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Coleção bcbates
Dirigida por J. Gujnsbur8

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octavio paz
SIGNOS
EM ROTAÇÃO

llbR3.gl$G nâ Ü. EDITORA PERSPECTIVA


AIMAGEM
A palavra imagem possui, como todos os vocábulos,
diversas.significações. Por exemplo: volta, representação,
como quando falamos de uma imagem ou f;scultura' de
Apoioou da Virgem. Ou figurareal ou irnal queevo-
camosou produzimos com a imaginação. Neste 'wntido,
o vocábulo possui um valor psicológico: as imagens são
produtor..imaginários . Não são êsses seus únicos signifi-
cados,nem os blue aqui nos interessam. Convém advertir,
pois, que designamoscom a palavra imagem fada forma
verbal, frase ou conjunto de frases, que o poeta diz e
que unidas compõem um poemai. Estas expressõesver-
bais foram .classificadaspela retórica e se cl;amam com-
parações, símiles, metáforas, jogos de palawas, párodo'

'referencia poética'p propõe, pua evitar confusões. a expressão:

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másias, símbolos, alegorias, mitos, fábulas, etc. Quaisquer Apesar desta sentença adversa os poetas se obstinam
que sejam as diferenças que as.!aparam, tôdas têm em em afimtar que a imagemrevela o que é e não o que
comumapreservaçao da 'plumlidade
.... . .. de .siznifiQados
. ~ da
. poderia ser. E ainda mais: dizem que a imagemrecria
palavra sem quebrar a uúãade sintética da frase ou do o ser. Desejosos de restaurar a dignidade filgsófiea da
conjunto de 'frases. Cada imagem -- ou .cada. poema imagem, alguns não vacilam em buscar o amparo da
composto de imagens -- contém muitos significados con- lógica dialética. Com efeito, muitas imagens se ajustam
trários- ou díspares, aos quais abarca ou reconcilia sem aos três tempos do processo; a pedra é um momento da
suprima-los. Assim, San 'Juan de la Cruz fala de "la realidade;
a pluma,outro;e de seuchoquesurgea
música callada", frase na qual n aliam dois termas em imagem,a nova realidade. Não é necessáriorecorrer a
aparência irreconciliáveis. O herói.trágico, neste sentido. ima impossível enumeração das imagens para dar-se
t;mbém é UH& imagem. Exemplificando: a figura de conta de que a diabética não abarca a todas. Algumas
Antígona, despedaçada entre a piedade divina e as leis vozes
o primeirotermodevorao segundo.Outras,
o
humanas. A'cóléi'a de Aquiles tampouco é simples e segundo
neutraliza
o primeiro. Ou nãaseproduzo ter-
nela se unem os contrariou o amor;por Pátroclo e a ceiro termo e os dois elementosaparecemfrente a frente.
piedade por Príamo, o fascínio gte !ma morte gloriosa irredutíveis, hostis. As imagens do humor pertencem
e o desejode uma vida longa. Em Sigismundoa vigília geralmente a esta última classe: a contradição $CFVe
e o sonho se enlaçam de maneira indissolúvel e misteriosa. apenas para assinalar o cãráter irreparàvelmente absurdo
Em Édipo, a liberdade e o destino. . . A imagem é cifra da realidadeou da linguagem. Enfim, apesarde multas
da condição humana. imagens se desdobraram conforme a ordem hegeliana,
Épica, dramática ou lítica, condensada em uma quase sempre se trata antes de uma semelhança do que
frase Õu desenvolvida em mil páginas, toda imagem de uma verdadeira identidade. No processo dialético
aproxima ou conjuga realidades opostas,indiferente: ou pedras e plumas desapaK'cem em. favor de .uma terceira
distanciadas entre si. Isto é, submete à unidade a plura- realidade,que jí não é nem pedras nem plumas, mas
lidade do real. Conceitos e leis çientíficas não pretendem outra coisa. Mas em algumas imagens -- precisamente
outra coisa. . Graças a uma mesma reduçãoracional, as mais altas -- continuam sendo o que sãos isto é isto
indivíduos e4objetos --- plumas leves e pesadas pedras . e aquilo é aquilo;e ao mesmotempo,isto é aquilo: as
convertem-sd em unidades homogêneas. Não sem um pedras são plumas, sem deixar de ser pedras. O pesado
justificado usombro as crianças descobrem um dia que é o leve. Não há a transmutaçãoqualitativa que a'lógica
um quilo de pedras pesa o mesmo que um quilo de de Hegel exige, COHOnão houve a redução quantitativa
plumas. Custa:lhes muito reduzir pedras. e plumas à da ciência. Em suma,tambémpara a diabética' a imagem
abstração quilo. Dão-se conta de que pedras e plumas constitui um escandaloe UM desafio, também viola as leis
abandonaram sua maneira própria dc scr e que par uma do pensamento. A razão desta insuficiência -- porque é
escamoteação,perderam tâliu as suas qualidades e. sua insuficiência não poder explicar-se algo que está ãí, diante
autonomia. A' operação unificadora da ciência mutila-as dos nossosolhos,tão real como o resto da chamadarea-
el emliobrece-as.'0 mesmo não ocorre com a poesia. O lidade -- talvezconsistaem que a diabéticaé uma tenta-
poeta.nomeia as coisas: estas são plumas, aquelas são tiva para salvar os princípios lógicos -- e em especialo
pedras. E de súbito afirma: as pedras são plumas, isto de contradição -- ameaçadospor sua cada vez mais visível
é aquilo. Os elementos da imagem não.perdem seu incapacidade para digerir o caráter contraditório da rea-
caráter concreto e singular: as pedras continuam sendo lidade. A tese não se dá ao mesmo tempo quc a antítese;
pedras, ásperas, duras, impenetráveis! amarelas dc sol ou e ambasdesaparecem
para dar lugar a uma nova afir-
verdes de musgo: pedras pesadas. E as plumas,. plumas: mação que, ao engloba-las, transmuta-as. Enn cada unl
leves. A imagem resulta' escandalosaporque desafia o dos três momentos reina o princípio de contradição.
princípiode contradição:o pesadoé o ligeiro. Ao Nunca afirmação e negação se dão como realidades
enunciara identidade dos contrários, atenta contra os simultâneas, pois isso implicaria a supressão da ideia
fundamentos do nosso penar.' Portanto, a realidade mesmade processo. Ao deixar intacto o princípio de
poética da imagem não pode aspirar à verdade. .O poema contradição, a lógica diabética condena a imagem, quc
não diz p que é e sim o que. poderia.ser.' Seu Temo Omite êsseprincípio.
não é o 'do ser, mas o do "impossível verossímil" de Coma as outms ciências,a lógica não deixou do se
Aristóteles. fazer a pergunta crítica que toda disciplina deve fazer-se

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em um dado momentosa de seusfundamentos.Tal é. Parmênides c encontrar uma resposta que não imobiliza
:e não me equívoco, o sentido dos paradoxos de Bertrand + ser. Não conhecemos ainda a últim:i palavra de Hei-
Russell e, em. um exüemo oposto, o das invutigüçõ« de degger, mas sabemosque a sua tentativa'de encontrar o
Husserl. Assim, surgiram novos sistemaslógicos. 'Alguns ber na existência tropeçou com um muro. Agora, segundo
poetas se interessaram. nas investigações de S. Lupasco, mostram alguns dos seus.últimos escritas, volta-se para a
que w propõe dewnvolver séries dê proposições fundadas poesia. Qualquer que seja o desenlace de sua aventura,
no que êle. chama de .princípio de contradição comple- o coROé que, dêsteângulo!a históriado Ocidente
pode
mentária:. .Lupasco deita intactos os termos contrários. ser vista como a história de um êrmo,um extravio. no
mas..sublinha sua interdependência. Cada têmio pode duplo sentido da palavra; distanciado-nosde nós mesmos
atualimr-seem leu contráão, de que dependeem razão ao nos perdermosno mundo. Há que começar outra vez.
dilua e contmdit6ria. .d vive em função contraditória O pensamento oriental não sofreu dêste' honor ao
de B; cada alteração em d produz consequentementeUMa "!\outro", ao que.é c. não é ao mesmotempo. O mundo
modificação, em sentido inverso, em B. z Negação e ocidental é o do "isto ou aquilo". Já no mais antigo
afirmação, isto e aquilo, pedras e plumas, se dão simultâ- Upanishad se afirma sem reticências o princípio da iden-
neamentee em função complementária de seu oposto. tidade dos contrários: "Tu és mulher. Tu és homem. És
O principio de contradição çomplementária absolve o rapaz e também a donzela. Tu, como um velho, te apóias
algumas imagens, mas não todas. O mesmo, talvez, devo em um cajado. . . Tu és o pássaro azulescuro e o verde
dinr-n. de outros sistemas lógicos. Ora, o poenn Rão de olhos vemlelhos. . . Tu és as estações e os mares"3.
só proclama a Coexistência dinâmica e necessá;iã'de seus E estas. afirmações o Upanishad Chandogya condensa-as
contrárioscomo a sua final identidade. E esta-recaaci' na célebre fórmula: "Tu és aquilo". Toda a história do
Ilação, gue. não implica redução nem transmutação da pensamentooriental pare desta antiquíssima afirmação,
singularidade.
de cada termo, é um mwo que até agora !o mesmomodo que a do .Ocidentese originada de
o pensament? gidental w recusoua saltar ou a ,#erfwâr. Parmênidn; Êste. é ! tema constante da especulação dos
Desde Pannênides nosso mundo tem sido o da ãistiúção grandes filósofos budistas e dos exegetas do hinduísmo .
Mtída ? incisiva.entre o que é e o que não é. O ser não O taoísmo revela as mesmas tendências. Todas estas
é o não-ser. Êste primeiro desenmizamento -=. lótqWe doutrinas reiteram que a oposição.entre isto e aquilo é,
Eoi.como aiTancaro' ser do caos primordial -- cppstitui simdtâneamente,relativa e nnessária, mas que há um
Q fundamento de nosso pensar. Sõbn esta coi;éepção momento em que cessaa inimizade entre os tênnos que
construiu-no edifício das "idéias claras e distintas",'que nos pareciam excludentes.
se tomou possível a história do Ocidente, também cdlíde- Como se fâsw um antecipado comentário a certas
nou a uma espécie de ilegalidade tôdas as tentativas de especulações.contemporâneas, Chuang-Tsé assim explica o
pender o wr por caminhos que não fossem os dêsses caráter funcional e relativo dos opostos: "Não há nada
princípios. Mítica e poesia viveram assim uqn .Vida que não s?ja isto; não há nada que não seja aquilo. Isto
subsidiária, clandestina e diminuída. O desenraizamento vive em função daquilo. Tal ê a doutrina da interde-
tem sido indizíwl e constante. As consequências' dêsse pendência de isto e aquilo. A vida é vida diante da
exílio da poesia são cada dia mais evidente e aterradoras: morte. E vice-versa. A afirmação o é diante da negação.
o homem é um desterrado do fluir cósmico e de Éi mesnaa. E vice-versa Portanto, se alguém se apoia nisto, teria que
Pois ninguém ignora que a metafísica ocidental temiina negar aquUo. Mas isto'possui sua afirmação e sua nega-
em um solipsismo. Para rompêlo, BeBeI ngwssa até ção e.tambémengendraseu isto e seu aquilo. Portanto,
Heráclíto. Sua tentativa não nos devolveu a ;ande. O o verdadeiro sábio desprezao isto e o aquilo e se refugia
castelode cristal da diabéticarevela.w ao üim como ufn. em Tao. . ." Hlá um ponto.em que isto e aquilo, pedras
labirinto de espelhos. Husser!w coloca de nato todos e plumas, se fundem. E êsse momento nãó está' antes
os problemas e proclama a necessidade de 'soltar aos nem depois no princípio ou no fim dos tempos. Não
é paraíso natal ou pré-natal nem céu ultraterre;tre Não
fatos". Mas o idealismo de Huswrl lfuece desembocar
vive no reino da sucessão, que é precisamente o dos
também em um solipsismo. Hêidegger retorna aas pié- contrários relativos, mas está em cada momento. E cada
-socráticospara fazer-se a mesmapergunta que se''fêí momento. É o próprio tempo engendrando-se. fluindo-se.
abrindo-se a um acabar quê é um contínuo começar.
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Jarro,fonte. AÍ, no próprio seiodo existir -- ou melhor. In the middíeof the night l stole a furtivo glance:
do existindo-se -- pedras e plumas, o leve e o pesado, The two ingredientefere in affable embrace;
nascer-see morrer-se, ser-se,são uma e mesmacoisa. Their altitude was post unexpected,
They fere locked together in the postura of man and bife,
O conhecimento.que nos propõem as doutrinas orien- InterLwined as dragons, edil with coilS
tais não é transmissívelem fómlulas ou raciocínios. A
verdade é uma experiência e cada um deve tenta-la por
sua conta e risco. A doutrina nos mostra o caminho, Para a tradição oriental a verdade é uma experiência
pessoal. Portanto, em sentido estrito, é incomunicável.
mas ninguém pode perconê-lo por nós. Daí a impor- Cada um deve começar e refazer por si mesmo o pmcesso
tância das técnicas de meditação. A aprendizagemnão da verdade. E ninguém, exceda aquêle que empreende a
consiste no acúmulo de conhecimentos, mas na depuração
aventura, pode saber se chegou ou nãa à plenitude, à
do corpo e do espírito. A meditação não nos ensina nada, identidade com o set. O conhecimento é inefável. Às vêzes,
excito o esquecimentode todas as ensinançasc a renúncia êste "estai' no saber" se exprime em.uma gargalhada,um
a todos os conhecime.fetos. Ao fim destas provas, sabe- Barrigaou um paradoxo. Mas êssesorrisopode também
mos menos mas estamosmais leves; podemos empreender indicar que o adepto não encontrou nada. Todo o conhe-
a viageme nos defrontarmoscom a mirada vertiginosae cimento 'se reduziria então a saber que o conhecimento é
vaziada verdade. Vertiginosaem sua imobilidade;vazia impossível. Uma vez ou outra os textos se comprazem
em sua plenitude. Muitos séculosantesque Hegel des- com êste género de ambigíiidades. A doutrina resolve-se
cobrissea equivalência
final entreo nadaabsolutoe o em silêncio. Tao 6 índéfinívele inominável:"0 Tao que
pleno ser, os Upanishad tinham definido os estadosde pode ser nomeado não é o Tao absoluto; o$ Nomes que
vazio como instantesde comunhãocom o ser: "0 mais
alto estado w alcança quando os cinco instrumentos do podem ser pronunciadosnão são os Nomes absolutos"
Chuang-Tsé afirma que a linguagem, por sua própria
conhecer permanecem quietos e juntos na mente e esta natweza, não pode exprimir o absoluto, dificuldade que
não se move" 4. Pensar é respirar. Reter a alento, deter não é muito distinta da que se desvelo&oscriadoresda
a circulação da ideia: produzir o vazio para que o ser lógica simbólica. "Tao não pode ser. definido. . . Aquêle
aflore. Pensar é respirar porque pensamento e vida não que conhece,ngo fala. E o que fala, não conhece. Por-
são universos separados e sim vasos comunicantes: isto
tanto, o Sábio prega a doutrina sem palavras." A con-
é aquilo. A identidade última entre o homem e o mundo, denação das palavras origina-se da incapacidade da lin-
a consciência e o ser, o ser e a existência, é a crença
guagem para transcender o mundo dos opostos relativos
mais antiga do homem e a raiz da ciência e da religião, e interdependentes, do isto em função do aquilo. ''Quando
magia e poesia. Todos os nossos empreendimentos se se fala de apreender a verdade, pensa-senos livros. Mas
orientam para descobrir o velho caminho, a via esquecida os livros sãofeitos de palavras. As palavras,é claro, têm
da comunicaçãoentre os dois mundos. Ns)ssabuscatende um valor. O valor das palavras reside no sentido que
a redescobrir ou a verificar a universal correspondência ocultam. Ora, êstesentidonão é senãoum esforçopara
dos contrários, reflexo de sua original identidade. Inspi- alcançar algo que não pode ser alcançado realmente pelas
rados neste princípio, os sistemas tântricos concebem o
palavrasÓ." Com efeito, o sentido aponta para as coisas,
corpo como metáfora ou imagem do cosmos. Os centros assinala-as,-
mas ngo as alcança jamais. Os objetos estão
sensíveis são nós de energia, confluências de correntes
mais além das palavras.
estelares, sanguíneas, nervosas. Cada uma das posturas
Apesar ãó sua crítica da linguagem,Chuang-Tsénão
dos corpos abraçados é o signo de um zodíaco regido
enunciou à palavra. O mesmo acontece com .o budismo
peloritmo tríplice-da seiva,do sanguee da ]uz. O templo Zen. doutrina que se resolveem paradoxose em silêncio
il de Konarak é cobertoflor uma deliranteselvade corpos mas à qual devemosduasdas mais altas criaçõesverbais
enlaçados: êssescorpos são também sóis que se levantam do homem: o teatro /VÓ c o /iai-tn de .Baó-/ió. Como
de seuleito de chamas,estrêlasque sc acoplam. A pedra explicar estacontradição?Chuang-Tséafirma que o sábio
arde, as substânciasenamoradas se entrelaçam. As .bodas
'prega a doutrina sem palavras". Ora, o taoísMO ---
alquímicasnão são diversasdas humanas. Po-Chu-l nos
conta em um poema autobiográfico que: (5) Arthur Uraley.T/ie l,f/e a/id Tiines o/ Pa-C/til-/, Londres,1949.
(6) Arüur Waley. T/le }f'ay apta lí.ç Pawfr. A Jnrdy o/ f/iB Taa
(4) Xal/ia C/panísJ)ad, vela-se nota 3. 7ê C/iinF aria iíl Plane in rha Clt/ne T/rong/ir, Londrcs. 194P.

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diversamente
do cristianismo-- não crê nas boasações. mente em linguagem, essa possibilidade se fixa em uma
Tampouco nas.más: simplesmentenãa crê nas ações.' A única direção. Na prosa a unidade da frase é conseguida
prédica sem palavras a que alude o filósofo chinês não 'é
atravésdo sentido, que é algo como uma flecha que obriga
a do exemp]o,masa de uma linguagem
que seja algo tôdas as palavras a apontarem para um mesmo objeto
mais do que a linguagem: palavra que diga o ] ndizível. ou para uma mesmadireçãc>. Ora, a imagem é uma frase
Embora Chuang-Tséjamais tenhapensado na pa sia como em que a pluralidade de significadosnão desaparece.A
uma linguagem capaz de transcender o sentido $de isto e
imagem recolhe e exalta todos os valores das palavras,
aquilo.e d? dizer"o indizível, não se pode separa seu sem excluir os significados primários e secundários. Coma
raciocínio dae imagens, jogos de palavra; e ousas formas
poéticas. .Poesia e pensamento se entreterem em Chuang- pode a imagem, encerrando dois ou mais sentidos, ser
-Tsé até formar uma só tela, uma única matéria insólita. una e resistir à tensão de tantas forças contrárias, sem
converter-se em um mero disparate? llá muitas propo-
O mesmo deve dizer-se das.outras doutrinas. Graças às sições, perfeitamente carretas quanto ao que chamaríamos
imagens poéticas o pensamento taoista, hindu e budista
a sintaxegramaticale lógica, que terminam por ser um
resulta comprelnslyel. . Quando Chuang-Tsé explica que contra-senso. Outras desembocam em um sem-sentido,
a experiência de Tao implica um retõrlio a uma espécie
de consciência elementar ou. original, onde os significados
como as citadas por García Bacia em sua /n/lodo/ccióna
relativos da linguagem resultam inoperantes,recorre a um !a /óglca moderna ("o número dois é duas pedras").
jogo de palavras que é um enigma poético. Diz que esta Mas a imagemnão é nem um contra-sensonem um sem-
experiência de regresso ao que somos originalmente é .wntido. Assim, a unidade da imagemdeve ser algo mais
"entrar na gaiola dos pássaros sem fazê-los cantará'. Fa/z do qué a meramente formal que se dá nos contra-sensos
é gaiola e regresso;ml/zg é canta e nomes7. Assim, a e em geral em todas as proposiçõesque não significam
frase quer dizer também: "regressarali onde os nomes nada ou que constituem simples incoerências. Qual pode
não são necessários", ao silêncio, reino das evidências. ser o sentido da imagem, se vários e dísparessignificados
lutam em seu interior?
Ou ao lugar onde os nomes e as coisasse fundem e são
a mesmacoisa: à poesia,reino onde nomear é ser. A As imagens do poeta têm sentido em diversos níveis..
imagem diz o indizível: as plumas leves são pedras pesa- Em primeiro lugar, possuemautenticidade:o poeta as
das. Há que retornar à linguagempara ver como a viu ou ouviu, são a expressãogenuína de sua visão e
imagem pode dizer o que, por natureza, a linguagem experiência do mundo. Trata-se, pois, de uma verdade
parece incapaz de dizer. de ordem psicológica,que evidentementenada tem a ver
A linguagemé significado:sentidode isto ou aquilo. oom o problema que nos pKocupa. Em segundo lugar,
/Es :plumas são leves; as pedras, .pesadas. .O leve é'leve essasimagens constituem uma realidade objetiva, válida
em relação ao pesado, o escuro diante do luminoso, etc. por sí mesma: sãa obras. Uma paisagem de Góngora
Todos os sistemasde comunicaçãovivem no mundo das não é a mesmacoisa que \lma paisagem
natural,mas
referências e dos significados relativos. Daí que sejam ambas possuem realidade e consistência, embora vivam
conjuntos de signos dotados de certa mobilidade. Por em esferas dktintas. São duas ordens de realidades para-
exemplo, no caso dos números, um zero à esquerda não lelas e autónomas. Neste caso, o poeta faz.algo mais do
é o mesmoque um zero à direita: as cifras modificam
seu significado de acôrdo com a sua posição. Outro que dizer a verdade; cria realidades que possuem uma
tanto ícone com a linguagem,só que a sua gama de verdade: a de sua própria existência. As imagenspoéticas
mobilidade é muito superior às de outros processos dc têm a sua própria lógica e ninguém se escandalizadc quc
significação e comunicação. Cada vocábulo possui vários o poeta diga que a água é cristal ou que "el pirú es primo
significados, mais ou menos conexos entre si. Êsses del sauce" (Carlm Pellicer) . Mas esta verdade estética
significados se ordenam e se precisam de acârdó com o da.imagem só vale dentro de seu próprio Universo.Final-
lugar da palavra na oração. Os outros desaparecem ou mente, Q poeta afirma que suas imagens nos dizem algo
se atenuam. Ou, diwndo de outro modo: em si mesmo sôbre o inundo e sôbre nós mesmos c que êsse algo, ainda
o idioma é uma infinita possibilidade de significados; ao que pareça um disparate, nos revela de fato o quc somos.
atualizar-se em uma frase, ao converter-se verdadeira- Esta pretensãodas imagenspoéticas possui algum funda-
(?) Arüur Waley, op cif. mento oUetivo? O aparente contra-senso ou sem-sentido
do dizer poético encena algum sentido?
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Quandopercebemosum objeto qualquer,êste se O poema nos faz.recordar o que esquecemos:o que somos
nos apresenta coma uma pluralidade de qualidades, realmente.
sensações e significados. Esta pluralidade se nidifica, A cadeira é muita coisas ao mesmo tempo: serve
instantaneamente, no momento da percepção. O ele- pua- sentar-se,mas também pode ter outros usos. E
mento unificador de todo êste conjunto de qua- outro tanto ocorre com as palavras . logo que reconquis-
lidades e de formas é o sentido. As coisas pos- tam a sua plenitude, readquirem seus significados e valores
suem um sentido. Mesmo no caso , da mais simples, perdidos.A ambigüidadeda imagemnão é diversada
casual e distraída percepção dá-se uma certa intencio- ambiguidadeda realidade,tal cabo a apreendemos
no
nalidade, segundo demonstraram as análises fenomeno16- momento da percepção : imediata, contraditória, plural e,
gicas. Assim,o sentidonão só é o fundamentoda lin- não obstante, possuidora de um sentido recôndito. Por
guagem como também de tôda apreensão da realidade. obra da imagem produz-se a instantânea reconciliação
Nossa experiência da pluralidade e da ambiguidade do entre o nomee o objeto,entrea representação
e a reali-
real parece que se redime no sentido. À wmelhança da dade. Portanto, o acôrdo entre o sujeito e o objeto dá-se
percepção ordinária, a imagem poética reproduz a plura- com certa plenitude. Êsse acordo seria impossível .se .o
lidade da realidade e, ao mesmo tempo, outorga-lhe poeta não usasseda linguagem e se essalinguagem, por
unidade. Até aqui o poetanão realiza algo que não seja meio da imagem, não recuperassea sua riqueza original .
comum ao resto dos homens. Vejamos agora em que Mas esta volta das palavrasà sua primeira natureza--
consiste a opuação unificadora da imagem, para dife- l.sto é, à sua pluralidade de significados -- é apenas o
rencia-la das outras formas de expressão da realidade. primeiro ato da operação poética. Ainda não apreende-
Todas as nossas versões do real -- silogismos, des- mos de todo o sentidoda imagempoética.
crições, fómlulas científicas, comentários de ordem pM- Tôda frase possui uma referência a outra, é susce-
tica, etc. -- não recriam aquilo que pretendemexprimir. tível de ser explicada por outra. Graças à mobilidade
Limitam-se a .representa-lo ou descrevo-lo. Se vemos dos signos, as palavras podem ser explicadas pelas pala-
uma cadeira, por exemplo, percebemos instantaneamente vras. Quando tropeçamos com uma sentença obscura.
sua c6r, sua forma, os materiais com que foi construída, dizemos: "0 que estas palavras querem dizer é isto ou
etc. A apreensão de todas estas notas dispersas não é aquilo". E paradizer.".istoou aquilo" leconemosa outras
obstáculopara que, no mesmo ato, nos seja dado o signi- palavras. Toda frase quer dizer algo que pode ser dito
ficado da cadeira: o de ser um móvel, um utensílio. Mas ou explicado por outra frase. Em conseqüência, o sen-
$e queremos descrever massapercepção da cadeira, teremos tido ou significado é um querer dizer. Ou seja: um dizer
que ir aos poucos e por partes: primeiro sua forma, depois que pode dizer-sede outra maneira. O sentido da ima-
sua câr e assim sucessivamenteaté chegar ao significado. gem, pelo contrário,é a própria imagem:não se pode
No curso do processo descritivo foi-se perdendo pouco a dimr com outras palavras. .4 friagem exp/ícaue a .sí
l)ouçoa totalidade
do objoto. .A princípioa cadeirafoi mesma. Nada, excito ela, pode dizer o que quer dizer.
apenasforma, mais tarde uma certa espéciede madeira Sentido e imagem são a mesma coisa. Um poema ngo
e finalmente puro significado abstrato: a cadeira é um tem mais sentidoque as suasimagens. Ao vcr a cadeira,
Dueto que serve para sentar-se. No poema a cadeira é aprendemos instantaneamente sêu sentido: sem necessidade
uma presençainstantâneae total, que fere de um golpe de recorrer à palawa, sentamo-nos. O mesmo ocorre com
a nossa atenção. . O poeta não descreve a cadeira: coloca-a o poema: suas imagens não nos levam a ouü'a coisa,
diante de nós. Como no momento da percepção, a cadeira como ocorre.com a prosa, mas nos colocam diante de
nos é dada com todas as suas qualidadescontrárias e, uma realidade concntã. Quando o poeta diz dos lábios
no ápice, o significado. Assim, a imagem reproduz o de sua amada: "pronuncian con desdén sonoro hielo",
momento de percepção e força o leitor a suicidar dentro não faz um símboloda brancuraou do orgulho. Colo-
de si o objeta um dia percebido:: O verso, a frase-ritmo, ca-nos diante de um fato sem recorrer à demonstração:
evoca, ressuscita, desperta, recria. Ou, como dizia Ma- dentes palavras, gelos, lábios, realidades díspares, apre-
chado: não representa,mas apresenta.Recria, revive nossa sentam-w de um s6 golpe diante de nossos olhos. Goya
experiênciado real. Não vale a pena assinalar.que essas não nos descreveos horroresda guena: oferece-nossim-
ressurreições não são sàmentc as de nossa experiência plesmente a imagem da guerra. Os comentários, as nfe-
cotidiana,mas as de nossavida mais obscurae remota. A
/
rências e as explicaçõesficam sobrando. O poeta não

47
U

mWBeUHHH.'U
quer .dizei: aü. Orações e frases são meios. A imagem
lü não é meio; sustentada em si mesma, ela é seu sentido. Q

Nelaacaba
e nelacomeça.O sentidodo poema
óo
próprio poema. As imagens são irredutíveis a qualquer
explicaçãoe interpretação. Assim pois, as palavras'--
que haviam recuperado sua ambiguidade original -- so-
i
Ü
!$h:.%='%m=m="e:::
;8:.Ê11ae..
X
sentido último da imagem: ela mesma.
frem agora outra desconcertante e mais radical transfor- (;efta, nem em todas as imagensos opostos se recon-
mação. Em que consiste? ciliam sem destruir-se. Algumas 'descobrem semelhanças
Derivados da natureza significante da linguagem, ente os termos ou elementos de que se compõe a reagi.
dois atributos distinguem as palavras; primeiro, sua mobi- dado: são as comparações,segundo .Aristóteles as definiu.
lidade ou intermutabUidade; segundo, por virtude de sua Outras aproximam '.realidades "contrárias ;' e produzem
mobilidade,
a capacidade
de uma palavrade poderser usam uma "nova realidade", como diz Reverdy. Outras
explicada por outra. Podemos dizer de muitas' maneiras provocam uma .contradição insuperável ou um sem-sentido
a ideia maissimples. Ou mudar as palavrasde um texto absoluto, que denuncia o caráter irrisório do mundo. da
au de uma frase semalterar gravementeQ sentido.- Ou
explicar uma sentença por outra. Nada disto é possível
com a imagem. llá muitas maneiras de 'dimr a mesma
coisaem prosa; $ó eüste uma em poesia. Não é a mesma
coisa dizer "de desnudaque está brilha la. estrella'' e "la
estreitabrilla porque.está desnuda". O sentido se degra-
dou .na segunda versão: de afim)ação cgnvertqu-se em
rasteira explicação . A comente poética sofreu uàa baixa
de tensão: .A imagem faz com"que as palavras percam
a sua mobilidadee intermutabilidade. õs vocábulosse
tardam insubstituíveis, irreparáveis. Deixaram de ser
instrumentos. A linguagem deixa de ser um utensílio.
O retomo da linguagemà natureza original, que parecia
ser o 8m último da imagem, é apenaso passo preliminar
para uma operação ainda mais radical : a linguagem, tocada
pela poesia, cessa imediatamente de ser linguagem. Ou
seja: conjunto de signos móveise significantes. O poema
transcende
a linguagem.Fica agoraexplicado
i) que
disse ao começar êsse livro: o poema é linguagem -= e
linguagem antes de ser. submetida à mutilação da prosa
ou da conversação--, mas é também mais aguma coisa.
E êssealgo mais é inexplicávelpela linguagem,embora
só possaser alcançadopor.ela. Nascido da palavra, o
poema desemboca em algo que. a tmnspassa.
A experiência poética é irredutível à palavra e, não
obstante, só a palavra a exprime. A imagem reconcilia
os contrários, mas esta reconciliaçãonão pode ser expli-
cada pelas palavras -- exceto pelas da imagem, que já
deixaram de sê-lo. Assim, .B imagem é um recurso desn-
peradocontra o silêncioque nos invadecada vez que
tentamos exprimir a temível experiência do que nos
rodeia e de nós HesMOS. O poema é ]inguagem em ten-
são: em extremo de ser e em ser até o extremo. Extremos
da palavra e palavras extremas, voltadas sôbre as .suas

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o círculo dossignificadosrelativos,o isto e o aquUo,e diz
o indizível:aspedrassãoplumas,isto é aquilo. A lin-
l
guagemindica, representa;
o poema não explica nem
representa: apresenta. Não alude à realidade; pretende
-- e às vozes o consegue -- recria-la. Portanto, a poesia
é um penetrar, um estar ou ser na realidade.
A verdade do poema apoia-se na experiência poética,
que não difere essencialmente
da experiênciade identifi-
cação com a "realidade da realidade", tal .como foi des-
crita pelo pensamentooriental e uma parte do ocidental.
Esta experiência, reputada indizível, expressa-se e comu-
nica-sepela imagem. E aqui nos defrontamoscom outra
perturbadora propriedade do poema, que será examinada
mais adiante * : em virtude de ser inexplicável, .exacto
por si mesma,a maneiraprópria de comunicação
da
imagem não é a transmissão conceptual. A imagem não
explica: convida-nos a recria-la e, literalmente, a revivo-la.
O dizer do poeta se encarna na comunhão poética. A
imagem transmuta o homem e converte-o por sua vez em
imagem,isto é, em espaçoonde os contrários se fundem.
E o próprio homem,. desgarrado desde o nascer, recon-
cilia-w consigo quando ie faz imagem, quando se /az
burro. A poesia é metamorfose, mudança, operação. al-
química, e por isso é limítrofe da magia, da religião e de
outras tentativas para transformar o homem e fazer
"dêste" ou "daquele" êsse "outro" que é êle mesmo. O
universo deixa de ser um vasto armazém de coisas hete-
rogêneas. Astros, sapata, lágrimas, locomotivas, salguei-
ros, mulheres, dicionáüos, tudo é uma imensa família,
tudo w comunicae sc tfaDISfOHDâ wm cessar,.ummesmo
sanguecorre por todas as fomtas e o homem pode ser,
por fim, o seu desejo; êle.mesmo. A poesiacoloca o A CONSAGRAÇÃODO INSTANTE
iiomcm fora de si e, simütâneamente,o fm regessar ao
seu ser original: volta-o para si. O homem é sua imagem:
êle mesmoe aquêle.outro. Através da frase que ó ritmo, Em .Faenas anteriores procurou-se distinguir o ato
queé imagem,o homem-- êsn perpétuochegara ser poético de outras experiênciaslimítrofes. Agora canse
necessário mostrar coiro êsse ato irredutível se' inserta no
-- é. A poesia é entrar no ser.
mundo. Embora a poesia não seja religião, nem magia,
nem pensamento, para realizar-se calmo.poema ap6ía-sebm
algo alheio a si mesma. Alheio, mas sem o qual não
poderia encarnar-se. O poema é poesia e, alétn disso,
outras caisw. E êste aZéhdz'xionão é algo postiço ou
acrescentado,mas um constituinte de seu ser. Um poema
pulo.séria aquêle em que as palawas abandonassem seus
significado!.particdarese suas'referênciasa isto ou aquilo,
para significar semente o ato de poetizar -- eHgência
qle acarrQtadaq seu desaparecimento, pois as palavras
(+) O autor referosê a cuBO ewalo. "A consaBaçãodo Idemte". não são ouça coisa que siga.ificadosde .isto e aquilo, isto
do. seu livro .EI arco y h J/ra, também constanto do ptesento volunae. é, de objetos relativos e históricos. Um poema puro não
CN. do T.)
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