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Pietro Ubaldi

INTRODUÇÃO À I OBRA I – PARTE

II – PARTE III – PARTE


GRANDES MENSAGENS

I. MENSAGEM DO NATAL (NATAL DE 1931) ................................................................................................................................................. 1


II. MENSAGEM DA RESSURREIÇÃO (PÁSCOA DE 1932) ........................................................................................................................... 2
III. MENSAGEM DO PERDÃO ............................................................................................................................................................................ 3
IV. MENSAGEM AOS CRISTÃOS....................................................................................................................................................................... 6
V. MENSAGEM AOS HOMENS DE BOA VONTADE ...................................................................................................................................... 6
VI. MENSAGEM DA PAZ ..................................................................................................................................................................................... 7
VII. MENSAGEM DA NOVA ERA (NATAL DE 1953) ...................................................................................................................................... 8

A GRANDE SÍNTESE

I. CIÊNCIA E RAZÃO ......................................................................................................................................................................................... 11


II. INTUIÇÃO ........................................................................................................................................................................................................ 12
III. AS PROVAS .................................................................................................................................................................................................... 12
IV. CONSCIÊNCIA E MEDIUNIDADE ............................................................................................................................................................. 13
V. NECESSIDADE DE UMA REVELAÇÃO ..................................................................................................................................................... 14
VI. MONISMO ...................................................................................................................................................................................................... 15
VII. ASPECTOS ESTÁTICO, DINÂMICO E MECÂNICO DO UNIVERSO ............................................................................................... 16
VIII. A LEI ............................................................................................................................................................................................................. 17
IX. A GRANDE EQUAÇÃO DA SUBSTÂNCIA ............................................................................................................................................... 18

X. ESTUDO DA FASE MATÉRIA (). A DESINTEGRAÇÃO ATÔMICA................................................................................................... 18


XI. UNIDADE DE PRINCÍPIO NO FUNCIONAMENTO DO UNIVERSO .................................................................................................. 19
XII. CONSTITUIÇÃO DA MATÉRIA. UNIDADES MÚLTIPLAS. .............................................................................................................. 20
XIII. NASCIMENTO E MORTE DA MATÉRIA. CONCENTRAÇÃO DINÂMICA E DESAGREGAÇÃO ATÔMICA ....................... 20
XIV. DO ÉTER AOS CORPOS RADIOATIVOS .............................................................................................................................................. 21
XV. A EVOLUÇÃO DA MATÉRIA POR INDIVIDUALIDADES QUÍMICAS. O HIDROGÊNIO E AS NEBULOSAS........................ 21
XVI. A SÉRIE DAS INDIVIDUAÇÕES QUÍMICAS DO H AO U, POR PESO ATÔMICO E ISOVALÊNCIAS PERIÓDICAS.......... 22
XVII. A ESTEQUIOGÊNESE E AS ESPÉCIES QUÍMICAS DESCONHECIDAS ...................................................................................... 24
XVIII. O ÉTER, A RADIOATIVIDADE E A DESAGREGAÇÃO DA MATÉRIA ( ........................................................................... 25
XIX. AS FORMAS EVOLUTIVAS FÍSICAS, DINÂMICAS E PSÍQUICAS................................................................................................. 26
XX. A FILOSOFIA DA CIÊNCIA ....................................................................................................................................................................... 27
XXI. A LEI DO DEVENIR ................................................................................................................................................................................... 27
XXII. ASPECTO MECÂNICO DO UNIVERSO. FENOMENOGENIA ......................................................................................................... 28
XXIII. FÓRMULA DA PROGRESSÃO EVOLUTIVA. ANÁLISE DA PROGRESSÃO EM SEUS PERÍODOS ...................................... 29
XXIV. DERIVAÇÕES DA ESPIRAL POR CURVATURA DO SISTEMA ................................................................................................... 30
XXV. SÍNTESE LINEAR E SÍNTESE POR SUPERFÍCIE .............................................................................................................................. 30
XXVI. ESTUDO DA TRAJETÓRIA TÍPICA DOS MOVIMENTOS FENOMÊNICOS .............................................................................. 31
XXVII. SÍNTESE CÍCLICA. LEI DAS UNIDADES COLETIVAS E LEI DOS CICLOS MÚLTIPLOS .................................................... 33
XXVIII. O PROCESSO GENÉTICO DO COSMOS ......................................................................................................................................... 34
XXIX. O UNIVERSO COMO ORGANISMO, MOVIMENTO E PRINCÍPIO ............................................................................................. 35
XXX. PALINGENESIA (ETERNO RETORNO) ............................................................................................................................................... 37
XXXI. SIGNIFICADO TELEOLÓGICO DO TRATADO. PESQUISA POR INTUIÇÃO .......................................................................... 38
XXXII. GÊNESE DO UNIVERSO ESTELAR. AS NEBULOSAS – ASTROQUÍMICA E ESPECTROSCOPIA ..................................... 39
XXXIII. LIMITES ESPACIAIS E LIMITES EVOLUTIVOS DO UNIVERSO ............................................................................................ 40
XXXIV. QUARTA DIMENSÃO E RELATIVIDADE ....................................................................................................................................... 41
XXXV. A EVOLUÇÃO DAS DIMENSÕES E A LEI DOS LIMITES DIMENSIONAIS.............................................................................. 42
XXXVI. GÊNESE DO ESPAÇO E DO TEMPO ................................................................................................................................................ 42
XXXVII. CONSCIÊNCIA E SUPERCONSCIÊNCIA. SUCESSÃO DOS SISTEMAS TRIDIMENSIONAIS ........................................... 43
XXXVIII. GÊNESE DA GRAVITAÇÃO ............................................................................................................................................................ 44
XXXIX. PRINCÍPIO DE TRINDADE E DE DUALIDADE .............................................................................................................................. 46
XL. ASPECTOS MENORES DA LEI ................................................................................................................................................................. 48
XLI. INTERREGNO ............................................................................................................................................................................................. 50
XLII. NOSSA META. A NOVA LEI ................................................................................................................................................................... 50
XLIII. OS NOVOS CAMINHOS DA CIÊNCIA ................................................................................................................................................. 51
XLIV. SUPERAÇÕES BIOLÓGICAS ................................................................................................................................................................ 52
XLV. A GÊNESE ................................................................................................................................................................................................... 53
XLVI. ESTUDO DA FASE  – ENERGIA .......................................................................................................................................................... 54
XLVII. A DEGRADAÇÃO DA ENERGIA ......................................................................................................................................................... 56
XLVIII. SÉRIE EVOLUTIVA DAS ESPÉCIES DINÂMICAS ....................................................................................................................... 57
XLIX. DA MATÉRIA À VIDA............................................................................................................................................................................. 58
L. NAS FONTES DA VIDA .................................................................................................................................................................................. 59
LI. CONCEITO SUBSTANCIAL DOS FENÔMENOS BIOLÓGICOS ......................................................................................................... 60
LII. DESENVOLVIMENTO DO PRINCÍPIO CINÉTICO DA SUBSTÂNCIA ............................................................................................ 61
LIII. GÊNESE DOS MOVIMENTOS VORTICOSOS ...................................................................................................................................... 62
LIV. A TEORIA CINÉTICA DA GÊNESE DA VIDA E OS PESOS ATÔMICOS ....................................................................................... 63
LV. TEORIA DOS MOVIMENTOS VORTICOSOS ........................................................................................................................................ 64
LVI. PARALELOS EM QUÍMICA ORGÂNICA .............................................................................................................................................. 65
LVII. MOVIMENTOS VORTICOSOS E CARACTERES BIOLÓGICOS.................................................................................................... 66
LVIII. A ELETRICIDADE GLOBULAR E A VIDA ......................................................................................................................................... 67
LIX. TELEOLOGIA DOS FENÔMENOS BIOLÓGICOS ............................................................................................................................... 70
LX. A LEI BIOLÓGICA DA RENOVAÇÃO ..................................................................................................................................................... 72
LXI. EVOLUÇÃO DAS LEIS DA VIDA ............................................................................................................................................................. 74
LXII. AS ORIGENS DO PSIQUISMO ................................................................................................................................................................ 75
LXIII. CONCEITO DE CRIAÇÃO ..................................................................................................................................................................... 76
LXIV. TÉCNICA EVOLUTIVA DO PSIQUISMO E GÊNESE DO ESPÍRITO ............................................................................................ 77
LXV. INSTINTO E CONSCIÊNCIA. TÉCNICA DOS AUTOMATISMOS .................................................................................................. 78
LXVI. RUMO ÀS SUPREMAS ASCENSÕES BIOLÓGICAS ........................................................................................................................ 79
LXVII. A ORAÇÃO DO VIANDANTE............................................................................................................................................................... 81
LXVIII. A GRANDE SINFONIA DA VIDA ....................................................................................................................................................... 82
LXIX. A SABEDORIA DO PSIQUISMO ........................................................................................................................................................... 84
LXX. AS BASES PSÍQUICAS DO FENÔMENO BIOLÓGICO ..................................................................................................................... 86
LXXI. O FATOR PSÍQUICO NA TERAPIA ..................................................................................................................................................... 87
LXXII. A FUNÇÃO BIOLÓGICA DO PATOLÓGICO .................................................................................................................................... 88
LXXIII. FISIOLOGIA SUPRANORMAL. HEREDITARIEDADE FISIOLÓGICA E HEREDITARIEDADE PSÍQUICA ..................... 88
LXXIV. O CICLO DA EVOLUÇÃO E DA MORTE E SUA EVOLUÇÃO ................................................................................................... 90
LXXV. O HOMEM ................................................................................................................................................................................................ 92
LXXVI. CÁLCULO DE RESPONSABILIDADES ............................................................................................................................................ 93
LXXVII. DESTINO. O DIREITO DE PUNIR .................................................................................................................................................... 95
LXXVIII. OS CAMINHOS DA EVOLUÇÃO HUMANA ................................................................................................................................. 96
LXXIX. A LEI DO TRABALHO ......................................................................................................................................................................... 97
LXXX. O PROBLEMA DA RENÚNCIA ............................................................................................................................................................ 98
LXXXI. A FUNÇÃO DA DOR ........................................................................................................................................................................... 100
LXXXII. A EVOLUÇÃO DO AMOR................................................................................................................................................................ 102
LXXXIII. O SUPER-HOMEM........................................................................................................................................................................... 103
LXXXIV. GÊNIO E NEUROSE ........................................................................................................................................................................ 104
LXXXV. PSIQUISMO E DEGRADAÇÃO BIOLÓGICA ............................................................................................................................... 106
LXXXVI. CONCLUSÕES. EQUILÍBRIOS E VIRTUDES SOCIAIS .......................................................................................................... 107
LXXXVII. A DIVINA PROVIDÊNCIA ............................................................................................................................................................ 109
LXXXVIII. FORÇA E JUSTIÇA. A GÊNESE DO DIREITO ....................................................................................................................... 110
LXXXIX. EVOLUÇÃO DO EGOÍSMO ........................................................................................................................................................... 112
XC. A GUERRA. A ÉTICA INTERNACIONAL ............................................................................................................................................. 113
XCI. A LEI SOCIAL DO EVANGELHO ......................................................................................................................................................... 115
XCII. O PROBLEMA ECONÔMICO............................................................................................................................................................... 116
XCIII. A DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA ....................................................................................................................................................... 118
XCIV. DA FASE HEDONÍSTICA À FASE COLABORACIONISTA .......................................................................................................... 119
XCV. A EVOLUÇÃO DA LUTA ....................................................................................................................................................................... 120
XCVI. CONCEPÇÃO BIOLÓGICA DO PODER ........................................................................................................................................... 121
XCVII. O ESTADO E SUA EVOLUÇÃO ......................................................................................................................................................... 123
XCVIII. O ESTADO E SUAS FUNÇÕES ......................................................................................................................................................... 125
XCIX. O CHEFE ................................................................................................................................................................................................. 126
C. A ARTE ........................................................................................................................................................................................................... 127
DESPEDIDA ........................................................................................................................................................................................................ 129

AS NOÚRES

I. PREMISSAS ..................................................................................................................................................................................................... 133


II. O FENÔMENO .............................................................................................................................................................................................. 137
III. O SUJEITO ................................................................................................................................................................................................... 147
IV. OS GRANDES INSPIRADOS...................................................................................................................................................................... 151
V. TÉCNICA DAS NOÚRES ............................................................................................................................................................................. 166
VI. CONCLUSÕES ............................................................................................................................................................................................. 176

ASCESE MÍSTICA
PRIMEIRA PARTE – O FENÔMENO ....................................................................................................................................................... 181
I. SITUAÇÃO DO PROBLEMA ........................................................................................................................................................................ 181
II. EVOLUÇÃO DA MEDIUNIDADE .............................................................................................................................................................. 181
III. MEDIUNIDADE – METAFANIA – MISTICISMO .................................................................................................................................. 182
IV. A CATARSE MÍSTICA E O PROBLEMA DO CONHECIMENTO ..................................................................................................... 183
V. OBJETIVISMO E SUBJETIVISMO ............................................................................................................................................................ 184
VI. O MÉTODO DA UNIFICAÇÃO ................................................................................................................................................................. 185
VII. ESTRUTURA DO FENÔMENO MÍSTICO ............................................................................................................................................. 187
VIII. COROLÁRIOS - FÉ E RAZÃO ............................................................................................................................................................... 188
IX. DIAGRAMA DA ASCENSÃO ESPIRITUAL ............................................................................................................................................ 190
X. PRIMEIRO ASPECTO – PLANOS DE CONSCIÊNCIA .......................................................................................................................... 191
XI. SEGUNDO ASPECTO – EXPANSÃO DE CONSCIÊNCIA .................................................................................................................... 192
XII. TERCEIRO ASPECTO – CONSCIÊNCIAS COLETIVAS .................................................................................................................... 193
XIII. EGO SUM QUI SUM ................................................................................................................................................................................. 194
XIV. DA TERRA AO CÉU ................................................................................................................................................................................. 195
XV. METODOLOGIA MÍSTICA ...................................................................................................................................................................... 197
XVI. A NOITE DOS SENTIDOS ....................................................................................................................................................................... 198
XVII. A UNIFICAÇÃO ...................................................................................................................................................................................... 200
XVIII. INCOMPREENSÃO MODERNA ......................................................................................................................................................... 202
XIX. O SUBCONSCIENTE ................................................................................................................................................................................ 202
XX. O SUPERCONSCIENTE ............................................................................................................................................................................ 203

SEGUNDA PARTE – A EXPERIÊNCIA ....................................................................................................................................................... 205


I. EM MARCHA .................................................................................................................................................................................................. 205
II. NAS PROFUNDEZAS.................................................................................................................................................................................... 206
III. DOR ................................................................................................................................................................................................................ 208
IV. RESSURREIÇÃO ......................................................................................................................................................................................... 209
V. A EXPANSÃO ................................................................................................................................................................................................. 211
VI. A HARMONIZAÇÃO ................................................................................................................................................................................... 212
VII. A UNIFICAÇÃO .......................................................................................................................................................................................... 213
VIII. A SENSAÇÃO DE DEUS .......................................................................................................................................................................... 215
IX. CRISTO .......................................................................................................................................................................................................... 216
X. AMOR .............................................................................................................................................................................................................. 217
XI. A REDENÇÃO .............................................................................................................................................................................................. 218
XII. ASCESE DA ALMA .................................................................................................................................................................................... 220
XIII. MINHA POSIÇÃO ..................................................................................................................................................................................... 221
XIV. MOMENTOS PSICOLÓGICOS .............................................................................................................................................................. 224
XV. IRMÃO FRANCISCO ................................................................................................................................................................................. 225
XVI. VISÃO DA CATEDRAL GÓTICA ........................................................................................................................................................... 226
XVII. PROFETISMO .......................................................................................................................................................................................... 226
XVIII. OS ASSALTOS ........................................................................................................................................................................................ 227
XIX. TENTAÇÃO................................................................................................................................................................................................ 229
XX. INFERNO ..................................................................................................................................................................................................... 230
XXI. QUEDA DA ALMA .................................................................................................................................................................................... 230
XXII. MEA CULPA............................................................................................................................................................................................. 231
XXIII. CÂNTICO DA UNIFICAÇÃO ............................................................................................................................................................... 231
XXIV. BEM-AVENTURANÇAS........................................................................................................................................................................ 231
XXV. CÂNTICO DA MORTE E DO AMOR ................................................................................................................................................... 232
XXVI. PAIXÃO. ASSIS, QUINTA-FEIRA SANTA, 1937. .............................................................................................................................. 232

Vida e Obra de Pietro Ubaldi (Sinopse)...........................................................................................................página de fundo


Pietro Ubaldi GRANDES MENSAGENS 1
se ainda mais, se tanto já conseguiu em poucos anos! Não mais
GRANDES MENSAGENS existirão, na verdade, distâncias; os diferentes povos de tal modo
se comunicarão, que haverá uma sociedade única.
A mente humana, porém, troca de direção de quando em
I. MENSAGEM DO NATAL (NATAL DE 1931) quando, vive ciclos, períodos, e, nessas várias fases, deve de-
frontar diferentes problemas. O futuro contém não só continu-
No silêncio da Noite Santa, escuta-me. Põe de lado todo o ações, mas transformações; consequências de um processo na-
saber e tuas recordações; põe-te de parte e esquece tudo. Aban- tural de saturação. O vosso progresso científico tende a tor-
dona-te à minha voz; inerte, vazio, no nada; no mais completo nar-se e tornar-se-á tão hipertrófico – porque não contrabalan-
silêncio do espaço e do tempo. Neste vazio, ouve minha voz çado por um paralelo progresso moral – que o equilíbrio não
que te diz – ergue-te e fala: Sou eu. poderá ser mantido nos acontecimentos históricos. Tem cres-
Exulta pela minha presença; grande bem ela é para ti; gran- cido e, sem precedentes na história, crescerá cada vez mais o
de prêmio que duramente mereceste. É aquele sinal que tanto domínio humano sobre as forças da natureza. Um imenso po-
invocaste deste mundo maior em que vivo e em que tu creste. der terá o homem, mas ele, para isso, não está preparado mo-
Não perguntes meu nome; não procures individuar-me. Não ralmente, porque a vossa psicologia, infelizmente, é, em subs-
poderias; ninguém o poderia. Não tentes uma inútil hipótese. tância, a mesma da tenebrosa Idade Média. É um poder dema-
Sabes que sou sempre o mesmo. siadamente grande e novo para vossas mãos inexperientes.
Minha voz, que para teus ouvidos é terna, como é amiga O homem será dominado por uma tão alargada sensação
para todos os pequeninos que sofrem na sombra, sabe tam- de orgulho e de força, que se trairá. A desproporção entre o
bém ser vibrante e tonante, como jamais a sentiste. Não te vosso poder e a altura ética de vossa vida far-se-á cada dia
preocupes; escreve. Minha palavra dirige-se às profundezas mais acentuada, porque cada dia que passa é irresistivelmen-
da consciência e toca, no mais íntimo, a alma de quem a es- te para vós, que vos lançastes nessa direção, um dia de pro-
cuta. Será somente ouvida por quem se tornou capaz de ouvi- gresso material.
la. Para os outros, perder-se-á no vozear imenso da vida. Não As ideias são lançadas no tempo com massa que lhes é
importa, porém; ela deve ser dita. própria, como os bólidos no espaço. Eu percebo um aumen-
Falo hoje a todos os justos da Terra e os chamo de todas as tar de tensão, lento porém constante, que preludia o inevitá-
partes do mundo, a fim de unificarem suas aspirações e preces vel explodir do raio. Essa explosão é a última consequência,
numa oblata que se eleve ao Céu. Que nenhuma barreira de re- mesmo de acordo com a vossa lógica, de todo o movimento.
ligião, de nacionalidade ou de raça os divida, porque não está Desproporção e desequilíbrio não podem durar; a Lei quer
longe o dia em que somente uma será a divisão entre os ho- que se resolvam num novo equilíbrio. Assim como a última
mens: justos e injustos. molécula de gelo faz desmoronar o iceberg gigantesco, as-
A divisão está no íntimo da consciência, e não no vosso as- sim também de uma centelha qualquer surgirá o incêndio.
pecto exterior, visível. Todos os que sinceramente querem Antigamente os cataclismos históricos, por viverem isolados
compreender o compreendem. Cada um, intimamente, se co- os povos, podiam manter-se circunscritos; agora não. Muitos
nhece, sem que o próprio vizinho possa percebê-lo. que estão nascendo vê-los-ão.
Minha palavra é universal, mas também é um apelo íntimo, A destruição, porém, é necessária. Haverá destruição so-
pessoal, a cada um. Muitos a reconhecerão. mente do que é forma, incrustação, cristalização, de tudo o que
Uma grande transformação se aproxima para a vida do deve desaparecer, para que permaneça apenas a ideia, que sinte-
mundo. Minha voz é singular, porém outras se elevarão, muito tiza o valor das coisas. Um grande batismo de dor é necessário,
em breve, sempre mais fortes, fixando-se em todas as partes do a fim de que a humanidade recupere o equilíbrio livremente vi-
mundo, para que o conselho a ninguém falte. olado; grande mal, condição de um bem maior.
Não temas; escreve e olha. Contempla a trajetória dos Depois disso, a humanidade, purificada, mais leve, mais se-
acontecimentos humanos; ela se estende pelo futuro. Quem lecionada por haver perdido seus piores elementos, reunir-se-á
não está preso nas vossas férreas jaulas de espaço e tempo, em torno dos desconhecidos que hoje sofrem e semeiam em si-
vê naturalmente o futuro. Isso que te exponho à vista é tam- lêncio, retomando, renovada, o caminho da ascensão. Uma nova
bém coerente segundo vossa lógica humana e, portanto, vos era começará; o espírito terá o domínio, e não mais a matéria,
é compreensível. que será reduzida ao cativeiro. Então, aprendereis a ver-nos e a
Os povos, tanto quanto os indivíduos, têm uma responsabi- escutar-nos; desceremos em multidão e conhecereis a Verdade.
lidade nas transformações históricas, que seguem um curso ló- Basta por agora; vai e repousa. Voltarei; porém recorda
gico; existe um encadeamento de causas históricas que, se são que minha palavra é feita de bondade, e somente um objeti-
livres nas premissas, são necessárias nas consequências. vo de bondade pode atrair-me. Onde existir apenas a curio-
A lei da justiça, aspecto do equilíbrio universal, sob cujo sidade, desejo de emoção, leviandade ou ainda céptica pes-
governo tudo se realiza, inclusive em vosso mundo, quer que o quisa científica, aí não estarei. Somente a bondade, o amor,
equilíbrio seja restaurado e que as culpas e os erros sejam cor- a dor, me atraem.
rigidos pela dor. O que chamais de mal, de injustiça, é a natu- Eu presido ao progresso espiritual do vosso planeta, e, para
ral e justa reação que neutraliza os efeitos de vossos atos. Tudo o progresso espiritual, um ato de bondade tem mais valor que
é desejado, tudo é merecido, embora não estejais preparados uma descoberta científica. Não invoqueis a prova do prodígio,
para recordar o “como” e o “quando”. De dor está cheio o vos- quando podeis possuir a da razão e da fé. É vossa baixeza que
so mundo, porque é um mundo selvagem, lugar de sofrimento vos leva a admirar, como sinal de verdade e poder, a exceção
e de provas. Mas não temais a dor, que é a única coisa verda- que viola a ordem divina. Se isso pode assombrar-vos e con-
deiramente grande que possuís. É o instrumento que tendes pa- vencer-vos, a vós, anarquistas e rebeldes, para nós, no Alto, ela
ra a conquista de vossa redenção e de vossa libertação. Bem- constitui a mais estridente e ofensiva dissonância; é a mais re-
aventurados os que sofrem, Cristo vos disse. pugnante violação da ordem suprema em que repousamos e em
O progresso científico, principal fruto de vossa época, ainda cuja harmonia vibramos felizes. Não procureis semelhante
avançará no campo material. Está, entretanto, acumulando ener- prova; reconhecei-a, antes, na qualidade da minha palavra.
gias, riquezas, instrumentos para uma nova e grande explosão.
Imaginai a que ponto chegará o progresso mecânico, ampliando- A todos digo: Paz!
2 GRANDES MENSAGENS Pietro Ubaldi
II. MENSAGEM DA RESSURREIÇÃO alegria, e a alegria lhe voltará. Da outra margem da vida, outras
(PÁSCOA DE 1932) forças velam por ti e te estendem os braços, mais do que tu an-
siosas pela tua felicidade.
De além do tempo e do espaço chega minha voz. É uma voz Falei com o coração ao homem de coração. Falarei agora à
universal que fala ao mundo inteiro e verdadeira permanece inteligência.
através dos tempos. A verdade não pode sofrer mudanças se Tendes, ó homens, a liberdade de vossas ações, nunca a de
olhada por esta ou aquela nação, se observada por uma raça ou suas consequências. Sois senhores de semear alegria ou dor em
outra, porque a alma humana é sempre a mesma em toda parte, vosso caminho, e não o sois de alterar a ordem da vida. Podeis
se examinada em sua profundeza. abusar, porém, se abusardes, a dor reprimirá o abuso. De cada
Venho a vós, na Páscoa, acima de tudo para iluminar e con- um de vossos males, fostes vós mesmos que semeastes as causas.
fortar, pois vos achais imersos numa vaga de dores. Crise a de- O maior erro de vossos tempos é a ignorância da realidade
nominais e a imaginais crise econômica. Eu, porém, vos digo moral, íntima orientação da personalidade, que é o fundamento
que se trata de uma crise universal, crise de todos os vossos va- da vida social.
lores morais, de todas as vossas grandezas. É o desmoronar-se O homem moderno se aproxima de seu semelhante para to-
de todo um mundo milenário. Digo-vos que a crise se encontra mar-lhe alguma coisa, nunca para beneficiá-lo. A vossa civiliza-
sobretudo em vossas almas; crise de fé, de orientação, de espe- ção, que é econômica, está baseado no princípio “do ut des”, que
ranças. É o vertiginoso momento de grandes mutações. é a psicologia do egoísmo. É a força econômica sempre a reger o
Trago-vos esperança, orientação, paz. A cada um falo hoje a mundo. A psicologia coletiva não é senão a soma orgânica dessas
palavra da verdade e do amor, palavra que não mais conheceis. psicologias individuais. A riqueza se acumula onde a força a
Quero reconduzir-vos às origens milenárias da fé com o intelecto atrai, e não onde a necessidade ou superiores exigências a recla-
novo, nascido de vossa ciência. No dia da ressurreição, repito- mam; não constitui instrumento de uma vida de justiça e de bem,
vos a palavra da ressurreição, a fim de que possais compreender mas sim máquina de poder, representando em si mesma um obje-
a dor e ultrapasseis as estreitas fronteiras de vossa vida. Comovi- tivo. A lei de equilíbrio é constantemente violada e impõe rea-
do, falo a cada um no sagrado silêncio de sua consciência. ções. Não dominais a riqueza, conduzindo-a a fins mais eleva-
Ó tu que lês, afasta-te por um momento dos inúteis ruídos dos; é a riqueza que vos domina.
do mundo e escuta! Minha voz não te atingirá através dos sen- Trabalhai, mas que o escopo do vosso trabalho não se reduza
tidos, mas, através desta leitura, senti-la-ás aflorar dentro de ti apenas a proveitos isolados e egoístas, e sim a frutificar no orga-
na linguagem de tua personalidade. Minha voz não chega, co- nismo social; somente então se formará aquela psicologia coleti-
mo todas as coisas, do exterior, contudo surgirá em ti, por ca- va, que é a única base estável da sociedade humana.
minhos desconhecidos, como coisa tua, da divina profundeza Fazei o bem, todavia lembrai-vos de que o pobre não deseja
que em ti existe e na qual também estou. propriamente o supérfluo de vossas riquezas, mas que desçais
O universo é infinito, e de longe venho, atraído pela tua dor. até ele, que partilheis de sua dor e, até, que a tomeis para vós,
Nada me atrai tanto como a dor, porque somente nela o homem em seu lugar.
se torna grande, se purifica e se redime, dirigindo-se para desti- Venerai o pobre; ele será o rico de amanhã. Apiedai-vos
nos mais elevados. É triste serdes assim golpeados, mas, so- do rico, que amanhã será o pobre. Todas as posições tendem
mente sofrendo, podeis compreender a realidade da vida. Exul- a inverter-se, a fim de que o equilíbrio permaneça constante.
ta, porque este é o esforço da tua ressurreição! A riqueza tende para a pobreza, e a pobreza para a riqueza.
A quem sofre eu digo: “Coragem! És um decaído que na Ai daqueles que gozam! Bem-aventurados os que sofrem!
sombra reconquista a grandeza perdida”. Esta é a Lei.
É a justa reação da Lei, que livremente transgredistes e que Não confieis no mundo, que rirá convosco enquanto tiver-
exige o retorno ao equilíbrio; instrumento de ascensão, a dor vos des força e bem-estar; confiai, antes, em mim, que venho quan-
aponta o caminho de que fugistes; impõe-vos reabrirdes vossa do sofreis e vos trago auxílio e conforto. Já vedes, hoje, que a
alma, fechada pelas alegrias fáceis que infelizmente vos cegam, dor realmente existe e que nem o ceticismo nem qualquer poder
para que alcanceis júbilos mais altos e verdadeiros. A dor é uma humano conseguem afastá-la.
força que vos constrange a refletir e a buscar em vós mesmos a Uma radical mudança verificar-se-á na sociedade huma-
verdade esquecida. É imposição de um novo progresso. na, a fim de que a vida não seja um ato de conquista, onde
Abraça com alegria esse grande trabalho que te chama a triunfe o mais forte ou o mais astuto, mas sim um ato de
realizações mais amplas. Se não fosse a dor, quem te forçaria a bondade e de sabedoria, em que seja vitorioso o mais justo.
evolver para formas de vida e de felicidade mais completas? Investigando-as com vossa ciência, achareis no íntimo das
Não te rebeles; pelo contrário, ama a dor. Ela não é uma coisas essa suprema lei de equilíbrio que vos governa;
vingança de Deus, e sim o esforço que vos é imposto para mais aprendereis que a bravura da vida não está em violar essa
uma conquista vossa. lei, semeando para vós mesmos reações de dor, porém em
Não a amaldiçoes, mas apressa-te a pagar o débito contraído segui-la, semeando efeitos de bem. Deveis também aprender
pelo abuso da liberdade que Deus te deu para que fosses consci- que o vencedor não é o mais forte – esse é um violador – e
ente. Abençoa essa força salutar, que, superando as barreiras hu- sim quem segue conscientemente o curso das leis e, sem vio-
manas, sem distinção, transpõe todas as portas, penetra o que é lência, se equilibra no seio das forças da vida. As religiões já
secreto, e fere, e comanda, e dispõe, e por todos se faz compre- o revelaram, entretanto não acreditastes; a ciência o demons-
ender. Abraça a dor, ama-a, e ela perderá sua força. Aceita a in- trará, todavia não desejareis ver. O momento é decisivo. Ai
dispensável escola das ascensões. Se te revoltares, tua força nada de vós se, nesta vitória de civilização material em que vi-
conseguirá contra um inimigo invisível, e a violência, em retor- veis, desejardes ainda perseverar no nível do bruto.
no, mais impetuosamente cairá sobre ti. Está maduro o mundo, mas, ao mesmo tempo, cansado de
Coragem! Ama, perdoa e ressuscita! Não procures nos ou- tentativas e experiências, do irresolúvel emaranhado de vossos
tros a origem de tua dor, mas sim em ti mesmo, e arrepende-te. expedientes; cansado de viver no momento, em face de um
Lembra-te de que a dor não é eterna, porém uma prova que du- amanhã repleto de incógnitas; e quer seriamente prever e resol-
ra até que se esgote a causa que a gerou. Tua dor é avaliada e ver os grandes problemas da vida, quer francamente olhar o fu-
não irá jamais além de tuas forças. O mundo foi criado para a turo, ainda que isso reclame uma grande coragem.
Pietro Ubaldi GRANDES MENSAGENS 3
O mundo tem necessidade da palavra simples e forte da mesmo, pela cobiça, que nunca descansa. Quantos esforços
verdade, e não de novas astúcias a rolarem por velhos cami- empregados para vos envenenar a vida!
nhos. O mundo espera essa palavra com ansiedade, como tam- Ama o trabalho, mas com espírito novo; ama-o, não pelo
bém a aguarda o momento histórico. que ele é propriamente, porém como um ato de adoração a
A psicologia coletiva tem o pressentimento, embora con- Deus, como manifestação de tua alma, nunca como febre de ri-
fuso, de uma grande mudança de direção; sente que o pensa- queza ou domínio. Não prendas tua alma aos seus resultados,
mento humano, não mais infantil, apresta-se para tomar as ré- que pertencem à matéria e, portanto, estão sujeitos à caducida-
deas da vida planetária e que o homem vai substituir o equilí- de; ama, porém, o ato, somente o ato de trabalhar. Não seja a
brio instintivo e cego das leis biológicas por outro equilíbrio, posse, o triunfo, a tua recompensa, mas sim a satisfação íntima
consciente e desejado. Por isso está buscando a luz, para que de haveres cumprido, cada dia, o teu dever, colaborando assim
seu poder não naufrague no caos. no funcionamento do grande organismo coletivo.
Não está longe de desaparecer vossa psicologia experimen- Esta é a única recompensa verdadeira, indestrutível, solida-
tal, que será substituída pela psicologia intuitiva; esta a muito mente tua; as demais depressa se dissipam e se perdem. Ainda
longe conduzirá vossa ciência. Novos homens divulgarão a que nenhum resultado positivo obtivesses, uma recompensa fi-
verdade; não mais serão mártires cobertos de sangue, nem se caria contigo para sempre: a paz do coração, paz que o mundo
assemelharão aos anacoretas de outrora, porém homens de inte- perdeu por prender-se às coisas concretas, julgando-as seguras.
ligência e de fé, que difundirão seus pensamentos utilizando-se Desapega-te de tudo, inclusive do fruto de teu trabalho, se
de moderníssimos recursos, homens que servirão de exemplo queres entrar na posse da paz. Ocupa-te das coisas da Terra,
no meio do turbilhão de vossa vida. mas apenas o suficiente para aprenderes a desapegar-te delas.
Despedaçai a férrea jaula que o passado para vós construiu, Toda construção deve localizar-se no teu espírito, deve ser
onde já não vos resta espaço. Ousai abandonar os velhos cami- construção de qualidades e disposições da personalidade, e
nhos, mas não ouseis loucamente, onde não há razão para ousa- não edificação na matéria, que é um remoinho de areia que
dias; ousai na direção do alto e nunca ousareis demasiadamen- nenhum sinal pode conservar.
te. Do grande mar de forças latentes, que não percebeis, imensa Tudo o que quiserdes vos seja unido eternamente deve ser
vaga levantará o mundo. unido por qualidades e merecimento, deve ser enlaçado pela
Até lá, guardai a fé! A vossa crise, se é profunda e dolorosa, força sutil da Lei, por vós movimentada, nunca por vossa força
fará, no entanto, nascer o homem novo do Terceiro Milênio1. exterior, ou por vínculos das convenções sociais ou ainda por
Para resolvê-la, recordai que ela é mal de substância, que não se liames da matéria. Só nesse sentido se pode realmente possuir;
debela corrigindo a forma, como procurais fazer. Para solucio- de outro modo, não obtereis senão a tristeza depois da ilusão e a
ná-la, é necessário considereis o problema em sua substância; e consciência posterior da inutilidade de vossos esforços.
sua substância é o homem, sua psicologia, sua alma, onde se Outro grande problema que vos diz respeito é o amor. Ele-
encontra a motivação de suas ações, a fonte original dos acon- vai-vos em amor, como deveis elevar-vos em todas as coisas,
tecimentos humanos. Eis aí a chave do futuro. se quereis encontrar profundas alegrias. Martelai vossa alma,
Vosso multimilenário ciclo de civilização está a esgotar-se; num íntimo trabalho de cada dia, que vos leva à conquista de
deveis retomá-lo em nível mais elevado, vivê-lo mais profun- amores sempre mais extensos, únicos que têm a resistência
damente, não somente crendo, mas também “vendo”. das coisas eternas.
Ai de vós se, depois de haverdes atingido o domínio do pla- Sabes que o amor se eleva do humano ao divino e que nes-
neta, não dominardes a máquina, a riqueza e as vossas paixões sa ascensão ele não se destrói, mas se fortalece, aperfeiçoando
com um espírito puro. e multiplicando-se. Segue-me e, então, poderás entoar o cânti-
Sois livres e podeis também retroceder. No período que resta co do amor:
deste século se decidirá do Terceiro Milênio. Ou vencer, ou mor- “Meu corpo tem fome, e eu canto; meu corpo sofre, e eu
rer; e a morte, desta vez, é a morte pior, porque é morte de espíri- canto; minha vida é deserta, e eu canto; não há carícias para
to. A todos eu digo: “Ressuscitai com a minha ressurreição”. mim, porém todas as criaturas vêm a mim. Meu irmão de mim
se aproxima como inimigo, para prejudicar-me, e eu lhe abro
III. MENSAGEM DO PERDÃO os braços em sinal de amor. Eu vos bendigo a todos vós que
Dia do “Perdão da Porciúncula” de São Francisco me trazei dor, porque com ela me trazeis a purificação, que
(2 de Agosto de 1932) me abre as portas do Céu. Minha dor é um cântico que me faz
subir, louvado sejas, ó Senhor, pelo que é a maior maravilha
Filho meu, minha voz não despreza tuas pequeninas coisas da vida; que as pobres intenções malignas de meu próximo se-
de cada dia, mas delas se eleva para as grandes coisas de todos jam para mim a Tua bênção”.
os tempos. Estes meus ensinamentos são dirigidos mais à vossa intui-
Ama o trabalho, inclusive o trabalho material. ção que ao vosso intelecto. Tem um sentido mais amplo o que
Coisa elevada e santa, o trabalho, presentemente, foi vos tenho dito; a felicidade dos outros é vossa única felicidade
transformado em febre. De que não se tem abusado entre verdadeira e firme. Significa extinção dos egoísmos num am-
vós? Que coisa ainda não foi desvirtuada pelo homem? Em plexo universal de altruísmo. Tudo isso pode ser de fácil com-
tudo vos excedeis e, por isso, ignorais o labor equilibrado, preensão, mas é difícil senti-lo. Não procuro vossa razão, que
que tão elevado conteúdo moral encerra; se busca o necessá- discute, antes busco essa visão interior que em vós opera, que
rio ao corpo, ao mesmo tempo contenta o espírito. E, no en- sente por imediata concepção, que enxerga com absoluta clare-
tanto, transformastes esse dom divino, com o qual poderíeis za e lealmente se entrega à ação.
plasmar o mundo à vossa imagem, em tormento insaciável Peço-vos o ímpeto que somente nasce do calor da fé e que
de posse. Substituístes a beleza do ato criador, completo em si nunca vem pelos tortuosos caminhos do raciocínio. Não desejo
1 erudição, pesquisas e vitórias do intelecto; quero, antes, que ve-
O argumento do “homem novo do Terceiro Milênio”, produto bioló-
gico da evolução e tipo normal da super-humanidade do futuro, é am- jais num ato sintético de fé e que imediatamente vivais vossa vi-
plamente desenvolvido em A Nova Civilização do Terceiro Milênio. A são, e personifiqueis a ideia avistada, e resplendais em vós mes-
Grande Síntese também se refere ao homem espiritual do próximo mi- mos seu esplendor. Somente então a ideia viverá na Terra e, per-
lênio, nos Caps. 78, 83, 84, 85 etc. sonificado em vós, existirá um momento da concepção divina.
4 GRANDES MENSAGENS Pietro Ubaldi
Não estou apelando para vossos conhecimentos nem para Não discutais, mas dai o exemplo de virtude na dor, amai vos-
vosso intelecto, que não são patrimônios de todos, mas venho so próximo; aprendei a estar sempre prontos para prestar um
até junto de vós por caminhos inabituais e em vós penetro como auxílio, em qualquer parte onde haja um padecimento a alivi-
um raio que desce às profundezas e dissipa as trevas, que cintila ar, uma carícia a oferecer. Vossas eruditas investigações tor-
e vos arrasta através de novas vias, com forças novas, que le- naram tão ásperas vossas almas, que não vos permitiram
vantarão o mundo como num turbilhão. avançar um só passo para o céu.
Também falarei, para ser entendido, a linguagem fria e cor- Não venho para agredir, mas para ajudar; não para dividir,
tante da razão e da ciência, porém usarei, acima de tudo, da lin- mas unir; não demolir, mas edificar. Minha palavra busca a
guagem ardente e direta da fé. Minha palavra será ora o brado bondade, antes que a sabedoria. Minha voz a todos se dirige.
de comando, ora a ternura de um beijo de mãe. Ela é ampla como o universo, solene como o infinito. Descerá
Para ser por todos compreendida, minha palavra percorrerá aos vossos corações, às vezes com a doçura de um carinho, ou-
os extremos de sabedoria e de singeleza, de força e de bondade. tras vezes arrastadora como o tufão.
Será pranto de amargura e remoinho de paixão; será nostálgico ◘ ◘ ◘
lamento, suspirando por uma grande pátria distante, como será Do alto e de muito longe venho até vós. Não podeis perce-
também ímpeto de ação para até ela conduzir-vos. Minha pala- ber quão longo é o caminho que nós, puro pensamento, deve-
vra rolará, por vezes, como regato sussurrante em verde campi- mos percorrer, a fim de superar a imensa distância espiritual
na, a vos trazer o frescor das coisas puras; outras vezes troveja- que nos separa de vós, imersos na terra lodosa. Vossas distân-
rá como os elementos enfurecidos na fúria da tempestade. cias psicológicas são maiores e mais difíceis de serem vencidas
Ao seio de cada alma quero descer e adaptar-me, a fim de que as distâncias de espaço e tempo. Por isso, às vezes, chego
ser compreendido; para cada uma devo encontrar uma palavra fatigado. Minha fadiga, porém, não é cansaço físico; provém
que a penetre no mais íntimo, que a abale, que a inflame e a apenas do desalento que me nasce de vossa incompreensão. E,
arroje para o alto, onde eu estou, que até junto de mim a con- no entanto, minha palavra tem a doçura da eternidade e do infi-
duza, onde eu a espero. nito. Tem a tonalidade tão ampla como jamais possuiu a voz
Almas, almas eu peço, para conquistá-las vim das profunde- humana; deveríeis, por isso, reconhecer-me.
zas do infinito, onde não existe espaço nem tempo, vim ofere- Venho a vós cheio de amor e de bondade, e me repelis. Eu,
cer-vos meu abraço, vim de novo dizer-vos a palavra da ressur- que vejo os limites da história de vosso planeta; eu, que num
reição, para vos elevar até mim, para vos indicar um caminho rápido olhar vejo sem esforço toda a laboriosa ascensão desta
mais elevado, onde encontrareis as alegrias puras. humanidade cujo pai sou; eu me faço pequenino hoje, limito-
Vós vos identificastes de tal modo com a vida física, que já me e me encerro num átimo de vosso momento histórico, para
não podeis sentir senão uma vida limitada como a do vosso que possais compreender-me.
corpo. Pobre vida, rápida e cheia de incertezas, enclausurada Se vos falasse com minha voz potente, não me entenderíeis.
nas limitações de vossos pobres sentidos. Pobre vida, encerrada Meu olhar contempla a Terra quando o homem ainda não a ha-
num ataúde, na sepultura que é o corpo a que tanto vos agarrais. bitava, e também a vê no futuro distante, morta, a navegar no
Minha voz encerrará todos os extremos de vossas diferentes espaço como um ataúde de todas as vossas grandezas. Vejo
psicologias. Escutai-me! vosso sol moribundo, depois morto e, em seguida, chamado a
Não vos ensino a gozar das coisas terrenas, porque são ilu- uma nova vida. Vejo, além desse átomo que é o vosso planeta,
sórias; indico-vos as alegrias do céu, porque somente estas são uma poeira de astros a revolutearem sem cessar pelos espaços
verdadeiras. Minha verdade não é a fácil verdade do mundo; infinitos, e todos eles transportando consigo humanidades que
não vos prometo alegrias sem esforços, mas minha promessa lutam, sofrem, vencem e se elevam; tudo vejo, tudo leio nos
não vos ilude. Meu caminho é caminho de dor, porém eu vos vossos corações, como nos corações de todos os seres.
digo que somente ele vos conduzirá à libertação e à redenção. Além do vosso universo físico, vejo um maior universo
Minha estrada é de luta e de espinhos, mas vos fará ressurgir moral, onde as almas, na sua laboriosa ascensão, cumprindo
em mim, que vos saciarei para sempre. Não vos digo: “Gozai, seu diuturno esforço de purificação para o Alto, cantam o
gozai”, como o mundo vos fala. O mundo, porém, vos engana, mais glorioso hino à Divindade. Esplendorosa luz existe no
eu não vos enganaria nunca. centro moral do universo, luz que atrai todos os seres por
Minha verdade é áspera e nua, contudo é a verdade. Peço o uma força de gravitação moral mais poderosa do que aquela
vosso esforço, mas dou a felicidade. Digo-vos: “Sofrei”, mas que mantém associadas no espaço as grandes massas planetá-
junto de vós estarei no momento da dor; com piedade maternal rias e estelares. Tudo vejo, mas nada falo, para não vos per-
velarei por vós; medindo todo o vosso esforço, proporcionarei turbar. Tudo vejo, e minha mão possante firma o destino dos
as provas segundo vossa capacidade; finalmente, farei o que o mundos. Poderia mudar o curso dos astros, mas nós somos
mundo não faz: enxugarei vossas lágrimas. lei, ordem e equilíbrio e não aprovamos violações. Empunho
O mundo parece espargir rosas, mas, na verdade, distri- o destino dos povos e, no entanto, venho humildemente até
bui espinhos; eu vos ofereço espinhos, porém vos ajudarei a vós, para entre vós colher o perfume que se desprenda de
colher rosas. uma alma simples. Esse é meu único conforto quando desço
Segui-me, que o exemplo já vos dei. Levantai-vos, ó ho- ao vosso mundo, às camadas profundas e obscuras de matéria
mens, é chegado o momento. Não venho para trazer guerra, densa, formadas de coisas baixas e repugnantes. Aquele per-
mas sim paz. Não venho trazer dissensão às vossas ideias nem fume parece perder-se na vossa atmosfera carregada de ema-
às vossas crenças, venho fecundá-las com meu espírito, unificá- nações perniciosas, como que vencido pelas forças envolven-
las na minha luz. tes do mal. No entanto eu o percebo, elegendo-o, e o recolho
Não venho para destruir, e sim para edificar. O que é inú- como se fosse uma joia humilde e gentil, desabrochada na
til morrerá por si mesmo, sem que eu vos dê exemplo de lama, para guardá-lo em meu coração, onde ele repousará. É
agressividade. o único carinho que encontro em vosso mundo, o único hino
Desejaríeis sempre agredir, até mesmo em nome de Deus. puro e singelo que me faz descansar. Como a criancinha re-
Com que grande avidez ansiais por discussões e lutas contra pousa aos cânticos de sua mãe, que lhe parecem os mais be-
vossos próprios irmãos, prontos a profanar, assim, minha pura los, assim me acalento, invadido por infinita doçura, no seio
palavra de bondade. Repito-vos: “Amai-vos uns aos outros”. dessas vozes humildes dispersas em vosso mundo.
Pietro Ubaldi GRANDES MENSAGENS 5
Essa é a única trégua em meio ao trabalho de iluminar e Minha voz conduzirá vosso coração a um êxtase que ne-
guiar-vos, ó homens rebeldes, que acreditais dominar, e sois nhuma vitória material nem qualquer grandeza do mundo ja-
dominados, que pensais subir, mas, na verdade, desceis. Eu mais vos poderá dar.
poderia, contudo, atemorizar-vos por meio de prodígios, ater- Como um clarão intuitivo, minha luz espargirá sobre vós
rorizar-vos com cataclismos. Convencer-vos-ia, no entanto? uma compreensão a que os laboriosos processos de vossa razão
Minha mão se levanta sobre vós, que sois maus, como uma não chegarão jamais. A razão, filha do raciocínio, discute e cal-
bênção, nunca para vinganças. cula, mas eu sou o clarão que em vós se acende e pode, num
Escutai com atenção esta grande palavra: desejo que o equilí- átimo, transformar-vos em heróis. Aceitai, suplico-vos, este su-
brio, violado pela vossa maldade, se restabeleça pelos caminhos premo dom que vos ofereço e pelo qual vim de tão longe até
do amor, e não pelo castigo. Compreendeis a grande diferença? junto de vós; aceitai esta dádiva esplêndida, que é a minha paz.
Eis as razões da minha intervenção, da minha presença É a bem-aventurança do Céu que vos trago de mãos cheias; é a
entre vós. felicidade que coisa alguma terrena jamais vos poderá dar. Re-
A Lei quer o equilíbrio. É a Lei. Vós a desrespeitastes com conhecei a minha paz! Para recebê-la, abri todas as portas de
vossas culpas, ultrajando assim a Divindade. O equilíbrio “de- vossa alma! Dela saciai-vos, com ela inebriai-vos! É um dom
ve” restabelecer-se, a reação “deve” verificar-se, o efeito “de- imenso que vos trago do seio de Deus, é uma graça com que o
ve” acompanhar a causa por vós livremente buscada. meu imenso amor recompensa a vossa ingratidão.
Deus vos quer livres, já o sabeis. Pois bem, eu venho para Até vós eu venho, trazendo os mais lindos dons, para der-
que o equilíbrio se restabeleça pelos caminhos do amor e da ramar sobre vossas almas a verdadeira felicidade. Venho para
compreensão; venho para incitar-vos, com palavras de fogo, ao suavizar a justiça divina. Fiz longa e fatigante viagem, do meu
entendimento, estimular-vos a retomar livremente a via da re- céu radioso às vossas trevas. Vim espontaneamente, pelo
denção; finalmente, venho ensinar-vos a fazer de vossa liberda- amor que vos consagro. Não renoveis as torturas do Getsêma-
de um uso que vos eleve e salve, e não que vos rebaixe e con- ne, as angústias da incompreensão humana, os tormentos de
dene. Venho tornar-vos conscientes dessa lei que vos guia e da um imenso amor repelido.
maneira de restaurardes a ordem violada, a fim de que essa vio- Quem sou eu, perguntais-me.
lação não venha a recair sobre vós, como tremendo choque de Sou o calor do sol matinal que vela o desabotoar da florzi-
retorno, que destruirá vossa civilização. nha que ninguém vê; sou o equilíbrio que, na variação alternada
Venho para vos salvar, para salvar o que de melhor possuís, dos elementos, a todos garante a vida. Sou o pranto da alma
o que fatigosamente os séculos têm acumulado, ao preço de quebrantada, em que desabrocha a primeira visão do divino.
muitas dores e de muito sangue. Sou o equilíbrio que, nas mudanças dos acontecimentos morais,
Entre a necessidade férrea da Lei, que, inexoravelmente, a todos promete salvação. Sou o rei do mundo físico de vossa
volve ao equilíbrio, interponho hoje o meu amor e a minha luz, ciência; sou o rei do mundo moral que não vedes.
como já interpus a minha dor e o meu martírio! Sempre me procurais em toda a parte. Sempre mais profun-
Homens, tremei! É supremo o momento. É por motivos su- damente vos escapo, de fibra em fibra nas vossas mesas de ana-
premos que do Alto desço até vós. Escutai-me: o mundo será tomia, de molécula em molécula nos vossos laboratórios. Vós
dividido entre aqueles que me compreendem e me seguem e me procurais, dilacerando e dissecando a pobre matéria, mas eu
aqueles que não me compreendem e não me seguem. Ai destes sou espírito e animo todas as coisas. Não com os olhos e os ins-
últimos! Os primeiros encontrarão asilo seguro em meu coração trumentos materiais, mas somente com os olhos e os instrumen-
e serão salvos; sobre os outros a Lei, não mais compensada pe- tos do espírito podereis encontrar-me.
lo meu amor, descerá inelutavelmente, e eles serão arrastados Sou o sorriso da criança e a carícia materna; sou o gemido
por um vendaval sem nome para trevas indescritíveis. daquele que corre implorando salvação; sou o calor do primeiro
Não vos iludais, reconhecei a minha voz. Reconhecei-a pe- raio de sol da primavera, que traz a vida; sou o vendaval que
la sua imensa tonalidade, pela sua bondade sem fronteiras. traz a morte; sou a beleza evanescente do momento que foge;
Algum homem, porventura, já falou assim? Falo-vos de coisas sou a eterna harmonia do universo.
singelas e elevadas, de coisas boas e terríveis. Sou a síntese de Sou amor, sou força, sou ideia, sou espírito, que tudo vivifi-
todas as verdades. ca e está sempre presente. Sou a lei que governa o organismo
Não me oponhais barreiras de vossas almas, mas escutai, do universo com maravilhoso equilíbrio. Sou a força irresistível
ponderai, deixai que este raio de luz que vem de Deus desça à que impulsiona todos os seres para a ascensão. Sou o cântico
vossa consciência e a ilumine. Eu vo-lo rogo, humilhando-me imenso que a criação entoa ao Criador.
em vossa presença; humildemente, para vossa salvação, eu vos Tudo sou e tudo compreendo, até o mal, porquanto o envol-
suplico: escutai a minha voz! vo e o limito aos fins do bem. Meu dedo escreve, na eternidade
Que sobre vós desça a paz. A paz! A paz, que não mais e no infinito, a história de miríades de mundos e vidas, traçando
conheceis, venha sobre vossas almas! Entre vós e a divina jus- o caminho ascensional dos seres que para mim se voltam, seres
tiça está minha oração: “Deus, perdoa-lhes, porque não sabem que atraio com meu amor e que recolherei na minha luz.
o que fazem”. Muitos mundos já vi antes do vosso, muitos verei depois de-
Pobres seres perdidos na escuridão das paixões; pobres se- le. Vossas grandes visões apocalípticas, para mim, são peque-
res que tomais por luz verdadeira o ouropel fascinador das coi- ninas encrespaduras nas dimensões do tempo. Virei, entre raios
sas falsas da Terra! Pobres seres, maus e perversos! E, no en- de tempestade, para dobrar os orgulhosos e elevar os humildes.
tanto, sois meus filhos e por amor de vós de novo subiria à cruz Virei vitorioso na minha glória e no meu poder, triunfante do
para vos salvar. Pobres seres que, numa vitória efêmera de ma- mal, que será rechaçado para as trevas.
téria, que chamais civilização, haveis perdido completamente o Tremei, porque quando eu já não for o amor que perdoa e
único repouso do coração – a minha paz. vos protege, serei o turbilhão que tempestua, serei o desencade-
Escutai-me. Falo-vos com amor, imenso amor. Fui por vós ar dos elementos sem peias, serei a Lei, que, não mais domina-
insultado e crucificado, e vos perdoei; perdoo-vos ainda e ainda da pela minha vontade, trazendo consigo a ruína, inexoravel-
vos amo. Trago-vos a paz. Até junto de vós retorno para vos fa- mente explodirá sobre vós.
lar de uma ciência que a vossa não conhece, para vos pronunci- Tudo é conexo no universo: causas físicas e efeitos morais,
ar a palavra que nenhum homem sabe falar, palavra que vos sa- causas morais e efeitos físicos. Um organismo aglutinador vos
ciará para sempre. Escutai-me. envolve e nele estais presos em cada ato vosso.
6 GRANDES MENSAGENS Pietro Ubaldi
Minha poderosa mão firma o destino dos mundos e, no en- Em vez disso, que triste espetáculo! A palavra de unidade sub-
tanto, sabe descer até à mais humilde criancinha para lhe suster dividiu-se, o rebanho está desunido, os filhos de Cristo já não
carinhosamente o pranto. Essa é minha verdadeira grandeza. são irmãos, mas inimigos!
Ó vós que me admirais, tímidos, no ímpeto da tempestade, É chegada a hora de despertardes à luz de uma consciência
admirai-me, antes, no poder que tenho de fazer-me humilde pa- maior. O tempo maturou o momento de grandes abalos, inclu-
ra vós, no saber descer do meu elevado reino à vossa treva; ad- sive no campo do espírito. E, no momento decisivo, eu venho
mirai-me nessa força imensa que possuo de constranger meu lançar no mundo a ideia decisiva. Venho vos reunir todos, ó
poder a uma fraqueza que me torna semelhante a vós. cristãos do mundo, a fim de que, acima da forma que vos divi-
Não vos peço que compreendais meu poder, que me situa de, vos aconchegueis em torno da figura de Cristo e encontreis
longe de vós; rogo-vos que compreendais o meu amor, que de novo uma unidade substancial.
me assemelha a vós e me coloca ao vosso lado. Meu poder Isso vos digo em Seu nome, quando se completam deze-
poderá desalentar-vos e atemorizar-vos, dando-vos de mim nove séculos de Sua morte e a história se encaminha para o
uma ideia não justa, de um senhor vingativo e despótico. Não Terceiro Milênio. Digo-vos que deveis abraçar-vos novamen-
quero vossa obediência por temor. Agora deve despontar uma te em face da ameaça do iminente momento histórico, a fim
nova aurora de consciência e de amor. Deveis elevar-vos a de que vossa união constitua uma barreira contra o mal, que
uma lei mais alta, e eu retorno hoje para anunciar-vos a boa se prepara para desencadear um tremendo ataque. As grandes
nova. Não sou um senhor vingativo e tirânico, como outrora, lutas exigem grandes unificações.
por necessidade, me supuseram os povos antigos; sou o vosso Não toco em vossas divisões de forma, mas enfatizo a subs-
amigo, e é com palavras de bondade que me dirijo ao vosso tância da ideia de Cristo, de que todas vossas crenças nasceram.
coração e à vossa razão. Quero que se vivifique a fé, desfalecente em vossas almas; que
Não mais deveis temer, mas sim compreender. Vossa razão se reanime a fé nas coisas eternas, já escritas com tanta simpli-
infantil já acordou, e nela venho lançar minha luz. Sou síntese cidade; que de novo viva o singelo espírito do Evangelho e vos
de verdade, e em toda a parte ela surgirá, atingindo a luz da torne todos irmãos. É somente disso que o mundo precisa, e es-
vossa inteligência. sa é a solução para todas as crises. Não são necessários novos
Não trago combates, mas paz. Não trago divisões de consci- sistemas; é preciso que surja o homem novo.
ência, e sim união de pensamentos e de espíritos. Eu venho para unir, não para dividir; trago paz, e não
A humanidade terrestre aproxima-se de sua unificação, numa guerra. Não toco em vossas organizações humanas, mas vos
digo: amai-vos em nome do Cristo, e vossas organizações se
nova consciência espiritual. Não vos insulteis, pois; antes, com-
tornarão perfeitas.
preendei-vos uns aos outros. Que cada um concorra com o seu
Antes do início do novo milênio, todos os valores humanos
grãozinho para a grande fé, e que esta vos torne todos irmãos.
sofrerão uma grande revisão e a fé se enriquecerá com a contri-
Que a religião, que é revelação minha, e a ciência, que é
buição da razão e da ciência. Na iminência dos tempos, que to-
o vosso esforço, e todas as vossas intuições pessoais se
da a cristandade volva seu olhar para o farol de Cristo.
unam estreitamente numa grande síntese, e seja esta uma
Vinde todos vós, ó homens que vos iludis pensando possuir
síntese de verdade.
uma verdade diferente. Deus é a verdade única, substancial-
Porque eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. mente idêntica em todas as religiões, na ciência como na fé.
Se os caminhos, as aproximações são diferentes, o princí-
IV. MENSAGEM AOS CRISTÃOS pio e a meta são a mesma ideia pura e simples do amor frater-
(No XIX Centenário da Morte de Cristo) nal, ideia tanto dominante no Evangelho como no universo.
Os profetas afirmaram com variação de poder e aspectos o
Ó cristãos do mundo inteiro, que tendes feito, em deze- mesmo princípio.
nove séculos de trabalho, pela realização, na Terra, do Reino A humanidade se encaminha para as grandes unidades polí-
dos Céus? ticas e espirituais. Que não surjam novas religiões, e sim que as
Ao lado da criação de uma civilização, da direção milenária existentes se unifiquem numa fusão de fé que envolverá o
dada ao pensamento humano, de obras colossais da arte, de mundo. O progresso se encontra no amor recíproco, que une, e
uma multidão de mártires, gênios e santos, ao lado de todo bem nunca na rivalidade, que divide.
que o cristianismo tem trazido por força da divina centelha que Paz, união e amor sejam convosco na minha bênção.
o anima, quanto mal proveniente da fraqueza humana, em cujo
meio tem operado! Quanta resistência tendes oposto a esse di-
V. MENSAGEM AOS HOMENS DE BOA VONTADE
vino impulso que anseia por elevar-nos! Quanta tenacidade
vossa para permanecerdes substancialmente pagãos! Quantas (No XIX Centenário da Morte de Cristo)
tempestades não tem o homem desencadeado, com suas pai-
xões, em torno da nave da Igreja de Roma! Do alto da cruz vos contemplo, homens de boa vontade, de
A dura necessidade de comprimir o incoercível pensamento todas as raças e crenças. Estas vos dividem; a minha palavra
na forma, em regras disciplinares, e de cobrir a verdade res- vos unifica.
plandecente com um véu de mistério, foi imposta por vosso ins- Não falo somente aos cristãos, porém a todos os meus fi-
tinto de rebeldia, que, de outro modo, teria levado o princípio lhos, que são os justos da Terra, qualquer que seja sua raça ou
original a fragmentar-se no caos. fé. Falo a todos, não considerando vossas diferenciações huma-
Algumas elevadas verdades que o cristianismo contém não nas. Minha palavra é universal como a luz do sol. A Divindade
puderam exercer ação senão por motivo de imaturidade dos não se pode isolar numa igreja particular. Eu vos digo o que é
homens; certas liberdades não podem ser concedidas àqueles verdadeiro e justo, e o que vos falo perdura a quem quer que se-
que estão sempre prontos a abusar de tudo. Que imenso esfor- ja dito. A mentira que me desfigura passa, eu permaneço. Não
ço, que longo caminho deve percorrer a ideia divina até poder importa que a bondade seja explorada pelos maldosos; o Bem
concretizar-se na Terra! acaba triunfando. Eu amo a todos.
Nunca vos interrogastes que imensa força moral representa- Vós, homens, buscais bandeiras limpas para transformá-las
ríeis no mundo se fôsseis verdadeiramente cristãos? Nunca a em mantos brilhantes. E quem pode impedir que, em vosso
vós mesmos perguntastes que paraíso seria a Terra se houvés- mundo de hipocrisias, os maus se escondam à sombra das coi-
seis compreendido e praticado a boa nova do amor evangélico? sas puras e que os falsos se acobertem sob os luzentes mantos de
Pietro Ubaldi GRANDES MENSAGENS 7
que se apossam? Então, as crenças e as religiões deixam de ser Tende fé, e a fé vos fará superar todas as provas. Deus as
uma ideia, um princípio, para se tornarem um aglomerado de permite para que aprendais a usar de vossa liberdade, e não
interesses, uma organização de castas. para vossa destruição. Não vos desgarreis no caos, que é só
Assim, formastes hierarquias, seitas, ordens e grandezas que aparente. Imersos como estais no pormenor, na aflição, na fa-
não têm correspondência no Céu. Vossas classificações são ab- diga, não enxergais e não compreendeis o bem que existe
solutamente humanas, fictícias, de acordo com as aparências da além da aparência do mal.
Terra, e não com os valores intrínsecos do espírito. Por isso fi- Deus, no entanto, invisível e onipresente, está ao vosso la-
carão aí em vosso mundo e nunca se elevarão além da Terra. do, caminha convosco, acompanha os vossos passos e vos guia;
Minha discriminação é diferente. Os escolhidos são aque- sempre vos provê, além da aparente desordem, com a ordem
les que seguem meu caminho de dor e de renúncia, de humil- imensa e eterna de Suas sábias leis. Sua mão se inclina para o
dade e de amor. Vinde a mim, vós que sofreis. Sois os gran- humilde, para o fraco, para o vencido, a fim de erguê-lo de no-
des, os eleitos do Céu. Esta é a minha diferenciação. As que vo. Que vos conforte esta afirmação de uma divina lei de justi-
são feitas pelos homens não têm valor. Não importa o manto, ça acima da lei humana da força.
mas o homem que a veste. Somente no caminho da dor e do Diante de dois caminhos vos deixei, e fizestes a escolha. O
amor encontrareis os que são grandes no meu Reino. Eis onde, mundo tem a prova que livremente desejou.
na luta absurda entre tantas vozes e organismos contrários, Desde que vos deixei, o mundo tem percorrido velozmente
achareis o bem, a justiça e a verdade. o caminho da história. O mais profundo caminho e a mais pro-
Em toda parte, nos vossos agrupamentos, se encontram veitosa lição se encontram na dor, escola e sanção de Deus.
os bons e os maus; estes últimos, quase sempre, preocupados Repousareis. Assim é necessário, a fim de que os resultados
em tornar objeto de discussão uma verdade que não possu- do esforço desçam em profundidade e sejam assimilados. Não
em. A verdade está no coração e nos atos, e não nas formas e vos detenhais, no entanto, nos pormenores do momento ou do
nas posições humanas. caso particular, que não constituem toda a vida. Esta se encon-
Procurai o bem; procurai, onde quer que esteja, o ho- tra nas grandes trajetórias de desenvolvimento da Lei, em que
mem, nunca o estandarte. Fazei questão do homem, da nua e se exprime o pensamento de Deus.
intrínseca realidade de seus valores íntimos, e não dos sinais Somente se vos elevardes, encontrareis a verdade universal,
que o marquem exteriormente. Estes se podem falsificar, não imóvel no movimento, a justiça perfeita. Somente se vos trans-
o homem. A bandeira pode reduzir-se a um índice de inte- portardes acima das contingências do momento e do lugar,
resses coletivos; o homem, porém, segue sozinho pelo cami- achareis a completa liberdade, a tranquilidade do absoluto, a
nho de seu destino. paz que está acima da vitória ou da derrota, a verdadeira paz,
Justos e injustos se encontram sobre a Terra, uns ao lado tão distante das coisas humanas.
dos outros, para provações recíprocas; achá-los-eis juntos, Elevar-se é a grande meta da vida – elevar-se pelos ca-
usando todos o mesmo nome da verdade. Somente eu, que leio minhos do espírito – e esse trabalho, sempre possível e livre,
nos corações, os diferencio, como também pode fazê-lo a voz pode ser seguido e levado a termo em qualquer época ou lu-
da vossa consciência, em que penetro e falo. gar. Ninguém, em nenhum caso, pode tolher a liberdade de
Os meus filhos estão, por isso, em toda a parte, contudo não vos construirdes a vós mesmos, avançando assim em quali-
os sabeis enxergar. Só eu os vejo. A dor e a morte, que matam dade e poder. E esta ascese é o que mais importa; é para
os outros, os elevam. A minha maneira de diferenciar está aci- atingi-la que sofreis as provas da vida.
ma de todas as categorias humanas. Após cada curva da história, obtém-se seu sumo, sua verda-
O meu reino não é da Terra. O meu reino não tem corpo deira colheita, que é a ascensão.
físico. Os seus grandes nada possuem no mundo, mas sofrem As verdadeiras riquezas não se encontram fora de vós: estão
e amam. em vosso íntimo e são elas que vos fazem mais poderosos e fe-
Minha religião mais profunda não tem forma terrena, não lizes. São os vossos bons predicados, que nunca se perderão, e
possui nenhuma dessas exterioridades próprias da matéria e não vossas posses materiais, que hão de desaparecer.
da imperfeição humana, que sempre foram a base de todos Qualquer que seja o turno de vencedores ou vencidos, suce-
os abusos. der-se-ão, como vaga após vaga, as multidões dos que sofrem e
O meu altar é a dor, a minha oração é o amor, a minha reli- dos que gozam; e o triunfo pode ser instrumento de perdição e a
gião é a união com Deus no pensamento e nos atos. desventura, de ressurreição. Nenhuma vida, como nenhuma
Acima de todas as formas que vos dividem, ó homens da força, pode ser anulada; tudo sobrevive, transformando-se.
Terra, eu sou o princípio que vos une ao meu amor. Substancialmente, a guerra a ninguém destrói.
Minha palavra, repetindo a lei de Deus, que rege a vida e es-
tá acima do mundo e de suas lutas, diz: ai de quem, possuindo
VI. MENSAGEM DA PAZ
apenas a superioridade da força, dela abusa, esquecendo a justi-
Escrita na Noite de Quinta-feira Santa, no Monte de Santo ça. Tudo é compensado na Lei e se paga com longas reações
Sepulcro, diante de Verna (Páscoa de 1943) sucessivas de ódios e vinganças.
A palavra do equilíbrio ensina ao vencedor que não é lícito
Minha última mensagem, pela Páscoa de 1933, XIX Cente- abusar da vitória, pois, por isso, se paga; e indica ao vencido os
nário da morte de Cristo, dirigida, em dois momentos, aos Cris- caminhos do espírito, em cuja liberdade é possível restaurar as
tãos e aos homens de boa vontade, foi minha derradeira palavra próprias forças em face de qualquer escravidão exterior. O pri-
naquele ciclo de preparação e esperança. meiro acomete as fronteiras naturais da força; o segundo, nas
Já se encontram amadurecidos muitos acontecimentos ali privações, encontra a liberdade.
preanunciados. O sol voltará a brilhar e a vida florescerá de novo, após a
Até junto de vós retorno nesta Páscoa de 1943, após dez tempestade. É lei de equilíbrio. O que importa, sobretudo, é que
anos, na violenta constrição de uma dor que parecia impossível aprendais a lição. Recordai: que cada um guarde, na profundeza
e, no entanto, se tornou realidade. Venho trazer conforto aos do espírito, com o poder de uma convicção, de uma qualidade
homens e aos justos, àqueles que creem. Venho dizer, no seio adquirida, o fruto de tantas provações. E que a nova floração da
tumultuoso da destruição universal, a equilibrada palavra de vida não irrompa numa algazarra louca de carne satisfeita, nu-
paz. É esta, por isso, a mensagem da paz. ma orgia de matéria triunfante.
8 GRANDES MENSAGENS Pietro Ubaldi
O escopo da guerra e o conteúdo da vitória não se acham Tendes hoje diante dos olhos um sistema completo, que,
no triunfo material, mas num triunfo no espírito, numa nova com um princípio unitário, soluciona todos os problemas e traz
civilização. resposta a todas as perguntas. Tendes hoje a orientação que vos
Ai de vós, se não houverdes aprendido a dura lição e não mu- fornece a chave para explicar os enigmas do universo. Podeis
dardes de roteiro. Se, em vez de subirdes pelos caminhos do espí- usá-la, desde já, também pessoalmente, para continuar a pes-
rito, voltardes a palmilhar as velhas estradas, haveis de recair sob quisa ao infinito no particular analítico. As gerações passarão,
as mesmas dolorosas consequências, cada vez mais graves. contemplando a ciclópica construção de pensamento elevada
Minha voz é universal e se desvia das dissensões humanas. para o Alto na hora do destino do mundo.
Tem às vezes, no entanto, necessidade de descer. Diz-se, então, Do vértice da pirâmide uma luz resplandecerá para iluminar
com escândalo: Deus é parcial. Mas existe uma balança, um re- o mundo: esta luz se chama Cristo.
flexo de justiça, uma ordem também na história, e nela devem E as gerações caminharão, caminharão pela interminável es-
atuar. A imparcialidade absoluta seria indiferença e ausência de trada do tempo e verão de longe o farol que lhes indica o rotei-
Deus. A justiça e a ordem, que são os princípios do ser, devem ro. E uns aos outros o indicarão, dizendo: “Coragem!”. Áspera
descer também à Terra e aí operar, pesando sobre o mal e ven- é a dor e longa a estrada da evolução, mas temos um condutor.
cendo-o no choque das forças. Do Alto, o Cristo nos olha e nos fala. Não estamos sozinhos.
De outro modo, Deus estaria somente no Céu, e não presente Ele está conosco. A Seus pés, como pedestal, está a pirâmide
e ativo também no mundo, entre vós, no meio de vossas lutas. do conhecimento, feita de pensamento, que é a Sua luz.
Estas são guiadas por Ele, a afim de que não se reduzam à abso- À fase mais elementar da fé sucedeu a fase mais avançada
luta destruição e caos, mas sejam instrumento de construção e de do conhecimento, com que se completa o amor. E, com o co-
bem. Ele os guia para que as provas e as dores do mundo redun- nhecimento, Cristo retorna à Terra para realizar o Seu Reino, há
dem no fruto que é a ascensão de espírito, objetivo de vida. vinte séculos fundado.
Deixo-vos, por isso, para conforto dos justos, estas verda- O ritmo das mensagens teve início no Natal de 1931, conti-
des: o vosso esforço, mesmo que não possa ser senão individual nuou no de 1932 e terminou na Páscoa de 1933 (XIX Centenário
e isolado, quando é puro e sincero e se dirige ao supremo esco- da morte de Cristo), só reaparecendo depois em ritmo decenal.
po da elevação espiritual, também se encontra na trajetória da A primeira mensagem apareceu no final de 1931, como o
vida. É, por isso, protegido e encorajado, porque essa é a traje- corpo de Cristo foi sepultado na tarde da Sexta-feira Santa.
tória ordenada pela lei de Deus. Por essa mesma lei, segundo a As mensagens continuaram a aparecer em 1932, como o
qual o universo está construído e que lhe regula o funcionamen- corpo de Cristo continuou a jazer no sepulcro no Sábado
to orgânico, as forças do mal, embora todas as dificuldades e
Santo. Terminaram com a última mensagem, na Páscoa de
resistências, jamais poderão prevalecer sobre as forças do bem.
1933, centenário de Sua morte, como seu corpo ressuscitou
É fatal, pois, o triunfo final do espírito, e no espírito vence-
na alvorada do 3 o dia. Retornaram depois em um ritmo de
reis. Essa vitória vale a imensa dor que é seu preço.
dez anos e agora completam vinte anos, equivalentes aos
Amplamente já está sendo executado o plano divino da vida.
vinte séculos transcorridos desde então.
Indico-vos estas harmonias, para fazer-vos compreender sua
VII. MENSAGEM DA NOVA ERA (NATAL DE 1953)
significação. Meu instrumento as ignorava e não as poderia ter
projetado, pois o Alto não lhas havia dado a conhecer. O que é
No silêncio da noite santa, como te falei pela primeira vez
harmônico desce do Alto, o que é dissonância provém de baixo.
para iniciar a obra, volto a falar-te agora, após tantos anos.
Retorno em meu ritmo decenal, iniciado na Páscoa de 1933 Esta mensagem de hoje corresponde ao fim do II Milênio e
com a “Mensagem aos Homens de Boa Vontade” e a “Mensa- vos lança nos braços do terceiro, da nova civilização. Isso corres-
gem aos Cristãos” e prosseguindo na Páscoa de 1943 com a ponde ao terceiro dia, na aurora do qual se deu a ressurreição.
“Mensagem da Paz”. Que esta imprevisível concordância de ritmos, que esta mu-
Desta vez, dez anos depois, neste 1953, volto a falar-vos, po- sicalidade também na forma da gênese da obra, constituam para
rém no Natal, porque este é dia de nascimento e esta é a mensa- vós uma prova da verdade.
gem nova; no Natal, como aconteceu em 1931, porque, após to- Esta mensagem vos lança nos braços do III Milênio; por is-
das as outras mensagens pascais, esta é a que conclui a série. so é ela a “Mensagem da Nova Era”. O mundo materialista está
Venho trazer-vos a palavra da esperança, porque no caos do freneticamente lutando pela sua autodestruição. O dragão será
mundo estão despontando as novas e primeiras luzes da alvora- morto pelo seu próprio veneno.
da. O tempo caminha, e já entrastes na segunda metade do sé- A vida, que jamais morre, está a preparar-se para substituir
culo, quando se realizará o que foi predito em minha primeira o mundo velho pelo novo: o reino do espírito, em cuja realiza-
mensagem, no Natal de 1931. ção Cristo triunfará. A humanidade tem esperado dois mil anos
Haveis entrado, assim, na fase de preparação ativa da nova pela Boa Nova, mas finalmente chegou a hora de sua realiza-
civilização. ção. A vida se utilizará das tempestades que as forças do mal se
Venho falar-vos na hora assinalada pelo ritmo que preside preparam para desencadear, a fim de purificar-se. Aproveitar-
ao desenvolvimento ordenado dos acontecimentos, de acordo se-á da destruição para reconstruir em nível mais alto.
com a vontade do Alto. Repito, assim, a palavra da primeira Mensagem do Natal de
O trabalho avançou, firme e constante, nestes vinte anos que 1931: “A destruição é necessária (...) Um grande batismo de
estão terminando, através de tempestades que destruíram na- dor é necessário, a fim de que a humanidade recupere o equilí-
ções e modificaram o mapa político do mundo; avançou, a tudo brio, livremente violado; grande mal, condição de um bem
resistindo, constante e firme, como sucede com as coisas dese- maior. Depois disso, a humanidade, purificada, mais leve, mais
jadas pelo Alto. O trabalho prosseguiu, escondido no silêncio, selecionada por haver perdido seus piores elementos, reunir-se-
protegido pela sombra da indiferença geral, aparentemente con- á em torno dos desconhecidos que hoje sofrem e semeiam em
fiado a um homem pobre e sozinho, com mínimos recursos silêncio, e retomará, renovada, o caminho da ascensão. Uma
humanos, vencendo apenas com as forças da sinceridade e da nova era começará; o espírito terá o domínio, e não mais a ma-
verdade, da maneira mais humilde e simples, enquanto as vos- téria, que será reduzida ao cativeiro (...)”.
sas maiores organizações humanas se desmoronavam. Hoje o Encontrais, assim, as mesmas palavras, no princípio como no
milagre se cumpriu. Esta é para nós a prova de verdade. fim. Hoje, porém, estais vinte anos mais avançados no tempo, is-
Pietro Ubaldi GRANDES MENSAGENS 9
to é, na maturação dos acontecimentos. Hoje vos encontrais na Agora, que vos conduzo até aqui, às portas do novo milênio,
plenitude dos tempos. Aquela ideia, desenvolvida através das tri- com esta mensagem o ciclo das mensagens está concluído. Esse
logias da obra, se encaminha para tornar-se realidade. ciclo precedeu e acompanhou a Obra, que agora continua no
A luciferiana revolta do ateísmo materialista está para des- hemisfério oposto àquele em que se iniciou, desenvolvendo-se
fechar contra Deus sua última batalha desesperada pelo triunfo nas praias das novas terras onde nascerão as novas grandes ci-
absoluto, supremo esforço que redundará em sua ruína total. E vilizações do futuro.
Deus fará ver à humanidade aterrorizada, para o bem dos ho- A pirâmide aí está. Sua última pedra já foi colocada. Enquan-
mens, que Ele somente é o senhor absoluto. to o mundo caminha, sempre mais, para o cumprimento, já agora
Estais ainda imersos em cerradas neblinas. Mas além de- fatal, do seu desejado destino, sobre aquela pedra pousarão os
las já brilha o sol que está para despontar e inundar o mundo pés e se elevará a figura de Cristo, que, flamejante, iluminará
de luz e calor. A outra margem do novo reino está próxima, qual farol a estrada dos viandantes em busca de luz, para orientá-
e a humanidade se prepara para nela desembarcar. O novo los através do longo caminho das ascensões humanas.
continente já aparece aos olhos do navegante experimentado, Tende fé, tende certeza. A Nova Era vos aguarda. Na imen-
e a humanidade, após a grande viagem de dois milênios, po- sa luta, Cristo é o mais forte, e Ele estará convosco e com todos
de gritar – “terra, terra!”. aqueles que nele creem.
Por isso, esta se pôde chamar a “Mensagem da Nova Era”,
porque não mais vem anunciar a Boa Nova, mas a sua realização.
Como tudo, até aqui, se cumpriu em ritmo inexorável, FIM
igualmente tudo continuará a cumprir-se. Com esta segunda
mensagem decenal, é coberto o período do II Milênio, encer-
rou-se o ritmo preparatório do terceiro dia da ressurreição,
quanto do III Milênio.
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 11
va, à base da observação e experiência, não vos pode levar além
A GRANDE SÍNTESE de certos resultados. Cada meio pode fornecer certo rendimento
e nada mais, e a razão é um meio. A análise não poderia chegar
Síntese e Solução dos Problemas da Ciência e do Espírito.
à grande síntese, grande aspiração que ferve no fundo de todas
as almas, senão por meio de um tempo infinito, de que não dis-
I. CIÊNCIA E RAZÃO pondes. Vossa ciência arrisca-se a não concluir jamais, e o “ig-
norabimus” quer dizer falência. A tarefa da ciência não pode ser
Em outro lugar e de outra forma1, falei especialmente ao co- apenas a de multiplicar vossas comodidades. Não estranguleis,
ração, usando linguagem simples, adaptada aos humildes e aos não sufoqueis a luz de vosso espírito, única alegria e centelha da
justos, que sabem chorar e crer. Aqui falo à inteligência, à razão vida, até ao ponto de tornar a ciência, que nasce do vosso inte-
cética, à ciência sem fé, a fim de vencê-la, superando-a com suas lecto, uma fábrica de comodidades. Esta é prostituição do espíri-
próprias armas. A palavra doce, que atrai e arrasta porque como- to, é vergonhosa venda de vós mesmos à matéria.
ve, foi dita. Indico-vos agora a mesma meta, mas por outros ca- A ciência pela ciência não tem valor, vale apenas como
minhos, feitos de ousadia e potência de pensamento, pois quem meio de ascensão da vida. Vossa ciência tem um pecado ori-
pede isso não saberia ver de outra forma, seja por faltar-lhe fé, ginal: dirigir-se apenas à conquista do bem-estar material. A
seja por incapacidade de orientação para compreender. verdadeira ciência deve ter como finalidade tornar melhores
O pensamento humano avança. Cada século, cada povo se- os homens. Eis a nova estrada que precisa ser palmilhada.
gue um conceito de acordo com um desenvolvimento que obe- Essa é a minha ciência 2.
dece a leis a que estais submetidos. Em qualquer campo, a nova ◘ ◘ ◘
ideia vem sempre do Alto e é intuída pelo gênio. Depois, dela Não falo para ostentar sabedoria ou para satisfazer a curiosida-
de humana, vou direto ao objetivo, para melhorar-vos moral-
vos apoderais, a observais, a decompondes, a viveis, passando-
mente, pois venho para fazer-vos o bem. Não me vereis des-
a então à vossa vida e às leis. Assim desce a ideia e, quando se
pender qualquer esforço para adaptar e enquadrar meu pensa-
fixa na matéria, já esgotou seu ciclo, já aproveitastes todo seu
mento ao pensamento filosófico humano, ao qual me referirei o
suco e a jogais fora, para absorverdes em vossa alma individual
menos possível. Ao contrário, ver-me-eis permanecer continu-
e coletiva novo sopro divino.
amente em contato com a fenomenologia do universo. Importa
Vosso século possuiu e desenvolveu uma ideia toda própria,
escutar verdadeiramente essa voz, que contém o pensamento de
que os séculos precedentes não viam, pois estavam atentos em
Deus. Compreendei-me, vós que não acreditais, vós céticos,
receber e desenvolver outras. Vossa ideia foi a ciência, com que
que julgais sabedoria a ignorância das coisas do espírito e, no
acreditastes descobrir o absoluto, embora essa também seja
entanto, admirais o esforço de conquista que o homem, diaria-
uma ideia relativa, que, esgotado seu ciclo, passa; eu venho fa-
mente, exerce sobre as forças da natureza. Ensinar-vos-ei a
lar-vos exatamente porque ela está passando.
vencer a morte, a superar a dor, a viver na grandiosidade imen-
Vossa ciência lançou-se num beco escuro, sem saída, onde
sa de vossa vida eterna. Não acorrereis com entusiasmo ao es-
vossa mente não tem amanhã. Que vos deu o último século?
forço necessário para obter tão grandes resultados? Vamos, en-
Máquinas como jamais o mundo as teve (mas que, no entanto,
tão, homens de boa vontade, ouvi-me! Primeiro compreendei-
são apenas máquinas) e que, em compensação, ressecaram vos-
me com o intelecto, pois, quando este ficar iluminado e virdes
sa alma. Essa ciência passou como um furacão destruidor de
claramente a nova estrada que vos traço, palpitará também vos-
toda a fé e vos impõe, com a máscara do ceticismo, um rosto so coração, e nele se acenderá a chama da paixão, para que a
sem alma. Sorris despreocupados, mas vosso espírito morre de luz se transmude em vida e o conceito em ação.
tédio, e ouvem-se gritos dilacerantes. Até vossa própria ciência O momento é crítico, mas é mister avançar. E então (coisa
é uma espécie de desespero metódico, fatal, sem mais esperan- incrível para a construção psicológica que o último século im-
ças. Terá ela resolvido o problema da dor? Que uso sabe fazer primiu em vós) nova verdade vos é comunicada por meios que
dos poderosos meios que lhe deram os segredos arrancados da desconheceis, para que possais descobrir o novo caminho. O
natureza? Em vossas mãos, o saber e a força transformam-se Alto, que vos é invisível, nunca deixou de intervir nos momen-
sempre em meios de destruição. tos culminantes da história. Que sabeis do amanhã, que sabeis
Para que serve, então, o saber, se, ao invés de impulsionar- da razão por que vos falo? Que podeis imaginar daquilo que o
vos para o Alto, tornando-vos melhores, para vós se torna ins- tempo vos prepara, vós, que estais imersos no átimo fugidio?
trumento de perdição? Não riais, ó céticos, que julgais ter re- Indispensável avançar, mais que isso não vos seria possível. As
solvido tudo, porque sufocastes o grito de vossa alma, que an- vias da arte, da literatura, da ciência, da vida social estão fecha-
seia por subir! A dor vos persegue e vos encontrará em qual- das, sem amanhã. Não tendes mais o alimento do espírito e re-
quer lugar. Sois crianças que julgais evitar o perigo escondendo mastigais coisas velhas que já são produtos de refugo e devem
a cabeça e fechando os olhos, mas existe uma lei, invisível para ser expelidas da vida. Falarei do espírito e vos reabrirei aquela
vós, todavia mais forte que a rocha, mais poderosa que o fura- estrada para o infinito, que a razão e a ciência vos fecharam.
cão, que caminha inexorável, movimentando tudo, animando Ouvi-me, pois. A razão que utilizais é um instrumento que
tudo; essa lei é Deus. Ela está dentro de vós, vossa vida é uma possuís para prover os misteres, as necessidades mais externas
exteriorização dela, e derramará sobre vós alegria ou dor, de da vida: conservação do indivíduo e da espécie. Quando lançais
acordo com a justiça, como o merecerdes. Eis a síntese que este instrumento no grande mar do conhecimento, ele se perde,
vossa ciência, perdida nos infinitos pormenores da análise, ja- porque, neste campo, os sentidos (que muito servem para vos-
mais poderá reconstituir. Eis a visão unitária, a concepção apo- sas necessidades imediatas) somente esfloram a superfície das
calíptica que venho trazer-vos. coisas, e sua incapacidade absoluta de penetrar a essência vós a
Para que me possa fazer compreender, é mister que fale de sentis. A observação e a experiência, de fato, deram-vos apenas
acordo com vossa mentalidade e me coloque no momento psico- resultados exteriores de índole prática, mas a realidade profunda
lógico que vosso século está vivendo. É indispensável que eu vos escapa, porque o uso dos sentidos como instrumento de pes-
parta justamente dos postulados da vossa ciência, para dar-lhe
uma direção totalmente nova. Vosso sistema de pesquisa objeti- 2
Para compreender esse estilo incomum, é necessário conhecer a téc-
nica da gênese deste pensamento, mediante a leitura de outros volu-
1
Ver o volume Grandes Mensagens. mes, os primeiros, pertencentes à Obra.
12 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
quisa, embora ajudado por meios adequados, vos fará permane- tente, que tende a vir à tona e a revelar-se. Os dois polos do
cer sempre na superfície, fechando-vos o caminho do progresso. ser – consciência exterior clara e consciência interior latente –
Para avançar ainda, é preciso despertar, educar, desenvol- tendem a fundir-se. A consciência clara experimenta, assimila,
ver uma faculdade mais profunda: a intuição. Aqui entram em imerge na latente os produtos assimilados através do movimen-
função elementos complementares novos para vós. Algum ci- to da vida – destilação de valores, automatismos que constitui-
entista jamais pensou que, para compreender um fenômeno, rão os instintos do futuro. Assim expande-se a personalidade
fosse indispensável a própria purificação moral? Partindo da com essas incessantes trocas e se realiza o grande objetivo da
negação e da dúvida, a ciência colocou a priori uma barreira vida. Quando a consciência latente tiver-se tornado clara e o eu
intransponível entre o espírito do observador e o fenômeno. O tiver pleno conhecimento de si mesmo, o homem terá vencido a
eu que observa permanece sempre intimamente estranho ao morte. Aprofundarei mais adiante essa questão.
fenômeno, atingido apenas pela estrada estreita dos sentidos. O estudo das ciências psíquicas é o mais importante que po-
Jamais o cientista abriu sua alma para que o mistério encaras- deis hoje fazer. O novo instrumento de pesquisa que deveis de-
se o próprio mistério e se comunicassem e se compreendes- senvolver e se está desenvolvendo naturalmente, é a consciên-
sem. O cientista jamais pensou que, para isto, é preciso amar cia latente. Já olhastes bastante para fora de vós. Agora resolvei
o fenômeno, tornar-se o fenômeno observado, vivê-lo; é in- o problema de vós mesmos, e tereis resolvido todos os outros
dispensável transportar o próprio eu, com sua sensibilidade, problemas. Habituai aos poucos vosso pensamento a seguir esta
até ao centro do fenômeno, não apenas com uma comunhão, nova ordem de ideias. Se souberdes transferir o centro de vossa
mas com uma verdadeira transfusão de alma. personalidade para essas camadas profundas, sentireis revelar-
Compreendeis-me? Nem todos poderão compreender, pois se em vós novos sentidos, uma percepção anímica, uma facul-
ignoram o grande princípio do amor; ignoram que a matéria é, dade de visão direta; esta é a intuição da qual vos falei. Purifi-
em todas as suas formas (até nas menores), sustentada, guia- cai-vos moralmente e refinai a sensibilidade do instrumento de
da, organizada pelo espírito, que, em diversos graus de mani- pesquisa que sois vós, e só então podereis ver.
festação, existe por toda a parte. Para compreender a essência Aqueles que absolutamente não sentem essas coisas, os ima-
das coisas, tereis que abrir as portas de vossa alma e estabele- turos, ponham-se de lado; torneiem-se até chafurdarem-se na la-
cer, pelos caminhos do espírito, essa comunicação interior, ma de suas baixas aspirações e não peçam o conhecimento, pre-
entre espírito e espírito; deveis sentir a unidade da vida, que cioso prêmio concedido apenas a quem duramente o mereceu.
irmana todos os seres, desde o mineral até o homem, em trocas
de interdependências, numa lei comum; deveis sentir esse liame III. AS PROVAS
de amor com todas as outras formas da vida, porque tudo, desde
o fenômeno químico até o social, é vida, regida por um princí- Se vossa consciência já não vos faz mais admirar qualquer
pio espiritual. Para compreender, é necessário que possuais nova possibilidade, como podeis negar a priori uma forma de
uma alma pura e que um liame de simpatia vos una a todo o existência diferente daquela do vosso corpo físico? Deveis pelo
criado. A ciência ri de tudo isso e, por esse motivo, deve limi- menos alimentar a dúvida a respeito da sobrevivência que vosso
tar-se a produzir comodidades e nada mais. Nisto que vos estou eu interno vos sugere a cada momento e que inconscientemen-
a dizer reside exatamente a nova orientação que a personalidade
te, por instinto, sonhais em todas as vossas aspirações e obras.
humana deve conseguir, para poder avançar.
Como podeis acreditar que vossa pequenina Terra, a qual vedes
navegar pelo espaço como um grãozinho de areia no infinito,
II. INTUIÇÃO
contenha a única forma possível de vida no universo? Como
podeis acreditar que vossa vida de dores e alegrias fictícias e
Não vos espanteis com esta incompreensível intuição3. Co-
contraditórias possa representar toda a vida de um ser?
meçai por não negá-la, e ela aparecerá. O grande conceito que a
Então, não esperastes nem sonhastes nada mais alto na diu-
ciência afirmou (embora de forma incompleta e com conse-
turna fadiga de vossos sofrimentos e de vosso trabalho? Se eu
quências erradas), a evolução, não é uma quimera e estimula
vos oferecesse uma fuga desses sofrimentos, uma libertação e
vosso sistema nervoso para uma sensibilidade cada vez mais
uma superação; se eu vos abrisse o respiradouro de um grande
delicada, que constitui o prelúdio dessa intuição. Assim se ma-
nifestará e aparecerá em vós essa psique mais profunda por lei mundo novo, que ainda desconheceis, e vos permitisse con-
natural de evolução, por fatal maturação, que está próxima. templá-lo por dentro para vosso bem, não correríeis como cor-
Deixareis de lado, para uso da vida prática, vossa psique exteri- reis para ver as máquinas que devoram o espaço sulcando os
or e de superfície, a razão, pois só com a psique interior, que céus e ouvem as longínquas ondas elétricas? Vinde. Mostro-
está na profundeza de vosso ser, podereis compreender a reali- vos as grandes descobertas que fará a ciência, especialmente as
dade mais verdadeira, que se encontra na profundeza das coi- das vibrações psíquicas, por meio das quais nos é permitido, a
sas. Esta é a única estrada que conduz ao conhecimento do Ab- nós, espírito sem corpo, comunicar-nos com aquela parte de
soluto. Só entre semelhantes é possível a comunicação; para vós que é espírito, como nós. Segui-me. Não se trata de um
compreender o mistério que existe nas coisas, deveis saber lindo sonho nem de fantástica exploração do futuro o que estou
descer no mistério que está em vós. fazendo: é o vosso amanhã. Sede inteligentes à altura de vossa
Não ignorais isto totalmente; olhais admirados tantas coi- ciência; sede modernos, ultramodernos, e vislumbrareis o espí-
sas que afloram de vossa consciência mais profunda sem po- rito, que é a realidade do amanhã, e o tocareis com o raciocí-
derdes descobrir as origens: instintos, tendências, atrações, nio, com o refinamento de vossos órgãos nervosos, com o pro-
repulsas, intuições. Daí nascem irresistíveis todas as maiores gresso de vossos instrumentos científicos. O espírito está aí, à
afirmações de vossa personalidade. Aí está o vosso verdadeiro espera, e fará vibrar as civilizações futuras.
e eterno eu. Não o eu exterior, aquele que sentes mais quando As verdades filosóficas fundamentais, tão discutidas durante
estais no corpo, que é filho da matéria e que morre com ela. milênios, serão resolvidas racionalmente, por meio da simples
Esse eu exterior, essa consciência clara, expande-se no contí- razão, porque vossa inteligência terá progredido; o que dantes,
nuo evolver da vida, aprofunda-se para aquela consciência la- por outras forças intelectivas, tinha que ser forçosamente dogma
e mistério de fé, será questão de puro raciocínio, será demonstrá-
3
Desse especialíssimo método de pesquisa, aqui apenas delineado, os vel e, portanto, verdade obrigatória para todo o ser pensante.
volumes As Noúres e Ascese Mística tratam a fundo. ◘ ◘ ◘
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 13
Não sabeis que todas as descobertas humanas nasceram da é apreciável pelos sentidos, portanto é sempre discutível para
profundidade do espírito que contatou com o além? De onde quem queira negá-lo; antes, é íntimo, intrínseco.
vem o lampejo do gênio, a criação da arte, a luz que guia os líde- A verdadeira prova é apenas uma. É a mão de Deus que vos
res dos povos, senão deste mundo, de onde vos falo? As grandes alcança em vossas próprias casas, é a dor que, superando as
ideias que movem e fazem avançar o mundo, acaso as encontrais barreiras humanas, atinge-vos e vos sacode, é a crise do espíri-
no ambiente de vossas competições cotidianas, ou no mundo dos to, é a maturação do destino, é a tonitruante voz do mistério,
fenômenos que a ciência observa? Então, de onde vêm? que vos surpreende a cada esquina da vida e vos diz: basta! Eis
Não podeis negar o progresso: o próprio materialismo, que o caminho! Essa prova, vós a sentis; ela vos perturba, esmaga,
vos tornou céticos, teve de proferir a palavra evolução. Vós espanta, mas é irresistível, transforma-vos e vos convence. En-
mesmos que negais, estais todos ansiosos e ávidos de ascensão; tão vós, negadores irônicos, vos ajoelhais, tremeis e chorais.
não podeis negar que o intelecto progride e existem alguns ho- Chegou o grande momento. Deus vos tocou. Eis a prova!
mens mais adiantados do que outros. Portanto não pode ser im- Vossa vida está cheia dessas forças desconhecidas em
possível para a razão e para a ciência admitir que alguns dentre ação. São as maiores, das quais dependem vossas vicissitudes
vós tenham atingido, por evolução, tal sensibilidade nervosa de e o destino dos povos. Quantas já não estão prontas a mover-
sentir o que não conseguis perceber: as ondas psíquicas, que se no desconhecido amanhã, mesmo contra vós que me ledes?
nós, os espíritos, transmitimos. São eles os médiuns espirituais, Os inconscientes sacodem os ombros ao amanhã; só os cora-
verdadeiros instrumentos receptores de correntes e de conceitos josos ousam olhá-lo de frente, seja bom ou ruim. Eu falo, ó
que podemos transmitir. Esse é o mais alto grau de mediunida- homem, de vosso destino, de vossa vitória e de vossas dores
de (em alguns casos totalmente consciente), quando podem es- de amanhã, não apenas naquele longínquo futuro sobre o qual
não vos preocupais, mas de vosso futuro próximo. Minhas pa-
tabelecer-se relações de sintonia; disso nos servimos para o ele-
lavras dar-vos-ão novo e mais profundo sentido da vida e do
vado objetivo de transmitir-vos nosso pensamento.
destino, de vossa vida e de vosso destino.
Muitos médiuns ouvem com novo sentido de audição psí-
Já falei ao mundo e aos povos de seus grandes problemas co-
quica, não mais com o acústico. Ouvem-nos com seu cérebro.
letivos. Agora falo a vós, no silêncio de vosso recolhimento. Mi-
Sintonia quer dizer capacidade de ressonância. Espiritualmen-
nhas palavras são boas e sábias e visam a fazer de vós um ser
te, sintonia é simpatia, isto é, capacidade de sentir em unísso-
melhor, para vós mesmos, para vossa família, para vossa pátria.
no. Quer acústica, quer elétrica ou espiritualmente, o princípio
vibratório de correspondência é o mesmo, porque a Lei é una
IV. CONSCIÊNCIA E MEDIUNIDADE
em todos os campos4.
Naturalmente, quem não ouve nega; mas não poderá, não
Tendes meios para comunicar-vos com seres mais impor-
terá o direito de negar que os outros possam ouvir e que ou-
tantes que aqueles a quem chamais habitantes de Marte, mas
çam. Quem nega pede provas e só se dispõe a conceder seu
são meios de ordem psíquica, não instrumentos mecânicos;
consentimento depois de haver verificado esses fatos, necessá-
meios psíquicos que a ciência (que pesquisa de fora para den-
rios para sacudir esse seu tipo de mentalidade. Jamais pensastes
tro) e a vossa evolução (que se expande de dentro para fora) tra-
na relatividade de vossa psicologia, devida aos diversos graus
rão à luz. Pode chamar-se consciência latente, uma consciência
de evolução de cada um? Jamais pensastes naquilo que impres- mais profunda que a normal, onde se encontram as causas de
siona a mente de um, mas deixa a de outro indiferente, e como muitos fenômenos inexplicáveis para vós. O sistema de pesqui-
cada um exige a “sua” prova? Que número enorme de provas sa positiva, ao fazer-vos olhar mais profundamente as leis da
seria necessário para cada um sentir-se impressionado em sua natureza, também vos fez descobrir o modo de transformar as
própria sensibilidade particular! Para cada um, um fato pode in- ondas acústicas em elétricas, dando-vos um primeiro termo de
serir-se em sua vida, em sua concepção de vida, na orientação comparação sensível daquela materialização de meios que em-
dada a todos os seus atos. O próprio raciocínio não serve para pregamos. Já vos avizinhastes um pouco e hoje podeis, mesmo
todos, porque a demonstração, com frequência, torna-se discus- cientificamente, compreender melhor.
são, que, em lugar de convencer, transforma-se em desabafo Acompanhai-me, caminhando do exterior, onde estais
agressivo, exemplo de luta, que exacerba os ânimos. com vossas sensações e vossa psique, para o interior, onde
Restaria o prodígio. Mas as leis de Deus são imutáveis, estou eu como entidade e como pensamento. No mundo da
porque perfeitas; o que é perfeito não pode ser alterado nem matéria, temos primeiro os fenômenos; depois, vossa per-
corrigido. Acreditai: só em vossa psicologia, sedenta de viola- cepção sensória e, finalmente, por meio de vosso sistema
ções, pode existir esse pensamento atrasado de que uma vio- nervoso convergente para o sistema cerebral, vossa síntese
lação seja prova de força. Isso pode ter ocorrido em vosso psíquica: a consciência. Até aqui chegastes pela pesquisa ci-
passado de homens selvagens, imbuídos de luta e rebelião; pa- entífica e experiência cotidiana. Vosso materialismo não er-
ra nós, o poder está na ordem, no equilíbrio, na coordenação rou, quando viu nessa consciência uma alma filha da vida fí-
das forças, e não na revolta, na desordem, no caos. sica e destinada a morrer com ela. Mas é apenas uma psique
Além disso, um milagre vos convenceria? O Cristo fez de superfície, resultado do ambiente e da experiência, ser-
tantos! Acreditastes? Um milagre é sempre um fato exterior a vindo à satisfação de vossas necessidades imediatas; sua ta-
vós; podeis negá-lo todas as vezes que vos for cômodo, por- refa termina quando vos tenha guiado na luta pela vida. Esse
que perturba vossos interesses. instrumento, como já vos disse, não pode ultrapassar essa ta-
Conclusão: ou tendes pureza de ânimo e sinceridade de in- refa; lançado no grande mar do conhecimento, perde-se; tra-
tenções e então sentireis em minha palavra a verdade, sem ta-se da razão, do bom senso, da inteligência do homem
provas exteriores (eis a intuição), pelo seu tom e conteúdo; ou normal, que não vai além das necessidades da vida terrena.
estais de má fé e vos aproximais com duplo fim, para demolir Se descermos mais na profundidade, encontraremos a cons-
ou especular, porque, acima de qualquer discussão, já colocas- ciência latente, que está para a consciência exterior e clara, as-
tes o preconceito de vosso interesse ou vantagem. Então estais sim como as ondas elétricas estão para as ondas acústicas. A
armados para recusar qualquer prova. O fato não é externo, não essa consciência mais profunda pertence aquela intuição, é o
meio perceptivo, e a ele é necessário poder chegar, como vos
4
Para o desenvolvimento destes conceitos, vejam-se os volumes: As disse, para que vosso conhecimento possa progredir.
Noúres, Ascese Mística, A Nova Civilização do Terceiro Milênio e Vossa consciência latente é vossa verdadeira alma eterna,
Problemas do Futuro. existe antes do nascimento e sobrevive à morte corporal. Quando,
14 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
ao avançar, a ciência chegar até ela, ficará demonstrada a imorta- V. NECESSIDADE DE UMA REVELAÇÃO
lidade do espírito. Mas hoje não estais conscientes dessa profun-
didade, não sois sensíveis a esse nível e, não tendo em vós mes- Falei de vossa razão humana, com a qual construístes
mos nenhuma sensação, a negais. Vossa ciência corre atrás de vossa ciência, e afirmei a relatividade desse instrumento de
vossas sensações, sem suspeitar que elas podem ser superadas, e pesquisa e a sua insuficiência como meio para conquistar o
aí fica circunscrita como num cárcere. Essa parte de vós mesmos conhecimento do Absoluto.
está imersa em trevas, pelo menos assim é para a grande maioria Agora vos conduzo lentamente, cada vez mais próximo
dos homens, que, por conseguinte, nega e, sendo maioria, faz e do centro da questão. O estudo que vos exponho representa
impõe a lei, relegando a um campo comum de fora da normali- novo princípio para vossa ciência e filosofia, novo para vos-
dade e juntando em dolorosa condenação tanto o subnormal, isto so pensamento. O momento psicológico que a humanidade
é, o patológico ou involuído, como o supranormal, elemento su- atravessa hoje requer a ajuda dessa revelação. Não vos as-
perevoluído do amanhã. Neste campo muito errou o materialis- susteis com essa palavra; revelação não é apenas aquilo de
mo. Apenas alguns indivíduos excepcionais, precursores da evo- que nasceram as religiões, mas também qualquer contato da
lução, estão conscientes na consciência interior. Esses ouvem e alma humana com o pensamento íntimo que existe na cria-
dizem coisas maravilhosas, mas vós não os compreendeis senão ção, contato que revela ao homem um novo mistério do ser.
muito tarde, depois que os martirizastes. No entanto esse é o es- Como está hoje – vós o sabeis – a psicologia humana não
tado normal do super-homem do futuro. tem amanhã; ela o busca ansiosamente, mas, por si só, não
Acenei a essa consciência interior, porque é a base da mais sabe achá-lo. Espera algo, confusamente, sem saber o que
alta forma de vossa mediunidade, a mediunidade inspirativa, ati- poderá nascer, de onde e como; mas espera por necessidade
va e consciente; ela é justamente a manifestação da personalidade íntima, por imperioso instinto, porque este constitui a lei da
humana quando, por evolução, atinge esses estados profundos de vida; permanece na expectativa de ouvir algo e se limita a
consciência, que podem chamar-se intuição. avaliar as vozes, as verdadeiras e as falsas, a fim de escolher
Vossa consciência humana é o órgão exterior através do qual aquela que corresponderá a seu infalível instinto e, descendo
vossa verdadeira alma eterna e profunda se põe em contato com a das profundidades do infinito, será a única a fazê-la tremer.
realidade exterior do mundo da matéria. Por seu intermédio, ex- Esperam-na, sobretudo, os homens de pensamento, que estão
perimenta todas as vicissitudes da vida; destas experiências faz à frente do movimento intelectual; esperam-na os homens de
um tesouro, delas assimila o suco destilado, do qual ela se apode- ação, que estão à frente do movimento político e econômico
ra, tornando suas estas qualidades e capacidades, que mais tarde do mundo. A mente humana procura um conceito que a abale,
constituirão os instintos e as ideias inatas do futuro. Assim, a es- conceito profundo e mais poderosamente sentido, que a orien-
sência destilada da vida desce em profundidade no íntimo do ser; te para a iminente nova civilização do Terceiro Milênio.
fixa-se na eternidade como qualidades imperecíveis, e nada, de Alguns dos conceitos de que dispondes são insuficientes,
tudo o que viveis, lutais e sofreis, perder-se-á em sua substância. outros estão esgotados, outros se encontram tão cobertos de
Vedes que, com a repetição, todos os vossos atos tendem a fixar- incrustações humanas, que por estas ficam esmagados. A ci-
se em vós, como automatismos, que são os hábitos, isto é, uma ência, tão enceguecida de orgulho desde que nasceu, de-
monstrou-se impotente diante dos “últimos porquês” e, com
roupagem sobreposta à personalidade. Essa descida das experi-
a pretensão de generalizar, partindo de poucos princípios, os
ências da vida se estratifica em torno do núcleo central do eu,
mais baixos, prejudicou-vos, abaixando-vos, fazendo-vos re-
que, com isso, agiganta-se num processo de expansão contínua;
troceder para aquela matéria, a única que estudava. As filo-
assim, a realidade exterior (tanto mais relativa e inconsciente
sofias são produtos individuais, elevando a sistema aquela
quanto mais exterior) sobrevive àquela caducidade a que está
indiscutível premissa que é o próprio eu; embora sendo in-
condenada por aquele constante transformismo que a acompa-
tuições, são intuições parciais, visões pessoais que só inte-
nha, e transmite ao eterno aquilo que vale e sua existência pro-
ressam ao grupo dos afins. O bom senso é instrumento ime-
duz. Por isso nada morre no imenso turbilhão de todas as coisas;
diato para as finalidades materiais da vida e não pode supe-
todo ato de vossa vida tem valor eterno.
rá-las, então não pode bastar. As religiões, tantas e, erro im-
Quem consegue ser consciente também na consciência laten-
perdoável, todas lutando entre si, exclusivistas na posse da
te, encontra seu eu eterno e, na vasta complexidade das vicissitu- verdade, e isto em nome do próprio Deus, aplicam-se não a
des humanas, pode reencontrar o fio condutor ao longo do qual, procurar a ponte que as una, mas a cavar o abismo que as di-
logicamente, segundo uma lei de justiça e de equilíbrio, desen- vida. Anseiam invadir o mundo todo, ao invés de se coorde-
volve-se o próprio destino. Então vive sua vida maior na eterni- narem no nível que lhes compete, em relação à profundidade
dade e com isso vence a morte. Ele se comunica livremente, da revelação recebida. Infelizmente, recobriram de humani-
mesmo na Terra, por um processo de sintonia que implica afini- dade a originária centelha divina.
dade com as correntes de pensamento que existem além das di- Devo definir desde logo meu pensamento, para não ser
mensões do espaço e do tempo. Em outro lugar acenei à técnica mal interpretado e posto na mira dos ansiosos de destruição
dessa comunicação conceptual ou mediunidade inspirativa. e agressividade humana. Não venho para combater nenhuma
Tracei-vos, assim, o quadro da técnica de vossa ascensão es- religião, mas para coordená-las todas, como diferentes apro-
piritual, efeito e meta de vossa vida. Em minhas palavras vereis ximações da verdade, UNA, e não múltipla como quereríeis.
sempre pairar esta grande ideia da evolução, não no limitado No entanto coloco no mais alto posto da Terra a revelação e
conceito materialista de evolução de formas orgânicas, mas no a religião de Cristo, porque é a mais completa e perfeita den-
bem mais vasto conceito de evolução de formas espirituais, de tre todas. Esclarecido este conceito, prossigo e verifico o fa-
ascensão de almas. Este é o princípio central do universo, a gran- to inegável de que nenhuma de vossas crenças hoje levanta,
de força motriz de seu funcionamento orgânico. O universo infi- abala e verdadeiramente arrasta as massas.
nito palpita de vida, que, ao reconquistar sua consciência, retorna Diante das grandes paixões que outrora moviam os povos,
a Deus. É esse o grande quadro que vos mostrarei. Essa é a visão hoje o espírito se encontra adormecido no ceticismo; de tal
que, partindo de vossos conhecimentos científicos, indicar-vos- forma caiu no vazio, que não tem força para rebelar-se, nem
ei. Minha demonstração, lembrai-vos, embora se inicie com uma sombra de interesse, ainda que para negar; tornou-se um nada
investigação para uso dos céticos, é um lampejo de luz que lanço recoberto por sorridente máscara; desceu ao último degrau; es-
ao mundo, é imensa sinfonia que canto em louvor de Deus. tá na última fase de esgotamento: a indiferença. Esse é o quadro
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 15
de vosso mundo espiritual. Infelizmente, o que vos guia de fa- A isto podeis chamar de monismo. Atentai mais aos con-
to na vida real é bem outra coisa: é o egoísmo, são vossas bai- ceitos que às palavras. Por vezes a ciência acreditou ter
xas paixões, em que acreditais cegamente. Mas a isto não po- descoberto e criado um conceito novo, só porque inventou
deis chamar uma orientação, um princípio capaz de dirigir-vos uma palavra. E o conceito é este: como do politeísmo pas-
a objetivos mais elevados. Se isto constitui um princípio, tra- sastes ao monoteísmo, isto é, à fé num só Deus (mas sempre
ta-se de um princípio de desagregação e de ruína; para isso, antropomórfico, pois realiza uma criação fora de si), agora
com efeito, corre o mundo em grande velocidade. passais ao monismo, isto é, ao conceito de um Deus que é a
Então não é por acaso que vos chega minha palavra. Ela criação. Lede mais, antes de julgar. Farei que lampeje em
vem não para destruir as verdades que possuís, mas para re- vossas mentes um Deus ainda maior que tudo o que pudes-
peti-las de forma mais persuasiva, mais evidente, mais adap- tes conceber. Do politeísmo ao monoteísmo e ao monismo,
tada às novas necessidades da mente humana. Vossa psico- dilata-se vossa concepção de Divindade. Este tratado, pois,
logia não é a mesma de vossos pais, e as formas adequadas é o hino de Sua glória.
para eles não o são para vós; sois inteligências que saíram da Sinto já esta síntese suprema num lampejo de luz e de
menoridade; vossa mente habituou-se a olhar por si e hoje alegria. Quero conduzir-vos, a vós também, a essa meta, por
pode suportar visões mais vastas; pede, quer saber e tem di- meio do estudo do funcionamento orgânico do universo. Es-
reito de saber mais. Por vossa maturação, podeis hoje ver e te tratado vos aparecerá assim como uma progressão de con-
resolver diretamente problemas que mal eram suspeitados ceitos, uma ascensão contínua por aproximações graduais e
por vossos avós. Além disso, vossos problemas individuais e sucessivas. Poderá também parecer-vos uma viagem do espí-
coletivos se tornaram por demais complexos e delicados pa- rito; é verdadeiramente a grande viagem da alma que regres-
ra que possam ser suficientes os anunciados sumários das sa ao seu Princípio; da criatura que regressa a seu Criador.
verdades conhecidas. No atual período de grandes matura- Cada novo horizonte que a razão e a ciência vos mostraram
ções, vós, a cada momento, superais vossas ideias com uma era apenas uma janela aberta para um horizonte ainda mais
velocidade sem precedentes para vós. Pondo de parte os longínquo, sem jamais atingir o fim. Eu, porém, indicar-vos-
imaturos e mentirosos, existe grande número de honestos ei o último termo, que está no fundo de vós mesmos, onde a
que precisam saber mais e com maior precisão. Enfim, dis- alma repousa. Subiremos das ramificações dos últimos efei-
pondes hoje, com os meios mecânicos fornecidos pela ciên- tos, progredindo da periferia para o centro, ao tronco da cau-
cia, com os segredos que tendes sabido arrancar à natureza, sa primeira, que se multiplicou nesses efeitos.
de muito maior potência de ação do que no passado, potên- A realidade, em vosso mundo, está fracionada por barrei-
cia que requer de vós, que a manejais, uma sabedoria muito ras de espaço e de tempo; a unidade aparece como que pul-
maior, a fim de que essa potência não se torne, manejada verizada no particular; vemos o infinito fragmentar-se, divi-
com a mentalidade pueril e selvagem dos séculos passados, dir-se, corromper-se no finito, o eterno no caduco, o absolu-
em vossa destruição, mas sim em vosso engrandecimento. to no relativo. Mas percorreremos o caminho inverso a essa
Então, é chegada a hora de dizer minha palavra. descida e reencontraremos aquele infinito, que jamais a ra-
zão poderia dar-vos, porque a análise humana não pode per-
VI. MONISMO correr a série dos efeitos através de todo o espaço, por toda a
eternidade, e não dispõe daquele infinito pelo qual seria mis-
Aproximemo-nos ainda mais da questão a ser desenvol- ter multiplicar o finito para obter a visão do Absoluto.
vida. Eram indispensáveis essas premissas para vos conduzir A finalidade desta viagem é dar ao homem nova consci-
até aqui. Observai meu modo de proceder ao expor meu pen- ência cósmica. Uma consciência que o faça sentir-se não
samento. Avanço seguindo uma espiral que gradualmente apenas indestrutível e eterno membro de uma humanidade
aperta suas volutas concêntricas e, se passo de novo pela que abarca todos os seres do universo, mas também repre-
mesma ordem de ideias, toco o raio que parte do centro num sentante de uma força que desempenha um papel importante
ponto cada vez mais próximo dele. Guio vosso pensamento no funcionamento orgânico do próprio universo. Viveis para
para esse centro. Nesta exposição, parto da periferia e vou conquistar uma consciência cada vez mais ampla. O homem,
para o interior; da matéria, que é a realidade de vossos senti- rei da vida no planeta Terra, conquistou uma consciência in-
dos, para o espírito, que contém uma realidade mais verda- dividual própria, que constitui prêmio e vitória. Agora está
deira e mais elevada; vou da superfície ao âmago, da multi- construindo outra mais vasta: a consciência coletiva, que o
plicidade fenomênica ao princípio único que a rege. Por isso organiza em unidades nacionais e se fundirá numa unidade
denominei este tratado de A Grande Síntese. espiritual ainda mais vasta: a humanidade. Eu, porém, lanço
Estou no outro polo do ser, no extremo oposto àquele em a semente de uma consciência universal, a única que vos po-
que estais; vós, seres racionais, sois análise; eu, intuitivo de dar a visão de todos os vossos deveres e direitos e poderá,
(contemplação, visão), sou síntese. Mas desço agora à vossa perfeitamente, guiar todas as vossas ações, além de solucio-
psicologia racional de análise, tomo-a como ponto de parti- nar todos os vossos porquês. Partindo de vosso cognoscível
da, a fim de levar-vos à síntese como ponto de chegada. Par- científico humano, esse caminho também atingirá conclu-
to da forma para explicar-vos o impulso obscuro e palpitan- sões de ordem prática, individual e social. A exposição das
te, o motor que a anima, tenazmente aprofundando no misté- leis da vida tem como objetivo ensinar-vos normas mais
rio. Penetro, sintetizo e aperto num monismo absoluto os completas de comportamento. Sabendo olhar no abismo de
imensos pormenores do mundo fenomênico, incomensura- vosso destino, sabereis agir cada vez com mais elevação.
velmente vasto se o multiplicais pelo infinito do tempo e do Eis traçada a estrada que percorreremos. E a seguiremos não
espaço; canalizo a multiplicidade dos efeitos – dos quais a apenas para saber, mas também para agir depois. Quando se fi-
ciência, com imenso esforço, vislumbrou algumas leis – nos zer luz na mente, o coração se acenderá de paixão para marchar
caminhos convergentes que conduzem ao princípio único. seguindo a mente que viu.
Farei desse mundo, que pode parecer caótico a vossas men- Ascensão é a ideia dominante. Deus é o centro. Este tratado
tes, um organismo completo e perfeito. A complexidade que é mais que uma grande síntese científica e filosófica: é uma re-
vos desanima será reconduzida e reduzida a um conceito volução introduzida em vosso sistema de pesquisa, nova dire-
central único e simples, a uma lei única, que dirige tudo. ção dada ao pensamento humano, para, após este impulso, ca-
16 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
nalizá-lo em novo caminho de conquistas; é uma revolução Resumindo:
que não arrasa nem nega, implantando arbítrio e desordem, O aspecto estático mostra-nos o universo em sua estrutu-
mas afirma e cria, guiando-vos a uma ordem e equilíbrio ca- ra e forma; o aspecto dinâmico, em seu movimento e vir-a-
da vez mais completos e complexos, para uma lei cada vez ser; o aspecto mecânico, em seu princípio e em sua lei. Mas
mais forte e mais justa. Pois bem, para ajudar a nascer em esses são somente aspectos, pontos de vista diferentes do
vós esta nova consciência que está por surgir à luz, para es- mesmo fenômeno. Coexistem sempre, em toda parte, e os
timular esta vossa transformação que está iminente, imposta encontramos conexos.
pela evolução, da fase humana à fase super-humana, eu vos Do exame desses três aspectos surge a ideia gigantesca
ensino novo método de pesquisa, praticado por via da intui- que domina todo o universo. Quer o observemos como orga-
ção. Indico-vos a possibilidade de uma nova ciência, con- nismo, como devenir ou como lei, chegaremos ao mesmo
quistada com o sistema dos místicos, no qual os fenômenos conceito por três estradas diferentes, que se somam e refor-
são penetrados por meio de nova sensibilidade, abrindo as çam a conclusão. Ascendemos, assim, ao princípio único, à
portas da alma, além das dos sentidos, da alma da qual vos ideia central que governa o universo. Esse princípio, essa
terei ensinado todos os recursos insuspeitados e meios de ideia, é ordem. Imaginai, se a ordem não reinasse soberana,
percepção direta. Desse modo, os fenômenos não serão mais que choque tremendo sofreria um funcionamento tão comple-
vistos, ouvidos nem tocados por um eu qualquer, mas sentidos xo como é o da criação, um transformismo que jamais para!
por um ser que se transformou em delicadíssimo instrumento Somente esse princípio pode estabilizar um movimento de
de percepção, porque sensitivamente evoluído, nervosamente tamanha vastidão. Cada fenômeno, em cada campo, tem uma
refinado e, sobretudo, moralmente aperfeiçoado. Ciência no- trajetória própria de desenvolvimento, que é a sua lei, coorde-
va, conduzida pelos caminhos do amor e da elevação espiritu- nada à lei maior, e que não pode ser modificada; tem uma
al, é a ciência do super-homem, que está para nascer e fundará vontade de existir numa forma que o individualiza e de mo-
a nova civilização do Terceiro Milênio 5. ver-se para atingir uma meta exata, razão de sua existência; é
lançado com velocidade e massa que o distingue inconfundi-
VII. ASPECTOS ESTÁTICO, DINÂMICO velmente entre todos os demais fenômenos. Como poderia tu-
E MECÂNICO DO UNIVERSO do mover-se sem precipitar-se num cataclismo imediato e
universal, se cada trajetória não tivesse sido já traçada invio-
Chegando a este ponto, podemos estabelecer, em suas gran- lavelmente? Não podeis deixar de encontrar esse princípio de
des linhas, os conceitos fundamentais, que depois desenvolve- uma lei soberana, em toda parte e a qualquer momento. Não
remos analiticamente. vos falo apenas de fenômenos biológicos, astronômicos, físi-
Não vos digo: observemos os fenômenos e deduzamos de cos ou químicos. Vossa vida individual, vossa história de po-
suas consequências, os princípios que os regem, mas vos di- vos, vossa vida social têm suas leis. Vossas estatísticas, pelo
go: o quadro do universo é este, observai e vereis que os fe- princípio dos grandes números, colhem-nas e podem dizer-vos
nômenos aí se encaixam e a ele correspondem em sua totali- quantos nascimentos, mortes ou delitos acontecerão aproxi-
dade. O universo é a unidade que abarca tudo o que existe. madamente nos anos seguintes. Também o campo moral e es-
Essa unidade pode ser considerada sob três aspectos: estáti- piritual tem suas leis; embora sua complexidade vos faça per-
co, dinâmico e mecânico. der o rastro, a Lei subsiste também nesse campo, matemati-
Em seu aspecto estático, a unidade-todo é considerada camente exata. Se podeis mover-vos, agir e conseguir qual-
abstratamente seccionada em um átimo de seu eterno deve- quer resultado, é tudo em torno de vós se move com ordem,
nir, para que vossa atenção possa observar particularmente a de acordo com uma lei, e nessa lei tendes sempre confiança,
estrutura, mais que o movimento. Como estrutura, o univer- porque só ela vos garante a constância dos efeitos e das rea-
so é um organismo, ou seja, um todo composto de partes não ções. Lei não inexorável, nem insensível, mas complexa, ex-
reunidas ao acaso, mas com ordem e proporção recíproca, as traordinariamente complexa em todo o entrelaçamento de suas
quais, mesmo que momentânea e excepcionalmente possa repercussões; uma lei elástica, adaptável, compensadora,
ocorrer o contrário, sempre se correlacionam entre si, como construída com tão vasta amplitude, que abarca em seu âmbito
é necessário num organismo cujas partes, ao funcionarem, todas as possibilidades. Lei, sempre lei, exata nas consequên-
devem coordenar-se num objetivo único. cias de qualquer ato, férrea nas conclusões e sanções, podero-
Em seu aspecto dinâmico, a unidade-todo é considerada sa, imensa, matematicamente precisa em sua manifestação.
naquilo que verdadeiramente é: um eterno devenir. O universo Ela é ordem e, como ordem, mais ampla e poderosa que a
é um movimento contínuo. Movimento significa trajetória; desordem, portanto a engloba e a guia para suas metas; ela é
trajetória significa um objetivo a atingir. Na realidade, o as- equilíbrio, mais vasto que o desequilíbrio, o qual abarca e
pecto dinâmico se funde com o estático, isolamo-lo apenas limita num âmbito intransponível. Equilíbrio e ordem são,
para facilitar as observações. O movimento é orgânico, é fun- também, o Bem e a Alegria. Em todos os campos, uma só é a
cionamento de partes coordenadas. Assim, o conceito de sim- lei. A alegria é mais forte que a dor, que se torna instrumen-
ples movimento se define e se completa num vir-a-ser mais to de felicidade; o bem é mais poderoso que o mal, limitan-
complexo, que já não é só movimento físico, mas transfor- do-o e constringindo-o para os seus objetivos. Se existem
mismo fenomênico, e o conceito de trajetória amplia-se com o desordem, mal e dor, só existem como reação, como exce-
significado de progresso em direção a uma meta definida. ção, como condição, como contragolpe fechado dentro de
O aspecto mecânico é apenas o conceito de movimento diques invisíveis, determinados e invioláveis. Esta é a ver-
abstratamente isolado, a fim de poder analisá-lo melhor, co- dade, embora seja difícil demonstrá-la à vossa razão, que
lhendo o princípio e definindo sua lei por meio do estudo da observa a matéria. Esta, por estar à distância máxima do cen-
trajetória-tipo dos movimentos fenomênicos. É o estudo da tro da causa primeira, é o que há de menos apto para revelar-
Lei como forma e norma do devenir. vos essa causa; embora contendo em si todo o princípio, es-
conde-o mais secretamente em seu âmago.
5
Este conceito de nova civilização, várias vezes repetido nesta Não confundais a ordem e a presença da Lei com um auto-
obra, desenvolveu-se mais tarde, no volume A Nova Civilização do matismo mecânico e um fatalismo absurdo. A ordem, vo-lo dis-
Terceiro Milênio. se, não é rígida, mas apresenta espaços elásticos, contém subdi-
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 17
visões de desordem, imperfeição, complica-se em reações, Esses três modos de ser estão coligados por relações de deri-
mas permanece ordem e lei no conjunto, no absoluto. Um vação recíproca. Para tornar mais simples a exposição, reduzi-
exemplo: em oposição à vontade da Lei, tendes a vontade de remos esses conceitos a símbolos. A ideia pura, o primeiro mo-
vosso livre arbítrio, mas é vontade menor, marginalizada, cir- do de ser do universo, a que chamaremos espírito, pensamento,
cunscrita por aquela vontade maior; podeis agitar-vos a vosso Lei, e que representaremos com a letra  (alfa); condensa-se e se
bel prazer, como dentro de um recinto, não além dele. materializa, revestindo-se com a forma de vontade, concentran-
Essa movimentação vos é permitida porque necessária do-se em energia, exteriorizando-se no movimento, segundo
para que sejais livres e responsáveis no ambiente que vos modo de ser, que representaremos com a letra  (beta); num ter-
cerca e possais assim, com liberdade e responsabilidade, ceiro tempo, passamos (em virtude de mais profunda materiali-
conquistar vossa felicidade. Resolvi (assim de passagem) o zação, ou condensação, ou exteriorização) ao modo de ser que
conflito que para vós é insolúvel entre determinismo e livre- denominamos matéria, ação, forma, isto é, o mundo de vossa re-
arbítrio. Estes conceitos levar-vos-ão, posteriormente, a con- alidade exterior, que representaremos com a letra  (gama).
ceber uma exata moral científica. O universo resulta constituído por uma grande onda que
de , o espírito (puro pensamento, a Lei, que é Deus), cami-
VIII. A LEI nha num devenir contínuo, movimento feito de energia e
vontade (), para atingir seu último termo, , a matéria, a
A Lei. Eis a ideia central do universo, o sopro divino que forma. Dando ao sinal “” o sentido de “vai para”, podere-
o anima, governa e movimenta, tal como vossa alma, peque- mos dizer: .
na centelha dessa grande luz, governa vosso corpo. O uni- O espírito, , é o princípio, o ponto de partida dessa on-
verso de matéria estelar que vedes é como a casca, a mani- da; , a matéria, é o ponto de chegada. Mas compreendereis,
festação externa, o corpo daquele princípio que reside no qualquer movimento, se aplicado constantemente numa só
âmago, no centro. direção, deslocaria todo o universo (em sentido lato, não
Vossa ciência, que observa e experimenta, permanece na apenas espacial), com acúmulos de um lado e vazios de ou-
superfície e procura encontrar esse princípio através de suas tro, proporcionais e definitivos. Então é necessário, para
manifestações. manter o equilíbrio, que a grande onda de ida seja compen-
As poucas verdades particulares que aprendeu são apenas sada por outra onda equivalente de volta. Isso é também ló-
farrapos mal remendados da grande lei. A ciência observa, gico e se realiza em virtude de uma lei de complementarida-
supõe um princípio secundário, deduz uma hipótese, trabalha de, pela qual cada unidade é metade de outra unidade mais
completa. O movimento que existe no universo não é jamais
sobre ela, esperando uma confirmação da experiência, e daí
um deslocamento unilateral, efetivo e definitivo, mas é sem-
conclui uma teoria. Mas vislumbrou somente pequena rami-
pre a metade – inversa e complementar da sua contraparte –
ficação derradeira do conceito central, porque este se defen-
de um ciclo que, numa vibração de ida e volta, retorna ao
derá com o mistério, até que o homem seja menos malvado,
ponto de partida, após haver cumprido determinado devenir.
menos propenso a fazer mau uso do saber e mais digno de
A esse movimento descêntrico que vimos, de expansão e
olhar na face as coisas santas. Falo-vos de coisas eternas, e
exteriorização,  segue-se então um movimento
não vos choque esta linguagem, para vós anticientífica; ela
concêntrico inverso: . Há, pois, o movimento inver-
se mantém fora da psicologia que vosso atual momento his-
so, pelo qual a matéria se desmaterializa, desagrega-se e ex-
tórico vos proporciona. Minha ciência não é como a vossa,
pande-se em forma de energia, vontade, movimento; é um
ciência agnóstica, impotente para concluir; nem é ciência de tornar-se que, por meio das experiências de infinitas vidas,
um dia. Lembrai-vos de que a verdadeira ciência toca e mer- reconstrói a consciência ou espírito. Aqui, o ponto de partida
gulha nos braços do mistério: sagrado, santo e divino. A é , a matéria, e o ponto de chegada é , o espírito. Assim, a
verdadeira ciência é religião e prece, só pode ser verdadeira espiral que antes era aberta, agora se fecha; a pulsação de
se também for fé de apóstolo e heroísmo de mártir. regresso completa o ciclo iniciado pelo de ida.
A Lei é Deus. Ele é a grande alma que está no centro do Este é o conceito central do funcionamento orgânico do
universo. Não centro espacial, mas centro de irradiação e de universo. A primeira onda refere-se à criação, à origem da ma-
atração. Desse centro, Ele irradia e atrai, pois Ele é tudo: o téria, à condensação das nebulosas, à formação dos sistemas
princípio e suas manifestações. Eis como Ele pode – coisa planetários, do vosso sol, do vosso planeta, até à condensação
inconcebível para vós – ser realmente onipresente. máxima. A segunda onda, de regresso, é a que vos interessa e
É necessário esclarecer este conceito. Chegou o momento viveis agora, refere-se à evolução da matéria até às formas or-
de retomar a ideia de que partimos, dos três aspectos do univer- gânicas, à origem da vida; com a vida, tem-se a conquista de
so, para aprofundá-la. uma consciência cada vez mais ampla, até à visão do Absoluto.
A esses três aspectos correspondem três modos de ser do É a fase de regresso da matéria, que, por meio da ação, da luta,
universo. da dor, reencontra o espírito e volta à ideia pura, despojando-se,
A estrutura ou forma, o movimento ou vir-a-ser, o princípio pouco a pouco, de todas as cascas da forma.
ou lei, podem também denominar-se: Estas simples indicações já esboçam a solução de muitos
Matéria Energia Espírito problemas científicos, como o da constituição da matéria, ou
como o da possibilidade de, por desagregação, extrair dela,
ou também, movendo-se no sentido inverso: como de imenso reservatório, a energia, que não seria senão
Pensamento Vontade Ação. a passagem de . A energia atômica que procurais existe,
e a encontrareis 6.
Do primeiro modo de ser, que é: Estes apontamentos projetam a solução de muitos comple-
Espírito Pensamento Princípio ou Lei, xos problemas morais. Diante da grande caminhada que seguis
está escrita a palavra evolução, e a ciência não pôde deixar de
deriva o segundo, que é: vê-la, mas apenas a vislumbrou nas formas orgânicas, e não em
Energia Vontade Movimento ou vir-a-ser, toda sua imensa vastidão. Vosso ciclo poderia definir-se como
um físio-dínamo-psiquismo. A fórmula é: .
e do segundo, o terceiro, que é:
6
Matéria Ação Estrutura ou forma. Estas páginas foram escritas em 1932.
18 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
IX. A GRANDE EQUAÇÃO DA SUBSTÂNCIA Assim  é o todo, no particular e no conjunto, no átimo e na
eternidade; em seu aspecto dinâmico, é tornar-se, eterno no
Os dois movimentos,  e  coexistem, por- tempo, de  e de , sem princípio nem fim; mas o tor-
tanto, continuamente no universo, em um constante equilíbrio nar-se volta sobre si mesmo, é imobilidade em que (.
de compensação. Evolução e involução. A condensação das ne- Ele é o relativo e o absoluto, é o finito em que se pulveriza o in-
bulosas e a desagregação atômica são nascimento e morte numa finito, o infinito em que o finito se recompõe; é abstrato e con-
direção, morte e nascimento em outra. Nada se cria, nada se creto, é dinâmico e estático, é análise e síntese, é tudo.
destrói, mas tudo se transforma. O princípio é igual ao fim. A imensa respiração de  ... etc., também
Querendo exprimir essa coexistência, poderemos reunir as poderia representar-se com um triângulo, ou seja, como uma
fórmulas dos dois movimentos, semiciclos complementares, realidade fechada em três aspectos:
numa fórmula única que representa o ciclo completo:

Quando vossa ciência observa os fenômenos da criação,


apenas tenta descobrir novo artigo da Lei; mas em todo lugar
encontrou e encontrará, coexistindo, os três modos de ser de
Mas definamos, ainda melhor, o conceito orgânico do univer- . A cada novo pensamento revelado, a ciência realizará
so, não mais o considerando em seu aspecto dinâmico de movi- uma nova aproximação de vossa mente humana em direção à
mento, mas em seu aspecto estático, no qual, mais que o trans- ideia da Divindade. Também a ciência pode ser sagrada co-
formismo dos três termos, ressalta sua equivalência. Em seu as- mo uma oração, como uma religião, se for conduzida e com-
pecto estático, as fórmulas tornam-se uma só fórmula, que de- preendida com pureza de espírito.
nominaremos a “Grande Equação da Substância”, ou seja: Tudo o que vos disse é a máxima aproximação da Divinda-
de que vossa mente pode suportar hoje. É muito maior que as

precedentes, mas não é a última no tempo. Contentai-vos por
A letra  (ômega) representa o universo, o todo. enquanto. Ela vos diz que sois consciências que despertam, al-
Este é o conceito mais completo de Deus, ao qual só ago- mas que regressam a Deus. É a concepção bíblica do anjo deca-
ra chegamos: a grande alma do universo, centro de irradia- ído que reaparece; é a concepção evangélica do Pai, do Filho e
ção e de atração; Aquele que é tudo, o princípio e suas mani- do Espírito; é a concepção que coincide com todas as revela-
festações. Eis o novo monismo, que sucede ao politeísmo e ções do passado e também com vossa ciência e com vossa lógi-
ao monoteísmo das eras passadas. ca; é a concepção de Cristo, que vos redimiu pela dor. Muitas
Chamei àquela fórmula de a grande equação da substância coisas ainda existem, mas para vós, hoje, por enquanto, perma-
porque ela exprime as várias formas que a substância assume, necem no inconcebível. O universo é um infinito, e vossa razão
embora sempre permanecendo idêntica a si mesma. Poderemos não constitui a medida das coisas.
exprimir melhor o conceito com uma irradiação tríplice: Não ouseis olhar a Divindade mais de perto, nem definir
mais além, considerai-a antes como um resplendor ofuscante
que não podeis olhar. Considerai cada coisa que existe e vos
cerca como um raio de seu esplendor que vos toca. Não redu-
zais a Divindade a formas antropomórficas, não a restrinjais em
conceitos feitos à vossa imagem e semelhança. Não pronuncieis
Seu santo nome em vão. Seja Deus vossa mais alta aspiração,
tal como o é de toda a criação. Não vos dividais entre ciência e
fé, nas diversas religiões, cujo único intuito é encontrá-Lo. Ele
está, acima de tudo, dentro de vós. No profundo dos caminhos
do coração como nos do intelecto, Deus sempre vos espera, pa-
Dessas expressões ressalta um fato capital. Sendo   e  ra retribuir o amplexo que vós, mesmo sendo incrédulos, em
três modos de ser de , este se encontra em todos os termos, in- vossa agitação confusa e convulsiva, irresistivelmente lançais a
teiro, completo, perfeito, total, em todos os momentos. Tal é  Ele, através do maior instinto da vida.
em qualquer de seus modos de existência, assim o reencontra-
remos sempre em todo o seu infinito devenir. X. ESTUDO DA FASE MATÉRIA ().
Assim, a equação da substância sintetiza o conceito da A DESINTEGRAÇÃO ATÔMICA.
Trindade, isto é, da Divindade una e trina, que já vos foi reve-
lado sob o véu do mistério e encontrais nas religiões. Vimos que a respiração de  é: ...... sem
A Lei, de que falamos, é o pensamento da Divindade, seu limites de espaço, sem princípio nem fim.
modo de ser como espírito. O pensamento, concomitantemen- É essa imensa respiração do universo, cujo princípio enunci-
te vontade de ação, energia que realiza, transformação que amos, que agora observaremos analiticamente, sobretudo em sua
cria, constitui seu segundo modo de ser, onde a criação se pulsação de retorno,  que vosso mundo está vivendo.
manifesta, nascendo daquilo a que chamais nada. Uma forma Começaremos por , a fase matéria, de maior condensação
de matéria em ação é seu terceiro modo de ser, é a criação que da substância, a fim de atingir a fase , energia. Examinaremos
existe, o universo físico que vedes. Três modos de ser distin- posteriormente o período  o que mais vos interessa, pois
tos e, no entanto, identicamente os mesmos. compreende o trajeto de vossas vidas, cujo objetivo e meta é a re-
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 19
construção da consciência e a libertação do princípio , o espí- XI. UNIDADE DE PRINCÍPIO NO
rito. Para , essa suprema realidade do espírito, quero conduzir- FUNCIONAMENTO DO UNIVERSO
vos, não mais pelos caminhos da fé, mas pelas sendas da ciên-
cia. Deus, compreendido como espírito,  é o ponto de partida Torna-se difícil reduzir à forma linear de vosso pensa-
e de chegada do transformismo fenomênico, é a meta do ser. mento e de vossa palavra a unidade global do todo, que sinto
Depois das descobertas da desintegração do átomo, inexaurível como uma esfera instantaneamente completa, sem sucessivi-
fonte de energia, e da transformação da individualidade quími- dade. Levai em conta, pois, a forma na qual me devo expri-
ca pela explosão atômica, a descoberta da realidade do espírito mir, que restringe e diminui o conceito; somente aquela fa-
é a maior descoberta “científica” que vos aguarda e revolucio- culdade da alma, a intuição, de que vos falei, poderia tradu-
nará o mundo, iniciando uma nova era. zi-lo para vós sem distorções. Tende em conta que, embora
Chegareis, disse-vos, a produzir energia por desintegração minha exposição seja progressiva, o universo contém a todo
atômica, ou seja, a transformar matéria em energia. instante cada uma e todas as fases do transformismo. A cada
Conseguireis penetrar com vossa vontade na individuali- momento ele é o todo, completo e perfeito em todos os seus
dade atômica, produzindo alterações em seu sistema. Mas períodos de ida e volta. Não se tem  de um lado e,
lembrai-vos: o triunfo não será apenas o de um método indu- depois,  de outro; mas, em todos os lugares e a cada
tivo e experimental, nem trará somente repercussões de ordem momento, o todo existe concomitante numa fase dessa trans-
material; tampouco significará só vantagens imediatas e práti- formação, de modo que o absoluto não se divide, mas se en-
cas, mas será grande problema filosófico que resolvereis e que contra sempre todo a si mesmo no relativo. Deus está, as-
orientará de maneira totalmente nova vosso espírito científico. sim, onipresente em cada manifestação. Se assim não fora,
Até agora, a humanidade viveu num mundo de matéria. Tí- como vos seria possível a observação de tais fenômenos, que
nheis o vosso referencial de imobilidade. “Terra autem in ae- certamente não poderiam ter esperado na eternidade para
ternum stabit, quia Terra autem in aeternum stat” (“A Terra, existir e mostrar-se a vós exatamente no instante em que
porém, estará parada eternamente, porque a Terra está eter- também nascestes e se desenvolveram em vós os sentidos e
namente parada”). A verdade tinha que ser um absoluto. Com uma consciência que a eles se dirige? Grande diferença há
a nova civilização mundial que está por surgir, a humanidade entre o sujeito deste tratado, que observa o infinito, e vosso
viverá então num mundo dinâmico. olhar intelectivo, que só abarca o finito, isto é, um ou alguns
Vossa nova matéria – o ponto sólido em que baseareis vos- pormenores particulares sucessivamente, e jamais o todo ins-
sas construções materiais e conceptuais – será a energia. Vosso tantaneamente. Vossa razão só pode dar-vos um ponto de
elemento será o movimento, e sabereis encontrar nele o próprio vista do universo, porque sois relativos, ou seja, sois um
equilíbrio estável, que até agora não sabíeis encontrar senão na ponto que olha para todos os outros pontos. Mas os pontos
forma menos evoluída, a matéria. No campo do pensamento, são infinitos, e vós fazeis parte deles; vós olhais e sois olha-
também a verdade será um movimento, um relativo que evolui, dos; o universo olha para si mesmo de pontos infinitos.
uma verdade progressiva, e não o ponto fixo e inerte do absolu- Apenas o olho de Deus pode ter essa visão global, e tenho de
to; será a trajetória do ponto que avança, um conceito muito reduzi-la muitíssimo para levá-la à medida de vossa mente.
Vede: é exatamente esta que limita minha revelação.
mais vasto e proporcional ao novo grau de progresso que será
Um fato, porém, nos ajudará: o universo é regido por um
atingido por vosso pensamento.
princípio único. Já afirmei que o universo não é nem caos
Ao enfrentar o problema da desintegração atômica, tende nem acaso, mas suprema ordem: a Lei. Chegou agora o mo-
presente outro fato. Ao assaltardes o íntimo equilíbrio do siste- mento de afirmar que a Lei significa não apenas, como disse,
ma atômico para alterá-lo, vós vos encontrareis diante de uma ordem, equilíbrio e precisão de funcionamento, mas também e
individuação da matéria fortemente estabilizada durante incon- acima de tudo unidade de princípio. Por isso disse: monismo.
táveis períodos de evolução. Viveis num ponto relativamente O princípio da trindade da substância, que vos expus, é uni-
velho do universo, e vossa Terra representa o período  não no versal e único; poderá pulverizar-se numa série infinita de
início, em sua primeira condensação, ainda próximo da energia, efeitos e de casos particulares, mas ele permanece, e o encon-
mas no fim, ou seja, no princípio de sua fase oposta, a desagre- trareis em toda parte, em sua forma estática de individuação
gação, o regresso a . Estais, assim, diante da matéria que opõe   e  ou em sua forma dinâmica de transformismo, que se-
o máximo da resistência, porque está no grau máximo de esta- gue o caminho ...... Aqui, três exemplos:
bilidade e coesão. Os incomensuráveis períodos de tempo que a Primeiro – O microcosmo está construído como o macro-
trouxeram à sua atual individuação atômica, representam um cosmo. O átomo é um verdadeiro sistema planetário, com to-
impulso imenso, uma invencível vontade de continuar existindo dos os seus movimentos, em cujo centro está um sol, o núcleo
na forma adquirida, por um princípio universal de inércia que, central, de densidade máxima, em redor do qual giram, se-
na Lei, impõe a continuação de trajetórias iniciadas, constituin- guindo uma órbita semelhante à planetária, um ou mais elé-
do a garantia de estabilidade das formas e dos fenômenos. trons, segundo a natureza do sistema; é isso que define o áto-
Lembrai-vos de que estais querendo violar uma individuação da mo e lhe dá sua individuação química. Vosso sistema solar,
Lei, a qual sempre se manifesta por individuações inconfundí- com todos os seus planetas, poderia considerar-se o átomo de
veis, que assumem a mais enérgica e decidida vontade de não uma química astronômica, cujas combinações e reações pro-
deixar-se alterar. Para alcançardes êxito, não violeis a Lei, se- duzem essas nebulosas que vedes aparecer e desaparecer nos
gui-a. Seguindo a corrente, ser-vos-á fácil o caminho. Em vossa confins de vosso universo físico.
fase de evolução, a Lei vos abre o caminho através da passa- Quando, no espaço, um sol com seu cortejo planetário, assim
gem  e não de . Em outras palavras, o problema da como qualquer núcleo, encontra-se com outro sol ou núcleo e
desintegração atômica é solúvel para vós, não nas formas mais respectivo cortejo planetário, o resultado é sempre o mesmo: a
longínquas e menos acessíveis da condensação das nebulosas, formação de nova individuação, quer seja sistema cósmico ou
mas naquelas da desintegração das substâncias radioativas. Os químico. No primeiro caso se individuará novo vórtice, novo
raios  e os raios  e todos os fenômenos relativos ao rádio e “eu” astronômico, que se desenvolverá segundo uma linha, a
aos corpos radioativos, já os tendes espontaneamente debaixo espiral que – vê-lo-emos – é a trajetória típica de desenvolvimen-
dos olhos. O estudo que faremos da série estequiogenética vos to de todos os movimentos fenomênicos. No segundo caso nasce-
dará um conceito mais exato de tudo isto. rá, pelo choque dos núcleos e pela emissão de elétrons do sistema,
20 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
novo indivíduo atômico. Se isso ainda não apareceu em vosso ro desses elétrons que giram em torno do núcleo. Tendes, as-
relativo, vós o chamais de criação. sim, 92 espécies de átomos, desde o hidrogênio, que é o mais
Segundo – O princípio de que o universo se compõe, divi- simples, composto de um núcleo e de um só elétron que gira
dindo-se e reunindo-se, de duas metades inversas e complemen- em torno dele; o hélio (He), que o segue, composto de um nú-
tares é geral e único. Tudo o que existe tem seu inverso; sem is- cleo e de dois elétrons; o lítio (Li) com três, e assim por diante
to, é incompleto. O sinal “”, complementar do sinal “+”, pró- até ao urânio (U), com 92 elétrons. Sobre essa base, construi-
prio da energia elétrica, o encontrais não só no átomo, compos- remos uma série estequiogenética.
to pelo núcleo, estático e positivo, e pelos elétrons, dinâmicos e Tocamos, desde logo, um novo aspecto ou artigo da Lei, o
negativos, mas também na divisão sexual animal e em todas as das unidades múltiplas ou coletivas. Então, em cada uma das
manifestações da personalidade humana. manifestações da Lei, não há somente ordem e unidade de prin-
Terceiro – O homem é feito verdadeiramente à imagem e cípio, mas também individuação constante, segundo tipos bem
semelhança de Deus, no sentido em que compreende em si e definidos. É tendência constante, à proporção que a diferencia-
constitui, numa unidade, os três momentos:   . O homem é ção multiplica tipos (a pulverização do absoluto no relativo), o
um corpo, estrutura física, que se apoia numa armação esquelé- seu reagrupamento em unidades mais vastas, que reconstroem a
tica, que pertence ao reino mineral, , sobre a qual se eleva o unidade fragmentada no particular.
metabolismo rápido da vida, a troca (vida vegetativa, ainda não O impulso centrífugo equilibra-se, pois, invertendo-se
consciência) ou dinamismo, que é . O produto último da vida em tendência centrípeta. Na dispersão e concentração, no
é a consciência,  nascida daquele dinamismo e em contínuo multiplicar-se dividindo-se, no reagrupar-se reunindo-se, a
desenvolvimento, por meio de um trabalho contínuo e intenso substância se reencontra sempre, completa em si mesma. A
de provas e experiências, produzidas por choques não mais imensa respiração de  é também completa em si mesma,
cósmicos ou moleculares, mas psíquicos. voltando sobre si. Assim, o universo contempla seu próprio
Essa unidade de conceito é a mais evidente expressão do processo de autocriação.
monismo do universo e da presença universal da Divindade. Na Disse que os elétrons giram em redor do núcleo. Ora, nem
infinita variedade das formas sempre ressurge o mesmo princí- mesmo o núcleo é o último termo; em breve aprendereis a de-
pio idêntico, com nomes e em níveis diferentes. Assim, no nível compô-lo. Porém, por mais que procureis o último termo, ja-
 temos a gravitação; no nível  temos o que denominamos mais o encontrareis, porque ele não existe. Nesta pesquisa, diri-
simpatia; e no nível , amor. Eles constituem a mesma lei de gida para o âmago da matéria, acompanhais o caminho descen-
atração, que vincula as coisas e os seres e os sustenta como or- dente que  percorreu de , e tereis de encontrar , isto
ganismo, numa rede de contínuas relações e trocas, tanto no é, a energia da qual nasceu a matéria e à qual veremos esta re-
mundo da matéria quanto no da consciência. gressar em seu caminho ascensional, que a reconduz a .

XII. CONSTITUIÇÃO DA MATÉRIA. XIII. NASCIMENTO E MORTE DA MATÉRIA.


UNIDADES MÚLTIPLAS. CONCENTRAÇÃO DINÂMICA E
DESAGREGAÇÃO ATÔMICA
Comecemos, pois, por analisar o fenômeno matéria, , que
tomaremos como ponto de partida, relativo a vós. Observá-lo- Aprofundemos, pois, o problema do nascimento e da morte
emos de um ponto de vista estático, em suas características típi- da matéria, depois (entre esses dois extremos) o da evolução de
cas de determinada individuação da Substância, e também de suas individuações, isto é, o de sua vida.
um ponto de vista dinâmico, como o devenir da corrente do Pode definir-se a matéria como uma forma de energia, isto
transformismo da Substância, que, vindo da fase , regressa à é, um modo de ser da substância, que nasce da energia por con-
fase . Na realidade, os dois aspectos fundem-se. O contínuo densação ou por concentração e regressa à energia por desagre-
frêmito de movimento com o qual a Substância vibra, leva-a a gação, após haver percorrido uma série evolutiva de formas ca-
individuar-se diversamente. Este estudo vos mostrará sempre da vez mais complexas e diferenciadas, que reencontram a uni-
aspectos novos do princípio único, novos artigos da mesma lei. dade em reagrupamentos coletivos.
Sob o ponto de vista estático, apresenta-se-nos a matéria di- A matéria nasce, vive e morre, para renascer, reviver e tor-
versamente individuada, de acordo com a sua construção atô- nar a morrer, tal como o homem, eternamente descendo de  a 
mica. O estudo dessa construção vos revelou na Terra a presen- e voltando a  quando o vórtice interior, por ter atingido o má-
ça de 92 elementos ou corpos simples, que vão do hidrogênio ximo de condensação dinâmica, não mais pode suportá-la e se
(H) ao urânio (U). São indivíduos químicos decompostos em quebra. Assistimos, então, ao fenômeno da desagregação da
simples unidades atômicas, que formam toda a vossa matéria, matéria, a que chamais radioatividade, própria dos corpos ve-
reagrupando-se nas unidades moleculares, organismos ainda lhos, com peso atômico maior, seu máximo de condensação.
mais complexos, produzidos pela fusão de vários sistemas atô- Assim o átomo representa uma quantidade enorme, uma mina
micos (por exemplo, o sistema atômico H, na unidade molecu- de energia condensada, que podereis libertar, modificando o
lar H2O), e organizando-se afinal naquelas coletividades mole- equilíbrio interno do sistema núcleo-eletrônico do átomo.
culares, verdadeiras sociedades de moléculas, que são os cris- O significado da palavra condensação só pode ser com-
tais. Estes, embora reduzidos a massas de indivíduos cristalinos preendido se reduzirmos a energia à sua expressão mais
informes, como vos aparece nas estratificações geológicas, ou simples (isto também vale para a substância): o movimento.
nas rochas clásticas ou fragmentárias, conservam sempre a íntima Condensação de energia é expressão demasiadamente sensó-
orientação molecular e constituem a estrutura de vosso planeta e ria. É melhor dizer concentração de energia, pois isso signi-
dos planetas do sistema solar. É um crescendo no organizar-se fica aceleração de movimento, de velocidade. Veremos me-
em unidades coletivas cada vez mais vastas, semelhante ao de lhor essa essência do fenômeno no estudo do íntimo meca-
vossa consciência individual, que se coordena na mais vasta nismo do transformismo fenomênico.
consciência coletiva nacional e, depois, na mundial. Vemos, todavia, que toda a estrutura planetária do átomo
Procedendo no sentido inverso, o átomo é uma coletividade nos fala de energia e de velocidade. Logo que observamos em
decomponível em unidades menores. O átomo é composto de profundidade o fenômeno matéria, esta se dissolve em sua
um ou mais elétrons que giram em redor de um núcleo central; aparência exterior e se revela em sua substância: a energia. A
o que individualiza o átomo e o distingue é justamente o núme- ideia sensória de solidez e de concreto desaparece diante do con-
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 21
ceito de elétrons que, em espaços de dimensões ilimitadas em Vedes que, em realidade, nenhuma das três formas,   ,
relação a seu volume, giram velocíssimos ao redor de um nú- consegue isolar-se completamente; trazem em si sempre tra-
cleo incomensuravelmente menor. Assim a matéria, tal como ços de suas fases precedentes. Assim, vedes que o pensamento
a concebeis habitualmente, desvanece em vossas mãos, dei- apoia-se num suporte nervoso-cerebral, e que a matéria em si
xando-vos apenas sensações produzidas por algo que é apenas nos exprime sempre a ideia que a anima. A energia, na fase de
energia e determina um movimento que se estabiliza por sua ida ou na de retorno, é sempre o traço-de-união entre  e ;
altíssima velocidade. Eis a matéria reduzida à sua última ex- reveste todas as formas, tanto que, em vosso baixo mundo, o
pressão. Da mesma forma que o movimento é a essência da pensamento só sabe existir com o apoio da energia e a energia
substância , assim também o é de cada um de seus aspectos: permeia toda a matéria, agitando-a em infinitas formas, sobre-
  . Velocidade é energia, velocidade é matéria, velocida- tudo naquela fundamental, mãe de todas as outras, de energia
de é idêntica em sua substância, é o denominador comum que gravífica ou gravitação universal.
vos permite a passagem de uma a outra forma. O éter, que para vós é mais uma hipótese do que um cor-
Coloquemos lado a lado estas duas formas da substância, po bem estudado, escapa às vossas classificações porque
matéria e energia. Aquecendo um corpo, transmitimos energia à quereis reconduzi-lo às formas de matéria que conheceis,
matéria, isto é, outra modalidade de energia. Somamos energia. enquanto é uma forma de transição entre matéria e energia.
O calor significa aumento de velocidade nos sistemas atômico- O éter, forma de transição entre  e , é, por sua vez, pai do
moleculares. Quando dizemos que um corpo está mais quente, hidrogênio. É o filho das formas dinâmicas puras: calor, luz,
isto significa que seu movimento íntimo sofre um rápido au- eletricidade, gravitação, para a qual regressará a matéria por
mento de velocidade. Então o calor infunde na matéria, como desagregação e radioatividade. As nebulosas condensam-se
em todas as demais formas de vida, um ritmo mais intenso; é da fase éter, através das fases gás, líquido, sólido. Entre os
verdadeiro aumento de potência, um acréscimo de individuali- sólidos, existem os corpos de peso atômico máximo, os mais
dade que, no mundo da matéria, se expressa com a dilatação do radioativos, os mais velhos, como disse, aqueles que, por de-
volume. De imensa distância, o Sol acende essa dança dos áto- sagregação atômica, regressam à fase .
mos, e toda a matéria do planeta responde. A dança propaga-se
de corpo em corpo, tudo o que lhe está perto o sente, participa, XV. A EVOLUÇÃO DA MATÉRIA POR
exulta. Os corpos condutores de energia são aqueles cujas mo- INDIVIDUALIDADES QUÍMICAS.
léculas são mais ágeis a realizar a corrida. O movimento, es- O HIDROGÊNIO E AS NEBULOSAS.
sência do universo, vai de uma coisa a outra, ávido de comuni-
car-se, como as ondas do mar, ávido de expandir-se. Dá-se Agora, que observamos o fenômeno do nascimento, vida e
sempre, pelo universal princípio do amor; fecunda e se dispersa morte da matéria, vejamos  ainda mais de perto, na série das
depois de haver dado a vida, para reencontrar-se, recondensar- individuações que ela assume em vosso planeta, a fim de defi-
se ao longe, em todos os novos vórtices de criação. Os homens nir a gênese sucessiva de suas formas, de algumas até desco-
e as coisas, na Terra, arrebatam o mais que podem tudo que nhecidas de vós, e que vos indicarei, individuando-as em suas
chega do Sol e o dividem entre si. O homem transforma esse principais características, de modo que possais encontrá-las.
movimento em outras formas de energia (já que nada se cria e Estabelecemos que a fase  engloba as individuações que
nada se destrói, tudo se transforma, sempre): luz, som, eletrici- vão do hidrogênio ao urânio, dentre as quais vimos que co-
dade, para suas necessidades. Mas o fenômeno é irresistível, e a nheceis 92. Elas representam o ciclo que parte de  por con-
cada transformação há uma perda, um consumo, um desgaste, densação e volta a  por desagregação.
um atrito e um esforço para suprir isso (porque estais em fase Como ponto de partida, tomemos o hidrogênio, que repre-
de evoluçãodescentralização cinética). O fornecimento do Sol sentaremos, para abreviar, por H. Como vimos, é o corpo cujo
renova-se continuamente; ele dá o que tem e, em formas sem- átomo possui o sistema mais simples, com um só elétron. A is-
pre novas, reconquistará tudo o que dá. Isso porque o movi- so corresponde um peso atômico 1,008. O peso atômico vai
mento, substância do universo, é um ciclo que sempre volta e crescendo progressivamente, com o aumento proporcional do
está fechado e completo em si mesmo. número dos elétrons nos sistemas atômicos dos corpos, até ao
urânio, que representaremos por U, com peso atômico máximo
XIV. DO ÉTER AOS CORPOS RADIOATIVOS de 238,2 e correspondente a um sistema atômico de 92 elétrons.
H é o tipo fundamental, o protozoário monomolecular da
Assim, muitas nebulosas que vedes aparecer nos espaços química, assim como o carbono é o protozoário da química
sem um precedente visível, nascem por condensação de ener- orgânica ou da vida.
gia, a qual, após a imensa dispersão e difusão devida à contínua H é o corpo simples, quimicamente indecomponível; tem
irradiação de seus centros, concentra-se, seguindo correntes que peso atômico unitário; migra para o polo negativo (eletrólise);
guiam sua eterna circulação em determinados pontos do univer- está na base da teoria das valências. Por valência, a química de-
so. Aí, obedecendo ao impulso que lhe é imposto pela grande fine a capacidade dos átomos de um corpo em vincular deter-
lei do equilíbrio, instala-se, acumula-se, retorna e se dobra so- minado número de átomos de H, ou a capacidade de se substi-
bre si mesma, compensando e equilibrando o ciclo inverso, já tuírem, nos diferentes compostos, ao mesmo número desses
esgotado, da difusão que a guiara de uma coisa a outra, para átomos. Em química, o peso atômico é dado pela relação entre o
animar e mover tudo no universo. De todas as partes deste, as peso de um átomo de determinado corpo e o peso do átomo do
correntes trazem sempre nova energia, o movimento torna-se hidrogênio, que, por ser o menor de todos, foi tomado como uni-
cada vez mais intenso, o vórtice fecha-se em si mesmo, o turbi- dade de medida: H=1. O peso molecular dos corpos é também
lhão transforma-se em um verdadeiro núcleo de atração dinâ- dado, em química, em função do peso do átomo de hidrogênio.
mica. Quando ele não pode suportar mais em seu âmbito todo o Que significa essa constante referência ao hidrogênio
ímpeto da energia acumulada, chega a um momento de máxima como unidade de medida da matéria, esse seu peso atômico
saturação dinâmica, a um momento crítico em que a velocidade mínimo, esse seu inflexível negativismo? Todos esses fatos
torna-se massa, estabiliza-se nos infinitos sistemas planetários ín- convergem para o mesmo conceito: de que H é a matéria em
timos, do qual nascerá o núcleo, depois o átomo, a molécula, o sua mais simples expressão, é sua forma primitiva e originá-
cristal, o mineral, os amontoados solares, planetários, siderais. ria, da qual todas as outras se derivaram posteriormente,
Da imensa tempestade nasceu a matéria. Deus criou. pouco a pouco, por evolução.
22 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
A esse mesmo conceito podemos chegar pela observação das rentes combinações são tais que, permanecendo constante a
nebulosas. Os espaços estelares, já o disse, a cada momento vos quantidade de um dos componentes, as quantidades do outro va-
oferecem toda a série dos estados sucessivos que a matéria atra- riam segundo relações bem definidas, ou seja, essas quantidades
vessa, desde suas formas mais simples até às mais complexas. A são todas múltiplos exatos do mesmo número”.
composição química dos corpos celestes podeis conhecê-la com Ainda outro diz: “Todos os corpos simples, em suas rea-
exatidão, por meio da análise espectral. O espectroscópio vos diz ções, combinações, substituições recíprocas, agem segundo
que as nebulosas e as estrelas que emanam luz branca, isto é, os relações de peso representadas por números bem determina-
corpos celestes mais luminosos, mais quentes e mais jovens, são dos e constantes para cada corpo, ou por múltiplos exatos
compostos de poucos e simples elementos químicos. Seu espec- desses números”.
tro, mais extenso no ultravioleta, ou seja, mais quente, muitas ve- Assim a química pode individualizar com exatidão os cor-
zes indica exclusivamente o hidrogênio, sempre elementos de pe- pos, fixando seu peso atômico, a fórmula de sua valência, defi-
so atômico baixo. Esses corpos são muito luminosos, de luz nindo as reações próprias de cada corpo, estabelecendo o equi-
branca, incandescentes, desprovidos de condensações sólidas. Aí valente elétrico (+ ou ) e, com análise espectral, a luz equiva-
a matéria se apresenta em suas formas primordiais dinâmicas, lente. Em outras palavras, o equivalente dinâmico dos corpos.
ainda próximas de , e se encaminha para as formas propriamen- Portanto a química, com a chamada teoria atômica e com a
te físicas, que a caracterizam em sua fase de . Ao contrário, as teoria das valências, pode definir, com exatidão matemática, as
estrelas mais avançadas em idade apresentam emanações dinâ- relações entre um indivíduo e outro.
micas mais fracas, são vermelhas ou amarelas, como o vosso sol,
menos quentes, menos luminosas, menos jovens, compostas de XVI. A SÉRIE DAS INDIVIDUAÇÕES QUÍMICAS
elementos químicos mais complexos, de maior peso atômico. DO H AO U, POR PESO ATÔMICO E
Então, se a análise espectral dos corpos celestes vos indica ISOVALÊNCIAS PERIÓDICAS
que luz e calor (dado pelo comprimento do ultravioleta) estão
em razão inversa dos pesos atômicos e da complexidade dos Dessa forma, baseando-vos sobre essa individuação, podeis
elementos químicos componentes, em outras palavras, se os es- estabelecer uma gradação de complexidade que, partindo do H,
tados dinâmicos estão em razão inversa do peso atômico, medi- chegue até às fórmulas complexas dos produtos orgânicos. Po-
da do estado físico, isto significa inversão de estados dinâmicos deis estabelecer uma série química semelhante à escala zooló-
em estados físicos, ou seja, a matéria é inversão da energia e gica, em que aos protozoários correspondem os corpos quími-
vice-versa. Essa inversão é passagem do indistinto ao distinto, cos simples, indecomponíveis; uma série evolutiva que progri-
do simples ao complexo; em outras palavras, estais diante de de de forma em forma, de tipo em tipo, verdadeira árvore ge-
uma verdadeira e própria evolução. Esse aumento progressivo nealógica das espécies químicas, a cujo desenvolvimento po-
do peso atômico, paralelamente ao desaparecimento das formas deis aplicar os conceitos darwiniano de evolução, variabilidade
dinâmicas e à formação e diferenciação das espécies químicas, e até mesmo de hereditariedade e de adaptação. Gradações de
corresponde ao conceito de condensação, de substância- formas aparentadas entre si, derivadas uma das outras, sujeitas
movimento, de massa-velocidade, que já expusemos. É fácil à lei comum, que provêm da origem comum, da afinidade in-
compreender que, das formas primordiais, prevalentemente di- trínseca, do mesmo caminho, da mesma meta, da mesma lei de
nâmicas, até às mais densas concentrações de matéria – tal co- transformismo e de evolução. Cada corpo simples que faz parte
mo as observais estabilizadas em vosso sistema solar, já velho da série química não constitui um indivíduo isolado; são tipos
como a matéria, em que a fase  viveu e  existe agora em es- em redor dos quais oscilam diferentes variedades, que poderão
tado de  que vai para  – só se pode passar por evolução. reunir-se em grupos, por afinidade, tal como no mundo zooló-
O movimento dessa evolução vos aparece fixado em formas gico. Quando vossa consciência tiver encontrado meios para
bem definidas. Se a continuidade é novo aspecto da Lei (não agir, mais profundamente, na estrutura íntima da matéria, vereis
me cansarei de fazer que todos a observem a todo o momento), multiplicar-se o número das espécies químicas compreendidas
essa continuidade tem paredes e vértices, nos quais o transfor- na mesma classe e o número das variedades da mesma espécie.
mismo criou individuações nitidamente delineadas. A tendência Podereis, então, influir na formação das espécies químicas, co-
do transformismo fenomênico de caminhar por individuações é mo agora influís na formação de variedades biológicas vegetais
outra característica fundamental da Lei. Por isso os corpos e animais. Isto porque toda a matéria, mesmo aquela considera-
químicos têm, cada um deles, sua própria individualidade, rigo- da bruta e inerte, é viva e sente, pode plasmar-se e obedece,
rosamente definida. Um artigo da Lei diz: “Na constituição de quando atingida por um comando forte.
um corpo químico bem definido, os componentes entram sem- Estabeleçamos, pois, a Série Estequiogenética. No es-
pre em relação bem determinada e constante”. Diz-nos esse ar- quema que se segue, estão resumidos os conceitos que pas-
tigo que os corpos químicos possuem uma constituição indivi- sarei a analisar.
dual, perfeitamente determinada, proveniente dos elementos Tomando o peso atômico como índice do grau de conden-
componentes que estão entre si em relação constante. A isto se sação, podereis organizar um elenco dos corpos ainda inde-
poderia denominar a lei das espécies químicas. Sem essa indivi- componíveis, denominados simples, e obtereis uma escala
dualidade que nos permite isolar, classificar e reconhecer os cor- que oferece características especialíssimas. Se observarmos as
pos, não seria possível a química moderna. Pode-se falar, no propriedades químicas e físicas de cada corpo, veremos que
mundo da matéria, de indivíduos químicos, tal como na Zoologia elas estão em estreita relação com os pesos atômicos. Verifi-
e na Botânica fala-se de indivíduos orgânicos e, no mundo hu- caremos que à série dos pesos atômicos não corresponde ape-
mano, de “eu” e de consciência. Em seus vastos aspectos de   nas uma série de individualidades químicas bem definidas,
, a substância  segue sempre a mesma lei. Assim também, no mas que isso ocorre de acordo com um ritmo de retornos re-
mundo químico, temos algo como uma personalidade, que é in- gulares ao mesmo ponto de partida. Esse fato vos fará pensar
coercível vontade de existir em sua própria forma e reage a todos de imediato como, por trás da série dos pesos atômicos, ocul-
os agentes externos que pretendam alterá-la. A química delineia ta-se um conceito mais substancial e profundo.
exatamente o modo de comportar-se desses indivíduos químicos. Se observarmos em cada corpo a característica da valên-
Outro artigo da Lei diz: “Quando dois corpos, ao se combina- cia, isto é, a capacidade especial de cada átomo para unir-se a
rem entre si, podem dar origem a mais de um composto, as dife- um ou mais átomos de hidrogênio, veremos que essa valência
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 23
24 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
alinha-se com surpreendente regularidade, segundo ordens de dade, compressibilidade e dureza. A classificação em série é re-
sete graus, que se repetem ininterruptamente do primeiro ao sultado do comportamento dessas oitavas.
último elemento. A coluna das isovalências do quadro anexo Eis, portanto, traçado um sistema estequiogenético, ou ár-
vos mostra a repetição das mesmas valências à distância de vore genealógica das espécies químicas. Divisíveis em sete
sete períodos. Assim, têm as mesmas valências lítio e sódio, séries, a partir de S 1 até S7, são os sete períodos de formação
berílio e magnésio, boro e alumínio, carbono e silício, nitro- ou sucessiva condensação da matéria, também divisíveis em
gênio e fósforo, oxigênio e enxofre, flúor e cloro, corpos que sete grupos, verdadeiras famílias naturais de corpos semelhan-
são marcados com os mesmos números de valências. Mais tes, segundo as respectivas isovalências.
exatamente, a graduação dessas valências sobe de um a quatro
pela valência com o hidrogênio, depois diminui para um, no XVII. A ESTEQUIOGÊNESE E
número VII, e sobe progressivamente de um a sete para a va- AS ESPÉCIES QUÍMICAS DESCONHECIDAS
lência relativa ao oxigênio. Deste modo temos, respectiva-
mente, setenários compostos de monovalências, bivalências, Este estudo que vou desenvolvendo para atingir conclu-
trivalências, tetravalências e depois em sentido inverso: triva- sões de ordem filosófica e moral, de significado muito mais
lências, bivalências e monovalências; e setenários compostos alto, pode também ter importância prática para vossa ciência,
de monovalências, bivalências, trivalências, tetravalências, pois vos oferece a possibilidade de definir, a priori, elementos
pentavalências, hexavalências, heptavalências. que ainda desconheceis; e isso não empiricamente, por tenta-
Temos, pois, períodos I–IV–I, que se sobrepõem exata- tivas, mas sistematicamente, prevendo com exatidão a direção
mente nos períodos I–VII. O ritmo é evidente, expresso pela a dar a vossas pesquisas. O esquema vos revela que, em certos
coluna das isovalências periódicas. Assim como o ritmo se pontos, há corpos que descobrireis com as características indi-
repete, por exemplo, nos dias e nas estações, mas sempre num cadas pelo gráfico. Não importam os nomes. Os corpos estão
ponto diferente do espaço ocupado pelo planeta, também volta lá, já definidos e descritos. Procurai-os e os achareis. Dir-vos-
o ritmo da valência à distância de sete elementos, num ponto ei mais: pelo que já conheceis experimentalmente, sabendo-se
diferente. A cada sete elementos, temos uma repentina mu- que o universo é lei e organismo, podereis delinear o anda-
dança de propriedades, depois um retorno regular ao ponto- mento de um fenômeno pela simples aplicação analógica do
de-partida. O que disse para a série que começamos com o lí- conceito fundamental que o governa, isto é, da linha de seu
tio e com o sódio, repete-se nas outras séries que começam desenvolvimento, mesmo em seus períodos desconhecidos.
com o potássio, o cobre, a prata e assim por diante. Utilizai este conceito monístico que vos trago – da unidade
Esta conexão entre as características de um corpo e sua lo- de princípio de todo o universo – não apenas no campo moral,
calização na escala, permitiu que fosse dado a cada elemento mas também no científico; encontrai este princípio de analogia
um número próprio, para distingui-lo. Essa determinação, que existe em todas as coisas, e ele infalivelmente vos guiará,
mesmo de acordo com vossa ciência, não é empírica, já que o permitindo-vos determinar a priori, antes da observação e da
número atômico pode ser sempre experimentalmente determi- experiência, o desconhecido e defini-lo, descobri-lo e conhecê-
nado, examinando-se os espectros dos raios X emitidos pelos lo. Não foi assim que descobristes o escândio, o gálio, o ger-
diversos corpos, quando em presença dos raios catódicos. A mânio? O escândio está no grupo III, à distância exata de duas
frequência vibratória das linhas desses espectros é proporcio- oitavas do boro; o gálio está no mesmo grupo, um pouco mais
nal ao quadrado do número atômico. distante na escala e na mesma distância de duas oitavas do alu-
Baseado nesta exata determinação de lugar na escala, é mínio; o germânio está no grupo IV, na mesma distância de du-
possível estabelecer outras relações entre corpos, relações as oitavas do silício, que se encontra no mesmo grupo. Este
expressas pelas seguintes proporções: o boro está para o be- mesmo sistema vos guiou à descoberta dos gases nobres, qui-
rílio assim como o berílio está para o lítio; o lítio está para o micamente inertes, contidos no ar, isto é, o neônio, o criptônio,
sódio assim como o berílio está para o magnésio e como o o xenônio. Estes pertencem ao grupo “0”, ou seja, ao grupo do
boro está para o alumínio; o lítio está para o magnésio como argônio. Conseguistes preparar o radônio (emanação do rádio),
o berílio está para o alumínio e como o boro está para o silí- da mesma família “0”. De fato, no esquema, esse elemento está
cio. São respectivamente proporcionais as passagens das incluído no grupo do argônio (“0”, com valência zero) como
propriedades de um corpo para as do outro. todos os outros. Assim por diante também no campo astronô-
Dessa maneira, temos o retorno periódico das mesmas mico, onde o cálculo de uma lei exata vos permitiu individuali-
características, embora repetidas em nível atômico diferente. zar, em determinado ponto e instante, um corpo com caracterís-
Os volumes atômicos aumentam e diminuem, corresponden- ticas determinadas, até se encontrá-lo de fato. Já vedes como o
do às séries assinaladas na escala. As séries duplas são cau- edifício que a razão é capaz de construir pode antecipar a ob-
sadas justamente pelo aumento e pela diminuição dos volu- servação direta; essa é apenas a trivial caminhada de um pen-
mes atômicos, fato regularmente verificado. samento que sempre se apoia nos fatos. Imaginai a que desco-
A representação gráfica vos demonstrará melhor esses con- bertas podereis rapidamente chegar quando os problemas cien-
ceitos. Tomando os pesos atômicos por base, e por altura os vo- tíficos forem enfrentados por intuição, como vos disse. Aliás,
lumes atômicos, podeis traçar uma linha que representa sete as verdadeiras e grandes descobertas foram todas lampejos de
conchas, com seus máximos ou vértices relativos, que, por ana- intuição de gênio, o super-homem do futuro, que, saltando além
logia com todo o seu traçado, indica a localização dos elemen- das formas racionais de pesquisa, antecipa as formas intuitivas
tos cujo volume atômico ignorais. da humanidade futura. Os grandes saltos para frente dados pe-
O volume atômico, portanto, acompanha o andamento da es- lo homem, nunca foram realizados experimentalmente, nem
cala dos pesos atômicos. Ele cresce e decresce, correspondendo racionalmente, mas sim por intuição, verdadeiro e grande sis-
aos vários setenários dos elementos, isto é, a cada oitava. Aliás, tema de pesquisa do futuro. Enquanto a evolução não trouxer
compreende duas oitavas: uma ascendente e outra descendente. à luz essa nova maturação biológica, seja a vossa razão na
A oitava descendente inclui os corpos dúcteis; a ascendente, os pesquisa científica dirigida pela minha afirmativa de que o
corpos frágeis. Nos vértices estão os corpos de fácil fusão ou ga- universo é todo regido por conceitos harmônicos, analógicos,
ses; ao contrário, nos mínimos. As oitavas descendentes são ele- reduzíveis a princípios cada vez mais simples e sintéticos.
tropositivas; as oitavas ascendentes são eletronegativas. O mes- Uma vez compreendido o conceito gerador de um processo
mo podereis dizer de várias outras qualidades, como condutibili- fenomênico e seu ritmo, qualquer que seja sua altura na escala
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 25
das formas do ser, ampliai com segurança esse conceito e esse ralelamente ao processo de desintegração radioativa. Assim fica
ritmo, mesmo onde ainda falta o conhecimento objetivo. De  demonstrado o transformismo físico-dinâmico.
a  é idêntica a lei de evolução, é contínua a linha de desen- O estudo de grupo dos elementos radioativos nos mostra
volvimento, é único o princípio. Este conceito vos permitirá outro fato importante, ou seja, como ocorre a transformação
sempre individuar, a priori, as formas intermediárias que , a de um elemento em outro. Isto é, como se verificam os casos
substância, atravessa em seu contínuo transformar-se. de evolução química, que podeis considerar como exemplos
Resumindo, podemos, pois, dizer que observamos as formas de verdadeira e própria estequiogênese.
do estágio físico da substância (=matéria), que vão do H ao U, Se tomarmos em consideração a última oitava dos elemen-
segundo pesos atômicos crescentes, formas que reagrupamos tos da série estequiogenética (elementos radioativos), podemos
em VII grandes séries sucessivas de condensação e VII grandes estabelecer entre eles uma relação de filiação. Foi precisamente
famílias naturais de isovalências. Somente aparece pequena em vista dessa relação genética que pudemos estabelecer a série
anomalia, essa também periódica, de três corpos que interrom- S7, a família do urânio. Sabeis que os corpos radioativos emi-
pem a progressão das isovalências. Essa interrupção é como tem três espécies de raios:   . Quando um corpo radioati-
uma breve estase e de modo algum perturba o andamento do vo perde em cada átomo uma partícula , tem-se, em corres-
fenômeno, pois a estase é rítmica e reaparece em períodos regu- pondência, a perda de quatro unidades de peso atômico. Esse
lares. No esquema gráfico, as estases, nos fundos das conchas, elemento transforma-se em outro, que ocupa um lugar diferente
são obtidas pelos volumes atômicos mais baixos. na série. A emissão de raios , ao invés, produz uma transfor-
mação no sentido contrário. Uma transformação  pode ser
XVIII. O ÉTER, A RADIOATIVIDADE E compensada por duas transformações  em sentido contrário.
A DESAGREGAÇÃO DA MATÉRIA ( Conheceis a lei específica dessa transformação, que é expressa
 pela fórmula: constante de transformação =2,085x10-6/seg.
Nas duas extremidades da série, temos o H e o U. Esses dois Por meio dessa transformação realiza-se a passagem do urâ-
elementos individualizam as duas formas extremas da fase . nio a protactínio, rádio, radônio (emanação), polônio (rádio F),
Que outras individualizações encontramos além dessas? A es- chumbo (rádio G). Neste último elemento, a emanação dinâmica
cala evidentemente “deve” estender-se além das formas que vos não é mais apreciável e parece já esgotada. Cada elemento é o
mostra a evolução terrestre. Vimos que, antes do H, temos o produto da desintegração do elemento precedente. Estudando o
éter, forma da qual voltaremos a falar, intermediária entre  e . andamento desse processo de desintegração sucessiva dos termos
Vejamos agora a que formas tende a progressão evolutiva do U. da série, descobris que cada elemento tem um característico tem-
Vimos que o hidrogênio é o elemento constitutivo dos cor- po médio de transformação, que oscila, nos vários corpos, de fra-
pos jovens: nebulosas, estrelas brancas, quentes, de espectro ex- ções de segundo a milhares e milhares de milhões de anos. Esse
tenso ao ultravioleta, como Sírio e Alfa da Lira. O urânio, ao tempo médio de transformação é sua vida média, e cada elemen-
invés, é o elemento constitutivo dos corpos velhos, mais adian- to radioativo tem um período próprio de vida média.
tados na evolução e que, portanto, puderam produzir elementos Vossa ciência já fala de vida de elementos químicos e de-
mais densos (peso atômico maior) e mais diferenciados. O urâ- fine a duração desses períodos de vida. A radioatividade, fe-
nio se nos apresenta com características todas especiais. É o nômeno materialmente perceptível para vós apenas nos corpos
elemento que tem o peso atômico mais alto (238,2) e é o último que a apresentam destacadamente, é, não obstante, proprieda-
termo do último grupo da série estequiogenética. Este grupo é de universal da matéria. Isto significa que a matéria, toda e
precisamente o dos corpos radioativos. Entre eles, considerais o sempre, em maior ou menor grau, é susceptível de decompo-
urânio como a substância-mãe do rádio, tanto que a quantidade sição e transformável em formas dinâmicas, e que a pulsação
de rádio contida num mineral é dada pela quantidade de urânio de sua evolução, a estequiogênese, jamais para.
que o compõe. Nos corpos celestes mais velhos que a Terra, Resumo, ainda, e fecho este capítulo. Partindo do hidrogê-
agruparam-se, por evolução, formas de peso atômico maior e de nio – forma primitiva da matéria, derivada por condensação
radioatividade invulgar. De fato, a radioatividade é uma quali- (concentração) das formas dinâmicas, através da forma de
dade que só aparece nos elementos do último grupo. Pois bem, transição, o éter – estabelecemos uma escala em que os ele-
sabeis que essa é uma forma de desagregação da matéria, pelo mentos químicos, até ao U, encontraram seu lugar de acordo
que haveis de comprovar este estranho fenômeno: com o au- com a própria fase de evolução. A repetição periódica das
mento do peso atômico, ou seja, do grau de condensação da isovalências mostrou-nos que essa evolução – ao mesmo tem-
matéria, aumenta essa radioatividade, que, na matéria, é mais po condensação progressiva e estequiogênese – constitui um
relevante exatamente em sua última forma. Então a condensa- ritmo que é também expresso pelo progredir constante dos pe-
ção leva à radioatividade, isto é, à desagregação. Portanto a ma- sos atômicos. Essas grandes pulsações rítmicas da matéria são
téria (), derivada de  por concentração, atinge um máximo de sete, as quais apresentei em sete séries, de acordo com as le-
condensação em seu processo de descida involutiva até às for- tras S1, S2, S3, S4, S5, S6 e S7. Partindo da série S1 até S7, apa-
mas de peso atômico máximo, retorna sobre seu caminho, in- rece uma mudança alternada de fases periódicas que se suce-
vertendo a direção na forma de ascensão evolutiva, e tende a dem à maneira de notas musicais, a distâncias de oitavas. O
dissolver-se, regressando a . A radioatividade é exatamente a conjunto da série é apenas uma oitava maior, o que prenuncia
propriedade de emitir radiações especiais em forma de calor, outras oitavas que invadem as fases  e . Vimos a tendência
luz, eletricidade – ou seja, de energia. Esta, ao contrário das leis que assume a matéria ao chegar ao U – seu limite de máxima
que conheceis, não é tirada do ambiente, nem de outras formas descida, condensação, involução e, ao mesmo tempo, ponto de
dinâmicas, mas é produzida constantemente, e não podeis esta- retomada da ascensão evolutiva, o regresso à fase . Chegan-
belecer outra fonte a não ser a matéria em estado de dissocia- do ao U, a matéria se desagrega. Em vosso sistema planetá-
ção. Este fato derruba vosso dogma científico da indestrutibili- rio, a matéria é velha, ou melhor, está envelhecendo e vos
dade da matéria e revalida o da indestrutibilidade da substância. mostra todas as formas em que sua vida se fixou e criou. A fa-
A matéria, como matéria, apresenta fenômenos de decomposi- se vivida por vosso recanto de universo é a fase  isto é,
ção espontânea. Essa decomposição é acompanhada de desen- os fenômenos da vida e do espírito.
volvimento de energia. Vedes, portanto, que a matéria, como
tal, é destrutível, mas não como substância, já que essa destrui- 7
Não confundir com os símbolos adotados neste tratado =espírito;
ção é acompanhada pelo aparecimento de formas dinâmicas, pa- =energia; =matéria.
26 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
Mas, se quiserdes continuar a série evolutiva de suas formas psiquismo é mínimo, os cristais. Nestes, a matéria não soube ele-
conhecidas, recorrei ao citado princípio de analogia e continuai a var-se a organizações mais complexas que as de unidades quími-
série nas direções já iniciadas, ou seja, antes do H, com corpos de cas coletivas, que representam quanto a matéria possa conter de
peso atômico decrescente, e depois do U, com peso atômico e ra- : o psiquismo físico, que é o menor psiquismo da substância. Os
dioatividade cada vez mais acentuadas. Conservai a relação de cristais são sociedades moleculares, verdadeiros povos organiza-
progressão já anotada e encontrareis, para os elementos químicos dos e regidos por um princípio de orientação matematicamente
aquém do H e além do U, um salto no peso atômico de duas ou exato; nesse princípio reside o citado psiquismo. Vedes que a
quatro unidades, e o mesmo retorno periódico de isovalências. cristalografia vos oferece sete sistemas cristalinos, que são a gra-
Assim, o elemento que vier depois de U terá um peso atômico dação de um conceito cada vez mais complexo, de um psiquismo
240-242, com qualidades radioativas ainda mais fortes. Notai, cada vez mais evidente, que se revela de acordo com planos e ei-
porém, que os produtos mais densos e radioativos do que o U vos xos de simetria, regulados segundo critérios exatos.
escapam, pois ainda não “nasceram” em vosso planeta, e que os Do triclínico ao monométrico, através do monoclínico, do
corpos que precederam o H já desapareceram, fugindo, portanto, trimétrico, do trigonal, do dimétrico, do hexagonal, ou dos sis-
à vossa observação. Esse aumento de qualidades radioativas nos temas que, se têm nomes diferentes, são, no entanto, substanci-
corpos que devem nascer depois do U, significa para eles uma almente idênticos, subimos mais uma oitava, ao reino vegetal, e
tendência cada vez mais acentuada à desagregação espontânea, depois ao reino animal, com o expoente psíquico cada vez mais
ao regresso às formas dinâmicas. Esses corpos nascem para mor- profundo e evidente. Dos protozoários aos vertebrados, através
rer logo, e sua vida tem a função de transformar  em . A maté- das grandes classes dos celenterados, vermes, equinodermos,
ria de vosso sistema solar, com sua tendência a evoluir para moluscos e artrópodes, só existe mais uma oitava. Vossa zoolo-
formas de peso atômico cada vez maior e mais radioativas, pro- gia classifica os animais existentes em sete tipos. Chegamos as-
duzirá uma série de elementos químicos sempre mais comple- sim, através de repetições rítmicas de graduação fundamental e
xos, densos e instáveis. Esta matéria, cada vez mais velha e di- do retorno de períodos constantes da matéria, máxima conden-
ferenciada, tende à desagregação, prepara-se para atravessar sação da substância, às superiores formas de consciência hu-
verdadeiro período de dissolução, que, aumentando progressi- mana, para vós, a máxima espiritualização.
vamente, terminará em verdadeira explosão atômica, como ob- Agora, podeis ter a visão da unidade da Lei e do meu monis-
servais nas dissoluções dos universos estelares. Vosso recanto mo. Da zoologia chegamos ao mundo humano. Mas toda a vida,
de universo se dissolverá por explosão atômica, verdadeira mesmo a vegetal, tem um só significado: construção de consci-
morte da matéria. Isto acontecerá quando a matéria tiver esgo- ência, transformação de  em . Todas as formas de vida são ir-
tado sua função de apoio àquelas formas orgânicas que susten- mãs da vossa e lutam por subir para a mesma meta espiritual, que
tam vossa vida e operam aquela fase de evolução, vossa grande é o objetivo de vossa vida humana. A escala dos estados psíqui-
criação, ou seja, a construção, por meio de infinitas experiên- cos que a vida percorre até alcançar-vos, parte das primeiras
cias, de uma consciência,  a substância que regressa à sua fa- formas inconscientes de sensibilidade vegetal, percorre as fa-
se de espírito. Esse o grande e verdadeiro problema de que tra- ses de instinto, intuição inconsciente, raciocínio (a vossa atual
tarei e do qual esta é apenas singela preparação. fase), consciência, intuição consciente ou superconsciência.
Na outra extremidade da escala, além do H, sempre pelo Esta vos espera, e vo-la indiquei como novo sistema de pes-
mesmo princípio de analogia, encontrareis corpos de peso atô- quisa. Seguem as unidades coletivas em que as consciências
mico menor que o H, e assim por diante, do grupo e valência do se coordenam em mais vastos e complexos organismos psí-
oxigênio. Prosseguindo nessa direção, encontrareis o éter, ele- quicos, como a família, a nação, a raça, a humanidade e as
mento imponderável para vós, de densidade mínima, tanto que formas de consciência coletiva que lhes correspondem.
praticamente escapa às leis da gravitação, e não podereis apli- Assim nasce a síntese espiritual desse vertiginoso metabo-
car-lhe conceitos de gravitação e de compressibilidade, como lismo que é a vida, à qual se sujeita a matéria nos mais altos
não podeis fazê-lo à luz e à eletricidade. Ele escapa às vossas graus de evolução. Pensai: o sistema planetário do núcleo e
leis físicas e vos desorienta com sua rigidez, tão grande que lhe dos elétrons que giram vertiginosamente no seio do átomo,
permite transmitir a luz à velocidade de 300.000 km/s. No en- que na molécula se combina com outros sistemas planetários
tanto é de tão fraca resistência, que nada opõe ao curso dos cor- atômicos, coordenando-se num sistema orgânico mais com-
pos celestes. O erro consiste em querer considerá-lo com os cri- plexo, o qual, por sua vez, é envolto num turbilhão ainda mais
térios específicos da matéria, enquanto ele é uma forma de tran- profundo, produzido pelo intercâmbio orgânico na célula. Que
sição, como vos disse, entre matéria e energia. é a célula num organismo? Como é vertiginoso nascer, viver,
morrer! A vida é troca, e, a cada momento, mudais a matéria
XIX. AS FORMAS EVOLUTIVAS de que sois compostos. É uma corrente que jamais para. É ma-
FÍSICAS, DINÂMICAS E PSÍQUICAS ravilhoso turbilhão, do qual nasce o pensamento, a consciên-
cia, o espírito. Aí palpita a matéria toda, acesa em sua mais
Mas, afora os corpos que, aquém do H e além do U, prolon- íntima essência, com indômita febre de ascensão. Eis a nova,
gam a série de formas de , a escala, naturalmente, continua, tremenda grandeza divina que vos mostrarei.
mesmo onde a matéria não é mais matéria. Continua, na visão Entretanto esse imenso fenômeno não é apenas progressão
monística que vos exponho, nas formas dinâmicas, até às mais al- de formas que individuam as etapas do grande caminho ascen-
tas formas de consciência. Do urânio ao gênio, traçaremos uma sional (aspecto estático); não é só movimento do transformis-
linha que deverá ser contínua. Mesmo nas formas dinâmicas, te- mo evolutivo (aspecto dinâmico do universo), mas representa a
mos semelhante progressão de períodos: raios X; vibrações que exteriorização de um princípio único, uma lei que se encontra
desconheceis; raios luminosos, caloríficos e químicos; espectro em toda parte. Esse princípio, que define o andamento de qual-
visível e invisível, desde o infravermelho até ao ultravioleta; vi- quer fenômeno, pode exprimir-se graficamente na forma de
brações eletromagnéticas; outras vibrações que desconheceis e, uma espiral, em cujo âmbito cada pulsação rítmica é um ciclo,
finalmente, vibrações acústicas. A tendência da série estequioge- o qual, embora voltando ao ponto de partida, desloca-se, repe-
nética ao período setenário e à progressão por oitavas, repete-se tindo, num tom e num nível diferentes, o período precedente.
aqui. As formas acústicas dividem-se, por sua vez, numa oitava Isto explicarei com mais exatidão no estudo da trajetória típica
menor, assim como a luz no espectro. Das formas dinâmicas, dos movimentos fenomênicos (aspecto mecânico do universo).
passa-se às psíquicas, começando pelas mais baixas, em que o Este é também trino em seus aspectos.
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 27
XX. A FILOSOFIA DA CIÊNCIA cial dinâmico, até ao núcleo, bombardeando o sistema com
emanações-projéteis de alta velocidade, mas não vedes que a
Essa filosofia da ciência de que vos falei, tem a função de essência do fenômeno da transmutação dos átomos reside na lei
coordenar a grande quantidade de fenômenos que observais, de da unidade da matéria. Assim, também notastes que a matéria
reduzir a uma síntese unitária vossa ciência, a fim de não vos sideral nasce e morre, aparece e desaparece, volatiliza-se de um
perderdes no particular das análises; tem a função de vos dar a lado em radiações e, em outra parte, reaparece como matéria;
chave da grande máquina do universo. Vossa ciência possui ví- mas não colocastes lado a lado os dois fenômenos e não obser-
cios de base e defeitos orgânicos que venho sanar. Falta-lhe to- vastes o traço que os une e a linha comum cíclica do seu desen-
talmente unidade, e isto lhe impediu até agora de elevar-se a volvimento. Eu vos revelo os vínculos que unem os fenômenos
sistema filosófico, dando-vos uma concepção de vida. De um aparentemente mais díspares. Meu sistema não despreza a ciên-
lado, as filosofias instituídas, de outro, uma ciência puramente cia, como acontece com vossa intuição filosófica; toma-a como
objetiva, caminhando por estradas opostas e com metas diferen- base, completa-a, ergue-a ao grau de concepção sintética, dá-
tes, só podiam chegar a resultados incompletos. Mantendo se- lhe dignidade de filosofia e de religião, porque, no infinito
parados o abstrato do real, eram insuficientes para conseguir a pormenor da fenomenologia, reencontra o princípio unitário
síntese completa que vos dou, fundindo os dois extremos: intui- que, dando-vos a razão das coisas e respondendo aos últimos
ção e razão, revelação e ciência. Quando estiver completa nos- porquês, é capaz de vos guiar pela estrada de vossas vidas e de
sa viagem pelo cosmos, tornarei a descer, num tratado mais vos proporcionar um objetivo para vossas ações.
profundo, aos pormenores de vossa existência individual e co-
letiva, para que ela não seja mais guiada, como até agora, pe- XXI. A LEI DO DEVENIR
los instintos que emergem de uma lei que desconheceis, mas
possais, vós mesmos, com consciência e conhecimento – não Chegou agora o momento de aprofundar nosso estudo, en-
mais menores de idade – tomar as rédeas do funcionamento frentando problemas de complexidade maior. Até aqui me man-
complexo de vosso mundo. Outro defeito de vossa ciência é tive relativamente à superfície dos fenômenos, detendo-me em
de constituir-se em ciência de relações, ou seja, que se limita sua aparência exterior, que é a mais acessível ao vosso intelec-
a estabelecer, embora de forma matematicamente exata, as re- to. Procedamos agora ao exame, em sua íntima e profunda es-
lações entre os fenômenos; ciência que parte do relativo e se trutura, do processo genético do mundo fenomênico.
move apenas no relativo. Minha ciência é ciência do absoluto. Nas páginas anteriores, tracei-vos as características, a gê-
Eu não digo: “poderia ser”. Digo: “é”. Não discuto: afirmo. nese e o desenvolvimento da fase , e lançamos um olhar de
Não indago: exponho a verdade. Não apresento problemas, conjunto sobre as outras duas formas de , isto é, de  e .
nem levanto hipóteses: exprimo os resultados. Minha filosofia Mais tarde penetraremos no exame minucioso da fase dinâmi-
não se abstrai em construções ideológicas, mas permanece ca e psíquica, que merecem estudo profundo, porque se refe-
aderente aos fatos em que se baseia. rem ao que vos atinge mais de perto, ou seja, aos fenômenos
Vós multiplicais vossa perspicácia e o poder de vossos da vida e da consciência, e também de vossa vida e de vossa
meios de pesquisa, mas o ponto de partida é sensório. Assim consciência, tanto no campo individual quanto no social. Com
percebeis a matéria como solidez, e não como velocidade. isso, terminarei o tratado, e o edifício estará acabado, porque
Torna-se-vos difícil, mas só por vias indiretas chegais a ima- terei lançado nova luz ao vosso mundo; terei implantado as
ginar como a massa de um corpo exista em função de sua ve- bases de novo viver particular e coletivo, que se apoia ao
locidade; como a transmissão de uma nova energia signifique mesmo tempo na ciência e na revelação, novo viver que cons-
para ele um peso maior; como a velocidade modifique as leis tituirá a nova civilização do Terceiro Milênio.
de atração (giroscópio); como a continuidade da matéria se Mas, antes de prosseguir em extensão, expandindo-me nes-
deva à velocidade de deslocamento das unidades eletrônicas tes novos campos, procedamos em profundidade, para tomar-
que a compõem, tanto que, sem essa velocidade – dado seu mos conhecimento da essência dos fenômenos que observamos.
volume mínimo em relação ao espaço em que circulam – vos- Não era possível, antes deste momento, empreender este estu-
so olhar passaria através delas sem perceber nada; como sua do. Ele não mais se refere ao universo em seu aspecto estático
solidez, fundamental para vossas sensações, deva-se à veloci- nem dinâmico, já observados, mas considera-o sob novo ponto
dade de rotação dos elétrons, que lhes confere quase uma con- de vista: seu aspecto mecânico.
temporânea onipresença espacial; velocidade sem a qual toda O aspecto estático refere-se às formas do ser, e sua ex-
a imensa grandeza do universo físico se reduziria, em um áti- pressão é:
mo, ao que verdadeiramente é: um pouco de névoa de poeira 
impalpável. Eis a grande realidade da matéria que a ciência
deveria mostrar-vos: a energia. O aspecto dinâmico diz respeito ao devenir (evolução) das
Pelo método em que se baseia, vossa ciência é inapta para formas do ser, e sua expressão é:
descobrir as íntimas ligações que unem as coisas e delas reve-

lam a essência. Por exemplo: compreendestes o fenômeno que
demonstra a transformação que afirmei, de  em , e o retorno O aspecto mecânico considera a essência do devenir das
da fase matéria à fase energia, observada também na radioativi- formas do ser, e sua expressão é uma linha: a espiral.
dade do vosso planeta, ou seja, o fenômeno mediante o qual o Certamente notastes como as formas ou fases de , a
sol inunda de energia, à sua própria custa, desgastando-se em Substância, são três: matéria – , energia – , espírito – .
peso e volume, a família de seus planetas e o espaço, até exau- Assim seus aspectos são três, podendo ser considerados: 1 o)
rir seu ser. Mas a ciência para aqui e olha para aquele sol, que é Como formas; 2 o) Como fases; 3o) Como princípio ou lei.
vossa vida, como para um enigma; sol que vagará por bilhões Esses três aspectos são as três dimensões da trindade da
de séculos, exaurido de luz e de vida, apagado, frio, morto. Ao substância. Unidade trina, a três dimensões. Em uma pala-
invés, eu vos digo: ele obedeceu à lei universal de amor, que vra, o universo não é apenas uma grande organização de
impõe a doação gratuita e que, em todos os níveis, torna irmãos unidades e o funcionamento de um grande organismo de se-
todos os seres do universo. Assim, por exemplo, tentais a desin- res, é também vir-a-ser, o transformismo evolutivo desse or-
tegração atômica, procurando demolir o edifício atômico invio- ganismo e de suas unidades; é, enfim, o princípio – a Lei –
lado; tentais penetrar, entrando na zona eletrônica de alto poten- que rege esse transformismo.
28 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
O estudo desse princípio nos ocupará agora. Por fenômeno, entendo uma das infinitas formas individua-
O eterno devenir do ser é guiado por lei perfeita e matema- das da substância, o seu devenir e a lei do seu devenir. Por
ticamente exata; o transformismo evolutivo universal obedece a exemplo: um tipo de corpo químico, de energia, de consciência,
um princípio único. Eu vos exporei esse princípio, que encon- em seus três aspectos – estático, dinâmico e mecânico. Fenô-
trareis, na infinita multiplicidade das formas, idêntico e cons- meno é a palavra mais ampla possível, porque compreende tu-
tante, e vos traçarei a linha do seu devenir, a trajetória da evo- do, enquanto é e se transforma de acordo com sua lei. Em meu
lução, uma linha absolutamente típica, que se pode denominar conceito, ser jamais significa estase, mas eterno devenir.
matriz do transformismo universal; uma trajetória que todos os A fig. 1 é a expressão mais simples do curso do fenômeno
fenômenos, os mais díspares, seguem em seu processo de de- no tempo, isto é, da quantidade de sua progressão evolutiva em
senvolvimento. Princípio absoluto, trajetória inviolável. Cada relação à velocidade dessa progressão.
fenômeno tem uma lei, e essa lei é um ciclo. Cada fenômeno Esta e as expressões que a ela se seguirem têm um signifi-
existe enquanto se move de um ponto de partida para um ponto cado universal. Portanto, para passar ao caso especial, é neces-
de chegada. Existir significa mover-se segundo essa linha de sário levar em conta os graus particulares de evolução na indi-
desenvolvimento, que constitui a trajetória do ser. viduação fenomênica que examinarmos e sua velocidade parti-
cular de progressão. Levando isso em conta, a linha pode apli-
XXII. ASPECTO MECÂNICO DO UNIVERSO. car-se a todos os fenômenos, e as trajetórias que assinalarmos
FENOMENOGENIA são aplicáveis a todos eles. Entretanto, para simplificar e salien-
tar a evidência, tomo agora para exame, particularmente, um ti-
A trajetória típica dos movimentos fenomênicos, expressão po de fenômeno que é o maior que conheceis, o máximo, e
sintética do seu devenir, é a linha que já encontrais no mundo compreende todos os menores: o transformar-se da substância
físico, no nascimento da matéria; é a linha das formações este- em suas fases   . Isto com o objetivo de dar-vos uma ideia
lares (nebulosas) e planetárias, isto é, o vórtice, a espiral. Ela mais exata do processo genético do cosmos.
exprime a fenomenogenia, e seu estudo conduzir-vos-á a nova
concepção cosmogônica.
Procedamos à sua análise, começando pelos conceitos
mais elementares e caminhando com ordem, do simples ao
complexo. Para evidenciar melhor o conceito, espessá-lo-
emos também com diagramas.
A fig. 1 representa a lei do caminho ascensional da evolu-
ção em sua expressão mais simples. A abscissa horizontal in-
dica a progressão da unidade de tempo, e a vertical, a progres-
são dos graus de evolução. Isto nos aparece aqui em sua nota
fundamental e característica dominante de caminho ascensio-
nal linear contínuo (OX).

Figura 2
Análise da progressão em suas fases
evolutivas e involutivas.

A fig. 2 exprime um conceito mais complexo.


Dissemos que, na eterna respiração de , a fase evolutiva
é compensada por uma fase equivalente involutiva e que vos-
so atual caminho ascensional,  tinha sido precedido
por um caminho inverso de descida, . Desse modo,
Figura 1 para que a expressão fique completa, a linha traçada OX deve
Diagrama da progressão evolutiva ser precedida por uma linha oposta que, da mesma altura 
em sua mais simples expressão retilínea. torne a descer a O. Mas, quando expus a grande equação da
substância em seu aspecto dinâmico: ..., eu dis-
Algumas definições: se, sumariamente, que o devenir retornava sobre si mesmo. Is-
Por evolução, entendo o transformar-se da substância, desde a so porque, se o tivesse definido com mais precisão naquele
fase  até às fases   e além, como veremos, e a transformação momento, teriam surgido dúvidas e complicações que só ago-
que sofrem as formas individuais através dessas fases. ra podemos resolver, quando estamos observando o aspecto
Por tempo, entendo o ritmo, a medida do transformismo mecânico do fenômeno.
fenomênico, isto é, um tempo mais amplo e universal que o Certamente, compreendeis que o absoluto só pode ser in-
tempo no sentido restrito – medida de vosso universo físico finito em todas as direções; que só pode haver limites em
e dinâmico – e que desaparece no nível ; um tempo que vosso relativo; que, se tivéssemos que pôr limites ao absolu-
existe onde haja um fenômeno e subsiste em todos os níveis to, esses limites não estariam no absoluto, mas apenas traça-
possíveis do ser, tal como um passo que assinala o caminho dos pela insuficiência de vosso órgão de julgamento: a ra-
da eterna transmutação do todo. zão; e que o universo não só se estenderá infinito em todas as
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 29
direções possíveis, espaciais, temporais e conceptuais, mas transforma-se nesta outra:
que, em determinado ponto, ele desaparecerá de vossa visão
insuficiente e se desvanecerá, para vós, no inconcebível. As
fases    não podem esgotar todas as possibilidades do
ser. Elas são  o vosso universo, vosso concebível. Mas,
além delas, há outras fases e outros universos, contíguos,
comunicantes, que para vós são o nada, porque estão além
de vossas capacidades intelectivas. Essas fases estendem-se
além de , em progressão ascendente para um infinito posi-
tivo, e abaixo de , em progressão descendente para um infi-
nito de sinal oposto.
Por isso a fig. 2 assume um aspecto diferente da fig. 1. En-
quanto a linha do tempo se estende horizontalmente, de um a
um+ilimitada em ambas as direções, a linha da evolução es-
tende-se, no alto e em baixo, para +e . E às fases    se-
guirão, no alto, as fases evolutivas (que desconheceis) +x, +y, +z
etc., e prosseguirão, embaixo, as fases involutivas (que também
em que o ciclo do universo , dado por:
desconheceis) x, y, z, que constituem criações limítrofes
(mas não no sentido espacial) de . 
O sistema, embora de maior amplitude e complicação que
não está mais fechado em si mesmo, mas se abre, invertendo o
o de , equilibra-se igualmente, mas num equilíbrio mais vas-
caminho  em  e, assim, desenvolvendo os universos
to e complexo. Assim como o ciclo  não é a contíguos   etc.
medida máxima do ser, tampouco o é este ciclo maior. Ele é A fórmula do ciclo aberto estende-se também para o negati-
apenas uma parte de um ciclo ainda mais amplo, pois, repito, vo, que é dada pela seguinte expressão:
não há nem pode haver limite de maior ou menor, de simples
e complexo, mas tudo se estende sem princípio nem fim, nas 1o ciclo . . . y x  x
infinitas possibilidades do infinito. Vosso campo visual é li-
2o ciclo x   
mitado e só pode abarcar um trecho dessa trajetória maior, ao
longo da qual ocorrem as criações e se escalonam os univer- 3o ciclo  
sos. Isso, porém, não vos faça supor imperfeição, falta de 4o ciclo  +x 
equilíbrio e ausência de ordem, pois aí tudo se desenvolve se- 5o ciclo +x +y  +x . . .
gundo um princípio único e uma lei constante.
O diagrama da fig. 2 apresenta-nos esse mesmo conceito
XXIII. FÓRMULA DA PROGRESSÃO EVOLUTIVA. dos ciclos sucessivos com uma linha quebrada que sobe, al-
ANÁLISE DA PROGRESSÃO EM SEUS PERÍODOS ternando seu movimento ascensional com períodos de regres-
são involutiva. Unindo entre si os vértices e as bases da linha
Aprofundemos ainda mais. Compreendeis que o ser não quebrada, vemos reaparecer ali, no conjunto, a linha ascensio-
pode ficar fechado no ciclo de , o vosso universo, dado pe- nal OX em sua expressão mais simples. Encontramos, em ní-
las três formas,   ; que uma eterna volta sobre si mesmo vel mais alto, o mesmo princípio, de que agora analisamos o
seria trabalho ilógico e inútil; que seria absurdo caminhar íntimo ritmo e vemos a estrutura mais completa.
sem meta nesse eterno círculo . Vossa mente Observemos agora as características da fórmula do ciclo
compreende esta minha argumentação: qualquer limite que aberto. As fases da evolução, elementos que compõem as
se colocasse em , a razão saltaria por cima dele, procuran- fórmulas dos cinco ciclos sucessivos examinados, podem –
do outro mais afastado; é absurdo o ciclo fechado que se re- nas cinco fórmulas sobrepostas – dividir-se em quatro colu-
petisse infinitamente em si mesmo. Vossa mente sente a ne- nas. Veremos, assim, como se repete em nível diferente o
cessidade do ciclo aberto, ou seja, do ciclo que se abre para mesmo ciclo, com o mesmo princípio. A primeira coluna à
um ciclo maior, e que torna a fechar-se em si mesmo num esquerda indica o ponto de partida; a segunda, a fase sucessi-
ciclo menor, sem nenhuma limitação. Fica, assim, satisfeita va do caminho ascensional; a terceira coluna indica o vértice
vossa mente, porque foi atendida a necessidade e concedida do ciclo; deste se desce para a quarta e última coluna. Duas
a possibilidade para que o ser voltasse sobre si mesmo, so- fases de ida e uma de volta projetam a série dos vértices  
bretudo se estendesse fora de si, além de si, além da forma  +x... cada vez mais alto, segundo uma linha ascendente. A
conquistada que o constrange. diferença de nível entre os pontos de partida e os de chegada é
Essa fórmula do ciclo fechado, que já vos demos com a ex- a condição necessária à progressão do sistema. Esclarecemos
pressão sumária:  tem que ser substituída ago- mais adiante, com casos mais particulares, o significado e as
ra pela fórmula mais exata e complexa do ciclo aberto. De razões filosóficas desse deslocamento, pelo qual a linha não
acordo com esta nova fórmula, a expressão gráfica dada: volta ao nível precedente, mas a um mais alto.
O curso da linha quebrada no diagrama da fig.2 expressa de
forma evidente esses conceitos. As coordenadas são ilimitadas,
suspensas no espaço entre dois infinitos. As fases são represen-
tadas não por uma linha, porque não são um ponto, mas por
uma faixa, uma superfície, porque só um espaço pode, grafica-
mente, dar a ideia do deslocamento necessário para atravessar a
fase. Cada ciclo representa o que chamais de uma criação. Tais
criações se sucedem no diagrama com as letras a, b, c, d etc.
Tomamos a criação como unidade de medida do tempo, o ritmo
da transformação do fenômeno que examinamos.
30 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
Resumindo o que dissemos até agora, poderemos concluir: XXV. SÍNTESE LINEAR E SÍNTESE POR SUPERFÍCIE
o aspecto dinâmico do universo é regido por uma lei mais com-
plexa (aspecto mecânico) e sua expressão não é dada simples- Estudemos agora, o diagrama da fig. 4. Tomando uma
mente pela fórmula: unidade de medida de tempo menor que na fig. 3, ou seja, tor-
nando mais lento o curso do fenômeno, e colocando cada cri-
 ação numa distância maior, isto é, a 45 o ou a 90o etc., pode-
remos exprimir não mais (como na fig. 3) apenas o aspecto do
mas por esta outra:
fenômeno em seu conjunto, mas também o curso cíclico de
yxx desenvolvimento e retorno de cada uma das fases, no âmbito
x da própria criação. Assim, podemos observar melhor o fenô-
meno em seus pormenores, em nova figura de aspecto caracte-
em que  exprime, na série infinita, uma unidade coletiva mai- rístico. Aos segmentos ascendentes e descendentes da linha
or que , isto é, um organismo de universos. quebrada substitui-se, com expressão mais dinâmica, o movi-
mento do abrir-se e fechar-se da espiral.
XXIV. DERIVAÇÕES DA ESPIRAL POR A fig. 4 é construída dando-se a cada fase (   etc.) a
CURVATURA DO SISTEMA amplitude de um ângulo reto. É preferível essa amplitude, em
lugar de outros ângulos, porque vos exprime com evidência
No diagrama da fig. 3, encontramos uma expressão mais in- maior a lei do fenômeno, com superposições regulares de traje-
tuitiva da lei que rege o transformismo fenomênico. Minha fi- tória, como ocorre na realidade, em um conjunto mais equili-
nalidade agora é descrever à evidência as características do fe- brado no retorno dos períodos. Observemos o diagrama em su-
nômeno. Depois exporei o significado e as razões profundas de as características. Encontramos aqui, reproduzido em sua ex-
seu desenvolvimento. pressão cíclica, o mesmo conceito que, nos pormenores da fig.
3 e melhor nos da fig. 2, tem sua expressão retilínea. Comece-
mos a observação do fenômeno em sua fase –y e sigamo-lo em
sua ascensão através das fases –x e . Nesse ponto, o período
fenomênico, depois de haver tocado um vértice – que, nas figu-
ras 2, 3 e 4, assinalamos com a letra a e que resultou do com-
pleto perfazimento das três fases – torna a descer, volta-se so-
bre si mesmo e, tornando a fechar-se, percorre em sentido con-
trário as últimas duas fases do período progressivo. O primeiro
período fenomênico, que representa a criação, fica assim com-
pleto em seus dois momentos de ida e volta, evolutivo e involu-
tivo, dados pelo percurso –y–xe –x, que constitui a
primeira parte da fórmula . Uma vez finalizada a fase –x, o
período esgota-se e, para continuar, novamente se inverte, re-
tomando o movimento ascensional. Mas este, agora, não parte
mais de –y, e sim de um degrau mais alto, –x; percorre outras
três fases ascendentes, que desta vez são: –x,  ; toca o vérti-
Fig. 3 ce, para descer de  para , onde inicia um terceiro período, de
Curvatura do sistema. A espiral derivando da quebrada. novo retificando seu caminho. Assim, foi percorrido o trecho
x esta constitui a segunda parte da fórmula de  e
Na fig. 3, tomo como coordenada básica, que exprime a corresponde à criação b. O fenômeno continua a desenvolver-
medida de tempo, não uma linha reta horizontal, mas uma se, obedecendo a uma lei de progressão constante. As letras,
circunferência; faço mover-se a coordenada vertical, expri- vértices e períodos das espirais da fig. 4 correspondem aos da
mindo os graus de evolução, em redor do centro; noutras pa- linha quebrada das espirais da fig. 2 e 3. Assim como na linha
lavras, tomo como abscissas todos os possíveis raios do cír- quebrada, a trajetória continua a subir e a descer, ela também,
culo. A medida de tempo será dada em graus. Todo o siste- no diagrama da fig. 4, continua a abrir-se e fechar-se na espi-
ma da fig. 2 gira, assim, em torno de um centro. A expressão ral. Às criações a, b, c, d, que culminam, na linha quebrada,
mais simples do conceito de evolução (dada pela reta ascen- nos vértices a, b, c, d, correspondem, no desenrolar-se e en-
dente OX do diagrama da fig. 1) agora é representada pelo volver-se da espiral, os máximos progressivos a, b, c, d etc.,
abrir-se da espiral. Ao conceito de ascensão linear, substitui- daí se desenvolvendo a fórmula de .
se pelo de desenvolvimento cíclico; no pormenor, temos a O diagrama da fig. 4 exprime o fenômeno não apenas em
mesma linha quebrada, cujos vértices salientes são os máxi- sua síntese linear, mas também em sua síntese por superfície,
mos na progressão das sucessivas criações. A linha geral do que se torna ainda mais evidente. As três faixas circulares: –y, –
fenômeno (O–X) assume o curso de espiral, que é a linha da x e , representam, no sentido espacial, a amplitude das três fa-
gênese planetária, do vórtice sideral das nebulosas; espiral ses cobertas pelo desenvolvimento da criação a. Esta produz,
que, na fig. 4, veremos abrir-se e fechar-se até mesmo em como resultado máximo, a fase , isto é, a matéria, vosso mun-
seu interior, porque exprimiremos a linha quebrada com cur- do físico; o resultado final do percurso de cada período é a co-
vas e, assim, vê-la-emos afastar-se e reaproximar-se do cen- bertura de uma fase circular maior, que servirá, depois, de base
tro ao longo da coordenada raio, seguindo a curva do tempo a novos impulsos para ocupações de áreas maiores.
nas grandes pulsações evolutivas e involutivas, segundo a Agora, afastemo-nos dos aspectos particulares do fenô-
qual progride todo o sistema. A espiral é aqui a expressão meno, a fim de vê-lo cada vez mais em seu conjunto e ob-
mais intuitiva da reta, porque, sendo uma derivada da cir- servá-lo em linhas cada vez mais gerais. A lei de desenvol-
cunferência, exprime mais evidentemente o curso cíclico do vimento da trajetória típica dos movimentos fenomênicos es-
fenômeno e a trajetória típica do seu devenir, dados pelos tá expressa por esta espiral, sujeita a um ritmo de pulsações
desenvolvimentos e retornos periódicos. que se invertem continuamente, abrem-se e fecham-se, desen-
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 31
rolam-se e enrolam-se. É como uma respiração íntima. E o ca do fenômeno essa espiral maior, sua expressão mais sinté-
resultado final desse contínuo voltar sobre si mesmo é uma tica, veremos que o resultado final de seu desenrolar, que
progressão constante. Esse é o produto último desse profundo exprime a evolução, é o percurso da abscissa vertical, dado
trabalho íntimo de todo o sistema. Assim, em sua simplicida- pelo traço –z, –y, –x,   , +x, +y, +z, +n, sendo esta tra-
de aparente, a progressão constante da evolução é o resultado jetória apenas o resumo de todo o complexo movimento do
de uma elaboração complexa e profunda. Dessa forma, são qual resulta o abrir-se da espiral. Veremos que essa trajetória
sucessivamente cobertas as diferentes fases em cada criação: – síntese ainda maior, que resume todas as precedentes, pro-
surge o universo físico, depois o dinâmico, depois o psíquico, duzida pela continuação de tantos trechos contíguos, nos quais
e assim por diante; o produto último de cada criação perma- estão representadas as sucessivas fases de evolução – é tam-
nece, soma-se aos precedentes, totaliza-se numa cobertura ca- bém uma espiral, expressão de um fenômeno ainda mais am-
da vez maior da superfície produzida pelas faixas circulares plo, sem jamais atingir o fim. Assim, construiremos outro di-
concêntricas, e todo o sistema lentamente se dilata. agrama, que nos fornecerá a expressão máxima possível, por
síntese cíclica, da fenomenologia universal. Aí então, teremos
observado o universo em seu aspecto mecânico, e vos terei
revelado a grande lei que o rege.

XXVI. ESTUDO DA TRAJETÓRIA TÍPICA DOS


MOVIMENTOS FENOMÊNICOS

É indispensável, todavia, em primeiro lugar, aprofundar


ainda mais o estudo e passar da simples exposição descritiva
dos movimentos fenomênicos ao campo dos íntimos por-
quês. Cada fase, antes de estabilizar-se em definitiva assimi-
lação ao sistema, é percorrida três vezes progredindo e, de-
pois, duas vezes regredindo; isto significa ser vivida cinco
vezes, em direções opostas. A razão desse retorno cíclico,
de duas fases involutivas sobre três evolutivas, é dada pelo
fato de que o voltar a existir, três vezes repetidas, no nível
de cada fase, é a primeira condição para a sua assimilação
profunda no ser que em si mesmo a fixa. Trata-se de uma vi-
da tríplice, em três posições diferentes, que o ser tem de vi-
ver em cada degrau, a fim de poder dominá-la definitiva-
mente. Nas duas fases de regresso, o passado volta, o ser re-
sume, relembra e revive. Assim, o que é novo fundamenta-se
em bases novamente consolidadas. O conceito fundamental
que existe na ideia de trindade é um princípio de ordem e de
equilíbrio. Outro significado dessa descida: ela representa a
Fig. 4 desintegração do velho material de construção, para nova
Desenvolvimento da trajetória dos movimentos construção, germe de potencialidade maior, porque só esse
fenomênicos na evolução do cosmos. núcleo mais poderoso pode alcançar culminâncias mais al-
tas, exatamente como faríeis se quisésseis, em lugar de velha
Eis-nos chegados a uma síntese mais ampla do fenôme- casa de dois pavimentos, construir outra de seis. Só através
no, a síntese cíclica, expressa por uma espiral que se desen- desse processo de íntima destruição e reconstrução, o fenô-
volve em progressão constante. A expansão do sistema não é meno se elabora e amadurece; só através desse retorno sobre
constituída apenas por seu dilatar-se em superfície, mas si mesmo, dessa compressão pelo vórtice, dessa fase de con-
também pela linha ao longo da qual ocorre essa dilatação. centração, o impulso é fecundado para ascensões maiores.
Da mesma forma que, unindo os vértices a, b, c, d etc., da Esse refazer-se desde o início, voltando sobre o próprio ca-
linha quebrada do diagrama da fig. 3, obtém-se como ex- minho, é um concentrar-se do fenômeno sobre si mesmo, a
pressão sintética uma espiral (em que se reencontra a linha fim de explodir com maior força. Para avançar, primeiro é
Ox da fig. 1); assim também, unindo os correspondentes preciso retroceder, demolir o que está velho, depois recons-
máximos sucessivos de abertura a, b, c, d, e, f, g etc., no di- truir, sempre partindo do princípio, colocando em alicerces
agrama da fig. 4, se obtém igualmente uma espiral de abertu- mais sólidos as bases de um organismo novo, de maior po-
ra constante. Podemos, assim, nesta espiral, estabelecer uma tencialidade e destinado a um maior desenvolvimento. Pois,
linha maior do fenômeno, na qual se desprezam os pormeno- na Lei, tudo avança por continuidade (“natura non facit sal-
res dos retornos, tendo-se em conta apenas a progressão fi- tus” – “a natureza não dá saltos”), e cada progresso tem que
nal. Eis uma expressão mais alta da Lei. Assim, traçamos a ser profundamente amadurecido.
espiral que dissemos ser a trajetória típica dos movimentos Compreendereis ainda melhor ao passar dos conceitos
fenomênicos. Simplesmente afastando o olhar da fig. 4, ve- abstratos à exemplificação de casos concretos. Verificareis
remos essa linha maior mais visível, com a superposição dos como vossa realidade corresponde aos princípios expostos
três percursos de que ela é formada, porque cada fase, para acima. Essa necessidade de refazer-se desde o início, rea-
ser definitivamente superada e estavelmente fixada no sis- proximando-se das origens do fenômeno, é universal. Para
tema, tem de ser percorrida três vezes em direção progressi- reedificar, é preciso destruir. O ciclo proporcionado pela es-
va de evolução: a primeira como produto máximo do ciclo, a piral que se abre e se fecha, é a linha da transformação de
segunda como ponto médio, a terceira como produto míni- todas as formas do ser. Se, por vezes, não vos parece ocorrer
mo, ou seja, ponto-de-partida ou fase inicial do processo assim, é porque só tendes sob os olhos fragmentos de fenô-
evolutivo. Como se vê, o sistema é trino tanto em seu con- menos. A unidade de princípio nos permite descobrir exem-
ceito como em seu desenvolvimento. Tomando como linha úni- plos nos campos mais díspares.
32 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
No universo da matéria, , encontrais a linha da espiral no se percorrida, isto é, vivida, uma vez que completou a assi-
desenvolvimento das nebulosas. Aí, a matéria é um vórtice cen- milação, retorna à anterior, como fase ou germe de evolução
trífugo de expansão; projeta-se no espaço, numa poeira sideral, de novas fases sempre mais altas. Tudo sobe mediante con-
precisamente formando uma espiral, que apresenta sua própria tínuos retornos sobre si mesmo, do máximo ao mínimo. T u-
juventude, madureza e velhice, isto é, atinge um máximo de do funciona por germes.
abertura espacial, provocada pelo impulso que o vórtice, germe Olhai em torno de vós. Cada fato nasce por abertura de
do fenômeno, imprimiu-lhe, máximo que não pode superar. um ciclo: começa, expande-se até um máximo, depois retor-
Depois disso, retrocede. O ciclo torna a fechar-se sobre si na sobre si mesmo. Tudo procede assim. Qualquer coisa que
mesmo porque, enquanto a espiral se abre, partindo do nível , queirais fazer, tereis de abrir um ciclo que depois fechará. A
ocorre aquela íntima elaboração da matéria de que falamos na semente de vossos atos está no vosso pensamento; cada ação
série estequiogenética, pela qual a matéria se desagrega e  vol- vos proporciona uma semente mais complexa, capaz de pro-
ta a . Como vimos, a energia, por sua vez, canaliza-se em cor- duzir outra ação ainda mais complexa. Tal como a semente
rentes que determinam um vórtice centrípeto, concentração di- produz o fruto e o fruto produz a semente, o pensamento
nâmica (período involutivo do ciclo) em um núcleo (de novo ), produz a ação e a ação produz o pensamento. O princípio da
que constituirá o germe de um vórtice inverso centrífugo (perí- semente, como o encontrais na natureza, é o princípio uni-
odo evolutivo do ciclo), isto é, de nova expansão sideral. Mas, versal de expansão e contração dos ciclos.
desta vez, , novamente reconstituída, assumirá os mais altos Encontrais em vossa própria vida humana outro aspecto. Os
caminhos da vida e da consciência, enquanto, nos confins de primeiros anos de vossa existência resumem, primeiro organica-
vosso universo, onde  ainda não amadureceu, vê-la-eis dobrar- mente e depois psicologicamente (vede como a fase  sucede à
se sobre si mesma para , e assim por diante. fase ), todas as vossas vidas orgânicas e psíquicas do passado. A
No campo da vida, a abertura da espiral não é um vórtice cada nova retomada de um ciclo de vida, vosso ser tem que refa-
físico nem espacial: é dinâmico. Centro, expansão, limites e zer-se desde o início, ainda que reassumido num breve período, a
retornos são de caráter exclusivamente dinâmico. Nunca fim de levar o ciclo da nova evolução a um ponto máximo gradu-
perguntastes por que tudo tem de nascer de uma semente? almente mais adiantado. Assim , em sua fase mais alta – a fase
Por que o desenvolvimento subsequente não pode ultrapas- da vida humana – também é dada pelo abrir-se e fechar-se da es-
sar determinados limites? Por que a decadência da velhice, piral, através da qual progride todo o sistema.
que vai chegando a todas as coisas? Também a vida é um ci- Vosso atual nível de vida orgânica mais alto toca a fase , e
clo, com a sua fase evolutiva e involutiva, e o inexorável re- voa prepara para a criação do espírito. Assim vemos repetir-se a
torno ao ponto de partida. Que vem a ser esta mecânica que lei cíclica também no campo da consciência individual e coleti-
reconduz tudo ao estado de germe, esse processo da natureza va. No primeiro caso, o processo genético de vossa consciência
por meio de contínuos regressos ao estado de semente, se atua seguindo a mesma linha de desenvolvimento traçada no
não a expressão mais evidente da lei de evolução e involu- processo genético do cosmo, isto é, espiral dupla e inversa. Sua
ção cíclica? Na semente, o fenômeno da vida torna a fechar- abertura é a ação, que explode irresistível, como o maior instin-
se em si mesmo, num núcleo que é o centro de nova expan- to da vida e a manifestação mais evidente da Lei, nas consciên-
são. Assim, por pulsações alternadas da fase de germe à fase cias jovens, inexpertas, que tentam o desconhecido. A ação é o
de maturidade, procede ininterruptamente a vida. Essa ínti- primeiro grau de  contíguo a . Com efeito, está cheio de
ma lei do fenômeno, momento da lei universal, estabelece os energia e vazio de experiência e sabedoria. A vida humana é
limites da forma completa, depois a destrói e reconcentra to- uma série de provas, de tentativas, de experiências. Mas nem
da a sua potencialidade num germe. Este não produz, de mo- por isso digais: “vanitas vanitatum” ("vaidade das vaidades”).
do inexplicável, o mais vindo do menos, mas simplesmente Se nada se cria (em sentido absoluto), também nada se destrói.
restitui o que está nele incluso por involução. Sem este ine- Vossos atos, vossas experiências, vossas reações ao ambiente,
xorável retorno sobre si mesmo, que está na lei dos ciclos, a fixam-se em automatismos psíquicos, tornam-se hábitos e, de-
forma teria que progredir ao infinito ou então, decaindo, ja- pois, serão instintos e ideias inatas. Assim, a vida orgânica des-
mais ressurgiria para retomar, dentro de pouco tempo, em gasta-se, mas é construção de consciência; o ciclo dinâmico
direção oposta, o mesmo caminho. Se os limites podem des- exaure-se, mas de seu exaurir nasce e desenvolve-se a fase ,
locar-se e os máximos elevar-se, isto não diz respeito ao ci- até um máximo dado pela potencialidade da consciência, tal
clo inviolável das vidas individuais, mas ao desenvolvimen- como existia no início do ciclo. Mas, aqui, a expansão da espi-
to em que elas estão ocorrendo, do ciclo maior de evolução e ral e seus limites de desenvolvimento são de caráter psíquico.
involução da espécie, sujeito a essa mesma lei. Uma vez Mudam o nível e a matéria, mas tudo repete a mesma lei. Aqui
mais, o progresso só avança por meio de contínuos retornos o vórtice diz respeito ao universo espiritual da consciência, mas
a um ponto de partida que, gradualmente, desloca-se para o princípio de seu movimento é idêntico. Chegando ao seu má-
frente. Dessa forma, o progresso das espécies orgânicas não ximo, o ciclo se cansa e envelhece, volta a seu ponto de origem,
é retilíneo, tal como viu a mente de Darwin, mas alterna-se para , e a espiral se fecha. O ponto máximo de vossa vida psí-
em constantes retornos involutivos. Semelhante a esse caso quica custa a chegar e, por vezes, só aparece no fim, muito de-
que as leis da vida vos oferecem, toda a criação é feita e fun- pois da juventude do viço físico, última delicada flor da alma.
ciona por meio de germes, à qual se segue um desenvolvi- Depois a consciência dobra-se sobre si mesma, vem a reflexão,
mento, à semelhança de quem, para construir um edifício o fruto da experiência é absorvido e assimilado, chega a matu-
cada vez mais alto, tem que refazer os alicerces, a fim de es- ridade do espírito num corpo decadente. Poucos, só os evoluí-
tabelecer bases cada vez mais sólidas. Vedes que cada exis- dos, chegam rápido; muitos chegam tarde; alguns, os mais
tência é filha de uma semente, cada fenômeno está potencial- novos na vida psíquica, nunca chegam. Assim, o ciclo, esgo-
mente contido num germe. Reencontrais essa lei até mesmo tado seu impulso – que é proporcional à potência de explosão
na evolução e involução dos universos, que são por ela leva- concentrada no germe da personalidade – retorna sobre si
dos a refazerem-se sempre, desde sua fase inicial, que pode mesmo. A consciência refaz-se sobre o passado, reconcentra-
ser y, x,    etc., à fase germe, em que estão inclusas e se, reentra em si mesma, fecha-se à ação e à experiência: tudo
concentradas, por involução, todas as potencialidades que se de- assimilou. É o caminho da descida, que preludia novo impulso
senvolverão na evolução geradora das fases superiores. Cada fa- de ação em nova vida, novo aparecimento no mundo de provas,
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 33
mais ampla experiência, uma retomada do ciclo precedente, XXVII. SÍNTESE CÍCLICA. LEI DAS UNIDADES
mas em nível mais alto, porque seu ponto de partida foi mais COLETIVAS E LEI DOS CICLOS MÚLTIPLOS
alto. Com essa nova descida,  torna-se mais fecunda e, da fa-
se intermediária, torna-se base e semente do desenvolvimento Compreendido bem este conceito do retorno dos ciclos e
de mais vasta série de ciclos que, em virtude das construções sua razão, por meio dessa exemplificação, que vos demons-
espirituais realizadas, com as quais os germes tornam-se mais tra como a realidade corresponde ao princípio que vos ex-
potentes, atingirão a fase +x e seguintes. pus, podemos agora levantar o olhar para um horizonte ainda
No campo das consciências coletivas, encontrais nas leis cí- mais amplo. Antes de proceder a essa exemplificação de-
clicas a razão do desenvolvimento e da decadência periódica monstrativa, já acenávamos que o resultado final do abrir-se
das civilizações. Também aqui ocorre o mesmo fenômeno. Ca- e fechar-se da espiral podia ser expresso (fig. 4) por uma es-
da civilização, depois de uma juventude conquistadora e expan- piral maior, em constante expansão. Agora pode dar-se a es-
sionista, atinge um máximo de maturidade, que não pode ultra- sa expressão sintética do fenômeno uma expressão ainda
passar. Uma fatalidade que parece condenar os povos e, em da- mais resumida. Considerando o progredir dessa linha maior
do momento, diz: “Basta!”. É apenas a expressão da lei dos ci- ao longo da abscissa vertical, vemos que a cada quarto de gi-
clos. Cada civilização constitui um produto espiritual coletivo: ro ela cobre a altura de uma fase (fig. 4). Dessa forma, a co-
é a criação de uma alma mais vasta que a individual; deriva de ordenada das fases –y  +x resume, em seu traçado, todo o
um germe que potencialmente a continha toda e que a leva até movimento da espiral e eleva-se com a expansão desta. Po-
um máximo, além do qual não há expansão e a maturidade só demos, agora, construir o diagrama da fig. 5.
pode resultar em putrefação e decadência. Como todos os fe-
nômenos, também este se esgota, se cansa, envelhece, decai e
morre. Para avançar novamente, é indispensável percorrer o
ritmo involutivo, a fim de recomeçar desde o início, partindo de
um novo germe que sintetize o máximo anteriormente atingido;
novo ciclo de civilização, que poderá alcançar, por sua vez, um
máximo ainda mais elevado, e assim por diante. Todo o sistema
dos ciclos de civilizações, desse modo, caminha lentamente,
por máximos sucessivos, com alternativas de florescimentos,
decadências e mortes, renascimentos e recomeços. É nesse cur-
so cíclico do fenômeno que encontrais a razão da ascensão con-
tínua das classes mais baixas da sociedade. É o desenvolvi-
mento da linha da evolução que sempre impele para frente as
camadas inferiores dos povos. Sem este conceito, não poderíeis
explicar como elas constituem uma reserva inexaurível de valo-
res desconhecidos, de que tudo consegue nascer. O povo é a
semente das sociedades futuras; as aristocracias de toda espécie
são suas sentinelas avançadas, a flor que, terminado seu desen-
volvimento, deve curvar e morrer. As classes sociais inferiores
só têm uma única aspiração: subir, atingir o nível das mais al-
tas, para também imitar, por sua vez, seus vícios e erros, que,
no entanto, condenavam, e cair afinal na mesma conjurada es-
trada de cansaço e de ignomínia, logo que hajam superado a
maturidade do ciclo. Dessa forma, por turnos e por ciclos, su-
bindo ou descendo, como vencedores ou como vencidos, todos
Fig. 5
vivem a mesma lei: indivíduos, famílias, classes sociais, povos,
humanidade. Mas, a cada volta, o ciclo torna-se cada vez mais Síntese Cíclica
amplo, o organismo torna-se cada vez mais complexo. A histó-
ria vos mostra que a primeira e mais simples das emersões pro- A linha maior, em expansão constante, que exprime o pro-
gressivas foi dada pelos ciclos individuais, depois pelos ciclos gresso da evolução, está aqui traçada simplesmente, abandonan-
familiares, em seguida abrangeu classes sociais inteiras, esten- do as fases de retorno expressas no diagrama da fig. 4. Ela é vista
deu-se a povos e nações, até enfim, como agora, envolver toda na pequena espiral da esquerda. A abscissa vertical não é mais
a humanidade. O ciclo torna-se cada vez maior, e as grandes uma reta, mas uma curva, e faz parte de uma espiral maior, ao
massas fundem-se nele, até ao tempo presente, em que a huma- longo de cujo traçado escalonam-se as fases sucessivas –y, –x, 
nidade se torna um só povo e é chegada a hora de retomar o ci- etc. A síntese de todo o movimento evolutivo da primeira espiral
clo mais vasto de nova civilização. é dada, assim, não pelo prolongamento retilíneo da vertical, mas
Assim, em   , em qualquer parte, realiza-se o princí- pelo desenvolvimento de uma espiral maior, também de abertura
pio da lei que vos descrevi. Seguindo períodos inversos de constante. As fases sucessivas, segundo as quais ela avança, são
expansão e contração, a espiral abre-se e fecha-se, voltando de amplitude maior. Abarcarão, por exemplo, ao invés de uma
sempre pelo caminho percorrido para, através dessa concen- das fases    etc., uma criação inteira ou uma série de cria-
tração de forças, tomar impulso para maiores expansões. ções. Mas esta espiral maior ascende também segundo uma linha
Tudo é cíclico, tudo vai e vem, progride e regride, mas só re- que, igualmente aqui, será uma curva, que faz parte do traçado de
trocede para progredir mais. E, se repete, resume e repousa, uma espiral ainda maior, que progride também em abertura cons-
isto representa apenas uma retomada de forças, um deter-se tante. O percurso da espiral maior resume em si todo o movi-
para avançar mais para o alto. Esta é a evolução em seu ín- mento progressivo da espiral menor, que, por sua vez, é pro-
timo mecanismo; a evolução que contém o significado mais duto sintético do movimento de outra espiral menor, e assim
profundo do universo. A verdade de minhas palavras está por diante. Desse modo, o traçado maior se resume e é dado
escrita em vosso mais poderoso instinto e aspiração, que é o por todos os desenvolvimentos menores. O pequeno se orga-
de subir, sem medida; subir eternamente. niza no grande; o grande é constituído do pequeno. A série das
34 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
espirais, naturalmente, é ilimitada; cada movimento é decom- XXVIII. O PROCESSO GENÉTICO DO COSMOS
ponível e multiplicável ao infinito – propriedade de todos os
fenômenos – mesmo permanecendo idêntico seu princípio. Eis Ilustremos, agora, tudo isso com exemplos. Tal como fi-
a síntese máxima dos movimentos fenomênicos. O processo zemos antes com o conceito do retorno cíclico, que reconduz
avança por um movimento interno de íntima autoelaboração, a espiral a seu caminho, façamos agora com este conceito do
que liga e une, num modo indissolúvel e compacto, o infinito desenvolvimento da espiral maior, produzido pelo desenvol-
negativo ao infinito positivo. Um mecanismo de exatidão ma- vimento da espiral menor. Notemos que, se a linha da cria-
temática dirige toda a criação com a simplicidade de um prin- ção não é a reta, mas a espiral, isto é devido ao fato de que
cípio único, alcançando uma complicação que vos atordoa. esta é a linha de menor resistência e de maior rendimento.
Tudo se interpenetra, coexiste; tudo, a cada instante, equili- Tratando-se de realizar um complexo trabalho de destruição
bra-se; tudo, do mínimo fenômeno até à criação dos univer- e reconstrução, a espiral é a linha mais curta, no sentido de
sos, encontra em cada ponto sua justa expressão. que responde mais imediatamente à lei do mínimo esforço,
À série de unidades coletivas – na qual as unidades menores pela qual se obterá o máximo efeito com o mínimo trabalho.
se organizam em unidades maiores, compensando com uma or- No universo estelar, onde tudo acontece por atração, isso
ganização mais ampla a tendência à diferenciação que a evolução ocorre sempre por curvas. Até no nível físico vedes que a li-
possui, de modo que a autoelaboração não desagrega nem pulve- nha do menor esforço, lei universal, não é a reta, mas a cur-
riza, mas consolida a estrutura do cosmos – corresponde aqui a va, que responde a um equilíbrio mais complexo e é o cami-
série dos ciclos múltiplos. Cada individuação é um ciclo; se tudo nho mais curto no sentido mais completo, não o espacial, em
o que existe constitui uma individuação em seu aspecto estático, que vos isolais e limitais vossa concepção de reta.
por outro lado compõe um ciclo em seu aspecto dinâmico de No nível físico, vedes, nos movimentos estelares e planetá-
transformação. Na infinita variedade do caso particular, tudo rios, a coordenação dos ciclos menores com os maiores, expres-
reencontra sua unidade: o princípio único que irmana todos os são visível do princípio dos ciclos múltiplos. Também o encon-
seres do universo. Assim como cada individualidade maior é o tramos junto com o outro, o do retorno cíclico, nos fenômenos
produto orgânico das individualidades menores, o desenvol- mais próximos de vós. Observai o ciclo pelo qual as águas pas-
vimento de cada ciclo maior também é produzido pelo desen- sam do estado de chuva ao de rio e de mar e, por evaporação,
volvimento dos ciclos menores. A evolução do conjunto só voltam ao estado de nuvens e chuva; um ciclo contínuo, idênti-
pode obter-se por meio da evolução de suas partes componen- co, no entanto, a cada rotação, muda um pouco e vai amadure-
tes: processo de maturação íntimo e profundo. Em cada nível, cendo um ciclo maior, o da dispersão das águas por absorção na
a qualquer distância, o mesmo princípio, idêntica construção terra e difusão nos espaços; ciclo que caminha para a lenta mor-
orgânica, idêntico processo evolutivo, idêntica conexão funci- te do planeta. O ciclo volta sobre si mesmo, mas sempre com
onal. Como não existe individuação máxima nem mínima, as- pequeno deslocamento progressivo de todo o sistema.
sim também não há ciclo máximo nem mínimo, sem jamais
Observai, em vosso mundo químico, como os elementos
ter fim. O sistema prolonga-se, multiplicando-se e subdividin-
que constituem vosso organismo provêm da terra, introduzi-
do-se ao infinito. A constituição íntima do ser, a lei de sua
dos no ciclo pela nutrição, e voltam à terra através da morte.
transformação, é independente da fase de evolução e idêntica
Sempre o mesmo material e o mesmo ciclo, mas que se deslo-
no microcosmo tal como no macrocosmo.
ca lentamente ao longo da trajetória do ciclo maior, na trans-
A lei das unidades coletivas pode, assim, transportar-se de
formação da espécie. Observai o ciclo de vosso metabolismo
seu aspecto estático ao dinâmico. Diz ela: “Cada individualidade
orgânico e como ele constitui função de longa cadeia de ci-
é composta de individualidades menores, que são agregados de
clos. Vosso corpo é uma corrente de substâncias que tomais de
individualidades ainda menores, até ao infinito negativo; e é, por
outros seres plasmófagos (animais), que por sua vez as toma-
sua vez, elemento constitutivo de individualidades maiores, as
ram de seres plasmódomos (as plantas), os quais, finalmente,
quais são de outras ainda maiores, até ao infinito positivo”. Cada
organismo é composto de organismos menores e é componente operam a síntese orgânica das substâncias proteicas do mundo
de maiores. Esta lei, repetida em seu aspecto dinâmico na lei dos da química inorgânica da terra e do mundo dinâmico das radia-
ciclos múltiplos, reza: “Cada ciclo é determinado pelo desenvol- ções solares. Vosso pensamento é um ciclo mais alto, que se
vimento de ciclos menores, que são resultantes do desenvolvi- alimenta dessa cadeia, porque não poderia ele subsistir em vos-
mento de ciclos ainda menores, até ao infinito negativo; e é, por so cérebro sem restauração física e dinâmica. Vosso funciona-
sua vez, determinante do desenvolvimento de ciclos maiores, que mento psíquico está, assim, em relação com processos químicos
também o são de ciclos ainda maiores, até ao infinito positivo”. de vosso organismo, do organismo dos animais de que vos nu-
Cada individualidade, como cada ciclo, é produzida e definida tris, das plantas de que os animais se alimentam e dos processos
pela unidade que a precede, e forma e define a unidade superior. químicos da própria matéria, de que os processos de síntese vi-
A organização, o desenvolvimento e o equilíbrio maior são cons- tal das plantas são apenas uma consequência.
tituídos pela organização, pelo desenvolvimento e pelo equilíbrio Os ciclos têm de caminhar inexoravelmente, e basta que um
menor. Cada movimento constrói o seguinte, da mesma forma deles pare, para que toda a cadeia também pare e se quebre.
como foi construído pelo precedente. Cada ser equilibra-se num Todo o ciclo da energia mecânica e psíquica que se desenvolve
ponto da série, na hierarquia das esferas, que não tem limites. Is- no organismo humano, está em estreita relação com o ciclo da
to, do átomo à molécula, ao cristal, à célula, à planta, ao animal, energia química dos seus elementos componentes, dado pelas
ao seu instinto, ao homem, à sua consciência individual e coleti- suas reduções, hidrólises, oxidações, sínteses e processos afins.
va, à sua intuição, à raça, à humanidade, ao planeta, ao sistema Quando a molécula de um corpo químico, por assimilação, in-
solar, aos sistemas estelares, aos sistemas de universos, antes e troduz-se no organismo protoplasmático da célula, o ciclo do
além desses elementos de vosso concebível, antes e além das fa- fenômeno atômico entra, através do ciclo do fenômeno molecu-
ses   . Eis a que processo de íntima autoelaboração se deve a lar de que faz parte, no ciclo maior do fenômeno celular. No
evolução. Nenhuma força age nem intervém do exterior, mas tu- mundo das substâncias proteicas, a química do mundo inorgâ-
do existe no fenômeno e tudo caminha por síntese progressiva. nico acelera seu ritmo, dinamiza-se, adquirindo em velocidade
Progresso e decadência cósmica são efeitos da evolução e do es- o que perde como estabilidade de combinação. A individua-
gotamento atômico. Os extremos se tocam. A grande respiração ção fenomênica não mais assume o aspecto de estase, mas tor-
do universo é dada pela respiração do átomo. na-se, como veremos melhor depois, uma corrente que, em nova
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 35
química, instável e fragílima, de ciclo continuamente aberto, rização do todo se essa força de coesão não reorganizasse o
decompõe-se e recompõe-se no metabolismo celular, base do diferenciado em unidades cada vez maiores. Viveis, vós
recâmbio. Isso ocorre em seus dois momentos: anabólico, de mesmos, esse princípio quando, ao progredir na especializa-
assimilação, e catabólico, de desassimilação, quando atinge ção do trabalho, sentis a necessidade de reorganizá-lo; quan-
os vértices da fase , penetrando na fase , porque isso impli- do, paralelamente ao maior desenvolvimento das consciên-
ca e significa uma pequena consciência celular que preside às cias individuais, vedes nascer consciências coletivas cada vez
funções de escolha, base do recâmbio, e mantém na corrente mais amplas e mais compactas. Assim, todos os seres, à pro-
deste a individuação do fenômeno. porção que evoluem, tendem a reagrupar-se em unidades co-
A realidade vos mostra esta íntima transformação do ser, da letivas, em colônias, em sistemas sempre mais abrangentes.
fase  à  e desta à , e como isso ocorre por ciclos contíguos e Isso vos explica porque a matéria, que consideramos em sua
comunicantes. A assimilação é algo mais que simples filtragem estrutura e em seu devenir, apresenta-se a vós, na realidade
osmótica: é a ponte de passagem de um ciclo para outro, em das formas, não em suas unidades primordiais, mas amalga-
que a estrutura íntima do fenômeno sofre uma mutação. Atra- mada e comprimida em agregados compactos, organizada em
vés de quão complexa cadeia de ciclos tem de passar a matéria, unidades coletivas de indivíduos moleculares. É a trajetória
em sua íntima estrutura atômica, para chegar a poder produzir da espiral menor que se funde na espiral maior. Da molécula
efeitos de ordem orgânica e psíquica! De que número de mo- aos universos, a mesma tendência a reorganizar-se num sis-
vimentos cíclicos resulta o fenômeno da consciência humana! tema maior, a encontrar um equilíbrio mais completo em or-
Estes exemplos vos mostravam como, em realidade, exis- ganismos mais amplos. Por isso não encontrais moléculas
te o conceito da formação progressiva da trajetória dos ci- isoladas, mas cristais, verdadeiros organismos moleculares,
clos maiores através do desenvolvimento da trajetória dos amontoados geológicos; não encontrais células, mas tecidos,
ciclos menores. órgãos e corpos, que são sociedades de sociedades. Sempre
sociedades: moleculares, celulares, sociais, com subdivisões
XXIX. O UNIVERSO COMO ORGANISMO, de trabalho e especialização de atitudes e de funções.
MOVIMENTO E PRINCÍPIO Essa possibilidade de estabelecer contatos e ligações entre
os mais distantes fenômenos, que é possível por causa da uni-
Chegados a este ponto e realizada em grandes linhas a expo- versal unidade de princípio, permitir-nos-á mais tarde recons-
sição do sistema cosmográfico, podeis ter uma ideia aproximada truir uma ciência jurídico-social em bases biológicas. Por isso,
de sua incomensurável grandiosidade. Por simplicidade e clareza, também não encontrais planetas isolados, mas sistemas planetá-
tive que seguir uma exposição esquelética e esquemática. Obser- rios; não estrelas, mas sistemas estelares; não universos, mas
vamos o fenômeno reduzido à sua mais simples expressão de de- sistemas de universos. Em vosso universo, essa força que ci-
senvolvimento linear; mesmo assim, que complexidade de orga- menta e mantém unidos e compactos os organismos, vós a
nização e de funcionamento, que riqueza de pormenores, que chamais coesão no nível , atração no nível , amor no nível .
vastidão e profundidade de ritmo, que grandiosidade de conjun- Um princípio único que se manifesta diferentemente nos diver-
to! Acenei a uma síntese de superfície, mas esta é apenas a seção sos níveis e que assume diversas formas, adaptadas à substância
do dilatar-se de uma esfera; os ciclos, para corresponderem mais em que se revela. Encontrais essa força unificante manifestada
exatamente à realidade, teriam de ser esféricos, porque a evolu- na concentricidade de todas as volutas da espiral. Tudo se en-
ção, espacial em , dinâmica em , conceptual em  etc. – mu- trelaça em redor de um centro, o núcleo, o eu do fenômeno, em
dando de qualidade em cada fase – constitui verdadeira expansão cujo derredor gira a órbita de seu crescimento.
em todas as direções. Vós não possuís sequer as palavras próprias O princípio das unidades coletivas dispõe as individuações
que englobem exatamente todos estes conceitos ao mesmo tem- por hierarquia, escalona os seres em diferentes níveis, segun-
po. Passais dos símbolos e abstrações matemáticas, em que o as- do seu grau de desenvolvimento e suas capacidades intrínse-
pecto mecânico-conceptual do universo está isolado do dinâmico cas. Por isso o tipo superior domina naturalmente, sem esfor-
e estático bem como de outros aspectos que estão além de vossa ço, o inferior, que não tem possibilidade de rebelar-se, porque
inteligência, à realidade vestida de miríades de formas, compli- o mais está totalmente acima de sua compreensão e de sua ca-
cada de infinitas minúcias de ações e reações. Imaginai a miríade pacidade de ação. Estabelece-se, desse modo, um equilíbrio
de seres, movidos por incessante dinamismo, que exorbitam do espontâneo nos diversos níveis, devido simplesmente ao peso
universo de vosso concebível, atentos a esse grande esforço da específico de cada individuação. O diagrama das espirais for-
própria evolução, que consiste em conquista de perfeição, poder, nece o conceito das hierarquias. Agora, pensai apenas isto:
consciência e felicidade sempre maiores; impelidos pela Lei, que vós não sois somente membros de vossa família, de vossa na-
é o princípio de seu ser, pelo instinto irresistível, pela aspiração ção, de vossa humanidade, mas sois cidadãos deste grande
máxima; atraídos pela imensa luz que baixa do Alto, cada vez universo. São apenas os limites de vossa consciência atual que
mais alta à proporção que eles sobem. Imaginai os seres todos não permitem que vos “sintais” uma roda da imensa engrena-
escalonados, cada um em seu nível, de ciclo em ciclo, tal como gem, uma célula eterna, indestrutível, que, com seu trabalho,
concebeis os anjos organizados nas esferas celestes. Imaginai o concorre para o funcionamento do grande organismo. Esta é a
canto imenso que, da harmonia desse organismo, na ordem sobe- extraordinária realização que vos prepara a evolução às supe-
rana dominante, eleva-se de toda parte, e um pouco da grandiosa riores formas de consciência. Quando lá tiverdes chegado,
visão se abrirá diante de vossos olhos. olhareis com pena e desprezo vossas atuais fadigas ferozes.
Olhai. Cada fase é um degrau, um átimo no grande cami- Esta é a visão das esferas celestes, donde promana o hino
nho. As fases matéria, energia e espírito formam um universo. da vida. É imensa e, no entanto, é simples em comparação com
Outros universos seguem e precedem, organizando-se em sis- a visão de seu movimento. Os seres não se detêm nos diversos
tema maior, que é elemento de um sistema ainda mais amplo e níveis, mas se movem num íntimo movimento que os transfor-
complexo, sem jamais haver fim, nem no mais nem no menos. ma a todos. Em vosso universo físico-dinâmico-psíquico, não
O princípio das unidades coletivas (em seu aspecto estático) e apenas é a esfera física dominada pela energia, e esta, por sua
dos ciclos múltiplos (em seus aspectos dinâmico e mecânico) é vez, dominada pelo espírito, mas todas juntas constituem todo
a força de coesão que sustenta a estrutura dos universos. Como a um incessante movimento de ascensão das esferas inferiores às
evolução é palingenesia, que leva do simples ao complexo, do superiores. A matéria, o universo estelar, é uma ilha que emer-
indistinto ao distinto, e multiplica os tipos, isto levaria à pulve- giu do nível das águas do universo inferior. A segunda pulsa-
36 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
ção produziu uma emersão mais alta, a energia; a terceira, uma gresso, e atraída pela imensa luz que desce do Alto, fecundan-
emersão utilíssima para vós, o espírito. Desse modo, a subs- do e incentivando a subida, avança qual maré imensa que ar-
tância se muda de forma em forma, as individuações do ser rasta todas as coisas.
elevam-se de esfera em esfera; aparecem, provenientes do in- A lei que estudamos na trajetória típica dos movimentos fe-
finito, em vosso universo concebível; desaparecem imersas no nomênicos é a lei desta evolução; é o canal através do qual se
infinito. No alto, está a luz, o conhecimento, a liberdade, a jus- move a grande corrente; é o ritmo que organiza o grande mo-
tiça, o bem, a felicidade, o paraíso; é a grande luz que se proje- vimento. Os seres não sobem ao acaso.
ta e acende em vós aquilo que, como um pressentimento, está Para atingir  é indispensável atravessar  e, antes, passar
por cima de vossos ideais e de vossas aspirações já elevadas. por . Ninguém é admitido na fase mais alta a não ser pelo
Embaixo estão as trevas, a ignorância, a escravidão, a opres- amadurecimento, depois de ter vivido “toda” a fase precedente.
são, o mal, a dor, o inferno, vosso passado, que vos enche de Só se pode avançar por degraus sucessivos. Por isto as formas
terror no presente, que, por sua vez, será amanhã o passado mais evoluídas compreendem as menos evoluídas, mas não ao
que também vos encherá de terror. contrário. Só depois de haver alcançado a plenitude da perfei-
A evolução corresponde a um conceito de libertação dos ção, que advém do fato de ter atravessado todas as possibilida-
limites que sufocam, dos liames que estrangulam, é um concei- des de uma fase, pode-se passar para a fase sucessiva.
to de expansão cada vez mais amplo, do nível físico ao dinâmi- Assim avança a grande marcha. A estrada está traçada, e
co e ao conceptual. Por isso é subida, progresso e conquista. não é possível sair dela. A evolução não é um subir confuso,
Embaixo, nos graus subfísicos, o ser está apertado em limites desordenado, caótico, é um movimento perfeitamente discipli-
ainda mais angustiosos do que são o tempo e o espaço, que nado, sem possibilidade de enganos, nem de imposições. A Lei
atormentam vossa matéria; no alto, nos graus superpsíquicos, possui um ritmo próprio, absoluto, segundo o qual só se avança
não apenas caem as barreiras de espaço e de tempo – tal como por continuidade; é indispensável existir, viver, experimentar,
já ocorre em vosso pensamento – mas desaparecem também os amadurecer, semear e recolher, em estrita concatenação de cau-
limites conceptuais, que hoje circunscrevem vossa faculdade sas e efeitos. Pode parecer-vos caótico o mundo e os seres mis-
intelectiva. O horizonte do concebível será deslocado imensa- turados e abandonados ao acaso, mas não importa uma aparente
mente para mais longe, mas ainda constitui um limite para vós, confusão espacial, pois cada ser traz em si escrita a Lei, incon-
e só podeis superá-lo pela evolução. O universo psíquico já é fundivelmente, na própria natureza. Além disso, o caminho
muito mais vasto que os outros dois, o limite tempo-espacial já evolutivo não é um caminho espacial. O princípio vale mais
desapareceu completamente! Vossa mente – é inegável – perde- que o movimento; é o princípio que lhe traça o caminho. Eis o
se em tanta amplidão. Mas deveis compreender, certamente, aspecto conceptual (mecânico) do universo, que colocamos
que o absoluto só pode ser um infinito, porque só um infinito acima de seu aspecto dinâmico, o movimento, e além de seu
pode conter e esgotar todas as possibilidades do ser. Sois cida- aspecto estático, o organismo das partes. Organismo, movimen-
dãos do universo, no entanto deveis compreender que não sois to e princípio; vede como se encontra, mesmo na trindade de
o universo; sois órgãos, e não o organismo; sois um momento aspectos de vosso universo, este conceito de progresso; há uma
do grande todo, e não a medida das coisas. Infelizmente, vosso gradação de amplitude e de perfeição nesses aspectos. Só se
concebível se restringe aos limites de vossa consciência, que só passa aos superiores depois de completar e amadurecer os infe-
se comunica com o exterior pelas portas estreitas dos vossos riores, completando e amadurecendo o próprio princípio. Por
únicos cinco sentidos. O que pode acrescentar a isso a maioria meio de uma dilatação progressiva, a expansão evolutiva trans-
das pessoas? Muito pouco para conceber o absoluto. forma-se de física em dinâmica e em conceptual. Essa evolução
O limite sensório é restrito e, diante da realidade das coisas, é a íntima respiração em que vibra todo o universo. Os seres
mantém-vos num estado que poderia chamar-se de contínua existem como individuações; movem-se segundo a evolução,
alucinação. Essa é a base de vossa pesquisa científica. Suponde seguindo o princípio que os rege. O princípio contém, em em-
em vós outros sentidos diferentes, e o mundo mudará. A distân- brião, todas as formas possíveis; é o desenho que inclui todas as
cia que separa os seres não é distância espacial, é um modo di- linhas do edifício, mesmo antes que surja a primeira pedra para
ferente de vibrar em resposta às vibrações do ambiente. Cada manifestá-lo. A cada momento ocorre a criação, alguma coisa
ser é um relativo, fechado num limitado campo conceptual. A emerge de um nada relativo, surge em realização de algo que
série infinita dos seres sentirá o universo de infinitas maneiras, estava à espera no germe. Não existe um nada absoluto. O ser
inimagináveis para vós. O relativo vos submerge, a consciência toma uma forma nova, vestindo-a como uma roupa, um meio
que se apoia na síntese sensória é um horizonte circular fecha- para subir, como um veículo que depois abandonará. O concei-
do. Não há dúvida que, para vós, é difícil sair de vossa consci- to, o tipo, já estava fixado, à espera, no princípio que o próprio
ência, superando-a, impulsionando-vos até aos mais longínquos ser enfeixava em si e do qual é a manifestação.
horizontes, conquistando novos concebíveis. Mas é isto que vos Assim, as individuações atravessam a série das formas, cu-
ajudo a fazer, a isso vos leva a evolução. Quem vive satisfeito jos projetos contêm. Cada ser contém em si também aquilo que
com a pequena visão que domina, poderá saciar-se durante al- será, a forma que deverá atingir; contém em germe o esquema
gum tempo, mas corre o risco de encontrar grandes desilusões de todo o universo; não ocupa nem é o universo inteiro, mas ne-
logo que chegue a mudança da morte. le se transforma sucessivamente. Por isso o princípio, mesmo
É verdade que muitas coisas que vos estou a dizer não po- existindo nas formas, é algo acima e independente delas. Na
deis hoje verificar com vossos meios sensórios. Mas a conver- realidade, o tempo infinito permitiu que o ser ocupasse formas
gência de todos os fenômenos que conheceis para esses concei- infinitas; desse modo, o futuro, tal como o passado, está efeti-
tos, vos faz confiar que eles correspondem também às realida- vamente presente no todo. Não o está no relativo, onde a forma
des que atualmente não podeis controlar. Tudo está aqui sinteti- é isolada e aguarda novos desenvolvimentos. Mas ocorre o de-
zado num sistema orgânico completo e compacto. Por que o senvolvimento, e os universos futuros que atingireis e atraves-
desconhecido deveria mudar de caminho e fazer exceções num sareis são dados, existem, foram vividos, são o passado para
organismo tão perfeito? Quando eu tratar das normas de vossa outros seres, ou seja, são vistos de um ponto diferente, do qual
vida, esta massa enorme de pensamento que estou acumulando o todo olha para si mesmo. Essa relatividade de posições, de
constituirá um pedestal que não podereis mais derrubar. passado e de futuro, de criação e de nada, desaparece no abso-
Dessa forma, a evolução, acossada por baixo pela matu- luto, e todas as criações existem no infinito e na eternidade. Só
ração dos universos inferiores, ávidos de expansão e de pro- o relativo, que se transforma, possui tempo, isto é, ritmo evolu-
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 37
tivo. A Lei, sem limites, está à espera no eterno. O tipo preexis- ração evolutiva de cada unidade é dada pela respiração evo-
te ao ser que o atravessa, as coisas vão e vêm. lutiva de todas as unidades menores. O vórtice maior progri-
Aí está a visão bíblica da escada de Jacó. Os seres sobem e de por saturação dos vórtices menores que o constituem.
descem. Um chega, outro parte, outro se detém. Somente en- Pensai! O progresso de vossa consciência vive pelo con-
tre graus afins é possível a passagem por continuidade. Exis- curso e pelo progresso de todos os ciclos menores: eletrônico,
tem universos contíguos ao vosso, que o precedem ou o supe- atômico, molecular, celular. Antes de ser um vórtice psíquico,
ram; é apenas isso que torna possível a passagem ao longo da é um vórtice de metabolismo orgânico, elétrico, nervoso, ce-
cadeia. Contiguidade, mas não em sentido espacial, mas de rebral, psíquico e, finalmente, abstrato. Todo o passado está
afinidade, de semelhança de caracteres, de comunhão de qua- presente, indelevelmente fixado por todos os retornos involu-
lidades, de trabalho, de possibilidades na jornada evolutiva. tivos. Todo o futuro está presente, porque o presente o contém
Se, do ponto de vista estático, cada universo é um organismo todo, como causa, como princípio, como desenvolvimento,
completo em si mesmo, com a evolução todos os seres se co- concentrado em estado latente. Se esta derivação do mais de-
municam e se deslocam ao longo dele, de um infinito a outro. terminada pelo menos pode parecer-vos absurda, é apenas
Nas fases inferiores à vossa, isto é,  e , os seres sobem e porque não podeis sair das fases de vosso universo, que cons-
descem de acordo com o abrir-se e fechar-se da espiral, ou de titui todo o vosso concebível. O mais é apenas a explosão de
acordo com a linha quebrada do diagrama da fig. 2; isso acon- um mundo fechado em si mesmo, mas que já continha tudo
tece por um princípio de necessidade, que não admite escolha. em potencial. Evolução significa expansão de vórtices, que
Trata-se de uma maturação fatal, que o ser segue inconscien- são depósitos de latências, tal como seria um bloco de dinami-
temente. Mas, em vosso nível , aparece um “quid” novo, li- te. Não se trata de mais ou de menos substância; o absoluto,
berta-se um princípio mais amplo, que se chama livre- que não tem medida, não possui quantidade. Trata-se de trans-
arbítrio: a livre escolha, que paralelamente nasce quando sur- formação, de criação no relativo. É a autoelaboração que traz
ge a consciência. Podeis acompanhar a evolução ou não à luz  de  e  de . Nem por isso digais que o espírito é um
acompanhá-la, e fazê-la à velocidade que quiserdes. É a liber- produto da matéria. Dizei:  se eleva até , revelando o prin-
dade que preludia a fase +x, em que a consciência humana cípio que continha latente em sua profundidade.
atingirá novo vértice e conquistará nova visão do absoluto. Pensai! A respiração do átomo dada pela respiração do uni-
Desse modo, vosso mundo humano contém  e é atraves- verso; a respiração do universo dada pela respiração do átomo;
sado por seres que sobem e descem; seres que, provindos das uma criação sem fim, sem limites, em que tempo e espaço são
formas inferiores de vida, mais próximas de , avançam cus- apenas propriedades de uma fase, além da qual desaparecem;
tosamente, trabalhando na criação do próprio eu espiritual; ou onde o relativo limitado, imperfeito, mas em evolução e inexau-
então, seres que, tendo decaído das formas superiores de rível no infinito, forma e iguala ao absoluto. Dai a tudo isso
consciência, abandonam-se à ruína, abusando do poder con- uma concentricidade, uma coexistência, que não pode ser ex-
quistado. Uns retrocedem, outros avançam; uns acumulam va- pressa pela forma linear da palavra, e tereis uma imagem apro-
lores, outros os perdem. Existem ainda os que param, indolen- ximada do universo em sua complexidade orgânica, em sua po-
tes, preferindo o ócio, ao invés de se esforçarem com fadiga tência dinâmica, em sua vastidão conceptual.
pelo próprio progresso. Daí a grande variedade de tipos e de
raças no mundo. Essa é a substância de vossas vidas. Sois XXX. PALINGENESIA (ETERNO RETORNO)
sombras que caminham, consciências em construção ou em
demolição. Estais todos a caminho, cada um grita diferente- Que vem a ser, neste sistema, o vosso conceito de Divinda-
mente, com voz da própria alma, luta, agita-se, semeia e co- de? Compreendei que Deus não pode ser algo além e exterior à
lhe. Livremente, com as próprias ações, lança a semente da criação, ou distinto dela; que só o homem, que está no relativo,
qual nascerá aquilo que, mais tarde, constituirá seu inexorá- pode acrescentar a si, ou devenir além de si, não Deus, que é o
vel destino. Em vosso nível, é livre a escolha dos atos e dos absoluto. Vossa concepção de um Deus que cria fora e além de
caminhos; livre a colocação das causas; isso vos é concedido si, acrescentando algo a si mesmo, é absurda concepção antro-
por vossa maturidade de habitantes da fase . No entanto não pomórfica, é querer reduzir o absoluto ao relativo. Não pode
é livre a escolha da série de reações e dos efeitos, pois esta é haver criação no absoluto. Só no relativo pode haver nascimen-
inexoravelmente imposta pela Lei. Cada escolha vos prende to e transformação. O absoluto simplesmente “é”. Não queirais
ou liberta. O poder de escolher e de dominar aumenta com a restringir a Divindade aos limites de vossa razão; não vos ele-
capacidade e com o merecimento, que lhe garantem o bom veis a juízes e à medida do todo; não projeteis no infinito as pe-
uso. Dessa forma, o determinismo da matéria gradualmente queninas imagens de vosso finito; não ponhais limites ao abso-
evolui para o livre-arbítrio da consciência, à proporção que luto. Em sua essência, Deus está além do universo de vossa
esta se desenvolve. O livre-arbítrio não é, como em vossas fi- consciência, além dos limites de vosso concebível. É irreverên-
losofias, um fato constante e absoluto, em insolúvel conflito cia aviltar esse conceito para querer compreendê-Lo. Consti-
com o determinismo das leis da vida, mas é um fato progres- tuindo-vos em medida das coisas, colocais como sobrenatural e
sivo e relativo aos diversos níveis que cada um atingiu. Por is- miraculoso qualquer fato novo para vossas sensações, tudo o
so, apesar de vossa liberdade, o traçado da evolução permane- que exorbite do que sabeis e conheceis. Mas a natureza é ex-
ce inviolável. Essa liberdade é, como vós, relativa, e vossas pressão divina, e não pode haver nada acima dela, nenhum
ações só podem afetar o que se refere a vós mesmos. acréscimo, nenhuma exceção, nenhuma correção à Lei.
Eis, pois, em grandes linhas, o imenso quadro da criação. Sobrenatural e milagre são conceitos absurdos diante do ab-
Ciclo infinito, de fórmulas abertas e comunicantes, progre- soluto, aceitáveis apenas em vosso relativo, aptos a exprimir
dindo das unidades mínimas às máximas, mediante uma ela- vosso assombro diante do que é novo para vós e nada mais. Ne-
boração que opera, em todas as profundidades do ser, o pro- les está contida a ideia de limite e de seu superamento; concei-
gresso da espiral maior, que é movido pelo progresso de to- tos inaplicáveis à Divindade. Esta é superior a qualquer prodí-
das as espirais menores, até ao infinito. E, no âmbito de ca- gio e o exclui como exceção, como retorno ao que já está feito,
da ciclo, uma pulsante respiração evolutiva que se inverte e como retoque ou arrependimento e, sobretudo, como vontade
se equilibra num período involutivo, a fim de retomar dessa de desordem no equilíbrio da lei estabelecida. Limitai a vós
involução uma respiração mais ampla. Isso se dá desde o in- mesmos esses conceitos e não vos julgueis centro do universo.
finitamente simples até ao infinitamente complexo, e a respi- Guardai para vós os conceitos de tempo, de espaço, de quantida-
38 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
de, de medida, de movimento, de perfectibilidade. Não deveis concerto do universo; não mais – como em tantas filosofias –
medir a Divindade como medis a vós mesmos; não tenteis defi- uma ideia particular elevada a sistema. Como um verdadeiro edi-
ni-La, muito menos com aquilo que serve para definir-vos a vós fício erguido sobre fundamentos vastos como o infinito, o ho-
mesmos, por multiplicação e expansão de vosso concebível. Se mem é considerado em relação às leis da vida, e estas em relação
quereis somar ao infinito vossos superlativos, dizei ao infinito: à lei do todo. Uma vez completado o tratado, não será mais lícito,
isto ainda não é Deus. Seja Deus para vós uma direção, uma racionalmente, ao homem, isolar-se em seu egoísmo, indiferente
aspiração, uma tendência; seja para vós a meta. Se Deus está no ou agressivo, pois, se tudo é organismo, também a coletividade
infinito – inconcebível para vós em sua essência – nosso finito não pode ser senão um organismo. Até mesmo em sua forma, es-
se avizinha Dele por aproximações conceptuais progressivas. ta teleologia que estou desenvolvendo corresponde ao princípio
Vede como, na Terra, cada um adora a representação máxima orgânico e monístico do universo. Observai como é pouco o que
da Divindade que pode conceber e como, no tempo, essa apro- estou demolindo e como, ao invés, cada palavra tem sua função
ximação se dilata. Do politeísmo ao monoteísmo e ao monismo, construtiva; observai como é pouco o que nego, diante de tudo o
verificais o progresso de vossa concepção, que é proporcional à que afirmo. Evito agressões e destruições; fujo de vossas inúteis
vossa força intelectiva e progride com ela. A luz aparece mais divisões, como materialismo e espiritualismo, positivismo e idea-
intensa à proporção que o olhar se torna mais penetrante. O lismo, ciência e fé. Divergências transitórias vos atormentaram
mistério subsiste, mas empurrado cada vez para mais longín- nos últimos decênios, mas eram necessárias para vos preparar a
quos horizontes. Por mais que este se dilate, haverá sempre um maturação de hoje, que é o momento da fusão e da compreensão
horizonte mais afastado para atingir. Ao verificar vossa relati- entre uma ciência que se tornou menos dogmática e soberba,
vidade, que progride, eu não destruo o mistério, mas o enqua- mais sábia em sua atenuada pressa de conclusões e deduções, e
dro no todo e dele dou a justificação racional, torno-o um mis- uma fé mais iluminada e consciente. Eu sou tanto uma quanto a
tério relativo, que só existe pela limitação de vossas capacida- outra. Meu olhar é bastante amplo para compreender, ao mesmo
des intelectivas, que recua continuamente diante da luz, em fun- tempo, os dois extremos: o princípio da matéria e o princípio do
ção do caminho das verdades progressivas; um mistério fecha- espírito. Esta minha apologética da obra divina é novo benefí-
do dentro dos limites que a evolução ultrapassa dia a dia. Se a cio que vos chega do Alto. É uma demonstração que presume
Divindade é um princípio que exorbita vossos limites concep- que sois conscientes, adultos e maduros. Vossa responsabili-
tuais, ela está lá vos aguardando e, para revelar-se, espera vos- dade moral crescerá como nunca, se ainda quiserdes insistir
sa maturação. Hoje, que finalmente vossa mente está amadure- nas velhas sendas da ignorância ou da ferocidade. Eu sei! O
cendo, não é mais lícito, como no passado, “reduzir” aquele misoneísmo atávico de vossa orientação psicológica é imensa
conceito a proporções antropomórficas. Hoje, eu já trouxe ao barreira, massa negativa e passiva, que me resiste com sua
vosso relativo nova e maior aproximação; projetei em vossas inércia. Qualquer mente humana se despedaçaria, sem movê-
mentes a maior imagem que as humanidades futuras terão de la, contra essa muralha gigantesca. Mas meu pensamento é
Deus. Este é um canto mais alto de sua glória. Isto não é irreli- um fulgor que abalará as mentes. Se possuís toda a resistência
giosidade, mas, ao invés, pela maior exaltação de Deus, é reli- da matéria inerte, eu possuo todo o poder do pensamento di-
giosidade mais profunda. Não procureis Deus apenas fora de nâmico, que desce relampejando do Alto. Vossa psicologia é
vós, tornando-O concreto em imagens e expressões de matéria, um fenômeno com sua própria velocidade e massa, lançado ao
mas O “senti” sobretudo em sua forma de maior poder, dentro longo de uma trajetória que resiste a todo desvio. Mas eu re-
de vós, na ideia abstrata, estendendo os braços para o universo presento um princípio superior a esse fenômeno e intervenho
do espírito, que vos aguarda. no momento em que, por sua maturação, a Lei impõe uma
mudança de rota. Chegou o momento, e vós subireis.
XXXI. SIGNIFICADO TELEOLÓGICO DO TRATADO. Cada vez percebeis melhor que o centro deste pensamento
PESQUISA POR INTUIÇÃO que se vai desenvolvendo não é, nem pode ser, de vosso mundo;
é uma síntese tão ampla, poderosa e exaustiva, que jamais foi
Sob minha direção, recomeçai comigo vossa viagem, mais proferida na Terra. Toda essa massa conceptual que tendes sob os
que dantesca, através do universo. A estrada é longa, o pano- olhos, move-se no infinito – seu ponto de partida – e daí desce
rama é amplo, e vosso pensamento corre o risco de perder-se. até ao vosso concebível. Para quem a procura, esta é a prova ín-
Desejáveis provas e demonstrações; aqui as tendes em profu- tima, presente em cada página, da origem transcendente da obra,
são. Segui-me, e minha argumentação cerrada e a maravilhosa prova real, inerente ao tratado que a acompanha; prova mais sóli-
correspondência de toda a fenomenologia existente com o da que todas as exteriores que procurais nas qualidades do ins-
princípio único que vos expus, levar-vos-á por fim – logo que trumento e nas modalidades de transmissão e recepção. O ângulo
tivermos atingido as conclusões de ordem moral e social – a visual e a amplidão de perspectiva desta síntese estão absoluta-
enfrentar este dilema: ou admitir todo o sistema, ou nada. Se o mente acima de todas as sínteses humanas ao vosso alcance. No
sistema corresponde à verdade em tantos fenômenos conheci- entanto esforço-me num contínuo trabalho de adaptação, a fim de
dos, deve também corresponder aos fenômenos que não co- reduzir à vossa capacidade estes conceitos, próprios de planos
nheceis nem podeis controlar; admitir e seguir os princípios mais altos. Sem este trabalho, o tratado teria de desenvolver-se,
de uma moral superior – parte integrante do sistema – não se- em grande parte, fora de vosso concebível, por considerar reali-
rá mais questão de fé, mas de inteligência. dades superiores, inimagináveis para vós.
Depois disto, todo homem dotado de inteligência terá o dever Este tratado satisfaz plenamente à necessidade de vossa ci-
de honestidade e justiça. Diante da demonstração evidente que ência atual: reduzir a imensa variedade de fenômenos a um
coloca a questão moral na base do dilema: compreender ou não princípio único. Vedes todas as minhas argumentações conver-
compreender, não é mais lícito duvidar e fugir. O malvado só girem para esse monismo sintético, que vosso intelecto busca e
poderá ser inconsciente ou de má-fé. Não se poderá mais discutir tem necessidade. Minha afirmação diz: unidade de princípio em
uma ciência da vida que está baseada numa concepção teleológi- todo o universo, unidade na complexidade orgânica, unidade no
ca que corresponde aos fatos e que está em relação harmônica transformismo evolutivo. Em sua grandiosa simplicidade, esta
com o desenvolvimento de todos os fenômenos, e não mais em ideia é a mais poderosa afirmação de vosso século. Esta ideia,
construções do todo isolado do resto do mundo fenomênico, in- tremendamente dinâmica e fecunda, é suficiente para criar uma
demonstráveis, frequentemente uma nota dissonante no grande nova civilização. O conceito de lei, que cada palavra minha rea-
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 39
firma, é ordem, equilíbrio, afirmação; põe em fuga todos os nii- em suas linhas fundamentais, arriscaria perder sua unidade em
lismos, pessimismos e ateísmos, a ideia da cegueira do acaso, da infinitas ramificações colaterais. Cada conceito estende-se como
atrocidade do sofrimento, da desordem e da injustiça na criação; uma esfera, em todas as direções, enquanto vossa consciência só
ela vos torna melhores e vos eleva a cidadãos de um mundo mai- pode perceber um de cada vez. Por brevidade, temos que esco-
or, conscientes das leis que o dirigem. Todavia tal síntese não lher os principais. Minha consciência volumétrica – isto é, de ter-
podia ser alcançada por mentes imersas no relativo, mas apenas ceira dimensão – num plano superior à vossa, de superfície (se-
de um ponto de vista que, estando fora da humanidade, pudesse, gunda dimensão), como vos explicarei, vê por síntese, ao passo
numa visão de conjunto, contemplá-la toda, ou seja, não podia que vós vedes por análise. O finito, de que sois feitos, justifica
chegar a vós senão provindo de um plano mental superior. As esses retornos a que sois obrigados para examinar sucessivamen-
páginas que se seguem justificarão estas afirmações, dando-vos te a realidade em seus aspectos (que nós vemos em síntese), a fim
novas aproximações do superconcebível que vos ultrapassa. de penetrar, por degraus, além da forma que está na superfície e
Colocastes vossos pontos fixos na terra, quando, ao invés, recobre a essência que está na profundidade.
eles estão no céu. Os fatos de onde partis, o método da observa- O estudo do aspecto dinâmico da fase  vos mostrou, na es-
ção e o instrumento da razão vos fecham num círculo, sem pos- tequiogênese, o nascimento, a evolução e a morte da matéria.
sibilidade de saída. Jamais discutistes vós mesmos e nem pensas- Caiu, desse modo, vosso dogma científico da indestrutibilidade
tes que se devesse superar vosso instrumento – esta é a primeira da matéria. Compreendidos os conceitos de nascimento da ma-
coisa a fazer. Eu quebro os grilhões e escapo do círculo em que téria por concentração dinâmica; de sua evolução química; de
vos haviam trancado vossa ciência e vossa filosofia. Era preciso sua morte por desagregação atômica (radioatividade); vejamos,
quebrar de uma vez por todas esse anel: análise e síntese, síntese agora, como se comporta essa matéria na realidade do universo
e análise, e encontrar um ponto de partida fora de vosso relativo. astronômico, nos imensos amontoados de estrelas.
Um sistema filosófico ou científico pode ser uma concatenação e Um exemplo no campo físico poderia ser trazido como ilus-
uma construção perfeitas do ponto de vista lógico e matemático. tração do princípio do desenvolvimento cíclico dos fenômenos,
Mas o ponto fixo, a base de onde partis, está sempre lá, no relati- com a volta ao ponto de partida, mas com progressivo desloca-
vo; por isso vossas construções são em tão grande número e tão mento do sistema: é o que encontrais na trajetória traçada pelo
diferentes, todas prontas a ruir logo que sejam deslocadas desse caminho da Terra nos espaços. Girando em redor do Sol num
ponto. Muitas vezes, vos isolais numa unilateralidade de concep- plano com os outros planetas, em sua mesma direção – enquan-
ção, elevando-vos, vós mesmos, a sistema. to o Sol, por translação, afasta-se das regiões de Sírius para as
Muitas vezes sabeis pelo poder da mente, mas, depois, vosso de Vega da Lira e para a constelação de Hércules – a Terra des-
coração não segue junto. De que serve saber, se não sabeis amar? creve exatamente uma trajetória que, mesmo retornando sempre
Separais pesquisa e paixão, mas o homem é síntese feita de luz e sobre si mesma, jamais volta ao mesmo ponto de partida no es-
calor. Além disso, como pudestes crer possível chegar sozinhos – paço. Isso acontece porque o movimento solar de translação faz
por força de análises e hipóteses, esflorando os fenômenos com a elipse planetária desenvolver-se em espiral, de acordo com a
vossos sentidos limitados – a alguma coisa que ultrapassasse uma direção do deslocamento do Sol.
síntese parcial, isto é, à síntese máxima? O que tendes sob os Entretanto, observemos mais de perto um fenômeno muito
olhos? Como pode caber em vosso pequeno mundo terreno todo mais amplo: a construção de vosso universo estelar. Já ace-
o mundo fenomênico? Entretanto tudo isto eu resolvo, mas mu- namos a isso a propósito do desenvolvimento do vórtice das
dando de sistema; arraso o método indutivo, para substituí-lo pelo nebulosas. Esse simples aceno merece mais profundo exame,
método intuitivo8. Mas nem por isso deixo de dirigir-me e de fi- agora que completamos o estudo da espiral. Vosso universo
car aderente à realidade, verdadeira base de qualquer filosofia. estelar é constituído pela Via Láctea, que, no plano físico, é a
Eu vos digo: as realidades mais poderosas estão dentro de vós. exata expressão do princípio da espiral. Muitas dúvidas vos
Olhai o mundo não com os olhos do corpo, mas com os olhos da atormentaram, e muitas hipóteses aventastes para explicar a
alma. Os métodos dos quais tanto se ocupam certas filosofias, os construção e a origem dessa faixa estelar que envolve os dois
métodos clássicos de pesquisa que vos parecem inabaláveis, já hemisférios de vossa visão celeste. Não formulo hipóteses,
deram até agora todo o seu rendimento; são meios superados, que mas vos transmito, como o vejo, o estado dos fatos e vos indi-
não vos farão mais progredir um passo sequer. carei de que modo, em parte, podereis controlá-los.
A matéria, pela lei das unidades coletivas, se vos apre-
XXXII. GÊNESE DO UNIVERSO ESTELAR. senta em amontoados geológicos e siderais. Todo o vosso
AS NEBULOSAS – ASTROQUÍMICA E universo físico é constituído pela Via Láctea, um sistema
ESPECTROSCOPIA completo e limitado, a cujo diâmetro podeis dar o valor de
cerca de meio milhão de anos-luz. O Sol, com a corte de
Retomemos agora alguns conceitos já ventilados e conti- seus planetas, está situado no sistema. A Via Láctea é, exa-
nuemos seu desenvolvimento. Desse modo, completaremos a tamente, um vórtice sideral em evolução.
exposição sumária dos princípios e tornaremos a observá-los Demonstraremos esta afirmação. O grande vórtice da Via
na realidade fenomênica; observaremos os fatos sempre sob Láctea é dado no seu devenir – pela lei dos ciclos múltiplos –
novos aspectos. por vórtices siderais menores, que vedes e conheceis, e nos
Retomarei por um momento a fase  em seu aspecto estáti- quais podeis encontrar o caso maior. Os telescópios vos põem
co, descrevendo-vos a construção do universo físico; uma pau- sob os olhos várias nebulosas, as da Constelação da Balança, de
sa no campo astronômico, para daí tomar impulso para concei- Andrômeda, a nebulosa em espiral da Constelação do Cão, ne-
tos mais profundos. Dir-vos-ei coisas que não podia expor antes bulosa regular, em que a linha da espiral está claramente visí-
de amadurecer tantos conceitos. Esta minha exposição cíclica vel. O vórtice estelar é, por vezes, como neste caso, orientado
progressiva que adoto, corresponde à maturação de vossa psi- de maneira a apresentar-se de frente; às vezes, obliquamente,
que e à necessidade de vos expor gradualmente a grande visão, aparecendo como uma oval achatada, em perspectiva, como na
a fim de que a assimileis, ao invés de nela vos perderdes. Cada nebulosa de Andrômeda; às vezes, de perfil, em sua espessura –
conceito, se não for esboçado antes, numa primeira fase, apenas neste caso, assume o aspecto da seção de uma lente, e as espi-
rais, ao sobreporem-se, ficam ocultas ao olhar. Vosso sistema
8
Esse problema do método é aprofundado no volume Ascese Mística – solar foi uma nebulosa que agora chegou à maturidade; os pla-
Parte I: “O Fenômeno”. netas, cuja verdadeira órbita é uma espiral com deslocamentos
40 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
mínimos, recairiam no Sol se não se desagregassem pela radio- pois é exatamente nela que encontrais as estrelas em sua pri-
atividade. A Via Láctea é apenas imensa nebulosa espiralóide meira fase de evolução. As vermelhas, as mais velhas, encon-
em processo de maturação. Vosso sistema solar, como as cita- tram-se afastadas das regiões mais jovens da Via Láctea. Em
das nebulosas, faz parte dela. No âmbito da espiral maior de- outras palavras: existe um processo paralelo de maturação da
senvolvem-se as espirais siderais menores. Podeis representar a matéria e de afastamento do centro, porque as mutações quími-
Via Láctea como imenso vórtice, semelhante, embora maior, ao cas, o resfriamento, a condensação e o envelhecimento signifi-
da nebulosa da Constelação do Cão. O sistema solar está imerso cam evolução, esta corresponde a um processo de abertura do
na espessura do vórtice, que, portanto, só aparece visível em sistema, que vai do centro à periferia.
sua seção, mas que, como seção, vos envolve nos dois hemisfé- Acrescentemos outro fato: as velocidades siderais, partin-
rios e, por isso, aparece numa faixa em todo o redor. do de uma velocidade nula para as nebulosas irregulares, au-
Eis os fatos que vos demonstram essa afirmação: é no plano mentam gradualmente nas estrelas de hélio, de hidrogênio,
equatorial da Via Láctea que se comprimem os amontoados das amarelas, vermelhas, planetárias. Isso vos diz que as estrelas,
estrelas, enquanto nos polos a matéria está em estado de rarefa- durante o processo de evolução assinalado pelo tempo, proje-
ção; as estrelas multiplicam-se à proporção que vos avizinhais tam-se do centro para a periferia. Acrescentai a isto tudo o
da Via Láctea. O sistema solar está situado mais para o centro exemplo do tipo de desenvolvimento em espiral visível nas
da espiral, centro que lhe fica de lado, no plano de achatamento nebulosas menores, que reproduzem, em proporções mais re-
e do desenvolvimento do vórtice. A distribuição diferente das duzidas, o sistema maior, e tereis um acúmulo de fatos con-
massas siderais em vosso céu é causada exatamente pela visão vergentes para o mesmo princípio, que afirmei ser a base da
que conseguis, quer na maior seção horizontal, quer na menor construção orgânica de vosso universo estelar.
seção da direção vertical, do esferóide achatado que representa
o volume do sistema espiralóide galáctico. XXXIII. LIMITES ESPACIAIS E
Mas há fatos mais convincentes. A espectroscopia permite LIMITES EVOLUTIVOS DO UNIVERSO
estabelecer uma espécie de astroquímica, que vos informa a
respeito da composição das várias estrelas. Com a análise das Agora, que tendes um conceito da conformação de vosso
radiações estelares, também podeis estabelecer sua temperatura, universo e de seu processo evolutivo, ultrapassemos seus li-
porque, à proporção que esta aumenta, vedes aparecer no espec- mites, tanto em sentido espacial, permanecendo no plano fí-
tro as várias cores, do vermelho ao violeta, que é o último a sico, quanto no sentido evolutivo, isto é, relativamente às fa-
aparecer. O ultravioleta revela as temperaturas mais altas. ses já referidas, que precedem e superam esse plano. Aqui, a
Quanto mais o espectro se estende nessa área, mais quente é a astronomia atinge a metafísica. Pensai que este universo,
estrela observada. Então o espectro vos revela, concomitante- imenso e tão maravilhosamente complexo, é o mais simples,
mente, a constituição química e a temperatura. Baseando-vos enquanto pode ser perfeitamente concebível para vós, entre
nestes critérios, torna-se possível uma classificação das estrelas os universos nos quais este se transforma por evolução. É
quanto ao tipo, e uma graduação delas também em relação a fácil ultrapassá-lo no sentido espacial; mais difícil o é em
seu grau de condensação, daí sua idade no processo evolutivo. sentido evolutivo, porque aprofundar este estudo significa,
Uma primeira série de estrelas é composta de gases incandes- para vós, invadir o campo do inconcebível.
centes, como o hidrogênio, o hélio e o nebúlio (que ainda des- No sentido espacial, vosso universo estelar, considerado iso-
conheceis). Deste último são as estrelas mais quentes. A maté- ladamente, é um sistema finito; é imenso, mas pode ser medido;
ria está no estado gasoso, a massa estelar é uma nebulosa ainda e tudo que se pode medir é finito. Vossa mente o domina por
no seu início. Estas são as estrelas mais jovens, de cor prevalen- completo, porque, sendo ela de um plano superior, pode ultrapas-
temente azul, e representam a fase inicial da evolução sideral sar qualquer limite espacial. Se podeis, num corpo tão frágil e
do vórtice galáctico. Essas estrelas estão todas situadas nas vi- pequeno, voar assim conceptualmente, tanto que podeis compre-
zinhanças imediatas da Via Láctea. Continua a gradação e ender o universo físico, o qual jamais poderíeis percorrer todo
abrange estrelas de hélio, sempre quentes e jovens, sempre pró- materialmente, isso é devido ao fato de que existis numa fase
ximas da Via Láctea; depois as estrelas de hidrogênio, em que evolutiva superior. Verificais, aqui, como a diferença de nível dá
se acentua o hidrogênio e o hélio tende a desaparecer. Embora o poder de dominar e compreender o inferior, mas não o contrá-
nas proximidades da Via Láctea, elas começam a espalhar-se rio. Os limites de vosso concebível, todavia, são dados na direção
pelo céu. Menos jovens, mais avançadas evolutivamente que da evolução, isto é, pelas fases ou universos mais afastados ou
as precedentes, em via de condensação, emanam luz branca. A superiores do vosso. No sentido espacial, a lei das unidades cole-
essa série de estrelas brancas (a que pertence Sírius) segue-se tivas e a lei dos ciclos múltiplos indicam-vos a continuação do
a das estrelas de luz amarela, nas quais os metais substituem fenômeno com um conceito simples. Assim como a unidade do
os gases, mas sempre em temperaturas elevadíssimas, embora universo compõe-se de unidades menores, também ele constitui o
inferiores às precedentes. Estas estão espalhadas ainda mais componente de unidades maiores; assim como a espiral maior é
uniformemente pelo firmamento e se acham em processo de produzida pelas menores, também ela se torna a determinante de
solidificação. Entre elas situa-se vosso sol. Ele encontra-se espirais maiores, até ao infinito. Encontraremos um limite, mas
entre as estrelas que estão envelhecendo, esperando a morte no transformismo evolutivo, não no espaço. Fisicamente, o vórti-
por extinção. Suas manchas já as anunciam e tornar-se-ão ca- ce de vosso universo é apenas um da infinita série de vórtices ou
da vez mais extensas e estáveis, até ao fim. A última série é a nebulosas em processo de desenvolvimento ou de involução; eles
das estrelas vermelhas, com uma temperatura que chega a um se combinam com este num vórtice ainda maior, até ao infinito.
resfriamento avançado, nas quais os gases desaparecem para Não podeis vê-los todos, porque não têm a vibração da luz. Vos-
dar lugar aos metais; são as estrelas mais velhas, distribuídas so universo físico move-se todo em velocidade vertiginosa em
quase uniformemente pelo espaço. relação a outros longínquos universos semelhantes, a fim de fazer
Entretanto outros fatos há para observar e que se desenvol- parte, com eles, de sistemas ainda maiores. Que isto não vos sur-
vem paralelamente aos quatro já observados: constituição quí- preenda! Não encontrais o mesmo princípio no vórtice eletrôni-
mica, temperatura, condensação, idade. As estrelas afastam-se co? Não se trata senão de uma pequena matéria e uma grande
da Via Láctea à proporção que envelhecem. Bastaria isto, para matéria; do átomo ao universo e além dele, de um polo ao outro
demonstrar que na Via Láctea está o centro genético do sistema, do infinito, o princípio é idêntico.
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 41
Procuremos, todavia, ultrapassar os verdadeiros limites do do concebível. A essa altura, a ciência, que se tornara metafísi-
sistema, que não encontrareis mais no mesmo plano físico, em- ca, transforma-se em mística visão e, expandindo-se num cam-
bora vossa mente os supere ao infinito: os limites dados pelo po de completa abstração, presume não mais uma psicologia
transformismo evolutivo. Movendo-se sempre na mesma direção racional, mas uma psicologia de intuição. Falar-vos-ei, agora,
que o mundo físico, encontrareis sempre o mesmo princípio, sem do nascimento e da morte do tempo, do nascimento e da morte
mudanças. Para ultrapassá-lo e sair dele, é indispensável mover- do espaço, do aparecimento e desaparecimento – por evolução
se em outra direção: a da evolução. A abertura do vórtice sideral e involução – dessas diversas dimensões em vosso relativo. Tu-
é mais que um processo mecânico: é aquela maturação íntima da do o que está no relativo tem um princípio e um fim e, portanto,
matéria, que vimos na estequiogênese. O vórtice da nebulosa deve nascer e morrer. Esforçai-vos, agora, para superar esse re-
nasce e morre aí mesmo, onde a matéria nasce e morre, isto é, lativo e para elevar vossa concepção ao infinito.
começa e termina lá onde a Substância inicia e termina seu ciclo
de fase física. Em outras palavras: a matéria nasce no centro da XXXIV. QUARTA DIMENSÃO E RELATIVIDADE
Via Láctea e morre na periferia. Observai a correspondência com
os princípios expostos acima! Observai como o vórtice maior si- Inicio com a vossa bem recente teoria científica, à qual me li-
deral abre-se pelo desenvolvimento dos vórtices menores, plane- go como a um ponto de partida: a teoria da relatividade de Eins-
tário etc., até ao atômico. Observai que, da mesma forma que o tein. Presumo que a conheceis, assim como aos conceitos sobre a
centro genético espacial (aspecto estático da fase  é o núcleo quarta dimensão. Os critérios que adotastes para criar uma quarta
da nebulosa de vosso universo, assim também o centro genético dimensão do espaço, permanecendo no espaço, estão errados. A
fenomênico (aspecto dinâmico de ) é o hidrogênio, elemento- dimensão sucessiva à terceira espacial não está no espaço. O
base da série estequiogenética, o que constitui justamente as es- quarto termo sucessivo aos três da unidade trina só pode encon-
trelas jovens, quentes, gasosas, situadas na Via Láctea, e as trar-se na trindade sucessiva. Isto se dá em virtude da lei pela
grandes massas gasosas que formam a substância-mãe das es- qual o universo é individualizado por unidades tríplices, e não
trelas. Se imaginardes que esse processo significa o desenvol- quádruplas. Portanto é absurdo o conceito da continuação do de-
vimento de um princípio (aspecto mecânico ou conceptual do senvolvimento tridimensional do espaço – que vai do ponto adi-
universo), podereis “sentir” agora a fase  concomitante e uni- mensional à linha (primeira dimensão), à superfície (segunda di-
tariamente, na trindade de seus aspectos. mensão) e ao volume (terceira dimensão) – num hipervolume.
Vimos que as nebulosas nascem, como fase , pela con- Trata-se de um absurdo imaginoso essa construção ideal de uma
centração dinâmica da fase , e que o ponto máximo do fe- quadridimensão octaedróide e dos outros poliedróides do hipe-
nômeno não é dado apenas pelo máximo de abertura espacial respaço. Aumentar um volume significa permanecer no volume,
do vórtice provocado pelo impulso originário, mas ainda pela ainda que o multipliquemos por ele mesmo. Por isso não obtives-
evolução da matéria, pela qual esta, depois de atravessar toda tes resultado prático até agora, nem mesmo pela representação
a fase , desagrega-se e torna a assumir a forma de energia. hiperestereoscópica, nem pela conceptual. A pretensa geometria
Depois, dissemos como a energia se canaliza, por sua vez, em a quatro, cinco, n dimensões, que imaginastes, é uma extensão da
correntes que, de acordo com um vórtice centrípeto, a guiam análise algébrica, e não uma geometria propriamente dita. Trata-
de novo para o centro (fase inversa do ciclo, período de desci- se de uma pseudogeometria, mera construção abstrata, com for-
da involutiva), no qual, por concentração dinâmica, transfor- mas inimagináveis e inexprimíveis na realidade geométrica.
mando-se de novo em , formará o núcleo de novo vórtice Como todo universo é trifásico, é também tridimensional.
centrífugo, de nova nebulosa espiralóide galáctica. Chegados à terceira dimensão, é necessário, para progredir – em
Chegamos, pois, a este fato: o limite de abertura do vórtice virtude do princípio da unidade trina – iniciar nova série tridi-
sideral não é encontrado no plano físico, mas sim no ponto em mensional, pois o período precedente exauriu-se; é indispensável
que este toca – não no sentido espacial, mas em sentido evolutivo sair do ciclo precedente para começar outro novo. Chegaremos
– um outro plano, onde o vórtice físico se inverte num vórtice di- depois ao conceito da evolução das dimensões, dilatando a con-
nâmico de regresso. A espiral, como vimos no diagrama da fig.4, cepção einsteiniana da relatividade, quer estendendo-a a todos os
fecha-se, mas o retorno do vórtice sideral é de natureza dinâmi- fenômenos, quer aprofundando seu conceito.
ca; a reabsorção centrípeta, que contrabalança a precedente ex- A concepção tridimensional do espaço euclidiano esgota a
pansão, ocorre em fase evolutiva diferente. O que retorna ao primeira unidade trina e, com isso, exclui uma quarta dimensão
centro é a forma energia, e não a forma matéria, na qual se tinha no espaço. Mas a sucessão das dimensões já contém o conceito
afastado. As correntes siderais emanadas do núcleo gasoso são de sua evolução. Considero linha, superfície e volume como três
substituídas pelas correntes dinâmicas, que reconstituem aquele fases de evolução da dimensão espacial. Mas, para além, não
núcleo. Em outros termos: a matéria não pode ter um limite em bastam essas concepções matemáticas. Para mudar a dimensão, é
direção espacial (pois este se poderia, com efeito, sempre superar necessário iniciar um movimento em direção diferente e introdu-
logicamente), mas apenas em direção evolutiva; ou seja, esse li- zir elementos totalmente novos. Procurastes ultrapassar a con-
mite não pode ser situado em dado ponto do espaço, mas pode cepção euclidiana – concepção de um espaço elíptico, compre-
encontrar-se em qualquer ponto onde ocorra a transformação da endido como campo de forças finito, formado por linhas fechadas
matéria em sua fase superior de evolução. Somente estes concei- em si mesmas, correspondente ao meu conceito cíclico – e a con-
tos podem explicar-vos toda a complexa realidade do fenômeno. cepção de hiperespaços pluridimensionais. Para resolver esse
A condensação sideral é de natureza dinâmica; o vórtice que se problema, temos que tomar outra direção.
abre em forma física, fecha-se depois de uma transmutação que o Partamos do conceito de relatividade. Não tendes um
torna invisível aos telescópios; desaparece de vossos sentidos e tempo e um espaço em sentido absoluto, isto é, que existem
prossegue em direção inversa, numa forma que procurais em vão por si mesmos, independentes das unidades que os ocupam;
no plano físico. Muitos problemas de física e de astronomia vos mas eles são determinados por elas e a elas relativos. Portan-
parecem insolúveis exatamente porque vos mantendes sempre no to não existe um movimento absoluto no espaço e no tempo.
plano físico e não acompanhais os fenômenos onde eles, sob este Vossas medidas, então, não correspondem senão a um con-
aspecto, se esvanecem; não sabeis reencontrá-los enquanto “re- ceito total de relatividade. Assim, cada fenômeno tem um
nascem” num aspecto diferente. tempo próprio, que lhe mede o transformismo: não existe
Estas considerações vos encaminham para a visão de con- uma unidade universal de medida, nem uma dimensão absolu-
ceitos ainda mais profundos, que vos fazem chegar até ao limite ta idêntica, invariável para todos os fenômenos. Até mesmo na
42 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
ciência e na matemática estais imersos, sem possibilidade de Vosso conceito de um espaço e de um tempo absolutos,
saída, em vossa relatividade. Só podeis estabelecer relações universais, sempre iguais a si mesmos, corresponde a uma
com elas, nada mais: o absoluto vos escapa. orientação puramente metafísica, que, inconscientemente,
Já vos disse: vossa razão não é a medida das coisas; sois matemáticos e físicos introduziram em suas equações. Esse
parte de um grande organismo; até vossa consciência repre- ponto de partida, totalmente arbitrário, vos levou a conclu-
senta uma fase: é um fenômeno entre os fenômenos. Alguns sões erradas; colocou-vos diante de fenômenos que se trans-
conceitos estão além de vossa consciência, e só podeis alcan- formam em enigmas, perante contradições sem saída e con-
çá-los por maturação evolutiva de vosso eu. Modificando es- flitos insanáveis; de todos os lados, cerca-vos o mistério. Na
ses princípios fundamentais para a ciência, modifica-se também realidade, somente encontrais, como vos disse, um tempo e
toda a estrutura de vossos sistemas científicos; derrogam-se a um espaço relativos, cujo valor não ultrapassa o sistema a
física e a mecânica clássicas newtonianas. Mas os novos con- eles relativo. Mas há mais. Eles são apenas medidas de tran-
ceitos têm a vantagem de corresponder a uma realidade mais sição, em contínua transformação evolutiva.
completa e profunda. Assim, a mecânica racional transforma-se Esforçai-vos em acompanhar-me. Se vosso universo é fini-
em mecânica intuitiva mais avançada. Surge a possibilidade de to como vórtice sideral, o sistema de universos e o sistema de
solução de problemas que os velhos princípios não podem re- sistemas de universos é infinito. Se o espaço fosse um infini-
solver. A ciência que construístes, sem dúvida, vale algo, e tí- to, não teria limites em sua qualidade de espaço, no entanto
nheis que criá-la. Mas, hoje, chegastes a um ponto em que, para ele os tem, porém não os encontrareis no espaço, em direção
avançar, é preciso criar uma nova ciência. espacial, mas sim em direção evolutiva. Deste conceito, ao
qual já acenamos, chegamos agora à novíssima concepção: os
XXXV. A EVOLUÇÃO DAS DIMENSÕES E únicos limites do espaço são hiperespaciais, isto é, são no
A LEI DOS LIMITES DIMENSIONAIS sentido do desenvolvimento da progressão evolutiva e exata-
mente na dimensão sucessiva. Ou melhor: se quiserdes um li-
Minha tarefa agora é ampliar esses princípios, que já domi- mite para o espaço, só o encontrareis nas dimensões que o su-
nais em todos os campos, e aprofundar-lhes o significado. Uma cedem e o precedem. Pormenorizemos, ainda.
primeira ampliação do conceito de relatividade é dada pela lei da Cada universo tem uma medida de unidade própria, que
relatividade, que abarca todos os fenômenos com tanta força, que consiste em sua dimensão. Assim como, por evolução, se pas-
impressiona vossa percepção e todas as vossas concepções. Não sa de uma fase para outra, conforme vimos na transmutação
percebeis nem concebeis sua essência, mas sim as mudanças das das formas da substância, em que os universos aparecem e de-
coisas: a base é o contraste, condição indispensável. Por isso não saparecem, assim também, por evolução, passa-se de uma
percebeis um movimento se vos moveis com velocidade igual dimensão a outra, e as unidades de medida do relativo apare-
(por exemplo, o da Terra), mas apenas as diferenças; não repa- cem e desaparecem. Tudo o que é relativo – portanto também
rais, absolutamente, que correis, com tudo o que vos circunda na a dimensão que é sua medida – deve, como o relativo, nascer
superfície da Terra, com uma velocidade de quase meio quilôme- e morrer. Assim as dimensões evoluem com os universos,
tro por segundo, o que equivale a cerca de 1.800 quilômetros por acompanhando as fases que estudamos. Do conceito de di-
hora. Assim, duas forças constantemente equilibradas numa úni- mensão relativa, passamos ao de dimensão progressiva. Ora,
ca massa, para vós não existem. A estase e o equilíbrio não são passagem de fase significa também passagem dimensional.
percebidos por vós, mas somente a mudança. Nesta lei de relati- Do espaço ao tempo se passa por evolução, esta é paralela
vidade é que se encontra vossa fase de consciência. Aí está a ra- àquela que leva da fase  à fase .
zão pela qual vossa ciência é exclusivamente, como vos disse, Existe, pois, uma lei, a que chamaremos de “lei dos limi-
uma ciência de relações, de natureza totalmente diferente da mi- tes dimensionais”, que pode ser assim enunciada: “Os limi-
nha, que, provindo de um plano superior, é ciência de substância. tes de uma dimensão são dados pelos limites da fase de que
Ampliei o conceito de relatividade também à psicologia e à ela é a unidade de medida; eles encontram-se no ponto em
filosofia, ao falar-vos de verdades progressivas. Assim como o que, por evolução, passa-se de uma fase a outra, isto é, onde
conceito evolucionista, que Darwin só viu nas espécies orgâni- ocorre a transformação de uma fase e de sua dimensão na fa-
cas, também o conceito de relatividade, que Einstein limitou a se e dimensão sucessiva”.
alguns momentos matemáticos, tem que ser completado com
uma teoria de relatividade universal, que se estende a todo o XXXVI. GÊNESE DO ESPAÇO E DO TEMPO
universo. Isto representa uma conquista filosófica e científica,
uma concepção mais profunda, uma compreensão mais ampla, Agora podeis compreender o que é e como ocorre a gênese
uma harmonia e beleza superiores. Outra ampliação do conceito do espaço e do tempo e o seu término. Podeis atingir a explicação
de relatividade pode ser feita em profundidade: aquela que vos científica das palavras do Apocalipse: “Então o Anjo jurou por
levará a conceitos novos; não mais apenas o de relatividade das Aquele que vive nos séculos dos séculos, que agora não haveria
unidades de medida de vosso universo, mas aquele muito maior mais tempo” (Apoc. 10:6). Tudo o que nasce tem de morrer, isto
e profundo, o da evolução de suas dimensões. é, tudo o que teve princípio tem de ter fim. Como tudo, evoluin-
Se me perguntais onde termina o espaço, eu vos respondo: do, deixa os despojos da velha forma, também deixa, para assu-
num ponto em que o “onde” se torna “quando”, ou seja, em que mir outra mais elevada e mais adequada, a velha dimensão, que
a dimensão espaço, própria de , transforma-se na dimensão não lhe serve mais. Como são infinitas as fases evolutivas, infini-
tempo, própria de . Quando a matéria, quimicamente envelhe- tas também são as respectivas dimensões. Eis como nosso olhar
cida, resfriada, solidificada, atinge a periferia do vórtice sideral, pode superar o tempo e o espaço, que são apenas duas dimensões
desagrega-se pela radioatividade, transmudando-se em energia; contíguas, entre as infinitas dimensões sucessivas. Falaremos a
então a substância perde sua dimensão espacial e volta ao cen- respeito das mais próximas ao vosso concebível, correspondentes
tro como corrente dinâmica e com dimensão temporal. Na peri- às várias fases de evolução. Isto para chegar à conclusão, que an-
feria, a matéria não é mais matéria, mas energia. Como a subs- tecipo: também o devenir das dimensões é cíclico e segue a lei do
tância mudou de forma, deslocando seu ser de uma fase a outra, desenvolvimento expressa pela trajetória típica dos movimentos
assim muda sua dimensão, que não é mais espaço, e sim tempo. fenomênicos e pela lei das unidades coletivas, ou seja, cada di-
Expliquemos este conceito de dimensão e sua evolução. mensão é um período que se reagrupa em períodos maiores tri-
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 43
fásicos, os quais se reagrupam em períodos ainda maiores, até ao Em  aparece sua primeira manifestação: o tempo. O ponto
infinito. A dimensão infinita, que compreende todas as menores, movimentou-se, não mais em direção espacial, mas em nova di-
é precisamente a evolução. Como cada fase tem sua dimensão, reção, a conceptual, e nasce a reta, a primeira dimensão nova.
assim também o infinito tem a sua; a dimensão do infinito é a Ao deslocar-se no tempo, o fenômeno adquire, em , uma
evolução. Eis que superamos o limite e, também nesta direção, consciência própria, linear, a primeira dimensão conceptual. O
encontramos o infinito. fenômeno, que não é ainda vida, nem consciência, sabe apenas
Analisemos agora as dimensões contíguas ao espaço e ao o seu isolado progredir no tempo; não se expande além da linha
tempo, suas propriedades e sua gênese. Quando dizeis espaço a de seu devenir, não se eleva a julgamento como a consciência
três dimensões, confirmais estas afirmações, pois enunciais as humana, não sabe sequer dizer “eu”, porque ignora qualquer
três manifestações sucessivas dimensionais do espaço, que, como distinção, e a consciência do não-eu, aqui, é o inconcebível.
vedes, é uma unidade trifásica. Olhemos novamente o diagrama Compreendamos, também aqui, não um tempo universal, isto é,
da fig. 2. A fase , matéria, representa a dimensão espaço com- a medida do devenir fenomênico; mas a dimensão desta fase,
pleta. Eis a gênese progressiva. Na fase –z, temos a dimensão es- ou seja, a consciência (linear) do devenir. Entendido assim, es-
pacial nula: o ponto. Isso não significa que o universo –z seja se tempo só nasce em  como propriedade da energia. Com
puntiforme, mas sim que, naquela fase, o espaço só existia em efeito, apenas as forças tomam a iniciativa do movimento, ten-
germe, à espera do desenvolvimento (vórtice fechado), e que, em do como dominante a característica dinâmica, e dominam , a
vez dele, existia uma dimensão diferente, fora de vosso concebí- terceira dimensão espacial, característica da matéria, que não o
vel. Em –y aparece a primeira manifestação da dimensão espa- inicia, mas apenas sofre esse movimento. Nas fases inferiores
ço, isto é, a linha, aquela que denominais sua primeira dimen- só existe o tempo em sentido mais amplo, entendido como rit-
são: é a primeira e mais simples forma do espaço, em seu apa- mo do devenir, propriedade de todos os fenômenos; mas não
recimento. A segunda manifestação, mais completa, aparece na como consciência do transformismo, propriedade das forças.
fase seguinte, –x, e revela-se como superfície, a que denomi- Facilmente compreendeis que revolução trazem esses conceitos
nais segunda dimensão. A terceira e última manifestação, que em vossa ordem habitual de ideias.
completa a dimensão espacial, aparece em , na matéria, e reve- Em , estamos na fase subumana e humana de consciência
la-se como volume, é a terceira dimensão do espaço. Agora mais completa, e temos a segunda dimensão conceptual, corres-
compreendeis como nasceu o espaço, porque a matéria tem pondente, no sistema espacial, à superfície. Tal como da linha se
como dimensão um espaço a três dimensões, dado por três passa à superfície, com deslocamentos em novas direções extra-
momentos sucessivos. Também reencontrais este princípio ge- lineares, assim, por deslocamentos semelhantes, a consciência
ral: “a manifestação de uma dimensão é progressiva e ocorre humana invade o devenir de outros fenômenos, diferencia-se de-
em três graus contíguos”. A enunciação deste princípio vos les, aprende a dizer “eu”, a perceber a própria individualidade
demonstra o absurdo da procura de uma continuação quadridi- distinta das outras, dobra-se sobre o ambiente, projeta-se para fo-
mensional num sistema com três dimensões. A continuação vos ra (a nova dimensão), observa e julga. Os sentidos são os meios
obriga a sair das três dimensões. dessa projeção para fora, característica da segunda dimensão,
Prossigamos a progressão. O desenvolvimento da fase  re- meios que, na primeira, eram desconhecidos.
sultou na dimensão volume, dando-vos o espaço completo. Pelo Em +x aparece a terceira manifestação da dimensão con-
diagrama da fig. 2, vedes como cada criação cria uma fase nova e ceptual, que completa o sistema, correspondente ao volume. A
como, no caso particular, a criação b cria , a energia, que deriva, consciência, que na matéria não tem dimensão (o volume é a
pela radioatividade, de , a fase matéria. A maturação estequio- dimensão espacial completa, mas, diante do sistema sucessivo,
genética deixara  imóvel. Na criação b, a energia nasce pela é uma não-dimensão, o ponto), no campo das forças assume a
primeira vez. Em termos bíblicos dizeis: Deus criou o movimen- dimensão linear; no campo da vida alcança a dimensão superfí-
to, deu o impulso ao universo. O volume moveu-se. Aparece cie; no campo absolutamente abstrato do puro espírito adquire a
nova manifestação dimensional; algo se acrescenta ao espaço; dimensão de volume. As limitações de vosso concebível impe-
uma superelevação dimensional (a quarta dimensão que pro- de-me de lançar-me aos sistemas sucessivos, cada vez mais es-
curais), mas num sistema diferente: a trindade seguinte. Esta pirituais e rarefeitos, que se estendem ao infinito. Ao invés, ex-
nova dimensão, a primeira da série sucessiva, é o tempo. A pliquemos as características da segunda dimensão (consciência)
unidade máxima dimensional precedente é tomada, na passa- em relação às da terceira (superconsciência).
gem à seguinte, por novo e mais intenso movimento, mas Da mesma forma que a superfície absorve a linha, a cons-
sempre em direções novas e diferentes, cada uma própria de ciência absorve o tempo e o domina; enquanto as forças preci-
seu sistema (espacial, conceptual etc.), numa aceleração de sam do tempo, o pensamento o supera. Na passagem da fase 
ritmo, exatamente na qual consiste a evolução. Compreendeis à fase , a dimensão tempo tende a desvanecer-se, embora
agora como nasceu o tempo e como deve ele completar-se subsistindo, mas em tal aceleração de ritmo (onda), que vos
com duas outras manifestações sucessivas, isto é, ser a pri- pareceria quase desaparecer em nova dimensão. Com efeito,
meira manifestação de nova unidade com três dimensões. quanto mais baixa e material é a consciência, tanto mais é len-
ta e se assemelha a ; quanto mais concreto o pensamento,
XXXVII. CONSCIÊNCIA E SUPERCONSCIÊNCIA. mais denso é o ritmo e mais vagarosa a onda. O pensamento
SUCESSÃO DOS SISTEMAS TRIDIMENSIONAIS implica tempo somente enquanto e na medida em que ainda é
energia; quanto mais é cerebral, racional, analítico, tanto me-
Para compreender bem a passagem para as dimensões suces- nos é abstrato, intuitivo, sintético. Neste segundo sistema tri-
sivas deste segundo sistema, comparemo-lo ao primeiro. Enquan- dimensional, assistis a uma aceleração contínua de ritmo.
to este, em seu desenvolvimento, completa a dimensão espacial, Nessa aceleração, o tempo é gradualmente absorvido. Por sua
o sistema seguinte, superior, que é vossa fase no nível humano, vez, a superconsciência domina e absorve a consciência, tal
completa a dimensão conceptual, aquela cujas unidades de medi- como o volume o fez com a superfície.
da são as propriedades da consciência. Tal como ocorre nos uni- Explico: a consciência humana, derivada por evolução de
versos precedentes quanto à gênese progressiva do espaço, temos , através da profunda elaboração da vida, não é linear, isto
nesta unidade superior a gênese progressiva da dimensão con- é, não é limitada em si mesma nem a um fenômeno e pode
ceptual. Na fase , está completa a dimensão espacial, mas é nulo sair e mover-se em todas as linhas de superfície, em todas as
o desenvolvimento da dimensão conceptual: o ponto, um germe. direções, abraçando, como consequência, muitíssimos fenôme-
44 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
nos. Por isso é absolutamente hiperespacial. Mas, de qual- dade de vosso eu como um pressentimento: nada mais. Aí vos
quer forma, é sempre dimensão de superfície, à qual está espera a maior aproximação conceptual da Divindade. Eu estou
inexoravelmente ligada enquanto não evoluir. Isso significa neste plano mais alto, de consciência volumétrica, onde se domi-
que está presa ao relativo, que só pode mover-se no finito, na todo o tempo, até mesmo o futuro, porque estamos fora e aci-
que só sabe conceber por análise, isto é, por meio da obser- ma de vosso tempo; aqui, a concepção é visão global instantânea
vação e da experimentação, tal como vossa ciência. Domina de tudo o que só concebeis sucessivamente; aqui, tenho, por vi-
todas as linhas do devenir fenomênico, mas toda a sua vida são direta, a síntese que agora vos transmito. Destes planos mais
está na superfície e dela não pode sair. Jamais vos pergun- altos, descem as revelações que se comunicam a vós por sintoni-
tastes a razão dessa vossa insuperável relatividade, desses zação de ondas psíquicas, partindo de seres de outra esfera; cons-
limites que restringem vosso concebível, dessa vossa inca- ciências imateriais não perceptíveis aos vossos sentidos e que
pacidade de visão direta da essência das coisas? Eis a res- vossa razão não pode individualizar.
posta com expressão geométrica. Vossa consciência é se- Assim sucedem-se as três dimensões de  , +x. Tal como
gunda dimensão, de superfície, e, como superfície, é uma , matéria, vos deu o espaço, assim temos:
contínua impotência diante do volume, sua dimensão superi- 1o) O tempo, isto é, o ritmo, onda, unidade de medida da di-
or. Para atingir o volume, é indispensável que a superfície se mensão de  a fase energia.
mova em nova direção; para atingir a superconsciência é ne- 2o) A consciência, isto é, a percepção externa, razão, análise, fi-
cessário multiplicar a consciência por novo movimento. Dessa nito, relativo, dimensão de , a fase vida, que culmina no
forma, só por multiplicação de análise podeis aproximar-vos psiquismo humano.
da síntese. A superconsciência é dimensão conceptual volu- 3o) A superconsciência, isto é, a percepção interna, intuição,
métrica, que se obtém ao elevar uma perpendicular sobre o síntese, infinito, absoluto, dimensão de +x, a fase super-
plano da superfície da consciência, conquistando dessa manei- humana9.
ra um ponto de vista fora do plano: o único ponto que pode
Assim, as dimensões se sucedem por trindades sucessivas e
dominá-la totalmente. Por isso, só a superconsciência sobre-
contíguas na escala progressiva da evolução: desde o ponto, até
puja os limites de vosso concebível, domina o relativo na vi-
à linha, à superfície, ao volume, ao tempo, à consciência, à su-
são direta do absoluto, domina o finito, movendo-se no infini- perconsciência, numa contínua dilatação de princípio. Tudo
to; não mais concebe por análise, mas por síntese. evolui. E, com os universos, também suas dimensões. Agora
São esses conceitos que escapam à vossa consciência e, nes- podeis compreender como a abertura de uma espiral maior,
se nível, não podem ser alcançados. Somente assim se passa do produzida pela abertura de uma menor (cfr. diagrama fig. 5)
relativo ao absoluto, do finito ao infinito. Este não constitui não ocorre em sentido espacial, porque a dimensão muda a cada
uma sucessão nem uma soma de relativos, mas algo qualitati- abertura de ciclo, mas no sentido da evolução, que é, como dis-
vamente diferente: diferença de qualidade, de natureza, não de semos, a dimensão do infinito. O infinito + e o infinito 
quantidade, nem de medida. O verdadeiro infinito é isso, bem (+e), que no diagrama aparecem com expressão espacial,
diferente de tudo o que costumais chamar; é simplesmente um têm assim, na realidade, outro valor totalmente diferente. As
indefinido ou incomensurável. A superconsciência move-se dimensões aparecem e desaparecem ao progredirem. Assim,
numa esfera mais alta que a consciência humana, em contato morrerá o espaço com a matéria, o tempo com a energia, a re-
direto com os princípios que vós laboriosamente procurais, ten- latividade com a consciência; mas a Substância ressurgirá em
tando alcançá-los em sínteses parciais, e que só sentireis dire- formas e dimensões mais altas, assumindo sempre novas dire-
tamente por meio de vossa evolução. Como vedes, diferença ções. Cada dimensão é relativa e, na evolução, segue uma pre-
substancial. Não se trata de somar fatos, observações e desco- cedente, mas vem antes de uma seguinte, e existe sempre um
bertas, de multiplicar as conquistas de vossa ciência; trata-se de degrau mais alto para subir, uma fase superior aguardando-a. A
mudar-vos a vós mesmos. Não mais o lento e imperfeito meca- cada salto para frente, conquista-se o domínio da própria di-
nismo da razão, mas a intuição – rápida e profunda. Não mais mensão, que antes não era acessível senão sucessivamente. O
projeção da consciência para o exterior, por meios sensórios campo de ação e visão dilata-se: do alto se domina o que está
que apenas tocam a superfície das coisas, mas expansão em di- embaixo. Reencontramos ainda o princípio da trindade em toda
reção totalmente diversa, para o interior: percepção anímica di- a parte; nas três fases de vosso universo: matéria (), energia
reta, contato imediato com a essência das coisas. (), espírito (); em seus três aspectos: estático, dinâmico, con-
Eis a consciência maior que vos aguarda. Essa é a consciên- ceptual (ou mecânico); nos dois sistemas dimensionais obser-
cia que, no princípio, chamamos latente, a qual se dilata continu- vados: linha, superfície, volume (espaço); tempo, consciência
amente, aumentando com os produtos de vossa consciência. Em (relativo) e superconsciência (absoluto).
vós, a superconsciência está em estado de germe que espera o de-
senvolvimento para revelar-se. Agora compreendeis que valor XXXVIII. GÊNESE DA GRAVITAÇÃO
dar às palavras razão, análise, ciência, que vos parecem ser tudo.
Para progredir mais, tereis de sair do plano de vossa consciência, O desenvolvimento desses conceitos nos abre a porta para o
a que penosamente estais presos, e conquistar um ponto fora de- estudo de outro problema que nos aguarda, o da fase , a ener-
la. As intuições do gênio e as criações morais do santo são ape- gia. Indiquemos suas primeiras formas, para depois analisar as
nas perpendiculares levantadas no plano da superconsciência, por que delas derivam por evolução.
antecipação. Por isso vos disse que a intuição é a nova forma de Assim como o hidrogênio é o tipo do protozoário mono-
pesquisa da ciência futura; somente ela pode dar-vos não mais celular da química inorgânica, e o carbono o da química or-
ciência, mas sabedoria. Isto vos explica o inexorável relativismo gânica, assim também a gravitação é a protoforça típica do
de vossos conhecimentos, vossa limitação e relatividade de sínte- universo dinâmico. Quando , na última fase radioativa de
ses, a escravidão da análise, uma impotência apriorística de al- sua maturação evolutiva, chegou pela primeira vez à gênese
cançar o absoluto. A superfície jamais vos dará, ainda que per- de  (cfr. a entrada em  da criação b, fig. 2), o universo, à pro-
corrida em todos os sentidos, a síntese volumétrica. Razão e in-
tuição, análise e síntese, relativo e absoluto, finito e infinito são 9
Um estudo mais particularizado e profundo desta fase foi exp e-
dimensões diferentes, produzidas em planos diferentes. Absoluto rimentalmente continuado no volume Ascese Mística  “O Super-
e infinito estão em vós em estado de germe, tremem na profundi- consciente”.
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 45
porção que se desintegrava como matéria, foi invadido por te, toda a série das individuações dinâmicas, que se destilarão,
energia radiante. Involuindo (cfr. a descida da linha quebra- por fim, na criação superior da vida.
da de  a  na criação b, fig. 2), essa energia condensou-se, A individualidade desses novos seres “radiantes”, tão rápi-
por correntes dinâmicas centrípetas, no núcleo da nebulosa dos e dinâmicos diante das individuações de , é definida pelo
espiralóide (o qual, por representar a máxima concentração ritmo, pela onda. A unidade de medida das formas de  é a ve-
dinâmica, é justamente sua parte mais quente), de onde en- locidade de vibração na dimensão desta fase, o tempo.
tão nasceu o vórtice da Via Láctea (cfr. fig. 2, criação c e Eis-nos nas primeiras afirmações, novas para vosso mundo
subida de  para ). Enquanto a matéria torna a percorrer seu científico. A gravitação, mais exatamente a energia gravífica,
ciclo de maturação evolutiva, ela está toda vibrante com essa é a protoforma do universo dinâmico. Sendo energia, é radi-
energia em período de difusão. Quando novamente a matéria ante: transmite-se por ondas. Tem uma velocidade própria de
estiver velha, a energia que dela renascer mais madura não propagação superior à das ondas eletromagnéticas e à da luz
tenderá a reenvolver-se num novo núcleo-matéria, mas subi- (300.000 km por segundo) e que é a máxima no sistema. Aqui
rá para , entrando nos caminhos da vida e da consciência. são completados os conceitos da teoria de Einstein. A gravita-
A razão pela qual apareceu a vida em vosso planeta e nos do ção é relativa à velocidade de translação dos corpos. A mas-
sistema solar é justamente porque este sistema é velho, como sa varia e aumenta com o crescimento da velocidade, de que é
vimos. Aqui, a matéria está em sua última maturidade, está função (demonstrável experimentalmente). O peso aumenta
morrendo por desagregação radioativa, e a energia dirige-se por novas transmissões de energia e vice-versa. O conceito de
decididamente para a fase superior, . transmissão instantânea cai para todas as forças. A gravitação
A primeira gênese de , a gravitação, aparece, portanto, leva tempo para transmitir-se, embora mínimo; como todas as
como forma originária de energia, matriz da qual nascerão, formas dinâmicas, ela tem um típico comprimento de onda.
como filhas, todas as outras formas, por meio de distinção e Ela se compõe, já o dissemos, como outra qualquer unidade,
diferenciação no processo evolutivo. Particularizemos. Enten- de duas metades inversas e complementares: atração e repul-
do aqui, como gravitação, não a pequena gravitação de New- são, e move-se entre esses dois extremos: positivo e negativo.
ton – caso particular ao vosso planeta – mas uma gravitação A lei descoberta por Newton, baseada nos trabalhos de Ke-
de sentido mais amplo, que resulta do equilíbrio das forças in- pler, denominada lei de atração ou gravitação universal, diz
versas de atração e repulsão, opostas e complementares (lei de que “a matéria atrai a matéria na razão direta das massas e na
dualidade, que veremos agora); uma gravitação filha direta do razão inversa do quadrado das distâncias”. Mas, com isso, a
movimento, isto é, energia gravífica, filha da energia cinéti- mecânica newtoniana não pôde explicar nada da arquitetura
ca. Eis como ocorre a transformação: o movimento, primeiro dos mundos. Esse enunciado não é senão a comprovação do
produto da evolução físico-dinâmica, é força centrífuga e, por fato de que a atração decresce em razão do quadrado da dis-
isso, tende à difusão, à expansão, à desagregação da matéria. tância. Indica o princípio que mede a difusão da energia gra-
Expansão em todas as dimensões é, com efeito, a direção da vífica, é apenas um aspecto do princípio que regula a difusão
evolução. Mas, em determinado ponto, essa direção inverte- de qualquer forma de energia, e vos demonstra sua origem
se, por lei de equilíbrio, numa direção centrípeta, contraim- comum: o princípio da onda e de sua transmissão esférica.
pulso involutivo, e as forças de expansão completam-se com As radiações conservam todas as características fundamentais
as de atração. Assim, a primeira explosão cinética encontra de energia cinética de onde nasceram; essa comunhão de ori-
seu ritmo, e o princípio da Lei reorganiza a desordem, tão lo- gem estabelece entre elas a afinidade de parentesco. Outra
go ela se manifesta, em nova ordem; equilibra-se o movimen- prova do parentesco das formas dinâmicas está na qualidade
to num par de forças antagônicas. Dessa forma, a gravitação da luz, derivação próxima, por evolução, da energia gravífica.
vos aparece como energia cinética da matéria e, como nasceu Nesta forma de energia radiante luminosa, reencontrais, em
dela diretamente, está tão inerente e estreitamente ligada a ela, parte, as características da originária forma de energia radian-
que não vos é possível isolá-la. Assim a matéria atrai a maté- te gravífica. Einstein afirmou, com base em cálculo, tudo o
ria, e o universo, constituído de massas lançadas em todas as que as observações feitas durante os eclipses solares vos con-
direções e separadas por espaços imensos, está, não obstante, firmaram posteriormente, isto é, que os raios luminosos este-
todo “ligado” numa unidade indissolúvel. Permanece unido e, lares sofrem, na vizinhança do Sol, um desvio e, passando
no entanto, ao mesmo tempo, move-se por uma força que pro- rente a ele, são atraídos. Poder-se-ia dizer que a luz pesa, ou
voca seu movimento e sua respiração física. Com o surgimen- seja, a luz sofre o influxo dos impulsos atrativos e repulsivos
to, pois, da forma protodinâmica, o universo se move pela de ordem gravífica; existe uma pressão nas radiações lumino-
primeira vez; são gerados os movimentos siderais; a gravita- sas. Direi mais: todas as radiações exercem, ao propagar-se,
ção inicia seu papel de guia (a Lei onipotente, instantanea- uma pressão de natureza gravífica; apresentam fenômenos de
mente, disciplina todas as suas manifestações) de acordo com atração e repulsão em razão direta de sua proximidade gené-
o binário atração-repulsão, que são o binômio (+ e –, positivo tica, na sucessão evolutiva, de sua protoforma dinâmica, a
e negativo) constitutivo de toda a força e de toda manifestação gravitação. Dirigi vossas pesquisas neste sentido, analisai por
do ser. Em nova fase, a Substância adquire a forma de consci- meio de cálculos estes princípios, e a ciência realizará desco-
ência linear do devenir fenomênico, a primeira dimensão do bertas que a revolucionarão.
sistema trino que sucede ao espacial. Nasce o tempo. Propaga- Resumindo, temos: fase , em seu desenvolvimento estequi-
se a protoforma de . Com o movimento, nasce a direção, a ogenético, desde o H até aos corpos radioativos. Depois, in-
corrente, a vibração, o ritmo, a onda. Nasce o tempo, que me- gresso na fase , por gradações, desde a matéria envelhecida e
de a velocidade de transmissão. O universo fica todo invadido radioativa até à energia cinética, que logo se individualiza por
por nova palpitação e mais intenso e mais rápido devenir. E, ondas, na protoforma de energia gravífica. Desta nascem e de-
quando recondensada por concentração das correntes dinâmi- senvolvem-se todas as demais formas dinâmicas, como vere-
cas, a matéria reinicia seu ciclo ascensional, é toda tomada mos, numa distinção contínua (por vibração, ritmo, onda), nu-
por um vórtice dinâmico que a guia e a plasma na gênese este- ma ascensão evolutiva que culminará na vida.
lar, numa evolução diferente e superior à maturação íntima es- Mas, antes de entrar neste novo campo, é indispensável lan-
tequiogenética precedente; maturação de que nascerão não çar um último olhar ao aspecto conceptual ou mecânico do uni-
apenas miríades de novas criaturas mais ágeis e ativas, mas verso, perscrutando de mais perto o conteúdo da grande lei em
também a eletricidade, a luz, o calor, o som e, assim por dian- seus principais aspectos menores.
46 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
XXXIX. PRINCÍPIO DE TRINDADE E DE DUALIDADE resto. Não combato, mas a defino como fase superada, embora
necessária para alcançar o atual momento, em que ainda urge
Já dissemos tanto, descrevendo a grande lei, e ainda esta- avançar para as mais profundas realidades do espírito. Afirmo,
mos na superfície. Na Lei existe infinita profundidade, e quanto em complementação e em continuação da precedente, abando-
mais a mente a penetra, mais encontra aspectos íntimos e parti- nando os tristes e loucos antagonismos de outrora, uma nova
culares. A Lei possui uma infinidade de volumes, capítulos, ar- ciência, que, concordando com todas as crenças e todas as reli-
tigos, palavras e letras; subdivide-se ao infinito no particular, giões, vos leve imensamente mais adiante.
que mais vos golpeia, porque está mais próximo de vós, naque- Ao lado do princípio da trindade existe outro, que lembra-
le mundo de efeitos em que trabalhosamente procurais os prin- mos ao ilustrar o conceito monístico do universo para estudar a
cípios cada vez mais altos da síntese. Na exposição precedente, gênese e a constituição das formas dinâmicas. É dado pela “lei
contemplamos a Lei na grandiosidade de seu conjunto. Agora da dualidade”. Esta considera não o reordenar-se da unidade em
tentemos aproximar-nos do seu aspecto de pormenor, obser- sistemas coletivos superiores, mas sua íntima composição.
vando-lhe mais de perto outro capítulo. Acima da unidade está o três, em seu interior está o dois. Isto
Em sua universalidade, o princípio do todo é: organismo em no sentido de que a individuação não é jamais uma unidade
seu aspecto estático, evolução em seu aspecto dinâmico (deve- simples, mas sempre um dualismo que, em seu aspecto estático,
nir), monismo em seu aspecto conceptual. Assim poderia defi- divide a unidade em duas partes, do ser e do não-ser, em duas
nir-se o universo: uma unidade orgânica em evolução. Este metades inversas e complementares, contrárias e, no entanto,
princípio unitário, orgânico, evolutivo é a nota fundamental do recíprocas; antagônicas, mas necessárias. Em seu aspecto di-
monismo: a ordem. Esta é a característica dominante da Lei. nâmico, é um contraste entre dois impulsos opostos, que se
Esta unidade de princípio se diferencia em infinitos pormenores movem e se balanceiam em um equilíbrio instável, que conti-
de princípios. Num primeiro momento, é trindade e dualidade. nuamente se desloca e se renova. É um ciclo feito de semiciclos
Vimos como um dos princípios basilares da Lei, segundo o que se perseguem e se completam. É uma pulsação íntima, se-
qual as individuações reagrupam-se em unidades coletivas, é o gundo a qual a evolução avança. Este dualismo é o binário que
da “trindade” da Substância. Corresponde a um princípio de guia e canaliza o movimento sobre o qual avança a grande mar-
“equilíbrio” superior (ordem); é um sistema mais completo, em cha do transformismo evolutivo; tanto que, sob esse aspecto,
que o ser, que se diferencia por evolução e se distingue dos concebe-se uma cosmogonia dualista. O monismo é dualista em
afins, reorganiza-se, reencontrando a unidade. Vemos esse seu íntimo devenir. Esse é seu ritmo interior; essas as duas
princípio em toda a parte e muitas vezes tivemos que lhe notar margens da estrada ao longo da qual avança o fenômeno, não
a presença. Trina é a Divindade em Sua lei; trifásica é a criação retilíneo, mas sempre oscilando sobre si mesmo. Dupla é a res-
de qualquer universo; tríplice é seu aspecto; tridimensional é o piração de todo fenômeno: fase de inspiração e de expiração;
espaço e o sistema-consciência, e também os demais sistemas dupla sua pulsação: centrífuga e centrípeta; duplo seu movi-
dimensionais que os precedem e sucedem. Trino é o homem em mento no avançar e retroceder. A evolução é realizada por esta
seus princípios (isto é, um corpo físico, um dinamismo que o íntima oscilação e, por força dessa oscilação, progride. O deve-
move, uma inteligência que dirige e regula esse movimento); nir é conseguido por esse íntimo contraste. O movimento as-
um microcosmo feito à imagem e semelhança de Deus. O uni- censional é a resultante desse jogo de impulsos e contraimpul-
verso se individua por unidades trinas. Na série das unidades co- sos entre duas margens invioláveis, de onde o movimento volta
letivas, no processo de recomposição unitária com que o todo sempre sobre si mesmo. O fenômeno caminha pelo escorar-se
compensa e equilibra o processo separatista de diferenciação mútuo dessas duas forças-metades que o determinam. O movi-
evolutiva, o primeiro múltiplo verdadeiro de um é três; ao passo mento genético da evolução é constituído por essa íntima vibra-
que, como veremos, o submúltiplo de um está no dois, no sentido ção, que transmuda o ser em outra forma.
de que o uno é trino e constitui ao mesmo tempo uma dupla me- Essa lei de dualidade a encontrais em toda parte. Cada uni-
tade. A humanidade sentiu, por intuição, este princípio da trinda- dade é dupla e se move entre dois extremos, que são seus dois
de, e as revelações o transmitiram a ela; e o encontrais não ape- polos. Os sinais + e  estão em toda parte, e o binômio recons-
nas nos fenômenos, mas em toda parte do pensamento humano, trói a unidade, que sempre vos aparece como um par: dia e noi-
em suas religiões, como que impresso em seu espírito. Encontrais te, trabalho e repouso, branco e negro, alto e baixo, esquerdo e
esse princípio na trindade egípcia de Osíris, Ísis, Horus; na trin- direito, frente e atrás, direito e avesso, externo e interno, ativo e
dade indiana de Brahma, Avidya, Mahat; na trindade cristã de passivo, belo e feio, bom e mau, grande e pequeno, Norte e Sul,
Pai, Filho, Espírito. Também o encontrais na consciência religio- macho e fêmea, ação e reação, atração e repulsão, condensação
sa dos três estados da alma: inferno, purgatório, paraíso, tão per- e rarefação, criação e destruição, causa e efeito, liberdade e es-
feitamente interpretado em seu equilíbrio na visão dantesca. cravidão, riqueza e pobreza, saúde e doença, amor e ódio, paz e
Vedes como os conceitos desta minha revelação não são guerra, conhecimento e ignorância, alegria e dor, paraíso e in-
novos no mundo, como coincidem com os das revelações pre- ferno, bem e mal, luz e trevas, verdade e erro, análise e síntese,
cedentes, como aqui se completam e se amplificam. Apenas espírito e matéria, vida e morte, absoluto e relativo, princípio e
exponho à vossa maturidade intelectual, com demonstração fim. Cada adjetivo, cada coisa possui seu contrário; cada modo
evidente e exatidão científica, o que não podia ser dito a mentes de ser oscila entre duas qualidades opostas. Cada unidade é
primitivas senão na forma de imagens e sob o véu do mistério. uma balança entre esses dois extremos e equilibra-se neste seu
Dou-vos, desta forma, a fusão perfeita de fé e ciência, de intui- íntimo princípio de contradição. Os extremos se tocam e se re-
ção e razão. Com a ciência, demonstro e convalido o mistério; únem. As diferentes condições em que o princípio do dualismo
explico a nua afirmação das revelações e, com o conhecimento, se move, produziram todas as formas e combinações possíveis,
imponho-vos o dever de uma vida mais elevada. Realizo a fu- mas elas se equivalem como princípio único. A unidade é um
são das duas metades do pensamento humano, até agora dividi- par. O universo é monismo em seu conjunto, dualismo no parti-
das e inimigas, entre o oriente sintético, simbólico e sonhador, e cular: uma dualidade que, ao mesmo tempo, contém o princípio
o ocidente analítico e realista. Dou continuação à vossa ciência de contradição e de fusão; que divide e reúne e, a cada forma do
do último século, não me opondo a ela, mas completando-a ser, dá uma estrutura simétrica (princípio de simetria); dá ao
com o espiritualismo. Supero, sem destruí-la, essa ciência que, desenvolvimento de cada fenômeno uma perfeita correspon-
por ter-se dirigido exclusivamente à matéria, só podia ser visão dência de forças equilibradas. Também o dualismo correspon-
unilateral daquele pequeno campo, ignorando e negando todo o de a um princípio de “equilíbrio”, é o momento do princípio de
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 47
“ordem”, fundamental na Lei. O que define a unidade em sua essas unidades menores são logo retomadas em novo ciclo e re-
íntima estrutura é sua construção interior; o que garante a es- organizadas em novas unidades. O regresso involutivo expresso
tabilidade do devenir fenomênico e torna inviolável sua traje- pelo envolvimento da espiral, ou descida da linha quebrada, re-
tória não é apenas o princípio de inércia, mas esse desenvol- presenta o período de inércia, negativo, que se contrapõe ao pe-
vimento de forças antitéticas que, no entanto se atraem e ríodo de atividade, positivo, da criação. Na fase de inércia, o
mantém aquele devenir unido e compacto. É um ir-e-vir, mas fenômeno fecha-se em si mesmo, passivo; seu dinamismo de-
em campo fechado, cujos limites não se pode ultrapassar. Se tém-se, o esforço criativo diminui; a tensão da subida e o trans-
não fora o movimento equilibrado por esse contínuo retorno formismo, cansados, recaem sobre si mesmos. Cada fenômeno
sobre si mesmo, o universo se teria deslocado há muito, todo possui seu cansaço, exaustão do impulso concentrado no ger-
ele numa só direção, e teria perdido seu equilíbrio. Ao invés, me, em que o período precedente de atividade se inverte. O re-
a evolução é uma íntima autoelaboração, um amadurecimento gresso ao ponto de partida é indispensável: o efeito reúne-se à
devido a um movimento que, regressando sobre seus passos e causa, a forma ao seu germe. Atividade e inércia são o duplo
fechando-se sempre sobre si mesmo, como uma respiração, ritmo de períodos inversos, por meio do qual se desenvolve o
muda a forma e, externamente, permanece imóvel além dos fenômeno. Assim, o fenômeno oscila da semente ao fruto, do
limites dela; a cada movimento, um ritmo que muda o fenô- fruto à semente, que são dois extremos, positivo e negativo, de
meno, sem poder sair dele, invadindo e alterando os ritmos seu devenir. O + e o  são apenas posições do fenômeno. A
de outros fenômenos. Este princípio de antítese e de simetria, semente (+) é o estado de latência que contém tudo potencial-
que sem cessar divide e reúne, reúne e divide, podemos cha- mente; o fruto () é o resultado de exaustão do ciclo, a posição
má-lo monismo dualista e dualismo monista. O positivo vai + em que ocorreu a manifestação; o princípio contido no germe
e volta –; o negativo vai  e volta +, em constante inversão exteriorizou-se na definição da forma do ser.
de sinal e de valor. Combinai e multiplicai este princípio com Alguns atribuíram valor de lei máxima a essa dualidade e
o das unidades coletivas e vereis como o universo está todo nela viram o princípio genético dos fenômenos. E, generali-
unido num indissolúvel abraço. zando o conceito de acasalamento, viram no choque das mas-
Agora podeis compreender como o mais complexo princí- sas siderais o sistema “normal” de gênese estelar. Não é as-
pio e equilíbrio da trindade deriva desse simples princípio e sim. Na verdade, os sistemas planetários são constituídos por
equilíbrio da dualidade, porque a ida e volta dos dois sinais não um centro positivo, o sol, em redor do qual giram os planetas,
é estéril: do novo encontro nasce o novo termo, o terceiro da de sinal negativo; no átomo, o núcleo é positivo, em torno de-
trindade, termo que representa a continuação do fenômeno e le giram os elétrons negativos; essa tendência à inversão do
regressará, por sua vez, ao termo contrário, a fim de gerar novo sinal guia as correntes dinâmicas para a concentração no nú-
termo, assim por diante. Aqui reencontrais, nesses sinais opos- cleo das nebulosas. Mas a lei maior é a evolução, e em seu in-
tos, o conceito das subidas e descidas da linha quebrada do dia- terior se move a lei menor de dualidade. O choque é apenas
grama da fig. 2; as primeiras, positivas; as segundas, negativas. um sistema genético excepcional e particular, ao passo que o
Representam, diante da trajetória maior assinalada pela faixa sistema-tipo é a maturação evolutiva.
ascensional, limitada pelos vértices e mínimos das criações su- A criação vos parece, por causa desse princípio de dualida-
cessivas, o ritmo interior do fenômeno. Desse ritmo, nasce de, um cruzamento e uma contradição de termos alternados,
sempre novo termo; nova fase completa-se a cada oscilação po- orientada, ritmada e periódica. Mas esse princípio é a base de
sitivo-negativa, da qual toda criação se compõe; a fase máxima seu constante equilíbrio. Assim, explicais a distinção da força
torna-se, depois, fase média e, finalmente, fase mínima, isto é, de gravitação em suas direções de atração e repulsão, de acordo
o germe ou base do fenômeno; não mais ponto de chegada, mas com o sinal, bem como a simpatia universal entre os contrários
ponto de partida. Assim, no diagrama da fig. 4, os períodos po- e a antipatia entre os semelhantes. O todo é metade afirmação,
sitivos de desenvolvimento da espiral alternam-se com períodos metade negação. Nessa inversão contínua, renova-se sempre a
negativos de envolvimento; desta sua oscilação interna, positi- ação e a criação. A energia vital do ar é bipolar: nitrogênio e
vo-negativa, evolutiva-involutiva, forma-se e progride a maior oxigênio. Do mesmo modo, na decomposição da água (eletróli-
espiral da evolução do fenômeno. Assim, por exemplo, partin- se), o oxigênio migra para o polo positivo e o hidrogênio para o
do da ação e da experimentação (fase positiva de atividade), negativo. A reação representada pela equação 2H2O=O2+2H2
até à assimilação de valores (fase negativa de passividade), na fase análise, inverte-se na equação 2H2+O2=2H2O na fase
emerge aquela criação de qualidades e capacidades, da qual síntese. Em suas duas metades + e –, síntese e análise, o ciclo
nasce e se desenvolve, no campo da vida, a consciência. Por fica completo. A rotação das esferas celestes, a oscilação da
isso, a dor alterna-se com a alegria, mas é condição, como onda dinâmica por sucessão de duas semiondas, tudo é devido
elemento de experiência e de progresso, de uma alegria cada a essa alternância de períodos inversos. Esta é a íntima estru-
vez maior; a morte alterna-se com a vida como condição de tura da lei de equilíbrio, pela qual o mal se alterna com o bem,
desenvolvimento da consciência e, com isso, de uma vida a dor com a alegria, a pobreza com a riqueza, sobem e descem
mais alta; também as revelações das religiões instruem o ho- os homens e as civilizações, e tudo se condiciona reciproca-
mem, e o homem as analisa e assimila, amadurecendo para re- mente. Ouvi essa íntima música do universo, observai essa
ceber outras cada vez mais completas. Assim, por análise e constante polarização que dirige o ser e o orienta como uma
síntese, síntese e análise, progride a ciência. Fé e ciência, in- agulha imantada. Essa troca perpétua ressoa de harmonias,
tuição e razão, oriente e ocidente, completam-se, como termos como um cântico universal.
complementares, como duas metades do pensamento humano. Olhai: a matéria, derivada por involução da forma originá-
Vedes como sempre se completam os conceitos precedentes ria dinâmica, alcança, através de estados de sucessiva conden-
ao voltarmos a eles. Vedes como no princípio da dualidade es- sação, gasosos, líquidos e sólidos, um máximo de concentra-
tão o segredo e o mecanismo íntimo das novas criações. ção e de inércia num mínimo volume. A energia que daí re-
Nisto encontrais uma razão mais profunda da fase de invo- nasce vai para um máximo de expansão e de atividade; de fa-
lução, que representa a dissolução dos universos. Este é um to, difundir-se e mover-se são as primeiras características da
processo de neutralização da fase positiva da criação, um pro- energia. Assim, matéria e energia invertem seus sinais. Olhai
cesso de degradação do fenômeno, uma decomposição do or- ainda: as plantas decompõem o ácido carbônico composto pe-
ganismo em seus centros menores. Mas não é destruição, porque lo animal, assimilam seus produtos de refugo e, ao contrário, o-
48 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
corre com o oxigênio. Os órgãos vegetais são uma inversão Outro princípio que a lei de evolução implica, é o da rela-
dos órgãos animais e realizam uma respiração invertida. Deste tividade. Já que só o relativo pode evoluir, a evolução só é
princípio de equilíbrio nascem as maravilhosas figuras simé- possível num mundo sucessivo finito, progressivamente per-
tricas dos flocos de neve, como as das flores do campo; nas- fectível, como é o vosso.
cem as simetrias das formas dos cristais, das formas da vida, O princípio do mínimo esforço regula a economia da evolu-
dos corpos planetários estelares e de suas elipses. Por essa ção, evitando dispêndio inútil de forças.
mesma lei, a morte é condição de renascimento, e o nascimen- O princípio de causalidade garante a concatenação no
to é condição de morte. Não existe mais fecunda forja de vida desenvolvimento fenomênico, já que o efeito deriva da causa
que essa morte, de cujas ruínas a vida jamais cessa de ressur- (antecedente e consequente); ele liga em rígida conexão os
gir cada vez mais bela. O princípio condiciona o fim, mas o momentos sucessivos do devenir. Essa lei assinala o ritmo
fim gera o princípio. Eis o limite do finito, do relativo – de de vosso destino.
que sois feitos – constrangido a girar sempre sobre si mesmo, Paralelo ao princípio de causalidade está o da ação e rea-
a nascer e morrer; constrangido, para existir, a perseguir o in- ção. Observai esse dualismo ativo-reativo nos fenômenos so-
finito num movimento que jamais conhece o repouso. ciais, que não progridem em linha reta, mas por caminhos tor-
O universo é uma inexaurível vontade de amar, de criar, de tuosos de impulsos e contraimpulsos, recordando-vos o per-
afirmar, em luta com um princípio oposto de inércia, feito de curso dos rios. Não há dúvida de que eles avançam em corren-
ódio, de destruição, de negação. O primeiro é positivo e ativo, o teza que oscila entre as duas margens do bem e do mal. Cada
segundo é negativo e rebelde. Deus e Diabo são os dois sinais posição, cada conquista, cada afirmação é levada até às últi-
(+ e ) do dualismo. É luta, mas é equilíbrio; é antagonismo, mas consequências, até ao abuso; o homem, totalmente in-
mas é criação, porque, pelo choque e pelo contraste, nasce uma consciente, não sabe parar senão quando a lei de reação levan-
criação, um amor e uma afirmação cada vez mais vasta. O bem ta um dique. Mas a reação, depois, também chega ao abuso,
se serve do mal para progredir, compreende o mal e o constran- até onde a própria Lei constrói novo contradique e repele o
ge a seus fins. No bem está o futuro da evolução, e o mal é o impulso. O homem, absolutamente ignaro e passivo diante da
oposto, em que se apoia o bem para subir. A instabilidade das Lei, é totalmente incompetente para dirigir-se a si mesmo.
coisas não é uma condenação, mas uma escada de progresso. Acreditais que sejam os governos e os parlamentos que guiam
Não fujais do movimento no Nirvana, mas lançai-vos no vórti- os povos? Não. Eles constituem apenas um expoente. Mesmo
ce, para que ele vos leve cada vez mais alto. Cristo vos ensinou nos períodos de anarquia, a história caminha por si, sabiamen-
a vencer a morte e, transformando-a em instrumento de ascen- te guiadas pelas forças ocultas contidas na Lei. O homem é
são, a superar a dor. Lutai corajosamente, sabei sofrer e vencer; sempre “constrangido”, para sua salvação, num ritmo que ele
cada minuto vos levará mais para o alto, para Deus. não sabe compreender e, por isso, chama de fatalidade. Por
exemplo, a história da França desde Luís XIV até à Revolução
e Napoleão. Abuso não se corrige senão com outro abuso. Dis-
XL. ASPECTOS MENORES DA LEI
sestes que a riqueza é um furto, mas somente para roubá-la;
sois virtuosos apenas para perseguir os outros em nome da vir-
Por esses princípios de trindade e dualidade, o universo é tude. Assim recaís sempre sob o peso das consequências de
um trinômio e um binômio ao mesmo tempo. Esses, como vi- vossas ações e jamais quebrais o ciclo dos erros. De abuso em
mos, encontram unidade no monismo de suas equivalências. O abuso move-se a correnteza, e homem algum existe sem culpa;
todo é, concomitantemente, unidade, dualidade e trindade. mesmo onde acredita dominar e vencer, é apenas um autômato
Ao lado desses aspectos principais da Lei, temos outros me- no seio da Lei, que, a cada volta, lhe diz: basta! Esse o perigo
nores, em que a unidade ainda se subdivide e se diferencia. As que ameaça vossa civilização mecânica. Ai de vós, se abusardes
faces do poliedro são infinitas, a Lei é verdadeiramente inexau- de vosso poder, abandonando-vos aos instintos das épocas pas-
rível. Pensai que código deve guiar o funcionamento de um sadas. Se, dispondo de tais meios de destruição, não renovardes
universo tão vasto, tão complexo, regulado com tanta perfeição. vossa psicologia, estais perdidos.
Vimos o princípio das unidades coletivas, ao qual corres- Muitas vezes, no organismo das leis, algumas se tocam,
ponde, no aspecto dinâmico, o dos ciclos múltiplos e, no aspec- completam-se, e uma continua a outra, mutuamente. Por isso,
to conceptual, o das leis múltiplas: organismo de formas, orga- do princípio de causalidade passa-se ao de continuidade, pelo
nismos de forças, organismo de leis. Também em seu aspecto qual a derivação consequente está ainda mais estreitamente li-
conceptual, o universo é um organismo. A Lei, que, como vi- gada à sua causa, por continuidade: “natura nom facit saltus”.
mos, se decompõe em princípios menores, aqui se recompõe Contíguo é o princípio de analogia ou de afinidade, , que
em maiores. Princípio de divisibilidade e recomposição, que já notamos e aplicamos na estequiogênese, pelo qual todos os
reencontrais com evidência na possibilidade universal de análi- princípios se assemelham no fundo comum do monismo ou
se e síntese, desde a química até à filosofia. Princípio de reuni- unidade de princípio universal; também as coisas têm caracte-
ficação, no qual se equilibra o princípio da subdivisão. res em comum, que permitem o reagrupamento em unidades
Um princípio que guia a forma na ascensão evolutiva, coletivas. Só são possíveis contatos, permutas e fusão entre
oposto ao das unidades coletivas e da recomposição, é o da di- afins, e, neste caso, a afinidade corresponde ao princípio do
ferenciação, pelo qual a evolução ocorre passando do indistin- menor esforço. Vedes um exemplo na formação de vosso pen-
to ao distinto, do genérico ao específico, ao particular, do ho- samento: o desenvolvimento conceptual de menor resistência
mogêneo ao diferenciado. Essa tendência à multiplicação dos é o que procede por associação de ideias. O pensamento é vi-
tipos, à subdivisão da unidade, encontra seu contraimpulso bração e transmite-se por onda. Esta excita apenas as vibra-
compensador, com o qual se reconstrói o equilíbrio, na ten- ções das ondas afins. O que desperta uma ideia em vossa
dência à reorganização e reunificação, provocada pelo princí- consciência ou memória é precisamente a presença da onda da
pio das unidades coletivas. Essa reorganização implica uma ideia afim. Quando não conseguis recordar, a ideia está laten-
progressão constante em complexidade. Essas leis são forças- te, potencial, em vossa consciência: é simples capacidade,
tendências que constituem como que um instinto, uma neces- disposição para responder, tal como um instrumento musical
sidade do devenir, de ser segundo esse mesmo princípio. Mui- que ninguém toca. Nesse estado, a ideia está em repouso, não
tas vezes elas se acasalam pelos contrários, balanceando-se vibra, não a sentis, está fora daquele estado de vibração a que
assim em perfeito equilíbrio. chamais consciência. Uma vibração afim, por tipo e comprimen-
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 49
to de onda, desperta-a espontaneamente, ao passo que uma momentos são inseparáveis; que nenhum dos dois pode ser iso-
ideia diferente e longínqua, embora lógica e sistematicamente lado do seu inverso, que o completa.
próxima, não poderá jamais ressuscitá-la. Disto derivam, com férrea concatenação lógica, estas con-
O princípio geral de ordem diferencia-se segundo o prin- sequências: o que nasce tem de morrer, o que morre tem de
cípio de dualidade e torna-se lei de simetria, lei de compensa- renascer; é absurda, em qualquer caso, uma criação “ex no-
ção, lei de reciprocidade e, quando em movimento, torna-se vo”, mesmo na gênese da personalidade humana, pois esse fa-
ritmo. O universo funciona todo por meio de ritmos, desde os to derrubaria todo o ritmo semelhante ao que verificais nos
fenômenos astronômicos aos psíquicos, dos fenômenos quí- outros fenômenos; se existe um ciclo de vida e de morte em
micos aos sociais. Rítmico é o devenir, periódico é o trans- todos os fenômenos, sem que estes confundam a linha do pró-
formismo em todos os campos, e a evolução, que distingue as prio devenir e percam a própria individualidade, é absurdo
formas, é diferenciação também de ritmos. O princípio de or- acreditar que o fenômeno máximo em vosso mundo, o da per-
dem é princípio de equilíbrio. Vede como, no universo, não só sonalidade humana, deva fazer exceção nesse aspecto, con-
tudo está em seu lugar, mas se equilibra espontaneamente. fundindo-se e desaparecendo, só porque ele vos escapa no in-
Observai como, num mundo tão complexo, existe um lugar visível, ou, então, que tenha de tomar outra direção que não a
para vosso esforço, proporcional às vossas forças. O acaso do retorno cíclico, base da evolução. Não importa que não o
não pode produzir esses equilíbrios. E é essa proporcionalida- toqueis diretamente com vossas mãos. Impõem-vos essas con-
de que, se não vos garante o ócio, garante-vos a vida; se a vós clusões a lei de equilíbrio, o princípio de dualidade, de indes-
impõe um esforço adequado, assegura-vos o indispensável. As trutibilidade, de transformismo e de analogia, combinados em
posições que ocupais, belas ou feias, não são eternas, pois conjunto; eles existem como leis dos fenômenos e podem ser
também a duração do esforço e do repouso é medida e pro- objetivamente controlados. As outras leis concorrem e conva-
porcionada. Nessas leis, encontrareis a razão de tantos fenô- lidam, completando o conceito. Elas são um organismo, e, ao
menos que vos tocam tão de perto. tocardes uma, tocais mais ou menos todas, encontrando-as em
Outros princípios, como o da indestrutibilidade da Substân- toda parte ligadas entre si. Assim, a lei de causalidade mani-
cia e do transformismo universal, estão implicitamente conti- festa-se regulando os efeitos de vossas ações e concatenando-
dos na lei de evolução e são imediata consequência dela – já fa- as todas naquela linha progressiva bem definida de transfor-
lamos disso – como também o são o princípio de autoelabora- mismo, a que chamais vosso destino. Essa lei proporciona o
ção, o princípio do desenvolvimento cíclico, o princípio da ex- efeito à causa, excluindo qualquer possibilidade de derivação
trinsecação do latente, segundo a mecânica da semente e do daquilo que é eterno por obra de uma quantidade temporal. Aí
fruto, o princípio da inércia, que garante sua estabilidade (o está implícita a lei de continuidade, que, combinada com a
misoneísmo do fenômeno, resistência da trajetória a qualquer precedente, garante-vos que é absurdo o aparecimento brusco
desvio), o princípio de finalidade, que lhe estabelece a meta. de um fenômeno sem uma longa maturação, não importando
Outros representam aspectos secundários da grande lei, e cada se esta é subterrânea ou invisível. Um tão complexo organis-
palavra com que a descrevemos pode constituir um seu princí- mo de leis, como vo-las descrevi, arremessa imediatamente ao
absurdo qualquer violação dos princípios, eliminando-a por
pio particular. O princípio único pulveriza-se nos pormenores,
impossibilidade lógica. Só há lugar para desordem no particu-
nas condições mais diversas de atuação, em todas as combina-
lar, mas é desordem aparente, condição de uma ordem maior.
ções possíveis. Poder-se-ia acrescentar um princípio de adapta-
Na grande máquina do universo, nada pode escapar aos prin-
ção e de elasticidade, pelo qual o princípio sabe modelar-se em
cípios que lhe regulam o perfeito funcionamento. Sem dúvida
infinitos matizes nos casos particulares; e um princípio de difu-
que a vós, mergulhados no mundo dos efeitos, no imediato
são e repercussão, pelo qual cada vibração, assim como cada
contato com o relativo e o particular, o universo pode parecer
mudança, encontra um ouvido que a escuta, um eco que a repe-
confusão caótica e inextricável. No entanto vede que, entre
te, uma resposta que a completa. Até ao infinito, a série dos
tanta destruição, tudo sobrevive; que, apesar de tantos movi-
princípios é apenas a descrição dos infinitos momentos e aspec-
mentos em todas as direções e do diferenciar-se do princípio
tos do universo. Esses princípios surgirão espontaneamente à
único em tantos momentos diferentes, o ritmo é reconstruído
luz, à proporção que continuarmos.
perfeito, graças aos três grandes princípios: de unidade, de or-
A finalidade desta exposição de princípios não é apenas dem e de equilíbrio. Ensinei-vos o caminho da síntese, e, quan-
descritiva: possui um significado mais profundo, o de traçar to mais alto subirdes, mais evidente sentireis o monismo no to-
para vós as leis dos fenômenos. Fixado o princípio, estabele- do e, no processo genético, a estrutura de um conceito. No uni-
cido que, em muitos casos, ele corresponde à realidade, não verso, tudo se harmoniza num concerto imenso de todas as cria-
somente poderá ele ser estendido, pela lei de analogia, a to- turas, de todas as atividades, de todos os princípios.
dos os fenômenos, mas, mesmo quando só puderdes ver um Não vos isoleis em vosso pequeno eu, naquele separatis-
segmento de um fenômeno em seu transformismo, podereis mo que vos limita e vos aprisiona. Compreendei essa unida-
também completá-lo, defini-lo e descrevê-lo nos trechos em de, lançai-vos nessa unidade, fundi-vos nessa unidade, e vos
que escapa à observação direta. Individuando e agrupando os tornareis imensos. Acima do estridor do contraste e da luta,
fenômenos em leis e princípios, ser-vos-á muito mais fácil ouvireis cantar um imenso ritmo majestoso. Assim como a
segui-los em toda a sua extensão e assim escalar até ao des- força de gravitação liga indissoluvelmente as unidades físi-
conhecido. Por exemplo, se o princípio de dualidade vos diz cas que giram nos espaços, assim a unidade de conceito dire-
que cada unidade é um par de partes inversas e complementa- tivo liga todos os fenômenos numa indissolúvel solidarieda-
res, podeis facilmente deduzir daí – se esse princípio é en- de, tornando todos os seres irmãos entre si. Este universo,
contrado em toda parte – que vosso mundo, visível e sensó- tão instável e, no entanto, sempre equilibrado; tão diferenci-
rio, pode ser completado, em sua segunda metade, por um in- ado no particular e, contudo, tão compacto no conjunto; tão
verso mundo invisível, mesmo que este escape a vossos sen- rígido em seus princípios, mas elástico; tão resistente a
tidos. Se o princípio da indestrutibilidade da Substância e do qualquer desvio, mas sensibilíssimo, é uma grande harmonia
transformismo universal vos afirma que nada se cria e nada e uma grande sinfonia, onde miríades de notas diferentes,
se destrói em sentido absoluto, mas tudo se transforma no re- desde o roncar do trovão até aos cataclismos estelares, do
lativo, isto quer dizer que a criação é condição de destruição, turbilhão atômico ao canto da vida e da alma, harmonizam-
e a destruição é condição de criação; que, no binômio, os dois se num único hino que diz: Deus.
50 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
XLI. INTERREGNO alma, e lançar a este escrito um olhar simplesmente curioso, ou
apenas ávido de aprendizagem, não ficará nutrido.
Mais uma pausa em nossa longa caminhada; repouso para A pena que escreve e segue meu pensamento gostaria de
a áspera tensão de vosso pensamento e orientação no vasto precipitar-se para as conclusões. Mas o caminho tem de ser to-
mar de conhecimento que vos exponho, de maneira que vos- do percorrido; o edifício é vasto, e o trabalho tem de ser execu-
sa meta esteja sempre presente. tado por inteiro, para que a construção seja sólida e possa resis-
Não digais: felizes os que podem viver sem saber e sem tir aos golpes do tempo e dos céticos. Nesta pausa que vos con-
perguntar. Dizei antes: felizes aqueles cujo espírito jamais se cedo, deixo a alegria das antecipações, o pressentimento das
sacia de conhecimento e de bem, que lutam e sofrem por uma conclusões e o repouso da visão de conjunto. O próprio tratado
conquista cada vez mais alta. Lamentai os satisfeitos da vida, assim se valoriza, ilumina-se com uma luz mais alta que a pura
os inertes, os apagados; o tempo deles é apenas ritmo de vida erudição ou os fins utilitários; ilumina-se com um significado
física e transcorre sem criações. Eles recusam o esforço destas que, muitas vezes, a ciência não possui. Só com essa nobreza
elevadas compreensões que vos ofereço, e não existe luz no de objetivos e com essa pureza de intenções, tem-se o direito de
amanhã para o espírito que adormece. olhar de frente os maiores mistérios do ser e de enfrentar os
Meu olhar novamente pousa em vosso mundo, saturado de problemas que dizem respeito à vida e à morte.
inconsciência e de dor, de erudição e de agnosticismos, de lu-
ta e de loucura; turbilhões de paixões, provas tremendas, tor- XLII. NOSSA META. A NOVA LEI
mentos cobertos de sorrisos. Grande e trágico é o quadro de
vossos destinos, porque ouço aquele grito desesperado que O conceito científico de evolução, base deste tratado, des-
prorrompe da alma e que escondeis, porque, no fundo do riso pertar-nos-á para a visão de uma nova lei, imensamente mais
dos gozadores, ouço o respiro dos agonizantes em desespero. elevada que a lei da luta pela vida e da vitória do mais forte,
Alma, alma, centelha divina que nenhuma de vossas loucuras que vos dirige e impera no mundo animal. Diante desta lei da
jamais poderá destruir, sempre pronta a ressurgir cada vez mais força, contraponho a mais alta lei da justiça. Presente na estrada
bela de cada dor! Potência que jamais se cansa de ser e de criar, da evolução, que ressoa em minhas palavras, em cada fenôme-
só tu verdadeiramente vives. Nenhuma conquista de pensamento, no e em cada criatura do universo, esta nova lei é o degrau su-
nenhuma afirmação humana poderá jamais extinguir tua sede de cessivo àquele em que vos encontrais e vos espera como imi-
infinito. Vossa ciência, muitas vezes mera presunção de palavras nente superação daquela animalidade, donde deveis destacar-
eruditas, e vossa civilização exterior e mecânica esqueceram que vos para sempre. A “Nova Civilização do Terceiro Milênio” es-
ela é o centro da vida, a causa primária intrínseca dos fenômenos tá iminente, e urge lançar-lhe os fundamentos conceptuais10.
mais próximos de vós. A alma tem suas necessidades e seus di- Como vedes, minha meta é bem mais alta que o mero co-
reitos. Não se pode matá-la, não se pode atordoá-la para fazê-la nhecimento ou a solução de problemas com intuito intelec-
tual e, muito menos, utilitário. Esta minha palavra não é me-
calar. Não ouvis seu grito desesperado, que se ergue entre vossas
ra afirmação cultural, é apenas um meio. Não venho para
vicissitudes individuais e sociais? Sua vida, negligenciada, pesa
alardear sabedoria, mas para lançar um movimento mundial
em vosso destino e o arruína. Vossa alma sofre, e sequer sabeis
de renovação substancial de todos os princípios que hoje re-
encontrá-la novamente; certos abismos vos desanimam, e as
gem vossa vida e vossa psicologia.
águas se fecham tranquilamente num sorriso aparente por cima
Não mais guerra, mas paz; não mais antagonismos e ego-
do báratro tremendo. Que acontecerá lá embaixo, no mistério das
ísmos individuais e coletivos, destruidores de trabalho e de
causas profundas, que desejaríeis ignorar e afastar da consciên-
energias, mas colaboração; não mais ódios, mas amor. Cum-
cia? Alguma coisa palpita e treme nas trevas profundas. Cada ser
pra cada um o seu dever, e a necessidade de luta cairá por si.
esconde dentro de si uma sombra secreta que não ousa olhar, mas
Só a retidão produz equilíbrio estável nas construções hu-
que jamais poderá esconder de si mesmo: uma sombra sempre
manas, ao passo que a mentira representa um fundamental
pronta a ressurgir, logo que uma hora de paz diminua a tensão da
desequilíbrio, irremediável vício de origem, que destrói tu-
corrida louca com que quereis distrair-vos. A alma não se sacia do. A justiça suprimirá o gigantesco esforço da luta, que so-
embalando o corpo em comodidades supérfluas e dispendiosas, bre vós pesa como uma condenação. O amor, que só existe
ou acariciando os olhos com um brilho apenas externo. Na satis- no mundo em oásis fechados, isolado no deserto do egoísmo,
fação dos sentidos, alguma coisa sofre igualmente no íntimo e precisa sair do âmbito fechado desses círculos e invadir to-
agoniza numa angústia profunda. Resta um vazio dentro de vós, das as formas de manifestação humana. Muitas vezes, exa-
em que apenas uma voz, perdida e desconsolada, eleva-se inqui- tamente onde o homem trabalha, falta esse cimento que une,
eta para perguntar: e depois? essa potência de coesão que amortece os choques e ajuda o
Então vos falo. Falo num tom de paixão, para as almas esforço, impedindo que tanto trabalho se perca em agressi-
prontas e ardentes; em tom de sabedoria, para quem é mais vidades demolidoras. Num homem superiormente conscien-
apto a responder às vibrações intelectivas. A todos falo, por- te, os fins da seleção do melhor podem ser conseguidos, de
que quero sacudir e unir todos em uma fé mais alta, numa preferência aos caminhos da luta desapiedada, pelos cami-
verdade mais profunda. Aqui, dirigindo-me à mente, convoco nhos da compreensão. Existe uma nova virilidade mais po-
todos à colheita: químicos e filósofos, teólogos e médicos, as- derosa para o homem: a que supera a fraqueza da mentira, a
trônomos e matemáticos, juristas e sociólogos, economistas e maldade do egoísmo, a baixeza da luta agressiva.
pensadores, os sábios em todos os campos do cognoscível hu- A inversão de vossas atuais leis biológicas e sociais é
mano, a cada um falo sua própria linguagem; convoco à colhei- completa. A antítese é fundamental. O pressuposto da má-fé e
ta as mentes mais elevadas, que dirigem o pensamento humano, o sistema da desconfiança, hoje, invadem a substância de to-
para que compreendam esta Síntese e, finalmente, saibam al- dos os vossos atos. Esse princípio tem de ser derrubado. O
cançar com ela um pensamento unitário que resolva tudo e o sistema das leis formais e exteriores já deu todo o seu rendi-
diga à mente e ao coração, para os supremos fins da vida. mento. É necessário passar ao sistema das leis substanciais in-
Esta pausa é para vos dizer que, no fundo deste árido tratado teriores, que não funcionam por coação e repressão a posterio-
científico, arde uma paixão imensa de bem; esta paixão é a cen- ri, mas por convicção e prevenção; que agem não depois da ação,
telha que anima toda essa ciência que vos exponho. Quem não
10
sentir essa centelha, que se comunica diretamente de alma para Ver o volume: A Nova Civilização do Terceiro Milênio.
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 51
tarde demais no campo das consequências e dos fatos, mas an- condenações, que punirão eternamente a sociedade por suas
tes, na raiz da ação, no campo das causas e das motivações. próprias culpas. Pela mesma razão que houve uma vítima na
As leis substanciais interiores vão escritas nas almas, com a cruz, hoje a humanidade tem de saber oferecer-se a si mesma
educação que plasma o homem. para esta sua nova, profunda e definitiva redenção. Sem holo-
Em vosso século, a luta não é mais de corpos, mas de ner- causto, jamais haverá redenção. Aí, nesse mundo louco que se
vos e de inteligência. A luta também evolui e já atingiu formas arma, com perspectivas cada vez mais desastrosas contra si
mais espirituais. Os tempos são maduros, pelo desenvolvimento mesmo, com meios já tão tremendos em vista dos hodiernos
dos meios científicos e pelo desenvolvimento das inteligências. progressos científicos, que uma conflagração não deixará ho-
Profetas e pensadores foram obrigados, muitas vezes, a não di- mem nem civilização salvos sobre a Terra; aí, onde o homem
zer ou a velar a verdade diante da multidão, sempre pronta para age assim, só existe uma defesa extrema: o abandono de todas
adulterar tudo, para reduzir tudo aos termos da própria psicolo- as armas”. Mais tarde veremos como.
gia, impondo esta como norma coletiva. Mas o mundo, hoje, Dizeis-me: “Temos o dever da vida”.
em sua racionalidade, impôs-se como dever aceitar tudo o que Eu vos replico que, quando, com espírito puro, proferis “Em
se demonstra lógico e racional. Colocou-se na posição de quem nome de Deus”, a terra estremece, porque as forças do universo
pode e deve compreender. Por outro lado, os meios ofensivos se movimentam. Quando sois verdadeiramente justos e quando,
alcançaram uma potência jamais verificada na história e não se inocentes, sois atingidos pela violência, que usurpa a vitória de
podem guiar mais pela psicologia feroz e pueril do passado. A um momento, o infinito se precipita a vossos pés para vos gritar
humanidade está na encruzilhada, e não há mais possibilidade vitória e vos elevar para o alto como triunfadores, na eternida-
de fugas: ou compreender, ou exterminar-se. Este não constitui de, fora do ínfimo átimo do tempo em que o inimigo venceu.
um problema abstrato e teórico, mas concreto, social e indivi- Eis o que peço à alma do mundo. Sua alma coletiva, una e
dual; problema de vida ou de morte. livre como uma só alma, pode escolher de sua escolha depende-
Minha meta é a compreensão de uma lei mais alta, lei de rá o futuro. Um incêndio tem de alastrar-se, tão forte que derre-
amor e de colaboração, que a todos una num grande organismo, ta todo o gelo de ódio e de egoísmo que vos divide, vos torna
animado por nova consciência universal unitária. Realmente famintos, vos atormenta. O mundo, de um hemisfério ao outro,
não se trata de mais uma nova sabedoria, pois repito a Boa No- me escuta, e minha voz conclama todos os homens de boa von-
va, que já foi ditada há milênios aos homens de boa vontade; tade. O novo reino é o esperado Reino de Deus, uma construção
torno a repeti-la toda, idêntica na substância, porém mais am- imensa, que deve realizar-se não nas formas humanas, mas no
pliada, ajustada ao mais vasto alcance de vossa mente mais coração dos homens; criação antes de tudo interior, que se ope-
amadurecida, para que finalmente vos agite, vos inflame e vos ra ao vos tornar melhores. Se não compreenderdes, a marcha do
salve. Eis nossa meta: a palavra eterna, o alimento que sacia, a progresso do mundo demorará milênios.
solução de todos os problemas, a síntese máxima. Este repouso que desejei no meio da jornada, esta mudan-
Chegarei ao Evangelho de Cristo pelos caminhos da ciên- ça de argumento e de estilo, depois da fria análise científica,
cia, ou seja, chegarei ao Evangelho pelos caminhos do materi- esta explosão de paixão é para que eu seja compreendido e
alismo, a fim de fundir os dois pretensos inimigos: a ciência e “sentido” por todos. Desejei esta pausa para que este tratado –
a fé. Isto para vos mostrar que não existe caminho que não le- complexo para os simples e supérfluo para os puros de espíri-
ve ao Evangelho, para impô-lo a todos os seres racionais, tor- to, que já compreenderam – recorde à ciência que ela não nas-
nando-o obrigatório, como o é qualquer processo lógico. Ele é ceu somente para exibir-se orgulhosamente, mas que tem a
a nova lei super-humana, a superação biológica imposta pela responsabilidade moral de guiar as consciências; recorde à ci-
evolução da humanidade neste momento histórico, quando es- ência que dela falo e a supero com uma finalidade bem mais
tá para surgir a nova civilização do Terceiro Milênio. Chegou alta que a do simples conhecimento e utilidade que a impele.
a hora em que estes conceitos, esquecidos e não compreendi- Uma finalidade que a ciência ignorou muitas vezes: a ascen-
dos, pregados, mas não vividos, têm que explodir por potência são do homem para os mais altos destinos.
própria, no momento decisivo da vida do mundo, fora do âm-
bito fechado das religiões, na vida, em que o interesse luta, a XLIII. OS NOVOS CAMINHOS DA CIÊNCIA
dor sangra, a paixão transtorna.
O Evangelho não é um absurdo psicológico, social, cien- Não há dúvida que para vós, homens de razão e de ciência,
tífico. Não é negação, mas afirmação de humanidade mais em vosso tempo e de acordo com a vossa atual psicologia, tra-
elevada, no nível divino. ta-se de uma linguagem bastante estranha esta que unifica to-
A coisa simples e tremenda que o homem de hoje tem de dos os problemas: os do saber e os da bondade, e os coloca
fazer, na encruzilhada dos milênios, é colocar a alma nua di- lado a lado, fundindo ciência com Evangelho, acima de vossas
ante de Deus e examinar a si mesmo com grande sinceridade e distinções, numa mesma Síntese. Mas todos os vossos siste-
coragem. Se vós, almas sedentas de ação exterior, de movi- mas racionais e científicos são filhos da psicologia de hoje,
mento e de sensação, não sabeis ouvir no silêncio a voz das que não é a de ontem nem será a do amanhã; vossos métodos
grandes coisas que falam de Deus, e quereis expandir esta ín- e pontos fixos conceptuais passarão, como outros passaram, e
tima vida do espírito para vossa exterior realidade humana, e tudo será superado. O tempo vos modifica, ó filhos do tempo,
agir, gritar, conquistar e vencer, ainda que com o braço e a e vos impele cada vez mais para o alto. Assim como evolvem
ação, pois bem, eu vos digo: as formas de luta e as do sofrimento, também evoluem o pen-
“Levantai-vos e caminhai para vosso inimigo mais acerbo, samento e suas formas, porque a criação é contínua e o dina-
para aquele que mais vos traiu e maltratou, e, em nome de mismo divino está sempre presente.
Deus, perdoai-lhe e abraçai-o; ide àquele que mais vos roubou Àqueles que, no campo de todas religiões, perscrutam para
e perdoai-lhe a dívida e, mais ainda, dai-lhe tudo o que possu- encontrar erro e condenar eu digo que coloquem com sinceri-
ís; chegai àquele que vos insultou e dizei-lhe, em nome de dade sua alma diante de Deus e escutem a voz íntima que diz:
Deus: eu te amo como a mim mesmo, porque és meu irmão”. esta palavra é verdadeira. Onde existe, pergunto-vos, onde
Dir-me-eis: “Isto é absurdo, é loucura, é ruinoso. É im- existe na Terra uma força que verdadeiramente vos sacuda e
possível, na Terra, esta deposição de armas!”. arranque do cálculo contínuo de todos os interesses humanos?
Eu vos digo: “Sereis homens novos somente quando usardes E quem faz, na Terra, um esforço enérgico, heroico, decisivo,
métodos novos. De outra forma jamais saireis do ciclo das velhas para salvar os valores morais?
52 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
À ciência, que aplica o ouvido para ver resolvidos, com suas Doutra parte, não haveis certamente de presumir que o pre-
próprias palavras, problemas tão desusados para ela, eu digo: sente de vossa ciência contenha todo o saber possível. A experi-
chegou a hora de mudar de caminho, porque é inútil, é loucura, ência do passado vos ensina que tudo pode mudar, dos pés à ca-
acumular milhões de fatos sem jamais concluí-los. A síntese ur- beça, com resultados imprevisíveis, a cada momento. Sabeis, por
ge, e a ciência cala-se; olha suas colunas de fatos, colunas de um experiência, que as revoluções no campo do saber são normais
templo imenso, cheio de silêncio, e cala-se. O apriorismo sensó- em certas ocasiões. Não é lógico e consentâneo com vossas teo-
rio amarra na terra suas asas e limita-lhe as vias da pesquisa; rias materialistas evolucionistas, que a natureza, chegando a uma
apriorismo da dúvida, que, se olha para a objetividade, fecha ao nova maturação, toda estendida para o futuro, como tentáculo pa-
espírito os caminhos rápidos da intuição e da fé. Mente e cora- ra o porvir, em antecipação às formas evolutivas que esperam em
ção exigem uma resposta, e os últimos efeitos que tocais com embrião, lance um tipo de homem novo, que possa conceber tudo
vossos sentidos só podem dar-vos os últimos reflexos daquele diferentemente? Não é logicamente possível que, dessa forma,
incêndio que permeia o infinito. Não é acumulando fatos que toda a técnica mental humana possa mudar, tornando normal o
se pode dar uma resposta; o princípio vital que anima uma ár- que hoje é exceção, isto é, a intuição do gênio, a inspiração do ar-
vore jamais será encontrado pela observação e enumeração de tista, a super-humanidade do santo? As fases evolutivas próximas
suas folhas, pois ele é algo de íntimo, de profundo, de imen- de vós tocam, depois da fase orgânica, a fase psíquica. Como ve-
samente superior e de essencialmente diferente de qualquer des, as novas concepções desta Síntese, mesmo para a mentalida-
aparência sensória. Assim, na zoologia e na botânica, anato- de dos céticos e dos materialistas, apresentam-se com todos os
mizais cadáveres. Mas que podem dizer-vos as formas de vi- caracteres da racionalidade e terão de ser reconhecidas como
da, quando as matastes, expelindo-lhes o princípio substancial aceitáveis, pelo menos como hipótese de trabalho. Isto também
que as plasma e as rege, que tudo resume e determina, o único nas últimas conclusões de que vos falei. Não só não contradize-
que pode exprimir o significado do fenômeno? mos os princípios e postulados demonstrados pelos fatos e acei-
Que na ciência existe uma impotência apriorística para con- tos pela ciência, mas os fundimos organicamente numa unidade
cluir os fatos já demonstraram; por outro lado, o interesse e a universal. A ciência é aqui combatida, corrigida e elevada com
ambição – com frequência o único móvel secreto de todo traba- seus próprios métodos, com sua própria linguagem. O cético en-
lho – fecham à alma os caminhos da compreensão, levantando contra neste tratado não apenas os caracteres das possibilidades,
uma barreira entre o eu e o fenômeno. A atitude psicológica do mas os da maior logicidade. A razão fica satisfeita no íntimo des-
observador torna-se assim uma força negativa e destruidora. Co- te organismo, que harmonicamente dá a razão de tudo. Esta Sín-
mo podeis esperar que se vos abram as portas do mistério, se tese pode ser elevada a teoria, porque é o único sistema que dá
vós mesmos ergueis barreiras com vossa posição de desconfi- uma explicação completa e profunda de todos os fenômenos,
ança, se partis da negação, se está tão inquinada a primeira vi- mesmos daqueles que não podeis experimentalmente controlar.
bração de origem, segundo a qual tomam sua direção todas as Não importa se tudo o que digo não possa ser contido dentro de
formas de vosso pensamento? Deveis compreender que a dúvi- vossas categorias mentais; se não corresponde àquele arquiva-
da, o agnosticismo são uma atitude psicológica negativa, que mento de conceitos habitual de vossa forma psíquica. A limitação
desagrega o fenômeno, e é precisamente essa posição que vos de vossa razão e a cegueira de vossos sentidos vos levam, natu-
fecha as vias de sua compreensão. Os fenômenos mais sutis e ralmente, a negar tudo o que a eles escapa, mas isto não importa.
mais altos se apagam, automaticamente, quando deles vos avi- Eles são formas relativas, que superareis. Diante da imensa ver-
zinhais, por isso é interditado o ingresso da ciência nos campos dade, antes do que meios, eles são uma prisão que vos encerra e
mais altos. É indispensável a presença de um fator que a ciência vos limita. Mas bem depressa vosso ser se libertará, e a ciência,
ignora de propósito: o fator espiritual e o moral. São eles a con- quer queira quer não, superará sua posição atual.
dição fundamental de sintonização e de potência de vossa psi-
que, que é o instrumento de pesquisa. XLIV. SUPERAÇÕES BIOLÓGICAS
O futuro da ciência reside no mundo mais sutil do imponde-
rável. Se não levardes para a pesquisa científica esse estado de Tudo isto não constitui simples afirmação. Enquanto lenta-
espírito, que nasce apenas de uma grande paixão pura e desinte- mente construo em vossas mentes este edifício conceptual, gra-
ressada, jamais avançareis um passo. Esta atitude de vosso eu é dualmente o transmito ao mundo, para que a ele corresponda
fundamental, porque é lei que, onde faltam sinceridade de inten- uma compreensão gradativa; na atmosfera das forças do planeta,
ções e impulso de fé, as portas do conhecimento se fecham. O imperceptíveis a vós, amadurecem as causas de eventos decisivos
mistério tem suas defesas e suas resistências, e somente um esta- e tremendos, determinam-se movimentos, canalizam-se correntes
do de vibração intensa pode ter a força de superá-las. A verdade dinâmicas, acentuam-se atrações e repulsões, donde depois se ex-
só responde a um apelo desesperado de uma grande alma que in- teriorizarão os fenômenos, desde as convulsões físicas às morais,
voca a luz para o bem. Para quem olha ávido e curioso, o olhar se da morte à vida de povos e civilizações. Mesmo exteriormente,
embaça e as portas do conhecimento permanecem trancadas. A diante dos olhos do historiador e do pensador, apresenta-se o
Lei, mais sábia que vós, não admite no templo os incapazes e os mundo maduro para renovações profundas.
imaturos; o conhecimento, arma poderosíssima, só é concedido a No entanto poucas são as mentes, entre as que dirigem o
quem saiba fazer bom uso dele. Na Lei, nenhuma desordem é mundo nos campos mais diversos, que têm o pressentimento
permitida, e os inferiores, com sua inconsciência, não são ad- da iminência dos novos tempos. A ciência, mais esmagada
mitidos para trazer perturbação fora de seu campo. É lei, pois, que sustentada pela imensa massa de material de observação
que cada progresso seja merecido e a cada conquista corres- que acumulou, está sempre aguardando sínteses, perdida no
ponda um valor substancial; a verdadeira ciência não consiste dédalo infinito das análises. As religiões adormecem no indi-
num fato exterior, repartido com todos, acessível a todas as ferentismo. O mundo é navio que vaga sem timoneiro, sem
inteligências, mas é a última fase de uma íntima e profunda um princípio unificador que o dirija; as forças construtivas
maturação do ser. Na conquista do conhecimento, como em pulverizam-se em pormenores de interesses particulares e de
todas as maturações biológicas, não há atalhos possíveis, mas pequenos jogos egoísticos e, ao invés de coordenarem-se num
é indispensável desenvolver toda a trajetória do fenômeno. esforço orgânico, eliminam-se e anulam-se. A psicologia cor-
Deveis admitir que o universo existe perfeito e assim funciona rente contém o germe da desagregação.
há muito tempo, independente de vosso conhecimento, que A alma humana, entre uma ciência utilitária de comodidades
nada cria e nada desloca, senão vossa posição. e uma religião de conveniência, arrasta-se terra a terra numa at-
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 53
mosfera de apatia, perdida, sem meta. O presumido dinamismo O homem refará a grande descoberta de que um supremo
de vosso tempo é apenas uma corrida louca, toda exterior. Para pensamento desce do Alto. Na pesquisa fenomênica, a ciência,
onde correis, se ignorais os mais altos objetivos da vida? Para desalentada, verá entrar imponderável elemento novo, antes re-
que serve correr e chegar, se o homem dilacera-se a si mesmo na legado ao hipotético e ao absurdo, ou seja, bondade e retidão,
pessoa de seu irmão e faz tantas vezes da Terra, abençoada por os valores morais que fazem a pureza e a potência do instru-
Deus, um inferno ridículo e macabro? Ou correis apenas para mento psíquico, que se comunica por sintonia e afinidade. As-
atordoar-vos, para não vos sentirdes a vós mesmos, para fugirdes sim como, no templo, a música dos sons, ao saturar o ambiente
da voz de vossa alma sem paz, porque está sem meta? Não é esta, de harmonias acústicas, prepara o espírito para a comunicação
antes de tudo, a fuga do silêncio e da solidão, em que a alma fala espiritual da oração, também a harmonia dos sentimentos e dos
e indaga as grandes perguntas? É medo, medo de ficar sozinhos, conceitos, atraindo as harmonias mais vastas, tornará o espírito
de interrogar-vos, de sentir-vos sós diante dos últimos proble- apto às mais altas compreensões. A inspiração criadora substi-
mas que ninguém sabe resolver, mas que a alma, mesmo assim, tuirá, como meio normal, a lenta pesquisa racional. E a ciência
quer saber; medo dos grandes problemas do silêncio, onde se verá sua racionalidade posta de lado como meio menor, já insu-
ouvem gritar as culpas; medo do profundo, em que reside o de- ficiente diante dos novos problemas formidáveis, que só a visão
ver, a verdade, Deus. Ao som desta voz solene, preferis a para- direta pode enfrentar e resolver. Os componentes da super-
lisia psicológica e o tormento da agonia da alma. A cada mo- humanidade – do cientista ao artista, do mártir ao herói, do gê-
mento, renovais o esforço de lançar-vos para fora de vós mes- nio ao santo, até agora incompreendidos em sua função bioló-
mos no mundo, em busca do infinito, embora ele esteja aí, den- gica de seres ancorados num nível mais alto que o da normali-
tro de vós. Perdestes a simplicidade dos grandes pensamentos, dade medíocre – dar-se-ão as mãos, realizando sob mil aspectos
que confortam. O infinito, que está pleno deles, transbordante e enfrentando de mil lados o mesmo trabalho de iluminar e gui-
de alimento substancial, vos parece um báratro abissal, tenebro- ar o mundo. O super-homem, cidadão do tão esperado Reino de
so, sobre o qual temeis debruçar-vos. Deus, normalizará sua função coletiva, deixando à razão dos
O homem esqueceu, num dédalo de complicações, a beleza menores, dos atrasados, dos últimos a chegar no caminho evo-
e a paz das grandes verdades primordiais. No entanto o homem lutivo, o trabalho mecânico da análise das grandes visões intui-
as conhecia há muito tempo, por comunicação direta, através da tivas, para fixá-las e demonstrá-las à míope normalidade. A ma-
revelação, primeiro método intuitivo e sintético do saber huma- turação desta super-humanidade será a maior criação biológica
no, pai do método dedutivo. O princípio único, do qual se de- de vossa evolução e representa a passagem para uma lei de vida
duziam as verdades menores, descia do Alto. Depois, à força de superior, que vai da força à justiça, da violência à bondade, da
deduzir, o homem afastou-se de tal maneira da fonte primeira, ignorância à consciência, do egoísmo destruidor ao amor cons-
que lhe negou até a existência. A dedução, uma vez perdida a trutivo do Evangelho. Esta é a superação da fase animal e huma-
ligação com a fonte, não teve mais sentido. O homem recaiu na, a mais alta vivida em vosso planeta, em que culmina o esfor-
sobre a terra, sem asas e sem vista; na terra bateu sua cabeça ço preparado nos milhões de milênios, em que a evolução ascen-
para que o fenômeno lhe falasse e fornecesse a ele, última poei- de da matéria à energia, à vida, ao espírito e toca os mais altos
ra das centelhas caídas da luz única, com sua pequena luz, um
cimos, de onde vos lançareis ao encontro do infinito.
átimo da verdade infinita e eterna. E a ciência, lamentavelmen-
te, acumulou com paciência as mínimas luzes, acreditando que,
XLV. A GÊNESE
com a pequena concha da razão humana, poderia esvaziar o
oceano; acreditando que podia reconstruir o poder fulgurante
“No princípio Deus criou o céu e a terra.
do sol, somando e combinando vagas fosforescências. Mas as
...e as trevas estavam sobre a face do abismo...
portas permaneceram fechadas e ainda continuam fechadas.
E Deus disse: „Faça-se a luz‟. E a luz foi feita.
Mas a lei de Deus prossegue no mesmo passo, acima das
tempestades humanas e, nos grandes momentos, salva sozinha ...e separou as águas... e à massa de água chamou mar.
o equilíbrio. Hoje, como nos tempos antigos das primeiras reve- E disse: „A terra germine erva verde...‟
lações, segura de novo o homem pela mão e lhe mostra o cami- E a terra produziu erva verde...
nho. Diante dos acontecimentos supremos, os extremos da his- E depois Deus disse: „As águas produzam os répteis, animais e
tória se tocam, e a intuição reabre hoje, aos humildes, as portas viventes, as aves sobre a terra e na amplidão dos céus‟.
da verdade. Nos grandes momentos, só a mão de Deus vos guia E Deus criou os grandes peixes e todos os animais vivos...
a todos, e ela está hoje em ação, como no tempo das maiores produtos da água, segundo suas espécies...
criações. Felizes aqueles que sabem, rapidamente, pelas vias da E disse: „Façamos o homem à nossa imagem e semelhança...‟
fé, atingir a meta! O mais amplo saber é sempre coisa pobre di- E Deus criou o homem à sua semelhança...
ante do sincero e humilde ato de fé de uma alma pura. E a ciên- ...Formou o homem do pó da terra e soprou-lhe na face o so-
cia racional debate-se em vão para sair do claustro da racionali- pro da vida, e o homem foi feito alma viva.
dade por ela mesma construído, que agora a limita, porque toda Essas foram as origens do céu e da terra...”
a construção, como efeito, não pode superar em sua massa a po- (Pentateuco, A Gênese, Cap. I)
tência dos meios empregados. A ciência racional, que hoje se
debate impotente aos pés de um mistério cada vez mais vasto, Assim nos revelou a inspiração de Moisés.
encontra-se estupefata diante de uma revolução completa de Em sua intuição, ele traçava o caminho que nós segui-
métodos e de formas de pesquisa; vê-se permeada, sem ao me- mos: a evolução do ser, da matéria ao espírito. No irrefreá-
nos percebê-lo – ela que acreditava guiar, mas era guiada pelas vel transformismo evolutivo, primeiro aparece a matéria: a
forças da evolução espiritual do mundo – por um quid novo pa- terra. Depois se move a energia: a luz. Nas cálidas bacias
ra ela, super-racional, um fator que lhe escapa, porque supera das águas reunidas, a mais alta forma evolutiva dinâmica
seus meios lógicos, é mais sutil e, no entanto, mais poderoso concentra-se na potência ainda mais alta de um novo eu fe-
que seus meios objetivos; a racionalidade, único deus do mun- nomênico, e nasce o primeiro germe de vida em sua primor-
do durante um século, abate-se desanimada diante da explosão dial forma vegetal, que depois se alastrou sobre a terra e as-
estranha e envolvente da alma humana, que se modifica e pene- cendeu às formas animais, sempre ansiosa por subir. O im-
tra por novos caminhos os fenômenos e intui diretamente o in- pulso divino, sempre atuante, criou o homem do pó da terra,
finito como realidade imediata. feito de matéria (), que subiu até à fase de consciência (, o so-
54 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
pro da vida). E aparece o homem, que resume em si a obra XLVI. ESTUDO DA FASE  – ENERGIA
completa e a trindade divina de seu universo:   .
Essas foram as origens do céu e da terra. Ao observar o devenir das formas dinâmicas, vamos deline-
Observemos o nascimento da gravitação, a protoforça típica ar agora, também, as características das individuações típicas e,
do universo dinâmico. Retomemos agora o caminho interrom- no devenir, encontraremos o conceito e a lei que as governa. Os
pido. Em sua primeira forma gravífica, nasceu a energia. Na ín- três aspectos – estático, dinâmico e conceptual – da fase  po-
tima estrutura cinética da matéria ocorreu a mudança de ritmo e derão, dessa forma, fundir-se numa única exposição, e isso tor-
de direção no movimento. A matéria despertou de sua longa e nará nosso passo mais ágil e veloz.
silenciosa maturação e revive num nível mais alto, a fim de se A transformação da matéria em energia não é mais, para
preparar para sustentar a centelha da qual nascerá a vida. Em vós, apenas uma hipótese. Sabeis calcular a quantidade de
sua forma dinâmica, a Substância indestrutível assume um pas- energia atômica armazenada na matéria. A massa de um grama,
so de transformismo mais acelerado; o movimento de rotação considerada no zero absoluto, contém 22 bilhões de calorias.
planetária, fechado em si mesmo no íntimo da matéria, explode Sabeis que o Sol está em estado de completa desagregação
no ritmo ascendente da onda, que cria e multiplica os tipos di- atômica pela radioatividade, o que significa saída de elétrons
nâmicos. O movimento invade a grande máquina do universo; (energia, transformação de  em ); estes são lançados à Terra,
nova lei estabelece equilíbrio novo e mais complexo em sua es- junto com todas as demais formas de energia. Esses centros di-
tabilidade; o grande organismo não apenas existe, mas funciona nâmicos lançados pelo Sol ricocheteiam, penetram ou se
a fim de preparar-se para viver. combinam na atmosfera elétrica que circunda o vosso planeta,
Eis que nos espaços imensuráveis desenvolve-se uma rota- produzindo vários fenômenos, cujas causas não saberíeis ex-
ção, um caminhar sem limites; a matéria foi permeada de nova plicar de outra maneira, como, por exemplo, o da luz difusa
vibração, que a lança em elipses, em espirais, em vórtices; as no céu noturno. O feixe de radiações dinâmicas que o Sol vos
correntes dinâmicas canalizam-se, equilibram-se, precipitam-se envia é o mais volumoso, complexo e rico. O fato de que os
fulmíneas em todas as direções para mover e animar todas as raios solares, caindo numa superfície negra de um metro qua-
coisas. Logo que nasce,  se individualiza e se diferencia;  es- drado, exercem sobre esta uma pressão de quatro décimos de
tava exteriormente inerte, além da órbita de seu turbilhonar ín- miligrama, vos mostra, além de sua constituição eletrônica,
timo;  expande-se em todas as direções, preenche e une os es- que a radiação-luz se conjuga também com impulsos ativos-
paços numa rede de ações e reações. O funcionamento orgânico reativos de ordem gravífica. Verificais, nos fenômenos de ra-
do universo afirma-se e complica-se. A gravitação liga e une dioatividade, que a dissociação espontânea da matéria implica
suas partes, mantendo-as reunidas. O impulso centrífugo abre num enorme desenvolvimento de calor, devido justamente à
os vórtices e dilata o movimento. À estase solene da muda e emissão (a partir do sistema planetário atômico) das partículas
cega maturação da matéria, sucede a estase mais instável, mas periféricas. E calculastes em mv2/2 (onde m=massa e
igualmente perene, das forças em equilíbrio. As trevas tingem- v=velocidade) a energia cinética de cada partícula, cuja velo-
se de luz, o silêncio ecoa de sons, anima-se o universo. Este cidade média é de 1,78 x 10 9 cm/s.
tem calor e frio; respira, assimila; possui sua circulação, que o Para bem compreender a transmutação da matéria nas for-
nutre, seu metabolismo dinâmico e físico; tem sua própria saú- mas dinâmicas, é mister conhecer bem sua natureza cinética.
de, suas doenças, sua juventude, sua velhice; conhece a vida e a Isto não é fato novo para vós, porque o vórtice eletrônico vos
morte. Pelos espaços explodiu uma palpitação nova, vibração diz exatamente a mesma coisa. Sabeis que cada espécie de áto-
sem repouso de forças que fogem em busca de equilíbrio. mo caracteriza-se por um espectro de emissão produzido por
E, porque a Lei disciplina instantaneamente toda forma di- um comprimento de onda determinado com exatidão. Essa
nâmica logo em seu primeiro aparecimento, cada forma de  apa- emissão espectroscópica acompanha constantemente o átomo
rece exatamente individualizada por uma lei férrea individual – de cada elemento, como seu equivalente dinâmico, provando
seu modo de ser – e a ordem reina sempre soberanamente no sua regular e constante estrutura cinética. Somente esta pode
imenso turbilhão. O aspecto conceptual, nesta fase mais alta, é explicar-vos os movimentos brownianos, que tão bem conhe-
ainda mais transparente. Num universo tão vasto e complexo, ceis. Vimos que a matéria é um dinamismo incessante e que sua
quem, senão o pensamento divino da Lei, disciplinaria tão imen- rigidez é toda aparente, devida à extrema velocidade que a ani-
surável desenvolvimento de forças? Tudo parece ocorrer automa- ma por completo. Sabeis que a massa de um corpo aumenta
ticamente, porque a mão de Deus não é algo externo e visível, com sua velocidade no espaço. Um jato de água velocíssimo
mas é um conceito, é a alma das coisas. As rotações astronômi- oferece à penetração de um corpo a resistência de um sólido.
cas caminham com exatidão matemática. A gravitação, a luz, o Quando a massa de um gás, como o ar, multiplica-se pela velo-
calor, a eletricidade, o som e todas as formas dinâmicas sabem, cidade, ela adquire as propriedades da massa de um sólido. A
todas elas, o seu caminho, e, a cada momento, a cada manifesta- pista sólida que sustenta o avião, sólido suspenso num gás, é
ção, em sua própria consciência instintiva, fala a grande Lei. O sua velocidade em relação ao ar, e este, sozinho, se lançado
entrelaçamento dessas forças é, ainda hoje, a base de vossa vida; como ciclone, derruba casas. Trata-se de relação. Com efeito,
seu modo de ser e de agir, definido com exatidão e constâncias, quanto mais veloz é o avião, menores podem ser as suas asas.
dirige a palpitação regular que vos sustenta; proporciona as radi- Sabeis que esquentar um corpo significa transmitir-lhe nova
ações solares às necessidades do planeta; guia as correntes at- energia, isto é, imprimir-lhe nova velocidade íntima. A análise
mosféricas; regula as sínteses e as trocas das substâncias protei- espectral vos fornece a luz equivalente dos corpos tão exatamen-
cas, a assimilação nos organismos, o crescimento, a respiração, a te, que se torna possível, por meio dessa emanação dinâmica, a
circulação, a reprodução, os nascimentos, as mortes e todos os individuação à distância na astroquímica. É inútil correrdes atrás
fenômenos sociais. Os mais complexos fenômenos ocorrem com de vossos sentidos e da ilusão tátil da solidez, que, por ser a pri-
perfeição, indiferentes ao conhecimento que deles tendes e à vos- meira sensação básica da vida terrestre, é tão fundamental para
sa vontade, até mesmo aqueles que regulam vossa própria vida. vós. A solidez é apenas a soma de movimentos velocíssimos.
Se a vosso esforço só foi deixado o trabalho de vosso progresso, Que não vos iluda a constância das sensações, pois é devida ape-
as forças que vos guiam sabem, por si mesmas e melhor do que nas à constância dos processos íntimos fenomênicos no âmbito
vós, o caminho que deveis seguir. Desta consciência linear (de da lei eterna. Vossos sentidos não sabem perceber sensações di-
primeira dimensão) do universo dinâmico já falamos. ferentes que se sucedam com extrema rapidez.
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 55
A matéria é pura energia. Em sua íntima estrutura atômi- ondas esféricas. Isso é facilmente verificável por meio de
ca, ela é um edifício de forças. Matéria, no sentido de um qualquer fonte de luz e de som. Como vedes, a natureza cir-
corpo sólido, compacto, impenetrável, não existe. Trata-se cular dos dois movimentos é constante, própria tanto da uni-
apenas de resistências, de reações; o que chamais de solidez dade atômica quanto da transmissão dinâmica.
é somente a sensação que constantemente vos dá aquela for- Pormenorizemos com mais rigor. O movimento rotató-
ça que se opõe ao impulso e ao tato. É a velocidade que en- rio do sistema atômico não é simplesmente circular: mais
che as imensas extensões dos espaços vazios, em que se agi- precisamente, ele é espiralóide. Vimos, no estudo da traje-
tam as mínimas unidades. É a velocidade que forma a massa, tória típica dos movimentos fenomênicos (fig. 4 e fig. 5),
a estabilidade, a coesão da matéria. Observai como movi- que esta é a linha de seu devenir. Toda evolução contém
mentos rotatórios rapidíssimos conferem ao giroscópio, du- este princípio de dilatação, de desenvolvimento, de realiz a-
rante o movimento, um equilíbrio autônomo estável. Veloci- ção de um estado latente, na passagem da fase potencia l à
dade é esta força que se opõe ao destacar-se das partículas fase cinética; esta é uma tendência constante no universo.
da matéria e as mantém unidas, enquanto outra força contrá- Neste caso significa transformação do movimento de rota-
ria não a supere. Mesmo quando decompondes a matéria na- ção em movimento de translação.
queles que vos parecem os últimos elementos, ainda não vos Portanto, uma primeira afirmação, que vos explica a ínti-
encontrais diante de uma partícula sólida, compacta, indivi- ma gênese de  o sistema atômico é de natureza espiralóide
sível. O átomo é um vórtice, vórtice é o elétron e o núcleo; (compreendendo a espiral como secção de uma esfera em pro-
vórtices são os planetas e satélites contidos no sistema solar, cesso de dilatação). Por causa dessa forma e de sua íntima es-
assim até ao infinito. Quando imaginais a mínima partícula trutura, o átomo é o centro normal de emanações dinâmicas; é
animada de velocidade, ela não é nunca um corpo no sentido o germe natural (aquilo que a semente é na vida, devido ao
comum que imaginais, mas é sempre um vórtice imaterial de mesmo princípio de expansão) das formas de energia.
velocidade. A decomposição dos vórtices, em que giram uni- Segunda afirmação, mais complexa: disse-vos que o nú-
dades vorticosas menores, estende-se até ao infinito. De modo cleo, centro de rotação eletrônica, não é o último termo.
que, na substância, não existe matéria no sentido que lhe dais, Acrescento agora: o núcleo é um sistema planetário da mesma
mas só existe movimento. A diferença entre matéria e energia natureza e forma que o sistema atômico, interior a este, com-
é dada apenas pela direção diferente desse movimento: rotató- posto e decomponível até ao infinito em sistemas menores in-
rio, fechado em si mesmo, na matéria; ondulatório, com ciclo teriores semelhantes. Acrescento mais: o núcleo é a semente
aberto e lançado ao espaço, para a energia. ou germe da matéria. Das 92 espécies de átomos, o hidrogê-
No princípio havia o movimento, e o movimento concen- nio é o mais simples, por ser composto de um núcleo e de um
trou-se na matéria; da matéria nasceu a energia, e da energia só elétron, que lhe gira em torno. Ele é quimicamente inde-
emergirá o espírito. componível. Tirai aquele único elétron ao núcleo e tereis o
O movimento concêntrico do sistema planetário atômico éter, a substância-mãe do hidrogênio. Então o éter é composto
contém em germe a gênese e o desenvolvimento das formas apenas de núcleos sem elétrons; a passagem do éter ao H e,
de . Tanto quanto a química orgânica se diferencia da inor- sucessivamente, a todos os corpos da série estequiogenética
gânica por suas fórmulas abertas comunicantes em equilíbrio ocorre pela abertura progressiva do sistema espiralóide. No
instável (efeito e não causa da vida), assim também se passa princípio, na passagem do éter ao H, temos a abertura do sis-
da forma matéria à forma energia pela expansão do sistema tema do núcleo, com a saída de apenas um elétron; depois, de
cinético fechado de  para o sistema cinético aberto de . Isto dois, três, até 92. Tal como o Sol no sistema solar, o núcleo é
porque a substância da evolução é a extrinsecação de um mo- o pai prolífico de todos os seus satélites, nos quais se dá e se
vimento que se concentra por involução e se expande por evo- multiplica, por um princípio geral que encontrareis na repro-
lução, atingindo, através das duas fases dessa sua respiração, dução por cisão. Por esse princípio, cada organismo, seja nú-
uma extrinsecação cada vez maior. cleo ou átomo, quando cresce demais, enriquecendo-se em
Há dois fatos, portanto, a se ligar: o movimento circular seu desenvolvimento por evolução, cinde-se em dois. Assim,
íntimo do sistema atômico de  (matéria) e o movimento ondu- também a matéria produz filhos. As combinações químicas
latório próprio de  (energia). Para compreender o ponto de que produzis são, afinal, apenas combinações de sistemas,
passagem de  a  é indispensável reduzir as duas fases ao de trajetórias, de movimentos planetários. Então uma molé-
seu denominador comum ou unidade de medida: o movimen- cula é uma verdadeira família de indivíduos atômicos, uni-
to, cuja forma individua, diferentemente, a substância em seus dos pelas relações de ação e reação, por vínculos mais ou
vários estágios. Esses são, vistos em sua essência, os dois menos estáveis, que podem romper-se e diversamente reno-
termos que têm de ser conjugados. De um lado, o sistema var-se. Sabeis com que exatidão rigorosa essas combinações,
atômico, que, como vimos, é composto de um ou mais elé- essas parentelas, estreitam-se. Uma lei férrea e exata rege
trons que giram em torno de um núcleo central, sendo sua in- constantemente o equilíbrio das relações que vós represen-
dividuação atômica dada pelo número dos elétrons que giram tastes com as fórmulas químicas. Mas a verdadeira base da
em torno do núcleo, num espaço imenso em relação a seu vo- teoria atômica, cuja essência ainda não vos foi demonstrada,
lume, dado que o sistema atômico é de natureza esférica, pois, já vos disse agora, ou seja, a dos sistemas planetários atômi-
se a rotação fosse num plano, não teríamos o volume. De ou- cos que, reunindo-se nas moléculas dos corpos, combinam
tro lado, temos a característica fundamental própria de todas seus movimentos com toda a corte de seus satélites. Vedes
as formas de energia: a transmissão por ondas esféricas. Já que a verdadeira química, que se baseia toda na arquitetura
notamos, na gênese da gravitação, o princípio da transmissão íntima do átomo e deste deduz as propriedades dos corpos, é,
esférica da onda, demonstrado pelo decréscimo da ação em no fundo, geometria, aritmética e mecânica astronômica, e
razão do quadrado da distância. Esta lei é apenas uma conse- pode reduzir-se a um cálculo de forças. Daí nenhuma mara-
quência das propriedades geométricas dos corpos esféricos, vilha se de tal matéria toda constituída de movimento e de
sendo produzida pelo fato das superfícies de esferas concên- energia puder, depois, espontaneamente, nascer .
tricas serem proporcionais ao quadrado de seus raios. Todas as Assim como involução é concentração, a evolução é o
vezes, pois, que encontrais essa lei do quadrado da distância, processo inverso, de expansão. Chegando a matéria à sua úl-
podeis concluir com segurança que se trata de transmissão por tima forma, última da série estequiogenética (o urânio, com um
56 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
sistema planetário de 92 elétrons) dizeis: a matéria se desa- XLVII. A DEGRADAÇÃO DA ENERGIA
grega por radioatividade. À ordem de formação sucessiva
dos elementos vemos corresponder o aumento de peso atô- Antes de passar ao estudo da série das individuações de
mico. Esse aumento, que aqui atinge seu máximo, é produ- , a fim de traçar uma árvore genealógica das espécies di-
zido pela passagem da energia de sua forma potencial, co- nâmicas, semelhante e continuadora da série estequiogenéti-
mo está no núcleo, à sua forma cinética, como está nos di- ca, observemos um fenômeno constante nesse campo, carac-
versos sistemas atômicos cada vez mais complexos. A terístico das formas de energia e correspondente ao já obser-
emissão de cada novo elétron do núcleo implica sempre vado da desagregação da matéria ou desintegração atômica;
acréscimo de nova órbita, e esta, à proporção que nos apro- um fenômeno que é sua continuação e, no entanto, mesmo
ximamos da periferia, torna-se cada vez mais veloz. Como conhecendo-o, não lhe compreendestes o íntimo significado,
vedes, o peso atômico é mais que um simples índice do grau ou seja, a degradação da energia.
de condensação: prende-se à lei pela qual a massa de um Aproximo esses dois fenômenos por causa de sua caracte-
corpo é função de sua velocidade e ao fato de que solidez e rística comum, de exprimir precisamente o desaparecimento,
constituição da matéria estão todas em função da velocidade diante de vossa percepção sensória, das duas formas  e .
que anima suas partes componentes. Mas, na realidade, tanto a desintegração atômica quanto a de-
Já notastes que a desagregação pela radioatividade é de- gradação dinâmica, se significam “desaparecimento” para
sintegração atômica, isto é, novo deslocamento de equilíbrio vossos sentidos, não constituem nem desaparecimento nem
do edifício atômico; por isso, deste partem emanações de ca- fim, mas apenas mudanças de forma dentro do transformismo
ráter dinâmico. Chegando a esse ponto de sua evolução, o evolutivo. Tal como na desintegração da matéria nada de fato
sistema máximo de  apenas continua seu movimento de na- desaparece, porque a matéria renasce como energia, assim
tureza espiralóide, seguindo sempre uma direção expansio- também, na desintegração dinâmica, a anulação é relativa
nal, que encontramos em toda parte, desde o sistema espira- apenas aos vossos meios de percepção e diz respeito àquilo
lóide galáctico até à trajetória típica dos movimentos feno- que, para vós, constitui as possibilidades utilitárias da energia.
mênicos. Em outras palavras, a espiral continua abrindo-se Mas observemos o fenômeno. Está provado, mesmo pela
até ao ponto em que os elétrons não voltam mais a girar em observação, que todas as transformações da energia ocorrem
torno do núcleo como satélites, mas, como os cometas, lan- segundo uma lei constante de degradação, pela qual a ener-
çam-se aos espaços com trajetórias independentes. Chegan- gia, mesmo conservando-se integral (princípio de conserva-
do à máxima órbita periférica, em que é máxima a velocida- ção da energia) em sua quantidade, tende a se difundir, dis-
de de translação, aí se rompe o equilíbrio de atração- persando-se no espaço, nivelando num estado de equilíbrio
repulsão até agora estável, e os elétrons, não podendo mais as suas diferenças, quando passa do heterogêneo ao homo-
manter-se na órbita precedente, projetam-se como bólidos gêneo. Deteriora-se, assim, no sentido de que a soma dos
para fora do sistema, impelidos por impulsos dirigidos para efeitos úteis e a capacidade de trabalho está sempre dimi-
novos equilíbrios. Praticamente, cada elétron circula com nuindo (princípio da degradação da energia). Esses dois
velocidade angular uniforme em sua órbita, que pode consi- princípios opostos, de conservação e de degradação (perda
de energia útil), provam o perene transformismo e a indes-
derar-se como circular, pois, a abertura espiralóide apresenta
trutibilidade da Substância, mesmo em sua forma .
deslocamentos mínimos. No âmbito das forças da astrono-
Essas duas leis demonstram que o fenômeno do transfor-
mia atômica, para cada órbita há equilíbrio entre a atração
mismo da substância indestrutível tem uma direção exata e
do elétron pelo núcleo e a força centrífuga devida à massa
que essa direção é irreversível. Em outras palavras, é possível
do elétron e sua rotação, que tende a lançá-lo à periferia.
a transformação da energia, mas sempre passando para um ti-
Compreendeis: se a velocidade de rotação das partículas pe-
po de qualidade inferior, do ponto de vista de seu rendimento
riféricas for de tal ordem que o impulso centrífugo supere a
prático para o homem. Assim, a energia acumulada tende
força de atração que as mantém em órbita, tangencialmente,
sempre a se dispersar, e jamais ocorre o contrário. Todo sis-
elas fogem para o espaço. Quando digo elétron, não digo ma-
tema tende integralmente para um estado de difusão, de equi-
téria em vosso conceito sensório, mas entendo outro turbilhão
líbrio, de repouso, de igualdade, como consequência de uma
dinâmico (cuja massa é dada pela íntima velocidade do siste- série de transformações que constantemente operam nessa di-
ma) que assume características de matéria somente enquanto reção, e nunca na direção oposta. Tudo parece condenado a
está todo vibrante de íntima velocidade, em seu sistema circu- apagar-se, a anular-se, a desaparecer.
lar fechado. Chegando ao último grupo da série estequiogené- Que significa esse irreversível fenômeno de degradação?
tica, dos corpos radioativos,  inicia sua transformação em  Primeiro: o universo, em vossa fase, tende a um estado de
por progressiva expulsão de elétrons (cometas). É lógico que ordem e de ritmo, do caos ao equilíbrio, a um estado substan-
a isso corresponde uma perda de massa. As qualidades radioa- cialmente mais evoluído e perfeito. Em outros termos, a irre-
tivas, em outros termos, tornam-se cada vez mais evidentes, versibilidade demonstra a evolução.
com tendência sempre mais acentuada à desagregação espon- Segundo: se atualmente, em vosso universo, toda transforma-
tânea e à formação de individuações químicas sempre mais ção de energia leva à sua degradação e é inevitável uma perda
instáveis, isto é, cujo sistema de forças se desloca sempre (que a irreversibilidade impede de reparar), é necessário, todavia,
mais rapidamente em busca de novos equilíbrios. que, nas grandes linhas de um equilíbrio mais vasto, esse movi-
Expus-vos, assim, a íntima estrutura do fenômeno, a ra- mento encontre sua compensação. A irreversibilidade demonstra
zão do aparecimento da radioatividade no limite extremo da que viveis na fase da expansão dinâmica, em que  parece des-
série estequiogenética, e os motivos da instabilidade dos gastar-se e dispersar-se. Mas a lógica vos indica que a Lei con-
corpos radioativos e da desagregação da matéria. Lembrai- tém o período complementar de compensação, fase inversa, em
vos de que, neste momento decisivo do universo, quando ele que a irreversibilidade se desenvolve em sentido contrário; não
muda da fase  à fase , também muda sua dimensão, como mais o vosso atual , mas , o período precedente de in-
vimos, de espaço para tempo; a terceira dimensão espacial volução e concentração dinâmica, que já vimos. A marcha do
do volume completa-se, portanto, na nova dimensão tempo- universo no sentido oposto já aconteceu. Vosso período é evo-
ral, unidade característica de medida da nova forma de mo- lutivo, ascensional; degradação dinâmica significa, debaixo da
vimento, não mais circular, mas ondulatório. aparência de dispersão, uma transformação substancial para as
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 57
formas mais altas (). Assim como, na desintegração atômica, a Se observardes a frequência progressiva (por segundo) das
matéria dissocia-se para constituir as mais altas formas expres- vibrações de um corpo no espaço, verificareis o aparecimento
sas por , também a energia, ainda que pareça perder-se em sua das várias formas de energia. O fenômeno não é novo para vós,
degradação, na realidade amadurece para se transformar nas mas apenas a sua constatação. Partindo, para facilitar a obser-
mais altas formas que a evolução atingirá na fase . Então, ir- vação, do estado de repouso (para nós, ao contrário, é o ponto
reversibilidade e degradação confirmam tudo o que expusemos de chegada), vede que no nível de 32 vibrações por segundo
no estudo da gênese das criações sucessivas, tudo o que nos in- manifesta-se a forma que denominais som. O próprio ouvido
dica, já no citado diagrama da fig. 2, a linha quebrada que sobe, consegue, nas notas mais baixas, perceber o ritmo vibratório
ou na fig. 4, a espiral que se abre com contínuos retornos inver- lento e profundo. A frequência progressiva desenvolve-se su-
sos ao caminho percorrido. cessivamente, por oitavas, princípio que já encontramos na sé-
De tudo isso, podeis compreender como a característica rie estequiogenética, reencontramos na luz e depois nos siste-
da irreversibilidade seja, para a energia, relativa e fechada mas cristalinos e na zoologia. Perto das 10.000 vibrações por
no âmbito da fase  e como, no todo, uma irreversibili- segundo, os sons, tornados agudíssimos, perdem qualquer cará-
dade absoluta seja uma fonte absurda de desequilíbrio, que ter musical. Além das 32.000 vibrações, vosso poder de per-
está totalmente fora do conceito da Lei. Cada movimento cepção auditiva cessa, e elas não vos dão mais nenhuma sensa-
presume seu movimento contrário e equivalente; o movi- ção. Dessa frequência até ao bilhão de vibrações, nada existe
mento ondulatório, que nasce pela expansão do movimento para os vossos sentidos. Por volta do bilhão, tendes a zona das
espiralóide, presume, na fase inversa precedente, a concen- ondas elétricas (hertzianas). Somente neste nível entramos no
tração do movimento ondulatório numa espiral que restringe campo das verdadeiras formas dinâmicas, cuja onda propaga-se
cada vez mais suas volutas, até à formação daquele núcleo pelo éter. As ondas acústicas são apenas a última degradação,
que constitui o éter, que é o germe de toda a expansão este- em que a energia se extingue na atmosfera densa.
quiogenética de  e, depois, da expansão dinâmica de . À zona das ondas elétricas sucede, dos 34 bilhões até os 35
trilhões, outra zona também desconhecida a vossos sentidos e
XLVIII. SÉRIE EVOLUTIVA DAS instrumentos. Segue-se depois a região que vai dos 400 aos 750
ESPÉCIES DINÂMICAS trilhões de vibrações por segundo, em que está a luz, do verme-
lho ao violeta, em todas as cores do espectro solar e, mais exa-
Os elétrons lançados fora do sistema planetário atômico, tamente: vermelho (raio menos refratário), média de 450 tri-
que se desfaz pela abertura da espiral e pela ruptura do equilí- lhões de vibrações por segundo; laranja, 500; amarelo, 540;
brio atrativo-repulsivo do sistema – vórtices, também esses, de verde, 580; azul, 620; anil, 660; violeta (o mais refratário), 700.
velocidade – conservam na nova trajetória ondulatória a lem- Eis as sete notas desta nova oitava ótica, tudo quanto vossos
brança do movimento original circular. A dimensão espaço olhos percebem; vossa harmonia de cores não pode ultrapassar
multiplica-se pela nova dimensão tempo, e temos as novas uni- uma oitava de vibrações. Além destas, há outras “notas”, invi-
dades de medida da energia: comprimento de onda e velocidade síveis a vós: os raios infravermelhos, “notas” graves demais pa-
de vibração. De acordo com essas unidades, podemos estabele- ra vossa retina; as radiações ultravioletas, “notas” agudas de-
cer a série evolutiva das espécies dinâmicas. mais – regiões dinâmicas limítrofes ao espectro visível. As
Vimos a gênese da gravitação, protoforça típica do universo primeiras são sensíveis apenas como radiações caloríficas (es-
dinâmico, e algumas de suas características. Esta emanação di- curas), as segundas, por sua ação química e actínica (fotografá-
nâmica da matéria, nós a vemos acentuar-se em razão direta de veis, mas escuras para os olhos). Apenas num breve trecho
sua evolução (progressão constante no aumento dos pesos atô- inexplorado, aquém das notas mais baixas do infravermelho, es-
micos, no desenvolvimento da série estequiogenética), onde, no tão as notas mais agudas das radiações eletromagnéticas hertzia-
grupo dos corpos radioativos, nasce a segunda forma de ener-
nas. Se continuardes do lado oposto, além do ultravioleta, o exa-
gia: os raios X. A sucessão genética entre as duas formas é evi-
me do espectro químico (muitas vezes mais extenso que o espec-
dente. Assim, superado aquele traço de união que une matéria e
tro visível), atravessareis uma região desconhecida a vossos sen-
energia, entramos nas formas dinâmicas puras.
tidos e atingireis, aos 228 quatrilhões, uma zona que alcança os
Escalonando as formas dinâmicas de acordo com sua velo-
dois quintilhões de vibrações por segundo. Esta é a região da ra-
cidade vibratória, a gravitação atinge os máximos do sistema.
Vimos já que máxima é também sua velocidade de propagação, dioatividade, com os raios (  ) produzidos pela desintegra-
o que nos fez acreditar numa gravitação absoluta e instantânea, ção atômica radioativa (elétrons lançados em alta velocidade),
ao passo que ela é, como dissemos, relativa à massa dos corpos eles são análogos aos produzidos por descargas elétricas no vá-
e transmitida por ondas (tempo). cuo dos tubos de Crookes (raios X, ou de Röntgen). Se continu-
A máxima frequência vibratória que podeis apreciar, ao ardes ainda, encontrareis as emanações dinâmicas de ordem gra-
invés, é dada pelos raios X, que são a primeira forma dinâ- vífica. Aqui, a série evolutiva das espécies dinâmicas liga-se à
mica que conseguis observar isolada. Verificaremos, na su- das espécies químicas, da qual é a continuação.
cessão das formas dinâmicas, um constante decréscimo de Compreendamos, agora, o significado desses fatos. A sé-
frequência de vibração à proporção que nos afastamos das rie apresenta evidentes lacunas para vossa observação. Mas
origens, ou seja, subindo da gravitação à luz, eletricidade eu vos indiquei o andamento geral do fenômeno e o princí-
etc. É lógico que as primeiras emanações dinâmicas, como pio que o rege; podeis, pois, seguindo sua lei, defini-la a
gravitação e raios X, sejam as mais cinéticas, porque mais priori, em suas fases ignoradas, por analogia com as fases
próximas da fonte de seu movimento, o vórtice atômico. conhecidas, como vos disse a respeito dos elementos quími-
Com a evolução (por causa daquela lei de degradação que cos ignorados da série estequiogenética.
estudamos), a vibração tende ao repouso e a onda cada vez A ligação entre esta e a série dinâmica está justamente na fase
mais a alongar-se; isto significa a transformação do movi- das ondas gravíficas, já o vimos. Também observamos a região
mento de rotação original no de translação, final do período contígua das emanações radioativas. A escala evolutiva das
. Porém, como vos disse, não se trata de desgaste nem de formas dinâmicas, efetivamente, sobe destas fases de máxima
fim, mas de uma íntima maturação evolutiva, que preludia as frequência para as de menor frequência, em ordem inversa à
formas de : a vida e a consciência. Se as primeiras forças que, para simplificar a exposição, seguimos acima. Em outras
dinâmicas são mais rápidas e mais poderosas, as últimas são palavras, a evolução dinâmica implica num processo de degra-
as mais sutis e as mais evoluídas. dação de energia, até que esta se extinga (apenas como manifes-
58 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
tação dinâmica) em vibrações cada vez mais lentas, num meio gia. Nessa degradação, que não exprime perda nem fim, mas
cada vez mais denso (não mais o éter, mas atmosfera, líquidos e apenas transformação, que readquire em qualidade o que perde
sólidos). O que tem contato com as formas de  são os tipos di- em quantidade, está a substância da evolução.
nâmicos mais cinéticos, e isso, é lógico, pela natureza e trans- Permanecendo no campo das vibrações puras, ou seja, as do
formação do movimento. À proporção que se afastam de , ten- éter, e excluindo da série as últimas fases (vibrações dinâmicas)
dem a um estado de inércia e isso, também é lógico, por causa de degradação em meios mais densos, encontramos no ápice da
do exaurir-se (resistência do ambiente e processo de difusão) do escala a eletricidade como forma mais evoluída, de frequência
impulso original (degradação). Dessa maneira, a ordem evoluti- vibratória mínima e comprimento de onda máximo. A frequência
va das formas dinâmicas é a seguinte (tendo em conta somente de vibrações tornou-se mais lenta, a onda estendeu-se. A potência
as regiões que conheceis): cinética aqui se amorteceu numa zona mais tranquila. Chegadas a
1o) Gravitação. esse ponto, as formas dinâmicas criaram o substrato de novo im-
2o) Radioatividade. pulso poderoso, de novo modo de ser. A evolução, ao atingir o
3o) Radiações químicas (espectro invisível do ultravioleta). mais alto vértice da fase dinâmica, caminha para novas criações.
4 o) Luz (espectro visível). Passa desta sua última especialização, mediante a reorganização
5 o) Calor (radiações caloríficas escuras. Espectro invisível do das formas individuadas em unidades múltiplas coletivas, a uma
infravermelho). espécie de classe mais elevada. Sem esta retomada evolutiva, o
6 o) Eletricidade (ondas hertzianas, curtas, médias e longas). universo dinâmico tenderia, por degradação, ao nivelamento, à
7 o) Vibrações dinâmicas (ultrassons, sons). inércia, à morte11. Esse seria seu fim se, no momento da mais
Sete grandes fases também aqui, correspondentes às sete sé- avançada degradação da energia, nos primeiros sinais de velhice
ries de isovalências periódicas que, na escala estequiogenética, das formas dinâmicas, o íntimo e intenso trabalho realizado (que
desde S1 até S7, representam os períodos de formação e evolução na substância não é degradação, mas maturação evolutiva) não
da matéria. As zonas de frequências intermediárias (desconheci- fosse utilizado e as espécies dinâmicas, finalmente maduras e
das, como as que tendes também na série estequiogenética) são prontas, não se organizassem em individuações mais complexas.
as fases de transição entre um tipo e outro desses pontos culmi- Assim como, no último degrau da série estequiogenética, os
nantes. Ao subir, decrescem as qualidades cinéticas, o potencial corpos radioativos se transformam em energia, também, no úl-
sensível das formas, mas o que se perde em quantidade de ener- timo degrau da série dinâmica, a eletricidade transforma-se em
gia adquire-se em qualidade, isto é, perde-se cada vez mais as ca- vida. Tal como a energia significou, diante da matéria, o princí-
racterísticas da matéria, ponto de partida, e cada vez mais se ad- pio novo do movimento por onda e a nova dimensão tempo, as-
quire as da vida, ponto de chegada. Assim, a Substância percorre sim a vida, diante da energia, significará o princípio novo da
o caminho da fase , e da matéria chega à vida. unidade orgânica, da coordenação de forças, da transmissão di-
Observemos agora o conjunto do fenômeno mais de perto, nâmica elevada a entrelaçamento inteligente de contínuas tro-
em sua íntima estrutura cinética. Podem individuar-se essas cas, e o aparecimento da nova dimensão consciência.
formas não só pela frequência vibratória, mas também por com-
primento de onda. Veremos as relações entre esses dois fatos. XLIX. DA MATÉRIA À VIDA
Comprimento de onda é o espaço percorrido pela onda na dura-
ção de um período vibratório. Individuadas pelo comprimento Da mesma forma que a natureza cinética dá à energia sua
de onda, as formas dinâmicas apresentam-se com características característica fundamental de transmitir-se (dimensão espaço
próprias. Enquanto, subindo-se ao longo da série das espécies que ascende à dimensão tempo), o novo princípio da coorde-
dinâmicas, o número de vibrações diminui, a amplitude da onda nação das forças, num mais débil e transitório, porém mais
aumenta. Assim, por exemplo, no espectro do violeta ao verme- sutil, complexo e profundo, entrelaçamento cinético, dá à
lho, enquanto a frequência decresce dos 700 aos 450 trilhões de energia, elevada à vida, sua característica fundamental de
vibrações por segundo (decrescendo também o poder de refra- consciência (dimensão tempo que ascende à dimensão cons-
ção), o comprimento de onda aumenta respectivamente de 0,4 ciência). Individuam-se as formas de vida, tal como toda
(zona violeta) até 0,76 (vermelho). Esses são os limites dos forma de energia individuara-se num tipo bem definido, com
comprimentos de onda das radiações visíveis (a letra grega  fisionomia própria e com tendência a conservar-se em seu
significa mícron, isto é, um milésimo de milímetro). E continua modo de ser, como indivíduo que deseja afirmar-se e distin-
a aumentar na direção do infravermelho e das ondas elétricas, e guir-se de todos os afins, com movimento, forma, direção e,
a diminuir na direção do ultravioleta e raios X. portanto, com objetivo próprio: um eu que já possui os ele-
Se chegais aos 0,2 (ultravioleta) e ultrapassais o extre- mentos fundamentais da personalidade e, não obstante seu
mo ultravioleta, encontrareis os raios X. Ora, os raios X de contínuo devenir, conserva inalterado seu tipo. Nas formas
maior comprimento de onda são apenas raios ultravioletas e de vida, o princípio de individuação – depois que a Substân-
vice-versa. Estamos nos 0,0012. Continuando na outra ex- cia atingiu o mais alto grau de evolução e de diferenciação –
tremidade da série dos raios X, encontrais os raios , que são torna-se cada vez mais evidente. Na energia, as formas já
os mais duros e mais penetrantes, gerados pela desintegração conquistam uma existência própria independente de sua fon-
dos corpos radioativos. Alcançais, assim, o comprimento de te originária. A luz, uma vez lançada, destaca-se e existe
onda de 0,0005. progredindo de per si no espaço. Chega do infinito luz estelar
Na direção oposta, a onda aumenta. Além dos raios ver- emanada milhares de anos antes, sem que saibais se a estrela
melhos, a zona de radiações invisíveis do infravermelho vai que a originou sequer ainda existe. E o som continua, avan-
de um comprimento de 0,76 a 60 e além. Depois de uma ça e chega, quando a causa das vibrações já está em repouso.
zona inexplorada, aparecem radiações de comprimento ainda 11
maior, as ondas hertzianas, que vão de poucos milímetros Entropia, ou seja, nivelamento para o qual parece tenderem todos
os fenômenos. Assim compreende-se o que para os físicos é um
(milhares de ) a centenas e milhares de metros, como usais
enigma. Eles observaram o fenômeno e acreditam que continuará e
nas transmissões radiofônicas. terminará num nivelamento universal de todos os fenômenos, ao
Essa relação inversa, ou seja, tanto a decrescente rapidez passo que aqui vemos que sucede diversamente. (Isto foi aprofun-
vibratória como a progressiva extensão do comprimento de dado no volume A Nova Civilização do Terceiro Milênio, Cap.
onda, corresponde ao mesmo princípio de degradação de ener- XXV – “O Universal Dualismo Fenomênico”).
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 59
Se as formas de energia, uma vez geradas, sabem existir no cia assume novas formas; transforma-se lentamente em individu-
espaço pelo seu próprio princípio, na vida a autonomia é ações de grau mais alto. A dimensão espaço ascende à dimensão
completa. Assim como são parentes, pela comunidade de tempo. A matéria inicia uma transformação radical, doando todo
origem e pela afinidade de caracteres, as formas químicas e o seu movimento tipo  ao movimento tipo . O vórtice nuclear
depois as formas dinâmicas, de igual modo são parentes en- do éter desenvolveu na fase  o vórtice atômico da matéria. Che-
tre si as formas de vida, pela gênese e pelos caracteres, todas gando ao máximo da dilatação, esse vórtice continua a expandir-
fundidas com todos os seres existentes, orgânicos e inorgâ- se, desenvolvendo as formas dinâmicas, e nasce a energia. A
nicos, numa fraternidade universal. Irmandade substancial, Substância continua a evoluir, prosseguindo sua ascensão em .
constituída de igual matéria, idêntico modo de ser, do mes- A primeira emanação gravífica, de comprimento mínimo de on-
mo objetivo a atingir; fraternidade a que se deve a possibili- da, frequência vibratória e velocidade de propagação máximas no
dade da convivência, simbiose universal, e de todas as trocas sistema dinâmico, completa-se com a emanação radioativa da de-
da vida, que são sua condição. sintegração atômica. O processo de transformação dinâmica, que
Voltemos um olhar ao caminho percorrido.  concentrou tem suas raízes na evolução estequiogenética, isola-se, afirman-
seu íntimo movimento no núcleo, unidade constitutiva do éter. do-se decididamente. O vórtice atômico rompe-se, decompondo-
Neste ponto, o movimento de descida involutiva ou de concen- se por progressiva expulsão do sistema daqueles elétrons, que já
tração cinética, ou de condensação da Substância, inverte-se na nasceram para serem expulsos do sistema nuclear. Trata-se de
direção oposta, de subida evolutiva ou de descentralização ciné- um constante realizar-se daquilo que existia em potencialidade,
tica. O núcleo, síntese máxima de potencial dinâmico no ponto encerrado em germe por concentração de movimento. Nascem
 do transformismo fenomênico, restitui, por sucessiva novas espécies dinâmicas: depois da gravitação e da radioativi-
emissão de elétrons, a energia cinética concentrada. Percorra- dade, aparecem as radiações químicas, a luz, o calor, a eletricida-
mos a fase , assistindo ao desenvolvimento da série estequio- de, sempre em ordem de frequência vibratória decrescente e
genética. Se na química temos, como primeiro estágio, o hidro- comprimento de onda progressivo. A matéria, que viveu e não
gênio, na astronomia temos a nebulosa, isto é, matéria jovem e tem mais vida própria, responde ao impulso desse novo turbilhão
universo jovem – estado gasoso – estrelas quentes, fase ainda dinâmico que ela mesma gerou, sendo toda invadida e movimen-
de alta concentração dinâmica. Enquanto de um lado desenvol- tada por ele. Este é vosso atual universo: a matéria que está mor-
ve-se a árvore genealógica das espécies químicas, do outro evo- rendo, a energia em plena maturidade, a vida e a consciência jo-
lui a vida das estrelas, que envelhecem, resfriam-se, solidifi- vens, em vias de formação. Os cadáveres da matéria, já solidifi-
cam-se, assumindo constituição química, luz e espectro diferen- cada e sem vida própria, de formação química, lançados e susten-
tes, afastando-se do centro genético do sistema galáctico. Há tados nos espaços pela gravitação, inundados de radiações de toda
uma maturação paralela, integral, da substância e da forma. espécie, são apenas o sustentáculo de formas de existência mais
Noventa e dois elétrons são sucessivamente lançados fora da altas. Da eletricidade (a forma dinâmica mais madura), numa no-
órbita espiralóide nuclear, cada um deles continua a girar em va grande curva da evolução, nasce, e veremos como, a vida: ma-
sua órbita ligeiramente espiralóide; sucessivamente constroem- téria organizada como vida, ou seja, retomada num turbilhão ain-
se os edifícios atômicos, cada vez mais complexos, dos corpos
da mais alto. Vida, pequena centelha na origem, na qual continua
químicos indecompostos, segundo uma escala de pesos atômi-
a expansão evolucionista do princípio nuclear, atômico e dinâmi-
cos crescentes. Aqui se torna possível uma aproximação entre o
co (onda), numa forma cada vez mais complexa de coordenação
vórtice galáctico e o vórtice atômico. A gênese e o desenvol-
de partes, de especialização de funções, de organização de unida-
vimento do primeiro podem dar-vos um exemplo tangível da
des e de atividades; vida, cuja substância – significado, objetivo e
gênese e do desenvolvimento do segundo. Enquanto a energia
produto – é a criação da consciência: , o espírito. E da primeira
concentra-se no núcleo (éter) – centro genético das formas de 
célula se iniciará, através de miríades de formas, de tentativas, de
– paralelamente, o universo, na fase dinâmica, concentra-se na
fracassos e de vitórias, a lenta conquista que gradualmente triunfa-
nebulosa, mãe da expansão espiralóide galáctica. Inversamente,
rá no homem e dele, hoje, lança-se para as últimas fases do tercei-
as estrelas, durante o processo de sua evolução, projetam-se do
ro período de vossa evolução, que se resume na conquista da su-
centro à periferia, com velocidades progressivas à proporção
perconsciência e na realização biológica do Reino de Deus.
que envelhecem e se afastam desse centro. Isso ocorre com uma
técnica que coincide com a do desenvolvimento espiralóide do
átomo. Uma vez mais, os fenômenos confirmam a atuação da L. NAS FONTES DA VIDA
trajetória típica dos movimentos fenomênicos em seus dois
movimentos, involutivo e evolutivo. “...e o Espírito de Deus movia-se sobre as águas”.
Assim, do éter – último termo da descida de  – nasceu a ma- (Gênese – Cap. I)
téria, que, depois, por evolução atômica, atinge as espécies radio-
ativas. Primeiro os corpos de peso atômico menos elevado, de- Nova luz maravilhosa alvorece no horizonte do mundo fe-
pois os de peso atômico mais alto. Primeiro o magnésio, o silício, nomênico. No tépido regaço das águas, o planeta prepara-se
o cálcio; mais tarde aparecem os elementos mais sólidos, como para acolher o primeiro germe, princípio de novo modo de
prata, platina, ouro, menos jovens. Vós os encontrais no velho existir. O momento é solene. O universo assiste à gênese da
sistema solar, em sua parte mais solidificada e resfriada dele, os suprema maravilha, amadurecida em seu seio através de perí-
planetas. Os corpos simples, no estado gasoso, como hidrogênio, odos incomensuráveis de lenta preparação, quase consciente
oxigênio, nitrogênio, são mais raros em vosso globo. Aqui apare- do esforço titânico da Substância nascente, da qual brotará, no
ce a radioatividade, fenômeno tão difuso, que se configura como ponto culminante, a síntese máxima: a vida. Nasce a flor mais
uma função inerente à matéria, em vista do estágio em que se complexa e mais bela, em que mais límpido transparece o
encontra vosso planeta. Para o centro deste, onde a matéria man- conceito da Lei e o pensamento de Deus. Deus, sempre pre-
teve-se mais quente e está menos envelhecida, são mais raros os sente no âmago das coisas, aparece sempre mais evidente à
corpos radioativos, tanto que, apenas a 100 km de profundidade, proporção que se ascende; em sua progressiva manifestação,
a radioatividade quase desaparece. Depois de completada a ma- Deus aproxima-se de Sua criatura.
turação das formas de , ocorreu também uma expansão do vór- Ao eclodir da primeira centelha nos confins extremos do
tice galáctico, do centro à periferia, com o resfriamento e a soli- mundo dinâmico, saturado de passado e totalmente amadu-
dificação da matéria. Esta terminou o ciclo de vida, e a Substân- recido, o universo tremeu evocador e clarividente. A matéria
60 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
existira, a energia movimentara-se, mas somente a vida saberia telha espiritual que me anima integralmente? O homem Te
chorar ou alegrar-se, odiar ou amar, escolher e compreender, busca na Ciência, invoca-Te na dor, Te bendiz na alegria. Mas,
entender o universo e a Lei e pronunciar o nome de seu Pai: na grandiosidade de Tua potência, bem como na bondade de
Deus. Nasce a vida; não a forma que vedes, mas o princípio que Teu amor, estás sempre além, além de todo o pensamento hu-
por si criará aquela forma para si mesma, como veículo e meio mano, acima das formas e do devenir, um lampejo do infinito.
de ascensão. Naquele princípio, que animará a primeira massa “No ribombar da tempestade está Deus; na carícia do hu-
protoplasmática, existe o germe de todas as sucessivas e ilimi- milde está Deus; na evolução do turbilhão atômico, na arran-
tadas realizações da nova forma da Substância; para cima, su- cada das formas dinâmicas, na vitória da vida e do espírito, es-
bindo sempre, até às emoções e às paixões, permanece o germe tá Deus. Na alegria e na dor, na vida e na morte, no bem e no
do bem e do mal, de todo o vosso mundo ético e intelectual. A mal, está Deus; um Deus sem limites, que tudo abarca, estreita
fuga eletrônica de um raio de sol transformar-se-á em beleza e e domina, até mesmo as aparências dos contrários, que guia
alegria, sensação e consciência. para seus fins supremos.
Nosso caminho, alcançando a vida, atinge regiões cada vez “E o ser sobe, de forma em forma, ansioso por conhecer-Te,
mais altas. Desta exposição irrompe um hino de louvor ao Cria- buscando uma realização cada vez mais completa de Teu pen-
dor. Minha voz funde-se no canto imenso de toda a criação. Di- samento, tradução em ato de Tua essência.
ante do mistério que se realiza no momento supremo da gênese, a “Adoro-Te, supremo princípio do Todo, em Teu revestimen-
ciência torna-se mística expansão, a exposição árida incendeia-se to de matéria, em Tua manifestação de energia, no inexaurível
permeada pelo hálito do sublime; através da crua fenomenologia renovar-se de formas sempre novas e sempre belas; eu Te ado-
científica sopra o senso do divino. Diante das coisas supremas, ro, conceito sempre novo, bom e belo, inesgotável lei animado-
dos fenômenos decisivos, que somente aparecem nas grandes ra do universo. Adoro-Te grande Todo, ilimitado além de todos
curvas da evolução, os princípios racionais da ciência e os prin- os limites de meu ser.
cípios éticos das religiões fundem-se no mesmo lampejo de luz, “Nesta adoração, aniquilo-me e me alimento, humilho-me e
numa única verdade. Por que a verdade descoberta por vós, ra- me incendeio; fundo-me na Grande Unidade, coordeno-me na
cionalmente, deveria ser diferente da verdade que vos foi reve- grande lei, a fim de que minha ação seja sempre harmonia, as-
lada? Diante da última síntese, caem os antagonismos inúteis censão, oração, amor”.
do momento e de vosso espírito unilateral e cego. Cada verdade Orai assim, no silêncio das coisas, olhando sobretudo pa-
e concepção parcial tem que reentrar no todo: tanto a ciência ra o âmago que está dentro de vós. Orai com espírito puro,
quanto a fé, o que nasce do coração e da mente, a matemática com intenso arrebatamento, com poderosa fé, e a radiação
mais avançada e a mais alta aspiração mística, a matéria e o es- anímica, harmoniosamente sintonizada com grande vibração,
pírito; nenhuma realidade, por mais relativa que seja, pode ser invadirá os espaços. E ouvireis uma voz de conforto, que vos
excluída. Se a ciência é realidade substancial, como pode per- chegará do infinito.
manecer fora da síntese? Se o aspecto ético da vida é também
realidade substancial, como pode ser descuidado? Essas novas LI. CONCEITO SUBSTANCIAL DOS
concepções podem chocar vosso misoneísmo; tão grande salto FENÔMENOS BIOLÓGICOS
à frente talvez vos cause medo; esse conceito de Divindade po-
de encher-vos de desânimo, mais que de amor. Mas também A evolução das espécies dinâmicas trouxe-nos até à forma
tendes de admitir que, com isso, torna-se pequeno apenas o “eletricidade”, situada no mais alto nível, nas fronteiras da
conceito do homem em relação ao conceito de Deus, que se energia. Vimos que, substancialmente, a degradação dinâmica
agiganta além da medida. Isso poderá desagradar aos egoístas e não é senão evolução, isto é, passagem para as formas menos
aos soberbos, jamais às almas puras. poderosas e cinéticas, porém mais sutis, complexas e perfei-
No momento solene, volita nos espaços um hálito divino. tas. Vosso universo caminha visivelmente de um estado de
O pensamento, permeado pelo grande mistério, olha e reco- caos, que é apenas a fase de tensão da primeira explosão di-
lhe-se em oração. nâmica, para um estado final de ordem, ou seja, de equilíbrio
Orai assim: e coordenação de forças. Aquele é a fase de preparação, e este
“Adoro-te, recôndito eu do universo, alma do Todo, Meu o ambiente em que nasceu a vida. Em outras palavras, o fato
Pai e Pai de todas as coisas, minha respiração e respiração de de que a evolução dinâmica atingiu a forma eletricidade, sig-
todas as coisas. nifica formação de um ambiente mais equilibrado, onde é pos-
“Adoro-te, indestrutível essência, sempre presente no espa- sível aquela nova ordem (isto é, coordenação e organização
ço, no tempo e além, no infinito. superior de forças) a que denominais vida. Essa nova ordem
“Pai, amo-te, mesmo quando Tua respiração é dor, porque se aperfeiçoará cada vez mais, em prosseguimento ao cami-
Tua dor é amor; mesmo quando Tua Lei é esforço, porque o es- nho evolutivo já percorrido, para coordenações e organizações
forço que tua Lei impõe é o caminho das ascensões humanas. mais complexas e completas: orgânicas, psíquicas e sociais,
“Pai, mergulho em tua potência, nela repouso e me aban- pois, com a vida, inicia-se também a manifestação de suas leis
dono, peço à fonte o alimento que me sustente. e de seus equilíbrios superiores, que dirigirão, nos níveis mais
“Procuro-te no âmago, onde Tu estás e de onde me atrais. altos, também vossa existência individual e coletiva.
Sinto-Te no infinito, que não atinjo e donde me chamas. Não Como ocorre a transformação da eletricidade em vida?
Te vejo e, no entanto, ofuscas-me com Tua luz; não Te ouço, Compreende-se essa passagem pela redução do fenômeno, co-
mas sinto o tom de Tua Voz; não sei onde estais, mas encon- mo o fizemos para as formas de  à sua substância ou ínti-
tro-Te a cada passo; esqueço-Te e Te ignoro, no entanto ou- ma estrutura cinética. Desde as primeiras fases da vida, o ritmo
ço-Te em toda a minha palpitação. Não sei individuar-Te, dinâmico transforma-se em outros ritmos, que se fundem em
mas gravito em torno de Ti, como gravitam todas as coisas harmonias mais complexas, em verdadeira sinfonia de movi-
em busca de Ti, centro do universo. mentos. A matéria vos deu o princípio estático da forma; a
“Potência invisível que rege os mundos e as vidas, Tu estás, energia, o princípio dinâmico da trajetória e transmissão; a vida
em Tua essência, acima de toda a minha concepção. Que serás vos dará o princípio psíquico do organismo e da consciência.
Tu, que não sei descrever nem definir, se apenas o reflexo de Uma primeira observação fundamental: o modo pelo qual
Tuas obras me enceguece? Que serás Tu, se já me assombra a in- colocamos o problema do ser, com o transformismo 
comensurável complexidade desta Tua emanação, pequena cen- isto é, como um fisio-dínamo-psiquismo, nos leva a uma con-
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 61
cepção de vida diferente da vossa, muito mais substancial. Ge- LII. DESENVOLVIMENTO DO
ralmente, procurais a vida em seus efeitos, não em suas causas; PRINCÍPIO CINÉTICO DA SUBSTÂNCIA
na forma, não no princípio. Conheceis da vida as últimas con-
sequências e descurastes, a priori e de propósito, o centro gera- A vida é um impulso íntimo. Temos de estudar a gênese
dor. Tivestes até a ilusão de poder reproduzir a gênese dos pro- desse impulso. Precisamos nos referir ao que dissemos no estu-
cessos vitais, provocando os fenômenos últimos e mais afasta- do da cosmogonia atômica e dinâmica. Vimos lá que a substân-
dos da causa determinante. Ora, a verdadeira vida não é uma cia da evolução é a expansão de um princípio cinético que se
síntese de substâncias proteicas, mas consiste no princípio que dilata continuamente, do centro à periferia; uma extrinsecação
estabelece e dirige essa síntese; a vida não reside na evolução de movimento que passa do estado potencial ao estado atual;
das formas, mas na evolução do centro imaterial que as anima; uma causa que permanece idêntica a si mesma, embora produ-
a vida não está na química complexa do mundo orgânico, mas zindo seu efeito. As infinitas possibilidades concentradas num
no psiquismo que a guia. processo involutivo precedente manifestam-se nesse inverso e
Observai, agora, como nosso ingresso no mundo biológico compensador movimento centrífugo evolutivo. Vossas fases, 
ocorre precisamente por via das formas dinâmicas. Com a ele-  , são apenas três zonas contíguas desse processo de descen-
tricidade, situada no vértice destas, desembocamos não na for- tralização. Vossa evolução atual está suspensa entre centro e
ma, mas no princípio da vida, no motor genético das formas, e periferia: dois infinitos. Somente colocados assim, como subs-
isto porque caminhamos sempre aderentes à substância e per- tância cinética da evolução, reduzidos a seu último termo, os
manecemos no âmago dos fenômenos, onde está sua essência. fenômenos são compreensíveis e analisáveis. O movimento as-
Leva-nos este fato a uma colocação nova para vós do problema sume formas diferentes, e cada forma é um grau, uma fase da
da vida, conduzindo a uma completa compreensão de seu as- evolução, um modo de ser da Substância. No âmago existe o
pecto profundo e substancial (o lado psíquico e espiritual), e is- movimento, e, quando a Substância muda sua trajetória, exterio-
to desde o primeiro aparecimento dos mais elementares fenô- riza-se à vossa percepção uma correspondente mudança de
menos biológicos, em que já está presente, embora de forma forma: o movimento assume uma roupagem diferente. No fun-
rudimentar, aquele psiquismo. A nossa biologia é de substân- do, isso é apenas a expressão do pensamento de Deus.
cia, não de forma. Alcançamos não a veste orgânica mutável, Para que o impulso proveniente do centro possa atingir a pe-
mas o princípio que não morre; não a aparência exterior dos riferia e deslocar de uma fase o sistema dinâmico de vosso uni-
corpos físicos, mas a realidade que os anima; não o que sai, verso, é necessário que atravesse as fases intermediárias e se
mas o que fica; não o indivíduo nem as espécies em que as apresente ao limiar de novo período, como produto e última
formas se reagrupam e se encadeiam em desenvolvimentos or- elaboração cinética dessas fases. Tal como a energia, logo que
gânicos, mas a expansão do conceito dirigente do fenômeno do nasceu, dirigiu-se de imediato para a matéria, a fim de movê-la,
psiquismo que vos preside; não a evolução dos órgãos, mas a animá-la e fecundá-la com seu impulso dinâmico e elevá-la pa-
evolução do eu que os melhora e os plasma para si, como meios ra uma vida mais intensa, assim também a vida, filha da ener-
para a própria ascensão. Vista assim, em sua luz interior, a bio- gia, volta-se subitamente para trás, em direção à matéria, a fim
logia coincide, também na análise crua de suas forças motrizes, de arrastá-la para novo turbilhão de trocas químicas, antes igno-
com o mais alto espiritualismo das religiões. Isto se dá porque radas por ela. Isso para que a trindade das formas possa fundir-
as vicissitudes do princípio psíquico que evolui da ameba ao se numa unidade e seja profunda a maturação de cada fase. Por
homem são as mesmas que depois amadurecem na ascensão es- isso o movimento anterior é retomado pelo movimento da fase
piritual da consciência que se eleva a Deus pela fé. A pequena sucessiva, melhorado, aprofundado, aperfeiçoado, amadureci-
centelha, pois, se tornará incêndio; o primeiro vagido tímido se- do. É o novo impulso, máxima manifestação dinâmica, que se
rá o canto potente de todo o planeta. Aqui vedes, chegando à dobra sobre a estrutura atômica e se reveste dessa manifesta-
completa e harmônica fusão, os princípios das religiões e os ção. Esse conúbio é necessário para que a nova forma, , en-
métodos do materialismo; vedes reunida a aspiração, ainda que contre sua manifestação e os movimentos de  sejam levados a
cindida, do espírito humano. um grau maior de perfeição. Assim o psiquismo da vida se ma-
As três fases de vosso universo são   . A passagem nifesta por meio de combinações da química, elevada, porém,
ocorre da matéria () para a energia () e para o espírito (). As ao grau mais alto de química orgânica.
formas dinâmicas se abrem por evolução, não na vida como a A expansão cinética do impulso central significa, portanto,
entendeis, mas no psiquismo, que é a causa dessa vida. Assim, uma retomada de todos os movimentos precedentes, uma re-
o fenômeno da vida assume um conteúdo totalmente novo, um construção de todos os equilíbrios já constituídos. Tudo o que
significado imensamente mais alto, e, ao mesmo tempo, não fi- nasce tem que renascer cada vez mais profundamente. Em
ca isolado, mas se concatena com os fenômenos da matéria e nova manifestação desse princípio do psiquismo, a matéria
energia. Podemos investigar a gênese científica do princípio es- revive, fecundada por um poder de direção e de escolha que
piritual da vida sem minimizar com isso, de modo algum, a lhe penetra a íntima estrutura e a permeia toda com uma febre
grandeza e a profundidade divina do fenômeno. A energia é o de vida nova. A nova potência que nasceu de , compõe para
sopro divino que anima a matéria, elevando-a a nível mais alto. si, das formas já surgidas e elaboradas da matéria, um corpo
O Pentateuco, no capítulo II da Gênese, diz: de que ela é a alma e em cujo íntimo ela age. A matéria e a
“O Senhor Deus, então, formou o homem da lama da ter- energia tornam-se meios externos, dominados e guiados por
ra e soprou-lhe na face o sopro da vida, e o homem foi feito esse movimento de ordem superior. Só por esse caminho,
alma vivente”. através desse elaborado trabalho de íntima e profunda matura-
A lama da terra é a matéria inerte, os materiais químicos do ção da matéria e da energia, isto é, complexidade e aperfeiço-
mundo inorgânico. O grande hálito que move e vivifica a maté- amento dos movimentos e dos equilíbrios da Substância, o
ria cósmica – isto é: “”, alma, espírito, paixão, turbilhão princípio do psiquismo se expande e atua no mundo dos efei-
– não é apenas acrescentada a ela, mas funde-se com ela. Sa- tos e realizações, fixando sua marca na caminhada evolutiva.
bemos que Deus não é potência exterior, mas reside no íntimo Para que o princípio possa estabilizar-se nesta zona periféri-
das coisas e no íntimo opera profundamente, na essência. Não ca das manifestações, tem que se refazer nas zonas interme-
atribuais corpo e hálito à Divindade. Compreendei que naquelas diárias, fundir o próprio movimento nos seus movimentos,
palavras não pode existir mais do que uma humanização simbó- aperfeiçoá-los, arrastando, com o próprio impulso, as suas tra-
lica de uma realidade mais profunda. jetórias para novos tipos e novas direções. Assim, a matéria é
62 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
novamente trazida para a circulação e erguida como sustenta- Então, somente um trem de elétrons constituído de energia
ção de nova manifestação. É por meio desse amplexo e dessa elétrica extremamente degradada, isto é, somente  quando
fusão, é por intermédio dessa ajuda, pela qual o mais estende- chegou ao último limite evolutivo de suas espécies dinâmi-
se para o menos, que se avança. O movimento, fazendo-as cas, pode trazer mudanças radicais à íntima estrutura do
evoluir e aperfeiçoando-lhes o equilíbrio, jamais abandona as átomo; mudanças não casuais, desordenadas, caóticas, mas
construções já estabelecidas. A evolução é íntima, universal. produzidas por nova ordem de movimentos, mais complexa
Não admite armazenamento de materiais de refugo. Essa re- e profunda. Os deslocamentos cinéticos da Substância obe-
tomada sempre em circulação ascensional constitui a natureza decem constantemente a uma lei de equilíbrio e são resultan-
daquela maturação cinética da Substância, é a essência da tes de impulsos precedentes; constituem sempre uma ordem
evolução. Somente agora podeis alcançar a visão completa da perfeita, em que estão equilibradas ação e reação, causa e
estrutura cinética da Substância. efeito. Isto se verificou na projeção dos elétrons na desinte-
gração atômica radioativa (gênese da energia), e isto se veri-
LIII. GÊNESE DOS MOVIMENTOS VORTICOSOS fica, agora, nos deslocamentos interatômicos devidos à ação
dos novos elétrons que chegaram.
Exposta a questão em seus termos gerais, vejamos agora, Detenhamo-nos um momento nesta reaproximação entre ele-
mais particularmente, que mudanças assume o movimento no tricidade e vida, para compreender exatamente porque essa força
ponto de passagem de  a . Vimos, em , que, ao abrirem-se as está colocada no início da nova manifestação. Sabeis que o equi-
órbitas dos elétrons, estes escapolem delas, gerando . Vimos, líbrio interno do átomo e as órbitas de seu sistema planetário são
em , a onda extinguir-se com a progressiva extensão de seu regidos por atrações e repulsões de caráter elétrico; é o balance-
comprimento e diminuição da frequência vibratória. Na última amento entre esses impulsos e contraimpulsos que lhe mantém a
fase de degradação, a onda tenderia a tornar-se retilínea, porém, estrutura numa condição de estase exterior. Nada, pois, é tão
na natureza, qualquer reta é uma curva, assim como toda trajetó- apropriado para deslocar o equilíbrio do sistema e penetrar nesse
ria circular é uma espiral que se abre ou se fecha. Vejamos, ago- movimento quanto a intervenção de um novo impulso ou ação de
ra, como esta onda amortecida penetra no edifício atômico. natureza elétrica. Assim, a eletricidade enxerta-se na vida e a en-
O princípio cinético da vida é único em vosso universo, contrareis sempre presente, especialmente se a considerais, co-
constituído pela forma dinâmica (eletricidade) na última fase de mo vos disse, em seu íntimo dinamismo motor. Embora aperfei-
degradação. Em virtude da natureza da energia, que está em çoando-se, como tudo se aperfeiçoa por evolução, isto é, adqui-
contínua expansão no espaço, o princípio da vida difunde-se rindo em qualidade o que perde em quantidade – por uma degra-
por toda a parte, tal como a luz e as outras formas dinâmicas. dação paralela à dinâmica, que já vimos – ainda assim subsiste
Ele propaga-se como forma vibratória, até que encontre uma sempre na vida a fonte original de natureza elétrica. Ela origina
resistência numa aglomeração de massa. Assim, a energia que, todos os fenômenos nervosos que guiam e sustentam o funcio-
por sua natureza, espalhou-se nos espaços e, portanto, é onipre- namento orgânico. Precisamente na base da vida existe um sis-
sente, atinge qualquer condensação de matéria. Então, penetra tema elétrico de fundamental importância, que preside a tudo. A
na íntima estrutura planetária justamente porque é a direção re- eletricidade permanece sempre como centro animador e substân-
tilínea que possui o máximo poder de penetração. As trajetórias cia interior da vida, da qual ela assume sempre a função central
cinéticas apresentam respostas diferentes a essa penetração ele- diretora, a mais importante. Essa sobrevivência em posição tão
trônica, de acordo com seu tipo de natureza. O primeiro germe conspícua bastaria para demonstrar a parte substancial que a ele-
da vida, por isso, é universal e idêntico, sempre aguardando de- tricidade deve ter tido na gênese e no desenvolvimento da vida.
senvolvimento; um desenvolvimento que só chegará a realizar- E, ainda quando atinge as formas de magnetismo, vontade, pen-
se quando se verificarem circunstâncias favoráveis; um desen- samento e consciência, permanece o mesmo princípio, embora
volvimento que, embora partindo do mesmo princípio, manifes- alçado às fases de máxima complexidade. Trata-se, verdadeira-
tar-se-á diferentemente, de acordo com as diferentes condições mente, da continuação do mesmo processo de degradação, que se
do ambiente. Onde  toca em , esta exulta num novo girar ín- estende das formas dinâmicas até às formas psíquicas.
timo; onde  une-se a , nasce , a vida (princípio de dualidade Quando num sistema rotatório sobrevém nova força, esta se
e trindade). Conforme a natureza e reações da matéria, varia o introduz no sistema e tende a somar-se e a fundir-se no tipo de
fenômeno, e aparecem, enfim, as diferentes manifestações do movimento circular preexistente. Podeis imaginar que complica-
mesmo e único princípio universal. ções profundas ocorrem no entrelaçamento já complexo das for-
Que perturbação ocorre, então, no edifício atômico? Vi- ças atrativo-repulsivas. O simples movimento circular agiganta-
mos que, na desagregação da matéria, um trem de elétrons é se num movimento vorticoso mais complexo. Pela emissão de
sucessivamente lançado fora do sistema planetário atômico novos elétrons, o movimento não apenas complica sua estrutura,
em demolição, e isso constitui justamente a gênese das for- mas se reforça, alimentado por novos impulsos. Ao invés de um
mas dinâmicas. Quando esse trem de unidades que se impe- sistema planetário, tereis nova unidade, que vos recorda os rede-
lem mutuamente atinge, como uma flecha, o equilíbrio nor- moinhos de água, as trombas marinhas, os turbilhões e ciclones.
mal atômico, produzido pelo girar das órbitas eletrônicas em O princípio cinético de , assim, é retomado por , numa forma
redor do núcleo, o edifício atômico fica profundamente per- vorticosa muito mais complexa e poderosa. Nasce, dessa forma,
turbado. Esse fenômeno só pode verificar-se quando  tenha nova individuação da substância, desta vez verdadeiro organismo
atingido seu grau máximo de evolução, isto é, de degradação cinético, em que todas as criações, conquistas, ou seja, trajetórias
dinâmica (mínima frequência vibratória e máximo compri- e equilíbrios precedentemente constituídos, subsistem, mas coor-
mento de onda), porque os tipos dinâmicos, enquanto não denando-se. Veremos como o tipo dinâmico do vórtice contém,
assumem a forma vibratória ondulatória, não têm suficiente em embrião, todas as características fundamentais da individua-
potência de penetração, e deles não pode nascer a vida. En- ção orgânica e do eu pessoal. Nesta nova forma de movimento,
tão o momento da gênese é dado por um equilíbrio exato de organização de sistemas planetários e coordenação complexa de
forças. Pelas resultantes desse equilíbrio é dado o desenvol- forças, na própria instabilidade da nova construção, na rapidez
vimento da vida e de suas formas. Como vimos ser a química das contínuas trocas com o ambiente e em seu mais intenso de-
inorgânica reduzível a um cálculo matemático de mecânica venir de equilíbrios, que, mesmo mudando, sempre reencontram
astronômica, assim é a constituição íntima da vida, embora seu fio condutor, revela-se aquele psiquismo, o mais requintado
resultante de sistemas de forças extremamente mais complexos. dinamismo com que a energia surge na vida. Princípio novo, mas
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 63
filho dos precedentes; simples expansão de potências concentra- cado importante. A radiação eletrônica pode atacar todos os
das no estado de latência; novo modo de existir da Substância, átomos, mas os mais leves são mais rápidos a obedecer; essa
que atingiu a periferia das manifestações. capacidade receptiva vigora em razão inversa de seu peso
A primeira expressão de  assume, então, a forma do vórtice. atômico. Escalonando os corpos simples de acordo com o pe-
O tipo do movimento do átomo físico combina-se consigo mes- so atômico progressivo, como na série estequiogenética, veri-
mo em movimentos mais complexos, por obra da nova imissão ficais que é máxima para os pesos atômicos mínimos, e míni-
dinâmica. O termo sânscrito “Vivartha” significa exatamente es- ma para os pesos atômicos máximos, a capacidade desses
se processo, que, desde a concepção hindu até às mais modernas corpos simples de ficarem ligados em círculo. Ou seja, de se-
hipóteses científicas, exprime a substância dos fenômenos do rem transportados, através do turbilhão vital, numa vida bre-
universo12. Mas a essência de  não é o vórtice. Este é apenas ve, imensamente mais rápida e intensa do que sua própria vi-
sua manifestação, a forma exterior de que se reveste aquele prin- da, o que significa receber no próprio âmbito cinético a radia-
cípio imaterial. O espírito, , está na Substância, e esta é movi- ção eletrônica que lhe intensifica o ritmo.
mento (velocidade), é aquilo que movimenta, guia, anima e diri- Por que, então, o peso atômico é base da escolha dos mate-
ge o vórtice, sem o qual este perderia seu tipo, sua resistência e riais de sustentação da vida? Porque o trem eletrônico encon-
se extinguiria, reabsorvido no indiferenciado. Não o encontrais e, trará menor resistência para penetrar nos sistemas atômicos
portanto, não podeis observar senão fenômenos, isto é, efeitos, mais simples, com uns poucos elétrons, do que naqueles mais
manifestações. Somente podeis tocar a exteriorização do princí- complexos, com muitíssimas órbitas eletrônicas. Vimos que, do
pio e, apenas a partir dela, podeis penetrar o centro e encontrar a H ao U, o aumento de peso atômico significa progressiva saída
causa. Digo isto a fim de evitar dúvidas e mal-entendidos. Se  já do núcleo e estabilização nas órbitas de sempre novos elétrons,
o era,  é muito mais um princípio absolutamente imaterial, que até ao máximo de 92, além do qual o sistema atômico se desa-
permanece sempre distinto da matéria, embora a anime e a mova grega. É óbvio que as radiações de um sistema cinético mais
de seu centro. Aliás, já vos disse que a matéria é velocidade e que rudimentar sejam mais fracas do que a dos mais complexos, e
o átomo, como o elétron, é um sistema de forças; então não se que seja mais fácil transformar o equilíbrio dos movimentos no
pode entender por vórtice, mesmo no sentido mais material, se- primeiro caso do que no segundo. Os sistemas planetários mais
não um movimento que arrasta consigo outros movimentos. Por- simples, menos numerosos de satélites, deixar-se-ão plasmar
mais facilmente em novas trajetórias do que os sistemas den-
tanto vosso separatismo, que divide corpo e espírito, não tem
sos de elétrons, que turbilhonam em movimentos mais inten-
sentido, especialmente como antagonismo. Trata-se apenas de
sos. Quanto maior o número de elétrons, maiores serão a mas-
dois polos do ser, de dois extremos que se comunicam por cons-
sa e a inércia, isto é, a resistência a absorverem impulsos ex-
tantes trocas e contatos, de uma zona de trajetória em caminho.
ternos. Esses íntimos deslocamentos cinéticos constituem a
Vossos conceitos habituais não têm mais nenhum significado
substância do fenômeno da transmutação da matéria inorgânica
quando se olha no âmago das coisas. Se me perguntardes porque
em orgânica, reduzível em sua essência, como já dissemos, a
, o espírito, manifesta-se nesse momento do transformismo
um cálculo de forças. Essas concordâncias são uma prova de
evolutivo e que relações pode ter a origem dos movimentos
que o fenômeno “vida” é, substancialmente, a resultante de
vorticosos com o surgimento da consciência, dir-vos-ei que, se uma assimilação pelo sistema atômico de um movimento ele-
a fase  conquistou a dimensão tempo, agora a imersão do mo- trônico, justamente porque os elétrons do átomo oferecem uma
vimento de  no movimento de  representa a construção de resistência proporcional a seu número. Aí está uma confirma-
edifícios, verdadeiros organismos dinâmicos, que constituem as ção da teoria cinética da gênese da vida.
manifestações de novo princípio de coordenação e direção de Se observarmos como se comportam os corpos simples, não
movimentos. Isso significa a gênese da nova dimensão consci- mais – como já vimos – na química inorgânica, mas na química
ência. A consciência, que hoje é de superfície e análise, trans- orgânica, ou seja, a maneira como eles são admitidos e tolera-
formar-se-á num organismo ainda mais complexo de movimen- dos no organismo vivo, veremos que H, C, N e O (a que corres-
tos vorticosos, animando-se de nova potência: a dimensão su- pondem os pesos atômicos 1, 12, 14 e 16, os mais baixos da es-
perconsciência sintética de intuição, a dimensão volumétrica, cala) são os corpos fundamentais da vida, bem como são tam-
máxima de vosso sistema. Então a matéria se desmaterializará bém os mais largamente difusos na atmosfera, onde nasce a vi-
de sua forma atômica e o ser sobreviverá além do fim de vosso da em vosso planeta no período da gênese vital: hidrogênio,
universo físico e de suas dimensões. carbono, nitrogênio e oxigênio, no estado de vapor de água,
H2O; de gás carbônico, CO2; e no estado livre, N e O1.
LIV. A TEORIA CINÉTICA DA GÊNESE DA VIDA E Vêm depois os corpos sucedâneos dos fundamentais, que
OS PESOS ATÔMICOS podem substituí-los parcialmente e são aceitos em doses mode-
radas. Seu peso atômico não ultrapassa 60, e temos em ordem
Procuremos pesquisar na realidade dos fenômenos alguns de peso atômico: lítio2 (Li=7); boro5 (Bo=11); flúor (Fl=19);
efeitos desta íntima transformação de movimento, da qual nasce sódio (Na=23); magnésio (Mg=24); silício (Si=28); fósforo
a vida e se manifesta seu psiquismo: a transformação da quími- (P=31); enxofre (S=32); cloro (Cl=35,5); potássio (K=39); cál-
ca inorgânica em química orgânica. Neste campo existem fatos cio (Ca=40); alumínio3 (Al2=27,1); manganês4 (Mn=55); ferro4
que podem demonstrar-vos a realidade daquela que podeis to- (Fe=56); níquel5 (58,5); cobalto5 (Co=58,7).
mar como teoria cinética da gênese da vida, compreendida Seguem-se os corpos que, mesmo entrando para fazer
como manifestação devida a uma imissão de radiações dinâmi- parte da vida orgânica, não são aceitos senão em doses pe-
cas de composição eletrônica no sistema planetário atômico. queníssimas. Seu peso atômico não ultrapassa 137 e, de
Nem todos os átomos reagem igualmente ao mesmo impulso; acordo com seu peso, estão na seguinte ordem: cobre 7
nem todos estão igualmente prontos para serem arrastados no (Cu=63,5); zinco 7 (Zn=65,4); arsênico 10 (As=75); bromo 6
ciclo da vida. A resistência à penetração eletrônica não é (Br=80); rubídio 8 (Ru=85,5); estrôncio 9 (Sr=87,6); iodo 6
constante para os vários corpos simples, mas muda exatamen- (I=127); bário 9 (Ba=137,4).
te de acordo com o seu peso atômico. Este fato tem um signifi- Se continuarmos ainda a subir até aos mais altos graus na
escala dos pesos atômicos, verificaremos que os corpos que aí
12
Reveja a trajetória típica dos movimentos fenomênicos, no encontramos normalmente não se encontram nos organismos
Capítulo 26. e, se têm ingresso no ciclo vital, só são tolerados em doses míni-
64 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
mas (isto é fundamental também em seu uso terapêutico). Te- cadeia. Eis porque apenas a onda degradada pode gerar nos
mos: selênio (Se=79); prata (Ag=108); estanho (Sn=118); an- amontoados de átomos o vórtice genético da vida.
timônio (Sb=122); telúrio (Te=127); platina (Pt=195); ouro Ora, esse eixo do vórtice representará, na vida, a linha de
(Au=197); mercúrio (Hg=200); chumbo (Pb=207). metabolismo, função universal e fundamental do mundo orgâni-
Chegamos, enfim, aos pesos atômicos máximos, dos corpos co. A direção do contínuo processo de assimilação e desassimila-
radioativos, utilizáveis terapeuticamente pelo dinamismo de su- ção é a própria direção da onda, provocada por aquele impulso
as radiações, mas sem propriedades biológicas intrínsecas. A que vimos ser irreversível. Na vida, o metabolismo é a expressão
instabilidade de seu equilíbrio interior representa um sistema da linha irreversível da evolução. Vede como nenhuma caracte-
atômico em desfazimento, que foge para as formas dinâmicas e rística, mesmo a mais embrionária e longínqua, destrói-se; ao
é o menos apto para ser retomado nas coordenações cinéticas contrário, em cada uma delas está contido o germe dos grandes
de ordem mais complexa. A emanação eletrônica desses cor- desenvolvimentos. O mundo dinâmico de  contém, tal qual a
pos, embora possa excitar no átomo a aptidão para entrar no ci- semente, todo o desenvolvimento da vida, todas as notas funda-
clo vital, fica sempre por fora dele. Para poder penetrá-lo, tem mentais da grande sinfonia. Aquela simples trajetória ou direção
que primeiro atravessar toda a maturação das formas dinâmicas, se desenvolverá numa individualidade e personalidade, com um
até ao máximo de degradação. Temos, pois: polônio (Po=210); princípio diretor, objetivando o psiquismo. Notai também como a
rádio (Ra=226); tório (Th=232,4); urânio (U=238), ou seja, os imissão dinâmica corresponde à contínua reorganização das uni-
corpos de sistema atômico mais complexo, com órbitas mais dades menores em superiores unidades coletivas (lei das unida-
numerosas, os mais resistentes a qualquer penetração cinética, des múltiplas). Com efeito, temos aqui não mais amontoados ou
justamente porque essas órbitas são lançadas e abrem-se na pe- aglomerações, mas organismos de átomos. Notai como nesta re-
riferia, em direção exatamente contrária ao trem superveniente organização mais ampla acentua-se o desenvolvimento das notá-
de radiações elétricas de onda degradada. veis características embrionárias das formas inferiores. Aqui
também encontrais a linha dos ciclos múltiplos (cfr. fig. 5), que
LV. TEORIA DOS MOVIMENTOS VORTICOSOS vos ensina que o ciclo maior é apenas a resultante do desenvol-
vimento dos ciclos menores. Neste caso, a realização orgânica é
Vimos como o trem eletrônico da onda dinâmica degradada somente o produto do amadurecimento atômico (estequiogenéti-
atinge o edifício atômico, penetra-o e desloca-lhe o equilíbrio ca, ou seja, desenvolvimento dos sistemas planetários nucleares
íntimo, e como, por essa imissão dinâmica, o sistema planetário ou eletrônicos). Visto assim, em seu íntimo, o universo se vos
de forças se transforma num sistema vorticoso. Este é o germe apresenta, a cada passo, de divina grandiosidade.
da vida em sua estrutura cinética. Observemos-lhe a complexa
Individuado, o eixo do sistema vorticoso apresenta-se-vos
constituição e sua resposta à realidade dos fenômenos daquela
com características especiais. Podeis imaginar que potência ciné-
que, como vos disse, poderia ser tomada como teoria cinética
tica ele encerra, pois é uma cadeia de núcleos em redor dos quais
da vida, ou teoria dos movimentos vorticosos, colocando-a co-
continuam a gravitar e a girar os elétrons, a cujas atrações e re-
mo base da química orgânica (química cinética).
pulsões somaram-se as dos elétrons recém-chegados da onda de-
Antes de tudo, observai minha colocação do problema da
gradada de . Assim, o eixo do sistema tem duas extremidades,
vida, totalmente diferente da ciência. Esta procura, na evolu-
caracterizadas por qualidades diferentes: uma delas, polo positivo
ção, a origem das formas. Eu, ao invés, exponho a origem dos
princípios, a causa pela qual as formas são modeladas como ou de penetração ou de ataque (pelo qual se propaga o movi-
última consequência. Por aí se conclui que, enquanto a ciência mento), e a outra, polo negativo, final ou de separação (no qual
se move na multiplicidade dos efeitos e fica do lado de fora o movimento se extingue). A linha de propagação da energia, que
dos fenômenos, eu atinjo a unidade e penetro no âmago das se torna eletricidade, sinal + e –, está para tornar-se vida, o prin-
causas. É lógico que, alcançando a substância dos fenômenos, cípio do nascimento e da morte. Como vedes, sistema aberto e
a química deva transformar-se, até atingir a abstração filosófi- em contínuo movimento. Eis donde nascem a rapidez do metabo-
ca. Também é lógico que vossa ciência, evoluindo de sua atu- lismo e a instabilidade química, que são características funda-
al forma exterior e de superfície até à mais completa forma de mentais dos fenômenos da vida. Somente a infusão do princípio
ciência substancial e profunda, deva transformar-se em ciên- dinâmico de  no princípio estático de  podia produzir esse ter-
cia abstrata, aproximando-se daquela unidade fundamental em ceiro princípio psíquico de . A matéria  apenas conquistara a
que os conceitos da matemática, da filosofia, da química, da dimensão espaço, e  apenas a dimensão tempo; somente da fu-
biologia etc., são uma só coisa. Aprofundemos, pois, o pro- são das duas dimensões podia nascer a terceira: a consciência.
blema da gênese dos princípios da vida. Este é o primeiro sistema cinético atingido pela Substância que,
Sabeis que os vórtices giram em torno de um eixo e que é sendo aberto e em movimento, distingue o interno do externo, ou
em redor desse centro múltiplo que se desloca a série dos seja, contém o princípio da distinção entre o eu e o ambiente,
equilíbrios instáveis do sistema. Esses equilíbrios, funda- afirmando sua individualidade, e projeta-se para o exterior, para
mentalmente diferentes daqueles do sistema atômico, reno- fora de si, ato fundamental, base da percepção e do desenvolvi-
vam-se continuamente, a cada instante demolindo-se e re- mento da consciência. Nessa capacidade do sistema vorticoso de
construindo-se. O eixo é a alma do sistema atômico vital, projetar-se para fora de si e, portanto, de combinar os próprios
assim como o núcleo é a alma do sistema atômico inorgâni- movimentos com os de outros sistemas vizinhos e de sentir-lhes
co. Quando um trem eletrônico atinge um átomo depois do o influxo, nessa receptividade cinética, nessa possibilidade de as-
outro, não altera apenas a trajetória dos satélites do sistema, similação de impulsos externos, existe o germe daquele contínuo
mas atinge os núcleos, e estes, que até então eram centros de registro e assimilação de impressões, que está na base do desen-
sistemas separados, são agora fundidos em cadeia, num sis- volvimento da consciência. Veremos como esta se dilata conti-
tema cinético único. Já se começam a entrever as primeiras nuamente. Aquilo que desce ao âmago do eu e aí se fixa em au-
características do novo organismo de forças, as características tomatismos, que mais tarde serão os instintos, é apenas o impulso
fundamentais da vida. A penetração eletrônica quebrou os sis- de uma força que se fixa, absorvida nos equilíbrios do sistema
temas dinâmicos fechados dos átomos e combinou-os juntos cinético-dinâmico do vórtice vital. Este é instável e mutável, po-
num sistema dinâmico múltiplo aberto. A linha e a direção do rém tudo que tenha uma ação constante, nele penetra e também
eixo são geradas e governadas pela onda degradada que, pro- se fixa nessa instabilidade, que não é caos, mas apenas um equi-
pagando-se no espaço, encontra um aglomerado de átomos e líbrio mais complexo, resultante de miríades de equilíbrios me-
lhes arrasta os sistemas eletrônicos, equilibrando os núcleos em nores. É importante pesquisar nas formas inferiores os germes e a
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 65
primeira gênese também das mais altas formas de vosso psi- ros rudimentos daquele psiquismo (sua meta) que no homem
quismo, porque nesse fundamento científico e racional basearei atingirá sua autonomia, é dinamismo intenso, produzido por con-
minhas conclusões nos campos do mundo ético e social, que, tínuo e complexo decompor-se e recompor-se da matéria em
mesmo parecendo estar muito longe, encontram-se próximos combinações químicas fugacíssimas. Dentro desse dinamismo, as
daquelas. Vede que a íntima elaboração evolutiva, ou descen- substâncias são tomadas e levadas através do organismo, são ab-
tralização do princípio cinético da Substância, ou manifestação sorvidas, assimiladas, fundidas na palpitação vital e, depois de
da Divindade, desenvolve-se de uma simples trajetória dinâmi- haver demorado nele, são eliminadas. Sua passagem pelo ciclo
ca, dirigida de um polo + a um polo –, à linha do metabolismo orgânico é, para essas substâncias, uma espécie de febre, de cor-
orgânico, primeiro construtor de corpos, e depois à linha do rida insólita, da qual escapam para repousar em seu equilíbrio
metabolismo psíquico, construtor de almas. Nessa fusão de ex- químico inorgânico assim que se livram dessa imposição. Ora, é
tremos, sentis a verdade de meu monismo. esse exatamente o fenômeno que ocorre num turbilhão, que, em
seu movimento rotatório, prende sobretudo os corpos leves (peso
LVI. PARALELOS EM QUÍMICA ORGÂNICA atômico baixo, menor resistência ou inércia), arrasta-os no seu
vórtice e, finalmente, abandona-os. Acontece isso enquanto cons-
Procuraremos na química orgânica algum paralelo ou cor- tantemente muda o material constitutivo do turbilhão, embora
respondência ao princípio dos movimentos vorticosos. Depois conserve independente sua individualidade.
de havermos observado a gênese da vida em sua íntima e pro- Quem mantém intacto, num e noutro caso desses dois fe-
funda realidade, dispomo-nos agora a caminhar para o exterior, nômenos afins, esse equilíbrio superior, enquanto dentro de si
para aquela aparência mais sensória, portanto mais facilmente os edifícios atômicos passam rapidamente de um sistema de
compreensível para vós. Vários fenômenos da química orgâni- equilíbrio a outro? Quem dá a essa instabilidade o poder de
ca vos mostram que a estrutura do fenômeno vital corresponde manter-se indefinidamente, de retificar-se, de reconstituir-se, a
à dos movimentos vorticosos observados. força de resistir contra todos os impulsos contrários que ten-
Enquanto as principais reações da química mineral são ins- dem a trazer desvios? O fenômeno da vida não é fenômeno
tantâneas e totais, as da química orgânica são, geralmente, pro- transitório nem acidental. Seus equilíbrios instáveis não são
gressivas e lentas. A mecânica das reações vos indica que, só no meros acasos químicos, porque eles se fixaram substancial-
primeiro caso, o equilíbrio químico do sistema é quase imedia- mente no caminho da evolução. Onde se encontrará essa nova
tamente atingido, ao passo que, nas reações orgânicas, é necessá- capacidade de autonomia, absolutamente desconhecida no
rio muito tempo antes que se chegue a esse estado. Essas reações mundo da química inorgânica, senão na especial estrutura ci-
progressivas, mesmo simples em aparência, são em realidade nética dos movimentos vorticosos? Diante do insuperável de-
uma superposição de reações sucessivas, que determinam produ- terminismo da matéria, encontramo-nos aqui nos primeiros
tos intermediários muito efêmeros para serem percebidos. Essa passos daquela ascensão que levará, na fase de consciência, ao
mobilidade química aparentemente menor é devida, em substân- livre arbítrio, uma novíssima liberdade de movimentos, que,
cia, ao sistema vorticoso, que resiste (inércia) contra qualquer no entanto, não destrói o equilíbrio nem a estabilidade integral
ação que tenda a deslocar-lhe o equilíbrio, pois, sendo um siste- do sistema. Sem dúvida, o movimento vorticoso enfeixa o pro-
ma mais complexo, é mais poderoso e profundo que o sistema cesso típico de isolamento, no ambiente, de um sistema de for-
atômico simples. O entrelaçamento das linhas de força, que de- ças e, portanto, contém o princípio da individualidade. Um
vem ser diversamente dirigidas, é muito mais amplo, mas, em turbilhão de forças já é um eu distinto de tudo o que o circun-
compensação, pela mesma razão, o sistema está apto a conservar da, com o que entra em relação, mas não se funde ao longo do
por mais tempo os tipos de movimento uma vez imitidos e ab- devenir; tem direção e meta próprias, com uma troca e um
sorvidos (germe da hereditariedade). princípio diretor de funcionamento que dão, de imediato, a
Somente este dinamismo mais profundo, cuja estrutura ciné- imagem do organismo e da vida. Só o sistema cinético do vór-
tica estudamos, podia produzir a síntese química da vida a partir tice contém as características de elasticidade, de equilíbrio
da matéria inorgânica. A substância dos intercâmbios vitais con- móvel, tão distantes da rigidez inorgânica e que tanto lembram
siste num ciclo mediante o qual o íntimo dinamismo do sistema o estado coloidal, fundamental na vida, assegurando a estabili-
transporta a matéria inorgânica para combinações químicas ex- dade da estrutura dos protoplasmas vivos, ao mesmo tempo em
traordinárias e complicadíssimas, que esta jamais teria consegui- que neles favorece maravilhosamente o desenvolvimento das
do alcançar sozinha. A característica da química da vida é a ne- reações químicas. O vórtice recebe e reage; admite, em vista de
cessidade de uma contínua renovação íntima, com a qual se re- sua estrutura, uma muito maior variedade de reações do que o
constitui de uma rápida deterioração; um desfazer-se constante sistema atômico e, por isso, é a sede mais adequada para a evo-
de equilíbrios que, no entanto, reconstroem-se sempre, de modo lução das reações químicas. Sistema plástico, móvel e flexível,
que, no conjunto, o equilíbrio permanece, mas condicionado por tal como a vida; no entanto, resistente. Ele tem a faculdade de
intenso e íntimo trabalho. A estabilidade permanece através da assimilar os impulsos exteriores, de torná-los próprios sem
instabilidade de todos os seus momentos, à custa de ser uma cor- quebrá-los, de conservar-lhes traços no próprio movimento e de
renteza em movimento. A própria morte, que parece a destruição registrar a resultante de suas combinações (memória). Ele se
do edifício – porque determina o momento em que os elementos rende e se transforma; suporta, mas não esquece nada. Sua elas-
se apressam a descer os degraus dessa estrutura muito complexa, ticidade significa a capacidade de retomar o equilíbrio de acor-
a fim de retornarem ao seu estado primitivo mais simples – não do com a lei de seu movimento. Passivo e ativo ao mesmo tem-
representa incapacidade de se manter no mais alto equilíbrio da po, tangencia todas as características da vida.
vida, mas é efeito da rápida sucessão sempre ativa, que jamais Outra aproximação entre as características dos fenômenos vi-
para, do dinamismo do sistema. Morte é sinônimo de renovação. tais e a dos movimentos vorticosos: a admissão da matéria na cir-
Por isso a vida persiste perenemente no ritmo veloz de seu deve- culação da vida não ocorre ao acaso. Vimos que são preferidos os
nir. Fenômeno antiestático por excelência, a vida não é possível pesos atômicos baixos, mas não é só. O vórtice vital estabelece
sem renovação. O processo vital é a resultante evidente do mo- ligações entre átomo e átomo. Quando estes são tomados no mo-
vimento contínuo de introdução e expulsão, de associação e de vimento da vida, estabelecem-se entre eles vias de comunicação.
desassociação, de anabolismo (assimilação) e de catabolismo Enquanto na química inorgânica só temos os movimentos plane-
(desassimilação), que leva à regeneração constante das células. A tários dos sistemas atômicos fechados, simplesmente coordena-
vida, desde sua primitiva fase orgânica, que só contém os primei- dos em sistemas moleculares, em equilíbrio estável, na química
66 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
orgânica temos sistemas atômicos abertos e comunicantes, em química, embora mais desenvolvidos e elevados, e a passagem
equilíbrio instável. Os átomos estão reunidos em cadeia e tor- faz-se por uma maturação interior, que eleva a uma combinação
nam-se solidários dentro de um mesmo fluxo dinâmico, guiados mais alta os elementos preexistentes. O princípio dirigente que
pelo mesmo impulso e pela mesma vontade. Na matéria, ficam dormia no âmago das coisas despertou.
mutuamente estranhos em sua estrutura íntima, embora vizinhos Esse processo de individuação do vórtice atômico, que se dis-
e equilibrados. Na vida, apertam-se num abraço e movimentam- tingue no campo cinético do ambiente, corresponde à lei que já
se numa única direção. Esta é a base da unidade orgânica. Quan- vimos, pela qual os seres, ao evoluir, passam do indistinto ao dis-
do a unidade se dissolve, as passagens se fecham e os sistemas tinto, lei que, para que o todo não se pulverize no particular, se
tornam a se isolar, reciprocamente indiferentes. Junto com o vór- compensa com a lei dos reagrupamentos em unidades coletivas
tice, terminou aquela vontade coletiva que os irmanava. Essas (um indivíduo biológico é simplesmente um organismo de siste-
cadeias dinâmicas então são abertas. Os átomos tomados no tur- mas vorticosos ligados e comunicantes). Enquanto a matéria se
bilhão vital são modificados em seu movimento íntimo e arrasta- apresenta individuada em formas que se repetem idênticas, a vida
dos num movimento diferente. Nessa viagem, são elaborados e jamais apresentará duas exatamente iguais, e seu comportamento
sua constituição química é modificada. Terminado seu trajeto, terá sempre uma nota de individualidade. Em cada forma de vida
são abandonados, não mais vivos, mas inertes. Os átomos são as- existe uma distinção mais acentuada, ao mesmo tempo em que
sim alinhados em séries bipolares, e a viagem da vida realiza-se essa forma é uma unidade coletiva mais complexa em sua orga-
entre dois extremos: nascimento e morte. nicidade. Existe na vida uma individualidade de manifestações
Agora sabeis que somente as substâncias orgânicas constituí- que preludia o desenvolvimento da personalidade, e existe uma
das de cadeias abertas de átomos (ou grupo de átomos) são acei- independência de movimentos em que já se sente o início do pro-
tas pelos seres no âmbito da vida, enquanto as substâncias cícli- cesso de transformação do determinismo físico no livre arbítrio
cas, os compostos de cadeia fechada, não são tolerados. Tudo do psiquismo. Evolução, com efeito, à proporção em que é des-
isso coincide com a estrutura cinética do sistema vorticoso, aber- centralização cinética, é também expansão e liberação de movi-
to e pronto a admitir no próprio âmbito sempre novos impulsos. mento. Ora, essas características da vida nós a encontramos tam-
É óbvio que, num sistema cíclico, uma cadeia de átomos fechada bém nos movimentos vorticosos.
em si mesma não pode ser admitida, porque não oferece acesso. Um caso de movimentos vorticosos mais concreto e mais sus-
A linha das transformações químicas é dada pelo eixo do sistema ceptível de observação para vós, é encontrado nos turbilhões, ci-
vorticoso. Vimos que esse eixo era dado pela onda degradada de clones, sorvedouros, trombas marinhas e outros semelhantes. Um
. Assim, cada indivíduo biológico, se é físico no exterior, é turbilhão é uma unidade dinâmica distinta do ambiente, com ca-
sempre, embora em graus diferentes, psíquico em seu centro inte- racteres de individualidade, independente daquele em seus mo-
rior, justamente porque é de origem elétrica o eixo do sistema vimentos, com seu próprio ponto de origem (nascimento) e um
vorticoso. A eletricidade nos primeiros níveis e o psiquismo que ponto final (morte), quando sua energia e sua trajetória se esgo-
dela nascerá nos níveis mais elevados estão sempre no centro do tam. Ele resiste aos impulsos estranhos e, se admite forças em
fenômeno vital. Assim como o eixo atrai ao redor de si um sis- seu âmbito, modifica-as com um processo que relembra o con-
tema vorticoso, também o princípio psíquico atrai e sustenta em ceito de assimilação. Mais que uma forma estática, como no
torno de si uma vestimenta orgânica. Então, a linha do transfor- mundo físico, o turbilhão é essencialmente o desenvolvimento
mismo vital – seja cadeia de reações químicas, seja desenvolvi- de um dinamismo. Tal como na vida, sua essência está no de-
mento individual, seja evolução biológica – já estava traçada e venir, e mantém-se perfeitamente equilibrado numa transfor-
contida na linha da expansão dinâmica (onda). Vede como a evo- mação contínua. Há nisso algo do futuro psiquismo. Os materi-
lução da vida, em seu impulso interior, determinante das formas, ais constitutivos, mais do que causa determinante, são forma
está em linha de continuidade com a difusão de  e com a evolu- exterior e efeito, e, de fato, esses materiais mudam constante-
ção das espécies dinâmicas. mente, ao passo que a forma, apesar de sua mutação, permanece
idêntica a si mesma. O tipo da forma permanece, embora esta
LVII. MOVIMENTOS VORTICOSOS E se modifique e também o material constitutivo que a atravessa.
CARACTERES BIOLÓGICOS Este se transforma numa correnteza contínua, que já vos fala
daquele metabolismo, nota fundamental do mundo orgânico.
Outras características fundamentais, entretanto, possui o sis- Este se apresentará com sua característica fundamental de saber
tema cinético vorticoso, que o aproximam e o tornam similar aos absorver e utilizar as energias ambientais disponíveis.
fenômenos vitais. De tudo isso podeis tirar mais uma confirma- No turbilhão existe, portanto, uma troca, um poder de assimi-
ção de que, como vos disse, é vorticosa a íntima estrutura do fe- lação, e em sua capacidade de resistir aos impulsos externos
nômeno biológico, do qual esta teoria vos dá uma profunda ex- existe, em embrião, o que será o instinto de conservação. O vór-
plicação, que se harmoniza com a de todos os fenômenos exis- tice eletrônico é simplesmente um turbilhão. O que atravessa seu
tentes. O vórtice é apenas a expressão volumétrica daquela espi- sistema cinético são os átomos em constante substituição, na qual
ral que vimos ser a trajetória de todo fenômeno e que é a expres- se transmitem os caracteres essenciais, que não são os de suas
são gráfica do conceito que o dirige, espiral que, também aqui, propriedades físicas e químicas, mas aqueles que o sistema ciné-
no campo biológico, reaparece no organismo dinâmico do vórti- tico, em que esses átomos são presos, confere a seu íntimo mo-
ce. Este corresponde ao princípio da espiral que se abre e se fe- vimento. A natureza, já dada, daquele sistema é uma capacidade,
cha e, com isso, se expande à maneira de respiração que, dilatan- a priori, de entrar diversamente em combinação, segundo os vá-
do progressivamente a amplitude de seu ritmo, agiganta-se (cres- rios tipos de movimento que o ambiente oferece. Isto será a ca-
cimento orgânico e psíquico da vida). Já mostramos como a pacidade de escolher ou o poder de transformar diversamente,
constituição desse movimento vorticoso leva-o a uma diferencia- segundo o tipo orgânico, os próprios materiais do mundo exterior
ção do ambiente, isto é, uma individuação independente. Pode (a mesma substância formará tecidos e órgãos diferentes, de
parecer-vos que haja um abismo entre a vida e a matéria, e que a acordo com o organismo que os tiver tomado em circulação). O
vida represente no universo uma subversão fundamental de leis. princípio de inércia, que dirige não só este mas todos os outros
Não. Não há abismos na natureza, nem saltos, nem zonas de vá- sistemas cinéticos, contém o germe da resistência às variações
cuo: tudo é continuação do que foi preparado precedentemente, e do misoneísmo. Nesta absorção de materiais existe também
desenvolvimento do que já existia em estado de germe. Por isso projeção de forças e comunicação com o exterior por parte da
encontrais na biologia os mesmos princípios que despontam na individuação; o vórtice não é mais sistema cinético fechado, mas
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 67
aberto; esses caminhos abertos para o exterior serão os cami- sos modos, desde as formas vegetais, às animais e às humanas,
nhos da sensibilidade e da percepção, que permitirão, num nos diferentes tipos de homens mais ou menos adiantados, e
primeiro nível, simplesmente orgânico, a síntese proteica; de- além. Daí podemos dizer, desde logo, que a morte não é igual pa-
pois, a assimilação; num nível mais alto, o acréscimo contínuo ra todos, pois nem todos sobrevivem igualmente à morte física,
daquele núcleo psíquico, já que o turbilhão o contém em germe, mas com diferente poder de consciência, de acordo com o grau
até à maravilhosa dilatação de consciência que o homem alcan- de  que tenha atingido. Uma última afinidade é encontrada no
çou, e além disso. O turbilhão tem uma vontade de reação que poder de cisão ou desdobramento dos turbilhões e de fusão de
não é apenas resistência à deformação, mas é princípio ativo, dois em um, fenômenos que, nos sistemas vorticosos eletrônicos,
que projeta para o exterior e modifica o ambiente; eis o germe preludiam aquilo que será, mais tarde, a reprodução por cisão e a
da atividade humana, que, modificando-se de acordo com as reprodução sexual (os turbilhões podem fundir-se, desde que
circunstâncias, por sua vez as modifica; é o germe da adapta- seus movimentos elementares não apresentem diferenças incon-
ção, de papel tão importante na variedade das espécies. Na na- ciliáveis de constituição cinética).
tureza das formas dinâmicas (onda, direção, expansão) encon- Todas essas observações vos mostram como, no turbilhão,
trais o primeiro germe daquele impulso que se transformará em podeis comprovar a existência de todas as características da-
vontade. No turbilhão, como na vida, existe um contato contí- quele sistema cinético vorticoso, o primeiro centro de origem
nuo entre o interior e o exterior, estabelecendo uma permuta de eletrônica que gera a vida, e como ele já contém em germe as
ações e reações, um escorar-se de impulsos e contraimpulsos, notas fundamentais do mundo biológico. Esse fato indiscutível
que sustentam a caminhada da evolução. constitui uma prova que não podeis recusar da mesma natureza
Mas não basta. O turbilhão não possui apenas a capacidade e da contiguidade evolutiva dos dois fenômenos afins: movi-
de resistir às deformações e aos desvios com sua vontade de re- mentos vorticosos e vida. Torna-se por isso evidente, também
ação, mas também a capacidade de registrar os movimentos nesta prova, aquela íntima natureza cinética que lhe propicia a
que absorve e de conservar os mesmos em seu âmbito, embora explicação mais profunda, tal como ocorreu relativamente aos
transformados, para adaptá-los a si mesmo. Eis novos germes. fenômenos da matéria e da energia. Esta minha visão do pro-
Não apenas sensibilidade e percepção, mas a memória das im- blema biológico também vos mostra como ele será por mim co-
pressões e a capacidade de fixá-las na personalidade e nas ca- locado e desenvolvido, ou seja, não como classificação botâni-
racterísticas da espécie, quer em modificações orgânicas, quer ca nem zoológica, mas como estudo da manifestação da pro-
em capacidades psíquicas (automatismos, gênese dos instintos). gressiva expansão descentralizadora do princípio da vida.
Aliás, que são os automatismos senão movimentos introduzidos Meu pensamento caminha no âmago das coisas, aderente à
e estabilizados, por ação prolongada, no organismo cinético do substância dos fenômenos, e quero mostrar-vos não a série
vórtice? Capacidade de assimilação de impressões e, portanto, das formas visíveis, que já conheceis e sobre as quais, portan-
possibilidade de que aquela concentração cinética, em que a to, é inútil demorar-me, mas o porquê delas, suas causas, as
forma se reduz a semente, contenha a gênese de todas as caracte- metas e o desenvolvimento interior do princípio cinético da
rísticas adquiridas e a possibilidade de fazê-la, de novo, voltar a Substância. Este princípio, embora se transformando e ficando
realizar-se e desenvolver-se (a criança é vivaz porque está no pe- sempre idêntico a si mesmo, sabe tornar-se tudo no mundo
ríodo de descentralização cinética; o adulto é mais profundamen- dos últimos efeitos, acessível a vós. Somente desse modo se-
te vivaz, isto é, não física, mas psiquicamente, porque a descen- rão solúveis muitos problemas psíquicos e espirituais, já que
tralização cinética penetra nas camadas mais profundas). A essa sua forma externa, a única que observais, jamais será suficien-
capacidade de registrar e retomar movimentos que resumem to- te para vos dar a chave. Veremos, dessa maneira, pelo pro-
do o passado vivido, deve-se a possibilidade da evolução. gresso da evolução, pela maturação dos fenômenos, pelo de-
O turbilhão tem uma vontade própria de penetração, uma senvolvimento dos sistemas cinéticos da Substância, a forma
vontade de permanecer em sua forma e de progredir em sua traje- espiritualizar-se e libertar-se, e os envoltórios tornarem-se su-
tória, tal como o ser vivo, vontade que, assim como neste ou em tis e caírem. Os princípios de ascensão espiritual das religiões
qualquer transmissão dinâmica, também se esgota. O processo de serão demonstrados por um processo racional, com lógica ma-
degradação pelo qual as qualidades úteis da energia se transfor- terialista. As supremas realidades do espírito, que vos apro-
mam num refinamento de valores é constante na vida, desde seu ximam de Deus, serão atingidas por um caminho que vos pa-
início até às suas formas mais altas. O turbilhão nasce, vive e recia imensamente longínquo: o da ciência objetiva.
morre. Sabe contornar os obstáculos, conhece a lei do mínimo es-
forço, reconhece as resistências, luta com elas e desgasta-se. LVIII. A ELETRICIDADE GLOBULAR E A VIDA
Cansa-se no esforço e extingue-se. Simples princípios dinâmicos,
mas levados até às portas da vida. O turbilhão está saturado de Continuemos nosso caminho, que procede do interior para o
eletricidade, daquela eletricidade de que conheceis os poderes de exterior, e observemos a forma sensória com que o dinamismo
análise e de síntese, a forma máxima de  contígua a  a forma dos movimentos vorticosos se reveste. Encontraremos, no últi-
de energia que encontramos presente e fundamental nos fenôme- mo limite das espécies dinâmicas e no limiar do mundo bioló-
nos da vida. Ao morrer, o turbilhão restitui ao ambiente não ape- gico, uma primeira unidade orgânica que resume em si preci-
nas o material físico que o constitui, mas também sua energia in- samente as características que observamos, comuns aos siste-
terior, o motor do sistema, sua pequena alma rudimentar. A in- mas vorticosos e aos fenômenos biológicos. Essa primeira uni-
destrutibilidade da substância é universal. Como poderia, justa- dade vos é dada pela eletricidade globular. Nesta unidade, ten-
mente na morte do animal e do homem, anular-se o princípio des a primeira organização de um sistema de vórtices, com uma
animador? É absurdo, pois seria a anulação de todas as leis do primeira especialização embrionária de funções. Dela nascerá a
universo. Ao evoluir, o princípio vorticoso se reforçará de tal primeira célula, que englobará em si todos os movimentos vor-
modo, que não se perderá com a morte, sendo reabsorvido no ticosos determinantes e lhes conservará em germes as caracte-
campo dinâmico do ambiente, mas sobreviverá, não só como rísticas, verdadeira síntese dinâmica e síntese química, síntese
substância mas também como individualidade. Essa sobrevivên- de forças e síntese de elementos, em que sistemas atômicos se
cia será cada vez mais evidente e determinada à proporção que o combinam nos sistemas vorticosos e os átomos nas moléculas,
princípio evoluir, consolidar-se e espiritualizar-se, deslocando arrastadas pelo recâmbio protoplasmático. Pelo princípio das
seu centro cinético para o interior; sobrevivência que se reforça e unidades coletivas, à diferenciação sucederá paralelamente
se define cada vez mais, mediante infinitas gradações e de diver- uma reorganização em unidades mais amplas, com especializa-
68 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
ção progressiva de funções. As células formarão tecidos e ór- ma não desmorona pela intervenção de forças externas. Esta é a
gãos, e, como no vórtice primitivo, uma proporcionada psique construção cinética do raio globular. Mas, se por um lado ele é
ou princípio cinético diretor, de origem elétrica, presidirá o um organismo de forças, próximo das forças dinâmicas de que
funcionamento de cada unidade. Isso até que, na evolução, su- proveio, por outro lado excita a matéria, arrasta consigo os sis-
perada essa fase e fixada definitivamente no subconsciente a fa- temas atômicos e reveste-se de matéria como de um corpo.
se consciente de formação, a unidade ascenda à fase superior da Esses fenômenos de transmutação, reduzidos à sua natureza
consciência humana, que se sente a si mesma no âmbito de sua cinética substancial, são bem compreensíveis. Entramos, agora,
ação apenas enquanto esta é trabalho de construção. Já vimos na química. Os primeiros corpos encontrados pela onda elétrica
para que metas superiores ela se dirige. Mas, como sempre, o degradada em sua passagem são simples: os elementos da at-
que importa na vida é o princípio determinante das forças: é mosfera. Eles são elaborados pela penetração eletrônica; o sis-
acompanhar a evolução das causas, e não, como fazeis, a evo- tema cinético múltiplo do raio globular torna-se um centro de
lução dos efeitos (evolução darwiniana). elaboração química. Colidindo com a estrutura íntima do áto-
Vimos como a energia elétrica, isto é, a onda dinâmica mais mo, a energia pôde concentrar ao redor de seu impulso a maté-
degradada, constrói, ao penetrar no edifício atômico, o sistema ria encontrada; o impulso, ou sistema genético, ficará sendo a
vorticoso. Não se confunda esse processo com a normal introdu- força diretriz da vida, o psiquismo animador da forma; a maté-
ção de energia “não degradada” nos sistemas atômicos já consti- ria, arrastada num entrelaçamento de combinações químicas
tuídos, que assistis em qualquer transmissão dinâmica (raios sola- cada vez mais complexo, estabilizar-se-á em unidades cada vez
res etc.). O sistema vorticoso, aberto pela própria natureza, co- mais compactas, em formas cada vez mais estáveis e constituirá
municante com o exterior, com dois polos e todas as característi- o corpo. Assim, a vida formará o seu suporte, bastante estável
cas que já vimos, era o sistema mais apto para se unir, entrando para iniciar sua evolução. Com um processo contínuo diretivo,
em combinação cinética, com outros vórtices semelhantes. O de dentro para fora (direção tangível dos fenômenos vitais),
equilíbrio se estabilizou gradualmente, pelas próprias qualidades operará a sua transformação progressiva.
intrínsecas desse tipo de movimento, num sistema de vórtices Com isso, a eletricidade pôde condensar os elementos do ar.
comunicantes, e nasceu o primeiro organismo coletivo. Não ain- Ora, sabeis que o ar contém justamente os quatro corpos fun-
da célula, não ainda propriamente vida, essa unidade de natureza damentais – H, C, N, O – que encontrais na base dos fenôme-
ainda essencialmente dinâmica, organismo de forças, que se de- nos da vida. Eles apresentam a propriedade de existirem no es-
mora no limiar do novo mundo biológico, já contém todos os tado gasoso na atmosfera – o nitrogênio e o oxigênio em estado
germes do iminente desenvolvimento. Ele viveu em vosso plane- livre, e o hidrogênio e o carbono em estado ligado, no vapor de
ta como verdadeira forma de transição de  para  e, hoje, já es- água (H2O) e no gás carbônico (CO2) – prontos para encontrar
gotou sua função biológica. No entanto ainda dele sobrevivem toda a série de corpos secundários, que os ajudarão a formar o
traços, e podeis observá-los para deduzir as suas características. protoplasma definitivo. Ora, vimos que esses corpos, justamen-
Isso porque a natureza não esquece, não anula jamais definitiva- te por sua característica de possuir pesos atômicos baixos, são
mente suas formas, e a lembrança das tentativas ressurge, embora os primeiros a serem introduzidos no círculo vital. Portanto, as-
irregularmente. O raio globular é um organismo dinâmico, de sim, a série dos trens eletrônicos da onda dinâmica degradada,
constituição eletrônica, que, em alguns casos, podeis observar. ao chegar dos espaços, encontrou-se em primeiro lugar com os
Longínquo descendente dos tipos mais poderosos, dos quais nas- sistemas atômicos de estrutura cinética mais simples, ou seja,
ceu a célula, hoje ele possui, naturalmente, um equilíbrio instá- com menor número de órbitas eletrônicas, os mais fáceis de se-
vel, transitório, uma breve persistência de vida e uma tendência a rem penetrados e transformados em sistemas vorticosos, isto é,
desfazer-se. Embora organismo efêmero, que raramente reapare- em outros tantos germes de vida. Os átomos desses quatro cor-
ce por lembrança atávica, o aparecimento e o comportamento do pos, mais obedientes e flexíveis ao impulso da energia radiante
raio globular são fatos de vossa experiência. Podeis, então, com- que chegava, foram dessa forma mais facilmente encontrados e
provar quantas afinidades apresenta esse primeiro ser com os escolhidos, por isso constituem os elementos fundamentais da
movimentos vorticosos de que é filho, como também com os fe- vida. Verificais que é caráter essencial e comum a todos os
nômenos da vida, que ele já tem em germe. Colocado entre esses compostos orgânicos conter carbono como elemento mais im-
dois fenômenos, que ele liga por continuidade, o raio globular portante e, com ele, hidrogênio, nitrogênio e oxigênio. Toda a
naturalmente apresenta as mesmas características comuns a am- química orgânica está baseada nos compostos de carbono. Este
bos, como vimos. Com esse novo termo, fechamos a cadeia que possui as qualidades que o tornam particularmente apto às fun-
vai da eletricidade, última espécie dinâmica (onda degradada), ao ções da vida, como sejam: grande elasticidade química, isto é, a
vórtice eletrônico que ela determina na matéria, até ao primeiro faculdade de se combinar com os mais díspares elementos quí-
organismo de vórtices eletrônicos – o sistema elétrico fechado do micos, o que lhe confere excepcional fecundidade de composi-
raio globular – e, depois, à célula, com a qual entramos na vida. ções; inércia química, transmitida também para os corpos aos
O raio globular, então, é um sistema elétrico fechado, nova quais se une, funcionando como resistência nas reações, cons-
unidade coletiva, formada pela combinação e associação de trangendo-as a uma lentidão de movimentos que é usual no
sistemas vorticosos, gerados pela penetração eletrônica nos mundo da química orgânica. Por esta sua tendência a eliminar
sistemas cinéticos atômicos, mantidos ligados em unidades as transformações brutais – que nas substâncias minerais con-
pelas relações recíprocas ativo-reativas (até mesmo sua forma seguem instantaneamente a forma de equilíbrio mais estável –
é a de um sistema de forças fechado e equilibrado). Nesta o carbono pôde tornar-se o elemento mais apto para o fun-
condição, a onda dinâmica degradada assume novo modo de damento químico da vida. Através dele, pôde assim nascer
ser. Sua trajetória aprofundou-se com os trens eletrônicos nos uma química instável e progressiva, de cadeias dinâmicas
sistemas atômicos; fundiu-se com eles; seu movimento muda abertas, em que as capacidades do carbono são largamente
de forma: não mais se transmite, mas volta-se sobre si mesmo; utilizadas e onde as encontrais todas. Foi por essas razões ín-
o sistema cinético que preludia a vida está profundamente timas – isto é, pelas qualidades intrínsecas do material consti-
mudado e é essencialmente diferente. A trajetória da transmis- tutivo – que a vida terrestre assumiu a forma de metabolismo
são dinâmica muda de direção: a eletricidade não se projeta que lhe é fundamental. Imaginai outros aglomerados e centros
mais de um polo a outro, mas se fecha em si mesma, num cir- de matéria, em que os próprios elementos químicos estejam
cuito fechado, que se mantém enquanto a estabilidade do siste- diferentemente dispostos ou amadurecidos, e compreendereis as
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 69
infinitas formas nas quais o próprio onipresente princípio da vi- uma espécie de personalidade. A explicação de seus movimen-
da pode ter-se desenvolvido no universo. tos lentos, próximos do solo, que parecem evitar os obstáculos,
Por isso pôde nascer na Terra uma química nova; lenta, mas sem nenhuma tendência a se aproximar dos metais e dos corpos
essencialmente dinâmica, com deslocamentos contínuos de equi- condutores, não pode ser dada por nenhuma lei física. Ele se
líbrio, e que, mesmo estando sempre em movimento, jamais atin- desloca no ar por sua própria vibração periférica, a primeira
ge a estase definitiva. Sobre essa química mutável, especialíssi- extrinsecação cinética em que se manifesta a vida, a expressão
ma, puderam basear-se os processos da vida e de sua evolução. desse rudimentar psiquismo que a dirige. Há nele algo dos cí-
Vede como, nestes seus primeiros movimentos, encontrais lios vibráteis dos infusórios, num impulso que parece vontade,
o germe das características fundamentais que, mais tarde, como uma escolha, uma previdência, uma possibilidade de to-
acompanharão sempre todos os fenômenos biológicos e que mar conhecimento do mundo exterior e de dirigir-se conscien-
são as únicas que poderão permitir sua progressiva transfor- temente, quase com memória dele. É o alvorecer do psiquismo
mação ascensional. O impulso originário encontrou, dessa em suas qualidades essenciais.
maneira, os elementos aptos para permitir seu desenvolvimen- Agora que conheceis a íntima estrutura cinética do siste-
to e pôde, assim, desenvolver-se e vem desenvolvendo-se em ma – estrutura de movimentos vorticosos abertos e comuni-
vosso planeta. A química de equilíbrio estável da matéria cantes, em relações de ação e reação com as moléculas ex-
transformou-se, desse modo, na química de equilíbrio instável ternas a esse sistema – não vos parecerá absurdo pensar que
da vida; a ordem estática transformou-se em ordem dinâmica. a superfície do globo elétrico seja a sede de movimentos es-
Isto prova que a vida é uma fusão de dois mundos, pois, em- peciais e coordenados. Essas características da vida encon-
bora seja matéria, é, ao mesmo tempo, fecundação desta, por tramo-las todas existindo nos movimentos vorticosos, de que
obra de um princípio dinâmico superior: a energia. O corpo, está intimamente constituído o raio globular, e lógico será,
feito de barro, recebeu a alma do céu, o sopro divino. pois, que reencontremo-las também nele. Isto prova a cone-
Por sua maravilhosa plasticidade, o carbono é a protoforma xão entre sistema vorticoso, raio globular e primeira unidade
da química da vida. As condições da atmosfera primitiva, nas re- protoplasmática da vida. Encontrareis no raio globular tam-
lações da gênese da vida, eram ainda mais favoráveis que no pre- bém outras características dos movimentos vorticosos, como a
sente: muito mais rica de ácido carbônico, que era abundantíssi- capacidade de cindir-se em dois e de reunir-se, como ocorre
mo; mais densa, quente; carregada sobretudo de vapor de água; nos vórtices. Existe, portanto, a possibilidade de multiplicar-
oferecendo (juntamente com a elasticidade química de uma maté- se com sistemas que se aproximam da reprodução por cisão e
ria mais jovem e menos estabilizada) condições de todo favorá- da sexual. Muitas vezes ele ricocheteia, mostrando, ao mesmo
veis, não mais existentes agora, para a condensação e a gênese tempo, a íntima coesão unitária e a elasticidade, próprias tan-
das matérias protoplasmáticas. Assim, na primeira idade da Ter- to da vida quanto dos movimentos vorticosos.
ra, elementos minerais primitivos, água, gás carbônico, nitrogê-
O raio globular decompõe sua unidade, restituindo, como na
nio, são arrastados em combinações cada vez mais complicadas
morte biológica, sua energia interna. Apenas ocorre que sua
da química orgânica, e a matéria mineral do ambiente é progres-
morte é mais violenta, de forma explosiva, porque a restituição
sivamente conduzida até à estrutura protoplasmática. Hoje en-
da energia é mais rápida. É lógico que seja assim, porque esta
contrais o mesmo processo na assimilação que os vegetais ope-
se encontra ainda em suas primeiras e mais simples unidades
ram a partir dos elementos minerais primitivos, isto é, na síntese
orgânicas, portanto não é contida pelas tramas de uma comple-
das proteínas, realizada a partir das substâncias inorgânicas, na-
xa estrutura química. Na vida, o sistema de movimentos vorti-
queles laboratórios sintéticos que são as plantas. Com a circula-
cosos é mais complexo; existe tal entrelaçamento na estrutura
ção da água, que permite a utilização do nitrogênio nela dissolvi-
orgânica, que, de passagem em passagem, a energia tem de se-
do, e com a introdução do anidrido carbônico (utilização do car-
bono contido na atmosfera), são admitidos no movimento vital os guir mutações laboriosas antes de se desemaranhar e atingir o
quatro elementos fundamentais que vimos. ambiente externo. Por isso tendes aqui, na morte, uma restitui-
O primeiro organismo cinético em que se iniciou essa síntese ção de energia mais lenta e progressiva. Assim, por explosão,
química foi o raio globular. Os primeiros corpos introduzidos no extinguem-se essas criaturas efêmeras, último retorno das for-
novo sistema dissemos que foram os de peso atômico mais baixo, mas superadas das quais nasceu a vida.
que existiam em estado gasoso na atmosfera. Esse foi exatamente Mas, em condições elétricas e químicas mais adequadas,
o berço em que tudo estava pronto para o desenvolvimento do no mesmo momento em que, na evolução, a substância estava
novo organismo de origem elétrica a circuito fechado. Embora madura e pronta para sua transformação, as primeiras tentati-
hoje, devido às condições ambientais modificadas, ele não apare- vas de equilíbrio puderam estabilizar-se, e o raio globular pô-
ça senão como instável lembrança atávica, podeis verificar que de evoluir até à forma protoplasmática. Os casos esporádicos
sua densidade aproxima-se à do hidrogênio, como deveria ser, que hoje podeis observar são apenas esboços de reconstrução
por sua estrutura atômica, o primeiro elemento movido pela radi- daqueles proto-organismos, em que começaram a atração e a
ação elétrica. Com efeito, nos casos que podeis observar, veri- elaboração dos elementos para a química orgânica, verdadei-
ficais que esses globos elétricos “flutuam” no ar, o que prova ros laboratórios para a síntese da vida. Os casos mais estáveis,
ser a sua densidade menor ou quase igual à da atmosfera, exa- os organismos mais resistentes, os mais favorecidos pelas
tamente como se dá com o hidrogênio. O primeiro material condições do ambiente, sobreviveram. Com a mesma prodiga-
biológico foi, então, o hidrogênio, ao qual depois se acrescen- lidade com que a natureza multiplica e espalha hoje seus ger-
taram outros. Este o primeiro corpo de que se vestiu a energia: mes, para que só um pequeno número sobreviva, surgiram mi-
seu primeiro apoio na Terra. Um corpo leve, gasoso, à espera ríades desses globos leves, em que a vida começava a desper-
de condensação e de combinações. O raio globular é constitu- tar e nos quais estava latente o germe de suas leis. Eles ainda
ído de hidrogênio, a mais simples expressão da matéria, reno- vagavam à mercê das forças desencadeadas, numa atmosfera
vada por novo e poderosíssimo impulso dinâmico. densa, quente, carregada de vapores de água, de gás carbôni-
Doutro lado, o raio globular tem todas as características co; primeiras luzes incertas, mas contendo a potência da vida.
fundamentais de um ser vivo. Se observardes seu comporta- Era a hora indefinida, crepuscular, a hora das formações, em
mento, vereis que ele emite uma luz que lembra a fosforescên- que o mundo dinâmico, em plena eficiência, mas convulsio-
cia; possui uma individualidade própria, distinta do ambiente; nado pelos mais poderosos desequilíbrios, tentava novos ca-
uma persistência, embora hoje relativa, dessa individualidade: minhos, assomava desordenadamente às portas da vida.
70 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
Esses globos de fogo eram, então, os únicos habitantes do Neste campo do conhecimento, em que se movimentam
planeta; não excepcionais e instáveis como hoje, mas numerosís- forças tremendas, não se pode caminhar senão através de um
simos e estáveis. Nem todos explodiam (morte violenta aciden- exato equilíbrio entre causa e efeito. Acreditais, com demasi-
tal). O íntimo movimento vorticoso tornava-se cada vez mais ada simplicidade, na possibilidade da loucura do arbítrio nu-
compacto. A condensação de uma massa gasosa das dimensões ma ordem suprema, tão complexa e perfeita! Que garantia po-
de um dos raios globulares que, por vezes, ainda tornam a se de dar vossa moral, ainda tão atrasada, de uma sábia utiliza-
formar na Terra, vos permite avaliar a ordem de grandeza das ção dos imensos poderes que o domínio de semelhantes fe-
primeiras massas protoplasmáticas. Assim, mudou o peso especí- nômenos vos daria? Por isso os fenômenos fundamentais e os
fico, e o primeiro organismo não pôde mais flutuar no ar. A onda pontos estratégicos da evolução permanecem guardados e pro-
gravífica incorporou-se à matéria, que, lembrando-se, respondeu tegidos, zelosamente, contra vossa desastrosa intromissão,
ao apelo íntimo; a condensação foi atraída e caiu. Mais pesados porque vossa ignorância é vossa impotência.
em virtude da condensação, as miríades de germes da vida caí- Não vos parece absurdo que um organismo de leis tão pro-
ram; arrastados pelas chuvas, caíram nas cálidas e vaporosas fundas, perfeito na eternidade, possa estar tão incompleto e ser
águas dos oceanos. A protoforma da vida chegara a seu berço. A tão vulnerável, que deixe aberto o flanco à possibilidade de sub-
matéria recebera o sopro divino: agora tinha de viver. As águas, versões arbitrárias? Achareis natural, então, que, dentro de uma
sobre as quais se movera o espírito de Deus, tornaram-se a sede ordem suprema, em que o equilíbrio reina soberano, exista tam-
dos primeiros desenvolvimentos, que só mais tarde atingiram as bém um feixe de forças especializadas na função de proteger as
terras emersas. O íntimo sistema do primeiro germe se estabili- partes mais vitais do organismo, a fim de afastar qualquer viola-
zou cada vez mais, absorveu e fixou em seu ciclo novos elemen- ção, de anular qualquer causa de desordem, como exatamente se-
tos, complicou-se em seu íntimo metabolismo, agigantou-se, es- ria, neste caso, vossa psique ou vontade, totalmente deseducada
boçou suas primeiras formas, que foram vegetais, simples algas para o domínio consciente de semelhantes forças.
marinhas; diferenciou os primeiros traços característicos das vá- Do mesmo modo como vossa vida tem sua sensibilidade e
rias ramificações dos sistemas biológicos. Assim, da matéria, re- seus instintos tanto mais despertos quanto mais vital o ponto
tomada no turbilhão dinâmico, animada por novo impulso em que deve ser protegido, assim também o universo, pelo mesmo
forma de germe elétrico caído do céu, nasceu a vida. princípio de conservação e de ordem que vos sustenta, tem suas
Não ouseis pensar na possibilidade de poderdes refazer uma defesas sempre prontas e em ação.
síntese química da vida; de dominar este sagrado fenômeno, em
que as maiores forças da evolução foram empenhadas. Desses LIX. TELEOLOGIA DOS FENÔMENOS BIOLÓGICOS
tempos até hoje, a evolução realizou caminho incomensuravel-
mente longo, e sua linha é irreversível. Para vós, é absoluta-
A vida: panorama sem limites. Filha da energia onipresente, a
mente impossível reproduzir condições definitivamente ultra-
vida está em toda a parte no universo, nascida do mesmo princí-
passadas. A fase que a energia atravessava então, era um estado
pio universal e diferentemente desenvolvida, como resultante
substancialmente diferente do atual. A estrutura íntima da for-
exata do impulso determinante e das reações das forças ambien-
ma dinâmica, eletricidade, qual a observais, não possui mais
tais. Pambiose, não por transmissão de esporos ou de germes por
aquelas propriedades, nem mais as possui o ambiente de ação.
via interplanetária e interestelar, mas pela onipresença da grande
Hoje, a energia já viveu suas fases, como as viveu a matéria, e,
mãe: a energia – o princípio positivo e ativo que se une à matéria,
como esta, encontra-se estabilizada em suas formas definitivas.
princípio negativo e passivo. O germe do psiquismo desceu como
Esses desequilíbrios de transição, esses momentos intermediá-
raio do céu nas vísceras da matéria, que o estreitou em seu seio,
rios, essas fases de tentativas e de expectativas estão ultrapas-
num profundo amplexo, envolvendo-o em si, dando-lhe um cor-
sadas nesse campo. Esses tipos já estão realizados, e o trans-
po, uma veste, a forma de sua manifestação concreta.
formismo evolutivo ferve alhures. No presente, a hora é de cri-
ações espirituais; matéria e energia esgotaram seu ciclo; não Vós mesmos sois esse fenômeno, mas sabei que, das ilimi-
podeis mudar as trajetórias invioláveis dos desenvolvimentos tadas plagas do universo, a vida irmã, filha da mesma mãe, vos
fenomênicos. Pensai, além disso, que vós sois esse mesmo responde. Cada planeta, cada sistema planetário, cada estrela
princípio que quereis dominar, levado a um nível superior. A está plena dela, nas mais variadas formas, com meios e finali-
Lei, que também vós representais, não pode voltar-se sobre si dades diversíssimos. Abandonai vosso piedoso antropomorfis-
própria, para modificar-se a si mesma. Vós sois um momento mo, que vos considera centro do universo e únicos filhos de
do devenir do todo, desse momento não podeis sair. Deus; abri os braços de par em par a todas as criaturas irmãs,
Verdadeiramente, não imaginais o que quereis, nem o alcance afinai com elas vosso canto e vosso trabalho de ascensão. Su-
de tal fato, nem que imensa e absurda desordem constituiria isso. bir, subir – eis a grande paixão de toda a vida – para um poder e
Que significaria uma gênese artificial da vida hoje? O simples fa- uma consciência que não aceitam limitações. Mesmo em vossa
to de acreditá-la possível vos mostra que não tendes a mínima Terra, desde os primeiros micro-organismos, esta é a aspiração
ideia do funcionamento orgânico do universo. Essa gênese pre- constante, a vontade tenaz da vida.
sume todos os períodos de maturação, períodos igualmente am- Olhai em torno de vós. O panorama da vida terrestre, por si
plos de sucessivo desenvolvimento. Poder-se-ia hoje, sem prepa- só, é imenso. A profusão dos germes, a potencialidade das es-
ração, iniciar novo processo evolutivo, para conduzi-lo num pla- pécies é tão grande, que, sem a reação dos germes e espécies
neta que já começa a envelhecer? Os fenômenos são sempre diri- opostas ou concorrentes, uma só delas bastaria para invadir to-
gidos por uma causa determinante e com uma finalidade elevada do o planeta. A vida é tão frágil, tão vulnerável e, no entanto,
e longínqua a atingir. Infelizmente, fizestes da ciência um concei- tão poderosa, que é praticamente indestrutível. Observais, pro-
to utilitário, prático, e credes que com ela tudo seja acessível por fusos em suas formas, verdadeiros tesouros de sabedoria. Quan-
qualquer meio. Eu vos digo que, pelo contrário, o domínio destes ta perspicácia sutil, que requintes de astúcia, que resistência de
fenômenos e o poder de determiná-los corresponde a leis precisas meios, que complexidade de arquitetura na construção orgâni-
de maturação individual e coletiva, que não podem ser concedi- ca, que economia e exatidão na divisão do trabalho e, ao mes-
dos senão aos que atingiram um determinado grau de elevação mo tempo, que elasticidade! Vedes sintetizada na vida a mais
espiritual e de evolução da personalidade. Eu vos digo que, alta sabedoria da natureza. Como seria possível que fenômenos
mesmo na ciência, há zonas sagradas, das quais temos que nos reveladores de tão profunda inteligência e sabedoria, diante das
aproximar com senso de veneração e oração. quais a vossa se desorienta, tivessem acontecido assim, irracio-
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 71
nalmente, e fossem filhos do acaso? Como a ciência, lógica e cada fenômeno tem uma explicação natural. À mente humana,
racional, pôde ser tão vergonhosamente míope a ponto de não num mundo de fome espiritual e de perturbação geral, falta o
perceber o grande conceito que transborda de todos os fenôme- sentido das supremas finalidades; num momento de desorien-
nos da vida, de uma finalidade superior que tudo explica e diri- tação catastrófica, eu venho dizer a palavra da bondade e da
ge? Que desastre quando quiseram trazer essas aberrações para esperança. Não a digo apenas com os conceitos da fé, que des-
o campo ético e social! O materialismo, se, por um lado, auxili- truístes, mas digo-a também com os princípios da ciência, em
ou o despontar de uma pseudocivilização mecânica, atrasou de que vos habituastes a acreditar.
um século o progresso espiritual da humanidade. Aí, onde o mundo admira e venera o que vence por qual-
Olhai em torno de vós. Do protozoário ao homem, da célula quer meio, chamo a meu lado o homem mais sofrido e des-
ao mais complexo organismo, é sempre idêntica essa febre de venturado e lhe digo: “Amo-te, meu irmão; admiro-te, cria-
ascensão, essa indestrutível vontade de viver. Indestrutível por- tura eleita”. Onde o mundo apenas respeita a força e despre-
que sabe superar qualquer obstáculo, vencer qualquer inimigo, za o fraco que jaz derrotado, eu digo ao humilde e vencido:
triunfar de todas as mortes. Em toda parte, um supremo instinto “Tua dor é a maior grandeza da Terra, é o trabalho mais in-
de luta para sustentar o fenômeno máximo, na conservação do tenso, a criação mais poderosa; porque a dor faz o homem,
qual se despendem prodigamente todos os recursos e inteligên- martela e plasma sua alma, levantando-a e lançando-a para o
cias da vida. Em seu redor, a natureza, lentamente acumula to- Alto, para Deus. Que grande homem pode igualar-te? Que
das as suas conquistas e todas as suas defesas. Se existe uma triunfador das forças da Terra jamais realizou uma criação
lógica na natureza, como vo-lo demonstra cada fato, como seria verdadeiramente eterna como a tua?”.
possível que, diante da finalidade suprema, falhasse essa lógica, Não maldigas a dor. Não conheces suas longínquas raízes;
renegando-se, quando em todas as ocasiões mostrou-se presen- não sabes qual foi a última onda, impulsionada por uma infinita
te, com indomável vontade e assombrosa sabedoria? cadeia de ondas, que constituiu o teu presente. Num universo
Vós vos perdeis no pormenor; o particular vos afoga. Ob- tão complexo, no seio de um organismo de forças regido por
servais o átimo fugidio, não a totalidade do fenômeno no tem- uma lei tão sábia, que nunca falhou definitivamente, como po-
po. Desanima-vos o choque da dor, a falência de um caso. No des acreditar que teu destino esteja abandonado ao acaso e que
dédalo da grande complexidade fenomênica, vossa consciência o desequilíbrio momentâneo que te aflige e te parece injustiça
não sabe orientar-se; sente-se impotente diante da compreensão não seja condição de mais alto e mais perfeito equilíbrio? Deus
das grandes causas. Então dizeis: por que, por que viver? O é tudo: não apenas o bem. Não pode ter rivais nem inimigos; é
animal, como o homem inferior, cuja consciência não sabe ul- um bem maior que o mal, que ele compreende e constrange a
trapassar o nível da vida física, não faz essa tremenda pergunta. alcançar seus objetivos. Como podes acreditar, mesmo igno-
Mas ela assinala o primeiro despertar do espírito, sob o chicote rando as forças que agem em ti, que estejas abandonado ao aca-
da dor. Os choques atômicos e dinâmicos, neste nível, tornam- so? Não! Quer seja chamado Pai, com a palavra da fé, ou cálcu-
se paixão e dor. Com o mesmo cálculo exato de forças, deter- lo de forças, com a palavra da ciência, a substância é a mesma:
minam-se fenômenos e criações de ordem psíquica. Quando o estais vigiado por uma vontade e uma sabedoria superiores; um
ser indaga “por que?”, então surgiu na vida uma nova criatura: equilíbrio profundo te dirige. Lembra-te de que, no organismo
o espírito. Na dor, ele evoluirá gigantescamente. universal, as palavras “acaso” e “injustiça” constituem um ab-
Por que viver? Por que sofrer? Não! Não basta o círculo de surdo. Não pode haver erro nem imperfeição, senão como fase
vossas coisas humanas: paixões, ilusões, conquistas e dores, pa- de transição, como meio de criação. A lei da vida é a alegria e
ra dar uma resposta. A alma sente que, com essa pergunta, as- o bem, mesmo que para realizar-se integralmente seja necessá-
soma às pavorosas e abismais distâncias do infinito e treme. rio atravessar a dor e o mal. Repito: “Felizes os que sofrem. Os
As vossas filosofias, a ciência e as próprias religiões não últimos serão os primeiros”.
sabem dar-vos uma resposta convincente, não vos sabem dizer Deus vê os espíritos, mede substancialmente as culpas, pro-
o porquê de certos destinos obscuros, que parecem sem espe- porciona as provas às forças e, no momento exato, diz: basta,
rança, em seres puros e inocentes, destinos de condenação que repousa! Então, a terrível tempestade da dor transforma-se em
parecem acusar de inconsciência a criação e de injustiça a Di- serena paz, em que brilha a consciência alegre da conquista rea-
vindade. Não sabem dizer-vos o porquê de tantas disparidades e lizada; abrem-se, então, as portas do céu e a alma contempla
deficiências físicas e morais, de meios materiais e espirituais. extasiada; das tempestades emergem seres elevados a um grau
Então acusais loucamente. Revoltais-vos com a revolta cega do mais alto de evolução. Não maldigas. Se a natureza – tão eco-
homem cego que tateia nas trevas. Um triste abalo, e permane- nômica até em sua prodigalidade, tão equilibrada em seus es-
ce a dor, não vencida, individual e coletivamente. Assim desen- forços – permite essa derrota, como biologicamente é a morte, e
rola-se o fio de vosso destino, e vós não sabeis. A sorte dos in- uma tal falência de tuas aspirações, como a dor, isto somente
conscientes vos guia: subir ignorando as leis da vida. pode significar, na lógica do funcionamento universal, que es-
Levantai-vos! Eu vos digo. Ensino-vos nova luta, mais tes fenômenos não são nem perda nem derrota, mas que, ao in-
elevada que essa fútil e vil que diariamente vos subjuga e vos vés, incluem, escondida neles, uma função criadora.
atira inutilmente contra vosso semelhante. Ensino-vos a guer- A dor tem uma função fundamental na economia e no de-
ra santa do trabalho; do trabalho que cria a alma, uma cons- senvolvimento da vida, especialmente em seu psiquismo. Sem
trução eterna. Ofereço-vos como inimigo não vosso semelhan- sofrimento, o espírito não progrediria. Por isso a dor é a pri-
te e irmão, mas leis biológicas que tendes que superar; ensino- meira coisa de que vos falo ao ingressardes na vida. Ela é aí
vos a conquistar novos graus da evolução, para que se realize colocada como fato substancial, pois é o esforço da evolução, a
em vosso planeta uma lei super-humana, da qual estejam ba- nota fundamental do fenômeno biológico. A dor, produzida pe-
nidos vileza, traição, egoísmo, agressividade. Demonstro-vos lo choque das forças ambientais opostas ao eu, excita-lhe como
que vossa personalidade, pela própria lógica de todos os fe- reação todas as atividades e, com as atividades, o desenvolvi-
nômenos, é indestrutível; que, pelos princípios vigorantes em mento. Só a dor sabe descer ao âmago da alma e arrancar-lhe o
todo o universo, existis para o bem e a felicidade, que vos grito com o qual ela se reconhece a si mesma; só ela sabe des-
espera a todos no futuro, para cada um subir até ele, de acor- pertar-lhe toda a potência oculta e fazê-la encontrar, no fundo
do com seu trabalho. As tremendas respostas aos grandes do abismo íntimo, sua divina e profunda natureza.
“porquês” eu vos ofereço naquela atmosfera de límpida logici- O mal, representado por essa lei de luta, a lei de vosso
dade, em que nos movimentamos sempre neste escrito, no qual mundo biológico, lei desapiedada que pesa em vosso planeta
72 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
como uma condenação, transforma-se num bem. Olhai o LX. A LEI BIOLÓGICA DA RENOVAÇÃO
âmago das coisas e vereis que o mal sempre se transforma
no bem. O instinto de agressão excita no agredido, como re- Com a vida, o transformismo da estequiogênese e da evolu-
ação, o desenvolvimento da consciência, o progresso nos ção dinâmica acelera ainda mais seu ritmo. A trajetória daquele
caminhos da ascensão biológica e psíquica. devenir fenomênico que estudamos nas fases  e , torna-se a
Os seres aglomeram-se para invadir tudo, para se arrasa- linha de vosso destino. Matéria e energia não nascem e morrem
rem mutuamente. A necessidade de constante esforço para se tão rapidamente, não mudam com essa velocidade. A vida tem
defenderem significa a necessidade de contínuo trabalho de que nascer e morrer sem jamais deter-se, sem possibilidade de
ascensão. Assim, na série dos choques recíprocos e inevitá- parar esse movimento mais rápido, inexoravelmente marcado
veis, a natureza estabelece a técnica de sua autoelaboração. por um ritmo mais veloz de tempo. O equilíbrio da vida é o
Por isso, a lei brutal contém em si os meios para transformar- equilíbrio do voo, em que a estabilidade está condicionada à ve-
se a si mesma e, através de um intrínseco impulso, torna-se na locidade. A instabilidade das combinações químicas num meta-
lei superior de amor e de bondade do Evangelho. bolismo que se renova sempre é, como vimos, a característica
Duas fases de evolução biológica: animal-humana e su- fundamental do fenômeno biológico. Nascer e morrer, morrer e
per-humana. Duas leis em contraste no atual período de tran- nascer, essa é a trama da vida. A constituição cinética da Subs-
sição. Enquanto alvorece a nova civilização do Terceiro Mi- tância se exterioriza e aparece cada vez mais evidente, à pro-
lênio, na qual se realizará o tão esperado Reino de Deus, porção que a evolução ascende até sua forma mais alta: a vida.
embaixo ainda se desencadeia a louca ira bestial humana. A matéria é tomada num turbilhão cada vez mais veloz, que a
Mas a Lei contém em si os germes do futuro, os meios para permeia em sua essência mais íntima, para que possa responder
realização do seu transformismo. Jamais, na natureza, vedes aos novos impulsos do ser e tornar-se meio de desenvolvimento
as forças operarem de fora, e sim manifestarem-se de dentro, do novo princípio psíquico da vida: .
como expansão de um princípio oculto nas misteriosas pro- Parece-vos uma fraqueza da vida essa fragilidade, essa con-
fundezas do ser. E, no homem, que hoje se encontra numa tínua necessidade de reconstrução para suprir sua contínua dis-
acentuada curva de sua maturação biológica, quando esta persão e desgaste, mas essa é sua força. Parece-vos que ela não
atinge o nível psíquico, ocorrerá a transformação e se mani- sabe manter-se numa estabilidade constante, mas, ao contrário,
festará a nova lei, já anunciada há dois milênios na Boa- esse transformismo mais rápido é a primeira condição de suas
Nova do Evangelho de Cristo. capacidades ascensionais, um poder absolutamente novo no
Nosso tratado entra, agora, numa atmosfera mais humana caminho da evolução. Na vida, o espasmo da ascensão se torna
e mais cálida, mais palpitante de vossa vida, instintos e pai- mais intenso, rapidíssimo. O turbilhão psíquico nasce e se de-
xões. Os problemas que abordaremos estão próximos de vós; senvolve cada vez mais poderoso, de forma em forma; a veste
são vida de vossa vida, tormento de vosso tormento, e minha da matéria se torna cada vez mais sutil; o pensamento divino se
palavra exalta-se nesta iminente humanização. Aproximamo- torna cada vez mais transparente. É necessário reconstruir con-
nos das formas superiores da vida, em que estais; avizi- tinuamente vossos corpos, e só uma troca ou recâmbio constan-
nhamo-nos da meta de nosso caminho, que é a de vos traçar te pode sustentá-los. Esta, que parece vossa imperfeição, consti-
os caminhos do bem. Alongamo-nos bastante no estudo das tui vosso poder. Neste ritmo rápido tendes que viver: juventude
criaturas menores, irmãs do mundo físico e dinâmico, por- e velhice, sem jamais parar. Mas, nessa corrida, é indispensável
que elas contêm os germes dos problemas da vida e do psi- experimentar continuamente, provar, assimilar, avançar espiri-
quismo, e, sem elas, não seria possível a existência nem a tualmente; esta é a vida.
explicação destes fenômenos. Poder existir à custa de uma renovação contínua significa
Quanto mais ampla a abertura da mente, mais se aprofun- tão somente ter que marchar, cada dia, na grande estrada da
dam o estudo e o pensamento e mais se revela complexo o fun- evolução. Vós vos prendeis à forma; acreditais que sois maté-
cionamento do todo. Esta filosofia torna-se a filosofia do uni- ria; quereríeis paralisar esse maravilhoso movimento; para pro-
verso; não, como as outras, um sistema antropomórfico e ego- longar a ilusão de um dia, gostaríeis de parar a marcha estupen-
cêntrico, mas uma concepção que exorbita os limites do plane- da. Mas possuís, além da juventude do corpo, a inexaurível e
ta, aplicável onde quer que exista a vida. eterna juventude de uma vida maior, não a terrena. Naquela,
Neste sistema, a vossa ciência perde aquele seu caráter sois indestrutíveis, eternamente novos e progressistas; sois jo-
desconsolado de viandante que caminha sem esperança de ja- vens não no corpo caduco, mas no espírito eterno. Não deis im-
mais chegar à meta, demasiadamente afastada. Nele, a fé per- portância à alvorada e ao crepúsculo de um dia, pois cada cre-
de aquele caráter de irrealidade que aparenta diante da objeti- púsculo prepara nova aurora. É lógica simplicíssima, evidente
vidade do positivismo científico. Mas por que nunca se hão de lei de equilíbrio, esta pela qual, assim como tudo o que nasce
estender os braços os dois extremos do pensamento humano? morre, também tudo o que morre tem de renascer.
A ciência tornou-se gigante, e não é mais lícito ignorá-la no Não vos iludais a vós mesmos; não percais um tempo preci-
seio de uma fé que, se deixada aos primitivos enunciados da oso no esforço inútil de tentar parar a vida. A beleza da mulher
concepção mosaica, não pode mais ser suficiente para as deve servir à maternidade; a força do homem é feita para des-
complexas mentes modernas. Torna-se indispensável unir os gastar-se no trabalho. Só quando não tiverdes fraudado a Lei,
dois caminhos e as duas forças; reunir os dois aspectos dividi- mas houverdes criado de acordo com sua ordem, vosso tempo
dos da mesma verdade, para que a ciência não permaneça “não será passado” e não tereis lamentações. Se pedis o absur-
apenas um árido produto do intelecto – sem finalidade no céu, do, tereis que colher ilusões. Colocai-vos no movimento, não
sem resposta para a alma que sofre e pergunta – e a fé não ve- na imobilidade. Desembaraçai vosso pensamento do passado
nha a ser apenas um produto do coração, que não sabe dar as que vos prende. Superai-o. O passado morreu e contém o me-
razões profundas à mente que “quer” ver. nos. Interessa o futuro, que contém o mais. A sabedoria não
Estes conceitos poderão perturbar vossas classificações tradi- está no passado, mas no futuro. Só vossa ignorância pode fa-
cionais, mas respondem à inevitável necessidade de salvar a ci- zer que acrediteis na possibilidade de violar e fraudar a Lei, de
ência e a fé, pertencem ao futuro do pensamento humano e estão deter-lhe o caminho fatal. Se parais, o pensamento cristaliza-
acima de todos os vossos sistemas, tradições e resistências, como se, o tédio vos persegue. A satisfação de todas as necessidades,
estão todas as forças invencíveis da evolução. de todos os desejos, vos torna ineptos; ócio significa morte por
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 73
inanição. O repouso só é belo como pausa, como consequência transversas, com meios injustos? Trabalhai: procurai vossas
de um trabalho anterior e condição de novo trabalho. alegrias, conquistai-as com vosso trabalho. Vossa alma jamais
A necessidade de evoluir, imposta pela Lei, está gravada no se alegrará com as maiores conquistas se não forem vossas, se
mais profundo instinto de vossa alma: a insaciabilidade. A insa- não forem produto de vosso esforço, testemunho e medida de
tisfação que permanece no âmago de todas as vossas realiza- vossa capacidade. Mais que o resultado exterior, a alma quer a
ções, qualquer desejo satisfeito que vos faz debruçar para outro demonstração de seu íntimo poder, quer a prova de sua sabe-
horizonte mais amplo, o descontentamento que vos atormenta doria progressiva, quer o obstáculo para poder vencê-lo, quer a
logo que parais, o ilimitado poder de ambicionar, inato em vos- prova constante de seu valor íntimo e indestrutível.
so espírito, tudo vos diz que sois feitos para caminhar. Isso po- O resultado prático, concreto, na economia da vida é quase
de constituir ânsia e ilusão, mas é estrada de progresso, é o es- um produto secundário e de refugo, e, por isso, a Lei não lhe
forço da ascensão. A centelha que guia vossa vida sente a Lei, dá importância, abandonando-o logo que sai das mãos do ho-
mesmo sem o saberdes; segue-a com seu instinto profundo, in- mem, à mercê de forças de ordem inferior. Como é triste ver
delével, que jamais conseguireis fazer calar. Isso não é conde- vosso contínuo esforço inútil para vos realizar num mundo in-
nação nem ônus de ilusões. Moveis-vos de acordo com a Lei, grato e rebelde, para imprimirdes na matéria o sopro de vossa
criai substancialmente, e sentireis quanta alegria vos inundará o alma eterna! Que trágico espetáculo este inconciliável con-
espírito! Ao invés, que sutil tristeza vos prende quando vosso traste entre a vontade e os meios, entre o pensamento e sua re-
tempo é desperdiçado! Ocasiões perdidas, posições estacioná- alização! Por causa dessa correspondência inadequada, dessa
rias: o universo caminhou, e ficastes parados em vossa pregui- incurável impotência da matéria, as maiores almas, muitas ve-
ça. A alma o sente, entristece-se e chora. Então gritais: vanitas zes, abatem-se exaustas aos pés de seus ideais, altos como ro-
vanitatum. Mas vão sois vós; a vida não é vã. chas cujos cimos resplandecem fora da terra. Terra móvel e
Não desperdiceis vossas energias, não pareis à beira do ca- vã, que recolhe a ruína de todas as vossas grandezas humanas!
minho, não adormeçais enquanto a vida está desperta e cami- Como podeis ainda insistir nesse doloroso jogo e concluir tris-
nha. Se cada dia tiverdes sabido criar no espírito e na eternida- temente que nascestes apenas para colher ilusões?
de, se tiverdes dado a cada ato esse objetivo mais alto e mais Concebei a vida não mais na superfície, mas em sua reali-
substancial, tereis caminhado com o tempo e não direis: o tem- dade mais profunda, e se dissipará a condenação aparente;
po passou! Tereis renovado vossa juventude com vosso traba- construí no espírito, que mantém eternamente as impressões, e
lho e não tereis envelhecido tristemente. Então não direis mais vossas aspirações encontrarão eterna expressão.
da vida: vanitas vanitatum. Este ritmo mais rápido da vida, cuja essência e origem vi-
Realizai o trabalho oferecido por vosso destino e não invejeis mos no estudo dos movimentos vorticosos, manifesta-se nas
quem está no ócio. Vós, humildes, não invejeis os ricos e podero- formas orgânicas como uma permuta química contínua. Tal
sos, porque eles têm outros trabalhos a fazer, outros problemas a como a vida psíquica é um veículo em marcha, que avança de
resolver, outros pesos a suportar. Ninguém repousa verdadeira- curva em curva, de estação em estação, sem possibilidade de
mente. Não há parada para ninguém no caminho da vida. Mas parar, assim a vida orgânica é uma renovação contínua, e o
considerai-vos todos soldados do mesmo exército, encarregados material de que é constituída é uma corrente. Esse material,
de trabalhos diferentes, coordenados no mesmo objetivo. Não in- no entanto, no seu conjunto, é sempre o mesmo, move-se cir-
vejeis aqueles cuja aparência os apresenta felizes: a verdadeira culando de organismo em organismo. A vida é feita de unida-
alegria não se usurpa, não se herda. Aquilo que não se ganhou des comunicantes, ligadas em indissolúvel vínculo por contí-
não dá satisfação, não se aprecia, e se desperdiça. nuas permutas do material constitutivo. Como um rio, em que
A alma quer a sua alegria, sua propriedade, fruto de seu tra- sempre mudam as águas, assim o ser mantém, na mudança
balho; só isso é apreciado, só isso traz prazer. As vantagens dos seus elementos constitutivos, sua própria individualidade.
gratuitas não trazem satisfação. Acima de vossas partilhas hu- A lógica vos indica a presença de um princípio superior e
manas, a Lei distribui alegria e dores com profunda justiça. diferente de cada uma das partes componentes, porque o mesmo
Como poderíeis ser felizes se vossas vidas fossem mais subs- material é plasmado diferentemente, individualizado em dife-
tanciais! Por que acumular com qualquer meio, se tudo deverá rentes formas específicas, de acordo com a natureza do ser que
ser deixado? Considerai antes a vida como campo de adestra- dele se apropria. O organismo superior é uma verdadeira socie-
mento, onde estais para temperar vossas forças, para provar dade de células, com funções distintas, mas há uma coordena-
vossas capacidades, para aprender novos caminhos, para apro- ção de funções de cada uma das unidades menores diante das
fundar vossa consciência. Estais no mundo não para construir maiores; há uma subordinação do interesse individual ao cole-
na areia, mas para edificar-vos a vós mesmos. tivo. Os organismos superiores são agrupamentos associados,
Não busqueis o absurdo de querer prender-vos definitiva- semelhantes à sociedade humana, em que existe um poder cen-
mente a uma matéria instável e caduca, pois a troca a que a vida tral dirigente. As unidades componentes nascem e morrem nu-
a submete não permite que sua aparência resista um só instante. ma vida menor, englobada no âmbito da vida maior. Basta o fa-
Desprezai a miragem das formas. O que existe fica e sobrevive to de que a vida permanece constante para demonstrar a existên-
à renovação contínua dos meios, o que verdadeiramente impor- cia em vós de uma individualidade superior e independente. Ve-
ta, sois vós, vossa personalidade espiritual. Não façais do mun- de como à vida e ao seu desenvolvimento está subordinado todo
do um fim, pois é apenas um meio. Não invertais as posições e o transformismo dos materiais tomados na sua circulação; à vida
as funções. Não vos transformeis de senhores em servos. Cami- maior são oferecidas em holocausto, como a um interesse superi-
nhai. Lançai-vos à grande correnteza. A vida é feita para correr or, todas as vidas menores que a atravessam e nela se sustentam.
e avançar. Triste é o lamento do tempo perdido no sono, do Contínuos nascimentos e mortes menores, coordenados num or-
tempo que não trouxe nenhum progresso e vos deixou para trás, ganismo que, por sua vez, nasce, morre e se coordena em orga-
estacionários; triste é o choro da alma que se vê iludida em sua nismos coletivos mais amplos, que, por sua vez, nascem e mor-
maior necessidade, em que a Lei fala e exprime-se. Avançai, se rem, sejam espécies animais ou famílias, povos, civilizações,
não quiserdes que a correnteza vos ultrapasse e vos abandone. humanidades. A vida se organiza através da coordenação de suas
Sede insaciáveis, como Deus vos quer, trabalhando substanci- unidades, de acordo com o princípio das unidades coletivas.
almente, criando no bem, na eternidade. Embora a substância viva e morra continuamente, a vida
Como podeis ser tão ingênuos a ponto de acreditar que, num jamais se extingue. Renovar-se é sua condição. A vida e a mor-
universo tão perfeito, a felicidade possa ser usurpada por vias te são apenas fases dessa renovação, a vida e a morte da unidade
74 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
menor constituem a permuta da unidade maior de que ela é parte os mais diferentes estilos são empregados, contanto que se al-
orgânica. Nessa rede de leis, nas quais ocorrem os fenômenos e cance esse objetivo. Dever supremo a que não podeis escapar,
nas quais a matéria está presa, não há lugar para absurdos, como mesmo que quisésseis ficar ociosos; o instinto de conservação
seria o fim de qualquer unidade menor ou maior. Ao contrário, vos defende do suicídio, dando-vos o medo da morte.
tudo se reagrupa em unidades coletivas e coordena a própria evo- Compreendei, porém, que se a conservação é necessidade
lução na evolução de unidades superiores, das quais é o elemento inviolável, não pode, sozinha, constituir o fim último, porque é
constitutivo (lei dos ciclos múltiplos). absurdo um ciclo fechado e estacionário de finalidade, uma vi-
da que só tenha como meta a autoconservação. A vida não é
LXI. EVOLUÇÃO DAS LEIS DA VIDA fim em si mesma, mas meio para um objetivo mais alto: evolu-
ir. Evoluir significa progredir na alegria, no bem; significa li-
Essa evolução, cujo maravilhoso caminho estamos obser- bertação das formas inferiores de existência, realização pro-
vando, é produzida, em seu aspecto conceptual, por uma trans- gressiva do pensamento de Deus: meta suprema, que vos revela
formação de princípios e de leis. As formas do ser, como as en- por que o fenômeno da vida está tão ciosamente protegido por
contrais em todos os níveis (  ), são simplesmente a ex- leis sábias. Refleti que nela se quer, supremamente, vossa feli-
pressão desse pensamento em contínua ascensão. Na reconstru- cidade, e elevai um hino de gratidão ao Criador.
ção desse pensamento, que atingis mediante a análise e a obser- Eis o novo instinto universal e insuprimível: a necessidade
vação, está a síntese máxima que resume o mistério da criação. de progresso e a insaciabilidade do desejo. O próprio hábito da
Por isso, mais do que nos entretermos no estudo das formas or- satisfação, pela lei dos contrastes, base da percepção, ao dimi-
gânicas – fenômeno que conheceis, porque exterior e mais ime- nuir a alegria, acentua a insaciável necessidade de progresso. A
diatamente acessível – insistiremos na compreensão dos princí- Lei contém em si todos os elementos do desenvolvimento futu-
pios que as determinam e regem o transformismo, isto é, o es- ro. Longo caminho evolutivo reunirá os germes das leis bioló-
tudo das causas, mais do que dos efeitos. gicas contidas nos movimentos vorticosos, com as mais altas
Comecemos, pois, pelo que é prevalentemente o aspecto con- leis da ética e das religiões. As formas primordiais evoluem. O
ceptual dos fenômenos biológicos, o princípio diretor em sua as- princípio originário subsiste tenazmente, inviolável, superior a
censão, para depois observar o aspecto dinâmico do devenir das todas as infinitas resistências do ambiente, que sempre lhe cri-
formas em que se exprime a ascensão desse princípio. O aspecto am obstáculos, na superação dos quais ele se retempera. A lei
estático das individuações orgânicas está suficientemente ex- baixa e feroz requinta-se. Fome e amor – primeira expressão da
presso por vossas categorias botânicas e zoológicas e pelo princí- lei da luta pela conservação – mais tarde, através das duas for-
pio evolucionista darwiniano das formas, já conhecido. mas de atividades por elas impostas ao ser, trabalho e afetos,
Nesses três aspectos, tal como nas fases precedentes, esgota- tornar-se-ão duas qualidades elevadas e poderosas: inteligência
se o estudo da fase . Na realidade, estão fundidos juntos, pre- e coração, que governam, nos níveis humanos mais altos, a
sentes em qualquer gênero e a qualquer momento, como cada conservação individual e coletiva. A função cria o órgão tam-
pensamento está fundido na veste que o manifesta; assim vos bém no campo psíquico, ou seja, hábitos e qualidades. Surge
aparecem na história do desenvolvimento ontogenético e filoge- imperceptivelmente, com o exercício, a nova característica, que
nético (embriologia metamorfológica e genealogia da espécie). afinal se estabiliza com nitidez.
Só compreendereis isso se o considerardes mais como desenvol- Assim, a evolução fixa gradualmente suas conquistas; de-
vimento de princípio que de formas, de psiquismo que de órgãos. senvolvendo seus princípios, distinguindo-os e multiplicando-
Por tudo o que dissemos sobre a teoria dos movimentos vorti- os por diferenciação, opera no mundo dos efeitos uma verda-
cosos e sobre a lei biológica da renovação, o movimento ou prin- deira criação. Mas é sempre o absoluto que se manifesta no
cípio cinético da Substância torna-se cada vez mais intenso e relativo, a causa única que se multiplica em seus efeitos. Nas-
manifesto e nos guia às portas da terceira fase, , com um con- cerão, assim, órgãos e instintos, funções novas e novas capa-
ceito fundamental: o metabolismo. Já vimos a sua íntima estrutu- cidades. Do primordial funcionamento orgânico, do simples
ra. Metabolismo, fato desconhecido em  e em , fato novo, que princípio de permuta, subir-se-á até às mais complexas formas
significa ritmo acelerado de evolução. Vimos que os movimentos de psiquismo do espírito humano. Então aparecerá, por evolu-
vorticosos contêm em germe todas as leis biológicas. O princípio ção, como elemento substancial na economia da vida, aquele
básico da indestrutibilidade da substância torna-se, na vida, ins- absurdo biológico, o altruísmo. A lei que regula a vida assu-
tinto de conservação; o princípio de seu transformismo ascensio- me uma forma de expressão mais elevada ou mais baixa, de
nal torna-se lei de luta. A vida manifesta-se, desde seu primeiro acordo com o grau do ser, revelando-se na medida correspon-
aparecimento, com uma fundamental característica de atividade: dente à potencialidade conquistada por ele. A evolução torna
a da luta pela conservação. Esse princípio logo se divide em cada vez mais transparente, na vida, um pensamento cada vez
dois: conservação do indivíduo e conservação da espécie, que mais alto e transforma as leis biológicas.
presidem duas funções básicas: nutrição e reprodução. Jamais vos perguntastes o significado do contraste tão evi-
Há uma linguagem comum a todos os seres vivos, que to- dente entre a lei sem piedade da luta e a lei humana mais doce,
dos compreendem: a fome e o amor. Mesmo na reprodução da compaixão, bondade e altruísmo? O próprio animal conhece
por cissiparidade, há uma doação de si, há o germe de um al- a compaixão, mas só para si e para seus filhos. Afora esses ca-
truísmo a favor da espécie. A vida aparece imediatamente, sos, a luta é feroz, sem exceções. O esforço da evolução se rea-
desde suas primeiras formas, com a marca de ilimitado ego- liza mediante uma seleção implacável, e o triunfo cabe, incon-
ísmo, que somente cede lugar a um egoísmo diverso: o ego- dicionalmente, ao mais forte. No homem, os objetivos da sele-
ísmo individual apenas faz concessões ao egoísmo coletivo. ção são alcançados por outros meios, pelo trabalho, pela inteli-
Trata-se de leis férreas, ferozes em seus primórdios, mas sem- gência, pelos sentimentos. Só no homem surgem essas supera-
pre equilibradas em perfeita justiça. No íntimo do fenômeno ções e a percepção do contraste com a lei mais baixa.
existe, como vimos, o princípio de todos os futuros desenvol- O animal ignora essas formas superiores e é atroz, sem pi-
vimentos e das mais altas ascensões. O embate e o equilíbrio edade, indiferente à dor do vizinho, mas em perfeita inocên-
das forças do mundo dinâmico tornar-se-ão dor e justiça nos cia; não por maldade, mas em plena justiça, porque esse é seu
níveis mais elevados. Conservar-se é o mais premente e sempre nível e sua lei. O equilíbrio na consciência animal é mais me-
presente esforço da vida. Tesouros de sabedoria são dissipados, cânico, simples e primitivo; ressente-se mais fortemente das
todas as astúcias, os meios mais poderosos, todos os sistemas e origens e ainda aparece como uma resultante de forças, sendo
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 75
mais facilmente calculável em sua simplicidade do que na LXII. AS ORIGENS DO PSIQUISMO
complexidade do espírito humano.
Nas mesmas circunstâncias, o ser humano se comporta com
liberdade de escolha e independência pessoal, ignoradas no Vimos o aspecto conceptual da fase , a evolução do prin-
mundo animal, justamente porque em seu campo entram em cípio diretor da vida. Observemos, agora, o aspecto dinâmico
função elementos desconhecidos nos níveis inferiores. Observai preponderante do devenir em que se manifesta esse princípio.
em que rede de forças e de princípios se movem as formas; ob- Vimos transformar-se o princípio básico da luta. Vejamos, en-
servai que imensas criações pode produzir um mero desenvol- tão, como se exprime essa transformação nas formas de um
vimento de princípios. Só o homem olha para trás e, pela pri- psiquismo crescente. As três forças que sustentam as leis de
meira vez, percebe a distância que o separa do passado e deste conservação e evolução e se manifestam nos impulsos: fome,
se horroriza. O homem se encontra no limiar do mais alto psi- amor e insaciabilidade do desejo, acompanham a transformação
quismo, representando a forma de transição entre a animalidade dos princípios e modificam profundamente a natureza do ser,
e a super-humanidade, entre a ferocidade e a bondade, entre a tornando esta uma exata expressão daqueles.
força e a justiça. Duas leis contíguas e, no entanto, profunda- Se a finalidade da vida é a evolução, o objetivo da evolução
mente diferentes. O homem oscila entre dois mundos: o mundo – sua constante tendência e máxima realização na fase vida – é
animal, que impõe comer ou ser comido – agressão, força bruta, o psiquismo. Observemos como ele surge e se desenvolve até às
luta sem piedade, triunfo incondicional do mais forte – onde a formas superiores humanas. Um germe do psiquismo já existe,
força física sintetiza toda a vitória nesse nível; e o mundo supe- como vimos, na complexa estrutura cinética dos movimentos
rior, anunciado pelo Evangelho do Cristo, a Boa-Nova, a pri- vorticosos. Daqueles primeiros sintomas até ao espírito do ho-
meira centelha da maior revolução biológica em vosso planeta. mem, passa-se por gradações sucessivas de desenvolvimento,
Em meu conceito, os fenômenos psíquico e social são fe- através das formas vegetais e animais, cujos órgãos e formas
nômenos biológicos, sendo assim reconduzidos à sua substân- são meras manifestações de um psiquismo progressivo. Esse
cia, de lei da vida. Neste novo mundo, a força torna-se justiça. psiquismo crescente, que rege todas as formas de vida, é um
Somente o homem, finalmente amadurecido, pode compreender dos espetáculos mais maravilhosos apresentados por vosso uni-
esta antecipação de realizações biológicas, reveladas pelo céu. verso. Nele reside a substância da vida, e a essa substância man-
Jamais, desde o aparecimento da vida até ao homem, fora inici- temo-nos aderentes. Para nós, vida = , ao passo que suas for-
ada tão profunda transformação, pois a vida animal é apenas mas constituem apenas a veste exterior de um íntimo psiquismo.
uma vida vegetal mais acelerada e lhe conserva os princípios Evolução biológica é, para nós, evolução psíquica. Para compre-
fundamentais. A lei do amor e do perdão constitui tamanha re- ender a evolução dos efeitos, é mister compreender a evolução
volução substancial, que o animal inevitavelmente fica excluído das causas. Para nós, zoologia e botânica são ciências de vida,
dela; diante de tão grande desenvolvimento dos princípios da não um catálogo de cadáveres, e consideramos as formas apenas
vida, o ser inferior – ao qual tantas vezes o homem ainda se as- enquanto são a expressão do conceito que as plasmou. Não as li-
semelha – para, como diante de muralha insuperável. Esses gamos por parentela orgânica senão onde e enquanto esta é indi-
conceitos são verdadeiramente, nesse nível, um absurdo, uma cadora de uma parentela psíquica mais substancial. Botânica e
impossibilidade; direi mais, são uma impotência biológica. zoologia, vós as reduzistes a necrópoles, ao passo que são reinos
Veremos como ocorre, por um sistema de reações naturais e palpitantes de vida, de sensibilidade, de atividade, de beleza.
de registros destas na consciência, por progressiva aproxima- Assim consideramos, desde o princípio, o problema da vi-
ção e disciplina da força desordenada, a transformação da lei da e o desenvolveremos até o fim, porque só desse modo po-
do mais forte na lei do mais justo; da lei desapiedada da seleção dem ser resolvidos racionalmente todos os problemas biológi-
na lei do amor. A lei do Evangelho não é um absurdo em vosso cos, psíquicos e éticos. É absurdo conceber que as formas da
nível biológico; não é aquilo que, visto de níveis mais baixos, vida sejam objetivos em si mesmas e sua evolução não possua
pode parecer fraqueza e falência. Nesta fase mais alta de evolu- finalidade nem continuação justamente onde um eterno trans-
ção, o vencido da vida animal pode ser um vitorioso, porque formismo as precede nas fases  e . A continuação da evolu-
outras forças, ignoradas naquela vida, são atraídas e postas em ção orgânica só pode ocorrer a partir da evolução psíquica,
ação. Aparece o mundo moral, que supera, vence e submete o como de fato se realiza no homem. Este psiquismo é a meta
mundo orgânico, dominando-o e arrastando-o para esferas su- mais alta da vida. Seu desenvolvimento é o resultado final da
periores. Em qualquer caso, a inconcebível fraqueza da bonda- permuta, da seleção, da transformação da espécie, de tão
de, a deposição de todas as armas – base da luta pela vida – o grande sabedoria, de tamanha luta, de tão alta tensão. Esse
altruísmo para qualquer ser, sobretudo para com o inimigo, psiquismo se fixa nos órgãos, nas formas; plasma-as, anima-
transforma-se em novo princípio de convivência e de colabora- as em todos os níveis, delas faz um meio para evoluir ainda
ção, a lei do homem que se eleva a outra unidade coletiva mais mais. Nas formas da vida, o psiquismo se revela e se exprime;
alta, que se organiza em nações, sociedades, humanidades. Os a partir das formas, observando-as, podeis subir até ao princí-
homens que praticam (não os que apenas apregoam) esses prin- pio psíquico, à centelha que se agita em seu âmago. Tudo isso
cípios, ainda são poucos e incompreendidos. Mas aumentarão, e constitui um esforço, uma ascensão dolorosa, do protozoário
só a eles pertence o futuro. ao homem, sempre subindo, até aos mais altos cimos do psi-
Mais perfeita manifesta-se a Lei à proporção que as unidades quismo, onde se realiza a gênese do espírito, obra maravilhosa
menores se diferenciam e se organizam em unidades mais am- e progressiva, em que a Divindade, princípio infinito, está
plas. Cabe ao homem transformar a natureza. Direi melhor: ele sempre presente num ato constante de criação.
mesmo é a natureza, e nele a natureza se transforma. Compete ao No estudo dos movimentos vorticosos, vimos como eles con-
homem, mudando-se a si mesmo, realizar a transformação da lei têm, em germe, o desenvolvimento das leis biológicas e como a
biológica em seu planeta; realizar, fixando-as nas formas psíqui- íntima estrutura cinética da vida lhes permite, desde suas unida-
cas, estas criações superiores da evolução. des primordiais, admitir em sua órbita impulsos de fora e conser-
Cabem ao homem o dever e a glória de responder ao gran- var seus traços em suas subsequentes alterações cinéticas íntimas.
de apelo descido dos céus para que ele, o ser escolhido, pro- Um cálculo exato de forças existe, pois, como base dessa capaci-
duto mais elevado da vida terrestre, cumpra o trabalho de dade de conservação dinâmica, que se tornará recordação atávi-
transformar uma natureza que ignora a compaixão numa natu- ca, base sobre a qual se elevará a lei da hereditariedade. A onda
reza movida por uma lei superior de amor, de fusão, de cola- dinâmica degradada, ao investir a íntima estrutura atômica, ti-
boração, de compreensão, de fraternidade. nha gerado a vida, e o ambiente externo, em que continuava a
76 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
existir a matéria e a energia, ainda não elevadas à vida, represen-
que não pode existir senão na ignorância humana. Não tomeis
tando um campo de intensa atividade cinética, saturado de impul- justamente essa concessão à vossa fraqueza como base apolo-
sos, continha e representava uma riqueza inexaurível de forças gética das religiões, porque, com esse contrassenso, ao invés
aptas a introduzir-se e combinar-se no vórtice vital. de reforçar, diminuís a fé.
Logo que surgiu, estabeleceu-se uma rede de ações e reações Vede que tudo o que existe provém de um princípio que
entre a nova individuação e as forças do ambiente, desenvolven- age sempre, não de fora para dentro, mas de dentro para fora,
do-se aquela cadeia de fenômenos em que se apoia e progride a princípio oculto no íntimo mistério do ser, que aparece como
evolução, que são agrupados sob os nomes de assimilação, adap- sua manifestação e expressão. Igualmente antropomórfica é a
tação, hereditariedade, seleção. A vida, com seu mais intenso di- ideia do nada, inadmissível no Absoluto. Como poderão exis-
namismo, respondeu a todas as impressões dinâmicas provenien- tir zonas externas ou zonas de vazio, senão no relativo? O fato
tes do mundo exterior. Estabeleceu-se uma permuta de impulsos da indestrutibilidade e da eternidade da Substância, que veri-
e respostas. A vida adaptava-se e assimilava, mas, sobretudo, re- ficais, demonstra-vos o absurdo desse nada, que é apenas uma
cordava, diferenciava-se e selecionava. O íntimo princípio cinéti-pseudoideia. Deus é o Absoluto e, como tal, não pode ter con-
co enriquecia-se e complicava-se, aumentava sua capacidade de trários nem pontos externos, nem qualquer das características
assimilação. Não se trata do nascimento automático do mais do relativo. Suas manifestações não podem ter princípio nem
complexo provindo do menos complexo, mas sim, apenas, que os fim. No relativo, podeis colocar uma fase de evolução, mas
entrelaçamentos cinéticos mais complexos permitiam a manifes- não o eterno devenir da Substância; no finito, podeis colocar-
tação do princípio cinético anteriormente concentrado em sua fa- vos a vós mesmos e os fenômenos de vosso concebível, mas
se potencial. Direção, escolha, memória foram as primeiras mani- não a Divindade e suas manifestações. Podereis chamar cria-
festações daquele dinamismo, que já agora assume os caracteres ção a um período do devenir e só então falar de princípio e de
de psiquismo. Nasce a possibilidade de uma construção ideoplás- fim. Neste sentido falam as revelações.
tica de órgãos. O princípio cinético, emanado do vórtice íntimo, Compreendei-me, pois, e não vos escandalizeis deste concei-
plasma para si os meios específicos para receber as impressões to religiosíssimo da gênese do espírito. Este não é princípio infu-
ambientais, isto é, os infinitos sentidos, que progridem da plantaso de fora (esta foi a fórmula necessária à tradição mosaica, para
ao homem, meios para alimentar a sensibilidade acrescida, devi- que os povos primitivos pudessem compreender), mas é princípio
da à mais veloz íntima mobilidade do ser. que se desenvolve de dentro, exteriorizando-se daquele centro
profundo, no qual deveis comprovar que está a essência das coi-
LXIII. CONCEITO DE CRIAÇÃO sas e o porquê dos fenômenos. Deus é a grande força, conceito
que age no íntimo das coisas. Desse íntimo expande-se nos perí-
Compreendei bem meu pensamento quando vos falo de de- odos do relativo, num aperfeiçoamento progressivo, gradativa-
senvolvimento do psiquismo até à gênese do espírito, e isto sem mente manifestando sua perfeição. O universo permanece sem-
intervenção de uma força exterior, mas por um processo auto- pre Sua obra maravilhosa; todas as criaturas são sempre filhas
mático. No meu sistema, a Substância, mesmo em suas formas Suas; tudo continua sempre efeito da Causa Suprema. Não pode
inferiores  e , inclui, em estado potencial e latente, todas as haver blasfêmia nesta concepção; se não corresponde à letra das
infinitas possibilidades de um desenvolvimento ilimitado. Escrituras, agiganta-lhes o conceito, eleva-as e lhes vivifica o es-
Compreendei que uma criação exterior e antropomórfica é ab- pírito até uma racionalidade de que o homem tem hoje absoluta
surda. Não interpreteis mal meu pensamento, nem tenteis re- necessidade, para que sua fé não se destrua.
conduzi-lo, à força, ao materialismo, porque, se lhe conserva a Dizer que o universo contém sua própria criação, como mo-
forma, dele se afasta enormemente na substância, chegando a mento de seu eterno devenir, é apenas demonstrar e tornar com-
coincidir, nas conclusões, com o mais alto espiritualismo. Não preensível a onipresença divina. Tudo tem de reentrar na Divin-
digais: então a matéria pensa. Dizei que, na vida, a matéria, dade, caso contrário esta constituiria uma “parte” e, portanto, se-
elevada a um grau mais alto de evolução, é veículo capaz, pela ria incompleta. Se existem forças antagônicas, isto só pode ocor-
íntima elaboração sofrida, de manifestar em maior medida o rer em Seu seio, no âmbito de Sua vontade, como parte do meca-
potencial nela incluído. É incomparavelmente mais científico, nismo do Seu querer, do esquema do todo. Em verdade, a obra
mais lógico e mais correspondente à realidade este conceito da humana também é manifestação e expressão em que se realiza e
Divindade sempre presente e continuamente operando no âma- se exterioriza, como na criação, um pensamento interior. Isto jus-
go das coisas, precisamente na essência delas, do que o de uma tifica a concepção antropomórfica, mas não leveis o paralelismo
Divindade que, num ato único, num momento determinado no até conceber uma cisão, uma duplicidade absoluta entre Divinda-
tempo, à maneira de um ser humano, age fora de si, de forma de e criação. Isto não pode ocorrer neste meu monismo.
imperfeita e, ao mesmo tempo, definitiva. Não limiteis o conceito de Divindade a um ou a outro as-
O Absoluto divino só existe no infinito. Sua manifestação pecto, pois esse conceito tem de ter a máxima extensão do
(existirmanifestar-se) não pode ter tido um início. Em sua concebível e muito mais. Não tenhais medo de diminuir-lhe a
essência, que abrange o todo, ele não age no tempo, a não ser grandeza, dizendo que Deus é também o universo físico, por-
no sentido de um átimo de seu eterno devenir, no sentido de que este é apenas um átimo de seu eterno devenir, em que Ele
uma particular descida Sua no relativo, e neste sentido devem se manifesta. Onde vossa concepção é mais particular e relati-
ser entendidas, e só assim são compreensíveis, as Escrituras. va, a minha tende a manter compacto o todo numa visão uni-
Além disso, o fato de que verificais um transformismo inces- tária, fazendo ressaltar os vínculos profundos que ligam prin-
sante e uma progressiva suscetibilidade de aperfeiçoamento cípio e forma. No caminhar das verdades progressivas, esta
em todas as coisas, vos fala claramente de uma criação pro- concepção continua, aperfeiçoa e eleva a vossa.
gressiva, entendida como progressiva manifestação do concei- Deus é um infinito, e a essência de Sua manifestação vós a
to divino no mundo concreto e sensório dos efeitos. O concei- percebereis cada vez mais real, à medida que vossa capacidade
to de prodígio, com o fito de correção e de retoque, é inerente perceptiva e conceptual souber penetrar o âmago das coisas.
apenas à fraqueza e à relatividade humanas e não se pode Deus é o princípio e a sua manifestação, ambos fundidos numa
aplicá-lo ao Absoluto e à Divindade. unidade indissolúvel; é o absoluto, o infinito, o eterno, que ve-
Não se pode alterar a perfeição da Lei, para proporcionar des apenas pulverizado no relativo, no finito, no progressivo.
espetáculo humano. O milagre, compreendido como violação Deus é conceito e matéria, princípio e forma, causa e efeito, li-
e refazimento de leis, não é prova de poder, mas um absurdo gados, indivisíveis, como a realidade fenomênica vo-los apre-
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 77
senta, como a lógica vo-los demonstra, como dois momentos e Enquanto a vida é o efeito de um dinamismo íntimo organizador,
dois extremos entre os quais se agita o universo. constitui ao mesmo tempo o campo em que esse dinamismo se
Que maior profundidade ética e, ao mesmo tempo, verdade exercita e se desenvolve. Se a modelação das formas não provi-
biológica (extremos que jamais soubestes unir) existem nesta esse de um princípio interno, não veríeis esse crescimento provir
concepção, segundo a qual o corpo é o órgão da alma; não é o sempre de dentro, indo da reprodução dos tecidos, por vezes de
cérebro que pensa, mas o espírito, por meio do cérebro; o corpo órgãos inteiros, até à formação dos organismos adultos.
é a veste caduca que a alma eterna constrói para si, para as ne- Em sua íntima estrutura cinética, a vida conserva a memória
cessidades de sua ascensão! Que maior elevação espiritual do das ações e reações dinâmicas anteriores, concentra em si os
que esta na qual cada forma existente, numa perfeita fusão de traços marcantes e pode realizá-los todos. Assim é possível a
pensamento e de ação, é manifestação divina, expressão daque- concentração de toda a arquitetura de um organismo em um
le supremo princípio, centelha animadora cuja ausência desa- germe, e sua reconstrução completa a partir da semente até à
gregaria repentinamente qualquer organismo? forma adulta. Toda a evolução vos apresenta o espetáculo desse
A matéria subsiste, e como poderia ser destruída? Ela está processo de centralização e descentralização cinética que, no
fundida com o espírito num complexo poderoso e, como serva caso da semente, é como se o tocásseis com a mão. Nela, o mo-
fiel, ajuda-lhe o desenvolvimento e lhe recebe a gênese em seu vimento conserva todas as características de seu tipo; o germe
seio materno. Depois, completada a criação, inclina-se diante conserva em seu âmago uma estrutura indelével – a lembrança
do fruto de sua elaboração, tornando-se sua serva, pois, ainda do passado vivido – que terá de reproduzir intacta ao novo or-
que, no todo, o baixo esteja ligado com o alto em fraternidade ganismo, o qual, na maturidade, terá a capacidade de modificá-
de origem e de trabalho, cada individuação não pode ultrapas- la, mas somente em escala mínima, e, uma vez assimilada essa
sar seu nível. Assim, a matéria, na vida, permanece no grau in- modificação, a transmitirá ao novo germe.
termediário e jamais o ultrapassa. Os resultados da experiência da vida, em qualquer nível,
Deveis, ainda, compreender que matéria, energia, vida e gravitam para o interior, onde são destilados os valores, resu-
consciência, toda essa florescência incessante que do âmago se midos os totais e processada a síntese da ação. Para lá descem,
projeta para fora, não se deve a uma absurda gênese pela qual em camadas sucessivas, os produtos da vida. O psiquismo fica
do menos se possa desenvolver o mais, ou do nada se possa au- em crescimento constante, porque em redor do primeiro núcleo
tomaticamente criar o ser. Tudo isso é forma, aparência externa, depositam-se, por superposição progressiva, os valores, os to-
é a manifestação sensível daquele devenir contínuo em que o tais e as sínteses da vida. Assim, a consciência, embora em
Absoluto divino se realiza, projetando-se no relativo. Não pen- graus muito diferentes, é um fato universal em biologia, e seu
seis que os movimentos vorticosos, em que se transformou o desenvolvimento, por adição dos resultados de experiências
complexo atômico na vida, contenham e desenvolvam o espíri- (variações cinéticas introduzidas na unidade vorticosa), é o re-
to e o vosso pensamento, mas pensai que eles formam uma sultado do fenômeno da vida. De um a outro extremo da vida, a
mais complexa disciplina, à qual a matéria se submete, para consciência – embora só apareça com intensidade nos organis-
poder manifestar o princípio que a anima e corresponder ao im- mos superiores, onde, para divisão do trabalho, ela constrói pa-
pulso interior que a solicita sempre a evoluir. ra si órgãos específicos – ainda assim está sempre presente, e,
desde a consciência elementar dos proto-organismos até ao es-
LXIV. TÉCNICA EVOLUTIVA DO PSIQUISMO E pírito humano, o sistema de seu desenvolvimento é idêntico e
GÊNESE DO ESPÍRITO constante. O centro enriquece-se em qualidade e em potência e,
com isso, adquire a capacidade de construir para si órgãos cada
Após termos enfrentado o problema da gênese da vida, en- vez mais adequados para exprimir sua mais complexa estrutura.
contramo-nos, agora, diante de um ainda mais formidável, o da Assim, princípio e forma, mutuamente ativos e passivos, sob o
gênese do espírito. É um fato que, a partir das primeiras unida- aguilhão dos choques das forças ambientais e estimulados pelo
des protoplasmáticas – filhas do raio globular – em diante, pro- impulso íntimo que, por lei de evolução, forceja por exteriori-
toplasma e célula possuem uma sensibilidade e uma capacidade zar-se, evoluem gradualmente, e, pela tensão desse contraste,
de registrar impressões, devido à íntima estrutura da permuta desponta, do mistério do ser à luz, do polo consciência ao polo
química, pois, desde suas primeiras manifestações, a vida devia forma, a manifestação da vida.
produzir fenômenos de psiquismo, embora muitíssimo rudi- Desde a primeira forma protoplasmática, a vida tinha de pos-
mentares. A mobilidade, ainda que estável e elástica, do siste- suir uma consciência orgânica própria, embora rudimentar. Sem
ma atômico da vida era o meio mais adequado ao desenvolvi- isso, não poderia subsistir aquela primitiva permuta. Se vida
mento e à progressiva expressão desse psiquismo. equivale a permuta e permuta corresponde a psiquismo, então a
Indagais, sem certeza, se a função cria o órgão ou se o órgão vida é igual a psiquismo. Essa primordial consciência orgânica,
cria a função, porque ignorais o princípio da vida e não sabeis em que já estão presentes as leis fundamentais da vida, está em
como interpretar-lhe os fenômenos. Nem um caso, nem outro. toda a parte, em qualquer organismo. Desenvolvida na complexa
O organismo é uma construção ideoplástica, que ocorre assim estrutura cinética dos movimentos vorticosos, já era integrante da
que a maturação evolutiva do meio – a matéria – permita a ma- vida em seu primeiro nascer, como substrato fundamental de to-
nifestação do princípio latente, que se manifesta diversamente, dos os crescimentos futuros. Essa consciência orgânica tornar-se-
de acordo com as circunstâncias do ambiente, onde e como o á inteligência orgânica e instinto e, finalmente, ascenderá à cons-
meio lhe permitir o desenvolvimento desta manifestação. Órgão ciência psíquica e abstrata no homem.
e função, pois, surgem juntos, e seu progresso é recíproco devi- Desde as primeiras formas, a matéria possui as propriedades
do a um apoio mútuo: do órgão sobre a função, que o desenvol- psíquicas fundamentais, os elementos dessa consciência, inse-
ve, e da função sobre o órgão, que a aperfeiçoa. Assim, a cons- parável da vida, porque é a essência e a condição dela. A ameba
ciência não cria a vida, nem a vida cria a consciência, mas ambas já possui todas as propriedades biológicas básicas: metabolis-
trabalham e ajudam-se mutuamente a vir à luz – o princípio, mo, movimento, respiração, digestão, secreção, sensibilidade,
plasmando e desenvolvendo para si uma forma cada vez mais reprodução e psiquismo. A técnica da vida já lançou suas bases,
adequada à sua manifestação, e a vida, fixando esse impulso e e as grandes linhas arquitetônicas estão traçadas. O desenvol-
organizando-se para maior perfeição. O princípio move a maté- vimento se produz em todos os níveis, obedecendo à mesma
ria, torna-a cada vez mais aderente à sua expressão; nesse tra- técnica: a transmissão ao centro psíquico já constituído e o
balho, ele se reforça, expande-se e se manifesta mais poderoso. crescimento desse núcleo pela estratificação em torno dele das
78 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
capacidades sucessivamente adquiridas. A repetição de uma re- todo o seu rendimento. Apenas é eliminado da zona da cons-
ação, como resposta a uma ação exterior constante, tende a fi- ciência, porque agora já pode funcionar sozinho, deixando o
xar-se na trajetória íntima como nova forma. eu em repouso. A qualidade assimilada e transmitida ao sub-
A vida, ansiosa por expandir-se e evoluir, mantém seus bra- consciente cessa de ser fadiga e se torna necessidade, instinto.
ços abertos às forças ambientais, que são introduzidas em gran- O impulso impresso na matéria fica e, quando reaparece, ex-
de quantidade; as reações multiplicam-se, e a consciência, ávi- prime-se como vontade autônoma de continuar na sua direção,
da de sensações, enriquece-se e aperfeiçoa-se. Complica-se sua como criatura psíquica independente, criada por obra vossa,
estrutura; nada se perde, nem um ato, nem uma prova passam mas que, agora, quer viver sua vida. Dessa maneira, a consci-
sem deixar sua marca. Transforma-se a consciência primordial, ência representa apenas aquela zona da personalidade em que
a forma que a reveste, o ambiente que a circunda, num processo ocorre o esforço da construção do eu e de sua ulterior dilata-
lento de ajustamentos contínuos. O ser, por ter vivido e acumu- ção. Em outros termos: limita-se unicamente à zona de traba-
lado experiências, torna-se cada vez mais sábio, especializando lho, o que é lógico. O consciente compreende somente a fase
sua capacidade. Nasce o instinto – uma consciência mais com- ativa, única que sentis e conheceis, porque é a fase em que vi-
plexa, que lembra, sabe e prevê. veis e na qual trabalha a evolução13.
Subamos, ainda, até ao homem. Os substratos precedentes Agora podeis compreender algumas características inexpli-
subsistem: a consciência orgânica, obscura, automática, mas pre- cáveis do instinto, assim como sua maravilhosa perfeição. No
sente, porque em funcionamento, embora abandonada na profun- instinto, a assimilação está terminada. Então o fenômeno não
deza do ser; o instinto vivo, presente e, como nos animais, sábio está em formação, mas já atingiu sua última fase de perfeição.
e memorioso. Mas acrescenta-se nova estratificação: a razão, a Por isso o instinto é tenaz e sábio; existe por hereditariedade e
inteligência, aquele feixe de faculdades psíquicas que formam a sem aprendizado, justamente porque esse já ocorreu; age sem
consciência propriamente dita. Assim como o germe sintetiza to- reflexão (tanto no animal como no homem), exatamente porque
do o organismo que produzirá, também a vida sempre se refaz já refletiu bastante. Foi superada a fase de formação; o ato re-
para recomeçar de novo, repetindo em cada forma o ciclo percor- flexivo torna-se inútil e é eliminado; a repetição constante cris-
rido em toda a evolução precedente – como fenômeno orgânico e talizou o automatismo numa forma que corresponde perfeita-
como fenômeno psíquico – e também o homem resume em si to- mente ao modo de atuação contínuo das forças ambientais.
das as consciências inferiores: cada célula possui sua pequena Cálculo de forças, adaptações, ações e reações, sensibilida-
consciência, que preside ao seu metabolismo em cada tecido, e de e registro, concorrem para o transformismo. No crisol das
cada órgão tem uma consciência coletiva mais alta, que lhe dirige formações estavam misturadas, em ebulição, forças reguladas,
o funcionamento, sendo todo o organismo dirigido pelos instin- cada uma por um inato princípio-lei próprio, perfeito, e, portan-
tos, que regem e conservam a vida animal. to, perfeito e exato tinha de ser o resultado. O princípio diretor,
que garantia a constância das ações e condições ambientais,
LXV. INSTINTO E CONSCIÊNCIA. permitiu a estabilização de reações constantes no instinto e,
TÉCNICA DOS AUTOMATISMOS portanto, a correspondência deste com o ambiente.
Compreendeis agora a estupenda presciência do instinto
Não vos admireis disto, pois conheceis somente uma pe- e de que infinita série de experiências, incertezas e tentativas
quena parte de vós mesmos. O funcionamento orgânico não seja ela o resultado. O indivíduo deve ter aprendido alguma
ocorre fora de vossa consciência, confiado a unidades de cons- vez essa ciência, porque do nada, nada nasce; deve ter expe-
ciências inferiores, situadas fora dela? A economia que a lei do rimentado a constância, por ela pressuposta, das leis ambien-
menor esforço impõe, limita a consciência humana ao âmbito tais, a que correspondem seus órgãos e para as quais ele é
em que se realiza o trabalho útil das construções. O que foi vi- feito e proporcionado. Sem uma série infinita de contatos, de
vido e definitivamente assimilado é abandonado aos substratos experiências e adaptações no período de formações, não se
da consciência, zona que podeis chamar de subconsciente. Por explica uma tão perfeita correspondência de órgãos e instin-
isso o processo de assimilação, base do desenvolvimento da tos, antecipados à ação, dentro de uma natureza que avança
consciência, realiza-se justamente por transmissão ao subcons- por tentativas, tampouco se explica sua hereditariedade. No
ciente, em que tudo permanece, mesmo se esquecido, pronto instinto, a sabedoria já está conquistada; foi superada a fase
para ressurgir se um impulso o excitar ou um fato o exigir. de tentativas e vencida a necessidade de submeter-se a uma
O subconsciente é exatamente a zona dos instintos, das linha lógica, que, oferecendo várias soluções, demonstra a
ideias inatas, das qualidades adquiridas; é o passado superado, fase insegura e incerta dos atos raciocinados, onde o instinto
inferior, mas adquirido (misoneísmo). Aí se depositam todos os conhece um só caminho: o melhor.
produtos substanciais da vida; nessa zona encontrais o que fos- A razão cobre um campo muito mais extenso que o limitado
tes e o que fizestes; reencontrais o caminho seguido na constru- pelo instinto (nisto o homem supera o animal, dominando zonas
ção de vós mesmos, tal como nas estratificações geológicas re- que ele ignora). Entretanto, em seu pequeno campo, o instinto
encontrais a vida vivida pelo planeta. A transmissão ao sub- atingiu um grau de amadurecimento mais adiantado, expresso
consciente ocorre justamente através da repetição constante. pela segurança dos atos, e um grau de perfeição ainda não al-
Então dizeis que o hábito transforma um ato consciente num cançado por nenhuma razão humana. Esta, nas tentativas, reve-
ato inconsciente, com ele formando uma segunda natureza. Este la as características evidentes da fase de formação. Da mesma
é o método da educação. Palavras comuns que exprimem exa- forma que o animal raciocinou rudimentarmente no período da
tamente a substância do fenômeno. Podeis, assim, com a edu- construção de seu instinto, assim a razão humana, terminada a
cação, o estudo, o hábito, construir-vos a vós mesmos. Logo formação, alcançará um instinto complexo e maravilhoso, que
que um ato é assimilado, a economia da natureza o deixa fora revelará sabedoria muito mais profunda.
da consciência, porque, para subsistir, não mais precisa que ela No homem conserva-se todo o instinto animal, de que a razão
o dirija. Logo que uma qualidade é apreendida, também é é mera continuação. Agora podeis compreender que instinto e ra-
abandonada aos automatismos, em forma de instinto, de cará-
ter que se fixou na personalidade. 13
Para um estudo mais particular do problema, ver Ascese Mística,
Não se trata de extinção nem de perda, porque tudo, indu- Cap. XIX, “O Subconsciente” e Cap. XX, “O Superconsciente”. Veja
bitavelmente, ainda que não na consciência, subsiste e está também os últimos capítulos sobre a “Personalidade Humana”, em A
presente e ativo no funcionamento da vida e continua a produzir Nova Civilização do Terceiro Milênio.
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 79
zão são simplesmente duas fases de consciência, a primeira já diversíssimas capacidades inatas, às quais tanto deve a vida, e
superada e, portanto, funcionando automaticamente; a segunda, que, doutra forma, não teriam explicação. Se a repetição de inu-
em vias de formação. Não coloqueis os dois momentos do mes- meráveis atos de defesa deu ao animal o instinto da defesa, o agir
mo processo evolutivo em antagonismo. No homem, não apenas moralmente conferirá ao homem hábitos morais. O pensamento
sobrevive todo o instinto do animal como também não cessa a desenvolve e enriquece a inteligência. Tendes, assim, um meio
formação de novos instintos, tal como ocorreu para aquele e com para poderdes retificar, continuamente, a substância de vossa
o mesmo sistema, embora muito mais rapidamente, em vista da personalidade; vós mesmos podeis plasmá-la para o bem ou para
potência psíquica do homem, e num nível muito mais alto, em o mal. Assim, vosso destino, produzido pelas qualidades que as-
virtude da complexidade de seu psiquismo. Da mesma forma similastes, constituído e cercado pelas forças que movestes, pode
que, no homem, a fase instinto é inconsciente e a fase razão é sempre sofrer retoques por vossas próprias mãos. Assim, o férreo
consciente, assim também, no animal, além do instinto inconsci- determinismo imposto pela lei de causalidade, abre-se na zona
ente, existe uma pequena zona de formação do consciente e do das formações estendidas para o futuro, num campo em que do-
racional, ainda que em suas formas primitivas. Se observardes, mina unicamente vosso livre-arbítrio, senhor da escolha, que
vereis que nem todos os atos dos animais estão cristalizados no mais tarde, salvo ulteriores correções, vos prenderá, por sua vez,
instinto, existe sempre uma porta aberta para novas aquisições na mesma lei de causalidade.
(aprendizado, domesticação etc.).
Entre a planta, o animal e o homem só existe a diferença LXVI. RUMO ÀS SUPREMAS
devida ao caminho maior ou menor que foi percorrido. Obser- ASCENSÕES BIOLÓGICAS
vai quão grande parte de vós mesmos está confiada aos automa-
tismos; como a racionalidade humana também tende a cristali- Eis a técnica do desenvolvimento do psiquismo, que culmi-
zar-se em atitudes instintivas e como passa a ser instinto tudo o na na gênese do espírito. Escavando no subconsciente, achareis
que foi profundamente conquistado. todo o vosso passado, que ressurge nos instintos, nas tendên-
Existe, pois, uma zona obscura do subconsciente e uma zo- cias, nas simpatias e antipatias. Quem vos poderia ter construí-
na lúcida do consciente. Além disso, há uma terceira zona, a do do repletos de conhecimentos gratuitos instintivos, senão “vos-
superconsciente, em que tudo são expectativas e na qual se pre- so” passado? Como poderia contê-los o germe da vida e depois,
param as conquistas do amanhã; fase possuída apenas como a um dado momento, desenvolvê-los prescientes e proporcio-
pressentimento e contida, em germe, nas causas que atuam no nados ao ambiente, senão por uma restituição? Que processo de
presente, de que ela representa o desenvolvimento. São zonas descentralização cinética seria esse se não tivesse sido precedi-
cujas amplitude e posição são relativas ao ser, de acordo com do, em razão de uma lei de equilíbrio, por um processo corres-
seu grau de desenvolvimento. Os limites do consciente, assim, pondente e proporcional de concentração cinética das qualida-
variam grandemente, mesmo para o homem, conforme sua evo- des adquiridas através de vidas e experiências? Existirá um úni-
lução pessoal. Aquilo que é consciente ou superconsciente para co fenômeno no universo que vos autorize a acreditar ser possí-
alguns, pode ser subconsciente (ou seja, caminho percorrido e vel algo diferente disso e que vos autorize a negar a lei de cau-
experiências adquiridas) para outros mais adiantados. Esses li- salidade, de proporção, de equilíbrio, de justiça? Olhai para vós
mites variam, também, durante a vida de um mesmo indivíduo, mesmos e encontrareis um abismo. Existem aí zonas mais pro-
pois a vida é justamente o período das aquisições e transforma- fundas, as dos instintos mais estáveis, onde se agitam os impul-
ções de consciência. A idade mais adequada a essas aquisições sos fundamentais da vida, tal como ela se definiu em suas fases
– em outras palavras, mais susceptível de educação – é a juven- mais distantes. Sobrevivências abissais, obscuras, da vida pri-
tude. A consciência, refeita pelo repouso, é mais propensa à as- mordial protoplasmática, que ainda se agitam nas fibras íntimas
similação, ao estabelecimento de novos automatismos, que de- de vosso organismo; instintos como a conservação, a defesa, a
pois se fixarão indelevelmente no caráter, sendo mais profun- reprodução, que, por vezes, explodem de inopino em vossa cons-
dos e mais resistentes os primeiros a se formarem. ciência, provindos de uma zona de mistério que desconheceis, re-
Resumindo rapidamente todo o caminho percorrido pela sultado da maturação de um ciclo, lei e vontade autônoma, que
evolução, a zona da consciência tende sempre a subir, deslo- progride independentemente de seu conhecimento ou vontade
cando-se para o superconsciente; educação, bons e maus hábi- (por exemplo: o instinto do amor, que explode na juventude).
tos, tudo se fixa em automatismos transmitidos ao subconscien- Porque tudo o que existe traz escrita em si a sua lei, desde antes
te. A fase lúcida do trabalho construtivo se transfere para cam- de nascer; cada fenômeno está completo em seu princípio, mes-
pos mais elevados e mais profundos, para o âmago do ser, na mo antes de sua manifestação. Há zonas de trevas que vos desa-
assimilação de qualidades espirituais. lentam e para as quais preferiríeis nem olhar, no entanto vos atra-
Assim nada se perde de todas as dores e lutas da vida, de em e em vão as interrogais. É o vosso passado.
todo bem e mal praticados. Não se perde fora de vós, pelo prin- Mas tudo sempre pode ser consertado. No superconsciente
cípio de causa e efeito; não se perde dentro de vós, pelo princí- há luz para todos; a febre da evolução, a insaciabilidade de vos-
pio de transmissão ao subconsciente. A herança de vossas cul- sa alma são forças irresistíveis e universais, que impelem cada
pas e de vossos merecimentos, o resultado de todas as vossas vez mais para o alto. A lei do progresso exige a contínua dilata-
fraquezas ou esforços, vós os carregais sempre convosco, de ção do psiquismo. A evolução é irresistivelmente lançada para
acordo com o que quisestes. A assimilação por automatismos e o superconsciente; dirige-se para o supersensível. Recordai que
a transmissão ao subconsciente é o meio de transmissão para a vossa consciência é apenas a dimensão de vossa fase de evolu-
eternidade das qualidades adquiridas, fruto de vosso trabalho. ção ; vosso inexorável caminho, deslocando-vos de fase em
Cada ato tem um eco e deixa uma marca. A técnica dos auto- fase, vos leva de dimensão em dimensão para o superconsciente
matismos reside em vossa experiência cotidiana, na aquisição intuitivo e sintético, de que já falamos. Nas fases inferiores que
de cada habilidade mecânica ou psíquica. A objeção de que se percorrestes,  e , o ser existe, normalmente, sem consciência,
perde um hábito por falta de uso, a qual poderíeis levantar con- qualidade aí ignorada, assim como agora ignorais a dimensão do
tra a teoria da assimilação por automatismos das experiências superconsciente. O estado de consciência é fenômeno em contí-
vividas, não é válida, porque o que se transmite ao subconsci- nua elaboração construtiva ou destrutiva, conforme o trabalho li-
ente é a aptidão, e não o conhecimento. Vede que aquela per- vre que executardes, de construção ou destruição no caminho
manece, mesmo quando o conhecimento esvanece pelo desuso, e da evolução, que, em vosso nível , é progresso moral e psíqui-
sabe reconstruir rapidamente o que parece destruído. Daí todas as co. Quem fica ocioso para. Quem pratica o mal desce e arruína o
80 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
próprio eu, destrói a luz de sua compreensão. Quem trabalha no latente, mergulhada nas trevas, fora da consciência, emerge, sa-
bem sobe e dilata-se a si mesmo, cria a própria riqueza de con- cudido pelo choque das forças ambientais, impulsionado pela lei
cepção e potência da alma. Punição e prêmio automáticos e ine- da evolução, o germe de nova necessidade, que, no centro psí-
xoráveis. Assim, a dor, excitando as reações do espírito, é agente quico, assume a forma de desejo, ou seja, força-tendência, que
de ascensão para as fases e dimensões superiores. conduz à realização. Do desejo surge a tentativa, a ação, orienta-
Passarão as formas materiais da vida; passarão povos, civi- da para a realização. Entramos na fase do consciente, isto é, do
lizações, humanidades e planetas. Mas um herdeiro recolherá trabalho, da atividade, da conquista. Desponta a realização, for-
o suco de tanto trabalho, que não foi inútil: a alma. A insaciá- ma-se e reforça-se sua função, que, por sua vez, define sempre
vel e eterna mutação das coisas produzirá um resultado que mais o órgão, enquanto este, mediante uma série de contínuas
não será perdido. Já que o campo dominado no âmbito do experiências, equilíbrios e ajustamentos, adapta-se tanto às resis-
consciente avança continuamente, também progressivamente tências ambientais quanto ao impulso interior, entre os quais
desloca-se o limite sensório: o super-humano torna-se huma- constitui o traço de união. A progressiva atividade funcional
no; o superconsciente, consciente; o inconcebível, concebível. plasma para si mesma o instrumento orgânico, como sua expres-
A consciência adquire, então, nova dimensão, e o meio mate- são cada vez mais legítima. A definitiva constituição do órgão es-
rial requinta-se e sutiliza- se até atingir sua desmaterialização, tabiliza a função e estabelece uma série de experiências, de cuja
até que o princípio espiritual se destaque dele e aporte em ou- repetição constante nascem aqueles automatismos que vimos as-
tras praias, levando consigo o suco destilado de todo o passa- sinalarem a fase de assimilação terminada e de dilatação do psi-
do vivido, em sua construção terminada. quismo do ser. Automatismo significa qualidade adquirida, nova
Observai como já se inicia, desde vossa fase, esse processo capacidade inerente na natureza do indivíduo, novo instinto, nova
de separação e desmaterialização. Na exteriorização dos meios experiência. A evolução está realizada. O resultado se deposita,
da vida, o animal fica preso ao utensílio, que permanece parte definitivamente assimilado, como nova camada em torno do nú-
indivisível de seu organismo. A história natural do homem é cleo precedente do psiquismo, e é deixado fora da zona de traba-
apenas a repetição do mesmo processo de projeção de órgãos, lho, a zona da consciência.
mas em um nível mais alto. Por isso as formas, os sistemas, as Assim avança a evolução, e o ultraconsciente é conquistado,
perspicácias assemelham-se, mas com uma diferença substanci- passando através da fase consciência, que, depois de completada
al: no homem realiza-se a separação entre o organismo e o a assimilação, passa ao subconsciente. Pela evolução, ocorre um
utensílio. Tal como o orgânico, também o utensílio mecânico é deslocamento contínuo da zona do consciente, que vai do sub-
a expressão da íntima vontade de ação. Mas, no animal, o meio consciente para o superconsciente. Assim, a zona móvel de tra-
está organicamente fundido no corpo; no homem, o meio não balho, progredindo em seu caminho, cobre uma zona cada vez
lhe é mais parte integrante e destaca-se dele. O homem constrói mais ampla de subconsciente, a zona das aquisições definitivas,
para si um só utensílio, aquele que pode fabricar utensílios de do armazenamento do indestrutível na eternidade. Por intermédio
toda espécie: a mão guiada pela inteligência. do constante esforço psíquico da vida, ocorre um contínuo cres-
À proporção que o centro psíquico se agiganta, os meios de cimento do núcleo subconsciente e uma proporcional assimilação
sua expressão transformam-se, multiplicam-se e requintam-se; os do superconsciente, através de um processo de crescimento, he-
órgãos tornam-se meios de expressão de vida psíquica, as fun- reditariedade e reconcentração cinética na fase de germe, que en-
ções físicas inferiores são confiadas aos utensílios mecânicos. Os contrais na vida das formas orgânicas. Assim, também o campo
órgãos animais, não mais utilizados, tendem a se atrofiar; a in- de trabalho ascende cada vez mais alto, ao mesmo tempo em que
dústria, entretanto, cria outros continuamente e neles continuará a se amplia e se torna mais rico e poderoso.
desenvolver-se a evolução do utensílio orgânico, expressão cada Paralelamente, a matéria, expressão de tudo isso, experimenta
vez mais complexa de um mais complexo psiquismo. O próprio mudanças profundas. Vimos que o trem eletrônico da onda di-
desejo intenso que criou o órgão encontra agora formas múltiplas nâmica degradada começa investindo as unidades atômicas de es-
de manifestação, proporcionadas ao novo poder do psiquismo trutura planetária mais simples (no círculo da vida, são introduzi-
motor. A função desenvolve as qualidades e os órgãos cerebrais; dos de preferência os corpos simples, de peso atômico baixo).
no homem manifesta-se de preferência a evolução psíquica, co- Ora, esse fenômeno constitui apenas o início do processo da
mo prosseguimento da evolução orgânica, que passa para segun- desmaterialização da matéria. Quando o vosso novo turbilhão
do plano, suplantada pela evolução dos produtos da inteligência. vital tiver investido toda a matéria, até aos pesos atômicos máxi-
Assim, o homem afasta-se cada vez mais da forma animal, numa mos, isto é, quando o trem eletrônico tiver transformado os mo-
contínua desmaterialização de funções, que leva a uma progres- vimentos planetários atômicos em movimentos vorticosos, até às
siva desmaterialização de órgãos. A vida do homem concentra- formas planetárias mais complexas, deslocando e reconstruindo,
se cada vez mais na função psíquica diretora, que ele assume em equilíbrios mais complexos, todas as órbitas até às de 92 elé-
como sua nova natural especialização. trons do U, então , o psiquismo, terá penetrado e permeado toda
Eis a íntima e maravilhosa técnica pela qual a evolução a matéria, e esta se desmaterializará, ou seja, não existirá mais
produz a transformação da matéria na fase vida. Quando pen- como matéria. A energia, sua filha, tê-la-á arrastado mais para
sais em sua íntima estrutura cinética, essas transmutações já frente, para uma fase evolutiva superior, e todo o movimento da
não vos parecem absurdas. Os movimentos vorticosos já então Substância continuará de forma imaterial, sem que nada da maté-
transformaram a estrutura atômica num sistema mais sensível ria, em sentido absoluto, tenha sido criado ou destruído. Terá
e susceptível de infinitas modelagens. A maleabilidade do ma- ocorrido apenas uma transmutação íntima, que leva a Substância
terial protoplasmático permite inexaurível e profundo trans- a novo modo de ser, supermaterial e superdinâmico, superespaci-
formismo e lhe dá a possibilidade de chegar já plasmado às al e supertemporal, no limiar de novas dimensões.
mais variadas formas de tecidos e órgãos. Assim, a evolução volta atrás e faz elevar-se consigo os ins-
Num sistema tão sensível, o desejo intenso, uma vontade de- trumentos de seu trabalho. Por isso desmaterializa a matéria por
cidida, proveniente do íntimo, é fator psíquico que tem força cri- meio do fenômeno da vida, até ao espírito. O princípio dinâmi-
ativa. Pensai nos fenômenos causados pelas impressões maternas co veste-se de formas cada vez menos densas. A evolução as
e no poder ideoplástico que as funções psíquicas da mãe têm so- requinta, sensibiliza-as, desmaterializa-as. Os órgãos, utensílios
bre o feto. Cedo ou tarde, a forma acaba obedecendo ao impulso da vida, destacam-se, e o organismo se sutiliza. De tudo, fica o
íntimo e expressando-o. Aí está a técnica evolutiva desse fenô- profundo, imenso trabalho da vida, uma central psíquica pode-
meno da construção de órgãos por projeção ideoplástica. Da zona rosa, na direção de um mundo dominado e obediente, orientado
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 81
para as fases superiores de consciência e de evolução, para vós tão estabilizados no determinismo. O livre-arbítrio, novo equilí-
ainda ocultas no inconcebível. brio mais ágil e instável, para manter-se, presume a direção de
Chega, assim, a evolução aos mais altos níveis de vosso uma nova consciência superior para regê-lo, não necessária no
universo. Agora podeis compreender-lhe todo o significado. animal, mas indispensável ao homem.
Em seu conceito mais profundo, a evolução é a libertação do Não há perigo maior que uma liberdade sem controle, por-
princípio cinético da Substância. Isto ocorre mediante uma pro- que pode cair em toda sorte de abusos, que, doutra forma, seri-
funda respiração, em que se invertem e se apoiam mutuamente, am impossíveis. Embaixo está o determinismo, e, por isso, as
para ascender, duas fases: a da concentração cinética das expe- consciências mais presas à matéria são menos livres do que
riências da vida no germe, e a da descentralização cinética do aquelas que, ao evoluir, emanciparam-se de suas leis fatais. É
germe na vida. Por isso a evolução se exprime com uma cons- justo que somente a uma sabedoria maior possa corresponder
tante superação de limites, como observais no progresso das maior liberdade, e a esta, maior responsabilidade (gravidade de
dimensões. Com a evolução, o ser se subtrai cada vez mais aos perigos e de consequências). Assim o livre-arbítrio é relativo,
limites do determinismo físico, que, no nível da matéria, é geo- gradual, e evolui com a consciência. A responsabilidade das
métrico, inflexível e idêntico em todos os lugares. A vida co- próprias ações é relativa e progressiva. Na matéria existe es-
meça a se libertar dos aspectos desse absolutismo; seu crescente cravidão; no espírito estão os caminhos da libertação.
psiquismo é nova causa que se sobrepõe à decorrente das leis
físicas. O animal já adquire uma liberdade desconhecida no LXVII. A ORAÇÃO DO VIANDANTE
mundo físico. Chega-se assim ao reino humano do espírito e
além, onde o livre-arbítrio afirma-se definitivamente. Alma cansada, abatida à margem da estrada, para um ins-
A lei do baixo mundo da matéria é determinismo; a lei do es- tante na eterna trajetória da vida, larga o fardo de tuas exp i-
pírito é liberdade. Pela evolução realiza-se a passagem do de- ações e repousa.
terminismo ao livre-arbítrio, que é a expressão de uma amplitude Ouve como está plena de harmonias a obra de Deus! O rit-
maior na possibilidade de movimento, determinada por gradual mo dos fenômenos irradia doce e grandiosa música. Por meio
reabsorção do determinismo, correspondente a uma progressiva das formas exteriores, os dois mistérios, da alma e das coisas,
manifestação do princípio cinético. Matéria, energia, vida, espíri- se observam e se sentem. Das profundezas, o teu espírito ouve e
to, são apenas a expressão da mudança desse movimento, de compreende. A visão das obras de Deus produz paz e esqueci-
forma cada vez mais evidente e mais livre, numa lei mais com- mento; diante da divina beleza da criação, aquieta-se a tempes-
plexa, em que é possível fazer-se e desfazer-se os equilíbrios, ca- tade do coração, paixão e dor adormecem em lento e doce canto
da vez mais instáveis, em combinações mais frágeis e renová- sem fim. Parece que a mão de Deus, através das harmonias do
veis, num dinamismo crescente, em que desaparece a estase do universo, acalenta, qual brisa confortadora, tua fronte prostrada
determinismo. Isto é uma progressiva liberação dos limites dos pela fadiga e aí se detém como uma carícia. Beleza, repouso da
sistemas cinéticos fechados, é uma dilatação de possibilidades, alma, contato com o divino! Então, o viandante deprimido se
de combinações e de escolhas. A contínua renovação permite reanima, com renovado pressentimento de sua meta. Não mais
atingir o equilíbrio por um número sempre maior de caminhos. parece tão longa a jornada, tão comprida, quando se para um
Agora podeis compreender como o homem, em seu caminho instante para dessedentar-se numa fonte. Então, a alma contem-
evolutivo, traslada-se da matéria ao espírito, levando consigo os pla, antecipa e se alivia na caminhada. Com o olhar fixo para o
dois extremos: determinismo e livre-arbítrio. Podeis agora expli- Alto, é mais fácil retomar em seguida o caminho cansativo.
car o incompreensível conúbio e resolver filosófica e cientifica- Na estrada dolorosa, para, enxuga tua lágrima e ouve. O can-
mente uma questão que sempre vos pareceu insolúvel antago- to é imenso, e as harmonias chegam do infinito para beijar-te a
nismo. Para compreender esses dois termos, é necessário não fronte, ó cansado viandante da vida. Ao lado do trovão das vozes
mais opor um ao outro, como sempre fizestes, como dois casos titânicas do universo, murmuram, num sussurro de beleza, as de-
extremos, imóveis e absolutos, mas sim coordená-los no relativo, licadas vozes das humildes criaturas irmãs: “Também eu, eu
em que se movimentam, como duas fases sucessivas, dois pontos também sou filha de Deus, luto e sofro, carrego o meu peso e
de uma escala, e uni-los com o conceito de evolução. busco minha vitória. Também eu sou vida, na grande vida do to-
O homem é determinismo enquanto matéria. Essa é sua lei do”. E tudo, desde o fragor da tempestade até ao canto matutino
enquanto se movimenta nesse campo de absoluta e férrea neces- do sol, do sorriso do recém nascido ao grito dilacerante da alma,
sidade. Mas, quando o homem age como espírito, nesse campo tudo, com sua voz, revela-se a si mesmo e sintoniza com as vozes
sente-se e é perfeitamente livre. No mundo psíquico desaparecem irmãs; tudo exprime seu mistério íntimo; cada ser manifesta o
as leis físicas, portanto aí também desaparece o determinismo pensamento de Deus. Quando a dor atinge as mais íntimas fibras
destas leis. Assim, o homem só é livre, tudo dominando e supe- de teu coração, ouves uma voz que te diz: Deus; quando a carícia
rando, no campo das motivações, em seu espírito, a única potên- do crepúsculo te adormece no sono silencioso das coisas, uma
cia que emerge livre num mundo de fatalidade. Mas não é igual- voz te diz: Deus; quando ruge a tempestade e a terra treme, uma
mente livre no campo das realizações, porque, aí, seu caminho é voz te diz Deus. Essa estupenda visão supera qualquer dor.
sempre restringido pelo inviolável determinismo físico, a que ca- Para, escuta e ora. Abre os braços à criação e repete com
da ato seu, mais ou menos, está submetido, não podendo ser tor- ela: “Deus, eu te amo!”. Tua oração, não mais admiração ame-
cido, mas apenas secundado e guiado para seus fins. drontada pelo poder divino, agora é mais elevada: é amor. Ora-
Prosseguindo nosso caminho racional, as vias da biologia de- ção doce, que brota como um canto que a alma repete, ecoa de
sembocam na ética. Só existe responsabilidade onde há liberda- fraga em fraga por toda a Terra, de onda em onda pelos mares,
de. A libertação do princípio cinético, que se tornara evolução de de estrela em estrela pelos espaços infinitos. É a palavra subli-
liberdade, transforma-se em progressão de responsabilidade. me do amor, que as unidades colossais do universo repetem
Responsabilidade relativa, estritamente ligada ao grau de evolu- contigo, em uníssono com o mais humilde inseto, que timida-
ção e, portanto, ao nível psíquico e ao grau de conhecimento do mente esconde-se entre a grama e cuja voz parece perdida, no
indivíduo. Por isso o animal não peca. Movendo-se num jogo entanto Deus também a conhece, recolhe-a e a ama. No infinito
mecânico de instintos, apertados num determinismo exato, não do espaço e do tempo, somente esta força, essa imensa onda de
pode e não sabe abusar, como faz o homem. Liberdade, escolha, amor, mantém tudo compacto em harmônico desenvolvimento
responsabilidade só existem na fase superior da consciência e de de forças. A visão suprema das últimas coisas, da ordem em
suas formações, não na fase do instinto, em que os equilíbrios es- que caminham todas as criaturas, dar-te-á sozinha um sentido de
82 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
paz, de verdadeira paz, de paz profunda, de alma saciada, por- cantes como uma correnteza, como um patrimônio comum, de
que percebe sua mais elevada meta. onde cada ser o recolhe para construir a forma mais adequada à
Assim Deus Se afigura-te ainda maior do que em seu poder expressão e ao desenvolvimento do seu próprio psiquismo.
de Criador, revelando-Se na potência de Seu amor. Explode, ó A máquina apropriada e especializada para a construção
alma! Não temas! O novo Deus da Boa-Nova do Cristo é bonda- desse material, por meio dos quatro elementos, é a planta.
de. Não mais os raios vingativos de Júpiter, mas a verdade que Vimos como ela surgiu no seio das águas. As primeiras plan-
convence, o carinho que ama e perdoa. O abismo infinito que tas, gelatinosas, boiando nos mares, começaram a realizar, a
olhas assustado não está para te engolir nas trevas do mistério, partir do mundo inorgânico, a síntese dos materiais orgânicos.
mas abre-se cheio de luz e, em seu âmago, canta incessantemente O maravilhoso quimismo das folhas verdes iniciou a trans-
o hino da vida. Lança-te sem receio, porque nesse abismo reside formação da matéria morta em matéria viva, captando e, ao
o amor. Não digas: “Não sei”, dize antes: “Eu amo!”. mesmo tempo, armazenando a energia que vinha da grande
Ora! Ora diante das imensas obras de Deus, diante da terra, fonte solar. Iniciada a construção da matéria viva, esta aumen-
do mar, do céu. Pede-lhes que te falem de Deus, pede aos efei- tava continuamente e se acumulava, enriquecendo o patrimô-
tos a voz da causa, pede às formas o pensamento e o princípio nio coletivo, que, depois, entraria em circulação nas permutas
que a todas anima. Todas as formas então se aglomerarão em inversas entre vida vegetal e vida animal.
redor de ti, estender-te-ão seus braços fraternos, olhar-te-ão Observai o maravilhoso equilíbrio. Enquanto as plantas pos-
com mil olhos, feitos de luz, e o eterno sorriso da vida te envol- suem poderes construtivos e dedicam-se à função de aumentar a
verá como uma carícia. Essas mil vozes dirão: “Vem, irmão, massa dos produtos orgânicos do planeta, os animais vivem da
sacia teu olhar interior, busca força na visão sublime. A vida é destruição desses produtos, utilizando para sua vida a energia
grande e bela; mesmo na dor mais atroz e tenaz, é sempre digna solar fixada pelas plantas no material orgânico construído por
de ser vivida”. Tomar-te-ão pelo braço, gritando: “Vem, atra- elas. A planta produz, o animal consome. São duas máquinas
vessa o limiar e desvenda o mistério. Vê: não podes morrer ja- com funções opostas e inversas. A planta constrói a matéria or-
mais, jamais poderás morrer. Tua dor passa, com ela sobes, e gânica; o animal, com um processo de lenta combustão, destrói
fica o resultado. Não temas a morte nem a dor: não são o fim esta construção, restituindo o material às condições primitivas.
nem o mal, são o ritmo da renovação e os caminhos de tuas as- O primeiro processo de síntese se equilibra no segundo proces-
censões. A vida é um canto sem fim. Canta conosco, canta com so complementar de decomposição.
toda a criação, o canto infinito do amor”. Cabe, pois, à planta a glória de ter sabido cumprir o esfor-
Ora assim, ó alma cansada: “Senhor, bendito sejas, sobretu- ço da primeira construção orgânica; sem ela, a superior vida
do pela irmã dor, porque ela me aproxima de Ti. Prostro-me di- animal não teria podido formar-se e subsistir. Hoje, também
ante de Tua imensa obra, mesmo se nela minha parte é esforço. deveis vossa vida ao trabalho construtivo das plantas. No es-
Nada posso pedir-Te, porque tudo já é perfeito e justo em Tua tado natural, os elementos químicos básicos da vida acham-se
criação, mesmo meu sofrimento, mesmo minha imperfeição combinados entre si, ou seja, carbono e hidrogênio unidos
transitória. Aguardo no posto de meu dever a minha maturação. com oxigênio, sob a forma de anidrido carbônico (CO 2) e
Repouso em Tua contemplação”. água (H2O). A planta é a máquina que realiza a separação do
Responde, ó alma, ao imenso amplexo e, verdadeiramente, carbono e hidrogênio, do oxigênio. Na molécula de anidrido
sentirás Deus. Se a inteligência dos grandes, ao aproximar-se do carbônico, composta de um átomo de carbono e dois de oxi-
Divino pelas cansadas vias da mente, se prostra e venera, cur- gênio, a planta libera no ar o oxigênio e assimila o carbono.
vando-se diante do poder do conceito e de sua realização, o cora- Na molécula da água, construída com dois átomos de hidro-
ção dos humildes atinge a Deus pelos caminhos da dor e do gênio combinados com um átomo de oxigênio, o processo é
amor, Sentindo-O pelas estradas dessa mais profunda sabedoria. igual: libera no ar o oxigênio e assimila o hidrogênio.
Ora assim, ó alma cansada. Descansa a cabeça em Seu No animal ocorre o processo inverso. Na respiração, ele re-
peito e repousa. combina o oxigênio com o carbono e o hidrogênio e, assim
combinados, os restitui sob a forma de anidrido carbônico e
LXVIII. A GRANDE SINFONIA DA VIDA água. Assim, animais e plantas realizam sua inversa respiração,
e, na contínua compensação das funções invertidas, mantém-se
Olhemos novamente as harmonias da vida em seu mais pro- o equilíbrio. Essa inversão de funções entre vegetais e animais
fundo aspecto científico. Também isto constitui sempre uma permite que a vida possa perdurar indefinidamente. Também na
contemplação da beleza divina. A visão estética alimenta e ele- vida nada se cria e nada se destrói, mas tudo se transforma. Eis
va como a visão conceptual, que vos dá a chave daquela beleza. a nova confirmação do princípio geral pelo qual cada fenômeno
De fato, fé, arte e ciência são um canto único no seio da mesma jamais se move numa direção única, retilínea, mas sim de ma-
harmonia. O mundo biológico é todo um edifício de maravilho- neira cíclica, com inversões e retornos sobre si mesmo. Mesmo
sa arquitetura, um organismo de correspondências e permutas, na química da vida, o que nasce morre, e o que morre renasce.
uma sinfonia de harmonias e equilíbrios perfeitos. Imaginai em que imensa usina de construções vitais se
Vimos que os elementos com os quais a vida constitui sua transformou a Terra, com a progressiva expansão de plantas
roupagem orgânica – ao mesmo tempo expressão e elaboração do sobre os continentes emersos. Mares ilimitados de substân-
psiquismo – são hidrogênio, carbono, nitrogênio e oxigênio, cia verde trabalham sem repouso na construção da matéria
existentes em grande abundância na atmosfera, no momento da prima, de que depois se formará cada ser vivo. Miríades de
gênese. Esses são os corpos que encontrais como elementos or- folhas estendem-se ao sol, ávidas para surpreender e agarrar
ganógenos na estrutura plasmática, nestas proporções: carbono cada átomo de carbono e cada raio de luz. O ar que circula
53%, oxigênio 23%, nitrogênio 17%, hidrogênio 7%. São encon- entre elas fornece o anidrido carbônico e, sob a ação da luz,
trados no corpo humano aproximadamente nas mesmas propor- a clorofila absorve-lhe a vida, alimentando-se de carbono.
ções (tipo médio): oxigênio 44 Kg, carbono 22 kg, hidrogênio 7 Não se perde um único átomo dele, o imenso mar de folhas
kg, nitrogênio 1 kg etc. Todos os compostos orgânicos são cons- aspira cada molécula do alimento gasoso. Nem um só raio de
truídos com esses elementos, que, na grande mobilidade dos edi- sol cai inútil. A torrente de luz, onde quer que desça, fecunda
fícios químicos da vida, circulam em permutas incessantes. O uma vida. A química orgânica, em sua instabilidade, mantém
material orgânico é coletivo, circulando por organismos comuni- escancaradas as portas e transforma a substância da energia em
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 83
vida. Debaixo de vossos olhos, pelos campos intermináveis, No ápice de todo o grande trabalho, o termo mais alto na
realiza-se a cada instante a transformação de  em . E o pro- escala evolutiva de vosso universo, a máquina mais comple-
dígio dessa transformação é realizado a cada dia pelas plantas, xa e delicada, é vossa psique. Nos órgãos sensórios ocorre
criaturas menores, irmãs vossas, verdadeiras máquinas sinteti- continuamente essa elevação de vibrações ambientais em vi-
zadoras de ação solar. Se não houvesse quem, nos primeiros brações de ordem superior; pelo ouvido, o som torna-se mú-
degraus da vida, realizasse este primeiro trabalho de transfor- sica; pelos olhos, a luz torna-se beleza; pelos sentidos, o
mação, nem mesmo seria possível o trabalho mais elevado choque das forças ambientais torna-se instinto e consciência.
que realizais no campo orgânico e psíquico. A energia é transformada, por meio do mecanismo da vida,
O equilíbrio vegetal-animal completa-se aqui em equilí- de suas formas inferiores nas mais altas formas nervosas de
brio mais amplo, porque essa permuta contínua de combina- sensação, sentimento e pensamento. As individuações bioló-
ções químicas comunicantes inclui no fundo uma permuta gicas constituem centros de elaboração da substância, em
dinâmica em que, por meio de contínuas transformações, a que atua o transformismo evolutivo da fase  para a fase .
energia se transmite e circula de forma em forma, de ser em Assim, da florescência da vida, realizada por meio das radi-
ser. Tudo deriva da grande fonte de energia que é o Sol. ações solares, ascende-se ao desabrochar da consciência.
Observai como são perceptíveis, no seio do sistema solar, Assim como a energia universal espalhou por toda a parte a
todas as fases do transformismo . No Sol ocorre a vida, também esta, por profunda elaboração, gera em toda
primeira transformação físico-dinâmica: a matéria dissolve- parte o psiquismo. O grande rio da energia, que tinha sido
se em radiações que, interceptadas pela Terra, aí se trans- matéria, transforma-se no mar imenso da vida, e esta, por
formam em vida. No transformismo da matéria nada se des- sua vez, transforma-se em consciência. O universo, que ca-
trói. As plantas fixam a energia solar e dela se alimentam minhara até à vida, finalmente sente e olha para si mesmo.
para as finalidades da vida. O Sol desagrega seus materiais, Na comunidade do material orgânico entre todos os seres
suas radiações chegam à Terra, e a vida cresce sem cessar. vivos, reside a origem da lei básica da vida: a luta. Aquilo que
Tudo provém, por espontânea doação, do centro do sistema. vos devia tornar irmãos, vos faz também, inevitavelmente, ri-
Os compostos químicos, pelo irrefreável impulso profundo vais. O patrimônio comum, obtido por longas e laboriosas
da evolução, combinam-se em fórmulas cada vez mais transformações, é limitado; a substância que constitui um or-
complexas. As máquinas vivas acumulam energia solar, ganismo é ótimo material de nutrição para outro. Daí a luta, o
transformando-a em compostos de estrutura química cada recíproco dilacerar-se, a rivalidade orgânica de tantos apare-
vez mais complexa. O animal, por sua vez, se destrói gran- lhos digestivos, mais ou menos complexos e evoluídos, arma-
des quantidades de material orgânico fornecido pelas plan- dos com todos os instrumentos de ataque e defesa da vida. Es-
tas, reconstrói como qualidade o que se destruiu como ta é, indiscutivelmente, a lei do planeta no nível animal; mas o
quantidade (o potencial da substância indestrutível perma- homem, com o evoluir de seu psiquismo, começa a elevar-se
nece sempre idêntico), realizando operações químicas e fa- acima dela e, então, percebe a diferença. O horror que o ho-
bricando materiais ainda mais complexos. Complexidade mem experimenta pelas formas ferozes e agressivas da vida é
progressiva, expressão e meio de construção de um íntimo proporcional a seu grau de evolução. Os homens inferiores,
psiquismo progressivo, diretor do fenômeno. ainda não emergidos espiritualmente da fase animal, podem
Se, nas plantas, temos o primeiro degrau da transforma- agitar-se felizes numa forma de vida brutal e atroz, que, para
ção da energia em vida e da constituição do material orgâni- eles, é a expressão normal da própria natureza. Mas os seres
co, no animal subimos a um degrau mais alto: a transforma- mais evoluídos, embora fisicamente vestidos com um corpo
ção da vida em psiquismo. A destruição do produto da vida humano organicamente semelhante, não podem deixar de sen-
das plantas significa construção de um material ainda mais tir ser absolutamente inadmissível esse sistema de vida e, en-
perfeito: o espírito. Divisão de trabalho, especialização de tão, encontram-se numa encruzilhada: ou aceitar uma vida
funções, transformações contínuas e infinitesimais desloca- bestial, ou lutar para civilizar a humanidade. Esta é a nova
mentos progressivos. Só no animal começa verdadeiramente forma de luta que os primeiros, imersos como estão na luta do
a função específica da constituição daquele psiquismo cuja nível animal, ainda não apreciam ou nem sequer enxergam,
gênese observamos e que se tornará, à medida que sobe, ca- condenando-a nos outros, dos quais se encontram separados
da vez mais, a nota fundamental dos fenômenos vitais. Vede por abismos de incompreensão. No entanto estes outros são os
como da matéria solar chega-se, por sucessivas transforma- únicos verdadeiramente ativos e produtores, são os grandes
ções, aos fenômenos do espírito; em cada uma dessas trans- que arrastam o mundo: são as antenas da evolução.
formações podeis descobrir sempre a mesma substância, A inteligência e a ciência, dominando as forças naturais,
que, embora mudando de forma, nada aumenta e nada des- submetem a natureza ao homem, provendo as necessidades
trói de si mesma, mas se refina em seu modo de ser, com materiais e eliminando, assim, a necessidade da luta em suas
qualidades cada vez mais sutis, complexas e perfeitas. formas brutais inferiores, a qual se sutiliza, transformando-se
O físio-dínamo-psiquismo de minha síntese monista o ve- em luta nervosa e psíquica, dirigida para conquistas superio-
des aqui tangível, fato objetivo, realidade vossa cotidiana, e res. Não mais luta de músculos, mas de nervos; não mais de
não é possível negá-lo. paixões, mas de inteligência. Doutro lado, os princípios éticos
Esse transformismo é um ciclo compacto, inalterável, das religiões e da sociedade educam o homem para as virtudes
em que estão presos e amarrados todos os fenômenos. A morais e cívicas superiores, preparando-o para saber viver
experiência e a lógica não vos permitem fugir dele. A ener- com uma psicologia de colaboração evangélica, no ambiente
gia solar, assimilada e transformada pelas plantas, torna -se, mais elevado que a ciência terá preparado.
no animal, calor, movimento e, como última transformação O homem é o agente desta transformação, último anel de
do dinamismo vital, energia nervosa. Esta, no homem, tor- todas as transformações precedentes. Assim, governada por
na-se função psíquica e espiritual. Eis traçada a linha que, uma humanidade mais sábia, a Terra tornar-se-á um jardim.
através das espécies físicas, dinâmicas e psíquicas, une a Esta é a transformação biológica que vos espera. Na ascen-
matéria ao gênio. Eis onde, depois de tantas transformações, são humana espiritual que se realiza nestes milênios e se in-
culmina a energia das radiações solares. Das torrentes ilimi- tensifica no momento atual, numa fase decisiva, culmina o
tadas só encontrais um riacho, mas em sua potência e per- esforço de toda a ilimitada evolução que a preparou, que a
feição nada foi perdido da substância. sustenta e que hoje a impõe.
84 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
LXIX. A SABEDORIA DO PSIQUISMO las sociais tendem a manter-se na senda dos equilíbrios está-
veis, conhecidos e seguros, mas fechados no passado. Outras
Se olhardes em torno de vós, vereis que as formas de vida re- células personificam as tendências opostas, destroem e reedifi-
velam sabedoria profunda. Mesmo nas individuações da matéria, cam, tentando sempre caminhos novos, em incessante dina-
o ser mineral é filho de um germe cristalino, de um impulso que mismo; representam o princípio da revolução diante do princí-
emana do infinito, caracterizando-se em sua forma típica de cris- pio da conservação. São os pioneiros que vivem perigosamente,
tal, como o ser vivo o é em sua forma anatômica, e, quando muti- que dão tudo de si e arriscam tudo, que assaltam e atormentam,
lado, sabe igualmente reparar sua mutilação. Mas, em qualquer mas são os únicos que criam. O mundo dormiu por milênios na
campo, cada fenômeno é uma afirmação, uma resistência às per- estase de um ritmo monótono, que voltava sempre sobre si
turbações, uma vontade de ser em sua forma, uma diferenciação mesmo, nos mesmos pontos, que pareciam fixos (princípio de
do ambiente, para poder dizer: “eu”. Nos altos níveis da vida, à conservação), no entanto um lento trabalho subterrâneo de
sabedoria química do íntimo metabolismo celular acrescentam-se amadurecimento e de assimilação, que ignorais, ocorria no
a sabedoria técnica da construção de órgãos e a sabedoria que di- mundo psíquico-social, fazendo com que o equilíbrio estável e
rige seu funcionamento, para uso dos objetivos internos e exter- fechado se precipitasse um dia na revolução. O segundo impul-
nos da vida. O complexo edifício é um transformismo dirigido so, oposto, o das inovações, tomou hoje a primazia, e a alma do
para a luminosidade do psiquismo. mundo tenta, nas pegadas dos grandes pioneiros que falaram
Há uma necessidade de beleza nas formas da vida. Aquele sozinhos há muito tempo, as criações futuras: criações psíqui-
material orgânico comum que os seres roubam uns dos outros, cas, biológicas. No resto deste século, vosso trabalho individual
comendo-se mutuamente, tende a se plasmar numa forma que e de massa decide a respeito dos futuros milênios.
exprime a íntima aspiração estética. A própria célula já é um Naquelas fases primordiais das formações orgânicas, a ma-
pequeno ser vivo, que concentra todas as potencialidades da leabilidade do plasma dobrou-se à pressão do explosivo psi-
vida e as qualidades do organismo, porque se move, respira, quismo interior, ávido de expressar-se, modelando as formas.
nutre-se (assimila e desassimila), cresce, segrega, reproduz-se, Ao lado da formação de órgãos internos cada vez mais comple-
nasce e morre, sente o ambiente e reage a ele. Desde sua pri- xos, houve uma florescência exterior de todos os meios de ata-
meira unidade, a vida muda continuamente, quer exprimir-se que e defesa, que a luta contínua impunha. A planta estende su-
sempre em suas formas mais altas e complexas. Há sempre as gavinhas como órgão preênsil para agarrar; produz no espi-
grande necessidade de subir e de revelar em si mesma essa as- nho a primeira garra para ofender; inventa a astúcia de econo-
censão; ao mesmo tempo, vê-se uma necessidade de prudên- mizar movimento, lançando sementes aladas ao vento, ou pre-
cia, que teme aventurar-se ao perigo de tentativas dirigidas a gando-a nos animais que passam; a arte de envolver as semen-
equilíbrios muito avançados, afastados da segura estabilidade tes de saboroso fruto, não para alegria do homem, mas porque
dos equilíbrios já experimentados. Assim, a vida oscila entre este, ao comê-lo, leva involuntariamente para longe as semen-
os velhos e seguros caminhos – já conhecidos e percorridos tes; a arte dos perfumes e a estética das cores e das formas,
nas primeiras e mais simples estabilizações do movimento, as porque também a beleza atrai e é grande necessidade no baixo
mais resistentes aos choques ambientais – da necessidade de mundo biológico. A beleza, ao lado da luta, é necessidade uni-
conservar-se e proteger-se, mantendo-se na linha do passado versal e protege como um dom sagrado e divino que dá alegria,
(misoneísmo), e a necessidade de absorver em sua estrutura diante do qual o agressor para, quase reverente, detido pelo medo
cinética e de tornar suas, assimilando-as, novas linhas de for- de perturbar a harmonia divina. Todos os segredos da mecânica,
ça, obedecendo ao irresistível impulso ascensional da evolu- da química, da eletricidade são utilizados: nascem patas, asas, an-
ção (inovar-se, revolucionar-se). A vida se equilibra, assim tenas, chifres, tenazes, bicos, presas, ferrões; a arte sutil dos ve-
(até mesmo no campo intelectual e social), entre as tendências nenos, da fosforescência, do hipnotismo, das ondas elétricas; o
conservadoras e as criadoras, e segue adiante na luta entre du- psiquismo retifica no olho as imagens visíveis; a arte dos senti-
as forças opostas: a da hereditariedade e a da evolução (varia- dos, sempre de atalaia, desenvolve outros cada vez mais refina-
ções da espécie). A natureza avança, mas com muita prudên- dos e complexos; não há descoberta humana que antes não tenha
cia. As grandes florescências orgânicas só acontecem em pe- sido encontrada e utilizada pela natureza.
ríodos particulares, como aqueles a vós revelados pelas des- Todos esses sábios meios são utilizados com sabedoria
cobertas paleontológicas; períodos de transição rápida, em ainda maior. Os tecidos são regidos por uma força racional
que os edifícios dinâmicos, muito saturados dos novos impul- que lhes guia as funções, por isso o tubo digestivo, que digere
sos assimilados, precipitam-se em tentativas de formas novís- o alimento, não digere a si mesmo; as glândulas que segregam
simas, em que a vida, depois de longas fases de incubação si- o veneno, não envenenam a si mesmas. Há ainda o mimetis-
lenciosa, explode numa inopinada febre de criação. Tentativas mo, a arte da mentira e o talento da fuga para os fracos. Falta
nem todas sobreviventes; períodos de construções apressadas somente uma: a arte da compaixão. Por que? Porque esta é
e monstruosas, mas que lançaram as bases de novos órgãos, conquista mais alta, a que só o homem saberá chegar e, como
de novas espécies, de novos instintos. Hoje, a fase das forma- verdadeiro rei, só ele saberá conceber, dominando toda a vida
ções biológicas tornou-se um passado superado. Os seres que no planeta. No uso dos órgãos e instrumentos de ataque e de
vedes, animais ou plantas, são tipos sobreviventes da evolu- defesa, a vida manifesta mais evidente seu psiquismo. É ciên-
ção, vitoriosos na grande luta da vida. Não podeis observar a cia sem piedade, mas é ciência. A natureza assegura a sobre-
evolução, mas apenas suas consequências. A elaboração pre- vivência das espécies construindo organismos em grandes sé-
sente acha-se em outro nível. ries, lançando germes no campo da vida com a máxima prodi-
Período semelhante, de apressadas e monstruosas criações galidade. A fonte primária que brota no âmago da substância
paleontológicas, viveis hoje, mas não como unidades orgânicas, aparece-vos com um poder ilimitado e inexaurível; o que lhe
e sim como unidades psíquicas, com a mesma febre de criação delimita a expansão, a força que freia a multiplicação dos se-
(paixões), com a mesma monstruosidade de formas espirituais res, reside sobretudo na limitação dos meios ambientais, limi-
(erros e mentiras), com a mesma incerteza e instabilidade. tação da qual nasce a luta, cuja função principal é a seleção
Também no campo psíquico e social, a Lei continua no mesmo do melhor. Sem a rivalidade do vizinho, que modera sua ex-
ritmo. O equilíbrio espiritual do mundo tem oscilado sempre pansão, cada espécie sozinha invadiria todo o planeta. A Lei
entre o impulso de conservação e o de revolução. Algumas célu- é sábia e alcança seus objetivos. Aparece, assim, a vida como
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 85
desenfreada concorrência de apetites, em que tudo é obtido recebida das impressões e experiências vividas. Ele precede o
com a força ou com a astúcia. Este é o nível do animal, que nascimento e sobrevive à morte, mesmo nos animais, o que é
não tem horror a seu estado, porque sua sensibilidade é pro- justo, pois também eles são pequenos fragmentos de imortali-
porcional a ele. O animal é feroz com toda a inocência e nem dades e de eternidade. Ele renasce continuamente, enrique-
por isso é imoral, mas simplesmente amoral. Nesse nível, a cendo-se com a experiência de cada existência. Vós mesmos
vida é contínua guerra, é um constante atirar-se a ataques, a podeis verificar, com a domesticação e adestramento, que, nos
que apenas os mais fortes resistem, esse é o estado normal. animais, as portas do instinto não estão fechadas, ou seja, ele
Aí, a bondade é fraqueza e falência. Uma flor mais delicada tem ainda, sob vossos olhos, a capacidade de se enriquecer
que a sabedoria é a bondade, que só desabrocha depois, muito com qualidades, de assimilar coisas novas. Há sempre uma
mais no alto, na escala da evolução. Mas aquela sabedoria, no possibilidade de progresso no raciocínio cristalizado do ins-
nível animal, já é profunda. O instinto conhece química, ana- tinto. As qualidades, mesmo no homem, nutrem-se permanen-
tomia e, em alguns casos, sabe até anestesiar o inimigo, com temente com seu exercício cotidiano. O psiquismo se plasma
injeções nos gânglios nervosos, no ponto estratégico que para- num processo de constante elaboração. No campo orgânico,
lisa os movimentos. Uma espécie de himenópteros, necessita- assim como no psíquico, da mesma forma que a atividade cria
dos de provisões imóveis, mas vivas, conhecia anatomia e órgãos e aptidões, a falta de uso atrofia e destrói (daí a neces-
anestesia antes do homem. O instinto tem previdências incrí- sidade biológica do trabalho).
veis, sobretudo em seres primitivos. Falei de um inseto, mas os casos são infinitos. Sem esses
Um exemplo entre os coleópteros: a larva lignívora do conceitos, o fenômeno do instinto, de sua formação, de sua
capricórnio (cerambix miles) nascida cega, surda, sem olfa- presciência e os próprios fenômenos da hereditariedade perma-
to, com apenas um pouco de paladar e de tato  rudimento neceriam no mistério insolúvel.
de sensibilidade que nenhuma aquisição psíquica pode obter A presença de um psiquismo diretor torna-se evidente no
no ambiente (no caso, um tronco de carvalho, onde vive per- fenômeno da histólise do inseto. Aí não encontrais mais uma
furando e digerindo) – esse pobre tubo digestivo possui uma sabedoria funcional, de órgãos internos ou externos, nem a
sabedoria imensamente superior à sua organização e a seus sabedoria que dirige as ações do animal, mas uma sabedoria
meios, comporta-se com uma racionalidade e presciência ex- que se revela mais profunda: aquela que sabe criar um orga-
traordinárias. Prepara, com antecipação, um caminho de saí- nismo novo a partir de um organismo desfeito. Nesse fenô-
da do tronco, que não poderia furar no seu estado final de in- meno ocorrem metamorfoses profundas, que revelam a pre-
seto; constrói, perto da saída, uma cavidade para sua matu- sença de um psiquismo de maneira ainda mais evidente que
ração de ninfa; fecha-se dentro dela, com o corpo orientado nas reparações orgânicas que já observamos. No estado de
para a saída, pois, sem essa precaução, o inseto adulto, todo crisálida, acontece, em vários insetos (lepidópteros) que se fe-
encouraçado, não poderia dobrar-se para sair. Quantas coisas cham no invólucro protetor, um fenômeno misterioso, no qual
sabe por antecipação! Donde lhe vem essa ciência? Não sa- órgãos e tecidos se desagregam, perdendo seus caracteres dis-
beis responder. Mas pensai que, se a forma visível é um ver- tintivos assim como a estrutura celular anterior, transforman-
me, ele sintetiza em seu psiquismo o princípio que resume to- do-se numa pasta uniforme, amorfa, em que não se percebem
das as formas que o inseto assume e que, em sua vida, adotou sobrevivências da organização demolida. A essa espécie de
há milênios; pensai que esse verme traz em seu psiquismo a desmaterialização orgânica segue-se nova reconstrução, ver-
recordação integral de todas as experiências vividas como in- dadeira histogênese, em que novo organismo ressurge, tão di-
seto; em outros termos, o fenômeno está sempre potencial- ferente na constituição orgânica, que não se pode considerá-lo
mente completo, mesmo na fase de transição que vedes, por- ligado ao precedente mediante relações diretas de derivação.
que, se a forma mutável se transforma, o psiquismo animador O psiquismo diretor do dinamismo fisiológico, mesmo que,
está sempre todo presente a cada momento de suas sucessivas como na reparação orgânica, completamente ativo no comple-
manifestações. Então, no psiquismo estão os recursos dessa xo quimismo da vida, emerge aqui, a partir da forma, em toda
ciência superior às aparências da forma. Chamastes a isso de a sua independência e mostra seu completo domínio sobre es-
instinto e não sabeis explicar a existência no instinto de uma ta, porque dela se destaca, desfazendo-a e reconstruindo-a di-
racionalidade tão previdente. O instinto não é inferior à razão ferentemente, sem continuidade fisiológica, exorbitando todas
humana, a não ser pelo campo mais limitado que domina e pe- as potencialidades construtivas do organismo. É necessário
lo fato de que, estando, ao longo da evolução, mais próximo substituir o conceito absurdo de funções – efeito de uma natu-
do determinismo da matéria, é fenômeno mais simples e me- reza específica de células e tecidos, ou seja, uma localização
cânico; enquanto o espírito, por evolução, distanciou-se mais funcional em estreita dependência de uma especialização na
da matéria e conquistou aquela complexidade e riqueza de estrutura de órgãos e funções – pelo conceito de um psiquis-
caminhos que denominais de livre-arbítrio, característica, co- mo superior, independente e diretivo, de que as formas são
mo vimos, da fase das criações. apenas a manifestação. Ele as plasma, dirigindo-lhe o íntimo e
Cada ser, tanto quanto o homem, traz consigo esse sutil incessante metabolismo, e, quando este tem que enfrentar de
psiquismo que lhe dirige as funções orgânicas; que lhe man- salto as maiores distâncias, em metamorfoses profundas, que
tém constantemente a identidade, apesar da contínua e com- implicam solução de continuidade no desenvolvimento fisio-
pleta renovação dos materiais que constituem o organismo; lógico, então o psiquismo se mantém como único fio condutor
que lhe prepara e dirige o desenvolvimento e as ações com do fenômeno, que permanece único e contínuo, embora, de
uma precognição que somente possui quem viveu e recorda. modo inexplicável, pareça quebrado. Não há aí, portanto, uma
Sem esse psiquismo, não se explica como os sempre novos substância orgânica que, de acordo com a conformação dife-
materiais da vida voltam exatamente a seu posto de funcio- rente e com a estrutura celular alcançada por evolução, dê lu-
namento; não se explica como a corrente de tantos elementos gar a funções específicas, cuja causa seja perceptível apenas
heterogêneos esteja ligada em continuidade; como, de todas as na especialização do material orgânico, mas existe um psi-
impressões transmitidas pelo ambiente, só algumas sejam as- quismo diretor que modela a forma, para que esta possa ex-
similadas, outras corrigidas, outras repelidas. Esse princípio primir a função, de acordo com o impulso recebido. A solução
verdadeiramente resume a hereditariedade das características dos mais profundos problemas biológicos reside somente nes-
adquiridas, implanta-se no germe e lhe dá novamente a marca ta ultrafisiologia do psiquismo.
86 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
LXX. AS BASES PSÍQUICAS DO da vida, está na hora de descer mais fundo no campo das cau-
FENÔMENO BIOLÓGICO sas. Mais do que da paciência do coletor de observações, a ci-
ência precisa agora da síntese da intuição; além de gabinetes, de
A causa, o princípio das coisas, reside no seu próprio ínti- microscópios e telescópios, precisa, acima de tudo, de grandes
mo. Os efeitos estão no seu exterior. Cada fenômeno tem um almas que, das profundezas de seu próprio íntimo, saibam en-
tempo próprio relativo, que lhe estabelece e mede o ritmo de xergar o âmago dos fenômenos e sentir, através das formas, a
transformação; tem sua velocidade do devenir. A sucessão que, misteriosa substância que nelas se oculta.
no tempo, passa de causa a efeito, é também uma sucessão de Não é mais tempo de negar um princípio tão evidente. Vi-
desenvolvimento, que vai do âmago à superfície; é uma dilata- mos que toda a evolução, da estequiogênese para cima, dirige-
ção do princípio em sua manifestação. Assim é o psiquismo. se para as formas do psiquismo, pois para ele se orienta o pro-
Vedes esse íntimo impulso manifestar-se em toda parte: pri- gresso fenomênico do universo, qual meta racional de todo o
meiro, na direção da química da vida, mediante a formação do caminho. Na massa de fatos coletados e acumulados há um im-
plasma, por seu crescimento, reprodução e evolução; depois, pulso que não se pode deter, uma direção que não se pode mu-
na construção dos órgãos internos, que, com seu funcionamen- dar. No psiquismo sobrevive o princípio elétrico da vida. Com
to orgânico, mantêm vivas as unidades superiores e os órgãos efeito, tudo o que vive atrai ou repele; traz um sinal de amor ou
externos, os quais asseguram a nutrição, a defesa da vida e a de ódio; quer e tende irresistivelmente a fundir-se ou a destruir.
evolução; por fim, na direção geral, impresso em toda essa Em cada forma há um quid psíquico, um motor: é a substância da
máquina, sob o impulso do instinto e da razão. Aqui transpare- vida, é a vontade de viver que a sustenta, uma tensão que plasma
ce evidente o psiquismo. Em vossas classificações zoológicas, e guia, um poder que dirige e arrasta a vida. Tirai esse princípio,
reunis os seres por afinidade morfológica. A anatomia compa- e ela logo cai. Além da aparência da forma, vos indico essa subs-
rada indica-vos órgãos homólogos. Essa homologia vos dá a tância, que lhe é a causa; desloco e aprofundo o conceito da evo-
perceber os parentescos, e, com base nessas semelhanças, lução darwiniana. Vós parais nela, diante da realidade exterior,
agrupais plantas e animais em ordens, gêneros, séries e espé- da evolução das formas, do último efeito estampado na matéria.
cies. Não podeis agir doutra maneira, porque partis do exterior Eu penetro na realidade, partindo da concatenação evolutiva dos
e da forma. Isso está certo, porque parentesco de formas signi- efeitos até à concatenação evolutiva das causas. Para mim, não é
fica parentesco de conceito genético, afinidade morfológica e essencial observar as formas que evoluem, a não ser para seguir
afinidade do princípio animador do psiquismo. Mas não basta. as causas que evoluem. Passo do conceito de evolução das for-
Esses agrupamentos seriam mais compreensíveis se concebi- mas biológicas ao de evolução das suas forças determinantes;
dos em sua causa, em seu impulso íntimo determinante, mais passo do estudo da evolução dos tipos orgânicos mortos, ao estu-
do que apenas como forma exterior. É preciso introduzir o fa- do da evolução dos tipos psíquicos vivos e atuantes. Assim, o
tor psíquico na interpretação de todos os fenômenos biológi- conceito darwiniano completa-se, indo da série de organismos
cos, aprofundando a química orgânica no campo superorgânico para uma “sucessão lógica de unidades dinâmicas”.
De agora em diante, a ciência deve dirigir-se para esse
do psiquismo diretor; é mister criar uma ultra zoologia e botâ-
centro, sem o qual a máquina da vida não se movimenta, não
nica, que estude o conceito e os parentescos entre os conceitos,
possui meta e, num instante, se arruína, caindo à mercê de
as afinidades psíquicas, mais do que as orgânicas, e a evolução
princípios menos elevados. Como pudestes crer que um orga-
do pensamento animador das formas.
nismo perfeito e complexo, qual o corpo humano, pudesse
Há três tipos de natureza:
manter-se e funcionar sem um psiquismo central regulador?
 O reino físico (mineral, geológico, astronômico), que
Não basta dizer qual a química da respiração, da assimilação e
compreende a matéria.
da circulação, nem verificar o perfeito entrosamento de todas
 O reino dinâmico (as forças), que compreende as formas
as engrenagens que presidem a essas três funções básicas. Nas
de energia.
profundidades do metabolismo celular existe a presciência do
 O reino biológico psíquico (vegetal, animal, humano, es- instinto, que age por si, sem intervenção da ciência, o que es-
piritual), que compreende os fenômenos da vida e do psi- ta, por vezes, custa a compreender. Há não apenas maravilho-
quismo. so ritmo de equilíbrios, mas também uma resistência destes a
Esta é a trindade das formas de vosso universo. As clas- qualquer desvio; há uma autodefesa orgânica, feita da sabedo-
sificações zoológicas e botânicas não devem ser classifica- ria imersa nas profundidades do subconsciente; há uma medi-
ções de unidades orgânicas, mas de unidades psíquicas. É cina mais profunda que a humana, porque sabe vencer, muitas
preciso enfrentar objetivamente o psiquismo da vida, a parte vezes, apesar dos ataques desta. A elevação térmica do pro-
mais ignorada e negligenciada por vós, tomando-o como cri- cesso febril, a fagocitose, o equilíbrio bacteriológico mantido
tério nas classificações e fio condutor da evolução da espé- entre amigos e inimigos, num ambiente saturado de micróbios
cie, observando-a não mais na construção e funcionamento patogênicos, a contínua reconstrução química dos tecidos e
dos órgãos particulares, mas no movimento que o psiquismo mil outros fenômenos, fazem pensar numa vontade sábia, que
imprime a toda a máquina, coordenando todos os seus atos conhece e quer essa ordem. Quanto mais alto está na escala
para metas exatas, que revelam uma vontade exata, com evolutiva, mais delicado e vulnerável é o organismo e mais di-
proporções de meios ao fim, com lógica e presciência pro- fícil torna-se, por sua complexidade, sua sobrevivência, efeito
fundas. É unicamente neste campo que reside a solução do este compensado pelo psiquismo, através de um paralelo pro-
mistério dos instintos, a explicação da técnica da hereditari- gresso na perfeição das defesas.
edade, da sobrevivência e da evolução. A função cria o órgão, e o órgão cria a função. O sistema
Essa é uma direção inteiramente nova que deveis dar à bio- nervoso criou o funcionamento orgânico e o dirige; o funcio-
logia, à fisiologia e à patologia; uma orientação de acordo com namento orgânico reforça, desenvolve e aperfeiçoa o sistema
um mais amplo conceito unitário, sem o qual todos os fenôme- nervoso. O psiquismo caminha paralelo à evolução dos orga-
nos, vistos por um único aspecto incompleto, vos parecerão nismos. Existe uma evidente evolução nas formas de luta e de
mutilados e inexplicáveis. Sempre que o efeito se aproxima do seleção, que se tornam cada vez mais psíquicas e poderosas. Há
psiquismo animador, vos encontrais detidos diante da muralha transformações no funcionamento orgânico, metamorfoses quí-
do incompreensível. Agora que as classificações estão feitas, a micas, que vos escapam e caminham dirigidas apenas pelo fio
anatomia vos é conhecida e conhecido é o mecanismo químico condutor desse psiquismo. Na assimilação do intestino, as subs-
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 87
tâncias desaparecem de um lado, para reaparecerem do outro, homem, porque a reação gerada pelo assalto é a base de sua re-
completamente transformadas. Para explicar isto, não basta o sistência orgânica. Deslocar o ritmo compensado das relações e
mecanismo da osmose. O alimento digerido todo junto, depois permutas que se estabeleceram nos milênios, significa o nasci-
de haver atravessado a grande sala das desinfecções que é o es- mento de novas doenças; é transformação, e não solução, do
tômago, em contato com as vilosidades do intestino no tubo di- problema. Em vista das concepções limitadas de uma ciência uti-
gestivo, passa através das paredes deste para os vasos sanguí- litária, que disso fez seu objetivo principal, nasceu a ilusão de
neos. Nesse processo de diálise, a substância absorvida muda que é possível suprimir a luta, isso em todos os campos, inclusive
sua natureza química. O processo é tão delicado e em relação no moral (a dor), como se o esforço da vida fosse uma imperfei-
tão direta com o sistema nervoso e psíquico central, que uma ção que deve ser superada, e não um fator fecundo, necessário,
impressão o altera. Isso é fato da experiência comum. Depois substancialmente colocado no funcionamento orgânico do uni-
há a viagem do sangue para a distribuição do alimento absorvi- verso. Só uma coisa pode justificar tudo isso: a transferência do
do, ligando todas as partes num banho de vida. Com a respira- campo de luta para um plano mais alto. A supressão de um esfor-
ção, o ar cede ao organismo seu oxigênio e, com ele, a potência ço e sua respectiva conquista só são justificados pela sua substi-
de um raio de sol; o sangue, então, o absorve para levá-lo a tuição por um esforço mais elevado, dirigido a conquistas superi-
queimar-se e consumir-se lá nas profundidades do dinamismo ores. De fato, assim ocorre. A luta física e orgânica está se trans-
celular dos tecidos e dos órgãos, para depois ressurgir em seu formando em luta nervosa e psíquica.
psiquismo. Que laboratório químico! Nele, a cada instante res- A medicina devia ter em grande consideração o fator psíqui-
tabelece-se o equilíbrio. Por sístoles e diástoles, vai e volta o co, não apenas no campo específico da psicoterapia, mas como
impulso da vida, circula o suco energético reconstrutor; a cada fator de importância decisiva em todos os casos e em todos os
instante, ferve o trabalho reparador da permuta; multidões de momentos. O materialismo imperante, absorvido apenas pela vi-
esquizomicetos viajam e param, aninham-se e acorrem, fazem são do lado material da vida, não podia vê-la em seu aspecto
paz ou guerra, levando saúde ou ruína. mais profundo: o espiritual. Ele, sem dúvida, produziu e criou,
Por meio desse refinamento evolutivo, que culmina no espíri- mas agora é necessário ultrapassar esse tipo de ciência. No entan-
to, ao lado da progressiva desmaterialização das formas, o futuro to ainda subsiste aquela psicologia, que, por inércia dos centros
conduz à preponderância transbordante do psiquismo e vos pre- de cultura, influencia o pensamento oficial que fala das cátedras
para um banquete energético extraído de um raio de sol. Sem luta do mundo civil. Está na hora de continuar o caminho percorrido
nem assassinatos, repousareis saciados de eflúvios solares, ab- até aqui pela ciência materialista, mas com uma ciência espiritua-
sorvendo diretamente seu dinamismo. Isto acontece em planetas lista. O espírito, como vedes, não é fenômeno abstrato, isolado
mais evoluídos que o vosso, mas, para vós, constitui um futuro ou isolável, relegável ao campo da ética e da fé, mas invade to-
ainda distante. Estômago e sangue formaram-se em vós, como dos os fenômenos biológicos e, por isso, é fundamental em fisio-
são agora, através de idades incalculáveis e, portanto, oferecem logia, patologia e terapia. O vibrante dinamismo vital está todo
uma resistência proporcional para se manter em sua linha atávica permeado dele. Menos anatomismo, pois, e mais psiquismo, e es-
de funcionamento. Nem mesmo a venenosa síntese artificial das te não apenas invocado no estudo das neuroses, mas mantido
substâncias alimentares é própria para vos libertar do animalesco sempre presente em toda a disciplina médica. O fator moral é
circuito da química intestinal. Tampouco a introdução direta dos importante e, se descuidado, pode, mais do que a falta de cui-
princípios nutritivos no sangue é trabalho adequado para vossa dados materiais, deixar morrer o doente. Aos hospitais destes
medicina de superfície, grosseira e violenta. ar, luz, higiene, limpeza. No entanto sua frieza provoca calafri-
os. Pensai que, nesses lugares de dor, não há apenas o corpo de
LXXI. O FATOR PSÍQUICO NA TERAPIA um animal, mas, sobretudo, a alma de um homem. Há mais ne-
cessidade de flores, de música, de palavras sinceras e afetuosas
Este quadro de equilíbrios íntimos nos abre a porta para al- e, sobretudo, de bondade do que de análises microscópicas e
gumas observações de caráter terapêutico, antes de tudo no radioscópicas, de esterilizantes e de ostentação de ciência. O es-
campo bacteriológico. Vós exagerais na antissepsia, no sentido tado de alma, sobre o qual repousa o segredo do metabolismo e,
profilático. O organismo humano é formado e sempre viveu portanto, da cura, é desprezado. Mesmo em matéria de infec-
num mar de micro-organismos patogênicos, tanto que a assep- ção, o espírito influi, muitas vezes, mais do que a esterilização
sia, ou estado asséptico, na natureza, é condição anormal. Ora, do ambiente. Vede que o equilíbrio orgânico é mera conse-
a imunidade é produzida pelo equilíbrio obtido pelas resistên- quência do equilíbrio psíquico, com o qual mantém estreita re-
cias orgânicas. Em intermináveis períodos de evolução, estabi- lação, pois é o estado nervoso que determina e guia as correntes
lizou-se esse equilíbrio entre ataque e defesa. Ao matar o mi- elétricas, as quais presidem à contínua reconstrução química e
cróbio, perturbais o equilíbrio da vida, em que também o inimi- energética do organismo. Se elas tomam uma direção diferente,
go tem sua tarefa, colocando-vos em condições anormais; cabe- na qual a corrente positiva, ativa e benéfica, inverte-se numa
vos, e deveis defender e manter tal equilíbrio. Sabeis que a fun- corrente negativa, passiva e maléfica, substituindo um estado
ção cria a capacidade. Ao suprimir a luta, suprimis também psíquico de confiança e de bondade por outro de depressão e
aquele contínuo excitador de reações que é o assalto dos micró- má vontade, então, em lugar de saúde, o impulso gerará doença;
bios; ganhais uma saúde no presente, levantada a crédito sobre em lugar de desenvolvimento, regresso; em lugar de alimento,
a saúde do futuro, uma vitória fictícia, obtida à custa da resis- intoxicação; em lugar de vida, morte.
tência orgânica, porque, por lei natural, o organismo perderá, Essa alma misteriosa, que permeia tudo, emergirá futura-
por falta de uso, suas capacidades defensivas, tornando-se im- mente da sombra como um gigante; a ciência determinará sua
potente para defender sua vida. É evidente que a proteção arti- anatomia, seu funcionamento, sua evolução. A nova medicina
ficial, atrofiando a capacidade de defesa, age em prejuízo da se- levará para os primeiros planos o fator psíquico e não mais,
leção. Já foi verificado que, quanto mais se dá remédios, quer como agora, enfrentará o estado patológico com meios coativos
às plantas, quer aos animais, mais cresce o número de suas en- mais ou menos violentos. A correção do estado anormal, a reti-
fermidades (saprofitismo). A luta forma e mantém a resistência ficação do funcionamento arrítmico não são conseguidas ape-
orgânica, prêmio de infinitas quedas e esforços. Os equilíbrios nas agindo do exterior, tentando adentrar pelo organismo com
da natureza são profundos, e perturbá-los produz novos dese- meios físico-químicos, mas sim procurando penetrar em seu
quilíbrios. No choque constante dos contrários produz-se uma íntimo transformismo, secundando as vias naturais do psiquis-
estabilidade, um acordo, uma espécie de simbiose, útil, no fim mo, dominador das funções. Esta correção, então, não será mais
das contas, a ambas as partes. O inimigo torna-se necessário ao um choque brutal devido à introdução de compostos químicos,
88 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
muitas vezes de reações antivitais, mas sim uma corrente que se Permanecendo ainda no campo orgânico, também vimos
fundirá na correnteza da vida; será dinamismo benéfico, que re- que cada assalto patogênico superado produz, como reação, a
tificará o dinamismo desviado. Administrando substâncias, não capacidade de resistência, fortalecendo toda a estrutura das
podeis saber que condições químicas antitéticas elas possam defesas orgânicas. Neste caso, a doença tem função imuniza-
encontrar, que reações diferentes possam excitar nas tão diver- dora e, em contraste e por compensação, traz em si as condi-
sas condições orgânicas dos indivíduos. Há atrações e repul- ções de vitória e de autoeliminação do patológico. Neste sen-
sões, limites de tolerância totalmente pessoais. Prudência com tido, a doença é condição de saúde, pois que excita a constru-
essa química violenta e igual para todos! ção de todas as resistências orgânicas. Estas, que vos defen-
Um caminho mais pacífico para penetrar na corrente vital é dem sem o saberdes, são o resultado de inúmeras vitórias e lu-
o caminho psíquico. O funcionamento orgânico obedece àquela tas superadas; são o fruto de vosso esforço, duramente con-
instintiva sabedoria que, em longuíssimas experiências, fixou- quistado ao longo do caminho da evolução.
se no subconsciente. Este se fraciona em várias almas menores, Mas existem outras compensações do patológico em outros
instintivas, que executam, sem o saberdes, o trabalho específico campos, porque tudo está interligado no universo. Sempre por
de cada órgão. A consciência pode, por via sugestiva, dar-lhes motivo de compensação, uma imperfeição e um sofrimento fí-
ordens, e elas serão executadas, como por um animal domesti- sico podem ter uma repercussão criadora no campo moral, de-
cado. O caso do trauma psíquico vos demonstra a realidade terminando um estado de tensão e excitando uma reação que se
dessas influências. Aí está como, pelas vias psíquicas, podem manifesta como explosão de força no nível psíquico. Aqui rea-
ser abertas ou fechadas as portas aos assaltos patogênicos, ati- parece a função criadora da dor. Sua ação tenaz e penetrante
vando ou paralisando as defesas orgânicas. Assim, não se ma- não pode deixar de despertar ressonâncias no âmago daquele
tam os micróbios, mas se reforçam as resistências, e são obtidos psiquismo, sempre comunicante com as formas orgânicas, onde
resultados que superam os da mais escrupulosa assepsia, pois a grava marcas indeléveis. Portanto, se a dor, muitas vezes, não é
patogênese não depende tanto das condições ambientais quanto bastante para, de inopino, construir a grandeza de uma alma,
da vulnerabilidade específica individual, que predispõe à doen- quase sempre a faz acordar, revelando e potencializando ao
ça e na qual influi largamente o estado psíquico. máximo todos os seus valores, e se torna, depois de muito tem-
po, escola de ascensão. Se, nas almas fracas, por vezes, a dor se
LXXII. A FUNÇÃO BIOLÓGICA DO PATOLÓGICO resolve numa adaptação passiva, muitas vezes acende lumino-
sidades novas no espírito; então, pode-se falar verdadeiramente
A visão desses equilíbrios maravilhosos nos leva ao concei- de função criadora do patológico. Grande ciência esta de saber
to da função biológica do patológico. Pergunta-se: a doença é, sofrer, que só possuem os homens e os povos que viveram mui-
de fato, um estado anormal e sempre uma queda orgânica, ou to, pois significa uma resistência às adversidades que os jovens
compensa-se no equilíbrio universal e assume uma função bio- não possuem. Observai o fenômeno do patológico até às suas
lógica não apenas protetora, mas realmente criadora? últimas repercussões e o vereis, às vezes, arrancar das almas
Inegavelmente, em muitos casos, o patológico pode, com a humanas os gritos mais sublimes e as maiores criações. Muitas
adaptação, tornar-se um estado habitual do organismo, que vezes, um defeito físico, ao fechar para a alma o contato com o
acaba com ele convivendo normalmente. De fato, o estado or- mundo exterior, preparou-lhe os caminhos da profunda intros-
gânico perfeito é uma abstração inexistente na realidade. Na pecção de si mesma, mantendo sempre desperto o espírito,
natureza não existe um tipo orgânico perfeito, uma verdade submetendo-o a uma ginástica que o torna gigante. Muitas al-
orgânica igual para todos, uma normalidade que seja termo de mas saíram purificadas da maceração de um corpo doente. Um
referência do valor fisiológico individual; antes, cada um tem mal físico pode ser a prova imposta pelo destino no caminho
seu tipo, possui uma verdade orgânica própria e, desde que das grandes ascensões humanas. Convido a ciência a explicar
saiba lutar e vencer, supera todos os outros. Na natureza, a como uma doença, uma deficiência orgânica, pode dar tanta
perfeição é uma tendência jamais alcançada; a saúde é um es- força ao espírito, tanta fecundidade ao pensamento, tanta saúde
tado que se deve conquistar a cada momento, um equilíbrio e potencialidade à personalidade; como, em outras palavras, o
que se mantém à custa de um trabalho contínuo. Em realidade, patológico pode, muitas vezes, conter o supranormal.
cada organismo tem seu ponto fraco, de maior vulnerabilidade
e de menor resistência. Assim, o patológico acabou equili- LXXIII. FISIOLOGIA SUPRANORMAL.
brando-se como um fato mais ou menos constante na norma- HEREDITARIEDADE FISIOLÓGICA E
lidade do mundo orgânico, que nem por isso se abate, mas le- HEREDITARIEDADE PSÍQUICA
va consigo, como força já aceita em seu equilíbrio, um seu la-
do de sombra. Com o número, a natureza compensa-se das di- Somente estes conceitos de vida psíquica podem guiar a ci-
ferenças, completa suas imperfeições misturando sempre os ência até às portas de uma ultrafisiologia, ou fisiologia do su-
seus tipos, que, quanto mais diversos forem, melhor contraba- pranormal, como a vedes despontar nos fenômenos mediúnicos.
lançarão qualidades e defeitos na reprodução. Estais aqui di- Aqui, as relações entre matéria e espírito são imediatas; o psi-
ante da mesma lei pela qual o mal condiciona o bem e a dor quismo modela uma matéria protoplasmática mais evoluída e
condiciona a alegria; do mesmo claro-escuro de contrastes en- sutil: o ectoplasma. A nova construção – antecipação evolutiva
tre os quais se move e equilibra o mundo orgânico, bem como – não possui, naturalmente, a resistência das formas que se es-
o mundo ético, o sensório e o psíquico. tabilizaram por uma vida longa, e seu desfazimento é rápido.
Mas existe outro fato ainda. O mundo orgânico não se habi- As estradas novas e de exceção ainda são anormais e inseguras.
tuou a apenas arrastar normalmente o peso de sua imperfeição, Os produtos da fisiologia supranormal que emergem dos cami-
nem somente nisto se constitui a lei de equilíbrio. Essa lei opõe, nhos habituais da evolução necessitam fixar-se, por tentativas e
por espontânea compensação, a cada ponto de maior fraqueza um prolongadas repetições, na forma estável. Tudo isso vos lembra
ponto de maior força; a cada vulnerabilidade específica, uma re- o raio globular, retorno atávico de um passado superado. O ec-
sistência própria. A natureza sente o ponto ameaçado e o cerca, toplasma, ao invés, é um pressentimento do futuro, corresponde
reforçando-o com todos os seus outros recursos, desenvolvendo àquele processo de desmaterialização da matéria de que falamos.
órgãos e sentidos em proporção maior que a média. Então, não A matéria química do ectoplasma corresponde a uma avançada
vos alarmeis de qualquer ponto fraco, porque ele pode, por com- desmobilização dos sistemas atômicos em movimentos vorti-
pensação, representar uma força. cosos, ao longo da escala de elementos, na direção dos pesos a-
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 89
tômicos máximos. O fósforo (peso atômico 31), corpo sucedâ- pelo menos? Os caracteres distintivos da personalidade exorbi-
neo, aceito apenas em doses moderadas no círculo da vida orgâ- tam de cada hereditariedade, à qual vedes que estão confiadas
nica, é tomado aqui, no avançado movimento vorticoso, como mais as afinidades orgânicas que as psíquicas. Vimos a gênese
corpo fundamental, ao lado do H (1), C (12), N (14) e O (16). A do psiquismo, a formação do instinto e da consciência, proble-
plástica da matéria orgânica, por obra do psiquismo central dire- mas insolúveis de outra forma. Por que essas profundas desi-
tor, torna-se cada vez mais imediata e evidente. Tudo isso vos gualdades, inatas e indestrutíveis no indivíduo, qualidades pró-
explica a estrutura falha de muitas materializações espíritas, que prias indelevelmente estampadas em sua face psíquica interior?
suprem a incompleta formação de partes com massas uniformes Não vos revelam elas todo um caminho percorrido? Um passa-
de substância ectoplasmática, com aparência de panos ou véus. do vivido, que não se pode anular nem calar, ressurge e grita:
Tudo revela a tentativa, o esforço, a imperfeição do que é novo. tal qual fui, tal sou. De tudo isso depende um destino de alegria
Isso vos faz compreender como o desenvolvimento do organismo ou dor, que demonstra um direito ou uma condenação. Uma
até à forma adulta, seja apenas uma construção ideoplástica, rea- criação nova, a partir do nada, teria que formar, por justiça di-
lizada pelo psiquismo central através dos velhos e seguros cami- vina, almas e destinos iguais. Não permitais que tantas conde-
nhos tradicionais percorridos pela evolução. nações dolorosas – permitidas por Deus conforme a justiça,
A rede de fatos e concomitâncias restringe-se cada vez mais pois desejadas pelo ser livre e responsável – recaiam sobre a
em torno deste inegável psiquismo. Só ele vos dá a chave do Divindade, como acusação de injustiça ou de inconsciência.
fenômeno da hereditariedade14. Fenômeno inexplicável se Quantos absurdos éticos diante de uma alma, à qual, ao invés,
olhado apenas em seu aspecto orgânico, como o faz a ciência. deveria ensinar-se a subir moralmente!
Para ser compreendido, tem que completar-se com o conceito Não estabeleçais, para o homem, exceção na lei cíclica que
de uma hereditariedade psíquica. Como podem os órgãos, su- rege todos os fenômenos. Um rio não pode criar-se sem a fonte,
jeitos a contínua renovação, até um final e definitivo desfazi- e, se esta não fosse sempre realimentada pelo mar, por meio da
mento, conservar indefinidamente características estruturais e evaporação e das chuvas, não haveria bastante água para formar
transmitir aptidões pré-natais a outros organismos? Os registros seu eterno fluxo. Não crieis desproporções entre um átimo, qual
no instinto – sobretudo os mais importantes – ocorrem depois do vossa vida, e uma eternidade de consequências. Sabeis acaso o
período juvenil da reprodução, no indivíduo adulto e, por vezes, que é uma eternidade? É absurda, inconcebível, uma tão des-
justamente na velhice (a máxima maturidade psíquica). Como comunal desproporção entre causa e efeito. Só não pode morrer
poderiam, numa natureza tão previdente e econômica, ser perdi- o que não nasceu; só pode sobreviver na eternidade o que não
das justamente as melhores ocasiões? Não indicaria tudo isto que teve princípio. Se admitirdes um ponto de partida, tereis que
a hereditariedade segue outros caminhos, os psíquicos, pelos aceitar um equivalente ponto de chegada; se a alma nasce com
quais o produto recolhido é confiado à sobrevivência do princípio o corpo, tem que morrer com o corpo. Esta lógica nos leva ao
espiritual, em preferência aos dos caminhos orgânicos da repro- mais desesperador materialismo.
dução? Não vimos que esse era o nó que amarrava, numa expli- Não acrediteis, como tantas vezes o fazeis em vossas ilu-
cação única, todos os fenômenos do instinto, da consciência, da sões, que prêmio ou castigo, alegria ou dor, na eternidade da
evolução psíquica? Quem, senão o espírito imortal, pode manter divina justiça, possam ser usurpados, como é de costume em
o fio condutor que, através de um contínuo nascer e morrer de vosso mundo. Tudo obedece a uma lei fatal de causalidade,
formas, dirige o desenvolvimento da evolução? Que fio, senão uma lei íntima, invisível e inviolável, contra a qual nada pode a
esse, saberia atingir as superiores construções da ética? astúcia nem a prepotência. É lei matemática, exato cálculo de
Esse conceito de hereditariedade psíquica conduz à conclu- forças. Não há possibilidade de violação em tão férrea engrena-
são inevitável, já agora preparada por muitos fatos para poder gem de fenômenos. Ninguém escapa às consequências de suas
ser negada, da sobrevivência de um princípio psíquico depois ações; o bem ou o mal que se pratica, para si mesmo é pratica-
da morte, isso tanto no homem como, de forma diferente, nos do. Antes da hereditariedade orgânica existe a hereditariedade
seres inferiores, que, embora irmãos menores, não foram deser- psíquica. Esta comanda aquela, resume todas as vossas obras e
dados pela justiça divina dos direitos da sobrevivência. Se o determina vosso destino. Deus é justo, sempre. Não podeis cul-
psiquismo já foi demonstrado como parte integrante dos fe- par ninguém. Em qualquer caso, é absurdo amaldiçoar. Em ca-
nômenos biológicos – como princípio ao qual são confiados da átimo, é feito o balanço exato entre o dever e o haver, como
os últimos produtos da vida e a continuidade do transformis- culpas e méritos, castigos e alegrias; a dor é sempre uma bên-
mo evolutivo, e como unidade diretora de todas as suas for- ção de Deus, porque, se não resgata, não purifica ou não paga o
mas sucessivas – é óbvio admitir que ele, tal como sobrevive débito, sempre constrói, pois acumula crédito. É a lei da vida,
à morte orgânica, deva preexistir ao nascimento. Esse equilí- oculta, inatingível, sempre presente e sábia.
brio de momentos contrários é necessário na harmonia de to- Caem vossas barreiras e as defesas que ergueis em favor da
dos os fenômenos. Na indestrutibilidade da substância, já de- injustiça. A justiça é a lei profunda que vos acompanha e sem-
monstrada em todos os campos, tudo é continuação e retorno pre vos encontra na eternidade. Quantos dramas nestas pala-
cíclico. O universo não pode ser arrítmico em nenhum ponto, vras! Acima do parentesco de corpos, há um parentesco mais
em nenhum momento. Resulta, pois, absurdo o conceito de profundo com o vosso passado e com vossas obras, que ressur-
uma Divindade submetida à dependência de dois seres, cuja gem em redor de vós, vos assediam, vos erguem ou vos abatem.
união deva aguardar para ser obrigada, quando eles o queiram, Sois exatamente como vos construís; possuís, aparentemente
ao trabalho da criação de uma alma. Não se pode conceder à concedidas pela natureza, as armas que vós mesmos fabricastes
criatura tal poder de decisão. No tempo ilimitado, que acúmu- para vós; com elas enfrentais a vida e, com elas, tereis de ven-
lo de unidades espirituais através da vida! Onde se completa- cer. Movimentastes as causas que agora agem dentro e fora de
ria o ciclo e se restabeleceria o equilíbrio? vós. O presente é filho do passado; o futuro é filho do presente.
A própria hereditariedade vos oferece fenômenos doutro Não culpeis ninguém. A gênese de uma vida não pode ser o
modo inexplicáveis. Sem este conceito, tudo se torna incom- efeito de um egoísmo a dois, que agem em dano de um terceiro,
preensível e ilógico; com ele, tudo fica claro, justo, natural. impossibilitado de dar opinião. Como podeis acreditar que uma
Por vezes, os filhos superam os pais; os gênios nascem quase vida de alegria ou dor, da qual dependeria a fixação de um es-
sempre de ancestrais medíocres. Como poderia o mais ser gerado tado definitivo por toda a eternidade, fosse deixada à mercê de
um fato acidental, realizado sem consciência de suas conse-
14 quências? Um fato tão substancial como é a vida e a dor de um
O problema da hereditariedade foi desenvolvido no volume A Nova
Civilização do Terceiro Milênio (Cap. 27 e 28). homem, num organismo universal em que tudo é tão exato e jus-
90 A GRANDE SÍNTESE Pietro Ubaldi
tamente determinado e previsto, como pode ser abandonado lhosas formas de beleza e, depois, as deixa murchar e morrer,
assim, fora da Lei, no momento decisivo de sua gênese, que porque logo sabe refazê-las e refaz outras mais belas ainda,
tem efeitos colossais? Não vedes o absurdo desse conceito? numa infinita prodigalidade de germes.
Como podeis crer que na imensa ordem soberana possa haver A morte absolutamente não prejudica o princípio da vida,
lugar para a loucura e a maldição, para a inconsciência e para que permanece intacto e até continuamente rejuvenescido com
a usurpação, e possam ser semeadas, assim ao acaso, por ir- esse renovar-se constante através dela. Se a natureza não teme
responsáveis as causas da dor? nem evita a morte, é porque esta é condição de vida, e, com is-
Não sentis que vossa personalidade grita “eu”, acima de so, nada se desperdiça da essência de sua economia. A natureza
qualquer vínculo e afinidade? A hereditariedade é, acima de tudo, sabe que a substância é indestrutível; que nada jamais pode se
psíquica; é de vós mesmos, individual, preparada por vós e assim perder, nem como quantidade, nem como qualidade. Sabe que
desejada. A hereditariedade fisiológica é uma hereditariedade se- tudo ressurge da morte: ressurge o corpo no ciclo das trocas or-
cundária, dependente daquela, de consequências limitadas, por- gânicas, ressurge o espírito no psiquismo diretor.
que inerentes a um organismo que, para vós, é apenas o veículo Que é, afinal, a morte? Que é essa estanha evaporação de
da viagem terrena, que amanhã abandonareis. O parentesco fami- consciência, pela qual, num átimo, o organismo passa do movi-
liar é parentesco orgânico, de formas, de tipos; nesse vaso desceu mento à imobilidade, da sensibilidade à passividade inerte?
vosso espírito, não por acaso, mas por lei de afinidade. A fusão é Olhais assustados aquele corpo morto e em vão lhe pedis que
completa numa unidade que, mesmo conservando os caracteres torne a dar à vossa sensação a centelha da vida apagada. No en-
da raça e da família, muitas vezes os transcende, inconfundivel- tanto, no primeiro momento, a matéria está toda ali, ainda intacta;
mente, como personalidade psíquica. Vêm daí as semelhanças e, lá estão todos os órgãos, os tecidos, a forma; a máquina repousa
ao mesmo tempo, tantas diferenças. Os genitores vos dão o ger- completa. Falta-lhe apenas a vontade do conjunto, o psiquismo
me da vida física; protegem-lhe o desenvolvimento, paralelamen- diretor; falta-lhe o poder central; e a sociedade, então, apressa-se
te ao da vida psíquica, descida do céu e confiada a eles. Respeitai a dissolver-se, como um exército que perdeu o chefe, onde cada
e amai seu grande trabalho. Nas horas frágeis da juventude, vossa soldado pensa somente em si mesmo, buscando reunir-se a outros
alma eterna está em suas mãos. E tremei vós se sois os genitores, exércitos, onde quer que os encontre. O esplêndido edifício desa-
ao refletir que sois escolhidos como colaboradores no trabalho ba, e outros construtores vizinhos, pouco importa se menos há-
divino da construção de almas. beis, correm para recolher material para seus edifícios. Tudo é
Se a vida psíquica não é filha direta dos pais, tem parentesco logo retomado em novo circuito, reutilizado, e revive ao sol. Na-
com eles pelas vias da afinidade, que a chama e atrai para deter- da jamais pode morrer. Apenas a unidade coletiva se dissolve nas
minado ambiente. Nada é confiado ao acaso. Muitas vezes, a al- unidades menores componentes.
ma escolhe o lugar e o tempo, prevendo as provas que tem que Ocorre, portanto, a separação do psiquismo, e o estado da
vencer, mas, quando ainda não atingiu essa consciência e ainda matéria sofre uma profunda mudança. Acontece nesse fenô-
não sabe ser livre, então seu peso específico – que resulta do grau meno algo que vos relembra outras mudanças de estado mais
de sua destilação espiritual – as atrações e repulsões pelas coisas simples, como a passagem da matéria do estado gasoso ao es-
da Terra e a natureza do tipo que constituiu guiam-na, automati- tado líquido e depois ao sólido. Existe perda de mobilidade e
camente, para um espontâneo equilíbrio de forças em seu ele- liberação de energia. Nada se destrói na natureza, e também a
mento, único no qual pode viver e trabalhar, do mesmo modo morte “deve”, por lei universal, restituir intacto o psiquismo
que tudo se equilibra no universo, do átomo às estrelas. que, naquele corpo, já agora inutilmente procurais encontrar.
Não importa que o fenômeno se oculte no imponderável, es-
LXXIV. O CICLO DA EVOLUÇÃO E DA MORTE capando diante de vossos sentidos e meios de observação.
E SUA EVOLUÇÃO Não há mais ali o psiquismo animador que havia antes. Todo
o universo, obedecendo constantemente à sua lei, vos grita:
Essa hereditariedade psíquica é a base, com significado e aquele psiquismo não pode ter sido destruído. A cada mo-
função fundamentais, do alternado ciclo da vida e da morte. Na mento, vedes renascer esse princípio, como do mar renascem
evolução darwiniana, vistes apenas a progressão das formas or- as chuvas que aí caíram; renasce cheio de instintos, proporci-
gânicas. Inevitavelmente esbarraríeis neste último efeito do onado ao ambiente, individuado como era quando o corpo
psiquismo, mas ele, como íntima causa determinante, permane- morreu. Na morte, o vedes desaparecer; no nascimento, reapa-
ceu na sombra para vós. Dessa maneira, escapou-vos o fio con- recer. Como seria possível que o ciclo, como acontece em to-
dutor de todo o processo: o acúmulo dos valores psíquicos, e, das as coisas, não se fechasse, unindo seus extremos? Assim
assim, a manutenção em linha de continuidade de tantos fenô- como o que não morre não pode ter nascido, também o que
menos constantemente interrompidos pela morte tornou-se um existia antes do nascimento não pode morrer. O que não nas-
mistério para vós. Não são as formas que evoluem, mas sim o ceu com a vida, não morre com a morte.
princípio espiritual, que as plasma, delas é a causa e possui o A lógica do universo, a voz de todos os fenômenos, unani-
poder indestrutível de reconstruí-las sempre. memente vos leva a esta conclusão: se, como foi demonstrado,
Se a natureza conserva uma indiferença suprema diante da apesar de mudar de forma, a substância é indestrutível e se a
morte, é porque esta nada destrói substancialmente, tanto as- existência de um princípio psíquico é evidente, este tem de ser
sim que, apesar das contínuas mortes, a vida prossegue triun- imortal, e imortalidade só pode ser eternidade, equilíbrio entre
fante: nada é destruído, nem como matéria nem como espírito. passado e futuro, ou seja, reencarnação. Se tudo o que existe é
A matéria abandonada torna a descer a um nível inferior e é eterno, vós, que existis, sois eternos. Nenhuma coisa pode jamais
retomada num ciclo mais baixo de vida; o psiquismo reassu- ser anulada. Não há lei ou autoridade humana que possa destruir
me seu dinamismo, reúne os valores espirituais e sobe, imate- a lógica e a evidência dos fenômenos. Sobrevivência do espírito é
rial e invisível, para equilibrar-se em seu próprio nível, de sinônimo de reencarnação. Ou se renuncia a compreender o uni-
acordo com seu peso específico. Assim como a natureza pinta verso, como faz o materialismo, ou se admite um plano, uma or-
os mais maravilhosos quadros com luz e cores harmoniosas e dem e um equilíbrio, como vos afirmam todos os fatos, sendo en-
depois, despreocupadamente, deixa-os desvanecer-se, pois, tão necessário acompanhar-lhe a lógica até às últimas conse-
sendo rica de beleza, sabe reconstruí-los mais belos ainda, as- quências (não é possível parar na metade). Vida e morte são dois
sim também a vida, com a química do plasma, com suas forças contrários que se compensam, dois impulsos que garantem o
íntimas, com a sabedoria do psiquismo, modela as mais maravi- equilíbrio, duas fases complementares do mesmo ciclo.
Pietro Ubaldi A GRANDE SÍNTESE 91
Desaparecerá o espírito na indistinção de um grande reser- das a sorte e o porvir de vosso futuro estado pessoal, é, portan-
vatório anímico amorfo? Absurdo. Vedes que esse princípio to, fenômeno biológico e torna-se fenômeno que toca direta-
não reaparece amorfo, mas com qualidades já prontas, porque mente à ciência e ao interesse individual e social.
se desenvolvem rapidamente, isto é, as mesmas qualidades de A morte se reduz, assim, a um “momento” da permuta
instinto, consciência e personalidade com que o vistes desapa- orgânica da vida, e o problema da sobrevivência, enquadra-
recer. A unidade reconstruída assemelha-se demais à unidade do dessa maneira, na perspectiva do funcionamento orgânico
destruída para que alguém possa dizer que não é a mesma. Só do universo, não pode apresentar outra solução senão em
assim podeis explicar a presciência do instinto, a gratuidade de sentido afirmativo.
seu conhecimento, aquele surgir de capacidades inatas, sem Observai o íntimo dinamismo do fenômeno. A vida represen-
uma aparente formação precedente. Como poderiam os instin- ta a fase de atividade do transformismo dinâmico-psíquico; a
tos, o destino, a personalidade nascerem do nada, tão diferentes morte, a fase de repouso. Vimos o complexo mecanismo que,
e definidos, fora da lei universal de causalidade? Eles são o através da vida, ocorre nessa passagem da fase  à fase . Pri-
passado, que, em virtude dessa mesma lei, renasce sempre e meiro, a gênese dos movimentos vorticosos no sistema planetário
jamais poderá ser destruído por morte nenhuma. É absurdo e atômico, por ação do trem eletrônico da onda dinâmica degrada-
impossível um contínuo construir-se e desintegrar-se de perso- da, e, com isso, a formação da máquina vital em seu complexo
nalidades, uma passagem do ser ao não-ser, em que se quebra- quimismo. É a gênese do plasma, a matéria viva. Depois, vimos
ria a cadeia de causalidades que prepara tudo e tudo conserva. seu desenvolvimento da planta ao homem; sua organização em
Além disso, tudo está individuado, tudo grita “eu” no universo. formas cada vez mais complexas. Definimos o circuito da ener-
Não existem esses mares de inércia, essas zonas de vazio; en- gia, através das contínuas permutas de material orgânico, desde a
fim, a evolução não retrocede, não aniquila jamais e defende, matéria solar e suas radiações à planta plasmódoma (assimilação
como a coisa mais preciosa, os produtos de tantos esforços do carbono), ao animal plasmófago, até ao alto psiquismo huma-
seus. Uma unidade coletiva tão complexa, como é a individua- no. Finalmente, vimos, como resultado último de todo esse com-
lidade humana, constitui o produto mais alto da vida e resume plexo funcionamento de materiais químicos e de energia através
os resultados do maior trabalho da evolução. Seria possível que da máquina da vida, o desenvolvimento do psiquismo em suas
esta, em sua rigorosa economia, permitisse a dispersão de seus fases de instinto, consciência e superconsciência.
maiores valores? Ademais, por que o testemunho de vossos Assim o espírito se constrói através da vida. Na morte,
sentidos falazes deveriam ter mais força que vosso instinto, que esse trabalho se interrompe, para ser retomado mais tarde e
diz: “eu sou imortal”? As religiões, os fenômenos mediúnicos, continuado. A vida produziu o psiquismo por meio de uma
a lógica dos fatos, a voz concorde de toda a humanidade e de corrente de metabolismo químico. Naquele processo de
todos os tempos vos dizem: “Sois imortais”. desmaterialização a que aludimos, o vórtice eletrônico se in-
O psiquismo individual sobrevive nas plantas, nos animais, troduziu cada vez mais profundamente na matéria, deslocan-
no homem. O desenvolvimento embriológico, que repete e re- do o equilíbrio íntimo de suas trajetórias e sua figura cinéti-
sume todo o passado vivido, demonstra que, na vida, o princí- ca; a energia, degradada ao máximo, sem destruir-se, passou
pio é sempre o mesmo na continuação de sua obra. Essa sobre- através de todas essas mudanças, e, de passagem em passa-
vivência indestrutível do passado no presente, que garante a gem, a encontrais em seu último termo na escala da evolu-
continuidade da evolução, vos demonstra também uma identi- ção: o psiquismo. Aqui,  torna-se .
dade constante do princípio de ação. O psiquismo sobrevive e o Na morte, então, ocorre o isolamento, a separação do prin-
faz com o grau de consciência já conquistado, que pode subsis- cípio mais alto de todos os princípios componentes subjacentes;
tir no estado imaterial incorpóreo. aquele princípio separa-se dos princípios inferiores que ele ha-
A morte não é igual para todos. É sim, no corpo, mas não via chamado para colaborar com seu trabalho de evolução. A
no espírito. Nos seres inferiores – incluindo o homem nos pri- química mais alta da vida é deixada descer para formas mais
meiros degraus de sua evolução – o centro perde a consciência simples; a energia não elaborada em psiquismo é restituída às
e apressa-se a reencontrá-la, arrastado pela corrente das forças correntes ambientais; os instrumentos de trabalho, tomados por
da vida, em novos organismos. O grande mar tem suas marés e, empréstimo aos planos inferiores da matéria e da energia, são
ininterruptamente, impele os princípios nas ondas do tempo, no jogados fora para que outrem os recolha. Completada a síntese
alternado ciclo de vida e de morte, porque esse é o caminho pa- da obra, o resultado e o valor da vida concentram-se no âmago
ra subir. A evolução é uma força premente. Na natureza do di- dos movimentos vorticosos, na íntima estrutura cinética da
namismo daquele princípio animador está a aspiração a sempre substância, que os m