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CONFEDERAÇÃO ABOLICIONISTA

ABOLIÇÃO IMIMEDIATA

SEM INDEMNISAÇÃO

RIQ l^E JANEIRO


•' •. r.'1 . -i
T y p . CENTRAL, de K i í a C õ s t » <•;-
7 TRÀVBSSa 0 0 OUVIDOR 7

1883
ABOLIÇÃO 1M MEDIATA

SEM INDEMNISAÇÃO

• Os mais sanhudos escravocratas confessam hoje


publicamente: — a escravidão c um cancro j não Ba mais
q u e m ouse negar q u e ^escravidão é a gangrena nacional;
q u e 6 a causa primaria d£ todas as misérias e vesgtfnhas .
q u ê affligem este i m p é r i o ; q u e é o obstáculo m á x i m o á
ijitBiigração, ao progresso d a agricultora, d a industria e
d o Commercio no Brazil.

Assim, pois, abolicionistas e escravocratas estão


perfeitamente de a c c ô r d o na classificação desse c r i m e
o m n i m o d o , que se c h a m a escravidão.

E m rigor, o p o n t o único d e di.yergencia está n a —


Indcmnisafão, ,
Os escravocratas, depois de terem explorado a raça
africana durante tres séculos, querem ainda que a nacio-
nalidade brazileira, victima primaria de seus crimes, lhes
pague quatro, cinco ou dez vezes o preço, por que
adquiriram o escravo primitivo.
P o r q u e è necessário ter b e m em l e m b r a n ç a q u e o s
africanos, importados antes d e 1831, custaram d e i o o $ o o o
a 2oo$ooo, q u a n d o não, u m a pipa de aguardente o u
alguns rôlos d e f u m o ; e que os africanos, posteriores
a 1831, s ã o perfeitamente livres pelas leis, pelos decretos
e pelos r e g u l a m e n t o s vigentes, e, a i n d a mais, por tratados
solemnes c o m a Inglaterra.
O r a , o s escravocratas de C a m p i n a s ousam arrancar
2:ooo$ooo do fundo de emancipação, isto é, dez a
vinte v e z e s o v a l o r primitivo, para restituírem a liber-
d a d e a u m africano ou a u m dos seus descendentes.
I s t o é simplesmente m o n s t r u o s o ; só tem e x p l i c a ç ã o
p e l a i n f a m e subserviência dos juizes e das autoridades
constituídas aos p o t e n t a d o s do escravagismo.
N ó s abolicionistas n e g a m o s absolutamente o direito
á indemnisação.
A exploração do escravo é a mais torpe, a mais
c y n i c a e a mais i m m o r a l das industrias—Industria immo-
ral não tem direito d indemnisação
O E s t a d o j a m a i s p a g o u indemnisação a l g u m a aos!
d o n o s d e casas d e j o g o e t a v o l a g e m , que m a n d a fechar.
O Estado deportou os caftens, e jamais deu-lhes
indemnisação a l g u m a .
Euzebio de Queiroz, de saudosissima memoria,
deportou os contrabandistas de escravos; mandou metter
a pique seus navios; fechar seus trapiches,seus arma-'
zens e seus depositos, e jámais deu-lhes indemnisações.
alguma—Industria immoral não tem direito a Índetffnisaíãi>.
A g o r a mesmo está pendente dos tribunaès desta
capital um processo contra um caften de suas próprias
escravas., '
' . T o d o s sabem que foi necessaria toda a devotação
d è um dos nossos mais illustres abolicionistas para obri-
gar a policia da corte a acabar c o m os bordéis de
escravas importadas das províncias do norte. <
«li A exploração criminosa e atroz das amas de leite
cofitinúa, aqui mesmo; na capital do império, em p r é - :
sença d o parlamento e d o s mais altos tribunaès.
Os fazendeiros continuam a arrancar escravos aos
jurys para ir- matal-os á surra, quando não os deixam
morrer de fomê e de sêde sobre formigueiros, ou os q u e i -
mam naá fornalhas de assucar.... • V
N ã o ha senhor de escravo qüe não esteja perfeita-
mente convencido, na inteira consciência, de que é
injusto, immoral e iniquo explorando o escravo, e apôs-
sando-se d o fructo de seu trabalho.
Irrecusavelmente v Jndtotria immoralíBãó tm direito
d indemnisação.
J p V abolição deve ser immediata, instantanea e sem
indemnisação alguma.
- 6 —

II
\

É simplesmente absurdo p r e t e n d e r q u e o Estado


d e v e i n d e m n i s a ç ã o aos iníquos expoliadores do trabalho
dos escravos.
A e s c r a v i d ã o é u m c a n c r o , dizem os próprios escra-
v o c r a t a s : pois b e m , q u e m soffre de um c a n c r o p a g a a o
medico, que c o n s e g u e cural-o, e n ã o e x i g e delle indem-
nisação.
Q u e m soffre de um dente p o d r e , p a g a ao dentista,
que lhe arranca esse dente. J á m a i s vio-se o dentista in-
d e m n i s a r o paciente por têl-o l i v r a d o de um dente podre,
que lhe e m p e s t a v a a bô.ça, e c a u s a v a incessantes dores.
Q u e m p a d e c e d e uma. pustula, ou d e ura a b c e s s o ;
q u e m está c o m um . m e m b r o em estado d ç gangrena,
p a g a ao m e d i c o ou ao ciçprgião, q u e c o n s e g u e livral-o
d e tão miseráveis moléstias; j á m a i s se v i o medico, cirur-
g i ã o ou o p e r a d o r pagar i n d e m n i s a ç ã o aos doentes, q u e
c o n s e g u e curar.

A barbara e x p l o r a ç ã o do h o m e m , pelo h o m e m é
sempre a c o m p a n h a d a d e p e r i g o s imminentes, de. c p n -
flictos incessantes e d e p u n g e n t e s remorsos.
— 7 —

O atroz systema : de recompensar o trabalho d e seus


seraelhanies c o m maus tratos, c o m injurias, c o m degra-
dação e infamia, quando não c o m a surra, c o m a tortura
e c o m a morte não p ô d e f r a c c i o n a r sem luta quotidiana
entre o p p r i m i d o s e o p p r o s s o r e s ; entrè as victimas e seus
ferozes algozés.
Á imprensa só c h e g a m o s assassinatos' d o s senhores
e dos f e i t o r é s ; tudo o mais fica abafado nas masmorras
das fazendas,-mais tenebrosas d o que as dos castellos dos
barões feudaes da idade media....
S ó D e u s sabe quanto é lúgubre a historia intima das
senzalas e d ó s èitos das fazendas. ; .

•-'••' "O numero de envenenamentos, d e assassinatos, d e


infanticídios, d e abortos, de estrangulações a o nascer,
e x c e d e a quanto se p ô d e imaginar.
O s negociantes do H a v r e e d o L i v e r p o o l receberam
cadaveres .de escravos em caixas d e assucar. - ;
'•n Q u e m jámais revelou o n o m e dos monstros, que
c o m m é t t e r a m crimes tão atrozes e fraudes t ã o c y n i c a s f ! . . .
U m fazendeiro dizia-se c o m p a s s i v o e b o m para seus
escraVbs. Jámais tivera coragem para assistir: a-' uma
surra. Quando os barbaros feitores, sempre mais p r o -
p e n s o s á violência, do q u e o s proprios fazendeiros,; exi-
giam esse infernal castigo só para exemplo; elle simulava
uma viagem, o u uma visita a um visinho, e retirava-se a
tempo de não ouvir oè^gStíffdõs daquelles' que traba-
lhavam, noite e dia, desde muito antes d o nascer d o sol
até o s serões d e alta noite....
-- 8 --

E m dez annos, n a exploração de c e m e s c r a v o s e d e


uma légua quadrada de terra ubérrima, h a v i a c o n s e g u i d o
a c c u m u l a r uma fortuna d e oitocentos contos d e réis....
R e s o l v e u v e n d e r a fazenda e ir gozar n a E u r o p a .
E s t a v a fatigado d e s s a , v i d a d e algoz e d e carrasco....
P o r mais q u e se esforçasse para sufifocàr os gritos d a
consciência, c a d a m u r m u r i o da brisa, 0 trinado das pró-
prias aves na alvorada, parecia-lhe o suspiro d e um es-
c r a v o , morto d e s u r r a ; os v a g i d o s d e a l g u m a criança»
s u f f o c a d a ao nascer....
' V e n d e u fazenda e escravos.
N a vespera da partida a consciência l h e disse que
d e v i a dirigir a l g u m a s palavras de conforto, d e c o n s o l a ç ã o
e de despedida aos infelizes, que h a v i a m t r a b a l h a d o para
enriquecel-o.
Passou a noite sem poder dormir-. N ã o a c h a v a u m a
só phra.se para começar.... T i n h a um nó n a g a r g a n t a . . . .
P e l a m a d r u g a d a essa tempestade, que se f o r m a r a simul-
taneamente no cerebro e no coração, p r o r o m p e u e m so-
l u ç o s e em lagrimas....
O d e s g r a ç a d o f u g i o na impossibilidade d e encarar
suas victimas.... F u g i o c o b a r d e m e n t e c o m o u m ingrato,
c o m o um réprobo....
-- 9 --

III

O eximio abolicionista conselheiro Henrique de


Beaurepaire R o h a n argumentou brilhantemente contra a
estulta pretenção d o s exploradores de escravos á ilidem,
nisação, nestes memoráveis termos:
" Si os proprietários m e fallarem e m indemnisação,
c o m o c o n d i ç ã o necessaria da libertação, eu lhes respon-
derei q u e elles d e v e m se considerar amplamente indem-
nisados pelos serviços, que até aqui lhes tem prestado
o s escravos. C o m effeito, é sabido até a saciedade que,
c o m c i n c o annos d e trabalho, tem o senhor recuperado
c o m usura o valor venal da propriedade servil. Ora, são
passados mais de d e z annos, ha quasi d o z e , que foi pro-
mulgada a L e i de 28 de Setembro de 1871, e de então
para cá têm os proprietários auferido mais do d o b r o d o
valor d o s seus escravos.
" Si neste assumpto tivesse sido aquella lei mais
previdente, ha sete annos estaríamos livres d a escra-
vidão. "

Realmente s ã o insaciaveis os parasitas do trabalho

africano!
— 10—-

H a tres séculos que vivem á custá dos sacrifícios de


infelizes, que foram arrancar á Costa d'Africa, e ainda
querem hoje que se lhes pague dez ou vinte vezes o preço
da primitiva acquisiçáo ! !
— Fazem, por ventura, idéa da somma, que devem
em salario ás gerações, que se succederam no captiveiro
durante tres séculos ?
T o m e m o s ' o algarismo de 1 , 5 0 0 , 0 0 0 escravos com
um salario de i f o o o , durante' 3 0 0 annos, ou 90,000
dias úteis, e chegaremos a o prodigioso algarismo d e
•t35.ooo.o0o de contos de réis.
N o s doze annos, decorridos depois da lei Rio
Branco, vós tendes usurpado do escravo só em salarios:
— 5.400.000 contos de réis!...
O relatorio do ministério da agricultura, que acaba
de ser publicado, demonstra que os iniquos usurpadores
do trabalho alheio reteberam depois d a promulgação d a
L e i ' d e i lE m a n•c i p, a ç ã o : - >
A o Estado. . . . . . . . ....... 9> O I O : 7S5Í5$5
Aos, próprios e s c r a v o s . . . . . . . .
D e abolicionistas e e m a n c i p a d o r e s . . . 4i269:996$334

Somma... •...thWbsMW

Perto d e »4,000 contos de réis, apezar.da deficiencia


dos algarismos officiaes, confessada no próprio relàtpriq,

' .•_ T o d a a.despeza, feita debalde des4e D . João V I até
hoje, em tentativas de immigração e de colonisaçãp, deve
— II —

ser carregada á negra e ominosa conta dos m o n o p o l i s a -


dores da terra e dos traficantes de carne humana.
O r a , contam-se por centenas de mil contos de réis
as sommas esbanjadas em esforços baldados e em tenta-
tivas frustradas d e colonisação, em presença de senhores
feudaes com seus infinitos latifúndios e c o m seus milha-
res de escravos.
M a s o calculo, o orçamento realmente impossível é
o da v e r g o n h a nacional, causada pelos traficantes negrei-
ros, d e s d e os tempos coloniaes até o dia da sua extermi-
n a ç ã o por E u z e b i o de Queiroz.
T o d a s as misérias do Bill-Aberdeen e do c o n f l i c t o
Christie são negras parcellas, que d e v e m ser l e v a d a s á
c o n t a dos Escravocratas.
A esquadra nacional empregada, desde 1840 até
1855, e m perseguir navios n e g r e i r o s ; os presidentes
escravocratas a b r i g a n d o os hediondos contrabandistas
sob as baterias d o F o r t e do M a r na B a h i a ; a fortaleza
d e P a r a n a g u á atirando sobre os cruzadores inglezes ;
t o d a s essas vergonhas, todas essas infanrias n ã o tiveram
outra causa senão a desmarcada ambição, o torpissimo
parasitismo, e a gananCia sem limites dos traficantes d e
carne humana....

A h ! Si houvesse justiça neste império, serieis vós


E s c r a v o c r a t a s iníquos, a pagar-nos indemniskção por
tantos prejuízos e por tantas vergonhas.
— 12 —

IV

O mais grave defeito da lei de 28 de Setembro de


1871 foi não ter marcado prazo para a extincção c o m -
pleta d a escravidão neste império.
Si elia tivesse fixado o prazo de dez annos, já estaria
hoje o Brazil c o m dous annos de regimen de liberdade,
c o m todas as franquias para receber immigrantes.
Sem esse prazo,-o problema ficou d e solução intei-
ramente indeterminada.
O f u n d o d e Emancipação é reconhecidamente in-.
suficiente. Á s insignificantes cotas, que c h e g a m aos
Jfounicipios escravagistas, são defraudadas pelos escravo-
cratas e pelos seus clientes, na indemnisaçâo por preços
exorbitantes e escandalosos d e escravos, incapazes; dê
lhes prestar mais serviços. '
Municípios ha que, em d o z e annos, ainda nâp
acharam tempo para enviar as estatistigís, ordenadas
pela lei e pelos regulamentos, para o ministério da agri-
cultura. O ultimo relatorio deste ministério confessa
- 13 —

ignorar a população escrava de 42 municípios, a sa-


ber :

N o Maranhão 6
No 7
N? 21
E m Minas-Geraes 8

Somma 42

Á província de S. Paulo tem desobedecido ás mais


repetidas e terminantes ordens, para enviar ao governo
imperial dados s o b f e o movimento d o elemento servil.
Os presidentes e os agentes governamentaes são impo-
tentes perante Os barões' feudaes, monopolisadores de
léguas quadradas de terras, e exploradores de centenas
de escravos!

D e tu:do isso resulta q ú ê ninguém sabe qual o nu-


mero real de escravos existentes neste império, e, muito
menos, quantos morreram e quantos foram emancipados.
O ministério da agricultura n o rélatorio, que acaba
de apresentar ás Camaras, apresenta nessa duvida d o u s
algarismos—194.148 e 202.960.
O segundo numero p a r e c e o mais e x a c t o : porque
até 30 de Junho de 188 i estavam registradas as seguintes
baixas: '

Por o b i t o . . . . ,132.777
Por m a n U m i s s õ e s . . . . . . . . . . . . 70.183

Somma., . ; 20Í.960
— 14 —

M a s o n d e a . i g n o r a n c i a é c o m p l e t a ; o n d e a fraude,
a g a n a n c í a e a iniquidade dos escravocratas attingiràti;'
a o limite m á x i m o é q u a n t o aos i n g ê n u o s o u aos nascidos
d e p o i s da L e i R i o B r a n c o . O é s c a n d a l o 'tem c h e g a d o a o
p o n t o de v e n d e r e m ingênuos e m praça publica, a des-
peito dos reclamos incessantes d a imprensa abolicionista.
A s promettidas escolas e f a z e n d a s normaes pafa
e d u c a ç ã o dos ingênuos jamais se realisaram. O s infelizes,
q u e têm e s c a p a d o ás garras das parteiras, ás sevícias n a s
mãis, á fome, á s ê d e e aos m ã u s tratos, j a z e m por. esses
eitos e por essas senzalas entre os. p o r c o s e os-cães. i
* T u d o isso demonstra, que a a b o l i ç ã o deve ser imme-
diata e total, sem c o n d i ç ã o a l g u m a .
N ã o se p ô d e contemporisar c o m o crime, sem d a r
o r i g e m a n o v a s fraudes e a crimes m a i o r e s .
O s escravocratas habitüaram-se a , considerar suas
victimâs c o m o objecto de m e r c a d o e d e especulação, «
proseguem desassombradamente n a carreira vertiginosa
d a s mais;torpes iniquidades. «
A abolição d e v e ser c o n s i d e r a d a c o m o a reparação
das expoliações, das atrocidades e dos crimes, cortímet-
tidos pelos escravocratas, desde os tempos coloniaes,
q u a n d o c a ç a v a m índios, a t é h o j e q u e m a t a m i n g ê n u o s ;
e descem até a a b j e c ç ã o d e constituirem-se ca/tens d e
suas próprias escravas....
D e c i d i d a m e n t e n ã o h a outra s o l u ç ã o jjOssivel:
— A abolição deve ser i m m e d i a t a , instantanea e
sem indemnisação a l g u m a . • "
- 15 —

VII

A s fraudes, os escandalos, os crimes e as atroci-


dades, commettidos depois da L e i de 28 d e Setembro
de 1S71, demonstram á toda a evidencia, c o m o são de-
ficientes e até contraproducentes as medidas parciaes e
indirectas para extinguir essa monstruosidade, que se
denomina — escravidão.
Quando se votou essa Lei, entre flores e lagrimas d e
jubilo, parecia que tudo estava t e r m i n a d o ; .que, dentro
de p o u c o s annos, nossa pátria estaria livre da infamia d e
ser a única nacionalidade americana e x p l o r a n d o o tra-
balho escravo.
Repetíamos nas enthusiasticas illusões d o m o m e n t o :
— " Ninguém mais nasce escravo 110 Brazil, " e embâla-
vamos na d o c e esperança de ter dado g o l p e mortal n o
demonio do esclavagismo.
Vieram depois as desillusões....
N ã o sabíamos c o m o é o m n i m o d o , multiforme, insa-
ciável e rafractario o crime da e s c r a v i d ã o !
L o g o nos primeiros annos, uma resistência surda
ao cumprimento d a Lei — R i o Branco. Chegaram a
- i6 —

accumular q u a t r o o u c i n c o mil c o n t o s d e réis d o fundo


de E m a n c i p a ç ã o nas arcas do T h e s o u r o , antes d e li-
bertar um só escravo.
Simultaneamente davam-se as mais c y n i c a s fraudes
na matricula d o s escravos.

Alteraram as idades d e t o d o s os A f r i c a n o s , esçravi-


saçlos depois de 1831 ; substituíram os mortos p o r v i v o s ,
e fizeram dos livros das matriculas u m a nova Costa
d'Africa d e pirataria negreira á cuberto d o s c r u z a d o r e s
inglezes. Um famoso escravocrata, d e p u t a d o e fazen-
deiro d a Província d e S. Paulo, apezar d e Ministro d o s
Estrangeiros, n ã o trepidou confessar èm pleno parla-
m e n t o , q u e as matriculas estavam f r a u d a d a s ; q u e os
africanos, livres pela Lei, de 1831, tinham sido matricu-
lados c o m o escravos.

O relatorio d o ministério da agricultura, deste a n n o ,


p e d e a revisão d a matricula.

N ó s abolicionistas exigimos e urgimos p o r essa r e -


visão ; nós queremos a c o m p a n h a r e inspeccionar a n o v a
matricula; queremos apanhar os barões feudaes em
flagrante crime d e escravisação; q u e r e m o s leval-os a o s
tribunaes, e votal-os á perpetua e x e c r a ç ã o d a patria e
da humanidade.

Bastíi essa revisão,: estamos certos, para restituir a


liberdade a mais. d e c e m mil victimas ida insaciavel. g a -
ríancia ; d o feroz parasitismo dos e x p l o r a d o r e s da r a ç a
africana.
— 17 -

A pirataria em t o m o d o s berços, que T o r r e s - H o m e m


j u l g o u ter fulminado c o m os raios d e sua maravilhosa
eloquencia, ressuscitou para os miseros a b a n d o n a d o s e
desprotegidos ingênuos.
A p r o t e c ç ã o d o s juizes d e orphãos, fraquíssima nas -
capitaes, foi inteiramente nulla d o s districtos ruraes.
— Q u a l o juiz que j á m a i s o u s o u penetrar e m u m a
fazenda, percorrer as senzalas, inquirir d a sorte das mãis
e dos. seus desgraçados filhinhos ?
E á os esperava o barão feudal, c e r c a d o d e capangas
p r o m p t o a mandar assassinal-o, surral-o, esp.mcal-o, ott
cortar-lhe as orelhas, c o m o fizeram e m urna c o m a r c a d a
p r o v i n d a d e S. Paulo.

, Omnipotentes e m suas mysteriosas e impenetráveis


fazendas, fizeram d o s i n g ê n u o s quanto lhes dictou à fero-
c i d a d e d e suas paixões. P o r despeito d e n o m i n a r a m - n ' o s
filhos do Paranhos, filhos do Rio Branco, e deixaram-n'os
morrer á m i n g u a nas senzalas. A s mãis foram i m m e d i a t a -
m e n t e para os.cannaviaes e para os cafezaes, ou v i e r a m
remettidas para o grande m e r c a d o d o R i o d e Janeiro,
engrossar a torpíssima industria das amas de leite..,. p
V e d e b e m ; não é possível contemporisar com o
c r i m e d a Escravidão. ,
É p r e c i s o extinguil-o, eliminal-o, destruit-o total-
mente pela A b o l i ç ã o i m m e d i a t a , instantanea, e sem in-
d e m n i s a ç ã o d e especie alguma.
— i8 —

VI

O maior d a m n o financeiro e e c o n o m i c o , produzido


p e l o escravagismo sobre a n a ç ã o brazileira, p r o v é m d o
m o n o p o l i o territorial. 'i
Os exploradores da raça africana são simultanea-
mente grandes monopolisadores d e terra.
Ilisaeiaveis e m sua ambição n e m permittem a for-
mação da Democracia Rural c o m pequena lavoura/
exercida p o r brazileirôs, nem o estabelecimento de
immigrantes agricultores e proprietários.
Nas regiões agrícolas o brazileiro n ã o tem outro
recurso senão reduzir-se a a g g r e g a d o ou, mais rigorosa-
mente, a capanga, d e algum fazendeiro ou senhor de
engeijho.
E m importante artigo sobre — Escolas Agrícolas,—
datado d e 31 de M a i o de 1882, o benemerito philan-
tropo, conselheiro Henrique de Beaurepaire Rohan
escreveu: ..

" Mas, emquanto se discute a conVenienciá de


agenciar braços para a lavoura; emquanto se oscilla,
entre o pensamento de attrahir c o l o n o s europeus, ou d è
— I9 —

" importar a s i á t i c o s , — o n d e ficam os> brazileiros? Que


destino Se reserva a o s natüraes desta terra ? — - S a , por-
ventura, falta de g e n t e neste paiz ? — N ã o , p o r certo.
H a milhões d e homens, que se p o d e r i a m com proveito
entregar aos trabalhos d a g r a n d e l a v o u r a .

" E porque n ã o tiram delles toda a vantagenv


possível?

" J á sinto a resposta. O s brazileiros são indolentes",


preguiçosos, incapazes de persistirem no trabalho.
Ainda que isso n ã o passe de uma grande falsidade,
a d m i t í a m o s que assim s e j a ; mas perguntarei e n t ã o , —
q u a l é a c a u s a de t ó d ó s esses defeitos moraes?

" É a miséria e a ignorancia. A liiiseria, por que


habitando um paiz tão vasto, não podem entretanto
a d q u i r i r a proprieídade'territorial, a q u a l pertence e x c l u -
s i v a m e n t e a o s fazendeiros, » e s t e s , admittindo-os a p e n a s
c o m p aggregaiios, r e s e r v a m o direito d e lhes manilái<
qiàiihar aí falhoças, q u a n d o e n t e n d e m conveniente
seus-interesses e x p e l i l - o s d a s u a p r o p r i c d a d e .

i 1 " É evidente q u e , em semelhantes c o n d i ç õ e s , â c a -


bíurihados, abatidos e m sua d i g n i d a d e , Os p ò b ü é s :

leiros n ã o p o d e m c r e a r a m o r a o trabalho, v e g e t a m m a i s
d o que v i v e m . A i g n o r a n c i a ; q u e os inhabiüta pára cer-
tos 1 Serviços, é uma c o n s e q u ê n c i a deste estado de cousas.
N e m receberam a conveniente educação, nem apodém
d a r a seus filhos. "
— JO —

Nestas sabias palavras está resumida toda a malé-


fica influencia, exercida sobre a agricultura nacional
pelos exploradores d e escravos e monopolisadores; d a
terra. Formaram uma aristocracia bastarda, fundada n o
n ú m e r o de escravisados e nas léguas quadradas d e terras
monopolisadas.
Seus latifúndios são mais funestos do que os d a aris-
tocracia romana ; são mais fataes n o embrutecimento e
n a miséria das populações ruraes d o que os d o s Lan-
dlprds da Irlanda.
Querem que o brazileiro livre, ou o immigrante
europeu trabalhe ao lado d o escra v o ; soffra, c o m o elle,
t o d a a sorte de injuriasj d e maus tractos, d e injustiças e
d e iniquidades.
Como bem disse Jean Baptiste Say, o senhor d o
escravo, d e chicote na mão, julga-se dispensado de
raciocinar. Não admitte replica, nem contradicção.
O habito d o absolutismo e d a ityrannia p a r a . c o m os
escravos reduzio os fazendeiros e os senhores de engenho
á impossibilidade de tratar c o m homens livres. A ' menor
contrariedade recorrem aos meios violentos : a o ferro; a o
fogo; ao, assassinato e ao incêndio das propriedades
ruraes dos foreiros e dos aggregados.
Tudo isso é intrínseco, é fatalmente innato na
Índole perversa d o demonio. d o esclavagismo : Só acan-
hará n o dia da A b o l i ç ã o .
— 21 —

VII

A P r o p a g a n d a Abolicionista, no m o m e n t o actual,
c o m p r e h e n d e duas grandes e momentosas reformas sp-
ciaes:

i . 0 A A b o l i ç ã o immediata, instantanea e sem indem-


nisação alguma, em dinheiro ou em prestação de serviços
p o r prazo d e t e r m i n a d o ; ísto é, a terminação absoluta e
c o m p l e t a extincção d o e s c l a v a g i s m o ;
2.° A destruição d o m o n o p o l i o territorial, a termi-
n a ç ã o d o s latifúndios; a eliminação d a landocracia, o u
"da aristocracia rúral d o s exploradores d a raça africana.
O primeiro e s c ô p o rèune no Partido Abolicionista
t o d o s oS verdadeiros philántropos; todos os que crêm n a
I g u a l d a d e e n à Fraternidade de todos os membros d a
Família H u m a n a ; todos o s qüè c o m p r e h e n d e m què a c ô r
negra n ã o é um; estigma, e quê a c ô r branca não é u m
privilegio d e exploração das raças menos avançadas ria
e v o l u ç ã o social.

-'' O s e g u n d o e s c ô p o é o de todos os Democratas, e d e


todos os Economistas;: e de todos os Financeiros, d i g n o s '
desses n o m e s ; é a aspiração de t o d o s oáquê,-intellifeentie
— 22 —

e cordialmente, se interessam p e l o futuro, pelo progresso j


e pela prosperidade d o Brazil.
Ora, tudo depende, em nossa patria, da organização
da D e m o c r a c i a R u r a l ; impossível, p o r certo, emquanto
a terra estiver monopolisada em latifúndios d e léguas
quadradas, e fôr lavrada por centenas d e escravos.

N o artigo anterior demonstrámos, com as doutas


palavras do incansavel Abolicionista conselheiro H e n r i -
que de Beaurepaire R o h a n , a maléfica influencia d o s
exploradores de escravos sobre a p o p u l a ç ã o rural deste
i m p é r i o ; hoje daremos um e x e m p l o flagrante de barbaria
destes Landlords.

F o i publicado n o periódico — O Thermomeiro — d e


Nazareth, na p r o v i n d a de P e r n a m b u c o , em data de 7 d'e
M a i o d e 1881 o seguinte:

" A noticia de u m facto bem grave, que se deu e m


dias da semana passada no e n g e n h o Baraúna d o districto
de Alagoa-Secca, nesta comarca, acaba de nos ser trans-
mittida por pessoa criteriosa. D a m o s - l h e publicidade,
c h a m a n d o sobre elle a attenção das nossas autoridades e
principalmente d o Sr. promotor publico.

" O tenente coronel T r a j a n o Olynipio d a Cunha


G o u v ê a , rendeiro d o engenho acima n o m e a d o , t o c o u
fogo em duas casas de m o r a d o r e s seus, q u a n d o se
achavam esses n o trabalho; inscientes de, que suas pobres
moradas estai am sendo consumidas pelas chamas, e suas
famílias presas da morte a mais cruel.
JjEpH§i|
— 34 —

" A s victimas são, c o m o b e m se p ô d e suppôr, pes-


soas desfavorecidas de recursos; não p o d e m , portanto,
contender c o m o Sr. T r a j a n o ; e c o m o o que fica descripto
se acha c o m p r e h e n d i d o na 2* partç d o art. 266 d o nosso
C o d i g o Crimina], chamamos especialmente a attenção d o
prbmotor p u b l i c o da c o m a r c a para o facto. "

Certamente, apezar desse brado da imprensa, o


crime ficou impune. Os senhores de engenho e os fazen-
deiros são omnipotentes nos municipios d o interior; ahi
reinam c o m o os barões feudaes da idade média.
Fazem justiça e m suas próprias fazendas ; são juizes
e são simultaneamente algozes e carrascos; acostumados
a expoliar quotidianamente os escravos não têm o m e n o r
escrupulo em apossarem-se das culturas e das cabanas
d o s seus aggregados, quando não as incendeiam como
fez esse tenente-coronel.

• A abolição, nós o esperamos, acabará c o m todos


esses anachronismos, c o m todos eSses crimes, c o m todas
essas iniquidades.
— 25 —

VIII

Os perniciosos effeitos d o m o n o p o l i o territorial, fun-


d a d o 110 esclavagismo, foram magistralmente d e m o n s -
trados pelo Sr. Joaquim M e l l o R e g o em sua carta, datada
d o R e c i f e em i a de M a i o d e 1881, para o Jornal do
Commerciot nestas doutas palavras :
" O augmento da p r o d u c ç ã o em todos os engenhos
d a provincia de P e r n a m b u c o c o n v e n c e da seguinte ver-
d a d e : que o desenvolvimento da lavoura está entre nós
na razão directa da diminuição d o b r a ç o escravo.
" Aqui j á são raros os engenhos, que contam ainda
mais de 30 eseravos, e aquelle que não faz eni annos
regulares, pelo menos 2.500 pães, ,é por excepção. A ver-
d a d e é, porém, que semelhante progresso é sempre rela-
tivo a certas c o n d i ç õ e s : a agricultura encontra barreiras,
que lhe o p p õ e a sua própria constituição, provenientes
d a ignorancia dos processos agrícolas, da falta de instruc-
ç ã o profissional por um l a d o , e, p o r outro, d o enfeuda-
mento da terra.
, . . #
" Francamente esse enfeudamento existe; nao se

p ô d e escurecêr, e m b o t a seja disfarçado c o m o titulo de


— 26 _

grande l a v o u r a ; como si a grande propriedade fosse


condição, essencial d a g r a n d e cultura.
" A estreita zona agricola, que possuímos, está e m
p o u c a s mãos, e, em geral, o proprietário tem seques-
trado uma grande extensão d e terra, que não cultiva pro-
porcionalmente, nem deixa cultivar, senão sob as c o n d i -
ções que se sabem.
" O lavrador, isto é, o individuo que planta nas
terras d o senhor do e n g e n h o , paga pelo espaço de ter-
reno, por elle lavrado, mais de metade d o p r o d u c t o d e
sua colheita; não tem si quer o' direito de inspecção a
respeito d o numero d e pães de assucar, , q u e d ã o suas
cannas, e vive s o b uma tutella feudal.

" A terra, o principal instrumento d o trabalho agri-


cola, è entre nós muito cara e, e m geral, p o j i c o utili-
s a d a : aqui, ás portas da cidade, p o r assim dizer, ha
vastos campos baldios d e engenhos, c o m o dizem, de fogo
morto, c a m p o s q u e p o d i a m ser divididos e dados de afo-
ramento para a p e q u e n a c u l t u r a ; mas d o s quaes só se
arrenda ou vende u m a pequena parte por alto p r e ç o .
" Os campos de Guararapes, que ficam à duas
léguas desta capital, á margem da estrada de ferro, estão
no m e s m o estado virgem e »silvestre de, ha 200 atinps
atraz, n o tempo em q u e se ferira alli a memorável b a -
talha contra os H o l l a n d e z e s . "
— 37 —

A n a l y s e m o s , antes d e proseguir estes factos :


x? O augmento de producção p r o p o r c i o n a l á dimi-
nuição do braço escravo, c o m o u m seguro prenuncio d a
prosperidade geral, que resultará d a A b o l i ç ã o ;
2? O enfeudamento da terra pelos senhores de es-
c r a v o s ; a absorpção e o m o n o p o l i o territorial ;

3? A s injustiças e as iniquidades, exercidas sobre

os pequenos lavradores pelos barões feudaes d o e s c l a -

vagismo.

4» A Mella feudal, a soberba, o o r g u l h o e a avareza,

c o m que tratam os rendeiros e os foreiros, isto é, os e l e -

mentos q u e hão de constituir a D e m o c r a c i a R u r a l Brazí-

leira.
5? O exemplo flagrante dos famosos c a m p o s de G u a -
rarapes,' baldios, estereis, sem a p r o v e i t a m e n t o algum,
h a dous sepulos, desde os tempos dos h o l l a n d e z e s .
Basta detalhar estes factos p a r a g a n h a r a mais p r o -
f u n d a c o n v i c ç ã o de que é necessário, d e q u e é. urgente,
- d e q u e é indispensável a abolição p a r a o progresso e para
a prosperidade da própria agricultura n a c i o n a l .
— 28 —

VII

N a mesma carta d o Jírnal do Commercio, datada


d o Recife em 12 de Maio de 1881, o Sr. Joaquim M e l l o
R e g o dá um outro exemplo de m o n o p o l i o territorial tão
escandaloso, c o m o o d o s c a m p o s de Guararapes, nestes
termos:

" A villa de Jaboatão está situada toda e m solo


foreiro aos proprietários d o engenho Bulhões, e v ã o Vêr
alli quanto se paga de f ô r o por p a l m o de t e r r a ; razão
p o r q u e aquelle logar aliás de tão a m e n o clima, e d e tan-
tas proporções para crescer e desenvolver-se, n ã o tem -
prosperado.

" O facto está ahi á vista de todos sob muitas


outras manifestações que escuso referir: c h a m e m - m e
embora discipulo d e R i c a r d o e Proudhon, inimigo d a
propriedade,—argumento fevOrito d o s interessados nessa
o r d e m d e cousas.

" M a s elles dizem de si o m e s m o q u e dizia aquelle


celebre Geral dos jesuítas ao papa Clemente X I V : —Sint
ut sunt aui non sittf.
— 29 —

" Falla-se tanto do atrazo e ruína d a lavoura em


u m sólo ubérrimo e tão favorecido pela natureza; o que
decahe n ã o é a industria é o seu m o d o de s e r : a a n o r -
malidade de sua organização fadai, e tranchons U mot,
o monopolio da terra, m o n o p o l i o que se quer manter à
outrance, ainda a custo de se fazer d o paiz uma vasta
colonia de exploração d o capital estrangeiro c o m o esta-
belecimento d o s engenhos centraes.
" Disse muito b e m o Sr, Herbert Smith no livro
que escreveu sobre o Brazil:—que o nosso systema finan-
ceiro animava o lavrador rico e atrazava o pobre.
As terras não p a g a m i m p o s t o ; as melhores que servem
para plantação de café, são compradas pelos capita-
listas, que as conservam durante annos sem cultival-as ;
que desse systema procediam dous grandes m a l e s : con-
servarem-se grandes extensões de terras incultas, e ele-
var-se o p r e ç o delias, de m o d o que ficam fora do
alcance das classes mais pobres.
" E , accrescenta o mesmo escriptor, foi lançando
um imposto sobre as terras incultas, è vendendo-as a
preço baixo e c o m facilidades para o pagamento, que se
colonisou o Oeste d o s Estados-Unidos, d e sorte a pros-
perar tanto que os agricultores da E u r o p a j á sfe assustam,
v e n d o que os productos dessas terras v ã o competir c o m
elles nós mercados europeus.
" O imposto territorial é p r e o c c u p a ç ã o velha d o s
nossos Estadistas, desde os primeiros tempos de nossa
I n d e p e n d ê n c i a ; p o d i a ser estábelecido, c o m o na Italia
- 30 -

e em outros paizes sobre a baze da renda, e pártircu-


larménte nas zonas, e m que funccionassem as estradas
d e ferro subvencionadas. ^
" M a s em nosso p a i z a terra 6 o capital, os dous
grandes motores do poder p r ó d u c t i v o da sociedade
estão enfeudados : u m p e l o g o v e r n o e outro pelos par-
ticulares. " <.;'<;»

A g o r a estão b e m demonstrados por um h o m e m pra-


tico e estudioso, c o m o o Sr. Joaquim Mello Rego,
t o d o s os d a m n o s e prejuízos, causados á nação brazi-
leira pela aristocracia feudal, q u e simultaneamente m ò -
nopolisa a terra e explora o escravo.

, O trabalho democrático actual deve ser, pois,1


d u p l o : c u m p r e libertar a terra e restituir a Liberdade
á raça africana. E m nosso estandarte deve ler-se — A b o -
lição e D e m o c r a c i a Rural.
Será pelo i m p o s t o territorial q u e conseguiremos a
subdivisão d o s ó l o , á p e q u e n a lavoura, a agricultura c o m
a propriedade, a D e m o c r a c i a Rural era u m a só p a l a v r a ;
a A b o l i ç ã o perniittirá a c o l o n i s a ç á o nacional estrangeira,
collocará o Brazil e m c o n d i ç õ e s analogas a da grande
Republica Norte-Àmericana.'
— 3i —

VII

• C o m o b e m disse o Sr. Joaquim M e l l o R e g o na


carta, citada em nosso ultimo artigo, o imposto territorial
é preoccupaçâo velha dos nossos, estadistas, desde os primei-
ros tempos de nossa Independência.
Realmente, desde 1808, desde a chegada d e D. J o ã o
V I ao Brazil:; o u melhor, desde que iniciou-se a organi-
sação desta nacionalidade, q u e está e m projecto o esta-
belecimento d o imposto territorial para acabar c o m os
latifúndios, e c o m a escandalosa usurpação pelos p o t e n -
tados escravocratas, pelos L a n d l o r d s deste império, d o s
terrenos nacionaes.

N ó s archivos do Parlamento lia grande numero de


projectos de imposto territorial, que jámais tiveram nem
m e s m o as honras de v o t a ç ã o , N o s iRelatorios dos minis-
tros encontram-se muitas referencias á nessidade d e es-
tabelecer-se o imposto territorial. O u l t i m o ministério
conservador e o primeiro d a actual situação liberal p r o -
puzeram o imposto territorial; chegou-se a votar u m
ensaio para o Município Neutro. F o i exactamente nesse
— s» —

triste ensaio que sacrficaram o digno engenheiro Fragoso,


de saudosa memoria.
Depois dessa catastrophe, um ministro d a Fazenda,
senhor de engenho e proprietário de escravos, eliminou
o imposto territorial; o proprio limitadíssimo ensaio no
Município Neutro desappareceu sob a influencia dos
grandes proprietários de pantanos e de capinzaes da
capital d o império
Eis aqui um trecho da interessante obra d o senador
Candido Baptista—-Sj-rf««« Financial do Brazil—, que
plenamente demonstra que, desde 1808 até hoje, debalde
lucta-se para arrancar o monopoliô territorial aos explo-
radores da raça africana:
" Desconheceu o governo portuguez inteiramente
o opportuno ensejo de aproveitar-se d o s plausíveis moti-
vos do momento p'ara estabelecer um razoavel imposto
territorial, abrangendo todas as terras já occupadas féral
das povoações e todas ás devolutas; que dessa época
em diante deverão ser vendidas em hasta publica, fixado
para esse fim um preço minimo e uniforme para servir
de regulador aos -licitantes; pratica da qual os Estados
Unidos haviam já dado salutar exemplo.
" Esta única ihédidá teria hahilitado exuberante*
mente o governo portuguez para fazer inteira abolição dos;
impostos, acima apontados, ou, ao menos, para modifi-
cal-os razoavelmente, de m o d o que menor obstáculo
oppuzessem ao desenvolvimento da industria e riqueza;
dò paiz; daria a ella por outra parte, ao domínio sobre a
— S3 —

propriedade territorial a seguridade, que ainda hoje lhe


falta c abriria finalmente o c a m i n h o para a d o p ç ã o d e u m
systema regular de colonisaçâo, altamente reclamada
pelas necessidades d a sua lavoura.
" M a s , l o n g e d e assim proceder, o g o v e r n o portu-
guez fez reviver, ao contrario, a ruinosa e rotineira pratica
d e concessões gratuitas d e sesmarias, sem discripção e
sem medida, de m o d o que o Brazil apresenta h o j e o
singular p h e n o m e n o d e um vastíssimo territorio, quasi
todo nominalmente possuido, e apenas aproveitado e m
diminuta parte.

C u m p r e não esquecer que o hoje d o senador Can^


dido Baptista refere-se ao anno de 1842* q u a n d o este
illustre combatente coritra a pirataria negreira imprimio
em S. Petersbürgo o seu—Systema Financial do Brazil—;
mas o hoje actual, Junho d e 1883, é ainda mais desgra-
ç a d o porque estão decorridos 41 ânuos, e os barões feu-
dàès deste império continuam a monopolisar todo o
território nacional, i m p e d i n d o simultaneamente a immi-
gração e o progresso d a D e m o c r a c i a R u r a l Brazileira.
Evidentemente é 0 mais momentoso problema da
actualidade extinguir todas essas batbarias pela Abolição
Iràmediata e pelo imposto territorial.
— 34 —

VII

O imposto territorial é o c o m p l e m e n t o necessário e


indispensável da A b o l i ç ã o ; é elle quem vai reformar t o d o
o nosso systema agrícola, permittindo a lavoura por im-
migrantes e por nacionaes, e c o l l o c a n d o - a nas mesmas
c o n d i ç õ e s de riqueza e de prosperidade que a d a grande
R e p u b l i c a dos Estados Unidos.
N o m o m e n t o actual t o d o o systema financeiro deste
império está em crise; não ha outra solução efficaz e p o -
sitiva senão o imposto territorial.
A questão é sómente encontrar um ministro, assaz
forte e d e v o t a d o para fazer votar esse imposto por u m '
senado e por uma camara, superabundantes de landlords,
fazendeiros e senhores de engenho, monopolisadores de
latifúndios e exploradores d e escravos.

Só p e l o imposto territorial poder-se-ha livrar as p r o -


v i n d a s d o s apuros financeiros, e m que ora se acham.
O imposto territorial p o d e ser p a g o , em devidas propor-
ções, parte a o g o v e r n o geral, e parte aos governos pro-
vinciaes.
- 35 -
Deste m o d o tem-se certeza de haver dupla fiscali-
s a ç ã o na cobrança do imposto territorial, e d e deduzir-se
a o minimo as fraudes dos monopolisadores de latifúndios
« dos usurpadores do território nacional.

Os impostos térritoriaes, estabelecidos nos diversos


paizes d a Europa são fundados sobre a renda d o solo.
Esta base é aristocratica e falsa ; inteiramente imprópria
á s instituições democráticas d o Continente Americano.

Fundando o imposto territorial sobre a renda do


solo, nada pagam os terrenos incultos : d'ahi resulta que,
na Europa, os L o r d s d a Inglaterra e os herdeiros d o s
barões feudaes do Continente ainda podem conservar
immensas florestas para c a ç a r veados e javalis, e varzeas
a l a g a d a s para c a ç a de patos selvagens, quando o p o v o
morre de fome por falta de campos para criar gado, e
d e terra para plantar trigo.

A verdadeira base para o, imposto territorial é a a d o -


ptada n a grande e verdadeiramente democratica,Repu-
blica dos Estados U n i d o s , onde pagam imposto as terras
incultas; sendo portanto impossível conservar latifúndios,
,e guardar para o barbaroi prazer d a caça, terrenos, q u e
podiam dar p i o e carne a milhares e milhares de famintos
proletários.

N o Brazil o imposto territorial deve ter principal-


mente em vista acabar c o m o monopolio territorial dos
senhores de escravos; extinguir o landlordismo, o enfeu-
damento do solo, ao mesmo tempo que a Abolição
- 3Ó -

eliminará radicalmente a nefanda e torpíssima e x p l o r a ç ã o


d o h o m e m pelo homem.
O g r a n d e e auspiciosíssimo escopo do imposto ter-
ritorial é a subdivisão do solo para possibilitar a i m m i -
g r a ç ã o espontanea, e a creação, o incremento e a pros-
peridade da D e m o c r a c i a Rural Brazileira.

O monopolio territorial, por si só, mesmo sem o


terrível auxiliar d a escravidão, é um mal g r a v í s s i m o ; . f o i
u m a das principaes causas da dissolução do Império
R o m a n o ; Latifunâia Italium perdiiknmt disse c o m t o d a
a razão Plínio.

A c t u a l m e n t e o monopolio territorial, o landlordismo,


c o m seus accessorios o b r i g a d o s o luxo e o absenteísmo,
fazem a d e s g r a ç a d a mísera I r l a n d a , e reduzem o prole-
tário inglez a ser o mais infeliz do mundo.

A p e z a r da obsoleta taxa dos pobres (poor tax); da


d e g r a d a n t e caridade official, n ã o ha pobreza mais triste
d o que a d a Inglaterra, o mais rico paiz do mundo....
C u m p r e estabelecer o imposto territorial d e m o c r á t i c o
antes que este Império fique reduzido, á Irlanda do
N o v o Mundo.

Repitamos: — A propaganda democratica d e v e in-


cessantemente exigir A b o l i ç ã o Imniediata e Imposto
Territorial.
— 37

VII

O s escravocratas- e m p r e g a m , desde muito, u m sin-


gular sophisma para impedir o estabelecimento do impôs-,
to territorial; d i z e m — é impossível estabelecel-o no Brazil,
antes d e estar feita a planta .cadastral d e todo o I m p é r i o .
O r a , essa planta cadastral n u n c a se m a n d a f a z e r ; p a r a o
proprio M u n i c í p i o N e u t r o foi, p o r duas vezes, c o m e ç a d a
e outras tantas m a n d a d a suspender".
A g o r a os c a m i n h o s de ferro; vieram acabar c o m esse
d e s g r a ç a d o sophisma, e c o m essa procrastinação syste-
m a t i c a d a mais importante das nossas reformas sociaes,
economicas e financeiras,-depois da Abolição.
G r a ç a s ás vias ferreas, j á e m trafego, o imposto ter-
ritorial p ô d e ser estabelecido immediatamente, sem c o m -
p ê n t e n c i a d e qualquer; o p e r a ç ã o cadastral. Bastá ence-
tal-o pelos terrenos marginaes ás estradas d e f e r r o s o s
m a i s preciosos para o estabelecimento d e i m m i g r a n í e s e
de colonos nacionaes. •
T o d a s as estradas d e ferro do E s t a d o , e por elle
garantidas, p o s s u e m ás plantas, q u e serviram á desapro-
priação d o s terrenos m a r g i n a e s ; c o m essas plantas fácil é
- 38 -

encetar o cadastro das propriedades territoriaes, que,


d e v e m p a g a r as mais altas taxas.
P a r a as terras, n ã o marginaes ás estradas de ferro,
toniar-se-hão as declarações dos proprietários,como se faz
n o imposto sobre a r e n d a ; tem-se assim um cadastro
provisorio, que se vai successivamente aperfeiçoando,
corrigindo e a m p l i a n d o , pelas escripturas de transmissão
d e propriedade por successâo, ou por v e n d a e compra.

N a H e s p a n h a o imposto territorial funccionou por


muito tempo a s s i m ; antes que os engenheiros tivessem
feito sua a d m i r á v e l carta geodesica e t o p o g r a p h i c a actual.
As operações cadastra.es, caras e morosas por sua
n a t u r e z a , só p o d e m ser feitas e pagas pelo proprio im-
p o s t o territorial. A s primeiras c o b r a n ç a s desse imposto,
c o m o as de todos os outros, são necessariamente defi-
cientes e defeituosas : é só no correr dos a n n o s ; c o m o
d e s e n v o l v i m e n t o das estradas de ferro e das e vias de
c o m m u n i c a ç â o ; c o m a revisão incessante das escripturas
d e c o m p r a e v e n d a ; d e h y p o t h e c a ; de successâo por in-
teiro o u c o m subdivisão das propriedades; é somente,
d e p o i s de ter funccionado, durante muitas e muitas gera-
ções, q u e o imposto territorial c h e g a a ter a desejada
perfeição.

O sophisma dos escravocratas, monopolisadores de


latifúndios e usurpadores de terrenos nacionaes, não tem
pois a m e n o r razão d e ser.

É b o m notar que os aristocratas e todos os retró-


g r a d o s têm sempre o mesmo sophisma contra qualquer
— 39 —

reforma social, e c o n o m i c a e financeira. Augmentam


sempre e invariavelmente c o m â imperfeição e deficiên-
c i a dos primeiros t e m p o s ; c o m o si não fosse de ordem
natural das c o u s a s ; c o m o se n ã o pertencesse á grande
lei geral da evolução, ser imperfeito e deficiente tudo o
que n a s c e ; tudo o que enceta as suas primeiras funcções.
O imposto territorial, applicado tão sómente aos
terrenos marginaes ás estradas d e ferros em trafego e i s ; . «
estradas de r o d a g e m ; a o litoral marítimo e aos ribeirinhos.
d o s rios, n a v e g a d o s a vapor, produziria, desdè l o g o , d e
2 0 a 3 0 mil c o n t o s d e réis,permittindo equilibrar o orça-
mento gefal, e soccorrer as províncias em deficit, 4

C o m o a A b o l i ç ã o immidiata, o imposto territorial só


espera um ministro d e bastante c o r a g e m e patriotismo,
para dar c o m b a t e e extinguir victoriosamente os explora-
dores da raça africana ; os monopolisadores estultos e
insaciaveis usurpadores d o território nacional.
— 40 —

XÍII

0 esclavagismo; a barbaria da exploração do ho-


mem pelo homem ; 0s torpíssimos abusos das raças mais
avançadas na evolução s o c i a l ; 0 cynico parasitismo
e x e r ç j d o sobre os que vivem e morrem trabalhando sem
Jámais ver o fructo dos seus esforços, é tão fatal á mora-
lidade dos povos, c o m o prejudicial á sua agricultura,
á sua industria, ao seu c o m m e r c i o , e a todos os ele-
mentos de riqueza e prosperidade nacional.
Omonopolio territorial; o e n f e u d a m e n t o d a terra
o landlordismo, aristocrático e abscreteista; é como o
esclavagismo, um corruptor dos costumes públicos e pri-
v a d o s ; um depravador s o c i a l ; um a g e n t e de corrupção,
d e infamia e d e miséria em tudo e p o r tudo.

U m paiz, que soffre simultaneamente d e esclava-


g i s m o e de monopolio territorial, c o m o este I m p é r i o , é
m a i s d e s g r a ç a d o d o que a I r l a n d a e d o que a P o l o h i a ;
s ó encontra parallelo entra as mais b a r b a r a s tribus d a
A f r i c a e d a Oceania.
T o d o s os males públicos e privados, q u e affligem
e s t e i m p é r i o ; todas as misérias politicas e particulares d a
— 4i —

iamilia brasileira p r o v ê m d a a c ç ã o c o m b i n a d a , durante


três séculos, desses d o u s grandes corruptores, q u ê se de-
n o m i n a m esclavagismo e m o n o p o l i o territorial.

D e b a l d e , á custa de sacrifícios inauditos* introdu-


zimos em nossa Patria n a v e g a ç ã o a vapor, estradas de
ferro, t e l e g r a p h o s electricos e t o d o s os grandes p r o m o -
tores de p r o g r e s s o , d è riqueza, de prosperidade e de
bem-estar....

Debalde.... Porque o esclavagismo e o m o n o p o l i o


territorial e m p r e g a m o sublime invento de W a t t e de
F u l t o n e m transportar escravos; deixam as margens das
estradas d e ferro desertas, e os telegraphos electricos em
penúria....
T o d o s esses instrumentos, que na grande R e p u b l i c a
N o r t e A m e r i c a n a , produziram maravilhas de progresso,
são neste império e m b o t a d o s e inutilisados p e l o h e d i o n d o
e s c l a v a g i s m o e p e l o desenfreado monopolio territorial.
Nos Estados Unidos, o c a m i n h o de ferro serve,
principalmente, para desbravar as florestas; para conduzir
immigrantes; povoar as regiões mais l o n g i q u a s ; para.
espalhar por toda a extensão da vastíssima Repu-
blica a riqueza, a prosperidade e o bem-estar. Aqui,
neste tristíssimo império, os c a m i n h o s de ferro têm as
margens desertas; limitam-se a simples transportadores
d e café e d e assticar; só beneficiam aos fazendeiros e aos
senhores d e e n g e n h o ; aos exploradores* da raça africana;
aos m o n o p o l i s a d o r e s e aos usurpadores do territorio na-
cional.
— 4* —

O fazendeiro o u o senhor de e n g e n h o , despote e ty-


ran,10, quer o isolamento, a solidão; o deserto para p o d e r
exercer impunemente as suas atrocidades contra os es-
cravos, contra os aggregados, e contra os míseros immi-
grantes, que têm a simplicidade de confiar e m suas p r o -
messas e era seus contractos.
O monopolisàdor da terra e o explorador d o escravo
temem o contacto das cidades e das p o v o a ç õ e s . N a p r o -
víncia de S. Paulo, em q u e o esclavagismo impera desas-
sombradamente, tiveram o despejo de fazer leis contra »
f o r m a ç ã o de núcleos de p o v o a ç ã o n o s municípios, d o m i -
n a d o s por fazendeiros.' Desse m o d o frustraram o grande
beneficio das estradas de ferro c o m o agentes d e i m m i -
g r a ç ã o , d e colonisação e d e f o r m a ç ã o d e novas cidades.
A s estradas de ferro, c o m o t o d o este império, estão
inteiramente hypothecadas ; servem, pura e simplesmente
aos mesquinhos interesses dos monopolisadores da terra
e d o s exploradores de. escravos.

A h ! tudo isto ha d e acabar pela A b o l i ç ã o e pelo

I m p o s t o Territorial.
— 43 —

VII

É preciso que fique perfeitamente estabelecido e


demonstrado que o elemento impossivel e refractario ás
instituições democráticas americanas é o fazendeiro ou o
senhor d e engenho, monopolisador de latifúndios, e x p l o -
rador d e e s c r a v o s ; landlord autocrata e a b s o l u t o ; senhor
de b a r a ç o e de cutello.
O africano, demonstram-n'o plenamente os e x e m -
plos d o s Estados Unidos e das colonias européas eman-
cipadas, faz promptamente a evolução para operário o u
trabalhador assalariado e, ainda melhor para agricultor,
proprietário das terras de sua lavoura.
Q u e m , p o r toda a parte, se tem mostrado rebelde e
refractario á t o d a a lição, a t o d o o ensino e a t o d o o
e x e m p l o é o landlord, habituado ao luxo, á dissipação e
ao parasitismo; incapaz d e entrar na luta pela v i d a ; s ó
ç o m p r e h e n d e n d o a existencia á custa do trabalho d e
centenas d e seus semelhantes, mantidos n o ínaior grau
d e abatimento e sujeição.
Nos Estados U n i d o s os senhores de escravos le-
varam a sua obstinação a o p o n t o d e declararem guerra
44

á própria R e p u b l i c a , e d e combaterem c o n t r a ella, d u -


rante cinco annos, c o m o encarniçamento e f e r o c i d a d e d e
cannibaes.
O s escravocratas deste império seriam c a p a z e s d o s
mesmos crimes si contassem, c o m o os d o valle d o M i s -
sissipi, c o m parte do exercito e da armada. Felizmente
o exercito e a a r m a d a brazileira são heroicamente aboli-
cionistas ; desde a escola constituem-se em sociedades
emancipadoras, e, q u a n d o terminam seus estudos, v ã o
accelerar o m o v i m e n t o abolicionista no Ceará, no A m a -
zonas, no R i o G r a n d e do Sul e em todas as p r o v í n c i a s
d o Império.

Si os fazendeiros e senhores de e n g e n h o dispuzessetrt


da força armada, ha muito teriam aberto guerra c o n t r a
os abolicionistas; seiis ferozes instinctos os l e v a m a re-
correr logo aos meios violentos; ao p á o ; ao chicote;
ao ferro e ao fogo.
D u r a n t e a luta dos piratas negreiros contra Os cru-
zadores inglezes, os escravocratas d é P a r a n a g u á o u s a r a m
fazer f o g o c o n t r a um n a v i o de guerra d a G r ã - B r e t a n h a ;
n a B a h i a u m presidente escravocrata abrigou n a v i o s ne-
greiros sob as baterias do Farte do Mar, e, sem a pru-
dência dos cruzadores inglezes, teria h a v i d o c o m b â t e
entre elles é a fortaleza brazileira. M a s d e u m n a v i o n e -
greiro c o m b a t e u , em alto mar é em nossas a g ú a s terri-
toriaes, contra o s navios d a m a r i n h a ingleza.

O s escravocratas não têni os escrupulos d e m o r a l ,


d e pljilantropia,. de c a r i d a d e e d e altruísmo d o s aboli 1 -
- 45 —

cionistas. Seu egoísmo f e r o z ; seu parasitismo a t r o z ; seu


desprezo p e l a Humanidade habituam-nos, desde a i n -
fância, aos maiores c r i m e s ; a ver matar e morrer d e
surra entre os gritos, os soluços, e as lagrimas d o es-
c r a v o , e as p a n c a d a s dos chicotes, o sibilar dos açoutes,
as blasphemias e as imprecações do fazendeiro, do
s e n h o r de engenho, e do feitor, ainda mais barbaro e
m a i s desalmado d o que elles...

U m abolicionista vio, horrorisado, em u m a fazenda


d o v a l l e d o Parahyba, u m a criança que se divertia chi-
c o t e a n d o um arbusto, e simulando os gemidos, do e s -
c r a v o , e, simultaneamente, as injurias do surrador....
O s escravocratas do valle do Mississipi l e g i t i m a v a m
suas atrocidades até c o m o E v a n g e l h o , c o m o justamente
l e m b r o u o deputado Aristides Spínola, no seu a d m i r á v e l
discurso abolicionista, proferido a 22 d e J u n h o do cor-
r e n t e anno d e 1 8 8 3 : os senhores de e n g e n h o e os fazen-
d e i r o s deste império n u n c a leram a Bíblia ; n ã o p o d e m ,
p o r isso, fazer provisão dos versículos, que possam ser
torcidos para sustentar a nefanda escravidão ; mas os
escravocratas de S. P a u l o j á m a n d a r a m dizer por um
ministro a o imperador, que preferiam ao império abo-
licionista a republica c o m escravos....
46 -

VII

A impossibilidade d o fazendeiro, ou d o senhor d e


engenho, para a e v o l u ç ã o democratica, indispensável a o
progresso e à prosperidade da familia brazileira, foi per-
feitamente estabelecida e demonstrada pelo venerando
abolicionista conselheiro Henrique de Beaurepaire R o h a f l
nas seguintes palavras d o artigo sobre Escolas Agricolas,
que publicou a 31 d e M a i o de 1882, n o Jornal do Com-
mercio \

" N o s s o s fazendeiros, acostumados desde a infancia


a lidar c o m escravos, não p o d e m affazer-se á idéa de
outros trabalhadores, que nada mais sejam d o que succe-
dàrieos de escravos. N ã o c o m p r e h e n d e m que possa existir
a grande lavoura senão e m fazendas inteiriças, de grandes
dimensões, c o m centenas d e trabalhadores a cultivarem a
terra p o r c o n t a de u m só proprietário. E c o m o reconhe-
c e m a impossibilidade de encontrar braços livres, q u e
se sujeitem á sorte passivã^HÜ' escravos, entendem que,
de outra sorte, não h a salvação possivel.

" Sabendo que os Europeus; que para c á v e m n a d a


tem e m mira se n ã o tornarém-se proprietários, e não
— 47 —

simples assalariados, sem futuro para si nem para suas


famílias, encaram a China c o m o o único paiz d ' o n d e lhes
deve vir o remedio. "

Estudemos nestas doutas palavras :


i? A impossibilidade, o antagonismo radical entre
o fazendeiro ou o senhor de engenho, landlord cheio de
presumpção e de orgulho, habituado, desde a infância,
a esbofetear e a chicotear os escravos, e o erhigrante euro-
peu, d o t a d o de dignidade de sentimentos nobres e inde-
pendentes; que a b a n d o n o u a Europa, aristocratica e
theocratica, sobrecarregada de reis e de papas ; de ma-
rechaes e de bispos ; para vir a o Novo Mundo achar
uma terra, e m que possa dar livre expansão á sua acti-
vidade physica e intellectual ;

2? A aspiração principal d o immigrante de ser pro-


prietário rural; d e possuir terra, cousa reservada na
Europa aos,barões feudaes : aos descendentes d o s Cru-
zados, que tiveram a imbecilidade de doar seus patri-
mônios a o s Conventos e de irem á Terra Santa para
morrer ás mãos d o s T u r c o s e d o s Arabes ;

3? O anhelo, que tem t o d o immigrante d e preparar


uma propriedade territorial para seus descendentes ; o n d e
elles possam trabalhar e gozar d o fructo dos seus tra-
balhos ; sem terem de supportar as despezas e as humi-
lhações d e barões feudaes e d e landlords soberbos e
orgulhosos;
_ 48 -

4? O recurso i g n ó b i l á colonisação chineza, á escra-


v i d ã o amarella ; á e x p l o r a ç ã o d a raça m o n g o l i c a na im-
possibilidade de c o n t i n u a r e m n o parasitismo da raça
africana ;
5° O emperramento, emfim a persistência insensata
e a n a c h r o n i c a - d e pretenderem os escravocratas eternisar
no N o v o M u n d o ; n a A m e r i c a L i v r e , o m o n o p o l i o terri-
torial, o enfeudamento d o sólo, a l a n d o c r a c i a a c t u a l m e n t e
em derrota no Velho Mundo, nos paizes m a i s aristo-
cráticos da própria E u r o p a .

Repitamos.— A p r o p a g a n d a abolicionista traz em


seu seio todos os germens d e g r a n d e z a e de prosperidade
da nossa patria ; v a i i m m e d i a t a m e n t e restituir a liber-
d a d e a um milhão d e africanos e d e seus d e s c e n d e n t e s ;
vai acabar c o m o monopolio territorial; dar valor e
permutabilidade ao sólo ; abrir espaço para a i m m i g r a -
ç ã o ; possibilitar o i m p o s t o territorial; a c a b a r c o m t o d o
esse obsoleto Systema d e lavoura, tão estulto e brutal,
como injusto e i n i q u o ; dar, em u m a só palavra, ele-
mentos para a creaçãò, p á r a o progresso e prosperidade
d a D e m o c r a c i a Rural Brazileira.