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A Era Viking: Análises Antropológicas e Arqueológicas

Trabalho para conclusão de módulo


Jeferson A. Miranda
BISSO, Renan Marques. O problema da temporalidade para os estudos da
Europa Nórdica: A “Era Viking”. NEArco Revista Eletrônica de Antiguidade.
V1, 2013

WILKINSON, Philip. Vikings: a Era dos conquistadores. São Paulo: Ciranda


Cultural, 2008.

1. Introdução
Em seu artigo, Renan M. Bisso, argumenta que a "Era Viking" escandinava
pode ser vista como um sistema de conhecimento construído no final do
século XIX e em suas estruturas básicas mantidas até os dias atuais. Esse
sistema de conhecimento foi fortemente influenciado pelas ideias
nacionalistas e evolutivas daquela época e pode ser descrito como um
colonialismo do passado.

O artigo cita o trabalho de Fredrik Svanberg, Descolonizing the Viking Age,


obra que percorre a criação da Era Viking através dos estudos acadêmicos
mais influentes do século XX até os trabalhos mais recentes antecedentes a
data de sua publicação em 2003. Em ambos trabalhos se sugere uma
desconstrução das principais narrativas criadas até então, uma vez que estas
ecoam os “modismos” colonialistas do passado. Em seu livro Svanberg
apresenta um estudo da região sudeste da Escandinávia. Este estudo
baseia-se em discussões da semântica "nórdica antiga", de paisagens
culturais, temporalidade e da importante conexão entre rituais de morte
coletiva e a comunidade de grandes grupos de pessoas. Os resultados deste
estudo são considerados incompatíveis com as estruturas de conhecimento
da "Era Viking" tradicional.

A partir da leitura do livro “Vikings: a Era dos Conquistadores”, escrito por


Philip Wilkinson, que tem um formato paradidático, buscarei demonstrar
como essas construções históricas são perpetuadas e como essas
construções se interpõem ao debate protagonizado pelos dois outros autores
previamente citados.

2. Um breve histórico – a tradicional história da “Era Viking” presente


no livro de Wilkinson.

Os nórdicos deixaram um a estéril península Escandinávia em busca de


melhores moradas em terras distantes. Já se pode estudar invasões no final
do século VIII sendo que estas perduram por cerca de trezentos anos. Os
nórdicos viviam, como seus descendentes ainda vivem, na Dinamarca,
Suécia e Noruega. O nome Escandinávia às vezes é aplicado aos três países,
mas mais comumente é restrito à península que compreende Suécia e
Noruega.

Os suecos e noruegueses, juntamente com seus parentes, os


dinamarqueses, provavelmente se estabeleceram na Escandinávia muito
antes do início da era cristã. Durante o período pré-histórico, os habitantes
passaram da Idade da Pedra para o uso de bronze e depois de ferro de forma
gradual. Escavações em antigos túmulos revelaram instrumentos da mais
fina pedra polida, belas espadas de bronze e armaduras de malha, além de
adereços de ferro, de ouro e prata que possam ter sido importados do sul da
Europa. Os antigos escandinavos deixaram para nos registros curiosos do
passado em sua escrita de imagens esculpidas na superfície plana de rochas.
Os objetos representados incluem barcos com o máximo de trinta homens
neles, cavalos puxando carroças de duas rodas, vãos de bois, fazendeiros
envolvidos na lavoura e guerreiros a cavalo.

A “Era Viking”, é comumente associada no norte da Europa, ao período que


se estende-se de cerca de 800 dC à introdução do cristianismo nos séculos
X e XI. Este foi o período em que os nórdicos, ou Vikings, percebendo que o
mar oferecia o caminho mais rápido para a riqueza e conquista, começaram
a fazer longas viagens a terras estrangeiras. Em parte, eles foram como
comerciantes e trocaram as peles, lã e peixe da Escandinávia por roupas,
ornamentos e outros artigos de luxo encontrados em cidades e países
vizinhos. Mas se tornaram realmente conhecidos pelo fato de suas
expedições culminarem muitas vezes em saques o que os tornaram ainda
mais popular do que o comércio pacífico.

Se os nórdicos se envolveram no comércio ou na guerra, bons navios e boas


técnicas de navegação era indispensável para eles. Eles se tornaram os
marinheiros mais ousados do início da Idade Média. Não mais abraçando a
costa, como os tímidos marinheiros sempre faziam antes deles, mas ousando
marear em águas desconhecidas e dirigir seus cursos apenas pela
observação do sol e das estrelas. Assim os nórdicos alcançaram e
exploraram o Oceano Atlântico e os mares polares, contribuindo muito para
a distribuição geográfica do conhecimento.

Não era incomum para um guerreiro viking, depois de seus dias de saques e
aventuras terminar a vida enterrados em seus navios, sobre o qual uma
sepultura, coberta com a terra, seria erguida. A descoberta de vários desses
enterros em navios nos permite formar uma boa ideia dos navios viking. O
maior deles podiam atingir um comprimento de 20 metros e transportar entre
cem ou vinte homens. Uma frota nórdica, carregavam vários milhares de
guerreiros, vestidos de malha e armados com lanças, espadas e machados
de batalha. Durante esse período, os nórdicos eram os mestres do mar, no
que dizia respeito à Europa Ocidental. Esse fato explica em grande parte o
sucesso de suas campanhas.

Uma fonte muito importante de informação para a Era Viking consiste nos
escritos chamados: Sagas. Essas narrativas estão em prosa, mas foram em
muitos casos, com base nas músicas cantadas pelos menestréis (escaldos)
escritas em outras formas. Elas datam dos séculos XII e XIII que e proveem
principalmente da Islândia.

É também à Era Viking que devemos a composição dos poemas conhecidos


pelo nome de Edda. Esses poemas, bem como a prosa das sagas, foram
coletados e organizados na Islândia durante o mesmo período. Os Edda são
ótimas formas de se conhecer a antiga mitologia nórdica. Forma nossa
principal fonte de conhecimento sobre a religiosidade escandinava antes da
a introdução do cristianismo.

3. O Zeitgeist da Era Viking


Retomando o pensamento de Svanberg, na terceira e última parte de seu
livro “Descolonizing the Viking Age” ao fazer a análise dos sepultamentos
normandos o mesmo pontua que se pode observar um caráter altamente
regional de alguns costumes, e estes ficam muito claros nas tradições
funerárias nórdicas. As diferenças regionais nos prova haver grupamentos
étnicos, sociais e políticos distintos, mas que da forma como são retratados
na “Era Viking” são reunidos no rótulo de povos genericamente pan-
escandinavos.

Bisso aponta ainda o pensamento de Neil Price que ao analisar também os


sepultamentos do período, julga que o problema desta interpretação é o
descaso quanto às similaridades gerais da cultura material entre regiões, sem
mencionar a linguagem e os padrões de assentamento, ao focar apenas nas
variações que não foram praticadas numa paisagem mais ampla e
consistente. Sendo assim para ele é temerário ignorar os novos estudos que
apresentam estas novas identidades, regionalismos e diversidade regional,
ainda que ele entenda que a “ingenuidade intelectual” possa fundamentar os
historicismos que se apresentam nas abordagens mais ideológicas ou
irreflexivas.

Trabalhos generalizantes, muito presentes em livros com objetivos


paradidáticos costumam pecar exatamente por ainda reproduzir o olhar da
sociedade europeia do século XIX que enxergava o mundo dividido em
sociedades selvagens, bárbaras e civilizadas. Mentalidade ainda muito
presente nas obras mais atuais e grandemente exploradas por séries, filmes
e pelo entretenimento na cultura pop. Visto sob este aspecto são
contribuições importante trabalhos como o de Richard Hodges colocou um
grande empenho em desmitificar a ideia de que os ataques nórdicos foram
os causadores das mudanças no Atlântico Norte. Com muito êxito ele aponta
que essas transformações estavam sendo engendradas pelo declínio da
economia baseada em emporia e nas mudanças na sorte da política
Carolíngia no final daquilo que comumente chamamos de Alta Idade Média.

Sendo assim é necessário superar a tendência histórica tradicional de


considerar as migrações germânicas e escandinavas como um movimento
único, promovido por um grupo heterogêneo de indivíduos que comumente
chamamos de Vikings, termo cunhado muito posteriormente pelos povos que
por eles foram invadidos. A Europa Ocidental viveu diferentes momentos de
incursão desses povos, que se estabelecem em períodos diferentes e não
foram realizados por um único grupo étnico. É um exemplo deste pensamento
a cronologia elaborada por Mawer, que proporcionou a especificação da Era
Viking (sécs. VIII-XI), mas dentro de uma ótica inglesa (do saque dos
mosteiros de Iona e Lindisfarne até a Batalha de Hastings, provavelmente).
Sendo assim os trezentos anos citados no inicio desta resenha é na verdade
um aglomerado de narrações que deve ser analisada dentro de suas
conjunturas locais e temporais.

O estudo realizado por Renan M Bisso encontra assim uma justificativa


objetiva muito importante. A utilização de temporalidades (ou eras) para o
Estudo da Europa Nórdica precisa utilizar-se de todos os avanços da
Arqueologia, dos estudos comparativos e das micro analises como forma de
superação da historiografia “colonialistas” europeia do século XIX.