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CANCIONERO DEL REY DON DENIS

11

Senhor fremosa e do mui loução


coraçom, e querede-vos doer
de mi, pecador, que vos sei querer
melhor ca mi! Pero sõo certão
5 que mi queredes peior doutra rem;
pero, senhor, quero-vos eu tal bem

qual maior poss'e o mais encoberto


que eu poss'; e sei de Brancafrol
que lhi nom houve Flores tal amor
10 qual vos eu hei; e pero sõo certo
que mi queredes peior doutra rem;
pero, senhor, quero-vos eu tal bem

qual maior poss'; e o mui namorado


Tristam sei bem que nom amou Iseu
15 quant'eu vos amo, esta certo sei eu;
e com tod'esto sei, mao pecado!,
que mi queredes peior doutra rem;
pero, senhor, quero-vos eu tal bem

qual maior poss'e tod'aquest'avém


20 a mim, coitad'e que perdi o sem.

1
O trovador pede à sua senhora formosa que tenha dele compaixão, já que a ama mais do que a si próprio. Sendo
certo que ela lhe quer o pior dos males, garante-lhe que o seu amor é bem maior do que o de dois célebres heróis de
romances de cavalaria: o de Flores por Brancaflor e o de Tristão por Isolda.

1
22

E em [e]sta folha adeante se començam as cantigas d'amigo que o mui nobre Dom Denis Rei
de Portugal fez

Bem entendi, meu amigo,


que mui gram pesar houvestes
quando falar nom podestes
vós noutro dia comigo,
5 mais certo seed', amigo,
que nom fui o vosso pesar
que s'ao meu podess'iguar.

Mui bem soub'eu por verdade


que érades tam coitado
10 que nom havia recado,
mais, amigo, acá tornade:
sabede bem por verdade
que nom fui o vosso pesar
que s'ao meu podess'iguar.

15 Bem soub', amigo, por certo


que o pesar daquel dia
vosso, que par nom havia,
mais pero foi encoberto,
e por en seede certo

2
Dirigindo-se ao seu amigo, com quem não se tinha podido encontrar num dia anterior, a donzela garante-lhe que a
tristeza que ele sentiu não se pode comparar com a dela. Pedindo-lhe para voltar, explica ainda o motivo pelo qual o
seu sofrimento foi maior: é que ele conseguiu escondê-lo e ela não, Como indica a rubrica, esta é a primeira cantiga
de amigo de D. Dinis transcrita pelos apógrafos italianos.

2
20 que nom fui o vosso pesar
que s'ao meu podess'iguar.

Ca o meu nom se pod'osmar,


nem eu non'o pudi negar.

33

Nom chegou, madre, o meu amigo,


e hoj'est o prazo saido;
ai madre, moiro d'amor!

Nom chegou, madr', o meu amado,


5 e hoj'est o prazo passado;
ai madre, moiro d'amor!

E hoj'est o prazo saido;


por que mentiu o desmentido?
ai madre, moiro d'amor!

10 E hoj'est o prazo passado;


por que mentiu o perjurado?
ai madre, moiro d'amor!

Por que mentiu o desmentido,


pesa-mi, pois per si é falido;
15 ai madre, moiro d'amor!

3
A donzela confessa à mãe o seu desespero: tendo combinado encontrar-se com o seu amigo naquele dia, ele não
apareceu (ainda?). De resto, se mentiu, o prejuízo será dele. A voz da donzela nesta cantiga não deixa de ter
semelhanças com a que ouvimos em duas outras composições de D. Dinis, uma delas a célebre "Ai flores, ai flores
flores do verde pino", e a outra, a "pastorela do papagaio".

3
Por que mentiu o perjurado,
pesa-mi, pois mentiu per seu grado;
ai madre, moiro d'amor!

44

Ai flores, ai flores do verde pino,


se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,


5 se sabedes novas do meu amado?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,


aquel que mentiu do que pôs conmigo?
Ai Deus, e u é?

4
Esta é, seguramente, a mais conhecida cantiga de D. Dinis, e uma das mais célebres da Lírica Galego-Portuguesa.
Com inteira justiça, poderemos dizer, já que se trata de uma composição que exemplifica, de forma notável, o modo
como a arte trovadoresca é, por vezes, capaz de alcançar uma extraordinária profundidade de campo através da sábia
conjugação dos recursos (aparentemente) mais simples e elementares. Não sendo este o espaço para uma análise
aprofundada da riqueza e complexidade da cantiga, apontam-se apenas algumas das linhas que poderão
eventualmente ajudar a esse entendimento:- a cantiga pode dividir-se em dois momentos exatamente simétricos: a
fala da donzela e a resposta das "flores do verde pino" - o diálogo da donzela com estas (inusitadas) "flores" é
exemplo único (na Lírica Galego-Portuguesa) de personificação da Natureza (apenas na "Pastorela do Papagaio"
(também de D. Dinis, encontramos um caso semelhante, mas aí de uma ave a falar). - o cenário (idílico mas isolado)
onde a donzela se encontra decorre implicitamente deste diálogo (como implícito é o motivo da sua presença ali:
decerto à espera do amigo) - a técnica do paralelismo implica aqui, não uma repetição e amplificação do que é dito
nas estrofes iniciais (como acontece frequentemente neste género de cantigas), mas uma verdadeira intensificação
narrativa: o tempo passa, o seu amigo não vem, a donzela inquieta-se. Na sua fala inicial, por exemplo, ela passa
rapidamente do simples pedido de notícias à hipótese de ele a ter enganado (o mentiroso!). - na sua resposta, as
flores sossegam-na. Note-se, no entanto, que esta resposta, no seu segmento inicial (o seu amigo está vivo e de
saúde) não incide nas perguntas explícitas da donzela, mas antes na pergunta que ela não ousa formular: teria o seu
amigo morrido? - finalmente, no segmento final da resposta (ele virá antes de passar a hora combinada), percebemos
que essa hora ainda não passou, ou seja, que a donzela chegou muito antes e que toda a sua inquietação não passa
disso mesmo: inquietação de uma jovem apaixonada, sozinha num pinhal e insegura (e note-se como o refrão,
inalterado, para isso contribui).

4
10 Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado?
Ai Deus, e u é?

- Vós me preguntades polo voss'amigo


e eu bem vos digo que é san'e vivo.
15 Ai Deus, e u é?

- Vós me preguntades polo voss'amado


e eu bem vos digo que é viv'e sano.
Ai Deus, e u é?

- E eu bem vos digo que é san'e vivo


20 e será vosco ant'o prazo saído.
Ai Deus, e u é?

- E eu bem vos digo que é viv'e sano


e será vosc[o] ant'o prazo passado.
Ai Deus, e u é?

55

O voss'amig', amiga, vi andar


tam coitado que nunca lhi vi par,
que adur mi podia já falar;
pero quando me viu, disse-mi assi:
5 "Ai senhor, id'a mia senhor rogar,

5
Uma amiga descreve à donzela o estado desesperado em que encontrou o seu amigo, quase morto de amor, e
intercede por ele, transmitindo-lhe ainda o pedido que ele lhe fez: que ela pedisse à donzela para ter piedade dele.

5
por Deus, que haja mercee de mi."

El andava trist'e mui sem sabor,


come quem é tam coitado d'amor,
e perdud'[há] o sem e a color,
10 pero quando me viu, disse-mi assi:
"Ai senhor, ide rogar mia senhor,
por Deus, que haja mercee de mi."

El, amiga, achei eu andar tal


come morto, ca é descomunal
15 o mal que sofr'e a coita mortal,
pero quando me viu, disse-mi assi:
"Senhor, rogad'a senhor do meu mal,
por Deus, que haja mercee de mi."