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A Escolástica

A escolástica é a filosofia cristã que se desenvolve desde o século IX, tem seu apogeu no
século XIII e começo do século XIV.

A Questão dos Universais: O que há entre as palavras e as coisas?

O método escolástico de investigação, segundo o historiador francês Jacques Le Goff,


privilegiava o estudo da linguagem (o trivium) para depois passar para o exame das coisas (o
quadrivium). Desse método surgiu a seguinte pergunta: qual a relação entre as palavras e as
coisas?
Rosa, por exemplo, é o nome de uma flor. Quando a flor morre, a palavra rosa continua
existindo. Nesse caso, a palavra fala de uma ideia geral. Mas como isso acontece? O grande
inspirador da questão foi o neoplatônico Porfírio, em sua obra Isagoge: Não tentarei enunciar
se os gêneros e as espécies existem por si mesmos ou na pura inteligência, nem, no caso de
subsistirem, se são corpóreos ou incorpóreos, nem se existem separados dos objetos sensíveis
ou nestes objetos, formando parte dos mesmos.
Esses problemas filosóficos geraram muitas disputas. Era a grande discussão sobre a
existência ou não das ideias gerais. Isto é, os chamados universais de Aristóteles. Tal
discussão ficou conhecida como a querela ou questão dos universais.
Basicamente a questão da existência dos universais consiste em saber se eles:
a) constituem a essência material das coisas sensíveis ou se constituem a essência espiritual de
casa alma humana;
b) estão separadas das coisas sensíveis ou estão no interior delas.
Deste Platão os pensadores tentavam responder as questões: Existe ou não ideias universais
em si mesmas? Que relações existe entre as palavras e as coisas?
Quando se analisa a natureza de um determinado conceito, verifica-se que ele traz consigo a
característica (atributo, predicado) de todos os membros da mesma classe. Ou seja, ele é
universal, pois é atribuído o mesmo significado a cada membro de um mesmo universo.

A posição realista

A posição realista defendia que o real era o gênero e a espécie. Assim, cada indivíduo é
apenas uma modificação da espécie humana. A espécie humana é universal. Os realistas
consideravam que o universal tinha realidade objetiva. Entendiam o universal como “res”,
como coisa comum a outras coisas. A coisa universal existe por si mesma e constitui a
essência material das coisas singulares.
Segundo esta posição, há conceitos universais que correspondem a seres universais. Existem
coisas universais da mesma natureza dos conceitos universais. O ser universal só existe nos
indivíduos de uma determinada espécie. Os indivíduos se diferenciam apenas por notas
acidentais.

A posição nominalista.

O nominalista é a contestação ao mesmo tempo do realismo dos universais reais dos


platônicos e dos universais como ideias abstratas fundadas nas coisas concretas individuais,
nos termos aristotélicos. As ideias são nada mais que nomes mentais para as coisas. Ou seja,
sustentavam que os universais são palavras sem existência real.

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Pedro Abelardo celebre por seu amor por Heloisa, adotou uma posição intermediária,
fornecendo um modelo de argumentação que seria bastante utilizado pela escolástica: o
confronto de duas posições contraditórias para daí extrair uma conclusão satisfatória.
Abelardo propõe uma nova solução para o problema dos universais. Sua posição se contrapõe
às posições realistas e nominalistas. Para ele, a posição realista de Guilherme de Champeaux
leva ao panteísmo; a posição nominalista de Roscelino leva ao ceticismo.
Segundo Abelardo, o universal não é uma coisa, mas um conceito tirado das coisas por
abstração. O universal tem uma correspondência parcial com as coisas. O universal
corresponde quanto ao conteúdo, não quanto ao modo. O universal apresenta o que está na
coisa, mas não como está na coisa. Os universais são nomes significativos, pois são relativos
às coisas.
Pedro Abelardo é o criador do conceitualismo. Ele defende os universais como conceitos,
realidades mentais que dão significados aos termos gerais que designam propriedades de
classes de objetos.
Para Abelardo os universais, por si mesmos, não existem senão no intelecto, entretanto eles se
referem a seres reais; os universais são corpóreos enquanto palavras e incorpóreos pela sua
função significativa, pois significam algo comum para a multiplicidade dos indivíduos.
A solução de Pedro Abelardo será retomada e aperfeiçoada, mais tarde, por dois grandes
expoentes da Escolástica: os filósofos e teólogos Alberto Magno e Tomás de Aquino.

Tomás de Aquino (1225 – 1275)

Cristianização de Aristóteles

Santo Tomás de Aquino é responsável por uma extensa obra fundamentada em Aristóteles. O
tomismo representou uma tentativa de harmonizar as posições básicas do cristianismo com os
pressupostos ontológicos do aristotelismo, foi considerada a base filosófica da teologia da
Igreja Católica. Foi responsável pela síntese entre a razão e fé.
Tomás de Aquino nasceu em Nápoles, sul da Itália, e faleceu no convento próximo de sua
cidade natal, aos 49 anos de idade. É considerado o maior filósofo da escolástica medieval.
Inserida no movimento escolástico, a filosofia de Tomás de Aquino já nasceu com objetivos
claros: não contrariar a fé. De fato, a finalidade de sua filosofia era organizar um conjunto de
argumentos para demonstrar e defender as revelações do cristianismo.
Assim, Tomás de Aquino reviveu em grande parte o pensamento aristotélico com a finalidade
de nele buscar os elementos racionais que explicassem os principais aspectos da fé cristã.
Enfim, fez da filosofia de Aristóteles um instrumento a serviço da religião católica, ao mesmo
tempo em que transformou essa filosofia numa síntese original.

Os princípios do conhecimento

Retomando as ideias de Aristóteles sobre o ser e o saber, Tomás de Aquino enfatizou a


importância da realidade sensorial. No processo de conhecimento dessa realidade, ressaltou
uma série de princípios considerados básicos, dentre os quais se destacam:

. Principio de contradição: o ser é ou não é. Não existe nada que possa ser e não ser ao mesmo
tempo e sob o mesmo ponto de vista.
. Princípio da substância: na existência dos seres podemos distinguir a substância (a essência,
propriamente dita, de uma coisa, sem a qual ela não seria aquilo que é) e o acidente (a
qualidade não essencial, acessório do ser).

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. Princípio da causa eficiente: todos os seres que captamos pelos sentidos são seres
contingentes, isto é, não possuem em si próprios, a causa eficiente de suas existências.
Portanto, para existir, o ser contingente depende de outro ser que representa a sua causa
eficiente: este outro ser é chamado de ser necessário.
. Princípio da finalidade: todo ser contingente existe em função de uma finalidade, de um
objetivo de uma “razão de ser”. Enfim, todo ser contingente possui uma causa final.
. Princípio do ato e da potência: todo ser contingente possui duas dimensões: ato e a potência.
O ATO representa a existência atual do ser, aquilo que está realizado e determinado. A
POTÊNCIA representa a capacidade real do ser, aquilo que não se realizou, mas pode realiza-
se.
É a passagem da potência para o ato que explica toda e qualquer mudança.

As provas da existência de deus:

Em um de seus mais famosos livros, a Suma Teológica, santo Tomás de Aquino propõe
cincos provas (5 vias) de existência de Deus:

1. O primeiro motor
. Tudo está em movimento. Porém, nada se move sozinho. É preciso que uma força externa
coloque outra em movimento, que por sua vez é movida por outra ainda. Na origem de tudo
está Deus, que o motor inicial, imutável e eterno.

2. A causa eficiente
. Tudo que é, é causa ou efeito. Deus é a causa 1ª.

3. Ser necessário e ser contigente.


. Tudo que existe no mundo sensível está em movimento. A sua existência, porém, não é
necessária, mas necessita de outra para existir: Deus.

4. Os graus da perfeição
. Tudo que existe é semelhante a Deus, mas somente Ele é perfeito.

5. A finalidade do ser
. Tudo tem uma finalidade, um propósito. No mundo sensível há instancias que faz com que
as coisas alcancem seu fim.

No contexto da Baixa Idade Média, Tomas de Aquino tem uma filosofia mais ligada ao
cotidiano das pessoas, pois diferente de Agostinho, não prega a predestinação. Ao contrário:
prega que o destino de cada um é construído por suas ações.

FILOSOFIA MODERNA

Idade Moderna

Século XVII e XVIII

. Quebra da ordem cósmica


. Modo de produção – capitalismo
. Valorização do trabalho
. Ciência – técnica/dominação da natureza

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A questão do conhecimento

Como se dá o conhecimento?

A revolução cientifica determinou a quebra do modelo de inteligência apresentada pelo


aristotelismo, o que provocou nos novos pensadores, o receio de enganar-se novamente. À
procura da maneira de evitar o erro faz surgir a principal característica do pensamento
moderno: a questão do método.

A relação sujeito e objeto

Há dois polos no processo do conhecimento: o sujeito cognoscente (que é o sujeito que


conhece) e o objeto conhecido. Quanto o pensamento que o sujeito tem do objeto concorda
com o objeto, dá-se o conhecimento. Mas qual é o critério para se ter certeza de que o
pensamento concorda com o objeto? As teorias do conhecimento vão tentar estabelecer os
critérios de que se pode valer o homem para ver se um conhecimento é ou não verdadeiro.

Racionalismo e empirismo

A s soluções apresentadas a essas questões levantadas acima vão originar duas corretes, o
racionalismo e o empirismo.

Descartes

René Descartes (1596 – 1650)

Descartes foi um importante filósofo, matemático e físico francês do século XVII. Também
fez estudos nas áreas da Epistemologia e Metafísica. René Descartes representa o expoente
máximo da tendência racionalista. É considerado o “pai da filosofia moderna”. Ao se
preocupar com o problema do conhecimento, busca uma verdade primeira que não possa ser
colocada em dúvida.

Método da dúvida

Descartes não se conformava com a opinião dos céticos; e então preocupa-se com um método
exato e seguro para a reflexão filosófica. Assim, estabelece um sistema filosófico ao converter
a dúvida em método. Duvida de tudo: das afirmações do senso comum, dos argumentos da
autoridade, do testemunho dos sentidos, das informações da consciência, das verdades
deduzidas pelo raciocínio, da realidade do mundo exterior e da realidade do próprio corpo.

Racionalismo

Costuma chamar-se racionalismo à corrente filosófica que atribui um valor superior à razão,
defendendo que os nossos conhecimentos verdadeiros procedem dela e não da experiência ou
dos sentidos. Descartes é considerado o expoente máximo do racionalismo da época moderna.
Racionalismo cartesiano é uma doutrina que atribui à Razão humana a capacidade exclusiva
de conhecer e de estabelecer a Verdade. Opõe-se ao empirismo, colocando a Razão
independente da experiência sensível, ou seja, rejeita toda intervenção de sentimentos, aceita

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somente a Razão. O Racionalismo cartesiano afirmava que o conhecimento é inteiramente
dominado pela inteligência (razão), e não pelos sentidos, assim sendo é baseado na ordem e
na medida, o que permite estabelecer cadeias de razões, para deduzir uma coisa de outra.
Primeira verdade racional – Cogito, ergo sum” – “Penso, logo existo”.

. Duvido do todo que existe. Porém, se duvido, é porque penso; se penso, logo existo. (Cogito,
ergo sum)
. A conclusão se dá pela evidência lógica, racional, de que é preciso existir para pensar; e não
pela percepção do mundo exterior – até mesmo de seu corpo.
. Descartes constrói o racionalismo priorizando o sujeito, não o objeto.

. A evidência do ser pensante é uma verdade muito clara e distinta à razão. Por isso, deve ser
uma verdade universal, base para se construir todo conhecimento. É a verdade primeira,
indubitável.
. Descartes admite assim, existir ideias inatas ao homem, próprias da capacidade de pensar.
. O conhecimento se constrói a partir do uso de minha razão. Mas como posso saber que o que
eu penso é equivalente ao que existe?

Deus

. Ideia inata de Deus: ser perfeito; deve ter perfeição de existência; senão lhe faltaria algo para
que fosse perfeito; portanto existe.

O mundo

. Posso saber que o que penso é o que realmente existe posto que a ideia de perfeição remete-
me a Deus, e ele, por ser perfeito, não me enganaria. Assim, tudo que for tão claro e distinto à
razão quanto “penso, logo existo” será também verdadeiro.

Consequências do cogito

. Caráter originário do cogito: o sujeito pensante é o princípio de todas as evidências.


. Caráter absoluto e universal da razão: a verdade só se alcança pelo uso da razão.
. Dualismo psicofísico: o homem, ao contrário de Deus, é substância finita, tem corpo físico
(res extensa), mas é também um ser pensante (res cogitam)

As ideias inatas

Descartes procura distinguir as ideias claras e distintas das ideias duvidosas e confusas, e
estabelece a distinção entre ideias inatas, adventícias e fictícias. As ideias inatas seriam as
mais simples e alcançadas pelo pensamento puro, sendo sempre verdadeiras. As ideias
adventícias seriam aquelas adquiridas pelos sentidos e poderiam ser verdadeiras ou falsas. E
as ideias fictícias seriam aquelas criadas pela imaginação, sendo sempre falsas.

O método cartesiano (matematização do conhecimento)

A partir do século XVII, passa-se a buscar o ideal matemático. Isso não significa aplicar a
matemática no conhecimento do mundo, mas usar o seu tipo de conhecimento, que é
completo. Inteiramente dominado pela inteligência e baseado na ordem e na medida,
permitindo estabelecer cadeias de razões.

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O Método refere-se a um conjunto de regras capazes de evitar erros e garantir a validade dos
resultados.
Da sua obra discurso do método, podemos extrair quatro regras básicas, consideradas por
Descartes capazes de conduzir o espírito na busca da verdade.

. Regra da evidência: só aceitar algo como verdadeiro, desde que seja absolutamente
evidente por sua clareza e distinção.
. Regra da análise: dividir cada uma das dificuldades surgidas em tantas partes quantas
forem necessárias para resolvê-las melhor.
. Regra da síntese: ordenar o raciocínio dos problemas mais simples para os mais complexos.
. Regra da enumeração: realizar verificações completas e gerais para se ter absoluta
segurança de que nenhum aspecto do problema foi omitido.

Obras
Regras para a direção do espírito (1628);
Discurso sobre o método (1637);
Geometria (1637) e Meditações Metafísicas (1641)