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Belo Horizonte, 05 de outubro de 2010

Senhora Marina Silva,

Meu nome é José Augusto Figueiredo, sou de Belo Horizonte-MG, tenho 54


anos e sou eleitor há mais de 30 anos. Durante esse tempo confiei em políticos e suas
plataformas e promessas, votando em vários deles por esse motivo. Depois de perder
a confiança descobri a esperança e, por ela, votei em outros tantos, os quais nada
mais fizeram senão demonstrar o avassalador efeito que tem a desilusão em nossos
corações. Dei-me conta do absurdo desperdício de um sentimento puro, o qual nos
leva a acreditar em uma pessoa, pelo que ela diz e pelo que ela parece ser,
demonstrando ao final o engano devastador que cometemos.
Não quero aqui falar das decepções pontuais, dos corruptos e corruptores, dos
que roubam e que transportam, muitas vezes, o produto de seus roubos em locais
inusitados como cuecas e meias. Não me refiro aos que chegam à desfaçatez de orar
em ação de graças a Deus pela propina recebida. Ou os que cobram comissão pelo
serviço público devido, pelo qual pagamos antecipada, cara e inexoravelmente. Ou
ainda, os que insultam a nossa moral e dignidade dançando em plenário,
comemorando a impunidade.
Não senhora. Minha maior desilusão não é por ver os descalabros nossos de
cada dia, perpetrados pelos bandos e quadrilhas oficiais, instalados e refestelados à
sombra do poder e, em função dele, na impunidade.
Meu lamento é pela perda das oportunidades de se transformar esse país.
Minha mãe dizia que a oportunidade é um cavalo encilhado e sem cavaleiro, que
passa trotando na nossa frente. Se não pularmos nele, outro mais à frente o fará, irá
embora montado e ficaremos a pé, para trás. E ela dizia ainda que cavalos encilhados
e sem cavaleiros não costumam passar duas vezes no mesmo lugar. Com isso ela
queria dizer que não devemos perder as oportunidades que se nos apresentam, sob
pena de não conseguirmos outra igual, nunca mais.
A primeira grande oportunidade que perdemos de ser uma nação mais justa e
equilibrada se deu logo após a morte de Tancredo Neves. Assumiu o seu lugar um
cidadão chamado José Sarney, de triste ocorrência e desempenho. Sob seu governo
nos deparamos com a maior inflação já vista neste país. E de seus subalternos surgiu,
em contrapartida, um plano econômico que, à parte os resultados cômicos e trágicos,
produziram um movimento de união jamais visto entre brasileiros. Lembro-me bem de
um cidadão, avançando de braço erguido e de dedo em riste, bradando na face de um
gerente: “... –Eu fecho este supermercado em nome do Presidente Sarney!”, indignado
com a remarcação de preços praticada por aquele estabelecimento.
O Plano Cruzado, a que me refiro, ainda que de forma tosca, amordaçou o
dragão da inflação e deu a Sarney e aos seus aliados, índices de popularidade jamais
experimentados por um governante. E em sua trilha e sob sua sombra, o povo desse
país elegeu a maioria absoluta de governadores, senadores, congressistas, deputados
estaduais, prefeitos e vereadores de um único partido: o PMDB.
E esse famigerado partido é o responsável pela perda da maior oportunidade
que já teve esse país de se tornar uma grande nação. O PMDB de então tinha a
esmagadora maioria no Senado e no Congresso. Não precisava costurar acordos nem
dependia de resultados de votações para aprovar e decidir o que quisesse. Podia, se
quisesse, decidir os rumos que deveríamos tomar para nos tornarmos um povo feliz,
filhos de uma pátria que nos respeitasse. Poderia nos levar a patamares de
desenvolvimento, de educação, de conscientização e maturidade jamais
experimentados. E hoje estaríamos colhendo frutos maravilhosos.
Mas não. Os incompreensíveis seres humanos que foram eleitos sob a
bandeira desse partido e que tiveram essa oportunidade em suas mãos, naquela
época, resolveram, ao contrário, assaltar o país e sugar-lhe o sangue por todos os
poros possíveis, certos de sua impunidade. Sob a égide do Plano Cruzado, elegeram-
se centenas de brasileiros desmerecidos de assim serem chamados, responsáveis
pelo desperdício da oportunidade de então, jogada ao lixo. Nunca nos recuperaremos
desse mal que nos feito senhora Marina Silva.
Eu não a conheço pessoalmente. Não tive a oportunidade de ouvi-la falar, a
uma distância que me permitisse ver os seus olhos e ler todos os sinais inerentes que
se apegam a uma pessoa e nos permitem fazer julgamentos sobre o seu caráter e
detectar os pequenos e sutis, mas inconfundíveis, sinais da verdade ou da mentira,
implícitos na espontaneidade ou na impostura. Tudo o que percebi de sua pessoa foi
através da televisão, através da ótica e enquadramento da lente de uma câmera,
filtrada que é pela percepção do profissional que a opera, da sensibilidade do
profissional que edita aquelas imagens e, por fim, dos objetivos subentendidos da
emissora que as divulga.
Apesar disso pude perceber, desde que a tenho acompanhado, mesmo pela
TV, o fio da honra, indelével, que tece a voz, o olhar, a fala e a expressão de uma
pessoa de reto coração. Lembro-me de várias intervenções da senhora no Senado e à
frente do Ministério do Meio Ambiente, sua luta e por fim sua desilusão com o partido a
que serviu durante tantos anos. Essa desilusão, e sua atitude de desligamento com o
referido partido, me deram a certeza de que vi e senti, sem me enganar, a existência
do fio a que me refiro. Eu prezo isso com a minha alma senhora Marina. É o que me
faz crer que fomos mesmo feitos à imagem e semelhança do Criador. É o que
desperta a esperança, esse sentimento inexplicável, que nos dá força para ir adiante,
um pouco mais.
Assim, vi nesse recente pleito de três de outubro de 2010, a possibilidade de
uma nova oportunidade a esse país sofrido e a esse povo, corrompido pelas práticas
assistencialistas do governo atual, cuja honra e sentimentos foram embotados pelas
redes de TV a serviço de um mal muito maior, qual seja, o entorpecimento da moral e
da justiça e a perda da dignidade e da esperança, trocadas que foram pela placidez e
pela inércia, remuneradas mensalmente pelo governo. A par disso a riqueza se
concentra mais e mais e mais, causando todos os males possíveis aos filhos deste
solo, muitos dos quais sentidos pela senhora mesma, em sua pele. Certo disso, fui à
urna depositar meu voto em sua pessoa, movido pelo sentimento cívico de poder vir a
ser parte de um povo desenvolvido e próspero, e ainda pela esperança cristã de um
bem maior ao meu semelhante, mas principalmente porque percebi que estava ali, à
frente, uma nova oportunidade ao nosso país.
Mas testemunhei, entristecido, a perda dessa nova oportunidade. Outro cavalo
encilhado se foi, e o perdemos. O resultado da eleição presidencial de 2010 ficará
para sempre marcado como testemunho do louco desperdício do recurso humano,
muito maior que todos os desperdícios materiais que esse país pratica diariamente.
Lamentei o resultado profunda e longamente senhora Marina. Profunda e longamente.
Não porque a minha candidata não se elegeu. Não torci por sua eleição como quem
torce por seu time. Eu desejei a sua eleição pelo bem do meu país. Pode parecer estar
em desuso ou mesmo nunca ter existido, quem coloque a pátria acima de expectativas
pessoais. Mas acredito que eu não seja o único que anseia por um país justo, não
aquele que este povo merece e de fato já tem, mas um que faça este povo querer
merecê-lo. Não uma pátria só reverenciada de quatro em quatro anos, durante a Copa
do Mundo de futebol. Mas uma que nos motive, assim como aos americanos, a
colocar a bandeira do país todos os dias à frente da casa, no carro, na roupa, na
cabeça, no coração.
Mas não vim aqui para lhe dizer todas essas coisas sem um propósito. Em
verdade não o sei bem, mas creio ter sido eu movido ainda pela mesma esperança
cristã que citei acima. Vim aqui à sua presença senhora Marina, através desse e-mail,
pedir-lhe que considere a seguinte situação: havendo um segundo turno na eleição
presidencial há ainda, creio, a possibilidade de uma mudança benéfica a este país.
Não a necessária, não a definitiva, não a desejada, não a indispensável. Mas a
possível. A disponível. A que seja melhor, dadas as circunstâncias e, de algum modo,
a que permita, nesse momento, que haja enfim um caminho aberto para a verdadeira
e desejada mudança.
Peço-lhe que olhe detidamente para esse país senhora Marina, sob uma ótica
diferente. Não o olhe agora como um projeto político nem como a matéria prima a ser
transformada. Não o veja agora como o joalheiro olha a pedra bruta que transformará
em uma jóia de rara beleza. Todos os que vieram antes da senhora falam desse país
assim, nesse tom, dessa maneira.
Peço-lhe que o olhe como o animal ferido, sangrando, e de tez abatida que é
agora. Peço-lhe que o olhe com os olhos da realidade, que permite a quem anda pelas
ruas de qualquer de suas cidades enxergar o que existe, de fato. Que veja embaixo
dos viadutos e pontes, que ande por suas favelas ao fim do dia, que se assente nos
bancos das escolas das cidades do interior, que fique por algum tempo nos postos de
gasolina das estradas de Minas Gerais e veja pais e mães entregarem sorrateiramente
os próprios filhos e filhas de tenra idade à prostituição, a fim de conseguirem alimento.
Olhe-o com o fio da honra a que me referi acima e veja senhora Marina, o que
foi feito desse povo e dessa nação nos últimos oito anos. Toda a mentira, todo o
descalabro, todo o roubo da esperança, todo o estupro moral perpetrado contra nossa
consciência, pelo mesmo partido que lhe demonstrou desprezo e descaso por sua
militância e história partidária. Repasse em seu coração e alma, de onde creio ter
vindo as palavras que disse nos últimos dois ou três anos, todos os fatos vergonhosos
que, pela repetição, produziram toda essa apatia e desesperança no povo desse país.
Se conseguir olhar assim o meu país, o seu país, senhora Marina, e assim
como eu, sentir na boca o gosto amargo do fel da indignação, não apóie o PT e sua
inominável candidata. Não deixe que interesses de coligação ou convenção partidária
a leve, por seu apoio, à perpetuação desse mal e dessa desgraça.
Repito, a via alternativa não é, nem de longe, o que verdadeiramente precisa
esse país. Mas é possível que seja sim, como também disse, a cabeça de ponte, o
início de uma mudança, que só será possível pela extirpação do cancro social
chamado PT que, à semelhança de um câncer ou leucemia pelas veias de uma
pessoa doente, se instalou nos corredores do poder nesse país. Apóie José Serra. Ele
se justifica neste momento não pelo que possa fazer, menos ainda por seus
desempenhos recentes, mas pelo que possa começar a mudar. Só por isso. E já será
muito.
E, ao fim, e por favor, não jogue sua história no lixo. Lula o fez repetidas vezes,
de diferentes maneiras. Entre elas, ao abraçar Antônio Carlos Magalhães, José
Sarney, e outros antigos desafetos aos quais chamou outrora, raivosamente, de
canalhas e ladrões, tornando-se depois exatamente como eles. Mostrou o quanto se
fez como eles ao abraçar Fernando Collor recentemente. Mesmo Leonel Brizola fez
também isso. São todos iguais, amam o poder acima de tudo e por ele tudo e qualquer
coisa estão dispostos a fazer, porque a honra, a palavra dita, a posição assumida, o
testemunho dado não tem qualquer valor e a história de suas vidas não é sequer
considerada para a obtenção de seus objetivos, até porque sempre podem desmentir
ou dizer que foram mal interpretados.
Seja diferente. Seja como a senhora demonstra ser e por favor, não nos tire a
esperança. Mesmo pouca, é tudo o que temos.
Atenciosa e respeitosamente,

José Augusto Figueiredo


(31)3222-4894 – (31)8508-8131
Pça. José de Magalhães, 41 – Boa Vista
31060-360 Belo Horizonte-MG

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