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teoria

feminista
por uma

teoria
feminista
descolonizada
a sua zine sobre feminismo decolonial

María Lugones
EDIÇÃO Nº 1 / FEMINISMO DECOLONIAL / JUNHO 2020

Teóricas Feministas

O que é feminismo
decolonial?

Compartilhando Leituras
Resenha do livro Teoria Feminista da

Margem ao Centro, bell hooks

feminismo
decolonial
uma introdução

América Invertida. América Invertida é um desenho de caneta e tinta


de 1943 do artista hispano-uruguaio Joaquín Torres García
índice

3 Editorial

4 Teóricas Feministas 

7 Filosofia Feminista e Estudos

Culturais

11 O que é feminismo decolonial?

19 Para pensar em perspectiva

feminista decolonial

20 Uma feminista em processo

de descolonização

22 Compartilhando Leituras

Teoria Feminista da Margem ao

Centro, bell hooks

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editorial
por Priscila Kikuchi Campanaro

Coordenadora e idealizadora do Teoria Feminista

Quem já acompanha o Teoria Feminista a um tempo, sabe que o projeto está passando por

uma fase de transição. Eu definia o trabalho do Teoria Feminista como uma promoção dos

saberes em perspectiva feminista decolonial. Não abandono essa perspectiva, mas agrego

outra, o Teoria Feminista quer ser uma comunidade, reunir mulheres que querem além de

conhecer o feminismo decolonial, também se colocam em processo de descolonização. Não

há a intenção de propor um caminho único para isso, mas sim, de caminharmos juntos,

sentindo as dores e as dificuldades no coletivo.

Mas o que é Colonialidade? Descolonial? O que é tudo isso? Posso adiantar que esses

conceitos serão trabalhos em em várias edições da Zine, mas, para “começo de conversa”,

posso adiantar que a colonialidade é um sistema onde as pessoas são classificadas com base

na sua origem, na sua condição financeira, e no seu sexo (raça/etnia, classe social e gênero).

É diferente do colonialismo, que se refere mais a um momento histórico específico.

Por ser o tema central da zine, não posso dar muito “spoiler” de cara sobre o que é feminismo

decolonial! Só posso adiantar que uma de suas principais causas é denunciar a existência de

uma indiferença para com as mulheres não brancas européias com as diversas formas de

violência que elas sofrem.

A Zine do Teoria Feminista nasceu da necessidade de publicizar e documentar os conteúdos

do Teoria feminista em um material escrito para sistematizar e ampliar as reflexões sobre

teóricas feministas e sobre o próprio feminismo decolonial. É um material de formato simples,

mas feito com muita responsabilidade.

Os conteúdos foram estudados com muito cuidado e carinho, e com o intuito de agradecer e

recompensar vocês que acreditam e apoiam o Teoria Feminista, que desejam que ele

continue acontecendo.

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Teóricas Feministas

María
Lugones
Uma breve biografia

Maria Lugones nasceu na Argentina em 1944, na

região Pampa. Seu local de nascimento lhe

possibilitou uma experiência cultural que

influenciou na formação de grande parte de sua

visão e perspectiva sobre estudos feministas,

filosofia, estudos culturais e literatura.

Dscolonial sobre feminismo, gênero e

sexualidade.

Depois de graduar-se na Universidade da

Califórnia em Los Angeles, Lugones obteve seu

Ph.D. em filosofia e ciência política pela

Universidade de Wisconsin em 1978.

Maria Lugones ensinou sobre estudos e filosofia

de mulheres no Carleton College, onde treinou o

corpo docente sobre os temas de racismo e

gênero, e também projetou um novo plano em

estudos feministas para a Binghamton University,

onde, além de professora, é diretora do

Programa de Estudos da América Latina e do

Caribe.

Como filósofa feminista propõe uma leitura

descolonial sobre feminismo, gênero e

sexualidade.

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Maria Lugones acredita ser essencial a intersecção entre classe, raça, gênero e sexualidade,

pois, somente assim é possível romper com a indiferença prática e teórica direcionada às

“mulheres de cor”, sendo elas as mulheres não brancas, as mulheres que não são vistas e nem

consideradas como sujeitas de uma produção feminista dentro do pensamento ocidental.

Maria Lugones, bem como alguns/mas teóricos/as decoloniais estrutura sua análise da

sociedade a partir do conceito de Colonialidade, bastante trabalhado pelo sociólogo

peruano Anibal Quijano.

Para entendermos a colonialidade é importante entender a diferença entre esse conceito e o

colonialismo. O termo colonialismo é utilizado para se referir a um período histórico

específico, das “descobertas” (invasões) européias em algumas partes do mundo; já o termo

colonialidade se refere a uma situação atual, é a condição de  dominação imperialista, isto é,

uma forma  e/ou uma prática política-econômica exercida por um Estado que visa à própria

expansão, por meio da submissão econômica, política e cultural de outros , que segue

presente na realidade e nas subjetividades dos povos colonizados em diversas esferas, como

no sexo, no trabalho, e na subjetividade/intersubjetividade da produção de conhecimento.

A situação de colonialidade permite a perpetuação e reprodução classificação social a partir

da ideia de hierarquia de racial. A grosso modo, isso quer dizer que algumas pessoas, de

acordo com a sua raça, vão valer mais ou menos do que as outras.A grande contribuição da

filósofa e cientista política Maria Lugones é a sua crítica à visão limitada que alguns teóricos

decoloniais possuem em relação à sexo, sexualidade e gênero.

Algumas obras

Speaking Face to Face: Nessa obra Maria Lugones oferece uma visão inédita e profunda

sobre a filosofia e a  prática feminista, bem como seu compromisso de longo prazo com a

organização de base nas comunidades chicanas. Sua filosofia é caracterizada como

visionária porque motiva modos de transformação e de engajamento com outras culturas,

convidando-nos a criar criar intimidades políticas enraizadas em um desejo comum de

interdependência. Apresenta também um novo método de teorização de coalizão -

atravessando fronteiras raciais, étnicas, sexuais, nacionais, de gênero, políticas e disciplinares,

a fim de cultivar a aprendizagem, abraçar a heterogeneidade e fornecer uma estrutura única

para engajar debates contemporâneos sobre identidade, opressão e ativismo.

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Pensamento Feminista: conceitos fundamentais: Se hoje ideias como lugar de fala, teoria

queer e decolonialidade ganham espaço nas reivindicações feministas contemporâneas, elas

tiveram sua origem em pesquisas e teorias desenvolvidas ao longo das últimas décadas por

estudiosas e ativistas como Maria Lugones. Organizado por Heloisa Buarque de Holanda o

primeiro livro da série Pensamento Feminista, Holanda reconhece que Lugones é uma das mais

importantes referências sobre feminismo decolonial na América Latina.

Referências
Site Livraria Travessa: https://www.travessa.com.br/pensamento-feminista-conceitos-

fundamentais/artigo/2205f888-82cf-49bc-9bd1-b6f4fae67911

Blog NÓSotras: https://nosotrasfeministas.wordpress.com/2017/03/20/outro-olhar-sobre-genero-maria-lugones-

colonialidad-y-genero/

Hispânicos proeminentes nos EUA: http://fs2.american.edu/aoliver/www/prominenthispanics/lugones.htm

María Lugones: escritura en movimiento: https://www.eltelegrafo.com.ec/noticias/carton/1/maria-lugones-

escritura-en-movimiento

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María Lugones é uma filósofa comprometida com os

estudos culturais. A maneira como ela aborda as

questões referentes à colonialidade, gênero e

feminismo decolonial, dialogam muito com esses

dois campos de conhecimento. Para que possamos

compreender melhor por que caminhos Lugones

passa para elaborar seu pensamento, trazemos aqui

um texto que apresenta de maneira sucinta alguns

pressupostos da filosofia feminista e dos estudos

culturais.

Filosofia Feminista
e Estudos Culturais

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Filosofia Feminista e Estudos Culturais.
A filosofia em perspectiva feminista se faz a partir de uma história de contextos, e por isso

precisa ser entendida de maneira plural, isto é, contemplando as experiências das mulheres

negras, lésbicas indígenas, latino-americanas, mulheres que vivem nas ruas e nas favelas.

Em suma, uma filosofia em perspectiva feminista reconhece que todas as mulheres que vivem

e lutam cotidianamente, são protagonistas de um pensar filosófico. 

De acordo com Magali Mendes Menezes, em seu texto A filosofia feminista desde os olhares

da filosofia intercultural: uma reflexão entre margem; a filosofia como campo teórico sempre

foi, e ainda é marcada pela história ocidental, e por isso precisa ser ressignificada. “É preciso

repensá-la a partir das diferentes circunstâncias em o exercício de pensar sendo tramado”

(2002, p.66).

Mulheres e Filosofia
Quando pensamos em filosofia feminista, é comum que, o primeiro nome que vem à nossa

mente, seja o de  Simone de Beauvoir. Menezes mostra que uma das muitas contribuições de

Beauvoir sobre a mulher e a filosofia está na obra O segundo sexo. Beauvoir vai dizer que a

mulher é “o outro” do homem. Esse “outro” é sempre “outro” para alguém que tem o poder de

identificar o que é o “outro”. A mulher tida como o “outro” do homem revela a  ausência-

presença das mulheres na filosofia e também em diversos âmbitos do conhecimento. A mulher

não fala a partir do lugar de sujeito mas sim, de um não lugar. Segundo Beauvoir, o homem é

então, dentro dessa lógica, o sujeito absoluto.

“A história é feita por homens e mulheres, mas definitivamente,

apenas quem possui o direito de pronunciá-la são os homens.

Quem são as mulheres que fizeram filosofia? Nem ao menos

nós sabemos. Sentamos nos bancos das universidades e nos

deparamos com um espaço masculino”.

(MENEZES, 2002, p.74)

Ainda sobre as mulheres na filosofia, Marcia Tiburi em um texto para o site da Revista Cult,

onde a mesma comenta sobre o livro Mulheres e Filosofia, vai dizer que o fato de existir um

número ainda menor do que o de homens estudando filosofia, o que, consequentemente

resulta em um número pequeno de professoras de filosofia, é um dos problemas derivados da

história da exclusão das mulheres nesse campo. Tiburi ainda coloca que, “o que os filósofos

disseram sobre a “mulher” interfere absolutamente no que aconteceu com as “mulheres”

dentro e fora do campo formal da filosofia”.

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Quando as mulheres começam a protagonizar a produção de saber filosófico a partir das

suas realidades, há o começo de uma mudança de paradigma que implica em uma

transformação também no âmbito da cultural. E por isso, assim como Lugones, algumas

filósofas também se enveredam pelos caminhos dos estudos culturais, e militam

epistemologicamente pela pluralidade e descolonização do conhecimento e do feminismo.

Estudos Culturais, filosofia e feminismo decolonial.


Claudia Lima Costa em seu texto Os estudos culturais na encruzilhada dos feminismos

materiais e descoloniais, diz que para compreendermos o que são os estudos culturais,

precisamos partir da definição de suas estratégias de investigação da cultura, e elas podem

ser definidas de três formas: 1) como uma certa tradição político intelectual; 2) em relação

com disciplinas acadêmicas e paradigmas epistemológicos; e 3) em relação a seus objetivos

específicos de estudo.

Em seu texto, Costa discorre sobre cada uma dessas estratégias, aqui vamos trazer somente

alguns aspectos essenciais para a compreensão de cada uma.

Tradição político intelectual: é reconhecida por ser uma tradição britânica que surge em

meados dos anos de 1960. Toma para si a perspectiva cultural marxista para reagir a

definição de cultura tradicional e erudita, fazendo uma crítica a partir da noção de classe.

Com essa crítica revela-se que a cultura tem como objetivo estabelecer privilégios. Portanto,

a cultura aqui é estudada a partir da sua relação com o poder e as interações com processos

de subordinação. Stuart Hall, importante antropólogo pós-colonial, vai agregar à essa

estratégia discussões sobre colonialismo, racismo e as migrações.

Disciplinas acadêmicas e paradigmas epistemológicos: Essa estratégia reconhece que a

cultura só pode ser entendida em relação com as lutas culturais, portanto é preciso ter um

olhar multitransdisciplinar e até antidisciplinar.

Relação a seus objetivos específicos de estudo: Dentro dessa estratégia os estudos se

articulam com o que se entende como “popular”. Traz uma crítica à uma noção de vida

cotidiana que não reconhece as inter-relações entre as múltiplas formas culturais, e de forças

históricas, que envolvem o que se chama de cultura popular.

De maneira geral, as estratégias culturais revelam que os estudos culturais articulam vida

cotidiana e contextos políticos, para compreender as representações simbólicas construídas

pela humanidade a partir de um conjunto complexo de práticas. 

A inserção de mulheres feministas nos estudos culturais, agregou a estas estratégias aspectos

importantes para pensar a cultura em perspectiva feminista.

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Gênero e Estudos Culturais
A valorização da esfera privada e das esferas públicas alternativas, da  subjetividade

(realidade psíquica, emocional e cognitiva do ser humano, passível de manifestar-se

simultaneamente nos âmbitos individual e coletivo, e comprometida com a apropriação

intelectual dos objetos externos), identidade, sexualidade, desejo e emoção, e das categorias

gênero, raça, classe, orientação sexual não tratados de maneira hegemônica, foram algumas

das mais importantes contribuições da perspectiva feminista para os estudos culturais.

Além dessas, deve-se ressaltar que o reconhecimento das experiência das mulheres,

articulada com o projeto político de intervenção nas estruturas do cotidiano das mulheres,

orientou desde o princípio as pesquisas das feministas dentro dos estudos culturais.

No feminismo contemporâneo, se mantém e é ainda mais explorado, nos discursos sobre as

relações de poder que envolvem as culturas, mostrando o quanto isso pode influenciar na

produção de análises acadêmicas que reforçam a lógica de construção do/a outro/a.

Segundo Costa representar “a outra” é  uma impossibilidade epistemológica permeada por

um fracasso cognitivo.

No próximo artigo que é sobre o tema de capa da Zine, será possível perceber de que

maneira María Lugones articula a perspectiva da filosofia feminista e dos estudos culturais

quando fala sobre feminismo decolonial e colonialidade de gênero.

Adiantamos que será recorrente o reconhecimento de uma história feita a partir de um

contexto, a discussão sobre a noção de “outro/a” e a superação dessa categorização a partir

do conceito de “Eu-comunal”. Será possível perceber também que para Lugones, para que o

feminismo seja mesmo descolonizado e descolonizante é preciso construir esferas alternativas

a partir da subjetividade.

Referências
MENEZES, Magali Mendes. A filosofia feminista desde os olhares da filosofia intercultural: uma

reflexão entre margem. In. Mulher e Filosofia. Juliana Pacheco (org). Editora Fi. 2002

Mulher e Filosofia, Máricia Tiburi https://revistacult.uol.com.br/home/mulher-e-filosofia-o-

livro-de-juliana-pacheco/. Acesso em 04/05/2020

COSTA, Cláudia Lima. Os estudos culturais na encruzilhada dos feminismos materiais e

descoloniais.

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Capa

O que é
feminismo
decolonial?

Com base em dois importantes artigos escritos por

Maria Lugones: Rumo ao feminismo decolonial e

Colonialidade e Gênero, procuro nesse artigo

apresentar conceitos e perspectivas que podem nos

ajudar a se não responder, pelo menos entender

basicamente o que é o feminismo decolonial, e

começarmos então o nosso processo de

decolonização do pensamento.

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O feminismo decolonial é uma teoria e prática crítica sobre a opressão que existe na
sociedade moderna que centraliza e categoriza as pessoas a partir de dicotomias

hierárquicas, capitalistas e coloniais. Tais conceitos parecem complexos, mas no decorrer do

texto falarei de forma mais clara sobre os mesmos.

O feminismo decolonial além de ser uma teoria crítica, também procura por práticas

decoloniais organizadas que resistem à essa realidade. María Lugones é a nossa Teórica

Feminista homenageada do mês, e por isso vamos apresentar o que essa importante

teórica feminista propõe como feminismo decolonial através do óculos da relação entre

colonizador e colonizado.

Através desse olhar, segundo Lugones, é possível enxergar o que está escondido no nosso

entendimento sobre raça e gênero e sua relação com a heterossexualidade normativa.

O termo heterossexualidade normativa se


“A crítica das mulheres de cor e do
refere a condição ou/e o caráter
Terceiro Mundo ao feminismo
heterossexual que estabelece normas
universalista coloca como central o
ou/e padrões de comportamento que
fato de que a intersecção raça,
determina o que é correto, bom etc. Vale
classe, sexualidade e gênero
destacar que essa leitura já é feita pelas
extrapola as categorias da
feministas de cor, com o intuito de criticar
modernidade”
o feminismo ocidental. María Lugones

Dicotomia hierárquica
O significado da palavra dicotomia é: "modalidade de classificação em que cada uma

das divisões e subdivisões contém apenas dois termos". A palavra hierarquia significa

uma: "organização fundada sobre uma ordem de prioridade entre os elementos de um

conjunto, ou, se trata de relações de subordinação entre os membros de um grupo, com

graus sucessivos de poderes".

Dadas as devidas definições gerais dos termos, fica mais fácil entender o uso do termo.

Lugones vai dizer que a hierarquia dicotômica é o que estrutura o sistema de classificação

presente na sociedade ocidental. É ela que define quem é humano e quem não é, quem é

mais humano, e quem é menos humano.

Em se tratando da classificação de homens e mulheres, a hierarquia dicotômica define que:

"Somente homens e mulheres civilizados são humanos” (LUGONES, 2019, p. 358).

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A dicotomia hierárquica é a ferramenta que os colonizadores utilizaram para realizar a 

missão civilizatória, julgando os povos colonizados como deficientes, o que justificou

crueldades das mais variadas sobre esses povos.

A missão civilizadora fez mulheres e


“A dicotomia hierárquica como
homens colonizados “…se tornarem
uma marca de humanidade
machos e fêmeas. Os machos se tornaram
também se tornou uma
não-humanos-como-não-homens, e as
ferramenta normativa de
fêmeas colonizadas se tornaram não-
condenação dos colonizados”
humanas-como-não-mulheres”.
María Lugones
(LUGONES, 2019, p. 360).

A dicotomia hierárquica é a ferramenta que os colonizadores utilizaram para realizar a 

missão civilizatória, julgando os povos colonizados como deficientes, o que justificou

crueldades das mais variadas sobre esses povos.

Essa lógica “mulheres-colonizadas-não-humanas” é perpetuada pelo feminismo ocidental

liberal quando transforma mulheres de terceiro mundo em “objetos de pesquisa” e alvo de

ações feministas salvacionistas, atribuindo a elas a incapacidade individual e coletiva de

sucumbir a sua condição de subordinação.

Lugones diz que pensar a historicidade da relação entre sexo e gênero é um dos pontos

importantes para quem quer fazer uma pesquisa séria sobre a colonialidade.

Isso quer dizer que, é preciso entender como o sexo biológico interfere na construção

desigual dos papéis de gênero, se impondo sobre outros povos que não consideram nem

sexo, nem gênero, como pressupostos para a divisão do trabalho.

A missão civilizatória usou a dicotomia hierárquica dos gêneros para marcar a sexualidade

das mulheres como má. Caracterizá-la assim, especialmente mulheres colonizadas,

“permitiu” abusos e violações sem limites.

Tal caracterização vai apresentar um perfil bem peculiar dentro do feminismo ocidental

quando bell hooks em seu livro Teoria Feminista da Margem ao Centro (2019), revela que

feministas brancas e burguesas acusam mulheres negras de serem agressivas.

Colonialidade
O colonialismo foi um momento histórico específico, já a colonialidade se infiltra em todos

os aspectos da vida.

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O termo não se refere somente a uma forma de classificar as pessoas, se aplica também ao

processo ativo de redução do/a colonizado/a, a seres menos humanos.

Quando falamos em situação de colonialidade nos referimos um processo de classificação,

dominação e controle. Lugones argumenta que a teoria decolonial precisa ampliar esse

conceito e o lugar de gênero nessa questão, reconhecendo que a intersecção raça e classe

são experiências indissociáveis.

O feminismo hegemônico e até mesmo a teoria decolonial, cada um a seu modo,

contribuem com o apagamento da história e da experiência das mulheres não brancas.

Nesse processo de apagamento acontece a colonização da memória, uma ferramenta que

funcionou, e ainda funciona, para apagar os laços comunitários, e de toda a forma de vida

e de organização social pré-existente à colonização.

Com a colonização da memória o terreno fica aberto para a imposição do sistema moderno

colonizador de gênero, provocando a colonialidade do ser.

A colonialidade do ser acontece quando o processo de colonização da memória dá espaço

para que a definição do "ser" do/a colonizado/a esteja nas mãos dos/as colonizadores/as.

Colonialidade de gênero.
Para falar sobre esse conceito é preciso entender que a colonialidade do poder, quando

analisado a partir da ferramenta da interseccionalidade, evidencia uma situação de

indiferença dos homens e das mulheres em relação às mulheres não brancas.

O sistema moderno-colonial de gênero e

sua instrumentalidade, foi definida


“Descolonizar gênero é
posteriormente como Colonialidade de
necessariamente uma
gênero, um processo de imposição do práxis”
padrão heteropatriarcal-capitalista.  María Lugones

O padrão heteropatriarcal-capitalista concebe como regra apenas a existência e a

performance de dois sexos (masculino e feminino) de maneira objetiva e subjetiva. Esse

padrão deve ser obedecido, adorado, venerado e sustentado pelo sistema capitalista.

Em outras palavras, gênero, seja enquanto sistema de categorização ou/e categoria

analítica, da maneira como é concebido hegemonicamente, é uma imposição colonial sobre

as culturas não ocidentais.

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Sobre isso Lugones diz: “… não apenas na medida em que se impõe a sobre a vida - como se

vive de acordo com cosmologias incompatíveis em lógica moderna das das dicotomias  -,

mas também no sentido em que vivências de mundos entendido…” (LUGONES, 2019, p.365)

Os três primeiros conceitos apresentados até aqui: Dicotomia hierárquica, Colonialidade e

Colonialidade de Gênero, descortinam o conhecimento da base colonial de uma realidade

que precisa ser reconhecida e duramente criticada.

Uma realidade que exige de nós um posicionamento anticolonial perante diversas dinâmicas

sociais. Para além desses desses fatores importantes, existe outro tão importante quanto, do

qual Lugones diz ser essencial para entendermos o que é o feminismo decolonial, e porque o

feminismo precisa ser descolonizado.

Feminismo decolonial
A palavra descolonização se refere ao "processo ou efeito de descolonizar, retirando a

característica de colônia", e "aquisição gradual de independência política, econômica e

cultural por parte de antigas colônias".

Para falar sobre feminismo decolonial vamos retomar o tópico anterior sobre colonialidade

de gênero. Lugones ressalta que esse termo tem consequências semânticas: “… a categoria

“mulher colonizada” é vazia: nenhuma mulher é colonizada; nenhuma fêmea colonizada é

mulher”(2019).

Com essa elaboração lógica, Lugones reforça uma ideia já mencionada aqui de que a

colonialidade é um processo de retirada da humanidade das pessoas. Porém, ela vai além.

Lugones percebe que, por mais perverso que esse processo seja, o mesmo abre a

possibilidade das mulheres colonizadas se pensarem como diferentes daquilo que a

colonialidade às faz ser. Em outras palavras, o “não ser” abre a possibilidade “de ser o que

se quer”. Teoricamente, temos aí o pressuposto para o processo de descolonização.

Historicamente são as mulheres de cor aquelas definidas como “não ser”, e são exatamente

elas que estão construindo o seu “ser o que se quer".

Não é por coincidência que o feminismo decolonial é o feminismo das mulheres de cor, um

feminismo que se estrutura na forma como elas constróem a sua crítica ao feminismo

ocidental a partir da diferença colonial, e como elas se posicionam no mundo dizendo quem

elas realmente são.

O feminismo decolonial terá uma relação muito forte com processos de resistência e

colonialidade. Como já mencionamos aqui,  Lugones diz que “Descolonizar os gêneros é

essencialmente uma práxis” (2019, p.36)

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Práxis é parte do conhecimento voltada para as relações sociais, cuja manifestação mais

representativa é a política. Isso significa que o feminismo decolonial tem como objetivo

transformar toda a crítica em uma mudança de vida que se expande para a sociedade

como um todo.

O feminismo decolonial vai além do reconhecimento da crítica à colonialidade, ele também

fornece aos/às colonizadas materiais que permitam o reconhecimento de sua condição

fomentando o desejo de sucumbir a ela.

De maneira geral, pode-se dizer que o feminismo decolonial é a superação da opressão

racializada, isto é, que possui traços raciais, capitalistas e de gênero.

O feminismo ao pensar-fazer práticas decoloniais, constrói uma metodologia da

decolonialidade, proporciona uma leitura da sociedade considerando as diversas

cosmologias que podem possibilitar a compreensão das organizações das sociedades de

uma maneira reveladora.

Isso significa superar a lógica da imposição de gênero enquanto categoria classificatória e

analítica, é preciso partir de um entendimento do Eu relacional, isto é, reconhecer que

dinâmicas de gênero são construídas a partir de experiências comunitárias.

Por conta dessa crítica à imposição de gênero enquanto categoria de análise, é comum por

parte de algumas feministas, acusarem a perspectiva decolonial de rechaçar e negar

completamente os conceitos ditos “fundamentais” do gênero

Sobre isso, a citação de Lugones rebate tal afirmação: “Eu não estou propondo que não

vejamos a imposição das dicotomias humano/não humano, homem/mulher, macho/fêmea a

construção das nossas vidas diárias, porque isso não é possível. E fazê-lo seria esconder a

colonialidade dos gêneros, o que apagaria a própria possibilidade de perceber-ver-a

vivência em tensão da diferença colonial e as respostas que vêm desse lugar.” (LUGONES,

2019, p.368).

Diferença colonial

A diferença colonial não é possível de ser definida, e isso acontece porque o importante não

é definir, mas, sim, compreender esse conceito a partir das formas de resistências à

colonialidade dos gênero.

Lugones, utilizando dos conceitos de Walter Mignolo sobre o assunto, vai dizer que a

diferença colonial exige de nós, olhar para o passado colonial, e ver na colonialidade, a

possibilidade de duas rendições de vida, isto é, possibilidades de negociações que os/as

nativos/as tinham, e ver uma nova forma de vida nascer através delas.

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São essas negociações que constróem locais habitados na tensão oprimir<->resistir. É nesse

lugar que a diferença colonial se torna uma localização física e imaginária, que é resultado

do confronto de dois tipos de histórias locais.

Na diferença colonial o humano e o desumano é muito bem demarcado. O que nos permite

ver a diferença colonial é pensar nas resistências íntimas como entrelaçamento da vida

social.

O que é importante para entender a diferença colonial é o movimento de libertação que ela

faz brotar e sua capacidade de adaptação e de oposição criativa. A diferença colonial

também é, e se expressa mostrando o poder das comunidades oprimidas na construção de

significados de resistência.

O ir além da situação de colonialidade, se dá na medida em que vai acontecendo a

construção de um pensamento marginal, que acontece em um espaço de fronteira (Lugones

faz referência à Glória Anzaldúa), e nesse processo encontramos o que se chama de locus

fraturado que é o lugar onde habita o processo de oprimir<->resistir das mulheres.

Lócus Fraturado
Significa lugar de rompimento. O locus “Mas o locus rompido pela
fraturado também pode ser entendido presença resistente , a
como a ruptura que impulsiona para a
subjetividade ativa do
resistência, onde o Eu-comunal, isto é, o eu
colonizado contra a invasão
em comunidade, faz espelhar as
colonial do Eu comunal - quando
possibilidades de resistências “da
habita essa subjetividade.
multiplicidade das mulheres de cor nos seus
Conseguimos ver aqui o
feminismos” (LUGONES, 2019, p.366). É a
espelhamento das
partir desse processo de resistência
multiplicidade das mulheres de
continuada que deve se enxergar o/a

colonizado/a não como um ser imaginado,


cor nos seus feminismos.”
ideia que parte do pensamento do
María Lugones
colonizador, e sim como um ser que começa

a habitar esse lugar.

Um ser construído duplamente e que percebe o mundo, e se relaciona com ele, dentro dessa

duplicidade. É um movimento rumo a uma coalizão que nos impulsiona a conhecer uns aos

outros, e umas às outras, como seres em relações baseadas nas vivências da diferença

colonial que nos atravessa com tensões e criatividades (LUGONES, 2019).

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O lócus fraturado é o lugar das formas criativas de pensar fora da lógica do capital. É um

lugar onde pode existir a multiplicidade, resposta resistente à imposição da colonialidade

dos gêneros.

Feminismo decolonial é a esquiva da esgrima.

É um feminismo que enxerga uns aos outros e umas as outras como resistentes à

colonialidade. A tarefa feminista decolonial começa por ver a diferença colonial, “e

abandonar o seu encantamento com a “mulher” universal” (LUGONES, 2019, p. 371).

O feminismo decolonial tem como pontos de partida a crítica à colonialidade, e a

anunciação de histórias de resistência. É nessa encruzilhada que o feminismo decolonial

deve morar.

Lugones afirma que “Ninguém resiste à colonialidade dos gêneros sozinho” (2019 p. 372),

somente em comunidade, porque é ela que possibilita a re-construção do Eu-relacional

como uma resposta à colonialidade dos gêneros, nos levando a uma lógica de

decolonialidade que assume as diferenças como um ser-sendo criativo desafiando as

dicotomias como oposição à lógica do poder, possibilitando assim uma virada decolonial.

O feminismo decolonial se faz no momento da “esquiva” em um duelo de esgrima.

Num espaço que parece curto demais para que alguma coisa aconteça, mas que na

verdade é essencial para a estratégia de virada na luta.

Por fim, podemos dizer que o feminismo decolonial é uma prática, uma transf

Se o seu feminismo é um lugar confortável, de bases sólidas e tranquilas , sinto muito te

decepcionar, mas, alguma coisa está errada. O feminismo decolonial veio para virar o seu

feminismo de cabeça para baixo.

“Estamos nos movendo em um tempo de encruzilhadas, de enxergarmos


umas às outras na diferença colonial construindo um novo sujeito de uma
nova geopolítica feminista de saber e amar.”
María Lugones

Referências:
LUGONES, Maria. Rumo a um feminismo decolonial. In. Pensamento feminista: conceitos fundamentais. org. Heloísa Buarque de Holanda. Bazar

do Tempo, Rio de Janeiro, 2019. 

LUGONES, Maria. Colonialidade e Gênero. In. Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais. org. Heloísa Buarque de Holanda. Bazar do

Tempo, Rio de Janeiro, 2020.

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para pensar o feminismo
decolonial
indicações de leituras e vídeos para

aprofundamento. é só clicar nas indicações e

conferir!

O Feminismo decolonial, por Suzana de Castro.


Revista Cult

Oficina de Feminismo decolonial.


YouTube - STI FFLCH USP

Feminismos subalternos, de Luciana Maria de


Aragão Ballestrin
Revista de  Estudos Feministas.

Um feminismo decolonial – com Françoise Vergès.


- Youtube - UBUTV

TEORIA FEMINISTA | PÁGINA 19


uma feminista em
processo de
descolonização
por Priscila Kikuchi

Para começar a compartilhar com vocês como tem sido o meu processo de

descolonização, primeiro preciso me lembrar quando foi que comecei a me reconhecer

como feminista, e farei isso junto com vocês aqui nesse texto.

Não faz muito tempo que isso aconteceu. Também não é algo tão novo assim. Lembro que

meu primeiro contato, muito rápido por sinal, com o feminismo foi quando eu estava na

faculdade de Ciências Sociais em meados de 2004 a 2008.

Lembro que um dos eventos que mais me impactaram naquela época foi quando teve uma

fala de algumas filhas de mulheres torturadas na época da ditadura militar no Brasil. Elas não

falaram sobre feminismo especificamente, mas, ver a força de resistência e de resiliência das

mesmas foi uma coisa que me impactou muito, e é uma das memórias mais fortes dos tempos

em que eu fazia faculdade. Ali, naquele momento a sementinha do feminismo tinha sido

plantada em mim.

O feminismo começou a germinar na minha vida quando eu comecei a fazer faculdade de

teologia (pasmem!), logo depois que eu me formei em Ciências Sociais, isso foi em 2008.

Foi lá que descobri os estudos de gênero e religião, e que era possível ser feminista e ter uma

fé. Não que isso seja tranquilo mas, é possível.

No ano de 2010 participei de um curso chamado Pastoral e Relações de Gênero.

Era um curso integral, a gente passava 20 dias estudando junto com mulheres (acho que

tinha umas 12, chutando alto!) e homens (no caso poucos, apenas 3 para ser mais exata)

sobre gênero, feminismo e a relação com a religião.

Eu já estava lendo algumas coisas antes de fazer esse curso, mas foi só quando pude viver

experiências com outras mulheres já assumidamente feministas, que realmente me senti

encorajada a me sentir uma.

O tempo foi passando, e tudo que comecei a pensar enquanto carreira acadêmica foi

voltado para falar de feminismo. Depois que terminei a graduação em Teologia, ingressei no

mestrado em Ciências da Religião e depois no doutorado na mesma área.

Foram 6 anos consecutivos estudando feminismo, mas foi só quando estava na metade do

doutorado que descobri a perspectiva feminista decolonial e pós-colonial. Eu achei tão

interessante que decidi articular as mesmas em minha pesquisa, mesmo com um

conhecimento

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prematuro, e dentro de uma pós-graduação que ainda não tinha lá muito conhecimento sobre

tais perspectivas.

Fiz uma boa tese. Fui aprovada.

Apesar de toda ousadia que minha pesquisa tinha na época, segundo os/as leitoras da tese,

hoje a vejo como muito imatura, uma pesquisa de uma pessoa que estava apenas procurando

mais uma “novidade” epistemológica para agregar numa tese. Não tive tempo de me deixar

ser impactada e desafiada enquanto feminista por essa perspectiva.

Quando terminei o doutorado comecei com o Teoria Feminista. Como fiquei muito tempo

desempregada, apenas fazendo alguns “bicos” com cursos que ministrava ali e aqui, por

causa desse projeto comecei a ler mais sobre feminismo pós-colonial e decolonial, e foi a

partir daí que comecei a me deixar ser impactada por essa perspectiva.

Percebi minhas limitações e resistência em relação a alguns conceitos e a necessidade de

rever muitos posicionamentos e práticas enquanto mulher e feminista.

Eu que pensava na época do doutorado, que seria uma feminista decolonial, me vejo feliz e

satisfeita no lugar de uma feminista em constante processo de descolonização.

É um processo desafiador. Descobri a pouco tempo um jeito de fazer isso coletivamente.

Recentemente comecei pelo Teoria Feminista um Grupo de Estudos sobre Feminismo

decolonial à distância, vale destacar que o grupo acontece assim por conta da pandemia do

Covid-19. Nele algumas seguidoras do Teoria Feminista e eu, lemos juntas textos sobre

feminismo decolonial e compartilhamos nossas análises. Tem sido maravilhoso viver esse

processo em comunidade mesmo que virtual, estou conseguindo enxergar coisas que somente

com os meus olhos eu não conseguia enxergar, e eu acho essa experiência totalmente

libertadora.

Termino essa coluna dizendo que se você também quer se colocar nesse desafio de scolonizar

seu feminismo, você precisa fazer sozinha.

O Teoria Feminista está aqui para andar junto, e juntar mulheres feministas que querem

descolonizar o seu pensamento, que querem ser provocadas e desafiadas por feministas

decoloniais como Carla Akotirene, Djamila Ribeiro, Maria Lugones, Glória Anzaldúa, Lélia

Gonzalez, e tantas outras maravilhosas que existem. Aqui na Zine, teremos sempre uma

teórica feminista para conhecer, um texto novo para a gente aprender mais e se descolonizar

sempre.

Quem topa caminhar junto!?

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Compartilhando Leituras
Teoria Feminista Da Margem ao Centro de

bell hooks

hooks, bell. Teoria Feminista da Margem ao Centro. Ed. Perspectiva. São


Paulo. 2019

O primeiro capítulo: Mulheres negras: moldando a teoria feminista, bell hooks coloca que
o feminismo das mulheres brancas e burguesas construiu uma teoria feminista com base na

ideologia individualista e liberal. Essa perspectiva dominou o pensamento feminista, ocultando

e negando que as mulheres negras também eram capazes de produzir um pensamento

feminista a partir de suas diversas estratégias de resistência na vida cotidiana.  As feministas

brancas silenciaram as mulheres negras, e aproveitaram da construção do estereótipo da

“mulher negra forte” e “mulher branca frágil”,  para acusar feministas negras de serem

agressivas e elas vítimas. O enfoque de gênero que as feministas brancas dão em seus

estudos é uma forma também de desfocar a necessidade de articular raça e classe em suas

análises.

No segundo capítulo: Feminismo: um movimento para acabar com a opressão sexista, a


teórica diz que a ênfase na libertação feminina serviu de camuflagem para os privilégios de

classe e de raça. O feminismo liberal defende a igualdade social como a solução da opressão

feminina entendida como algo universal.

O terceiro capítulo: Importância do Movimento Feminista, bell hooks diz que é importante


para o feminismo reconhecer a importância da família. A família infelizmente tem suas bases

na opressão sexista, o que a transforma em um espaço onde somos educados/as a aceitar

formas de opressão. A questão da família na teoria feminista deve ser pensada a partir de um

recorte racial. A família é entendida pela feminista branca, a partir de sua experiência

particular, como um lugar de opressão. Sendo elas as principais “produtoras” dessa teoria,

tende-se a acreditar que o feminismo é um movimento e uma teoria que desvaloriza a família.

O feminismo branco ocidental toma a estrutura familiar como a estrutura do Estado Patriarcal

branco, que doutrina para o controle hierárquico e autoridade coercitiva. A família para as

mulheres negras, sejam elas feministas ou não, muitas vezes representa o lugar menos

opressivo da sociedade. O feminismo precisa se concentrar numa defesa da família que seja

capaz de nutrir as pessoas com princípios comuns.

No capítulo quatro:  Irmandade: A solidariedade política entre as mulheres, bell hooks vai
dizer que o conceito de irmandade foi criado a partir da ideia da opressão comum,

escondendo o oportunismo das mulheres burguesas pela ênfase ao apelo emocional.

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Uma união entre as mulheres não deve acontecer pelo viés do vitimismo, mas sim pela união

dos recursos e forças. Só assim se faz possível uma solidariedade política. A opressão sexista

entre as mulheres que se expressa: no sentimento de ameaça que uma sente pela outra, do

ódio sem motivo e também nas críticas abusivas realizadas umas pelas outras. A solidariedade

política precisa explorar as várias formas de se comunicar com as diversas mulheres. A

irmandade é um conceito elaborado sem nenhuma preocupação com a questão da

discriminação racista. Não se reconheceu que as mulheres brancas e burguesas exercem

poder sobre as mulheres negras, e que na teoria e na prática feminista não se construiu uma

discussão sobre racismo. A discussão sobre racismo no feminismo está focada na culpa e o

comportamento pessoal, não se faz uma reflexão sobre o fato de que o racismo e o sexismo

se interconectam, e o desdobramento disso é a existência de uma educação racista dentro

do movimento feminista que faz com que as mulheres brancas se sintam mais aptas a liderar

esse movimento. Portanto é preciso pensar em atos de solidariedade que nos mostre que

podemos discordar, mas não precisamos nos agredir. Precisamos reconhecer que estamos

divididas, e que isso não precisa ser algo ruim se criarmos um espaço de comunhão de

interesses crenças e objetivos.

No capítulo cinco: Homens companheiros de luta, bell hooks diz que as feministas liberais


defenderam a ideia de que a igualdade de gênero era um tema central no movimento

feminista, e que sua conquista é uma obra somente das mulheres. Através do reforço da

ideologia sexista que reafirma a opressão e a vitimização, as mulheres brancas criaram um

sentimento de inveja e raiva em relação aos homens porque eles não dividiam com elas seu

privilégio de classe. Isso fez com que muitas mulheres pobres se distanciassem do feminismo

porque elas se identificavam muito mais com os homens de sua classe do que com as

mulheres brancas burguesas. Seria importante pensar uma união entre mulheres e homens

como um potencial transformador do feminismo. Os homens precisam se sentir responsáveis

pela opressão sexista, para isso precisam entender que a estrutura de poder da classe

masculina promove o abuso sexista, os fazendo acreditar que o abuso violento contra as

mulheres os beneficia.

 Mudando as perspectivas sobre o poder, bell hooks coloca que a noção


O capítulo seis:

de poder que as ativistas burguesas possuem como referência não é apenas um modelo, mas

a personificação masculina. Os dirigentes homens detentores do poder, endossam a

igualdade desde que as mulheres (no caso brancas burguesas) se comprometam a defender e

manter o status quo, isto é, essas mulheres “ganham” poder e prestígio dentro do sistema de

opressão.

Um dos desafio da teoria feminista é reforçar a ideia de que existe um poder que pode ser

criativo e transformador. Que o desenvolvimento da masculinidade e a perpetuação política

opressiva não são sinônimas. Reconhecer nas mulheres trabalhadoras e pobres a força que

inspira outras mulheres e o próprio movimento feminista e tornar esse poder como sua

referência (sem essencialismo nem fantasias). Rejeitar definições sobre o poder que vem de

pessoas poderosas.

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No capítulo sete, Repensando a natureza do Trabalho, bell hooks revela que as feministas

brancas burguesas trouxeram para a teoria feminista a falsa ideia do trabalho como

libertação, e transformou essa questão em uma motivação ideológica. Para as mulheres

trabalhadoras e pobres, o trabalho explora e desumaniza.

Quando mulheres brancas e burguesas casadas começaram a ingressar no mercado de

trabalho, isso significa muitas vezes para mulheres e os homens negras/aos uma ameaça. Não

só porque perderiam ainda mais oportunidades, mas pelo fato das oportunidades de trabalho

aparecerem somente na forma de trabalho precário. O empobrecimento feminino afeta

majoritariamente mulheres negras e pobres,  e essa questão exige do feminismo um

engajamento na luta por novos paradigmas econômicos. O feminismo também precisa

valorizar o trabalho feminino, todo tipo de trabalho, seja doméstico ou não, remunerado ou

não, enquanto um exercício de criatividade, como um gesto de poder e resistência.

O capítulo oito: Educando Mulheres: uma agenda feminista, como colocado no enunciado


do mesmo vai abordar o tema da educação. Segundo bell hooks nesse capítulo, a educação

e a alfabetização deveria ser uma preocupação política no feminismo. A teoria feminista é

expressa majoritariamente só pelo material escrito. Sendo que nem todas as pessoas tem

acesso a esse material. Esse fato infelizmente contribuiu para que houvesse pouca produção

feminista em outra forma de linguagem, fazendo com que o “feminismo” promovido pela tv

tivesse uma abordagem totalmente distorcida. É preciso dar ênfase a comunicação verbal, e

levar os estudos sobre as mulheres a um público mais amplo é sempre válido. As acadêmicas

feministas devem assumir o compromisso de traduzir ideias, mas para isso precisam se sentir

livres para escreverem de uma forma que seja acessível às massas. O feminismo precisa se

comprometer com o desafio educacional pela conquista da capacidade de ler e escrever e

habilidade de analisar e criticar.

No capítulo nove: O movimento feminista para acabar com a violência, bell hooks diz que
a raiz da violência contra a mulher, do adulto contra a criança e em todas as suas formas está

na ideologia sexista e da opressão de grupo. O uso da violência nada mais é do que o uso da

autoridade coercitiva na qual todos/as aprenderam a utilizar e a obedecer. É preciso

desaprender essa educação que naturaliza a manutenção do poder pelo uso da força. A

violência contra a mulher é a síntese dos conceitos de regra hierárquica e autoridade

coercitiva. Aprendeu-se que a noção de masculinidade é equiparada pelo seu senso de

poder, de controlar e dominar. A ordem social econômica de exploração capitalista provoca a

dor de fracasso e decepção no homem, e a ideia de que sua masculinidade será restaurada

mediante essa dor se exercer violência dentro da esfera do lar onde ele se entende dono. O

sentimento de dor é projetado e aliviado sobre a mulher. Na mesma medida em que se critica

a noção sexista da masculinidade é preciso criticar e examinar o impacto do capitalismo para

se quebrar esse ciclo de violência. A equiparação da violência e amor se expressa na relação

com os/as filhos/as. O abuso físico tem como objetivo controlar a criança, como se esse

controle fosse uma expressão de amor. Esse tipo de prática ensina as crianças que o amor é

uma aceitação passiva, com ausência de explicações e discussão.

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Um tema que achei muito interessante foi o do capítulo dez, sobre Parentalidade

revolucionária, nele bell hooks fala que os ataques feministas à maternidade alienou

principalmente as mulheres pobres e não brancas. Essa atitude significou para elas um ataque

a uma das poucas relações em que se sentiam afirmadas e apreciadas. A romantização da

maternidade aparece então como uma forma de reparar os danos da crítica feminista. A

parentalidade feminina precisa ser reconhecida e apreciada dentro de um contexto feminista,

para que seja possível repensar a natureza da maternidade sem que ela seja entendida como

uma experiência compulsória, ou fonte de exploração e opressão. A parentalidade feminina

precisa se tornar algo bom e afetivo, seja ela vivenciada com um parceiro ou sozinha. Os

homens precisam se entender como responsáveis pela criação. Não podemos promover a

ideia de que quando um menino é carinhoso e cuidadoso, ele está sendo maternal. Tal atitude

só reforça o estereótipo. É preciso levar essas discussões para homens e mulheres da classe

trabalhadora. Pessoas que vivem em uma luta diária pela sobrevivência trabalhando muito, em

condições ruins, sendo mal pagas e que por conta desse contexto, tem dificuldade em

desenvolver uma parentalidade compartilhada. O cuidado parental de base comunitária é

uma prática interessante, porque coloca as crianças em contato com cuidadores de ambos os

sexos. Essas crianças vão crescer sabendo que a atividade parental não é exclusividade das

mulheres.

No capítulo onze: Pondo fim à opressão sexual contra a mulher, bell hooks fala sobre
sexualidade, segundo a autora a liberdade sexual só pode existir quando os indivíduos não

são mais oprimidos por uma sexualidade socialmente construída com base em definições

biologicamente determinadas à sexualidade: repressão, culpa, vergonha, dominação,

conquista e exploração. As normas sexuais que existentes na sociedade são opressivas. O

discurso de que “é preciso” fazer, é a expressão de uma coerção social. Pessoas que são

partidárias da libertação sexual geralmente acreditam que quem não está preocupado/a

com a qualidade da sua experiência sexual é mentalmente perturbado ou sexualmente

reprimido. É necessário que o estigma sobre a inatividade sexual, isso ajudaria a mudar as

normas sexuais. As mulheres precisam saber que independente de suas escolhas sexuais, elas

podem participar do feminismo, pois a meta do feminismo não é estabelecer códigos de

sexualidade, mas sim, possibilitar politicamente que todas as mulheres e todos os homens

possam escolher livremente seus/suas parceiras/os sexuais. ma sexualidade libertadora é

aquela que favorece uma sexualidade que é aberta ou fechada conforme a natureza das

interações de cada um/a. O direito de escolha precisa caracterizar todas as interações

sexuais entre as pessoas. Quando a luta contra a opressão sexual progride, há uma redução

da obsessão pela sexualidade.

O último capítulo: A revolução feminista: Desenvolvimento por meio da luta, bell hooks diz
que o foco feminista em reformas destinadas para melhorar o status social da mulher dentro

da estrutura social, só fez com que se perdesse a visão de que é preciso fazer uma

transformação global da sociedade. O movimento feminista para acabar com a opressão

sexista só pode ser bem-sucedido se todos/as estiverem comprometidos com a revolução e

com a construção de uma nova ordem social.

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Vale destacar que os dilemas com os quais o movimento feminista depara hoje em dia foram

criados pelas mulheres brancas burguesas que moldaram o mesmo de acordo com seus

interesses. É preciso então remodelar as políticas de classe do movimento feminista, isso

levaria mulheres de todas as classes se engajarem no movimento. Uma ideologia

revolucionária só poder ser criada a partir das experiências de pessoas que vivem à margem,

que sofrem vários tipos de opressão de maneira interseccionada. São essas pessoas que

precisam participar do movimento feminista como proponente teóricas e lideres práticas. A

reorganização feminista é necessária para que todas nós possamos entender que temos

agido com cumplicidade ao sistema opressor existente.

Zine do Teoria Feminista: Por uma teoria feminista descolonizada

Produção executiva:
Priscila Kikuchi Campanaro

Contato:
contatoteoriafeminista@gmail. com

@feministateoria @feministateoria teoria feminista

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EDIÇÃO Nº 1 / FEMINISMO DECOLONIAL / JUNHO 2020

teoria
feminista
por uma

teoria
a sua zine sobre feminismo decolonial feminista
descolonizada