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Nelson Rosário de Souza

Fundamentos da Ciência Política

2.ª Edição
Edição revisada

IESDE Brasil S.A.


Curitiba
2013
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Souza, Nelson Rosário de
    Fundamentos da ciência política / Nelson Rosário de Souza. - 2. ed. rev. - Curitiba, PR :
IESDE Brasil, 2013.
    124 p. : 28 cm
 
    Inclui bibliografia
    ISBN 978-85-387-3597-7
 
    1. Ciência política 2. Sociologia política.  I. Título.

13-1045.                                                         CDD: 320


                                                                        CDU: 32

19.02.13   20.02.13                                                                                  042877


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Sumário
A formação do pensamento político: dimensão histórica | 7
O que é a política? | 7
A política na Antiguidade Clássica | 9
A política como instância autônoma | 11

A formação do pensamento político: dimensão lógica I | 19


Aristóteles e as formas de governo | 19
A representação da política na modernidade | 22

A formação do pensamento político: dimensão lógica II | 29


O poder soberano | 29
A teoria da soberania | 31

A construção da Ciência Política Moderna | 39


A paternidade da Ciência Política | 39
O príncipe moderno | 41

O liberalismo | 49
O liberalismo como reação ao absoluto | 49
Locke: um pensador liberal | 50
O liberalismo e a defesa do indivíduo | 51
Ambiguidades do liberalismo | 53

A democracia liberal | 59
A difícil definição de democracia | 59
Significado formal de democracia | 60
O povo como fonte do poder | 62
A democracia liberal | 63
A democracia direta | 69
A crítica à “civilização” moderna | 69
A propriedade como fonte do mal | 70
O pacto da igualdade | 72
Um projeto utópico e perigoso ou uma perspectiva necessária? | 73

O conceito de poder | 79
Uma definição inicial | 79
O exercício do poder | 81
O poder legítimo | 83

O Estado | 87
Estado e sociedade | 87
O Estado contemporâneo | 89
A concepção marxista de Estado | 91

Partidos políticos | 95
O surgimento dos partidos | 95
A tipologia dos partidos | 97
Os partidos na atualidade | 99

A cultura e a política | 103


Os estudos de cultura política | 103
A cultura política tradicional | 104
A cultura política da modernidade | 106
A construção da cultura política moderna | 107

Participação política | 111


O que significa participar? | 111
A participação em sociedades democráticas | 112
As lições da história | 113
Novas formas de participação política | 115

Anotações | 121
Apresentação
Escrever uma obra com o objetivo de introduzir o aluno de Graduação em Ciências
Sociais às principais temáticas e conceitos da Ciência Política é um grande desafio. A
diversidade costuma marcar o universo de alunos que iniciam um curso de graduação.
Os interesses são múltiplos e o nível de formação do corpo discente não é necessaria-
mente homogêneo. Quanto às decisões sobre o conteúdo da disciplina, a tarefa não
é menos difícil. A Ciência Política, como outras matérias das Ciências Humanas, está
marcada pela multiplicidade de perspectivas. O debate é uma característica central da
nossa área e não a construção de verdades absolutas. Para completar a complexidade
do empreendimento proposto é necessário lembrar o dilema entre valorizar a
apresentação de temas e autores filosóficos que formam a base da Ciência Política
moderna, ou priorizar a discussão dos conceitos propriamente políticos.

O quadro de dificuldades acima descrito impôs a necessidade de escolhas


no momento de confecção desta obra. Procurou-se, por exemplo, equilibrar
a abordagem de temas e autores filosóficos com a definição de conceitos
fundamentais da Ciência Política. Cada capítulo procura contemplar a diversidade
de perspectivas, sem, no entanto, abrir mão de tomar posição. Espera-se que essa
postura contribua com a formação de um aluno crítico, capaz de decidir se está de
acordo, ou não, com os posicionamentos do autor a cada momento da leitura.

Enfim, o livro procurou apresentar os conteúdos de forma didática, mas sem


abrir mão de contemplar a complexidade dos temas e conceitos. Desse modo, a
expectativa é de que os alunos tenham neste livro uma fonte acessível de informação
e também se sintam desafiados a investir em novas leituras e pesquisas. Uma boa
forma de apreender esta obra é tomá-la como ponto de partida para a caminhada
formativa e não como ponto de chegada.

Convido o aluno leitor a enfrentar seu próprio desafio de formação, usando o


presente trabalho como uma das ferramentas úteis à sua empreitada. Bons estudos
a todos.

Nelson Rosário de Souza


A formação do pensamento
político: dimensão histórica
Nelson Rosário de Souza**

O que é a política?
Em Guerra do Fogo, filme dirigido por Jean-Jacques Annaud (1981), é possível observar, entre ou-
tras coisas, a precocidade na disputa por bens materiais e simbólicos na história da humanidade. O filme
reconstrói o embate entre tribos de hominídeos que caminhavam no seu processo evolutivo, na justa
medida em que a disputa em torno do fogo apresentava novos problemas e solicitava novas soluções.
Nesse caso, o conflito estava associado à sobrevivência, à espiritualidade, à linguagem, enfim, à cons-
trução do ser humano.
Outra situação de conflito bastante conhecida era quando um novo líder espiritual emergia em
meio ao povo sofrido e arregimentava um grande número de seguidores. Os altos escalões da religião
vigente enxergam nesse fato uma ameaça aos valores tradicionais, à sua instituição e hegemonia; o
conflito era iminente. A reação era conclamar a autoridade do Estado a tomar uma atitude que restabe-
lecesse a ordem. O governante decidia não intervir, lavava as mãos. Abria-se, então, o caminho para que
os religiosos condenassem à morte, pela crucificação, aquele que era visto como desafiador dos pode-
res estabelecidos. Religião e poder se confundiam.
Um terceiro episódio histórico: na Paris de 1968, estudantes descontentes com a ordem vigen-
te na dimensão política, econômica, social e cultural encabeçaram uma greve geral e ocuparam as ruas
durante vários dias. O poder exercido por instituições e autoridades tidas como democráticas avançava
sobre os jovens. A coerção foi perceptível e disseminou-se em nome da ordem. De modo surpreenden-
te, o movimento acabou como começou, de repente.

* Doutor e Mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal
do Paraná (UFPR).
8 | A formação do pensamento político: dimensão histórica

Greve geral na França.

Os três episódios anteriormente descritos têm um ingrediente em comum: o embate que perpas-
sa mais de uma dimensão da realidade. No primeiro caso, o conflito confunde-se com o próprio proces-
so de constituição da humanidade. Se o conflito está disseminado na realidade desde o passado mais
distante até os nossos dias e se a política é a gestão do conflito, significa que a política sempre existiu e
está em todas as relações? Como precisar o campo da política e, mais propriamente, o objeto da Ciência
Política? Tais perguntas trazem consigo a resposta: a condição para que a política se constitua na sua
dimensão própria é de que a dispersão do conflito, o seu caráter ilógico e sem rosto definido sejam
transformados, concretamente, em concentração do jogo de poder, com uma face detectável e relativa-
mente estável. A ideia de que a política é tudo, ou que tudo é político, inviabiliza o pensamento sobre
a política. Esta pode estar em tudo: na arte, nos jogos amorosos, nas relações de trabalho, nas religiões
etc., mas ela não é tudo. A política que interessa à ciência é justamente a atividade que busca, pela con-
centração institucional do poder, sanar os conflitos e estabilizar a sociedade pela ação da autoridade;
é o processo de construção de uma ordem. Ao longo da história, a política se separou paulatinamente
de outras dimensões, ganhando autonomia, ainda que relativa, diante da Economia, do Direito, da reli-
gião, da moral, enfim, da sociedade. O olhar do cientista político recai sobre os processos que objetivam
gerenciar institucionalmente os conflitos sociais. As análises científicas sobre o significado desses pro-
cessos variam numa escala que vai do otimismo ao realismo. Para alguns, a gestão dos conflitos tende
para a construção de sociedades democráticas, ou seja, pretensiosamente de não dominação. Para ou-
tros, as formas de dominação cada vez mais sofisticadas sucedem-se ao longo da história, o que expli-
caria as disputas entre os grupos sociais pela conquista da hegemonia no campo político.
O terceiro episódio revela, por um lado, a crise que acomete a dimensão política quando o confli-
to social se generaliza e se sobrepõe às instituições e às autoridades. A disputa não é localizável e pas-
sível de gerenciamento institucional. É como se a sociedade, formada por instituições como a família,
a igreja, associações, empresas, sindicatos etc., não aceitasse mais a fronteira que demarca o político e
marchasse sobre ela. Por outro lado, o restabelecimento da ordem pelas vias institucionais, no mesmo
evento, indica a restauração da autonomia da esfera política, em que os atores sociais voltam a ocupar
suas posições na sociedade, deixando a política para os especialistas.
Quais condições precisaram ser preenchidas para o aparecimento da Ciência Política? É possí-
vel afirmar que dois caminhos se combinaram para o surgimento dessa ciência. De um lado, ocorreu o
desenvolvimento lógico. Questões filosóficas que, no seu amadurecimento, desdobraram-se em pro-
A formação do pensamento político: dimensão histórica | 9

blemas científicos sobre aspectos específicos da realidade possibilitaram a configuração desse novo
campo de saber. Paralelamente a esse desdobramento reflexivo, aconteceram as transformações na
própria realidade histórica. Sobre elas, novos olhares foram lançados e delineamentos teóricos singu-
lares emergiram. Com o desenrolar da história, práticas, processos e relações concretas que, num pri-
meiro momento, formavam um todo ao mesmo tempo social, político e jurídico, ganharam espessura
própria, agregando atores específicos e demarcando fronteiras, se não rígidas e palpáveis, com certe-
za, nítidas e decifráveis pela perspectiva científica. Não há sentido em perguntar o que aconteceu pri-
meiro: novas reflexões transformaram a realidade ou novos acontecimentos transformaram a forma de
pensar o mundo? As mudanças resultam do revezamento entre inovações representativas e transfor-
mações concretas, uma agindo sobre a outra. Uma dinâmica difícil de congelar numa relação causal
unívoca. Aliás, a questão da causalidade, aqui, não faz sentido e também pouco colabora para o enten-
dimento da história.
A ciência tem o hábito de separar para analisar, dividir para compreender. A análise do surgimen-
to da Ciência Política inicia-se pela dimensão dos processos concretos, ou seja, pelas condições histó-
ricas que favoreceram a autonomia da política em relação às outras dimensões da realidade. Não que
a pretensão seja de conferir maior importância, ou força causal à realidade histórica em relação às suas
formas de representação.

A política na Antiguidade Clássica

Wikipédia.
Não é exagero recuar até a Antiguidade Clássica gre-
ga. Muito do ordenamento político moderno tem como
fonte de inspiração a organização grega. Esse fato, entre-
tanto, pode gerar alguma confusão. Existiria na Grécia uma
dimensão da realidade propriamente política? A polis gre-
ga apresentava uma distinção entre Estado e sociedade?
Aristóteles quando proclamou que o “homem é um animal
político” (zoon politikón) estava precocemente recortan-
do uma dimensão da realidade, a dimensão política e re-
conhecendo sua autonomia? A resposta a essas questões
é uma só: não. Como bem lembra Giovanni Sartori (1981)
a afirmação de Aristóteles aparece num contexto de de-
finição da vida como um todo e não de um aspecto dela.
O “homem” na Grécia Antiga só realizaria plenamente sua
essência se estivesse inserido na polis e esta, por sua vez,
compreendia mais do que uma suposta dimensão política,
dizia respeito à cidade. Polis significava a comunidade de
homens adultos participando de forma isonômica no exer-
Aristóteles.
cício do poder. Esse verbo, participar, tem aqui um sentido
profundo. Na polis, as dimensões social e política não se distinguiam, elas formavam um todo; tal sepa-
ração só vai se cristalizar na Modernidade. Nem mesmo a palavra social existia no vocabulário grego, ela
é uma elaboração latina posterior.
10 | A formação do pensamento político: dimensão histórica

Isso significa que a polis grega era horizontal. No que dizia respeito à vida pública, os cidadãos
gregos estavam em igualdade e juntos decidiam, pela via dos debates, os caminhos da comunidade.
Não existia uma hierarquia rígida entre os homens, a verticalidade das relações estava limitada à esfera
privada. No mundo do lar, o homem se sobrepunha às mulheres e aos servos. Na cidade, os cargos de
magistratura, distribuídos entre os cidadãos, eram ocupados segundo o princípio do revezamento. Até
mesmo o espaço urbano estava configurado segundo a lógica da horizontalidade, da participação igua-
litária e da totalidade sociopolítica. A ágora era uma praça que abrigava o mercado onde se realizavam
os debates e ao mesmo tempo sucediam-se as tomadas de decisão e a vida política acontecia. Era o que
hoje chamamos de vida social. Esfera pública por excelência, a ágora era o espaço de exercício da de-
mocracia direta e da convivência dos cidadãos, era o lugar onde a vida ateniense acontecia. A atividade
política harmonizava a experiência individual com os interesses da comunidade, a vida na polis ilumi-
nava o caminho de cada cidadão constituindo uma ética (MAAR, 1982). O homem adulto ateniense que
não vivia a “cidade” não participava e era considerado pelos demais como anormal. Participar da cons-
trução da polis confunde-se com desenhar o caminho da própria vida. Sartori (1981, p. 158-159) explica
esse caráter unitário da polis e a identidade que dela emerge:
A polis era a unidade constitutiva indecomponível e a dimensão suprema da existência. No viver “político” e na “politi-
cidade” os gregos viam não uma parte, ou aspecto, da vida, mas seu todo, sua essência. Inversamente, o homem “não
político” era um ser deficiente, um ídion1, um ser carente (significado original do nosso termo “idiota”, cuja insuficiência
consistia justamente em ter perdido, ou não haver adquirido, a dimensão e a plenitude da simbiose com sua polis). Em
breve, um homem “não político” não era apenas um ser inferior, era menos que homem.

O significado da polis enquanto dimensão indistintamente sociopolítica, configurada e reprodu-


zida espacialmente, foi bem apreendida por Richard Sennett (1997). Ele nos mostra, numa bela narra-
tiva, como a horizontalidade e a integralidade da cidade grega começou a ruir, quando importantes
debates e decisões foram transferidos da ágora para o teatro grego. No novo espaço, o discurso entre
interlocutores em condições de igualdade foi substituído pela distinção entre cidadãos que tomavam a
palavra no espaço por excelência da fala, o palco, e aqueles que passivamente assistiam a tudo da pla-
teia. Aqueles cidadãos gregos que demonstraram ou desenvolveram uma técnica de dramatização do
discurso foram mais eficientes no convencimento em relação aos outros. Vê-se aí o início de uma espe-
cialização e, associado a ela, o nascimento de uma hierarquia entre os cidadãos. O resultado foi trágico:
passado um tempo das decisões, os cidadãos não se reconheciam mais nelas. A horizontalidade da po-
lis com a sua unidade sociopolítica e espacial desmoronou e junto se desmanchou a identidade dos ci-
dadãos. O efeito disso foi a fragilidade dos gregos diante da invasão estrangeira. Aí talvez identifique-se
um primeiro e pequeno passo rumo à autonomia da esfera política em relação à dimensão social. Passo
tímido, mas de efeitos históricos monumentais.
A realidade do mundo romano antigo mostrou-se mais propícia à separação entre as dimensões
do social e do político, ou melhor, à substituição do homem político pelo homem social. Os romanos
herdaram os princípios da vida na polis da tradição ateniense, mas, já num contexto em que as cida-
des atingiam uma dimensão que inviabilizava a participação direta dos cidadãos na ágora. Diante da
nova realidade, os romanos traduziram polis por civitas, cujo significado remete a relações de outra or-
dem. Civitas traz consigo a conotação de associação sob um conjunto de leis, ou seja, uma civilis so-
cietas e, finalmente, uma iuris societas (sociedade jurídica). A ideia de sociedade vai se configurando

1 Irresistível a comparação. Para os gregos da Antiguidade Clássica era “idiota” o sujeito que, preenchendo as prerrogativas para participar da
vida pública na polis, abdicava de fazê-lo. Hoje, muitas vezes, são rotulados de idiotas aqueles que, nas rodas de conversa, não se empolgam
com assuntos sobre a vida privada das celebridades e insistem em colocar em pauta temas públicos, ou seja, assuntos políticos. Interessar-se
por política, para muitos, não é normal.
A formação do pensamento político: dimensão histórica | 11

dissociada da política. O homem político de Aristóteles vira homem social na formulação de Sêneca
(4a.C.-65d.C.). A vida social remete, progressivamente, à convivência pacífica entre os homens a partir
da adesão a um conjunto de leis. A gestão das leis era feita pelo imperador, visto como um tutor a cui-
dar dos seus pupilos e impor os interesses dos mesmos ao restante da população. O caráter positivo
que acompanhava a ideia ateniense de participar da construção da polis, paralelamente à elaboração
da própria trajetória de vida, vai sendo substituído pela condição negativa de fazer parte da sociedade,
agora uma “cosmópolis” (SARTORI, 1981). Não se trata, ainda, de uma relação hierárquica entre política e
sociedade e sim da substituição da fórmula ateniense caracterizada pela polis – “o homem é um animal
político”, pelo modelo romano centrado no social e que vai resultar na concepção de que o “homem é
um animal social”.

A política como instância autônoma


Se a história vivida na Grécia e na Roma antigas não favoreceram a autonomia da esfera política,
tampouco, ao longo da Idade Média a política apresentou-se com densidade própria. Durante o perí-
odo feudal, a dimensão política esteve associada à esfera religiosa. Um dos efeitos desse vínculo era a
subordinação da política à moral religiosa. O exercício da autoridade pelo Estado tinha como base de
legitimidade a tradição fundada em concepções teológicas a respeito do ordenamento do mundo. A
força do Estado combinada com a persuasão religiosa formavam o cimento que estabilizava as relações
no feudalismo (MAAR, 1982). Os conflitos eventuais entre a monarquia e a igreja apenas evidenciavam
a força da segunda diante da primeira. Não havia, ao longo desse período, uma clara separação entre a
esfera pública e a privada. O critério de sucessão no poder, por exemplo, dava-se pela herança familiar.
Os códigos do espaço familiar informavam o funcionamento do campo político.
A relativa estabilidade do mundo feudal também estava assentada sobre uma rede de relações
que tinham como base a posse da terra pela nobreza e pelo clero. A concessão para o uso da terra partia
dos estratos mais elevados da sociedade e chegava até os camponeses, gerando uma aliança de com-
promissos. De um lado, a concessão descia a estratificação social e tomava a forma de favor associada
à segurança, às vezes ilusória, de pertencer a um reino. Por outro lado, a contrapartida ascendente dos
estratos mais baixos assumia o caráter de lealdade e fidelidade em relação aos que governavam. É im-
portante sublinhar o caráter, ao mesmo tempo, social, econômico, religioso, moral e político dessa en-
grenagem. Paralelamente ao arranjo econômico e político feudal, operava a representação teocêntrica
do mundo, cujo principal ingrediente era a ideia de destino. Uma configuração que, por certo, não de-
senhava um ambiente propício ao desenvolvimento de relações políticas autônomas.
O declínio da sociedade feudal apresentou um duplo movimento, com forças aparentemen-
te contraditórias, mas que se mostraram complementares e úteis ao surgimento da sociedade con-
temporânea. Não convém conferir à dimensão econômica a condição de única fonte causadora das
transformações em foco. Muito já se escreveu com o objetivo de criticar as perspectivas que adotam o
determinismo econômico para explicar a derrocada do feudalismo. Mas as mudanças econômicas tive-
ram um papel relevante na transição do mundo feudal para a sociedade moderna, não por acaso, forte-
mente associada ao mercado. O primeiro movimento a impulsionar esse processo foi a descentralização
do poder jurídico-político. Dependendo do momento ou do lugar, as cidades-Estado, os principados ou
12 | A formação do pensamento político: dimensão histórica

os burgos ganhavam autonomia, constituíam-se em espaços com legislação própria. Esse movimen-
to foi importante para viabilizar a livre circulação dos mercadores, suas mercadorias e seus novos com-
portamentos num mundo em transformação. Novas relações de trabalho se estabeleciam, enfim, novos
costumes e atores sociais apareciam e, com o aspecto de resistência ao antigo, entravam em concorrên-
cia com a tradição a partir de espaços alternativos, relativamente independentes. É difícil dimensionar
o impacto cultural dessas novas práticas. Após a descentralização ter propiciado a liberação de novas
energias, processos e sujeitos, num jogo de desmonte das amarras jurídicas e morais próprias da Idade
Média. O desdobramento seguinte foi justamente no sentido contrário, mas de efeito complementar.
O declínio da sociedade feudal, ao mesmo tempo, oferecia a oportunidade do surgimento de
novos valores e comportamentos e desenhava um cenário de instabilidade, conflitos generalizados,
enfim, desequilíbrios sociais. O desafio que se apresentou, principalmente à classe ascendente, à bur-
guesia e seus representantes, foi de harmonizar as relações no novo contexto. É ilusório imaginar que
os caminhos percorridos pela história apenas concretizam os planos bem elaborados pelos podero-
sos de cada momento. É mais prudente pensar que o jogo complexo de ação e resistência abre virtu-
alidades, nem sempre previstas pelos sujeitos históricos, e que são preenchidas por atores os quais,
muitas vezes, ao buscarem objetivos mais imediatos, acabam calçando o caminho do grupo que,
mais tarde, será reconhecido como vencedor. A ação que começa individual pode ganhar um sentido
social que ultrapassa o horizonte do ator que a protagonizou. Nesse sentido, é surpreendente, mas
não ilógico, que o último estágio do feudalismo tenha sido marcado pelos Estados de poder absoluto,
centralizadores, organizados pela monarquia, mas adequados às necessidades do mercado naquele
instante. Não há dúvida de que a nova configuração foi uma resposta à autonomia das cidades, em-
bora houvesse tido um alcance muito maior. Sob o absolutismo começou o ordenamento das novas
relações e, principalmente, a formação dos Estados nacionais. Não por acaso, o novo modelo de po-
der emergiu da aliança entre burguesia ascendente e monarquia decadente. Seu efeito foi propiciar
maior autonomia do poder temporal em relação ao poder espiritual. Ideias como livre-arbítrio, direi-
to divino dos reis e vontade do povo indicavam resistência aos limites religiosos impostos ao exercí-
cio do poder profano (ARANHA; MARTINS, 1986).
Depois de um longo percurso histórico, finalmente as condições concretas para uma autonomia
do poder político frente aos poderes paralelos estão dadas. A centralização do poder no monarca, a sua
colocação acima das autoridades religiosas, a aquisição de prerrogativas ilimitadas, o seu apartamen-
to da moral cotidiana, enfim, a criação da estabilidade como seu objetivo são características que distin-
guem o exercício do poder na modernidade em relação às suas formas anteriores. A política passa a ter
um fim específico a ser buscado por uma lógica do próprio jogo político. Paradoxalmente a nobreza na
sua despedida preparou o cenário para a encenação da política com roupagem singular e pelas mãos
de novos atores sociais.
Sob o Estado centralizado começa o processo de racionalização burocrática. O poder, aos poucos,
vai adquirindo um caráter impessoal, isso significa que o mundo público ganhou dimensão própria e es-
tabeleceu as fronteiras que o separam, desde então, da vida privada. O Estado, como potência acima da
religião, desce verticalmente sobre a sociedade, concentrando a força em nome da solução dos confli-
tos dispersos e da construção da estabilidade capaz de gerar a harmonia. Ao menos é esse o efeito real
que o poder gera na modernidade (LEBRUN, 1984). O poder político passa a ser visto como instância, re-
lativamente autônoma, capaz de ordenar a vida social. Ainda que a fórmula seja contestada em certos
momentos por determinados grupos, do Estado se espera a demonstração de capacidade para geren-
ciar o mundo do contrato garantindo o bom andamento das instâncias econômica e social. Não se tra-
A formação do pensamento político: dimensão histórica | 13

ta mais de reivindicar a participação horizontal na polis como condição para construção da própria vida,
ao cidadão moderno restou fazer parte do social: trabalhar, cuidar da família e conviver com os amigos,
desde que o Estado garanta a estabilidade.
É correto pensar que o fracasso do Estado em harmonizar a sociedade e a economia faz emergir
demandas por participação, transparência, enfim, controle da política pelos cidadãos. Nesses momen-
tos ao que se assiste é o social tentando envolver o político. Crise da política? Sim, pois a sua autono-
mia não é absoluta. Dizer que a política ganha densidade própria não é afirmar que o sistema de poder
institucional apresenta-se totalmente separado das outras esferas da vida, ou mesmo acreditar que o
mundo político impõe o tempo todo os limites às outras dimensões da vida. Trata-se, antes, de perceber
que o mundo político adquire uma lógica própria, na qual, na maior parte do tempo, as causas do seu
funcionamento são encontradas dentro das suas próprias fronteiras e, muitas vezes, fatores políticos se
apresentam como causas até mesmo de fenômenos no campo social, econômico, cultural etc.
Em resumo, este capítulo demonstrou que o conflito pode estar em muitas relações, mas nem
toda relação é política e, principalmente, a Ciência Política tem um objeto específico: as relações de po-
der institucionalmente constituídas. A construção desse objeto solicitou que, ao longo da história, a po-
lítica fosse se separando das demais dimensões: sociedade, religião, moralidade etc. Na Antiguidade
grega, uma totalidade, ao mesmo tempo social e política, formava a polis, cuja principal característi-
ca era a horizontalidade. O Império Romano deu um primeiro passo no sentido de verticalizar as rela-
ções entre o Estado e a sociedade, mas enfatizou o social como comunidade jurídica. Na Idade Média,
a política e a religião aparecem mescladas e só com o declínio do mundo feudal é que a política ganha
autonomia em relação à moralidade cristã e passa a formar uma dimensão específica da realidade. O
próximo desafio é analisar as condições lógicas de construção da Ciência Política.

Texto complementar
Política

Capítulo II
(ARISTÓTELES, 2007)
[...] A primeira associação formada por diversas famílias para suprir necessidades que não se li-
mitam à vida cotidiana é a aldeia (kóme), cuja forma mais natural parece ser a de uma colônia da fa-
mília, e seus membros são chamados, por alguns, de homogálactas (que sugaram o mesmo leite), e
compreendem os filhos e os filhos desses filhos; é justamente por isso que as cidades (póleis) foram
originalmente governadas por reis, como ainda o são em nossos dias as nações (éthne), pois elas se
formaram pela reunião de pessoas submetidas aos reis. Toda família, de fato, submete-se ao reinado
do patriarca, o mesmo ocorre com as extensões da família, em razão do parentesco de seus mem-
bros. É o que diz Homero:
14 | A formação do pensamento político: dimensão histórica

“Cada qual prescreve leis a suas mulheres e filhos”1


[...] pois as famílias andavam dispersas, e era assim que se vivia antigamente. Quanto aos deuses,
a razão pela qual se admite unanimemente que eles são governados por um rei é que os próprios ho-
mens são, ainda hoje, ou foram, no passado, governados dessa maneira; os homens não apenas repre-
sentam os deuses à sua imagem, mas também atribuem-lhes um modo de vida semelhante ao seu.
Por fim, a comunidade formada por muitas aldeias é a cidade (pólis) no pleno sentido da palavra;
da qual se pode dizer que atinge desde então a completa autossuficiência (autarkéias). Surgindo para
permitir viver (tôu zên), ela existe para permitir viver bem (tôu êu zên). Portanto, se as primeiras comu-
nidades são um fato da natureza, também o é a cidade, porque ela é o fim daquelas comunidades, e
a natureza de uma coisa é o seu fim: aquilo que cada coisa se torna quando atinge seu completo de-
senvolvimento, nós chamamos de natureza daquela coisa, quer se trate de um homem, de um cavalo
ou de uma família. [p. 1253a] Além disso, a causa final e o fim (télos) de uma coisa é o que é o melhor
para ela; ora, bastar-se a si mesma é, ao mesmo tempo, um fim e um bem por excelência.
Essas considerações tornam evidente que a cidade é uma realidade natural e que o homem é,
por natureza, um animal político (politikón zôon). E aquele que, por natureza e não por mero aciden-
te, não faz parte de uma cidade é ou um ser degradado ou um ser superior ao homem; ele é como
aquele a quem Homero censura por ser
“sem clã, sem lei e sem lar”2;
[...] um tal homem é, por natureza, ávido de combates, e é como uma peça isolada no jogo de da-
mas. É evidente, assim, a razão pela qual o homem é um animal político em grau maior que as abelhas
ou todos os outros animais que vivem reunidos. Dizemos, de fato, que a natureza nada faz em vão, e o
homem é o único entre todos os animais a possuir o dom da fala. Sem dúvida os sons da voz (phoné)
exprimem a dor e o prazer e são encontrados nos animais em geral, pois sua natureza lhes permite
experimentar esses sentimentos e comunicá-los uns aos outros. Mas quanto ao discurso (lógos), ele
serve para exprimir o útil e o nocivo e, em consequência, o justo e o injusto. De fato, essa é a caracte-
rística que distingue o homem de todos os outros animais: só ele sabe discernir o bem e o mal, o jus-
to e o injusto, e os outros sentimentos da mesma ordem; ora, é precisamente a posse comum desses
sentimentos que engendra a família e a cidade.
A cidade, portanto, é por natureza anterior à família e a cada homem tomado individualmente,
pois o todo é necessariamente anterior à parte; assim, se o corpo é destruído, não haverá mais nem
pé nem mão, a não ser por simples analogia, como quando se fala de uma mão de pedra, pois uma
mão separada do corpo não será melhor que esta. Todas as coisas se definem sempre pelas suas fun-
ções e potencialidades; por conseguinte, quando elas não têm mais suas características próprias, não
se deve dizer mais que se trata das mesmas coisas, mas apenas que elas têm o mesmo nome (homóni-
ma). É evidente, nessas condições, que a cidade existe naturalmente e que é anterior aos indivíduos,
pois cada um destes, isoladamente, não é capaz de bastar-se a si mesmo e está [em relação à cidade]
na mesma situação que uma parte em relação ao todo; o homem que é incapaz de viver em comuni-
dade, ou que disso não tem necessidade porque basta-se a si próprio, não faz parte de uma cidade e
deve ser, portanto, um bruto ou um deus [...].

1 Odisseia, IX, 114.


2 Ilíada, ix, 63.
A formação do pensamento político: dimensão histórica | 15

O impulso que leva todos os homens para uma comunidade desse tipo tem sua origem na na-
tureza; mas aquele que em primeiro lugar fundou essa comunidade é ainda assim credor dos maio-
res benefícios. Pois se o homem, ao atingir sua máxima realização, é o melhor dos animais, também
é, quando está afastado da lei e da justiça, o pior de todos eles. A injustiça que tem armas nas mãos
é a mais perigosa e o homem está provido, por natureza, de armas que devem servir à prudência e à
virtude (phronései kài aretêi), mas que ele pode empregar para fins exatamente opostos. Eis por que o
homem, sem a virtude, é a mais ímpia e feroz das criaturas, e a que mais vergonhosamente se orienta
para os prazeres do amor e da gula. E a virtude da justiça é um valor político, pois a comunidade políti-
ca tem como sua regra a [administração da] justiça (ou seja, a discriminação do que é justo).

Atividades
1. A formação da Ciência Política pressupõe a autonomia da política. Qual o sentido dessa afirmação?
16 | A formação do pensamento político: dimensão histórica

2. Por que a frase de Aristóteles “O homem é um animal político” só ganha pleno significado no con-
texto da Grécia Antiga?

3. Os gregos da Antiguidade participavam da polis, os cidadãos modernos fazem parte da sociedade.


Qual a diferença entre as duas situações?
A formação do pensamento político: dimensão histórica | 17

4. O contexto da Idade Média não favorecia a autonomia da esfera política. Explique.

Referências
A GUERRA do Fogo. Direção de Jean-Jacques Annaud. França/Canadá: Wild Bunch, 1981. 122m.
ARANHA, Maria L. de Arruda; MARTINS, Maria H. Pires. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo:
Moderna, 1986.
ARISTÓTELES. Política. Disponível em: <www.unicamp.br/~jmarques/cursos/1998-hg-022/politica.
doc>. Acesso em: 31 jul. 2007.
LEBRUN, Gérard. O que É Poder. São Paulo: Brasiliense, 1984.
MAAR, Wolfgang Leo. O que É Política. São Paulo: Brasiliense, 1982.
SARTORI, Giovanni. Que é a política? In: _____ A Política: lógica e método nas ciências sociais. Brasília:
Editora da UnB, 1981.
SENNETT, Richard. Nudez: o corpo do cidadão na Atenas de Péricles. In: _____ Carne e Pedra: o corpo e
a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro: Record, 1997.
_____. O manto da escuridão: A proteção do ritual em Atenas. In: _____ Carne e Pedra: o corpo e a ci-
dade na civilização ocidental. Rio de Janeiro: Record, 1997.
WEFFORT, Francisco. Os Clássicos da Política I. São Paulo: Ática, 1991.
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Gabarito
1. A atividade política se separou da atividade religiosa, social e econômica. Foi quando a política
ganhou especificidade que as condições para o surgimento da Ciência Política apareceram.

2. Porque naquele contexto os cidadãos eram integrantes da polis e suas vidas só faziam sentido na
polis, que é espaço social e político ao mesmo tempo.

3. Participar da polis é construir a dimensão coletiva ao mesmo tempo em que se faz o percurso in-
dividual, é estar integrado ativamente ao social e político. Fazer parte do social significa estar dis-
tante do político que se constituiu numa instância separada. Os homens passam a se dedicar ao
social e a política vira coisa de especialistas.

4. Na Idade Média, política e religião estavam misturadas, a política não aparecia como uma ativida-
de com regras e lógica próprias.