pesquisa científica. É
Donald Schön, um dos críticos desta instrumental porque supõe a aplicação
mentalidade. Schön (1995) nos chamou a de técnicas e procedimentos que se
atenção para o fato de que esta concepção, justificam por sua capacidade para
forjada a partir da visão positivista de conseguir os efeitos ou resultados
conhecimento, passou a ser um modelo de desejados.
formação profissional em diversas áreas,
com implicações profundas para o modo Em função disso, podemos perceber
como os profissionais formados nesta porque a racionalidade técnica tornou-se
perspectiva exercem as suas práticas. prevalente no mundo do trabalho. Na
verdade, seu desenvolvimento vem
Giroux (1986) explica que a
acompanhando o processo de modernização
racionalidade técnica fundamenta-se no
das sociedades industriais, convertendo-se, a
modelo de desenvolvimento teórico das
cada dia, numa mentalidade imprescindível
ciências naturais, ligando-se aos princípios
à concretização dos interesses
de certeza, controle e previsibilidade. Ou
mercadológicos próprios do mundo
seja:
capitalista.
[...] como o conhecimento do Almeida (2005) explica que autores
mundo social é objetivo e consiste de como Schön (1995), Pérez Gómez (1995) e
partes isoladas e distintamente Contreras (2002) concordam que o modelo
separáveis, que interagem de acordo racional-técnico está na base da divisão do
com regularidades que simplesmente trabalho, das relações de subordinação, do
precisam ser descobertas, a relação isolamento profissional e da aceitação de
entre essas variáveis é uma relação metas e objetivos que, considerados neutros,
empírica que pode ser reduzida a são definidos externamente à atividade
resultados previsíveis.” (Giroux, profissional.
1986, p. 232-233).
O modelo também presume uma
A força desse conhecimento está no hierarquia entre o conhecimento básico e o
grau em que é objetivamente testável. Além conhecimento aplicado, produzidos pelos
disto, trata-se de um conhecimento cientistas e especialistas, e o conhecimento
considerado neutro, livre de valores, das rotinas de intervenção, a ser utilizado
devendo apenas ser descrito objetivamente. pelos profissionais em suas decisões para
O modelo racional técnico no mundo resolver os problemas que a labuta cotidiana
profissional apóia uma concepção de busca coloca.
de eficiência através da formalização, Ora, subordinando-se um conhecimento
linearidade entre causa e efeito e a outro, promove-se também a subordinação
fragmentação do conhecimento, de “quem faz” a “quem pensa”, ignorando-
desvinculando-o completamente das se, ao mesmo tempo, a unidade orgânica e
relações sociais existentes ao ignorar a dialética que existe entre a teoria e a prática
complexidade e a totalidade do real. Assim, profissional, isolando-as uma da outra e
também, na formação de profissionais, este fazendo do profissional um mero executante
modelo concebe currículo e ensino como das ações pensadas pelos especialistas.
atividades dirigidas para alcançar produtos
determinados (Masson, 2003). Estes É desta maneira que formamos, em
produtos são soluções técnicas ou nossos cursos, o profissional “tarefeiro”,
tecnológicas geradas para a resolução de aquele que “sabe fazer”, e muitas vezes,
problemas práticos. Sobre o modelo, bem, mas ignora valores humanos, éticos e
Contreras (2002, p. 90-91) explica que: sociais implicados em suas práticas, bem
como é incapaz de refletir sobre
A idéia básica do modelo de possibilidades de futuro para a sociedade,
racionalidade técnica é que a prática que são alimentadas por sua ação
profissional consiste na solução profissional.
Psicologia e Formação de Docente 61

A formação reduzida à perspectiva empreender rupturas nas concepções


técnica deprecia, assim, o papel fundamental ingênuas e nas práticas educativas
do profissional, de ser sujeito de seu pensar tradicionais.
e agir. Rouba-lhe um bem precioso para Posicionamos, pois, a necessidade de
exercer sua cidadania e imprimir um sentido contrapor à perspectiva técnica uma
verdadeiramente sócio-político à educação perspectiva reflexiva, crítica e
que pratica: a reflexão sobre a sua ação e emancipatória, que conceba o papel do
sobre o seu pensar, em sua significação mais professor, não como técnico, nem
ampla: a de lutar pela emancipação dos simplesmente um prático, mas o de um
homens na sociedade. intelectual transformador da realidade em
Giroux (1986) defende que os que vive.
professores devem guiar a ação profissional O sentido da categoria intelectual que
por uma racionalidade emancipatória, cujo utilizamos aqui provém das contribuições de
objetivo é “criticar aquilo que é restritivo e Gramsci (1991) e Paulo Freire (1980, 1989).
opressor, enquanto ao mesmo tempo apóia a Gramsci diz que “são os homens que
ação a serviço da liberdade e do bem-estar fazem a história, particularmente os
individual.” (p. 249). Tal racionalidade intelectuais” (1991, citado por Portelli,
supõe a capacidade de pensar criticamente, 1990, p.89). Assim, evidencia a importância
tomando o sentido de “refletir e reconstruir dos intelectuais orgânicos na transformação
sua própria gênese histórica, isto é, pensar da realidade. Chamou-os de orgânicos em
sobre o próprio pensamento.” (p. 249). face de três motivos: 1) porque se vinculam
Ora, o desenvolvimento da capacidade “organicamente” com uma classe
reflexiva é uma condição necessária para determinada; 2) porque este vínculo aparece
que o profissional construa suas próprias essencialmente no seio da própria atividade
teorias acerca da ação que pratica, do campo que exercem; 3) porque desfrutam de certa
em que atua e dos fins que persegue com a autonomia, não sendo reflexos passivos da
sua atividade. Portanto, o ensino baseado estrutura socioeconômica que os cerca
numa racionalidade que restringe a ação (Portelli, 1990).
profissional a uma mera questão de regras e Paulo Freire nos ensinou que todos os
procedimentos técnicos traz nefastas homens são intelectuais, pois todos podem
conseqüências para a formação e atividade interpretar e dar sentido ao mundo em que
futura do profissional professor: a sua vivem. Todavia, ele também nos remete a
incapacitação política e a ilusão de que tem verificar a necessidade de superar a
autonomia em suas decisões e ações. consciência ingênua para chegar a uma
A Psicologia na formação de consciência crítica acerca da realidade que
professores precisa, então, repensar temos na sociedade em que vivemos. A base
urgentemente a forte presença da dessa inserção crítica é a relação
mentalidade técnica em suas concepções de consciência-mundo, pela qual o homem
ensino, currículo, formação profissional. integra-se à realidade e não, simplesmente,
Mesmo porque, embora a preparação se superpõe a ela, recebendo-a ou
profissional dos docentes necessite dos enquadrando-a em sistemas fixos de idéias
aspectos técnicos, e de produzi-los, jamais (Freire,1989).
se reduzirá a estes, dadas as dimensões ética, Daí porque compreendemos que o
política e sócio cultural da educação. Assim, ensino de Psicologia, ao mesmo tempo em
postulamos que “a racionalidade técnica é que trabalha com os conhecimentos
muito mais um ‘componente’ da formação advindos da ciência psicológica,
profissional, jamais o seu todo, e muito questionando-o em seus aspectos
menos um modelo unívoco para tal.” ideológicos, precisa ainda questionar a
(Larocca, 2000a, p. 62). educação que temos e as múltiplas formas de
Impõe-se, portanto, fazer avançar a alienação do homem na sociedade.
formação na perspectiva de desenvolver, nos Certamente, essa não é uma questão técnica,
estudantes que serão professores, um mas uma questão eminentemente política,
pensamento social e político mais que implica ao profissional ou ao futuro
comprometido com a emancipação da profissional docente desvelar aquilo que está
condição humana e mais capaz de oculto, compreendendo as origens históricas,
62 Larocca, P.

sociais, econômicas e culturais dos fatores Educação Básica, em nível superior


que configuram a sua prática educacional. (Brasil/CNE, 2004).
Ana Bock, nome valioso no cenário As Diretrizes Curriculares Nacionais
atual das discussões sobre Psicologia e para os cursos de formação de professores
formação profissional em nosso país, estão expressas na Resolução CNE/CP 2 no 1
constata que os cursos de Psicologia não de 2002, que, por sua vez, se constituem um
estão preparando os estudantes para conjunto de princípios e orientações para a
assumirem projetos de alcance social, organização curricular a serem observadas
remetendo-nos a uma formação que: pelas Instituições De Ensino Superior – IES
“enfatiza o que fazer e não reflete sobre a e cursos. Essa organização curricular deve
adesão a projetos sociais, não estimula o ter em vista o preparo do professor,
debate sobre a realidade social e suas independentemente do nível para:
demandas. Ensina como aplicar e não ensina I - o ensino visando à
por que aplicar. Ensina a responder e não aprendizagem do aluno;
ensina a perguntar.” (2005, p. 3). II - o acolhimento e o trato da
Ao fazer sua crítica a uma formação diversidade;
pautada pela índole naturalizante e III - o exercício de atividades de
universalizante da subjetividade, pela enriquecimento cultural;
formação corretiva, adaptadora e IV - o aprimoramento em
terapêutica, Bock (2005) nos permite práticas investigativas;
visualizar uma perspectiva de compromisso V - a elaboração e a execução de
social para repensarmos o contexto do projetos de desenvolvimento dos
ensino de Psicologia. Essa entendida como conteúdos curriculares;
formação de intelectuais transformadores, VI - o uso de tecnologias da
numa perspectiva emancipadora, mais ética, informação e da comunicação e de
mais humanizante e mais pautada pela vida metodologias, estratégias e materiais
coletiva. de apoio inovadores;
VII - o desenvolvimento de
hábitos de colaboração e de trabalho
Algumas considerações sobre os em equipe (Brasil/CNE, 2002, p. 1).
cursos que formam professores e
Conforme compreendido nessas
o ensino de Psicologia
diretrizes, o preparo profissional do
Considerando o exposto na primeira professor deve seguir três princípios
parte deste artigo, julgamos importante balizadores essenciais: a concepção de
sistematizar algumas idéias a título de competência como central na orientação do
contribuir com os cursos que formam curso; a coerência entre o que se oferece na
professores e para a programação do ensino formação e o que se espera da prática
de Psicologia nesse mesmo contexto. profissional do professor; e a pesquisa como
foco central do processo de ensino-
Sobre os Cursos aprendizagem (Brasil/CNE, 2002).
Segundo o artigo 13º da Resolução no 8 Ainda que tenhamos nossas reservas em
de 2004, que instituiu as Diretrizes relação à centralidade da noção de
Curriculares Nacionais para os cursos de competências para a formação de
graduação em Psicologia, a formação do professores, que explicaremos adiante,
professor de Psicologia impõe um projeto precisamos reconhecer que tanto as
pedagógico próprio, complementar e diretrizes para a formação dos professores
diferenciado da formação do psicólogo em geral, como as diretrizes que se referem
propriamente dita. Essa resolução explica especificamente a formação do professor de
que a formação do professor de Psicologia Psicologia, avançaram ao dirigir esses
deverá desenvolver competências e cursos para a consolidação de uma
habilidades básicas constantes do núcleo identidade profissional docente.
comum do curso de Psicologia, como
também aquelas previstas nas Diretrizes 2
Conselho Nacional de Educação/ Conselho
Nacionais para a formação do professor da Pleno.
Psicologia e Formação de Docente 63

A ênfase na construção da identidade obviamente, que isto não se configure como


docente é vital, em função dos fins a letra morta, mas como concepções e práticas
alcançar, pois como já defendemos neste efetivas dentro deles.
artigo, a tarefa abraçada quando ensinamos Contudo, ainda temos a discutir a
Psicologia não é psicológica, mas educativa polêmica em torno da noção de
e, portanto, deve ser pensada em uma esfera competências como fundamento da
crítico-social. formação de professores.
As diretrizes também avançam A noção de competência enfatiza o
expressando oficialmente a necessidade de saber prático e tácito que advém da
coerência e articulação entre o que se experimentação das ações nos contextos de
oferece na formação e o que a prática trabalho, legitimando configurações
profissional docente exige; bem como ao curriculares centradas na prática (Masson,
focalizar a pesquisa como instrumento 2003). Todavia, a prática, como componente
metodológico central do processo de ensino- curricular, valioso com toda a certeza, não
aprendizagem no nível superior. pode ser vista como auto-suficiente, capaz
Todos esses aspectos ganham de, sem vincular-se a reflexões teóricas
importância quando nos remetemos à consistentes, garantir a conquista de uma
conhecida problemática das licenciaturas educação emancipadora com qualidade
ante os bacharelados. Elas vinham social e política.
funcionando, em nosso país, até então, como Segundo Masson (2003), as origens do
meros apêndices deles, quando não, como modelo pedagógico fundado na noção de
uma formação secundária e desprestigiada. competências provêm dos Estados Unidos,
Desse contexto fazia parte uma excessiva Canadá, Bélgica e, posteriormente, da
valorização dos conteúdos específicos dos França. É um modelo que se manifestou a
cursos e certa dose de rejeição à formação partir dos anos 70 no ensino técnico e
pedagógica, que retrata, na verdade, a profissionalizante, vinculando-se às
formação essencial da função de qualquer mudanças socioeconômicas e ao perfil do
professor. Em 2000, escrevíamos a esse profissional desejado pelo mercado
respeito, dizendo: capitalista.
[...] é preciso compreender que o A autora explicita que a noção de
magistério não é uma profissão de competências valoriza as particularidades
prestígio social. Mesmo assim, muitos individuais que são distintivas entre os
dos acadêmicos que passam por esses sujeitos, com ênfase no desenvolvimento de
cursos um dia acabarão dentro de uma profissionais preocupados com o próprio
sala de aula lecionando. A idéia de percurso de formação. Sendo assim, reforça
profissão é uma construção social e o individualismo e a meritrocracia presentes
muda em função das condições na sociedade atual, ao invés de valorizar a
sociais em que as pessoas a utilizam. dimensão coletiva no desenvolvimento da
(...) Assim, dizer que se é Biólogo, profissionalidade.
Matemático ou Historiador soa A ANFOPE – Associação Nacional
melhor aos ouvidos mais seletivos do pela Formação dos Profissionais da
que dizer que se é ‘professor de Educação –, posicionou-se da seguinte
Biologia’, ‘professor de História’, maneira sobre a noção de competências.
‘Professor de Geografia’ (Larocca, Notemos:
2000b, p. 143).
O significado da noção de
Da mesma forma, alguns acadêmicos, e competências como concepção
até mesmo alguns formadores, poderiam nuclear para orientar a formação dos
sentir-se desprestigiados para assumir a profissionais da educação representa,
condição de “professor de Psicologia”. no entendimento do movimento, uma
Desse modo, pelo menos oficialmente, as concepção fragmentada e instrumental
diretrizes reconhecem a importância e a de formação, como também, uma
premência de que os projetos dos cursos concepção individualista, na sua
definam claramente sua identidade como essência, e imediatista em relação ao
cursos que formam professores. Esperamos, mercado de trabalho. Os princípios
64 Larocca, P.

orientadores das referidas diretrizes – inserção de disciplinas e/ou temas


não contemplam a perspectiva de sobre Políticas Públicas, principalmente
formação humana omnilateral sobre as políticas educacionais;
(Encontro Nacional da ANFOPE, – inserção de disciplinas e/ou temas
2002, p. 21) sobre Ética na Educação e sobre o
desenvolvimento dos valores na moralidade
Para os educadores, o conceito de humana;
formação omnilateral supera a formação de – construção de espaços nos currículos
competências, na medida em que objetiva a dos cursos para a discussão de direitos
educação do homem inteiro, presumindo o humanos e de como estes existem/inexistem
desenvolvimento das várias possibilidades nas realidades sociais e educacionais
humanas. Assim, a formação omnilateral concretas;
retrata: – construção de espaços progressivos
de pesquisa, do início ao fim dos cursos,
a chegada histórica do homem a sobre práticas educativas reais, presentes na
uma totalidade de capacidades educação básica, nas escolas públicas e
produtivas e, ao mesmo tempo, a uma particulares, bem como sobre contextos de
totalidade de capacidades de consumo desenvolvimento e aprendizagem de
e prazeres, em que se deve considerar crianças e adolescentes, tendo-se como
sobretudo o gozo daqueles bens ponto de partida e de chegada a concepção
espirituais, além dos materiais, e dos de que o homem é um ser que se constitui
quais o trabalhador tem estado como tal nas interações que estabelece com
excluído em conseqüência da divisão outros homens, num quadro sócio-histórico
do trabalho. (Manacorda, 1991, p. 81). e cultural;
A formação do homem inteiro, – formação de grupos de estudo
omnilateral, inclui, obviamente, a formação interdisciplinares sobre temas que
de competências, habilidades e destrezas representem demandas urgentes da educação
necessárias ao mundo do trabalho. e dos professores. Por exemplo: “Estudando
Entretanto, devemos reconhecer que o a problemática da (in)disciplina na escola”;
homem é mais do que isso, configurando-se “Estudando a emergência da Síndrome de
como uma totalidade de dimensões, tais Burnout nos professores e suas relações com
como: a cultural, a histórica, a ética, a as condições de vida e do trabalho docente”,
estética, a lúdica, a sexual, a econômica, a entre outros.
cognitiva, a afetiva, entre outras. – construção de espaços integradores
das diferentes disciplinas nos cursos, em que
Giroux (1997) reconheceu que os seja possível praticar e desenvolver atitudes
professores, como intelectuais mais articuladas em relação aos cursos em
transformadores, devem comprometer-se que a Psicologia se faz presente. Nesse
com o desenvolvimento de competências em sentido, concebemos que o professor de
seus educandos. Porém, além de Psicologia necessita integrar-se aos projetos
competentes, estes devem ser capazes de de formação dos cursos, seja em um curso
pensar e agir criticamente, refletir, de Licenciatura em Psicologia ou
compreender e questionar as injustiças Licenciatura em Letras, Geografia,
existentes na estrutura da nossa sociedade Matemática, etc.
classista. Sobre o ensino de Psicologia na
A partir destas perspectivas, formação de professores:
concebemos algumas sugestões para os Com referência à condução dos
cursos de formação de professores programas de ensino de Psicologia na
(Licenciaturas em Psicologia e demais formação de professores, tomamos como
Licenciaturas). Algumas contribuições diretriz a tríade norteadora que construímos
foram inspiradas em Bock (2005); outras em em nosso trabalho de Mestrado, a partir de
nossos próprios trabalhos de pesquisa e pesquisa com professores universitárias de
reflexão sobre formação de professores e Psicologia da Educação, que tiveram em
ensino de Psicologia (Larocca, 1996, 1999). suas trajetórias experiências significativas na
Vejamos: escola básica (Larocca,1996, 1999).
Psicologia e Formação de Docente 65

A tríade é constituída dos seguintes Assim pensando, comprometemos a


elementos, que serão a seguir explicitados: formação profissional com alunos concretos,
– o aluno que o professor tem diante de na tentativa de superar a abordagem
si; naturalizante e abstrata que, com freqüência,
– a realidade educacional, escolar e o homem/aluno vem sendo tratado no ensino
social; de Psicologia.
Outro aspecto desta proposição refere-
– as diferentes contribuições da
se à necessidade de focalizar estudos sobre
Psicologia para a Educação.
os adolescentes e pré-adolescentes, na
concretude de suas condições de existência,
O aluno que o professor tem uma vez que os professores formados nas
diante de si licenciaturas irão atuar com eles nos níveis
do ensino fundamental e médio.
A proposição de pensar o aluno que
está diante do professor, toma, sobretudo, a
disposição de não perder de vista a A realidade educacional, escolar e
multidimensionalidade humana. Isto implica social
ir além da noção de competência técnica, Este elemento da tríade marca o
passando a reconhecer o sujeito/aluno como cotidiano educacional das escolas e o
omnilateral, isto é, simultaneamente cotidiano social como fontes privilegiadas
cognitivo, afetivo, cultural, biológico, de questionamento, análise e pesquisa. Ele
estético, lúdico, sexual, comportamental, permite articular as relações entre educação-
social, econômico, político e histórico. Tais escola e sociedade de classes. Dados de
dimensões precisam ser articuladas em pesquisa nos indicam que a Psicologia na
movimentos dialéticos, que resistem à formação de professores tem se
fragmentação e ao isolamento das partes, caracterizado por um caráter
considerando que o homem/aluno deve ser “sobrenadante”, que não chega à escola, aos
compreendido sempre na multiplicidade seus rituais e problemáticas diárias (Larocca,
constitutiva do seu ser. 1999).
Manacorda (1991) entende a Considerando essa questão, colocamos
omnilateralidade como desenvolvimento duas necessidades cruciais para o ensino de
integral e harmonioso das dimensões Psicologia: acentuar os seus vínculos com a
humanas. Para este educador, trata-se de escola e abordar temas/problemas
“um desenvolvimento total, completo, emergentes desse cotidiano
multilateral, em todos os sentidos das escolar/educacional.
faculdades e das forças produtivas, das Quando tratamos de acentuar os
necessidades e da capacidade da sua vínculos com a escola, queremos evidenciar
satisfação” (p. 78-79). A omnilateralidade é, que o ensino de Psicologia não pode mais
então, uma exigência frente à realidade da ficar restrito apenas a “falar” sobre a escola.
alienação: alienação por outro, alienação da Aqui, realçamos o processo de ação-
própria natureza e alienação do reflexão-ação, a partir da imersão na própria
desenvolvimento a uma esfera restrita. realidade, a fim de que o ensino de
Frente a exigência da omnilateralidade Psicologia não mais “flutue” sobre ela. Isso
é importante que levemos nossos alunos, demanda lutar pela conquista de um status
futuros professores, a captarem as para a Psicologia diferenciado daquele usual
subjetividades como construções, pois: na formação de professores – no sentido de
superar a metáfora de fundamento (Bzuneck,
O mundo psicológico, como 1999), na compreensão da sua relação com a
registro singular das relações vividas Educação.
por cada um de nós, não tem nada de
Tradicionalmente, a Psicologia é
natural e não carrega potencialidades.
entendida como “fundamento teórico” da
Se constitui, como uma obra do
Educação. Esse modo de ver remete-se aos
próprio homem, na experiência de
primeiros cinqüenta anos do século XX,
contato com o mundo cultural e social
quando, então, a Psicologia era chamada de
(Bock, 2003, p. 23).
“Rainha das Ciências da Educação”.
66 Larocca, P.

Obviamente, não é essa concepção para intervir no real (Larocca, 1999,


reducionista que temos, pois os fenômenos p. 173).
educativos são complexos e de natureza
interdisciplinar. Não podemos, portanto, Então, não se trata, apenas, de fazer
reduzi-los às explicações psicológicas. Para com que o formando aproxime-se da
compreendê-los, dependemos das realidade, mas de favorecer a produção de
contribuições das várias áreas do um conhecimento novo, mais elaborado,
conhecimento – daí porque o papel da sobre determinada realidade a partir de
Psicologia na compreensão dos fenômenos questões como: Que realidade temos? Que
educativos deve ser compartilhado com as teorias nos ajudam a compreendê-la? Quais
outras ciências e áreas de conhecimento. os aspectos que esta ou aquela teoria nos
responde? Quais as sínteses que podemos
Contudo, não podemos negar a fazer pensando em nossa intervenção
dimensão psicológica da Educação. Se transformadora?
tratamos da formação de professores, vemos
A proposta de trabalho por temas
que o ensino de Psicologia põe-se, em
problematizadores supõe um ir e vir
relação à Educação, não como
dialético, teórico e prático, em que a
“fundamento”, mas como um par dialético,
diversidade teórica da Psicologia dialoga
formando uma unidade dinâmica, que se
com as questões problematizadas para a
movimenta entre o domínio da ciência
construção de um novo e mais profundo
psicológica e o domínio da Educação –
conhecimento do real.
prática social a ser transformada com a
nossa intervenção de intelectuais Entendemos, portanto, que a
transformadores. organização temática problematizadora
favorece as relações teoria e prática e teoria
Em artigo recente (Larocca, 2007),
e cotidiano, que a condução do ensino,
posicionamos que a metáfora da Psicologia,
apenas por uma seqüência de teorias, não
como um fundamento da Educação, é uma
consegue efetivar. Assim, também,
mentalidade que se alinha à perspectiva
oportuniza ao formando visualizar a
racional-técnica na formação, avalizando,
pluralidade de referenciais teóricos que
inclusive, a ausência de conexão com as
contribuem para o trabalho pedagógico,
práticas escolares e sociais no ensino de
dinamizando sua reflexão crítica.
Psicologia na formação de professores. O
que verificamos é uma situação em que, no
máximo, a Psicologia aproxima-se dos As diferentes contribuições da
problemas da realidade educacional, mas Psicologia para a Educação
não os vive efetivamente com os futuros
professores, no sentido de um trabalho Posicionamos aqui, o acesso ao
articulador vivo, não artificial. conhecimento produzido pelos vários
enfoques teóricos da Psicologia, concebendo
Daí porque posicionamos a organização
que a função da teoria é a de iluminar a
e a condução do ensino de Psicologia por
nossa leitura na compreensão do
meio de abordagens de temas/problemas
tema/problema que se está desenvolvendo,
emergentes do cotidiano
inspirando-nos na ação. É, portanto,
escolar/educacional. Essa abordagem é
necessário dinamizar interlocuções entre o
marcada pelo caráter problematizador, que
tema/problema emergente da realidade e as
requer análise, reflexão e pesquisa no e do
diferentes visões ou interpretações próprias
real.
de cada referencial teórico que tem
A problematização temática contribuições potenciais a oferecer às
potencialmente sugere que o ensino se temáticas/problemáticas discutidas.
dê a partir da pesquisa sobre a prática Nessa forma de conduzir,
social – reconhecendo-a primeiro, estabelecemos um confronto teórico
refletindo sobre ela com a ajuda dos dialógico, em que os méritos e/ou lacunas
instrumentos teóricos da Psicologia e dos referenciais podem ser verificados: O
do mirante de questionamento sobre a que esta teoria propicia para a compreensão
relação educação-sociedade e do tema que aquela outra teoria não
reelaborando teorizações próprias consegue responder? Que méritos e lacunas
Psicologia e Formação de Docente 67

esta e aquela teoria apresentam em relação à Anfope. (2002). Documento final do


temática? Nesse contexto de discussão Encontro Nacional da ANFOPE.
questionamos também as bases filosóficas e Florianópolis: Anfope.
epistemológicas que sustentam tais
Batista, S. H. S. da S. (2007). Ensino,
perspectivas teóricas, assim como o que a
psicologia, saúde: uma tríade constituída
história nos diz acerca dessas elaborações
de práticas, questões e possibilidades.
teóricas e de seus objetos de estudo.
Educação Temática Digital, 8(2), 249-
A idéia é apresentar as teorias, não 257.
como conhecimentos prontos e acabados
sobre determinado objeto, mas como Bock, A. M. B. (2003). Psicologia e sua
conhecimentos contextualizados em ideologia: 40 anos de compromisso com
filosofias e em certas condições históricas e as elites. In A. M. B. Bock (Org.).
sociais, imprimindo-se no conhecimento Psicologia e compromisso social (pp. 15-
teórico a marca da provisoriedade e da 28). São Paulo: Cortez.
superação. Tal contextualização dos quadros Bock, A. M. B. (2005). Novo projeto para a
teóricos permitirá situá-los, ainda, no profissão no Brasil: contribuições para a
confronto com os dilemas atuais, que formação. ABEP – Associação Brasileira
emergem do cotidiano e em função do de Ensino de Psicologia. Recuperado em
trabalho pedagógico. Acreditamos que um 03 de setembro, 2007, de
trabalho desta natureza ajudará, a evitar os http://www.abepsi.org.br/abep/artigos.as
modismos e estereótipos que circulam em psc.
torno das proposições teóricas.
A tríade condutora que propusemos
Brasil. Conselho Nacional de Educação.
nesta última parte de nosso artigo representa Ministério da Educação. Diretrizes
a articulação de uma idéia básica – curriculares nacionais para a formação
questionar a educação que temos na de professores da educação básica, em
sociedade atual – com os conteúdos nível superior, curso de licenciatura, de
específicos da Psicologia. Temos claro, graduação plena (2002, 18 de fevereiro).
contudo, que os desafios que se colocam Resolução no. 1.
para os formadores, no ensino de Psicologia Brasil. Conselho Nacional de Educação.
são muitos e complexos, razão pela qual, Ministério da Educação. Diretrizes
certamente, nossas possibilidades de curriculares nacionais para os cursos de
discussão não se encerram aqui. graduação em psicologia (2004, 7 de
Terminamos este texto, reafirmando as maio). Resolução no. 8.
palavras de Bock (2005), que nos lembra
que uma profissão não é apenas a Bzuneck, A. (1999). A psicologia
apropriação de um saber, mas a apropriação educacional e a formação de professores:
de um saber e de uma postura crítica que não tendências contemporâneas. Psicologia
permite estarmos satisfeitos com aquilo que Escolar e Educacional, ABRAPEE,
sabemos. Daí por que a formação Campinas, 3(1), 41-52.
profissional exige de nós um Castelo Branco, M. T. (1998). Que
posicionamento acerca dos fins para os quais profissional queremos formar?
dirigimos a nossa prática educativa. Fica, Psicologia Ciência e Profissão, 18(3),
então, a pergunta insistente: afinal, para quê 28-53.
ensinamos?
Contreras J. (2002). A autonomia de
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68 Larocca, P.

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