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ASCENSÕES HUMANAS

I. O PRINCÍPIO DE UNIDADE ................................................................................................................................ 1

II. A ERA DA UNIDADE ........................................................................................................................................... 5

III. CAPITALISMO E COMUNISMO ..................................................................................................................... 8

IV. A UNIDADE POLÍTICA ................................................................................................................................... 12

V. A UNIDADE RELIGIOSA .................................................................................................................................. 14

VI. OS CAMINHOS DA SALVAÇÃO ................................................................................................................... 16

VII. FAZER A VONTADE DEUS ........................................................................................................................... 18

VIII. COMO ORAR ................................................................................................................................................. 20

IX. A COMUNHÃO ESPIRITUAL ........................................................................................................................ 22

X. PAIXÃO ................................................................................................................................................................ 24

XI. RESSURREIÇÃO .............................................................................................................................................. 27

XII. CRISTO AVANÇA ........................................................................................................................................... 29

XIII. UMA ESTÁTUA SE MOVE........................................................................................................................... 30

XIV. SINAIS DOS TEMPOS ................................................................................................................................... 32

XV. O ATUAL MOMENTO HISTÓRICO ............................................................................................................ 34

XVI. UMA PARÁBOLA .......................................................................................................................................... 36

XVII. A DESORIENTAÇÃO DE HOJE ................................................................................................................ 38

XVIII. O ERRO DE SATANÁS E AS CAUSAS DA DOR ................................................................................... 39

XIX. O ERRO MORAL ........................................................................................................................................... 41

XX. MEDICINA E FILOSOFIA ............................................................................................................................. 43

XXI. A CIÊNCIA DA ORIENTAÇÃO ................................................................................................................... 45

XXII. O CONCEITO DE PODER EM BIOLOGIA SOCIAL ............................................................................ 47

XXIII. CRISE DE CIVILIZAÇÃO ......................................................................................................................... 49

XXIV. COMO FUNCIONA O IMPONDERÁVEL ............................................................................................... 52

XXV. AMOR E PROCRIAÇÃO ............................................................................................................................. 54

XXVI. SEXUALIDADE E MISTICISMO.............................................................................................................. 57

XXVII. POR QUE AMOR É ALEGRIA ................................................................................................................ 59

XXVIII. O PROBLEMA DA CASTIDADE ........................................................................................................... 61

CONCLUSÃO ........................................................................................................................................................... 63

Vida e Obra de Pietro Ubaldi (Sinopse)....................................................................................página de fundo


Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 1
é o universo. Segue-se daí que não é possível tratar nenhum ar-
ASCENSÕES HUMANAS gumento isoladamente, porque cada um reclama a consideração
de todos os outros, com os quais tem pontos de contato, impon-
do-se assim a necessidade de localizá-lo com relação a todos os
I. O PRINCÍPIO DE UNIDADE problemas do universo. Quando se passa para um novo proble-
ma, torna-se indispensável relacioná-lo a todos os precedente-
Depois de haver, no volume anterior, examinado os proble- mente desenvolvidos, porque se sente a cada passo uma rede de
mas psicológico, filosófico e científico, encaminhamo-nos ago- contatos recíprocos que, em um universo uno, faz com que, de
ra para novas regiões do pensamento. qualquer ponto deste, todos os demais pontos sejam notados. É
Nos capítulos do volume precedente1, desenvolvemos vários esta impossibilidade de isolar qualquer caso que o faz apresen-
conceitos contidos em A Grande Síntese. Foram assim confir- tar-se a nós sempre circundado por um cinturão de outros casos,
madas varias afirmativas científicas, que se podem encontrar que necessitam ser tomados em consideração. Este é o motivo
especialmente nos capítulos XII, XIII e XLVI, bem como no pelo qual, nesta nossa exposição, veremos reaparecer com fre-
Cap. XCVI da obra citada. Vimos, desta forma, os últimos re- quência os mesmos conceitos, o que poderá induzir o leitor de-
sultados da ciência objetiva confirmarem os conceitos aponta- savisado a concluir que houve repetições desnecessárias. Trata-
dos pela intuição. Ali, procuramos fortalecer a previsão intuiti- se, ao invés disto, do retorno ao mesmo caso para observá-lo di-
va com especulações em todos os campos, ainda os mais diver- ferentemente, ora de frente, ora de lado, ora de cima, ora de
sos. E, de cada um destes, obtivemos a confirmação desejada, baixo, ora em função desse ou daquele fenômeno, ora em um
para tornar válida a visão sintética fundamental. Dado que ponto ou posição do organismo universal, ora em uma outra,
qualquer ramo do conhecimento humano não é senão uma visão pois é muito importante estabelecer as conexões e realçar as re-
parcial do universo, dado que o objeto observado, ainda que lações com os outros casos e com o todo.
muitos sejam os pontos de vista diversos, é único, torna-se ine- As maiores descobertas podem nascer apenas por se terem
vitável que estas visões parciais e particulares, se não forem encontrado relações novas entre fatos velhos. O universo é uno,
torcidas por preconceitos e absolutismos, devam finalmente e não é possível, em nenhum instante, deixar de encará-lo como
convergir e fundir-se numa única visão harmônica. É certo que um todo. É difícil, pois, concatenar numa elaboração lógica e
o pensamento sintético de hoje deve possuir, senão nos deta- sistemática aquilo que, apresentando-se como um bloco único e
lhes, pelo menos em seus últimos resultados, todo o conheci- compacto de coexistência de todos os fenômenos, rebela-se con-
mento moderno. Se, antigamente, o filósofo, desdenhando o tra a exemplificação parcial e sucessiva. Esta volta frequente aos
contato com os fenômenos, reputados coisa impura, podia es- conceitos básicos, que, como dissemos, pode parecer repetição,
pecular apenas no campo das puras abstrações da lógica, hoje é devida à nossa orientação convergente e centrípeta, e não di-
ele deve levar em consideração toda a riquíssima contribuição vergente e centrífuga; resulta da nossa contínua preocupação de
oferecida pelos inúmeros ramos particulares em que se divide a unidade, a fim de permanecermos coligados ao único centro de
ciência, cada qual no seu campo de pesquisa, como resultado da todas as coisas, encarando estas apenas em função deste, do qual
indagação objetiva. Estes ramos do saber humano nos apare- dependem. Em vez da concatenação lógica, o pensamento de
cem, de fato, como disciplinas circunscritas no âmbito restrito quem observa o universo procede, em nosso caso, segundo a tra-
do particular e, por conseguinte, fragmentárias e até divergen- jetória típica dos movimentos fenomênicos (cfr. A Grande Sínte-
tes, mas o objeto é único: trata-se do mesmo universo unitário, se, Cap. XXIV, fig. 4), isto é, por retornos cíclicos que, progres-
em que todos os caminhos conduzem ao mesmo centro. Por es- sivamente, elevam a posições sempre mais altas o ponto de par-
ta razão, pode haver discrepância, por exemplo, entre revelação, tida, seguindo as oscilações de uma onda. O pensamento tam-
religião, filosofia, ciência etc., mas isto apenas enquanto estes bém obedece a esta lei universal dos fenômenos. Todo conceito,
ramos do conhecimento forem ainda involuídos e se apresenta- realmente, é atravessado muitas vezes e, cada vez, se aprofunda
rem no atual estado elementar, pois é evidente que, sendo idên- mais, de modo a surgir ampliado e coligado a outros conceitos
tico para todos o livro em que se abeberam, eles, ao progredi- novos e mais afastados. Da primeira vez, ele surge genérico,
rem, não poderão acabar dizendo senão a mesma coisa. Efeti- como vista panorâmica de conjunto; depois aparece diferencia-
vamente estamos vendo, na presente quadra, a ciência evolver do, com particulares que emergem e se distinguem com indivi-
além do materialismo, abrindo caminho para a verdade do espí- dualidade autônoma. O seu desenvolvimento detalhado não se
rito, já proclamada pelas religiões e filosofias. pode verificar senão a seguir, pois que, de outra forma, prejudi-
É justamente este sentido de unidade que domina a presente caria o aspecto conjunto da primeira visão. Por este mesmo mo-
obra. Daqui resulta a grande dificuldade de isolar qualquer fe- tivo, o desenvolvimento de tantos temas, apenas acenados em A
nômeno, seja qual for a sua natureza, do restante do todo, mes- Grande Síntese, não era possível naquela ocasião, pois divagarí-
mo com relação a aspectos que pareçam de uma ordem muito amos em digressões que teriam fragmentado a unidade da expo-
afastada. Quem concebe o universo com mentalidade sintética, sição, além do mais a visão não havia adquirido os detalhes que
e não analítica, encarando-o como um todo orgânico, e não co- só subsequentemente poderiam vir a lume. Assim compreende-
mo um oceano de fenômenos isolados, não pode deixar de per- se a necessidade de retomar cada tema em lances sucessivos, pa-
ceber, qualquer que seja o ponto do mundo fenomênico que ele ra fazê-lo progredir. Desta maneira, progressivamente, dilata-se
observe, que a multidão dos casos afins ao caso tomado por ob- o nosso conhecimento, tanto em amplitude como em penetração,
jeto de estudo acumula-se em derredor, para se fazer ouvir tam- e, assim, partindo dos princípios gerais, cada vez mais nos apro-
bém a sua voz. Um fenômeno isolado é uma abstração nossa, ximamos da atuação prática da nossa vida.
por necessidade de estudo, que não corresponde à realidade. Finalmente, também é levado a encontrar repetições nesta
Assim como não é possível observar nenhum fenômeno com- exposição quem, em sua leitura, procura apenas o conceito,
pletamente isolado, sem que nele repercutam e influam tantos pouco se importando em transformá-lo em ação na própria vi-
outros fenômenos, inclusive o próprio fenômeno que o obser- da. Ora, estes escritos não foram feitos para serem somente li-
vador representa, também não é possível enfrentar e solucionar dos, mas sobretudo para serem aplicados, pois que não consti-
um problema particular sem conhecer a sua conexão com mui- tuem uma ginástica intelectual, um treinamento literário, e só
tos outros problemas e resolver todos eles, até ao máximo, que começam a revelar sentido quando forem vividos, porque en-
tão, e só então, poderão ser compreendidos. Quem simplesmen-
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Problemas do Futuro. (N. do T.) te os ler, sem aplicá-los em si, não poderá dizer que os compre-
2 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
endeu. Sim, trata-se de vida, de conceitos-ação, de pensamento- ponentes, mas é a resultante da sua organização, isto é, alguma
força, trata-se de um verdadeiro dinamismo concentrado na pa- coisa qualitativamente em tudo diferente. E assim se prossegue
lavra, à guisa de um explosivo capaz de imensa expansão em até à unidade máxima, Deus, que certamente não é a soma de
ambiente apropriado; trata-se de conceitos-germe, capazes de todos os elementos do universo, mas algo completamente dife-
enorme desenvolvimento se caírem em solo fecundo. Quando, rente e muito mais, não só por ser unidade-síntese, mas também
pois, o leitor achar que se encontra diante de uma repetição, em porque, neste ponto, o ciclo dos efeitos se esgota, confundindo-
vez de exclamar: “mas isto já foi dito e eu já o li”, diga: “mas se com a causa, que assim permanece eterna e absoluta, trans-
ainda não fiz isto, e esta repetição deve me induzir a pô-lo em cendendo além de todas as suas manifestações imanentes, além
prática”. Quem ler este livro como o fez com todos os outros, de sua natureza exaurível, que opera no limitado.
por curiosidade ou por cultura, sem realmente pensar em vivê- A ciência e a lógica, que nos permitiram chegar a estes
lo, perde o tempo. A leitura aqui consiste em assimilar e apli- princípios, nos guiarão em suas importantes aplicações. O pro-
car. Ela se completa na maceração, aperfeiçoa-se na maturação gresso é, pois, sinônimo de unificação, ou seja, a evolução não
e conclui-se na catarse e na sublimação. se cumpre apenas individualmente, porque, tão logo se tenha
Justamente pelo principio de unidade que domina em todo o revelado neste sentido, manifesta-se reorganizando rapidamente
universo – aquele monismo em que nos aprofundamos nos ca- os elementos em unidades coletivas. Hoje, a identidade de inte-
pítulos precedentes2 e que encontra confirmação na ciência – resses começa a irmanar em grupos variados os homens de todo
constatamos que os princípios universais e as grandes coisas es- o mundo, num sentido coletivo antes ignorado, pelo menos nas
tão coligadas com as pequenas do nosso mundo, de modo que a proporções e na extensão que se verificam agora. E o indivíduo
nossa limitada e efêmera vida do relativo adquire significados pode encontrar no respectivo grupo, qualquer que seja este, pro-
imensos e eternos. Assim é que a vida mais simples pode dila- teção e valorização. A unificação, sem dúvida, corresponde
tar-se, agigantando-se no infinito. Se esta descoberta de novas sempre a um interesse mais alto no momento, e a evolução con-
relações entre as coisas velhas pode parecer uma repetição de- siste em chegar a compreendê-lo. Assim, mal uma série de in-
las, pois não se consegue com isso nenhuma descoberta nova divíduos progride, descobre a maior vantagem de viver organi-
particular, no entanto empresta-se a cada uma delas um sentido camente que em luta recíproca.
e sabor novo. Assim, quanto melhor não se poderá compreen- Atualmente compreende-se isto para vastas classes sociais;
der cada uma delas, como por exemplo o fenômeno social, ontem se compreendia apenas para grupos menores; amanhã
quando visto do mesmo ponto de vista biológico que repete no compreender-se-á para toda a humanidade. A organização será
nível vida o que sucede nos agregados celulares, moleculares e tão ampla quanto a compreensão. Quanto mais se caminha para
atômicos da matéria! Este método universal dos agregados, ou o separatismo, tanto mais se desce. A unificação é o caminho
unidades-sínteses, que observamos por toda a parte, em todos da ascensão. A nossa vida social é uma aplicação destes princí-
os campos e em todos os níveis evolutivos, este procedimento pios. Quando um organismo qualquer, físico, biológico ou soci-
em direção a unidades cada vez mais vastas bem como a estru- al, se desfaz, é uma unidade-síntese que se fragmenta, verifi-
tura coletiva de toda unidade nos mostram a verdade dos prin- cando-se um retrocesso involutivo, e ao contrário. No primeiro
cípios acima afirmados, ou seja, de um lado uma pulverização caso, não permanecem senão as menores unidades ou elemen-
do todo em elementos cada vez menores indefinidamente e, do tos componentes, que, isoladamente, retomam a vida num plano
outro, a reconstituição da unidade no reagrupamento destes inferior, sem mais conhecer-se um ao outro, frequentemente
elementos em conglomerados continuamente maiores. Esta inimigos. A rede das relações que formam o organismo superi-
constatação da estrutura coletiva de toda a individualização, or se despedaça. Assim se dá na morte de um homem, como na
que é sempre uma síntese, é justamente uma demonstração ati- de uma nação. A própria cisão do tipo humano em dois sexos é
va do processo supracitado da reunificação universal. uma forma involuída, em que cada unidade procura completar-
Calcula-se, afirma Lieck, que um homem adulto seja se na outra metade, sem a qual permanece incompleta. Um dia
constituído, em cifras redondas, por 3 bilhões de células e que o macho atual, que compreende apenas a força, o trabalho, o
possua mais ou menos 22 bilhões de glóbulos vermelhos. Pen- dinheiro, a organização e a inteligência, deverá completar este
se-se agora, de quantas moléculas será constituída uma célula, seu conhecimento com a bondade, o sacrifício, a beleza e o sen-
de quantos átomos cada molécula, de quantos elétrons cada timento, qualidades estas sobretudo da mulher atualmente, que
átomo e de quais e quantas ondas interferentes será constituído também deverá completar-se no outro sentido. E quando o tipo
um elétron, para então avaliar-se a complexidade da estrutura biológico houver reunido em si todas estas qualidades, então te-
coletiva e progressiva sobre a qual se eleva o edifício do ser rá avançado. Entretanto, quando o homem e a mulher conse-
humano. No entanto, mesmo existindo nele uma série de mun- guem coordenar as suas qualidades em colaboração, na família,
dos, a multidão de elementos que o compõem coordena-se tão já constituem um organismo mais evoluído, uma primeira nova
harmonicamente, que esta unidade-síntese, que é o homem, célula ou uma unidade-síntese coletiva. Mas, quando uma des-
sente-se perfeitamente uno no seu eu. Mas o homem, por sua tas unidades se desfaz, ao mais evoluído estado orgânico segue-
vez, não é senão um elemento da sociedade humana, que tam- se um involuído estado caótico. Quando uma sociedade se de-
bém o é de uma humanidade mais vasta, e assim ao infinito. sagrega, são em verdade os atritos que triunfam em vez da co-
Atendo-nos a esta observação dos fatos, de um ponto de vista laboração, e, na queda involutiva, são os mais primitivos que
científico, poderemos imaginar Deus como a máxima unidade- ganham projeção, valorizam-se e emergem, porque o funcio-
síntese, em que se reunificam estes agregados que, gradativa- namento da vida coletiva desceu ao seu plano. No grau superi-
mente, progredindo de unidade-síntese em unidade-síntese, or, eles não têm oportunidades de ação. Estas desagregações se
chegam até Ele. Se este é o esquema do universo, que da maté- verificam assim que a classe dirigente se esgota e entra em cri-
ria ascende até ao homem, o mesmo deve suceder também do se, como sucede depois das guerras e nas revoluções. Então, à
homem para cima, pois que já vimos que o sistema é único em ordem de um funcionamento orgânico sucede a desordem e a
todos os níveis. Ele exprime exatamente o princípio da cisão e revolta, que se justificarão chamando-se liberdade, até que se
reunificação da cisão, confirmando com isto o outro princípio reconstitua uma nova ordem, com uma nova disciplina, que se
do equilíbrio universal. Deve-se compreender, ademais, que justificará com o nome de dever. A vida social jamais pode pa-
cada unidade-síntese não é apenas a soma dos elementos com- rar. Quando a classe dirigente, detentora da autoridade, se cansa,
perde-a, e uma classe inferior a conquista, a classe mais involuí-
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O autor refere-se ao livro Problemas do Futuro. (N. do T.) da dos primitivos. São as classes inferiores que sempre fazem
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 3
pressão de baixo, intentando subir. São elas que o poder, nos pe- nos opostos imperialismos, representam a corrente involutiva. O
ríodos de calma, mantendo a disciplina, coagem dentro da pró- imenso progresso científico que nos conduz até ao espírito, o
pria ordem; são elas que, aspirando sempre ao domínio, no pri- domínio sobre as forças da natureza, os grandes meios de comu-
meiro sinal de fraqueza saltam à garganta do velho patrão para nicação, a formação de grandes unidades sociais, políticas, eco-
estrangulá-lo e substituir-se a ele no comando. Mas também isto nômicas e religiosas, uma tremenda necessidade de orientação e
redunda em fadiga, e também as classes inferiores se cansam em de fé, nascida da dor, representam a corrente evolutiva.
exercitar o poder. Por isso mesmo a nova ordem por elas cons- As características da nova era serão a unificação e a univer-
truída será subsequentemente agredida por outros estratos soci- salidade. Isto por si só justifica, em face das finalidades da vi-
ais, numa luta em que sairá vencedor o mais idôneo, aquele que da, a necessidade da ação destruidora atual. A nova era não será
melhor representar os interesses da vida. de imposição, mas de compreensão. O sistema da coação e da
Assim, quando a unidade-síntese superior é reconstituída força, no último meio século, destruindo a Europa, isto é, o cen-
em condições melhores que a precedente (assim caminha a his- tro do mundo civil, nos forneceu a mais dolorosa e desastrosa
tória) e firmar-se como poder, então os involuídos, representan- experiência que um homem pode conhecer. Quem ainda acredi-
tes de um nível de vida inferior ao da maioria, devem subordi- tar em tal método e segui-lo, deverá fazer a mesma experiência
nar-se à unidade superior e viver uma vida secundária, apenas e chegar ao mesmo fim, pois que isto está implícito no sistema.
em função dela. Desta forma, eles são enquadrados na ordem Mas existe um outro sistema, incompreendido e negligenciado,
restabelecida e, dado que a vida agora funciona num plano mais que é o único que poderá sobreviver: o da compreensão e o da
elevado que o seu, não aparecem mais como heróis de uma re- convicção. Os absolutismos, as verdades exclusivistas e intran-
volução, e sim como delinquentes comuns, inimigos da ordem. sigentes, tendentes a dominar e coagir o indivíduo e a consciên-
Mesmo o micróbio-patogênico no organismo humano é uma cia, em qualquer campo, são métodos superados.
forma de vida, que é mantida à parte enquanto predomina a do Da concepção matemática da relatividade de Einstein, o que
organismo são. Mas, tão logo esta se desfaz, eis que o micróbio todos compreenderam foi a ideia da relatividade humana. Avi-
invade tudo, encarregado da liquidação da sociedade celular, zinhando-nos hoje, por evolução, mais um passo do absoluto,
que é o corpo humano. Eis o significado biológico e cósmico sentimos em compensação a nossa relatividade, a princípio
das lutas políticas e classistas hodiernas, vistas em relação aos pouco notada, e percebemos melhor, em contraste, a natureza
dois princípios de cisão e reagrupamento dos elementos do uni- transitória e envolvente do nosso contingente. Sentimo-nos na
verso. Em tudo isto há equilíbrio. As classes inferiores, como pura função de ponto de referência. Desta forma, os absolutis-
os micróbios patogênicos, são solicitados pela vida à ação so- mos exclusivistas que antes possuíam o sabor de absoluto, ago-
mente enquanto for necessária e útil a sua presença, e não mais. ra não passam de obstáculos. A divulgação moderna do concei-
Trata-se de intervenções patológicas, de crises de transição (re- to de relatividade desferiu-lhes um golpe mortal. Por isso os
voluções), de execução de uma tarefa de destruição necessária à nacionalismos estão em via de extinção e sobrevivem apenas
reconstrução, da qual eles são condição. Mas a obra dos demo- como imperialismos. E estes reduziram-se a dois apenas, numa
lidores se extingue com eles logo que os interesses da vida re- luta para decidir a supremacia final de um mundo só. Trans-
clamam a obra dos reconstrutores. É assim que as revoluções, forma-se o conceito de pátria. O que antes se apresentava como
cumprida a sua função, se exaurem, e os seus autores são traga- santo patriotismo, hoje só parece belo para efeito interno e,
dos pela sua própria revolta, na qual está toda a sua missão. As- além fronteiras, desperta nos outros povos suspeitas contra a
sim se formam sempre equilíbrios novos. Mas, nestes equilí- nação que o professa, porque uma tal forma de amor tende a re-
brios, impera sempre a lei biológica, segundo a qual o ser bio- solver-se em ódio e em guerra contra outros países.
logicamente involuído deve permanecer automaticamente, pela Ao lado deste amor surge concomitantemente a ideia do es-
própria qualidade, submetido ao evoluído. trangeiro, inimigo que deve ser combatido. Modernamente,
Como nunca, hoje, no mundo se defrontam em luta dois com os grandes e contínuos intercâmbios e contatos, desponta
princípios opostos: o da cisão e o da reunificação. O nosso sé- uma tendência à fusão de todos os povos em uma humanidade e
culo é de transição, em que estão abalados os equilíbrios prece- o conceito de uma grande pátria que abrace todos eles. É uma
dentemente estabelecidos e se está na expectativa da formação dilatação de egoísmo, como já vimos para o indivíduo, que
de novos equilíbrios. É bem verdade que este estado de coisas é evolve até abraçar outros povos. Deste modo, as grandes unida-
o mais criador, mas também é o mais perigoso. É o mais cria- des humanas se reagrupam em torno de outros conceitos mais
dor porque tudo desmorona; o velho mundo é removido, e o compreensivos, e tanto ódio, antes justificado e santificado por
terreno se torna desimpedido, desaparecendo as barreiras e separações nacionalistas, encaminha-se para a extinção. O amor
desmantelando-se as defesas das posições conquistadas. Tudo é de pátria, limitado a um país, hoje pode parecer um obstáculo a
mudável, um campo aberto a todas as inovações. Tudo é possí- um novo espírito tendente às grandes unificações.
vel hoje. Mais do que a bomba atômica, temos sob os pés o Os caminhos são dois: subir ou descer. O mundo atual está
fermento das ideias, que é muito mais explosivo. Tudo é des- suspenso entre ambos. Ou fortalecer-se construtivamente atra-
truição atualmente. Rolam por terra as velhas divisões naciona- vés da unificação, que irmana, ou embrutecer-se no separatismo
listas, econômicas, religiosas, ideológicas. É a grande hora de e destruição, num massacre alternado. Ou construir um orga-
joeirar e reconstituir todos os valores humanos. Na hora destru- nismo humano mais vasto, sem exemplo no passado, e só em
tiva, são chamados em cena os demolidores de todos campos, nome deste destruir o atual, ou então destruir por destruir, fina-
materiais e espirituais. É a orgia da destruição preparada pelo lizando na barbárie. O homem seria capaz de seguir o último se
materialismo, e este é a ideia que, na quadra atual, atinge a ple- a vida sábia não velasse por ele, que ignora. Por isto é fatal uma
nitude de sua realização. Mas, justamente por se encontrar em grande onda de ascensões que invada e eleve o mundo; mas que
plena realização, ela amadureceu e caminha para a sua morte, provas e dores isto implicará? E será o homem quem deverá
enquanto que, pela lei do equilíbrio, desponta por baixo dela, suportá-las. Assim como para o indivíduo, duas são as sendas
ainda como um fraco dealbar de aurora, a ideia do espírito. As na vida dos povos: a do progresso e a do retrocesso. Por elas se
trevas e a luz se digladiam em plena batalha. E, na verdade, se desenvolve o grande caminho do universo em direções opostas,
de um lado tudo desmorona, jamais como agora se observaram como vimos. Hoje, como ontem, as criaturas seguem uma ou
tão aguçadas as tendências às grandes unidades. Involução e outra, como vemos. Os métodos usados por elas revelam o ca-
evolução se contrastam. A capacidade destruidora, o materialis- minho de sua escolha, a sua natureza e posição. Quem procura
mo, o ódio, o egoísmo, a avidez desaçaimada e individualista até a matéria, acredita na riqueza e na força, nos exércitos e no do-
4 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
mínio; é um involuído, subjugado pela ilusão. Na sua grosseira e de missão, porque a realização e a conquista se transferiram
insensibilidade e ignorância, deve ainda atravessar duríssimas inteiramente para o plano mais elevado do espírito. E a vida ter-
provas para compreender a vida; deve, sofrendo as consequên- rena, em vez de enriquecer, espolia, porque, para o evoluído, ela
cias de sua ação, dado que o seu pensamento é concreto, con- se tornou de sinal negativo, dado que o positivo é representado
quistar o senso do bem e do mal. Encontrando-se em queda, ele por uma nova vida que apareceu, ignorada ao involuído: a vida
não sabe valorizar-se senão com a posse, à qual se aferra e pela do espírito. Quem freme por dominar e enriquecer-se não se ilu-
qual luta. Por isso é ambicioso e insaciável. Não é capaz de da: está no caminho da descida, em direção que conduz à pulve-
compreender outra realização de si mesmo a não ser a que con- rização. Só quem gosta de dar e sacrificar-se pelos outros está
siste em ligar a sua vida física efêmera às coisas transitórias da no caminho da ascensão, em demanda da unificação. Poderá pa-
Terra. Nada enxerga além disto. Permanece ainda excluído da recer utopista, mas só ele está habilitado a transformar um mun-
vida maior, em que se é eterno colaborador de Deus, cidadão do do de ladrões e assassinos em um mundo de civilizada colabora-
universo. Possui do bem um conceito limitadíssimo, circunscri- ção fraterna. O elemento coesivo de unidades maiores só se po-
to ao próprio egoísmo, no qual permanece aprisionado. Assim, de encontrar em quem concebe a vida como um encargo altruís-
a sua alma se encontra excluída da grande e inexaurível riqueza tico. Só uma massa de semelhantes indivíduos pode formar um
de Deus, sempre insaciada, e, por mais que possua, torna-se organismo social. Querer organizar um coletivismo real com o
sempre mais esfaimada. Quanto mais possui, tanto mais lhe tipo biológico involuído é mera utopia.
cresce a avidez e, porque crê apenas na ínfima vantagem indi- É neste coletivismo, atingido não por imposição exterior
vidual e só por isto vive, é levado a menoscabar o resto. Um de força, mas pela dita maturação, que se pode verdadeira-
mundo feito de tais seres não pode ser senão uma alcateia de mente valorizar o eu, e não pelo domínio do próximo, como
lobos. A sua involução, que lhe faz ter fé apenas na força, dá ainda hoje se compreende na Terra. A hipertrofia da persona-
nascimento a um espírito egoístico universal de revolta, que faz lidade de um indivíduo a expensas dos outros representa o
do mundo um caos. E é por isso que o involuído é vítima de si triunfo do princípio separatista, exprime um estado de pulve-
mesmo. O que o fere é a reação provocada pelo próprio méto- rização da unidade. Se for obtida com a tirania, será apenas
do: “Quem com ferro fere com ferro será ferido”. Estamos as- uma unidade às avessas, uma construção forçada, em equilí-
sim na via descendente, que termina na pulverização. brio instável, sempre pronta a desagregar-se. Tais são as
Mas, se o involuído assim age em seu prejuízo, condenan- pseudo-unidades, construtivas só na aparência, mas substanci-
do-se a uma vida inferior, porque não compreendeu o escopo almente destrutivas, obras de Satã. Nelas, o eu, por mais po-
da vida, o evoluído caminha em sentido oposto, que o conduz deroso que seja, está sempre entrincheirado no próprio separa-
para a unificação. Este compreendeu que há muitas outras tismo, permanece um centro isolado e jamais abre as portas do
conquistas a fazer além dos bens materiais, compreendeu a es- amor para unir-se a outros seres. Os liames impostos pela for-
terilidade de tantas lutas colimando a conquista de uma posse ça são superficiais, não substanciam e só perduram enquanto
efêmera, insuficiente para saciar o desejo infinito da alma. A existem forças para mantê-los. Em profundidade, eles não li-
razão de ser da vida é outra. A procura de uma felicidade atra- gam coisa alguma. Não é considerando todas as coisas apenas
vés de satisfações materiais é vã; ela cria inimigos, desenca- em função de si mesmo que estes liames se podem estabele-
deia lutas, verte sangue, desperta dores e nos deixa cansados e cer, mas só considerando-as em função dos outros. Como se
insatisfeitos, na sensação da inutilidade de semelhante esforço. vê, os sistemas atuais empregados na formação de grandes
Só o involuído, inexperiente, pode aceitá-la. Assim tem-se no- unidades coletivas poderão servir como tentativas, como ex-
jo da Terra, que traiu, e volta-se a olhar para o céu; então tudo periência e ainda como meio educativo para penetração de
se inverte. O desenvolvimento, que é lei de vida, atua não mais conceitos novos. Mas, para atingir a sua real atuação, mister
tomando, mas dando; o impulso não é mais para o exterior, se torna outro método, inteiramente diverso: o da compreen-
mas para o interior; a riqueza que se procura não é mais a efê- são. Para tal fim, é necessário um tipo humano diferente, e ou-
mera da forma, mas a eterna da substância. E o ódio se trans- tro caminho não existe para se conseguir esta compreensão se-
muda então em amor; a força, na compreensão; o egoísmo iso- não aquele que conduz à formação desse tipo. O mais acirrado
lacionista, na unificação; a guerra, na colaboração. adversário da unificação dos homens em um plano de justiça
Ora, enquanto o indivíduo não evoluir de modo a compreen- social é exatamente o homem hodierno, aquele que, para servir
der estas coisas, a aplicação de princípios de solidariedade não seus próprios fins, mais a preconiza, mas que, na realidade,
poderá passar de utopia e mentira. O irmanamento humano é o menos crê nela. Na realidade, os programas professados e rea-
resultado de maturação e convicção, não podendo sê-lo da força. lizados com tal psicologia manifestam-se às avessas e, efeti-
É verdade que na Terra foram feitas tentativas, em todos os vamente, ocultam sob bela roupagem a luta comum pela vida,
tempos, para se chegar a grandes unidades através dos mais di- através da substituição de pessoas nas mesmas posições de
versos imperialismos, mas deles nada resultou. Com a imposi- domínio ou de subjugação. A isto não se pode chamar progres-
ção domina-se, esmaga-se, escraviza-se, mas não se unifica. Se so, porque é falência da unidade. A verdadeira unidade não re-
as raças se misturam, isto depende de deslocamentos demográfi- pousa no equilíbrio instável, carregado de reações, como o im-
cos e não diz respeito aos imperialismos. É a vida que tudo utili- posto pela força, mas na adesão livre e convicta.
za a seu modo. A força e o egoísmo – dois impulsos separatistas Quando o eu intenta construir apenas pela via do egoísmo,
– não podem conduzir à unidade. A verdadeira unidade é outra ele tende, mais do que construir em unidade, a desfazer-se no
coisa que não imposição violenta e sobreposição dos povos ou separatismo. Quando o eu se torna centro no lugar de Deus e
das suas classes. Ela implica elementos espirituais que a política se apossa de tudo, então caminha-se para Satanás, e não para
ignora. Trata-se de compreender e de sentir a Grande Vontade Deus. De tal método não podem surgir senão rivalidades e an-
diretora do universo e de conduzir-se neste de acordo com ela. tagonismos, que só oferecem uma solução possível: a destrui-
Neste plano de vida dominam princípios bem diferentes. Ao ção de um dos contendores. Mas a isto não se pode chamar vi-
invés do egoísmo, o altruísmo; ao invés da lei do mais forte, a tória, porque, na realidade, trata-se de uma ilusão, visto que,
lei do sacrifício e do amor. No evoluído, o involuído é transfor- em uma guerra, todos são prejudicados e vencidos. Isto é na-
mado nos seus instintos e métodos. Se, no segundo, a vida do tural, uma vez que nos mundos inferiores reina a traição. Tais
espírito cede em favor da vida do corpo, no primeiro é a do cor- métodos são próprios destes mundos inferiores, como o é o
po que cede em favor da vida do espírito. Então, a Terra, antes mal, e é por isso que, carregados de atritos, dado que a força é
campo de realização e de conquista, torna-se teatro de sacrifício a sua base, não podem resolver-se senão em destruição e dor,
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 5
por mais que apregoem construção e felicidade. Este é o des- vindicações teóricas a fazer, com o que se justifica, possui
tino fatal de quem se encaminha para a matéria. Estas são as também as vítimas que o acusam: de um lado, as vítimas do
leis da vida, que funcionam igualmente no campo das realiza- cárcere e dos trabalhos forçados; de outro, as silenciosas e “li-
ções sociais, pois que seria certamente ingenuidade supô-las vres” da miséria, aquelas que geraram a revolução comunista.
excluídas do funcionamento orgânico do universo, onde seri- O que leva um sistema contra o outro é a sua parte de cul-
am arbitrariamente plasmadas apenas pelo capricho do ho- pa, e isto justamente porque a vida quer destruir esta parte, va-
mem. Se este é invadido pela pretensão de tudo dominar, nem lendo-se dos dois antagonistas como um meio de recíproca de-
por isso o pode diante dos fatos. As leis da vida deixam ao puração, de modo que deles não sobreviva senão a parte em
homem também a faculdade de crer no que entenda, mas nos que ambos têm razão. De um encontro entre os dois resultará a
fatos elas agem de acordo com as próprias diretivas. Cada um destruição daquilo que cada um possui de egoísmo separatista,
pode crer e dizer o que deseja, mas no modo de agir revelará antivital para a coletividade, pela qual, efetivamente, todos
sempre aquilo que realmente é. Se acredita na força e age de trabalham. É inerente à natureza humana que culpa e razão,
acordo com ela, é um involuído, que nela encontra a sua lei. méritos e defeitos se apresentem conjuntamente imiscuídos, e
Se acredita e age na solidariedade, é um evoluído, que na uni- é lei de vida que, embora o homem seja separatista, tudo seja
dade encontra a própria lei. Força e justiça são dois extremos comum entre os homens. A solução não pode estar senão em
irreconciliáveis. Uma exclui a outra. Elas representam a lei e uma recíproca depuração que elimine em cada um a parte de
o sistema de dois planos de vida diferentes. Quem recorrer a culpa. Sobreviverá aquilo que de melhor existe nos dois. Deste
uma não pode apelar para a outra. modo, vencedora será unicamente a vida, que conseguirá o seu
fim de fazer progredir a humanidade, objetivo para o qual uti-
II. A ERA DA UNIDADE liza ambos os antagonistas, confiando a cada um deles um
princípio a ser afirmado. Neste sentido, o comunismo possui
Eis que, partindo de uma visão cósmica e de conceitos uni- uma função vital, que é lançar no mundo uma ideia de justiça
versais, chegamos agora à aplicação destes nas mais longín- com métodos de tal ordem, que ela possa ser lembrada bem
quas consequências em nosso mundo no momento atual. Refe- claramente por aqueles que, embora tendo-a recebido do evan-
rimo-nos às condições da hora histórica presente, que, mesmo gelho há 2.000 anos, acharam mais cômodo não tê-la posto em
sendo consequências de princípios universais, são na sua es- prática. Neste sentido, o Ocidente, prevendo o inevitável, que
sência transitórias e relativas. O mundo está atualmente dividi- já está iminente pela imposição das massas em plena arremeti-
do em duas partes separadas por um abismo intransponível: o da, começa hoje, queira ou não, a aplicar vários princípios do
oriente comunista e o ocidente liberal. Cada uma apoia-se em comunismo, ainda que sob bandeiras diferentes. E assim cami-
seu princípio idealístico. Eles são reciprocamente exclusivistas nha no mundo a ideia da justiça social.
e irreconciliáveis. Isto porque, por trás dos ideais, estão os in- Cristo pregou há tempos, mas, visto que a palavra d'Ele con-
teresses, que são irreconciliáveis. Os verdadeiros ideais são tinuava letra morta e as gerações não pensavam de modo ne-
verdades universais, e não particulares, e, sobre esta base, o nhum em aplicá-la, a vida teve necessidade de servir-se para is-
acordo é natural. Se há conflito é porque as duas partes são ri- so de inferiores meios de coação. Há maturações biológicas que
vais no mesmo terreno humano e os homens que o compõem não se podem conter.
pertencem ao mesmo tipo biológico e ao mesmo plano de vida. O atual movimento do mundo, que caminha em demanda da
Cada uma delas pretende esconder atrás dos ideais apregoados justiça, concentrou-se em um dado país, que se fez dele promo-
os próprios interesses. Por isso elas se acusam reciprocamente, tor em virtude de contingentes razões históricas. Mas ele é um
sem cessar, cada uma tendo razão enquanto está no campo do movimento de toda a vida humana planetária e, se não se tives-
ideal, mas tendo culpa quando, na prática, aplica este ideal se configurado em um país, tê-lo-ia feito em um outro. Não im-
apenas em vantagem própria. O quanto de razão cada uma pos- porta que seção política do globo assuma o encargo, contanto
sui, ainda que pareça sacrifício, constitui a sua força, e a parte que este seja desempenhado. É natural que um agregado de in-
de culpa que cada uma tem, embora pareça vantagem, forma a teresses logo enquadre e limite qualquer movimento. Mas este
sua fraqueza. Apliquemos sempre os princípios acima expos- se propaga além dos confins do enquadramento, porque tudo é
tos, ou seja, evolução para a unidade é crescimento em potên- comunicante e universal na vida. Assim, as ideias do inimigo
cia, involução para a cisão é decréscimo em potência. são absorvidas, pois ultrapassam os confins políticos; também
Observemos. A democracia possui uma parte de razão, que assim, elas se purificam, se adaptam e se tornam vida em toda a
lhe é dada pelo princípio de liberdade. Isto representa a sua for- parte. Desta forma, a ideia nascida em um ponto, sendo pela
ça, pela qual ela pode acusar o parte contrária. Mas também própria natureza universal, avança e alcança até onde não se
possui uma parte de culpa, representada pela injustiça econômi- imaginava; intensifica-se, expande-se, e os mais diversos agen-
ca, pelo egoísmo capitalista e pela desigualdade na distribuição tes são chamados a desempenhar cada qual a sua parte de traba-
dos bens. E isto representa a sua fraqueza, pela qual ela se ex- lho. Eis por que a ideia de uma justiça social ganha corpo atu-
põe às acusações da parte contrária. O comunismo, de outro la- almente. Na realidade, ela se desenvolve e floresce mais como
do, tem por sua vez uma parte de razão, dada pelo princípio da um princípio geral da vida do que como uma particular ideia
justiça econômica, da igualdade e solidariedade social. Aqui es- política, avançado além de todas as barreiras, para alcançar as
tá a sua força, que lhe faculta acusações à parte contrária. Mas finalidades da vida, e não apenas as de um só povo ou partido,
também exibe uma parte de culpa, dada pelas limitações à li- cada qual devendo rejubilar-se da contribuição que deu para o
berdade e ao individualismo, expressas pelo absolutismo e pelo avanço de uma ideia que é de todos.
capitalismo de Estado. Nisto está a sua fraqueza, que o expõe às Encontramo-nos em verdade, atualmente, na maturidade dos
acusações da parte contrária. tempos, e está próxima a aurora de uma nova civilização, em
Assim, cada um dos dois sistemas encontra justificação no que o evangelho deverá ser aplicado plenamente. Quem dirige a
fim a atingir, mas também possui as suas culpas e, por conse- história são as forças da vida, e não o homem. O comunismo
guinte, os seus pontos fracos no modo com que procura atingir não foi criado por uma doutrina econômica, por um partido ou
este fim, visto que, em ambos os casos, realmente, só existem povo que o tenha proclamado e aplicado. Ele não é senão o efei-
em mira vantagens próprias. Trata-se, no fundo, em todos os to da maturidade dos tempos, que conduz ao evangelho. Tudo o
quadrantes da Terra, do mesmo homem involuído, que age mais não passa de meios materiais, portanto transitórios, que
com idênticos critérios. Assim, se um dos dois tem as suas rei- cairão depois de preparadas as vias para a referida realização.
6 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
Assim, ficarão neutralizadas pela recíproca eliminação as qualquer campo, serão tragados. Tais são e assim querem as
duas zonas de culpa, e se fundirão as duas zonas de razão em leis da vida atualmente, e ninguém poderá contê-las.
uma nova formação, em que nenhum dos dois contendores do É interessante observar a sutil mecânica que um sábio jo-
momento sobreviverá íntegro e exclusivo na forma que cada go de impulsos, na luta entre o bem e o mal, conduz ao
um pretende. Assim também, exaurir-se-á a tarefa de ambas as triunfo do primeiro.
partes, que é de elaborar e ativar na sociedade uma ideia uni- No comunismo, as forças do mal, dada a sua natureza ne-
versal já expressa pelo evangelho, que está acima do contingen- gativa, operam naturalmente às avessas e, consequentemente,
te e de suas lutas. Este já contém, numa fusão conjunta, quanto aplicam o evangelho desfigurado. Elas não sabem agir senão
de razão há nos dois princípios opostos, sem aquilo que de er- com inversão de valores. Efetivamente não há nada mais anti-
rado existe presentemente na sua aplicação. O evangelho tam- evangélico que o método com que o evangelho é aplicado, ou
bém encerra comunismo, mas de amor, e não de força, e susten- seja, pela força, dado que a essência do evangelho é o amor. É
ta a liberdade individual, com a justiça do “quod superest date lamentável que na Terra não se procure atingir a justiça senão
pauperibus”3. Compreende-se que se deve tratar de um evange- através da injustiça. E isto macula tudo. Que faz então a vida
lho vivido, e não apenas teoricamente pregado. O movimento destes impulsos negativos? Se os deixa agir, é sinal que, de
atual é de ascensão biológica, e a vida trabalha com fatos, e não qualquer modo, eles são construtivos, porque todos conver-
com palavras. Não se trata, pois, de um evangelho situado em gem para um centro diretor que é Deus, e não para um segun-
uma religião particular, utilizado como substrato de uma hie- do centro anti-Deus, Satanás. O fato é que o mal, em última
rarquia de homens. Cristo é universal e, como o ar e o sol, que análise, é enganado, porque esta inversão, depois, se retifica
devem vivificar tudo, não podendo encerrar-se em divisões em favor do bem. O mal é ignorante e, querendo imperar pela
humanas, supera todas as barreiras. Algumas poderiam dizer: força, excita reações em toda a parte, de modo a levar todos a
nós representamos Cristo oficialmente. Ninguém o nega se, por se unirem contra ele. Ele gera mártires que, depois, formam a
ventura, o evangelho for vivido. Muitos de vós o vivem de fato, potência e a grandeza moral do inimigo. Sempre foi assim, e o
porém Cristo é realmente representado somente por quem vive mal, que é cego, recai permanentemente nos mesmos erros. E,
a Sua lei. O resto possui escopo diverso e uma função que não é assim, faz o jogo do inimigo, o bem, que ele combate. Ei-lo,
a de fazer representantes de Cristo. desta forma, a desempenhar a função social de purificar a
Assim, o comunismo, depois de trazer à lembrança dos Igreja e vivificar a fé. O mal é assim utilizado para divulgar o
homens o evangelho, sobreviverá como evangelho, pelo qual evangelho com a ideia da justiça social. Aquele pobre mal,
trabalha sem saber, e cairá como bolchevismo, que é contin- que tanto se esfalfa para conseguir os seus fins, nada mais faz
gente; sobreviverá como justiça econômica e, com isto, esgo- do que preparar, sem compreender, os fins que o bem colima.
tada a sua missão, cairá como absolutismo de Estado e escra- Depois disto, as forças da vida o liquidam em favor do bem,
vidão coletivista. Também a democracia, após haver defendido que ele acredita desfrutar e que o deixa agir somente enquanto
a liberdade humana e salvado o individualismo nas novas e é um meio para o próprio triunfo.
grandes unidades coletivas, sobreviverá nestes princípios do Na sabedoria divina, o mal está a serviço do bem. É natural
evangelho e cairá como injustiça econômica e egoísmo capita- que, para mover o homem de hoje, torna-se indispensável im-
lista. Tudo passará, exceto o evangelho. Quem está cego pela pelir a mola do seu egoísmo. É preciso que ele creia agir em
luta, vivendo no particular, não pode perceber estes equilí- seu imediato interesse. Por esse meio, a Lei o manobra para
brios. A vida ressurgirá no evangelho, porém não mais apenas seus próprios fins mais sábios, fazendo-o em benefício de to-
pregado, e sim vivido. O homem, hoje, não se contenta mais dos, porque o tipo biológico atual jamais seria levado a traba-
apenas com palavras e quer olhar os quadros que estão atrás. lhar por tais fins se conhecesse o real funcionamento da histó-
Para isto, foi educado por duras lutas de milênios, de modo a ria. E, assim, sem sabê-lo, uns e outros dos dois grandes inimi-
ver atrás de cada verdade uma mentira. Tem sido uma escola gos, capitalismo e comunismo, trabalham concordes pelo lou-
constante, a única forma de educação que todos os dirigentes, vável fim comum do progresso humano. Eles creem que diri-
em todos os tempos e lugares, em todos os campos, concorda- gir-se ao povo seja uma mentira útil e astuta, de que habilido-
ram, durante séculos e séculos, em conceber. samente se valem para conseguir os próprios fins egoísticos, e
Não sabemos se o evangelho vivido coincidirá com a Igreja não compreendem que, ao contrário, é este o verdadeiro esco-
de Roma, que o professa em sua forma atual, ou se poderá po pelo qual, à sua revelia, a vida os põe em movimento, e será
coincidir com uma outra forma que venha a revesti-lo, ou com o único que conseguirão, enquanto que a consecução do pró-
um cristianismo mais vasto, e não apenas católico, ou simples- prio interesse é muito problemático que se verifique. Quem
mente com os homens de boa vontade, aos quais foi anunciado. participa só de um ou de outro destes dois polos na luta co-
A hora histórica do momento é apocalíptica, e tudo está abalado mum pelo progresso, não pode ser senão o dominante tipo bio-
desde os alicerces. A verdade é que as duas grandes forças ora lógico involuído, que só pode pensar em função do contingen-
em ação, democracia e bolchevismo, tornaram-se fracas pela te. O evoluído está acima do embate, admira a perfeição da
recíproca inimizade, pois que cada um dos dois impulsos é neu- obra divina, na qual a Lei, para conseguir os grandes fins evo-
tralizado quando se defronta com outro igual e contrário. É este lutivos da humanidade, mobiliza homens aos quais é necessá-
antagonismo que pode destruir a ambos, deixando somente ria a forma de luta para que eles se ponham em ação.
aquilo que eles possuem de evangelho. É certo também que o Tudo que presentemente acontece no mundo é simplesmen-
ciclo da matéria está para esgotar-se, encaminha-se para a mor- te a consequência natural do grau de evolução em que o homem
te e, na ânsia de sobreviver, recorre aos meios extremos da de- vive. Se ele fosse mais evoluído, a sua vida seria inteiramente
sesperação. A matéria exaure-se no tempo, e o tempo não pode diversa. Mas evolverá e, evolvendo, tudo mudará.
parar. Vimos que, pelas leis da vida, o materialismo é um sis- Os grandes imperialismos atuais do mundo, com poderosa
tema fatalmente autodestruidor. Isto significa a destruição dos tendência expansionista, que se tornou possível em tais propor-
valores materiais, os únicos a que hoje se tributam reverências. ções em virtude dos novos e grandes meios de comunicação,
Só os valores superiores espirituais, que são inatingíveis pela acabam por manter em contato, seja na paz ou seja na guerra, as
destruição, serão salvos. Salvar-se-á também unicamente quem nações e raças mais distanciadas. Entrar em contato significa o
vive neles. Os que se apegarem a tudo que for terreno, em início da unificação. A humanidade está para tornar-se una. As-
sistimos a um esboroamento universal de barreiras. Transpõem-
3
“Dá aos pobres o que te sobra”. (N do T.) se todos os velhos limites. O contato, na posição de vencedor
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 7
ou de vencido, de senhor ou de escravo, leva sempre ao mesmo que aprendam na luta a formar a inteligência, postos na contin-
resultado: a fusão. Tudo termina sempre com a unificação. Esta gência de empregá-la no ataque e na defesa. Foi assim que sur-
é a essência das tendências políticas modernas: a formação de giu o homo sapiens e, desta maneira, foram conseguidas as fi-
unidades cada vez maiores. Essa será a conclusão do nosso pe- nalidades evolutivas da Lei.
ríodo histórico. Parte-se para conquistar e acaba-se por irmanar- Como a química e a física, também a vida possui as suas
se, hodierna tendência universal em todos os campos. Assim leis e os seus fins, dos quais não se pode fugir. Essa necessi-
como, no fim da Idade Média, as cidades transbordaram com dade de luta é imposta pela Lei, em vista de suas finalidades
alegria da angústia das estreitas muralhas circundantes, esten- seletivas e evolutivas. Tal finalidade têm as guerras, que estão
dendo-se desafogadamente além de confins acanhados e de bar- antes no instinto dos povos do que no comando dos chefes. É
reira, desfrutando um senso de liberdade onde antes ninguém tão forte esse instinto de guerra, que, não podendo satisfazê-lo
podia circular sem esbarrar a cada passo em obstáculo inimigo, na verdadeira luta cruenta, as massas dão desafogo a ele no
também hoje, no fim do Segundo Milênio, a humanidade co- sucedâneo das competições esportivas. Assim, graças às con-
meça, jubilosa, a transbordar com alegria das angústias psico- tínuas competições, necessárias ou supérfluas, sanguinolentas
lógicas que a asfixiam. Cairão as barreiras que dividem parti- ou incruentas, o homem se manteve sempre vigilante ao assal-
dos, filosofias, religiões, isolando e sufocando em absolutismos to de qualquer rival, que pode surgir a qualquer instante, mo-
que paralisam a circulação da vida do espírito. São superações vido pela miragem de um benefício pessoal. E assim também
que redundarão em benefício de todos. Cada atrito social pesa e se cumprem os fins de evolução.
custa. Então, a máquina coletiva poderá funcionar mais desem- O atual antagonismo entre os dois grandes imperialismos do
baraçada, sem atritos e conflitos econômicos, políticos, religio- mundo é problema seletivo. Eis o verdadeiro jogo mundial da
sos, filosóficos, demográficos, raciais etc. É um grande obstá- história no momento. Jogo inerente ao plano do tipo biológico
culo à vida ter de, a cada passo, esbarrar com uma parede divi- atual. Dado o que ele é, os problemas só são solúveis através da
sória. Hoje, os homens vivem agrupados em castelos inimigos, luta e da destruição recíproca. Nesse plano, a substância da vida
prontos a combaterem-se. Se isto é útil para a sua seleção, que é de natureza econômica. Nele domina a economia limitada e
não tem outro objetivo, também torna a vida bem fatigante. A egoísta do “do ut des”4, isto é, interesse e materialismo, arma-
nossa época quer abater estes obscuros castelos medievais do mento e destruição. Mas já dissemos que existe para cada plano
espírito, que, se são defesa, são também prisão. Esta é outra de vida uma biologia e uma economia diferente. Ambos os an-
forma de expressão vital que acabará na unificação. tagonistas terrenos ignoram que existe uma biologia e uma eco-
Entrementes, toda força social presentemente em ação pos- nomia mais elevada, em que nenhum dos dois penetra, porque
sui uma função na vida. O comunismo tem a função que a opo- ambos pertencem a um plano de vida inferior. O ser encontra-se
sição tem em todas as assembleias: o controle que induz aos encerrado em sua forma de consciência. Além desta existe o in-
exames de consciência perante a opinião pública e a história, e finito, rico de poderes, de bens ilimitados, ao alcance da mão.
determina o aperfeiçoamento das armas, elemento de luta para a Mas está separado desse infinito pela impossibilidade de com-
seleção. De um modo particular, o comunismo desempenha a preender, pelo menos enquanto não evoluir. Explicar a este tipo
tarefa de despertar o espírito de massa e de educação ao funcio- biológico que os seus problemas serão rápida e automaticamen-
namento coletivo. A luta, enquanto não se torna cruenta, será te resolvidos, logo que se eleve em evolução, é obra inútil. Ele
pelas conquistas das massas, e, nesse sentido, as duas partes co- não poderá compreender enquanto essa ascensão não se der, ra-
laborarão na educação delas, obrigando-as a pensar. Estas, fei- zão pela qual realmente ele hoje vive e luta, destrói e sofre. Ob-
tas de carne insensível, serão obrigadas à fadiga de compreen- servada de um outro plano, toda esta luta se torna unidade e o
der para saber escolher um guia, qualquer que seja. Toda luta se problema se transforma completamente, pois que cada proble-
reduz a uma escola, e os tempos de luta são tempos de aprendi- ma é verdade sempre em função da inteligência que o propõe e
zagem e, consequentemente, de progresso. dos limites da mesma. Mais acima, vê-se a luta entre o bem in-
O comunismo serve para forçar o capitalismo a admitir al- teligente e o mal estúpido, luta em que este, pela sua estupidez,
guns princípios de justiça, pelos quais, de outra maneira, este cumprida a função que lhe cabe, é vencido e eliminado como
jamais se decidiria. Dado que a criatura humana é por natureza um mal, restando dele apenas os efeitos, que ele, sem saber e
egoísta e a mesma em ambas as partes, a justiça, se não fosse querer, produziu para o bem.
imposta, jamais seria obtida. Esta é a razão biológica pela qual Então a visão se perde naquela que configurou as tentações
a vida atira o comunismo contra o capitalismo. Sem a violência, do Cristo. Ele, após haver jejuado 40 dias, sentiu fome, e Sata-
não se teria dado a Revolução Francesa, e o mundo estaria ain- nás, o tentador, acercando-se, lhe disse: “Se és filho de Deus,
da na fase feudal dos privilégios da aristocracia e do clero. A dize a estas pedras que se transformem em pão”. Mas Jesus
violência, por certo, é o que revela o involuído, porque o evolu- respondeu: “Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de
ído jamais recorre a ela. Mas é preciso recordar que nos encon- cada palavra saída da boca de Deus” (Mateus, 4: 3-4). Eis em
tramos no plano biológico animal-humano, e não além, plano que se torna o problema econômico que atormenta o mundo de
em que as coisas só se podem resolver desta maneira primitiva. hoje, se visto de um plano mais elevado. O diabo então condu-
Certo é também que, se não tivesse sido ensejado um motivo ziu Cristo ao cimo de um monte assaz elevado e, tendo-lhe
para o surgimento desta violência, dado por uma injustiça inici- mostrado todos os reinos da Terra e sua magnificência, lhe dis-
al que está no fundo dos atos de todos os homens deste plano, se: “Eu te darei tudo isto, se te prosternares e me adorares”.
então esta violência não teria oportunidade de se formar. Mas Jesus respondeu: “Arreda-te, Satanás, porque está escrito:
Como se vê, trata-se de um jogo de forças que, contrastan- Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás”. O diabo então
do-se, concorrem para o mesmo fim: o progresso. A carne é o deixou, e os anjos o rodearam e se puseram a seu serviço
preguiçosa, e a maioria dos homens é carne, e não espírito. Eles (Idem, 4: 9-11). Com isso, estão fixados os limites ao mal, que
se furtam ao trabalho de evolver. Então a Lei os alcança, envol- nada pode além deles. E todas as grandes lutas terrenas pelo
ve e agita, lançando-os uns contra os outros, iludindo-os com domínio material e pelo bem-estar econômico se reduzem a agi-
miragens de interesses pessoais que jamais conseguirão e que tações de um mundo inferior, além do qual a vida é completa-
desaparecerão logo que seja atingido o escopo prefixado pela mente diferente. Então desaparecem os temas relativos da luta
Lei, que eles ignoram. Assim age a Lei. Por isto os animais moderna, comunismo e capitalismo. Eles se reduzem ao que
possuem uma carne que, se para um é corpo, para outro é ali-
4
mento. Por isto eles são levados a contender, o que é útil para Dou para que dês. (N. do T.)
8 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
são todas as coisas humanas: uma transitória e ilusória forma Todavia assistimos ao fato de que se está desenvolvendo
exterior, neste caso, de um único e idêntico movimento de pro- atualmente um comunismo no campo social. E, se tudo que
gresso, para o qual concordemente colaboram. Assim quer a existe tem uma razão biológica, neste caso qual será esta razão?
unidade da vida, Porém, dada a psicologia do homem atual, esta Ela é dada pela atual fase da evolução humana, que assume a
colaboração não pode encontrar outra forma senão a da luta. O forma coletiva, quando tende à formação de grandes unidades
que realmente se dá hoje é uma formação da consciência coleti- de massa, isto é, de grandes organismos biológicos coletivos.
va e um despertar das massas, movimento universal de matura- Esta é a tendência moderna de toda a vida humana sobre o pla-
ção biológica, que, na vida, se coloca acima das divisões huma- neta terreno, ativada, pois, em todo o mundo, ainda que revesti-
nas. Pouca importância tem que ele hoje se vista de comunismo da em formas e normas diferentes. É uma tendência que implica
ou capitalismo. O movimento existiria mesmo sem estes nomes a ânsia em demanda da justiça social. O mundo, que atingiu
e teorias, vestidos em outras roupagens. De tal maneira, ele de através da ciência um inaudito domínio sobre as forças da natu-
fato se iniciará e continuará, ainda que estas vestes desapare- reza, tende a reordenar-se em novos equilíbrios econômicos.
çam. Deste modo pode-se concluir que as novas ideologias e Este é o conteúdo que, nesta sua atual fase evolutiva, a vida
concepções modernas, mais do que constituir a causa dos pre- empresta à luta pela seleção. Sendo assim, é natural que o co-
sentes e grandes movimentos coletivos, são apenas a forma re- munismo tenha surgido primeiramente nos países pobres, onde
lativa e transitória que, no atual momento histórico, assume em é maior a luta da qual ele deriva. É lá, onde mais cruciante é a
nosso mundo o eterno movimento ascensional da vida. fome e, consequentemente, mais sentida a inveja, que mais in-
tensa se torna a luta para destronar os que possuem mais. Onde
III. CAPITALISMO E COMUNISMO mais elevado é o nível econômico, não existe ódio contra quem
possui, porque todos possuem.
Depois de havermos visualizado o problema da unidade em O fenômeno só é compreensível se atentarmos para a reali-
suas linhas gerais, focalizemos de maneira particularizada e dade biológica que ele representa. As ideologias podem sobre-
concreta o que sucede atualmente no campo político do mun- por-se às leis da vida, podem envolvê-las e intentar recalcá-las,
do. Para principiar, perguntamos: corresponde às leis do uni- mas não podem destruí-las. Eis o que representa o comunismo
verso o princípio de igualdade que se pretende impor presen- moderno. A causa eventual que fez com que o movimento uni-
temente pela força? versal da vida no sentido da justiça social se localizasse na Rús-
Na estrutura atômico-eletrônica da matéria, os diversos sia, foi a miséria tradicional do seu povo. A necessidade de
elementos componentes não são iguais. É o que nos desvenda a igualdade econômica e de justiça social foi sentida, antes e mais
indagação submicroscópica. Em seguida, se à observação analí- acentuadamente, na terra da clássica desigualdade econômica e
tica substituirmos uma observação sintética macroscópica e da injustiça social. Na superfície da Terra, esse povo represen-
constatarmos uma homogeneidade de conjunto, é porque esta tou o “locus minoris resistentiae”5 para a explosão da crise. As
resulta das características comuns aos elementos diferentes, que características da vida nesse país permaneceram as mesmas de
só assim conseguem uma identidade de conjunto. E isto se dá há muito: a pobreza, a dor, os desnivelamentos sociais, os
sem prejuízo de sua individualidade e livre manifestação, se- ódios, a constante ameaça da Sibéria, a própria desolação que
gundo a estrutura de cada um. As leis da existência nos dizem, encontramos em Gorki, Tolstoi, Dostoiewsky e outros. Parece
pois, que a vida atinge a homogeneidade sem prejudicar a indi- que toda nação do planeta possui uma função, que, no presente
vidualidade, atinge a igualdade que unifica, sem destruir as di- caso, é a dor. O povo russo sempre sofreu um duro destino, e as
ferenças que distinguem. Os elementos conservam, pois, a indi- convulsões sociais frequentes, em vez de atenuá-lo, agravaram-
vidualidade inviolada, sem com isto impedir que todas as seme- no. O fenômeno é, pois, antes de tudo, russo, caracterizado pe-
lhanças equilibrem estas diferenças, reconstituindo assim a uni- las condições deste povo. Ainda que a ideologia comunista seja
dade segundo as qualidades coletivas, que estão na base de uma universal, a sua forma de bolchevismo russo não é aplicável a
individualização mais vasta do que a dos simples elementos. A povos tão diversos, com destinos e funções biológicas diferen-
igualdade se constitui, deste modo, não como uma violação im- tes. Ainda que a ideia comunista se divulgue, não poderá ser
posta à individualidade, mas como uma espontânea reordena- senão assumindo alhures formas diferentes. E é natural que os
ção dessas unidades. A igualdade não é, assim, uma superposi- povos não se adaptem quando ela queira permanecer russa, para
ção forçada da realidade, mas uma organização desta em um tornar russos povos que pela própria natureza não o são e que,
plano evolutivo mais elevado. biologicamente, não podem sê-lo.
Naturalmente, é inútil falar dessas leis universais a quem Se, pois, a ideia comunista não souber despojar-se da
não compreendeu o funcionamento orgânico e unitário do uni- forma contingente da terra em que se originou praticamente, a
verso. A igualdade que a natureza nos oferece é o resultado es- sua expansão reduzir-se-á como a de todos os imperialismos,
pontâneo, um produto das próprias individualidades, erguido despertando fatalmente as reações e resistências naturais por
sobre a linha de suas semelhanças, sem alteração da linha de parte das outras formas humanas de vida. Se ela quiser perma-
suas diferença. O mesmo que se dá com os agregados celulares necer russa, para tornar russo o mundo, o problema efetivamen-
se passa com os agregados sociais, de que agora nos ocupa- te oculto sob a ideologia será o de qualquer invasão demográfi-
mos. Nós existimos em um universo unitário, de princípio úni- ca e predomínio racial, velhíssimo motivo da história. A guerra
co, que se repete em todos os níveis evolutivos, e o fenômeno deflagrada seria apenas de raças e de interesses, e não de ideias.
social, para ser compreendido, deve ser tomado como um mo- Possui o comunismo atual capacidade de universalizar-se, er-
mento do fenômeno biológico. guendo-se acima das suas características particularmente rus-
A homogeneidade celular nos tecidos é efeito de qualidades sas? Saberá ele permanecer não russo em outros lugares, com
dominantes comuns, que deixam intactas as diferenças indivi- psicologia e métodos totalmente diversos? A vida, para atingir
duais, sem forçá-las ou suprimi-las, porque, tanto no indivíduo o universal, deve antes atravessar o particular. Antes da ideolo-
como na sociedade, elas são necessárias e possuem função pró- gia que tende à formação de unidades universais, a vida sente,
pria. E, se o princípio é sempre o mesmo, e a sociologia é bio- muito mais vívida, porque mais próxima, a menor unidade bio-
logia, por que se deveria aplicar nos agregados humanos um lógica nacional. Esta é a realidade, e nenhum povo pode mudá-
princípio diverso daquele aplicado pela natureza a todos os seus la. Se o trabalho obrigatório pode ser uma necessidade para um
agregados? E então, o que representa neste sistema de vida a
5
igualdade forçada imposta pelo comunismo? “Lugar de menor resistência” (N. do T.)
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 9
povo paciente e sonhador em um país imenso e triste, onde o o que é o homem atual, não pode empregar outros sistemas para
homem se habituou a ele desde séculos, como poderá ele apli- alcançar esta justiça, que, no entanto, representa a conquista a
car-se a povos de hábitos secularmente diversos, que jamais vi- ser feita nesta nova atual fase de evolução.
veram de tal forma sob regime algum, qualquer que fosse o gê- Falamos da necessidade que o comunismo de amanhã tem
nero deste? O que decide não é somente o tipo de governo, de universalizar-se, desnacionalizando-se, para supernacionali-
mas, sobretudo, a natureza do povo sobre o qual atua. A forma zar-se como ideia, e não como imperialismo de guerra; de supe-
de governo não é mais do que um dos tantos elementos da vida rar a fase de imposição de força, para ceder lugar à livre persu-
de um povo, que são, com frequência, antes a causa do que o asão; de substituir a luta de classe pela do amor evangélico.
efeito desta forma. Desta maneira se vê como o comunismo Acenamos também sobre a necessidade, para o comunismo de
atual é resultante de tantos fatos diversos. Resultou do presente amanhã, de espiritualizar-se, completando assim a sua inicial
momento histórico ou fase biológico-social, que avança para a unilateralidade materialista. No seu aspecto atual, ele é incom-
formação de grandes unidades coletivas e amplos organismos pleto, porque a vida não é feita apenas de matéria e os seus
biológicos de massa, o que impõe a implantação da justiça so- problemas humanos não são unicamente os do mundo econô-
cial. Desenvolveu-se segundo a natureza particular do povo mico. E ninguém o impede de poder encontrar, no seu caminho,
russo, que fez com que este fenômeno fosse mais sentido e se ensinos do gênero de A Grande Síntese, que estejam em condi-
verificasse naquele país, mais pobre e sofredor que os outros. ção de fornecer-lhe um sentido orgânico e uma orientação uni-
Isto explica a razão deste comunismo, cujo aparecimento hoje versal da vida, que as teorias de Karl Marx são insuficientes pa-
no mundo, biologicamente, significa a aproximação da ação ra dar-lhe. A vida caminha atualmente, e tudo o mais com ela,
evangélica esperada há 2.000 anos, ter nascido na Rússia às para o plano supermaterial. Para ele estão se dirigindo a ciência
avessas, isto é, como ódio de classe ao invés de amor evangéli- e, inevitavelmente, todo o pensamento humano.
co. O ateísmo se torna cada vez mais absurdo em um universo
Tivemos de nos referir ao evangelho porque, no seu atual que a físico-matemática revela cada dia mais ser pensante, isto
lance evolutivo, a vida está prestes a dar um passo decisivo é, feito de pensamento na sua mais profunda realidade. Os mío-
para aproximar-se da realização da Boa Nova, que há 2.000 pes, que não se orientam e não se atualizam, fixando-se nas
anos foi simplesmente anunciada. A ideia comunista, mesmo conquistas do momento e do contingente, sem conseguir vis-
se, em principio, o aplica de forma invertida, representa do lumbrar um amanhã mais vasto e sem poder pressentir a conti-
evangelho a primeira e vasta aproximação no plano econômi- nuação do presente no futuro, da matéria no espírito, arriscam-
co e político. Disto deriva que, se o comunismo quiser conti- se a ficar em meio do caminho. Não se pode existir na vida em
nuar a desenvolver-se segundo a linha traçada pelas leis da estagnação, mas só como vir-a-ser. E ninguém pode mudar as
vida, deverá completar-se, desenvolvendo-se amanhã, além da leis da vida, que assim pensa e assim quer.
sua atual fase materialista, com um novo aspecto espiritual O homem pode crer nas ideologias que mais lhe aprouve-
evangélico, de que hoje carece. rem, mas ai da ideologia que tenta sobrepor-se às leis biológi-
Ninguém nega a bondade e a verdade do comunismo como cas, procurando violentá-las! No conflito entre ideologia e bio-
justiça social. Mas, para que uma ideia seja aplicável em toda logia, vence sempre esta última, que é a mais forte. A vida é
parte, é necessário que seja universal, e não o produto apenas um fenômeno muito mais vasto e complexo do que o simples
de um dado povo ou regime. Ora, somente o evangelho, que fenômeno econômico. O homem não é, exceto em parte, um
não é filho de nenhum governo e que, nascido de um povo, dele fator de produção. No dia em que a atual ideologia não for
se destacou, possui não só as características de universalidade, mais concorde com os planos inteligentes que a vida quer rea-
mas também se apresenta completo no campo espiritual, que é lizar, será logo arredada do caminho, não pelos homens, não
necessário à vida. A história nos mostra que, quando o catoli- pelos governos ou exércitos, mas pela própria vida, que é a
cismo se nacionalizou em um povo e em um governo temporal, única força que, com a sua inteligência e poder, verdadeira-
originou a reação nórdica e antilatina do protestantismo. Assim mente domina o planeta. Em suma, não é o comunismo ou a
sendo, para evitar cismas em um comunismo universal, não res- democracia que comandam a vida, mas é esta que comanda a
taria outro caminho senão o de um imperialismo tirano e escra- ambos. É ela a única e verdadeira senhora do mundo e lhe im-
vagista, o que também significaria chegar-se a pior injustiça so- põe a própria vontade, que hoje é a de subir.
cial por meio da teoria da justiça social. Assim, um processo A respeito deste domínio das leis da vida prepostas como
tão deformado não estaria de acordo com a atual tendência evo- guia dos eventos históricos, é este o ponto mais oportuno para
lutiva da vida, mas contra e, portanto, destinado por esta, que é que se responda a algumas objeções propostas ao Cap. XCIX:
mais forte, a ser destruído, o que se verificará se o comunismo “O Chefe”, de A Grande Síntese. Quem, na Itália e no exterior,
não se universalizar e não se espiritualizar, isto é, se não conse- quis ver nele uma referência particular à exaltação de um dado
guir aproximar-se em tudo, também como método, do evange- homem e de um dado regime, não compreendeu o significado
lho. A acusação movida pela democracia ao comunismo é a de universal dos conceitos ali expostos, aplicáveis a qualquer
que ele não é comunismo, mas capitalismo de Estado, não é tempo, em qualquer lugar e a qualquer chefe, visto que eles
justiça, mas uma forma de injustiça social pior do que aquela exprimem universais leis biológicas. E as primeiras entre elas
que ele aponta e pretende corrigir. De fato, o comunismo se são a autoridade-função e o poder-missão. Função e missão,
implantou como luta de classes, pelo que não pode resultar se- que são o único verdadeiro sustentáculo da autoridade e do po-
não como imposição de classe, velha lei biológica do mais for- der, de modo que, se eles caírem, a vida arrebata estes últimos,
te, que ele aplica como a vida sempre fez, desde que o homem e toda a posição, qualquer seja a força que queira protegê-la,
existe. Em escala mais ampla, luta de classe significa luta de automaticamente cai. Repetimos sempre que a sociologia não é
povos e domínio de povos, imperialismo e imposição pela guer- senão um momento da biologia, e a política não é uma criação
ra. Onde está a justiça social? Pode-se alcançar a justiça pela humana, mas um efeito das leis da vida. Perante estas realida-
força? Ou então a ideologia é pura forma e aparência, por trás des, o regime representativo não é senão uma das formas pelas
da qual vigora a velha realidade biológica peculiar ao involuí- quais essas leis podem exprimir-se.
do, que não sabe afirmar-se senão pela força? Então a novidade Quem apresentou, pois, tais objeções não leu o que está es-
consiste apenas em acobertar com um manto de teórica justiça crito em A Grande Síntese, no fim do Capítulo XCVI: “Con-
social o velho sistema da lei elaborada e imposta pelo mais for- cepção biológica do poder”. Aí está dito: “As forças biológicas
te em sua vantagem? Então é preciso confessar que a vida, dado não garantem o homem, mas a função, e o destroem apenas ele
10 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
deixe de corresponder a esta. (...) Assim, sempre a história comunismo, são coagidas a obstar a formação dessas condições
chama os seus homens. (...) Rejeita-os, sem remorsos, apenas a de miséria, que justificam e atraem o comunismo. O resultado
função cesse ou quando eles exorbitem ou se entibiem”. E o do assalto comunista, porque tal é a sua forma de ação em face
referido capítulo se encerra dizendo: “Assim nasce Napoleão, da técnica de luta que adota, é compelir os Estados capitalistas a
simples instrumento de uma guerra difusora de novas ideias, uma produção e distribuição de riqueza que facultam um eleva-
que foi posto à margem pelo destino, como inútil, mal se esgo- do nível econômico em todos os países não comunistas, de mo-
tara a sua função, da mesma forma como o último rei da Fran- do que o comunismo não encontre neles um ponto de apoio,
ça, do qual ele se rira”. nem razão ou meio para interferir. Eis então que, superando os
Trata-se, pois, de leis biológicas, prontas para entrar em ação limitados planos dos homens de ação, os mais vastos planos da
mal se verifiquem alguns precedentes determinantes, seja no vida desenvolvem um programa inteiramente diverso, isto é,
passado, no presente ou no futuro, independentemente da pes- transformar um agente revolucionário de desordem em um gera-
soa, tempo e lugar em que elas se aplicam. A história confirmou dor de bem estar, e forçar o capitalismo a ser o primeiro a apli-
e confirmará sempre estes princípios. Deste modo se compreen- car a justiça comunista, para não ser por esta suplantado num
de quão instáveis são todas as posições de mando baseadas na desígnio hoje universalmente sentido e reclamado. Assim, nas
força, e não na função. É natural então que se pergunte que esta- mãos sábias da vida, a desorganização transmuda-se em organi-
bilidade podem ter hoje os poderes humanos considerados gene- zação, o mal em bem, e, assim também, o capitalismo conserva-
ricamente como uma conquista em seu próprio benefício. Daí as dor é obrigado a ativar o progresso. Desta maneira, nas mãos da
desconfianças e lutas entre governantes e governados, daí a clás- vida, o assalto comunista resolve-se, à sua revelia e contra a sua
sica forma de rebelião que parece hoje inerente a toda forma de vontade, na consecução daquilo a que ela aspira, e não do que
autoridade e que assume o aspecto de legítima defesa. almejam os diferentes chefes: um universal progresso de todos,
Por tudo isto se vê como os critérios através dos quais a vi- mesmo das nações capitalistas, rumo à justiça social.
da nos dirige são diferentes daqueles pelos quais o homem de- A vida atinge então essas suas finalidades pelo método da
sejaria mandar, e também como a distinção entre capitalismo e reação. Quando ficamos no contingente, onde fervilha a luta,
comunismo só possui valor contingente e transitório, em função desencadear o assalto significa excitar uma reação equivalente,
de certas finalidades, conseguidas as quais, tudo se transforma. em virtude da lei universal do equilíbrio. Uma benéfica reação
A distinção biológica é de alcance bem diverso e se verifica en- dos Estados capitalistas consiste, pois, no imperativo, a que
tre involuído e evoluído, diferença evolutiva, de substância, da eles se veem sujeitos, de desenvolver, eles mesmos, os princí-
qual tudo deriva e da qual o problema social atualmente não se pios de uma justa distribuição da riqueza e de justiça social
ocupa. Assim, praticamente, este se reduz a um conflito de inte- proclamados pelo comunismo, ainda que o façam gradativa-
resses em que os homens de ação, preocupando-se com objeti- mente. Uma outra reação consiste no fato de serem obrigados a
vos imediatos e concretos, permanecem imersos na peleja, pri- cuidar do nível econômico dos novos amigos por toda a forma
vados de qualquer visão de conjunto, a qual, se é de realização de auxílio. Efetivamente, como consequência da reação, surge
mais remota, não deixa de ser um fim a ser atingido depois. neles esta objeção: se o fim é melhorar o próprio estado eco-
Quem estiver envolvido na ação política deverá assumir a nômico, por que, em vez de melhorar-se o problema através da
atitude e o encargo de agir, o que é indispensável, mas não po- distribuição, não fazê-lo através da produção da riqueza? O
de dispensar o homem de pensamento, único capaz de indicar- mesmo problema universal da melhoria econômica pode assu-
lhe as grandes linhas de orientação. Quando se está encerrado mir, realmente, segundo a natureza dos diferentes países, as-
no horizonte estreito das realizações concretas, não se pode en- pectos diversos. Um país pobre, incapaz até de explorar o seu
xergar o amanhã distante, que também deve chegar; não se po- território, ainda que rico e vasto e, por isso mesmo, ainda pou-
de ver o pensamento da vida e a vontade da história, que, na re- co adiantado, sentir-se-á mais impelido a resolver o problema
alidade, guiam o homem, ainda quando ele se julgue dirigente pelas lutas de classes, disputando as riquezas já produzidas.
autônomo. Quem se limitar à visão e realização imediatas pode- Um outro país, rico de história, de temperamento e clima dife-
rá certamente atingir os seus fins próximos, mas não poderá sa- rentes, jovem e dinâmico, cheio de recursos próprios e alheios,
ber que realizações mais distantes alcançará. A elas chegará, será levado a encarar o método precedente como um contras-
embora não queira e não saiba. Acenamos acima para onde, senso e achar muito mais conveniente resolver o mesmo pro-
muito provavelmente, levarão as tendências sociais modernas. blema por meio de uma maior produção de riqueza para todos,
Em política, o homem prático age num outro plano. A im- relegando a um segundo plano a questão de sua distribuição
parcialidade e a universalidade para ele não têm sentido. No en- mais ou menos justa ou do nivelamento econômico. As nações
tanto o tem, bem acentuado, o enquadramento dos próprios in- não comunistas podem proclamar que elas acham mais conve-
teresses em um dado partido, com exclusão dos outros e contra niente resolver o problema deste modo e que assim o resol-
os outros. Sua psicologia de ação se reduz, pois, a uma psicolo- vem. Desse modo, sem luta de classe, o regime capitalista po-
gia de luta e ao exercício desta. De posições que correspondem de ser meio de uma abundância geral para superar as desigual-
apenas a um relativo que lhe é próprio, particular e transitório, dades distributivas, enquanto que o regime comunista, mesmo
faz um absoluto. O problema social e político se transforma en- distribuindo com justiça, deixa todos na miséria. Por que então
tão em problema particular, isolado, limitado, jamais fundido perder tempo em uma luta intestina de classe, com todas as su-
com o problema universal, do qual ele mesmo depende. Surgem as consequências destrutivas e corrosivas, quando o fim se po-
desta forma, nos primeiros planos, as questões secundárias, de mais facilmente atingir mercê de uma produção mais au-
perdendo-se de vista os projetos de ação mais vastos, justamen- mentada, que é capaz de elevar o nível econômico de todos de
te nos quais opera a mais vasta inteligência da vida. É assim modo a contentar a cada um? Ao invés de lutar contra o seme-
que nos engolfamos em uma técnica de pura batalha. lhante, possuído de ódio, por que não lutar apenas contra as
Desta forma, o comunismo, que se justifica com a injustiça forças da natureza para dominá-las? O problema não é distri-
social, procura-a e amplia-a, para também justificar a sua inter- buir, mas sim produzir. Só assim se pode verdadeiramente me-
venção. Cessa, desta forma, esta ideologia de justiça, dado que lhorar as próprias condições. Não é preferível um sistema de
prospera melhor na desagregação social, que ele incentiva para bem-estar geral, que exista para todos, ainda que desigualmen-
se servir dela. E, assim, uma ideologia de ordem e justiça come- te distribuído, a um sistema de igualdade na miséria?
ça a agir como desordem e injustiça. Mas decorre daí um fato Por aí se vê quanto é difícil o transplante de ideologia feita
estranho. As nações capitalistas, para impedir o crescimento do para um país e outros climas, difícil de aplicar a outras realida-
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 11
des biológicas, que naturalmente reagem. O que pode ser ver- se de todas as vantagens materiais e igualmente dos vícios das
dadeiro junto a um povo pode parecer absurdo a um outro que classes superiores, mas não se preocupa com os deveres, educa-
possui qualidades muito diferentes. Como mandar um urso po- ção e encargos inerentes a esses níveis. Daí decorre um rebai-
lar para o Equador? Ou morre ou se transforma. A vida, com as xamento geral do nível de vida a plano inferiores. Erigirem co-
suas férreas exigências, impõe adaptações dentro de férreos li- mo modelo o homem da rua, o camponês, o operário, significa
mites de tolerância. Por este motivo, como dissemos, o comu- um nivelamento também espiritual e está em correspondência
nismo, se quiser ganhar o mundo, deve desnacionalizar-se, com o atual materialismo, com a psicologia do ventre, própria
adaptar-se e transformar-se, porque existem leis biológicas que do tipo menos evoluído, assim como com a tendência destruido-
nenhuma força pode mudar. O resultado final da realização da ra atualmente em ação em todos os campos mais elevados da
ideologia não sabemos a que distância está do ponto de partida, mente e do coração. O problema é muito vasto. Hoje, nos encon-
porque, para atingi-lo, a ideologia originária deve defrontar-se tramos em fase universal de nivelamento, que não é apenas eco-
com as leis e com a vontade da vida, que a amoldarão inexora- nômico. É natural que os extratos inferiores da sociedade huma-
velmente às próprias exigências, e, se, por ventura, não se qui- na, despertando, nivelando-se e afirmando-se, carreguem consi-
ser dobrar, será despedaçada. Já dissemos que o pensamento da go aos primeiros planos todas as características do involuído.
vida é bem diverso do pensamento dos homens. É aquele, e não O princípio igualitário não interessa apenas ao mundo eco-
este, o verdadeiro pensamento que necessita ser lido para que nômico, mas é fenômeno que investe sobre todas as manifesta-
se possa compreender os fenômenos sociais. Existem princípios ções da vida, mesmo aquelas que não lhes dizem respeito. Pu-
universais mais profundos, que o indivíduo, imerso nos seus seram-se em movimento para sentir a vida todas as células so-
problemas particulares, não vê e que, entretanto, atuam. É, pois, ciais, mesmo aquelas adormecidas em expectação. É certamen-
natural que no mundo imperem motivos diversos, repetidos no te um fermento de vida extenso, mas rude, primordial. Desta
fragor das armas, mas que, embora guerreando, colaboram to- maneira, na quadra atual, cada vez mais decai a raça do indiví-
dos para os mesmos fins evolutivos da vida. duo evoluído selecionado, porque uma emergente maré de vida
Momentaneamente, pondo-nos do lado do capitalismo, po- inferior se impõe, conquista todo o espaço e submerge qual-
demos indagar se a desigualdade econômica, contra a qual só quer superelevação biológica.
hoje a psicologia coletiva se insurge em massa, foi historica- Tal é o momento histórico, do qual o comunismo não é
mente considerada uma injustiça. Se ela existiu, se a vida lhe senão um aspecto no plano econômico-político. Em seu âmbito,
permitiu existir, isto significa que deve ter cumprido uma fun- o nivelamento talvez satisfaça o sentimento de inveja dos me-
ção que hoje teria desaparecido, não se sabendo qual será o seu nos abastados, mas é indubitável que a nossa época deverá pa-
substituto. Só hoje a vida, em um momento excepcional, deci- gar esta conquista com um rebaixamento do tipo mais elevado
diu o progresso das massas humanas em bloco. Antes, com a de civilização. Porém este tipo era de poucos, e o nivelamento
sua habitual parcimônia, ela permitiu o avanço apenas de gru- agora é de todos, e, por isso, faltar-nos-ão modelos elevados, a
pos limitados, que formavam as aristocracias. Este sistema não ser o da mediocridade. Teremos um estado de semicultura,
persistia, ainda que se lhe mudassem os componentes, porque de semirriqueza, de semieducação e finura, mas igual para to-
estava adequado à função de criar modelos de civilização mais dos. É verdade que, na alma do pobre que sonha, o comunismo
avançados, formas de existências mais refinadas, de modo que é bem diverso de um ideal de justiça social, ou pelo menos essa
os menos abastados, a seguir, pudessem por sua vez, imitando- justiça deveria ser, no seu modo de ver, uma substituição por
os, ascender. Estas formas mais adiantadas, quer em razão do sua pessoa nas posições de favor de pessoas dos velhos esque-
meio, quer pelo preparo educativo, não podiam se alcançadas mas sociais. E, assim, ele está pronto a aceitar o comunismo
pelo grosso das massas e se tornavam assim, necessariamente, somente enquanto houver o que ganhar e, se, por ventura, tiver
limitadas a uma classe de reduzido número de pessoas. Estas que resignar-se a uma paridade econômica, só admiti-la-á no
possuíam uma função educadora e diretora, representando uma caso em que signifique para ele uma melhora. Com o que ele
antecipação ou modelo. A Europa admirou, desta maneira, as verdadeiramente sonha é o desnivelamento de antes, mas em
loucuras luxuosas de Luís XIV, que constituíram depois o mo- seu favor. Contudo esta possibilidade de emergir, distinguindo-
delo para a civilização aristocrática do século XVIII e, exauri- se da plebe, está definitivamente eliminada da atual fase histó-
da a sua função, justificaram o assalto demolidor da Revolução rica, mesmo para a plebe. Esta, no igualamento, terá o gosto de
Francesa. A mesma plebe que se sentiu honrada e se extasiava não ver mais diante dos olhos esta exibição de riqueza; não terá
quando era admitida a contemplar a opulência daquela corte ao menos quem e o que invejar; não poderá mais admirar, ainda
nos banquetes reais, nos jardins etc., um século depois consi- que seja invejando, as cenas de que ela mesma sempre foi tão
derava tudo isso um escandaloso insulto. ávida. No entanto poderia ser-lhe útil explorar alguns dos as-
A vida, que se expressa através das pessoas, utilizou o ego- pectos da riqueza que lhe foge, percorrer as experiências das
ísmo da classe aristocrática enquanto esta lhe servia para criar classes refinadas, que conhecem também outras formas de dor,
um modelo. Mas, quando esta classe, egoisticamente pretendeu que a justiça da vida mantém distanciadas daqueles que já se
monopolizá-la para seu usufruto exclusivo, a própria vida se in- encontram abundantemente gravados com a dor da pobreza.
surgiu e, manifestando-se através de todos os que haviam sido Em face destas mais profundas realidades da vida, todos os
excluídos, lançou-se contra os monopolizadores. A vida é por si nossos nomes de partido e de governo passam para segunda
mesma coletivista e não admite injustas exclusões. Então ela plano, e parece até inútil amofinar-se com as distinções atrás
grita pela boca dos deserdados: “também nós!”. das quais, sob a forma especiosa de palavras novas, esconde-se
O erro humano que a vida pune e que, para não ser pago, o velho homem de sempre. Então se desce ao terreno da luta,
deve ser evitado está inteiramente no egoísmo e no monopólio. onde é inútil procurar a verdade. Esta situa-se alhures, nas leis
A moral está em que, segundo o verdadeiro coletivismo, que é da vida. E, por esta, as diferenças individuais existem e persis-
o da vida, todos devemos ser irmãos. tem e, como tais, voltarão a manifestar-se. Nenhum nivelamen-
Hoje, com a igualdade, obteremos certamente a justiça soci- to econômico poderá impedir ao mais inteligente e voluntarioso
al, mas também o nivelamento de toda distinção e refinamento, de aparecer, e ao mais obtuso e preguiçoso de ter que se subme-
perdendo completamente o modelo do senhor que, se era rico, ter a ele. A distância entre servos e senhores corresponde a uma
também deveria ser educado, culto e bondoso, pelo menos em realidade biológica e está sempre pronta a reconstituir-se, até na
teoria. Teoria hoje perdida, embora justamente, mas perdida, sua manifestação exterior de posições sociais diferentes. Ne-
porque traída pelas classes altas. O povo está pronto a apropriar- nhuma disciplina de estado pode alterar estas posições substan-
12 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
ciais. Nos indivíduos, como nos grupos, o mais forte se torna os homens de ação, que são necessários, mas não nos deixe-
sempre centro, em torno do qual, como planetas, os mais fracos mos empolgar demasiado pela sua miragem. Atentemos para a
gravitam, seguindo a lei e a ordem que ele lhes quiser impor. vida, que é a única que não mente e pode inspirar-nos confian-
O movimento da vida hoje é o mesmo já realizado no pas- ça. Ela, dividindo o mundo entre capitalismo e comunismo,
sado: a ascensão das classes sociais inferiores. O nivelamento não faz mais do que aplicar o seu universal princípio de duali-
não tem outro sentido. Verificar-se-á uma retração das distân- dade. Nós sabemos que o dualismo é a base do monismo, por-
cias, sobretudo formais, mas as diferenças são insuprimíveis. A que cada unidade que existe é o resultado de duas metades in-
plebe ainda agora é menos evoluída do que os chefes, consti- versas e complementares. Essas duas metades são hoje no
tuindo campo de luta favorável aos dominadores, que continua- mundo: capitalismo e comunismo. Estes formam, por conse-
rão a instruir as massas sempre com novos truques, pois, na guinte, uma unidade. Eles representam a forma atual dos equi-
verdade, cada povo possui os dirigentes que merece e que pode líbrios da vida. Isto é, as duas metades são, como sempre e em
compreender. Desta maneira, as massas aprenderão melhor a toda a parte, equilibradas, tal como o positivo e o negativo em
pensar e, de desilusão em desilusão, sofrendo duramente de ca- todas as coisas, como os dois polos do circuito elétrico ou os
da vez, irão formando, como é natural, à própria custa, a cons- dois termos do sexo. Assim como a história possui os seus pe-
ciência coletiva. Assim, a vida consegue permanentemente, ríodos românticos e clássicos e a política as suas formas de
através da luta, os seus objetivos evolutivos. Como se vê, a ten- democracia e totalitarismo, assim também devem ser encara-
dência destruidora universal do presente não passa de uma fase. dos capitalismo e comunismo. O primeiro é produtor, logo ar-
Em biologia, a destruição tem sempre uma função renovadora. mazenador e conservador, estribando-se na riqueza e no bem-
A substância de todos estes movimentos é a luta biológica, estar material. O segundo é revolucionário, logo expansionista
em que cada um se comporta segundo a própria natureza. Toda e guerreiro, baseando-se na conquista e na ideia. Eles lutam
ideologia tem de se ajustar sempre aos insuprimíveis instintos hoje como o macho e a fêmea no amor, acreditando, como es-
que fazem o homem agir, e, entre estes instintos, são fundamen- tes, poder impor o seu próprio eu para sua exclusiva vitória.
tais o de posse e propriedade, meios poderosos que o ajudam a Mas o terceiro elemento, o filho, que nascerá desse encontro,
subir. O verdadeiro comunismo presumiria o homem angelical, não será exatamente nem um nem outro, pois, ainda que se
desinteressado, altruísta, disposto a renunciar às próprias vanta- lhes assemelhe, será apenas ele. E o que será mais necessário
gens individuais em benefício de todos. para a sua gênese: o macho ou a fêmea? A vida age sempre,
Existem hoje exemplares de tal homem? E, se existem, po- em toda a parte, com os mesmos princípios.
derão sobreviver no mundo atual? Então, como podem subsis- Antigamente, pobres e ricos viviam na mesma cidade. Hoje,
tir tais qualidades? Com o espírito de grupo e o interesse de esta cidade é o mundo, e como todos os pobres se uniram, o
partido? Mas, assim, da ideologia não estará em atividade se- mesmo fizeram os ricos. Assim, o mundo se dividiu em dois. A
não a habitual e antiga luta pelo domínio, a união para gerar a Rússia, que é pobre, fez-se mãe de todos os pobres e está abra-
força. Esta culpa não cabe ao comunismo ou ao capitalismo, çando a China, que também é pobre, em uma ideologia que jus-
mas ao próprio homem, que, em toda a parte, é sempre o mes- tifique a todos. A América, que é rica, fez-se mãe dos ricos e
mo. Na verdade, a meta é o evangelho e a sua justiça. Mas, da- está abraçando a Europa, que até ontem pertencia à casta dos ri-
do o que o homem ainda é hoje, mais avançada aproximação cos. Se, no passado, todo pobre pedia esmola ou pretendia ex-
em massa não se pode obter presentemente. Tudo sucede em torqui-la ao rico à força, cada um cuidando de si mesmo, sem
virtude de uma razão profunda e colima num objetivo na vida, pensar em outro pobre, e cada rico dava isoladamente, hoje, em
e este ainda está muito distante para que os homens da atuali- consequência da atuação do princípio das grandes unidades, o
dade o percebam. Amanhã, a fase atual de capitalismo e co- mesmo gesto, de uma parte ou de outra, é repetido em grandes
munismo estará superada. Sem dúvida nenhuma, a consciência massas. Hoje, não é mais um pobre ou um grupo deles, mas é
coletiva foi despertada e as massas sentem com maior clareza a uma metade do mundo que pede e impõe justiça econômica à
voz da vida. Os erros serão pagos e, na dor, serão corrigidos. outra metade. A realização do princípio das grandes unidades a
Deste modo, por eliminação, sobreviverá apenas o melhor, que que o progresso nos conduziu nos faz alcançar a unificação em
passou pela seleção das provas. todos os campos, começando pelo econômico.
Todos os movimentos hodiernos, ainda que em parte nau-
fraguem, possuem uma grande função como escola e prova. IV. A UNIDADE POLÍTICA
Começará a formar-se um egoísmo de classe que é mais vasto
que as unidades psicológicas que se haviam formado no pas- Nos capítulos precedentes, observamos o principio da unifi-
sado. Tudo que arvora-se em coordenação e unificação é uma cação e a sua presente atuação no mundo, que representa a fase
forma de progresso. A estruturação da organização de classe atual do seu progresso. Trata-se da coordenação de múltiplos
levará a um sentido de unidade por parte de células que ainda elementos antes heterogêneos em novas unidades-sínteses, o
não se conheciam. A coordenação dos egoísmos de classe em que significa uma ascensão na hierarquia do ser, dado que este
mais amplos egoísmos de povos e humanidade levará a novo é um momento da reordenação progressiva do caos, através da
progresso. Já vimos, no volume A Nova Civilização do Ter- qual tudo tende a voltar para Deus. Qualquer que seja a atitude
ceiro Milênio, os métodos de aquisição do involuído. Ele é le- que o homem queira presentemente assumir, no bem ou no mal,
vado a considerar “legitimamente seu” qualquer coisa em que, o fato novo que exprime o progresso atual é que tudo hoje co-
de alguma forma, tenha arriscado a pôr as mãos. As atuais meça a suceder em escala sempre crescente, em razão do ho-
macerações sociais levam-no, pelo amadurecimento, a conce- mens abranger distâncias cada vez maiores, agrupando-se, con-
ber uma propriedade cada vez menos egoísta e exclusivista, sequentemente, em unidades mais amplas.
cada vez mais coletiva e social, até à sua negação no comu- Falando em A Grande Síntese (Cap. XXVII) da lei das uni-
nismo. Esta é uma maneira de conduzir o involuído à concep- dades coletivas, simplesmente constatamos esta estrutura analí-
ção que o evoluído possui de propriedade, que, em outra par- tico-sintética, isto é, coletivista, através de reagrupamentos or-
te, veremos ser muito diferente. gânicos no universo. Aqui, estamos observando alguns casos
Muitos são hoje os modos pelos quais a vida procura eclo- particulares situados no campo social da presente fase histórica,
dir das suas velhas formas. Não nos resta mais que confiar na analisando algumas unidades coletivas, sobretudo no seu pro-
sua sabedoria e nos limitarmos a segui-la, lendo-lhe o pensa- cesso de formação, ou seja, não em seu aspecto estático, mas
mento, que se inscreveu nos eventos da história. Respeitemos sim no dinâmico de sua transformação.
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 13
No capítulo anterior, verificamos assim o fenômeno hodi- Em nosso século de movimento e velocidade, assistimos a
erno das grandes unificações mundiais na fase de interesses um contínuo desmoronar de barreiras. As paredes divisórias,
econômicos. erguidas pela ignorância humana, por mais que resistam, vão
Passamos agora a observar o mesmo fenômeno no campo sendo paulatinamente demolidas. No campo político, revela-se
político e, finalmente, o veremos no religioso. No estudo des- absurda e ofensiva para os excluídos a ideia de uma absoluta
tes casos particulares de unificação, encontramos também uma superioridade racial, como o é também a de uma absoluta supe-
explicação e uma confirmação do monismo que sempre nos rioridade individual. Tanto mais perniciosa é semelhante ideia
guiou nesta obra. Por este estudo, o leitor verá que todos os quanto mais ela tende à escravização e ao extermínio de outras
problemas são sempre orientados para o mesmo princípio uni- raças ou povos. Toda raça possui qualidades que não se forma-
versal. Mesmo agora, partiremos utilizando um ponto de refe- ram ao acaso e que têm uma função coletiva. Cada povo pode
rência de caráter universal. oferecer uma contribuição útil à formação do novo organismo
A criação não é o resultado da intervenção exterior por parte da humanidade. E, se existe uma raça mais evoluída, esta tem,
de um princípio transcendente que do nada cria tudo de uma vez. por isso mesmo, o dever de educar e fazer evoluir, e jamais o
A realidade fenomênica nos mostra universalmente que a criação direito de esmagar e desfrutar.
é o resultado de uma contínua e íntima atividade de um princípio A mentalidade moderna, especialmente depois das últimas
imanente, cuja faculdade criadora deriva do fato de dispor de um experiências bélicas, é impelida a fazer a crítica do velho con-
modo permanentemente novo e diverso de formas transitórias e ceito de nacionalidade, que dividiu e prejudicou o mundo por
caducas, numa substância que é indestrutível. O que muda e se milênios. Então interroga: que interesse tem alguém em matar,
acaba é apenas a forma. Somente ela nasce do nada, e não a subs- por motivos de estratégia política, homens que não conhece?
tância. Esta é envolvida por uma cadeia de contínua composição Em face de qualquer afirmativa, o espírito crítico moderno vai
e decomposição, segundo modelos diferentes. Tudo se individua- espiar por trás dos cenários, dando origem então à dúvida de
liza em tipos definidos e, compondo-se, passa a existir. Depois que as exaltações heroicas, as honorificências bélicas, podem
desintegra-se, para recompor-se de novo, em uma existência mais ser criações artificiais dos governos ou classes sociais, a servi-
completa e perfeita, consoante a marcha da evolução. Através ço dos seus objetivos egoísticos, e que, efetivamente, não inte-
deste florir e fenecer para reflorir, nascer e morrer para renascer, ressa aos povos, conduzidos assim ao massacre, para vantagem
a vida avança – movimento que, se é esforço e parece instabili- de alguns. O racionalismo moderno abalou a confiança simples
dade, é porém meio de inexauríveis conquistas. Por isso é certo de antanho. Os últimos desmoronamentos de grandes potências
que quem toma por realidade definitiva a forma transitória e a ela e os rápidos transtornos que sofreram as pregações e os ideais,
se fixa, abraça apenas uma aparência e se perde na ilusão. Isto puseram à mostra o desgaste de muitos políticos que em geral,
não acontece a quem se fixa na substância. antes, se mantinham ocultos. O lamentável aspecto dos gover-
Dito isto, vejamos sua aplicação. A nova era, na qual o nos desnudados desacreditava a ideia de Estado. A proclama-
mundo está para entrar, não é uma criação nova do nada, mas ção feita aos quatro ventos dos abusos praticados pelos diri-
somente uma forma diversa e mais elevada de vida, em que os gentes soou aos ouvidos do cidadão, inimigo natural de seu pa-
elementos individuais e sociais da humanidade, hoje existen- trão estatal, não mais como uma reivindicação de justiça, mas
tes, serão dispostos diversamente, isto é, mais harmônica e or- como uma simples acusação pública contra toda autoridade,
ganicamente, com maior amplitude e profundeza de fusão, razão e justificativa de desordem e consequente incentivo à re-
através da supressão de tantos atritos dolorosos, de modo a belião. Degringolou assim o prestígio da autoridade em si
tornar possível a formação de uma individualidade biológica mesmo, personificada em quem quer que fosse. O homem, tor-
coletiva mais harmônica, extensa, complexa e perfeita, ou seja, nado mais astuto e suspicaz pela constatação de tantos enga-
uma civilização mais avançada. nos, começa a compreender os truques de todos os governos,
Há milênios que os indivíduos sofrem uma elaboração den- de todos os programas, de todos os partidos, e sabe agora por
tro dos mais variados acontecimentos históricos, que de modo que método a imprensa fabrica a opinião pública e, em meio a
nenhum se podem repetir igualmente. Ainda não existe a com- tantos mestres, aprendeu a desconfiar de todos. O homem de
preensão, mas há a possibilidade de se alcançá-la. Indiscuti- vida privada quer os seus negócios, a sua paz. Os povos estão
velmente, o homem é, na maioria dos casos, um involuído. cansados de guerra. Eles não admitem hoje senão uma guerra:
Mas dois fatos novos surgiram: a extensão das suas faculdades a guerra contra aqueles que pretendam desencadear novas
racionais, mercê da ciência e da cultura, e o progresso tecnoló- guerras. Por este motivo, quem deseja fazer a guerra desempe-
gico, que libertou o homem do trabalho material e lhe facultou nha antes o papel inocente do agredido, proclamando ao mes-
fáceis e rápidos meios mundiais de comunicação. Formou-se, mo tempo que é o defensor da paz.
pois, na humanidade, a capacidade e o meio para que ela se No entanto murmura-se: o pacifismo abre as portas ao inimi-
sinta em qualquer dos seus pontos. Não existe ainda o senso da go. É verdade, mas o atual transtorno e relatividade de frontei-
organicidade, mas as suas premissas já estão plantadas. O ras, com os meios aéreos que as podem superar e com a moder-
mundo está maduro para começar a compreender e movimen- na tendência a grandes unidades mundiais, faz tal frase perder
tar a ideia nova de unidade. dia a dia sua significação. A guerra se faz, cada vez mais, com
A velha mãe Europa completou grande parte da sua tarefa, capitais e indústrias e, cada vez menos, com patriotismo e espíri-
irradiando a própria civilização para as duas Américas, as suas to heroico; cada vez mais, com a capacidade técnica e, cada vez
duas filhas, a latina e a anglo-saxônica, nas quais se expandi- menos, com o valor militar. Por isso tem mais ação protetora pa-
ram e revivem as duas grandes raças europeias. O mundo está ra o povo o senso orgânico industrial do que o sentimento béli-
dividido hoje entre as duas únicas grandes potências: Rússia e co. O mundo se transforma, caminha para a fase orgânica coleti-
América. De qualquer maneira, deverão defrontar-se e decidir a va. Ora, o coletivismo é, pela própria natureza, colaboracionista,
supremacia mundial, alcançada a qual, tudo girará em torno de antiagressivo e pacifista. Pelas suas naturais destruições, a guer-
um único centro, aquele que demonstrar como potência, justiça ra encaminha-se para destruir a si mesma. A técnica torná-la-á
e inteligência, ser o melhor. Somente a formação de um único tão destruidora, que o mundo entrará em coalizão, em autodefe-
governo central poderá estabelecer uma ordem que isole e eli- sa, contra quem quiser recorrer a ela. E, assim, o espírito belico-
mine a violência bélica dos Estados separados. Os idealismos so de virtude se transformará em culpa. Tudo isto, hoje, pode
antibélicos podem exprimir um desejo e preparar o terreno para parecer desmoralização, mas, com a evolução, as necessidades e
a paz, mas não são por si sós suficientes para eliminar a guerra. os valores éticos sociais mudam. A vida avança e abandona os
14 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
valores que não mais a servem. O que servia em um mundo de Compreensão não significa sujeição do superior ao inferior e,
paz temporária, permitida por um equilíbrio instável entre tantas muito menos, do inferior ao superior, mas coordenação, segun-
nacionalidades distintas e rivais, não serve mais para um mundo do o valor intrínseco e peso específico de cada unidade, para a
que gravita em torno do único poder central, para um mundo or- formação de um todo orgânico e único. Cada religião na sua
gânico, ligado assim ao pacifismo. Os meios técnicos conquista- justa posição, consoante à sua elevação espiritual. Há lugar,
dos, assim como emancipam o homem dos esforços animais, pois, para os budistas, maometanos, hebreus e cristãos de todos
também o levam a aplicar as suas energias em lutas mais eleva- gêneros, inclusive os católicos. Há lugar para cada religião, pa-
das, para servir a uma seleção espiritual, e não material. ra cada seita que supere o espírito sectário, para cada forma de
O patriotismo, sentimento tão fundamental no passado, pa- fé, filosófica ou científica, contanto que seja livre e que tenha
ra a defesa nacional, ressente-se da mutação condicional da vi- tendência sincera para o espírito e para o divino.
da e se transforma. Ao invés de surgir como exaltação heroica, Também isto pode parecer desmoralização. Mas tantas sub-
ele se nos revela em outros aspectos, que lhe são peculiares, divisões humanas do mesmo sentimento de adoração a Deus,
em conexão com sentimentos de intolerância, rivalidade, com as quais acredita-se ciosamente conservar a fé, são mais
agressividade, guerra e destruição. Cada um desses sentimen- questões de forma do que de substância e atingirão a unidade
tos encadeia-se com outro, numa sequência de raízes profun- quando souberem superar a forma, atendo-se precipuamente à
das. A elevação do nível de vida e a progressiva evolução do substância. Dê-se à forma o valor que merece e não mais. Quan-
ser humano o tornaram mais sensível a tudo, especialmente em tos delitos se cometeram por ela, quantos massacres se fizeram
face da destruição, cujas dores se tornam cada vez mais insu- em nome do mesmo Deus, que a cada qual parecia tão diverso,
portáveis. Se o patriotismo é belo dentro dos limites pátrios, no sendo sempre o mesmo. É evidente que tudo quanto divide é sa-
exterior constitui uma ameaça, e a cada exaltação patriótica in- tânico. Os caminhos de Deus, que são amor, conduzem à unida-
terior corresponde uma recrudescência de ódios nos países vi- de. O espírito egocêntrico e sectário é uma expressão do mal. O
zinhos. Estes isolamentos egocêntricos se tornam gradativa- espírito de compreensão, altruísta, é expressão do bem. Em to-
mente mais absurdos em um mundo tão intercomunicante nos das as igrejas se adora Deus, e trata-se do mesmo Deus. No en-
seus interesses e relações de qualquer gênero. tanto queremos dividir-nos com a pretensão de definir o indefi-
Hoje, sentimos o peso das barreiras a que nos sujeitávamos nível infinito, de conceber o inconcebível, de dar no relativo
no passado, resignados como a um fato inevitável. Tem-se sede uma forma àquilo que, podendo assumi-las todas, está acima de
como nunca de liberdade, de uma liberdade mais ampla que a qualquer forma! Se a verdade absoluta é uma só e jamais muda,
precedente, de mais espaço, porque, de criança, o mundo trans- é natural que, no relativo humano, não possa caber senão uma
formou-se em adulto. Como nunca, hoje o homem sente que a verdade relativa, limitada e em evolução. É natural que a capa-
vida é tanto mais bela quanto mais livre. A intensificação do cidade humana de compreensão não possa abarcar a verdade ab-
dinamismo moderno e dos meios de movimentação que satisfa- soluta, que está além de toda a inteligência humana e que, pois,
zem a este dinamismo exige liberdade. E uma liberdade maior a esta verdade não se pode subir senão por graus, por aproxima-
não se pode obter senão com uma tolerância e compreensão ções sucessivas. Na livre atmosfera espiritual do universo, todo
proporcionalmente maiores. Do princípio de que é grande quem isolamento fechado de uma verdade particular é estiolamento e
ama apenas a própria pátria, odiando todas as outras, chegar-se- morte. Cada profeta, cada fundador de religião, levou a sua
á ao de que é grande quem ama ao próximo como a si mesmo. mensagem do mesmo Deus, em formas diversas, adaptadas ao
Aquilo que, perante a velha mentalidade, parece desmoraliza- homem e proporcionada aos tempos. Não confundamos a forma
ção é, pelo contrário, uma queda de barreiras. O patriotismo do com a sua essência. As diversas mensagens de Deus não são
futuro abraçará todo o mundo, e um homem não será cidadão verdades diferentes e inimigas, mas sim as formas sucessivas
senão da nação humanidade. O tipo biológico do futuro, senhor com as quais se exprime a palavra de Deus aos homens em um
do planeta, o vencedor da luta pela vida nas suas novas formas, mesmo progressivo plano de educação.
não será o homem belicoso, violento e feroz de antanho, mas Não basta a tolerância, que é atitude passiva. É necessário
um ser orgânico, “o homem social”, célula de um imenso orga- alcançar a compreensão, isto é, a fraternidade entre as várias re-
nismo humano, cuja vida nada mais terá a ganhar com a extor- ligiões. Não se trata de suportar um inimigo tolerando-lhe o erro
são do indivíduo pelo indivíduo praticada até agora, mas base- com um tácito espírito de condenação, trata-se sim de ir ao en-
ar-se-á no desfrutamento das inexauríveis riquezas e energias contro de todas as formas de fé, de coração aberto, procurando,
que transbordam da natureza. mais do que aquilo que as divide, aquilo que as pode unir. É ne-
cessário compreender que elas não são mais que diferentes está-
V. A UNIDADE RELIGIOSA gios históricos, fases evolutivas ou formas étnicas de uma mes-
ma religião única, que evolve paulatinamente e se completa de
O mundo atual não caminha apenas no sentido da unidade período em período. Por que deve o adulto ser inimigo do jovem
política internacional em que está implícita, numa relação de ou da criança; o fruto, inimigo da flor ou do botão ou da semen-
causa e efeito, a unidade econômica, mas avança também para a te, se é sempre o mesmo eu que marcha no tempo, evoluindo? A
unidade religiosa. Neste campo, igualmente tão importante co- atual mania separatista no campo espiritual torna-se dia a dia
mo o político e econômico, lavra uma tendência, em meio a mais ilógica e prejudicial. As barreiras que dividem o mundo
tantos grupos distintos e hostis, à unidade, isto é, à formação de são ainda grandes, mas, na época atual, elas deverão desmoro-
um só rebanho, com um só pastor, mas é necessário frisar que nar. A luta entre as religiões esteve até agora unida à luta racial,
isto, assim como para as raças e nações, não se deve interpretar política, econômica e nacional. É evidente que, conseguindo-se
como supremacia de uma religião e seus representantes, com a unificação nesses últimos campos, deve-se conseguir a unifi-
exclusão das outras religiões e seus representantes. Assim como cação também no campo religioso. Visto que a realidade funda-
a futura humanidade será uma unidade racial e nacional acima mental das religiões é uma só e a mesma e que a luta religiosa é
das diferentes unidades raciais e nacionais, a religião do futuro frequentemente a expressão de rivalidade de outro gênero, é cer-
também será uma unidade espiritual acima das diferentes uni- to que, desaparecendo esta, a tendência à unidade em todo cam-
dades religiosas. Em outros termos, da mesma forma que no po acarretará a fraternidade também no campo religioso. Esta
campo político, social e econômico, a unidade no campo religi- fraternidade fará com que o mais evoluído compreenda e ajude o
oso também não pode ser dada senão pela compreensão e fusão menos evoluído, ao invés de condená-lo e combatê-lo. Não é
em um todo harmônico das verdades religiosas existentes. nociva a disputa de interpretação quando acarreta cisão e ódios?
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 15
Não é a essência da religião a união, a fraternidade, a aproxima- cido. Elas avançam com a psicologia dominante. Ideias que, há
ção de Deus, amando o próximo? A mais profunda erudição, poucos anos, pareciam heresias, como o conceito de evolução,
sem o ardor de sacrifício e de fé, é puro farisaísmo. É evidente, hoje são admitidas. Assim será também amanhã para estas pá-
já o dissemos, que em nosso tempo assistimos a um desmoro- ginas. Deixemos que, no homem, o finito caminhe gradativa-
namento de barreiras em todos os campos. O instinto expansio- mente para o infinito, pois que jamais o atingirá. Deixemos que
nista, sempre fundamental e ativo na vida, jamais atirou como o homem faça de Deus a representação admissível pelo seu po-
agora uns nos braços dos outros, ainda que o seja por instinto de der de concepção. Tudo quanto ele disser de Deus jamais será
violência bélica e num amplexo de ódio. Não importa. Os fins Deus, mas a Sua limitação para uso humano. A essência da di-
da unificação em um mundo involuído se manifestam sobretudo vina realidade é para nós inconcebível, e qualquer especulação
em forma de luta, que é a primeira fase do avizinhamento. A vi- filosófica e teológica não pode nos dar dela mais do que uma
da é sempre expansionista em qualquer nível, desde as invasões longínqua aproximação. O homem não pode ver Deus senão em
bárbaras, que reduzem os povos à servidão, aos imperialismos Seus espelhos. Passam pela Terra seres como o poeta, o gênio,
políticos e econômicos, até mesmo na ordem evangélica, que o santo, o herói; tão avançados, que neles podemos ver um re-
diz: “Ide e pregai a toda a gente”. Tudo tende sempre a dilatar-se flexo de Deus; alguns tão perfeitos, que nos aparecem como
e, por conseguinte, à unidade. semelhantes a Deus. Se a essência divina não é cognoscível, as
No campo religioso ocidental, esta dilatação não pode ser manifestações da Sua qualidade são visíveis por toda a parte, e
realizada pela segregação dos dissidentes, mas sim por uma ex- nada existe que não nos fale d'Ele. Então poderemos vê-Lo em
pansão além de sua forma atual. É necessário encontrar, para lá todo rosto e forma, amá-Lo em toda criatura, encontrá-Lo em
do Cristo chefe de uma única religião, o Cristo universal cone- toda parte. Então compreenderemos que Deus não se atinge se-
xo a todos, no qual se pode, assim, concentrar o consenso de não amando o próximo e que, se agredirmos e detestarmos,
todos os justos que seguem os princípios do evangelho, ainda ainda que seja em nome de uma fé, estamos nos distanciando
que formalmente se filiem a outros ritos e hierarquias. Uma d'Ele. Acima das diferentes formas religiosas está, pois, a subs-
verdadeira expansão não se pode verificar a não ser neste senti- tância da verdadeira religião de Deus, que só pode ser única.
do, porque é o único que não gera reações naturais de defesa. Hoje, vivemos ainda em um mundo de cisões. Não se pode
Os obstáculos nascem do que é material e terreno. As cisões re- dar um passo sem tropeçar numa parede divisória. Nenhuma fé
ligiosas nasceram, com frequência, das rivalidades nacionais e verdadeira pode existir com o espírito sectário de domínio, no
raciais. Quando a ideia assume forma concreta de homens, hie- entanto é este que se encontra em todos campos. É o mesmo
rarquias e interesses terrenos, entra-se no campo biológico, com espírito humano de luta e exclusivismo que impera. Deus, o
seus absolutos antagonismos. Quanto mais a religião assumir bem e o justo estão sempre desse lado; Satanás, o mal e a culpa
forma material, tanto mais ressentir-se-á das lutas que dominam estão sempre no lado oposto. É sempre o homem agindo por si
a vida terrena e delas dependerá. Se esta pode ter sido uma dura mesmo, e não fazendo-se instrumento de Deus. Os métodos de
necessidade do passado, pela qual a religião, o poder temporal, Deus são opostos: aqueles que o seguem, praticam antes de
a força e a guerra tiveram que misturar-se, é também verdade pregar; convencem com o amor e com o exemplo antes de
que tudo evolui e que, com o tempo, tudo se espiritualiza. constranger com as argumentações, ameaças de sanções e de
Quanto menos a ideia penetrar no árduo terreno biológico, tanto condenações morais. A guerra santa é uma contradição. Matar é
mais independente ela se torna de todas as limitações que daí sempre um delito, mesmo que se cumpra em nome de Deus. A
derivam e tanto mais possível se lhe torna a expansão e a con- guerra religiosa não se faz com a espada, mas com o exemplo e
sequente unificação, que estão a serviço da espiritualização. o martírio. Jamais puderam as perseguições sufocar a verdade,
Tal é o processo evolutivo das religiões, que, nas suas for- tornando-se, pelo contrário, instrumento de divulgação. Para
mas, exprimem as etapas seguidas pela ascensão biológica dos cada crente morto pela sua fé, formam-se centenas de novos
povos. Essas formas são o efeito da forma mental dominante crentes. Esta também é uma estratégia de guerra, ainda que
nos vários séculos. As culpas e erros que se atribuem a uma hi- oposta à estratégia bélica humana.
erarquia humana não passam de culpas de um século e mais ou No limite extremo do nosso ciclo histórico, os conceitos se
menos de todos os homens. Quando a evolução biológica tiver tornaram mais ásperos. Se ciência e fé não estão de acordo em
civilizado o mundo, a religião ter-se-á libertado da forma terre- algum ponto, isto significa que, aí, pelo menos uma delas deve
na e, então, poderá expandir-se sem as reações de parte a parte, possuir algum conceito errado e, por conseguinte, não pode ter
rivais apenas porque são formas terrenas. Quando a religião se razão. Isto porque uma religião e uma ciência que sejam verda-
fundamentar no céu, não haverá, como não há para os santos, deiras e completas não podem deixar de concordar, devendo
razão de rivalidades na terra e desaparecerão todos os males ambas dizer de maneira diferente o mesmo pensamento de Deus.
que dela derivam. Céu e terra são dois opostos. Toda potência É necessário que essas duas asas do espírito humano se movam
terrena é uma impotência no céu, e toda derrota na terra é uma sincrônica e harmonicamente, sem o que o voo não será possí-
vitória no céu. Assim, quando a religião for apenas espírito, en- vel. Não se voa com uma asa só. Com a religião apenas, cai-se
tão, automaticamente, será universal. A unificação só pode vir na superstição; só com a ciência, resvala-se para o materialismo.
fora da terra, no único Deus universal, que, acima de todas as Hoje, Oriente e Ocidente estão divididos, não se comuni-
divisões humanas, domina-as todas. cam, não se compreendem. Entretanto o primeiro tem necessi-
Em outros tempos, não maduros para tais conceitos, era dade dos conhecimentos científicos do Ocidente, e este precisa
uma necessidade histórica fixar a verdade na forma, restringin- dos ideais espirituais do Oriente. Um simples intercâmbio pre-
do a liberdade de pensamento no campo da fé, para impedir o encheria as duas lacunas. Presentemente, as religiões e as várias
seu fracionamento em heresias. O misoneísmo possui funções formas de fé são, com frequência, causa de separações e de
conservadoras, também necessárias. O cisma era o terror de to- ódio. Quem, com estes sentimentos, professa qualquer religião
da a unidade religiosa, que representava uma laboriosa e preci- ou fé é antirreligioso, e toda religião que não gerar amor, har-
osa construção, custara milhares de mártires para formar-se e monia e união não é verdadeira religião. A verdade que se fun-
exigia uma plêiade de pensadores e uma legião de ministros pa- damenta em anátemas e acusações recíprocas de falsidade está
ra manter-se. Ele se insurgiu contra tal espírito conservador, muito longe do espírito de verdadeira religiosidade. O progres-
que tem contudo a sua função e, de fato, não freia a evolução. so do conhecimento exige colaboração em todos os campos,
Não obstante a sua aparente imobilidade, as religiões caminham porque cada um está ligado ao outro e toda descoberta, qual-
conexas com o progresso humano. De outra forma, teriam pere- quer que seja ela, ilumina a todos. Assim, o astrônomo, o quí-
16 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
mico, o físico, o biologista, o psicólogo, o sociólogo, o filósofo, VI. OS CAMINHOS DA SALVAÇÃO
o teólogo etc., ajudam-se constantemente um ao outro. É neces-
sário que eles se compreendam e se completem fraternalmente. O leitor que seguiu a vasta orquestração ascensional com a
A síntese universal do saber só poderá surgir desta unificação, qual procuramos dar apenas um eco daquela que realmente vive
em que o intérprete da divina revelação dos textos sagrados e soa no infinito, ver-se-á agora, gradativamente, conduzido ao
concorde com o intérprete do mesmo pensamento divino escrito mundo místico. Uma vez neste, teremos nos avizinhado do pon-
na realidade fenomênica. to culminante deste trabalho, para depois, novamente, descendo
Todos esses dissídios constituem um contínuo óbice às pes- de grau em grau, atingirmos o seu termino. Ao vértice, o leitor
quisas e manifestações do pensamento. Cada seção, cada fé, será guiado por uma real experiência do autor. Essa, como aqui
possui uma terminologia própria com que pretende enclausurar está exposta, representa dele uma nova maturação, cujo trajeto
a verdade nos limites do seu monopólio. Apresenta formas que preparatório está nesta obra delineado nos quatro capítulos que
constituem simplesmente as vestes da própria verdade, acredi- se seguem, do VI ao IX, em que se estabelece a base para o sal-
tando com isto apresentar a própria verdade. Quem tem espírito to até o capítulo XI: “Ressurreição”, que conclui a fase. O capí-
de separatismo se escandaliza com quem, possuindo espírito de tulo XI pode ser considerada o ponto culminante deste volume.
unidade, diz a mesma verdade indiferentemente, de qualquer Estes quatro capítulos foram sentidos e registrados na Qua-
maneira. Este último, na realidade, acredita dar um bom exem- resma do ano de 1947, em um lance instintivo que representava
plo de unificação quando, no campo religioso, animado de fé, uma preparação à eclosão da Páscoa do mesmo ano, na “Res-
fala e escreve sobre as mais diversificadas questões como se surreição”, que se segue. Nos aproximaremos deste ponto ao
fossem uma coisa só; quando demonstra que se sente igualmen- entrar em mais detalhes à medida que avançarmos, atingindo a
te bem entre crentes de qualquer fé, sejam católicos, protestan- “Paixão”, que se apresenta como antecedente para uma eleva-
tes, hebreus muçulmanos, budistas etc., contanto que sejam sin- ção, assinalando o harmônico retorno do ritmo de uma vida. Es-
ceros; quando mostra que sabe venerar a Deus tão bem em uma tes quatro capítulos foram escritos para em opúsculo individua-
igreja como em uma sinagoga, ou em uma mesquita, ou em um lizado, cujo capítulo seria “A Comunhão Espiritual”, que deve-
templo hindu, ou mesmo a céu aberto. Deus, em toda parte, não ria narrar completamente uma experiência mística, logicamente
é o mesmo? Quem possui espírito de unidade, que é muito mais apresentada e enquadrada. Porém, não tendo sido possível en-
do que tolerância, desfruta dessa confraternização, que ofende o contrar um editor religioso que quisesse publicar o opúsculo
espírito de exclusivismo e intransigência de tantos. Às vezes sem antes obter o “imprimatur” e visto, também, que este grupo
acontece que uma verdade, ainda que aceita por uma crença, é de capítulos representava a fase espiritual vivida pelo autor a
por esta condenada quando exposta com a terminologia e di- meio caminho da gênese do presente volume, ele foi incluído
vulgada com a configuração de uma outra. Surgem assim estra- aqui, neste ponto e neste momento, em seu lugar mais natural e
nhas contradições: um livro ou uma ideia são exaltados sobre- lógico, como verdadeira exposição de estudos místicos vividos.
tudo porque condenados pela parte oposta, que é sempre de Sa- Todavia resta o fato que esses quatro capítulos, tendo sido
tanás, e o mesmo livro ou ideia são expulsos como satânicos escritos para um opúsculo separado, tiveram que ser refeitos
mal sejam aceitos e subscritos por essa parte. Pobre verdade! nessa ocasião para adaptarem-se aos conceitos gerais, que de-
Efetivamente, quando se expõe um conceito, é necessário man- viam ser aqui escritos resumidamente, a fim de permitir um
ter-se no princípio abstrato, onde todos estão de acordo, porque melhor entendimento ao leitor novo, mas que se tornam repeti-
ele não toca em pessoas e interesses. Mas, quando se entra em ção supérflua para quem os acompanhou nos outros volumes.
particulares, até alcançar os representantes terrenos dessa ideia, Não obstante, dado que se trate de poucas páginas, aqui nada
então a controvérsia é inevitável, e a condenação da parte opos- alteramos da sua original espontaneidade, seja porque qualquer
ta é certa. Isso demonstra que aprovação e condenação são com alteração seria difícil hoje, em face do estado de alma superado
frequência frutos de interesses e preconceitos. Muitos concor- e longínquo que os criou, seja porque somente de um texto as-
dam hoje em seguir o Cristo da história, porque pode parecer sim, deixado íntegro, poder-se-á construir em seguida, para as
estar longe e afigurar-se teórico, mas quantos o seguiriam se almas devotas, um extrato autônomo completo em si, num
Ele voltasse à Terra e ferisse os interesses terrenos? opúsculo. O leitor que já conhece os motivos gerais que nesses
Aqui, esboçamos a unificação sobretudo no aspecto religioso, quatro capítulos aparecem como ponto de experiência para uso
porque a religião é a base da civilização. Mas, neste aspecto, es- de um leitor novo, a quem era destinado o opúsculo, poderá
tão implícitos todos os outros. Os sinais dos tempos nos revelam facilmente dispensar a sua leitura. Mas, nem mesmo aqui, de
a aproximação de uma nova era para o mundo. Esta será a era da resto, será completamente inútil projetar aqueles conceitos
unidade. Isto quer dizer era do espírito, do amor, da consciência. complexos sob um ponto de vista diferente, isto é, de uma
E, só quando tudo isto existir, poderá haver também liberdade. forma prática para as almas simples, mais como aplicação vi-
Esta é algo que o homem procura, mas que ele ainda não apren- vida do que como teoria ou demonstração.
deu a conseguir. A nova civilização nascerá da substituição pro- Pode saltar esses quatro capítulos o leitor que não aprecia a
gressiva da animosidade recíproca pela ajuda recíproca. psicologia do tipo místico-religioso, para satisfazer-se com os
É lei de vida que a crisálida se transmude em borboleta, que de caráter filosófico, social, cientifico ou psicológico. Todavia
a criança se torne adulto e que a flor desabroche e origine o fru- deverá admitir que, em nome da imparcialidade e universali-
to. Tudo deve fatalmente maturar. É verdade que sempre esti- dade que aqui foram sempre profundas, não se pode excluir a
vemos e todos já nos encontramos unidos em um organismo priori nenhuma forma de pensamento e, por isso, nem mesmo
universal, ainda que muitos não o saibam. Mas hoje estamos a místico-religiosa, dado que alguns estados de alma não se
unidos mais por vínculos de ódio e de luta do que de amor e podem exprimir de outra maneira. Os aspectos da verdade
compreensão. Que vínculos duros e tristes são estes. O homem apresentados neste volume são variados, e cada um traz consi-
do futuro será consciente desta unidade que hoje não compre- go a sua forma mental e a terminologia que lhe corresponde.
ende. Presentemente, estamos unidos mais pela dor do que pela Quanto menos formos universais, tanto mais nos encerraremos
alegria, unidos sem querê-lo, unidos sem compreendê-lo, uni- em um ponto de vista particular e tanto menos poderemos ob-
dos pela força. União suportada, e não sentida e conhecida; vi- ter a visão conjunta do verdadeiro. Para compreender este, é
vida sem a coparticipação consciente nesta divina unidade de preciso saber pensar nas mais díspares formas mentais e ex-
tudo quanto existe no universo, que é a mais evidente expressão primir-se segundo as mais diversas psicologias e terminologi-
de Deus e a maior maravilha da vida. as. Quem se fecha no seu particular aspecto do verdadeiro, es-
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 17
candalizando-se quando se lhe mostram outros aspectos da ve senão em função de uma dada vantagem. E a vantagem neste
questão, não pode compreender estes escritos, que são anima- caso, para cada um, é um estado de felicidade dependente ape-
dos pelo principio da mais imparcial universalidade. nas de si mesmo, e não das condições do ambiente e da vontade
Sob a orientação que aqui se segue, foi escrito: “A religião alheia. Para o mundo, a vantagem está em receber a mais valio-
universal de Cristo”. Acompanha-o quem vive na disciplina do sa contribuição hoje possível para conseguir a sua salvação em
espírito, tremenda porém livre, porque é consciente e convicta. uma hora histórica de tremenda gravidade.
Não há nisso nenhuma anarquia, mas sim uma ordem maior, O nosso mundo de hoje é materialista. Projeta-se pelas vias
porque, além de exterior, é também, e sobretudo, interior. sensórias, que chama de objetivas, completamente para o exte-
Só a universal religião do espírito, nas pegadas de Cristo, rior e só aí procura a solução dos seus problemas. Nós segui-
vivendo o evangelho, reunindo todos os justos da Terra, de mos uma via oposta. Ao invés de agir sobre os efeitos, pene-
qualquer religião, pode dar ao mundo uma unidade religiosa, tramos nas causas, na substância espiritual das coisas e dos
que não se pode obter por imperialismos e imposições morais, problemas, havendo antes bem compreendido como tudo funci-
mas apenas por compreensão e confraternização. ona. Trata-se de compreender, para depois agir de maneira in-
Isto dito, quem escreve pode afirmar que tudo quanto segue, teiramente diversa da habitual. As fontes do conhecimento e do
antes de ser exposto, foi por ele experimentalmente vivido, ob- poder, da riqueza e da saúde não estão, como a maioria crê, no
jetivamente estudado, cientificamente compreendido. Não se mundo material, exterior a nós, mas no mundo espiritual. E tu-
trata, pois, de vagas aspirações, mas de realidades controladas do o que se realiza naquele não é mais do que uma consequên-
com o método da observação e da experimentação, ainda que cia daquilo que primeiro se realizou neste. Tudo deriva de um
devamos nos referir a realidades imateriais que fogem à sensi- centro do universo, que tudo rege e se chama Deus.
bilidade comum do homem atual. Se este as nega porque não as Colocar-se e manter-se por vias espirituais em contato com
percebe e não as compreende, isto não obsta a que elas existam. Deus, significa poder atingir tesouros guardados e alegrias des-
Quem aqui escreve deu-se conta das atuais e desastrosas conhecidas. Nós somos livres e podemos, se quisermos, alcançar
condições espirituais da maioria. Mas ele sabe que nesta babel a felicidade. Mas tudo provém do interior, e nada poderá andar
infernal que é o mundo de hoje, existem também almas eleitas, bem no exterior, se antes não estiver bem marcado em nosso in-
ainda que em minoria, e que a estas está confiada a salvação e o terior. Só nos mudando para melhor é que poderemos transfor-
futuro de todos. A nossa terra é reino ainda involuído, no qual mar para melhor toda a nossa vida. Não se pode pretender que
ramificações provindas de baixo, da grande árvore do mal, ani- negócios, saúde e os acontecimentos se tornem nossos amigos
mada por Satanás, se entrelaçam, frequentemente vitoriosas, ao invés de inimigos, se antes não tivermos estabelecido a or-
com as ramificações descidas do alto, da grande árvore do bem, dem dentro de nós, em harmonia com Deus e a Sua lei.
animada por Deus. Em nosso plano material, onde reina a forma, Quando as coisas vão mal, ninguém quer admitir ter sido ele
Deus se manifesta através de Suas criaturas. É certo que toda próprio a causa disso. Não compreende que atribuir isto ao pró-
criatura é um canal para as manifestações divinas, mas os bons ximo de nada serve, que este desafogo a que tantos recorrem na
constituem o mais elevado, melhor e mais permeável meio pelo dor não só não a elimina, como, pelo contrário, agrava-a pelo no-
qual Deus pode exprimir-se com maior evidência. Assim eles vo mal que se lhe acresce, pois quem faz o mal aos outros o faz a
representam o ponto de apoio do bem na Terra; constituem o ca- si mesmo e, para fazer o bem a si mesmo, necessário se torna
nal através do qual a ação benéfica de Deus pode melhor operar praticá-lo em primeiro lugar com outros. A vida provém de Deus
entre nós; são a única via aberta para que o mundo possa atingir e é irradiada desse centro em forma universal. Para que ela possa
a divina fonte da vida, que está no centro: Deus, e nutrir-se nela, ser fecunda de alegria, tudo deve circular livremente com espírito
estabelecendo uma comunicação com o princípio afirmativo e fraterno. O egoísmo atualmente dominante, com o seu separatis-
construtivo do bem. Do outro lado, os malvados representam o mo, é antivital. Ele obstrui os canais da linfa vital, opondo desta
ponto de apoio do mal na Terra; constituem o canal através do maneira barreiras que produzem congestões e estagnações; aqui,
qual a ação das forças do mal pode se manifestar entre nós; são a superabundância inútil; ali, dolorosa miséria, e, por toda a parte,
via comunicante com o princípio negativo e destrutivo que per- tristes diferenças e penosos desequilíbrios de todo o gênero:
sonificamos em Satanás. Se aos malvados, pois, está confiado o econômicos, demográficos, orgânicos, espirituais.
encargo de tudo massacrar, espiritual e materialmente, aos bons Aqui, buscamos orientar-nos de maneira diversa; procuramos
está atribuída a incumbência de tudo salvar e construir. O terre- não só compreender que a vida funciona de modo inteiramente
no de seu encontro e luta é o nosso mundo. diferente daquilo que se crê e que se segue, mas também enten-
Estas páginas se dirigem imparcialmente a todos os bons, der que a maior parte das nossas desventuras depende de não sa-
que representam na Terra a obra divina do bem. Os outros não bermos comportar-nos. Procuramos a felicidade onde ela verda-
podem compreender e, obedecendo a outros impulsos e encar- deiramente está e a encontraremos se soubermos pensar e agir.
gos, palmilham a sua estrada. Contudo quem compreendeu a vi- Poderão, desta maneira, começar a formar-se, no oceano das do-
da sabe, com absoluta certeza, que só as vias do bem conduzem res humanas, ilhas de felicidade e, no espinheiro universal, tufos
à felicidade e que as forças do mal, prometendo-a, em verdade floridos. Na tempestade do mundo, algumas almas poderão, desta
traem depois a promessa e, cedo ou tarde, acabam infalivelmen- maneira, formar em derredor de si uma atmosfera de bondade e
te na dor. O escopo desta obra é de ajudar, ensinando os espíri- de paz e nela repousar. Nesses castelos, protegidos por forças es-
tos evoluídos a alçar-se sempre mais para o alto, de modo que a pirituais, ainda mesmo que, a princípio, isolados no inferno ter-
felicidade, que está no bem e com a qual Deus permanentemente restre, poder-se-á ter, aqui e ali, uma antecipação do paraíso.
nos quer inundar, contanto que saibamos e queiramos, possa, Deste estado de ordem e harmonia interior, não pode deixar de
por caminhos inteiramente independentes das coisas terrenas, derivar, espontaneamente, um símile estado de ordem e, por con-
alcançá-los e entrar neles, para aí permanecer, instaurando a sua seguinte, de bem-estar nas próprias coisas terrenas também.
paz interior. Ajudar as almas dispostas a alçar-se sempre mais Cada um desses indivíduos, reequilibrados dentro de si, não
para o alto tem, pois, também por escopo multiplicar os canais poderá deixar de irradiar em torno de si mesmo equilíbrio e paz,
de comunicação com o divino, ampliar as estradas, aumentar os carregando consigo, para onde quer que vá, a sua atmosfera de
meios para que, mais rápida, ativa e abundante, por eles flua e harmonia, e poderá assim saturar com ela tudo que ele tocar, sa-
possa descer a linfa vital do bem, único meio de salvação. nando o mal e a dor ao seu redor, depois de havê-lo sanado den-
Como se vê, aqui se fala em termos de psicologia utilitária, tro de si mesmo. Formar-se-ão, desta maneira, na desordem geral
pois sabemos bem que o homem não compreende e não se mo- do mal, núcleos de atração de bem, do Alto para a Terra, e de ir-
18 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
radiação deste para o bem de todos. Isto permitirá a formação de imediato, se a direção fosse confiada ao homem, seja por deso-
correntes benéficas e salvadoras, uma gradual reordenação do rientação, por impotência ou por incapacidade deste. O homem
caos, uma progressiva transformação da infernal dissonância ter- é relativo na evolução, imperfeito e contingente. A Lei é eter-
rena na música divina do paraíso. A vida poderá então, cada vez na, perfeita e resoluta. O homem é capricho inconsciente; a Lei
mais, expandir-se pelas largas estradas do amor. A vida tem ne- é disciplina sábia. O homem é desordem; a Lei é ordem e har-
cessidade, para prosperar, não das barreiras do egoísmo, mas dos monia. A primeira coisa, pois, que devemos compreender é
canais abertos do altruísmo. E da lei de Deus que, nestes canais, que, acima da vontade do homem, está esta norma que tudo re-
ela se atire triunfante, apenas eles se formem, para levar nutrição gula, feita de bem, de liberdade e de amor, representando a
vital onde existe mal, amor onde domine o ódio, paz onde pre- perfeição. Nada se pode acrescentar a ela; nada há nela para se
domine a guerra, alegria onde reine a dor. É a bondade de Deus modificar. Então, quando o mal triunfa e a dor nos fere, ao in-
que faz pressão para verter-se nestes canais e por eles circular. vés de culpar a Deus e a sua lei, devemos compreender que is-
São as forças do bem que por eles querem descer até nós para, to não é obra D’ele, mas da criatura, que, sendo livre e ignara,
entre nós, contrapor-se às do mal e vencê-las, espargindo a felici- enganou-se no caminho; compreender que é justamente por
dade. As graças divinas procuram as portas abertas e requerem meio da dor que Deus a faz compreender que errou e a induz a
almas dispostas para poder chegar até nós e nos salvar. procurar o caminho certo, onde ela encontrará alegria. Assim,
É a estas almas que aqui nos dirigimos, a fim de que atin- pois, ao invés de nos rebelarmos ou maldizer, o certo é procu-
jam o centro divino e sirvam de canal à Terra e, desta manei- rarmos compreender qual foi o nosso erro, para corrigi-lo. Ca-
ra, não só conquistem a felicidade para si mesmas, mas tam- so se pudesse chegar ao absurdo de suprimir a dor, como dese-
bém a irradiem em derredor de si, cumprindo a sua missão, jaria o homem, a vida se deteria no seu caminho ascensional,
que é de receber do Alto e irradiar embaixo. Elas formarão que a conduz à perfeição e à felicidade, porque, então, viria a
uma rede de correntes benéficas que envolverão o mundo e – faltar a sua maior mestra e o seu mais poderoso corretivo. A
vencendo as influências maléficas, que, funcionando em sen- grande coisa a compreender é que nós não vivemos num caos,
tido contrário, querem transtorná-lo – salvá-lo-ão dos cata- mas sob a guia de um pai sábio e amoroso que, com a sua lei,
clismos que hoje o ameaçam. através de todos os meios compatíveis com a nossa necessária
liberdade, quer conduzir-nos à nossa felicidade. É necessário
VII. FAZER A VONTADE DEUS compreender que Deus não nos faz sofrer por egoísmo ou vin-
gança, mas sim para o nosso bem, porque nos ama; que a Lei
Tudo isto é possível, mas é necessário saber alcançar as fon- não faz mal e que, se inflige dor a quem a transgride, é para
tes da vida, que estão em Deus. Para conseguir isto, começare- ensinar que ela é a única e verdadeira via da felicidade. Certa-
mos procurando compreender algumas coisas elementares. Ei- mente o homem é tremendamente ignorante e se atira de um
las. O universo é um movimento contínuo que não se desenvol- lado e de outro, iludido por miragens cuja falsidade ainda não
ve ao acaso, mas segundo normas precisas, estabelecidas por conhece. Somente sofrendo pode compreender onde foi que er-
uma lei que representa o pensamento e a vontade de Deus. rou. É justamente a dor que nos mostra quão amorosamente
Quanto mais a ciência avança, tanto mais deve constatar Deus vela por nós, como ele nos guia e age sempre, ainda
em todos os fenômenos um princípio orgânico que rege o uni- quando nos fere, para o nosso bem. Em vista disto, compreen-
verso e que revela a presença de uma mente diretriz. Segue-se de-se agora que não só a felicidade é possível, mas que nós
daí que o nosso livre arbítrio não é absoluto, ilimitado. Se po- somos realmente feitos para ela e que o nosso instinto, que no-
demos agir como loucos, praticando o mal e, consequentemen- la faz procurar em toda parte, não nos engana. Compreende-se
te, provocando para nós mesmos a dor, enquanto a lei de Deus também que há uma via para alcançá-la, mas que, não bastan-
quer nosso bem, para a nossa felicidade, esta possibilidade de do isto, Deus emprega todos os meios compatíveis com a nos-
violação, em um sistema universal de ordem, está providenci- sa liberdade, para nos fazer enxergar esta via e nos forçar a
almente confinada dentro dos limites dados pelas necessidades atingir essa felicidade. A lei de Deus indica esta via. Então, a
de nossa experimentação. O homem vive para aprender. Ele melhor posição possível em nossa vida, aquela que exprime o
deve construir-se espiritualmente, conquistar a plena consciên- máximo grau de perfeição atingível para cada um, relativamen-
cia, e não apenas constituir um instrumento cego, um autômato te ao que ele é e deve ser, é dada pela vontade de Deus e pela
de Deus. É-lhe feita, portanto, a concessão de agir em plena li- fusão da nossa vontade na d'Ele, numa adesão tão completa,
berdade. Mas, para que esta liberdade não possa redundar em que ambas se fundam numa só. E que mais se pode desejar se-
sua destruição, ela é regulada pelas reações da própria Lei, que não aderir a uma vontade que só procura o nosso bem? Se o
permanece inviolada e, com a dor, fere o homem com o único homem compreendesse Deus, veria claramente que Ele deseja
escopo de corrigi-lo e iluminá-lo para o seu bem, tão logo ele o seu bem muito mais do que ele mesmo o desejaria.
se aparte da referida lei pelo erro ou pela culpa. Se ele é livre, Muitos se quedam, todavia, perplexos, porque não sabem
é contudo responsável também e deve fatalmente sofrer as qual possa ser para eles a vontade de Deus. Antes de tudo, nós,
consequências de suas ações. mais ou menos dependentes de nosso grau de evolução, possu-
No mundo atual, o homem, na sua ignorância, engana-se, ímos todos o senso do bem e do mal. A vontade de Deus está
tomando como poder absoluto esta limitada liberdade de agir sempre sobre as sendas do bem. Uma regra mais precisa é esta:
que Deus lhe concedeu apenas para os referidos escopos. Ele cumpramos o nosso dever, como ele nos é apresentado pelas
não compreende que se trata de uma liberdade enquadrada nas condições da nossa vida, e teremos feito a vontade de Deus.
férreas reações da lei de Deus, que lhe inflige dor quando ele er- Mas o que é que se entende por dever? Para estar de acordo
ra. Assim o homem se engana ao crer-se árbitro de tudo, quando com Deus e, assim, aproximar-se do infinito, não são necessá-
na realidade não é senão árbitro do próprio destino. O homem rios atos heroicos. Trata-se de estabelecer uma harmonia, e isto
atual, efetivamente, não compreende a vida e, por isso, a empre- se pode atingir muito bem pelos meios mais simples e humil-
ga quase que por inteiro para cometer erros e provocar dores. É des. Para cantar a música divina, não é necessário aquela altis-
natural então que, na Terra, a dor seja dominante, pois é sobre- sonância que fere os sentidos e, na Terra, faz tanto efeito, mas
tudo à construção intensiva dela que o homem se dedica hoje. basta apenas executar bem o próprio trabalho, com amor e com
Quem guia tudo não é o homem, mas Deus. E como pode- consciência. Tudo consiste em saber enquadrar a própria ativi-
ria o homem guiar um mundo onde ele procede tão mal, onde dade no funcionamento orgânico da vida e do universo. Nós
pode tão pouco e do qual nada sabe? O desastre dar-se-ia de nos valorizaremos ao máximo apenas se soubermos desincum-
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 19
bir-nos da função que nos toca. Desta maneira, a corrente vital de diferente da de nosso Pai. E, assim como o organismo pro-
nos impelirá; de outro modo, porém, ela estará contra nós e vê, através de uma sábia distribuição, cada célula e órgão para
procurará destruir em nós o rebelde e o inimigo. que execute o seu trabalho e auxilie os outros elementos com
Não é, pois, a importância e a nobreza de trabalho que de- os quais está em conexão, para a vantagem de todos, assim
cide, mas é o modo pelo qual ele é por nós executado. Este igualmente Deus proverá cada indivíduo quando este tenha
trabalho pode até assumir a forma apenas de dor, isto é, algo cumprido o seu dever, isto é, tenha desempenhado as suas fun-
que pareça não apenas improdutivo, mas até mesmo prejudici- ções com relação aos seus semelhantes.
al. Na sábia organização da vida, tudo e todos são úteis em seu Esta é a economia da criação. Bem-aventurado é quem sabe
lugar, cada um ocupa a posição mais justa, segundo a capaci- amoldar-se a ela. Nessa economia, o trabalho é remunerado com
dade e o mérito que lhe é peculiar, a mais adaptada para sua justiça, e o parcimonioso pode depositar o fruto desse trabalho
vantagem, a mais útil para o seu bem, ainda que seja a mais em caixas seguras, que lhe proporcionarão uma renda garantida
humilde, desprezível e dolorosa. Observando-se, verifica-se para a hora da necessidade, em proporção ao mérito que adqui-
que a concepção do mundo é exatamente inversa de tudo isto, rir. Só assim se pode encontrar uma forma de investimento segu-
e que tantos males derivam justamente do fato de que ninguém ro, que assim é porque depende apenas de Deus, que é justo, e
quer executar bem o próprio mister, qualquer seja ele. Todos não dos homens, nos quais não se pode depositar confiança al-
se sentem deslocados e querem mudá-lo, tornando o mundo guma. Consegue-se dessa maneira um pecúlio tranquilo e pacífi-
cheio de descontentamento e de luta. Cada qual pretende valer co, porque é harmônico, visto que está contido na sua verdadeira
muito mais do que realmente vale e acredita que o mais certo função, que é a de ser um meio aos fins da vida. O homem, uni-
esteja em mudar de posição, enquanto uma realidade se impõe versalmente, coloca a riqueza fora do lugar, fazendo dela um
e mostra saber mais, acabando por ficar melhor aquele que sa- fim, e não um meio. E, assim, torna-se ambicioso e ansioso pelo
be permanecer fiel no lugar que lhe cabe. Hoje, considera-se dia de amanhã, e, em meio à abundância, acaba por debater-se
falido quem não triunfa de qualquer modo, não importam os em tormentos. Deus não nos quer ávidos e ansiosos, mas confi-
meios que utilize; admite-se que a dor seja um insucesso e uma antes n'Ele. “Para cada dia baste a sua pena”. Por que haveremos
perda; enquanto há possibilidade de uma vitória e de um ga- nós de pretender dominar o amanhã, se dele nada sabemos? Não
nho, não se trabalha senão com o espírito de avidez, reputan- é pela vontade que poderemos nos impor a ele, mas pelo obedi-
do-se bravura saber fazer o menos possível dentro do próprio ência à Lei, merecendo. Poderemos assim formar em nós um oá-
dever, em aparente vantagem própria e prejuízo dos outros. A sis de paz, não importa qual seja o inferno que nos circunde na
vida, ao contrário, é para todos uma missão, com objetivos, re- Terra. Não é o mundo que no-lo poderá dar, com as suas fasci-
alizações e recompensas ultraterrenas. Antes que operários nantes mentiras, mas somente a adesão à vontade de Deus. Obe-
humanos, somos operários de Deus, igualmente grandes, qual- deçamos à Lei, e o auxílio está garantido, porque a vida foi que-
quer seja a posição social. Desincumbir-se da própria função rida por Deus, e, com ela, ganhamos o direito aos meios para vi-
no imenso concerto universal, qualquer seja ela, como nos é vê-la. Todos temos direito à vida perfeita, mas somente quando
oferecida por Deus, e executá-la bem, eis a perfeição, porquan- tivermos antes cumprido os nossos deveres para com Deus. Se
to isto é fundir-se na perfeita lei de Deus. não fizermos isto, este direito deixa de existir ou existirá apenas
Este é o segredo da felicidade: enquadrar-se na ordem divi- na medida em que tivermos atentado para os deveres. O mundo
na. Quando tivermos desempenhado em nosso posto todo o não quer compreender tudo isto, está destorcido e fora dos tri-
nosso dever, teremos feito o suficiente para que tudo caminhe lhos. É lógico que sofra e caminhe para a ruína.
bem por si mesmo. Podemos então repousar tranquilos. Quan- Para muitos, no entanto, tudo isto ainda não basta para co-
do tivermos obedecido em tudo a Deus, conformando-nos à nhecer a vontade de Deus no seu caso particular. Deus está pre-
Sua Lei, propriamente deixamos de ser responsáveis, porque, sente em toda a parte, no entanto não o vemos jamais manifes-
na realidade, não agimos por nós mesmos e também não somos tar-se por ação direta, mas apenas por meio do pensamento e
passíveis de reações dolorosas como quando nos substituímos ação das suas criaturas, por meio dos eventos, e agir, mais do
a Deus e Sua lei, agindo independentemente. É natural que, que no exterior, no profundo ou pela profundeza das coisas. É a
quando a escolha seja nossa, também nossas sejam as conse- isto que é necessário atentar. Quando Deus faz uma flor, cria um
quências e males. Mas é natural também que, quando não se- órgão ou matura um fenômeno, não age com as próprias mãos,
jamos senão executores da vontade de Deus, tenhamos direito como nós o faríamos, pelo exterior, mas opera silenciosamente
à Sua proteção e providência. A nosso vida encontra então, de do interior, justamente porque, se Satanás é exterior e periférico
novo, um equilíbrio, uma sensação de segurança que o mundo e age em superfície, Deus é interior e central e opera em profun-
de hoje ignora. Desta maneira, fluiremos aquele profundo sen- didade. A vontade de Deus reside, pois, no interior da vida e daí
timento de paz que é o primeiro passo em direção à felicidade aflora nos fatos. É uma tácita e lenta transformação que só por
interior, que é a substância do paraíso. Assim, a nossa vida se fim aflora à realidade sensória, quando todo o processo da gêne-
torna rica e a nossa obra, coordenando-se em um plano univer- se estiver completo. Por isto a maioria não a percebe e, assim,
sal, torna-se infinita. Se, ao invés, nos isolarmos em nosso ego- acredita que Deus não esteja presente na Sua obra contínua. É,
ísmo, permaneceremos destacados e sós e, distanciados de pois, necessário saber enxergar profundamente, não com olhos
Deus, nos sentiremos perdidos. É necessário abdicar do separa- materiais, mas espirituais. É necessário permanecer com ouvidos
tismo e, através da caridade para com o próximo, tornar-se atentos para ouvir como falam os fatos em volta de nós, sobre-
uma só coisa com o todo. É abraçando os nossos irmãos que tudo como significado espiritual, que não é quase nunca aquele
conquistamos a unidade. Em um universo de princípio unitá- significado próximo e utilitário que nós lhes damos. Se souber-
rio, é a via da unificação que conduz a Deus. É indispensável mos ouvir, perceberemos que realmente Deus nos fala. Ele se
olhar com amor todas as criaturas irmãs, porque cada uma de- manifestará indiretamente, através de outras bocas e outras
las é um canal através do qual Deus se exprime e nos fala. Para ações, mas se manifestará. Efetivamente, através dos infinitos
chegar a abraçar Deus, o caminho mais fácil é começar por seres viventes e pensantes, não lhe falecem as vias para expri-
abraçá-Lo nas Suas infinitas manifestações da Criação. Em to- mir-se em qualquer linguagem e caso.
da parte e sempre, devemos ser executores da vontade de Nós nos fazemos iludir pela voz do mundo. Esta é muito di-
Deus, que é bondade e amor. Só nisto é que está a vida. Assim ferente. É verdade que fere muito mais os ouvidos, mas não
como um órgão ou célula não pode ter uma vontade diversa da atinge a alma. O mundo tem sempre pressa, porque está encer-
de todo o organismo, nós também não podemos ter uma vonta- rado no tempo. Deus fala calmo, porque é senhor do tempo. Por
20 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
mais que o mundo corra, nunca chega exatamente. Deus, com a quando a dor nos fere, em lugar de procurar compreender o seu
paz das coisas eternas, jamais se engana na hora. O mal clama significado profundo e aceitá-la, reconhecendo que o que Deus
estertorante nas praças, faz-se ouvir bem materialmente e, por nos envia não pode deixar de ser justo; em lugar de admitir que,
isto, parece prevalecer. O bem, que vem de Deus, enxerga-se se ela nos fere, é sinal de que a merecemos; em lugar de procu-
mais dificilmente, porque está oculto no interior, onde silencia rar, sobretudo, superar essa prova salutar, para aprender, evi-
e espera, mas amadurece na raiz das coisas. As vias de afirma- tando recair em novo erro, nós tentamos iludir essa ordem em
ção são opostas, mas as interiores produzem efeitos bem maio- nosso favor, com a pretensão de dirigir e violentar a vontade
res. Os homens escrevem na superfície, mas Deus esculpe nas divina. E é por isso que, ao contrário de repetir as grandes pala-
profundezas, de onde tudo nasce. Assim, os bons não aparecem, vras de Cristo: “Fiat voluntas tua” 6, que nos mostram a consci-
porque não fazem ruído. O bem move-se mais lentamente, mas ência da divina ordem do universo, nós nos tornamos advoga-
produz transformações mais substanciais, por conseguinte mais dos de nós mesmos, com o único objetivo de evitar danos ou
duradouras. Ele se propaga pacificamente, quase invisível; ra- ganhar graças em nossa vantagem, e isto quase sempre no cam-
mifica-se, infiltra-se no interior, sem aparecer, porque obedece po material, que mais de perto nos toca e interessa. Em suma,
aos tenazes e profundos impulsos da vida, que o quer. Aflição, na oração, nós nos conduzimos diante de Deus com a psicolo-
alarido e também instabilidade estão no exterior, no reino peri- gia de luta e utilitarismo, que é própria da Terra e das coisas
férico de Satanás, não nas fontes, onde se encontra Deus. Ali há terrenas. Ora, se essa mentalidade pode estar adaptada ao nosso
paz e silêncio; uma atividade imensa e silenciosa, que só surge, mundo inferior, ela está inteiramente deslocada quando nos
por fim, quando tudo está feito. Deus opera sem rumor. A Sua elevamos para o Alto. A atitude egocêntrica, para não dizer
ação é tranquila, igual, segura, tenaz, e tudo vence em paz, co- egoísta, e o exclusivismo constituem um grave erro quando se
mo uma lenta inundação. Diferentemente da afanosa evolução fala com Deus. É, pois, ilusório que semelhante gênero de ora-
do mundo, Deus “é” e silencia, no entanto está sempre presente ção possa produzir frutos reais. Certamente, Deus permite que
com a Sua ação íntima, constante, benéfica. Só com essa Sua falemos. A diferença está em que nós não obtemos aquilo que
silenciosa presença, Deus alimenta e renova o universo, não da pedimos. E é lógico. Deus não nos dá senão o que merecemos,
periferia ou superfície, mas do centro; não da forma, mas a esta senão aquilo que é justo, segundo a Sua lei, nos seja dado. Que
chegando pela substância, onde Ele é fonte da vida. Por isto é grandes tolices nós cometemos quotidianamente, agindo assim
que Deus se nos revela em uma sensação de grande paz. É nesta em um ato tão vital quanto é o de nos colocarmos em comuni-
direção, portanto, isto é, na profundidade, no espírito, que de- cação com Deus. Que resultados poderemos obter quando
vemos procurar ouvir as vozes que nos dizem qual é para nós, transportamos para planos de vida mais elevados a psicologia
em nosso caso e a cada momento, a vontade de Deus. do nosso plano, quando levamos para eles aquela mentalidade
de luta e usurpação, que na Terra parece tão verdadeira e útil,
VIII. COMO ORAR porque corresponde às necessidades seletivas animais, mas que,
um pouco acima, não tem o menor sentido?
Não basta ter estabelecido as nossas relações com Deus. É A atitude fundamental da prece deve ser de obediência, de
necessário entrar em comunicação com Ele, é necessário a ora- adesão à vontade de Deus, de harmonização entre nós e a Sua
ção. Eis aqui uma outra coisa elementar, comumente não com- Lei, que é perfeita. No entanto, mesmo na prece, recaímos na
preendida, e que também é necessário compreender, para alcan- primeira culpa do homem, que foi também a de Lúcifer: erigir o
çar não só o conhecimento da vontade de Deus mas também a próprio eu em lei da vida e antepor essa lei, em que o eu é cen-
adesão a ela e, com isto, a união mística da alma com Ele. Em tro, àquela em que o centro é Deus. Desta maneira ora-se às
geral, não se sabe orar, o que explica o escasso resultado que avessas, com um impulso de afastamento, ao invés de aproxi-
obtemos com as nossas orações. mação a Deus. Nós nos erigimos em juízes de nós mesmos, de
A lei de Deus, que tudo regula, inclusive a nossa vida, não é nossos semelhantes, do mundo, da própria ação de Deus e pre-
e não pode ser ilógico capricho, como frequentemente cremos e tendemos indicar-lhe o caminho a seguir para o nosso bem. Pre-
como, tal qual somos, assim desejaríamos, para que a pudésse- tendemos salvar tudo e não sabemos nada. Justamente nos diri-
mos submeter à nossa vontade. Nesta lei, que guia e rege o uni- gimos a Deus, mostramo-Lhe todo o nosso orgulho e a nossa
verso, tudo é ordem, lógica, método, disciplina. O contrário es- presunção. Exatamente na oração, provamos desconhecer a Sua
tá apenas em nós, que somos um grosseiro esboço de sua reali- bondade e o Seu amor por nós. Tomamo-Lo, universalmente,
zação e, por conseguinte, nos encontramos muito longe da sua por um chefe caprichoso, que podemos propiciar com ofertas;
perfeição. A desordem não está na Lei, nem em Deus, mas so- por um Deus de vingança, capaz de ser aplacado com sacrifí-
mente em nós, e a dor, que lhe é consequente, não é uma absur- cios. Imaginamo-Lo um senhor despótico e O respeitamos ape-
da condenação de um Deus malvado que nos criou para nos nas porque é o mais forte. O insensato chega mesmo a manifes-
atormentar, mas é uma prova da Sua bondade, sabedoria e cui- tar, na blasfêmia com que O desafia, uma prova da própria for-
dado que nos dedica, visto que, por intermédio dela, Ele nos ça. E muitos oram apenas porque não podem mandar. Desejari-
conduz ao único caminho que nos pode proporcionar felicidade, am poder mandar e, não o podendo, entregam-se a uma total su-
sabiamente corrigindo-nos e ensinando-nos na escola da vida. jeição. Tornamo-nos, às vezes, petulantes ao pedir e insistir em
A dor, que tanto nos azorraga, não é uma violação da vida divi- vantagens imediatas e materiais que, se coincidem com o nosso
na do universo, mas é justamente uma reintegração nela, ainda prazer, nem sempre representam o nosso bem. Por que esta ati-
que seja às nossas expensas, o que é justo, porque fomos nós tude de mendigos enfadonhos, que pretendem impor-se mais
que livremente quisemos violá-la. com a insistência do que com a humildade, mais com a longa
Ora, o que sucede frequentemente, ao nos apoiarmos em repetição vocal do que com a expectação confiante? Mas Deus
Deus, através da comunicação com Ele pela prece, é que, ao in- tudo sabe a nosso respeito, sabe do que necessitamos, sabe me-
vés de aderirmos à disciplina que Ele criou e da qual nos dá o lhor do que nós aquilo que é benéfico ou maléfico para nós.
exemplo em Suas manifestações, procuramos alterá-la em nos- Devemos compreender que Ele é Pai que nos ama e que, por
sa vantagem. Então, ao invés de nos unirmos a Deus, fundindo conseguinte, antecipa-se em nos oferecer todo o bem que não
a nossa na Sua vontade, procuramos as vias do separatismo seja para nós um dano, antes que nós mesmos saibamos ou pen-
egocêntrico, em que pretendemos ser nós os senhores e dirigen- semos. Como podemos presumir que possamos ensinar-Lhe o
tes, vias estas pelas quais justamente mais nos distanciamos de
6
Deus, que é unidade e, por conseguinte, fusão, e não cisão. E “Faça-se a tua vontade”. (N. do T.)
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 21
que é melhor para nós, correndo para oferecer-Lhe esse belo vidência, o necessário para que possamos cumprir a obra da
aspecto de soberba atitude, justamente na oração? nossa vida. Que paz se origina em trabalhar assim nos braços
Não. A oração deve ser diferente. Nela, não devemos ter a de Deus, na consciência do próprio dever cumprido! Quando se
pretensão de ensinar nada a Deus. Não é a lei de Deus que deve executou o próprio dever para com Deus, está-se seguro de que
alterar-se, adaptar-se a nós, mas somos nós que devemos mudar, Deus cumprirá o Seu para conosco. E que grande fato, que ex-
curvando-nos a ela. Não devemos pretender, com a oração, tor- pansão de toda a nossa vida é nos tornarmos assim Seus operá-
nar Deus um nosso servo a trabalhar para nós, nem buscar fazer rios e representar uma parte do grande organismo, uma função
de Cristo um redentor que tenha sofrido em nosso lugar. Não se no funcionamento do universo!
deve inverter, porque é cômodo, a ordem divina. Cada um con- A oração que se baseia em tal estado fundamental de alma
quista a felicidade com a própria dor. A verdadeira oração é avi- deve caracterizar-se por ser feita mais de aspiração que de pa-
zinhamento e adesão, é dócil aceitação. Nem também por isto, lavras, deve ser mais sentida do que dita. Ela deve preferir as
ela deve ser confundida com uma passiva e inerte resignação. coisas espirituais e só pedir as materiais em função das espiri-
Ao contrário, ela é consciência da ordem e vontade de Deus, é tuais. A oração só deve ser feita com escopo justo e altruísta,
cooperação ativa na Sua ação de bem no mundo, é aceitação pois não pode produzir efeito de outra maneira, contrariando a
operante, dinâmica e fecunda. Aceitar significa colaborar com lei de Deus, que quer o amor ao próximo, e não o egoísmo; o
Deus segundo os Seus desígnios, significa corresponder ao Seu bem, e não o mal. A oração não deve ser egocêntrica, do eu
amor, compreendendo que toda a alegria que, segundo a Sua que pede para si, mas uma adesão à vontade de Deus, um ato
bondade e justiça, nos pode ser dada pelo nosso verdadeiro bem, de harmonização com a ordem divina. Devemos estar dispos-
Ele já no-la deu antes que fosse por nós pedida, e que se não nos tos a sofrer quando tivermos violado essa ordem, persuadidos
dá um bem, é porque este nos faria mal. Mesmo uma privação de que o nosso bem e a nossa redenção residem nessa dor me-
pode ser um dom em vista de uma maior felicidade futura. recida, que nos reintegra na ordem que violamos. As formas
Se quisermos, pois, que a oração seja uma verdadeira prece inferiores de oração, próprias do involuído homem atual, pode-
e dê os seus frutos, não peçamos o impossível, porque, por mais rão ser, por piedade à sua ignorância, permitidas por Deus,
que seja pedido e rogado, nos será negado. Ela não deve ser mas é certo que a verdadeira e elevada oração não exige, não
uma ordem, nem uma petulante mendicância, nem também um julga, não aconselha, não pede, apenas escuta, para depois ade-
modo de aconselhar Deus quanto ao que deve fazer, mas deve rir e obedecer. Cessa, desta forma, a exposição das necessida-
ser um ato de humilde adesão à Sua sábia vontade: “Fiat mihi des e rogativas terrenas; domina uma atitude receptiva de au-
secundum verbus tuum”7. E, se quisermos reduzir a oração a dição, em que muito mais fala Deus do que nós; prevalece uma
um pedido de graças, recordemos que o melhor meio de obtê- expectativa de conselho e de guia, de ampliação de energia e
las é tornarmo-nos merecedores delas. Nós somos livres para de potência para a nossa nutrição. A prece torna-se assim algo
fazer o que mais nos aprouver e aceitar ou não, no momento, a diferente: é um abrir de portas da alma para que Deus entre,
vontade de Deus. Mas, se não aceitamos hoje, teremos que para que o grande rio da vida, descendo das suas fontes, nos
aceitá-la amanhã, em condições mais onerosas, pois que a von- inunde, e para que a divina irradiação do centro nos invada e
tade divina é que nós consigamos, por todos os meios e a qual- vivifique. Atitude de grande atividade espiritual, porque se tra-
quer custo, mesmo com dor, o nosso bem. Essa ativa adesão a ta de atingir as altas frequências e os potenciais necessários pa-
tudo que Deus nos prepara; essa nossa compreensão e boa von- ra nos sintonizarmos com o centro transmissor, porque sem
tade de desenvolver os motivos que Ele nos oferece, sejam eles sintonia não há comunicação. Trata-se de nos darmos em
sofrimento ou alegria; esse superamento do nosso interesse amor, porque só então Deus pode dar-se a nós em amor, dado
imediato em vista de maiores interesses nossos porvindouros; que Ele jamais se impõe a quem não O quer. E, enquanto nós
enfim, essa anulação da nossa vontade individual na vontade não O quisermos, porque ainda não chegamos a compreender,
divina, que guia os grandes planos da vida universal, tudo isto é Ele permanecerá em expectativa, indiretamente estimulando-
essencial para atingir e manter aquela contínua união com nos por mil vias, a fim de que sintamos a necessidade d'Ele,
Deus, que aqui nos propomos atingir. procuremo-Lo e O chamemos para que venha até nós. Quantos
Semelhante comunicação com Deus através da prece pres- perdem os Seus imensos tesouros por andar à procura das po-
supõe em nós um estado de ânimo habitual inteiramente diverso bres riquezas terrenas! No entanto Deus não deseja senão tor-
do comum. Na Terra, acredita-se que valer e poder estejam em nar-nos ricos! Mas é necessário que O procuremos, fazendo-
função de possuir, enquanto que o que realmente conta é o que nos dignos, porque assim o quer a Sua justiça.
se é, e não o que se possui. Quanta gente possuiu os nossos ha- A verdadeira oração, a mais elevada e mais intensa, chega
veres antes de nós, acreditando ser deles o verdadeiro dono, no assim a não ter mais palavras e se reduz a um silêncio de todo o
entanto teve que deixá-los! Assim, nós também podemos acre- nosso ser, em atitude de receptividade e de oferecimento à es-
ditar que sejamos os seus donos, mas, apesar disso, os deixare- cuta da palavra divina. A maior oração é tácita e consiste, antes
mos, e assim também outros, depois de nós, acreditarão suces- de tudo, em ter agido bem e, depois, na simples sensação da
sivamente ser igualmente donos e terão que os deixar. E cada presença de Deus. Quando tivermos compreendido e cumprido
um não levará consigo senão o que realmente é e vale, isto é, as tudo quanto acima está dito, isto é, quando tivermos nos har-
obras e os méritos, isto é, somente aquilo que possui em espíri- monizado em pensamento, palavra e ação na ordem divina, tor-
to. Deve-se, por isso, desligar o coração de qualquer coisa ter- nando a nossa vontade una com a vontade de Deus, então pro-
rena, tratando-a com desapego de simples administrador, depo- varemos esta sensação. Quando tivermos dado tudo a Deus e ao
sitário que deve prestar contas a Deus dos bens que lhe foram próximo e deixado de existir para nós mesmos, então tudo virá
confiados temporariamente para fins mais altos. Então, na ver- a nós espontaneamente e tudo possuiremos.
dade, não se possui mais nada para si mesmo. Tudo se torna Preparemo-nos, pois, para essa oração. Ela se faz em silên-
propriedade de Deus, e a Ele compete a defesa dos nossos ha- cio, a sós com Deus, distante do alarido das multidões, tacita-
veres. Embora nos cansemos e corramos, é para mais segura re- mente enquanto espera a mão de Deus, como ocorrem na inti-
compensa e já sem a ânsia de perder, porque tudo é confiado ao midade os maiores fenômenos da vida. Abramos confiantes as
verdadeiro dono, com a garantia de sua sabedoria e bondade. nossas almas, como faz a flor à luz do Sol. Assim como a lei
Então, estamos seguros de que Ele nos enviará, com a Sua Pro- de Deus quer que o sol leve aos seres a vida orgânica, ela tam-
bém quer que as radiações espirituais do sol divino nos inun-
7
“Faça-se em mim segundo a tua palavra”. (N do T.) dem de sabedoria e felicidade.
22 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
IX. A COMUNHÃO ESPIRITUAL prio prejuízo pelo inferno merecido e pelo paraíso perdido.
Ao menos neste supremo momento de união com Cristo, de-
Quando bem tivermos compreendido e assimilado os pon- ve-se banir completamente todo o egoísmo humano. Para al-
tos acima expostos, suscetíveis de aplicação em qualquer reli- guns, isto será difícil, e só quem for capaz poderá consegui-lo.
gião, visto que possuem um significado universal, racional e, Mas, se quisermos obter resultados verdadeiros nesta comu-
poder-se-ia dizer também, biológico e científico, poderemos nhão, não há outro caminho a seguir. Quem não estiver ama-
entrar em uma fase mais profunda, fase mística e intuitiva, em durecido não pode compreender e deve ocupar-se com outra
que não se procede à luz da razão, mas da fé, fase de atuação coisa. Para estes, a Eucaristia é verdadeiramente um “myste-
dos referidos pontos no seio do cristianismo, que é a mais ele- rium fidei”8, algo incompreensível, de que só pode avizinhar-
vada religião que o homem conhece. Deus, na Sua verdadeira se com: “credo quia absurdum” 9. É questão de evolução e re-
essência, está tão acima de nossa capacidade intelectiva e afe- lativa sensibilização. Mas quem atingiu a maturidade biológi-
tiva, que permanece inacessível à nossa natureza humana. Não ca e, com ela, a necessária sensibilidade nervosa e espiritual,
somos capazes de amar e proclamar tal suprema abstração, em quem conseguiu, contrariamente ao comum, ser mais vivo no
face da qual o coração e a mente se perdem. Devemos, por espírito que no corpo, poderá então “sentir” na Eucaristia a re-
conseguinte, contentar-nos em nos aproximar de Cristo, mais al presença de Cristo; e “sentir” a tal ponto, que poderá esta-
acessível a nós porque é também forma, e forma humana. belecer o colóquio. Esta é a evidência máxima que supera
Cristo, materialmente desaparecido da Terra e aos nossos qualquer demonstração ou esforço de fé.
sentidos com a Sua morte física, fica entre nós sempre presen- É justamente na prática da comunhão espiritual que a alma
te em espírito e, de um modo particular, na Eucaristia. Ele procura educar-se ainda melhor para esta sensibilização, esta-
quis, com esta Sua instituição, deixar um canal aberto para belecer a comunicação, aprofundar a sensação, progredindo
que nós pudéssemos nos comunicar com Ele. Este é o maior sempre para Deus. Esta prática pode ser, pois, para as almas
dom da Sua paixão. Nós nos propomos aqui utilizar justamen- eleitas, um grande meio de elevação espiritual. É certo que
te este canal para conseguir a união com Cristo em uma forma Deus, do centro, faz pressão para alcançar as Suas criaturas,
que, de resto, não é nova, mas que, se já é admitida, não foi mas, frequentemente, as forças do bem não podem passar, por-
muito praticada e sentida; uma forma que, se pode parecer que os canais estão obstruídos por mil detritos e atravancamen-
materialmente mais livre, exige em compensação uma disci- tos espirituais. É certo também que as forças do mal, que per-
plina espiritualmente mais rígida, pelo menos se quisermos sonificamos em Satanás, tudo fazem para manter esses canais
obter os resultados que lhe pedimos. As almas pias poderão fechados e, cada vez mais, acumular obstáculos à passagem
recorrer a ela para integrar a forma material, renovando-a nes- das correntes benéficas. Mas é igualmente verdade que, sim-
ta forma espiritual, que pode ser praticada mesmo quando a plesmente pela vontade humana, um e outro canal abre-se ao
outra não seja possível, quer pela hora, pelo lugar ou por ou- fluxo livre das radiações divinas, podendo se formar assim um
tras incontáveis circunstâncias. A comunhão espiritual pode bom condutor para a corrente espiritual, através do qual ela
efetivamente ser praticada não só nos momentos e circunstân- pode passar. Então, as forças do bem precipitam-se álacres e
cias mais próprios, nos instantes de maior urgência e fervor, abundantes por essa via, que lhes permite a expansão, porque
mas em qualquer hora e lugar, sem necessidade de jejum, to- assim é a Lei. E a vida, que fala no coração dos homens, cons-
das as vezes que a alma sinta necessidade, com uma frequên- tringe-os instintivamente a sentir e reconhecer, nesses seres
cia que, de outra forma, seria impossível, até que se consiga que servem de conduto à vontade divina, o mais alto e precioso
assim, mesmo em meio às nossas ocupações, uma contínua e valor biológico, ao qual está cometida a incumbência de ali-
completa união em Cristo. mentar-nos e salvar-nos. Estas atividades espirituais aqui ex-
Esta forma de comunhão, sendo espiritual, não pode deixar postas são, pois, preciosas não só para o indivíduo em sua as-
de assumir, por esta sua própria natureza, uma forma mais censão, mas também para o bem de todos.
individual e espontânea, relativa à natureza de cada alma. É Começamos, desta maneira, a nos aproximar do ponto cul-
difícil assim traçar-se normas gerais, porque cada um irá minante da comunhão espiritual, que é a sensação do contato e
adaptá-la a si mesmo, e não se pode, nem como guia, configu- da união com Cristo, reconstruindo em nós, isto é, revivendo
rar preces com palavras e formas. Cada alma dirá, com plena espiritualmente, como conceito e como sentimento, a sublime
sinceridade e efusão, o que ela mesma é, expondo de acordo cena da Última Ceia. Quem não a tiver presente, já impressa na
com as suas necessidades, mas, sobretudo, ouvirá consoante a alma, pode recorrer à leitura dos evangelhos. Estes contém um
própria capacidade de ouvir. Nenhum constrangimento lhe é imenso material para meditação. Pode-se chegar, assim, a atin-
imposto, nenhuma linha lhe é traçada, senão os princípios ge- gir a formação em nós e em derredor de nós de uma atmosfera
rais acima expostos, porque ela deve dizer as coisas que ver- espiritual onde vibra como que um eco daqueles sentimentos
dadeiramente sente, que brotam de si mesma, jamais abando- que, de um lado, foram sublimes em Cristo e, de outro, como-
nando-se a repetições mecânicas no trabalho de lábios, e não ventes nos discípulos; sentimentos de alta paixão espiritual,
de espírito. É justamente esta realidade interior que pode fal- como os que se agitaram no cenáculo, naquela hora suprema de
tar mesmo na mais perfeita execução das formas materiais de amor e de dor. Deve-se procurar alcançar um estado de identifi-
comunhão; é esta realidade interior que deve, de maneira ab- cação espiritual; em outros termos, alcançar a presença em espí-
soluta, ser posta em primeiro plano e tudo reger; é ela que, rito de todo o drama vivido, gradativamente começando da re-
quando tudo o mais tenha caído, deve subsistir em toda pleni- presentação da cena material e, aos poucos, ascendendo através
tude. Não é, pois, possível conseguir a comunhão espiritual dela, penetrar sempre mais na sua íntima compreensão, cada
com o espírito ausente, com a alma errante, sem a mais com- vez mais profunda, até à efusão espiritual. Começa-se por con-
pleta e vibrante adesão de nós mesmos. centrar a própria atenção na figura de Cristo, observando o pen-
É lógico que, tratando-se de um puro ato de amor, presu- samento, o amor, a paixão d'Ele naquele momento, procurando
me-se como preparação, de modo absoluto, um perfeito ato de penetrar o sentido do Seu supremo sacrifício. Aproximar-nos-
dor com respeito às próprias faltas, isto é, uma dor verdadei- emos, assim, paulatinamente, da visão da Eucaristia, da percep-
ramente sentida por haver violado a lei de Deus e desobedeci- ção do seu verdadeiro conteúdo e significado. Abriremos, desta
do à Sua vontade. Seria verdadeiramente ofensivo, em um ato
de amor tão puro, introduzir, justamente no momento de cum- 8
“Mistério da fé” (N. do T.)
9
pri-lo diante de Deus, cálculos de interesse referentes ao pró- “Creio porque é absurdo” (N. do T.)
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 23
forma, pouco a pouco, as vias à comunhão espiritual com Cris- guimos estabilizar-nos na alta velocidade do voo e nele manter-
to, que se dá então a nós nesse momento. nos em equilíbrio. Como quem sobe a vertente de um monte, em
Inicialmente, nesta ascensão, a nossa gradual elevação de terreno irregular, escorregaremos às vezes para trás, nos detere-
tensão será dificultosa e lenta. Tudo depende da nossa pureza. É mos às vezes, ora baixamos ora subimos, mas continuamos
necessário, como primeira condição, que a alma, antes de entre- sempre, cada vez mais alto, até atingirmos o cume desejado. As-
gar-se a estes atos espirituais, que constituem uma verdadeira sim, quando tivermos chegado a obter o estágio colimado, esta-
realidade e atividade no imponderável, se haja destacado de to- bilizando a passagem do fluxo espiritual, por haver eliminado
das as coisas terrenas, pela compreensão de tudo quanto foi aci- todo o material obstrutor, então sentiremos a radiação divina
ma exposto, encontrando-se já distanciada e bem acima delas. É descer em amplas ondas, enchendo-nos a mente de pensamento,
indispensável, para isso, estar habituado à concentração, saber o coração de sentimento, saciando-nos de potência, nutrindo-nos
isolar-se do ambiente na meditação. Nisto pode ajudar-nos a so- de energia, iluminando, confortando e alimentando todo o nosso
lidão, quer ao ar livre, quer em casa, como também em uma ser. Nessa altura, tudo se harmoniza e se potencializa dentro de
igreja que seja silenciosa, pouco frequentada por perturbadores, nós. As mesmas energias, em vez de divergirem e se atritarem
recolhida e, sobretudo, pobre. Tudo quanto é luxo humano pro- reciprocamente em lutas e conflitos, agora convergem e colabo-
fana esses contatos de espírito. Não importa tanto o lugar, mas ram entre si para produzir um rendimento máximo. Adquirire-
sim a atmosfera espiritual de que ele se constitui, as radiações de mos, então, a potência que é própria dos sistemas de forças equi-
que está saturado, pois que a base de tais fenômenos é a sintoni- libradas. Uma nova harmonia, que tem sabor de paraíso, come-
zação de vibrações. Há ambientes que parecem esplêndidos, no çará a invadir o nosso ser, penetrando-o gradativamente; primei-
entanto são espiritualmente surdos, e há ambientes paupérrimos, ro, no plano espiritual; a seguir, nervoso; depois, orgânico, até
como por exemplo São Damião, em Assis, mas riquíssimos de atingir a medula dos nossos ossos, imprimindo no indivíduo to-
sonoridade e ressonâncias espirituais. Cada um deve escolher, do um ritmo de vida mais elevado e benéfico. Isto permanecerá
de acordo com a sua natureza, todos os meios que sentir serem em nós como um eco doce e poderoso e se estabilizará, empres-
no seu caso coadjuvantes do processo de sintonização com o tando-nos uma vitalidade nova, que cicatrizará primeiro as nos-
centro, para o qual se dirige e em torno do qual gravita. A alma sas feridas morais, depois materiais, começando por nós e inva-
pode seguir nisto as suas simpatias e atrações, mas deve lem- dindo a seguir o nosso ambiente. Uma nova força nos fará supe-
brar-se de que aquilo que sobretudo forma a sintonia é a nature- rar as dificuldades das provas e as angústias da vida. No mundo
za dos seus pensamentos habituais, pensamentos de cada instan- orgânico, não é tudo regido, ainda que através de inúmeras pas-
te de sua vida, mesmo os que estejam fora do mundo; é o seu ca- sagens graduais, pela energia que desce do Sol para a Terra? As-
ráter e tipo; é a natureza das obras de que ele vive; é a sua afini- sim também, no mundo das forças espirituais, tudo é regido pela
dade conseguida com o Alto. Comunhão quer dizer de fato ade- potência que de Deus desce às almas. Quando estes mais eleva-
são, contato de espírito, ensimesmamento, fusão, identificação. dos planos do espírito são atingidos, a oração se torna audição e
Ela se baseia na afinidade. É necessário, pois, que procuremos a alma não mais fala, mas ouve e recebe. Então, ela nada mais
avizinhar-nos o mais possível de Cristo desta maneira, tendo an- tem a dizer e não faz senão ouvir à voz de Deus, nutrir-se de Sua
tes já nos avizinhado d'Ele em todas as manifestações de nossa potência e deixar-se conduzir pela Sua vontade.
vida. Pode-se alcançar tudo isto, mas é necessário uma discipli- Quando a ciência define como alucinatórias semelhantes
na que nos transforme radicalmente. O objetivo é exatamente sensações, relegando-as em massa, sem discriminação, para o
uma maturação e ascensão de todo o nosso ser. O exercício e o domínio do patológico, não sabe o que diz nem o que faz. Trata-
hábito abreviarão e facilitarão essas fases iniciais. se, como já dissemos, de realidades experimentais e objetivas, se
Façamos, pois, o que saibamos e possamos para abrir a nossa bem que de realidades sobrenaturais, que escapam a quem não
alma e escancará-la às radiações divinas, deixando-nos inundar tem os sentidos para percebê-las e, por conseguinte, as nega.
por elas, recebendo-as e tornando-as nossas, vibrando com elas Mas o homem, com o tempo, evoluirá e então compreenderá.
em todo o nosso ser. Quando tivermos, de nossa parte, tudo feito Hoje, faltando a sensibilidade necessária para a percepção, para
para sintonizar-nos; quando tivermos sabido tornar-nos recepti- a admissão de um fato que está além da razão, como seja a pre-
vos, mais por abandono do que por esforço; quando, subindo em sença de Cristo na Eucaristia, não há outra via senão a da fé.
espírito, tivermos conseguido abrir o canal e estabelecer assim Dado que este escrito se dirige ao ser humano atual, é ne-
uma corrente entre emissor e receptor, então basta: a nossa parte cessário insistir sobre o que, para ele, constitui a parte mais di-
está feita e a nossa tarefa executada. Abertas as portas, a luz en- fícil a percorrer, isto é, a que prepara a sintonização. Para isto,
tra por si. Aqueles que não estejam habituados ao trato com coi- aconselhamos a reconstrução interior do ambiente espiritual da
sas espirituais de tal profundidade, não se amedrontem. Deus, Última Ceia no momento da instituição da Eucaristia, momento
que, no outro extremo, deseja a união muito mais do que a pró- que seria de uma grandeza terrificante, se tudo nele não fosse
prio criatura e pode muito mais do que esta, virá em seu auxílio, feito de amor, em que Cristo se sacrifica e tudo dá, esquecido
porque tudo isto está na linha da ascensão, que é o ponto mais da própria grandeza, de tal maneira que desce até ao nível da
vital e central da lei divina. A alma nada mais tem a fazer, senão natureza humana. Ora, em nada encontraremos tão poderosa-
secundá-la, permitindo-lhe a atuação. Sem dúvida, quanto mais mente reconstruída, atual e presente, em sua sensação mais ví-
se é evoluído, tanto mais fácil é percorrer rapidamente e com vida e profunda, a substância espiritual desse momento como
mais sucesso esse caminho. As almas preguiçosas, gélidas, ego- no sacrifício da missa. Basta apenas seguir-lhe o desenvolvi-
ístas, fechadas em si mesmas e incapazes de um grande impulso mento em espírito, ainda quando, materialmente, não se possa
de paixão, ainda que religiosas, ainda que carregadas de uma estar presente. As próprias fórmulas do rito, pelo menos as mais
montanha de práticas formalísticas e mecânicas, são as mais dis- importantes, repetidas com todo fervor, poderão ser um ótimo
tanciadas dessas realizações espirituais e as que mais necessitam guia para o preparo da Comunhão Espiritual.
de maturar-se. Mas tenhamos fé, porque Deus está presente em Sigamos, pois, o sacrifício da missa e concentremos a
toda a parte e também a elas auxiliará. nossa atenção no momento culminante da elevação, repetindo
Continuemos. Uma vez estabelecida a comunicação por as mesmas palavras do sacerdote, as mais vitais, aquelas que
meio do desejo e da prece, a comunhão é espontânea, calma, ele realmente pronuncia em voz baixa, como que para sub-
profundamente vibrante e sem choques. É como que um desli- traí-las à profanação do público distraído. Repitamo-las, me-
zamento pelo ar. As sacudidelas do desprendimento da terra ces- ditando, procurando senti-las em profundidade, em um cres-
saram, e tudo se acalma, parecendo imóvel. Nem sempre conse- cendo de paixão e aproximação:
24 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
“Accepit panen in sanctas manus suas et elevatis oculis in meira, porque o espírito arde no desejo de unir-se ao espírito.
coelum, gratias agens benedixit, fregit, deditque discipulis suis Dentro de si não significa penetração material de corpos, mas,
dicens10: como sempre acontece no mundo espiritual, fusão de centros de
“Accipite et manducate ex hoc omnes: hoc est enim corpus forças vibratórias e isto pela via da sintonização, que é vibração
meum11. em uníssono, semelhante ao que sucede no campo acústico, pe-
“Accipit et bibite ex eo omnes: Hic est enim calix sanguinis la qual duas notas distintas tornam-se uma nota só. Esta fusão é
mei, novi et aeterni testamenti, mysterium fidei: qui pro vobis a mística união com Cristo, isto é, a perda da própria personali-
et pro multis effundetur in remissionem peccatorum” 12. dade egocêntrica distinta, que se abstraiu assim e se introverteu
“Haec quotiescumque feceritis, in mei memoram facietis”. 13 na de Cristo, com a qual, daí em diante, saberá pensar e agir.
Cada qual procure “sentir” estas palavras na máxima pro- Se a alma souber atingir este ponto, qualquer guia será para
fundeza possível que a sua natureza permita. Depois disto, a sempre supérfluo ou até mesmo um obstáculo. Deus agirá e fa-
alma sensível começa a perceber a real presença de Cristo tor- lará nela, e ela, silenciando, admirada e arrebatada, por-se-á à
nar-se cada vez mais vizinha e perceptível, em um lento cres- escuta, realizando assim a oração perfeita. Ela não necessita
cendo de sensações, cada vez mais claras e evidentes. Cada pa- mais do guia, porque Cristo a guiará. Daqui por diante, ela tudo
lavra, naturalmente, não deve ser dita com a boca, como habi- possui e nada mais lhe pode ser dado pelo homem.
tualmente se faz, mas com a alma, sentida como a própria pai- Neste ponto, o conselheiro que até aqui, nestas páginas, ser-
xão, profundamente. Extraordinariamente poderosa é a palavra viu de guia, deixa a alma que ele procurou conduzir a Deus, nas
que corresponde a um real estado de alma, a palavra que não é mãos de Deus, para que Ele apenas lhe fale, a ilumine, a con-
apenas som, mas força viva da alma. forte, a nutra e a fortifique. Ninguém pode interferir nesses co-
Eis que se avizinha o momento culminante em que Cristo, lóquios e amplexos de espírito. A comunicação com Deus está
tendo-se pouco a pouco aproximado como nossa sensação, po- estabelecida, e toda a alma encontrará, segundo sua própria na-
de comunicar-se com a alma que lhe soube abrir as portas. Sau- tureza, em plena liberdade, vias individuais de efusão. Neste
demos esta aproximação com as palavras do sacerdote: ponto, o pobre conselheiro que a acompanhou até aqui, nestas
“Agnus dei qui tollis peccata mundi: miserere nobis. páginas, cala, venera e em silêncio se retira.
“Agnus dei qui 'tollis peccata mundi: miserere nobis.
“Agnus dei qui tollis peccata mundi: dona nobis pacem” 14. X. PAIXÃO
A esta palavra “paz”, deixemos a nossa alma repousar tran-
quila, longe de todas as tempestades e preocupações humanas, Agora que completamos o trajeto dos quatro capítulos pre-
plácida como um lago límpido em cuja superfície o sol pode cedentes e, com isto, se não chegamos todos a realizar, pelo
agora espelhar-se em toda a sua pureza, sem ofuscamento ou menos compreendemos a união espiritual com Cristo, avan-
deformação. cemos ainda no mundo místico, tremendamente real para
Atingindo esse estado de calma e limpidez, abandonemo- quem o alcançou, mas dificilmente concebível para o homem
nos agora a Cristo, deixando que Ele venha a nós e complete o apenas racional.
restante. Mas, antes que Ele chegue, ofereçamo-nos a Ele com- Chegados a este cume, não podemos deixar de voltar para
pletamente, em perfeita fusão com a Sua Lei e vontade, ofere- trás e considerar o longo caminho que percorremos desde o
çamo-Lhe tudo o que sejamos como dor e como miséria, já que Cap. I – “A Verdade”, do livro Problemas do Futuro, até aqui.
nada mais possuímos. Repitamo-Lhe as grandes palavras. Todas as formas mentais atravessadas foram verdadeiramente
“Domine, non sun dignus, ut intres sub tectum meum: sed sentidas como reais por quem expõe, e isto pelo fenômeno
tantum dic verbo et sanabitur anima mea” 15. acima descrito da personalidade oscilante e pela sua ascensão
Após este último impulso de humildade e consagração, a em onda progressiva até às tensões elevadas. À medida que
alma que, em graus sucessivos, conseguiu subir até aqui está nos avizinhamos do cume, a racionalidade, embora progredin-
pronta. Ouvirá então uma voz atrás de si anunciando-lhe: do até destilar-se nas abstrações físico-matemáticas, permane-
“Corpus domini nostri Jesu Cristi custodiat animam tuam in ce no limiar do mundo místico, incapaz de penetrar em uma
vitam aeternam. Amen”16. atmosfera tão rarefeita, em que ela se sente dissolver e onde
A alma deve seguir este pensamento três vezes. Na terceira, apenas a intuição pode penetrar.
ela terá a sensação da presença de Cristo, não mais apenas vizi- Após haver observado esse momento culminante e o seu re-
nho, mas dentro de si mesma. Se ela estiver amadurecida e flexo nos problemas que lhe são afins, o leitor poderá observar
pronta, frequentemente Sua presença em si, para tornar-se sen- o fenômeno da personalidade oscilante na sua cômoda metade
tida, não esperará a terceira vez, mas será notada desde a pri- descendente, isto é, em uma coordenação mais calma, no plano
da racionalidade normal, retornando aos problemas da Terra.
10
“Tomou um pão em Suas santas mãos e, levantando os olhos para Com isto, o volume se encerrará. Os dois capítulos: “A Verda-
o céu, deu graças, abençoou-o, partiu-o e o deu aos Seus discípulos, de” e “Ressurreição”, deste volume, representam os dois ex-
dizendo”: tremos da oscilação da vida percorrida pelo autor no período
11
“Tomai-o e comei dele todos: isto é o meu corpo”.
12 1945-50, em que este volume foi escrito, no fim do qual ele re-
“Tomai e bebei dele todos: este é o cálice do meu sangue, do novo e
eterno testamento, mistério da fé, que por vós e por muitos é derrama- tornou ao fundo, mas sempre em nível mais elevado, e assim
do em remissão dos pecados”. por diante. Daí se pode concluir que não é tanto o estudo ou o
13
“Todas as vezes que fizerdes estas coisas, fazei-o em lembrança de raciocínio que eleva o conhecimento, mas a maturação da per-
mim”. (N. do T.) sonalidade. Aqui não se trata, assim, de aquisições culturais,
14
“Cordeiro de Deus, que tiras os pecados do mundo; tem compai- mas de um fenômeno biológico mais profundo, de uma catarse
xão de nós. de todo o ser, da qual deriva toda essa produção.
“Cordeiro de Deus, que tiras os pecados do mundo; tem compai- Antes de seguir adiante, será útil observar o ritmo destas
xão de nós. oscilações ou ondas sucessivas e ascendentes, comparando-
“Cordeiro de Deus, que tiras os pecados do mundo; dá-nos a
paz”. (N. do T.)
lhe os vértices, que, como dissemos, com a maturação do in-
15
“Senhor, não sou digno de que entres em minha casa, mas dize uma divíduo, atingem níveis cada vez mais elevados. Um cume fo-
palavra e minha alma ficará curada”. (N. do T.) ra em primeiro lugar alcançado no fim da I Trilogia, com a
16
“O corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo guarde a tua alma na vida cena conclusiva: “Paixão”, do volume Ascese Mística, como
eterna. Assim seja”. (N. do T.) foi descrita na Páscoa de 1937, ao pé da tumba de São Fran-
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 25
cisco, que está na sua Basílica em Assis. O cume atual, na ce- O novo impulso representado pela “Ressurreição” foi prepa-
na do capítulo seguinte, “Ressurreição”, foi atingido na 2 a rado como que por um prenúncio na noite que precedeu a tercei-
parte do 1o volume da III Trilogia, na Páscoa de 1947, diante ra sexta-feira anterior à Sexta-feira Santa de 1947, com inespe-
do Alverne. O conteúdo aqui não é de desolação na expectati- rados e intensos fenômenos místicos. Isto sucedia com a apro-
va da guerra e de oferta na dor, como em “Paixão”, mas é ximação da Páscoa, ao 60o aniversário do autor, enquanto “Pai-
triunfante na espera de uma nova civilização. Também o am- xão” foi escrita na Páscoa do seu 50o aniversário. Essa composi-
biente de inspiração, ao invés de uma tumba escavada nas en- ção representa a dor e o voto expressos pelas três solenes pro-
tranhas da terra, lugar de morte para o corpo, é o da contem- messas feitas na tumba de São Francisco de Assis, aos cinquenta
plação radiosa de um monte sagrado, onde Cristo apareceu, anos. Essas promessas foram repetidas em seguida, todas as tar-
lugar de máxima realização espiritual. Tudo se transforma e des, até que, 10 anos depois, juntam-se à “Comunhão Espiritu-
se inverte. O motivo de 1937, expresso no 3 o volume, com al”, atrás exposta, escrita em 1947, pouco antes de “Ressurrei-
que se encerra a I Trilogia, se transforma completamente, em ção”. Esta, depois daquele período de maceração, representa a
1947, no 1 o volume, com que se inicia a III Trilogia, em per- alegria que triunfa sobre a dor, a vida que se sobrepõe à morte, o
feito equilíbrio em uma obra de três trilogias. cumprimento da catarse. Após 10 anos de esforço e de dor, no
Há depois um retorno, com ritmo decenal, 1937-47, que en- Monte Alverne, onde Francisco se uniu a Cristo, veio do Alto a
contramos também nas Mensagens Espirituais17, pelo qual, tam- resposta e foi colocado o sinete da promessa final. O motivo ne-
bém aqui, “A Mensagem da Paz” (Páscoa de 1943) chegou gativo de “Paixão” reproduz-se aqui em posição corrigida, posi-
inesperada, justamente dez anos após a “Mensagem aos Cris- tiva. Não mais trevas e tormentas, mas luz e vida.
tãos” (Páscoa de 1933), que encerrava a serie precedente. Retor- É a retificação do mundo na nova era do espírito. A dor,
no decenal de vértices, segundo um ritmo que parece inserido no compreendida, aceita e vivida, cumpriu a sua obra de redenção e
fenômeno, pelo qual os dois cumes, 1937 e 1947, seguem o pri- se transmuda em alegria. É a ressurreição do mundo através da
meiro na vida do autor, no ano de 1927, ano em que fez o seu sua atual prova e paixão, é a derrota do mal no triunfo do bem.
voto de pobreza e teve a primeira visão do Cristo. Como se vê, Sobre as ruínas despontam as flores, e a vida avança. O autor
já em 1927, o fenômeno se verificara, embora a sua primeira não vive aqui um motivo seu, individualizado, mas todo o moti-
manifestação exterior não haja surgido senão com a primeira vo biológico da sua era histórica, e começa a realizar, primeira-
“Mensagem do Natal”, em 1931. Todas essas coisas não foram mente nele, a metamorfose que levará o mundo para o novo tipo
preparadas nem previstas, sendo constatadas somente posterior- de civilização. É assim que, nestas composições e nesta sua
mente e por um impulso íntimo, não controlado pela vontade e obra, pode repercutir e vibrar o ritmo do grande fenômeno que a
consciência por parte de quem o experimentava. É evidente que vida está agora vivendo. Ele teve que vivê-lo antes, sentindo em
este, como tantos outros fenômenos biológicos, é regido por um si a correção evangélica dos valores hoje invertidos no materia-
seu ritmo inteligente e sábio, que o ser não cria, apenas segue. lismo, como deve hoje vivê-lo o mundo em tragédia paralela.
Eis então que, assim como no volume A Nova Civilização do Neste endireitamento, os três motivos da “Paixão” reapare-
Terceiro Milênio se verifica um desenvolvimento de A Grande cem, portanto, em “Ressurreição”, correlacionados entre si, mas
Síntese, aqui também se encontra mais aprofundado o motivo fi- transformados de treva em luz, de tristeza em alegria. E o mes-
nal do volume Ascese Mística. Assim, os germes sumariamente mo homem que, na Quinta-feira Santa de 1937, havia tornado
aparecidos na primeira explosão retornam amadurecidos com a sua a dor de Cristo moribundo e a dor que esperava o mundo,
progressiva catarse do indivíduo, da qual mais não são que um então ignaro da última guerra mundial, agora faz, na manhã da
momento e uma expressão. Assim, através dos volumes das vá- Páscoa de 1947, também suas a festa do Cristo que ressurge
rias trilogias, toda a obra verdadeiramente ascende, elevando-se triunfante e a glória que está reservada para o mundo em uma
a uma atmosfera cada vez mais purificada. Aqui, cada palavra, nova civilização que ele ainda não vê. O fenômeno não se refe-
cada capítulo, cada volume, enfim toda a obra, não pode deixar re apenas a quem escreve, mas envolve a todos no mesmo ritmo
de espelhar e repetir o grande motivo ascensional, que é a base e a todos conduz para a mesma meta.
de toda a orquestração da vida, que se expande para Deus. É um Enquanto “Paixão” foi escrita na noite de Quinta-feira Santa,
canto único de todo o ser, canto do qual estes escritos não são vigília de paixão, na treva, embaixo, junto a uma tumba, “Ressur-
senão um eco na alma de um pobre homem que sentiu cantar em reição” foi escrita na manhã da Páscoa, à luz, no alto, onde triun-
si o universo e, em uma férvida paixão, se tornou dele o humilde fou o espírito em Cristo. Esta passagem representa o afastamento
intérprete. Assim, este canto, começando na forma racional das da pedra que fechava o sepulcro e a ressurreição do espírito, que,
zonas inferiores da matéria e do nosso cotidiano contingente in- no terceiro dia, isto é, no III Milênio, explode do seu invólucro
dividual e social, eleva paulatinamente o seu potencial. Assim é corpóreo. Assim, quem escreve, instintivamente preparado pelo
que a racionalidade se torna intuição, a observação se transfor- ritmo do fenômeno universal, que vai da vida de Cristo à vida do
ma em contemplação, o pensamento se transmuda em prece, a mundo, fenômeno no qual se encontrava preso sem sabê-lo, che-
visão do verdadeiro se faz êxtase, amor, arrebatamento. Então gou à manhã da Páscoa de 1947, após um vago pressentimento
deixa-se de ser espectador, para se tornar ator no grande funcio- da aproximação de um grande acontecimento espiritual. A visão
namento orgânico do universo. Não mais se ouve apenas a divi- exposta em “Ressurreição” se desenvolveu nas primeiras horas
na harmonia do criado, mas nela se penetra, por ela se é envol- do dia, estando o seu espírito presente na Capela dos Estigmas,
vido e transformado. E nós mesmos nos tornamos assim um no Alverne, enquanto o corpo estava em Santo Sepulcro (Arez-
canto, o canto da vida, uma harmonia de Deus, uma harpa vi- zo), aonde fora com a família. Voltando a si, ele registrou a refe-
brante na divina orquestração do todo. E nos anulamos, desta rida visão, de jato, como uma explosão, ao mesmo tempo que
forma, perdidos no ilimitado incêndio do amor divino. podia ver com o olho físico o perfil do Alverne e o ponto onde se
Descreveremos aqui, em seguida, no presente capítulo e no encontra a aludida capela, visíveis dali de Santo Sepulcro. E
seguinte, estes dois vértices: “Paixão” e “Ressurreição”. Esta aquela manhã, embora interposta entre duas semanas de mau
última composição é nova, enquanto que a precedente é repro- tempo, estava verdadeiramente límpida e radiosa.
duzida do volume Ascese Mística. Isto para que seja possível o Eis o texto de “Paixão” 18. Seguir-se-á, no capítulo subse-
confronto. Mas, antes, façamos algumas observações. quente, “Ressurreição”.

17 18
Traduzidas em português com o título de Grandes Mensa- Publicado também no volume Ascese Mística, II Parte – Cap. XXVI,
gens.(N. do T.) do mesmo autor. (N do A.)
26 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
PAIXÃO Já é noite. Ensombram-se os vitrais luminosos. Tudo está
Assis, Quinta-feira Santa de 1937 apagado nos altares nus. A Igreja, que nesta hora agasalha a dor
de um Deus e a dor do homem, depôs seus ouropéis e se abate
Peregrino de dor e de paixão, eu me aproximo de Ti, Se- desnuda ao pés de Cristo.
nhor. Neste ar triste, mas calmo; nesta atmosfera de dor, gran-
Despedaçaste todos os meus afetos humanos, um a um; qui- de mas consciente e resignada, ouço o clamor das multidões
seste que somente o Teu amor permanecesse. distantes, que não querem e não sabem sofrer; sinto o es-
E, quando o meu coração caiu por terra, ensanguentado, na pasmo das marés humanas que a dor e a paixão perseguem e
estrada poeirenta, pisado por todos, Tu então o recolheste e me atormentam.
disseste: “Eu sou o teu amor. Somente a mim podes amar”. Minha alma treme.
Em mordaça de ferro, comprimiste minha paixão; quando Jaz abatida ao pé da cruz e olha no alto o drama de um
ela desejava explodir no mundo, Tu lhe fechaste todas as portas Deus agonizante por amor. Somente o seu olhar me dá força
e a lançaste dentro de mim, para que, na constrição, se tornasse para viver.
mais profundo e mais potente o seu lume e ardesse num incên- Vivo o Teu tormento, meu Senhor. Subi Contigo até à cruz;
dio sempre maior e, no íntimo, inflamasse, chamejando até en- Tua dor é minha dor. Agonizo e morro Contigo.
contrar-Te, Senhor. Desejaria invocar piedade para todos, mas não tenho cora-
Dosaste o meu tormento, proporcionaste asfixia lenta, qui- gem. Não tens mais sangue para dar; morres nu e amaldiçoado
seste que eu me aproximasse de Ti por minha procura e por es- e és inocente. Que posso pedir-Te mais por amor do homem?
forço meu. Eu o sei: dar-me-ias ainda lacerações tremendas; mas, a ca-
Agora compreendo que ao Teu amor divino eu não poderia da novo rasgar-se de minha carne, eu Te direi: “Por amor de Ti,
chegar senão pela dilaceração de todo amor humano. Senhor”.
A Ti não se chega senão pela tempestade, por que és o tur- E, quando, já sem forças, cair e vir chegar até mim a carícia
bilhão e o poder, és a essência da força. sedutora das coisas humanas, minha alma deverá recusar qual-
Sinto que a chama do Teu incêndio se aproxima e lança la- quer repouso ou conforto e dizer: “Por amor de Ti, Senhor”.
baredas sobre mim. De repente, uma delas me toca e se enrodi- Flagela diariamente meu espírito, para que ele seja desperto
lha em minha alma, aperta-a e agarra-a, para atraí-la a si, no e pronto ao Teu comando.
centro do incêndio. Com a minha renúncia, alimentarei todo o dia a chama de
Afrouxa em seguida a pressão e me deixa recair nas coisas amor por Ti.
humanas, para retomar-me depois, outra vez, e ainda outra, Não! Não é renúncia, não é dor: é expansão e alegria. “É pe-
sempre mais forte. lo meu amor, Senhor”.
Aquele incêndio me espera, e eu nele cairei. Que posso eu fazer? Agora, é inútil resistir. Precipito-me em
◘ ◘ ◘ Ti, Senhor; as órbitas se comprimem vertiginosamente; a matu-
É a Semana da Paixão, e aproxima-se a hora santa em que ração prossegue no mundo e em mim, por caminhos opostos.
Tu, Senhor, na Tua agonia, lançaste ao mundo o grito de reden- A hora é intensa para todos. Não se pode detê-la. Preparada
ção e de amor. já há tempo, precipita-se. Eu temo olhar.
Nestes dias, espadelaste minha alma para que também eu ◘ ◘ ◘
vivesse a Tua paixão de dor e de amor. O círculo se aperta. O drama da paixão de Cristo se faz in-
Sobre minha sensibilidade, vibrando e ressoando, passaram tenso dentro de mim; o drama das tempestades humanas acossa
o choque brutal e o insulto feroz, e nela pousaram, submergin- quem está lá fora.
do com alegria na minha dor. Desço a cripta e me abato aos pés do túmulo de Francisco.
Tu estavas presente e próximo, mas, por desgraça minha, eu Apossa-se de mim, plenamente, o espírito do lugar, tão forte
não o senti. que me lança por terra. Apoio sobre a pedra desnuda a fronte
A nova dor, porém, reergueu até Ti minha sensação e, nas em chamas, para acalmar a febre e abrandar o incêndio.
profundezas do meu desânimo, eu Te encontrei, assim como Conduziste-me até aqui. Para que? Que queres de mim,
tantas vezes eu Te perdi e, na minha prostração, vieste ao meu Senhor?
encontro e de novo me apareceste. Começo a balbuciar: “Toma minha alma”. Estou à espera,
Que desejas de mim, Senhor? vibrando em tensão, sem palavras.
◘ ◘ ◘ Recordo. Já me disseste numa hora de trevas: “Segue-me,
Chego a Assis ao anoitecer da Quinta-feira Santa. segue-me”.
Sete velas e mais sete, em duas ordens bem visíveis, ardem Paira sobre mim algo de grave e de grande que eu não sei.
solitárias na basílica de Francisco19. Sinto solene a hora. Estás perto de mim, ó Cristo, eu Te sinto.
Apagam-se lentamente, uma a uma, com um salmodiar lon- Francisco é uma força viva, vibrando daquele túmulo, e me
go e triste, em que chora a Igreja e o mundo suplica; lá fora, contempla e me ajuda.
tristemente, o dia se extingue, filtrando sua agonia através dos Algo de potente, de imenso, quer subir das profundezas de
históricos vitrais. meu coração e não pode. É intenso demais para suas forças. A
A sinfonia de liturgia, de luzes, de pranto, canta concorde ideia se agita, comprime-se para explodir, busca a palavra que a
com a lenta sonolência de morte em que se extingue a agonia expresse, que a engaste em sua última forma.
da paixão. Finalmente, emerge a voz e minha alma grita:
Quando, porém, com a derradeira luz do dia, apaga-se a “Senhor! Eu Te seguirei até à cruz”.
última vela, o último cântico do salmo explode tão trágico e Então, sinto dentro de mim, a cantar: “Tu estás no centro de
dilacerante, interrompido pelo triste batido das vergas no solo, meu coração”.
que minha alma tempestuosa se abate, porque, então, ouço Minha alma, liquefeita em lágrimas de júbilo, de amor e de
dentro de mim gritar a dor do mundo, que, súplice, chora com paixão, prostra-se sem forças.
o Cristo que morre. Naquele instante, porém, ressoa do alto, do templo superi-
or20 da igreja baixa, pintada por Giotto, o cântico que salmodia
19
Nesta basílica giotesca, ao anoitecer de Quarta e Quinta-feira Santas,
20
se faz o “Ofício das Trevas”, extremamente sugestivo pelo ambiente ar- A basílica de São Francisco é composta de três igrejas superpos-
tístico, a liturgia, o canto solene e, sobretudo, pela quase ausência do po- tas. A cena realiza-se na igreja do meio e na cripta embaixo, onde
vo, que perturba sempre, com a sua distraída incompreensão. (N. do T.) está o túmulo do Santo. (N. do T.)
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 27
até ao vértice de Sua paixão; ressoa como raio a ecoar toda a Hora de doces colóquios de espírito com a alma do criado
explosão do meu tormento, condensando minha tempestade; no intenso pressentimento de primavera. Hora de ternas recor-
ressoa, no clamor da musica e das vergas batendo no solo, o dações para mim, nesta doce terra de Assis, onde tão profun-
grito derradeiro do Cristo que morre. damente vivi e que tanto amei. Hora em que o céu e a terra re-
Esse grito me atinge e me fere. Alguma coisa se dilacera em fletem, amigos, um sorriso comum e se estreitam num fraterno
mim; abre-se uma fenda em minha alma. amplexo.
O extremo apelo me convoca: é o lamento de Cristo, é a dor Parecem em paz, mas é aparência do momento.
do mundo, é uma convergência, em mim, de forças superiores e Vive dentro de mim a visão da realidade.
inferiores. Sinto minha alma fugir-me, arrebatada num vértice Eu senti verdadeiramente a terra tremer.
de forças titânicas; sinto a voz instar dentro de mim e repito:
“Senhor, seguir-Te-ei até à cruz”. XI. RESSURREIÇÃO
Estou esmagado pelo peso de uma promessa solene. Alverne – Páscoa de 1947
◘ ◘ ◘
Torno a subir à igreja média, pintada por Giotto. É manhã de Páscoa, manhã radiosa da minha ressurreição
Apaga-se a última vela. É noite. Ouço a repetir-se ainda em Cristo, e eu cheguei em espírito aqui em cima do Alverne.
mais perto, dentro de mim, o grito do Cristo a morrer. E, aqui, na Capela dos Estigmas, no lugar em que Francisco viu
Ele aqui está, atual, presente. Cristo, a minha alma escreve no livro da sua vida eterna, em ca-
Rasga-se, então, ante meus olhos, a visão da terra e do céu. racteres que não mais se apagarão. Escreve e exprime em si este
O céu chora a agonia e a paixão de amor de um Deus; a terra novo grande dia da sua eterna transformação, dia de alegria,
treme, convulsa, no pressentimento de um vendaval sem noite. depois de tanta dor, dia de vitória e de paz, depois de uma ca-
O drama do homem e o drama de Deus se conjugam nesta minhada tão exaustiva. Sinto o olhar de Cristo sobre mim, que
hora suprema de paixão. imprime um sinete de fogo à minha palavra.
Olho atemorizado. Vejo um turbilhão de forças que se pro- Deste alto cume do Alverne, contemplo a terra adormecida
jeta para a terra e vejo a terra sacudida, agitada, submersa num lá embaixo, longínqua e vaga na névoa matinal, tão cheia de
mar de sangue. ânsias e de dores e, apesar disso, aquecida e fecundada pela di-
É a hora tétrica da paixão do mundo. E parece sem esperan- vina luz do sol.
ça. O círculo estreita-se cada vez mais; bem depressa estará fe- Deste cume espiritual, também repasso a história do mundo,
chado, e tarde será para escapar à compressão. ainda imerso no paul da ignorância e da barbárie, perdido na
A mão do Eterno empunha o destino do mundo; estão pron- névoa da involução, história cheia de aflições e destruição e,
tas a desencadear-se as forças para o choque fatal. Está próxima apesar disso, guiada e regida pela lei de Deus.
a hora das trevas, do mal triunfante, da prova suprema. Feliz Deste cume do meu destino, miro a infinda alternância de
quem não for vivo, então, sobre a terra minha transformação, que hoje, finalmente, emerge da prova e
O amor de Deus deve retrair-se um momento, para que a da dor e, por esta impelida a um ancoradouro mais firme e ele-
justiça seja feita e o destino, desejado pelo homem, se cumpra. vado, pode arremessar-se agora de um salto para Deus. O espí-
Há algum tempo, eu já disse – preparai-vos, preparai-vos – rito, redimido pela dor, pode finalmente escancarar as portas
e não ouvistes. Em breve será demasiado tarde. cerradas pelo egoísmo e pela culpa, pode abrir-se para que a luz
O drama está próximo, eu o sinto, torna-se meu, toco-o, res- do alto o penetre e o inunde.
soa desesperadamente, no mais íntimo de meu espírito. Eis que hoje, não mais na tumba de Francisco de Assis 22,
Repito: “Toma, Senhor, minha alma”. tumba de Seu corpo morto, mas no Alverne, a apoteose do
E três vezes repito: “Senhor, ofereço-Te a mim mesmo pela Seu espírito vivo e presente confirma-se e se concluem, ama-
salvação do mundo”. durecidos no tempo, os meus pactos com Cristo, já cumpridos
“Seguir-Te-ei até à cruz”. em uma hora de paixão e de treva para o mundo, no claro
Três vezes repito e sinto que Tu, Cristo, me escutas e me pressentimento do iminente último conflito mundial. Tudo
aceitas; estou unido à Tua Paixão. Compreendo que me guiaste caminha e tudo fatalmente deve maturar-se na vida. O bem e o
até aqui, ao templo de São Francisco, para que, sobre Seu túmu- mal estão enquadrados no ritmo de sua transformação, e eis-
lo, próximo Dele, eu Te repetisse esta nova promessa solene, de- me chegado aqui em cima, de onde contemplo a terra, a histó-
cisiva, seguindo a primeira, após cinco anos de duro caminhar. ria e a mim mesmo.
Compreendo que Tu esperavas esta minha nova dação, por- Dez anos faz, na Quinta-feira Santa de 1937, que chorei em
que agora um peregrinar mais áspero se inicia e um esforço Assis e pranteei a minha dor e a dor do mundo, que tornei mi-
mais árduo me espera. nha. E, como agora ressurjo da minha dor na alegria de Cristo,
O cântico cessou depois de seu último paroxismo. assim ressurgirá o mundo em uma nova civilização. Vejo-a do
Todas as luzes se apagaram. O templo está em silêncio, no alto deste cimo, que domina o tempo, última meta de tanta luta
escuro. e sofrimento. Hoje, aqui, neste cume do Alverne, não choro
Minha alma atinge, junto à alma de Cristo no Getsêmani, mais a minha paixão em Cristo e a paixão do mundo, mas can-
sua última desolação. to a minha ressurreição em Cristo e a ressurreição do mundo.
Abala-me o último estalido das vergas batendo no solo. A esta dediquei a vida.
Naquele instante, verdadeiramente senti a terra tremer. ◘ ◘ ◘
◘ ◘ ◘ Senhor, semeei segundo as Tuas pegadas, como me orde-
Como era belo contemplar, lá fora, antes do ocaso, sobre naste. Semeei por toda a parte, em todos os campos do mundo,
o doce e extenso vale umbriano, os reflexos do Tescio 21 e os rivais e invejosos de vãs posições terrenas. Entrei lá, onde, com
pinheiros ondeando ao vento, contra os diáfanos esplendores bondade e compreensão, me foi aberta a porta, seguindo o Teu
da distância! evangelho, que nos ordena amor. Permaneci contristado em si-
E, mais tarde, a lua cheia surgindo do Subásio, a mole lêncio, no limiar das portas que me foram fechadas. Fui expulso
do templo, irreal entre pálidas luzes, e a imensa campina por aqueles que mais amava e que melhor deveriam ter com-
adormecida.
22
Veja “Paixão”; Assis, Quinta-feira Santa de 1937, capítulo an-
21
Rio perto de Assis (N. do T.) terior. (N. do A.)
28 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
preendido. Senhor, ofereço-te esta minha dor. Eles não me qui- Eis que, aqui, no cimo do Alverne, nesta manhã de Páscoa, o
seram. Oro por eles. Outra coisa não posso fazer. A obra da meu drama se cumpre. Por dez anos repeti toda tarde os três vo-
qual eu sou o servo é Tua. Somente Tu possuis os meios para tos. E Tu permaneceste ao meu lado, Senhor, e guiaste cada pas-
fazê-la triunfar. Eu nada sou. Repito-Te o meu voto: “Senhor so meu no mundo, precedendo-me com a Tua cruz, coroado de
eu sou o Teu servo, nada mais quero senão isto”. espinhos. Mas tudo é transformação, e a transformação possui
Senhor, pela salvação do mundo, para aliviar, se possível, a um ritmo. A lei que rege o universo é um pacto que Deus fez
sua merecida dor; para dar à Tua justiça uma contribuição com o homem, estabelecendo a garantia da estabilidade fenomê-
qualquer de amor, ainda que seja quase nula; para encher o hor- nica. Nesta lei, o mal está enquadrado a serviço do bem, a dor é
rendo vazio produzido pelo ódio, ofereci a Ti minha dor aqui permitida como instrumento de felicidade. Assim, como em Ti,
em cima, esvaído e quase que sangrando. Somente Tu a viste. depois da paixão a ressurreição. Tudo é ordem em uma harmonia
Tu o sabes. Jamais peço para mim. A minha prece não pede, sublime. Tal como Tu já nos mostraste como sucederá para o
mas ouve. Ouve a Tua voz. Mas, se posso implorar para os ou- mundo, assim também a minha dor cumpriu a sua redenção.
tros, faze com que o mundo seja salvo da medonha catástrofe Na redenção, não Te vejo mais coroado de espinhos, san-
que o ameaça, faze com que ele possa aportar a salvo à outra grando na crucificação, na primeira fase que é de sacrifício do
margem, que se encontra além da sua atual prova de dor e faze corpo-matéria, crucificado, em que o homem, ainda todo carne,
com que a meta da sua ressurreição, pela qual Te ofereço a vi- se detém demasiado e permanece ainda. Mas vejo-Te na segunda
da, seja logo plenamente alcançada. Faze que não seja vão tanto fase, a mais alta e vital da redenção, que é a ressurreição no espí-
sofrimento, faze com que a dor abra as mentes e os corações, rito, ressurreição em que o homem, ainda pouco evoluído, muito
faze que esta destruição na matéria construa no espírito. Tam- pouco assimila e compreende. Vejo-Te, pois, imensamente diver-
bém Tu, Cristo, ressurgiste da Tua paixão, e também ressurgi so de ontem. Vejo-Te emerso da dor, em um esplendor de glória,
agora em Ti da minha dor. Faze que igualmente o mundo, re- de beleza e de potência, projetado na amplitude dos céus. Es-
dimido pela sua tribulação, ressurja em Ti, álacre e triunfante, plendes e irradias, todo feito de luz. És o sol da vida. A Tua cha-
como Te vejo ascender hoje aos céus, vencedor da dor e da ma aquece e nutre o universo. Neste esplendor, aqui no Alverne,
morte, como me apareces neste radioso cume do Alverne, nesta onde agora me encontro presente em espírito, Te viu Francisco,
gloriosa manhã de Páscoa. Faze com que isso aconteça. Sei que aqui onde está escrito: “Signasti, Domine, Hic servum tuum
tudo é perfeito no universo, segundo a vontade do Pai, que Lhe Franciscum, Signis Redemptionis nostrae”23. Nesta alegria, como
acena a marcha fatal e que eu, orando, não posso e não devo se acabou a Tua dor, ó Senhor, deve ter fim, pela mesma lei que
nem ajuizar nem aconselhar, mas apenas obedecer. Deveria di- Tu nos mostraste, toda dor, a dor do homem, a dor do mundo.
zer somente: “Seja feita a Tua vontade”. Mas esta minha súpli- ◘ ◘ ◘
ca é a explosão do meu amor pelos irmãos em perigo, e é mais Na mata em derredor do sacro monte do Alverne, canta a
forte do que eu. Vejo o báratro da barbárie, que ameaça as mul- voz das grandes árvores meditativas, projetadas para o céu, a
tidões inconscientes. Entre tanta preconização de sistemas, sal- voz das minúsculas criaturas aladas que aí se aninham. Mais
va-os, Senhor. Repito-Te o meu segundo voto: “Senhor, eu Te além canta a voz do homem ocupado nos labores da terra, canta
ofereço a mim mesmo pela salvação do mundo”. a voz das rochas e das águas, das nuvens e dos ventos em tem-
◘ ◘ ◘ pestade, e tudo domina o canto imenso dos céus. Tudo é festa.
Senhor, ao terceiro ponto, permaneço só, diante de Ti. O Os sinos anunciam para o mundo a Tua ressurreição. E Tu so-
destino do mundo separa-se do meu destino. Cada qual é livre bes glorioso no esplendor do sol. A Tua ordem triunfa. É a vitó-
e responsável por si, isoladamente. Um dia me chamaste para ria final do bem sobre o mal.
dizer-me: “Segue-me, segue-me!”. Obedeci ao Teu apelo e O meu destino se cumpre. Eis-me junto a Ti, Senhor, última
procurei seguir-Te Senhor, como a minha infinita fragilidade e meta. As trevas da noite se desfizeram, a névoa se diluiu ao sol.
fraqueza permitiram, como a minha pobre e culpável humani- Tu me apareces intensamente mudado, vestido assim de glória,
dade facultam. Mais não pude fazer. Desesperadamente Te se- visto nesta outra margem da minha vida, depois de uma cami-
gui de longe, chorando o meu amor perdido, no desejo de tor- nhada bem longa e dolorosa. Vejo-Te, não mais aflito, mas
nar a manifestá-lo. E caminhei sangrando entre as sarças, cain- amorosamente reclinado ao meu lado, para dizer-me: “Estás fa-
do e levantando, levantando apenas porque Tu, que conheces a tigado. Apoia a tua cabeça em meu peito e repousa”. Mas, ven-
miséria, tiveste piedade de mim e me estendeste a mão. Segui- cedor do mal, Tu me dizes, como ao bom ladrão, porque com
Te de longe, como convém a um servo indigno. Procurei ver- ninguém mais tenho semelhança: “Amanhã estarás comigo no
Te do fundo destas trevas terrenas. Procurei ouvir de novo a paraíso”. É a Tua resposta aos meus votos, repetidos por dez
Tua voz amiga no Evangelho, esquecido dos homens. Escutei anos seguidos. Tantas outras coisas depois me dizes, em lin-
com a minha pobre razão os passos por Ti impressos na histó- guagem não humana, no segredo da alma. Mas estas não se po-
ria, sentindo, contudo, que a pobre análise feita pelos sentidos dem repetir, porque não seriam compreendidas. Estas não se
não poderá jamais reconstruir a Tua figura, que está acima de devem dizer, permanecem encerradas no segredo do Eterno!
toda a forma humana. Segui-Te chorando a minha insensatez, ◘ ◘ ◘
envergonhado por não saber falar a Ti, porque Tu estás no alto, Assim cheguei junto a Ti, Senhor, peregrino de amor e de
em tão ofuscante glória de perfeição, que eu me desoriento. paixão. De todos os amores humanos, o Teu foi que venceu. A
Senhor, juntei esta dor que é a consciência da minha miséria às Ti só se pode amar. Através da tempestade, cheguei à Tua paz.
outras dores e também isto Te ofereci, para que Tu tivesses pi- As chamas do Teu incêndio me envolverão e não me deixarão
edade de mim. Tudo isto Tu sabes, e eu o sei. Nada fiz do que mais. A dor me salvará. Bendita sejas, irmã dor, que nos redi-
devia e do que desejaria. No entanto o meu coração, enamora- me. Agora sei o que Tu querias de mim, Senhor. Não mais cho-
do de Ti, sem medir mais nada, nem a Tua grandeza, nem a ra, não mais treme a minha alma, mas triunfa na Tua alegria. A
minha indignidade, o meu coração, ardente de desejo por Ti, paixão está superada na ressurreição. Assim como a Tua dor foi
incapaz de resistir à Tua chama, que o envolve e queima, inca- minha, assim também agora é minha a Tua felicidade.
paz de compreender o alcance das suas próprias palavras, a Tu estás comigo, Senhor, e não mais me deixas. E Ele me
imensidade de seu ardor, o absurdo do seu impulso, o meu co- diz: “Vai, diz aos homens que não se sofre em vão. Vai, lembra
ração Te repete, irresistivelmente transtornado à Tua luz, repe-
te o seu terceiro voto: “Senhor, seguir-Te-ei até à cruz”. 23
“Assinalaste aqui, ó Senhor, o teu servo Francisco com os estigmas
◘ ◘ ◘ da nossa redenção”. (N. do A.)
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 29
aos homens o caminho da redenção. Que saibam sofrer e, so- vos. A concepção materialista fez crer aos dirigentes que a
frendo, compreender. À medida que compreenderem, o círculo opinião pública se pode hoje fabricar mecanicamente, em sé-
se alargará e a dor se suavizará. A luz de Deus bate às portas de rie, por meio do radio e da imprensa. Não é verdade. Existem
sua alma e pede para entrar, mas eles a mantêm hermeticamente correntes de pensamento independentes, que escarnecem de
fechadas. Abram-nas ao amor fraterno, que Deus entrará. O ho- semelhante indústria. A vida nos mostra que, em momentos
mem deve aprender qual ser livre e pode, pois, aceitar ou repelir decisivos, a alma coletiva caminha por si, independente do ha-
como quiser. Mas ai de quem odeia os outros, porque envenena bitual controle dos dirigentes em qualquer campo.
a si mesmo. Ai de quem se encerra no cárcere de egoísmo, por- No momento atual, efetivamente, ideologias hedonistas im-
que barra para si próprio o caminho das fontes da vida, isola-se e portadas tendem à formação de uma ordem bem diversa de idei-
se estiola em direção à morte. Vai, ensina ao mundo esquecido, as, baseada no interesse e no bem-estar material. Como explicar,
desviado em busca de falsas miragens, os verdadeiros caminhos no entanto, que semelhante propaganda, em vez de atrair com
da alegria. Sê sacerdote do espírito e oferece também o que sa- seu utilitarismo, tenha obtido o efeito exatamente oposto, colo-
bes, porque de mil ofertas nasce a nova civilização”. cando-nos, ao invés, frente a um inegável despertar religioso?
Eis que, enquanto me afasto do Alverne para tornar aos mes- Este, por sua vez, não é apenas o difícil produto desejado pela
mos misteres do mundo azafamado, uma última visão se me de- Igreja, mas sim algo mais profundo, além do quanto possa que-
para. Também aqui, como lá em Assis, o drama do mundo e o rer um indivíduo, uma autoridade ou as próprias massas huma-
drama de Cristo se conjugam. Assim como Cristo ressuscitou, a nas, que apenas lhe obedecem. E como pode ele, nos eventos
vida ressurge da moderna e imensa catástrofe. Outros golpes vi- históricos, assumir de inopino uma direção tão imprevista?
rão, porque o homem é obstinado. Mas, além deles, também para Observemos um fato. Em 1939, quando eu já sentia os temo-
o mundo, há a sua ressurreição. A fé, a lógica profunda da vida res da guerra desde 1932 (tudo publicado), ninguém temia essa
no-la indicam. E tal como me liguei à dor do mundo na hora de guerra, razão pela qual nela nos precipitamos com a inconsciên-
sua paixão, estou ligado agora à sua alegria na hora da sua ressur- cia de criança. Hoje, quando o horizonte não é tão sombrio co-
reição em espírito. Nela reviverei. No bem e na felicidade dos mo então, todos vivemos sob o temor de uma nova guerra. Pro-
outros estará o meu paraíso. E isto será a plenitude da minha me- virá este sentimento do temor de uma nova guerra ou será mais a
ta atingida. Um paraíso ocioso, egoísta e solitário, não é paraíso. recordação da última, tão recente? Estará este despertar religioso
Adeus, santo monte do Alverne, adeus... Retorno lá embaixo conexo à tão difusa psicose de guerra? A Terra está surgindo aos
ao meu árduo trabalho, no mundo azafamado. Tudo aqui embai- olhos do homem como qualquer coisa de infernal e inabitável,
xo é tempestade: egoísmo, ódio, agressão. A fúria das paixões então ele procura refúgio alhures, em Deus. E ei-lo a fitar o céu,
devasta esta pobre terra, que poderia ser um jardim. Aqui em- Cristo e os Santos, em outro mundo. E à Terra, apontada pelo
baixo, o belo sonho vivido se torna utopia, e ao canto de Deus materialismo como paraíso imediato e seguro, mas que, de fato,
responde um grunhido feroz e satânico. Mudo é o espírito, extin- tornou-se um inferno, voltam-se as costas. Tal desespero impele
ta é a chama da fé e da esperança. Vive-se em um pressentimen- o homem a buscar a verdadeira vida alhures. É assim que as for-
to de catástrofe universal, sem que se saiba evitá-la. A terra está ças do mal colaboram para o triunfo das forças do bem.
enregelada sob um manto de dor. Nem mesmo o céu se vê mais Tudo isto é lógico, mas não termina aqui. O insucesso do
sorrir do fundo deste inferno, e a terra parece prestes a abrir-se, materialismo, com a falência das suas promessas, é clamoroso e
ávida por tragar o homem, que se tornou fera e criatura do mal. o atingiu em profundidade. Isto todos compreenderam. O mun-
Dentro de mim está a visão do real. do sente que o materialismo o traiu e o repudia. O mundo, pre-
Sim! O velho mundo realmente está no fim. É o fim deste cipitado na dor, viu o verdadeiro rosto de Satanás, antes oculto
mundo. Mas um outro surgirá dele. atrás das falsas promessas. E então? Eis aí o germe da reação e
Eu vi realmente a terra florir. o primeiro impulso em uma nova direção, no sentido oposto,
espiritual. É assim que a onda da vida, depois de uma descida
XII. CRISTO AVANÇA tão grande, volta a subir após atingir o fundo. O mal operado
pelo materialismo foi grande, mas o homem é livre e deve pro-
Depois de haver observado o fenômeno místico em um caso var para aprender. A lição foi dura e feriu a nossa carne. Não é
individual, observemos a sua dilatação no mundo da hora atual. fácil esquecer, quando se derramou sangue. Algo de imenso e
Todo período histórico possui a sua moda, que é a forma de novo deve maturar, porque Deus não nos fez sofrer em vão,
manifestação de suas atitudes mentais. A corrente dominante mas apenas para o nosso bem. As leis da vida querem que tudo
de nosso tempo tem sido o materialismo, com todas as suas rume enfim para o bem, que o mal se transforme em bem, nisto
consequências em todo campo. Como se explica hoje, no en- tudo respeitando o livre arbítrio humano.
tanto, que bem no meio desta corrente que tudo penetrou, nas- Que sucede, pois, hoje no mundo? Verifica-se uma inversão
ça entre nós a moda das paixões, dos milagres e, nas massas, de rota. Essa inversão se inicia nas massas da maneira mais
surja uma tão imprevista e difundida paixão de sentimento re- elementar: o sentimento religioso. Hoje, isto pode nos parecer
ligioso? Os fatos provam, pois, a tese por mim amplamente fanatismo. Mas, amanhã, subirá até aos mais evoluídos, até aos
sustentada há tempo, de que nós nos encontramos no ponto de dirigentes, que serão atraídos. Dar-se-á um refinamento no sen-
maior declive da onda involutiva, e que é justamente deste timento e na manifestação, haverá uma consolidação através da
ponto que se inicia a ascensão. Essa ascensão parece hoje ina- razão e da ciência, que, em forma bem mais evoluída, conferirá
creditável para quem enxerga apenas superficialmente, mas ela novo aspecto à humanidade. Essa renovação não pode provir
invadirá todo o horizonte de amanhã, configurando a realiza- dos dirigentes de hoje, porque eles não se encontram evoluídos
ção daquela ideia que parece utopia no momento e pela qual eu o bastante, em todos os campos, para poder assumir a direção
luto: “A Nova Civilização do Terceiro Milênio”. de uma renovação do mundo no sentido espiritual. A renovação
Como é possível que hoje, em pleno materialismo, assista- se inicia naturalmente pelas multidões, em forma primitiva,
mos à intensificação de movimentos religiosos de massas? É como primitivas são estas também. Ela se comporta como a
difícil provocá-los artificialmente desta maneira. Eles são es- maré, como uma inundação que sobe lentamente, em silêncio,
pontâneos. Eles não obedecem a nenhum comando de dirigen- invadindo tudo, sem alarido, sem propaganda, sem armas nem
tes humanos. As leis da vida seguem um plano lógico e entram conflitos, mas sempre subindo. Não provém, como habitual-
em função no momento adequado, sem se preocuparem com mente, do exterior, de coações, partidos, hierarquias ou classes
longas explicações, visando apenas conseguir os seus objeti- dirigentes; não é fundamentada em meios econômicos nem ori-
30 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
entada pela vontade humana. É de dentro que ela provém, das Tudo isto parece irrealizável hoje. No entanto o mundo está
almas, de uma necessidade instintiva, de uma ordem de Deus, reduzido a apenas duas ou três grandes unidades. O fato destas
que fala tacitamente aos corações e os arrasta. Suas vias e mé- se armarem para destruir-se mutuamente prova que elas não
todos estão invertidos, nos antípodas dos humanos ora vigentes. podem deixar de decidir a supremacia absoluta do mundo, em
É estranho! Essa maré crescente do bem é mantida e impeli- uma fatal pugna eliminatória pelo último campeonato. Isto trará
da pelos impulsos do mal! A fase materialista gerou um espírito a unidade e, portanto, o fim das guerras. A unidade não pode
de luta. O princípio egoístico em que se baseia é cisão satânica e ser conseguida por pacifismos teóricos ou desarmamentos si-
acarreta, implícita no sistema, uma crescente e contínua destrui- mulados, mas somente pela vitória final de um só, escolhido
ção, que irremediavelmente o leva para o desmoronamento final, pela vida através da seleção natural, que se efetua por intermé-
única solução. O conflito humano entre ideias e interesses é hoje dio da luta sem piedade; seleção de apenas um, biologicamente
tão intenso, que a vida não pode mais suportá-lo, o que torna fa- escolhido como o mais cotado das qualidades necessárias, que
tal ele explodir e, com isto, resolver-se e exaurir-se. O homem demonstre nas provas ser o mais capaz. Com isto, a era dos
não aguenta mais. Daí a revolta. No fundo da atual descida invo- conflitos, depois de um terrível crescendo, exaurir-se-á e a nova
lutiva da onda histórica há um vértice negativo, um ponto críti- era poderá então nascer, a era da harmonia e colaboração, a no-
co, de máxima tensão, em que o edifício de forças, formado se- va era do conhecimento e do espírito.
gundo aquele sistema, em direção separatista-destrucionista, não Todas as energias do mundo, demográficas, bélicas e eco-
pode deixar de precipitar-se e desmoronar fragorosamente. A nômicas, giram em torno destes princípios. Toda raça, toda na-
ressurreição em direção à vida, que não pode acabar, está implí- ção serve a estes princípios de acordo com a própria forma. No
cita e é fatal. Eis aonde vai terminar este primeiro sintoma atual entanto a ideia fundamental, que avança em meio a tão diferen-
do despertar instintivo do sentimento religioso das massas. tes processos e manifestações exteriores, é o retorno de Cristo e
Homens e governos, toda a autoridade humana na Terra, fo- a verdadeira atuação do evangelho na Terra. Até agora, tem ha-
ram até agora, em geral, prevalentemente egoístas. A luta do- vido aí mais pregação e teoria do que prática, mas Cristo avan-
minante pesou sobre eles, exigindo-lhes que pensassem antes ça. Por este motivo, as primeiras manifestações se dão como
na própria defesa. Em todo campo, mesmo espiritualmente, a expressão religiosa das multidões. Estes movimentos religiosos
vida teve que forçosamente basear-se na luta e na imposição. populares constituem o primeiro e verdadeiro sintoma do futu-
De resto, as multidões eram um verdadeiro rebanho inconsci- ro. As próprias forças do mal são utilizadas pela vida para este
ente, e se fazia mister não só ensiná-las, mas igualmente im- retorno de Cristo. Ele se encontra no centro da nova civilização;
por-lhes aquilo que deveriam crer, pensar e fazer, sem direito a é a grande potência da nossa ascensão humana. Ele é o princí-
juízo, porque este levaria à anarquia. A necessidade de unidade pio do amor que concretizará a nova unidade. Esta não será
implica a sujeição de consciências em todo campo. Não se po- apenas de diretivas sociais e interesses, mas também de fé e re-
dia pretender uma ação por convicção da parte de massas inca- ligiões. Em Cristo, meta final, exaurir-se-ão e se extinguirão
pazes de possuir outro valor senão os do ventre e do sexo. todos os atuais conflitos humanos. Da tumba do materialismo,
Mas, hoje, o homem começa a procurar compreender, queren- Cristo fará ressurgir na humanidade, com Ele, a nova luz da
do entender por si. Diante da mentalidade moderna, que está percepção e consciência espiritual. A grande força que faz pres-
mais apta a funcionar por persuasão espontânea do que por são através de tantos conflitos atuais, para resolvê-los e vencê-
aceitação obrigatória, perde cada vez mais valor o princípio de los, é Cristo. Ele inspira alguns elementos isolados, mais pró-
autoridade, que já foi útil uma vez, mas pode ser prejudicial ximos a Ele, e os faz falar. Ele fala no instinto das massas, ori-
agora. Quem, no entanto, poderá coagir os dirigentes – instin- entando-as de maneira inesperada para novas formas de consci-
tivamente levados a repousar nas suas posições de comando, ência. A vida não pode deixar de responder ao apelo de Cristo.
tão trabalhosamente conquistadas – senão a troante voz da vi- O mundo sabe que, entre os homens, não pode haver um salva-
da, que investe contra eles, falando através das multidões? Es- dor e o espera do céu. E o Cristo libertador se aproxima. Clama
sa voz os perturba, mas como poderia falar de outra maneira a por Ele o desesperado grito de dor da humanidade dilacerada,
vida, se as outras portas estão fechadas? Só então eles, para igualada que está no sofrimento, sem distinção de classes, cre-
salvar as próprias posições, procuram as reparações, obedecem dos ou de raça. Já se abrem as vias espirituais para Sua presen-
e se modernizam. Os dirigentes são assim conduzidos pela vi- ça entre nós. Tudo está pronto e evidente nos eventos, e não há
da, que tudo dirige. Desse modo, tudo se move, também eles, quem possa pará-los. Tudo, mesmo o mal, abre o caminho para
ainda que por último, e a vida avança. Ele. Esperemos com alegria a final e fatal apoteose do bem.
O homem desperta hoje, através da dor, para uma nova ma-
turidade. Ai de quem não se dá conta disto! Não se resiste ao XIII. UMA ESTÁTUA SE MOVE
crescimento do espírito, centro da vida. O ideal dos dirigentes, (Santa Maria dos Anjos - Assis, 14 de março de 1948).
em qualquer campo do passado, foi a vitória sobre outros seres
humanos por meio de rivalidades, lutas e superações sem fim. Precisemos agora melhor as nossas observações, localizan-
O herói da raça foi o guerreiro agressivo, o ideal foi a conquis- do-as em um caso particular 24. Quando acontece um fenômeno
ta, a grandeza consistiu no domínio pela sujeição. Harmonia e reconhecido como milagroso, todos acorrem para ver e julgar.
cooperação no mundo eram inconcebíveis na prática, uma uto- Um caso fora do comum, que parece situado além dos limites
pia. Estamos hoje em uma grande reviravolta, na qual o ho- ordinários das leis da vida, nos chama a atenção para o sobrena-
mem, cansado de suportar os efeitos coletivos da sua universal tural. Frente ao extraordinário, somos levados a procurar a so-
ferocidade, conceberá um novo ideal, biologicamente mais lução interpretativa que mais corresponde à nossa própria for-
rendoso. O seu herói não será mais um imperialista como Júlio ma mental, instintos e necessidades, mas, às vezes, também aos
César, Carlos Magno, Napoleão, mas sim aquele que, conce- interesses coletivos, e não só individuais. Nesta interpretação
bendo o mundo como uma unidade harmônica e cooperante, só influem, pois, não só a natureza de cada tipo biológico, mas
agir em função disso. Todavia não era possível atingir isto se- também a da raça e dos eventos de um particular momento his-
não hoje, quando o mundo tende a reunir-se sob um só gover- tórico, que podem fazer pressão sobre este juízo. Este, por con-
no, com os meios de comunicação multiplicando as relações e seguinte, é resultante também de fatores psicológicos interiores.
permitindo uma fusão antes impossível. Também se tendia à
unidade no passado, mas a excessiva involução da época não a 24
Este capítulo é extraído de um artigo do mesmo autor, publicado em
permitia senão por aproximação. “La Nazione” de Florença, em 4 de agosto de 1948. (N. do A.)
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 31
Mas eis que, ao lado do juízo dos indivíduos e da coletivi- tes, visíveis de qualquer ponto, próximo ou distante, indepen-
dade, dado pela corrente formada pela maioria, existe também dentemente de fatores atmosféricos. Entramos então no campo
um outro: o juízo da ciência e da autoridade. Há indivíduos das ciências psicológicas. Mas estas também não conhecem a
diferenciados, que observam o fenômeno munidos de cultura, técnica de funcionamento da personalidade humana. Elas per-
de métodos racionais, de instrumentos científicos e também manecem no campo nervoso e central, com uma psicologia su-
de autoridade espiritual. Tal observador não é instintivo ou perficial, que não atinge as profundezas do espírito. Os termos
fanático. Ele procura, por todos os meios de que dispõe, ser psicose, alucinação etc., são mais palavras do que conceitos,
objetivo, buscando ser racional e prudente. É lógico, pois, que mais complicações do que explicações. Neste ponto então, jus-
o indivíduo e a multidão apelem, em última análise, para a ci- tamente quando se deveria começar a explicação científica do
ência e a autoridade. Mas isto não impede que os primeiros caso, como acima dizíamos, não se enxerga mais nada e pene-
influenciem estes últimos, fazendo pressão sobre eles na dire- tra-se em cheio no sobrenatural e miraculoso, no mistério
ção a que pende a psicologia coletiva do momento, a qual ar- inexplicável. O fenômeno, desta maneira, nos foge para o in-
rasta mais ou menos a “todos”. cognoscível, autorizando, desta maneira, os incréus a negá-lo.
Do lado oposto dessa tríplice ordem de espectadores, isto é, Ora, Deus nos deu a mente para usá-la com o raciocínio, e não
indivíduo, multidão e ciência-autoridade, está o fenômeno, seja para renunciá-la. E relegar o problema como inexplicável não
ele a aparição de Lourdes, de Fátima, ou outra qualquer. No é conclusão para a mente, mas sim fracasso. Não se quer com
caso presente, trata-se da enorme mole da estátua de Santa Ma- isso contrariar o ato de fé e de sentimento com que as massas,
ria dos Anjos. Move-se ou não se move? Para muitos, ela se por instinto e intuição, tudo resolvem de improviso, o que evita
move. Eis o que multidões vão ver para julgar, deduzir, como- cair no fanatismo – perigo oposto ao da incredulidade – crian-
ver-se, crer ou não, cada qual segundo o seu temperamento. do fatos e milagres por fantasia. Não queremos de modo ne-
Alguns realmente não veem. Por que eles não veem? Um mo- nhum renunciar à fé, mas apenas ser, sem ingenuidade nem fa-
vimento real da matéria, situado na matéria, todos veem se não natismos, verdadeiros crentes, isto é, acreditar em plena cons-
forem cegos. Mas quem tem olhos para ver, vê segundo preci- ciência e com a solidez da razão clara.
sas leis óticas. Parece, pois, que aqui deva intervir outro fator, Se o fenômeno indubitavelmente existe e se a sua objetiva
mais sutil, além das leis óticas. Qual é ele? realidade não está, como demonstram os controles, situada na
Já coligimos os vários elementos do fenômeno. Se este, por estátua, essa realidade deve estar em alguma outra parte. Ora, o
um lado, refere-se à matéria, por outro lado concerne às três milagre não é menor se a sua sede for transferida de um movi-
unidades psíquicas – a cada uma e a todas conjuntamente, com mento físico, espiritualmente sem nenhum valor, a um movi-
recíproca influência – que se encontram no extremo oposto do mento de almas. Aqui é o caso de se crer então que os apare-
próprio fenômeno. Este, assim, está situado, em parte, no cam- lhos sismográficos, se tivessem sido postos na alma das multi-
po das leis físicas e dinâmicas do mundo exterior ao homem e, dões ao invés de na estátua, teriam registrado oscilações nor-
em parte, no campo das leis psíquicas e espirituais do mundo mais. Mas a ciência não possui sismógrafos capazes de registrar
interior do próprio homem. Daí uma consequência importante. tais movimentos. Deve-se mesmo acreditar que as máquinas fo-
Quem observa apenas o lado físico, ignorando o psicológico, tográficas, se pudessem gravar a imagem psicológica espiritual
não vê mais do que a metade do fenômeno, e nada vê quando o da estátua na alma dos observadores, teriam registrado imagens
fenômeno físico, segundo o exame objetivo, é inexistente. bem diversas das estáticas. Mas tais máquinas fotográficas não
Façamos a aplicação. Diz-se que foram colocados apare- existem. É certo que, se o fenômeno não é solúvel no plano fí-
lhos sismográficos na estátua e que estes nada registraram. Es- sico, deve sê-lo no espiritual. É certo também que existem rea-
ta é a primeira fase, a mais elementar e material da observação. lidades interiores, sólidas e objetivas, poderosas e resistentes,
A Igreja, em tais fenômenos de sua jurisdição, de acordo com tanto quanto as exteriores, se não mais. Não é mais fácil mudar
a lógica, não recorre à hipótese do assim chamado sobrenatural a forma de uma montanha que a de um tipo de personalidade?
e miraculoso, senão depois de excluída toda e qualquer expli- Com tudo isto, exauridas todas as hipóteses científicas, a re-
cação que possa ser dada pelas leis normais da física, conheci- alidade objetiva do fenômeno permanece e se apoia em fatos
das por nós. A precedência cabe assim à ciência e ao seu mate- tão sólidos quanto os da realidade exterior, que parecem negá-
rialismo. Mas, se, por tal método de indagação, nada se encon- lo. Deixemos a matéria entregue às suas leis. O espírito não tem
tra nesta primeira e mais baixa ordem de fenômenos, então é necessidade dela, a não ser, quando muito, como ponto de refe-
evidente que, se não quisermos permanecer alheios, impõe-se rência para fixar a atenção e as ideias. Mas a causa, o motor,
que abandonemos a sabedoria da matéria, que nada mais pode não está na matéria, e sim no espírito. Em um artigo não é pos-
nos dar, e apelemos para a ciência do espírito, capaz de, com sível expor mais do que as conclusões. Neste caso, o movimen-
outros métodos, permitir-nos um juízo sobre uma outra ordem to não é de caráter físico, mas está repleto de sentimento e de
de fenômenos. A primeira observou, por todos os seus meios, significação moral, qualidades ignoradas na matéria.
se existe ou não uma oscilação física e se é possível, segundo Observa-se na estátua um arquejar doloroso, as mãos se es-
as suas fórmulas, dar uma explicação do fenômeno. Foram tendendo como por amor, enquanto a coroa e toda a matéria
exercidos controles de caráter elétrico e ótico, mas tanto os circunstante permanecem imóveis e indiferentes. O fenômeno,
eletroscópios, como os galvanômetros ou a imagem fotográfica pois, projeta-se também na matéria, mas está e tem origem nas
nada revelaram. Excluídas as causas físicas – elétricas, óticas almas, mesmo que estas tenham a necessidade de representá-lo
etc. – foram descartadas também as causas radiantes. Todo em uma realidade exterior, onde pode ser reconhecido e encon-
controle no sentido de descobrir uma causa física ou dinâmica trado. Toda a técnica das imagens corresponde a esta lei. O fe-
teve resultado negativo. Logo, na realidade objetiva, situada no nômeno não é menos extraordinário por isso. Ao contrário, jus-
mundo das leis cientificamente conhecidas, a estátua não se tamente por estar situado nas almas e revestir-se de um caráter
move. Para os aparelhos de registro, desprovidos do lado espi- espiritual, representa a via lógica e natural da comunicação do
ritual, que está na alma humana, o fenômeno não existe. Neste homem com as forças superiores da divindade. O fenômeno se
ponto, o fenômeno foge à ciência atual, que deve retirar-se, torna realmente miraculoso, quando pensamos que este contato
declarando a própria incompetência. das massas com Deus é tão poderoso e de tal ordem, que o mo-
Entramos agora, aqui, em um campo inteiramente diverso. vimento espiritual invade mesmo a matéria e a arrasta consigo.
A ilusão ótica também está excluída, tratando-se de um fenô- E é isto o que confere a esta, no fenômeno, a parte de efeito, e
meno coletivo e objetivo, de movimentos parciais e intermiten- não como se acreditou, a de causa.
32 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
As multidões acorrem, veem, choram, convertem-se. A que já não interessa mais qual seja a ideologia. Tanto isto é
matéria da estátua, de per si muda e inerte, modela-se assim verdade, que o conteúdo delas consiste apenas na mesma coi-
em uma forma de pensamento e exprime uma ideia superior sa: mentir, conquistar, dominar.
de santidade, de bondade e de fé. Esta ideia, que é viva nas De tudo isto nasceu uma extraordinária recrudescência da lu-
almas, torna viva a estátua inerte. Esta forma de vida a faz ta pela vida. O racionalismo mal disfarça a realidade bestial, em
mover-se por vias interiores, que podem mesmo chegar a que o lobo, não importa em que forma social, alia-se a outro lo-
atingir a solidez das leis físicas. Faz também com que ela fale, bo apenas porque a união faz a força, tornando mais fácil vencer
e a alma docemente ouve. Mas não é a estátua que fala. É a e pilhar. Formam-se, assim, as associações de interesse que
voz de Deus que se fez ouvir pelas almas, por vias interiores, mantém ligadas em unidades compostas algumas classes de in-
através de um meio sensório aparente, necessário para firmeza divíduos, não importando sua categoria ou tipo biológico, nem
e atenção dos espíritos habituados a perceber quase somente os objetivos aparentes apregoados ou o lugar na Terra onde tudo
os estímulos dos canais exteriores. Então a alma das multidões isto se passa. Essas diversas formas são aparências de um mes-
ouve a Mãe de Cristo dizer-lhe: “Na hora tremenda que te afli- mo problema substancial, que é a luta, o ataque e a defesa, que
ge e que tu, no teu instinto, sentes aproximar-se pavorosa, eu se tornam mais fáceis se executados em grupo. Não importa,
aqui estou para te proteger com o meu amor. Vem a mim. Crê. pois, se esses agrupamentos possuem características e objetivos
Vem, eu te salvarei”. Isto corresponde também aos profundos religiosos, econômicos, políticos etc. Se reduzirmos todas essas
instintos da vida, pois esta, nas horas apocalípticas, recorre às diversas formas à sua nua realidade biológica, então compreen-
ideias mães da estirpe e às forças biológicas salvadoras, que deremos que, atrás de todos estes princípios que deveriam edu-
não são destruidoras, como no homem-conquistador, mas sim car o indivíduo, está na realidade o homem, buscando submetê-
conservadoras, como na mulher-mãe. los a si mesmo e adaptá-los às suas necessidades, que são antes
Desta maneira inicia-se o colóquio entre Deus e as multi- de mais nada biológicas, isto é, de um animal que quer viver.
dões. Os dois interlocutores se falam e se aproximam cada vez Nesse estado de coisas, tendendo cada vez mais ao caos,
mais. É a hora histórica tremenda que aguça nas massas a sen- onde “homo homini lupus”26, em vão busca-se no mundo um
sibilidade para o divino. A tragédia está nas almas. O temor da poder, uma autoridade superior que restabeleça a disciplina,
aproximação dos sem Deus provoca, por natural lei biológica sem a qual não são possíveis a paz e o bem-estar. As nações
de reação, uma automática frente de resistência dos homens que procuram unir-se, como fazem os homens nas classes sociais,
estão ou estarão com Deus. Assim, pois, de acordo com o que com o fim de atacar e defender. Formar-se-á um espírito de
se é, vê-se ou não o fenômeno. Cada um de conformidade com grupo, não mais apenas de indivíduos, mas de nações, sólido
a própria alma. E isto é lógico, porque não se trata de uma visão porque utilitário. A psicologia da alcateia de lobos estender-se-
dos olhos, mas sim da alma. Só assim tudo se explica: tanto a á dos indivíduos aos povos, que se coalizarão em classes domi-
imobilidade física da estátua, como o seu movimento espiritual, nantes, como acontece antes no seio de qualquer nação. Os fe-
invisível para muitos, porque inexistente em sua alma. Explica- nômenos sociais são compreendidos apenas quando vistos pelo
se, desta maneira, como tais fenômenos, antes tão raros, verifi- que realmente são, isto é, fenômenos biológicos particulares.
cam-se repetidamente agora, nestes momentos tão calamitosos. Mas, ainda que as unidades em luta se tornem cada vez mais
Deixemos, pois, à matéria o que é da matéria, para dar assim ao vastas, isto não basta para formar um poder superior a todos,
espírito o que ao espírito pertence. E é no espírito que devemos sempre parciais e terrestres. Superior quer dizer melhor pela in-
venerar o milagre de Deus, que se faz sentir tangivelmente pre- teligência, capacidade e bondade. Isto existe no super-homem,
sente em momentos tão excepcionais. no homem de gênio, no herói, no santo. Mas estes são extre-
mamente escassos, portanto agem isolados, insuficientes para a
XIV. SINAIS DOS TEMPOS25 formação de um grupo, além disso não se coadunam com a psi-
cologia do domador, indispensável para a formação da alcateia
Lancemos o olhar em derredor. Hoje, em nosso mundo, de lobos, necessária para dominar. Mesmo que os materialistas
impera o materialismo, que, na prática, significa racionalismo, não saibam, porque não podem compreender (dado que essa é a
egoísmo, força bruta, destruição e dor, estados conexos e liga- psicologia do involuído), esta inteligência ou poder diretor cen-
dos entre si numa cadeia fatal, até ao fundo. Isto é natural, tral existe, mas não reside na Terra, por isso não é passível de
porque o materialismo representa a filosofia do involuído, que agressão nem destruição. Ela é Deus, ainda que a esta palavra
não sabe apelar senão para os instintos bestiais, pois que não tenhamos de dar apenas um sentido científico, de mente e von-
pode compreender mais do que isso. Ao materialismo se con- tade diretoras da vida. Não há motivo para desencorajamento se
trapõe o espiritualismo, que possui características opostas e falta a diretriz humana. Quando ela existe, em verdade é muito
pode ser denominado, quando elevado, a filosofia do evoluído. relativa. De resto, não faz falta e, na maioria das vezes, seria
Essas duas atitudes do pensamento humano se defrontam hoje, prejudicial, como vemos. Nem por isto a história é destituída de
no mundo, em luta desesperada, uma das formas da luta entre senso ou caminha ao acaso. Ainda que os chefes frequentemen-
o bem e o mal. E cada uma, consoante a própria natureza, põe- te nada saibam do pensamento de Deus, esse pensamento, que
se de um ou de outro lado. não se vê nem é acessível ao involuído rebelde e destruidor,
É evidente que, quando se fala de ideologias num período não deixa de guiar tudo, ainda que numa ação deletéria para es-
de materialismo – e nunca se falou tanto delas como hoje – isto te último, mas com finalidade de construir o bem.
não pode ser senão por espírito de mentira, que faz parte dos Quem vê em profundidade, onde o materialismo involuído
métodos do involuído. Outra interpretação não se pode dar à não alcança, não se alarma e diz: tende fé. O que quer que su-
propaganda de ideologias que hoje se observa, quando a subs- ceda, Deus tudo sabe e tudo orienta para o melhor. As iniquida-
tância que apoia a maior parte desses estandartes é bem dife- des são de superfície, visíveis apenas aí. Deus trabalha por bai-
rente: é a voracidade do lobo, é o mais desapiedado egoísmo, é xo, na intimidade das coisas, para ressurgir sempre contra todos
o espírito avassalador de domínio, seja do indivíduo, da famí- os assaltos. Por isso é verdade que a vida sempre vence a mor-
lia ou da nação. O pendor para mentir hoje está tão difundido, te. Se na profundeza está Deus, silencioso e perene criador, na
superfície está o mal, rumoroso, destruidor e encerrado no tem-
25
Este capítulo e alguns dos seguintes foram, pelo mesmo autor, po. O mal naturalmente se contradiz, e nenhuma psicologia é
tratados em artigos publicados em 1948-49, em revistas italianas e
26
estrangeiras. (N. do A.) “O homem é o lobo do homem”. (N. do T.)
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 33
mais contraditória do que a racionalista moderna. Hoje acredi- que se devem despojar para serem dadas em pasto. O sistema
ta-se ser possível chegar à posse através da destruição, à alegria da luta de classes é o mais antiprodutivo e pode transformar-se
pela semeadura da dor, ao bem-estar por intermédio da guerra e em verdadeiro parasitismo. Arrisca-se, com ela, a chegar a uma
do ódio de classe. Mas, para possuir, é necessário ordem e dis- reação ou, realmente pior, à destruição do trabalhador – pacífi-
ciplina, em vez de rebeldia. Para progredir, é necessária a sábia co produtor – e, consequentemente, de todo o bem-estar. O sis-
obra construtora dos melhores, e não dos piores, dos pacíficos, tema está ligado à necessidade de ampliar cada vez mais a área
e não dos delinquentes; é imprescindível paz e segurança. Mas de destruição em que ele trabalha. Como as guerras, esse siste-
como é possível enriquecer por meio de agressão e furto recí- ma está unido à força e à necessidade de conquistas sempre no-
procos? Este processo resseca as fontes de toda riqueza, que só vas que o justifiquem. Essa necessidade está implícita na pró-
pode nascer do trabalho pacífico e da confiança. Não é mais ló- pria natureza do sistema e, por isso, o tornará cada vez mais fe-
gico aspirar ao bem-estar por uma elevação geral do nível eco- roz e agressivo no exterior, férreo e desapiedado no interior, is-
nômico através de um trabalho concorde do que esperar melho- to é, antissocial e antivital, levando-o a um desequilíbrio bioló-
ramentos de uma destruição alternada e improdutiva? As armas gico que lhe acarretará, em um determinado ponto, fatalmente,
preparam o deserto e a morte, não o bem-estar e a vida. uma ruptura e a ruína. A espantosa irracionalidade do raciona-
Remedeia-se, então, pedindo um esforço que visa um paraí- lismo moderno não alcançou esta verdade elementar: opressão,
so futuro, não aquele apregoado e utópico dos céus, mas sim extorsão, violência, são forças negativas, que, por isso, se des-
real, na terra. E se escarnece do paraíso celeste, conquistado por troem e jamais poderão construir, porque essa função construti-
esta realidade. Mas este tem pelo menos a vantagem de ser uma va só se pode encontrar nas forças positivas, que são a convic-
promessa sem controle, porque se mantém no outro mundo, en- ção, a colaboração, a confiança. O racionalismo não compreen-
quanto já se via que o paraíso terrestre ninguém conseguia deu que o materialismo é um impulso negativo, que tende à
cumprir. Por este motivo, poucos são ainda os que creem em destruição de tudo, inclusive de quem o pratica. É verdade que
fenômenos semelhantes. Embora a ciência e o progresso te- ele acredita poder prescindir da alma, negando-lhe a existência.
nham caminhado, a dor, se não cresceu, pelo menos não dimi- Mas o homem permanece um ser com alma. Ele não é um nú-
nuiu. Que descrédito! Se tais promessas materialistas do paraíso mero, uma máquina de produção, um cálculo econômico. É um
terrestre foram logo compreendidas e aceitas, a razão está em ser humano. As construções do racionalismo moderno são
que elas se dirigem aos instintos animais do homem. A via, a construções contra as quais a vida se rebela. E a vida esfranga-
princípio, como para todas as vias do mal, é fácil. Mas esses lha tudo que lhe constitua obstáculo. Certas leis que represen-
instintos não raciocinam e exigem satisfação. Desde que esta tam o pensamento e a vontade de Deus não podem ser plasma-
falte, verifica-se a revolta. O animal morde quando se vê mal- das por nenhum poder humano.
tratado, e o involuído, que é presa do materialismo, é feroz. É necessário que o espiritualista veja todos os aspectos da
Uma fé que origine esperança em qualquer coisa que supere vida e não se limite à repetição estereotipada das fórmulas da
a miséria cotidiana e a insatisfação humana e salve o homem da sua religião ou grupo, quaisquer sejam elas. Existem hoje males
desesperação das más horas, é necessária a ele. A fé possui essa gigantescos nesta nossa época convulsionada, são problemas
função biológica de defesa, de resistência e de recuperação. É formidáveis, mas eles já foram denunciados, sentidos, investiga-
uma verdadeira força para a luta, mesmo material. Destruir essa dos e enfrentados com vigor e nova fé. O materialismo é um as-
fé é perigoso, porque então se desarma a vida dentro da dor. Que salto que invade toda a nossa vida, opondo-se às forças do espí-
meios fornece o materialismo que possam compensar a perda de rito. Mas esse assalto serve justamente para despertá-lo e desen-
tais defesas? Que dizer, então, quando a compensação oferecida, volvê-lo. Jamais nasce tanta fé como nos tempos de descrença,
o paraíso terrestre, animalesco e vegetativo, não se realiza mais nem se formam tantos mártires e heróis como sob a opressão. Os
e, mesmo que se verifique, a alma, como é natural, não se en- dois movimentos, pois, de autodestruição do materialismo e de
contra satisfeita com ele e procura outro? Mesmo atingindo o reação do espírito, concorrem para a mesma meta.
bem-estar material, sabe-se que nem só de pão vive o homem. É Não se aflijam os bons, porque são os mais fortes. Carlyle
difícil saciar o homem, ainda que lhe dando todo o bem-estar. dizia no Sintomas dos Tempos: “A verdade é que quem possui
Quando, pois, além disso, dissemina-se a luta e, por conseguin- uma sabedoria imensa, uma verdade espiritual ainda desconhe-
te, a dor, associando-se a uma filosofia ateia, o absurdo é evi- cida, é mais forte não do que dez mil homens, mas sim do que
dente. Sim, porque nunca é tão necessária a fé como na dor. todos os homens que não a possuem. Ele os supera com uma
Quem semeia a dor, ainda que seja ateu, justamente porque se- força eterna, angélica, como que empunhando uma espada for-
meia a dor, compele a uma fé em um paraíso situado algures, jada na harmonia dos céus, uma espada à qual não poderá efi-
porque, sem uma esperança de felicidade, cá ou lá, não se vive. cazmente resistir uma couraça ou uma torre de bronze”.
Isto é instinto. Quem, pois, destrói Deus, para imperar com a É necessário que o evoluído, que é mais inteligente, observe
agressão, abre as vias do céu, que conduzem a Deus. Somente a as vias do mal e os métodos do involuído. Este, para dominar,
ingenuidade do involuído pode acreditar que uma fé se possa permanece encerrado em um sistema que o torna um projétil
destruir com a força. Oprimindo-se, cria-se a fé, porque esta sa- lançado para a autodestruição. A organização dos involuídos,
tisfaz a ânsia de pregar. Ouvi dizer: a este as coisas na terra de- para manter-se com a força, que é o seu meio, atrai e deve cer-
vem ter andado mal, para que se tenha voltado com tanto fervor car-se dos piores elementos da sociedade, destituídos de inteli-
a Deus. Nesse erro caíram os imperadores romanos, perseguindo gência, de cultura e de piedade. Que rendimento se pode obter
os primeiros cristãos, e caem os perseguidores de todos os tem- deles? Tal organização deve temer o despertar do senso de hu-
pos. Para cada mártir caído, nascem cem novos crentes. manidade que está na alma deles, e não o embrutecimento que
Mas a reação das massas pode assumir a direção oposta possa destruir a alma. O nosso tempo procura fabricar homens
quando se trata de involuídos. A dor pode, ao invés de elevar, em série, o homem-máquina para produção (o grande produto
embrutecer. Neste caso costuma-se atirar-lhes um cibo de ódio, da moderna técnica científica), no qual não é o espírito que co-
e a posição de domínio se salva, instigando-os contra uma presa manda a máquina para os seus fins superiores, mas é a máquina
humana cada vez maior. É um pedaço de pão que se dá a ex- que sujeita o espírito. É necessário atentar para esse homem,
pensas alheias, como primeira realização terrestre do paraíso que é imagem de Deus, ligado por Satanás à máquina. Seguin-
prometido. Porém a via é perigosa. Como todas as vias do mal, do Satanás, o mundo moderno conseguiria inverter este meio de
é fácil apenas no inicio, transformando-se em catastrófica no libertação, tornando-o um instrumento de escravidão. A vida
fim. Ela torna necessária uma inexaurível coorte de vítimas, possui limites de resistência e incríveis meios de reação. Quan-
34 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
tas almas agonizam, asfixiadas pelo materialismo moderno? fatalmente levado à autodestruição pelo seu próprio sistema não
Qual é o seu limite de resistência? Quando se despedaçarão elas é apenas filosófica, mas sim uma realidade prática. Satanás,
no desespero? E que reação nascerá deste desespero? Eis os mesmo quando opera racional e cientificamente, trabalha sem-
males recentes da história, o imponderável que se negligencia, a pre em perda, ainda que dispondo de todos os meios de riqueza,
invisível ação de Deus! As dores se somam, montanhas de mor- astúcia e força. No balanço final, a colheita dos esforços des-
tes se acumulam, a vida ulula desesperada, porque foi traída pendidos é uma traição. Satanás não paga senão em moeda fal-
com as promessas do paraíso da ciência materialista. Quando sa. Isto é dado pelo seu sistema. Apostar no mal é um mau ne-
irromperá o equilíbrio? É a vida que dirige a história, e nin- gócio. Este é o calcanhar de Aquiles do mundo moderno, ver-
guém pode resistir à vontade da vida, que não quer morrer. Ela dadeiro colosso de pés de barro. O complexo racionalismo do
não morreu no tempo e não pode morrer agora. A força bruta nosso tempo está excessivamente carregado de cultura e por
tenta conter cada vez mais a maré da reação. Mas esta sobe, so- demais encerrado na mecânica da sua lógica para compreender
be tácita e constante. Em um dado momento atravessará e rom- uma causa tão simples. Apoiar o próprio poder nos involuídos;
perá os diques. Será a destruição apocalíptica da fase atual. Ho- apostar nos piores, nos extratos inferiores da sociedade, iludin-
je, estamos na era da mitra e da bomba atômica, na era da des- do-os que sejam os senhores, quando antes deveriam ser educa-
truição. Uma certa percentagem de destruição e de mortes justi- dos para aquilo que não sabem fazer; não ter em defesa senão
fica-se com a vitória, que pode transformar a carnificina em sa- mandíbulas de lobo e procurar as soluções do problema no ven-
cro holocausto. Mas, além de um certo limite, frente a frente tre aberto do próximo – isto tudo não pode acarretar senão a ru-
com a catástrofe, não há idealização de morte e martírio que va- ína. A salvação e o futuro só podem estar no oposto disso, isto
lha. A morte aparece, então, na sua verdadeira e horrenda luz, e é, no apoio aos evoluídos, na aposta nos melhores, nas camadas
a vida se rebela; além de um dado limite, não há vitória que não econômica mas sim biologicamente mais avançadas, que
possa compensar e justificar as perdas, nem tornar razoável e têm consciência do duro encargo a assumir; em ter como defesa
útil o sacrifício. Este então se torna assassínio ou suicídio. Ora, a justiça e procurar a solução dos problemas no bem do próxi-
quando um sistema, para manter-se, coliga-se à necessidade de mo. Tudo isto é assim porque nenhum homem, por mais pode-
um sacrifício crescente, o limite da destruição deve cedo ou roso que seja na Terra, pode impedir, com uma situação inver-
tarde chegar. Refazer os passos não é mais possível, porque se- tida e artificial, que a vida queira e busque uma solução dada
ria necessário tragar toda a dor e morte semeadas, neutralizan- pelo tipo mais inteligente, mais trabalhador e produtivo, mais
do-se com renovada alegria e vida. Faz-se mister, pois, avançar, apto a colaborar, confraternizando em sociedade.
e avançar sempre para o abismo. É terrível não se poder parar, Concluindo, saudamos, na forma do pensamento e da ação
não se poder retroceder. Nas vias do mal, como nas do bem, que o materialismo nos deu, um instrumento de Deus para nos
marcha-se sempre até atingir o fundo permitido pelo sistema, e abrir as portas da nova civilização do espírito.
o progresso em tal caminho se faz cada vez mais perigoso, difí-
cil e catastrófico. O método implica uma função destrutiva, e a XV. O ATUAL MOMENTO HISTÓRICO
destruição chama a destruição. “Abyssus abyssum invocat”27.
Cada vez mais. É um afundamento satânico de tudo. Olhemos mais uma vez em nosso derredor. No atual mo-
E para que serve tudo isto? Deus o sabe, e a vida o expres- mento histórico existem dois estados: um aparente, superficial
sará. Certamente, o presente serve para forjar o futuro, pois, de e transitório, que é visto por todos e constitui a base de julga-
outro modo, não poderá ter sentido. E é para isto que serve, mento da maioria; outro real e profundo, dado pelo eterno de-
mesmo quando, na mente dos homens, ele pareça feito unica- senvolvimento das coisas. O primeiro é de destruição, miséria,
mente para si ou para destruir o futuro. De tantas imensas cons- mentira e ódio – um estado bestial, involuído. Aí, os melhores,
truções ideológicas, sociais, econômicas e religiosas de hoje, que, por serem os mais evoluídos, conquistaram os valores
talvez não reste senão algo de secundário, atualmente ainda não mais elevados da vida – que não são os materiais, única meta
previsto na verdade. São muitos os secretos fins da história, ig- dos involuídos, mas sim os espirituais, bens preciosos e pode-
norados pelos homens. A vida revoltar-se-á contra a máquina e rosos – são hoje perseguidos e deslocados pelos piores. Hoje é
buscará viver livre no espírito. A ciência com que a orientação exatamente a hora do mal, cuja característica é a negação e a
materialista quis trair o mundo inverter-se-á para demonstrar a subversão. Assim, os melhores se tornaram perseguidos, quase
alma e Deus e nos guiar, pelas vias do espírito, para a evolução. que obrigados a esconder-se, enquanto os piores conquistaram
Desprovido da coesão resultante dos ideais e metas superiores, tudo. Mas é natural que os revolvimentos necessários para pas-
o atual movimento materialista, traído pela força e pela riqueza sar de um estado de equilíbrio a outro, evolutivamente superi-
em que acredita, desagregar-se-á. Homens que não acreditam or, sejam também convulsivos. É natural que, para passar de
no sacrifício e no amor fraterno – valores que levam à compen- um estado de legalidade ao de uma legalidade mais completa e
sação – saltarão à garganta de outros homens idênticos. O utili- perfeita, seja necessário atravessar uma fase de ilegalidade,
tarismo conduz à traição. Homens e povos criam no seu pensa- que depois se refaz e coordena em uma nova ordem. Também
mento e ação um sistema de forças que, depois, os domina. Es- durante a Revolução Francesa, que teve os seus fins históricos
se sistema é uma nêmese que pesa sobre o mundo moderno. Foi e sociais, verificou-se a ascensão da escória. Mas, visto não
desejado e, daí por diante, é fatal, até o fundo. As religiões do corresponder a um valor intrínseco, é uma posição falsa e, por
ódio organizado, o método da destruição científica, uma seme- conseguinte, não pode durar. Então, em qualquer revolução, ou
lhante psicologia absorvida e vivida em ação por tanto tempo, seus filhos demonstram estar à altura da posição conquistada,
devem produzir os seus frutos, sem possibilidade de evasão. ou é a própria revolução que os mata, como matou Robespierre
Até quando a força bruta das armas bastará para suprir a fal- e seus companheiros na França. Mas o que, inversamente, en-
ta de inteligência para compreender que a vida social não se contramos em profundidade? Toda a verdade, pela lei do dua-
pode realizar sem confiança e colaboração? Um sistema basea- lismo universal, não está completa se não for vista em seus
do na violência não pode passar de instrumento de destruição, dois temas antitéticos e contraditórios, dos quais ela se compõe
sem nenhum valor como meio construtivo, e deve, pois, fatal- na totalidade. No outro extremo do fenômeno histórico atual,
mente dissolver-se no caos. Na prática, isto significar uma per- que aparece na superfície, temos um estado oposto, de prepa-
da progressiva. Como se pode ver aqui, a teoria de que o mal é ração subterrânea, de espera e maturação. Assim como se diz
que sob a neve está o pão, também é sob a tempestade que es-
27
“Um abismo atrai outro”. (N. do T.) tão amadurecendo os germes de uma nova civilização. Para
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 35
compreender isto, seria necessário conhecer não só as leis his- ra o observador superficial, hoje dominante, é, pois, exatamente
tóricas mas também as leis biológicas, pois delas a história o mais verossímil e lógico para o observador profundo. Por isso
humana não é mais do que apenas uma parte. Quem compre- nos encontramos precisamente em uma noite que precede um
endeu essas leis não discute mais com os homens, que, em ge- novo dia, pois, na vida, é exatamente a noite que prepara o dia; é
ral, não sabem o que fazem nem por que fazem. Discute, isto a morte que anuncia o renascimento; é o mal, a destruição e o
sim, com as leis biológicas que os movem, leis às quais eles, martírio que anunciam o bem, a construção e o espírito. Encon-
que tanto creem comandar, não fazem mais do que obedecer, tramo-nos no fundo do vale da onda histórica, que deve necessa-
movidos, mais ou menos lúcidos e conscientes, pelos instintos, riamente, depois, reascender, como tornam a subir todas as on-
que são as forças por meio das quais as leis os manobram. Isto das. Conclusão: caminhamos para uma nova civilização do espí-
porque o caminho da história não se faz ao acaso, não está en- rito, para a nova civilização do Terceiro Milênio.
tregue ao capricho ou vontade dos povos e muito menos de Trata-se agora de saber como se conseguirá essa nova civi-
seus dirigentes. Quem faz a história são as correntes de pensa- lização. Naturalmente, porque é nova, ela deverá estar, por ra-
mento coletivo, que são inconscientemente sentidas e expressas zões de equilíbrio e compensação, nos antípodas do que hoje
pelas massas. E os dirigentes serão tanto mais capazes quanto denominamos a nossa civilização. Não se trata de retoques do
melhor souberem sentir essas correntes, interpretá-las, exprimi- que é velho, de novas ordenações políticas, com a habitual
las, encarná-las. Mas, se eles quiserem seguir outra via, substi- substituição, para vantagem de novas figuras ou classes; não se
tuindo-se às profundas impulsões biológicas, para desviá-las do trata de continuar, mas sim de iniciar outra, com princípios di-
caminho, elas se rebelarão e se libertarão deles como de um ferentes. Expô-los aqui é tarefa muito grande para um capítulo.
trambolho. O poder, para manter-se, não pode possuir finalida- Bastam-nos alguns acenos. Os atuais valores que se projetam
des egoísticas individuais ou de classe, visando domínio, deve acima do nível comum pertencem mais ao plano animal do que
representar em vez disso uma função biológica e ser compreen- ao plano que deveria ser humano. O homem atual é involuído, é
dido como uma missão a serviço da vida, caso contrário ela re- mais animal do que homem. Hoje vale a força e a astúcia. A
agirá, fazendo qualquer poder humano desmoronar. honestidade e o mérito, valores superiores, têm importância
Eis então que, no fundo das coisas, há algo bem diferente; mínima. A bondade e a inteligência voltada para o bem são as
estão aí o pensamento e a vontade diretora de Deus, que não qualidades menos úteis na vida social de hoje e chegam a ser
são apenas transcendentes nos céus, mas também imanentes em mesmo nocivas. Hoje, a importância é medida pela capacidade
nós e em nossas coisas, presentes com a sua incessante obra de prejudicar ou pela utilidade extraída, e não pelo valor pro-
criadora. Na direção da história há, portanto, uma outra obra, priamente . Isto acontece justamente porque a balança dos juí-
bem diferente da pobre e ignorante sapiência humana. Há a sa- zos humanos, mais que de um ser superior, é a de um animal.
bedoria de Deus. Que isto seja de grande conforto aos melho- Hoje, o poder não é compreendido como uma função biológica,
res, mais evoluídos, hoje expulsos e esmagados. cumprindo missão a serviço do povo, mas sim como uma con-
Quem está habituado a olhar com humildade e amor, pedin- quista com objetivos de vantagem individual, como qualquer
do e entregando-se a esse pensamento divino que tudo rege, outro meio. A seleção biológica de um tal tipo, tido como o
constata experimentalmente a existência de uma lei de ordem e mais forte, corresponde a estados primitivos, involuídos. A evo-
de amor que está no centro das coisas, que as alimenta e as lução impõe a passagem para formas de luta e de seleção bioló-
mantém em vida, mesmo deixando que na periferia, na forma e gica mais elevadas, dirigidas à formação de um tipo menos in-
na matéria, dominem a desordem e o mal. Assim como nas consciente, menos egoisticamente isolado. A vida caminha para
grandes tempestades oceânicas, a poucos metros abaixo da su- a formação de grandes unidades coletivas humanas, em que é
perfície das águas, observa-se a calma, também verifica-se na necessário compreensão e colaboração, e não mais subjugação
história, sob o grande rumor das revoluções, da queda das clas- e proveito. A época do senhor e do escravo já passou. Marcha-
ses sociais e dos tronos, do desmoronamento das enormes cons- se para novas formas de liberdade, que, porém, não significam,
truções políticas, a calma das grandes leis da vida, que, lentas como acredita o homem de hoje, abuso e licença, mas sim uma
mas seguras, vão preparando o futuro. Futuro garantido, como nova disciplina, mais elevada, uma ordem mais férrea e uma
garantida é a primavera, que deve (pelas leis da vida) trazer consciência capaz de compreender a utilidade disto e obedecer,
consigo a germinação das novas massas. Não podemos, de fato, ainda que seja por espírito utilitário.
presumir que a continuação da vida seja confiada aos homens e Hoje se crê no número. Basta uma maioria, não importa de
aos seus expedientes. E, se ela sempre triunfou e triunfa sem- que elementos, para formar uma verdade, um direito, para esta-
pre, como o demonstra o fato de haver chegado até aqui, isto se belecer uma norma de vida, uma lei. Ora, como pode a quanti-
dá justamente porque ela é protegida por essa sabedoria divina, dade fazer a qualidade? Não podemos formar nem ao menos
que a guia, a nutre e a mantém. uma única unidade reunindo um número de zeros, mesmo que
Abordemos agora a parte mais importante da questão. O que seja infinito. Isto é elementar. Hoje, a matéria é tudo. Ela é
é que a sabedoria das leis biológicas e, por conseguinte, tam- apenas meio, mas foi elevada a fim. A riqueza é o objetivo da
bém históricas e sociais nos está preparando para o futuro? A vida. Troca-se o continente pelo conteúdo. O trabalho material
história jamais caminhou uniformemente, mas sempre por vale mais do que o intelectual. O que decide na difusão de uma
ações e reações, por impulsos e contrachoques, progredindo no ideia não é o seu valor, mas a posse de meios materiais que po-
tempo não como um rio canalizado em margens feitas pelo ho- dem difundi-las. As opiniões fabricam-se mecanicamente. Bas-
mem, mas como um curso d’água que, deixado livremente va- ta possuir a imprensa e o radio. A grande floração de meios de
gar pela planície, por ela serpenteia da maneira que o seu dina- que se enriquece a nossa pseudocivilização mecânica e utilitá-
mismo lhe permite. Este processo de ação e reação contraria o ria, nos fez esquecer o melhor. Eles absorveram toda a nossa
que presume o cálculo das probabilidades, de modo que ama- atenção, sujeitaram o nosso espírito, invadiram tudo, substi-
nhã pode suceder o contrário de hoje. Essa é a lei da vida, que tuindo-se a tudo e pretendendo bastar a tudo. Mas já sentimos o
não está baseada na continuação indefinida de estados idênticos vazio terrível que está em nós, a carência de diretivas, porque
e constantes, mas sim na compensação de contrários e no seu sentimos cada vez mais que somos incapazes de dirigir esses
equilíbrio. Sabemos que a oscilação entre contrários, isto é, en- meios, sempre mais poderosos. E o perigo é grave, porque, se
tre um extremo positivo e um extremo negativo, em que cada não soubermos dirigi-los com sabedoria, eles constituirão, em
fenômeno se inverte no seu oposto, é a base da luta, da evolução nossas mãos, um instrumento de destruição universal. Isto o
e da própria percepção. O fato mais inverossímil e fantasioso pa- mundo já viu e fez nestes anos. Basta continuar um pouco ainda
36 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
nesta loucura, e a humanidade será destruída ou, pelo menos, que será amanhã) ao seio de uma nova civilização, de tipo di-
reduzida ao estado de barbárie. Dir-se-á, porém, que, para al- ferente. A nossa já atingiu os seus fins. A nova atingirá outros,
cançar isto, urge um novo homem, consciente, justo, o que foi e mais elevados e complexos, servindo-se dos produtos do traba-
será sempre uma utopia. Ora, a história nos mostra com fre- lho executado pelo nosso tempo. A vida hoje diz: basta por es-
quência que é justamente a utopia que será a verdade de ama- te lado. E acrescenta: operemos a compensação, completando
nhã. Um exemplo disso é o cristianismo. Além do mais, há um o edifício pelo outro lado. Um vazio tremendo se formou exa-
fato positivo: a evolução. É necessário evoluir. Essa é a lei da tamente do lado espiritual. É, na multidão, uma atrofia perigo-
vida, que sempre fez pressão no íntimo das coisas, não só para sa para o equilíbrio, uma carência patológica que urge remedi-
se manifestar, mas também para subir a manifestações sempre ar. E as forças da vida se apressam hoje a preencher a falha,
mais perfeitas. Luta-se tanto, sofre-se e experimenta-se, mas convergindo a sua ação precisamente nessa direção, semelhan-
tudo por esse motivo. O amanhã deve, por lei, superar o presen- temente ao que fazem na defesa orgânica. Essas forças se pro-
te. Ademais, o homem atual alcançou um ponto crítico em que, põem agora a construir o novo homem do espírito. Atualmente
não sendo possível continuar com os velhos sistemas, impõe-se nos encontramos na profunda noite da matéria. O mundo está
uma mudança de rota. Os poderes hoje em suas mãos são muito desorientado, sem guia e com muito pouco senso. O espírito
superiores àqueles que ele possuía no passado. Isto implica a parece morto. Não existe mais arte. A música é um pandemô-
necessidade de uma proporcional sabedoria, para saber como nio de rumores irritantes. Hoje, a vida está tentando a constru-
empregá-los bem. O homem que possui a bomba atômica não ção de novos e grandes organismos coletivos, especialmente
pode agir com a mesma inconsciência e psicologia de ferocida- daqueles que têm por célula o indivíduo, nas colossais unida-
de empregada pelo guerreiro medieval, que não dispunha senão des biológicas. Este novo ser, do qual as massas constituem o
de uma lança ou pouco mais. Com essa psicologia, o homem corpo, ainda vaga incerto à procura da sua alma diretora, como
moderno destruiria a humanidade. se fora um antediluviano monstro paleontológico. Aturdido pe-
Como se vê, a utopia de uma nova civilização não se apoia lo rumor de quem mais grita e fere os sentidos e os seus instin-
em sentimentos de bondade e de altruísmo. Conhecemos o ho- tos, desconfiado e crédulo, arredio e esperançoso, rebelde e
mem, sabemos o que se pode obter dele e quais são as molas fraterno, esse corpo social das massas, ainda informe, procura
que o movem. Faz-se, pois, apelo ao terror que lhe inspirará a auscultar no seu instinto a longínqua voz da vida, seu único
perspectiva certa da autodestruição. Faz-se depois apelo ao seu guia. E a vida está pronta para gritar nesse seu instinto uma pa-
senso utilitário. Pede-se somente que o novo homem seja sufi- lavra nova, e as massas estão prontas para ouvi-la e segui-la.
cientemente inteligente para poder compreender a enorme van- Jamais como hoje, entre tanto esfacelo e atabalhoamento, os
tagem que pode advir para todos da valorização do fator moral espíritos estiveram tão preparados para se incendiar sob o in-
e espiritual na vida social, porque só assim se pode obter paz, fluxo de uma palavra ardente, feita de verdade verdadeira, sen-
confiança e aquela segurança que é a única garantia de qualquer tida, vivida, dita com seriedade. E a esperamos. Virá ao certo.
fruição do fruto das próprias fadigas. Se não se compreender is- Disto cuidam as sapientes leis da vida.
to, é inútil reconstruir. Com a psicologia do homo homini lupus,
com o sistema do revólver em punho, pode-se também fazer um XVI. UMA PARÁBOLA
inferno para os demônios e para os danados que vivem na Terra
e um purgatório para os justos, que assim se apressarão para Existiam muitos homens em uma certa terra, e cada um de-
procurar mundos melhores. Mas, na Terra, para quem nela tra- les, segundo a própria natureza, elaborou um plano de vida.
balha, nela possui e prolífera, só haverá desesperação. É neces- Um se propôs a triunfar no mais baixo e primitivo plano da vi-
sário compreender verdades elementares, entender que, quando da, tornando-se rei segundo a lei da fome e da egoísta conser-
se semeia violência e mal, não se pode colher senão violência e vação individual, isto é, vitorioso no mundo econômico dos
mal; que a reconstrução não se pode operar senão recorrendo-se bens e na posse da riqueza. Para isto, tudo sacrificou. Não viu
ao trabalho, o ato criador pelo qual o homem se torna operário outra coisa, nada mais quis e de nada mais se ocupou. E nesse
colaborador de Deus; que não convém jamais fazer mal aos ou- campo venceu. Trabalhou de corpo e alma, sem tréguas, em
tros, porque quem faz o mal nunca o faz aos outros como pare- prol dessa única meta. Casou-se pelo dinheiro, subordinando-
ce, mas o faz realmente a si mesmo. lhe o amor. Não teve filhos. Como fruto do seu esforço, obteve
Há leis na vida. Para se obter determinados resultados, co- extraordinário bem-estar. Chegou a ser mesmo estimado e res-
mo por exemplo o nosso bem-estar, é imprescindível seguir peitado, mas porque era rico e poderoso, e só por isto. Como
normas. Cada ato tem as suas normas, como cada fim tem o reflexo, ganhou igualmente autoridade honrarias e louvores.
seu caminho para ser seguido. Todos nós desejaríamos viver Mas foi pouco amado e, na realidade, foi apenas invejado. Du-
em um jardim, porém não deixamos de contribuir para fazer rante a vida, muitos lhe invejaram as riquezas e procuraram ar-
um campo minado. Que poderemos esperar, então? Mas cada rebatá-las. Na velhice, muitos desejaram seu fim, para apode-
um pensa que vencerá e se refará à custa do vencido. Não! Os rar-se dos seus bens e desfrutá-los. Ele morreu sem filhos, rico
vencedores não vencem desta forma. Apenas desempenham, e só, nem amado nem pranteado, e, mercê do fruto dos seus
através da sabedoria divina, uma função biológica diferente sacrifícios, outros gozaram. Tal foi a sua vida. Mas ele não ti-
daquela dos vencidos. Funções opostas, que se devem com- nha possibilidade de escolha, porque era esse o seu tipo bioló-
pensar e equilibrar para consecuções comuns, que a vida coli- gico, e não podia explicar-se porque era assim.
ma para todos, em formas diferentes e segundo as diferentes Um segundo se propôs a triunfar em um mais elevado plano
capacidades. O homem do futuro deverá ser mais inteligente, a da vida, tornando-se rei segundo a lei do amor físico e da con-
tal ponto que possa superar as ilusões psicológicas e não cair servação da raça, isto é, o vitorioso no mundo biológico da mul-
nos erros a que estas induzem. tiplicação da carne. A proteção dos filhos e da família o compe-
Concluímos agora nosso pensamento. O materialismo, fru- liu ao mesmo trabalho e argúcia do primeiro homem, mas com
to dos últimos séculos, fruto espiritual e material, já deu todo o uma finalidade que transcendia a sua própria pessoa, dado que
seu rendimento. Como filosofia, já se esgotou e agora é posto à esta se dilatara a ponto de compreender em si todo o grupo famí-
margem pela vida. Como técnica, deixou um produto útil, que lia, do qual ele era o centro. Casou-se por amor, teve muitos fi-
é o domínio sobre as forças naturais, postas em parte a serviço lhos, lutou, sacrificou-se por eles, trabalhou de corpo e alma,
do homem. Este resultado útil é o produto do nosso tempo e sem descanso, por essa sua única meta. E nesse campo venceu.
vai ser transferido (reduzido, porém, de fim que é hoje a meio Foi por eles amado, mas o seu patrimônio e o seu trabalho não
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 37
bastaram para tanta gente, e a pobreza dominou em seu lar. Teve homens voltou ao mundo com as qualidades do seu tipo bioló-
grandes afetos mas pouca estima, e nenhuma honraria, porque gico e, dado que não podia manifestar-se senão como era, tor-
não era rico e poderoso. Durante a vida não foi muito invejado. nou a agir como antes, isto é, procedendo de acordo com a na-
Na velhice, ninguém desejava a sua morte, porque nada havia a tureza da sua função. Porém, encontrando-se em um mundo
herdar. Morreu pobre, mas amado e pranteado. Tal foi a sua vi- mais evoluído, agora podiam funcionar organicamente.
da, mas ele não tinha possibilidade de escolha, porque esse era o Então o primeiro homem, utilizando a sua qualidade de tra-
seu tipo biológico, e não podia explicar-se porque era assim. balhador e a sua capacidade técnica, tornou-se um produtor útil,
Um terceiro homem se propôs a triunfar em um plano ainda não apenas para si, mas também para a sociedade. As condições
mais elevado da vida, tornando-se rei não segundo as leis da mais conscientes da vida do novo mundo não mais o constringi-
fome e do amor, mas segundo a lei da evolução, isto é, de con- ram a sacrificar tudo para poder alcançar a realização de sua
servação e criação dos valores morais que regem a vida. Quis personalidade; o rendimento das suas qualidades no cumpri-
ser o vitorioso no mundo espiritual, do amor fraterno, do bem e mento de sua função pôde realizar-se plenamente em benefício
da justiça. Tudo sacrificou para isto. Nada mais viu, outra coisa de si próprio e dos outros. Ele se tornou assim o rei do mundo
não quis e só disso se ocupou. Não cuidou de bens materiais e econômico dos bens e extraiu dele benefício para si e para to-
não se casou. Lutou, trabalhou de corpo e alma, sem quartel, dos. Foi também estimado e honrado, não porque era rico e po-
em prol dessa única meta. E neste campo venceu. Porém ele foi deroso, mas sim porque era capaz de poder formar e conservar
espoliado por todos e empobreceu. Não teve filhos nem afetos e a riqueza que possui valor coletivo. Ele pôde assim desfrutar
vagou solitário e triste. Não desfrutou de estima ou honrarias, também o amor dos outros, porque a riqueza que antes dedicara
porque era humilde e pobre. Durante a vida foi desprezado, a si, agora a dedicou também aos outros. A sua morte não foi
quando muito deplorado. Mas ele lutou pelo bem do próximo e esperada para que se apossassem dos bens, que agora já eram
sacrificou-se pela justiça e pela verdade. Por toda a parte, di- de todos. Ele representava um valor útil à sociedade e era ver-
fundiu luz e amor em derredor de si. A gente que em público o dadeiramente estimado, não pelo que possuía, mas pelo que
desprezava, intimamente o admirava. Por ocasião de sua morte, valia e produzia, por isso morreu amado e pranteado.
não deixou mais que as próprias dores, mas acabou amado e O segundo homem tornou-se o rei do amor terreno, utili-
pranteado por todos. Foi compreendido e venerado após a mor- zando o espírito adquirido de sacrifício e de dedicação à famí-
te, e reviveu no amor de uma grande família, a família dos seus lia, a sua capacidade de economia, de parcimônia e de trabalho
filhos espirituais. Tal foi a sua vida. Mas ele não tinha possibi- fecundo, não no campo diretivo, mas no executivo. Ele repre-
lidade de escolha, porque tal era o seu tipo biológico, e não po- sentou a carne honesta e pacífica, que, animada do espírito de
dia explicar-se porque era assim. bondade ativa, fez frutificar a terra e as fabricas, multiplicando
Esses três homens haviam trabalhado em três níveis diferen- as coisas com a sua atividade abençoada por Deus. Assim, a
tes, cada qual segundo uma das três leis biológicas fundamen- carne, ávida de multiplicar-se, como quer a vida, não foi cons-
tais, que alicerçam o funcionamento da vida e se exprimem pe- trangida a maldizê-la e a resvalar para o vício e para o mal. En-
los três instintos: 1) a fome; 2) o amor; 3) a evolução. Essas três tão reproduzir-se e multiplicar-se não constituiu mais um delito
leis, assim expressas, são os três planos ascensionais do edifício ou um perigo, e sim alegria de viver. Mas tudo isto foi possível
biológico do nosso mundo, onde cada um dos três tipos situa-se porque quem possuía a capacidade diretora, organizadora e
segundo sua natureza e com uma correspondente e diferente economicamente genética, não mais monopolizou apenas para
função. O homem da primeira lei pensa na conservação indivi- si o fruto das próprias qualidades, reservando o seu rendimento
dual, com o egoísmo. O da segunda lei pensa na conservação em vantagem da coletividade. Então, o amor são e fecundo não
coletiva, com a reprodução. Mas nem um nem outro cuida do se tornou uma couraça ou dissimulação; a família não represen-
progresso, de que só se ocupa o homem da terceira lei. Nós os tou mais um peso insuportável, qual agrupamento de lobos es-
vemos agir desorganicamente, como é o caso do mundo de ho- faimados, prestes a destruir os vizinhos; a classe operária não
je. São rivais e mantém-se separados. Cada qual possui a sua mais se arvorou em uma dinamite pronta a explodir em revolu-
personalidade, o seu instinto, a sua função, a sua recompensa, ções. Assim também esse tipo de homem pôde, recebendo o
cada um agindo por sua própria conta. As atividades ainda não que lhe faltava, dar o que possuía. Morreu tranquilo, sabendo
estão coordenadas. Cada um dos três tipos se acredita tudo e é que o futuro dos filhos estava assegurado.
levado a operar com espírito de exclusivismo e domínio, ainda O terceiro homem, segundo o seu tipo e capacidade, tornou-
que, à medida que o homem evolui, passe da primeira à segun- se ainda esta vez, o rei do mundo espiritual, o vencedor segundo
da e desta à terceira posição, superando assim a posição prece- a lei da evolução. Atingiu assim, com as suas qualidades, um
dente inferior. Por isso cada um, permanecendo no próprio pla- maior rendimento para o progresso coletivo, podendo manifestá-
no, encontra aí a recompensa que lhe cabe. O separatismo não las em um mundo então fraternalmente compreensivo! Quantos
impede a justiça. No primeiro caso, a recompensa foi medida e atritos, mal-entendidos e dores profundas evitados; quanto auxí-
restrita ao usufruto pessoal dos bens; no segundo caso, dilata-se lio na mais facilitada possibilidade de multiplicar, por meios
mais, polarizando-se na vida dos filhos; no terceiro caso, am- técnicos e econômicos, a expressão de si mesmo, para que a luz
pliou-se ainda mais e foi além, alcançando a vida espiritual da e o conselho, o amor e a bondade chegassem a todas as partes.
coletividade. Porém, quanto menos imediato e restrito for o re- Quanto tempo e energias ganhos e, por conseguinte, quanto
sultado, tanto mais se expande e dura. Cada um obteve segundo maior rendimento espiritual, ao poder libertar-se do inadequado
o critério de seu tipo, plano evolutivo de ação e função biológi- e ingrato trabalho de ter de se ocupar de bens materiais. A negli-
ca. As leis da vida são sempre justas, mas, no estado de separa- gência pela riqueza não produziu mais as desastrosas conse-
tismo que oferece o mundo humano egoísta e involuído, elas quências de antes. Ele não foi roubado nem se empobreceu; pe-
não podem funcionar senão isoladamente. lo contrário, não lhe faltou o necessário, que considerou mesmo
Esses três homens morreram e passaram. Depois de vários demasiado, ele que era a negação personificada da avidez. Natu-
milênios, retornaram ao mundo, que, entrementes, havia pro- ralmente era já tão rico em um nível superior, que não sentiu ne-
gredido de modo a conduzir a mente humana ao ponto de com- cessidade, na Terra, de tomar do fruto do trabalho alheio mais
preender o evangelho e aplicá-lo seriamente, como prática indi- que o mínimo indispensável. Quem é do espírito já possui a me-
vidual e cooperação social, realizando aquela coordenação fra- dida das coisas. Ele não foi desprezado e aviltado, porque negli-
terna de toda atividade, somente com a qual se pode realizar na genciava a posse. O estado de mais elevada consciência do
Terra um bem-aventurado reino dos céus. Cada um dos três mundo estava finalmente em grau de apreciar um homem pelos
38 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
valores espirituais, e não mais pelo critério da força ou da rique- novas formas. Os grandes criadores, portanto, nascem e operam
za. Desta maneira, ele foi compreendido e estimado. Não acei- agora, lançando essa semente.
tou honrarias, que não lhe serviam, mas, com infinita alegria, A civilização futura não é muito compreensível aos espíritos
viveu essa nova atmosfera de simpatia, que afetuosamente o de hoje. Pela observação de algumas formas mentais do nosso
aquecia e lhe enchia a triste solidão de antanho. O desenvolvi- mundo atual, verificamos que este, se é indiscutivelmente mui-
mento da gratidão, a concreta manifestação da resposta da vida to forte no campo da desorientação e da destruição, é, por outro
ao seu impulso na forma de confraternização com as suas criatu- lado, fraquíssimo no campo da compreensão. Como é possível
ras espirituais, a confirmação exterior da consciência íntima da dirigir povos, provocar e desencadear guerras, legislar, impor is-
própria utilidade coletiva, proveniente de um consenso amplo, to ou aquilo, agir em qualquer campo sem ter compreendido o
não só multiplicaram, para o bem dos outros, os recursos e ren- que seja a vida e a morte, a finalidade de cada coisa, o próprio
dimentos dele, mas também o transformaram num homem satis- plano do universo? O instinto, que tudo guia, basta para o bruto,
feito, feliz de ser um trabalhador do espírito, em plena eficiên- mas, ainda que, em grande parte, o homem esteja embrutecido, o
cia, e não mais num peregrino ou mártir, operário da dor. Ele problema da vida se tornou atualmente muito complexo para
não foi assim obrigado a esperar pela morte, para atingir nos ou- que esses instintos possam bastar. No mundo político, social,
tros a realização de si mesmo e dos seus ideais de bem. econômico, religioso e cultural, movemo-nos em um mar de
O que é que tivera tanto poder para alterar a posição desses contradições. Falamos de matéria, espírito, eletricidade, justiça,
três homens? Apenas uma atitude da alma, um fraternal espírito liberdade, direitos e deveres etc., sem compreender o que exa-
de compreensão e colaboração. Essa é a chave da felicidade que tamente sejam e sem saber colocar cada conceito no seu devido
está no reino dos céus. E este espera apenas uma forma de boa lugar, como parte integrante de um plano que logicamente tudo
vontade dos homens para descer à Terra. No fundo, cada um, se- englobe. Na cultura, somos muito fragmentários e divergentes,
gundo o seu tipo biológico, não pede senão para realizar-se a si perdidos em particularidades e em sutilezas inconcludentes. No
mesmo. Trata-se de uma sã e fecunda lei biológica. Mas, hoje, campo prático mata-se e rouba-se, agindo-se para o bem ou para
essa realização, para poder efetuar-se, deve assumir formas invo- o mal sem saber a exata consequência das próprias ações. E não
luídas, violentas e caóticas. Desse modo, a utilidade fornecida pe- o sabe nem quem faz o bem nem quem pratica o mal. Apenas
lo rendimento da própria personalidade não pode ser conseguida névoas. Existe a fé, mas a fé não é exata, é vaga. E a razão de
senão à custa de sacrifícios e danos individuais e coletivos. As- muito pouco vale. É imperativo esclarecer e demonstrar tudo,
sim, portanto, na terra está o inferno, e o reino dos céus está lon- para que o homem possa compreender tudo seriamente.
ge. E os homens de boa vontade são raros e esmagados. Bastaria Estranha transformação está sofrendo o materialismo! Escava
muito pouca coisa para tudo melhorar: ao invés de combaterem- e escava na matéria e eis que encontra o espírito, que havia nega-
se, os homens deveriam auxiliar-se reciprocamente! do. E as religiões, que clamam pelo triunfo porque veem na ciên-
Por esta parábola se vê como estes três tipos biológicos, se- cia uma confirmação, encontrarão uma alma individualizada, de-
gundo os quais é possível agrupar os homens, podem, somente signada com aqueles termos e conceitos que antes lhes pareciam
com a mudança da sua conduta recíproca, sem modificar sua tão adversos e demolidores. Hoje, todos se encontram divididos,
capacidade e atividade, transformar-se de modo a obter-se um sem conhecer a verdade pela qual lutam. Quem realmente luta
maior rendimento para cada um e para todos. Isto significa criar pela verdade, que é una, simples e única, não pode estar dividido.
a alegria e eliminar a dor. A evolução só pode levar-nos à feli- Quem está dividido está nas seitas, nos partidos, nos agrupamen-
cidade. E tudo isto está explicado pela presente parábola. tos e interesses humanos, no próprio egoísmo, mas não na verda-
de. Quanto ainda estamos longe de a haver compreendido. A
XVII. A DESORIENTAÇÃO DE HOJE unidade está no amor recíproco, filho da compensação que ainda
falta. Deus e a vida estão na unidade. No exclusivismo e separa-
Continuemos a descer das místicas alturas atingidas atrás, tismo está Satanás, isto é, a involução e a morte.
para vagar agora em nosso mundo, observando-lhe as condi- O ridículo e o horror da nossa atual situação serão compre-
ções atuais. Já dissemos no princípio do Capítulo X, “Paixão”, endidos pelas gerações futuras. Então se verá a imensa estupidez
que nos encontramos, aqui, na fase descendente do fenômeno de matar, porque se concluirá que não se mata uma pessoa des-
da personalidade oscilante, o que leva o autor a ver as verdades truindo-lhe o corpo. Os chamados mortos permanecem junto a
mais materiais da Terra e a focalizar, com respeito a elas, a nós, mais vivos do que antes e, segundo foram por nós tratados,
própria psicologia. assim também nos tratarão. Aqueles que se arvoram em juízes e
Uma das principais características do nosso tempo é a deso- justiceiros não o são senão por um momento, em que desempe-
rientação, qualidade negativa, expressão da atual fase involuti- nham, para fins que ele mesmos ignoram, uma dada função bio-
va. Enquanto a palavra de ordem do nosso tempo se mostra nas lógica. Eles serão, por sua vez, de acordo com o que fizeram,
diretivas conceituais de razão e análise, a da época que se se- julgados e mesmo justiçados. O papel de rico e pobre é instável,
guirá será de intuição e síntese. Se atentarmos para a palavra e o de vencedor e vencido é, como nos demonstra a história,
dos nossos homens de pensamento, observaremos que, apesar transitório para os povos. As revoluções quase sempre devoram
de estar ela carregada de erudição e ciência, sendo complexa e os próprios autores e filhos. Quem utiliza a espada perecerá pela
difícil, falta-lhe a orientação da suprema simplicidade da sabe- espada. Trata-se de equilíbrios de forças, equilíbrios que, obede-
doria e do verdadeiro. É uma complicação crescente, em mar- cendo a leis invioláveis, resolvem-se em esquemas que o ho-
cha para o caos babélico, em que, no fim desse século, encerrar- mem ignora e contra os quais nada pode. Como é efêmero para
se-á, mesmo no cérebro do dirigente, a nossa assim chamada quem quer que seja, em tal ordem de coisas, proclamar vitória.
civilização, para que, desta decomposição possa nascer uma Os próprios imperialismos, dissimulados sob mascaras di-
nova civilização, baseada em outros princípios, sustentada por versas, sempre iguais, não constituem senão uma forma de
outros cérebros, próprios de um tipo biológico diferente. obediência à Lei, que concede a palma ao vencedor apenas pa-
O corpo social desta corrente de pensamento, que já exauriu ra lhe confiar o encargo de, dominando, coordenar, nutrir e
o seu ciclo e completou a sua tarefa, com a atual civilização, es- permitir a evolução de outras nações menores. E estas, pela
tá se desfazendo. Nesta decomposição, prosperam todos os mesma Lei, deixam-se dominar, nutrir, guiar e instruir, até se
princípios patogênicos que têm função biológica de acelerar a tornarem adultas, para então rebelar-se e se tornarem, como se
destruição. Em todo campo, hoje, tudo é destruição. Mas é na diz, livres. É o mesmo fenômeno vivido pelos novos rebentos
putrefação do corpo morto que a vida depõe a semente das suas que crescem sobre o velho tronco, nutrindo-se da sua ruína.
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 39
Sempre o mesmo esquema: dualismo, centro e periferia, nú- XVIII. O ERRO DE SATANÁS E AS CAUSAS DA DOR
cleo positivo e elétrons negativos que giram em seu derredor,
pai e filhos. Crescidos os filhos, os pai nada mais tem a fazer. Observemos alguns dos grandes erros do nosso tempo, de-
O mesmo se passa com as nações imperialistas. E todos sem- vidos à sua desorientação.
pre servos da mesma lei, todos enquadrados no desenvolvi- Uma das graves consequências do pecado mortal dos nossos
mento dos ciclos históricos do tempo. É fatal. tempos – o orgulho – é a incompreensão do problema da dor,
Mas, hoje, não estamos numa época de compreensão e sa- do seu porquê e dos seus fins. Em nossa Terra, hoje, uma parte
bedoria. As ideias são magras e poucas, frequentemente erra- tende a infligi-la a uma outra parte, que vive sob a angústia de-
das; há trevas nas mentes e enormes vácuos. Que terríveis pro- la. Assim os piores, os involuídos, mais ferozes, não se cansam
vações serão necessárias para se chegar a compreender apenas de organizar aquilo que pode fazer sofrer tantos outros, que
pouca coisa. Mas é necessário, porque não se pode conquistar a formam a outra parte da humanidade e, ainda quando não che-
sabedoria com o esforço alheio, mas apenas com a própria dor. guem a sofrer, vivem sob a psicose do terror de vir a sofrer.
Assim progride lentamente o caminho da história. O destino Acreditou-se que tudo isto poderia ser justificado por meio da
é um desenvolvimento lógico, e, quando se lhe conhecem todos teoria da seleção do mais forte. Mas esta é a força do bruto, que
os elementos, visto que o efeito está fatalmente ligado à causa, se sobrepõe a todos pelo próprio egoísmo. Não se pode com-
pode-se prever o futuro para o indivíduo e para os povos. Então preender que proveito de um tal forte possa tirar a vida, em vir-
a história está toda no presente e o tempo assinala por si só a tude da base social já atingida no nosso planeta!
sucessão de quadros conhecidos; então também o tempo, di- Respondamos a pergunta: como é possível existir uma
mensão que a intuição supera, estagna no pensamento e tudo semelhante condenação de dor em um mundo regido por uma
aparece permanentemente no presente. O problema está em se lei divina, que é perfeita, boa e justa? Certamente, nada pode-
conhecer todos os elementos componentes do sistema de forças remos compreender se não houvermos concluído por aquilo que
formado pelo eu individual ou pelo eu coletivo do povo. todos os fenômenos revelam, isto é, que uma lei regula tudo. Se
Hoje se age ao acaso, em geral por interesses materiais e não estabelecermos uma conexão do nosso estado presente com
imediatos, pouco se cuidando do depois, que se ignora. Ouça- a série de fatos precedentes que se ocultam em nosso passado e
mos as últimas palavras de Buda aos seus discípulos: se, antes, não decifrarmos o enigma do nosso destino individual
“Semeia um pensamento e colherás uma ação. e coletivo, não poderemos decifrar o enigma da nossa dor. O
“Semeia uma ação e colherás um hábito. princípio de seleção do mais forte abandona o vencido à dor,
“Semeia um hábito e colherás um caráter. sem nada explicar das causas e finalidades do seu sofrimento.
“Semeia um caráter e colherás um destino”. Mas, para quem compreendeu, não é possível acreditar que isto
Hoje, sabe-se pouco ou nada da realidade do imponderável, não possua uma razão e um objetivo. Nasce assim a dúvida de
onde se registra tudo quanto pensamos ou fazemos e de onde que, em um regime de ordem, como é indubitavelmente o uni-
tudo renasce. Mas hoje domina o involuído, tipo biológico que verso, o fraco esmagado, o vencido na luta pela vida, não seja na
vive na periferia e não procura o poder senão na matéria, na realidade um inferior derrotado para ser eliminado, porque, efe-
força e no dinheiro. O evoluído de amanhã viverá mais em de- tivamente, é um indivíduo que paga o seu débito à justiça divina,
manda do centro e procurará o poder no espírito, no mérito, na enquanto que o vencedor vence apenas momentaneamente, visto
convicção das almas. Ele será mais rico, porque estará mais vi- que, se não fizer bom uso da sua passageira posição, pode suce-
zinho da fonte da vida, que está no interior, no centro: Deus. der-lhe que venha por isso a endividar-se, tendo de pagar caro
Então, a conquista imperialista pela guerra será substituída pela amanhã uma vitória de que abusou. Que seleção dos mais fortes,
conquista das almas, pelo exemplo, pela iluminação, pela paz. qual nada! Vê-se por aí a que aberração pode conduzir a con-
Que imensos continentes inexplorados serão alcançados cepção materialista hodierna que regula o mundo.
pela ciência e pela mente de amanhã! É a descoberta da ver- Na realidade, as coisas se passam muito diversamente. Aqui,
dade do espírito, e não o utilitarismo de hoje, que cumprirá o devemos relembrar alguns conceitos já expostos. Comecemos
encargo de arredar todas as barreiras do medievalismo espiri- por Deus. Se bem que seja impossível definir o infinito e, na sua
tual que ainda nos asfixiam dentro do exíguo âmbito de suas essência, Ele permaneça para nós um superconcebível, a sua lei,
paredes. O pensamento moderno ainda está encerrado em cas- que O exprime e que nós vemos funcionar a cada passo em to-
telos torreados, que fazem guerra entre si. O futuro forçará as dos os fenômenos, diz-nos claro que Ele é ordem, justiça, bon-
portas e derrubará os muros. A vida está a céu aberto. As ar- dade, amor. Mercê da inteligência diretriz e vontade construtiva
quiteturas lógicas do passado são agora prisões, e não casas. dessa lei, em que se manifesta a presença de Deus em todas as
Quando se houver experimentalmente provado aquilo que coisas, nós e tudo o mais nos encontramos imersos em uma at-
agora a intuição me diz, isto é, que o espírito é um organismo mosfera continuamente saneadora e criadora. Na verdade, quei-
de forças individualizáveis por onda, frequência e potencial, e ramos ou não, Deus está realmente presente em toda parte, a to-
que a sua vida se exprime em oscilações dinâmicas ou vibra- do o instante. Esta é a potência interior que rege a vida e as coi-
ções de um comprimento de onda que se situa além dos raios sas, e, se ela cessasse, tudo desapareceria subitamente. Todos
ultravioletas, então se poderão construir aparelhos rádio- podem dizer: “ela está presente no meu organismo, pois regula
receptores de tais ondas, que revelarão o pensamento incorpó- seu desenvolvimento e suas funções, que não são, por certo,
reo humano e super-humano. Então se poderá fazer mecani- produtos do meu querer e da minha consciência. Está presente
camente tudo aquilo que hoje poucos sensitivos o fazem, sós e no desenrolar do meu destino, cujos acontecimentos coordena
incompreendidos. Para se penetrar cientificamente no mundo para um fim, ainda que eu o ignore em particular”. Ela está pre-
do espírito, é necessário atingi-lo através da decomposição do sente no encadeamento da história, cujos eventos guia para con-
sistema dinâmico nas zonas de máxima frequência, assim co- tínuas superações, fazendo o homem progredir segundo a lei da
mo, para atingir o mundo da energia, se decompôs o sistema evolução; está presente no ritmo que caracteriza e define todos
atômico da matéria nas zonas mais evoluídas, mais velhas e os fenômenos, do mundo físico ao mundo moral, fazendo do
mais complexas. No fundo da matéria, além da energia que já universo uma sinfonia. Deus está presente como disciplina de
encontramos nela, encontraremos o espírito. Isto é lógico e cada instante no movimento universal, disciplina da qual nasce a
análogo no físio-dínamo-psiquismo trino-monismo do univer- bandeira que, no campo do espírito, significa felicidade.
so. As descobertas já feitas serão, comparadas com as do Quando tivermos compreendido isto, deveremos compreen-
amanhã, coisas pueris. Eis o imenso futuro. der que Deus está sempre tão presente e operante em nós, que,
40 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
de modo nenhum, podemos nos separar d'Ele. Dado que Ele é dor. Aqui, o problema do amor se complica com o da liberdade,
amor, só Ele representa para nós a felicidade, cuja via está, pois que, sendo o homem livre, pode refutar o amor e escolher
pois, escrita na divina lei e cuja consecução só é possível se- o ódio, preterir o bem e preferir o mal, ainda que, desta manei-
guindo esta, isto é, fazendo nós o que entendemos por vontade ra, recuse com Deus a felicidade e aceite a dor com Satanás. A
de Deus. É difícil fazer com que o homem comum, subjugado liberdade é, pois, um dom perigoso, porém necessário para que
pela ilusão dos sentidos, compreenda que a felicidade, ao invés o homem não seja um autômato, mas sim um ser que busca es-
de se encontrar na satisfação destes, consiste na adesão à von- pontaneamente Deus, como requer o amor, que não pode e não
tade divina. É necessário que ele comece a observar e compre- deve ser forçado; um ser que conquista, livremente experimen-
ender a lei de Deus. Nós carregamos conosco o germe e o ins- tando, essa consciência de si mesmo e a sabedoria da vida que
tinto da felicidade, que é também um nosso direito absoluto. Deus pôs na Lei, que o homem obedece vivendo. Deus, pois,
Por que, pois, estamos tão longe de atingi-la? Será talvez, como deixa ao homem a liberdade de amá-Lo ou repudiá-Lo. Não o
poderia dizer o cético, devido a um refinamento tantálico de constringe. Ele quer ser amado espontânea e livremente, não
crueldade por parte da chamada bondade divina? Não! É por por coação, mas por compreensão. Quer que o reconheçamos
um refinamento do amor de Deus para com as suas criaturas. como Ele é – Pai bom e previdente. Como proceder então, nes-
O universo está baseado em dois princípios: amor e liber- sas condições, para persuadir de tudo isto um ser que é livre e
dade. Tudo o que existe, inclusive nós mesmos, mantêm-se a quis escolher as vias do mal? A intervenção de Deus onipresen-
todo o instante porque o Deus transcendente dos céus está pre- te é indireta. Ele então se afasta do pecador, não se vinga ou
sente e ativo, isto é, imanente em toda a sua plenitude. Ele, pune, como se costuma dizer, porque tais conceitos são absur-
pois, se encontra também aqui na Terra a lutar e a sofrer conos- dos em Deus, mas apenas se nega. Na verdade, não é exatamen-
co. O amor, que tudo gerou, tudo sustém e regenera a cada te Deus que se nega, porque Ele continua a proteger e assistir
momento. Mas Deus não nos ama apenas, porquanto Ele nos ao rebelde, mas é este que, em si mesmo, negou a Deus. Ora,
quer livres, e nos quer livres como Ele, isto é, feitos à sua ima- Deus é a fonte da vida, e quem O nega, de qualquer forma, ne-
gem e semelhança, elevados à dignidade de seres que possuem ga a si mesmo, expelindo-se da vida real e permanecendo então
uma consciência para saber o que fazem e poderem escolher li- abandonado a si mesmo, fora da Lei. A Lei não pode manter
vremente a via que preferem, entre o bem e o mal. em suas fileiras ordenadas um núcleo de desordem, um seme-
Observemos esses dois princípios. Do princípio de amor de- lhante bubão pestífero, e o isola, como igualmente faz no plano
riva o de dualidade, pelo qual toda individuação da existência é orgânico para qualquer foco de infecção.
dada por duas metades inversas e complementares, que se atra- O rebelde mantém-se então sob o jugo da lei que o seu eu,
em e se completam, e não se satisfazem enquanto não se fundi- que se substituiu a Deus, pretendeu criar para si e, portanto,
rem na unidade. Em todo plano, desde o mais material até o permanece na miséria da sua ignorância. A consequência é de-
mais espiritual, encontramos sempre esse mesmo princípio, sarmonia e, por conseguinte, dor. Se Deus não estivesse sempre
que, em essência, é o amor. Isto se verifica desde o mínimo par- pronto a operar indiretamente a salvação do pecador, esse seria
ticular até ao máximo: Deus e Criação, tudo segundo o esque- o caminho da sua destruição.
ma dualista. Deus e a Criação, em todas as suas infinitas for- Essa revolta do homem livre e a sua consequente queda na
mas, os dois termos contrários e complementares, o perfeito e o dor não é um sonho, mas uma realidade. Nisto se baseia a vida
imperfeito, o absoluto e o relativo, o centro e a periferia, atra- humana e o destino do homem. Este destino nos é narrado, des-
em-se e tendem irresistivelmente a unir-se, e não se satisfarão de a pré-história, pelo mito da queda dos anjos capitaneados por
enquanto não se fundirem na unidade. Deus e criatura são, por Lúcifer; pela narração bíblica de Adão, que, tendo comido o
conseguinte, feitos para amar-se. E a criatura, pela mesma lógi- fruto proibido da árvore do bem e do mal, foi expulso com dor
ca do sistema, não pode encontrar felicidade senão em Deus. do paraíso terrestre; depois, pelas vicissitudes do filho pródigo
Explicar isto ao homem atual, filho dos sentidos, fazê-lo com- que, reduzido à situação de saciar a fome com bolotas para por-
preender que a felicidade deve consistir em amar um supercon- cos, volta arrependido, sendo perdoado pelo pai, e assim por di-
cebível ou, pelo menos, a tremenda abstração que é Deus, é ante. Nos tempos modernos, esse destino de revolta e de dor é
empresa difícil. Isto deriva do exagero do conceito do Deus uma realidade tangível que o mundo deve viver. O motivo do
transcendente, o que conduz ao erro contrário de ter então que passado e do presente é sempre o mesmo: o ser é livre, mas,
humanizá-Lo, reduzindo-O a uma reprodução antropomórfica, quando se rebela e abusa da sua liberdade, surge então a neces-
que a bondade divina nos perdoará. Deus é também imanente sidade da dor. Porém não de uma dor pura e simples, uma ideia
em todas as suas criaturas. Podemos assim nelas, que são a Sua estéril em si mesma, mas sim uma dor que não possui e não po-
manifestação, sempre encontrá-Lo e amá-Lo. Nelas, podemos de possuir outro sentido senão o de instrumento de redenção, is-
verificar como Deus pensa e age, como dirige e faz mover o to é, de uma dor que nos reconduza a Deus e à nossa felicidade.
funcionamento orgânico do universo. A lei pela qual Deus se Eis a dor que não é vingança ou punição, nem apenas injustiça
exprime não é um segredo e, mesmo na Terra, é sensível. A indiferente, mas sim ato de amor de um Deus cioso do nosso
própria ciência esbarra com ela a cada instante e a perscruta ca- bem, ansioso para que nós, por contínuas superações, nos deci-
da vez mais, procurando aprofundar o seu conhecimento. Toda damos evoluir, para nos tornarmos assim aptos à união com
descoberta científica só é absoluta para o homem, porquanto é Ele, em seu amor, como é o Seu ardente desejo. Eis que surge
uma lei eterna, já feita por Deus. Não nos faltam, pois, manei- assim a ideia central da história do mundo: a redenção. Eis co-
ras de encontrar Deus também na Terra. E, para a nossa felici- mo a dor se santifica e se sublima como força criadora que nos
dade, O encontraremos sobretudo no mundo moral, derivando conduz a Deus. Eis o significado da paixão de Cristo. Estamos,
deste aspecto da Lei todos os sábios preceitos. Nas relações so- assim, bem distantes e bem mais acima do conceito terreno da
ciais, ela diz: amor, ou seja: “ama o próximo como a ti mes- dor, que marca o insucesso do ser vencido na luta pela vida.
mo”. Eis a chave da felicidade. Eis o meio prático para se fun- Assim sendo, ainda quando a dor nos fere, Deus continua
dir em Deus, atingindo-O através das Suas criaturas. Eis como sempre bom. Nada devemos jamais temer da parte d'Ele. Mes-
se realizam, até às suas últimas consequências práticas, em nos- mo no erro, ele está perto de nós e nos auxilia a conquistar a
so mundo, o princípio do amor. nossa felicidade, ainda quando a nossa insensibilidade e igno-
Observemos agora o princípio da liberdade. Ele é princípio rância clamam pelo azorrague. Tal método foi querido por nós
absoluto, inviolável, precioso dom, porém constitui arma de e, mal nos elevemos um pouco mais, desaparece, porque então
dois gumes, que, se mal aplicada, pode resolver-se em grande ele deixa de ser necessário. Mas, dado o nível em que vivemos,
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 41
ele prova sempre o amor de Deus, ainda que assumindo essa a ser elementos desta ordem, que nos reconduz à harmonia com
forma severa, contudo necessária. Ele prova o desejo de Deus a Lei, para participar da grande obra de Deus? Como temer
de nos atrair para nos unirmos a Ele, de nos fazer felizes em uma dor que nos constringe permanentemente a subir? A nossa
uma felicidade que não pode estar senão nele. Na dor que redi- insatisfação frente a qualquer conquista humana exprime essa
me, na dor onde se compreendeu sua grande função, sente-se o necessidade de ascensão.
amor de Deus, que a mitiga e a adulçora, até torná-la o alimento O plano da vida é nos conduzir para as grandes unidades. É
do santo; sente-se que Deus envolve a alma na Sua ação salva- necessário, pois, que o egocentrismo humano se dilate no altru-
dora, confortando a dor com o amor. Sente-se então, ainda que ísmo. Está no instinto do nosso tempo a alegria da superação
sofrendo, que Ele bate às portas da alma para poder entrar, tra- mecânica dos limites de esforço e tempo, superamento das ilu-
zendo vida e alegria; sente-se que Ele não pune, mas que faz sões da nossa atual fase de vida. Com esse superamento, tudo
pressão para nos erguer até Ele, onde, e só onde, poderemos ser tende a uma unificação maior. A vida social avia-se hoje, mais
felizes. Esta dor, que, na primeira fase mosaica, foi definida do que nunca, a funcionar por grandes unidades. Devemos pro-
como vingança e punição, revela-se em nossa fase, mais evolu- curar, em todo campo do pensamento e da atividade humana,
ída, como um ato de amor, um dom providencial de Deus, que tudo o que unifica, evitando tudo o que divide; insistir sobre os
Ele nos envia somente para nos fazer compreender o erro come- pontos que possam favorecer a coligação, fugindo de todos
tido e que, tão logo tenha completado a sua função educadora, aqueles que podem determinar cisão. As vias de Deus são as
não tem mais razão de existir. Desta maneira, o homem expe- que tendem à unificação. O progresso se realiza percorrendo-as.
rimenta a vida e constrói, através dos seus ensaios e consequên- Tudo o que nos divide e nos isola, qualquer forma de separa-
cias, a própria consciência, aprendendo que é necessário saber tismo, ainda que procedamos em nome de Deus e da verdade,
agir com justiça e disciplina, como está escrito na Lei. Quando leva-nos para a cisão, que é a obra de desagregação de Satanás.
tivermos compreendido isto, estaremos reunidos a Deus e se- Os homens se revelam sobretudo pelos métodos que usam,
remos felizes. Então a dor, sem causa que lhe dê nascimento, mais do que pela verdade que professam. Quando o método é
não terá mais motivo de existir. perseguição, terror, ódio e vingança, é certo que estamos na via
A vitória sobre a dor não se obtém, pois, atirando-a com de Satanás. É um grave erro acreditar que semelhante método
ódio sobre o próximo, infligindo mal a outrem, mas rebatendo facilite a vitória. Na realidade, ele é desagregador e conduz à
as suas causas com causas contrárias, isto é, irradiando bem e derrota. A rebelião na luta contra uma disciplina moral não sig-
amor. Na Terra, inversamente, acumulam-se as reações maléfi- nifica nos tornarmos livres para melhor vencer, mas sim coli-
cas, que se fortificam por meio de um vesgo senso de justiça, dirmos com a resistência da Lei, usando uma estratégia de pés-
pretendendo santificar a vingança. Desta maneira fez-se a vida simo resultado. Deus obra pelas vias opostas, da convicção, do
depender apenas da força e do predomínio, quer moral quer perdão e do amor. Quem verdadeiramente é de Deus não resiste
econômico. Assim, acreditamos nos libertar da dor, mas, ao in- ao mal com o mal, mas o neutraliza difundindo o bem. A uni-
vés, constatamos que ela aumenta. As culpas, então, aumentam, versal religião do espírito, que compreende todas as outras, pe-
e a Terra, tornada lugar de pena, transforma-se no reino do mal. de apenas que se ame a Deus amando o próximo como a si
Então impreca-se contra Deus, culpando-O. Mas a causa está mesmo. E bastaria isto para transformar o mundo. O grande er-
no homem e é a fatal consequência do seu espírito de revolta e ro de Satanás e de quem o segue consiste em acreditar que a vi-
de sua ação tresloucada. A dor é naturalmente a providência de da possa basear-se no egoísmo e no ódio e que o triunfo possa
Deus e constitui a única via de redenção e salvação. Esta tão assentar-se na força, quando, na verdade, a vida se baseia no al-
vasta dor humana deve ecoar bem longe dos restritos confins truísmo e no amor e o triunfo final pertence à justiça. Nenhum
terrestres, chegando até criaturas colocadas muito acima de nós, homem, por mais poderoso que seja, pode alterar esta lei.
mais aprimoradas, que, por amor, vêm juntar-se a nós, auxili-
ando-nos, por todas as formas, em nosso esforço de redenção. XIX. O ERRO MORAL
Por intermédio delas, parece que o próprio Deus padece da nos-
sa dor e, com isto, queira unir-se a nós, numa comunhão frater- Continuemos a passar em resenha os erros modernos.
nal de amor. Por certo, Ele está presente em qualquer estado do Uma das maiores conquistas do nosso tempo foi, sem dúvi-
ser, tanto na alegria como no pesar. A paixão do Cristo e a coti- da, a ciência. Mas, se bem que mostrasse uma atitude agnósti-
diana repetição do seu sacrifício no rito eclesiástico não nos di- ca, que queria ser filosófica e religiosamente imparcial, esta
zem exatamente isto? Porque, em verdade, no grande vínculo ciência, sem filosofia e religião, visto que a alma humana não
do amor, nós estamos n'Ele e Ele está em nós. pode fazer nada sem uma orientação qualquer, na realidade
A grande lei da vida é o amor. Em toda manifestação, ja- possuía a sua: o materialismo. O seu absenteísmo no campo
mais devemos seguir o caminho do egoísmo, que divide, mas o ético, campo que é impressionantemente conexo à vida, signi-
do amor, que unifica. Só este último nos conduz a Deus e à ale- ficaria, efetivamente, negação dos valores morais. O maior dos
gria. Não devemos resistir a Deus, à Sua potência onipresente; erros modernos é, pois, o erro moral, que orientou e utilizou
não devemos rebelar-nos com o orgulho, mas tornar nossa a mal uma ciência de per si benéfica. Erro profundo este, porque
Sua vontade. Não é possível fugir de Deus. Ele é a atmosfera fez das conquistas da técnica um meio de destruição material;
que todo o universo respira e de que tudo se nutre e vive. De erro grave, porque, no espírito das massas, que, mal sabendo
Deus não se foge, e a Deus não se pode destruir. Estar com pensar por si, sempre seguem a orientação da classe culta diri-
Deus significa participar da Sua potência. Estar contra Deus gente, resultou em espírito de revolta, desordem e destruição.
significa estar perdido em um deserto de trevas. Sem Deus, Em nosso século acreditou-se, em nome da ciência, ser possí-
nem mesmo o pecador pode viver, e, se ele continua vivendo, vel libertar-se dos tradicionais conceitos de Deus e de Sua lei,
isto significa que Deus ainda opera nele. O remorso e a dor ex- que regulam toda a vida, até o campo ético humano. Isto pare-
primem a necessidade de reencontrá-Lo. A revolta à Lei, obstá- ceu uma conquista e uma libertação. Podia sê-lo com respeito
culo à atuação Dele, gera um pequeno atrito na contínua obra às concepções filosóficas e religiosas que, tendo sido vividas e
criadora de Deus. A Lei não muda, mas algo no universo deve havendo dado seus frutos, requeriam uma superação. Mas su-
sofrer. Esta rebelião origina uma convulsão em alguma parte. O peração quer dizer atingir um conceito superior de Deus e de
plano da Lei é tornar o homem livre e consciente colaborador Sua lei, e não a destruição desse conceito. É certo que muitas
da divina obra da perene criação, um operário, um ministro de ideias haviam envelhecido e não correspondiam mais às novas
Deus. Como podemos maldizer uma dor que nos permite voltar formas mentais. Mas é perigoso destruir sem reconstruir, pro-
42 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
duzindo apenas ruínas; perigoso sobretudo no campo ético e mem, sempre sofrendo, deve aprender, como ser livre e consci-
ideal, onde se encontram as diretivas das nossas ações. O orgu- ente e, por conseguinte, responsável, a saber usar com prudên-
lho humano exagerou na destruição; alçou a bandeira do ate- cia o poder que Deus lhe concedeu. Mas hoje, dada a ordem do
ísmo e da desordem moral enquanto a incumbência estava em universo e visto que, nesta ordem, o homem age e pensa devi-
progredir no relativo e, ansioso pela autoafirmação, substituiu damente, a sua dor é lógica e plenamente justificada. Justificada
ao velho dogmatismo por um novo, demonstrando, com o não só como consequência punitiva mas também como condi-
mesmo espírito parcial, que o homem não muda. A verdadeira ção providencial, porque, com a dor, aprende-se a eliminar o er-
ciência continuou, com os seus gênios e os seus heróis, o tra- ro e, assim, com a dor de hoje diminuirá a dor de amanhã, isto
balho tenaz, rígido e objetivo, que produziu as maravilhas que é, com a dor se elimina a dor, visto que com ela se evolui.
contemplamos. Mas um fruto tão belo caiu em um mundo ne- Esses princípios gerais e sintéticos estão presentes nas suas
gador de Deus e de Sua lei, que fez péssimo uso daquele fruto. consequências até nas menores coisas de nossa vida contingen-
Arcou então com a culpa a ciência, que em si mesma, no en- te, dizendo-nos respeito muito de perto. Esta, em todos os seus
tanto, é inocente, tanto que hoje, continuando seu tenaz cami- particulares, está saturada de soluções falsas, que, por conse-
nho, progredindo sempre, é justamente ela, que no princípio se guinte, produzem o mal e a dor. Não sabemos agir ordenada e
tornara um estandarte do materialismo, que acabou por nos in- harmoniosamente e, por isso, através de pensamento e ação er-
dicar o espírito e nos levar de novo a Deus e à Sua lei. rados, semeamos em cada dia a nossa pena. Na procura tres-
Quantas coisas esta ciência ainda nos demonstrará é impos- loucada de gozo e liberdade, tornamo-nos cada vez mais es-
sível suspeitar! Mas é certo que os séculos futuros, bem mais cravizados de mil necessidades artificiais. Sofre com isso a
evoluídos, demolirão muitos erros do nosso tempo, que são nossa saúde, os nossos interesses, a nossa paz. Para elevar nos-
muitos, consequentes da orientação supramencionada, cujos so nível econômico, nos empobrecemos cada vez mais em
efeitos práticos ainda se farão sentir. Esses erros foram graves, substância. A supressão da disciplina moral não é, como se
e o mundo de hoje lhes paga as acerbas consequências. À lei de acredita, liberdade, mas escravidão. Pode-se rir dos emancipa-
Deus, que guia o universo, não se pode destruir. Hoje, o homem dos, mas as eternas leis da vida não se alteram, e nela a ordem
é ainda tão criança, que acredita poder, com o seu arbítrio e de elevação moral constitui a base do poder. O poder é con-
vontade, substituir-se a ela. Mas só os jovens, os ignorantes e quistado harmonicamente, evolvendo, e não desequilibrando
os inconscientes são em geral presunçosos. Os evoluídos são com a violência, que tende a reequilibrar-se retomando o mal,
sábios. O grande pecado do homem presente é o pecado de Lú- excitando uma proporcionada reação oponente. O hodierno
cifer: o orgulho. O mundo atual é todo um tremendo grito de grito satânico contra Deus, expresso pelo orgulho do ser e pela
rebelião a Deus e à Sua lei. Tentada a substituição de comando, adoração da força e da matéria, é servidão do espírito livre pa-
de consequências terríveis, que vemos tanto na paz como na ra com esses senhores. Na realidade, o homem perde todo o
guerra? Tal mundo se desfaz. Por que? Porque o orgulho cega, poder de autodomínio, e quem não for senhor de si não pode
faz perder a límpida visão das coisas, destrói o poder diretor e, ser senhor das coisas; quem não possui disciplina em si não
assim, acumula erros; porque o orgulho, afirmação do eu, é ne- pode determinar senão o caos em derredor de si. Para obter fe-
gativo perante Deus, logo o é perante a vida, de cujas fontes o licidade e prosperidade, não basta, como se supõe, apenas a
homem, desta maneira, afasta-se. Resulta disso uma ação dese- posse das coisas. Se nos aproximamos delas animados de ego-
quilibrada, contraditória, descendente ao invés de ascendente. ísmo e avidez, elas virão a nós envenenadas e, por isso, nos
O que é contra Deus e a Sua lei só pode operar destruição. En- envenenarão. Desta forma, ao invés de obtermos o gozo, do
tão o espírito rebelde à ordem divina volta-se para a forma, com qual a condição precípua é a paz, chegaremos à violência, à
sensualidade e avareza, e se perde no relativo do particular. Eis guerra e, consequentemente, à miséria e à dor.
o mundo de hoje, feito de avidez mórbida, de rivalidade san- Todavia a vida está imersa em um oceano de substância, e
guinária, de mente destruidora e caótica, caindo sempre, até nós, com tais atitudes, impedimos que esta nos alcance. Esta
atingir o fundo. Todo sistema possui uma lógica de proposições substância nutritiva, esta atmosfera vitalizadora em que o ho-
em cadeia, a qual, uma vez iniciada, deve desenvolver-se elo mem se move, é inexaurível em toda parte, pois é a onipotente
por elo, até às últimas consequências. divindade de que tudo nasce. A sua vitalidade e fecundidade são
O homem, acreditando poder desorganizar a lei de Deus, dadas pela circulação, pelas trocas, pela comunicação e pela fra-
pelo menos na Terra, para depois refazê-la a seu modo, com es- terna comunhão entre os seres. Quando, egoisticamente, conte-
se orgulho, não desorganizou senão a si mesmo e ao próprio mos o seu livre fluxo, procurando o entesouramento exclusivis-
mundo. A causa não está em Deus, mas no homem. A Lei é ta, erguemos barreiras que a tornam inerte e estagnante, então a
perfeita, é ordem e não falha. Ao homem, operário de Deus, foi sua potência dinamizante se extingue, Deus se nega e o homem
confiado, à imagem e semelhança da obra do Criador, um tra- é afastado da fonte vital. Não se enriquece, pois, com a avareza,
balho de criação na Terra. A Lei o deixa livre de errar, mas de- mas com a ilimitada e benéfica generosidade. Como o mundo
pois o constringe a pagar na mesma proporção do erro, para que faz o contrário, naturalmente empobrece. A lei de Deus colocou
possa compreender. A dor e o mal não estão em Deus, mas na uma riqueza inexaurível à livre disposição dos sábios, que dela
ignorância, na vontade, no erro do homem, e são eliminados sabem fazer uso, mas a exclui dos estultos, que agem em contrá-
através da sua dura experiência. Assim, pois, tudo isto diz res- rio à Sua ordem. Efetivamente, não vemos nós o mundo tornado
peito ao homem e é relativo à sua atual fase de evolução. O mal miserável justamente em razão da doida procura da riqueza, en-
não está em Deus e na Sua lei, que não se altera de modo al- fraquecido pela loucura do poder, escravo do desejo absurdo de
gum, apesar de todos os erros humanos. Pelo contrário, tudo domínio egoísta e, como consequência, da procura da mais in-
orienta maravilhosamente, não obstante eles. Então vê-se como disciplinada liberdade? A vida possui leis muita sabias, que fa-
o homem é guiado pela sabedoria divina e protegido pela divina vorecem o prudente e frustram o tolo, para que aprenda.
bondade, mesmo quando se rebela e, cego, arrisca-se a perder- Mesmo a prosperidade material tem as suas leis, mas quem
se. Enquanto o homem, abusando da sua liberdade, tenta, na as segue? Elas são continuamente violadas. A consequente e
própria insipiência, transtornar tudo, a lei de Deus está sempre contínua constatação da carência geral enraíza nas almas o ter-
intimamente presente e ativa na reconstrução. A destruição age ror da falta do necessário, estabelecendo-se então uma psicose
do exterior, a reconstrução do interior. A primeira é explosiva, e angústia perpétuas. Desta maneira, nos acreditamos escravos
desordenada cega e violenta; a segunda é tenaz, metódica, sábia do trabalho, sem o qual não se vive, e fazemos dele uma con-
e boa, sempre atenta a reparar as faltas. Desta maneira, o ho- denação na vida. Mas o trabalho é um ato criador, que nos põe
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 43
na condição de operários de Deus, colaboradores da Sua obra finita; ansiosos por tudo, onde Deus tudo provê com supera-
de criação! Ele exprime o nosso eu nas formas que Deus plas- bundância; escravos da matéria, quando o homem é feito para
ma consoante a Sua vontade e potência. Ele representa a nossa ser livre e senhor dela. Mas que imenso mundo se abre a quem
realização, constitui o meio pelo qual adquirimos experiência sabe sair de tal prisão. Trata-se de imponderáveis que também
para evoluir, é o sinal de fraternidade entre os seres. A potên- possuem peso decisivo e podem mudar a vida. Trata-se de sen-
cia do trabalho está na cooperação, que exprime a harmonia e a tir essa contínua presença de Deus, alimentadora de tudo. Se, de
ordem do universo. Em vez disso, hoje temos um trabalho ran- fato, num extremo, Deus é de tal modo transcendente, que nos
coroso, rebelde, rival do capital em vez de seu colaborador; um foge para o superconcebível – tanto que não é possível definir,
trabalho desagregante e feito de atritos, mais destinado a des- ou seja, encerrar no finito tal infinito sem mutilá-lo, de tal for-
truir do que a criar. Ao contrário, a força está na colaboração, e ma que a Sua definição é um absurdo – ao mesmo tempo, na
não na desordenada concorrência. Como todas as coisas, tam- outra extremidade do ser, Ele está tão imanente, que se encon-
bém o trabalho, para ser fecundo e criador, deve estar saturado tra presente e ativamente criador em cada momento particular
de amor. Ele deve, assim, ser executado não para produzir de da Sua manifestação, que é o universo. É verdade que nós vi-
qualquer forma, seja qual for a consequência, uma vantagem vemos na caducidade da forma, no relativo e periférico. Mas
egoísta, pouco importando o interesse alheio, mas sim para ser esta zona exterior da manifestação está sempre em comunica-
verdadeiramente útil ao próximo e, de tal sorte, que seja execu- ção com a substância eterna, com o absoluto central, fonte vital
tado da melhor maneira possível. A tendência moderna, con- de que tudo deriva e permanentemente floresce, sem a qual tu-
trariamente, é executá-lo mal, cabendo a palma da vitória a do se extinguiria. A ciência se encaminha hoje para também
quem melhor tenha sabido utilizar o próximo em seu benefício. compreender isto e amanhã o demonstrará. O orgulho e a revol-
Não se baseiam sobre tais princípios a propaganda e os méto- ta contra o divino princípio que tudo rege, não importando a
dos de tanta produção moderna? O objetivo não é, de fato, cri- imagem que cada um, segundo o seu poder intelectual, pode fa-
ar uma legião de consumidores, orientando as massas neste zer de Deus, constituem o mais grave erro moderno, pois traz
sentido, considerando-as um meio de ganho, onde se usufrui como consequência para o mundo o seu isolamento das fontes
do homem, fingindo-se servi-lo ? Ora, sejam quais forem a da vida, o que significa praticar o suicídio. Mas a sabedoria de
meta e a astúcia, quem viola o princípio moral, fraudando um Deus supera a ignorância do homem e o salvará a despeito dele,
serviço, deve colher o que semeou. através de uma dor proporcionada, a fim de que o bem triunfe.
O mundo econômico e comercial não pode fugir à atuação da
lei universal segundo a qual quem faz o bem o faz a si mesmo e XX. MEDICINA E FILOSOFIA
quem faz o mal é quem principalmente o recebe. Uma economia
agnóstica, que prescinde dos fatores morais é outro dos erros Atrás, explicamos que a culpa e o erro fundamental dos
modernos. A lei moral está acima de todas as outras leis humanas nossos tempos repousam no orgulho e na rebelião à ordem di-
e, por conseguinte, domina-as e penetra-as todas. O mundo de vina das coisas, de que derivam muitos males e muitas dores.
hoje não avalia quais sejam as verdadeiras fontes do bem-estar, Aqui, não mais falaremos desse erro moral em sua particular re-
mesmo as materiais, nem ao menos supõe que este derive de ín- lação com o trabalho e os bens úteis à vida, mas sim com rela-
timos equilíbrios espirituais em relação à lei de Deus. ção à nossa saúde física. Procuraremos precisar os efeitos da
A nossa economia moderna se baseia inteiramente sobre o moderna psicologia de independência, quando ela penetra tam-
“do ut des”. Mas a lei do dar e receber é mais ampla na economia bém esse nobre ramo da ciência, que é a medicina.
da vida e não se limita apenas a recompensar quem nos deu e na Repassemos agora as ruinosas consequências a que uma ori-
medida em que nos deu. Na divina atmosfera alimentadora de tu- entação excessivamente materialista e hedonista conduziu a ciên-
do, as trocas são vastas e infinitas, e não nos devemos preocupar cia, enfrentando a urgente necessidade de conferir a esta uma su-
se não recebemos de quem foi por nós beneficiado e na propor- perior finalidade ética. O homem, que preferiu o seu eu a Deus e
ção do benefício. Dá e te será dado. A compensação não se sabe acredita tornar-se senhor e centro do seu mundo, por mais que
de quem, nem como nem quando virá, mas virá. É necessário queira manter-se objetivamente apegado apenas aos fatos e au-
compreender que a divina economia do universo é vasta, sempre sente e neutro em face de qualquer meta ideal, fixou, só por esta
comunicante, automática e inevitavelmente compensadora. O sua atitude, uma afirmação axiomática e dogmática que colorirá
benefício realizado por nós a um anônimo, que não se verá mais toda a sua concepção, ainda que tal premissa esteja oculta no
depois, tanto circulará pelas vias da vida, que deverá voltar a nós. subconsciente. Disto não pode nascer senão uma medicina que
Se nós, contudo, não nos enriquecermos com tais créditos, mas, tende a substituir-se à natureza e que prescinde do poder curativo
pelo contrário, acumularmos débitos em face aos equilíbrios da desta, a ponto de acreditar poder e dever corrigi-la e suplantá-la.
lei de Deus, o que então pretenderemos obter de retorno? Assim, hoje, enquanto a medicina se guarda bem de possuir uma
Eis de que maneira é movido o mecanismo da assim cha- filosofia, efetivamente tem uma, da qual depende a sua orienta-
mada Providência. Sem mérito, como poderemos esperá-la? ção. Também aqui não se pode prescindir do fator moral, que,
Então não nos resta senão a escassez de meios e a contínua pre- sendo superior a todas as leis humanas, as penetra todas, de modo
ocupação, que, como se vê, não se elimina de modo algum, an- a se encontrar em todas, ainda que seja negado. Igualmente aqui
tes aumenta por se ter procurado acumular riquezas. se verifica a habitual cadeia: ignorância, erro, mal, dor, também
Por tudo isto compreende-se como existe um mundo imenso com os mesmos resultados, como nos outros casos.
que está além do nosso e que rege e penetra a nossa realidade Encaremos o problema mais de perto. Nenhum outro campo,
contingente. Em nossa pequena vida cotidiana, vivemos o infi- como a medicina, que intervém em nosso mundo orgânico, é tão
nito, sem suspeitá-lo. No relativo, vivemos o absoluto; no áto- pejado de consequências nocivas devido a esse espírito moderno,
mo, a eternidade; nas pequenas alternativas de cada hora, cum- rebelde às leis da vida, o qual pretende erigir-se em plena auto-
primos o nosso destino, já por nós preparado no passado, en- nomia, para adaptá-la aos próprios fins hedonísticos. A saúde é
quanto forjamos um novo, pois, ainda que não o saibamos, es- fenômeno de longas e longínquas repercussões, é um equilíbrio
tamos em comunhão com Deus. Bem-aventurados os que sa- profundo das energias da vida, que o homem moderno perturba
bem disso e a sentem. Esses são os dominadores, que ultrapas- com extrema facilidade, levando uma vida contra a natureza, e
sam a ilusão humana, onde a maioria se conduz. Estes últimos que ele pretende depois restabelecer com a varinha mágica do
permanecem encerrados na prisão da miséria feita pela própria médico e da medicina, usando o milagre da descoberta científica.
natureza; afligidos pela necessidade em meio a uma riqueza in- Acredita-se facilmente nisto, pois agrada e é cômodo, além de se
44 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
prestar à exploração industrial e individual, havendo quem tenha Essa sua psicologia de batalha antimicrobiana lhe vem da
interesse em criar e manter tais credulidades. No entanto a vida é psicologia do século, que é de revolta, e não de adesão à sabe-
feita de maneira diversa, e não podemos alterá-la a nosso talante. doria das leis, ou seja, psicologia do homem ainda involuído. A
E se tentarmos tal empresa, as forças da vida reagirão, punindo- caça ao micróbio, se este é realidade, pode ser empirismo como
nos pelo erro. É certo que a imbecilidade das massas parece ili- orientação geral. Mas quem nos assegura que o micróbio não
mitada, e, biologicamente, é inevitável que os fracos sejam ex- seja senão o efeito, ao invés da causa da moléstia, visto que ele
plorados. O quanto isto é rendoso para os espertos, prova-o a surge quando o terreno orgânico já está preparado pelo morbo e
concorrência que existe hoje na indústria da exploração de tal que, neste mesmo terreno orgânico, ainda quando seja patogê-
imbecilidade, em todo o campo possível e imaginável. Mas é nico, não exercite funções particulares? Quem nos diz que o
verdade também que, dada a grande compreensão da maioria, doente não seja um ser que a vida coloca sob cuidado para cu-
nada pode educá-la melhor do que ter sido ela escarmentada com rá-lo, mais do que um ser que espera a extrema-unção humana
o próprio prejuízo. Em todas as esferas de ação, a vida adota esse para normalizar-se? Esta concepção desloca tudo, fazendo pas-
sistema para nos induzir a compreender, isto é, a progredir. sar para um primeiro plano a sabedoria da natureza e para um
O dano em medicina é grave, visto tratar-se de uma terapêu- segundo a do médico, visto que, hoje, as coisas estão invertidas.
tica desorientada, que, aplicada em larga escala, ameaça a cons- Mas a medicina consiste em seguir esta sabedoria, e não em
tituição orgânica, sobretudo das raças civilizadas, que dela fa- substituir-se a ela para coagi-la.
zem mais uso. É verdade que a vida é uma batalha onde cada O primeiro e verdadeiro grande médico é a natureza, grande
um deve combater com as próprias armas, com as próprias ca- concorrente da medicina oficial, médico que todos têm em si e
racterísticas e com os meios acumulados no tempo, e isto tanto que vigia e age continuamente. Ela representa a universal pre-
no campo orgânico como no espiritual. É verdade também que sença de Deus, sempre benéfica e restauradora. O conceito do
a vida possui poderes corretivos e de recuperação em face dos micróbio patogênico deriva do instinto de luta do homem ainda
piores erros e, por conseguinte, pode resistir aos maiores assal- involuído. É impossível seguir o bacilo e atingi-lo nas profun-
tos. Mas nós não estamos em grau de dizer quantas dores isto didades vivas do tecido, porque ele não se encontra aí como
custará ao homem moderno. uma intromissão estranha, mas sim como combinação de sim-
Hoje a terapêutica antimicrobiana domina e determina uma biose, que faz parte dos próprios equilíbrios da vida. Ele é nos-
intervenção contínua e difusa de produtos que, penetrando no sa própria vida, com funções vitais, e não se pode isolar nas in-
organismo, tendem a modificar a própria estrutura das células, finitas interdependências orgânicas. A natureza o utiliza na sua
determinando um progressivo declínio orgânico e consequente estratégia defensiva. Os micróbios não são os antagonistas da
decadência constitucional. A caça ao micróbio se reduz a uma vida, mas os seus colaboradores. Mesmo quando agem contra
conturbação, na qual se prejudicam as naturais forças defensi- ela, excitam-lhe as reações vitais.
vas e se produz uma crescente vulnerabilidade orgânica. Fre- Quando advém o assalto, a vida adota muitos meios, entre os
quentemente obter-se-á uma vantagem imediata, mas é necessá- quais ressalta a elevação da temperatura, que se chama febre. Ela
rio ver o que de nós custará pelas suas consequências. Não obs- representa um mais alto potencial elétrico celular, especialmente
tante a contínua floração de descobertas e de novos remédios, do sangue, uma posição mais enérgica para a batalha. Os medi-
os organismos resistem cada vez menos. Se os auxiliamos de camentos destinados a suprimir a mobilização desse dinamismo,
um lado, eles cedem de outro. É natural que eles se enfraque- expresso pelo processo febril, vão demolir as naturais defesas or-
çam na proporção da defesa que lhes é prestada. À multiplica- gânicas e paralisam a luta engajada pela natureza. A vida é um
ção dos remédios corresponde assim uma multiplicação de ma- inteligente princípio espiritual que quer a conservação do indiví-
les. Ademais, as enfermidades se tornam amorfas, atípicas, o duo, porque viver tem um escopo e ela quer atingi-lo. As molés-
que significa que se perturbou a lógica da estratégia posta em tias representam uma verdadeira estratégia de movimentos calcu-
prática pela inteligência da vida. Os organismos não reagem lados em intensidade e duração, conduzidos com um ritmo pró-
mais ou, se reagem, o fazem desordenadamente, o que significa prio, que se exprime pela sintomatologia. Elas representam, em
que a natureza foi induzida à desorganização. O difundido uso suma, uma inteligente operação de guerra. Se tais planos forem
dos produtos sintéticos significa o emprego de um mau sucedâ- transtornados, paralisando artificialmente a reação febril, toda a
neo, que, se possui as características químicas, não pode ter de defesa se desorganizará. Então, a natureza ou resiste à cura e tra-
modo nenhum as orgânicas, dado que a vida contém forças su- va a sua batalha da mesma forma, ou a transfere para uma outra
tis, que alcançam o próprio campo espiritual. ocasião. Entrementes nós poderemos ter tornado tão difícil o seu
Sem poder entrar aqui em particulares, este é o resultado da trabalho, que poderá suceder que a batalha seja perdida e o orga-
terapêutica moderna. Por querer ser imparcial e objetiva, ela ca- nismo sucumba. Altera-se assim, completamente, o conceito de
rece da orientação geral, que só uma filosofia da vida pode for- saúde. Esta não é dada tanto pelas boas condições do ambiente,
necer. Por permanecer positiva, escapam-lhe muitos imponde- quanto pela capacidade de resistência do indivíduo. Pelo contrá-
ráveis fundamentais. Não possuindo o senso da unidade cósmi- rio, se muito protegida, a vida se enfraquece.
ca, fogem-lhe também a percepção da unidade orgânica e, as- É necessário que nos exponhamos, que lutemos, para que
sim, o poder de síntese, ficando perdida na análise, na especia- devamos aprender a vencer. A célula só se torna passível de
lização clínica, no localismo patológico e no fracionamento sin- agressão por parte dos germes patogênicos quando o seu índi-
tomático. E, sem esse poder de síntese, não se chega a cumprir ce bio-físico-químico sofreu alteração. O estado de saúde não
o ato individual da intuição, que é o diagnóstico e o prognósti- deve, por conseguinte, ser esperado de um ambiente artifici-
co. Não se pode compreender um momento particular da vida almente corrigido, mas sobretudo de nós mesmos, e isto é o
se não se está antes orientado no todo, compreendendo primei- resultado de uma longa história individual e coletiva, história
ramente o funcionamento orgânico do universo. No estudo da em que a vida tudo registra de bom e de mal, com suma justi-
vida não se pode prescindir da ordem espiritual em que ela se ça e vontade de fazer o bem.
move, nem é lícito ignorá-la. Uma medicina materialista é, pela As nossas atuais concepções dependem de uma falsa orien-
própria natureza, incompleta e incompetente para julgar os fe- tação filosófica. Não está errada a ciência que observa objetiva-
nômenos vitais. Escapa-lhe a essência destes. Não obstante ne- mente, mas está errada a psicologia com que se aplicam os seus
gá-lo, ela possui, em realidade, a filosofia mais negadora da resultados. Em nosso caso, se é perigoso ser demasiado filósofo
substância da vida, como é o seu materialismo. Tal é a nossa e pouco médico, como sucedeu nos séculos passados, é perigoso
medicina analista, organicista e microbiana. também, como possivelmente por reação sucede hoje, ser dema-
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 45
siado médico e pouco filósofo. Um pouco de filosofia também é vagamente exprimida com o simples termo religioso de alma.
necessário para superar o perigo representado pela dispersão re- Uma medicina, pois, total, mais completa e mais harmoniosa,
sultante do fragmentarismo analítico, em que a perda do sentido enquadrada no funcionamento orgânico do universo, e não iso-
unitário leva a um labirinto de fenômenos desconexos. Para re- lada dele e a ele rebelde; uma medicina que não pretenda criar o
sistir ao fracionamento da ciência na especialização, deve ocor- saber nem fazer leis, mas cuja maior sabedoria consista em pôr-
rer a síntese, a unificação, na orientação filosófica. A orientação se de acordo com as tão sabias leis já existentes.
materialista conferiu à nossa medicina um aspecto mecânico, Como se vê, não se trata de inovações particulares, mas de re-
frio, abstrato, em que a alma do paciente sente-se afogada. ferências à formação da mente atual, de que tudo derivou. Hoje
Da mesma forma que já dissemos com respeito ao trabalho, se fabricam médicos em serie, nas universidades, em que se apli-
também a medicina, assim como todas as manifestações da vi- ca, em qualquer cérebro, um verniz de cultura, aplicação que, re-
da, deve consistir, para ser genética e criadora, em um ato de forçada por um diploma, transforma-se em rendimentos e cre-
amor. O século futuro deverá aguardar na ciência a conquista dencia a atuação profissional, autorizando assim o funcionamen-
dessa nova qualidade, que pertence ao espírito e que falta intei- to da máquina cerebral confeccionada dessa maneira. A verda-
ramente em nosso tempo. deira medicina é, no entanto, um dote pessoal, uma vocação, um
sacerdócio; é o produto de qualidades biológicas intrínsecas, que
XXI. A CIÊNCIA DA ORIENTAÇÃO não podem ser improvisadas nem adquiridas apenas pela erudi-
ção. Não obstante, em nosso mundo, hoje se tende a fazer tudo
Continuemos a observar os erros do nosso tempo, sobretudo por via mecânica, enquanto o que vale é primeiramente o ho-
com respeito à orientação do cognoscível moderno, pois que a mem, o material com o qual, depois, tudo o mais se faz e sem o
nossa ciência, tão vasta e profunda, parece carecer exatamente qual nada se realiza. Assim, pois, para fazer o médico, é necessá-
do senso de orientação. rio, fato inacreditável, fazer o homem e, neste caso, mais do que
A carência de síntese é um dos males do nosso atual saber. A apenas um outro, um homem de tipo biológico ainda muito raro
análise, embora se tenha demonstrado hoje tão frutífera do ponto na Terra, isto é, o homem orientado e intuitivo, que tenha com-
de vista utilitário, arrisca-se a naufragar, se não for completada preendido todo o universo, ao menos nas grandes linhas diretivas,
por uma visão sintética que a discipline e organize, conduzindo- e que tenha alcançado, por evolução, qualidades de intuição e
a para metas mais elevadas. São ações opostas, que, no entanto, síntese que lhe permitam enquadrar as coisas com respeito ao to-
podem completar-se seguidamente, de modo que a ciência mo- do, para depois penetrar-lhes o significado e, assim, compreender
derna, de escopos prevalentemente práticos e utilitários, pode o estudo patológico no caso particular que ele deve tratar. É ne-
casar-se com uma orientação geral, que lhe falta e não lhe pode cessário o homem que, por evolução, seja mais sensível que o
advir senão de uma visão sintética unitária, em que tudo se re- atual, capaz assim de adotar na indagação o novo método do fu-
duz à unidade, tudo está conexo, formando um todo compacto, e turo: o método intuitivo. Esse homem, hoje, é esporádico, como
não pulverizado nas infinitas veredas do particular. que uma antecipação evolutiva. Os métodos da conquista do co-
Voltemos ao palpitante problema da medicina. Onde se nhecimento foram antigamente dedutivos, procedentes de edifi-
estuda a vida é necessário subir às fontes dela, que são interio- cações lógicas e racionais. Depois surgiu o método indutivo e
res, estão no espírito e são encontradas ao se caminhar para o experimental, e parecia que não existiam outros. Hoje, por evolu-
centro conceitual do universo. A medicina moderna seguiu a di- ção do instrumento homem, deve nascer o método intuitivo, que
reção geral da nossa ciência e, por isso, fechou-se na periferia, é a penetração do fenômeno por via de sintonização do dinamis-
na forma. É natural que, carregada de infinitas noções, ela tenda mo vibratório (comprimento de onda, frequência, potencial etc.)
à dispersão no particular, por falta da orientação que só um do sistema de forças do eu, com o dinamismo vibratório (idem...)
conceito unitário pode dar-lhe. O grande Hipócrates e os médi- do sistema de forças representado pelo próprio fenômeno. Mas
cos intuitivos da Antiguidade haviam concebido esta unidade e não é aqui que se pode desenvolver tais conceitos.
dessa maneira curavam. Ainda que a ciência nos tenha forneci- A nossa medicina é um setor da nossa ciência, que é uma
do um sem-número de meios de indagação e elementos de co- das manifestações do tipo de correntes do pensamento domi-
nhecimento, é necessário que tornemos, mas agora bem melhor nante em nossa fase histórica. Em cada século, o homem pensa
providos, aos métodos daqueles grandes vultos. Surgirá assim a de maneira diversa e assim se orienta. Tudo, pois, por ser pro-
nova medicina, que, sem ser empírica como a antiga, por ter gressivo, é relativo. Hoje, a orientação materialista invadiu to-
aprendido a observar objetivamente, será, como a antiga, orien- das as coisas. Daí a supremacia da forma sobre a substância, o
tada em harmonia com todas as leis da vida, e que, ao invés de ver, o existir, o trabalhar na periferia, e não na intimidade. O
erigir-se contra estas leis para submetê-las e dominá-las, irá método objetivo da observação e da experimentação é um mé-
aceitá-las e segui-las, vendo nelas uma profunda sabedoria. Ha- todo periférico, que dos efeitos sobe, por hipóteses e depois por
verá quem diga que isto não é medicina, mas sim filosofia da teorias, às causas, até estabelecer as leis. Este é o método que
medicina. Pois bem, acima do conhecimento científico, é im- está em voga, porque é sensório, mecânico, e pode prescindir
prescindível colocar essa filosofia, se não quisermos acabar em de um particular tipo evoluído de homem, hoje escasso, e ser
uma torre de Babel de especialistas que não se conhecem mais aplicado a todos ou quase todos. Em medicina também, isto
reciprocamente por se haverem afastado demasiado da origem significa uma ciência dos efeitos, e não das causas. É o mesmo
comum de todas as coisas. Este é o fim que nos espera se não que possuir um rio na desembocadura, ignorando o que se passa
nos apressarmos a formar uma ciência de orientação, que dê nas fontes e no percurso. O que sucede nas outras realidades
coesão e consistência e, com isso, uma direção ao conhecimen- que estão além da realidade material, a ciência o ignora.
to científico divergente da atualidade. A hodierna orientação da medicina espalha nesse campo a
Com todo o respeito que merecem as grandes conquistas já psicologia luciferiana da rebelião, hoje dominante em razão de
realizadas, sente-se a necessidade de enquadrá-las e coordená- nossa fase biológica involuída, em que a seleção se opera ainda,
las em um sistema único e universal que nos forneça a chave como no animal, através da força. É uma psicologia de luta e de
dos esquemas fenomênicos, chave com que poderemos melhor agressão, em que o eu afronta, armado de meios de indagação,
desvendá-los. Sente-se a necessidade de completar a medicina o fenômeno como se fosse um inimigo. É uma atitude egocên-
da matéria com uma medicina global, que inclua também o es- trica e utilitarista, que tudo pretende sujeitar a si mesmo, pon-
pírito e leve em consideração, além do organismo físico, tam- do-se como centro e lei do universo. Ora, este já possui uma lei
bém aquela outra parte tão importante do ser humano, ainda sábia e perfeita, e toda a sabedoria está em segui-la, em harmo-
46 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
nizar-se com ela, pois que ela exprime o pensamento de Deus. Mesmo a terapêutica, na prática, foi transtornada por esta
Só através dessa concórdia pode derivar a felicidade espiritual e corrente. É a massa que hoje faz tudo e, com a sua ignorância e
também a saúde física. Esta vontade de se erigir em lei própria, psicologia, estabelece o que se deve produzir para que possa ser
contra a ordem já estabelecida das coisas, esta elevação em an- vendido. É a procura que cria a oferta. O médico que quisesse
ti-Lei, substituindo à Lei a própria vontade, é patológica, asse- opor-se a essa corrente seria esmagado. A culpa é do público.
melhando-se à indisciplinada multiplicação celular do câncer Mas quando foi que o povo, soberano ou não, compreendeu o
em um organismo são, e não pode produzir senão mal e dor. que quer que seja? Calculou-se que as especialidades farmacêu-
Caminha-se, assim, seguindo um erro contínuo, que é de todo o ticas produzidas só nas nações europeias são em número de
pensamento moderno em todos os campos, pensamento que, mais ou menos de 50.000. Será isto ciência, indústria ou empi-
embora seja perspicaz, por ser invertido não pode criar o bem e rismo? O que decidiu é a propaganda, antigamente considerada
a alegria senão negativamente, ou seja, como mal e dor. E, as- charlatanismo. Ela, com o objetivo de vender, procura embair
sim, enquanto parece que se progride para a ascensão, verifica- os parvoeirões com a necessidade de tomar injeções e a ingerir
se que isto se dá somente na forma e que, na realidade, trata-se produtos inúteis, quando não prejudiciais, prometendo mila-
de um engano, porque efetivamente, na substância, anda-se pa- gres. Cria, desta forma, necessidades artificiais que se trans-
ra trás, em descida involutiva, para a barbárie e para a destrui- formam em hábitos, para estabilizar o próprio comércio. Isto
ção. Eis no que acaba a nossa ciência, por ser mal orientada e constitui um mal, não só para o bolso, mas também para a saú-
dirigida! Por conseguinte, cogitar da sua filosofia, como ciência de. Os medicamentos fundamentais, indispensáveis, são pou-
de orientação, não é coisa ociosa e inútil. quíssimos. Serão 50, no máximo 100. E por que tão grande có-
De tudo isto nasce uma medicina aparentemente maravi- pia de especialidades farmacêuticas? A razão está no interesse
lhosa, mas de resultados danosos, porque não cria saúde, mas em produzir o que a ingenuidade procura adquirir. E, assim, vê-
sim moléstia. Em face da sua direção, ela representa uma in- se que, no mundo, quase tudo é mentira. Mas tal é a necessida-
tervenção violenta, que, em vez de coadjuvar, viola a sabedo- de de confiança, a preguiça de não pensar por si mesmo e a pre-
ria divina, com o resultado de transtornar a ordem, ao invés de tensão de ser servido, que parece impossível a extinção da no-
facilitar-lhe as manifestações. Semeia, desta maneira, os pre- bre raça dos simplórios e seu renascimento com o homem.
cedentes causais de uma série de sempre novas formas pato- É bastante atentar para o tempo que duram o preço e a
lógicas amorfas, que cada vez mais nos atormentarão e aos forma desses produtos. Reina entre eles uma moda tão mutá-
nossos descendentes. Esta medicina de domador torna-se um vel e caprichosa como a feminina. O valor preponderante é
elemento a mais na degeneração das raças. Mas isto não nos dado pela novidade. Não significa isto que se procede por ten-
surpreende. Tudo hoje se encontra na via da descida involuti- tativas? E o que é isto senão empirismo? E o corpo humano
va, tendendo assim para o mal, a dor, a destruição e a morte. não é sempre o mesmo? No entanto as mesmas moléstias, ho-
O pensamento atual é um bulbo que a vida quer isolar para je, tratam-se com o branco e, amanhã, com o negro. O medi-
extinguir. Tudo – a arte, a música, a literatura, a filosofia, a camento, de início, faz milagres. Depois, parece que se exaure
política, a agricultura de exploração intensiva por meios quí- a sua carga de poder sugestivo conferida pela novidade, o sa-
micos, a técnica e a ciência utilitária, o homem como pensa- ber da descoberta, o nome estranho e exótico, então deixa de
mento, como organismo, como ação, as suas máquinas e todo curar e cai em descrédito. Por quê?
o seu poder – tudo caminha nesta vida. Assim também a me- Como se vê, o fator psicológico desempenha uma função
dicina, segundo o ritmo de nosso tempo. O sistema é por toda importante na terapêutica; assim, em grande parte, não é o re-
parte o mesmo: triunfos aparentes, promessas falazes, vanta- médio com os seus elementos químicos que curam, mas é “la
gens vistosas e imediatas e “aprés moi le deluge”28. fois qui guérit”29 (Charcot). É certo que, hoje, pretende-se fa-
Toda a nossa cultura é hoje divergente do centro, da unidade bricar esta fé com a psicoterapia, psicanálise e princípios afins.
e, por conseguinte, desagregante, ao invés de convergente para a Mas a fé faz parte de movimentos de força no organismo espiri-
unidade, isto é, construtiva. Afastamo-nos, assim, das fontes da tual, obedecendo a leis próprias, que não permitem obtê-la fa-
vida, que tudo alimentam, e permanecemos isolados e perdidos cilmente, à vontade, sob a ilusão de que se poderia conseguir is-
na especialização. É uma corrida louca de todo o pensamento to pela sugestão. Ela se verifica quando quer, e a vida sabe pro-
moderno. A humanidade, assim orientada por séculos de materi- teger-se. A fé salutar, que cura, não se fabrica em série, como
alismo, não pode mais parar e, por inércia, é fatal que ela só po- os medicamentos, mas faz parte da “vis sanatrix naturae”30,
derá conter-se quando colidir com a resistência das invioláveis constituindo um estado de dinamismo espiritual que se processa
leis da vida, constituídas por imponderáveis dinamismos de fer- quando as leis protetoras da vida o querem. Esta fé não se co-
ro. Choque apocalíptico, mas necessário. Quando esta humani- munica mecanicamente, por fórmulas estudadas, não sentidas
dade tresloucada, que avança estupidamente, em massa e por nem vividas por quem as quer impor. Deve-se dar muito mais, a
imitação, acreditando que a lei e a verdade se fazem somente própria vida, a si mesmo, e, para dar, deve-se possuir algo co-
com o número, quebrar a cabeça, então talvez compreenderá. E, mo força biológica. Mais do que nunca, aqui, o médico deveria
assim, as leis da vida a salvarão necessariamente. ser um sacerdote ou um taumaturgo.
O indivíduo não vê senão um meio de salvação: isolar-se A atual patologia e terapêutica limita-se ao corpo e ignora
em todos os campos dessa corrente, libertando-se o mais possí- em grande parte o espírito, de que, sobretudo, o homem é feito.
vel de todos os produtos de uma civilização transtornada. Re- Cura-se este como se procederia com um animal qualquer. Ora,
sistência passiva em vez de misturar-se ao rebanho. Em todos o princípio genético da vida está no seu íntimo, onde, por conse-
os campos: cultural, político, religioso, econômico, apenas do- guinte, encontra-se também o princípio regenerador e reparador.
mina o interesse, pelo qual a mentalidade moderna conduz à Por que o tempo cura? Por que? Porque é no tempo que se de-
formação de grupos para a exploração do próximo. Quem de- senvolve o ritmo do transformismo universal; porque, no tempo,
fende o indivíduo? Ninguém, e é lógico. Ele acredita em varias a divina potência que está na intimidade de todas as coisas, ani-
formas de defesa e na justiça, mas é necessário que aprenda por mando-as e guiando-as, pode aparecer e manifestar a sua vonta-
si a defender-se das infinitas mentiras humanas dominantes por de de bem, o seu inexaurível poder curador. Desta maneira, esta
todos os lados. No entanto, com que beata incoerência as mas- potência, através do canal de sua manifestação, que é a forma,
sas se deixam engazopar por todas as formas de propaganda!
29
“A fé que cura”. (N. do T.)
28 30
“Depois de mim, o dilúvio”. (N. do T.) “Força curadora da natureza”. (N. do T.)
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 47
pode chegar a agir terapeuticamente até à periferia material, que melhor, mas do tipo mais capaz de se impor egoisticamente.
o médico vê. As causas estão todas na profundeza, no espírito, Uma humanidade assim involuída não pode polarizar-se senão
de que seria necessário, pois, conhecer a história, a evolução, a em torno de um indivíduo ou de uma classe que, sobrepujan-
patologia. Os traumas físicos são antes traumas espirituais, e a do-a e vencendo-a, possa, por conseguinte, dominá-la segundo
sabedoria divina, que os cicatriza, começa a operar antes nestas o próprio tipo de forças que prevalecem nela. É lógico, pois,
causas, até atingir as consequências orgânicas. Como é possível que cada povo tenha o governo que merece e cada governo te-
curar sem saber estas coisas? A medicina completa é também nha os súditos que lhe correspondam. Em toda manifestação da
mística e religiosa. A patologia e a terapêutica verdadeiras deve- vida, apenas um indivíduo ou grupos de indivíduos, por vonta-
riam abarcar séculos da vida do indivíduo, segundo as alternati- de e inteligência, sobressaem um pouco da massa, mas não o
vas da sua longa caminhada no tempo. Que sabe a ciência da- bastante para distanciar-se completamente. Então ele se erige,
quela outra hereditariedade espiritual, que, pela universal lei de segundo o esquema universal dos fenômenos, em central di-
dualidade, age por um canal paralelo e complementar ao da he- nâmica autônoma, isto é, em sol ou núcleo em torno do qual,
reditariedade psicológica, que é a única hoje conhecida? En- como os satélites ou os elétrons, começam a girar as unidades
quanto a ciência não conhecer a biologia transcendental do espí- dinâmicas menores, de nível negativo com respeito ao dina-
rito e a anatomia, psicologia e patologia deste organismo dinâ- mismo central, que é positivo. Esta é uma lei própria de qual-
mico, ou sistema de forças, individualizado por comprimento de quer manifestação biológica, que se manifesta também nas re-
onda, frequência de rotação, potencial etc., não poderá compre- lações sociais, logo que estas devam ser disciplinadas em vir-
ender nem mesmo a patologia do organismo físico, que não é tude da convivência de muitos indivíduos. O conceito de auto-
senão a última consequência de tudo quanto nós mesmos prepa- ridade se baseia assim em um princípio de dinâmica biológica,
ramos com os nossos pensamentos, com a nossa vontade e ação, que, neste caso particular, é social. Em política sucede o que
no campo do imponderável. O diagnóstico hoje se faz, no entan- observamos com o galo no galinheiro, com o homem na famí-
to, à base da sintomatologia imediata e superficial denunciada lia, entre o núcleo e o protoplasma na célula, e, mais longe, na
mais ou menos pelo paciente, sob controle do médico, que não o intimidade do átomo e no sistema solar etc. Formado o poder
conhece e o vê pela primeira vez, tratando-o como corpo em sé- central, em seu derredor começa a rotação dos elementos saté-
rie, e não como indivíduo que ele é; como moléstia que se pre- lites. Da substancial natureza e valor biológico do núcleo deri-
sume mais ou menos igual para todos, e não como típico caso va o direito de comandar e o dever de obediência.
específico. Hoje, o utilitarismo prático e a lei do mínimo esforço A sociologia não é senão um ramo da biologia e só assim
impõem rapidez. Tudo é em série, em massa. Os homens, como pode ser compreendida. Ora, dado o atual nível evolutivo hu-
as máquinas, reparam-se em série, como se fazem as bicicletas. mano, e inútil procurar nela o elemento moral. A obediência
Concluindo, falta aos nossos tempos e suas produções a ori- dos muitos aos poucos baseia-se num princípio de fraqueza
entação que forneça a visão dos fins últimos a serem atingidos. É dos muitos e na necessidade de compensá-las com a força dos
uma verificação que não tem por fim desacreditar a ciência ou a dirigentes. É uma lei de complementação. A vida não rende
medicina. Existem médicos iluminados e honestos, e a ciência é homenagem senão ao mérito efetivo e, mesmo em tal caso, tra-
uma grande conquista devido ao esforço e à abnegação das gran- tando-se de um mundo involuído, o mérito pode consistir na
des mentalidades que a elaboraram, porque também ela possui os força brutal expressa pela dominação. Tudo depende da estru-
seus gênios e os seus mártires. Respeitemo-la, mas saibamos tura dinâmica do sistema, que requer do núcleo, sobretudo, a
também usá-la com sabedoria, só colocar o imenso poder que de- potência de reger os satélites.
la deriva em mãos de quem sabe dele fazer bom uso. Todavia, se Pela própria estrutura, faz-se necessária uma certa proximi-
a ciência sabe fabricar tantas coisas, não sabe ainda fabricar os dade qualitativa, uma afinidade entre governantes e governa-
cérebros que possam bem usá-la. Cheios de sapiência, falta-nos dos, pois, se quem detém o poder é demasiado evoluído e, as-
ainda a sabedoria. Possuímos todas as ciências, mas nos falta a da sim, se distancia demasiado da média, os pontos de contato
orientação. Assim, às vezes, a ciência se torna um mal, em virtu- não subsistem mais, e é impossível a troca dinâmica e a com-
de do que seria melhor que os cientistas não fizessem certas des- preensão. Então, os governados destroem o poder, que já não
cobertas ou, pelo menos, não as tornassem conhecidas. corresponde mais às suas necessidades e capacidades. Desta
Quando se pensa que hoje a humanidade está à mercê de maneira, um santo jamais poderá governar, mas apenas o indi-
poucos homens que possuem o segredo e os meios da bomba víduo ou a classe que possui as qualidades e também os defei-
atômica, e que os povos inermes, dada a mentalidade domi- tos próprio da involução da maioria.
nante, encontram-se sob a ameaça de ser por ela massacrados Quando, na ilusão própria da ignorância do atual estado da
sem remissão, conclusões amargas como esta poderão pare- humanidade, quem comanda acredita comandar por si, é porque
cer justificadas. ignora que na realidade é um servo da vida, que o utiliza para
os seus fins e o elimina quando não desempenha mais, como
XXII. O CONCEITO DE PODER EM potência, vontade e inteligência, a sua função social. O homem
BIOLOGIA SOCIAL atual, muito mais carne do que espírito, menospreza o chefe
que não seja um domador, porque necessita de ver nele a per-
Defrontamo-nos agora com o problema do comando, ob- sonificação do seu ideal de supremacia material e o vencedor na
servando o mecanismo psicológico que preside ao funciona- luta animal pela vida. Os membros exigem direção e proteção
mento das forças nas quais se baseia a autoridade, seja em do centro, o cumprimento, ainda que inconsciente, dos fins da
quem a exercita, seja em quem lhe obedece, e procurando pre- vida, que são de prosperar e progredir: bem-estar e progresso.
cisar também neste campo quais são os erros modernos e a sua O homem moralmente evoluído, o homem evangélico da bon-
razão de ser. Esses são erros de fundamentos, e de tal vastidão dade e do espírito, corresponde a outras funções biológicas, que
que é muito difícil se corrigir. Da mesma forma, o mal, aqui, não dependem de governo pelo domínio. Também ele servirá
não se encontra na perfeita lei de Deus, que tudo rege, mas no de núcleo que atrai satélites, mas não no campo das organiza-
espírito humano de revolta ções sociais que se baseiam na força material e econômica.
Qualquer que seja o sistema político e o período histórico Por esses princípios de dinâmica social, vê-se como os
escolhido para exame, o comando cabe ao mais forte. Esta é a eventos históricos são determinados por impulsos interiores,
base do poder na atual fase biológica da humanidade, em que a dos quais os atores principais não têm conhecimento. A histó-
seleção é dirigida não para o triunfo do elemento moralmente ria, pois, não avança como produto do conhecimento e da
48 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
vontade humana, mas sim movida por um dinamismo interior, função. Mudam assim as várias verdades políticas conexas em
de que os homens, mesmo os mais importantes, são em geral cadeia no caminho evolutivo da sociedade humana. Elas vão e
uma expressão inconsciente. Mais do que na inteligência de- vêm, contradizem-se e se combatem, transmudam-se no oposto
les, esse dinamismo parece situado no subconsciente das mas- a cada momento, no entanto não constituem na história senão o
sas, dado por uma espécie de alma coletiva inconsciente, que desenvolvimento de um único pensamento: o da vida, que o
sabe, por intuição, sem poder dar-lhes as explicações racio- guia. Todo governo se declara insubstituível representante do
nalmente, a substância da ação necessária a cada momento. bem público e, apesar disso, cedo ou tarde, vem a ser substitu-
Então esse dinamismo confia aos mais diversos indivíduos as ído. A verdade, feita para uso e consumo de cada um deles, se
mais variadas funções sociais, que eles cumprem segundo o inverte. E, assim, por ação e reação, compensam-se os exces-
próprio tipo biológico, porém ignorando cada qual a coorde- sos e os erros de cada um; por superações, desenvolve-se um
nação que se verifica, somente conhecida pela inteligência pensamento único, continuamente progressivo, aquele que a
que dirige a história. Não será esta a própria sabedoria de história, e não os homens, pensa e quer. Mudam os servidores
Deus, que opera além do nosso conhecimento, ao elevar o ní- da vida escolhidos para o bem público, e, através de tantas
vel térmico em nosso organismo, buscando defendê-lo pela formas e indivíduos, que acreditam combater um ao outro,
febre, quando assaltado pela enfermidade? Não se trata sem- mas, ao invés, equilibram-se, o bem público é e vem a ser por
pre da mesma fraternal e benéfica onipresença da sabedoria todos diversamente servido. Por isso se vê como na história
divina? E, assim, não estaremos nós, quer em nossa vida indi- reina a lógica e o equilíbrio, não obstante as aparências opos-
vidual, quer na social, confiados a essa sabedoria, que existe e tas, e que tudo nela, desde um incidente momentâneo até um
funciona acima da nossa consciência? grande evento, como a maturação e queda da civilização, é re-
É desta sabedoria e potência divinas que estão no funcio- gulado inteligentemente por uma lei. A essa lei se deve que a
namento da vida, que os homens recebem o poder. São elas que história caminhe, não loucamente como os interesses individu-
o dão, mas que também o tomam. É uma espécie de direito di- ais desejariam, mas para suas metas.
vino, mas em sentido biológico, isto é, que permanece enquanto Este é o estado atual do nosso mundo no seu nível ainda in-
justificado por uma função vital no corpo social, que representa voluído. Dado que a consciência coletiva se encontra na sua fa-
em outros termos o real cumprimento de uma missão. Um direi- se paleontológica de formação, ela possui expressões exterior-
to que cessa quando deixa de ser biologicamente útil e, portan- mente caóticas, cuja lógica só se encontra nas diretivas internas
to, justificado. Segue-se daí que, assim sendo, seria rapidamen- da história, a que, pois, tudo é confiado e que constituem uma
te eliminado um santo posto a governar, porque se bem adapta- zona situada fora da consciência e da razão do homem. Mas,
do a funções altíssimas, essa não é a sua, como também é eli- em um nível evoluído, uma vez formada uma consciência cole-
minado o involuído que abusa do poder, transformando-o em tiva, o homem terá conquistado o senso do dever e das funções
gozo para vantagem próprias. A vida exige uma utilidade em que cabem a cada um, dirigentes e dirigidos, no organismo so-
troca dos poderes que confere e, quando essa utilidade social cial. Então, todo poder será mantido não por meio da força, mas
vem a faltar, ela os retoma. sim pela consciência do cumprimento de função e missão, e,
Se as massas são involuídas, esses poderes serão exercita- sem uso de força, o cidadão capaz de compreender, o reconhe-
dos de forma proporcionalmente involuída, isto é, pela força, cerá e respeitará espontaneamente. Mas esta é uma meta dife-
que atinge as raias de ferocidade. Mas a função, não importa rente, um ponto a ser atingido. O ponto de partida é bem dife-
qual seja a forma que ela deva assumir de acordo com o grau rente, e o mundo atual está entre os dois.
evolutivo dos povos, deve estar sempre presente. Assim se ex- A autoridade, geralmente, nasce da força e da violência, as-
plica como alguns fortes, que polarizam em torno de si os po- sim como a propriedade, frequentemente, nasce do furto. Mas,
vos, tenham sido eliminados por outros mais poderosos, quan- com isto, o poder não cessa de desempenhar a função de uma
do, por opressão ou abuso, traíram através da tirania a sua mis- primeira ordenação e disciplinamento da sociedade humana.
são ou, por uma razão qualquer, deixaram de ter cumprido a Não é possível esperar mais de uma humanidade involuída.
função de dirigir e proteger, que a vida lhes confiou. Como se Em nosso ciclo histórico, o princípio da autoridade está ama-
vê, trata-se de reações biológicas automáticas, que todas as durecendo, de modo a passar da sua primitiva fase de violência
afirmações históricas de poder por direito divino não podem e opressão à fase futura de missão. Quantas lutas serão ainda
conter, mal a missão e a função cessem. No dia em que um go- necessárias para atingi-la! Através de cada forma política, a
verno e uma classe dirigente comecem a viver só para si pró- vida matura alguns dos diversos aspectos e faz uma conquista
prios e não mais para a nação, iniciam o próprio suicídio. diferente. O nosso tipo de poder ressente-se das suas origens e
Quem, pois, na essência, atribui e retira o poder não são os se apoia na força, sem a qual não se poderá manter, mas tam-
homens, não importa qual seja o sistema político, mas as forças bém possui o pressentimento do seu futuro. De fato, mal se te-
biológicas. Elas proporcionam o grau evolutivo dos governan- nha consolidado pela força, procura formar uma corrente favo-
tes ao dos governados e dispensam um servidor que tenha se rável de opinião pública, um consenso geral, porque já admite
tornado inútil, quaisquer sejam as defesas que a sua posição de o poderio de uma outra força, que se torna cada vez maior com
comando lhe tenha facultado acumular e usar para permanecer a formação da consciência coletiva: a força de persuasão. Mas
artificialmente no posto. A vida não nutre mais essas formas, isto só se dá em um segundo tempo, após a estabilização pela
disseca e as enfraquece interiormente, chamando à ribalta da força, seja esta bruta, econômica ou do pensamento diretivo,
história os elementos adaptados, que lhes dão o último golpe. mas sempre força, sem o que não pode haver conquista, por
Tais são as leis biológicas que regem a política de todos os mais que se queira mascará-la sob os mais diversos métodos.
tempos e lugares e a que todos estão sujeitos. Não há barreira É verdade que os governantes são os servos da vida, mas
legal que possa sustar o seu irrompimento, pois que, de uma aquele que hoje quisesse exercitar o poder sem uma porcenta-
forma ou de outra, elas prevalecem sempre. gem de egoísmo centralizador e impositivo, pretendendo em-
A primeira afirmação de todo novo governo é dizer: eu re- pregar apenas um método evoluído da função e missão, anteci-
presento a nação. E isto é verdade, até que apareça um outro par-se-ia demais à psicologia dominante e fracassaria. O tipo
mais forte e mais adaptado que diga o mesmo. Desta forma, os biológico atual médio não pode compreender os deveres, senão
homens e as classes sociais vão ocupando na história uma po- quando impostos pela força e pela ameaça em prejuízo próprio.
sição de autoridade que eles afirmam por si mesmos, mas que, O uso da espada, dada a imaturidade prevalecente, faz parte do
na realidade, despersonaliza-se e só subsiste e tem valor como poder. Este, como o centro e o núcleo, é de sinal positivo, ou
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 49
seja, é másculo. Assim sendo, elimina da sua função o espírito que admirar-se, então, que, em um tal mundo, quem haja con-
de amor e de sacrifício, que é feminil, isto é, próprio dos ele- seguido, só Deus sabe com que esforço, conquistar um poder
mentos que giram na periferia e possuem nível negativo. Esta ou um posto qualquer de autoridade, não seja levado a pôr em
não poderá ser jamais a vitalidade dos governantes, que devem primeiro plano o gozo do prêmio das próprias fadigas? A defe-
ter um viril espírito de justiça. E eis que o poder, ao lado da es- sa de infinitos rivais custa não pouco trabalho. A empresa é ar-
pada, não exibe um coração, mas uma balança. A ele não se riscada, a posição incerta. Como se pode, ao invés de procurar
pode pedir sacrifício e amor, pois que o instinto dos povos pede aproveitar-se logo, pensar no bem do povo e no exercício de
força e justiça. Os dirigentes, muitos temos, são hoje chamados uma função-missão? Isto exigiria uma estabilidade, um respei-
pelos fatos a esta realidade biológica, que é a base das respostas to, uma compreensão, uma consciência que o homem atual nem
e reações aos próprios atos da parte dos súditos. É lógico que o mesmo imagina ainda. Ao contrário, só a força comanda. Se
atual sistema do poder esteja ligado com a força e continue existe um poder forte, então há ordem, mas ela se chama tirania
com esta ligação. A força está sempre pronta a recair contra e sujeição. Se ele se desagrega, todos se sentem livres e, então,
quem a emprega (“quem usa a espada morrerá pela espada”), surge a desordem, a luta, o caos. Como se pode pretender que
por isto quem possui o poder não tem outra defesa senão uma uma disciplina social possa agir, nesta fase evolutiva, sem um
outra força maior. Se não a possui, está perdido. É uma fatal absolutismo que se imponha pela força? Bela seria realmente
consequência do sistema que se move sobre tais elementos. uma ordem de seres livres!
Força de qualquer gênero, mas que mostre a sua real potência e Mas, para isto, o homem de hoje está ainda absolutamente
superioridade. Se faltar, outros extratos sociais surgem, para imaturo. A disciplina social necessária à vida das nações, qual-
operar a substituição. A primeira arremetida é dos mais involu- quer seja o seu regime de governo, não se pode obter, na fase
ídos, senhores somente da utilização da força bruta, pois, ainda atual de civilização, pelas vias da liberdade da consciência, mas
que possuam também a econômica, falta-lhes, para usá-la, a in- somente por meio da coação. A força é um elemento necessário
teligência organizadora. Eles duram pouco. De fato, em geral, à educação do homem inferior, incapaz de compreender outro
as revoluções devoram os próprios filhos. Estes, assim, exau- meio. Por isto a vida ainda a admite, porém não mais irá admi-
rem a função de aplainar o caminho para elementos mais adap- ti-la amanhã, com o homem evoluído. É elemento necessário
tados, da segunda ou terceira arremetida, que são os que resis- hoje, porque a disciplina, em qualquer organização de elemen-
tem e com mais critério permanecem. Em suma, a vida deixa a tos, quer se trate de homens, de átomos ou estrelas, é indispen-
função de comando à uma classe involuída o bastante para ter sável. Todo o universo não nos dá um exemplo patente?
afinidade com as massas, mas evoluída o suficiente para poder
assumir o encargo de fazê-las evoluir. XXIII. CRISE DE CIVILIZAÇÃO
A função está, pois, biologicamente aberta a todos, mas
é reservada pela vida ao mais adaptado. Este, ou bem a desem- Os erros humanos e as dores que naturalmente se seguem
penha, ou paga com a própria vida, sendo mantido na incum- dependem, em toda a sua multiplicidade, de um único erro fun-
bência enquanto pode executá-la, após o que é liquidado. Re- damental a que eles se podem reportar, erro dado por uma ati-
sulta disso um vai e vem de homens, um contínuo fluxo e re- tude psicológica de revolta às leis divinas que regem o mundo,
fluxo, uma cadeia de lutas redentoras, de quedas espantosas e a ponto mesmo de negar-lhes a existência. Instaura-se assim, na
de ascensões incríveis. Tudo isto não é fortuna, nem acaso. É Terra, em qualquer campo de atividade, um regime de desor-
função, é a lógica da vida. Mudam apenas as formas, os meios, dem e, consequentemente, de sofrimento, enquanto que a lei
as dimensões. O motivo, enquanto o homem não se elevar a divina é feita somente de ordem e a ela, que é base da felicida-
outros graus de evolução, é sempre o mesmo. Tudo se passa de, propende permanentemente. Essa lei restaura a cada passo
em turnos, porque, segundo a própria Lei, igual para todos, os as destruições que a ignorância do homem opera em dano dele
famélicos recém-chegados suavizam os próprios costumes e se próprio; procura, através das reações que infligem dor, fazê-lo
exaurem no próprio bem-estar, caindo por sua vez vítimas de compreender que só na ordem pode estar e estará a sua felici-
outros novos que chegam. Assim como as ondas do mar, as vá- dade; busca sua compreensão, como é necessário para um ser
rias formas políticas se sucedem e se sobrepõem no oceano da que deve permanecer livre e tornar-se consciente, não devendo
história. Assim se forma o tipo da atual seleção biológica hu- ser manobrado como um autômato. O erro e a dor dependem da
mana, operando sobretudo no plano animal; seleção ativa no liberdade, grande dom por Deus concedido ao homem, mas
campo político-social, bem como em todos os outros campos: grave perigo enquanto o homem, por não saber utilizá-la, dela
orgânico, econômico, intelectual etc. Desse modo, a vida mar- abuse. Liberdade que nos custa grandes dores, mas sem a qual
tela as multidões, a fim de que, ativas ou passivas, despendam não haveria experiência própria nem conquista de consciência.
centelhas criadoras e assim, na diuturna atividade afanosa, pe- Grande dom de Deus, com o qual Ele nos coloca no grau de
jada de conquistas, golpes e dores, elas evoluam. seus colaboradores na divina e eterna obra de criação, elevan-
A vida é sábia e justa. Faz sempre o melhor possível com o do-nos à dignidade de seus ministros. Mas quanto deverá sofrer
mínimo esforço, segundo os elementos de que dispõe, dados o homem antes de conseguir tornar-se digno d'Ele! E bendita
pelo grau evolutivo de cada povo. Ela não pode dar-lhe uma seja a irmã dor, que, para o bem dele, o educa e o impele, pelas
forma de governo superior ao que este pode compreender. Co- vias da liberdade da consciência, a seguir os caminhos que o
mo pode o cérebro evoluir por si só, para formas superiores, se, conduzirão à própria felicidade!
paralelamente, não evolui todo o corpo? Tudo é conexo e inter- É inútil repetir hoje estas coisas em nosso mundo. A maio-
dependente em uma nação. Méritos e culpas não constituem ria, que é involuída, não pode compreendê-las. Já se fizeram
jamais um fato isolado. Só um povo de santos poderia pretender muitas pregações a este respeito, e pouca atenção se lhes dá
um governo de santo. A involução é de todas as partes, e quem agora. A palavra cabe, neste momento, à irmã e mesma dor, pa-
acusa usa os métodos do acusado. O egoísmo está presente em ra que ela, azorragando a adorada carne, consiga desatar o espí-
todos. Dirigentes e dependentes estão habituados a considerar- rito e induzi-lo a refletir e compreender. Esta é a dura realidade.
se falsos e inimigos. Todos são adestrados para combater uns De nenhum resultado valerá pretender passar sobre ela com mil
contra os outros. As nações não se fabricam com poucos ho- astutos expedientes, à procura de evasão, porque ela depende
mens dirigentes, mas com as forças espirituais das massas. O das leis da vida, que ao homem não é dado alterar. Elas sabem a
que se pode pretender, se tudo se baseia na força, no direito de meta benéfica que se deve atingir, e, quando o homem não quer
conquista, e não na compreensão, disciplina e colaboração? Por compreender, certos desastres são necessários.
50 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
Já vimos os vários aspectos humanos desse erro fundamen- tes, desaparece a finalidade, falta o porvir, freia-se a evolução e,
tal, feito de orgulho e de rebelião, isto é: lo) O erro moral, de com a evolução, a vida. O ideal do ventre e do prazer não bas-
não compreender a lei divina; 2o) O erro científico, especial- tam para regê-la. O “carpe diem”31 é a renúncia ao progresso, é
mente no campo médico, do qual depende a nossa saúde física; a inconsciência sem esperança. Sente-se que hoje falta alguma
3o) O erro político-social, causa de guerras e de revoluções. Ve- coisa, ainda que imponderável: é a atmosfera em que o espírito
jamos agora o 4o aspecto: o erro intelectual, que desorienta todo respira e sem a qual sufoca. A filosofia materialista prosperou
o pensamento moderno. Eles são quatro formas de desordem no vasto terreno dos mais baixos instintos, fazendo largo e am-
que violam a Lei, do que derivam varias carências ou privações plo apelo à animalidade do involuído; engodou-o, iludindo-o
de bens, ou seja: 1o) Miséria material; 2o) Aumento de molés- com a libertação da fadiga de evoluir, ou seja, com a possibili-
tias; 3o) Destruição bélica e revolucionaria; 4o) Desorientação dade de construir um amanhã mais elevado e feliz sem trabalho,
espiritual, que atinge as raias da loucura. prometendo dar-lhe rapidamente um paraíso na Terra por meio
No campo intelectual, o erro moderno, baseado no orgulho, das conquistas sociais e da técnica científica. E tudo isto acabou
assume a forma de racionalismo. Esta é a forma mental do nos- em revoluções e guerras; paraíso nenhum, mas ódios e destrui-
so século, que nela se encerrou sem saber como sair. É uma ção infernais! O materialismo, atingindo as suas últimas conse-
forma que teve a sua grande função, na qual, porém, os recur- quências, fracassou por ter mentido. Está liquidado.
sos espirituais do homem não se podem esgotar. A razão repre- Urge mudar de rota. Esta crise não se resolve pelos velhos
senta, na fase relativa e transitória da personalidade humana, processos, destinando novas complicações de nacionalismos
um meio de construção da consciência, que deve ser abandona- guiados pelo mesmo espírito egocêntrico. Não se trata aqui de
do depois de conseguido o objetivo. Na realidade, possuímos novos sistemas racionais, mas da ruína desse tipo de sistema. É
um vir-a-ser psicológico relativo, em um contínuo processo de exatamente toda a orientação da faculdade humana especulativa
superação, vir-a-ser de que o racionalismo não é mais que um que está em crise. As tentativas atuais são apenas as últimas as-
particular momento, ao qual se pretende conferir um valor ab- persões de uma forma mental que se extingue. É necessário
soluto e definitivo. O racionalismo é uma forma de pensamento descer ainda em dor e treva. A sapiência do rebelde só pode
destinada a esgotar-se na sua função construtiva e que não pos- acabar na confusão babélica. O colapso é inevitável. No fundo,
sui valor senão relacionado a esta. Ora, em nada se vê tanto o esperam o caos, a loucura, a desesperação. É necessário reco-
aspecto luciferiano do espírito de orgulho e de rebelião quanto lher e comer os frutos envenenados do egoísmo e do ódio, se-
neste racionalismo, que substituiu o eu a Deus e o querer hu- meados pelo orgulho e pelo espírito de revolta, antes de poder
mano às leis da vida. Pretender-se-ia assim dominar a eternida- subir de novo pelas vias construtivas da fé e do amor. É neces-
de, reduzindo-a à forma do nosso presente, e o absoluto, redu- sário lançar-se em direção oposta, da periferia ao centro, da
zindo-o e encerrando-o nos termos do nosso relativo. O racio- forma à substância, retornando a Deus. O homem já experimen-
nalismo atual não é um racionalismo são, dirigido à compreen- tou nas idades pré-históricas o seu juvenil ciclo intuitivo instru-
são da lei de Deus, harmônico e sábio, mas um racionalismo tivo. Superou-o no ciclo de forma mental racionalista, em que
rebelde, que torna o homem centro e senhor de tudo, fazendo da conquistou o uso consciente do seu eu. Deve ainda superar este
vida um fim em si mesmo, e não um meio subordinado a metas ciclo em um novo, intuitivo-consciente, em que o espírito volte
superiores. A culpa não está em admitir que, se Deus nos deu ao contato com a divina essência das coisas, mas dando-se con-
uma inteligência, é justamente para que possamos usá-la no ta disto analiticamente, por meio dos poderes da racionalidade
pensamento. A culpa está no pensamento exclusivista, egocên- conquistada. É um caminhar para Deus não mais apenas através
trico e rebelde, no pensamento autônomo, que não se dirige pa- da fé, mas também através da ciência. O atual antagonismo en-
ra um conhecimento sempre mais profundo das leis do ser, ex- tre ciência e fé não passa da contraposição de um momento,
pressão do pensamento de Deus, para depois segui-las com sa- que não exprime senão o presente contraste entre Deus e o eu.
bedoria. Está na pretensão de descobrir essas leis com o fim di- Que grande coisa tornar-se-á a ciência quando este tão miserá-
tado por seu instinto animal de luta, que não se apercebe do es- vel contraste for superado e ela, não mais egocêntrica, isolada
pantoso erro em que recai e das terríveis consequências de sua em seu realismo, entrar em contato com Deus, para nos mostrar
atitude. A vida se transtorna por isto, e os resultados, sendo a grandeza d'Ele e do Seu amor, penetrando, com o estudo dos
movimento em direção contrária à da Lei, oferecem carência ao fenômenos, na profundeza do seu pensamento diretor! Que
invés de abundância. Acredita-se construir e, contrariamente, se quadro estupendo ela poderá então mostrar-nos do funciona-
destrói. Já vimos os mais tremendos absurdos devidos ao racio- mento orgânico do universo e, com que vantagem para nós, po-
cínio. Em face dessas raízes intelectuais, pode-se definir o nos- derá assim precisar, nesse universo, a nossa posição, atividades
so momento histórico como a face luciferiana da negação, a ho- e fins éticos, espirituais, sociais e biológicos. Os caminhos da
ra da desorganização social e da liquidação dos valores éticos, a razão, analítica e fragmentária na sua objetividade, são pouco
hora da aventura e da inconsciência, em que se antepõe o hoje adequados para nos levar mais alto, até Deus, sendo mais adap-
ao amanhã. É um mundo fadado a ruir na desordem. tados para nos fazer permanecer aderentes ao conceito, à forma
O movimento é profundo e grave. Ele possui um significado e à prática utilitária. Só os caminhos da intuição sintética e uni-
biológico de crise de civilização, de laboriosa conclusão de uma ficadora são capazes de nos aproximar da concepção e da sen-
fase evolutiva. Em nosso nervoso dinamismo parece que a vida sação de Deus. Quando o homem tiver superado o processo ra-
eleva a sua temperatura, para poder despender um esforço de- cional, tão relativo e indireto, e souber seguir, com método ci-
sesperado de superação. Na verdade, são ânsias do enfermo que entífico e maior maturidade espiritual, as vias da intuição sinté-
se debate na febre. Um outro erro está em acreditar que se trate tica e instantânea, quanto melhor poderá compreender Deus
de orientações particulares e de questões de detalhe, que podem onipotente! Não se trata de destruir a razão, laboriosa e preciosa
ser resolvidas com retoques no passado, utilizando os métodos e conquista que não se pode desperdiçar, mas de completar e con-
a psicologia do passado. Trata-se, ao invés, de uma crise da vida tinuar a evolução do racionalismo com os meios da fé, que se
humana, de fim do mundo atual e do início de um novo ciclo bi- tornará assim iluminada e consciente, fundida com a razão, que
ológico, baseado em princípio inteiramente diverso. permanecerá então como sua escrava.
A atual posição da psicologia humana exauriu a sua função, Conceber Deus com uma nova aproximação de precisão e
não tem mais amanhã, pois, como ela é, não pode mais evolver. profundidade; senti-Lo presente não mais vaga e instintivamente,
Sente-se este vazio de desconfiança, e procura-se por um ama-
31
nhã. O racionalismo materialista suprimiu os ideais, e, sem es- “Aproveita o dia” (N do T.)
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 51
como na primordial fase pré-racional, mas ostentando todo o po- ruínas. A nossa é uma hora negativa, de inversão satânica de to-
der da fase racional, por tê-la atravessado, assimilado e superado; dos os valores, até à derrocada. A palavra de ordem é: destruir.
sentir Deus por intuição de fé confirmada e compreendida por Tal é o fruto da teoria do super-homem, expressão do século. O
consciência analítica e racional; usar o eu científico moderno sem paraíso do bem-estar material, ao invés de se aproximar, afas-
diminuí-lo, com toda a sua razão intacta, diante de Deus – esta é tou-se. Usamos da liberdade para caminhar contra, e não segun-
a grande orientação e conquista biológica do homem de amanhã. do a Lei. Agora ela está contra nós. Nada mais resta senão pagar
Que laboriosa época a nossa, em que, entre tantos desfazi- e recomeçar pela via oposta. Hoje, de novo, a razão crucificou
mentos, tantas novas sementes devam germinar; que profunda Cristo. Agora, a vida crucifica a razão, para nos reconduzir a
ansiedade hoje, na vida humana, entre a morte e a ressurreição! Cristo. Não se compreendeu que, crucificando-se a Cristo, não a
Momento histórico bifronte, híbrido, contrastante, feito de des- carne mas o espírito, crucificamos a vida e, com a vida, a nós
truição e criação. Os velhos arcabouços perderam a grande força mesmos. Não se compreendeu que, calcando aos pés a Lei e a
do espírito. Não se sabe se, assim, sem alma, ruirão ou se sabe- evolução, aprisionamos o nosso futuro e a nossa felicidade e
rão construir uma nova estrutura. Não se sabe se o espírito emi- que, traindo Deus, traímos o nosso bem. Esta é a traição de Ju-
grará deles e de que forma irá ressurgir. Desse oceano em ebuli- das, rebelde ao amor divino, e ela nos perseguirá no ódio e na
ção de tantos elementos velhos e novos, de frutos em putrefação violência, como nossa herança atual. Ela nos perseguirá, desfa-
e tenros germes, que irá a vida fazer, que nova ordem de tudo is- zendo os nossos laços sociais, porque violamos a lei do amor
to ela quererá hoje estabelecer, como do caos primordial que fraterno; punir-nos-á com a destruição, porque acreditamos na
construiu o nosso mundo atual – não o sabemos! Mas é certo força; com a miséria, porque adoramos a riqueza; com a servi-
que algo de apocalíptico está acontecendo. Enquanto as massas dão, porque abusamos da liberdade. Invertemos a direção da via
deliram, os poucos que veem contêm, tremendo, a respiração, aberta por Deus à necessidade de desenvolvimento e expansão
numa expectativa ansiosa pelo resultado desta apocalíptica aven- material, indo ao encontro do irmão, não com amor, mas com
tura da vida, de que depende a história dos futuros milênios. ódio. Assim, o homem, apanhado nas esferas de uma ilusão sa-
É certo que o espírito deverá vencer, mas é certo também tânica, para crescer e subir, encerrou-se em um cárcere erguido
que o pecado capital do nosso século foi grave. Ele foi o orgu- pelas próprias mãos. E a luta se torna cada vez mais desesperada
lho de Lúcifer. O homem quis desobedecer à lei de Deus, co- contra as paredes de aço. As portas da vida, que se abrem pelo
mer de novo o fruto proibido, isto é, tornar-se árbitro do bem e amor, cerraram-se com o ódio, e cada qual ficou aprisionado em
do mal, fazer-se Deus e lei. E agora é expulso e arredado ainda um isolamento desesperado. A vida imensa palpita vizinha, mas
a maior distância do paraíso, no inferno terrestre que desejou. é vedado participar dela, porque o eu, isolado em egoísmo, não
Andar não segundo a Lei, do eu para Deus, mas às avessas, de pode mais comunicar-se senão sob a forma negativa de ódio e
Deus para o eu, é também um grande erro biológico, que se pa- agressão. Todos se repelem, agridem-se, dilaceram-se. A Terra
ga com a morte espiritual do eu que pretende endeusar-se. se transformou no inferno. Os homens, tornados demônios, de-
Todo pecado traz a própria punição, voltando-se automati- batem-se cada vez mais e, quanto mais ofendem, tanto mais se
camente contra quem o comete. O Evangelho de Cristo não é defrontam com ofensas; quanto mais odeiam, tanto mais se sen-
uma consolação para os deserdados, uma substituição às alegri- tem odiados; quanto mais se agitam para libertar-se, mais sen-
as da vida, deslocadas no futuro e no céu, mas exprime uma re- tem que se aperta o nó que lhes constringe a garganta; quanto
alidade biológica, porque indica as vias da evolução. O amor mais difunde o mal, tanto mais encontra e recebe o mal. Assalta-
fraterno não é um sonho político, mas a base das futuras orga- se pela desesperada ânsia de evasão, e cada assalto volta-se con-
nizações sociais. Antepondo-se ao tipo biológico superior, tra- tra quem o realizou. A destruição contra o próximo torna-se au-
çado como ideal humano pelo Evangelho, o nosso tempo erigiu tonegação e suicídio. Assim, cada qual acaba por ferir-se a si
em bandeira um tipo de super-homem que representa a luciferi- mesmo e envenenar-se com o próprio veneno. A cada novo im-
ana divinização do eu e se substitui à sabedoria e bondade de pulso egoísta, o indivíduo se encontra mais prisioneiro de si
Deus, com os seus opostos instintos bestiais. É a divinização do mesmo, mais armado e feroz contra si próprio. Desta maneira, o
bruto. Nietzsche acreditou matar Deus e exterminou a Alema- circuito de forças tende a cerrar-se mais estreitamente, para re-
nha. Tal moderna psicologia de domínio destruiu a Europa e solver-se na catástrofe de quem se fez centro e senhor de tudo.
gerou o crepúsculo de sua civilização. Assim, perde-se o eu que a si sacrificou Deus.
Se o observamos de perto, em substância, esse super- Não se detém um projétil lançado. Os movimentos históri-
homem não passa de um paupérrimo e mortal burguês, ávido de cos, uma vez iniciados, possuem uma trajetória e transcurso fa-
bens terrenos, que se atira contra os bens do próximo, cúpido e tais. O homem, que acreditou crucificar a Lei e destruir Deus,
famélico, mas que, não sabendo deles saciar-se, não pode al- encravou-se por si mesmo em sua cruz e destruiu o seu eu. Não
cançar os mais nutritivos do céu. Fica assim a meio caminho, se pode mercadejar com o espírito. Os homens que só acredi-
impotente e insatisfeito. É um pobre homem ávido de evasão, tam na força eliminar-se-ão entre si pela força; aqueles que só
mas que a procura às avessas, não suspeitando, porque não pos- adoram a riqueza acabarão na miséria; os que creem no orgulho
sui a força moral necessária, da possibilidade de superação. serão atirados na humildade. Penitência que só depois poderão
Lama e miséria. Ele odeia a Terra e desejaria o céu, mas não o compreender e dela surgir purificados. Poder-se-á fazer que se
compreende e, porque não o compreende, também o odeia, calem os homens que assim falam, mas não se pode destruir as
permanecendo onde está e de onde desejaria sair. Está sedento leis da vida, que assim funcionam. O homem poderá viver na
de infinito, mas, com seu sistema, fechou-lhe as portas, perma- desordem, na aventura do ''carpe diem”, mas não o pode a vida,
necendo escravo a ranger os dentes, impotente para se evadir. A que sabe o que faz e prepara sempre um amanhã. Quem inverte
trágica ironia de semelhante super-homem, que despreza a caminha às avessas, quem se faz Deus por Deus é punido. Nas
Deus e toda a moral, colocando-se além do bem e do mal, está misteriosas profundezas da vida jaz uma indomável vontade de
em que, na realidade, ele é um mutilado, cujo rugido leonino correção dos erros humanos a qualquer custo, para o nosso
não passa de um lamento de desespero que invoca a vida. É um bem. Então, a nova civilização que nos espera não pode deixar
fraco e um vencido, que estadeia potência e vitória para iludir- de ser a antítese da atual, um mundo novo. Não se trata de reto-
se a si mesmo, achando que as possui. ques, de uma civilização presente corrigida, mas de dois ciclos
Eis o campeão e os resultados da civilização da matéria. A antagônicos, ainda que complementares, duas épocas que se
evolução foi traída. Não se pode mais subir por tal caminho. A contrastam, a velha e a nova. Os seus representantes se medem
história foi assim ligada agora a um destino de involução e de e se batem. O fim e o princípio lutam pela vida. Naturalmente,
52 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
o novo, por lei de evolução, ainda que menos armado e experi- aventura, agindo ao acaso, desordenadamente, fazendo o que
ente, acabará vencendo o velho. A vida confia a cada século um pode e até mais do que pode. No entanto é evidente que a solu-
encargo especial. Ao nosso tempo cumpre a função de criar a ção do problema do sucesso não está no uso arbitrário e desor-
máquina e a técnica, para conseguir amanhã a emancipação do denado, ainda que enérgico e decidido, daquele quarto de ele-
trabalho material. Isto para que o tempo futuro possa desempe- mentos que dispomos, mas sim no conhecimento e, por conse-
nhar uma função diversa, que será a de, com todos os meios guinte, na sábia manobra dos elementos contidos nos outros
conquistados, criar no ilimitado campo do espírito, para onde a três quartos, que nos escapam. O que se encerra nesses três
evolução avança e onde está o futuro do mundo. quartos ignorados? É isto que é necessário conhecer.
Quisemos, assim, com estes capítulos sobre os erros huma- Quantas coisas imprevisíveis espreitam, para o bem e para o
nos (capítulos nascidos como uma série de artigos para revis- mal, como alegria e dor, nesse imponderável, que do mistério
tas), examinar o advento de uma nova civilização pelo seu lado guia grande parte da nossa vida! Ao lado da zona que enxerga-
negativo e preparatório, isto é, pela derrocada da atual, procu- mos bem definida, das coisas por nós pretendidas, quão vasto
rando observar os erros e perspectivas dados pela forma mental campo se estende, onde domina a assim chamada circunstância,
do nosso mundo presente, para poder melhor compreender qual surpresa, fortuna ou desventura! A maioria, ignara e simplista,
será o futuro que nos espera. atribui todas estas coisas ao acaso. Ora, quem diz acaso, con-
fessa a própria ignorância. Para quem sabe ver nas profundezas,
XXIV. COMO FUNCIONA O IMPONDERÁVEL a estrutura da vida surge bem diversa. Um tal abandono desre-
grado, uma semelhante falta de direção, um funcionamento tão
O mundo hodierno, inquieto e cético, não imagina a presença fora de leis, confiado à desordem, seria absurdo. A direção, que
do imponderável também em meio às coisas da vida cotidiana. É é ato positivo, não pode ser entregue a um elemento negativo,
a esse mundo que desejamos hoje falar disso, de maneira práti- que não se mantém por si mesmo e só existe como contraposi-
ca, segundo a sua psicologia. Do imponderável muito se falou, ção. A negação da vida não pode ter a força de reger a perene
especialmente durante a guerra, quase como de um elemento de afirmação criativa da vida. Assim como o nada não existe senão
vitória. Mas se falou com critério tão materialista, para finalida- relativamente, como condição do ser, o acaso também não é
de tão anti-humanas, com um tal falseamento do seu verdadeiro concebível senão como desordem enquadrada na função de
significado espiritual, como já sucedeu para a palavra mística e uma ordem mais vasta, que o circunscreve e, ordenadamente, o
outras, que a própria credibilidade desse imponderável acabou guia em demanda de finalidades superiores. Tudo no universo,
por ficar confusa e alterada, tornando-se ele também uma das mesmo o que parece indisciplinado e casual, é regulado por
muitas mentiras a que se reduziram hoje os mais preciosos valo- normas. Todas as forças se movem por concatenação em busca
res espirituais. Foi assim que desse tão invocado imponderável de uma precisa finalidade, segundo o princípio de causa e efei-
nada chegou a ser entendido, não se compreendeu, sobretudo, o to, mesmo onde elas surgem ainda no estado caótico, próprio
seu funcionamento, a ponto de, como vimos, depois de ter sido das fases mais involuídas, pois que, íntimos e ocultos, o pensa-
tão invocado em benefício próprio, ele funcionou precisamente mento e a vontade de Deus mantém as rédeas e regem o caos. É
no sentido oposto, justamente em prejuízo de quem mais o invo- só por este motivo que o chamado caos, em vez de se dissolver
cava. Isto mostra que não se pode brincar com o imponderável, num redemoinho infernal de forças inimigas, desfazendo-se em
pois ele é uma força poderosa e terrível, que pode estar conosco nada, evolui gradativamente, disciplinando-se em uma ordem
ou contra nós, segundo a posição em que nos colocamos em re- cada vez mais evidente, onde se manifesta a presença de Deus.
lação a ele. Procuremos compreender do que se trata. O imponderável não é, pois, o acaso ou a desordem, mas sim
Quando pretendemos realizar um objetivo qualquer, de um uma lei, uma ordem que não conhecemos.
lado existe a nossa necessidade e o nosso desejo e, de outro, um O problema consiste, pois, em penetrar a Lei nesse funcio-
plano instintivo e racional, ambos visando a conseguir a satis- namento por nós ignorado. O que é a vida de um homem? Não
fação do objetivo. Mas quanto esse plano não envolverá, face é certamente um fenômeno estático. É um feixe de forças em
ao oceano de incógnitas que nos circunda? E essas incógnitas movimento. Dado o princípio de causalidade, o problema resi-
são forças presentes, reais e ativas, de tal ordem que, a cada ins- de em conhecer a natureza e as características de cada uma
tante, podem desviar o transcurso dos nossos planos, interferir dessas forças, quais elas são hoje, e o caminho por elas percor-
na série de atos por nós coordenados, introduzindo-lhe novos rido até ao presente. Só assim poderemos saber aquilo que elas
impulsos, que, provindos do ignoto, são para nós imprevisíveis. poderão ser amanhã. Trata-se de conhecer a nós mesmos, co-
Para poder compreender e definir o imponderável, é necessário nhecer a personalidade humana em geral e, depois, a do pró-
penetrar esse ignoto. Os desvios por ele introduzidos, que nós prio caso particular. O homem não conhece nem uma nem ou-
não logramos prever, porque nos escapam seus elementos, mais tra. Trata-se de impulsos recentes e longínquos, muito distan-
poderosos do que nós, assediam-nos a cada passo, tanto nos pe- tes, de natureza e potência diferentes, sempre em contínuo
quenos eventos individuais de cada dia como nos grandes acon- movimento e desenvolvimento. Trata-se de forças nossas e
tecimentos da história, conferindo à nossa vida um contínuo to- alheias, entrelaçadas por uma contínua interdependência de
que de incerteza. Efetivamente, jamais estamos verdadeiramen- ação e reação, condensadas em determinismos, fixadas por
te seguros, quando colocamos em execução um projeto qual- longa repetição de atos em automatismos e instintos, mas tam-
quer, se conseguiremos chegar aonde pretendíamos ou se sere- bém de forças ainda livres, em formação, que só agora come-
mos levados a um ponto inteiramente diverso do fixado. Fre- çam a entrar no feixe dinâmico que constitui a personalidade
quentemente, uma coisa desejada com tenacidade e disputada humana, forças ainda fluidas, não cristalizadas no destino, que
com sagacidade não é conseguida, embora sabiamente prepara- continuamente construímos para nós mesmos. Como nos ori-
da, enquanto outras, que de início parecem apresentar-se com entarmos? Na verdade, o universo é indubitavelmente uma
mínima possibilidade de êxito, são às vezes, imprevistamente, grande orquestração de forças, imenso concerto em que, mais
coroadas de resultado pleno. Que, na realidade, os três quartos ou menos consciente, mais ou menos livre, segundo a sua evo-
dos elementos do sucesso nos escapam, é fato que todos conhe- lução e vontade, também o homem canta a sua nota. Cada ato,
cem. Nós nos agitamos, pois, às cegas, mantendo em nosso po- cada dia, cada vida segue e precede outro, como as ondas de
der apenas um quarto dos elementos do sucesso e, com tão um oceano interminável. Tudo está conexo no espaço e no
poucos trunfos na mão, tentamos conseguir tudo. Realmente tempo, tudo avança na grande marcha ascensional da evolução
tentamos. A maioria, que conhece essa incerteza, atira-se à para Deus, em demanda de fins individuais, porém objetivando
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 53
mais vastos fins coletivos, com uma hierarquia de finalidade amarelas e 25 verdes, a probabilidade de extração de cada um
orientando todos para o único centro: Deus! desses quatro tipos é de 25%. Se misturarmos 100 bolinhas de
Se o homem conhecesse todos esses elementos, que estão 100 tipos diversos, teremos a probabilidade de 1% para cada
nele e em seu derredor, por certo ele conheceria o seu futuro. uma delas. Uma outra observação. O cálculo de probabilida-
O conceito de acaso, caos e desordem não pode existir senão des nos permite admitir que a marcha do fenômeno no passa-
na forma mental do involuído. Somente nos graus de evolução do nos autoriza a crer em sua continuação no futuro, na mes-
superiores à humana pode-se possuir a capacidade de abarcar ma direção. No entanto o fato da vida basear-se no equilíbrio
tão vastos panoramas, que, ao homem do presente, dados os faz com que suceda exatamente o contrário. Quanto mais ve-
seus baixos instintos, são providencialmente vedados. Assim zes um fato se tiver verificado, menos se torna provável, pela
hoje, para ele, tudo o que se encontra fora do seu reduzido lei do equilíbrio, que ele continue a se verificar amanhã. Se-
campo de exercitações, necessárias ao seu progresso, confun- gundo uma universal lei de dualidade, a vida avança não pelo
de-se em um inextricável emaranhado, que o deixa em trevas acúmulo de casos, mas pela compensação dos contrários. Es-
profundas. Para ele, pois, a palavra imponderável só pode as- ta, e não aquela, é a verdadeira lei dos acontecimentos huma-
sumir um significado negativo, de ignoto e incognoscível, nos e é, pois, a lei do nosso destino. É a lei que vai desde a
quando, na realidade, ela encerra um conteúdo positivo e pre- grande compensação declarada por Cristo no Sermão da Mon-
cisamente definível. Mas, para alcançá-lo, é necessário ainda tanha ao fato de que, quanto maior número de vezes a sorte
evoluir, distanciando-se do atual estado de animalidade. O nos favorecer, mais difícil se torna continuarmos a ter êxito.
homem atual ainda não pode compreender isto porque ele se Estas são as leis da sorte, que de modo nenhum são cegas. O
encontra neste estado, que representa a sua forma mental, e homem comum supõe, no entanto, completamente o oposto.
um estado não pode ser percebido quando se está dentro dele, Quanto mais afortunado é, tanto mais adquire ares de ufania e
mas só quando se está fora ou quando se sai dele, iniciando confiança em si e mais se sente impelido a ousar, caminhando
um movimento de afastamento. Assim, pois, o homem do pre- assim em direção ao fracasso. Mas isto é exatamente conse-
sente navega num mar de incógnitas, onde a direção dos seus quência de uma lei a que ele inconscientemente obedece e que
eventos, individuais e coletivos, não pode ser confiada a ele, visa a estabelecer o equilíbrio. Assim, explica-se a derrocada
que é cego, mas é mantida pela sabedoria das leis de Deus. incrível de tantos e tão grandes triunfadores.
Todavia, para que lhe seja possível evoluir através de uma li- Sem querer entrar agora na questão, se um estado originário
vre experimentação, de maneira concreta e responsável, é dei- tenha oferecido, relativamente ao indivíduo, uma proporção de
xada a ele uma pequena fresta de luz, o quanto basta para ilu- 100% de felicidade e se deste estado ele tenha decaído a um
minar a estrada a ser percorrida. Nesta, ele compreende e es- percentual de 100% de dor, consistindo a evolução atual na re-
colhe, semeia e colhe, erra e paga, sofre as reações dentro das cuperação dos 100% de felicidade perdida, podemos hoje consi-
forças que possui, únicas que pode mover. O resto ele ignora e derar como ponto relativo de partida um estado de equilíbrio
não pode suportar. Tudo é determinismo fora do seu poder, atual em que, segundo a justiça, o destino de todo o homem con-
conhecimento e, por conseguinte, também responsabilidade, tenha 50 bolinhas brancas, ou probabilidades favoráveis de ale-
não lhe restando nada mais do que abandonar-se a Deus e à gria, e 50 bolinhas negras, ou probabilidades desfavoráveis de
Sua sabedoria. Ao homem foi confiado um determinado en- dor. Esta posição poderia ser, no estado atual de evolução, uma
cargo em um pequeno campo, para cultivá-lo, que é o seu pla- posição mediana de equilíbrio, para a qual a Lei tende hoje, não
neta. A direção do universo não lhe diz respeito senão na po- obstante qualquer desvio havido. Trata-se de uma ordem que,
sição de obediente espectador, pelo pouco que ele pode com- por mais variada que seja, inclina-se, automática e providenci-
preender. Completado o seu trabalho no âmbito estabelecido almente, a reconstruir-se. Não pretendemos indagar aqui se a Lei
pela lei de Deus, em favor da própria edificação, o resto per- pretende ainda mais, forçando a reconstituição dos 100% de fe-
tence a Ele, que distribui incumbências infinitas a uma infini- licidade. Aqui só interessa notar agora que a transformação do
dade de seres. Cumprido o seu dever, ao homem não resta se- nível dessa percentagem e os deslocamentos de equilíbrio po-
não entregar-se ao Pai Celeste, que demonstra imensa sabedo- dem ser operados pela livre conduta do homem. Era necessário,
ria na direção do universo, conduzindo-o são e esplêndido até para que o homem pudesse evoluir através da própria experiên-
aqui, como hoje o vemos, operando antes e sem o concurso do cia, que lhe fosse concedida a liberdade de violar a ordem, de
homem. E este, quando erra, deve aceitar de Deus a justa cor- modo que ele pudesse conhecer as consequências dolorosas do
reção, assim como fatalmente receberá a devida recompensa, erro e aprender a precaver-se. Em suma, a evolução visa a pro-
quando souber enquadrar-se na Sua ordem. duzir um ser consciente do bem e do mal, um homem que sabe,
Quando falamos de um imponderável cognoscível, devemos e não um autômato, por mais perfeito que seja.
referir-nos às incógnitas relativas ao homem, ao seu ambiente e Dado isto, sucede que, pela liberdade que Deus lhe conce-
ao universo, que se refletem nelas. Se nos contentarmos em es- deu, de abusar e errar para aprender, ainda que pagando por is-
quadrinhar esse imponderável que mais nos interessa, porque so duramente, o homem pôde distanciar-se mais ou menos do
está mais próximo de nós, relacionado com a nossa personali- equilíbrio da justiça divina, alterando nas suas diversas vidas
dade, maior será a possibilidade de alcançar o conhecimento. Já sucessivas a proporção básica do equilíbrio. O homem teve a
se tentou estabelecer, com os cálculos das probabilidades, a lei liberdade de deslocar, em seu risco e perigo, esses equilíbrios,
que regula o decurso dos acontecimentos. Mas esse cálculo se que tendem, no entanto, sempre a se refazer e aos quais a Lei
refere às formas mais simples, sendo uma abstração a que a rea- antecipadamente visa reconduzir. Sem atingir o caso limite da
lidade concreta está bem longe de corresponder. Nos aconteci- absorção completa, através da dor e da ascensão, das 50 boli-
mentos humanos, os elementos constitutivos são tantos e em nhas pretas, isto é, da felicidade absoluta em Deus, e sem tam-
tão grande parte ignorados, que aquele cálculo malogra comple- bém alcançar o caso limite oposto, da absorção completa, atra-
tamente no objetivo que colima. Reduzindo, todavia, o comple- vés do abuso e da queda, das 50 bolinhas brancas – ou seja, de
xo feixe de forças que constitui um destino à sua mais simples um lado a plenitude da vida voluntária e conscientemente con-
expressão, em forças favoráveis e contrárias, poderemos formar quistada e, de outro, a autodispersão no nada – atualmente, na
uma ideia de um provável desenvolvimento em uma dada vida. Terra, encontramos deslocamentos parciais de equilíbrio. Estes
Se misturarmos 50 bolinhas brancas e 50 negras, perfeita- deslocamentos são desequilíbrios que se fixam, ainda que transi-
mente iguais, a probabilidade teórica de extração de cada uma toriamente, no campo de forças do próprio destino, transmitin-
é de 50%. Se misturarmos 25 bolinhas brancas, 25 pretas, 25 do-se de vida em vida, na expectativa de correção. Formam-se,
54 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
assim, por nós mesmos fabricados, os destinos mais díspares, para conhecer qual será o êxito desta vida, saber os seus prece-
com desequilíbrios variados, para o bem ou para o mal. Estes dentes e, assim, conhecer a sua contabilidade no tempo, identifi-
destinos são o resultado final de todas as operações da vida, re- cando com que fardos de créditos ou débitos nascemos. Trata-se
sultado que se reflete intacto quando, com uma nova vida, se de coisa bem diversa de fortuna, de acaso ou de pura habilidade!
inicia uma nova conta. Assim, nascendo, cada um leva consigo o Compreender, compreender, compreender, eis o grande proble-
seu fardo. Seu, porque foi feito por ele, constituindo um peso ou ma. Mas o homem atual se ocupa de algo bem diverso. E, assim,
um auxílio, segundo o que praticou. O ponto de chegada de uma a Lei o guia e compele sem que ele nada compreenda.
vida é o ponto de partida da que se lhe segue. As conclusões de Que imensa bagagem de impulsos trazemos conosco, como
hoje tornam-se as premissas de amanhã. As convicções com que indivíduos e como povos! E isto em todo campo: moral, eco-
se encerraram a vida anterior formam o instinto com que, antes nômico, intelectual, orgânico e racial. Qualquer abuso, onde
de se dar conta, agirá na nova juventude. Desta forma, inconsci- quer que ele ocorra, gera a inversa, correspondente e proporci-
entemente, mas de acordo com o critério de justiça, plantaremos onada carência. Por isto, na Terra, todos sofrem, sentindo a fal-
a nossa nova vida nos fundamentos já amadurecidos em plena ta de coisas que abundam. Todo desenvolvimento unilateral de
consciência, tornando-nos consequência de nós mesmos. Tere- uma qualidade gera a necessidade de ser completado com de-
mos, assim, destinos felizes ou infelizes, destinos de alegria ou senvolvimento de uma capacidade oposta, através das experi-
de dor. Quem, por excesso de gozo, abusou da Lei pode contar ências. Por este motivo, na Terra, tantos se encontram desloca-
com um destino de 25 probabilidades de alegria contra 75 de dos, justamente para que possam experimentar e aprender em
dor, e assim por diante. Desta forma, construímos o nosso desti- campos que ainda são ignorantes. Eis o motivo por que tudo pa-
no livremente, vez por vez, carregando-o junto a nós, com toda a rece fora do lugar, dado que este não é o lugar de repouso, mas
nossa história nele inscrita, formando a base dos nossos créditos campo de treinamento; não é o lugar de colheita, mas de seme-
ou débitos. E, enquanto temos que fatalmente suportá-lo conti- adura. As nossas deficiências morais, tantas desgraças, a pobre-
nuamente, também podemos, continuamente, corrigi-lo a nosso za, a imbecilidade, mesmo as predisposições e vulnerabilidades
bel-prazer, para o bem ou para o mal no futuro. orgânicas, constituem outras tantas carências consequentes do
Eis como se pode fazer a análise do imponderável e penetrar abuso. O espetáculo do nosso mundo parece que pode ser intei-
no seu ignoto conteúdo. Tudo isto é verdadeiro tanto para os in- ramente resumido nestas duas palavras: abuso e carência. Tudo
divíduos como para os povos. Na realidade, o fenômeno não se aqui existe, mas mal distribuído. O abuso, tornando-nos sacia-
nos apresenta assim, reduzido para comodidade de observação, à dos, nos desgasta, nos enfraquece, abrindo as portas a todos os
sua mais simples expressão. Na prática, as forças que compõem assaltos patogênicos em qualquer campo, contra os quais não
um destino não possuem apenas duas cores, mas muitas outras. nos encontramos prevenidos pelas naturais defesas, que foram
Não se trata somente de alegria ou de dor, embora sejam elas por nós demolidas. O mau uso inverte os impulsos da vida, que
fundamentais, mas também de variadíssimas qualidades adqui- assim não estão mais conosco, mas se põem contra nós. Qual é
ridas, das mais variadas especializações e atitudes, segundo as o nosso passado humano? A história nos diz que ele, com fre-
atividades desenvolvidas e as tarefas a cumprir. É um fato que quência, é horrendo. Que podemos esperar da vida com seme-
os destinos, excetuando os cinzentos da nulidade, apresentam- lhante fardo às costas? Ademais, é o dinamismo íntimo da pró-
se-nos orientados, típicos, individualizados por uma cor própria pria personalidade que atrai as forças do ambiente e torna-se o
dominante, por uma tendência ou um dado gênero de experiên- núcleo em torno do qual se configura a veste material de for-
cias. Em outros termos, as forças constitutivas são diversamente mas, aquelas onde a nossa observação se detém e que conferem
coordenadas, formam um organismo com uma vontade de al- solidez e resistência concreta ao imponderável. Se este nos pa-
cançar uma dada direção. A realidade exterior, em que todos se rece inimigo e a Terra um lugar em que se pena, é também ver-
baseiam, não é mais do que uma veste, um cenário transitório, dade que ela pode ser um purgatório, ambiente de redenção. Se
que não serve senão para dar corpo a esse desenvolvimento de à Terra os involuídos podem realmente vir para gozar e os
forças. É natural, pois, que se defronte por fim com uma ilusão malvados para se arruinarem, imergindo cada vez mais no mal,
quem troque essa forma concreta por toda a realidade. é também verdade que os evoluídos podem vir para se purificar
Portanto, para poder operar a análise do imponderável, seria ainda mais através da dor e do amor, pois que, no purgatório
necessário saber penetrar a estrutura do próprio destino, conhe- terreno, é oferecida a cada alma a possibilidade de reconstituir-
cer a fórmula da sua composição, a natureza das varias forças se no bem e de preparar um futuro de felicidade, corrigindo,
componentes e a proporção em que elas participam. Seria neces- através de uma vida santa, o próprio destino.
sário, em outros termos, saber o que preparamos em nosso longo
passado. O homem atual ignora tudo isto e está a milhares de XXV. AMOR E PROCRIAÇÃO
quilômetros distante de imaginar que isto se possa saber, o que é
um bem, tão disposto está ele a fazer mau uso de tudo. A divina Passemos uma vista de olhos sobre o grande problema indi-
sabedoria não nos faculta conhecer senão na proporção em que o vidual e social da sexualidade e do amor, das suas funções re-
mereçamos. Seria necessário poder pesar méritos e deméritos, produtivas até às mais elevadas do misticismo, funções biológi-
medir e qualificar as forças adquiridas, os impulsos negativos e cas tão diversas e também tão necessárias a vida. Comecemos
contrários das culpas, os vazios, os desvios, assim como os es- pelo amor como procriação.
forços para o alto, as conexões, registrando todo o deve e haver Quanto mais baixo for o grau biológico ocupado pelo ser na
relativos aos desequilíbrios da divina justiça. Seria indispensável evolução, tanto mais o problema da proteção da prole reduzir-
conhecer o homem em geral e o seu caso em particular. É um se-á à mais simples expressão. Então ao ser que é menos valo-
trabalho de profunda penetração no próprio íntimo, que cada um rizado como qualidade a natureza protege com a quantidade e
pode fazer por si, estudando-se, reconstruindo-se – pois somos se exime, assim, de funções protetoras particulares, para que a
hoje como necessariamente devemos ter sido no passado – ob- seleção possa assim melhor cumprir-se. A medida que se sobe
servando analiticamente aquilo que os seus instintos atuais re- na escala evolutiva e se alcança a formação de um tipo biológi-
sumem em síntese, retraçando o caminho percorrido para atingir co mais perfeito, o problema da justiça se torna mais importan-
o ponto presente, decompondo o atual produto em seus vários te. Trata-se de um produto mais precioso, fruto de um longo
elementos constitutivos. Estabelecido tudo isto, ele poderá dizer processo evolutivo, de função mais laboriosa e, por conseguin-
que probabilidade terá hoje de vencer ou de perder, de gozar ou te, mais rara nos atuais exemplares. É lógico que a um valor
de sofrer, de ser, como se diz, feliz ou infeliz. É fundamental, maior a natureza proteja com maior cuidado. No homem, o re-
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 55
cém-nascido, devendo desenvolver-se até alcançar funções su- cada vez mais para a proteção dos filhos e, de outro lado, a lu-
periores, tem necessidade de assistências ignoradas nos planos ta do indivíduo para evadir-se dessa disciplina, que o grava,
inferiores, das quais o procriador involuído se exime. Das con- pesam crescentemente sobre a procriação e, por conseguinte,
dições de civilização se segue, pois, que a procriação não é sobre os próprios filhos, que, assim, com o seu sacrifício em
mais aquele ato simples e instintivo como é entre os primitivos qualidade e quantidade, vêm a pagar pelos maiores cuidados
no estado animal, mas se torna um ato complexo e reflexo, pe- que eles custam aos pais e à sociedade. Também aqui, não se
jado de consequências e responsabilidades. pode ter tudo, e tudo se paga.
No animal e no homem inferior, a procriação se exau- Também o amor está sujeito em nossas sociedades civis à
re quase toda com o ato físico da geração, enquanto que, no necessidade do cálculo, e o cálculo é o primeiro passo da prosti-
homem que não vive no plano animal, ela penetra no campo tuição. Por outro lado, é natural que a sociedade humana, to-
moral e abrange também uma longa educação destinada à mando em consideração que o ato procriador é a base de sua
formação da personalidade. No plano animal, os procriadores constituição, tenha pretendido discipliná-lo. E as religiões, antes
podem logo desinteressar-se da prole e dela libertar-se, mas, do Estado, enquadraram e ordenaram o amor, equilibrando direi-
para o homem não no estado animal, os liames e serviço de tos e deveres na instituição do matrimônio. Mas isto é lei, disci-
assistência e de guia duram dezenas de anos. Daí a necessi- plina exterior, em que o homem permanece até onde quer e sabe.
dade de organizar e prever. E quando o homem não sabe e não quer, as mais excelentes ins-
É assim que, nas sociedades civis, o fenômeno da procria- tituições e a coação das leis não lhe podem impedir a evasão. E,
ção se encontra estreitamente conexo e unido ao fator econômi- assim, em perfeito regime de indissolubilidade, em que a inte-
co, que veio assim influir no fenômeno biológico da reprodu- gridade da família é mantida intacta, não se pode impedir que o
ção. Segue-se dai que, quanto mais alto for o nível de vida de matrimônio possa transformar-se em um mercadejo qualquer e
uma civilização, mais difícil se torna, por conseguinte, a manu- constituir a mais vantajosa forma de prostituição. Divórcio,
tenção de um indivíduo e mais severamente se estabelece o pois? A resposta é uma só: qualquer lei é inútil quando os indi-
controle da natividade. Dada a economia da natureza, grande víduos são corruptos; toda lei é boa quando eles são prudentes,
administradora, a qualidade se obtém a expensas da quantidade. mas, se o homem quiser fugir, toda regra é inútil e ele evade-se.
Então as condições mais refinadas e complexas de civilização Pior para ele, mas evade-se desde que o queira, porque é livre.
se tornam um freio à reprodução e se pagam com a pobreza Pagará, mas, apesar disso, evade-se. Então compreenderá, mas,
demográfica. Para voltar à quantidade, é necessário então des- por ora, não compreende. O que decide de fato é a vontade indi-
cer na qualidade. Tudo de uma vez não se pode ter. Ou a potên- vidual, e não a lei! Em todo campo é sempre assim: às leis hu-
cia, ou o domínio. Se um povo for rico e dominador, será pouco manas, por mais que provenham de instrumentos de coação,
numeroso, com tendência a rarefazer-se cada vez mais. Se for obedece quem quer. O valor das leis depende inteiramente de
pobre e dominado, invadirá o mundo com seus filhos. Sábios quem as maneja e de como são manejadas. Se a elas, exteriores,
equilíbrios da Lei, que nenhuma coação política pode alterar. A não corresponde o sentimento de uma maior lei interior, toda lei
luta, assim, entre a inteligência que alcançou o predomínio eco- humana é inútil e de escasso efeito. Assim, a questão do divór-
nômico e a carne, expressa pela massa demográfica, reduz-se a cio se reduz à legalização exterior de um fato que, sem divórcio,
uma distribuição de funções, até que a carne das massas amor- existe já de há muito. Negá-lo valerá como afirmação teórica e
fas, educada pela inteligência dos dominadores, subindo ao de princípio, mas, efetivamente, cada um já resolveu o problema
plano destes, os substituirá no grau biológico e nas funções. En- por própria conta, segundo a sua natureza e suas convicções. A
trementes, a qualidade dos povos dominadores, com seu eleva- negativa será um obstáculo que tem por objetivo impedir que a
do nível de vida, constitui uma conquista da evolução, um tra- atual geração de involuídos se lance desesperadamente para a
balho da vida, que, por isto, defende o produto do seu labor. anelada desordem a que dão o nome de liberdade, de modo a
Sabendo o que ele lhe custa, por leis da sua economia, a vida impedir que esta desordem seja exibida e fixada em palavra ju-
tende a mantê-lo a todo custo e, por isso, está disposta a sacrifi- ridicamente legalizada. Mas, neste caso, como em todas as coi-
car a abundância da sua produção. É assim que, para proteger a sas, a substância, o móvel, as consequências a pagar, são todas
qualidade, conquista preciosa, sacrifica a quantidade, que lhe pessoais e interiores, e as leis só alcançam ali até um certo pon-
constitui uma ameaça. Tudo se paga na natureza. Paga-se assim to. A questão não é tanto jurídica quanto moral.
a mortalidade menor, a cultura, a segurança, a proteção social, o Observemos em dois casos típicos em que pode tornar-se,
bem-estar, tudo enfim. Poder-se-ia assim atingir um nível de na nossa sociedade, o amor, quando submetido às pressões dos
desenvolvimento do qual os povos mais prolíferos e numerosos fatores econômicos e da luta pela vida.
estão excluídos, mas apenas até que estes atinjam o seu turno Primeiro caso. Uma esforçada jovem, religiosa, obediente
de se elevar, para então, sutilizando-se, substituir os mais evo- aos sábios conselhos paternos, fiel às normas sociais, prudente
luídos, repetindo o mesmo ciclo igual para todos. calculadora e ciosa da sua posição social, que não quer perder,
O progresso se desloca assim em vantagens dos filhos, que buscando muitos proveitos ao mesmo tempo, não consegue es-
cada vez mais pesam sobre os genitores e a sociedade. É natu- posar-se senão tarde. De outro lado, isto sucede porque a moça
ral, pois, que, pelo egoísmo protetor do indivíduo, este se es- é pobre e quer antes garantir uma posição, que, naturalmente,
quive a uma procriação que se torna cada vez mais agravada consegue apenas depois que a juventude fenece. Ela e o marido
de deveres e responsabilidades crescentes. Dadas as suas con- se unem com reflexão, com todos os cálculos relativos, com
sequências, sempre mais pesadas com o progresso da civiliza- plena permissão e consenso dos pais e parentes, das leis religio-
ção, a procriação se torna mais estreitamente controlada, fa- sas e civis, e absoluta concordância com todos e com tudo. Es-
zendo-se depender de cálculos. Ela é submetida à luta pela vi- posam-se, mas o amor não existe ou, em face de tantas refle-
da, que pode gravá-la ou até comprimi-la e sufocá-la. Assim, xões, não se sabe onde esteja aí colocado. Mas, em compensa-
o fator econômico se substitui ao biológico, que, deveria ser o ção, o equilíbrio está assegurado, os cônjuges estão tranquilos,
principal, mas passa, dessa forma, a ser relegado a um segun- a proteção dos filhos garantida, posição ideal, fruto de sacrifí-
do plano, prejudicando, assim, a seleção sexual e, por conse- cios previdentes, bem ganha também para os filhos. Ela foi
guinte, os próprios filhos. Para uma procriação sã e seleciona- prudente e honesta, soube esperar, sacrificar o instinto e se
da, o amor deveria permanecer livre do fator econômico e de apresentar ilibada. Finalmente, diante de todas as exigências
outras pressões sociais de todo gênero, para obedecer às suas sociais, tudo está em ordem. A sociedade aplaude, estima e res-
próprias leis. De um lado, a necessidade de disciplinar o amor peita. Tudo é conforme as regras e com todas as suas vanta-
56 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
gens. A reflexão, isto é, o cálculo, triunfou. A batalha pela vida os deserdados, então os filhos que parecem afortunados se tor-
foi vencida, e todos se inclinam. Há somente um pequeno fato, nam desventurados, e os que parecem deserdados acabam vito-
secundário em nosso mundo civil: as leis da idade do amor fo- riosos. Assim, a natureza justa restitui a esses, às expensas da-
ram violadas, o frescor vital feneceu, e o amor, dada a necessi- queles, quanto haviam recebido a mais, e a derrota econômica
dade de adaptação, não se sabe o que se tenha tornado. Os co- se resolve em uma vitória biológica.
rações, desiludidos pela longa espera, atiram-se aos últimos Estes não são senão dois típicos e opostos casos limites. Na
passos da juventude com voracidade inútil; os filhos ou não prática, as combinações são inúmeras. Eles demonstram que a
nascem mais ou, se nascem, são fracos, filhos de descontentes e nossa civilização, sob o tormento econômico, que é o seu pro-
de velhos, seres que não podem amar e gozar a vida, nascidos duto, tende a tornar-se um movimento antivital; mostram a ne-
cansados, que não poderão enfrentar e vencer na luta pela vida. cessidade, para os fins da evolução, de libertar o fenômeno bio-
Ganhou-se a batalha econômica, mas perdeu-se a batalha bioló- lógico dessa sua danosa dependência do fenômeno econômico.
gica. Esta é a história de tantos matrimônios de luxo, em que É um fato que hoje este último elemento influi na seleção sexu-
dois patrimônios se casam, não importando as pessoas que se al e na reprodução, nos sentimentos do amor e em todas as suas
ligam. Os filhos desvitalizados, para os quais justamente se pre- consequências. Sem dúvida, o tormento econômico é um assal-
tendera tudo preparar, pagarão por essa excessiva preocupação. to que a luta pela vida move contra a própria vida, assalto que
Certamente eles crescerão em meio aos confortos, protegidos antes era praticado pelas feras e pelos elementos. Mas, assim
pela riqueza e, em razão desta, serão estimados. Arredados arti- como o progresso atenuou esta forma de luta nas atuais menos
ficialmente da luta, acabarão por enfraquecer-se e imbecilizar- cruas e bárbaras, também a assistência estatal deverá desenvol-
se. E, automaticamente, perderão a riqueza que lhes proporcio- ver uma contribuição cada vez mais intensa à sociedade na de-
nou a inépcia. Assim vem-lhes custar bem caro quanto lhes foi fesa da sua procriação. Os casos do primeiro tipo descrito ex-
fornecido gratuitamente. A vida deve ser um campo de exerci- plicam-se pela pressão universal que exercem as necessidades
tações, e a natureza desaninha os parasitas e os protegidos. A materiais em tudo. O homem, sabendo bem que a natureza não
riqueza só vale quando ela representa uma nossa atividade para brinca, defende-se, apegando-se a tudo que pode. Em nosso
conquistá-la. Mas, assim que se torna instrumento de ódio e de grau de evolução, a luta se tornou incruenta, menos física e
parasitismo, passa a constituir um perigo. Nos casos mais gra- muito mais psíquica, mas nem por isto menos feroz. Ao homem
ves, a natureza chega mesmo a negar a reprodução. Mas, em que não enxerga senão a si mesmo, à própria família e à sua
todo caso, a vitória econômica é uma derrota biológica. exígua vida, a natureza, que objetiva fins complexos e distan-
Segundo caso. Uma outra jovem, rebelde aos conselhos dos tes, parece desapiedada, e é por isso que ele sacrifica a remota
pais e às normas sociais, temperamento passional, pouco pen- vitória biológica da raça à mais vizinha vitória econômica indi-
dor calculador, não se preocupando consigo e com a sua posi- vidual. No amor, nós vemos a vida em conflito consigo mesma,
ção social, disposta a tudo sacrificar pelo amor, esquece a auto- porque ela pretende alcançar duas finalidades que, neste mo-
defesa, deixa-se conduzir pelo instinto e, contrariamente aos mento, entram em conflito: a conservação do indivíduo e a con-
prudentes preceitos religiosos, morais e sociais, ama e concebe servação da espécie. E o egoísmo que defende o indivíduo de-
nova, realizando um matrimônio de amor, mas economicamen- fende-se do egoísmo da espécie, e este tende a esmagar aquele.
te desastroso, quando não fica só e abandonada. O seu destino O homem desejaria o mais possível eximir-se do grande es-
está selado por uma vida dura de trabalho e sacrifício. Não pos- forço de evolver, enquanto a natureza quer que ele trabalhe para
sui mais direitos e deverá tudo aceitar. Nenhuma proteção está progredir. O progresso custa tanto trabalho, tanta dor e sacrifí-
assegurada aos filhos. Ela não soube esperar, sacrificar o instin- cio de vidas, que o instinto de conservação individual se retrai.
to, ser prudente e honesta. Pais e parentes consternados e des- O homem desejaria a vida fácil de gozador, contudo o espera,
contentes, as leis religiosas e civis violadas. Formalmente, tudo ao invés, a vida dura da ascensão. A sociedade se agita para es-
está em desordem. Tudo está contra os preceitos, e dominam as capar a esse impulso e assume alternativamente atitudes diver-
desvantagens de uma posição péssima. A sociedade condena e sas, mas em vão. Nos períodos de bem-estar, quando dominam
despreza. Aqui triunfaram a sinceridade e espontaneidade do os regimes de ordem, a família é sã e a filiação protegida e es-
amor, mas a luta individual pela vida se perdeu, e todos desa- timulada, forma-se a pressão e o incremento demográfico, a
provam. Ela não foi hábil, não soube valorizar-se, protegendo- consciência coletiva se desperta na força e, com isto, o senti-
se legalmente com contratos na vida, não soube utilizar a lei em mento nacional, o amor pátrio, a fé, a disciplina. Esses períodos
sua defesa. É uma falida, é um refugo econômico, e, assim, jus- e regimes terminam todos em guerras de conquista com objeti-
tamente todos se rebelam, porque há um erro a ser pago, e ele vos de expansão. Se houver vitória, o povo que a conquistou
pesará sobre ela, justificando a necessidade de uma sua adapta- torna-se grande às expensas de outros povos vencidos; se hou-
ção. Dá-se, contudo, que o erro não foi de caráter biológico, ver derrota, ele se reduz em vantagens de outros povos vence-
mas sim econômico, e a sociedade parece que vê antes este do dores. Neste caso, despontam os regime fracos de desfazimento
que aquele. Não obstante tudo, aqui também existe um pequeno e de desordem, reina a miséria, a família se desgasta e se des-
fato, secundário em nosso meio civil, e este consiste em que as faz, a filiação não protegida diminui, retarda-se o desenvolvi-
leis da idade e do amor foram respeitadas. Os filhos consegui- mento demográfico, a consciência coletiva se atormenta e com
dos no vigor da idade e sob o impulso do amor são robustos, ela o sentimento nacional e o desejo de guerras expansionistas.
feitos para amar e gozar a vida, talhados para enfrentar e vencer Atinge-se assim a paz, mas ao preço do próprio deperecimento.
a luta pela existência. Perdeu-se a batalha econômica, mas ven- A natureza colima um só fim: a vitória. É por esta via que, mal
ceu-se a batalha biológica. Se a sociedade despreza, em com- se verifique uma exuberância de forças, ela lança os povos e,
pensação a vida aprova. Parece que esta pensa de modo muito por mais que este capital custe ao homem, não lhe permite
diverso daquela. Os pontos de vista e os objetivos são muito di- gozá-lo, mas o faz despender tudo para tentar a vitória. E, se
ferentes. Onde um condena, o outro premia. Certamente, os fi- perde, pior para ele. Se, no entanto, um povo se recusa a de-
lhos serão pobres, mas bem munidos pela natureza para lutar, e sempenhar esse jogo, então a vida o pune, liquidando-o através
a ausência de bens protetores os adestrará desde pequenos e do entibiamento, da servidão e da extinção. E o indivíduo, mo-
também os robustecerá, de modo que lhes será depois fácil le- vido pelo próprio instinto egoístico de conservação, ligado às
var a melhor sobre os entibiados filhos da riqueza, arrebatando- necessidades da própria defesa pelo peso de mil necessidades,
lhes os meios de proteção. Desta forma, a natureza restabelece repele para longe de si, o mais que pode, esta avalanche de ou-
os desequilíbrios, enfraquecendo os protegidos e fortalecendo tras necessidades biológicas, de que cuida bem pouco e, desta
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 57
forma, sacrifica e distorce o sentimento de amor e procriação, tação humana exprime a atual fase negativa, de destruição, de
sobre os quais a aspereza da luta pela vida vem assim a fazer involução, de descida. Caminha-se assim para uma dor sempre
incidir os seus signos funestos. De quem neste estado é a culpa? maior, e desta forma, com a ruptura que chamam liberdade,
Quando não há margem, é natural que o indivíduo pense pri- descer-se-á cada vez mais, até um tal estado de desesperado so-
meiro na própria conservação do que na qualidade da sua pro- frimento, que a própria desesperação imporá a reação, isto é, o
criação, antepondo a sua vitória individual e negligenciando a retorno à fadiga da ascensão. Não se pode conter a evolução.
biológica, menos urgente, da raça. As massas de hoje estão presas no vórtice e não podem enxer-
O amor, efetivamente, não é um sentimento somente para gar além deste. Deverão percorrer todo o ciclo da hora históri-
uso da prole, mas também o é para a satisfação dos genitores. ca. Cada um possui e sabe o que merece. Deus guia tudo. Pou-
Se é um fenômeno biológico demográfico e social, de interesse cos isolados e oprimidos seguem em dor e silêncio o caminho
coletivo, é também um fenômeno eletromagnético, hormonal e oposto, unindo-se a Deus em uma luta desesperada para salvar,
genético, de interesse individual. A troca de radiações de sinal nesta hora de destruição universal, especialmente os valores es-
elétrico oposto é um excitante do dinamismo nervoso, constitui pirituais, aquilo que de mais precioso e com trabalho imenso as
um “do ut des”, em que as duas cargas reciprocamente opostas civilizações conquistaram. A luta é desigual e desesperada. Mas
se descarregam do supérfluo e se carregam do necessário. A Deus, que tudo guia, está com eles. A vida, pela sua salvação,
troca hormonal, fenômeno ainda não bem compreendido pela está também com eles. A evolução, que não se pode frear, está
ciência e que aqui não é possível ilustrar, realizando-se através igualmente com eles. São profundas as trevas, mas com eles se
das mucosas, abastecendo a célula, influi como regulador e ati- encontra a luz. Em uma hora de inconsciência, eles possuem a
vador do metabolismo. Tudo isto é necessário e útil à vida dos consciência de serem os depositários e os guardas dos mais al-
genitores, independentemente da procriação. Por último e cone- tos valores da vida e, por conseguinte, os senhores do futuro.
xo aos precedentes, aparece o fenômeno genético, pelo qual,
através da nossa vida individual, uma outra vida se individuali- XXVI. SEXUALIDADE E MISTICISMO
za, até tornar-se autônoma, destacando-se dos procriadores. É
impossível explicar aqui a maneira pela qual o princípio espiri- Observemos agora as funções e o significado do amor nos
tual se encarna no feto e se liga à sua forma física segundo de- planos biológicos mais elevados, onde tudo e também ele se
terminadas leis, orientado por forças e afinidades. Entramos aqui transforma com a ascensão do plano vital.
no campo espiritual, em que se maturam os fins da vida e do Em face das graves afirmações de Freud, hoje em moda,
qual o organismo físico não passa de um instrumento de expe- segundo as quais a sexualidade constitui a base da personali-
rimentação. Pode-se dizer que não é possível compreender ver- dade e qualquer forma de amor não passa de uma extensão di-
dadeiramente o amor se não se compreender todos os problemas reta oriunda do amor sexual, propomos as perguntas que se se-
do universo. Mesmo considerando-o apenas como fato individu- guem: dado que o amor dos místicos apresenta características
al, ele é um fenômeno tão vasto, que alcança as próprias raízes de afinidade com o amor sexual, do qual conserva, a maioria
da vida. Aqui, podemos apenas explorar a sua complexidade. O das vezes, até as expressões, existirá realmente parentesco en-
homem tem a pretensão de dominá-lo com as suas leis, mas nem tre as duas formas e por que? Que relação haverá entre elas?
ao menos o conhece. Ele é regulado nas suas funções e conse- Será o misticismo uma forma patológica ou mesmo supranor-
quências por uma sabedoria bem diversa da humana. mal do amor sexual? Entendemos aqui por misticismo aquele
À medida que o ser evolui, o seu amor se torna cada vez fenômeno que não pertence somente ao cristianismo, mas às
mais espiritual. O involuído não sabe compreender o amor se- religiões, ou melhor, à vida, através do qual um indivíduo iso-
não na sua forma inferior, egoísta e carnal. A potência, a bele- lado experimenta em si, como fenômeno vital presente, a ima-
za, a liberdade, a alegria do amor espiritual constituem para ele nência do divino, do transcendente. Queremos aqui falar do
um inconcebível, porque estão fora das suas possibilidades per- misticismo verdadeiro, fenômeno biológico real, e não de cer-
ceptivas. Só no alto, onde os seres não amam carnal e egoisti- tos pseudomisticismos, que podem dar razão a Freud. Esse
camente, pode-se ter um amor que se sobreponha à traição, à misticismo verdadeiro é algo que a ciência deve encarar com
desilusão, à morte. Indiscutivelmente é trabalhoso subir, mas seriedade. Ele é tão sério, que, no dia em que os problemas a
caso se pretenda possuir esses resultados, é necessário enfrentar ele atinentes tiverem passado do campo teológico, religioso e
a ascensão. É árduo ascender, mas, segundo a Lei, quem sobe especulativo ao cientifico, objetivo e racional, poder-se-á dizer
caminha para a alegria e quem desce caminha para a dor. Infeli- que o materialismo científico terá ruído.
zes dos que, iludindo-se em poder gozar, precipitam-se para Aceitamos a orientação dos psicanalistas freudianos que, no
baixo. Instintivamente sentimos o paraíso no alto dos céus e o estudo da personalidade, emprestam grande valor ao elemento
inferno nas tenebrosas profundidades da Terra. Hoje, a huma- sexual. Mas teremos o direito de exagerar, como eles fazem, a
nidade é presa de um frenesi de evasão e de liberação. Acredita- importância desse elemento, a ponto de definir o místico como
se que, evadindo-se de toda norma, seja possível libertar-se da um grande amoroso que, por involuntária ou imposta renúncia,
dor. Formou-se assim um conceito invertido de liberdade, em vendo cerradas as vias normais do desafogo erótico, busca sa-
descida ao invés de ascensão. Mas o que não está invertido nes- tisfazê-lo anormalmente pelos atalhos do misticismo, que assim
sa era de involução? A verdadeira liberdade só se pode alcançar se reduz a um sub-rogado sexual? Sem dúvida, o misticismo
com a ascensão e com a luta para ascender. Este é o século das casa-se mal com a frigidez dos sentimentos, pois representa o
palavras falsas, feitas para enganar, para que tudo se transvie e desenvolvimento da potência do coração, em polo oposto ao da
se distorça. Hoje se difunde uma insana tendência para negli- razão. O fato de que os místicos poderiam ter sido grandes
genciar todos os deveres, libertar-se de todas as disciplinas, amorosos também no plano sexual, fez pensar que eles não ha-
acreditando-se que, com isso, aliviem-se todas as cargas. O re- jam sido senão libidinosos frustrados. Acreditou-se então poder
sultado é um egoísmo cada vez mais feroz, semeador de danos colocar o fator sexual na base do fenômeno místico e do seu
para todos, em uma luta cada vez mais acirrada e, portanto, desenvolvimento, podendo-se assim contrapor à sexualidade
uma vida cada vez mais dura. Esta queda na barbárie se chama normal uma sexualidade mística, interpretada esta como um
evasão e liberdade. Cada qual nega ao próximo o tributo do desvio, isto é, como uma sexualidade malograda e deformada.
próprio dever, e todos se empobrecem. Evadir-se das normas da O problema que nos propomos aqui é este: será patológico
moral e embrutecer-se no prazer pode parecer ascensão para a o caso do místico, será um desvio degenerado do normal, um
alegria, mas é, na realidade, descida para a dor. Toda manifes- sub-rogado qualquer compensatório e de valor inferior, ou re-
58 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
almente é uma verdadeira e própria tentativa de evolução que Para poder julgar um ser é necessário compreendê-lo, e, pa-
a natureza, em dadas circunstâncias e certos casos, realiza pa- ra compreendê-lo, é necessário saber viver no seu grau de evo-
ra chegar, através de uma superação biológica, a formas mais lução. Ora, a ciência e o pensamento humano da atualidade têm
evoluídas de sentir e de amar? É certo que misticismo e re- como tipo biológico modelo o involuído de hoje, possuidor de
núncia, na realidade, associam-se como que ligados por uma insensibilidade ilimitada e animado por instintos animais. A
mesma lei, pois as duas formas de amor, o sexual e o místico, moderna orientação materialista e utilitária não pode conceber
parecem rivais e com tendência a se excluírem reciprocamen- outro super-homem que não seja o de Nietzsche, isto é, o su-
te. Mas o problema está em estabelecer se a renúncia, ao invés perbruto, egoísta, violento e antissocial. Tudo depende da for-
de ser a causa, não seja senão o efeito do misticismo. Sem dú- ma mental e da medida com que se julga. É natural que o mate-
vida, o amor é um dos impulsos fundamentais da vida, e sa- rialismo freudiano não possa ver no homem senão o animal. É
bemos também que a natureza, grande e ecônoma, não des- certo também que, num mundo assim, o super-homem do espíri-
perdiça nada, utilizando tudo. Assim como ela utiliza a pró- to não possa deixar de aparecer como um anormal, um degene-
pria moléstia para robustecer e imunizar, poderia também uti- rado. Para julgar, faz-se mister ter compreendido o pensamento
lizar a renúncia, derivada de qualquer causa, para elevar as da lei que rege o universo e os fins da vida. Que o escopo desta
manifestações do amor e, assim, em temperamentos mais seja evoluir, é também uma hipótese que corresponde à observa-
adaptados pela maturidade biológica, tentar uma sublime as- ção e satisfaz a lógica das coisas e a razão humana. É lógico
censão a nível superior, utilizando o desafogo não empregado que, se existem seres que se movem em fase animal, no campo
no plano sexual animal para dirigir o seu impulso em deman- das leis da fome e do amor, ocupando-se somente das funções
da de vias mais elevadas. Dada a potência criadora do amor e vegetativas da conservação individual e coletiva, podem existir
a grande importância do fenômeno evolutivo, não é verossímil igualmente indivíduos que se movem no campo das leis da evo-
que a sabedoria da natureza se deixe tão facilmente fraudar lução, ocupando-se da função de progredir. Eis o herói, o gênio,
em face do cumprimento dos seus maiores objetivos, que são: o mártir, o santo, o místico, o super-homem do espírito, o pre-
criar, conservar, evoluir. Assim, não é verossímil também cursor da evolução, o pioneiro do progresso, tipo biológico que
que, antes de recair em uma distorção patológica, ela não ten- não é o produto de um tempo, de um lugar, de um povo ou de
te abrir caminho às suas forças e saída aos seus impulsos mai- uma religião, mas é universal, como produto da vida.
ores por vias superiores, realizando-se igualmente ao ensinar a Tudo depende, pois, do ponto de observação e consequente
amar em formas biológicas mais evoluídas. perspectiva. Para o homem involuído atual, que se coloca co-
Ora, entre fazer da renúncia um fato concomitante ao mis- mo modelo da vida, a sublimação das próprias qualidades não
ticismo e dela fazer a causa deste, ocorre uma imensa distân- parece ter muita importância, enquanto que tem muitíssima pa-
cia. É verdade que a natureza pode utilizar a renúncia para au- ra o homem que dele começa a destacar-se por evolução. Exis-
xiliar no desenvolvimento místico. Mas a renúncia apenas não tem dois modos de ver as coisas: observando-se da Terra, isto
basta para criar o místico. A elasticidade dos instintos, que fa- é, evolutivamente de baixo para cima; ou observando-se do
culta a adaptação, tornando suportável a substituição e a trans- céu, isto é, de cima para baixo. No primeiro caso, seremos le-
posição de objetos, é limitada. Visto que os instintos têm um vados a desprezar, relegando o fenômeno ao campo patológico
fim a atingir e se veem dessa maneira fraudados na consecução e anormal. No segundo caso, admirar-se-á o grau de sublima-
deste, o desvio do impulso não pode superar um certo grau de ção a que o misticismo conseguiu levar, fazendo-os evoluir, os
deformação, quaisquer sejam as necessidades impostas pela primitivos impulsos biológicos do instinto bestial. É natural
adaptação. Estas formas derivadas se conhecem por caracterís- que a visão egocêntrica que coloca o homem atual como pro-
ticas de semelhança, mas de uma semelhança tendente à dege- duto e modelo de vida, faça que ele considere um afastamento
nerescência, e não à superação no sublime. Não nos induza es- desse tipo, ainda que determinado pela evolução, como um
sa semelhança a erro, fazendo-nos confundir o anormal com o desvio encarado com desconfiança, sem interesse, quando não
supranormal. A faculdade de adaptação não nos autoriza a o seja com menosprezo. É natural também que, da posição bio-
acreditar possível um salto, como o que seria necessário para lógica do mais evoluído, as coisas pareçam bem diversas e se
superar o abismo que separa o amante carnal do amante místi- olhe o homem atual com piedade, como a um pobre ser inferi-
co. Amar espiritual e altruisticamente a Deus e, em Deus, o or que não suspeita ainda que infinitas possibilidades contém o
próximo, é muito diverso de amar sexual e egoisticamente a seu futuro desenvolvimento. Por isso os problemas do místico,
um semelhante. Se existem afinidades, é porque o amor no para ele fundamentais, não podem interessar à maioria, que se
universo é uno. Mas elas não bastam para fundir os dois fenô- aflige com a explicação do futuro e da evolução, coisas para
menos. Em verdade, a escala evolutiva é a mesma e tudo é uni- ela distantes em face do homem atual. Este, todavia, não pode-
tário em um universo monista, mas a distância que existe entre ria negar que à vida também deve interessar a evolução, pois
a fase humana e a fase sobre-humana é grande demais para ser que, se ela efetivamente produz indivíduos com tal função pre-
superada simplesmente pelo impulso de um desejo insatisfeito. cípua, quer dizer isto que esses indivíduos são igualmente in-
No misticismo, não atua apenas o elemento negativo de renún- dispensáveis ao trabalho do conjunto.
cia, mas age um elemento positivo que se distancia do mundo Mas nos levaria muito longe o desenvolvimento desses con-
sexual, na inversão dos valores, e que está implícito em tal su- ceitos. Devemos aqui, pois, concluir o aspecto atual. Se o amor
peração. No indivíduo há um fato evolutivo novo, uma maturi- universal é o fenômeno que liga sexualidade e misticismo e nos
dade que o eleva e potencia. A renúncia poderá ser um fato permite estabelecer as relações que vigoram entre eles, com isto
concomitante colateral ou mesmo uma negação inferior, neces- se estabelece a imensa distância evolutiva que os separa. Se é
sária para que possa agir a superação. Mas daqui a ser ela a certo que eles sejam duas formas do mesmo amor universal,
causa determinante do misticismo vai muita distância. É muito importa, no entanto, reconhecer em que grau diverso estejam
mais lógico admitir o contrário, isto é, que a renúncia se una ao pela pureza, alegria e potência. Isto nos diz também que os dois
misticismo no quanto este estado representa um tal esforço fenômenos podem ser comunicantes e entre si se influenciarem,
evolutivo, que absorve por si só todas as possibilidades do in- mas também que esse parentesco distante, que de resto existe
divíduo. No gênio, como no santo, que tanto se assemelham ao em todas as formas da vida, não basta para passar do amor se-
místico, vemos que a vida, que neles cumpre um trabalho ex- xual ao amor místico. Para se chegar a este, faz-se mister uma
cepcional supranormal, submete os fins da reprodução e da se- maturação evolutiva, a manifestação de qualidades novas, na
xualidade aos seus maiores objetivos criadores. verdadeira catarse biológica, uma superação de si mesmo. No
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 59
misticismo, se existem lembranças da sexualidade, há infinita- um outro pensamento, que o homem mal conhece, lei absoluta,
mente algo mais. Isto verificado, a orientação freudiana é abso- eterna, iluminada, divina. A mente humana, de fato, não guia o
lutamente inadequada para explicar um semelhante nascimento, universo, que sabe muito bem funcionar por si mesmo. Ao con-
fazendo que o mais surja do menos. Somente o fenômeno sexu- trário, a mente do universo guia o homem, sem que este o sinta,
al não é causa suficiente para determinar o verdadeiro fenôme- e, onisciente e onipresente, está de tal forma inculcada em cada
no místico. Se só bastasse uma forte sexualidade, por mais con- ser, que nada viveria sem ela. É um fato que a mais simples das
trariada que fosse, para gerar e explicar o fenômeno místico, os células do nosso corpo sabe executar, à nossa revelia, tais mila-
casos de misticismo seriam muito mais frequentes. A maior gres de bioquímica, que nós não apenas somos incapazes de re-
parte dos que renunciam forçadamente encontram uma com- produzir, mas nem ao menos conseguimos conhecer e compre-
pensação bem diversa, desviando-se para o patológico e para o ender. Uma pequena célula é mais sábia do que o maior dos ci-
anormal. O verdadeiro misticismo só é atingido pelas almas entistas. Essa consciência do universo aparece no homem sob
eleitas. Milhões que renunciam isolam-se nos conventos ou forma instintiva, não refletida, intuitiva, não racional. A consci-
alhures no mundo, mas quantos deles se tornam verdadeiros ência humana está ligada aos sentidos e constitui um sistema,
místicos? A maior parte dos exuberantes nem ao menos pensa um esquema lógico, uma forma mental em que o homem se en-
nisto. O tipo biológico normal imaturo, em tal caso, ou se rebe- contra encerrado. É o seu corpo mental. Ora, quando, por matu-
la destroçando os freios, ou se adapta à deformação do instinto, ração evolutiva, o eu consegue ultrapassar esses confins, pene-
ou enlouquece e se suicida. Para poder atingir o sublime, para trando, ainda que por pouco, a consciência universal, isto tam-
tornar-se um santo, devem interferir elementos bem diferentes, bém, enquanto é superação, distensão e expansão em uma vida
que de modo nenhum pertencem à sexualidade própria do plano maior, constitui alegria. Esta, repetimos, é índice de bem e de
animal humano. Para se atingir biologicamente tão alto, faz-se ascensão. Tudo na vida é uma contínua luta entre a necessidade
mister coisa bem diferente de uma deformação do tipo biológi- de conservação, que preside o instinto do egoísmo, e a necessi-
co normal! Para se conseguir viver a vida do tipo biológico su- dade de expansão, que preside o instinto altruísta do amor. Po-
pranormal, não são suficientes exuberância e renúncia, mas é der libertar-se da acanhada consciência individual, para entrar
necessário ter-se percorrido a longa via que conduz à própria no imenso consciente universal, que para o homem se encontra
maturação. É necessário ser evoluído, e não involuído. no inconsciente, poder senti-lo e atingi-lo, representa tocar o
sobre-humano, avizinhando-se de Deus. Correspondendo isto
XXVII. POR QUE AMOR É ALEGRIA aos mais elevados fins da Lei, que é progredir para o Alto,
constitui também a maior alegria do ser.
Que significado tem a alegria na vida? O que é o amor e Isto só se consegue por meio do amor. Mas compreendamos
por que ele, em qualquer grau evolução, desde a forma sexual bem, amor em seu significado maior, o amor universal, que
até à mais elevada, no misticismo, é prazer? Que relação há caminha da forma sexual à mística, até atingir Deus. Não é o
entre as duas formas? Pode esta pergunta nos levar à desco- racional cálculo egoísta, mas sim o abandono cego a Deus, a
berta do seu denominador comum, se é que ele existe? Será o submissão à vida, que nos abrem as portas a esses contatos com
amor talvez o grande motor da vida? E, em grau evolutivo o infinito e às alegrias que dele derivam. O fundo do supremo
mais ou menos elevado, trata-se sempre do mesmo amor? gozo místico, como de qualquer amante terreno, reside em se
Como evolve e a que tende esse amor universal que alcança a deixar ser absorvido além de qualquer lógica de interesse indi-
Deus? Como pode ele permanecer em prazer quando ainda se vidual e submergir-se no abismo divino, por mais irracional que
nos apresenta como renúncia a qualquer alegria terrena, como possa parecer um tal naufrágio do egoísmo. Mas por que moti-
dor e negação da vida animal normal? Como pode ele perma- vo, se é o eu que preside à conservação, é tão doce renegá-lo e
necer criação e sublimação, ainda quando, humanamente, pa- por que é tão agradável à mente humana perder-se na contradi-
reça destruição e insucesso? ção, no irracional? Em todo grau de amor, será tanto maior o
Respondamos a estas interrogações. É indiscutível que a vi- gozo quanto maior for a renúncia ao egoísmo. Eis que, no fun-
da procure a alegria. Por que? Porque ela foi criada para isto, do de todo amor, do sexual ao místico, existe o mesmo motivo
indicando a alegria onde está o bem. O bem é caracterizado pe- de renúncia. A razão está no fato de que a alegria é dada pelo
lo nível da alegria; o mal, pelo indício da dor. Alegrias momen- evolver, subindo para Deus, que é amor, e isto não se pode ob-
tâneas e fictícias poderão induzir-nos a erros, mas se elas mas- ter senão pelas vias do amor, que, se, de um lado, é jubilosa ex-
caram o mal, logo descobrimos a dor de que são feitas. Alegria pansão altruísta, é também, por outro lado, o oposto do egoís-
existe em tudo o que evolui, que caminha para Deus, que é o mo, negação de si mesmo, renuncia. Todas as vezes que nos en-
supremo bem. A vida é feita para evoluir, ainda que o faça tregamos, superando as barreiras do egoísmo, a lei de Deus nos
através da dor, para uma alegria cada vez maior. Todas as vezes aprova e no-lo diz, compensando-nos com uma alegria íntima.
que seguimos a lei de Deus, semeamos a alegria, ainda quando Isto é verdade para qualquer nível, do amor sexual ao amor
dela nos separe um abismo de provas e de dores. Todas as ve- místico. Então o eu se perde e a vida triunfa. O eu acredita en-
zes que agimos contra a lei de Deus, semeamos para nós mes- tão morrer, mas na verdade renasce na sua expansão, nos filhos
mos a dor, ainda que dela estejamos separados por um mar de ou no espírito, pois que Deus dá a quem dá, e nega a quem ne-
vantagens e de prazeres. Assim, há o prazer da mesa, que nos ga. Ao sacrifício e ao gozo segue-se a criação, multiplicação
diz que se deve nutrir o corpo porque ele deve viver. Um pouco material ou espiritual, que é manifestação de Deus. O princípio
mais acima está o prazer sexual, que nos diz que é necessária a é único. Eis o denominador comum dos dois fenômenos entre si
reprodução, porque a espécie deve viver. Mas há ainda, muito tão distantes: amor. Tanto num caso como no outro, a alegria é
mais acima, o gozo do trabalho e do pensamento, que criam, o dada pela mesma expansão, ainda que em forma e graus diver-
gozo do espírito e da ascese, para nos indicar que se deve pro- sos, na mesma adesão à lei divina de amor, que é base da vida.
gredir, porque o homem não necessita apenas viver e multipli- Então fala, além da consciência humana, a divina consciência
car-se, mas também evoluir. A cada fim a ser atingido, a Lei universal, constituindo-se, sem que o homem o saiba, na sua
propõe um gozo adequado. Cada coisa em seu lugar, segundo própria consciência, indo além da razão, do cálculo egoísta e
uma hierarquia funcional, que guia as nossas ações. Mas obser- dos interesses da sua conservação, até mesmo se opondo a eles.
vemos ainda. Se o homem possui uma consciência relativa, ra- Essa superação, esse abandono a um inconsciente instintivo, em
cional, refletida, transitória, limitada e adaptada aos escopos da que opera uma outra consciência mais elevada, que nos escapa,
vida e à evolução, é um fato que o universo funciona regido por esse extravasamento além dos confins do egoísmo, para viver
60 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
no todo e para o todo, representa o sacrifício que está conexo ao preendido com pureza, elevando-se sempre, até ao amor do es-
amor, pois o sacrifício cria em qualquer nível e, sem ele, não pírito. O próprio cristianismo fez do primeiro um sacramento,
existe nem verdadeiro amor nem gênese. É isto que provoca o colocando-o na base da família, com missão social.
delíquio da alma. Eis também por que motivos encontramos O amor é o estado sublime em que aparece e age a divina
nestes dois fenômenos, da sexualidade e do misticismo, os vontade que está em todas as coisas, como onisciente e secreta
mesmos elementos, ou seja, amor, sacrifício e gozo. alma do cosmo. Então ela se substitui ao eu e à sua razão; ma-
Enquanto o egoísmo contrai e disseca, o amor dilata e cria. O nobra-o à sua revelia, para os próprios fins e submete-o ao seu
primeiro, se impelido além da função conservadora, inverte-se comando, absorvendo-o na sua oceânica potência. O eu, sentin-
em forma destruidora. Assim, compreende-se como o amor de- do o extravio, percebe o perigo que envolve a sua segurança de
termina a inversão dos valores estabelecidos pelo egoísmo, como indivíduo, ao entregar-se sem refletir, e desejaria calcular, de-
o amante possa esquecer a si mesmo em favor do ente amado e fender-se, retirar-se. Mas o desfrute de um supremo gozo o fas-
como o místico possa viver de renúncia. Então a perda se torna cina e o arrasta para o sorvedouro, em que é tão doce deixar-se
ganho, ordenar se transforma em obedecer e o inconsciente triun- naufragar, que o egoísmo se esfrangalha desfeito pelo amor.
fa. A vida passa a uma fase evolutiva mais alta, e a lei de conser- Então, quer no amante terreno, quer no místico amante sobre-
vação do eu se sacrifica para que vença a lei do ensimesmamento humano, um fato se apodera do ser, que não pode mais resistir e
em um outro ser. Deus é unidade e tudo que irmana e unifica é assim arrebatado. Desta forma, assim como o enamorado da
conduz a Ele e d'Ele se aproxima. Dado que o amor é prazer, o criatura terrena afronta qualquer risco e sacrifício por ela, assim
homem pode abusar dele, eliminando o sacrifício que o eleva e o também o enamorado de Deus, tresloucadamente ousa, na re-
torna criador, fazendo assim do amor um estéril instrumento de núncia, a inversão evangélica dos valores humanos. E, assim, o
gozo. Não resta então senão ruína, um amor egoísta e, mesmo místico, que cria não na carne, mas no espírito, funde-se, sem
como alegria, mutilado, infecundo e traidor dos fins da vida. No reservas, na vontade de Deus. A divina potência criadora se
entanto, entre todas as culpas, as que menos distanciam de Deus manifesta neste impulso evolutivo do amor, que nos constringe
são as culpas de amor, já que o amor é sempre a Sua lei suprema. a esfrangalhar, com perigo da nossa própria segurança, as bar-
As piores são as do egoísmo, do ódio, da destruição. Dante colo- reiras do egoísmo, feitas para a proteção do eu. Este luta e se
ca os luxuriosos sempre distantes de Lúcifer, que constitui o cen- defende, a fim de permanecer no campo seguro da sua pequena
tro do ódio e do mal e que é a negação de Deus, ou seja, do amor, consciência racional. Mas, a um certo ponto, o inconsciente ins-
para colocá-los junto às portas do inferno e no ponto mais alto do tintivo e irracional, anelando os próprios fins, que o indivíduo
purgatório, na saída deste, próximo ao Paraíso. ignora, e metas superiores bem diversas, emerge com imensa
Tudo isto nos permite melhor definir as relações entre se- sabedoria e potência da profundidade do cosmo, para revelar o
xualidade e misticismo. Se, dada a unidade da vida, não se pensamento e a vontade de Deus, arrojando-se sobre a criatura
pode desconhecer uma necessária semelhança entre estas suas e arrebatando-a. Esta se debate ignara e desorientada; desejaria
manifestações, isto não impede a superioridade espiritual do resistir, mas não sabe como, cede por fim, triunfando mais aci-
fenômeno místico, que assim nos aparece bem diverso de uma ma, no sacrifício de si mesma, que é a derrota do seu egoísmo.
simples sublimação dos instintos sexuais, bem diverso de uma Essa derrota do eu egoísta dá nascedouro a uma vida nova, que
espécie de sucedâneo determinado por derivação compensa- é um dom que Deus concede a quem obedece ao amor.
dora, como quiseram que o fosse os psicanalistas freudianos. Esta é a hora criadora, em que a vida triunfa sobre a morte e
Não obstante a grande distância entre as duas formas, o seu o bem sobre o mal, a hora em que o indivíduo mortal se torna
elemento comum e fundamental, o amor, faz com que em am- imortal e a vida se santifica, posta em contato com Deus. Hora
bos os casos se encontre o sentimento do pudor. Cuidemos o sublime esta de amor, em que a natureza, tão parcimoniosa, tor-
seu significado. Este estado próprio do ato sexual, estado que na-se pródiga, porque então, abrindo-se nela a potência geradora
significa proteção do mesmo e de modo nenhum consciência de Deus, ela se sente muito mais rica. Então a vida se exalta no
de pecado, encontra-se também no artista, no momento da triunfo da sua maior festa, os sentidos comumente usados para a
concepção, em quem quer que cumpra com consciência um luta embotam-se como em um transe, a luz perturba e a palavra
ato nobre e altruísta e, por conseguinte, sobretudo no místico, emudece. Nisto se assemelham tanto as manifestações sexuais,
nos seus contatos espirituais. O pudor se manifesta na vida to- como os estados de inspiração artística, os mediúnicos e es mís-
das as vezes que se desempenhe um ato importante que é de- ticos. Parece que e fenômeno de transe verifica-se todas as vezes
feso, quase sacro, aos olhares dos profanos. Isto nos conduz que ocorre uma transmutação, mais ou menos acentuada, da
ao seguinte: quanto mais se sente a fé que se carrega viva, consciência racional à cósmica, isto é, toda vez que se saia de si
menos se é levado a exibi-la, mais repugnando as exteriorida- mesmo para, entregando-se, fundir-se no que há de maior ao que
des, e vice-versa. É raro que gostemos de pôr à mostra o mais está acima de si. A nota dominante é o desinteresse, a abnega-
precioso tesouro e, quando o exibimos, isto significa, geral- ção, a renúncia de si mesmo, a expansão do humano ao divino.
mente, que pouco o amamos. É sobretudo no caso do verda- Assim compreende-se como as mais elevadas atividades do ser
deiro misticismo que a natureza procura pudicamente prote- se cumprem além da vontade da consciência, por instinto e in-
ger-se dos normais involuídos, destruidores, ocultando-lhes as tuição. Atingem-se então planos de consciência superindividual
manifestações e o misterioso processo da gênese do super- e super-racional, como é a divina consciência cósmica. Se, em
homem do espírito. Então é a vida que protege o indivíduo verdade, isto contrasta com o egoísmo que nos defende e, por is-
que se lhe entrega, porque o eu abandona as próprias defesas so, parece trair-nos, levando-nos a um perigoso abandono, é, no
e, esquecido de si, permanece inerme. Tanto no fenômeno se- entanto, a maior e mais irresistível alegria da vida. Então a cons-
xual, como no místico, a consciência refletida fica em suspen- ciência normal permanece atrás, impotente para medir com a sua
so para perder-se na consciência cósmica, com a qual se funde. exígua unidade, devendo curvar-se ao que não compreende. É
A individualização do ser se anula na fusão com o objeto do assim que se vence na derrota e se fica rico na miséria, poderoso
próprio amor, seja ele criatura ou Criador. A vida permanece na obediência e douto na loucura, porque o centro da vida se
arrebatada por esse fato, tanto mais quanto mais ausente esti- deslocou, alterando com o ponto de vista todas as perspectivas,
ver a vontade individualista e egoísta do eu. O amor, em qual- quando a consciência dá um salto em direção a Deus.
quer nível, é uma exultação da vida cósmica, porque represen- Eis, então, porque amor é alegria. Isto é verdade em qual-
ta o cumprimento da sua primeira lei. Deus é amor e cria no quer nível, mas será tanto mais, quanto mais elevado ele for.
amor, em qualquer nível, desde o amor da carne, quando com- Porque ele é superação de egoísmo separatista, é fraterna uni-
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 61
ficação com o todo através da unificação com o próprio seme- XXVIII. O PROBLEMA DA CASTIDADE
lhante, é a essência daquela evolução que nos aproxima de
Deus. Amor, alegria suprema do ser, porém continuamente No sistema do nosso mundo biológico, em que a sexualida-
negada e contrastada pela dor que se origina da dilaceramento de possui fundamentais funções de continuidade de vida, a cas-
do nosso egoísmo. O universo está divinamente invadido e tidade representa certamente uma posição negativa. E assim é
transbordante dessa alegria, pela qual todos anseiam. Ela está de fato nos casos de frigidez e patológicos, condições aberran-
sempre pronta a nos alcançar com a mesma ânsia com que nós tes em que a natureza excepcionalmente falha em seu objetivo.
queremos alcançá-la. Mas este é exatamente o grande drama Mas não é desses particulares casos da falha no plano animal
da vida: uma barreira de dor nos separa dela, barreira que é que aqui queremos falar. Ocupar-nos-emos de uma outra casti-
dada pelo despedaçamento de nosso egoísmo. Daí a trágica dade, daquela praticada pelo santo, pelo gênio, pelo herói da ca-
ilusão do mundo e o seu erro na procura da alegria. A verda- ridade, pelo místico, como sacrifício necessário em vista de
deira felicidade não está no prazer, mas além da dor, que é maiores realizações. Ora, essa castidade não se pode mais con-
necessário atravessar e superar. Este é o significado da inver- siderar como falha e negação de vida, visto que está conexa a
são evangélica dos valores do mundo, da consequente e fatal uma superação, a uma afirmação mais alta e poderosa. Cumpre-
necessidade de que a redenção de Cristo só poderá ser cum- nos, no entanto, indagar como é possível que ela possa deixar
prida através da dor. Para se transpor o inevitável linde, além de ser negativa frente aos fins da vida, como renúncia que muti-
do qual está a felicidade, é necessário inverter o egoísmo, des- la esta na sua fundamental necessidade de continuar-se; e saber
fazê-lo no amor, dilatá-lo e expandi-lo no altruísmo pelas como pode ela justificar-se em organismos físico-psíquicos
criaturas, até Deus. Isto pode parecer uma perda, mas não o é, normais, em que a sexualidade é representada por todo um sis-
pois não é destruição, mas sim dilatação e evolução do egoís- tema orgânico nervoso, base da personalidade.
mo. O universo, sendo egocêntrico em Deus, é, segundo um Respondemos que, antes de mais nada, semelhante renúncia
mesmo e único esquema, fundamentalmente egoísta em qual- não diz respeito senão a tipos de exceção, por conseguinte ela
quer das suas formas e criaturas. Esta é a lei pela qual tudo se não compromete de modo algum os fins da vida, pois que esta
conserva e se protege. Quando o egoísmo evolve, nós o cha- alcança esses fins, plenamente íntegra, na grande maioria dos
mamos altruísmo, mas aquele nada mais fez que dilatar o seu casos. Tudo isto faz, ao contrário, parte do seu plano, pois que
círculo. O egoísmo permanece sempre. Só que agora ele é um ela, assim, não faz mais que inteligentemente distribuir encar-
egoísmo mais amplo, que se dilatou até abraçar um maior gos e funções, confiando às massas a incumbência de multipli-
número de seres. É a evolução que leva o egoísmo a expandir- car-se na carne, e a poucos eleitos o trabalho de formá-las e
se em um egoísmo relativamente mais extenso, chamado de guiá-las espiritualmente. Esses eleitos, verdadeiros evoluídos,
altruísmo, em relação ao primeiro. Esta expansão toma o no- só podem sentir o amor de uma forma supersensível, universal,
me de amor, e ela nos faz subir. Evolver é, pois, dilatar o nos- base de uma fecundidade toda espiritual e de especial missão
so eu progressivamente, cada vez para mais próximo de Deus. que lhes confiou a vida. Esta não se esgota inteiramente no pla-
Quanto mais nos avizinhamos d'Ele, tanto maior será a unida- no animal humano, a que se limita hoje a observação científica.
de coletiva em cujo seio saberemos harmonizar-nos, tanto Outras formas de existências há acima desse plano animal. E é
mais vasto e profundo será o irmanamento que saberemos rea- no ingresso do ser em superiores fases de evolução que a natu-
lizar. É necessário, em suma, sacrificar o eu ao amor, não im- reza transforma, com o tipo biológico, também o fenômeno da
portando o que isto possa custar-nos. E sempre nos custa! Mas sexualidade. Tudo isto corresponde perfeitamente à economia
só são verdadeiras as alegrias determinadas pela fadiga da as- da vida, que não renuncia a algumas das suas atividades e ma-
censão. As comodidades da descida constituem uma mira- nifestações, senão para que essas cedam o lugar a outras que
gem... E é lógico que o seja. Deus, que é justo, não pode con- colimam fins que, pela importância, superam os precedentes.
ceder felicidade não merecida. O homem desejaria a via mais O que já dissemos com respeito ao amor pode ajudar-nos
fácil. Mas, queira ou não, outro caminho não existe, senão a muito a compreender o que diz respeito ao super-homem. Se no
vereda estreita e difícil, para alcançar a verdadeira alegria. plano animal humano domina a renúncia na castidade, no plano
Hoje, o mundo prefere as vias do ódio às do amor. E isto se espiritual sobre-humano triunfa a maior afirmação no amor
dá pelos bens materiais. Odiai, odiai, mas sereis infelizes, por- universal. A castidade que o caracteriza é algo bem diverso de
que o ódio é dor. Sem amor, por mais rica que seja a vida, ela é simples negação e renuncia. Ela é, ao contrário, condição de
estúpida, sem objetivo, destituída de sentido. Não há bem estar afirmação e superação, é um abandono do inferior, visando a
material que nos possa compensar da dor que o ódio nos acar- conquistas em níveis superiores. Na harmônica distribuição das
reta. Não é com o ódio, mas com amor, que se cria o bem es- atividades vitais, uma exígua minoria pode e deve subtrair-se à
tar. Na Terra, não nos resta senão o amor venal, prostituído pe- lei da maioria, para cumprimento de missões que esta não pode-
lo interesse. Esse fato nos torna desesperados, porque o amor ria assumir. Não se pode, pois, confundir a castidade negativa,
não é apenas uma necessidade da carne, mas, sobretudo, uma verdadeira mutilação quando aplicada ao involuído, destinado a
exigência do espírito. Hoje procura-se matar este, sufocar-lhe o viver no plano animal, com a castidade positiva do super-
grito no prazer da carne. Mas o homem, ainda que involuído, homem, que se liberta das formas animais de sexualidade, para
não é apenas o bruto; a libido satisfeita não basta para saciá-lo. conquistar novas, mais altas. Não faltam na história exemplos
Além da carne está a alma, que clama pelo amor. É a alma, que de semelhantes eleitos na castidade positiva, que não é morte,
não se sacia apenas com o prazer, que pede mais e que se de- mas triunfo do amor, casos de seres que ardem não mais nas
bate se não dermos. Ela se ergue do leito de prazer, cheia de paixões animais da carne, mas nas sobre-humanas do espírito.
náusea e de asco, e chora anelando pelo Alto. É sede de amor, Eles, evolvendo, superaram as alegrias, obrigações, desejos e
isto é, de qualquer coisa de santo e de sacro, daquela conjun- lutas do comum amor sexual e familiar. Neles, o egocentrismo,
ção mística que é a única centelha que vibra entre as almas. É a que no amor humano não supera em amplitude um egoísmo di-
necessidade do divino que nos falta e que é necessário à vida. latado no máximo ao grupo familiar, abraça aqui toda a huma-
O materialismo acreditou poder libertar-se de fastidiosos e su- nidade, todas as criaturas, todo o universo. O amor desses seres
pérfluos liames e pretendeu nos arredar das fontes da vida. O é demasiado elevado e vasto para que possa caber nas formas
mundo, hoje saturado de ódio, procura afogar o tormento dessa limitadas e egoístas do amor humano.
sua insatisfação no prazer. Mas isto é ilusão, porque, sem o Até aqui, tudo vai bem, cada um palmilhando o seu cami-
verdadeiro amor, não pode haver alegria. nho, com o seu tipo de amor e proporcionada função biológica,
62 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
segundo a natureza que lhe é própria. No entanto sucedeu que o não estiver amadurecido, isto é, apto a subir, poderemos veri-
tipo biológico supranormal foi tomado como modelo e proposto ficar, ao invés de um aumento de pressão que eleva, um au-
à imitação, especialmente no campo religioso. E também isto é mento que oprime e comprime, tendendo não a escapar por
em parte justo, visto que a educação só pode provir do melhor. cima, mas a romper impetuosamente por baixo. Assim vê-se
Porém ocorreu que, para tornar tal imitação possível, tentou-se como é difícil o sábio uso de tais virtudes. Quando o indiví-
forçar a evolução, impondo-se de fora um processo de assimi- duo atinge, por evolução, uma nova criação e conquista, ele se
lação da perfeição através de uma disciplina da castidade, adap- depara logo com uma bifurcação, ou seja, com a possibilidade
tada somente a temperamentos de exceção, e jamais a tipos bio- de se encontrar, de um lado, com o são e, de outro, com o re-
lógicos muito afastados do supranormal. Ora, cabe então per- verso patológico. Arrisca-se assim a descer, ao invés de subir,
guntar aqui em que se tornará essa disciplina e quais serão os a criar o vício em lugar da virtude, a contrair a vida em vez de
seus efeitos, quando aplicada em tipos imaturos, em tipos invo- expandi-la para Deus. A cada indivíduo é aplicada a lei do
luídos normais, desprovidos até de uma maturidade inicial, respectivo plano evolutivo e a regra à altura de sua compres-
despidos mesmo de um positivo instinto ou germe de superação são. Para os não chamados, que constituem a imensa maioria,
biológica? O que haverá, se tamanha carga for aplicada artifici- já é muito que possam seguir o amor carnal disciplinado no
almente, quaisquer sejam os motivos invocados, sobre os om- matrimônio e nobilitado pela família.
bros de semelhante tipo biológico, incapaz sequer de suspeitar Abordemos agora um outro aspecto da questão. Esta diz
no seu íntimo, diga-se o que se disser, da existência da vida es- respeito à conduta do evoluído, para o qual a castidade terá um
piritual? Evidentemente criar-se-á assim um ergástulo em plena significado, quando posto em contato com a massa dos involuí-
vida, gerando-se uma opressão capaz de produzir tipos aberran- dos, cuja psicologia é bem diversa. Aqui, no plano animal do
tes, ligados às mais baixas paixões. É um grave erro acreditar, amor sexual, encontramo-nos em pleno regime de luta e rivali-
como às vezes se acredita, que a virtude atinja os seus limites dade. O princípio vital anseia por individualizar-se na carne.
extremos somente com o seu aspecto negativo de renúncia e Mas existe a concorrência, pela qual todo indivíduo desejaria
que uma tal vontade, assim aplicada, possa criar o bem. Assim inteiramente a expansão criadora para si, sobrepujando os de-
encarada, ela se transforma numa fonte de dor inútil e prejudi- mais, de modo que, se uma única espécie, por ser melhor dota-
cial. Quanta infelicidade surgirá se lhe faltar o seu complemen- da, pudesse vencer, logo invadiria tudo, suplantando os outros.
to afirmativo criador de conquista e de amor! Infeliz daquele Ciúme e domínio fazem parte do amor animal. O conceito da
que tenta suicidar-se no plano animal, se é incapaz de ressusci- virtude, na prática, ressente-se de tais instintos. O involuído
tar no plano espiritual! Virtude dessa ordem é prejudicial. pode, por isto, facilitar as limitações terrenas do evoluído, por-
Qualquer negação da vida só é lícita em vista de uma afirmação que estas significam um rival a menos, em vantagem da própria
mais elevada. Deus não quer a vontade que disseca e mata, mas satisfação e expansão vital. O involuído pode estimar o evoluí-
a virtude que fecunda e caminha para a vida. Os super-homens, do, por que este, vivendo em um outro plano de vida, não pode
os verdadeiros eleitos são poucos, e que sucederá então? Os in- ser o seu natural inimigo. É verdade que, no consenso coletivo
divíduos que, no monasticismo de todas as religiões, isolam-se de veneração pelos seres superiores, que vivem de sacrifício,
na castidade dos conventos em comunidades monossexuais, se- existe no instinto das massas também algo de origem diversa,
rão todos eles seres superiores, capazes de utilizar tal mutilação que é uma intuição instintiva do seu valor e da sua função bio-
em vista de uma superação no amor universal? Ou, em verdade, lógica. Mas isto não impede que o senso utilitário leve em
esse tipo biológico será absolutamente incapaz de atingir, pela apreciação a ausência do rival. E nunca se tem motivo para odi-
própria altura, essa compensação de ordem superior? Então, a ar senão o rival. O nosso mundo está mais apto a compreender
que distorções, contradições e mentiras será ele obrigado pela no santo o lado negativo da renúncia à Terra e é levado quase a
própria disciplina que pretendia melhorá-lo? E assim esta, ao compensá-lo por isto, dado que lhe é útil, com louvores pela
invés de elevá-lo, inutilizá-lo-á. A evolução não se força e não sua virtude. Tal exaltação residiria no universal “do ut des” da
se precipita. Impondo um ímpeto evolutivo com esforço des- vida, como uma compensação que o homem dá a quem não o
proporcionado ao grau e possibilidades existentes, provoca-se, molesta na qualidade de antagonista e lhe poupa um pouco do
como reação, a involução, e não a evolução. Então presencia- árduo trabalho de lutar. O místico é sempre um inimigo a me-
remos o triste espetáculo de seres destinados somente a mutilar- nos e, por isto, é inofensivo. Um inconsciente cálculo utilitário
se e diminuir-se, a sufocar a vida e a descer, forçados a subme- preside a todos os juízos humanos. Assim, quem é da Terra está
ter-se a tristes adaptações e a viver sem compensações. predisposto a um tributo de consolação, que pouco custa e que,
Bem diferente sucede com o indivíduo biologicamente por conseguinte, é um bom negócio, dado o baixo preço que lhe
adaptado, pelo menos de algum modo preparado. Então a casti- paga pelo que parece a outrem pesada renúncia. Mas o santo se
dade pode desempenhar a função de obrigá-lo a procurar desa- compensa com algo bem diverso. No seu egoísmo, porém, o in-
fogo em nível superior, uma vez que lhe estejam cerradas as voluído sente-se então em pleno direito de exigir virtude no
portas embaixo. A paixão sexual representa normalmente, no evoluído, isto é, qualquer forma de sacrifício que limite sua ex-
plano animal, a manifestação de uma força e a descarga de um pansão vital no plano humano-animal, procura sempre enxotá-
impulso, através do que a vida se exprime e busca atingir de- lo para fora desta região, porque é nela que se encontram os
terminados fins. Quando, artificialmente, é imposto um dique à seus tesouros, dos quais é cioso. Assim é que, enquanto o santo
natural manifestação dessa energia, dá-se com ela como que vive, o indivíduo normal suspeita de orgulho e de qualquer
uma compressão, uma concentração que implica um aumento afirmação, só se decidindo a render-lhe pleno tributo de honra
de potencial, levando o nível de suas manifestações a formas quando morre, porque só um morto lhe deixa seguro de que não
biológicas mais evoluídas. Passa-se o mesmo que em um reci- haja mais um rival na Terra.
piente que recebe água, sem que seja permitida a saída por bai- Como se vê, tudo se baseia em um mal entendido derivado
xo. O nível tende a subir, para sair por cima. Eis para o que po- do ponto de vista do involuído, inteiramente diverso do evoluí-
de servir a castidade: elevar o nível da água, isto é, do potencial do. O primeiro acredita que este último se sacrifique por ele,
nervoso, de maneira a determinar a gênese de manifestações de em sua vantagem, e esta é uma das primeiras condições para
vida e formas de paixões mais elevadas. que ele o aprove, pois que serve ao seu egoísmo. Pragmático,
Mas o problema é se estará a maioria dos indivíduos mo- não vai além. Porém um altruísmo absoluto, além de absurdo
dernos que praticam esta disciplina amadurecida para seme- para quem o desfruta, é um desperdício antivital e um absurdo
lhante evolução? Nisto reside a dificuldade. Se o indivíduo num universo que é egocêntrico em Deus e em tudo que se as-
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 63
semelha a esse princípio. O santo, mesmo quando se torna um parecer anormal e patológico, também pode parecer, observado
mártir, não renuncia de modo nenhum ao próprio eu, não o des- de uma fase de evolução mais elevada, uma tentativa de estabi-
perdiça, mas é no próprio eu, cada vez maior, que ele compre- lização e fixação, nas formas da vida humana, de um novo tipo
ende e abraça fraternalmente homens e criaturas. O santo vive de amor supersexual, ativo somente em seu nível, e não mais
em um outro plano biológico, sob leis que o normal não com- naquele humano animal do presente. O lançamento de hormô-
preende, e, se cede muitas coisas a este, é porque delas não tem nios no mecanismo cardíaco não seria, assim, um desvio pato-
mais precisão. Isto mostra como, nas concepções dos ideais, lógico, mas apenas um meio de repercussão no plano orgânico,
existe na Terra, por utilitarismo egoísta, uma certa percentagem paralelamente à transformação do fenômeno do amor por evo-
de inquinamento, até ao ponto de considerar instintivamente a lução. Eis qual pode ser, em alguns casos, a justificação e o
virtude no próximo como meio de sufocar-lhes as manifesta- significado biológico da castidade. Do contraste entre o psico-
ções vitais no plano humano-animal. logia normal e a do evoluído, vimos de quanta incompreensão
Após haver considerado a função evolutiva da castidade e a é circundada a laboriosa ascensão biológica do místico, que,
psicologia com que o homem comum a julga no evoluído, se- vivendo em um plano diverso, defronta-se com leis de vida di-
gundo o seu ponto de vista terreno, abordemos agora, para ferentes. É assim uma renúncia que, para a maioria, não é ade-
concluir, um aspecto que a evolução do fenômeno sexual pode quada e, se imposta por força, pode ser prejudicial, mas que,
assumir em indivíduos em processo de maturação mística. Vi- no homem superior, constitui a primeira condição para a sacia-
mos já as relações entre sexualidade e misticismo. O momento ção de paixões mais elevadas e para a manifestação de um
de mais intensa manifestação da vida do místico está no êx- amor divino, mais amplo e poderoso.
tase. Trata-se de um arrebatamento, de um particular estado
que é afim com o transe mediúnico, mas do qual se distingue CONCLUSÃO32
nitidamente, porque o grande transe dos médiuns é inconscien-
te e passivo, enquanto que o rápido transe dos sensitivos deixa Detenhamo-nos ainda um pouco antes de deixar este volu-
intacta a personalidade e desperta a consciência. Isto deriva em me, ao fim desta sétima etapa, e primeira da III Trilogia. Este
parte do conteúdo teológico e transcendental divino que o tran- novo trajeto também está cumprido. Assisto a este meu cami-
se do místico pode assumir no êxtase. Ora, no momento cul- nhar fatal, que calma e constantemente avança em direção à
minante do êxtase místico, pode verificar-se o fenômeno do meta proposta. Quando antes se escolheu espontaneamente e se
angor místico, que parece relacionar-se ao fenômeno sexual. Já decidiu livremente, o caminho é depois fatal. Mais como espec-
observamos o significado profundo do amor e as fortes razões tador do que como ator, observo esse desenvolvimento de for-
pelas quais ele é alegria. A ciência nos diz que o angor místico ças que, uma vez postas em ação, querem, como que possuídas
é um fato pseudo-anginoso-cardíaco, um espasmo das artérias de uma vontade própria, alcançar a meta prefixada. E a matura-
coronárias como sucede nos casos patológicos de angina pec- ção continua em mim, nos escritos e no mundo. Já por estas
toris luética ou artério-esclerótica. Ele não difere dos outros três vias, o meu olhar, do caminho percorrido, projeta-se para a
espasmos fisiológicos que se acompanham de prazer, como o sua continuação. É a ânsia de subir, e a cada etapa a alma se
orgasmo sexual, senão pelo móvel e pela sede anatômica. Em lança para diante, em direção à seguinte, escruta o horizonte de
um temperamento espasmo-fílico, em caso de libido insatisfei- amanhã, ávida de explorar ainda o ignoto, que esta sua apoca-
ta, pode-se sensibilizar o plexo simpático cardíaco por hormô- líptica aventura no infinito sempre lhe reserva.
nios genitais espasmogênicos, que agem em tal caso como ex- O corpo segue a sua trajetória em descida, o espírito segue
citantes sobre os nervos e fibras cardíacas. Tudo, pois, é devi- a sua marcha em subida. Neste acende-se cada vez mais uma
do à projeção de tais hormônios no mecanismo cardíaco. É um juvenil alegria de viver, que o envelhecimento de um invólucro
fato, pois, natural, ainda que supranormal. Fato representado físico perturba cada vez menos, porque a distinção e o desta-
alegoricamente pela “Kundalini” na Yoga hindu, em que a ser- que entre os dois acentuam-se cada vez mais. Pelas vias da as-
pente “Kundalini” (libido) desperta e, do períneo, ascende su- censão espiritual, a independência do espírito em relação à
blimando-se através dos diversos Chacras (gânglios do simpá- morte do corpo, seu invólucro, torna-se sempre mais acentua-
tico, centros nervosos medulares), que se sensibilizam, até al- da. Os sentidos físicos se embotam. Estas portas da alma aber-
cançar o supremo Chacra no cérebro. Ora, se a ascensão do fo- tas ao mundo da matéria se atravancam de detritos, que obstru-
go “Kundalini” e o angor místico se explicam fisiologicamen- em a rápida passagem das vibrações. Os sentidos intensivos,
te, a intuição, a fé e a experiência mística nos dizem que em tal porém, mais aguçados, estremecem de todo lado da prisão cor-
fenômeno concorreram também certos elementos de caráter pórea, produzem novas passagens nos muros desta e se lançam
transcendental, embora esses escapem à perquirição da ciência. ávidos para outros mundos, que começam a experimentar.
Esses especiais estados orgânicos e nervosos estão conexos a Uma das minhas maiores alegrias, confesso, está em repousar
particulares estados psíquicos, em que sentimos a presença es- do duro labor de viver na matéria e entrar em comunicação
piritual de correntes de pensamento e de afetividade, as quais com o mundo do espírito, sentir o infinito, auscultar em nosso
admitimos que sejam provenientes de seres extraterrenos, com contingente, tão vívida e próxima, real e tangível, a imanência
os quais, em tais sublimes momentos, o místico conseguiria de Deus, tão distante para nós na Sua transcendência, e poder
pôr-se em sintonia e, por conseguinte, em condições de resso- então admirar fascinado esse universo tão saturado de pensa-
nância para comunicações espirituais. Assim o fenômeno do mento, a fim de que eu ouça alguma coisa de tudo que ele diz e
amor se nos apresenta com um aspecto bem diverso do sexual, que sabe o que eu não sei, a fim de que me ensine a resolver
alcançando os mais excelsos estados espirituais. Eis que trans- tantos problemas que Ele resolve a cada momento por vias que
formações orgânicas e nervosas podem se unir à evolução da eu não sei compreender. Então não posso deixar de ouvir a voz
sexualidade, que alturas pode a vida alcançar, enquanto, no in- tonitruante de Deus, que fala da profundeza de todas as coisas.
ferior plano animal, ela parece mutilar-se na castidade. Então, Vejo, assim, que todos os seres têm a face voltada para Deus e
enquanto tudo emudece no plano passional humano, ascende- que quem a volta ao contrário morre. Desse modo, desperto e
se no plano espiritual para a ardência de um amor diverso, su- ressurjo em uma consciência maior, em uma vida que é eterna.
blime, agindo em formas diferentes, em mais altos níveis de É uma lenta ressurreição, viva e sensória, mas em outra parte,
vida. E, assim, o fenômeno orgânico parece que se torna amor-
tecido pelo fenômeno místico e que o espírito domine tudo. 32
A presente conclusão refere-se a este volume e ao anterior: Pro-
Então, também aquilo que, visto pela fase biológica atual, pode blemas do Futuro. (N. do A.)
64 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
mais distante, quem o sabe onde e como, no infinito. É como mos nas profundezas. Como estas verdades se revelaram a
que um abrir-se da alma para novas realidades inexploradas. mim porque busquei, podem revelar-se a todos os demais que
Ela, com outros olhos, fixa estupefata as novas maravilhas e queiram realmente buscá-las. Cada volume representa para
por elas é arrebatada, porque, em sua nova audição, ouve can- mim um dado trajeto psicológico no caminho de minha vida.
tar o divino, música indefinida, feita de silêncio. Assim, de fa- Este último, que se completa em 1950 33, teve, ademais, por seu
diga em fadiga, mas de alegria em alegria, continua a sua mar- particular conteúdo, também uma outra característica, de que o
cha, que não pode ser contida. meu pensamento quis aproximar-se dos problemas do espírito
Neste novo trajeto, que vai da Páscoa de 1945 (fim do vo- pela via de uma experimentação diferente, de caráter abstrato,
lume precedente) à Páscoa de 1950 (fim do atual), a minha ex- especulativo, resultante das conclusões de processos lógicos da
perimentação evangélica me demonstrou cada vez mais, no la- mais moderna físico-matemática. Essas conclusões, aceitas pe-
boratório da minha vida, em que analiso os fenômenos espiri- la ciência, forneceram-me uma base sólida, um elevado ponto
tuais e aplico experimentalmente as teorias expostas, a verdade de referência e de partida, sobre o qual se pudesse construir as
da doutrina do Cristo, tida por loucura pela maior parte do teorias do espírito, que depois se encontram no Evangelho.
mundo. Verifiquei que, quando a inversão evangélica dos valo- Com alegria, constatamos que mesmo a ciência, antes materia-
res é realmente aplicada, então funciona a economia do evolu- lista, está despertando e se prepara para fornecer uma séria con-
ído, a Providência, como descrito no 3 o volume da II Trilogia, tribuição à nova civilização do espírito. Esta nova ciência me
isto é, funciona até em nosso contingente esta nova técnica a impressionou e, nela, vi a nossa melhor aliada. Os próprios ci-
que nós, porque não a compreendemos, chamamos milagre. entistas que a divulgaram não puderam compreender a impor-
Neste período, desde que terminei o referido volume, A Nova tância do grito que eles, imersos nos cálculos, deixaram esca-
Civilização do Terceiro Milênio, submeti os princípios aí afir- par, como também não atinaram ainda com as suas consequên-
mados a controle experimental, obtendo resultados plenamente cias no campo espiritual. O mundo não compreendeu esses
satisfatórios, que me encorajaram crescentemente na difícil via grandes sintomas, que nos dizem que o caminho da vida está
de aplicação integral do evangelho. Em uma estrada que hu- mudando de direção, mudança pela qual as mentalidades de
manamente parece desastrosa, o prodígio da salvação se deu vanguarda são levadas a dirigir-se da matéria para o espírito.
regularmente no momento mais oportuno. Jamais poderei Assim, com o volume Problemas do Futuro, desenvolve-
desmentir esta confirmação experimental por mim obtida, até mos e aprofundamos a parte abstrata e científica de A Grande
hoje, na realidade do contingente. Em face de tais provas, o Síntese, como no precedente a ele o fizemos no que tange à par-
meu mais precioso e agudo espírito de observação e de autocrí- te prática e humana. Desta maneira, aquele pensamento que po-
tica, que me é tão necessário para controle, lado a lado à fé deria parecer não ortodoxo, esclareceu-se e tornou-se sempre
mais ardente, teve que se render. O risco do momento, como a melhor demonstrado como científica e racionalmente corres-
todos, também a mim pareceu muito grave, às vezes terrifican- pondente à realidade dos fatos. Destes novos volumes, A Gran-
te. Mas a coragem conferida pela fé apaixonada em Cristo des- de Síntese sai sempre mais reforçada. Eu mesmo, penetrando-
fez todas ao barreiras, que, uma vez enfrentadas, esbarronda- lhe cada vez mais o pensamento em profundidade, encontro
ram-se. Cristo, com quem me encontro sempre em contato, novas provas na vida e confirmações por todos os lados, quer
salvou-me a todo o instante. Tudo quanto foi afirmado no experimentando no campo moral, quer aprofundando-me no
mencionado volume é, pois, realmente verídico, e o tempo na- campo científico. Compreendo assim o que antes havia intuiti-
da mais fez do que confirmar. Cada vez se torna mais verda- vamente escrito, mas que não havia racionalmente compreendi-
deiro tudo quanto pretendi explicar analítica e racionalmente do. Se o volume A Nova Civilização do Terceiro Milênio con-
sobre a técnica de tais salvações, a fim de que outros pudessem firmou A Grande Síntese no plano moral e social, os volumes
experimentá-las. Os princípios do Evangelho são leis biológi- Problemas do Futuro e Ascensões Humanas a confirmam no
cas de planos mais elevados de existência. Essas leis são real- plano psicológico e científico.
mente atuantes, quando nós as colocamos em funcionamento, Podemos assim, dizer agora, no fim deste novo volume, que
aplicando-as. De outra forma, não sendo aplicadas ou sendo foram aplicadas as palavras de A Grande Síntese (Capítulo
mal aplicadas, como sucede no mundo, é natural que elas per- XLII): “A minha meta é a compreensão de uma lei mais eleva-
maneçam no campo da utopia. É compreensível que todo o da, de amor e colaboração, que a todos vos una num grande or-
mecanismo de forças, para pôr-se em movimento, tenha que ganismo animado por uma nova consciência universal e unitá-
ser tocado nos pontos motores, a fim de que funcione. É lógico ria. Não se trata, fundamentalmente, de uma sabedoria nova,
que, nas mãos do involuído ignorante, isto não pode suceder. pois apenas repito a boa-nova que já foi trazida há milênios aos
Fortalecido pelos resultados experimentais por mim obti- homens de boa vontade. Repeti-la-ei toda idêntica na substân-
dos, não somente no campo moral, mas também no psicológi- cia, mais ampliada para se ajustar ao campo mais vasto de vos-
co, quis expor nesses volumes estas novas realidades, para que sa mente mais amadurecida, a fim de que finalmente vos abale,
o leitor as descobrisse depois a seu modo, de si e por si, como vos ilumine, vos salve. Eis o meu objetivo: a palavra eterna, o
eu as descobri de mim e por mim. Descoberta esta que, se feita alimento que sacia, a solução de todos os problemas. E chegarei
em larga escala, poderia revolucionar o mundo. Guiar o ho- ao Evangelho de Cristo pelas veredas da ciência, isto é, chega-
mem em larga escala, poderia revolucionar o mundo. Guiar o rei ao Evangelho pelas mesmas sendas do materialismo, para
homem para elas creio que seja a maior contribuição que se fundir os dois pretensos inimigos: ciência e fé; para vos de-
possa dar para a ascensão em direção à nova civilização do es- monstrar não existir caminho que ao Evangelho não conduza;
pírito. São descobertas práticas, porque de resultados úteis, para impô-lo a todos os seres racionais, tornando-o obrigatório,
uma vez que facilitam o convívio humano, isto é, a coletiviza- como o é todo processo lógico. Ele é a nova lei super-humana,
ção da vida, que é a sua atual tendência. São úteis também no a superação biológica que a evolução da humanidade impõe
sentido de que elas não fazem apelo senão ao natural desejo neste momento histórico, em que está para surgir a civilização
humano de um proveito. Trata-se daquelas ideias-mães, extre- nova do III Milênio. Soou a hora em que estes conceitos, olvi-
mamente genéticas, porque representam uma centelha criadora dados e incompreendidos, pregados e não vividos, explodem,
da grandeza do pensamento. Elas têm o poder de gerar uma pelo seu próprio poder, no momento decisivo da hora do mun-
nova civilização, porque já estão escritas no livro da vida e fa-
zem parte do divino plano da sua ascensão. Eu quis ver nas 33
Aqui o autor também se refere ao volume anterior: Problemas
profundezas para lê-las e ensinar os outros a lê-las por si mes- do Futuro. (N. do A.)
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 65
do, fora do âmbito fechado das religiões, na vida onde o inte- sem se dar conta e cujos resultados ele aceita; há uma matura-
resse luta, a dor sangra, a paixão dementa”. ção que a vontade humana não determina nem guia.
Os presentes volumes continuam a confirmar essa promes- A compreensão destes escritos, que tendem à espiritualida-
sa, que eu havia registrado, mas não havia avaliado, ignorando de, demonstra uma mudança da forma mental, é um sintoma da
que ela pudesse ter conduzido aos desenvolvimentos atuais. real aproximação do novo modo de conceber a vida, na nova
Depois de uma semelhante acumulação contínua de confirma- civilização do espírito. Isto sucede em meio ao desfazimento
ções, é evidente que se torna sempre mais absurdo renegar A dos valores da atual civilização da matéria. Nesta, todos os
Grande Síntese, cuja verdade, desde há tantos anos, estou con- princípios foram falseados e, por isso, cada vez mais estão per-
trolando a cada instante na vida cotidiana do mundo físico e dendo as suas significações precisas. À força de mentir a res-
espiritual e que cada experiência da vida confirma no plano peito de tudo, para daí extrair vantagens na luta pela vida, a
prático, moral, lógico e científico. Jamais logrei encontrar, na avalanche dos valores falsos postos em circulação em todos os
mais desapiedada crítica, um fato sequer que desminta esse li- campos está poluindo a atmosfera de todos. As ideias mais san-
vro. Quanto mais procuro os pontos fracos, tanto mais ele se tas são aproveitadas para camuflar os mais baixos valores. A
fortalece. A Grande Síntese me fez compreender tudo, deu-me delinquência e o vício apresentam os seus mártires, arvorados
forças para superar muitas provas, sustentou-me na dor, incul- em vítimas do ideal. Tudo se adota apenas com um objetivo uti-
cou-me esperança e fé, iluminou-me a mente e aqueceu-me o litário de aproveitamento. Estes escritos correspondem à neces-
coração. Centenas de cartas, repletas de gratidão, chegam-me sidade vital da reposição dos mais altos valores, que, na inver-
de todas as partes do mundo, repetindo-me essas mesmas afir- são verificada, passaram a situar-se no fundo.
mações. Não se pode negar tais fatos. A minha vida, assim Entre tantas cisões e partidos, mentiras e interesses, a palavra
como a vida de muitos outros, é um deserto de espinhos, mas imparcial e universal, sincera e desinteressada, reconstrutora de
agora possui oásis floridos, refúgios de paz. Pervagamos por valores elevados, conexa à verdade eterna, ainda que pareça fora
tantos problemas, e todos se orientam e encontram a sua solu- da psicologia do tempo, justamente porque cada vez mais rara,
ção em Cristo... que é a luz de A Grande Síntese e para quem torna-se sempre mais procurada. Quanto mais se difunde a injus-
ela está sempre apontada, em ascensão. tiça, mais se tem fome de justiça; tanto mais o ódio campeia,
Uma outra prova da verdade me vem da sua automática di- mais se tem sede de amor; quanto mais a malvadez nos atormen-
vulgação no mundo, apesar de quase nenhuma disponibilidade ta, tanto mais se valoriza a bondade. Especialmente os jovens,
de meios próprios. Ademais, sem nenhum plano de preparação que ainda devem viver uma vida na Terra e, mais do que todos
cultural científica, tenho em mãos um organismo conceitual, os outros, têm necessidade de um amanhã, sentem-se mais asfi-
que progrediu compacto até hoje, já no décimo volume 34, que xiados pelo vácuo resultante da destruição moral do que pela ru-
se encontra no nascedouro, em seguida a este. Tenho a sensa- ína material e econômica da última guerra, e assim procuram re-
ção de uma coisa querendo avançar quase que por vontade construir a alma devastada. Eis aqui um alimento de verdades
própria, para cumprir seu destino, porque ela é uma força en- eternas que nenhuma derrocada humana poderá destruir.
gastada em um sistema de forças que, encontrando-se em ple- É verdade que muitos, por se encontrarem encerrados nos
no desenvolvimento, deve, por conseguinte, fatalmente cami- castelos das próprias verdades particulares, podem olhar estes
nhar para a meta proposta. Então tudo parece caminhar por si escritos, pela sua imparcialidade, com desconfiança, ao não se
mesmo, tudo tende automaticamente ao êxito. Conheço por verem neles particularmente representados. Quem não repre-
experiência uma outra ordem de coisas que, por mais deseja- senta nenhum grupo humano, não sendo o expoente de nenhum
das, estudadas, procuradas e impelidas que sejam, mesmo sen- interesse, não é mantido e impelido por ninguém e deve pro-
do realizadas com todo o empenho, não conseguem atingir o gredir sem auxílios terrenos. Está só. Mas somente assim pode-
objetivo e tendem irresistivelmente a imergir em um mar de se alcançar uma verdade universal como a que requerem as
obstáculos. Se A Grande Síntese parece querer avançar por si grandes unificações sociais do nosso tempo, as quais não se po-
mesma, devo supor que a força que a mantém não pode ser ou- de atingir por meio de extensões imperialistas de centros parti-
tra senão o fato de ser ela segundo a Lei, e não contra, isto é, culares. Está só. Mas, justamente por isto, pode dizer a verdade
estar conforme a verdade, e não em erro. de todos, e não apenas a do grupo, da classe social ou do parti-
Tenho a sensação de que a maturação do momento históri- do ao qual se encontre exclusivamente ligado. Está só. Mas,
co o tornou faminto de soluções universais e apto a compre- desta forma, ele pode, melhor do que um conjunto de homens,
endê-las. Por isso eu me encontro na posição de ter sido in- representar a vida, as suas leis, traduzir-lhe a voz e ter para sua
conscientemente o intérprete de uma necessidade da mente sustentação e defesa as forças da evolução, muito mais podero-
moderna e de ter oferecido, sem querer e saber, precisamente sas que as de um grupo humano. Em nosso caso, tudo o que pa-
o alimento necessário à vida e por ela exigido. O que foi que, rece produto da inspiração de uma inteligência não humana de-
tão experiente de tudo isto, falou em mim e como pude sentir ve também difundir-se por forças e meios não humanos. Estra-
a forma mental da hora histórica? Não há processo lógico que nho método de conceber e de operar! No entanto é aquele que
possa dizer por que hoje domina uma corrente de ideias e vemos em plena ação. Estranho, porque está nos antípodas do
amanhã uma outra, ou prever qual será a corrente que vai do- método adotado pelo mundo. Este age de fora, reputa de pri-
minar mais tarde. Isto obedece a razões profundas, só conhe- meira necessidade a publicidade e os meios econômicos, ope-
cidas do pensamento que guia a vida. Ninguém sabe por que rando por vias exteriores, sensórias, superficiais. Aqui, inver-
hoje se pensa de modo diverso de ontem, e ninguém poderá samente, age-se de dentro, por vias interiores, de modo que pu-
saber como se pensará amanhã. Cada tempo tem a sua lingua- blicidade e dinheiro de nada servem. É o método de Cristo.
gem. O pensamento dos vários períodos históricos parece as- Tudo o que vem de Cristo parece estar impresso nesse méto-
sim funcionar no subconsciente coletivo, e o homem, mais do do, que repudia os meios humanos. Mas por que – poder-se-ia
que provocar este processo, parece sofrer seus resultados. Há objetar – sente-se justamente hoje a necessidade de uma de-
certamente na vida um outro pensamento, situado algures, monstração racional do Evangelho, como a que aqui se oferece,
mas não na consciência humana, que dele nada conhece. No isto é, a necessidade de um diverso método de divulgação,
pensamento coletivo, há um desenvolvimento automático e fa- quando Cristo, ao Seu tempo, não sentiu necessidade de recorrer
tal, com seus períodos, formas e leis, que o homem cumpre a ele? Ele, com isto, nos demonstrou que, para conquistar o
mundo, não há nenhuma necessidade de demonstração racional.
34
Aqui o autor refere-se ao volume Deus e Universo. (N. do T.) O mundo de hoje, porém, não é o mundo de então, e esse novo
66 ASCENÇÕES HUMANAS Pietro Ubaldi
meio é agora adotado porque possui maior eficiência na atuali- ra mim um ponto de partida para novos empreendimentos.
dade. Se o Evangelho é hoje assim apresentado, idêntico na Diz-se muita coisa, no entanto quase nada se diz. É verdade
substância, mas diferente nas palavras, é para que permaneça vi- que o passado se distancia cada vez mais, mas o futuro perma-
vo na alma moderna, transformada por evolução, e isto é uma nece no infinito. Olho, com uma sensação de temor, esse verti-
concessão à forma mental dos nossos tempos. Assim, oferecido ginoso infinito que nos espera a todos.
a esta o alimento espiritual na forma que ela exige, não terá ela Como não se pode frear a vida, para a qual existe sempre
mais o direito de recusá-lo. É uma concessão que implica uma um amanhã, assim como não se pode frear uma maturação bio-
grande responsabilidade para o mundo, porque se ele não quiser lógica, também não se poderá frear esse pensamento que em
aceitar o evangelho racionalmente demonstrado, não poderá va- mim continuamente nasce. E ele continuará a nascer, assim
ler-se de pretextos para mascarar a sua má vontade. A vida abre como a vida continuará sempre a nascer em mim e em todos.
hoje à humanidade as portas de uma nova grande civilização. As Sinto a atmosfera do meu aposento carregada de vibrações
tremendas consequências de uma recusa, que já não pode ser se- conceituais, ali já impressas de maneira imponderável, não
não conscientemente querida, terão que fatalmente ser sofridas. perceptível senão aos sentidos da alma. E esta, depois de ter
O produto oferecido por estes escritos é global, unitário, feito suas essas vibrações, assimilando-as ao próprio sistema
como todo desenvolvimento sempre orientado para o mesmo de forças, deve transmiti-las ao cérebro, para que as registre
centro. Unitário, porque os mais variados problemas, díspares em formas racional e analítica, depois as configure em pala-
e distantes, permanecem ligados por esta constante centraliza- vras e, por fim, por meio da mão comandada pelo cérebro e
ção, que os funde em uma única lei. Tudo aqui é regido por sistema nervoso periférico, materialize-as em forma escrita.
um universal senso unitário, pelo qual toda particularidade é Eis o meu trabalho! Assim este pensamento continuará a de-
sempre reconduzida ao mesmo centro. Unitário também por- senvolver-se em novos volumes, carreando-me para novos ho-
que se oferecem juntamente prática e teoria, o princípio e a rizontes, na direção em que sou impelido, isto é, desenvolven-
experimentação, sendo a lei exposta vivida por quem a expõe, do cada vez mais o processo de sublimação, que é o conteúdo
uma vez que todo verdadeiro filósofo deve crer na própria fi- desta III Trilogia. Esta sublimação opera o que pode parecer
losofia e vivê-la. Aqui, pensar e escrever significam viver. E também uma estranha transformação da personalidade. Antes
assim como para o autor, também para o leitor, a palavra deve de tudo, transformou-se em mim o método de registro concei-
possuir um mesmo significado de vida, e não pode ser com- tual, e é natural que o progresso evolutivo conduza a essas
preendida senão for transformada em vida. Ler sem viver sig- transformações. Enquanto, nos meus primeiros escritos, como
nifica poder compreender bem pouco. Isto porque a compre- Mensagens Espirituais e A Grande Síntese, tratava-se de re-
ensão é dada pela confirmação exterior da experiência e pela cepção direta, por via inspirativa, de uma fonte de pensamento
interior da voz da vida, que deve dizer ao leitor no seu íntimo: da qual eu era puro instrumento, ainda que em plena consciên-
Sim, é verdadeiro! Estes livros requerem, pois, esse novo mo- cia – tratava-se do registro de um pensamento já formulado,
do de ler, que não é comum. Ler para compreender não signi- que eu simplesmente recebia, não se tratando de mediunidade
fica aqui apenas uma penetração do pensamento, um árido ou ultrafania passiva em transe – agora, progredindo, tendo-me
processo racional, como é hábito no mundo cultural, mas sig- assenhoreado da técnica do método da intuição, a recepção su-
nifica compenetrar-se desde as profundezas, assimilar e viver cede não apenas como simples recepção, mas pela livre obser-
os conceitos, fazer deles a própria vida, para desenvolver em vação da substância das coisas, pela leitura do pensamento di-
si uma maturação biológica, a mesma que eles produziram em retor dos fenômenos, por visão direta, com uma nova capaci-
quem os escreveu. A dialética, as investigações, a potência de dade visual interior dos conceitos que presidem ao funciona-
argumentação lógica e polêmica, pertencem a outros planos. mento orgânico do todo. É assim que os quadros dos últimos
Aqui a luta, no sentido humano de supremacia, ainda que inte- volumes se apresentam não em forma inspirativa, mas como
lectual, é destituída de senso. visões em que simplesmente descrevo as minhas observações
O grau de evolução do indivíduo revela-se rapidamente pelo hipersensórias. Assim, explica-se a substituição da linguagem
método. O involuído polemiza, o evoluído organiza. O primeiro dos meus primeiros escritos, que não era minha, mas de natu-
é levado a firmar-se dominando, o segundo construindo. Um é reza transcendental, por uma linguagem racional e normal. Po-
particular, egocêntrico, separatista; o outro é universal, harmô- derá parecer, então, que a segunda parte, mais recente, da mi-
nico, altruísta. O primeiro compreende apenas pequenas verda- nha produção não passe de uma explicação racional da primei-
des parciais, em função de si mesmo; o outro abarca verdades ra. Não. Nenhum dos meus escritos é produção minha pessoal
universais, em função de todos. O primeiro é exclusivista e não ou criação da minha mente. Apenas se dilatou e aperfeiçoou a
admite senão as próprias verdades, declarando falsas todas as via da minha percepção. Se antes eu era instrumento, agora sou
outras. O segundo sente a possibilidade de uma infinidade de espectador, quando muito observador, mas jamais criador da
outras verdades, todas verdadeiras no universal, quais aspectos minha obra, que é de Deus e somente de Deus.
do absoluto. O evoluído pode compreender o involuído. Este Mas a sublimação também opera no meu caso uma outra
pode agredir aquele, mas não o compreende. A dialética é cor- transformação. Efetivamente devo atravessar, com a minha
rosiva, divide e não convence. A fé e o amor, a bondade e o sensação, a grande revolução biológica representada pela de-
exemplo convencem. Mais do que com a razão e a discussão, a molição do próprio eu como unidade egocêntrica. O altruísmo
verdade se conquista com impulso da mente e do coração. Se- e o sacrifício de si mesmo, além da lei de vida, em plano mo-
melhante conquista é, sobretudo, um abandono em Deus. Assim ral, o é também no biológico. A vida é uma transformação, e
como nós não criamos a vida, mas, se a vivemos, é porque a vi- querer paralisá-la em uma existência separada, para isolar-se
da vive em nós, assim também, se nós compreendemos, não é da corrente, encerrando-se no próprio egoísmo conservador,
porque nós tenhamos criado e descoberto a verdade, mas sim ao invés de abrir-se em um altruísmo inovador, acarreta ao ser
porque a verdade chegou em nós. a punição com o estiolamento até à extinção. A vida é feita de
Alcançamos assim o termo deste novo labor. Eis uma nova tal maneira que, enquanto tende egoisticamente a conservar-se,
série de experiências morais e materiais, vividas e realizadas compensa essa tendência com outra, oposta, pela qual ela se
nas vicissitudes cotidianas, alinhadas ao longo do caminho da empobrece ao se desejar conservá-la e se enriquece ao se que-
vida. Elas formam uma nova série de conceitos expostos neste rer dá-la. O egoísmo mata, o altruísmo é genético. Diz o Evan-
volume. Pode-se agora frear este pensamento? No passado, ca- gelho: quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á, e quem tiver
da ponto de chegada precedentemente atingido, tornava-se pa- perdido a sua vida (por causa do Evangelho, que é amor) a en-
Pietro Ubaldi ASCENÇÕES HUMANAS 67
contrará. A vida, fonte de tudo, nega-se a quem se nega a ela, e Eis o conteúdo da sublimação. A um certo grau de evolu-
entrega-se a quem se lhe entrega. Ela é uma troca. Tudo isto ção, o eu se despersonaliza e se funde na humanidade. Na
nos é dito pela célula, pois ela nos mostra que a vida que per- imensa dilatação de si mesmo em todos, é um egoísmo que se
dura é a impessoal. Isto nos revela uma grande lei do ser: para torna tão amplo, que abarca a todos. Parece que se perde, mas,
sobreviver, é necessário não isolar-se, com o fito de conservar- na verdade, conquista-se uma vida maior, que é dada pelo eu
se, mas perder-se, lançando-se na grande corrente da vida. É impessoal, o qual não pode perecer. Não se concebe mais o eu
necessário, assim, desindividualizar-se, despersonalizar-se, agressivo, que combate para vencer e esmagar, porque os ou-
como sucede no amor que se dá. Quem se coloca como centro tros se tornaram ele mesmo. Só conceberá assim o eu que ama,
separa-se e morre. Poderemos, pois, tanto mais usufruir da vi- luta e sofre para ajudar os outros, porque ele se tornou eles
da, quanto menos pensarmos em nós mesmos. mesmos. Então o eu separado morre, desaparece, e passa-se a
Sendo o universo construído em esquema de tipo único, en- sentir como própria a dor, a responsabilidade e o dever de as-
contramos essa lei verdadeira tanto na reprodução como no censão do mundo. É inútil se rebelar contra essa lei da vida, que
amor evangélico pelo próximo. Em ambos os casos, a vida se a um dado ponto do nosso caminho nos prende, assim como os
recusara a nós, se nós nos recusarmos a ela e não revivermos, jovens são presos pelo amor. É a vida que assim quer. Tudo é
quer no primeiro como carne, quer no segundo como espírito. biologicamente lógico. Então a existência só pode ser missão.
Em biologia é o não-indivíduo que permanece, e não o isolado.
O amor é a voz da vida total, que exige altruísmo para constitu- GUBBIO, PÁSCOA DE 1950
ir um eu mais vasto, do qual o ser vivente é uma célula e a sua
vida um momento, de modo que, como indivíduo separado,
como eu isolado, o ser parece mais uma negação, um limite à FIM
vida plena, que é eterna e universal.
O MISSIONÁRIO
Vida e Obra de Na primeira semana de setembro de 1931, depois da grande decisão fran-
ciscana, Cristo novamente lhe apareceu e, desta vez, acompanhado de São

Pietro Ubaldi Francisco de Assis. Um à direita e outro à esquerda, fizeram companhia a Pie-
tro Ubaldi durante vinte minutos, em sua caminhada matinal, na estrada de
Colle Umberto. Estava, portanto, confirmada sua posição.
Em 25 de dezembro de 1931, chegou-lhe de improviso a primeira mensa-
(Sinopse) gem, a Mensagem de Natal. Por intuição ele sentiu: estava aí o início de sua
missão. Outras Mensagens surgiram em novas oportunidades. Todas com a
mesma linguagem e conteúdo divino.
O HOMEM No verão de 1932, começou a escrever A Grande Síntese, a qual só termi-
nou em 23 de agosto de 1935, às 23h00min horas (local). Esse livro, com cem
Pietro Ubaldi, filho de Sante Ubaldi e Lavínia Alleori Ubaldi, nasceu em capítulos, escrito em quatro verões sucessivos, foi traduzido para vários idio-
18 de agosto de 1886, às 20:30 horas (local). Ele escolheu os pais e a cidade mas. Somente no Brasil, já alcançou quinze edições. Grandes escritores do
onde iria nascer, Foligno, Província de Perúgia (capital da Úmbria). Foligno fi- mundo inteiro opinaram favoravelmente sobre A Grande Síntese. Ainda outros
ca situada a 18 km de Assis, cidade natal de São Francisco de Assis. Até hoje, compêndios, verdadeiros mananciais de sabedoria cristã, surgiram nos anos se-
as cidades franciscanas guardam o mesmo misticismo legado à Terra pelo guintes, completando os dez volumes escritos na Itália:
grande poverelo de Assis, que viveu para Cristo, renunciando os bens materiais 01) Grandes Mensagens
e os prazeres deste mundo. 02) A Grande Síntese - Síntese e Solução dos Problemas da Ciência e do Espírito
Pietro Ubaldi sentiu desde a sua infância uma poderosa inclinação pelo
03) As Noúres - Técnica e Recepção das Correntes de Pensamento
franciscanismo e pela Boa Nova de Cristo. Não foi compreendido, nem poderia
sê-lo, porque seus pais viviam felizes com a riqueza e com o conforto proporci- 04) Ascese Mística
onado por ela. A Sra. Lavínia era descendente da nobreza italiana, única herdei- 05) História de Um Homem
ra do título e de uma enorme fortuna, inclusive do Palácio Alleori Ubaldi. As- 06) Fragmentos de Pensamento e de Paixão
sim, Pietro Alleori Ubaldi foi educado com os rigores de uma vida palaciana. 07) A Nova Civilização do Terceiro Milênio
Não pode ser fácil a um legítimo franciscano viver num palácio. Naturalmen- 08) Problemas do Futuro
te, ele sentiu-se deslocado naquele ambiente, expatriado de seu mundo espiritual. 09) Ascensões Humanas
A disciplina no palácio, ele aceitou-a facilmente. Todos deveriam seguir a orien- 10) Deus e Universo
tação dos pais e obedecer-lhes em tudo, até na religião. Tinham de ser católicos
Com este último livro, Pietro Ubaldi completou sua visão teológica, além
praticantes dos atos religiosos, realizados na capela da Imaculada Conceição, no
de profundos ensinamentos no campo da ciência e da filosofia. A Grande Sínte-
interior do palácio. Pietro Ubaldi foi sempre obediente aos pais, aos professores, à
se e Deus e Universo formam um tratado teológico completo, que se encontra
família e, em sua vida missionária, a Cristo. Nem todas as obrigações palacianas
ampliado, esclarecido mais pormenorizadamente, em outros volumes escritos
lhe agradavam, mas ele as cumpriu até à sua total libertação. A primeira liberdade
na Itália e no Brasil, a segunda pátria de Ubaldi.
se deu aos cinco anos, quando solicitou de sua mãe que o mandasse à escola, e
O Brasil é a terra escolhida para ser o berço espiritual da nova civiliza-
aquela bondosa senhora atendeu o pedido do filho. A segunda liberdade, verdadei-
ção do Terceiro Milênio. Aqui vivem diferentes povos, irmanados, indepen-
ro desabrochamento espiritual, aconteceu no ginásio, ao ouvir do professor de ci-
dentes de raças ou religiões que professem. Ora, Pietro Ubaldi exerceu um
ência a palavra “evolução”. Outra grande liberdade para o seu espírito foi com a
ministério imparcial e universal, e nenhum país seria tão adaptado à sua mis-
leitura de livros sobre a imortalidade da alma e reencarnação, tornando-se reen-
são quanto a nossa pátria. Por isso o destino quis trazê-lo para cá e aqui com-
carnacionista aos vinte e seis anos. Daí por diante, os dois mundos, material e es-
pletar sua tarefa missionária.
piritual, começaram a fundir-se num só. A vida na Terra não poderia ter outra fi-
Nesta terra do Cruzeiro do Sul, ele esteve em 1951 e realizou dezenas de
nalidade, além daquelas de servir a Cristo e ser útil aos homens.
conferências de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Em oito de dezembro do ano se-
Pietro Ubaldi formou-se em Direito (profissão escolhida pelos pais, mas ja-
guinte, desembarcaram, no porto de Santos, Pietro Ubaldi acompanhado da es-
mais exercida por ele) e Música (oferecimento, também, de seus genitores), fez-se
posa, filha e duas netas (Maria Antonieta e Maria Adelaide), atendendo a um
poliglota, autodidata, falando fluentemente inglês, francês, alemão, espanhol, por-
convite de amigos de São Paulo para vir morar neste imenso país. É oportuno
tuguês e conhecendo bem o latim; mergulhou nas diferentes correntes filosóficas e
lembrar que Ubaldi renunciou aos bens materiais, mas não aos deveres para
religiosas, destacando-se como um grande pensador cristão em pleno Século XX.
com a família, que se tornou pobre porque o administrador, primo de sua espo-
Ele era um homem de uma cultura invejável, o que muito lhe facilitou o cumpri-
sa, dilapidou toda a riqueza entregue a ele para gerencia-la.
mento da missão. A sua tese de formatura na Universidade de Roma foi sobre A
Em 1953, Pietro Ubaldi retornou à sua missão apostolar, continuou a re-
Emigração Transatlântica, Especialmente para o Brasil, muito elogiada pela ban-
cepção dos livros e recebeu a última Mensagem, Mensagem da Nova Era, em
ca examinadora e publicada num volume de 266 páginas pela Editora Ermano
São Vicente, no edifício “Iguaçu”, na Av. Manoel de Nóbrega, 686 – apto. 92.
Loescher Cia. Logo após a defesa dessa tese, o Sr. Sante Ubaldi lhe deu como
Dois anos depois, transferiu-se com a família para o Edifício “Nova Era” (coin-
prêmio uma viagem aos Estados Unidos, durante seis meses.
cidência, nada tem haver com a Mensagem escrita no edifício anterior), Praça
Pietro Ubaldi casou-se com vinte e cinco anos, a conselho dos pais, que es-
22 de janeiro, 531 – apto. 90. Em seu quarto, naquele apartamento, ele comple-
colheram para ele uma jovem rica e bonita, possuidora de muitas virtudes e fina
tou a sua missão. Escreveu em São Vicente a segunda parte da Obra, chamada
educação. Como recompensa pela aceitação da escolha, seu pai transferiu para
brasileira, porque escrita no Brasil, composta por:
o casal um patrimônio igual àquele trazido pela Senhora Maria Antonieta Sol-
11) Profecias
fanelli Ubaldi. Este era, agora, o nome da jovem esposa. O casamento não esta-
va nos planos de Ubaldi, somente justificável porque fazia parte de seu destino. 12) Comentários
Ele girava em torno de outros objetivos: o Evangelho e os ideais franciscanos. 13) Problemas Atuais
Mesmo assim, do casal Maria Antonieta e Pietro Ubaldi nasceram três filhos: 14) O Sistema - Gênese e Estrutura do Universo
Vicenzina (desencarnada aos dois anos de idade, em 1919), Franco (morto em 15) A Grande Batalha
1942, na Segunda Guerra Mundial) e Agnese (falecida em S. Paulo - 1975). 16) Evolução e Evangelho
Aos poucos, Pietro Ubaldi foi abandonando a riqueza, deixando-a por con- 17) A Lei de Deus
ta do administrador de confiança da família. Após dezesseis anos de enlace ma- 18) A Técnica Funcional da Lei de Deus
trimonial, em 1927, por ocasião da desencarnação de seu pai, ele fez o voto de
19) Queda e Salvação
pobreza, transferindo à família a parte dos bens que lhe pertencia. Aprovando
aquele gesto de amor ao Evangelho, Cristo lhe apareceu. Isso para ele foi a 20) Princípios de Uma Nova Ética
maior confirmação à atitude tão acertada. Em 1931, com 45 anos, Pietro Ubaldi 21) A Descida dos Ideais
assumiu uma nova postura, estarrecedora para seus familiares: a renúncia fran- 22) Um Destino Seguindo Cristo
ciscana. Daquele ano em diante, iria viver com o suor do seu rosto e renunciava 23) Pensamentos
todo o conforto proporcionado pela família e pela riqueza material existente. 24) Cristo
Fez concurso para professor de inglês, foi aprovado e nomeado para o Liceu São Vicente (SP), célula mater. do Brasil, foi a terceira cidade natal de Pie-
Tomaso Campailla, em Módica, Sicilia – região situada no extremo sul da Itália tro Ubaldi. Aquela cidade praiana tem um longo passado na história de nossa
– onde trabalhou somente um ano letivo. Em 1932 fez outro concurso e foi pátria, desde José de Anchieta e Manoel da Nóbrega até o autor de A Grande
transferido para a Escola Média Estadual Otaviano Nelli, em Gúbio, ao norte da Síntese, que viveu ali o seu último período de vinte anos. Pietro Ubaldi, o Men-
Itália, mais próximo da família. Nessa urbe, também franciscana, ele trabalhou sageiro de Cristo, previu o dia e o ano do término de sua Obra, Natal de 1971,
durante vinte anos e fez dela a sua segunda cidade natal, vivendo num quarto com dezesseis anos de antecedência. Ainda profetizou que sua morte acontece-
humilde de uma casa pequena e pobre (pensão do casal Norina-Alfredo Pagani ria logo depois dessa data. Tudo confirmado. Ele desencarnou no hospital São
– Rua del Flurne, 4), situada na encosta da montanha. José, quarto No 5, às 00h30min horas, em 29 de fevereiro de 1972. Saber quan-
A vida de Pietro teve quatro períodos distintos (v. livro Profecias – “Gêne- do vai morrer e esperar com alegria a chegada da irmã morte, é privilégio de
se da II Obra”): dos 5 aos 25 anos  formação; 25 aos 45 anos  maturação in- poucos... O arauto da nova civilização do espírito foi um homem privilegiado.
terior, espiritual, na dor; dos 45 aos 65 anos  Obra Italiana (produção concep- A leitura das obras de Pietro Ubaldi descortina outros horizontes para uma
tual); dos 65 aos 85 anos  Obra Brasileira (realização concreta da missão). nova concepção de vida.