Você está na página 1de 16

ROMANTISMO (1825-1865)

PRELIMINARES

 “O primeiro quartel do século XIX presencia a diluição do Arcadismo e o simultâneo


aparecimento de atitudes anunciadoras dum movimento contrário: é o período chamado de
Pré-Romantismo.” p 163.
 “A transladação da Corte de D. João VI para o Brasil, em 1808, constitui a chama do
estopim atado a uma nação de súbito transformada em verdadeiro barril de pólvora, como
decorrência da invasão napoleônica.” p 163.
 “Em 1817, já expulsos os franceses e estando as rédeas do governo nas mãos de
Beresford, general inglês que combateu Napoleão em terras portuguesas, Gomes Freire de
Andrade articula uma conspiração de caráter liberal, mas é denunciado, preso e enforcado.” p
163.
 “Três anos depois, estala no Porto uma revolução com idêntico propósito, e torna-se
vitoriosa graças à adesão de Lisboa e do resto do País.” p 164.
 “A luta pelo poder entre D. Miguel e D. Pedro I (IV de Portugal) ocupa anos
seguintes: vitorioso o primeiro, o segundo arma-se, na Ilha Terceira, para depor o irmão.” p
164.
 “É no interior dessa conturbada atmosfera que se deve compreender o aparecimento do
Romantismo, expressão literária do recém-inaugurado ciclo ideológico.” p 164.

INTRODUÇÃO DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

 “Em 1823, Garrett exila-se na Inglaterra, (...), e enfronha-se no teatro de Shakespeare.”


p 164.
 “Em 1825, (...) publica o longo poema narrativo Camões, dividido em 10 cantos e
vazado em decassílabos brancos.” p 164.
 “Em Camões, observa-se a presença de elementos clássicos, fruto da formação
filintista de Garrett: os decassílabos brancos, o vocabulário, as figuras, a síntese de Os
Lusíadas (...), subjetivismo, culto da saudade, o sabor agridoce do exílio, a melancolia, a
solidão, as ruínas, etc.” p 165.
 “Graças a essas últimas características é que o poema passou a ser considerado
introdutor do Romantismo em Portugal.” p 165.
ORIGENS DO ROMANTISMO

 “De modo genérico, o ideário clássico entra em colapso logo à entrada do século
XVIII, quando irrompem na França as primeiras manifestações contra o culto dos antigos e o
dogmatismo das regras em consequência da ‘Querela dos Antigos e Modernos’, (...)” p 165.
 “Contudo, as origens do Romantismo devem ser procuradas na Inglaterra e na
Alemanha, uma vez que à França coube não só o papel de coordenação, mas também de caixa
de ressonância e difusão do movimento.” p 165.
 “(...) a Escócia está geograficamente separada da Inglaterra (...), a separação fora
também linguística e cultural, (...)” p 165.
 “(...) a Inglaterra exporta para Escócia os produtos do Classicismo francês, (...)” p 165.
 “Tudo, razões políticas e literárias, convidava a uma rebelião que visasse a instaurar o
prestígio dessas velhas lendas, baladas e canções que corriam na voz do povo.” p 166.
 “De todo o quadro das origens inglesas e escocesas do Romantismo, ressalta o caso da
poesia oceânica, (...)” p 166.
 “Em síntese, (...) o escocês James Macpherson (...) começou a publicar, em 1760, a
presuntiva tradução em prosa de poemas escritos por Ossian, um velho bardo escocês do
século III d.C.” p 166.
 “O êxito imediato levou-o a prosseguir na tarefa de fazer conhecida uma tão rica e
original tradição poética, (...)” p 166.
 “A impressão causada foi a de espanto e surpresa, e logo alguns trechos foram
traduzidos para outras línguas, sobretudo os referentes a “Fingal” e “Temora”.” p 166.
 “Em meio ao unânime elogio, ouviram-se raras vozes discordantes: não poucos
elevaram o bardo gaélico ao nível de Homero e Vírgilio, (...)” p 166.
 “Imitadores, seguidores, epígonos multiplicaram-se por toda a parte na segunda
metade do século XVIII (...)” p 166.
 “O ossianismo tornou-se forte corrente literária, cuja influência nenhum país europeu
ficou imune.” p 167.
 “Quando se descobriu que tudo não passava de mistificação, (...), já era
irremediavelmente tarde para impedir-lhe a profunda e benéfica influência, (...)” p 167.
 “De qualquer forma, as novidades que o ossianismo apresentava (...) já haviam aberto
definitivamente o caminho para a instalação do Romantismo na Inglaterra e no resto da
Europa.” p 167.
 “Enquanto esses fatos se passam na Inglaterra, outro tanto ocorre na Alemanha (ou
melhor, Prússia). (...) a literatura alemã vive sob a influência do rococó francês, última
floração do Barroco decadente.” p 167.

CARACTERÍSTICAS DO ROMANTISMO

 “O vocábulo “romântico” origina-se da forma francesa romantique (...)” p 168.


 “Absorvida pelos idiomas inglês e alemão, a palavra passou a romantik e romantich,
de onde foi importada por literatos franceses juntamente com a ideia, vaga então, que
expressava.” p 168.
 “Mais do que qualquer outro movimento estético, é impossível dizê-lo em poucas
palavras, (...), abarca não raro tendências opostas ou contrastantes, porque corresponde a
muito mais do que uma revolução literária (...)” p 168.
 “(...) sendo mais uma nova maneira de enfrentar os problemas da vida e do
pensamento, (...)” p 169.
 “Com o Romantismo abre-se um ciclo de cultura inteiramente novo, correspondente à
diminuição do poder das oligarquias reinantes em favor das monarquias constitucionais ou
das repúblicas federativas, (...)” p 169.
 “No plano das teorias, das ideias e temas literários, dá-se o seguinte processo:
repudiando os clássicos, ou melhor, os neoclássicos, os românticos revoltam-se contra as
regras, os modelos, as normas, batem-se pela total liberdade na criação artística, (...)” p 169.
 “O ‘eu’ torna-se o universo em que vivem, (...), à semelhança de Narciso, o romântico
contempla a si próprio, como se estivesse permanentemente voltado para um espelho real ou
imaginário, (...)” p 169.
 “(...) quando se projeta para fora de si, não consegue ver os objetos ou os sentimentos
alheios e coletivos senão como reflexo e prolongamento do próprio ‘eu’: (...)” p 170.
 “Esse egocentrismo traduz a existência de um condimento feminino na atitude
romântica, revelado pela aceitação de expedientes próprios da vaidade das mulheres (...)” p
170.
 “Mas o sentimentalismo implica introversão, e os românticos voltam-se para si, na
sondagem do mundo interior, onde vegetam sentimentos vagos.” p 170.
 “(...) o Romantismo é uma estética da juventude, expressando sentimentos
femininamente juvenis, ou vice-versa.” p 170.
 “Daí que o romântico mergulhe cada vez mais na própria alma, a examinar-lhe
masoquistamente os desvãos, com o intento vaidoso de revelá-la e confessá-la.” p 170.
 “À confissão de intimidades sentimentais corresponde a descoberta de sensações
ligadas à fragilidade e ao mistério dos destinos humanos, submetidos aos azares e à perpétua
mudança de tudo.” p 170.
 “Imerso no caos interior, o romântico acaba por sentir melancolia e tristeza que,
cultivadas ou brotadas durante a introversão, o conduzem ao tédio, ao ‘mal do século’.” p 170.
 “Para sair dele, o romântico vislumbra duas saídas, apenas diferentes no aspecto e no
grau, (...) a fuga, a deserção pelo suicídio, caminho escolhido por não poucos, ou a fuga para a
Natureza, a Pátria, terras exóticas, a História.” p 170.
 “A vida boêmia, impulsionada pelo álcool e enfebrecida por um hedonismo sem
limite, o entregar-se à aventura das armas e do amor (...)” p 171.
 “O grupo dos ultrarromânticos em Portugal enquadra-se perfeitamente no caso,
realizando o grande sonho de todo romântico que se preze: ‘morrer na aurora da existência’.”
p 171.
 “O escapismo romântico da direção da Natureza corresponde ao anseio de encontrar
nela um confidente passivo e fiel, e um consolo nas horas amargas (...)” p 171.
 “Se triste o romântico, a Natureza também o é, pois ela constitui fundamentalmente
‘um estado de alma’ (...)” p 171.
 “Liberal em política, o romântico acredita-se fadado a uma grande missão civilizadora
e redentora do povo (...)” p 172.
 “Preconiza-se uma literatura em torno de problemas sociais, inclusive os do
proletariado.” p 172.
 “Destrona-se a velha concepção clássica de beleza e ergue-se outra, atenta à
diversidade existente no seio da Natureza e o gosto pessoal (...)” p 172.
 “Os clássicos, sendo absolutistas, acreditavam no bem, no Belo e no Verdadeiro como
noções absolutas e distintas entre si, enquanto os românticos, sendo relativistas, só entendiam
a existência do belo relativo, e no qual o bom e o verdadeiro se fundissem ou se disfarçassem
(...)” p 172.
 “Busca-se o pitoresco, a cor local, o primitivo autêntico no contato direto com povos
em outros estágios de civilização e vivendo outras formas de cultura (...)” p 172.
 “(...) o romântico estima a Idade Média sobretudo porque, pela imaginação, encontra-
se nela tudo quanto julga perdido ou malbaratado pelo racionalismo clássico (...)” p 173.
 “(...) as ideias de Rousseau contribuíram grandemente para a valorização duma Idade
Média fruto da fantasia e do desejo de encontrar o “paraíso perdido” numa longínqua época
de bardos, cavaleiros, cruzados, místicos, damas e fidalgos.” p 173.
 “Em suma, cultuam uma Idade Média cavalheiresca e cristã: contrapondo-se aos
mitos pagãos do Classicismo, (...)” p 174.

O JORNALISMO

 “Durante a vigência do ideário romântico em Portugal desenvolvem-se atividades ou


modalidades literárias (...), cultivam-se o jornalismo e a oratória segundo padrões novos, (...).
O romance surge nessa altura, e a poesia apenas alcança razoáveis resultados.” p 174.
 “Quanto ao jornalismo, representou papel de primacial importância no curso da
revolução romântica, (...). Veículo ideal duma época assinalada pela democratização da
cultura e das relações sociais, além de conter notícias, alargando os horizontes do leitor
burguês, (...)” p 174.

A ORATÓRIA
 “A oratória, seguindo o contorno que a cultura vai tomando em consequência do
Liberalismo dominante, alarga-se e procura outros meios para atuar.” p 175.
 “A partir da revolução no Porto, em 1820, entra em voga a oratória política e
parlamentar, chegando a níveis jamais superados, (...)” p 175.

O TEATRO

 “O teatro português, que entrou em declínio depois de Gil Vicente, (...) reergueu-se
durante o Romantismo, graças ao admirável esforço despendido por Garrett, (...)” p 176.
 “(...) Garrett não descansou enquanto não dotasse a cultura portuguesa duma atividade
teatral de feição nacional e de alto sentido patriótico.” p 176.
 “E conseguiu-o, não obstante o seu exemplo morresse à mingua de seguidores com
talento para criar peças de semelhante altitude.” p 176.
 “Não fosse o bastante, para o novo teatro escreveu peças de caráter nacional, uma das
quais obra-prima da dramaturgia portuguesa e europeia, o Frei Luís de Sousa.” p 176.
 “Inaugurou-se solenemente o Teatro Nacional em 1846, (...)” p 177.
 “Daí por diante, outras peças foram continuamente encenadas, via de regra girando em
torno de temas nacionais e patrióticos, a tal ponto que não houve episódio heroico ou lírico na
história pátria que deixasse de motivar pelo menos um drama (...)” p 177.

A POESIA
 “Não causa estranheza que a poesia continuasse a ser larga e persistentemente
cultivada durante a hegemonia romântica em Portugal.” p 177.
 “Quase sem exceção, os românticos lhe renderam tributo, desde os menos importantes
até aqueles que exerceram papel de relevo em outros gêneros, (...)” p 178.
 “Todavia, causa espécie que a poesia, tão de si aparentada com o ideário romântico,
(...)” p 178.
 “Para explicar o fato, é necessário recorrer à persistência do rigorismo clássico, de que
raros conseguiram subtrair-se, e, ainda assim, para cair num historicismo convencional e
postiço, ou num sentimento individualista e lírico-amoroso de raiz adolescente e
confessional.” p 178.

O CONTO

 “Com o advento do Romantismo, o conto passa a ser amplamente cultivado em


Portugal, (...)” p 179.
 “O primeiro nome a ser lembrado é o de Herculano, com as Lendas e Narrativas (...)”
p 179.

A NOVELA E O ROMANCE

 “O romance, no sentido moderno de prosa de ficção, surgiu ao mesmo tempo que o


Romantismo.” p 179.
 “E, como o próprio Romantismo, o romance é de origem inglesa (...)” p 179.
 “Da Inglaterra, o romance espalhou-se por toda parte, no rasto da revolução
romântica.” p 180.
 “Em mais de um país, encontrou uma tradição novelística às vezes datada de séculos.”
p 180.
 “Embora não constitua um passado glorioso, a novela como que obstou a implantação
e o domínio do romance, graças a uma conjuntura histórica e cultural que ainda explica o
caráter sui-generis do Romantismo português.” p 180.
 “Todavia, o certo é que a novela (...) parece ter casado melhor com o espírito
português dominante ao longo do Romantismo.” p 180.
 “Com isso, exerceu tamanha influência que impediu algumas obras de virem a ser
autênticos romances (...)” p 180.
 “Para tanto, basta não perder de vista as narrativas longas dos maiores ficcionistas do
tempo, Garrett, Herculano, Camilo e Júlio Dinis, respeitando-se características de cada um.” p
180.
A HISTORIOGRAFIA
 “(...) a atividade historiográfica acompanhou a metamorfose geral trazida pelo
Romantismo.” p 181.
 “Em consonância com as demais particularidades desse movimento, o exemplo
próximo vinha da França (...), sobretudo graças às obras e às doutrinas historiográficas de
François Guizot, Jules Michelet, Augustin Thierry.” p 182.
 “Defendiam a importância das ideias, da cor local e da vida em História,
preconizando, para o historiador, métodos de rigor e trabalhos de erudição pacientemente
armados sobre o exame de monumentos, arquivos, documentos inéditos, com ‘a ambição de
atingir a verdade sob todas as formas, (...)” p 182.
 “Em suma: entendiam a historiografia ao mesmo tempo como ciência e como arte.” p
182.

O PRIMEIRO MOMENTO DO ROMANTISMO

 “A vitória das ideias românticas em Portugal não foi pronta nem unânime (...)” p 183.
 “O impedimento devia-se à força da inércia, representada pela reação conservadora de
homens de letras educados segundo moldes clássicos e absolutistas.” p 183.
 “Estes, por sua vez, possuíam tal força persuasiva que os primeiros românticos
aderiram ao novo credo em meio a contradições (...). Refiro-me de modo particular a Garrett,
Herculano e Castilho.” p 183.
 “Em resumo: românticos em espírito, ideal e ação política e literária, mas ainda
clássicos em muitos aspectos da obra que legaram.” p 183.
 “Com Garrett, Herculano e Castilho, temos o primeiro ‘momento’ do Romantismo
português, (...)” p 183.

GARRETT

 “João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no Porto, em 4 de fevereiro


de 1799.” p 183.
 “Em 1816, segue para Coimbra, a cursar Direito e a compor poemas de sabor arcádico,
(...)” p 183.
 “Em 1841, conhece Adelaide Deville, que lhe dará uma filha. Dois anos mais tarde,
inicia a publicação das Viagens na Minha Terra: granjeara definitivamente nomeada como
dândi e homem de talento e combativo.” p 184.
 “Na poesia, Garrett evolui da fase arcádica, filintista (O Retrato de Vênus, 1821 ...)
para a fase romântica (Camões, 1825 ...).” p 185.
 “A primeira fase, menos importante que a segunda, denota a aceitação da atitude
literária que marcou a carreira de Garrett: uma permanente contensão racional ou intelectual
impede o desbordamento da emoção e do sentimento, (...)” p 185.
 “Em suma, assimilou, de fora para dentro, os moldes clássicos, e morreu sem tornar-se
romântico autêntico, (...)” p 185.
 “Não obstante, o mais significativo da poesia garrettiana está na segunda fase, em que
explora temas medievais e quinhentistas (...), populares e folclóricos (...) e lírico-amorosos
(...).” p 185.
 “Mercê da intensidade passional e do amadurecimento dos recursos de expressão, o
poeta atinge o ápice de sua expansão lírica, tornando-se o mais romântico que pôde ser.” p
185.
 “Entretanto, compromete-lhe a pureza e a harmonia do sentimento certa pose, certo
artificialismo envaidecido, oriundo de sua formação arcádia, da preocupação de fazer poesia
de corte e conquista donjuanesca, (...)” p 186.
 “Com as Viagens na Minha Terra, Garrett inicia a modernização da prosa literária em
Portugal: que o seu exemplo frutificou, basta ter em conta a linguagem saborosamente
inovadora da ficção de Eça de Queirós.” p 188.
 “O estilo garrettiano liberta-se do espartilhamento clássico, torna-se maleável, rico e
plástico, faz corpo como as ideias e as emoções transmitidas.” p 188.
 “Em matéria de teatro, Garrett evoluiu do neoclassicismo para o Romantismo (...)” p
189.
 “Com peças de temas nacionais e históricos, Garrett encontrava a maneira que mais se
afinava com seu talento.” p 190.
 “O Frei Luís de Sousa é um drama, ou mais rigorosamente, uma tragédia, em três atos,
em prosa, cujo entrecho gira ao redor da dramática existência de Frei Luís de Sousa (...)” p
190.
 “Curiosamente, o Frei Luís de Sousa tornou-se a obra prima do teatro romântico
português (...)” p 190.
ALEXANDRE HERCULANO
 “Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo nasceu em Lisboa, a 28 de março de
1810 (...)” p. 191.
 “(...) não pode seguir o curso universitário. Depois dos estudos secundários no Colégio
dos Oratorianos, aprende Inglês e Alemão na Aula do Comércio e, em 1830, faz o curso de
Diplomática na Torre do Tombo. Conhece então a Marquesa de Alorna. Em 1831, a situação
política reinante obriga-o a exilar-se na França (Rennes), (...)” p. 191.
 “Em 1833, trabalha na Biblioteca Municipal do Porto, (...)” p.191.
 “Demitindo-se em1836, inicia a carreira intelectual com a publicação de A Voz do
Profeta. Assume, (...)” p.191.
 “Assume, no ano seguinte, a direção do Panorama, e assim permanece até 1844. Ao
mesmo tempo que passa a Diretor da Biblioteca da Ajuda, naquela revista publica obras de
ficção: as Lendas e Narrativas, (...)” p.191.
 “É a fase mais intensa de sua atividade literária, e política, na defesa das ideias
liberais. Interpretando com desassombro e espírito crítico, fatos da história de Portugal, como
a batalha de Ourives, cujo aspecto lendário destrói com sólida argumentação, acaba
provocando enérgica reação do clero, logo por ele revidada num opúsculo que veio á dar
nome a polêmica: Eu e o Clero (1850). (...) p.191.
 “(...) em 1859, adquire uma quinta em Val-de-Lobos e lá se refugia, não sem manter-
se atento ao que acontece em Lisboa. Em 1866, casa-se com uma senhora que amara na
juventude, e afastas-se ainda mais da pública. (...)” p.191.
 “(...) em 13 de setembro de 1877, falece em sua quinta, aureolado de glória e respeito
nacionais. Alexandre Herculano é diametralmente oposto a Garret em todos os aspectos:
personificação da sobriedade, do equilíbrio, do rigor crítico; espírito germânico, (...).” p.192.
 “A obra de Herculano reflete-lhe o temperamento e o caráter: manteve-se
imperturbável na posição de homem que apenas se julga convicto das ideias que defende
depois de longa e cuidadosa meditação. (...)” p.192.
 “(...) o “exílio” voluntário em Val-de-Lobos é o dum orgulhoso, convicto da
magnitude de seu pensamento e da pobreza do meio em que deveria divulgá-lo e concretizá-
lo. (...)” p.192.
 “Escreveu poesias, (...) novelas, (...) contos, (...) historiografias, (...) ensaiamos vário e
polêmica (...), etc. Convém observar, desde já, que o forte de Herculano era a historiografia,
por condizer com o mais intimo do seu temperamento e formação, a tal ponto que tudo quanto
escreveu reflete essa afinidade e predisposição. (...)” p.192.
 “Produção da mocidade (“Fui poeta só até os 25 anos”, diz ele em carta a Soares de
Passos, de 5 de agosto de 1856), nela vazou os transes de sensibilidade próprios da idade e os
temas em voga no tempo: a poesia noturna, pressaga, tétrica, soturna, a poesia da dor, da
saudade, da liberdade, etc.; em torno de dois núcleos, a religião e a política, não raro fundidos.
Embora romântica pelos temas, a poesia de Herculano caracteriza-se por uma contensão que
jamais cede” p.192
 “(...) a qualquer impulso para o derramado. (...)” p.193.
 “(...) é mais poesia pensada que sentida, detonadora duma inautêntica inclinação para
o gênero tendo a: cultivado apenas os anos juvenis, naturalmente correspondia mais ao
contágio das modas em vigor e à procura de caminhos próprios da idade, do que a uma
profunda inadiável vocação. Herculano era demasiado historiador para se entregar a uma
visão poética do mundo e dos homens: faltava-lhe a imaginação transfiguradora da realidade
sensível, e sobejava-lhe o espírito crítico e a erudição. De sua poesia, somente merece
destaque o poema “A Cruz Mutilada, (...)” p.193.
 “(...) seja ela romance, novela, ou conto: o ficcionista vê-se obrigado a debruçar-se
sobre documentos historicamente fidedignos sob pena de não realizar o seu projeto (o enlace
do imaginário com o verídico.) (...)” p.193.
 “Com base na erudição histórica e aproveitando material sobrante à elaboração da
História de Portugal Herculano trata de temas predominantemente medievais (...)” p.193.
 “(...) e dos oitocentistas, um dos quais, além de não português é uma espécie de
reportagem duma viagem de navio no canal da Mancha (...).” p.193.
 “Herculano foi, acima de tudo, historiador: a historiografia deu-lhe grandeza e
prestígio, mas também dissabores. (...)” p.196.
 “(...) realizou na historiografia o melhor de suas virtudes intelectuais e humanas,
tornou-se o instrutor dos modernos métodos historiográficos em Portugal e o mais respeitado
historiador do seu tempo. (...)” p. 197.
 “(...) escreveria uma História de Portugal desde os albores da nacionalidade até o
período da Restauração, iniciada em 1640: era como se desentranhasse os fundamentos e os
“exemplos” da história do povo português. Entretanto, só publicou quatro volumes da obra
(1846, 1847,1850, 1853), interrompendo-a no reinado de D. Afonso III, que ocupou o trono
em 1248 e 1279. (...)” p.197.
 “Embora inacabada, a História de Portugal ficou como um documento no gênero, pela
erudição acumulada e examinada, pelo senso narrativo e interpretativo posta na reconstituição
dos fatos, pela acuidade e altura das intervenções pessoais e, ao fim, pelas qualidades de
prosador castiço, vibrante e incisivo.” p. 197.
 “Por isso, a História de Portugal pode interessar ainda hoje, inclusive pelos aspectos
propriamente literários.” p. 197.
 “Nos Portugaliae Monumenta Historica (1856-1873), Herculano reuniu crônicas,
memórias, relações, anais, livros de linhagem, documentos notoriais, leis, etc., de uma longa
época histórica, entre os séculos VIII e XV. A obra fragmenta-se em quatro secções:
Scriptores, Leges et Consuetudines, Diplomata et Chartae, In quisitiones, das quais a primeira
interessa mais de perto à Literatura; nela se publicaram os Livros de Linhagem, as Crônicas
Breves de Santa Cruz, a Crônica da Conquista do Algarve, a Vida de D. Telo e a Crônica da
Fundação do Mosteiro de S. Vicente de Lisboa.” p. 197.
 “A História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854-1859),
escreveu-a Herculano estimulado pela Questão “Eu e o Clero: de intuito polêmico, irritado
mesmo, mais ainda com os objetivos morais que lhe presidem à obra e à existência, nela faz o
exame dos “vinte anos de luta entre D. João III e os seus súditos de raça hebreia, ele para
estabelecer definitivamente a Inquisição, eles para lhe obstarem”, a fim de que, comparando a
hipocrisia e o fanatismo do passado com a ‘relação teocrática e ultramonárquica” oitocentista,
o leitor “decida entre a reação e a liberdade’.” p.198.
 “Herculano exerceu grande influência pelo exemplo de sua vida e de sua obra, ambas
aureoladas por um halo de probidade e reverência pela missão intelectual, pouco vulgares em
qualquer literatura.” p.198.
CASTILHO
 “Antônio Feliciano de Castilho nasceu em Lisboa, a 28 de janeiro de 1800. Aos seis
anos, acometido de sarampo, fiz praticamente cego para o resto da vida. Apesar da
deficiência, dedica-se aos estudos com tal afinco que os familiares chegam a vaticinar-lhe um
brilhante futuro intelectual.” p. 198.
 “Com a ajuda do irmão, Augusto Frederico de Castilho, faz o curso secundário e
ingressa na Faculdade de Cânones de Coimbra. Durante os anos acadêmicos, publica as
Cartas de Eco e Narciso (1821) e A Primavera (1822) (...)” p. 198.
 “Formado, segue para S. Mamede de Castanheira do Vouga, com seu irmão Augusto,
que abraçará a carreira sacerdotal. Passa o tempo a escrever poesia e a traduzir autores
clássicos.” p. 198.
 “Por volta de 1850, regressa a Lisboa e prossegue a campanha de instrução pública,
ao mesmo tempo em que traduz poetas clássicos. Visita o Brasil em 1855. E provoca a
Questão Coimbrã, em 1865, com a sua carta-posfácio ao Poema da Mocidade, de Pinheiro
Chagas. Cercado de glória e do carinho de seguidores e fiéis, falece a 18 de junho de 1875,
em Lisboa. (...)” p.199.
 “A prosa, índole historiográfica, pedagogia ou polêmica, embora exercesse relevante
papel no tempo, pouco ou nada atrai o leitor hoje em dia (...)” p. 199.
 “A poesia suscita atenção mais detida, sobretudo em razão dos equívocos que
desencadeou enquanto o autor viveu.” p. 199.
 “O itinerário poético de Castilho inicia-se sobre a égide do Arcadismo, especialmente
de Bocage; é a fase em que escreve Cartas de Eco e Narciso (1821), A Primavera (1822) e
Amor e Melancolia (1828). Nessas obras estampam-se as limitações típicas do artificialismo
neoclássico, a que se acrescentavam as naturais deficiências de Castilho (...)” p. 199.
 “(...) pensando escrever poesia autêntica, Castilho apenas compunha poemas segundo
a receita arcaica, aquela que tão somente dependia de qualidades secundárias, como a
educação do ouvido para os metros clássicos, a predisposição passiva para manter cerrado
convívio com os clássicos, etc.” p 199.
 “Em 1836, da mesma maneira que se impregnava de fórmulas arcaicas, entrega-se à
aventura romântica: tudo de fora para dentro, o poeta está à mercê dos ventos literários e do
acaso. Publica então A noite do Castelo e Os Ciúmes do Bardo, seguidos mais adiante de
Escavações Poéticas (1844) (...)” p.199.
 “A rapidez com que Castilho esgota a inspiração romântica é outro argumento a aduzir
como prova duma duvidosa vocação para poesia.” p 199.
 “Tão meteórica que é a passagem do autor pelo Romantismo que, a seguir, retoma os
hábitos da juventude, ou seja, a tradução de autores clássicos, a que se vai somar, já no fim da
vida, o gosto pelos modernos (Molièri, Goethe, Shakespeare)” p. 200.
 “A história de Castilho é a dum mal-entendido (...)” p. 200.
 “(...) historicamente, a sua poesia caiu em compreensível esquecimento. (...)” p. 200.

O SEGUNDO MOMENTO DO ROMANTISMO


 “O segundo momento romântico, que se desenvolve mais ou menos entre 1838 e 1860,
diverge do anterior: desfeitos os laços arcádicos que prendiam os escritores do tempo, inicia-
se um período que corresponde ao pleno domínio da estética romântica.” p. 200.
 “Os novos grupos literários (...) podem agora realizá-la em toda a extensão: livres para
gozar o prazer da aventura no mundo da imaginação (...)” p. 200.
 “Com isso, praticam ao extremo o ideal romântico na parte da sensibilidade e da
liberdade moral (...)” p. 200.
 “Explica-se: purificam de tal modo as características do Romantismo que fatalmente
caem no exagero e no esparramamento.” p. 200.
 “Os poetas ultrarromânticos reuniram-se em três grupos principais: o dos
medievalistas (...) de que fez parte Gonçalves Dias; o do Jornal literário O Trovador (1844) e
o O Novo Trovador (1851)” p. 201.
 “Embora o Ultrarromantismo se coadune essencialmente com a poesia, muitos dos
seus imigrantes também são expressos em prosa.” p. 201.
 “Muda, porém, o local onde se passam os acontecimentos: a poesia (...) em Coimbra, a
prosa deriva do ambiente hipersensível do Porto nos anos seguintes a 1850.” p. 201.
 “Representa-a sobretudo Camilo Castelo Branco, (...)” p. 202.
 “Ele e Soares de Passos constituem, cada qual em seu gênero a seu modo, as grandes
figuras do Ultrarromantismo português.” p. 202.

SOARES DE PASSOS
 “Soares de Passos constitui a encarnação perfeita do “mal-do-século” que, por sua vez,
encontrou lídima expressão no ultrarromantismo anárquico e piegas.” p. 202.
 “Vivendo na própria carne os desvarios de que se nutria a fértil imaginação de
tuberculoso narcisista e misantropo, a sua vida e obra espelham cristalinamente o prazer
romântico da fuga, no caso, das responsabilidades concretas do mundo social. Daí o paradoxo
sobre que assenta sua poesia, (...)” p 202.
 “Poesia deprimida e depressiva, mas certamente fruto dum inconformismo de raiz
burguesa (...)” p. 203.
 “E é precisamente desse dilema, impulsionado por angústias metafísicas e religiosas,
que decorre a poesia de Soares de Passos: forte , autêntica, mesmo quando imaginária (...)” p.
203.
CAMILO CASTELO BRANCO
 “Camilo impressiona primeiro que tudo pela aventuresca e trágica vida que levou: um
como estigma de desgraça marcou-lhe a existência desde cedo.” p. 204.
 “Camilo cultivou a poesia, o teatro, a crítica literária, o jornalismo, o folhetim, a
historiografia, a epistolografia, a polêmica, o romance, a novela e o conto.” p. 204.
 “Camilo coloca frente a frente as “razões do coração” e as razões da sociedade
burguesa oitocentista, temerosa de enfraquecer-se pela concessão de direitos éticos
individuais que possam pôr-lhe em crise os dogmas, as convenções e as modas.” p 206.
 “Típicos burgueses, sofrem a ‘fatalidade’ do amor precisamente porque o julgam
‘pecado’ ou porque o meio social, manietando-lhes o pensamento e a vontade, se incumbe de
convencê-los disso.” p. 207.
 “(...) Camilo balança entre extremos, ora fazendo as personagens lograrem o seu
desvairado intento, mas submetendo-as às punições sociais, (...), ou revelando-as destituídas
de suportes morais ou espirituais capazes de assisti-las no vácuo que se descortina ao término
de toda paixão, (...)” p. 207.
 “Ora fazendo que as personagens descubram os benefícios morais contidos nos
padrões burgueses e reencontrem a paz de espírito, a cura da doença passional, no ‘exílio’
campesino e no casamento (...)” p. 207.
 “Contudo, o processo resulta artificial, postiço e forjado, pelo menos na pena de
Camilo, mais afeito a dar-nos panoramas trágicos e dramáticos e não monótonos e
inexpressivos, (...)” p. 207.
 “Ressalve-se a hipótese de a ‘novela de salvação’ corresponder a um recôndito ideal
do ficcionista que as circunstâncias da vida não o deixaram realizar.” p. 207.
 “(...) Camilo cultivou temas campesinos com especial sentido de humanidade,
‘realismo’ e flagrância psicológica, (...)” p. 207.
 “Em matéria de ingredientes novelescos ou motivos da ação, Camilo emprega
invariavelmente os mesmos, mas em permanente conflito: o amor passional, a honra e o
dinheiro.” p. 207.
 “O processo empregado por Camilo na composição das narrativas baseia-se (...) na
observação direta das classe média portuense, (...)” p. 208.
 “(...) Camilo começa por ser um arguto observador – entre irônico e sensível (...)” p.
208.
 “Sobre os dados da observação, Camilo aplica sua poderosa e invulgar imaginação,
que os filtra e lhes dá caráter.” p. 208.
 “A par desse talento incomum para tecer enredos e inventar situações dramáticas, (...)
a fim de manter viva a atenção do leitor, convém frisar outro aspecto: a chamada mataficção
ou metalinguagem. Ou seja, a intromissão do autor no fluxo da ação (...)” p. 208.
 “Nesse aspecto reside, sem dúvida, uma das facetas mais relevantes, mais modernas,
da arte novelesca de Camilo, suficiente para distingui-lo como a mais ampla e diversificada
celebração no gênero em Portugal, no século XIX.” p. 208.
 “Outro dom superior de Camilo que cumpre lembrar: o de ser um nato contador de
histórias, dom dum estilo todo seu, (...) de quem conhece os segredos da Língua, tanto erudita,
como a popular ou regional.” p. 208.
 “Diga-se de passagem, Camilo compreendeu lucidamente a importância do apuro da
linguagem como condição de sobrevivência de suas novelas.” p. 208.
 “É com justiça considerado mestre e clássico do Idioma.” p. 209.
 “Tudo isso faz dele um dos maiores prosadores, (...) uma espécie de Balzac português
que procurou, à sua maneira, compor a ‘comédia humana’ da burguesia do tempo.” p. 209.

O TERCEIRO MOMENTO DO ROMANTISMO

 “Como vimos, Camilo transita do Ultrarromantismo, descabelado, histérico e piegas,


para uma Naturalismo coerente com sua tendências de cronista da sociedade burguesa da
segunda metade do século XIX.” p. 211.
 “Nesse crepúsculo, ainda se localiza um tardio florescimento literário, que
corresponde ao terceiro momento do Romantismo, em fusão com remanescentes do
Ultrarromantismo bruxuleante.” p. 211.
 “(...) esse período é assinalado pela presença de poetas, como João de Deus, Tomás
Ribeiro, Bulhão Pato, Xavier de Novais e Pinheiro Chagas, e de um prosador, Júlio Dinis.” p.
211.

JOÃO DE DEUS

 “A sua poesia biparte-se em lírico-amorosa e satírica, conforme os dois volumes de


Campo de Flores, das quais a primeira é a mais relevante, sobretudo pelas Canções,
Cançonetas, Odes, Idílios e Elegias.” p. 212.
 “O amor é o motivo permanente na poesia de João de Deus: embora o
Ultrarromantismo tenha conduzido os temas amorosos ao limite da pieguice, (...)” p. 212.
 “O poeta integra todo esse magma lírico em sua sensibilidade e, requintando-o até
onde seria possível, constrói uma poesia de timbre próprio, acrescentando à tradição os
achados do seu excepcional talento lírico.” p. 213.
 “Vem daí que, sendo contrário ao figurino ultrarromântico, não foi realista ou
parnasiano (...)” p. 213.
 “(...) foi necessário que as prescrições estéticas do Romantismo houvessem
desaparecido para que um lírico genuíno como João de Deus realizasse a sua poesia com a
máxima liberdade, isto é, romanticamente.” p. 213.
 “Poesia da sedução, da corte ou da comunicação duma vivência amorosa (...). Nesses
poemas, corre um sentimento lírico-amoroso que pressupõe sempre um forte idealismo a
conduzir a mente de João de Deus.” p. 213.
 “Tal idealismo, onde ressoa a voz do Camões lírico e o platonismo renascentista,
dirige-se à mulher e o Amor (...)” p. 213.
 “Visão espiritualista da bem-amada, não poucas vezes transformada em verdadeira
atitude mística, à custa de diafanizar progressivamente a contemplação amorosa e as palavras
que as transmitem.” p. 213.

Você também pode gostar