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Pietro Ubaldi

I – PARTE II – PARTE III – PARTE

CONCLUSÃO DA I OBRA
PROBLEMAS DO FUTURO
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................................... 1
I. A VERDADE ........................................................................................................................................................... 8
II. A PERSONALIDADE OSCILANTE E A VISÃO DE OUTRAS VERDADES ............................................ 12
III. EXPERIÊNCIAS EM BIOLOGIA TRANSCENDENTAL............................................................................ 15
IV. UM CASO VIVIDO ............................................................................................................................................ 19
V. A ECONOMIA SUPERNORMAL ..................................................................................................................... 22
VI. LUTA E SELEÇÃO ........................................................................................................................................... 26
VII. O MAIS FOR'I'E .............................................................................................................................................. 29
VIII. A METAMORFOSE ....................................................................................................................................... 32
IX. A TÉCNICA DA EVOLUÇÃO ......................................................................................................................... 37
X. O PENSAMENTO CRIADOR............................................................................................................................ 40
XI. LIVRE-ARBÍTRIO E DETERMINISMO ....................................................................................................... 41
XII. EQUILÍBRIOS .................................................................................................................................................. 45
XIII. EVASÕES ........................................................................................................................................................ 49
XIV. INFERNO E PARAISO .................................................................................................................................. 52
XV. DEUS E UNIVERSO (I Parte) ......................................................................................................................... 56
XVI. DEUS E UNIVERSO (II Parte) ...................................................................................................................... 62
XVII. AS ÚLTIMAS ORIENTAÇÕES DA CIÊNCIA .......................................................................................... 67
XVIII. O “CONTÍNUO” ESPAÇO-TEMPO E A EVOLUÇÃO DAS DIMENSÕES ........................................ 72
XIX. O ESPAÇO-CURVO E A SUA EXPANSÀO ................................................................................................ 76
XX. COM A CIÊNCIA PARA O INCONCEBÍVEL ............................................................................................. 80
XXI. A CIÊNCIA NA DESCOBERTA DE DEUS ................................................................................................. 83
XXII. O DRAMA DE QUEM CRÊ ......................................................................................................................... 86

ASCENSÕES HUMANAS

I. O PRINCÍPIO DE UNIDADE .............................................................................................................................. 89


II. A ERA DA UNIDADE ......................................................................................................................................... 93
III. CAPITALISMO E COMUNISMO ................................................................................................................... 96
IV. A UNIDADE POLÍTICA ................................................................................................................................. 100
V. A UNIDADE RELIGIOSA ................................................................................................................................ 102
VI. OS CAMINHOS DA SALVAÇÃO ................................................................................................................. 104
VII. FAZER A VONTADE DEUS ......................................................................................................................... 106
VIII. COMO ORAR ............................................................................................................................................... 108
IX. A COMUNHÃO ESPIRITUAL ...................................................................................................................... 110
X. PAIXÃO .............................................................................................................................................................. 112
XI. RESSURREIÇÃO ............................................................................................................................................ 115
XII. CRISTO AVANÇA ......................................................................................................................................... 117
XIII. UMA ESTÁTUA SE MOVE......................................................................................................................... 118
XIV. SINAIS DOS TEMPOS ................................................................................................................................. 120
XV. O ATUAL MOMENTO HISTÓRICO .......................................................................................................... 122
XVI. UMA PARÁBOLA ........................................................................................................................................ 124
XVII. A DESORIENTAÇÃO DE HOJE .............................................................................................................. 126
XVIII. O ERRO DE SATANÁS E AS CAUSAS DA DOR ................................................................................. 127
XIX. O ERRO MORAL ......................................................................................................................................... 129
XX. MEDICINA E FILOSOFIA ........................................................................................................................... 131
XXI. A CIÊNCIA DA ORIENTAÇÃO ................................................................................................................. 133
XXII. O CONCEITO DE PODER EM BIOLOGIA SOCIAL .......................................................................... 135
XXIII. CRISE DE CIVILIZAÇÃO ....................................................................................................................... 137
XXIV. COMO FUNCIONA O IMPONDERÁVEL ............................................................................................. 140
XXV. AMOR E PROCRIAÇÃO ........................................................................................................................... 142
XXVI. SEXUALIDADE E MISTICISMO............................................................................................................ 145
XXVII. POR QUE AMOR É ALEGRIA .............................................................................................................. 147
XXVIII. O PROBLEMA DA CASTIDADE ......................................................................................................... 149
CONCLUSÃO ......................................................................................................................................................... 151
DEUS E UNIVERSO
PREFÁCIO .............................................................................................................................................................. 157
I. COMO FALA A VIDA ........................................................................................................................................ 160
II. “EU SOU” – ESQUEMA DO SER .................................................................................................................... 162
III. O EGOCENTRISMO ....................................................................................................................................... 164
IV. A QUEDA DOS ANJOS ................................................................................................................................... 167
V. ORIGEM E FIM DO MAL E DA DOR............................................................................................................ 169
VI. DESMORONAMENTO E RECONSTRUCÃO DO UNIVERSO ............................................................... 172
VII. A PERFEIÇÃO DO SISTEMA ...................................................................................................................... 175
VIII. SOLUÇÃO ÚLTIMA DO PROBLEMA DO SER ...................................................................................... 179
IX. CONFIRMAÇÕES EM NOSSO MUNDO ..................................................................................................... 185
X. A TEORIA DO DESMORONAMENTO E AS SUAS PROVAS .................................................................. 190
XI. A CAMINHO DA SUBLIMAÇÃO .................................................................................................................. 201
XII. OS TRÊS ASPECTOS DA SUBSTÂNCIA ................................................................................................... 204
XIII. IN PRINCIPIO ERAT VERBUM ................................................................................................................ 207
XIV. A ESSÊNCIA DO CRISTO ........................................................................................................................... 210
XV. À PROCURA DE DEUS.................................................................................................................................. 213
XVI. A PRECE ........................................................................................................................................................ 217
XVII. IMANÊNCIA E TRANSCENDÊNCIA ...................................................................................................... 220
XVIII. O FENÔMENO INSPIRATIVO ................................................................................................................ 224
XIX. A ALMA E DEUS........................................................................................................................................... 228
XX. VISÃO SÍNTESE ............................................................................................................................................. 231

COMENTÁRIOS

PRIMEIRA PARTE – O FENÔMENO .................................................................................................................. 235


PREFÁCIO .............................................................................................................................................................. 235
HISTÓRIA DE UM CASO VIVIDO ..................................................................................................................... 236
MENSAGENS PARTICULARES DE PIETRO UBALDI .................................................................................. 241
MENSAGENS MEDIÚNICAS DIRIGIDAS A PIETRO UBALDI .................................................................... 241
SOBRE DEUS E UNIVERSO DE PIETRO UBALDI ......................................................................................... 245
A VERDADEIRA E INTEGRAL REALIDADE DE PIETRO UBALDI POSTA EM EVIDÉNCIA COM O
MÉTODO PARAPSICOLÓGICO – PSICODIAGNÓSTICO “BLASI” .......................................................... 247
UM CASO DE BIOLOGIA SUPRANORMAL .................................................................................................... 250
PIETRO UBALDI E SUA OBRA .......................................................................................................................... 258
PIETRO UBALDI, PROFETA DO ESPÍRITO.................................................................................................... 259
A GRANDE SÍNTESE E A NOVA TEORIA DE EINSTEIN (Esclarecimentos) ............................................. 259
ENCONTROS COM EINSTEIN (I) (O Homem) ................................................................................................ 261
ENCONTROS COM EINSTEIN (II) (O Pensamento) ........................................................................................ 262

SEGUNDA PARTE – CRÍTICAS ........................................................................................................................... 264


GRANDES MENSAGENS (I) ................................................................................................................................ 264
GRANDES MENSAGENS (II) ............................................................................................................................... 265
O REGRESSO AOS DIAS CRIATIVOS DO DIVINO PENTENCOSTES ATRAVÉS DA MEDIUNIDADE
INTELECTUAL ...................................................................................................................................................... 266
A PROPÓSITO DA “MENSAGEM DO PERDÃO” DO PROF. PIETRO UBALDI ....................................... 266
PIETRO UBALDI – A GRANDE SÍNTESE ......................................................................................................... 267
A “SUA VOZ” .......................................................................................................................................................... 267
A HISTÓRIA DE UM NOVO GRANDE MOVIMENTO ESPIRITUAL ......................................................... 269
O FIM DA SÍNTESE CÓSMICA (A Grande Síntese) ......................................................................................... 270
NASCIMENTO DE A GRANDE SÍNTESE ......................................................................................................... 271
O FENÔMENO UBALDI ....................................................................................................................................... 272
A GRANDE SÍNTESE PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO ITALIANA ....................................................... 273
A GRANDE SÍNTESE PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO ITALIANA ........................................................ 274
A GRANDE SÍNTESE PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO ITALIANA ......................................................... 277
A GRANDE SÍNTESE PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO ESPANHOLA .................................................. 279
A GRANDE SÍNTESE – MENSAGEM DE EMMANUEL ................................................................................ 279
AS NOÚRES – APRECIAÇÃO DE FERMI ........................................................................................................ 279
A GRANDE SÍNTESE – APRECIAÇÃO DE FERMI ........................................................................................ 283
ASCESE MÍSTICA – APRECIAÇÃO DE FERMI ............................................................................................. 287
A GRANDE SÍNTESE – APRECIAÇÃO DA IMPRENSA (I) ............................................................................. 290
A GRANDE SÍNTESE – APRECIAÇÃODA IMPRENSA (II) ............................................................................. 290
A GRANDE SÍNTESE – APRECIAÇÃO DA IMPRENSA (III) ............................................................................. 291
A GRANDE SÍNTESE – APRECIAÇÃO DA IMPRENSA (IV) ............................................................................. 292
A GRANDE SÍNTESE – APRECIAÇÃO DA IMPRENSA (V) ............................................................................. 293
VÁRIAS CRÍTICAS ............................................................................................................................................... 294
UM LIVRO REVELADOR ................................................................................................................................... 295
MISTICISMO MODERNO ................................................................................................................................... 296
HISTÓRIA DE UM HOMEM ............................................................................................................................... 298

TERCEIRA PARTE – A CONDENAÇÃO ........................................................................................................... 299


CONDENAÇÃO DO SANTO OFÍCIO ................................................................................................................ 299
UBALDI CONDENADO PELA IGREJA ............................................................................................................ 299
A GRANDE SÍNTESE NO ÍNDEX ....................................................................................................................... 299
A CONDENAÇÃO DE A GRANDE SÍNTESE ................................................................................................... 300
AS OBRAS DE PIETRO UBALDI NO INDEX ................................................................................................... 300
ORIENTAÇÃO ....................................................................................................................................................... 302
CONCLUSÕES SOBRE A CONDENAÇÃO ....................................................................................................... 304
PIETRO UBALDI E A IGREJA ........................................................................................................................... 307
O PONTO DE VISTA TEOLÓGICO ................................................................................................................... 309

Vida e Obra de Pietro Ubaldi (Sinopse)....................................................................................página de fundo


Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 1
Esse processo evolutivo implica a retomada dos motivos da
PROBLEMAS DO FUTURO primeira explosão, onde foram apenas sinteticamente expres-
sos, para se proceder depois ao seu desenvolvimento analítico.
É por isso que, no volume precedente, A Nova Civilização do
INTRODUÇÃO Terceiro Milênio, encontra-se o subtítulo: ―Análise e Desen-
volvimento de A Grande Síntese‖. Esta, como escrito inspira-
Iniciando o presente volume, que se abre no limiar da tercei- do, permanece fundamental, mas sempre parece mais um es-
ra trilogia, é necessária uma pausa para nossa orientação. Cada quema do que um verdadeiro e exaustivo tratado. Dai a neces-
um desses livros é uma jornada, cada trilogia representa uma sidade de desenvolvê-lo, de ultrapassar sua vastidão sintética,
volta na maturação do destino daquele que escreve e no desen- descendo-se à profundeza analítica.
volvimento do seu pensamento, traçado nesta obra, em paralelo As características da terceira trilogia não se tornarão comple-
com o desenvolver do pensamento da própria vida, conforme es- tamente evidentes senão quando o processo for completado. Não
ta se expressa pela ação, na fase histórica que estamos atraves- podemos prever, senão no conjunto, aquilo que a vida poderá
sando. Façamos isso, portanto, para que nos possamos orientar dizer em uma determinada fase de sua manifestação. O certo é
nesses aspectos, os quais se acham intimamente entrelaçados e que este primeiro volume da terceira trilogia se inicia com um
se desenvolvem em ressonância, formando uma perfeita sinfo- retorno à obra A Grande Síntese, com um desdobramento refle-
nia, no mais unitário sentido da vida. Isto não é somente afirma- xivo sobre a sua parte mais difícil, que é a inicial, científica. O
do em cada palavra, mas também vivido profundamente. alforje do autor, caminhante da vida, tem se tornado sempre
O enquadramento formal dos seis volumes, que compõem a mais cheio de experiências. Ele está cansado de palavreado inú-
primeira e segunda trilogias, já se encontra no prefácio do tra- til e tem pressa em concluir a demonstração da doutrina de A
balho precedente: A Nova Civilização do Terceiro Milênio. Grande Síntese com provas resolutivas. Ele sente toda a vacui-
Vamos repeti-lo, entretanto, para o leitor novo, que ainda não dade e a corrosão das polêmicas filosóficas e religiosas. Preocu-
conhece o argumento. A primeira trilogia compreende: 1) Men- pa-o apenas o que é consistente para provocar no involuído o
sagens1 e A Grande Síntese; 2) As Noúres; 3) Ascese Mística. A abalo decisivo na hora histórica crucial. Por isso ele se dirige à
segunda trilogia é formada de: 1) História de um Homem; 2) ciência, procurando o motivo da vida na origem e na psicologia
Fragmentos de Pensamento e de Paixão; 3) A Nova Civilização do homem, para então desenvolver o presente volume.
do Terceiro Milênio. A terceira trilogia inicia-se com Proble- Mas, também aqui, o caminho continua sempre, assim como
mas do Futuro. No capítulo XVIII, do volume precedente, a vida segue da matéria para o espírito. Deste modo o presente
acha-se sumariamente explanada a significação dessas etapas. livro, tal como os outros, nada mais é senão uma diversa sinfo-
O autor é um viandante da vida, de uma vida em ascensão, nia da ascensão. Mesmo retomado de baixo, o traçado é sempre
na qual ele se eleva penosamente, degrau por degrau. Nessa su- o mesmo, portanto, embora não se possa exatamente prever o
bida, realiza uma série apocalíptica de experiências espirituais, conteúdo desta terceira trilogia, porque a vida fala com os fatos
que se lhe mostram muito graves e decisivas no mundo biológi- e se expressa em formas concretas, reais e vividas, a lógica do
co e que, por transcenderem a vida comum, o deixam tão es- desenvolvimento e o pressentimento de intuição dizem que,
pantado, que não pode furtar-se à necessidade de analisá-las. As como a nota dominante da primeira trilogia foi explosão e a da
palavras que escreve foram por ele vividas com luta e sofrimen- segunda, assimilação, então a da terceira será sublimação.
to, portanto compreender-se-á que, atrás do desenvolvimento Dados esses graus de desenvolvimento, é natural que a nota
do pensamento racional, encontra-se o desenvolvimento de um inspiradora tenha dominado no primeiro tempo (primeira trilo-
destino e que a batalha de conceitos foi primeiramente batalha gia). Daí, os qualificativos de médium, ultrafano 2, inspirado e
de paixão. Pode-se dizer, pois, que cada palavra aqui escrita místico, aplicados ao autor. De fato, ele falou em nome de ou-
ainda está sangrando de dor, vibrando em consequência da luta tra personalidade, em forma ultrafânica, em Grandes Mensa-
travada. No fundo, trata-se propriamente de uma biografia, vis- gens e A Grande Síntese. No seu segundo volume, As Noúres,
ta em sua profundidade; de um caso real, em que é a vida que ele se pôs logo a observar a si mesmo, para poder compreender
fala e se revela, com a experiência de um para proveito de to- o fenômeno da inspiração e suas consequências, a fim de que
dos. É natural que, assim sendo, o pensamento explanado nes- tudo viesse a ser controlado com responsabilidade e plena
tas páginas tem de estar estreitamente unido à manifestação his- consciência. Porém o ímpeto da explosão não pôde deixar de
tórica da própria vida, porque ela é sempre una e indivisível. levá-lo até à altura do terceiro volume: Ascese Mística. No se-
Foi afirmado já, na conclusão da precedente segunda trilogia, gundo tempo (segunda trilogia) a nota inspirativa, tratando-se
que o ciclo da primeira é explosivo e o da segunda, reflexivo. É a de um período reflexo, se atenua e, com o primeiro livro, apa-
assimilação que se segue à inspiração. É uma espécie de recuo rece um retorno autobiográfico: História de um Homem, no
sobre a primeira impetuosa revelação, para que ela possa ser dis- qual o autor procura a si mesmo. O segundo volume é uma co-
ciplinada e melhor compreendida racionalmente por todos. É letânea de artigos que expunham de forma dispersa o seu pen-
uma assimilação necessária para se poder subir ainda mais, de- samento e que foram publicados em revistas. O terceiro é, co-
pois de terem sido racionalmente consideradas e consolidadas as mo foi dito antes, uma retomada e um desenvolvimento dos
posições alcançadas por inspiração. Foi muito forte e muito rápi- problemas mais humanos de A Grande Síntese, decisivamente
do o passo até à Ascese Mística. Após atingir as alturas místicas, apontando para a meta de toda a obra, que é a nova civilização
havia necessidade de tudo disciplinar e enquadrar. O filósofo não do espírito, o grande motivo, apenas assinalado anteriormente.
achará nesse caminho exposição sistemática, onde se busca a Retornos necessários, sem os quais o desenvolvimento não é
construção de sistemas com um cerebralismo artificioso. Isto foi possível, método que, embora ao leitor menos avisado possa
evitado, para que a própria vida falasse com o seu dinamismo. A parecer apenas repetição, é conscientemente adotado.
organicidade, mais do que nos esquemas conceptuais da exposi- Assim, cada volume, significando uma etapa do caminho e
ção, está inserida na sempre presente substância do argumento: a exprimindo uma fase de vida, à qual adere, tem sua característica
eloquente estrutura orgânica do universo. Fundamentalmente, é o própria, que o distingue, como se dá, por exemplo, com as sinfo-
mesmo processo evolutivo que falou em muitos, como a Beetho- nias de Beethoven. Assim, o terceiro tempo (terceira trilogia),
ven, na Nona Sinfonia, ou a Wagner, no Parsifal.
2
O que pratica a ultrafania, quer que dizer: luz do além. Ultrafano cor-
1
Traduzidas em português como Grandes Mensagens. (N. do T.) responde ao médium espiritista. (N. do T.)
2 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
que podemos chamar de sublimação, inicia-se com este primeiro parece de loucos, nas trevas rasgadas pelo lampejar de uma
volume, no qual é feito primeiramente um profundo exame da alucinante luminosidade interior, em meio da qual o Evange-
personalidade humana, já iniciado no livro anterior; abarca-se lho, como sentinela ao longe, grita: ―Ocupai-vos das coisas do
depois a ciência da matéria, a fim de finalmente levá-la até à fé e espírito e tudo o mais vos será dado‖.
ao espírito, seguindo um método ultramoderno de renovação, em Se soubermos, pois, inverter os valores correntes e realmen-
que, alcançando uma visão mais profunda do universo, não mais te viver a utopia do Evangelho, entraremos no mundo dos pro-
materialista, a ciência se torna um grande motivo de sublimação, dígios, tornando atual a já descrita economia do evoluído, base-
que não poderá deixar de constituir o final místico de toda a obra ada na Providência. O milagre consiste em que sua vida, pare-
nos ulteriores volumes. Este final, para o autor, significa a última cendo humanamente ter que findar no desespero da miséria e da
sublimação do seu destino e, para o mundo, o despontar da auro- fome, deságua, ao contrário, num confiante abandono em Deus,
ra da nova civilização do espírito. Nestas três formas estreitamen- porém não só confiante pela fé, mas também através da prova
te ligadas: exposição conceptual, caso individual de evolução es- experimental, onde os fatos demonstram que o apoio nunca fal-
piritual e ascensão coletiva do homem, a vida fala, exprimindo o ta a quem verdadeiramente crê no Evangelho, praticando-o.
mesmo pensamento. Há, na tempestade dos conceitos, nos dra- Quando é superada a grande barreira que nos separa da in-
mas de paixão e de dor de quem escreve e nas lutas do mundo, a versão dos valores correntes, desenvolve-se a série dos milagres.
mesma elevação, a purificação criadora que da matéria leva ao A percepção do mundo que nos circunda é dada pela nossa natu-
espírito, a sublimação na dor que redime. reza; se nós mudamos, tudo muda. Assim, com a nossa elevação
◘ ◘ ◘ no espírito, tudo tende a sublimar-se; o que antes era dor, trans-
Nesta curva da vida do autor, da exposição que constitui sua forma-se em regozijo. Então, o trabalho, hoje transformado em
obra e do próprio destino do mundo, três fatos sintonizados no condenação pela máquina e pela avidez humana, torna-se um li-
mesmo ritmo ascensional, é necessário aprofundar os conceitos vre e alegre ato da criação, no qual o homem é chamado a cola-
acima expostos, com coragem e sinceridade, para proveito de borar no funcionamento do universo e operar, à semelhança de
todos. Que significa, nesses seus três aspectos, essa sublimação Deus, imitando-o em Sua perene ação criadora. Toda renúncia
que caracteriza a terceira trilogia? Comecemos pelo primeiro. na matéria aparece no lado positivo, como construção do eu, isto
Para o autor, isto significa aprofundar sempre mais a consci- é, como conquista e afirmação no espírito. A solidão se povoa
ência do próprio destino, quer dizer, manter sempre mais estreito de forças amigas que nos estendem os braços e nos ajudam; as
contato com o infinito; significa completar a purificação. Há provações se suavizam e se tornam criadoras de nós mesmos.
muitos anos, o misterioso processo biológico da maturação vem- Eis as maravilhas da ascensão, o milagre experimentado pelo
se realizando, sem ser visto exteriormente nem compreendido, autor. O valor destes escritos não se baseia na novidade de con-
através de uma profunda e dilacerante maceração, sob múltiplas ceitos, que são velhos como a vida, mas sobre o fato de que eles
formas. Trabalho intenso, dor, renúncia, pobreza. Um contínuo foram experimentalmente vividos, e não apenas repetidos, ainda
afastamento de si mesmo, de tudo o que é humano, arrancando a que em perfeita ortodoxia de forma. É certo que, antes de Co-
própria carne viva pedaço por pedaço, lentamente, para não aca- lombo descobri-la, a América já existia, contudo ela foi no seu
bar morto. Sim, e tudo isto endossado pela vestimenta exterior do tempo a maior descoberta do século. Desta forma, se hoje, assim
imbecil que não sabe conduzir seus negócios, pela máscara do como Colombo fez com a América, o homem descobrisse verda-
homem educado que deve sorrir para não incomodar, mas, inti- deiramente o Evangelho, vivendo-o experimentalmente, tocando-
mamente, acompanhando o progressivo esclarecimento da cons- o com as mãos, esta também seria a maior descoberta do século.
ciência do seu próprio destino, num crescente senso da missão Atingindo pela evolução o plano do espírito, tem-se a sen-
que deve desempenhar, numa afirmação no plano do espírito. A sação de que emergimos de um fétido mar de lama. Liberdade
grande experimentação evangélica da qual nasceram os volumes no infinito. Entre tantas imperfeições dolorosas, se percebe,
precedentes não foi para o autor literatura, mas um fato vivido, de outro lado, a harmoniosa perfeição da obra de Deus. No
carregado de frutos vivos. Ele, tendo em vão procurado livrar-se plano do universo, percebe-se a lógica do próprio destino, que
do peso da riqueza, que constituía um embaraço à marcha ence- é assim aceito, porque se verifica que ele nos conduz ―sem-
tada, acabou por enfrentar o dilema: ou cuidar de seus próprios pre‖ ao encontro daquilo que representa o nosso bem. Com-
negócios ou renunciar à sua missão. Conciliar duas coisas, onde preende-se a maravilhosa trama da vida, admira-se tudo e
cada uma exigia totalmente o homem, era impossível. E o senso bendiz-se a Deus. É verdade que há as provações, mas, depois
da missão a cumprir, cada dia que passava, mais se acentuava em de superá-las, compreende-se o respectivo sentido e o seu va-
seu íntimo e mais forte gritava. Precisava então abandonar os in- lor criador; adquire-se então uma visão profunda, que vê o
teresses materiais, deixando-os à mercê do assalto de todos. porquê de cada uma das vicissitudes humanas. Tudo se vai re-
Eis o dilema: salvar os valores do espírito ou os da maté- velando completamente, a dor se faz instrumento de redenção,
ria? Ora, uma vez que, neste nosso mundo, sempre se encontra e cada acontecimento de nossa vida se torna um amigo, por-
aquele que está pronto a levar o que não é guardado nem de- que é para nós, sempre, o melhor possível. O grande milagre
fendido, além do que é impossível confiar em outros, pois da ascensão é a nossa progressiva libertação da dor e do mal.
quem sabe desincumbir-se de seus negócios, em geral, só o sa- Todo assalto destruidor se transforma em meio de criação. E a
be para si mesmo, então ocupar-se dos valores do espírito sig- força de cada ocorrência nos fará sempre sentir perto de nós a
nificava pobreza. Precisava escolher. Vivemos em um mundo mão operante de Deus, imanente em nós!
no qual os involuídos são ativíssimos em realizar sua vida com Então, o caminhante da vida, carregado de recordações, em
seu próprio método, a qualquer preço. O homem de espírito, que o futuro, antes um tanto vago, se transformou em passado,
que nesse campo é inepto, facilmente é eliminado. Então, a es- vê e compreende. Compreende como cada golpe da adversidade
colha foi feita, e foi iniciada a experimentação evangélica. O provocou como reação uma nova luz, como cada obstáculo o es-
autor pôde descrevê-la nos volumes anteriores, porque a estu- timulou, como cada provação o instruiu e como toda vicissitude
dou de perto, porque a viveu. Evangelho experimental. Só as- se transformou em força criadora. Então ama-se tudo o que antes
sim essas coisas podem ser verdadeiramente compreendidas; desagradava e pesava, porque já se sabe que tudo serve para edi-
só assim se pode fazê-las compreendidas, quando as pregamos; ficar o espírito. A catarse é de todo o ser, de suas qualidades, de
de outro modo, não passaria de retórica. Trata-se de experi- suas necessidades e desejos, assim como de sua dor. Tudo se su-
mentação que verdadeiramente inverte os valores e refaz o blima nele e, nele e com ele, destila-se e transmuda-se. E isto o
homem; catarse que penetra até aos ossos. É um avanço que faz verdadeiramente rei da vida. É o superamento de todo um
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 3
mundo, para entrar em outro mais alto. O ser é levantado para o censão espiritual. O grande problema é a conquista da felicida-
céu por esta sua sublimação acima de todos os males e dores de, e o que transforma tudo em nós, para o bem e a alegria, não
humanas. Eis o conceito dominante na terceira trilogia. é o além-túmulo, mas sim a evolução, a catarse da vida, ele-
◘ ◘ ◘ vando-nos do plano animal humano ao super-humano. O que
Com relação a este conceito, observemos agora a obra es- importa é a sublimação, sem o que tudo permanece cego, infe-
crita, a série de volumes que dele são consequência. O proces- rior, doloroso, seja aqui ou acolá. E o mediunismo de efeitos fí-
so evolutivo do autor não pôde deixar de produzir nele um re- sicos ocupa-se bem pouco da sublimação; visa problemas parti-
lampejar da mente, um clarão de conceitos que, regularmente culares, realmente secundários em relação ao problema de apre-
registrados e depois publicados, têm dado lugar a várias inter- sentar, na atual e tremenda hora histórica, cada vez melhor con-
pretações. No princípio, no período explosivo da primeira tri- tribuição para a salvação do mundo.
logia, esse clarão foi tão forte, misterioso e imprevisto, que Se o misticismo é para o autor o vértice da ascensão, o mé-
tomou o aspecto de verdadeira mediunidade. O autor foi, pela todo da intuição (a inspiração reduzida a método) é a sua disci-
necessidade bem humana do enquadramento, catalogado logo plina, que organiza e racionaliza a inspiração, dirigindo-a meto-
no campo mediúnico (primeiro período das Grandes Mensa- dicamente à conquista do conhecimento, para resolver os mais
gens e de A Grande Síntese). Mas, saberemos nós o que, ver- variados problemas, inclusive os da ciência, com o objetivo de
dadeiramente, seja a mediunidade? melhorar o homem, para seu próprio bem. A sublimação atua
O autor passou, pois, a procurar por si mesmo, tentando então em dois campos: no sentimento, levando ao misticismo, e
aprofundar a visão nesse abismo que é o mistério da personali- na mente, levando à disciplina orgânica e racional da inspiração
dade humana, fenômeno até hoje bem longe de ser plenamente – disciplina da técnica receptiva após analisá-la, e organização
conhecido. Assim, começou a compreender o seu caso e procu- de uma doutrina racional com os dados obtidos pela inspiração.
rou defini-lo (segundo volume: As Noúres). Pôde, então, preci- Nesse trabalho múltiplo e complexo cumpre-se a missão do au-
sar que se tratava de mediunidade inspirada, ativa e consciente. tor. Com o progresso da sua maturação, enquanto por um lado
Nenhum transe, inconsciência ou cessão passiva de seu próprio sublima-se como paixão no misticismo, por outro assenhoreia-se
eu a qualquer entidade incorpórea ou forças estranhas. Ele, cada vez mais da técnica receptiva e da sistematização orgânica
permanecendo consciente, captava a onda (noúre) e registrava, e racional dos resultados, de modo a poder expô-los em lingua-
escolhendo com pleno conhecimento, como uma antena que gem normal. Tudo isto, ainda que possa desagradar aos espiritis-
captasse a frequência transmissora porque a conhece e quer tas, era necessário dizer, para que estes escritos fossem aceitos
sintonizá-la, recebendo-a por relação voluntária de ressonân- pela ciência, pela cultura séria, pelos que têm prevenções antiul-
cia, livremente. A mediunidade torna-se assim inspirativa, isto trafânicas, para os quais todas as coisas expressas em tais roupa-
é, não mediunidade de efeitos físicos – nunca praticada e sem- gens inspirativas não são sérias nem aceitáveis.
pre evitada pelo autor como barôntica 3 – mas ultrafania ativa e Certo é que a inspiração subsiste ainda na segunda e tercei-
consciente, sem transe. E assim foi ele tido por ultrafano. À ra trilogias, mas é normalizada em veste comum. A mesma ca-
vista disto, os seus escritos foram considerados suspeitos pela racterística, não mais explosiva (primeira trilogia), e sim refle-
Igreja e aceitos no campo espírita. xiva, de assimilação e análise (segunda trilogia), leva a esta
Mas, eis que no fim do primeiro período, com o seu terceiro conclusão. Mas, nem por isto, o autor perde o contato com a
volume, Ascese Mística, o autor supera também o campo ultra- fonte da inspiração. Ao contrário, na sua ascensão mística, o
fânico e, deixando atrás o espiritismo, que o havia catalogado contato é normalizado, a sintonia estabilizada, a distinção no
entre os seus, se transforma em inspirado e, enfim, em místico, uníssono das vozes se torna, assim, sempre menos sensível. A
entrando num campo apropriado sobretudo às religiões. catarse é de fato uma sublimação também neste sentido: uma
Os trabalhos que compõem a segunda trilogia perderam a união sempre mais estreita com a fonte. A recepção, em geral
vestimenta mediúnica, ultrafânica ou inspirativa e falam a lin- salteada e inconsciente no ultrafano, aqui é contínua e consci-
guagem normal. Assim é o presente volume. Ora, muitos per- ente, é um colóquio, um contato, uma comunhão que tende à
guntam se esses novos livros que se expressam como falam to- unificação; torna-se prece, religião, misticismo, amor de Deus.
dos, e não com tonalidade extra ou sobrenatural, são ou não A terceira trilogia, que representa a fase da sublimação, não
inspirados. Os leitores, em geral, estão habituados, como os pode acabar senão em pleno misticismo. Assim, sempre pro-
demais, a tratar com o homem normal de tipo único e constante, gredindo, fecha-se o caminho iniciado com manifestações que
de enquadramento estável, e não com o tipo múltiplo, em con- foram chamadas mediúnicas, alcançando resultados que, como
tínua evolução, como é o nosso caso, que, por isso mesmo, não técnica receptiva, são bem diversos e, como conteúdo, estão
pode ser enquadrado em esquemas fixos. muito longe da mensagem ultrafânica usual em função de certa
Em se tratando desta trilogia, era necessário responder a es- entidade. Aqui, a mensagem é uma obra orgânica racional, que
ta pergunta, esclarecendo dúvidas. O autor, agora, acha-se já atinge o oitavo volume; a mediunidade é uma missão que se
cônscio de haver completado seu misticismo na forma ativa de apossa de uma dada hora histórica e de toda a vida de um ho-
sua missão e o tem estudado em si mesmo, com auxilio de ou- mem. Como se vê, os conceitos espíritas comuns não são mais
tros místicos, embora ainda esteja longe de tocar o fundo deste suficientes para conter estes resultados.
mistério (que aliás não pode findar), de tal maneira que, em seu Chegamos aqui a uma disciplina consciente e racional, que
caso, através de um contínuo controle racional do fenômeno de analisa e põe em ordem, organicamente, os produtos da intui-
sua intuição e dos seus produtos por ele registrados, transfor- ção. Em geral, todos, mais ou menos, possuem intuição, mas de
mou a sua própria inspiração em técnica regular de pesquisa, um modo vago e sumário, sem a crítica e a precisão de um mé-
que ele chama o método da intuição, não tendo nada a ver com todo. Em nosso caso, a intuição não só se faz método de inves-
a ultrafania em transe e muito menos com o mediunismo de tigação cientificamente exata, vasta a ponto de permitir com-
efeitos físicos. A finalidade da vida do autor, como acima ficou preender e orientar todos os problemas do conhecimento, mas
dito, não é de nenhuma maneira o estudo dos fenômenos medi- também é traduzida do seu natural funcionamento por clarões
únicos, e o espiritismo lhe interessa relativamente. Sua vida é sintéticos e intermitentes para os termos da exposição contínua
missão, e seu escopo não é a experimentação espiritista, mas e da análise racional. Se tudo é antes sentido por via intuitiva,
sim a evangélica; não é a indagação do além-túmulo, mas a as- como síntese, conclusão e solução dos problemas, deve ser, de-
pois, analiticamente demonstrado pela força da lógica, para uso
3
De natureza densa, inferior. (N. do T ) da forma mental corrente, não intuitiva. Trabalho de reflexão e
4 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
coordenação, útil e necessário para permitir a compreensão; de Agora, que vimos o significado da terceira trilogia relativa-
precisão analítica e cultural, sem o que, a mensagem inspirativa mente à maturação do autor e à natureza de sua produção inte-
ficaria confusa e distante. A mensagem provém de superiores lectual, observemos a conexão que tudo isto pode ter com a
dimensões conceptuais, sendo necessário reduzi-la à nossa di- atual hora histórica, como contribuição e como missão.
mensão racional. Trabalho inicialmente de audição e compre- Em nosso caso, não há só a catarse do autor e a criação efe-
ensão, posteriormente de elaboração dos dados da inspiração, tuada pelo fenômeno inspirativo, mas há também o fato da com-
desconhecido portanto do ultrafano comum. preensão sempre maior por parte do público. De que deriva isto?
Em nosso caso, a inspiração, embora se possa dizer que di- Nota-se que, no leitor que lê estes volumes, nasce um senso ín-
rige como um guia a mente do sujeito, é todavia por este con- timo de convicção que não é apenas racional. Muito mais do que
trolada. Mais do que de recepção, pode-se neste caso falar de pelos processos lógicos, geralmente quem lê fica persuadido pe-
colaboração consciente de ambas as partes, sem com isto deixar la ressonância íntima, pela convicção segura de quem escreve,
de reconhecer quão mais sábia e potente é a fonte transmissora. pela sua sincera paixão, pela misteriosa formação daquela sinto-
Por outro lado, uma vez que o já conhecido fenômeno da união nia que constitui base e condição necessária para a compreen-
mística, através da progressiva catarse do sujeito, torna-se sem- são. Mas o que, então, determina o aparecimento dessa sintonia?
pre mais intenso, compreende-se como vem a ser cada vez mais De onde desponta essa vibração que une leitor e escritor?
difícil distinguir o receptor do transmissor – fundidos que estão O fenômeno inspirativo a que se deve a gênese primeira
num mesmo ritmo de pensamento – e isolá-lo de uma fonte em destes escritos coloca o autor em uma posição especial, diferen-
que a sua personalidade, distinta no sentido humano, sente-se te daquela assumida pelo escritor comum, que exprime apenas
como que diluir em sublime alegria. De fato, uma das mais per- a si mesmo, quando não faz coisa menos sincera e verdadeira,
turbadoras sensações que a elevação mística produz é a da disso- como uma criação de fantasia. Em nosso caso, a inspiração
lução do próprio eu como unidade egocêntrica. Na alta psicolo- permite ao autor colóquios diretos com a vida, com o pensa-
gia, como na alta matemática, os conceitos comuns não têm mento de Deus, ouvindo a voz de todos os seres, em todas as
mais sentido. Tudo isto transforma o fenômeno neste nosso ca- suas formas, da pedra ao gênio e sempre mais alto, até às di-
so, distanciando-o cada vez mais da ultrafania e aproximando-o mensões do superconcebível, pelas sendas do misticismo.
da inspiração do artista, do sábio, do místico, enfim daquele que, Aquele que aqui escreve não inventa nada, simplesmente lê no
em todo campo, cria no espírito. Em nosso caso, a sensibilidade grande livro da vida universal; é um espectador da infinita sa-
ultrafânica veio tornar-se um método preciso de pesquisa, que bedoria de Deus, que ele contempla em visões e exprime em li-
encara os problemas com o velho sistema experimental analítico vros. Assim, quando quem fala não é o indivíduo, mas sim a
apenas num segundo tempo, como controle, enquanto, num pri- própria vida, o pensamento não envelhece. O mundo está reple-
meiro tempo, perlustra-os por vias intuitivas, sintéticas, somente to de ideias cansadas, que têm exaurido seu dinamismo e sua
alcançáveis por um hipersensitivo, tornado tal pela evolução do função. Lá onde é a vida que fala, a ideia é sempre jovem e vi-
instrumento humano. Este será o método de indagação do ama- va. Se o autor simplesmente revela aquilo que já está escrito no
nhã, que só um tipo humano mais evoluído saberá empregar. íntimo de todos e que é instintivamente sentido, ainda que de
Mas não há só este trabalho de controle da recepção, de co- modo impreciso, é natural que o fundo comum, o elemento ba-
ordenação e organização dos resultados, de precisão analítica ra- se da sintonia, já preexista com grande potência. Então o leitor,
cional e cultural. Em geral, os leitores creem que a inspiração em seu instinto, onde fala a vida, sente e reconhece aquela voz
representa qualquer coisa concedida gratuitamente, no entanto como sendo a voz da verdade e, mesmo sem poder ainda com-
ela é conquistada com trabalho e fadiga. É necessário procurar preender o porquê, aprova com um irresistível senso de íntima
ardentemente, porque Deus não se revela senão àquele que o convicção. Eis a sintonia e o consentimento pleno. O leitor,
procura e o chama. É preciso subir com o próprio esforço para mais do que isso, sente alegria ao encontrar um intérprete exato
chegar a escutar, é preciso duramente maturar-se e merecer para de seus vagos sentimentos, que ele mesmo tentava precisar,
ter resposta. É necessária uma fé positiva, que saiba vencer to- mas que não conseguia levar à plena luz de sua consciência;
dos os obstáculos. E quando a inspiração chega, é preciso segui- sente-se feliz em encontrar feito o esforço que a vida lhe pedia,
la a todo custo e em qualquer condição, no seu arremesso impe- de levantar o véu do mistério; regozija-se ao encontrar pronta
tuoso, ainda que estejamos atordoados por tantas exigências de uma resposta a tantos porquês que o torturavam e ver assim re-
um mundo que pretende andar por estrada bem diferente. solvidos os seus mais tormentosos problemas.
Ainda que haja sofrimento, é preciso escrever; extenuado Parece então ao leitor tornar a ouvir a sua própria voz, clara
ou doente, mesmo assim é preciso escrever. Pode faltar de tu- e engrandecida, tão perfeita é a sintonia dada pela mesma lei da
do, mas escreve-se; se os interesses materiais estão a caminho vida que a todos anima. Há uma aproximação com aquele que
da derrocada e os involuídos roubam tudo não importa, escre- lê, um retorno de alma para alma, que pela sintonia e convicção
ve-se; se a casa cai e o mundo explode ou está perto do fim que se seguem, reforça-se em admiração, gratidão, simpatia e
não importa, escreve-se até ao último suspiro. É necessária amizade. Estes livros terminam assim em afetuoso liame, em
uma vida concentrada toda em um ponto: registrar esse pen- vínculo não só de compreensão, mas de ação e de missão. No
samento que nasce dentro de clarões, de turbilhões, como um campo social, esse é o resultado, no terceiro tempo, da trilogia
furacão que grita, canta, arrebata e atordoa. Registrar tudo, com a qual a obra se concluirá, e essa é a estrada pela qual o au-
nos mínimos detalhes, quer na potencialidade como na doçu- tor, pelo caminho da livre e espontânea convicção, quer dar a
ra, seja como conceito seja como paixão. Abandonando-se ao sua contribuição para o advento da nova civilização do espírito.
irresistível, deve-se muitas vezes exprimir o inexprimível, Porém há mais. A expressão da voz da vida, captada pelo
sem contudo deixar de permanecer na forma. É preciso viver autor por via inspirativa, não é vaga e genérica, e sim precisa,
as teorias expostas, fazer-se campo experimental e, com as na forma do atual momento histórico, falando aos homens do
provações trazidas por elas, confirmar a exposição. Com uma amanhã próximo, em função de acontecimentos iminentes. Eis
vida elevada de sacrifício, é necessário manter-se em perma- então que todos os sensitivos que já verificam o fermento da
nente sintonização, fazendo de tudo isto uma missão para o hora prestes a soar, se incendeiam na leitura como diante de
bem dos outros, vivida em abrasamento, como cumprimento uma revelação. O fato é que estes livros são estreitamente li-
de um destino. Levar tudo isto adiante, ardendo sempre mais e gados ao nosso tempo, são expressões da vida, que tem de di-
não ceder nunca, fiel a Deus até à morte. zer alguma coisa de muito grave e se apressa a dizê-lo aos que
◘ ◘ ◘ têm ouvidos para ouvir. Estes escritos estão ligados à história e
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 5
à evolução biológica, delas exprimem o atual drama e a elas justamente porque deles hoje há extrema carência. O homem
desejam dar uma contribuição efetiva. Mais exatamente, eles tem fome destes valores. As novas classes dirigentes não pode-
revelam as correntes biopsíquicas que dominarão no dia de rão, portanto, formar-se segundo o nascimento, o poder ou ape-
amanhã, anunciando-as e preparando-as. Realizando a função nas a inteligência, mas deverão basear-se nos valores espirituais,
de antena biológica, quem os escreve capta a antecipação do que superam a animalidade, valores constituídos por sensibili-
futuro. Muitos já o pressentem, embora não consigam precisar dade psíquica e moral, sabedoria, sensatez, altruísmo, caridade e
tudo, porém já estão aptos a reconhecer qual é a voz da vida, amor, bondade, desprendimento das riquezas, renúncia a toda
porque esta fala neles, e aguardam ansiosamente quem se le- forma de excesso. A vida pede ao homem muitas vitórias, prin-
vante para exprimi-la, prontos para abraçá-la com paixão, cipalmente sobre o ódio e a cobiça, que hoje envenenam a vida.
quando se encontrarem com a sua revelação. Os homens so- Deve aparecer um novo tipo de lutador, evangélico, desprendido
mente respondem a um apelo quando este já se encontra no in- e desarmado, mas inteligente e consciente, muito mais poderoso
terior deles, de onde a vida já lhes está bradando. De outro que o rude e violento de hoje. Há bem maiores revoluções para
modo, ficam mudos, sem compreender. Somente então se for- se fazer do que aquelas que o homem atual concebe.
ma a corrente coletiva, constituída pela corrente das forças da Tudo isto, hoje, pode parecer muito longínquo e, portanto,
vida, que quer atingir assim os seus objetivos, corrente que de escasso interesse. Mas todo amanhã é feito para tornar-se
pertence a todos e a todos vai arrastando. O revelador da ideia, depressa o hoje. Quando o homem tiver realizado as suas ne-
que parece o seu criador, é tão-somente um expoente exterior; cessidades e desejos de hoje, que fará? Quando o homem, com
é apenas o representante de um pensamento que não é seu e a máquina e a técnica, com suas novas teorias econômicas e
que ele tem a função de sentir antes, para depois exprimi-lo e distributivas, tiver resolvido o problema do bem-estar material
divulgá-lo. Trata-se apenas disso, e não de outra coisa. Na vi- para todos, quais os problemas que encontrará pela frente?
da, mais que o indivíduo, importa a sua função. Quando o progresso científico e social tiver reduzido, para to-
Se muitos não ouvem o chamamento da vida, se estão fora dos, o dia de trabalho a poucas horas e resolvido as dificulda-
desta corrente que impele a evoluir, se não podem sintonizar-se des da vida material para todos, ao menos quanto a um mínimo
com ela e se, enfim, são surdos a ela, não importa. À grande necessário, como ocupará o homem o supérfluo de seu tempo e
massa dos involuídos, daqueles que, podemos dizer, servem de suas energias? É certo que ele se aproveitará disto para
como lastro, a vida não tem confiado funções de antecipação e abandonar a luta e, em vez de continuá-la em um plano superi-
criação. Esses têm que ser impelidos para depois chegar por úl- or para conquistas mais altas, deixar-se-á quedar no ócio, em
timo. Os inferiores são os que mais opõem resistência e, no en- busca de prazeres e vícios, chegando assim ao destino de todas
tanto, são os que mais precisam ser ajudados para evoluir. as aristocracias e dos povos ricos e preguiçosos, que é o esfa-
Se compreendermos a estrutura e a gravidade da atual hora celamento. A vida fere quem dorme sobre as conquistas feitas.
histórica, justamente porque involuída, veremos que tal contri- Ela hoje caminha com rapidez, e essas conquistas estão mais
buição é hoje necessária. Os valores do domínio autoritário, da perto do que possa parecer. Todo futuro é feito para tornar-se
vitória baseada somente na força, se é que ainda há quem pense presente; assim a utopia se transforma em realidade. Nenhuma
ter domínio próprio, já caíram substancialmente, porque, depois utopia é maior que a do Evangelho; entretanto, se ele foi pre-
do desastre geral para vencedores e vencidos na última guerra, gado, não o foi, decerto, para permanecer como utopia, mas
diminui sempre o numero dos que neles acreditam. Os valores para se transformar em realidade.
da riqueza subsistem ainda, mas sob a ameaça de tamanhos A atual hora apocalíptica, através de grandes lutas e crises,
golpes, que já vacilam, inspirando sempre menor confiança. A prepara novas condições de vida. Entre tantos homens que pen-
que valores se prenderá então o mundo assim abalado, senão sam somente no presente, é necessário que haja alguém que en-
aos únicos que restam, os do espírito? Onde se poderá de outra xergue mais longe no futuro e tenha a intuição desse futuro, o
maneira achar aquela solidez e invulnerabilidade que a huma- anuncie, o prepare. Os problemas existem para serem soluciona-
nidade demonstrou não possuir? O mundo está desiludido e tem dos, mas há decerto, além dos atuais relacionados ao dinheiro e
fome de uma fé, porque não se pode viver sem esperar alguma ao estômago, outros problemas, que também devem ser resolvi-
coisa e sem crer no amanhã. As filosofias não servem, e as reli- dos. Nas grandes voltas da história, como a verificada hoje, não
giões devem adaptar-se às massas involuídas e supersticiosas. bastam os homens de ação, administradores, que seguem pers-
Mas o motivo do espírito já desponta nas conclusões dos gran- pectivas imediatas e realizações vizinhas, é necessário que haja
des intelectuais da ciência, que começa a emergir de seu velho também homens de pensamento, capazes de se orientar segundo
materialismo. Eis aí alguns sintomas, que não são os únicos. óticas mais amplas, em relação não só ao que é contingente, mas
A vida é uma viagem. Parar é morrer. Mas não se pode con- a todo o funcionamento orgânico da história e da vida. Da com-
ceber caminho sem meta. A vida tem, portanto, absoluta neces- preensão da extrema gravidade da hora, da necessidade de pre-
sidade de possuir uma tábua de valores e subir para planos mais parar um amanhã que se avizinha rápido, da consciência do de-
elevados, a fim de realizar a evolução, que é o imperativo abso- ver de dar a contribuição necessária, nasce então, em alguns pi-
luto. A culpa mais grave, aquela que se paga mais caro, é a de oneiros de sensibilidade apurada e aptos para esse fim, o senso
furtar-se à ascensão, é a de não atender à lei da evolução. de missão, confiada a eles pela vida, que neles escolhe seus
A nova aristocracia não poderá ser, por certo, a da força ou meios para fazer ouvir a sua voz. Estes pioneiros, por serem
a da riqueza, porque de tais aristocracias, até hoje, o mundo já evoluídos, já superaram o egocentrismo animal e somente sa-
teve superabundância. Tais formas exauriram a sua experiência bem viver fundidos no amor ao próximo, missão inevitável para
e deram o seu rendimento biológico. A vida não alimenta senão eles, que não sabem dar outro conteúdo à vida senão esse.
aquelas formas que têm uma função e um objetivo definidos, Eis em particular o significado deste volume, Problemas do
por isto liquidará esses tipos de classes dirigentes. Ela tem ne- Futuro, e da terceira trilogia que ele inicia, bem como de toda
cessidade de outras formas, para outro trabalho. O tipo dos no- a Obra. Com o novo milênio, o homem entra em um novo ci-
vos condutores não será o bélico, político ou econômico, mas clo histórico e biológico. É preciso fazer que ele compreenda
um tipo completo, que, mais do que religioso, seja sábio e justo. essa imensa realidade que o espera. É necessário incendiá-lo,
Depois da falência dos chefes armados, dar-se-á o advento dos enfim, com uma fé e com um impulso proporcionado ao esfor-
chefes espirituais, dos profetas desarmados. A vida tem neces- ço que hoje a vida lhe pede, para que ele saiba conquistar essa
sidade também dos valores mais desprezados hoje, que são os realidade. A vida nunca dá presentes, mas nos convida e nos
da vida interior. Deles tem necessidade para reequilibrar-se, ajuda a merecermos tudo. Há perigos, mas há também ilimita-
6 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
dos horizontes. É preciso orientar o homem. Ele hoje procura É preciso fazer com que o homem suba da matéria ao espíri-
sua realização e alegria fora de seu verdadeiro lugar e fica de- to. Só ali há salvação. O materialismo centralizou a nossa men-
siludido. É preciso transformá-lo de involuído em evoluído. te nos bens materiais. A ciência, conquistando e desfrutando as
Quem escreve deve ter vivido antes, pessoalmente, a sublima- forças naturais, criou uma psicologia de prazer e de poder em
ção da vida, para depois ensiná-la aos outros, oferecendo-lhes vez de sacrifício e renúncia, roupagem para os tolos e os venci-
gratuitamente a sua conquista biológica, um precioso produto dos. Daí resultou um homem moralmente fraco, sem resistência
experimental, fruto de tremendas lutas. nas adversidades, um homem que se sente sempre mais pobre.
O nosso mundo atual está em estado de colapso espiritual. Uma artificial multiplicação de necessidades inúteis e nocivas
O homem moderno, enfunado de descobertas, tornou-se um va- está anulando a elevação do nível econômico, o que significa
zio espiritual. A fase da onda atual representa a inércia das qua- empobrecimento, porque a riqueza não é absoluta, mas sim uma
lidades mais nobres da alma. A imprensa gosta de destacar os relação entre meios e necessidades. Em meio a um bem-estar
delitos e todas as piores baixezas humanas. A arte se está dege- crescente, adveio uma sensação de miséria, uma vida mais difí-
nerando em todos os seus aspectos. Mesmo debaixo das apa- cil, um estado de angústia pela falta de espaço vital, enfim um
rências mais intelectuais, respira-se sempre um ar de deprava- abandono das necessidades superiores, única saída para a alma,
ção. Parece mesmo que tudo há de ter hoje esse sabor funda- que fica assim comprimida, restringindo-se à satisfação de ne-
mental. Mas é preciso reagir e salvar-se. Há uma quantidade cessidades inferiores, insuficientes para nos satisfazerem, por-
apreciável de valores superiores que nos podem tornar muito que se multiplicam a expensas daquele outro estado de alma
poderosos e ricos. Mas é preciso descobrir esses novos conti- muito mais vital. Isto é patológico, é antivital. Há uma descida
nentes do espírito, para desfrutá-los. É preciso aprender a subs- para as necessidades mais elementares, que invadiram todo o
tituir por esses valores superiores os inferiores da riqueza mate- campo dos desejos humanos. Há uma riqueza econômica que
rial, para nos tornarmos, o mais que pudermos, independentes não compensa a carência dos bens espirituais. Há uma capaci-
dela e de todos os dissabores que dela se originam. Dá-se tanto dade de saber procurar os primeiros e uma incapacidade de sa-
valor ao dinheiro, que não se pode resolver o problema espiri- ber usufruir os segundos, ainda que vizinhos e gratuitos.
tual se não for antes resolvido o material. É verdade, mas o E, assim, vai tudo por água abaixo. A indústria, com a pu-
grande erro consiste em se considerar as coisas do espírito co- blicidade, faz do homem um consumidor e das nações um
mo artigo de luxo, supérfluo, a que se recorre somente quando mercado a ser desfrutado. É preciso produzir e depois vender,
se está saciado de tudo e não se sabe mais desejar outra coisa, fazer consumir. Mas é preciso pagar tudo isto, ainda que seja
no entanto são elas as coisas de primeira necessidade. O bem- inútil ou supérfluo, com o nosso tempo e o nosso fadigoso es-
estar econômico por si só não basta. O problema da vida não é forço, com a nossa paz. Cultiva-se assim o consumidor, cria-
de solução assim tão simples, como o crê a moderna psicologia se e educa-se ele com a propaganda, e há sempre novas neces-
utilitária e materialista. Nada está isolado na vida, nenhum pro- sidades, a escravidão das necessidades artificiais. Isto se cha-
blema pode ser resolvido isoladamente e, portanto, também o ma bem-estar e civilização.
material e o espiritual, tanto que se pode dizer o contrário do Atrai-se com prazeres fictícios o consumidor, para que ele,
que todos dizem, isto é, que o problema material não pode ser estando viciado e persuadido de que vai ao encontro de sua
resolvido se antes não foi resolvido o espiritual. alegria e seu bem, submeta-se à exploração. Assim, novos há-
A riqueza pode ser nociva para quem dela não sabe fazer bitos sociais vão nascendo, uma determinada moda para cada
bom uso. Hoje não se crê senão nela e se tem horror da pobre- coisa, sempre mutável, para encher tantos cérebros vazios. Na
za. Não se compreende hoje uma pobreza que não é miséria, medicina, essa moda e essa psicologia de exploração do con-
mas um estado de poucas necessidades materiais e de grandes sumidor chegam ao ponto de representar um atentado à saúde e
riquezas espirituais, a ponto de poder tornar aquele que as pos- um perigo para a raça. A nossa civilização, que é tão sábia no
sui mais rico do que os ricos. Essa pobreza de vastos horizon- particular (hoje também a ciência é especialização), está deso-
tes, bem diversa daquela que também é miséria de alma, pode rientada nas grandes linhas; falta-lhe diretriz geral, falta-lhe
transformar-se em terreno de grandes conquistas espirituais, um guia inteligente. Por ora, o progresso, apesar das conquis-
que são afastadas pela riqueza, porque esta nos adormece nas tas materiais, ainda não atingiu a alma, onde está o verdadeiro
comodidades. É necessário que falte alguma coisa em baixo pa- homem, e limita-se a um espantoso excitamento das cobiças
ra sermos induzidos a procurá-las mais no alto. Quem está saci- animais, com todas as suas consequências.
ado não procura. Para progredir, é preciso viver com o ânimo É preciso ensinar ao involuído atual que as alegrias que ele
vibrante e não satisfeito. Para poder superar a matéria e enri- procura no fumo, no álcool, na cocaína, no vicio ou até mesmo
quecer-se mais elevadamente, é preciso não gozar-lhe os enle- no furto e no delito, ele as encontrará, mais belas e mais pode-
vos; para formar desejos e exigências mais espirituais, é preciso rosas, mais no alto, em realizações novas, que o moderno caça-
que a alma encontre fechada a porta para os gozos materiais. dor de êxitos, sempre ansioso e agitado, perseguido pelo tempo,
Essa pobreza pode ser um estímulo para alcançar intuições ina- não conhece. O crescimento do ser em direção da alegria é di-
tingíveis de outra forma, ela nos ensina a caducidade do nosso reito sagrado, mas deve ser dirigido para outro tipo de volúpias,
apego às coisas terrenas. A riqueza é um resultado vitorioso, vitais, e não precárias, em sentido ascendente, e não descenden-
mas efêmero. A pobreza a vence neste seu ponto fraco, que é a te. É preciso analisar e demolir esses prazeres que intoxicam e
falta de segurança e de paz. E assim é o nosso mundo: sem se- desfazem o homem, para ir em busca dos grandes prazeres do
gurança e sem paz. É preciso vencer e superar esses pontos fra- espírito. É preciso substituir os gozos destrutivos pelas grandes
cos. Hoje nada se compreende disto, vivendo-se desesperada- alegrias construtivas, substituir o sucesso exterior, vão e fictí-
mente numa luta feroz. Este é o tormento que nos impõe a nos- cio, em que hoje se crê, por aquele outro, vindo do próprio va-
sa cobiça. É preciso compreender o lado que é conquista e valor lor íntimo e substancial. O evoluído não renega a vida, mas a
positivo dentro da renúncia e do desprendimento. Porém, infe- enaltece muito mais. Os tempos são maduros e é necessário
lizmente, o conceito tradicional de virtude nos mostra aí o lado aprender novos modos de viver. É necessário começar a prepa-
negativo, de perda e pobreza material, em vez de conquista e ração do terreno para uma nova civilização, fazendo o homem
riqueza espiritual. É a nossa vacuidade interior que despreza a compreender que ele é muito mais do que um simples animal, é
vida simples e pobre, enquanto esta pode ser, ao contrário, um o dono de um destino radioso; fazê-lo compreender que o uni-
meio de superação e libertação, criando formas de vida superio- verso não é somente um campo a ser explorado, mas um sábio
res, mais ricas e mais poderosas. organismo de pensamento e de matéria, fundidos entre si.
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 7
O homem, hoje, não se realiza, dispersa-se. A felicidade É preciso ser o pioneiro de um ideal diverso, de destaque e
da posse, que ele tanto procura, é primitiva e traidora. Ela é de libertação, para subtrair-se à obsessão econômica que é o
própria de uma dada fase do desenvolvimento, e não das fases tormento moderno; é preciso ensinar a desfazer as falsas mira-
sucessivas, mais elevadas. Hoje, é preciso aprender a conhe- gens dos prazeres oferecidos por traição pela nossa chamada
cer a felicidade superior que está na criação. Muda, desta sor- civilização, rebelando-se contra a prostituição e o sufocamento
te, a atual concepção da vida. Assim como o conceito de ma- do espírito que ela nos quer impor. É necessário enriquecer-se
terialismo, uma vez tido por definitivo, perdeu todo o valor no bem diversamente da maneira como hoje se anseia. É preciso
seu velho significado sensório, também mudará o conceito de saber colocar-se nesse terreno utilitário tão diverso e compre-
trabalho. Este, em nosso mundo de hoje, é condenação e, por ender-lhe as vantagens superiores. É preciso ensinar a gozar em
isto, exige um salário. Daí as maiores lutas do nosso tempo, planos mais altos, a possuir alegrias mais refinadas e gratuitas,
daí capitalismo e comunismo, guerras e destruições. O traba- que provêm do íntimo, e não do exterior. É preciso alijar o peso
lho é cada vez maior condenação, porque o temos privado do do trabalho-pena para amar o trabalho-função e missão, que
espírito animador, cujo sopro é alegria. A máquina, a indús- não é fadiga para uma paga, mas livre e espontânea realização.
tria, a organização e a cobiça levam ao cálculo do dinheiro e É preciso conquistar a riqueza da tranquilidade e a riqueza do
do tempo, ao horário e à escravização. A descida na matéria tempo, hoje perdidas, especialmente pelos ricos. ―Não tenho
sufoca na limitação, que é seu elemento; a elevação no espíri- tempo‖ é a frase moderna, e é também a sua pobreza. E não há
to dá liberdade, fora da limitação. A involução humana redu- obras de beneficência que permitam doar essa mercadoria, aju-
ziu o trabalho a uma condenação oprimente, embora ele seja dando em sua miséria esses desgraçados pobres de tempo! Essa
o mais alegre recurso do ser e, realizando e nos desenvolven- carência de tempo é uma vingança da matéria, que escolhemos
do, esteja entre os mais ativos instrumentos de evolução, isto como padrão, enquanto o espírito se mantém fora do tempo.
é, de libertação para a felicidade. Transformou-se assim nessa Somente no alto há liberdade, que se deve conquistar elevando-
opressora miséria aquilo que acima tínhamos chamado de li- se, e não roubando de outros escravos os seus grilhões de ricos.
vre e alegre ato da criação, no qual o homem não só se realiza A grande luta social hodierna se reduz a esse desejo intenso
e se desenvolve, mas também é chamado a colaborar e operar de roubar esses grilhões, isto é, de roubar aos ricos o tormento
no funcionamento orgânico do universo, à semelhança de imposto pelo medo de perder os próprios bens, pela paixão de
Deus, imitando-O na sua perene ação criadora. aumentá-los, pela necessidade de conservá-los. O mundo atual
A evolução é lei de vida, e o mundo deverá percorrê-la, co- anseia por essa prisão dourada, cárcere que cerca e prende entre
mo teve de percorrê-la quem aqui escreve. Chegar-se-á, com a seus muros e do qual, depois, é tão difícil e penoso sair. Mesmo
ascensão, a uma grande transformação de valores. Compreen- aí dentro também se está roído pelo tédio e pela saciedade de
der-se-á então que o bem-estar material, embora seja um grande tudo, roído pela fome do espírito privado de alimento. Pouco
passo, por si só não basta para dar felicidade. Na vida há neces- dinheiro valoriza tudo; quanto mais as alegrias são moderadas,
sidade de muitas outras coisas, que hoje matamos, como a fé, o tanto mais são prelibadas. Muito dinheiro desvaloriza tudo, ale-
belo, a poesia, a paz interior, o amor elevado, a esperança. O grias abundantes e repetidas terminam em náusea. Sábias com-
mundo de hoje cresceu no plano físico, como corpo; urge um pensações, justas vinganças da vida.
paralelo desenvolvimento no espírito, pois é extremamente pe- A atual máquina social funciona, em grande parte, pela for-
rigoso que um tão grande corpo fique em poder de uma mente ça. Precisamos ser os pioneiros de um ideal diverso, de amor,
tão limitada e primitiva, sem a direção de uma alma adequada. convicção e colaboração. Só assim será possível alcançar a or-
É exatamente a hipertrofia técnica e científica que exige, para dem necessária, subtraindo-se ao peso da coação. Cada forma de
equilibrar-se, um proporcional desenvolvimento espiritual que poder, hoje, é mais ou menos uma forma de coação contra a pre-
assuma a direção, sem o que tudo ameaça acabar em desastre. cedente, somente para se impor; a autoridade, mais que uma
A ditadura da ciência materialista e da sua psicologia é uma fa- função social a serviço da coletividade, é uma vantagem pessoal
se superada, e o mundo invoca desesperadamente uma sistema- a serviço de quem a conquistou. O egoísmo foi até ontem um
tização diversa, espiritual e moral. elemento útil e necessário para as conquistas materiais e o pro-
Entre tantas revoluções que o homem moderno deseja, há gresso humano, que lhe têm sido devidos, porém hoje, quando a
também aquela contra a asfixia espiritual, contra o nivelamen- vida humana entra na fase social orgânica, aquele egoísmo cons-
to numa animalidade universal, contra o embrutecimento ge- titui um elemento antivital, porque é antissocial, tornando-se
ral, próprio tanto do capitalismo como do comunismo, nos destrutivo e inaceitável na nova coletividade. Hoje, que a técnica
problemas do ventre. tanto progrediu, a caridade se encontra em pleno retrocesso. O
Bem outras revoluções hão de realizar-se, não para a con- progresso não consiste, como hoje se crê e se quer, em uma vã
quista dos bens materiais, mas sim dos bens espirituais, conti- multiplicação de necessidades a que, depois, se oferece satisfa-
nente inexplorado de riquezas infindáveis, lugar ao sol também ção, pois disto resulta uma custosa dependência, pela qual é ne-
este, sol que o homem tem extrema necessidade para a mente e cessário, logo após, pagar o custo com trabalho forçado.
o coração. É preciso rebelar-se contra a imersão na massa nive- O atual desenvolvimento dos valores mais baixos não é
lada, opondo-se aos gostos podres das maiorias. A verdadeira progresso, mas sim atraso, não é vitória, mas sim derrota que o
revolução será feita chegando-se à compreensão dos valores de mundo está pagando caro. Qual o uso que o homem sabe fazer
substância e substituindo por eles, na própria vida, os atuais de hoje dos melhoramentos econômicos? E se não sabe empregá-
superfície e de forma, dados pela abastança ou sucesso, hoje tão los no bem, mas só no mal, então não é melhor para ele a po-
em moda. É preciso conquistar uma potência superior de domí- breza? Quando o homem, com a ciência, a máquina e a justiça
nio espiritual e lançá-la à face do mundo como um desafio. Po- social, chegar ao bem-estar material, que uso dele saberá fazer
tência de uma riqueza que não é de dinheiro ou de poder, uma com sua psicologia? Certo é que, se não for educado a tempo,
riqueza que permite ter piedade dos ricos e dos poderosos. De- não fará mais do que multiplicar e estender a sua atividade abu-
ve-se contrapor à riqueza econômica, hoje supremo ideal, a ri- siva. E se a finalidade da vida é bem outra, o alcance desse tão
queza da inteligência e do coração, que hoje falta. É preciso desejado bem-estar não pode representar, para uma humanidade
mostrar tanto aos ricos do capitalismo como aos pobres do co- como a de hoje, um dos maiores perigos?
munismo a sua vacuidade espiritual, que os iguala e os torna os Este é um quadro sumário das condições do nosso tempo. A
mesmos homens em luta no mesmo terreno, com os mesmos finalidade destes livros é demonstrar através da razão a realida-
fins egoístas e os mesmos instintos de avidez. de e a utilidade de uma vida superior no espírito, mais rica e
8 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
mais feliz, e o escopo da vida do autor é demonstrá-la com o governo é perfeita porque, em face desse chefe-Lei, cada um
exemplo. Se, depois disto, outros quiserem compreender com a deve responder e pagar pessoalmente, caso tenha violado as
sua razão e proceder com o seu exemplo, então a ideia de uma suas normas. Essa é uma responsabilidade da qual não é possí-
nova civilização não será mais utopia. vel eximir-se. O indivíduo, ainda que agindo em coletividade,
Já foi afirmado que estes livros não representam nada de se acha sempre só e despido diante da Lei, sem poder descar-
novo e que não são mais do que repetições de coisas que já fo- tar-se de nenhum modo das suas ações. Cada um, sem hierar-
ram ditas. Certamente, não pretendemos oferecer descobertas quia, está sempre em contato direto com o chefe-Lei, que nele
no sentido moderno, particular e analítico, como invenção téc- sempre funciona. Aqui, o proselitismo com o fim de engrossar
nica e utilitária para solução de casos isolados. Se isto aconte- a fila e, com isto, a força do próprio poder contra os contrários
cer, será apenas incidentalmente, como consequência da reali- não tem sentido, porque os seres não se podem unir senão fra-
zação fundamental, que é bem outra. Esta encontra-se nos antí- ternizando-se para o bem de todos. Esse bem, qualquer que se-
podas da atual ―forma mentis‖ humana e tende não ao resultado ja a sua forma humana, que aparecerá como coisa secundária,
utilitário no particular, mas à síntese, à orientação, a uma utili- será o verdadeiro governo do homem evoluído do futuro.
dade de conjunto, a uma nova compreensão da organicidade da Concluamos. Dissemos que a ideia dominante desta tercei-
vida. Há uma descoberta, porém em sentido diferente do corri- ra trilogia, que aqui se inicia, é sublimação. Ela se encontra
queiro: a verificação da onipresença de uma lei que tudo guia. aqui projetada em relação à maturação do autor, ao desenvol-
Embora essas verdades sejam repetidas muitas vezes, isto se faz vimento da exposição e ao cumprimento do destino do mun-
mecanicamente, por tradição, por quem não as vive, o que aca- do. Sob este aspecto tríplice, continuaremos o seu desenvol-
ba por matá-las em vez de vivificá-las. Dizendo-as e repetindo- vimento no presente volume. Esta sublimação que o autor vi-
as assim, por hábito e sem senti-las, chega-se ao resultado de veu e que tenta exprimir nesta terceira trilogia, está, pela fata-
torná-las fastidiosas, falsas, inaplicáveis. Aqui, no entanto, elas lidade da hora histórica, segundo a intuição que tem, para ser
são ditas por quem as vive e, por isso, as faz viver também em projetada no destino do mundo. É uma sublimação da vida
quem as escuta, e não por quem não as vive e, por isso, as faz que entra em uma de suas mais altas fases de evolução e ar-
morrer em quem as ouve. Esta é a novidade e a descoberta que rasta primeiramente os mais sensíveis. É o ingresso do homem
tentamos fazer. Elas consistem em superar aquela mentira que em um novo plano de vida, o plano evangélico do Reino de
acabou por invadir toda a nossa vida. Deus; é a aproximação da nova civilização do espírito. Este é
Há aqui mais uma coisa nova: o método de comando e de o significado da sublimação no campo social. Este é o coroa-
governo. Aqui, saímos fora do plano humano e de seus siste- mento desta obra, bem como da vida do autor.
mas tradicionais; trata-se, portanto, não mais das habituais re- Ter compreendido a hora histórica e explicar o seu signifi-
voluções de forma, mas de uma revolução de substância. Ho- cado como sublimação, lendo os seus traços escritos nas leis da
je, a sociedade em geral é regida por emersão, com o sistema vida; viver essa sublimação e projetá-la nos outros, fazendo-os
representativo ou totalitário de um chefe que trabalha antes de participar da maravilhosa nova realidade alcançada; oferecer
tudo para si; outrossim é regida por um grupo de homens que assim, gratuitamente, uma contribuição para o advento da nova
se coligam em torno dele, por força de seus próprios interes- civilização do espírito; realizar essa sublimação no próprio des-
ses, prontos a se desembaraçarem dele tão logo não satisfaça tino e também no destino do mundo – eis a significação de toda
mais àqueles interesses. O princípio do comando hoje é, no esta obra em volumes, eis o cumprimento do destino do autor, a
fundo, mais ou menos como aquele característico da alcateia realização da sua missão.
de lobos ou da associação bélica, em que um guia é aceito
porque serve como coordenador, tornando-se útil na luta, pois I. A VERDADE
a união faz a força. Baseando-se nisto, a lei humana que nasce
de tais associações é naturalmente fruto de partido e está, por Não! Nada é verdade! Com este brado de desespero, abre-se
isto, contra quem está fora do grupo; por essa razão essa lei, este volume. O ideal que dos escritos precedentes perseguimos
logicamente, é fraudada por quem está do lado de fora, quase até aqui é uma ilusão, a verdade sonhada é utopia, as nobres
com um sentido de justa defesa. afirmações são falsas e, já que não correspondem em nada à re-
A novidade, pois, dos princípios aqui expostos consiste alidade da vida, constituem uma traição. O leitor foi enganado.
num método todo diverso. O indivíduo se põe sozinho em face É preciso ter a coragem de confessá-lo e mudar de rota a tem-
da lei do ser e deve fazer a sua descoberta, chegando a senti-la po! Os fatos desmentem em cheio as conclusões destiladas pe-
como atividade própria e em tudo à sua volta. A sociedade não los trabalhosos raciocínios! Esses fatos repetem a cada passo,
vem a ser regida por nenhum chefe físico e muito menos por em quotidiana evidência, que não é o bem, mas sim o mal que
suas leis, que temos visto o que são, tampouco pela força de vence e domina em nosso mundo, que o mais forte e o mais as-
que ele dispõe. Em face da Lei, que tudo sabe e tudo pode, es- tuto é que triunfam, e não o mais justo; e quem crê de outro
ses menores poderes humanos não conservam mais do que um modo é um néscio que sonha e pagará caro o seu sonho, porque
valor relativo e subordinado. Se o espírito de grupo subsiste, será subjugado e eliminado. Mas é preciso ser cego para não
ele é baseado nas afinidades, com finalidade orgânica de cola- ver que a realidade biológica zomba de todos os ideais e de to-
boração criadora, segundo as normas da Lei, sem interesses dos os idealistas, para não compreender que, enquanto estes úl-
materiais para defender, sem fins utilitários que excluam os timos intentam construir com palavras as suas belas teorias, a
que estão fora do grupo. Não se baseando na coação, a força vida os circunda e assalta com os fatos, para os esmagar e su-
não serve mais, mas somente a convicção. A liberdade que an- primir! Mas quem é que não sabe que, enquanto eles sonham
tes havia somente para quem comandava, agora é de quantos bondade e justiça, a realidade biológica, na prática, premia com
são capazes de compreendê-la. Ninguém pensa em fraudar a alegrias imediatas o mais ousado e egoísta, que, livre dos lia-
Lei. Aqui, o chefe não tem corpo, mas é uma lei onipotente e mes do dever, sabe procurá-las com todos os meios? Mas o
onipresente, situada no imponderável, que, portanto, não se próprio instinto da vida, que fala e se revela na mulher, naquele
pode liquidar quando mais não sirva, não se pode coagir ou momento decisivo para a seleção e para a raça, da escolha se-
fraudar, porque ela é a alma das coisas e até mesmo o rebelde é xual, ri-se do homem honesto e sábio, escravo do dever, aplau-
formado por ela. Não se pode matar esse chefe por revoluções dindo o audacioso, para o qual tudo se faz licito quando de-
ou por atentados. Ele não precisa de polícia, porque é imaterial monstre saber vencer. Isto prova que a vida marcha para a bes-
e indestrutível: é o próprio princípio da vida. A justiça desse tialidade, e não para a espiritualidade.
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 9
Mas que evolução! Na Terra há que pensar em não se deixar desses grupos tem o seu tipo-modelo e outros tantos campeões
subjugar. E quem esquece disso morre. A vida nos quer fortes, para explorarem, tornando-os estandartes, e tudo isto para man-
audazes, egoístas, sem escrúpulos, sem moral, e pune como fra- ter e multiplicar o tipo do simplório, que acredita neles e, as-
cos os que não o são; o ideal biológico terrestre, que a mulher sim, obedece e serve. Mas o povo-rebanho começa a despertar
adora e o homem respeita, é o delinquente, aquele naturalmente e a inquirir das razões mais verdadeiras que lhe impunham
astuto, esperto, que vence, e não aquele que perde. Hoje caiu obediência, que não aquelas que até hoje bastaram para domi-
também a medieval tentativa do Cavaleiro, que procurava dis- nar; e os dominadores não as sabem dar. Novas astúcias eles te-
ciplinar e nobilitar o furto e o assassínio; aqueles que saibam rão que estudar para que não se descubra o seu jogo.
perpetrá-los legalmente e com êxito são admirados, dando pro- Outro significado não pode ter a pregação de honestidade e
va de engenho. Estes são os valores da vida real; os outros, bondade num mundo em que o esmagamento ao próximo é
aqueles tão declamados do espírito, são falsos. De fato, na prá- prova de valor e a culpa do furto não é atribuída ao ladrão, que
tica, quem neles crê, quem os usa? São usados como uma bela é considerado esperto, mas ao imbecil que se deixa roubar.
mentira, com a qual os astutos, que são aqueles que mais va- Que iluminar e melhorar! A ignorância deve ser mantida nos
lem, sabem cobrir o seu jogo, para sua vantagem e dano dos outros, a fim de que se possa explorá-la. Que sanear o mal de
que acreditam em tais fantasias. Mas que ideal! Enquanto so- tanta algazarra humana! É preciso pisar os outros e triunfar,
nhas bondade e justiça, o próximo te espia e estuda como te embora semeando lágrimas e sangue. Que importa? Tudo isto
possa despedaçar e, apenas te distraias da luta para seguir o é para os outros. A vida nos quer vencedores, isto é, heróis da
ideal, salta sobre ti para acabar contigo. O mundo não está sob destruição, mestres da esperteza. Mas certo é que a bondade é
um controle moral de sabedoria, mas sob um controle brutal de útil na Terra e, por isso, tanto a proclamam e apregoam, justa-
força. O Evangelho se apresenta inerme. E quem hoje pode to- mente porque desarma, domestica e serviliza, e, inculcando-a,
mar a sério alguém que está sem armas? A vida é de ferro, e melhor se comanda. De outro modo, para que serviria? Diante
quem não é forte deve perecer. É inútil querer dar-nos a enten- do caminho tortuoso das mentiras humanas, não é bela a pura
der outras verdades. Esta é a única verdadeira. As outras são as- simplicidade dessas palavras?
túcias para esconder a luta pela vida, são uma das tantas armas Assim é a vida. Cada um há de trazer a sua máscara de men-
sutis para subjugar e vencer os ingênuos e os fracos. tira. O vencido mais que o vencedor. Este, quando triunfa, joga-
A realidade é que o indivíduo quer egoisticamente viver e a e mostra-se à admiração de todos como o belo campeão que a
crescer; que a fêmea é prêmio ao esforço do macho, que a quer luta pela seleção criou. Mas o vencido nunca a joga. Sob a más-
possuir para gozá-la e multiplicar-se; que as alegrias da vida se cara, o seu rosto está em chagas. Na Terra, ai dos vencidos e ai
exaurem na Terra e que, só aqui, hão de ser procuradas; que as deles caso se mostrem! A máscara lhes é imposta; a dor é uma
superações, as evasões, o céu são utopias para loucos; que o derrota e deve pudicamente ser escondida. A dor não é conheci-
homem são lança-se pelo mundo, contra todos, para robustecer- da como um instrumento de redenção, isto é, como uma força e
se na luta e colher, com qualquer meio, todas as alegrias que uma glória. Não, ela é uma derrota. Ai, pois, de quem a revela.
quer. Não importa se o herói é um semeador de carnificinas, O vizinho a goza e está pronto para dela aproveitar-se; se perce-
basta que vença. Não importa quantos vêm a ser prejudicados be que és um vencido, salta-te logo ao pescoço. A verdadeira fa-
por ele. A grandeza humana consiste justamente em saber pisar ce, quanto mais chagada e sangrenta está, tanto mais há de ser
nos outros e elevar-se sobre as ruínas; ela deve ser fabricada cuidadosamente coberta com sorrisos floridos. Quantas másca-
sobre o sangue. Oh! quanta ingenuidade para proceder por per- ras macabras andam assim desconsoladas pelo mundo! A dor
suasão e por fé em um mundo onde não existem senão vence- que não pode expandir-se escava sempre mais por dentro. Tudo
dores e vencidos! Para o forte, tudo. Para o honesto não restam isto para o triunfo do tipo biológico do vencedor, para fazê-lo
senão belas e estéreis palavras, que lhe são jogadas pelo filan- grande, para que a vida seja sua, toda sua e de nenhum outro.
tropo por compaixão simulada, extremo insulto da hipocrisia Mas sabe ela sobre quais ruínas avança esse macho triunfador?
humana. Assim é que o justo é defendido com belas palavras Parece que nada lhe importa mais do que ele. Os vencidos so-
por todos os paladinos do bem, que se regozijam do seu ato frem e morrem; eles não pesam na balança. A grande aventura
magnânimo, distribuído gratuitamente. Isto chega a dar-lhes da vida está aberta para todos; se tantos não conseguem vencer,
ótima aparência e não oferece perigo, pois quem o recebe não pior para eles! Se ao menos morressem! Ao contrário, a luta pela
sabe e não pode defender-se, o que lhes fornece enfim a ilusão vida, ao lado de poucos selecionados, a quantos não deixa quase
de ter feito alguma coisa em desagravo da própria consciência. como mortos, estropiados fisicamente e, ainda mais, moralmen-
Como renunciar a tantas vantagens? Florescem, assim, os teóri- te! É que nem no vencido a vida quer morrer e a tudo se adapta,
cos do amor fraterno e os idealismos confortantes que hipote- deformando-se até à monstruosidade, e assim, estropiada, conti-
cam o futuro e o outro lado da vida, em que acham, para os ou- nua, seja mesmo na sombra, à traição, por despeito, nutrindo-se
tros, compensação para a derrota e a escravidão terrena, do que, de ódio e de veneno, mas continua, subterrânea e em espasmos,
no entanto, se aproveitam e gozam. Para melhor e mais longa- para vingar-se um dia, quem sabe quando, do vencedor. Assim,
mente aproveitar-se delas, as vítimas são adormecidas com o a vida oculta a reação por séculos, adiando-a por gerações, à es-
narcótico do ideal. Assim, os bons são preciosos, porque mais pera da desforra; assim, o impulso do mal fixa-se no sangue e
desfrutáveis; os sinceros são preferidos e amados, porque, com nos corações e torna-se instinto, um automatismo do subconsci-
astúcia, são enganados, tornando-se úteis e poupando a fadiga ente. Tudo grava-se em nós e a nós retorna, até que os longín-
da luta. A exploração do honesto organiza-se, então, como uma quos descendentes do vencedor sejam um dia esganados pelos
indústria; este homem é procurado (a caça ao simplório); que- descendentes do vencido. Na realidade, não se chega assim à se-
rer-se-ia criá-lo em uma cultura intensiva se a própria explora- leção do melhor, mas a uma multiplicação de adaptados, de mu-
ção não tivesse, ao contrário, a tendência de eliminá-lo; chegar- tilados, de feridos, de malvados, de monstros. O resultado não é
se-ia a curá-lo e a protegê-lo, como se faz com os animais do- um número de selecionados, mas de estropiados na luta. E o
mésticos, para melhor utilizá-lo. É desse modo que se formam próprio vencedor não é o mais forte, mas sim o mais astuto e
as religiões e as respectivas castas sacerdotais; dessa maneira se traidor. A vida, pois, segue para o mal, e não para o bem. Abala-
formam o estado, os governos e respectivos grupos dominantes, se o edifício da evolução. Essa luta não é, então, instrumento de
bem como o poder, a autoridade, as instituições, as leis, tudo. E seleção, mas um atentado à vida, um esforço para subjugá-la,
todas essas coisas com a finalidade de dominar, sempre a ex- deformá-la, pelo que ela se dirige para o pior, em vez de para o
pensas de alguém, um ente mais fraco a ser dominado. Cada um melhor. Os poucos vencedores triunfam, enquanto há uma mul-
10 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
tidão de vencidos que os sustêm no alto, de cuja derrota eles se da virtude. Para evoluir, é preciso sofrer, e já se sofre demais!
fazem grandes. O herói é sempre, mais ou menos, um carrasco, Qual sofrer! A vida, ao contrário, quer gozar. Por que se deve-
que tem sua alegria extorquida de um desgraçado que paga o seu ria ir contra isto, que é o seu instinto fundamental? Quando a
quinhão por conhecê-lo; é um carro triunfal que avança por cima vida alcançou os seus fins, ela se recusa a tentar novos cami-
de todos os outros que ficam abatidos ao longo de um caminho nhos e a cumprir novos esforços. O normal está satisfeito no
de dores. A luta não representa mais que um assalto das forças seu mundo, acha nele tudo o que deseja e não faz caso da evo-
negativas da vida, a que ela mesma frequentemente fica submis- lução. Aliás, que faria ele num mundo sábio, em que fosse eli-
sa; representa a sua negação, que culmina na morte. A vida, as- minada a sua principal ocupação de subjugar na luta o próximo
sim, decai em vez de se elevar. Isto prova como todo ideal de para submetê-lo, onde encontra a sua alegria! Que faria ele num
ascensão humana seja falso e absurdo. mundo melhor, não sabendo fazer nada melhor? A sua miséria
Evolução! E quem paga o seu custo? Onde está, na econo- e baixeza, as rivalidades dos atritos já se tornaram ingredientes
mia da vida, a compensação para um esforço similar? Apenas naturais da sua vida, fazem parte do equilíbrio desta, certas re-
longínqua e hipotética miragem! O problema da evolução é um sistências estúpidas lhe são necessárias. A libertação alteraria
problema de energia. Quando, para o dever e a virtude, nos im- aquela certa ordem que, de qualquer modo, se formou entre as
pomos limites, sacrifícios e obrigações, onde e como achamos forças da sua existência no seu plano. Muitas vezes houve po-
compensação? A vida não se lança para tentativas de novas cri- bres que, tirados da miséria a que estavam habituados, sucum-
ações senão quando há margem de superabundância de energias biram por isso. Além disso, para evoluir, há de se ter muita
e de meios. E deveríamos arriscar um capital biológico precioso vontade, audácia, tenacidade, esforço, inteligência, e quem dá
e duramente conseguido em semelhantes aventuras, com o risco ao homem tudo isto? Mas como pretender que estes escritos in-
de tudo perder? Evoluir é a mais ousada experiência da vida, na cendiários possam sacudir o animal humano que, por hábito mi-
qual se investem e se arriscam todos os capitais acumulados, lenário, está curvado na terra, onde está o seu pasto? É natural
assumindo o perigo de estragá-los; além disso, sabemos que, que ele não compreenda e jogue para longe essas fastidiosas
para quem estiver assim enfraquecido, não há piedade. Se per- questões, tornando a olhar para a terra, onde estão todas as suas
dermos a força, nossa única defesa, a vida nos pune sem per- alegrias, das quais não pretende abrir mão. O mundo do evoluí-
guntar se gastamos aquela força por um ideal. Não. A luta para do é para ele um superconcebível que não lhe desperta nenhu-
viver é um trabalho mais que suficiente para tudo absorver, sem ma ressonância, nenhum desejo. É inútil mostrar a um jumento
que haja necessidade de lhe acrescentar nada mais. Não há os quadros de Rafael. Estes não lhe dizem respeito, estão fora
margem de energia supérflua para isto, e, nos raros casos em da sua órbita, e ele voltaria para a sua cocheira. E mais, para
que possa haver, nós preferimos aproveitá-la para gozar, mais ressurgir no espírito, coisa longínqua e incompreensível, teria o
do que para evoluir. O sábio se recusa a lançar-se nas aventuras homem de enfrentar a consumação do corpo até à morte, daque-
da evolução. Por que se há de encontrar fadiga para o que cons- le corpo que para ele é toda a vida? Loucuras!
titui uma incógnita? Nenhum homem, até agora, experimentou Mas, quando o evoluído pretende escapar da dor, escapará
o futuro, e o que está fora da experiência não merece crédito. A de verdade? Como escapará, se a sua vida é a mais espinhosa,
vida é prudente, e a sua prudência ensina a não conceder ante- se é toda feita de renúncias e de dores? Que vida é a sua, se es-
cipações de confiança. Quem garante que o seu resultado valha tá baseada na destruição de tudo o que é humano? Começa-se
a fadiga que custa? A dura experiência ensinou ao homem a não com um abrandamento, mas com um redobrado peso de
desconfiança. Ele não possui reservas e recursos que possa dis- sacrifício. A dor fica, aumenta até; a evasão é um sonho, nin-
sipar em especulações espirituais. É melhor não tentar o ignoto. guém foge. Começa-se mal, e a coisa ameaça acabar pior. Co-
Tudo em torno não é senão mistério, que pode conter infinitos mo se pode pretender que gente de bom senso siga semelhante
perigos. É melhor não sair das velhas sendas, que, embora pe- caminho? É natural que ninguém pense assim. As ilusões da
quenas, são conhecidas e seguras; é melhor desinteressar-se das Terra podem ser ilusões, mas também o são as do céu, então
grandes coisas, pois sabe-se que não são feitas para o homem tudo dá na mesma e uma coisa vale a outra. O evoluído diz que
comum, que não está preparado nem encaminhado para elas. vence. Mas vence verdadeiramente? A vitória vem depois da
Embora esta seja a psicologia do involuído, que se fecha no seu morte, no mistério, em um mundo muito problemático. E se,
egoísmo, é a única que oferece segurança. ao contrário, ele perde? Quem controla tudo e nos assegura al-
Mas que liberdade! O homem está adaptado e apto para es- go? Quem nos indeniza dos danos? Que lástima então haver-se
ta vida terrena, que é a sua, com suas alegrias e dores, e outra sacrificado por nada! Ao menos quem gozou, gozou, e isto,
coisa não quer. Para que voar, quando não se sabe voar, quan- conquanto seja pouco, ninguém lhe pode tirar, seja o que for
do tentá-lo é perigoso e, para tanto, não se tem nenhum dese- que depois aconteça no futuro. É tão intrincado o problema da
jo? O involuído não sabe o que fazer do paraíso dos místicos, vida! Nada há de seguro. Tem razão então o epicurista em ar-
das glórias do herói, dos triunfos do gênio. Essas ascensões rancar os maiores prazeres que possa desta vida avara e amar-
vertiginosas perturbariam a sua consciência. Ele sabe conten- ga, em querer gozar logo, haja o que houver depois. Há uma
tar-se com alegrias bem menores, seguras e ao alcance de sua lógica, e que lógica, na sua filosofia! E depois, tanto para o
mão, sem necessidade de grandes fadigas Ele diz: ―Há um li- evoluído como para o involuído, tudo tende a resolver-se na
mite para o conhecimento e a conquista. Respeitemos o limite, dor. O gozo será uma alegria roubada, mas dado que outra coi-
não nos arrisquemos, não dissipemos esforço em pompas e sa não é possível obter e que uma felicidade completa e eterna
grandezas de super-homens, contentemo-nos, permaneçamos não é alcançável, faz-se o que se pode. Enfim, tudo é ilusão
no certo, nunca antecipemos nada por simples confiança‖. Não para todos. Se a evolução, em lugar de uma alegria longínqua e
são belas estas palavras cheias de bom senso? hipotética do lado de lá, com uma barreira de dor maior, ofere-
Que evoluídos e super-homens! Loucuras. A humanidade é cesse logo uma alegria vizinha e segura, acima de tudo segura
feita de almas pequenas, míopes, fracas, apegadas a coisas pe- e sem aquela barreira, naturalmente todos correriam para ela.
quenas. Cada um tem o que lhe basta para o seu pequeno drama Mas essa evolução se opõe à natureza humana e aos seus ins-
da vida, da sua dor a suportar, do seu problema a resolver, do tintos fundamentais. Lógico é que, assim, seja evitada, pois
seu destino a cumprir. Ninguém sente a necessidade de trazer não oferece senão fadiga e dor. Dessa mercadoria temos supe-
para casa o supernormal, o mistério, os enfados e os perigos das rabundância. A natureza humana formou-se para ser levada à
ascensões espirituais. Está fora de propósito propor um esforço alegria. Como se pode pretender que vá para uma alegria que,
evolutivo, um aumento de fadiga, o peso dos ideais, do dever, ao menos nos seus primeiros graus, é feita de dor? Esse é um
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 11
contrassenso inaceitável. É natural que o homem ache que a verso egocêntrico por sua própria natureza, no qual tudo vai ter
evolução é extremamente repugnante. Nem é sua a culpa se o a Deus? Não é o homem feito à sua imagem e semelhança?
mundo e ele próprio foram construídos assim. Pois bem, na sua pequenez, ele o imita. O homem que, com
Mas, enfim, somos feitos de estômago. Para que negá-lo? qualquer meio, triunfar sobre todos, será o herói e virá a ser
As nossas principais funções são animais, e não espirituais. Se deificado. Os vencidos beijarão seus pés. Esta é a lei da Terra.
temos o corpo, é para gozá-lo, e não para atormentá-lo ou su- A ele pertence o direito de ter razão e de fazer a verdade, de
focá-lo. É verdade que, à força de experimentar com esses modo egoísta e exclusivista, deus da luta e da vitória, intransi-
meios e nessa linha, um dia nos cansaremos, e a humana insa- gente e ciumento como o antigo Deus da Bíblia. Uma vez, tam-
tisfação procurará algo além. Mas que importa o amanhã! So- bém, o Deus único era feito assim. Pois bem, igualmente, o
mos positivos e atentamos no que é hoje, e hoje é assim. Que homem pode ser feito assim, conforme as mesmas leis. Diante
nos importa se, num dia longínquo, virá um reino do céu, onde dele, a vida prostra-se e adora pelo mesmo princípio único do
impere o bem? Hoje vivemos no reino da Terra, onde impera o mais forte; princípio que, na fase involuída, o homem aplicou a
mal. Já que aqui estamos e não escolhemos vir para aqui, de- si como a Deus, a quem o homem faz à própria imagem e se-
vemos aprender a saber viver neste reino do mal. Mas que he- melhança. Os mais fracos, os vencidos, ficam verdadeiramente
roísmo haveis de pretender desses homens que não são mais persuadidos que, nesse mundo, o mais forte, o vencedor, é o
que ventres ambulantes! A maior parte das pessoas, a parte sã melhor e pode, enfim, representar a verdade. Mesmo ainda em
e equilibrada da sociedade, nem cogita desses problemas. Ela é nossos tempos, igualmente involuídos, o vencedor, com o poder
como Deus a fez: carne que vegeta. Às vezes, aparece aqui ou da imprensa, do rádio e de todos os meios de divulgação do
ali uma pequena chamazinha de espírito, mas é logo utilizada pensamento, tem razão pelo simples fato de ter sabido fazer a
com bom senso, para fins práticos e utilitários! Sim! Há os coisa e por ter demonstrado, assim, ser o mais forte e o mais
ideais, mas justamente porque se tornam utilíssimos para en- esperto. Basta isto para que ele adquira o direito de lançar as
ganar a gente. Quantos não se fazem seus intérpretes e divul- ideias que mais lhe convêm, não interessando se têm ou não
gadores com esse fim! É tão lógico isto, tão justificado em um qualquer valor ou significação, e de incutir nas massas as ver-
mundo utilitário como o é o nosso! Tudo deve servir para do- dades que quer, não importando se redundam em proveito ou
minar, e, para tanto, os ideais são utilíssimos. Assim é natural em malefício. As massas não possuem ideias próprias, não
que cada um sustente só aquele ideal com que se pode enalte- compreendem por si mesmas, nem distinguem qualquer verda-
cer, condenando os outros, desde que tudo deve servir para si, de, estão indiferentemente prontas a aceitar tudo; mas aceitar
e não para os outros. Também é natural que dos princípios do enquanto debaixo delas haja a verdade do vencedor, a real,
bem se haja de fazer estrita observância da execução sobretudo aquela que as massas bem compreendem por instinto e pelo que
nos outros; que a aplicação da virtude comece sempre neles, lhe dão razão, aquela que está debaixo de todas as verdades e
para serem, assim, facilmente subjugados. Há as religiões, dá- que as sustenta, isto é, o fato de que aquela é a voz do mais for-
divas do céu, para guiar os homens para a salvação. Mas, nesta te, daquele que venceu. Eis a verdade.
baixa atmosfera terrena, se querem sobreviver, também elas Esse é o mundo real, sólido e resistente, e querer refazê-lo
têm que se adaptar à baixeza humana, que aqui embaixo, quei- constitui verdadeira loucura. Se está feito assim, é sinal que as-
ra-se ou não, é a mistura de todas as coisas. Não é conveniente sim deve ser. Uma das provas está em que não se deixa mudar.
destruir essa acomodação, que é resultado de um trabalho mi- Não pode dar-nos altruísmo, porque está construído sobre o
lenário de tantas gerações e corresponde ao fim, que, aliás, não egoísmo; nem paz, porque se baseia na luta; nem verdade, por-
é facilmente alcançado, de tornar suportáveis na Terra as uto- que é feito de mentira. Não peçamos a esse mundo justiça, por-
pias do céu. Não falemos destes tantos espiritualismos, reduzi- que nele reina a força, nem uma economia de justiça, porque
dos hoje a um aristocrático esporte de moda, a um substituto nele os bens vão naturalmente às mãos dos maiores ladrões.
erótico, para distração de salões. Como pretender ordem e disciplina se, nesse lugar, o maior me-
Dizeis vós, idealistas, que possuís a verdade e a anunciais recimento está em rebelar-se e estar na oposição? Esse pode ser
ao mundo. Mas que verdade? Ela é bem diversa nos fatos. O o reino do mal, mas onde está o reino do bem? Sim! Consumir-
mundo possui uma verdade sua, e bem diferente. Na Terra, ela se-á o justo no caminho do dever, não obstante tudo acabará em
é simplíssima: destrói-se quem a contraria e dela discorda. A destruição. Inútil. Tenta-se o voo, para recair na terra. Procu-
verdade está em que o vencedor tem razão e quem perde está ram-se vitórias, libertação, quer-se sair da prisão da vida, e
errado; ele possui a razão só pelo fato de ter sabido, com a for- sempre se recai nela. A vida é esta. Inútil debater-se. Além dos
ça, fazer calar o mais fraco. Este não tem mais voz, não pode seus limites não se pode ir. Ela é tudo para nós. Não se sabe vi-
mais falar, é inútil enfim que ele tenha um pensamento próprio. ver senão dela. Idealismos piedosos e ridículos! As grandes
A vida discute, despedaçando; faz calar, estrangulando. Lógica verdades não servem para nada. A vida esconde o seu mistério.
estridente. As proposições do raciocínio constituem outros tan- Ela age sem falar, sem nos dar explicações. Quando quer, fere-
tos golpes e alcançam as conclusões esmagando o antagonista. nos como quiser, sem nos dizer o porquê. É inútil pensar, não
Método persuasivo. O direito de ditar a lei e fazer as normas se subtrai nada. O pensamento é uma doença do espírito, o psi-
compete ao vencedor; dele é o direito de fazer a verdade a seu quismo do evoluído é uma hipertrofia patológica, um desequilí-
modo e a vantagem de impô-la. A única verdade dominante na brio. É preciso matar o espírito, suprimir o olho da consciência,
Terra é a do vencedor. Não existem verdades absolutas e uni- que nos enfada com as exigências morais e revela tantos males
versais, mas só particulares, relativas aos interesses de quem humanos, tão-só para assim torná-los mais sensíveis, sem, po-
possuí os meios para impô-las; são feitas por ele e para ele. Po- rém, saber oferecer remédio. É inútil pretender poder e saber in-
de ser esta a lógica da besta, mas o vencedor com qualquer tervir num mundo de leis fatais. Tem razão a nossa civilização,
meio, aquele que há demonstrado ser o mais forte, é o que ver- que tende a nos estupidificar com a mecanização da vida e a
dadeiramente tem razão na vida. Ele representa a verdade, e por nos barbarizar completamente, cientificamente, com todos os
quê? Somente porque venceu. A obediência lhe é devida, per- meios da técnica e da razão. O pensamento desenvolve-se para
tence-lhe de direito. Segundo a lógica animal do plano biológi- acabar providencialmente suicida. A inteligência superior, que
co humano, compete-lhe a determinação dos valores. A vida nos conduz para fora da realidade terrestre, não só não serve,
procura o vencedor e tudo lhe concede, porque dele espera tu- mas também é um perigo para a vida. É preciso vencer no plano
do. Biologicamente, a verdade é a afirmação egoísta do próprio material, onde hoje está toda a vida. Vencer de maneira mais
eu. Por que se deve condenar e combater o egoísmo num uni- elevada não tem sentido; é inútil para quem deve viver na Ter-
12 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
ra. Importa resolver primeiramente os nossos problemas imedi- mas. Se há loucos que seguem em sentido contrário, pior para
atos e só depois os do universo, que estão longe. Este deve estar eles; tão logo estejam cansados, acabaremos com eles. Quem
em função nossa, e não nós em função dele. É melhor, então, pretende sair dos limites biologicamente assinalados de ataque
não pensar, não revelar, não descobrir. Tanto é assim, que os e defesa para sua vantagem, submetendo-se ao peso inútil do
resultados da ciência não servem senão para destruir. Melhor é ideal, biologicamente passivo, luxo inadmissível, vai contra a
gozar. Tudo o que existe vale tão-só enquanto serve ao nosso vida, então é justo que esta o elimine.
prazer. As grandes coisas do espírito estão afastadas, as peque- A verdade destas afirmações é evidente, muito mais do que
nas, da Terra, estão perto. Na prática, estas são as maiores, por- as elevadas construções dos volumes precedentes. Muitos leito-
que estão vizinhas. É preciso nutrir-se, viver e gozar. Há tantos res irão regozijar-se agora, ao verificar o arrependimento do au-
meios para gozar e olvidar! Quando tu, que queres subir, tiveres tor, e dirão: finalmente ele compreendeu também ter errado.
gasto todas as tuas energias pelo ideal e ficares abatido na Ter- Não é um espetáculo comum de um autor, réu confesso, reco-
ra, o ideal abandonar-te-á, a vida rir-se-á de ti, como é natural nhecer o seu erro. E, assim, tudo caiu de chofre; do grande so-
para com os vencidos, e esmagar-te-á. Besta és, e a besta torna nho nada resta; a realidade da vida retomou as rédeas e fez va-
à Terra. O brado da tua alma é vão. A vida escarnece das tuas ler os seus direitos, nivelou e devorou a superconstrução tenta-
explosões. E, na luta entre a besta e o anjo, pode acontecer que, da. Foi uma ilusão, uma mentira. Enfim, a loucura não é grande
em vez de o anjo matar a besta, a besta mate o anjo. culpa. A ilusão lubrifica a vida; a Terra é lugar de traições. O
Era tempo de abandonar os sonhos e de não enganar mais o homem pode encontrar-se em quatro posições: do vencedor que
leitor com utopias. Era tempo de dizer esta verdade, mais ver- acredita vencer, do desgraçado que se perde, do imbecil que se
dadeira, que está além das palavras, nos fatos. As religiões, a contenta ou do evoluído que se sacrifica. Pois bem, cada posi-
cultura, a política, toda atividade material e espiritual, indivi- ção se resolve igualmente em uma traição. Também o autor foi
dual e social, tudo é uma mentira, um pretexto, um modo de traído; é natural. Mas, assim, desceu do céu e compreendeu
camuflar a luta pela vida em procura do único fim, o próprio uma realidade que antes lhe escapava, sobre a qual ele hoje ba-
bem-estar. Todas essas coisas são astúcias para, com um jogo seia a sua novíssima concepção da vida.
simulado, mascarar o jogo verdadeiro. E os ideais fazem parte
do jogo. Forma-se, assim, um consenso universal no desejo de II. A PERSONALIDADE OSCILANTE E
fazê-los entendidos como reais, sem que sejam de fato. Forma- A VISÃO DE OUTRAS VERDADES
se um consenso na mentira, para a vantagem própria que daí
deriva, e isto basta para constituir a base de tantas instituições. Qual é a significação do capítulo precedente? Que é que
Assim, a autoridade e o poder que, em teoria, deveriam ser aconteceu? Arrependimento, evolução, contradição? Será outro
função e missão, na realidade não passam de meios de explo- o autor que fala? Que significa, no lógico desenvolvimento
ração. Não se explicaria de outro modo como as posições de construtivo resultante dos volumes precedentes, essa tão diver-
comando são tão cobiçadas e se travem tão ásperas lutas para sa voz destruidora, que lembra Nietzsche e se parece com a do
conquistá-las. Isto, certamente, não se faz por amor ao próxi- mal? Ela exprime uma mentalidade que se encontra nos antípo-
mo. É assim que autoridade e poder, muitas vezes, são parasi- das daquela dos escritos anteriores, uma psicologia não de
tários, não obstante aqueles que os detêm procurarem dar a en- quem se eleva, mas do homem que se encerra no seu egoísmo e
tender que são úteis, protetores e produtores insubstituíveis, tudo encara em posição egocêntrica. Como, depois de tanto
justamente porque só assim podem, aparentando função e mis- caminhar, encontramos aqui, aceita e levada a primeiro plano,
são, justificar suas posições. Se, depois, os ocupantes do poder como verdade, a filosofia do involuído?
caem, fica-se deveras surpreendido pela verificação de que as Observemos o fenômeno. Não podemos, por ora, demorar-
coisas prosseguem igualmente, mesmo depois de desapareci- nos na refutação das observações precedentes. Somente o lei-
dos os tidos como insubstituíveis. tor superficial pode vir a ser persuadido. Basta aprofundar um
Assim se prega fé, honestidade, ordem, confiança, sacrifí- pouco a questão, para obter pontos de vista e soluções diversas
cio, altruísmo, porque são úteis para o domínio. O ideal verda- e mais satisfatórias. Essas são dadas a cada passo nos volumes
deiro é o rebanho a mugir, rebanho passivo, que se comanda precedentes, dos quais este é a continuação. O problema que
com menor esforço. O próximo não é um irmão, mas um inimi- nos defrontamos agora é explicar como o autor possa ter pos-
go. O próximo que mais se ama é o mais imbecil, é aquele que suído, seja mesmo naquele breve tempo, uma verdade tão di-
é mais facilmente vencido. Qual fraternidade e amor! A vida é versa da sua habitual; como lhe puderam parecer verdadeiras,
rivalidade desapiedada. Para alcançarmos um posto, devemos por um pouco, as vias da descida, em vez daquelas da ascen-
tirá-lo do vizinho. Ao menos confessamo-lo, não mentimos, são, em que geralmente se move. Assim, é bom esclarecê-lo,
temos a coragem de jogar com cartas abertas. Se Deus existe, as páginas do capítulo precedente não constituem ficção literá-
Ele está no céu; por certo não está na Terra. A sua ordem, har- ria, mas foram verdadeiramente sentidas como verdade por
monia e bondade não estão aqui embaixo Ele está longe de nós quem aqui escreve. Devo também explicar que falo de mim
e nós d'Ele. É preciso saber viver sem Ele. Somos chamados de mesmo na terceira pessoa, pois separo-me completamente do
involuídos? Pois bem, este é o nosso orgulho. Somos feras, mas meu caso, que observo, destacando-o de mim e tornando-o in-
fortes e audazes como as feras. É com a força que o homem dependente, como se o fenômeno se passasse com outra pes-
conquistou o mundo, e não com a piedade. Seremos demônios, soa. Para compreendê-lo, é necessário saber mudar a posição
mas também é grande a nossa força e belo este nosso poder sel- psicológica, observando as coisas sob diversos pontos de vista.
vagem. Esta é a vida do nosso nível, e como tal a aceitamos. Agora, o problema está em conhecer como uma mesma perso-
Com nosso calcanhar, alegremente pisamos sobre a cabeça do nalidade possa existir sucessivamente em diversos planos do
idealista, que, traído por seus sonhos, cai na terra desfalecido... concebível, tomar deles exata consciência e chegar, enfim, à
Temos esse direito, porque, em nosso mundo, onde vive, ele é visão de outras verdades. Para chegar a isto, é necessário, pri-
um vencido. Esta é a verdade. Hoje estamos na época da liqui- meiro, compreender o fenômeno da personalidade oscilante.
dação dos idealistas, liquidação dos que creem em qualquer Os fenômenos biológicos são rítmicos. A onda, segundo a
coisa que não seja o próprio desapiedado egoísmo. É inútil ser qual a trajetória do seu desenvolvimento caminha, desenvolve-
forte no espírito. Quem é fraco no plano animal, na Terra, onde se por vértices e depressões, por máximos e mínimos de inten-
está a vida, há de ser esmagado e suprimido. A destruição mate- sidade, por períodos de atividade e de repouso. Essa é uma lei
rial pela guerra nada é comparável à destruição maior, das al- de oscilação que já observamos no desenvolvimento e decadên-
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 13
cia das civilizações, no nascimento, juventude e senilidade- tra na experiência das suas sensações esse fenômeno da oscila-
morte do indivíduo etc. Tratando-se de um sistema de forças ção resultante de posições de transição e de tensões criadoras,
equilibrado, deve haver proporção entre as duas fases, que, se que estão fora do seu campo biológico.
são opostas, são também complementares. É natural, enfim, A verdade do capítulo precedente é, também ela, uma ver-
que, quanto maior é a altura atingida pelo vértice da onda, tanto dade, mas exclusiva do mundo inferior da Terra. O autor a sen-
maior é a profundidade da sua descida. Ora, não se atingem as tiu verdadeira numa hora de baixa tensão, na qual ele viveu na-
superiores realidades do espírito senão nas horas de graça, em quele plano evolutivo. Isto nos antípodas das horas inspirativas,
que a vida oscila de tensão e potencial até alcançar o ponto em que ele pôde, ao contrário, sentir e registrar as verdades su-
mais alto da evolução conquistada, isto é, no período de máxi- periores do espírito, que fazem parte do futuro da evolução, ex-
ma intensidade psíquica, no vértice da onda, depois do qual de- postas em A Grande Síntese. Ora, se essas oscilações de poten-
ve seguir um período de descida da luz nas trevas, uma precipi- cial nervoso e psíquico não estão corretamente adaptadas para
tação da consciência, um desabamento de um mundo. O ciclo ajudar na luta pela vida, todavia são condição necessária para
completo resulta de dois períodos evolutivos: um elevado, de atingir planos evolutivos mais altos, de onde os normais, equi-
afirmação, e outro baixo, de negação. De resto, a consciência librados no seu plano, são excluídos, ao menos até alcançarem
não é fenômeno constante e, segundo o princípio da dualidade superações biológicas no futuro. Se essa oscilação pode ser
que rege todos os fenômenos, compõe-se da sua fase lúcida e também dolorosa pelo permanente sentido de tempestade que
da sua fase obscura, que se completam reciprocamente, com dá à vida, pelo contínuo acúmulo de criações e de ruínas, num
funções opostas: a primeira de intuição sintética, a segunda de estado de elaboração ascensional que queima as etapas da evo-
elaboração analítica e de controle. lução bem como a vida orgânica, todavia somente assim, por
Assim, as grandes verdades e os ideais representam uma esse excepcional esforço, é que pode nascer a possibilidade, de
alta meta longínqua, uma antecipação da evolução, ainda a ser outro modo muito afastada, de atingir diversos aspectos da
atingida, acima da realidade biológica atual; representam mais consciência em diversos planos evolutivos e, assim, a visão de
o futuro que o presente, e o cântico do futuro é um som débil outras verdades e o seu confronto. Lá, onde o homem comum
no presente. Para ouvi-lo, é preciso aguçar a audição psíquica, está fechado na concepção de uma só verdade, limitada ao seu
é preciso levar a própria consciência até ao alto potencial e às plano de vida, com poucos elementos de apreciação, podemos
altas frequências de onda, somente nas quais se pode perceber obter em nosso caso uma vastíssima escala.
as grandes vozes longínquas. Para antecipar o futuro biológi- Com o avanço da evolução, essas ondas em que se acumu-
co, registrando a visão do mundo espiritual do futuro, é preci- lam os períodos de luz e de treva, embora conservando a sua
so atingir a alta tensão nervosa que abrasa e esgota. Só quem amplitude, elevam-se sempre mais, o que lhes permite atingir
vive esses fenômenos pode compreender que dinamismo bio- vértices sempre mais altos, avançando assim de conquista em
lógico e que ímpeto de sensações eles representam; porém, se conquista para verdades sempre mais vastas e profundas. Ar-
eles enchem de entusiasmo quem os alcança, dando-lhe na ho- quejando, o pobre organismo físico segue esse vertiginoso
ra inspirativa o senso de uma inusitada plenitude de vida, dei- curso de ascensão, que se faz cada vez mais acentuado, e tam-
xam-no depois desfeito, como que incinerado pelo incêndio bém ele, dessa forma, para adaptar-se às novas exigências de
vivido. Não é o espírito que se cansa, a parte do ser que está vida impostas pelo espírito, deve sofrer a sua catarse. Esta,
no ápice da zona evolutiva, mas é a parte orgânica, inferior, por sua vez, permite ao espírito, que deve arrastar consigo o
que está situada no fundo dessa zona evolutiva. Cansaço pelo corpo ao qual está ligado, avançar sempre mais, porque, trans-
trabalho da catarse, que é mais sensível onde a vida vem a ser formando o organismo pela adaptação, torna-o sempre menos
abandonada, embaixo, correspondente à que paralelamente é inapto para a respiração nas altas atmosferas rarefeitas e à vi-
conquistada no alto. Mas o equilibrado dualismo do fenômeno da de alta potencialidade. Quem escreve fala de experiências
não se faz sentir só nessa direção. Pela mesma lei de equilí- vividas, controladas por ele experimentalmente, a cada dia,
brio e dualidade, esse estado de hipertensão, período de alto pois que esta é a grande aventura biológica que forma o con-
potencial, deve depois compensar-se em um estado de hipo- teúdo da sua vida. Trata-se, todavia, de sensações e experiên-
função, isto é, num período de baixo potencial. Assim, à alta cias intransferíveis de homem para homem, e quem não se en-
tensão que, se prolongada, queimaria o organismo físico, se- contra nessa posição evolutiva não pode experimentá-las. Por
gue um período de relaxamento e de repouso. Tudo isto é ló- isto elas fogem à ciência positiva de hoje.
gico e de acordo com as leis da vida. Assim se explica a contradição entre a verdade exposta no
Um tipo normal, em geral, é evolutivamente inerte e estáti- capítulo precedente e as que foram anteriormente expostas nos
co, portanto estavelmente equilibrado na sua fase animal, e não outros volumes ou ainda o serão depois. A contradição é dada
na fase de transformação intensa; não é lançado para formas de pelo contraste entre posições diversas, tratando-se de coisa tão
vida mais elevadas. Ele não se ressente, enfim, de oscilações e natural, que normalmente constitui a base da percepção. Só as-
desequilíbrios que, se podem parecer anormais, na verdade são sim se podem perceber verdades evolutivamente futuras, às
criadores. O tipo corrente, que não toca as alturas do espírito, quais a maioria chegará somente mais tarde. Porém, justamente
não pode de fato cair nesses estados de depressão, que são coi- porque o autor não é estático em nenhum plano, nem mesmo no
sa bem diferente daqueles patológicos, e somente quem não alto, a sua consciência pôde completar a oscilação que o levou
compreendeu o fenômeno pode fazer esta afirmação. Para o ao máximo de depressão da onda, isto é, ao plano da consciên-
homem comum, as oscilações da onda são levíssimas, a sua cia terrena daquele homem que é ainda, em grande parte, ani-
consciência se mantém mais ou menos estática no mesmo ní- mal. Porém, não sendo este para o autor senão o ponto mais
vel, portanto a sua visão é constante, de uma realidade que as- baixo da sua oscilação, o próprio fenômeno o leva logo a re-
sim lhe aparece única e sem contradições. A sua inteligência, montar aos planos mais altos e a sentir e afirmar verdades supe-
não tendo oscilações entre o supernormal e o subnormal, é pa- riores. Ao leitor oferecemos justamente, junto à análise do fe-
ra ele quase exclusivamente um instrumento de luta pela vida e nômeno, a possibilidade de assistir a essa retomada ascensional
esgota a sua função na defesa do corpo. É para isto que ele está de consciência. Veremos, assim, no desenvolvimento conceptu-
armado, e não para as conquistas biológicas; construído mais al que segue, reconstituir-se lentamente a tensão e reaparecerem
para conservar-se tal qual é, do que para se arriscar nas gran- sempre mais nítidas e vizinhas as verdades do espírito, de que
des aventuras da evolução. Ele é mediocremente inteligente, se afastou apenas por um momentâneo colapso. O exame de tal
porém mais ou menos constante o tempo todo. Ele não encon- desenvolvimento constitui o esqueleto deste volume, cujo an-
14 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
damento, por isso, é ascensional. Assim, serão expostos ângu- nia do universo, incapaz de agarrar as maiores forças, que lhe
los visuais progressivamente mais salientes, embora depois, fogem, fechado em uma pequena verdade limitada ao plano ter-
uma vez terminado o estudo do fenômeno psicológico, não nos restre animal da evolução. Para poder fazer confrontos e dar-se
ocupemos mais de tratar da causa que o determina, mas somen- conta de uma parte maior da verdade universal, o autor devia
te de pôr em evidência o seu resultado conceptual. conhecer também aquela psicologia, atravessando-a toda, mes-
Veremos, dessa maneira, uma verdade continuamente pro- mo que fosse por um momento. Somente essa sua possibilidade
gressiva, que se eleva aos poucos, até ao vértice, onde contem- de ter consciência em planos evolutivos diversos lhe pode per-
plaremos, no seu conjunto, o Criador e a Sua criação, para des- mitir coligar as diversas verdades e levar para o plano humano
cer depois aos problemas particulares, da síntese e análise. Isto verdades próprias de planos superiores, que, naquele momento,
porque a consciência não pode se manter longamente na alta parecem erradas ou utópicas; com isso, pode-se ajudar a evolu-
tensão da síntese máxima e deve, depois, relaxar-se, para re- ção, antecipando verdades que hoje estão ainda evolutivamente
pousar nas menores visões da análise. Na ascensão, o espírito longínquas, próprias de um futuro biológico ainda não alcança-
aponta para a unidade, o absoluto, com concepções sintéticas; do. O produto da vidência de alta potencialidade pode ser imita-
na descida, ele vê, mais que o conjunto, o particular, o relativo, do nas concepções mais turvas e menos ativas do plano de baixa
com concepção analítica. No fundo, ele não faz mais que per- potencialidade ou de cegueira em relação àquela vidência.
correr, ao longo da escala da evolução, o caminho de ida ou de É natural que a verdade mais baixa se revele feroz e infer-
retorno que o ser percorre, ascendendo para Deus ou descendo nal quando vista de um plano mais alto, enquanto pode pare-
d'Ele. Nesse caso particular que agora observamos neste volu- cer justa para quem, por evolução e sensibilidade, está pro-
me, vemos refletido o esquema da estrutura do universo, con- porcionado àquela ferocidade. Assim se explica como a Terra
firmando que ele, como já o dissemos muitas vezes, está cons- pode se assemelhar a um inferno aos mais evoluídos e o céu,
truído por esquemas únicos, de modo que, em cada caso menor visto da Terra, pode parecer utopia; explica-se também como
e em todas alturas, vemos reaparecer reproduzido o esquema a verdade inferior, que parece tão verdadeira no seu plano,
máximo Deus-universo. Assim o crescendo conceptual que se caia para o absurdo tão logo fique em contato com realidades
seguirá não é senão a expressão da maior lei da vida, que é a superiores. E que faria a primeira por si só? Permaneceria sem
ascensão de todos os seres para Deus. esperança, sem futuro. E esse futuro está fatalmente implícito
Mas, se esta é a meta para a qual se caminha, pela própria na instintiva insatisfação humana, que exprime o impulso da
transformação das visões que se obtêm na ascensão, poderemos evolução, fazendo que, cedo ou tarde, tudo seja superado. A
dar-nos conta da relatividade da nossa verdade. Não dizemos, vantagem está em saber achar a passagem da verdade inferior
com isso, que não exista uma verdade absoluta ou que ela mude para a superior, e essa é a função e missão dos mais evoluí-
à medida que progredimos. A verdade absoluta existe, o que dos, condenados a viver no inferno terrestre. Trata-se de pas-
muda é somente a nossa percepção dela, é o aspecto subjetivo sar para mais elevadas formas mentais, e só nisto pode consis-
daquele fato objetivo. Assim é que, para cada plano evolutivo tir o progresso para mais altas civilizações.
que atravessamos, achamos para nós uma verdade relativa diver- À medida que se evolui, a vida torna-se mais vasta e poten-
sa, dependente do nosso ponto de vista e sua variação. Essas te, ampliam-se os horizontes do conhecimento e, portanto, do
verdades relativas parecem contradizer-se, entretanto comple- domínio. O involuído vive, dia a dia, das pequenas coisas ime-
tam-se. É preciso compreender esse conceito da relatividade das diatas, imprevidente, impulsivo, sem sabedoria e sem senso. O
nossas verdades, que estão em função do ponto de vista dado pe- evoluído domina a vida, sabe e calcula causas e efeitos longín-
la nossa posição ao longo da escala da evolução. A verdade ab- quos, é previdente, reflexivo, sábio e sensato. O campo do seu
soluta, total, completa, nos escapa. Ela está em Deus, não no conhecimento, portanto de seu domínio, é muito mais vasto.
homem. É a visão simultânea de todos os pontos e posições ao Ele sente, enfrenta e resolve problemas dos quais o involuído
longo da escala da ascensão. O homem, situado no relativo, não não cogita. Este nem mesmo suspeita da presença do imenso
pode perceber mais que uma verdade particular e relativa, apro- mundo que está além da sua pequena consciência, do qual há
ximada e progressiva, que, justamente por isto, está em movi- nele algum germe, apenas assinalado, mas ainda não conquista-
mento e relacionada com a outra, absoluta e imóvel. Dessa for- do, perdido no inconcebível. Se bem que ele não compreenda
ma, o homem não pode compreender senão por sucessivas apro- tudo o que o evoluído faz e diz, ainda assim este tem muitas
ximações a mesma e única verdade, que está somente em Deus. coisas a dizer-lhe, porque ele vê onde o outro ainda não vê e es-
Dessa maneira, todo plano tem a sua verdade, que, na sua tá mais adiantado no caminho da evolução, que todos devemos
forma relativa, continuamente se retifica e aperfeiçoa. Assim, percorrer. Ainda que estranha, incompreendida e desprezada, a
uma forma que, em dado nível, vem a ser justa, pode tornar-se palavra do evoluído tem o valor e a potência de uma revelação,
injusta em outro mais elevado. Os valores e, portanto, os juízos porque manifesta novas zonas do pensamento do universo, traz
são diversos nos vários planos. Quem é sábio no plano da maté- para a luz o que está recôndito e descobre o mistério. E o saber
ria pode ser tolo no do espírito, e ao contrário. Dessarte, um nos guia ao poder. Conhecer os porquês da vida, possuir a solu-
não-valor pode se tornar um valor máximo e ao contrário, se- ção dos problemas, agir com ordem, em vez de ao acaso, orien-
gundo a altura evolutiva da qual é observado e o mundo ao qual tado, e não desorientado, representa uma posição de grande
ele se aplica. É assim que se explica a inversão evangélica dos vantagem também para os fins práticos da defesa e da conquis-
valores. O que na Terra é dor e derrota, mais no alto pode signi- ta. O involuído, que se apoia na força, não sabe que o pensa-
ficar redenção e salvação. Evoluindo, o valor das coisas muda, mento é o maior poder, capaz de vencer a própria força. Esta é
como muda a verdade da qual ele depende. O corpo pertence ao obtusa por si mesma, um desencadeamento brutal sem rendi-
mundo, e o espírito a outro plano de vida. Eles têm duas verda- mento, perdendo-se em erros e atritos. E a inteligência vence. O
des e leis diversas. O antagonismo que está em nós, quando o pensamento é criador e, pertencendo a planos mais altos, domi-
espírito é forte, pode assumir violência tremenda. São duas vi- na tudo o que lhe está abaixo, porque evolutivamente inferior.
das em luta, na qual a mais poderosa vence. Na maior parte dos O poder que procuramos com tanta fadiga na Terra vem a nós
casos, o espírito dorme e, se acorda, é para o serviço do corpo. espontaneamente, assim que saibamos subir.
Mas, no caso contrário, em que o espírito domina, nascem tem- Assim, o evoluído pode representar, em favor dos involuí-
pestades apocalípticas que o homem comum não imagina. dos, uma verdadeira função biológica, antecipadora e criadora
A psicologia do capítulo precedente é a terrena, é a do invo- de valores. A vida o produz para esse fim e lhe confia a corres-
luído, ignorante das leis da vida, cego diante da grande harmo- pondente missão. Desse modo, ainda que o seu sacrifício pela
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 15
utopia possa parecer tolice, é sempre um testemunho necessário III. EXPERIÊNCIAS EM BIOLOGIA
para dar impulso à vida. E, se esta o deixa morrer, é somente TRANSCENDENTAL
para fazê-lo frutificar. Assim, a vida salva a melhor parte e, pa-
ra seus fins universais, consegue o rendimento maior. Desse seu Depois de haver sumariamente traçado no precedente capítu-
método de agir se conclui qual a importância dada à evolução. lo a direção do nosso caminho pela via ascendente que, à seme-
Se nenhuma posição é mais criadora do que a do macho, nin- lhança do grande caminho evolutivo do ser, nos propomos se-
guém mais do que ele se arrisca a ser esmagado. E ninguém é guir neste livro, é necessário, antes de continuar, completar com
mais macho do que o evoluído, que representa a potência ultra- uma visão psicológica mais exata aquilo que já acenamos no
viril do pensamento, a função criadora e diretriz, colocada na começo a respeito do fenômeno da personalidade oscilante entre
direção da ascensão, sem a qual as outras duas grandes funções vários planos de evolução e de consciência, com a respectiva vi-
da vida, a conservação e a reprodução, tornar-se-iam estéreis. são das várias verdades. Esse salto do eu, do vértice da onda pa-
A evolução tem os seus arautos, que ela manda à frente, ar- ra a profundidade das suas depressões e ao contrário, essa preci-
mando-os mais do que os normais, a fim de que tentem o ignoto pitação da alta à baixa potencialidade e a subida em sentido in-
com risco e perigo seus. A natureza não os protege exterior- verso, quais as sensações que, além da visão dos diversos planos
mente, modificando o ambiente para eles, mas os mune interi- da verdade, produz em quem vive o fenômeno, como acontece
ormente pela premunição. A vida faz deles especialistas em esse fato, como se explica, qual o seu significado biológico na
funções evolutivas, como antenas investigadoras e antecipado- economia da vida? Quem escreve procura documentar aqui,
ras. Para esse fim, ela produz poucos exemplares de exceção, através da própria experiência, o estranho fenômeno por ele vi-
enquanto a maioria, prudentemente, mantém-se em posições vido, aprofundando assim o complexo problema já tratado da
mais recuadas e mais seguras. Ela, depois, os lança para a luta, personalidade humana, para o qual enviamos os leitores, indi-
não aquela da competição recíproca entre os homens para a cando-lhes o final do precedente volume, A Nova Civilização do
formação de qualidades humanas, mas uma luta direta contra o Terceiro Milênio4. Tornar-se-á assim mais aclarado o fenômeno
mistério e as forças biológicas, para avançar, conquistando inspirativo, já examinado no volume As Noúres.
campos inexplorados. Assim é que o progresso avança com a O mundo ideal, que o evoluído antecipa nas suas visões, não
colaboração entre os mais e os menos evoluídos. A vastidão e a é uma realidade que haja alcançado sua manifestação em nosso
profundidade dos problemas que o homem se propõe e resolve, ambiente terrestre. Aqui, aquele mundo superior não existe senão
a elevação dos mundos com que ele chega a se pôr em contato e como miragem, utopia, no estado potencial de futuras realiza-
a viver, são índice de seu grau de evolução, o que significa ções, como é o da árvore na semente, isto é, o estado de uma coi-
também o grau de autonomia, poder, segurança e felicidade que sa que poderá ser, mas que ainda não é. Não existindo em nosso
o homem alcançou. A vida é sempre utilitária, e o progresso, mundo como realidade concreta e objetiva, essas verdades supe-
que também custa fadigas e riscos, deve trazer uma melhoria. A riores não são suscetíveis de exata percepção e de experimenta-
sabedoria e a sensatez não constituem um fim em si mesmas, ção, o que as torna irreais, fantasias, ilusão. De fato, na Terra,
mas um meio para constituir um modelo, dado que o poder e o elas são uma miragem, uma projeção de uma realidade longín-
domínio não podem ser concedidos senão a quem deles fizer qua, porém plenamente objetiva para planos evolutivamente su-
bom uso. É dessa forma que a Lei quer que a vida floresça. periores ou para quem saiba conscientemente encontrá-las. Essas
Com a evolução, o jogo da vida, de curto e míope, qual é realidades espirituais, portanto, podem ser exatamente percebidas
para o involuído, limitado aos planos inferiores, se transforma e experimentadas em estados de consciência de alta potencialida-
em um jogo sempre mais amplo e complexo de longas e amplas de. Então, enquanto o observador fica nessas condições, é possí-
realizações. O homem, então, passa a viver em função de um vel explorar aquele mundo ignorado, da mesma forma como se
sempre maior círculo de seres. A sua esfera de ação se expande explora a realidade concreta do nosso mundo terreno através dos
no espaço e no tempo, descendo sempre mais profundo na es- sentidos comuns. Isto pode ser bem compreensível para todos,
sência das coisas. O involuído é impotente para viver uma vida pois é sabido que tudo o que nos circunda toma uma certa apa-
assim vasta; não sabe usar senão dos poucos elementos de que rência somente em função dos nossos meios sensórios e que,
dispõe e nada mais. Enquanto ele, pela assimilação das tão ne- quando estes mudam, essa aparência pode mudar completamente.
cessárias experiências, não estiver amadurecido para novas O método inspirativo ou intuitivo aqui usado por quem es-
formas de vida, delas estará excluído. Desconhecendo o com- creve, meio de pesquisa que ele atingiu pela evolução de suas
plexo jogo das forças do seu destino e a técnica do seu funcio- qualidades de sensibilidade, é justamente o que lhe permite
namento, ele deverá aceitá-lo como fado inexorável, sem com- atingir conscientemente planos superiores de vida e, num esta-
preendê-lo nem assimilá-lo, enquanto quem as conhece torna-se do supernormal de percepção, levar a cabo observações, experi-
senhor dele. Ignorando os fios que ligam causas e efeitos, ele ências, crítica e registro das soluções dos problemas focaliza-
não sabe estabelecer aquelas conexões que explicam tantos fa- dos. As melhores páginas de toda a obra, da qual este volume
tos e que, para outros, permitem a previsão. O homem de hoje faz parte, foram obtidas com esse método. É verdade que ele
ignora a solução dos problemas fundamentais da vida, de modo não pode ser usado por todos, como os comuns meios de pes-
que possui bem poucos meios para defender-se dos dolorosos quisa. No entanto é compreensível a contribuição que pode tra-
efeitos de seus contínuos erros, que, dessa maneira, não são re- zer para o conhecimento esse inusitado instrumento, que é me-
solvidos e eliminados, ensejando que venham a ser continua- todicamente usado desde alguns anos, numa produção orgânica
mente semeadas novas causas. Estas o homem de hoje vai pro- conceptual que haverá de ser compreendida somente quando a
curando em tudo, nos outros e até mesmo em Deus, que chama obra for completada. Tratando-se de um caso de exceção e não
de injusto, sem saber que elas estão nele próprio. Ele cria à sua tendo a ciência resolvido tais problemas, esse método veio a ser
volta um caos, perde toda a confiança na ordem do universo, na confundido com a mediunidade, com a ultrafania em transe,
bondade e sabedoria das leis da vida, e procura a salvação na com o espiritismo etc. Mas, aqui, não existem fenômenos físi-
psicologia da vantagem imediata. Então resultam posições ins- cos nem transe. O transmissor se funde em colaboração com o
táveis, porque usurpadas, desequilíbrios e ruínas, ilusões e do- receptor numa obra orgânica em que, cientificamente, é enfren-
res. A vantagem imediata, o sucesso rápido que não foi ganho tado, inclusive como síntese, o campo do saber humano, para
antes, não pode ser senão traição. Assim, em baixo há sempre dar orientação e solução aos problemas mais árduos e vitais.
mais o estridor da luta, enquanto, no alto, a Lei exprime as
4
grandes harmonias da criação. Cap. XXVII e XXVIII. (N. do T.)
16 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
Nada há de estranho que, nessas condições especiais e com ponderável, inegavelmente se projeta em manifestações bem
esses meios, seja possível alcançar o conhecimento de outros sólidas e tangíveis também em nosso mundo material. Os sím-
planos de vida, onde o real e objetivo não é a matéria, mas sim o bolos, as bandeiras, as imagens, veneradas representações do
espírito, e obter a expressão daquela realidade imaterial por trás imponderável, não são criações ou convenções arbitrárias, mas
de todas as formas, que são regidas por ela e não passam de uma sinais e formas nas quais a maioria reconhece uma realidade in-
sua manifestação exterior. É desta forma que o imponderável terior, outro tanto verdadeira. Se o consenso não se houvesse
emerge do mistério e, visto com os olhos do espírito, assume a formado antes, em torno de uma substância interior, ele não se-
mesma solidez que a realidade concreta apresenta aos olhos co- ria possível depois, em torno da forma exterior que a represen-
muns. Assim a vida, percebida com outros meios, revela-se di- ta. Certas afirmações de fé coletiva não são artificiais; elas es-
versa, e o significado e o aspecto das coisas mudam completa- tão além de todo poder humano de criá-las e mantê-las e têm
mente. Então o nosso mundo, que se apresenta a nós como rea- uma resistência que, muitas vezes, falta na realidade concreta.
lidade em face do espírito, torna-se ilusão, enquanto o mundo do Podemos até perguntar-nos se não será essa própria realidade
espírito, que nos parece sonho, aparece como realidade. interior, relegada entre as ilusões, que plasma o mundo humano
Nós nos movemos de fato entre duas realidades, cada uma e, através desse, também o físico. Não está, talvez, nesse íntimo
das quais parece ilusão se observada do ponto de vista da outra. imponderável eu, que tudo deseja plasmar e marcar sem limites,
No final do volume precedente, A Nova Civilização do Terceiro a maior força do ser? Se pudesse, não quereria dar uma expres-
Milênio, descrevemos os dois caminhos que levam para as duas são própria em todo o universo?
realidades, a primeira, por percepção direta exterior, a segunda, Era necessário, com tudo isso, explicar como as afirma-
por percepção inversa interior. As chamadas criações do espíri- ções ideais que iremos expondo respondem, ainda que pare-
to não são mais do que percepções de realidades evolutivamen- çam utopias, a uma potente e objetiva realidade interior. É es-
te mais elevadas, registradas por meio dessa percepção interior. ta que, em qualquer caso, sustém tudo. Sem esta realidade in-
Dessa maneira, tanto no campo científico como no artístico, o terior, que é a alma das coisas, a forma cai como coisa morta.
gênio nos mostra, sem transe e com potência de resultados que A instintiva necessidade de evoluir faz com que também o in-
superam aqueles da comum ultrafania, haver tido contato com voluído procure essa realidade interior nas coisas, cuja exis-
realidades que não são da Terra, sendo que até estas, que sem- tência somente ela justifica. Em todos está radicado esse ins-
pre tocamos com a mão, desfazem-se no imponderável quando tinto de procurar em tudo uma substância espiritual, repelin-
observadas com a análise penetrante da ciência moderna,. Ve- do-se tudo o que não se torna vivo e vital por essa substância.
remos isto melhor no capítulo ―As últimas orientações da ciên- Somente nisto é que está a potência destes escritos. A base do
cia‖. Desse modo, a estabilidade da matéria se reduz, em última consenso que se forma e sempre mais se formará em torno de-
análise, à simples constância dos princípios diretores abstratos les é dada pelo regozijo de tantas almas ao se encontrarem
que a regulam. Isto confirma o conceito acima exposto da com- nesse mundo interior de onde surge a vida. Uma fantasia ou
pleta relatividade do nosso conhecimento, visto ser óbvio que criação individual, não mantida por uma completa aderência e
os axiomas que colocamos como base de seu edifício estão em mais potente realidade interior, não acharia eco nem corres-
função dos nossos meios sensórios e são dados por um consen- pondência nas almas e ficaria incompreendida, sem ser ouvi-
so derivado da semelhança entre esses meios. A compreensão da. O consenso, além de todo raciocínio, é dado pelo instinto
entre os seres se dá enquanto e porque são feitos do mesmo que, super-racionalmente, sente que aqui não é apenas um
modo, de outra forma eles não se compreendem mais. Certo é homem falando, mas sim a vida universal respondendo. É nes-
que deve haver uma realidade última que seja objetiva em si e te mundo interior que o escritor se colocou e é para lá que
por si. Mas o que ela seja na sua absoluta objetividade, além de conduz os seus leitores. E estes, inconscientemente, vibram,
todas as formas, ignoramos. Esta última realidade verdadeira, reconhecendo em si mesmos estas afirmações, em que a pró-
que está além de todas as aparências relativas, deve ao menos pria vida fala. Eles percebem ter encontrado quem soube ex-
possuir, relativamente aos meios de observação, tantos aspec- primir a voz que sentem vagamente ressoar também neles.
tos objetivos quantas são as reações e reflexões que podem O organismo que opera tais percepções e registros é o espí-
produzir em todas as possíveis formas de consciência. Não rito, situado no plano da realidade interior, no polo oposto ao
vemos que o nosso estado físico e psíquico, assim que muda, corpo, situado na realidade sensória exterior. Sendo o espírito
produz em nós sensações diferentes? E não o julgamos, então, um organismo imponderável, a sua anatomia ainda nos foge.
como uma realidade diversa? A absoluta realidade nos escapa Todavia podemos sumariamente concebê-lo como uma unidade
completamente. Não somos senão caminheiros do relativo, pa- dinâmica radiante, existente em uma dimensão superior à nossa
ra nele caminhar sem parada, sem nunca poder exauri-lo. E, de espaço-tempo. Trata-se de um organismo de forças equili-
mesmo avançando em nosso caminho evolutivo, enquanto o bradas e hierarquicamente coordenadas, segundo leis que po-
campo do nosso relativo não muda, não possuímos nele senão demos analogicamente deduzir do funcionamento dos outros in-
alguma oscilação, que serve para experimentarmos a nossa vi- finitos organismos do universo, inclusive do físico humano. O
da. Verdades definitivas e estáticas, pois são impossíveis na ignoto pode sempre ser explorado, assumindo como segura a
Terra, onde há somente progressivas aproximações do incon- hipótese de trabalho indicada pelo princípio de analogia, porque
cebível absoluto, que não nos pode aparecer senão como um o universo é unitário, regido por esquemas únicos, reconduzí-
ponto de referência, porém dele, caminhando no relativo, pro- veis a um tipo central único, que se repete em todas as alturas
curamos sempre mais avizinhar-nos. evolutivas e em todas as formas e combinações possíveis.
As duas realidades, exterior da matéria e interior do espírito, Já explicamos em A Grande Síntese a evolução das dimen-
são os dois extremos que confinam o atual concebível humano, sões. Podemos assim dar-nos conta de qual seja o plano de
entre os quais, em ascensão e descida, move-se a observação da existência em que devemos procurar o espírito. A sua caracte-
personalidade oscilante aqui estudada. Embora, por razões sen- rística principal é o dinamismo. E isto é natural, já que a po-
sórias, a primeira realidade da matéria venha a ser considerada tência aumenta com a elevação do grau evolutivo. Esta unida-
a mais verdadeira, perguntamo-nos a que ficaria reduzida a so- de é vibrante; nisto está a sua vida, o seu modo de existir; nisto
ciedade humana se fossem suprimidas as realidades imateriais está o elemento fundamental da sua individualização. O espíri-
do mundo moral e ideal, onde estão o bem e o mal, o sentimen- to, por sua natureza, é teletransmissor e telereceptor, sendo de-
to, a fé, o pensamento, a arte e a própria ciência, produtos per- finível não por uma sua forma física, mas por uma frequência
tencentes a um outro mundo, que, mesmo perdendo-se no im- de vibrações e por um tipo e comprimento de onda. No futuro,
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 17
a personalidade humana não será individualizada por caracte- É assim que se inicia de fato a hipertrofia psíquica, encabe-
res somáticos, mas psíquicos. A identidade de cada um será çando a evolução para aquele determinado tipo. Hipertrofia
expressa por um diagrama, definindo o tipo pela trajetória e porque a vida é uma contínua experimentação, que nutre o ser
frequência da onda individual. Um novo mundo de radiações, em sentido evolutivo, e tudo que se nutre armazena dinamismo
que hoje não imaginamos, invadirá a nossa vida quotidiana. A e deve, por isto, desenvolver-se. Mas, pelo dualismo e equilí-
posição do indivíduo será determinada pelo próprio tipo de vi- brio universais, no polo oposto, isto é, na cauda da evolução,
bração, resultante dos pensamentos e atos dominantes, e a deve ocorrer um correspondente afrouxamento no metabolismo
convivência social será, em grande parte, um problema de sin- vital, um hipofuncionamento, tendente à atrofia de qualidades e
tonia. Esses são os primeiros passos da futura evolução huma- órgãos correspondentes, que o exprimem. Tudo isto ficará
na. A nossa existência tornar-se-á sempre menos física e sem- abandonado no passado, do qual não sobrevivem senão ruínas
pre mais psíquica, nervosa, espiritual. Trata-se de uma expan- no organismo físico e no subconsciente. Veremos mais adiante
são imensa da personalidade humana, que lembra aquela atin- que a matéria, em seu último elemento, não é mais do que um
gida pelo ser quando, da imobilidade da planta, alcançou a pequeno feixe de ondas e se reduz, assim, a uma frequência on-
mobilidade do animal, realizando assim a possibilidade de in- dulatória ou vibração, o que a torna capaz de formar a vida e os
finitas novas experiências, base de novas e amplíssimas ascen- vários tipos biológicos. Então, a todo salto da personalidade pa-
sões. O ser existe até onde alcançam os seus meios de percep- ra diante, em direção a futuras formas, sempre mais psíquicas, a
ção e, tornando-se sempre mais espírito, amplia este campo, onda individual conquista uma frequência, um potencial (inten-
alcançando assim uma imensa expansão da personalidade, que sificação cinética e potência dinâmica) e, com isto, um vértice
agiganta o seu campo de ação e o seu poder de domínio. Quan- evolutivo sempre mais altos. À maior tensão biológica nesse
tas realidades, quantas experiências e, com isto, quantos novos plano corresponde uma paralela depressão no plano físico. O
meios de elevação poderá amanhã realizar um ser que, além organismo físico sofre então agonia e morte, gasta-se ardendo,
das atuais escassas possibilidades sensórias, poderá alcançar para ressuscitar como organismo psíquico, num processo que
uma telepercepção e uma telecomunicação radiante! Então, os lembra a histólise do inseto. O fenômeno foi vivido por muitos
atuais limites do concebível se ampliarão para dar lugar a for- pensadores, artistas, místicos e santos, os quais, porém, não se
mas de existências hoje insuspeitas. Os evoluídos, que já se deram ao trabalho propositado de observá-lo introspectivamen-
encaminham por esse lado, sentem o corpo não como um meio te, com psicologia analítica e orientação científica moderna. O
de expansão e de experimentação, mas sim como um limite à conceito de morte e ressurreição, de sacrifício da vida física pa-
vida, uma prisão da qual se deve fugir. A evolução representa ra o triunfo da espiritual, é fundamental nas religiões e, especi-
para todos, em todos níveis, uma expansão vital. almente, no cristianismo. Se a humanidade o sentiu, fica prova-
Procuremos observar sempre mais a fundo essa biologia do que ele tem um significado biológico universal.
transcendental, na qual a própria vida do corpo, gradativamen- Ora, se, nesse processo, a vida no plano físico vem a ser su-
te, evolui para a do espírito, que dela é o resultado e a meta. focada, no plano espiritual ela cresce em triunfo. Isto é total-
Podemos fazer isto dispondo dos princípios, dos meios e dos mente lógico para quem conhece os métodos e a economia da
métodos acima expostos. Certo é que essa catarse biológica po- vida, de compensação e equilíbrio: sempre criar e jamais procu-
de implicar, como efeito colateral e secundário, um turvamento rar uma renúncia senão para compensá-la com uma conquista.
do equilíbrio da normal e medíocre ―mens sana in corpore sa- E é justamente nos momentos de graça, em que se alcança nes-
no‖5. Isto porque a transformação se dá com dano do corpo se processo a fase de hipertensão, de máxima frequência, que o
(atrofia), em proveito do espírito (hipertrofia). Desequilíbrio, sujeito pode perceber, por intuição, o que ao equilibrado normal
porém, que se reequilibra gradativamente em outros equilíbrios, está impedido. Mas, pelas mesmas leis mencionadas, a vida de-
para atingir o superior equilíbrio de uma nova fase evolutiva. ve retrair-se das posições demasiado avançadas, que, se persis-
Procuramos dar a documentação experimental de tais fenôme- tissem, ameaçariam definitivamente a estrutura, somente sendo
nos de biologia transcendental vividos pelo autor. No homem possível a retomada depois do reequilíbrio das posições mais
de tipo médio, funcionamento orgânico e psíquico se equili- embaixo. Assim, a tensão deve voltar a descer, mas isto para
bram e, assim, o diagrama do tipo da onda psíquica individual novamente se elevar mais tarde. Nessas oscilações, as novas
exprime uma trajetória e frequência medianas e quase constan- posições instáveis devem estabilizar-se gradualmente, depois de
tes. A psique esgota a maior parte das suas funções em ativida- haver assimilado experimentalmente todos os elementos consti-
des relativas à vida física do corpo. A personalidade é estática, tutivos. Entretanto, por compensação, deve se dar uma queda,
sem saltos evolutivos. Os planos superiores da vida estão, por que é ignorada pelo tipo normal; deve haver uma descida pro-
isto, fora do concebível e da experiência. porcional à subida, para um nível inferior ao normal, uma caída
Mas, logo que, por maturação, ao término de longos períodos em hipotensão, depressão ou colapso, em que o sujeito é menos
experimentais, o registro e assimilação dos seus resultados estão inteligente do que o tipo médio. Ele, então, aparecerá como um
completados e há saturação do dinamismo daí resultante, inicia- vencido na luta, e o seu caso será tido como patológico. Mas
se então, no campo dado pelo organismo de forças constituído ele não o é perante a vida, que o retomará num lance ainda mais
pelo espírito, que se atinge somente através do amadurecimento, potente, sempre mais para o alto, enquanto o normal ficará
um deslocamento no equilíbrio daquelas forças, tendendo a des- adormecido na sua mediocridade. Dos dois tipos, somente o
locar o baricentro evolutivamente para mais alto. Esses conceitos primeiro é o verdadeiro vencedor.
espaciais constituem pura imagem, dado que o fenômeno se veri- Assim, a evolução avança para uma progressiva expansão
fica em dimensões superiores. Substancialmente, trata-se de des- da personalidade, por contínuos ensaios e estabilizações em
locamentos cinéticos da substância, onde se efetuam os registros mais altos níveis espirituais. A oscilação entre máximos e
daquelas experiências que, depois, formam as qualidades instin- mínimos do concebível não é estéril, porque ela nunca se re-
tivas adquiridas, ideias inatas posteriormente inseridas na perso- pete idêntica, mas cada vez toca um vértice mais alto e desce
nalidade, como suas características, que a individualizam. Não a uma depressão menos baixa. Desse modo, todo o sistema
entramos aqui no problema de sermos, assim, filhos dos nossos caminha para formas de vida mais elevadas. Se, de um lado,
pensamentos e ações no passado, nem naquele outro, de que já essa oscilação significa conquistas sempre mais vertiginosas,
tratamos, do nosso destino, que é a sua consequência. é, de outro lado, constituída de quedas pavorosas. Se temos
os momentos de expansão paradisíaca, temos igualmente os
5
―Espírito são num corpo são‖. (N. do T.) de desânimo e agonia. Quem vive o fenômeno sente esse res-
18 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
piro evolutivo da personalidade nas duas inversas fases de te, chamamos consciência somente o seu lado afirmativo, isto é,
expansão e contração de consciência. Primeiro, um dilatar-se, a sua metade positiva, esquecendo que cada individualidade é o
quase um explodir do eu além dos limites comuns da vida, resultado composto de duas metades inversas e complementa-
com uma triunfal expansão de alegria; depois, um abismar- res. A consciência completa tem dois polos, é dúplice por lei de
se, um precipitar-se, retraindo-se nas formas comuns da vida. dualidade, e cada unidade é formada não só do consciente mas
Esse retroceder involutivo é terrificante. A superconsciência também do inconsciente. Assim, se uma parte do eu funciona
atingida inicialmente parece desfazer-se em cinzas, o que dá como consciência, a outra parte deve existir e funcionar como
ao eu uma angústia sem nome, uma sentida saudade do gran- inconsciência, coisa bem diversa de um estado de nada, pois
de bem perdido, como conhecimento, poder e liberdade, num constitui um funcionamento inverso e complementar, subterrâ-
choro salutar, porque nele se aninha o desejo criador de no- neo, de maturação e preparação, condição do outro. Na primeira
vos ímpetos e a necessidade de realizá-los a todo custo. posição, o eu trabalha ativamente, projetando-se para o exterior,
Então, purificado por essa dor necessária, transformado, vivendo no ambiente e o sentindo segundo as suas reações; na
livre das escórias, tornado digno de novas ascensões, o eu res- segunda posição, o eu trabalha passivamente, projetando-se pa-
surge de suas cinzas para se lançar sempre mais para o alto. A ra o interior, assimilando as experiências e com elas se elevan-
elaboração evolutiva consiste exatamente nessas anulações e do. Essa elaboração advém de um estado que é de inconsciência
reconstruções do eu. Há como que uma desintegração e rein- com relação à consciência exteriormente ativa, mas que não é
tegração da personalidade. Definir tudo isto como patológico senão uma consciência diversa, que só parece assim porque é
é extremamente fácil, mas nada explica. Embora muito estra- vista de seu outro polo e ao contrário. Quanto de nossa vida
nho, um estado do qual resultam potenciais criadores de ta- transcorre e do nosso eu funciona, como corpo e como espírito,
manho porte é desejável, e considerá-lo patológico seria como sem intervenção de vontade e de consciência! Parte de nosso
definir patológicas as dores do parto. Permanece o fato de que tempo passa no sono, outra parte de nossa existência está sub-
a reintegração da personalidade se processa regularmente e mersa no olvido. Quanto da nossa consciência se aprofunda nas
sempre para um nível mais elevado. Para bem compreender, trevas! Ela se apaga toda noite, no fim de cada dia, no entanto
seria necessário introduzir, em biologia, o conceito de evolu- sempre ressurge e se reconstitui das suas próprias cinzas com
ção das dimensões. Parece que, além dessa destrutibilidade de os sepultados elementos do passado. Toda noite, nos anulamos
superfície, haja uma mais profunda indestrutibilidade de subs- no sono e, cada manhã, nos reencontramos como éramos à tar-
tância, isto é, que o fenômeno obedeça a uma íntima e inesgo- de. Assim, a cada morte, temos nossa consciência terrena anu-
tável potência criadora das coisas, que está em Deus. Essa po- lada num sono que não é senão uma consciência diversa, seu
tência não pode absolutamente ser detida, pois é mais forte lado negativo, e a reencontramos em cada renascimento, tal
que toda destruição, da qual ela se serve para transformar o como a tínhamos antes de morrer. Sempre o mesmo ritmo. As-
ser, destruindo a cada passo o velho para reconstruir o novo sim, a consciência emerge e se aprofunda, dos céus aos abismos
sobre suas cinzas. No fundo desse respiro destrutivo-criador e ao contrário, oscilando entre dois mundos opostos para reali-
sente-se a imanência de Deus, continuamente presente e cria- zar trabalhos complementares. Nada pode anular-se em subs-
dor, e chega-se ao contato sensível com o Seu poder, pois é tância. Tudo continua sempre a viver e a funcionar, a trabalhar
este que nos plasma diretamente. Só quem o experimentou e a amadurecer. Não é a memória o único índice de uma ativi-
pode dizer quanto tudo isto seja tremendo. dade cumprida no passado. Quando a possuímos, ela é tão im-
Assim, a alma caminha entre os extremos da alegria e da perfeita, que bem pouco prova com fatos. Como se pode pre-
dor. No fim de cada volume pode-se dizer que, para o autor, ve- tender, então, que a falta de uma lembrança exata constitua uma
rifica-se uma dessas destruições e que cada novo volume ex- prova contra a nossa existência em vidas precedentes? Como se
prime uma sua nova ressurreição e elevação para mais altos pode pretender que, além de uma lembrança intuitiva, que per-
planos. Atrás da exposição conceptual dos mais diversos temas, manece mesmo para quem não saiba percebê-la no espírito,
esconde-se esse fenômeno de sua evolução espiritual, com a também se conserve uma lembrança cerebral e sensória, quando
qual seus escritos estão estreitamente ligados e da qual são con- cérebro e órgãos sensórios foram destruídos?
sequência. De modo que, na apresentação dos mais variados É surpreendente observar que enorme trabalho é feito nos
problemas gerais, existe o fenômeno real da sua particular me- períodos de sono e de repouso, na fase negativa, na inconsciên-
tamorfose, que o leva de um plano biológico para outro, mais cia, e como desta ressurgimos mudados. Deve haver, também
alto. Aqui, a vida está realmente trabalhando, aplicando as suas nisto, um outro ritmo de duas atividades opostas. Enquanto o eu
leis a um caso particular, para produzir um tipo biológico con- fica imerso no esforço de lutar e experimentar, a Lei o guia de
forme os seus fins. Desse modo, nos encontramos em face de longe, deixando-o com o seu cansaço. Mas, quando percorreu
um fenômeno que a vontade humana de terceiros não pode des- essa primeira fase do fenômeno criador, então é ele que se
locar, por isso qualquer dificuldade interposta para a divulgação abandona à Lei, que automaticamente realiza nele, por sua vez,
destes livros ou mesmo a sua completa destruição consumaria o trabalho de assimilação e maturação. Assim, ritmicamente,
um dano para os leitores, mas não para o autor, que trabalha agem, em posições inversas e com funções complementares, a
sobretudo em contato com as leis da vida. Quando ele pode di- livre iniciativa de cada um e o sistema de princípios e forças da
zer a Deus que fez todo o possível para cumprir a sua missão, Lei. A atividade consciente do primeiro dá livremente um im-
não pode ser considerado responsável pelo restante. Ninguém pulso inicial, que deve ser seu, como suas serão as consequên-
pode desfazer o fato de haver sacrificado a sua vida para esse cias. A Lei recolhe depois esse impulso e automaticamente o
escopo e, com isto, ter cumprido a sua tarefa, o que significa desenvolve, fazendo que o indivíduo, ao despertar, reencontre-o
realizar a sua transformação biológica e alcançar, independen- purificado das escórias e do supérfluo, destilado no essencial, e
temente de todo ser humano, a mais alta finalidade da vida. Não possa retomar, com esse novo material, feito seu e elaborado
importa se isto, mais do que a transformação do ambiente, para ele pela Lei, o seu novo caminho, sobre essas novas bases
constitui a evolução do eu, pois o que realmente vale, mais do e com esses novos meios. Assim, progredimos em parte pelo
que a realização alcançada, é o esforço levado a efeito. O su- nosso impulso, e em parte arrastados pelas suas consequências.
cesso exterior, pode-se dizer, será um produto secundário. Na fase de inconsciência, continua-se e caminha-se do mesmo
Não haja estranheza com esses desfazimentos de consciên- modo, porque é a Lei que então intervém para maturar os ger-
cia. Ela nunca é um estado fixo, estável, definitivo, mas sim mes e as causas que nós mesmos provocamos. O ofuscamento,
uma flutuação contínua de formações em evolução. Geralmen- pois, faz parte do fenômeno da consciência e do seu desenvol-
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 19
vimento, como a sombra faz parte do fenômeno da luz. Isto dado pela alta frequência, e persegue como em corrida laborio-
porque o ser é composto do ser e não-ser, e não é ser enquanto sa esse primeiro vertiginoso turbilhonar do pensamento. Essa
é não-ser, e ao contrário. O existir é dado justamente por essas ascendência conceptual não assume a mesma forma; algumas
oscilações entre as duas fases opostas do existir. O nada não é vezes é racional e científica, outras vezes é mística. Assim
mais que uma posição reversa, e as duas posições se condicio- emergem as soluções dos mais variados problemas de qualquer
nam uma à outra. Sem o ser, não pode existir o não-ser, assim gênero, conforme o que foi proposto ao espírito nos ciclos pre-
como, sem o não-ser, não pode existir o ser. cedentes. Influem ainda as estações. O outono, em nosso caso,
Com isto, temos orientado o nosso caso em relação à feno- está mais adaptado aos trabalhos racionais, como a primavera o
menologia universal, explicando assim, sobre bases amplas, o é para a inspiração mística, culminando no período pascal. O
fenômeno acima exposto de expansão e contração de consciên- verão ardente de sol é negativo para esses estados de alma, que,
cia e o seu andamento ondulatório, que estamos estudando. Es- similarmente, refogem de dia para florir à tarde, até alta noite.
sa oscilação da personalidade se enquadra e se liga com o fun- Dessa maneira, a pressão interior se faz sempre mais inten-
cionamento universal e nele encontra o seu significado e a sua sa. Ela quer explodir, tomando a forma de uma exposição orgâ-
justificação. Esse exame nos prova que as quedas de consciên- nica completa no seu campo. Cada conceito tem uma face e
cia são aparentes e que, na realidade, na profundeza do esface- uma voz. O leitor pode imaginar uma maré subindo de um oce-
lamento, depois da destruição do estado de graça, a consciência ano feito pelas imensas massas de vultos e pelo estrépito das in-
fica igualmente viva e operante, mas em uma posição diversa. finitas vozes da vida. Estas começam a falar submissas como o
Trata-se de um fenômeno evolutivo progressivo, com uma res- murmúrio da floresta, formado pelo sussurro de infinitos seres
piração rítmica, oscilando entre expansão e contração, do alto que despertam ao sol da primavera. E, verdadeiramente, o espí-
ao baixo potencial e ao contrário. O que é esforço e atividade rito tem a sensação de ser tocado por uma radiação que ilumina,
de elevação se equilibra, compensando-se com um correspon- aquece e vivifica. Mas, gradualmente, aquele murmúrio se tor-
dente repouso ou inércia. Não devemos atemorizar-nos com es- na voz possante, e a radiação que aquece se faz abrasadora. Tu-
sas quedas de consciência, pois sabemos que, depois, ela se re- do, pouco a pouco, se agiganta, se levanta, se põe adiante, im-
constitui sempre mais no alto. O eu não pode morrer senão em ponente e ameaçador. A ânsia para seguir, para tudo agarrar,
sentido relativo, como dada forma de consciência, e isto somen- para estreitá-lo e mantê-lo em seu poder, se torna tensão, em
te para ressurgir em uma outra. As noites do eu são os dias de que o espírito parece despedaçar-se. Esse é o momento crítico
uma outra sua vida subterrânea, que também faz parte da sua da ascensão e da transformação de potencialidade. O ser o su-
vida maior, que compreende essas oscilações do consciente ao pera com angústia, sentindo-se preso e envolvido por um turbi-
inconsciente. Não temamos. Reencontraremos sempre em nós o lhão de forças, como por um furacão que tudo abala. A consci-
fruto do nosso passado. Quando um trabalho nos deixa desfale- ência é perturbadora, porque o centro vital se desloca para um
cidos, abandonemo-nos confiantes à Lei. Ela então trabalhará plano mais alto. Ela sente-se presa no turbilhão de uma vida
por nós. É a sua vez. Ela é sábia e boa, é a expressão de Deus. sempre mais intensa. É uma sensação de vertigem e de ame-
drontamento, como cair em um abismo de fogo.
IV. UM CASO VIVIDO Superado esse ponto crítico, o eu reencontra-se em um pla-
no mais alto, onde não há mais a agitação das mutações, e sim
Depois de haver completado a crítica poliédrica do fenôme- apenas a grande alma da alta potencialidade. Então, o eu toma
no, concluamos com a descrição das sensações que produz no plena posse do seu novo estado e se reconhece qual era no cu-
sujeito. Quando se avizinha a fase da retomada de alta potencia- me do ciclo precedente, reencontrando a sua potência e lançan-
lidade, ele é advertido como por um longínquo ribombar de do-se com ímpeto e alegria no vórtice da criação. A vertigem
trovão no meio de uma calmaria que prenuncia tempestade. do estado de transição é superada, e todo problema é encarado e
Aquele ribombar lhe diz que iniciou-se um trabalho interior, resolvido por visão, com um novo sentido da verdade, que dá a
passando da fase latente no inconsciente para sua fase atual no orientação na organicidade universal e em cada problema parti-
consciente Há nisto qualquer coisa que se assemelha ao desper- cular. A consciência encara, sem mais tremer, o abismo do infi-
tar da vida na primavera, depois do seu sono de inverno, isto é, nito, que é agora o seu elemento natural, com o qual está em
um ―quid‖ de apocalíptico, que se sente surgir no relativo, vin- plena sintonia. Sente-se senhora dele e, lançando-se em voo nes-
do do absoluto. Percebe-se, então, que alguma coisa age pro- sa nova atmosfera, como um ser aéreo destacado da terra, en-
fundamente em nós, proveniente das fontes do ser. É uma gêne- contra a calma potente das altas velocidades. Surge então a ex-
se, uma criação, uma nova manifestação divina que vem à luz. posição conceptual, calma e alegre, límpida e vibrante, por es-
Sente-se, então, que a vida, e nela o nosso pobre ser, é um canal crito, nos profundos silêncios da noite. Estando tudo já completo
através do qual o pensamento divino abre o caminho para a sua na elaboração interior, a redação torna-se simples fato mecânico.
expressão, e que o nosso pobre eu é um instrumento de algo Tudo se reduz a um registro de visões conceptuais. Para estas, a
vertiginoso, que o transcende e quer operar através dele. E eis preparação cultural não serve, nem os livros humanos, porque se
que a mente se torna túrgida de conceitos. É uma floração inte- lê somente no grande livro da vida, onde está escrito o pensa-
rior, intuitiva, irresistível, não preparada, não buscada. Acumu- mento de Deus. Trata-se de um trabalho absolutamente livre, ao
la-se assim, pouco a pouco, um punhado de pensamentos, em qual são inaplicáveis as normas dos trabalhos comuns, obrigató-
que navegam visões, problemas, soluções e conexões com o to- rios e com pagamento. A maior obra criadora não se pode fazer
do, em uma orquestração sempre mais vasta e complexa. As- senão indo além dos meios e das leis humanas.
sim, os simples motivos iniciais se dilatam, entrelaçando-se em Enquanto, assim, o organismo espiritual se inflama, o orga-
uma completa organicidade. Os germes conceptuais se esboçam nismo físico diminui o seu metabolismo e estaciona em calma,
e vêm a desabrochar quais gemas e flores. O pensamento se di- num regime de vida reduzido, fugindo do alimento. Então o so-
ferencia e se desenvolve como na multiplicação celular do em- no, mais do que uma continuação da maturação do pensamento,
brião e assim, crescendo, faz pressão de dentro para manifestar- representa para ele a preparação do pensamento que é registra-
se à luz, como feto maduro que quer nascer. Esse é o período de do no estado de vigília. Uma vez formado tal estado de alma
mais intenso e cansativo trabalho. A consciência lança-se ávida em plena atividade, as distrações exteriores não têm o poder de
sobre todos estes conceitos para registrá-los, mas eles ainda lhe paralisá-lo; ainda que tormentosas, elas podem, quando muito,
fogem na sua integridade. As visões são ainda fragmentárias e retardar o parto espiritual, mas não impedi-lo. Assim nascem os
evanescentes. A mente não tem ainda o poder da penetração, volumes, um depois do outro. O espírito arde, mas não se
20 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
queima. Sabe que o instante é precioso e foge ao corpo; sabe da sua fase orgânica à psíquica. Parece que, em certo grau de
que, se produzir, obedecendo os fins da vida como à própria maturidade biológica, o resultado do funcionamento do orga-
mãe, então cumpre a sua missão, que o valoriza, embora o seu nismo físico e da sua experimentação registrada na psique vem
organismo físico, no incêndio, naturalmente se gaste. Mas não a tornar-se um filho adulto, avançado demais para poder ainda
importa. Esse torna-se para ele sempre mais uma escória a ser exprimir-se nas formas da animalidade. Então, o espírito, sen-
abandonada. O corpo não segue completamente essas tensões, e tindo no corpo mais uma prisão do que uma casa, tenta trans-
as exigências materiais da vida aumentam o seu quotidiano cendê-lo com suas manifestações supernormais, transbordando
tormento. Enquanto o principal ator desse drama se sente enle- das limitadas vias de percepção sensória, até ao ponto de quase
vado em um trabalho conceptual que se torna prece e mística libertar-se dele, destacando-se do seu velho suporte corpóreo.
união com Deus, o homem comum, sem nada compreender, en- Eis o que acontece quando o ser, percorrida toda a fase terrena
frenta-o com a sua psicologia, exercendo pressão, conforme as da animalidade humana, se apresenta no limiar de mais altos
leis do seu plano biológico, no sentido de fazê-lo agir na forma planos de existência. As oscilações observadas na personalida-
de luta pela vida. Exercício útil somente para as finalidades de de não são mais que periódicas, rítmicas e graduais oscilações
uma seleção animal. Pode-se imaginar como essa atividade se de adaptação a novas posições biológicas. Assim se explica o
torna sem sentido para ele, enquanto é bem necessária para fa- andamento ondulatório e progressivo do transformismo evolu-
zer evoluir quem vive no plano normal. No entanto o sujeito tivo que examinamos. Dessa maneira, compreende-se como a
deve pensar em se defender de todos, deve escutar os ociosos, vida se retrai dos vértices alcançados, porém descendo a míni-
não se deixar roubar, vigiar as astúcias dos outros, trabalhar pa- mos cada vez menos baixos, para se lançar em busca de vértices
ra viver, consumir as suas energias para opor resistência a quem sempre mais altos, depois de se ter apoderado, através desses
está cheio de forças porque não tem nada para fazer, deve lutar percursos, das posições atravessadas. Tais são as leis da vida, e
na vida banal de todos. Mas, nem por isto, pode apagar-se cada um as encontra a seu tempo, quando atinge esta fase. Nos
aquela atmosfera de incêndio. Enquanto algum novo motivo se grandes momentos da vida, nas passagens críticas, é o ritmo da
movimenta em turbilhão, arrastando a consciência aturdida, di- Lei que nos aferra, sem que nada possamos fazer, senão segui-
ante de improvisos, abismais rasgos do infinito, escancarados e la. Assim, o nascimento e a morte, a fome e o amor, o cresci-
cegantes, também a pequena ofensa do vizinho, que arranha a mento físico e a ascensão espiritual têm o seu ritmo e seus ciclos
epiderme, pode tomar, naquele estado de hipersensibilidade, a fatais, nos quais não se pode mandar. O nosso livre arbítrio é
potência de um cataclismo. O centro da vida, para o sujeito, es- uma pequena liberdade enquadrada em uma lei absoluta porém
tá deslocado, e o normal acha que se encontra em frente de um boa, que nos comanda somente para nos impor o nosso bem,
fraco inepto, fácil de se vencer Como não se aproveitar desse pois somos ignorantes e não sabemos encontrá-lo. Por sermos
grato convite para dele tirar vantagem? Para quem está nesses livres, devemos sempre viver todos no âmbito da lei de Deus.
estados especiais, o espírito está no céu, o corpo ainda na Terra, O que acontece ao corpo nessas transformações biológicas é
com os pés no lodo. A posição é cheia de riscos, e o contraste fácil imaginar. Mas, pela lei de equilíbrio e justiça, é preciso
pode tornar-se sofrimento agudo. Mas não há outro caminho pagar a alegria da nova ressurreição no espírito com a dor de
para quem quer verdadeiramente progredir na Terra. uma agonia de morte no corpo. Porém, se o corpo, embaixo,
Da descrição acima exposta compreende-se que o fenômeno grita desesperado a sua lenta consumação, no alto o espírito
inspirativo não é tão simples como sói ser considerado. Já o ha- canta triunfante a sua maior vida. A transformação deve alcan-
via enfrentado e descrito, em meu caso vivido, no volume As çar o ponto em que se tornará secundário o que hoje, para o es-
Noúres. E, longe de crer haver conseguido com isto esgotar a pírito humano, é o principal meio de sua expressão, isto é o
complexa questão, quis agora voltar a ela com uma diversa ma- corpo. Os atuais meios sensórios devem ser superados por uma
turidade, para redescobrir novos aspectos. Era necessário, por sensibilização que abrirá novos canais perceptivos e, com ela, a
isto, ter antes separado o problema da personalidade humana e via para novos contatos. Mas as leis da vida são benignas tam-
muitos outros com ele conexos. Como se vê, estamos longe da- bém para o corpo, por isto nunca forçam o fenômeno, amadure-
quele fenômeno que se chama ultrafania, com que se crê poder cem sem romper, pois que o fim é transformar para criar, e não
simplesmente reduzi-lo a uma receptividade passiva do sujeito para matar. As forças da vida sabem operar essas profundas
em transe, recebendo o pensamento de uma entidade transmis- elaborações, que do espírito penetram até no metabolismo celu-
sora. Em nosso caso, não há nenhum transe ou passividade, mas lar e transformam a composição química e atômica, atuando
sim um estado de hiperconsciência e hiperatividade espiritual, harmonicamente em todo o complexo orgânico, do polo-
exclusivamente ao qual se deve a capacidade do sujeito para espírito ao polo-matéria, estreitamente conexos e comunicantes.
elevar-se a mais altos planos de consciência e pôr-se em comu- Se o espírito, na sua mais profunda substância, é redutível a
nicação com correntes de pensamento situadas em dimensões uma estrutura cinética, como também o são o organismo físico
superiores à normal humana. Não se trata, pois, de um contato e a matéria que o compõe, encontramos naquela fundamental
esporádico, limitado a poucos conceitos morais, mas de um estrutura, que é o denominador comum ao qual se pode reduzir
contato com retorno periódico, para registrar sistematicamente o ser de um polo a outro, a possibilidade do mencionado trans-
uma visão orgânica do universo, que abraça e orienta todo o sa- formismo evolutivo. Assim se concebe como, através dessas
ber humano. O fenômeno ultrafânico, que alguns querem en- oscilações progressivas, possa formar-se o organismo espiritu-
contrar neste caso, não é mais que uma particularidade. Na rea- al, até ao ponto de, no fim, poder reger-se com vida autônoma,
lidade, trata-se de coisa bem diferente, que escapa das órbitas independente de uma sua expressão física. Entretanto o corpo é
do campo espírita das comunicações mediúnicas. Trata-se de veículo necessário aos fins dessa elaboração, qual instrumento
catarse biológica, fenômeno imenso que toca toda a vida, do de experimentação no denso ambiente terrestre. Todavia a sua
seu polo físico ao seu polo espírito, fenômeno do qual médiuns energia vital é absorvida em favor do espírito. Em outros ter-
e ultrafanos pouco se ocupam e que, pelos seus resultados, inte- mos, a íntima atividade cinética constitutiva se desloca do cor-
ressa mais à ciência, à religião e à filosofia do que à ultrafania. po para o espírito, abrandando-se no primeiro polo e tornando-
Para o sujeito, ele não termina na mediunidade, mas no misti- se mais ardente no segundo. É necessário que a reconstituição
cismo, no caminho da união com Deus. O que pretende, de fato, vital venha a ser simultânea e paralela, de modo que, no con-
a vida alcançar através desse fenômeno? Parece que o espírito, junto, não haja nenhuma destruição de vida, mas somente um
esse novo imponderável organismo, centelha de Deus, na qual deslocamento de centro para o polo-espírito, ao qual pertence o
Ele se manifesta através da evolução humana, quer continuá-la porvir, uma vez que essa é a direção da evolução.
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 21
Esta íntima análise do fenômeno explica o verdadeiro sig- Concluamos o exame do nosso caso vivido, observando as
nificado da experiência não só do místico que, na renúncia ao sensações do sujeito no período da descida. Quando o estado de
mundo, sobe para Deus, mas também do gênio que, na alta graça se prolongou o bastante para permitir um registro orgânico,
tensão do espírito, revela os mistérios do ser. Neste sentido, a como a produção de um volume ou parte dele, conforme o traba-
virtude é verdadeiramente a morte do eu inferior e, por isto, lho a cumprir e o grau de resistência do indivíduo, então a natu-
repugna; o erro está em concebê-la somente neste seu aspecto reza, econômica e prudente, retrocede para os planos evolutivos
negativo, enquanto o seu valor e sua alegria estão no seu as- inferiores, o potencial desce, a frequência diminui e a vida se re-
pecto positivo e criador de expansão vital. É justo que o eu se equilibra mais embaixo. Extingue-se então a centelha do pensa-
revolte contra uma virtude somente negativa, que destrói em- mento; tudo enlanguesce e se precipita, numa agonia lenta, em
baixo, sem construir no alto; tudo o que destrói sem criar é um abatimento de morte. A vida se retrai, caminhando para trás.
contra a lei de Deus. Jamais é lícito matar, nem mesmo o eu Reaviva-se a obtusa razão, míope e analítica. A base da descida
inferior, senão como condição para a construção do eu superi- involutiva é dolorosa para o espírito, porque é um regresso ao li-
or; a morte não é admitida pela Lei senão como condição de mite, um novo encarceramento no contingente de que antes tinha
um paralelo renascimento. Nenhuma dor é admitida senão para se evadido, que volta a ser senhor. É uma descida de todo o ser
conquistar uma alegria, nenhum limite senão para alcançar na dura realidade da matéria. Fibra por fibra, vibrações mais
uma expansão. A virtude apenas negativa, que destrói sem cri- grosseiras, mais desarmônicas e violentas, o penetram, ferem-no,
ar, transformada em perseguição e ódio à vida, é um erro bio- sufocam-no. Se tão alegre foi a sensação da subida, muito dolo-
lógico que se deve pagar. Sadia e salutar é somente a virtude rosa é aquela de descer. Tais são, no ser, as sensações, os resulta-
que, enquanto sufoca uma parte do ser, desenvolve-lhe uma dos experimentais do movimento vertical ao longo das dimen-
outra, melhor e mais alta. A vida é utilitária e econômica; tudo sões dos vários planos evolutivos, seja em direção evolutiva, su-
deve produzir um valor no bem, que é uma alegria, e não uma bindo, seja em direção involutiva, descendo. Domina sempre um
demolição no mal e na dor. Ai de quem se mata com a renún- sentido de imensa tempestade em que turbilhonam, levantadas
cia sem saber ressuscitar! A virtude sadia e positiva é constru- desde as profundezas, as forças da vida.
tiva e se inflama no espírito, deixando cair em esquecimento Este é o Getsêmane de quem aqui escreve. Na tempestade,
os instintos inferiores, ao invés de se encarniçar contra eles e subir. Cada volume é um degrau, é uma das séries salientes das
provocar, assim, uma reação cujo resultado é reforçá-los. Pri- visões que parecem querer dar a escalada ao céu, mundo do
meiro construir e, depois, deixar cair o resto, pois que os cons- qual é, depois, dolorosamente necessário precipitar-se na Terra.
trutores nunca são destruidores. Tudo o que toma o aspecto de No fim de cada sondagem no mistério, a personalidade cai e se
perseguição, ainda que sob a veste de ódio ao mal, é mal. A desfaz, a fim de reconstruir-se para a seguinte, e assim por di-
vida deve ser incitada a elevar-se, e nunca agredida para ser ante. Andando como as ondas do mar, como quer a Lei; fatal-
suprimida. Caso contrário, ela se revolta, se adapta à força por mente, como quer a maturidade, quem sabe há quanto tempo
meio da mentira, mutila-se, mas não cede, porque ela não pode preparada no tempo pelo próprio destino. A personalidade cai e
abandonar uma sua forma enquanto não possuir outra melhor. se desfaz. No entanto é preciso saber ficar senhor do fenômeno
É um erro muito difundido esse de ver sempre o lado-morte e não ser arrastado por ele; é necessário não perder-se na queda
e permanecer impassível externamente, para que os outros não
no polo inferior, e nunca o lado-vida no superior. Daí os escas-
vejam; é indispensável saber continuar a vida normal de traba-
sos resultados espirituais de tanta prática de virtudes e renún-
lho e de relações sociais com todos, pois que bem se sabe que
cias. Ao contrário, o homem que se reconstrói no espírito vê
eles não podem ter piedade para com o que não podem compre-
tudo positivo, não fala de renúncia, mas sempre de conquista.
ender. Tudo isto implica uma força de espírito mais que nor-
Assim, por exemplo, os três votos franciscanos: pobreza, cas-
mal, contudo se está adestrado para bem mais. Ao despertar na
tidade e obediência, perdem o sentido negativo para adquirir o
Terra, imediatamente é reencontrada a sua infernal e desapie-
positivo. Não são mais: não-riqueza, não-amor e não-poder,
dada realidade e, sem um único conforto em tanto esforço,
mas riqueza em Deus, amor em Deus e poder em Deus. Tudo
apresenta-se a dura face do contingente, a preocupação das ne-
depende do fato de encararmos as coisas mais do ponto de vis-
cessidades materiais, o desprezo de quem reina em seu plano,
ta humano que do super-humano, sentindo na virtude a perda
onde é senhor. É preciso, então, ouvir o apelido de louco e sen-
dos bens e alegrias terrenas, às quais a nossa mente continua tir repercutir no coração, em cada pensamento e ato do homem,
sempre a volver, em vez de olhar mais no alto, para sentir a o grito: ―Não é verdade‖, porque somente a sua suja realidade
posse dos bens e alegrias super-humanas, no espírito. A nossa na matéria, como ele quer, passa por verdadeira. Então, com o
alma fica sempre na Terra, e nós devemos sair dela. É preciso olhar invocador, ainda ofuscado pelas visões do espírito, é pre-
cuidar de se firmar no mais alto, antes de se mutilar embaixo. ciso olhar para as pequenas coisas terrenas, que quereriam para
Esse comportamento nos tira a vida sem no-la devolver, quan- elas toda a alma. Sente-se redobrado o peso da luta pela vida, a
do ela deve expandir-se, e não se contrair. Não devemos decla- sua estupidez para quem, superados os seus fins de seleção, não
rar-nos pobres, olhando sempre para a riqueza do mundo, mas sente mais o seu significado. Sofre-se, então, cego e mudo, sem
sim ricos, olhando para a riqueza de Deus. É preciso ir ao en- a grande compensação do espírito, que antes fugia da Terra, vi-
contro da vida, e não contra ela; viver em sentido positivo, e torioso na sua evasão. Ele, agora, agoniza sozinho, num mundo
não retirar-se em sentido negativo. A verdadeira virtude, antes que lhe é estranho. As portas do céu estão fechadas. As pontes
de ser renuncia, é conquista; se dela fazemos uma renúncia para o retorno lá em cima parecem cortadas para sempre, sem
sem conquista, uma privação que empobrece em vez de uma esperança. O fenômeno está cansado; o ciclo está ligado à sua
aquisição que enriquece, então a tornamos uma força maléfica descida, que agora é sua lei; os impulsos ascensionais estão es-
antivital. De tudo isso se compreendera o caráter ativo e posi- gotados. Não há mais força para subir. A hora da graça passou,
tivo de quem evolui. A ação negativa da perseguição e destrui- e o céu ficou lá em cima, no alto, longe, apagado, inatingível.
ção do eu inferior lhe interessa muito menos do que a ação po- Tudo parece acabado para sempre. No entanto deixou-se lá
sitiva da criação do eu superior. Quem evolui, se expande. A em cima, no céu, um farrapo sanguinolento de si mesmo e sen-
renúncia, mais do que virtude como luz, é a sombra da virtude. tiu-se a voz de outros mundos, dos quais, por um pouco, se go-
É certo que o negativo é condição do positivo, que a conquista zou a cidadania. Isto é uma ponte, um liame, uma chamada.
começa onde acaba a renúncia e a alegria inicia onde termina a Despontará a ascensão. Tudo será árduo, mas o ser está deses-
dor. Mas, nem por isto, deve-se fazer do meio o fim. peradamente ligado à batalha em que se tempera e se revela,
22 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
onde está a vida. Mastiga-se então, com raiva, a glória que o Temos assim, como sempre, mas nunca viva como hoje, a luta
mundo queria dar como compensação. O destino sopra tremen- entre o novo e o velho: uma quantidade de formas petrificadas,
do sobre os cumes, e, entre as tempestades, sente-se a morte. somente explicáveis historicamente, e um contínuo trabalho de
Mas que importa a dor, quando ela é criação e nos leva ao céu? desgaste operado, como sempre, pelas ideias novas, constituindo
Que importa sofrer? É preciso criar, e a vida vale só enquanto um estado de formação de novas concepções da vida.
se cria. Urge lançar a semente. A vida dá a cada um o que deve Observemos o choque entre as duas forças antagônicas em
cumprir, e ai de quem trai uma missão! Semear na tempestade, seu campo de batalha, que é a consciência humana em evolu-
para aqueles que virão! Se a dor bate às nossas portas, é para ção; observemos o dinamismo da sua transformação de uma na
que o espírito expeça suas centelhas. Este é o drama. Quem outra, esse estranho paralelismo de impulsos ativos e recalci-
chegou lá em cima, no céu, deve dar tudo. Para ele, não há pie- trantes, que, mesmo lutando, se abraçam, porque uma é filha e a
dade, porque a piedade o faria fraco e vil; não há ajuda, porque outra é mãe. Quem tem ouvidos ouve o potente martelar da vi-
esta o tornaria indolente e inepto. Que ele siga para a frente, ta- da, que pulsa para explodir das incrustações do passado que a
citurno, solitário, desesperado. É necessário que ele sofra para envolvem, sente o frêmito da gênese na superação. Ainda que
que a sua alma cante. O trabalho deve ser o seu único refúgio; a uma dada civilização caia em ruínas, a ―civilização‖ nunca
bondade, a sua única vingança; a criação, a sua libertação. morre, porque, como a vida, ela renasce sempre alhures e mai-
or. E, se hoje triunfa a destruição em todo campo material e es-
V. A ECONOMIA SUPERNORMAL piritual, é porque a vida está lançando os fundamentos de mais
altas construções. Aos olhos superficiais, tudo parece caos,
As diversas verdades do autor, sucessivamente apercebidas porque produtos de desfazimento e germes vitais estão materi-
nas suas oscilações de consciência, não são um produto subjeti- almente misturados. Mas cada um desses tem a sua lei e a se-
vo, pois têm uma sua existência própria objetiva, independente gue, sem que possa haver confusão. Se, na superfície, a maio-
dele, que mais não faz senão vê-las segundo suas mutáveis ca- ria, tremendo, enxerga ruína, quem sente profundamente vê res-
pacidades. Tais realidades pertencem simplesmente a planos surreição e regozija-se, pois, em seu coração. A sua psicologia
evolutivos diversos, e cada um vê aquela que pode, conforme é ―a priori‖, enquanto a comum é ―a posteriori‖ e treme depois,
as condições de sua receptividade. Qual é, então, a verdade e não antes do desastre. Antes da última guerra poucos temiam,
verdadeira? Cada uma é verdadeira apenas relativamente a cada e temem hoje por psicose de consequência. Tremer depois é
um. A verdade absoluta é outra coisa e, mais que a soma, deve trabalho inútil. Quem, ao contrário, sente e sabe que esta é a ho-
ser a fusão orgânica de todas as possíveis verdades relativas aos ra decisiva para os futuros milênios, em vez de ensandecer para
infinitos pontos de vista, dados pelas infinitas posições do ser. esquecer ou perder-se no pessimismo, colabora com as forças
Naturalmente, o absoluto está além do concebível humano, onde da vida, que querem a salvação de todos. Ele bem sabe que não
não podem permanecer senão os fragmentos e aproximações se pode parar a vida e que ela sempre venceu todas as guerras.
progressivas dados pelo grau relativo da evolução. Que os ho- O homem comum, aturdido pela voz de mil verdades diversas,
mens pertençam a verdades diversas, segundo a natureza de ca- em que tantos exprimem a si mesmos, se confunde. Ele é sensó-
da um, é um fato demonstrado todos os dias pelos seus conflitos, rio e, para ele, a verdade é o que faz mais barulho, atingindo
que sucedem todas as vezes que um homem, com a sua verdade, principalmente os seus sentidos. O verdadeiro, então, lhe parece
se põe em confronto com o homem de uma outra verdade. E, se inatingível, porque ele percebe somente um redemoinho caótico
há formação de grupos humanos, deve-se isto à identidade e fi- de contradições e, assim, vive de imitações, sem saber pensar
nalidade de verdades, o que significa natureza e plano evolutivo por si mesmo. Mas a substância do vórtice é dada por leis sá-
iguais ou afins. Cada um se reagrupa sempre com os seus seme- bias, pelas quais cada um bem sabe alcançar organicamente a
lhantes e, dessa maneira, revela o seu tipo biológico. O indiví- sua meta. Que visão titânica representa, ao contrário, o destino
duo comum não tem de fato as possibilidades dadas pela perso- humano, assim marcado na evolução das leis da vida! As ver-
nalidade oscilante e se mantém, com escassas variantes, mais ou dades, que parecem utopia para as consciências ainda não ama-
menos na mesma verdade, sem mudar de tipo biológico. durecidas para isso, existem e, amanhã, serão de todos.
Uma boa parte dos homens atuais representa uma verdade Para fazer compreender o que hoje parece utopia, isto é, as
que não é aquela humana involuída, inferior e de completa ani- formas de vida mais elevadas, começamos por descrever sua
malidade, nem a do evoluído do porvir. Muitos se encontram economia, que aí regula a distribuição dos meios e forças e pre-
numa posição mediana, em que os dois extremos aparecem co- side ao abastecimento para a vida material sentida por todos.
mo que à margem, um embaixo e o outro no alto. Assim, o ho- Confrontaremos essa nova economia, completamente diferente,
mem se debate em uma fase de transição, na qual, lentamente, com a nossa atual. Observando as duas economias, veremos
vai sendo realizada por evolução a passagem de um tipo bioló- como possa advir a passagem de uma para a outra. Presumimos
gico e relativa verdade para outro tipo biológico e verdades su- o conhecimento do capítulo sobre a Divina Providência, desen-
periores, tendendo a modelos mais elevados. A característica da volvido no volume precedente, A Nova Civilização do Terceiro
hora atual é encontrar-se a cavaleiro de duas civilizações, uma Milênio, argumento que aqui retomaremos para levá-lo mais
que morre e outra que nasce. Disto deriva um contraste entre adiante. Subindo evolutivamente, aparece à consciência uma
elementos em esfacelamento e outros em formação, efeito da verdade mais alta, na qual a economia se revela completamente
presença de uma verdade que está para submergir no subconsci- diversa da normal. Na Terra, os bens, segundo a verdade inferi-
ente e da visão de uma outra verdade, que alvorece no super- or, aparecem limitados, de modo a tornar necessária e justificar
consciente e representa a formação da nova consciência do por- uma luta contínua, sem piedade, para procurá-los. Subindo, vê-
vir. Hora de grande fervor na obra criadora da vida. As duas po- se, ao contrário, que, na realidade, a limitação não existe para o
sições estão se defrontando e se desafiam. A velha verdade luta homem, senão no ambiente da sua forma mental e modo de
para não morrer, forte na posição já conquistada, mas corroída agir. No universo, os bens são infinitos e sempre mais livre-
pelos séculos, correspondendo cada vez menos às novas e sem- mente acessíveis à medida que o homem progride. Na sabedo-
pre mais exigentes necessidades do espírito, portanto biologica- ria da Lei, que tudo rege, é necessário que, antes, o homem
mente condenada a desaparecer. A jovem verdade luta para con- evolua e dê prova, com o conhecimento e sabedoria consequen-
quistar a vida na consciência; é jovem e nua, mas forte e com te, de ser capaz de fazer bom uso das coisas e do poder, sem o
todos os recursos de sua juventude, fresca e plena de ímpetos, que ele não é admitido à sua livre disponibilidade, o que pode-
destinada pela lei da vida a vencer, pelo seu direito de existir. ria não ser-lhe útil, mas sim prejudicá-lo. A um selvagem, uma
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 23
lei previdente não pode conceder senão os meios mínimos pro- nos com ela, pois sua vontade nos quer salvos, livres e felizes.
porcionados à sua inconsciência, se não se quiser que ele, com Como nos ama Deus, que tudo criou, através dela! Como se
a sua psicologia, destrua tudo, inclusive a si mesmo. E o perigo atingiria a perfeição, se o homem, com suas inauditas loucu-
da nossa atual fase de transição é justamente este, dado por uma ras, retrocedendo ao mal e à dor, embora não consiga substan-
crescente disponibilidade dos meios proporcionados pela ciên- cialmente destruir nada, não fosse constrangido por forças in-
cia, porém colocados nas mãos de um homem que ainda não é visíveis a avançar para o bem e a alegria? Que ímpeto sente
sensato o bastante para saber usá-los bem. Quanto mais o ho- quem compreendeu a sabedoria e a bondade dessa lei, e que
mem é involuído, tanto mais todo poder deve permanecer se- paixão de se harmonizar com os seus ditames. Isto também se
pultado pela sua ignorância; quanto mais for feroz, tanto mais pode exprimir na frase: ―Fazer a vontade de Deus!‖. Quantos
será pobre de meios. Tudo, saúde ou doença, assim como a mi- cuidados maternos nos vêm prodigalizados a cada momento,
séria, antes que efeito externo, é causa situada dentro de nós. sem que os vejamos nem os compreendamos! Quantas catás-
Dessa forma, quanto mais se evolui, tanto menos se faz sentir o trofes nos são poupadas a cada passo; com que ritmo de com-
perigo do mau uso e maiores podem ser os poderes concedidos. pensação, com que harmonia de equilíbrios são musicalmente
Então a riqueza se faz sempre menos egoísta e exclusivista, coordenados para mais altos e alegres fins, todas as dissonân-
mais universal e gratuita. O limite para tão cobiçadas posses, cias e os conflitos da vida! Quantos auxílios não notados, que
pelas quais o mundo tanto se atormenta hoje, é dado exatamen- economia para nós, poupando-nos as forças para trabalho
te por nós. Somos nós que, com o nosso egoísmo, fazemos a mais útil! Se há um esbanjamento para a reprodução, que
nossa pobreza. Quem compreendeu isto, compreendeu também chama os seres para o banquete nupcial, ou para a luta, que
a verdade superior, que ao involuído parece um absurdo, isto é, quer selecionar o melhor, digno do seu mundo animal, é por-
que a riqueza se conquista não fazendo ricos a si mesmos e po- que isto representa as vias mestras nas quais a vida caminha,
bres aos outros, mas fazendo ricos aos outros e pobres a si onde se atira com uma exuberância de meios, justificada pela
mesmos. Comportando-nos segundo o primeiro caso, adquiri- importância do fim. Ela bem sabe ser rica, mas nem por isto é
mos para nós, em vez de riqueza, pobreza. loucamente pródiga, a não ser quando o fim a ser atingido o
Essa nova e estranha economia é bem outra que a comum merece e requer. Mas quanta economia, ao contrário, por
e resolve de fato o problema econômico. Mas ela pertence a exemplo, no fato que deixa ao consciente somente a fadiga
um mundo que o homem atual não pode ainda compreender. das novas construções, enquanto confia aos automatismos do
Trata-se da mesma lei pela qual quem faz o mal aos outros o subconsciente a função de conservar para cada necessidade,
faz a si mesmo, e quem faz o bem aos outros o faz a si mes- sem a fadiga de conscientes elaborações, em forma de instin-
mo. A grande descoberta que a ciência ainda não imagina po- to, o resultado do trabalho cumprido e já assimilado! No en-
der fazer é esta: da presença de uma lei universal que tudo re- tanto uma exemplificação nos levaria demasiado longe.
ge. Lei boa e justa. É completamente estúpido e contrário à fi- Como se vê, a visão de verdades mais elevadas, próprias de
nalidade de alcançar a nova felicidade o sistema de querer mais altos planos de existência, não é coisa que se encontre
forçar as portas. Essa lei é a alma de todas as coisas, é o divi- longe de nossa realidade quotidiana, que, pelo contrário, delas
no pensamento que as rege todas em um admirável funciona- recolhe apoio e salvação. O homem de hoje não compreendeu
mento orgânico. É necessária uma quantidade enorme de ig- que ele foi criado para ser senhor, e não servo, e que basta sa-
norância para crer que aquele grãozinho de areia, o homem, ber ser senhor para o vir a ser. Mas ele, com a sua ignorância,
possa tomar o comando dessa lei. Eis a grande verdade que se coloca-se, ao contrário, na posição de servo, que pertence ao
descobre, evoluindo-se. Para alcançá-la, não há outro caminho inconsciente. Não há outro remédio senão fazê-lo compreender
senão a ascensão; o resto não vem ao caso. É necessária uma como funciona a vida. É preciso mostrar-lhe que o mesmo po-
inteligência muito mais ampla que a racional; uma inteligên- der criador que Deus usou na criação do universo e que está no
cia equilibrada no ponto de partida, feita não somente de co- pensamento, está também no homem, que foi feito à Sua ima-
nhecimento, mas de sabedoria, não só de saber, mas da arte de gem e semelhança. Como Deus é a causa perene de tudo, assim
saber usá-la bem; uma inteligência regida pelo senso moral o homem é causa do seu pequeno mundo, que ele faz para si,
das coisas. O homem atual, que parte do apriorismo dogmáti- em si e ao redor de si, como inferno ou paraíso, à sua vontade.
co absoluto do eu, que se faz centro do universo, inverteu sua A habitual inversão de todas as coisas leva, também aqui, a ver
posição já no início e, assim, não pode alcançar senão resulta- a causa onde está o efeito, e ao contrário. É inútil encarniçar-se
dos invertidos. Desse modo, ele não pode compreender o pon- contra os efeitos quando não se sabe manejar e remover as
to fundamental e elementar, isto é, que para entrar não se deve causas. Isto vemos em nossa medicina, que não consegue curar
tentar arrombar as portas, porque então elas se nos fecham senão aparente e momentaneamente, pelo que as doenças,
sempre mais solidamente, mas é preciso nos tornarmos aptos e quanto mais são tratadas, tanto mais se renovam. A razão está
conformados, para que possamos entrar. Em outros termos, em que se curam os efeitos exteriores do mal e se deixam in-
sendo impossível transformar a Lei, nada mais resta senão nos tactas as causas, que são profundas, dependentes da psicologia,
transformarmos. Então, as portas se abrem e nos convidam a direção e regime de toda uma vida, sobre a qual o médico, en-
entrar, como é de nosso direito, espontaneamente, e, somente contrando tudo já consumado, ainda que penetrasse naquele
assim, o justo desejo, que não podia cumprir-se por erro de campo, bem pouco poderia fazer, sobretudo como resultado es-
método, pode ser plenamente satisfeito. No entanto, perante tável. A saúde não se improvisa com intervenções imediatas,
um problema de tão simples compreensão e resultado, deve- com guerra antimicrobiana, pois exige uma preparação a longo
mos presenciar o homem moderno partindo a cabeça contra prazo. O que pode curar a fundo uma medicina materialista
uma muralha, fazendo um inferno da Terra, que poderia ser um que ignora o espírito, quando as causas estão todas exatamente
paraíso. De tudo isto se deduz a importância do trabalho de no espírito, isto é, num campo que lhe escapa? Do espírito e da
dissipar a sua ignorância e de induzi-lo a civilizar-se. sua estrutura falamos alhures. A causa é ele, que constrói o seu
Diante do quadro terrificante de tantos seres reduzidos ao corpo como sua expressão, como Deus construiu o universo
desespero pela avidez da disputa de meios e recursos, dos como sua expressão. Tudo isto que advém ao corpo é, pois, o
quais a Terra está cheia para todos, que maravilha representa a efeito do que antes já esteve preparado no espírito, e o sanea-
visão dessa lei, que tudo sabe, que é justa e boa e, como tal, mento duradouro não se pode obter senão saneando primeira-
ainda quando tentamos fazer o mal, rebelando-nos, nos prote- mente aquele. E sanear o espírito significa harmonizá-lo com a
ge e nos salva! Para conseguirmos isso, bastaria harmonizar- ordem da Lei, perante a qual o homem, ao contrário, com o seu
24 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
egocentrismo rebelde, representa impulso de desordem, origem os métodos modernos creem resolver a vida com uma justiça
de todos os males. E estes ele semeia em seu caminho a mãos econômica poluída na origem, pelo método da extorsão violen-
cheias. Que se pode pretender quando ele, ávido de prazeres, ta, com uma total inversão do Evangelho! Mas o que não está
em vez de aderir às sábias leis da vida, procura dobrá-las ao invertido hoje, na época de Satanás?
seu desejo? Assim como quem monopoliza os bens semeia mi- Essa é a realidade sólida da vida, a filosofia que exaure e
séria para si mesmo e quem, para seu benefício, faz o mal aos convence, sem abstrusas elucubrações acerca de particularida-
outros o faz a si mesmo, também quem vive em desordem de des e sem intelectualismos inúteis, filosofia feita para viver. É
espírito deve arcar com as doenças físicas dela decorrentes, verdadeiramente piedoso o espetáculo desta pobre humanidade,
que atormentam igualmente o espírito. A saúde do corpo, as- vítima da sua ignorância das mais elementares leis da vida. Não
sim como tudo, depende de saber harmonizarmo-nos com a se trata de compreender o funcionamento de um mecanismo. É
sabedoria da Lei, que nos rege e nos guia. natural que um primitivo procure abrir as portas, arrombando-
A saúde do corpo é dada pela harmonia. Esta é a vontade as. Porém é um sistema desastroso, sobretudo para ele. Quem
da Lei. Então, quando nos revoltamos, negamos a nós esta viu verdades mais elevadas, isto é, o mecanismo segundo o
harmonia, isto é, a saúde. Eis uma outra porta fechada por nós qual aquelas portas funcionam, com um ligeiro e hábil movi-
contra a alegria de viver, alegria que a natureza bem quereria mento de dedos, gira a chave, abre e entra. No entanto o ho-
nos dar como pacto da nossa compreensão e obediência. Rebe- mem, tão justamente ávido de domar e dirigir para tornar-se se-
lião, aquela de Lúcifer, o grande destruidor, é a nossa culpa e a nhor de tudo, em vez de começar a saber comandar a si mesmo,
causa de nossas dores. O homem é feito para mandar, e tudo como a Lei impõe, procura comandar os outros, incitando a re-
que lhe é inferior é feito para obedecer-lhe. Ao contrário, a sistência e a revolta. Ele segue assim o único caminho para não
nossa grande infelicidade consiste justamente nisto, que as coi- se tornar senhor de nada. Desse modo, com pobre domínio e
sas muito raramente correm conforme os nossos desejos. Mas contrariados, mal seguros e sempre prontos a cair, tiveram de se
por que acontece assim? É porque desejamos o mal, contra a contentar tristemente todos os imperadores do mundo, porque a
Lei, que representa o nosso bem. É justo e útil, portanto, que quem ignora e viola a Lei nada pode ser concedido, senão o pi-
não sejamos atendidos. Para nos salvarmos, constrangendo-nos or. Os impérios duradouros não podem ser senão os do espírito.
a compreender nosso erro e como devemos proceder, a Lei nos Diz-se que o espaço esteja fechado, conforme uma trans-
faz sofrer. E como fazer de outro modo, para um ser que deve missão curvilínea da luz, como energia que retorna ciclicamen-
permanecer livre? A dor é o único raciocínio que todos com- te sobre si mesma. Essa hipótese física nos pode dar a imagem
preendem. Então, na perfeição do sistema, é justo e lógico que do sistema de retorno das forças lançadas pelo eu, centro gené-
tudo corra às avessas no mundo de hoje. tico, à fonte, de modo que cada eu, à semelhança de Deus,
Qual é hoje a nossa vontade? Que desejos este impulso constitui centro de um seu universo, em que todo efeito retorna
construtor proveniente do espírito transmite e faz chegar àquele à sua causa. Trata-se do mesmo princípio, repetido do plano fí-
operário, que é o subconsciente? Este é o animal que vive no sico ao espiritual, por universal lei de analogia. Também em
homem e deve ser usado como uma besta domesticada pela fa- Deus e Seu universo, toda criatura retorna ao Criador, tudo vol-
diga, qual servo, obediente executor das ordens do espírito ilu- ta para Ele. Assim nós, qual centro irradiante, somos os cons-
minado e consciente. Mas é o espírito que, no homem de hoje, trutores de nós mesmos e de nosso ambiente, à nossa imagem e
dirige com conhecimento e sabedoria, ou é aquele animal que semelhança, e fazemos a nossa atmosfera como queremos. Esta,
comanda e serviliza o espírito? Também aqui, tudo está inverti- portanto, está ligada a nós como nosso inevitável destino. O
do, como em qualquer parte. Que capacidade diretriz pode ter a pensamento tem verdadeira potência criadora. Todo o universo
parte animal? Que pode desejar senão coisas materiais, portanto é baseado sobre esse princípio. Mas potência criadora somente
ilusórias, transitórias e mortais? Que pode um tal chefe transmi- enquanto e até aonde se vai conforme a Lei, e não contra ela.
tir ao operário, como motivos construtivos? Somente motivos De outro modo, tem-se uma potência destrutiva. O princípio de
de ilusão, decadência e morte. Eis as doenças físicas e também destruição não representa senão o caminho percorrido por Sata-
as dores morais. Estando isto contra a Lei e, portanto, sendo nás, inverso do percorrido por Deus. Que o pensamento no bem
danoso para nós, ela sabiamente se apressa em destruir e liqui- ou no mal plasma as coisas – o bem, para o belo e a vida, e o
dar tudo, negando toda nutrição vital. Para o nosso próprio mal, para o feio e a morte – vemos em nosso organismo, no
bem, ela não pode proceder de outro modo. À força de gerar- qual é evidente a construção ideoplástica, por exemplo nas im-
mos o que é mortal, deveremos, sem desfalecimento, suportar pressões maternas, que se podem imprimir no feto. Que seja o
as consequências da destruição, até que o espírito imortal com- espírito que modela o seu corpo, o vemos no fato de que uma
preenda um dia ter errado o caminho e saiba encontrar de novo ideia, fortemente sentida e constantemente vivida, se imprime
a melhor e única via do bem. em nosso rosto, que assim acaba por revelá-la debaixo de qual-
Quando, ao contrário, é o espírito que guia, então os seus quer máscara. Deste modo, a ideia dominante se torna um cará-
impulsos criadores se dirigem todos para as coisas imortais, ter somático. Atrás de um impulso enérgico e tenaz do espírito,
reais, eternas. Assim, quando àquele operário, que é o sub- também os ossos e os tecidos se plasmam.
consciente, forem transmitidos motivos de trabalho desse gê- Eis, em breves traços, o que aparece quando se alcança a
nero, a sua construção se dará em correspondência, com um visão de verdades mais elevadas. Desponta, então, uma eco-
efeito similar à causa. Então a Lei não nos oporá mais obstácu- nomia universal supernormal, que sabiamente regula a vida em
lo. Pelo contrário, ela mesma nos tomará sobre suas asas para todo campo. De tudo isso, vê-se quanto está fora do caminho o
nos levar ao alto, como é seu desejo. Dessa forma, a morte não mundo moderno na procura da felicidade, e quanto esteja lon-
será mais o fim do ser, o eu, isto é, de tudo, mas somente o fim ge de poder alcançá-la. Assim se compreendem as suas infini-
de um servo que nos deixa, cansado do serviço cumprido. As- tas desgraças, que, como dissemos, constituem fenômeno lógi-
sim, não somente desaparecerão doenças, dores, misérias e es- co e justo num organismo universal sempre perfeito, onde quer
cravidão, mas também nos encontraremos repletos da alegria que seja. Para entrar no reino da felicidade existe apenas uma
de viver, que não consiste na posse, como a louca psicologia fórmula, que é dada pelo Evangelho: ―Ama o próximo como a
hodierna acha, mas sim no equilíbrio de todo o ser em todo as- ti mesmo‖. Ela representa a retificação divina da inversão sa-
pecto e atividade, no mais pleno acordo com o desejo indestru- tânica. Mas que pode compreender de tudo isso nosso mundo
tível da Lei. Então, tudo nos virá ao encontro festivamente, ri- de hoje, se nada sabe do funcionamento orgânico do universo e
queza, saúde, amor, afetos, conhecimento, êxito. E pensar que não só ignora a estrutura da Lei mas também a sua própria
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 25
existência? Que podemos pretender quando o homem moder- riférico, que não alcança a meta. Os imóveis sábios orientais,
no, com o seu materialismo, nega francamente o espírito e, em reclusos nos conventos do Tibete, podem bem olhar com pie-
lugar de partir deste, que é o princípio genético, causa de tudo, dade para a nossa vertiginosa sociedade, que, em cima do edifí-
parte inversamente do mundo físico e do corpo, que são sim- cio das suas conquistas, vê apresentar-se o suicídio atômico. No
ples efeitos? Que conclusão pode tirar uma ciência assim in- entanto a corrida do ―tempo é dinheiro‖ é a sua punição. A pre-
vertida, senão a universal destruição? Entretanto tudo isso já sença do nosso erro é revelada pela nossa ansiedade. Quem en-
foi dito há tempo pela filosofia hindu, que é a mais antiga e controu não procura. O tormento e a pressa são índices de vá-
profunda que o homem conhece. A moral está em que nosso cuo interior, de fome de espírito, de ameaçadoras carências. As
século é um período de transição, que tem a função de liquidar, mais altas verdades satisfazem a fundo, a sua compreensão dá
numa destruição geral, a atual pseudocivilização, construída às calma, que é índice seguro para reconhecê-las. Encontramo-
avessas, isto é, baseada sobre a matéria em vez de sê-lo sobre o nos, ao contrário, num redemoinho de filosofias, de relativas in-
espírito, a fim de desembaraçar o campo para uma civilização terpretações da vida, entretanto seus princípios fundamentais
nova, corrigida, construída sobre o espírito, em vez de o ser não mudam e são sempre idênticos na vã procura de soluções.
sobre a matéria. Perante essa nova grande civilização do tercei- A contínua necessidade de novidades é a primeira característica
ro milênio, a atual tem apenas a função de preparar a parte me- da nossa posição periférica e relativa. Todavia o homem atual
cânica que possa depois prover automaticamente a execução deve viver e percorrer a sua fase biológica. Que outra coisa po-
dos serviços materiais, de modo que o homem se dedique a al- demos hoje esperar dele? Chegará no tempo próprio. Cada coi-
go mais importante. Resolvidos os dois maiores problemas que sa está sempre perfeitamente em seu lugar.
hoje nos atormentam, quais são a paz universal sob um gover- Neste ponto, surge espontânea em nossa mente a pergunta
no único e a justiça econômica e social, problemas que a histó- de como seja possível, por evolução, a passagem da nossa
ria nos propõe para uma iminente solução, o novo mundo po- mente para uma fase mais elevada, e também a correção do
derá começar a utilizar os resultados da ciência atual, porém nosso mundo pervertido num mundo melhor, para curá-lo de
não mais para destruição da guerra, e sim para o próprio bem- seus erros. Não é possível negar que mesmo a nossa economia
estar. Então, por estes servido, ele poderá superar a luta pelas normal não tenha as suas leis e equilíbrios. Como se pode de-
necessidades materiais, primeiro problema de hoje, para en- molir a premissa axiomática do egocentrismo, que, se existe, é
frentar lutas e problemas superiores, próprios de um mais ele- porque tem a sua função? Como se pode passar da economia
vado nível biológico, hoje não compreendido, onde domine egoísta do ―do ut des‖6 à economia altruísta do ―ama o próxi-
não a matéria, mas a grande potência do espírito. mo como a ti mesmo‖? Certo é que, à primeira vista, parece
O mundo de hoje escolheu o caminho na direção descen- bem estranho, tanto está fora da nossa psicologia, esse sistema
dente, para o relativo e o particular, em vez de escolhê-lo para a de obter as coisas não enfrentando-as para agarrá-las, mas dei-
unidade. Por essa razão, o saber é divergente, a ciência é analí- xando-as vir espontaneamente a nós. O que nos parece muito
tica, a concepção da vida é materialista e não se exaltam os va- estranho é, entretanto, uma realidade experimental que se veri-
lores centrais genéticos do ser, mas sim os periféricos da forma, fica com todos aqueles que se encontram além do limite do
por isto o conhecimento perambula penosamente por entre uma nosso plano de evolução, em outros superiores. Como se pode
miríade de efeitos, sem ser capaz de penetrar as causas. Assim, negar uma realidade experimental, fatos aos quais também a
tudo se constrói ao reverso, o trabalho se torna contraproducen- ciência se faz escrava, só porque não se chegou até lá, não se
te, a construção vem a ser destruição e tudo se pulveriza nas vê nada e não se pode compreendê-la? Se posso falar longa-
mãos de pseudoconstrutores. É verdade que, no fundo da obra mente dessa economia supernormal, é porque vou largamente
do homem, está a obra da Lei, preparando a correção salvadora. experimentando-a. Limito-me a indicar aos meus semelhantes
Mas o mundo caminha de cabeça para baixo. Vive-se em uma as observações objetivas, por mim controladas racionalmente,
atmosfera de esmagamento. O tempo, isto é, o limite, tornou-se feitas explorando a sua realidade pouco acessível. Mas certo é
o senhor, o tirano. Tudo secciona-se, fraciona-se, subdivide-se. que, para quem as alcança, elas possuem a potência das coisas
A ideia de superar o tempo com a velocidade é um delírio. Do mais vizinhas, atuais e concretas, tanto que se pode fazer de-
tempo não se foge; não se pode superá-lo acelerando o passo, pender delas também o contingente da própria vida.
mas apenas vivendo fora dele, sem qualquer movimento no es- A passagem da economia normal à supernormal torna-se
paço. São bem escassos os lucros de tempo dados pela veloci- possível e compreensível quando se chegou a sentir que a essên-
dade; trata-se de pequenos deslocamentos de correlações, mas o cia da vida e do criado é amor. Ele é a maior força do universo,
tempo fica, e com ele o limite; configura um certo alargamento que o rege e, no fim, tudo vence (v. Deus e Universo Cap. 15 e
de horizontes, mas o espírito permanece sempre fechado numa 16). Por isto é lógico que o amor abra todas as portas, e que, ao
prisão, que é somente um pouco mais ampla. Pequenas expan- contrário, o egoísmo as feche. É uma verificação de fato, para
sões que não podem saciar a ânsia do infinito que está na alma. quem vê, que essa é a mecânica do sistema. Para poder, pois,
Nunca houve tanta falta de tempo como agora, quando se dis- atingir as infinitas riquezas das quais o criado extravasa, é ne-
põe de tão rápidos meios de comunicação! A nossa ansiosa cor- cessário passar pelo caminho do amor. Eis que o Evangelho po-
rida sem paz, que chamamos dinamismo, não é uma vitória, de ser também o mais seguro método para enriquecer, e com que
mas uma derrota; não é a nossa força, mas a nossa fraqueza. riquezas! Não se quer com isto dizer que, somente num mundo
Exaltamo-la como uma nossa nova virtude e potência, mas é de justos, todos estariam bem como consequência da honestida-
uma nossa deficiência e inferioridade. Estamos fechados em um de de todos. O fenômeno é pessoal, e os resultados são acessí-
sistema virado às avessas, no qual quanto mais se corre tanto veis em qualquer mundo. A riqueza não nos vem somente pelos
menos se chega, que, em vez de nos ajudar, nos esmaga. E o efeitos que o sistema produziria se coletivamente aplicado, mas
preciosíssimo tempo fica esmagado e pulverizado em mil coi- nos vem porque o indivíduo põe então em movimento algumas
sas, sem nada nos trazer de concludente. Que felicidade cons- recônditas forças da vida, que o compensam e o premiam, por-
truiu essa corrida contínua? A nossa era foge das ideias centrais que ele caminha conforme a Lei, que é amor. Em suma, o cálcu-
sintéticas, unitárias. Quem se coloca na circunferência está lo econômico não é o resultado de trocas de meios entre ho-
obrigado, pela sua própria posição, a uma afanosa corrida con- mens, mas de forças entre o indivíduo e a vida. O próprio seme-
tínua, para dominar apenas uma parte daquilo que é dominado lhante, aqui, não pode interferir e, quando aparece, é como meio,
por quem está situado no centro, sem se mover absolutamente.
6
Daí a nossa necessidade de correr. Mas é sempre um correr pe- ―Dou para que dês‖. (N. do T.)
26 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
frequentemente inconsciente, manobrado pelas referidas forças. ísta, isto é, expansionista. É o caminho dos santos. Contudo a
A conversa não se faz com o homem, mas com Deus, com base maioria se retrai amedrontada. Assim aconteceu ao jovem que
nas próprias ações e no real mérito próprio. perguntou a Cristo o que deveria fazer para tornar-se perfeito.
Trata-se de uma economia superior, que dista da normal co- Quando ouviu a resposta: ―Si vis perfectus esse, vade, vende
mo o cálculo infinitesimal da aritmética elementar. A vida fun- universa‖7, ele se retirou triste, sem aceitar o conselho. E, as-
ciona com os princípios das várias economias, conforme os pla- sim, os caminhos das maiores riquezas se fecham. É bem difí-
nos de evolução. Quanto mais alto se sobe, tanto mais ela opera cil despedaçar o circuito dos vínculos terrenos em corrente, e
segundo a divina lei da criação, que é o amor. Quanto mais se é necessária para isso uma energia pouco comum. Estamos
sobe, tanto mais o rudimentar princípio de equilíbrio ―do ut des‖ embaixo e, somente se tivermos a força de subir por nós
se torna completo, passando da lei do talião para a lei do altru- mesmos, poderemos ver a luz e provar a felicidade. Estamos
ísmo, dois graus de justiça diversos. O universo está regido por embaixo, e o mundo procura o conforto descendo ainda mais
princípios definidos e fixos. Estes representam a estrada sobre a para baixo, criando assim nova dor e, desse modo, fechando-
qual os seres podem caminhar como querem, mas a estrada está se sempre mais nos limites da involução e na prisão do ego-
traçada. Somos livres, porém teremos em proporção do que ti- ísmo. Mas a saída está no lado oposto. Para encontrá-la, o
vermos dado. Se usarmos com egoísmo quanto nos vem dado homem deve tentar e sofrer muito ainda. É da Lei que não se
pelas fontes da vida, ou seja, contra a lei do amor, que tudo rege, possa subir para a felicidade senão através do sacrifício e do
maior será a contração das forças que regulam a distribuição dos amor, os grandes princípios sobre os quais se apoia o univer-
bens. Quanto mais egoísta for o indivíduo, tanto mais se restrin- so. Infelizmente, isto não se faz ou não se quer fazer. E então,
girá o canal, que tende a se fechar, até que a fonte não flua mais na expectativa de saber subir, ficam na Terra a dor e a misé-
e todo auxilio seja negado. Nesse sistema, os bens vêm a nós, ria, herança própria desse plano de vida. Não há remédio se-
não mais em proporção à nossa capacidade de extorsão, mas na não em saber e querer fazer o esforço para sair dele. Esta é a
medida dada por aquilo que merecemos. É difícil experimentar estrutura do sistema. Se não quisermos subir, ficaremos na dor
isto em nosso mundo apressado, porque o mérito não se con- e na miséria, como é justo em um universo perfeito.
quista em um instante, e sim com longa preparação. Este depen-
de, como a saúde, do tipo biológico e do regime constante de VI. LUTA E SELEÇÃO
ação. Por essa mesma lei do amor, um trabalho feito somente
com a finalidade do pagamento, isto é, egoisticamente, é muito Já dissemos que as diversas verdades vistas pelo autor atra-
menos criador e vital do que o trabalho fecundado pelo amor, vés do fenômeno da personalidade oscilante não constituem um
que aumenta a sua potência genética e diminui a fadiga, até que, produto subjetivo a ele limitado, mas que elas têm uma existên-
nos planos mais altos, se torna livre e alegre ato criador, que re- cia própria objetiva, dele independente, isto é, correspondem
flete o divino ato da criação. É a nossa involução que faz do tra- aos vários planos evolutivos da vida, representando assim uma
balho uma condenação, uma fadiga, uma escravidão. Subindo, universal realidade biológica. O caso pessoal ficou, dessa ma-
tudo se liberta, alivia-se na alegria, torna-se a um só tempo po- neira, dilatado numa significação muito mais vasta, que interes-
tência e rendimento. E a ascensão se cumpre no amor. sa toda a vida. As diversas verdades nos aparecem como ex-
A dificuldade para iniciar tal novo método é dada por um pressões de diversas fases evolutivas ou planos de existência.
agravamento da fadiga, que já é muita em um baixo plano de Destes vimos alguns aspectos gerais no capítulo precedente,
evolução. Quanto mais se está embaixo, tanto mais se é pobre e descrevendo-lhes as características, as condições do nosso
onerado, sendo então muito mais necessário e maior o esforço mundo atual e a técnica da passagem para fases superiores. Ob-
para se tornar livre. Só resta então iniciar o trabalho com paz e servemo-los, agora, mais de perto, de um ponto de vista mais
tenacidade. A evolução não se força e não se precipita. Ela é particularmente biológico, em referência às teorias que hoje vi-
uma lenta marcha de resistência. No princípio, teme-se uma no- goram nesse campo. Em substância, nada mais fazemos do que
va limitação, e o egoísmo se revolta. Acaso será possível se de- aprofundar sempre em maior escala o grande problema da as-
satarem os nós, continuando-se a apertá-los, ou, pelo contrário, é censão humana, aquele que contém as soluções de todos os
necessário afrouxá-los pelo caminho inverso? Somente inver- problemas. Com isto, já se delineia o ritmo ascensional deste
tendo-se o caminho da involução é que se pode evoluir. A prin- volume, que, partindo do inferno humano e subumano, nos quer
cípio somos desviados pela ilusão, que nos faz temer uma piora levar, fazendo sentir todo o contraste, ao paraíso super-humano
de condições. Mas, se fosse possível ver claramente, saber-se-ia e divino. O estudo psicológico particular onde iniciamos nosso
que o egoísmo em nada sofreria, porque a vida é sempre utilitá- movimento não serviu senão de motivo inicial para a descrição
ria e quer o nosso bem. O sistema é verdadeiramente vantajoso. dessa ascensão universal. É natural que, para poder falar com
Os obtusos responderão que não se deixam lograr por esses es- conhecimento desse fenômeno, o autor deva antes tê-lo experi-
peciosos e capciosos raciocínios e permanecerão pobres e can- mentado no seu caso particular, um momento da universal lei
sados servos do que puderam agarrar. Naquele plano, é muito da vida, que também é de todos. Vejamos como penetrar o pen-
difícil compreender o Evangelho, quando diz: ―Pensai nas coisas samento diretivo que guia a nossa evolução.
do espírito, e o resto vos será acrescentado‖. Entretanto essa coi- A interpretação que hoje domina nesse campo nos provêm
sa que parece tão absurda, posso testemunhar que para mim foi do materialismo ainda dominante, que viu as coisas a seu mo-
experimentalmente verdadeira. Somos filhos de Deus, Pai amo- do, de um ponto de vista relativo a um dado plano de evolução.
roso. Ele, infinitamente rico, nos proverá de tudo, se nós esti- Trata-se, portanto, de uma ideia destinada a ser superada, mas
vermos com Ele. Os seus escrínios não têm limites e estão sem- que hoje é aceita na psicologia corrente como verdadeira e de-
pre cheios; a chave para abri-los é o amor, e tudo se pode deles finitiva. É bom observar até que ponto ela corresponde ao ver-
tirar em proporção. Quanto mais se ama e se dá, tanto mais os dadeiro pensamento diretivo da vida. Comecemos por observar
escrínios se abrem e tanto mais recebemos. Quanto menos se que, enquanto a forma mental dominante continua a mover-se
ama e se dá, tanto menos eles se abrem e tanto menos recebe- por inércia na direção materialista, proveniente da orientação
mos. Com a avidez e a força, ao invés de se abrirem, eles se fe- científica do último século, e isto até suas últimas consequên-
cham, e nada mais pode ser tomado, porque a vida, em face do cias práticas, o mais recente pensamento diretivo da ciência le-
egoísmo e da violência, se contrai, defende e nega. vou tão além, nas profundezas, a visão da matéria com a nova
O único caminho para sair de toda limitação é iniciar pro-
7
gressivamente uma série de ações positivas em direção altru- ―Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens‖ – Mateus, 19:21.
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 27
química atômica e física quântica, que aquela concepção mate- porque este leva ao bem deles, um trabalho proporcionado à sua
rialista fica sendo primitiva e superficial. Ela foi levada pela ci- capacidade e sensibilidade; gênero de trabalho que seria inútil,
ência mais moderna, segundo as mais recentes orientações, tão absurdo, destruidor e insuportável em planos de vida superio-
perto do espiritualismo, que, no final, aquela concepção quase res. Assim, a vida dá imediatamente a esses seres do plano
não pôde mais ser distinguida deste. Mas disto nos ocuparemos animal e humano uma ocupação digna de si, manobrando-os
mais adiante. Portanto o materialismo representa o tipo de co- através de seus instintos, a que eles obedecem, crendo obedecer
nhecimento científico do nosso tempo e nada mais. Mas a dire- a si mesmos. A vida nos faz sempre trabalhar para nos fazer su-
ção, ainda que embaixo, nas massas, continue imperturbável, já bir. A quem está mais alto, aquela seleção animal pode parecer
se inverteu no alto, no elevado pensamento diretivo. Assim, por um trabalho bestial. Mas uma atividade mais refinada e com-
lei biológica, é lançado o impulso que, prolongando-se depois, plexa o ser daquele plano não saberia cumprir e não seria pro-
como sempre, inverterá a rota do pensamento moderno, levan- porcional à sua capacidade. Trata-se verdadeiramente da sele-
do-o para uma nova civilização, de tipo oposto. Não se tratará ção do mais forte, como é hoje compreendida, uma seleção
por certo do espiritualismo de hoje, vago e não demonstrado, animal em que é preciso, todavia, usar e desenvolver os senti-
mas de um espiritualismo que provará e aplicará o que agora é dos e a inteligência. Neste plano, o trabalho coletivo orgânico e
somente fé ou teoria filosófica. as conquistas espirituais são inconcebíveis. Porém, em nosso
Na biologia, o materialismo de Darwin viu a evolução das mundo, a luta já se está transformando de muscular e física em
formas físicas ou efeito, sem imaginar a presença de uma evo- nervosa, conquanto esta ainda seja feroz. O progresso já é visí-
lução do espírito ou causa das formas. Acima, falamos dessa vel. A forma de luta é índice do próprio plano evolutivo. Diz-
tendência à inversão de tudo em nossa fase atual. Assim viu-se me como e por que coisa lutas e te direi quem és. A luta, condi-
exatamente às avessas: a causa naquilo que é somente o efeito, ção de conquista, não se extingue nunca na vida, mas, com o
isto é, na forma. Segundo essa orientação, a evolução se pro- evoluir, mudam sua forma, seus fins e suas realizações.
cessa através da técnica da luta pela vida e a seleção do mais Hoje, em nosso mundo, se começa a compreender, como
forte, tipo que, em filosofia, vemos reaparecer no super- não acontecia no passado, o disparate desse gênero de luta
homem de Nietzsche. Tudo isto é verdade, mas somente no animal, que não sabe atingir os seus fins senão lançando os
plano biológico animal, num mundo inferior, ao qual ninguém homens uns contra os outros, para se matarem e para destruí-
pode impedir que o homem pertença. Mas, assim que se haja rem tudo o que é mais útil e custoso, e isto, para a seleção. A
subido evolutivamente, isto não é mais verdadeiro. Em suma, hodierna impopularidade da guerra demonstra que o homem
quando se fala dessa coisa imensa que é a vida, é preciso dis- hoje caminha para a superação da fase animal. Um estado de
tinguir e precisar a que biologia nos referimos, porque cada coisas, de fato, não se pode perceber quando se está fundido
plano evolutivo tem a sua, com leis próprias, que não são as nele como num todo homogêneo, mas somente quando se co-
dos outros planos. Ora, a biologia normal humana, se olhada meça a emergir dele, diferenciando-se. Hoje, na realidade,
do ponto de vista de uma biologia supernormal, pode aparecer começa-se vagamente a compreender, sem ainda saber atuar,
toda como um erro de perspectiva, e ao contrário. E, aqui, po- as suas consequências lógicas, o disparate desse perene odiar-
demos aplicar o conceito das verdades relativas, pelo qual as se uns aos outros, quanto seja antivital esse nunca acabar de
teorias do materialismo servem e valem apenas para a sua bio- punir-se reciprocamente, que é o que faz verdadeiramente da
logia, e não além. Não se pode compreender o pensamento di- vida uma punição. Esta é criada e imposta pelo homem, e não
retivo da vida observando-a num só de seus momentos, relati- por um deus vingativo. O homem está hoje bastante sensibili-
vo a uma só fase, tanto mais que aquela, evolutivamente supe- zado para começar a sentir quanto se há tornado inaceitável
rior, nos aguarda, é o nosso amanhã e nós justamente percor- esse tipo de luta e seleção animal. Formas mais civis de exis-
remos a atual para nos preparar à sucessiva. tência fatalmente o esperam. O mais desenvolve-se do menos.
Como se comporta a vida no plano animal e humano? Ela Assim como, no começo, a propriedade era filha do furto e a
escancara as portas para a reprodução e lança fora indivíduos primeira forma de organização social foi dada pelo império do
em grande abundância. Estes, no plano animal, não estão in- senhor sobre o servo; assim como, para se chegar à sociedade
tegrados juntos na fase orgânica coletiva e, portanto, não sa- dos estados, deu-se início aos imperialismos escravistas, do-
bem fraternizar-se em organismos coletivos e colaborar em minadores dos povos; assim como se chegou ao conhecimen-
unidades superiores. Isto está muito alto para eles e representa to, partindo-se do terror do próprio dano, e à ciência através
o futuro. Eles se devem preparar através de infinitos contatos da necessidade utilitária, não é para se maravilhar que tam-
recíprocos, que, no princípio, são choques sanguinolentos. bém se possa chegar a um novo tipo de seleção, partindo do
Tão logo nascem, eles se tornam rivais e inimigos, e os moti- atual, embora este seja bestial. Não devemos, pois, nos escan-
vos psicológicos dados por sua forma mental não faltam: o dalizar se a vida sabe atingir os seus fins evolutivos mesmo
espaço vital, a exuberância de energia, o instinto de invadir e através de todas as velhacarias humanas.
submeter para se expandirem, a natural insaciabilidade do de- Procuremos compreender o verdadeiro significado desse
sejo, a conquista dos bens para viver, da mulher para se re- método para nos fazer evoluir, usado pela vida com a luta e a
produzir. Eis subitamente a luta. É a mecânica do sistema. seleção. A que tende verdadeiramente esse triunfo do mais
Basta olhar em torno para ver funcionar automaticamente, em forte? Trata-se aqui de uma lei válida para todas as fases bio-
pequena e em grande escala, como num grupinho de rapazes lógicas, ou será ela limitada somente a um dado plano inferi-
que, de repente, litigam entre si, como povos sempre em guer- or? Quais são os fins da maior biologia universal? Propõe-se
ra. Esta, antes que no comando dos governos, está no instinto ela verdadeiramente a fazer triunfar esse tipo do mais forte,
dos homens, sem o que ninguém poderia impô-la. que pode ser ainda o mais prepotente ou injusto, ou será esta
O primeiro passo é a produção dos seres, o segundo é a luta, uma fase de transição admissível somente em planos inferio-
o terceiro é a seleção. O resultado final é a evolução; a finalida- res, enquanto a finalidade da vida é criar um tipo biológico
de é a elevação para o bem e a felicidade. É uma sucessão de completamente diverso?
escopos, de proposições num raciocínio. Eis porque, como títu- A lei da maior biologia universal é que a luta, em todo pla-
lo deste capítulo, ligamos as duas palavras: luta e seleção. A no, é um meio de construção da consciência, uma forma de ati-
primeira é condição da segunda. Sendo pacífico que a vida tra- vidade imposta aos seres pelos seus instintos, pelo ambiente e
balha sempre com inteligência e com um fim a atingir, ela en- pela Lei, que domina tudo isso, para chegar, através da experi-
tão oferece a esses seres, para o fim evolutivo a que tende e mentação, ao desenvolvimento de qualidades sempre mais espi-
28 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
rituais. É natural que, nos planos inferiores, o trabalho e as qua- permitir-se tudo porque é vencedor e, como tal, lhe cabe fazer a
lidades sejam de caráter inferior. Mas tudo tende a atingir traba- lei, chega-se lá onde isto, ao contrário, é injustiça condenada
lhos e qualidades superiores. Nos animais e no homem inferior, pela Lei, única senhora, em cuja harmonia somente, viver é líci-
a luta servirá para o refinamento dos sentidos e para o desen- to. No primeiro caso, o ser é deixado apenas às suas forças, pa-
volvimento egoísta da inteligência utilitária. Mas, no homem ra sofrer os erros que perpetrará e, dessa forma, chegar a com-
superior, ela servirá para o triunfo de uma ideia e se transfor- preender e aprender. Mas, conquistada com esse trabalho a
mará numa colaboração qual instrumento consciente da Lei. É consciência, ele percebe que vive em um todo orgânico, bom e
ainda lógico que, no plano animal, as experimentações, os con- sábio, e que a violência não serve para mais nada, somente para
tatos e as reações do ambiente devam assumir uma forma brutal perder, e não para vencer. Então, a vida, harmonizada na ordem
e violenta, porque, com modalidades mais refinadas, o ser ainda divina, torna-se de inferno em paraíso.
não sensibilizado por evolução nada perceberia. A luta parece Interroguemos ainda o pensamento diretivo da vida, como
brutal e violenta para quem está mais no alto, mas não para ele funciona na realidade biológica. É fato que a natureza não
quem está naquele nível. Tudo é proporcionado pela divina sa- se opõe à geração dos fracos e doentes. Procura remediar os
bedoria da Lei. Assim, o animal e o homem inferior não são fe- seus defeitos para salvá-los, reforçando-os como pode, mas
rozes senão para o evoluído. Para si mesmo, ele está equilibra- não se opõe ao seu nascimento. Deixa assim vir ao mundo uma
do no seu nível; vê somente o fim a atingir, e não a ferocidade quantidade de infelizes, doentes da mente e do corpo. Ela os
do meio, que somente se revela ofensivo de um ponto de vista deixa lutar e sofrer. Por que? Nesses casos, se a finalidade
mais alto, com outras leis, ignoradas no plano inferior. Assim o principal da vida fosse a seleção do mais forte, aquele desígnio
selvagem não se sente selvagem, do mesmo modo que o verda- seria completamente frustrado e a natureza seria a própria con-
deiro delinquente não se considera delinquente. No entanto eles tradição. Entretanto vemos quanto ela é sábia e benévola prote-
também devem evoluir. Então são necessárias para eles experi- tora. Por que os deixa, então, se debaterem na dor? Se a vida se
ências bem duras, que para o evoluído seriam cataclismos mor- comporta assim, dado que nunca age loucamente e não está
tais. Assim, as grandes dores que dominam na Terra são pro- acostumada a errar, isto significa que o seu objetivo é bem ou-
porcionais à insensibilidade humana, e isto se prova pelo fato tro, e não a seleção do mais forte, com o abandono dos outros.
de que a maioria ama esta vida tão miserável. Quem está mais A natureza não é partidária e nunca abandona alguém. A fina-
adiante não pode aceitá-la como prazer, mas somente em outro lidade é a formação da consciência, enriquecendo-a de todas as
sentido, isto é, como expiação, dever ou missão. possíveis qualidades, através de todas as possíveis experiên-
A vida, portanto, definitivamente não se propõe, como últi- cias. O insucesso do fraco e do doente, dos vencidos na vida,
mo desígnio, o triunfo dos mais baixos campeões da raça. So- não pode então ser interpretado como uma derrota, mas sim
mente o materialismo e a sua filosofia podem pensar assim. A como uma útil posição de trabalho para a aquisição de precio-
supremacia do mais forte, neste sentido, pode dar-se durante os sas qualidades novas, das quais o vencedor, ao contrário, dada
primeiros degraus da estrada ascensional, mas a via dos triunfos a sua diversa posição, está excluído. A finalidade da vida não
é longa e vai longe. A luta, no alto, assume outras formas e ou- é, pois, senão em casos particulares, a formação de um mais
tros fins, isto é, a formação de um ser não mais forte porque forte e prepotente. Nas grandes linhas, a vida quer criar um ser
dominador e mais violento, porém mais potente porque mais in- sempre mais ativo, mais complexo, mais orgânico, mais sábio,
teligente e sábio, portanto justo e bom. Ele, então, como vere- e tudo isto mesmo através da fraqueza, da derrota e da dor.
mos, penetrará no funcionamento da Lei, como conhecimento e Eles não constituem, por isto, uma falência e uma perda da vi-
como atividade, pondo em movimento novas forças e podendo da, como crê o materialismo, mas uma das tantas vias de expe-
atingir riquezas imensas, antes ignoradas. Ele será potente, bem rimentação e um meio de conquista. Se não fosse assim, a vi-
diferente daquele fraco e falido como o julga o homem inferior, da, que é mesmo tão forte, sábia e boa, seria vencida, estulta e
que sempre toma a bondade por fraqueza. Sua luta e experi- cruel ao permitir a geração dos fracassados. Ela, ao contrário,
mentação assumem um caráter de todo diverso. A forma de luta absolutamente não se opõe a isto, e são muitos os que deixa
dos planos inferiores, aquela do tormento da fome, do ataque e nascer. Portanto não é a natureza que não alcança os seus fins,
da defesa, lhe é poupada, porque é superada. Então a vida se mas somos nós que não compreendemos a natureza. Quanto
harmoniza e a própria Lei trata de defender o homem que adere mais formos capazes de compreender, tanto mais encontrare-
a ela, poupando-lhe esse duro trabalho, para ele já inútil, mas mos no universo um organismo perfeito. Dizer o contrário sig-
que, para os inferiores, ainda é fundamental e necessária ocupa- nifica nada haver compreendido.
ção. É lógico que o trabalho útil, imposto a tipos biológicos tão Todo plano de existência tem as suas leis. Não se pode
diversos, deva ser diferente. É lógico que, quando se há supera- compreender e julgar o plano superior permanecendo no inferi-
do o nível de vida visto pelo materialismo, o campeão visto por or, enquanto, nos planos mais altos, é possível compreender os
Nietzsche no seu super-homem torna-se um delinquente, um mais baixos, julgados ferozes e selvagens. Temos assim uma
selvagem rei de selvagens, um ser antissocial, destruidor da série de níveis evolutivos, dos quais cada um possui uma sua
unidade, desagregador e antivital. verdade relativa, que com eles evolui sempre mais para o alto.
O Evangelho, que é construtivo, nos indica, ao contrário, Planos, pois, e verdades em evolução. Esse é o movimento das
bem outro tipo biológico. A sua inversão de valores não signifi- formas e do concebível no relativo para ascender, sempre mais
ca nada mais que a passagem de um nível biológico inferior a se acercando do absoluto. O mais pode compreender e julgar o
um plano superior. Nisto consiste a grande boa nova, isto é, o menos, mas não é possível a recíproca. Sobre todos os planos,
anúncio de que hoje, para o mundo, chegou a hora da grande impera a Lei, única, através dos infinitos aspectos da verdade,
transformação evolutiva, que o levará para uma nova civiliza- relativa a cada determinado grau de desenvolvimento ou fase
ção, com um novo tipo humano. O Evangelho enfrentou dire- evolutiva, em contínua transformação progressiva. Todos os
tamente a lei do plano animal, contrapondo-lhe uma outra lei, meios são usados sempre em proporção à natureza do ser. O
de um plano superior, em que, pela evolução, a primeira deverá método da seleção do mais forte não representa senão um caso,
fatalmente inverter-se. Afirmou isto com o Sermão da Monta- um grau, uma lei, uma verdade relativa. Depois, a fase é supe-
nha, que é a inversão dos valores humanos em outros opostos, rada, passando-se a uma ordem de formações e aquisições di-
em que os vencidos aparecem vencedores e os fracos, fortes. versas, com outros métodos mais evoluídos, com característica
Eis a maior biologia que o materialismo não viu. Assim, da fase diferente, proporcionais a um diverso tipo de vida. Os experi-
onde o arbítrio da absoluta vontade do vencedor, que pode mentos são de variações incontáveis. A natureza não tem limi-
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 29
tes de meios e de ambientes, e a aquisição de qualidades no de- Dessa maneira, a vida funciona por impulsos interiores, lan-
senvolvimento da consciência deve ser infinitamente múltipla. çando as suas forças do íntimo do ser. Deus não age do exteri-
Desse modo, o ser, guiado pela Lei, move-se ao longo de or, mas de dentro do ser, através dele, que é o instrumento da
canais assinalados por uma rede de princípios em todos os ní- Sua manifestação. Assim, a vida não nos defende externamente,
veis; ele encontra sempre, a cada passo, o trabalho que lhe é mas do interior, partindo do centro e atingindo a periferia atra-
adaptado. Como poderia orientar-se e guiar-se no universo, ig- vés de nós, não modificando o ambiente, mas munindo-nos
norante de tudo? Ele nunca está só, nem abandonado. Sem essa com recursos interiores, fazendo-nos adquirir qualidades e de-
imanência de Deus, o ser estaria perdido. Também os golpes fendendo-nos com a outorga de poderes de resistência. A nossa
adversos têm um significado útil e construtivo; há sempre a vida devemos conhecê-la, e as nossas forças, conquistá-las. As
proteção, mesmo no total abandono aparente, como há salva- fontes são inesgotáveis, mas devemos atingi-las com meios que
ção no fundo de qualquer derrota. Em cada ser há a vida, que devemos conquistar. Com isto, a Lei nos quer instruir. Ela exi-
nele se defende a si mesma. Tudo, também o mal e a dor, é nas ge a nossa colaboração, ainda que seja fadiga, mas nos ajuda,
suas mãos instrumento para a ascensão. A vida é força positi- orientando-nos, reagindo contra o nosso erro por meio da dor,
va, sempre construtiva, ainda que através da destruição. Ela indicando-nos a verdadeira estrada. A Lei não nos arrasta gra-
nos quer educar sempre, para nos fazer subir, embora através tuitamente, mas nos obriga a fortalecer as pernas para não fi-
do fracasso. Tudo é salutar, proveitoso; tudo é sempre perfeito carmos preguiçosos e tornarmo-nos inábeis com a supressão
e tende ao melhor pelo caminho do mínimo meio, obtendo má- dos obstáculos, que estão ali justamente para que aprendamos a
ximo resultado com o mínimo esforço. O nosso ponto de vista superá-los. Eis a razão da dura luta pela vida, eis porque o ven-
humano é muito limitado para nos permitir compreender e jul- cedor é premiado. Mais no alto do plano animal-humano, diver-
gar. A vida sabe salvar-nos também através da morte. Quería- sa será a luta, mas o tipo vencedor é sempre premiado, seja ele
mos impor-lhe os nossos pequenos fins imediatos, e ela traba- o conquistador com o domínio terreno, o gênio com o domínio
lha para fins longínquos, que não vemos, com uma sábia hie- do pensamento, ou o santo com o amor de Deus.
rarquia de finalidades, das quais nós, míopes, não enxergamos
senão as próximas. Mas ela é justa. Cada dor é paga, cada es- VII. O MAIS FOR'I'E
forço é compensado, cada experiência nos enriquece, cada fa-
diga é premiada. Se somos alguma coisa hoje, é porque a vida Se mais no alto há leis superiores, isto não impede que a lu-
nos impôs primeiro o trabalho de ganhá-la. Ela quer e deve ta pela seleção do mais forte seja a verdadeira lei vigente no
formar o ser. E, ainda quando açoita, o faz para o nosso bem. plano animal-humano. Limitada a esse campo inferior e relati-
Com isto, Deus está presente em cada coisa e em nós. A pro- vamente a ele, a formação desse tipo biológico pode represen-
funda consciência da Sua constante presença em cada coisa e tar aí a finalidade da vida, porque nada de melhor se pode pre-
em nós será o nosso conforto e a nossa força. tender de um ser que está imaturo para mais altas expressões.
A palavra vida não exprime um conceito genérico e abstra- Para melhor poder examinar depois a ascensão para planos
to, mas uma realidade que vive, goza e sofre através de nós. mais elevados, procuramos pôr em foco a nossa observação
Toda nossa vibração nos transcende e pertence a alguma coisa sobre o animal-humano, que está mais perto de nós. Podemos
maior do que nós, com a qual estamos em contínua comunica- assim delinear o fenômeno da ascensão espiritual também de
ção e que é um organismo imenso e perfeito, complexo e sá- um ponto de vista biológico e ver a que tipo diversamente forte
bio. A vida, autopunindo-se, corrige-se através de nós e, assim, a vida quer chegar nos níveis mais altos. Todo plano evolutivo
nos protege. Suas também são as nossas alegrias e as nossas produz o seu modelo ou obra-prima. O reino mineral produz os
dores. Em nosso plano e ambiente, nós somos a vida, como to- cristais geometricamente perfeitos, o reino vegetal produz a
do ser também o é em seu nível: um caso particular, do infinito flor maravilhosa e a árvore soberba, o reino animal produz a
existir. Somos a sua expressão particular, concretizada em uma besta ágil e forte, o reino humano produz o herói condutor de
dada forma, expressão de princípios e forças universais. Que povos, o reino super-humano produz o gênio e o santo. Assim,
profundas raízes, pois, tem cada ser no infinito! Somos a ex- cada fase alcança a sua finalidade, para depois ingressar na fa-
pressão exterior de uma fonte inexaurível que está no íntimo e se sucessiva e alcançar outra meta, ainda mais elevada, subin-
que tudo alimenta e rege. Se, na periferia, onde estamos como do assim, aos poucos, os degraus da evolução, que não repre-
forma, há caducidade e morte, no íntimo do ser os poderes ge- senta senão a gradual exterior manifestação de Deus, a pro-
néticos de renovação são infinitos e inexauríveis. Evoluindo, gressiva realização do Seu pensamento no Seu universo. Todo
ele se avizinha sempre mais da riqueza dessa fonte e dela pode novo impulso ascensional só pode ser tomado sobre uma base
gozar. Assim se explica como a economia supernormal seja anteriormente alcançada e consolidada. Toda forma é o resul-
muito mais rica que a normal, como vimos. O segredo para en- tado do passado e das conquistas precedentes que resume, e
riquecer é, pois, saber tornar-se sempre mais vivo em profun- não se pode subir para a sucessiva sem haver cumprido, elabo-
didade, sempre mais perto da fonte, Deus. Eis que potente sig- rado e assimilado as precedentes. Dessa maneira, a construção
nificado vital pode assumir esta palavra para quem está mais continua além do gênio e do santo, limites máximos da nossa
avançado no caminho da evolução. É nessas profundezas que, atual concepção e perfeição. É sempre a vida que se enriquece
com estes escritos, aqui procuramos despertar a vida É por isto através de miríades de experiências nas individuações que a
que aqui sempre se insiste sobre o evoluir, sobre a ascensão personificam. O que é da vida é nosso, e somos feitos de tudo
para Deus, e com tanta paixão dela se fala, pois que, verdadei- aquilo que vivemos. Como de outro modo se pode conquistar
ramente, é este o problema dos problemas e com ele tudo se consciência, senão através das próprias experiências?
resolve. Entretanto, para eliminar a dor, conquistar conheci- Que imensa dilatação de horizontes viver nesta maior vida,
mento e sabedoria, riqueza e potência, existe um meio: cami- sem limites de tempo e de formas! Que profundo sentido lhe dá
nhar para Deus. Se o mundo compreendesse o significado des- esse conceito de um desenvolvimento guiado por uma lei sábia,
sas palavras e as soubesse aproveitar! No entanto ele passa para uma meta radiosa, ainda que ela esteja além do nosso con-
perto de tudo sem compreender nada, agindo como um selva- cebível! Que conquistas faz assim conosco a vida; que indestru-
gem que, ao olhar um precioso instrumento científico sem co- tível patrimônio ela constrói! Que alegria é pensar que, em
nhecer-lhe o valor, não saberia o que fazer dele e terminaria qualquer posição, de vitória ou de derrota, cada um de nós nun-
por destruí-lo. A ignorância é a muralha mais difícil de superar ca perde nada, mas trabalha sempre utilmente para a construção
para se alcançar a felicidade. de si mesmo! Que gigantesco edifício é uma alma! Nada mais
30 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
de inútil acontece; tudo fica indestrutível, tem o seu peso, as invertem. O Evangelho demonstra ser também uma escola de
suas consequências, é sempre útil para alguma coisa; cada dor fortes, mas de uma força diversa. Por isto os vencedores pela
nos enriquece de uma consciência maior. À medida que subi- violência a esta se apegam desesperadamente, porque sabem
mos, mudamos e a vida muda para nós. Que nos pode roubar a que, despojados desse meio, estão perdidos. Subindo, os ven-
velhice e a morte, quando somos uma alma imortal em ascen- cedores tornam-se vencidos, como se tornam sempre os juízes
são? Que importa a crucificação lacerante, se depois a ascensão perante os mártires por eles condenados. Em um plano mais
nos torna gloriosos? Muitos deliram acerca do fim da humani- alto, os inferiores tremem ao aventurar-se, porque se sentem
dade. A Terra poderá ser o féretro do seu corpo, mas não do seu desarmados. E, então, desafogam-se sobre os mais evoluídos,
espírito. Apagando-se o Sol, o nosso planeta não poderá mais golpeando-os pelo lado material. Mas estes são invulneráveis
hospedar a nossa vida de hoje. Mas esta não terá mais necessi- no seu plano espiritual, onde triunfam. Esta é a história de to-
dade daquele suporte físico, porque a humanidade terá alcança- dos os mártires, até ao maior: Cristo.
do uma outra vida, mais elevada, fruto da presente, e viverá em Tudo isto obedece leis que permanecem iguais à distância de
um novo ambiente, mais adaptado. Então, todos os restos terre- milênios e de uma ponta a outra do mundo. Elas tornam a apli-
nos da nossa civilização humana serão somente produtos de re- car-se todas as vezes que o ser se encontra em um dado grau de
fugo, deixados para mundos inferiores, para que eles os utili- evolução. A ascensão apresenta-se livre para todos, mas, quando
zem no seu plano, como acontece com todo cadáver em desfa- se quer percorrê-la, a rota é inalterável. Toda nossa atitude, seja
zimento. E a nossa humanidade será sempre viva e jovem, ex- ela qual for, nos prende sempre a um sistema, do qual precisa,
pressa em formas mais elevadas e mais felizes. depois, exaurir e absorver todos os elementos componentes, até
Como fica, diante de uma visão assim tão vasta, a nossa à ultima consequência. Desse modo, quem se empenha no plano
pequena biologia, com os seus fins limitados à sua fase e rela- da força, tem no começo, de fato, a vantagem de ver tudo permi-
tivos modelos? Como fica na biologia universal o nosso ―mais tido: o lícito e o ilícito, o justo e o injusto. Assim, ele pode es-
forte‖, obtido por luta e seleção? Nessa biologia maior, o mais carnecer de todas as leis morais do plano evolutivo superior. E
forte adquire um sentido completamente diferente, formando- tudo vai bem enquanto ele tem na força seu único apoio. Porém,
se através de uma luta e uma seleção bem diversas. A grande uma vez colocado sobre este terreno, quando perde este seu úni-
luta não é para submeter o semelhante à servidão, numa pobre co apoio, para ele não pode existir piedade. Então, a justiça, que
emersão de um bruto entre brutos, mas é para conquistar qua- ele violou, fará que ele pague tudo aquilo que injustamente to-
lidades superiores de sabedoria, numa decisiva emersão fora mou com a força. A queda de tantos grandes da Terra nos mos-
da animalidade e da ignorância. O mais forte nessa biologia tra quão seja perigoso usar esse método, que está sempre pronto
universal é o mais evoluído, que é verdadeiramente melhor do- a nos trair. A astúcia é força de caráter psíquico e, igualmente,
tado, porque é mais rico em qualidades para vencer as batalhas tenta subjugar, por isto está sujeita às mesmas leis. Quando,
da luta pela vida. Ele vence sempre melhor que o involuído, de após muito tempo, a mentira aparece, não há mais piedade para
mente obtusa, embora materialmente forte. Os grandes mons- o astuto e, então, ele paga por tudo. Cada um está ligado ao seu
tros paleontológicos, quais os brontossauros etc., bem gigan- sistema. Porém o mais sólido é o da sinceridade e da bondade,
tescos, pereceram por sua estupidez, enquanto sobreviveram único para construir estavelmente, sem antecipações e débitos,
animais menores e menos fortes, porém mais inteligentes. O que depois se hão de pagar. Então suporta-se a violência e a as-
homem os está chefiando. É lógico que a vida dê a vitória ao túcia, deixando simplesmente que o mundo saiba. Este, então, vê
mais evoluído, que representa o seu melhor produto. E ele me- no justo condenado o mártir, pois a Lei está escrita na alma hu-
rece, porque há mais tempo provou o seu valor e sofreu, sendo mana, que, queiram ou não, tem o senso do bem e do mal. Prin-
assim o mais rico de experiências e qualidades. A vida é sem- cípios verdadeiros em ponto pequeno ou grande, do indivíduo
pre econômica e justa. Mais no alto vence não o homem de mais humilde aos povos e nações.
corpo mais forte, mas aquele de espírito mais potente. Defron- Há uma invisível hierarquia de seres e valores, uma ordem
te ao seu dinamismo de alto potencial, a brutalidade é somente que ninguém pode subverter. Conquanto inerme e condenado
estúpida destruição. Que pode a ferocidade contra um explosi- ao martírio possa parecer o evoluído na Terra, ele pertence
vo? É belo observar a luta apocalíptica entre o anjo e o bruto. sempre a um plano de vida superior, do qual nenhuma conde-
Ela não é senão um momento da maior luta entre a luz e a tre- nação terrena poderá jamais arrancá-lo. Cada um é ligado às
va, entre Deus e Satanás. E Deus e a luz vencem. leis do seu sistema, e também o evoluído, que por ele finalmen-
Em qualquer nível, a vida exalta e faz triunfar aquele que é te é exaltado. A hierarquia é inviolável. Os vários reinos, mine-
o melhor em relação ao seu ambiente. Assim ela obedece ao ral, vegetal, animal, humano, super-humano, estão sobrepostos
seu campeão, vencedor do próprio plano. Dessa maneira, den- como os planos de um edifício, e cada um se eleva sobre o ou-
tro destes limites e relativamente às próprias capacidades, ele tro, dominando-o. Este é o equilíbrio da imensa construção do
é admitido à colaboração com a Lei na direção de fenômenos, universo. Direito, pois, à obediência dos inferiores, assim como
porque, como campeão, ele merece confiança; o tipo físico dever de obediência aos superiores. Ao comando estão ligados
domina só a matéria, o dinâmico domina a energia, e o tipo os pesos e a responsabilidade da direção; nele, pois, nunca arbí-
espiritual domina o espírito. Hierarquia de potencialidade e de trio e abuso, mas sempre função e missão. A Lei é um regime
domínio, pois que, no fundo, o mais forte é quem está mais no de justiça. Cada um gravita segundo o próprio peso específico,
alto na evolução, porque é aquele que mais manda. Ele opera no próprio plano evolutivo, isto é, encontra-se a viver na posi-
nas causas profundas, de onde tudo deriva depois; opera com ção que merece, conforme as próprias qualidades e real valor,
o espírito, que dirige a energia, e, através desta, atinge a maté- permanecendo, enfim, no sistema de força proporcionado e
ria, atuando sobre ela. O primitivo, crendo somente na força, adaptado a ele como vantagem e dever.
não pode compreender que a justiça, se vence mais tarde, Para ascender a um plano biológico superior, é necessário
vence mais profundamente do que a astúcia; não consegue en- haver antes percorrido e assimilado as experiências dos planos
tender que a inteligência e a bondade vencem afinal toda vio- inferiores, ter resolvido os problemas que neles nos atormen-
lência e que uma ideia, quando responde a uma função bioló- tam. A este propósito, muitos economistas afirmam que não é
gica, é mais potente do que um explosivo. O mais forte, no possível educar os povos para um mais evoluído nível de vida
sentido materialista, deve compreender que somente pode sê- sem antes ter resolvido o problema das necessidades materiais.
lo no seu campo animal-humano, fora do qual ele se torna um Afirma-se, como acima já indicamos (Introdução), que, com
fraco e inepto. Passando de um plano a outro, as posições se essas preocupações, não se pode pensar no espírito. O fato de o
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 31
homem moderno haver situado a questão nesses termos, revela se ou indivíduo pode vencer isoladamente. A vida já é coletivis-
a sua miopia, isto é, significa não ter compreendido qual é o ta há muito tempo. Se os mais evoluídos podem tirar da fonte, é
fim da vida, ou seja, a evolução. O erro está em exagerar a im- porque devem irradiar para os outros. A justiça social que hoje
portância do problema econômico e crer que a sua solução sig- tanto se procura, já existe na vida. Tudo nela está proporciona-
nifique resolver todo o problema da vida, que é bem mais am- do: fadiga, méritos, poderes. Quem não é digno, usurpa ou abu-
plo que o do estômago. E, então, perguntamos a nós mesmos: sa, recai nos planos inferiores, onde mais se serve, e é excluído
que saberá fazer do seu bem-estar um homem que, havendo re- dos planos superiores, onde mais se comanda. O vencedor deve
solvido o problema econômico e achando-se satisfeito em to- pagar a sua vitória em favor do vencido, que deve ser pago pela
das as necessidades materiais, por haver pensado sempre e so- sua derrota. Depois de ter cumprido, naquele plano, a justiça de
mente nisto, sem saber pensar em outra coisa, não possui ne- fazer triunfar o mais forte, a vida cumpre a justiça de ajudar o
nhuma preparação para um gênero de vida superior? Eis, en- mais fraco. Tudo é harmonia no conjunto, tudo é equilibrado
tão, o perigo já alhures notado. Não é lícito ignorar os fins da com justiça. As derrotas são compensadas e as vitórias são uti-
vida e limitar-se aos do estômago. A vida não pode parar ali e, lizadas, a força é estrangulada e a fraqueza é fortalecida; cada
se aceita essa meta, isto só se dá para subordiná-la a um fim um é exposto conforme a posição dada pela sua natureza, pois
mais alto. O nosso mundo materialista se detém nessa etapa, que é esta que estabelece e atrai os assaltos. A natureza, nunca
ignorando o resto, sacrificando tudo por ela. Ai de quem trair madrasta, compensará o servo à custa do dono e o débil à custa
os grandes fins evolutivos da vida! Esta quer ascender, não do forte. Este, mais dotado, crendo dominar, prestará ao outro o
quer por nada criar um gordo involuído, mas sim um evoluído, serviço de guiá-lo; o fraco servirá o senhor, mas este será o
não importa se magro. Em suma, para a vida, o problema do educador do servo. As barreiras sociais são artifícios humanos
nosso bem-estar é secundário frente à nossa ascensão, enquan- passageiros, já que a vida tende à unidade e, além dos antago-
to o homem inverteu os termos, tornando principal o secundá- nismos, propende à simbiose. Na realidade, o senhor não co-
rio e secundário o principal. Assim acontecerá que, se o ho- manda e o servo não se sujeita senão formalmente, eles convi-
mem não for preventivamente educado a saber fazer bom uso, vem, influenciando-se reciprocamente e adaptando-se um ao
para atividades mais elevadas, da abundância dos bens, do tem- outro; vencedor e vencido nada mais fazem do que executar
po livre e das energias disponíveis, dadas pela reduzida neces- funções complementares, das quais cada uma tem a sua com-
sidade de trabalho, então o mais alto nível de vida se reduzirá pensação. O dominador, com o bem-estar, se desfaz, e o servo,
somente a multiplicar os seus defeitos, excitando a cobiça de na sua dura posição, torna-se astuto e aprende a traí-lo. Assim,
gozar, a avidez de possuir, o ócio fatal. O novo poder do bem- alguns povos são mais inteligentes porque se tornaram astutos
estar, se obtido por um tipo não preparado, em vez de ser uma em milênios de servidão. Dessa maneira, em qualquer posição
vantagem, pode resultar em prejuízo. Não é pueril crer que se em que estejamos, a vida nos faz mestres e alunos um do outro.
possa satisfazer à insaciabilidade humana somente com uma No fundo de todas as dissensões e competições sociais, a vida
mais equitativa distribuição de bens? No fundo da alma de já estabeleceu as suas harmonias e as faz funcionar, colocando-
quem mais grita hoje contra a injustiça social não está o desejo as em atividade. Cada elemento tira do outro e cada um acaba
de alcançar uma equidade, mas sim de substituir aos atuais ri- por dar o que tem. Quem crê comandar serve aos servos, e
cos, para lhes imitar os feitos e de maneira mais desastrada. quem crê servir se faz servir pelos senhores. O mais forte não
Há, porém, um outro perigo. O bem-estar material adorme- pode deixar de irradiar e se expandir nos outros; o mais fraco,
ce o espírito, amortece a luta, o que faz parar a evolução e nos porque é mais pobre, absorve. Assim o mais forte, ligando-se
distancia da salutar fadiga, que é o meio para alcançar os mais ao mais fraco, lhe permite viver. Tudo se reduz a uma universal
elevados fins da vida. Que fizeram, historicamente, todas as convivência, na qual cada um, conforme sua natureza, atende a
classes sociais que asseguraram para si o bem-estar, senão apo- fins diversos, com objetivos complementares, formando a única
drecerem até à ruína? Para evoluir, portanto, não basta por si só grande orquestração da vida. Não há posição que não se com-
a solução do problema econômico, como sustentam as moder- pense de alguma forma do peso que a grava. Assim, o explora-
nas teorias igualitárias. Ninguém lhes nega a importância, mas do explora como pode o explorador, numa rede de desforras, e
é necessário compreender que isto ―por si só‖ alcança uma bem tudo se reduz a trocas fraternais. A vida utiliza todas as suas cé-
pobre solução, se ela não se faz acompanhar por uma paralela lulas, e, quer queiramos ou não, a convivência no mesmo ambi-
educação e preparação espiritual para saber viver em condições ente torna irmãos todos os seres.
melhores, fazendo de tudo bom uso. Que venha, pois, também a Qual é a sorte e a função dos fracos na sua economia? O
justiça social e a elevação econômica das classes menos abasta- número é a sua força. Assim, a natureza os protege. Por isto
das, mas tome-se em conta que, se tal crescimento não for eles se reúnem em grupos para se apoiarem uns aos outros.
compensado por um paralelo progresso moral e intelectual, tu- Sentem-se seguros somente entre as filas dos iguais; isolados,
do isto pode levar a uma ruína maior que a miséria atual, quan- estão perdidos. Não sabem pensar e agir sozinhos, mas pensam
do tantas coisas que se podem perdoar agora, seriam depois, em e agem coletivamente, como se fossem construídos em série,
condições melhores, imperdoáveis. E, hoje, é exatamente esta vibrando em paralelo. Desprovidos de qualquer autonomia, eles
sabedoria que falta, quando os bens não são meios para fins não sabem funcionar senão por imitação. Para saber pensar e
mais altos, mas somente fins em si mesmos e, com isto, motivo agir por si próprio, é preciso ter uma personalidade. As massas
de ódios e destruições. Que real vantagem evolutiva o bem- vão assim, como rebanhos, à procura de pastores. E a sociedade
estar econômico pode levar a esse tipo humano? De que serve já tem os seus homens-guias e normas-guias: instituição e che-
melhorar economicamente, quando se é imaturo para fazer disto fes, leis e costumes, civis e religiosos, em todo campo. O forte
um meio de progresso para planos de vida mais elevados? não vive na grei; ele emerge e se isola. A massa dos fracos é
As finalidades da vida estão acima das teorias humanas. necessária para fornecer ao forte o material com que trabalhar,
Elas querem levar a humanidade para o espírito, onde há maior mas um trabalho que serve para todos cumprirem os fins da vi-
poder e felicidade, e não fazer dela um rebanho de animais que da. Tudo se reduz a uma distribuição de funções. Deste modo, o
pastam. Todas as leis humanas, em qualquer campo, devem povo tem necessidade de chefes, assim como os chefes preci-
existir somente em função dos escopos da vida. É preciso com- sam do povo; os inteligentes têm necessidade dos ignorantes
preender os seus planos e segui-los, se não se quer ficar derro- para ensiná-los, e estes precisam daqueles para que possam
tado. Enquanto, na Terra, os homens lutam para monopolizar aprender; os bons têm necessidade dos malvados para ajudá-
egoisticamente tudo, a vida é sempre universal. Nenhuma clas- los, e estes precisam daqueles para evoluir.
32 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
Esses seres se combatem, no entanto não podem viver sozi- para se livrar das escórias, das incrustações, das superestruturas,
nhos; lutam para se conhecerem, chocam-se para se combina- que lhe impedem o caminho. Poda-se a árvore social, obra essa
rem, para encontrar a fórmula de sua simbiose. Se não é possí- em que todos colaboram a seu turno. O pensador lança a ideia, o
vel encontrá-la, então a adaptação sabe em geral alcançar a so- homem de ação a apanha e a aplica, as massas a fixam. Elas não
lução: o mais forte destrói o mais fraco e o substitui na vida. Se sentem analítica e racionalmente, mas intuem por instinto, no
isto parece cruel e desapiedado, é a esse sistema que a natureza fundo do qual é a vida que fala; são guiadas pela psique de seu
deve a sua força nos planos inferiores. Assim cada ser tem o núcleo vital. Os fracos, reunidos em grupo, sentem qual é a ver-
seu natural inimigo, segundo sua natureza e, nele, o seu conti- dade que pode executar a função biológica de ajudar e salvar e a
nuo exame de prova. ―Diz-me com quem lutas e te direi quem ela se apegam. Tal é, por exemplo, a materna e protetora função
és‖. Os grandes são solitários. Eles não aceitam a luta pelas pe- biológica das religiões, a que se agarram, mais do que todos, os
quenas coisas terrenas e não é com esta que se ligam aos seus fracos, os deserdados, os vencidos, à procura de ajuda para supe-
semelhantes, mas somente por missão de bem. Eles não agri- rar a dor, esperando e crendo. Eis o rebanho reunido e sectário.
dem os fracos, mas deles sentem piedade. O fraco tem sempre a Poucos são os fortes capazes de dar, em vez de pedir. Os demais
vantagem de ser menos odiado, pois não se odeia o inferior, que procuram apoio, uma defesa da vida, e os meios que os auxiliam
obedece sem oferecer obstáculos e pode, assim, ser dominado. cumprem uma função biológica.
Odeia-se, ao contrário, quem, sendo mais forte, representa uma O que observamos numa rápida visão não é senão um dos
ameaça e, por isto, é temido. Cada assalto, na natureza, é no aspectos da infinita sabedoria da vida. Dilatar os princípios aci-
fundo uma defesa. Todo ser é levado a agredir quem para ele ma expostos em ulteriores consequências nos levaria agora mui-
representa um perigo. Quando a simbiose não é possível, então to longe no caminho até aqui trilhado das ascensões humanas.
um dos dois deve perecer: o menos dotado. Dessa maneira, a
vida alcança os seus fins seletivos no plano animal-humano. VIII. A METAMORFOSE
Ela elimina os ineptos. Se isto parece ferocidade nos planos
mais altos, não o é em relação ao próprio nível onde se verifica Depois de examinada a seleção no plano animal humano,
e à sensibilidade dos seres que toca. O que justifica a vida é a observemo-la nos planos mais altos. Defrontamos agora o pro-
função. Se esta cai, aquela é inútil. As células imperfeitas dos blema que mais de perto interessa ao nascente tipo biológico do
grandes organismos são sacrificadas para vantagem e perfeição futuro, isto é, o problema daquela profunda transformação que
das outras. Esta é a condição do triunfo final. leva o ser humano do seu atual nível biológico para um evoluti-
Assim é a sabedoria da vida. O que é destrutivo, no fundo, vamente superior. Procuremos observar o fenômeno da meta-
é criador, e o que é negativo assume um valor positivo. E a morfose do involuído em evoluído, explorando os desusados
harmonia do conjunto, no caso particular do indivíduo inepto, caminhos da futura biologia supernormal. Daremos assim um
não é destruída senão na forma, pois ele é eliminado do ambi- novo passo para diante, sempre mais progredindo no caminho
ente que lhe é menos profícuo, enquanto o princípio espiritual da ascensão do ser. Poderemos então, paralelamente, ascender
reencontra a vida em uma forma mais adaptada. A vida segue para verdades sempre mais vastas e profundas. Aqui, a particu-
aqui um método geral e lógico para a eliminação dos valores lar experiência de um caso vivido, já exposta, torna-se visão
fictícios e das passividades, permitindo que, na desordem das das leis gerais do fenômeno. Completaremos, então, as normas
revoluções, na decomposição dos enquadramentos sociais, que regulam o desenvolvimento do ser nessa nova fase da sua
aflorem os extratos inferiores. Assim, a história, momento da evolução, distanciando-nos sempre mais do plano humano atu-
biologia social, entra em crise. Então, a vida procura superá-la, al. Mundo supernormal, que não se pode explorar experimen-
para dela sair mais forte e imunizada, como acontece nas do- talmente com o método objetivo, mas somente por visão interi-
enças. São esses os momentos em que os micróbios patogêni- or, com o método da intuição. É necessário apegar-se a esta, já
cos – compostos, tanto na patologia orgânica como na social, que o campo é inacessível à investigação racional. O mundo do
pelos involuídos dos planos inferiores – prosperam, só porque espírito não se pode explorar com instrumentos materiais, mas
encontram o ambiente adaptado para demolição. Micróbios so- somente com meios espirituais. Para o ser não sensibilizado, in-
ciais, que não afloram senão nas horas patológicas das revolu- capaz de conceber os conceitos que seguem, bem como de ob-
ções. Depois, eles são repelidos para os planos biológicos infe- ter sua visão por intuição, não podemos senão expor-lhe o re-
riores, seu ambiente natural, porque cada ser acaba sempre re- sultado racional, sem outra possibilidade de controle. Como
caindo no próprio plano de vida, por peso especifico, equilí- prova, podemos oferecer a concordância de todos os fenômenos
brio e sintonia. Assim, os filhos da desordem são depois reto- observados nestes volumes e que convergem para as conclusões
mados no ciclo de forças do seu mundo, pois que ninguém po- neles expostas. Quando tudo se enquadra e, logicamente, tudo
de resistir longamente fora do seu elemento. As posições fictí- se explica, a razão pode ficar satisfeita.
cias, não correspondentes aos valores reais, logo caem. Desse O problema da evolução do ser humano nos leva para fora
modo, os vencedores das revoluções raramente são os que as do campo dominado pela biologia normal, ao seio de uma ou-
fizeram, e depois se restabelece uma ordem diversa, da qual tra biologia, que domina um campo mais elevado. Temos dito
eles são expulsos. Inicialmente, as revoluções são destrutivas e que ela muda com o ascender evolutivo de grau em grau. Não
a vida, então, mobiliza a ralé incumbida dessa destruição. Po- é de se admirar, então, que, em um universo em contínua as-
rém depois, quando esses elementos exauriram sua função, censão, a utopia de hoje representa a realidade do amanhã. O
tornando-se inúteis, a vida se desembaraça deles, para chamar fato é comum na história da vida. Vejamos se compreendemos
à ação os mais evoluídos. Dá-se, assim, como que um processo a estrutura do tipo humano do futuro e as leis da nova biologia
de decantação ou depósito, pelo qual as unidades mais grossei- supernormal na qual ele se move. Enquanto o homem atual é,
ras e de maior peso específico, gravitando para baixo, aí retor- com prevalência, assinalado pelos seus caracteres físicos, o bi-
nam para se encarregarem de funções inferiores. ótipo do futuro o será por caracteres psíquicos. Confrontando
Semelhantemente, a guerra é o grande catalisador, isto é, re- as duas biologias, que evolutivamente são contíguas e comuni-
presenta a ação decisiva na química dos povos. Tudo isto a vida cantes, podemos dizer que aquilo que, hoje, é psíquico tomará
faz para voltar aos valores reais e, assim, garantir a eficiência da amanhã o valor e a precisão anatômica do que, hoje, é somáti-
função de cada um. Exame periódico de tudo, indivíduos, castas, co. Enquanto, hoje, o homem é considerado pela ciência como
povos, leis, instituições, para reformar, desfolhar, liquidar, dei- organismo prevalentemente animal, amanhã ele será conside-
xando somente o útil e o bom. Com esses meios, a vida trabalha rado como organismo espiritual.
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 33
Como se dá a criação de novas formas de vida? A existên- por graus, até que este último, fixado em novas formas, terá
cia se deve a uma contínua restituição por trocas, isto é, a um construído os meios e os órgãos para uma atividade superior.
movimento que, tendo uma direção natural, significa caminho A palavra alma é genérica, e o espírito não é uma quantidade
evolutivo. No íntimo de cada forma, está a perene imanência constante, mas um edifício em construção. O tipo biológico
do pensamento de Deus, que impele o ser a percorrer aquele do porvir pode representar, em face do atual, uma hipertrofia
caminho. A forma define precisamente toda sua posição su- psíquica, uma elefantíase espiritual, uma hipersensibilidade,
cessiva e, para não se imobilizar, torna-se destrutível, portanto uma dilatação de consciência e de conhecimento hoje incon-
suscetível de contínua renovação. Esse perpétuo morrer e re- cebíveis. Se confrontarmos o crescido funcionamento cerebral
nascer de todas as coisas é o que torna possível o transfor- e intelectual moderno com o do homem pré-histórico, pode-
mismo evolutivo, de outro modo impossível. Assim, o existir mos bem imaginar o que ele poderá vir a ser no futuro, conti-
é um tornar-se, mas ascensional; um relativo, mas sempre em nuando esse caminho. Ninguém pode negar as novas condi-
evolução. O pensamento de Deus, ao movimentar-se progres- ções de vida do homem moderno em um ambiente de veloci-
sivamente, faz pressão do interior para se manifestar na for- dade e de máquina. E ninguém poderá impedir que essas con-
ma, sua expressão. É evidente, e a vida assim nos diz, que a dições de vida, que são um desenvolvimento do passado, con-
expressão que dá forma a nós e a tudo que existe vai do mate- tinuem a se desenvolver no futuro e a influir sempre mais so-
rial ao espiritual e além. De modo que, com a evolução, aque- bre o gênero de experiências e, pois, de funções que comple-
la forma se faz sempre menos concreta e mais abstrata, tor- tarão a nossa vida de amanhã. Essas funções, tenazmente apli-
nando-se assim expressão sempre mais clara do íntimo pen- cadas por longa repetição ao organismo atual, só podem resul-
samento criador, portanto mais semelhante a ele. Temos visto, tar na transformação desse gênero, para criar um organismo
nos precedentes escritos, como se dá o desenvolvimento da novo, mais adaptado à sua atuação. Com a mecânica evoluti-
personalidade por expansão de consciência, por força da con- va, dada pela oscilação entre órgão e função, chegar-se-á ao
tínua experimentação que é o fruto da vida. Esta é a parte ex- novo tipo biológico, com características predominantemente
pressa pela colaboração humana, que segue com a sua fadiga espirituais, e não mais físicas.
o íntimo divino impulso criador. Aqui nos propomos observar esse fenômeno, concebendo-o
A ciência pergunta se a função cria o órgão ou o órgão cria não pelo lado ideal, mas biologicamente. Queremos ver o espí-
a função. Recordemos que o órgão é forma transitória, forma- rito não como vaga aspiração, mas enquadrado na biologia su-
da, sustentada e transformada continuamente pela função, que pernormal do futuro. Trata-se de uma nova biologia do espírito,
é a atividade na qual, gradativamente, se exprime o íntimo com suas respectivas leis, na qual o homem se prepara para in-
pensamento criador. O que é real na vida não é a forma, mas a gressar. Já dissemos alhures que a humanidade atual, em face
trajetória do seu tornar-se. É neste tornar-se que se manifesta desse novo plano evolutivo, se encontra psiquicamente na sua
o íntimo impulso do pensamento criador, em que o ser, com o fase paleontológica de incertas formações e precipitados esbo-
desejo, repete em ponto menor o gesto de Deus, tentando o ços. É a fase dos ensaios e das tentativas. Construções espiritu-
primeiro esboço do órgão. Cada ato, expressão daquele pen- almente monstruosas, que aguardam, para fixar-se, a verifica-
samento, vem logo experimentado pelas resistências do ambi- ção na experiência. Elas representam um primeiro funciona-
ente; é repetido se houver êxito e, com isto, fixado e desen- mento desordenado, que está plasmando o seu órgão, a consci-
volvido no crescimento do órgão, seu meio. Toda formação ência, hoje rudimentar. O fenômeno é originado pelo íntimo
atual da vida não é senão repetição de atos iniciais bem suce- impulso criador, amadurecido por todas as construções prece-
didos, confirmados na prática, consolidados em órgãos estabi- dentemente completadas, potenciado por todas as conquistas já
lizados, que permanecem até que haja evolução ulterior para a feitas. As experiências de hoje, sociais, artísticas, bélicas, inte-
formação de novos. Se, assim, é a função que cria o órgão, lectuais etc., representam também um exercício de novas fun-
não se pode negar que seja depois o órgão que permite à fun- ções psíquicas, que tendem a formar órgãos espirituais novos,
ção fixar-se e agir sobre ele para o transformar, aperfeiçoar e derivando-os daqueles rudimentares hoje existentes.
desenvolver até ao ponto de conseguir um meio superior Trata-se de uma verdadeira grande volta da evolução, que
àquela expressão, utilizando seu funcionamento para fazer quer levar a humanidade para um mais elevado plano de vida,
uma nova forma para si. Então é de novo a função que cria um deslocando assim o seu centro de gravidade. Nenhum período
órgão sempre mais perfeito, e assim por diante. Mas a este histórico foi mais intenso e ativo nesta transformação, o que
ponto ela não pôde chegar senão porque pôde primeiro mani- explica assim a destruição dominante e o universal dinamismo
festar-se e agir por meio do órgão já formado. Dessa maneira, do nosso tempo. A maioria tem somente o sentido da ruína,
tudo está concatenado em continuação, num lento transfor- mas no fundo dela, por lei da vida, está sempre a ressurreição.
mismo, e os dois meios de expressão, o órgão e a função, se Se a civilização europeia está morrendo, ela deixa no entanto,
escoram reciprocamente para chegar ao mesmo fim de evolu- como tudo que morre, uma semente, e cada filiação repete a
ir. Pois que toda função tende a formar um órgão sempre mais vida precedente em um grau mais elevado. A cada novo re-
complexo e perfeito e todo órgão permite que haja expressão bento seu, há um imperceptível deslocamento para um ciclo
de uma função sempre mais complexa e perfeita. Reciproca- maior. Tal como o fruto cai da árvore quando está maduro e o
mente, causa e efeito, órgão e função, são como duas pernas filho se solta da mãe tão logo esteja crescido – processo em
sobre as quais caminha a evolução. que o novo se destaca do velho, abandonando-o – assim tam-
Se esta, agora, se encaminha para o espírito (que sabemos bém, apenas a função esteja amadurecida e fixada, a nova ci-
representar um grau maior de liberdade, conhecimento, potên- vilização do espírito se destacará da velha civilização materia-
cia e expansão), é lógico que o íntimo impulso criador tenda, lista, que cairá abandonada como inútil. Toda vida é um ciclo
através da mencionada mecânica evolutiva, a transformar o que se renova e se dilata no ciclo seguinte. E, assim como a
organismo físico em organismo espiritual, através de um fun- vida percorreu e superou o ciclo mineral, vegetal, depois ani-
cionamento que, de físico, expresso por órgãos materiais, ten- mal e, enfim, humano, agora, pela mesma lei que a lançou por
de a fazer-se sempre mais espiritual, expresso por órgãos ima- esse caminho, ela deve percorrer o ciclo sucessivo, o super-
teriais. Já no atual grau de evolução, o homem começa a re- humano do espírito. Assim como, no desenvolvimento, o ciclo
presentar um funcionamento que se faz sempre mais nervoso mineral está para o vegetal, o vegetal para o animal e este pa-
e psíquico. Eis a fase de transformação do velho organismo fí- ra o humano, o humano está para o super-humano, que dele se
sico, com a formação de um novo organismo espiritual, e isto distancia em um ciclo mais alto, progredindo com o mesmo
34 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
ritmo de ascensão e desenvolvimento. O espírito, fruto da ex- passo a novas formas; daí um contraste penoso, mas criador.
perimentação por meio do organismo material, tenderá a des- Devem dar-se, então, profundas transformações na íntima estru-
tacar-se sempre mais da matéria, em cujo seio é elaborado, tura cinética da substância orgânica, para registrar e fixar os re-
para formar órgãos de expressão mais adaptados à sua nova sultados de um metabolismo diversamente orientado, para no-
estrutura, mais refinados para suas novas funções. Esta é a vas formas biológicas: as espirituais. Todas as energias e os re-
grande metamorfose dos futuros milênios. cursos da vida física devem ser cedidos à outra forma que sur-
Sendo tal metamorfose uma revolução biológica, é natural ge; todas as qualidades já adquiridas devem ser postas a serviço
que ela se verifique numa atmosfera de destruição e de renova- e orientadas para o seu crescimento, pois que, sem morte, não
ção. À sua testa estão os ideais e quem os professa; na sua cau- pode existir ressurreição; sem renúncia não há conquista.
da estão os instintos animais e os involuídos, que os vivem. É uma estranha sensação sentir-se renascer em outro pla-
Tais são as forças biológicas em contraste. As atividades que no de vida, com recursos e poderes diversos. Cai então o
fazem a nossa vida representam as várias funções formadoras conceito da pequena e breve vida humana, e nos sentimos vi-
de órgãos. A matéria, forte na sua formação do passado, resiste, ver em uma imensa vida eterna. O senso fundamental de ale-
mas o espírito já está em ação, e isto significa que está em ato o gre expansão, próprio de todo desenvolvimento, nos diz que
processo de formação dos novos órgãos de sua expressão. A estamos no caminho mestre da evolução. O senso de felicida-
permuta da vida e a assimilação dos frutos da sua contínua ex- de crescente nos diz que não erramos. O novo senso de orien-
perimentação não pode parar. O mineral chegou à construção tação, que nos dá consciência e sabedoria, nos diz que sem-
do seu edifício geometricamente orientado, a planta conquistou pre mais nos avizinhamos de Deus. É estranho e maravilhoso
a sensibilidade e a permuta, o animal alcançou o movimento e o sentir-se mudar, morrer para reviver em novas dimensões,
instinto, o homem atingiu a inteligência e o domínio. Assim, o além do espaço e do tempo, sentir que a própria vida física se
super-homem alcançará, com a intuição, o conhecimento e a atrofia, se contrai, para ceder a sua potência a qualquer outra
sabedoria. A progressão em potência e libertação é evidente, e parte do eu, que ainda não se conhece e que foge no impon-
o futuro não pode ser senão a continuação do passado na mes- derável. Parece que a vida física se esvai, absorvida pela vo-
ma linha de desenvolvimento. racidade do espírito. Se o corpo passa para segundo plano e
Na metamorfose evolutiva, o novo homem espiritual deve parece agonizar, ele é todavia sustentado, porém não mais
substituir o atual homem animal. As experiências da sua vida se por fontes orgânicas, e sim espirituais. Profundas alterações
tornam sempre mais psíquicas e sempre menos físicas. A nova devem advir na permuta e na assimilação, para passar da
função já está começada, e as suas experiências no novo campo normal, do alimento, à da energia cósmica, devendo a íntima
não podem deixar de desenvolver o meio apto que as exprima e estrutura do metabolismo celular transformar-se toda. Mas as
as fixe. Esse novo gênero de atividade se faz sempre mais di- leis da vida sabem conduzir-nos a bom termo.
fundido e profundo na raça humana; resulta disto que se desti- Então, começa-se a ver o mundo com olhos diversos, tor-
lam sempre novas qualidades no imponderável, que assim, nando-se de natureza diversa o contato com o ambiente; apare-
amanhã, tornar-se-á de pleno domínio humano. Dessa forma, os cem, então, novos aspectos, mais psíquicos do que físicos. As-
novos organismos imateriais se desenvolvem e se potenciam sim, os contatos e as experimentações se espiritualizam, as tro-
até se elevar à forma autônoma e, através de sua coordenação, cas e abastecimentos dinâmicos seguem novos caminhos radi-
constituir um organismo para o qual, do plano material, será antes, que não são mais os do alimento. A sensibilidade, que
transferido o centro do sistema de forças da vida humana. As- exprime o grau de expansão vital e fornece os seus meios, ini-
sim, a função psíquica, derivada da atividade gerada pelo fun- ciada com o ingresso do reino mineral no vegetal e acentuada
cionamento orgânico animal através da luta pela vida, torna-se no mundo animal e humano, se desenvolve até transformar o
dominante e determinante de um diverso organismo dele deri- organismo em uma unidade vibrante. O evoluído é um sensibi-
vado. De modo que o organismo físico, antes principal, em fun- lizado. Nele abrem-se novas portas, com a queda de diafrag-
ção do qual existia a psique, torna-se secundário e acaba por mas, permitindo comunicar e receber. Então, além do limite do
viver em função do psíquico, tornado dominante. Enquanto ho- espaço e do tempo, o mundo se torna imenso. Entra-se, depois,
je, para a maioria, o espírito é uma antecipação rudimentar da no domínio de novas leis, com um funcionamento orgânico e
evolução e o corpo é toda a sua vida, amanhã a vida estará toda uma química cujos elementos componentes são forças-
no espírito e o corpo não representará senão um apêndice aban- pensamentos, um mundo dócil e plástico, em que a concepção
donado na cauda pela evolução, resíduo do passado, em proces- tem potência criadora. É, por certo, uma grande revolução pas-
so de lenta atrofia. Um dia, como hoje se dá com alguns órgãos, sar da biologia normal à supernormal. A química do metabo-
todo o atual organismo será uma sobrevivência atávica, um re- lismo de alta potencialidade, própria do extremo superior, dito
síduo de formas vividas e superadas, que o ser se prepara para espírito, deve gradativamente introduzir-se, substituindo a
abandonar definitivamente nos mais baixos degraus da evolu- química do metabolismo de baixa potencialidade, própria do
ção. Então, o homem viverá em plena biologia supernormal. A extremo evolutivo inferior, dado pelo organismo físico, que é,
esta conclusão nos leva toda a lógica do sistema. assim, como queimado pela lenta combustão de uma potência
No estado atual, o homem está em fase de transição entre as e um ritmo de vida demasiado fortes para os seus meios e es-
duas biologias: a animal e a espiritual. Isto corresponde ao uni- trutura. O corpo, assim, emagrece, torna-se em feixe de nervos,
versal transformismo físico-dinâmico-psíquico. Em um primei- mas com um dinamismo e resistência ao trabalho e doenças
ro tempo, a psique, produto do funcionamento orgânico, está a superiores ao normal. Parece que a vida trata agora o organis-
serviço deste; em um segundo tempo, quando aquele produto mo físico como uma inútil sobrevivência atávica, produto de
elaborado pela vida orgânica se tornou adulto, o equilíbrio do refugo a ser eliminado em cinzas. Certamente a química do es-
sistema de forças constitutivas do ser se desloca e tudo começa pírito não só deverá basear-se em leis análogas às da química
a gravitar para outra extremidade. Então, o corpo torna-se de inorgânica e orgânica, mas também, assim como a química
senhor em servo, de fim em meio, e a sua atividade, em vez de atômica recorda a dinâmica astronômica, deverá lembrar a es-
subordinar a si o espírito, como no tipo corrente, subordina-se trutura dos sistemas de forças segundo os quais a energia se
ao espírito, como nos mais evoluídos. Isto desloca todos os va- organiza por frequências. Um primeiro contato entre o extremo
lores da saúde e da doença, do bem-estar, da vida e da morte. psíquico e aquele físico humano, o encontramos na influência
As velhas formas de vida ficam esvaziadas do conteúdo normal que tem na assimilação e permuta um estado psíquico do sujei-
e com significado de todo diverso. Então, elas devem ceder o to, tanto que, se prolongado, ele pode incidir na estrutura orgâ-
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 35
nica e alterá-la. Isto prova que é possível, por parte da psique, te. Então, em vez de elevar o homem ao nível do espírito, abai-
uma influência transformadora na estrutura da célula. xa-se o espírito ao nível do homem. Em vez de efetiva colabo-
Como se vê, a catarse espiritual não é somente fenômeno da ração entre os dois, nasce luta e atrito, destruição e deformação.
alma, mas, para ser completa, deve conter todo o ser humano até É da forçosa imposição da virtude que nasceram em tantos ima-
o seu outro polo, o físico, com que se comunica. As duas biolo- turos os arranjos e as mentiras.
gias estão em contato, representam dois planos evolutivos contí- A evolução é mudança profunda, que requer infinitas expe-
guos e trocam entre si os seus produtos. Na prática, podemos ter riências, mesmo do mal, do erro e da dor, operadas tanto no
metamorfoses muito diversas, seja pelo grau de evolução, seja espírito como no corpo. Para que a vida, que deve viver, não se
pelo particular tipo biológico que as vive e, portanto, pelas res- rebele com razão, é preciso, antes de destruí-la embaixo, de-
pectivas qualidades a serem adquiridas. Que diverso conteúdo senvolvê-la no alto. Antes de ser sufocamento no corpo, a as-
pode, pois, adquirir para os vários indivíduos a metamorfose! censão espiritual deve ser expansão no espírito. Somente então
Em todo caso, porém, como velocidade, o transformismo é sem- a vida se lançará deste lado, e o resto, tornado inútil, cairá por
pre gradual, diluído no tempo, de modo a permitir os íntimos si. Ai de nós se dermos à prática da virtude um conteúdo nega-
deslocamentos cinéticos necessários para a substituição das ve- tivo, em vez de positivo. A vida não pode destruir-se, o que se-
lhas trajetórias pelas novas. Mas tudo é sempre proporcionado ria contra a lei de Deus, além de ser um suicídio. Então, se qui-
aos recursos disponíveis e à maturidade atingida. Tudo se realiza sermos tirar antes de dar, ela reagirá, reforçando-se embaixo
com ordem, de modo que os equilíbrios são deslocados, e não para não morrer, e obteremos por reação o efeito contrário, isto
destruídos. Trata-se de instituir novos circuitos de forças, lançar é, a involução. É preciso sempre ter em conta a que tipo bioló-
pontes e suprimir outras, abrir ou fechar passagens, dissecando gico um ideal é aplicado. Assim é que se explica como, na prá-
ou alimentando, atrofiando ou desenvolvendo este ou aquele tica, todo ideal representa uma afirmação teórica que pede
ponto, ou vibração, ou corrente. Trabalho complexo, onde nada cem, sabendo que recolherá apenas um. É a natureza das mas-
mais há senão confiar-se à sábia direção da Lei. A vida, que sa- sas que estabelece a dosagem para a assimilação dos princípios
be, protege nesses profundos trabalhos evolutivos a criatura que, pregados, aos quais, por isto, não se pode lançar a culpa de
inexperiente, se aventura no inexplorado. uma aplicação falha, porque esta depende do terreno no qual a
Velocidade de transformismo significa intensidade de ela- semente cai. É preciso recordar que a evolução é uma grande
boração, que não pode superar um dado limite relativo. A evo- transformação e que a vida sabe o esforço e o risco que isto re-
lução tem um ritmo que não se pode forçar. Pode, assim, haver presenta para ela. Ela caminha lenta e prudentemente, explo-
necessidade também de pausas e repousos, ainda de momentâ- rando o ignoto futuro com desconfiança; das energias acumu-
neos retrocessos, para que a evolução não se torne destruição. ladas, não arrisca o necessário à vida, mas somente o supér-
Problema vasto e complexo o da ascensão espiritual, porque diz fluo; expõe aos perigos do novo somente alguns pioneiros da
respeito a uma biologia na qual o imponderável psicológico e evolução, deixando o grosso atrás, em mais segurança, para
moral se torna força dominante. Certas concepções absolutistas aprovar ou seguir os pioneiros somente quando eles tiverem
de um ascetismo não iluminado podem, em vez de ajudar, cau- experimentado sozinhos, com risco e dor própria, a forma futu-
sar dano ao processo evolutivo. Este representa uma maturação ra. Então, esta pode ser seguida pelos outros, porque somente
de todo o ser, por isto também do corpo, que não deve ser inu- aí ela dá segurança. Assim, os pioneiros ficam glorificados,
tilmente perseguido e esmagado como um inimigo, mas tratado porque utilizáveis para a vida.
como um aliado colaborador na árdua obra construtiva. Os dois Podemos, pois, encontrar-nos com diversíssima velocidade
polos são comunicantes, e cada impulso desconsiderado pode de transformismo evolutivo: desde a rapidíssima do super-
gerar reações prejudiciais. Nenhum dos dois extremos pode tra- homem, que já se lançou e percorre a grandes passos o seu ca-
balhar sozinho, mas sempre em função do outro. Trata-se de minho, até às mais limitadas e lentas dos normais, que funcio-
uma sábia distribuição de trabalho. É necessário haver propor- nam em série, como massas. A vida não pode ingressar nos
ção e equilíbrio a cada passo, porque o desequilíbrio que o planos superiores da evolução sem ter antes percorrido os pre-
transformismo implica deve ser enquadrado no equilíbrio geral cedentes e haver se consolidado neles. É a vida, e com ela o
do sistema. É necessário saber dosar o esforço evolutivo em re- pensamento de Deus, que aperfeiçoa a sua manifestação, dando
lação aos recursos que a vida dispõe no caso particular. Que a evolução à forma pela qual se manifesta.
ascensão seja uma metódica e consciente conquista, e não uma Mas também as massas conhecem as crises evolutivas, as
louca aventura. Evoluir significa revolucionar os equilíbrios da quedas e as reconstruções; também para elas a história tem
vida, o que, se mal feito, pode resultar, em vez de progresso, voltas e metamorfoses. Eis como tudo isto acontece. A fecun-
em retrocesso. Para se fixar na alma é necessário haver mais didade da vida é tal que produz em exuberância, além das ne-
perseverança e disciplina do que ímpetos precipitados e desor- cessidades para sua continuação. Logo que, nos períodos de
denados. É preciso ter em conta que a evolução espiritual é um paz, há trégua na luta viril, destruidora e construtora, o ele-
fenômeno que se desenvolve entre duas biologias, portanto não mento negativo ou feminino, produtor, protetor e conservador
é somente um fato moral, mas penetra todo o organismo, tam- da vida, trabalha e produz no seu campo, que é o da acumula-
bém o físico, com o qual precisa fazer as contas. ção de material. Então se verifica, assim, uma superprodução
É muito difícil formar um conceito exato e são de virtude, que não somente repara todas as perdas passadas, mas também
especialmente no caso particular das aplicações práticas. De to- acumula material biológico em abundância. Logo que se haja
da maneira, ela deve ser sempre um auxílio, e não uma ofensa à formado uma suficiente reserva, elaborada até um dado grau
vida, uma atividade positiva e construtiva, e não de prevalência de evolução, então a vida, tal como já fez no mundo mineral
negativa e destrutiva. Lembremos que Deus é sempre construti- para chegar ao vegetal, em seguida no vegetal para chegar ao
vo, e que o trabalho de destruição foi deixado a Satanás, que o animal e depois no animal para alcançar o plano humano, pode
executa. Tudo o que é destruidor não pode, pois, vir de Deus e arriscar em sua economia o sacrifício desse material excedente
exprime o princípio satânico do mal. Não façamos da virtude, ao necessário, para fins não mais de conservação, mas de evo-
na luta pela vida, um meio para oprimir e vencer o próximo. lução. Então, a vida queima esse seu combustível e o consome
Por outro lado, ministrar ideais muito elevados e absolutos sig- em revoluções, usando-o para alimentar um esforço excepcio-
nificaria oferecer um alimento não assimilável. Desta despro- nal de ascensão, destruindo com as revoluções as suas constru-
porção entre ideal e homem é que nascem as degradações dos ções biológicas menos eleitas e, ao mesmo tempo, deixando
princípios por adaptação, como observamos tão frequentemen- sobreviver das cinzas do incêndio os mais selecionados tipos
36 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
biológicos, aptos para mais altas formas de vida. Completado o pois, tal como faz o pé ao subir, um novo impulso para um de-
ciclo da paz com a construção dos seus produtos, entra em grau mais alto. Os superados são abandonados embaixo, como
campo o princípio positivo, másculo, destruidor e criador, cuja formas de vida já inúteis, mas os superiores, pelo fato de domi-
função é utilizar o combustível acumulado, queimando-o para ná-los, resumem em síntese e contêm todo valor já adquirido.
renovar e fazer evoluir as formas da vida. Assim, nas revolu- Assim, nada se perde e a conquista continua.
ções, cumprem-se as metamorfoses dos povos. Mas essas não Nesse movimento vivem dois processos paralelos: um de
podem vir senão depois de períodos de preparação, de paz, e destruição na cauda e outro de construção na cabeça, à seme-
requerem outro tanto depois para elaborar e fixar os resultados lhança de vermes que caminham desintegrando-se de um lado
atingidos com as revoluções. No entanto se acumula novo ma- para reintegrar-se no outro. Assim este, mesmo enquanto se
terial de reserva ou combustível para as queimas, para novos transforma ao progredir, fica inteiro, pois que readquire em no-
deslocamentos evolutivos, e assim por diante! Dessarte, de me- va forma aquilo que perde. Na substância nada se cria e nada se
tamorfose em metamorfose, também os povos progridem. destrói, mas tudo se elabora. No homem que ascende, há sem-
Esse processo faz parte do sistema criador, em que Deus pre qualquer coisa que se deixa e qualquer coisa que se adquire,
perpetuamente está presente e opera, manifestando-se na for- em um movimento paralelo e proporcional que o desloca para o
ma. Assim, a produção exuberante como quantidade, mas de alto. Essa técnica é igual para todos, em todo nível, relativa ao
qualidades inferiores, destila-se no seu equivalente, menor passo de cada um, seja ele involuído ou evoluído, caminhe in-
como quantidade, mas de qualidade superior, em um plano conscientemente, somente como célula em função de uma mas-
biológico mais elevado. Dessa maneira, aumenta a potenciali- sa, ou como autônomo e consciente, autodirigindo-se.
dade da expressão, porque o valor passa de um grande número Evoluir é o motivo dominante neste e nos outros volumes,
de exemplares de escasso valor, a um mais exíguo, mas de observado em todos as aspectos e níveis do nosso concebível.
maior potência e mais elevado grau evolutivo. Esse é o ritmo Vimos isto alhures, como fenômeno inspirativo, psicológico,
da ascensão dos povos e civilizações. Primeiro paz, trabalho, místico e filosófico. Aqui, quisemos observar como fenôme-
desenvolvimento demográfico, construção material e espiritu- no biológico. Quando um primitivo resolveu o problema da
al, isto é, expansão em sentido horizontal sobre a superfície do fome e da reprodução, está satisfeito com suas conquistas.
próprio plano evolutivo, depois aquela formação horizontal é Outros querem alguma coisa a mais: honras, poder, riquezas.
utilizada para o único fim possível, isto é, para crescer na ver- Outros ainda mais: a cultura e o bem coletivo. Outros, enfim,
tical. Então, a primeira se desfaz e, do que resta, porque é mais um pouco mais: a visão do universo e o amor de Deus. Mas
resistente e vital, faz-se um edifício em altura, isto é, em dire- todos apressam o passo para alcançar qualquer coisa, e nisto
ção evolutiva, em potência. Utilizando os resultados do ciclo cada um se revela quem é, pois que não se sabe desejar e não
precedente, toma-se o impulso para um novo, podendo assim se conquista senão conforme a própria natureza. Assim, há
chegar bem mais alto, ao utilizar somente o valor intrínseco e a trabalhos e conquistas fundamentais para alguns, que para
potência das conquistas feitas, sem trazer consigo o peso dos outros estão no inconcebível. Há coisas tremendas, para as
particulares elementos determinantes. Assim, de revolução em quais o inferior não tem a mínima ressonância. Há necessida-
revolução, caminha a história e evolui a vida. Dessa maneira, des espirituais, como as do conhecimento, que para uns são
por alternada vicissitude entre paz e guerra, entre períodos de fundamentais, mas que para o primitivo não têm sentido, pois
legalidade, representando a fase de estabilização e assimilação, fundamentais para ele são as do corpo. Ele é surdo e cego em
e períodos de ilegalidade, representando a transformação, ca- face das grandes alegrias, tempestades e criações do espírito.
minham os povos. Estas fases, ambas necessárias e comple- Cada um está fechado no próprio concebível, nas dimensões
mentares, são como uma respiração a dois tempos, a respiração do próprio plano evolutivo, limitado pela própria forma men-
da história. Elas não são senão duas posições inversas, uma no tal, que lhe define a natureza. O que está além do próprio ní-
positivo e outra no negativo, da mesma perene atividade cria- vel, latente, ainda não desenvolvido, representa o nada. É a
dora de Deus na humanidade. estrutura da nossa consciência que estabelece os confins do
No seio desses movimentos de massa, os indivíduos seguem eu. A verdadeira servidão é dada por esses limites, a verda-
ciclos pessoais. Aquele para, aquele caminha, aquele retrocede, deira liberdade consiste somente em superá-los. Todo ser está
aquele procede lentamente, cada um segundo sua natureza e fechado nos limites constituídos por seu próprio tipo biológi-
condição. Mas é sempre por revoluções ou metamorfoses que co. É inútil indicar-lhe portas: se não está amadurecido, não
se ingressa em formas de vida mais altas, é sempre pelo mesmo sabe passar por elas. É inútil mostrar-lhe novos mundos: não
incêndio que se ascende, tanto para o indivíduo como para as tem olhos para vê-los. É inútil oferecer-lhe novo alimento:
massas. Quando, num plano, experimentou-se suficientemente, não sabe nutrir-se dele. É inútil dizer-lhe tudo nos livros: não
tendo absorvido todos os recursos, então o ser, saturado daquela o sabe ler neles. Ele está integralmente preso às experiências
ordem de forças, transforma-se e aporta a um plano mais eleva- do seu plano. Até que tenha percorrido toda a estrada neces-
do, para experimentar outras formas de vida e, dessa forma, po- sária, um passo depois do outro, não poderá chegar àquele
der continuar, com novos elementos, a sua construção, e assim dado grau de evolução, de liberdade e de potência.
por diante. Observando o processo das metamorfoses do huma- Na atual fase evolutiva humana, hora histórica de grandes
no ao super-humano, temos delineado a trajetória dos grandes transformações, os dois tipos biológicos pertencentes às duas
ritmos da evolução, isto é, das oscilações periódicas dessa biologias, normal e supernormal, estão-se defrontando. O se-
grande respiração criadora de Deus. Podemos, assim, ver um gundo, se bem que raro, já existe para se multiplicar e se
aspecto da técnica da criação, que é contínua. Parece que esta- afirmar, e eles se podem medir na luta pela vida. À primeira
mos contemplando uma ascensão ao longo de uma escada, da vista, pode parecer que o primitivo, mais simples e menos
qual todo degrau é um plano de evolução. O pé do ser que sobe sensibilizado, seja o menos vulnerável, o que tem maiores
pousa sobre um deles, ajeita-se e, somente depois de consolida- probabilidades de salvação. Mas não é assim. Ele se move por
da a sua posição, pode tomar impulso para subir ao degrau se- tentativas, nas trevas da sua ignorância e, fora dos imediatos
guinte. A ascensão de um degrau representa uma revolução, a problemas, nada mais sabe resolver. O evoluído é autônomo,
formação de uma nova civilização para os povos, a metamorfo- autodirigindo-se em relação ao funcionamento orgânico do
se para o indivíduo. Mas assim como, feito o esforço e realiza- universo, que ele conhece. Suas previsões e defesas alcançam
da a ascensão, os povos se acomodam nas novas posições para muito mais longe. A inteligência é uma grande força na luta
fixá-las, também o indivíduo repousa nelas, para retomar de- pela vida, a sabedoria é uma força ainda maior. O primitivo é
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 37
estúpido. A sua violência pode triunfar no momento, mas per- problemas e às raízes dos fenômenos, mostrando seu funcio-
de no jogo mais longo e complexo que a vida constitui. Ele namento substancial. Assim sendo, a nossa exposição não po-
deve suportar as reações de leis que não conhece e que, lou- de assumir, conforme a hodierna mentalidade objetiva, a for-
camente, viola em seu dano, coisa que o evoluído, que sabe, ma periférica aderente aos efeitos, pois é central, aderente às
nem pensa fazer. Quem sabe proceder em harmonia com o to- causas. As deduções, as aplicações ao caso particular, o ínti-
do arrisca-se muito menos a errar e a sofrer. As vitórias do mo e incomunicável controle experimental que o autor fez por
primitivo são imediatas, mas efêmeras. Afirmações, defesas e si mesmo, qualquer um poderá depois fazê-lo em si e por si.
conquistas, nada pode superar os limites do próprio plano, que O precedente exame da metamorfose humana ou catarse fí-
são sempre tanto mais acanhados quanto mais em baixo se sico-espiritual nos tem levado plenamente ao fenômeno da
desce, e sempre tanto mais vastos quanto mais se sobe. As evolução, de cuja técnica nos propomos agora aprofundar a
mãos do ser evoluído alcançam muito mais longe. Está-se observação. Devemos aqui presumir o conhecimento do pro-
inexoravelmente ligado à própria natureza, resultado do nosso blema da personalidade humana, tratado no precedente volu-
passado, e se recai sempre no prejuízo dos próprio limites. me: A Nova Civilização do Terceiro Milênio. Trata-se aqui de
Nenhuma liberdade humana pode dar a verdadeira liberdade, desenvolver aqueles conceitos, especialmente com relação à
que não se pode conquistar senão através da própria transfor- evolução. Vimos que espírito e corpo são os dois extremos de
mação. As verdadeiras prisões que encarceram os homens, as um mesmo organismo, os polos inversos de uma mesma uni-
cadeias que os mantêm escravos, ligados a dados pontos fixos, dade. As características do corpo são físicas; as do espírito,
são os seus instintos, que os prendem aí. Os verdadeiros mu- psíquicas. De um lado, qualidades materiais sensorialmente
ros de contorno que limitam a cidade do eu são imponderáveis ponderáveis; de outro lado, qualidades imateriais, imponderá-
e, no entanto, invioláveis; todos estão inexoravelmente fecha- veis. Assim é pelo princípio universal de dualidade e por lei
dos dentro deles e não os veem. Não suspeitam sequer que de- geral de equilíbrio, simetria e complementaridade, segundo o
les se possa sair e vão gritando liberdade, uma liberdade que que toda individualidade é uma unidade equilibrada e simétri-
quer dizer direito de obedecer aos próprios instintos, isto é, de ca, feita de duas unidades inversas complementares. Essas du-
ficar nas cadeias da própria escravidão. Assim todos obede- as partes do organismo único dividem entre si, conforme sua
cem, mesmo quem crê ser um rebelde à Lei, que mantém to- natureza, o trabalho e a função da vida, sendo opostas e ambas
dos, não importa que o saibam ou não, enquadrados na sua necessárias. Assim, o dinamismo biológico, base da evolução,
ordem. Para se moverem livres e autônomos basta conhecê-la se divide em dois. O corpo trabalha no exterior, em uma forma
e, depois, segui-la. Para se tornar sempre mais livre e autôno- de atividade periférica e sensória; ocupa-se, pois, do registro
mo, para derrubar os invisíveis muros que cingem a cidade do das experiências e da transmissão ao centro, que está no outro
eu e arrombar as portas que os fecham, mais não há que ape- polo do ser. O espírito, que é íntimo, central e sensitivo, é o
nas compreender a Lei e harmonizar-se com o seu funciona- ponto de chegada daquela atividade. Ele trabalha no interior,
mento, vivendo-a; mais não há senão subir evolutivamente, em forma inversa, complementar da primeira, que, sozinha,
operando a própria metamorfose. não teria finalidade. Ele elabora e fixa os registros que lhe são
transmitidos, assimila-os e os transforma assim em material
IX. A TÉCNICA DA EVOLUÇÃO construtivo da personalidade. Somente dessa maneira, a vida
física assume um significado e uma meta; e esta meta é a evo-
Iniciamos este volume partindo da psicologia do involuído lução, que significa contínua conquista da vida.
Desse ponto é que se iniciou a nossa ascensão, estudada ante- Os dois termos são necessários um ao outro; o corpo como
riormente em um simples caso vivido, experimentalmente ob- instrumento do espírito, e o espírito enquanto dá significado,
servado. Depois, para tomar o impulso a uma ascensão mais valor e direção à vida do corpo. A colaboração é possível,
vasta, dilatamos a observação a todo o plano inferior da ani- porquanto os dois termos e os seus trabalhos são opostos e,
malidade, para ver suas leis de luta e seleção para a produção ainda que rivais, não valem senão enquanto ficam ligados pa-
do seu tipo mais forte, de acordo com a biologia daquele pla- ra se completarem. Esses princípios gerais definem logo a es-
no. Enfim, no precedente capítulo, para passar ao plano mais trutura do complexo humano, no seio da qual já podemos ver
alto e à sua biologia, pusemos em foco a observação do fenô- assim como funciona o dinamismo biológico de onde se des-
meno da metamorfose do humano em super-humano, porém prende a ascensão evolutiva. Temos então dois campos de
não mais como antes, numa particularidade, mas estendendo o força opostos que, assim como no amor e no ódio (o negativo
estudo até à visão das leis gerais do fenômeno, que o regulam do amor), se abraçam para se sobrepujarem, logo que um dos
para todos. Alcançado esse ponto, podemos estender o nosso dois seja menos forte. Também, como nos dois sexos, nenhum
exame à íntima técnica do mais vasto fenômeno de toda a pode operar isolado. O espírito, sozinho, não teria expressão e
evolução. É maravilhoso observar o método pelo qual ele fun- contatos no plano físico, que, embora sendo ilusório, tem de
ciona e se cumpre, pois que exprime a técnica do processo da transmitir à consciência, através da ilusão dos sentidos, expe-
criação, sistema com o qual se realiza a perene ação criadora riências que, no seu campo, lhe são bem reais e necessárias
de Deus. Este, pois, além de transcendente, é também imanen- para a sua formação. Sem o espírito, faltaria o dinamismo
te e presente, qual pensamento que sempre mais perfeitamente animador ao corpo, que então seria apenas um cadáver. Como
se exprime na forma evolvente, em que ele se manifesta. sempre, todo trabalho genético não se pode verificar senão
Também este fato é aqui relatado por meio de visões percebi- por junção dos dois termos contrários.
das por intuição. Elas, assim, fazem-se sempre mais vastas e Qual é a relação entre os dois termos? Na correlação de
profundas à medida que o argumento se desenvolve, fazendo- causa e efeito, eles, se bem que contrários, estão em íntima co-
nos ascender de plano em plano, o que nos levará a compre- laboração. O motor, o princípio centralizador, o eu sempre uno
ender o espírito e a sua estrutura. Do fato de tais concepções ao longo das suas contínuas transformações, é o espírito, intui-
serem obtidas não por análise, através do método racional ob- tivo e sintético. O seu meio e expressão é o corpo, sensorial-
jetivo, mas sim por síntese, com o método da intuição, deriva mente analítico, imerso no múltiplo, relativo e contingente,
a sua potência, com a qual elas são aqui apresentadas. En- constrangido a uma contínua troca e renovação para suprir a
quanto a mente moderna se demora na investigação do parti- sua caducidade, feito de um contínuo tornar-se. É justamente
cular e na infinita casuística, aqui se concebe por grandes li- essa contradição que os obriga a se unirem e se completarem.
nhas de orientação, indo, assim, diretamente às soluções dos É erro, pois, considerar o homem somente como espírito, igno-
38 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
rando e desprezando o corpo, como fazem alguns espiritualis- dos dois precede o outro no respectivo desenvolvimento. O
tas e místicos, ou considerar o homem só como corpo, igno- órgão está no corpo, a função está no espírito, e eles cooperam
rando e desprezando o espírito, como fazem os materialistas. A para o mesmo fim de fazer o homem. Através dessa alternada
vida nunca é unilateral, desequilibrada, assimétrica. E, se há vicissitude, dão-se as mutações, as variações tanto do indiví-
contraste entre os dois termos, assim é para um escopo cons- duo como da espécie, fixando-se, primeiro, no imponderável
trutivo, uma luta que se deve resolver com a evolução. Se, para e, depois, na forma física que o exprime. A adaptação é psí-
o normal, vigora a norma áurea da ―mens sana in corpore sa- quica e orgânica a um tempo, sendo as duas formas conexas.
no‖, para quem vive a metamorfose biológica é necessária a Iniciando-se a evolução no espírito, o corpo depois deve se-
luta entre espírito e corpo, a fim de chegar à vitória do primei- gui-la, ainda que ele esteja sempre no final desse caminho.
ro e passar além da vida do segundo. Esta é a técnica da evolução. Ela resulta de dois movimen-
A atual biologia se detém no corpo, isto é, no efeito, dei- tos em duas direções opostas. O dinamismo do espírito gravita
xando de penetrar as causas, que estão em outra biologia, de para o interior, abre caminho para a substância, o infinito, o
tipo transcendental, ou seja, espiritual. Desta, então, a ciência eterno, o absoluto, a essência de Deus; a atividade do corpo
vê somente a sua expressão no mundo físico, que é a forma dirige-se para o exterior e explora a forma, o finito, o transitó-
material. Todavia, sendo o corpo uma projeção do espírito, a rio, o relativo, a manifestação de Deus. Quem compreendeu
ciência, adiantando-se sempre mais na observação da íntima qual é a estrutura do universo sabe que este é constituído por
estrutura das coisas, não poderá encontrar outra coisa senão o um esquema único, repetido em todas alturas e em todas as
espírito. O corpo existe enquanto há uma causa em si, que ele dimensões da evolução, portanto acha lógico que, no comple-
exprime e revela, como o universo físico exprime e revela o xo humano espírito-corpo, seja repetido o modelo do comple-
divino pensamento que o anima. O corpo é manifestação do xo universal, onde a unidade é dada por uma dupla de opostos
espírito, como o criado é a manifestação de Deus. Ora, se, no complementares, em que Deus e universo, transcendência e
homem, o espírito, que é causa, precede a forma, que é efeito, imanência, equilibram-se. A vida e a sua elaboração evolutiva
plasmando-a à sua imagem e semelhança, por sua vez o efeito são dadas pela contínua troca dinâmica entre os dois campos
reage e se torna causa, cujos efeitos, depois, estarão no espíri- de forças. Cada uma das duas é por sua vez agente e reagente.
to, tornando-se então uma nova causa e assim por diante. Já O dinamismo circulante entre eles inverte o seu sinal a cada
vimos isto a propósito do órgão e da função. A vida do corpo passagem. Assim, fecha-se o ciclo, e o dualismo reencontra a
é um meio de experimentação que elabora o espírito, mas po- unidade em um único circuito. Por períodos inversos, o traba-
demos também dizer que a potência do espírito elabora para si lho é contínuo, porque, quando ele é ativo na sua forma posi-
o seu corpo. Se é verdade que o espírito serve-se do corpo pa- tiva, de vida exterior diurna, então está inativo na sua forma
ra armazenar os resultados experimentais de um exterior feito negativa, de vida interior noturna, condições que se invertem
de tenazes resistências, ele também os transcende, transfor- no período oposto. Positivo e negativo são duas posições rela-
mando-os dentro de si em qualidades do eu e em valores espi- tivas, que se invertem, tornando-se negativo e positivo, de
rituais. Estes modificam, então, a estrutura do campo de for- modo que há sempre um positivo em ação. Assim, trabalhan-
ças da personalidade e do dinamismo causal, que lançará cor- do alternativamente e exercendo funções inversas, espírito e
rentes sempre diversamente plasmadoras da forma, fazendo corpo realizam uma atividade contínua.
assim evoluir também esta como consequência da sua própria Um primeiro estímulo, provindo do campo oposto, desloca
evolução. Desse modo, passando-se da causa ao efeito, este os equilíbrios no outro campo, com todas as suas consequên-
depois, como nova causa, volta à origem, que, assim modifi- cias. Os choques do ambiente, através dos meios sensórios,
cada, passa de novo ao efeito, para modificá-lo ainda mais, continuamente bombardeiam o espírito, isto significa que os
como acontece por ação e reação entre órgão e função e ao impulsos do ambiente tentam penetrar e se unir ao sistema di-
contrário, processo pelo qual, lentamente, opera-se a trans- nâmico do espírito, que, mesmo oferecendo resistência às de-
formação evolutiva. Os dois impulsos contrários continuam formações, registra e se adapta e, assim, fixa na sua estrutura
assim a se moverem um para o outro, invertendo as suas posi- cinética novas trajetórias, isto é, assimila novas qualidades. Por
ções a cada passo, porém sempre enlaçados numa corrente sua vez, o sistema dinâmico que constitui o espírito bombar-
contínua, que forma um mesmo caminho evolutivo. Se, no seu deia, com o seu feixe de forças, o sistema atômico-molecular-
íntimo, a estrutura do fenômeno oscila entre dois polos opos- celular que constitui o corpo, o qual, resistindo às deformações,
tos, num constante vaivém, no seu conjunto representa uma registra e se adapta e, assim, fixa na sua estrutura cinética novas
ascensão contínua, em que o ritmo interior desaparece. trajetórias e assume, no mundo da ilusão sensória, novas formas
Assim, o dinamismo da vida parte do polo positivo, que é orgânicas. Veremos mais adiante, no Capítulo XVII, ―As últi-
o espírito, princípio ativo, e vai, como corrente positiva, para mas orientações da ciência‖, que a matéria se reduz a uma onda
o polo negativo, que é o corpo, de natureza passiva. Daqui, sem substrato material, isto é, àquele mesmo dinamismo a que
aquela corrente animadora retorna em forma negativa ao polo se pode reduzir também o espírito. Encontrado esse denomina-
positivo, fechando o circuito e prosseguindo assim. A carne dor comum entre espírito e matéria, esta interação entre espírito
quer conservar-se e engordar. É fêmea e quer a gênese na car- e corpo é também cientificamente possível e aceitável. Assim,
ne. O espírito quer renovar e subir. É macho e quer a gênese trabalhando em dois campos diversos, o espírito constrói o cor-
no espírito. A primeira representa uma expansão horizontal, a po e o corpo serve para construir o espírito.
segunda, uma vertical. No topo da escada, à testa do caminho Ora, como podem os impulsos provenientes do sistema di-
evolutivo, está sempre o espírito, enquanto no fundo da esca- nâmico-espírito agir sobre as forças do sistema dinâmico-
da, na cauda do caminho, está a massa indolente dos corpos. corpo? Para que os dois campos se possam comunicar, é ne-
O mundo físico está subordinado ao espiritual e, como inferi- cessário que eles possam estar em contato, o que, no mundo
or, deve ser o servo, arrastado por aquele e seguindo por últi- dinâmico, significa vibração em uníssono, sintonia. Se as for-
mo na sua ascensão. Sozinho, apodreceria na abundância. ças devem unir-se uma à outra e se fundirem, isto não pode
Desse modo, a iniciativa de todo movimento está no espírito, acontecer senão onde elas encontrem a mesma frequência, um
no entanto ele é uma consequência da resposta que o corpo igual número de períodos, à semelhança de duas centrais elé-
deu à sua precedente ação, consolidada pelo meio físico, sen- tricas que se quisessem pôr em paralelo. Ora, a escala evoluti-
do assim formado por este contato com o ambiente. Já vimos va se poderia exprimir dinamicamente com uma passagem da
como órgão e função colaboram sem que se possa dizer qual onda longa à curta, da baixa à alta frequência e potencialida-
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 39
de. Então os dois sistemas dinâmicos espírito e corpo não po- penetrar e juntar-se ao sistema dinâmico do espírito. Seria
dem comunicar-se senão onde estejam contíguos na escala preciso, depois, conhecer de que trajetórias é constituído esse
evolutiva, possuindo a mesma frequência, a mesma potencia- sistema, a resistência que suas forças opõem, a afinidade que
lidade, períodos e comprimento de onda, ou seja, no limiar en- apresentam com os novos impulsos sobrevindos, as reações
tre as mais baixas zonas do espírito, seus extratos mais invo- que oferecem, para chegar, assim, a calcular qual será a resul-
luídos, e as máximas alturas do organismo físico, seus extra- tante de tal encontro, o último termo residual da batalha, que
tos mais evoluídos. Isto significa que o contato não pode dar- representará o novo impulso assimilado no eu, isto é, a nova
se senão no sistema nervoso e cerebral, que representa as cé- qualidade por este adquirida.
lulas mais evoluídas, ou seja, a zona organicamente mais ele- Certo é que a nossa personalidade representa um organis-
vada e, ao mesmo tempo, espiritualmente mais baixa, por- mo dinâmico já constituído, que resulta do mencionado traba-
quanto ela é a primeira materialização daquele organismo im- lho de experimentação e assimilação levado a termo no passa-
ponderável radiante e receptor, que é o espírito. do e exprime a sua atual fase de maturação e grau evolutivo.
Tudo isto é possível quando se sabe que o universo, tal Ela constitui a atual natureza do ser, efeito de tudo o que por
como aparece aos nossos meios sensórios com a sua solidez fí- ele foi vivido e já está fixado no sistema de forças, que ten-
sica, não é senão uma aparência. Tudo que acima expusemos dem fatalmente, por inércia, a continuar o caminho na direção
torna-se concebível quando se sabe que a substância da maté- estabelecida pela trajetória já iniciada. Ela também representa
ria não é representada por algum substrato em sentido físico o destino do indivíduo, como uma sua vontade de se realizar
concreto, mas somente por trajetórias e relações reduzíveis a da forma que ele quis. Estamos na fase em que as precedentes
energia, e que esta se resume a conceitos abstratos. Desse mo- causas se coagularam em efeitos e estes, por sua vez, torna-
do, fica demonstrável a equivalência matéria-energia-espírito, ram-se causas tendentes a novos efeitos. Tudo isto forma as
afirmada nestes escritos. Assim como a matéria pode reduzir- qualidades fixadas no eu, constitui a estrutura do seu sistema
se a energia e a pensamento, é lógico que, inversamente, o de forças, resultado de todas as trajetórias transmitidas e as-
pensamento possa reduzir-se a energia e matéria e que ele seja similadas no passado. O circuito, porém, está sempre aberto, e
criador de todas as formas, primeiro dinâmicas e depois físi- cada nova experiência ou contato, por meio do corpo e dos
cas. Dessa maneira, compreende-se como o pensamento de sentidos, com o mundo exterior, representa a possibilidade de
Deus unicamente tenha podido construir um universo cuja ver- imissão e assimilação de impulsos e trajetórias novas. Esta-
dadeira solidez não está na matéria, mas está toda na constân- mos aqui em uma outra fase, de livre escolha e de formação
cia e inviolabilidade das leis que o governam, isso é, em prin- do eu, com que se pode corrigir o passado, iniciando novas di-
cípios abstratos. Se a ciência já pode fornecer muitos elemen- reções. É preciso, porém, ligar tudo isto ao passado, às velhas
tos para demonstrar a equivalência do mundo físico, dinâmico causas tornadas efeitos fatais e, como tais, agentes de novas
e psíquico, em direção ascendente, quem conhece os grandes causas. Em outros termos, na imissão de novos impulsos e tra-
esquemas do universo concorda certamente que o ciclo deve jetórias, é preciso ter em conta a natureza dos precedentes im-
cumprir-se, equilibrando-se na sua segunda metade, e que, por- pulsos e a resistência das trajetórias já estabelecidas no eu,
tanto, o caminho oposto, em direção descendente, também de- aos quais se devem sobrepor aqueles, para se fundirem. Pode-
ve ser percorrido. Este é dado pela equivalência inversa, isto é, se, em suma, semear no próprio ser o que se quiser, mas é
pensamento, energia e matéria, movimento trifásico que sinte- preciso atentar-se para a natureza do terreno em que se se-
tiza a técnica construtiva do nosso universo. meia, à estrutura completa, porque disto, e não tão-só da se-
Tudo o que existe é, como forma, a resultante de uma dada mente, dependerá o que há de nascer depois.
disposição cinética, redutível a um movimento puro, denomi- Assim, a evolução é gradual, ao mesmo tempo livre e liga-
nador comum de todas as coisas, dado pela energia, que é da, num jogo de forças reguladas a cada passo por reações e
pensamento em ação. Certo é que, para compreender-lhe a equilíbrios, segundo princípios estabelecidos pela Lei. Aqui,
substância, é preciso penetrar além da ilusão sensória. Somen- não é possível dizer mais além destes princípios gerais, sufici-
te assim, reduzindo o fenômeno do ser ao seu funcionamento entes, porém, para orientar o problema e as pesquisas neste
cinético, é possível compreender como as experiências obti- campo. A questão está em saber conhecer a estrutura desses sis-
das no ambiente por meio dos canais sensórios podem modifi- temas. Eles podem ser considerados como dinâmicos, por isto
car e enriquecer de qualidades o espírito, modificando e enri- falamos de forças; ou como cinéticos, daí termos falado de tra-
quecendo as trajetórias do seu sistema cinético; só assim tam- jetórias. Aprofundar demais o argumento nos faria perder o fio
bém é possível conceber como essas qualidades, ou íntimas da exposição, além disso o método da intuição aqui usado não é
trajetórias, podem depois modificar o sistema cinético que apto para a investigação analítica, que qualquer um pode racio-
constitui a substância da qual o organismo corpóreo não é se- nalmente realizar com base nesta orientação. Postos esses prin-
não a resultante perceptível aos nossos meios sensórios. A cípios gerais, é fácil tirar deles muitas consequências e contro-
mecânica da evolução se baseia sobre essa troca e assimilação lar a sua aderência à realidade.
de forças, isto é, no registro e conservação de trajetórias na É muito provável que, por analogia, o organismo físico-
estrutura dos dois sistemas dinâmicos que são o corpo e o es- espiritual do homem seja constituído, à semelhança do siste-
pírito. Na escala evolutiva, eles representam os dois extremos, ma atômico ou do sistema solar planetário, por um campo
o mínimo e o máximo, da zona ocupada pelo homem, que se central de forças, positivo e ativo, em torno do qual funciona
comunica com todas as vibrações de tudo o que existe nesta em dependência um campo de forças periférico, negativo e
zona, entrando em contato com a zona superior através do ex- passivo, isto é, de natureza, posição e sinal oposto. Os dois
tremo máximo e com a zona inferior através do extremo mí- campos se influenciam reciprocamente. É inegável que o ser
nimo. No circuito de forças entram, portanto, as experiências esteja em contínuo contato com o ambiente, do qual recebe in-
e registros provenientes do contato tanto com o mundo inferi- finitas impressões, que tendem a penetrar na consciência e a
or como com o mundo superior. Assim, conforme a sua capa- formá-la com a experiência das coisas. A nossa mente se sa-
cidade, o ser pode representar os mundos inferiores da matéria tisfaz ao pensar que, assim, nada de quanto se vive é perdido,
ou antecipar os superiores planos do espírito. mas tudo se registra em nós e sobrevive à ruína do contingen-
Para poder fazer a análise do fenômeno evolutivo em cada te na forma de nossas qualidades, adquiridas como nós quise-
caso particular, seria preciso conhecer a trajetória de todas mos. Somente assim a vida tem, em cada caso, um significado
forças que, entre as tantas em movimento no ambiente, vêm e um valor útil, num quadro em que tudo, também a dor e as
40 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
derrotas, tem o seu significado e rendimento. Está satisfeito X. O PENSAMENTO CRIADOR
desse modo o nosso instinto e o da vida, que é de sempre
crescer e se expandir, porque o espírito se torna uma unidade Quanto dissemos até agora não representa senão uma fenda
em contínuo desenvolvimento, sem limites. Tudo então, e so- que em minha mente se vai abrindo para o infinito em forma de
mente então, torna-se satisfatório, lógico e justo, porque sa- visões progressivas, que vou registrando por escrito, para que
bemos que é efeito do que fizemos e pode ser remediado no elas não fiquem somente para mim. Dou-me conta que, perante o
futuro. Então compreende-se que é necessária a prova da vida nosso tempo racionalista, este é um modo estranho de enfrentar o
terrena na matéria, para que o espírito possa evoluir. ignoto, com um tão desusado método de investigação: a intuição.
Essa transformação de forças e trajetórias no espírito deve Questionei a mim mesmo se ele seria pura fantasia, perguntei a
produzir um aceleramento de frequência e uma proporcional que ignorado mistério da personalidade humana ele poderia cor-
diminuição de comprimento de onda e, com isto, uma elevação responder. Contudo, por mais que tenha procurado analisá-lo
de potencial, o que significa uma potenciação do espírito, uma com a crítica mais demolidora, esse método permanece como um
harmonização que leva a um rendimento maior. Isto se alcança fato, seja pelos seus produtos racionalmente orgânicos, seja pela
por uma troca e luta, que são sempre elementos genéticos. Pa- progressiva profundidade das visões que dele resultam. Sem que
rece que o espírito possa, assim, armazenar em síntese os resul- eu conheça ciência, elas correspondem aos seus últimos resulta-
tados da experimentação, os valores, os totais das operações dos. Por falta de pontos de referência pelos quais se pudesse en-
feitas por análise, no particular, pelo seu organismo exterior. quadrar esse caso, ele foi entendido como ―ultrafania‖ (V. ―In-
Parece que esse sistema periférico, com a função de tentáculo, trodução‖, neste volume, e o livro As Noúres). Mas vê-se o quan-
deve alcançar, a um certo ponto, uma saturação de vibrações to estamos longe da habitual mensagem de conteúdo moral, que
que o força a extravasar tudo que ele não pode mais conter para nunca até agora, mesmo nos melhores casos, assumiu o encargo,
o sistema complementar de forças interiores, que teria justa- tanto em vastidão como em profundidade, de produzir um traba-
mente a função de transportar a um plano evolutivo mais alto, lho orgânico que abranja e oriente todo o saber humano.
sem sensíveis embaraços de forma, somente a substância desti- A atual geração se tornou muito audaz ao enfrentar o igno-
lada do que se adquiriu. Parece que o sistema de forças de mais to, que se vê assediado de todos os lados e com todos os meios.
baixa potencialidade constituído pelo corpo, conquanto mais Entretanto a ignorância não ficou destruída, somente foi impe-
adaptado para dominar as forças do ambiente e estar em contato lida mais para trás. Porém deu-se algum passo para a unificação
com o mundo inferior externo, eleva aquele potencial até ao de todas as ciências, para uma só lei e um só pensamento: o
ponto em que o seu sistema, não podendo suportá-lo mais, pensamento de Deus. Esse ataque cerrado deve levar à grande
transmite-o ao sistema superior do espírito. Isto é bem admissí- descoberta do terceiro milênio: os poderes do espírito, poderes
vel, quando se compreendeu a íntima substância cinética de to- verdadeiramente criadores. Agora me pergunto porque, ao lado
das as formas e, portanto, sabe-se que nenhuma delas pode iso- do assalto movido ao ignoto pelos cientistas, armados de ultra-
lar-se das outras, pois, num universo dinâmico que irradia e re- microscópios, câmaras de condensação de Wilson e tubos de
cebe em qualquer ponto, todas as partes são comunicantes. As- bombardeamentos eletrônicos de alta potência, não deva ser
sim, também o corpo é necessário, porquanto funciona como admissível um paralelo ataque movido por outra via, super-
transformador de potencial entre o externo e o interno, que dire- racional e supersensória, utilizando indivíduos sensibilizados,
tamente, sem este intermédio, não poderia comunicar-se. O or- nos quais parece que a misteriosa personalidade humana haja
ganismo físico é, pois, uma ponte entre o espírito e o mundo, encontrado meios de percepções ainda mais penetrantes e de
para que os dois possam ficar em contato, e os seus meios sen- ordem diversa? Por que se deve recusar a priori esse novo mé-
sórios são os canais de comunicação. Sem esses canais, nenhu- todo de investigação? Os seus resultados são aqui oferecidos ao
ma relação poderia haver. Somente assim as variações e cho- público, fixados em volumes; não são de caráter analítico, mas
ques de ambiente podem chegar da periferia ao centro. sintético; parecem complementares daqueles racionais da ciên-
A que se reduz, enfim, a evolução? A uma diversa disposi- cia, uma vez que, muito mais do que para aprofundar um singu-
ção cinética da mesma substância, que, em última análise, não lar e particular argumento, servem para a orientação de conjun-
é senão o pensamento de Deus. É essa diversa disposição ci- to; parecem feitos para oferecer um produto paralelo ao ofere-
nética que constrói todas as formas, que são realidades como cido pela ciência e apto a completá-lo. Se a análise sensória da
substância feita de pensamento, mas ilusões como forma sen- física mecânica de uma época passada está se tornando hoje,
sorialmente concebida. Há somente uma verdadeira realidade, através da teoria da relatividade e da mecânica quântica, ondu-
à qual tudo no universo se reduz por último: o pensamento de latória e estatística, sempre mais abstrata, a ponto de se fundir
Deus. Espírito e corpo são simplesmente pensamento mais ou com o transcendental, quem poderá dizer que a ciência de ama-
menos evoluído, isto é, mais ou menos puro e livre das for- nhã não se tornará atingível senão por meio de uma matemática
mas! A evolução consiste justamente na purificação desse transcendental intuitiva? Tudo se espiritualiza hoje, sem que
pensamento, isto é, no retorno de todas as mutáveis formas- disso nos apercebamos, enquanto o materialismo, em ruínas,
efeitos à imutável causa de todas as coisas. Isto significa a parece triunfante porque nos aturde com o fragor de sua queda.
gradual libertação de todas as formas, vestes do pensamento, Não nos apercebemos que, no fundo de tudo, mesmo da maté-
para que fique somente o puro pensamento de Deus, e não é ria, há o espírito, e é inevitável que, com o progredir da ciência,
possível para o espírito livrar-se delas, senão através da elabo- chegue-se à descoberta dele. Se o progresso é fatal e se a estru-
ração da forma corpórea em que ele existe. A ele compete o tura da matéria é em substância espiritual, então não é possível
esforço de fazer evoluir consigo aquela matéria que ele despo- impedir que a ciência alcance a conjunção entre os campos da
sou. O universo é unitariamente compacto, e nada se pode matéria e do espírito, que é a unidade fundamental de tudo que
destruir nele, portanto não é possível livrar-se da forma des- existe e tem de ser finalmente compreendido pelo homem.
truindo-a, mas somente fazendo-a progredir para o alto. Já vimos outros níveis evolutivos de existência e sabemos
O grande respiro do universo, assim, é composto de dois que a cada um deles corresponde uma lei diversa, uma diversa
tempos: 1o) criação, fase de ida, na qual o puro pensamento di- expressão da única lei universal. O universo está, assim, cons-
vino se manifesta, vestindo-se de forma e quebrando a sua uni- truído hierarquicamente, como um edifício em que cada plano
dade no transitório, múltiplo e relativo, isto é, involução; 2 o) de existência se apoia sobre o inferior, dominando-o. E, de um
evolução, fase de retorno, em que aquele pensamento se livra plano ao outro, o ser passa por aquela metamorfose ou catarse
da forma e reconstitui a sua unidade no eterno e no absoluto. evolutiva, cuja mecânica temos observado. A cada plano cor-
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 41
responde uma verdade diversa, que é a sua lei, e o ser, evoluin- nhecimento, e os planos inferiores, em que tudo vai involuindo,
do, sobe de uma verdade inferior para uma superior, adquirindo precipitando-se no negativo: a bondade em maldade, a potência
conceitos e valores mais elevados. Assim, vimos que da biolo- em impotência, o conhecimento em ignorância. Existe em mim,
gia animal se passa à biologia transcendental do espírito, e da como nos meus semelhantes, um sistema de organismos cone-
economia da justiça mecânica do ―do ut des‖ se passa à econo- xos em cadeia, que vão do reino mineral (sistema ósseo), ao
mia supernormal baseada no princípio evangélico do ―ama o reino vegetal (sistema vegetativo), ao reino animal (sistema
próximo como a ti mesmo‖, segundo o qual rouba a si mesmo muscular-nervoso), ao reino humano (sistema cérebro-
quem rouba, e a si mesmo dá quem dá aos outros. É assim que psíquico), ao reino super-humano (sistema imponderável do es-
a ciência, penetrando agora no mundo submicroscópico, passa pírito, em dimensões hiperespaciais). Cada um desses organis-
da mecânica clássica gravitacional para uma mecânica atômica, mos emite a voz do seu reino, e isto me dá o sentido da hierar-
em que as leis da primeira não valem mais e são ultrapassadas quia vigente nos planos do ser, dentro de limites além dos quais
por uma diversa ordem de leis, supergravitacionais. Que mara- tudo se perde no inconcebível. Com o fenômeno da personali-
vilha será então se, por evolução da personalidade humana, dade oscilante, o eu pode perceber, desde o extremo-matéria até
primeiro instrumento de observação, passarmos do método sen- ao extremo-espírito, as verdades relativas a cada plano. Delas
sório racional, experimentalmente indutivo, a uma técnica se deduz, pelo sentido estabelecido na hierarquia, o domínio de
transcendental do pensamento, em que funciona o superconsci- cada plano sobre o inferior e, portanto, o poder criador do pen-
ente, com resultados não mais de análise, e sim de síntese? Não samento e das grandes consequências do próprio tipo de ativi-
significa isso, assim como acontece para a ciência, uma pene- dade espiritual em cada plano.
tração mais profunda no mundo das causas determinantes dos No ―Satapathabrahama‖ está dito: ―Do desejo depende a
efeitos ilusórios, um maior avizinhamento do plano da realida- natureza do homem. Conforme o seu desejo, tal será a sua von-
de e da substância? E não será possível, assim, resolver pro- tade, tal será a sua obra; conforme a sua obra, tal será a sua
blemas insolúveis com outros métodos e alcançar conceitos de existência que lhe diz respeito‖. O pensamento é criador no
outro modo inatingíveis? Assim como hoje, evoluindo, vai-se homem e em todos os planos inferiores ao espírito, como o foi
ao encontro de novas verdades, de uma nova biologia e econo- o pensamento de Deus ao criar o universo. É com este pensa-
mia, de novas concepções sociais e formas de organização cole- mento, em princípio livre e fluido, que definimos em nós a ma-
tiva, a novas formas mentais em todo campo, é lógico que tam- téria, isto é, as formas orgânicas e depois, mais no alto, o nos-
bém se vá ao encontro de novos métodos de investigação, filhos so fatal destino. No pensamento está a causa de tudo, saúde ou
da diversa estrutura psicológica do novo tipo biológico que a doença, riqueza ou pobreza, alegria ou dor. Sempre somos
evolução, hoje, se apresta a produzir. Estes são os grandiosos herdeiros somente de nós mesmos, isto é, daquilo que fomos,
resultados daquele fenômeno de elevação humana que aqui es- quisemos ou fizemos. O micróbio não nos assalta senão quan-
tamos estudando. Pode-se, assim, compreender a sua importân- do encontra debilidade e, pois, vulnerabilidade orgânica; a po-
cia e verificar o quanto ele interessa hoje à vida do mundo. breza se estabelece quando encontra incapacidade e preguiça,
Somente poucos começam hoje a se dar conta da grande re- porque os capazes e ativos nunca são pobres; a dor nos assalta
volução incruenta e silenciosa que está sendo realizada no mun- quando encontra erros morais a sanar. Qualquer pensamento
do, por obra dos vigorosos impulsos da evolução criadora, que nosso é escrito na estrutura do sistema de nossos organismos,
hoje impele a vida para um plano mais alto. As revoluções políti- conexos em corrente, gerando assim, em cada plano, posições
cas, demográficas e econômicas estão na superfície, muito rumo- munidas e potentes ou pontos fracos e, com isto, predisposição
rosas e visíveis, mas de mínimas consequências em face dessa a todo ataque. Eles são o ponto vulnerável onde a vida sempre
outra revolução, cujos efeitos serão bem maiores, porque ela é ataca. Quem se tornou tarado deve pagar, não porque a Lei se
muito mais profunda. A ciência, tendo chegado ao elétron, ao vingue, mas sim porque ela cura e fortalece. Tudo é espiritual
próton e ao nêutron, pergunta se eles são corpúsculos ou pura vi- antes de ser material. E o universal princípio de causa e efeito
bração. A um certo ponto, não se sabe mais se o que observamos nos diz que tudo aparece por derivação e filiação.
é matéria ou energia. Amanhã, nos encontraremos diante do caso Compreende-se assim porque Cristo, depois de ter curado
em que não mais saberemos se aquilo que observamos é energia um doente, disse a ele: ―Vai e não peques mais‖. Isto significa
ou pensamento, e este será individualizável por seu comprimento que não devemos mais violar a Lei, se não quisermos mais
de onda e sua frequência. Então acharemos que, no fundo, há sentir suas consequências no físico. Matéria e espírito são
uma equivalência de substância, em que matéria, energia e espíri- mundos comunicantes e conexos, e tudo se escreve nos arqui-
to podem fundir-se e comunicar-se. E compreenderemos como vos da alma, mas o que nela está escrito deve, cedo ou tarde,
tudo pode ser formado pela potência criadora do pensamento: o alcançar o corpo e aí manifestar-se. Assim, tudo se paga e tudo
pensamento de Deus. ―No princípio era o Verbo e o Verbo estava se recolhe. Ensinou Buda aos seus discípulos: ―Assim como as
junto a Deus, e o Verbo era Deus. Tudo foi feito por seu intermé- árvores são diversas segundo a variedade das suas sementes,
dio, e sem Ele nada foi feito de tudo o que existe‖8. Assim, ao ze- também o destino dos homens é diverso segundo a diversidade
ro absoluto, isto é, a 2730C abaixo da temperatura do gelo, todos das obras de que suportam os efeitos‖. E ainda: ―O que somos
os movimentos da molécula cessariam e a própria matéria, com é a consequência do que havemos pensado‖. Mais tarde São
isto, perderia todo o volume e seria reduzida a nada. Deste nada, Paulo dizia: ―O que o homem semeou, isto mesmo ceifará‖. E
somente um estado cinético seu a teria tirado, um dinamismo que Jó disse: ―Deus dá ao homem segundo a sua obra e faz encon-
tem pontes de comunicação com o mundo do espírito. Eis, então, trar a cada um conforme o seu caminho‖.
que é concebível, neste sentido, uma criação partindo do nada,
derivada de um puro pensamento. O método da intuição nos avi- XI. LIVRE-ARBÍTRIO E DETERMINISMO
zinha da solução dos maiores mistérios.
Assim, através de rasgos progressivos, vou percorrendo, Quem chega-se a penetrar no mundo das causas e nele se
junto com o leitor que me segue, a descrição da estrutura do descobre a substância das coisas, fica-se atordoado pela maravi-
universo. Eu mesmo, sem investigação racional, assisto à visão lhosa perfeição com a qual tudo harmonicamente funciona, do
que se abre diante de mim. Vejo-me suspenso entre os planos plano da matéria (equilíbrio) ao do espírito (justiça). Todavia o
de existências superiores, que irradiam bondade, poder e co- homem comum pode levantar muitas dúvidas a respeito da li-
berdade da semeadura por parte do espírito, da qual tudo de-
8
João, 1:1 e 3. (N. do T.) pende depois, até à última consequência. A filosofia se debate
42 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
entre os dois pontos, determinismo e livre-arbítrio, sem saber se O que permanece livre dessas amarras constitui o livre-
decidir exclusivamente por nenhum dos dois. O problema é so- arbítrio. É, todavia, certo que o eu representa um impulso au-
lúvel somente tendo-se em conta que a evolução desloca a vida tônomo, ainda que ele, no seu manifestar-se, deva sofrer tan-
ao longo de vários planos de existência, e que há leis imperan- tas limitações. Mas que pode fazer uma força agindo entre
tes em cada um deles, segundo as quais o determinismo, pró- tantas outras forças em ação, senão agir, ressentir-se e reagir
prio da matéria, evolui para a liberdade, própria do espírito, ou com elas, combinando-se? Ninguém, porém, pode impedir
ao contrário no caso de involução. A liberdade é concedida ao que o originário livre impulso humano imprima na ação um
conhecimento, à consciência e à sabedoria; o caminho forçado é cunho próprio, qualquer que seja depois a modalidade em que
imposto à ignorância e à inconsciência, capazes de abuso. De- se deva desenvolver ou a distorção imposta pelos limites que
terminismo e livre-arbítrio não representam senão os dois ex- assediam o seu livre desenvolvimento. Todo ato nosso fica
tremos do caminho que o homem percorre na escala evolutiva, sem dúvida individualizado com características fundamentais
que parte da matéria e atinge o espírito. pelo primeiro livre impulso, que continuará assim a acompa-
Já vimos no Cap. XXIII, ―Problemas Últimos‖, do volume nhá-lo até ao fim, desde que outro fato, depois, não venha
A Nova Civilização do Terceiro Milênio, que, evoluindo, vai- desviá-lo da rota. Qualquer coisa de semelhante acontece na
se sempre mais para a liberdade, própria do espírito, aumen- formação dos cristais, que mantêm o seu tipo, ainda que obs-
tando com isto também o conhecimento, e que essa liberdade truídos pelo ambiente. Assim, das características originais de
cada vez maior se resolve em uma sempre maior aderência à todo ato nosso dependerá também a natureza das forças atraí-
Lei. E vimos também que, involuindo, vai-se sempre mais para das e das reações estimuladas, de modo que daquelas caracte-
o determinismo, próprio da matéria, perdendo-se assim liber- rísticas nada se perde, ainda que devam depois ser alteradas.
dade e conhecimento. A tendência em ambos os lados, seja na Em suma, há uma luta de forças, e a mais forte vence. Se a
subida, seja na descida, é que a liberdade se resolva em deter- nossa vontade fosse verdadeiramente potente e iluminada, en-
minismo. Isto parece uma característica da fase experimental tão o livre-arbítrio poderia vencer tudo. Como se vê, esta não
da evolução, quase um parêntese no universal determinismo da é questão abstrata de liberdade, mas também de poder.
Lei. Porém os dois determinismos, tanto o positivo, do ser Se refletirmos, veremos que esses limites são providenci-
consciente, que abdica espontaneamente de sua liberdade para ais, desejados por uma lei sábia que tudo guia para o bem. Se
se fundir na vontade da lei de Deus, quanto o negativo, do ser o primeiro impulso do livre-arbítrio humano for lançado con-
inconsciente, que perde compulsoriamente a liberdade, porque forme a ordem das coisas, ele será enquadrado nessa ordem
aniquilado qual rebelde à lei de Deus, estão nos antípodas: du- como um seu natural elemento e, com isto, encontrará todos
as fases extremas, igualmente resolutivas, mas em posições os caminhos abertos para o seu desenvolvimento. Se, ao con-
opostas. De modo que, como se estivesse suspenso entre esses trário, aquele primeiro impulso houver sido contrário à ordem
dois extremos determinísticos do universo, o ser oscila dentro das coisas, ele será contrariado por forças que o procurarão
de um campo de relativa liberdade, limitado às necessidades da corrigir, forçando-o e levando-o àquela ordem. Isto significa
experimentação formadora da sua personalidade. Acima dele, um processo de correção do erro; poderá constituir dor, mas é
evolutivamente mais no alto, há o determinismo do evoluído, uma vantagem e uma salvação para o caminho do bem, que
que, tendo compreendido toda a sabedoria da Lei, não pode, deve fatalmente triunfar, conforme estabelecido pela Lei. É
devido ao princípio do mínimo meio e maior rendimento, fazer preciso compreender que tudo está sabiamente dirigido por
outra coisa senão uniformizar-se com ela. Abaixo dela, evolu- uma lei sábia e que ser reconduzido a ela, embora pelo cami-
tivamente mais embaixo, o determinismo da matéria domina o nho da dor, significa salvação. Aquela central genética, que é
ser, que, nada sabendo da Lei, mais não pode fazer senão obe- a nossa livre vontade, não pode e não deve, para o nosso bem,
decer-lhe cegamente, arrastado por ela. produzir impulsos de desordem na ordem universal e, se os
É assim que o homem, não obstante seu ilimitado desejo de produz pela sua ignorância, eles devem ser corrigidos e re-
liberdade, encontra limites a cada passo. O primeiro limite ao li- conduzidos para a ordem. Não pode ser permitido que eles in-
vre-arbítrio é a nossa ignorância. Voltamos à dúvida inicial. Co- vertam a ordem universal. Se o homem, nesta sua livre gênese
mo escolher quando não se conhece? Tudo é sempre limitado ao de atos, repete o gesto criador de Deus, esse gesto deve ser
pequeno campo do conhecimento humano. Se conheço o princí- disciplinado para colaborar no plano da criação e não tender a
pio de causalidade, não posso saber qual será o efeito preciso de invertê-lo. Eis por que esses limites e liames do livre-arbítrio
uma determinada motivação minha. Embora eu preveja e calcule, são salutares. Ele, pois, há de ser sempre entendido em função
nunca poderei saber com exatidão aonde, partindo daquele meu da ordem universal, que não é possível violar, e jamais como
primeiro impulso, irei acabar, já que tantos outros impulsos des- arbítrio desordenado e absoluto.
conhecidos agem sempre na determinação dos efeitos. Como se vê, o problema está conexo com outros, como o
Um segundo limite é dado pelo desenvolvimento determi- timbre e a potência do nosso querer (impulso originário), a in-
nístico imposto pelo princípio de causalidade. Todo estado flexibilidade da ordem da Lei e o que disto deriva como res-
precedente, amadurecendo, tende fatalmente a produzir um ponsabilidade e consequências. Certo é que o gesto criador do
efeito consequente. O que é conhecido e existe há de se de- homem, que repete em ponto pequeno o princípio da criação,
senvolver na forma em que foi gerado, à qual está ligado. pode também assumir na sua liberdade a forma de rebelião, de
Uma força, uma vez lançada, não pode parar senão quando anti-Lei e anti-Deus. Se o poder do querer da criatura é grande,
chegar à sua exaustão. Desse fato nenhum livre-arbítrio pode então também se torna grande o conflito com a inflexibilidade
fugir. Todo o passado, pois, nos liga ao que fomos e ao que da Lei e surge uma luta na qual esta vence e o rebelde, se não
fizemos. O que semeamos devemos colher. Forma-se assim a se modifica, fica autodestruído. E, aqui, o problema se coliga
base determinística e fatal da vida: o destino, que nós mes- ao do bem e do mal, com a supremacia final do bem, conforme
mos, no passado, deixamos como nosso legado e que hoje re- já temos tratado alhures. Agora, postos os dois termos, livre
aparece ligado a nós, qual férrea necessidade. vontade humana e universal lei inflexível, diante da possibili-
Um terceiro limite é dado pelo determinismo da lei própria dade de um conflito entre elas, dessa realidade deriva a res-
das coisas materiais. O ambiente representa para o eu agente ponsabilidade humana, pela qual, se a liberdade ofende a Lei,
um feixe de impulsos exteriores e estranhos, que surgem inexo- esta a corrige com suas consequências. Essa responsabilidade
ravelmente em sua estrada, atravessando a sua trajetória, e mui- nasce do princípio de ordem e da reação da Lei à desordem, o
tas vezes lhe barram o caminho, impondo-lhe desvio. que conduz às sanções. A responsabilidade é proporcional à li-
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 43
berdade, isto é, à possibilidade de violação, mas, se a liberdade Compreende-se então por que, com o conhecimento, au-
for bem usada, seguindo a Lei em vez de contrariá-la, então a menta a responsabilidade e, com o poder, a potência dos efei-
responsabilidade jamais conduz a reações dolorosas. Não pode tos do erro. Mas igualmente aumenta a ilogicidade da prática
ser de outro modo na lógica do sistema. do mal, o seu absurdo, que o torna sempre menos possível,
Um exemplo. O primeiro momento da ação é o desejo e a porque, quanto mais se sobe, tanto mais se sabe que ele leva à
motivação. Aquele é dado pelo meu temperamento, e esta é dor, e o instinto da alegria está escrito no ser. De modo que
limitada pelo meu conhecimento. Todavia, dentro dos limites esse aumento de responsabilidade, que poderia produzir efei-
estabelecidos pelo determinismo do meu passado, do qual de- tos desastrosos para o involuído, que se entrega ao mal, na
rivo, e pelo meu conhecimento, sou livre. Escolherei naquele prática, não é perigoso, porque é equilibrado pelo conheci-
âmbito um determinado tipo de força e a lançarei em uma de- mento, que tudo guia e ilumina. Com este, o homem compre-
terminada direção. Se esta escolha deriva dos meus preceden- ende a bondade da Lei e o próprio interesse em segui-la; tor-
tes, dela por sua vez dependem todas as consequências. Mi- na-se desse modo, ao invés de antagonista de Deus, cada vez
nha responsabilidade cobrirá o campo de todo esse interesse mais Seu colaborador. Esse é o sistema da Lei, que, assim, tu-
composto. E isto é justo porque, se tudo hoje se origina como do atrai a Deus. Dada esta estrutura, isto se torna fatal. É as-
consequência de precedentes aos quais está ligado o efeito sim que o ser passa do determinismo coagido e inconsciente
por princípio de causalidade, aqueles precedentes, no seu iní- da matéria ao determinismo livre e consciente da lei de Deus,
cio, foram sempre livremente desejados. Com isto, determi- que impera e triunfa em qualquer parte. No fundo, reina sem-
namos os limites da responsabilidade, os quais, mesmo sendo pre o absoluto, e o determinismo que o exprime não faz senão
na forma do interesse composto, jamais vão além do que foi mudar de forma. O ser que evolui em conhecimento tende au-
livremente desejado. Intervém, então, o determinismo do am- tomaticamente a limitar a maior liberdade que dele resulta e,
biente com a influência dos seus impulsos. A resultante deste em vez de servir-se dela para cair na anarquia, reorganiza os
encontro será dada pela natureza e potência do meu impulso seus livres atos de acordo com a Lei. É assim que o maior po-
e pela natureza e potência dos impulsos do ambiente, tudo der e liberdade conexos ao conhecimento não se resolvem em
combinado juntamente. Toda força tende a seguir o desen- desordem, mas em uma ordem sempre mais elevada. Tudo,
volvimento da sua trajetória conforme sua potência e nature- pois, se reduz à passagem de um determinismo coagido e in-
za, mas todas interferem entre si e combinam-se, não perma- consciente, como convém a quem não sabe, a um determinis-
necendo senão a resultante de todos os seus encontros. O de- mo livre e consciente, como convém a quem sabe. Então o ser
senvolvimento é sempre e em todo lugar disciplinado pela faz para si a vontade de Deus, seguindo-a livremente.
Lei, que ferreamente enquadra no determinismo universal to- O sistema é tão perfeito, que a liberdade não pode nunca
da oscilação do caso individual, admitida somente pela ne- trazer desordem, pois que ela nasce sempre em proporção ao
cessidade da experimentação indispensável à formação da conhecimento. Porém, logo que a liberdade seja usada em
consciência. Assim a ignorância de quem lança o primeiro sentido contrário a ele, nasce o erro e, portanto, a dor, que re-
impulso é prevista no sistema e, se leva para a desordem e o conduz o indivíduo para a Lei. Assim, automática e fatalmen-
mal, é logo corrigida com a dor, que ensina, educa e restabe- te, toda liberdade de que se haja abusado fica mutilada e re-
lece a ordem. É assim que se elimina a ignorância do ser que conduzida aos mais restritos limites precedentes. Mas, por es-
caminhou para o seu mal, sem o saber. ta experiência de dor, o conhecimento se dilatará, permitindo
Desse modo, ele escolherá depois caminhos melhores, sem- uma ampliação da liberdade, que se expandirá se dela não se
pre mais para o bem, à medida que, através desta escola, cresce fizer mau uso, renegando o conhecimento adquirido. O siste-
o conhecimento. ma de forças, com suas sábias reações, constitui o trilho e
É assim que o ser, evoluindo, aumenta a sua possibilidade contém a escala automática da evolução.
de agir livremente sem dano, isto é, conforme a Lei. Aumen- A liberdade, da forma que é usualmente entendida, como
tando com a ascensão a potência e o conhecimento, também arbítrio, sem conhecimento, não pode levar senão ao erro e à
aumenta a liberdade, que de fato sentimos ser uma qualidade dor, resultando na sua perda automática. Muitos procuram a
do espírito, e não da matéria. Mas trata-se de uma liberdade liberdade no abuso e na licença, mas sua ignorância os faz
consciente, por isto espontaneamente aderente à Lei, segundo a cair na cilada. A lei de Deus os espera no caminho, e o que os
qual a evolução consiste na passagem do determinismo físico aguarda é o erro, a dor e a perda de liberdade. O melhoramen-
dos mundos inferiores ao determinismo espiritual dos mundos to esperado torna-se ilusão. Dentro da Lei não se sobe com a
superiores através de uma oscilação, chamada livre-arbítrio, força, mas somente com o mérito. É inútil impor-se, quando
permitida com fim educativo. Se o ser involui, está retroce- não se sabe agir. A Lei se esquiva ao ignorante, que não a vê,
dendo para um determinismo sempre mais férreo, de reações mas não pode fraudá-la. O rebelde, pois, é destinado a recair
sempre mais enérgicas, mais adequadas à ignorância e insensi- na dor para aprender, sendo assim repelido de volta ao seu
bilidade do involuído, que, dessa forma, começa a ser abalado plano, para o seu bem, como quer a Lei na sua bondade. A or-
por golpes proporcionalmente mais violentos, pois somente dem sempre vence. Qualquer que sejam a força e a maldade
por estes pode ser induzido a evoluir. De fato, se o homem humana, a justiça triunfa; Satanás, o rebelde, está confinado
atual encarna na matéria, é porque aí ele encontra as resistên- no seu inferno. Qualquer liberdade desproporcional, perigosa
cias que lhe são adaptadas, duras o bastante para que nelas se para o ser, pois superior ao seu conhecimento, lhe é imedia-
possa exercitar e temperar. Disto decorre o quotidiano contras- tamente retirada. Satanás tem poder apenas até onde Deus
te, bem conhecido de todos, entre aspirações e ilusões em um quer; é escravo do bem e ignorante diante do céu. Logo que o
ambiente que dificilmente se deixa vencer. De tudo isto se ser abusa da liberdade, é levado de novo pelo seu próprio erro
compreende a enorme vantagem que representa, para alcançar ao esforço da experimentação, porque assim, através dessa
a alegria e evitar a dor, adquirir consciência da Lei, para saber única via, ele pode subir pelo caminho do conhecimento e da
depois movimentá-la, vivendo-a. É por isto que nestes escritos liberdade. De quantas dores se poderiam libertar os involuí-
se repete tanto este ponto, que é o problema fundamental da dos, se conhecessem esse simples mecanismo da Lei! E quan-
vida e o único remédio para todos os males. Quem compreen- ta bondade e sabedoria demonstra ela ao constranger o ho-
deu não pratica mais o mal e, assim, livra-se da dor. Eis a solu- mem, sob o seu látego, a ascender em direção ao seu bem e à
ção de todos os problemas. O homem é destinado ao domínio, sua felicidade! Quanta sabedoria ao tirar dos inferiores uma
mas é preciso que aprenda antes a mandar. liberdade que, sem conhecimento, seria para eles um perigo!
44 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
É salutar para quem vai em oposição à Lei, mesmo quando pensamento coletivo, no qual se somam as características psi-
domine, não encerrar em seu punho senão ilusões. Negar li- cológicas dominantes nos componentes. Teremos, então, uma
berdade aos inconscientes significa salvá-los do perigo de um massa humana que sente com um pensamento e uma única
mais grave abuso, portanto de um desastrado erro e de uma psique, e de forma muito mais determinista que no caso do in-
terrível dor. Há nisto, também, uma admirável economia di- divíduo singular. Uma observação macroscópica não nos daria
nâmica. Nova liberdade é concedida somente quando o ser, senão os resultados deterministas da psicologia coletiva, en-
por exuberância de forças, suporta esse risco e pode, portanto, quanto um exame microscópica nos daria as oscilações da psi-
após um período de bem-estar, enfrentar novas dores constru- cologia individual. Pode-se, portanto, observar com diversa
tivas (guerras e revoluções), quando então possui ao menos amplitude visual não somente a matéria, mas qualquer outra
uma margem de forças suficientes para submeter-se ao duro unidade coletiva, obtendo-se os mesmos resultados, quer dizer:
trabalho da experiência para conquistar nova consciência. livre mas limitada oscilação no caso singular da unidade com-
Esta nova concepção do livre-arbítrio, entendido como li- ponente e determinismo no caso coletivo da unidade superior.
mitada oscilação da atividade do ser num universo absoluta- Isto em qualquer nível evolutivo, para todas as unidades, con-
mente determinista, nos permite compreender os últimos re- forme a sua estrutura hierárquica.
sultados da ciência. A estrutura unitária e analógica do uni- Compreendidos esses princípios, cada um os poderá contro-
verso nos permite situar o problema do livre-arbítrio e deter- lar nos fatos e deles tirar consequências. Aplicando os concei-
minismo também na mais moderna física estatística e quânti- tos sobre o livre-arbítrio à estrutura da matéria, pudemos conci-
ca. Estabelecido o paralelo entre o mundo espiritual e materi- liar, como acima mencionado, o determinismo da velha física
al, poderemos dizer que a liberdade de ação do homem no mecanicista clássica com a indisciplinada irregularidade de
seio das leis que governam seu plano corresponde à liberdade ação que nos aparece no fundo da matéria, segundo a moderna
de movimentos dos elementos componentes do mundo da físi- física estatística e quântica. Pudemos compreender, outrossim,
ca atômica. Em ambos os casos, trata-se de uma oscilação em como se pode passar de um campo de forças regulado conforme
campo limitado, de uma liberdade relativa, que desaparece no o princípio do livre-arbítrio a um regulado pelo determinismo.
determinismo tão logo a observação seja levada do caso parti- Com isto, desenvolvemos estes dois conceitos já assinalados
cular (observação ultramicroscópica) ao plano da unidade co- em A Grande Síntese, no Cap. LXVI, ―Rumo às supremas as-
letiva de que ele faz parte (observação macroscópica). Eis censões biológicas‖ e em A Nova Civilização do Terceiro Milê-
que, seja qual for o caso, o livre-arbítrio, propriedade de cada nio, no Cap. XXIV, ―O nosso livre destino‖.
elemento, está fechado em um determinismo macroscópico, Uma última consequência ainda, que nos toca de perto. Tí-
que aparece imediatamente assim que se sobe das pequenas nhamos dito que um dos limites do nosso livre-arbítrio é o
diferenças individuais o bastante para colher as características princípio de causalidade, segundo o qual nosso passado está li-
comuns que reúnem em uma só lei todos os elementos com- gado a nós, e, assim, o que semeamos devemos colher (segun-
ponentes. Ela é a lei dos grandes números, revelada estatisti- do limite). Dado que todo momento é o efeito do precedente,
camente, própria da massa, e não do indivíduo. Assim, expli- bem como causa do seguinte, não nos encontramos apenas li-
ca-se como, sob o determinismo da velha física mecanicista vres como causa, mas também estamos ligados ainda como
clássica, se esconda uma aparente livre desordem. O ser, dei- efeito. Esta é, em nossa vida, uma zona de determinismo. Ora,
xado livremente à sua experimentação, é retomado na ordem tal condição se manifesta através dos instintos, que represen-
do determinismo em um plano mais alto. Assim, por exemplo, tam as qualidades adquiridas no passado, no bem ou no mal,
cada um come a seu modo, mas todos comem. Das folhas de com a própria experimentação. O período da vida mais sujeito
uma árvore, não há duas idênticas, mas todas são do mesmo a funcionar por instinto, o menos reflexivo, é o primeiro, isto
tipo, modelo e princípio. A oscilação individual não pode alte- é, a juventude. Então pode-se dizer que, na primeira metade da
rar o determinismo da Lei, em que fica sempre enquadrada vida, o homem apenas obedece fatalmente às consequências do
toda liberdade do indivíduo. passado, não se encontrando em condições de iniciar lança-
Tudo isto significa que, se em cada natureza individual estão mentos de novos impulsos. De modo que na juventude, espon-
escritas pequenas diferenças na aplicação e formulação da lei tânea e irrefletida, age-se impulsivamente, como efeito do pas-
geral, que é determinista, também está escrita no indivíduo, po- sado, aplicando-se somente os resultados ou os totais do fe-
rém muito mais a fundo, a substância da Lei, que, dessa forma, chamento do balanço da vida precedente, enquanto na maturi-
reconduz todos a ela através das características dominantes que dade, que é mais consciente e reflexa, age-se mais no sentido
a exprimem. Ora, pelo princípio das unidades coletivas, sendo as de lançar novas causas, semeando-se para o próprio futuro, e
individualizações do ser ordenadas hierarquicamente segundo os dessa forma, mais que suportar as consequências do passado,
grupos, também hierarquicamente estabelecidas são as respecti- age-se corrigindo as trajetórias e iniciando o lançamento de
vas leis de cada plano de existência, de modo que o campo de novos impulsos causais. As ações dessa segunda metade da vi-
livre oscilação de cada caso é sempre relativo à unidade indivi- da, portanto, enquadram-se mais ao livre-arbítrio, enquanto as
dual. Entende-se que, em qualquer nível, a unidade é individual da primeira metade obedecem mais ao determinismo.
diante da unidade coletiva do plano superior, enquanto é coleti- Quase como uma confirmação de tudo isso, encontramos
va diante da unidade individual do plano inferior. Assim, a li- uma confirmação em formas analógicas correspondentes no
berdade está sempre enquadrada no determinismo da unidade plano físico. O indivíduo recebe por hereditariedade e desen-
acima, e o indivíduo somente é livre como elemento componen- volve um organismo para o qual a sua personalidade espiritual
te de uma coletividade superior, que, em relação à unidade indi- foi atraída por afinidade, mas que é o resultado da evolução
vidual, é sempre determinista. Tal é a lei do grupo, enquanto biológica. Isto já constitui uma espécie determinismo orgânico
permanece livre o indivíduo. Assim, em toda unificação, verifi- hereditário, ou seja, um organismo físico já fixado em uma
ca-se uma reordenação determinista, e cada ascensão para Deus forma, assim como, em outro plano, também está fixado o des-
constitui uma adesão mais firme à Sua vontade absoluta. tino que exprime o seu passado. Então, tal como no caso ex-
Tem-se, assim, aos poucos, o tecido que forma esse grande posto anteriormente, o indivíduo também suporta aqui essa
organismo que é o universo. Como o elétron é o elemento forma física hereditária na primeira parte de sua vida, para
componente do átomo, este da molécula, esta da célula, esta transformá-la com a contínua pressão do seu espírito, pelo que
dos tecidos e estes do organismo, assim o pensamento de um as suas ideias dominantes acabam por se imprimir na carne,
indivíduo na sociedade humana é o elemento de um mais vasto exprimindo-se em características somáticas. Assim como é
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 45
corrigido, conforme a nova vida quer, o precedente resultado XII. EQUILÍBRIOS
espiritual que se fixou no destino, também é corrigido o prece-
dente resultado material fixado no organismo físico. Sempre, ―A glória d'Aquele que tudo movimenta no universo penetra
em qualquer parte, paralelismos e analogias. De modo que a e resplende, numa parte mais, noutra menos‖.
vontade, assim como pode corrigir na vida um destino adverso,
pode corrigir também uma fisionomia triste, fazendo nela Em nossa ascensão, tentamos agora, por outra via, avizi-
transparecer finalmente a interior beleza, se esta verdadeira- nhar-nos sempre mais da concepção de Deus e do universo, que
mente existir, e ao contrário. Assim, a nova vida, seja espiritu- em breve teremos de enfrentar; concepção que sinto chegar e
al ou seja física, implanta-se diretamente nas consequências da que vamos preparando e amadurecendo em nosso pensamento.
precedente, e é lógico que ela seja a continuação direta da an- Estamos bem longe daquela verdade do 1o Capítulo.
terior, segundo um mesmo e contínuo desenvolvimento de for- O homem normal não forma a ideia do universo de maravi-
ças. Deste modo, a maturidade, mesmo colhendo as conse- lhosos equilíbrios onde ele vive. Acredita que as harmonias da
quências da existência precedente, fixadas no período atual, ordem divina se encontrem somente no alto, no chamado para-
pode, na plenitude das suas forças e da consciência adquirida, íso. Não. Aquela ordem, expressão de Deus, está em qualquer
melhor corrigi-las, seja guiando-as, seja sobrepondo-lhes inici- lugar, também no inferno terrestre. O homem a tem, pois, toda
ativas novas. Poder-se-ia, assim, chegar ao conceito de que a à sua volta, nas pequenas coisas do seu mundo, em meio às du-
massa biológica, isto é, dos corpos ou formas da vida, seja um ras necessidades do contingente. É verdade que a maioria hu-
material biológico comum que evolui, porque progressivamen- mana é involuída, nada sabe dessa ordem divina, da sua bele-
te elaborado por todos os eus que, sucessivamente, vestindo-se za, da riqueza que ela representa, da potência que advém de
com ele em suas vidas, assumem a forma da sua manifestação. conhecê-la e saber harmonizar-se com ela. A maioria involuída
E isto exprimiria a ação evolutiva do espírito sobre a matéria e está, pois, mais atenta em violar continuamente essa ordem, o
a razão da necessidade de esposá-la na vida física, porque o que redunda em seu prejuízo, e não da ordem, que, na sua per-
espírito está à testa e tudo ele deve fazer subir consigo para feição, possui a característica de saber tornar automaticamente
Deus. Quando se compreende a estrutura do sistema universal, a reconstituir-se, não obstante toda violação. Assim, o homem
tudo parece justo e lógico, e a limitada concepção de uma vida está ativamente ocupado em procurar, sem descanso, somente
curta, fechada entre o nascimento e a morte, é substituída por o próprio dano e a própria dor. Mas isto é necessário para que
outra, vasta, de uma vida eterna. ele, mesmo ficando livre, aprenda. E, assim, na sabedoria divi-
Concluindo esta visão, antes de passar a outras, o livre- na, a desordem voluntária da inconsciência humana se trans-
arbítrio nos aparece, pois, como uma pequena irregularidade, forma em mais elevada ordem no futuro, e a dor, que deriva
que não viola o determinismo universal. É no seu seio e en- daquela desordem, se torna um meio de ascensão para uma fe-
quadrada no seu âmbito que é admitida esta limitada anomalia, licidade mais completa. De certo, o homem atual não imagina
própria da imperfeição, que deve ainda atingir a perfeição e que haja no universo, ao alcance de sua mão, uma riqueza, po-
que, através da incerteza da experimentação, a vai procurando. der e felicidade imensas. Delas se acha afastado pela sua invo-
Existem dois mundos: o absoluto e o relativo, o perfeito e o lução, que é ignorância; e, para conhecer, é preciso evoluir, is-
imperfeito. Parece que o determinismo, próprio do primeiro, to é, lutar e sofrer. A mente que, no aparente caos humano, sa-
fragmenta-se no segundo para escopos contingentes e transitó- be recolocar cada coisa em seu lugar, verá um desenho maravi-
rios, superados os quais, ele volta a unificar-se no próprio de- lhoso de que ela faz parte; verá que tudo é lógico e ordenado
terminismo. O livre-arbítrio domina a zona das formações e para o bem, por mais tristes que possam ser as condições do
depois cessa; corresponde à zona da consciência, contida no indivíduo e do momento. O evoluído vê as metas de tudo e a
inconsciente humano, subconsciente embaixo e superconscien- íntima e tenaz reconstituição da ordem, a despeito da desordem
te no alto, mas sempre inconsciente, isto é, abandonado à sa- vitoriosa, que está somente no exterior, na superfície, relativa e
bedoria da Lei. É neste intervalo que o infinito, verdadeira di- transitória. Otimismo, pois, um otimismo de ferro, de bases
mensão universal, avizinha-se da nossa mente, deixa-se perce- graníticas, dadas por um profundo conhecimento científico da
ber e medir, tornando-se nosso domínio no breve trecho limi- vida e de suas leis; otimismo em todo caso, ainda quando as
tado do finito, para depois fugir-nos de novo como infinito, do coisas vão mal, ainda diante da triste verificação de que toda
lado oposto de onde veio. Assim como a consciência humana, descoberta científica e todo progresso no conhecimento ve-
no fundo, é inconsciência diante da sabedoria de Deus, tam- nham a ser usados pelo homem em primeiro lugar para praticar
bém o finito e o livre-arbítrio são apenas dimensões nossas re- o mal. A Lei quer que quem pratica o mal involua, tenda a
lativas e transitórias diante da verdadeira, fechadas dentro des- aprofundar-se em sempre maior ignorância e dor, até à auto-
ta, na qual tudo recai e se completa. Eles não representam se- destruição. E quer que quem faz o bem evolua, tenda a subir
não a dimensão-limite diante da dimensão sem limite, que é o para uma sempre maior sabedoria e felicidade, até à fusão em
infinito, a consciência da Lei ou sabedoria de Deus, o determi- Deus. Não obstante as aparências infernais de alguns mundos
nismo. De um lado o limite, do outro o sem-limite. A nossa como a Terra, tudo é ordem, é bem, é feito para a felicidade
perspectiva parte do limite, e o lado oposto nos aparece nega- dos bons e o triunfo da justiça. Quem quer, esteja onde estiver,
tivo, um sem-limite. Não sabemos conceber o infinito senão pode sempre salvar-se. Quem compreende, eleva um cântico
pelo lado negativo, senão como um não-finito. Assim, a cons- de amor e gratidão a Deus e bendiz sempre a vida.
ciência humana não pode conceber senão no limite. Ela repre- É desta ordem que agora queremos ocupar-nos aqui, que se
senta um ponto de conhecimento que, diante de uma infinita refere não aos longínquos planos celestes, considerados de pou-
sabedoria divina, é ignorância, assim como o finito é sempre ca utilidade, porque longínquos, mas aos seus reflexos terrenos,
inadequado diante do infinito. O verdadeiro, à semelhança dos no seu funcionamento entre nós, humanos, nas suas consequên-
aspectos observados, provindo do infinito da intuição, fecha-se cias e aplicações práticas. Somente assim poderemos ser com-
diante de nós, em uma seção sua, em nosso pequeno campo ra- preendidos. É lei geral no universo o princípio de dualidade,
cional, que lhe analisa os particulares, sem capacidade de sín- pelo qual toda unidade ou individualização do ser é dúplice, is-
tese. Abaixo e acima do racional há a intuição; embaixo, aque- to é, separada, porém soldada em seu íntimo, em duas metades
la axiomática das premissas; no alto, aquela sintético- contrárias, inversas e complementares, que se combatem e se
conclusiva do gênio. Ela pertence ao mundo do infinito, da procuram, que se anulam e se completam, constituindo assim,
consciência da Lei, do determinismo, do absoluto, de Deus. na oposição de dois termos opostos e contrastantes, um sistema
46 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
equilibrado, ou seja, a unidade ou indivíduo. Lei esta já de- se destrutivo. Ele tende a transformar tudo em energia e, por
monstrada em outros escritos meus. Mas há mais. Os dois ele- isto, a queimar o material orgânico. É o verdadeiro motor da
mentos do dualismo, constituintes de toda individualização, não vida e agente da evolução, o catalisador, o princípio do vir-a-
assumem somente a forma estática, de equilíbrio estável, mas ser e da transformação. Ele tende a dissolver, a consumir e,
também a forma dinâmica de um sistema de forças, pelo qual quando não freado, a queimar e destruir. A sua ação é oxidante
os dois termos não são simplesmente contrapostos em equilí- e dissolvente da matéria nutritiva acumulada no protoplasma,
brio, mas um deles, de valor positivo, se põe no centro do sis- para reduzi-la a energia. Ele é, em suma, o Deus animador da
tema e um ou mais elementos de sinal oposto ou valor negativo célula e, portanto, da vida; representa a função da combustão e
passam a girar ao seu redor, dispondo-se na periferia. O número da troca, a função de governo e de comando. Assim como o
deles é variável em relação ao seu potencial dinâmico e ao do Sol rege, guia e faz avançar os seus planetas, ao núcleo perten-
elemento central. Quanto mais esse núcleo é potente, maior é a ce a tarefa da direção e da ascensão. Essa função, toda mascu-
sua capacidade de irradiar e, portanto, o poder de reger um lina e divinamente criadora, recorda e repete, num plano mais
maior número de elementos satélites. Paralelamente, quanto elevado, o motivo da gênese de energia que se verifica por de-
menor é a amplitude ou capacidade negativa de receber carga sintegração atômica nas mais complexas formas da individua-
positiva do núcleo por parte dos elementos satélites, tanto mai- lização química. Como o Sol, o núcleo arde, aquece, arrasta
or é o número destes que o sistema pode suportar. Isto porque consigo e comanda todo o sistema; entrega-se, irradia e sus-
cada um dos dois termos se põe no sistema em relação ao outro tém. Ele representa e reproduz, em proporção à sua potência, o
e, para a estabilidade e equilíbrio deste, devem harmonizar-se. esquema geral do universo – esquema que é único em qualquer
Observemos a influência que esse princípio tem, sobretudo lugar. Assim, o núcleo reflete e repete no seu plano as funções
em nossa realidade. Comecemos pelo caso máximo. O universo diretoras do princípio geral do cosmo, que, conforme a mesma
todo é dúplice. Deus, princípio espiritual, positivo, está no cen- e única lei (monismo), retorna em todos os menores sistemas
tro; a forma material, negativa, está na periferia. De um lado o componentes, até à infinitesimal ramificação. Este sistemas,
motor: ativo, criador; do outro a manifestação: passiva, criada, por sua vez, segundo a lei das unidades coletivas múltiplas, re-
efeito daquela causa. Os dois termos têm caracteres opostos. encontram-se e recompõem-se em uma nova unidade, irma-
Deus é o espírito, o absoluto, o imóvel, o imutável, o pensa- nando-se por reagrupamentos graduais e progressivos, que se
mento diretor, o comando. O universo que vemos é a forma, o estendem do centro à periferia.
relativo, o móvel, o transitório, a expressão, a obediência à Lei. Que faz o protoplasma, pelo seu lado? Logicamente, as su-
Transcendência e imanência não são senão os dois termos opos- as características e funções devem ser opostas. Ah se o princí-
tos de um par em que eles se unem em estreita unidade, ligados pio da inovação não fosse equilibrado por aquele da conserva-
no mesmo sistema em inseparável monismo. Esse esquema ção! Não nos surpreendamos então por reencontrar na estrutura
único ecoa e se repete em todo o universo, até à sua última pul- da célula os princípios contrastantes do misoneísmo e do pro-
verização. Todo fenômeno é um tornar-se que se liga ao par gresso, próprios da vida social. Para quem compreendeu a uni-
causa-efeito. Portanto todo pensamento ou ato contém em si, dade do universo, são lógicas e verdadeiras essas relações en-
conforme a sua natureza, as suas consequências. Assim, o efei- tre a estrutura da célula e os movimentos coletivos e aconteci-
to gira em torno de sua causa até que esta se exaure nele. mentos históricos, que também derivam da íntima constituição
Casos menores. O Sol, núcleo do Sistema Solar, tem, como do ser humano. De fato, somente assim é que se pode verda-
verdadeiro macho no harém, nove esposas nos seus planetas. deiramente compreender a história. O poder do protoplasma é
Elas o seguem obedientes em todo o seu curso através da galá- todo ele para a construção de material orgânico, reposição das
xia. O mundo atômico é regulado pelos mesmos princípios. Em perdas e fornecimento do combustível a ser queimado. Ele
torno do elemento central do átomo (núcleo), de carga eletropo- tende à economia, à conservação, ao acúmulo das substâncias
sitiva, rodam tantos elétrons de carga eletronegativa quantos o orgânicas, ao armazenamento de reservas nutritivas; em suma,
elemento central possa reger. Temos assim, no microcosmo à engorda. O protoplasma é a fêmea, e esta serve o macho para
atômico, um verdadeiro sistema planetário, em que o núcleo re- que ele, com o material recolhido por ela, possa, através do
presenta o sol. E todo sistema planetário não é senão o átomo poder óxido-redutivo do núcleo, isto é, das oxidações operadas
de uma química astronômica do macrocosmo. Na Terra, temos por ele como núcleo, criar a energia vital. Reencontramos aqui
92 elementos, ou corpos simples, que vão do hidrogênio (H) ao um momento do físio-dínamo-psiquismo universal. O núcleo
urânio (U); unidades atômicas em que o número dos elétrons está incumbido de criar energia, destruindo matéria; é, no seu
que giram em torno do núcleo sobe de 1 no H a 92 no U. Isto plano e sistema, o agente do transformismo, fenômeno univer-
quer dizer que o núcleo de U apresenta um potencial capaz de sal, em que a substância assume formas diversas. Em paralelo
reger 92 planetas, enquanto o do H admite apenas 1. a essa função, o protoplasma é inteiramente substância a ser
No mundo orgânico, a distinção sexual, antes de chegar às plasmada, na expectativa de receber impressões, para conser-
suas manifestações somáticas e psíquicas, já existe na célula e vá-las (misoneísmo); diante do agente, é o material da vida,
exatamente conforme os mencionados princípios. A célula é um portanto é todo feito para a construção e reintegração deste
microcosmo formado como um sistema planetário, cujo centro material, para preencher todas as perdas nele verificadas por
é constituído pelo núcleo, elemento positivo, masculino, e a pe- força do incêndio produzido pelo núcleo.
riferia, ou séquito, ou harém eletrônico, é constituída pelo pro- Esta é a base do metabolismo orgânico. A vida se apoia nes-
toplasma, elemento negativo, feminino. Os dois dinamismos ses equilíbrios. A própria agricultura está sujeita a essas leis. A
são inversos e complementares, reciprocamente contrários e semente é o núcleo, princípio ativo. A terra representa o proto-
equilibrados. Eis que chegamos então às aplicações práticas, plasma, princípio passivo, acumulador de materiais que a se-
que mais interessam ao leitor. mente toma ao redor do seu sistema. Há uma troca no terreno,
A saúde e a resistência orgânica, que representam uma sig- regulada pelas plantas que nele vivem. A cultura intensiva, com
nificativa parcela da luta pela vida, dependem em grande parte base na adubação química, alterou essa permuta, destruindo a
do equilíbrio entre núcleo e protoplasma. Estes, pelo mencio- flora bacteriana, em razão disto, hoje, ou se torna a fornecê-la à
nado princípio e dado o seu dinamismo inverso, representam terra ou se deixa esta descansar, para ter tempo de reconstituir a
funções inversas e complementares. O núcleo é ativo, portanto flora e recuperar assim os materiais nutritivos dos quais a ex-
dinamizante, a ponto de, se não encontrar no par o elemento ploração intensiva a depauperou, caso contrário teremos uma
contrário, como função compensadora e de equilíbrio, tornar- produção agrícola progressivamente menor.
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 47
No metabolismo orgânico, o protoplasma trabalha para o nú- inércia, a divina sabedoria os colocou juntos de propósito para
cleo, mas dele recebe a energia para trabalhar para ele. A fêmea se compensarem. Uma humanidade toda de homens matar-se-ia
é a serva do macho, mas dele recebe guia e defesa. Se os dois na luta; uma humanidade toda de mulheres acabar-se-ia na es-
impulsos contrários não se compensarem e equilibrarem e, lu- tagnação. Nenhum dos dois princípios saberia viver e poderia
tando um contra o outro, não se penetrarem e combinarem, ex- sobreviver sozinho. E eis-nos entre as paredes domésticas. O
tinguindo a colaboração, então é o fim. O núcleo, sozinho, homem trabalha fora e leva para casa o fruto do seu trabalho, a
queima todo o material em energia. O protoplasma, sozinho, mulher trabalha em casa e elabora aquele fruto, nos alimentos,
cristaliza a célula, pois sufoca as reservas do núcleo e paralisa cuidados e criação dos filhos. Este é o modelo, segundo o es-
assim a sua obra dissolvente e redutora, deixando tudo apodre- quema da vida. A mulher operária, empregada, política, que lu-
cer, insensivelmente, na mais indolente das inércias. No primei- ta contra o homem, é um aborto moderno, contra a natureza.
ro caso, haverá uma troca demasiado violenta e, com isto, um Que o planeta se torne sol, o elétron vá ao centro do átomo, que
rápido esgotamento dos capitais da célula, das reservas do pro- o protoplasma se faça núcleo, isto é patológico, é subversão.
toplasma, resultando enfim na ruína do sistema orgânico e na Mas há compensação também aqui, e o equilíbrio é salvo. O sé-
morte por consumição. No segundo caso, teremos uma redução culo atual, em que as mulheres são machos, deve compensar o
do potencial vital da célula e, portanto, um afrouxamento das século de Setecentos, em que os machos de perucas e empoados
trocas e uma atividade celular orgânica reduzida. Isto produz eram fêmeas. Mas isto passará, e retornar-se-á ao romantismo,
excessivas e insuportáveis escórias na troca, autointoxicações, e então rir-se-á da atual mulher-macho, como hoje se ri do ma-
prepara o terreno orgânico onde medram e prosperam os micró- cho-mulher do século dezoito. Tudo se equilibra.
bios, ensejando o desenvolvimento de doenças infecciosas, a A coletividade tem a sua forma de vida masculina e femini-
disfunção dos órgãos, ou até mesmo a morte. na. Nos períodos de grande esforço inovador e evolutivo, tudo
Vê-se, pois, como temos em casa, em nosso próprio corpo, se dinamiza e se torna macho, também a fêmea. Nos períodos de
aqueles longínquos equilíbrios cósmicos pelos quais não nos in- estagnação no bem-estar, em que se colhe o fruto do esforço
teressamos, porque nos parecem muito afastados. Temos então precedente e os resultados são assimilados e fixados, tudo se
em nós e em nós revelamos, como tudo revela, o mesmo es- harmoniza, embeleza, refina e se torna fêmea, também o macho.
quema do universo. A ordem está em nós e em todas as coisas, Enquanto, antes, tudo era forte mas rude, depois tudo se aperfei-
e a essa ordem devemos nós, e tudo deve, a existência. Na ad- çoa, torna-se delicado, mas também se debilita. Primeiro a guer-
mirável distribuição de funções da economia da natureza, é ao ra e as revoluções, a vontade e a conquista; depois, na paz, as ar-
princípio masculino que cabe a ação de precipitar, neutralizar e tes, a beleza e o amor. Alternações como o dia e a noite, fadiga e
expelir tóxicos, toxinas, qualquer inimigo, todo resíduo da tro- repouso, criação e assimilação, processo pelo qual, com trabalho
ca. A ele é confiada a luta para a defesa orgânica. Daí, a maior alternado, cada um repousando enquanto o outro se cansa, espí-
resistência orgânica dos temperamentos fortes, de mais alto po- rito e matéria avançam. O contínuo alternar-se dos dois períodos
tencial nervoso. Mas ai se a sua função não fosse freada e equi- históricos, clássico e romântico, responde precisamente à lei do
librada pelo princípio oposto! Vimos o que sucede logo que os dualismo universal, que reencontramos nos dois sexos. Trata-se
dois processos celulares de síntese e redução não se equilibram. de desequilíbrios sucessivos, necessários para o movimento evo-
Também o nosso metabolismo orgânico é uma luta, mas uma lutivo, mas que, compensando-se, sempre se equilibram. O
luta equilibrada. O princípio de dualidade e o esquema desse mundo está hoje dividido neste sentido. De um lado, um totalita-
sistema de forças centrais e periféricas são uma lei universal. É rismo tirânico, revolucionário, guerreiro, pobre e conquistador;
esta universalidade que dá a toda manifestação do ser a forma do outro lado, as livres democracias, pacificas, fartas e acumu-
de luta. Compreende-se assim como o próprio homem não pos- ladoras. De um lado, o princípio comunista, para tomar; de ou-
sa fazer nada senão em forma de luta e como toda atividade as- tro, o princípio capitalista, para conservar.
suma e não possa assumir senão essa forma. Ela nos indica não Ora, considerada em posição de equilíbrio, e não como fase
só a impossibilidade e o absurdo de querer eximir-se do esforço de transição, a vida da mulher, por sua natureza reflexa, procu-
de medir-se com o próprio antagonista, mas também que todo ra todos os seus motivos no macho, em função do qual, como
ser, conforme seu tipo, tem naturalmente o seu próprio oponen- verdadeiro satélite, vive e funciona. Essa é a sua posição natu-
te. Assim explica-se como, sem luta, a vida se extingue. A gê- ral, o seu equilíbrio, a que ela, naturalmente, sempre tem ten-
nese das defesas e da força que nos robustece está na luta. Cada dência para retornar. Somente ao macho a natureza dá a inicia-
um, conforme o que é, tem o seu paralelo e proporcionado an- tiva. Ao satélite-fêmea cabe a obediência. E, se, transitoria-
tagonista, é por este atraído e deve medir-se com ele, para que mente, arrastado pela prevalência do impulso oposto, o macho
se forme logo a hierarquia de quem manda e de quem obedece, se adapta a funcionar como fêmea e ao contrário, isto sempre
segundo o seu valor, porque, sempre e em qualquer parte, as se dá por substituição. O deslocamento é acidental e transitó-
forças se dispõem, naturalmente, segundo o mencionado es- rio. A verdadeira mulher ama, e o verdadeiro homem conquis-
quema sideral atômico. Essa é a lei do cosmo. Não há, portanto, ta. Na evolução, à frente está o macho e, atrás, seguem os saté-
outro recurso, senão sermos fortes e premunidos, como nos lites. Na ponta do trem está a máquina, e não os vagões, que,
quer a própria luta. Ou lutar e, lutando, ficar forte e vencer; ou ao contrário, se deixam arrastar. Já que há tantas formas de
servir e, suportando, adaptar-se e, no caso extremo, morrer. evolução e tantas diversas altitudes, o progresso depende do
Esse diálogo entre núcleo e protoplasma não é senão o diá- que esse macho compreende. Se ele for ainda involuído, fará a
logo do sexo, isto é, do macho e da fêmea. E também esse é um luta do animal para a seleção de um mais forte tipo animal. Se
equilíbrio cósmico que está em nós. Não é por acaso, mas sim ele for evoluído, fará uma luta mais inteligente e civil, para a
em harmonia e obediência a esse sistema universal, que o ma- seleção de um tipo biológico mais elevado. Mas, em todo caso,
cho e a fêmea possuem determinadas características, distribuin- a mulher não pode senão inserir-se no sistema do macho, se-
do-se-lhes diversas funções. Não é por acaso, mas sim confor- guindo passivamente o elemento ativo. Quando quer se tornar
me a lógica e a sábia economia da vida, que o macho está apto ativa, fica naturalmente fora de fase e, não sendo munida pela
para a guerra e a fêmea para a reprodução; que o primeiro mata natureza para essa função de luta, vem a encontrar-se em con-
para criar, e a segunda gera e acumula para que ele possa matar dições de inferioridade e, naturalmente, sofre. Se é mulher, não
e destruir para criar. Isto demonstra que a vida não é um fim em pode funcionar como núcleo. Isto é inato nela até nas profun-
si mesma, mas meio para evoluir. E, se o primeiro é inovador dezas celulares do seu organismo. O fato de ser escasso o po-
até à destruição e a segunda é conservadora até à extinção por der oxidante da sua célula e, pois, reduzido o volume de ener-
48 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
gia que dela brota, constitui uma carência natural insuprimível, ser o mais longínquo, ao sexual, que está mais perto de nós.
até às suas últimas consequências, também nos planos superio- Somente assim, enquadrados nos esquemas universais, é possí-
res da psique. Por isto a mulher, essencialmente protoplásmica, vel compreender os problemas particulares.
tem necessidade de se completar, pedindo o poder dinamizante Façamos uma última aplicação no campo espiritual. Todo
ao princípio nuclear masculino. chefe, em qualquer campo em que opere, é sempre um núcleo
Eis-nos diante de novas e mais próximas aplicações do em torno do qual gravitam discípulos, súditos, exércitos, imita-
princípio de equilíbrio universal. Como compensa a mulher as dores, clientes. Em toda manifestação coletiva, social, política,
suas reduzidas capacidades metabólicas; como vivifica a sua religiosa, econômica, intelectual, também as forças espirituais
troca, que é toda poupança; como age a sua célula acumuladora, se distribuem metodicamente, segundo o esquema habitual de
para tornar a se carregar de energia? Como pode comunicar-se núcleo central e elementos periféricos, rodando em torno, à gui-
com o princípio oposto, para se recarregar? E ao contrário, co- sa de sistema planetário. O chefe, à semelhança do sol, sempre
mo pode aquele princípio oposto se descarregar nela? Qual o arrasta atrás de si a sua corte de satélites. O esquema de distri-
princípio regulador dessas trocas de recursos e cargas opostos? buição de forças no átomo, na célula, bem como no sistema so-
É evidente que os dois princípios contrários, o positivo e o ne- lar, é o mesmo e também se aplica aos sistemas políticos nos
gativo, para poderem reciprocamente se compensar e, com isto, quais se ordena a sociedade humana. Os povos giram em torno
formar o equilíbrio, devem ser comunicantes. Vejamos como de seu governo. Os dois são opostos e complementares no âm-
isto se dá. No mundo orgânico, são os hormônios que, mais ou bito da nação; eles lutam entre si, mas formam uma unidade,
menos, excitam e, portanto, regulam o metabolismo e a ativida- que é a nação. Para que o sistema de forças possa formar-se, é
de funcional de todo órgão. Eles são produtos das várias glân- necessário que os dois termos sejam reciprocamente proporcio-
dulas de secreção interna, mas sobretudo dos ovários e dos tes- nais e qualitativamente afins, de outro modo o equilíbrio e a
tículos. Os primeiros produzem os hormônios ovarianos, aptos simbiose não se formam ou se desmancham. Por isso os povos
a excitar a função de reintegração e construção orgânica; os se- têm os governos que merecem, e ao contrário. No grande orga-
gundos produzem hormônios de grande potência oxidante, di- nismo coletivo, nova unidade biológica do porvir, hoje em for-
namizante. A atração sexual é dada, de um lado, pela carência mação, o povo representa o protoplasma, a massa demográfica
e, de outro, pela abundância desses hormônios, e ao contrário acumuladora de carne e de bens; o chefe é o núcleo que tudo
para as de tipo oposto. Para atingir através da compensação o move e dinamiza, mas que também, para progredir, está dispos-
equilíbrio, eles tendem naturalmente para a troca. Reencontra- to a queimar tudo nas guerras e revoluções. Dessa forma, os
mos aqui também, nas leis do amor, aquele universal princípio dois termos se condicionam, freando-se e equilibrando-se reci-
de equilíbrio que tudo rege. Nele reencontramos até o equilíbrio procamente. Depois de um esforço bélico ou revolucionário, os
da procura e da oferta, que é a base das nossas trocas e da ciên- povos se recusam ao movimento inovador e se concentram,
cia econômica. Para cada um, conforme o seu sexo e tipo, trata- exaurido o esforço expansionista, na função de acumular. Che-
se de adquirir de quem os possua em excesso os elementos ne- fes e massas funcionam subordinados, e, tal como macho e fê-
cessários que lhe faltam, e de ceder os que possui em abundân- mea, não se sabe quem comanda mais. Algumas vezes, os po-
cia a quem deles tem carência. Somente assim, cada um pode vos mandam e os chefes obedecem. Quem guia a história não
atingir um bom reajustamento da própria troca e de todas as são, pois, nem uns nem outros, mas as leis da vida, que guiam
consequentes funções vitais. Somente assim os dois desequilí- todos. Não há vontade humana que nos possa fazer sair desses
brios se reequilibram e as recíprocas carências se suprem e se equilíbrios e ordem. No interior de cada unidade há sempre luta
saciam. Entre iguais (mesmo sexo) ou semelhantes (mesma fa- e contraste; cada eu (núcleo) está abraçado à sua contradição e,
mília) não há atração, mas repulsão ou indiferença. É a troca quanto mais forte ele é, tanto maior é a sua atração e tanto mais
que, através do ato sexual, em que se dá a absorção, permite a numerosa é a corte dos seus satélites, que são seus sequazes e
cada um dos dois sexos descarregar o próprio tipo de hormô- também inimigos. Ao vencedor todos rendem o obséquio da
nios supérfluos e se carregar dos hormônios de tipo e ação fêmea ao macho. É a homenagem da vida ao seu mais válido
oposta. É através da troca sexual que a célula consegue pôr princípio, positivo e dinamizante, aquele a quem é confiada a
água no vinho e vinho na água, conforme sua natureza e neces- evolução. Quem vence é rei. Esta é a lei em todo campo.
sidades, e, assim, regular o seu metabolismo, a sua vitalidade e Como vimos, tudo gira em torno de um centro: Deus, centro
seu funcionamento orgânico. Aqui não há espaço para expor máximo, que se reflete em infinitos centros menores para baixo,
em particular a modalidade dessa troca. Basta notar aqui as re- até ao infinitesimal. Assim, toda individualização reflete a Sua
lações entre um não sábio uso do sexo e as alterações da troca, imagem e Ele é verdadeiramente presente em qualquer parte,
e como se possa, por excesso ou por defeito, chegar a acumula- até à última poeira do universo. O mais absoluto monismo é
ções de escórias, a autointoxicações e, enfim, à debilidade e expresso na repetição do mesmo esquema em todas as grada-
vulnerabilidade orgânicas, que, somando-se com a hereditarie- ções e planos do ser, em todas as alturas da evolução. Assim, o
dade, vêm a constituir grande parte daquelas carências e pre- homem é feito à imagem e semelhança de Deus, e, em Deus, o
disposições ao assalto microbiano, que representam a hodierna universo diz: ―Eu‖, embora espedaçado em infinitas formas.
delícia do mundo. Todo fato, logo uma doença infecciosa tam- Mas é no próprio eu que está em tudo o que existe, que o ser
bém, é sempre conexo às suas mais longínquas raízes. encontra o seu centro absoluto e eterno, a sua divindade, mo-
Os erros e abusos, em qualquer campo, justamente por essa mento e reflexo da Divindade suprema, não importa quais e
lei de equilíbrio, é natural que se paguem. De qualquer natureza quantas formas transitórias ele possa assumir no tempo. Dizer
que sejam, exatamente porque são desequilíbrios, devem ree- que a forma está na periferia e o princípio animador no centro,
quilibrar-se. E reequilibram-se laboriosamente, saneando a pró- significa que a forma gira em torno da substância, a criação em
pria desarmonia com esforço. Aquela é dor, este é fadiga e dor. torno do criador, a matéria em torno do espírito, a manifestação
Esta a grande mestra da vida, que tudo sana e nos faz compre- em torno do ser, o efeito em torno da causa, o relativo em torno
ender. Essa é a medicina na ordem divina. Ela é amarga, mas é do absoluto, o móvel em torno do imóvel, o transitório em tor-
justa e cura. E nenhuma coisa é mais criadora do que uma dor no do eterno, a obediência em torno do comando da lei de
compreendida. Onde quer que lancemos o olhar, encontraremos Deus. É tão universal esse esquema do ser, que Deus mesmo o
o bem e o equilíbrio. Nestes exemplos, tomados ao acaso, te- representa e, nessa forma, se nos manifesta. Assim, Ele tem o
mos visto atuar sempre o esquema universal de forças antagô- seu termo oposto e complementar em Satanás, que o combate,
nicas e complementares, desde o problema máximo, que parece no entanto gira em torno de Deus e por Deus, único motor, é ar-
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 49
rastado. Satanás é o mal, a negação, que não pode existir senão na vida. Daí, a sua necessidade e utilidade. Todos têm necessi-
em função do bem, a afirmação. Assim, o mal gira em torno do dade de receber alguma coisa, mas têm também algo a dar. Pro-
bem e o erro em torno da verdade. Eles se condicionam reci- curar é achar. A permuta corresponde aos princípios de equilí-
procamente. O mal é a condição da afirmação do bem, enquan- brio e harmonia que regem o universo. Trocas de todo gênero,
to este é a condição da negação e destruição do mal. O bem, a agrícolas, econômicas, intelectuais, orgânicas. O isolamento
verdade, está no centro, na substância, em Deus; o mal, o erro, egoísta mata. A permuta é genética. É através dela que a vida se
está na periferia, na forma, em Satanás. O dualismo, que traz recupera e reconstitui suas perdas. O princípio utilitário corres-
cisão e luta, está na base do universo. Ele é dor, mas é também ponde, nesse caso, a um princípio de fraternidade e de solidari-
possibilidade de movimento e de ascensão. Ele nos aparece edade. O método evangélico corresponde à grande lei do equi-
como uma fratura, mas o universo, com a evolução, que vai de líbrio universal e exprime uma insuprimível necessidade bioló-
Satanás a Deus, tende ao próprio saneamento. Veremos, assim, gica. Sinergismo cósmico, divino monismo do todo. Cada um
que Deus, dolorosamente, despedaçou-se para dar vida, em su- necessita do próximo, e quem não o ama dele se afasta. Para re-
premo ato de amor, a uma infinidade de seres que, por sua natu- ceber, é preciso dar, e ilimitadamente receberá quem ilimitada-
reza, não podem, como verdadeiros satélites, fazer mais do que mente tiver dado. De um modo ou de outro, todos se procuram
rodeá-lo, sempre atraídos e desejosos de se fundirem nele, de para se fundir. Quando se odeiam e se combatem, é porque eles
cair sobre seu próprio sol. O próprio Satanás, no extremo peri- se procuram sem ainda se conhecer. E não se conhecendo ain-
férico oposto, não pode existir senão em função de Deus. Tirai da, não sabem fundir-se, porque não acharam a sintonia, a nota
Deus de Satanás: e o que este negaria? Tirai o bem ao mal: e o comum da simbiose. Também os dois sexos lutam para conse-
que este destruiria? Satanás está atado a Deus pela sua própria guir a fusão. A vida é regida pelo amor, e o ódio não é senão
existência e não pode existir senão como executor da lei de amor malogrado. Na luta corpo a corpo, como no amor, termi-
Deus. É ela que confiou a Satanás a tarefa negativa da resistên- na-se igualmente abraçados num espasmo. A lei do ódio é a
cia, é ela que manda nele, o enquadra na sua ordem, o cons- mesma lei do amor, embora seja do lado negativo; a corrente é
trange para os seus fins. No fundo, Satanás é o servo de Deus, invertida, mas o princípio é uno. Tudo gira, no direito e no
como o mal é o servo do bem. Ainda que ao avesso, em forma avesso, em torno de um mesmo centro e, qualquer que seja a di-
de ódio e de revolta, Satanás é sempre um satélite ligado ao seu reção do seu giro, tende e quer, por lei divina, seja pelo cami-
sol, que é a sua razão de existir. nho do amor positivo, seja pelo negativo, unificar-se em Deus.
Um último esclarecimento antes de concluir. Se o sistema
de forças é equilibrado segundo o esquema mencionado, co- XIII. EVASÕES
mo pode ele permitir o transformismo da evolução? Na reali-
dade, os dois impulsos opostos nunca se compensam exata- Sigamos ainda por outros caminhos a ascensão da matéria
mente e o equilíbrio jamais é perfeito. Neste caso, ter-se-ia a ao espírito, que nos leva para Deus.
estagnação. O equilíbrio, ao contrário, é oscilante, de onde Que o nosso mundo de hoje se faça sempre mais infernal,
nasce o movimento. Entre os dois princípios, não há compen- é coisa que todos compreendem. Sabemo-lo pela nossa dura
sação perfeita mas sempre uma carência, que jamais se com- experiência. Se os poucos que se encontram bem repousam
pleta e, permanecendo insatisfeita, busca o seu termo com- satisfeitos, quem se acha incomodado se mexe na procura de
plementar, perseguindo-o sempre, sem nunca alcançá-lo. O uma posição melhor que o livre do seu sofrimento. Os incul-
que poderá parecer uma dor e uma condenação é, ao contrário, cadores de remédios pululam por aí, pela lei da procura e da
a base do movimento e da evolução. O que parece um mal é oferta, já que os remédios são um produto solicitado. Floresce
um bem, porque representa uma infinita possibilidade de sa- assim, nos tempos difíceis, a indústria do remédio, e isto tanto
neamento. A congênita insatisfação humana, essa dose de mais, pois os males são muitos, e, quanto mais estes aumen-
descontentamento que fica no fundo de cada prazer, está ali tam, tanto maior número de clientes e tanto mais a indústria é
para nos indicar que ele nunca é o último termo da satisfação, lucrativa. Sabe-se que os medicamentos não curam, o que não
que há outro mais adiante e que é preciso subir para uma feli- impede que as farmácias estejam apinhadas. Para qualquer
cidade sempre maior. Se houvesse a felicidade com que se so- parte que nos voltemos, um oceano de ais para todos. Os ven-
nha e a saciedade completa como se desejaria, então tudo pa- cedores e os ricos não escapam, porque, se os pobres sofrem,
raria. No momento em que os dois opostos se fundissem ple- eles tremem. E os remédios se reduzem a falatórios. O mal fi-
namente, as carências e lacunas estariam preenchidas e tudo ca, e fugir da dor parece impossível. Estaremos, pois, fecha-
cessaria: o movimento, a vida, a ascensão. Um pequeno dese- dos sem salvação em nossa prisão? E, como o pássaro na
quilíbrio é necessário no sistema, mas também este é dosado gaiola, o homem sempre mais se debate à procura da evasão.
para atingir os fins em razão dos quais existe. Se o sistema de Onde está a saída, a via de fuga? Os anunciadores de remé-
forças existe e se rege enquanto é equilíbrio (unidade estáti- dios indicam numerosos caminhos e dizem: Ele está aqui, ou
ca), ele também se move e pode transformar-se enquanto é, está lá. Mas a gaiola fica, e nós dentro dela a debater nossas
numa dada proporção, desequilíbrio (unidade dinâmica). Pro- asas contra as barras da dor, até à desesperação.
porção regulada pela unidade, dada por resíduo dosado em re- Evadir! Ânsia irrefreável de liberdade, sonho supremo de
lação aos impulsos do sistema. quem sofre, palavra de ordem de hoje, espasmo do homem fe-
Uma consequência, como conclusão. Em nosso mundo, tu- chado no inferno terrestre. Cada um, segundo a sua filosofia,
do é carecente, incompleto, mas ao mesmo tempo há tudo em que, de acordo com a sua natureza, exprime a si mesmo,
quanto basta para suprir a carência e completar o incompleto. tenta a sua forma de evasão. Tentemos nós também a nossa. Ela
Basta procurá-lo. A lacuna é feita para ser satisfeita em sua será muito diversa da outra, parecerá utopia, mas ao menos, por
grande parte, exceto por um resíduo de carência, sempre não alguns minutos, teremos, em vez do contínuo acusar e agredir,
preenchido, que forma aquele desequilíbrio e movimento ne- até em nome de Cristo, uma palavra de paz e de amor; ouvire-
cessário para evolver. Do completamento surgiria a felicidade, mos, em vez do caótico e infernal concerto humano, as harmo-
que é a resultante da harmonia. Esta, porém, uma vez que nun- nias da música divina; veremos aplacar o ódio em um amor su-
ca é completamente alcançada, está sempre em formação, sendo perior, dirigido a todas as criaturas. Para nós, trata-se de reali-
assim também para a felicidade. Se tudo existe e basta encon- dades cientificamente possíveis. Porém, mesmo para quem não
trá-lo, o caminho para suprir, senão todas, ao menos grande pode compreender e as considera utopias, não será também do-
parte de nossas carências está aberto. Este é a via das permutas ce evadir-se em sonho tão belo?
50 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
Há dois modos de fugir do próprio plano de vida e condi- como luciferina, isto é, portadora de luz satânica. E, de fato, ela
ções inerentes: ou descendo, ou ascendendo. O primeiro é ca- demonstrou uma ação pseudoconstrutiva, resolvendo-se, na rea-
minho fácil, mas traidor; oferece antes o doce e deixa depois o lidade, em destruição. Eis por que ela foi entendida como uma
amargo, parece presente, e não oferece senão uma antecipação, pseudoluz, com tendência a obscurecer e confundir, como está
que é preciso pagar depois. O mundo atual é néscio e prefere bem expresso no conto bíblico da torre de Babel.
esta via, que é o caminho do prazer. Quem é tolo, é justo que Quem, pois, vê Deus como manifestação periférica sustenta
sofra até que aprenda. Assim quer a Lei, para que ele se eleve. a imanência; quem o vê como causa central sustenta a trans-
No entanto há um outro caminho, mais difícil, que oferece an- cendência. Na realidade, causa e efeito estão uma na outra e ao
tes o amargo, mas, logo após, deixa o doce, um caminho em contrário. Ambos os juízes têm razão, no entanto, em nome da
que antes se paga e depois se obtém. Experimentemos esse se- mesma verdade, eles se acusam e se contrastam. É a relativida-
gundo caminho de evasão. Ele nos leva ao paraíso. Em vez de de de sua posição periférica involuída que lhes faz perceber a
romper nossas asas contra as paredes do inferno terrestre, diri- unidade como dúplice e separada. Ascendendo-se evolutiva-
jamo-las para o alto. Desta parte, a gaiola está aberta e a fuga é mente, vê-se mais profundo, de modo que a relatividade e a se-
possível. Fujamos por esta parte e observemos o que acontece paração, próprias do nosso plano de vida, pouco a pouco se es-
lá no alto, no paraíso dos mais evoluídos, que superaram as vaem. Então, transcendência e imanência se revelam como os
formas de vida humana terrestre. A porta está aberta e é inaces- dois polos do mesmo binômio; observa-se e compreende-se o
sível somente para quem não sabe subir. As suas barras invisí- universal princípio de dualidade, e a contradição desaparece. A
veis são dadas pelas forças de que se compõe aquele organismo ascensão leva a uma contínua pacificação de contrários, a uma
dinâmico que constitui a personalidade humana. Estamos limi- progressiva unificação dos fragmentos do nosso relativo. O to-
tados e fechados somente pelas forças de que somos constituí- do parece um, mas só no seu íntimo, se bem que dividido em
dos. Bastaria modificá-las, e todo um universo de maravilhas duas partes inversas e complementares, que se contrapõem só
apareceria. Saber mudarmos! E este é um problema absoluta- para formar uma unidade. Contraposição não para cindir-se
mente individual, em que somos independentes do ambiente como antes, mas para se equilibrar e, então, juntar-se. Eis um
humano. Independentes! Mas não somos independentes daquilo primeiro passo para a unificação.
que somos. Eis o problema. A gaiola não é a Terra ou a vida, Mas, à medida em que se ascende, isto é, vai-se para o cen-
somos nós, é a nossa natureza que estabelece a nossa forma de tro, Deus, vê-se ainda mais profundamente. O binômio Deus-
vida. Bastaria que soubéssemos mudar-nos e a evasão estaria universo não se mostra somente como um par unido em insepa-
pronta e garantida. Problema individual, de destino, que cada rável monismo, mas se torna um único sistema de forças, em
um fabrica por si com as próprias obras. Imaginemos, então, que a imanência gira em torno da transcendência e ambas são
fugir da Terra, embora isto pareça um sonho. Para nós é reali- parte integrante no esquema da mesma unidade, não importan-
dade vivida, por isto podemos explicá-la. Como se foge? Para do que tudo possa parecer imanência quando as coisas são ob-
onde? Para Deus, que é o centro da felicidade e do amor. Mas servadas do centro. Então, a criação não aparece mais no aspec-
onde está Deus? Deus está em toda parte, mas é tanto mais ma- to exclusivo de elemento complementar do Criador, mas sim
nifesto e perceptível quanto mais se ande para o centro. A eva- como o próprio Criador, visto em uma sua posição e de um
são da dor para a felicidade se realiza caminhando-se para o ponto de vista diverso, periférico em vez de central.
centro. E como se vai para o centro? Evoluindo. O centro está Tudo gira em torno do centro, Deus, para Ele gravita e é a
no íntimo das coisas, no íntimo de nós. A evolução se cumpre Sua manifestação, sem a qual Deus não possuiria no universo
transferindo da periferia para o centro a zona consciente e ativa forma ou corpo. Assim, também no homem, feito à imagem e
da nossa vida, caminhando da forma à substância, da matéria ao semelhança de Deus, a matéria é a veste do espírito e o corpo é
espírito, indo do extremo do todo que se chama imanência, ao transitório, sempre mutável, constituindo forma, expressão e
extremo que se chama transcendência. No precedente capítulo, manifestação periférica. No centro está a fonte da vida, de toda
―Equilíbrios‖, vimos como o criado gira em torno do Criador e energia e riqueza, fonte que, como a alma ou o sol, irradia e, as-
como esse sistema, de esquema rotativo, seja o esquema geral sim, tudo nutre e sustém, pulverizando-se e dispersando-se na
do universo, do átomo aos sistemas solares, da célula aos sexos periferia. O corpo é de fato um metabolismo, um tornar-se con-
e aos fenômenos de psicologia coletiva. Deus está no centro. tínuo, enquanto nós sentimos que o eu permanece constante no
Tudo gira em torno d'Ele, seja como matéria, como energia ou meio dessa constante transformação de sua veste. O eu é central
como espírito, e conforme se é mais ou menos evoluído, estan- no sistema, o corpo é periférico, e cada um dos dois tem em si as
do mais ou menos perto d'Ele, também se é mais ou menos vi- características da sua posição, como no universo. As diversas
vo, consciente, feliz. A fragmentação no relativo, o egoísmo, o formas com que nos revestimos giram em torno do nosso espíri-
transitório, o ódio, a dor, estão na periferia e diminuem à medi- to. Este é, no pequeno sistema da personalidade humana, o que
da que nos acercamos do centro. Indo nesta direção, faz-se Deus é no universo, isto é, o centro, a substância, o motor. Isto
sempre mais manifesta a unidade, a fraternidade, a incorruptibi- corresponde ao princípio monístico do esquema do universo, de
lidade, o amor, a felicidade. tipo único, coincide com a conhecida afirmação de que o ho-
Tornemos mais preciso. Transcendência e imanência são mem é feito à imagem de Deus, confirma a ideia de que Deus se
percebidos pelo homem atual como contraposições. Assim, de- reflete em todas as coisas, de modo que, em todas as coisas, nós
las se faz duas teses inimigas. Em geral, quando os homens lu- o reencontramos. E no homem, à semelhança de Deus no uni-
tam em torno de um conceito, é porque se colocam em posições verso, o eu também está no centro e em todo ponto do seu sis-
diferentes, cada um num extremo diverso da mesma unidade, tema, em todo lugar do seu ser, até às últimas propagações da
de modo que não percebem senão a própria posição. Isto acon- sua forma periférica. O eu, trate-se de Deus ou do homem, está,
tece porque estão na periferia, e, quanto mais periférica for a segundo o mesmo esquema, presente e ativo em todo momento
posição, tanto mais o todo lhes aparece separado, porque tanto da sua manifestação, que, como sua emanação, é toda ele pró-
mais eles estão imersos no relativo. É assim que a intuição, que prio. Centro e periferia, assim, são ligados e entremeados um no
leva para a síntese, está mais perto do centro-Deus do que a ra- outro, tanto que o primeiro está todo no outro e ao contrário.
zão analítica. A nossa ciência da matéria é periférica, divergen- Neste sentido, pôde-se dizer alhures (A Grande Síntese) que
te por sua natureza, e tende, como hoje acontece, a especializar- ―Deus é a criação‖, que ―tudo deve reentrar na divindade‖, que
se, isto é, a fragmentar-se e dispersar-se sempre mais no relati- ―Deus é também o universo físico‖. Assim como Deus fica imu-
vo. Por essa razão ela foi considerada pelos homens do espírito tável no centro do Seu universo, que muda sempre de forma, o
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 51
eu humano também fica constante no centro do seu ser físico, trífugos, os seus planetas, os torna a atrair por impulso centrípeto.
que muda e se renova através de suas formas diversas. Este é o Deus é o sol que, no centro do universo, atrai todo o universo e,
esquema do sistema central periférico único de nosso universo, assim, o rege. E o universo, como os planetas, tende a recair so-
que encontramos repetido em todas as alturas e grandezas. bre Ele, continuamente restringindo, em obediência à força de
A evolução torna-se possível em razão da estrutura do siste- atração, as suas órbitas de rotação. Um mesmo princípio rege tu-
ma, pela qual a um contínuo girar ou metabolismo periférico cor- do. Eis a evolução. Assim o ser vai do corpo ao eu, do exterior,
responde um paralelo poder central. Do fato que o eu humano onde reina Satanás, ao interior, onde reina Deus; da forma-
pode continuamente trocar de veste, utilizando novos corpos, matéria ao espírito-Deus. Por essa razão foi dito que o Reino de
nasce a possibilidade da elaboração através das suas experiên- Deus está dentro de nós, o que pode ser definido como um des-
cias. O incessante martelar das experiências da vida, através dos pertar, porque nada se cria e nada se destrói. Fundamentalmente,
contínuos choques e dores, essa investida sem tréguas sobre nos- a evolução não é senão um despertar do que em nós é latente, da-
sa casca corpórea, têm o poder de despertar a divina centelha que quele divino que está em nós, mas dormindo no fundo do obscu-
jaz adormecida em nós. Acontece, assim, que nosso ponto cons- ro cárcere do corpo fechado nos sentidos. Tudo deve desabro-
ciente e ativo na vida se transfere sempre mais da periferia para o char, abrir-se, florir na vida, também essa centelha que está em
centro, progredindo para o íntimo, no profundo do ser, distanci- todos os seres e coisas e que anima todo o universo.
ando-se assim, pouco a pouco, do relativo periférico da manifes- O homem atual deve somente à sua natureza involuída a sua
tação ou forma, e subindo para Deus, em direção ao centro, que ligação às tormentosas condições do seu mundo. Ele está preso
está na profundidade. Eis em que consiste o processo evolutivo. no fundo de um cárcere obscuro e não suspeita das infinitas pos-
Pode-se descrevê-lo como um subir para o alto, enquanto se as- sibilidades da vida, do extraordinário reino que ele compõe como
cende para a perfeição e a potência, ou como um descer em pro- cidadão do infinito, do maravilhoso organismo de forças que ele
fundidade, enquanto a vida se distancia da forma para o seu ínti- faz parte, do concerto de perfeições que é o universo em que vi-
mo, ou como um progressivo acordar do latente que está em nós, ve. E cego, faltam-lhe os sentidos para ver tudo isto; a sua miopia
ou ainda como um movimento da vida da matéria para o espírito, e a sua relatividade o fazem extraviar-se no labirinto das análises,
isto é, um desmaterializar-se, um evaporar da sua forma. Mas e, quando tudo isto lhe é relatado e explicado, ele não compreen-
compreende-se que esses não são mais do que alguns modos de de e torna a olhar as pequenas e tristes coisas vizinhas, das quais
ver e descrever o mesmo fenômeno sob diversos aspectos. faz todo o seu mundo. Incapaz de se evadir, dobra a cerviz sob o
Está justamente neste evaporar da forma a chave da nossa peso da sua vida atormentada ou se rebela e maldiz, lançando
evasão, para nos libertarmos da dor, da ignorância e do erro, filho nova lenha nas chamas do seu inferno de ódios. Ah! Se imagi-
dela. Este é o segredo para nos distanciarmos deste imenso ocea- nasse a riqueza, o poder e a felicidade que alcança quem, conse-
no de ais que é justamente a característica das zonas periféricas, guindo despertar no profundo, descobre e encontra a sua natureza
em que nós, humanos, vivemos. Como se vê, trata-se de proble- divina! Que apocalíptico espetáculo ver os muros desabarem em
mas vitais também para os que, em tudo isto, não veem senão torno do cárcere, que arrebatadora sensação de expansão no infi-
utopia. Problemas que aqui são apresentados e resolvidos com nito; que grandioso triunfo evadir-se da Terra, livrar-se da dor e
plena lógica e em harmonia com o funcionamento orgânico do da morte, conquistar a consciência da própria eternidade! As tão
universo. As soluções isoladas do todo não são jamais verdadei- alardeadas liberdades terrenas são apenas falatórios e ilusões.
ras soluções. Precisemos ainda mais. Nós, humanos, como criatu- Eis como aparece a visão do paraíso. Continuemos a obser-
ras, giramos, segundo o mencionado esquema dinâmico, em tor- var. Ainda que o corpo fique no inferno terrestre, o espírito pode
no do Criador, portanto não estamos fechados em um dado raio evadir-se. Sente-se, então, arrebatado em êxtase, na contempla-
de rotação, mas sim evoluindo, isto é, potenciando o nosso eu em ção das maravilhas da ordem divina. O infernal estridor de den-
proporção à desmaterialização de nossa veste corpórea, enrique- tes, o caótico lutar e odiar-se, os choques de todos contra todos e
cendo a nossa personalidade de conhecimento e sabedoria, quali- a imensa dor que disto resulta, tudo permanece lá embaixo, lon-
dade e sensibilidade, através de nossas experiências no corpo. ge, na Terra, assim como o fragor e o cheiro nauseabundo das
Podemos assim, transformando-nos em bem, passar a girar cada grandes cidades ficam longe do cimo do monte. Quanta pureza lá
vez mais próximo do centro divino, fato que implica na abertura em cima, que harmonia, que concerto de vibrações, que música
de infinitas novas possibilidades. É com essa transformação evo- de divinos equilíbrios, que compreensão e quanto amor entre os
lutiva que poderemos deixar embaixo, nos planos inferiores de seres! Então, enquanto o corpo ainda sofre na Terra, o espírito,
vida, sempre mais infernais quanto mais se desce, toda a desor- quase se destacando, regozija-se num mundo mais elevado. Mirí-
dem, o mal e a dor que os caracterizam. Pois que há infernos ain- ades de criaturas, de corpos sutis e resplandecentes, organismos
da piores do que o terrestre, lugar de pena onde só seres inferio- espirituais formados por um dinamismo de infinitas vibrações,
res podem encontrar uma felicidade a eles proporcionada. ignorados por nós, que, através de uma sensibilidade ilimitada,
Evoluindo, podemos emigrar para corpos sempre mais livres transbordando além das estreitas portas dos sentidos terrestres,
dos pesos e dores próprios da matéria, corpos menos transitórios recebem e refletem, absorvem e emanam, como centros radian-
e imperfeitos, em formas de consciência menos encarceradas no tes, toda emanação que lhes chega de Deus. Todas as criaturas se
relativo, menos segregadas do todo pelo egoísmo, em formas de harmonizam por ressonância e sintonia em um concerto grandio-
vidas menos esmagadas pelo ódio e menos sufocadas pelas trevas so, onde tudo é vida e movimento e todo movimento se coordena
da ignorância. Girar sempre mais perto de Deus significa sensibi- e harmoniza na luz de Deus, em gáudio intensíssimo. Na imensa
lizar-se e potenciar-se, enriquecer-se e satisfazer-se; significa sinfonia, esses seres se dispõem em círculos concêntricos em tor-
tornar-se sempre mais vidente, vibrante, dinâmico, resistente, no de Deus, mais ou menos vizinhos e resplendentes conforme a
luminoso e feliz. Por esse caminho, a evolução nos leva sempre sua maior ou menor perfeição e a sua capacidade de absorver e
mais para perto de Deus. O ser passa gradativamente de um pla- reemitir a luz divina. E esses círculos giram vertiginosamente em
no a outro de vida. Os vários níveis biológicos que conhecemos, uma ordem imutável, vibrando e brilhando em infinitas radiações
que vão do mineral ao gênio, não são senão círculos concêntricos no divino oceano vibrante. As suas trajetórias são doces harmo-
de rotação em torno de Deus, formando degraus que o ser, evolu- nias, a sua vibração é amor. Essas criaturas se inflamam na ânsia
indo pouco a pouco, ascende. Não se trata de movimentos no es- de evoluir, de estreitar as órbitas e avizinhar-se sempre mais de
paço, mas de íntima transformação do ser, de movimento interno Deus, ansiosas de precipitar-se e fundir-se naquele Centro. E
do todo, pelo qual se opera a progressiva reabsorção em Deus de Deus, do centro, atrai e irradia, chama e estreita a Si com as suas
sua manifestação. O sol que lançou à sua volta, por impulsos cen- radiações de amor as suas criaturas, e as criaturas respondem. O
52 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
colóquio é um amplexo que se faz sempre mais apertado, e o XIV. INFERNO E PARAISO
canto é uma música sempre mais potente e perfeita.
Todo ser conhece a Lei e não pensa senão em segui-la. Tudo Parece este um argumento para sermões quaresmais Mas
é harmônico. Nenhuma rebelião ou violação. Eis a grande bele- pode ser, ao contrário, um argumento científico, se por ciência
za. Todo ser sabe o seu caminho na Lei, porque tem consciência entendermos um conhecimento mais vasto e profundo que o
de tudo, de sua posição no todo, do que é e deverá ser. A viola- aceito pela ciência moderna. Se a concepção dantesca arrastou
ção, o erro, a culpa estão longe. E, sabendo o seu caminho, todo por séculos tantas gerações, enchendo-as de admiração, se, em
ser sabe mover-se ordenadamente, conforme a Lei, em harmonia correspondência com aquela concepção, existe no mundo um
com os outros, unificando-se a eles em fraternal ajuda e amor. consenso expresso de vários modos nas diversas religiões, se
Tudo isto, aqui, é natural, lógico, espontâneo. Os caóticos ímpe- essas coisas que parecem sonhos tiveram a força de convencer
tos da vida, aqui, estão finalmente coordenados. A vida se torna tantos povos por tantos séculos, isto significa que elas devem
sempre mais infernal quanto mais o ser é impelido pela sua im- representar alguma coisa de biologicamente verdadeiro e real,
perfeição à periferia, pois que, quanto mais nos destacamos de ainda que não visível e não provado com os métodos da ciência
Deus, tanto mais aumentam a desordem, o embate e a dor. A Lei atual. Não se trata evidentemente da biologia atual, que é limi-
e as suas forças estão em qualquer parte, e, em qualquer parte, tada apenas às espécies que viveram ou vivem no planeta, mas
Deus está presente. Mas é a coordenação dos seres, a reordena- sim de uma mais ampla biologia, não só subanimal e super-
ção na harmonia divina, que forma o paraíso, onde eles se tor- humana mas também espiritual e transcendental, ainda desco-
nam um canto divino, uma música universal que tudo satura de nhecida pela ciência. A existência de mundos, seres e condições
alegria sobre-humana. Por isto o paraíso é descrito com expres- de vida inferiores ou superiores ao nosso ambiente conhecido, é
sões musicais. Trata-se, efetivamente, de uma progressiva har- coisa instintivamente sentida por todos os povos e em todos os
monização no dinamismo universal, de uma musicalidade que se tempos. A universalidade dessa intuição não pode deixar de ter
faz sempre mais completa, profunda e perfeita à medida que nos um significado. Quem são esses outros cidadãos do universo,
avizinhamos do centro. As nossas criações artísticas e musicais de cuja presença, quem sabe onde e como, nós, vagamente, te-
não são senão as primeiras aproximações dessa harmonização. mos a intuição? Quais são as suas formas de vida?
Tão pobre coisa são, mas já nos arrebatam para o alto, dando- A hipótese astronômica da pluralidade dos mundos habita-
nos apenas uma ideia da divina contemplação dos anjos! dos, se é extremamente lógica e provável, não é suficiente pa-
Quanto mais a alma é evoluída, tanto mais compreende e go- ra exaurir a questão, porque uma biologia completa deve
za dessas harmonias, perto das quais o involuído passa sem compreender não somente as formas materialmente organiza-
compreender e sem alegrar-se. Assim, a produção musical de das no plano físico, mas também aquelas imaterialmente or-
um século é o primeiro índice do seu grau de evolução, e ne- ganizadas no plano dinâmico e psíquico-espiritual. No sistema
nhuma coisa como a selvagem música moderna exprime tão do universo, é lógico que a vida continue do lado de cima e do
bem a tremenda descida involutiva do nosso tempo. O pensa- lado de baixo do plano que conhecemos e em que vivemos. O
mento dominante em cada período histórico lhe dá a cor em to- mesmo princípio da evolução nos indica que devem existir no
das suas manifestações, social, artística, filosófica, moral e tam- universo seres mais involuídos e outros mais evoluídos do que
bém material. Enquanto no inferno terrestre, ódio, suspeita, in- nós. E que esse princípio seja universal, não há dúvida. Nós o
certeza e dor são a atmosfera natural, lá em cima, naqueles ele- reencontramos em qualquer parte em nosso mundo fenomêni-
vados planos de vida, amor, confiança e segurança representam co e, uma vez que, como já verificamos, tudo é analógico e
a dominante vibração do ambiente. Lá, os seres não se chocam, funciona monisticamente, por esquemas únicos e simples, re-
não se ferem reciprocamente como demônios, causando um a petidos em inumeráveis alturas e combinações, devemos con-
dor do outro. Todo ser, pois, que é consciente do funcionamento cluir pela universalidade do princípio de evolução, que deve
do todo, espontaneamente se põe, conforme sua natureza, na sua atuar, portanto, mesmo onde não podemos experimentalmente
justa posição, que naturalmente, sem luta, é a melhor e de maior obter uma comprovação. O conceito de marcha ascensional
rendimento em bem e felicidade para ele e para os outros. A cri- indica que devem existir não só formas de vida e indivíduos
atura vê os olhos de Deus, que a olha; sente a presença d'Ele, que estão mais adiante de nós no caminho evolutivo, isto é,
que tudo guia; conhece a vontade d'Ele, que tudo move; sabe mais no alto, mas também formas de vida e indivíduos que es-
que esta é perfeita e que a sua alegria está em querer aquilo que tão atrás de nós, mais embaixo. A evolução, sinônimo de pro-
Deus quer. Não há mais a distância que desarranja a ordem no gresso, exceto para os desorientados, presas do pessimismo, é
caos, ofuscando e tornando opaca essa compreensão e comu- um fato evidente. Em toda raça, seja vegetal, animal ou hu-
nhão de vontades entre a criatura e o Criador. A ignorância, a mana, verificamos existirem indivíduos de tipo biológico mais
inconsciência, o erro e a culpa, aqueles diafragmas que cindem a avançado e outros de tipo mais atrasado. Mas, aqui, trata-se de
unidade e são a causa de todo o nosso mal, caíram. descobrir com o método da intuição, já que o objeto foge à
Eis, apenas assinalado, um clarão do paraíso. Há ainda observação sensória experimental, quais são essas formas de
mais, muitíssimo mais. Porém a palavra humana não o sabe vida sub e super-humana. Não é possível observar a estrutura
exprimir. O resto permanece fechado em si, como um tesouro, de organismos cuja constituição celular e permuta se baseiam
e não deve ser dito ao mundo de hoje. Esta, em breve, é a vi- em uma química atômica dada por outras relações, diferentes
são. Depois de surgir em todo seu esplendor, ela se extingue, e das nossas, nem é possível definir a anatomia desses organis-
a alma, arrebatada, precipita-se para baixo no corpo, na Terra, mos de forças, receptores e radiantes, que chamamos espíri-
neste mundo opaco tão distante do centro, onde a luz de Deus tos, organismos vibrantes, cujo funcionamento vital e permu-
apenas ilumina as trevas profundas. Precipita-se para baixo, tas se dão em um plano com prevalência dinâmica, sujeitos a
mas lembra, todavia, que é possível evadir-se e que a Terra, uma física diversa da nossa. Teremos aqui de nos contentar
que temos observado, é o caminho para fugir do inferno terres- com algumas observações gerais de orientação.
tre. Precipita-se para baixo na Terra, onde, até em nome de O homem sempre chamou de paraíso àquele estado biológi-
Deus, os homens estão divididos pelo ódio e se combatem; on- co em que existem os seres mais elevados e de inferno àquele
de, também em nome da Sua mesma justiça, eles roubam e se menos elevado. Em termos modernos, poder-se-ia dizer: paraí-
matam; na Terra, onde tudo está prostituído pela matéria, onde so é o mundo dos evoluídos, e inferno é o mundo dos involuí-
arde o inferno desejado pelo homem, onde tudo é falseado e o dos. Certamente, a escala é infinita, e as posições não são abso-
próprio santo nome de Deus torna-se mentira. lutas, mas sim relativas a cada um, de modo que o paraíso é
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 53
aquele ambiente de vida mais ampla e feliz que está biologica- versal, devemos admitir que as suas leis dizem respeito somen-
mente mais no alto, e inferno é aquele mundo mais áspero e te e particularmente ao nosso ambiente terrestre. É neste senti-
atormentado que está relativamente mais embaixo. Qualquer do que devemos entender a lei que aqui vigora, da luta pela se-
coisa de semelhante vemos, em escala mais reduzida, na Terra, leção do mais forte, no entanto não devemos dar a este princí-
com o enobrecimento dos costumes logo que se pode elevar o pio um valor universal, mas somente relativo ao ambiente hu-
teor da vida por força de condições econômicas melhores. As- mano, que ainda é de prevalência animal. Se, aqui, esta lei pode
sim também se passa na domesticação dos animais e no cultivo ter função evolutiva, e isto em proporção ao baixo grau do ser
das plantas, onde verificamos a perda daqueles caracteres de fe- ao qual ela se aplica, em planos superiores, tudo isto pode pare-
rocidade e instrumentos de agressão que prevalecem no estado cer, ao contrário, uma atividade destrutiva e infernal, ilógica e
selvagem. Mas, também aqui, tudo é relativo e se reduz a uma bestial, tendente ao retrocesso, e não ao progresso. Assim tam-
questão de relação entre a posição no ambiente e o próprio grau bém para todas as expressões da nossa vida, como as formas de
evolutivo, com referência ao sentido entre ponto de partida e de amor, de reprodução, de nutrição e toda atividade regida não
chegada ao longo da escala evolutiva. pelo conhecimento, mas pelos instintos.
A nossa ciência ignora o que há, biologicamente, acima e Mas é possível verificar uma diferença de desenvolvimen-
abaixo do nosso plano de vida. Este ideia de diferentes planos de to evolutivo em nosso próprio mundo humano. Se bem que o
vida é uma consequência direta do conceito de evolução. Admi- grosso das massas sociais seja formado por indivíduos da
tindo-se este, deve-se admitir também aquele. Ora, é evidente mesma conformação psíquica, mais ou menos com os mesmos
que, para a solução desses problemas transcendentais, o conhe- instintos e necessidades, tanto que resultam praticamente qua-
cimento oferecido pela nossa ciência, baseado em um único pla- se iguais no conjunto, como as ovelhas, e construídos em série
no de vida, não pode ser suficiente. Nem pode sê-lo, se quiser- como as bicicletas, todavia, acima e abaixo dessa zona média
mos satisfazer à racional forma mental moderna, o conhecimen- e medíocre, em que a vida, pouco a pouco, estabelece os seus
to empírico da filosofia, ou o instintivo e intuitivo das religiões. equilíbrios, emerge ou aprofunda um número de casos fora de
Dado que as revelações das religiões não são precisas, nada mais série, que se faz sempre mais exíguo quanto mais subimos pa-
resta para a exploração científica do transcendental senão a in- ra o alto ou descemos para baixo. Se bem que a maioria venha
vestigação por intuição, que, em alguns sujeitos tornados sensí- a funcionar por imitação e a marchar em bando (bem o sabem
veis por evolução e ao mesmo tempo racionalmente disciplina- os governantes), em suas margens há um número restrito de
dos, pode adquirir valor de método científico. Somente assim o evoluídos e involuídos, afastados da média, incapazes, uns e
transcendental pode ser submetido à observação, tornando-se outros, de se enquadrarem nela, seja por excesso, seja por de-
possível entrar e penetrar no mundo do espírito com métodos feito. Embaixo da média há o bruto, o delinquente; mais no al-
objetivos. O homem de amanhã compreenderá certamente estas to há o gênio e o santo. O primeiro tipo representa formas de
afirmações, mas dificilmente as entenderá o homem médio de vida inferiores, às quais ainda pertence, e encontra na Terra
hoje, que não encontra em si nada que as consolide, pois ainda um ambiente a ele superior, paraíso para ele, lugar de alegria.
não alcançou por evolução o grau de sensibilidade necessário. O segundo representa formas superiores de vida, das quais
Neste sentido, falar de inferno e paraíso não significa falar desceu à Terra, um inferno para ele, lugar de dor. O primeiro
de coisas longínquas que não nos dizem respeito, ou de argu- se encontra bem e se lança a gozar, mas representa um peso a
mentos de fé em que não se pode crer. Trata-se do nosso futu- ser arrastado pelos demais, uma resistência sobre o caminho
ro biológico, individual e coletivo, que não é quimera; trata-se da evolução. Os outros devem tomar a seu cargo a fadiga da
da escolha do caminho da ascensão ou da descida, que condu- sua educação e as repercussões dos seus erros. O segundo, ao
zem à alegria ou à nossa dor. Trata-se de preparar o amanhã contrário, encontra-se mal e é constrangido a sofrer, mas re-
que nos aguarda e de compreender como prepará-lo no bem, e presenta um motor que arrasta os demais, um impulso no ca-
não no mal, para a nossa utilidade, e não para o nosso dano. E, minho da evolução. Ele toma a seu cargo a fadiga da educação
para compreender, é preciso resolver também este particular dos outros e as repercussões dos seus erros. A vida, que sente
problema no seio da fenomenologia universal, em relação e tudo isso, exprime-se através do sentimento popular, tornando
em função da qual eles se desenvolvem. É necessário nos o involuído detestável, odioso e arredio, e o evoluído, admira-
darmos conta de que as leis sobre as quais baseamos a nossa do, amado e procurado. A veneração das massas pelos santos
vida são relativas ao nosso ambiente terrestre, devem, pois, não é resultado imposto por alguma autoridade, mas sim ex-
ser tidas como válidas somente nele e em relação a ele, por- pressão de leis biológicas, que falam através do instinto e fa-
tanto não são necessariamente verdadeiras em outros ambien- lam alto, porque nenhuma autoridade poderia criar tão univer-
tes, onde podem vigorar outras. Logicamente, sendo tudo co- sais consensos; falam claro, porque elas bem sabem o quão
nexo e os planos de vida contíguos, devem existir também necessário é este tipo biológico aos fins da evolução, para on-
afinidades e analogias que sirvam de pontos de passagens que de converge todo o dinamismo da vida. Bem sabendo a que
possam permitir o transformismo da evolução e a comunica- suprema função esse tipo corresponde, ela o fustiga na in-
ção de um plano a outro, seja em ascensão, seja em decida, compreensão e na dor, assim o robustece e o experimenta; e
característica que também verificamos, em ponto menor, no se ele vence, o exalta depois, sem restrições.
plano biológico terrestre, isto é, uma passagem das formas in- Que triste sorte aguarda na Terra esses pobres caídos de
feriores às superiores e ao contrário. Os seres nunca estão fe- mundos superiores ao nosso, mas que grande função biológica
chados em um único plano de vida, em um dado nível evolu- eles representam, que missão desempenham! Eles são verda-
tivo, pois, para que ocorra a grande marcha evolutiva do uni- deiramente o sal da vida. Como seres pertencentes a formas
verso, é necessário que eles possam deslocar-se para cima ou de vida mais avançadas, representam um organismo prevalen-
para baixo, a fim de sempre possibilitar a emigração para no- temente espiritual com funções físicas secundárias, que ser-
vas pátrias, gradualmente, em correspondência com as experi- vem o espírito, enquanto os assim ditos seus semelhantes re-
ências adquiridas, os valores conquistados e o peso específico presentam um organismo prevalentemente físico com funções
atingido pela destilação espiritual, conforme a responsabilida- espirituais secundárias, que servem o corpo. No tipo normal
de, a consciência, o mérito e a perfeição amadurecida, para domina o corpo, no evoluído domina o espírito. Enquanto os
colher, segundo a justiça, o fruto do que tenham semeado. demais tendem a ficar indolentes nas funções animais da car-
Estabelecida a relatividade da nossa biologia, mesmo admi- ne, aquele se inflama e se entrega. Se as forças da vida não o
tindo que, por analogia, ela esteja conexa com a biologia uni- protegessem, ele, explorado por todos, empobreceria até à
54 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
morte ou ficaria queimado no seu incêndio. Somente Deus bons, semeadores do bem. Assim, a escala da evolução conti-
protege o evoluído, não os homens. A notória pobreza dos gê- nua no alto e em baixo, acentuando sempre mais, nessas duas
nios nos prova que, na Terra, os serviços materiais são muito direções opostas, os respectivos caracteres, até e além dos limi-
mais prezados e compensados do que os serviços espirituais. tes do imaginável. Certo é que uma biologia, para ser completa,
Está provado que o tipo dominante não é o evoluído, mas sim deveria se estender do demônio ao anjo, mas isto não se pode
o semievoluído ou involuído. O super-homem é um anjo que pretender de nossa ciência atual, dados os seus meios de inves-
desceu à Terra para trabalhar, lutar e sofrer. Os demais se fa- tigação e orientação. Ela não conhece senão a biologia animal
zem arrastar pelos seus esforços, exploram-lhes as obras, es- do involuído terrestre e do semievoluído. Poderia, contudo,
premem o seu sangue e dele se nutrem. Mas, para a vida, a começar a ocupar-se da biologia do evoluído, que por vezes,
exploração é também absorção, e ambas se fazem mais inten- sob a forma de gênio ou de santo, aparece entre os homens.
sas depois da sua morte, quando ele não é mais um rival hu- Compreender cientificamente o super-homem, em vez de rele-
mano e, já morto, não pode mais defender-se. Então, a vida gá-lo aos anormais e enquadrá-lo no patológico, somente por-
bebe avidamente o sangue dos seus mártires e a dor dos seus que está fora de série, significaria começar a penetrar naquela
gênios. Os homens se apoderam dele com a glorificação, nu- biologia transcendental, que é a biologia do futuro.
trem-se com a narração daqueles tormentos que eles causa- Na Terra, por necessidade de recíproca elaboração, vivem
ram, gozam o patético romance daqueles dramas e, não sacia- materialmente vizinhos, mas espiritualmente distantes, seres
dos ainda, têm até a desfaçatez de chorar sobre suas desventu- relativamente involuídos e evoluídos. Com o homem, a evolu-
ras, de que jamais se ocuparam em vida, e de lhes elevar mo- ção entra em um plano de diferenciação espiritual, que não é
numentos para sustentar a bandeira das próprias ambições. mais organicamente expressa por formas físicas e, por isto, não
Eis que, também na Terra, anjos e demônios, paraíso e in- se manifesta materialmente visível. Como tal, ela foge à avali-
ferno, estão frente a frente. Esses exemplares, próximos de nós ação sensória, mesmo havendo fortes diferenças naquele novo
o suficiente para que ainda lhes seja possível viver e trabalhar organismo espiritual dinâmico-radiante, acima referido, que,
na Terra, nos indicam a existência e as características dos pla- no homem médio, começa a sua construção com a formação da
nos evolutivos mais distantes de nós, que não nos podem ofere- psique. Portanto, em nosso próprio plano humano, começa a
cer representantes suscetíveis à nossa observação na Terra, pois existir essa biologia transcendental, embora ainda escondida
esta não lhes proporciona condições de ambiente adequadas. O no íntimo do ser, em estado de maturação subterrânea, mas
involuído representa a primeira propagação para baixo do nosso nem por isto menos pronta a explodir tão logo haja amadureci-
plano; o evoluído, a primeira para o alto. Mas ambos os lados do. O que notamos em nosso mundo não corresponde a essa
se prolongam e representam, respectivamente, o nosso passado realidade espiritual mais profunda. A estrutura orgânica ou a
e futuro biológico. Inferno e paraíso constituem a nossa própria posição social nada nos diz dela. A riqueza, o verniz da educa-
história. Baseando-nos na observação das formas somáticas e ção e da cultura, a máscara civil ou forma de mentira sob a
psíquicas dos tipos evolutivos, em excesso ou defeito, que en- qual o indivíduo se esconde para a luta pela vida, não pesam
contramos na Terra, e acentuando os seus caracteres, podemos na balança. Debaixo de todas essas aparências que os homens
chegar a uma aproximada representação das notas dominantes amam, dadas a entender como verdadeiras, há uma realidade
nos tipos biológicos verdadeiramente inferiores e superiores, natural interior, definida pelo grau de evolução que o indivíduo
das criaturas demoníacas dos ambientes denominados inferno e alcançou ao longo da escala biológica.
das criaturas angélicas dos ambientes chamados paraíso. Ora, aquilo que revela o homem e permite conhecê-lo não é
De um lado o bruto, todo potência física. Rico dos atributos o que ele diz, mas o que ele faz. É observando a sua verdadeira
animais e das características somáticas e psíquicas da besta, ele conduta que poderemos olhar atrás das cenas da comédia que
nos aparece como o demônio maciço na estrutura material, for- ele representa na vida e ver a realidade. Não interessa, pois, es-
nido de pelos, de artelhos, cauda, chifres, caninos desenvolvi- cutar quais são as ideias professadas, mas observar o método
dos na queixada devoradora e todos os meios de agressão. A com que elas são praticadas. Então veremos que, independen-
tudo isto, psiquicamente, correspondem os instintos mais san- temente de todos os programas, teorias e profissões de fé, a no-
guinários, egoístas e ferozes, paralelos a uma proporcional ob- ta característica que revela o involuído é o espírito de agressão
tusidade mental, definindo uma alma ainda fechada para os e de mentira, enquanto o evoluído revela-se pelo espírito de al-
grandes problemas do conhecimento e surda para as vibrações truísmo e de sinceridade. Nos fatos, eles estão nos antípodas.
do infinito. Do outro lado, o tipo biológico do super-homem se Também o primeiro sustenta os mais altos princípios de justiça
apresenta com caracteres somáticos e psíquicos opostos. De e de bondade, mas ele começa sempre pelos seus próprios direi-
uma potência toda espiritual, rico dos atributos imateriais e psí- tos e pelos deveres dos outros; não pensa, absolutamente, que
quicos do anjo, ele nos aparece como um organismo dinâmico se possa corrigir o vizinho antes de tudo com o próprio exem-
sensibilizado e radiante, receptor e transmissor, vibrante no plo e sacrifício, e é levado, por isto, a aplicar o bem movendo
oceano infinito das radiações da vida mais elevada do universo. guerra ao próximo, pelas vias da luta até ao ódio, e não pelo
A tudo isto, psiquicamente, correspondem os sentimentos mais caminho do exemplo, do sacrifício e do amor. Quando encon-
harmônicos, altruístas e refinados, paralelos a uma proporcio- tramos esses métodos debaixo de qualquer credo, seja ele qual
nada luminosidade de intelecto, inerentes a uma alma que se for, podemos seguramente dizer que se trata de involuídos, tan-
abriu aos grandes problemas do conhecimento e despertou para to para os indivíduos quanto para as nações. Saltar ao pescoço
as vibrações do infinito. Os caracteres são naturalmente opos- do vizinho para despedaçá-lo, crer somente nos exércitos e na
tos, justamente porque correspondem a posições opostas ao bomba atômica, este é hoje o real modo de agir no mundo, esta
longo da direção em que a vida se move. é a hodierna psicologia dominante, que revela quão involuída é
A arte, as religiões, a fé, o instinto humano já intuíram a re- a nossa humanidade. As teorias são palavras e não entram em
alidade dessas formas, inacessíveis à observação direta de nossa ação. Nos fatos, os imperialismos são todos iguais, todos usam
ciência, e no-las descrevem assim. Nessas descrições, de um o mesmo método, estão no mesmo nível biológico. Involuído
lado, ecoa o terror deixado impresso em nosso subconsciente quer dizer inferior, infernal.
pelo contato espantoso com seres ferozes, inferiores, semeado- Ora, o problema atual do mundo não é de continuar o mile-
res de dores; de outro, vibra em nosso superconsciente o pres- nário jogo de vencer e perder, de invadir e servilizar, de mandar
sentimento de avizinhar-se de formas de vida superiores e da e obedecer, mas sim de evoluir do atual plano do involuído para
presença invisível mas real, junto de nós, de seres elevados e o nível do evoluído, que vive com métodos diversos. Hoje, es-
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 55
tamos no reino da besta. É bem natural que o mal e a dor for- acentua sempre mais a dispersão pela fragmentação no particu-
mem a atmosfera desse reino. Em face do que o homem é, não lar. Sempre mais debilmente sustentadas pelo poder central, as
pode ser de outro modo. Essa é a expressão do seu real grau células do organismo não funcionam mais juntas, organicamente
evolutivo. Quando se concebe a autoridade não como função e e coordenadas em harmonia, mas começam a lutar uma contra a
missão, mas como vantagem pessoal ou meio de exploração, outra. Então, no lugar do único centro-Deus, formam-se infinitos
quando se usa a riqueza egoisticamente, e não como serviço so- centros infinitesimais, que tentam suplantá-lo. Eis a rebelião lu-
cial, quando toda classe e todo povo baseia a sua posição sobre ciferina. Começa a degradação. Toda célula não é mais a com-
a conquista e o abuso, e não sobre o equilíbrio, então tudo se panheira que colabora com a companheira, mas a rival que agri-
torna agressão e depois destruição, e o universal grito de justi- de a rival. Tudo vai para a decomposição, para a destruição. O
ça, por culpa do homem, torna-se uma vã invocação. Que adi- ser é livre de seguir um ou outro caminho: ou a grande marcha
anta fazer distinção entre chefes e súditos, se uns são dignos ascensional dos seres, representada pela evolução, segundo a
dos outros; entre vencedores e vencidos, quando a corrente é tendência centrípeta do universo, que segue para Deus, ou o ca-
única e arrasta todos? Os chefes, que mais acreditam mandar, minho da descida, representada pela involução, segundo a opos-
estão mais que todos encarcerados no sistema e são obrigados a ta tendência centrífuga, que se distancia de Deus. Então, Deus se
segui-lo sem possibilidade de evasão, até ao fundo. Há na vida nega a quem o nega, e isto significa morte. Cortados da fonte
uma lógica desapiedada, dada por um férreo concatenamento que tudo alimenta, os seres, tornados inimigos, sem nada recebe-
causal, que, uma vez iniciado, de qualquer ordem que ele seja, rem e gastos por uma luta contínua, devem perecer. Com esse
não deixa evasão possível, até às suas últimas consequências. processo automático de autodestruição, Deus alcança, longe de
E, no fim da concatenação do atual sistema do involuído, há si, a eliminação do mal na periferia, isto é, na parte do universo
uma proposição terrível também para ele: a destruição univer- que segue o caminho negativo que se distancia d'Ele. Reencon-
sal. Não se trata hoje de querer aparentemente redimir-se de tramos, ainda aqui, a íntima estrutura dualista do sistema monís-
uma série de erros e abusos que são de todos. Assim, as contas tico do universo. No caso limite, o mal absoluto coincide com o
nunca são quitadas. Trata-se, isto sim, de mudar radicalmente o nada e o bem absoluto coincide com Deus. Satanás nega e des-
sistema e todos desse sistema. Essa é a lei da nossa hora histó- trói o que toca. Ele, que vive de destruição, não se pode alimen-
rica. Quem não compreender perecerá. tar senão consumindo. Ele é ávido, porque é paupérrimo. Deus é
Como se vê, não precisamos ir muito longe para procurar os generoso, porque é riquíssimo. Assim também para as criaturas,
motivos dominantes no ambiente infernal, visto que eles nos que tendem para um lado ou para outro. A plenitude de Deus é o
são postos sob as vistas pelo reino humano do involuído. A dor ser, a plenitude de Satanás é o não-ser.
é a nota dominante desses mundos inferiores. Ela está em rela- Podemos observar essa desagregação periférica também em
ção direta com o grau involutivo, periférico e caótico do ambi- nosso mundo, logo que um poder político central perde a sua
ente. Se observarmos bem, no inferno, a dor é causada pelos potência, com a qual rege um povo compacto. Multiplicam-se
próprios sofredores. Nesses mundos distanciados do centro, a então os partidos, isto é, as separações e as lutas interiores.
divina potência central não intervém enviando agentes próprios. Mas, em todo caso, a divina justiça fica perfeita em qualquer
A Sua ação, nesses ambientes de treva e tristeza, é de todo ne- parte, porque o ser, conquanto queira distanciar-se do centro e
gativa e consiste em retrair-se, em negar-se, deixando o ser na perder-se, tem sempre o que merece, em qualquer posição em
atmosfera que ele próprio faz. Para subir ao paraíso, é necessá- que ele queira estar. Quem desce segue para a ignorância, o er-
rio que o ser, evolvendo, crie uma atmosfera melhor para si. ro e, portanto, a dor. A própria verdade só é alcançada e possu-
Deixai os involuídos sozinhos e eles farão logo um inferno. ída em relação à unidade; ela está conexa com a harmonização,
Deixai os evoluídos sozinhos e eles logo farão um paraíso. Nos é um produto da evolução e se encontra caminhando para o
primeiros, a distância do centro faz com que a unidade do todo centro. É harmonizando-se com a ordem divina que se descobre
se despedace no egoísmo, a ordem se decomponha na desor- a verdade, muito mais que através da observação experimental.
dem, de modo que as relações coletivas são, sobretudo, de Eis toda a nossa história. Quem sobe e quem desce – cada um
agressão e de ódio. Lá, onde Deus está longe como está o Sol colhe o que semeia. Fazendo o bem, nos enquadramos na or-
do planeta Netuno, é natural que a Sua luz chegue apenas im- dem divina e avançamos para mundos mais harmoniosos e mais
perceptível, e Sua luz significa inteligência, consciência, amor, felizes; fazendo o mal, distanciamo-nos da ordem divina, retro-
ordem, harmonia, felicidade. Então, todo ser torna-se um de- cedemos para mundos inferiores e ficamos mais longe de Deus,
mônio. Longe de sua fonte, a vida se contrai. Em vez de se ex- onde a luta é mais feroz e a dor mais aguda. Depende de nós o
pandir fértil, ela se faz magra, hostil, feroz, qual é a dos abro- nosso estado de tormento ou de alegria: se descermos embaixo,
lhos na rocha. Estes não produzem senão espinhos. Toda doçu- teremos demônios por companheiros, se subirmos ao alto, te-
ra e beleza desaparece. O mal triunfa e é conduzido pela Lei à remos por companheiros os anjos. Todavia, conquanto queira-
sua autopunição, é levado a infligir na própria carne os agui- mos estar longe de Deus, Ele nos chamará sempre, através das
lhões da ofensa, para sua redenção. A tendência periférica do mil vozes da vida, sempre um Seu raio de luz nos alcançará,
universo é, no mal, uma dor sempre mais intensa, até à autodes- qual convite para a nossa ascensão, porque livre e nosso deve
truição. Eis a gênese e o significado daquilo que em nosso pla- ser o esforço, como nosso será o resultado. Há quem aceite e há
neta se chama luta pela vida e seleção do mais forte. Este con- quem se rebele. Tudo o que pensamos e fazemos permanece in-
ceito, desenvolvido ainda em direção involutiva, nos leva ao delevelmente escrito, e, assim, nos construímos e ao nosso des-
super-homem de Nietzsche, que é o verdadeiro tipo biológico tino. O que está escrito, poder-se-á corrigir com acréscimos ou
do superbruto, o rei campeão de um mundo de demônios. É as- retificações em direção contrária, mas não se cancela. O presen-
sim que a rainha Isabel da Inglaterra, ligada ao sistema do seu te, uma vez tornado passado, não pode ser mudado nem mesmo
mundo é ―obrigada‖ a fazer matar a sua real irmã Maria Stuart, por Deus. Ele é Lei, e não capricho, como o homem pode crer.
e exclama: ―Aut fer aut feri; ne feriare feri‖ (É preciso ferir pa- Todo homem tem nas mãos esse material fluido do presente,
ra não ser ferido; se não ferires, serás ferido). Toda vida e posi- que sempre escorre como um fio e, pouco a pouco, vai solidifi-
ção é dominada pelo seu próprio sistema. Todo jogo tem as su- cando-se. Assim, ele pode construir-se para o alto ou destruir-se
as regras e com elas é preciso jogar até o fim. para baixo. Todo homem traça com as mãos, no livro da sua vi-
Eis, pois, o que acontece na periferia. À medida que o ser se da, o seu caminho, que vai para o inferno ou para o paraíso.
distancia do centro-Deus, da gravitação pela qual o universo é Observemos, para concluir, como se irradia a luz divina do
mantido compacto em um organismo unitário, começa e se centro para a periferia, quais os caminhos que ela, num estu-
56 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
pendo milagre de amor, segue, para atingir também esses mun- res da treva e do mal. Eis a procura afanosa da ovelhinha desgar-
dos inferiores, que parecem abandonados por Deus, mas não o rada, a procura do pecador em vez da dos justos, que já estão
são. Qual é o canal que o centro segue para fazer chegar o seu salvos. Que orquestração de amplexos para o universo em todas
raio vital até aos mundos inferiores; quais os operários, colabo- as direções e alturas! Que real fraternização opera o amor de
radores da sua potência, que, levando-a longe, freiam o desa- Deus, mesmo lá onde parece não reinar senão ódio! Que contí-
gregar-se periférico, retomam o ser que se perde na fuga e man- nua descida de anjos para os mundos inferiores, em procura das
tém assim, não obstante tudo, o universo compacto? Esses ope- obscuras criaturas irmãs a serem iluminadas. E que alegria no
rários, emissários de Deus, são os evoluídos. Em cada mundo desempenho dessas missões e também no martírio; que regozijo
há uma contínua descida de seres superiores, que baixam de es- para os anjos de Deus o se tornarem mensageiros do Seu amor!
feras mais altas e sacrificam-se numa vida de martírio entre se- Em nosso baixo mundo, admira-se e exalta-se o dinamismo do
res para eles demoníacos, suportando infinitas dores, para ensi- macho atual, dinamismo involuído, cego e destruidor, semeador
nar, educar, revelar e dar testemunho de Deus. De Cristo para de dores. Saberá ele quanto sacrifício de seres mais evoluídos
baixo, quantos profetas, gênios, heróis, mártires, têm trazido à será necessário para educar e elevar este seu dinamismo, para
Terra a voz dos céus! Muitos se escandalizam diante de um inú- torná-lo construtivo, isto é, semeador de alegria? Que encontro
til martírio. Mas como se pode, sem martírio, proclamar na Ter- angustioso, mas que centelhas emanam dele! O inferior goza
ra uma verdade? Não são a agressão e a ferocidade as caracte- como de uma vitória a dor dos outros, e neles a procura com in-
rísticas dos mundos involuídos? Mas o estupendo milagre do diferença. O superior toma a seu cargo a dor dos outros como
amor é justamente este: enquanto os involuídos assaltam por coisa própria e a sofre. Que importa? Ele sofre na luz do amor
cego egoísmo, os evoluídos se sacrificam por iluminado amor. divino. Quão diversas são a dor do mártir, que vê o seu fruto e é
A vida nos diz que a troca é genética, e isto porque ela deriva confortado na comunhão atingida com Deus através desse martí-
do amor, e Deus é amor. Mas, se a fecundação da carne se dá rio, e a dor cega e desesperada que nasce do afastamento das
pelo caminho da carne, a fecundação do espírito se da pelas fontes da vida! Quanta distância entre uma dor bendita, carrega-
sendas do espírito. Quanto mais se desce para baixo, tanto mais da de amor, e uma maldita, carregada de ódio! O homem mais
a vida se contrai em uma dura casca de egoísmo, que fecha as evoluído de amanhã compreenderá que inferno o homem involu-
portas ao amor. Quanto mais se sobe para o alto, tanto mais a ído de hoje faz da Terra. É necessário avizinhar-se do paraíso.
vida se oferece, abrindo as portas ao amor. Embaixo, o eu se Estamos no limiar de uma nova civilização. A luta é apocalípti-
fecha em si mesmo e fica aí encarcerado. No alto, o eu se abre e ca, mas raios potentes se projetam sobre nós. Dos mundos supe-
se expande. O primeiro recebe sempre menos da nascente cen- riores, infinitos seres nos olham.
tral; o segundo recebe sempre mais. Ai dos que seguem uma
virtude negativa, entendida apenas para sufocar o amor, e não XV. DEUS E UNIVERSO (I PARTE)
para elevá-lo! Virtude significa sobretudo afirmação, muito
mais que negação. Esta pertence a Satanás, aquela a Deus. Depois das precedentes visões parciais, seguidas por nós pa-
A vida tem necessidade não somente da fecundação da car- ra nos aproximarmos mais do problema máximo, enfrentamos
ne, mas também do espírito. Aquela forma a massa, este lhe dá a agora a visão do mistério central: Deus e o universo.
alma. Corpo e espírito, involuído e evoluído são, como a fêmea Para chegar a uma definição de Deus é necessário partir de
e o macho, complementares. Por isso se atraem. No caminho da alguns conceitos que, pela sua evidência e comum aceitação,
evolução, o crescimento da carne não é senão um meio para podem ser tomados como axiomas. Aceitamos, então, como
crescer no espírito. A carne tem os seus limites, e somente o es- demonstrado que o homem é um ser inteligente, capaz de com-
pírito pode ajudá-la a superá-los. O espírito é o seu raio vivifi- preender alguns conceitos; que o universo é um funcionamento
cante. A carne é fraca, o espírito é potente. Assim, a fecundação orgânico dirigido por um ―quid‖ inteligente; que tudo se desen-
espiritual se sobrepõe por outros caminhos à fecundação orgâni- volve segundo o princípio de causalidade, pelo qual o efeito é
ca, elevando-a e completando-a. Os dois termos da fecundação proporcional e da mesma natureza da causa que nele se mani-
espiritual não são macho e fêmea, mas involuído e evoluído. Es- festa; que, em correspondência ao princípio de causa e efeito,
te é o fecundador, de sinal positivo; aquele é o fecundado, de si- existe um dualismo universal, pelo qual se pode contrapor rela-
nal negativo. Como a semente e a terra, eles têm necessidade um tivo e absoluto, finito e infinito, e semelhantes.
do outro. Um é rico, porque está mais perto de Deus e então dá; Querer chegar a uma definição de Deus significa reconhecer
o outro é pobre, porque está mais distante, e recebe, seja embora que, no universo, o homem percebe e concebe um princípio
massacrando o seu benfeitor. Esta é a sua forma de achegar-se causal único que tudo rege harmonicamente. Não podendo re-
ao próximo. Ele recebe, com reserva, assimila para tornar a bro- montar à causa invisível senão pelos efeitos perceptíveis, de-
tar conforme a semente fecundadora. Explicam-se assim tantas vemos primeiro verificar que o efeito exprime não um estado
frases do Evangelho. Eis um outro elemento de biologia trans- caótico, mas sim uma ordem em que tudo depende de um cen-
cendental. Os dois termos opostos se atraem. Os inferiores são tro, em razão do que o evidente vir-a-ser de todas as coisas tem
atraídos pelos superiores e aproximam-se, naturalmente, com a um significado e uma meta lógica.
própria forma negativa de destruição. O involuído mata os seus Assim dizendo, chegar a uma compreensão do conceito de
profetas, para venerá-los depois. Por outro lado, os superiores Deus significa atingir, do polo relativo ou finito, onde está o
são atraídos pelos inferiores e aproximam-se, naturalmente, com homem, o polo infinito ou absoluto, onde está Deus. O homem,
a própria forma positiva de construção. O evoluído sacrifica-se com o universo que o circunda, é efeito. Ora, para poder, par-
pelos homens para melhorá-los. Uns e outros se exprimem em tindo do efeito, reconstruir a causa, seria preciso poder observá-
formas de bem ou de mal, quais eles são. Eis o mistério do amor lo todo, isto é, no infinito do espaço e do tempo. Entretanto o
que mantém coeso o universo por infinitos liames entre os seres, homem não possui os meios para, usando o método indutivo,
seja quando ele se manifesta pelo lado positivo, como amor, seja poder conceber a natureza da causa partindo da observação dos
quando pelo lado negativo, como ódio. Assim, o martírio é lei efeitos. O homem não pode, portanto, definir Deus. Não o pode
de amor para os mais evoluídos, cuja superioridade, na divina porque o próprio conceito de definição pertence ao seu mundo
economia do universo, não é ociosa, mas sim, por justiça, reple- finito, que não é o infinito. Assim, querer definir Deus, isto é, o
ta de deveres. Somente assim se pode compreender Cristo. infinito, torna-se uma contradição e um absurdo. O infinito não
Abre-se diante dos nossos olhos a visão da ordem divina, que se se pode limitar a atributos particulares sem mutilar-se. Qual-
torna hino de amor e de bondade também nos extremos inferio- quer definição de Deus não pode ser senão uma mutilação. E
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 57
que pode saber de Deus um ser como o homem, cujas concep- pria alma em relação ao grau de conhecimento conquistado. As-
ções, mesmo as mais abstratas, foram alcançadas através de ge- sim, podem coexistir muitas definições de Deus e, reconduzida
neralizações de conhecimentos adquiridos por necessidades àqueles limites, creio que a minha não poderá ofender as dos ou-
materiais, que não passam de um produto destilado de percep- tros, que não pretendo impugnar, reconhecendo-as relativamente
ções, um resultado sensório, um derivado mais ou menos pró- verdadeiras, em relação a cada um, como expressão da sua alma.
ximo do modo de conceber que resulta dos meios de observa- Mesmo assim, não posso impedir, porém, que os espíritos evolu-
ção e de juízo, dados pela natureza e pelo organismo humano? tivamente situados no meu plano de evolução deixem de corres-
Que representam então as tantas definições de Deus, dadas ponder por sintonia ao meu pensamento e, portanto, lhe adiram.
pelo homem? Elas não exprimem o inexprimível Deus, o indefi- Entro agora no assunto, expondo os vários aspectos em que
nível infinito, mas sim o conceito relativo de Deus que o homem me apareceu a divindade. Mais que diante de uma definição, sin-
faz segundo ele próprio, nos revelando a sua natureza, o seu tipo to que me encontro diante de uma visão. Acerco-me, pois, de
biológico, a maturação espiritual alcançada, a sua potência de Deus, não como de um ignoto que minha razão queira conhecer
concepção. Nas suas definições, o homem não define Deus, mas e conquistar, mas como de uma visão que me aparece e se me
a si mesmo em relação a um infinito do qual nos mostra as vá- entrega, que me conquista, que me chega por intuição e me al-
rias aproximações realizadas no seu concebível. Daí segue que cança vindo do alto. Tenho a sensação de uma gradual e pro-
toda definição de Deus é relativa a cada um e é mutável e pro- gressiva revelação, como de um desvendar de mistério. Não
gressiva com o devir de cada um. Na Terra, encontramos infini- concebo mais conforme os conhecidos sistemas racionais de de-
tas definições de Deus, e nenhuma satisfatória e definitiva, evol- finição de Deus e suas consequências. Percebo essa visão so-
vendo todas no relativo sem fim. A estrutura do relativo é tal mente com os sentidos da alma, agarro a sua estrutura enquanto
que ele não pode existir senão no movimento. A vida em forma lhe sinto a logicidade; aí repousa o instinto satisfeito e a alma
imóvel poderá de certo estar no polo oposto do dualismo, no ab- saciada por alcançar essa sua verdade, além da qual hoje não vê
soluto. Mas, em nosso finito de criaturas, a parada, ainda que e que é a última de hoje, à espera de avançar mais no amanhã. A
conceptual, é morte. E morte não significa senão fatal destruição potência dessas sensações, para mim, é prova que a minha visão,
da imobilidade para reentrar no movimento da vida. ao menos do meu ponto de vista, relativamente à minha forma
Quando, pois, um homem se põe a definir Deus, ele não de- mental e grau evolutivo no momento atual, é verdadeira.
fine Deus, mas estabelece e exprime a sua posição em face do Para chegar à minha aproximação do conceito de Deus,
ponto de referência, Deus. Logo o seu conceito será relativo e parto de alguns dados de fato e me sirvo, como de uma escada
mais ou menos avançado conforme é a sua evolução. Com isto, para subir, do princípio analógico que observei ser sempre
cada um, colocando-se diante de todos os outros conceitos rela- verdadeiro em todo campo (aquele que permitia a Cristo ex-
tivos ou definições de Deus, dadas por outros homens, pode ter primir-se por parábolas). Esse princípio me diz que o universo
com eles consenso ou dissensão, segundo a respectiva posição é um organismo de estrutura harmônica, constituído conforme
psicológica. Coincidirão somente as perspectivas tomadas da um esquema unitário, segundo o qual o modelo fundamental
mesma posição. Logicamente, se do infinito podem ser tomadas que o individualiza no seu conjunto é repetido em todo parti-
visões de infinitos pontos de vista, então as definições de Deus cular, que assim é individualizado à semelhança do todo.
podem ser infinitas. As disputas sobre esse argumento não di- Quando houvermos compreendido a estrutura de uma indivi-
zem, pois, respeito a Deus, mas somente aos homens, segundo dualização qualquer particular, nela veremos refletido o uni-
o conceito que de Deus cada um consegue formar. Essas defini- versal e encontraremos a chave para resolvê-lo. Aplicaremos
ções se fazem com atributos humanos ao superlativo, o que ex- agora, por várias vezes, esse método.
prime antes uma ingênua tentativa por parte do homem de criar Verifiquei, assim, que tudo é bipolar no universo. Essa lei
uma ideia de Deus, uma representação segundo o próprio con- de bipolaridade é afirmada em A Grande Síntese e desenvolvida
cebível, feita à própria imagem e semelhança. E que mais se no fim do volume A Nova Civilização do Terceiro Milênio. Pu-
pode pedir ao homem, além dos elementos de julgamento que de verificar que esta é uma lei universal, ao menos até aonde a
ele possui no seu concebível? É lógico e justo que assim seja. O minha observação pôde chegar, sem encontrar desmentido. Ca-
erro está somente em querer dar um valor absoluto a essas defi- da individualização particular nos diz que ela existe enquanto é
nições. E isto é verdadeiro para os indivíduos, para as religiões formada por duas metades inversas e complementares, antagô-
e para os povos, porque tudo caminha fatalmente. nicas, que se regem enquanto equilibradas no seu recíproco
Chegar ao conceito de Deus significa haver resolvido o pro- contraste, formando e fechando, assim, um circuito de duas for-
blema do conhecimento, dominar a visão do universo. Como o ças de sinal e valor oposto. Pelo princípio da unidade dos es-
conhecimento é incompleto, progressivo e inatingível, então o quemas repetidos por semelhança, derivados de um único cen-
conceito de Deus é progressivo e inatingível. Assim, a concor- tral, e pela lei de analogia, pode-se bem verificar quanto acima
dância de visão em muitos casos entre os homens é antes intui- foi exposto, confirmando, nos casos menores observados, a re-
tiva e, portanto, axiomática, do que racional e demonstrável. É petição do caso máximo do universo.
por uma universal tendência intuitiva que sentimos a necessi- Isto me guia para uma primeira aproximação do conceito de
dade de pensar em Deus como perfeição, como poder, harmo- Deus. Ele me aparece, pois, como o polo que é centro, potência,
nia, justiça e bondade. Temos uma intuitiva necessidade de en- conceito diretivo, causa motriz, substância, absoluto, polo que
contrar em Deus a causa última que tudo explica, o imutável está nos antípodas do outro, que é, ao contrário, periferia, ex-
em que possa encontrar razão e repouso a incessante instabili- tremo não irradiante, dinamicamente irradiado, conceptualmente
dade de todas as coisas, o elemento complementar do nosso re- guiado e desse modo plasmado na forma, polo em que o todo é
lativo, que lhe complete a deficiência que sentimos. Deus é sen- feito organismo que funciona e evolui para fins precisos, polo
tido, assim, mais como aspiração e tendência para uma meta in- dos efeitos e do relativo, no qual vivemos. Ora, o esquema da
finitamente distante, em cuja estrada se está sempre a caminho, estrutura de cada individualização do ser, observado em infinitos
do que como uma racional precisão em termos qualitativos. casos, não me autoriza a separar esses dois momentos opostos.
Aplicando os conceitos acima expostos à minha presente Ao contrário, mostra-me que o antagonismo não é senão com-
tentativa de dar uma definição de Deus, deverei tê-la como rela- plemento, contraste que traz equilíbrio, portanto não divide, mas
tiva a mim, expressão do grau de evolução espiritual por mim sim une as duas partes em um mesmo ciclo. Se assim são todos
alcançado hoje, progredindo no amanhã para sempre melhores os menores casos observáveis, também deve sê-lo, por analogia
aproximações. Toda expressão humana é manifestação da pró- e harmonia, que são leis do universo, este caso máximo. O prin-
58 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
cípio do dualismo me conduz, pois, inevitavelmente a essa con- Se, na concepção de Deus, nos limitarmos a um só dos seus
cepção de equilíbrio, porque ele está em todas as coisas e mostra aspectos, seja de imanência, seja de transcendência, d'Ele te-
que transcendência e imanência não se podem elidir até ao ab- remos um conceito mutilado, incompleto. Devemos, por certo,
surdo de um universo cindido contra si mesmo, mas devem, ao venerar o Deus transcendente, o absoluto, para nós inconcebí-
contrário, completar-se automaticamente, equilibrando-se. A ob- vel, que exorbita de todos os possíveis limites do nosso univer-
servação dos fatos me diz claramente que os dois extremos não so; o Deus na Sua verdadeira essência, muito distante, o in-
podem ser senão opostos e complementares, para formar, em es- cognoscível, o inacessível. Mas devemos também sentir com
treito monismo, uma mesma unidade. amor o Deus imanente, que se deu ao ser, fundindo-se no rela-
Este monismo nasce, pois, do dualismo. Assim, o universo tivo; o Deus vizinho, compreensível, que se encerrou no limite
aparece, como toda individualização, estreitamente unitário, se da criatura; o Deus que sabe humanizar a vertigem do seu infi-
bem que, no seu íntimo, de estrutura dualista. Desse modo, o nito, para se tornar acessível a quem não tem a potência de al-
monismo abraça, a um tempo, o aspecto de Deus transcendente, cançá-Lo; o Deus pai e amigo, que assiste e socorre as suas
eu distinto da sua criação ou manifestação, e o aspecto de Deus criaturas. Digam o que disserem a revelação e a teologia, sem
imanente, pulverizado em infinitos eus menores e fundidos na esse segundo aspecto o universo se resseca, separado da sua
sua manifestação, em que está sempre presente. Vejamos agora fonte divina, e a vida, não mais alimentada em cada instante
as relações entre causa e efeito, entre Deus e universo. Segundo pelo Deus imanente, morre. Nenhuma filosofia pode mudar es-
o primeiro aspecto, a criação é instantânea, operada fora de si, e sas leis, que são as leis da vida.
fica separada da sua causa, que é de natureza completamente di- Era necessário, para obter uma primeira aproximação do
versa. Segundo o outro aspecto, a criação é íntima, progressiva, conceito de Deus, começar no sensível do nosso universo, para
é evolução, uma manifestação de Deus, em que a causa perma- remontar depois à sua causa, que está além do sensível. Para
nece sempre presente e operante no seu efeito e nele permanece escalar o inacessível, era necessário começar do acessível, esta-
fundida com igual natureza, assim como a alma humana se fun- belecendo as relações entre universo e Deus, entre o efeito e a
de com o seu corpo. Desse fato decorrem duas concepções opos- desconhecida causa que está além dele. Se bem que hoje se du-
tas, que parecem elidir-se, mas, ao contrário, se completam. vide de tudo, inclusive do princípio de causalidade, é evidente,
Procuremos compreender as relações entre Deus e univer- contudo, que as características do efeito refletem a natureza da
so, tomando para exame, pelo método mencionado do princí- causa. Então, dado que o universo dos efeitos é assim incomen-
pio de analogia, um exemplo que cada um encontra em si suravelmente vasto e complexo, assim maravilhosamente orde-
mesmo no caso semelhante do homem, já reconhecido como nado e perfeito, é lógico ter de se deduzir que semelhantes qua-
feito à imagem e semelhança de Deus. O homem, assim como lidades superlativas se devem reencontrar também na causa,
o nosso universo, é formado de três elementos: matéria, ener- que é Deus. É assim que se formou a maior parte das definições
gia e espírito; nele reencontramos também uma trindade que é de Deus, com um processo de multiplicação dos melhores atri-
dualismo nos seus dois extremos, matéria e espírito, os dois butos concebíveis pelo homem. Não repetiremos essas defini-
termos inversos complementares em luta no composto huma- ções. Deixemos que Ele permaneça definido pela descrição das
no. A analogia, que é universal, nos diz que as relações entre suas atividades, em que estão implícitos os seus atributos.
Deus e universo devem ser semelhantes àquelas que correm Algumas referências antes de ir além. Tudo que havemos
entre alma e corpo, entre espírito e matéria. A alma é indepen- desenvolvido neste capítulo está de acordo com quanto já foi
dente do corpo e pode assumir diversos corpos, segundo o seu sumariamente dito em A Grande Síntese e é desenvolvido
grau evolutivo. Aqui temos o aspecto transcendência, em que o aqui para esclarecimento do pensamento lá contido. E isto, a
princípio é uma individualização separável da sua manifesta- fim de expor o seu verdadeiro significado, uma vez que uma
ção relativa. Porém, ainda assim, a alma não só é estreitamente inexata interpretação dele e da terminologia usada em sentido
fundida e conatural ao corpo – este, sem ela, torna-se um ca- especial, provocou sua condenação, sob a acusação de erros
dáver – como também dirige sua formação, troca e evolução (a teológicos como a afirmação do panteísmo, da exclusiva ima-
evolução orgânica não é senão a expressão externa da evolução nência de Deus e afins.
do espírito). Aqui temos o aspecto imanência, em que a causa O referido volume, no Cap. VI, diz: ―Podereis denominar is-
está sempre presente e ativa no seu efeito. to de Monismo; todavia deveis cuidar mais dos conceitos do que
Transferimos o esquema unitário dualístico que rege a vida das palavras‖; ―Monismo, isto é, conceito de um Deus que ‗é‘ a
do homem para a dimensão máxima do esquema semelhante criação‖; ―Lede mais uma vez antes de julgardes‖. No Cap. VIII,
que rege a vida do universo. Deus é distinto do seu atual uni- lê-se: ―A Lei é Deus‖ – ―O princípio e as suas manifestações‖.
verso e pode separar-se desta sua manifestação, para assumir Isto quer dizer que o conceito de Deus não se pode isolar em ne-
inumeráveis outras. Deus é, ainda, a alma que rege o atual uni- nhum dos seus aspectos, seja o transcendente de princípio, seja o
verso, fundida nele, sempre aí presente e ativa através de uma imanente de manifestação. Monismo significa justamente o seu
criação contínua, que chamamos evolução. O princípio da equilíbrio e fusão em unidade. Separá-los significa mutilar o
imanência nos diz que, se do universo tirarmos Deus, resta um conceito de Deus em um dos seus aspectos fundamentais.
cadáver. Mas o princípio da transcendência nos diz que, se A Grande Síntese, no Cap. LXIII, ―Conceito de criação‖,
Deus se desliga do seu universo, isto é, da sua atual forma de diz: ―Podeis denominar criação um período de vir-a-ser e, só
manifestação, Ele pode, todavia, expressar-se em infinitos ou- então, falar de princípio e de fim‖; ―Tudo deve se reintegrar na
tros universos. O universo atual não é senão uma das infinitas Divindade, pois, se tal não sucedesse, esta seria ‗parte‘ e, por-
formas que o absoluto quis dar a si mesmo no relativo; Ele po- tanto, incompleta; se existem forças antagônicas, estas não po-
de libertar-se sempre desta sua expressão no espaço e no tem- dem estar senão em seu seio, no âmbito de sua vontade, como
po; o infinito é sempre senhor de romper os limites do finito parte do mecanismo do seu querer, do esquema do todo‖ (...),
em que ele quis fechar-se. No entanto ele se impôs esses limi- ―uma cisão, uma duplicidade absoluta entre Divindade e criado.
tes; é causa do relativo do universo atual, sua expressão; nesta, Isto não pode ter cabimento neste meu monismo‖.
Deus é necessariamente imanente e, como tal, Ele vive neste E ainda: ―Não tenhais receio de diminuir-lhe a grandeza di-
seu aspecto, isto é, luta, sofre, goza, evolui conosco e com to- zendo que Deus é também universo físico, pois este nada mais
dos os seres. Ele é motor universal, impulso que faz pressão é do que um átimo do seu eterno vir-a-ser, do seu tornar-se, em
para levar o universo à plena expressão d'Ele, à gradual e com- que Ele se manifesta‖ (...), ―a minha mente tende a manter
pleta conquista da Sua perfeição. compacto o todo, numa visão unitária, e a fazer com que os
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 59
profundos vínculos que unem princípio e forma ressaltem‖ (...), invertido. Então, o primeiro Deus deve modificar os seus pla-
―Deus é o princípio e a sua manifestação, fundidos numa uni- nos imperfeitos e mal executados, tomando diretrizes diferen-
dade indissolúvel; é o absoluto, o infinito, o eterno que vedes tes, e socorrer o ser caído, com a Sua redenção. Disto resulta
pulverizado no relativo, no finito, no progressivo. Deus é con- uma série de consequências bem conhecidas.
ceito e matéria, princípio e forma, causa e efeito, conjugados Dado o conceito que o instinto da alma e a sua intuição nos
inseparáveis, como dois momentos e como dois extremos entre indicam de Deus, ela se rebela diante da ideia de um desdo-
os quais o universo se agita‖. bramento da potência criadora, em que a divindade se rompe,
Este é o monismo que agora aqui explicamos. Deus é causa contradizendo-se na imersão de uma parte da sua manifesta-
que se funde no seu efeito. Mas este é sempre um relativo, que ção, para acabar em uma luta dolorosa e estéril entre dois che-
tem assim princípio e fim, ao contrário do absoluto-causa que, fes que contendem nas diretrizes do criado. Então, o mal nos
como extremo oposto, tem características opostas, ou seja, é aparece verdadeiramente como uma força negativa, o antago-
imóvel, eterno, além de todo limite e medida. É assim que o nista que atenta contra Deus, uma imperfeição devida a um
atual universo tem princípio e fim. Porém as criações do mes- Seu imperdoável erro, que Ele, em determinado ponto, encon-
mo Deus infinito podem ser infinitas no finito, propondo-se ca- tra na Sua obra e que se apressa em remediar. Deus não é tudo,
da uma alcançar algum fim seu, criações progressivas que se ul- mas há fora d'Ele um outro Deus, seja embora ao contrário,
timam somente na sua conclusão (v. A Grande Síntese, Cap. que o limita e o agride. É o bastante para fazer ruir o conceito
XXII, fig. 2, criação a, b, c, d, etc.). do Deus absoluto e perfeito, que o instinto da nossa alma tem a
A esses conceitos é que se refere o desenvolvimento deste intuição. Permanece daquele Deus uma ruína, mutilada e ven-
capítulo. Para compreendê-lo, é necessário seguir toda a orienta- cida, um Deus relativo e finito. Tudo cai no absurdo. Para o
ção geral de A Grande Síntese; haver antes estabelecido a solu- homem ficaria uma herança de dor, sem finalidade construtiva,
ção do problema da dor e do amor, ali desenvolvida do Cap. punição de um Deus que se torna vingativo, dor que Ele em
LXXX ao LXXXII; ter compreendido a função do bem e do mal vão procura sanar. Essa dor é devida à grave culpa do primeiro
e da solução final do seu contraste (cfr. o volume A Nova Civili- rebelde que, seja Adão, seja Lúcifer, de certo não poderia ter
zação do Terceiro Milênio, Cap. XIII, ―Problemas Últimos‖); ter consciência completa do bem e do mal, por ser um primitivo
enfim compreendido os capítulos: ―Evasões‖, ―Inferno e Paraí- (Adão) ou porque, se a tivesse tido (Lúcifer), não seria jamais
so‖, ―O Princípio de Unidade‖, ―O Erro de Satanás e as Causas induzido a tamanha revolta em seu prejuízo, expulsando-se,
da Dor‖ e ―Porque Amor é Alegria‖, que se desenvolvem nos por si mesmo, para o reino da dor, por ele mesmo criado, e
volumes Problemas do Futuro e Ascensões Humanas. Não se não, de certo, por Deus. Como pode um inconsciente ser res-
poderia chegar ao atual grau de profundidade no conhecimento ponsável, quando não sabe o que acontecerá e lança-se a uma
do argumento senão por graus, preparando todos os elementos tentativa, crendo ganhar o próprio bem e, sem saber, erra? E,
das conclusões atuais com a solução de vários problemas con- em nome de qual justiça, Deus, que sabe tudo e tinha a presci-
comitantes. Retomemos agora o nosso argumento. ência de tudo, portanto também desse erro, pode condenar esse
Estabelecidas, pois, as relações entre Deus e universo, per- ser, que errou por ignorância, a pagar duramente na dor? Quan-
guntamo-nos por que Deus quis exprimir-se nessa sua manifes- do uma criança inexperiente cai, a culpa é do progenitor que,
tação e os seus significados e finalidades (admitido o universal sabendo mais, devia prever o que o inexperiente não podia; é o
princípio de causalidade). Encontramo-nos, aqui, em face de pai que tem o dever de educar, antes mesmo de ter o direito de
uma primeira, mas só aparente, contradição. Por um lado, so- punir, e somente em proporção da experiência adquirida pelo
mente o conceito de um Deus perfeito, absolutamente justo e filho. Quando o filho não tem conhecimento, o progenitor não
bom, sacia o instinto de nossa alma, que não pode admitir ou- pode punir. Se Adão e Eva creram na serpente, foi porque eram
tra coisa, porém o vemos na realidade dos fatos, em nosso ingênuos, inocentes e não conheciam as consequências, pois
mundo, como imperfeito, muitas vezes injusto e mau. Por que que, ainda hoje, o mal é sempre fruto da ignorância e da ilusão
haverá este efeito, tão dissemelhante da sua causa? Repugna que dela decorre. Ninguém também hoje faz o mal pelo mal; se
totalmente à nossa alma transferir para a causa essas qualida- o faz, é porque o reputa, na sua ignorância, uma vantagem, uma
des dos seus efeitos. E então, como é que uma tão maravilhosa utilidade, um bem. E, então, que deveremos pensar de um Deus
fonte se há depois corrompido na dor e no mal, na sua mani- que, contrariamente aos seus princípios de lógica e justiça, se
festação? O espírito humano se encontrou desde os primórdios comporta dessa forma para com a sua criatura?
da civilização em face desse problema e tentou resolvê-lo com Na visão que vejo aparecer diante de mim, tudo se esboça
o mito da queda dos anjos e, pois, do pecado original. Confor- bem diversamente. O dualismo, que é uma evidente e indiscutí-
me essas soluções, o nosso atual universo não seria senão uma vel verificação de fato, permanece. Contudo, assim, não aparece
degeneração de um outro universo perfeito, arruinado por obra mais antagônico e destruidor como no precedente sistema, e sim
da criatura, que quis trair o criador. O ser seria um decaído em com um mais profundo e satisfatório significado, revelando-se,
poder da dor e capitaneado por Satanás, um anti-Deus, rei su- ao contrário, unitário e construtor. O universo me aparece em
premo do mal. Diante de Deus, ter-se-ia assim formado, na sua seu monismo, isto é, estreitamente unitário também neste caso.
própria manifestação, um universo inimigo. Daqui nasce um Em A Grande Síntese está dito que, como o pensamento humano
dualismo antagônico, irresolúvel, em guerra, bem diverso do passou da ideia politeísta à monoteísta, agora passa da monoteís-
dualismo harmônico e unitário que acima havemos descrito. ta, isto é, a de um Deus só, mas distinto do Seu universo, à mo-
As duas partes formam uma cisão, uma insanável fratura dis- nista, em que Deus, sendo tudo, é também o universo. O homem
solvente, e não um equilíbrio compensado, que contrapõe os subiu evolutivamente, e Deus, hoje, avizinha-se, torna-se mais
opostos tão-só para unificá-los construtivamente. Aqui, ao acessível à nossa nova maturidade. No caso agora observado, o
contrário, estamos defronte ao naufrágio da obra de Deus. monismo do todo, a unidade universal, que não permanece cin-
Como podia Ele, com as qualidades que lhe devemos atribuir, dida entre o Deus transcendente e o Deus imanente, fica unidade
falir tão miseravelmente; como podia não haver sabido prever inseparável também no seu dualismo bem-mal, Deus-Satanás.
e, enfim, ficar vencido e subjugado pela vontade da sua criatu- Nesta visão, o universo me aparece absolutamente unitário, por-
ra? Isto implica algum grave defeito de origem para chegar a que qualquer cisão sua seria insanável fratura, ruindo a sua per-
tão desastrosos efeitos; e como podia tudo isto estar em Deus? feição. Não interessa, aqui, se a palavra monismo teve outros
E eis que a criatura superou o criador, substituindo-o na dire- significados e fez parte de diversas escolas humanas. Este é o
ção, e justamente em sentido contrário, como um segundo deus sentido que aqui damos a esta palavra e prescindimos dos ou-
60 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
tros. E, neste conceito, é fundamental que, no universo, haja um Observemos, porém, sempre mais de perto, esta visão mo-
só centro dominador, uma só força diretriz, e não duas. nística do universo. Se Deus, pois, aparece perfeito, absoluta-
Não há um anti-Deus; não existem atritos ou erros a sanar. mente bom e justo, por que existem na sua obra essas sombras
Deus não tem inimigos. Satanás é o Seu servo e, neste sentido, que são o mal e a dor e qual é a sua função? Como podem essas
lhe está sujeito, logo é seu instrumento para os fins do bem, forças negativas funcionar afirmativamente, esses ímpetos des-
que é a única lei de um Deus só, senhor de tudo, verdadeira- truidores fazer parte do mecanismo criador? A perfeição de
mente bom, justo e perfeito, como o instinto da alma nos diz e Deus não implica que Ele haja criado um universo já perfeito
exige. Há assim funcionamento orgânico unitário, e não uma como é Ele próprio. Ele pode ter construído um universo per-
cisão entre o bem e o mal. fectível, isto é, que evolui sempre mais para a Sua perfeição,
Mas a dor e o mal não desaparecem por esse motivo. Por um universo que, no tornar-se, é ascensão para esta, mas que,
que, pois, existem e os quis Deus, único senhor de tudo? Esta nesse progressivo caminho de conquista, exprime uma perfei-
visão não destrói o fato inegável que dor e mal existem; dá- ção de meios e de método. Isto corresponde à observação da re-
lhes apenas uma explicação lógica, a única que não ofende o alidade e explica o dualismo transcendência-imanência, bem-
conceito de Deus, que a nossa alma exige e não ofende a Sua mal, Deus-Satanás, porque o universo é uma projeção de Deus
perfeição. Tínhamos já, no volume A Nova Civilização do para o polo oposto a Ele, do imóvel para o tornar-se, do absolu-
Terceiro Milênio, tratado do problema do mal, da sua função to para o relativo, do perfeito para o imperfeito. E aqui surge a
construtiva a serviço do bem, da sua destruição final, implíci- grande pergunta: por que essa projeção? Eis o nó da questão.
ta na estrutura negativa do seu próprio sistema. Mas, aqui, não Deus era perfeito, completo em si, causa sem causas. E eis que
é da natureza do mal e de sua sorte que nos queremos ocupar, Ele se lança na concatenação sem trégua da causa e efeito, no
e sim da sua posição na estrutura unitária do universo, a fim laborioso trabalho de um tornar-se evolutivo, lança-se na im-
de compreender que ele não só absolutamente não o ofende perfeição, para criar fora de si uma perfeição semelhante a Ele.
como, ao contrário, representa uma função positiva e constru- Por que isto? Há aqui, verdadeiramente, uma ruptura em dois
tora, solidária com a do bem. Vemos, assim, o mal e a dor nos da unidade divina, pela qual Deus se projeta e vem a existir não
aparecerem com um significado mais profundo, bem diverso mais somente na substância, mas também na forma; assim en-
do precedente, surgindo como partes do mecanismo criador, cerra-se na limitação, submete-se ao esforço de uma ascensão,
como elementos negativos somente na aparência, mas em pulveriza-se no particular e se sujeita a atravessar os oceanos
substância positivos, não maléficos e sim benéficos. Somente do mal e da dor. Que há no fundo desse caminho, no fim de to-
assim eles podem estar na divindade, e não contra ela, que é do o processo? Há um universo de seres que conquistaram a
afirmação criadora, benéfica, e nunca maléfica. No atual novo consciência, isto é, a verdadeira existência, retornando a Deus,
impulso para Deus, Satanás, de um tremendo inimigo de Deus por quem foram gerados. A cisão, assim, no fim se anula e a
e nosso, torna-se um ignorante que faz o mal porque não sabe unidade é reconstituída. Cisão, pois, transitória e puro meio,
e, justamente por isto, acaba por fazer o bem no seio da infini- condição de uma unidade nova e mais ampla, na qual Deus terá
ta sabedoria de Deus, que tudo abarca, inclusive a obra de Sa- realizado uma criação nova, de inumeráveis falanges de huma-
tanás. Então, a nossa vida não é mais condenação, exílio, pu- nidade que n'Ele reencontram a sua unificação.
nição de culpa originária, mas alegria em ascensão para o A causa motora de tão imensa obra? O Amor. A criação é
bem; mesmo nas quedas e na dor, é sempre uma bênção de um uma autodoação de Deus. Daí, além da transcendência, a ne-
Deus, verdadeiro Pai amoroso; é, a todo momento, ascensão e cessidade da imanência, que exprime, por si só, a divindade no
conquista para a nossa felicidade. Nesta visão, vejo Deus abrir ato de se dar. Mas este dar-se é expressão na forma, isto é, li-
sempre os braços para atrair todos, alegria suprema. Vejo, mitação e, por isto, sacrifício. É Deus mesmo que, em primeiro
acima da negatividade do temor dominante em nossa anterior lugar, por amor para com as suas criaturas, cinde-se em sacri-
concepção de Deus, uma exaltação dos valores positivos da fício, dando-se a elas. Assim, o Uno se rompe, fragmenta-se no
vida, em que, além do antagonismo do bem contra o mal e ao dualismo para recompor-se depois em unidade, porém enri-
contrário, aparece a lei de absorção do mal no bem, de modo quecida num grande amplexo em que Ele atraiu a si todas as
que a vida não é uma falência, mas sim contínuo triunfo de criaturas. Eis em que consiste e a que tende essa criação contí-
Deus. A Sua obra já é substancialmente perfeita e se, na sua nua que é a evolução. Antes da criação, Deus era o todo e per-
expressão, ainda não o é toda, vai sempre mais se aperfeiço- feito, mas lhe faltava a aplicação do amor. Ele estava sozinho.
ando, justamente para sempre mais exprimir exatamente a ín- Para poder amar, Ele cria Suas criaturas e nelas se transfunde,
tima perfeição. No sistema do universo, a vitória cabe ao bem, animando-as; com elas trabalha para livrá-las da forma; não as
ainda que, para atingi-lo, seja necessária a luta contra o mal. quer como autômatos, mesmo que perfeitos, mas sim seme-
A evolução nos leva para Deus, isto é, para a alegria, se bem lhantes a Ele, livres e conscientes, senhores do bem e do mal,
que, para subir, seja necessária a dor. Esta, assim, deve apare- portanto os assiste na longa experimentação que, através do er-
cer em cada caso na existência, que, se não é felicidade, está ro e da dor, conduz a essa grande sabedoria, a única que pode
sempre caminhando para ela, mau grado todo o cansaço e so- tornar a criatura semelhante ao criador. Adão, primeiro ho-
frimento. Este conceito da grande unidade do todo vivificará a mem, não podia possuí-la e errou. Possui-la-á o último ser da
nova era do mundo, porque a unidade é a meta da vida e a última humanidade, que não pecará mais, porque terá compre-
unificação é o processo evolutivo para chegar a ela, pois a fe- endido e, portanto, estará livre do mal.
licidade está na superação em Deus de todo antagonismo e ci- E eis que aparece a dor, sábio instrutor, instrumento de
são. Eis o significado da ideia do monismo, sustentada em A Deus; dor feita somente para ser superada na alegria, que é a
Grande Síntese. Não mais um universo cindido entre dois se- essência de Deus. Desse modo, dor e mal são progressivamente
nhores, representando a falência de Deus na Sua criação, mas eliminados até serem completamente reabsorvidos em Deus,
um universo unitário, triunfo absoluto de Deus. A sombra da que os quis como meios de Sua construção. Assim, a criação é
dor e do mal aí fica, mas somente como sombra que, em vez contínua, presume a constante presença da causa operante, é ato
de lesar, valoriza a luz. Esta visão me parece exprimir uma ininterrupto de um Deus sempre criador que, através dos con-
boa nova ao mundo por parte de Deus, que, numa grande cur- trastes necessários para uma conquista livre, fica infalível e al-
va da história, realiza um novo gesto para tudo atrair a Ele. cança sempre os seus fins, dirigidos, conforme Sua natureza
Estes conceitos, então, animam-se, vivificam-se e iluminam- perfeita, unicamente para o bem. Eis o universo, ordem perfei-
se num magnífico incêndio de paixões. ta, não obstante a sua desordem transitória e a sua imperfeição
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 61
de superfície; eis um Deus que se serve da falência no particu- vida não é mais alguma coisa de negativo, uma punição, um de-
lar para triunfar no conjunto, em uma obra de amor que termina rivado de erro, mas é ato positivo de conquista, guiada por leis
com a criação progressiva de criaturas que o compensam do seu perfeitas. Deus está verdadeiramente conosco, é nosso amigo,
imenso sacrifício, retribuindo o amplexo no fim do caminho quer a nossa felicidade e de tudo faz para nos dá-la. Mas quer
evolutivo. Eis a ordem e a lógica conforme as quais me aparece também que aprendamos, procurando-a, fatalmente destinados
esta visão, satisfazendo sem contradições tanto as leis da eco- a encontrá-la no fim. Deus, assim, vive conosco, em amor, o
nomia da natureza, quais as vemos em ato, quanto o instinto da nosso duro esforço de ascensão. Que mais evidente exemplo
alma, que tudo quer harmonicamente resolvido, seja para a inte- disto do que a descida de Cristo à Terra? Assim, Deus se mani-
ligência, seja para o coração. Eis o verdadeiro Deus, Pai e festa sempre mais em todo nosso progredir, estimulando-nos a
Amigo, sempre benéfico, perto de nós, o Pai anunciado por superar as deficiências; não arrastando-nos gratuitamente, mas
Cristo, o Deus do amor que dominará a nova era do espírito. sim atraindo-nos e ajudando-nos, para que, depois, a vitória se-
À medida que vamos observando esta visão, aparece-nos ja justamente nossa. A sabedoria divina atinge assim dois esco-
mais claro o conceito de Deus. Se, no Seu aspecto transcenden- pos que parecem opostos: a criatura, mesmo guiada e ajudada
te, Ele é separável, independente da criação, imensamente dis- por quem sabe mais do que ela, tem pleno direito à sua felici-
tante de nós, está, contudo, no seu aspecto imanente, fundido e dade, porque a ganhou com a sua fadiga; e o Criador tem direi-
presente na criação, imensamente perto de nós. Então se com- to ao amor daquela criatura, porque lhe esteve sempre vizinho e
preende como cada fragmento do criado possa refletir a estrutu- a socorreu, deu-lhe o máximo que a necessidade de não torná-la
ra do todo. É esta repetição do universal esquema único nos in- preguiçosa permitia, tendo sofrido com ela. Somente assim po-
finitos esquemas menores, todos do mesmo tipo, que justifica o deria ser alcançada a criação de um ser consciente e perfeito,
princípio da analogia, que usamos. Podemos muito bem, pois, mesmo através de uma cansativa ascensão, com direito ao eter-
ver Deus refletido em todas as coisas. O absoluto se repete ao no amor de Deus. Se, pois, a lei suprema parece nos marcar du-
infinito, no relativo. Deus nos aparece como a atmosfera em ramente hoje, não nos rouba em nada, pois nos compensará
que o universo está imerso; tudo nos fala d'Ele, nos faz sentir a com tantas alegrias, que, então, todos poderão compreender a
Sua presença. Mas não é só. A manifestação de Deus é progres- verdade do ditado de São Francisco: ―Tanto é o bem que espe-
siva, proporcionada ao grau de evolução alcançado. E, a toda ro, que toda pena me é muito amada‖.
nova aproximação do ser no Seu conhecimento, Deus se mani- Não posso deixar de me inebriar com a beleza desta visão
festa sempre melhor, mais justo e mais perfeito. Assim compre- resplandecente de justiça e de bondade. Que alegria poder resti-
ende-se o conceito de evolução como o retorno do ser à fonte tuir a Deus os seus atributos de perfeição e de amor, que paz
que o gerou, como lei de ascensão contínua e fatal para esse di- existe em sentir a alegria além da dor, o bem além do mal, uma
vino centro que tudo atrai. Vemos fechar-se o circuito do mo- ordem perfeita quando superado o caos humano! Que sabedo-
vimento dualístico, antes centrífugo, de projeção da causa para ria, uma imperfeição como um meio de perfeição, uma disso-
a periferia na forma, sua expressão, e depois, na atual fase, cen- nância feita para reordenar-se em harmonia! A dura luta pela
trípeto, de reabsorção na causa do centro-Deus, quando a forma vida não é senão uma elaboração para conduzir à fraternidade.
se adelgaça, ficando sempre mais visível o espírito animador. O esforço criador de Deus está sempre presente e faz parte do
Eis o significado da ascensão moral, da elaboração e formação sistema. Deus é perfeito. O Seu plano é perfeito; é somente a
progressiva da consciência, da catarse, dos conceitos de dever e sua manifestação que parece imperfeita, porque, partindo do
de virtude. Eis como, com a evolução, a forma deixa mais imperfeito, tende ao perfeito, e partindo do caos, chegará à or-
transparente a animadora presença de Deus. dem. O caos originário não foi erro, mas sim o ponto de início
Assim, tudo se esclarece e se explica. Então, Deus se torna desejado. A obra da criação consiste na progressiva elaboração
mais logicamente compreensível e o conceito que d'Ele alcan- da desordem, na reordenação do caos na ordem. É este processo
çamos mais satisfatório; caem, assim, as contradições, de im- de harmonização gradual que forma a sinfonia da vida, con-
perfeito tudo se torna perfeito, embora fique a condição da im- quistar através da prova a felicidade, que constitui o seu esco-
perfeição do nosso mundo atual. A nossa consciência nos diz po. O Deus transcendente, não obstante Ele operar como ima-
que Deus não pode errar, e nos desagradava a hipótese de que a nente em meio às suas criaturas, não cessa de resplandecer no
realidade nos mostrasse que Ele houvesse errado. A nossa alma centro, tudo atraindo ao seu seio. A sua imanência consiste jus-
não pode deixar de sentir-se elevada e satisfeita por essa salva- tamente nessa irradiação que tudo penetra, satura e arrasta para
ção da ideia de Deus, qual ela a sente, satisfeita de poder final- Ele. O Sol, como sistema semelhante (o esquema é sempre úni-
mente afirmar que, não obstante tudo, Deus e a sua obra são co em tudo), arde no centro do seu cortejo planetário, mas tam-
perfeitos. Ele jamais errou e, agora, não recorre absolutamente bém está em todo ponto aonde chega irradiando, para e fecun-
a retoques do seu plano para sanar faltas imprevistas, que acu- da. Transcendência e imanência não são, pois, senão duas posi-
sariam a sua ignorância e no-lo mostrariam como um ser zan- ções, duas metades do circuito de uma mesma unidade.
gado e arrependido, embaraçado diante da sua criatura, que não Então, todas as formas de existência tendem para Deus e to-
obedeceu a Ele. O nosso universo não é feito com as escórias das devem, cedo ou tarde, sublimar-se para chegar a Ele, a fim
de uma catástrofe não prevista. Foi desejado, assim como ele é, de restituir-lhe o amor que as criou e encontrar n'Ele a salvação
porque assim ele é perfeito; não no sentido que a perfeição já final. A vida não pode ter outros escopos. De outro modo, ela
esteja atingida, mas no sentido que Deus quis um universo que perde todo o sentido e valor, é caos e mal, e a criação de tal dor
atingisse pouco a pouco, por evolução, a sua perfeição. Neste sem salvação torna-se maldade. Uma infinita sabedoria, que
sentido, como foi desejado, tudo é perfeito, isto é, não no senti- tem presciência do erro da criatura e conhece a possibilidade de
do de uma criação completa no instante da origem, que naquele terríveis consequências, se é boa como deve ser, não a pode ha-
momento tivesse já alcançado os seus escopos, como verifica- ver criado desta forma. Criando, Deus não pode haver desejado
mos que não é, mas no sentido de uma criação que os vai atin- senão uma coisa: a salvação da criatura, salvação final; não im-
gindo progressivamente, através daquela elaboração, vir-a-ser porta se para alcançá-la são necessárias gravíssimas provas, jus-
inegável, de que é feita a vida do ser e que é a íntima substância tamente proporcionais às insensibilidades de cada um, se são
do existir. Daqui, a necessidade também do Deus imanente, necessárias penas que se devam sentir também como eternas,
qual inteligência diretriz deste tornar-se. É imensamente maior sem ter jamais esperança, se são necessários estes abalos para
do que a anterior esta ideia de Deus perenemente ativo e pre- fazer subir enfim e chegar a Deus. Na realidade, Ele está mais
sente, é mais justa, melhor, mais humana, mais confortante. A ansioso de nos dar liberdade e felicidade que nós de as alcan-
62 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
çarmos. Mas seria muito perigoso para o homem que Deus des- sa alegria, primeiro em outros seres, para os quais ela é irradia-
se liberdade a um ser que ainda não é sábio e consciente, nem da, e depois, pelo que dela resplandece e irradia em retorno, pa-
seria justo dar a felicidade senão como merecido prêmio por ra quem sofreu para gerá-la, que vê então seu sacrifício resol-
um trabalho ultimado. Como tudo pode ser nosso se não for ga- ver-se, no fim, em multiplicação de felicidade. Assim, a dor se
nho? Tudo isto negaria as qualidades de bondade e justiça de torna genética, terminando num aumento de alegria, e é aceitá-
Deus, que Lhe sentimos necessárias. O dar gratuito não é justo vel por ser geradora de alegria.
em benefício de quem não pode dele usufruir. O homem deve O universo corresponde, do caso máximo ao mínimo, a esse
colaborar. É guiado e sustentado por Deus, mas o esforço deve conceito. É por haver verificado em todos os casos o princípio
ser seu. Eis por que, como em outra parte havemos examinado, de analogia, que nos sentimos autorizados a ver presente no
a Divina Providência não socorre senão em caso extremo, mas pensamento de Deus, ao criar, a mesma lei de amor e dor que
nos salva sempre. Trata-se, não de uma redenção gratuita, mas preside a qualquer menor ato de gênese no universo. A lei do
de uma colaboração entre Deus e o homem, onde cada um dos sacrifício está na base da gênese da vida, sacrifício em que se
dois termos complementares põe a sua parte. Mais do que os fundem no mesmo tormento criador a alegria do amor e o es-
resultados, são levados em conta o esforço e a boa vontade. Lo- pasmo da dor. Olhemos para o mundo que nos é acessível e en-
go que tenha sido feito todo o possível, acontece milagrosa- contraremos como raiz de toda a criação, seja na carne, seja no
mente a realização. Deus dá todos os meios, mas nós devemos espírito, o sacrifício; somente dele, que é juntamente amor e
trabalhar e aprender com esses instrumentos. Deus resplende dor, nasce alguma coisa, a criatura nova, seja filho, seja obra do
sempre sobre nós, como o sol irradia sem descanso. Cabe-nos trabalho, seja conquista heroica, seja intuição de gênio. É o es-
saber tomar o mais que possamos deste sol. Quanto mais quema geral do universo, que vemos repetir-se e reproduzir-se
aprendemos a usar a liberdade, tanto mais ela nos é concedida. em todos os seus momentos e pontos. O caso particular nos fala
Mas sempre somos, em proporção, responsáveis por ela, que, se do universal, pois que ele é ligado pela lei única que rege o to-
nos vergasta ou premia, se de nós se oculta ou a nós se mostra, do, que é uno. A lei que todos aplicamos, porque é inerente à
será sempre para nos atrair a Ele, para nos fazer alcançar, por vida, nos indica qual foi o primeiro, máximo ato da gênese,
Seu intermédio, a nossa salvação. A lei soberana que rege o que, depois, todos os seres vão repetindo à imagem e seme-
universo, não obstante as aparências contrárias e as condições lhança do primeiro: o sacrifício. Esta é a voz de todo o criado,
relativas e transitórias, é o amor. O dualismo Deus-Satanás não que continua a gerar e não pode gerar senão no amor e na dor,
é separação senão no tempo, com fins criadores, desejada para único caminho, seguindo o primeiro impulso semelhante e má-
o bem, por um só senhor de tudo, que não admite inimigos se- ximo exemplo. Se a criação é o resultado do ilimitado sacrifício
não como servos, e destinada a ser sanada no fim. De outro do criador infinito, que se limita na forma para se manifestar na
modo, ou a obra de Deus seria maldosa ou então falida. gênese de outros seres, a criatura não pode continuar a ser se-
não a expressão daquele primeiro ato, repetindo-o ao infinito.
XVI. DEUS E UNIVERSO (II PARTE) Mas é sempre Deus que, na criatura, repete o Seu ato originá-
rio, continuando assim a gênese. A Sua criação não é devida a
A visão do universo nos guia para a visão de Deus, em que um só sacrifício inicial, mas à perene renovação desse sacrifí-
vemos, na criação, o Criador e, no Criador, a criação. Torna-se cio. Uma vez que a criação não se sustenta senão por uma gê-
indiscutível uma estreita relação entre os dois, que devem for- nese contínua, porque manter é criar, também aquele sacrifício
mar uma só unidade, porque, qualquer cisão anularia essa uni- é continuo. Toda forma de existência é devida a esse imolar-se
dade do todo. Deus nos aparece como o aspecto ou polo trans- com um ato de amor. Se essa irradiação suspendesse, por um só
cendência do todo; o universo, como seu aspecto ou polo ima- instante que fosse, o seu fluir, a vida ficaria parada e a criação
nência. Examinemos agora, separadamente, a natureza e a ati- pereceria. Tudo, em todo movimento, é regido pelo centro que,
vidade desses dois polos. Dado que a criação está no limite do irradiando, encontra-se presente e age em todo ponto do criado.
finito, observemos o ponto de partida e o caminho por eles se- É essa fonte que alimenta tudo, e quem dela se separa vai ao
guido para voltar a conjugar-se ao completar-se o processo. encontro da morte. A nossa vida, como a de todo ser, é devida a
Comecemos pelo polo transcendência. essa presença de Deus. Senti-la, comunicar-se com essa fonte, é
Aqui, nos encontramos diante do mistério dessa limitação a vida. Ignorar, negar, repelir essa imanência de Deus, é a mor-
que o infinito se impõe para se exprimir no finito, que o absolu- te. Nenhuma filosofia pode mudar essa realidade biológica.
to se submete para se manifestar no relativo. É uma inversão de Deus é a atmosfera vital do espírito, de onde, depois, tudo nas-
valores de natureza involutiva, é a fragmentação do uno no ce. O universo é um organismo em funcionamento, dirigido na
múltiplo, é o equilíbrio desfeito num movimento sem trégua, sua infinita multiplicidade por esse centro que tudo mantém
um desequilíbrio que procura, através de um incessante vir-a- unitariamente compacto, como a alma rege o corpo humano.
ser, reencontrar o equilíbrio, é o início do transformismo no re- Assim como toda célula do nosso organismo possui uma pe-
lativo, é um fechar-se em outra ordem de leis, não mais aquelas quena consciência sua, dirigida, nutrida e coordenada por um
do absoluto, um fechar-se no limite, mas com a ânsia de sair eu central superior a ela, e só pode viver em função desse eu,
dele, com o instinto de transpor o limite, um fechar-se no ciclo do mesmo modo os seres também estão em contínua comunica-
vida-morte, mas para alcançar a imortalidade, um cingir-se no ção com o eu do universo, Deus.
esforço e na dor, mas para subir até à felicidade. Mas por que o O universo é regido por essa radiação de amor que os seres
absoluto Deus perfeito quis descer assim na imperfeição? Por recebem, que os mantém em vida, os atrai e incita a subir. No
que quem tudo tinha e de nada precisava quis livremente sub- centro há o pensamento, que, vemo-lo mesmo em nossas pe-
meter-se a esse trabalho? Para criar, através dele, uma criatura quenas coisas, é a máxima potência criadora, essa potência que,
semelhante a si e, assim, para amá-la e ser amado, fazendo-a irradiando, cria continuamente. A Lei não é palavra escrita e
participe da sua felicidade. Ao criar, então, há no pensamento morta, mas sim a presença viva do pensamento divino em ação.
de Deus dois conceitos fundamentais, que depois reencontra- É essa irradiação que torna imanente entre nós o Deus trans-
remos em todo o universo, como base da gênese em todos cam- cendente, unindo-nos a Ele. O universo é dirigido, isto é, conti-
pos e níveis: esses conceitos são amor e dor. Eles sintetizam-se nuamente criado, por essa irradiação que resulta de amor e dor
num só: sacrifício. Ora este dar-se em sofrimento não é estéril, e não se pode cumprir senão em sacrifício. Então o ser deve,
mas sim um meio para alcançar uma multiplicação de alegria. analogamente, repetir, pelo princípio da unidade em esquema
O sofrer, então, é logicamente justificado, porque é criador des- único, o próprio ato do Criador, e a gênese deve continuar atra-
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 63
vés do sacrifício da criatura transformada em operário de Deus salvar a sua vida, perdê-la-á, e o que perder a sua vida por mi-
e instrumento de criação. Assim, a evolução nos leva a Deus, nha causa, achá-la-á‖ (Mateus, XVI – 24, 25). É assim que o
mas através de provas e lutas, erros e dores; assim, no esforço sacrifício e a paixão devem ser bilaterais, não somente em Cris-
fadigoso se opera o desenvolvimento da consciência. O univer- to, mas também no homem, que repete continuamente o sacrifí-
so transborda de alegria, mas ela há de ser conquistada; há entre cio da Eucaristia não para ser gratuitamente redimido, mas para
o ser e ela o diafragma da dor, que é preciso saber superar. Sa- se lembrar que, por sua vez, deve na dor e paixão abraçar a sua
lutar diafragma, que nos impõe aprender para subir. É assim redenção, repetindo, de sua parte, para com Deus, o que Deus
que a alegria chega escassa, porque escasso é o esforço que se fez para com ele! É evidente que o ciclo não pode fechar-se
realiza para se conquistá-la e, dessa maneira se vai, tristemente, nem as duas correntes reunirem-se se, para completar a corrente
bebendo aos goles o oceano. É assim que o ser, conquanto lento do sacrifício que desce do Criador para criatura, não houver ou-
e preguiçoso, deve responder por conta própria ao sacrifício de tra que suba da criatura para Ele. É sempre o mesmo princípio
Deus. Essa é a atmosfera necessária para toda ascensão. Trata- que deve atuar nas duas direções, as duas metades inversas e
se de romper as formas, o egoísmo que as sustenta; trata-se de complementares do dualismo.
se expandir do finito para o infinito, de superar o limite em que A atividade do homem deve refletir a atividade de Deus,
Deus se fechou, mas de onde Ele nos chama para chegarmos conforme a mesma e única lei pela qual, para ambos, é sempre
até Ele. Dar, não tomar, crescer da pequena vida individual se- o sacrifício que dá e multiplica a vida. O que significaria, de
parada para a grande vida universal. Tudo isto se opera com o outro modo, a encarnação de Cristo na Terra como condição da
sacrifício. Ele é dor, mas é também amor e conquista de felici- redenção, e como poderia cumprir os desígnios do Pai, se tudo
dade. Quem toma e não dá, fecha as portas da vida, limita-a, isto não correspondesse à suprema lei da vida, desejada pelo
perde-a. O dar é sacrifício, mas sacrifício que cria. Assim, a lei Pai? Cristo desceu à Terra para pô-la em atividade, formando
da dor torna-se a lei do amor e da ascensão. É difícil caminhar- assim o anel de conjunção entre o Pai e o homem. A descida de
se por essa estrada; os primeiros passos são penosos; difícil é Cristo se deu nos planos densos da matéria, no limite dos senti-
compreender esse íntimo mecanismo da vida. E, no entanto, é dos; é um entregar-se em dor para viver em contato com seres
assim: somente o sacrifício abre as portas da vida, os caminhos involuídos, entrando na mesma vida, submetendo-se às suas
de Deus, de onde flui toda a riqueza. Devemos, para obter, pos- leis ferozes até ao calvário, e isto para elevá-los, mostrando que
suir a força de renunciar, porém renunciar não para nos sufocar existe uma lei superior à da luta, porque existe uma outra vida
e nos destruir, mas para superar o menos, porque podemos além que não é a do corpo. A descida de Cristo à Terra está conexa
alcançar o mais. Eis o valor da renúncia: conquistar no alto. Eis ao ato da criação. Ele sacrificou-se para dar a vida; a cruz tor-
o significado da inversão evangélica dos valores humanos. A nou-se o centro de atração da humanidade, como o Pai o é do
dor não se elimina fugindo-se dela loucamente, sem compreen- universo por Ele criado, segundo o mesmo princípio. Cristo é a
dê-la, como faz o mundo de hoje, mas domesticando-a, utili- tangível expressão da imanência de Deus no criado, da Sua in-
zando-a como um instrumento de ascensão, aprendendo a lição tervenção e presença no desenvolvimento da vida. Assim, do
que a dor tem por qualidade ensinar-nos. Estas são as leis da extremo transcendente do universo ao seu outro extremo, na
vida, nem se pode subir de outro modo a escada da evolução. forma, atua a mesma lei, sempre e em qualquer parte, demons-
Não se pode criar senão com o sacrifício. trando a realidade do monismo do todo. O homem, para subir,
Reencontramos continuamente, nas religiões, esse princípio deve romper (como foi rompido o pão da Eucaristia para ser
do sacrifício nas relações entre o homem e Deus, de ambas as dado a outros) o seu egoísmo em favor do próximo: ―Ama o teu
partes. Sacrifício que o homem faz para Deus e que Deus faz próximo como a ti mesmo‖. Não há senão essa dura via de re-
pelo homem. Esse princípio, lentamente, evolui nas religiões, núncia de si mesmo para subir. Somente assim Cristo parte o
até tornar-se base do conceito da redenção, que significa sacri- pão, dizendo: ―Este é o meu corpo partido para vós‖. É a gêne-
fício de Deus para o retorno da criatura a Ele. E eis que, de um se. O sacrifício do Gólgota nos revela a lei da criação, o princí-
golpe, vejo esta visão lampejar diante de mim o significado pio do universo. É a gênese que se opera numa atmosfera de
profundo da Eucaristia, instituída por Cristo. Vejo a cena da úl- destruição, mas que é destruição somente da forma, condição
tima ceia: ―Accepit panem in sanctas manus suas et elevatis necessária à renovação de um universo em que Deus, no seu
oculis in coelum, benedixit, panem in fregit, deditque discipulis aspecto imanente, opera uma criação contínua.
suis dicens: Accepite et manducate ex hoc ombes: hoc est enim Dissemos acima que o todo resulta constituído de dois po-
corpus meum‖9. Eis que o Cristo parte o pão, ―fregit‖, enten- los: o extremo-transcendência e o extremo-imanência. Deus é o
dendo que com ―hoc est enim corpus meum‖, Ele partia a sua universo. Não podemos separá-los sem quebrar o todo-uno num
vida e a dava aos homens, como dava aquele pão aos seus dis- dualismo insanável. Agora, vimos que os dois polos não são es-
cípulos. E é com este sinal, o partir do pão, que Cristo se faz re- táticos e inertes, postos um diante do outro, mas sim que, dado
conhecer pelos discípulos de Emaús, como por um gesto seu o princípio do amor, eles se movem um para o outro, isto é,
próprio. E qual pode ser a significação desse ato, senão a de nos tendem para o amplexo: transcendência para imanência e ima-
querer exprimir e repetir a gênese através do sacrifício, o gesto nência para transcendência. Então, não vemos somente Deus
de Deus do qual nasceu a criação? Naquele tempo, o mundo projetar-se na sua manifestação-universo, penetrando-a intei-
espiritual caía, mas surge então novo impulso criador, que não ramente, mas vemos também o processo inverso e complemen-
podia ser dado senão através da dor. Aí está a necessidade da tar, segundo a conhecida lei do dualismo constitutivo de toda
paixão. E assim como Cristo expressa na Eucaristia o princípio unidade e de todo circuito que a determina. Até aqui, temos ob-
genético do ser, vivido por Ele em Sua dor, e aquele sacrifício servado, sobretudo, aquela metade do circuito que forma o todo
eucarístico ainda se repete agora, continuamente, na Terra, o e vai do transcendente, ou Deus, ou causa, ou Pai, para o ima-
próprio Cristo também, no Evangelho, indicou ao homem que nente, o universo, o efeito, o filho. Observamos agora o movi-
quer subir o caminho criador da ascensão, conforme o mesmo mento oposto, que vai do imanente ao transcendente, por onde
princípio por Ele vivido: ―Se alguém quer vir após mim, negue- o universo volta a Deus. Somente assim, o sistema podia equi-
se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois o que quiser librar-se e o circuito fechar-se, formando a unidade do todo. Is-
to nos diz que Deus não criou um universo estranho a Ele, mas
9
―Tomou um pão em suas santas mãos e, levantando os olhos para o um universo no qual Ele se transfere e vive, exprimindo a si
céu, deu graças, abençoou-o, partiu-o e disse aos seus discípulos: To- mesmo. Sem universo, Deus era perfeito, mas era sem manifes-
mai-o e comei dele todos – isto é o meu corpo‖. tação e também sem amor, porque, sozinho, conquanto perfeito,
64 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
não se pode amar. E tudo isto nos mostra ainda que o universo e incompletas. Assim, a dor pode nos aparecer como uma con-
não pode viver sem Deus e nos explica aquele seu grande mo- denação, e não como um instrumento de felicidade, nos levando
vimento que é a evolução, isto é, que o escopo de tudo o que a crer que o mal é um inimigo do bem e Satanás é um anti-
existe é fechar o circuito e retornar a Deus, de quem o ser des- Deus. Mas quem possui a visão completa encontra neste mo-
cende e foi gerado. Os dois movimentos: criação, que significa nismo tudo lógico e perfeito. No seu conjunto, o todo permane-
involução (primeira metade do circuito) e evolução (segunda ce, também na sua expressão de imanência, idêntico à sua subs-
metade do circuito) se condicionam e se completam um no ou- tância transcendente. Porém, se olharmos profundamente, no
tro. Nenhum dos dois é concebível e pode existir desacompa- absoluto, ele não nos aparecerá mais cindido, e sim na sua imu-
nhado. Eles são estreitados, presos um ao outro, como dois mo- tável unidade, o que constitui uma visão ainda mais avançada
vimentos de um mesmo único processo, num sistema absoluta- de Deus, que aqui não é possível expor.
mente unitário. Somente assim se salva a unidade do todo. Eis o Tornemos, pois, para o relativo da nossa fase e observemos
significado do monismo Deus-universo. com olhar relativo, especialmente do lado humano, a segunda
Observamos o completar-se de um no outro, dos dois inver- metade do movimento do todo, a parte evolutiva. Aqui, há a re-
sos e inseparáveis movimentos. Em um primeiro momento, o absorção em Deus da Sua irradiação. Vimos porque toda cria-
Deus transcendente deu-se, através do seu sacrifício, na veste ção, mesmo humana, não pode ser separada da dor e fadiga.
exterior da forma, pulverizando a sua unidade no multíplice e o Assim é para a mãe como para o gênio, para Cristo como para o
seu absoluto no relativo; deu-se pelo amor que quer criar uma homem. Mas que maravilha se olharmos o produto dessa dor e
nova criatura, para amar e ser por ela amado, transmudando-se fadiga! O mundo não pode progredir senão por esse caminho.
da transcendência na imanência. Em um segundo momento, o Esse é o esquema único que reencontramos em nossas pequenas
processo se completa, continuando na sua inversão, que pode conquistas quotidianas, assim como na ascensão do todo para
reequilibrá-lo e fechá-lo. Então a forma, ou criatura, expressão Deus. Mas, junto à força negativa da dor constitutiva do es-
do transcendente no imanente, o segundo modo de ser do todo, quema da evolução, há ainda uma outra: a força positiva do
deve cumprir o mesmo sacrifício, isto é, a mesma dação de amor. Se a primeira repele, a segunda atrai. E a conquista está
amor, que, tornando a subir em direção inversa, restitui ao Cri- além da nossa fadiga, de modo que a evolução necessariamente
ador, por amor, o que Ele por amor deu, porque amor é o prin- implica que do encontro e casamento destas duas forças nasce
cípio unitário do todo, que rege ambas as fases, a de ida e a de um contínuo ato de sobrepujamento de limites. Eis então o ter-
retorno, descida e subida, involução e evolução, que formam as ceiro termo: a criação. Daí a luta pela vida, o princípio da sele-
duas posições opostas do mesmo único respiro do todo. É nesse ção, a ascensão biológica ao longo de planos evolutivos. Se, em
segundo momento que o aspecto imanente deve voltar trans- toda parte, encontramos em formas diversas, segundo o grau do
cendente; que o universo descido de Deus, para Ele torna a su- ser, a luta e a fadiga do ato de superar, encontramos também o
bir, evoluindo. É evidente a correspondência das posições, mo- amor, seja ele invertido ao negativo como ódio, nos planos in-
vimentos e atos inversos. O sacrifício do Criador, dando-se na voluídos, seja elevado ao positivo como sempre maior amor,
descida, é compensado, para se equilibrar e se completar, por nos planos evoluídos. Força que é sempre amor, o princípio que
um paralelo sacrifício da criatura, e é da Lei que este se deva une e prende um ser ao outro, seja no ódio, numa ligação que
dar na ascensão. O mesmo princípio deve repetir-se em posição mata, seja no amor, num amplexo que gera. Ninguém pode vi-
invertida, harmonizando assim a mais férrea e exata justiça, que ver só no todo, mas somente ligado ao outro, do extremo invo-
está na ordem da Lei, com o princípio próprio do amor, de doa- lutivo, inferno, ao extremo evolutivo, paraíso, seja por vínculos
ção gratuita. O ser, para retornar a Deus, deve restituir-lhe o de ódio, feitos de dor e destruição, seja por vínculos de amor,
Seu sacrifício, a que deve sua vida, e somente assim pode al- feitos de alegria e criação. Na unidade da vida, nenhum ser po-
cançá-Lo para reencontrá-la. Dessa maneira, a destruição torna- de ficar indiferente ao outro, devendo ligar-se ao longo da via
se um meio de realização; da morte renasce a vida. Torna-se, positiva, por atração, ou ao longo da via negativa, por repulsão.
pois, lógico o absurdo que a dor crie e que a conquista se alcan- Amor é a grande lei universal, é o ímpeto animador do todo.
ce rompendo o próprio egoísmo centralizador num altruísmo Não se trata do amor a si mesmo, que pode ser culpa. Esta não
que, dispersando o eu, parece antivital. É assim porque não fo- está no amor, mas na involução do amor, na sua limitação ego-
mos criados para viver sós, cada um por si, mas sim uns para os ísta, porque o egoísmo representa verdadeiramente o limite em
outros, porque o escopo é unificar-se e, somente quando todo o que o eu se fecha na descida involutiva. A virtude não está na
universo voltar a ser uno, ele terá reencontrado Deus, o efeito supressão do amor, mas na sua elevação, na sua expansão altru-
terá voltado à causa, fechando o circuito. Somente então, Deus ísta, pois que o altruísmo representa a abertura do eu na sua as-
se sentirá todo realizado com o Seu universo, e a criação, hoje censão para Deus. Portanto este divino impulso unitário do uni-
em marcha, estará completa. verso nunca deve ser destruído, mas sim apenas dirigido para a
Com esta visão de conjunto, tudo se compreende e justifica. sua elevada meta, que é a reunificação, fazendo que ele se liber-
Na fase involutiva, é a dor de um Deus que opera a gênese; na te das suas formas inferiores, egoístas, para alcançar as superio-
fase evolutiva, é a dor do ser que a continua e conclui. É assim res, altruístas. A culpa para o homem está na animalidade do
que a dor do homem é criadora. O sacrifício de todas as criatu- amor, e o progresso está na sua espiritualização. Quanto mais o
ras, em todo o universo, deve compensar e equilibrar o sacrifí- amor é involuído, tanto mais está longe da unidade; quanto
cio do Criador. Mas a esse seu sacrifício elas devem a existên- mais é fragmento disperso encarcerado no egoísmo, tanto mais
cia, dom supremo de amor. Para que ele seja completo no todo, se distancia de Deus e da alegria. No plano animal, o amor, aí
porque recíproco, é fatal que o sacrifício seja restituído por somente pequena laceração de egoísmo, não gera senão os cor-
amor da criatura ao Criador, é necessário que ela rompa a sua pos, porém, mais no alto, ele possui funções criadoras imensas.
forma em gênese e se dê dolorosamente em amor, como Ele se Assim se explica como, dado o egoísmo separatista humano e a
dividiu e sacrificou, dando-se em amor para gerá-la. Eis por relativa dominante psicologia do ―do ut des‖, seja necessário
que evolução é dor. É duro, mas o resultado compensa tudo. À um prazer imediato para induzir o ser, ainda inconsciente, a um
dor do ser estão confiadas funções construtivas; é nessa fadiga início de unificação para a gênese física, um gozo que lhe pa-
da ascensão que ele se torna colaborador de Deus. O sistema é gue logo o sacrifício de dar parte vital de si mesmo no ato se-
equilibrado, e a lei de justiça aí reina soberana. A nós, situados xual, porque, nesse nível, o egoísmo prevalecente nada faria
em um ponto particular do ciclo, ele não oferece senão uma vi- sem uma compensação. Mas também aqui há sacrifícios pesso-
são parcial. Julgamos, portanto, conforme perspectivas relativas ais, pois, ainda que acredite tomar, o ser dá. O pai dá à mãe, a
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 65
mãe dá aos filhos. Sacrifício que evolui e se completa na edu- além do qual não há compreensão e harmonia, mas somente es-
cação deles, dando-lhes alimento e defesa, instrução e elevação tridor e luta. Quanto mais se sobe, tanto mais o egoísmo é
moral. Desta forma, a família, com os seus deveres, representa abrangente e unificador. O eu involuído ignora o vizinho, é de-
um amor mais evoluído que o do animal e também uma criação sorganizado e belicoso, desagregante e destruidor. Elevando-se,
muito mais profunda, que alcança o espírito e compõe uma esse egoísmo rompe-se, pouco a pouco, de círculo em círculo, e
primeira célula para a unificação. Assim, de plano em plano, o isto é dor, amor e conquista. Sobe, sobe, e em Deus o egoísmo
amor guia o ser para a unidade. Quanto mais o amor é involuí- alcança a sua infinita dilatação, que a tudo e a todos abraça,
do, tanto mais é isolado e tanto menos é criador; quanto mais coincidindo assim com o absoluto altruísmo. Em Deus, egoís-
ele é evoluído, tanto mais criaturas ele abraça, tanto maior é a mo e altruísmo se fundem, sendo uma coisa só. O universo, su-
sua potência criadora. Esse é o caminho que nos conduz sempre bindo para Deus, vai de um egoísmo separatista a um egoísmo
mais para perto de Deus. É grave erro combater para aniquilar sempre mais unitário e altruísta, para reencontrar assim, em
as formas involuídas de amor; todo amor é força motriz indes- Deus, a sua unidade. Dessa forma, conforme o princípio das
trutível da evolução. Uma virtude assim entendida, em forma unidades coletivas, desenvolvido em A Grande Síntese, os seres
destrutiva, representa a negação, o mal. Jamais destruir por des- se unem em organismos sempre mais complexos e completos;
truir, sem primeiro haver edificado. Caso contrário, geram-se as do núcleo, que rege no átomo os seus elétrons, aos agregados
piores contorções desse insuprimível impulso da vida. O amor de miríades de átomos que formam a matéria, ao núcleo do pro-
que desce em vez de subir, nos distancia ao invés de nos con- toplasma, à sociedade de células, ao organismo animal, huma-
duzir para a alegria, porque, então, o egoísmo o inverte, levan- no, à família, à classe social, à nação ou povo, à humanidade, à
do-o para o ódio e a dor. Quanto mais se reduz o amor em pra- organização progressiva de todas as humanidades do universo.
zer, tanto mais ele se torna traição; quanto mais lhe tiramos o Tudo, da química atômica às estruturas orgânicas, dos sistemas
elemento sacrifício, tanto menos ele é criador de vida para os solares e galácticos às coletividades animais e humanas, tudo
outros e, portanto, de felicidade. Por essa razão também, não se nos fala de associação. Nela, o egoísmo se expande em amor
deve conceber a virtude como ódio a si mesmo, mas sim como para o semelhante, porque nele vê a si mesmo. Neste sentido, a
amor pelos outros num campo sempre mais vasto, pois que o hodierna psicologia coletiva de classe já é um progresso, por-
amor nunca deve ser invertido em ódio. Essas são as leis da vi- que é uma tentativa de nova unificação, antes não sentida.
da. O amor que somente quer tomar sem dar, não pode gerar Quando o homem chegar a sentir em toda criatura o seu seme-
alegria. O universo é sabiamente equilibrado, e a vida se dá em lhante, a ponto de aí ver a si mesmo, como fazia São Francisco,
alegria a quem se lhe dá em sacrifício, mas se nega a quem então ele terá compreendido e sentido Deus. Assim, o egoísmo
egoisticamente nega dar-se. Muitas vezes, o amor é desviado torna-se amor, e, no egocentrismo absoluto de Deus, encontra-
para falsos objetivos pelo homem. Amar a criatura antes que o mos o absoluto altruísmo e o absoluto amor. Nele, estão com-
Criador, as coisas mais que o espírito, os fragmentos em vez do preendidos todos os seres. Por isto nenhuma criatura pode viver
todo, agarrar-se avaramente à posse, fechando em seu benefício senão em Deus. Para ela, só existe um mal e prejuízo: involu-
o fluir dos bens para todos, amontoar e adorar o tesouro, amar ção, que significa distanciar-se de Deus, e só existe um bem: a
assim, em forma contorcida e invertida, não pode gerar alegria, evolução, que significa aproximar-se de Deus.
mas somente dor. Por isto a vida nos oferece ilusões e traições. O homem que, na sua ignorância, acredita que o rompimen-
A verdadeira realidade da vida é outra. Tudo nasce de uma to da forma seja perda de vida, engana-se. Essa destruição não é
forma que se rompe. O rebento se abre na flor perfumada, que morte, mas sim condição de vida. Essa é a técnica da evolução,
perece gerando o fruto saboroso, que morre dando a semente pois que, sem o fim da vida velha, a nova não pode nascer. O
que encerra. E esta cai na terra e brota novamente, rompendo a egoísmo que avaramente se agarra à forma para conservar-se,
sua forma de semente, em uma nova vergôntea. Toda forma se não vai para a vida, mas procura deter o seu fluir. O homem
dá e, ao se dar, caminha para a morte. No entanto, se há morte procede assim porque ignora a infinita, inexaurível, riqueza da
na vida, também há vida na morte. Assim, a beleza da virgem fonte divina. A destruição da forma não é perda, e sim liberta-
floresce na maternidade, finalidade da beleza, que, deste modo, ção. O homem não sabe que é eterno, indestrutível centelha de
deve romper-se para gerar seres novos. Na sociedade, os me- Deus, destinado a subir sempre mais para Ele em alegria e po-
lhores indivíduos são perseguidos ou abandonados, porém eles tência. A forma não é a vida, mas somente o invólucro que,
devem dar-se, criando na solidão e no tormento. O homem ma- embora exprima, também aprisiona a vida. Evoluindo, não te-
ta os seus profetas, para se apressar depois a exaltá-los e colher, mos mais necessidade do corpo para nos exprimir, nem dos
como preciosas relíquias, o que não conseguiu destruir. Então, seus limitados sentidos, feitos para um meio denso. O porvir es-
o que resta se torna sagrado pelo sacrifício do grande que se tá no ato de superar a forma, o que significa expansão de vida.
imolou. Este é venerado pelo mesmo involuído que não pode É justamente através da sua espiritualização que ela adquire um
deixar de sentir nele um pioneiro da evolução de todos. Tam- dinamismo sempre mais intenso, uma agilidade e uma potência,
bém os involuídos, agressores dos mestres, são necessários para um conhecimento e uma liberdade antes ignorados. Cristo, com
que estes possam criar, sacrificando-se. Assim, toda civilização a Sua ressurreição, veio ensinar-nos essa indestrutibilidade da
desabrocha, floresce, frutifica e, depois, cai, deixando sobre o vida. Assim, o homem que se sacrifica pelo bem dos outros não
terreno humano as suas sementes. Desse modo, através do amor se danifica ou se mata, mas conquista uma vida maior. O altru-
e da dor, desenvolve-se a grande sinfonia criadora do universo. ísmo absoluto, destruidor do eu, não compensado por uma cor-
O romper da forma, expresso na Eucaristia pelo partir do respondente conquista, não existe no universo. O que é antivital
pão, representa o doloroso rompimento do eu e a reabsorção do é absurdo no seu sistema. O sacrifício é admitido na economia
egoísmo separatista no altruísmo ascendente para a universal da vida porque, quando se deve verificar, ele representa uma
unificação em Deus; significa a reconstituição em unidade, por real vantagem, uma conquista, uma ascensão. O homem atual
parte de um universo egocêntrico em Deus. E, de fato, toda cri- está fechado num utilitarismo restrito e imediato; não compre-
atura, no seu egoísmo, repete em escala menor, em toda altura, ende esses outros utilitarismos amplos e de realização remota.
o mesmo esquema. Mas egoísmo e altruísmo não são mais que Muitos dos seus erros e, portanto, dores são devidos à sua igno-
posições diversas, uma questão de amplitude. Também Deus é rância. É inerente ao seu estado involuído não saber viver senão
egoísta no Seu universo. Mas o Seu egoísmo é tão altruistica- as suas pequenas verdades parciais, de superfície. Todavia, en-
mente amplo, que compreende todas as criaturas. O egoísmo quanto não houver amadurecido para uma verdade mais ampla
destas, ao contrário, não compreende senão o seu eu isolado, e completa, a verdade precedente, inferior, é sempre útil para
66 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
percorrer o precedente trecho de evolução. Percorrido este, a arrisca fazer naufragar o mundo que queria elevar, e isto jus-
velha verdade cai por si só e a nova desponta na compreensão tamente por essa fundamental direção invertida. Como se vê,
humana. O mundo avança desse modo. Hoje, o homem crê en- as leis do universo são tão onipresentes, que penetram a nossa
riquecer agindo egoisticamente, mas, ao contrário, ele empo- tangível realidade quotidiana. Os meios de que o homem dis-
brece, porque se fecha no egoísmo, como em uma gaiola de fer- põe hoje, o seu domínio sobre a natureza, são infinitamente
ro que o sufoca, impedindo sua expansão e isolando-o das fon- maiores do que os dos velhos tempos. No entanto jamais ele
tes da vida. Amanhã, ele compreenderá mais e entenderá o mais foi tão inquieto como é hoje; a celeridade para poder satisfa-
amplo utilitarismo do altruísmo. zer-se não faz senão com que aumente essa inquietude. O ho-
O homem, fundindo-se no próximo, amando-o como re- mem sente que, do outro lado das suas conquistas, há para ele
comenda o Evangelho, realiza o processo da reunificação, que o vácuo, falta a meta para onde dirigi-las, e percebe que a dire-
reconduz o ser a Deus. Enquanto o movimento centrífugo, que ção atual o leva para a destruição. Aquelas conquistas não são
distancia o ser de Deus e tende a reforçar o egoísmo, faz do eu positivas, mas negativas; avançam em descida, não em ascen-
um centro independente em torno ao qual ele tende a atrair e são; levam para a separação, e não para a unificação. Com a
ligar todas criaturas e coisas que possa, levantando-se contra nova hodierna potência construtiva alcançada pela ciência, tudo
Deus, o movimento centrípeto, que conduz o ser a Deus, tende se despedaça nas mãos do homem. Ele, ao contrário, tem fome
a romper o egoísmo, reconhecendo cada vez mais Deus como de unidade, sempre mais. A vida quer ir para sempre maiores
centro universal e fazendo convergir para Ele tudo e toda cria- unidades. Essa é a ideia que fascina as almas, embora oneradas
tura. O egoísmo representa a rebelião de Satanás, o princípio pela nostalgia, de poderem se realizar conforme os planos do
separatista e antiunitário do anti-Deus. Gerada pela separação universo. Mas somos divergentes em tudo; não sabemos nos
do Uno, que se deu em sacrifício por ela, a criatura, em vez de exprimir senão em forma de luta; procuramos dominar, impon-
reencontrar a plenitude dada pela unidade, a Ele retornando do-nos em vez de compreender e conhecer; a ciência tende a
em sacrifício pelo mesmo amor que a gerou, procura reencon- pulverizar-se na especialização e o conhecimento se torna ins-
trá-la naquele reflexo da unidade que tem em si e, para não trumento de guerra. A conquista, ao contrário, não se pode
querer enfrentar a fadiga de tornar a subir, detém a vida na exercer senão por vias convergentes para a unidade, em todo
limitação, pretendendo conseguir, com um só fragmento, re- campo, unidade política, religiosa, filosófica, científica, social.
constituir o todo. É assim que nasce o mundo luciferino, a pa- A grande lei do progresso é: unificar-se. A vida não pode
ródia, uma unidade partida, um mundo às avessas como todo ascender senão por essa via. Um potente chamado para a uni-
fragmento, negativo, contraditório, inquinado nas próprias ra- dade grita em nós. É Deus uno que nos impele a fraternizarmo-
ízes por essa subversão central, pelo que o amor se transforma nos e compreendermo-nos. É a vida una a nos dizer que somos,
em ódio; o sacrifício, em prazer efêmero e traidor; a constru- cada um, parte de um mesmo organismo e que o separatismo
ção, em destruição; a ascensão para a unidade, em descida pa- egoísta o mata. É o princípio uno do todo querendo que a célu-
ra uma sempre maior separação. Essa é a mecânica do siste- la-indivíduo funcione na humanidade e esta no universo, har-
ma, o que explica como tantos que se aliam no mal acabam monicamente. Tudo isto clama da profundidade, fala de dentro
em guerra entre si e por que as suas construções são feitas pa- de nós; a todo passo, a realidade inimiga nos adverte que esta-
ra ruir, pois quem opera nessa direção está de tal modo embe- mos no falso caminho, mas o mundo continua impávido. Então
bido pela própria atmosfera de negação, que não pode cons- o poder de Deus nos mandará golpes tais, que quem sobreviver
truir senão às avessas, isto é, destruir tudo e, no fim, a si será obrigado a render-se à sabedoria, única salvação. Pois que
mesmo. Assim o egoísmo, que parecia a mais segura das con- o amor é lei suprema e deve triunfar custe o que custar. O mal,
quistas, fica sendo, ao contrário, a via da perda, e o altruísmo, e quem o segue, é destinado à autodestruição. De fato, tal é o
em que aquele egoísmo se rompe e que parecia uma perda, desespero de quem o personifica, que ele muitas vezes tende a
torna-se uma conquista. Tal é a estrutura do nosso universo. se matar, coisa que não acontece em quem, mesmo sofrendo
Essas realidades estão presentes em qualquer parte, esses igualmente, representa o bem. Quem compreendeu o funcio-
princípios funcionam em qualquer lugar. Em nosso mundo in- namento do universo sabe que Deus não pode ser vencido e
voluído, portanto ignaro e inconsciente dessas verdades, pre- que ao bem cabe o triunfo final. E Deus sempre nos incitará a
domina o segundo aspecto da verdade, luciferiano, invertido, alcançar a nossa felicidade na harmonia. O método do separa-
consequentemente prevalecem nele a cegueira, a ilusão, a trai- tismo é antivital, obstrui o caminho da fonte de Deus, portanto
ção em tudo. Não há senão uma salvação, seja para o indiví- não se pode reger senão por desgaste do ser, que fica limitado
duo, seja para a sociedade: inverter a direção, reencontrar o apenas às suas reservas e cedo ou tarde deve exauri-las, não
caminho da ascensão, desfazer a ilusão que nos faz parecer podendo existir senão por um sempre maior esforço seu, ten-
utópico o Evangelho, ver e aplicar a sua suprema sabedoria. dendo à agonia. Quem segue esse método, se não inverter o
Quem compreende tem a sensação clara que ao mundo de hoje caminho, vem a ser destruído por esgotamento. Suicídio ou co-
ficou cortada a via das fontes da vida. Ele se faz sempre mais lapso, esse é, para quem não quer emendar-se, o fim do mal no
desapiedadamente egoísta e ávido, todavia está sempre menos sistema do universo. Assim, vemos que, no sistema desejado
satisfeito de tudo; para se fazer mais rico, ele se torna sempre por Deus, já está assegurada a vitória final do bem. Tudo, pois,
mais pobre; não aspira senão a possuir, no entanto isto se torna no fundo, é perfeito, mesmo o mundo de hoje, que não pode
sempre maior mal; quer gozar a todo custo e, com isto, não impedir absolutamente a Deus de alcançar os seus fins.
consegue senão ligar-se a um tormento sempre maior. No en- O indivíduo é livre para buscar a plenitude do ser em Deus
tanto esse tormento é a única salvação do mundo, porque o ou encontrar a anulação na direção oposta. O fim do mal, por
obrigará a mudar de rumo, em direção oposta. O instinto de sua natureza, como negação de tudo, está no nada, isto, porém,
expansão, que é próprio da vida, nunca poderá saciar-se assim, não significa que a substância se possa anular, mas sim que ele,
invertido no domínio material, que, ao contrário, é uma servi- por esta via, involuindo, despe-se da vida em favor de quem,
dão. Aquela necessidade não pode ser satisfeita senão no espí- seguindo para o outro lado, dela se enriquece sempre mais. O
rito, indo para Deus, e não para as coisas. Assim, por pouco, ser é livre de seguir o mal, mas, seguindo essa via, é sempre
para nos enriquecermos, matamo-nos em grande escala; os im- mais despojado em prol do bem. Dessa maneira, o mal é desti-
perialismos, que deveriam conquistar, resolvem-se em guerras nado, pela sua própria negação e, portanto, falência, a alimentar
de destruição para todos, especialmente para os chefes que as o bem e, assim, a desenvolvê-lo. Os malvados, ou se redimem,
quiseram. E também a nossa ciência, maravilhosa conquista, subindo e voltando para Deus, ou, precipitando-se em uma dor
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 67
crescente e sempre mais desesperada, se anulam, de acordo nestes, porém, é que se podem operar amplas sínteses, enquan-
com a liberdade e a justiça. Assim, o dualismo, temporânea ci- to o campo da ciência é muito mais limitado. Faltam-lhe ele-
são com escopo criador, será reabsorvido na unidade através da mentos de caráter espiritual e moral, que ela ignora, enquanto a
expansão da vida na ascensão, e da sua anulação no sentido intuída unidade do universo nos faz presumir a existência de
oposto, em favor daquela. Uma dor e punição eternas, num relações mesmo entre as coisas mais distantes, o que tende a
eterno reino de Satanás, seria a vitória deste e a derrota de fazer da ciência, filosofia, religião, moral, sociologia etc. uma
Deus. A dor é a escola que provê a salvação. Mas, se a criatura, só coisa. Justamente por este princípio de unidade, o mundo
livre como é, não quiser senão o mal, este, através de uma in- observado pela ciência, conquanto limitado, não deve, no âm-
tensificação da autodemolição, a levará à perda da liberdade e bito dela, contradizer a mencionada visão universal, pelo con-
consciência, numa catarse invertida ou dissolução, cujos produ- trário, por estar neste seu nível, deveria confirmá-la. Agora ob-
tos, transformados de negativos em positivos, reentram no bem. servaremos o que diz a ciência, para ver se ela se dirige para
De tudo isto, o universo atual não nos pode mostrar senão a aquela síntese ou dela diverge, e quais elementos indicadores
tendência. Mas toda tendência é destinada a se resolver em rea- ela pode fornecer para se dirigir naquela direção.
lização. Este é o impulso que rege a vida e ele deverá alcançar a A ciência, com o seu método objetivo-indutivo, apresenta
meta que a sua trajetória nos indica. uma psicologia de prudência e de desconfiança, caminhando
Por outro lado, quem evolui se liberta sempre mais da for- sem poder ver os grandes planos do ser, sobre um terreno infi-
ma, por graus, espiritualizando-se. Liberta-se do relativo, do el, que continuamente experimenta e controla. Caminha, as-
limite, sempre mais achegando-se a Deus. O ser, depois de ha- sim, por tentativas e incertezas, lentamente, por hipóteses e te-
ver percorrido as fases do nosso universo – matéria, energia, orias, mas, em compensação, os seus resultados são positivos,
espírito – ainda muito mais terá de caminhar. A anulação da controlados, aplicáveis por todos. As últimas verdades, que a
forma por reabsorção em Deus será o fim do universo atual, intuição percebe em clarões de luz, fogem e constituem uma
Sua manifestação. O respiro de dois tempos, involução e evolu- meta desconhecida e distante. Mas, conquanto ignorada, é des-
ção, separação e unificação, estará completo, o circuito será fe- ta meta que a ciência tenta avizinhar-se através da descoberta e
chado, o ciclo dualístico estará concluído em unidade. Isto não da coordenação de verdades parciais, por aproximações suces-
impede que Deus possa iniciar, da imobilidade, outros movi- sivas. Tal é hoje a forma assumida pelo pensamento humano
mentos em dimensões para nós inconcebíveis, ou que já os te- no seu progredir. Forma relativa. Evite-se, pois, tomar como
nha iniciado. Então, não nos encontraremos somente diante da definitivos e como base de orientação filosófica os últimos re-
atual criação limitada, mas de uma pluralidade de criações de sultados, que são e foram sempre superados aos poucos. É a
quem sabe quantos e quais tipos, por parte de um Deus absolu- última verdade alcançada que modela o pensamento coletivo,
tamente transcendente, que, mesmo fundindo-se em sua mani- porque mais o atinge. A Antiguidade foi dominada pela con-
festação total, permanece sempre acima, distinto e independen- cepção platônica e aristotélica, em seguida, pela agostiniana e
te de cada uma delas. Neste sentido, aquela imanência que hoje tomística. Depois, a ciência objetiva e experimental suplantou
verificamos em nosso universo desapareceria como fato aciden- a especulação abstrata. Mas, logo após, também a física clássi-
tal, na relatividade e transição de toda a criação, reduzida assim ca de Laplace, Galileu, Kepler e Newton, com as concepções
a um dos tantos momentos da manifestação da absoluta e imó- mecanicistas do mundo, foram superadas pela física estatística
vel transcendência de Deus. e quântica (Planck) de hoje. E, assim, esta também será supe-
Neste ponto a nossa mente se perde; a vertiginosa visão de- rada. Houve tempo em que se acreditava apenas na lógica e se
saparece e a alma se prostra diante de Deus, em prece, amando desprezava a experimentação como um contato contaminador
e adorando. do pensamento puro. Todavia, conquanto perfeita em si mes-
ma, somente a lógica não pode superar a função de coligação.
XVII. AS ÚLTIMAS ORIENTAÇÕES DA CIÊNCIA Ela é uma corrente que, se não está apoiada num ponto sólido,
não sustenta nada. Assim, também na forma mais excelsa, a
Os conceitos acima expostos foram obtidos por visão, isto é, matemática. Caminhando dessa forma, a ciência materialista
usando a psicologia da intuição, que, como dissemos, pode superou, desmaterializando a matéria, todo o seu materialismo.
constituir para alguns indivíduos sensibilizados por evolução um Ela mesma, que é tão racionalmente positiva, não pode pro-
verdadeiro método de investigação. A forma mental que fala gredir senão confiando no método irracional da intuição, isto é,
nestes últimos dois capítulos é o ápice da curva da onda na osci- criando além de toda lógica e método, ao encontrar relações
lação da personalidade, fenômeno que já observamos. Seguindo impensadas entre os fatos e conceitos mais distantes. É na co-
a ascensão da onda na referida oscilação, obtivemos progressi- ligação entre experiências e na visão do seu significado, que
vas visões da verdade. Iniciamos este volume partindo do ponto relampeja a intuição da lei que as regula. A análise racional
mais baixo da depressão da onda, expondo assim uma verdade não basta para descobrir estas relações. E é nisto que, muitas
concebida com uma psicologia de involuído, que permanece na vezes, consiste a descoberta. Desponta então a hipótese, como
superfície e, não vendo a mais profunda realidade das coisas, a tentáculo lançado para sondar o mistério. Depois ela se desen-
nega. Daí, então, prosseguimos para alcançar outra verdade. volve em teoria e, somente então, começa a trabalhar a psico-
Propomo-nos agora examinar os conceitos aqui menciona- logia racional da ciência, que controla com a observação e a
dos, não com a psicologia da intuição com que foram alcança- experimentação para validar ou condenar. Se os fatos dão ra-
dos, mas com a psicologia racional usada hoje pela ciência. zão à nova teoria, então a velha rui e é abandonada. E assim,
Utilizando agora o intelecto normal, encontro-me no meio do lentamente, dá-se a escalada para a verdade.
caminho entre os dois extremos mencionados na oscilação da A força do positivismo está em manter-se em contato com
onda da personalidade e, neste nível, devo exercer a minha ati- a realidade, tornando-se observador exato. Pede-se a resposta
vidade com a psicologia correspondente. Ora, devido justa- aos nossos quesitos, não à lógica, mas à experimentação. Per-
mente ao plano evolutivo dessa psicologia, a ciência está ainda gunta-se tenazmente qual é o pensamento diretor que, escondi-
distanciada de uma síntese universal, possível somente em do, rege os fenômenos, dado que não se pode deixar de admi-
mais altos níveis mentais. Todavia será muito útil observar os tir, em toda parte, um princípio diretor e ordenador. Nem a ci-
resultados obtidos por ela, porquanto se baseiam em dados ex- ência pode interrogar Deus, uma vez que lhe são desconheci-
perimentais controlados, o que lhes fornece uma segurança que dos os contatos do místico. Não lhe resta senão segurar aquele
o intelecto racional não sente nos planos mais altos. Somente divino pensamento através de sua manifestação concreta nos
68 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
fatos, lá onde ele, ao menos no plano físico, não se exprime tínhamos acima exposto para outros campos, também o pro-
senão através das formas concretas e da ação. Certo é que, gresso da ciência representa o retorno do ser à fonte una que
além da medida necessariamente sensória e, portanto, relativa, tudo gerou. Neste sentido, A Grande Síntese, que nunca preten-
embora aperfeiçoada, deve haver aí uma realidade verdadeira e deu fazer novas descobertas particulares, demonstrou a coliga-
profunda, que foge à ciência, e esta não pode fazer mais do que ção em unidade dos fenômenos mais díspares. E fazer um orga-
tornar mais poderosos e mais exatos os seus meios de investi- nismo com o acúmulo de materiais diversos é verdadeira obra
gação, mais abstratos e independentes destes e dos sentidos os de criação, como o é a hodierna formação das grandes unidades
métodos utilizados (operações matemáticas puramente for- sociais, em que os indivíduos componentes gozam de uma vida
mais), menos antropomórficas as suas representações. Diante mais elevada em poder, utilidade e vastidão.
da realidade, uma medição é coisa bem diferente de um sim- Vejamos, pois, o que nos diz a ciência em relação à mencio-
ples fato objetivo, pois constitui a resultante de um processo de nada visão, enquadrando isto no sistema universal de A Grande
ações e reações entre fenômenos, meios de investigação, ór- Síntese, sem o que tudo apenas é compreensível no particular. O
gãos sensórios e psique do observador. Dessarte, progredindo, princípio das unidades coletivas nela exposto (Cap. XXVII) im-
a ciência acaba tendo que negar a sua objetividade, devendo plica em uma escala de formas hierarquicamente ordenadas no
considerar cada observação como um fenômeno entre muitos sistema do universo, em que a superior compreende a inferior,
outros, todos em relação de interferência. Não que o fenômeno que se organiza com outras semelhantes, em uma síntese mais
perca consistência objetiva e se reduza a um complexo subjeti- elevada. Esta é uma unidade coletiva que tem a função de coor-
vo de percepções, de modo que, suprimidas estas, o fenômeno denar as atividades das menores unidades componentes para no-
não exista por si mesmo. As próprias metas distantes da ciên- vos fins, que transcendem os de cada uma delas isolada, e isto
cia, que ela ainda não vê, mas para as quais também tende, sempre segundo o conceito acima exposto do princípio unitário
pois estão no final do caminho, são de caráter filosófico, meta- do universo e da tendência unificadora que ele imprime em to-
físico e espiritual, uma realidade incontrolável experimental- das as coisas. Esta coordenação é uma questão de relação, pela
mente. Quantos limites, pois, à objetividade do positivismo; qual os indivíduos componentes modificam o seu valor, poten-
que incerteza no registro e interpretação das mensagens obti- ciando-se, como é lógico, pois que a unificação é retorno a
das com a observação de um suposto mundo real na profundi- Deus, isto é, volta para chegar perto do centro genético. Assim o
dade, além das aparências sensórias! Como estabelecer exatas reagrupamento coletivo tem ação amplificadora e o poder au-
relações entre o mundo experimental dos sentidos e essa des- menta com a unificação, hierarquicamente de grau em grau, em
conhecida e recôndita realidade? E como alcançar uma reali- unidades sempre mais vastas e orgânicas. Atualmente, vários ci-
dade absoluta, independente dos sentidos humanos? entistas já sobrepõem ao mundo físico-químico o mundo bioló-
Por outro lado, exprobrou-se essa ciência por ser, com pre- gico e a este o mundo psíquico e espiritual. Trata-se de planos
valência, utilitária. Mas devemos também reconhecer que, se a de existência, em que as leis do plano superior dominam e
ciência nasceu, foi devido à natureza utilitária do homem. Foi a guiam as dos inferiores. Todo plano tem um limite além do qual,
necessidade de orientar-se na navegação, de medir um terreno, em um nível mais alto, as suas leis, mesmo permanecendo, não
de curar uma doença, de defender-se em todo campo, que a ori- têm valor senão em função de uma lei superior e, por si só, não
ginou. O que vale mais que a exatidão e verdade de uma ideia é são suficientes para explicar nem para dirigir a nova unidade.
muitas vezes a sua fecundidade. Da absurda procura de uma Dada a estrutura hierárquica do universo, toda unidade é
pedra filosofal para a transmutação dos metais em ouro, nasce a sempre coletiva, isto é, formada por menores unidades compo-
química; a procura do moto perpétuo levou à descoberta dos nentes coordenadas em organismo, de modo que a observação,
princípios da dinâmica. Mais tarde, a teoria de Einstein nasceu toda vez que defronta uma individualização, acaba por decom-
da ideia da velocidade absoluta da luz, e a física atômica nasceu pô-la analiticamente nas menores unidades componentes. Toda
do conceito astronômico do átomo de Bohr. A história da ciên- unidade, pois, é sempre síntese e é analiticamente decomponí-
cia é semelhante à história de todos os eventos humanos; acaba- vel em unidades menores, que, por sua vez, são sínteses maio-
se muitas vezes num lugar em que nunca se havia pensado. Tu- res em face das unidades-sínteses menores, ao infinito de am-
do passa e muda na vida. Muitas filosofias dominaram e caíram bos os lados. A observação pode assim mover-se em duas dire-
no olvido, para depois renascerem mais amadurecidas. A meta- ções: a analítica, que vai para as sempre menores unidades
física dominante há um século faliu, e, assim, será ultrapassado componentes, ou a sintética, que vai para as maiores unidades
amanhã o positivismo de hoje. Tudo passa, desaparece e retor- originadas. Ora, a ciência objetiva parte de um determinado
na, como as ondas do mar, no entanto se renova; dessa maneira plano de unidades-sínteses, admitido ―a priori‖ por axioma e
lançam-se novos pontos de pensamento, estabelecem-se novas dado pelos meios sensórios da sua observação. O trabalho da
conexões com fatos antes concebidos à distância, que, desse ciência foi decompor as unidades desse plano nos seus elemen-
modo, avizinham-se dos já conhecidos, refazendo no futuro, em tos componentes. Por estas razões, a ciência é analítica. Esta
novos campos, o que foi feito no passado para chegar até àquilo direção lhe foi dada pela própria estrutura das coisas. Partindo
que hoje é conhecido, mas era antes inexplorado. Tudo já exis- da matéria, unidade sensória para o homem, a ciência penetrou
te. Uma descoberta não cria coisas novas, apenas estabelece a sua estrutura molecular e atômica. Porém não percorreu com
novas relações entre as coisas, dando-lhes novos significados. isto senão um mínimo trecho em descida, enquanto o caminho
Muito da civilização moderna consiste na multiplicada possibi- é sem fim, seja em direção descendente de análise, seja na as-
lidade de trocas e de relações. É assim que, através de hipóteses cendente de síntese. Dizemos descendente porque é na direção
de trabalho, fatos antes desconexos vêm a formar uma teoria, da análise que se procede para a pulverização periférica centrí-
isto é, uma coluna de pensamento validada pela experiência e, fuga do uno na forma, e dizemos ascendente porque é na dire-
enfim, um organismo lógico revelador de uma unidade diretriz ção da síntese que se procede para a reunificação centrípeta no
ou lei sempre mais ampla. É dessa maneira que a ciência, num uno na substância. E o caminho sem fim pode ser percorrido
caminho lento e prudente, porém seguro, procura reconstruir não somente em direção analítica, como faz a ciência, mas em
por graus, no plano do conhecimento humano, a profunda or- sentido oposto, em direção sintética. Então, em vez de penetrar
dem que está nas coisas, numa sempre mais perfeita imagem na estrutura atômica da matéria, podemos conhecer as unida-
científica do mundo. Através de sua cansativa investigação, a des sínteses superiores, como pode ser, por exemplo, o orga-
ciência cumpre com sacrifício o mesmo trabalho de reunifica- nismo múltiplo dado pela humanidade ou sociedade de huma-
ção do todo, que é a base das ascensões humanas. Assim, como nidades e a sua alma coletiva.
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 69
Agora, o observador não é exterior ao fenômeno e distinto quântica. Descobrindo a estrutura atômica da matéria e conce-
dele, mas é um fenômeno no fenômeno. A sua posição está num bendo-a não mais segundo as leis dinâmicas, mas conforme as
dado nível de hierarquia ou escala evolutiva, e do próprio plano leis estatísticas, a ciência moderna, que parece haver invertido
ele pode olhar, de baixo, para os superiores ou, do alto, para os as suas concepções precedentes, confirmou plenamente os con-
inferiores, isto é, a sua investigação pode hierarquicamente des- ceitos mencionados, isto é, o princípio das unidades coletivas,
cer por via de análise no particular, ou subir, por via de síntese, de unidades-sínteses analiticamente decomponíveis, de hierar-
no universal. O pensamento humano há tentado umas e outras quia de unidades e de leis, de pulverização no particular da uni-
vias, as primeiras, com o método indutivo, e as segundas, com o dade do universo, de uma progressiva divisão e complexidade
método dedutivo. Agora, o princípio da relatividade formulado no relativo, ao polo oposto do outro extremo do simples e uno
por Einstein, dependente do sistema de referência escolhido, é no absoluto. A teoria da relatividade de Einstein e a hipótese
aplicável pelo observador também a este caso, porquanto, além dos ―quanta‖ de Planck, que revolucionaram a ciência, confir-
da trajetória típica de um desenvolvimento fenomênico, ainda há mam estes conceitos. Expliquemo-nos.
o transformismo evolutivo deste e um semelhante transformis- Os movimentos brownianos, descobertos em 1827 pelo bo-
mo também no fenômeno representado pelo observador. Então a tânico inglês Brown, são devidos, provou-se recentemente, à
descoberta científica pode dar-se não somente pela projeção do estrutura molecular da matéria, em que as invisíveis moléculas
olhar indagador em um outro plano, mas também pela transfor- de um líquido ou de um gás, chocando-se com as microscópicas
mação evolutiva, isto é, biológica, do próprio observador. Eis partículas aí suspensas, lhes comunicam um movimento irregu-
assim justificada a afirmação, muitas vezes feita nestes escritos, lar. Este depende da distribuição assimétrica dos choques im-
de que o maior progresso no conhecimento resultará, sobretudo, pressos por aquelas moléculas. Pode-se, assim, pouco a pouco,
da transformação do homem atual no superpsíquico tipo bioló- provar o caráter descontínuo de quantidades antes tidas como
gico do porvir. E, assim, a ciência poderá avançar também pelo contínuas. Alcançada, assim, esta concepção da estrutura atô-
desenvolvimento das qualidades sensórias e psíquicas do ho- mica da matéria, a física clássica pareceu ruir para dar lugar a
mem. É evidente que toda a perspectiva do conhecimento atual uma física quântica estatística, onde não mais dominam as leis
poderá mudar quando o ponto de vista houver mudado, pela di- dinâmicas, e sim leis estatísticas ou de probabilidade, que regu-
versa posição biológica do observador. lam o processo do conjunto de inumeráveis casos particulares,
É certo que o nosso mundo sensível, de onde deriva também em vez de apenas um; leis que governam uma multidão de
a sua interpretação científica, é um mundo sensório e relativo. acontecimentos, em que o indivíduo desaparece. Desse modo, a
Sentimos axiomaticamente que, além dele, deve existir uma re- ciência superou a sua antiga interpretação mecanicista do mun-
alidade, diante da qual o que registramos é ilusório. Indagando do. Não mais propriedades definidas deterministicamente, mas
em todo campo e evoluindo, procuramos chegar sempre mais probabilidades que regulam as variações no tempo, conforme
perto dessa realidade, com uma interpretação sempre mais exa- leis estatísticas relativas a grandes agregações de indivíduos.
ta. Analiticamente decompondo, com a observação, uma unida- O refinamento alcançado pela técnica experimental moder-
de-síntese nos seus elementos, a ciência transfere ao relativo na permitiu descobrir esse mundo que, sem destruir o prece-
grandezas antes consideradas últimas e absolutas. Assim, à me- dente conhecido, aparece novo porque está além dele, mais
dida que se conquista o absoluto, este retrocede. Todo registro, profundo no seu íntimo. O que formava o objeto da física clás-
ainda que pareça o último em profundidade, é sempre um regis- sica não eram senão as mencionadas unidades-sínteses, das
tro de síntese, atrás do qual se esconde a possibilidade de ulte- quais uma análise mais progressiva acabou por revelar a com-
riores registros de análises reveladoras de outras leis mais parti- posição. Antes havia sido tomado como princípio único e defi-
culares. Mas, se a nossa registração é progressiva e verdadeira, nitivo, irrevogável e absoluto, aquilo que depois se mostrou ser
ela é, porém, relativa com referência à realidade e nos dá, por- a resultante de inumeráveis irregularidades livres compensa-
tanto, uma realidade relativa. Será por isto, então, ilusória? das, de modo a revelar, não as características do caso singular,
Não. No âmbito do seu campo relativo, ela é absoluta, no senti- mas as dominantes na massa. Estamos na primeira fase de pe-
do que é uma exata representação de uma dada unidade-síntese netração analítica da unidade-síntese, onde o caso particular
no seu plano e verdadeira somente nesse plano. Porém, quando ainda não foi alcançado como indivíduo. A observação na físi-
vista de outros pontos, fora desse plano, ela se torna ilusão. ca usa hoje o método estatístico das coletividades, conforme o
Quando, de fato, os filósofos indianos falam da grande Maya, é qual se calculam os valores médios prováveis, em vez daqueles
porque eles se põem em um ponto de observação espiritual exatos para cada momento ou partícula.
acima do plano da matéria, que, então, parece ilusão. Mas, para Se tomarmos para exame o caso de um centímetro cúbico de
os materialistas e os seres materiais, a matéria é realidade abso- ar, não poderemos calcular, conforme a velha dinâmica, a traje-
luta, ao menos enquanto eles fiquem naquele campo e vejam tória e os choques de cada uma dos 25 trilhões de moléculas
com os olhos daquele plano. Esta, porém, logo que se passa os (oxigênio e azoto) nele contidas. Isto requereria um tempo
seus limites, torna-se relativa e desaparece como ilusão. Um imenso, além disso elas são tão pequenas, numerosas e velozes,
mundo torna-se ilusório logo que é olhado de um mundo mais que semelhante exame é impossível. O número das moléculas
alto. Então, procuramos realidades mais elevadas, próprias de contidas em um grama de hidrogênio é de 303 seguido de 23 ci-
unidades-sínteses mais amplas que, superando-as, abraçam esta fras (303x1023). A massa de uma molécula de hidrogênio é de
nossa realidade de relação. E é de fato na unidade-síntese maior pequenez fantástica, isto é, 0.0000000000000000000000000033
que podemos encontrar a lei maior que abrange as menores, em (3.3x10-27) Kg. Contudo podemos observar as moléculas nas su-
que elas se coordenam e onde as diferenças que as tornam reci- as qualidades coletivas de unidades-sínteses, sem que necessi-
procamente relativas e ilusórias são superadas e conciliadas. temos conhecer o comportamento de cada uma. Poderemos, as-
Tudo isto não pode ser senão uma tendência, um caminho para sim, conhecer a pressão do gás, calculando a velocidade média
uma última realidade ampla ao infinito, que compreende todas de cada molécula e, com ela, obter aquela pressão, isto é, o efei-
as outras. Mas ela é infinita e, assim, não é alcançável pelo nos- to-soma de todos os choques produzidos por estas moléculas
so atual concebível, em razão de suas dimensões. contra as paredes do recipiente. E o cálculo que, em vez do caso
Vejamos o que diz a ciência a este propósito, no campo singular, exprime o resultado coletivo é exato, porque sobre ca-
mais concreto da física. Ela confirma plenamente estes concei- da centímetro quadrado de parede chega o choque de um tal
tos. Acima, assinalamos o sobrepujamento da concepção meca- número de moléculas (cerca de 200.000 trilhões de choques por
nicista clássica do mundo pela moderna física estatística e segundo) que, na prática, resulta uma pressão constante, cuja
70 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
grandeza depende do impulso médio de toda molécula. No não aquela repetição de casos? O que determina essa repeti-
grande numero, as irregularidades individuais desaparecem na ção? Pela lei dos grandes números, se lançamos um dado exa-
regularidade coletiva, justamente sobre a qual baseiam-se as leis to, cada número sairá tanto mais regularmente por um sexto de
descobertas pela física clássica. vezes, quanto maior for o número dos lances do dado. Mas, se
Ela se baseava em experiências de caráter macroscópico, o o dado tiver um defeito, quanto maior for o número dos lances,
que significa uma grosseira visão do conjunto, que não penetra tanto mais claramente a distorção se manifestará nos resulta-
absolutamente na estrutura analítica da unidade-síntese e, as- dos. Então a lei macroscópica está escrita nas qualidades dos
sim, não chega a compreender os processos de dimensão sub- componentes singulares, e a regularidade estatística nada faz
microscópica que ocorrem no átomo. A observação sensória senão revelá-la. O conteúdo não é senão a revelação da nature-
humana, conquanto a técnica científica se aperfeiçoe hoje, não za dos elementos individuais. É na qualidade da maioria dos
pode penetrar nessa estrutura analítica e deve contentar-se com casos que está escrita a lei, que, mesmo manifestando-se agora
as resultantes gerais de massa, sem nada saber do caso singu- como expressão de características mais íntimas, não perde,
lar, como acontece no uso das estatísticas, que conhecem o an- com isto, as características precedentes. Se o ato singular de-
damento geral do fenômeno, nascimentos, mortes, acidentes pende de uma lei mais profunda que, embora nos escape, de-
etc., sem nada saber do caso particular isolado. Ora, uma ciên- nominamos acaso ou livre comportamento, a lei coletiva ex-
cia que trabalha sobre resultantes gerais de massa, obrigada a prime e revela as qualidades dominantes nos casos individuais.
abstrair de uma realidade que se distancia sempre mais na pro- Por isto, mesmo concebida hoje como lei estatística, não é me-
fundidade e com a qual perde sempre mais o contato, se, de um nos absoluta a lei dinâmica. Não é de forma alguma, como se
lado, livra-se de contaminações antropomórficas, deve, por ou- acreditou, rejeitado o necessário conceito absoluto pela mo-
tro lado, trabalhar e construir no vazio, em forma de abstrações derna física estatística ou quântica, que permanece determinís-
matemáticas, procurando somente depois a concordância dos tica como a clássica. Não é, dessarte, prejudicada a necessida-
resultados obtidos com a realidade experimental. É assim que a de da premissa que existam leis reguladoras absolutas, que a
nova física deve confiar-se muito aos matemáticos, trabalhan- física, como qualquer outra ciência, reclama. A nova física di-
do com conceitos que não são os da corrente-concepção sensó- fere da clássica somente por haver posto em foco a observação
ria. E a alta matemática já está muito perto da especulação fi- num plano mais profundo, levando hoje a considerar como se-
losófica. Assim, não somente a matéria é hoje vista pulveriza- cundário ou derivado o que antes se considerava como primá-
da na sua estrutura atômica, mas também toda representação rio ou fundamental. Assim, as ―leis naturais‖ da ciência clássi-
antropomorfa e sensória do mundo desaparece totalmente. Se ca não são abolidas e, mesmo nos parecendo agora como leis
isto conduz a ciência para um princípio ordenador de um orga- estatísticas, relativas ao plano macroscópico, distintas do plano
nismo universal, do qual ela vê sempre melhor o grandioso submicroscópico, não perdem, com isto, nada da sua verdade.
funcionamento, também lhe mostra que o princípio do univer- Para compreender, podemos referir-nos analogamente aos
so, Deus, está tão além das nossas concepções antropomórfi- fenômenos sociais, onde reencontramos a mesma relação, em
cas, que, para o homem, se perde no inconcebível. que o funcionamento do organismo coletivo é dado por leis
Agora podemos perguntar-nos: a moderna e mais profunda precisas, que se exprimem estatisticamente, enquanto no seu
penetração analítica num mundo-fenomênico mais íntimo fez âmbito o indivíduo, regulado por uma outra lei, sente-se livre.
verdadeiramente ruir a física clássica e as suas concepções? O Também neste caso, o organismo coletivo é dado pelas caracte-
fato desta ciência mais panorâmica, sensória e grosseira, es- rísticas dominantes nos componentes individuais, pelos valores
cavando em profundidade, além da face exterior dos fenôme- comuns, enquanto as diferenças se elidem. Vemos aqui o prin-
nos, ter encontrado um mundo com leis diversas, não pode cípio das unidades coletivas ressoar idêntico, do plano da maté-
anular o valor das leis precedentemente descobertas, que, ria ao humano, com as mesmas características. E o que se disse
mesmo conquistando um valor relativo em relação a outros do plano físico (organismo de átomos), e agora do plano social
planos de existência, permanecem absolutas em relação ao (organismos de seres humanos), pode ser repetido também para
próprio nível. É verdade que o mundo subatômico não funcio- o plano biológico (organismos de células) etc.
na como o macroscópico. Naquele plano mais profundo, o Quando as unidades individuais não são mais observadas
mundo não é mais uma grande máquina dirigida por absoluto singularmente, mas coletivamente, por massas, a observação é
determinismo, e os seus elementos aparecem independentes e conduzida de maneira macroscópica em vez de o ser de manei-
livres. Surgem assim, segundo a nova física, os ―quanta‖ de ra microscópica, então aparece uma lei nova, em que as carac-
ação. Entretanto é possível, dessa desordem submicroscópica, terísticas de minoria, dadas pelas diferenças individuais, se
obter uma ordem indiscutível no plano macroscópico, que é anulam e desaparecem, sobressaindo somente os caracteres
vista pela física clássica. O que esta denominava leis, sabe-se predominantes comuns. Então, sobre a minoria dos casos di-
hoje que, na realidade, são apenas regras estatísticas formula- vergentes, triunfa a maioria dos casos concordantes. Para lá da
das ―a posteriori‖, como resultantes gerais de massa, nem por lei do indivíduo, aparece a lei do grupo, em que os singulares
isto menos verdadeiras. Simplesmente elas não aparecem mais se fundem por homogeneidade de caracteres. Na mais vasta lei
como férreo determinismo, e sim como regularidades estatís- da unidade-síntese, é reabsorvida a lei de cada uma das unida-
ticas, que conservam o valor e a verdade de leis naturais no des individuais componentes. Na visão panorâmica, desapare-
plano macroscópico, porém, no plano submicroscópico, re- cem os particulares e o indivíduo revive, não como tal, mas
pousam sobre o acaso ou liberdade dos atos elementares. Mas como síntese. Da mesma forma que os respectivos planos, as
não são menos válidas do que antes. E, se dizemos acaso para duas leis são contíguas, mas diversas. E, tal como toda unidade
os atos elementares, é porque a ciência ainda não encontrou coletiva é a resultante dos seus elementos componentes, toda
neste campo as leis inflexíveis e eternas que devem vigorar lei de todo plano também é a resultante das leis que dominam a
num plano mais profundo que o microscópico. A concepção maioria dos casos singulares. Assim, analiticamente mais se
estatística dessas tais leis não é senão a primeira fase de apro- desce ao particular e mais se vai para a diferenciação dos prin-
ximação para o seu conhecimento. cípios diretivos; sinteticamente mais se sobe para o universal e
A certeza das leis do mundo macroscópico é dada pelo mais se vai para a unificação e extensão dos princípios direti-
grande número dos elementos e atos componentes e por uma vos. Estes, também neste campo da Lei, são hierarquicamente
repetição preponderante, em determinado sentido, de uma conexos, conforme os planos evolutivos do ser. É assim que,
maioria de casos. O que forma essa regularidade estatística se- acima do espírito, há uma infinita hierarquia de leis que nos
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 71
fogem, como no íntimo da matéria há uma outra infinita hie- no nada. Mas, nem por isto, a ciência identifica o mundo com
rarquia de leis que não conhecemos. o nada, mas crê que alguma coisa o distingue disto. Esta dife-
Dessa maneira, a visão sentida antes, em forma filosófica e rença está num ―quid‖ objetivo, independente do sujeito co-
mística, agora se prolonga em forma científica. E eis que o nhecedor, que não é o ponto de partida das coisas. Este
ponto clássico, ou um elétron que se move no espaço, já é con- ―quid‖, porém, por certo não é a matéria. Esta ficou, assim,
cebido pela ciência como um conjunto de ondas, e o que se dissociada da concepção materialista, justamente ao longo da
achava ser o último indivisível elemento da realidade, é ainda, linha do realismo, e não ao longo daquela de um absoluto ide-
depois, formado de menores elementos componentes. Desse alismo. Isto nos mostra que o materialismo, levado às maiores
modo, conforme a mais recente física, este último termo da re- profundidades, por fim se confunde com o espiritualismo. As-
alidade não é senão uma contração de energia ondulatória, tan- sim ruem tantas distinções, física e dinâmica, matéria e vida
to mais facilmente e exatamente localizável quanto mais as etc., e tudo se torna, como já afirmei em A Grande Síntese, a
frequências componentes do conjunto de ondas diferem entre expressão de um mesmo princípio cinético. Não permanece
si. Com uma frequência única, não é possível nenhuma locali- no fundo de tudo senão um ―quid‖ que, no campo da física,
zação, porque uma onda única em nenhum ponto se distingue extravasa naquela forma sensória que chamamos matéria. Ho-
de uma uniforme intensidade. Esse elemento, portanto, pode je a ciência chama de ignoto este ―quid‖ no campo abstrato do
formar-se lá onde numerosas ondas de várias frequências inter- puro pensamento. Mas um dia ela verá que o pensamento, de
firam entre si, de modo a se anularem reciprocamente no espa- Deus ao homem, representa uma força criadora, significa uma
ço e a se distinguirem em sistema autônomo, somente em tor- transcendência em que é latente toda imanência, constituindo
no de um determinado ponto. Ora, dado que a ―função de on- o elemento genético de toda manifestação concreta.
da‖ é determinável segundo regras de cálculo bem definidas, Agora podemos compreender como o mundo, que nos apa-
adotando-as, resolvem-se algumas dificuldades, pois somente rece e denominamos real, seja, além do limitado ponto de vista
assim, por exemplo, tornando o elétron divisível em mais on- sensório, uma ilusão, como possa essa realidade, que é uma sín-
das incidentes, explica-se o seu comportamento quando, isola- tese, dissolver-se toda através da análise científica, e como o
damente, incide sobre uma lâmina de cristal. que vemos como estabilidade da matéria não seja senão uma
Eis então, conforme a ciência moderna, a substância repre- estabilidade abstrata, isto é, dos princípios imateriais que a re-
sentada pelo elemento fundamental da realidade. O extremo gem (o pensamento). Assim, o materialismo, como acontece
corpúsculo material, qual o elétron, se dissolve em ondas; a para o mal e todas as formas de erro, tem se autodestruído com
substância fundamental, material de construção do edifício das o progredir da ciência materialista e, embora ainda impere em
coisas, é um puro campo eletromagnético, ondas que não têm nossa vida prática, já foi superado no pensamento diretriz, pois
necessidade de se apoiarem em nenhum substrato material, esta última interpretação do elemento extremo, conhecido hoje
sendo concebidas somente como modificações periódicas. A como realidade, o elétron, é verdadeiramente uma ponte lança-
tudo isto não se sabe mais dar qualquer significado físico real, da pela física no campo do espírito. A ciência encontrou no
mas apenas o de uma representação lógica da probabilidade fundo da matéria uma onda, uma vibração, alguma coisa que
matemática de que o elétron se encontre, naquele instante, na- pode formar o elemento construtivo da matéria, da energia e do
quele determinado ponto do espaço. A solidez do mundo físico pensamento. Achado esse denominador comum, possuímos os
é, pois, toda sensória e se reduz a algo que está bem distante da elementos fundamentais para demonstrar o físio-dínamo-
realidade física, isto é, a uma probabilidade matemática. Eis psiquismo monista de A Grande Síntese.
em que se tornou a matéria por obra da mesma ciência materia- Assim concebida a matéria, conforme a física moderna, não
lista. A série estequiogenética nos mostra como a matéria foi há mais dificuldade em conhecer o espírito, conexo e substrato
decomposta em 92 elementos. Depois, foi decomposto o áto- das formas materiais, dotado de potência criadora. Observe-
mo, à guisa de sistema sideral, em partículas dotadas de carga mos agora a mesma realidade, não mais com o olho analítico
elétrica. Agora também, essas últimas quantidades da matéria da ciência, e sim com o olho sintético de quem sobe ao longo
são reduzidas a determinações formais de processos ondulató- dos planos do ser, ao longo das grandes construções da arqui-
rios, de modo que da matéria não permaneceu senão uma for- tetura do universo. A visão continua, não mais no mundo físi-
ma matemática, isto é, simplesmente fenômenos de oscilações, co, mas no espiritual. Ela se dilata numa concepção cosmogô-
sem que aí se encontre qualquer coisa que exista e persista por nica em que a matéria aparece como uma organização elemen-
si mesma, fora delas. Não se pode admitir, de fato, uma subs- tar, dominada por uma hierarquia de formas de existência su-
tância absolutamente neutra, sem características próprias, que periores em complexidade e potência construtora, entre as
não poderiam deixar de influir sobre processos a ela relativos. quais estão, antes, a energia e, depois, o espírito. Assim, tal
De modo que, por último, a ciência da matéria se reduz a uma como a energia representa o princípio criador e diretriz da ma-
ciência de relações, a um puro processo lógico. Assim ela se téria, o espírito representa o mesmo princípio para a energia e,
encaminha para compreender como a última essência da maté- depois, para a matéria. Todo plano depende hierarquicamente e
ria não seja senão uma abstração, um imponderável, um pen- é dominado pelo evolutivamente superior. Assim, a vida orga-
samento puro da mente diretriz do universo. Essa ciência pre- niza para um mais complexo nível de química orgânica a mais
para-se para conceber como, em Deus, este puro pensamento simples química inorgânica, como esta tinha organizado os
possa ter criado o universo, Sua expressão. átomos em moléculas etc. Desta forma, o espírito constrói o
Desse modo, a moderna mecânica ondulatória no estudo seu organismo com os elementos preparados pelo mundo bio-
das ondas não pensa num substrato físico, mas somente nas lógico. Do espírito e além, sobe-se para Deus, em domínio e
leis formais do fenômeno, de modo que a física pode hoje potência criadora. A criação deriva assim continuamente de
deixar de se referir a um substrato ou meio. Ele pode existir e Deus, mas de plano em plano, através de meios de diversa po-
ser um ―quid‖ que ocupa contemporaneamente espaço e tem- tência, utilizados como instrumentos proporcionados ao divino
po, mas hoje ainda não se sabe como conhecê-lo. Assim, a fí- trabalho criador, que se cumpre por meio deles. Porém, mesmo
sica o estuda como relação, no seu comportamento, e não na como operários, os seres colaboram como canais, através dos
sua essência. Dessa maneira, para poder continuar a trabalhar, quais a criação se mobiliza e a manifestação de Deus se ex-
a ciência e o seu sistema se tornaram independentes e, para prime. De sua parte, o ser ascende, e evoluir também significa
funcionar, não têm mais necessidade dessa incógnita, que foi tornar sempre mais real o pensamento de Deus, significa dar
posta fora das suas equações. Tudo assim parece vaporizar-se forma a algumas coisas de verdadeiramente novo como forma
72 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
e manifestação, se bem que tudo já exista latente em Deus. As- Trata-se de antecipar, e sem fé não se antecipa. Poder-se-á
sim a criação é contínua, pois que não se pode manter nada dizer fantasia, intuição, mas estamos sempre em um campo su-
sem criar. Deus realiza essa criação através das criaturas. per-racional, o único de onde pode partir a primeira centelha.
Quanto mais o ser sobe, tanto mais se torna criador, porque Assim a ciência, que foi, mas não será inimiga da fé, nasceu e
mais se avizinha e se assemelha a Deus. Assim, o homem par- não poderia nascer senão de uma fé. Assim, se a observação
ticipa e se torna sempre mais participador da atividade criadora não é fecundada e os dados da experiência não são coordenados
divina, que cria nele e por meio dele. A criação é atual, assim o pelo espírito, tudo permanecerá material desconexo, e a ciência
Deus transcendente se torna também imanente no contingente, nunca saberá concluir. Ela não é somente observação, mas tam-
e este não pode estar além d'Ele, que deve ser tudo. O homem bém síntese das observações. Dessa maneira, como em qual-
que cria no pensamento já opera fora do espaço e do tempo e, quer parte, somente uma grande fé é igualmente criadora no
por isso, ele é o ser terrestre que mais se avizinha de Deus e o campo da ciência. Ela é o impulso que sustém o homem em
primeiro artífice da Sua criação na Terra. A atividade intelec- qualquer parte, mesmo na confusão das áridas fórmulas mate-
tual e espiritual do homem é diretriz da sua obra nos planos a máticas. Desse modo, uma obra, ainda que tecnicamente imper-
ele submetidos, da qual está investido de direito, dada a sua feita e parcialmente errada, pode ser frutífera e genética, porque
posição hierárquica no universo. O criador das obras do pen- sustentada por uma grande fé, de onde só pode nascer a intui-
samento é o ser que mais está perto de Deus na Terra. ção genial. Entende-se aí, no entanto, uma fé livre, sentida es-
É assim que o espírito tem verdadeiramente potência criado- pontaneamente. O cientista, que deve indagar sem preconceitos,
ra no sentido que plasma organiza e mantém em vida, na forma não pode estar ligado ―a priori‖ a absolutismos dogmáticos em
desejada, tudo quanto existe nos planos a ele inferiores. Mas is- nenhum campo. Uma fé orienta, impele, aguça os sentidos e ge-
to não significa que o mundo tenha uma existência somente en- ra a intuição, torna-se essencial em meio ao mar de particulares.
quanto seja uma pura criação subjetiva do espírito individual. O Assim o matemático encontra e formula o novo teorema antes
mundo, já dissemos, tem uma existência objetiva, independente de estar em grau de demonstrá-lo. A ciência nasceu de uma fé
do sujeito pensante. Ora, como se conciliam essas opostas afir- numa ordem racional do universo. Quando o cientista se man-
mações? O que existe é efeito do pensamento ou é independen- tém no sólido terreno da experiência e da realidade dos fatos e
te dele? Mas sobre a Terra não há somente o pensamento hu- os respeita, baseando-se neles como primeiro fundamento, sem
mano. Ele pode dirigir a sua vida para algum fim, mas não to- o que não se faz ciência, somente a fé poderá, depois, dar-lhe
das as vidas, às quais outros pensamentos presidem. Eis o mun- asas aos pés para percorrer o áspero caminho.
do objetivo, independente do homem. Não é o pensamento hu-
mano a única força diretriz do planeta. Dessa potência criadora, XVIII. O “CONTÍNUO” ESPAÇO-TEMPO E
própria do espírito, pode-se, porém, deduzir quanto interfira A EVOLUÇÃO DAS DIMENSÕES
num fenômeno a simples presença do observador, que, embora,
esteja em posição neutra de pensamento, será sempre ativo, Os conceitos desenvolvidos no capítulo precedente, obser-
uma força capaz de influenciar o fenômeno. vando-se as últimas conclusões da ciência, nos permitem colo-
Terminando esta visão, podemos perguntar: chegará a ci- cá-las em relação com a concepção central de A Grande Sínte-
ência a nos dar do mundo uma concepção exaurida e demons- se: o físio-dínamo-psiquismo. Havendo escrito esse volume em
trada em todos os campos, tudo coordenando organicamente, 1932 (começando a publicação em janeiro de 1933), não tinha
o que sabemos e o que saberemos, em uma síntese universal? nenhum conhecimento das mencionadas teorias científicas, que
Certo que chegará, por isso urge compensar hoje o atual di- somente agora examino para fins de controle, confrontando as
vergente trabalho racional de análise com um oposto conver- conclusões com aquela visão do universo. De certo, naquele
gente trabalho intuitivo de síntese. Atualmente não se pode tempo, elas eram ainda pouco divulgadas, e, para mim, não te-
fazer uma filosofia ou explicar uma religião sem conhecer a ria sido fácil conhecê-las. Hoje, a transformação da matéria em
ciência. Hoje não se admite mais um pensador insciente de energia está realizada. Para a ciência, contudo, esse fenômeno
todos os ramos do saber humano; ele deve conhecê-los todos. permanece isolado, sem estar enquadrado no funcionamento
Trata-se de descobrir as relações que façam desse esparso sa- orgânico do universo, portanto não está orientado no seu verda-
ber um todo orgânico. É necessária uma obra criadora de in- deiro significado filosófico, que o situa no primeiro dos três
tuição que, sem representar nenhuma das particulares ideias graus da fase evolutiva do ser, à qual corresponde a fase involu-
tomadas em cada campo, revele e represente uma nova ideia tiva inversa. Hoje, a ciência demonstrou a passagem físico-
coordenando todas, o que significa a criação de um novo or- dinâmica, mas poderá depois provar também as outras. A mais
ganismo, de uma potência muito maior do que a dos compo- provável descoberta que a espera é do processo inverso, isto é,
nentes particulares somados em conjunto. Não são as fórmu- da transformação da energia em matéria. A ciência se colocará
las e os complicados processos da matemática que criam, no caminho do processo criador, que representa a via inversa do
mesmo na física. Eles somente demonstram. O que conta são nosso atual caminho evolutivo, isto é, o processo involutivo es-
as ideias fundamentais, filhas das intuições, de onde nascem pírito-energia-matéria, cujo resultado é a criação da forma con-
depois as teorias. Na origem destas estão as ideias, e não as creta. Haver aqui enquadrado filosoficamente o problema pode
fórmulas. É unicamente em seguida que aquele pensamento representar uma direção útil para orientar as pesquisas.
deverá tomar a veste matemática de uma teoria quantitativa Crer hoje que, amanhã, a ciência chegará a descobrir e usar o
para fins de controle experimental. Assim como na história, processo da assim chamada criação a partir do nada, não é mais
temos o período clássico e o romântico, a guerra e a paz, a re- absurdo do que era, como há poucos anos atrás, acreditar que se
volução e a reconstrução; na biologia, o macho e a fêmea; na pudesse anular a matéria para transformá-la em energia. Esses
física, o núcleo e os elétrons, e na astronomia, o sol e os saté- processos já existem no universo e exprimem o progresso, lei de
lites, tudo sendo assim bipolar e avançando por opostos perí- Deus. Os problemas do conhecimento não estão fechados senão
odos de onda, também a ciência é bipolar e avança por clarões por barreiras relativas e superáveis; o espírito humano não é
de intuição criadora antes e, depois, por paciente controle ana- construído para ficar eternamente excluído do mistério, mas para
lítico racional. Desta forma, a elaboração racional da mais penetrá-lo e saber usá-lo para o triunfo do bem. Deus estende os
árida ciência presume como ponto de partida o seu oposto, e braços ao nosso contínuo desejo de ascensão.
esse ponto de partida é uma fé. E o que é uma hipótese de tra- Aqui não podemos nem repetir nem explicar as últimas te-
balho, senão um ato de fé? orias científicas no campo físico-matemático. Basta-nos pre-
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 73
sumir o conhecimento atual, sobretudo em suas conclusões, Síntese sobre o mesmo assunto. O último resultado, pela teoria
aceitando como provados os resultados alcançados, com os da relatividade de Einstein, é a concepção de um espaço qua-
seus cálculos e experiências, pelos grandes físicos e matemá- dridimensional, em que as três dimensões do espaço estão sol-
ticos do nosso tempo, e disto, que foi o seu ponto de chegada, dadas com uma dimensão temporal. Dessa forma o universo é
fazer o nosso ponto de partida. concebido como tendo uma estrutura quadridimensional, que é
Eis o que lemos, por exemplo, em James Jean, em ―The definida com o termo novo de ―contínuo‖. Este conceito substi-
Mysterious Universe‖ (1948); ―(...) a matéria sólida se volatiza tui hoje o anterior de éter, consistindo num espaço quadridi-
em radiação (...) Matéria e radiação constituem duas formas de mensional em que as três dimensões do espaço são conexas e
onda, e uma pode mudar-se na outra (...) Estamos bem perto da fundidas no tempo, que age como quarta dimensão. Em outros
verdade, se da matéria e da radiação fazemos ideia como de du- termos, esse ―contínuo‖ exprime uma realidade em que as três
as espécies de ondas, uma que gira descrevendo círculos, e ou- dimensões do espaço e a quarta do tempo entram como fatores
tra que segue em linha reta (...) Assim a matéria não seria senão absolutamente iguais na manifestação das leis cósmicas. Até
uma espécie de radiação congelada. A tendência da física mo- agora, a experiência vem demonstrando que o universo funcio-
derna é resolver todo o universo material em ondas e nada mais na justamente nesse sentido e que esse é o seu sistema de medi-
que ondas. Essas ondas são de duas espécies: ondas, por assim da, tendendo a provar que as leis naturais não isolam o tempo
dizer, prisioneiras, que denominamos matéria, e ondas livres, do espaço, o que confirma a referida teoria.
que denominamos radiação ou luz‖. Concebendo os fenômenos em relação a esse ―contínuo‖
Recordemos agora somente poucas linhas de A Grande Sín- quadridimensional, muitos deles, que não eram antes enfrenta-
tese, reenviando para esse volume o leitor que quiser aprofun- dos nem resolvidos, vieram a ser explicados. Assim não é mais
dar o argumento: ―Para compreender bem a transmutação de absurdo que haja dois diferentes valores para as quantidades de
matéria nas formas dinâmicas, é necessário ter bem presente a energia em uma dada região do espaço, como não o é que exis-
sua natureza cinética (...). A matéria é pura energia. Na sua ín- tam dois tempos diferentes no espaço. Hoje, no ―contínuo‖ es-
tima estrutura atômica, é um edifício de forças (...) A evolução paço-tempo, um raio de luz não é mais representado pela pro-
é a exteriorização de um movimento que, por involução, con- pagação de algo concreto e objetivo através do espaço, separa-
centra-se e, por evolução, expande-se (...) A espiral, portanto o damente do tempo, como se fez até agora, mas sim concebido
sistema atômico, continua a se abrir até ao ponto em que os elé- como um fenômeno que se verifica num ―continuo‖ quadridi-
trons não voltam mais a girar como satélites em torno do núcleo mensional, em que espaço e tempo não se podem separar. En-
e, quais cometas, lançam-se nos espaços com trajetórias inde- tão o tempo aparece como um elemento que tem a função de
pendentes (...) (Cap. 46). Os elétrons lançados para fora do sis- manter unidos os outros, isto é, seria a dimensão que liga con-
tema planetário atômico, em desfazimento devido à abertura da juntamente todas as outras dimensões do espaço tridimensional.
espiral e ruptura do equilíbrio atrativo-repulsivo do sistema, Assim, os princípios de Einstein explicam fenômenos que
conservam em sua nova trajetória ondulatória a recordação do a famosa lei da gravitação de Newton não havia sequer imagi-
movimento circular de origem (...) (Cap. 48). As infinitas pos- nado, nem podia resolver. Às próprias afirmações de Newton
sibilidades concentradas num anterior processo involutivo se se deve dar hoje uma interpretação diversa. O efeito gravita-
manifestam neste inverso e compensador movimento centrífugo cional de uma massa não é, como pensou Newton, produzir
evolutivo (...) Na profundeza está o movimento; quando ele uma ―força‖, mas sim provocar uma distorção do ―contínuo‖
muda de trajetória, então, externamente à vossa percepção, cor- quadridimensional no seu interior. Um planeta que se move
responde-lhe uma mudança de forma (Cap. 52). (...) as órbitas não é desviado então do seu movimento retilíneo uniforme pe-
atômicas dos elétrons girando em volta do núcleo e abrindo-se lo ímpeto de uma força, e sim pela curvatura de um ―contí-
para gerar a energia pela expulsão de elétrons (...) (Cap. 53) ‖. nuo‖. É preciso imaginar antes um ―contínuo‖ a quatro di-
Estamos aqui, sem dúvida, entrando na técnica do processo mensões não distorcido, e depois considerar as suas distor-
criador, mas, para poder trabalhar mais profundamente nele, é ções. Por outro lado, o efeito da distorção combinada do ―con-
necessário saber em que direção ele se realiza. A hodierna de- tínuo‖ quadridimensional, produzida por toda a matéria do
sintegração atômica se dá em sentido evolutivo, que é a nossa universo, é fazer que o universo se torne a fechar sobre si
fase de existência, oposta à precedente fase da assim dita cria- mesmo, de modo que o espaço se torna ―finito‖. Mas, antes de
ção, que representa o inverso processo involutivo. Mas, aqui, a nos envolvermos na concepção do espaço-curvo, resolvamos
ciência passa para a filosofia, e da primeira não podemos pre- o problema do ―contínuo‖ quadridimensional.
tender conclusões tão vastas. Partindo dessa conclusão matemática de Einstein, continu-
Está, ao contrário, de pleno acordo com a ciência de hoje A emo-la no plano filosófico, enquadrando-a numa concepção
Grande Síntese, quando afirmava que ―ainda quando decompu- universal, do que não se ocupa aquela teoria. Façamos isto em
serdes a matéria naquilo que vos parecer serem os últimos ele- relação aos vários sistemas tridimensionais do nosso universo,
mentos, nunca vos encontrareis em face de uma partícula sóli- como foram expostos em 1932, em A Grande Síntese, quando
da, compacta, indivisível (...), nunca tendes aí um corpo, no quem escreve os havia sentido somente por intuição, sem ainda
sentido comum (...), assim, na substância, não existe matéria no haver aprofundado racionalmente esses problemas, nem co-
sentido em que a compreendeis; apenas há movimento (...) nhecido a teoria de Einstein, se bem que percebesse o conhe-
(Cap. 46)‖. Tínhamos já visto que, pela ciência, o elétron é cimento dela. Em A Grande Síntese se disse: ―Não tendes um
concebido como um conjunto de ondas, pura concentração de tempo e um espaço em sentido absoluto, isto é, existentes por
energia ondulatória, localizável somente por diferença de fre- si mesmos (...) mas eles são relativos (...) Assim, cada fenô-
quência diante do ambiente. Para a ciência mais recente, todo o meno tem um seu tempo próprio (...) invertem-se a física e a
problema da realidade se refere a formas de energia, e esta é mecânica clássica newtoniana. (...) (Cap. 34). Na realidade não
concebida como uma abstração matemática: ―a constante de in- encontrais senão um tempo e um espaço relativos, cujo valor
tegração de uma equação diferencial‖. Eis que a ciência, por não ultrapassa o sistema a que dizem respeito (...) Se o vosso
fim, não nos deixa senão um conceito absolutamente abstrato, universo é finito como vórtice sideral, o sistema dos universos
alguma coisa que é mais pensamento que matéria ou energia. e o sistema de sistemas de universos é infinito (...) (Cap. 35)‖.
◘ ◘ ◘ Como melhor veremos mais adiante, aqui damos à teoria da re-
Observemos agora o que nos diz a ciência quanto às dimen- latividade um valor universal, tanto para o tempo como para o
sões do espaço-tempo, comparando com o que diz A Grande espaço. Assim como tudo, no espaço, movimenta-se em rela-
74 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
ção a um ponto de referência, todo fenômeno ou ser também se ali, isto é, podendo observar todos os fenômenos. A sua teoria
move em relação a um ponto de referência no tempo. nasceu exatamente desses confrontos, originados do fato de ser
Resumamos agora como é concebida em A Grande Síntese possível contemplar, o que somente uma dimensão superior
(Cap. 38) a sucessão das dimensões. Em nosso universo- pode permitir, os vários movimentos lineares na dimensão-
trifásico (matéria, energia, espírito), a matéria se nos apresen- tempo, fenômenos já completos no sistema tridimensional do
ta como volume, isto é, na sua terceira dimensão de espaço espaço. Abrangeu assim não o movimento de um só caso, mas
(linha, superfície, volume) completa. A matéria representa a os movimentos reciprocamente relacionados de mais casos, is-
evolução do ponto à linha, à superfície, ao volume. Mas, se to é, a contemporaneidade de diversos vir-a-ser, domínio que
nela o desenvolvimento da dimensão espacial é completo, o somente a consciência pode alcançar, como somente a superfí-
conteúdo da dimensão sucessiva e evolutivamente contígua, cie o pode fazer diante da linha.
que denominamos ―conceptual‖, é nulo, isto é, equivale àquilo Qual será agora a sucessiva dimensão conceptual corres-
que no espaço é o ponto. Aqui nasce segundo Einstein a quar- pondente ao volume do sistema-espaço? A consciência comum
ta dimensão, o tempo, concebido porém como o primeiro ter- é racional, analítica, finita, relativa. Ela representa somente
mo de um novo sistema tridimensional, porque este é o es- uma primeira fase da superação do devenir linear, com a con-
quema do universo. Se o tempo é assim a dimensão linear des- temporaneidade de diferentes vir-a-ser, mas não além. É filha
te segundo sistema tridimensional, que evolutivamente sucede da observação, isto é, aderente aos fatos, porque não está ainda
ao sistema tridimensional espacial, então a matéria, com o seu fora do plano onde se movem as várias linhas. Assim, para al-
espaço a três dimensões, representa, diante desse novo siste- cançar o princípio geral diretivo, ela deve percorrer infinitos
ma dito ―conceptual‖, o ponto, um puro germe. Dada a estru- casos particulares, não atingindo senão sínteses parciais, e so-
tura cinética da mais profunda realidade, é sempre através de mente por cansativo processo de tentativas. Ela se ressente de
um novo movimento, em uma nova direção, que se passa para sua posição periférica, ligada ao concreto. Seja indutivamente,
a dimensão superior. A nova direção do novo movimento do seja dedutivamente, ela concebe sempre por sucessão, no vir-a-
volume, ou espaço completo, é justamente hiperespacial, dan- ser e no tempo. Ela é superfície, isto é, uma impotência diante
do-se no tempo. Por essa razão Einstein pôde ligar espaço e do volume, a menos que se verifique um movimento em uma
tempo. Ora o tempo é sempre linear e nada mais que linear. nova direção. Eis como isto acontece. A consciência humana
Não pode ser de outro modo. Ele exprime exatamente a natu- não é linear, isto é, limitada a si mesma ou a um só fenômeno,
reza e comportamento da linha, onde o ponto a que, na nova mas pode mover-se em todas as linhas da superfície. Para for-
dimensão, é reduzido o espaço já completo até à sua terceira mar o volume, é necessário agora elevar a perpendicular sobre
dimensão, move-se e, com o seu movimento, forma a primeira o plano, e isto é representado pela superconsciência ou intui-
dimensão do novo sistema, a linha. É natural que este evolua e ção, uma faculdade que hoje poucos possuem, mas para a qual,
se complete de forma análoga ao primeiro, isto é, com um amanhã, a evolução biológica levará o homem. Enquanto a
movimento ou vir-a-ser em uma nova direção, progredindo consciência racional comum, somente por multiplicação de
por três etapas sucessivas, paralelas e semelhantes àquelas análises, pode alcançar alguma síntese particular, a intuição,
através das quais se maturou até à sua plenitude o precedente como terceira dimensão conceptual, volumétrica, concebe na-
sistema tridimensional: linha, superfície, volume. Porém, nes- turalmente não mais por análises, mas por síntese, e se move,
ta fase, todo o transformismo fenomênico move-se nessa di- como num elemento seu próprio, no absoluto e no infinito. A
mensão linear-tempo, a primeira do sistema, e dela não pode sua posição no universo é mais central, mais distante do con-
sair. O volume é completo, mas as unidades espaciais da ma- creto e mais perto do abstrato, dos princípios diretivos, do ab-
téria não podem mover-se na nova dimensão tempo senão um soluto. Ela não percebe mais analiticamente, em sucessão, por
instante depois do outro. Desta sorte nasce o vir-a-ser, o trans- concatenação racional, como nos métodos indutivo ou deduti-
formismo fenomênico. Assim, da matéria completa, em que se vo, ligado ao tornar-se do tempo, mas concebe intuitivamente,
conclui o ciclo involutivo criador, inicia-se o inverso ciclo instantaneamente, fora do tempo, por síntese. A razão perma-
evolutivo, que retorna ao espírito, de onde tudo veio. Essa di- nece, assim, como uma impotência diante dos clarões concep-
mensão tempo começa a aparecer na evolução estequiogenéti- tuais da visão. Então não há mais a nossa ciência de relações, e
ca, em que a matéria se transforma e se revela plenamente no sim uma ciência de substância, a única que poderá fazer-nos
fim da evolução física, lá onde esta alcança os corpos radioa- compreender a profunda e última realidade das coisas, o abso-
tivos, quando a matéria começa a se transformar em energia e luto, inatingível de outro modo com a razão. Assim também o
nasce o universo dinâmico. Gerado assim o tempo, ele perma- segundo sistema tridimensional se completa. Aqui começa pa-
nece como dimensão da energia, tal como o espaço representa ra o homem atual o inconcebível, pelo que, para ele, tudo de-
a dimensão própria da matéria (volume). saparece em dimensões superiores.
Passemos à dimensão sucessiva, a segunda do sistema con- Dessa maneira, na matéria, que já é tridimensional espaci-
ceptual, correspondente à superfície do sistema espacial prece- almente, o sistema tridimensional conceptual não tem dimen-
dente. Todo fenômeno vive somente o seu tornar-se, toda são (ponto); depois, no campo do transformismo fenomênico
transmissão dinâmica vive o seu próprio curso no ―contínuo‖ (despertar dinâmico), ele alcança a primeira dimensão (linha);
espaço-tempo. Para evoluir na dimensão sucessiva, é necessário a seguir, no campo da vida (consciência), atinge a segunda
acrescentar um movimento em uma nova direção, não mais fe- dimensão (superfície); e finalmente, no campo abstrato do es-
chada na mesma linha, e sim colateral, isto é, alcançando a con- pírito (intuição), realiza a sua terceira dimensão (volume). As-
temporaneidade de mais um vir-a-ser. Somente um fenômeno sim como a superfície absorve a linha e, no tornar-se, a cons-
pode dar-nos essa sensação: a consciência. Somente ela, que ciência absorve o tempo e o domina, a intuição também do-
corresponde no sistema conceptual à superfície do sistema es- mina a análise e a razão com os seus lampejos sintéticos. Ve-
pacial, pode dominar mais de um vir-a-ser (linhas), isto é, o de- mos a ciência se tornar dessa forma sempre mais abstrata, o
senvolvimento de mais movimentos no tempo contemporanea- que deve acontecer caso queira avizinhar-se sempre mais da
mente. A consciência é a segunda dimensão conceptual. realidade profunda da essência das coisas. Somente assim en-
Se a mente de Einstein pôde conceber a teoria da relativi- quadrado é possível compreender o significado e o porte filo-
dade, foi porque ela, justamente como consciência (superfície), sófico das conclusões matemáticas de Einstein.
podia melhor confrontar os diferentes vir-a-ser fenomênicos, Observemos agora quais desenvolvimentos filosóficos se
dominando como superfície todas as linhas que podem passar podem dar à teoria da relatividade. Vimos há pouco que o es-
Pietro Ubaldi PROBLEMAS DO FUTURO 75
paço é a dimensão da matéria. Assim como esta, por desinte- espiritual, que implica a necessidade de avaliar não só os senti-
gração atômica, pode modificar-se, gerando a energia (implíci- dos mas ainda a psique e a orientação conceptual do matemáti-
ta em todo transformismo fenomênico), a sua dimensão-espaço co. Em outros termos, o próprio matemático deve colocar-se e
também pode tornar-se (em direção evolutiva) o elemento ge- entrar como elemento determinante nas suas equações. É ver-
nético (ponto – não dimensão) do tempo (linha – primeira di- dade que a matemática não é uma opinião, o que significa que
mensão conceptual). Daí a logicidade da teoria de Einstein, ela é a consequência de uma racionalidade absoluta, e não rela-
que viu espaço e tempo estreitamente conexos, em correspon- tiva à mente que raciocina. Todavia, quanto mais se sabe ma-
dência com uma realidade estrutural trifásica do universo, for- temática, tanto mais se faz filosofia, portanto, quanto mais se
necendo hoje explicação para fenômenos e problemas antes sabe, tanto mais ela vem a depender de toda a orientação inte-
sem solução. Mas isto não basta. Talvez, com o desenvolvi- lectual do matemático que a utiliza.
mento das matemáticas, um ulterior progresso ainda venha a O novo pensador de hoje, pela sua necessidade de cami-
ser dado pela introdução nas suas equações também da dimen- nhar, deve fatalmente encontrar-se com o desmoronamento
são-consciência. Isto poderá parecer uma linguagem estranha, das velhas formas mentais, sendo o momento psicológico atu-
pois que nos avizinhamos ainda mais do inconcebível, e faltam al no progresso do pensamento humano particularmente críti-
aqui as palavras para exprimir esses conceitos. Trata-se de co. Herdamos, por exemplo, por concepção atávica, represen-
continuar o caminho já empreendido pelas matemáticas, cami- tações de espaço e tempo que hoje, como se começa a perce-
nho de progressivas abstrações, sempre menos suscetíveis de ber, não mais correspondem à realidade. Esses conceitos, as-
representação concreta. Mas é lógico que esta, quanto mais se sim como a geometria euclidiana, foram uma grande conquis-
avança para o real, tanto menos seja possível. É provável que, ta do mundo grego, e nós os fizemos nossos com um sentido
para explicar outros fenômenos e resolver outros problemas, de absoluto. Agora se percebe que eles não foram senão uma
alcançando uma compreensão mais profunda do universo na interpretação, não falsa, mas incompleta; não absoluta, mas
sua íntima realidade, se fará necessário chegar à concepção de relativa; não definitiva, mas transitória; uma interpretação que
um ―contínuo‖ a cinco dimensões, em que fique fundida tam- pode ser superada. A nova visão caminha em um mundo sem-
bém a dimensão que hoje, por falta de outros termos, chama- pre mais abstrato. Se é lógico que assim seja, já que a ascen-
mos consciência, formando não somente um ―contínuo‖ espa- são vai da matéria ao espírito, disto resulta todavia, para a
ço-tempo, mas um ―contínuo‖ espaço-tempo-consciência (3a, nossa forma mental habitual, uma crescente dificuldade de vi-
4a e 5a dimensões). Trata-se de introduzir em nossas equações sualização conceptual. Em outros termos, já não nos é possí-
um novo elemento, exprimindo a dimensão consciência, fa- vel transportar as mais profundas realidades alcançadas para o
zendo-o entrar no conceito de ―contínuo‖, de modo a conceber mundo das nossas representações sensórias comuns, de modo
as relações que ligam não somente espaço e tempo, mas tam- que estas realidades, das quais hoje nos acercamos, permane-
bém estes à consciência. Trata-se, em suma, de continuar a te- cem para nós inimagináveis, pelo menos até que aprendamos
oria de Einstein em mais altas dimensões, dilatar ainda mais o melhor a senti-las. Isto também ocorre agora com o conceito
conceito de relatividade, chegando assim a uma mais vasta re- de espaço finito que desenvolvemos. Ele nos foge porque,
latividade universal, que, desse modo, viria a ser por ora es- além do espaço, não vemos senão espaço e, com os conceitos
tendida da 3a e 4a até à 5a dimensão. É lógico, de mais a mais, habituais, um nada do espaço não o sabemos conceber. Para
que, na estrutura do nosso universo, situado para nós no relati- compreender o espaço-curvo e finito, é necessário mudar o
vo, tudo deva aparecer na forma de relatividade, isto é, em nosso modo de imaginar o espaço, como veremos, conceben-
função de um ponto de referência, do qual tudo depende, e isto do-o numa forma curva, pelo que, com o contínuo retorno so-
em todo campo, até no moral. bre si mesmo, pode-se conciliar o que até hoje ficou inconcili-
Poderá parecer insensata essa continuação dos conceitos das ável: o finito e o infinito.
matemáticas, levando-os ao contato com elementos que parecem Hoje, na ascensão para o abstrato, a física se torna sempre
de natureza diversa. Entretanto, num universo unitário, todos os mais matemática, e a matemática, filosofia. Se, no último vér-
fenômenos, também os aparentemente distanciadíssimos, devem tice da racionalidade, vemos aparecer, também na matemática,
ser conexos e podem ser concebidos como contíguos. Sendo in- o irracional super-racional, é evidente que andamos precisa-
tercomunicantes, eles são ligados em conjunto por esse monis- mente para aquela 3 a dimensão conceptual volumétrica, de-
mo que tudo rege compacto, tudo reconduzindo, em todo ponto nominada intuição, que se move no infinito, como em seu
e instante, à unidade. Esta é a lógica do esquema segundo o qual elemento natural. Somente ela poderá dar a possibilidade da
é constituído o nosso universo. E nenhuma coisa, nem mesmo as visualização conceptual do abstrato que está evolutivamente
matemáticas que vão indagando o absoluto, pode fugir dessa ló- mais no alto e que, hoje, visto da inferior dimensão da consci-
gica. De modo que, desenvolvendo ainda os precedentes concei- ência normal, representa um inimaginável. Na grande aventu-
tos, pode-se concluir que o ―contínuo‖ do absoluto, coligando ra do espírito, explorador das zonas virgens da mais alta evo-
todos os fenômenos do universo, de toda ordem, é um ―contí- lução, a racionalidade representa um método velho, estabili-
nuo‖ de infinitas dimensões e, para um determinado universo, zado e seguro, porque experimentado. Mas ele é limitado e,
um ―contínuo‖ que compreende todas as suas dimensões. Dele diante de alguns novos problemas, é impotente. A experiência
deriva um conceito de relatividade em que todo valor, de qual- intuitiva é um processo novo, não comprovado, não estabili-
quer natureza, depende, para sua avaliação e determinação, do zado, com todos os perigos que dele derivam. Ele é ainda in-
ponto de referência, isto é, do plano de existência ou grau evolu- seguro porque está em formação, no entanto lhe pertence o
tivo de onde a observação é feita. Eis como, logicamente, se po- porvir, porque será o único meio para avançar, com a solução
de levar a teoria da relatividade até ao campo espiritual e moral de problemas novos, explorando o inexplorado.
e também aqui falar de valores relativos, determináveis somente O homem inicia hoje um grande colóquio com esse uni-
em função do próprio ponto de referência. verso que, em qualquer nível, sempre mais se demonstra pen-
Como se vê, hoje o mundo se prepara para um modo todo sante. Não pode haver verdadeira compreensão senão imer-
novo de conceber o universo. Modo muito estranho para a nos- gindo-se na profunda realidade da coisa que se examina, se-
sa velha forma mental, no entanto só ele nos permitirá resolver não estabelecendo uma sintonia no espírito, entre o eu pensan-
alguns problemas que, de outra forma, permanecem insolúveis. te humano e o eu pensante que está em todo ser ou fenômeno.
Na matemática, é inaudita a concepção que se deva introduzir Agora, essa forma de compreensão, não por observação, como
nas suas equações, como elemento de cálculo, também o fator no velho método exterior racional (superfície), mas por sinto-
76 PROBLEMAS DO FUTURO Pietro Ubaldi
nização, como com o novo método da intuição (volume), é a XIX. O ESPAÇO-CURVO E A SUA EXPANSÀO
única que nos poderá abrir as portas do infinito e o acesso à
solução de novos mistérios. Não se poderá chegar até lá senão Uma outra concepção da ciência moderna é a do espaço-
por maturação evolutiva daquele elemento que dissemos ser curvo, que assinalamos acima, problema que melhor poderemos
preciso introduzir nas equações da nova matemática, dado pe- enfrentar agora que, filosoficamente, havemos enquadrado nu-
la natureza psíquica do observador. Em outros termos, a solu- ma concepção universal o conceito de ―contínuo‖ espaço-tempo
ção de tantos novos problemas não será alcançável senão por e observado alguns dos possíveis desenvolvimentos filosóficos
maturação biológica do instrumento humano. Hoje não é mais da teoria da relatividade. Estabelecida, como acima, a evolução
a inteligência humana emergente no universo que o observa da matéria em energia e depois vida e consciência; estabelecida
de alto a baixo, mas é ela mesma que começa a se sentir pe- também a correspondente evolução das dimensões, cada uma
quena, cada vez mais, diante de um universo que, sempre própria para cada fase, a dimensão-espaço permanece limitada
mais, demonstra saber pensar também sem ela e mais profun- à fase matéria, como sua propriedade e unidade de medida. O
damente do que ela. Quem verdadeiramente sabe não é o ho- espaço existe enquanto ali nasce matéria, que estabelece os
mem, mas aquele oceano de pensamento de onde o homem pontos de referência. Sem matéria e, portanto, sem esses pon-
capta o que lhe é possível. O pensamento é fenômeno extra- tos, um espaço vazio e infinito se confunde com o nada, é, co-
humano, cósmico, é um pensamento universal, em que o hu- mo realidade objetiva, um não-existir. E podemos dizer que a
mano também se acha contido. De modo que uma descoberta energia se transmite no espaço e a correspondente dimensão-
ou a solução de um enigma cientifico, que, de fato, verifica- tempo existe enquanto há matéria, isto é, enquanto as concen-
mos operar-se contemporaneamente em diversas mentes que trações estáveis de energia que ela representa nos podem dar
não se conhecem, é mais um problema de captação que de in- pontos de referência. Se o que forma o espaço é a involução da
vestigação racional, e o maior cientista será aquele cuja mente dimensão-tempo na sua dimensão inferior, por via do congela-
sabe oscilar na faixa da frequência de onda mais elevada. mento de radiações ou seu aprisionamento cinético na forma de
Cremos, ao havê-lo repetido sob todos pontos de vista, ter matéria, o que forma o tempo é, ao contrário, a evolução da di-
tornado claro o conceito fundamental em que se baseiam estes mensão-espaço na sua dimensão superior, pelo livramento ciné-
escritos. A crise moderna não está situada fora do homem, de tico da forma matéria das radiações aí concentradas e fixadas,
modo que possa ser solucionada especulativamente, mas en- pelo que, superada a fase-matéria na de energia, o espaço, como
contra-se no homem e não é resolúvel senão biologicamente. espaço, não existe mais. Uma quantidade de radiações nave-
Não se trata hoje de crise de um sistema em favor de outro, gando sempre num espaço sem matéria não nos pode dar um
mas de crise de evolução, através do que se deve mudar a es- ponto de referência, e, sem ponto de referência, o espaço nos
trutura cerebral do homem e, com isto, a sua natureza espiritu- escapa no indeterminável e se anula. Não haveria mais ponto de
al e a sua forma mental. Trata-se de uma crise de transposição partida ou de chegada. É o espaço que funciona como ponto ao
de limites, de explosão para fora do encarceramento das velhas longo da linha tempo, que o torna mensurável, onde a simples
formas, que não podem mais ser suportadas. A crise é dada pe- radiação não daria senão um indeterminável tempo sem medi-
la maceração do ser empenhado na metamorfose por nós já ob- da, eternamente fluente. É sempre função da dimensão inferior
servada, que deve conduzi-lo para formas de vida superiores. marcar com o seu limite a dimensão superior, dando-lhe com
A autos superação, que está no instinto humano, não deve ser isto medida. A dimensão inferior, sendo mais involuída e, por
entendida como uma multiplicação do próprio eu, como ele isto, periférica, é muito mais fechada no separatismo do relati-
hoje é e como hoje se crê. Essa concepção hodierna é comple- vo, que tanto mais aumenta quanto mais nos distanciamos da
tamente errada. Na concepção materialista, Lúcifer subverteu o central unidade do todo, o absoluto.
mundo. É preciso subverter Lúcifer, isto é, inverter o materia- O espaço não é um elemento indestrutível e, assim como o
lismo cego, caótico e negativo de hoje, para o espiritualismo tempo em relação à energia, pode ter fim com a forma-matéria,
iluminado, harmonioso e positivo de amanhã. O homem, hoje, da qual ele é a medida. Como matéria e energia são modos de
deve compreender que o universo não é acaso como ele acredi- ser relativos, também relativas são as suas dimensões de espa-
ta, um caos do qual ele deve tornar-se senhor, mas é lei, a antí- ço e tempo. E, com a transformação por evolução ou involução
tese do acaso, uma lei que já sabe tudo e tudo faz, diante da daquelas formas do pensamento de Deus, que denominamos
qual não há comando, mas compreensão e aplicação. Conquan- matéria e energia, também as sua dimensões desaparecem.
to nos escapem as equações, é certo que, também em nosso Conceitos estranhos estes, que fogem ao concebível normal,
contingente, vivemos em condições matemáticas. O universal para os quais não encontramos em nossa consciência meios de
ressoar analógico em todo campo nos fala da unidade dos es- representação fornecidos pela experiência passada. E procura-
quemas de funcionamento. A medida, recorrente em todas as mos expô-los da melhor maneira, como no-lo permitem as pa-
periodicidades, exprime um ritmo de natureza matemática. Há lavras e as ideias hoje normalmente disponíveis. É bem difícil
uma lei em todo campo; é isto que o homem deve compreen- reduzir o conhecimento das últimas realidades à nossa dimen-
der. Se ficarmos fora da Lei, o fenômeno não mais se verifica. são conceptual: consciência. Mas, decerto, somente assim é
Mas sabemos que, se seguirmos a Lei, o fenômeno deve verifi- possível compreender um pouco mais esse estranho espaço que
car-se (por exemplo, a síntese química). Nessa lei, o homem se pode contrair ou expandir conforme se forma ou se desagre-
bem pouco pode mandar, conquistar ou impor, como hoje pre- ga a matéria da qual ele é função. Em suma, por represamento
tenderia. A sua melhor posição é, ao contrário, obedecer de- cinético, não somente nasce a matéria mas também a dimensão
pois de haver compreendido. O universo não é matéria, como que lhe é relativa, o espaço, pois que são os centros desse re-
ele julga que seja, mas sim um pensamento que tudo rege e de presamento que fornecem os núcleos de matéria, isto é, os ne-
que tudo depende. O pensamento do homem não é senão um cessários pontos de referência. Em outros termos, o fenômeno
momento infinitesimal deste todo pensante. Não resta a este do represamento cinético na forma matéria e o da libertação
outra coisa senão enquadrar-se nesse pensamento, muito maior cinética em forma de energia, fenômenos verificados, impli-
do que ele, harmonizar-se com ele e realizá-lo. cam também os da formação e extinção do espaço. É assim
A grande moral da vida, posta aqui como alicerce destes es- que o espaço, enquanto é função da matéria, pode gradativa-
critos, é que a nova posição do homem civilizado dos futuros mente se formar por centralização de radiações ou se dissolver
milênios não pode ser senão a de inteligente colaborador de por descentralização dinâmica e, portanto, pode contrair-se ou
Deus na obra da Sua criação. expandir-se. Isto é difícil de imaginar porque a realidade atual
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não oferece tal fenômeno às nossas vistas, isto é, ele se encon- nossa concepção um mundo dinâmico sem condensações físi-
tra fora da nossa experiência e concepção comum, além do que cas, feito de radiações, de energia vagando somente ao longo da
jamais encontramos matéria ou energia isoladas, mas, assim linha do tempo, à espera de condensação e represamento cinéti-
como as suas respectivas dimensões de espaço e tempo, sem- co, em forma de matéria ainda não nascida. Vimos que o tempo
pre fundidas em conjunto. Estamos situados com o nosso uni- é linear. Ora, o espaço começa a ap