Você está na página 1de 276

Onier

O início de um ‘mundo’

Rubi A. Elhalyn
Dedicação
A todos que amam viajar entre mundos e histórias para alegrar seus dias.
“Um dia olharemos para frente e veremos o passado.”
Sumário
Introdução ..................................................................................................................... 6
Aliança quebrada ........................................................................................................... 9
Mensagens e simbolismos ........................................................................................... 14
Fúria represada ............................................................................................................ 20
Penhasco dos Tolos ...................................................................................................... 27
Ódio tempestuoso ....................................................................................................... 33
Impasse ........................................................................................................................ 38
Origens ........................................................................................................................ 46
Segredos ...................................................................................................................... 52
Reunião de família ....................................................................................................... 59
Frutos do azar .............................................................................................................. 65
Escolhas difíceis ........................................................................................................... 71
Vida longa ao Rei! ........................................................................................................ 79
Álnaz ............................................................................................................................ 87
Nike.............................................................................................................................. 94
Ziélena ....................................................................................................................... 101
Suspiros ..................................................................................................................... 108
Liberdades ................................................................................................................. 114
Controle emocional.................................................................................................... 122
Descobertas ............................................................................................................... 130
O preço do sangue inimigo ........................................................................................ 136
Do outro lado da fronteira ......................................................................................... 142
Mágoas ...................................................................................................................... 150
Táticas ........................................................................................................................ 159
Custe o que custar ..................................................................................................... 166
Uma noite longa......................................................................................................... 173
O espião ..................................................................................................................... 182
E o prêmio de ‘maior desconfiado’ vai para… ............................................................ 187
Comemorando o medo .............................................................................................. 194
Sneipas: de Tríade à Terra .......................................................................................... 202
Revolta gerando revolta ............................................................................................. 209
A ‘delicadeza’ de uma flor ......................................................................................... 216
Passado condenatório ................................................................................................ 223
Garantias ................................................................................................................... 230
Ponto fraco ................................................................................................................ 235
O casamento .............................................................................................................. 241
Fazendo as pazes com o passado ............................................................................... 246
Fugindo da infelicidade .............................................................................................. 252
Reencontros ............................................................................................................... 261
Reino … Onier ............................................................................................................ 267
Encontre a autora ...................................................................................................... 276
Onier |6

Introdução
Em algum lugar não tão distante existe um mundo dividido em dois. Dois povos
convivendo pacificamente, duas raças dominantes. Duas raças inteligentes, criativas, fortes
em muitos sentidos convivem nesse mundo belo e rico, desenvolvendo suas capacidades,
suas ciências, suas culturas e crenças, dividindo o topo da cadeia alimentar. Diferentes, mas
unidas por uma origem curiosa, ambas vivem em paz, mas sempre disputando o
conhecimento e o domínio de forma amistosa. Mas um mundo seria grande o bastante
para duas raças exercerem o domínio do mundo? Quanto tempo a paz pode durar entre
dois povos que buscam o domínio de seu mundo?
A raça dos sneipas era um povo antigo, vindo de outro planeta destruído por uma
catástrofe estelar, que chegara à Terra em busca de refúgio. Com longos braços e pernas,
um crânio levemente alongado do topo, com o tamanho médio de cerca de 2m, e longos e
finos dedos, eram seres muito inteligentes, criativos e curiosos. Algumas gerações na Terra
deformaram seus corpos diminuindo o tamanho de seus braços e pernas e arredondando
seus crânios, possivelmente pela diferença de gravidade que na Terra era bem maior que
em seu planeta natal. A ciência dos sneipas era à frente de qualquer coisa conhecida
mesmo nos dias de hoje. Conseguiram trazer para a Terra inúmeros espécimes animais e
vegetais de seu planeta e até criar novos animais manipulando sua genética e a energia de
seus corpos em uma técnica chamada “crialma”, desenvolvida por seu povo a muitos e
muitos séculos antes da fuga de seu mundo. Mas os sneipas não se contentavam com sua
ciência estagnada e sempre buscavam novos inventos, novas teorias e possibilidades.
Foi em uma dessas descobertas que um de seus mais promissores cientistas
desenvolveu uma técnica que abriria portas que jamais poderiam ser fechadas novamente.
O criativo Ast Raal percebeu que a energia de seus corpos usada para manipular e criar
novas espécies, curar algumas doenças, e até influênciar animais e vegetais ao redor,
poderia ser separada de seus corpos por períodos de tempo cada vez maiores com a
prática. Isso serviria para exterminar os limites impostos pelo corpo físico e, quem sabe,
encontrar a tão almejada imortalidade e foi nomeada como “ast-ral”, em homenagem ao
seu criador. De fato a prática foi desenvolvida e treinada durante gerações e potencializou
todas as técnicas científicas dos sneipas, mas não alcançou a imortalidade. Porém a força
das técnicas crialma se tornou gigantesca, quase ilimitada, e isso trouxe uma ideia ao povo
sneipas, o projeto mais ambicioso de sua história neste mundo: criar uma raça gêmea, uma
raça irmã. Claro, muitos foram contra essa ideia porque, afinal, pra que diabos eles
Onier |7

precisariam de outra raça? Pra que criar outro povo parecido com eles? Mas a ambição
criativa tem vontade própria e quando ela se instala em sua mente, nada, ninguém em todo
o universo, pode pará-la.
Poder. Tudo se resumiu a isso nesse projeto ambicioso. Criar uma raça igual a eles
porque eles podiam fazer isso, provar pra si mesmos que podiam, era simplesmente isso.
Claro...Seriam uma ótima mão de obra barata, eficiente, inteligente e obediente, afinal os
sneipas não costumavam brigar entre si, eram pacíficos e evitavam conflito ao máximo. A
nova raça seria igual a eles, então seriam pacíficos e mais propensos ao diálogo. Certo?
Foram necessários mais de 80 anos terrestres para o projeto finalmente dar resultado. O
primeiro casal foi então gerado por dois casais sneipas, e foi denominada de sapiens,
sneipas ao contrário para afirmar seu poderio, sua influência sobre a nova raça. Mas nem
tudo foi perfeito. A nova raça gerada por inseminação crialma, unindo genética e as
técnicas ast-ral, nasceu com uma velocidade de envelhecimento duas vezes mais rápida.
Enquanto os sneipas levavam cerca de 80 anos para começar a aparecer sinais de
envelhecimento físico, os sapiens já demonstravam esses sinais aos 40 anos, em média. Sua
pele também era um pouco mais escura e possuíam mais pêlos em seus corpos. Mas eram
inteligentes, curiosos, criativos, desenvolveram os mesmos sentimentos, anseios e dúvidas.
Até a forma como seus corpos funcionavam eram iguais. Mas, diferente dos sneipas, os
sapiens pareciam ter uma atração natural para a aventura e estavam sempre se colocando
em perigo, o que era idiotice considerando que eles não eram bons com a prática das
técnicas ast-ral ou qualquer outra que envolvesse energia e alma, colocando-se sempre em
perigo, algumas vezes fatais.
Então, em dado momento, poucas gerações de sapiens mais tarde, esses seres novos
criados pelos sneipas, decidiram se separar de seus criadores e criar sua própria sociedade.
Por mais insano que possa parecer, os sneipas não se opuseram. Certo, os sapiens eram
uma mão de obra forte e eficaz, mas os sapiens nunca foram preguiçosos e a ambição de
ver até onde suas criações poderiam chegar falou mais alto do que qualquer outro
sentimento. A surpresa no entanto veio quando os sapiens rapidamente se tornaram uma
raça dominante, um povo poderoso com ciências, crenças e culturas diferentes de seus
criadores, mas igualmente ricas e eficazes. Em menos de 500 anos desde sua criação, os
sneipas pacificamente dividiram o domínio da Terra com suas criações. Em parte pelo
reconhecimento e orgulho pelo povo rico culturalmente que os sapiens se tornaram, mas,
principalmente pela tendência à violência que as criaturas tinham. Diferente dos sneipas, os
sapiens pareciam apreciar o conflito acima do diálogo em qualquer nível. Mesmo assim,
durante Eras, ambos os povos conviveram tranquilamente, com pequenas contendas
rapidamente resolvidas.
Onier |8

Mas dois povos podem mesmo dividir o topo da cadeia alimentar de um planeta?
Sábios de ambos os povos previram uma catástrofe entre os povos, mas eram considerados
como loucos. Eles tinham suas diferenças sim, mas os sneipas tinham orgulho da raça que
criaram. Nunca entrariam em guerra com eles... Nunca... Mas e se...? Se a guerra pelo
domínio do mundo entre dois povos tão poderosos em suas especialidades começar, o que
restará desse mundo quando a disputa terminar?
O fim será apenas o início...
Onier |9

Aliança quebrada
Este era mais um dia comum. Só mais um dia de muito trabalho braçal em Omoh, a
grande nação dos sapiens. Com quase mil anos de existência, Omoh era uma nação
essencialmente produtora e criativa. Mantinha relações estreitas, ainda que um pouco
tensas às vezes, com seus criadores, os sneipas. Eles lhes ensinaram como cultivar a terra,
como produzir, o básico de sua ciência, mas os sapiens focaram seus conhecimentos
científicos nos aspectos bélicos e na força bruta, já que não tinham muita facilidade para as
técnicas crialma e ast-raal que envolviam a alma e que os sapiens denominavam
genericamente de ‘magia’. Poucos sapiens conseguiam desenvolver um pouco dessa prática
dos criadores e eram considerados sábios entre os sapiens, muito respeitados e
consultados em inúmeras ocasiões. Mas os sapiens não gostavam muito da ideia de serem
criaturas dos sneipas, parecia....indigno. Eles se consideravam muito melhores que seus
criadores porque eram mais fortes fisicamente, mais inteligentes para causar contendas e
resolver seus problemas na base da porrada. Eles se orgulhavam disso, criaram armas cada
vez mais poderosas sem precisar da magia dos sneipas.
A mente do comandante Seyrus vagava por essas questões enquanto observava seus
soldados treinando sob seu olhar crítico. Os sapiens algumas vezes tentaram causar uma
confusão mesmo que pequena com seus criadores para mostrar para eles quem era o mais
forte. Mas os sneipas eram pacíficos, não apáticos, mas evitavam conflitos com simples
diálogos e parecia quase impossível perturbá-los. A coisa estava em um nível que a
sociedade sapiens, do mais rico ao mais humilde, tinha um certo preconceito contra os
sneipas pouco disfarçado. Os sneipas, por sua vez, sabiam disso, era evidente, mas levavam
tudo na esportiva, achando até graça dos sapiens que viam como crianças rebeldes. Não
seria justo, na visão dos sneipas, partir para o conflito com suas criaturas porque os sapiens
só tinham espadas, armas de pequeno alcance, e muita técnica de combate, mas,
comparado com as técnicas psíquicas, armas que usavam a energia da alma e todas as
possibilidades que tinham, seria um massacre cruel contra suas crias.
Omoh estava se preparando para uma festa majestosa em comemoração de seus mil
anos. Mil anos que os sapiens consideravam como a maior prova de quanto eles eram
poderosos. Nenhum outro animal desenvolveu uma sociedade rica em cultura, reconhecida
até pelos altivos sneipas, e durou mil anos. Os sneipas seriam convidados porque eram seus
criadores, afinal, mas a consideração acabava aí.
- Você parece perdido em pensamentos, comandante. – Uma jovem saltitando se
aproximou sorridente.
O n i e r | 10

- Nike, você não devia estar aqui. A mãe e o pai sabem que você está fugindo de suas
responsabilidades de novo? – Seyrus repreendeu a irmã caçula que o olhou fazendo
beicinho.
- Não seja chato, Seyrus. Ou conto pro pai que você estava usando a espada dele sem
pedir permissão. – Nike respondeu com aquele sorrisinho que Seyrus amava e odiava ao
mesmo tempo.
- Sua peste. – Ele disse sorrindo. – O que você quer aqui?
- Ver os soldados semi nus e suados, óbvio. – Nike respondeu.
Seyrus revirou os olhos escuros e chamou atenção de um soldado que havia
completado o exercício 3cm errado. Seyrus não era o sapiens muito bonito, mas também
não era feio para os padrões de seu povo. Tinha os cabelos raspados como todo militar,
uma barba negra curta arrumada em duas tranças que era a marca do cargo de
comandante, ombros largos e fortes, pele negra, olhos grandes e quase negros, mais alto
que o normal para sua raça com quase 2 metros, o que lembrava muito os sneipas e por
isso era considerado feio. Nike era a única sapiens da família com a habilidade natural para
as artes mágicas dos sneipas e fora treinada desde criança nessas práticas. Ela tinha muita
facilidade para se comunicar com animais e plantas, mover coisas com a mente, criar, sentir
e usar energias dos corpos físicos ao seu redor. Era considerada uma mulher muito bonita,
mesmo com seus olhos estranhos. Foi a primeira vez que qualquer ser, sneipas ou sapiens,
nasceu com olhos verdes e ninguém conseguia explicar essa anomalia. Tinha 1,60m,
cabelos médios em forma de ondas cor de mel, pele negra e um corpo arredondado que
chamava a atenção onde passava. Era muito conhecida por ser atrevida e muito tagarela.
Os irmãos eram filhos da governadora e do sábio mais influente de Omoh que guardava os
arquivos históricos, o mais alto cargo dos Guardiões. Seyrus era o mais velho, com 16 anos,
a idade adulta dos sapiens, Nike era dois anos mais nova, mas era adulta demais para sua
idade em muita coisa que não devia.
- Você está preocupado com a festa? – Nike perguntou. Às vezes Seyrus se perguntava
se ela podia ler as mentes dos sapiens também.
- Mais ou menos... Não gosto deles, principalmente daquele rei idiota dos sneipas. Se
ao menos eles fizessem algo ofensivo eu poderia arrancar aquele sorriso arrogante dele
com uma faca!
- Gosto dos sneipas tanto quanto qualquer um aqui, mas não temos como atingí-los.
Eles parecem não ter sangue nas veias. São covardes demais para nos enfrentar... – Nike
respondeu, mas parou de repente olhando para o rosto do irmão. – Poderosa Luz! Você
tem um plano, não tem?!
- Não falei nada...
- Pare de me enrolar. Você sabe que vou te incomodar até você me contar.
O n i e r | 11

- Bem... Talvez eu precise da sua ajuda mesmo. – Seyrus suspirou e puxou a irmã para
um canto afastado. – Você me disse uma vez que sua mestra nas mágicas deles tinha um
brinco na língua que brilhou uma vez quando ela ficou zangada com suas peripécias, não é?
- Sim, mas a mãe e o pai disseram que isso não existia. Que eu imaginei e que esses
brincos que eles usam é só um enfeite sem magia nenhuma.
- Talvez seja, ou talvez não. Andei observando e coloquei espiões para seguir alguns
sneipas tolos e sem muita importância. Sabemos que todos eles, sem exceção, usam esses
brincos esquisitos na língua. O que ninguém sabia é que parece não ser só uma moda
idiota, mas sim algo que eles consideram muito importante, eles nunca tiram nem pra
dormir e não deixam ninguém tocar neles, exceto seus amantes. – Seyrus disse.
- Espera. É por isso que eles só namoram e se unem com uma pessoa? Pra que só ela
toque seus brincos esquisitos nos beijos? – Nike perguntou levando a informação para a
área que ela mais se interessava.
- Eu não tinha pensado por esse lado, mas sim. Com certeza. Se é tão importante só
precisamos roubar esse brinco de alguém e destruir. Eles não vão poder fugir da briga
depois disso, não com uma provocação à nível quase religiosos, porque é minha maior
aposta sobre a função desses brincos. – Seyrus disse e já se preparava mentalmente para
ser tratado como o herói que iniciou a guerra que destruiu os fracos e covardes sneipas,
dando o controle total do planeta para seu povo.
- Certo, esperto, mas como vamos roubar isso? E de quem? – Nike perguntou.
- É aí que você entra. – Seyrus contou sua ideia e Nike ajudou a aperfeiçoar o plano.
Seyrus e Nike entrariam para a história como os libertadores, os corajosos sapiens que
causaram o início do fim dos sneipas.
Pelo menos, era o que eles pensavam e o que qualquer um pensaria naquele tempo.

Dois meses depois...


Quatro dias de festas por toda a Terra comemorariam os 1000 anos da fundação de
Omoh. Sim, por toda a Terra por que até os sneipas pararam suas atividades normais para
comemorar o sucesso dos primeiros 1000 anos da sociedade de suas criaturas. Isso
mostrava o quão poderosa a ciência sneipa era. O povo sneipa existia, até onde se sabia, a
mais de 440 milhões de anos e saber que criaram uma raça que poderia durar tanto quanto
eles os faziam se sentir quase tão poderosos quanto seus deuses.
A grande nação dos sneipas recebera o nome da estrela que seu planeta seguia, Rígel.
Era uma cidade única e gigantesca cujas fronteiras abrangiam metade do planeta, assim
como Omoh. Ambas as nações eram divididas em governos menores que se reuniam uma
vez por mês no governo central. O governo central de cada um dos dois povos ficava no
mesmo ponto da fronteira, separados fisicamente apenas por um marco histórico
O n i e r | 12

fronteiriço. Omoh era regido por 12 governantes subalternos à um governador maior. Um


rei, em outras palavras, mas não usavam esse nome para o cargo apenas porque queriam
ser diferentes de seus criadores. Rígel era governado por um rei e mantinha a mesma
subdivisão de governos que Omoh. O rei atual de Rígel era Betel, um sneipas de quase 100
anos, muito sábio e um cientista especializado em criações de plantas em níveis
moleculares, mas muito tímido com as mulheres de seu povo, o que o tornou um rei sem
herdeiros até o momento.
Quando soube que a jovem e promissora sapiens, Nike pediu para visitar seus jardins
pessoais onde ele praticava sua ciência, Betel aceitou de imediato. Parte de sua
responsabilidade como rei era acompanhar os relatórios sobre os sapiens com habilidades
para a ciência sneipas e, com maior atenção os que tivessem mais habilidade natural. No
momento, Nike ocupava o topo dessa lista sendo a sapiens mais promissora e que
despertava a curiosidade científica de Betel com aqueles olhos inexplicáveis. Além do mais,
Nike era uma companhia agradável, sempre falando pelos cotovelos em contraste com o rei
tímido, mas de um jeito que o agradava.
- Nike! A jovem mais criativa e inteligente deste planeta azulado. Como está, minha
grande pequena amiga? – Betel cumprimentou a moça indo buscá-la pessoalmente no
portão principal da mansão gigantesca.
- É um prazer rever o rei mais legal deste mundo. – Nike respondeu aceitando o braço
oferecido pelo rei.
- Nike, eu sou o único rei neste planeta. – Betel comentou rindo e corando
nitidamente em contraste com sua pele clara.
- O que só confirma que eu digo a verdade. – Nike respondeu sorrindo amplamente.
O rei guiou a moça até os jardins e mostrou cada nova criação com um carinho tão
grande pelas plantas que era como se falasse de um filho. Nike prestava atenção,
perguntava e fazia brincadeiras bobas que faziam o rei sorrir sem reservas. Era raro ele se
sentir tão à vontade na presença de outra pessoa, mas Nike era um doce de menina e tinha
um bom humor contagiante. O bom humor do rei causara uma distração grande o bastante
para que ele não percebesse a criatura que se esgueirava nas sombras entre as plantas
maiores.
Nike sabia que, mais cedo ou mais tarde, como sempre, Betel mandaria os guardas
saírem dos jardins, afinal eles não tinha função real, eram só um simbolismo, não havia
contra o que proteger o rei. No meio da tarde do primeiro dia de festas em comemoração
aos 1000 anos de Omoh, o rei Betel dispensou os guardas, sentou-se e serviu uma xícara de
chá para sua convidada. Antes do primeiro gole na xícara de prata, ouvindo a tagarelice de
Nike, Betel sentiu uma pancada na parte de trás de sua cabeça e então tudo escureceu.
- Ele está morto? – Seyrus perguntou temendo ter batido com força demais.
O n i e r | 13

Nike verificou a energia vital do rei. – Não. Ele está vivo. Mas vai sentir uma bela dor
de cabeça quando acordar. Vamos rápido com isso.
Seyrus segurou a cabeça do rei, apoiando ela na parte de trás da cadeira e forçou a
boca do rei para abrir. Com a outra mão, Seyrus segurou o brinco na língua do rei, mas
soltou quase imediatamente.
- O que foi? – Nike perguntou.
- Essa coisa me deu choque! – Seyrus respondeu fechando o punho pronto pra socar a
cara do rei desmaiado.
- Pare, seu tolo! Bater não vai resolver nada agora. – Nike respondeu. – Deve ter algum
tipo de defesa mágica. Talvez se eu usar... – Nike disse a si mesma. No minuto seguinte ela
criou uma barreira magnética na mão e pegou no brinco sem problemas, soltando o
pequenino fecho magnético abaixo da língua do rei.
Quando acordasse ele ficaria furioso com seu brinco perdido. Mas Seyrus e Nike não
sabiam o que tinham feito. Segundos depois que o brinco foi retirado, o rei começou a se
debater na cadeira tão rápido que mal se podia ver o corpo dele com precisão. Nike e
Seyrus tentaram segurar o sneipas pra parar com aquilo, mas levaram tapas e socos
involuntários até desistirem e se afastarem para ver a cena horrorizados. A cabeça do rei
bateu tantas vezes na cadeira e no chão quando ele caiu que pedaços de seu crânio e
cérebro voaram ao redor, indo parar nas xícaras de chá, nas plantas, nas paredes e até nos
dois sapiens parados ali. E então acabou. Nike avaliou apenas pra ter certeza. O rei estava
morto, destroçado. Ela não queria isso. Nenhum dos dois queria. Ele era um sneipas, era
fraco e covarde na visão sapiens, mas era um bom homem, gentil e Nike gostava dele, o
respeitava.
- Vamos. Não podemos ficar aqui. – Seyrus disse e puxou a irmã para fora do jardim, se
escondendo em todas as sombras possíveis.
O n i e r | 14

Mensagens e simbolismos
Os sapiens e seus criadores tinham outro ponto que os diferenciava: o choro. Sneipas
viam o choro como a força da alma sendo jogada para fora externando um sentimento
forte demais para ficar escondido. Os sapiens, sempre tentando ir contra seus criadores,
viam o choro como um grande exemplo de fraqueza e covardia. Não é de admirar que os
dois grupos reagissem tão opostamente à morte do rei Betel. Nike, assim que chegou em
casa sem dizer uma palavra durante todo o caminho, se afastou do irmão e entrou na fonte
termal particular de seu quarto. Escondida ali ela chorou, suas lágrimas se misturando com
a água quente do banho, a culpa, a piedade e o terror pela morte de Betel atormentando
seu coração. Os guardas sneipas quando encontraram o rei morto daquela forma tão
grotesca não esconderam sua dor e os lamentos e o choro ecoaram em todos os lugares.
Um exame rápido no cadáver, apenas seguindo o protocolo, confirmou o que até um
cego teria visto de cara. Betel morrer pelo roubo de sua lorpat, o maior sacrilégio que
poderia ser cometido contra um sneipas. A lorpat era uma joia sneipas inventada séculos
antes da chegada na Terra, colocada na língua como um piercing que guarda a alma de seu
retentor. É assim que eles vivem por tanto tempo sem muito desgaste físico. No entanto ela
só pode ser tocada por seu usuário ou uma única pessoa em quem ele confie, como um
enorme sinal de união. Se tocada por outra pessoa uma barreira magnética na lorpat
causaria choques, a menos que a pessoa tenha algum poder espiritual forte para destruir
momentaneamente a barreira. O problema maior é que, se tirada do corpo do usuário, ele
convulsiona e morre em poucos minutos, se a joia for restituída em pouco tempo ele
sobrevive com sequelas. O uso da lorpat começou como uma ciência, um meio de viver
poor muito mais tempo, mas se tornou algo tão intrínseco na sociedade sneipas, quase
religioso, que ninguém, nem mesmo o sneipas mais irado, pensaria em tirar a lorpat de
outro. Isso era um crime tão inconcebível que mesmo pensar sobre isso parecia a pior das
heresias. A lorpat não era tirada de seu dono nem mesmo após a morte quando o corpo era
cremado e as cinzas e a joia eram lançadas no mar.
Não precisava ser nenhum detetive genial para identificar o culpado pelo crime. A
única pessoa que estiver com o rei naquele dia e que havia desaparecido: Nike. E onde Nike
estava, Seyrus não estava muito longe. Era evidente que ambos haviam cometido esse
crime hediondo e isso seria cobrado com o preço do sangue.

~o~
Nike e Seyrus combinaram de se arrumar com suas melhores roupas e joias para
encontrar seus pais e relatar o ocorrido. Certo, a ideia não era matar Betel, mas ninguém
O n i e r | 15

lamentaria a morte do rei sneipas se isso resultasse numa guerra que com certeza seria
vencida pelos sapiens. Pelo menos era isso que eles acreditavam.
Iva era a sapiens mais poderosa de Omoh como a governadora chefe e sua regência
era famosa pela eficácia e repressão violenta a qualquer oponente, rebelde ou quem
sequer a olhasse torto. Era uma mulher de cabelos curtos e cacheados, negros como a noite
sem luar, pele negra, pouco mais alta que sua filha Nike, seios fartos e quadris largos, um
olhar forte com belos olhos cor de mel e uma voz firme que não precisava ser erguida para
demonstrar autoridade, e era muito parecida com Seyrus. Klaoz era a voz da sabedoria da
família. Sempre observador, falava pouco, mas sempre que abria a boca dizia algo útil e
justo. Era um homem de quase 40 anos, pouco mais velho que a esposa, era o Guardião dos
Registros Históricos, o maior cargo dentre os Guardiões, seu olhar lembrava muito o de
Nike, sempre atento à tudo e todos. Era um homem forte, de quase 2 metros de altura
como seu filho, olhos castanho escuro, longa barba castanha, cabeça raspada e muito
magro, pois vivia esquecendo as refeições. Mas não era nenhum pouco pacífico. Quando
sentia qualquer perigo, qualquer sinal de contestação, nem mesmo um olhar ou uma
emoção atravessava sua face, mas em segundos sacava sua adaga e cortava a orelha do
alvo de sua fúria disfarçada de calma, ou algo pior.
A sala de reuniões era um cômodo de paredes de pedra, forrado com tapetes e
cortinas de peles de jaguar, ursos e uma cabeça de cervo pendurada na parede como um
troféu de caça, um presente bajulador de um dos governadores de Omoh. Os móveis de
madeira escura tinham um estilo rústico, curvilíneo, com diversas figuras de caça e de
batalhas esculpidas em pontos diversos. As cadeiras de espaldar alto eram generosamente
forradas de peles de animais, sendo a de Iva a maior, seguida em tamanho do espaldar pela
de seu marido. Ambos estavam sentados lado a lado, mas qualquer um perceberia de cara
quem era o chefe ali pela simples postura e a quantidade de desenhos mais elaborados e
peles na cadeira de Iva.
Seyrus e Nike, de pé com a postura reta em respeito aos pais, contaram
detalhadamente desde o planejamento até o resultado final horas antes. O casal ouviu seus
filhos sentados tranquilamente à mesa sem esboçar nenhuma reação, nem mesmo a
tempestuosa Iva.
- Então Betel está morto e descobrimos a fraqueza dos covardes. – Iva disse, seu rosto
uma máscara ilegível. – Isso será uma guerra, sem dúvida.
- Depende. – Klaoz disse sem nenhuma emoção na voz.
- Como assim? – Iva perguntou.
- Eles podem fazer uma oferta de reparação. Uma punição contra os agressores, se
essa peça é realmente tão importante para eles. – Klaoz disse. – Então caberá a você decidir
se aceita ou não.
O n i e r | 16

- Claro que não irei aceitar! É nossa chance de finalmente esmagar aquela raça, talvez
até expulsá-los de NOSSO planeta. Nós nascemos aqui, não eles! Eles nunca tiveram direito
à este lugar. – Iva disse finalmente soando com aquela força interior que era sua marca.
- Então, querida, a grande questão aqui é como você recusará o pedido de reparação
deles. Entenda que eles ainda podem recuar ante à ofensa, como eles sempre fazem,
apenas por considerar que o perdão é o melhor caminho. Se queremos uma guerra
devemos eliminar qualquer chance deles para serem covardes. – Klaoz disse ainda sem
nenhum traço de emoção na voz ou no rosto.
- Se me permite, mãe, creio que Nike tem uma ideia. – Seyrus disse sinalizando pra
irmã continuar.
Ela não queria. Nem sabia porque tinha comentado sobre aquilo no caminho para a
sala de reuniões. Foi só uma ideia que lhe passou pela mente, algo que ela achou que a
mãe faria de qualquer forma, que a mãe ou seu pai teriam essa ideia. Ela não queria dar
uma ideia dessas, mas também não queria mais dividir seu mundo com seres não covardes
como os sneipas, ela queria desonrá-los tanto quanto qualquer sapiens. Agora que seu
irmão disse aquilo, não havia como ela retroceder sem demonstrar a mesma covardia dos
sneipas.
- Os mensageiros são sagrados para nós e para os sneipas. Sempre foram e creio que
sempre serão. Mas os mensageiros só devem ser sagrados se forem sapiens, exemplos de
coragem e dignidade. Se mostrarmos aos sneipas que nem mesmo os mensageiros deles
têm algum valor para nós, eles não poderão recuar. E, mesmo que evitem a guerra, duvido
que eles tenham a mesma arrogância em esfregar na nossa cara o tempo todo que eles nos
criaram, eles perderão o respeito entre eles mesmos. – Nike disse. – Em suma, acredito que
devemos matar seus mensageiros e enviar suas cabeças de volta sem o brinco na língua.
Iva olhou para a filha e seu olhar refletia o mesmo orgulho nos olhos de Seyrus e até
mesmo no rosto sempre tão inexpressivo de Klaoz. Os três tinham o peito tão estufado que
pareciam querer explodir a qualquer segundo.
- Nike, você é realmente a maior joia sapiens de todos os tempos. – Iva disse com um
sorriso enorme.
- Essa ideia é incrivelmente sábia e prática. Estou orgulhoso de você, minha cara. –
Klaoz disse sério, mas seus olhos tinham um brilho de alegria tão raro que muitas vezes
parecia até impossível de existir.

~o~
A notícia da morte de Betel foi dada assim que a festa na parte central da cidade
começou. Iva apresentou Seyrus e Nike como os heróis que deram o golpe de mestre nos
sneipas e imediatamente o povo lhes deu o apelido de ‘libertadores’. Nenhum sneipas
O n i e r | 17

apareceu na festa até aquele momento e todos os sapiens tinham certeza que eles estavam
lamentando com suas lágrimas indignas pelo seu rei morto. A festa virou não só o primeiro
dia da comemoração dos 1000 anos de Omoh, mas também o primeiro dia em que os
sapiens mostraram aos sneipas quem realmente tinha poder ali.
Era madrugada e a festa estava no auge. Como já esperavam, três sneipas apareceram
como mandava a tradição. Um entregaria a mensagem, com o uso da técnica de
memorização e reprodução fiel outro registraria cada palavra mentalmente e o outro
registraria cada expressão. Quando retornavam os três davam um relato preciso. Assim que
chegaram pediram para falar com Iva em particular. Ela disse que os receberia, mas que o
que eles fossem dizer seria dito alí na festa na frente de todos. Em outras palavras, eles não
eram dignos da atenção particular dela, o que, por si só já era uma ofensa, mas os sneipas
sempre iriam escolher o diálogo. Assim, a música parou e, em outra demonstração de
poder, Iva, Klaoz, Nike e Seyrus ficaram em cima do palanque enquanto os mensageiros
davam seu recado do chão, em um círculo vasto aberto em meio ao povo.
- Iva, governante chefe de Omoh. Hoje nosso amado rei Betel foi morto cruelmente
com o roubo perverso de sua lorpat, a joia da alma. – O mensageiro que parecia ser o líder
disse e seus olhos ainda estavam vermelhos e inchados pelo lamento por seu rei. –
Infelizmente devo relatar que nossa maior suspeita recai sobre sua filha Nike e possível
colaboração de seu filho, o comandante Seyrus. Queremos acreditar que dois jovens tão
promissores em suas áreas não seriam capazes de pensar em algo assim...
- Nós não só fomos capazes de pensar nisso, seu merdinha arrogante, como também
realizamos. Minha irmã e eu, juntos, fizemos seu rei idiota morrer tão facilmente quanto eu
mato um pato para o jantar! – Seyrus disse com orgulho pegando a mão de Nike que,
apesar de gostar um pouco de Betel, sentia uma onda de triunfo por esfregar na cara
daquele sneipas que ela tinha muita coragem sim e não era uma mera criação daqueles
fracos.
- Você ouviu meu menino, mensageiro. – Iva disse dando ênfase irônica ao cargo
sagrado do sneipas.
O mensageiro chefe respirou fundo, abaixou a cabeça e balançou negativamente. Com
uma onda de tristeza na voz, ele disse: - Lamento ouvir isso. Lamento mesmo. Mas devo
apresentar a proposta que me foi confiada pelo nosso novo rei. Em nome de Andor, rei
nomeado de Rígel, exijo que os assassinos do rei Betel sejam enviados para Rígel como
prisioneiros para trabalharem o resto de suas vidas à serviço dos sneipas como forma de
reparação por seu crime hediondo. Garantimos que nenhum mal físico lhes será feito,
desde que obedeçam as regras. Feito isto, nossas diferenças serão esquecidas e voltaremos
às boas relações de sempre. O rei Andor confia em sua sabedoria, nobre Iva, e lamenta
profundamente a situação, mas, em caso de recusa, não haverá outra opção a não ser a
O n i e r | 18

guerra. – Quando o mensageiro terminou seu olhar claramente demonstrava que ele tinha
certeza que Iva aceitaria a proposta.
- Então, acho que não teremos outra opção... – Iva disse e acrescentou com um
sorriso. - Vamos à guerra.
Um misto de choque e decepção ficou evidente no semblante dos mensageiros. Mas
foi rapidamente substituíta pelo terror quando Iva sinalizou e seis soldados, dois pra cada
mensageiro, os agarrou.
- O que significa isso? Creio que não é necessário usar violência... – O chefe dos
mensageiros disse se debatendo.
- Pra vocês, alienígenas fracos, nunca é necessário usar violência porque vocês não
têm nenhuma capacidade de luta. São inúteis, covardes e se acham melhores do que nós. –
Iva disse. – Mas, a violência, como vocês dizem, é o que nos mantém vivos e fortes. Por isso
nós iremos ser os únicos líderes deste mundo e vocês serão exterminados
vergonhosamente.
- O apelo à violência não os tornam fortes. Será que vocês não percebem isso? A
violência deve ser sempre o último recurso, nunca o primeiro. – O mensageiro tentava
argumentar em vão.
- Isso é o que todo covarde diz. – Klaoz respondeu.
Iva, Klaoz, Nike e Seyrus seguiram à frente, os soldados praticamente arrastando os
mensageiros que gritavam, imploravam e choravam por suas vidas, e o povo seguindo logo
atrás gritando palavras de apoio e incentivo à atitude de Iva. Quando o cortejo parou à
beira de um enorme penhasco pedregoso, os soldados carregaram os mensageiros para a
na borda do penhasco numa linha horizontal, com Iva e sua família ao lado formando uma
linha vertical, e o povo sapiens um pouco mais distante observando a cena em silencio.
- Hoje, nos 1000 anos de existência de Omoh, começa uma nova Era! A Era da
Libertação de nosso povo das amarras humilhantes aos sneipas, os covardes das estrelas! –
Klaoz disse em um tom quase religioso.
Então sacou sua adaga e fez um corte horizontal não muito profundo nas gargantas
dos mensageiros que caíram de joelhos para frente, a poucos centímetros do penhasco.
Eles não poderiam gritar e também não teriam chance de sobrevivência. Não com o que
viria a seguir. Iva se aproximou do líder dos mensageiros e sinalizou para Nike e Seyrus que
ficaram atrás de cada mensageiro. Ao sinal da governadora chefe de Omoh, os três
mensageiros foram empurrados com um pé penhasco abaixo, caindo por mais de 35
metros de altura, entre pedras de diversos tamanhos, árvores e parando no chão rochoso.
O povo se aproximou e todos viram os três mensageiros rolando penhasco abaixo por tanto
tempo que sumiram na escuridão noturna que cergava o local, ainda ouvindo por algum
O n i e r | 19

tempo os sons da queda antes que esta finalmente cessasse. Quando o som finalmente
parou, Seyrus e Iva seguraram um em cada braço de Nike e os ergueram.
- Saúdem a nossa Nike, A Vitoriosa, que nos trouxe esta ideia de como vencer a
covardia sneipas! – Ambos gritaram.
O povo foi ao delírio. Todos gritavam o nome de ‘Nike, A Vitoriosa’, e desde então ela
seria vista como um símbolo divino da vitória garantida sobre os sneipas. No dia seguinte,
quase meio-dia, soldados foram enviados para verificar os corpos. Um dos mensageiros
havia morrido na queda, outro pela hemorragia na garganta e o líder ainda estava vivo
quando os animais da região e as formigas devoraram os corpos. Sob ordens de Iva, os três
foram levados para a praça central de novo, onde o povo fora reunido para presenciar
aquela cena, suas cabeças foram cortadas e enviadas para Rígel. Porém as lorpat dos três
sneipas não foram encontradas mesmo depois de meses de busca.
O n i e r | 20

Fúria represada
- Pelos deuses das estrelas gêmeas, isso só pode ser uma alucinação... – Andor,
sucessor de Betel, disse quase num sussurro vendo as três cabeças dilaceradas, bocas e
olhos abertos, enfiadas em três lanças colocadas no meio da praça de Rígel, a alguns
metros do lar do rei. – Porque eles fariam isso? Sei que eles possuem certa competitividade
conosco, mas... Isso é loucura. Ninguém viu nada?
- Um guarda viu senhor, mas ele está no laboratório para tratamento médico. – O
conselheiro disse e, vendo a sobrancelha arqueada do rei, acrescentou com tristeza: - Com
as lanças ocultas em algum ponto da praça, os soldados sapiens esperaram ele se
aproximar para dizer a que vinham, e, antes que ele tivesse chance de dizer qualquer coisa,
o dominaram, colocaram de joelhos para ver as lanças serem fincadas, contaram à ele o
que fizeram em Omoh com esses pobres sneipas, e depois queimaram seus olhos. Os
moradores da região ouviram os gritos, mas quando saíram para ajudar, os sapiens já
tinham ido embora.
- Pobre sneipas. Leve-me até ele. E, pelos deuses, tirem essas pobres criaturas daí.
Lhes concederemos um funeral digno de um rei. – Andor disse com uma sensação horrível
de peso no peito, como se a pata de um urso apertasse seus pulmões.
Andor era um sneipas não tão bonito, mas tinha um carisma tão grande que bastava
um sorriso seu para atrair suspiros. De olhos cinzentos, 2,5m, sem nenhum cabelo ou pêlo
no corpo, pele branca levemente bronzeada, e mais forte do que era considerado normal
para um sneipas, ele era muito amado por Betel que praticamente o criara desde o
desaparecimento de seus pais, 50 anos antes, quando ele tinha 8 anos. Era inteligente,
empático ao extremo, adorava a companhia dos animais de todo tipo, e, por mais estranho
que parecesse, tinha enorme facilidade para memorizar técnicas de luta dos animais e dos
sapiens. Todo rei sneipas por obrigação tinha que ser profissional de qualquer área e atuar
nela por pelo menos 10 anos para contribuir para a sociedade. Andor se tornara
historiador, uma das profissões mais importantes para seu povo, e era o mestre de futuros
historiadores a 36 anos. Ele não era herdeiro de Betel, nunca fora, mas, foi a escolha óbvia
para o cargo com a morte repentina do rei. Muitos sneipas e sapiens acreditavam, e talvez
fosse verdade, que Betel o nomearia seu herdeiro mais cedo ou mais tarde já que eles eram
tão próximos. Quando Betel morreu, não havia ninguém mais próximo do rei ou melhor
preparado para o cargo, ou mesmo mais desejado pelo povo como próximo rei, do que
Andor.
Andor sabia dessa possibilidade a muitos anos, Betel chegara a conversar brevemente
com ele sobre isso. Quando Betel perguntou se ele queria ser rei, ele respondeu que não se
O n i e r | 21

importaria de governar se fosse o necessário para seu povo, mas que ele não almejava isso,
ele amava sua vida de professor e historiador. Então o rei nunca mais tocara no assunto,
talvez tivesse desistido da ideia e estivesse procurando outro candidato, talvez estivesse só
dando o máximo de tempo possível para Andor atuar no que realmente amava... Ninguém
nunca saberia.
Andor conversou com o pobre guarda cego com uma faixa branca ao redor da cabeça,
cobrindo o que restara dos olhos feridos. O guarda contou em detalhes tudo que
acontecera em Omoh e terminou dizendo que os sapiens mandaram ele contar com todos
os detalhes, caso contrário, eles voltariam e matariam a família do guarda. A empatia de
Andor o fez sentir cada emoção do sneipas à sua frente e do povo ao redor. Ele nunca
considerara sua forte empatia como algo ruim até aquele momento. O rei precisava fazer
um pronunciamento para toda Rígel naquela tarde, esclarecendo o que havia acontecido.
Toda transmissão era feita à distância através de telas de vidro espalhadas por toda cidade
e todas as casas, chamadas de oxel-fer, ou apenas OFR, uma tecnologia que vinha da pré
história dos sneipas e que eles ensinaram aos sapiens. Ele sabia o que isso iria gerar e como
isso poderia terminar. Se ele não queria ser rei antes, agora ele definitivamente preferia
continuar sendo historiador. Mas o dever, infelizmente, não podia ser negligenciado. Talvez
ele pudesse atrasar um pouco mais a transmissão, tentar o diálogo com os sapiens
novamente e impedir uma guerra...
- Senhor. – O conselheiro se aproximou e Andor quase deu um pulo de susto, tão
perdido em seus pensamentos que não vira o velho sneipas se aproximar. – Perdoe-me
senhor, não quis assustá-lo...
- Não, tudo bem. Estava com a mente ocupada demais para dar atenção aos meus
olhos. Você conseguiu contato com a governadora de Omoh?
- Na verdade, senhor, ela se recusa a atender porque... Bem... Eles estão festejando.
Era muita falta de empatia festejar quando o reino vizinho estava de luto por seu rei,
mesmo tendo sido os causadores dessa morte, festejá-la era muita falta de respeito à vida.
Mas Andor respirou fundo e tentou ser compreensivo.
- Bem... Os mil anos de uma nação não iriam ser menos festejados pela morte de
alguém que eles parecem considerar um inimigo... – Andor ponderou.
- Na verdade, meu senhor, não estão comemorando os mil anos de Omoh, não
apenas... – O conselheiro viu o rosto de Andor se tornar uma pouco avermelhado prevendo
onde essa conversa ia chegar. Mas ele tinha que contar, então continuou: - Eles estão
comemorando o aniversário de sua nação e as mortes do rei e dos mensageiros, além do
ferimento de nosso guarda.
A raiva fez o sangue subir às faces e pecoço de Andor mais intensamente. Seus olhos
cinzentos pareciam ter um brilho a mais, um brilho quase animal. Comemorar mortes?
O n i e r | 22

Mesmo mortes de inimigos? Mesmo considerar os sneipas inimigos já era absurdo! A falta
de empatia dos sapiens não poderia ser ignorada. Não mais.

~o~
Naquela tarde, Andor contou na transmissão cada detalhe do que aconteceu. Nenhum
governante sneipas podia esconder detalhes de coisas que podiam causar grandes males ao
povo, isso era considerado alta traição à nação e ele poderia ser executado por tal crime.
No final, Andor completou dizendo:
- Sei o que vocês querem, mas sabemos o preço que a guerra cobra quando nos
envolvemos. Precisamos ser sensatos, já que nossas criações não são. Antes de declarar
guerra, - e Andor sabia que o povo exigiria isso – me reunirei com o Conselho e ouvirei as
propostas. Quando minha decisão estiver tomada, todos serão informados.
Não era preciso ser empata ou telepata pra saber o que o povo sentia naquele
momento. Não havia um sneipas que não desejasse a guerra agora. Uma parcela do povo
concordava com a cautela de Andor porque sabiam onde guerras com sneipas podiam
chegar, mas outra parcela, uma enorme, não aceitava esperar mais, queriam ver todos os
sapiens destruídos, exterminados para sempre da Terra.
A reunião do rei com o Conselho começou logo após a transmissão. Todos tinham
aquele rubor intenso na pele, não só o rei e os membros do Conselho, mas sim todos os
sneipas. Andor tentava manter a sensatez, agir com cautela, por mais irritado que estivesse,
para não cometer os mesmos erros do passado longínquo dos sneipas quando, pela última
vez, eles travaram uma guerra. Aquilo não podia se repetir. Nunca. Mas nem tudo é como
queremos na vida.
No meio da madrugada, ainda reunidos discutindo como abordar a situação, tentando
evitar uma guerra e apenas dar algum castigo pesado aos sapiens, o barulho de gritos do
lado de fora do palácio invadiu a sala de reuniões. Os conselheiros, o rei e até alguns
copeiros e garçons foram até as enormes janelas para ver o que estava acontecendo. Do
lado de fora, no pátio do palácio, uma multidão de sneipas de pele avermelhada gritavam e
pediam pela guerra, pelo sangue dos sapiens. Aquilo iria ficar feio em pouco tempo. Andor
saiu para uma das varandas, seguido pelos conselheiros, e o povo se calou para ouvir a
decisão do rei.
- Entendo e compartilho do sentimento de revolta de vocês. – Andor começou. – Mas
não podemos agir sem pensar. Já pagamos um preço muito alto pela guerra a muitos
séculos e não podemos repetir esse erro.
- Você está dizendo que vai deixar os sapiens bárbaros cometerem essas atrocidades
com nosso povo sem nenhuma punição? – Um dos protestantes gritou.
O n i e r | 23

- Claro que não. Mas não podemos declarar guerra e todos vocês sabem muito bem o
porque. Olhem para vocês agora. Olhem para seus rostos ou para os nossos aqui. Vocês
querem mesmo seguir adiante nessa guerra e arriscar tudo pelo que lutamos? Vocês
querem o sucesso de nossa raça ou a vingança? – Andor perguntou.
O povo se entreolhou e pareceu preocupado.
Talvez a guerra possa ser mesmo evitada. Andor pensou.
- VINGANÇA! VINGANÇA! VINGANÇA! – A multidão começou a gritar enfurecida
jogando a esperança de Andor no lixo.
Algum dos manifestantes trouxe um sapiens arrastado para frente. Era um homem
forte, um soldado sem dúvida, com as mãos amarradas, chutando, gritando feito louco, e
xingando como um bêbado das ruas mais pobres de Omoh. Dois sneipas arrastavam o
sapiens aos trancos enquanto a multidão se abriu num semicírculo, de frente para a
varanda de Andor e uma porta enorme abaixo. O sapiens no centro da multidão chegava a
espumar de raiva, todo machucado, olhos roxos e inchados. Uma sneipas idosa se
aproximou e cuspiu na cara do sapiens, sendo aplaudida e ovacionada pela multidão.
- Este é o animal que queimou os olhos do meu filho! – A velha sneipas disse. – Você é
o meu rei. Não pode esperar que eu aceite o que ele fez com nosso bom e justo Betel, com
os sagrados mensageiros e com meu filho, recebendo apenas algum castigo. – A multidão
apoiou com gritos de concordância.
Andor saiu da varanda com um sinal de que desceria até o povo. Todos aguardaram
em silêncio, menos o sapiens que ainda gritava e se debatia no chão feito louco, apenas
contido pela força dos dois guardas sneipas. Andor saiu pela porta com passos firmes e
controlados e parou em frente à idosa, o sapiens e os guardas logo atrás.
- Como se chama, cara ancestral. – Ele disse naquela voz firme e barítona.
- Kyra. – A velha respondeu.
- Dama Kyra eu entendo sua dor e a senhora sabe disso. Não é segredo o meu dom
empático. Eu senti a dor de seu filho. Mas também senti nele o medo pelo que a guerra nos
causa. Eu sei, todos aqui sabem, o quão perigoso isso pode ser para nós. Seu filho, tenho
certeza, não iria se sentir em paz se soubesse que a guerra foi declarada pelo que lhe
aconteceu. A senhora, no fundo de seu coração, também sabe disso. – Andor segurou
ambas as mãos enrugadas da idosa entre as suas e sentiu aquela onda de calma começar a
invadir a multidão. – Eu lhe prometo, dama Kyra, o sofrimento de seu filho e de todos nós
não ficará impune. O Conselho está inclinado à encontrar uma punição pesada contra os
sapiens, mas não à guerra por razões óbvias. Ainda não tomamos uma decisão, mas a
senhora está convidada a participar da reunião como membro de honra e representante
destas pessoas aqui presentes.
O n i e r | 24

A velha Kyra pensou por alguns instantes, olhou nos rostos de alguns protestantes e
focou seu olhar nos belos olhos cinzentos do rei. – Eu aceito, senhor. E agradeço a
confiança.
- Nós vamos esperar aqui fora pelo resultado e lhe confiaremos a prisão
deste...indivíduo. – Um protestante falou e o rei concordou com um aceno de cabeça.
O rei se virou para os conselheiros parados na porta um pouco mais distante e acenou
para que um deles se aproximasse. De costas para a velha e todos os outros ele ordenou
que o conselheiro mandasse trazer comida, bebida e alguns cobertores para os mais idosos
na multidão, já que passariam a madrugada e a manhã ali.
- O que? – Um guarda sneipas gritou e caiu.
A multidão que prestava atenção ao rei e a velha poucos passos à frente, só teve
tempo de ver duas figuras correrem como um borrão em direção à velha e um dos guardas
sneipas caído no chão com uma faca cravada atrás de um dos joelhos. Andor não foi rápido
o suficiente para ver a corrida, mas quando virou-se com o grito do guarda a velha já
começava a correr em sua direção depois de ver quem corria até ela. Não adiantou. Três
passos e ela soltou um grito animalesco.
O sapiens cravou seus dentes no pescoço dela com tanta força que perfurou a pele
como se fosse uma simples fruta. Gotas de sangue espirraram no chão e Andor congelou no
lugar, náuseas, incredulidade, pânico, desespero, ódio o atingindo como uma avalanche de
sentimentos, embora ele não soubesse dizer quais eram dele e quais eram de qualquer um
ali. O guarda que correra atrás do sapiens tentou tirá-lo de cima do pescoço da velha que
ainda se debatia e gritava, mas o sapiens o jogou longe com um chute tão forte que não era
normal, mas sim uma descarga de adrenalina e fúria. Nesse momento todo mundo,
inclusive o rei, se jogou em cima do sapiens tentando libertar a velha. Mas a mordida da
criatura era forte demais. Ele e sua pobre vítima caíram no chão, ela já inconsciente, ele
ainda mordendo e rosnando como uma fera selvagem. Andor pegou o pés da velha, com
muitos sneipas o puxando por trás para ajudar, enquanto outro grupo segurou as pernas do
sapiens com dificuldade porque ele ainda chutava feito louco. Os dois grupos puxaram e
conseguiram separar a vítima do agressor, mas a velha Kyra tinha perdido muito sangue e
um pedaço do tamanho de um punho estava faltando em seu pescoço. O sapiens era
segurado no chão, deitado de bruços, ainda se debatendo com carne e sangue na boca, e
vários sapiens sentados em cima dele.
Andor amparou a velha com a cabeça em seu colo. Ela abria e fechava a boca sem
conseguir emitir nenhum som, como um peixe tirado da água. O coração de Andor doía
como se alguém o apertasse num punho. Lágrimas quentes escorreram de seu rosto e
caíram na face machucada da velha Kyra. As pupilas dela estavam dilatadas com o terror do
que vivera e a consciência do que aconteceria com seu povo em seguida. Ela segurou a mão
O n i e r | 25

do rei e naquele olhar ele sabia que ela sentia o mesmo que ele. A antecipação do
inevitável. Ela agonizaria por horas naquele ritmo. Ele podia sentir o medo de sofrer por
horas, a dor, a preocupação com o filho que ficaria sozinho. O silêncio só era interrompido
pelos rosnados da sapiens. Se uma mosca passasse poderia ser ouvida por todo o grande
pátio.
Andor viu o rio de sangue que escorria da velha, respirou fundo pra engolir aquele nó
doloroso na garganta e disse: - Vou cuidar dele. Eles vão pagar. Eu juro.
Kyra tentou (e falhou) esboçar um sorriso de gratidão, mas sabia que Andor podia
sentir o que ela sentia. Ela fechou os olhos, grata pelo sacrifício que ele faria. Ele tirou sua
capa macia, enrolou, colocou no chão, gentilmente pousou a cabeça dela sobre a capa
dobrada, pegou uma adaga que um dos protestantes trouxe silenciosamente, beijou a testa
da velha Kyra e enfiou num único e eficaz golpe a lâmina atrás de sua nuca. A velha Kyra
morreu imediatamente.
- AHAHAHAHAHAHAHAHA! AHAHAHAHAHAH! – O sapiens começou a gargalhar com a
cena.
Sabem quando você vê um copo de vidro cair da sua mão e, naqueles segundos antes
dele acertar o chão, você sente a destruição? Sabe a sensação de ver um vulcão expelindo
fumaça e você sente a catástrofe chegando segundos depois com uma explosão de lava
ardente? Esse momento foi assim. Entre o riso estridente e debochado e os segundos que
levaram para Andor se virar e se aproximar do sapiens, você sentia que o desastre não
podia mais ser evitado.
Com um olhar, um simples e furioso olhar, Andor sinalizou e os sneipas saíram de cima
do sapiens que não perdeu tempo, se levantou num pulo feito um chimpanzé, erguentdo-
se a meio metro do chão, e se jogou em cima de Andor. Mas o rei foi ágil e com um único
golpe, um soco no meio do estômago do sapiens ainda no ar, derrubou ele no chão. O
sapiens caiu xingando e se contorcento, mas se levantou pela simples força do orgulho.
Nenhum sapiens jamais deveria se curvar à nenhum sneipas. Mas Andor queria humilhar o
orgulho daquela criatura e, com uma única mão em cima da cabeça do outro ser, o
empurrou para baixo lentamente e com tanta força que nem mesmo o sapiens pôde
aguentar ficar de pé. Ninguém na multidão moveu um músculo ou falou qualquer coisa. Era
admirável e assustador um sneipas com tamanha força ou conhecimentos de combate, mas
naquele momento era tudo o que os sneipas mais queriam. Aquela onda de ódio, a sede
por vingança, tudo que não poderia acontecer de novo, estava acontecendo e não poderia
mais ser parado.
Quando o joelhos do sapiens tocou o chão, Andor usou seu poder interior, sua energia
vital, concentrou em seu punho, o fechou e uma luz branca surgiu tormando o formato de
uma espada longa. A lâmina logo se tornou uma material cinzento, brilhante e duro que seu
O n i e r | 26

povo conhecia como ‘ferro’. Andor se abaixou um pouco e ergueu o queixo do sapiens para
olhar em seus olhos e, sem dizer uma palavra, apenas com a fúria em seu olhar enviando
uma mensagem bem clara, ele enfiou a espada até o cabo lentamento no coração do
sapiens. O sangue escuro brotou em sua boca, olhos arregalados, e então...nada. O brilho, a
luz da vida nos olhos do sapiens desapareceu e Andor, se sentindo perigosamente bem (ele
sabia), tirou a espada do corpo do sapiens e o deixou cair bruscamente de cara no chão.
- Vamos matar todos os sapiens até que não sobre nenhum sobre a face do NOSSO
planeta! – Andor disse erguendo a espada com o sangue sapiens escorrendo pela lâmina.
- VIDA LONGA AO REI ANDOR! MORTE AOS SAPIENS! – O povo gritou.
- GUERRA! GUERRA! GUERRA! – Andor bradou e o povo repetiu como um coro bem
ensaiado.
Mesmo em fúria, Andor sabia. Não tinha mais volta. A paz não era mais uma opção. Os
sapiens não sabiam o mal que tinham despertado. A represa que havia contido a fúria
incontrolável dos sneipas a séculos estourara e nada, nada poderia parar a inundação
catastrófica de vingança que se seguiria.
O n i e r | 27

Penhasco dos Tolos


Começar uma guerra é fácil. Uma palavra dita na hora errada, um tom de voz
diferente, às vezes um simples olhar... Mas começar uma guerra com os sneipas era
extremamente difícil e, ainda assim, os sapiens conseguiram. Eles podiam ser brutos e meio
burros pra causar uma guerra com seres tão poderosos, mas a perseverança era uma
qualidade que ninguém podia dizer que os sapiens não tinham.
Naquela noite um dos soldados não voltara da missão de levar a mensagem grotesca
para Rígel. O trio foi emboscado por um bando de sneipas comuns, moradores locais, e dois
guardas da cidade. Os dois que escaparam na verdade não escaparam, foram libertados
pela multidão que só queria um deles e escurraçou os outros dois da forma mais
humilhante possível. Quando os dois soldados chegaram na cidade, completamente nus e
feridos, as pessoas na rua ficaram empolvorosas. Os homens andavam com as mãos
ocultando as partes íntimas, sangue escorrendo da cabeça do lado do rosto, um deles não
tinha os dentes da frente, e ambos tinham inúmeros machucados roxos pelo corpo. Iva
apareceu na porta do palácio quando os homens foram trazidos pela própria população que
estava enfurecida com o que foi feito aos soldados.
Iva ouviu tudo com o cenho franzido, Klaoz logo atrás dela com seu rosto
imperturbável como sempre.
- Então vocês se deixaram ferir por um bando de simples moradores sneipas? E ainda
deixaram que um de vocês fosse capturado? Que vergonha. – Iva disse. – Levem eles para o
alojamento dos soldados, cuide de seus ferimentos, vista-os decentemente e depois os
coloquem em prisão militar por trinta dias para aprenderem a se defenderem como sapiens
de verdade.
Dois soldados guiaram os feridos para o alojamento militar principal para seguir as
ordens de Iva. Ela se voltou para Klaoz e disse:
- Isso não ficará impune. Devemos atacar Rígel.
- Concordo, mas eles humilharam nossos homens. Um ataque só é bom. – Klaoz
comentou sabendo que Iva morderia a isca.
- Bom? Bom não é o suficiente. Temos que começar essa guerra de maneira
memorável. Se eles humilham nosso povo, vamos humilhá-los também. – Iva respondeu.
- Ideia genial, querida. – Klaoz respondeu sério, mas triunfante por dentro. Ele era
ótimo em manipular as pessoas e fazerem elas pensarem que a ideia fora delas.
- Vamos passar o dia e a noite em plena comemoração, povo de Omoh. Mas não
comemoraremos apenas nossos mil anos de poder. Vamos comemorar a morte do rei tolo
dos sneipas e daqueles garotos de recado. Façam receitas de bebidas e comidas inspirados
O n i e r | 28

nisso, criem bonecos parecidos com o rei morto e tragam para a festa da noite. Quem fizer
o boneco mais ridículo e parecido com o defunto ganhará uma joia minha. Todos os
bonecos serão incendiados e jogados no penhasco dos mensageiros mortos. – Iva disse e o
povo comemorou. – Amanhã no fim da tarde atacaremos aqueles idiotas de Rígel enquanto
eles fazem o funeral do defunto rei. Vamos mostrar à eles o que eles ganham por nos
subestimar!
Klaoz se encarregou de espalhar a notícia da comemoração pela fronteira para que
não houvesse dúvidas de que os sneipas saberiam disso. A comemoração seguiu o
planejado. Já era alta madrugada quando o povo e seus governantes de Omoh seguiram
para o penhasco. O local nunca fora nomeado, mas Nike deu uma ideia que Iva adorou e,
antes de começar a queima dos bonecos representando o rei Betel, Iva fez o anúncio.
- Caros sapiens de todos as aldeias e tribos, hoje nos reunimos para comemorar nosso
sucesso e nosso talento natural para o controle do mundo. Aqui, neste mesmo local, demos
fim ao controle humilhante dos sneipas quando lançamos aquele trio de serpentes tolas
disfarçadas de mensageiros lá embaixo. Por isso hoje resolvi batizar este lugar com o nome
de “Penhasco dos Tolos”! – Iva disse e fez aquela pausa para receber os gritos e aplausos do
povo. – Acendam seus ‘bonecos do rei morto’ e lancemos penhasco abaixo para que ele
siga o mesmo destino dos seus preciosos mensageiros!
- O nome não podia ser mais perfeito. – Uma voz barítona ecoou de todas as direções,
mas sem ninguém à vista. – Penhasco dos Tolos...
O povo se calou e olhou ao redor a procura daquela voz que parecia vir de todos os
lados. Iva estava arrepiada, mas pronta para matar qualquer um. Klaoz havia sacado sua
espada média e olhava para todos os lados esperando o inimigo surgir, sem nenhuma
emoção aparecendo em seu rosto. Seyrus protegia Nike com seu próprio corpo na frente da
menina.
- Quem está ai? Mostre sua cara e agradeça olhando em meus olhos por este nome
tão perfeito. – Iva gritou.
- Penhasco dos Tolos... O problema, governadora, é que os tolos, neste caso, - a voz
disse e então, como se surgisse do nada, um rosto branco-avermelhado com olhos
cinzentos saiu das sombras e completou: - são vocês.
Como se surgindo por encanto, inúmeros sneipas saíram das sombras cercando a
multidão. O número de sneipas era tão grande que não era possível ver o fim do exército.
- Andor... – Nike sussurrou atrás de Seyrus.
- Rei Andor, para você, Nike. – Andor disse com uma expressão de raiva tão grande
como ninguém nunca vira antes. Pensando bem... Todos os sneipas tinham expressões
sinistras e aquele tom avermelhado que ninguém nunca vira antes. – Mas me acertarei com
O n i e r | 29

você depois, pequena serpente traiçoeira. Agora, Iva, entregue-se e me polpe do trabalho
de arrancar seus intestinos com minhas armas.
- Você? Ai, me polpe, Andor! Você não mata nem mosquito, sempre tão fresco... Ai
como eu sinto as emoções de todo mundo... – Iva disse numa imitação ridícula de Andor.
- Bem, ninguém pode dizer que não tentei. – Andor disse sem piscar nenhum
momento, a raiva emanando dele como uma onda densa. Uma onda que até mesmo Nike
pôde sentir.
- Mãe... Tem algo errado... Não provoque ele... – Nike disse.
- Cale a boca, Nike! – Klaoz disse em tom severo.
- Matem. Mas deixem a garota e a tola governante comigo. – Andor disse e os sneipas
partiram pra cima de tudo que se mexesse e não fosse de seu povo.
Seyrus ficou congelado por alguns segundos ao ver que os pacíficos sneipas tinham
armas e as usavam com uma fúria quase animal. Mas o treinamento militar assumiu o
controle e logo ele estava matando qualquer sneipas que se aproximasse. Nike usou sua
magia para levitar pedras e jogar nos inimigos, tentando salvar o máximo de sapiens
possível. Sua mãe e seu pai lutavam ao mesmo tempo contra Andros que parecia conhecer
técnicas de lutas sapiens e outras desconhecidas muito bem... Bem demais para um
sneipas. Aquilo não podia terminar bem. Mesmo lutando contra Iva e Klaoz ao mesmo
tempo, a luta estava equilibrada com dificuldade e logo seus pais se cansariam, enquanto o
rei parecia mal ter gasto sua energia.
Eles deveriam estar velando seu rei naquele momento para seputá-lo na tarde
seguinte... Será que haviam irritado tanto eles assim para que deixassem seu velório real
em segundo plano? Nike estava ainda tentando entender como aquilo tudo acontecera
quando o grito de sua mãe ecoou. Andor havia colocado ela de joelhos e a mantinha ali
com uma mão em sua cabeça e a ponta de uma espada na garganta de seu pai, em pé logo
atrás de Andor.
- Seyrus! – Nike gritou pelo irmão, mas ele estava ocupado se defendendo contra três
guardas sneipas. Ela não era uma guerreira. Sabia lutar, claro, como todo sapiens do
mundo, mas não a ponto de enfrentar alguém visivelmente tão habilidoso. Então ela fez o
que fazia de melhor: magia. Usou seu dom e começou a sugar toda energia vital das plantas
e animais na região. A luz amarelada passou pelo solo como pequenas linhas que se
moviam de cada árvore, cada fruto, cada animal pequeno ou grande nas redondezas e
seguia para Nike que começava a brilhar pulsando. Andor sabia o que estava acontecendo,
mas não podia, não queria, desviar sua atenção de Iva e Klaoz. Queria matá-los de qualquer
jeito. Todos estavam muito ocupados lutando, alguns sapiens morrendo, suas almas sendo
literalmente arrancadas de seus corpos por alguns sneipas, e sendo jogados no penhasco
logo em seguida.
O n i e r | 30

Andor tinha que escolher. E rápido. Ou parava o ataque iminente de Nike, ou matava
os dois inimigos perto dele. Ele começara a lançar um ataque em Iva, sua mão enviando
uma carga elétrica para o cérebro dela, aumentando a força lentamente. Ele não era um
especialista nessa área, não podia acelerar o processo, não importava o quanto quisesse,
porque ele simplesmente não tinha essa capacidade. Klaoz tentara se aproximar para socar
Andor pelas costas, mas a espada do rei estava firme em seu pescoço e a tentativa apenas
causou um pequeno corte no meio da garganta, um furo não profundo que sangrava. Tudo
podia dar errado, mas ninguém podia fazer nada para evitar. A questão era que ‘errado’
seria o menos pior. Nike não tinha experiência naquele tipo de ataque, mas ela e o rei
sabiam como acabaria.
Eu não sei vocês, mas eu já teria me mandado quando a voz surgiu lá não sei de onde.
Mas não os sapiens... Não. Eles tinham que ficar para ver o caos rolando. E viram. O
problema foi justamente que eles viram.
Nike lançou seu ataque quando seu corpo já não podia mais aguentar tanta energia.
Mas, qual é gente... Os sneipas eram especialistas naquela ‘magia’ a séculos, muito antes da
Terra existir. Óbvio que quando sentiram a energia se acumulando, tentaram se aproximar
para deter a menina, mas muitos sapiens lutavam ferozmente sem nenhum descanso,
mesmo feridos, às vezes mortalmente feridos. Afinal, a brutalidade, a luta e mesmo a
perseverança eram as maiores características daquele povo. Quando isso aconteceu os
sneipas já previam que Andor tomaria uma decisão no último segundo e, fosse qual fosse,
eles seguiriam sem contestar. Então esperaram. Quando Nike lançou se ataque uma bolha
luminosa, extremamente luminosa, e quente se formou ao redor de todo seu pequeno
corpo até que ela não era mais visível no meio daquela luz. A bolha aumentou de tamanho
conforme ela expelia a energia de seu corpo, abrangendo todas as direções e crescendo
muito rápido. Andor parou seu ataque à Iva que caiu desacordada no chão, socou Klaoz
mais rápido do que ele pôde reagir e ergueu uma mão com punho fechado. Todos os
sneipas, inclusive ele, pegaram nas mãos dos sapiens mais próximos e desapareceram com
eles.
A luz de Nike atingiu o ponto máximo onde a batalha ocorria, com um som parecido
com o de uma fogueira crepitando, e então desapareceu deixando pequenos brilhos
dourados no ar, caindo inocentemente no chão. A cena era linda e grotesca ao mesmo
tempo. Pequenas luzes douradas caindo como chuva sobre um campo de cadáveres e um
penhasco igualmente cheio de corpos no fundo, ávores secas e animais mortos. Nike
ajoelhou cansada e gritou chamando qualquer um que pudesse responder. O silêncio foi
sua única resposta durante algum tempo. Então, aos poucos, um ou outro sapiens muito
ferido acordou gemendo. Seyrus estava caído com uma espada prateada enfiada entre as
costelas, mas conseguia pelo menos falar, ainda que muito baixo. Seus pais também se
O n i e r | 31

mexeram e se levantaram. Por fim, Nike percebeu, a maioria dos sapiens estava morta,
muitos feridos e muitos desacordados. O pior foi quando esses últimos acordaram.
Ninguém que estava lutando quando Nike lançou seu ataque, nem mesmo um único
sapiens conseguia ver. Alguns tinham os olhos completamente brancos, outros mal
conseguiam abrir as pálpebras feridas como se uma tocha tivesse fritado a pele, outros
ainda tinham os olhos abertos e suas íris, mas não funcionavam. Dos sapiens que
enxergavam, todos estavam feridos e haviam caído desacordados antes do ataque de Nike
passar por eles. O sentimento de culpa da menina só pioraria. Não havia como levar todos
aqueles cegos até a cidade onde o palácio ficava e, mesmo que houvesse, que utilidade eles
teriam? Os sapiens não tinham deficientes naturais, apenas aqueles que se feriam em
brigas e esses, se não produzissem algo para a sociedade, eram sacrificados para polpar os
recursos das cidades. Não havia utilidade para cegos naquela sociedade. Eles teriam que ser
deixados ali. Pior que isso porque desgraça pouca é bobagem. Eles não poderiam ser
mortos um por um, para acabar com seu sofrimento de uma vez. Esse era o costume
sapiens, mas eles eram muitos, no mínimo umas duas centenas de homens, mulheres e
crianças que minutos antes lutaram bravamente como animais selvagens.
Não poderiam perder tempo com isso. O caminho de volta era longo, alguns feridos
ainda podiam ser salvos e ter utilidade para o povo, mas teriam que ser carregados ou
arrastados por quem conseguisse, o que atrasaria mais ainda o percurso. Naquele ponto a
preocupação maior era sair dali antes que os sneipas voltassem e terminassem o que
começaram. Então, de quase dois mil sapiens, apenas 20 saíram da borda do penhasco, 8
tiveram que ser sacrificados ou abandonados no caminho e só 12 chegaram na cidade.
Dentre eles estavam Seyrus, Iva com uma forte dor de cabeça e confusão, Klaoz com alguns
dentes quebrados e o braço fraturado na queda, e Nike que só tinha alguns arranhões.
Algum tempo depois, quase amanhecendo, os sneipas realmente voltaram ao
penhasco. Sabiam que alguns teriam escapado, mas não importava. Cada gota de sangue
derramada do sapiens era um deleite vingativo. Eles mataram os sneipas cegos que ficaram
no penhasco, alguns tinham caído e morrido antes dos sneipas voltarem, mas muitos ainda
estavam lá e lutavam com chutes, mordidas e socos que nunca acertavam o inimigo.
Depois, uma por um, os cadáveres foram jogados no penhasco sem piedade. A fúria de
Andor beirou a selvageria quando ele percebeu o caos que Nike causara matando os
animais, drenando suas forças vitais até a morte, sem pena de seres tão indefesos. Ele
precisou de todo seu auto controle para não atacar o palácio de Omoh naquele instante.
Não era digno atacar inimigos que não podiam se defender. Mas, principalmente, os
sapiens tinham que sofrer muito ainda para saciar a vingança de seus criadores. Uma coisa
ficou bem clara para ambos os lados da guerra naquela madrugada: Nike e Andor eram as
armas mais poderosas de seus povos.
O n i e r | 32

- Nike tem que morrer. – Andor disse na beira do penhasco enquanto o Sol se erguia
no horizonte.
- Andor precisa....morrer. – Nike disse encolhida no canto da cama naquela manhã,
vendo seu irmão dormindo com o efeito dos chás e bálsamos utilizados no ferimento.
E assim, a guerra finalmente começou.
O n i e r | 33

Ódio tempestuoso
Em Omoh os dias que se seguiram só podem ser definidos em uma palavra: pânico.
A notícia de que os sneipas haviam massacrado quase dois mil sapiens em plena
madrugada, surgindo das sombras como fumaça, com armas mágicas e físicas poderosas,
até mesmo quase exterminando a família que comandava Omoh, foi devastadora. Sapiens
temiam as próprias sombras acreditando que elas eram sneipas disfarçados, ninguém
andava pelas ruas, os exércitos estavam em alerta máximo reagindo à qualquer som ínfimo
ao redor, crianças e adultos pulavam de susto por tudo e por nada, saques começaram a
acontecer às feiras por pessoas em pânico de não ter alimentos em casa quando os
inimigos surgissem com seus feitiços, brigas violentas e assassinatos aumentaram
consideravelmente. Apenas as aparições e discursos de Andor e Nike, que virara um
símbolo de esperança para os sapiens, acalmava o caos. Iva mal conseguia sair de seus
aposentos com uma dor de cabeça tão intensa que ela muitas vezes balbuciava coisas
incoerentes. O estado de Seyrus era mais lamentável. O ferimento em seu corpo se
recusava a cicatrizar e estava cada vez mais infecionado, mesmo com a magia de Nike
ajudando os curandeiros locais.
Em Rígel a coisa era mais... Organizada, digamos assim. Havia uma tensão no ar, como
se uma tempestade se aproximasse, um misto de onda de vingança, de ódio quase
irracional, se refletindo em toda a sociedade cuja cultura e tecnologia era baseada no poder
das almas de seu povo. Do mais novo ao mais velho sneipas em toda Rígel não havia
ninguém com a típica pele clara, agora substituída por uma coloração levemente
avermelhada e inalterável. O rei foi velado e cremado no dia e noite seguintes ao massacre
no Penhasco dos Tolos com um cortejo gigantesco e silencioso. O discurso de Andor foi
curto e repleto de promessas de vingança, plenamente apoiado por seu povo. Mas nenhum
ataque evidente foi lançado no território sneipas durante os dias seguintes. E era esse o
plano. Deixá-los assustados, com medo literalmente de suas próprias sombras, deixando a
própria natureza caótica e violenta dos sapiens causar estragos iniciais e aumentar o caos
num ciclo autodestrutivo. Antes que o medo os fizesse atacar os sneipas, eles atacariam
Omoh sorrateiramente, em vários ataques com dias de pausa para aumentar o pânico dos
inimigos. Destruir os sapiens rapidamente seria tranquilo demais. Não. Eles iriam sofrer
muito, lentamente, para pagar com lágrimas de sangue por suas barbáries e suas afrontas
durante os mil anos. E então, só então, depois de causar muito medo, dor e desespero aos
sapiens, é que eles finalmente os exterminariam. Os sapiens podiam ser fisicamente mais
fortes e violentos, mas os sapiens eram astutos e implacáveis.
O n i e r | 34

- Mais algo que precise de minha atenção? – Andor perguntou ao seu conselheiro,
recém nomeado um comandante, algo que os sneipas não precisavam ter há séculos.
- Não, senhor. Está tudo pronto para esta noite. – Invis, conselheiro-comandante de
Rígel respondeu.
- Ótimo. Vou visitar o pobre rapaz. Volto ao anoitecer e... – Andor parou antes que
Invis pudesse dizer algo – não se preocupe, estou levando uma escolta.
Era tão estranho andar o tempo todo com uma escolta armada e atenta à tudo. Certo.
O rei tinha uma escolta antes, mas não andava com ela o tempo todo e era só uma tradição
de uma época muito distante no tempo. Andor caminhou até a enfermaria do prédio de
saúde com seus dois guardas à frente e atrás dele. O local sempre tinha uma boa
quantidade de sneipas desde que pousaram naquele planeta, séculos atrás, porque a Terra
não era seu habitat natural, mesma razão pela qual sapiens nunca ficavam doentes. Apenas
precisavam de cuidados médicos por sua constante mania de entrar em brigas, desafiar a
natureza com escaladas e caminhas perigosas, e sempre exercitar seus corpos de forma não
saudável, buscando ultrapassar os limites de sua natureza física. Mas doenças? Nunca. A
Terra era o lar natural dos sapiens, afinal eles foram criados ali, e eram completamente
aceitos pela natureza. Mas os sneipas eram invasores, seres evoluídos de outro mundo, um
mundo de dois sóis, de cores completamente diferentes deste sol amarelo, e, por mais
adaptados que fossem à Terra (e eles eram), a natureza parecia perceber a raça invasora e
criar formas para diminuir ou exterminar a espécie com doenças de tempos em tempos. Os
sapiens podiam viver sem necessitar de nenhuma medicina, adaptados ao ambiente ao seu
redor, mas se arriscavam por simples arrogância contra a natureza de seu próprio mundo.
Eram um bando de tolos egocêntricos, Andor pensava caminhando em direção ao quarto
do pobre guarda cego que visitava todos os dias. Mas, chegando ao corredor que levavam
ao quarto de seu paciente preferido, o guarda que ia à frente parou e sinalizou pedindo que
parassem.
Médicos e ajudantes corriam pelo corredor indo em direção aos quartos. Andor sentiu
as emoções mescladas de tristeza e incredulidade emanando deles. Sem esperar pelos
guardas de sua escolta, Andor praticamente correu até o quarto do guarda com quem
criara um laço de amizade e carinho nesses dias. Mesmo antes de chegar lá ele já sabia,
bem no fundo de seu ser, o que havia acontecido. Mas ver a cena era outra história. O
guarda estava morto com um bisturi enfiado na garganta, deitado na cama sobre uma poça
de sangue grosso, com vários médicos e ajudantes ao redor. Era o que Andor temia a dias.
O rapaz não suportou saber que passaria o resto de sua vida cego, as dores intensas que
sentia, a morte cruel de sua mãe e a guerra que o ferimento de ambos ajudou a causar.
Guerra. Raiva. Tudo que seu povo passou séculos evitando a todo custo. Os guardas
gentilmente tiraram Andor dali, embora ele não pudesse dizer como conseguiu andar todo
O n i e r | 35

o caminho de volta. Isso só aumentou sua fúria. Omoh sentiria o peso do ódio sneipas mais
uma vez naquela noite. E ele mesmo comandaria mais uma onda de ataque. Ele vingaria
mais aquela morte.

~o~
- Eu sabia! Eles recomeçaram o ataque. – Iva disse em um dos raros momentos de
lucidez, ainda em sua cama. Ela se sentou, calçou as sandálias de couro e tentou se
levantar, apenas para ser gentil, mas firmemente, empurrada de volta para cama por Klaoz.
- Não. – Ele disse simplesmente.
- Eu preciso revidar e proteger nossa gente. Esses bruxos das estrelas precisam saber
com quem estão lidando. Temos que dar uma lição neles....
- E daremos. Mas você precisa estar completamente recuperada e sabemos que não é
o caso. Nike está pronta para seguir com o plano e estarei com ela no comando. – Klaoz
disse sendo direto, um momento raro que indicava que discutir não era uma opção.
Iva respirou fundo. – Bem. Mas sigam o plano que tracei. Nike conhece essa coisa
porque foi ela quem tirou deles, mas ela pode não ser tão forte quanto uma guerra exige.
- Ficarei de olho nela. Descanse. – Ele disse e saiu.
O estrondo dos ataques à base das armas de raios e energia pura abalaram as
fundações de algumas residências na tribo mais próxima à fronteira com Rígel. Quando o
exército sapiens chegou as pessoas da tribo já lutavam (ou tentavam) contra os invasores,
alguns seguindo as instruções de Nike, tentando tirar a lorpat de cada sneipas, mas eles
eram ágeis e sempre evitavam o toque nessa região. Incêndios já destruíam grande parte
do local quando Nike e Klaoz conseguiram ver Andor à distância. Talvez sentindo a euforia
deles, o rei de Rígel voltou seu olhar para pai e filha. Nike não conseguiu evitar o arrepio de
medo. Aquele olhar... Ela conhecia Andor a anos, conhecia os sneipas a vida toda, mas
nunca vira um olhar tão terrível como aquele, muito mais cruel e repleto de ódio do que o
de qualquer sapiens. Não era um ódio como o ódio selvagem e brutal de seu povo, era algo
mais perigoso, mais profundo. Andor atravessou a multidão de sapiens e sneipas em
batalha, golpeando com sua espada qualquer um que se colocasse em seu caminho, sem
dar atenção para ver onde seu golpe acertava ou desviar o olhar que estava fixo em Nike o
tempo todo. Ele queria ela morta e não precisava ler mentes para saber disso.
Mas Klaoz tinha contas para acertar com o rei que quase cortara sua garganta e ferira
sua mulher naquilo que ele chamava de “ataque covarde”. Poucos passos o separava de seu
alvo quando Klaoz se jogou para cima do rei de Rígel. Andor não queria perder tempo com
ele, mas era difícil se desvencilhar dos ataques de Klaoz. Nike se virou e sumiu no meio da
multidão, o que deixou Andor frustrado e mais furioso ainda. Klaoz era incansável. Ambos
lutavam com espadas e sempre que Andor conseguia convocar algum ataque mágico, em
O n i e r | 36

meio aos golpes incessantes do inimigo, Klaoz era mais rápido e desviava do ataque,
voltando agilmente com um golpe mortal em Andor que conseguia desvia no último
segundo. Esse impasse durou tempo suficiente para fazer ambos suarem, suas roupas
grudando em seus corpos. Andor estava com o foco dividido. Por um lado seu corpo e
mente precisavam focar em Klaoz ou ele seria morto pela força bruta e agilidade absurda
do sapiens, por outro sua mente de vez em quando se perguntava: Onde está Nike?
Andor estava com vários cortes pelo corpo, mas nada muito sério até agora. Klaoz
tinha um corte um pouco profundo na barriga, e vários ferimentos e queimaduras pelo
corpo que o atingiram de raspão. Klaoz tentara, pela milésima vez aproximar a mão para
tocar a lorpat. Mesmo que um choque o jogasse longe, ele tinha que tentar arrancar aquela
coisa da língua do rei e o matar. Ou, pelo menos, distraí-lo por mais algum tempo. Quando
cada centímetro do corpo de Klaoz doía e mostrava sinais de estafa, um soldado soprou um
chifre emitindo o som do sinal combinado. Alguns sapiens do exército conseguiram correr
para longe, mas os civis que também lutavam e os sneipas que não sabiam o que estava
acontecendo, demoraram para reagir e correr junto com os soldados. Esse era mesmo o
plano. Klaoz aproveitou o momento de distração, golpeou a espada de Andor a jogando
longe, se colocou atrás de Andor e encostou uma de suas adagas em seu pescoço, o
puxando um pouco para baixo devido suas diferenças de altura. Mas Andor foi mais ágil e,
lançando uma bolha de luz no ar com uma mão, distraiu Klaoz e sinalizou seu povo ao
mesmo tempo. Aproveitando a distração, deu uma cotovelada na barriga em cima do
ferimento de Klaoz que se encolheu com a dor. Sem pensar muito, vendo alguns sapiens
correndo e sentindo aquela tensão no ar, ele usou a tecnologia sneipas para moldar seu
corpo e enviá-lo para Rígel no local de aterrisagem como sempre faziam. Muitos sneipas
seguiram seu rei, mas muitos nem viram o sinal. Não houve tempo. Estavam muito focados
em suas batalhas.
Ao longe, do outro lado da fronteira, Andor e os sneipas que o seguiram sentiram o
chão tremer e uma bolha de nuvens negras com raios branco-azulados tomarem toda a
região onde a batalha acontecia. Aquela era uma tecnologia sneipas usada para o topo de
um montanha ou um deserto gigantesco para causar uma tempestade e levar chuva à
regiões necessitadas. Era acionada dentro de uma caixa feita de chumbo e borracha negra,
apenas fragmentos dessa energia eram liberados no ar aos poucos para causar uma
tempestade leve, nunca podia ser aberta totalmente ou causaria uma catástrofe, uma
bolha magnética e elétrica capaz de destruir tudo em que tocasse. Andor pôde sentir
quando o medo e a dor surgiram, e rapidamente foram extintos, das vítimas ao longe e sua
raiva parecia não caber em seu peito. Alguém obviamente roubara essa tecnologia e
aprendera sobre ela para usar contra eles, um plano que com certeza levara anos e exigia
habilidade nas ciências sneipas. Alguém que tramara como uma víbora contra eles, e, ao
O n i e r | 37

descobrir sobre a lorpat encontrara o uso perfeito para essa tecnologia transformada em
arma. Alguém capaz de sacrificar seu próprio povo apenas para destruir um punhado de
sneipas, seus criadores. Uma serpente disfarçada sob a pele de uma bela e doce menina.
- NIIIIIIIIIIIIIIKEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE! – Ele gritou em fúria.
Àquela distância, à quilômetros de distância, do outro lado onde a tempestade
magnética ainda rugia, ninguém poderia ouvir o grito de Andor. Nike não o ouviu, mas
sentiu aquela onda de ódio emanando em sua direção, tão poderosa, tão focada nela, que
mesmo sem o dom da empatia ela pôde sentir como um arrepio em sua coluna.
- Isso é pelo meu irmão, reizinho de merda. – Ela sussurrou entredentes e torceu para
que seu ódio pudesse ser sentido por ele também.
Agora sua teoria tinha sido comprovada e ela podia usar o que criara secretamente
durante anos para impedir que qualquer sneipas os atacassem covardemente, saindo das
sombras como se fossem parte da escuridão da noite.
O n i e r | 38

Impasse
Toda a pequena vila sapiens na fronteira entre Omoh e Rígel foi completamente
destruída. Aqueles que não morreram afogados, morreram jogados pelos ventos até as
nuvens ou eletrocutados pelos raios. Os sneipas foram os primeiros a morrer, suas lorpat
atraindo os raios devido ao bloqueio magnético da jóia. A tempestade felizmente ficou
centralizada na região onde a máquina fora acionada, mas ninguém pôde se aproximar para
fechar e a região se tornou um ponto de tempestade perpétua que, duas vezes por ano,
nos solstícios de verão e inverno, se ampliava formando um cinturão tempestuoso ao redor
do planeta, tomando toda a fronteira.
Durante os dois anos seguintes, todo ataque dos sapiens foi repelido, alguns com
alguma dificuldade porque suas armas e táticas de luta foram aprimoradas, muitas vezes
usando tecnologia roubada dos sneipas anos antes do conflito começar. Os ataques sneipas
no início eram mais difíceis de repelir, mas, com o tempo, suas táticas se tornaram
previsíveis até certo ponto, dando uma vantagem para os inimigos se precaverem e atacar.
Seyrus se recuperou dos ferimentos e agora era o mais alto general do governo de Omoh,
merecidamente, diga-se de passagem, pois ele foram o soldado mais implacável e que mais
causou problemas aos inimigos. Iva ainda governava com mão de ferro, mas suas dores de
cabeça, apesar de mais suportáveis, ainda eram um problema. Klaoz era o maior
conselheiro de guerra, mas evitava o combate corpo a corpo sempre que possível,
preferindo uma tática criada com ajuda de sua filha: a espionagem. Quanto à Nike, bem, ele
evoluíra em suas práticas mágicas de tal forma que superou os magos anciãos que
dominavam a arte sneipas a muito mais tempo. Agora era ela quem tinha a última palavra
sobre qualquer assunto que envolvesse a magia sneipas em Omoh e criara alguns métodos
interessantes de ensino para futuros magos.
Em Rígel Andor passara uma temporada muito ruim. Sua empatia cobrara um preço
alto pela guerra com todas as emoções de Rígel o atingindo como bombas durante dia e
noite sem parar. Tristeza, decepção, medo, euforia e, principalmente, ódio, o atingiam o
tempo todo se mesclando aos seus próprios sentimentos e os fazendo crescer como um
monstro obscuro. Por algum tempo ele lutou contra isso. O ódio dos sneipas era
historicamente perigoso, muito mais perigoso do que qualquer catástrofe natural, ele não
queria ceder à esse sentimento, muito menos se ele fosse ampliado pelos sentimentos
captados de outros. Essa luta interna o tornou instável, com dores de cabeça e no peito,
dores físicas externando a luta de sua alma. Ele morreria bem rápido se continuasse assim,
O n i e r | 39

mas ele não arriscaria perder o controle de sua fúria e causar o mal que seu povo causara
no passado. Mas era tão difícil não ceder ao monstro do ódio dentro de seu coração...
Um dia essa luta acabou. Não. Andor não morreu por essa batalha esquisita e intensa
em seu interior. Em um dos ataques orquestrados por Seyrus, o maior hospital de Rígel, a
6.000 km da capital, foi explodido com uma arma feita com tecnologia roubada dos sneipas.
12 mil mortos foi a contagem final, dentre eles todos os 5 mil pacientes do hospital, 3 mil
funcionários e 4 mil pessoas da região ao redor da explosão, muito maior do que os
próprios sapiens calcularam, levando inclusive alguns dos sapiens que haviam levado as
bombas presas em seus corpos. Andor não devia ter ido ver a cena com seus próprios
olhos. Mas foi. E foi lá, diante daquele massacre covarde que seu frágil auto controle se
desfez por completo. Daquele dia em diante, Andor não dava mais a mínima pra nada que
não fosse matar todos os sapiens, a qualquer preço.
Naqueles dois anos, Andor nunca mais conseguira estar perto o bastante para matar o
que ele acreditava ser a maior arma dos sapiens: Nike. E ela, por sua vez, nunca mais
conseguira se aproximar o suficiente para matar a maior arma de Rígel: Andor. Mas o ódio
entre ambos se tornou tão grande quanto a força espiritual deles. Nike culpava Andor por
todo fracasso dos ataques, pelo ferimento de seu irmão e mãe, pela arrogância crescente
dos sneipas e pelas tentativas frustradas dele em matá-la usando seus soldados quando
conseguiam se aproximar. Andor culpava Nike pela morte do rei Betel, por transformar sua
ciência pacífica em armas, por usar os dons dela de forma tão cruel e ensinar isso à outros,
por ter roubado as criações de seu povo durante anos se fingindo de boazinha. E, sejamos
honestos... Ele tinha razão.
Agora, depois de tantas mortes, roubos, ataques, sucessos e fracassos, a guerra entre
os grupos haviam chegado à um impasse. Por mais furiosos que estivessem, os sneipas não
guerreavam à séculos, nem mesmo pensavam em conflitos, ódio ou nada do tipo. Eles eram
criativos, mas sua criatividade e inteligência se tornou limitada à uma única barreira: a paz.
Criar armas era extremamente difícil para eles, conseguiam usar apenas as que já tinham
criado séculos antes quando ainda guerreavam e apenas um tipo de arma permaneceu
como um símbolo de honra e nada mais. As outras armas e suas instruções de criação e uso
foram completamente destruídas. Suas armas, basicamente, eram lâminas e a habilidade
de usar alguns de seus poderes espirituais como ataque. Era assustador, era potente, mas
os sapiens não seriam destruídos só com isso. Pior. Os sapiens transformavam literalmente
qualquer coisa em armas terríveis. Até mesmo os alimentos eles conseguiram transformar
em algo perigoso adicionando susbstâncias naturais em certa quantidade suficiente para
matar, os chamados ‘venenos’. Os sapiens, por outro lado, não conseguiam criar uma arma
potente o suficiente para dar medo e mandar os sneipas embora da Terra. Seus criadores
O n i e r | 40

pareciam (e eram) implacáveis. Nada os fazia desistir. Mas os sapiens também eram
teimosos e não iriam recuar, muito menos propor um acordo, a paz.
Talvez essa guerra vencesse a ambos os lados pelo cansaço e eles resolvessem que a
paz era a melhor opção. Sim. Sapiens e sneipas se entenderiam e voltariam a ser amigos....
Um dia... Tipo no dia em que o Sol cuspur na Terra flores congeladas que cantam
Macarena.

~o~
- Esse plano é tão ridículo que pode dar certo, querida. – Klaoz disse, sentado ao lado
de Iva.
- Já discutimos isso. Concordo que é uma possibilidade... – Iva dizia com massageando
as têmporas para acalmar a dor de cabeça que voltara com intensidade.
- Mãe, a senhora não pode estar falando sério! – Seyrus, sentado à frente de Iva disse
a interrompendo e recebendo dela um olhar que assustaria até as feras mais perigosas da
floresta.
Quando Seyrus se encolheu um pouco e se desculpo, Iva continuou. – Como eu dizia,
concordo que isso é uma possibilidade, mas é a última possibilidade que eu tentaria. Ainda
temos alguns truques interessantes para usar com esses idiotas.
- Mãe, - Nike disse, sentada à frente de Klaoz – não deveríamos pelo menos reunir os
governadores e para consultá-los sobre isso? Eu já disse que estou disposta a seguir o plano
de meu pai e realmente acredito que seja a melhor solução para esse impasse.
- Sim, Nike, você já disse. – Iva se levantou impaciente. – Mas quem manda aqui ainda
sou eu e eu não vou espalhar essa loucura pelos governadores para ouvir eles disserem que
aprovam a ideia. E sei que eles vão aprovar. Eles não são sua família, garota mágica, eu sim.
- Eu também. – Klaoz disse com sua perfeita calma. – E mesmo assim...
- Mesmo assim você teve essa ideia estapafúrdia! A ideia é boa, não nego. Mas os
riscos... Não estou disposta a correr esses malditos riscos só pra acabar com a guerra. Que
morram os filhos dos outros, os meus eu quero vivos! – Iva disse já sem nenhuma calma.
- Mãe, tome. Beba isto. – Nike entregou um remédio azedo que acalmava as
enxaquecas da mãe. – Todos nós nos arriscamos todos os dias. Seyrus luta nas batalhas, eu
também quando é necessário, o pai também. E, mesmo quando não lutamos, podemos ser
atacados por assassinos a qualquer momento. Na guerra, senhora, ninguém está a salvo em
lugar nenhum. Entendo que não queira arriscar-nos ainda mais, mas prometa-me que, se as
opções acabarem, vai me deixar seguir os planos do pai.
O n i e r | 41

- Eu prometo... – Iva disse colocando o copo vazio na mesa. Seyrus a olhou assustado,
mas Nike e Klaoz pareciam triunfantes. – Prometo que vou pensar e nada mais. Agora
saiam! Todos vocês!
Os três se retiraram e Nike puxou o irmão para seu quarto.

~o~
Três dias depois os espiões de Klaoz informaram que um novo ataque seria enviado à
uma das tribos sapiens ao Norte da capital e seria liderado pelo próprio rei Andor. Seyrus já
havia alertado para essa possibilidade a algum tempo. A tribo que seria atacada era a maior
produtora de uma flor chamada papoula, um ingrediente básico para um dos venenos mais
letais criados pela equipe botânica de Nike. O veneno, produzido nessa mesma tribo,
consistia basicamente em transformar o látex branco da flor (muito tóxico) em pó,
aumentando a eficácia da substância e o tornando muito mais fácil de espalhar. Alguns,
muitos na verdade, dos trabalhadores que produziam essa toxina morriam envenenados no
processo, mas era um preço que todos, incluindo aqueles que se expunham ao perigo na
produção, estavam dispostos a pagar.
- Não é a primeira e nem a última vez que esses incompetentes roubam nossas armas.
– Seyrus disse quando o pai lhe contou sobre o ataque.
- Sim. Devemos esperá-los para atacar? – Klaoz perguntou à Iva que estava suando
visivelmente com as dores.
- Ataquem. Klaoz vá também. Cuide para que a multidão de trabalhadores sumam
para não serem capturados pelo inimigo. Nike vá também. Coordene a proteção do veneno
já que o projeto está sob seu comando. Seyrus, tente enfiar seu machado na garganta
daquele rei idiota, mas, lembre-se, seu foco é proteger o projeto.
- Sim, mãe. Mas não se preocupe quanto à prisão dos trabalhadores. Eles carregam a
pípula e sabem o que fazer nesses casos. – Nike disse orgulhosamente, e olhou muito
sutilmente para o pai que retribuiu o olhar.

~o~
Era noite, como geralmente era quando os sneipas atacavam, se aproveitando das
sombras. Klaoz tinha enviado um mensageiro para a tribo assim que Iva deu a ordem de
ataque. A família mais importante de Omoh chegou e encontrou a tribo toda já pronta para
repelir o ataque. O plano era manter a rotina normal, dando a sensação de que ninguém
sabia de nada, os soldados extras levados para apoiar os locais deveriam se misturar à
população como pessoas comuns. E, acima de tudo, todos deviam manter suas mentes e
emoções o mais controladas possível para que Andor não captasse nada além das emoções
corriqueiras das pessoas. Quando o inimigo iniciasse o ataque, os venenos já prontos
O n i e r | 42

seriam lançados neles e as matérias-primas mantidas fora de alcance por uma enorme
barreira de magos treinados e soldados.
Não demorou muito. Andor logo surgiu com seu exército pequeno, mas ágil. Com os
anos ele ensinara muitas de suas técnicas de luta que aprendera observando os sapiens e
até os animais da floresta antes da guerra. Os melhores nessas artes se tornaram a elite do
exército Omoh, cada vez mais numeroso. Mas os sneipas não foram longe. Pouco depois
que o ataque começou, uma onda de fúria e determinação quase suicida atingiu o rei e ele
soube imediatamente que não eram emoções dele. Isso só podia significar uma coisa:
ataque. Andor não teve tempo para alertar os outros, sapiens em roupas civis tiraram de
suas roupas machados, clavas, arcos e flechas, bestas, adagas e todo tipo de arma
conhecida e avançaram para seus soldados com uma precisão militar. Era uma armadilha.
- Matem tantos quanto puderem! – Andor gritou em fúria o óbvio.
- Senhor, não há como abrir caminho até venenos. – O comandante Invis disse ao rei.
- Retire os soldados do ataque às plantações e os redirecione para a fábrica e
armazenamento dos venenos. – Andor respondeu lançando uma luz branca com as mãos
para cegar momentaneamente um sapiens e enfiar sua espada longa no coração do
homem. - Com mais soldados poderemos derrubar qualquer um que tente os impedir.
- Mas, senhor, e se for outra armadilha? – Invis disse temendo que os sapiens tivessem
previsto esse movimento.
- Então eu mesmo destruirei os planos deles. – Andor disse e se virou para seu
comandante e conselheiro. – Fique aqui e coordene o ataque. Distraia esses ingratos o
máximo que puder.
Andor disse e ignorou os protestos do conselheiro. Ele já havia sentido o que
realmente lhe interessava e nada nem ninguém no universo o impediria de ir até a fábrica
dos venenos de papoula. Seyrus, ainda comandando o ataque onde Invis estava, sentiu falta
do rei de Rígel e percebeu o plano, mas estava ocupado demais ali, não poderia abandonar
seus soldados, mesmo se quisesse. Invis soou o sinal na frequência secreta que apenas as
lorpat captavam. Os soldados que se dirigiam para as plantações receberam o sinal e
seguiram a ordem, encontrando Andor no meio do caminho para seu novo alvo. Na fábrica
a luta já estava mais do que caótica. Haviam muitos mortos de ambos os lados no chão,
todos mutilados, alguns irreconhecíveis, o cheiro de sangue tomava todo o ambiente, e,
pisando em muitos corpos, lutando em todas as direções, haviam soldados e civis sapiens
contra seus sneipas restantes. E não eram poucos. Mas, quem ele queria não estava em
nenhum lugar visível. Estava ali, disso ele tinha certeza, mas não via em lugar nenhum.
Andor e seus soldados combateram valentemente, ele próprio fora atingido no braço
esquerdo por uma pedra flamejante (outra arma nova dos sapiens) do tamanho de seu
punho, queimando e quebrando um osso. Mas ele não parou de lutar. Isso na verdade só
O n i e r | 43

aumentou seu misto de raiva e frustração. Depois de algum tempo lutando, alguns sneipas
receberam o sinal de Andor para se afastarem e procurarem o veneno no armazém.
Quando voltaram e contaram que o armazém estava completamente vazio, a raiva dos
sapiens foi o combustível para atacar mais ferozmente ainda os inimigos. No final, muitos
civis escaparam, mas quinze sapiens foram presos e contariam onde estava o veneno e
como produzí-lo. Era uma vitória para consolar o rei frustrado por não ter colocado as mãos
em quem ele realmente queria. Ou não. O rei mandou que os prisioneiros fossem
colocados lado a lado na sua frente de joelhos (uma humilhação proposital aos orgulhosos
sapiens), com as mãos amarradas nas costas. Ele mal teve tempo para começar a falar.
Todos os prisioneiros, ao mesmo tempo, caíram de lado encolhidos, tremendo
enlouquecidamente e babando como animais doentes. Segundos depois os quinze estavam
mortos. O tenente daquela equipe, que antes de ser soldado fora um médico respeitável,
verificou rapidamente os homens e não demorou para encontrar a causa daquelas mortes
bizarras. Havia um comprimido em seus bolsos minúsculos perto do peito, provavelmente
uma cápsula extra caso a outra lhes fosse roubada ou eles fossem salvos da morte. Era
veneno. Uma substância que os sneipas mantiveram escondida a séculos desde que
descobriram sua periculosidade poucos anos depois da chegada à Terra.
- Outra coisa que aquela vadia nos roubou. – Andor disse quase num rosnado.
Talvez fosse a raiva que o deixara mais perspicaz, ou apenas o medo mais intenso
emanado pela garota, mas o fato é que, antes de sair da fábrica, Andor sentiu o pavor
emanando dos fundos da fábrica. O medo de alguém que ele conhecia muito bem. Nike. Ele
chamou o tenente daquela equipe e mais dois soldados de elite. Ao seu sinal, os quatro
seguiram sorrateiramente para os fundos da fábrica e logo ouviram sons abafados de uma
briga que, ao que parecia, não deveria ser vista por mais ninguém.
- Pai, por favor... Eu estou com medo. Sei que disse que faria isso, que apoiava seu
plano...mas tenho medo... – Nike choramingava de pé, encostada na parede, enquanto
Klaoz estava de pé em frente à garota emanando raiva.
- Você vai continuar fazendo o que eu mando, menina, ou vou matar seu irmão que
você tanto gosta. – Klaoz disse com aquela calma perigosa que era sua marca.
- Não. Por favor, pai. Seyrus não tem nada a ver com isso.
Andor ouvia a tudo, silencioso como um gato, enquanto seus homens seguiam seu
sinal e se movimentavam sorrateiramente nas sombras para cercar a dupla de sapiens.
Uma coisa incomodava o rei, acima de tudo. Klaoz emanava raiva, uma pitada de
frustração, mas, o que realmente incomodou Andor foi a luxúria que ele podia sentir vinda
do sapiens. Só estavam ele e Nike ali. Essa última emoção não podia ser direcionada à filha.
Andor se recusava a acreditar nisso. Era nojento demais até para os sapiens.
O n i e r | 44

- Ele é só um soldado. Qualquer um com treinamento pode fazer o que ele faz... Talvez
até melhor. – Klaoz disse.
- Pai... eu só...eu não consigo mais. Eu fiz tudo que o senhor pediu...Não é o bastante?
Tanta morte...só para você conseguir o que quer?... Estou cansada de tudo isso...
Pai..converse com eles. O senhor pode conseguir o que quer se propor isso à eles em troca
da paz.
PLAFT!
O tapa de Klaoz na cara de Nike enviou uma onda de dor e surpresa em Andor que, em
parte era da própria Nike e em parte era dele mesmo, horrorizado pelo que o pai tinha feito
com a garota.
- Estúpida, covarde! Você vai fazer o que eu mandei sim! Ou eu posso simplesmente
matar sua mãe e seu irmãozinho e tomar o que eu quero à força! – Klaoz disse com o ódio
estampado na cara enquanto acariciava o rosto machucado da filha.
Quando Andor percebeu, já era tarde. Ele já tinha se movido feito um gato nas
sombras, silencioso e perigoso, e estava atrás de Klaoz com a ponta de sua espada tocando
sua nuca. – Deuses... Você é mais nojento do que eu supunha. – Andor disse e seus três
soldados saíram das sombras fechando o cerco.
- Não o mate! É a mim que você quer matar. Me mate e deixe meu pai ir embora, por
favor. – Nike disse soluçando entre lágrimas.
- Você é maluca? Há alguma falha eu seu cérebro, garota? Ele acabou de agredir você
e, pelo que pude perceber, não foi a primeira vez, não é? – Andor perguntou sem afastar a
espada da nuca de Klaoz.
- Não... – Nike murmurou.
- Cale a boca, estúpida! Nenhum sapiens deve implorar nada pra essa escória! – Klaoz
disse com a face carrancuda, emanando ódio.
- Vê? Ele não valoriza nem mesmo sua tentativa de salvá-lo. – O tenente disse.
- Porque pedir pela vida dessa coisa? – Andor estava curioso sentindo o pânico, a
tristeza emanando da menina apenas com a ideia de ver o pai morrer.
- Porque... Ele é meu pai. Não posso desejar a morte do meu pai. Eu prefiro morrer do
que vê-lo morrer. – Nike disse e perdeu o controle das lágrimas. – Me mate, mas, por favor,
deixe-o ir. Eu imploro.
A surpresa estava estampada no rosto de Andor e dos outros sneipas ali. – Você...
Você implora? – Todo sapiens contra quem eles lutaram em todos esses anos, ou mesmo os
que tentavam provocar um conflito antes da guerra, todos, sem exceção, nunca
imploraram mesmo quando suas vidas estavam em risco. Qualquer sapiens preferia morrer
à se curvar ou implorar para um sneipas.
O n i e r | 45

A surpresa e o braço ferido de Andor formaram a oportunidade perfeita. Com um


movimento circular, Klaoz se afastou alguns centímetros da ponta da espada, lançou uma
adaga na coxa de um dos soldados que caiu no chão agarrando a perna, abrindo um
caminho no cerco, uma rota de fuga. Ele correu e, já longe do alcance, sabendo que Andor
queria tanto matar Nike que não se daria ao trabalho de afrouxar mais ainda o cerco para
mandando alguém perseguí-lo, ele gritou: - Você é uma vergonha, Nike, sua bruxa inútil. – E
sumiu.
Nike tremia com medo do pai, depois com medo da morte dele e agora da própria
morte, não conseguiu mexer um músculo. Andor sentiu o medo dela e a decepção por ter
sido abandonada ali para uma morte certa. Finalmente, a maior arma contra seu povo, a
ladra, a pessoa que usou a ciência caridosamente lhe confiada, que deturpou um talento
tão poderoso dado pela natureza, a maior vilã aos olhos de Andor, agora estava ali, sem
saída, sem vontade de lutar.
- Bem, vamos acabar logo com isso, garota ingrata. – Andor disse e ergueu a espada. –
Hora de cortar a cabeça da cobra.
Nike apenas suspirou e fechou os olhos. A única coisa na qual Nike teve tempo de
pensar foi no rosto de seu amado irmão por quem ela lutara contra tudo e todos. Era o fim.
O n i e r | 46

Origens
Era o fim.
O fim do segredo. Nike teve um lapso de pensamento, um único rosto que não
demorou mais que um segundo em sua mente. Um rosto pequeno, com os mesmos olhos
incrivelmente verdes dela, nos braços de Seyrus. A onda poderosa de emoção que ela
sentia não poderia passar despercebida pelo rei. Era uma aposta perigosa, mas Andor era
habilidoso com a espada e empático o suficiente pra sentir aquela emoção, aquela luz
dourada no coração de Nike.
- Deuses! – Andor disse parando a espada milímetros acima do pescoço da mulher. –
Quem... Como... Deuses! – Ele afastou a espada, passando a mão pelos cabelos
nervosamente.
- Senhor? – O capitão sneipas chamou, confuso.
- Ela é mãe. – Andor disse e os sneipas se entreolharam. – Eu posso sentir essa emoção
nela... Deuses! Ela é mãe.
Os sneipas não entenderam nada. Ok. Nike era mãe, mas... E daí? A criança nunca
ficaria desamparada, afinal tinha os avós e o tio. Qual era o problema então?
- Onde está sua cria, sapiens do inferno? – Andor perguntou praticamente rosnando.
- Eu nunca revelaria o paradeiro da minha filha pra você, idiota! – Nike respondeu com
raiva. – Se não contei ao meu pai, apesar de todas as surras que ele me deu para descobrir,
porque diabos eu contaria para você? Pra você matá-la? Nunca!
- Então é uma menina. – Andor disse com um sorriso vitorioso captando as
informações dadas inconscientemente pela mulher. – Porque não contou ao seu pai onde a
criança está? Por acaso ela é dotada de talentos da alma e seu pai poderia querer usá-la
para seus planos como fez com você?
Nike se calou e seu silêncio era toda a resposta que Andor precisava.
- Então é isso. Me entregue ela e garanto que a criarei como uma rainha entre meu
povo. – Andor disse.
- Claro que criaria. Você não teria outra opção mesmo. – Nike disse finalmente
olhando nos olhos dele.
- Você sabe não é? A quanto tempo? – Andor perguntou.
- Descobri a alguns dias por acidente. – Ela respondeu desviando o olhar com um misto
de tristeza e vergonha.
- Senhor, o sapiens Seyrus está se aproximando pela direita. – O capitão disse.
- Vamos embora. Soem o sinal. – Andor disse. – Quanto à você, vamos continuar nossa
conversa em outro lugar.
O n i e r | 47

O rei sinalizou e, mesmo espantado, um dos sneipas do cerco se aproximou de Nike e,


com dois dedos, atingiu um ponto de pressão sobre a sobrancelha. Ela caiu desacordada
nos braços do soldado que a colocou no colo e seguiu atrás de Andor. O rei golpeou
qualquer um que teve a péssima ideia de se aproximar e seguiu para o ponto fora da
fronteira da tribo, reunindo-se com outros soldados. Erguendo uma das mãos, seus
soldados desapareceram nas sombras e, depois de garantir que todos haviam atravessado
para o outro lado da fronteira com uso de sua ciência de transporte esquisito, ele ouviu o
grito de Seyrus à distância. O soldado com Nike já havia atravessado, mas Seyrus
provavelmente sabia disso dado o estado de ódio e desespero no grito dele. Andor se virou
para olhar o rapaz metros à frente, correndo para ele emanando ódio e dor. O rei deu um
sorriso perverso para o rapaz e sumiu nas sombras. Saber que Nike estava em pose do
inimigo, correndo todo perigo, passando por humilhações e castigos inimagináveis, isso
doeria em Seyrus muito mais do que a morte da irmã.

~o~
O ast-raaltransporte era uma técnica sneipas de mudar as posições das células do
corpo e da alma e enviá-las para de um ponto pré determinado, à outro igualmente pré
estabelecido, utilizando linhas magnéticas naturais do planeta. As lorpat eram manipuladas
para facilitar essa jornada e gastar o mínimo possível da energia da alma do viajante. Não
era uma técnica fácil, mas também não era insanamente difícil, mas era extremamente
secreta sendo ensinada apenas a alguns profissionais de confiança, nunca aos sapiens,
mesmo antes dos conflitos. Era algo tão sigiloso que nenhum sapiens sabia como eles se
movimentavam tão rápido, achavam que era alguma magia das trevas ou algo do tipo. De
certa forma, era mesmo.
Quando Nike acordou ainda estavam atravessando o portal magnético, um túnel de
nuvens negras densas, iluminado aleatoriamente quando raios de inúmeras cores surgiam
aqui e ali, nunca saindo das nuvens negras que os rodeavam... Se é que aquilo eram
nuvens. Ela ouviu muitoo fracamente alguém gritando seu nome. Seyrus? Ou seu Klaoz? Ela
não saberia dizer. Não durou muito, alguns segundos talvez, mas aquele túnel estranho que
fizera seus cabelos eriçarem com o magnetismo, ficaria gravado em sua memória
eternamente. Quando as luzes das casas de Rígel apareceram em seu campo de visão, tudo
ficou escuro de novo e sua mente escorregou para a inconsciência.
No dia seguinte, Nike acordou com um balde de água gelada jogada em sua cara. Seus
braços e pernas estavam acorrentados à uma parede úmida, um lugar escuro fracamente
iluminado por duas tochas, sem janelas e um cheiro horrível de esgoto.
- Bom dia, sapiens ingrata. – Andor disse com nojo visível na voz.
- Pelo menos agora sei que é dia. – Nike disse quando a crise de tosse cessou.
O n i e r | 48

- Onde está a criança? – Andor foi direto ao ponto porque temia não resistir à tentação
de enfiar sua espada na garganta dela.
- Como se eu fosse contar. – Nike respondeu emburrada.
- Não me teste, Nike. Minha paciência não é das maiores, graças ao seu povo estúpido.
- Você sabe quem ela é e sabe quem eu sou. Não vai me matar, não sem saber onde
ela está. Então tenho ótimas razões pra não contar nada. – Nike disse com um sorriso.
O som ecoou pelas paredes úmidas quando o punho de Andor atingiu o estômago de
Nike com força suficiente para fazê-la cuspir sangue. – Já disse pra não me testar, garota. A
morte é a menor das punições que posso te dar. Aqui, nem mesmo os magos mais
talentosos de seu povo podem te encontrar. Você está à minha mercê. Eu posso, e vou,
fazer você pagar por cada morte, cada afronta, cada traição, bem devagar, e que se dane
quem você é. Mas, se quiser um fim rápido eu posso lhe dar. Basta me dizer onde está a
criança.
- Eu não tenho culpa, sabia, imbecil! Ninguém me contou a verdade. Se eu soubesse
acha que teria matado ele? – Nike respondeu com o sangue ainda escorrendo nos cantos
de sua boca.
- Eu não dou a mínima pra isso. Ele também descobriu pouco antes da sua traição
sabia? Imagine a dor dele. Imagine a minha quando eu soube disso. Isso agora não importa.
– Andor disse se afastando dela antes que ele a matasse. - Não tem como você ser salva,
não mais, não depois de tudo. Mas essa criança sim. Ela vai ser salva, vai assumir seu lugar
de direito. Diga-me onde ela está e lhe concedo uma morte rápida. Ou vou arrancar a
verdade de você dolorosamente.
- Faça o que quiser comigo. Nunca vou te contar nada. – Ela disse.
- Veremos. – Andor disse e saiu calmamente. – Comece.
Um dos soldados deu vários socos em Nike, os sons dela abafados quando a porta
pesada de ferro se fechou atrás de Andor.
- O dom dela está bloqueado? – Invis perguntou do lado de fora da porta, aguardando
o rei.
- Sim. Mas não por muito tempo. Algumas semanas apenas. Colocarei guardas
especializados nas ciências para vigiá-la. – Andor disse andando ao lado de se conselheiro
mais importante. – O Conselho está pronto?
- Sim, meu senhor. Todos estamos ansiosos para ouvir o que o senhor tem a dizer
sobre... Isso. – Invis respondeu.

~o~
O n i e r | 49

- Sentem-se. – Andor ordenou se sentando em seu lugar na mesa oval. Todos


sentaram-se silenciosamente. – Sei que todos estão confusos sobre minha preocupação
com a cria de nossa maior inimiga.
- Senhor, nós entendemos sua empatia, um dos mais belos dons de nosso povo, mas
todos concordamos que todos os sapiens devem ser exterminados. A idade deles não
deveria importar nesse processo. – Um dos conselheiros disse e os outros acenaram
afirmativamente.
- Sim. A garota sapiens, mãe ou não, deve morrer. Ela já se mostrou muito poderosa e
nada digna de confiança, independente de ser uma jovem usada por seu pai, como ficou
claro pelos relatórios. – Outro conselheiro disse e todos começaram a falar ao mesmo
tempo.
- Silêncio. – Andor disse mantendo a voz baixa, porém firme, e todos se calaram
imediatamente. – A alguns dias descobri algo que muda um pouco nossa visão dos fatos.
Nike, filha da governadora de Omoh, é sem dúvida a mais poderosa em seu povo. Por isso
sempre soubemos que deveríamos exterminá-la antes que ela criase armas e técnicas
contra nós, como acabou mesmo fazendo. Não tenham dúvida que, mesmo com o que
descobri, não há nada que eu deseje mais do matá-la. Mas essa nova criança não pode ser
ignorada. Se, como suspeito, ela for ainda mais poderosa do que a mãe, devemos tê-la em
nossas mãos e criá-la desde pequena.
- Mas senhor, uma sapiens entre nós novamente? Isso é um absurdo e...
- Não terminei. – Andor disse e o conselheiro se calou. – Bem. É melhor vocês mesmos
verem e ouvirem o que o próprio rei Betel gravou. – Andor ligou a tela de vidro do OFR em
cima da mesa, na horizontal, e o rosto holográfico de Betel surgiu. Todos se calaram
ansiosos e emocionados por ver o adorado rei de novo.

“- Se alguém estiver vendo isso é porque algo aconteceu comigo e não pude contar
pessoalmente. – Betel disse com um sorriso meio triste que logo sumiu dando lugar ao
maior sorriso do mundo. – Eu tenho uma filha. Não é maravilhoso?! E é uma garota bonita,
inteligente, sagaz, tagarela, talentosa... – O orgulho e carinho era visível nos olhos do
falecido rei. – Ela ainda não sabe, mas pretendo contar para ela e para todo mundo. Eu e a
mãe dela tivemos uma relação oculta antes dela se casar. Eu queria torná-la minha esposa
mas... Ela não quis. Ela me amava, sei disso, mas acho que ela não queria se unir
publicamente à um sneipas... Sim. Ela é uma sapiens. Não me olhem com essas caras! – Ele
disse como se estivesse realmente vendo as expressões chocadas que o assistia. – Eu não
pude resistir à ela. Enfim... Anos depois nós tivemos uma...er...recaída de uma única noite.
Nunca soube disso, até recentemente, mas aquela noite gerou uma linda menina. É um
milagre, eu sei. Quase não pude acreditar quando o teste genealógico deu positivo e
O n i e r | 50

confirmou minhas suspeitas. Fui confrontar a mãe dela hoje cedo. Para minha surpresa, o
marido dela sempre soube da criança e ajudou a ocutá-la de mim. Iva é a mãe da minha
filha e Klaoz me ameaçou abertamente quando exigi que eles me apresentassem à menina
como o que realmente sou para que eu e ela tenhamos a relação que a natureza nos
concedeu por direito. Eu dei um prazo de 48h pra ela contar para a menina ou eu contarei e
revelarei ao mundo a minha herdeira, minha linda e talentosa Nike, a filha que o milagre da
vida me concedeu.
Bem, se algo acontecer à mim, se Klaoz cumprir sua ameaça, este é meu último desejo:
cuidem da minha Nike, preparem-na para assumir o trono de Rígel como é seu direito, que
ela cuide de nosso povo como eu cuidei. E, Nike, minha filha amada, se estiver vendo isso, se
eu não tive a chance de dizer pessoalmente, quero que você saiba que eu me orgulho muito
da jovem que você é e que a amo muito.”
A imagem do sorriso orgulhoso e meio triste do rei ficou paralisada na tela.

Um murmúrio chocado correu entre os conselheiros em meio à uma onda de tristeza e


saudade.
Invis quebrou o silêncio. - Isso... Isso é possível? Sempre tivemos certeza que era
impossível a procriação entre sneipas e sapiens...
Andor controlou o nó em sua garganta. - Obviamente a garota não pode ser líder do
povo que ela traiu e abertamente, inúmeras vezes, tentou matar. Mas sua filha é outra
história. A menina ainda não foi corrompida pela imbecilidade dos sapiens e é metade
sneipas. Precisamos achá-la e educá-la para ser uma líder, uma cientista digna de nosso
povo, uma rainha.
Todos concordaram, alguns ainda limpando as lágrimas de saudades do rei tão amado.
Não importava a que preço, não importava quanta tortura fosse necessária, Nike iria
entregar a criança, nem que fosse preciso destruir a mente dela no processo.
E depois... A morte. Andor pensou com um prazer sombrio nos olhos.

~o~
- Você deixou ela ser levada! – Dois tenentes seguravam Seyrus para ele não agredir
Klaoz que o olhava com aquele rosto sem expressão nenhuma. – Você tinha que proteger
ela!
- Nike não é uma criança, Seyrus. Fiz tudo que pude pra salvá-la, mas eles me atacaram
pelas costas e eu desmaiei. – Klaoz disse calmamente, ao lado de Iva que esfregava as
têmporas com olhos avermelhados.
- Ah claro. Eles te derrubaram com um golpe pelas costas, você desmaiou e eles não te
mataram? ACHA QUE SOU IDIOTA POR ACASO! – Seyrus estava no limite.
O n i e r | 51

- Sugiro que abaixe o tom para falar comigo, garoto. – Klaoz disse naquele tom baixo e
perigoso. – Ela é minha filha. Acha mesmo que eu deixaria que a levassem?
- CALEM A BOCA OS DOIS! Já basta esta maldita dor de cabeça. – Iva disse impaciente,
mal conseguindo se concentrar no que ouvia. – Vamos dar um jeito de trazer minha filha de
volta, mas, por enquanto, sugiro que todos descansem.
- MAS ESSE MISERÁVEL NÃO A PROTEGEU MESMO DEPOIS DE TUDO QUE
CONVERSAMOS AQUI E... – Seyrus tinha perdido o autocontrole completamente.
- EU DISSE PRA CALAR A BOCA! GUARDAS! Levem o comandante Seyrus para a cela pra
ele se acalmar um pouco. – Iva disse e Seyrus a olhou chocado e furioso, mas não tentou
resistir e se deixou guiar para fora dando uma última olhada fulminante no pai. – Klaoz,
quero que diga a verdade. Olhe pra mim e me responda. Você deixou que ela fosse levada
para seguir aquele plano insano?
Klaoz olhou em seus olhos e com a maior sinceridade no rosto, até um pouco de
tristeza, disse: - Não. Eu lutei pra protegê-la com todas as minhas forças. Não entregaria
nossa filha para aqueles imundos, muito menos depois do que ela descobriu e de ter dito
que não queria mais fazer isso. Sabe como amo nossa filha, Iva.
Ela o encarou por um momento e, vendo a dor estampada nos olhos do marido, pegou
sua mão e disse: - Sim. Eu sei. Nós vamos trazer nossa menina de volta, querido.
Klaoz acenou com a cabeça, a tristeza marcando suas feições antes tão inexpressivas e
deixando seus olhos marejados com lágrimas que mal podia conter. Iva ficou ainda mais
triste vendo o marido nesse estado e tendo sua filha das mãos de seus inimigos. Eles
seguiram de braços dados para o quarto onde poderiam consolar um ao outro.
O n i e r | 52

Segredos
- Pronta pra mais uma sessão, Nike? – Andor entrou na sala escura, a prisão de Nike.
Fazia meia hora que um de seus soldados tinha saído depois de 2 horas torturando a
mulher para que ela revelasse o paradeiro da filha. Irônicamente, essas torturas foram
copiadas dos próprios sapiens que tinham uma criatividade diabólica pra isso. Nike estava
presa na parede fria com as mãos para cima e juntas, as pernas presas a alguns metros do
chão, ambos os membros amarrados de forma que ela ficasse muito esticada, causando
dores em partes do corpo que ela nem sabia que existiam. Estava cheia de hematomas
roxos pelo rosto e corpo, usando a mesma roupa com a qual fora capturada, mas toda
rasgada e suja. Ela não tinha como saber que estava ali a duas semanas, aguentando horas
de torturas, todos os dias, com intervalo de, no máximo 2 horas entre elas. Três pessoas,
Andor entre elas, se revezavam durante as sessões com escalas pré-definidas. A cada
quatro dias um especialista, o mesmo que a fizera dormir com o ponto de pressão, entrava
com Andor do lado e apertava o mesmo ponto na testa dela, o que a fazia dormir e suas
habilidades eram bloqueadas temporariamente. Uma vez a cada dois dias ela recebia uma
comida nojenta que era enfiada em sua boca, um tipo de mingau insoço, e, duas vezes ao
dia, água era enfiada em sua boca. Quando desmaiava no meio das torturas, alguém lhe
jogava água fria no corpo todo ou lhe davam pequenos choques. Ela estava em silêncio,
cansada e dolorida demais para falar, cabeça tombada para frente e respirando devagar.
- O que? Sem nenhuma resposta ousada ou alguma piadinha? – Andor zombou para
tentar ignorar sua empatia que captava a onda de sentimentos da mulher. Não havia ódio,
surpreendentemente ele não captava ódio nela a alguns dias. Ele sentia só um tristeza
profunda e uma forte sensação de proteção. Ela ia morrer, mas não contaria onde a menina
estava. – Vamos tentar algo novo hoje. Estou entediado com esse esforço físico todo.
- Não...vou...contar... – Nike murmurou.
- Já entendi que não. Pelo menos, não ainda. Mas há algo que está me deixando
curioso. – Andor parou em frente à ela. – Você viajou bastante pelo território Omoh e,
temos que concordar que um território que ocupa metade deste planeta não é pouca coisa.
A cerca de um ano sei que você esteve na tribo Sul por quase um ano. Quilômetros longe
de casa, longe dos olhos de sua família, exceto Seyrus que foi visitar você algumas vezes e
Klaoz que fez duas visitas para verificar seja lá o que for que vocês estavam tramando lá. O
que me fez suspeitar bastante desse local, talvez seja onde sua filha está ou onde você
conheceu o pai dela.
Nike continuou quieta, sem esboçar reação nenhuma.
O n i e r | 53

- Mas, algumas pesquisas sigilosas feitas por soldados da cidade Sul de Rígel não
encontraram nenhuma criança sapiens nas proximidades que tivesse muito talento. Claro
que é difícil saber com certeza, já que vocês procriam feito coelhos. Mas não vi sua família
fazer nenhuma viagem suspeita nos últimos anos. Iva e Klaoz viajam pouco, Seyrus viaja
bastante, mas faz parte do trabalho dele. Nem mesmo quando você voltou. Então, duas
hipóteses me passaram pela cabeça. Número um: você trouxe a criança com você e
esconde perfeitamente bem. Ou, e esta é a minha preferida, número dois: sua família não
sabe que você é mãe. Neste último caso, você só pode ter colocado essa criança no mundo
na tribo Sul.
- Claro que...família...sabe... – Nike murmurou com um tremor quase imperceptível na
voz.
Claro que Andor percebeu. O teste funcionava muito bem, pelo visto. – Minha nossa.
Sua família não sabe, não é. Caramba, Nike. Você não devia ser chamada de “Nike, A
Vitoriosa”. Deviam te chamar de “Nike, A Sigilosa”.
- Eu...disse....que...sabem... – Nike disse com a voz um pouco nervosa.
- E eu não acredito nem por um segundo. – Andor disse com um sorriso. - Mas...espere
um pouco. Algo aqui não faz sentido. Seu povo pode ser imbecil e um bando de bárbaros,
mas adoram suas crias. Então... Porque o segredo?
Nike ficou quieta. Seus olhos marejados a ponto de embaçar a visão. Era saudades da
criança que ela mal podia ver pelo segredo todo de sua existência, mas também havia raiva
e vergonha. Andor pensou que era porque ele estava falando sobre o assunto e havia
descoberto facilmente que ela ocultava a criança. Mas então uma possibilidade atravessou
sua mente como um raio.
- Nike. Quem é o pai? – Andor perguntou e percebeu que tinha enfiado o dedo numa
ferida quando a mulher ficou furiosa.
- NÃO É...NÃO..DA SUA CONTA! – Nike gritou com forças que nem sabia que ainda
tinha, mas logo começou a tossir.
- Descanse, menina. Você já me deu a informação que eu precisava. – Andor saiu com
um plano em mente, pronto para conversar com o Conselho. Se seu plano fosse aprovado,
eles não só teriam a neta de Betel em mãos, mas também uma poderosa arma.

~o~
- Vem. Agora. – Seyrus disse baixinho no ouvido de uma idosa corcunda, agarrando o
braço dela com força. Ela não protestou e se deixou guiar pelo comandante até um beco
escuro, fedendo à urina, atrás de uma taverna de quinta categoria em um bairro pobre da
capital. Ele a encostou na parede no fundo do beco e perguntou com voz baixa e firme: -
Porque está na rua à esta hora?
O n i e r | 54

- Precisava pegar estas ervas, senhor. – A velha disse olhando pro comandante, meio
assustada.
Seyrus viu as plantas e se preocupou. Ele não entendia muito das ervas, mas ervas
para tratamento de feridas eram conhecidas entre os soldados por razões óbvias. – O que
aconteceu? Espero que não...
- Não se preocupe, senhor. Não é o que está pensando. Está tudo bem. Eu que me
senti mal por causa dessa maldita perna. – A velha disse e Seyrus percebeu que ela
realmente tremia um pouco, possivelmente com dor na perna onde fora ferida em uma
batalha por território à mais de 40 anos.
- Venha. Vou te acompanhar até em casa. Da próxima vez use a desgraça do
comunicador que te dei e eu vou buscar. Nunca mais deixe o projeto sem supervisão. –
Seyrus disse com visível raiva e sinalizou pra velha seguir na frente. Ele aguardou um pouco
e saiu, seguindo-a a alguns metros. Não era bom ninguém o ver com ela.
Ela parou em um sítio humilde, mas visivelmente bem cuidado, longe dos comércios e
outras casas da cidade, a alguns minutos de caminhada. Ela entrou e deixou a porta aberta.
Um minuto depois Seyrus entrou e trancou a porta por dentro. A velha já estava numa
porta aberta, no fim de um corredor, esperando por ele. Ambos entraram em um quarto
simples onde ela dormia em uma cama com rodinhas, típico de casas onde as pessoas mais
velhas viviam sozinhas, um recurso para evitar que pedissem ajuda para arrastar seus
móveis. Sapiens prezavam pela autossuficiência sempre. Seyrus arrastou a cama para um
lado e abriu uma porta no chão de madeira tão bem camuflada que seria impossível
enxergar se você não soubesse o que procurar. Com uma tocha os dois desceram alguns
degraus e um belo corredor bem iluminado com ar fresco correndo por dutos de ventilação
bem camuflados por dentro e por fora. Eles pararam em uma porta simples de pedra com
uma alavanca bem lubrificada ao lado. Quando abriram a porta entraram uma linda casa,
decorada com todo luxo da cultura sapiens, bem ventilado. Era tarde, então Seyrus andou
silenciosamente até um dos cômodos para verificar o estado do projeto. Ele respirou fundo
aliviado vendo que tudo estava bem.
- Faça seu remédio e deite. Vou ficar aqui esta noite. Temos que ficar alertas agora. –
Seyrus disse.
- Não vai atrair atenção indesejada se o senhor ficar aqui? – A velha perguntou indo
até a cozinha para preparar seu chá e colocando outra panela no fogo pra esquentar outra
bebida forte para o comandante.
- Não que isso seja da sua conta, velha intrometida, mas não. Hoje é minha noite de
folga e sempre vou para os bordéis da cidade. Já estive em um deles hoje e ninguém lá é
imbecil o bastante para perguntar onde passei a noite depois disso. – Seyrus respondeu de
mau humor.
O n i e r | 55

A velha acenou afirmativamente e focou em suas panelas. Quando ela foi para um dos
quartos da casa subterrânea e já roncava alto, Seyrus ainda estava com sua bebida na mão,
fria, sem ânimo para nada. Essas semanas sem sua irmã por perto, tendo que aturar seu pai
por quem nutria um ódio que só aumentava, vendo sua mãe colocando a prudência acima
da urgência em resgatar sua irmã... Era demais. Fora preso na cela quatro vezes só nesta
semana por perder a paciência e partir para a agressão com qualquer um. Ele era explosivo,
sempre fora, mas o treinamento militar o ajudava a controlar um pouco isso. Mas sem Nike,
sabendo o que sabia, nem mesmo a bruxaria dos sneipas poderia acalmar suas explosões
de raiva. Ele largou a bebida na cozinha e foi observar de perto seu projeto. Focar sua
energia naquilo pelo menos ajudaria a pensar em outra coisa antes que ele perdesse a
calma e colocasse fogo na cidade toda.

~o~
Um dia havia se passado (um dos soldados sneipas disse à Nike a alguns minutos)
desde a conversa com Andor. Desde então, mesmo amarrada, as feridas de Nike foram
tratadas, ela foi solta por alguns minutos quando uma banheira cheia de água morna foi
colocada ali pra ela tomar banho, lhe deram comida e água nos horários normais que
qualquer um estaria comendo... Nike estava desconfiada, mas a fome, a sede e as dores
venceram a prudência. O soldado havia terminado de lhe dar comida na boca, secanado os
cantos com cuidado para não sujar o corte no queixo que ele tinha acabado de refazer um
dos pontos que abrira. Nike estava a ponto de perguntar porque a mudança repentina
quando Andor entrou.
- Deixe comigo agora e vá descansar, meu amigo. – Ele disse e o soldado saiu com uma
reverência ao seu rei. – Agora vamos conversar.
- Se veio pedir o pagamento pelos cuidados e sua belíssima hospedagem, lamento por
você, mas não tenho como pagar agora. Estou meio presa em alguns problemas. – Nike
disse sarcasticamente.
- HAHAHA. – Andor riu realmente divertindo-se com o humor dela que havia sido
esmagado no fim da primeira semana de torturas. – O que um pouco de comida e água faz,
heim. Mas vamos direto aos negócios. Você sabe o que eu quero. Quero a criança, a neta
do rei Betel.
- E vai continuar querendo. – Nike respondeu. – Talvez você devesse ter seus próprios
filhos, rei Andor, assim poderia parar de perseguir a dos outros. Ou o que? Não gosta de
procriar? Faz sentido pra mim. Nunca o vi com ninguém mesmo.
- Distrair minha mente do foco mudando de assunto. – Andor disse com um toque de
admiração. – Inteligente. Tática simples e inteligente. Inteligente demais para um sapiens,
devo admitir. Eu devia ter suspeitado que você era meio sneipas considerando sua
O n i e r | 56

inteligência acima da média de seu povo. Sabe porque nós caçamos tanto você, Nike? Sabe
porque a consideramos uma arma perigosa?
- Porque eu tenho muita magia de seu povo no sangue, mais que a maioria do meu
povo. – Ela respondeu.
- Não. Não foi por isso. Nós somos muito mais poderosos nessas ciências do que você.
– Andor disse e Nike a olhou com curiosidade. - Foi pela sua inteligência, sua busca
constante pelo conhecimento e criatividade. Isso sim é um problema sério vindo de um
inimigo. Você tem habilidades poderosas, não nego isso, mas tem também a criatividade
bélica dos sapiens, está sempre se aperfeiçoando, sempre criando novas formas para
utilizar suas habilidades e dar poder aos seus guerreiros. É isso que a torna uma arma
poderosa.
- E você está me dizendo isso por alguma razão lógica ou só está se declarando para
mim? – Nike perguntou com tom irônico
- Nike, Nike... Você sabe que não faria mal à sua criança, não sabendo de quem ela
descende. Mas entendo que há alguma razão muito poderosa para você esconder de sua
família a existência de sua descendência. Ainda quero saber quem é o pai, porque sei que
ele de alguma forma tem a ver com esse seu sigilo todo. Mas me contentarei em ter a
criança aqui conosco. Dou-lhe minha palavra que protegerei sua filha como se fosse minha
e lhe darei uma execução rápida.
- Me mate rápido ou devagar. Não faz diferença pra mim. Não vou deixar minha filha
nas suas mãos para que você a destrua quando eu não estiver mais aqui. Prefiro morrer do
que deixar minha menina à mercê de sua raça.
- Nossa raça, minha cara. Você é metade sneipas, caso não se lembre. – Andor corrigiu
e antes que Nike pudesse dizer mais alguma coisa, ele acrescentou: - Mas imaginei que diria
isso. Então, vamos à minha outra proposta. Traga a criança para Rígel e trabalhe ao nosso
lado criando as armas que você é tão hábil em criar, sob minha estrita vigilância, claro.
Assim você poderá cuidar de sua filha, nós teremos a menina sob nossa vigilância, ela ficará
segura contra o que quer que seja que você a esconde... Todos saem ganhando. Quando a
criança atingir a idade adulta dos sneipas, você será enviada para o exílio e poderá ver a
menina em datas específicas.
- Nunca! Não vou trabalhar para o seu povo estúpido e trair o meu!
- Somos seu povo também, garota tola. Mas vou lhe dar tempo para pensar. Só não se
esqueça, menina, que ainda estamos à procura de sua filha. Se nós a encontrarmos antes
de sua resposa, a oferta deixará de existir, você será executada e nunca terá a chance de
ver sua filha de novo. – Andor disse tentando ser paciente. Ela abaixou a cabeça tentando
esconder as lágrimas. Percebendo que ela não diria mais nada, ele se virou e foi até a saída.
O n i e r | 57

- Eu... – Nike disse baixo e Andor parou antes de abrir a porta para sair. Ele se voltou
para ela, sem se aproximar, esperando que ela continuasse. O medo que exalava dela era
maior até mesmo que o medo que ela sentiu durante as inúmeras torturas. – Eu não
posso... Se... Se ele souber que ela existe.... Ele... Deuses!... Eu não posso...
Lágrimas rolaram feito cachoeiras em seus olhos. Se ele não a odiasse tanto, quase
teria sentido pena dela. Ele se aproximou dela com curiosidade. – Ele quem? O pai da
criança? Ele não a desejava? Isso é estranho. Nunca conheci um macho de qualquer de
nossas espécies que não desejasse ter uma criança para exibir com orgulho por aí. É algum
soldado cruel? Alguém que a agride, mas, de alguma forma, apoiado por sua família? – Isso
explicaria tudo. Era uma realidade cruel, mas muito comum entre os sapiens.
- Ele... Ele é um monstro! Ele... Vocês tem um nome...para gente que nem ele... Sua
ciência chama de ‘psicopata’. – Nike soluçou entre as lágrimas e Andor usou a manga da
própria roupa para secar o rosto dela. – Ele não pode saber...que ela...que ela existe. Ele vai
usar ela como arma... Igual fez comigo...
- Igual fez com você? – Andor disse e percebeu a verdade com nojo e choque. –
Droga... Nike.... O pai da sua filha é o Klaoz?
Ela balançou a cabeça em negativa desesperada, mas não convenceria ninguém. O
medo, a vergonha e a raiva que ela sentia desmascararam a tentativa de mentir. Klaoz era o
pai da filha da própria filha. Aquilo era nojento....era doentio. Certo. Ele não era pai
biológico, mas a criara como filha, dizia amar como filha. Caramba ela nem mesmo sabia
que não era filha dele até poucas semanas atrás!
- Eu não provoquei, juro. Ele disse que provoquei, mas não fiz. Tem que acreditar em
mim. Eu nunca faria isso... – Nike estava à beira da histeria agora.
Andor queria dizer algo gentil, mas estava em choque demais para responder qualquer
coisa. A única coisa que sua mente fazia era repetir como um eco: Klaoz é pai e avô da filha
de Nike. Será que Iva sabia? Será que Seyrus sabia? Será que alguém apoiava? Não seria
surpresa se essa loucura fosse apoiada. Nada mais seria surpresa agora. Sapiens eram
realmente bárbaros nojentos.
- Ele disse que era culpa minha, ele sempre diz isso... Mas eu não...eu não fiz nada. Eu
viajei pra me afastar dele com a desculpa do trabalho na nova arma, mas ele foi lá pra
continuar o que sempre fazia comigo. – Nike parecia uma represa estourada, despejando
sem parar tudo que estava preso na garganta. – Eu me senti mal algumas vezes, mas
demorei pra entender que estava carregando uma criança. Só descobri com 5 meses. Achei
que os movimentos que sentia eram vermes. Eu me escondi o máximo que pude nos
laboratórios trabalhando sem parar pra ninguém me ver e perceber. – As palavras foram
cortadas por uma onda de lágrimas que fizeram seu corpo tremer. – Eu juro que não fiz
O n i e r | 58

nada pra ele pensar isso de mim. Eu nem entendia nada sobre isso quando ele começou. Eu
era tão pequena... Não provoquei, eu juro.
- Sei que não. – Andor finalmente falou, cortando a onda de desespero da mulher. Ele
já estava quase vomitando só de pensar no que ela estava contando. – Qual o nome dela? –
Ele perguntou tentando acalmar um pouco a garota.
- Álnaz. – Nike disse e à simples menção do nome da filha enviou uma onda de emoção
como uma luz dourada, morna e tranquila.
- Muito bem. E se eu puder evitar que Álnaz seja vista por seus pais? Se eu tiver uma
forma de protegê-la, de manter ela perto de você, sem que ninguém saiba que ela é sua
filha? Você aceitaria minha proposta?
Nike olhou para ele desconfiada. Andor passou a noite conversando com ela e, na
manhã seguinte, logo cedo, convocou os Conselheiros. A pergunta era: eles iriam querer
pagar aquele preço alto pela vitória? Ele queria pagar esse preço? Nem o próprio Andor
tinha certeza disso ainda.
O n i e r | 59

Reunião de família
- Muito bem, Nike. – Andor disse analisando as melhorias que Nike estava fazendo nas
bordas de em um dos portais de ast-raaltransporte.
- Ainda tem algumas coisas que quero testar, mas precisaria conhecer melhor o
funcionamento dessa coisa. – Nike disse, mesmo sabendo a resposta.
- Boa tentativa, mas não. Não vou te dar plenos conhecimentos sobre esta tecnologia
pra você fugir. – Andor disse friamente.
- Eu já prometi ficar aqui e ajudar desde que vocês cumpram com sua parte no acordo.
– Nike respondeu emburrada. Ela estava ajudando em pequenos concertos de objetos
aleatórios, como um tipo de teste talvez, mas sempre vigiada de perto por Andor ou pela
Guarda do Rei. A algumas horas uma mensagem secreta fora enviada para Seyrus e naquela
noite as coisas finalmente seriam acertadas.
- Como se eu fosse mesmo confiar na bandida que matou o rei covardemente. – Andor
respondeu sem pensar e rapidamente se arrependeu. Nike estava se sentindo muito
culpada pela morte do pai que ela nem sabia que tinha.
Ela levantou num rompante, olhos marejados e rosto vermelho. Um guarda a alguns
metros fez menção de se aproximar, mas Andor fez um sinal com a mão o mantendo
parado no lugar.
- Você não tem direito de me julgar! Você não sabe o que eu tive que fazer pra
sobreviver! Não sabe o que estava em jogo! – Nike quase gritava.
- Tem razão. Não sei. Porque não me conta?
- Eu queria sim provar que era corajosa e digna como meu povo preza, mas... mas...
não foi só isso... Se eu soubesse na época que ele era meu pai...eu...eu nunca...
- Agora estou curioso. O que aconteceu naquela época? – Andor perguntou, algo
dentro dele já prevendo a resposta.
- Meu pai, Klaoz. O plano foi dele. Eu estranhei porque ele sempre quer colher as
glórias por seus planos, mas não discuti quando ele disse que isso tinha que parecer ser
minha ideia, que eu merecia essa honra por ser tão “boazinha” na cama com ele. No início
fiquei um pouco chocada porque o rei era tão bom comigo, mas Klaoz ameaçou matar meu
irmão e fazer parecer que fui eu. Eu amo o Seyrus, morreria antes de deixar que alguém o
machucasse. Mas... Não acreditei que ele o mataria mesmo. Então, numa noite, depois do
jantar, meu irmão ficou muito mal, vomitando muito. Era efeito de uma planta venenosa
que eu estava estudando. Alguém tinha colocado na comida dele, mas ninguém mais soube
e, quando cheguei no meu quarto, meu pai estava lá esperando, com a planta na mão e
sorrindo como um demônio. Uma quantidade a mais, só um pouco a mais, e Seyrus teria
O n i e r | 60

morrido. Na semana seguinte contei ao meu irmão o plano como se fosse meu. – Nike
terminou de contar, se sentando pesadamente no banco em que estava antes.
- Faz sentido. O rei tinha pressionado ele e sua mãe para contar sobre sua origem,
Klaoz já tinha ameaçado o rei por isso. Usar a filha pra matar o próprio pai... – Andor estava
enojado quanto mais sabia dos segredos de Klaoz. – Vá para o seu quarto. Vamos nos
preparar.
Nike se deixou guiar pelo guarda para o quarto e começou a se arrumar quando ele
saiu trancando a porta atrás dela. Andor levou as informações novas para seu conselheiro e
andava de um lado para outro inquieto. Nike era uma assassina, traidora, desgraçada, mas,
verdade seja dita, era uma mulher de coragem. Não era fácil aguentar esses abusos
grotescos de alguém que devia protegê-la contra o mundo e não perder o sorriso ou a
vontade de viver. Ela seria punida pelo que fez, ele mal podia esperar por isso, mas estava
ficando mais ansioso ainda para acabar com a vida de Klaoz.

~o~
Mais tarde, Andor, alguns guardas de confiança, Nike partiram para uma floresta ao
longe da cidade-capital de Omoh, pouco mais distante de um sítio humilde. A floresta tinha
grossas árvores retorcidas que eram consideradas mágicas e sagradas por ambos os povos.
Àquela hora uma neblina fria e a lua cheia brilhando alta no céu tornavam o ambiente
ainda mais surreal. Seyrus aguardava lá, conforme o combinado, ocultando um embrulho
nos braços protetoramente.
- Você não pode aceitar isso, irmã. – Seyrus disse ocultando o embrulho nos braços. –
Nike, eu posso salvar você, só precisa vir pra cá e eu mato esses idiotas!
- Seyrus, por favor, você sabe que não posso mais voltar, eu nem sei se consigo. E se
ele encontrar ela...
- Ele não vai. Nem que eu mesmo tenha que matar aquele monstro... – Seyrus rosnou.
- Nunca mais diga isso! Matar o pai é algo... Não, você não pode. Nunca, Seyrus. – Nike
engoliu em seco. – Me entregue ela, irmão.
- Nike eu posso proteger vocês. Você sabe que posso. – Seyrus estava entre a raiva e o
desespero, mal conseguindo se conter vendo o grupo de sneipas atrás da irmã, incluindo o
próprio rei.
- Entregue de uma vez, garoto. Ou prefere que o pai dela nos encontre aqui? – Andor
disse raivosamente.
- Você contou pra ele? – Seyrus disse preocupado e se sentindo traído por ela ter
revelado pra eles em tão pouco tempo algo que ela só revelara à ele a pouco mais de um
ano. - Eu precisei. Irmão...
O n i e r | 61

– Você é a mãe. Não é justo separar mãe e filha... Só me prometa que eles não vão
machucar ela.
- Prometo. Sabe que eu nunca traria ela se eles fossem machucá-la.
- E você confia mesmo neles? – Seyrus disse entregando o embrulho nos braços da
irmã, se sentindo vazio sem aquela criatura pequena e magricela que ele protegia a meses.
- É mais do que isso, Seyrus. Tem uma coisa sobre mim que você ainda não sabe. Eu
posso explicar tudo... Vem com a gente? – Nike perguntou, mesmo não tendo falado sobre
isso com Andor antes. Ela sabia que se Seyrus fosse útil ao rei de Rígel ele o aceitaria. E,
caramba, Seyrus era um excelente comandante. – Você pode me ajudar com ela e nós
ficaremos livres dele.
- Você quer que eu traia nossa causa? Nike eu amo você e Álnaz, mas...
- Finalmente minha filha nos trouxe os inimigos até nós. – Klaoz disse aparecendo
ninguém sabe de onde com um grupo formado por soldados e magos sapiens.
Klaoz olhou para Nike que olhava para o irmão em pânico, sem coragem de se virar, e
arqueou uma sobrancelha quando a criatura minúscula nos braços dela começou a chorar.
- Você! Sua cobra! – Andor disse para Nike, achando que ela os traíra.
- Eu... Eu não contei nada. Juro. – Nike se virou e murmurou para o rei. Ele ainda a
olhava desconfiado, mas precisou focar rapidamente nos ataques dos soldados sapiens que
já tinham começado.
Seyrus tentou proteger a irmã do pai, mas acabou sendo arrastado pela confusão da
briga. Nike sentiu um braço puxá-la e colidiu contra um corpo forte. O olhar castanho do
homem a encaravam entre a raiva e a admiração que só aumentou quando os olhinhos
verdes do bebê nos braços de Nike encontraram os dele.
- Ela...Ela... É minha, não é? Não. Ela é nossa, minha menininha obediente. – Klaoz
disse naquele tom que Nike aprendeu a temer e odiar.
- Ela é só minha! – Nike respondeu. – Minha e do meu namorado. Ele morreu em
batalha. – Ela mentiu torcendo para que ele acreditasse. Ele a odiaria por ter tido qualquer
coisa com outro, mas sua filha não seria tomada por ele.
- Você sempre foi péssima mentirosa. – Ele respondeu com um sorriso de predador.
- Solta ela! – Andor gritou enfiando uma faca tão fundo no ombro de Klaoz que ele
teve que soltar Nike. Ele finalmente poderia matar alguém que ele odiava tanto. Mas
quando ele ergueu o braço com a espada, Nike puxou a manga de sua roupa. Ele a olhou
confuso. Ela mais do que ninguém deveria querer a morte dele, não era possível que ela
ainda tentasse poupar a vida daquela coisa.
- Não perca tempo, por favor. Leve-a embora. Não deixe ele destruir ela também. –
Nike disse surpreendendo o rei. Ele a olhou por um tempo, abaixou a espada e pegou a
criança no colo.
O n i e r | 62

Nesse meio tempo Klaoz se contorcia de dor no chão. Andor o olhou de soslaio com
todo o desdém que podia e começou a andar até seus homens. Klaoz se levantou usando
todo seu ódio como combustível, pegou sua adaga e correu para enfiar na nuca do rei. Nike
rapidamente pulou na frente do pai e o derrubou usando a força de seu corpo contra ele.
Andor se virou para ver a cena. Nike, acima do outro homem, dando socos
incontroladamente, histérica, enquanto Klaoz tentava segurar os braços da menina que
passava a tentar mordê-lo em qualquer lugar que pudesse alcançar.
- Leva ela! Agora! – Nike gritou e Andor saiu do seu choque. Com um aceno ele levou a
menina e seus homens seguiram seu líder.
- Solta ela, desgraçado! – Seyrus gritou, alguns soldados o segurando firmemente.
- Soltar ela? Essa louca que não me solta! – Klaoz gritou tendo dificuldade para
controlar o ataque de fúria da mulher. – Mik! Acerte ela!
O soldado de Klaoz se aproximou.
- Não! – Seyrus gritava enquanto o tal Mik acertava a garota com uma paulada na
parte de trás da cabeça e ela caía desacordada em cima do pai. - Seu desgraçado, covarde,
imundo!
Klaoz se levantou calmamente, limpou a poeira da roupa, andou até Seyrus e deu um
soco tão violento no rapaz que um dente voou longe. – Eu sabia que você estava
escondendo algo, só não imaginei que seria algo tão precioso. Eu entendo, filho. De
verdade. Ficar dividido, sem saber que caminho tomar... Ela faz isso com a gente. Sempre
tão linda e deliciosa. – Klaoz disse passando a língua pelos lábios com um olhar malicioso.
- Seu nojento! Ela é minha irmã... Sua filha! Como pode pensar nela assim? Você me
dá nojo! – Seyrus disse, o sangue escorrendo pela boca enquanto os soldados ainda o
seguravam.
- Então ela não te deuxou ter um gostinho dela? Por isso você não entende. Mas
deseja, não é? Claro. Não tem como não desejar. Mas, não se preocupe, meu filho
maravilhoso. Você não vai mais precisar ficar dividido, não terá que esconder mais nada do
papai. – Klaoz disse e um dos magos se aproximou ao sinal dele. – Coloquem esse bostinha
de joelhos, do jeito que ele sempre deveria ficar na minha presença.
Os soldados derrubaram Seyrus no chão, chutando a parte de trás dos joelhos pra ele
se ajoelhar. O mago de Klaoz segurou uma coisa parecida com as seringas que Nike criara
para injetar substâncias diversas. Seyrus se debateu xingando, mas não pôde evitar. A
seringa foi enfiada em sua jugular e um líquido doloroso entrou em suas veias. Ele gritou de
dor, a substância queimando em seu corpo com inúmeras fogueiras.
- O que... O que você fez, seu doente? – Seyrus perguntou. Klaoz apenas sorriu para
ele e mandou os soldados o soltarem.
O n i e r | 63

Assim que estava livre ele tentou socar o pai, mas caiu de cara no chão, mal tendo
forças para se mexer. Nike acordou, mas não tinha forças para se mexer ou falar. Klaoz
sentou em uma pedra em frente ao filho se contorcendo de dor, colocou a cabeça de Nike
em seu colo virada para o irmão para que ela visse a dor dele. Ele acariciou os cabelos
cacheados dela com uma mão enquanto um de seus soldados amarravam as mãos e as
pernas da moça.
A dor de Seyrus se intensificou e sua cabeça doía, queimava, ele nem conseguia pensar
mais. Tudo que ele conseguia pensar naquele momento era em Nike. E então, até isso
sumiu, dando lugar aos tremores que lembravam muito os de Betel antes de morrer. Seyrus
babou e seu olhar se cruzou com o de Nike que chorava silenciosamente, sua língua pesada
demais para falar. Ele parou deitado olhando nos olhos dela e fechou os olhos. Segundos
depois os olhos dele se abriram, mas não havia vida ali, não havia aquela luz que os vivos
parecem ter no olhar. Ele se levantou trêmulo, mas ereto como um soldado perfeito.
- Muito bem, quem é seu mestre, garoto? – Klaoz perguntou ainda acariciando os
cabelos de Nike que olhava assustada.
- Você, senhor Klaoz, meu pai e chefe. – Seyrus respondeu com uma voz normal, mas,
ao mesmo tempo estranha, sem emoção.
- E quem é esta? – Klaoz apontou para Nike.
- Nike, senhor. Minha irmã que não devo procurar. – Seyrus respondeu.
- Bom garoto. Voltem para a cidade e sabem o que fazer. – Klaoz disse. – Mik, você
vem comigo. Não se preocupe minha menina desobediente, vamos achar nossa bebê e
você vai aprender a não desobedecer mais o seu homem.
Nike fechou os olhos com nojo enquanto Klaoz lambia sua bochecha. Ele a amordaçou,
ergueu nos ombros como um saco de batatas e carregou para o sítio onde um lar novo a
aguardava.

~o~
- Aumentem a segurança! Vamos proteger esta pequena criatura. – Andor deu ordens,
tentando se acalmar porque temia que a criança pudesse não estar se acalmando
justamente por sentir a fúria dele. – Ele vai tentar tomá-la de nós.
- Acha que um ser desprezível como aquele se preocuparia em vir atrás da filha-neta?
– Invis perguntou. – Por todas as estrelas... É nojento dizer isso...
- Sim, eu sei. Mas não tenho dúvidas de que ele virá atrás dela. Agora que ele sabe de
sua existência e que tem Nike em seu poder... Depois da forma como ele olhou para esta
criança... Não tenho dúvidas de que ele virá. Precisamos estar prontos. Temos que trazer a
garota também. Não vou deixar ele manter a vantagem de ter Nike ao seu lado. Ela é
perigosa.
O n i e r | 64

- Como podemos encontrá-la, senhor? – Invis perguntou, pegando a criança chorona


nos braços para tentar acalmá-la.
- Seyrus. Ele vai ajudar. Tenho certeza. Agora ele não tem escolha. Precisa de nós para
salvarmos a irmã dele e manter ela e a criança seguras.
- Isso se ambos já não estiverem mortos.
- Matar Seyrus levantaria muitas perguntas e ele é um bom comandante. Se ele
matasse o filho ele perderia seu trunfo para chantagear Nike. Quando a própria Nike...
Duvido que ele a mate. Eu vi o desejo insano nos olhos dele, eu sei o que ele sente,
acredite, meu caro conselheiro... É mais fácil chover gelo no Sol do que Klaoz matar aquela
garota. E é justamente isso que temo. Há destinos muito piores que a morte. – Andor disse
sombriamente. – Amanhã cedo envie uma mensagem sigilosa para Seyrus.
A mensagem foi enviada na manhã seguinte, mas nunca chegou ao seu destino. O
comunicador que Seyrus usava secretamente, oculto no cinto, se quebrou durante suas
convulsões. Quando um conflito aconteceu dias depois, Andor recebeu informações de
seus soldados sobre como o rapaz parecia vazio, frio, sem vida, lutando ferozmente como
nunca antes, mas desprovido daquele fogo, daquele jeito explosivo. O rei percebeu que
Klaoz havia feito algo tão ruim com o filho que quebrara a força de vontade, a
independência do rapaz. Encontrar Nike agora seria um desafio gigantesco.
O n i e r | 65

Frutos do azar
- Eu não vou fazer nada de droga de arma nenhuma, seu lunático! – Nike era em pura
raiva. Sem nada mais a perder, estando ali a meses, não tinha mais nenhum motivo para se
manter calma e obediente como fazia antes de ser levada por Andor.
- Isso é uma pena, minha menina linda. – Klaoz disse arrumando a roupa depois de
usar e abusar da jovem que deveria amar como filha. Todos os dias ele arranjava tempo
para ir até ali satisfazer seus desejos obscenos à qualquer preço, sempre protegido pela
velha que antes obedecia à Seyrus e Nike, mas, como qualquer ser vivo racional, obedecia
Klaoz por puro medo de sua crueldade. – Sabe, agora que eu tenho seu irmão imbecil sob
minhas ordens e tenho nossa linda filhinha, não preciso mais de você. A única razão pela
qual você ainda está viva é porque eu amo o jeito como você geme e esse lindo corpo que
me enlouquece. Só por isso. Você criou armas muito boas e, no futuro, nossa neném vai
criar outras pra mim.
- VOCÊ NUNCA VAI TOCAR NELA! – Nike levantou da cama onde estava deitada ainda
nua, com uma corrente prendendo seu tornozelo à um aro de ferro cimentado no chão,
mas seu corpo ainda dóia pelos abusos de minutos antes. Ela ficou tonta e caiu sentada de
novo na cama.
Klaoz se aproximou dela rapidamente e a pegou no colo com cuidado pra não se
emaranhar na corrente longa que a permitia andar pelo quarto todo. Ela estava leve como
uma pena, muito mais magra pela má alimentação, os abusos mais violentos e as surras
que tomou durante quase um ano em meio à fúria de Klaoz pela fuga e o sigilo dela sobre a
filha. Ela tinha queimaduras pelo corpo todo, seus pulsos, tornozelos e pescoço ainda
tinham hematomas pelo ferro que a prendia na parede e às vezes no chão, tinha a marca
de um “k” feito com uma faca aquecida no primeiro dia em que Klaoz a tinha prendido ali. A
única parte de seu corpo que ele evitara ferir foi o rosto porque, segundo ele, não queria
marcar aquele rosto que ele tanto amava. Apenas quando ela já estava quase morrendo,
ele decidiu alimentá-la e ela decidiu não resistir tanto à ele. Ela não queria morrer sem ver
a filha de novo, mas o nojo que sentia por ele não podia ser ocultado. Ele a colocou
delicadamente na cama, arrumou os travesseiros, pegou uma jarra com suco doce na
mesinha perto da porta do quarto e a fez beber tudo.
- Vamos, querida, beba. Não quero que você morra.
- Claro... Você perderia...seu...brinquedo... – Nike disse ainda com a visão escura pela
fraqueza.
- Você não é meu brinquedo, Nike. – Klaoz disse com um tom quase doentio. – Você é
meu amor. Será que você não vê que tudo o que faço é porque amo você? Quando à nossa
O n i e r | 66

filha, não se preocupe. É apenas uma questão de tempo... Em breve ela estará comigo e, se
você se comportar direito, nós poderemos criar ela juntos.
Nike estava cansada demais para discutir, mas, em sua mente ela jurou a si mesma
que morreria sem ver sua filha de novo se isso significasse que Klaoz não colocaria as mãos
sobre a menina.
- Velha desgraçada! – Klaoz chamou e a idosa entrou trêmula. Ela ainda tinha cicatrizes
das surras que ele lhe dera para fazer ela revelar o local secreto de Seyrus e Nike. – Cuide
da minha mulher e se ela não se alimentar vou arrancar suas pálpebras com uma faca. Fui
claro?
- Si...sim senhor. Ela vai...vai se alimentar bem. Eu prometo. – A velha garantiu e Klaoz
sabia que ela enfiaria comida pela garganta de Nike, mesmo que a mulher não quisesse.
- Para o seu bem, é bom mesmo. – Ele disse e deu um beijo na testa de Nike. – Volto
amanhã, querida. Comporte-se.
Quando ele saiu, o mago que mantinha uma barreira na casa subterrânea para impedir
que qualquer magia funcionasse ali, deu um aceno respeitoso para ele e reforçou a
barreira. Era uma medida de precaução, Nike de qualquer forma mal tinha forças para ficar
de pé. Seyrus aguardava sentado como um robô na casa superior, quieto, sem nem piscar
direito. Quando Klaoz apareceu ele se levantou em prontidão e seguiu o pai sem falar nada.
Na noite do encontro malfadado em que Álnaz fora entregue aos sneipas, Klaoz voltou
para casa com o filho sendo carregado por seus soldados e disse à todos que eles tentaram
salvar Nike em Rígel, mas Andor já tinha matado a moça e estavam cremando seu corpo no
momento em que eles chegaram lá. Seyrus, furioso, saíra do local onde eles estavam se
escondendo e vendo o corpo de Nike queimando, e o caso se espalhou. Andor quase
matara Seyrus e Klaoz conseguira, com muito custo, salvar o filho, mas que o rei usara
algum feitiço semelhante ao que fizera com Iva, porém mais forte, e deixara o rapaz meio
abalado daquele jeito. Houve até mesmo um velório simbólico para Nike e toda Omoh
lamentou a morte da moça por uma semana. As dores de cabeça de Iva só pioraram e a
estavam tornando um tanto...insana, digamos assim. O ódio pela morte de uma sapiens tão
querida e admirada por todos só aumentou a rivalidade entre as duas espécies. Andor, por
outro lado, não queria explicar o que acontecera porque isso o obrigaria a contar sobre a
existência de Álnaz, e ele não ia deixar a menina nas mãos de seus inimigos. Entretanto,
Andor, diferente de seus conselheiros, ainda acreditava que Nike estava viva em algum
lugar.

~o~
A pequena Álnaz era criada com todo zelo em uma área central do enorme palácio,
cercada por jardins e inúmeros prédios para todas as funções necessárias visando manter o
O n i e r | 67

local auto suficiente, independente do resto do palácio. Poucos sabiam de sua existência,
apenas sneipas jurados e sem familiares próximos trabalhavam nequele setor. As únicas
pessoas além dos trabalhadores que podiam entrar naquela área eram os conselheiros e o
próprio rei. Álnaz rapidamente ganhou o afeto de todos. Era um bebê de 6 meses quando
foi levada, sempre sorridente e muito sensível aos sentimentos alheios. Ainda não havia
como ter certeza, mas ela provavelmente tinha algum traço de empatia. Quando chegara à
Rígel ainda chorava muito pela falta da mãe e sempre que alguém estava triste ou irritado
perto dela. Conforme foi crescendo se tornou uma menina muito doce, meio geniosa, mas
extremamente carinhosa com todo ser vivo que via. Andor tentava agir com praticidade
perto dela, evitar criar algum laço sentimental, mas era quase impossível não amar aquela
menina de pouco mais de um ano, sempre atenciosa e carinhosa. Ela ainda sentia falta da
mãe, ele sabia disso, podia sentir isso nela, mas ele não conseguira nenhuma pista do
paradeiro de Nike e nenhuma arma nova fora criada pelos sapiens. Não que ele soubesse,
pelo menos. Os conselheiros usavam isso como argumento para tentar convencê-lo a parar
com as buscas perigosas no território inimigo, achando que ela estava morta. Mas ele não
conseguia se convencer disso. Em parte porque deixar Nike nas mãos dos inimigos sendo
tão talentosa e perigosa como ela era, seria muito arriscado. Mas, ele tinha que admitir, em
parte também era porque ele queria dar esse presente à Álnaz. Queria devolver à menina a
chance de crescer com a mãe.
Álnaz tinha agora 1 ano e 6 meses e já corria por todo o palácio fazendo os servos
ficarem de cabelo em pé correndo atrás da menina pra ela não se acidentar. Andor a
observava brincando com uma flor no jardim, sentada na terra e rindo com as borboletas
que rondavam ela. Seus pensamentos estavam em um turbilhão imaginando mil planos
para, assim que a tempestade das fronteiras amenizasse e liberasse a passagem entre os
reinos de novo, ele pudesse ir atrás de Nike mais uma vez. Só de imaginar que a mulher
ainda podia estar viva nas mãos daquela criatura nojenta, já o fazia ferver de raiva. Por mais
que odiasse Nike, ninguém merecia passar pelo que ela com certeza passava (ou havia
passado, se já estivesse morta) nas mãos daquele ser vivo. Andor não percebera que estava
com os punhos tão cerrados que suas unhas se cravavam nas palmas das mãos. Álnaz
levantou e seguiu para ele com passos incertos. Quando os olhinhos verdes da menina
encontraram os dele, uma onda de carinho o atingiu como um tsunami. Ela pegou uma das
mãos dele e o puxou até que ele se levantasse e a seguisse até as flores onde ela estava
antes.
- O que foi, criança? – Andor perguntou tentando encontrar a razão para a menina
levá-lo até ali. Ela o puxou para baixo e ele se sentou no chão também. – O que você quer?
Ela colocou as mãozinhas no rosto dele, nos cantos de sua boca, e a moveram pros
lados tentando forçá-lo a sorrir. Só então ele percebeu que ainda tinha os punhos cerrados
O n i e r | 68

e tentou se acalmar. A menina tinha mesmo uma perspicácia forte, muito nela o lembrava
de Betel. Se ela crescesse com eles com certeza seria uma grande rainha. Quando esses
pensamentos sobre o futuro promissor que ela representava, ele sorriu com sinceridade. A
menina começou a pular e bater palmas, dando gritinhos agudos, fazendo seus cachos
castanhos balançarem para cima e para baixo.
- Tudo bem, tudo bem. Já entendi. Você está feliz. Agora se comporte como uma
mocinha séria porque eu sou o rei e você será... – Andor não pôde terminar sua vã tentativa
de manter uma certa distância emocional da criança porque ela se jogou em cima dele,
abraçando seu pescoço. A onda de carinho, amor e confiança que emanou da menina
deixou Andor desarmado. Ele levou algum tempo para se recompor e pensar em uma
desculpa qualquer para se forçar a se afastar da criança com uma falsa indiferença. –
Vamos, Álnaz. Hora do almoço.
- Amooooooooooooçu! – Ela gritou quase pulando do colo dele para o chão e o
puxando pela bainha de seu manto para frente em direção à entrada.
- Isso. Almoço. – Andor disse distraído com a doçura da criança. Tenho que manter
distância dela. Ela é filha daquela traidora assassina. Ensinar, mas sem me apegar. Ensinar,
mas sem me apegar. Ele repetiu mentalmente pela milésima vez tentando se convencer
disso.

~o~
- Tem certeza? – Klaoz perguntou sem nenhum sinal de emoção no rosto.
- Sim senhor. Não há nenhuma possibilidade de engano, mas, se o senhor desejar,
posso fazer um exame físico. – O mago de confiança de Klaoz disse.
- Você vai fazer esse exame... Mas comigo presente. – Klaoz disse ainda sem expressão
no rosto, mas um tom perigoso na voz.
Ele não suportava a ideia de qualquer outro ser vivo tocando sua preciosa Nike. Mas,
era necessário. O mago tinha uma percepção boa para notar certas mudanças na energia
que indicava certas coisas, como todo mago, mas o exame físico seria uma prova
incontestável. Klaoz decidiu entrar primeiro e mandou o mago aguardar na sala da casa
subterrânea enquanto a velha preparava a comida preferida de Nike na cozinha e arrumava
tudo em uma bandeja linda, e arrumava um arranjo de rosas vermelhas belíssimas em um
vaso de cerâmica. Um luxo que a jovem não via a muito tempo.
- Minha mulher tão bela... – Klaoz disse em verdadeira adoração quando entrou e viu
que Nike estava um pouco mais forte, cabelos soltos e bem penteado com duas tranças
finas nas laterais e usando uma linda camisola verde musgo transparente que ele trouxera
dias antes. – Você está magnífica.
O n i e r | 69

- Anda logo com isso e vamos acabar com essa droga de uma vez. – Nike respondeu
com amargura, olhando para o outro lado e lutando contra os tremores e as lágrimas.
- Nike, Nike, Nike... – Klaoz se aproximou e agarrou o queixo dela com força a fazendo
olhar para ele. – Você ainda não aprendeu que não deve falar com seu marido assim?
- Você não é meu marido, seu doente. Você é marido da minha mãe e meu pai, de
criação que é ainda mais importante que ser pai de sangue! – Nike estava histérica e, por
um lado, queria mesmo irritá-lo, talvez assim ele a matasse de uma vez e acabasse com
aquele sofrimento. Quando Klaoz ergueu a outra mão, pronto para dar um tapa na cara
dela, ela fechou os olhos e se encolheu com medo. Mas o tapa não chegou. Ao invés disso
ele puxou seu cabelo para trás e a beijou com fome, como se pudesse devorá-la e ainda
assim não seria o suficiente para aplacar seu desejo.
- Eu te perdôo, minha esposa. – Klaoz disse meio ofegante, agora segurando ela pelos
ombros ossudos. – Mas apenas porque entendo seu estado frágil. Agora, antes de nos
divertirmos, preciso saber se devo comemorar.
- Comemorar o que? – Nike perguntou.
- Veremos. – Klaoz se levantou e abriu a porta para o mago entrar. – Faça. Mas, é
melhor não ter ideias erradas com minha mulher.
O mago acenou com uma reverência exagerada e se aproximou de Nike. Ela tentou se
afastar do mago com medo, mas Klaoz se sentou na cama logo atrás dela, firmou seus
ombros no colo dele, colocou uma adaga na garganta dela e acenou para o mago continuar.
O mago passou as mãos sobre a moça sem a tocar, sentindo a energia dela. Era uma
energia fraca, quase desaparecendo, mas em um ponto específico do corpo havia uma
fonte de energia brilhante, como a luz solar incindindo sobre um lago calmo no verão. O
mago passou a tocar levemente a barriga dela e ao redor dos seios. Quando terminou ele
olhou para Klaoz e acenou afirmativamente.
- Sai. – Klaoz disse em um tom autoritário, o mago saiu e ele se levantou indo até a
porta. Ele, sempre tão sério e sem emoções na face, se virou para Nike com um sorriso
enorme e olhos brilhando. Mas a felicidade desse homem nunca podia ser boa coisa, isso
ela aprendera a muito tempo. Ao seu sinal, a velha entrou no quarto com a bandeja repleta
de coisas que Nike adorava comer, dois frutos vermelhos e redondos que ela amava
chamado de toumaty e um buquê de rosas vermelhas em um vaso, flores que ela odiava
porque Klaoz sempre lhe dera de presente. A velha deixou tudo sobre a mesa e saiu
silencioasamente. – Vamos, amor. Você precisa comer e temos muito que comemorar.
Nike sentiu um calafrio e começou a tremer visivelmente. Aquilo só podia estar
envenenado. Ele a mataria assim? Nem mesmo teria a decência de lhe dar uma morte
rápida? – Eu...Eu não...Não quero...
O n i e r | 70

Klaoz se virou e realmente ficou surpreso com o medo estampado na cara dela. – Está
com medo, querida? De mim? Seu marido? – Ele se aproximou dela com um prato de
comida, beliscou um pouco da carne antes de colocar na cama ao lado dela. Ele sentou na
beira da cama, ao lado da cintura dela, se inclinou com uma mão na barriga trêmula dela, e
a beijou com aquela fome, aquele desejo doentio. – Eu nunca mataria a minha mulher, a
mãe dos meus filhos.
- Filhos? Mas eu só tive um... Ah, merda... – Nike murmurou finalmente entendendo
seu azar.
- Como vê, minha esposa, - Klaoz disse dando uma ênfase possessiva à palavra
“minha” – a natureza apenas confirmou o que eu sempre te disse. Você é minha e sempre
será. Eu não vou deixar você nem depois de morto. Agora, minha querida, coma e cuide da
nossa criança que, espero, seja outra menina tão linda quanto você para alegrar meus
olhos.
Horas mais tarde, enquanto Klaoz abusava sexualmente da mulher que ele tanto
desejava, ela estava com a mente girando. Nem mesmo as dores e o incômodo da situação
eram piores do que a perspectiva do segundo fruto de seu azar fértil com aquele homem
nojento. A criança lhe dera uma nova força de vontade para lutar pela vida, mas também
era uma preocupação gigantesca, o pavor de condenar essa criança a ser criada pelo
homem que tanto fazia mal, que abusava dela física e psicologicamente desde criança.
Eu vou sair daqui e proteger essa criança e encontrar minha filha. Ou morrerei
tentando. Mas essas crianças nunca serão suas! Nike pensou enquanto Klaoz alcançava o
clímax sexual pela terceira vez naquela noite de “comemoração”.
O n i e r | 71

Escolhas difíceis
Cinco meses se passaram. Nike estava com sete meses e sua barriga, assim como na
primeira gestação, era bem pequena, mas, diferente da primeira, agora ela sofria com
muitas azias, náuseas e dores pelo corpo. Pelo menos essa criança não chutava tanto
quanto Álnaz.
- Ela está bem? Sua barriga não devia estar maior? – Klaoz perguntou pela milésima
vez naquela semana.
- Está. Como sabe que é uma menina? – Nike perguntou tremendo por dentro só de
ouvir a voz dele.
- Eu sei que é. Quero outra linda menina com seu rosto que eu amo tanto. – Klaoz
disse com uma pontada de paixão na voz.
- Tanto faz.
- Se for um menino vai ser bom também. Mas gosto mais da malícia feminina. – Klaoz
respondeu e entregou uma bandeja com um prato de sopa cremosa, pão sem fermento,
uma tigelinha com frutas cortadas, um copo de suco e uma rosa vermelha. – Coma,
querida.
Nike obedeceu contendo sua vontade de enfiar aquela rosa goela abaixo de Klaoz. Ele
se deitou na cama ao lado dela, com um braço ao redor de seus ombros e a outra mão em
sua barriga, fazendo Nike sentir uma onda de repulsa que mal conseguia controlar. Ele a
olhava fascinando enquanto ela comia, como se aquilo fosse a coisa mais interessante de se
ver no mundo todo. Quando ela terminou, ele deu um beijo em seu pescoço e passou a
língua pelo lóbulo de sua orelha, causando um arrepio nela. Ele levantou, pegou a bandeja,
colocou sobre a mesa e se abaixou ao lado da cama. Ele beijou a barriga dela e a olhou com
aquele desejo introlável e assustador. E então um “click”. Com uma das mãos ele tinha
aberto o cadeado que prendia seu tornozelo à corrente enorme no chão.
- O que? – Nike balbuciou espantada.
- Vamos, amor. Vamos caminhar pela nossa casa um pouco. – Ele disse a levantando e
apoiando o braço possessivamente ao redor de seus ombros.
- Porque...? – Nike perguntou com medo.
Ele parou, a virou de frente para ele, segurando em seus ombros com força, mas não o
bastante para machucar. Parecendo surpreso, ele a olhou nos olhos e disse: - Você estpa
com medo de mim, querida? Do seu marido que tanto te ama? Não seja tola. Eu nunca
machucaria você, amor. Estou só te levando pela nossa casa para passear, meu amor. Você
está se comportando tão bem que merece isso. As boas meninas ganham recompensa.
Mas, não tente nada, Nike. O mago estendeu o escudo mágico dele pela casa toda. Você
O n i e r | 72

não vai a lugar nenhum com sua magia, a menos que eu queira. – Ele segurou o queixo dela
com uma mão firme, beijou-a daquele jeito bruto que ela odiava e olhou em seus olhos
verdes estranhamente mais bonitos naquele ambiente. - Você é minha! Não se esqueça
disso.
Ambos saíram do quarto onde Nike passara quase dois anos até agora. A casa
subterrânea tinha pontos aleatórios nas paredes, no alto, quase no teto, que permitiam a
entrada da luz do sol, mesmo que fraca. Mas, os pontos em seu quarto tinham sido
fechados para aumentar sua tortura. Agora ela estava tão feliz só por ver um ponto
amarelo no chão passando pelo que era um longo cano de cobre até o exterior. Ela não
conseguiu conter um suspiro de satisfação. Klaoz, sempre atento à qualquer expressão
mesmo que sutil da menina, percebeu e deu um beijo em seu pescoço e a levou para o
sofá. O mago estava na cozinha, silencioso e atento à qualquer necessidade de seu chefe.
Com ele, pelos sons e o aroma vindo da cozinha, com certeza estava a velha que um dia
trabalhara para ela.
- Se você for boazinha, quem sabe um dia desses eu leve você para passear lá em cima.
Talvez, depois que nossa menina nascer e nós trouxermos de volta nossa primogênita, a
gente possa até se divertir sob as estrelas...de novo. – Klaoz disse sentando no sofá e a
colocando deitada com a cabeça em seu colo.
Ele ama mesmo esses filhos... Minha vingança será justamente essa. Vou tirar ele da
vida das minhas crianças... Seu velho imundo. Nike pensou e um plano começou a se formar
em sua mente.

~o~
A tempestade na fronteira diminuiu e Andor não perdeu tempo. Quando a noite caiu o
grupo de três espiões, usando técnicas ensinadas por Nike no curto tempo em que ela
contribuíra com os sneipas, partiram para a busca da mulher. O grupo voltou na manhã
seguinte e o rei aguardava ansioso no antigo jardim de Betel. Seu conselheiro ao seu lado
estava silencioso como sempre, mas, por mais que ele não dissesse nada, Andor sabia que
Invis, assim como todos, tinham certeza que os espiões não trariam nenhuma informação
sobre ela, de novo, ou, talvez, com alguma sorte, trariam a confirmação de que ela estava
morta. Mas o rei estava ansioso, sua intuição vibrava a semanas. Essa missão não retornaria
sem nada. Ele tinha que acreditar nisso.
- Senhor. – O líder da missão cumprimentou o rei. Os três espiões vestidos de negro da
cabeça aos pés, tinham um capuz escuro, armas ocultas em sua roupa justa, mas
confortável, permitindo os movimentos com facilidade. Os três estavam ajoelhados perante
Andor, com o líder do grupo ao centro. Eles retiraram o capuz, em respeito ao rei e
relataram suas descobertas.
O n i e r | 73

- Eu sabia! Comam e descansem. Esta noite eu mesmo partirei com vocês. – Andor
disse com uma animação mal contida. – Bom trabalho, homens.
O trio se retirou se sentindo revigorado com o reconhecimento do rei ao seu trabalho
bem feito e com a possibilidade de ser liderados por ele na missão pessoalmente. Isso era
uma honra e, se fizessem um bom trabalho, com certeza seriam recompensados em suas
carreiras.
- Majestade, não seria melhor elaborar um plano com calma? – Invis perguntou depois
que os espiões saíram.
- Já esperamos demais. Não quero dar mais chances pro Klaoz matar ela ou fazer seja
lá que coisa doentia ele tem feito com a moça. Se ela estiver lá, vamos achá-la e trazê-la
para cumprir nossa parte do acordo. – Andor disse com firmeza.
- E Álnaz terá uma mãe. – Invis disse com sua perspicácia, captando o que o rei não
tinha coragem de dizer em voz alta. – Não se preocupe, majestade. Eu entendo e apoio sua
decisão. É bom ver que a guerra não destruiu todos os bons sentimentos em nós... ainda. A
pequena Álnaz é adorada por todos aqui como um segundo sol. Ninguém o julgará por
querer dar à menina a chance de ter uma mãe.
Andor acenou com indiferença falsa, mas não pôde conter um suspiro de alívio. Os
dois seguiram para os afazeres diários. Andor ordenou que ninguém além de Invis e os três
espiões soubessem do resultado positivo da missão. No fim da tarde, o rei foi encontrar a
pequena Álnaz. Como ela havia crescido rápido. Ela seria alta, mais que os sapiens com
certeza.
- Andu! – Álnaz gritou quando o viu chegando e correu praticamente escalando as
pernas do rei até que ele a pegou no colo, sinalizando para os servos se deixarem a menina
com ele.
- O que é isso? – Ele perguntou para a menina que carregava um brinquedo novo, uma
flor amarela com uma borboleta azul que movia as asas quando o vento passava, feita de
madeira leve.
- A moça da foris me deu onteim. – A menina respondeu com carinho.
- Posso brincar com isso também? – Andor perguntou testanto se a menina seria
gentil. Ele sempre fazia esses testes com ela, meio tentando se convencer de que ela não
era tão boa assim, que sua natureza sapiens a levaria à ambição e crueldade cedo ou tarde.
- Póti sim! – Álnaz respondeu sorrindo e empurrando o brinquedo animadamente na
mão do rei.
Ele aceitou. Estava esperando que ela reclamasse por ele não ter lhe dado nenhum
presente na noite anterior, o aniversário de dois anos dela, quando todos que a conheciam
tinham a enchido de presentes. Mas a menina parecia contente apenas com a presença
dele no dia anterior. Era frustrante. Ela ia acabar sendo uma pessoa ruim. Ela tinha que ser.
O n i e r | 74

Afinal era meio sapiens. Ele tinha que se convencer disso, ou não conseguiria tratar a
menina com a distância que ele planejava. Quando a menina dormiu no chão, cansada de
brincar correndo atrás das borboletas e qualquer animal que passasse por ela, ele se
abaixou e a olhou intrigado.
- Criança estranha... Vou trazer a pilantra da sua mãe. Assim você sai do meu pé. – Ele
disse tentando ignorar a onda de ciúmes que começava a sentir só de imaginar a menina
dando mais carinho à mãe do que à ele. Ele balançou a cabeça para afastar os pensamentos
indesejados, pegou ela no colo e entregou para a serva que cuidava da menina.
Ao cair da noite o rei saiu com seu conselheiro para um momento de meditação em
um templo. Ou pelo menos foi o que ele disse.

~o~
Nike estava sozinha com a velha e o mago que, desde a descoberta de sua gravidez,
passava o tempo quase todo por perto, pronto para qualquer emergência. Era cedo e Klaoz
com certeza apareceria no meio da tarde para ser o idiota de sempre. Nike era uma maga,
sabia que magos dormem com um olho aberto e um fechado, a velha tinha medo demais
de fazer qualquer coisa para ajudá-la, por mais que morresse de pena dela. Por isso seus
planos não contariam com a ajuda de ninguém. Nos últimos tempos ela cuidara de si
fortalecer, comer bem, mas fingir estar sempre cansada demais com a desculpa da
gravidez. Ás vezes até conseguia fingir desmaios. O mago alertava Klaoz que isso poderia
ser por ficar muito tempo na cama. Era isso mesmo que ela queria. Assim, Klaoz a levava
para tomar sol quase todos os dias na varanda da casa superior, o que só a ajudou a
melhorar e fortalecer seus músculos. E, de quebra, aumentou a confiança de Klaoz que
tinha certeza que ela não conseguia fugir e nem planejava já que ela parecia estar mais
obediente e aceitando seu destino imutável ao lado dele.
Ela não sabia quanto tempo havia se passado desde que fora sequestrada, apenas os
sete meses recentes por causa da gestação, mas, sabia que Andor não perderia a chance de
levá-la embora, não sabendo o quanto ela podia contribuir com os sneipas na guerra. Ela
não mediria esforços para ficar ao lado dos filhos e proteger as crianças do pai indesejado.
Foi assim que, na noite anterior, quando Klaoz saiu acreditando que ela estava dormindo
profundamente, aproveitou sua relativa liberdade na casa subterrânea e, enquanto o mago
estava lá em cima conversando com o chefe e a velha estava na cozinha, sorrateiramente
saiu do quarto e foi até o quarto do mago, pegando a chave reserva que ela ocultara ali, em
uma madeira solta da mesa de cabeceira, anos antes no caso de alguma emergência. Junto
com a chave estava sua poção para dormir, usada na gestação de Álnaz quando ela passou
por períodos longos de insônia. Algumas gotas a faziam dormir por horas na época. Ela
jogou todo o conteúdo do frasco da poção na jarra de barro onde ficava a água na cozinha,
O n i e r | 75

perto da entrada, sem atrair a atenção da velha que cozinhava de costas. A velha
provavelmente sentiu alguma coisa porque ela se virou para ver se havia alguém ali, porém
Nike já tinha voltado para o quarto, tão silenciosamente quanto saiu.
O mago e a velha estavam apagados com o efeito da poção. Ela própria tivera algum
trabalho para evitar beber a água que lhe trouxeram naquele dia, sem chamar atenção do
porque. Ela saiu do quarto com uma roupa confortável, sandálias de couro gasto e um
manto quente. Deu alguns tapas leves na cara do mago pra ter certeza de que ele estava
dormindo. O velho não esboçou nenhuma reação além do ronco. Ela foi até a cozinha,
pegou um pouco de comida e suco que Klaoz levara no dia anterior, arrumou tudo em uma
trouxa, pegou a faca de cortar carne e colocou escondida na coxa, amarrada com um cinto
de couro muito bonito que Klaoz lhe dera antes da gravidez. Ela foi até a porta de saída,
abriu a porta pesada com cuidado, mas não saiu. Em vez disso ela voltou colocou a trouxa
no chão e deu uma pisada com toda força de seu ódio nos genitais do mago. Ele só se
contorceu de leve, mas continuou dormindo, tão poderosa era a poção.
- Isso é por ter ajudado esse maníaco psicopata a me estuprar e torturar. – Ela disse
como se o mago pudesse ouvir e saiu. Na parte de cima, abriu a porta no chão e colocou a
cabeça para fora com cuidado. Olhou ao redor, respirou fundo e saiu, fechando e trancando
a porta no chão. Ela sabia que pelo menos um ou dois soldados sapiens ficavam de guarda
do lado de fora para ajudar caso o mago precisasse de algo, ou matar qualquer criatura que
se aproximasse. Não era inteligente deixar muitos soldados porque isso poderia atrair a
atenção do inimigo e das pessoas que passassem por ali ocasionalmente.
Ela aguardou atrás da parede ao lado da porta e aguardou. O quarto ficava no
corredor e, no fim dele, havia o mais bonito banheiro. Lógico que os soldados, alguns com
certeza tinham crescido em famílias humildes, iam aproveitar as melhores coisas na casa
que, mesmo humilde, tinha algum luxo básico em seu interior. Não deu outra. Poucos
minutos depois um soldado passou se contorcendo de vontade de ir no banheiro.
Aproveitando a distração pelo momento de chamado da natureza, ela saiu de seu
esconderijo logo atrás do homem, chutou os joelhos na parte traseira, o fazendo cair para
frente e, antes que ele pudesse pelo menos gritar, enfiou a faca na lateral do pescoço dele.
Suas costelas deram uma pontada. Ela era uma boa guerreira, mas tudo que vivera
recentemente parecia ainda afetar seu corpo. Mas não havia tempo pra pensar nisso. Ela
tinha que correr. Seguiu pelo corredor atentamente. Ninguém. A casa estava vazia. Ela viu
um vulto pela abertura embaixo da porta. O outro soldado. Ela teria que ser rápida.
Abrir a porta. Atordoar. Matar. Nike recitou seu plano mentalmente. Contou até três,
respirou fundo e saiu. Deu um golpe na parte de trás dos joelhos do soldado como no
anterior, mas, quando ergueu a faca para golpear o pescoço do homem, viu parte do seu
rosto e hesitou por alguns segundos. O soldado aproveitou curto tempo de hesitação e
O n i e r | 76

puxou a garota pra frente, por cima de seus ombros a jogando de costas no chão e sua faca
caindo longe de suas mãos no chão de pedra.
- AH! – Nike gritou com uma dor lancinante nas costelas. – Seyrus! Acorda! Sou eu,
Nike, sua irmã.
- AAAAAAARGH! – Seyrus gritava em meio à golpes de socos na irmã. Ele não parecia
reconhecê-la. Ele nem parecia ser um sapiens, algum animal racional, ele mais parecia ser
uma fera selvagem das florestas.
Nike conseguiu esquivar de alguns golpes por milímetros, se contorcendo sob o peso
de seu irmão pressionando suas pernas. Com um pouco de esforço ela conseguiu golpear
ele enfiando dois dedos em seus olhos.
- ANGRH! – Seyrus gritou e a dor era quase palpável em sua voz distorcida.
Nike se levantou e tentou correr, mas a pontada nas costelas ficou mais intensa. –
Ai...droga... Seyrus... Por favor... – Ela disse chorando, meio encurvada de dor, tentando
trazer o irmão de volta, por mais que ela soubesse que isso era praticamente impossível.
Ela, melhor do que ninguém, conhecia o poder dessa droga.
Ele tirou a mão dos olhos vermelhos e correu furioso até ela. -
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGHHRGRRR!!! – E deu um soco nas costas dela. Ela se
forçou a não cair, mas ele a levantou com ambas as mãos de tal forma que ela ficou erguida
acima de sua cabeça. – AAAAAANRGRRGNAAAN! – Seyrus a jogou no chão com força do
lado de fora da varada, no chão de terra.
- SEU BROXA FILHO DE UMA PIRANHA! – Nike sentiu como se seu corpo se
desmanchasse num rio de dor. Um rio que parecia estar vazando por entre suas pernas...
Com essa percepção ela olhou para baixo com medo. Suas suspeitas estavam certas. Suas
roupas já estavam manchadas de um líquido estranho misturado com muito, muito sangue.
– Não, não, não, não!
Seyrus gritou como um animal enlouquecido e desceu da varando num salto. Ela viu o
brilho metálico no chão perto da varada e de seus pés. A faca. Com esforço ela se girou
para o lado antes que Seyrus desse um pisão violento em seu corpo e conseguiu pegar a
faca no chão. Ela conseguiu se levantar, suando gelado com a dor, mas o medo a dando
uma força inesperada. Segurando a faca com ambas as mãos ela apontou para o irmão. As
lágrimas quentes escorriam por seu rosto sujo de terra e sangue. Seyrus se virou
praticamente rosnando furioso, seus olhos avermelhados de ódio.
- Seyrus... Por favor, irmão... Eu não quero te machucar... Por favor... – Nike chorou.
Mas ele não a atendeu, claro. Ele correu para ela de uma forma que a lembrou dos touros
violentos das planícies sempre que viam algum objeto muito vermelho. Ela não podia
morrer assim, não com a vida de seus filhos dependendo disso. Quando ele chegou perto o
suficiente, ela enfiou a faca na barriga dele. Não era um golpe mortal, não ia ferir nenhum
O n i e r | 77

órgão vital, pelo menos ela esperava que não, mas seria o bastante para ele parar. Mas ele
mesmo com a faca em seu corpo ainda lutava. Ele era incontrolável. Ela puxou a faca e
correu, mas ele a alcançou, a derrubou segurando pelos pés, ambos caídos no chão agora.
Ela chutou a cara dele repetidas vezes, desesperada, o sangramento só piorando. Até que
os chutes o fizeram desmaiar. Ela levantou tropeçando nas próprias pernas e correu
deixando um rastro de gotas de sangue para trás.

~o~
Klaoz, Seyrus e o mago estavam à procura de Nike a tarde toda. Klaoz estava silencioso
e extremamente focado na tarefa. Mas seu silêncio falava mais que mil palavras. Ele ia
matar alguém lenta e dolorosamente por isso. Não seria sua querida Nike. Para ela ele tinha
planos mais...obscuros. A trilha de sangue seguira pela margem do rio próximo do sítio, mas
sumira de repente. A garota era esperta. Devia ter entrado na água. Um medo cresceu no
íntimo de Klaoz. Ela podia ter mergulhado porque o sangramento parara e ela queria evitar
deixar rastros. Ou...Ela podia ter desistido da vida. Essa possibilidade causou uma pontada
no peito de Klaoz. Ele não podia aceitar isso. Se isso tivesse acontecido ele caçaria o corpo
dela e o possuiria inúmeras vezes para ensiná-la que, mesmo morta, ela ainda pertencia à
ele. Mas não havia sinal de Nike em lugar nenhum. A outra margem era muito distante.
Ninguém poderia nadar até lá, muito menos nesse rio tão fundo e no estado em que ela
devia estar pela cena que ele encontrara no sítio. Alguém poderia ter ajudado ela? Sim. Só
podia ser isso.
- Se...senhor. – A velha chamou no comunicador.
- O que é, velha imprestável? – Klaoz perguntou furioso.
- Te..tem sneipas aqui..qui senhor.
- Filhos de um bode broxa! – Klaoz praguejou e desligou. Era isso. Eles tinham ajudado
ela. Ela estava com eles. Mas ele ia pegar sua mulher de volta. De qualquer forma.

~o~
Quando Klaoz chegou ao sítio três sneipas estava na porta aguardando em pé com a
postura rígida. Klaoz, Seyrus e o mago pararam alinhados a dois metros dos sneipas.
- O que você fez com ela, seu covarde? – Andor perguntou. Ele havia analisado a cena
caótica no chão e o cadáver no interior da casa. Nike estivera ali e fugira muito machucada
e...grávida considerando os vestígios da bolsa que estourara e se mesclara ao sangue.
- Me devolva minha mulher e vou pensar em não arrancar a droga da sua vida do seu
corpo de merda! – Klaoz estava furioso, sem nenhum traço daquela cara inexpressiva de
sempre.
- Sua mulher? Não estou com Iva, seu idiota. – Andor respondeu confuso.
O n i e r | 78

- Não se faça de inocente comigo! Não estou falando daquela burra, decrépita e
metida a líder! Estou falando da minha esposa, minha Nike! – Klaoz respondeu.
- Pelas estrelas! Ela é sua filha, seu nojento! E não banque o esperto. Seus truques não
vão funcionar comigo. Sei que você feriu essa mulher e a jogou em algum lugar. Me
entregue ela e te matarei rapidamente. – Andor respondeu.
- AAAAAAAAH! – Klaoz partiu pra cima de Andor babando de raiva e o caos se instalou.
Os dois grupos tentavam se matar, mas Andor de repente congelou no lugar, olhando
espantado para o caminho de onde Klaoz viera. Uma mulher estava caída no chão, com um
braço esticado tentando gritar, mas nenhum som saía de seus lábios. Invis que lutava
contra Klaoz naquele momento seguiu o olhar de seu rei e tentou evitar que Klaoz se
virasse. Mas não deu certo. O homem, guiado por sua obcessão pela moça talvez, se virou
instintivamente e seus olhos brilharam quando a viram. Ele tentou correr, mas Invis o
segurou pelo pescoço. Andor correu até Nike no mesmo instante em que Klaoz se soltou e
enfiou uma adaga no olho de um dos espiões. Quando a adaga foi puxada de volta, o espião
caiu morto sem um olho que estava preso na ponta da adaga. Nike segurava um embrulho
pequeno com um braço, tentando proteger a criatura, o outro ainda estendido para frente.
Andor pegou a mão dela e a virou gentilmente. Klaoz a alcançou nesse momento e pegou o
pequeno embrulho dos braços dela antes que Andor pudesse o parar.
Não toque nela. Nike tentou gritar, mas as palavras não saíram de sua boca. Sua
cabeça tombou para trás e Nike perdeu a noção do mundo ao seu redor. Um frio subiu por
suas pernas e essa foi a última coisa que sentiu. Andor pegou a mulher no colo. Ela estava
ficando azulada, os lábios roxos. Quando um som agudo ecoou pela sua lorpat ele sabia que
os reforços de Klaoz haviam chegado. Era o aviso do espião que ficara oculto na estrada. Ou
ele corria pra salvar Nike antes que a hipotermia e a falta de sangue no corpo a matassem,
ou ele deixava ela morrer e tentava salvar a criança no colo de Klaoz. A criança estava
ficando roxa também. Pelo tamanho devia ser prematura.
Com dor no coração, olhando Klaoz nos olhos, a raiva emanando de ambos, Andor
ergueu a mão no gesto que sinalizava o momento de partir. Ele e seus soldados sumiram
nas sombras.
O n i e r | 79

Vida longa ao Rei!


Dentro do palácio, no antigo quarto de Nike, ninguém nunca mais entrou, além de
Klaoz. Ele impediu até mesmo a esposa de fazer qualquer mudança no quarto e, depois de
um tempo, uma porta de bronze foi colocada e apenas Klaoz tinha acesso. Porém, nos
últimos meses Klaoz praticamente vivia naquele quarto e Iva, por mais confusa que
estivesse (e ela estava muito confusa nos últimos anos), não era idiota para não perceber
isso. Iva não tinha como saber, claro, mas Klaoz e seu mais recente aliado secreto e
misterioso estavam cuidando da criança trazida quase morta, tentando mantê-la viva. Não
era tarefa fácil. Conhecidamente crianças sapiens nunca nasciam antes dos 9 meses de
gestação. Nunca. Quando elas tinham alguma deficiência, o que por si só já era
extremamente raro, elas morriam antes mesmo de nascer. Uma criança nascendo antes
dos 9 meses? Como cuidar disso? Como tratar algo tão anti-natural? O aliado misterioso de
Klaoz, felizmente, conseguiu criar um tipo de incubadora que sustentou a criança até que
ela crescesse e se fortalecesse, mas, nos dois meses após seu nascimento ela quase morreu
32 vezes. Klaoz quase morreu de desespero nessas 32 vezes. Agora a criança estava com
quase 9 meses de vida, crescendo rapidamente, tão experta que já começava a falar. Klaoz
realizava suas obrigações e corria para o quarto da criança, se trancando lá para brincar
com a criança ativa e muito, muito parecida com Nike. Era quase uma cópia da mulher que
nunca saía de sua mente.
- Que criança é essa? – Iva perguntou entrando quase colada atrás de Klaoz, antes que
ele pudesse fechar a porta.
- Andou me espionando? – Klaoz perguntou sem expressão na face, mas com aquele
tom frio, calmo, perigoso. – Saia.
- Eu ainda sou a governadora-mor de Omoh, a dona deste palácio, filha de grandes
líderes da história dos sapiens, e você é só um sábio qualquer, vindo de uma família menor
da nobreza, um mero Guardião que eu posso destruir com um simples sinal do meu
polegar! – Iva disse irritada. Suas crises de enxaqueca só pioravam desde a morte de Nike,
em parte por culpa da poção que ela bebia para melhorar. – Você não é ninguém! Sem mim
você é a merda de um cachorro sem dono! Não me dê ordens em minha própria casa!
Klaoz estava olhando para Iva com o semblante mais tranquilo do mundo, por dentro
um furacão de ódio tomava conta de sua mente. Ele fechou a porta calmamente enquanto
Iva esbravejava.
- Vejo que você não vai sair. – Klaoz disse com toda calma possível.
- Claro que não vou sair da porra do quarto que eu quiser entrar na minha casa! No
MEU reino. Agora responda. Quem é essa criança? Onde estão os pais dela? – Iva disse e,
O n i e r | 80

como se convocada, a criança começou a dar gritinhos e pulinhos no colo da serva muda
que trabalha cuidando da menina. A serva se aproximou ao sinal de Iva, olhando antes para
Klaoz esperando permissão. Ele apenas acenou afirmativamente. Quando Iva olhou para a
criança suas mãos foram instintivamente ao peito. – Nike...
- Saia. – Klaoz disse à serva, pegando a criança no colo antes que Iva a tocasse. Ele
odiava que qualquer pessoa encostasse na menina. Não que muitas pessoas fizessem isso,
já que só três tinham contato com ela. A menina, por outro lado, parecia uma pipoca
pulando no colo, dando gritinhos e estirando os braços em direção à Iva.
- Porque ela é tão parecida com minha Nike? – Iva perguntou pegando a mãozinha da
menina.
Klaoz controlou a raiva por esse gesto. Como aquela mulher ousava tocar na sua
preciosa? – Esta é Ziélena.
- Ziélena? Como a Ziélena, a primeira mulher sapiens criada? A sacerdotisa? – Iva
perguntou desconfiada porque esse era o personagem histórico favorito do marido.
- Isso. – Ele respondeu e afastou-se com a menina, a colocando no cercado cheio dos
mais ricos brinquedos disponíveis em Omoh.
- Você não me respondeu. EXIJO saber onde estão os pais dessa menina e porque ela
se parece tanto com a Nike na idade dela? AGORA, VERME! – Iva perguntou nada
sutilmente. – Quem diabos é essa coisinha que você escondeu no MEU palácio? De quem é
essa pirralha? É melhor você ter uma boa razão pra ela estar aqui ou vou jogar essa
pirralhinha do outro lado da fronteira com aqueles merdas sneipas!
Klaoz se aproximou da esposa com a maior calma do mundo, mas, algo sutil em sua
expressão tinha mudado o suficiente pra Iva dar um passo para trás. Ele continuou se
aproximando até ela ficar encurralada na parede. A cabeça de Iva parecia latejar mais
ainda, mas ela manteve o ar orgulhoso, digno de sua posição social. – Querida, sente-se
aqui comigo e vamos conversar. Vou explicar tudo. – Klaoz disse com uma doçura que ele
só usava com ela... E com Nike, mas Iva não sabia disso.
Iva aceitou a mão do marido e ele a guiou até as poltronas que ficavam ao redor de
uma mesa baixa, agora cheia de comidas e uma jarra de chá para ele almoçar. Ela sentou
com as mãos nas têmporas. A dor estava piorando. Ótimo. Seria perfeito. Klaoz estendeu a
mão pedindo silenciosamente pelo pequeno frasco da poção para suas dores de cabeça que
Iva carregava como um pingente ao redor do pescoço. Klaoz se virou e acrescentou todo o
conteúdo do frasco no chá e entregou à esposa.
- Beba, minha querida. – Klaoz disse e se sentou na outra poltrona, batendo em seu
colo para que ela se sentasse ali. Iva estava furiosa, mas não resistia à esses momentos de
carícias, mesmo que fosse apenas se sentar no colo enquanto bebia seu chá. Klaoz era
sempre tão frio e distante com todos, menos com ela, que isso parecia muito mais precioso
O n i e r | 81

do que o carinho de qualquer outro homem. Foi por isso que ela se casou com ele, pra
começar.
- Diga. – Iva disse no colo dele em tom de autoridade, logo depois de beber todo o chá
de uma só vez, ávida pelo alívio das dores de cabeça.
- Como se sente? Melhor? – Klaoz perguntou.
- Sim. – Iva disse.
Klaoz sorriu gentilmente. Era sempre assim. A poção aliviava a dor quase que
instantaneamente, mas, minutos depois, Iva ficava agitada, confusa, extremamente irritada
a ponto de ter mandado executar muitos sapiens por qualquer coisa aleatória e sem
importância. Mas desta vez não. Se levou 3 segundos foi muito. Iva começou a ficar
enjoada, perdeu a firmeza nas mãos, a xícara caiu no chão e Iva jogou a cabeça para trás se
debatendo no colo de Klaoz que a amparava com um braço atrás de suas costas. Quando
um dor no peito a fez se contorcer mais ainda, ele tirou o braço de suas costas e a deixou
cair no chão tremendo como se estivesse enfiada no gelo. Ele continuou sentado bebendo
seu chá, um dos tornozelos em cima da coxa da outra perna.
- Ninguém nunca vai tratar aquela menina linda assim. Nunca. Você sempre se achou a
mulher mais incrível do mundo. Mas não é nada. É tola, velha, burra, incompetente e fria.
Dormir com você sempre foi uma tortura, como dormir com uma montanha congelada. –
Klaoz dizia com uma calma absurda considerando que a esposa estava se debatendo em
meio à vômitos com sangue e uma gosma branca bem na frente dele. – A única coisa boa
que você fez na merda da sua vida foi minha Nike. Ela sim sempre foi um vulcão na cama.
Iva ouvia a tudo com um misto de sentimentos: dor, traição, raiva, desespero, medo,
incredulidade. Mas nada superava o horror que sentiu quando Klaoz admitiu que tinha
relações sexuais incestuosas com Nike.
Por isso ela tentava sair com qualquer outro rapaz... Estava tentando fugir da sensação
nojenta que ele causava...Como eu não percebi?... Iva pensou entre as convulsões e aquela
acidez que saía de sua garganta.
- Foi a melhor época da minha vida quando passamos mais de um ano na nossa casa,
sozinhos. Claro que ela resistiu um pouco, mas ela também resistiu um pouco quando tinha
7 anos, na nossa primeira vez. Mas eu sei que ela faz isso por charme, para atiçar ainda
mais meu desejo. Como se ela precisasse disso. – Klaoz disse com um olhar sonhador, sua
mente indo longe com a lembrança.
Iva queria socar ele, esfaqueá-lo. Ela não ia morrer ali. Ela ia matar ele. Ia expor toda
aquela nojeira para que o mundo inteiro, incluindo os sneipas, soubesse o abutre podre
que ele era.
- Não. Ela não morreu quando vocês acham. Ela esteve comigo por muito tempo
depois que salvei ela dos sneipas idiotas. Transamos muito para comemorar. Você não faz
O n i e r | 82

ideia de como ela é boa com a língua. Você devia pedir umas dicas para ela quando eu a
trouxer de volta. Mas... Você não pode, não é... Você já terá morrido. Eu pretendia matar
você aos poucos com a poção... Algumas gotas por dia, com o ingrediente extra que
coloquei nela, e você morreria devagar, um dia apenas não acordaria. Mas, você tinha que
se meter no que não te interessa, não é? Tinha que me irritar... Pior do que me ofender
com sua arrogância patética... Tinha que tocar na minha Lena! – Klaoz colocou a xícara na
mesa e a olhou com tanto ódio como Iva nunca vira antes. – Eu suportei você durante o
namoro, suportei você como esposa apenas para ter mais poder, suportei até sua traição
porque eu ainda precisava ter mais poder. Suportei os anos em que eu queria tocar minha
Nike, mas você não se separava dela por ela ser muito nova. Besteira! Nike sempre foi mais
madura do que você, mais fogosa, mais elegante, mais sensual, mais forte, mais perfeita!
Suportei não poder beijá-la em público, suportei você planejando casá-la com qualquer
imbecil que se mostrasse digno da sua aprovação... Mas, advinha, querida esposinha.. Eu
não preciso mais de você! Eu vou trazer minha Nike de volta e nós dois vamos governar
Omoh, com ela no lugar que merece: do meu lado, como minha esposa oficial. E nossas
filhas estarão do nosso lado.
Iva estava tremendo menos, mas vomitando muito mais com sangue e uma gosma
branca fétida. Ela tentou falar, exalar toda a repulsa que sentia por ele, mas, acima de tudo,
queria saber onde estava Nike e que “filhas” eram essas. Ela era avó? Ela não podia mesmo
morrer. Não sem ver suas netas, não sem pedir perdão à Nike por tudo que Klaoz devia ter
feito ela passar. Deuses... Ele era pai e avó de suas netas.
- Não sou cruel, Iva. Não vou deixar você morrer sem que você conheça suas netas. –
Klaoz tirou uma tela de vidro pequena do manto. Uma oxel-Fer, a OFR, tecnologia sneipas
de transmissão à distância de imagens e gravações ensinada aos sapiens. Ele ligou o objeto
colocando na horizontal na mão, em frente à Iva. Uma imagem holográfica surgiu com o
rosto de uma menina de 2 ou 3 anos, muito alta e muito parecida com Nike, com alguns
traços do rosto de Klaoz. – Esta é minha primogênita com a minha mulher, Nike. O nome da
nossa filha é Álnaz, como a estrela mais brilhante do Sul. É a irmã mais velha da nossa
caçulinha, minha Ziélena. Vê como elas são parecidas com a linda mãe delas? São tão
bonitas, inteligentes... – Klaoz dizia com um orgulho paterno tão grande que surpreenderia
qualquer um.
Ele nunca falara com tanto orgulho assim dos filhos que tinha com Iva, nem mesmo de
Nike, embora, provavelmente, isso fosse apenas para não atrair suspeitas do que ele
realmente sentia pela filha. Iva sentia tanta dor no peito, na cabeça, seus órgãos tremiam
por dentro, um peso no peito parecia sufocá-la e os vômitos não ajudavam em nada. Mas a
pior dor era tudo aquilo que ouvia. Sua doença que só piorara desde o sumiço de Nike na
verdade não era pela dor de perder uma filha, era seu marido alterando a poção que Nike
O n i e r | 83

criara e fazendo ela ter o efeito oposto. Sua caçula, sua menina tão amada, filha do único
amor real que tivera na vida e que abandonara por medo de perder seu poder, seu orgulho
sapiens, sua doce e talentosa Nike era molestada pelo único pai que ela conhecera quase a
vida toda. O homem que Iva escolhera como marido. Iva usou esses pensamentos para
tentar se erguer, se mexer pelo menos, lutar pela vida... Ela queria tanto ver Nike de novo,
abraçá-la, consolá-la, pedir perdão por sua cegueira, abraçar suas duas netas... Mas todo
esforço de Iva só a fez tossir e ficar de cara em seu próprio vômito e sangue, quase se
sufocando. Klaoz ergueu sua cabeça puxando seus cabelos para cima, o que fez sua cabeça
praticamente explodir. Na verdade, meio que explodiu um pouco já que os vários
aneurismas causados pelo ataque de Andor anos antes estavam estourando, muito maiores
do que quando o ataque aconteceu.
- Que nojo, Iva. Você está deplorável. – Klaoz disse de tal forma que parecia mesmo
estar preocupado e meio enojado. – Vamos, pedaço de carne podre. Vamos acabar logo
com isso.
Ele a arrastou pelos cabelos até a varanda enquanto ela se debatia com as dores e
toda aquela nojeira, e Ziélena inocentemente dava pulinhos e gritinhos em seu cercadinho
vendo a cena. Iva estava aterrorizada. Ela via a morte cada vez mais próxima, destruindo
toda sua esperança de ver sua filha e netas. Seyrus... O que o garoto estava passando,
aquele jeito estranho dele... Seria culpa de Klaoz também? Não. Não tinha como ser. Seyrus
era filho de sangue..ele não faria isso, não é? Mas Nike sempre fora a favorita de Klaoz e ele
sempre deixara isso claro, mesmo assim, olha no que deu... Assoviando alegremente e
sorrindo de orelha a orelha para Ziélena, Klaoz arrancou o lençol leve colocado sobre a
cama, o rasgou e amarrou até formar uma corda. Amarrou uma ponta na parede formada
por finas colunas de mármore de 1 metro de altura com uma peça única de mármore
branco horizontalmente posicionado acima das colunas. Colocou a outra ponta amarrada
ao redor do pescoço de Iva que agora estava mole e fraca. Ela gritava em sua mente, mas
nada saía de sua garganta, ela nem conseguia mais se debater, todo seu corpo doía, sua
mente era uma confusão de imagens distorcidas, sua visão estava cheia de pontos
vermelhos em qualquer lugar que ela olhasse, se sentia tensa, dolorida, irritada e nem sabia
mais o porque. Klaoz a pegou no colo de qualquer forma, sem nenhum cuidado ou
gentileza. Olhou para fora da varanda. Tudo vazio. A maioria das pessoas estavam nas
tavernas ou em suas casas almoçando. Os guardas do palácio estavam de costas, olhando
para a rua em sua posição de sentinela.
Ele a sentou no mármore de frente para a rua, colocou os braços ao redor de sua
cintura em um abraço que usara tantas vezes para acariciá-la. – Finalmente, vadia imunda,
vou me livrar de você e ter o caminho livre para a mulher que amo. A mulher que me deu
filhas lindas. Eu sempre quis ser pai de uma menina, mas você me deu um menino que nem
O n i e r | 84

é tão útil agora que eu destruí a mente dele. Minha amada, a mulher que sempre me
enlouquece sempre foi e sempre será a minha Nike. – Ele disse com uma crueldade
mesclada de saudades e pegou uma das mãos moles e sem força de Iva a colocando em
suas partes íntimas que estavam em clara excitação considerando a forma como estava
duro. – Vê como fico só de pensar nela? Nunca fiquei assim por sua causa. Toda vez que
transei com você pensei em alguma vadia que paguei em algum beco sujo e tinha mais
calor que você. Depois só pensava na minha Nike. Só nela. Só fico assim por ela.
A saudade evidente na voz de Klaoz deram um lapso de raciocínio em Iva e ela sentiu
aquela culpa de novo, aquela sensação de que falhara com o que tinha de mais precioso:
seus filhos.
- Espero que você sofra muito no inferno. – Dizendo isso, Klaoz deu um beijo no
pescoço de Iva e a empurrou para frente. Ela caiu pendurada na varanda, se debatendo por
ar, mas não tinha forças nem para erguer os braços e tentar se soltar, não tinha forças nem
para segurar a urina que desceu por suas pernas e depois por mais de 12 metros até
alcançar as flores roxas no canteiro abaixo atrás dos guardas. Sentiu seus olhos se
arregalarem de medo, como se fossem sair de suas órbitas, tentou gritas, mas isso só fez
sua língua ir para fora da boca pingando um líquido ácido misturado com aquela coisa
branca. Sua visão de pontos avermelhados foi escurecendo, seus pulmões queimavam, e
então tudo ficou escuro. A dor sumiu. Tudo sumiu. Incluindo sua vida.
Klaoz voltou para dentro, pegou os restos quebrados da xícara de Iva e guardou em
um embrulho de pano, jogou o frasco com o pingente no chão onde Iva caíra primeiro e
pegou uma fruta de cima da mesa. Ainda mastigando a fruta, ele pegou a filha no colo e
saiu deixando a porta aberta, levando a menina para o quarto de Seyrus onde o rapaz
estava sentado de coluna reta, olhando para o nada.
- Cuide dela. Se alguém entrar aqui, esconda-a. Se mais alguém além de mim e de
quem eu mandar encontrá-la, mate. – Klaoz disse entregando a menina para Seyrus. Ele foi
ao encontro de seu aliado misterioso e da serva e os apresentou para Seyrus com ordens
específicas para não saírem. Gritos ecoaram pelo palácio. Ele se voltou para seu aliado: -
Algum sinal dela?
- Não. Ela deve ter sido cremada e colocada junto com o pai. Mas, não tenho como
saber disso por enquanto. – O aliado disse.
- Ela não foi. Nike é minha. Se ela estivesse morta eu saberia. Eu sentiria. – Klaoz
respondeu e o outro homem sentiu pena dele. O coitado devia mesmo amar a mulher para
se iludir assim por meses, contra todas as informações concretas que ele encontrara
mostrando a morte dela.
- Vou continuar porocurando, mas seria melhor começar a considerar isso... Você viu a
gravação que fiz quando entrei na enfermaria. Ela estava quase morta e os sinais vitais
O n i e r | 85

pararam. Se eu não saísse correndo naquele momento, os médicos teriam me encontrado


lá.
Klaoz saiu irritado, mas tentou se conter. Agora ele precisava focar no que tinha à
frente. Pelo seu bem, de suas filhas e de Nike. A frente do palácio virou um alvoroço. Todo
mundo observava com espanto e aquela curiosidade mórbida dos sapiens, vendo o corpo
de sua governante pendurado daquela forma grotesca. Klaoz caiu no chão de joelhos, um
desespero monumental, tão bem interpretado que só não ganhou um Oscar porque ainda
não existia.

~o~
Assim que os sábios e soldados entraram no quarto de Nike, ficou evidente para todos
o que acontecera. Com a tristeza pela morte de Nike, Iva ficou cada vez mais doente e
instável. Muita gente temia ela agora. Ela tinha se tornado uma tirana, cruel,
completamente maluca. Muitos membros importantes da nobreza, muitos governadores a
odiavam por suas maldades. Mas o ápice de tudo fora quando ela cortara um braço de um
governador em uma reunião porque ele não olhara para um quadro na sala. Klaoz interferiu
e tirou ela da reunião nesse dia. Ele era a única voz da razão naquela família, o único que
todos os nobres respeitavam agora, a quem todos recorriam quando precisavam resolver
algum problema administrativo ou militar. Por causa disso, extra oficialmente, todos os
nobres e até o povo o apelidaram de Klaoz, O Rei. Tudo por medo de Iva. Seyrus era
considerado bruto e estranho. Nike estava morta. E agora, em uma crise de dores de
cabeça, loucura e tristeza, Iva havia se matado bebendo toda a poção que sua amada filha
criara para ela e se enforcando no peitoril da varanda.
Dois dias depois do “suicídio” de Iva, logo após seu enterro simples e rápido, os nobres
fizeram a pergunta que Klaoz esperava, fruto de anos de planejamento. Claro que ele
aceitou, apesar de se fingir de hesitante e muito devastado pela dor da perda de sua
esposa, filha e da apatia de seu filho. Na manhã do terceiro dia após a morte de Iva, em
meio à uma verdadeira tempestade do lado de fora do palácio, uma multidão entre nobres,
governadores, magos, soldados e membros dos diversos setores da população mais pobres
estavam presentes na cerimônia. Klaoz entrou triunfante com vestes reais, queixo erguido e
olhar firme. Ele caminhou até o altar à frente onde a estátua de Nike A Vitoriosa (uma
estátua alada representando Nike como uma divindade, feita depois de sua “morte”)
estava, com seu sucessor, o mago que o ajudara a manter Nike presa na casa subterrânea,
o aguardava. O mago entoou um cântico que ele conhecia bem. Quando a canção terminou
a mesma pergunta foi feita novamente para que ele respondesse em voz alta na frente de
todos.
O n i e r | 86

- Klaoz, ex Guardião supremo de Omoh, você aceita a responsabilidade e o poder do


governo maior para defender seu povo e levar-nos à prosperidade e ao sucesso?
- Sim. Eu aceito. – Ele respondeu.
- Klaoz, você se auto apresentará com orgulho como o governador-mor de toda Omoh
sempre?
- Não. – Ele respondeu e o espanto percorreu todo o salão. – Eu me apresentarei com
todo orgulho como Rei de toda Omoh. Não menos que isso, não serei um governador,
alguém menor que os sneipas e seu rei.
Por mais incrível que pareça, era justamente isso que o povo queria ouvir. A onda de
aplausos correu por todo salão. O mago ergueu uma mão em sinal de silêncio e todos
ficaram quietos.
- Muito bem, sua alegação é sensata e respeita o orgulho de nossa raça. Os deuses
aceitam sua oferta de título. De hoje em diante, com o apoio do povo, você será Klaoz, Rei
de Omoh e de todas as terras conquistadas. – Dizendo isso o mago colocou uma tiara
dourada na cabeça de Klaoz.
Klaoz se virou para o povo. Um farfalhar de tecidos se mesclou com os sons de botas
pesadas e armas de todos os presentes se ajoelhando perante o rei, com as mãos e testas
no chão. O mago passou por ele, tomou a frente na plateia e imitou o gesto dos demais. De
joelhos todos gritaram:
- VIDA LONGA À KLAOZ! VIDA LONGA AO REI!
Klaoz poderia sentia que poderia explodir ali com toda aquela sensação de alegria, de
sucesso. Devia explodir mesmo para poupar o povo do que viria a seguir. Mas não explodiu.
Infelizmente. Na verdade sua alegria aumentou quando seus olhos finalmente encontraram
o que procurava. Dormindo no colo de seu aliado, semi-oculto nas sombras, no fundo do
salão, estava sua caçula, a pequena Ziélena, como ele ordenara. Agora só faltava sua
adorada Nike e sua filha primogênita para sua alegria ser completa.
O n i e r | 87

Álnaz
- Qual o estado dela? – Andor perguntou à medica responsável por Nike.
- Ela perdeu muito sangue, muitos de seus órgãos foram lesionados o que causou
grande número de coágulos....
- Sem rodeios, honorável doutora. Ela vai viver? Sim ou Não? – Andor perguntou, sua
pele um pouco mais vermelha que o normal desde que a guerra começara.
- Eu não sei. Ela é forte, sem dúvida. Mas não foram apenas esses ferimentos e o parto
anormal. Ela tem seguelas mais antigas que ainda não haviam se curado completamente.
Essa mulher passou pelo inferno nos últimos dozes meses, no mínimo. Seu organismo está
lutando para se recuperar inclusive entrando em estado de coma. Não temos como saber
quanto tempo vai levar até que ela se recupere e acorde... Ou mesmo se ela vai se
recuperar. Sinto muito. Sei quem ela é e o que fez, mas sei também que ela pode ser de
grande ajuda para nossa causa.
- Sim. Bem. Fique atenta. Qualquer mudança no estado dela eu quero ser
imediatamente alertado. Ninguém deve entrar aqui além de nós dois, uma enfermeira de
minha confiança, meu conselheiro chefe e... Uma certa convidada. Talvez ajude ela a
acordar logo. – Andor disse e saiu. Era quase meio-dia e ele passara a noite toda acordado,
aguardando por notícias de Nike que estava mais morta do que viva. Invis, seu conselheiro,
o havia ajudado o quanto podia nos compromissos administrativos, mas ele ainda tinha
muito trabalho a fazer naquele dia antes de pensar em descansar.
E foi assim que aconteceu. Naquele dia, mesmo visivelmente cansado, Andor realizou
todos os seus deveres como rei o dia inteiro, não parando nem para comer. Ele não
conseguiria, de qualquer forma. Um nó estava preso em sua garganta com a lembrança dos
sentimentos aterrorizados de Nike quando Klaoz pegou a criança quase morta de seus
braços, com sua própria atitude ao escolher salvar a mãe que lhe seria mais útil ao invés da
criança com minúsculas chances de sobreviver. Era madrugada e ele ainda estava
debruçado sobre telas de OFR com as mais diversas informações sobre o reino, assinando
documentos, deliberando sobre solicitações diversas, enquanto uma bandeja com um prato
de sopa, pão e chá de camomila haviam esfriado depois de horas ali sem ser tocada. Uma
batida suave ecoou na porta que deslizou para o lado automaticamente assim que o rei
ordenou a entrada. Ele já sabia quem era antes mesmo da porta se abrir, como num
instinto natural, o reflexo de um hábito.
- Já estou indo deitar, Invis. Não precisa vir me dar bronca como se fosse meu pai. –
Andor respondeu sem levantar a cabeça.
O n i e r | 88

- Você disse isso a duas horas, majestade. – Invis respondeu, parando na frente da
mesa com as mãos nas costas. Havia um tom de recriminação gentil na voz do conselheiro.
Andor levantou a cabeça sentindo uma leve hesitação, um sentimento preocupação
diferente do que ele estava acostumado a sentir em Invis. – Mas não é só por isso que você
está aqui. – Ele largou o selo real na mesa, recostou na cadeira de espaldar alto, e olhou
para o conselheiro com um olhar astuto. – Diga.
- É a menina. A criança mestiça, majestade.
- O que Álnaz tem? – Andor ficou de pé praticamente pulando da cadeira.
- A ama da menina disse que ela não dorme desde a madrugada de ontem e está
muito agitada, chorosa. – Invis disse. Ambos se olharam com uma suspeita que nem
precisava ser pronunciada.
Mesmo se pudesse, não haveria tempo. No meio da frase, Andor já estava saindo da
sala, esquecendo sua capa na cadeira. Invis a pegou e o seguiu. Antes de chegarem nos
jardins extensos que cercavam os aposentos da menina, Andor sentiu a onda de dor e
tristeza como um soco na cara. Ele acelerou o passo, quase correndo e chegou à ponte que
levava à entrada do mini palácio. Os servos o levaram para o quarto da menina e, na casa
toda o ar de tristeza parecia infectar a tudo e todos. Até a natureza parecia mais...triste. A
criança estava crescendo de um jeito estranho, incomum, provavelmente resultado da
mestiçagem entre as duas raças. Suas orelhas, conforme elas crescia, pareciam crescer com
ela e deselvolver pontas. Um traço dos sneipas perdido com séculos de evolução desde que
chegaram na Terra. A pele de Álnaz também estava ficando mais clara, com pintas
vermelhas pelo rosto e ombros. Outra característa sneipas perdida no tempo. Seria possível
que a mestiçagem estivessem trazendo de volta traços perdidos da raça sneipas? No
quarto, a pobre ama tinha círculos escuros ao redor dos olhos, andava de um lado para
outro com a menina no colo. Álnaz chorava baixinho, chegando a soluçar, com o rosto
enterrado no pescoço da ama.
- Deixe ela comigo. Saiam! – Andor disse pegando Álnaz no colo. A menina olhou para
ele com olhinhos inchados, vermelhos, o verde de seus olhos mais escuros e o nariz tão
vermelho quanto todo o rostinho dela. Ela o olhou com tanta tristeza que, mesmo se ele
não tivesse o dom da empatia, teria sentido a tristeza emanando da menina. A ama deu um
beijo carinhoso na testa de Álnaz, fez uma reverência para o rei e saiu com Invis a
amparando. – Qual o problema, menina?
- Dói. – Álnaz respondeu com a voz rouca de tanto chorar.
- Onde? – Andor perguntou se sentando com ela no colo.
- Aqui. – Ela apontou para o peito, na direção do coração.
O n i e r | 89

Isso doeu mais em Andor do que qualquer ferimento de guerra que ele já
experimentara. – Porque? Você se machucou? – Ele perguntou, torcendo para que a
resposta não fosse o que ele pensava.
- Não sei... Doeu quando a moça bunita choou no rio...
- Que moça bonita, Álnaz?
- Não sei... Ela tava com maçucado... Maestadi...
- O que?
- Ela... o senhô acha que ela...ela morreu que nem a boboletinha que eu pisei sem
querê? – Álnaz perguntou e Andor sentiu a onda de culpa emanando dela. O fato havia
acontecido a semanas e fora um acidente, ele explicara inúmeras vezes que não fora culpa
dela, mas a menina obviamente ainda sofria com esse incidente.
- Álnaz eu já disse que não foi sua culpa. Foi um acidente. Por acaso acha que seu rei
está mentindo? – Andor disse com tom autoritário, o mesmo que usava com o Conselho.
- Não... – Álnaz respondeu chorando mais ainda. Às vezes ele esquecia que ela era só
uma criança.
- Sabe... Acho que posso ajudar com essa dor.
- O senhô pode? – Álnaz olhou para ele surpresa e esperançosa.
- Como ela era?
- Bunita. Olho igual o meu. Tinha cachinhos igual eu. Ela tinha tanto dodói... – Ela
respondeu chorando mais ainda.
- Você viu ela antes?
Álnaz balançou a cabeça em negação, fazendo seus cachos balançarem. – Só no rio e
na caminha minha. Ela parecia tão... Parecia sem cor...
Desbotada como um espírito. Andor pensou. Ele não tinha mais dúvidas, mas a prova
final só poderia ser conseguida de um jeito. – Que tal um passeio comigo?
- Agora? – Álnaz perguntou com um resquício da sua animação.
- Sim. – Andor disse e ela respondeu abraçando-o fortemente pelo pescoço. Ele saiu
com ela e Invis apraceu, colocando o manto do rei sobre Álnaz e ele. Andor lhe deu um
olhar agradecido e sinalizou para que ele os acompanhasse. O rei tomou cuidado para
seguir por caminhos desertos àquela hora, ordenando que a menina ficasse quieta como
num jogo de estátua. Ele podia sentir a confusão dela vendo aquele lugar estranho, a parte
da cidade que ela não conhecia já que nunca saíra daquele mini castelo oculto no centro do
palácio do rei.
A médica o recepcionou e levou diretamente para o quarto onde Nike estava. A
médica olhou para a menina com curiosidade, mas não fez perguntas. Honestamente, nem
precisava. Qualquer um que visse aqueles olhos estranhamente verdes saberia de quem ela
era filha. A menina deu um sorriso cansado em meio às lágrimas incessantes. A médica
O n i e r | 90

imediatamente se encantou com a criança. Quando entraram no quarto, Andor levou ela
para a cabeceira da cama onde Nike parecia morta. Sua pele estava pálida, seus lábios
roxos, haviam hematomas visíveis vermelhos e roxos em todo seu corpo, uma marca de
mordida no ombro que fez o estômago do rei se revirar só de imaginar como ela conseguira
essa marca.
- Moça bunita... – Álnaz disse num tom triste que quase fez o rei chorar.
Ele olhou para Invis e, mesmo sem palavras os dois entenderam o que aquilo
significava, mesmo o rei não tendo contado ainda o que a menina dissera em seu quarto. O
rei colocou a menina sentada na beira da cama, perto dos ombros de Nike, se afastou um
pouco, mas se manteve perto o suficiente para ampará-la se ela caísse. O silêncio só era
cortado pela vozinha chorosa da menina e os ‘bips’ das máquinas que ajudavam o
organismo da mulher a continuar funcionando.
- Você tá dodói? – Álnaz começou a tagarelar olhando para Nike como se ela pudesse
responder. – Qual o seu nome?
- Nike. O nome dela é Nike. – Andor respondeu.
- Nike... Bunito que nem ela... Seu cachinho é bunito que nem o meu também. Sabia
que a ama Lari não dexa eu pentiá meus cachinho? Ela diz que eu sou pequena. Mas eu não
sou pequena. Eu sou Álnaz. Não pequena. Lari não entende de nada. Eu posso pentiá seus
cachinho. Acorda que eu pentiu. – Álnaz olhou com expectativa esperando Nike acordar.
Um minuto se passou, dois, três, mas Nike não acordou. A menina deitou a cabeça no
peito de Nike e colocou um bracinho em cima dela, tentando abraçar a mulher adormecida.
Invis fungou e o rei virou o rosto para admirar a porta que de repente se tornara muito
interessante.
- Ela não consegue acordar. – A médica disse em tom doce e gentil.
- É por causa do dodói? – Álnaz perguntou e, pela primeira vez em mais de 24 horas,
ela não estava chorando.
- Sim. – A médica respondeu.
- Ela vai ficar boa?
- Não sei. Talvez.
- Ah. – Álnaz se voltou para Nike. – Eu gosto dela. Eu gosto aqui óh. – Ela apontou para
o coração. E perguntou para Andor que se aproximara dela. – Eu posso vim ver ela de
novo?
- Sim. Eu vou trazer você outras vezes. Mas agora temos que ir. Você tem aula de
canto daqui a pouco. – Ele disse, embora já planejasse não permitir que a aula acontecesse
depois da menina ter chorado tanto e ir dormir tão tarde.
O n i e r | 91

Álnaz deu outro abraço em Nike e um beijinho na testa dela da mesma forma que sua
ama fazia. – Fica boa logo, Nike, pra eu pentiá seus cachinho. E meu nome é Ánás. Depois
eu volto tá.

~o~
Todos os dias, usando um caminho secreto que Andor mandara criar e só ele e Invis
sabiam como encontrar, ele levava Álnaz para ver a “moça bunita”. Todo dia a menina
tagarelava por uma hora com a mulher em coma, enquanto Andor ficava sentado no
quarto. Álnaz passou a contar como a moça bunita saía do hospital às vezes e encontrava
ela no jardim ou no quarto, mas de um jeito diferente, mais “sem cor”. Então a criança
passou a levar seus papéis de desenho, flores, pedras coloridas que achava no jardim, seus
treinos de escrita nos quais ela era muito boa apesar de estar apenas a poucos dias antes
do seu aniversário de 3 anos. Um dia, porém, Andor não a levara como castigo por ela ter
feita birra com um tutor. Nada sério, mas ela estava naquela fase de malcriações que exige
pulso firme. Ele estava de péssimo humor o dia todo por causa disso. Punir aquela menina
parecia dor como uma facada no próprio coração. Ele parecia ter pego o hábito de Álnaz
porque naquele dia ele passara um bom tempo conversando com Nike como se ela pudesse
ouvir mesmo. E, bem, se ela estava conseguindo se projetar sua alma, uma das técnicas
mais avançadas da ciência sneipas, para visitar a filha, então talvez ela pudesse mesmo
ouvir.
Ele tinha um compromisso em alguns minutos, então saiu do quarto e desceu os
elevadores para a saída, porém, antes mesmo de alcançar a porta onde seus guardas
esperavam, a enferemeira que cuidava de Nike correu em direção à ele. A mulher estava
morrendo. O rei voltou para o quarto de Nike a passos largos. Tudo em que ele pensava era
o quanto isso iria magoar Álnaz. Não a falta que Nike faria para seus planos de guerra. Isso
nem mesmo passou por sua cabeça naquele momento. Seu desespero era pela dor na
pequena criança. Quando chegou no quarto o ‘bip’ das máquinas tinha sido substituído por
um som contínuo e aterrorizante. Ela não tinha sinais vitais. A médica estava suando
visivelmente enquanto tentava trazer a mulher de volta usando as técnicas secretas e
complexas ast-raal, enviando seu próprio espírito para tentar encontrar o de Nike e trazê-lo
de volta ao corpo. Mas, se o espírito de Nike já estivesse longe, não haveria o que fazer.
Andor prendeu a respiração, tenso e preocupado com Álnaz, rezando mentalmente em
desespero para que Nike não morresse, não ainda pelo menos. Foi quando uma coisa sutil o
incomodou. Havia um resquício de um sentimento no ar, como se alguém que tivesse
sentido aquilo não estivesse mais ali, mas estava a pouco tempo. Tinha um sentimento de
surpresa no ar e depois...excitação.
O n i e r | 92

Alguém a descobriu. Alguém esteve aqui logo depois que saí. Andor pensou. A
inteligência sneipas não falhando com o rei nesse momento.
Bip! Bip! Bip! Bip!
- Graças aos céus! – A médica disse voltando ao próprio corpo com a busca por Nike
tendo sucesso.
- Vou mandar uma equipe tirá-la daqui. – Andor disse e a médica o olhou com
surpresa. Mas antes que ela pudesse perguntar se havia feito algo de errado, ele continuou:
- Aqui não é seguro para ela e nem para Álnaz. Meus parabéns, honorável doutora. Você
acaba de ser promovida à especialista médica do rei. Vai trabalhar no castelo de agora em
diante.
Era a honraria máxima na carreira médica e ela não podia e não queria recusar aquela
prova de confiança. Algum tempo depois a notícia da morte de Iva e da ascenção de Klaoz
deixou Rígel empolvorosa. Andor passou o dia com o Conselho analisando as consequências
disso na guerra. E elas foram muitas. Depois de alguns meses, Andor revelou a existência de
Álnaz para o povo de Rígel, a apresentando com toda a história que a envolvia, mesmo a
parte chocante sobre Klaoz. A menina, por outro lado, sabia apenas que a “moça bunita”
era sua mãe e que um homem ruim queria machucar as duas. Andor sabia que seria mais
difícil Klaoz tentar raptar a filha se todos os sneipas estivessem atentos à menina, se
soubessem da importância dela para o futuro de Rígel, se soubessem de quem ela era neta.
Isso por si só era o suficiente para atrair a lealdade do povo, mas, quando Álnaz foi
apresentada ao público, o carisma da criança conquistou as pessoas. Ela era adorável.
Então, aos três anos de idade, Álnaz se tornou a criança mais amada de Rígel, o futuro da
nação.
Por outro lado, desde que Klaoz se tornou o rei de Omoh, a audácia dos sapiens
aumentou e, sempre que a tempestade na fronteira se acalmava, a onda de invasões ao
território Rígel começava. Rígel passou a invadir com maior frequência os territórios de
Omoh como retaliação. Assim, as batalhas sangrentas aconteciam com tanta frequência
que só a volta da força da tempestade da fronteira fazia os ataques pararem. E os anos se
seguiram nesse cenário exaustivamente sangrento...

~o~
12 anos depois...
- Por isso devemos manter o foco nas restrições de utilização do solo. – Andor estava
ensinando uma das muitas teorias necessárias para o bom governo de Rígel.
- Entendi. Isso significa que nenhum fazendeiro pode utilizar formas de plantio que
tragam mais destruição ao solo do que benefícios, não importa o quão tentador seja para a
sociedade. – Álnaz respondeu e Andor tentou, e falhou miseravelmente, conter a onda de
O n i e r | 93

orgulho. A menina crescera e se tornara mais linda ainda, mas com uma beleza incomum,
rara, um lembrete da história dos sneipas. Sua pele levemente bronzeada, era bem mais
clara que a pele escura de Nike, tinha pintas vermelhas no rosto e ombros, cabelos
cacheados e alaranjados que faziam seus incomuns olhos verdes (a cor que nunca existira
nem mesmo entre os sneipas) ficarem mais evidentes, suas orelhas médias e pontudas e os
lábios carnudos eram de uma beleza chamativa que estava se tornando extremamente
sedutora com o corpo em forma de “8” da menina. Apesar dessas diferenças, Álnaz era
muito parecida com a mãe nos traços do rosto, a forma do corpo e, claro, a cor dos olhos e
aqueles cachos inconfundíveis. Não tinha como negar de quem a menina era filha.
- Vocês dois não vão parar para comer neste século não? – A mulher disse se apoiando
na bengala em uma mão e o braço dado ao do conselheiro chefe. Invis ocultou
brilhantemente o riso.
- Você não devia falar com seu rei assim. E não devia estar fora da cama. Você ainda
não se recuperou totalmente dos anos que passou em coma... – Andor respondeu
emburrado como sempre ficava.
- Eu já passei muito tempo deitada exatamente porque estive em coma. – Nike
respondeu sorrindo amplamente para Álnaz. – E você não é meu rei.
Andor se aproximou dela e sussurrou para que só ela e Invis pudessem ouvir: - Sua
insolência uma hora dessas vai me fazer perder a paciência.
Os dois se encararam com um olhar fulminante por segundos, até que a voz melodiosa
de Álnaz os tirou daquela luta sem armas.
- Mamãe, majestade, por favor, sem brigas de novo. Vocês precisam trabalhar juntos,
então seria mais prudente se pudessem se entender, não acham? – Álnaz disse, dando um
abraço em Invis, tomando o braço da mãe que antes estava com ele, e, do outro lado, o
braço do rei. – Vamos. Hora de almoçar.
- Não posso. Tenho que terminar essa análise. – Andor respondeu, tentando se soltar
de Álnaz que firmou o pé e o olhou com aquele olhar bravo, com o beicinho, a mesma
expressão que Nike fazia quando era contrariada.
- O senhor precisa almoçar. – Álnaz disse não soltando o braço do rei.
- Preciso terminar isso. Já está quase pronto.
- Perfeito. Se está quase pronto, pode esperar mais um pouco. Vamos. – Ela disse e
tirou os dois de lá.
Quando o rei percebeu já estava à mesa com Álnaz à sua esquerda, Invis à direita e
Nike ao lado da filha.
- Como ela sempre me convence a fazer o que ela quer? – Andor perguntou num
sussurro para Invis.
- Mistérios da natureza, majestade. – Invis respondeu com um sorriso mal disfarçado.
O n i e r | 94

Nike
Nike tinha se levantado do coma depois de 12 anos, um mês antes do aniversário de
15 anos de sua filha. No ano seguinte a sua pequena Álnaz já seria adulta pelas leis sneipas.
Era surreal. Nike vira a filha quando era uma bebê e quando acordara vira uma mulher linda
e muito diferente já à beira da indade adulta. Para Nike era como se tivesse dormido por
algumas horas e nada mais. Álnaz era uma moça inteligente e astuta, com uma aptidão
política natural, adorada pelos sneipas de uma forma tão poderosa que o povo até tratava
Nike com respeito, apesar de tudo que ela havia feito contra eles, simplesmente por ter
gerado a futura e adorada rainha deles. Álnaz era sua primeira e única, já que sua caçula
morreu logo após o difícil parto, e Andor não contara nada sobre como ela fora gerada ou
detalhes sobre a morte da irmã. Mas, quando ele contou para Nike sobre a morte da filha
caçula, Álnaz sentira o desespero dela mesmo estando a quilômetros de distância da mãe.
A menina tinha um talento mágico poderoso para detectar emoções, não igual a empatia
de Andor, mas como uma espécie de radar natural. Ela não sentia o mesmo que as pessoas,
mas podia detectar com extrema facilidade. Fora isso, sua capacidade de curar era
considerável, especialmente com a ajuda de ervas e poções. Por isso, Álnaz era também
uma aprendiz de Arte Botânicas, e mesma paixão de seu avô, o falecido rei Betel.
Mesmo tendo sido liberada do trabalho pelos próximos dois meses, Nike estava
trabalhando menos de um mês depois de se levantar do coma. Se ficasse na cama por mais
tempo, ela sentia que ia enlouquecer de dor pela perda da filha caçula. Assim, desde o
início da semana, Andor lhe dera a responsabilidade de melhorar os portais pra tentar fazer
com que a tempestade da fronteira não afetasse tanto as travessias os impedindo de
invadir o território inimigo em determinadas épocas do ano. Todo dia, antes do almoço ou
no fim do dia, Andor ia pessoalmente verificar Nike, em quem ele não confiava nem um
pouco e só não matava por causa de Álnaz e da utilidade dela, para saber o andamento do
trabalho. Naquele dia, Nike trabalhava sem parar desde o dia anterior, não tendo nem
mesmo ido dormir. Assim, Andor resolveu ir bem cedo, nos primeiros minutos após o
nascer do Sol, verificar Nike. E, claro, foi a mesma coisa de sempre...
- Merda. – Nike murmurou baixinho enquanto Andor entrava com a postura arrogante
de sempre.
- Você não dormiu? – Andor perguntou.
- O que? Seus guardas não foram fofocar que passei a noite trabalhando? Estou
perplexa. – Nike respondeu, sem levantar a cabeça, focada em seu trabalho, e usando
aquele tom irônico que deixava Andor perto de matá-la.
O n i e r | 95

Andor respirou fundo e contou até dez, o tom vermelho de seu rosto ficando mais
intenso. – Como está o projeto? – Ele perguntou.
- Ainda estou avaliando os detalhes para ver o que posso fazer. Exatamente como eu
disse ontem, e anteontem, e no dia anterior,... – Ela respondeu ainda focada no trabalho.
- Talvez eu tenha superextimado sua inteligência afinal. – Andor disse com desprezo.
- Ou talvez eu não seja tão sneipas quanto você quer. Não criei e nunca trabalhei nessa
coisa a fundo. Acho que até mesmo você consegue entender o conceito simples de
“aprender o básico antes de mexer em algo”. – Nike disse ironicamente, ainda focada no
trabalho.
BAM!
Andor deu um soco na mesa onde ela estava fazendo algumas peças e anotações
pularem. Nike soltou a peça que estava avaliando calmamente e recostou-se na cadeira
olhando para ele com toda a arrogância que conseguiu reunir.
- Fale comigo direito, sapiens patética. – Andor disse baixo encarando aqueles olhos
verdes.
- Oown. Eu magoei seu frágil coração sneipas? – Nike debochou. – Já acabou com o
pití? Porque eu realmente preciso focar nisso aqui.
- Não force sua sorte, Nike. Nem mesmo meu carin... respeito por Álnaz vai me
impedir de te matar um dia.
Nike ergueu uma sobrancelha quando o rei cortou a palavra que definia o que ele
realmente sentia por Álnaz. A menina podia ser filha dos inimigos dele, mas ele não
conseguira resistir à doçura da menina que criara como filha. – É claro que vai. – Nike disse
simplesmente, mas um sorriso debochado surgiu em seus lábios. – Mas só quando eu fizer
uma arma para vocês superarem sua incompetência em matar uma raça que vocês mesmos
criaram.
A mania de Nike em enfiar o dedo na ferida não poderia ter outro resultado. Andor
deu a volta na mesa mais rápido do que os olhos poderiam ver e agarrou Nike pelo
pescoço, ainda na cadeira. Ela olhou para ele como se não houvesse nada de errado ali,
como se estivesse só com um mosquitinho na roupa. Isso só deixava o rei mais irado.
- Essa sua arrogância já está me irritando. Eu devia ter deixado você morrer nas mãos
daquele psicopata estuprador de criança. O rei da raça que não teve nem mesmo
competência para respeitar o sagrado amor à uma filha.
Nike continuava encarando ele, mas dessa vez havia uma sombra de dor, vergonha e
ódio em seus olhos. Não contra Andor, mas contra o homem que tanto lhe fizera mal. Mas
isso não a impediu de o encarar com todo a sua altivez, disfarçando ao máximo demonstrar
sua própria dor. – Pelo menos nós nunca fugimos de nossa própria natureza nos
escondendo atrás da paz covarde.
O n i e r | 96

Andor largou ela e deu um passo para trás antes que acabasse quebrando o pescoço
da mulher. – Nós tivemos boas razões para isso. Quem sabe no dia que eu tiver o prazer de
te matar eu conte antes de enfiar minha lâmina no seu pescoço. – Ele se virou respirando
fundo e começou a andar lentamente pelo escritório. – Termine isso e venha comer. Não
quero que Álnaz pense que estou matando você de fome.
- Não quero. Outra hora irei. – Nike respondeu de mal humor.
- INFERNO! Você parece que me desobedece por prazer! – Andor respondeu. E era
verdade. Nike sempre que podia desobedecia ou o enfrentava. Às vezes Andor achava que
ela queria ser morta.
- Você não é o centro do mundo, rei. – Nike disse, dando uma ênfase irônica ao título.
– Só não estou com vontade de comer agora.
- Eu não perguntei se você está com vontade. Estou mandando você vir. E você virá
por bem ou por mal! – Andor quase gritou e ambos se encararam com ódio, nenhum dos
dois querendo desviar o olhar antes do outro.
- De novo? Vocês nunca param de brigar? – Álnaz entrou, ficou na ponta dos pés para
dar um beijo no rosto de Andor e andou graciosamente em direção à mãe, a pegando pela
mão e levantando-a. – Vamos, o tio Invis está nos esperando para comer e ele é velho
demais para ficar esperando.
- Álnaz! – Andor e Nike falaram ao mesmo tempo, repreendendo a menina pela forma
de falar. Os dois se olharam com se seus olhos pudessem fuzilar um ao outro.
- Ai que bonitinho. Não se preocupem. Sei que não é legal chamar alguém de velho,
mas o tio Invis não se importa. Vamos, pai. – Álnaz disse quando Andor continuou parado
feito uma estátua, controlando a raiva por Nike.
- Não me chame assim, Álnaz. Já falei que não sou seu pai. – Ele disse mal humorado,
tomando o outro braço de Álnaz no seu, do lado oposto de Nike.
- Você falou, mas eu não ligo. Você me criou, me educou e me ama como filha. E eu te
amo como meu pai. Então, majestade lindinha do meu coração, você é meu pai sim. – Álnaz
disse enquanto caminhavam. Andor revirou os olhos, mas não disse mais nada.

~o~
O aniversário de Álnaz chegara. Naquela noite a festa teria início e toda a cidade, como
sempre, comemoraria nas praças, casas eram enfeitadas, o palácio fervilhava com os bailes
reais nas duas noites que se seguiriam, enquanto festas populares na praça principal teria a
presença de Álnaz, Andor, Invis e, naquele ano, Nike. Nike estava emocionada mais do que
conseguia expressar em palavras. Ela dispensou as servas e arrumou a filha pela primeira
vez em anos. Álnaz encomendara um vestido lindo para a mãe usar no baile principal na
noite de seu aniversário. O vestido tinha o toque das duas mulheres. Ambas escolheram os
O n i e r | 97

detalhes da peça e Álnaz até escolhera diamantes para serem usados na parte superior do
vestido preto da mãe. Nike dispensou todas as joias que a filha escolheu, colares
principalmente. Desde os incidentes com Klaoz, ela entrava em pânico sempre que algum
objeto metálico tocava seu pescoço, cabeça ou pulsos. Tudo a lembrava dos momentos
terríveis na casa subterrânea.
Álnaz, usando um elegante vestido vinho com bordados em azul escuro, e joias de
ouro branco e pedras em tons vinho, entrou no salão de braços dados com Andor que
parecia a ponto de explodir de orgulho da menina, embora ele nunca fosse admitir. O rei
usava um conjunto vinho com detalhes prateados, ao mesmo tempo, sombrio e brilhante.
Invis entrara com sua esposa e logo estranhou o sumiço de Nike. Ela devia ter chegado
pouco depois da filha, mas não estava em lugar nenhum. Andor, sentado no trono ao lado
de Álnaz, estava preocupado. Ele já tinha quase certeza de que Nike fugira ou estava
colocando um exército sapiens dentro de seu reino pelos portais, ou matando um monte de
sneipas, ou...
Os pensamentos de Andor foram interrompidos quando a mulher odiada apareceu na
entrada do salão, sozinha, altiva e....
Magnífica! Andor, sem fôlego, não pôde evitar o pensamento e se xingou
mentalmente por isso.
Praticamente todos no salão ficaram paralisados com a boca aberta. Claro, todos
conheciam a beleza indiscutível de Nike, mas naquelas roupas típicas dos sneipas, mesmo
sem nenhuma joia, sem nenhum penteado elaborado, ela parecia muito mais linda, quase
divina. Nike sempre gostara de atrair atenção porque isso mostrava para ela mesma que ela
podia atrair qualquer um, não apenas o ser monstruoso que abusava dela. Ela manteve a
cabeça erguida como se fosse a dona do lugar, a postura perfeitamente ereta, e andou com
um meio sorriso educado, dando um toque de gentileza à sua postura orgulhosa. Ela ouviu
os sussurros ao seu redor, mas não lhes deu atenção. Seu foco estava no trono, na figura
mais linda que já vira, a menina estranhamente parecida com ela apesar das diferenças. Ela
fez uma reverência na frente do trono e, isso chocou mais ainda à todos, esse gesto
humilde foi realizado com tamanha graça natural que a fez parecer ainda mais nobre,
mais...rainha.
Álnaz se levantou com aquele sorriso enorme, desceu os degraus, pegou a mão da
mãe e a levou para cima, à frente do trono.
- Nobres parentes, amigos e aliados. Eu sei que vocês já a conhecem pelo histórico
conturbado desta guerra e nossa aliança, mas, como dita às leis sagradas sneipas, devemos
dar a maior honra à quem nos serviu como primeiro mundo, nosso primeiro lar. – Álnaz
disse segurando a mão da mãe. – Sendo assim, quero apresentar formalmente, com muito
orgulho, minha mãe, a nossa maior arma nesta guerra e a mulher mais linda que já vi: Nike.
O n i e r | 98

Andor havia se levantado e estava do lado de Álnaz quando todos aplaudiram as


palavras de Álnaz.
- Creio que muitos aqui esperavam por isso, mas hoje, com aprovação de nossa futura
rainha e aceitação de sua mãe, Nike à partir de hoje não carregará mais o ‘Omoh’ em seu
nome. De hoje em diante, oficialmente ela será Nike de Rígel, como deveria ter sido desde
seu nascimento, mas sem direitos à herança do trono como foi decidido a anos. – Andor
disse olhando firmemente para o público. Ele estava visivelmente tenso e todos achavam
que era por ter que engolir sua vontade de matá-la, pelo menos por enquanto. Todos,
menos Álnaz cujo dom natural captou o que nem Andor percebeu.
Era tradição o aniversariante oferecer um presente aos convidados. Algum objeto,
alimento especial, bebida ou algum tipo de arte. Nike havia ensinado à Álnaz a dança em
que era especialista, uma das poucas formas de arte inventada pelas duas raças, duas
mulheres, uma sneipas e uma sapiens, cuja amizade entrara para a história. A menina ainda
não era muito boa nisso, mas havia aprendido o suficiente para mostrar ao público. Era
uma dança bonita, hipnotizante e sensual, embora os passos de Álnaz fossem mais
contidos. Era chamada de dança-do-ventre pelos movimentos que valorizavam essa região
do corpo. Nike estava de pé entre os tronos de Andor e Álnaz, um pouco atrás. Os dois
estavam admirando tanto Álnaz que nem mesmo lembraram de discutir um com o outro ou
trocar olhares raivosos. Quando Álnaz terminou, Andor se levantou para dar um abraço
nela.
- Você foi magnífica. Não sabia que estava aprendendo essa maravilhosa arte. – Andor
disse.
- Eu pretendo aprender melhor. Minha mãe que é perfeita nisso. – Álnaz disse com um
sorriso chamando Nike para se aproximar. Andor olhou para Álnaz surpreso. – Mesmo com
a dificuldade na perna depois do coma, ela dança maravilhosamente.
- Hum. – Andor respondeu. – Interessante. Ela não deve estar com tantas sequelas
assim. Já nem usa mais a bengala... Deve estar armando algo. Vamos ver o quão bem essa
sapiens pode mentir. Ele pensou. – Seria útil para o povo nos ver dançando, ver que nosso
passado não nos impedirá de trabalhar juntos pelo bem maior.
- Como quiser, rei. – Nike respondeu aceitando a mão de Andor.
Quando os dois se dirigiram para o centro do salão, todos os olhares estavam focados
neles. E todos só tinham uma dúvida: Eles conseguiriam dançar juntos sem matar um ao
outro? Os guardas estavam em alerta, sutilmente com a mão no cabo de suas espadas para
salvar o rei a qualquer minuto.
- Eles vão se matar. – Invis disse baixinho para Álnaz.
- Tio Invis, o senhor não é cego. Porque não consegue ver? – Álnaz disse.
- Ver o que? – Invis olhou para ela, confuso.
O n i e r | 99

- O senhor é um conselheiro sábio. Não precisa do meu dom para ver também. – Álnaz
disse o deixando mais confuso. Então, com a sua costumeira alegria, disse: - Vamos dançar
também? Por favoooooor.
Invis aceitou para ficar mais perto do rei. Mas, honestamente? Ele teria aceitado de
qualquer forma. Álnaz era adorável e ele não diria não para aquela menina doce que ele
amava como uma neta.
- Você não devia ter entrado sozinha. As pessoas podiam tentar matá-la. Ninguém está
feliz com você aqui. Só te toleram. – Andor disse enquanto dançavam.
- Eu sei.
- Então porque veio sozinha?
- Porque eu não sou mulher de me esconder atrás de ninguém. Se me odeiam,
problema de vocês. Eu não me odeio e isso é tudo que me importa.
Corajosa ela é, sem dúvida. Além de lin... Merda! Andor cortou o pensamento
incômodo. – Se tentarem te matar, posso não ter vontade de ajudar você.
- Não estou pedindo sua ajuda. – Nike disse com o tom arrogante que Andor odiava.
- Eu ainda vou destruir essa sua arrogância e te fazer abaixar essa cabeça altiva. –
Andor disse, a raiva já subindo à cabeça.
- Eu vivi o inferno com Klaoz e não abaixei a cabeça. Quais são as suas chances? – Nike
disse com um sorriso desafiador e lindo.
Por sorte a música parou ou Andor teria perdido a cabeça. Ambos se afastaram um
pouco. O sneipas com quem Nike já estava fazendo amizade pela forma gentil com a qual
ela tratava a todos (exceto Andor, claro) se aproximou pedindo uma dança. Ela aceitou,
mas, antes de pegar a mão do sneipas, disse apenas para o rei ouvir: - Parece que você está
errado, rei. Nem todos só me toleram. Parece que minha filha me ama. E... bem... ela não é
a única. – Ela fez um gesto sutil para o sneipas que a chamara para dançar e esperava a
alguns passos. Ela fez uma reverência educada para Andor, mas com aquele olhar
debochado, e saiu.
Pelo resto da noite, Nike praticamente não parou. Muitos sneipas pediram para
dançar com ela e ela aceitou. Com o decorrer da festa, até mesmo os mais reticentes com a
presença dela ali, acabaram se soltando e, no fim da festa, Nike já tinha conversado com
todos os presentes, feito muitos rirem de suas histórias, feito amizade com muitas
mulheres e homens. Andor dançara com muitos nobres, como era educado, com Álnaz
muitas vezes, mas, sempre, mesmo com ele se xingando mentalmente por isso, seus olhos
procuravam por Nike pela festa.
Claro. Não confio nela. Odeio ela. E ela está falando com todo mundo. Pode estar
tramando algo. Vai ver foi por isso que ela veio tão linda assim. Tão explêndida. Ridículo
andar desse jeito.. Rebolando assim.. Ridículo. Ele repetiu isso pra si mesmo a noite toda.
O n i e r | 100

Os olhares de Álnaz iam do rei para Nike e depois para Invis até que o conselheiro
captou a mensagem.
- Isso não é bom. Nada bom. – Invis disse.
- O que, pai? – Gareth perguntou, seus olhos focados na amiga e, assim ele esperava,
futura namorada.
- Você saberia se parasse de babar tanto pela Álnaz. – Invis respondeu sério. – Vá
dançar com ela e me deixe pensar.
- Com prazer, papai rabugento. – Gareth disse sorridente e saiu para chamar Álnaz
para dançar... De novo.
- Acho que o verde é uma cor perigosa. – Invis murmurou.
- Pare de resmungar, querido, e vamos dançar. – A esposa de Invis o puxou pela mão.
O n i e r | 101

Ziélena
- Como você está, querida do pai? – Klaoz perguntou para a menina que, apesar de ter
apenas 12 anos, já parecia uma mulher completa.
- Bem, pai. Acho que o senhor não devia se preocupar, foi só um arranhão. – Lena
respondeu.
- E como eu não vou me preocupar, Ziélena? Você é minha filhinha! Apesar de ser tão
talentosa, ainda é minha menininha.
- Como está o rapaz que estava comigo?
- Bem. Mas pediu para ir visitar a família na fronteira. – Klaoz respondeu com
indiferença. O rapaz, na verdade, estava morto. O rapaz era o guarda que acompanhava
Ziélena para qualquer lugar que ela desejasse. A moça, empolgada com a experiência nova
de ver os animais no jardim tão de perto, correu, escorregou e caiu. Um pequeno arranhão
no pulso foi o resultado para ela, mas, o guarda perdera a vida por causa disso.
Durante 11 anos, Ziélena nunca saiu dos aposentos dela, por ordens do rei. A menina
cresceu com um talento mágico poderoso e fora treinada por dois magos de confiança e, a
única serva que cuidava da menina, tivera a língua arrancada quando Lena era um bebê.
Assim, ela nunca falaria sobre a criança. Além desses três e do próprio Klaoz, apenas o
bárbaro acéfalo do Seyrus podia ver a menina, geralmente quando algum ataque próximo
acontecia e Klaoz queria garantir a proteção da filha. O rei nunca maltratara fisicamente a
moça, mas fazia algo que Lena considerava muito pior. Para o azar do obcessivo Klaoz, Lena
tinha o espírito livre de Nike. Mantê-la presa com a justificativa de que Andor a estava
caçando por seu talento mágico, que o rei de Rígel queria ela como amante, que ela
carregava uma maldição e coisas do gênero, não funcionava mais com a jovem de 11 anos
que já tinha tentado fugir inúmeras vezes. Lena detestava Klaoz por mantê-la presa como
um animal em uma gaiola luxuosa, mas também se sentia culpada por isso já que ele era
seu pai e, segundo ele, sofrera muito quando sua irmã mais velha fora levada e torturada
até a morte pelos inimigos.
Poucos dias depois da morte de Iva, Klaoz e seu mago de confiança, Esvion, usaram a
previsão de um eclipse solar para, naquele momento, forjarem uma visão de Nike surgindo
feito um fantasma no meio da praça central. Era apenas um truque de luz, mas um que
dificilmente alguém ali perceberia como fraude. A Nike falsa mostrava uma criança
fantasma, muito parecida com ela e apontava para o rei. Claro, todas as pessoas de Omoh
viram isso como um presságio da mulher mais adorada e morta de que ela enviaria uma
criança que protegeria o rei e seria parecida com ela. Quando Ziélena ficou incontrolável
em seu esconderijo, o rei reuniu a população e contou que a criança da promessa surgira e
O n i e r | 102

que, para sua segurança, era mantida escondida dos inimigos. Por fim, ele pediu que o povo
o ajudasse a manter a menina em segredo para que ela pudesse aproveitar a vida do lado
de fora. Assim, para o povo, Ziélena foi apresentada como a filha de uma relação rápida que
o rei tivera com uma maga falecida. Quando as pessoas viram os olhos extremamente
verdes da menina duas coisas se tornaram verdades absolutas: o sangue de Klaoz era
mágico e causava esses olhos nas filhas e a menina era enviada por Nike, daí a semelhança
gritante.
Lena crescera aprendendo o quanto Andor tinha sido cruel, torturando e violentando
sua ‘irmã’ Nike até a morte, como ferira gravemente Seyrus, causara um ferimento que só
piorou e levou Iva ao suicídio, como magoara o coração de seu pobre pai que agora temia
tanto pela segurança de seus filhos que a mantivera reclusa durante anos. Foi assim que
Lena, em seus momentos sozinha treinara seus dons com afinco, às vezes nem mesmo
dormindo, para se tornar tão poderosa que um dia mataria o rei de Rígel para vingar sua
família.
As coisas na cidade desde que Lena foi apresentada ficaram mais estressantes. O rei
criara um plano maquiavélico para manter Lena segura. Qualquer pessoa que tivesse uma
informação sobre alguém que planejava contar sobre a menina para Rígel era
recompensada por delatar o possível informante com terras, joias, riquezas, títulos e até
casas novas. Os delatatos passavam por torturas inimagináveis até admitirem que eram
informantes de Rígel ou morrerem nengando. Logo isso se tornou um caos. Pessoas
delatavam umas às outras mesmo sem nenhuma suspeita real, apenas por lucro ou para se
desfazer de alguém que não gostavam. Algumas vezes esses delatores que buscavam lucros
eram descobertos, torturados, com os intestinos expostos eram colocados em estacas
pendurados no meio da praça para servir de exemplo. Muitos morriam horas depois e só
eram retirados quando o odor cadavérico começava a exalavar pela cidade. Logo isso se
tornou uma paranoia coletiva e todos viam delatores da ‘criança da promessa’, a jovem
sagrada, em cada esquina, em seus lares, até mesmo em animais que acreditavam ser
enfeitiçados pelos ‘magos negros’, os ‘demônios’, como os sneipas passaram a ser
conhecidos por sua habilidade de surgir aparentemente do nada.
- Majestade, posso levar a princesa para sua aula? – Esvion perguntou, entrando na
sala com uma reverência.
- Lena, como se sente? Consegue ir para sua prática? Não precisa ir se não quiser... –
Klaoz perguntou, torcendo para que ela não fosse.
- Pai, eu já falei que foi só um arranhão! Será que o senhor me acha tão fraca assim? –
Lena explodiu com aquela sua natureza tempestuosa. – Vamos, Esvion.
E saiu pela porta como um furacão. Esvion olhou para o rei e, quando este acenou
para que saísse, fez uma reverência e saiu atrás da jovem.
O n i e r | 103

- Seyrus! – Klaoz chamou o homem parado como uma estátua apática atrás dele.
Seyrus se aproximou e curvou-se em respeito ao rei. – Vá atrás dela. Mas não se deixer ser
visto. Se ela se ferir, você morre. Se algum homem tocar nela, mate-o. Fui claro?
Seyrus balançou a cabeça afirmativamente e saiu.

~o~
Faltavam alguns meses para o aniversário de Ziélena, mas Klaoz já planejava uma festa
digna de uma rainha, só com a presença dos mais altos dignatários de Omoh. A maioria
deles eram jovens já que os mais velhos, muitos deles, tentaram se rebelar contra o título
de ‘rei’ de Klaoz e o tirar do poder. Lógico, todos foram exterminados. Um deles, o mais
velho dentre os governadores da época de Iva, quase conseguira depor Klaoz, mas o filho
dele, um rapaz ambicioso até a alma, delatou o pai e, em troca, Klaoz o colocou no cargo do
pai. Miror, o filho que entregara o pai como traidor para ser morto, era um jovem
governador que fazia de tudo pelo seu rei e era recompensado por isso. Pena que essa
promissora aliança teria problemas graves em breve.
- Marah, aquele rapaz é bonitinho, não é? – Lena comentou com a serva muda que a
criara, mesmo que a coitada não pudesse responder. Ela crescera acostumada com essa
conversa unilateral e, muitas vezes, achava que podia ler a mente da outra mulher com seu
olhar. – Eu sei, eu sei... Ele é mais velho... Mas eu não me importo. Não me olhe assim,
Marah! Tenho certeza que você também é cheia de namorados. Não. Essa sua cara de santa
não me convence.
- Do que estão falando? – Esvion perguntou, surgindo com aqueles passos silenciosos
de sempre.
- Marah não está falando de nada porque ela é muda, ne. Eu estava comentando como
o tempo hoje está lindo. – Lena respondeu com uma carinha de anjo. Com um corpo
evoluído a ponto de parecer ter uns 9 anos a mais, seus longos cachos castanho escuro, os
lábios carnudos e rosado, a pele bronzeada e aqueles magníficos olhos verdes, Lena era
muito atraente. Mas, para piorar um pouco o ciúme paterno de Klaoz, ela tinha o mesmo
hábito da mãe. Era sedutora e fogosa demais para uma jovem que ainda não tinha nem
chegado perto da idade adulta dos sapiens, 16 anos. Klaoz não era idiota e já tinha visto
uma jovem assim crescer perto dele: Nike. Lena não o enganava nisso, embora ela
acreditasse que era muito discreta perto do pai.
- Creio que a senhorita deveria se arrumar para o jantar. – Esvion disse com um olhar
respeitoso, mas emanando autoridade.
- É verdade. Sabe que eu até esqueci. Sou tão distraída. – Lena respondeu e começou a
andar na direção oposta da varanda, em direção aos quartos.
O n i e r | 104

Esvion se virou e a olhou até que ela entrasse no palácio. Só então se virou e foi
embora, dando uma última olhada no jovem que estava conversando com Klaoz no pátio
logo abaixo.
Usando seu vestido verde sem alças, a saia repleta de bordados vermelho-escuro, os
cabelos soltos e rebeldes, Lena entrou na sala para o jantar. Era uma roupa simples e
mesmo assim ela parecia uma princesa perfeita. Apenas Klaoz e Esvion jantavam com ela
quando a porta se abriu e o mordomo do palácio anunciou que o jovem governador do
Leste, Miror, tinha uma mensagem urgente para o rei. Klaoz com seu semblante
inexpressivo de sempre, ordenou que o governador entrasse. A raiva fervia dentro do rei.
Como alguém ousava atrapalhar seu momento com sua filha?
- Saia, Lena. – Klaoz disse sem qualquer emoção na voz.
- Não. – Lena respondeu.
Klaoz olhou para ela com seu rosto calmo, mas o olhar fulminante. Qualquer um
tremia sob aquele olhar. Até mesmo Nike tinha medo do olhar dele. Mas Lena só o encarou
com outro olhar fulminante e ergueu o queixo desafiadoramente.
- Eu. Mandei. Sair. – Klaoz disse com todo seu autocontrole.
- E. Eu. Já. Disse. Que. Não. – Lena respondeu no mesmo tom.
- Alteza, vamos. Eu a ajudarei em sua prática. Um pouco mais de treino será bom. –
Esvion disse tentando evitar uma catástrofe.
Klaoz e Lena se encaravam como duas feras disputando por território ou comida.
- Sou seu rei e estou mandando você sair. – Klaoz disse ainda controlado, embora seus
olhos denunciassem sua raiva.
- Sou sua filha e estou dizendo que não vou. – Lena respondeu. – Que tipo de sapiens o
senhor acha que serei se não puder enfrentar qualquer informação difícil?
A raiva de Klaoz suavizou em um colchão de orgulho. Mas não deixaria as coisas assim.
Aquela menina precisava aprender quem mandava ali. Mas ele não teve tempo para
responder porque o jovem governador Miror entrou na sala acompanhado do mordomo
que saiu logo em seguida com uma reverência. Miror se ajoelhou para o rei até sua testa
encostar no chão. Quando Klaoz deu a ordem ele se levantou, se aproximou do mago
pedindo sua bênção como era costume, depois, como mandava a etiqueta, pegou a mão da
princesa e beijou levemente o anel símbolo de sua posição no dedo indicador. Seu olhar
cruzou com o dela por um segundo apenas, o suficiente para um fogo acender entre eles.
Miror desviou rapidamente antes que o rei notasse. Mas o rei notou. E não gostou.
- Qual a urgência? Seu pai voltou do mundo dos mortos para assombrar quem o traiu?
– Klaoz debochou, não precisando citar explicitamente quem traíra o governador e o
entregara para a morte.
O n i e r | 105

- Temo que o problema seja mais grave que isso, majestade. – Miror disse não
demonstrando nenhum sinal de ofensa pela indireta muito direta do rei. – Venho do local
de encontro com aquele... err... – Miror olhou para a princesa, sem ter certeza se devia
continuar.
- Fale. Lena será sua rainha um dia. Se não puder dizer algo na frente dela, que tipo de
servo você será quando sua lealdade for à ela? – Klaoz disse.
- Claro. Bem, fui em busca de informações com seu leal espião em Rígel e ele me
trouxe uma notícia inquietante. O baile de aniversário da jovem filha do estupro do rei
Andor à nossa sagrada Nike Vitoriosa, ocorreu ontem à noite e... Não sei como dizer isso...
- É só abrir a boca e falar. – Lena respondeu em tom de deboche.
- Bem, alteza, majestade, mago sagrado... Uma mulher com uma bengala foi
apresentada como a própria Nike e, ao que parece, ela trabalha para o rei. E... Eles
pareciam muito... Próximos na festa.
- IMPOSSÍVEL! – Klaoz deu um soco na mesa e se levantou como se o capeta tivesse
enfiado um garfo em suas nádegas. Todos deram um pulo na cadeira. Não era comum ver
Klaoz furioso assim, sem controle, nem mesmo quando ele executava seus inimigos ou
lutava. - Mesmo se ela estivesse viva ela nunca trabalharia para aquela corja e nunca,
NUNCA, teria qualquer relação com aquele verme que a torturou e estuprou inúmeras
vezes!
- Pode ser qualquer uma. – Esvion comentou.
- O espião me entregou isto. – Miror exibiu a placa de vidro do OFR e o ligou. Uma luz
azulada surgiu da peça horizontal e o vídeo nítido surgiu. Nele se via Álnaz sentada em seu
trono, o rei no dele, mas com os olhos fixos e a boca entreaberta admirando uma mulher
magnífica. A mulher com seu vestido negro, simples e elegante, com seus cachos grossos e
olhos extremamente verdes era inconfundível. A imagem mudou para uma dança entre o
rei e a tal mulher e depois para uma apresentação de Nike como ‘Nike de Rígel’
Nike... Minha Nike está viva. Eu sabia... A minha mulher está viva! Klaoz nem percebeu
que o OFR fora desligado e todos o olhavam esperando por sua reação. Eu sabia... Ela está
mais bonita ainda... Deuses, como é possível ela estar mais linda ainda? Minha Nike...
Minha filha está com ela... Ambas estão tão lindas. Minha Nike... Minha... Aí dele se aquele
imbecil tocar na MINHA Nike...
Klaoz parecia tão chocado que a raiva e a rebeldia de Lena deram lugar à pena que
sentia do pai. – Pai... Pode não ser ela...
- É ela, Lena. Eu reconheceria a minha Nike em qualquer lugar. É ela... É sua m... irmã.
– Klaoz se corrigiu. – Miror, quero que passe a noite no palácio. Já é tarde e prefiro que
você esteja aqui bem cedo quando vamos nos reunir e planejar melhor o próximo passo.
Apenas nós aqui devemos ter essa informação em mãos. Se ela vazar, vou matar alguém.
O n i e r | 106

- Às ordens sempre, meu rei. – Miror disse se curvando. O mordomo foi chamado para
arrumar um lugar para o governador dormir, descansar e comer. Os dois saíram. Klaoz e
Lena saíram seguidos pelo mago silencioso como um fantasma. Mas ninguém percebeu que
o pobre homem que mais parecia uma estátua na maior parte do tempo, ainda estava de
pé no canto escuro a 12 horas desde que Klaoz o mandara esperar ali e esquecera de
ordenar que ele saísse. Quieto e silencioso, mal respirando, Seyrus continuava de pé
quando Klaoz voltou sozinho, de repente se lembrando dele.
- Droga! Esqueci de você, inútil! Saia daí e vá para seu quarto. Beba seu remédio e vá
dormir. – Klaoz ordenou e saiu.
Não era preciso vigiar Seyrus. Ele fazia o que Klaoz ordenava sem pensar sobre isso,
sem contestar, sem nenhum fragmento de resistência. Ele caminhou para seu quarto e
apenas um pensamento surgiu como uma dor de cabeça, o cérebro não mais acostumado a
pensar.
Nike.... Viva...

~o~
- Posso entrar? – Lena disse quando a porta se entreabriu. Um homem de cerca de 18
anos, talvez um pouco mais, estava apenas com uma toalha enrolada no quadril, seus
cabelos longos e lisos caindo molhados sobre o peito bronzeado do rapaz.
- Acho que não é apropriado, alteza. É muito tarde e... – Miror respondeu seu olhar
não conseguindo evitar a tentação de olhar para o vestido verde, sem alças, muito mais
simples, curto e transparente na saia, mostrando mais das coxas da moça do que o comum
entre seu povo.
- E você não vai me deixar aqui no frio, não é? Isso sim não seria apropriado. – Lena
disse com um sorriso fofo.
Miror estava justamente na banheira pensando na princesa dos belos olhos verdes,
mas não de forma muito apropriada. Não conseguia evitar, e olha que ele tentou. Não é de
admirar que quando ela apareceu, tarde da noite, em sua porta daquele jeito, ela não
precisou de muito esforço para convencê-lo a deixar ela entrar. Quando ela entrou, ele
fechou a porta, se olharam por dois segundos e foi o que bastou para ambos praticamente
pularem um no outro. A mente de Miror gritava que aquilo seria sua perdição, mas ele
sinceramente não deu a mínima importância. Assim, Miror se tornou o primeiro homem na
vida de Lena e horas mais tarde, eles ainda estavam deitados abraçados como se não
pudessem viver se seus corpos se afastassem um centímetro.
- Ela é bonita... – Lena disse passando o dedo distraidamente no peito de Miror.
- Nike?
- Sim.
O n i e r | 107

- Ela é mesmo. Todos sempre disseram isso. Você parece com ela, mas é muito mais
bonita.
- Como eles puderam fazer isso? Uma maldade dessas com uma mulher tão boa?
Miror olhou para ela e parecia que se conheciam à séculos. Ele nunca tinha se sentido
tão unido à alguém assim antes, podendo até sentir o que ela pensava. – Você quer
vingança. – Ele disse.
Lena olhou para ele um pouco surpresa por ele perceber tão facilmente o que ela
sentia. Será que ele se sentia tão unido à ela como se eles se conhecessem desde crianças
do mesmo jeito que ela se sentia com ele? – Sim. – Ela respondeu. – Mas não acredito que
Nike tenha sido uma prisioneira. Pelo menos não o tempo todo. Antes eu acreditava, mas
agora... Ela não me pareceu nem um pouco ferida como alguém que ficou presa por mais
de uma década. Talvez, com as torturas, ela tenha mudado de lado como uma covarde e
nos traído.
- Se isso for verdade, então ela também deixou que sua sobrinha, a filha dela com
aquele arrogante, fosse criada por aquele povo nojento. – Miror comentou brincando
distraidamente com os cachos mais bonitos que ele já vira.
- Deuses... É verdade. Álnaz nunca pôde viver entre seu povo de verdade, meu pai
sempre disse que ela é mantida com uma joia amaldiçoada no corpo que a enlouqueceria
se ela pisasse em território Omoh...
- É verdade. Nós recebemos e confirmamos essa informação a anos. O próprio Andor
admitiu isso em batalha a alguns anos.
- Se Nike permitiu isso com medo de apanhar mais... Ela é uma... Eu vou matá-la sem
piedade. Por meu pai, pelo mano Seyrus, pela minha sobrinha Álnaz, pela senhora Iva, até
por mim que tive que conviver com a paranoia do papai. Ela vai pagar por sua traição se
isso for verdade. – Lena disse com uma paixão doentia na voz que não deixou dúvidas de
que ela era mesmo filha do Klaoz.
- Vou te ajudar a descobrir isso, mas tem uma condição.
- Qual?
- Quando a hora chegar e seu pai tentar escolher um marido para você, você irá me
escolher. Não sei que feitiço você tem, garota, mas quero você apenas para mim. – Miror
disse olhando nos olhos de Lena.
- Me ajude e prometo que te recompensarei. – Lena disse e Miror puxou ela para um
beijou que levou à outro, outro, outro...
Faltava pouco para o Sol se erguer no horizonte quando Lena se jogou em sua cama e
adormeceu com um sorriso no rosto.
O n i e r | 108

Suspiros
- Álnaz, eu te adoro, mas isso é ridículo. – Gareth disse, passando a mão por seus
cabelos loiros e curtos .
- Ah, Gareth... O que custa? Me ajuda... Por favooooooor. – Álnaz olhou pra ele com
aqueles olhinhos de cachorrinho abandonado.
- Pare. Dessa vez isso não vai funcionar. Não vai. É sério, Álnaz... Droga. Ta bom.
Vamos. Mas se der algo errado eu não vou proteger você desta vez. – Ele ia. Ele sempre
protegeria ela.
- Gareth, você é o melhor. – Álnaz deu um abraço apertado no amigo.
Gareth era 13 anos mais velho que Álnaz, mas, apesar da diferença de idade, os dois
eram inseparáveis desde que ela fora apresentada à sociedade Rígel na infância. Gareth,
como filho único do conselheiro e comandante de Andor, se tornou o amigo inseparável e
protetor dela. Eles basicamente se adoravam.
- Papai. – Álnaz deu um gritinho abraçando Andor por trás.
- Álnaz, não sou seu pai. Sou seu amigo, tutor e rei. – Andor disse pela milésima vez, e
foi sumariamente ignorado.
- Pai, podemos ir até o jardim? Quero descansar um pouco, mas não quero ir sozinha.
- Estou ocupado, Álnaz. Tenho muitos relatórios para revisar antes da próxima reunião
e...
- Você está sempre ocupado. Quase não para nem para comer. Se não fosse por mim e
pelo senhor Invis, você já teria morrido de fome. Vamos. – Álnaz disse já puxando o rei para
longe e pedindo ajuda com o olhar para Invis. O conselheiro deu um aceno afirmativo para
ambos se afastarem. Ele próprio já não sabia mais como convencer o rei a dar uma pausa
depois de 12 horas trabalhando sem parar.
- Pensei que você ia ficar aqui com ela hoje, como sempre. – Nike perguntou vindo de
braço dado com Gareth, a outra mão apoiada em sua bengala.
- Mas eu vou ficar, só achamos que seria um bom momento para a senhora também
descansar. A senhora está trabalhando a 13 horas. – Gareth respondeu com um sorriso
galante.
Saindo de um corredor por um arco, Nike viu uma toalha branca estava esticada no
chão, repleta de alimentos e bebidas maravilhosas, embaixo de uma laranjeira florida. A
grama verde, o pequeno riacho passando na frente com seus peixinhos coloridos, o canto
dos pássaros e as adoradas borboletas azuis de Álnaz, formavam o cenário perfeito para um
piquenique mágico. Nike não pôde evitar um suspiro prazeiroso enquanto caminhava,
O n i e r | 109

tirando os sapatos, para sentir a grama. Mas sua felicidade diminuiu consideravelmente
quando viu a dupla que vinha do lado oposto.
- Andor. – Nike disse com visível mal humor.
- Nike. – Andor disse no mesmo tom e seu olhar vagou para Álnaz. – Porque ela está
aqui?
- Porque ela foi convidada por esse jovem e gentil rapaz. – Nike respondeu.
- Você... – Andor começou, mas Álnaz entrou entre os dois.
- Vamos, crianças, não briquem. Eu só queria descansar e aproveitar esta tarde
maravilhosa com meu pai, minha linda mamãe e meu melhor amigo. Comportem-se e
vamos nos divertir. – Álnaz pegou os dois pela mão e os guiou para sentar.
Nike sentou de um lado da filha e Andor do outro, Gareth à frente dela. Gareth serviu
Álnaz e Nike como um cavalheiro e começaram a conversar. Mas Nike e Andor não falavam
um com o outro, embora Andor sempre olhasse para ela quando ela não estava olhando. O
clima era leve apenas entre os dois amigos. Mas então, depois de meia hora, um servo
apareceu ao longe no corredor sinalizando para Gareth. Ele se desculpou, levantou, foi até
o servo, conversou com ele e voltou. Em pé ele se desculpou e disse que Álnaz precisava
verificar um trabalho em suas plantas imediatamente. Álnaz levantou com a maior cara de
preocupação, que não convenceu Nike e Andor nem um pouco, e saiu pedindo para que os
dois a esperassem que ela resolveria esse problema e voltaria. Álnaz e Gareth saíram lado a
lado, deixando Nike e Andor sozinhos.
- Ela quer que a gente se entenda e pare de brigar. – Nike comentou vendo a filha
sumir no corredor ao longe.
- Claro que quer. Ela não é briguenta e traiçoeira como seu povo. – Andor respondeu
irritado com aquele queixo altivo de Nike.
- Ela armou isso aqui, caso você não tenha notado. Então traiçoeira, pelo menos um
pouco, ela é. Quer você goste, quer não. – Nike respondeu já irritada.
- É melhor medir suas palavras para falar da sua futura rainha.
- Você quer dizer, a minha filha, não é? Não falei nada ofensivo ou que não seja
verdade sobre a MINHA filha. – Nike disse se levantando, pronta para sair dali.
- Senta. – Andor ordenou.
- Você não manda em mim. – Nike se virou para ir embora, mas Andor levantou num
pulo e empurrou ela de costas na árvore.
- Você tem sempre que usar esse tom arrogante comigo? – Andor disse e o perfume
das flores de laranjeira desapareceu, sendo substituído pelo aroma natural de Nike.
Aqueles olhos combinados com esse cheiro tão bom fizeram o rei estremecer, seu coração
acelerou de um jeito que ele podia jurar que ia ter um infarto. Nike ainda estava presa
entre o corpo dele e o tronco da árvore, o queixo altivo olhando para ele com aquele olhar
O n i e r | 110

desafiador, mas, mesmo irritada, ela era linda. Andor respirou fundo tentando se acalmar,
sem conseguir desviar seus olhos cinzentos dos olhos verdes da mulher. Isso só piorou seu
estado, seu corpo sentiu mais ainda aquele aroma natural, tão feminino... A voz dele saiu
baixa e rouca: - O que você está fazendo comigo? Que tipo de magia sapiens é essa?
- O que? Você é louco? Me solta antes que eu morda seu nariz! – Nike respondeu tão
irritada que não sabia como conseguiu não enfiar a mão na cara dele. Ela se debateu
tentando se soltar, mas Andor mantinha o corpo firme contra o dela. – Me solta, rei idiota!
Vai me matar porque ficou nervosinho? Se queria me matar devia ter feito isso a anos!
- Acha que é isso que eu quero agora? Matar você? – Andor disse e só quando as
palavras saíram de sua boca ele percebeu o que realmente queria.
Ela se contorceu sob o corpo dele e a mente do rei ficou em branco, dando lugar
apenas ao fogo em seu corpo causado por esse movimento. Sem pensar em mais nada, ele
pressionou seus lábios nos dela. A surpresa a paralisou naquele momento e, o beijo
exigente dele logo foi correspondido com uma paixão avassaladora. O chão pareceu sumir
sob seus pés e ambos sentiram como se uma rajada de ar quente os tirasse do chão e os
fizesse flutuar e ferver ao mesmo tempo. Quando o fôlego precisava ser retomado, e só aí,
eles se afastaram, respirando com dificuldade, corados, pupilas dilatadas e corações
disparados. Andor estava tão surpreso quanto Nike, mas a reação dela foi mais... Intensa.
Alguns segundos se passaram antes que Nike desse um tapa sonoro no rosto do rei que
deixou a marca de seus dedos na bochecha dele.
- Nunca mais me toque, rei patético! NUNCA! – Nike gritou, o empurrou e saiu o mais
rápido que suas pernas permitiam com aquela bengala idiota.
Andor ficou lá, parado, sem saber o que pensar, como agir, o que era aquilo tudo...
Como aquela garota ridícula ousava bater nele? A raiva, no entanto, foi logo substituída por
uma certeza que lhe fez sorrir feito idiota.
- Ela correspondeu. – Andor disse sorrindo, ainda passando a mão pela bochecha
estapeada. Nike podia ser pequena e nada musculosa, mas seu tapa não era brincadeira.

~o~
- Isso não é verdade... Mas... Se for... – Klaoz disse com o semblante inexpressivo, mas
o olhar fulminante. Ele estava no canto distante do jardim onde ficavam as laranjeiras,
destruindo uma das flores da árvore para descontar a raiva que fervia em seu interior.
- Temo que seja. Isso será um problema para nossos planos. – O espião disse.
- Não será. Ela nunca aceitaria ele. Você mesmo disse que ela deu um belo tapa
naquela cara horrorosa. – Klaoz disse.
- Sim, mas pela cara dele... Não sei... Não acho que ele vá desistir.
O n i e r | 111

- Fique atento. Mas não interfira. Logo minha mulher estará de volta. Eu sei que ela
virá me procurar. – Klaoz disse com tanta certeza que, ou ele era louco de pedra pra achar
que a mulher que ele estuprou desde criança o amava mesmo, ou ele tinha um plano.... Ou
as duas coisas.
- Não se preocupe. Também é do meu interesse que essa relação louca não aconteça.
Seria prejudicial para nós dois. – O espião disse e Klaoz acenou com a cabeça confirmando.
– E a garota?
- Sob controle. Os dons dela estão fortes o bastante para prosseguirmos.
- Isso significa...
- Significa que é hora da próxima fase do plano. – Klaoz completou e entregou um
pequeno baú para o espião. – Mantenha isto com você. Quando a hora chegar...
- Entendo. Aguardarei o sinal. O próximo ataque será amanhã, durante a madrugada
no local assinalado aqui. – O espião entregou um mapa com um x marcado em vermelho.
- Perfeito. Seguiremos o plano. – Klaoz guardou o mapa e olhou com maior interesse
para o espião. – E Álnaz?
- Cada vez mais talentosa e bonita. Quanto ao talento oculto não se preocupe que
ainda não foi descoberto.
- Muito bem. Precisa de mais poções para manter o talento oculto?
- Não. O estoque está muito bom ainda. – O espião disse e pensou um pouco antes de
continuar. – O trabalho de Nike pode nos atrapalhar. Ela tem trabalhado muito e mais
sigilosamente do que o habitual. Temo que ela possa ter descoberto algo que ajude o rei
Andor.
- Não consegue ter acesso? – Klaoz perguntou.
- Não sem levantar suspeitas. Andor está mais atento do que nunca agora que ele tem
certeza que há um espião em sua Corte.
- Vou pensar em algo. Agora vá antes que notem sua ausência.
O espião se retirou sumindo nas sombras do jardim.
- Pai? – A voz de Lena surgiu ao longe.
- Aqui, minha criança. – Klaoz respondeu andando em direção à voz da filha. Quando a
viu se aproximando ele deu um suspiro de prazer. Não conseguia evitar o orgulho quando
via a filha tão linda. Mas seu rosto logo se transformou em uma carranca. – Que decote é
esse, Ziélena.
Não era um decote enorme. Mas era um decote e, por mais que fosse normal para a
moda sapiens usar roupas curtas e decotadas, Klaoz sempre reclamava quando a filha usava
um decote. Ela ficava assombrosamente parecida com a mãe e isso o perturbava.
- Pai... Não começa. É só uma peça de roupa normal.
- Não. É uma peça de roupa pra adultos. Você é minha menininha ainda.
O n i e r | 112

- Pai eu cresci, sabia? Que saco!


- Olha como fala comigo, garota teimosa. – Klaoz disse.
- Olha eu só vim perguntar se o senhor queria companhia aqui, mas não dá pra ficar
com o senhor. É impossível! – Lena disse já se virando.
- Com esse decote devasso é impossível mesmo. Vá se vestir como uma moça decente!
– Klaoz perdeu a paciência. Até nisso Lena era parecida com Nike. Ambas podiam tirar ele
do sério com uma facilidade assustadora.
Lena saiu irritada, foi até o quarto, pegou outra roupa mais curta e muito mais
decotada, um decote em ‘v’ chegando até o umbigo, e saiu para o escritório onde o
governador Miror estava trabalhando sozinho em algumas tarefas designadas pelo rei.
Miror andava de um lado da mesa para outro, repleta de pergaminhos e OFR’s, lendo as
anotações e planos de batalha. A enorme janela de madeira vermelha que ia do chão até o
teto estava aberta quando Lena entrou e a fechou atrás dela. Miror se virou e tropeçou
quase caindo ao ver Lena vestida daquele jeito. Ela andou até ele com um sorriso arteiro e
um rebolado que o fez supirar. Quando ela chegou perto dele, ambos não precisavam de
palavras. Ele a puxou grudando seus corpos, a beijou e, sem afastar seus lábios, a colocou
em cima da mesa jogando os pergaminhos no chão, ela colocou suas pernas ao redor da
cintura dele. O perigo de serem descobertos ali só aumentou a paixão entre eles. O sexo foi
rápido e intenso, ali mesmo, em cima da mesa de Klaoz, entre os planos de guerra, em
plena luz do dia e tudo parecia tão certo, tão bom que poderiam repetir isso por horas.
Infelizmente, era quase hora do almoço e ambos tinham que comparecer à mesa com o rei.
Miror chegou primeiro na mesa e Lena veio alguns minutos depois para não levantar
suspeitas da relação entre eles. Mas Klaoz não escondeu a raiva quando Lena entrou com
aquela roupa tão parecida com as roupas de Nike, aquele decote imenso. A raiva nos olhos
dele causaram um sorriso triunfante em Lena. Ela se sentou graciosamente e suspirou
sentindo o cheiro do pato assado com laranja que ela adorava.
- Você não vai usar isso! – Klaoz disse furiosamente. – Vá se trocar agora.
- Porque? Não estou usando nada que qualquer mulher não use. – Lena disse com um
sorriso, provocando.
- Não me teste, Ziélena. Vá. Agora. – Klaoz disse se levantando.
Lena levantou também com o queixo erguido e aquele olhar orgulhoso. Ela parecia
tanto com Nike...
- Eu não vou me trocar. Eu sou dona de mim mesma. Aceite ou sofra em silêncio. –
Lena disse.
Klaoz se aproximou dela com passos lentos e contidos, o olhar furioso. – Vá vestir uma
roupa decente antes que eu perca a paciência.
O n i e r | 113

- Minha irmã usava roupas assim e você não a considerava uma vadia indecente. Ou
ela era indecente e você gostava de ver os peitos dela? – Lena perguntou só para irritar,
mas não sabia o quanto tinha chegado perto da verdade.
Klaoz não pensou, apenas deu um tapa no rosto de Lena que ecoou pela sala. – Lave
sua boca antes de falar da minha Nike. – Ele disse entredentes.
- Majestade, se me permite, acompanharei sua filha até os aposentos dela e
aguardarei do lado de fora. Ela não sairá se não estiver vestida como o senhor aprova. –
Miror disse querendo dar um fim aquilo antes que Klaoz fosse longe demais.
O rei acenou e Miror saiu com Lena que deu um último olhar de puro ódio para Klaoz
antes de sair.
Klaoz voltou para seu lugar, com a mão nas têmporas suspirando. Lena precisava de
uma lição sobre quem mandava ali. E logo, antes que ela colocasse seus planos à perder.
O n i e r | 114

Liberdades
- Quanto tempo? – Klaoz perguntou com sua habitual face inexpressiva.
- Não muito, senhor. Ziélena está quase pronta para usar seus dons com maestria. –
Esvion disse com um semblante preocupado.
- Mas...
- Não é um “mas”, exatamente. Estou apenas intrigado. Ela sempre foi dedicada,
nunca negaria isso. Mas o caminho para alcançar a maestria em seus dons era longo ainda.
No entanto, nas últimas três semanas ela alcançou um nível de evolução absurdo.
- E você está curioso sobre a razão desse empenho maior e consequente evolução. –
Klaoz completou o pensamento. – Confesso que isso também me intriga. Estou pensando
em uma forma de descobrir o que aconteceu.
- Ela poderia, de alguma forma, ter descoberto sobre o senhor e aquela pessoa? –
Envis perguntou.
- Não. Conheço minhas filhas. Lena é intempestiva demais, não ficaria quieta se
descobrisse. Por isso criei aquele plano para explicar tudo quando minha mulher voltar para
o lugar dela ao meu lado. – Klaoz disse seguro. Com uma mão no braço do trono
tamborilando os dedos e a outra apoiando o queixo, um brilho sutil passou por seus olhos
quando uma ideia simples lhe ocorreu. – Seyrus.
Seyrus, parado logo atrás de Klaoz deu um passo à frente, parando ao lado do trono
com aquele semblante aéreo e selvagem de sempre.
- Traga Lena até mim. Agora. Não desvie o caminho e não fale nada com ninguém. Se
ela perguntar, dê as respostas de sempre.
Seyrus se curvou e saiu como um boneco manipulado por mãos invisíveis. Klaoz
explicou rapidamente sua ideia para o mago chefe e, minutos depois, Lena entrou com
Seyrus a seguindo silenciosamente.
- Eu estava ocupada. – Lena disse sem se preocupar em reverenciar o pai. Ela ainda
estava zangada pela briga naquela manhã sobre ela andar sem uma escolta.
- Pensei sobre o que você disse hoje cedo, minha filha. – Klaoz disse com um tom
compreensivo que deixou Lena desconfiada. – E você tem razão.
Ok. Agora a desconfiança de Lena alcançou o nível máximo. Ela abriu a boca para dizer
algo, mas Klaoz ergueu uma mão para ela se calar.
- Você não é indefesa e muito menos covarde. Por isso, deixarei que você saia sem
uma escolta, desde que você informe onde está indo, quando volta e que não vá muito
longe do palácio. – Klaoz disse. – Claro que você não é tola e sabe que estamos em guerra e
eu não posso lhe dar mais liberdade do que isso por enquanto.
O n i e r | 115

- Eu... Bem... Obrigada. Eu acho... – Lena estava com os olhos tão arregalados em
surpresa que era um milagre eles não terem saltado das órbitas.
- Hoje, como estamos à beira de mais um ataque àquele povinho, quero que você seja
acompanhada por seu irmão. Amanhã já poderá sair sozinha. – Klaoz disse e Lena estava
tão surpresa e feliz que nem discutiu. Só fez uma reverência e saiu com Seyrus depois de
um monte de recomendações do pai.
- Vou enviá-la agora. – Esvion disse e, com uma reverência, saiu da sala do trono.
Quase deu de cara com o governador Miror. – Entre. O rei aguarda suas informações.
Miror cumprimentou com o tradicional beijo na mão do mago e entrou.
Klaoz parecia de bom humor no trono. Apesar de que era difícil dizer com aquele rosto
sempre inexpressivo como uma parede lisa. Mas, pelo menos, ele não estava fervilhando
de raiva depois de falar com a Lena como acontecia com frequência. Lena às vezes parece
odiar ele e sempre o enfrenta publicamente... Uma filha sentir essa raiva pelo pai... Pobre
coitado... Esse homem deve ter cometido um crime terrível em outra vida pra merecer um
castigo como esse... Miror pensou enquanto fazia sua reverência na frente do trono de
Klaoz.

~o~

- Então você quer namorar com a pequena Álnaz? – Andor perguntou calmo, mas com
um olhar que, por sorte, não soltava raios, caso contrário, Gareth estaria mortíssimo.
- Si... Sim, senhor...majestade...senhor... – Gareth disse segurando a mão de Álnaz,
ambos de pé em frente ao trono.
Nike estava ao lado de Andor já que ela era a mãe, mas isso deixou Andor com a
sensação de que ela era sua rainha e, por mais que fosse errado dado o passado deles, isso
parecia muito bom. Invis estava em pé do outro lado do trono em sua posição habitual de
conselheiro. Ele não parecia surpres, muito menos Nike. Ambos se entreolharam e se
contiveram para não rir do óbvio ciúme paterno de Andor.
- Não. – Andor respondeu em bom tom.
- Mas... – Álnaz começou.
- Eu já disse que não. – Andor disse sério. – Você ainda é muito criança. Gareth é mais
velho, o que é bom de acordo com nossa tradição, mas você ainda é uma menina.
- Tecnicamente, pela tradição sapiens, ano que vem Álnaz terá 16 anos e, portanto, já
será adulta. – Nike disse dando um olhar cúmplice para a filha.
- Pela tradição sneipas faltam 3 anos para ela ser adulta. Álnaz é muito menina ainda.
– Andor disse irritado, o vermelho de sua pele se intensificando.
O n i e r | 116

- Pai, eu não sou criança. Sempre fui muito madura, responsável e o senhor não pode
negar isso. – Álnaz disse, soltando a mão de Gareth e dando um passo à frente com aquela
postura digna de uma rainha.
- Não sou seu pai, Álnaz...
- E – Álnaz, como sempre, ignorou a vã tentativa do rei em não admitir ser seu pai – o
senhor não pode decidir sobre minha vida pessoal. Sou livre para decidir quem e quando
amar. Gareth, como um lorde que é, achou que era certo vir lhe pedir a bênção para nossa
relação. Concordo com ele. Eu te amo como meu pai e o respeito como tal. Mas não
confunda meu desejo de ter sua bênção com um pedido de permissão. Nos dando sua
bênção, ficarei imensamente feliz. Mas não será uma condição para que eu e meu
namorado fiquemos juntos. Então, meu querido e amado pai, o senhor ficará feliz por mim
e me dará sua bênção ou vai preferir ficar de fora desse momento na minha vida?
Andor não sabia se sentia raiva pela audácia de Álnaz ou orgulho pela mesma coisa.
Ele ficou lá sentado encarando Álnaz sem saber o que dizer. Gareth era um bom rapaz que
mais de uma vez protegera a menina com sua própria vida. Ambos tinham uma união
invejável. Ele não tinha nada contra o rapaz. Mas pensar na sua menina, aquela garota
sensível que até outro dia brincava com borboletas usando uma fralda e o nariz remelento,
sendo tocada por um rapaz... Era difícil aceitar.
- Majestade... – Invis chamou. – Posso garantir que os sentimentos de meu filho por
Álnaz são sinceros.
- Pai. – Gareth chamou. – Perdoe-me, mas prefiro eu mesmo falar por mim.
Majestade, o senhor me conhece desde que eu usava fraldas, conhece minha lealdade e
carinho por Álnaz. Sei que não é esse o problema. Sei que o senhor como pa... – Gareth se
conteve. Andor só não brigava quando Álnaz o chamava de pai, mas quando outra pessoa
fazia isso ele ficava furioso. - ...como tutor dela, desde que ela era um bebê meigo, tem
dificuldades em aceitar que ela não pe mais uma criança. Eu entendo. Mas posso garantir
que eu a tratarei sempre como a mulher mais preciosa – Gareth olhou para Álnaz, agora ao
seu lado, com carinho – a única mulher que importa nesse universo.
- Andor... – Nike disse com uma voz compreensiva.
- Ela nunca nem namorou. Nunca nem teve paqueras... – Andor murmurou baixo para
que só Nike ouvisse.
- Que melhor forma de começar do que com um amigo tão leal? – Ela disse com um
sorriso gentil que desarmou o rei.
- Muito bem. Mas vamos impor alguns limites. – Andor disse se endireitando no trono.
– Namoro só nas horas de folga dos estudos e trabalhos. Nada de namoricos no escuro
longe de todos. Passeios só até às 18 horas.
O n i e r | 117

- 22 horas. – Nike disse para Andor com seu tom mais gentil e, ao mesmo tempo,
mandão.
- Ta. 22 horas. Nem um minuto a mais. – Andor disse. – E, Gareth.
- Sim senhor?
- Cuidado com essas mãos bobas em cima da minha filha. – O rei disse com um olhar
mortal. Percebendo sua gafe, se corrigiu: - Protegida.
Álnaz sorriu e, num impulso involuntário, beijou Gareth com todo o amor que ambos
sentiam. Nike tinha um sorriso enorme no rosto, Invis já estava fungando pra conter as
lágrimas, mas Andor já estava emburrado de novo.
- Certo, certo. Já chega. Vai roubar o ar dos pulmões dela. – Andor disse.
Álnaz se afastou de Gareth, ambos sorrindo meio sem jeito. No segundo seguinte,
Álnaz já estava correndo e pulando para um abraço no rei. Ainda bem que os ossos dele
não eram frágeis ou o teriam virado cacos com a força do abraço da menina.
- Te amo, papai. – Ela disse, dando um beijo no rosto dele.
- Ta, ta.
Ela deu um abraço e um beijo no rosto da mãe, ambas combinando de se encontrar
mais tarde no quarto de Nike, e depois saiu com Gareth para comemorar. Andor chegou a
abrir a boca para proibir a saída, mas o olhar de Nike o deteve. No momento seguinte o
olhar dele vagou para os lábios dela e, pelo rubor intenso em seu rosto, ela lembrara do
mesmo que ele. Ela pigarreou e mudou bruscamente de assunto chamando ambos para o
teste da arma criada por ela dias antes. Desde o dia do beijo, Nike evitava o rei a todo custo
e sempre que se encontravam ela tratava de ser mais fria e fechada com ele do que o
habitual. Andor, por outro lado, estava decidido a conquistá-la. Ele não era burro para não
perceber que o que sentia por ela era precioso demais para ignorar. Invis percebera a
mudança. Fala sério, também ne. Era impossível não perceber o olhar de Andor para Nike, a
paixão praticamente escrita na testa dele e as evasivas dela. Mas o conselheiro não queria
interferir na vida pessoal do rei sem uma boa razão ou o pedido do próprio. Nike era
admirada pela inteligência e a alegria de viver mesmo depois das tragédias que vivera. O
jeito comunicativo, gentil, sensual e elegante dela estavam conquistando o povo de Rígel
com uma velocidade assustadora. Invis ficava dividido. Por um lado, Nike era uma jovem
bonita, esforçada, alegre, forte, gentil, tinha o porte natural de uma rainha e não dera
nenhuma razão para desconfiar dela. Por outro, ela fora uma inimiga considerável,
poderosa, cheia de segredos, e já usara essa simpatia para matar o rei Betel no passado. Ela
era astuta e uma sapiens... Invis era um dos muitos que ainda tinham um pé atrás com ela.
- Fortaleci a ligação mágica com a arma e a lorpat. Assim, cada arma só pode ser
ativada pela lorpat de seu dono. – Nike terminara de explicar as modificações.
O n i e r | 118

- O gasto de energia ast-raal ainda é alto com a utilização dessa arma? – Andor
perguntou.
- Sim. Não descobri uma forma de amenizar esse problema ainda. Então sugiro que a
usem apenas como último recurso. – Ela respondeu.
- Qual o tempo de recuperação da energia ast-raal? – Invis perguntou.
- De seis a sete horas. – Nike disse e o alarme soou.
- Outro ataque? Tão cedo? – A ajudante de Nike comentou.
- Onde? – Andor ligou o comunicador e perguntou.
- Na sede médica na fronteira ao Sul da capital. – A voz do outro lado disse.
Andor se virou para sair junto com Invis. Parou e se voltou para Nike: - Não esqueci do
que me pediu.
Nike apenas assentiu e observou Andor sair com seu conselheiro.

~o~
- Quem diria... Pensei que estava com medo de me enfrentar. – Andor disse com um
sorriso maligno no rosto.
- Sentindo saudades de apanhar, reizinho de quinta categoria? – Klaoz disse com o
rosto inexpressivo. Fazia meses desde que ele se envolvera em uma batalha em que Andor
também estava. Eles sempre se desencontravam nesses ataques que, muitas vezes, eram
realizados em dois ou três pontos diferentes da fronteira ao mesmo tempo.
- Talvez eu devesse tirar sua liberdade ao invés de matá-lo... Alguma preferência de
corrente para ser preso? – Andor provocou.
Klaoz usava agora uma arma criada por Nike no primeiro ano de guerra. Uma espécie
de faca maior, com a lâmina mais larga, chamada facão. Por ser ambidestro, Klaoz
aproveitava essa vantagem usando dois facões ao mesmo tempo com a habilidade de
alguém que crescera lutando. Andor ainda usava sua espada de sempre, uma lâmina longa,
afiada de ferro brilhante e dois gumes. Ele usava a espada na mão direita e lançava seus
golpes mágicos, raios brancos, as vezes com bordas vermelhas quando a raiva era grande
demais. A desvantagem nisso é que Klaoz era um mago experiente e um dos mais
poderosos de seu povo. Portanto, usar magia e prever os ataques mágicos de outro era
brincadeira de criança pra ele.
Invis, como conselheiro e comandante do rei, nunca estava muito longe. Ele usava um
arco com detalhes azuis e flechas de pura energia branco-azulada. As flechas surgiam de
sua própria energia espiritual e sua experiência e treino constante o ensinaram a manter o
equilíbrio de sua própria energia, para não se cansar rápido demais com aquele gasto. As
pontas de seu arco eram afiadas como navalhas e, sempre que possível, ela as usava para
ferir o inimigo com um golpe único. Seu olhar, de tempos em tempos, buscava o rei, seu
O n i e r | 119

foco então sempre estava dividido entre a própria batalha e a do rei, sempre pronto para
defendê-lo caso houvesse necessidade. Quando Andor finalmente alcançou Klaoz e a luta
entre os dois começou, quase como se Klaoz quisesse enfrentar o rei de Rígel, Invis ficou
mais alerta e tentava se aproximar aos poucos.
Klaoz percebeu o padrão de ataque de Andor naquela noite e ele sabia que havia algo
diferente. Andor era um guerreiro hábil e prático, evitava levar emoção para seus ataques.
Era raro seus golpes mágicos ficarem avermelhados por isso mesmo. Mas, quanto mais o
atacava, mais Klaoz percebia que a raiva do inimigo estava fugindo ao controle dele. A
suspeita estava confirmada. Um raio de Andor foi em direção ao rosto de Klaoz, mas ele já
previa esse ataque e o desviou com um escudo de pura energia transparente.
- Algum problema, reizinho? Se sentindo... não sei... rejeitado, talvez? – Klaoz jogou a a
isca.
Ele sabe? Como? Andor se perguntou. – Porque? Você está? Você nunca conseguiu
lidar bem com a rejeição, não é.. – Andor provocou, em meio à dois golpes de espadas e
dois mágicos, seguidos um do outro, rapidamente.
Klaoz se defendeu, mas precisou dar três passos largos para trás no processo.
- Eu? Não. Sempre fui desejado. E muito. – Klaoz respondeu, agora sua raiva é que
aumentara com a imagem mental de Andor tocando no que era dele.
- Engraçado... – Andor disse e deu um golpe mágico que passou pela lateral do rosto
de Klaoz sem o atingir. - ...Nunca vi alguém ter mais nojo de outro ser vivo do que uma
pessoa que conheço tem de você. De mim, por outro lado... – Ele deu um sorriso sugestivo
e Klaoz perdeu a calma.
- Ela me adora, seu fracote de cara vermelha! Nossas filhas são a prova do quanto ela
me deu e com que frequência. – Klaoz disse e deu um golpe com o facão direito na
barrigada de Andor, mas ele deu um pulo para trás e o golpe apenas fez um corte
horizontal superficial em sua barriga.
Andor deu outro golpe mágico avermelhado que passou de novo pela lateral do rosto
de Klaoz, sem o atingir. – Ela te adora? Você é maluco ou o que? A mulher que você
precisou manter presa e torturada te ama? AHAHAHAHA! Você é digno de pena, Klaoz. Pelo
menos eu não precisei forçar ela à nada e ela adorou meus lábios nos dela, seu babaca
maluco!
- SEU... EU VOU MATAR VOCÊ! – Klaoz partiu para cima de Andor, mas um outro
ataque mágico do rei de Rígel passou de novo pela lateral de seu rosto. Se Klaoz não tivesse
deixado a raiva o dominar, talvez ele tivesse prestado mais atenção. – NUNCA MAIS VOCÊ
VAI TOCAR NA MINHA MULHER! Você não consegue nem acertar um golpe simples, idiota!
- E quem disse que o golpe era em você? – Andor disse com um sorriso presunçoso.
O n i e r | 120

O crack que se seguiu chamou a atenção de Klaoz. Ele olhou para cima apenas a tempo
de desviar um pouco do caminho dos galhos pesados que caíram da árvore que ele nem
percebera o quão próxima estava. Os galhos pesados caíram em cima das pernas de Klaoz o
prendendo no chão. Andor se aproximou, puxou uma arma estranha, com um cano
apontando para ele. Não. Não para Klaoz, mas para o cabo de cobre do facão esquerdo, a
pouca distância dele. Um zumbido sutil ecoou vindo da boca de Andor. A lorpat dele estava
reagindo à algo. Não. Ativando algo. O cano da arma respondeu com um zumbido
semelhante ao da joia da alma do rei de Rígel, uma luz branca avermelhada, como uma bola
de energia pura, surgiu dentro do cano da arma e cresceu, cresceu, até ficar do tamanho de
um punho. Klaoz não sabia que arma era aquela, nunca tinha visto nada do tipo, mas sabia
que ele precisava desviar daquilo ou morreria. Antes que ele usasse seu trunfo, Andor
apontou sorriu.
- Nike manda lembranças e desejos de que você sofra muito antes que eu te mate. –
Ele puxou o gatilho no punho da arma e a bola de energia acertou o cabo do facão. O cabo
desapareceu e o líquido oculto dentro dele evaporou.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARG!!!! – Klaoz gritou de ódio e, tarde demais, Andor
notou que o galho apenas o paralisara um pouco pelo choque da queda, mas não o atingira.
Klaoz havia criado intuitivamente um escudo ao redor de suas pernas, oculto embaixo dos
galhos. Ele pulou em cima de Andor, sem arma nenhuma, usando apenas socos e chutes.
Era quase como lutar com o descontrolado e selvagem Seyrus. Andor teve dificuldades para
se defender, surpreso com o descontrole de Klaoz que dava socos e mais socos, sem
realmente pensar em uma estratégia de luta. Andor desviou de cada golpe com um sorriso
cada vez maior, o que, por sua vez, só aumentou a raiva de Klaoz. Andor estava cansado
pela energia gastar com a arma e não seria sábio atacar com energia o outro homem.
Também nem precisou. Invis apareceu com um golpe derrubando Klaoz, soldados sapiens
surgiram defendendo seu rei, e, para evitar que Andor caísse de esgotamento, o
conselheiro o levou embora. Os sapiens, já em retirada, fugindo da defesa implacável dos
sneipas, não demoraram para carregar seu rei para longe.

~o~
- Não. – Nike murmurou correndo para Invis que amparava Andor por um braço.
O rei tinha um corte horizontal na roupa, na altura do umbigo, um fio horizontal de
sangue descendo.
- Está... feito. Espero ... que você ... tenha ... razão. – Andor disse.
- Invis leve-o para o quarto, já estou chamando o setor médico. Os outros feridos leve
para serem tratados. – Nike já estava tomando providências, embora não fosse seu
trabalho, visivelmente preocupada com Andor.
O n i e r | 121

- Foi apenas um corte superficial. – Invis disse. – Ele está esgotado pelo uso da arma.
- Prefiro que os médicos vejam ele. – Nike disse enquanto Invis o levava, quase
carregado agora, para seu quarto.
O ferimento não fora grave mesmo, apenas o esgotamento derrubou o rei na cama
em um sono profundo. Nike não saiu de seu lado a noite inteira. Álnaz apareceu quase de
manhã e ambas conversaram sobre o estado dele e sobre o namoro com Gareth, as duas
trocando confidências mais como amigas do que como mãe e filha.
- Eu me sinto completa e, ao mesmo tempo, livre, com ele, mãe. – Álnaz disse
sonhadora, sentada em uma poltrona perto da cama do rei, com Nike em outra ao lado.
- Fico feliz, querida. Eu me senti assim também naquele dia que ele... - Nike cortou o
pensamento perigoso.
- Você já se sentiu assim?
- Sim. Duas vezes. Eu tive um namorado, era um namoro escondido dos meus pais, e
ele me fazia sentir completa e livre, ao mesmo tempo. E então Klaoz armou para ele ser
preso e executado por traição. - Nike lembrou com tristeza.
- E quem foi o outro? – Álnaz perguntou, torcendo pela resposta.
- Hmrm... – Andor se mexeu na cama.
As duas se levantaram e correram para a cabeceira da cama. Andor estava sem
camisa, apenas com uma calça folgada, coberto até a cintura por um lençol fino, uma faixa
branca ao redor da barriga. Nike, instintivamente, pegou a mão dele e, com a outra mão,
sentiu a temperatura em sua testa. Andor abriu os olhos, a visão embaçada logo clareando
para ver as duas figuras mais belas e amadas em sua vida. Nike tinha olheiras e um
semblante cansado, Álnaz parecia mais descansada, mas a preocupação era notória.
- Como se sente, pai? – Álnaz perguntou.
- Não me chame de pai, Álnaz. Não sou seu pai. – Ele respondeu, tentando se sentar.
Nike o empurrou gentil, mas com firmeza de volta para a cama.
- Ele está ótimo. Irritante e arrogante como sempre. – Nike disse, só então percebendo
que ainda segurava a mão dele. Ela puxou a mão e saiu dizendo que ia informar à Invis que
o rei acordara.
- Vocês formam um casal incrivelmente bonitinho. – Álnaz disse sorrindo.
Andor olhou para ela, surpreso. – O que? Não. Não diga bobagens. Ela e eu... nunca...
- Pai. Eu não sou burra. E o senhor não é muito sutil sobre sua paixão. Não se
preocupe. O senhor tem a minha bênção. – Ela disse e Andor rezou mentalmente para que
alguém entrasse no quarto para o tirar daquela situação embaraçosa.
O n i e r | 122

Controle emocional
- Quanto tempo ela ficou lá? – Andor perguntou, tentando (e falhando) parecer
desinteressado.
- A noite toda, senhor. – Invis respondeu com seu olhar perspicaz e discreto no rei que
estava analisando uma pilha de documentos para assinar. – Além disso, organizou o
tratamento de todos os feridos, cuidou das providências no palácio guiando os trabalhos
domésticos e deu até algumas ideias interessantes para a economia do palácio.
Andor não disfarçou o olhar de surpresa. – Ela está no laboratório trabalhando na
melhoria do portal. Envie uma mensagem para ela. Hoje ela deve almoçar comigo.
- Devo avisar à princesa Álnaz também? – Invis perguntou já que Andor e Nike só se
reunião quando Álnaz estava junto.
- Não. Álnaz vai sair com Gareth hoje. Ela me avisou ontem. – O rei disse voltando seu
foco para os documentos.
Invis não queria pensar no que estava pensando. Não seria prudente o rei se envolver
com uma ex-inimiga tão astuta e poderosa. Mas não disse nada. Poderia ser só uma atração
passageira. Tinha que ser. – Sim, majestade. – Invis disse apenas. Saiu, chamou um guarda e
o enviou para entregar a mensagem para Nike.

~o~
Debruçada em sua mesa, Nike usava um vestido curto, um palmo acima dos joelhos,
de tecido leve, verde escuro, com um decote em ‘v’ na frente até um pouco abaixo dos
seios, as costas nuas com um ‘x’ formado pela parte traseira das alças do vestido. Seus
talentos mágicos tinham força por causa dos bloqueios parciais feitos pelo guarda
especialista, todo dia pela manhã. Ela estava frustrada com o progresso, ou, nesse caso, a
falta dele em seu trabalho. Por mais que tentasse criar a melhoria desejada por Andor,
nada dava certo. O máximo que conseguira foi tornar o portal mais largo, mas nada sobre
fazer ele funcionar bem durante as temporadas de tempestade mais fortes na fronteira. Ela
havia dispensado a auxiliar, uma sneipas alta de olhos amarelos muito claros, pelo dia para
visitar a família. Estava quase se arrependendo disso. A assistente pelo menos a distraía um
pouco de sua frustração com sua conversa leve e amistosa.
- Droga! – Nike jogou a pedra branca que funcionava como um amplificador das
energias da máquina. O diamante pequeno atingiu a parede e caiu com um som abafado
pelo tapete azulado. – Diamante imbecil!
- Com...licença. – O guarda apareceu na porta, meio sem graça por interromper seja lá
o que fosse que Nike estava fazendo.
O n i e r | 123

- Oh... Raru... – Nike reconheceu um dos guardas do palácio. Ela nunca esquecia o
nome de ninguém, não importava qual a classe social ou o cargo. Era uma das coisas que
atraíam a simpatia de muitos sneipas, afinal, sapiens faziam justamente o oposto, sempre
preconceituosos sobre classes sociais. Ela passou a mão pelos cachos largos. – Entre, por
favor.
- Vim apenas trazer uma mensagem do rei. – Raru disse. – O rei mandou avisar que a
senhora deve almoçar com ele hoje.
Isso deixou Nike ainda mais irritada. – Ele o que? – Nike disse entredentes. – Ele acha
que eu devo almoçar com ele? Pois diga ao rei que eu não devo coisa nenhuma! Ele não é
meu dono e eu prefiro almoçar sozinha.
- Senhora, eu acho que... – Raru não queria dar uma mensagem assim para o rei. Ele
ficaria furioso e poderia mandar Nike para a prisão. Ela era gentil com ele, então achou que
deveria alertá-la do perigo.
- Raru você não tem que achar nada. Dê o recado ao seu rei metido à dono de todas as
pessoas e se ele não gostar ele que venha dizer na minha cara! – No fundo ela sabia que
isso não era uma atitude sábia, mas ela estava frustrada, irritada consigo mesma por ter
cedido ao beijo dele semanas antes, irritada com ele por achar que ele podia mandar nela...
Ela não ia voltar atrás e, se ele não gostasse, melhor ainda. Assim ele não ia mais tentar
beijá-la.
O guarda fez uma reverência e, com expressão preocupada, saiu. Andor saíra com uma
desculpa qualquer para ir vê-la, não conseguindo mais ficar afastado dela. Nike parecia um
imã sempre o atraindo. Ficar longe dela parecia sufocante. Mas Nike estava distante, fria,
nem mesmo o afrontando como antes. E isso só estava aumentando a vontade dele em
estar perto dela. No caminho ele encontrou o mensageiro. O guarda tinha a expressão séria
de sempre, mas havia preocupação em seus olhos. Quando o guarda, sem graça, deu a
mensagem de Nike, Andor quase gargalhou na cara do guarda. Ela estava mesmo
desesperada para fingir que não o desejava. Ele dispensou o guarda e seguiu para o
laboratório dela.
A porta estava entreaberta, Nike estava andando como um animal enjaulado, de um
lado para o outro, braços cruzados e uma expressão irritada no rosto.
Como alguém consegue ficar tão linda com essa carinha de brava? Andor se perguntou
com um sorriso no rosto. Ele podia sentir o turbilhão de sentimentos vindos delas. Raiva,
frustração, desejo... Ele fechou a porta silenciosamente, se encostou nela e Nike nem
mesmo percebeu de tão perdida que estava em seus pensamentos.
- Então eu devo vir dizer na sua cara se não gostar de sua mensagem? – Andor
perguntou com os braços cruzados.
O n i e r | 124

Nike quase deu um pulo com o susto. Ela se recompôs rapidamente, ergueu o queixo
naquele ar de desafio que era sua marca, mas a onda de desejo reprimido não passou
desapercebido pelo rei nem mesmo quando ela falou irritada: - Quem você pensa que é pra
vir me dar ordens para almoçar com você?!
- Caso não se lembre, menina orgulhosa, eu sou o rei aqui. E não ordenei que você
viesse almoçar comigo. Eu a convidei. Foi apenas uma escolha desleixada de palavras. – Ele
respondeu pacientemente, um sorriso no rosto sentindo o quanto ela estava lutando
contra o próprio desejo por ele.
- AH...SIM...O rei. Você é o REI, não meu dono! E eu prefiro morrer de fome à sentar à
mesa com você! Álnaz me avisou que ia sair com o namoradinho dela, então sei que ela não
vai estar lá. Eu só aturo você por ela. Agora sai do MEU ambiente de trabalho que aqui
quem manda sou eu! – Nike disse e estava brigando consigo mesma também por pensar no
quanto ele era irritantemente bonito com aquele sorriso idiota no rosto, e aqueles braços,
e aqueles olhos... Ela virou de costas fingindo pegar mais materiais de trabalho na
prateleira de madeira negra, apenas para não ficar olhando aquele rei idiota.
Andor se aproximou dela silenciosamente como um gato, parou a poucos centímetros
do corpo dela sem a tocar, inclinou a cabeça até engostar no ouvido dela e o aroma único
dela o atingiu junto com os sentimentos de atração reprimida por ele feito um soco. – Você
precisa parar de me afrontar desse jeito. Eu não posso punir você por isso e, assim, as
pessoas vão perceber que nos amamos. Só casais se enfrentam assim.
Nike respirou fundo de olhos fechados, seu corpo inteiro arrepiado. – Não amo você,
rei idiota. Eu odeio você.
- Nike, minha menina teimosa e genial, você esquece que eu posso captar tudo que
você sente?
Nike ficou assustada. Ela tinha esquecido a famosa empatia do rei. – Vo..você está
só...se iludindo porque é isso que você gostaria que eu sentisse. – O coração dela já estava
quase pulando pela garganta, suas pernas ficaram moles, seu corpo inteiro se arrepiava a
cada palavra sussurrada por ele, e ela podia jurar que podia sentir ainda os lábios dele
sobre os dela mesmo semanas depois daquele beijo.
- É mesmo? – Andor perguntou com um sorriso maior ainda.
Ela se virou encarando ele com seu ar mais altivo possível. – É. É mesmo.
- Então porque você está tão excitada se eu nem te toquei? – Ele perguntou e Nike
ficou quase tão vermelha quanto à pele do rei. Antes que ela pudesse responder, ele se
afastou e ela sentiu um toque de saudade pela proximidade dele. Ele captou isso, mas
conteve-se. – Agora, porque você não me conta o que a está atrapalhando neste trabalho?
Ela se forçou a não xingar ele e respondeu, fria e com o mínimo de palavras possíveis.
Explicou os problemas com o projeto, as ideias descartadas, as possíveis tentativas futuras,
O n i e r | 125

etc. Andor ouviu tudo com atenção, se divertindo intimamente com a vontade de tocá-lo
que ela estava tentando conter. Quando ela terminou seu relatório, ele deu algumas ideias
e depois saiu para suas próprias tarefas sem insistir no convite de novo. Por um lado ela
ficou decepcionada, mas, por outro... Não. Não havia ‘outro’. Ela não queria admitir, mas
estava mesmo triste por ele não ter insistido.
- Talvez, se ele implorasse mais, eu poderia pensar em aceitar... Tanto faz! Eu não
queria mesmo. Sneipas são covardes mesmo. - Ela disse à si mesma. A manhã passou
devagar demais, como se o próprio tempo a estivesse torturando. Era hora do almoço e ela
já estava pronta para sair e pegar qualquer lanchinho. Estava sem fome, mas sabia que o
trabalho com energia exigia cuidados com o corpo físico. Guardou seus materiais de
trabalho, soltou os cachos que estavam presos desleixadamente com um lápis, e a porta se
abriu.
Raru entrou carregando uma bandeja repleta de tanta comida que ela não sabia como
ele estava aguentando carregar aquilo tudo. O guarda tinha uma expressão confusa no
rosto muito mal disfarçada. Ele colocou a bandeja em cima de outra mesa na sala usada
para leitura e, nas horas vagas, para colocar alimentos.
- Raru, o que... – Nike começou, mas parou, seu coração rebelde batendo com
violência e pressa no peito.
Andor entrara, usando uma capa sem mangas ao redor de sua roupa cor de vinho
ricamente decorada com pequenas estrelas prateadas, a camisa aberta até o peito forte do
rei, um forte aroma de sândalo invadindo o ar, o óleo corporal de pós-banho ainda
formando gotículas nos braços expostos, a cabeça sem cabelo nenhum mais brilhante que o
comum no cotidiano.
- Obrigado, Raru. Pode se retirar. – Ele disse e o guarda saiu. O rei fechou a porta e
começou a organizar os pratos, copos e talheres na mesa. – Temos pato assado com molho
de laranja, suco de frutas vermelhas, vinho, arroz cozido daquele jeito estranho que você
explicou para a pobre cozinheira, geleia de maracujá com folhas de hortelã, pãezinhos
salgados, e...
- O que é isso tudo? – Nike perguntou confusa, seus olhos teimosos seguindo as gotas
de água que escorriam pelo peito parcialmente exposto. Ela quase babou.
- Nosso almoço, claro. – Andor respondeu. – Eu disse que iríamos almoçar juntos. A
menos que você seja ingrata o bastante para rejeitar esse menu delicioso que a cozinheira
fez especialmente para você.
Nike era tudo, menos ingrata. Era um defeito que ela odiava. Ela se aproximou e
sentou na cadeira oposta ao rei. Ela não ia chegar perto dele, não ia tocar naquele peitoral,
não importava o quão tentador fosse. Eles almoçaram em silêncio, mas um silêncio
estranhamente confortável. Embora, às vezes, Nike ficasse tensa tendando conter os
O n i e r | 126

desejos que a faziam sentir a boca encher de água, e não era pela comida. Andor, por outro
lado, estava se divertindo com essas emoções captadas. Ele próprio estava louco para
colocar as mãos em Nike, naqueles cabelos que adorava, sentir aquela pele que adorava, os
lábios que adorava... Mas ele não queria também forçar nada. Nike já tinha um histórico
sexual pesado com Klaoz. Ele não queria trazer más lembranças. Ambos estavam
saboreando a sombresa, quando Andor sem querer deixou um pouco de geleia cair de seu
pãozinho. A geleia caiu em seu tórax parcialmente exposto e começou a descer. Nike
acompanhou o caminho formado com interesse. O rei limpou com o dedo e colocou na
boca para não desperdiçar. Nike engasgou e começou a tossir descontroladamente. Andor
se levantou preocupado e deu leves tapinhas nas costas dela.
- Calma. Respira. – Ele dizia preocupado.
A mão de Andor em suas costas expostas acenderam mais ainda o fogo que ardia
dentro dela. Aquele perfume de sândalo misturado com o cheiro natural dele eram
torturantes. Ela parou de tossir e respirou fundo algumas vezes.
- Melhor? – Ele perguntou debruçado perto dela, um pouco de geleia ainda em seu
lábio inferior.
Foi demais. Quando ela levantou os olhos para ele nem percebeu o que fazia. Apenas
colocou seus braços ao redor do pescoço dele, o puxou e beijou como se ela não pudesse
viver sem isso. O gosto do maracujá misturado com o sabor do vinho. Andor não fez o
menor esforço para afastá-la. Pelo contrário. Ele colocou as mãos na curva entre as nádegas
e a coxa, as pernas dela ao seu redor, a saia de seu vestido subiu, ele a ergueu, colocou ela
sentada na mesa, sem nunca afastar seus lábios. Ela gemeu e prendeu as pernas ao redor
do rei, uma de suas mãos desceu para o tórax dele, raspando as unhas levemente o fazendo
gemer o nome dela. Quando ela sentiu o gosto metálico da lorpat na língua dele, ambos
tremeram um nos braços do outro, aprofundando mais o beijo. A lorpat não deu o choque
nela, o sistema de segurança natural da joia não funcionou. Só então Andor percebeu que
confiava nela, que ela era a mulher da vida dele, pois esse era o único motivo para uma
lorpat não dar violentos choques em quem a tocasse, exceto o dono. Mas esse
conhecimento não preocupou a nenhum dos dois. Seus corpos já haviam decidido se
entregar um ao outro e nada mais importava. Por enquanto. O conhecimento só aumentou
a excitação. Com uma de suas mãos firme na cintura dela, colocou a outra por dentro de
seu decote fazendo o vestido exibir seus seios médios e firmes. Ela se contorceu quando ele
beijou seu pescoço e desceu a mão para o fecho da calça dele.
- Diga que você me deseja... – Andor murmurou coma voz rouca.
- Andor...por favor... – Nem ela sabia bem o que estava pedindo, a mente já confusa
pelo desejo.
- Diga...
O n i e r | 127

- Eu o desejo. Quero ser sua. – Ela disse o que nunca pensou que diria a alguém em sua
vida. Foi nesse momento que ela percebeu que não sentia só desejo por ele. De alguma
forma, nessa confusão toda entre os povos, ou antes mesmo da guerra, eles se amavam.
As palavras depois disso não eram mais necessárias, apenas seu gemidos excitados e a
sensação dos movimentos rítmicos de seus corpos juntos como um só.

~o~
O Sol mal tinha se erguido no horizonte e Esvion e Seyrus estavam no quarto de Klaoz
em uma reunião secreta.
- Aqui, senhor. – Esvion entregou a poção.
- Bom. Meu estoque estava acabando mesmo. Graças àquele... – Klaoz murmurou. –
Seyrus!
Seyrus deu um passo à frente.
- Leve isso com você e beba quando a hora do jantar chegar. – Klaoz entregou a poção
ao filho. – Agora vá. Seu exército não vai se treinar sozinho.
Seyrus pegou a poção, colocou ao redor do pescoço na corrente que sempre usava, se
curvou e saiu. Na noite do confronto entre Klaoz e Andor, a poção que mantinha Seyrus
idiotizado e o sapiens carregava no compartimento oculto no cabo de seu facão para
qualquer emergência, fora destruída. Não era a única, mas era onde ele mantinha boa
parte do estoque porque não confiava em deixar essa coisa livre por aí. Seyrus precisava
tomar um reforço da poção uma vez por dia, mas não era preciso vigiá-lo. Ele era um
escravo sem cérebro que fazia tudo que seu mestre ordenasse. Ele não tinha vontade ou
raciocínio para tentar qualquer coisa. O ataque de Andor à essa poção significava duas
coisas: Nike contara ao rei de Rígel sobre isso e estava tentando irritá-lo. Mas Klaoz tinha
um plano para trazer sua mulher de volta e, quando isso acontecesse, ele acertaria as
coisas com sua adorada Nike.
O bom humor de Lena ajudara a acalmar a raiva controlada de Klaoz. Desde que ele
dera mais liberdade à filha ela estava menos irritável. Até tinha uma amiga agora. A jovem
Sila, uma moça um pouco mais velha que Lena, prima de Envis. As duas só andavam juntas
agora... Mas não era coincidência. Esvion abriu a porta e Sila entrou no quarto do rei. O
mago olhou para fora para ter certeza que ninguém a vira e fechou a porta. Ela fez uma
reverência profunda.
- Lena vai sair hoje com você de novo? – Klaoz perguntou, o coração ainda apertado,
dolorido pela raiva. Toda noite agora ele tinha o mesmo pesadelo: Nike no colo de Andor,
nua, sorrindo e o beijando apaixonadamente. Ele sempre acordava irritado agora. Mesmo
com seu controle fantástico de suas emoções, estava muito difícil evitar a raiva crescente.
O n i e r | 128

- Sim, majestade. Vamos até à fronteira da cidade, perto da floresta. Ela disse que
deseja ver o lugar porque o senhor não permite. Não puder negar o pedido dela para não
levantar suspeitas. – Sila disse.
- Fez bem. Vá. Isso será mais uma prova de lealdade para ela. Hoje você irá informar
diretamente à Envis esta noite. Não deixe nenhum detalhe de fora. E quanto ao que mandei
você descobrir? – Klaoz disse.
- Ela ainda não confia em mim o suficiente para contar seus segredos. Mas ela irá
confiar. Quando acontecer, e estou trabalhando nisso, eu descobrirei o que a está
motivando nos treinos. Mas, uma coisa posso garantir. Ela está escondendo algo sério. –
Sila disse. – Ela fica muito na defensiva em alguns momentos.
- Entendo. Mantenha o bom trabalho e continuarei pagando muito bem à você. –
Klaoz disse e, involuntariamente, olhou para Envis que, ele sabia, tinha uma relação sexual
secreta com a prima mais jovem. Ele dispensou os dois e ambos saíram. Lena só se
levantaria dali a algumas horas, então o mago e a prima aproveitaram para se encontrar
secretamente no quarto dele.
Miror estava saindo do quarto de Lena sorrateiramente quando Seyrus o viu. O jovem
governador não viu o filho do rei e seguiu para seu quarto. Seyrus continuou seu caminho
com aquele jeito meio retardado e perigoso para seu trabalho. Ele não esboçou nenhum
sentimento sobre o que vira, mas, se Klaoz perguntasse especificamente à ele se Miror e
Lena tinham relações íntimas ele não negaria, nem poderia. O romance estaria condenado?
Os dias passaram e uma mensagem secreta chegou para o rei. Ninguém soube do que
se tratava, mas devia ser uma afronta grave porque Klaoz estava espumando de raiva.
Naquela tarde o ataque à uma vila simples de agricultores sneipas foi ordenado. Desta vez,
não seria guerra. Seria um massacre.

~o~
Nike e Andor estavam a alguns dias fugindo para o quarto um do outro no meio da
noite, ou dando outras ‘funções’ à suas reuniões de trabalho que, estranhamente, nunca
aconteciam quando a assistente de Nike estava no laboratório. Álnaz, perspicaz como
sempre, entendeu de cara os sorrisos disfarçados, os olhares trocados, até mesmo o tom de
vermelho na pele de Andor mais fraco. Mas respeitou o desejo do casal em manter sua
relação em segredo. O que não a impedia de piscar ou jogar indiretas para os dois quando
não havia mais ninguém com eles.
Uma noite a mensagem chegou e o tom de vermelho da pele de Andor se insensificou
perigosamente.
- O que houve? – Nike perguntou, preocupada.
O n i e r | 129

- Mataram toda a vila dos agricultores do Leste. – Andor disse. – Nem mesmo deram
chance de defesa!
- Como isso é possível? – Álnaz disse.
- Um veneno foi lançado no ar e, quando eles tentaram fugir, procurar por socorro, ou
mesmo ativar os alarmes, uma criatura humanoide de pele negra como piche os atacou.
Parece que...
- O que? – Álnaz perguntou.
- Melhor você ir para o seu quarto. – Ele disse, não querendo que a menina ouvisse
essa barbárie.
- Pai eu não sou criança. Fale de uma vez.
- Andor... – Nike disse.
- Droga. – Ele reclamou. – A criatura os fez se auto destruírem. Ela... Fez coisas, uma
ilusão talvez, com o próprio corpo e eles fizeram o mesmo com seus próprios corpos, sem
defesa, sem controle de si mesmos. Muitos arrancaram e comeram os próprios olhos,
orelhas, dedos, enfiaram facas nas próprias gargantas e cortaram.
Álnaz colocou a mão na boca, o estômago se revirando.
- Deuses... – Nike murmurou e uma dúvida surgiu. – Quais os sintomas de quem
morreu pelo veneno?
- Parada cardíaca e respiratória, problemas musculares... Porque?
- Sarin. É um veneno que Esvion e eu criamos antes da guerra. Mas decidimos não usar
porque era muito perigoso inclusive para quem o lançasse. Não tem como o atacante não
infectar a si mesmo. Eu destruí todo o estoque de sarin anos antes da guerra começar e
queimei a receita por medo do que Klaoz faria se descobrisse.
- O tal mago deve ter recriado o veneno. – Álnaz disse.
- Provavelmente. O que me intriga é essa criatura. Nunca ouvi falar de nada assim.
Nike...? – Andor perguntou.
- Eu também não. Nem imagino como criar um ser assim.
- Vou até a vila. Não sei... De repente encontro alguma pista de algo. – Andor disse se
contendo para bloquear a tempestade de sentimentos das duas mulheres à sua frente. –
Nike, quero que você...
- Vou tentar descobrir como algo assim pode ter sido criado. – Ela disse, completando
o pensamento dele. Ele sorriu para ela e Álnaz inventou uma desculpa qualquer para sair.
Nike o abraçou por trás. Não disse nada. Ela nem saberia o que dizer. Apenas ficou ali,
torcendo para que isso desse algum conforto à ele pela perda de tantas vidas. Ele retribuiu
o abraço e ficou assim com ela por um tempo, sentindo o coração dela bater contra seu
peito. Isso tinha um efeito calmante incrível. Eu amo tanto essa mulher... Andor pensou
antes de dar um beijo nela, sem se preocupar se tinha alguém por perto.
O n i e r | 130

Descobertas
- E você acha que ela é confiável? – Miror perguntou, acariciando os cabelos
cacheados de Lena.
- Acho sim. Ela viu que eu estava bebendo e quando o rei perguntou no jantar se eu
tinha feito algo errado e prometeu dar uma joia pra ela, ela mentiu na cara dele. – Lena
lembrou.
- É, mas ela pode ir contar pra ele depois.
- Miror, amorzinho, isso faz uma semana. Se ela quisesse contar, ela já teria contado.
Além do mais, não é a primeira vez que ela tem essa chance. Eu também contei algumas
coisas pra ela, pra ver se ela contava, mas ela não disse uma palavra a ninguém. Nós
precisamos de ajuda pra manter nossa relação oculta. O mago anda mais atento à mim
ultimamente e agora que tenho missões de verdade, nem sempre poderemos ficar juntos
aqui.
- Eu sei. Só quero ter certeza de que não estamos nos enfiando na boca do lobo. –
Miror disse.
- Amanhã vou falar com Sila e, com ajuda dela, poderemos sair juntos de tarde. Não
quero mais ter que esperar semanas pra gente ficar junto, sem poder nem mandar uma
mensagem para você.
- Eu também não. Amanhã eu vou com você. Não vou deixar você resolver isso sozinha
com sua amiga. – Miror disse decidido.
Por fim ficou acertado que ela encontraria Sila no mirante no telhado do palácio e
esperaria a chegada dele para ambos contarem tudo e pedirem ajuda da amiga. No dia
seguinte, Sila recebeu uma mensagem de Lena para tomarem café juntas no mirante que
costumavam se encontrar pra conversar. Sila arrumou os cabelos loiros em uma trança
lateral simples e saiu. Ela sempre chegava mais cedo nos encontros para evitar irritar a filha
do rei, afinal ela precisava que a menina a adorasse para assim descobrir qualquer coisa
que pudesse ser do interesse do rei. Sila esperava sentada na cadeira em frente à mesa
cheia de guloseimas, com dois servos aguardando para servir as duas. Lena caminhava sem
presa pelo corredor, subindo alguns degraus. O arco no fim da pequena esquena que dava
para o telhado estava a poucos passos. Ela levantou a mão pronta para chamar a atenção
de Sila, quando uma mão firme tampou sua boca e um braço a puxou pela cintura para um
canto fora da visão de qualquer um.
- Shhhh! Quieta. Se der um pio seu romance estará condenado. – Uma voz masculina
forte disse em seu ouvido.
O n i e r | 131

~o~
- Talvez seja melhor contar logo para todos. – Andor disse, de pé, recostado na mesa
de Nike.
- Não sei... Meu histórico com seu povo não é muito... positivo. – Nike disse,
trabalhando na melhoria do portal que ela nunca conseguia realizar. Andor estava decidido
a revelar e oficializar a relação deles. Nike queria isso, mas a culpa pela morte de Betel
ainda a corroía e ela não se sentia digna de tanta felicidade.
- Nike, já conversamos sobre isso. O povo não é irracional e todos viram tudo que você
tem feito por nós. Seu comportamento com todas as classes, as armas e melhorias que
você nos deu, seu trabalho incansável para descobrir como ampliar o poder do portal, o
fato de você nunca ter fugido, sem falar em toda a história sobre o motivo de você ter feito
o que fez no passado... Tudo isso depõe a seu favor. Olhe pra mim, querida.
Nike largou o trabalho e, ainda sentada, olhou para Andor. O tom vermelho da pele
dele estava bem menos intenso nos últimos tempos. Visivelmente menos intenso desde
aquele primeiro beijo.
- Exatamente. – Andor disse com um sorriso como se estivesse ouvindo o que Nike
estava pensando. Isso não surpreendia mais a nenhum dos dois. Eles sempre pareciam
saber o que o outro estava pensando só de olhar um para o outro. – Você me traz paz,
minha linda e teimosa Nike. É por isso que eu preciso de você ao meu lado por muito,
muito tempo.
- Eu não sou contra essa ideia da lorpat, já te falei isso. Só não sei se devo usar essa
joia depois do que eu fiz... – Nike disse e desviou o olhar, a lembrança da morte do rei, do
pai dela, ainda dóia.
Andor se ajoelhou na frente da cadeira dela e, segurando seu queixo, a fez olhar para
ele. – Betel era como um pai pra mim e eu sei que ele tinha um coração bondoso, justo e
nobre. Ele nunca iria condenar você pelo que fez, não sabendo o que aconteceu para te
levar até aquele ato. Não estou dizendo que foi certo ou que isso não vai doer. Isso vai
sempre doer, sempre vai te assombrar. Tudo o que você pode fazer é seguir em frente da
melhor forma possível e tentar compensar de alguma forma. Mas se martirizar por isso não
é o caminho e você sabe disso. Nós nos amamos e ambos merecemos uma chance de ser
felizes. Tenho certeza que seu pai, o verdadeiro pai que tanto te amava antes mesmo de
saber dessa ligação genética, iria querer nos ver felizes e juntos.
- Vamos fazer assim. Primeiro contamos para todos como você quer e depois vamos
vendo o que fazer com calma, certo? – Nike disse.
Andor respondeu puxando Nike para um beijo apaixonado, tamanha era sua
felicidade. O anúncio ficou acertado para aquela noite. Mas seria feito apenas para Álnaz,
O n i e r | 132

Invis e Gareth, inicialmente. O povo só seria informado no fim de semana, depois dos dias
de luto oficial decretado pela vila de agricultores exterminada de forma tão cruel dias
antes. Seria bom para o povo ter algo para comemorar, uma esperança no futuro.
- Vou te deixar trabalhar. – Andor disse e começou a sair, de repenten voltou e puxou
Nike para outro beijo, a pegando de surpresa.
- Você precisa ir trabalhar, lembra? – Nike disse sorrindo e sem fôlego.
- Droga... Não quero mais ser rei. Quero ficar aqui com você.
- Não seja bobo. – Nike disse e praticamente o empurrou para fora. – Vai logo.
- Já vou, já vou. – Ele segurou no batente da porta. – Só mais um beijinho. Por favor?
Nike deu um beijo rápido e praticamente o empurrou porta a fora.
- Te amo! – Andor gritou do lado de fora da porta.
- Vai trabalhar, Andor! – Nike disse rindo e voltou ao trabalho.
Na mesa ela espalhou algumas lorpat recuperadas na vila de agricultores
exterminadas. Ela estava tentando descobrir algum resquício de magia que pudesse dar
mais detalhes sobre a criatura que os atacara. Colocando um fragmento de seu próprio
poder dentro de uma das joias para ativá-la, ela observou as reações do objeto que emitia
apenas uma energia negra e densa em resposta, como um reflexo do último sentimento de
seu dono: horror. Nada surpreendente, mas ela precisava continuar. Então resolveu ativar
todas ao mesmo tempo e usar uma energia mais pura, sem envolver os próprios
sentimentos na energia enviada. Isso devia fazer com que outra energia fosse mostrada, a
última energia vista pelo dono da joia, e não a última coisa sentida. Mas Nike esquecera de
um detalhe. Do outro lado da mesa longa estava o fragmento do ativador do portal.
Quando as lorpat foram ativadas ao mesmo tempo, a essa distância do ativador do portal,
um pequeno portal se abriu com tamanha força como se fosse um portal grande e
completo. Nike praticamente pulou da cadeira. O portal não era como os outros. Ele era um
vórtice negro com uma sensação horrível emanando dele. Mais parecia um monstro
devorando tudo, com aquele som baixo e forte como a garganta de uma fera. As lorpat
ativadas se elevaram no ar e estavam paradas ali flutuando de um lado da mesa enquanto o
portal com seu vortex negro girava do outro lado, elevado no ar e com espaço e força até
começar a sugar a própria Nike para dentro. A cadeira onde ela estava momentos antes foi
sugada violentamente pro portal e desapareceu, os objetos na mesa seguiram o mesmo
caminho. Ela estava se segurando na mesa com toda sua força, seu corpo elavado no ar,
sendo puxado por aquele verdadeiro monstro em forma de portal. Então ela percebeu em
pânico que a própria mesa estava sugada. Num golpe de instinto ela retirou toda a energia
que lançara nas lorpat que ainda flutuavam e o portal enfraqueceu, até se fechar
totalmente. O ativador caiu no chão com um som metálico ao mesmo tempo que as lorpat.
O n i e r | 133

Deuses... Isso... Isso não pode... Eu não posso... Não posso contar isso... Nike caiu no
chão, inconsciente, fraca e cansada demais do esforço que fizera.
Ela acordou na cama do rei, com Andor a olhando assustado e Álnaz e Invis pouco
atrás.
- Meu amor, o que aconteceu? – Andor perguntou assombrado.
Nike olhou para Andor e para a filha atrás dele. Só então ele percebera que a chamara
de “meu amor” na frente dos dois, e, olhou para Álnaz preocupado.
- O que? Vocês acham que surpreendem alguém? Até um cego vê que vocês estão
namorando. Foco no problema, pai. – Álnaz disse impaciente.
- Mas.. Bem... – Andor gaguejou surpreso.
- Então... é que... – Nike foi pelo mesmo caminho.
- Com todo respeito, senhora, majestade, mas vocês não são muito sutis. – Invis
comentou. – Agora, senhora, se puder nos dizer o que aconteceu para seu laboratório ficar
naquele estado caótico e a deixar esgotada desse jeito...
- Eu... Foi um pequeno acidente com as lorpat. Coloquei energia demais e houve um
pequeno pulso magnético. – Nike disse a primeira coisa que veio à mente.
- Mas nem cadeira tinha mais e até os objetos da mesa sumiram... – Álnaz comentou.
- Eu afastei tudo e coloquei no depósito atrás da sala. Queria mais espaço pra
trabalhar.
- Esse é um erro bastante comum... Em jovens aprendizes. – Invis disse.
- Eu estava distraída, confesso. – Ela respondeu e era verdade. Fora sua distração pelos
planos de Andor que a fizera esquecer no que estava trabalhando momentos antes.
Andor passou a mão pela nuca, meio nervoso.
– Entendo. – Invis disse captando o nervosismo do rei. – Álnaz, me ajuda a resolver os
detalhes do jantar?
- Claro. – Álnaz deu um beijo no rosto da mãe e um no de Andor. – Comportem-se viu
e cuida dela direito, pai.
- Álnaz, já disse que não sou seu pai.
- E eu não dou a mínima pra sua opinião sobre isso, paizinho lindo do meu coração. –
Ela disse e saiu com o conselheiro.
- Garota teimosa e irritante. – Ele murmurou quando ela saiu.
- Ei. – Nike disse com voz cansada e doce, batento a mão ao lado dela na cama. – Deita
aqui um pouco?
Ele não precisava ouvir o convite duas vezes. Ele deitou e colocou a cabeça dela em
seu peito, acariciando seus cabelos. Uma onda de tristeza o invadiu, mas não vinha dele.
Vinha de Nike. Pior. Ela estava chorando tanto que começara a soluçar.
O n i e r | 134

- Amor, o que foi? – Ele perguntou preocupado que, de alguma forma, pudesse ter
machucado ela, a tocado de alguma forma que a fizesse se lembrar de Klaoz. Isso sempre o
preocupava.
- Eu... Eu... Eu não sei... Só... Me...me deu uma saudade... dela... – Nike respondeu
tentando entender o que estava sentindo. Às vezes ela não conseguia evitar uma onda de
tristeza, de saudades pela filha morta.
Sem saber muito o que fazer, Andor a puxou de volta em seu abraço e ficou ali
torcendo pra que isso desse força para a mulher que amava. Nike nunca o culpara pela
morte da filha dela, muito pelo contrário, ela sempre garantia que a culpa não era dele e
que ela era grata por ele ter salvo sua vida. Mas ele sempre se sentira culpado pelo fim
precoce daquela criança que nem mesmo um nome tivera a chance de receber da mãe.

~o~
- O que você... Deuses! – Lena ficou surpresa ao perceber quem falava com ela com
tanta... atitude.
- Eu sei, eu sei. Não tenho tempo para explicar agora.
- Como assim não tem tempo? O que está acontecendo, irmão? – Lena perguntou
confusa.
- Irmão... Ai, ai... – Seyrus disse meio triste. – Olha, depois conversamos direito. Não
posso colocar em risco meu disfarce. Há muito em jogo aqui. Mas não posso deixar você
cometer esse erro enorme. Não confie em Sila. Klaoz mandou ela espionar você para
descobrir o que você está escondendo e te manter na linha.
- Mas, ela...
- Me escute, Lena. Eu sei do seu romance e não dou a mínima pra quem você leva ou
não pra cama. Isso é problema seu. Mas se quer manter em segredo, não conte pra ela. Ela
vai sair correndo e contar pro rei ou pro amante dela, aquele mago corrupto.
- O que? O mago e Sila? Mas eles são parentes...
- Acredite, isso nunca foi empecilho nesse mundo maluco. Eu não tenho porque me
arriscar a ser descoberto e vir mentir para você.
- Eu sei. Acredito em você. – Lena disse, seguindo sua intuição. - Essa não... Miror está
vindo nos encontrar pra contar tudo e pedir a ajuda dela.
- Escreva uma mensagem pra ele mandando ele não vir e eu entrego. Rápido!
Lena fez o que era pedido e entregou um pequeno bilhete para Seyrus. – Porque está
me ajudando?
- Porque você é minha so... irmã e eu sei o quanto é ruim crescer sob a vigilância de
Klaoz.
- Não sei como agradecer.
O n i e r | 135

- Sabe sim. – Seyrus respondeu com um olhar que dizia mais do que mil palavras.
- Não se preocupe. Ele nunca vai saber que você não é um retardado. – Lena sorriu
grata e seguiu para encontrar Sila. Ela cumprimentou a ‘amiga’ com toda a sua simpatia: –
Sila! Eu queria tanto ver você hoje.
- Lena, amiga! Você está linda como sempre. – Sila abraçou Lena, controlando sua
revirada de olho durante o abraço.
- Você também. Vamos. Sente-se aí. Vamos comer que estou faminta, querida amiga.
– Lena disse. Vaca mentirosa traidora! Você vai pagar caro por essa sua cara de falsa!
Seyrus encontrou Miror já a caminho do mirante e entregou disfarçadamente o bilhete
de Lena. Miror leu o bilhete e mudou o rumo do caminho sutilmente.
Seyrus sabe o que tinha escrito aqui ou só obedeceu cegamente como sempre? Quanto
tempo vai demorar para mais alguém descobrir? Miror pensou.
O n i e r | 136

O preço do sangue inimigo


- Casar com aquele gigante pelado?! NUNCA! Eu prefiro vê-la morta! – Klaoz perdeu a
compostura. Seyrus sorriu de orelha a orelha, ouvindo a conversa escondido como uma
sombra atrás de uma porta atrás do trono que servia de passagem secreta para o caso de
uma fuga.
- Eu sei que parece ruim... – O espião de Klaoz começou.
- Ruim? RUIM? Parece PÉSSIMO! EU VOU MATAR AQUELE AVERMELHADO DO
INFERNO, BEBER SEU SANGUE E TRAZER MINHA MULHER DE VOLTA!
- ...Mas... – O espião continuou – Nem tudo está perdido. As coisas não foram muito
bem aceitas pela população. Claro. A maioria vai seguir o que Andor disser sem pensar duas
vezes e muitos sneipas adoram Nike, mas um grupo não gostou da ideia. Tentaram
conversar, se opor mesmo ao casamento, mas Andor foi inflexível. Aparentemente esse
grupo aceitou a ideia por simples respeito à autoridade do rei.
- Mas se uma pequena semente de ódio existe, regá-la produzirá uma floresta. – Klaoz
se acalmou um pouco, um plano se formando em sua mente. – Vamos usar isso a nosso
favor. Um pouco de astúcia e esse casamento não acontecerá.
- Sim, mas creio que o senhor deva manter seu ataque. Do contrário Andor pode
desconfiar quando perceber que a notícia chegou até o senhor, afinal não é mais nenhum
segredo, e mesmo assim o senhor não atacou. – O mago Esvion comentou, em pé ao lado
do trono.
- Sim. Claro, claro. – Klaoz coçou o queixo com a barba já esbranquiçada. – E, quem
sabe, num golpe de sorte, consigo trazê-la nesse ataque... Esvion, levaremos Lena de novo.
Seyrus deve ficar para rechaçar qualquer tentativa de ataque ao meu reino. Não confio
nesses sneipas de merda. – Klaoz se voltou de novo para o espião. - Quanto à você, é hora
de colocar o plano Álnaz em prática.
Seyrus ficou tenso. Ele não sabia quais eram os planos de Klaoz para as filhas, nem
mesmo quais poderes secretos ambas possuíam, mas sabia que, fosse o que fosse, seriam
usadas agora. Ele tinha que tirar Lena de Omoh antes que fosse tarde demais. Era hora de
fugir do domínio de Klaoz e encontrar sua irmã.

~o~
- Mãe... O que significa isto? – Álnaz perguntou, saindo do depósito com as lorpat
manchadas de negro nas mãos.
Nike entrou no laboratório assustada com a presença da filha. Ela tinha certeza que
havia trancado o laboratório... Como Álnaz entrara? E porque?
O n i e r | 137

- O que está fazendo aqui? Pensei que você iria pra sua aula hoje. – Nike disse,
tentando soar casual e ganhar tempo para pensar.
- Não mude de assunto, mãe. A senhora está estranha, tensa e, ao contrário do papai,
não acho que seja só pela discussão do casamento. A senhora dispensou sua ajudante, não
deixa mais ninguém entrar aqui, além de meu pai e desconfio que até ele a senhora
proibiria de entrar aqui se pudesse. Seus móveis sumiram desde aquele dia e não me venha
com essa desculpa de que colocou eles no depósito porque acabei de vir de lá e não tem
nada. Nada, exceto uma caixa de utensílios com um fundo falso onde achei estas lorpat
escuras como a noite. – Álnaz disse. – Mãe, pode confiar em mim. O que está acontecendo?
- Eu prefiro não envolver você nisso, Álnaz. É algo que só eu tenho que resolver. – Nike
disse mexendo em sua mesa aleatoriamente, apenas para não ter que encarar a filha.
- Porque? Não confia em mim?
- Não é isso, querida. Só que tem coisas que só eu posso resolver e outras que não
devem ser nem mesmo pensadas...
- Como assim? Mãe, a senhora não está fazendo sentido... Olha, - Álnaz colocou uma
mão no ombro de Nike e sentiu o quanto ela estava tremendo. Isso só a preocupou mais
ainda. – seja lá o que for, tenho certeza que podemos achar um meio de resolver. As lorpat
deram algum problema técnico e a senhora está com vergonha de contar pro papai? – Ela
disse, lembrando do lendário orgulho sapiens.
- Não, Álnaz.
- Então a senhora explodiu algo? O portal não tem como melhorar? É isso? Ou... – Uma
ideia surgiu como um pequeno raio na mente de Álnaz - ...Você descobriu como fazer a
melhoria que o papai quer?
- Não, Álnaz! Não é nada disso! Pare de procurar chifre em marimbondo e vá cuidar da
sua vida! – Nike perdeu a calma só de imaginar a possibilidade da filha descobrir o que ela
estava escondendo com tanta preocupação nos últimos dias. Nike imaginou que ser
grosseira deixaria a menina tão chateada que ela sairia do laboratório sem fazer mais
perguntas, se distrairia da questão. Mas o tiro saiu pela culatra.
- Deuses... – Álnaz sussurrou – é isso... A senhora descobriu uma melhoria e deve ter
sido uma enorme!
- O que? Não...
- Grande o bastante para nos dar uma vantagem insuperável na guerra, pela sua cara.
Mas eu não entendo... Porque não contou isso pro pai? – Álnaz não queria acreditar que a
mãe estava do lado dos sapiens, embora ambas fossem meio sneipas e meio sapiens.
- Álnaz, por tudo que você mais ama, não comente isso com seu pai. – Nike entrou em
pânico. Se Andor descobrisse essa melhoria catastrófica... – Prometa, Álnaz!
O n i e r | 138

- Porque? – Álnaz ficou tensa. Ela não ia trair seu povo, o único povo que ela
reconhecia como dela. – Se isso pode nos fazer vencer a guerra...
- Porque isso não seria uma guerra. Seria um massacre! Nossos povos se odeiam cada
vez mais e não duvido que Andor usaria essa arma contra os sapiens assim que descobrisse
sua existência. Deuses! Ele iria adorar! Mas nem todos os sapiens são irrecuperáveis. Isso,
esse ódio mútuo tem que acabar...
- Sim. Vai acabar quando destruirmos eles.
- Não, meu amor. Você não entende...
- Tem razão. Não entendo. Então explica, por favor, por que eu não sei quanto tempo
posso controlar minha vontade de te entregar por traição.
- Não estou traindo ninguém. Estou tentando poupar vidas. Sapiens e sneipas. Porque,
não tenha dúvidas querida, essa melhoria no portal mataria ambos os povos, talvez até o
mundo todo. Eu não posso arriscar. Eu sei que a paz não poderia ser facilmente alcançada
entre os povos, mas você e eu somos a prova de que a coexistência é possível. Só
precisamos de tempo e dedicação de ambas as partes. Mas o problema aqui é maior que
isso. O que eu descobri, filha, poderia destruir tudo em seu caminho. É por isso que preferi
me calar. Essa coisa não pode ser descoberta por nenhum dos lados porque, no dia em que
fosse usado, tenha certeza de que o mundo inteiro pagaria um preço alto demais para ser
mensurado.
- Tem certeza que não está apenas tentando proteger o povo que a senhora chamou
de “meu povo” a vida toda? – Álnaz perguntou cada vez mais desconfiada.
Nike percebeu que não havia escolha. Ela tinha que contar tudo para que a menina
entendesse o real perigo do portal ‘melhorado’. Ela contou detalhadamente tudo que
acontecera naquele dia e suas pesquisas sobre as consequências do uso do portal em
tamanho real, completo e com um exército de sneipas e suas lorpat alimentando o portal.
Álnaz ouviu atentamente com um semblante que variou do choque ao horror e de volta ao
choque.
- Eu entendo... Mas não sei se é uma boa ideia esconder isso do papai. Afinal, vocês
vão se casar...
- Álnaz se eu tivesse uma pequena parcela de dúvida de que ele não usaria essa coisa
como arma, uma pequenina que fosse, eu contaria. Mas você sabe o quanto Andor, assim
como qualquer sneipas que se preze, é implacável nas guerras. Eles matam até mesmo
crianças e idosos, mesmo que eles não lutem, apenas para exterminar toda a espécie.
- Sim, mas é um mal necessário para a sobrevivência do nosso povo, até do mundo já
que sapiens são tão destrutivos...
- Querida, eu cresci entre sapiens, nós vivemos a guerra em todos os níveis, somos
competitivos até a alma, e sabe o que eu aprendi com tanta guerra?
O n i e r | 139

- O que?
- Todo mundo acha que seus motivos pra lutar justificam qualquer atrocidade, todos
sempre vemos o inimigo como um ser completamente ruim que precisa ser exterminado.
Você acha que os sapiens não pensam a mesma coisa dos sneipas? Não se iluda, filha.
Qualquer lado que tivesse a chance de destruir o outro completamente, não hesitaria em
fazê-lo. Pelo menos, não no atual estado em que as coisas estão. A grande questão na
guerra é quanto sangue você está disposta a ter nas mãos quando ela acabar. E eu não sei
se consigo ter tanto sangue nas mãos... Não de um povo inteiro...

Álnaz olhou para a mãe com compreensão. - Pelo menos sonde o papai. É tudo que peço. Se
mesmo assim a senhora perceber que não há a mínima chance dele deixar o uso dessa
coisa de lado, então eu não insistirei mais e a ajudarei a guardar esse segredo.

- Combinado. – Nike deu um abraço que Álnaz demorou para corresponder, ainda
abalada com a descoberta. Quando os braços de Álnaz finalmente cercaram o corpo da
mãe, o alarme estridente soou pela cidade toda. Gritos ecoaram do lado de fora. As duas se
entreolharam assustadas. A capital de Rígel estava sob ataque.

~o~
- Lena... – Seyrus chamou, entrando no quarto da menina quase correndo, apenas
para dar de cara com o quarto vazio. – Merda! Onde ela se meteu?
Ele ouviu passos quase silenciosos se aproximando pelo corredor e ficou parado com
sua costumeira cara de “sou um boneco sem cérebro e alma” que aprendera a imitar desde
que, a semanas, estava livre do veneno de Klaoz depois de horas vomitando terrivelmente.
Quando o homem de cabelos negros entrou, Seyrus manteve a postura como se não o
notasse ali.
- Pare com isso. Sei que você está fingindo. – Miror disse.
- Lena contou...
- Sim, ela contou. Não escondemos nada um do outro. Também não sou burro. Vi o
lapso de inteligência em seus olhos aquele dia e...
Seyrus fechou a porta. – Não interessa. Temos que encontrar Lena. Ela não pode ir
com Klaoz. Preciso contar uma coisa pra ela e levá-la para a mãe.
- Ela saiu com o rei... Espera. Mãe? A mãe dela morreu a anos.
- Não. Não morreu. A mãe dela é minha irmã, Nike. – Seyrus disse pegando algumas
mudas de roupa de Lena e colocando rapidamente em uma bolsa.
- O que? Você ficou louco de vez? O pai dela é o rei.
- Sim. O pai dela é meu pai. E Nike é a mãe.
O n i e r | 140

- .... – Miror encarou Seyrus em choque, torcendo para o soldado começar a rir e dizer
que era uma piada. Mas Seyrus continuou focado em sua tarefa, sério. – Não... Espera...
Mas... Nike... Ela é filha dele.
- Isso nunca impediu meu pai de abusar dela desde a infância. Infelizmente, descobri
tarde demais... – Seyrus disse com um nó na garganta. Ele enxugou uma lágrima teimosa e
se voltou para Miror. – O quanto você ama minha sobrinha?
- Mais que minha própria vida. – Miror disse sem pestanejar.
- Então me ajude a evitar que Klaoz use ela para alguma coisa terrível e irremediável.
Eu conheço aquele monstro e, por mais que ele pareça gostar de Lena, ela é só um objeto
pra ele. Quando ele tiver Nike nas mãos de novo, ele vai usar ela e Álnaz para prender
minha irmã aqui... Ou algo muito pior.
- Eu sei que Klaoz não é nenhum santo, mas não acho que ele mataria a filha só pra ter
Nike só pra ele...
- Ele mataria os dois povos e tomaria banho no sangue do mundo inteiro se isso lhe
desse o poder de ter Nike nas mãos. Ele não hesitaria em matar nem mesmo Álnaz pra
isso...
- Não me diga que Álnaz também é filha dele. – Miror disse em tom de deboche, mas,
para sua triste surpresa, o semblante de Seyrus confirmou essa informação também. – Puta
merda...
- Olhe, não posso explicar muito agora. Vou encontrar Lena e mandarei ela para a
fronteira perto da capital de Rígel. Esteja pronto para atravessar com ela para o lado
sneipas. – Seyrus silenciou o que quer que Miror estivesse prestes a dizer. – Andor não vai
matá-la. Não se preocupe. Desconfio que ele nem sabe que ela está viva e muito menos
minha irmã. Eu vou ficar e atrasar o máximo que puder aquele filho de doze diabos
fantasiado de rei.
- Conta comigo. – Miror disse e pegou a bolsa da mão de Seyrus. Ambos saíram o mais
rápido que puderam, cada um seguindo um caminho diferente para não chamar a atenção.
O plano era simples e perigoso. Encontrar Lena antes que ela atravessasse para o lado
de Rígel, afastá-la do exército sapiens e do conflito iminente, encontrar Nike ou Andor e
pedir abrigo. O problema é que Seyrus não sabia qual era o trabalho de Lena no exército ou
mesmo sua posição. Seria como achar uma agulha numa fábrica de agulhas.

~o~
- Gareth! Leve Álnaz e Nike para dentro. Agora! – Andor gritou no meio do tumulto de
soldados e civis correndo para seus postos, assim que viu as duas saindo no pátio do
palácio, voltando do laboratório de Nike, provavelmente.
- O que? Eu não vou me esconder... – Álnaz protestou.
O n i e r | 141

- Nem eu. Estas mãos aqui pegam em armas muito antes que eu sequer começasse a
andar! – Nike protestou.
- Eu não vou arriscar nenhuma das duas. – Andor disse.
- Você não vai mandar em mim, Andor! Eu vou lutar também e sei que Álnaz é
perfeitamente capaz... – Nike continuou protestanto, já olhando para os lados à procura de
armas.
- Eu não tenho tempo pra isso... – Andor esfregou a testa, impaciente, e, sem pensar
duas vezes, pegou Nike nos ombros e, com um olhar para Gareth, o rapaz fez o mesmo com
Álnaz. Os dois levaram elas para dentro, ignorando os protestos das mulheres que estavam
furiosas. Ele as colocou dentro do quarto de Nike e trancou a porta. As duas esmurravam a
porta e gritavam lá dentro, mas o rei e Gareth não deram a menor atenção. Andor puxou o
guarda que estava de prontidão, pasmo com a cena, e disse entregando a chave à ele: - Elas
vão ficar aí dentro. Você não vai soltá-las. Não importa o quanto elas gritem e implorem. Se
elas disserem que o quarto está pegando fogo, que tem um demônio do quinto dos
infernos lá dentro, que o chão está se abrindo... Não interessa. Você. Não. Vai. Abrir. Abra
essa porta sem uma ordem minha e eu vou arrancar sua lorpat e quimá-la. Fui claro?
- Si.. Sim, senhor. – O guarda disse.
- Vamos. – Andor disse para Gareth e os dois voltaram às pressas para o pátio, prontos
para matar o máximo de sapiens que pudessem alcançar.
O n i e r | 142

Do outro lado da fronteira


- Invis! – Andor chamou o conselheiro que já estava envolto em uma batalha com dois
sapiens furiosos, a alguns metros do rei. – Vê aquele idiota em algum lugar?
Um dos sapiens, o mais baixo, cansado dos golpes violentos que tentava dar no
conselheiro, se moveu levemente para trás em uma estratégia de combate dos sapiens
para que o outro atacante tomasse a frente atacando o inimigo, enquanto o outro dava
uma pausa rápida para se recuperar. Invis estava esperando por isso. Com um golpe rápido,
antes que o sapiens da frente pudesse levantar a guarda, enfiou sua espada azulada longa
no peito do homem e o atravessou atingindo também o sapiens de trás, mais baixo,
Invis deu um golpe rápido num momento de descuido dos oponentes. A espada
azulada do conselheiro entrou no sapiens na altura da garganta. O da frente cuspiu sangue,
com olhos arregalados de choque e ódio, enquanto o de trás ficou mudo de espanto, pego
de surpresa pelo golpe. Antes que ambos caíssem para frente em direção ao punho da
espada, o conselheiro a puxou rapidamente, se virou e acertou o punho da espada na nuca
de um sapiens que começava a correr em direção à Andor. Quando o homem caiu no chão,
ele andou sobre as costas do homem caído que começou a praguejar com tantos
xingamentos que Invis nem conhecia, e enfiou a espada silenciosamente na nuca do
homem o matando. Continuando seu caminho em direção ao rei, matando qualquer
sapiens tolo o bastante para tentar atacar o rei que já estava focado em três atacantes, ele
se aproximou, lado a lado com Andor.
- Ainda não. Mas ele está aqui. – Invis disse, parando para atacar uma sapiens que
vinha pela lateral oposta do rei, enquanto Andor golpeava outro sapiens que vinha pela
frente. – Gareth o viu atravessando a fronteira.
- Onde essa víbora está? Não gosto disso, Invis. Ele não perderia a oportunidade de me
enfrentar. Não sabendo do meu noivado. E eu sinto que ele sabe. – Andor disse, apenas
parcialmente tranquilizado por estar na frente do portão principal de seu castelo, sabendo
que ninguém entraria ali para tentar capturar as duas mulheres mais importantes da sua
vida.
- Elas vão ficar bem. – Invis disse, sabendo que a preocupação de Andor estava
dividida entre proteger seu reino e proteger as duas mulheres lá dentro. Andor, mesmo
com a espécie de barreira que aprendera a manter em seus dons empáticos para não ser
bombardeado por todos os sentimentos alheios, sentiu a onda de tranquilidade que Invis
enviou. Era uma das principais razões pelas quais eles se entendiam tão bem no trabalho
quanto na vida pessoal. Invis tinha um talento, uma ligação natural com Andor e sempre
soube como usar isso para guiá-lo em seu inesperado e conturbado reinado.
O n i e r | 143

Os dois se abaixaram ao mesmo tempo, evitando uma flecha inimiga que veio pelo
lado de Invis. Ao se voltarem para a direção de onde o ataque partira, só tiveram tempo de
ver uma arqueira sapiens caindo com um golpe de outro sneipas, Selin, uma amiga de Álnaz
que lutava feito uma leoa furiosa. Ela nem mesmo parou para olhar para o rei e seu
conselheiro, seguindo em seu trabalho e matando mais sapiens ferozmente. A batalha já
estava durando tanto tempo que o sol começava a se pôr, deixando um rastro lindo de
vermelho, púrpura e azul no céu. Andor sempre gostara mais do pôr-do-Sol, sempre o
achou mais mágico, mas aquele lhe deu uma sensação de algo que ele não sabia nomear,
algo ruim. Ele não tinha tempo pra focar nessas coisas, talvez fosse apenas o cansaço pelo
longo combate, a raiva por ver tantos sneipas mortos, alguns nem mesmo eram militares,
não tinham noção de combate, mas foram assassinados cruelmente enquanto tentavam se
esconder.
A raiva aumentou, mas, mais do que isso, o medo se ergueu como gelo pelas suas
pernas, sua coluna, até lhe causar um arrepio que o fez estremecer visivelmente.
Acostumado a lutar contra sentimentos, fossem os seus ou os captados de outras pessoas,
ele se forçou a ignorar a sensação de paralisia que o medo lhe causava. Lutou contra mais
sapiens que se aproximaram, mas seus movimentos estavam pesados, cansados. Tudo
estava tão tenso ao seu redor... Não era só pela batalha. O fogo das casas queimando ao
seu redor parecia não ser o suficiente para iluminar ao redor, embora o Sol nem tivesse
sumido no horizonte ainda. Não. Não era algo físico. Era como se o medo estivesse iludindo
sua mente para que tudo parecesse mais sombrio. Mas... Medo do que? Andor já havia
lutado em batalhas suficientes para reconhecer o medo natural do combate, sobreposto
pela adrenalina do combate, o ódio pelo inimigo. Aquilo não era medo pelo perigo da
batalha. Nem ele sabia do que estava com medo, mas estava. A voz de Invis soou como se
estivesse falando do outro lado da fronteira. Era mesmo a voz de Invis? Parecia tão
distante...
- Andor... Por todos as divindades... Selin....
Outra voz... De onde? Quem é?
Majes... – A voz falou direto em sua mente e então pareceu falar com outra pessoa em
voz alta e distante. - Não consigo...Ele...
- Selin? – Andor se forçou a falar, sua língua pesada. O medo, não... O pânico o atingiu
como um soco no estômago. Ao seu redor as casas caíram como se fossem feitas de areia
em um vendaval. Gritos de horror ecoaram de todas as direções. Sob seus pés haviam
ossadas grandes, como as do sneipas, cobrindo todo o chão. Um sussurro, uma voz quase
sumindo, o chamou e ele viu o corpo de Álnaz dividido, braços, pernas e tronco separados a
cerca de meio metro um do outro. Morta. Sua filha tinha uma expressão horrorizada como
se tivesse morrido vendo o demônio mais assustador do universo. Ao lado dela, se
O n i e r | 144

arrastando, sem as pernas, o ventre no chão, braços esticados para o cadáver da princesa,
estava Nike. Seus olhos verdes manchados de lágrimas, de dor... de raiva. Um rastro de
sangue ficava no chão onde ela passava. Ela o olhou com tanto ódio como ele nunca vira
nem mesmo quando ambos lutavam um contra o outro.
- Isso é culpa sua! Eu amava Klaoz... Você matou todos nós! Eu odeio você! Eu o
amaldiçoarei pela eternidade!
- Não... Não fui eu... Não é minha culpa! – Andor dizia desesperado, sem entender
como aquilo acontecera.
Ela começou a engasgar com o próprio sangue. Ele correu para pegá-la nos braços.
Agachou e a pegou nos braços, virando seu amado rosto para cima, levantando-se e
correndo em busca de ajuda. Mas ao seu redor tudo parecia morto. Não haviam árvores, o
céu estava obscurecido por nuvens negras, o ar parecia mais denso, avermelhado. Então o
peso leve de sua amada ficou ainda mais leve. Quando ele olhou para Nike, a mulher que
amava era apenas um esqueleto seco.
- NÃÃÃÃÃÃÃO!!!!! – Com um grito desesperado ele a soltou e o chão se transformara
num rio gosmento e vermelho de puro sangue. Ele se sentiu afundando, mãos o agarrando
dentro daquele rio, o puxando, arranhando, emanando seu ódio por ele... Ele sentia
inclusive as mordidas com algo metálico... Lorpat... Era seu povo que estava ali embaixo!
Mas o que ele havia feito? Porque seu próprio povo o odiava?
Majestade... Por favor... Volte... Aquela voz de novo em sua mente... Ele a conhecia.
Tinha certeza.
Outra onda de pânico o atingiu. E esse foi o erro. Nunca se deve usar o mesmo truque
duas vezes com o mesmo inimigo. Ainda bem que essa lição ainda não havia sido
aprendida...
Andor percebeu que as emoções não eram totalmente dele. Na verdade, eram, mas
estavam sendo ampliadas por alguém. Seus piores medos estavam sendo fortalecidos de
fora pra dentro. Aquilo era uma ilusão! O rosto de Andor mergulho no rio sangrento,
apenas dor e escuridão o cercando.
...Nunca deixe a tristeza te dominar, filho. Seus pais sumiram, mas eu cuidarei de você
como meu próprio filho. Lembre-se sempre, And, as boas emoções sempre devem ser mais
fortes em você do que as ruins...
A lembrança das palavras de Betel o consolando e guiando desde que os pais de Andor
desapareceram, despertaram uma onda de carinho, uma luz dourada brilhou em seu peito,
dissipando a escuridão parcialmente. Ele focou em todas as boas lembranças com Álnaz,
sempre tão doce e carinhosa, Nike com sua teimosia e paixão, Betel o guiando com tanto
carinho, Invis sendo tão bom amigo, a felicidade nos olhos do conselheiro quando Gareth
nasceu, a união fofa entre Gareth e Álnaz... A luz em seu peito cresceu, cresceu, liberando
O n i e r | 145

um calor gostoso como um dia de primavera. Então tudo ficou tão claro que ele não
enxergou mais nada ao redor e então... Ele estava ao lado de Invis, dentro do pátio do
castelo, com Selin sem íris, os olhos totalmente brancos, voltados para dentro de si mesma
como quando ela usava sua telepatia. Ele olhou ao redor aliviado ao perceber que nenhum
inimigo invadira o palácio. Seus músculos estavam tensos e sua mente focada em sentir de
onde viera o ataque que o deixara perdido em seus medos.
- Andor, por todos os deuses, o que... – Invis falou e se calou quando o rei levantou
rápido.
- Ajude-a. Ela precisa de algo doce para se recuperar. – Andor falou sobre Selin que já
tinha os olhos normalizados, mas ele estava focado olhando para nenhum lugar específico,
apenas se preparando. – Te peguei! GUARDAS! Sigam-me!
Um grupo de guardas que cercavam o rei enquanto Selin tentava salvá-lo de seus
medos, o seguiu sem protestar. Quando os portões se abriram, uma criatura
completamente negra, de olhos amarelados, estava sumindo no meio da confusão ao
longe. Andor correu, seguido de perto pelos guardas, e, à uma distância considerável, jogou
sua espada. Ela voou em meio aos caos da batalha e acertou em cheio a panturrilha
daquela criatura que caiu para frente com um uivo assustador. Com alguns passos rápidos
ele e seus guardas cercaram a criatura que, pela descrição do massacre na vila semanas
antes, só podia ser a mesma que causou o horror nas mentes e a auto destruição de tantos
sneipas à troco de nada. Furioso, a pele num vermelho intenso, ele puxou a espada de um
guarda próximo, chutou a barriga da criatura, fazendo-a se virar de barriga para cima e
levantou a espada com ambas as mãos. Ele ia retalhar pedaço por pedaço daquela criatura
monstruosa.
- NÃO! – Um grito ecoou e uma faca voou na direção de Andor, mas mais alto do que
ele, como se quisesse atingir a espada em sua mão. Um guarda tomou a frente do rei e
segurou a faca pela lâmina, ferindo a própria mão, mas não dando nenhum sinal do quanto
aquilo devia doer.
- Mas que diabos...
- Abaixa essa espada, Andor!
- Seyrus?! – Andor olhou surpreso pela aparente normalidade do rapaz. Ele nem
parecia mais aquele animal domesticado sem cérebro. A surpresa sumiu rapidamente,
arrastada pelo mar de ódio. Seyrus andava em direção à ele com passos curtos, cautelosos
e firmes. Os guardas, estavam todos prontos para matá-lo assim que Andor mandasse. – Se
não quiser morrer agora sugiro que pare aí mesmo! Vou matar essa coisa monstruosa que
seu pai canalha criou!
- Você vai matar a filha caçula da mulher que ama? – Seyrus perguntou. O olhar
surpreso de Andor era refletido pelo olhar surpreso da criatura no chão.
O n i e r | 146

- O QUE? – Andor e aquela criatura negra perguntaram.


- Lena... Por favor... Volte ao normal. – Seyrus disse olhando para a sobrinha.
Como mágica, a pele negra clareou aos poucos, os cabelos rebeldes e desgrenhados se
transformaram em belos cachos castanhos e os olhos... Os mesmos olhos verdes de Nike
substituíram os olhos amarelados. Andor deixou a espada cair, assombrado demais para
manter as mãos firmes no objeto. Com o olhar, Seyrus pareceu pedir para se aproximar e
Andor sinalizou para que ele viesse. Seyrus caiu de joelhos ao lado da menina que parecia
assustada, triste, com raiva, surpresa, uma onda de emoções contraditórias.
- Minha querida... Eu vi quando você se transformou. Porque não me atendeu quando
gritei? – Seyrus perguntou, pegando a menina num abraço, acariciando as costas e o cabelo
dela enquanto ela soluçava entre lágrimas.
- Eu... Klaoz não é... – Ela tentou perguntar, mas os soluços não permitiram.
- Sinto muito, minha linda, mas ele é seu pai sim. – Seyrus respondeu. Não queria
mentir para ela. Não depois dela ter crescido cercada por tantas mentiras.
Andor olhava sem saber nem o que sentir ou pensar, muito menos o que fazer. Nike
ficaria tão feliz... Essa era a única coisa que o acalmava. – Levem os dois para dentro.
- O que? EU NÃO VOU COM VOCÊ! SEU ESTUPRADOR, BANDIDO! – Lena gritou e, se
houvesse qualquer dúvida sobre quem era a mãe dela, Andor teria dissipado ali. Era o
mesmo jeito arrogante e teimoso de Nike.
- Querida, calma. Ele não abusou da minha irmã. E duvido que tenha tentado. – Seyrus
disse olhando Lena nos olhos. – Temos que ir com ele... Klaoz não pode mais colocar as
mãos em você. Preciso que confie em mim, querida. Pode fazer isso?
Lena olhou bem para ele tentando ver qualquer sinal de mentira, de traição, aquela
sombra constante no olhar de Klaoz que sempre a deixara desconfiada, embora não
soubesse de que. Mas não havia nada. Ela sentiu que ele era sincero. Pelo menos por
enquanto, ela seguiria o plano dele. Porque ele com certeza tinha um plano contra os
sneipas.
- Tudo bem. – Lena disse, mordendo o lábio inferior para tentar se distrair da dor.
O gesto fez Andor lembrar de Nike. Ela tinha a mesma mania. Seyrus pegou Lena no
colo com tanta gentileza que parecia impossível para um homem tão musculoso. Andor
mandou os guardas guiarem ele para dentro do palácio e, um simples olhar ao redor, fez
ele perceber que, em meio à toda essa confusão, os sneipas conseguiram vencer e expulsar
os sapiens. O grupo inimigo bateu em retirada, parando a corrida apenas para enfrentar
algum sneipas que tentava matar o grupo que fugia.
Finalmente, um bom sinal. Andor pensou.
O n i e r | 147

Como se convocado pelo pensamento esperançoso do rei, Invis e Gareth se


aproximaram correndo feito loucos com o olhar mais sinistro do mundo. Gareth estavam
com olhos vermelhos como se tivesse chorado muito.
Merda. Foi a única coisa que Andor pensou, sentindo que algo muito errado
acontecera. – Álnaz e Nike? – Ele perguntou assim que Invis chegou perto o bastante para
ouvir.
- Sumiu. – Invis disse sem rodeios, tão vermelho que parecia que ia explodir.
Seyrus olhou assombrado para o rei e ambos correram para dentro do palácio, sem se
preocupar com os guardas, com Lena ainda nos braços de Seyrus, Invis, Gareth, ou qualquer
um no caminho.
- Por aqui. – Andor disse para Seyrus, sem parar de correr, guiando o rapaz para o
quarto. Ele podia não confiar em Seyrus, mas conhecia a lealdade do rapaz pela irmã. Se
tivesse alguma coisa que ele pudesse fazer para salvá-la de Klaoz, Seyrus faria sem pensar
duas vezes. Quando chegou no corredor que levava ao quarto de Nike o odor de carne
queimada era quase sufocante. O guarda para quem ele entregara a chave do quarto
estava caído no chão o corpo enegrecido na garganta queimada, os órgãos semi expostos,
olhos arrancados e queimados com o sangue escuro ao redor das órbitas vazias. Seus dedos
haviam sido cortados como se ele tivesse morrido segurando algo com tanta força que os
assassinos só puderam pegar arrancando seus dedos.
- A chave... – Andor murmurou. Quando alcançou a porta que estava escancarada
quase caiu para trás. Surpresa e alívio o dominando. – Nike!
Uma serva estava amparando-a, tentando colocá-la sentada. Ele correu para ela,
verificando seu corpo à procura de ferimentos. Havia um corte na testa quase dentro do
cabelo, suas mãos estavam queimadas e com bolhas, seus olhos estavam vermelhos e ela
parecia fraca e confusa.
- Eles... levaram... ela me prendeu... eu... eu não consegui impedir... eles levaram
minha Álnaz... – Nike chorava tanto que mal conseguia enxergar alguma coisa.
- Quem? Quem a levou? – Andor perguntou, rezando para que o óbvio não fosse a
verdade.
- Não... Ele não estava aqui... – Nike disse, sabendo que Andor estava pensando em
Klaoz. – Mas foi ordem dele.... Eu sei... O mago ele a levou.
- Por isso ele sumiu. – Seyrus disse, lembrando que Klaoz e Esvion tinham sumido no
início da batalha.
Nike olhou para o vulto disforme ao ouvir aquela voz familiar. Qualquer controle que
ela pudesse ter de suas lágrimas sumiu. – Seyrus?
Ele colocou Lena no divã que havia perto de onde estava, sem esperar pela permissão
de qualquer um, e correu para abraçar a irmã que não via a mais de uma década.
O n i e r | 148

- Ele levou minha filha, Seyrus! – Nike chorou como se uma parte de seu corpo tivesse
sido arrancada. – Eu tentei impedir, mas ela me prendeu ali – ela sinalizou para o outro
cômodo onde ficava a cama – ela... ela não quis que eu continuasse lutando... ela tentou
me salvar.
Um alarme soou na mente de Andor e Seyrus ao mesmo tempo. Seyrus afastou a irmã
e, sem qualquer pedido ou aviso, levantou a blusa até a base do peito da irmã. Uma
mancha negra, com pequenas veias escuras, tomava quase toda a barriga dela. Dois
pequenos pontos juntos deu a resposta para a pergunta que eles pensaram em formular.
Picada de cobra. Não qualquer cobra pelo visto. Não uma ‘natural’. Álnaz sabia que Nike
preferiria morrer à voltar para Klaoz ou deixar a filha ser levada, então prendeu a mãe e
tentou defender ambas sozinha. Pelo visto, não deu muito certo. Embora, com certeza,
ambas não morreriam. Pelo menos, não por enquanto.

~o~
- Como assim Lena não voltou com vocês? – Klaoz estava irritado e assustado.
- Se... Senhor... Eu... Ela... – O tentente que deveria lutar nas proximidades para matar
qualquer sneipas que se aproximasse de Lena durante a batalha, tremia de medo. Se não
estivesse de joelhos, com a testa colada ao chão, com certeza teria caído. Ou de dor
considerando que ele perdera uma mão, parte de uma orelha, e estivesse cheio de cortes e
hematomas pelo corpo. Seu esquadrão praticamente todo tinha morrido em combate. Só
ele e mais dois, um perdera uma perna e o outro só conseguia babar como um louco.
- EU MANDEI CUIDAR DELA! FILHO DE TREZE PAIS! BASTARDO DO DEMÔNIO! – Klaoz
deu uma pisada forte nas costas do tentente o fazendo gritar de dor.
- Me... Me... Perdoe... Senhor... Eu tentei... Mas...
- EU. DISSE. PRA. VOCÊ. CUIDAR. DELA. IMBECIL! – Cada palavra era seguida por um
chute de Klaoz nas costelas do tentente que cuspia sangue e urrava de dor.
- Ela está com Andor. – Esvion disse, entrando e entregando um papel minúsculo para
Klaoz. – O espião disse que Seyrus está lá também e... Não parece sob o efeito de você-
sabe-o-que.
- Desgraçado, traidor! Víbora que criei, alimentei e cuidei a vida toda! – Klaoz disse
quase rosnando. Ele puxou o facão que usava como arma, ainda sujo de sangue, e enfiou
nas costas do tenente caído de bruços no chão.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – O tentente gritou, um ‘crack’ de osso quebrando o
aterrorizou tanto quanto a dor.
Klaoz queria mais. A raiva que sentia precisava ser descontada em alguém. Com as
duas mãos no cabo do facão cravado nas costas do tenente, ele trincou os dentes formando
uma careta diabólica e girou a arma dentro do homem. O crack audível fez o guarda a
O n i e r | 149

postos na porta se encolher, seu estômago se revirou, mas ele se manteve em seu posto,
firme e discreto, para não sobrar pra ele também. Esvion, parado a dois passos do tenente,
apenas deu um passo distraído para trás para não sujar suas sandálias no sangue do
homem que formava uma poça agora.
Klaoz arrancou a arma das costas do homem e apontou pro guarda na porta. – Você! –
O guarda se forçou a não se encolher de medo. – Tire esse lixo daqui e mande alguém
limpar essa merda da minha sala!
O guarda se curvou numa reverência, pegou o corpo, jogou no ombro como um fardo
e saiu.
- Pena que não conseguimos trazer ela. – Esvion comentou.
- Ela virá. Agora que temos minha primogênita aqui, eu sei que ela virá. Se ela quiser
ver nossa Álnaz de novo, ela terá que vir pronta para ser minha e trazendo nossa caçula.
Depois eu cuido daquele careca vermelho do inferno. – Klaoz disse e saiu com o mago para
dar outra dose da poção para manter Álnaz dormindo.
- Merda... Elas trocaram de lugar... – Miror, escondido no corredor, tremeu de cansaço
depois de ter corrido e lutado tanto para encontrar Lena. Mas não vira nem sinal dela. A
menina parecia ter sido engolida pela terra. – Eu vou levar sua irmã pra você, meu amor. Eu
juro que vou. – Ele disse pra si mesmo e decidiu que, enquanto Álnaz estivesse ali, ele
cuidaria da irmã mais velha de seu amor até conseguir levá-la de volta e, finalmente,
encontrar Lena de novo.
O n i e r | 150

Mágoas
Nike dormira por horas seguidas, o cansaço e ferimentos da luta, a tristeza e o
desespero por Álnaz nas mãos do pior ser que ela conhecia, o choque ao saber que sua
caçula estava viva... Lena fora tratada e estava quase liberada do setor médico. Antes de
qualquer coisa, Andor queria que Nike visse a filha. Ela tinha esse direito. Finalmente o
fantasma da morte da caçula de Nike, a menina que Andor precisara deixar para trás, iria
sumir. Ziélena. A primeira mulher sapiens a ser criada e que desenvolvera dons para a
ciência sneipas, a sacerdotisa que tinha a empatia mais poderosa já registrada na Terra.
Andor gostou do nome. Finalmente Klaoz havia feito algo de bom na vida.
- Invis, como está Gareth? – Andor perguntou.
- Melhor. – O conselheiro respondeu. Gareth estava deprimido desde o rapto de Álnaz
e oscilava entre a raiva e a tristeza apática. – Como o senhor está?
- Invis você sabe que não gosto que me trate com essa formalidade toda. Aceito
quando estamos em público porque você prefere, mas não a sós. Não agora que preciso
mais do meu amigo do que do conselheiro.
- Não respondeu minha pergunta. – Invis estava muito preocupado com o rei. Todos se
preocupavam com Nike e Gareth que pareciam estar se desmanchando em raiva e
desespero, mas não muito com o rei. Ele parecia um pilar forte, o exemplo da eficácia, mas
Invis conhecia Andor desde que ele era uma jovenzinho.
- Estou be... – Andor começou, mas parou ao ver a sobrancelha franzida do
conselheiro. A mentira não convenceria o amigo. - ...Me sinto morto por dentro.
- Álnaz vai voltar. Nem que seja preciso dividir a terra em duas partes. – Invis garantiu.
- Mas Klaoz...
- Ele não fará nada para machucar a princesa. Ele precisa dela para tentar atrair Nike e
levar Ziélena de volta. – Invis disse e, por mais que parecesse cruel, era a verdade.
- Eu queria ter essa certeza...
- O que o preocupa exatamente?
- Invis... E se ele a torturar pra forçar Nike a ir até ele? Ou se ele usar minha... Usar a
Álnaz como arma? Ou se ele tiver a mesma atração doentia pelas filhas como tem pela
mãe? – Andor se arrepiou da cabeça aos pés só de pensar nessa possibilidade.
- Não vou mentir pra você. Nada disso é impossível, mas também não é provável.
- Mas Klaoz é um psicopata instável, louco e perigoso e....
Invis se aproximou, colocou uma mão no ombro de Andor e disse: - Não sofra antes da
hora, meu amigo. Em pânico não poderemos ajudar sua filha. E não me olhe com essa cara.
O n i e r | 151

Você sabe que ela é como uma filha pra você e eu também sei. Pelo menos uma das opções
podemos rejeitar.
- Qual? – Andor perguntou ansioso, começando a se acalmar com a onda de amizade
emanada pelo velho conselheiro.
- Álnaz não tem nenhum poder que possa ser usado como arma. Ela é uma empata
botânica, mas nem mesmo prática com venenos ela não tem. Ela nunca conseguiu
desenvolver isso, por mais que tentasse.
- Pelo menos isso. – Andor murmurou.
- Seja como for, nós vamos resgatá-la. Mesmo se você não fosse o rei, eu iria até o
inferno para ajudá-lo. – Invis disse e Andor sabia que ele falava sério.
A calma sumiu quando uma onda de medo e preocupação passou por Andor, vinda de
fora do escritório.
- Problemas. – Andor disse e Invis, sem fazer perguntas, se levantou e ficou em
prontidão para qualquer coisa que pudesse atacar o rei.
Segundos depois duas batidas baixas, mas fortes, soaram na porta. Com a ordem de
Andor uma guarda jovem entrou suada e ofegante.
- Majestade, excelência,... – A jovem fez uma reverência rápida para ambos. –
Trabalho no setor médico... A senhora Nike...
- O que tem ela? – Andor quase gritou, temendo que a noiva tivesse piorado e sido
levada para o setor médico.
- Ela está bem, apenas levando alguns pontos...
- O que aconteceu? – Invis perguntou enquanto Andor já saía pela porta.
- A jovem sapiens. Ela feriu a senhora Nike...
Andor parou na porta como se batesse de cara em uma parede invisível. Nike acordara
e fora falar com a menina sem nenhum guarda? Sem falar com ele antes?
- Que droga, Nike! – Andor esbravejou e saiu seguido pela guarda e Invis que quase
tiveram que correr pra acompanhar o rei.

~o~
Nike acordou meio zonza, acordando na cama do rei. Andor não queria se afastar dela.
Ele não dizia em voz alta, mas ela sabia que ele estava com medo de deixar ela sozinha em
seu quarto depois do que acontecera. E, verdade seja dita, ela não sabia se conseguiria
entrar no próprio quarto onde tudo acontecera sem mergulhar no próprio desespero. Ela
estava entrando e saindo do sono, mal se lembrando de quando comia, sempre alguém
(Andor, na maioria das vezes) dando comida em sua boca. As mãos estavam quase curadas
das queimaduras, agora com uma pele fina e coçando muito pela cicatrização. O corte na
cabeça não havia sido grave, mas exigira repouso. Quando à picada de cobra sobrenatural,
O n i e r | 152

a pele enegrecida estava mais clara a cada dia, o enjôo e a queimação que sentia nas veias
praticamente tinham sumido. Seu maior empecilho agora era o esgotamento que sentia.
Ela precisava melhorar logo. O desespero por Álnaz nas mãos de Klaoz, a vontade de
abraçar a filha caçula com um nome tão lindo, o desejo de correr para matar a saudade do
irmão... Ela estava enlouquecendo ali parada. Naquela manhã Andor lhe dera um beijo
doce e dissera para ela não sair dali sem escolta, mesmo se ela conseguisse se levantar. Ele
iria cuidar dos reparos na capital e dos assuntos do reino, mas voltaria para verificar como
ela estava na hora do almoço, como já se tornara rotina.
Ela não planejou desobedecer ao conselho sensato do noivo, mas, quando percebera
já estava vestida, com a bengala que usava de vez em quando, pronta para sair do quarto.
O guarda do lado de fora não tinha ordens para seguir Nike, ele estava ali apenas porque
era seu posto quando o rei estava no quarto ou a noiva dele. Nike o dispensou com doçura,
pedindo que ele fosse descansar e ver a esposa com quem se casara a pouco tempo, e o
guarda saiu agradecido. Ela seguiu seu caminho para o setor médico pensando no que diria
à filha, ensaiando mentalmente vários possíveis diálogos, imaginando como era o rosto da
menina que ela nem mesmo conseguira ver ainda. Andor dizia sempre que a menina tinha o
gênio dela, os mesmos olhos e até o corpo era parecido. Ela nem percebera que estava
sorrindo quando chegou no prédio do setor médico. A mulher responsável pelo lugar
apareceu assim que anunciaram a presença da noiva do rei e gentilmente a guiou até o
quarto onde Lena estava. Dois guardas estavam parados na porta. Eles cumprimentaram as
duas e saíram do caminho. A médica abriu a porta e sinalizou para Nike entrar. Suas pernas
pareciam trêmulas de emoção, mas ela respirou fundo, manteve a postura reta e entrou.
Nike quase parou de respirar. A menina na cama não parecia ter quase 12 anos. Ela
parecia uns 9 anos mais velha, uma mulher adulta e plenamente formada. Seus cachos
castanhos eram mais encaracolados que os de Nike, os lábios eram carnudos e
naturalmente rosados, a pele era mais bronzeada que a dela, os mesmos olhos verdes, o
mesmo ar atraente e sedutor... Álnaz se parecia com Nike, mas Lena era quase uma cópia
de Nike.
- Você. – Lena disse, olhando fixamente pra Nike, na defensiva.
- Olá, Lena. Posso te chamar de Lena? – Nike se aproximou da cama um pouco
insegura. O que Klaoz havia dito sobre ela?
- É meu nome, não é? – Lena respondeu no mesmo tom arrogante que Nike tinha,
mesmo quando não era a intenção dela.
- Verdade. Eu sou Nike, mas você já sabe disso. Andor me disse que você não sabia que
eu sou...
- Minha mãe. – Lena completou. – Meu irm...tio Seyrus não tem motivos para mentir
pra mim. Mas você e esse seu noivo...
O n i e r | 153

- Não é mentira, Lena. Eu sou mesmo sua mãe. Não enganamos Seyrus pra que ele
pensasse isso. Basta olhar pra você e pra mim, querida.
- Não sou sua ‘querida’. Meus olhos podem muito bem ser herança do meu pai, assim
como os seus. Uma anomalia ligada ao sangue dele.
- Lena, eu e...
- E você não pode ser minha mãe porque você é filha do meu pai, o REI Klaoz. – Lena
disse, disfarçadamente continuando a se soltar das cordas que prendiam seus pulsos na
cama.
- Sim. Filha de criação. – Nike disse. Na cultura de ambos os povos, os filhos de criação
e os de sangue não tinham nenhuma diferença para a sociedade. Ambos eram filhos e os
pais os tratavam da mesma forma. – O problema é que Klaoz nunca respeitou isso.
- Acha mesmo que vou acreditar que meu pai que, apesar de ser um idiota
controlador, é um homem íntegro, teve realações sexuais com a filha?! Não seja ridícula!
Nike quase deu um passo pra trás com a veemência da menina. Mas se conteve e se
aproximou devagar da filha. Não era fácil aceitar que o homem que lhe dera a vida era um
monstro, mas a paciência de Nike não era das maiores e a convivência com a pacífica Álnaz
a deixara mal acostumada.
- Você não sabe nada do MEU pai! Se acostumou com esse pilantra que abusou de
você aqui até desistir de lutar contra ele, se fez de morta, se aliou à esse bandido, deu uma
filha pra ele e agora vai se casar com o mesmo homem! Você foi fraca! Devia ter morrido
lutando como uma sapiens contra o bandido que te raptou e abusou de você, mas preferiu
se aliar à ele a agora quer sujar a imagem do homem que te criou, que te amava de
verdade, tornando esse amor algo ruim, algo detestável, algo que vai contra a natureza!
- Eu sei que é difícil aceitar, menina, mas Klaoz não tem nada de íntegro. Ele é um
monstro, um maníaco, um homem capaz de abusar da própria filha desde os sete anos de
idade, transformar a vida dela num inferno, torturá-la inúmeras vezes e gerar duas filhas
com ela! Você não faz ideia de quem é o Klaoz, você nem pode imaginar o que é conviver
debaixo do mesmo teto com alguém que te dá medo e nojo, nem como é ser abusada
tantas vezes que você tenta compensar com outras relações, mesmo que não tenha
sentimento nenhum! Você acha que Andor me fez mal? Que eu fui fraca? Andor salvou
minha vida! Salvou sua irmã mais velha! O rei que você chama de bandido foi quem
impediu que eu morresse depois que dei a luz à você na beira de um rio, antes da hora,
porque o seu pai me mantinha presa e torturada durante meses!
- EU NÃO ACREDITO EM VOCÊ! Você é só uma estranha! Se você é mesmo minha mãe
você é muito pior do que eu imagino! Você não morreu depois do meu parto, mas preferiu
ficar aqui com sua outra filha e me abandonar! Você é o monstro aqui! – Lena e Nike
estavam bem perto uma da outra na cama, Lena com um braço quase solto das cordas, os
O n i e r | 154

guardas e a médica estavam na porta mantendo os olhos em outra direção para não se
meter na discussão particular das duas, mas, caso necessário, interferir.
- Fale baixo que você não está em nenhum prostíbulo! Isto aqui é uma área médica e
você não é a única sendo tratada! – Nike disse magoada com o ódio nos olhos de Lena. Ela
não merecia isso, não depois de tudo.
- Você não é ninguém pra me dar ordens! Meu pai pode não ser o melhor homem do
mundo e só eu sei o inferno que vivi com ele, presa como um pássaro engaiolado. Mas até
isso é culpa sua! Sua fingida, falsa! Você fez meu pai achar que estava morta e eu pago por
isso até hoje! Enquanto você e sua pirralha nojenta ficavam aqui aproveitando a riqueza
daquele verme!
Nike quase espumou de raiva. – Lave sua boca pra falar da sua irmã! Ela é uma moça
adorável e sua irmã mais velha. Você lhe deve respeito, assim como ela, não apenas
respeitará você, como também te amará muito, sua menina tonta de alma envenenada!
- Eu vou te mostrar quem é a menina tonta! – Lena soltou o pulso e, rápida como um
raio, pegou uma lâmina na mesinha mais distante usada para cortar seus curativos e enfiou
na mão esquerda de Nike. – Lute, sua vagabunda, vendida, interesseira! Lute como uma
sapiens!
Os guardas correram para segurar Lena por trás, mas a menina não soltava a lâmina
nem assim. Os guardas moveram o braço dela pra que ela soltasse, batendo a mão dela
contra uma parede enquanto cada um a segurava por um braço. A médica segurou Nike, a
mão sangrando bastante com um corte profundo, mas ela não conseguia se mover,
congelada pela fúria que via em Lena.
- Não a machuquem! – Nike gritou enquanto os guardas tentavam controlar a menina
e fazê-la soltar a lâmina.
- Não preciso da sua piedade, sua mentirosa desgraçada! – Lena gritou enquanto a
lâmiana caía no chão com um som agudo, um fio de sangue descendo pelo seu braço
direito pelo corte causado pela lâmina e as batidas da mão na parede.
Outros guardas e médicos haviam aparecido para ajudar, uma guarda saíra correndo
para avisar ao rei.
- Chega! – A médica que amparava Nike gritou. – Imobilizem ela.
Os guardas colocaram Lena no chão de barriga para baixo, colocando o peso de seus
corpos nos braços e pernas dela.
- ME SOLTEM! EU SOU A PRINCESA DE OMOH! VOCÊS VÃO PAGAR POR ISSO!
- Lena... – Nike murmurou, a garganta se fechando com a tristeza.
A médica fez sinal para um médico que entrou e segurou Nike para que ela não
interferisse enquanto a médica se agachava ao lado de Lena e aplicava uma dose alta de
calmante.
O n i e r | 155

- Vag...Vaga...Vagabunda... – Lena murmurou olhando para Nike enquanto caía no


sono.
Mesmo sem ver, Nike sentiu a presença de Andor no corredor. Era como um imã. Um
sempre sentia o outro.
- Levem ela para a cela de segurança máxima! – Andor disse antes mesmo de aparecer
na porta e os guardas obedeceram. Pegaram Lena nos braços e saíram enquanto Nike
protestava.
- Não... Ela não fez por mal... Ela está confusa...
Quando Andor entrou e viu o sangue de Nike e seus olhos vermelhos e marejados, ele
quis matar Lena. Ele se aproximou, mas não disse nada, apenas se encostou na parede e
esperou a médica terminar de dar pontos no corte. Nike tremia com o esforço para não
chorar, seu coração parecia que tinha se partido em mil pedaços. Andor captou esse
sentimento e isso só o deixou mais irritado. Invis tocou levemente no ombro dele e Andor
sabia, mesmo sem palavras ou um olhar, o que o conselheiro queria dizer. Calma.
Quando a médica terminou, parou na frente do rei e respondeu à pergunta silenciosa
dele: - Ela ficará bem, mas precisa cuidar do ferimento. Se infeccionar pode ser um
problema. Vou mandar todas as poções e cuidados necessários para o palácio.
Andor acenou e a médica saiu. Invis foi logo atrás, parou na porta e olhou para Andor
com seu olhar que significava “vá com calma”. A porta se fechou deixando o casal à sós.
Nike sentada na cama onde Lena estivera, segurando o lençol com o cheiro da filha como se
fosse a coisa mais preciosa do mundo, se controlando arduamente para não chorar, e
Andor ainda escostado na parede a poucos passos.
- Você ficou louca? Eu não pedi pra você não sair sem escolta? E, de todos os lugares
em Rígel, você precisava vir logo pra cá? Pra que se colocar em perigo desse jeito? Ela podia
ter te matado! – Andor estava à beira do pânico.
- Por todos os deuses, Andor! Você fala como se ela fosse minha inimiga...
- Ela É sua inimiga, Nike! Ela tem seu sangue, é fruto do seu ventre, mas foi criada com
só os deuses sabem quantas mentiras!
- Ela é minha filha! Uma filha que pensei estar morta! Por quem chorei inúmeras
noites! Até um túmulo pra ela nós fizemos! Eu precisava ver a minha filha, ter certeza que
não era um sonho, que minha menina estava mesmo viva, eu....eu... – Nike não conseguiu
mais conter as lágrimas. O ódio de Lena doía mais do que qualquer tortura do Klaoz, mais
do que os abusos....
O coração de Andor doía ao ver a mulher amada tão triste assim. Ele se aproximou,
sentou ao seu lado, a abraçou e deixou que todas as lágrimas dela caíssem. Quem sabe isso
poderia aliviar um pouco a dor de uma mãe que sofrera tanto pelas filhas. Klaoz iria pagar
por cada uma daquelas lágrimas, essa era a única coisa na mente de Andor agora.
O n i e r | 156

~o~
- Você não pode manter minha filha presa numa cela de segurança máxima, Andor! Ela
é MINHA FILHA! – Nike estava cuspindo marimbondos de raiva.
- Nike, eu te amo, mas você não está sendo prática. – Andor respondeu sério. – Fico
feliz que aquela garotinha, contra todas as probabilidades naturais, tenha sobrevivido. Mas
ela foi criada pelo Klaoz, o mesmo homem que infernizou sua vida, orquestrou a morte do
rei Betel, possivelmente matou sua mãe, fez do seu irmão um animal selvagem e usou o
dom raro da própria Ziélena pra matar pessoas inocentes sem nenhuma chance de defesa.
- Mas ela não é má. Eu sei que não é. Só precisamos conversar com ela, ser...
- Pacientes? Nike eu senti na pele do que ela é capaz. Não estou condenando sua filha.
Ainda. Mas precisamos ser cautelosos e, você precisa entender, amor, ela terá que ser
julgada pelo que fez. – Andor levantou a mão pra impedir que ela continuasse. – Vamos dar
um tempo para ela. Prometo que serei justo com ela.
Nike suspirou meio irritada. Ela sabia que Andor tinha razão. Lena era poderosa e
odiava os sneipas assim como qualquer sapiens do outro lado da fronteira. Mas, poxa, era a
filha que a vida toda ela acreditou que estava morta!
- Querida... – Andor chamou tentando acalmar as coisas. Eles tinham discutido sobre
isso várias vezes desde que Lena tentou avançar pra cima de Nike, irritada e assustada
demais com a revelação sobre sua mãe e as implicações práticas disso. Andor não queria
nem imaginar a reação da menina (tão tempestuosa quanto a mãe) quando ela soubesse
em quais condições ela foi gerada e como nasceu.
- Agora não, Andor. – Nike disse se afastando dele e saindo do quarto.
Andor ficou magoado. Ela já tinha evitado ele antes quando a teimosia e o orgulho a
impediam de admitir o quanto o amava. Mas nada como aquilo. Ele pôde sentir a
decepção, a mágoa e a tristeza emanando de Nike e isso era como um tapa na cara dele.
Nike andou a passos largos até as celas no lado Oeste do palácio. Era um conjunto de
celas padrão, cada uma protegida por uma rede de eletricidade na frente de um cômodo
com três paredes. Lá dentro o piso era excessivamente branco de limpeza, havia um
pequeno cômodo suficiente para uma pessoa que servia de banheiro, fora dele havia uma
cama de pedra com um colchão, travesseiro e um cobertor grosso de algodão. Não haviam
janelas e o teto ficava a 4 metros do chão. Não era como a cela de segurança máxima de
Lena, mas escapar de nenhuma das duas era tarefa fácil, especialmente porque ambas
estavam em áreas muito bem guardadas dentro do palácio de Rígel.
- Nike. – Seyrus se levantou da cama e correu até ficar perto o bastante da rede
elétrica pra sentir o calor emanando.
O n i e r | 157

- Irmão. – Nike queria poder tocar a mão do irmão, abraçá-lo... – Eu sinto muito. Eu
não consegui evitar que você fosse mandado para cá.
- Não se preocupe com isso. Como você está? Eu nem pude te agradecer por ter
destruído parte do estoque do veneno daquele imbecil.
- Não fui eu. Foi Andor.
- Mas sei que foi um pedido seu e agradeço. Eu já estava me recuperando dos efeitos
colaterais da ausência da poção.
- Como você conseguiu se livrar daquela porcaria?
- Uma ou duas vezes aquele idiota esqueceu de me dar a ordem para tomar o reforço
da poção. Não por muito tempo, apenas alguns minutos. Mas foi o suficiente pra que eu
recuperasse algum fragmento de consciência e me segurei à isso pra não obedecer a ordem
dele pra tomar o reforço. Foi difícil. Parecia que minha mente estava se rasgando enquanto
um bando de cavalos selvagens corria dentro dela. Eu mal conseguia ouvir, pensar, falar. As
dores chegaram a um ponto que pensei em acabar com minha vida.
- Seyrus...
- Não se preocupe. Eu nem cheguei a tentar. Um dia acordei e nem as náuseas eu
tinha mais. Passei uma semana no inferno e depois parecia que meu corpo era uma pena
flutuando. – Seyrus passou a mão pela trança na barba, um gesto que sempre fazia quando
estava com a mente longe. – Ainda me sinto leve... Nike, você precisa conversar com Lena.
Ela é uma boa menina, só precisa de direção, de alguém para moldar seu dom e... Bem,
irmã, seja paciente. Lena foi enganada a vida toda e Klaoz não poupou esforços pra isso. Ele
gosta dela, mas a obcessão dele por você supera qualquer amor que ele possa sentir pelas
filhas. Tenha cuidado.
Antes que Nike pudesse responder um guarda se aproximou.
- Senhora, preciso levá-lo. O rei o convocou. – O guarda disse e Nike se moveu para o
lado, deixando que ele desligasse a rede de proteção e prendesse os pulsos do rapaz com
duas algemas de ferro, o mesmo material cinzento, brilhante e duro da espada de Andor.
Nike correu para frente, abraçando forte o irmão. O guarda, meio sem jeito, decidiu
que não fazia mal dar alguns minutos de contato físico aos irmãos que não se viam a mais
de dez anos. Nike começou a seguir o guarda que segurava Seyrus por um braço, o guiando
para encontrar o rei, mas ele se virou para ela com uma expressão séria e respeitosa. Nike
meio que sentiu o que viria, mas isso não diminuiu o efeito Nike-Raivosa.
- Lamento, senhora, mas o rei foi muito claro comigo. Eu devo levar apenas o
comandante Seyrus. Ninguém mais deve participar dessa reunião. Nem mesmo a senhora.
– O guarda disse com a maior gentileza possível.
- O QUE!? ESSE...ESSE.... AAAAAAAAAAAAAAAARH! EU VOU SIM E SE ELE NÃO QUISER
ELE QUE ME IMPEÇA PESSOALMENTE!
O n i e r | 158

O guarda sabia que aquilo seria muito ruim. O rei fora muito claro sobre a presença de
Nike. Ia sobrar pra ele. Seyrus, com pena do guarda que só obedecia ordens e acabou
entrando na briga do casal sem querer, interferiu.
- Nike, minha flor de laranjeira, por favor.
- O QUE? ISSO NÃO ESTÁ CERTO, SEYRUS! EU NÃO VOU DEIXAR ESSE IDIOTA MANDAR
EM MIM!
- Irmã. Olhe pra mim. Respire. Segure. Solte. – Seyrus tentou acalmar a irmã. – Isso.
Agora de novo. Mais uma vez. Bom, bom. Eu vou conversar com ele e você vai conversar
com sua filha. Ela é minha maior preocupação agora. Não se preocupe. Ele não vai me
matar no meio de uma reunião. Ele quer informações e eu estou mais que disposto à
cooperar. Não arrume conflitos com seu noivo por minha causa. Eu não quero isso. Vocês
dois irritados no mesmo ambiente não fará bem à ninguém.
- Mas...
- Deixe que eu o encontre nos termos dele, Nike. É o mínimo que posso fazer depois
de tudo. Vá falar com Lena, veja como ela está. Pode fazer isso pelo seu mano? – Ele
completou com um sorriso.
Nike acenou com a cabeça, deu um beijo na bochecha do irmão e observou ele seguir
com o guarda até sumirem no corredor. Em uma coisa seu irmão tinha razão. Ela precisava
conversar com Lena. A questão era: a garota ia querer ouví-la?
O n i e r | 159

Táticas
- Bom tarde, filha. – Klaoz disse, em pé ao lado da cabeceira da cama, acariciando os
cabelos ruivos de Álnaz.
Álnaz acordou com o gosto metálico forte na boca que nada tinha a ver com sua lorpat
na língua. Seu corpo estava pesado e rígido, seus braços e pernas amarrados à uma cama
luxuosa, esticados nos quatro cantos do móvel.
- Klaoz. – Ela praticamente cuspiu a palavra quando reconheceu o rosto que só
conhecia pelos arquivos.
- Você pode me chamar de papai, querida. Somos uma família. – Klaoz disse com seu
rosto inexpressivo de sempre, mas uma voz incrivelmente gentil.
- Minha família é minha mãe, meu pai e nossos amigos. – Álnaz respondeu com um
olhar firme, embora o quarto parecesse rodar.
- Exato. E seu pai sou eu. Não aquele careca descerebrado que roubou você de mim.
- Mesmo? Não é essa história que você espalhou pro seu povo, não é? Dizer que você
teve uma filha com sua filha seria como pedir para ser linchado... – Álnaz disse com um tom
venenoso que raramente usara na vida.
- As coisas são mais complicadas que isso, filha. Mas eu vou te contar tudo.
- NÃO ME CHAME DE FILHA! Meu pai é o Andor, não um verme capaz de violentar a
própria filha! Eu não sou burra, Klaoz! Minha mãe e meu pai podem não ter coragem de
dizer que sou fruto não apenas de um incesto, mas também de um estupro. Eles me amam
demais para conseguir dizer isso na minha cara. Mas eu conheço minha mãe o suficiente
pra saber que ela não teria nada com um imbecil como você de boa vontade!
A expressão de Klaoz não deu nenhum sinal de irritação, mas por dentro ele estava
começando a fervilhar. Aparentemente o dom de tirá-lo do sério que Nike tinha passara
para as filhas também.
- Sua mãe não é a santa que parece, filha. Mas você está nervosa demais agora para
conversarmos. Pra você ver que não sou tão mal quanto dizem por aí, vou desamarrar suas
pernas para você ter mais mobilidade.
- Poxa, estou emocionada com tanta bondade... – Álnaz debochou. Outro hábito de
Nike que Klaoz odiava.
- Claro que vou manter alguém aqui para te atender...
- Ou seja, para me vigiar.
- ...E não tente nada, minha querida primogênita. Como já deve ter percebido, seus
talentos estão temporariamente bloqueados. Mas eu garanto que, uma vez que tenhamos
O n i e r | 160

nos entendido, você terá seus dons liberados com todo o potencial que Andor tentou tirar
de você. – Klaoz completou.
Álnaz não entendeu do que ele estava falando, mas Klaoz era completamente louco e
todo sneipas que se preze sabia disso. Klaoz soltou as cordas das pernas dela. Ela queria
chutar a cara dele, mas percebeu que suas pernas estavam dormentes demais pra isso. Ele
chamou uma jovem de cabelos claros e olhos azuis como o céu, lhe deu instruções para
atender Álnaz e não tirar os olhos de cima dela. Depois se aproximou e deu um beijo na
testa dela, mesmo ela tentando evitar ao virar o rosto.
- Descanse, minha filha. Papai volta mais tarde.
- Não sou sua filha! Sou filha do Andor, rei de Rígel, e Nike!
Klaoz se virou e saiu antes que perdesse a paciência e desse umas boas chicotadas
naquela menina para aprender a respeitá-lo. Mas ela ia aprender. Ia respeitar ele e amá-lo
como pai. De qualquer jeito!
- É estranho como você parece tanto com Lena e ao mesmo tempo não parece. À
propósito, eu sou Sila. Melhor amiga de Lena.
- Álnaz, futura rainha de Rígel. – Álnaz disse com orgulho. – Quem é Lena?
- Sua irmã, aparentemente.
- O que? – Álnaz ficou confusa. – Eu não tenho irmãos, infelizmente. Minha mãe e meu
pai sempre disseram que eu teria uma irmã caçula que agora estaria perto de fazer....
- Doze anos. Sim. É ela. Andor não quis levar ela embora com ele porque achou que
seria um fardo. Nike, apesar de estar com um pé na cova na época, era a arma mais
poderosa de Omoh. Valia o esforço. Quando ela acordou ele disse que a menina tinha
morrido pra ela não querer vir aqui. Depois Nike descobriu, parece que eles discutiram um
pouco, ela perdoou ele em troca dele se casar com ela e ela prometeu que nunca
procuraria a caçula. Coitada. Lena ficou tão decepcionada. Passei dias consolando a
coitadinha. – Sila disse quase chorando.
Álnaz levou um tempo para conseguir falar. – Isso é mentira! Meu pai NUNCA faria
isso! Ele sempre sofreu muito por não ter conseguido salvar minha irmã! Ela estava
condenada, nasceu antes do tempo e estava quase morta.
- E, no entanto, ela é uma moça bonita e muito forte. E... bem viva. – Sila disse.
- Você está só tentando me envenenar contra meus pais. Minha mãe ainda sofre muito
por essa morte. Essa garota que você fala, se for minha irmã mesmo, eu garanto que esse
bandido que você chama de rei foi quem escondeu a existência dela!
- Bem, eu acho difícil já que todos no reino conhecem Lena e a adoram. Mas quem
sabe... Eu só sei o que cresci vendo. O rei Klaoz sofria tanto por não poder ter você aqui.
Lena o consolou tantas vezes. Olha, eu tenho um OFR com a imagem dela. Você quer ver? –
Sila perguntou pegando a tela de vidro do bolso.
O n i e r | 161

Álnaz sempre quis ter irmãos e, se houvesse a menor chance de que sua irmã caçula
estivesse viva, ela tinha que saber. – Quero.
Sila se aproximou, sentou na cama perto da cintura de Álnaz, ligou o aparelho e uma
imagem dela com Lena, semanas antes, surgiu. As duas estavam rindo, um braço ao redor
do ombro da outra, com uma bela cachoeira ao fundo. Álnaz quase engasgou. Ela sempre
se considerara parecida com a mãe, mas aquela menina na imagem era quase uma cópia de
Nike, só que mais jovem e com os cabelos mais cacheados. Embora a menina parecesse ser
muito mais velha pelo corpo bem desenvolvido, Álnaz não tinha como negar a semelhança
e aqueles olhos....
Papai e mamãe vão ficar radiantes quando descobrirem que minha irmãzinha está
viva! Álnaz pensou e disse: - Onde ela está?
Sila pareceu preocupada. – Ela foi viajar...
- Mas...? – Álnaz perguntou notando a preocupação da loira.
- Nada. – Sila respondeu colocando uma expressão sorridente, mas um olhar triste.
- Você não mente muito bem, sabia?
- Desculpe. É que... Não é nada em particular... É só que ela está demorando e o rei
Klaoz parece tão tenso... Ela já devia ter voltado, mas quando pergunto pro meu tio sobre
ela, ele muda de assunto e parece tão preocupado... – Sila disse e começou a chorar. – Eu...
Eu não sei o que vou fazer se..se algo acontecer com ela... Lena é como uma irmã pra
mim....
Álnaz lamentou não poder esticar a mão para secar as lágrimas da moça. – Sila, não é?
– A outra balançou a cabeça confirmando. – Tenha fé. Ela vai ficar bem. Seja o que for, se
ela precisar de ajudar, me conte que vou da um jeito e ajudarei ela. Afinal, aparentemente
ela é minha irmã.
Sila fungou, enxugou os olhos com a bainha da blusa. Álnaz não gostava de nenhum
sapiens, além de sua mãe, claro. Mas aquela menina poderia ser de grande ajuda pra uma
possível fuga dela ali. Já que ela gostava tanto de Lena, seria bom manter a jovem ao seu
lado para coletar o máximo de informações possível antes que ela voltasse para casa.
- O...Obrigada. Espero que Lena esteja bem. Ela é tão sensível... – Sila disse e quase riu
com a mentira. Lena era muita coisa... Chata, metida, mimadinha, fraca, mas sensível ela
não era.
Ela passou o resto da tarde cuidando de Álnaz, contando histórias engraçadas de sua
família (todas as histórias eram falsas ou de outras pessoas que ela ouviu seu tio contar),
tentando evitar assuntos pesados, mencionar Klaoz, Lena, Nike e Andor. Ela era boa nessa
coisa de parecer legal e deixar as sementes de dúvidas, de raiva, captar informações sutis e
usar a seu favor. Ela aprendera com o melhor. Seu tio e amante sempre a ensinara muito
bem. A tarde passou tranquilamente, apesar do humor oscilante de Álnaz por estar presa
O n i e r | 162

na casa do ser mais odioso que conhecia e pela possibilidade de sua irmã estar viva. Ela só
conseguia pensar em fugir dali e contar pra sua mãe. Ela odiava ver Nike com os olhos
vermelhos por uma noite de choro pela morte da criança que ela tanto amou, apesar das
circunstâncias.
No fim da tarde, a porta se abriu e uma serva de uns 30 anos de idade entrou
silenciosamente.
– Ah, você chegou. Senhorita Álnaz... – Sila começou com toda simpatia que ela sabia
usar tão bem, embora fosse falsa como uma miragem no deserto.
- Já disse que você pode me chamar só de Álnaz, não precisa ser formal comigo.
- Muita gentileza sua, Álnaz. – Sila disse com doçura (preciso dizer que era falsa
também?). – Esta é Marah. É uma serva muito gentil que cuidava de Lena. Ela sofreu um
grave acidente na infância e infelizmente perdeu a língua. Apesar de não falar, ela é muito
dedicada e gentil. Ela vai me substituir enquanto descanso um pouco.
Álnaz ergueu uma sobrancelha ruiva. Isso era incomum. Sapiens costumavam se
desfazer de qualquer criatura que desenvolvesse alguma deficiência, mesmo que pequena.
Eles não toleravam depender de outros ou ter que cuidar de alguém com alguma
deficiência. Geralmente, quando o próprio sapiens deficiente não se matava, a família os
jogavam no agora conhecido como Abismo dos Tolos. Porque Marah era uma exceção? E
que tipo de acidente bizarro arrancava uma língua? Mas Álnaz não quis ser indelicada
perguntando.
- Olá Marah. Espero que possamos nos dar bem. – Álnaz disse com um sorriso gentil e
a serva retribuiu com um sorriso doce. Álnaz não precisava ter o dom do oráculo pra saber
com certeza que iria gostar muito dela.
Sila se despediu e saiu graciosamente. Quando a porta se fechou ela andou a passos
largos para os aposentos de seu tio.

~o~
- Entre, Sila. – Esvion disse, mesmo sem ver quem batia na porta de seu quarto. Ele
estava recostado no sofá espaçoso, com um livro na mão e um braço apoiado no braço do
sofá segurando uma taça prateada de uma bebida alcoólica forte.
Sila entrou e trancou a porta. – Como você sabia que era eu?
- Eu sou um mago, menina. Além do mais, fui eu que dei a ordem pra aquela escrava
deformada ir mais cedo assumir seu lugar. – Ele disse fechando o livro, o colocando ao seu
lado no sofá e bateu uma mão no colo. – Vem aqui.
Sila andou até ele animadamente e sentou no colo do mago, uma perna de cada lado
dele. – Me dá um pouco? – Ela perguntou apontado pra taça.
- Só se você merecer. Conta pro titio como foi. Em detalhes.
O n i e r | 163

Sila narrou detalhadamente sua conversa com Álnaz. Sila não era maga, não tinha
talento pra isso, só um pouco da intuição dos magos. Mas ela tinha um dom que Esvion
percebera muito antes dos pais dela. Sila tinha uma memória infalível. Nunca esquecia
nenhum detalhe de nada. Era quase como se a mente dela funcionasse como as telas que
transmitiam imagens, as OFR. Tudo que ela via e ouvia ficava gravado como uma pintura
perfeita em sua memória.
- O que você acha? Ela acreditou? – Ele estava testando a perspicácia da jovem.
- Não. Ainda não. Mas a semente da dúvida foi plantada. Ela e Lena são fáceis de
manipular se usar o sentimentalismo tolo que elas tanto amam. Vou me fixar nessa tática e
virar amiguinha dela. – Sila disse, segurou o queixo de Esvion e roçou levemente seus lábios
nos dele. – Isso se o meu tio preferido deixar.
Ele sorriu de canto. – Eu gosto da ideia. Mas não seja excessivamente confiante.
Sneipas são traiçoeiros como serpentes. É preciso cautela. – Ele segurou a taça nos lábios
dela e deixou que ela tomasse um pouco do líquido forte e amargo. Treinar a resistência
dela para bebida era um ensinamento que ambos adoravam porque sempre terminava em
sexo. Sempre.
Ele virou o resto da bebida na boca, colocou a taça na mesinha ao lado do sofá e
ordenou: - Fique de pé e tire toda a roupa. Devagar. Preciso de diversão esta noite.
Sila obedeceu alegremente. Peça por peça, lentamente, quase torturando, ela tirou
toda a roupa na frente dele, enquanto ele continuava sentado observando com o mesmo
olhar de um lobo para um pequeno coelho indefeso na floresta. Embora Sila não fosse nada
indefesa. Quando ela terminou, ele levantou, a empurrou para ficar de quatro com as mãos
no assento do sofá, foi para trás dela, tirou a roupa apenas o suficiente para aproveitar o
corpo firme e definido da garota, e aproveitou cada momento que pôde com ela. Ele
precisava mesmo se divertir um pouco ou não aguentaria Klaoz mais nenhum dia. Ele
estava mais insuportável que o habitual desde que Lena caíra nas mãos de Andor.
- Posso dormir aqui hoje? – Sila perguntou quando ambos estavam cansados, mas
satisfeitos, horas depois.
- Não. Vá assumir seu posto com aquela garota de cabelos ridículos. Que tipo de
criatura nasce com cabelos vermelhos e orelhas pontudas? – Esvion resmungou, enquanto
Sila o provocava dando beijos em seu peito.
- Deve ser algum castigo divino ou uma maldição pelo sangue sneipas de Nike. – Sila
disse entre os beijos.
- Talvez. É melhor você ir. Amanhã o titio te compensa.
- Ah, tio! Por favor... Só mais uma vezinha? – Sila disse já sentando em cima dele,
sabendo que ele não negaria.
O n i e r | 164

- Eu não devia ter te ensinado a usar seu corpo para conseguir o que quer... – Ele
brincou, já cedendo à estratégia de Sila. Afinal, só mais uma vez ne. Ele merecia depois de
um dia infernal com aquele rei nervosinho. Ah se ele fosse um mago mais poderoso do que
Klaoz...

~o~
Naquela noite, Andor estava no jardim particular de Álnaz, um nó na garganta
prenunciando mais uma onda de lágrimas. Ele evitara Nike a noite toda, em parte porque
não queria brigar com ela de novo, mas principalmente porque não queria que ela visse o
quanto ele estava desesperado por saber que Álnaz estava com um ser tão odioso quanto
Klaoz. Ali, na companhia daquelas flores vermelhas que pareciam aranhas disformes,
criadas por Álnaz anos antes, seu primeiro projeto de sucesso, ele se sentia mais próximo
dela. As borboletas azuis que Álnaz criava voavam tranquilas ao redor do jardim de flores
exóticas, como se o mundo fosse apenas um lugar de belezas e paz.
- Só uma imaginação fértil como a dela pra criar essa coisa estranha e linda. – Ele
murmurou orgulhoso, nostálgico, enquanto uma lágrima teimosa caía na flor. Alerta como
sempre, ele se virou já com a espada em punho, pronto pra atacar, assim que sentiu uma
presença próxima.
- Desculpe. Eu pensei que... – Gareth murmurou, os olhos vermelhos e trêmulo. –
Pensei que estaria vazio aqui. Eu... Eu vou...
- Não seja tolo, Gareth. Venha. – Andor disse estendendo a mão para o rapaz. Ele não
o vira desde sua tentativa desesperada de correr para o território Omoh, sozinho, e
arrancar Álnaz das mãos de Klaoz.
Gareth se aproximou e ajoelhou na frente das flores que Álnaz chamava por um nome
esquisito.
- Como ela chama essas flores mesmo? – Gareth disse, ignorando o nó em sua
garganta.
- Lycoris. – Andor respondeu sorrindo.
- Nunca vou entender a imaginação dela. – Gareth disse.
- Seria difícil. A imaginação dos sapiens é insuperável. Um dom que eles não souberam
usar. Felizmente, Álnaz tem sangue sneipas suficiente para torná-la uma combinação
perfeita da nossa inteligência com a imaginação fértil dos sapiens. – Andor disse com
aquele orgulho de raça que tantos problemas causara entre ambos os povos.
- Com certeza. – Gareth disse. – Lycoris...
- Ela disse que a cor lembrava muito os cabelo dela e um licor que eu bebi uma vez
quando ela era pequena. Não sei porque ela ficou com isso na mente. Nem eu lembrava
desse licor.
O n i e r | 165

- Eu preciso fazer alguma coisa pra trazê-la de volta. – Gareth disse olhando
diretamente pra Andor. – Eu não consigo mais ficar parado.
- Nós vamos tirá-la de lá, Gareth. Nem que eu tenha que revirar esse planeta do
avesso e dividir o Continente Único em vários pedaços. – Andor disse e sua atenção se
voltou para a serva que estava (ou deveria estar) cuidando de Nike depois de mais uma
discussão entre eles por ela ter ido visitar a filha sem nenhum guarda na prisão. – Peni!
Onde está Nike?
- Ela disse que iria dormir e me mandou vir buscar uma peça da princesa para ela. – A
serva disse.
Ok. Parecia uma história plausível. Nike queria sentir o conforto do cheiro da filha em
uma peça de roupa para dormir. Era normal. Mas se tinha uma coisa que Nike não era, é
normal. O alarme na mente de Andor soou. Algo que ela havia dito no calor da discussão
horas atrás pareceu ter um sentido bem diferente do original.
- Droga! É uma tática. Ela vai aprontar. Gareth, sooe o alarme. Ninguém entra ou sai
desse palácio até segunda ordem! – Andor disse já indo às pressas para o quarto de
hóspedes que Nike assumira depois da briga, não querendo dormir com ele.
Gareth ficou para trás com um olhar irritado, embora ele entendesse a situação. A
prioridade devia ser Álnaz, mas o rei estava indo atrás de Nike. Ele entendia as razões de
Andor, mas, ainda sim... Ele dera a ordem pelo OFR e foi atrás do pai, sabendo que Invis o
procuraria para tentar entender o motivo da ordem.
- Esta noite vai ser looonga. – Gareth murmurou colocando uma flor lycoris presa no
bolso perto do peito.
E foi mesmo.
O n i e r | 166

Custe o que custar


A sala onde Lena estava não era úmida e obscura como as masmorras de Klaoz, mas
também não era o exemplo do luxo. Era um ambiente fechado com grades de ferro e uma
grade de pura eletricidade na frente. A luz era emitida por uma lâmpada de vidro branco
colocada no teto a 4 metros do chão, cercada por uma grade de ferro. O banheiro era
simples, mas cercado por um cômodo pequeno. Não havia assento no vaso, apenas o
objeto feito de pedra, um chuveiro muito alto que ligava assim que alguém entrava
embaixo automaticamente. A cama era feita de pedras que pareciam fixas no chão com
algum tipo de cimento, o colchão era grosso cheio de ar, os lençóis eram grossos e
mantinham-na aquecida naquele ambiente que parecia uns 10 graus mais frio que o
normal.
- Aposto que veio ter certeza que sua filha renegada vai morrer logo de frio. – Lena
disse, deitada de costas para as grades, de barriga para cima e olhando pra nada em
especial. Ela não precisava se virar para saber de quem eram aqueles passos leves e meio
mancos.
- Eu nunca renegaria você, meu amor. – Nike disse com uma pontada no coração.
- Sei.. Por isso deixou seu amante nojento me prender aqui feito um animal?
- Lena, eu não pude impedir... Você não colaborou muito também. – Nike respondeu.
- Nada que saia dessa sua boca mentirosa vai me convencer. – Lena disse se sentando
e olhando pra Nike com ódio. – Você acha que eu não estive presa antes? Meu pai me
prendeu durante anos por sua culpa, porque você o fez acreditar que estava morta. Eu
paguei pelo seu erro! Mas não pense que não vou fugir daqui. Eu sou muito boa em fugir
das prisões em que me jogam.
- Lena, me escute...
- Eu não tenho que escutar você, sua mentirosa falsa! Você diz que é minha mãe, que
me ama, toda essa baboseira, mas o fato é que estou presa aqui. – Lena disse. – Eu vou sair
daqui e quando eu sair vou atrás do meu pai e vou contar pra ele que você mentiu pro meu
irmão e o fez acreditar nessa coisa hedionda de que você foi abusada pelo nosso pai. Eu
posso não ser a maior fã do papai, mas ele nunca me tratou como uma bandida ou falou
qualquer coisa contra você!
Nike conhecia bem aquele ar decidido. Isso Lena herdara tanto dela quanto de Klaoz. A
menina falava sério. Ela tentaria fugir, cedo ou tarde, e voltaria para Klaoz. O pensamento
causou um arrepio aterrorizado em Nike.
- Você tem razão. – Nike disse.
- Eu tenho?
O n i e r | 167

- Sim. Eu nunca pude fazer nada por você, nada para proteger você dos males do
mundo. Nunca fui uma mãe pra você. Não importa se eu sabia que você estava viva ou não,
o fato é que você não tem como me ver como mãe. Mas, minha caçula, eu juro que eu vou
proteger você e sua irmã. Mesmo que isso me custe um preço extremamente alto. Um que
eu jamais conseguiria pagar por mais ninguém. – Nike disse se virando para sair. –
Descanse, meu amor.
Ela saiu e Lena ficou ali parada sem entender bem o que tinha acontecido, apenas
focada no plano de fuga que sua mente estava formando.

~o~
- Eu quero vê-la. – O espião disse.
- Claro. Eu mantenho minhas promessas, meu bom homem. – Klaoz disse.
Sinalizando para que ele o seguisse, Klaoz levou o espião para o quarto de Álnaz, o
antigo quarto de Nike. Ele bateu levemente na porta, temendo acordar a filha. Sila abriu e
saiu da frente para ele entrar. Álnaz estava dormindo um sono agitado, se contorcendo e
com expressão de medo no rosto. Havia um hematoma arroxeado no ombro.
- Saia. – Klaoz ordenou e Sila saiu silenciosamente.
- O que significa isso? – O espião perguntou revoltado, se aproximando da cabeceira
da cama. – Eu fui bem claro quando aceitei ajudar nisso.
- E eu jamais descumpri minha palavra. Especialmente porque eu não gosto de
machucar minha filha.
- Então porque isso?
- Ela tentou fugir hoje cedo durante o banho. Chegou até a janela e estava pronta para
pular, mesmo sabendo o quão alto era. – Klaoz disse, havia cansaço em sua voz. – Eu
consegui contê-la, mas, mesmo sem magia, a menina é forte. Quando a trouxe para dentro
ela estava descontrolada de raiva. Na confusão, ela me derrubou, eu a empurrei de cima de
mim e ela bateu ali. – Ele sinalizou para a mesa baixa onde Álnaz havia caído e batido o
ombro. – Precisei aplicar uma poção em suas narinas e ela entrou em sono profundo.
Infelizmente não posso controlar quais sonhos ela tem ou mesmo acordá-la enquanto o
efeito da poção persistir.
- Droga, Álnaz. – O espião murmurou. – Isso não pode acontecer, Klaoz. Tenha mais
controle do que acontece dentro de sua casa!
- Escute bem, homem. – Klaoz disse num tom perigoso. – Eu não recebo ordens de
ninguém e espero que você não esqueça disso. Garanto que ninguém está mais interessado
no bem estar de minha filha do que eu. Você terá o que deseja em breve e isso é tudo que
deve lhe preocupar.
O n i e r | 168

- Espero que seja em breve mesmo. Estou cansado de esperar que você cumpra sua
palavra. – O espião respondeu com a raiva começando a ferver.
- Traga informações mais úteis que...
- Mãe...Não...A arma...cuidado mãe....arma final....vai...destruir....tudo....mãe.... –
Álnaz balbuciou em seu sono, atraindo a atenção dos dois.
- Arma final? – Klaoz olhou desconfiado para o espião. – Que diabo de arma final é
essa?
- Eu nem imagino. Ela nunca mencionou nada assim. Deve estar só delirando.
Poderia ser isso mesmo, mas se tinha uma coisa na qual Klaoz era mestre era em ser
desconfiado. – Não... Eu não acredito. Deve haver um motivo pra isso...
- Garanto que nunca ouvi falar de nada assim. Você sabe que eu tenho muito a ganhar
com o fim dessa guerra. Não tenho porque esconder algo que poderia finalmente me dar o
que quero.
- Pode ser. Mas conheço Nike o bastante pra saber que se alguém pode construir uma
arma final, tão poderosa que venceria uma guerra, esse alguém é ela. Se Álnaz sabe disso,
Nike pode ter feito ela se calar. – Klaoz disse andando de um lado pra outro, maquinando
seu próximo passo. – Investigue. Isso pode ser a chance que esperávamos.
- Tem uma coisa que poss trazer pra descobrirmos se essa arma existe ou não. Uma
criação da sua adorada Nike. – O espião disse. – Vai fazer Álnaz falar, querendo ou não, e,
melhor de tudo, não vai machucá-la e nos fazer perder nossa vantagem em forma de
mulher.
- Perfeito. – Klaoz disse olhando para a filha. – Veja só... Minha preciosa Álnaz vai ser
mais útil do que imaginamos.
- Mãe...cuidado...não...não...mamãe... – Álnaz murmurava, presa eu seu sono
conturbado.

~o~
- Seyrus, espero que entenda que não posso simplesmente liberar você para viver
entre nós como se não tivesse feito nada. – Andor disse. – Suas informações e evidente
disposição para trabalhar ao nosso lado conta muito a seu favor, mas...
- Eu entendo. – Seyrus disse.
- Vou manter você aqui, sob vigilância e restrito à apenas algumas áreas do castelo.
Você ficará no quarto ao lado de sua irmã porque eu sei que ela já sofreu muito pela
distância entre vocês e sei que você nunca faria mal à ela. – Andor disse. – Mas, só poderá
andar pelo palácio com ela ou algum guarda e não poderá visitar nenhuma ala científica ou
militar, a menos que eu ou Invis o convoquemos. Se burlar a qualquer uma dessas regras eu
o jogarei na prisão ate que sua sentença por todos os seus crimes seja definida. Fui claro?
O n i e r | 169

- Sim, senhor. – Seyrus respondeu naquele tom típico dos soldados ao responderem à
seus superiores. Era apenas seu instinto militar falando mais alto.
- O julgamento deverá ser realizado por uma corte militar, em respeito ao seu posto,
mas ainda não temos uma data predefinida. – Invis completou.
– Até lá você pode optar por se manter no castelo ou se unir aos nossos exércitos. Isso
não o eximirá de seu julgamento, mas contará a seu favor. – Andor disse.
- Prefiro lutar, majestade. Seja qual for a situação, sempre escolherei lutar. – Seyrus
disse orgulhosamente.
- Assim será. – Andor respondeu cansado por tantas horas ali ouvindo as informações,
vendo Seyrus desenhar mapas que auxiliariam muito nos ataques, narrar tudo que sabia
sobre o espião, mas que não era muita coisa. Invis não estava cansado já que chegara a
poucos minutos, mas parecia agitado, preocupado com algo. Talvez Gareth tivesse piorado?
Um guarda apareceu na porta e o conselheiro foi atender, ouvindo a mensagem
sussurrada. Ele voltou com o rosto preocupado. – Majestade. – Invis se aproximou e
sussurrou no ouvido do rei. Andor ficou mais vermelho de raiva, dispensou Seyrus
ordenando que o guarda e Invis o acompanhassem até seus novos aposentos e saiu
praticamente soltando fogo pelas narinas. Ele nem percebera o quão rápido chegara em
seus aposentos. Entrou fechando a porta com um baque alto que fez Nike se sobressaltar.
- QUE DROGA VOCÊ ESTÁ TENTANDO FAZER? QUER SE MATAR? – Andor tinha perdido
sua cota de paciência.
- Abaixa a voz que não sou nenhuma rameira pra você gritar como um dono de boteco
decadente comigo! – Nike levantou do sofá esfumaçando. – Fale como gente decente e
explique de merda você está falando.
- Estou falando da sua visitinha secreta à sociopata da sua filha! – Andor disse ainda
irritado, mas tentando não gritar feito louco.
- Minha filha não é uma sociopata e não fiz nenhuma visita secreta ou seus guardinhas
não teriam me visto lá! Apesar de que parece que você resolveu me espionar agora. – Nike
já estava de pé, braços cruzados e batento um pé nervosamente no chão.
- Talvez eu devesse mesmo vigiar você, quem sabe até amarrar você na cama pra parar
de tentar se matar desse jeito! Aquela louca tentou matar você, inferno! – Andor disse
andando nervosamente pelo quarto. Só quando terminou de falar e olhou para a noiva,
percebeu a grande merda que fizera.
Nike o olhava com o mesmo ódio de quando eles eram inimigos. Sozinho com ela, por
já num hábito, ele não usava mais aquelas barreiras internas que o impediam de sentir os
sentimentos de outra pessoa, que bloqueavam um pouco da força da sua empatia. Nesse
momento então ele pôde sentir o que ela sentia com toda a força. Raiva, incredulidade,
O n i e r | 170

revolta, medo. Medo dele. Não. Não medo dele. Medo do que ele dissera e do que isso a
fez se lembrar.
- Eu não quis... – Andor tentou apaziguar um pouco os ânimos, passando uma mão
pela cabeça nervosamente.
- Me prender? É claro. Porque é isso que você realmente quer, não é? Manter uma
mulher sob suas ordens, sem questionar, sem ter uma vida própria. – A mente de Nike
estava girando entre aquele momento e as inúmeras vezes em que Klaoz a prendera com
cordas, correntes ou colocara guardas para seguí-la por todos os lados para que ela não se
relacionasse com mais ninguém. – Eu devia mesmo ter imaginado isso.
- Como você pode imaginar que eu iria fazer algo tão mesquinho assim? – Andor
estava triste pela situação, mas também magoado por ela sequer imaginar isso dele.
- Não fui eu quem disse que queria prender você! Eu nunca vou deixar de defender
minhas filhas e você nunca vai me entender! Tudo que você quer é que eu te obedeça
como um animalzinho adestrado! Eu devo focar só no bem das minhas meninas mesmo,
custe o que custar... – Andor não entendeu a última frase, mas sabia que Nike havia
entrado na espiral de raiva e que seria impossível falar com ela agora. Ela não ouvia a razão
quando ficava nesse estado. – Quer saber? Vou dormir no quarto de hóspedes. Lá quem
sabe eu possa ficar tranquila sem medo de ser presa ou de ouvir seus gritos histéricos
porque fui visitar a MINHA filha! Você é tão imbecil quanto o Klaoz!
Nike saiu furiosa deixando Andor entre a mágoa e a raiva alimentadas por aquela
última frase que doera como uma espada entrando em seu peito.
Ela realmente pensa que eu e Klaoz somos iguais? É assim que a mulher que amo me
vê? Talvez ela não seja a mulher de minha vida, afinal, já que ela me conhece tão pouco pra
dizer algo assim... Andor pensou pegando um jarro de cerâmica da mesa de centro e o
jogando na parede. O vaso se partiu em mil pedaços. Mas ele sabia sem sombra de dúvidas:
Nike era a mulher da sua vida. Ele decidiu sair pra esfriar a cabeça. A saudade e a
preocupação com Álnaz, agora a briga com Nike, ele precisava ficar sozinho. Eu nem pude
dizer à ela que Seyrus está no quarto de hóspedes....
Quando Nike chegou no quarto e encontrou Invis saindo, só pelo olhar o conselheiro
entendeu que ela e Andor tinham brigado. Ele acenou respeitosamente e saiu. Nike entrou
e abraçou o irmão como uma tábua de salvação. Os dois conversaram principalmente sobre
as personalidades e o crescimento das meninas, cada um preenchendo o outro com tudo
que sabia sobre cada menina com quem cada um convivera. Por fim, exaustos, Seyrus se
deitou com Nike do lado em sua cama, de mãos dadas como faziam quando Nike era
pequena e acordava com medo de pesadelos no meio da noite. Agora, mesmo ela nunca
tendo confirmado, Seyrus sabia que os pesadelos eram causados pelos abusos que ela
sofria do pai naquela época. Ele nunca deixaria de se sentir culpado por não ter percebido
O n i e r | 171

isso antes e protegido a irmã. Seyrus acabou dormindo, mas Nike estava em alerta. Aquele
momento com Seyrus era uma despedida, embora ele não soubesse. Ela colocaria seu
plano em ação e nem mesmo o amor que sentia por Andor a impediria.

~o~
Era tarde quando Nike se levantou e saiu do quarto de hóspedes, silenciosa como um
gato, para seguir seu plano. Ela iria salvar sua filha. Sem armas, sem truques, sem exércitos.
Ela sabia que só tinha uma coisa que Klaoz queria mais do que o poder: ela. Se ele soltasse
Álnaz, ela ficaria com Klaoz, sem mais tentativas de fuga, sem rejeitá-lo, sem contestar nada
que ele quisesse dela. Ela faria tudo que ele quisesse, seria dele como nunca fora antes,
desde que ele liberasse Álnaz e deixasse as meninas viverem em paz em Rígel. Nike não
tinha dúvidas, ninguém que ouvisse essa ideia teria nenhuma dúvida. Klaoz aceitaria.
Ela foi até o quarto de Andor, rezando internamente para que ele não estivesse lá.
Apenas a serva que sempre atendia Nike estava arrumando uma bandeja na mesa. Sem
dúvida Andor ou Invis haviam ordenado que a serva trouxesse algo. – Peni, querida, é
tarde, você deveria ir desansar.
- Agradeço a preocupação, senhora, mas o rei ordenou que eu ficasse lhe fazendo
companhia esta noite. – A serva respondeu.
- Entendo. – Nike tinha que pensar rápido. Não queria ferir a serva tão gentil, mas não
ia desistir de seus planos. Esta noite ela salvaria sua filha. – Me sinto tão cansada. Acho que
vou dormir. Poderia me fazer um favor, querida?
- À suas ordens, senhora. – Peni disse contente. Ela gostava de trabalhar para Nike por
ela ser sempre tão gentil.
- Pode ir até o quarto da minha filha e me trazer algo dela? Me sinto tão vazia sem a
presença dela...
- Claro, senhora. Volto logo para ajudá-la a se arrumar para dormir. – Peni disse e saiu
apressada.
Com medo, tremendo por dentro, ela se vestiu, arrumou os cachos, colocou o manto
azul escuro que ganhara de Álnaz pouco depois que voltou do coma, e saiu
silenciosamente, evitando ser vista por qualquer um, se esgueirando pelos cantos.

~o~
Peni caminhava apressada pelos corredores perto do jardim da princesa quando ouviu
o rei gritar.
– Peni! Onde está Nike?
O n i e r | 172

- Ela disse que iria dormir e me mandou vir buscar uma peça da princesa para ela. –
Peni respondeu orgulhosa de si mesma por estar realizando seu trabalho tão bem. Ela ficou
parada esperando o rei a dispensar, mas Andor parecia ter visto um fantasma.
O rei de repente se virou para o rapaz que Peni demorou para reconhecer como sendo
o filho do conselheiro, e disse, já saindo apresssado: - Droga! É uma tática. Ela vai aprontar.
Gareth, sooe o alarme. Ninguém entra ou sai desse palácio até segunda ordem!
Peni, meio confusa, seguiu para o quarto da princesa para pegar a peça de roupa. Ela
não sabia o que estava acontecendo, mas cumpriria sua missão com eficiência, como
sempre.
Andor praticamente corria enquanto as palavras de Nike se repetiam em sua mente,
finalmente fazendo sentido: Eu devo focar só no bem das minhas meninas mesmo, custe o
que custar... custe o que custar...
- Por favor, deuses, que não seja o que estou pensando... – Andor murmurou
enquanto seguia para o quarto seu quarto e o quarto de hóspedes, torcendo para que ela
estivesse deitada. Com o medo que sentia agora tudo que ele queria era abraçá-la bem
forte, mesmo que ela ainda estivesse zangada com ele. Ele só queria que ela estivesse
segura.
O n i e r | 173

Uma noite longa


Andor entrou no quarto de Seyrus sem fazer barulho por simples hábito mesmo.
Seyrus, mesmo dormindo, com seu instinto militar e a boa e velha desconfiança sapiens,
sentiu que alguém o olhava e despertou dando um pulo da cama até o chão, já parando em
posição de luta.
- Onde está sua irmã? – Andor perguntou tentando disfarçar o pânico na própria voz.
- Majes... Ela... Ela está aqui na cam... Ue. Onde ela foi? – Seyrus disse ainda confuso e
sonolento.
Andor andou quase derrubando Seyrus e foi até os outros cômodos do quarto, um
banheiro e uma sala de estar elegante. Ela não estava em lugar nenhum.
- Droga, Nike! – Andor voltou às pressas pra saída.
- Espere. O qua está acontecendo?
- Sua irmã resolveu ser idiota agora. Venha. Temos que encontrá-la. – Andor disse e
Seyrus o seguiu preocupado. Era quase madrugada, mas no palácio parecia ser de tarde,
perto do almoço, com tanta gente indo e vindo em seus afazeres com o alerta do rei.
- Majestade. – Uma oficial da guarda responsável pelos guardas nos portões principais
chamou. – Fechamos tudo. Ninguém entrou ou saiu do palácio.
- Ótimo. Qualquer um que tentar passar, seja quem for, quero que você imobilize,
mesmo que seja necessário usar seu poder do sono.
- Sim, majestade. – A oficial se curvou e saiu apressada.
- Alguém invadiu o palácio de novo e está com minha irmã? – Seyrus perguntou.
- Não. Pior.
- Majestade. – Invis se aproximou. – Gareth já me informou sobre o alerta. O que está
acontecendo?
- Seyrus, você conhece sua irmã melhor do que qualquer um aqui e brincou durante
anos com ela neste palácio na infância com aquele jogo de procura-procura. Se Nike
precisasse sair e não conseguisse, onde você imagina que ela se esconderia até que o alerta
fosse retirado? – Andor perguntou rezando pra que ela realmente não tivesse saído ainda.
- Esconde-esconde. O nome do jogo é esse. Mas que história é essa dela tentar sair
daqui? Você machucou minha irmã?! – Seyrus disse já quase gritando, não dando a mínima
para quem ouvia.
Andor puxou ele com força pelo braço e entraram numa sala próxima que servia como
sala de música. – Primeiro, tenha cuidado com seu tom aqui, garoto. – Andor disse baixo e
perigoso. – Se bancar o valentão assim de novo um dos meus guardas pode matar você
O n i e r | 174

antes mesmo que eu possa abrir a boca. E não, eu NUNCA machucaria sua irmã. Esses
hábitos gratuitamente violentos são do seu povo, não do meu.
- Andor, Nike está mesmo tentando fugir? – Invis perguntou interessado.
- Ela está tentando voltar pra aquele maníaco. – Andor disse, soltando Seyrus.
- Porque ela faria isso? Minha irmã tem mais motivos pra querer distância do Klaoz do
que qualquer um de nós.
- Se eu estiver certo, pra trocar a liberdade de Álnaz pela dela. – Andor disse. – Agora,
pare de rodeios e responda a droga da minha pergunta, garoto!
- A gente corria pelo palácio todo, é difícil dizer.
- Talvez ela já tenha saído antes do alarme, Andor. – Invis disse.
- Pense, Seyrus!
- Er.... Não sei, faz muito tempo... – Seyrus disse triste.
- Andor, meu amigo, ela já deve estar do outro lado da fronteira à esta altura...
- CALE A BOCA, INVIS! – Andor estava tão vermelho como se estivesse no campo de
batalha. Ele não conseguia nem imaginar Klaoz colocando as mãos em Nike de novo. Ele
empurrou Seyrus numa parede com uma mão e manteve ali. Seyrus, apesar de menor em
altura, era mais forte fisicamente, poderia sair dali facilmente se quisesse, mas ele
entendeu o desespero de Andor porque ele também estava desesperado ao imaginar a
irmã com aquele homem odioso de novo. – Force a memória, caramba! Se não a
encontrarmos ela vai voltar pro psicopata nojento que fez tanta merda com ela! PENSE,
INFERNO!
- No... No pátio onde ficam as estátuas de fadas, na cozinha leste, no labirinto do
jardim oeste e... e no jardim onde Betel morreu. Isso. Esses são os lugares que me lembro
que ela gostava de se esconder. – Seyrus respondeu meio incerto.
Andor soltou Seyrus e saiu. Seyrus e Invis se olharam meio perplexos demais pra se
mexer, até que Andor gritou do corredor: - INVIS! ANDA LOGO!
Invis quase deu um pulo de susto. Andor nunca gritava assim e muito menos com ele.
O rei estava mesmo em pânico. O conselheiro e Seyrus saíram pra seguir o rei. Seyrus
trombou em alguém na saída.
- Gareth, filho, venha conosco. – Invis disse meio que prevendo qual seria o próximo
passo do rei.
Gareth olhou desconfiado pro sapiens que trombara nele seguiu ao lado do pai. O rei
parou, reuniu os guardas e os mandou vasculharem a cidade até a fronteira em busca de
Nike. Um grupo tinha saído assim que ele percebera o plano da mulher, mas ele estava tão
preocupado que mal estava raciocinando direito. O grupo saiu e quatro guardas ficaram.
Cada um sairia em busca de Nike em um dos quatro pontos citados por Seyrus e levaria um
guarda junto. Nike podia ser um perigo quando queria, mesmo com os próprios dons ainda
O n i e r | 175

parcialmente bloqueados. Andor procuraria no labirinto, Seyrus na cozinha, Invis no pátio


das estátuas e Gareth no jardim de Betel. Era altamente improvável que ela estivesse no
jardim de Betel porque ela nunca ia lá, o sentimento de culpa pela morte do próprio pai não
deixava. No labirinto era mais provável justamente pela complexidade de encontrar
qualquer coisa ali. Mas Andor conhecia aquele labirinto como a palma da mão. Se ela
estivesse lá, ele a encontraria.
O grupo saiu e procurou por quase uma hora. Nada. Bem, quase nada. Invis encontrou
um casal namorando escondido na fonte próxima da estátua, dois jovens mal saídos da
puberdade. Ele deu uma bronca nos dois e os mandou para dentro. Mas nenhum sinal de
Nike.
A esta hora com certeza que ela já está longe de Rígel, mas tenho que seguir as ordens
do rei e procurar. – Invis pensava enquanto vasculhava cada canto onde um ser vivo podia
se esconder ali. - Talvez seja melhor assim. Afinal, Nike é uma sapiens e ex-inimiga do reino.
Sem falar no assassinato de Betel que, por mais que ela se arrependa, não muda o fato.
Andor já tinha vasculhado o labirinto e seu entorno duas vezes...Nem sinal de Nike. Ele
não podia, e não iria, acreditar que ela já estava em Omoh. Não. Ele precisava seguir os
conselhos de Álnaz e pensar positivo. – Como se pensar positivo resolvesse algo... – Andor
murmurou. Seu comunicador tocou.
- Majestade, eu a encontrei. – Gareth disse do outro lado.
Andor nem respondeu, apenas desligou o comunicador e, quase correndo, foi até o
jardim de Betel pensando em todos os desaforos que diria pra Nike por assustá-lo assim.
Quando ele chegou, o guarda que acompanhava Gareth estava parado em prontidão atrás
de Nike e Gareth conversava baixinho com ela, sentado à sua frente, segurando suas mãos.
Ok. Não era nada demais e Gareth era seu genro, mas aquela cena deixou Andor mordido
de ciúmes. Enquanto ele entrava a passos largos e silenciosos, Invis apareceu na entrada
com Seyrus pouco atrás.
Andor parou de frente pros dois. Gareth se levantou e Nike, ainda sentada, levantou o
olhar pra ele, aquele olhar de desafio que ele amava e odiava nela.
- Deixe-nos a sós. – Andor disse pra Gareth, de mal humor.
Gareth olhou pra Nike, mas Andor não conseguiu captar o que aquele olhar significava.
- EU MANDEI SAIR, MOLEQUE! – Andor berrou e todo mundo no ambiente tremeu por
dentro. O rei não estava mesmo pra brincadeira.
Invis se aproximou do filho, colocou uma mão em seu ombro e disse, olhando pra
Andor: - Vamos, filho. Deixe eles conversarem.
Os dois fizeram uma reverência e saíram acompanhados dos guardas trêmulos e de
Seyrus que foi puxado pelo braço por Invis para fora. Quando o casal ficou sozinho, Andor
explodiu.
O n i e r | 176

- Você está tentando se matar ou me matar de preocupação. O que você estava


pensando!? Ir até Klaoz? SÉRIO?
- Eu não ia...
- Nike não teste minha paciência. Eu não sou um sapiens com inteligência restrita pra
não perceber o que você quis fazer.
- Que se dane! Eu ia mesmo. Não. Eu ainda vou! Minha filha está lá, presa com aquele
doente e só os deuses sabem o que ele estpa fazendo com ela, você e seu exército não
conseguem passar pela segurança do palácio e tem Lena.... Ela me odeia.
- Amo, você não está sendo racional. Onde está a mulher inteligente e poderosa que
eu conheço?
- Ela virou mãe, Andor! Acha que eu me preocupo com droga de inteligência quando
uma das minhas filhas está à mercê de um maníaco e a outra me detesta?! É minha
obrigação como mãe proteger minhas filhas. MINHA!
- Certo. Então você se entregaria e aí? Acha que ele cumpriria sua parte no acordo?
Que ele libertaria Álnaz? Ou que, mesmo se libertasse, não viria atrás das meninas? Ou que
acabaria com a guerra porque as filhas estão aqui? Nike, é o Klaoz, lembra? Ele não tem
honra, não tem palavra, por tudo que é mais sagrado! Ele é completamente louco e cruel! –
Andor disse, abaixando a voz. Não adiantava gritar e esbravejar com ela. Ele entendia o
estado de desespero que sentia emanando dela e misturando com o seu próprio.
Nike estava contendo as lágrimas com muito custo. – Mas... Eu tenho que fazer algo.
Eu não poss...não posso deixar minha menina lá, Andor.
- Não podemos. Álnaz é quase uma filha. – Andor disse. – Quase. Mas também estou
preocupado com ela, acha que não? Querida essa não é a solução. Isso só nos colocaria em
mais problemas porque não tenho dúvidas de que Klaoz arrumaria um jeito de desbloquear
seus dons por completo e te usar contra nós de novo.
- Eu nunca...
- Depois do que ele fez com Seyrus você não pode garantir que nunca seria usada
assim. Sabe disso. Do jeito que ele é eu não duvido que ele te usaria pra matar a todos nós,
mesmo que matasse suas filhas aqui conosco no processo. – Andor disse acariciando os
cabelos cheios de folhas e galhinhos da mulher.
Nike se acalmou depois disso com facilidade. Andor até estranhou ela se acalmar tão
rápido, mas percebeu que era só seu lado racional agindo. Ele pegou em sua mão e saiu.
Invis e os outros estavam voltando pra entrada do jardim com rostos preocupados.
- O que houve? – Andor perguntou.
- A menina, a filha da senhora Nike. – Invis olhou pra Nike. – Ela fugiu.
Andor se virou pra Nike, de repente atribuindo sua calma fácil à outra coisa. – Foi
você! Isso tudo foi um plano pra ela fugir! RESPONDA, NIKE!
O n i e r | 177

- Ajuda bastante se eu souber a pergunta, Andor. – Nike disse o nome dele como se
fosse um veneno que ela precisava cuspir.
Andor pegou no braço dela com força, mas ela não abaixou o olhar desafiador.
- EI! SOLTA A MINHA IRMÃ! – Seyrus gritou e correu pra frente, mas Invis o segurou.
- Foi você que ajudou a menina a fugir? Sim ou não? – Andor perguntou, sentindo uma
onda de raiva que não era sua. Era de Seyrus e mais alguém que ele não conseguiu
identificar no calor da emoção e seu foco em Nike.
- Não. – Nike disse sem vacilar. – Agora solta meu braço ou vou chutar seu saco com
tanta força que seu pinto nunca mais vai subir!
Andor percebeu finalmente o que estava fazendo e a soltou. Ele queria acreditar nela,
mas àquela altura não seria fácil. Irritado ele apertou tanto seu braço que uma mancha
roxa estava se formando e ele queria socar a si mesmo por isso. Mas depois ele se
resolveria com Nike.
- Guardas, acompanhem a senhora Nike e o irmão até o quarto de hóspedes e só os
permitam sair na companhia de um de vocês. – Andor disse sem olhar pra Nike por
vergonha e por desconfiança.
Invis soltou Seyrus que correu pra abraçar a irmã e a levar pra longe de Andor.
- Espero que encontre a minha filha e não resolva agir como um sapiens bêbado e
violento com ela também. – Nike disse em alto e bom som, sabendo que isso iria ferir o rei
mais do que o chute que ela queria dar no meio das pernas dele, e seguiu com o irmão e os
guardas para o quarto.
Eu preferia o chute. Andor pensou magoado quando Nike disse isso, mas não
demonstrou o quanto aquilo doía.
Durante toda noite as buscas por Lena foram feitas, mas a menina parecia ter se
enfiado dentro da terra. Não havia nenhum sinal dela em lugar nenhum.

~o~
Álnaz ouviu uma voz distante falando algo sobre um plano de roubar algo de algum
lugar pra usar nela. Mas era tudo confuso demais. A voz parecia familiar... Não. As vozes.
Ambas pareciam familiares, mas ela não conseguia abrir os olhos, não conseguia se mexer.
Seu corpo pesava, suas pálpebras mais ainda. Algum tempo depois, não sabia dizer quanto,
ela conseguira abrir os olhos com muito esforço. O rei estava dando ordens pra uma serva
em seu quarto.
- Prepare as roupas que mandei separar e coloque no meu quarto. Minha esposa
chegará em breve. – Ele pegou uma caixa de madeira ricamente decorada. – Coloque isto
lá. Não pegue nada daí de dentro, estúpida! Eu sei cada jóia que tem aí e se faltar uma
pedrinha sequer das joias da minha Nike eu vou matar você, muda dos infernos!
O n i e r | 178

Nike? Minha mãe? Ele...Ele vai trazer minha mãe pra cá? Álnaz sabia por alto o que
Klaoz fizera com a mãe e a raiva começou a dominá-la.
A serva saiu apressada, deixando Klaoz no quarto. Sila surgiu no campo de visão de
Álnaz.
- Então a senhora Nike vai mesmo voltar?
- Sim. Minha esposa, sua rainha, a mãe das minhas filhas. – Klaoz dizia com tanta
paixão que Álnaz só queria bater nele por falar assim da mulher que era filha dele.
- Majestade, eu sei que o senhor não costuma pegar as servas, e eu entendo. Mas um
homem tão viril como o senhor tem suas necessidades. Se ela não vier, de repente, o
senhor poderia...
- O que? – Klaoz olhou pra Sila de cima a baixo com desdém. – Você não é mulher pra
mim, pirralha. É só uma prostituta do mago que às vezes é útil. Mas eu só tenho tesão pela
única mulher que sabe ser mulher de verdade. Não por uma vadia qualquer que é comida
pelo titio.
Sila ficou muda, se sentindo a pior das criaturas, desprezada, sem graça. Álnaz sentiu
muita pena da garota que, por mais louca que fosse por querer aquele monstro na cama
dela, não merecia ser desprezada assim. Ninguém merecia.
- Eu posso aprender, majestade. Eu só quero o lugar de honra como sua amante. – Sila
disse, engolindo o orgulho, afinal, ser a amante do rei lhe daria um status muito poderoso
na corte.
Klaoz, se divertindo com a auto-humilhação da moça, pegou seu pescoço com uma
mão forte e apertou devagar enquanto falava. - Minha Nike sabe fazer coisas com aquele
corpinho delicioso e aquela boca excitante que você não aprenderia nem se nascesse mil
vezes. Agora sai da minha frente, sua imunda, antes que eu te mostre a força com a qual eu
transo com a minha Nike e duvido que você goste tanto quanto ela adora.
Ele largou a moça no chão que caiu sentada. Ela se levantou e percebeu que Álnaz
estava acordada, olhando assustada pro quanto Klaoz estava visivelmente excitado só de
falar em Nike. Sila saiu sem dizer ao rei que a filha estava acordada, torcendo pra que Álnaz
matasse Klaoz. A menina na cama ainda estava se sentindo pesada, com os músculos
adormecidos, mas a raiva alcançou o ápice com a forma que Klaoz falara de sua mãe, como
se ela gostasse de ser violentamente abusada por ele, como se aquilo fosse a coisa mais
excitante do mundo. A saliva em sua boca ficou inexplicavelmente ácida, sua pele
formigava, sua visão ficou vermelha como se enxergasse através de sangue, sua mente só
pensava em como fazer Klaoz sentir na pele tudo que ele fizera com sua mãe. As plantas
floridas em vasos espalhadas pelo cômodo se moveram lentamente, como se seguissem as
batidas do coração de Álnaz. Klaoz sentiu a intensa magia rodando no ar e se virou pra
Álnaz.
O n i e r | 179

Sem saber como ou quando, ela havia ficado de pé na cama tão silenciosamente que
parecia impossível. O movimento das plantas aumentou ferozmente junto com a raiva de
Álnaz quando seu olhar se cruzou com o do pai. Klaoz olhava com espanto e orgulho nada
disfarçados. Por instinto usou sua magia pra criar um escudo invisível ao redor do próprio
corpo. Se Álnaz estava mesmo usando seu poder adormecido, ele precisaria daquele
escudo ao redor do corpo todo. Os galhos das plantas se fortaleceram com a magia de
Álnaz, ficando mais grossos e, enquanto cada palavra de Klaoz sobre sua mãe, cada
pensamento sobre o que ela devia ter passado, cada crueldade que ela ouviu falar que ele
fazia, surgiam em sua mente aumentando sua raiva, os galhos das plantas o atacavam,
batendo em seu escudo com tanta força que ele precisava de todo seu foco pro escudo não
quebrar. Ele conseguia desviar de um ou outro ataque com dificuldade, mas o ódio de Álnaz
era poderoso demais e os galhos não saíam do rumo que estavam, mesmo quando ele
desviava. Os galhos seguiam em linha reta até atingir algum móvel com tanta força que ele
se quebrava ou era lançado longe. Então Klaoz teve uma ideia pra ver se ela conseguia
mesmo liberar seu poder, mesmo com a poção de sono profundo e o bloqueio mais
recente.
- O que foi, minha princesinha? Ficou chateada porque o papai não trouxe a mamãe
ainda? Não se preocupe. Vou buscar ela e vou aproveitar cada pedacinho daquele corpo
delicioso antes de chegar aqui. – Ele disse e o resultado esperado aconteceu.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – Álnaz, mais vermelha do que
um morango, gritou e as flores nas plantas soltaram seu pólen violentamente como uma
explosão, todas ao mesmo tempo. As plantas ficaram negras, a madeira da cama escureceu
e criou mofo em algumas partes, como se estivesse infectada por algo. E estava. O pólen
das flores antes inofensivas se tornou tão venenoso com a raiva de Álnaz que matou
qualquer coisa viva em que tocou.
- Uau. Melhor do que pensei. – Klaoz murmurou.
Álnaz, cansada pelo esforço exagerado e ainda enfraquecida sob efeito da poção, caiu
na cama desacordada. Com um movimento mais rápido do que o normal, Klaoz lançou seu
escudo para as quatro direções, causando um vento forte que empurrou as janelas se
abrindo para fora e levando os resquícios do veneno no ar para fora. Ele respirou
cautelosamente até ter certeza que não havia mais veneno no ar. Sila que ainda estava do
lado de fora sozinha enxugando as lágrimas de raiva, não entrou torcendo para que Álnaz
estivesse matando o rei idiota, mas, quando ouviu a voz murmurada de Klaoz, se recompôs
e entrou com uma expressão surpresa e confusa, parcialmente fingida.
- Majestade... O que houve? – Sila perguntou.
- Saia enquanto aplico outra dose da poção do sono na minha filha. Não entre até que
eu ordene, rameira suja! – Klaoz esbravejou irritado porque a menina atrapalhou seu
O n i e r | 180

momento de orgulho e êxtase com a força da filha. Afinal, ela não só despertara sozinha um
dom propositalmente adormecido, mas o fizera com um poder incrível, sob outro bloqueio
recente de seus outros dons e sob o efeito de uma poderosa droga sonífera.
Sila saiu quase correndo, fechou a porta de novo, a única que não se escancarara com
o golpe de Klaoz, e ficou de pé de costas na parede do corredor. Ela não chorou mais,
apenas alimentou o ódio crescente em seu peito pela forma como fora rejeitada.
- Sila. – Esvion chamou.
Sila, parada do lado de fora do quarto de Álnaz foi até o mago, parou a um passo dele,
olhou ao redor e, vendo que não havia ninguém ali, abraçou e beijou ele da forma mais
sensual que ele lhe ensinara.
- Oi tio.
- Oi pra você também. O rei está com a garota pálida?
- Sim. Ele mandou eu aguardar enquanto ele aplicava outra daquelas coisas pra fazer
ela dormir.
- O que? – Esvion deixou Sila e foi até o quarto. Bateu uma única vez e entrou sem
esperar resposta. – Majestade, não pode aplicar isso de novo ela... O que raios aconteceu
aqui?
O quarto estava todo revirado, a mesinha estava caída a metros de seu local original,
todas as plantas que haviam no quarto estavam mortas, a madeira da cama estava negra e
mofada. Quando à menina na cama, estava quase tão vermelha quanto seus cabelos.
- Como pode ver, minha primogênita despertou seu talento adormecido e é mais
resistente do que imaginávamos. – Klaoz respondeu completamente sem emoção na voz,
mas por dentro ele só faltava explodir de orgulho.
- Deuses... – Esvion murmurou. Ela é perigosa... Muito perigosa. – Mesmo assim uma
dose tão alta em tão pouco tempo pode...
- Esvion, meu caro, - Klaoz se levantou e seguiu como um lobo até Esvion – você não é
ninguém pra querer me ensinar como ser um mago poderoso. Você é só o mago que eu
coloquei no lugar que já foi meu por mera caridade. Nunca se esqueça disso. Agora pare de
me incomodar e vá trepar com a sua sobrinha prostituta que eu vou cuidar da minha
filhinha.
Esvion conhecia aquele tom perigoso e aquele rosto aparentemente sem emoções do
rei. Um olhar errado, um gesto levemente irritado, e Klaoz o mataria sem pensar duas
vezes. Esvion abaixou o olhar, fez uma reverência e saiu com o máximo de humildade que
podia demonstrar. Por dentro ele estava fervendo de ódio. Ele estava começando a se
cansar disso. Passou por Sila e puxou ela pelo braço, sem sutileza nenhuma e sem dizer
uma palavra. Naquela noite o sexo com Esvion não foi nada prazeiroso pra Sila, mas ela não
reclamou, só fez o que aprendera a fazer de melhor desde muito jovem: fingir.
O n i e r | 181

Quando o dia clareou, Klaoz estava sentado na cabeceira da cama, com os pés pra
cima e a cabeça da filha no colo, acariciando os cabelos cor de fogo da menina adormecida.
Esvion dormia um sono profundo e satisfeito, enquanto Sila estava nua em pé na varanda
do quarto do mago admirando o rapaz que a olhava lá de baixo com uma expressão
excitada no rosto. Abaixo, olhando pra bela mulher nua sem nenhum pudor lá em cima,
Miror não conseguiu esconder o quanto tinha ficado tentado com o corpo de Sila, afinal, ele
não tinha mulher nenhuma na cama desde que Lena tinha sido presa em Rígel.
Em Rígel as coisas não estavam melhores com a luz da manhã. Nike não conseguira
dormir, nem mesmo segurando a mão do irmão, mas, com pena pela preocupação que ele
dormira por causa dela, ela não quis se levantar pra não soltar a mão dele. Sua mente
estava a mil pelas palavras quer ouvira naquela noite. Um misto de medo e esperança
preenchia seu coração, mas, acima de tudo, uma indecisão que a perseguiria por um bom
tempo. Andor estava em seu escritório, olhando sem ver os documentos em sua mesa, se
sentindo um péssimo noivo, amigo e pai. Acima de tudo, se sentindo o ser mais solitário do
universo. Invis e Gareth, cada um em seu quarto reviviam cada momento daquela noite em
suas mentes. Mas cada um tinha uma razão específica e bem diversa pra isso.
Aquela fora realmente uma looooooonga noite.
O n i e r | 182

O espião
- O clima entre eles ficou abalado heim... Muito bom, isso vai facilitar meus planos. –
Klaoz disse para Esvion, agachado ao lado dele esperando o momento certo de atacar.
Andor havia reunido um exército considerável para invadir a fronteira de Omoh antes
que a passagem se fechasse pela tempestade e Álnaz fosse condenada a viver mais tempo
com o pai psicopata. O ataque deveria ser surpresa, Andor se cercara de todos os cuidados
e nem mesmo para Nike contara o plano. Mesmo assim, como sempre, Klaoz fora
informado e aguardava na fronteira com um exército muito maior. Não era só pra não dar
falsas esperanças à Nike que Andor não contara nada. A verdade é que ele tinha uma triste
certeza de que Nike fingira a própria fuga só para desviar a atenção de Lena e ajudá-la a
fugir. Nike estava furiosa com ele e qualquer tentativa de diálogo entre os dois agora
terminava em discussões acaloradas, um sempre magoando o outro tanto quanto podia.
Nike passou a jogar na cara dele suas tentativas frustradas de resgatar Álnaz só para ferí-lo
tanto quanto ela se sentia ferida por ele não acreditar na palavra dela. Andor, com o
orgulho ferido e a sensação de traição por Nike ter ajudado Lena a fugir, jogava na cara dela
todas as coisas que ela fizera lutando ao lado dos sapiens no passado. Parecia que para o
noivado ser desfeito era só uma questão de tempo.
Agora, em meio à batalha, pegos de surpresa de novo pela informação vazada ao
inimigo, Andor começava a desconfiar que Nike era a espiã de Klaoz e até que tudo o que
ela viveu com Klaoz, os abusos, tudo pudesse ser parte de um plano dos dois para destruir
os sneipas por dentro de sua própria nação.
O ataque sangrento revelou um problema sério para os sneipas. Alguns sapiens
haviam desenvolvido um tipo de luta mais sutil, com movimentos suaves, se aproximando
mais sorrateiramente, sem aqueles gritos e aquela força bruta animalesca deles. Antes que
os sneipas percebessem a mudança na técnica de luta, vários sapiens se aproximaram o
suficiente pra abrir a boca do inimigo, enquanto outro sapiens mais violento vinha pela
frente, enfiava a mão em sua boca, puxava a língua e a cortava com machados, facões,
espadas, etc, arrancando junto a lorpat do pobre coitado que caía se debatendo e
espumando até morrer. O sapiens nem precisava mais tocar na joia pra tirá-la. Agora ele
simplesmente cortava a língua, evitava o jogue do sistema de segurança da joia, e matava o
inimigo. Aquilo era o pior que a mente sneipas podeira imaginar. Mas ninguém pensou em
fugir. Não quando a vida da futura rainha sneipas estava em perigo. Na verdade, esse fato
só tornou tudo muito mais sangrento.
Sneipas, vermelhos como sangue, até mesmo em suas íris, revoltados com um golpe
tão cruel e herege em suas crenças, partiram pra cima dos sapiens com muito mais vigor.
O n i e r | 183

Eles se moviam tão rápido que às vezes pareciam sumir e reaparecer do nada de uma
sombra a outra. Uma tática desenvolvida por Nike que elevou o poder de ataque dos
soldados e agora se mostrava incrivelmente útil. O ataque acabou sendo repelido quando
Klaoz e Esvion atraíram os inimigos mais para dentro do território Omoh, parando em um
vale, cercado por uma floresta pequena. O exército sapiens correu para dentro da floresta,
com os sneipas a quilômetros de distância. Os dois magos, com as mãos no solo, ocultos
por duas árvores, esperaram que seus inimigos pisassem no vale e quando o fizeram os dois
enviaram uma onda de energia mágica azul clara que brilhou como finas e gigantescas veias
embaixo do solo. Cada uma dessas ‘veias’ luminosas encontrava um pequeno círculo
enterrado que brilhava junto e explodia, destroçando o corpo dos sneipas que estivessem
sobre ele ou nas proximidades. Foi uma cena terrível. Corpos voavam e se despedaçavam
no ar antes de atingir o solo, gritos ecoavam e eram cortados por explosões e mais gritos
dos comandantes com ordens de recuar.
Andor que não queria mais ver seu povo sofrendo, sabendo que em breve não haveria
mais nenhum soldado ali pra lutar, recuou mais furioso do que nunca. Ao longe, vendo
apenas a forma pequena e distante de Klaoz, ele pôde sentir mais do que ver o sorriso de
triunfo do sapiens. Naquele momento ele decidiu que, não importa o quanto custasse, não
importa a quem isso fosse ferir. Ele iria encontrar o traidor que estava trabalhando para o
inimigo.

~o~
- Trouxe logo antes que aquela maldita tempestade se intensifique. – O espião
entregou o frasco com o líquido amarelado.
Esvion, verificando os sinais vitais de Álnaz antes do procedimento, estava sentado na
cama, a uma distância respeitosa, fazendo seu trabalho em silêncio.
- Muito bom. – Klaoz pegou o frasco com adoração, lembrando que aquilo era uma
criação de sua adorada Nike. – O noivado patético já foi cancelado?
- Ainda não, mas será. Andor está conquistando o ódio até de seus amigos mais
próximos. Nem eu sei mais se quero deixar ele vivo depois que eu conseguir o meu prêmio.
– O espião disse e Klaoz o olhou curioso.
- Mesmo? Não posso dizer que não apoio a ideia. – Klaoz disse. – Só o deixarei vivo por
causa de nosso acordo. Se dependesse de mim eu arrancaria a cabeça dele com um
machado e beberia seu sangue.
- Eu sei. Mas ainda quero dar uma chance à ele. Mas garanto que ele está por um fio
comigo. Álnaz conseguiu de novo?
- Ainda não. O desgaste mágico foi muito forte. Ela acordou poucas vezes e não
conseguiu falar por dias.
O n i e r | 184

- Imagino. Mas ela é forte. E hoje, de qualquer forma, ela vai falar.
- Estamos prontos. – Esvion disse quando Álnaz começou a acordar.
- Apliquei isso no pescoço dela e conte um minuto. – O espião disse.
Esvion pegou a seringa, colocou o líquido amarelado e injetou no pescoço da moça
antes que ela pudesse perguntar qualquer coisa. Ela se sentiu tonta, seus pensamentos
ficaram lentos, meio bagunçados, seus lábios ficaram um pouco dormentes e ela não mais
conseguia raciocinar.
- Faça uma pergunta qualquer usando a mentira como base para ela confirmar. – O
espião disse.
- Álnaz. – Klaoz chamou atraindo o olhar da filha por puro reflexo ao ouvir seu nome. –
Você foi criada a vida toda em Omoh, certo?
- Não. Fui criada em Rígel. – Álnaz respondeu e, no fundo de sua consciência, não sabia
como tinha feito aquilo. Era quase como se as palavras tivessem escorregado por sua língua
sem nenhum controle.
- Álnaz, - Esvion chamou – quem é seu melhor amigo?
- Gareth, meu namorado. – Álnaz disse e Klaoz conteve a vontade de esbravejar. Não
era hora de deixar seu ciúme tomar conta. Ele tinha que focar na tarefa antes que o efeito
da poção passasse.
- Ela está pronta. Vai sempre responder à tudo que perguntar apenas com a verdade e
pode acabar falando mais do que foi perguntado se a resistência dela à poção não for alta.
– O espião disse.
- Muito bem. Álnaz quero sua mãe criou uma arma capaz de acabar com a guerra? –
Klaoz começou.
Intimamente Álnaz estava lutando pra mentir, pra dizer que não, perguntar de onde
ele tirou essa ideia, mas era inútil. As palavras estavam saindo e nada do que ela tentava
fazer surtia efeito, só a deixava mais tonta. – Sim. Foi um acidente, mas minha mãe achou o
fim da guerra.
- Sua mãe contou ao rei Andor? – Esvion perguntou.
- Não. A mamãe não vai entregar a arma pra ninguém. É perigoso. – Álnaz estava se
xingando mentalmente por estar falando algo que ela não deveria falar nunca.
- E porque ela não quer entregar a arma pra ninguém? – O espião perguntou.
- Porque o mundo vai acabar se alguém usar. Mamãe quer que as espécies se dêem
bem, mas eu não acredito nela. Minha mãe é muito fraca se acha que a paz é uma opção.
Nós sneipas odiamos os sapiens e isso nunca vai mudar. Não mudou mesmo quando o
planeta sneipas natal foi destruído pelo ódio e pela guerra. Sneipas não conseguem parar
depois que o ódio se instala. – Ela respondeu.
- Onde está a arma, Álnaz? – Klaoz perguntou.
O n i e r | 185

- Não sei. Mamãe não deve ter deixado no laboratório porque ela não é burra. Ela
deve ter escondido. – Álnaz respondeu.
- Ela não teria destruído? – Esvion perguntou.
- Não. É impossível destruir aquilo. – Álnaz disse. – Talvez ela resolva usar pra me
salvar desse lugar asqueroso. Só precisaria de bastante sneipas com as lorpat pra ativar
aquela coisa e...
Álnaz piscou algumas vezes, a tontura e a confusão um pouco mais intensas. Ela não
lembrava momentaneamente o que tinha dito até que a confusão em sua mente foi
substituída pela memória. Ela virou a cabeça para o chão da cama e vomitou enojada
consigo mesma e com o efeito colateral da poção. O espião teve o cuidado para não dizer
mais nenhuma palavra e não correr o risco de que a menina o reconhecesse pela voz. Não
era muito provável, mas era melhor evitar. Sempre usando uma máscara escura, um manto
longo e capuz, só Klaoz conhecia sua verdadeira identidade e, talvez, Esvion desconfiasse.
Tudo que ele não podia arriscar era ser descoberto justamente por Álnaz, a garota que seria
uma arma poderosa na luta para tirar Andor do poder e colocar ele próprio no lugar. Klaoz
sinalizou liberando o espião e ele saiu silenciosamente enquanto Álnaz ainda vomitava ao
lado da cama. Ele andou tranquilamente, uma figura misteriosa, mas muito familiar à todos
os guardas e moradores do palácio em Omoh. De repente ele parou e, se não fosse por sua
máscara de tecido escuro, o homem quem saía de um quarto ainda dando uns amassos na
jovem Sila teria visto o enorme sorriso em seus lábios.
- Interessante. – O espião disse.
Miror deu um pulo, sacando sua espada, pronto pra matar qualquer um. Mas o espião
com um golpe mais ágil, sacou a própria espada com aquela lâmina prateada de ferro e
jogou a espada de Miror longe.
- Seu espião idiota! Quase me matou de susto! – Miror bradou.
- Acho que você deveria começar a se preocupar com a própria morte mesmo. – O
espião colocou de volta a espada em sua bainha. – Porque eu só imagino o que Lena diria se
soubesse que o namoradinho secreto dela transando com a falsa da Sila enquanto ela está
só os deuses sabem onde.
- Eu não estou transando com ela!
O espião gargalhou. – Ora, Miror, me polpe. Não nasci ontem. Essas marcas de unhas e
chupões no seu pescoço não vieram de uma simples conversa ne. Eu, no seu lugar, iria rezar
à todos os deuses conhecidos e desconhecidos para que Lena não reapareça.
O espião saiu gargalhando enquanto Miror pensava se matava ele enfiando sua espada
pelas costas ou não, mas não seria sábio de qualquer forma. Ele não sabia quem o espião
era, mas era óbvio que era alguém extremamente hábil com as espadas. Sem saber a
identidade do inimigo não era sábio enfrentá-lo.
O n i e r | 186

Bem, se, algum dia, Lena souber, eu vou explicar tudo com calma. Miror pensou.

~o~
- Oi, Lena. – O espião chamou, entrando pela porta da casa humilde, mas muito
bonita.
- Oi. E então?
- Aqui está o que você me pediu. – O espião entregou algumas roupas que trouxera
para a menina. - O velho acordou?
- Ainda não, mas o efeito da poção da verdade ainda não passou. Ele revela coisas que
fez a quase 40 anos, mesmo dormindo.
- Sim. Quanto mais velha é a pessoa, mais o efeito demora a passar. – O espião
revelou.
- Ainda não consigo acreditar que ela disse a verdade... Meu pai nunca foi um santo e
confesso que eu fui tomando cada vez mais raiva dele, mas daí a ser tão... Tão nojento?
Sabe... É... Revoltante.
- Sim. Eu sei. Mas lembre-se do nosso acordo. Primeiro tiramos Andor do poder por
tudo que aquele sonso fez e escondeu de todos. Depois derrubamos seu pai do pedestal
nojento dele.
- E aí eu assumo o trono de Omoh e Álnaz o de Rígel. – Lena disse.
- E a guerra perderá o sentido.
- Parece um bom plano. Bem ou mal, tanto eu quanto Álnaz temos sangue mestiço e
ninguém pode contestar nosso direito legítimo a cada um dos tronos. – Lena pensou.
- Fico feliz que você me entenda e compartilhe o mesmo sentimento.
- Se você não tivesse me revelado quem você é eu não teria motivos pra acreditar em
seu desejo de nos ver no trono. – Lena disse. – Mas, sabendo o que sei, não tem como não
entender.
O espião tirou a máscara e abaixou o capuz para sentir a brisa suave que entrava na
casa. – Essa coisa esquenta horrores. Está com fome?
- Sim.
- Ótimo. Vamos comer então. – Ele disse e foi para cozinha, seguido por Lena, e ambos
se dividiram na tarefa de preparar a comida e um suco para eles e uma sopa para o pobre
sapiens idoso que estava dormindo balbuciando verdades que ele próprio já havia
esquecido a décadas.
O n i e r | 187

E o prêmio de ‘maior desconfiado’ vai para…


Andor estava irritado, desconfiado até da própria sombra e explosivo naquela manhã.
Mas isso não era novidade. Esse era o humor habitual dele nos últimos dias e isso estava
beirando o insuportável. Nike não estava muito melhor. Mantida sob constante vigilância,
mais tensa do que na época que acordara do coma, sendo interrogada com frequência pelo
noivo, não era de admirar que ela estivesse com os nervos à flor da pele. Seyrus estava com
movimentos restritos ao próprio quarto e à sala de jantar, quando lhe era permitido.
Muitas vezes ele recebia a comida no quarto e era proibido de sair. Revoltada, Nike discutiu
com Andor na primeira vez que isso aconteceu. Ela se levantou, saiu da mesa, igorando a
ordem expressa do rei pra que se sentasse, e disse que se seu irmão não era bem vindo ali,
ela não tinha nada pra fazer naquela mesa.
Andor, furioso, proibiu desde então que ela se sentasse à mesa, mesmo quando Seyrus
fosse convocado. Invis preferiu não se envolver na briga do casal que ele nem tinha certeza
se deveria mesmo ficar junto. Mesmo porque a raiva de Andor, pela primeira vez, estava
atingindo até mesmo Invis e sua família. Sempre que podia, várias vezes ao dia, o rei
deixava claro que ele é quem mandava ali e Invis era apenas um conselheiro. Invis sempre
fora tolerante, afinal essa era uma qualidade necessária à sua profissão, mas Andor era seu
amigo e essas explosões do rei estavam sendo difíceis de relevar. Isso só piorou quando
Andor descontou sua raiva e desconfiança também em Gareth.
- E você quer me convencer que demorou assim só porque estava no jardim da MINHA
herdeira? - Andor disse.
Gareth estava de pé de frente pro rei que andava nervosamente perto do trono, três
degraus acima. Invis, de pé ao lado do trono, olhava para o filho silenciosamente pedindo
calma. Nike que estava voltando do trabalho, ouvira os gritos do rei e entrou na sala do
trono silenciosamente.
- Sim, majestade. - Gareth respondeu calmamente.
- Não acredito em você! Você está armando algo contra mim! -Andor desceu as
escadas e gritou: - FIQUE DE JOELHOS PERANTE SEU REI!
Nike e Invis olharam a cena revoltados, mas continuaram quietos. Gareth obedeceu.
- DIGA A VERDADE! - Andor berrou.
- Eu passei no jardim de Álnaz.
- Mentiroso! Mesmo se isso fosse verdade, quem você pensa que é pra ficar no jardim
da minha filha?! Você não é ninguém! Não tem direito nenhum de estar lá! E pra você é
PRINCESA Álnaz!
Nike, menos auto controlada que Invis, já estava trincando os dentes com raiva visível.
O n i e r | 188

- Quem eu sou? Teve amnésia? - Gareth disse ainda ajoelhado e de cabeça baixa. - Eu
sou o namorado e melhor amigo da jovem que você passou a vida inteira se
envergonhando de chamar de filha. Sou o homem que Álnaz escolheu como companheiro e
que não fracassou em salvá-lo do louco do Klaoz, como você facassou! - Gareth disse e
levantou o olhar magoado para encarar o rei.
Andor sacou a espada e a ergueu acima da cabeça, pronto pra atingir Gareth. - Vou te
ensinar à falar direito com seu rei!!!
Invis congelou em pânico no lugar. Nike, movida pela raiva e pelo medo porque sabia
que Andor sofreria por aquilo depois, correu e segurou o braço do rei antes que ele
golpeasse o jovem.
- Você ficou louco?! Pare com isso agora! Esse é o Gareth, filho do seu amigo, seu
afilhado, soldado leal, amigo e amado da Álnaz! - Nike disse com firmeza, mas Andor nem
olhava pra ela. Seu olhar cheio de ódio estava focado em Gareth que agora o encarava
assustado.
- Seu arrogantezinho imundo... Se seu pai não te educou, eu vou fazer isso.
- PORRA ANDOR! EU MANDEI PARAR! - Nike gritou e, sem planejar, uma luz amarela brilhou
levemente na mão que segurava Andor.
- MAS QUE MERDA! - Ele gritou, soltando a espada que caiu ridosamente no chão.
Esfregando levemente o braço ele olhou furiosamente pra Nike. Seu braço tinha uma marca
negra onde o poder de Nike o ferira. Guardas deram um passo à frente, mas o rei sinalizou
pra eles não se meterem. - Porque você...
- Porque você ia se arrepender pelo resto da vida se ferisse esse garoto sem motivo
nenhum e sabe disso! Vem, Gareth. - Nike disse, ajudou Gareth a se levantar e começou a
sair com o braço entrelaçado no dele.
- EU NÃO MANDEI SAIR! - Ajdor gritou.
Nike se virou levemente, olhou o rei com todo desprezo que pôde e disse: - Eu não
pedi permissão. Invis, acalme seu amigo antes que ele mate todo o reino.
- VOLTEM AQUI! – Andor gritou e se calou quando uma mão firme pousou em seu
ombro. Invis podia ser mais silencioso do que Andor às vezes. Quando o rei se virou e ficou
cara a cara com o conselheiro viu algo em seus olhos que nunca tinha visto, pelo menos não
direcionado à ele: raiva.
- Nike tem razão. Você perdeu completamente o juízo.
- O que? Acha que seu filho é um santinho? Ou você é quem anda entregando
informações pro inimigo feito uma serpente traiçoeira em meu lar?!
- Você precisa se controlar, majestade. Desconfiar do mundo inteiro não vai trazer
Álnaz de volta. Você costumava ser mais sábio que isso.
O n i e r | 189

- Eu sabia que não deveria confiar em você! Aposto que você também libertou aquela
louca da Ziélena, não foi?
- Não dá mesmo pra conversar com você. Você desconfia de quem nunca lhe deu
motivo pra isso. – Invis estava cansado de usar a razão com o rei.
- Eu desconfio porque você e seu filho patético estão sempre sumindo, sempre saindo
com a desculpa de resolver seus próprios assuntos em suas folgas! Lógico que isso é uma
desculpa pra enviar mensagens àquele psicopata!
- Eu não ataco pelas costas e você devia saber disso. Mas então vou te lembrar e
deixar bem claro uma coisa.
- O que? – Andor perguntou irritado.
- Andor, você é meu rei e meu amigo, por mais que eu venha me questionando sobre o
último. Mas eu sou pai e, mesmo que você negue essa ligação com Álnaz, você conhece o
sentimento. Então, mesmo que você banque o imbecil de novo, como uma última tentativa
de manter nossa amizade, vou lhe dar um aviso. – A voz de Invis era calma, mas o leve
tremor nos lábios, a raiva mal disfarçada nos olhos e o tom vermelho intenso da pele,
denunciavam o quanto ele estava lutando pra se controlar. – Você pode desfazer nossa
amizade como se fosse pior do que merda, pode me ofender, pode me xingar, pode enfiar
uma espada no meu olho, pode xingar meus antepassados e dançar sobre o túmulo deles e
ainda assim eu lhe serei sempre leal como meu rei. Mas se erguer a mão pro meu filho de
novo ou pra minha mulher eu juro por todos os deuses que não vou descansar até ver você
morto.
Andor ficou parado sem saber o que dizer. Invis fez uma reverência e saiu sem dizer
mais nada. O rei ficou pra trás se perguntando porque ele estava fazendo aquilo com seus
amigos.
Mas, afinal, quem são realmente meus amigos? Andor pensou com aquela
desconfiança de novo o atormentando. Mas o desprezo de Nike estava incomodando muito
mais. Ele decidiu que era hora de tentar conversar com ela.

~o~
Nike levou Gareth de volta pro jardim de Álnaz, sem pressa, e se sentaram em um
banco esculpido em um tronco. Gareth respirava com dificuldade, ainda se recuperando do
susto.
- Ele parece completamente maluco. – Gareth disse.
- Parece. Estou farta disso. – Nike comentou, passando a mão nas costas de Gareth em
movimentos circulares, pra acalmá-lo.
O n i e r | 190

- Precisa ser paciente, senhora. Ele está frustrado, assustado e tem esse maldito
espião pra piorar tudo. – Gareth disse, ainda curvado pra frente, respirando fundo. – Eu
também não devia ter dito aquilo...
- Pode parar, Gareth! Ele que começou. Se não queria ouvir umas verdades ele que
não bancasse o imbecil! – Nike se levantou andando nervosamente. Nem o aroma daquelas
flores parecidas com aranhas vermelhas pareciam mais acalmar o turbilhão de emoções
dentro dela. Ela amava Andor, mas estava cansada de tantas brigas, decepções,
desconfianças...
- Mas, ele é o rei...
- E ser rei é desculpa pra agir feito babaca? Não, Gareth, não é! Droga! Parece que o
Andor que amo desapareceu completamente junto com minha filha. – Nike disse à beira
das lágrimas.
Gareth sempre fora ensinado à agir como um cavalheiro com qualquer mulher. Então,
foi meio que um reflexo quando ele se levantou, andou até Nike, pegou suas mãos em uma
dele e, com a outra, secou a lágrima que caía dos olhos dela.
- Senhora, por favor, não chore. As coisas vão melhorar. Vocês só precisam de tempo e
uma conversa tranquila. – Ele disse num tom baixo e tranquilo.
- Eu não sei...
- Eu sabia que vocês eram um bando de traidores! – Andor disse já perto o suficiente
pra socar a cara de Gareth, mas se conteve.
Nike e Gareth praticamente pularam de susto. Ela sempre odiara esse hábito do noivo
de andar tão silenciosamente feito um espírito.
- Majestade, não é...
- Cale a boca, traidor desgraçado! – Andor disse quase babando de raiva. – Então é por
isso que ela anda se irritando facilmente comigo não é? Ela tem um amante, o moleque que
eu vi crescer, um garoto... Você, Gareth, seu fedelho!
- Eu não aguento mais isso. Você está se ouvindo? Acha mesmo que eu tenho um caso
com o namorado da minha filha? Um garoto! Pelos deuses, deixa de ser demente!
- Senhora, calma... – Gareth tentou apaziguar os ânimos.
- Calma nada! Gareth nos deixe a sós, por favor. – Nike disse com um olhar fuzilante
pra Andor. Ele podia estar descontrolado, mas não era burro o suficiente pra tentar agredir
o garoto sob o olhar fuzilante da noiva.
- Tem certeza? – Gareth perguntou preocupado. No estado atual de Andor ele temia
que o rei ferisse a mulher.
- O que está insinuando, sua serpente?! – Andor falou furiosamente.
- Gareth, pode ir. Não se preocupe. – Nike disse, ainda olhando pra Andor.
O n i e r | 191

Gareth fez uma reverência pra Nike como se ela fosse a rainha, ignorou Andor e saiu
em direção ao Leste onde ficava o escritório do pai. Ele precisava tranquilizar o velho
conselheiro que com certeza estava furioso e preocupado.
- Esse...
- Cala essa boca, Andor! – Nike abandonou o auto controle. – Você está se tornando
um rei tão pior quanto Klaoz!
- Não me compare à...
- Eu mandei calar a droga da boca! Você quase feriu, talvez até pudesse ter matado, o
Gareth. O GARETH, CARAMBA! Seu afilhado, seu genro, filho do seu melhor amigo! Aliás
não sei como Invis consegue ser seu amigo, porque do jeito que você tem tratado ele
qualquer um teria te mandado ir à merda! – Nike disse andando de um lado pra outro,
agitando os braços pra cima, nervosa.
- Ele é o espião!
- E COMO DIABOS VOCÊ SABE? Que inferno! Você interroga todo mundo já tendo
certeza com base em porra nenhuma que todo mundo é o espião. Trata todos como se não
fossem nada, como se você fosse o único que sente falta da Álnaz... EU SOU A MÃE DELA,
CACETE! Eu sinto falta da minha filha também. Eu também quero achar esse traidor do
inferno! Gareth está investigando por conta própria porque você está ocupado demais
atirando pra todos os lados feito um sacana desgraçado! Invis tem tentado desfazer as
merdas que essa sua desconfiança tem feito e quase não dorme mais. Mas nãããão... Você é
o único leal à causa no mundo. Você e só você se sente frustrado aqui. Justo quando mais
preciso de você, você não está aqui! Você é...isso... esse idiota!
- E por isso você foi buscar consolo nos braços do....
- Se você terminar essa frase eu juro que não respondo por mim. –Nike respirou fundo
pra não apertar o pescoço de Andor. – Gareth, Seyrus e até Invis que sei que não vai muito
com a minha cara têm sido meus apoios, os únicos preocupados com meus sentimentos ao
invés de agir feito um imbecil egocêntrico...
Nike estava trêmula tentando conter as lágrimas. Andor abaixou um pouco as
barreiras pra captar o que Nike estava sentindo e ter certeza de que tudo aquilo não era um
truque. A tristeza, a decepção e a solidão que ele sentiu nela o desarmaram. – Nike...
- O que é até irônico já que você é a droga do empata aqui... – Ela disse, secando
furiosamente duas lágrimas que caíram.
Ele esticou a mão pra tocar o braço dela, mas ela deu um passo pra trás agora secando
mais lágrimas teimosas.
- Não me toca, seu idiota!
Andor se aproximou e rapidamente a puxou num abraço apertado. Ela se moveu um
pouco tentando se soltar, mas ele a manteve firme. Ela parou, esgotada, e chorou até não
O n i e r | 192

ter mais lágrimas pra derramar. Ele manteve o abraço apertado, lágrimas caindo em cima
dos cachos da mulher. Quando ambos pararam de chorar, permaneceram abraçados, em
silêncio, se acalmando.
- Me perdoe... – Andor finalmente falou.
Nike ficou paralisada. Nenhum sapiens pediria desculpas à um sneipas, nem um
sneipas pediria perdão à um sapiens. Nunca. Era algo muito difícil de acontecer mesmo
entre eles, seu próprio povo. Ambos os povos tinham um orgulho muito difícil de quebrar.
Andor pegou o rosto de Nike com ambas as mãos, olhou nos olhos verdes cercados
por veias vermelhas de choro, e repetiu: - Me perdoe, minha amada. Eu... Não tem sido
fácil. Eu...Eu perdi o controle. Me perdoe... – Ele começou a dar beijos ao redor do rosto
úmido. – Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe.
- Andor... – Ela murmurou. Sua mente dizia que ele não merecia, mas a tentação
ampliada pela tristeza e a solidão, gritaram mais alto que sua mente. Ela segurou o rosto do
noivo e o puxou pra um beijo que levou à outro, outro, mais outro.
De longe um sneipas, bem escondido nas sombras de uma árvore distante, na parte
Oeste do jardim, depois do pequeno lago, observava a cena com desgosto.
- Esses dois são mais difíceis de separar do que pensei... – O espião murmurou.

~o~
- Majestade, chegou outra mensagem do espião. – Esvion disse, entregando a
mensagem.
Klaoz leu e de repente ficou tão vermelho de raiva que Esvion se perguntou se ele
poderia ficar no mesmo tom vermelho-sangue que os sneipas tinham desde que a guerra
começou. O rei amassou o pequeno papel, agarrou o facão que carregava na bainha presa
ao cinto e jogou acertando um guarda que estava parado na porta a alguns metros, quieto
em seu posto. O facão ficou cravado no pescoço do guarda, preso à porta, enquanto ele
piscava pesadamente, confuso, com medo, com dor, seu sangue caindo como uma
pequena cachoeira enquanto ele se debatia levemente, sua visão escurecendo. Esvion,
acostumado à essas cenas terríveis, continuou parado em seu lugar, esperando Klaoz falar.
- FILHO DE MIL PAIS BROCHAS! – Klaoz berrou. – Aquele....aquele...aquela coisa está se
reconciliando com a MINHA mulher!
- Assim que o plano funcionar, senhor, isso não fará diferença. Sua mulher estará de
volta.
- Você não entende, mago estúpido?! Eu não suporto que ninguém toque na minha
mulher! NINGUÉM! Vou quebrar cada osso das mãos desse bastardo miserável pra ele
nunca mais tocar no que me pertence!
O n i e r | 193

Klaoz andou até o guarda que ainda se contorcia, quase morto, tirou o facão e o
homem caiu no chão com um baque. Klaoz subiu no guarda praticamente morto e começou
a enfiar o facão no corpo com violência como se fosse Andor ali embaixo.
- MORRA, FILHO DE UMA RAMEIRA MANCA! NUNCA MAIS TOQUE NELA! NUNCA!
NUNCA! DESGRAÇADO! MORRE! MORRE MISERÁVEL! – Klaoz gritava dando um golpe no
corpo à cada sílaba. O sangue do guarda espirrou no rosto e no corpo do rei que ficou
banhado de sangue, sem parecer se importar. As paredes e o chão tinham tanto sangue
que qualquer um com o mínimo de humanidade vomitaria só de ver.
Esvion começou a preparar uma bebida pro rei que com certeza ia querer uma depois
dessa demonstração de...de... Sei la...Monstruosidade? Enfim, depois dessa morte. Por fora
o mago estava calmo e centrado como sempre, mas por dentro ele estava gargalhando e
quase virou fã de Nike por ela estar fazendo o rei ficar tão fulo da vida.
Bem feito, rei ingrato do caramba! Esvion pensou e precisou se controlar pra não rir.
O n i e r | 194

Comemorando o medo
A tempestade finalmente entrou em seu período mais intenso na fronteira impedindo
a passagem dos sapiens e a utilização dos portais sneipas. Andor se acalmara um pouco,
embora ainda tivesse alguns momentos de raiva em que ele se isolava de tudo e todos para
não acabar descontando em todo mundo novamente. Sua relação com Nike melhorara um
pouco principalmente porque ele estava visivelmente se esforçando para não deixar sua
desconfiança se voltar contra ela, além de tentar compensar tudo que fizera a tratando
com muito mais carinho. Mas não voltara ao normal. Nike estava se esforçando pra dar
uma chance aos dois, mas ele via o quanto ela ainda estava magoada. Sempre que algo caía
ou ele fazia qualquer movimento repentino, ela se assustava. Na verdade, sua relação com
ninguém voltara ao normal. Todos ainda estavam muito magoados por tudo que Andor
fizera e dissera contra todos sem motivo. Invis não o tratava mais como um amigo nem
quando estavam sozinhos. O tempo todo o conselheiro o tratava com respeito e
formalidade, sem nenhuma raiva em suas feições, embora o rei tivesse sentido a raiva
controlada dele. Invis o tratava com tanta distância que Andor temia nunca mais conseguir
recuperar a amizade dele, por mais que ele tentasse. Gareth o evitava sempre e só aparecia
quando era convocado ou quando seu trabalho exigia que ele encontrasse o rei. Não existia
mais aquele carinho do rapaz, aquela admiração pelo rei. Gareth tratava Nike como esse
respeito, essa admiração, até carinho, mas com Andor ele estava sempre sendo respeitoso,
porém distante. Em suma, boa parte do tempo, Gareth evitava o rei o máximo que podia e
Andor sabia que era por medo.
Medo. Esse era o clima no palácio real. Todos, do mais simples servo aos nobres,
tinham medo de estar perto de Andor e ele nem precisava ter empatia pra saber disso.
Estava estampado nos olhos de cada pessoa que passava por ele. Seyrus não escondia sua
desconfiança e raiva. Ele tratava o rei com respeito à posição dele, mas não ao próprio
Andor. Estava sempre em alerta com ele, sempre nas proximidades quando ele e Nike
estavam juntos. Como sinal de boa vontade, Andor até permitiu que Seyrus andasse pelo
palácio todo, porém com um guarda ou Nike junto, e que fizesse as refeições junto com
todos na mesa. No início o rapaz recusou, mas Nike o convenceu a dar uma chance e ele
aceitou principalmente porque não queria que a irmã ficasse com o rei por muito tempo
sozinha. Assim, na mesa, o clima era sempre tenso, por mais que se tentasse manter um
clima tranquilo. Seyrus ficava sempre calado e alerta à irmã. Invis arranjava uma desculpa
para não fazer as refeições ali sempre que podia. Gareth raramente comparecia usando
como desculpa qualquer trabalho que pudesse ocupá-lo naqueles horários. A esposa de
Invis que se tornara muito próxima de Nike nunca mais se sentou à mesa com o rei. E Nike
O n i e r | 195

estava se esforçando pra tornar o clima ameno, mas sempre caía um silêncio constrangedor
na mesa.
Do lado sapiens da fronteira, acreditem se quiser, havia um clima festivo. Juro! Klaoz,
sabendo que Álnaz não teria como atravessar a fronteira e fugir, a soltou e lhe deu a
mesma relativa liberdade que dera à Lena no início. Ela podia ir e vir pelo palácio todo, até
mesmo na cidade, mas sempre com dois magos treinados como soldados durante anos,
pertencentes à guarda pessoal de Klaoz. No mínimo três vezes na semana haviam festas no
palácio com diversos membros da nobreza e personalidades importantes na sociedade
Omoh, algumas vezes Klaoz até fornecia um banquete magnífico para o povo na praça
principal da cidade, com muita música, danças e bebidas. Porém, algo que a garota não
sabia era a lei por trás disso: qualquer confusão, qualquer briga, qualquer mau
comportamento e os envolvidos, nobres ou plebeus, eram presos nas masmorras do
palácio e nunca mais eram vistos. Então as festas eram sempre tranquilas, divertidas e
todos eram muito gentis e amigáveis com Álnaz, como se quisessem que ela se sentisse em
casa ali. E essa era a ordem do rei. O povo não precisou receber essa ordem, bastou Klaoz
dizer que esse clima de festividade tão incomum para o povo desde que Nike fora
“raptada”, era causada por Álnaz e pronto. Álnaz tentou fugir duas vezes nesses passeios
pela cidade, mas, verdade seja dita, ela não era muito boa nisso, acabava sempre se
denunciando. Na segunda tentativa de fuga, porém aconteceu que deixou ela incrédula. Ela
escapara dos guardas fingindo uma vontade inesperada e urgente de ir ao banheiro do
restaurante modesto que ela quisera conhecer. De lá ela não sabia bem como fugiria, mas
daria um jeito. Os guardas a acompanharam até a porta, ela entrou, fechou e saiu pela
pequena janela alta em um canto. Mas seu erro foi não ter o cuidado de ver o que tinha do
outro lado. Lá fora um grupo de idosos jogando cartas em uma mesa. Quando ela percebeu
era tarde, já havia saído do banheiro e estava com os pés no chão, de costas para a parede
e de frente para um grupo a observando curiosamente. Uma idosa de cabelos
esbranquiçados se levantou e, óbvio, reconheceu a menina que não poderia ser confundida
com ninguém com a aparência incomum que tinha.
- Alteza, você não deve fugir de nós. Não tem vergonha de causar tanto sofrimento ao
seu paizinho? – A velha disse com aquela jeito de dar bronca e ser gentil ao mesmo tempo
que parece característico das vovós.
- Errr... Eu... Eu não.. não estou... – Álnaz tentou mentir.
- Não minta pra mim, menininha. Eu fugia de casa quando sua mãe nem sonhava em
virar um corpo humano no ventre da rainha. – A velha disse, pegou a mão de Álnaz e a
puxou em direção à entrada do restaurante. Álnaz, surpresa, não teve reação de lutar com
a velha e fugir. Honestamente, ela não queria brigar com uma senhora de idade avançada.
O n i e r | 196

A velha chamou os guardas da porta de entrada e só então Álnaz soube que ela era a
dona da pousada. Ela entregou Álnaz aos cuidados deles, deu uma bronca nela, aconselhou
ela a se comportar como “uma mocinha gentil e grata ao rei que a acolhia como filha” e
saiu. Quando Klaoz soube dessa fuga ela temeu que ele a prendesse, torturasse ou fizesse
qualquer atrocidade. Ele lhe puniu apenas com uma noite e um dia sem poder sair do
quarto de castigo e, na noite do dia seguinte, lhe enviou roupas muito bonitas e jantaram
os dois com Esvion e Sila, entre risos, jogos de tabuleiro e histórias curiosas sobre a
sociedade Omoh que Álnaz não conhecia.
Naquela tarde outra festa acontecia no palácio Omoh, comemorando o aniversário de
um nobre com quem, aparentemente, Klaoz tinha uma relação quase paternal. O jovem foi
apresentado à ela e passara horas ocupado cumprimentando os convidados, grato pelas
felicitações pelo seu dia. Álnaz, cansada de ser abordada por nobres que se mostravam
amistosos, mas não a deixavam sozinha um minuto, começou a se afastar discretamente.
Ela não queria fugir, apenas sair pro jardim um pouco para respirar ar puro, aproveitando
que Sila, a moça que praticamente se tornara sua sombra extra, havia sumido da festa
junto com o mago de Klaoz. Quando ela estava saindo pela enorme porta lateral que dava
para o jardim, os guardas silenciosos já estavam ao lado dela a acompanhando.
- Fala sério! Vocês não podem me deixar um minuto sozinha?! Não vou fugir, caramba!
Só quero ficar sozinha! – Álnaz, sempre muito paciente, não aguentava mais aquela
constante vigilância. Ela se sentia cada vez mais como uma ave presa em uma bela gaiola.
- Não podemos. Ordens do rei. – Um dos guardas disse com firmeza.
- Que inferno! – Álnaz não queria descontar seus medos e frustrações nos guardas que
estavam apenas seguindo ordens, mas ela estava realmente cansada daquilo.
- Senhores, deixem a moça comigo. – O aniversariante se aproximou. Álnaz não tinha
nada contra ele, ele até parecia uma boa pessoa, mas também não confiava em nenhum
sapiens.
- Senhor, nós não p...
- Eu disse pra deixar ela comigo. Avisem ao rei que estaremos no jardim, no banco
perto do lago. – O rapaz disse com um olhar sinalizando o rei que os observava de longe e
acenou dando permissão para os guardas se afastarem de Álnaz. Os dois fizeram uma
reverência sutil e saíram sem dizer mais nada. – Posso? – O rapaz disse oferecendo o braço
para ela.
Ela hesitou um pouco, meio desconfiada, mas a gentileza no olhar dele a convenceu
um pouco, entrelaçou o braço no dele e andaram devagar pelo jardim. Ele, respeitando seu
desejo de ficar sozinha, ficou em silêncio até que ela sentisse vontade de falar. Os dois
andaram boa parte do caminho repleto de flores desconhecidas para ela, a saudade de casa
fazendo seu coração ficar apertado.
O n i e r | 197

- Obrigada. – Ela disse finalmente.


- Não precisa agradecer. Entendo o quanto sua situação é difícil. – Ele respondeu. –
Imagino o quanto você deve sentir falta de casa, dos ambientes familiares à você, de seus
pais e amigos.
- Muita. Você, pelo que sei, vive sempre por aqui, embora eu nunca o tenha visto
antes. Deve sentir muita falta de casa e dos seus pais também.
- Um pouco. Minha mãe morreu quando eu era bebê e meu pai, bem, temo que ele
tenha sido uma vergonha para mim, um traidor. Não me orgulho disso, mas é uma verdade
que não posso negar. Estar em casa me faz lembrar dele e do quanto ele era mesquinho.
Ele morreu por seus crimes a alguns anos.
- Sinto muito. Sinceramente. Não deve ser um fardo leve de se carregar ser filho de um
traidor. – Álnaz disse com pena do rapaz porque a traição era realmente um dos crimes
mais hediondos nas duas culturas. Mas isso também era surpreendente porque os filhos de
traidores sofriam com preconceitos por serem filhos desses condenados, mesmo entre os
sneipas às vezes. – É incrível você não ter sido desonrado também por ser filho de um
traidor.
- É verdade. No início sofri um pouco, mas o rei me acolheu como um filho e me
defendeu de todos, até reconheceu minhas capacidades e me deu o cargo que tenho até
hoje.
- Incrível. – Álnaz murmurou, olhando para o chão, surpresa com a atitude tão justa e
compreensiva do sapiens que considerava um monstro.
- Veja, alteza.
Álnaz ergueu a cabeça e não conseguiu evitar a expressão de surpresa e encanto. –
Uaaaaaau!
- Pelo que soube da senhorita, imaginei que gostaria de ver isso.
À frente havia um banco de madeira com flores esculpidas nas costas e braços. O
banco estava numa campina verde, com um pequeno lago oval de água escura, plantas em
formas de folha com uma única flor no centro e, nadando tranquilamente, haviam cerca de
doze cisnes, metade brancos e metade negros. Os dois se sentaram no banco observando
os animais, a luz do sol fazendo as águas do lago brilharem.
- Eu adoro animais. – Ela disse quase num suspiro.
- Lena também. – Ele comentou com um tom saudosista na voz que não escapou à
percepção sensível de Álnaz.
Ela se virou pra ele curiosamente. – Vocês são amigos?
- Sim. – Ele respondeu simplesmente, mas ela era sensível e romântica o suficiente pra
perceber o brilho sutil no olhar dele, disfarçado em uma expressão indiferente.
- Você a ama. – Ela disse.
O n i e r | 198

- Sim, ela é minha amiga, afinal.


- Não falo desse tipo de amor. – Ela disse e ele a olhou quase com medo. – Ela sabe?
- Por favor..
- Não se preocupe, não vou contar pra ninguém. Mas e então? Ela sabe?
- Sim. Estamos juntos, mas se o rei souber ele vai... Ficar magoado.
- Senhor Miror, eu sinto muito que vocês estejam separados. Eu sei como é difícil.
Sinto tanta falta do Gareth...
- Seu namorado?
- Sim. E meu amigo.
- Alteza, preciso confessar uma coisa. – Miror disse do nada.
- O que?
- Não a trouxe aqui sem motivo. Eu sei que vocês são irmãs e que são filhas do Klaoz
com a Nike. – Miror disse à queima roupa.
Álnaz suspirou aliviada só por saber que mais alguém conhecia a verdade ali sobre
seus pais.
- Eu quero que saiba que vou ajudar você a voltar pra casa. Mas tenho uma condição.
- Qual?
- Não deixe Lena voltar. Se eu puder ficar com ela no seu reino, abandonarei tudo aqui
e vou sem pensar duas vezes. Mas se não puder, prefiro que ela fique lá. Não quero a
mulher que amo perto desse monstro. – Miror disse quase desesperado.
Álnaz se preparou pra responder, mas viu a moça que se aproximava e se calou,
esperando que seu olhar dissesse o quanto ela estava grata e que ajudaria ele a ficar com
sua irmã em Rígel.
- Álninha! – Sila gritou, já próxima deles. – Eu estava te procurando.
- Bem, como pode ver, estou aqui. – Álnaz disse se levantando.
Sila olhou inocentemente pro rapaz e murmurou um “boa tarde, senhor” tão tímido
que, se ele não a conhecesse muito bem, até teria acreditado em sua inocência.
- Bom, alteza, agora que está em tão boa companhia, vou voltar para a festa e dar
atenção aos convidados. Foi bom conhecê-la. Com licenças, moças. – Ele disse e saiu.
- Ah, ele é tão bonitinho, não é? – Sila disse, colocando o braço ao redor do ombro da
outra menina como se fossem melhores amigas. Não eram e Álnaz não dera nenhum sinal
de que fossem íntimas, mas não queria ser indelicada com Sila, então não disse nada.
- Um pouco. – Álnaz respondeu com indiferença.
- Ah é, esqueci que você tem um namorado e não tem olhos pra mais ninguém. Mas o
Miror é muito lindo e, melhor de tudo, por favor não conte pra ninguém, mas ele vive me
paquerando e pedindo que eu dê uma chance pra ele.
Álnaz olhou pra Sila em busca de qualquer sinal de mentira, mas não achou nenhum.
O n i e r | 199

- Mesmo?
- Sim. Ele até queria que eu fosse pro quarto dele, mas eu não sou dessas sabe. Eu só
faria isso com alguém que eu amasse e fosse comprometida. Ele é lindo, mas dá em cima
de qualquer uma. Ele disse que me ama e quer algo sério. Se ele provar que é sincero... –
Sila deu um sorriso tímido e sonhador.
- Interessante... – Álnaz murmurou olhando para o caminho por onde Miror saíra e
não viu o olhar vitorioso e maldoso de Sila a seu lado.

~o~
Pra tentar amenizar o clima pesado entre as pessoas do palácio, Nike propôs uma
festa pra comemorar o fim do ano e a reconstrução da capital de Rígel após o ataque
terrível dos sapiens quando Lena foi capturada e Álnaz levada. O povo precisava dessa
ingestão de ânimo. A festa se espalhou pela cidade toda e tomou um rumo mais religioso
por que todos, plebeus e nobres, resolveram fazer em suas casas orações e montar altares
aos seus deuses pedindo pelo retorno e a segurança da futura rainha Álnaz. No palácio o
clima era festivo, mas o medo dos surtos de raiva do rei não haviam desaparecido. Isso,
ironicamente, estava o deixando mais irritado.
- Eu não acho que seja uma boa ideia. – Seyrus comentou, olhando de canto pra Andor
que conversava com uma moça da nobreza.
- Por favor, Seyrus, ele é meu noivo! Se eu não acreditar nele, quem irá? Além disso,
serão só alguns dias. – Nike respondeu.
- O que serão alguns dias? – Gareth perguntou se aproximando com o pai do lado.
- Seu pai me ajudou a organizar alguns dias de folga pro rei. Vou levá-lo pra região Sul,
num sítio da família real, para descansar. Talvez isso o ajude. – Nike respondeu, dando um
abraço quase maternal em Gareth.
- Eu cuidarei de tudo por aqui enquanto isso. Sua majestade não sabe, é surpresa. –
Invis disse para o filho.
- A senhora acha que é uma boa ideia? – Gareth perguntou olhando rapidamente pra
Andor que, sentindo seu olhar, olhou para ele. Gareth desviou o olhar rapidamente como
se Andor fosse arrancar sua alma só de olhar pra ele.
- Eu também não acho que seja bom ficar sozinha com ele, mas ela não me ouve! –
Seyrus disse.
- Senhora, tem certeza que deseja isso? – Invis perguntou.
- Meninos, eu amo vocês por se preocuparem comigo, mas não sou uma moça
indefesa e estou viajando com meu noivo, o homem que amo. Não com o bicho papão. Ele
está um pouco perdido e cansado, mas não é uma pessoa ruim e vocês, no fundo, sabem
disso.
O n i e r | 200

- Bem no fundo. Quase no centro do planeta de tão fundo. – Seyrus disse de mal
humor.
- Qualquer problema, use seu comunicador e me avise, à qualquer hora do dia ou da
noite. – Invis disse. – Prometa que fará isso, senhora. Álnaz nunca me perdoaria se eu
deixasse algo de ruim lhe acontecer.
- Eu prometo Invis... Que não vou ensinar à sua mulher como usar roupas tão
decotadas quanto as minhas. – Nike disse e Invis percebeu que ela estava inventando
aquilo porque o rei estava se aproximando.
- Não seja tão antiguado, Invis, meu amigo. – Andor disse com um sorriso tenso,
colocando um braço ao redor da cintura de Nike.
- Majestade. – Gareth fez uma reverência. – Pai vou ali ver como a mãe está se saindo
naquele jogo. – E saiu tão rápido que Andor não teve tempo de dizer nada.
- Com licença. – Seyrus disse com um olhar fulminante pro rei e saiu também.
- Majestade, senhora. Vou deixá-los à vontade. – Invis disse e fez uma reverência
profunda.
Não foi nada demais, mas aquilo somado aos olhares de medo mal disfarçados das
pessoas sempre que Andor passava, foi demais.
- QUE DROGA! EU NÃO SOU O DEMÔNIO DESTRUIDOR DE ALMAS, SABIAM!? – Andor
gritou. A música parou de tocar, as conversas silenciaram, crianças começaram a chorar
assustadas, convidados e servos congelaram no lugar assustados, temendo que qualquer
coisa os tornasse o novo alvo da desconfiança do rei, que fossem levados pra
interrogatório, apanhassem ou até morressem no processo como acontecera em alguns
casos antes. A raiva de Andor fez o vermelho de sua pele se intensificar e causar ainda mais
medo em todos. Todo sneipas sabia o que a raiva fazia com seus corpos, o quanto eles
perdiam o controle de si mesmos até que o alvo fosse destruído. Se ele já estava dando
medo com um pouco de descontrole, o que aconteceria quando ele se descontrolasse
totalmente e começasse a agir como se todo sneipas do mundo fosse seu inimigo?
- Majestade... – Invis disse com aquele tom formal que estava tirando Andor do sério.
- O QUE ACONTECEU COM O ‘MEU AMIGO’? EU LUTO POR VOCÊS E AO LADO DE
VOCÊS E VOCÊS ME TRATAM COMO A MERDA DE UM MONSTRO!? BANDO DE INGRATOS!
- Vem Nike. – Seyrus apareceu ao lado da irmã a puxando pra longe.
- SOLTA ELA! – Andor gritou ao perceber o que acontecia e sacou sua espada. Os
guardas não sabiam se protegiam a mãe da futura rainha, o rei, se colocavam todo mundo
pra fora dali pra não se machucarem ou se ficavam quietos.
Seyrus, sem arma nenhuma, ficou na frente da irmã e usou uma postura de luta,
pronto pra matar ou morrer, mesmo que só tivesse os punhos contra uma espada de ferro.
– Você não vai machucar minha irmã!
O n i e r | 201

- Machucar? QUE PORRA! EU NÃO SOU SEU PAI, MOLEQUE IDIOTA! EU NUNCA
MACHUCARIA ELA!
- Andor, abaixe essa espada. – Invis disse calmo e com firmeza.
- ELE QUER LEVAR ELA PRO KLAOZ! VOCÊ NÃO PERCEBE? EU TENHO QUE DEFENDER
ELA, IMPEDIR ISSO! – Andor berrou deixando todo mundo ainda mais assustado.
- Defender? Olhe ao seu redor, majestade, e me diga o que você vê. – Invis disse.
Andor olhou, sem abaixar a espada, e viu o medo pra todo lado. – VOCÊS SÃO TOLOS!
NÃO CONSEGUEM ENXERGAR QUE É ELE O TRAIDOR! QUE EU SÓ ESTOU DEFENDENDO
VOCÊS!
- Amor. – Nike chamou, empurrando Seyrus pro lado e se aproximando devagar do rei,
apesar dos protestos do irmão e de alguns olhares suplicantes dos convidados e servos que
temiam que ela se machucasse. – Olhe pra mim, querido.
Andor olhou pra ela e começou a desviar o olhar vendo movimentos onde não
existiam, dominado pela desconfiança e o medo de perder mais alguém querido.
- Não, Andor. Olhe pra mim. Só pra mim. – Nike disse e ele obedeceu com dificuldade.
– Amor, ele é meu irmão e nem estava aqui quando muita coisa vazou com esse espião.
Não desvie o olhar pra nada, Andor! Isso. Agora eu preciso que você guarde sua espada,
respire fundo e me dê sua mão. – Ela disse e estendeu a mão pra ele, não ousando se
aproximar mais do que a distância de um braço.
Instantes tensos se passaram como se fossem uma eternidade. Nike nem piscava, se
mantendo firme como um porto seguro contra a instabilidade do rei. Devagar ele abaixou e
guardou a espada, estendeu a mão e pegou a dela. Nike o puxou para um abraço, fazendo
movimentos circulares nas costas dele pra acalmá-lo. Ele respirava como se tivesse corrido
uma maratona, seus músculos tensos. Um suspiro coletivo de alívio ecoou pelo salão. As
pessoas começaram a sair organizadamente, mas com pressa, não querendo arriscar mais
ficar perto do rei. Invis e Seyrus continuaram de pé, sem ousar se afastar até que o rei
realmente estivesse calmo. Gareth que ficara no portão principal se despesdindo e se
desculpando pelo acontecido, trocara um olhar com o pai e ambos se afastaram. Minutos
depois voltaram pra encontrar Seyrus, Nike e Andor ainda parados do mesmo jeito.
- Tudo pronto, senhora. – Invis disse com respeito, mas sem formalidade, como se ela
fosse amiga dele, e não Andor.
- Pronto? – Andor perguntou confuso.
- Amor, venha comigo. Tenho uma surpresa. Ia esperar até de manhã, mas acho que
você e eu precisamos disso agora. – Nike disse e levou Andor para fora onde uma
carruagem com três cavalos à frente os aguardava. Naquela mesma noite eles estariam no
sítio, sozinhos, apesar dos medos de Seyrus, Gareth e Invis. Não adiantava discutir, Seyrus
conhecia bem a teimosia da irmã, então tudo que pôde fazer foi desejar sorte e rezar.
O n i e r | 202

Sneipas: de Tríade à Terra


A viagem fora maravilhosa. O casal decidiu (na verdade, Nike decidiu e o rei só
obedeceu a noiva) viajar sem usar os portais pra apreciar as paisagens. Os portais dentro do
território Rígel ficavam mais fracos com a tempestade intensificada, mas eram usados com
escalas entre as distâncias. O caminho até o Sul era repleto de vida naquela época do ano,
ficando cada vez mais quente conforme chegavam perto do destino. A região naquela
época era bastante quente, com chuvas raras, geralmente com nuvens tão espaçadas que o
céu azul ainda podia ser visto com um Sol amarelo brilhando em toda sua glória. O verão
entre as florestas tropicais do Sul do Grande Continente davam à Andor uma sensação de
alegria, de celebração da felicidade que parecia irradiar da natureza ao seu redor. Mas,
acima de tudo, estar ali com Nike era uma bênção que ele aproveitaria ao máximo.
Porém, nada é tão bom que não possa virar uma desgraça. Na capital de Rígel, assim
que Andor viajou, o clima pareceu pesar de alguma forma, como se algo ruim pairasse no
ar, uma certa tensão. A guarda foi intensificada esperando que um ataque inimigo, de
alguma forma, os alcançasse. Mas a tensão no ar não era um aviso de ataque sapiens. Dois
dias após a viagem de Andor, uma multidão sneipas apareceu na frente do palácio exigindo
o fim do noivado de Andor e Nike, e a renúncia do rei em prol de Álnaz. Os rebeldes que,
até então, só discutiam entre si sobre a insatisfação do noivado, agora estavam agindo e o
clima era muito tenso. Em outros tempos não haveria chance de violência porque sneipas
evitavam a guerra, mas, também em outros tempos, nenhum sneipas se levantaria contra
seu rei. A instabilidade de Andor causou o medo, e o medo traz o pior de nós à tona.
Invis tomou a decisão de conversar com os líderes do grupo, mas não informar isso ao
rei. No estado em que Andor estava ele podia mandar executar à todos daquele grupo num
piscar de olhos. Lógico, Invis não concordou com os termos do povo, nem mesmo em
ajudá-los a convencer o rei a concordar, mas tentou fazer com que mudassem de ideia. Não
funcionou. O grupo acampou na frente do palácio e, em poucos dias, se tornou uma
multidão que só crescia. Com o passar dos dias cresciam as chances de um confronto entre
a guarda, apoiada pelos sneipas que queriam Andor no trono, e os rebeldes. Invis se reuniu
todos os dias com os líderes para tentar um acordo, mas nada funcionava. Em breve ele
precisaria chamar Andor e isso não terminaria bem. Durante uma reunião, Gareth ao lado
do pai na mesa, ouviam atentamente aquela discussão que nunca levava à lugar nenhum.
- Senhoras e senhores, isso não funcionaria de qualquer forma. – Invis disse
pacientemente.
O n i e r | 203

- Meu pai tem razão. Minha querida Álnaz ainda está nas mãos dos inimigos e não
podemos atravessar a fronteira pra resgatá-la enquanto essa tempestade maldita
continuar. – Gareth disse.
- Tempestade que a noiva do rei causou! – Um dos líderes gritou.
- Senhora, concordo que Nike foi uma inimiga terrível, mas ela já se provou nossa
aliada. Sua lealdade não está em questão aqui. Por acaso não foi seu filho que ela ajudou
durante um ataque sapiens a uns meses? – Invis disse. A rebelde concordou meio
envergonhada.
- De qualquer forma, Rígel não pode ficar sem um governante, principalmente em
tempo de guerra. – Gareth disse.
- Então nomeamos um Regente até que a nossa Álnaz possa assumir seu posto. – A
mesma rebelde disse.
- Não podemos pensar em ninguém melhor que o senhor, conselheiro. – O rebelde
que parecia ser o mais influente entre seu grupo disse.
Invis e Gareth ficaram em silêncio, parecendo perplexos.
- É isso mesmo! – Outro rebelde disse.
- Eis nossa proposta, senhor. – O rebelde influente disse. – Voltaremos para nossas
casas e seguiremos nossas vidas, se, e apenas se, o senhor assumir o comando do reino
como Regente, destituindo o rei louco. Do contrário... Bem, o senhor sabe como está difícil
conter os ânimos lá fora.
Invis entendeu. Um bando de sneipas, descontrolados, raivosos... Isso era
terrivelmente familiar. – Me dê três dias para pensar. Lhe darei uma resposta ao pôr do Sol
do terceiro dia.
Os rebeldes concordaram e saíram para informar seus colegas sobre o acontecido.
Seyrus, montando guarda atrás de uma porta sigilosamente, à pedido de Invis que não
confiava no humor de seu povo, saiu e se sentou à mesa.
- Isso não é bom. – Gareth murmurou, trancando a porta. – O senhor não devia
aceitar. Aquilo tudo, aquela história, pode ser só uma lenda, um exagero da memória.
- Não é. E nunca mais caia nesse erro, filho. A história do nosso povo não pode ser
esquecida ou minimizada como uma lenda. Principalmente, não agora que estamos
caminhando a passos largos para o mesmo destino. – Invis disse sombriamente.
- Que história? – Seyrus perguntou, cruzando os braços. - Sempre ouvimos falar sobre
o que fez os sneipas perderem a vontade de lutar, algo ligado à uma luta, mas nunca
soubemos bem os detalhes.
- Não foi só uma luta. Foi uma guerra. Uma que nos custou não apenas nosso lar, mas
grande parte de nosso povo. – Invis disse. – Como seu povo sabe, nós sneipas não somos
seres naturais deste planeta. Séculos atrás nosso povo veio habitar aqui, mas nascemos e
O n i e r | 204

evoluímos de bárbaros à uma sociedade poderosa em um planeta muito distante que


girava ao redor de duas estrelas, uma delas chamada Rígel. Nosso planeta se chamava
Tríade, pois haviam três países, nos três grandes continentes governados por três reis.
- Daí o nome do nosso reino aqui. Uma forma de nos ligar ao nosso antigo lar. – Gareth
comentou.
- E como vocês vieram parar aqui? – Seyrus perguntou.
Invis colocou três copos na mesa, sentou-se com uma jarra de bebida fermentada não
alcoólica, servindo e passando os copos para o sapiens e seu filho. – Nós tínhamos uma
sociedade rica em dons que vocês chamam de ‘magia’ e tecnologias diversas. Tínhamos a
pele muito branca, como as nuvens, mas ela se avermelhava levemente quando estávamos
irritados. Os sneipas não eram um povo que procurava confusão e brigas, mas também não
evitávamos nenhuma. Se houvesse a menor provocação, nós revidávamos não importava
contra quem fosse. Tínhamos altos índices de assassinatos por uma coisa chamada ‘duelo’
onde cada um queria provar que era melhor que o outro ou cobrar alguma ofensa. No
duelo os dois deviam dar passos de costas um pro outro, contar 10 passos, se virar e atirar
pra matar o outro. Não se rejeitava duelos porque quem rejeitava era desprezado pela
sociedade pelo resto da vida como um covarde.
- Houve mesmo duelos entre crianças! – Gareth disse.
- As coisas pioraram com o tempo. Famílias queriam vingar entes mortos em duelos,
conflitos familiares se tornaram conflitos entre cidades, os conflitos entre cidades se
tornaram conflitos entre países... Em poucos séculos ninguém se lembrava do motivo inicial
de cada conflito e não importava. Nessa época nossa pele já estava constantemente
vermelha, mesmo em bebês, intensificando mais ainda quando ficávamos irritados. O ódio
entre os inúmeros povos ia do mais simples camponês ao mais poderoso governante.
Durante esse tempo as ciências de nosso povo também cresceram e acabamos por
descobrir os outros planetas, métodos de chegar ao lado externo no planeta, como viajar
até outros corpos espaciais, como reproduzir nosso povo lá fora, como viajar entre estrelas
com um envelhecimento muito menor que a distância da viagem cobraria, como
reconhecer e colonizar novos planetas, etc. – Invis deu um gole em sua bebida, pensativo. –
Isso tudo aconteceu com o passar de muitos séculos do nosso povo. Mas essas coisas
cobraram seu preço. As guerras entre países e conflitos entre as pessoas comuns
deterioraram gradativamente nossas terras, nosso ar, nossas águas. Nosso povo foi se
tornando mais mesquinho, egoísta, perdeu muito de seu senso de comunidade, mas,
principalmente, perdeu seu autocontrole. O ódio chegou a tal ponto que ninguém mais se
continha. A menor ofensa, o menor olhar torto, um tom de voz diferente, ou mesmo o
tamanho da roupa de uma pessoa era motivo para matar alguém a sangue frio.
O n i e r | 205

- Tinha até mesmo quem matasse pelo simples prazer de matar. É o que nós
chamamos de ‘psicopatas’, uma anomalia de personalidade. Como acontece com seu pai. –
Gareth comentou.
- Nós conseguimos moldar os genes do nosso povo pra evitar essa anomalia, mas, de
alguma forma, os sapiens desenvolveram isso. E pensar que devia ser uma raça perfeita... –
Invis comentou com tristeza.
- Mas como vocês perderam seu lar? Foi uma disputa em que o grupo vencedor os
expulsou? – Seyrus perguntou.
- Quem dera. – Invis disse. – Com esses conflitos, a corrida por armas cada vez mais
poderosas e o avanço das ciências espaciais, tudo caminhou pro fim. Cientistas
encontraram um planeta muito bonito, semelhante ao nosso antes da degradação das
guerras, iluminado por um único sol dourado, mas com todas as condições necessárias para
a colonização. Para alcançá-lo levaria cerca de 864 anos terráqueos, mas, com nossa
ciência, levaria cerca de 70 anos, um tempo mais longo que o normal para qualquer viagem
espacial que havíamos feito antes às luas dos planetas do nosso sistema solar e do sistema
vizinho. Havia uma crescente falta de recursos básicos como água e comida em nosso
mundo causado pelas guerras. Isso se tornou, como vocês dizem, uma bola de neve?
- Isso. – Seyrus respondeu.
- Quando as pessoas passaram a sentir algo nunca antes experimentado, a fome, o
ódio aumentou. Os sneipas que governavam os três países eram inimigos jurados a séculos
e começaram a culpar uns aos outros pela fome crescente que ceifava inúmeras vidas todos
os anos. Um dia a pior guerra já vista começou entre os três reinos, cada um com uma arma
mais poderosa que o outro, à base de uma tecnologia que só devia ser usada como
combustível para nossas naves espaciais. Essa coisa era tão poderosa que reproduzia as
mesmas reações que alimentam as estrelas em sua vida. As armas passaram a explodir
grandes porções de terra inimiga, levando à tsunamis que rodavam o planeta inteiro,
terremotos, despertar vulcões adormecido à Eras, o ar ficou denso e cinzento, o povo
passou a desenvolver deficiências terríveis e doenças, algo que nunca havíamos tido, já que
éramos um povo natural daquele planeta. Por fim, o próprio povo, totalmente
descontrolado de ódio, causou massacres entre si e matou dois dos três reis. Os filhos dos
reis mortos tomaram o poder, bombardearam o reino do único rei vivo, acreditando que
ele causara a morte de seus pais, em um ataque tão monstruoso que afundou
completamente aquele continente no oceano. Ninguém daquele reino se salvou.
- Uau. – Seyrus deixou escapar.
- Os dois reis começaram a brigar entre si porque cada um queria colonizar o planeta
descoberto e abandonar o outro povo naquele planeta desgastado, cuja natureza parecia
querer exterminar os sneipas.
O n i e r | 206

- Haviam milhares de catástrofes causadas por fenômenos naturais, mas muito mais
intensos que o normal. – Gareth complementou.
- Imagino que isso só piorou o clima. – Seyrus comentou.
- Imaginou certo. – Invis disse servindo mais bebida pra todos. – Os sneipas não
conseguem parar depois que começam a odiar. É parte da nossa natureza. O fato é que um
dos reis conseguiu roubar um cientista, um dos melhores da época, do outro reino e o
obrigou a criar uma nave espacial só para o rei e sua família e enviá-la ao planeta em
segredo. Mas o cientista colocou uma armadilha na nave que faria as reações do
combustível aumentarem mais que o normal, criando uma espécie de grande estrela
dentro da nave e a explodindo no processo.
- Funcionou?
- Funcionou. Para nossa infelicidade. – Invis respondeu. – Era noite, haviam muitas
batalhas acontecendo em diferentes partes dos reinos, quando os dois povos olharam
surpresos e furiosos quando a nave do rei fugitivo se ergueu nos céus com o rastro normal
brilhante do combustível. Quando a nave já havia saído do planeta, ficando do tamanho de
uma estrela no céu noturno, ela explodiu em anéis branco-amarelados, fazendo o dia virar
noite, algumas regiões mais altas incendiarem. Quando o brilho encolheu e sumiu, uma
coisa negra circular assumiu o lugar e sugou nossas luas próximas à ele como se fossem
passadas por um canudo, se esticando, circulando aquela coisa e depois caindo no centro
escuro. O próprio planeta começou a ser sugado logo abaixo daquela coisa, dando às
pessoas nas regiões mais distantes um pouco mais de tempo. Haviam duas naves prontas,
uma em cada reino, para enviar equipes colonizadoras ao planeta descoberto, porém
nenhuma fora usada por causa do impasse entre os dois reinos e as constantes tentativas
de destruição por parte do inimigo.
- Então as pessoas, começaram a correr para essas naves que ficavam fortemente
guardadas por militares super armados. – Gareth continuou. – Os guardas acabaram
matando muitas pessoas comuns para que elas não invadissem os locais.
- Sim. Outras pessoas mataram umas às outras para conseguir chegar na frente ou por
motivos tolos. – Invis disse. – No final, apenas os cientistas que já estavam nos locais
trabalhando conseguiram entrar nas naves. Ambos voaram deixando o povo cada vez mais
vermelho de raiva para morrer no solo. Mesmo que os cientistas quisessem levar alguém
mais, o tumulto era enorme, havia pouco tempo e, com certeza, muitos matariam até
mesmo os cientista só para tomar seu lugar na nave. Você precisa entender, meu jovem,
que a racionalidade praticamente não existia mais entre os sneipas.
- Prova disso é que a uma nave quase não conseguiu sair do planeta porque seu
comandante odiava uma cientista que estava na outra nave e, não conformado que ela
fosse se salvar, tentou jogar a nave dele em cima da outra pra empurrá-la na direção
O n i e r | 207

daquela coisa escura no céu, mesmo que isso sugasse a nave dele também. Mas seus
próprios colegas o mataram e ambas as naves se salvaram. – Gareth disse.
- E o que aconteceu com o planeta Tríade e as pessoas lá? – Seyrus perguntou.
- De longe vimos tudo ser sugado pra dentro daquela coisa como se fosse um fio
desses comestíveis que vocês sapiens inventaram. – Invis disse, visivelmente emocionado.
- Makarrão é o nome dessa comida. – Seyrus disse.
- O fato é que, quando finalmente alcançamos o planeta descoberto, decidimos que
nunca mais iríamos deixar o ódio e a guerra surgir entre os sneipas. É por isso que nenhum
sneipas mata o outro, em hipótese nenhuma. Pelo mesmo motivo não queríamos entrar
em guerra. Sabíamos os riscos de nos perder no ódio de novo. – Invis disse. – Quando
alcançamos a única lua do planeta descoberto, percebemos que ele tinha uma única massa
gigantesca de terra, daí o nome que demos à este mundo: Terra. Existe um escrito antigo
dessa época que contabiliza que apenas 23 sneipas saíram de Tríade nas naves e chegaram
à Terra.
Seyrus não sabia o que dizer. Perder praticamente todo seu povo era algo que ele nem
conseguia imaginar. Como ele se sentiria? Quantos daqueles cientistas deviam ter
abandonado suas famílias à própria sorte sem uma chance de sair pra ir salvá-los? Quantos
desses sneipas conseguiram se recuperar desse trauma? Ele era militar, sabia lidar com os
traumas de uma guerra, mas saberia lidar com o trauma de perder todo um planeta?
Seyrus ficou tão abalado com isso que teve pesadelos com o assunto a noite toda.

~o~
- Os rebeldes já fizeram a proposta de regência? Tão rápido? – Klaoz disse.
- Sim. Aparentemente é melhor antes que as coisas fiquem tensas de verdade e os
rebeldes resolvam ser violentos. – Esvion disse.
- Aqueles amebas? Eles sempre foram tolos covardes. Só estão mais revoltadinho
agora, mas nada realmente digno de atenção. – Klaoz zombou.
- Miror trouxe a mensagem e foi descansar. Como ele está se saindo com a princesa?
- Muito bem. O garoto vai longe. Ele está conquistando a confiança dela, se tornando
amigo. Não gosto de ver um homem perto da minha filha, mas preciso que ela crie laços de
amizade aqui. Será mais fácil manipulá-la assim.
Álnaz, quieta como uma sombra, tentando usar a técnica silênciosa que aprendera
com o único pai que respeitava, decidira que já ouvira tudo o que precisava ouvir.
Cuidadosamente, memorizando cada corredor e caminho que via, voltou ao seu quarto
pela porta secreta que Miror lhe mostrara.
Porque ele me mostrou isso se ele trabalha pro Klaoz? Afinal de que lado esse Miror
está? Ele ama minha irmã ou é só mais um imbecil que deseja o status de namorar com ela
O n i e r | 208

e fica dando em cima de Sila? E Sila? Porque, apesar dela ser tão legal, não consigo gostar
dela? E, acima de tudo, como Klaoz sabe dessas coisas se a tempestade impede qualquer
passagem entre as fronteiras? Que história de regência é essa? Papai, por favor, esteja
bem... – Álnaz custou à dormir naquela noite, inúmeras perguntas rodando em sua mente.
O n i e r | 209

Revolta gerando revolta


- O que foi? – Nike acordou no meio da madrugada quando Andor se levantou.
- Tem algo errado. – Ele disse, se vestindo e sacando a espada.
Nike se levantou e começou a se vestir.
- Tem uma onda de raiva vindo do lado de fora da casa. Tão forte que me acordou. –
Ele continuou, olhando preocupado pra noiva, a ponto de pedir que ela ficasse ali
escondida.
Nike cruzou os braços sobre o peito, olhando irritada: - Nem pense nisso, Andor. Se me
fizer ficar aqui eu juro que quebro tudo nesta casa antes de você ter tempo de dizer meu
nome!
O rei suspirou e sinalizou pra que ela o seguisse. Ele ia matar quem estivesse lá fora,
atrapalhando aquele verdadeiro santuário do amor dele com a noiva, o lugar onde ele fora
tão feliz nos últimos dias. Esses dias serviram pra ele tomar sua decisão final. Ele
abandonaria a desconfiança que tinha da noiva e se casaria com ela no dia que voltasse pra
capital, mesmo que não tivesse festa, convidados, ou qualquer dessas coisas. Ele só queria
ter Nike como esposa. A festa ele poderia fazer depois, uma tão maravilhosa que jamais
seria esquecida na história sneipas. Eles pararam atrás da porta principal, com alguns
guardas do rei já ao redor deles, Andor, quebrando o protocolo, tirou o guarda de sua
frente, ficando logo atrás da porta com Nike atrás dele. Ele mesmo ia matar quem estava
tentando estragar seu momento com sua noiva. Com uma mão ele tocou a maçaneta,
apertando o punho da espada com a outra. Com um movimento brusco ele abriu a porta e
todo mundo congelou no lugar, sua espada a meio caminho de atingir o inimigo.
Ou melhor. A inimiga. Na varanda espaçosa, logo à frente da porta, havia uma pilha
formada pelos corpos dos guardas, e, sentada sobre ele, estava Lena, de pernas cruzadas,
um braço cruzado sobre o peito, o outro apoiado no primeiro, com um dedo enrolando-se
em uma mecha de cabela encaracolado, a pele bronzeada adquirindo um brilho quase
mágico sob o luar. Ela estava tão tranquila, como se relaxasse sob uma árvore em uma
tarde de verão, que deixou a todos sem reação.
- Nossa. Até que fim. Pensei que teria que dar um jeito em todos os guardas e animais
pra você acordar. – Lena disse.
- Meu amor! – Nike se recuperou e começou a correr em direção à filha, mas Andor a
segurou pela cintura.
- Guardas! – Andor gritou.
O n i e r | 210

- Ai gente, calma. – Lena disse saltando da pilha de corpos com a graciosidade que
parecia ser genética. – Antes que você comece a agir feito um doido raivoso, sugiro que me
ouça, rei idiota.
- Andor, por favor... – Nike pediu.
- Não, Nike. Sinto muito. Mas ela é um monstro! Olha a quantidade de homens e
mulheres que ela matou! – Andor apontou pra pilha de corpos.
- Não seja idiota, Andor. Eles não estão mortos. Só tirando uma sonequinha. – Lena
disse. – Não acredita? Manda um de seus guardas verificar.
Ela deu três passos para o lado, dando espaço pra que o guarda indicado pelo rei
verificasse os sinais vitais de alguns membros daquela pilha. – Estão vivos, senhor. – O
guarda disse tão surpreso quanto os colegas e o rei.
- Acha mesmo que se eu estivesse aqui pra matar você eu não teria feito isso
enquanto você dormia? Já viu que seus soldadinhos não são nada pra mim. – Lena disse.
Andor a olhou intrigado e Nike, se soltando de seus braços correu e abraçou Lena com
tanta força que quase sufocou a menina.
- Oi pra você também, mãe. – Lena disse quando Nike finalmente a soltou e começou a
verificar se a menina não estava ferida, o puro instinto maternal agindo.
- Espera. Você me chamou de mãe? – Nike finalmente se deu conta da diferença na
menina com relação à ela.
- Eu sei que você disse a verdade e sei tudo o que aconteceu. – Lena disse mexendo
um pé com nervosismo.
- Como? Como você tem certeza agora? – Andor disse fazendo sinal pros guardas
ficarem em alerta, mas não atacarem.
- Digamos que uma velha que ajudou minha mãe tinha um irmão que sabe mais do
que meu pai imagina. – Lena disse, lembrando do velho que morrera a dois dias por
complicações cardíacas. – Olha, eu não acho que é a melhor hora pra explicar isso. Você
tem problemas maiores, rei.
- Que problemas? – Nike perguntou, deixando sua curiosidade sobre a velha senhora
que tanto a apoiara e fora ameaçada por Klaoz, traindo-a. Isso podia esperar.
- Rei Andor, - Lena disse com um tom um pouco irônico – aproveite seu título de rei,
porque você será deposto em poucas horas.
- O que? – Andor disse incrédulo.
- Lena, explique-se querida. – Nike pediu.
- Houve uma revolta logo que vocês saíram da capital. Eles exigem a saída de Andor do
trono e, até que Álnaz volte, que Invis seja Regente.
- Ele nunca aceitaria isso. – Andor disse prontamente.
O n i e r | 211

- Ele já aceitou. O anúncio será feito daqui a poucas horas. Você e minha mãe serão
exilados, mantidos neste sítio até o fim de seus dias.
- Não acredito em você. Você e seu pai parecem ter prazer em mentir. – Andor disse,
ignorando o olhar chocado de Nike.
- Mesmo? Então, majestade, me responda: se Invis é tão leal à você, porque ele não o
informou imediatamente quando a rebelião começou? Porque ele fez um acordo com o
líder da rebelião para tornar ele, um mero camponês, um sneipas da nobreza? – Lena disse.
- Isso é mentira... – Andor murmurou tentando convencer a si mesmo.
- Majestade... – Um dos guardas ao lado dele chamou. – A rebelião não é novidade.
Todos sabíamos que havia um grupo insatisfeito.
- Porque não me informaram sobre esse risco? – Andor perguntou já furioso, sua
desconfiança assumindo o lugar.
- Mas nós informamos. Avisamos e até fizemos relatórios oficiais ao conselheiro Invis a
meses. – O guarda disse e Andor viu a sinceridade nos olhos do homem.
- Eu tinha razão... Invis era o traidor o tempo todo... – Andor murmurou entredentes.
- Querido, deve ter uma explicação... – Nike começou a dizer se aproximando, mas
parou assustada.
- QUE EXPLICAÇÃO!? – Andor já estava perdendo o controle de sua raiva.
- Mãe. – Lena puxou Nike para trás, temendo que Andor pudesse machucá-la. – Se
gritar com ela de novo, ex-rei, eu mesma mato você.
Andor, percebendo os rostos assustados, se forçou a falar calmamente, embora o tom
vermelho-vivo em sua pele denunciassem seu real estado de fúria. – Muito bem, Nike. Vou
dar o benefício da dúvida àquele conselheiro. Se eu chegar lá e não houver nenhuma
revolta, nenhum anúncio formal, nenhuma chance de golpe, vou conversar com ele e sua
filha terá muito o que explicar.
- Seja qual for sua decisão senhor, - O líder dos guardas disse – conte com nosso apoio.
Nenhum rei nosso será traído e deposto. Não vamos permitir que o passado se repita.
Andor acenou com a cabeça.
- Como assim? – Lena perguntou.
- Depois eu te conto querida. – Nike respondeu. – É uma história mais antiga do que o
tempo deles neste mundo.
- Só tem uma coisa que não entendo. – Andor disse e encarou Lena com desconfiança,
afinal, podia ser uma armadilha. – Porque você saiu do seu esconderijo, seja lá onde diabos
fosse, se arriscou e veio até aqui me contar isso? Pra você não faria diferença se sua mãe é
noiva do rei ou não, ela continuaria sendo sua mãe e te receberia do mesmo jeito, fosse no
palácio ou aqui.
O n i e r | 212

- Eu não acreditei neles. – Lena disse e havia um toque de medo em seus olhos. – Eu
não acredito que eles fossem manter mesmo vocês vivos aqui. Talvez por um tempo sim,
mas, acho que eles matariam vocês quando as coisas estivessem mais calmas e fariam
parecer um acidente. Tem muita gente que não apoia essa revolta.
Andor a encarou por alguns segundos, procurando algo daquela forte raiva que
sentira.
- Eu só precisei pensar no que meu pai fez e no risco de não ter chance de conviver
com ela. – Lena disse, percebendo o que Andor estava procurando, e acenou pra mãe.
Os guardas na pilha começaram a gemer e se contorcer. Todos, incluindo Lena, os
ajudaram a levantar e o rei explicou brevemente a situação. Não houve nenhum segundo
de hesitação. Todos eles apoiariam o rei, muitos com certeza lembrando da história sobre
os reis mortos em Tríade e como tudo terminou. Andor se descontrolava frequentemente,
dava medo, mas ainda era o rei deles, o que lutara ao lado deles em inúmeras batalhas. Eles
não iam esfaquear ele pelas costas. A guarda do rei tradicionalmente era escolhida pelo
próprio rei. Um rei com o dom da empatia tornava esse trabalho ainda mais eficiente já que
ele podia testar e sentir os indivíduos mais leais à ele e formar uma guarda leal não apenas
à figura do rei, mas à ele como pessoa.
O grupo saiu usando as escalas nos portais dentro do território Rígel, mas usando
todas as suas táticas pra se manter ocultos, sem atrair a atenção de mais ninguém. Andor
queria chegar de surpresa. Só assim ele saberia a verdade, embora, no fundo, ele já
soubesse.

~o~
- O que você quer? – Álnaz disse, sempre na defensiva com o pai.
Klaoz entrou no quarto, convocando toda a sua paciência. – Sai. – Ele disse
bruscamente pra Sila que estava ajudando a ruiva a se arrumar. Sila saiu sem dizer uma
palavra, tendo cuidado pra não demonstrar a raiva que sentia do rei. – Você está linda,
minha filha.
- Já falei pra não me chamar assim. Sou filha de Andor, o rei dos sneipas, não sua!
- Você gostando ou não, querida, você é minha filha. Não tenho culpa por aquele
bandido ter te roubado de mim e levado sua mãe embora.
- Minha mãe que é sua filha! Como você pôde levar sua filha pra cama por tantos anos
Ela era só uma criança! E, pior que isso é que você nunca parou! Por um milagre dos deuses
minha mãe não odeia a mim e minha irmã pela forma como fomos geradas! Essa cara de
santo sua nunca, NUNCA, vai me convencer!
- Álnaz o mundo não é só certo ou errado. Eu concordo que minha relação com sua
mãe foi... Incomum. Mas o amor não conhece regras sociais, filha. Meu coração amou sua
O n i e r | 213

mãe desde que ela era uma garotinha e nunca amei outra mulher na minha vida. – Klaoz
disse e ele realmente estava sendo sincero, o que só deixou Álnaz mais enojada.
- Uma criança, Klaoz! Uma criança! Como você pôde olhar pra uma criança e desejar
ela? Isso é monstruoso, será que você não percebe? Isso não é amor, é doença! Meu pai
sim, ele ama minha mãe, ele a trata como a bela, inteligente e talentosa mulher que ela é!
Ele a respeita, Klaoz. Você nunca vai tirar minha mãe dele porque ela ama o rei de Rígel, seu
maníaco! – Álnaz disse com orgulho.
- Ex-rei, você quer dizer. – Klaoz disse pra fazer Álnaz sofrer pelo que disse. – Você
pensa que sabe tudo, menina boba, mas não faz ideia de como foi feita de idiota por anos.
Seu querido reizinho foi deposto e o conselheiro assumiu o trono como Regente.
- Seu mentiroso! – Álnaz disse, rezando pra que fosse mesmo mentira. – O tio Invis
nunca tomaria o lugar do meu pai. Eles são muito amigos e leais um ao outro.
- Será? As fronteiras irão abrir em breve, querida. Sugiro que se prepare. – Klaoz disse
se virando pra sair.
- Me preparar pra que? – Álnaz perguntou.
Klaoz parou de andar, ainda de costas e disse: - Vou vingá-la, minha linda filha
primogênita.
Ele saiu deixando Álnaz em pânico, caindo sentada numa cadeira. – Me vingar? Do
que? Contra quem? – Ela se perguntou e tentou conter as lágrimas de medo. Se fosse
verdade o que Klaoz disse, o que teriam feito com Andor? Era possível mesmo um rei
sneipas ser deposto? O que aconteceria depois? Caos? Seria igual ao que acontecera em
Tríade? As perguntas se acumulavam em sua mente e ela se deixou consolar por Sila que
entrara e a abraçara assim que Klaoz saiu.

~o~
Invis estava de pé no meio do pátio principal do palácio, com os líderes rebeldes e
Gareth ao seu lado, aguardando a multidão de rebeldes se acalmar pra ouví-lo. Seyrus, pra
evitar conflitos com um povo que obviamente não tinha motivos pra gostar dele, se
manteve dentro do palácio, no antigo quarto de Nike recém-reformado. A multidão se
acalmou com algumas palavras de seu líder principal e Invis deu um passo à frente.
- Senhoras, senhores, estamos neste fim de tarde aqui para que eu lhes dê minha
resposta. Vocês a meses estão acampados aqui exigindo a renúncia de Andor e, mais
recentemente, que eu seja seu Regente até o retorno de nossa amada princesa. – Invis
disse e deu um olhar rápido pro filho, em busca de forças pra continuar. Gareth acenou
com a cabeça e o pai continuou. – Bem, foi difícil pensar em me voltar contra meu amigo e
rei. Concordo que Andor tem se mostrado perigoso e instável e entendo suas queixas. Foi
O n i e r | 214

com base nisso que tomei minha decisão. Meu filho e um surpreendente aliado já foram
informados por mim...
Andor, oculto em uma guarita, depois de derrubar um guarda que estava ali, se
manteve quieto e atento, contendo a raiva que borbulhava nele. Ele podia sentir a
felicidade, a empolgação que emanava de Invis e até de Gareth. Mas, como prometer a
Nike o caminho todo, ele ia deixar Invis falar até o fim pra que não restasse nenhuma
dúvida. Nike, Lena e os guardas, ao lado de Andor em silêncio aguardavam o sinal do rei.
- ...Mas eu não vou fazer o que lhes disse. Desculpe, filho. – Invis olhou pra Gareth que
o olhava com um misto de confusão e choque. – Eu não vou assumir a Regência e, se
quiserem tirar Andor do poder terão que lutar contra mim primeiro!
Andor que estava com a mão já no cabo da espada, parou o movimento em choque. A
onda de surpresa vinha de todos os lugares: dos rebeldes, dos líderes, de Gareth, de Lena,
de Nike, dos guardas do rei ao seu lado. Mas, a onda de decepção e raiva que brotava
daquele pátio fez Andor perceber uma realidade dura e cruel. Mas não havia tempo pra
isso agora. A multidão iria linchar Invis depois daquela declaração e o próprio Invis estava
disposto a morrer por isso. Andor saiu da guarita com um grito que mais parecia um rugido
vindo dos infernos. Uma onda de medo ecoou entre os rebeldes quando Andor em sua fúria
perdeu totalmente o controle de seu dom de captar e redirecionar o magnetismo, fazendo
uma energia invisível e poderosa destruir o magnetismo dasa células dos corpos, todas se
afastando, causando uma visão terrível dos corpos mais próximos à ele. O corpo dos
rebeldes era tomado por enormes bolhas dolorosas e negras que cresciam sem parar, seus
corpos inchavam e literalmente explodiam. O odor de carne podre tomava todo o pátio
agora. Sem avisar à ninguém, Andor com ajuda de Lena fechara todos os portões de saída
do pátio, prendendo qualquer um lá dentro. Muitos rebeldes correram em pânico,
pisoteando até a morte os que caíram no chão. Invis ficou lá parado no lugar sem conseguir
mover um músculo se perguntando se tinha feito a coisa certa agora que via o quanto
Andor podia ser perigoso. Seu único instinto foi mandar Gareth correr pra dentro do
palácio. O rapaz correu e, vendo que os portões de entrada no salão principal estavam
trancados, procurou até encontrar na lateral uma janela aberta no segundo andar. Escalou
e entrou.
Nike, os guardas e Lena ficaram um tempo sem se mexer, respeitando a ordem de
Andor de não interferir, não importava o que acontecesse, até que ele desse o sinal. Nike e
alguns guardas chegaram a vomitar com a cena no pátio. O primeiro sinal era específico pra
Lena que se correu pro pátio, mudando pra sua forma negra de olhos assustadores. Bastava
olhar 5 segundos para seus olhos hipnotizantes e a pessoa sentia um medo paralisante, se
perdendo em seus pesadelos até morrer em sonho e acordada, ou, pior, ver ilusões de si
mesmo fazendo algo bizarro com o corpo e, de forma incontrolável, repetir o mesmo gesto
O n i e r | 215

no próprio corpo real. Muita gente morreu fazendo coisas bizarras como morder o próprio
pulso até arrancar a veia ali, pegar uma pedra do chão e bater no próprio olho até cair
morto, cortar a própria garganta, pegar qualquer objeto levemente perfurante e furar o
peito até abrir e arrancar o próprio coração... O segundo sinal foi dado e os guardas e Nike
se envolveram na briga... Não. Briga não. Aquilo foi um massacre. Logo só restavam Lena,
Nike, os guardas, Andor e Invis que ainda estava congelado de pé no lugar, só então
percebendo que o medo que o congelara no lugar fora uma leve, mas poderosa, influência
do poder de Lena à mando de Andor. O pátio era um verdadeiro mar de sangue, corpos e
órgãos arrancados. Andor deu alguns passos e parou de frente pro conselheiro.
- Solte. – Andor ordenou.
Lena liberou Invis de sua influência e ele caiu pra frente, emocionalmente esgotado.
Andor o amparou e seguiu pra dentro do palácio. Seyrus que tentava arrombar o portão pra
ver o que acontecia lá fora, parou e olhou com olhos arregalados pro grupo que entrava,
banhado em sangue, pedaços de pele e urina já que muitos rebeldes, com medo, não
puderam controlar a própria urina. Andor entregou Invis pra Seyrus e pediu que ele fosse
levado ao próprio quarto e deu ordens pra que a esposa do conselheiro fosse encontrada à
qualquer custo, dividindo-os em equipes. Ele próprio saiu, todo sujo, atrás dela junto com
mais dois guardas, a raiva estampada em toda sua postura. Nike não entendeu nada,
porque Andor estava tão furioso com a mulher de Invis? Mas obedeceu ao noivo, ele
explicaria tudo depois.
O n i e r | 216

A ‘delicadeza’ de uma flor


A mãe de Gareth foi encontrada morta no escritório onde o rei e o conselheiro se
reuniam todos os dias, com duas picadas na jugular, cercadas por um grande círculo negro
necrosado, o sinal da picada de uma serpente mágica, uma espécie rara de magia que
criava um ataque em forma de serpente que não morria até ter picado o alvo de seu
ataque, o alvo escolhido por seu mestre, se transformando em pó cinzento quando sua
missão estava cumprida. Nike havia sido atacada por uma igual no dia em que Álnaz fora
levada e sabia bem a dor lancinante e todos os males que aquilo causava. Ela amava a
mulher de Invis como uma irmã, uma das primeiras pessoas que se demonstrou amistosa
com ela assim que ela acordara do coma.
- Quem? Como? – Nike balbuciou com a garganta apertada pela dor e as lágrimas
contidas.
- Foi ela mesma. – Andor disse entredentes.
- Isso não faz sentido. – Nike disse e começou a se perguntar onde estava Lena. – Ei!
Parem!
- Não se envolva nisso, Nike. – Andor disse com firmeza quando seus guardas pegaram
o corpo da esposa de seu conselheiro e jogaram nas costas para tirar dali. – Levem-na para
os médicos-da-morte.
- Andor! – Nike protestou, os guardas saíram. – Você não pode estar falando sério! Vai
cometer esse sacrilégio com a esposa do seu amigo que se provou leal hoje?
Era um tabu antigo em ambas culturas. Um corpo só podia ser aberto e analisado se
fosse um criminoso dos piores, já que todo corpo era sagrado.
- Pelo menos ela será útil pra alguma coisa agora. – Andor disse e, sentindo o horror
que Nike emanava por aquela atitude, explicou: - Ela era uma espiã.
- Andor, já chega! Você acusa todo mundo...
- Querida, me escute. Não estou só acusando, eu sei e Lena me deu a pista pra isso. De
qualquer forma, apesar de ter lutado ao nosso lado, o Conselho não aceitará a palavra de
Lena sobre isso, e a morte dessa...coisa... pode ser visto como um ataque, mesmo que a
fronteira tenha aberto apenas a alguns minutos. É por isso que mandei analisar o corpo
dela. A análise mostrará que ela tem o poder de convocar essas serpentes ast-raais. Chega
disso, vamos pro nosso quarto.
Nike estava com a mente girando, tentando entender o que acontecera, lembrando
dos momentos em que ela confidenciou algo sobre sua relação com o rei, suas alegrias,
seus medos. Algumas daquelas coisas foram mesmo parar nos ouvidos de Klaoz, mas não
era nada que alguém a vigiando ou mesmo algum guarda ou os servos do palácio não
O n i e r | 217

soubesse. Ela teria sido amiga de Nike apenas pra mandar informações pro Klaoz? Ela teria
espionado até Invis pra isso? Mas haviam coisas sobre o comando que Invis nunca contaria
à esposa, ele era muito ético. Vendo sua hesitação, Andor respirou fundo e estendeu a
mão.
- Nike, por favor, podemos só descansar um pouco?
- Sim... – Nike disse sem prestar muita atenção.
Quando já estavam na porta no quarto do rei, uma ideia lhe ocorreu. – Andor, mande
a análise parar. Não foi ela.
- O que?
- Pense, querido, como ela saberia, como ela teria certeza que você a descobrira se ela
nem mesmo estava perto do pátio na hora daquilo, ela tentaria discutir, avaliar...
- Querida, você não percebeu? Ela foi informada.
- Por quem?
Andor apenas olhou pra ela e seu olhar foi como um soco. Nike só podia pensar em
uma pessoa. Lena surgiu entre dois guardas a acompanhando, andando com aquele jeito
estranhamente parecido com a mãe, mas não olhou pra ela. Lena manteve os olhos em
Andor, o queixo erguido, olhar firme, parou a meio metro dele e disse: - Nada. Nem sinal.
- Entendo. Vá descansar no quarto de sua mãe. Conversaremos mais tarde. E, Lena.
- Que?
- Não tente nada. Lembre-se do que conversamos.
Lena assentiu e saiu deixando Nike confusa e com um aperto no peito.

~o~
Klaoz aguardava em seu quarto pacientemente. De acordo com a última mensagem
enviada, seus planos seriam adiantados em meses. O que era bom, porque, honestamente,
ele estava de saco cheio. Esvion mantinha a princesa Álnaz oculta no closet, ansiosa, tensa,
mas obediente. Não demorou pros quatro toques ritmados soarem baixos em uma porta
secreta, atrás de um enorme quadro de Nike representada como uma divindade alada e
dourada de lindos olhos verdes. Klaoz pegou a chave que carregava oculta no cinto, colocou
em uma fechadura minúscula na moldura e o quadro se abriu como uma porta. O espião
com sua habitual máscara, capuz e manto negros saiu ofegante.
- Que sorte a fronteira se abrir logo que você precisou. – Klaoz disse sem dar muita
importância real ao fato.
- Temos que agilizar tudo.
- Trouxe o que combinamos?
- Não sou idiota, Klaoz. Não vou te entregar até você realizar oficialmente o casamento
que me dará o poder. Depois nós dois vamos invadir Rígel com uma força maior do que
O n i e r | 218

qualquer outra e pisotear a cabeça daquele rei idiota! Ele se provou perigoso demais. Não
pretendo mais ter nenhuma consideração por ele. – O espião disse furioso.
Álnaz, dentro do closet escondida, tremia de nevoso.
- Você já não tinha consideração, nem pretendia mantê-lo vivo depois daquela
afronta. – Klaoz disse se sentando e fazendo sinal pro espião sentar na poltrona perto do
closet.
O espião se sentou, olhou ao redor tendo certeza que, como sempre, o quarto só tinha
eles dois, e tirou a máscara para respirar melhor, ainda ofegante. - Mesmo assim, pensei
em manter ele vivo mesmo depois do meu casamento, mesmo quando eu fosse rei. Porra!
Invis ferrou com o plano! Se ele tivesse aceitado ser o Regente como disse que faria...
- Você salvaria Álnaz das mãos do malvado Klaoz, casaria com ela no caminho a
convencendo com sua lábia, ela já chegaria em Rígel sendo rainha e você, seu marido, seria
o rei e terminaria a guerra com meu povo, até criaríamos uma aliança de paz com você me
entregando minha mulher. – Klaoz disse tranquilamente.
- E todos sairíamos ganhando. – O espião disse.
- Mas isso é meia verdade. – Klaoz disse calmo como sempre. – Pensa que eu não sei,
garoto, que você pretendia usar minha mulher como isca para me matar assim que você
estivesse no poder, mataria minha filha antes e colocaria a culpa em mim, apenas para ser
o rei e usar isso como desculpa para tornar meu reino parte de Rígel também, com você
comandando tudo?
- Que? – O espião disse tentando fingir inocência. Sua mente girou em busca de suas
opções. Ele poderia fugir dali? Matar Klaoz? Mas, tarde demais, percebeu que havia uma
substância o prendendo à poltrona. Aquilo tinha cheiro de flores... O cheiro das flores
vermelhas de Álnaz. O pânico tentava o dominar, mas ele se esforçou pelo controle. – Eu
nunca... Nós...
- Nós tínhamos um trato que você nunca pretendeu cumprir.
- De onde você tirou esse absurdo?
- Me polpe, rapaz. Eu e minha mulher criamos o sistema de espionagem. Achou
mesmo que podia me enganar? Eu sei a muito tempo, mas você ainda me era útil. Agora
que foi descoberto você não tem utilidade nenhuma.
- Klaoz eu ainda posso...
- Não. Você não pode. Eu só aceitei isso porque queria minha mulher e a chance de
pisar na cabeça daquele reizinho. Mas, você pensou mesmo que eu ia querer um verme que
nem você casado com a minha filhinha?
O espião percebeu que era impossível negar. Klaoz sabia a muito tempo e planejara o
trair antes com certeza. – Você pode até me odiar, pode não confiar em mim e que se dane
porque eu também não confio em você, seu imbecil! Aquela criança patética, magricela de
O n i e r | 219

orelhão e cabelos estranhos é louca por mim, ela me idolatra! E quanto à você...bem até
um surdo ouve quando ela diz que te odeia! Sabe que se me fizer algo ela nunca vai
perdoar você.
- Eu sei? – Klaoz disse zombando, um sorriso sutil aparecendo em seu rosto, seu olhar
nunca saindo dos olhos do espião. – Não. Eu não sei. Porque você não me diz se vai ou não
me perdoar, querida?
O espião congelou quando a porta do closet se abriu e Esvion saiu, seguido pela
última pessoa que ele esperava ou queria ver nesse momento.
- Álnaz? Eu... Posso explicar...Ele armou iss...
PLAFT!
O tapa que ela deu no rosto dele foi tão forte que fez a poltrona cair de lado, ele ainda
grudado nela. A cena fez Klaoz se lembrar da força do tapa de Nike em seu rosto e ele
agradeceu mentalmente pela filha aparentemente ter herdado essa força nesse gesto.
- Seu...seu... – Álnaz parecia que ia engasgar com a própria raiva, seu corpo inteiro
mais vermelho que seu cabelo. – TRAIDOR! Você disse que me amava, Gareth! Foi tudo
mentira!? Eu era só um maldito degrau político pra você!
- Álnaz não seja burra! Você não percebe que ele armou isso tudo? Ele só quer separar
você de mim. – Gareth disse com a raiva transbordando. Se ele pudesse mataria Álnaz
agora e todos naquela sala, mas ele não jogaria tantos anos de trabalho no lixo.
- MENTIROSO! FALSO! IDIOTA! – Álnaz grita enquanto chutava sem se preocupar onde
seus chutes atingiam em Gareth.
- Querida do papai, - Klaoz disse, mas não tentou segurá-la – cuidado pra não
machucar seus lindos pezinhos. Deixa que eu cuido desse idiota, afinal, ele quase matou
Nike mais de uma vez.
- O que? – Álnaz finalmente parou de chutar e olhou pra Klaoz com surpresa.
- EU DEVIA TER MATADO AQUELA PUTA MESMO QUANDO ESTAVA EM COMA! – Não
era o plano, mas, acidentalmente ele quase desligara os aparelhos que mantinham a
mulher viva, embora ele não soubesse como Klaoz descobrira isso.
- Deuses! Você é um monstro... – Álnaz disse.
- Eu? E você que quis bancar a valente e lutou tanto com minha mãe que ela teve que
usar uma de suas serprentes e quase matar a vadia que você chama de mãe?! Sua mãe
quase morreu por sua culpa! – Gareth só queria ver aquela garota estúpida sofrer por
estragar seus planos rumo ao trono.
- Espera... Sua mãe? Aquele mago disfarçado que nos atacou era... – Álnaz não podia
acreditar. Ele sempre gostara tanto da família de Gareth como se fosse sua segunda família.
E agora tudo caíra por terra. Ela nem sabia mais se podia confiar em alguém. Um desejo
O n i e r | 220

enorme por sangue surgiu. Ela queria matar a todos que a enganaram, todos que fizeram
mal pra ela e pra quem ela amava.
Não haviam plantas no quarto de Klaoz por segurança desde que Álnaz despertara seu
dom. Mas, do lado de fora, dois andares abaixo, ficava o grande jardim com flores
coloridas. Não era um problema porque o dom dela não era tão forte pra atrair plantas à
essa distância e todas as portas e janelas estavam trancadas. Esvion fez menção de ir até
Álnaz para acalmá-la, mas Klaoz o impediu com um simples olhar.
- Você... vai....MORRER! – A voz de Álnaz soou mais grossa, quase sobrenatural, e até
Klaoz se arrepiou.
- Pode até ser, mas você não vai deixar de ser patética! Se não fosse por mim você
nem saberia dar um beijo mais ou menos decente, menina estúpida! – Gareth estava quase
gritando com a raiva e a frustração, ainda tentando descobrir um jeito de escapar.
Foi a última gota. Um som terrível soou do lado de fora no jardim como se o mundo
estivesse rugindo, o chão começou a tremer e, com um único golpe, vários galhos e caules
anormalmente grossos com flores escuras arrombou a enorme porta do quarto que dava
para a varanda. Klaoz, por instinto, puxou Esvion para trás dele e criou um escudo mágico
ao redor dos dois. Mas, em nenhum momento, as plantas foram em direção à eles. Eram
em média trezentos caules e galhos grossos, cada um da largura do tronco de um coqueiro,
mais escuros que o natural, todos soltando um pólen esverdeado ou cinzentos que
pareciam ecoar os batimentos cardíacos acelerados da ruiva. Mas, apesar de incômodos,
não eram venenosos. Ela não queria matar Gareth tão rápido. Ele sabia que agora não tinha
mais jeito, se suas chances antes eram pequenas, agora elas eram praticamente nulas. Ele
iria morrer. Então ia causar o máximo de dor possível. Os galhos atingiram com força a
poltrona a quebrando como se fosse feita de cristal, deixando Gareth livre. Ele tentou
correr para a passagem secreta ou uma das portas que davam no corredor, mas foi
agarrado pelos pés e erguido até seu rosto ficar na altura do rosto de Álnaz, de ponta
cabeça olhando nos olhos verdes da moça.
- Vai. Me mata logo, menina sem graça! Eu devia ter comido sua irmã ao invés de você.
Pelo menos ela parece mais gostosa!
Klaoz abaixou o escudo e lançou seu facão em direção ao peito do rapaz, furioso por
ele falar assim de suas filhas, mas um galho que antes era um delicado caule de flor, se
moveu rapidamente e segurou a arma antes mesmo dela passar por Álnaz. A jovem
continuava olhando furiosamente pro ex-namorado, ex-amigo, a pessoa que ela tanto
amara e confiara a vida toda. – Ele é meu. – Ela rosnou com aquela voz estranha. – Você
não merece nem mesmo o prazer de pensar em mim ou em minha irmã, filho de uma cobra
prostituta!
- Prazer...Isso ela pelo menos sabe dar. Miror mesmo não reclama.
O n i e r | 221

Quando Gareth disse isso, Klaoz quase se virou pra achar o jovem governador e
apertar seu pescoço até quebrar. Me acerto com esse bastardo depois. Klaoz pensou.
- Cale a boca. – Álnaz ameaçou. No fundo ela não queria perder o controle, ela sabia o
quanto isso era perigoso.
- Porque. Vai correr chorando até seu papai psicopata ou seu papaizinho em Rígel, o
mesmo que bloqueou seus poderes quando você era um bebê? – Gareth disse. – Ah... A
burrinha não sabia? Andor selou seus poderes de plantinhas, imbecil, pra que você não
fosse mais poderosa do que ele.
Álnaz, se sentindo traída, perdeu a paciência totalmente e fez um galho entrar pela
boca de Gareth lentamente. Ele se debateu babando e soltando um som terrível pela
garganta.
- EU MANDEI CALAR A BOCA!
O som desapareceu enquanto o galho atingia a garganta e esôfago de Gareth, ainda de
ponta cabeça, vermelho pela raiva, a posição incômoda e o sufocamento. Ele se debateu
silenciosamente, sua raiva contra todos, principalmente Álnaz, só cresceu enquanto sua
visão escurecia. O galho não parou seu caminho em linha reta, causando hemorragias
violentas quando atingia os órgãos, seguindo em direção à uma das pernas, até sair em um
pé o perfurando. A ponta exposta do galho na sola de seu pé se transformou com pequenas
plantas brancas com um cone em cima que mais tarde recebeu o nome de ‘cogumelo’, a
palavra sneipas antiga pra ‘mente traiçoeira’. Com um aceno da mão da menina, o galho
balançou e jogou o corpo de Gareth a tamanha distância que aterrissou perto de onde a
máquina que causava a tempestade na fronteira ficava, quilômetros e mais quilômetros
longe do palácio de Omoh.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – Álnaz caiu de joelhos no chão, chorando
de raiva, dor e desespero enquanto os galhos perigosos retrocediam devagar e voltavam à
sua forma original. Um belo jardim de coloridas flores inocentes.
Klaoz, intimamente se divertindo com o caos e a dor de Álnaz que agora estaria mais
próxima dele, se aproximou devagar, pegou seu facão do chão, guardou no cinto, pegou a
taça oferecida por Esvion e entregou para a menina.
- Beba, querida. Você precisa descansar ou vai morrer pelo esgotamento. – Ele disse.
Como eu pude fazer isso? Eu devo ser muito ruim já que não me sinto tão culpada...
Será que herdei a maldade de Klaoz? Deuses... eu nem dei chance de defesa à Gareth....
Como eu pude confiar tanto nele? Como não percebi quem ele era? Eu sou mesmo uma
idiota! Álnaz pensava, se sentindo a pior e mais burra das mulheres.
Álnaz bebeu ciente de que aquilo a ajudaria a apagar por dias em um sono sem
sonhos. Ela só queria acabar com aquela dor, com aquela culpa por matar alguém tão
cruelmente. Quase imediatamente ela caiu de lado no chão. Klaoz ficou de pé e deu leves
O n i e r | 222

chutes na menina pra ter certeza de que ela estava dormindo profundamente. – Leve ela
pro quarto, Esvion, e mande aquela sua sobrinha cuidar dela.
- Sim, majestade. – Esvion colocou Álnaz no ombro e saiu.
- Agora, hora de ter uma conversinha com Miror. – Klaoz disse pra si mesmo com um
brilho perigoso nos olhos.
Dias depois o corpo de Gareth em decomposição fora encontrado por pesquisadores
sneipas e levado para Andor.
Mas essa é uma história pra outro dia.
O n i e r | 223

Passado condenatório
Invis estava visivelmente abatido, envergonhado, o sneipas sempre tão seguro de si,
tão centrado, mal levantava a cabeça. A comprovação do poder oculto da esposa, a traição
dela e do filho, e o estado deplorável em que o cadáver de seu único filho fora encontrado
haviam sido golpes pesados em sua alma. Mesmo não tendo culpa, mesmo sua lealdade
comprovada no discurso aos rebeldes que Andor fez questão de mostrar à todos os sneipas
de seu reino, não foram suficientes para apagar a marca da traição em sua honra. A traição
era um dos piores crimes em ambas as sociedades e os parentes de traidores, mesmo sem
culpa, acabavam carregando esse estigma pro resto da vida, atraindo olhares tortos e
sussurros maliciosos por onde passavam. Invis não fugira à essa regra e, mesmo se não
fosse o caso, ele mesmo se martirizava por não ter percebido as intenções maliciosas das
duas pessoas que mais amava e que conviviam com ele a anos.
Andor tentara amenizar o quanto podia esse problema demonstrando o quanto Invis
fora leal em uma situação tão complicada e como ele fora paciente com seus surtos de
raiva. Nike tentava de tudo pra amenizar a culpa que Invis sentia e lhe deu uma ordem
direta, como noiva do rei, para que o conselheiro ficasse nos aposentos dele no palácio e
não em sua própria residência. Depois que o corpo de Gareth foi encontrado, e Invis se
recusou a dar um sepultamento digno ao filho e à esposa, ficou decidido que os dois seriam
lançados ao mar envoltos em tecidos grossos com pedras presas à eles, como se fazia com
qualquer criminoso extremamente perigoso. Naquela tarde Invis não quis nem mesmo
acompanhar os corpos no barco que os levaria até o ponto onde foram jogados e Andor e
Nike estavam com o conselheiro na sala de jantar, fazendo companhia à ele enquanto os
corpos da família dele eram levados à mar aberto. Nenhum dos dois queriam tocar no
assunto ainda, respeitando o luto do homem por alguns dias.
- Eu devia ter percebido... – Invis murmurou aceitando a xícara de chá das mãos de
Nike, com a cabeça baixa e ombros curvados como se carregasse o peso do mundo nas
costas.
- Já conversamos sobre isso... – Nike disse.
- Como eu não percebi? Era evidente!
- Eles enganaram você direitinho, amigo. – Andor disse.
Nike olhou feio pro rei. – Andor!
- Querida, se ele quer falar sobre isso...
- Ignorar o fato por dias não vai nos ajudar em nada. – Invis disse dando lugar ao seu
lado prático.
- O que não entendo, Invis, é porque eles fariam isso. – Andor disse.
O n i e r | 224

- Por causa dos seus pais. – Invis disse olhando diretamente pro rei, mas abaixando os
olhos de novo, envergonhado pelos crimes de sua família.
Andor olhou surpreso. – O que meus pais têm haver com isso?
- Betel os matou e como aquela...aquela mulher era amiga deles.
- Espera. Como assim meu pai matou os pais de Andor? Eles não tinham desaparecido?
– Nike perguntou refletindo a surpresa de Andor.
Invis suspirou, bebeu um gole do chá, colocou a xícara na pequena mesa ao lado da
poltrona, virou-se para Andor e disse: - Os pais de And... Quer dizer, do rei Andor, foram em
busca de ervas para medicamentos e realizar algumas pesquisas, mas acabaram
desaparecendo e ninguém nunca soube nada deles. Essa foi a história oficial. A história real
é... Pior. Majestade, não quero e não vou justificar os crimes daqueles dois, também não
quero que o senhor perca o carinho que tem por seus pais, então, se assim decidir, nunca
mais tocarei no assunto. Mas se o senhor quer ter pelo menos uma ideia das motivações
daquela...aquela...bem, se o senhor quiser, eu lhe contarei tudo.
- Eu sempre tive meus pais como exemplo, embora não me lembre muito deles. Betel
sempre falava tão bem deles, como heróis... – Andor disse, pensativo. – Mas não sou um
covarde que se esconde atrás de ilusões. Se eles fizeram algo ruim, eu tenho que saber.
Nike se sentou ao lado do rei no sofá, mas, se sentindo de repente sem chão com a
possibilidade dos pais serem algo tão ruim a ponto do doce Betel ter que matá-los, Andor
puxou Nike a colocando sentada de lado em seu colo.
- Certo... – Invis se forçou a olhar para o rei. – Cerca de 65 anos atrás seus pais eram
um casal respeitado e admirado, não só por sua relação tão bonita de se ver, mas também
por suas habiliadades como pesquisadores e mestres em criações de ilusões e planos ast-
raais. Alguns deles, como vocês sabem, são usados até hoje como centros de treinamentos
para guerreiros que lutam também usando seus corpos ast-raais, não físicos. Sua mãe,
Amira, era uma descendente muito distante do comandante da nave que pousou primeiro
na Terra depois de toda aquela catástrofe em Tríade e guiou o povo sneipas na criação de
uma sociedade aqui.
- Eu não sabia...
- Ninguém sabia, majestade. Essas informações se perderam durante as primeiras
erupções vulcânicas que enfrentamos neste planeta. – Invis continuou. – De alguma forma
que desconheço, sua mãe e seu pai descobriram isso e tiveram uma conversa tranquila com
Betel sobre ela assumir o trono que, de acordo com ela, era seu direito.
- Mas o poder de Rígel nem sempre passa hereditariamente. O rei ou rainha pode
escolher um sucessor se não tiver herdeiros ou se considerar seus herdeiros inaptos. – Nike
disse.
- Ou se os herdeiros não quiserem assumir. – Andor completou.
O n i e r | 225

- Exato. E na história de Rígel muitos governantes tinham optado por nomear


herdeiros. Enfim. Eu era parte do Conselho nessa época, mas não era o braço direito do rei
ainda, então não conheço todos os detalhes. O que sei, e Betel confirmou isso alguns anos
depois, é que a conversa foi amistosa e o casal compreendeu os motivos dele pra
permanecer no poder, já que sua mãe também não tinha experiência nenhuma com a
política. Mas o rei prometeu que, em respeito à descendência dela e às contribuições que
ambos haviam feito ao reino, ele educaria Andor, então com 3 anos, pra se tornar um
possível herdeiro de Betel, caso ele não tivesse herdeiros aptos ou dispostos ao governo.
Assim, Betel passou a cuidar pessoalmente da educação de Andor e, consequentemente, da
sua irmã.
- Calma. Agora me perdi aqui. – Nike olhou pasma entre ambos. – Andor tem uma
irmã?
- Tive. – Andor respondeu tranquilamente. – Ela morreu de uma doença comum nas
crianças sneipas. Hoje temos vacinas pra isso, mas na época não existia nem tratamento. Eu
era pequeno. Mal lembro dela. Ela tinha 5 anos quando morreu.
- Cinco anos e meio. – Invis corrigiu olhando pro nada, sua mente longe. – Ela era uma
criança adorável. Muito parecida com o jeito de Álnaz... Algum tempo depois o conselheiro
chefe havia levado uma bebida para Betel, como sempre fazia, enquanto ele lhe dava lições
de postura. Mas o rei se negou a beber porque estava muito empolgado o ensinando e
brincando com você e sua irmã que era pouco mais do que um bebê na época. Sua irmã
correu para o conselheiro, ele a pegou no colo e se sentou brincando com a menina. Ela
dormiu com a cabeça no peito dele e, distraidamente, ele pegou a bebida que trouxera pro
rei, já gelada, e tomou. Você estava brincando com Betel e, sem olhar pro conselheiro,
sentiu o pânico dele. O rei viu a tempo apenas de segurar a menina que ainda dormia. A
cabeça do conselheiro tombou pra trás, morrendo sem conseguir nem mesmo fechar os
olhos. Betel percebeu a intensidade da sua empatia nesse dia. No dia seguinte fui nomeado
conselheiro-chefe.
- Quem tentou envenenar o rei? – Nike perguntou.
- As investigações não deram em nada. O único que tinha acesso às bebidas eram o
conselheiro porque o rei adorava o jeito como ele as preparava. Mas as tentativas de
assassinato não terminaram por aí. Betel sempre ocultou todas, temendo uma onda de
raiva que pudesse causar outra guerra. Seu pai quase foi morto numa noite quando
invadiram a casa de vocês e tentaram o esfaquear dormindo. Você e sua irmã estavam
dormindo na cama com seu pai naquela noite e sua empatia o fez acordar com essa
sensação de ódio e perigo. Seu pai se salvou porque acordou a tempo.
- Que sorte. – Nike murmurou.
O n i e r | 226

- É... Bem, alguns anos se passaram, dois sneipas da guarda do rei foram acusados e
condenados à morte pelas tentativas e a morte do antigo conselheiro, executados em
segredo e as tentativas pararam. Eu havia conhecido uma jovem e estávamos namorando
quando a trouxe em uma festa como acompanhante. Betel gostou muito dela, mas ele
também gostava de todo mundo, ela parecia em casa na festa, fez muitas amizades,
incluindo com seus pais. Você e sua irmã brincaram muito com ela e ela se tornou tão
querida por vocês que Betel sempre a chamava pra vir fazer companhia pra vocês quando
se comportavam, como um prêmio. Ela parecia tão encantadora, tão pura... Acabei me
casando com ela. Então, uma noite eu estava com minha esposa na varanda de casa. As
sombras ondularam e você as atravessou correndo sangrando com um corte profundo na
cabeça, descalço com os pés feridos, as unhas sujas, usando um pijama rasgado e cheio de
arranhões e hematomas. Eu desci os degraus correndo e o segurei antes de bater no chão.
Você estava aterrorizado, olhos vítreos, tremendo visivelmente. Segurou minha camisa em
pânico e disse que seus pais estavam loucos e tinham matado sua irmã.
Nike colocou ambas as mãos na frente da boca horrorizada.
- Nã...Não era verdade...Não é? – Andor gaguejou.
- Eu corri com você pra dentro, usei o portal daqui pro palácio e contei à Betel. Nós
partimos com um pequeno e eficaz grupo de soldados e corremos pra sua casa em menos
de 5 minutos. Seus pais não estavam lá, mas sua irmã... Bem... As paredes estavam repletas
de sangue e haviam pedaços da menina separados, espalhados no chão de um quarto onde
estava um portal não ativado. Não demorou muito pra descobrirmos como o portal
funcionava. Ao invés de usar só energias do próprio planeta e dos corpos de forma
equilibrada, ele funcionava com sangue e vísceras.
- Mas... – Andor começou a falar, mas a voz falhou.
- Mas pra que um portal com essas características? Simples. O portal não devia abrir
caminho entre dois pontos do planeta. Ele deveria abrir caminho à uma espécie de versão
perigosa e infernal do planeta, uma versão que não era física.
- Eles queriam enviar o rei para lá, já que não conseguiam matá-lo aqui. – Nike
completou o pensamento que se assemelhava muito à forma de pensar dos sapiens.
- Sim. Eles queriam vingança pelo rei não ter cedido o trono à sua mãe e ainda ter
dado à você a chance de um dia ser rei. A ambição deles era tamanha que invejou o poder
até mesmo do próprio filho a ponto de criar uma dimensão infernal com o talento criativo
deles. Lamentavelemnte. Sabíamos que eles não iriam parar até sacrificar você e abrir um
precedente terrível contra nosso rei. Então, em segredo, os caçamos e, quando
encontramos, sua mãe havia matado seu pai porque ele ia entregá-la dizendo que ela o
obrigara a fingir aquele ataque à vida dele anos antes. Assim ele iria se salvar. Mas já
sabíamos que a atacante naquela noite era sua mãe e que seu pai combinara aquilo com
O n i e r | 227

ela. Sua mãe o esfaqueou 53 vezes e depois cortou os próprios pulsos. Betel não queria que
você carregasse o preconceito por ser filho de traidores tão cruéis, então mentiu sobre a
morte de sua irmã, deu seus pais como desaparecidos e cumpriu a promessa de criá-lo
como um possível herdeiro. Minha mulher e eu, como pessoas próximas de seus pais,
fomos investigados, mas fomos inocentados. Lembro que minha mulher na época chorou
por dias, até consolou você.
- Você... Você acha que... Que ela ajudou meus pais? – Andor perguntou.
- Acho que sim. Isso explicaria como seu pai soube que nós estávamos perto de
capturá-los, algo que nunca ficou esclarecido.
- Andor... – Nike disse, apertando a mão gelada do rei. Mas ele não disse nada. Sua
mente dava inúmeras voltas e voltas. O trio só falou novamente quando Seyrus e Lena
apareceram pra chamá-los para a reunião.

~o~
Dias antes, em Omoh...
- É melhor não mentir, garoto. Eu saberei se estiver mentindo pra mim. – Klaoz disse
calmo no semblante, mas com o olhar de um predador prestes à atacar sua presa.
- Vou repetir, majestade. – Miror disse tranquilamente. – Eu nunca toquei ou pensei
em sua filha de maneira inapropriada. E, honestamente, imagino de onde o senhor tirou
essa ideia.
- Ora, ora... Mesmo? Estou curioso para ouvir sua teoria então, garoto. – Klaoz disse
como se pudesse envenenar Miror só com um olhar.
- O espião. Gareth é o nome dele, não é? – Miror disse.
Klaoz ergueu uma sobrancelha intrigado. Em teoria, nem mesmo Esvion sabia quem o
espião era até aquele dia.
- Não mude de assunto, moleque insolente.
- Não estou mudando de assunto, majestade. O senhor me perguntou se tive alguma
relação sexual com sua filha e sei que o senhor jamais pensaria isso de mim sem alguém lhe
dar essa ideia.
- E como sabe disso com tanta certeza?
- Porque eu nunca dei motivo nenhum para que o senhor suspeitasse disso. Nunca dei
motivos porque isso nunca existiu nem mesmo em minha mente. O senhor bem sabe que
prefiro as mulheres mais velhas. – Miror disse ainda tranquilo. – Sei que foi o Gareth
porque ele tem bons motivos para desejar que o senhor me odeie.
- Mesmo? E que motivos ele teria pra isso? – Klaoz perguntou meio zombando. –
Apesar desse garotinho não ser o espião...
O n i e r | 228

- Não precisa negar, senhor. Eu sei que ele é porque eu o vi tirar a máscara uma vez e
ele me viu. – Vendo o súbito interesse do rei, Miror aproveitou. – Ele ameaçou a sobrinha
do mago-chefe porque ela não quis se deitar com ele por ele ser um sneipas. Eu o impedi
de bater nela e ele foi embora jurando vingança por minha interferência. Fiquei
desconfiado e passei a vigiá-lo. Uma vez ele me descobriu e nós brigamos. A máscara dele
rasgou no meio da luta e vi quem ele era. Ele ficou louco de raiva e fugiu porque, bem, eu
sou um sapiens e sou mais forte do que esses sneipas molengas. Hoje cedo soube que ele
havia atravessado a fronteira assim que ela se abriu, então mandei meu contato seguí-lo.
Quando ele chegou perto da aldeia próxima eu já o aguardava, mas não deixei que ele me
visse, fiquei observando quando ele entrou na mata. Assim que ele saiu eu fui ver o que ele
tinha feito.
- E o que ele tinha feito? – Klaoz perguntou tentando parecer desinteressado.
- Antes da tempestade fechar a fronteira, ele estava falando sobre algo que poderia
vencer a guerra com a mãe dele. Foi aí que percebi que nem sempre o espião era ele, ela
atuava também. De acordo com ela, como ela “havia ajudado a criar um mundo”, ela e o
filho mereciam o trono que foi roubado de seus amigos. Não entendi bem isso e ainda não
pude investigar.
Eu sim. Klaoz pensou.
- ...Então o rapaz mencionou que ela precisava roubar a arma pra ele e que isso seria
um trunfo poderoso em suas mãos. Quando o vi enterrar uma caixa de madeira, supus que
fosse a arma ou um mapa. – Miror pegou uma pequena caixa do bolso do manto e
estendeu para Klaoz a abrindo. – Suponho que isso seja a arma que ele provavelmente lhe
disse que não encontrou.
Klaoz quase deu um pulo de sua cadeira em direção à Miror, com olhos fascinados no
objeto poderoso. Mais que isso. No objeto que até poucos dias atrás tinha sido tocado pela
sua Nike. Era quase como poder tocá-la também.
- Porque?
- Não entendi, majestade. – Miror o olhou realmente confuso.
- Se você só suspeita que isso seja uma arma que pode vencer a guerra, porque não
usar isso a seu favor, vencer a guerra e se tornar um rei?
- Porque eu já tenho um rei, senhor. Quantas vezes e de quantas formas preciso
provar que sou leal ao senhor? – Miror disse com olhos sinceros.
Klaoz o encarou por um momento e então pegou a caixa, a preciosa caixa com a arma
criada e tocada pela mulher que ele tremia por dentro de excitação só de pensar nela.
- Você pode ir, Miror. – Klaoz disse e quando Miror começou a sair, ele acrescentou,
de olhos fechados, tocando no objeto como se tocasse cada centímetro do corpo de Nike. –
Acredito em você, rapaz. Gareth estava...digamos...preso em seus problemas quando o
O n i e r | 229

delatou falsamente. Mas, se algum dia eu descobrir que você mentiu pra mim ou que pelo
menos imaginou tocar em minhas filhas, você vai implorar pela morte.
- Entendo, senhor, mas, como disse, eu prefiro as mais velhas e experientes. – Miror
disse e saiu.
Klaoz nem abriu os olhos, focado naquele momento bizarro de excitação bem...er...
visível, se é que me entendem. Ele iria falar com Sila que considerava uma piranha fraca e
burra. Seria fácil descobrir se ela estava mentindo quando ele tirasse a história de Miror a
limpo. Mas agora ele ia tirar aquele momento pra ele e sua fantasia com a mulher que
desejava e só podia ter na imaginação.
Por enquanto, meu amor, por enquanto... Ele pensou enquanto se tocava e tocava o
objeto criado por ela no mesmo ritmo.
O n i e r | 230

Garantias
- Ei, Álnaz. – Miror sussurrou na porta do quarto da moça. Era madrugada, mas ele
sabia que ela não estava dormindo bem, não depois que se recuperou do ataque à Gareth.
- Sai. Não quero falar com você. – Álnaz respondeu num sussurro. Sua cabeça vivia
doendo desde que acordara do sono profundo alimentado pelas drogas que Klaoz lhe dava.
Havia uma garrafa na mesa de cabeceira com aquela poção gosmenta que ele lhe dava pra
dormir. A sensação de ter sido enganada por todos que amava era esmagadora. Até mesmo
de Andor ela desconfiava. Seu pai teria bloqueado seus dons mais poderosos como se ela
fosse uma criminosa, ainda quando era um bebê? Gareth não tinha motivos pra mentir, não
quando a vida dele já estava condenada. Até de Nike ela começava a desconfiar. Seria
possível que toda aquela paixão doentia de Klaoz fosse correspondida e sua mãe só se
cansara dele, depois indo pro outro homem mais poderoso do mundo, o rei de Rígel?
Pensar nisso tudo doía muito... Ela não conseguia suportar. Passava boa parte do tempo
chorando, irritada com tudo e todos ou dormindo sob o efeito da poção que tomava feito
água agora. Nas madrugadas, raramente conseguia dormir sem a poção, passava horas
andando pelas passagens que Miror ensinara meio apática.
- Você tem que parar de tomar essa porcaria. – Miror disse entrando e fechando a
porta silenciosamente atrás dele. – Vamos. Hora de ir pra sua casa.
- Que casa? Eu não tenho casa.
- Não fale besteiras, menina. Anda logo.
- Eu não vou à lugar nenhum com você! Eu sei que foi você que entregou a arma da
minha mãe pra esse rei maluco! Eu ouvi quando você disse que era leal à ele!
- Você... Espera. Pensei que você estivesse apagada com o efeito da poção. – Miror
disse confuso.
- Eu acordei com o barulho daquele mago nojento se pegando com a sobrinha dele no
banheiro do meu quarto. Aproveitei a distração deles e saí. Mas ai vi você com seu discurso
babão e depois aquele rei nojento fazendo....fazendo...coisas! – Álnaz disse, a voz falhando.
– Preferi voltar e fingir que dormir, mesmo com esse casal errado no banheiro. Até dormir
mesmo.
- Parece que a poção perdeu um pouco a força por causa do seu estado emocional. –
Miror disse pensativo. – Mas você não pode achar que eu estava falando sério.
- Não? Claro que posso! Você pode negar que aquela tal de Sila e você tem um caso?
Aposto que ela está na sua cama agora, não é?
- Claro que ela está.
- Seu...seu...verme! E ainda diz que ama a minha irmã!
O n i e r | 231

- Ei, garota, fale baixo! E eu amo sim sua irmã, mais do que minha vida! Se eu não
tivesse algo com a piranha da Sila não poderia me aproximar o suficiente pra dar sonífero
pra ela dormir na minha cama e te deixar livre! Sila não é burra, sabia, leva tempo pra ela
abaixar a guarda com um homem.
- Ah claro. Você é um santo. – Álnaz zombou, sonolenta. Quantos copos da poção ela
tinha tomado? Um? Dois? Dez? Ela não se lembrava e não se importava, só queria que
aquela dor passasse.
- Olha você pode pensar o que quiser, pode me odiar, mas vai estar viva pra isso.
Então, por favor, vista isso e vamos embora antes que o rei termine mais uma sessão
daquela coisa nojenta que ele faz vendo o quadro de Nike e tocando aquele objeto que faz
sei lá o que. – Miror pegou um manto do baú aos pés da cama e tentou puxar Álnaz pelo
braço pra fora da cama.
- ME SOLTA! – Ela puxou o braço com violência. Klaoz mandara tirar qualquer planta
do quarto e das proximidades, mas ela podia sentir as flores lá fora atendendo aos seus
próprios sentimentos conturbados. Ou seria alucinação pela poção? – Eu não vou com você
pra lugar nenhum! Que garantias eu tenho de que você não está armando algo pra lucrar
com seu rei babaca? Você quer me entregar pro rei maluco e dizer que me prendeu
tentando fugir, aí ele vai te recompensar!
- Eu já disse pra falar baixo, caramba! Não seja burra! Estou te chamando pra voltar
pra Rígel e você fica aí se entupindo com essa merda?! Não percebe que Klaoz está te
dando isso pra te manter sob controle?
- Não! Fui eu que pedi a garrafa pra ele! Ele nem ia me dar, eu que insisti! Eu nunca
vou acreditar em nenhum outro homem! Nunca!
- Porra! Será que vou ter que te levar de volta pra sua casa amarrada? – Miror disse e
se calou. Talvez fosse paranoia, mas ele podia jurar ter ouvido passos distantes no corredor.
Ele se afastou ainda com o manto na mão e se escondeu atrás de um armário cheio de
livros, prendendo a respiração.
Álnaz havia caído na cama, as pernas no chão e o resto do corpo sobre a cama,
sonolenta pelo excesso de poção. Seus olhos se fixaram com dificuldade na garrafa e
percebeu que havia bebido praticamente tudo em poucas horas. A porta se abriu com
cuidado e passos firmes e inconfundíveis soaram.
- Ele é um...traidor...ele é... – Álnaz tentou falar, mas sua língua parecia pesada.
- Sim, filha, ele era. – Klaoz disse com voz baixa, olhando ao redor como um falcão em
busca de qualquer sinal de outra pessoa ali. Sila devia estar dormindo no quarto pequeno
do outro lado dos aposentos da moça. Com quem Álnaz estava gritando? Seus olhos
pousaram na garrafa e ele percebeu que ela devia só estar alucinando pelo excesso da
bebida. Ele a pegou, colocou na cama e a cobriu.
O n i e r | 232

- Não presta....homem...
- Só eu, querida. Só eu. – Ele disse passando a mão sobre as nádegas cobertas da
mulher dormindo. – Você até se parece com Nike... Menos que Lena, mas parece... E se
eu... Não. Melhor não. Já foi um milagre Lena não ter acordado quando fiz isso, melhor não
forçar a sorte com essa aqui também. Em breve terei minha esposa para satisfazer minha
vontade e não vou precisar mais dessas cópias baratas. Só espero que não demore... Ele
pensou melhor e começou a fuçar em todos os cantos do quarto com seu facão na mão, só
por garantia. Miror já tinha entrado na passagem atrás do armário e fugido.
Na manhã seguinte, Esvion estava acertando os detalhes do plano com o rei. Ele só
precisava aguentar aquele rei idiota mais um pouco. Em breve a guerra terminaria e ele
aproveitaria as comemorações da vitória para se livrar daquele idiota.
- Algum perigo de Álnaz atrapalhar?
- Do jeito como ela está bebendo aquela coisa? Duvido muito. Ela nem percebeu a
diferença no gosto quando adicionei gotas do veneno. – Esvion respondeu.
- Ótimo. Quero Sila pronta para receber minha filha assim que ela chegar.
- Sim senhor.
- Ah, só mais uma coisa. – Klaoz disse. – Fique alerta com Miror. Só por garantia.
- Vou selecionar algum dos espiões para vigiar o garoto amanhã.
- Muito bem. Hoje, vamos focar na batalha. Miror não é burro pra me trair, mas não
custa nada ficar de olho nele um pouco.

~o~
Os sapiens haviam tentado invadir mais uma vez a fronteira de Rígel, mas os guardas
sneipas viram e soaram o alarme. O grupo de sneipas que foi enviado para a batalha,
logicamente, era maior que o grupo de sapiens e a batalha parecia favorável ao lado
sneipas. Mas os sapiens não estavam sendo tão ferozes como sempre, pareciam cansados e
tudo que faziam era se esquivar ou dar golpes menos potentes. Mesmo os magos sapiens
não pareciam ter muita energia de ataque, apenas criando escudos e desviando armas.
Se Andor estivesse lutando ali talvez tivesse percebido o que estava acontecendo. Mas
Andor estava lutando contra outro ataque na parte mais próxima da capital. Um ataque
menor, facilmente repelível, mas a capital devia ser a prioridade do rei conforme dizia a lei.
Invis que comandava o ataque aos sapiens invasores naquele ponto estava confuso, mas
não percebera o problema a tempo. Quando ele percebeu os sapiens haviam afastado os
sneipas da fronteira, já dentro da floresta cercada por uma cadeia de montes. Invis deu o
soou o sinal nas lorpat para que os guardas se afastassem e saíssem daquele ponto. Talvez
os sapiens só estivessem cansados mesmo e não os tivesse levado até ali de propósito, mas
ele já conhecia bem o suficiente a capacidade bélica daquele povo e não iria arriscar. Invis
O n i e r | 233

ficou parado na única saída daquela cadeia de montes dentro da floresta, golpeando
qualquer sapiens que se aproximasse e guiando seus homens e mulheres para fora.
Então galhos e raízes surgiram de cada árvore, de cada pequena planta, especialmente
as que continham alguma flor, desde a parte de cima e encosta dos montes, até as plantas
abaixo. Todas se moveram rápido como se tivessem vida própria e fecharam a passagem
criando uma parede de galhos grossos entrelaçados, deixando apenas algumas aberturas
pequenas entre eles, repletos de flores que soltavam um pólen sufocante. Invis usou sua
espada e sua energia pra tentar cortar os galhos e passar, mas as plantas pareciam mais
duras do que pedras. Ele ignorou a sensação de sufocamento e continou tentando, vendo
seus soldados do outro lado correndo em direção à parede de galhos pra tentar escalar e
pular pro outro lado. Mas galhos surgiam de todos os lados, se enrolavam em seus
tornozelos, pescoços ou barriga e os puxavam de volta. Os sapiens não eram vistos em
lugar nenhum, pareciam ter se escondido enquanto até plantinhas delicadas se erguiam
fortes, enormes, seus caules grossos como árvores, atingindo os sneipas. Invis tentou até
não aguentar mais, seus soldados que haviam atravessado ajudaram, tentaram, mas não
resolvia. As flores da parede de galhos só soltavam mais e mais pólen sufocante a ponto do
ar de ambos os lados ficar amarelo e denso com a quantidade de pólen.
Invis já estava tonto, sufocando, seus soldados implorando pra que ele saísse dali,
fugisse com eles, mas ele não desistiu. Deveria ter desistido. Pelas aberturas entre os
galhos ele viu todos os sneipas do outro lado, mais de 2 mil homens e mulheres com quem
treinara e lutara, alguns cujas famílias ele conhecia pessoalmente, caídos no chão se
debatendo em busca de ar, bocas e olhos arregalados. Flores pareceram pular de seus
galhos e caules, e cair na garganta de cada soldado sufocando no chão. E então faíscas
brilharam nas bocas dos soldados caídos e as flores saíram de dentro delas, chamuscadas,
enegrecidas, carregando algo brilhante. Invis percebeu com horror que eram as lorpat. Os
galhos que prendiam os homens e mulheres no chão se soltaram deles ao mesmo tempo,
quase ritmado, se ergueram no ar e desceram como punhais nas gargantas dos soldados.
Galhos no topo de uma árvore, a mais alta no topo de um dos montes, desceu com
uma mulher em cima dele. Os galhos no chão recolheram as lorpat enquanto passavam
como serpentes por todas as flores agora mortas no chão, seguiram até a base do monte
onde a mulher estava chegando e, como se estivessem oferencendo um presente, se
elevaram o redor da mulher, cada galho carregando tantas lorpat quanto podiam. Invis não
viu o rosto da mulher de onde ele estava, mas não precisava. Ele conhecia bem aqueles
cabelos cor de fogo e a orelha pontuda.
- Álnaz? – Ele murmurou incrédulo, seu corpo caindo pra trás enquanto sentia alguém
segurá-lo.
O n i e r | 234

~o~
- Eu não acredito, Invis! – Andor disse pela décima vez desde que o conselheiro
acordara e contara o que vira.
Andor ainda estava confuso porque os sapiens, do nada, simplesmente abandonaram
a batalha depois de uma hora de combate. Aquele povo tinha dificuldade pra recuar
mesmo quando suas vidas dependiam disso, porque então abandonar uma batalha quando
ainda tinham alguma chance de vencer, mesmo que remota? Mas a simples imaginação de
que Álnaz pudesse lutar ao lado deles era mais inacreditável ainda.
- Oi, dorminhoco. – Nike entrou no quarto. – Como você se sente, Invis?
- Melhor, senhora. – Invis disse já preocupado com a reação de Nike.
- Querida eu mandei te chamar aqui porque quero que você me ajude a convencer
Invis de que ele alucinou sobre um absurdo. – Andor disse impaciente.
Invis repetiu a mesma história que contara ao rei, tentando usar palavras mais gentis
pra amenizar o baque na mãe da menina. Nike ouviu tudo pálida como a morte. Mas sua
palidez só piorou quando Invis contou o que acontecera com as jóias da alma dos sneipas
mortos e como foram entregues à Álnaz. Nike precisou se segurar em Andor pra não cair,
suas pernas parecendo geléia.
- Calma, querida. Ele deve ter alucinado por causa das flores. Só isso. Álnaz nunca teve
poderes assim, ela nem conseguiu aprender a criar venenos como você. – Andor acalmou a
noiva. – Ele não pode garantir que era nossa menina, muito menos tem algum motivo para
Klaoz querer tanto as lorpat pra criar uma armadilha dessas.
- Deuses... – Nike murmurou, sua mente dando um click quando uma possibilidade
terrível surgiu. Só havia uma razão pra Klaoz precisar tanto assim das lorpat. Ela correu até
o jardim de Álnaz, na árvore onde ela e Andor haviam dado seu primeiro beijo. Ela nem se
importou com o rei e o conselheiro, andando com dificuldade, foram atrás dela confusos e
perguntando o que havia de errado. Ela só repetia pra si mesma, enquanto cavava com as
próprias mãos abaixou da árvore: - Não pode ser. Não pode ser. Não pode ser....
Mas era. A caixa não estava lá. E ela podia apostar que sabia onde a arma estava.
Agora ele tinha a arma, as lorpat e Álnaz, de alguma forma, trabalhando pra ele. Era uma
questão de tempo até ele colocar aquilo num portal e depois... Ela não sabia se haveria um
“depois”. Ela olhou pra Andor e Invis e só pode murmurar, pálida, a voz vacilando: - Ele vai
destruir o mundo.
O n i e r | 235

Ponto fraco
Andor, Invis, Lena, Nike e Seyrus estavam jantando num clima bem chato. Andor
evitava olhar pra Nike desde que ela contara o que havia escondido e, quase com certeza,
estava agora na mão de Klaoz. Invis ainda sentia o peso dos olhares tortos pela sua ligação
com dois traidores. Lena estava com olheiras profundas, quase não dormindo com
pesadelos recorrentes, mas que não queria contar pra não acharem que ela era fraca.
Típico pensamento da criação sapiens. Seyrus só se acostumara a ficar em silêncio depois
de tantos anos calado, sem nem conseguir raciocinar sem uma ordem direta, sob o efeito
da poção. Ele não tinha certeza, mas achava que aquela seria uma sequela que carregaria a
vida toda. Nike decidira seguir o conselho de Invis e ter paciência com o rei, esperar ele se
acalmar e entender as razões dela. Ela era decidida, mas não era paciente.
- Eu não posso viver assim. – Nike disse largando os talheres bruscamente sobre o
prato. Todos, menos Andor, pararam de comer e olharam de um pro outro. – Andor, eu sei
que você está chateado, mas estamos no meio de uma guerra! Não podemos ficar sem
conversar.
- Estamos no meio de uma guerra... Exatamente. – Ele disse com raiva.
- Eu já expliquei por que escondi... Já falei que não criei aquilo de propósito pra usar
contra vocês...
- É isso que você pensa? Que estou com raiva por você ter criado uma arma com um
potencial tão fantástico? – Andor largou os talheres num gesto bem parecido com o de
Nike.
Os outros não sabiam o que dizer ou fazer, então preferiram não se envolver e só
ficaram olhado entre o rei e a noiva.
- Como vou saber o que você pensa se você não fala comigo? – Nike disse mais irritada
ainda. – Droga! Você não disse uma palavra desde que descobri que a peça não estava
onde devia.
Andor respirou fundo, esfregando as têmporas. – Não estou com raiva por você ter
criado uma arma. Eu te dei essa missão, caso não se lembre. O que me irrita é você não
confiar em mim o suficiente pra saber que eu usaria ela com prudência.
- Pelos deuses, Andor! É exatamente isso que eu temia. Não tem como ser prudente
com algo tão poderoso. Aquilo é incontrolável!
- Majestade, senhora... – Invis tentou acalmá-los.
- QUIETO, INVIS! – Os dois gritaram com ele.
- Você não sabe se posso ou não controlar aquilo...
- Você é que não sabe o quão poderoso aquilo é!
O n i e r | 236

- Dá pra vocês dois conversarem feito adultos ao invés de ficar gritando que nem
crianças mimadas e histéricas!? – Lena disse com uma mão na cabeça. Essas noites sem
dormir estavam deixando ela com uma enxaqueca irritante.
Nike e Andor estavam se encarando e respirando fundo, ambos tentando seguir o
conselho de Lena que, eles sabiam, era o correto.
- Nike eu estou tentando entender, mas me incomoda você não confiar em mim!
Caramba, eu vou ser seu marido! – Andor disse tentando controlar a raiva.
- Eu confio em você, mas também te conheço bem. No estado instável que você tem
estado, acha mesmo que seria uma boa ideia te dar uma arma tão poderosa e
incontrolável?
- Eu posso control...
- Não, você não pode! Ninguém pode! Que saco!
- Isso não vai levar vocês a lugar nenhum. – Seyrus disse, olhando de canto de olho,
intrigado, pra sobrinha.
- Concordo. – Invis disse. – Temos que pensar em como agir de agora em diante.
- Temos que pegar essa coisa de volta. – Andor disse.
- Mas, como? Ele com certeza mantém isso bem guardado, num lugar seguro. – Lena
disse ainda esfregando a testa.
- Alguém poderia se aproximar o suficiente pra pegar isso... – Invis murmurou. –
Alguém que o enganasse e se fizesse de aliado.
- Eu poderia fazer isso, mas temo que ele não acreditasse em mim. Ele sabe que menti
durante um bom tempo quando fingí estar sob o efeito daquela porcaria. – Seyrus disse.
- Eu posso. – Nike disse, um nó se formando em seu estômago.
Andor olhou pra ela assustado. – Não. De jeito nenhum.
- Majestade, ela pode ser nossa melhor opção. – Invis disse. – Afinal, a senhora Nike é
o ponto fraco de Klaoz.
- Eu concordo com o rei. Nike não vai chegar perto daquele animal de novo. – Seyrus
disse.
- Eu posso fazer isso. – Lena disse.
- Nem pensar! – Nike quase gritou. – Você teria que me matar antes!
- Além do mais, ele não iria abaixar a guarda com você, Lena, mesmo que você o
convencesse de que está ao lado dele. – Seyrus disse.
- Então está decidido. Eu vou.
- Nike, meu amor, aquele monstro não é burro. Ele não vai abaixar a guarda com você
depois de tudo isso, principalmente quando você aparecer lá repentinamente dizendo que
mudou de ideia sobre ele. – Andor disse.
O n i e r | 237

- Então eu não posso ir pra lá. Ele tem que me levar. – Nike disse. – Precisamos fazer
algo que o deixe tão desesperado pra me levar que abandone sua estratégia por um tempo
e ataque só pra me levar.
- Eu tenho um ideia...
- Invis! Não alimente essa loucura! Minha noiva não vai voltar pras mãos daquele
monstro!
- Andor, não se trata mais de nós, mas sim do mundo inteiro. Klaoz pode ser um mago
poderoso, mas não tem todo o poder que você tem. Se você não poderia controlar aquela
coisa, ele muito menos. Vai ser o fim de tudo.
- O mundo que se dane então! – Andor deu um murro na mesa que fez todos os
pratos, copos e talheres chacoalharem na mesa.
- Saco! – Lena murmurou, a dor piorando um pouco pelo barulho. Seyrus, sentado ao
seu lado, colocou uma mão no ombro da menina.
- Vai ser por pouco tempo, Andor. Eu só preciso de algumas horas pra distrair ele. –
Nike não mencionou como distrairia o pai insano, mas ela e Andor sabiam qual era a única
forma dela distrair ele rapidamente.
- Ficaremos de olho com um ou dois guardas escondidos e, assim que ela pegar o
objeto, tiramos ela de lá. – Invis disse. – Andor, sei o quanto sua noiva é importante para
você e eu a respeito muito. Não apoiaria essa ideia se tivéssemos uma opção melhor.
- Droga... – Andor murmurou. – Como atrairíamos aquela coisa em tal grau de
desespero assim?
- Com seu casamento. – Invis disse. – Quando ele souber que a senhora Nike
finalmente está se tornando sua esposa, ele virá feito um louco para tirá-la daqui e não
suspeitará de nossos planos reais.
Andor queria mesmo adiantar o casamento já que as batalhas eram sempre um risco
de não voltar com vida e ele não queria deixar Nike desamparada na Corte. Agora com
Álnaz longe e, talvez, mudando de lado, ele não queria esperar mais.
- Talvez seja uma boa ideia... Ele pode não morder a isca... – Andor murmurou com
relutância.
- Você não pode estar falando sério! – Seyrus se levantou. – Vai deixar minha irmã
voltar pra...pra...aquela coisa?!
- Tio... Não grita... – Lena murmurou baixinho.
- Seyrus, você é militar, sabe que às vezes precisamos nos sacrificar pela missão. – Nike
disse. – Além do mais, finalmente vou me casar com o homem cabeça-dura que amo.
Andor passou a mão na nuca, sem jeito. Mesmo com a relutância de Seyrus e Andor, o
plano tomou forma e os detalhes foram acertados. Lena se afastou indo pro quarto ao lado
do de Seyrus, morrendo de dor de cabeça e sono, sem nem tocar na comida. Seyrus viu a
O n i e r | 238

sobrinha saindo e, assim que pôde, foi atrás ver o que a menina tinha, acalmando Nike
dizendo que contaria à ela assim que soubesse o que havia de errado com a menina. Nike
continuou acertando os detalhes do plano com Andor e Invis, mas a mente dividida entre o
plano e Lena. A menina ainda não se abria com ela, a tratava com respeito, mas nem a
chamava de mãe. Ela entendia, afinal não devia ser fácil pensar na mulher que ela
acreditava ser sua irmã e uma traidora ambiciosa como sua mãe assim, de um dia pro
outro. Mas era doloroso. Ela amava as filhas e daria o mundo por elas. De todas as coisas
cruéis que Klaoz já havia feito com ela, essa era a que mais doía.
Seyrus entrou no quarto, chamando baixo pela sobrinha. Ela não respondeu, mas ele
estava preocupado e não queria sair sem ter certeza que ela estava bem. Ele encontrou ela
dormindo no sofá, de bruços, jogada com um braço e uma perna jogados, com uma
expressão de angústia no rosto, suando gelado. Ele a balançou suavemente tentando
acordá-la do que parecia um pesadelo. Ela levantou se debatendo, ainda meio dormindo,
batendo com os braços histericamente. Seyrus segurou ela com dificuldade, a pele da
menina já ficando negra e os olhos dourados, sua transformação começando.
- Lena, pelos deuses, menina, calma. Sou eu. – Seyrus disse suavemente, a voz com
notória preocupação.
Ela piscou algumas vezes, tentando se orientar, olhando ao redor, respirando com
dificuldade. Ela abraçou o tio com força. Ele a segurou, alisou seus cabelos cacheados até
ela se acalmar. Ele teve trabalho pra convencê-la a contar o que a atormentava. Quando ela
contou o pesadelo, Seyrus tremia de raiva. Ele a puxou pela mão e foi até o escritório onde
Nike, Andor e Invis provavelmente ainda estavam conversando.
Os três estavam sentados ao redor de uma mesa cheia de mapas e anotações quando
Seyrus entrou puxando Lena pelo braço quase arrastando a menina. Ele parecia furioso.
- O que... – Andor começou.
- Ele fez! Eu não acredito! Ele realmente fez isso! Quando eu penso que não pode
piorar... Merda!
- Irmão se acalme. Você não está fazendo sentido nenhum. – Nike disse, se levantou e
sinalizou pra Lena sentar.
- Lena anda tendo pesadelos com um homem sem rosto tocando ela....de...daquele
jeito errado. – Seyrus disse com tanta vergonha como se ele estivesse fazendo isso.
- É só um pesadelo um pouco insistente. Começou depois daquela coisa que o
conselheiro ali me deu pra falar a verdade no interrogatório. – Ela disse, cansada.
- Espera. Pesadelos depois da poção? Nike isso não é... – Invis disse.
- Sim. Efeito colateral. Só acontece quando existe alguma memória reprimida. A poção
da verdade acaba trazendo à tona essas memórias. – Nike disse com uma onda de calafrios.
– Seyrus... Não pode ser...
O n i e r | 239

- Mas é. Ela contou que o tal homem faz coisas...você sabe... e depois sai e fala algo
com alguém e manda queimar os lençóis.
- Sim... Mas é tudo muito nublado, muito confuso. Eu só entendo uma voz meio
engraçada mandar queimar lençóis e minha roupa. Eu tento falar ou me mexer, mas não
consigo. Aí sinto alguém abrir minhas roupas pra tirar e acho que a pessoa chora porque eu
sinto umas gotas caindo em cima do meu rosto enquanto a pessoa faz isso. – Lena disse,
ainda acreditando que era um sonho.
- Não foi sonho. Eu me lembro de um dia quando Lena tinha 7 anos. Marah, a serva
muda que sempre cuidou dela, passou por mim chorando, com um monte de lençóis e
roupas de criança e jogou na lareira. Naquele dia Klaoz me chamou e, quando entrei no
quarto daquele jeito imbecilizado, lembro que ele tava sentado na cama de Lena, beijando
ela. Como estava de costas, pareceu ser um beijo na testa. Mas, agora... – Seyrus falava
andando de um lado pro outro como um animal enjaulado.
- Deuses... – Invis colocou uma mão na boca, repentinamente enjoado.
- Que filho de quize pais desgraçado! – Andor jogou o OFR longe. O objeto de vidro
atingiu a parede e se espatifou.
Lena estava congelada no lugar. Ela sempre odiou Klaoz, mas não sabia exatamento o
porquê. Achava que era porque ele a prendia demais... Mas será que no fundo ela sabia
que ele tinha abusado dela e, mesmo não lembrando, isso lhe causara um ódio instintivo?
Nike tremia visivelmente. Tremia de raiva, de dor, de incredulidade. Ela se esforçou pra
acreditar que Klaoz nunca abusaria das filhas de sangue, que a loucura dele era só com ela.
Pelo menos ela já era adulta e crescera meio que acostumada com esses abusos. Mas Lena
era filha de sangue dele!
- Querida... – Andor chamou, mas ela ouviu como se a voz viesse de muito longe.
- Eu... Ele... Como?... Eu... Eu... – Nike sentiu o corpo esquentar, a sala girar. –
KLAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAOZ!
As lâmpadas iluminadas por energia espiritual, uma tecnologia muito básica entre os
sneipas, brilharam mais intensamente e, em uma fração de segundos, explodiram e
apagaram deixando metade do palácio Rígel no escuro. Invis empurrou Andor pro chão e se
jogou em cima dele deixando os cacos de vidros atingirem suas costas. Seyrus puxou Lena
num abraço, cobrindo a menina com o próprio corpo enquanto o vidro caía. Guardas
entraram na sala com tochas de fogo para ver o que tinha acontecido. Nike estava caída no
chão, fraca pela explosão incontrolável de energia. Andor correu até ela e a levantou no
braços, só a soltando quando chegaram no quarto deles, a médica que havia cuidado de
Nike durante o coma já os aguardava na porta.

~o~
O n i e r | 240

Em Omoh, Klaoz havia levado Álnaz para seu quarto para ela matar a saudades de Nike
olhando o quadro com a pintura inspirada na versão divina de mãe que o povo adorava. Ela
usava a poção de sono profundo praticamente 24 horas por dia agora, tentando fugir
próprias emoções, da dor. Klaoz havia deixado ela beber o quanto quisesse da poção
naquele dia. Uma taça daquilo a faria dormir por dias, mas agora ela tomava uma jarra
inteira por dia. Porém, naquele dia ela tinha bebido seis jarras. Ela poderia não acordar
mais, era um risco. Mas ele preferia isso ao risco dela acordar na hora errada. Por fim, Álnaz
dormiu na poltrona, de frente pro quadro da mãe. Com um movimento brusco, Klaoz
empurrou as costas da poltrona pra frente, jogando Álnaz no chão pra ter certeza de que
ela estava dormindo e não acordaria por horas. Ela continuou apagada. Ele não se deu ao
trabalho de trancar a porta porque ninguém era idiota o bastante pra entrar no quarto dele
sem ser anunciado. Ele empurrou a menina com o pé até ela ficar deitada de bruços, na
vertical, a cabeça na direção do quadro de Nike.
Era o ínicio da noite quando ele tirou as roupas da moça e começou a abusar dela,
seus olhos sempre focados no quadro de Nike, como se, a leve semelhança da menina com
a mãe e a visão do quadro pudesse substituir a mulher que ele realmente queria. Ele
abusou de novo, de novo, de novo, de novo, até perder a conta. Quando finalmente se
sentiu satisfeito, o dia estava clareando. Ele vestiu a menina, colocou na cama e a cobriu.
- Nem donzela você era mais. Sua mãe era quando eu e ela nos amamos a primeira
vez. Sua irmã também. Só você que é essa vadiazinha. Uma cópia defeituosa da minha Nike.
– Klaoz murmurou, alisando o corpo da menina, sobre os lençóis. – Pelo menos serviu por
alguns momentos.
Ele se sentou na poltrona onde Álnaz estivera antes, com um olhar brilhante e doentio
pra imagem de Nike. – Tudo porque você não está aqui, minha querida. Mas estará. Nem
que eu precise queimar o Grande Oceano inteiro, mas eu vou te trazer de volta pra mim.
O n i e r | 241

O casamento
Eu só queria ser o Guardião-mor, o guardião dos arquivos históricos...ter mais poder e
mais mulheres caindo aos meus pés. Sou o guardião, tenho Sila que é uma só, mas é uma
rameirazinha muito eficiente...Mas... À que preço? Tenho que aturar esse lunático obcecado
por uma mulherzinha sem valor. Um imbecil que pensa que é o dono do mundo. Esvion
pensou, preparando a bebida de Klaoz que estava ocupado matando um guarda
destroçando o corpo com violentos golpes de facão só para descontar sua raiva.
Quando o guarda estava resumido à partes de corpos separadas, com sangue pra
todos os lados, a cabeça tão cortada com os golpes violentos do facão que mal se percebia
que aquilo já foi um ser humano, Klaoz se levantou, esticou os braços e as costas, limpou o
sangue do rosto completamente vermelho e voltou ao seu habitual e inexpressivo
semblante.
- Aqui, senhor. – Esvion entregou a bebida.
Klaoz bebeu o conteúdo de uma só vez. – Vamos buscar minha mulher.
- Senhor, entendo sua preocupação, mas algo não parece correto. – Esvion disse com
cuidado. – Sila disse que ouviu isso nos bares ontem à noite. Ou seja, eles não estão nem
mesmo tentando ocultar o evento. Isso não parece suspeito?
- E que diabo você quer?! Quer que eu deixe minha mulher se casar com aquela
ameba avermelhada? – Klaoz quase gritou, a raiva transbordando.
- Senhor, eu só acho...
- Você não tem que achar coisa nenhuma! Você é só meu servo e vai fazer o que eu
mandar! – Klaoz disse baixo e perigoso, e apontou o facão ainda sujo de sangue e pedaços
de pele para o mago. – Ou você vai começar a discutir minhas ordens, inútil?
- Nã..Não, senhor. – Esvion tremeu por dentro só de imaginar que poderia ser o novo
alvo da fúria de Klaoz.
- Então mova essa bunda velha daqui e vá escolher os soldados. Nos reuniremos daqui
a algumas horas para discutir o ataque. E mande a piranha da sua sobrinha vir aqui.
AGORA!
- Si...Sim, senhor. – Esvion saiu tremendo de medo e raiva.
Sila entrou tentando jogar charme sutilmente, afinal, a esperança é a última que
morre. Uma coisa era ser amante de qualquer um, se deitar com muitos pra descobrir
coisas ou com o tio que lhe ensinava como usar seus talentos femininos como vantagem.
Outra bem diferente era ser amante do rei. A corte toda a olharia com outros olhos. Ela
seria poderosa e respeitada. E, desde que Nike sumira no mundo, Klaoz havia ficado até
mais bonito, forte...
O n i e r | 242

- Mandei sentar? – Klaoz perguntou quando Sila sentou na cadeira com as pernas
cruzadas, mostrando a coxa.
Envergonhada, ela se levantou silenciosamente.
- Você vai cuidar de Álnaz enquanto eu estiver fora e vai manter ela trancada naquele
quarto. Se ela sair ou se alguém olhar pra ela, eu te mato. Fui claro?
- Sim, senhor.
- Não deixe ela beber nenhuma gota da poção, não importa o quanto ela implore. Se
fizer tudo direito talvez, só talvez, eu lhe dê uma recompensa. – Klaoz disse, dispensou Sila
de qualquer jeito como se ela não valesse nada e mandou buscarem Miror que estava
chegando de uma missão naquela tarde. Era hora de colocar algumas coisas em pratos
limpos.

~o~
- Vai dar tudo certo. – Lena disse pra acalmar Nike.
- Eu sei. – Nike respondeu nervosa. – Sei que é só um casamento civil, mas é um pouco
triste manchar esse dia tão importante com aquele...monstro.
- Ainda não acredito que ele fez aquilo comigo... Certo. Acredito...Só.... – Lena respirou
fundo pra não chorar. - ...É difícil.
- Eu sei, amor. E ele vai pagar muito caro por isso.
- Só espero que ele não tenha feito o mesmo com a Álnaz. – Lena disse.
- Eu também. – Nike disse.
Quando Lena terminou de arrumar seu cabelo, como se convocado magicamente,
Seyrus bateu na porta. – Posso entrar?
- Claro. – Nike respondeu.
Seyrus alisou as duas tranças na barba, com olhos iluminados, ao ver a irmã. Nike
usava um vestido simples cor de vinho com detalhes florais dourados, longo, um rasgo na
altura da coxa e um decote em ‘v’ na frente. Andor enviara uma colar dourado com um
único diamante como pingente em forma de coração. Como era costume entre os sneipas,
ela não usava sapatos para a cerimônia, pois os sneipas acreditavam que compromissos
deviam ser firmados com os pés fincados à terra, como um símbolo de sabedoria. Apenas
uma tornozeleira dourada com pingentes florais nos tornozelos. Na cabeça Nike manteve
os cachos soltos como adorava e uma guirlanda de delicadas flores vermelhas e amarelas
estava no topo de sua cabeça.
- Fecha a boca, tio. – Lena brincou, sem dar nenhum sorriso, como era seu hábito.
- Você está linda, irmã. – Seyrus disse. – Pena que as coisas hoje não terminarão como
deveriam...
- Será que ele vem? Klaoz não é burro. – Lena disse com alguma esperança.
O n i e r | 243

- Ele virá. Infelizmente, ele não deixaria Nike se casar com outro por nada neste
mundo. – Seyrus disse.
A alguns metros dali, Andor aguardava em um quarto junto com Invis, seu padrinho, o
momento de encontrar Nike. Mesmo a cerimônia simples do civil exigia algumas
características tradicionais. Andor deveria seguir com o padrinho ao seu lado até a porta do
quarto onde a noiva estava. Ele deveria bater na porta gentilmente e aguardar se ela abriria
ou não. Quando a noiva abria a porta deveria estar acompanhada de sua madrinha. O noivo
oferecia a mão e, caso a noiva aceitasse, ambos seguiam de braços dados até o local da
cerimônia, com seus padrinhos de braços dados atrás, uma alusão à caminhada que o casal
faria durante toda sua vida, apenas na companhia um do outro, com passos iguais, lado a
lado, com amigos que tinham a obrigação de apoiá-los quando fosse necessário. Mas tudo
isso só podia começar quando algum parente da noiva ia até o quarto do noivo avisar que
ela estava disposta à, talvez, aceitar vê-lo. Isso era meio que uma zoeira saudável pra deixar
o pobre do noivo mais nervoso ainda.
Andor andava de um lado pro outro, cada vez mais vermelho pela ansiedade,
imaginando as mil razões que poderiam fazer Nike desistir dele na última hora. Até Invis,
sempre tão paciente, estava começando a ficar estressado com o nervosismo do rei.
- Andor, como seu amigo, eu preciso te dizer: se você não parar de andar eu vou dar
uma marretada na sua cabeça. – Invis brincou.
Andor se sentou com um suspiro, batendo os pés nervosamente no chão. – Invis e se
ela não mandar o irmão me chamar? E se ela não abrir a porta? E se ela desistir no meio da
caminhada? E se ela não me aceitar porque eu sou muito velho? E se...
- Pelos deuses, você andou bebendo aquela tal de cerveja de novo? Aquela mulher te
ama, embora eu não entenda o porquê, já que você é bem feio. – Invis brincou, tentando
não lembrar de seu próprio casamento quando Betel fez essas mesmas brincadeiras com
ele.
- E... E se eu não conseguir tirar ela de lá antes que aquele...aquilo toque nela? E se
ele... – Andor não conseguia nem mencionar a possibilidade de Klaoz matar a mulher que
seria sua esposa em poucos minutos.
- Ele não vai matá-la, Andor. Mas, quanto ao resto... Bem, não vou te iludir. Você sabe
bem o que Klaoz é capaz de fazer com ela. Só podemos confiar na experteza da jovem e que
ela encontrará logo o que precisamos para que possamos resgatá-la. – Invis disse. – Mas, é
seu casamento. Tente não pensar nisso agora. Aproveite o tempo com ela porque, meu
nobre rei, o futuro é sempre incerto até para os oráculos.
Minutos mais tarde Seyrus entrou e não perdeu a chance de torturar o cunhado. Com
o semblante mais sério que pôde usar, ele disse: - Minha irmã talvez queira te ver agora,
mas não garanto nada, ela está decidindo ainda se casa com você.
O n i e r | 244

Invis abaixou a cabeça pra esconder o riso enquanto Andor arregalava os olhos em
pânico. Quando o rei bateu na porta de Nike, Lena e algumas colegas de trabalho de Nike,
dentre elas a assistente da moça, instigaram ela a demorar alguns segundos pra abrir, só
pra deixar o rei à beira do pânico. Ela não demorou nem 15 segundos pra abrir, mas Andor
já tinha imaginado todos os possíveis cenários: Nike abrindo a porta e lhe dando um tapa
na cara, ou mesmo nem estando no quarto já tendo desistido dele, ou saindo do quarto
com qualquer homem ou mulher que babavam quando ela passava já tendo trocado ele...
Quando ela abriu a porta o chão parecia ter sumido sob os pés do rei e ele não pôde evitar
um sorriso bobo no rosto. Alívio, carinho, paixão por aquela mulher ainda mais magnífica
naquele vestido simples que, de alguma forma insana, fazia ela parecer a joia mais preciosa
do universo. Foi impossível não olhar cada detalhe do vestido justo marcando as curvas da
mulher, aquele sorriso que ele adorava, o decote enorme que era a marca característica
dela, o rasgo na coxa tão alto que chegava até perto da cintura. Ela percebeu o olhar dele
com orgulho. Ela adorava ser admirada e Andor nunca conseguiu disfarçar o quando a
desejava.
- É melhor irmos pra cerimônia, majestade, antes que você decida tirar meu vestido
com as mãos e não só com os olhos. – Nike disse sorridente.
- Nike... Se comporta, irmã. – Seyrus brincou.
- Nunca. – Nike disse e seguiu com o noivo, Invis e Lena logo atrás deles.
A cerimônia civil era apenas uma leitura formal das leis que uniam o casal, os direitos e
deveres de cada um e se eles estavam realmente aceitando um ao outro sem nenhum tipo
de coação. Depois disso os noivos recebiam um tipo de sinal magnético em suas lopart
exclusivo do casal. Como Nike não usava uma joia da alma, já que fora criada entre os
sapiens, ela receberia uma durante a cerimônia se assim desejasse. Caso contrário, o sinal
seria enviado para a joia de Andor e um anel fabricado com o mesmo material das lorpat e
dado à Nike. Eles haviam discutido sobre isso durante muito tempo, desde que ficaram
noivos, e Nike havia decidido aceitar a proposta de Andor para começar a usar a lorpat que
manteria sua alma ali na joia, lhe dando uma vida muito mais longa e fortalecendo seus
poderes naturais. Era um grande passo, mas ela estava disposta a aceitar seu lado sneipas
com tudo que isso implicava. Era um processo simples. Com uma ferramenta em forma de
pinça, a lorpat fabricada especificamente para aquela pessoa era colocada na língua num
único e rápido aperto da ferramenta, um médico especialista colocava o dedo indicador no
meio entre as sobrancelhas e recitava algumas palavras antigas que moviam a alma do
corpo para o objeto. Era comum, mas uma prática complexa da ciência ast-raal e só devia
ser usada nos sneipas que haviam passado da puberdade.
Tudo ocorreu normalmente. Tão normalmente que Nike e Andor começaram a duvidar
que Klaoz morderia a isca. A cerimônia terminou e todos começavam a se organizar no
O n i e r | 245

banquete íntimo no pátio do castelo, próximo ao labirinto de paredes com plantas


ramificadas. Nike e Andor se afastaram um pouco por poucos minutos e foi quando ela
ouviu nitidamente a voz de Álnaz no labirinto. Sem pensar muito, ela se afastou e entrou no
labirinto. Foi tão rápido que, num segundo Andor a viu conversando com uma idosa da
nobreza, ele se virou pra responder algo que Seyrus perguntara e, menos de dois segundos
depois, olhou de novo e sua esposa não estava mais lá. Seu coração apertou e ele sentiu
um medo tão grande como não sentia desde o ataque de Lena em que ele quase se perdera
em si mesmo.
Nike andou em direção à voz da filha mais velha, cada vez mais clara. No fundo ela
sabia que aquilo era uma armadilha, mas ela nunca perderia a chance de tentar encontrar
sua filha. Além do mais, se fosse mesmo uma armadilha... Bem, era o que eles esperavam
com a cerimônia, não é?
Então porque eu não consigo evitar de sentir esse medo insano? Ela se perguntou. Mas
sabia a resposta. Por mais que fosse corajosa, por mais que amasse suas filhas e odiassse o
monstro que Klaoz era, ele ainda lhe dava muito medo. Ela quase podia sentir as correntes
ainda envoltas em seus pulsos e pernas, as surras, a violência com a qual ele a possuía... Ela
mal conseguia usar um colar porque ainda sentia como se fosse a coleira de ferro que Klaoz
a obrigara a usar. Andor tinha sido cuidadoso com isso e mandara fazer um colar
completamente novo, diferente de qualquer outro, apenas uma correntinha leve com um
único pingente descansando no meio do caminho entre seu pescoço e seus seios. Eu posso
fazer isso. Eu preciso salvar minha filha. Eu tenho que pegar as lorpat. Eu posso fazer isso.
De repente a voz de Álnaz ficou ainda mais alta e ela correu pra encontrar a filha.
Quando virou em uma parede percebeu que havia saído do labirinto, do outro lado, perto
dos muros do palácio Rígel. Antes que pudesse olhar para os lados, um calafrio a percorreu
como se seu corpo reconhecesse o perigo antes que seus olhos o encontrassem.
- Finalmente. Você. É. Minha. – A voz maníaca de Klaoz soou ao seu lado.
Ela se virou rápido pra encarar seu pior pesadelo, mas, antes que o visse, uma pancada
forte a acertou na testa e tudo ficou escuro.
O n i e r | 246

Fazendo as pazes com o passado


Nike abriu os olhos com dificuldade. O mundo, mesmo de olhos fechados, parecia
girar. Ela sentiu a maciez das cobertas em cima dela, o colchão confortável. Sentiu as
correntes em seus pulsos presas à uma corrente que ia até seu pescoço onde havia uma
coleira de ferro. Ela se recusou à entrar em pânico. Não era hora pra isso. Estava deitada de
barriga pra cima, um braço muito forte ao redor de sua cintura, um corpo forte deitado de
lado com ela. Ela abriu os olhos já sabendo quem veria ali, embora não esperasse que ele
estivesse acordado a encarando com aqueles olhos de predador que ela odiava.
- Bem-vinda de volta, minha esposa. – Klaoz disse, enfatizando as últimas palavras.
- Não parece que sou tão bem-vinda assim. – Ela respondeu abaixando o olhar em
direção às correntes.
- Mera precaução. Você não me deu muita escolha, querida.
Ela desviou os olhos, tentando desviar um pouco a atenção do olhar intenso de Klaoz
em cima dela. O quarto ao redor era estranhamente familiar, haviam cortinas de tecido
leves nas portas, o azul e o verde escuro predominando em quase todos os estofamentos,
cortinas e lençóis que ela conseguia ver. Através da pequena abertura de uma porta na
varanda ela pôde ver que era noite.
- Eu senti muito sua falta, querida. – Klaoz disse com os lábios quase tocando em sua
orelha, seu peito nu pressionando o braço dela. Ela se arrepiou da cabeça aos pés e, claro,
ele entendeu isso como excitação por ele. – Você pode até negar, mas nós dois sabemos
que você também sentiu saudades do seu verdadeiro marido.
- Nunca fomos casados, Klaoz. – Ela disse com o máximo de calma que pôde reunir.
- Simples formalidade tola. Sempre nos amamos, sempre fomos leais um ao outro,
embora você goste de provocar meu ciúme às vezes. Nossas almas já são casadas desde
que viemos ao mundo. – Ele respondeu e, outra vez, Nike se arrepiou.
Deuses... Ele está mais louco do que eu me lembrava. Ela pensou.
- Gostou de como arrumei nosso quarto? – Ele perguntou. – Eu apaguei o máximo que
pude qualquer lembrança daquela piranha que fui obrigado a fingir que amava pra ser o rei
que você merecia.
Só então ela entendeu a sensação de familiaridade. Aquele tinha sido o quarto de sua
mãe. Nike engoliu o nó que se formou em sua garganta. O gesto a deixou ainda mais
consciente daquela maldita coleira que se tornara seu pior pesadelo. Seu corpo tremeu
visivelmente e as lágrimas caíram teimosas em seu rosto. A mão calejada do homem ao seu
lado secou as lágrimas, lhe dando ainda mais nojo.
- Você não gostou da decoração? Eu mudo, querida. Qualquer coisa que você quiser...
O n i e r | 247

- Qualquer coisa? – Nike disse com a voz embargada, olhando diretamente nos olhos
dele.
- Por você eu faço qualquer coisa, Nike. – Klaoz disse quase como um juramento
formal.
- Então tira isso de mim. – Ela disse enquanto mais lágrimas quentes escorriam pelo
seu rosto. – Eu odeio essa coisa...
- Ah, minha doce menina... Eu gostaria muito, mas não vou deixar você fugir de mim
de novo...
- Eu fugi porque você me prendeu com essas coisas! Eu odeio isso, Klaoz! – Nike gritou.
– Se você não tivesse usado isso eu nunca teria fugido de você, porque...
- Porque...?
- Você sabe...
- Diga, querida. Diga em voz alta.
- Porque eu amo você, Klaoz. – Nike disse, olhando pra ele sem vacilar.
Klaoz ficou calado, seu rosto inexpressivo como sempre, e então...algo mudou. Algo
sutil, um brilho de vitória em seus olhos. – Pelo menos você já consegue admitir isso.
Venha. Quero te mostrar o quanto amo você.
Ele se levantou e a ajudou a ficar de pé, amparando-a com mão firme em seu braço.
Ainda estava escuro, à meia luz, e ela estava tonta, então demorou para perceber algo que
todos que tinham tido contato com Klaoz durante esses anos disseram. Ele a levou até a
sala de descanso dos aposentos reais e a guiou até a lareira. Ele ficou atrás dela, suas mãos
firmes em seus ombros enquanto ela olhava espantada pro quadro enorme em cima da
lareira, com uma imagem em tamanho real dela, alada, rodeada de luz dourada segurando
uma coroa de louros em uma mão com um braço erguido acima da cabeça e a outra mão
na cintura, um gesto tão natural dela que ela fazia sem perceber.
- Vê? Eu a tornei uma deusa. Eu fiz o mundo ver você como eu te vejo. – Klaoz
sussurrou em seu ouvido.
Ela pensou em Andor, no quanto o que ela ia fazer o magoaria. Ela se virou e encarou
Klaoz. Ele não a segurou mais, nem precisava. Ela não tinha como fugir. Ela deu três passos
para trás, olhando Klaoz de cima a baixo e então murmurou: - Eles tinham dito, mas não
achei que fosse assim... Você realmente ficou muito forte, cheio de músculos... Muito mais
bonito do que antes... Quase não consigo resistir...
Klaoz continuou sério, mas seu corpo inteiro tremeu com o olhar de Nike. – Eu me
tornei rei, me tornei mais forte fisicamente, mais poderoso na magia, mais temido e
poderoso... Mas não mais burro. Eu sei que você quer voltar pra ele...aquela coisa nojenta e
pálida.
O n i e r | 248

- Pensei que você me conhecia melhor do que eu mesma... – Nike disse com a mágoa
transbordando em sua voz. – Eu estava brava com você por ter me prendido, por ficar me
traindo com Iva, minha própria mãe... Quando fugi e nossa filha começou a nascer antes da
hora eu só queria ter você por perto... Mas você estava com certeza na cama com a outra...
Depois ele me achou e me levou... Ele me manteve em coma por anos. Quando acordei não
entendia porque ele não tinha me matado, até que, numa festa, percebi que ele não era
imune aos meus encantos.
- E ai você decidiu se deitar com aquela coisa e me trair?! – Klaoz disse baixo, mas o
ódio nítido.
- Ele me obrigava a trabalhar pra ele. Eu não podia fugir e deixar nossa filha com ele!
Pra você anos se passaram, mas pra mim você tinha se deitado com a outra a poucos dias!
Eu ainda estava magoada e precisava ganhar a confiança deles... Então não tive outra
opção. – Ela disse. – Eu até consegui inventar uma arma pra derrotar eles, mas ela ainda
está lá, escondida sob uma árvore. Se eu soubesse que Gareth trabalhava pra você, eu teria
voltado pra casa com a ajuda dele, mas... Você não merecia! Você com certeza já teve
inúmeras amantes desde que fui pra aquele inferno! Nem mesmo tentou me tirar daquelas
mãos nojentas dele! Agora eu tenho essa coisa na minha língua!
Klaoz olhou pra ela como se levasse um tapa. – Nike...Pare com isso. Sabe que você é a
única que amo, a única que já toquei... Certo, teve Iva também. Eu deveria ter chutado a
bunda dela quando a gente começou a namorar, mas você era muito nova e o mundo não
entenderia nosso amor... Depois eu vi que precisava ser o homem que você merecia, não
apenas o seu Klaoz, mas um homem poderoso. – Ele deu um passo pra tocá-la, mas ela
recuou.
- Não encosta em mim! – Ela gritou. – Porque você me abandonou lá? Você nem
mesmo teve a decência de mandar Seyrus atrás de mim antes que o rei idiota descobrisse
sobre a poção e libertasse ele! Você não mandou porque você não se importava! Você
estava ocupado demais com mulheres mais novas, mulheres que não têm cicatrizes no
corpo depois de duas gestações!
- Nike...Amor... Andor deixou claro que você mandou ele libertar Seyrus do meu
controle. Eles tinham tanta segurança ao seu redor... Meu amor, você é linda, mesmo
depois de duas crias. Eu amo cada marca que seu corpo tem porque todas elas são
lembranças de nosso amor. – Klaoz disse se referindo às cicatrizes normais da gestação e às
marcas da violência que ele a tratava.
- Você acreditou naquele rei imbecil? Acreditou que eu renegaria meu povo por ele? –
Nike estava quase gritando, lágrimas caindo. – Não minta! Você só queria uma desculpa pra
se deitar com qualquer uma aqui e me deixar de lado! Você não me quer como sua esposa!
O n i e r | 249

Você só quer que eu seja sua amante às vezes, já que agora você é o rei e deve dormir com
uma piranha por noite!
Ele deu um passo rápido até ela, pegou suas mãos e colocou sobre seu peito nu. – Vê
isso? Todo esse músculo? Eu treinei dia e noite pra ficar assim pra você. Pode sentir meu
coração?
Ela acenou confirmando ao sentir as batidas rápidas e fortes sob suas mãos.
- É assim que meu coração fica só de pensar em você. – Ele desceu as mãos dela
abaixo de sua virilha, por cima da calça folgada de algodão, já brotuberante. – Eu só consigo
ficar assim por você. É sempre você, Nike.
Ela engoliu em seco, a visão um pouco embaçada pelas lágrimas. – Mas... Iva... E todas
essas mulheres mais jovens e bonitas... E....
- Eu nunca toquei nenhuma outra mulher, além de Iva por obrigação e você por amor.
Sempre que eu fico excitado é por você. Sempre é você na minha mente, querida. Eu sinto
muito se te fiz pensar que você não era importante pra mim. Nada está mais longe da
verdade...
- Mesmo agora que eu tenho essa coisa na língua você quer...
- Eu quero sentir essa língua sempre, minha Nike. Sempre.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Klaoz a beijou com a mesma força, a
mesma fome que ela se lembrava. Por um momento ela entrou em pânico com medo de
que sua lorpat desse algum choque nele, mas nada aconteceu. Suas mãos ainda estavam na
calça dele enquanto ele apertava suavemente as mãos em seus pulsos, sobre as algemas.
Porque a lorpat não repeliu ele? Será que ela está quebrada? Nike pensou.
Klaoz se afastou ofegante, com a testa na dela. – Eu amo você, minha menina.
- Então prova... Me solta e deixa eu te mostrar o quanto te amo... – Ela sussurrou.
Ele se afastou e a encarou como se esperasse ver alguma mentira nos olhos verdes da
mulher. Mas ela se manteve firme, os olhos ainda brilhando de lágrimas. Ele tirou do bolso
traseiro uma chave e destrancou as algemas e a coleira, tirando os objetos o mais
delicadamente possível. Jogando os objetos longe, ele se aproximou dela.
- Não. – Ela disse e ele olhou desconfiado. – Senta ali, por favor?
Ele olhou para a poltrona onde, dias antes, Álnaz havia dormido sob o efeito da droga
que tomara em excesso, olhou de volta pra Nike e caminhou de costas, sem desviar o olhar
da mulher, e se sentou com as costas tensas, sem se encostar, e as pernas um pouco
abertas deixando sua ereção muito mais evidente sob a calça.
Nike tirou peça por peça da roupa que usava, uma saia bem curta, típica do seu povo,
e um top cruzado no pescoço e amarrado atrás. Nunca desviando o olhar, ela tirou cada
peça com uma lentidão torturante, notando o quão mais excitado Klaoz ficava, os olhos
escuros de desejo. Quando ela não vestia nada além de alguns brincos de esmeraldas
O n i e r | 250

longos balançando contra os cachos soltos, Klaoz começou a se levantar, mas ela se
aproximou antes que ele terminasse o movimento, o empurrando para a poltrona com um
pé em seu peito. Ele soltou um gemido rouco com a visão.
- Já que você tirou aquela coisa de mim, vou agradecer direito, pra você ver como é ter
uma esposa de verdade. – Ela sussurrou, olhando nos olhos dele e se ajoelhando. Ela tirou o
órgão sexual de dentro da calça, sem nem mesmo abaixar ela um pouco, e passou a língua
lentamente.
- Nike... – Klaoz gemeu o nome dela quase sem voz.
Ela adquiriu um ritmo cada vez maior, fazendo ele ficar à beira da irracionalidade.
Nada mais importava, além da mulher que ele finalmente tinha como desejava. Quando ela
terminou, Klaoz estava com a cabeça para trás, apoiada no encosto da poltrona, satisfeito,
respirando com dificuldade. Antes que ele percebesse, ela sentou no colo dele, uma perna
de cada lado. Ele a olhou admirado. Não só ela era linda assim, nua, com apenas a luz fraca
da fogueira ao redor deles, mas também ela o desejava como ele sempre suspeitara.
- Alguém está mesmo ansiosa por um homem de verdade. – Klaoz disse sorrindo
enquanto a ajudava a abaixar a calça, como podia já que ela se recusava a sair do colo dele,
beijando seus lábios sem fechar os olhos, fixando o olhar no dele sem exitar.
- Eu disse que senti sua falta, não disse? – Ela respondeu e começou a rebolar em cima
dele.
Klaoz revirou os olhos com um suspiro. – Nike... Não vou ser gentil se você continuar
me tentando assim...
- Eu não quero gentileza. Eu quero o meu marido. – Ela respondeu e ele perdeu
qualquer senso de cautela que pudesse ter. Ela finalmente era dele e só dele.

~o~
- Porque ela não manda notícias? – Andor estava de péssimo humor. – Uma semana.
UMA SEMANA! E eu não tenho nenhum sinal da minha mulher, nenhuma mensagem,
nenhum alerta, nada!
- Andor, fique calmo... – Invis disse.
- Calmo? CALMO? Uma semana, Invis! Faz uma semana que ela está lá com aquele
monstro e sabemos o quanto ele é cruel. Deuses... Eu nem consigo imaginar o que ele pode
estar fazendo com ela... Ele pode ter mat...
- Ele não a matou. – Seyrus cortou o rei recebendo um olhar feio de Invis pela falta de
educação.
- Como você sabe? – Andor perguntou.
- Porque é o Klaoz. Ele quer ela viva pra... Enfim... Você sabe. – Seyrus respondeu
enojado.
O n i e r | 251

- Exatamente! E ela nunca iria ceder, muito menos agora que é minha esposa. Ele pode
ter ficado ainda mais furioso por ela não aceitar ser dele de boa vontade e... Minha nossa...
Ele deve estar machucando muito ela... Vou reunir o exército. Temos que tirá-la de lá.
- Se você tirar ela de lá tudo que ela pode estar passando até agora terá sido em vão e,
pior, ele vai usar aquela arma maluca. – Lena disse.
- A jovem Ziélena tem razão, majestade. O senhor precisa se acalmar. Temos que
confiar na senhora Nike. Ela é inteligente e sabe o que está em jogo. Vai pegar as lorpat e a
coisa que ela criou e depois vai entrar em contato como combinado. Precisa confiar em sua
esposa, Andor.
- Eu confio nela, em quem não confio é no Klaoz. – Andor não conseguia ficar quieto. –
Ele pode não ter atacado ainda por estar distraído com as torturas contra minha mulher...
Eu devia ter impedido que ela seguisse esse plano absurdo...
- Impedir minha irmã? E você conhece algum poder no universo capaz de impedir
minha irmã de qualquer coisa? De quem você acha que essa pestinha aqui herdou essa
teimosia toda? – Seyrus disse sério, sinalizando pra Lena do lado dele.
- Tio! – Lena não pôde conter o riso.
- É verdade... – Andor sorriu. – Minha amada é irritantemente teimosa. Ela teria ido
pra Omoh com ou sem minha aprovação.
Uma batida na porta e Invis atendeu. Um guarda sussurrou algo no ouvido dele e, pelo
olhar alarmado dos dois, algo não ia bem.
- Andor... – Invis chamou tentando disfarçar a preocupação. – Temos um problema.
O n i e r | 252

Fugindo da infelicidade
Alguns dias se passaram e Nike não tinha conseguido sair do quarto. Mas Klaoz
também não. Na verdade, ele passou dias com ela, trancado, aproveitando cada momento
com a mulher que se mostrava tão ansiosa para estar com ele quanto ele com ela. Esvion
estava cuidando dos assuntos do reino o quanto podia e Sila ia algumas vezes por dia
entregar comidas e bebidas para o casal. Klaoz abria um pouco a porta, pegava tudo das
mãos dela, batia a porta na cara dele e trancava de novo. Sila estava se sentindo mais
humilhada do que nunca e, pra se vingar, aumentou a quantidade de poção que Álnaz
bebia. Não que a própria Álnaz tivesse algum problema com isso. As poucas vezes que ela
acordava era pra ordenar que Sila trouxesse mais do líquido que ajudava a acalmar as dores
emocionais e as estranhas dores físicas que ela andava sentindo sem saber a causa, ou
mesmo se importar com isso. Miror não conseguia se aproximar do quarto ou ter
momentos livres. Esvion estava lhe dando mais missões que o normal se sentindo o rei de
Omoh e Sila sempre entrava no seu quarto quando o mago dormia profundamente no
quarto deles. Por um lado, isso era bom. Afinal ele conquistara a confiança de Sila. O
cômico é que Sila pensava que tinha conquistado a confiança e até a paixão de Miror
também.
Os dias iam passando e tudo que Nike queria era que Klaoz dormisse pra que ela
pudesse procurar as lorpat roubadas e o ativador da arma. Mas ele não dormia. Ele parecia
insaciável e, quando ela estava esgotada e adormecia, ele ficava lá deitado ao seu lado
acaraciando seus cabelos com um olhar maníaco em cima dela. Até que, em uma bela
tarde, ele finalmente cedeu ao cansaço e dormiu deitado na cama com ela. O medo dele
acordar enquanto ela procurava quase a paralisou, mas, algumas respirações profundas e o
desejo louco de ver a filha, ela levantou com cuidado e começou a procurar pelo quarto.
Inicialmente ela tinha pensado na possibilidade dele manter isso nos bolsos, mas, depois de
tantos dias de sexo quase sem parar, ela já tinha descartado essa possibilidade. Nike foi
para a varanda, a sala de descanso, o enorme banheiro, olhou até dentro dos ralos. Nada.
Ela estava imaginando como o convenceria a sair do quarto e ir até a sala do trono onde
supunha que ele escondia essas coisas. Foi quando uma leve brisa veio do lugar errado. Não
das enormes portas abertas que davam para a varanda, mas da lareira à frente. Ela se
aproximou e começou a passar a mão nas bordas, tentando sentir a brisa sutil. Não vinha
da lareira, mas do quadro. Ela moveu o enorme quadro com dificuldade. Era como uma
porta gigante... O objeto rangeu e ela prendeu a respiração, tensa com medo de Klaoz
acordar. Ele se moveu no quarto, seu ronco aumentando um pouco de volume.
- Minha...Nike... – Klaoz murmurou dormindo.
O n i e r | 253

Quando ele continuou dormindo, ela soltou o ar que estava prendendo e terminou de
abrir a passagem. Era um túnel que dava para o jardim. Não era longo... Ela podia sair e
voltar antes que ele acordasse, talvez até procurar o que viera buscar... Num lampejo de
coragem, ela entrou no túnel e andou o mais rápido que pôde. Sentir a luz do sol sem os
braços de Klaoz ao redor dela era uma bênção. Mas não havia tempo para aproveitar isso.
Amaldiçoando mentalmente a maldita ideia de sair sem pegar um manto pra se ocultar, ela
andou se escondendo a cada momento que ouvia o som de passos e vozes. Ela andava em
direção à sala do trono, já bem perto, quando uma mão se fechou em sua boca e a puxou
pra trás.
- Shhh! Por todos os deuses, não faça barulho ou vão nos matar.
Nike mordeu a mão dele e o homem a soltou, praguejando baixo. – Se tentar algo eu
te mato tão rápido que nem vai saber o que o atingiu!
- Porra! Com esse gênio você realmente deve ser a mãe da Lena. – Miror disse,
estancando o sangue da mordida em sua mão.
- Quem é você? E o que você sabe da minha filha?
- Eu sou Miror. E a senhora deve ser a famosa Nike. Vocês são realmente muito
parecidas...
- Ah claro... Miror... Você é o namoradinho da minha bebê. Vamos conversar sobre
suas intenções com ela em outro momento. Sim, eu sou Nike. Eu apertaria sua mão, mas...
– Ela zombou sinalizando pra mão ferida dele.
- Há, há. – Miror brincou. – O que está fazendo aqui fora? Achei que aquele imbecil
nunca ia deixá-la sair.
- Eu saí por uma passagem que estava aberta...
- Droga! Eu esqueci de fechar direito! – Miror deu um tapinha na testa.
- Espera. Você estava nos espionando? – Nike perguntou ciente de que, do jeito como
as coisas foram com Klaoz, dificilmente alguém os espionaria por poucos minutos sem ver o
que eles fizeram quase o tempo todo.
- Desculpe... Sempre que eu ia e vocês estavam... Bem... Sabe... Eu saia. Não quis ser
indelicado com a senhora vendo certas coisas, mas eu preciso ficar de olho nele e não
tenho tido muita oportunidade. Mas, vamos. Vou ajudá-la a fugir.
- Não. Não posso ir. Eu preciso encontrar uma coisa antes.
- Álnaz, não é? Ela está... Bem... Acho que não seria uma boa ideia a senhora vê-la
agora.
- Agora mesmo que vou.
- A maldita teimosia das moças de olhos verdes... – Miror murmurou. – Olha, senhora,
eu sei que Álnaz é sua filha, mas ela não está sendo ela mesma ultimamente. Ela anda
muito dependende de uma substância e não parece nenhum pouco com a moça doce e
O n i e r | 254

gentil que era quando chegou aqui. Eu tenho tentado sempre que posso fazer ela parar
com isso, mas ela já até recusou fugir daqui. Então o melhor que a senhora pode fazer é
voltar pra casa e vencer esta guerra. Só assim vai salvar aquela mocinha. Só precisa fazer
isso muito, muito rápido.
- Porque? O que está acontecendo exatamente?
- Eu tenho uma suspeita que prefiro nem mencionar pra não atrair. Tudo que posso
dizer é que aqui não é o lugar dela.
- Mesmo que eu quisesse deixar ela, não posso sair daqui. Preciso achar uns objetos
que Klaoz roubou e podem destruir mais do que apenas um exército.
- Infelizmente, acho que sei do que está falando. Um objeto retangular com inscrições
sneipas?
- Sim. Você sabe onde está?
- Não. Só Klaoz sabe. Infelizmente não o vejo desde que ele usou como objeto pra...
Esquece. Bem, mas eu sei onde estão aquelas joias que os sneipas usam. Eles trouxeram um
monte delas outro dia. Isso ajudaria?
- Muito! – Nike quase gritou empolgada. – Sem isso, o outro objeto é inútil!
- Ótimo, mas está escondido embaixo do trono do rei e Esvion está lá bancando o
dono de tudo.
- Precisamos distraí-lo.
- E eu tenho a ferramenta perfeita pra isso. Venha, vou lhe mostrar como está Álnaz
pra que a senhora entenda porque não pode levá-la. A ferramenta que preciso também
está lá. – Miror disse e puxou Nike por caminhos e passagens que nem ela mesma conhecia.
- Este era meu quarto. – Nike murmurou quando pararam do lado de fora do quarto.
- Vê aquele quarto de empregadas? – Miror mostrou uma pequena porta um pouco
mais distante. – Atrás da estante tem uma alavanca. Puxe para baixo e uma pequena
passagem vai surgir. Cinco passos e a senhora estára no banheiro do quarto. Álnaz está
dormindo lá, pra variar. Quando ouvir a palavra “chuva” saia do banheiro e pode vê-la. Eu
entrarei assim que tudo estiver limpo.
Sem esperar por uma resposta ele a empurrou gentilmente para a porta, observou ela
seguir o caminho e entrou na porta, seguindo as instruções dele.
- Então a gente poderia aproveitar pra ver a chuva de estrelas semana que vem pela
minha varanda. – Miror disse, se afastando. – Se você convencer seu tio a me dar aquela
propriedade que falei ontem.
Nike saiu do banheiro ao ouvir o código combinado. Ela ouviu a voz do rapaz falando
com alguém, a mesma voz que ouvira quando Klaoz ia buscar as bandejas na porta do
quarto dele.
- Só se você me der o que prometeu.
O n i e r | 255

- E como vou saber que você consegue mesmo?


- Eu consigo tudo que eu quero. Começando por você. – Sila disse passando a mão
pelos quadris dele.
- Aposto que ele nem te dá mais atenção, Sila. Agora só fica naquele trono como se
fosse o rei.
- Quer apostar como tiro ele de lá agora, levo pra quarto e faço o que eu quiser com
ele?
- Aposto. Se você conseguir te dou a tiara de joias que você gostou naquele dia.
As vozes estavam se afastando. Nike saiu sem fazer barulho e viu sua filha deitada de
bruços, com os cabelos tão embaraçados que tinham diminuído muito o comprimento.
Uma coberta estava jogada de qualquer jeito em suas pernas e quatros jarras estavam
vazias em cima da mesa de cabeceira. O cheiro era inconfundível. Poção de sono profundo.
Uma grande quantidade podia colocar alguém em coma, mas o que acontecia quando
alguém tinha resistência suficiente pra não entrar em coma? Ela colocou algumas mechas
do cabelo da menina atrás da orelha e seu coração se contraiu de dor. As pálpebras da
jovem estavam inchadas, haviam manchas escuras em seu rosto, seus lábios descamavam e
estavam feridos.
- Minha lindinha... O que aconteceu com você? – Nike murmurou. Ela tirou os lençóis
pra arrumar direito em cima dela e começou a tremer com a visão. Álnaz tinha manchas
escuras nas nádegas e na parte interna das coxas, além de arranhões profundos. Ela
conhecia bem aquelas manchas no interior das coxas. Ela mesma ainda tinha essas
manchas, embora agora fossem cicatrizadas. Álguem abusara de Álnaz e ela podia apostar
que sabia quem tinha sido. Ela cobriu a menina com cuidado, deu um beijo em sua testa e
gostas de lágrimas caíram no rosto da menina. – Eu vou vingar você e sua irmã. Eu juro.
- Vamos. – Miror apareceu na porta. – Temos algum tempo, mas é bom não arriscar.
- Eu preciso levá-la...
- E como vai fazer isso sem chamar atenção? Se Klaoz ou qualquer um vir vocês duas
eles têm ordens claras pra matar Álnaz e levar a senhora com vida. Se o que a senhora disse
sobre essa arma for verdade, lamento dizer isso, mas sua missão é mais importante até
mesmo do que essa pobre moça.
- Eu não posso deixar ela aqui à mercê dele. Ele pode...pode ter...
- Abusado dela. – Miror completou com um nó na garganta. – Eu suspeitava, mas não
queria acreditar, afinal... é filha de sangue dele....
- Lena também e isso não importou pra ele.
Miror ficou tão vermelho, a expressão tão assustadora, que Nike se perguntou se o
garoto era meio sneipas também. – Ele... Ele... Tem certeza?
- Infelizmente, sim. – Nike disse. – Eu não posso deixar...
O n i e r | 256

- Mas precisa. – Miror falou com dificuldade. – Se Klaoz tiver um poder desses ele
pode vencer a guerra e aí não sobrará nada para salvar. Ele não vai matar a menina se
souber que a senhora fugiu com sucesso. Ele vai tentar usar a jovem pra atrair a senhora.
Foi por isso que ele não a matou esse tempo todo. Só, por favor, não demorem. Vou tentar
cuidar dela o máximo que puder enquanto isso.
Relutantemente, Nike o seguiu até a sala do trono. O rapaz começou a conversar com
os guardas na porta enquanto ela se aproximava discretamente e dava um choque com
seus poderes sutilmente na nuca deles. Era difícil não dar golpes mais poderosos, mas ela
precisava se conter. Se fizesse algo poderoso iria atrair a atenção dos magos, incluindo
Klaoz, e dos guardas sneipas que a esperavam na floresta da aldeia vizinha. Isso os fariam
vir atrás delas antes da hora. Ela não podia correr o risco. Os guardas caíram no chão
desmaiados. Ela entrou na sala enquanto Miror vigiava da porta. No trono, como Miror
dissera, havia um compartimento oculto pela almofada do assento. Ela ergueu o objeto e lá
estava uma bolsa inchada, repleta de lorpat. Ela colocou a bolsa no ombro, fechou o
compartimento com a almofada e seguiu para a porta.
- Me dê um golpe igual ao que fez com os guardas. – Miror disse na porta.
- Porque? Não. Você me ajudou...
- E o rei não pode nem desconfiar disso. – Miror cortou. – Os guardas dirão que estive
falando com eles segundos antes de perda consciência. Klaoz é paranoico. Só... Por favor,
diga à Lena que a amo e farei de tudo pra ir até ela.
- Eu direi. – Nike murmurou. – Feche os olhos.
Ele obedeceu e sentiu um incômodo na nuca, semelhante ao incômodo quando batia o
cotovelo em algum lugar. Doloroso, mas não grave. Então perdeu a consciência antes de
atingir o chão. Ela pegou o manto que Miror usava amarrado ao redor do pescoço e saiu do
palácio com tanta facilidade que se surpreendeu. Só precisou se esconder de alguns
transeuntes de vez em quando, mas nada realmente sério. Quando estava no meio da
cidade o alarme soou, o característico som de chifre soprado. Ela precisava chegar perto da
aldeia vizinha, perto da fronteira, pra mandar o sinal aos guardas sneipas. Suando frio, mas
tentando manter a calma, ela seguiu por becos e vielas, atingindo alguns bandidos que se
aproximavam com sua magia bem fraca pra não atrair a atenção de Klaoz, ela finalmente
chegou onde pretendia e deu o sinal pela própria lorpat. Agora só precisaria continuar
andando até encontrar os guardas que já deviam estar indo até ela.
- Quanto será que o rei vai me pagar por você? – Sila disse saindo de um bordel logo à
frente dela em um beco nojento.
- Com licença, moça. – Nike usou uma voz envelhecida. – Sou apenas uma velha
pedinte.
O n i e r | 257

- Velha você é com certeza. Acabada. Não sei como o rei pode querer uma qualquer
como você pra dar umas. Achou mesmo que ia fugir sem ninguém te seguir, piranha?
Nike começou a desviar dela, mas uma mão forte a segurou pelos ombros.
- Agora estou em dúvida se mato essa vadia pra ver aquele idiota do Klaoz chorando
feito uma mocinha ou se entrego ela pra ele dar umas boas surras nela... De novo... – A voz
irritante de Esvion soou em seu ouvido. Ele puxou o capuz do manto e a virou bruscamente
pra ele. – Ou... Talvez eu possa aproveitar esse corpinho que o rei tanto gosta e depois
vendê-la pra um bordel qualquer em uma cidade bem longe. Olá, Nike.
- Vá pro inferno! – Nike deu uma joelhada na virilha dele e se virou rápido, enviando
uma carga de poder em Sila que já corria com uma faca pra atacá-la. Sila caiu de cara no
chão, com um uivo de dor. Nike se virou pro velho mago, caído em posição fetal, segurando
os órgãos doloridos. – O que seu rei diria se soubesse que você o inveja assim, Esvion?
Tentando tocar no que ele considera tão precioso? Estou realmente tentada à voltar pro
palácio e dizer que você foi quem me arrastou de lá pra se aproveitar de mim e me vender.
Eu adoraria ver um merda que nem você, cúmplice de tudo que aquele lunático me fez,
abusador da sua própria sobrinha, um bosta que pensa que é homem, enfrentando a fúria
do Klaoz!
- Ele...não....não acreditaria... – Esvion murmurou.
- Não? Depois dos dias de prazer que dei à ele acha mesmo que ele iria escolher
acreditar em você ao invés de mim? Você é realmente muito tolo se pensa isso... – Nike
disse e parou a frase de repente, seus olhos arregalados.
- Não, piranha. Você que é muito tola. – Sila disse, sua faca enfiada nas costelas de
Nike. Ela movimentou a mão em círculos fazendo Nike ouvir um ‘crack’ e sua boca se
enchendo de sangue. – Vou cortar você em pedaços e dar aos cães por ter ousado me ferir,
sua desgraçada imunda!
O pensamento de que as lorpat voltariam para as mãos de Klaoz, que ele usaria pra
vencer a guerra e destruir tudo, que ele ainda abusaria de Álnaz, que o pobre rapaz que a
ajudara e parecia amar sua caçula nunca veria a amada, que ela nunca mais veria
Andor...passou por sua cabeça. Ela sentiu sua lorpat dar um leve formigamento, seu
controle vacilar sobre seu próprio poder. Que se dane. Ela pensou e deixou seu poder
emanar. Seu corpo começou a brilhar num tom dourado enquanto Sila congelava atrás
dela. Sila se sentiu fraca e presa ao mesmo tempo, como se cada fibra de seu ser estivesse
escorrendo de seu corpo.
- Porra! – Esvion quase gritou, reconhecendo aquela cena.
- Tio... Socor... – Sila implorou, quase sem forças e seus olhos se arregalaram quando
Esvion levantou e correu para longe com dificuldade até sumir de vista. – Ti...o...
O n i e r | 258

As lágrimas de ódio e dor de Sila molharam as costas de Nike, mas ela já não sentia
nenhum piedade. Ela só tinha sua missão como foco e a destruição do empecilho para
cumprí-la. O empecilho que, neste momento, era Sila. A pele de Sila foi ficando seca, depois
enrugada até que todo seu corpo, seu belo rosto, tudo ficou com aparência idosa, até seus
sedoso cabelos loiros ficaram brancos e opacos. A pele entrou cada vez mais no rosto e
corpo, como se fosse sugada pra dentro, agora Sila era só pele e osso, os cabelos caindo
rapidamente, poucos fios brancos ficando em sua cabeça. O processo continuou com Nike
sugando a vida do corpo da moça para o dela, seu corpo brilhando como se fosse puro
ouro, a faca caindo ruidosamente no chão quando Sila se transformou num montinho de pó
cinzento. Nike voltou ao controle e sentiu a ferida em suas costelas quase curada, embora
ainda doesse e sangrasse um pouco. Com certeza Klaoz sentira aquela onda de poder e
estava a caminho. Com uma mão na costela dolorida, ela correu como se o capeta estivesse
a perseguindo. E, bem, estava mesmo.
O gasto de energia havia sido muito forte e estava ficando tonta, a visão escurecendo
e normalizando enquanto ela corria feito louca. Antes de chegar na fronteira com a
pequena aldeia, dois guardas sneipas apareceram e sinalizaram para ela da floresta. Ela
mudou a rota em direção à eles e caiu desacordada. Um dos guardas a colocou no ombro
com cuidado percebendo o sangue nas costelas da moça e correu até perto da fronteira
com Rígel. Lá, na frente da fronteira, Klaoz e um grupo de soldados sapiens aguardavam
prontos pra impedir a fuga. Um dos guardas deu o sinal de alerta pros guardas na fronteira,
avisando de sua chegada e correu num ataque suicida pra dar tempo aos sneipas de ajudar
Nike à atravessar. Verdade seja dita, o guarda lutou bravamente e deu muito trabalho aos
sapiens, mas acabou morto minutos depois. O que ficara com Nike já se preparava pra lutar
contra os inimigos e ter o mesmo destino pra dar uma chance à moça de completar sua
missão.
Quando levantou-se, uma mão segurou seu pulso o puxando pra baixo. Nike, ainda de
olhos fechados, esgotada e com muita dor agora, puxou o rapaz pra ela, o abraçando com
um braço e, com a outra mão, colocando uma palma aberta sobre o solo. De cada um de
seus dedos, raios dourados saíram e correram pelo solo como raízes brilhantes que se
multiplicavam e atingiam alguns soldados que vinham na direção deles. Klaoz, conhecendo
a força do poder da mulher, recuou de costas para a fronteira e deu ordens para que os
sapiens avançassem, indignado com a possibilidade de perder sua Nike de novo. Cada
soldado atingido caía com suas energias vitais sugadas e enviadas para Nike que a dividia
enviando pro guarda abraçado à ela. Mas o cansaço estava dominando-a e Klaoz sabia que
ela não aguentaria muito mais. Ela lutava contra a estafa e a insconsciência que tentava
dominá-la. Por sorte os soldados sneipas finalmente apareceram atingindo os homens de
Klaoz por trás e causando o maior alvoroço. Nike libertou seu poder pra dar mais forças à
O n i e r | 259

cada soldado sneipas que surgia. Cada um sentia um ímpeto de luta gigantesco e uma
euforia incomuns à eles, tudo vindo do poder enviado por ela pelo solo. Abrindo os olhos
com dificuldade, ela viu o rosto de Klaoz furioso pra ela e, sem ouvir, apenas lendo seus
lábios, ela o viu dizer: “Vou te prender comigo para sempre”. E foi a última coisa que ela
viu. O guarda que ela abraçara se levantou se sentindo incrivelmente forte, como se tivesse
conseguido mais 10 kg só de músculos de repente. Ele a levandou no colo com cuidado e
muita facilidade, e a levou para o outro lado da fronteira, enquanto os sneipas faziam os
sapiens recuarem com o rabinho entre as pernas.
Andor do outro lado da fronteira, organizando o ataque e esperando ansioso pelo
retorno de Nike, correu pouco se lixando pra etiqueta digna de um rei quando viu sua
mulher no colo do guarda. Nike tinha uma pele bronzeada, bem morena. Agora estava
pálida como a morte, enormes olheiras muito escuras, com um semblante cansado e tenso.
Ele a pegou no colo enquanto o guarda explicava que ela estava ferida. Ao ouvir isso, Andor
correu até o setor médico mais próximo, com a mulher flácida nos braços. Só depois que
Nike foi atendida, Lena entrou no quarto onde a mãe estava internada, Seyrus logo atrás
dela, com uma bolsa na mão e jogou de qualquer jeito aos pés dele.
- Você é muito burro mesmo! – Lena disse, as mãos na cintura igual Nike fazia quando
estava irritada. – Sua mulher quase morre pra pegar isso e você nem lembra de ver se ela
tinha conseguido ou não!
- Lena... – Seyrus começou, mas Lena levantou uma mão na direção dele o fazendo se
calar.
- Não, tio. Sem “Lena...” – Ela disse com voz debochada. – E se o imbecil lá do outro rei
conseguisse pegar isso porque o abestalhado aqui não foi vigilante o suficiente? Sorte que
eu roubei isso do guarda quando ele estava distraído vendo o rei burro aqui correr.
- Achei que eu tinha sido claro quando mandei você ficar longe da batalha, Lena. –
Andor disse, não realmente zangado com ela.
- E desde quando eu obedeço algum homem? – Lena respondeu.
- Querida, você precisa ter um pouco de respeito... – Seyrus começou a dizer.
- Não. Ela tem razão. – Andor disse.
- Eu tenho?
- Ela tem? – Seyrus e Lena olharam surpresos.
- Sim. Nike podia ter morrido e só os deuses sabem o que ela passou pra conseguir
isso. Eu devia ter sido mais atento. Obrigado, Lena. Vou levar isso pro Invis. Fiquem com ela
um pouco. – Andor disse, colocando a mão amigavelmente no ombro de Lena. Ele deu um
sorriso fraco e começou a sair levando a bolsa cheia de lorpat.
- Sabe... – Lena disse quando ele já estava do lado de fora. – Você é menos burro do
que parece.
O n i e r | 260

- Obrigado. Eu acho. – Andor respondeu sorrindo. Ele sabia que esse era o jeito dela de
aprovar ele como marido de sua mãe e um amigo. – Quando eu matar aquele idiota do
Klaoz, tudo vai ficar bem.
O n i e r | 261

Reencontros
- Finalmente...você...acordou...inútil! – Klaoz dizia furioso, dando violentas estocadas
no corpo de Álnaz que acordara com dor e confusa em meio àquilo. Ela tentou gritar, mas
tudo que conseguiu fazer foi gemer e chorar, com uma mordaça muito apertada. Quando
Klaoz acabou, meia hora depois, ele nem se deu ao trabalho de se vestir e começou a andar
irritado pelo quarto. – Isso tudo é culpa da sua mãe, aquela vagabunda traiçoeira! Quero
que saiba disso, garota imunda! Sua mãe te deixou aqui, te abandonou depois de ter se
entregado pra mim de todas as formas que eu quis, por livre e espontânea vontade. Ela me
roubou e fugiu pra ser rainha daquele...Aquela coisa nojenta que bloqueou seus poderes
desde bebê.
Álnaz, dolorida, se sentindo suja, desesperada, chorava sem parar enquanto balançava
a cabeça negativamente.
- O que? Você acha que seu falso papaizinho não fez isso ou sua mamãezinha piranha
não te abandonou? Você ainda não aprendeu que não pode confiar em ninguém, menina
burra? – Klaoz disse se aproximando dele e lhe causando um tremor de medo. – Sua mãe
pode ser uma piranha da pior espécie, mas não é burra, pelo menos. Você acha mesmo que
os sneipas, tão experientes com essas coisas, não saberiam que você tem um poder tão
grande? Sabia que sua mamãezinha matou a pobre Sila, aquela moça inocente que cuidou
tão bem de você? Vê isto? – Ele mostrou as marcas de chupões e arranhões no pescoço
dele e na barriga. – Foi sua mamãe que fez enquanto esteve aqui porque, você goste ou
não, por mais que ela seja ambiciosa e queira ser rainha, sou eu quem ela ama, é a mim que
ela quer.
Klaoz se virou e começou a se vestir. – Sabe, Álnaz, foi sua mãe quem me convenceu a
aceitar a ajuda de Gareth pra destruir aquele povinho covarde. Mas, se você não acredita,
posso mostrar as cinzas de Sila, a única coisa que sobrou. Você ainda pode sentir a energia
mágica da sua mãezinha nas cinzas, como ela matou Sila aqui no seu quarto pra fugir e te
deixar pra trás.
Momentos mais tarde, Esvion entrou trazendo um frasco com as cinzas de Sila. Álnaz
estava encolhida na cama, fraca, enjoada e trêmula pela abstinência da poção que estava
viciada, com sangue manchando os lençóis após a violência que Klaoz cometera. Quando
Esvion, com olhos vermelhos de raiva e dor pela morte da jovem sobrinha, se aproximou
com as cinzas, Álnaz sentiu a energia da mãe ainda ali. Era a prova de que ela estivera
mesmo em Omoh, em seu quarto e a deixara pra trás. Então até sua mãe a tinha traído. Ela
tremeu de raiva, de mágoa, sua mente incapaz de pensar coerentemente pelo excesso da
poção e a abstinência. Tudo que ela queria era vingança, era destruir tudo e todos.
O n i e r | 262

- Se você quer vingança, comece vingando Sila que implorou pra sua mãe não te
abandonar e foi morta por isso. – Esvion disse. – Vingue-se por ter sido vítima de Andor que
bloqueou seus dons com medo de que você o destronasse. Vingue-se de sua mãe que
colocou a própria ambição acima de você.
Klaoz, fora do ângulo de visão dela, observava com olhos vermelhos de raiva, mas uma
satisfação pouco disfarçada no rosto. Álnaz era muito manipulável naquela situação e
Esvion tinha um dom natural pra causar uma espécie de hipnose leve em mentes frágeis. O
ódio que o mago sentia por Nike ter matado a sobrinha, amante e ferramenta que ele
usava pra conseguir o que queria de outras pessoas, era um combustível a mais pra esse
dom. Álnaz não conseguia pensar, ela só conseguia focar em sua dor, suas mágoas, sua
decepção com tudo e todos. Esvion então pensou por ela e lhe deu um propósito que ela
aceitou sem contestar.

~o~
- Tem algo errado. – Lena disse de repente.
- Do que está falando, senhorita Lena. – Espel, o guarda que trouxera Nike para casa e
agora era o responsável por cuidar da segurança dela, perguntou, ambos sentados na
cabeceira da cama de Nike no setor médico.
- Já se sentiu como se algo não estivesse certo, como se algo ruim fosse acontecer,
mas não sabe o que é? – Lena perguntou, nem ela mesmo entendendo o que sentia.
- Já. Horas antes da jovem que mais amei na vida ser levada embora... – Espel disse,
pensativo. – Tenho medo de nunca mais vê-la, de nunca poder confessar o que eu sinto por
ela...
Lena olhou pra ele com suspeita.
- Eu sabia... – Nike murmurou antes de abrir os olhos. – Você sempre pareceu um
bobo quando a via.
- Mã...Nike. Finalmente a senhora acordou. – Lena disse.
- Senhora. – Espel ficou sem graça. – Não quis parecer pretensio...
- Deixe de bobagem. – Nike disse. – Se você fosse o namorado dela, talvez minha filha
nunca tivesse ido parar naquele....lugar...
- Álnaz?! Seu amor secreto é a minha irmã? – Lena perguntou.
- Eu...Er...melhor chamar o rei. – Espel disse e saiu sem graça.
- Homens são tão burros. – Lena murmurou.
- Eu o vi. Miror. – Nike disse. – Ele me ajudou a fugir e tem tentado proteger sua irmã...
O máximo que pôde.
Quando Andor, Invis e Seyrus chegaram, Espel parou do lado de fora da porta e
começou a fechá-la, mas Nike o ordenou que entrasse porque o que ela tinha pra contar
O n i e r | 263

era do interesse dele também. Andor olhou confuso pra ela, mas, com um simples olhar da
esposa ele entendeu que o rapaz gostava da jovem princesa. Nike contou o que ocorrera
em seu tempo do outro lado da fronteira e, mesmo não dizendo com todas as letras, ficou
claro como ela tinha ‘distraído’ Klaoz esses dias. O rosto de Andor parecia feito de pedra,
nenhum emoção detectável, mas o olhar sutil de mágoa dele era pior do que um ataque de
raiva. Mas isso mudou quando ela contou sobre Álnaz e os abusos de Klaoz. Andor parecia
que podia explodir a qualquer segundo, Invis tinha um olhar tão sombrio que até Nike
estremeceu de medo, Lena estava congelada no lugar como se nem respirasse, Seyrus e
Espel quebraram ao mesmo tempo dois vasos de cerâmica que enfeitavam o quarto, mas
ninguém reclamou. Todos estavam realmente fartos disso tudo, e abusar de Álnaz foi a gota
d’água. Andor ordenou que Invis preparasse um ataque com todo seu exército, todos os
soldados sneipas do mundo deveriam vir para a capital pelos portais e se agrupar. O ataque
não deveria polpar nenhum soldado inimigo, apenas crianças e pessoas inocentes que
jurassem lealdade à Rígel. O resto, todos seriam mortos. A guerra iria acabar de uma vez
por todas, não importava o preço.
Agora que Klaoz estava distraído pela raiva e não tinha mais as lorpat e,
provavelmente, estava organizando um ataque, eles teriam que agir mais rápido. Andor,
Invis e Espel deveria abrir caminho até o palácio Omoh no meio do ataque e resgatar Álnaz.
Espel a levaria de volta para Rígel enquanto a batalha continuava até que não restasse
nenhum inimigo. Até Klaoz estar morto. Nike, ainda fraca e ferida, ficaria no setor médico
sob cuidados de Seyrus e Lena. Andor confiava em poucas pessoas para proteger sua
esposa, mas ninguém a protegeria melhor do que o irmão que a adorava. O rei passou as
horas seguintes em um quartel general bem perto da fronteira, focado nos preparativos do
ataque. Honestamente, ele não queria falar com esposa, não ainda. Ele entendia o que ela
tinha feito, mas... Não era fácil engolir uma traição, mesmo uma tão bem justificada. Só de
imaginar Klaoz com as mãos nela...
BOOM!
- Mas que inferno?! – Andor gritou, segurando na mesa enquanto tudo tremia como se
o chão estivesse se partindo. – INVIS!
- Ataque, majestade. – Invis entrou correndo.
- Já? Tão rápido? Filhos de mil diabos! – Andor praguejou. – Não importa. Se eles
querem acelerar a própria morte, que seja.
- Todos estão a postos aguardando o senhor. – Invis disse.
- Vamos quebrar pescoços sapiens. – Andor saiu. Do lado de fora um exército estava
em posição, aguardando seu comandante e rei. Nunca se viu antes e não se veria mais por
muito tempot tantos sneipas reunidos em um só lugar. Era impossível ver o final do
exército. Andor tomou a frente, montado em um cavalo negro, com Invis e Espel montados
O n i e r | 264

de cada lado, em frente ao enorme portal que levava ao outro lado da fronteira, surgindo
como sombras. Ele fez um discurso curto sobre dar uma lição às suas criações, à raça que
não deu valor ao dom da vida que os sneipas lhes deram. Não era preciso falar. Todos os
sneipas do mundo estavam fartos dos sapiens e daquela guerra. Todos queriam dar um fim
àquilo. Quando Andor se virou de costas pro exército, de frente pro portal, Invis e Espel
precisaram mover seus cavalos pra mais distante dele. Ele não teve tempo pra olhar e
perguntar nada. Um cavalo tão negro quanto o seu se aproximou à sua direita e um branco
com manchas negras veio pela esquerda.
- Saudades de uma boa briga. – Lena brincou, sentada na frente de Seyrus, em cima do
cavalo branco-e-preto.
- Espero que isso termine logo. – Nike murmurou do outro lado, montada em seu
cavalo preto, um presente de casamento dado por uma amiga de Álnaz.
- Nada disso. Podem voltar pro setor médico. Isso é uma ordem. – Andor disse.
- Ele não falou isso... – Lena comentou.
- Ele falou... – Seyrus disse.
- Você não manda em mim, Andor. – Nike disse. – É minha filha que está lá. É o meu
pior inimigo que está daquele lado. Eu vou trazer minha filha e matar aquele desgraçado E
SE VOCÊ OUSAR ME IMPEDIR VAI PASSAR OS PRÓXIMOS SEIS MESES DORMINDO NO SOFÁ!
Qualquer um do exército, a 3 quilômetros de distância, ouviu aquilo e um “pegou
pesado” ecoou entre eles, alto o suficiente pra Andor ouvir. Ele olhou pra esposa e sabia
que era inútil discutir com ela quando ela ficava tão decidida.
- A senhora ainda está fraca e ferida, Nike. Seja razoável... – Invis, ao lado, tentou
conciliar enquanto Andor e Nike estavam numa espécie de disputa de encarada.
- Essa eu pago pra ver. – Seyrus murmurou e Lena riu.
- Você não vai. – Andor disse, tremendo só de pensar na possibilidade de Klaoz chegar
perto da esposa dele.
- Me impeça. – Nike desafiou.
- Que porra, Nike! Dá pra você me obedecer uma vez na vida?
- Não. – Nike respondeu. – Agora vamos atacar ou ficar aqui esperando os inimigos nos
pisotearem?
Andor estava pensando numa forma de evitar que ela fosse junto. Mandar seus
soldados a levarem de volta à força era uma possibilidade, mas ele sabia que com Nike a
pior coisa a se fazer era enfrentar ela. Era como dar murro na ponta de uma espada.
BOOOOM!
O chão tremeu de novo. – Que...AAAAARG! Porque eu me casei com essa peste?
- Porque você gosta de sofrer, pardalzinho. – Nike respondeu e Seyrus, Lena, Invis e
até Espel caíram na risada com o apelido.
O n i e r | 265

- Droga. Certo, mas você vai ficar perto de mim e, quando eu invadir o palácio, você
fica do lado de fora. Combinado?
- Combinado. – Nike respondeu.
- ATACAAAAAR! - Andor deu a ordem. Invis, como comandante do exército sneipas,
atravessou na frente, seguido de todos os soldados. Quando o último passou, Seyrus e
Lena, Espel, Andor e Nike passaram.

~o~
- DE NOVO! VAMOS CHAMAR A ATENÇÃO DESSES BUNDÕES DO CARALHO! – Klaoz
ordenou e a segunda bomba feita de uma substância sneipas usada para fogos coloridos
que explodiam no ar, foi lançada dentro de uma enorme bola que fazia um ruído
ensurdecedor na borda circular do portal. Klaoz nunca ficou tão feliz por desenvolver algo
com ajuda dos itens roubados por Gareth. Minutos após a segunda bomba, sneipas
começaram a surgir como sombras saídas de todos os pontos próximos do portal, mesmo
alguns no meio dos próprios sapiens.
- Majestade... – Esvion chamou, golpeando um sapiens que fora atingido por um
sneipas, jogado no ar, e quase caíra em cima dele.
- Ainda não. Precisamos de mais. – Klaoz respondeu.
Boa parte dos soldados tinham passado pelo portal, Invis lutava próximo da borda do
objeto circular, garantindo que todos passassem. Era estranho o funcionamento daquilo.
Nada mudava no portal quando um sneipas passava. Apenas um leve sinal específico soava
na lorpat de Invis e de Andor do outro lado, sempre que algum soldado atravessava, mas
ele não aparecia saindo do portal. Cada sneipas passava e só era visto quando uma sombra
a oscilava e ele saía como se viesse de dentro dela. Klaoz fez uma nota mental para obrigar
Nike a criar vários daqueles objetos e o ensinar seu funcionamento, assim que a tivesse nas
mãos de novo. Quando a quantidade desejada de sneipas atravessou, Klaoz berrou:
ESVION!
O mago sapiens sussurrou algum encantamento e Invis, muito distante, sentiu um
calafrio. Galhos emergiram da terra tão rápido que não houve tempo pra nada. Todos os
sneipas, de uma só vez, foram empalados por grossos galhos que surgiram do nada, num
campo onde não haviam plantas próximas.
Deuses...É ela... Mas...Quanto ódio... Invis pensou. Um galho se enroscou nele, mas
não o emapalou. O galho parecia quase gentil, o apertando, mas sem machucar, o
mantendo de cabeça para baixo. Ele usou sua espada pra cortar o galho, mas era muito
grosso e levou tempo. Outros sneipas continuaram atravessando o portal, alguns
paralisaram em meio às sombras, horrorizados com a cena, mas logo se recuperaram e
começaram a correr para tentar libertar os colegas mortos. Cada galho criou uma segunda
O n i e r | 266

ramificação e usou pra abrir a boca e arrancar as lorpar com tanta violência que arrancou as
línguas de seus donos também. Invis estava quase soltou, mas outro galho surgiu da terra
abaixo dele e o prendeu. No campo bizarro, os sneipas que atravessavam o portal eram
impedidos por ataques sapiens de salvar seus colegas. Quando Andor passou pelo portal,
um buraco perfeitamente circular se abriu ao lado de Esvion e uma jovem ruiva, de pele
vermelho brilhante como um sneipas furioso, olhos verdes anormalmente brilhantes,
cercada por galhos floridos com as flores vermelhas semelhante à aranhas, surgiu.
- Ál...naz...? – Andor murmurou chocado enquanto os galhos soltavam abruptamente
os sneipas mortos e carregavam velozmente as lorpat de mais da metade dos soldados
sneipas do exército.
- NÃO! – Nike gritou apavorada quando as lorpat foram entregues à Klaoz que pegou e
sorriu diabolicamente pra Nike ao longe.
Klaoz ergueu um objeto pra cima e as lorpat, atraídas magneticamente, se elevaram e
entraram no objeto tão rápido que se Klaoz não tivesse tão forte fisicamente, não teria
conseguido segurar. Dentro do objeto, cada lorpat entrava numa espécie de micro portal
que ficava cada vez mais poderoso, até que a última entrou e Klaoz sentiu uma espécie de
tornado dentro daquela coisa.
- Vingue-se, criança. – Esvion murmurou quando a última lorpat sumiu.
Álnaz, sem pensar duas vezes, usou um de seus galhos bizarros pra pegar o objeto que
Klaoz soltou, o galho fez um movimento de impulso e jogou o objeto pelo ar. Andor, Invis,
Espel, Nike, Seyrus e Lena olharam quando a coisa voou pelo ar, à uma enorme distância, já
formando um círculo escuro que parecia querer sair do objeto, e atingir o topo da borda do
portal. O portal soltou um rugido sinistro como se um monstro estivesse preso nele.
- CORRAM! – Nike gritou.
O galho que prendia Invis o soltou, e todos correram o mais longe que puderam. O
portal brilhou, oscilou, e ficou negro com pontos brilhantes, como um túnel que girava
violentamente, puxando todos os cadáveres e pedras de todos os tamanhos do campo de
batalha para dentro dele.
Invis e Andor se entreolharam enquanto corriam pra longe do efeito do portal. Invis
pegou Seyrus por um braço, Andor pegou Nike, Espel pegou Lena e todos sumiram pulando
de uma sombra à outra, pra fugir do poder do portal. Os soldados sneipas seguiram seu
exemplo até que todos haviam ido tão longe que se reagruparam metros atrás do exército
sapiens.
Traidora, desgraçada! Andor pensou fixando seu olhar em Álnaz que o encarava com
ódio. Os galhos embaixo dela, parecendo uma gigantesca saia, a elevaram. Ela ergueu uma
mão e enviou um galho pontiagudo em direção à Nike, a encarando furiosa lá de cima
enquanto Nike congelou no lugar, encarando a filha com um misto de confusão e culpa.
O n i e r | 267

Reino … Onier
- Não! – Andor gritou tomando a frente de Nike com a espada na mão, brilhando com
raios brancos emanando na lâmina.
- ESTÚPIDA DE MERDA! – Klaoz gritou, lançando uma esfera esverdeada nas costas de
Álnaz.
- ÁLNAZ! CUIDADO! – Nike gritou e correu em direção à Klaoz com um machado de
duas lâminas. Andor tentou segurar a esposa, mas ela foi mais ágil. Álnaz, alertada pelo
gritou de Nike, se virou a tempo de ver a esfera e desviar.
Ela viu quando Nike corria feito louca em direção à Klaoz e, por um instante, ela se
perguntou se sua mãe a havia traído mesmo, sua mente nublada ainda. Andor, furioso,
lançou uma enorme quantidade de raios nos galhos que sustentavam Álnaz, fazendo os
galhos perderem força e cair junto com ela. Ela desceu, mas, a centímetros do chão, usou
novos galhos para se equilibrar. A raiva alimentada pela confusão mental e a sensação de
traição aflorou de novo. Ela se levantou e avançou rosnando furiosa pra ele, com cinco
galhos a cercando, apontados pra Andor. O rei, por sua vez, furioso com tanta guerra, tanta
morte, tanto ódio que ele sentia ao redor, pela traição de Álnaz e ainda furioso por Nike ter
se entregado à Klaoz esses dias todos, partiu em direção à Álnaz disposto a matá-la. Invis,
Seyrus, Lena, Espel e os outros sneipas estavam ocupados lutando contra sapiens furiosos,
bárbaros e em maior número, que vinham até eles.
Esvion tomou a frente de Klaoz, disposto a mulher ”dele”, deu uma ordem direta, mas
Esvion não deu a mínima. Ele estava farto de cumprir as ordens de Klaoz e, assim que
matasse Nike, mataria ele também e assumiria o trono Omoh. Irritado com a
desobediência, Klaoz não deu uma segunda chance, se aproximou de Esvion pelas costas, o
conselheiro ainda correndo em direção à Nike, passou o facão no pescoço dele e cortou. O
sangue de Esvion espirrou em Nike que já estava bem perto dele. Ela parou por um
momento, olhando em choque pro rosto assustado de Esvion, seu corpo caiu com um som
abafado no chão e o olhar dela encontrou o olhar enlouquecido de Klaoz.
- Seu...seu...AAAAAH! – Ela correu irada pra ele, seu machado duplo brilhou sob a luz
da lua cheia. Uma luta feroz entre os dois foi travada, mas Nike ainda sentia dor pelo
ferimento na costela e ainda estava fraca demais pra convocar sua magia. Mas a raiva a
cegou pra qualquer outra coisa e lhe deu forças pra lutar contra aquele homem tão odiado.
O choque dos dois facões de Klaoz contra seu machado fazia suas mãos doerem, mas ela
não podia vacilar. Um dos choques, porém, foi mais intenso e seu machado voou longe. Ele
colocou ambos os facões cruzados em seu pescoço, ficando atrás dela pressionando seu
O n i e r | 268

corpo contra as costas da mulher. – Me mata, desgraçado! Porque se você não me matar
eu vou matar você!
- Não duvido que você tente, lindinha. É por isso que vou cortar suas lindas mãos e
prender você com uma corrente no pescoço ligada à uma algema no meu pulso. Vou
trancar e jogar a chave fora. Você será eternamente minha. – Klaoz disse e lambeu o lóbulo
de sua orelha.
Do outro lado outra batalha igualmente feroz era travada entre Álnaz e Andor. Ele
estava tão furioso que quase não conseguia pensar, influenciado pela onda poderosa de
ódio ao seu redor. Os galhos pontiagudos de Álnaz haviam atingido ele de raspão, graças à
agilidade do rei. Se não fosse isso, ele com certeza estaria morto.
- Pare com isso, menina! Enlouqueceu? – Invis gritou, ainda preso numa luta com
outros três sapiens. – Vai matar seu pai!
- EU NÃO TENHO PAI! TODOS ME TRAÍRAM! NINGUÉM NUNCA ME AMOU!
- INGRATADA, FALSA, TRAIDORA! – Andor berrou entre golpes, alguns acertando ela e
deixando-a mais irada.
- LENA! – Seyrus gritou pra sobrinha, ocupada com a pele completamente negra,
destruindo a mente de um grupo sapiens a alguns metros.
- QUE? – Ela gritou. – TO MEIO OCUPADA, TIO.
- ÁLNAZ! É A MENTE DELA! TENHO CERTEZA! – Seyrus gritou. Lena olhou rapidamente
pra ele e entendeu a ideia do tio.
- EI! GAROTA IMBECIL! AQUI! – Lena tentou chamar atenção de Álnaz. Funcionou.
Álnaz não se virou pra olhar, atenta aos golpes de Andor, mas um de seus galhos se voltou
na direção de Lena. A menina esperou até o galho se aproximar, pulou em cima dele e
correu em direção à irmã. Os passos de Lena eram rápidos e ágeis, resultados dos treinos
com Esvion e das fugas pra namorar no meio da noite, quando Álnaz sentiu a proximidade,
era muito tarde. Lena parou a poucos passos da irmã e mandou uma onda enorme de seu
poder pra ela, fazendo a menina cair como se alguém a desligasse. Andor, correndo em
direção à Álnaz pra golpeá-la, quase não parou a tempo. – Pode parar ai, reizinho! Se
encostar nela agora eu vou morder sua mão! Espel, idiota! Vem aqui!
Espel, com dificuldade, lutou pra matar os dois sapiens que o cercavam e se
aproximou. Lena pegou a mão dele e se concentrou em Álnaz. A mente da menina parecia
tão fragmentada, tão deteriorada, que ela não tinha ideia se conseguiria restaurar aquela
bagunça. Ela era boa em destruir mentes através de seus medos, não em restaurar. Ela
usou a onda de carinho que Espel tinha e tentou moldar aquilo pra usar como uma luz na
mente de Álnaz. A irmã parecia já ter afundado nos próprios medos e emoções
conturbadas, seu organismo não respondia, entorpecido. Mesmo com o enorme poder que
O n i e r | 269

Lena pegou dos sentimentos de Espel, o organismo de Álnaz não reagia. Ela lembrou do que
a mãe dissera sobre uma poção e gritou: - INVIS! FAZ ELA VOMITAR!
Um grupo de 10 sapiens havia se aproximado de Andor e ele foi forçado à se afastar
durante o combate, deixando Lena e a irmã pra trás. Invis usou seu próprio poder pra
estimular Álnaz a vomitar e suar muito pra drenar a droga. A mente de Álnaz começou a
clarear, mas a mágoa e o ódio ainda estavam ali. Ela realmente achava que tinha sido traída
e abandonada.
- NIKE! – Andor berrou à uma grande distância, já se aproximando da área que o portal
sugava como um monstro. Ele queria correr pra salvar a mulher das mãos de Klaoz, mas os
sapiens que o atacavam eram incansáveis.
Álnaz abriu os olhos meio tonta, reconhecendo o rosto do guarda que ajudava em sua
proteção. Quando Lena se levantou olhando assustada na direção de Nike, Álnaz
acompanhou o olhar dela e se levantou num pulo, ignorando a tontura e o enjôo. Nike...Ela
correra pra salvá-la... Agora ela estava nas mãos daquele monstro lá longe...
- A histérica finalmente acordou? – Lena zombou. – Oi, garota tonta. Eu sou Lena.
- Você é...
- Sua irmã. Isso. Agora que tal deixar o drama pra mais tarde e salvar nossa mãe? –
Lena disse e estendeu a mão pra Álnaz apertar.
Álnaz apertou a mão da irmã. – Vamos dar uma lição naquele filho de mil pais!
Enquanto as duas corriam feito loucas em direção à Nike e Klaoz, o chão tremeu
violentamente. Seyrus e Espel correram pra matar qualquer sapiens que se aproximasse
das meninas. Invis correu o mais rápido que pôde pra ajudar Andor.
Nike não viu as filhas se aproximando pela esquerda, correndo com Seyrus e Espel logo
atrás. Seu foco estava dividido entre Klaoz e o portal cujas bordas estavam rajando como
ela temia que fariam. O tremor de terra foi a comprovação do que ela temia. Klaoz,
infelizmente, não vacilou seu aperto mesmo com o violento tremor sob seus pés.
- Me solta, imbecil! Você não percebe o que fez?
- Usei sua arma, querida, pra vencer aquele brocha do rei de merda. – Klaoz disse,
pronto pra golpear Nike na cabeça pra ela apagar e ele fugir dali com ela.
- Sim, e condenou o mundo por isso! Você nunca foi burro, Klaoz. Essa droga não pode
ser controlada!
- Quero que o mundo se ferre! – Klaoz disse e ergueu uma mão pra dar um golpe
rápido na cabeça dela e fazê-la desmaiar.
- ACHOOOOOOOOOOOOOU! – Um vulto verde escuro voou, golpeando Klaoz na
costela, da direita pra esquerda, fazendo o rei cair praguejando. – Óóóóh, eu derrubei o
saco de merda? – Miror disse zombando, mas com um olhar tão vermelho que parecia os
olhos furiosos dos sneipas.
O n i e r | 270

- Seu ingrato! – Klaoz gritou e tentou levantar. Quatro galhos surgiram prendendo ele
pelos braços e pernas em forma de ‘x’. – O que?
- Saudades, filho da mãe? – Lena se aproximou com Álnaz ao lado. As duas correram
para o lado da mãe, uma de cada lado.
- Minhas três meninas... – Klaoz disse e quase pareceu orgulhoso, de um jeito meio
insano.
- Não somos suas, seu... – Álnaz começou, um tremor de estafa a percorrendo.
- Não olha pra elas! Você nunca mais vai olhar pra nenhuma das minhas filhas! – Nike
disse. – Seyrus, Espel, Miror! Vão ajudar Andor! Ele está perto demais daquela coisa. – Os
três se entreolharam, indecisos, sem querer deixar as mulheres sozinhas com Klaoz. –
AGORA!
Os homens correram, Nike e Klaoz nunca deixando de se encarar. Ele com um olhar
apaixonado e maluco, ela com ódio, os punhos cerrados.
- Eu sabia que você me amava, querida. – Klaoz disse. – Agora que afastou aqueles
inúteis, pode me soltar e vamos pra casa.
- Deuses... Você é mesmo surtado, não é? – Lena disse.
- Eu vou matar ele... – Álnaz murmurou trêmula de raiva e cansaço.
- Não. Eu vou. – Nike disse.
Andor, com ajuda dos outros rapazes, finalmente conseguira vencer os sapiens que o
cercavam. – Onde está Nike? – Os rapazes se entreolharam e olharam na direção que ela
estava com Klaoz preso. – Droga! Como deixaram elas sozinhas com eles?! – Andor berrou
furioso, mas não deu tempo pros homens explicarem, simplesmente correu. Ele ouviu um
“crack” alto atrás dele, na direção do portal, mas não se importou. Nem bem ele tinha dado
o terceiro passo e Klaoz se libertou.
Nike pegou os dois facões de Klaoz caídos no chão, se aproximou dele, o olhou com
seu olhar mais sexy e disse: - Você é meu, querido? Todo meu?
- Todo seu, minha Nike. – Ele disse com aquela adoração bizarra.
- Que bom, amor. Então, acho que você não vai se opor que eu pegue, não é? – Ela
disse com um sorriso safado, olhando pras calças dele que, por mais esquisito que possa
parecer, estava bem protuberante. Klaoz estava realmente excitado com um simples olhar
dela.
- Você me ama... Pode pegar que eu sei que você gosta. – Ele respondeu sorrindo
vitorioso. Lena e Álnaz se entreolharam boquiabertas, sem acreditar no quanto Klaoz era
maluco.
Nike, abaixou a calça dele devagar, sempre o olhando nos olhos, segurou o órgão
excitado com uma mão, e com a outra usou o facão pra cortar pela raiz, bem perto da
virilha, devagar, como se estivesse cerando o órgão. O sangue espirrou nela enquanto Klaoz
O n i e r | 271

gritava, urrava praticamente, e ela mantinha um sorriso tão maligno que faria todos os
demônios de todos os infernos tremerem. Quando o órgão se separou do corpo dele, ela
segurou pra ele ver.
- Sabe... Acho que não gosto tanto assim. É muito pequeno. O do meu marido é maior.
– Nike disse.
- SUA VADIA! EU VOU MATAR VOCÊ! VAGABUNDA! – Klaoz gritou fraco, humilhado e
furioso. Quando a boca dele se abriu pra gritar mais alguma ofensa, ela enfiou o órgão
inteiro, indo até a garganta dele, quase o fazendo engasgar.
- Isso... Prova... Vê se é gostoso, seu desgraçado! SEU MERDA, ESTUPRADOR DO
INFERNO! Eu podia ter suportado tudo, eu podia até conviver com os pesadelos, as dores,
as marcas... Mas, minhas filhas....suas filhas....SEU MISERÁVEL DO INFERNO! – Ela gritou e,
furiosa, deu um golpe poderoso que cortou o ombro dele até ficar pendurado por um
pouco de pele. Álnaz, a mais sensível das irmãs, estava tão calma que nem parecia ela
mesma. Lena ao seu lado era o reflexo da fúria da mãe, um semblante furioso.
Um galho brotou embaixo das pernas de Klaoz e começou a subir devagar, calmo. Ele
gritou como um animal ferido quando esse galho começou a penetrar no ânus dele. Álnaz
continuava com o semblante mais calmo do mundo enquanto Klaoz berrava com ela.
- SUA PUTINHA IMUNDA!
Nike deu um soco no rosto dele que fez sua mandíbula estalar. – Olha como fala com
minha filha, seu merda!
O galho continuava entrando nele, causando tanta dor que ele começou a se sentir
fraco. Nike, ainda atenta ao portal, ouviu um “crack” e se virou rapidamente pra ver o
portal rachar e quebrar a borda superior, Andor vindo correndo em sua direção. Álnaz,
sentindo finalmente a estafa a dominar, perdeu o controle de seu poder e os galhos que
prendiam Klaoz se soltaram. O que estava preso em seu ânus se quebrou e parte ficou lá
dentro, uma parte muito grossa. Com a mão boa, ele pegou o punho de Nike que estava
distraída segurando o facão, apertou e num movimento rápido cortou a garganta dela. O
corte não era profundo já que ele estava muito fraco e caiu no chão. Mas era muito grave.
Álnaz congelou com a cena, Lena correu pra cima de Klaoz no chão e usou o máximo de
poder que pôde pra causar um monte de pesadelos e medos nele. O medo dele era ver
Nike feliz com outro, ele sem conseguir mais nenhuma ereção enquanto ela ria dele,
transava com muitos homens na frente dele e ele ficava lá, parado, pequeno, flácido, preso
numa gaiola minúscula. Ele se perdeu nesse medo e não viu o que aconteceu a seguir.
Lena se levantou e tentou estancar o sangue do pescoço da mãe que se afogava no
próprio sangue. Andor correu completamente sem controle, louco pra matar Álnaz,
acreditando que ela tinha soltado Klaoz de propósito. Invis e Seyrus correram pra segurar
Andor, enquanto Espel e Miror corriam até Nike.
O n i e r | 272

- Álnaz... – Nike disse, sem fôlego, segurando a mão de Álnaz. – Não...não


foi...culpa....Álnaz...Salve...Álnaz... Eu....te...amo....
Álnaz tremia aos prantos, sussurrando pedidos de desculpas pra Nike. Espel e Miror a
puxaram pra longe enquanto ela se debatia, sem querer se afastar da mãe. – MÃE! NÃO!
EU QUERO FICAR COM ELA! ME SOLTA! ME SOLTA!!!!!
Espel jogou ela no ombro e correu pro mais longe possível de Andor. O rei já estava do
lado de Nike, indeciso entre ir matar Álnaz por ter causado um ferimento tão grave na
mulher que amava, ou tentar salvá-la. Nike estendeu a mão pra ele, as lágrimas de Lena
caindo no rosto dela.
- A gente tem que levar ela de volta! – Lena gritou, tentando superar o som assustador
que vinha do portal cujas pedras da borda caíam e, antes mesmo de atingir o chão, eram
sugadas pra dentro do vórtex esquisito, e o som da batalha ao redor deles.
- Não... – Nike disse quase sem voz. – O portal...
- Não. Você é prioridade. – Andor disse, chorando.
- Não... – Nike sussurrou mortalmente pálida. O chão fez um barulho terrível e ao
longe se viu uma enorme rachadura se abrir, engolindo muitos soldados, e aumentando de
tamanho, seguindo por caminhos diferentes, dividindo o Grande Continente em vários
pedaços. – O mundo...acabar....
Andor viu a quantidade de sangue perdido dela e sabia que, mesmo se conseguissem
suturar aquele ferimento, ela não sobreviveria. O mundo dele acabou ao perceber isso.
Seyrus gritou quando uma rocha que estava sendo sugada pelo vórtex, agora gigantesco
sem a borda do portal o contendo, o atingiu na perna e o jogou no chão, desmaiado. Uma
lágrima escorreu no rosto de Nike pela provável morte do irmão, Lena perdeu o controle
das emoções e chorou alto, a cabeça no peito de Nike.
- Mãe! – Lena chorou.
Nike não conseguia mais falar e só apertou forte a mãe de Lena, torcendo pra que
aquilo mostrasse o quanto ela amava a filha. Andor se levantou e viu o caos ao seu redor.
Invis lutava contra tantos sapiens que era um milagre ainda estar vivo. Seu povo era
minoria dentre os que ainda lutavam. O vórtex se tornara tão grande que não era mais
possível enxergar seu topo, até as nuvens sendo sugadas, enquanto ele inclinava para trás,
sobre Rígel que sumia rapidamente dentro daquela coisa. Sombrio, ele deixou o ódio o
dominar. Não havia mais nada que ele quisesse salvar naquele mundo, nada exceto a
vingança de seu povo. Uma memória oculta em sua mente infantil desabrochou e ele
lembrou como os pais usaram o sangue da irmã pra abrir aquele outro mundo que criaram,
com um portal muito menor e menos poderoso do que aquele. Ele pegou Nike nos braços,
olhou pra Lena e disse: - Use seu poder, menina. Vamos vingar nossos mortos.
O n i e r | 273

Sem saber o plano dele, mas furiosa pela morte da mãe, ela seguiu seu conselho.
Andor usou o encanto dos pais e as últimas forças de Nike pra sugar todos sentimentos
ruins que podia sentir ao seu redor. Os sneipas morrendo do outro lado da fronteira seriam
um bônus pra fortalecer seu encantamento. O vórtex oscilou e uma imagem muito parecida
com o terreno abaixo e Rígel surgiu no vórtex acima. Cada corpo, cada alma sneipas levada
por aquela coisa nunca se perderia. Os corpos, segundos antes de sumirem no portal se
desfaziam e ficava apenas uma versão espiritual delas para trás, entrando no vórtex e
sumindo lá dentro. Andor correu com Nike nos braços, seguido por Lena e Invis, até o portal
e se deixaram sugar, seus corpos sumindo e apenas suas versões astrais ficando lá dentro.
O objeto desceu sobre Rígel como um manto gigantesco espelhado, refletindo exatamente
a mesma imagem de baixo, algo nunca visto antes no mundo. O objeto atingiu o solo e a
água nas partes onde o chão havia se dividido, permitindo que o mar invadisse, e se partiu
em incontáveis pedaços de muitos tamanhos diferentes. Muito atingiram os poucos sneipas
e sapiens que ainda lutavam e os matou cortando seus corpos. A água oscilou e, quando se
acalmou, tinha um aspecto estranho, refletindo qualquer coisa que passasse sobre ela.
Álnaz de longe com Miror e Espel ouviu nitidamente a voz de Andor como se viesse de
outro mundo:
Nós somos imortais agora. Nos condenei a repetirmos seus malditos gestos, seus
corpos, suas palavras. Mas vocês vão decair, vão cometer os mesmos erros, vão se
autodestruir. Nós sempre estaremos perto pra destruir quem tiver coragem de nos encarar,
quem tiver prazer em encarar a própria imagem como se fosse alguém importante. Um dia,
quando vocês forem fracos, autodestruídos, odiarem seu próprio povo, nós nos
libertaremos, nós não seremos mais seus reflexos. Nós exterminaremos seu maldito povo
traidor. Imortais são pacientes. Podemos esperar.
- Temos que voltar e ver se tem alguém vivo. – Miror disse, tirando Álnaz daquele
momento que ela sabia que não tinha sido imaginação.
- Sim... – Ela murmurou. Algumas partes não podiam ser verificadas por que o chão se
dividiram de uma forma que agora haviam quilômetros incontáveis de água, não
conseguindo ver a outra parte do solo nem no horizonte. O Grande Continente não existia
mais, agora era tão dividido que essa divisão podia ser claramente vista até fora do planeta.
O trio andou por horas gritando e cutucando pra ver se havia alguém vivo, mas não havia
ninguém.
- A...qui... – O gemido de Seyrus quase passou despercebido.
- Tio! – Álnaz correu. Uma das pernas de Seyrus tinha uma fratura exposta na altura do
joelho, um fragmento do objeto reflexivo ficara cravado em sua costela. Espel retirou
cuidadosamente e levou Seyrus pra Omoh, a parte que ainda era acessível.
O n i e r | 274

~o~
Os anos se passaram. A história virou lenda. Álnaz nunca permitiu nenhum objeto
reflexivo que Espel, seu marido, dera o nome de “espelho” porque ele achava o objeto
divertido. No fundo ele não acreditava na maldição de Andor, achando que tudo fora
alucinação de Álnaz por causa do stress. O objeto virou moda entre homens e mulheres de
todas as idades que usavam os tais espelhos como diversão ou para ajudar na hora de se
arrumar. Ela evitava passar perto de qualquer reflexo, aquela coisa louca que nunca existira
e passara a existir em todos os cantos, como uma maldita perseguição. Uma vez ela
resolvera testar, provar pra si mesma que aquilo era só loucura dela. Então, parou na frente
de um grande espelho oval em uma loja de roupas e se olhou naquela coisa. Ao final do
terceiro segundo se olhando nos olhos refletidos, a imagem do outro lado se moveu
sozinha, sem repetí-la, e sorriu cruelmente pra ela. A imagem mordeu o próprio dedo, até
arrancar e Álnaz, sem conseguir controlar a si mesma, mordeu o próprio dedo como a
imagem fazia, até o dedo cair. Sua filha caçula entrou correndo na loja e chacoalhou a mãe
que não conseguia tirar o olhar do espelho, hipnotizada e incapaz de parar de repetir os
movimentos terríveis que a coisa fazia. A pequena Viviane cobriu o espelho e disse ao pai
mais tarde o que acontecera. Viviane era uma criança de 4 anos muito criativa, com
imaginação fértil, e ele achou que a alucinação da mãe tinha impressionado a menina.
Espel morrera alguns anos mais tarde, batendo a cabeça no próprio espelho de sua
biblioteca, até seu cérebro se espalhar pra todo lado. Álnaz tinha certeza que fora o reflexo,
a maldição dos espelhos, que o matara.
- Vovó, mas eu já olhei pro espelho e nunca vi nada disso. – Seu neto, o pequeno Nico,
disse.
- Meu amor, espero que nunca passe por isso. Os reflexos não tem muito poder ainda
pra matar a todos nós. Mas um dia terão. Eles sempre nos seguem, nos observam, e se
você olhar com atenção para seus olhos refletidos, você verá a maldade neles. Verá as reais
intenções deles. Se for fraco, se você não tiver força espiritual, eles assombram você ou te
matam. – Álnaz respondeu.
- Mãe quantas vezes eu já disse pra senhora não assustar meus filhos assim? – Viviane
entrou e enxotou Nico do quarto. – Mãe a senhora precisa parar com isso...
- Que bom saber que você esqueceu, filha. Nunca quis que você visse aquilo. – Álnaz
murmurou, alisando a mão sem um dedo.
- Mãe, isso é só seu medo. Não há nada nos espelhos. Eles não podem nos ferir.
- O reino do contrário nunca descansa... Ele nos segue em todo lugar. Na água, nos
espelhos que vocês amam, nos olhos, nos vidros dos OFR, até quando pensamos não existir
um reflexo, Onier, o reino maldito, está ali nos vigiando com nossos próprios rostos, não
repetem nossos gestos quando não estamos olhando e nos olham com ódio estampado,
O n i e r | 275

prontos pra roubar nossas almas, destruir nossas mentes, assombrar nossos sonhos, nos
matar... Até o dia que eles se libertarem...
- Eu sei que a senhora enfrentou uma guerra, perdeu entes queridos, mas isso tudo
passou. A senhora precisa superar. Nada pode te ferir aqui, mamãe.
- Ah, Viviane... Nada nunca passa. A vida é um eterno reflexo, meu amor. – Álnaz disse,
evitando olhar nos olhos da filha, pois eles também a refletiam. - Um dia olharemos para
frente e veremos o passado. Nossos erros voltarão para nos destruir. Os sapiens são sua
própria maldição.
O n i e r | 276

Encontre a autora
Facebook

Spirit Fanfics

Wattpad

Você também pode gostar