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FICHAMENTO: WECISLEY RIBEIRO

TRABALHO, GÊNERO E LINGERIE: TRADIÇÃO E


TRANSFORMAÇÃO NAS TRAJETÓRIAS DAS COSTUREIRAS DE
ROUPAS ÍNTIMAS DE NOVA FRIBURGO –RJ

Alguns problemas da investigação

“ (...) Trata-se de um conjunto de informações que registrei, por cerca de oito


meses, referentes à vida “das costureiras” da indústria de “moda íntima”,”
(pag. 1)

“Estas informações eu as tenho coletado por meio de diversos procedimentos


de investigação. Os recursos à pesquisa de campo etnográfica, à entrevista
aberta que frequentemente se confunde com uma conversação livre, à
observação direta (sempre que esta foi possível) de certos aspectos da cultura
operária, não certamente os mais importantes deles.” (pag. 6)

“(...) Por outro lado, conforme se poderá notar nesta introdução, procurei
recorrer completamente aos procedimentos investigativos pertencentes
também ao campo da pesquisa historiográfica de um duplo modo.” (pag. 7)

“A pesquisa de campo nas residências concentrou-se sobre as costureiras das


gerações mais antigas; a investigação nas fábricas ficou, portanto, restrita na
maior parte do tempo (mormente a partir do segundo mês de investigação)”
(pag. 11)

“(...) com as alterações estruturais do processo produt6ivo e mudanças


correspondentes no “habitus” (para empregar uma categoria de Pierre
Bordieu) da equipe de costureiras, o personagem cômico foi gradativamente
se convertendo na presença de um empecilho ao aumento das gratificações
coletivas por produção.”(pag.49)

“(...) No sistema de “facção” a costureira recebe, em sua própria casa, uma


máquina emprestada pela fábrica para que ela possa realizar uma etapa do
processo produtivo. Aqui a remuneração se dá também por produtividade,
mas a “facção” paga R$0,10 por peça, no caso da máquina de Três
Pontos.(pag. 49)

“(...) as novas formas assumidas pelo capitalismo contemporâneo conduzem


a classe operária a um processo de “privatização” (Schwartz, op. Cit.) ou de
“individualização” (Terrail, citado por Weber, op. Cir.: 180 e seguintes), isto
é a uma quebra dos antigos laços de solidariedade operária acima descritos.”
(pag. 50)

“(...) De modo que estas operárias experimentaram ampos os sistemas de


produção de roupas íntimas – o sistema de esteira e o sistema de “célula”. Há
que considerar aqui não apenas a dimensão técnica da confecção de lingerie,
mas fundamentalmente ainda as tradições culturais encarnadas, incorporadas
nos hábitos destas operárias e que foram profundamente abalados pelas
alterações nas estruturas objetivas de seu trabalho.” (pag. 50).

“Percorrendo-se o corredor central da oficina, é possível realizar uma


vigilância ao mesmo tempo geral e individual; constatar a presença, a
aplicação do operário, a qualidade de seu trabalho. comparar os operários
entre si, classifica-los segundo sua habilidade e rapidez; acompanhar os
sucessivos estágios da fabricação. Todas essas seriações formam um
quadriculamento permanente.”(Foulcault, Michel. 1977. Vigiar e punir: o
nascimento da prisão. Petrópolis: vozes. (p. 133)”. (pag. 51)
“(...) a presença dos técnicos do SENAI adicionou à pressão tradicional dos
patrões sobre as empregadas – “pressão” por produtividade e por qualidade –
uma segunda pressão materializada na exigência de um enquadramento
comportamental das costureiras no interior dos novos dispositivos de controle
de qualidade e produtividade, eles próprios dispositivos de controle social.”
(pag. 73).

“Os pressupostos equivocados sobre os quais se sustentam as estratégias de


re-socialização dos operários sob a perspectiva do novo sistema produtivo
têm por corolário a criação de novos dispositivos de controle social
disfarçados sob a imagem de mecanismos de controle de produtividade e
qualidade. As novas metas de produção, estabelecidas a partir de sistemas de
medição que desconsideram até mesmo as variações orgânicas do corpo
humano, as quais, por sua vez, incidem sobre as variações na produtividade,
constituem um exempli de mecanismos de controle sobre o comportamento
das operárias. Mecanismos tão poderosos a ponto de eliminar até mesmo o
tempo para beber água e o tempo para ir ao banheiro.”(pag. 74)

“(...) No sistema de gratificações individualizadas uma operária poderia


produzir quantas caixas conseguisse, ao longo da fornada diária de trabalho.”
(pag. 76)

“(...) No sistema de célula não é assim que ocorre, há uma meta de produção
diária para cada célula, suponhamos dez caixas. Quando a costureira de Três
Pontos chega às dez caixas em sua máquina, ela para por aí e segue para a
máquina de Travet para ajudar a costureira desta máquina no fechamento da
meta. Desta forma uma única costureira pode, com frequência rodar em três
ou quatro máquinas por dia para complementar a produção coletiva de cem
por cento.(...) Não há portanto, a menor possibilidade de uma costureira
extrapolar individualmente os cem por cento.”(pag.76-77)

“No processo de pr5emiação individual o montante de peças produzido por


uma costureira muito rápida não era aproveitado imediatamente, mas
somente na medida em que os demais processos fossem se completando. Na
célula, ao contrário, não existe possibilidade de exceder os cem por cento (e
mesmo este percentual é muito difícil de alcançar) porque o cálculo de
produtividade considera o coletivo e também porque frequentemente uma
costureira não executa apenas um processo, o que dificulta sua adaptação.”
(pag. 77).

“(...) Temos, pois, por assim dizer, uma mais-valia de segundo nível. Isto é,
ao processo tradicional de expropriação de mais-valia, por meio da
exploração do trabalho não remunerado pelo salário, agrega-se um regime de
exploração encarnado nas gratificações por produção. Aqui além da parcela
não remunerada do sobre trabalho compreendido pelos cem por cento de
produção, há ainda um trabalho supra-excedente (que supera os cem por
cento) que e, a partir da implementação do sistema de “célula”, empregado
para cobrir os buracos deixados pelas costureiras mais vagarosas.
Literalmente certas costureiras trabalham e são exploradas por duas.” (pag.
78).

“A passagem de um processo produtivo que, para efeito argumentativo,


poderíamos chamar de fordista para um outro que mistura um princípio de
fragmentação da produção por facção (que, também precariamente, poderia
se chamar toyotista) com um dispositivo de cooperação compulsória,
acompanha-se de um reordenamento espaço-temporal da produção. “A
disciplina procede em primeiro lugar à distribuição dos indivíduos no
espaço”. (Foulcault, op. Cit: 130).” (pag. 79)

“(...) A soma dos tempos padrões de todos os processos de confecção de uma


peça corresponde ao tempo padrão de produção de uma peça. Este tempo, por
seu turno, servirá de base para o cálculo do numero meta de peças a serem
produzidas por uma célula, ao longo do expediente. O cumprimento da meta
corresponde a cem por cento de produtividade. Obviamente este é um tempo
reificado, que desconsidera variações físicas e emocionais das operárias.(...)
A extrapolação do número meta, de um ponto de vista lógico, deveria ser
remunerada com uma gratificação equivalente a mais de cem por cento.
“importa extrair do tempo sempre mais instantes disponíveis e de cada
instante sempre mais forças úteis” (ibidem:140).” (pag. 80/81)

“(...)A queda das gratificações por qualidade e produtividade é outro aspecto


que não se coaduna com as modalidades de estímulo à auto-exploração das
novas formas de exploração da mão de obra operária. A agravamento de
vigilância e fiscalização – inclusive mediante inspeção mútua das costureiras
entre si – é sem dúvida mais uma diferença comparativamente ao sistema
genericamente chamado de pós-fordista, posto que “liberdade” é uma palavra
de ordem deste novo modelo (Sennett, op. Cit: 55), da crença empresarial
segundo a qual a rotina é profundamente maléfica para os negócios.” (pag.
84)

“(...) Ano após ano as costureiras – desde o rito de passagem do sistema de


produção individualizado para o sistema de “célula” presidido pelos
“sacerdotes” do SENAI – executam os mesmos poucos variados processos de
confecção do lingerie descritos no item anterior. A única diferença é que
agora as cerca de dez a doze costureiras de cada “célula” executam
frequentemente todos os cinco ou seis processos indispensáveis à produção
do lingerie.”(pag.85)

“ O caráter de urgência que marca inexoravelmente a vida das costureiras


parece impregnar por assim dizer, como que por contágio, tudo o que cerca o
cotidiano destas operárias.” (pag. 143)

“(...) estruturas objetivas distintas concorrem para plasmar modos de


temporalização igualmente diferentes. Nesse sentido, a pressa e a urgência
(que marcam inclusive as declarações das costureiras) decorre de uma
configuração específica de aspectos quem imprimem, de um modo
determinante, suas marcas sobre a vida destas trabalhadoras. A pressão
produtivista é um destes aspectos; a distribuição assimétrica do trabalho
doméstico é outro; a “costura doméstica” é outro.” (pag. 144)

“(...) Tais estruturas temporais, confrontadas com a análise de Bourdieu,


evidenciam que, estando todo o tempo das costureiras bastante ocupado, elas
dificilmente o vêem passar. Por conseguinte, a percepção de que a vida está
passando rápido demais, se esvaindo em trabalho, não é incomum entre estas
trabalhadoras.” (pag.145)

“(...) O sistema de “facção, tal qual o sistema de produção em “célula”,


constitui um elemento fundamental destas mudanças.” (pag. 145)

“(...) As relações de produção identificadas sob a denominação de sistema de


“facção” assumem amiúde uma variedade de formas. É sobre este caráter
polimórfico da “facção”, bem como seu caráter polissêmico e suas
ambiguidades que eu me concentrarei neste item.” (pag. 146)

“(...) Com efeito, trata-se de considerar o modelo de organização institucional


do pólo de “confecções” como um sistema integrado. Ou, formulando a coisa
dentro da perspectiva d’O Novo Espírito do capitalismo (Boltanski &
Ciapello, op. Cit), importa levar em conta a lógica da “organização em rede”
que também as empresas de lingerie friburguenses incorporaram em sua
prática e em seu discurso” (pag. 146)

“O caráter polimórfico deste sistema é aqui evocado para que se possa dar
conta das diversas modalidades de “facção” que o observador pode encontrar
no setor de vestuário da cidade. De um ponto de vista cronológico a primeira
destas modalidades foi a terceirização da produção das salas de costuras que,
em meados da década de 1990, foram fechadas na Triumph Internacional.(...)
esta medida se coaduna com os novos dispositivos de acumulação flexível do
capital, os quais são orientados pela lógica da terceirização dos custos com a
remuneração da força de trabalho. esta primeira forma assumida pela
“facção” pode ser aqui classificada como uma espécie de franquia.
Importante aqui é registrar que esta primeira modalidade de “facção” se
estabelece entre duas pessoas jurídicas.” (pag.146/147)

“(...) a inexistência de relação entre a esfera doméstica e a modalidade de


facção que chamei de franquia é apenas aparente.” (pag. 147)

“(...) foram, mormente as costureiras demitidas na reestruturação produtiva


da Triumph, aquelas que compraram, por meio do dinheiro das indenizações
e de financiamentos. As máquinas que ficaram ociosas com o fechamento de
uma larga parcela das salas de costura daquela empresa.” (pag.148)

“(...) Diante do desemprego e de posse de tal maquinário tais operárias deram


início ao que, com propriedade, pode ser chamado de “produção familiar”.
Esta grande produção familiar é o germe de todo o desenvolvimento
industrial posterior das centenas de “confecções” friburguenses que, com
regular frequência, ocupam salas construídas sobre as redisências mesmas
destas antigas operárias.” (pag. 148)

“De costureiras exploradas pelo capital estas mulheres passaram a pequenas


capitalistas exploradoras de outras operárias.” (pag. 149)

“(...) o contrato firmado entre uma “confecção” formal e uma outra informal
pode ser caracterizado como um acordo híbrido – ou seja formal/informal.
Aqui também conforme podemos notar do trecho citado por Boltanski e
Chiapello, estamos plenamente em meio às novas formas de organização em
rede do capitalismo.” (pag. 149)

“(...) no bojo do processo de domesticação do mercado, encontramos a


terceira modalidade, acima mencionada, da costura em comicílio – que
chamarei aqui de “facção doméstica”. Esta modalidade de “facção” pode se
estabelecer entre uma “confecção” formal e uma costureira domiciliar ou
mesmo entre esta última e uma “confecção” informal. Esta talvez seja a
versão do sistema de “facção” na qual sua polissemia se manifesta de um
modo mais incisivo. Muitos são os sentidos que este tipo de trabalho
doméstico assume, do ponto de vista das inumeráveis costureiras que dele
vivem ou dele participam.” (pag. 150)

“Temos, portanto, diante de nossos olhos, um modo de dominação cuja


dinâmica já é por demais conhecida (...) O explorador deixa uma parcela
irrisória de seu capital à disposição do explorado, como meio de criar as
condições de possibilidade da relação mesma de exploração. E está
determinada a ininterrupta “pressão” produtivista sobre o trabalhador por
meio do evento fundador que instaura a dívida – contrapartida da dádiva do
capitalista.” (pag. 152)

“No tocante à “empregabilidade” feminina vimos, no capítulo anterior que


esta noção, típica do capitalismo em sua fase contemporânea, não apenas não
significa “estabilidade” no emprego, como é também contrária a esta última.
Se por um lado, dificilmente encontraremos alguma costureira de lingierie
desempregada, por outro, são poucas aquelas operárias que conseguem se
manter durante toda a vida, em uma única fábrica de roupas íntimas.
Entretanto, no contexto familiar, esta posição, por assim dizer, de
“empregáveis” conferem ce4rtamente à mulher um poder de decisão maior,
nos assuntos domésticos frente ao poder do Pater-Familias (Freyre, op. cit.)
– o poder advindo de sua posição de provedoras do lar.(pag. 159)

“(...) a “transnacionalização do capital” e seu corolário – as novas formas


globalizadas de exploração do trabalho, amiúde fundamentadas no discurso
científico (Boltanski & Chiapello, op. cit), das quais o sistema de “célula”
constitui um exemplo -; de outro, a capacidade do sistema de “facção. Eis a
fórmula da “organização em rede” da indústria de lingerie de Nova
Friburgo.”” ( pag. 168)

“(...) a “domesticação do mercado” apresenta também, como contrapartida,


uma “mercantilização do doméstico”. Ou mais precisamente, a extensão da
exploração do trabalho pelo capital a uma esfera antes livre.(...) É preciso
dizer também que esta mesma esfera doméstica oferece, neste contexto, um
refúgio ao capital que o protege da fiscalização do ministério público do
trabalho, por exemplo.” (pag. 171)

“(...) diante do caráter auto-organizador do capital, de sua natureza


“mimética” que o permite absorver até mesmo as críticas a ele direcionadas,
transformando-as em eficazes dispositivos de dominação, a “força dos
trabalhadores” (Thompson, op. cit.) costuma encontrar formas criativas de
resistir.” (pag.172)
FICHAMENTO:

WECISLEY RIBEIRO DO ESPÍRITO SANTO

SULANQUEIRAS - O TRABALHO COM VESTUÁRIO E OUTROS


OFÍCIOS NO AGRESTE PERNAMBUCANO.

“Do ponto de vista do pesquisador interessado nos trabalhadores do vestuário


do Salgado, este é um bairro ambíguo. De um lado, pode-se testemunhar a
olhos vistos as oficinas abertas, difusas pelas garagens e varandas das
residências; de outro, este caráter “oculto” de certas unidades de produção.
Encarnado na recusa em me receber e conceder permissão para fotografar as
ofocinas. Trata-se mesmo de um paradoxo à primeira vista.” (pag. 47)

“(...) O receio de falar sobre o próprio trabalho com estranhos pode ser
pensado quase como uma extensão da recusa em contratar trabalhadores de
fora. Nos dois casos, não ser conhecido é sinônimo de não ser digno de
confiança, ao manos temporariamente.” (pag. 48)

“Façamos um salto cronológico – das costureiras emanciparas da exploração


dos donos das camisarias entre os anos de 1970 e 1980 aos fabricos
familiares contemporâneos.”(pag.55)

DESCRIÇÃO FEITA PELO INTERLOCUTOR “Diano” SOBRE O


FUNCIONAMENTO DO FABRICO DE JEANS:

“Nós aqui compramos rolos de jeans com 130 metros cada um. Existem rolos
com 40, 50 metros, rolos menores, mas a gente compra os maiores, com 130
metros porque sai mais barato, é mais em conta. Além do mais, a gente
compra o tecido todo à vista porque tem desconto. Comprando o tecido à
vista eu tenho uma diferença de R$0,50 no produto final. Não parece, mas faz
diferença. O rolo de 130 metros também a gente aproveita mais o tecido do
que no rolo de 40 ou 50 metros. Sobra menos retalho. Aqui na garagem eu
mesmo corto o tecido e depois mando para as costureiras de facção. São duas
facções com 3, 4 costureiras, cada uma. Isso dependendo da época. Então eu
trabalho com uma média de oito costureiras. Tudo aqui do Salgado mesmo.
Por jaqueta eu pago R$ 2,20 às costureiras. Depois de montada, a mercadoria
volta pra cá. Aqui eu mesmo faço o coz, faço a riata [tira estreita de jeans, ou
outro tecido empregada para fazer o passador e o cadarço de uma calça. Aí
depois, meu irmão Enrique [com 12 anos de idade], faz o caseado. Eu pago
R$0,03 a ele por cada peça que ele faz. Até ficar pronta uma peça passa pela
mão de umas oito pessoas. Depois do caseado vem a lavanderia, as peças vão
pra casa da minha tia, que mora lá do outro lado daquela rua [apontando para
uma rua contígua]. Ela tem um fabrico maior, com muitos funcionários,
costureiros, costureiras. E tem uma empresa de turismo também, porque a
gente tem que atacar de todo lado, né. Tem um micro-ônibus e duas vans. E
ela tem lavanderia lá. Então eu lavo as minhas peças lá porque ela me dá
desconto também. Todo descontinho, em cada etapa, que você consegue faz
diferença na hora de vender. Se eu fosse pagar lavanderia pra um estranho, eu
ia pagar R$1,70, R$1,80 por peça lavada. Como eu faço com ela eu pago
R$1,40. E ela também faz esse bordado aqui ó [mostra-me o bordado nas
costas de uma jaqueta], eu pago, em média, R$1,00 por peça bordada. Umas
peças o bordado é R$1,10, outras é R$0,90, outras é R$0,80 , outras R$1,20,
depende de quantas cores tem o desenho. Se eu fizesse fora também ia pagar
mais caro que isso. Pra mercadoria, R$0,10 que você ganha por etapa é tudo;
R$0,10 na limpeza, R$0,10 na lavanderia, R$0,10 no bordado, R$0,10 no
caseado e no produto final você pode botar um real mais barato. Depois disso
a peça volta pra cá pra fazer a limpeza e pregar botão. A gente mesmo prega
o botão aqui, naquela máquina ali [apontando para a máquina específica para
esta operação]”. (pag. 57)

“(...) a ênfase sobre os valores monetários do tecido e de cada uma das etapas
do processo produtivo, constitui um elemento essencial para a compreensão
dos fabricos e de seu êxito no contexto do mundo da sulanca. Diano enumera,
nesse sentido, os custos com a produção, chamando a atenção para as
estratégias que são mais em conta, no intuito de demonstrar as vantagens
competitivas dos sulanqueiros – “pra mercadoria, R$0,10 que você ganha por
etapa é tudo”. Eis uma primeira característica fundamental da sulanca que
lhe confere força competitiva frente às grande confecções de vestuário: o fato
de que ela refere-se à produção de mercadorias de baixo custo.”(pag. 57-58)

“(...) Algumas estratégias são compartilhadas por fabricos e confecções – por


exemplo, comprar rolos de teciso em grande escala para minimizar o preço e
aproveitar melhor o material. Outras entretanto, constituem apanágio dos
sulanqueiros: trabalhar com vizinhos para diminuir os custos com o transporte
do material (“Então eu trabalho com uma média de oito costureiras. tudo aqui
do Salgado mesmo”), trabalhar com a família para obter descontos, por
mínimos que sejam, nas etapas do processo produtivo (“então eu lavo as
minhas peças lá porque ela [sua tia] me dá desconto também”).” (pag.58)

“(...) um modelo de peça que está saindo muito (isto é, que está vendendo
bem) é sempre adquirido pela maioria dos demais sulanqueiros com o intuito
de copiar o molde para reproduzi-lo(...) a pela com boa saída terá de ser
“decodificada” para ser reproduzida. Assim, uma abordagem destes objetos
como meios de informação precisa conceber seus produtores como
produtores de conhecimentos ligados à cultura material característica deste
universo social.” (pag. 58)

“(...) O que meus interlocutores de Caruaru e da região denominam trabalho


com a família(...) Uma última menção importante nesta primeira fala de
Diano é a referência à feitura do caseado, isto é, as casas dos botões aplicados
nas peças. Trata-se de uma tarefa executada por seu irmão de 12 anos de
idade. Além dele, outras crianças integram-se ao trabalho deste fabrico:

(...) A limpeza eu pago menino. Pago R$0,10 por peça limpa, aqui tem essa
vantagem que a gente pode usar menino, em cidade grande você já não pode
usar menino, né. que a fiscalização é maior né.” (pag. 59)

“(...) é interessante notar aqui que estas informações sobre o trabalho dos
meninos sejam abertamente apresentadas por Diano. De certa forma, suas
declarações espontâneas sobre o emprego de crianças na produção parecem
denotar a presença de um código moral nativo relacionado o trabalho
infantil.(...) o sinal negativo aposto ao trabalho infantil não é consensual”
(pag. 59)

“(...) As considerações de Diano sobre o preço da jaqueta evidenciam uma


questão séria que está em jogo no setor de vestuário agrestino – qual seja, a
disputa por legitimidade da produção dos sulanqueiros diante do sentido
pejorativo e dos estigmas atribuídos à sulanca. Seu comentário segundo o
qual uma jaqueta sua é vendida pelo dobro do preço na Bahia, com etiquetas
de marca, além do pedido de um lojista para que ele aplicasse previamente a
marca da loja nas peças e, por fim, a indicação orgulhosa de sua própria
marca – “Nossa marca é essa aqui: ED jeans” -, tudo isso não tem outro
intuito senão o de demonstrar que o estigma da sulanca, que a equaciona com
roupas de baixa qualidade, não se sustenta.” (pag. 61)

“(...) característica central da sulanca – o fato de constituírem roupas de baixo


custo, em decorrência da organização familiar e vicinal do trabalho na
costura – distinguindo-se assim do seu estigma – o axioma dos grandes
confeccionistas e consultores de produção, de que a sulanca refere-se a
roupas de baixa qualidade.” (pag. 61-62)

“(...) as fronteiras entre os da família, vizinhos e conhecidos são


frequentemente frouxas,” (pag. 62)

“(...) Deste modo, junto com a socialização profissional no interior da própria


família podemos inferir uma socialização de “habitus”. Novamente nos
deparamos com a interpenetração de múltiplos ofícios que coexistem com
sulanca. Por sinal, há uma intrínseca relação semântica entre as expressões
atacar em várias frentes, relacionada a esta multiplicidade de ofícios e
atividades econômicas.” (pag. 63)

“(...) O fato de o material sofrer grandes transformações em um curto período


de tempo também dificulta a fiscalização dos tributos – “ele compra sem nota
e dali a uma semana o rolo já foi cortado”, esta variedade de ações com o
intuito de diminuir os custos com a produção – trabalhar com a família, com
conhecidos, com vizinhos, driblar a tributação, estabelecer vínculos de
afinidade ou conhecimento com fornecedores, sacoleiros, faccionistas, etc. –
tudo isso pode ser interpretado como outro nível de significação da expressão
atacar em várias frentes. São também estas práticas pontuais, que somadas
umas as outras, resultam nas roupas de baixo custo que particularizam a
sulanca.” (pag. 64)

“(...) Uma vez mais, em sua resposta, Diano ratifica a qualidade da sulanca e
a coloca no mesmo nível de acabamento dos produtos das grandes marcas. O
que distinguiria os sulanqueiros aqui seria um menor capital de giro, o que o
leva a comercializar na feira e não na loja.” (pag. 64)

“(...) Há mesmo caso de fabricos nos quais nada é produzido como aquele
citado por seu José Mario onde o dono “só põe a mão na grana”. Este
paradoxo se deve às relações de facção. Assim, muitos fabricos se reduzem a
galpões estocadores de tecidos, o processo produtivo – do corte ao
acabamento – sendo totalmente faccionado. Destarte fabricos podem se
ocupar de todas as etapas do processo produtivo, de algumas delas ou mesmo
de nenhuma. Diversamente, a característica fundamental de uma facção é o
fato de apenas uma ou poucas etapas do processo produtivo serem sevadas a
curso nestes espaços. A oficina de José Sinovaldo pode, nesse sentido, servir
como uma ilustração etnográfica da facção.” (pag. 68)

“(...) existem diversos tipos de facção - facção de corte, de costura, de


acabamento, de bordado, etc.” (pag. 68).
“(...) A mudança de facção de bordado para a facção de acabamento constitui
uma transição de estratégias econômicas ligadas, por exemplo, à
infraestrutura diferencial necessária às duas etapas do processo produtivo. “as
máquinas de bordado evoluíram muito, estas máquinas de costuras são mais
fáceis de comprar.(...) A transição da facção de bordado para a facção de
acabamento pode ser interpretada como uma estratégia que tenta articular o
maior rendimento financeiro possível com o menor custo de investimento.”
(pag. 69)

“(...) Seu cunhado, relata, costurava shorts de tactel (um tecido sintético)
depois de ter aprendido a fazê-lo por conta própria, apenas observando o
trabalho de sua irmã que, por seu turno, já trabalhava no ramo. (O destaque
nativo conferido ao aprendizado profissional por meio da mera observação e
do interesse é também recorrente,” (pag. 79)

“(...) Acredito que estas duas modalidades de aprendizado, e não apenas a


primeira, foi o que motivou meu colaborador a fazer o convite para darmos
uma circulada pelo bairro. Ele não se contentou em me falar sobre os
fabricos, os sulanqueiros, as facções, as lavanderias; instou-me antes a
testemunhar dinâmicas que não se entregam facilmente a um relato mediado
pela linguagem, seja oral ou escrita. Uma caracterização das atividades
características do prestamista talvez possa ser ilustrativa das implicações
encerradas neste convite.” (pag. 80)

“(...)De fato, a confiança permanece sendo uma marca característica das


transações econômicas entre segmentos de produtores, entre produtores e
outros profissionais envolvidos – mecânicos, locadores de máquinas de
costura, etc. – entre feirantes e sacoleiros. Um elemento facilitador do
microcrédito informal baseado na confiança parece ser o fato de que, com
frequência, ele se estabelece entre vizinhos que se conhecem há muito tempo
por viverem em um mesmo lugar, onde inclusive não é incomum encontrar-
se relações “multiplex””.(pag. 83)

“(...) O princípio da reciprocidade se encontra, por sinal, bastante presente


entre os coletivos com os quais convivi.” (pag. 83)

“(...) é da comunidade de ajuda mútua, destas prestações recíprocas, da


positividade sociológica de uma comunidade religiosa, que seu José Mário
sente saudade. Convivendo como vizinho e inquilino da família de seu José
Mário, tive a oportunidade de testemunhar quanta importância é conferida às
relações de reciprocidade ou, em termos nativos, à ajuda entre parentes,
conhecidos e vizinhos. Poder-se-ia citar aqui indefinidamente uma série de
exemplos ilustrativos, por assim dizer, destas sociedades de ajuda mútua
espalhadas pelo bairro do Salgado (o que não exclui relações inversas, de
conflitos entre vizinhos e/ou parentes).” (pag. 84)

“(...) a fase “mercadoria pela qual certas coisas atravessam ao longo de suas
vidas sociais depende dos contextos culturais no interior dos quais tais
objetos são classificados. Um rolo de jeans que é mercadoria, no contexto
dos fornecedores de São Paulo e Santa Cruz do Capiberibe é antes matéria
prima para o sulanqueiros do Salgado. Passa a serviço nas mãos das
costureiras e costureiros dos fabricos e facções, onde, pelo trabalho mesmo
destes profissionais, converte-se em roupas, ou neste contexto cultural
específico, sulanca.