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Porto Alegre

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de sub temas que poderiam, ao indagar do outro, pela sua
diferença, nos refletir, nos dizer quem somos, questão quer
seria uma pré-condição para compreender quem são os
Imigrantes espanhóis no Brasil, no Rio Grande do Sul e em
Porto Alegre.
Busca-se neste livro compreender a presença
espanhola em Porto Alegre. Ao contrário de outras etnias que
fizeram"Porto Alegre, a espanhola tem um modo de
contribuição sui generis. Capturar essa singularidade étarefa
de insistência e de finaleitura da Sensibilidade,

| Como disse Fernando Pessoa: "não se traz uma


sensibilidade
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de época, e sim uma inteligência de época.
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T empos narrados:
os espanhóis em Porto Alegre

Rosemary Fritsch Brum

Porto Alegre, 2013


ANIMAL – Editora e Produtora Ltda – ME

Coordenadora da Memória Cultural – Miriam Aloisio Avruch

Diretora do Centro de Pesquisa Histórica – Bernadete Dal Molin

Organização – Bernadete Dal Molin

Projeto gráfico e editoração eletrônica – Maria do Rosario Rossi

Edição – Fernando Rozano

Edição executiva – Maria Tereza Zatti

Pesquisa
Coordenação – Dra Rosemary Fritsch Brum
Colaboração: Jardel Azambuja, Nathaniel Reis de Figueiredo e Valquíria Gonsales da Silva

Entrevistas
Dra. Rosemary Fritsch Brum, Jardel Azambuja, Colaboração: Francisco Carvalho Jr.

Direitos dessa edição:


Editora e Produtora Ltda – ME

Conselho Editorial da Editora:


Ana Cláudia Padilha (UPF)
Anacleto Ranulfo dos Santos (UFRB)
Eloisa Capovilla Ramos (UNISINOS)
Girlene Santos de Souza (UFRB)
Jeferson Francisco Selbach (UNIPAMPA)
José Fernando Manzke (PGCult/UFMA)
Lorena Holzemann Silva (UFRGS)
Márcio Pizarro Noronha (UFGO)
Marilice Corona (UFRGS)
Núncia Santoro de Constantino (PUCRS)
Rosa Maria Araujo Simões (UNESP)
Stephan Tomerius (FH Trier)
Vanice dos Santos (FATO)

Dados internacionais de catalogação na publicação (CIP)

B893t Brum, Rosemary Fritsch


Tempos narrados: os espanhóis em Porto Alegre / Rosemary Fritsch Brum.
Porto Alegre: Animal, 2013.
151 p.: il.; 24 cm.

1. Imigração espanhola – Porto Alegre, RS2. Espanhóis – Aspectos sociais


– Porto Alegre, RS 3. Brum, Rosemary Fritsch 4. Prefeitura Municipal de Porto
Alegre I. Título.

CDD 305.86108165
CDU 325(816.51POA)(=469)

Catalogação na publicação elaborada pela Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães


N ota da autora

A pesquisa histórica do Tempo Presente se defronta com alguns riscos.


Ao mesmo tempo em que incita ao trabalho sobre a contemporaneidade, está
sujeita ao revés dos acontecimentos que colocam em suspeição sua capacidade
de interpretação.
Dois acontecimentos, de distintas naturezas, afetaram a publicação
desta pesquisa realizada em 2008. O primeiro foi burocrático: a impossibilidade
de edição do trabalho que fora encomendado pelo Centro de Pesquisa Histórica
(CPH), Secretaria de Cultura de Porto Alegre, por razões de ordem orçamentária,
conforme me foi comunicado.
Aqui, desejo fazer uma pausa para agradecer à Miriam Avruch, então dire
tora do CPH e de Bernadete Dall Mollin, diretora de pesquisa. Meus agradeci
mentos também aos estagiários de pesquisa, ao editor da Secretaria de Cultura de
Porto Alegre Fernando Rossano, e a Maria do Rosario Rossi, da Elemento Design.
Porém, enquanto aguardava a publicação por outros meios, configurou
se o segundo acontecimento. Desta vez dramático: à época da pesquisa e, em
especial, das coletas das histórias de vida com imigrantes e descendentes da
imigração espanhola na cidade de Porto Alegre, a Espanha estava assentada
em sólida base econômica. Nada nem ninguém poderia aventar o que ocorreria
nos anos seguintes: a crise financeira mundial, que afetaria, e ainda afeta forte
mente a Espanha.
Ao ser alterado esse cenário, as projeções e a estabilidade social e polí
tica do País transformaram a Espanha. De País receptor de crescentes levas de
imigrantes, mormente da Argentina e do Brasil, tornou-se um País às voltas
com a emigração de espanhóis e de estrangeiros estabelecidos. As portas do
sonho da imigração, para a terceira geração de descendentes de espanhóis, tão
verbalizado nas minhas entrevistas, fecharam-se gradativamente
Resta, para o historiador do Tempo Presente e para os que aqui gene
rosamente ofereceram suas histórias de vida, a convicção da necessidade do
testemunho dessa odisseia.
Por fim, devo ainda dizer que estas páginas de história estão disponíveis
graças ao interesse do professor Dr. Jeferson Selbach, da UNIPAMPA.
Obrigada. Boa leitura!
A presentação

O Centro de Pesquisa Histórica (CPH) da Coordenação da Memória


Cultural é responsável pelo registro da história da cidade nos seus diversos
segmentos. Aliando a pesquisa científica e documental com a metodologia
oriunda da história oral, o CPH edita inúmeros livros dando voz à população
e integrando-a na construção da memória coletiva dos porto-alegrenses. São
obras que registram as lembranças das experiências vividas pelos cidadãos que,
se não documentadas, tendem a se perder no turbilhão da metrópole que hoje
é Porto Alegre.
A demanda para execução desse importante trabalho de preservação
histórica é proveniente de solicitações encaminhadas por meio do orçamento
participativo (no caso da memória dos bairros), por interesse de grupos orga
nizados que desejam registrar para o futuro as experiências vividas por suas
comunidades ou por encaminhamento da equipe profissional, quando se detecta
lacunas para a construção e compreensão da história local.
A publicação do presente livro abre uma nova proposta de pesquisa,
ampliando este universo. Oferece um enfoque histórico distinto, obtido ao
resgatar a memória de imigrantes, que elegeram Porto Alegre como território
para reconstruir suas vidas ou de histórias repassadas por meio da tradição
oral a seus descendentes, enriquecendo o projeto proposto (precisa verificar, no
início já fala que os livros aliam pesquisa e “história oral”).
Coletar as lembranças de homens e mulheres que um dia aqui aportaram,
provenientes de processos de imigração individuais ou coletivas, criando laços
duradouros com a cidade, implantando novos hábitos de vida pelo entrelaça
mento dos costumes de sua cultura original com a local, nos permite entender
melhor a grande colaboração que deram para o desenvolvimento da cidade.
A escolha da etnia espanhola para iniciar esta nova coleção foi motivada
pela constatação de que há poucos registros existentes sobre a presença desta
na cidade. Os espanhóis estão presentes entre nós desde antes da formação do
território rio-grandense e da instituição da capital do Estado.
A escassez de documentação pode ser conseqüência da forma de ingresso
na cidade, acolhidos por pequenos grupos familiares ou por amigos (diferen
temente da maneira como ocorreu a imigração de outras etnias), do rápido
processo de miscigenação ocorrido, da proximidade com as colônias e, mais
tarde, com os países de fala espanhola e da possibilidade de ir e vir no conti
nente sul-americano sem deixar registros. Lacuna que tentamos preencher com
a publicação deste livro, baseado em entrevistas.
Desejamos que o registro destes depoimentos, muitos deles permeados
pelo sentimento de nostalgia da terra de origem, comuns em relatos de quem foi
obrigado a partir deixando para trás afetos, lembranças e objetos queridos que
jamais reencontrariam, outros pelo desejo de esquecer tristes histórias vividas,
sirva como motivação para a realização de novas pesquisas sobre o tema.

Miriam Aloisio Avruch


Coordenadora da Memória Cultural
A gradecimentos

Dada a quase ausência de estudos sobre a migração espanhola para o Rio


Grande do Sul, em especial em Porto Alegre, esse livro não aconteceria sem as
entrevistas aqui apresentadas. Ao iniciar-se essa história de Porto Alegre, pelo
ângulo desses imigrantes e seus descendentes, tributamos aos que dispuseram
se a abrir suas vidas para o domínio público, o mérito dessa reconstrução histó
rica. Inserida desde o presente, as narrativas sofrem a oscilação da valorização
dos tempos, resignificando sujeitos, acontecimentos, memórias. Abramos essas
narrativas.
Créditos ainda devem ser dados aos pesquisadores requeridos que
desempenharam distintas, mas importantes atribuições, na pesquisa de campo,
atuando nas entrevistas, na pesquisa histórica bibliográfica de tema tão escas
samente pesquisado. A pesquisadora Rosemary Fritsch Brum, socióloga e
doutora em História aceitou o desafio da coordenação técnica da pesquisa.
Um especial agradecimento ao historiador Francisco Jr. (NPH/UFGRS)
que foi o leitor paciente e crítico do texto e elaborou a nota sobre as Internacio
nais do séc. XIX e XX, imprescindível para dimensionar e compreender o largo
espectro das forças que galvanizaram desde então o embate político interna
cional, em torno das questões sócio/político/econômicas, com seus resultados
sendo discutidos até hoje.
O trabalho histórico realizado é uma homenagem à Colônia Espanhola de
Porto Alegre, tendo sido possível com as inestimáveis colaborações do Consu
lado de Espanha em Porto Alegre, na pessoa do Cônsul Geral de Espanha em
Porto Alegre – Alfonso Palazon e do ex Chanceler do Consulado de Espanha
em Porto Alegre – Jose Maciaz Benitez. E também do Centro Espanhol de Porto
Alegre, através de sua Presidenta, senhora Ruth Nely Pontet Falero de Teijeiro.
Pela leitura atenta da obra, nosso apreço à Fernando Eisenberg Bugallo.

Bernadete Dal Molin


Diretora do Centro de Pesquisa Histórica
Da Espanha para o Novo mundo............................................................11
Ashistória
A regiões recente mais presentes na emigração para Porto Alegre:
da Espanha..............14
espanholas

síntese histórica..............18
Andaluzia..............18
Cantábria..............21
Catalunha..............22
País Basco..............23
Cartografias
Americanidade/Hispanidad.............................................................37
Uma periodizaçãoe Itinerários......................................................................29
possível...................................................................41
Galícia..............25

Imigrantes espanhóis no Brasil............................................................45

Migração espanhola no Rio Grande do Sul: é possível propor-se


uma de sociedade
endogamia
O modelo imigrante hispânica em Porto Alegre:
histórica?....................................................................51

um objeto (des)conhecido..............54
Os
A “último
verbos
Hermínio,
O aventura
história dos na
Carmen
Migrantes
navio”: chegam
e Estelita:
migrantes
transversal galegos
americana..............64 Olga
em ePorto
espanhóis:
cidade..............58
de Marilice..............77
Crispina, partir, transitar e chegar.........63
Hélios...............81
Alegre..............65

Viver em Porto Alegre..............88


Outra história transversal: José Ayete..............95
S umário

Estar junto em Porto Alegre..................................................................99


Um
Os
O
A origem
viés político-ideológico..............110
da da
símbolos
mutualismo Casa
sociabilidade na
a de
ealma Casa de Espanha
hispânica:
Sociedade
Sociedade
Espanha Espanhola
deasPorto
de Alegre..............104
Porto
de
deSocorros
touradas
Espanhola Socorros Mútuos
Mútuosde dePorto
eAlegre..............107 PortoAlegre.............102
os hipódromos..............100
Alegre............105

As excursões e os restaurantes..............111
Rumo
A reconciliação
vida àsocial da colônia espanhola em Porto Alegre..............115
nos clubes..............113

A vida privada e a sede da hispanidad: casamentos,


culinária, festas e língua.....................................................................121

Para estas últimas páginas: uma reflexão sobre a migração de


Anexos na vida e no trabalho de Porto Alegre..................................131
artistas

Referências..............145
Gráficos..............139
Fontes escritas..............147
Jornais..............151
orais..............146

Página da Internet..............151
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da
E
spanha para o Novo mundo
O movimento migratório radica-se,
historicamente, na busca por melhores
condições de reprodução social, nas
garantias de sobrevivência física e cultural.
A busca pela novidade, pela transposição
de barreiras sociais que imobilizam a
criatividade, a inovação técnica e o apelo
das incessantes necessidades sociais,
impulsionam a emigração1.
CANTABRIA
SantiagodeCompostelaASTURIASOviedo
Santander BASCO
PAÍS FRANÇA
Vitoria

GALICIA NAVARRA
ANDORRA
CASTILLA Y LEÓN Pamplona
LARIOJALogroño
Valladolid
Zaragoza CATALUÑA
Madrid ARAGÓN Barcelona

PORTUGAL
MADRID
Toledo LA MACHA
ILHAS BALEARES
EXTREMADURA
Mérida CASTILLA VALENCIANAValencia Palma de Mallorca

MURCIA
ANDALUCIA
Murcia
Sevilla

ILHAS CANÁRIAS
Santa Cruz
de Tenerife

Las Palmas de Gran Canária

Mapa da Espanha, 2008

Os estudos migratórios, por sua vez, estão sempre inclinados sobre a


reconstrução das trajetórias de vida dos migrantes na sociedade de recepção de
como as narrativas são alimentadas pelas subjetividades sociais, geração ilus
trando o processo segundo o qual uma sociedade estranha constitui-se como
parte de suas referências identitárias.
A emigração espanhola para a cidade de Porto Alegre aqui apresen
tada liga-se aos quadros do antigo pacto colonial, com os processos de inde
pendência política das ex-colônias nas Américas, quando se abre o ciclo das
grandes migrações desde a segunda metade do século XIX até meados do
século XX, quando perde seu ímpeto. Como é sabido, o período da migração
em massa dos europeus foi determinado pelas crises econômicas e políticas
e favorecido pela demanda de povoamento e de mão-de-obra para as promis
soras economias americanas.
Igualmente os marcos fundantes da emigração espanhola no sentido do
“Fazer a América”, também constituem um imaginário construído no trabalho
das gerações a par da afirmação da própria identidade social espanhola.
Apesar de sua importância demográfica, no entanto, a historiografia da
emigração espanhola no Brasil é ainda esparsa, comparativamente a existente

12
em relação aos alemães e italianos. Tais fluentes movimentos migratórios são
amplamente relatados em estudos que abordam as configurações de verdadeiras
comunidades étnicas européias disseminadas em todo país.
O que parece contraditório é como uma emigração importante como a
espanhola, terceira em expressão numérica no Brasil, até o momento tenha
recebido tão poucos estudos mais sistemáticos. Ainda mais levando em consi
deração a especificidade da formação histórico-social do Estado do Rio Grande
do Sul, o fato é ainda mais lamentável. Pode-se aventar até que ponto o predo
mínio da corrente historiográfica que pretende sempre vislumbrar o peso da
formação histórica de origem estritamente lusa possa ter sua responsabilidade
nisto. Mas isso já é outra questão.
Enfim, e fechando esse preâmbulo, a pesquisa ora apresentada pode ser
considerada como exploratória. Levada a termo pela Prefeitura Municipal de
Porto Alegre, através da Secretaria Municipal de Cultura, o Centro de Pesquisa
Histórica (CPH) visa contribuir para recompor as lacunas e os silêncios dessa
presença na cidade de Porto Alegre. Ambiciona-se que muitas outras pesquisas
sucedam a essa, perfazendo o sentido social da pesquisa histórica quanto ao
patrimônio material e imaterial recuperado do esquecimento das memórias.
Coincidentemente, observa-se renovado interesse acadêmico sobre a
emigração espanhola para a América e Caribe. Novas questões estão sendo
postas, estimuladas pela renovação teórica do pós-colonialismo e dos estudos
culturais. Diante disso, os novos estudos migratórios são convocados a fornecer
subsídios por onde repensar a desterritorialização contemporânea e suas narra
tivas diáspóricas, nos contextos multilinguísticos onde transcorrem as novas
experiências interculturais. Mais que números, estatísticas, o fenômeno migra
tório na globalização pode enunciar princípios do convívio humano baseados
na percepção das diferenças e da sua preservação necessária.
A transposição de culturas, a tradução e a transcriação levadas a efeito
pelo tempo e pelo espaço resignificados pela migração de milhares trazem novas
interpretações e novos desafios ao conhecimento histórico. A identidade enten
dida como tradução, as Américas percebidas desde o horizonte no imaginário
do país do emigrante. A invisibilidade dos migrantes no país de recepção fazem
sobressair as categorias culturais da mestiçagem e da fronteira na tentativa de
responder: “quem somos?”
O estrangeiro vai imprimindo sua marca na cultura do país de recepção.
Embora tenha sempre presente que sua tarefa é decifrar essa cidade que lhe
é estranha. Segundo o urbanista Lepetit: “se a cidade é um texto, parece-me
mais pertinente e proveitoso analisá-la à luz de uma hermenêutica do que de
uma semiologia” que sugere é, e muito pertinente ao caso de Porto Alegre,
cidade construída pelas levas de emigrantes, a conveniência em observar as

13
modalidades de presentificação dos passados uma vez que as sociedades rein
terpretam o sentido das formas antigas à luz do tempo presente. Toda histori
cidade é um processo temporal complexo, seus elementos surgem desde uma
pluralidade de tempos descompassados e são combinados de modo que a cada
mudança um novo significado pode surgir.
Essa é uma idéia norteadora que permite associar os estudos migratórios
aos urbanos. Observando-se o crescimento urbano acelerado de Porto Alegre,
historicamente é possível perceber-se a intrínseca dependência entre sua espe
cialização funcional aos modos de representação da cultura urbana impregnada
pelas levas de migrantes que em distintas temporalidades, acorreram à cidade,
a começar pelos açorianos, seguidos dos alemães, austríacos, italianos, polo
neses, judeus, além dos espanhóis, evidentemente.
Pode-se desta maneira antecipar que o estrangeiro – no caso em evidência,
o espanhol – como o sociólogo Simmel ensina, pode ser visto como o sujeito
diante da metrópole moderna que vai tecendo de modo singular as relações
que o inserem na economia, na política (com retardo) e na cultura local. As
formas de sociabilidade que marcaram (e marcam) a presença espanhola em
Porto Alegre não se explicam pelo espaço, como a existência de determinados
bairros étnicos, assim como não foram determinadas pelas formas de proxi
midade e de distância espaciais que poderiam produzir os fenômenos de vizi
nhança ou de “estrangeria”. Foram, sim, os fenômenos de ordem simbólica que
assumiram determinadas formas espaciais, e que conformaram certas conexões
das partes desse mesmo espaço, conforme alguns indícios importantes detec
tados no desenrolar da pesquisa.2

A história recente da Espanha

A pesquisa realizada tratou de circunscrever uma série de sub temas


que poderiam, ao indagar do outro, pela sua diferença, nos refletir, nos dizer
quem somos questão que seria uma pré-condição para compreender quem são
os imigrantes espanhóis no Brasil, no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre.
Didaticamente é oportuno situar a Espanha. Essa se localiza na Penín
sula Ibérica, tendo ao norte o Mar Cantábrico (com a França e Andorra) e os
Pirineus; ao leste e ao sul está o Mar Mediterrâneo; ao sul, Gibraltar, terri
tório britânico, limitado pelo Oceano Atlântico; ao oeste, Portugal. Amplamente
tomada por planaltos a Meseta central (Castela e La Mancha), destaca-se a
Cordilheira Central. Clima Continental no interior, sul, ilhas Baleares, Ceuta e
Melilha e oceânico no norte. Os principais rios são Tejo, Ebro, Douro, Guadiana,
Guadalquivir e Minho.

14
A administração política espanhola costuma causar uma certa incompre
ensão, dada a sua especificidade histórico-cultural. Pela Constituição de 1978,
existem 17 regiões autônomas. São consideradas nacionalidades, Catalunha (Ca
talunya em catalão, Cataluña em castelhano), País Basco (País Vasco ou Euskadi),
Galícia (ou Galizia). Estas possuem uma língua própria, demarcando a singulari
dade cultural. A Catalunha ao nordeste, é constituída por quatro províncias, sen
do sua capital, Barcelona, cidade natal do arquiteto Antoni Gaudí (1825-1926). E
onde nasceu em Figueras, ao norte, o pintor Salvador Dali (1904-1989), A Galícia
é constituída por quatro províncias. O País Basco é composto por três províncias
espanholas ao norte, e três francesas. Dentro deste ultimo se tem o movimento
separatista basco, o ETA (Pátria Basca e Liberdade). A Espanha ainda é responsá
vel pelos arquipélagos das Baleares, no Mediterrâneo, as Canárias no Atlântico,
as cidades de Ceuta e Melilla, na África, Marrocos e o enclave de Lívia.
É preciso entender os sentimentos dos migrantes em relação à Espanha
contemporânea a partir dessa atual configuração político-administrativa, que
demarca a persistência histórico-cultural de processos seculares.3
Com o falecimento do General Francisco Franco em 1975 à monarquia foi
reinstaurada na Espanha, criando-se uma nova dinastia na linhagem dos Bour
bons. Foi investido como chefe de Estado o Rei Juan Carlos I ou Juan Carlos de
Bourbon, que fora designado por Franco em 1968. Encerrava-se o longo período
da dominação franquista, iniciada com o fim da Guerra Civil em 1939, data esta
que marca a queda da República da Frente Popular (1936-1939) após três anos de
combates que dividiram os espanhóis em duas forças políticas antagônicas.4
Nas eleições de 1977 os eleitores rejeitam os candidatos afinados com as
forças políticas que dividiram o país, os republicanos e os nacionalistas, desde
a década de 1930. Pela Constituição o Conselho de Ministros assegura o Poder
Executivo, sendo as atribuições do Presidente do Governo comparáveis a de
primeiro-ministro. Precisa ser nomeado pelo Rei, depois de eleito pela Assem
bléia Nacional (bicameral, Congresso de Deputados e o Senado), no segmento
das eleições legislativas.
Esse período foi e tenta ser de reconciliação e de afastamento dos
símbolos do passado que fraturaram o país. Em 1977 o Rei inaugura a nova
legislação das Cortes, a Constituição de 1978 busca a reconciliação nacional
onde a democracia espanhola coabita com a monarquia, pesando o fato de que
um em cada quatro espanhóis tiveram um familiar morto na guerra. Pelo novo
desenho político-administrativo, repõe-se a questão das autonomias regionais
e o direito à língua.
O trabalho da memória espanhola tem sido retomado desde então, haja
vista a iniciativa da constituição do acervo denominado “Repertório Bibliográfico
do Exílio Galego” que visa alimentar um banco de dados internacional referente à

15
Um navio singra rUmo a esperança.
Transatlântico Provence, 1951. Acervo família Flórez.

diáspora galega. Desde 1999, através do Conselho da Cultura Galega, por proposta
da Sécción de Cultura Galega no Exterior, busca reunir depoimentos e ampliar o
conceito de exílio de modo a superar os enfoques dos estudos migratórios tradi
cionais que excluíram a variável política do fenômeno econômico migratório.
A história espanhola do século XX é fundamental para compreender essa
vertente migratória para a América Latina, para o Brasil e para Porto Alegre.
A repercussão do conflito estendeu-se para além das fronteiras da Europa. Por
exemplo, na ante-sala da Guerra Civil Espanhola o jornal local, o Correio do
Povo de 10 de outubro de 1931, já demonstrava o alarme mundial diante da radi
calidade da política espanhola na esteira do avanço nazi-fascista na Europa. O
cotidiano da conjuntura foi acompanhado aos detalhes. A manchete do jornal
“Política espanhola” trata de como o Rei Affonso assinou um decreto dissol
vendo a Força Aérea já sinalizando a apreensão geral. No mesmo dia soube-se
que em Madri foi espalhado na cidade uma grande quantidade de panfletos
assinados pelo “Comitê Revolucionário”, na qual concitava a todos cidadãos a
entrar em luta afim de derrubar o trono dos Bourbons. A notícia ainda diz que
o movimento é de caráter nacionalista e que dele fazem parte todos os grupos
sociais e o exército.5
Mesmo após anos, como em 1940, as notícias prosseguem. No Correio
do Povo de 2 de fevereiro tem-se a notícia “Lutou na Espanha” relatando que
havia chegado em Buenos Aires o general Henrique Juarado, que lutou ao lado
dos republicanos espanhóis. Juarado destacou-se, principalmente, na grande
Batalha de Guadalajara. Ainda que derrotados, as notícias sobre os republi
canos continuam repercutindo.6
História do tempo presente, a migração espanhola apresenta dificuldades
imensas. É uma história cujo registro recém está sendo realizado pelos próprios,
ao menos os que optaram por não adotar “o silêncio prudente”.

16
Deter-se nesse período e nas suas conseqüências explicam como a
cultura ocidental foi atingida nos anos de 1930 pela Guerra Civil Espanhola e
como as feridas ainda estão abertas. A excepcionalidade dessa guerra pode ser
medida pela formação da Brigadas Internacionais que acorreram aos milhares,
de diversas nacionalidades, inclusive de brasileiros; várias etnias e religiões em
defesa do que acreditavam ser a liberdade e a democracia.
Alguns historiadores, segundo o português João Cerqueira (2005), consi
deram-na a última “Guerra Romântica”. Contextualizando a produção intelec
tual do período, menciona o historiador Garcia Duran, que se estima ter a Guerra
Civil de Espanha originado perto de 16.000 livros, de distintos gêneros. Muitos
intelectuais, à época nos anos de 1930, abraçaram o Comunismo como a única
forma de deter o Fascismo. No momento posterior alguns intelectuais, exilados,
adotaram uma visão pragmática da política e tenderam a censurar o Stalinismo
e a política da URSS em relação ao país, no pós-guerra. Todo esse debate teve
repercussão onde houve migração espanhola, quanto mais politizada fosse a
colônia espanhola instalada.
Nas artes, a guerra “liberta os demônios da alma espanhola, expostos no
mundo de pesadelos de Goya”. Essa série de gravuras, mais as peças de teatro
de Calderón de La Barca incitam o andaluz Pablo Picasso. Com o ataque ao País
Basco pelo General Molina, pela Legião Condor de Hitler, pela 23° divisão do
Exército italiano, pelos Flechas Negras e pelos mouros do exército africano, ao
ataque à Durango, Bilbao e Málaga, as bombas são lançadas sobre a Vila de
Guernica, a 26 de abril de 1937. Desse cenário surge o quadro “Guernica”. Temá
ticas como a tourada, o minotauro, a crucificação e o sofrimento femininos
são elementos iconográficos jamais ensaiados na pintura. O trio cavalo-touro
mulher são retidos pela representação cubista e surrealista, concluído em 4 de
junho de 1937. É entendido como a evolução terrífica da Minotauromaquia.
A tauromaquia, ideada anteriormente por Francisco José Goya, na sua
terceira série de gravuras (em torno de 1815), traça as corridas de touro prati
cadas desde os mouros, as festas de touros que retornariam desde o Reinado
de Fernando VII. Quando figura na dramática obra, a crítica quer ver na tauro
maquia a busca do artista pelo mito que atravessa e se mantém na sociedade
espanhola, pois os animais são símbolos hispânicos; a presença do touro e do
cavalo alerta para a destruição da cultura espanhola, mas também estabelece
uma analogia entre a violência da tauromaquia e a violência da Guerra Civil.7
Tais símbolos estão presentes na Espanha de hoje que tendo na Presi
dência José Luis Rodriguez Zapatero, obteve rapidamente, após a morte de
Franco, sua admissão na Organização dos Estados Americanos, ingresso no
Mercado Comum Europeu, agora União Européia. Sinalizam os tempos em os
entrevistados lamentam “não estar lá; talvez os filhos, talvez os netos”.

17
A moeda nacional, de Peseta Espanhola (peso), para a adoção do Euro,
desde 2002, está nas trocas dessa quinta economia da Europa. Calçados, cons
trução naval, siderurgia, indústrias químicas, têxtil, telecomunicações, tele
fonia, sistema financeiro, produtos agrícolas (azeite, vinhos, uvas, toranjas) e
pesca e turismo afirmam a Espanha como a oitava economia mundial (dados
para 2007, CNU Free Documentation License). Entre o século XX e XXI, a Espanha
é uma das maiores investidoras no Brasil principalmente no setor bancário,
das comunicações, seguros, rodoviário, energia, hoteleiro, varejo, editorial, e de
autopeças. Dos acordos comerciais ao intercâmbio cultural, as afinidades entre
os dois países percorrem os séculos anteriores.8
Embora oficialmente um país católico grande parte dos que se declaram
católicos não são praticantes. Ainda assim o calendário religioso oficial é cató
lico: 1de janeiro, ano Novo, 6 de janeiro, Epifania, “Festa dos Reis Magos”; 19 de
março, São José (exceto Andaluzia, Baleares, Canárias, Catalunha e La Rioja); 21
de março Quinta-feira Santa(exceto Catalunha e Valência); 25 de março, Sexta
feira santa; 1 de maio, Dia do trabalho; 25 de julho, Santiago Apóstolo (exceto
Catalunha, Andaluzia, Ceuta, Melilla e Navarra); 15 de agosto, Assunção; 12 de
outubro, dia da Hispanidade, Festa da Virgem do Pilar; 1 de novembro, Todos
os Santos; 6 de dezembro (dia da Constituição); 8 de dezembro, Imaculada
Conceição; 25 de dezembro, Natal.
Essas datas – não todas – costumam ser comemoradas nas sociedades e
casas de cultura espanholas também fora da Espanha, como forma de coesão
identitária dos espanhóis e seus descendentes, como no caso da Casa de Espanha
de Porto Alegre. Embora venha perdendo vigor, ainda são realizados determi
nados eventos.

A s regiões espanholas mais presentes na emigração para


Porto Alegre: síntese histórica

As regiões que mais contribuíram com a emigração para Porto Alegre


reafirmam o quadro geral brasileiro.

Andaluzia
A atual Andaluzia é uma comunidade autônoma localizada no litoral
do mediterrâneo ao sul da Espanha. É composta por oito províncias: Almería,
Cádiz, Córdoba, Granada, Huelva, Jaén, Málaga e Sevilha. Sua capital é a cidade
de Sevilha na província de mesmo nome.
No período que hoje se conhece como Baixa Idade Média, que compre
ende dos séculos XI a XV, os portos andaluzes possuíam uma posição de inter

18
mediários nas rotas comerciais que ligavam o Mediterrâneo Ocidental com o
Norte da Europa e as rotas que ligavam Lisboa e Gênova. Mercadores italianos
com navios lusitanos, bascos ou andaluzes levavam e traziam produtos do sul
da Europa, da África e da Península Ibérica. Nos portos andaluzes os mercadores
marítimos podiam encontrar também todo o tipo de suporte para seus navios
como armadores e barqueiros.
No final do século XV a Andaluzia será o cenário dos sete anos em que
Cristóvão Colombo, vindo de Portugal, procurou apoio para seu projeto. Grande
parte da tripulação que compôs a expedição que fez os europeus conheceram a
América eram andaluzes.
Não há como compreender tanto a história da Andaluzia como a história
da colonização espanhola na América sem ter conhecimento do monopólio
comercial concedido pela Coroa ao porto de Sevilha e depois ao porto de Cádiz.
Não existia outra região na Espanha que possuísse tantas condições necessárias
para um projeto da magnitude da empresa colonial como a Andaluzia. A capital
Sevilha e seus ante portos, como o de Cádiz, já possuíam uma carga histó
rica que lhe davam uma personalidade singular tendo sido ponto estratégico
da Coroa no que concerne a seus projetos náutico-exploratórios desde o século
XIV. Além disso, os portos andaluzes tiveram grande facilidade para assimilar
os produtos de origem americana. A exclusividade de comerciar com a América
por parte de Sevilha pode ser então compreendida por sua íntima relação com
a Coroa. Para firmar esse monopólio se fundou, em 1503, a “Casa de Contra
tação”, órgão responsável por todos os assuntos referentes ao empreendimento
no “Novo Mundo”. Há de se ressaltar que esse tipo de política econômica não
é exclusiva da Espanha. Muitos estados no período de doutrinas mercantilistas
adotaram essa política.
Desde que o monopólio foi concedido à região da Baixa Andaluzia que
Sevilha e Cádiz, disputavam os privilégios de ser a capital desse comércio. Em
1610, após várias lutas jurídicas, Cádiz foi liberada da dependência que tinha
em relação à Sevilha. Esta tentou reagir também no campo jurídico, mas o ex
ante porto passava por um período de emergência econômica enquanto Sevilha
passava por uma profunda crise devido à queda do comércio com a América no
inicio do século XVII. Sevilha acaba reduzida a um centro burocrático enquanto
Cádiz se converte em um pólo comercial em plena atividade. No século XVIII
Cádiz é elevada o terminal da empresa colonial espanhola.
A emigração andaluza para a América foi ímpar. É possível considerar
que a emigração, na época colonial, foi algo como a prolongação do espírito de
Cruzada alimentado pela Coroa contra os mulçumanos na Península Ibérica.
A queda da cidade de Granada acontece poucos meses antes da “Descoberta”
da América. Melhorar economicamente, ascender socialmente, comerciar,

19
expandir o evangelho: toda essas motivações foram redirecionadas para a
América. A maioria dos soldados e marinheiros que participaram da coloni
zação eram andaluzes.
Os motivos para esse importante fluxo migratório são muitos: a proxi
midade com os portos, uma vida pastoril seminômade que gerava um certo
desapego a bens imóveis, como a terra, enfim. Por suas condições geográficas
e históricas a Andaluzia acaba por exercer um papel fundamental no empre
endimento colonial. Os maiores e mais completos acervos históricos para se
tratar da colônia hispano-americana se encontram na Andaluzia só para se ter
idéia que do quanto esta região foi e é importante para a compreensão desse
período.
O final do século XVIII é marcante tanto para a América quanto para a
Espanha e a Andaluzia. As reformas implantadas na Dinastia Bourbon, que
incluía a implantação do livre comércio com as Américas, quebra o monopólio
Sevilha – Cádiz. Em seguida ocorrem as independências das colônias hispano
americanas. A primeira metade do século XIX é marcada na Andaluzia pelo
esfriamento das levas migratórias: os espanhóis viram pessoas “non gratas”
na América. O território espanhol também passa por profundas crises que
inviabilizam a migração nesse período como as guerras carlistas.9
Na segunda metade do século XIX a necessidade de mão de obra nos
países latino-americanos juntamente com uma economia arrasada na Espanha
favorece os andaluzes a abandonarem seus pueblos. Como nas demais regiões,
a inexistência de uma reforma agrária que se absorve a população gerou uma
ao de obra excedente potencialmente migratória. Miséria, baixos salários e a
forte propaganda dos países latinos americanos impulsionaram, não só na
Andaluzia como em toda Espanha, o deslocamento populacional em larga
escala desse período. Países como Argentina, Brasil e Cuba, precisando de
mão-de-obra, traziam a promessa de melhores condições de vida a um cenário
de total depressão.
Essa necessidade de mão-de-obra por parte das nações americanas
emergentes acabou por virar um comércio muito lucrativo para as agências
de contratação que se instalaram tanto em portos andaluzes como por vários
portos espanhóis. Essas agências ganhavam incentivos econômicos das citadas
nações pata recrutar pessoas na Espanha e levar a América. Ganchadores, a
serviço dessas agências, iam aos pueblos do interior para fazer propaganda
da América e recrutar pessoas dispostas a tal aventura. Essa ação era comple
mentada com forte publicidade através de folhetos e anúncios na imprensa.
A proximidade com os portos, assim como no período colonial, é um
grande incentivo para migrar nesse período. Há também uma novidade no
destino desses andaluzes: o Brasil, especialmente São Paulo, que até então só

20
tinha recebido imigração espanhola pelo Rio da Prata. O final do século XIX
é marcado na história de São Paulo como ponto de uma volumosa migração
andaluza para trabalhar na cultura cafeeira.
Também por motivos ideológicos os andaluzes migraram. Liberais,
conservadores, carlistas, anarquistas, enfim, pelos mais variados motivos
migraram da região andaluza.

Cantábria
A atual Cantábria é uma comunidade autônoma monoprovincial com
caráter geográfico montanhoso, localizada no litoral do mar cantábrico, ao
norte da Espanha. Sua capital é a cidade de Santander.
Essa região era divida no século XVI em dois corregimentos: “Quatro Villas
da Costa do Mar” e “Reinosa”. Era conhecida por diversos nomes como Montañas
del Burgos, La Montaña de Santander ou simplesmente La Montaña. Até a
formação da comunidade autônoma atual o último nome foi o mais utilizado.
Não se encontra dados precisos sobre a população que habitava a região
nessa época. É estimado um número próximo de 120.000 habitantes sendo
uma área densamente povoada. No litoral se concentrava mais de 50% desse
número. Era aí que se encontravam as Quatro Vilas: São Vicente, La Barquera,
Santander, Laredo e Castina Urdiales. Essas cidades eram o pólo do comércio
artesanal mercantil, uma das mais importantes atividades da região.
A sociedade montanhesa era essencialmente fidalga. O esquema genera
lista tripartido comum para explicar as sociedades estamentais (nobres, eclesiás
ticos e plebeus) possuía um aspecto muito diverso na região. Ser nobre no geral
trazia uma série de privilégios que incluía livrar-se de serviços considerados
ordinários. Na Cantábria, porém, os fidalgos não perdiam seus status por traba
lharem em atividades consideradas camponesas. A maior parte da população
era fidalga, mas de pouca fortuna e o ato de migrar acaba sendo uma alternativa
com bastantes adeptos na esperança de melhorias financeiras.
A migração cantábrica para a América na época colonial foi expressiva.
Desde início da colonização estes cantábrios tomaram parte em tal empreendi
mento. Para explicar esse fenômeno podemos recorrer a fatores sociológicos,
como uma população que já tinha o costume de migrar para outras regiões,
possuía conhecimento marítimo e a fatores econômicos tal como a produção
agrícola baseada na unidade familiar que não conseguia sustentar a grande
quantidade de habitantes da região.
Na metade do século XIX em diante a alternativa de migrar começou a
ser ainda mais corrente. O crescimento populacional pressionou cada vez mais o
solo. A pressão fiscal, devido à falta de capital, provocou uma queda na já débil
produção agrícola. O artesanato, conforme já foi dito era a principal atividade da

21
região, quebrou com os fatores já anteriormente citados. A mão de obra ociosa
que se criou dessa crise não encontrou inserção na já precária indústria urbana
da região. Junto com esses fatores pode ser acrescentada a necessidade de fugir
do serviço militar obrigatório no inicio do século XX nas guerras na África.
É importante ressaltar que não se deve reduzir a migração cantábrica
somente a fatores sócios – econômicos, pois assim se esquece de uma das
maiores características desse povo: o espírito migratório. As montanhas cantá
bricas limitavam o número de habitantes que podiam se sustentar na região.
Para resolver isso era comum a migração rural intra-regional, aliviando assim
as fortes pressões demográficas. A cultura cantábrica de migrar para a América
acaba sendo muito forte na mentalidade desse povo.
É com todos esses dados apontados que a Cantábria se converteu de 1850
a 1950, numa das principais correntes migratórias para a América.

Catalunha
A atual Catalunha é uma comunidade autônoma situada no nordeste
da Espanha. Afirma sua identidade perante o Estado espanhol através de sua
história reconhecida em seu estatuto de autonomia. É formada pelas províncias
de Barcelona, Girona, Lérida e Tarragona tendo sua capital a cidade de Barce
lona, na província do mesmo nome.
Já na Alta Idade Média, recorte temporal que abrange os séculos V à X
d.C., a região da Catalunha começa a ter importância dentro da história européia
quando consegue independência do Império Carolíngio em 878-888 se tornando
um baluarte cristão contra a invasão muçulmana na península. A região virou
uma potência militar e política e é baseado nesse período que se formará, a
partir do século XIX, o nacionalismo catalão.
A região dominou o comércio marítimo no mediterrâneo durante a Baixa
Idade Média, recorte temporal que abrange os séculos XI à XV. A manufatura
de tecidos e a exploração das minas do Pirineus formaram as principais ativi
dades nesse período, tudo comercializado com várias regiões. A cultura erudita
catalã floresceu nessa época tendo os seus poetas sido apreciados por toda a
península.10
Sua independência política começa a se diluir a partir de 1410 quando o
então rei catalão Martín, “El Humano” morre sem deixar sucessores. Começou
então a Dinastia Castelã na Catalunha cuja figura mais conhecida é Fernando
II, o Católico. A partir desse período a Catalunha começa a ter caráter peri
férico na política espanhola. Na própria empresa colonial os catalães pouco
tiveram de participação ajudando somente com seus conhecimentos cartográ
ficos. Essa política de marginalização dos catalães dentro da península acaba
trazendo grande revolta do povo da região tendo o marco de saturação de tal

22
situação a tentativa castelã de impor a todas as regiões da Espanha suas leis.
Até então cada região tinha mantido suas formas de organização. Após uma
série de conflitos estabeleceu-se que os privilégios e as constituições castelãs
seriam mantidas.
Será somente na dinastia bourbônica na Espanha, já no século XVII, que
a região começou a se recuperar tanto economicamente como culturalmente.
Isso se deve muito a quebra do monopólio exercido por Sevilha e Cádiz. A
emigração catalã a partir daqui é comparada a migração de regiões como Anda
luzia ou País Basco. Catalães entraram em massa na América e Barcelona criou
no período um forte comércio com a mesma. A região no final do século XIX se
modernizou sua indústria e fortes movimentos operários surgiram com caráter
sindicalista-revolucionário.
No início do século XX se nota na Catalunha tentativas de independência
em relação ao Estado espanhol. Em 1923 se firma o pacto da “Tripla Aliança”
entre Galícia, País Basco e a Catalunha para lutar por suas respectivas indepen
dências. Em 1928 foi promulgada a República Catalã. O Estatuto da Catalunha
elaborado nessa época tentou reconhecer sua identidade frente ao estado espa
nhol. Acabou fracassando, pois o parlamento catalão era sempre freado pela
política de Madrid.
Republicanos e oposição ficam em conflito até que em 1936 os partidos
dos primeiros triunfam em todos os âmbitos políticos. O que se teve em resposta
a isso foram os movimentos reacionários militares de cunho fascista com a
ajuda de Hitler e Mussolini. Partindo de Marrocos, esse levante ficou gravado na
história mundial como a Guerra Civil Espanhola. Nos 32 meses que ela durou
o povo catalão lutou com todas as suas forças contra a frente de Franco. Com a
derrota dos republicanos mais de 100.000 catalães se viram obrigados a migrar
para a América ou para outros países europeus.

País Basco
O País Basco atual é uma comunidade autônoma localizada no extremo
norte da França. É composta por três províncias: Álava, Guizpoa e Vyzcaia.
Possuí sua própria língua, Euskara, e possui grupos separatistas radicais desde
o final do século XIX. O ETA, conhecido mundialmente por suas ações, faz parte
desse ramo de cunho separatista tendo sido fundada em 1959 em plena dita
dura Franco.
No final do século XV a Coroa espanhola incorporou as três províncias
bascas. Porém, mesmo com a dominação da Coroa mantiveram os seus próprios
regimes forais.
É necessário destacar que nesse período todos os bascos possuíam a
condição de fidalgos concedida por real provisão em 1590. Logo, na região

23
basca a hierarquia social não se dava judicialmente mas sim economicamente
pois, assim como na Cantábria, o fato de se dedicar ao trabalho não diminuía a
condição de nobre que em realidade era comum a todos.
Outras características históricas da região podem ser ilustradas através
das atividades econômicas exercidas pelos bascos no período colonial. Vizcaya
e Guizpoa viviam com o comércio marítimo no mar cantábrico. A deficiente
produção agrícola dessas duas províncias praticamente obrigava essas a
completar suas economias através dessa atividade. A lã castelã, o ferro basco e
o azeite e o vinho andaluz era à base dos intercâmbios marítimo – comerciais
entre bascos e o norte da Europa. Já Álava contava com uma agricultura diver
sificada que, quando podia, exportava seus excedentes.
O ferro, já citado anteriormente, era importantíssimo para a região.
Principal produto de intercâmbio da economia basca, o ferro era encontrado
em abundância nas bordas dos rios. Quase toda a produção desse setor desti
nava-se ao mercado externo para suprir as demandas internas. Todo o ferro
utilizado pela hipano-América provinha da região, graças à exclusividade
concedida pela Coroa em relação ao comércio na colônia, só para se ter idéia
do quanto essa atividade era importante para os bascos durante o período
colonial.
O anteriormente apontado comércio marítimo, que os bascos mantinham
com o norte europeu, permitiu o desenvolvimento de uma poderosa indústria
naval com altos níveis de qualidade. Juntamente com os portugueses, os bascos
eram conhecidos no início da Idade Moderna como os melhores construtores
navais da Europa. Essa indústria mantinha-se principalmente pela abundância
de madeira que havia na região.
Como um povo de grande conhecimento marítimo e também pela alta
densidade populacional que já assolava a região nessa época os bascos tiveram
grande participação no empreendimento colonial. A caravela de Santa Maria,
uma das três utilizadas por Colombo em sua primeira viagem, foi construída
em Vizcaya. Muitos vieram para América nesse período como marinheiros ou
militares.
O início do século XIX é marcado pela independência da América do
domínio espanhol. Esse acontecimento foi um duro golpe para a economia
basca. O setor siderúrgico acabou ruindo frente às inovações da Revolução
Industrial. A introdução de cultivos americanos na região agravou a já alta
densidade demográfica do povo basco. A falta de trabalho, ocasionada pela
quebra de setores fundamentais que se sustentavam através do sistema colo
nial, tornou crítico o cenário basco. Soma-se a isso o fato de a região ter sido
o palco principal das guerras carlistas. Esses fatores impulsionaram uma forte
onde de migração, no período.

24
No século XX o que marca a região basca é a ofensiva franquista em
1937 com o bombardeamento de Guernica.11 Esse vilarejo era tido como sagrado
pelos bascos e foi onde aconteceu o maior bombardeio que o homem já havia
realizado até então. O desfecho final da Guerra Civil Espanhola, com a vitória
de Franco, provocou a expatriação de ativistas republicanos, tanto políticos,
militares e civis. Os franceses tiveram grande simpatia pela causa dos bascos.
Vários órgãos foram instituídos no auxílio a esses, tanto pela aproximação
geográfica quanto pela aproximação político-religiosa. Foi na França que se
formaram os primeiros centros de refugiados bascos. Em 1937 organizou-se o
“Comitè National Catholique D’Accuel de Paris”. Em 1938 se constituiu a Seção
Francesa da Liga Internacional de Amigos Vascos. Essas organizações ofere
ceram cobertura legal a gestão desempenhadas pelos governantes bascos no
exílio além de serviços beneméritos.

Galícia
A Galícia é atualmente uma comunidade autônoma que afirma sua iden
tidade nacional através de sua ancestralidade celta. Divide-se em cinco provín
cias: La Coruña, Lugo, Ourense e Pontevedra. É nessa ultima que se encontra a
capital galega, a cidade de Santiago de Compostela.
Analisando a região a partir do século XV se percebe importantes
mudanças políticas, sociais, demográficas e econômicas em relação aos tempos
medievais que fixaram as bases sobre a qual a Galícia se sustentou durante toda
a Idade Moderna, recorte temporal que abrange do final do século XIV até o final
do século XVIII.
Com o fim da Guerra Dinástica e a ascensão de Isabel à Coroa a Galícia
se submete a uma racionalização administrativa e política para tentar superar
as sérias limitações que a região possuía no período medieval. Mesmo assim
a participação galega na política hispânica e conseqüentemente no empreen
dimento colonial foi pouco sentida na colônia. Esta condição periférica, que
perdurou até o século XVII, não pareceu preocupar as instituições galegas devido
ao silêncio que mantiveram perante tal situação.
A afirmação de que os galegos tiveram pouca participação na América
colonial é então correta, porém, o contrário não. Os produtos agrícolas ameri
canos tiveram grande êxito em solo galego devido ao clima da região. O milho
virou a base da dieta camponesa galega e contribui para um crescimento demo
gráfico de mais de 40% entre 1600 a 1700.
A partir do século XVII algumas medidas começam a ser tomadas por
conta dos galegos na tentativa de sair da posição marginal que se encon
travam. Tentou-se obter o monopólio do comércio com o Mar do Sul, composto
por Buenos Aires, Chile, Lima e Potosí, com o pretexto de melhorar a economia

25
Uma festa em terras distantes.
Arquivo família Iugueroz.

galega. A região não conseguiu tal privilégio devido ao monopólio exercido por
Sevilha e Cádiz no comércio marítimo colonial.
Com a liberação do comércio com a América para todos os portos no final
do século XVIII a região galega se ativa economicamente através do porto de
La Coruña. Apesar do antigo sistema de colônias já denunciar sua decadência,
nesse período criou-se na Galícia toda uma infra-estrutura portuária para o
comércio colonial. Para competir com os outros portos, La Coruña aumentou
sua exportação têxtil em detrimento de outros produtos galegos. A região focou
se nessa atividade. O grande problema surgiu quando o mercado da América se
saturou desse produto devido a grande oferta. Isso gerou uma crise econômica
muito forte na Galícia do início do século XIX. As alternativas encontradas
para essa crise foram o tráfico negreiro e as atividades corsárias.
É no século XIX que se tem o que é considerado como “a grande
migração galega”. A excessiva subdivisão da propriedade, os altos impostos
que a produção camponesa não cobria e a falta de créditos agrícolas pode ser
considerada como fatores que impulsionaram um grande volume de galegos
migrarem para a América. Não se pode esquecer também da alta densidade
demográfica que já se observou desde o século XVI, tornando-se a Galícia no
século XIX a região mais povoada da Espanha e sem estruturas para tal. A
emigração galega acaba por personificar um papel fundamental para frear todo
esse crescimento. A não industrialização também é um fator importante para
a grande migração, pois a luz das grandes revoluções industriais, a Galícia
ainda se baseava numa proto-indústria artesanal. Não havia como competir
com o mercado mundial com uma forma tão precária de produção o que fez
essa atividade cair em profundo declínio gerando altas taxas de desemprego.
Esse problema continua no século XX. O serviço militar obrigatório também
deve ser considerado pois estimulava os jovens a migrar fugindo das cons
tantes turbulências do cenário espanhol.

26
Não destoando do resto da Espanha, o primeiro terço do século XX foi
a época de maior emigração da região pelos motivos já apontados e também
pela iminência das grandes guerras.
Enfim, considera-se que a singularidade da formação espanhola explica
a persistência de significativos traços culturais que os diferentes grupos étnicos
espanhóis mantêm na distância do ato fundante da partida desde a Espanha
e sua inserção na sociedade nacional brasileira, em geral e em particular na
cidade de Porto Alegre.

Notas do capítulo
1Utilizou-seno texto a convenção “movimentos migratórios” para caracterizar tanto os processos
de emigração como de migração. Dessa maneira e apenas para melhor entendimento de situações
muito específicas utilizou-se emigração para saída da Espanha, e imigração para a chegada dos
espanhóis em outros países nos quais ocorreu sua recepção, como o Brasil.
2SIMMEL, Jorge. Sociologia: studios sobre las formas de socialización. Buenos Aires: Espasa-Calpe, 1939.
3 Data dos séculos XV e XVI as revoltas regionais contra os reinos unidos: o regionalismo contra o
centralismo. Ver BEEVOR, Antony. A batalha pela Espanha: a guerra civil espanhola 1936-1939.
Rio de Janeiro; São Paulo; Record, 2007.
4 Durante o domínio da República da Frente Popular algumas demandas internas fora atendidas.
“(...) a república tentava realizar em poucos anos um processo de reforma social e política que
levara quase um século em outros lugares”. Dentre as demandas que foram enfrentadas, destaca
se o quadro interno de analfabetismo, estrutura agrária dominada pelo latifúndio com grandes
áreas improdutivas, onde os pequenos proprietários convertiam-se em trabalhadores sazonais
para complementar a renda, sendo que nos centros industriais como Bilbau e Barcelona os operá
rios competiam no mercado com migrantes rurais, pelos baixos salários. A autonomia das regiões,
com o direito à língua seriam o colorário da política cultural proposta. Ibidem. p. 26.
5 Política espanhola. Correio do Povo. Porto Alegre. 10 jan. 1931.
6 Lutou na Espanha. Correio do Povo. Porto Alegre. 2 fev 1940.

7CERQUEIRA, João Francisco Delgado. Arte eliteratura na guerra civil de Espanha. Porto Alegre: Zouk, 2005.
8CHACON, Vamireh. A grande Ibéria: convergências e divergências de uma tendência. São Paulo:
UNESP; Brasília: Paralelo 15, 2005.
9 A Reconquista da Espanha das mãos dos mouros iria configurar a estrutura social do país em
três linhas de forças antagônicas: os interesses de classe, o governo autoritário contra o instinto
libertário e o governo central conta as aspirações regionalistas. O que foi conhecido como as
“Guerras Carlistas” teve como base de apoio principal os pequenos proprietários dos Pirineus de
Navarra defensores de crenças religiosas rejeitando a modernidade que se implantava no início do
século XIX. Esse movimento carlista se perfilava nas disputas do trono espanhol de acordo com
seus interesses. Ver BEEVOR, Antony. A batalha pela Espanha: a guerra civil espanhola 1936
1939. Rio de Janeiro; São Paulo; Record, 2007. p. 39-48.
10
Como os trovadores que se destacam: Cerverí de Girona, Guillem de Cervera, el rey Alfonso el
Casto, Ramon Vidal de Besalú, Berenguer de Palol, Guerau de Cabrera, Guillem de Berguedà, Ponç
de la Guàrdia, Guillem de Cabestany, Huguet de Mataplana e Jofre de Foixà.
11
O propósito da Confederación Nacional de Trabajo (confederação anarco-sindicalista) e a Federa
ción Anarquista Ibérica (puristas anarquistas) nessa região era unir a siderurgia e a indústria para
efetuar uma reconversão industrial para fabricação de armamentos e material bélico.

27
C artografias e Itinerários
Desde 2007, busca-se compreender para
ressaltar a presença espanhola em Porto Alegre.
Extremamente óbvia, pode-se argumentar,
se esse olhar interessado, de pesquisador
ou viajante atento iniciar pelo ponto zero
do Município, a Fonte Talavera de La Reina,
soberba, em frente ao Paço Municipal.
À exaustão, a história urbana de Porto Alegre
conta como esse patrimônio arquitetônico,
hoje já assimilado à paisagem, é decorrente de
homenagem da Colônia espanhola fixada no Rio
Grande do Sul, por ocasião dos comemorativos
da Revolução Farroupilha, em 1935.
it
s
u
i
G
o
d
r
a
ci
R

...o presente dos espanhóis para a cidade.


a fonte talavera, 1935. Acervo PMPA, 2008.

O mais notável do percurso do texto de memória social produzido – e aqui


é a vantagem perspectiva dos bastidores da pesquisa –, é perceber por detrás
dessa obviedade, como pouco é identificado como instituinte dessa presença
estrangeira. Ao contrário de outras etnias que “fizeram” Porto Alegre, como
a alemã e a italiana, a espanhola tem um modo de contribuição sui generis.
Capturar essa singularidade é tarefa da insistência e de fina leitura da sensibi
lidade. Como disse Fernando Pessoa: “não se traz uma sensibilidade de época, e
sim uma inteligência de época”.
A primeira surpresa deve ser registrada. Partia-se do senso comum, base
do conhecimento ainda não questionado, de que o espanhol no Rio Grande do
Sul, em especial o da capital, teria laços quase orgânicos no sentido gramsciano,
com os países do Prata dada a dominação hispânica do período colonial. Afini
dades que iniciam pela lingüística e afirmam o caráter intercultural hispânico.

30
Essa foi a primeira das obviedades desconstituídas e gradativamente
apagada do próprio roteiro de pesquisa, o Guion da história oral produzida
com as fontes orais. Sim, para quem desconhece, há um roteiro prévio para uma
entrevista que se dá segundo a metodologia de história oral. A questão era em
termos aproximados, assim proposta: “Você percebe alguma diferença em ser
migrante espanhol, ou seu descendente, no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre
– em relação aos demais estados do país, dada a proximidade com os países do
Prata?”
Tal como a presença assimilada da Fonte Talavera, essa proximidade não
constitui hoje um traço marcante como terá sido para os primeiros coloniza
dores do Estado, no tempo das disputas territoriais, do desenho administrativo
conquistado palmo a palmo. Compõe a formação histórica do Rio Grande do Sul,
tal como se conhece na historiografia contemporânea, mas não cruza cultural
mente, em princípio, com a maioria das histórias de vida dos entrevistados.
A estrangeiridade, o pertencimento europeu, é mantida, revisitada e refe
renciada pela terceira e quarta geração, mais interessada na crescente inserção
da Espanha moderna na comunidade européia e na possibilidade de fazer parte
desse momento. Bolsas de estudo, intercâmbios culturais, trabalho fazem parte
desse imaginário. Corroborando o que se afirma, alguns dos entrevistados
sequer cruzou a fronteira Brasil-Uruguai, Brasil-Argentina, repetindo o padrão
de distanciamento dos brasileiros em relação à América hispânica. Como disse
um entrevistado: “nós (os espanhóis) na América Latina, somos considerados os
colonizadores, tal como os portugueses no Brasil”. De acordo com Hélios Puig,
um dos entrevistados, “Quando se visita os países como o Peru, por exemplo,
percebe-se como não há interação entre a elite dos espanhóis e a sociedade
indígena”.
Buscar, pois, a presença espanhola em Porto Alegre, é ir deixando no
caminho o modo tradicional de incorporar esse imaginário ao sistema de repre
sentações sobre si e sobre os outros, tal como perfazem os estudos interculturais
migratórios mais afinados com o movimento teórico atual.
Outras narrativas podem reconfigurar uma história vista desde o tempo
presente, ponto zero da história oral, e desse modo revolucionar a memória
social de uma cidade.
O efeito das entrevistas sobre os próprios entrevistados foi notável e
merece demorar-se aqui. Além da busca de documentos de família, apresentados
no momento das entrevistas (em média de uma a duas horas de gravação),
algumas foram realizadas na presença de parentes próximos.
O que se assistiu foi à recomposição da memória familiar filtrada pela
experiência dos mais jovens, sobre o tecido das histórias dos mais idosos,
que tinham, em média, 79-89 anos. Ruim para a degravação, ótimo para o

31
espetáculo da performance da história oral. Por exemplo, quando se pergunta
(seguindo o Guion): “Dona Carmen, a Sra. nunca sentiu o desejo de retornar à
Espanha?” “– Não”, disse taxativamente, enquanto a filha Elisa fazia sinais
afirmativos. Extensões saborosas que o pesquisador atento com a gestualidade
exuberante da estrita oralidade e de sua cristalização na escrita sabe aproveitar.
Esse episódio é exemplar das ambigüidades e silêncios expressivos encontrados
durante a realização das entrevistas, conforme a extensa bibliografia sobre os
usos da história oral.
Essa modalidade de entrevista, diga-se grupal, é mais complexa uma
vez que vários narradores se sobrepõem. Uma vez estabelecida a polifonia e
o controle discursivo, o foco se dispersa. O que só contribui para enriquecer a
situação de entrevista, ao deslizar da relação entrevistado-entrevistador, para
um terceiro, testemunha da testemunha e que busca agregar sua narrativa, na
narrativa do outro.
Sem dúvida, o efeito de uma história oral temática combinada com a
história de vida como a realizada envolve recortes narrativos. Em se tratando
de migrações, a gênese alcança nesse trabalho, no máximo, quatro gerações
como os bisavôs aqui chegados em Porto Alegre nos últimos anos do séc. XIX.
A história partilhada entre os dois continentes, os capítulos descritos na histo
riografia oficial sobre as disputas da península ibérica e alternâncias das dinas
tias, confrontadas na história da vida cotidiana, adquire uma dimensão mais
humana, talvez.
Esses migrantes estabelecem diásporas que possuem a possibilidade de
serem refeitas ao longo de séculos. Aquele bisavô que levou quarenta anos para
rever a mãe de uma das entrevistadas, deixada lá, na Espanha, tinha como teste
munha da separação, cartas, fotos, objetos. À luz de uma presença espanhola na
cidade de Porto Alegre, esses objetos-documentos estiveram nas múltiplas casas
e, como relíquias, foram trazidos durante a situação de entrevista.
O mais tocante estava por vir: durante as gravações, o ir e vir de objetos
entremeados durante a fala recompuseram o que é próprio da narrativa, ou
seja, um texto significativo, plausível, coerente. Objetos e oralidade soldaram
as gerações que desfilaram nas histórias familiares, como um ato de mútua
confirmação da veracidade.
Algumas datas mencionadas podem não ser precisas, alguns lugares lá
na Espanha não existem mais, a memória seletiva já eliminou muito material
ou porque desinteressante mesmo, ou muito doloroso. “Já não lembro mais”
pode ser traduzido numa leitura psicanalítica em diferentes ângulos. Em estudos
migratórios, muitas e muitas vezes querem afirmar o “não quero lembrar”,
metalinguagem protetora de um ego estilhaçado pelas guerras, pela fome, pelas
perdas afetivas.

32
Essas perdas, no entanto, devem ser ressignificadas para reaparecer
na auto-representação, nas biografias das decisões acertadas, ou mesmo de
ausência de alternativas. Tais como aqueles migrantes que não puderam mais
voltar. O Brasil então como promessa não-cumprida, que se traduz nas gerações
recentes no desejo do caminho de volta. Ou a busca pelo domínio lingüístico,
perdido no esforço da integração e da subsistência na vida urbana, para se
reinscrever na história européia atual, como que atualizando a saga familiar.
Buscar o “ser espanhol em Porto Alegre” requer, pois, recompor os mitos
familiares também. O que é mesmo que aquela avó fazia que era traço cultural
espanhol? Estaria nas festas familiares, quando ela dançava, feliz, com as casta
nholas? Ou reservaria espaço de memória identitária no ensopado, na paella na
sangria, domínio da vida privada? Estaria na família “o ser espanhol?”.
Ou mais, na freqüentação da Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos
de Porto Alegre, lá na Andrade Neves, ou na sede campestre Recanto Espanhol,
lá na zona Sul da cidade, no Guarujá, hoje quase abandonado, ou integrar as
excursões para a praia, para a serra? Quem sabe participar das festas regionais
na “Casa de España”? Mas essa sociabilidade teve seu preço, dada a cisão ideo
lógica que anunciava a frequentação de uns e não de outros em espaços defi
nidos na Espanha, em suas lutas internas desde o século XIX, tendo seu pico na
Guerra Civil de 1936-1939.
Houve aqueles que para não se perfilarem em campos definidos, ausen
taram-se da sociabilidade pública. Difícil costura, apenas recentemente recom
posta pelo desejo de exercitar uma comunidade de destino. Um exercício de cida
dania intercontinental, “ser espanhol” e ser brasileiro.
Muitos entrevistados, os chegados por volta de 1950, em plena adoles
cência ou mais jovens ainda, já empalideceram esses registros de uma vida na
Espanha. Graças à manutenção de correspondências, visitações, acrescida hoje
pela facilidade das comunicações, podem revisitar os lugares de seus pais e
avós. Se têm sorte, encontram os lugares narrados tal como retém na memória
mítica, a solidarizar os tempos. Então se tem os relatos de camponeses galegos
pastorando ovelhas. Outros reencontram a modernidade de Barcelona recons
truída pós-guerras. Aliás, a preferida entre os jovens descendentes, competindo
com Madri nessa opção migratória ou apenas turística. Será que Barcelona, ou a
Galícia, ou Madri, ou a Andaluzia melhor representam a Espanha?
Presença espanhola em Porto Alegre? Quem sabe começar pelos próprios?
Ou pelo suporte das memórias dessa presença retido naquilo que constitui a
memória social dos filhos, netos, bisnetos?
Os entrevistados são homens e mulheres cinzelados por vidas do trabalho:
arte, urbanismo, psiquiatria, confeitaria, engenharia, secretaria, donas-de
casa; este foi o caleidoscópio resultante da história oral produzida. A intenção

33
expressa é a de trazer a multiplicidade das trajetórias de vida de migrantes e
seus descendentes. Olhar Porto Alegre pelas lentes dos pertencimentos atraves
sados pelo cruzamento do Atlântico em temporalidades distintas.
Uma explicação necessária: a oralidade foi sacrificada ao estilo narrativo
convencional da língua escrita, uma vez que o objetivo é o da comunicação.
Os próprios entrevistados podem não se reconhecer como sujeitos da vocidade
espontânea da situação de entrevista. O que se espera é que se verão na integra
lidade de seu discurso. Portanto, tomou-se a liberdade de substituir verbos e seu
tempo verbal, pronomes e eliminou-se a maioria das expressões idiomáticas.
Editaram-se as narrativas em nome da recepção do leitor. Na íntegra, as entre
vistas (fitas) estão depositadas no CPH. Esse compromisso é o primeiro da ética
da história produzida pela história oral. A leitura de si pela pessoa entrevistada,
em trabalhos desse gênero, expõe na narrativa, a busca da tradução do sensível
na experiência da imigração e da diáspora.
Como disse uma das entrevistadas: “depois que eu fui me dando conta,
quando entrei no colégio aos seis anos, com apenas três anos que eu tinha
imigrado como a imigração é um processo extremamente doloroso, de um
arrancamento de raízes, de perdas, de perdas de amigos, de perdas de casas,
de perda de tudo”. O “dar-se conta” remete sempre à identidade e ao trabalho
da memória (Olga).
Os estudos migratórios e interculturais, na atualidade, buscam os modos
de transcrição cultural desses processos de desterritorialização, dessas diás
poras, retendo não mais a cópia, o simulacro, a influência no país de recepção,
e sim a originalidade, os processos híbridos de como essas culturas puderam
acontecer nos mais distintos cenários humanos.
A memória tem um papel fundamental na configuração das identidades,
ainda mais se o ponto de partida é a oralidade, a perspectiva desde o presente,
revolvendo o material do que se entende como passado, coletivo e individual
– impossível distinguir. Os entrevistados foram confrontados com as perguntas
sobre essa presença espanhola na cidade. Em última análise, sugeria-se uma
avaliação pessoal do que pode ser entendido com o trabalho da ressignificação.
Nesse sentido, o domínio público e o privado confundem-se. Mesmo que
os processos migratórios estejam sempre à mercê das oscilações das relações
internacionais e suas políticas (muitas vezes a ausência de), a cada conjuntura,
a dimensão concreta força passagem pelas circunstâncias individuais. Mesmo
grupos que se formam apenas na cidade de adoção constituíram suas identi
dades ditas étnicas conforme as condições de sobrevivência e a luta de impo
sição social requerida. As biografias buscam confirmar as trajetórias.
Já pelo ângulo da sociedade/cidade de adoção, a construção simbólica
das categorias de designação étnica auxilia na dinâmica societária que permite,

34
pela rotulação do que lhe é estranho, estrangeiro, definir, enquadrar e sujeitar
ao campo do socialmente seguro.
A confluência desses dois processos define os marcos gerais da reconfi
guração que a pessoa entrevistada efetua, ao proceder à leitura compreensiva
e interpretativa da presença espanhola na cidade de Porto Alegre. Em muitos
momentos da entrevista, a narrativa deteve-se nos modelos de transformação
e, simultaneamente, de continuidade cultural do que considerava característico
de sua região, Galícia, Andaluzia, Catalunha e assim por diante. De modo que
essa “presença espanhola” pode ser recolhida nos mecanismos culturais para a
regulação da vida social, tanto quanto na materialidade e na imaterialidade dos
modos de tradução estética mais ampla.
Adequaram-se metodologias e técnicas da pesquisa histórica aos limites
temporais e físico-financeiros. A pesquisa bibliográfica, momento inicial e
fundamental da pesquisa, foi realizada junto às bibliotecas universitárias, Insti
tuto Cervantes de Porto Alegre, Consulado Espanhol, o acervo Fundação Educa
cional João Puig Elias e demais centros de estudos universitários. O acesso a
Internet tem sido valioso complemento, na medida em que a maioria dos textos
não está publicada na versão usual. O trabalho junto ao Arquivo Público, Museu
de Comunicação Hipólito da Costa e Associação Comercial foram valiosos para a
concretização da pesquisa. Concluiu-se essa etapa com um censo aproximativo
dos fluxos migratórios disponíveis e uma historiografia breve sobre o processo
migratório e suas conjunturas críticas, tais como a Guerra Civil Espanhola e o
período pós Segunda Guerra-Mundial.
A elaboração, realização e interpretação hermenêutica das entrevistas
de história oral temática foram decisivas para a reconstituição da presença
dessa etnia na Cidade. O número expressivo levou em conta a disponibilidade
do entrevistado(a), sua inserção social e expressividade. Objetivou-se observar
alguns parâmetros que regem a prática internacional da história oral realizada
no âmbito dos estudos migratórios.
O imaginário da migração é constructo social, podendo ser objeto histó
rico singularizado. Isto é, embora envolva uma expressiva densidade numérica,
fazendo-se aos milhares, nenhuma história de imigrante é generalizável. As pers
pectivas narratórias, sempre recorrentes em estudos migratórios, mais que preen
cher as lacunas do conhecimento demográfico, econômico, etc, conferem signifi
cado ao processo como um todo. Os números são aproximativos, as estatísticas
são falhas, carregadas de classificações pouco confiáveis. Nomes e sobrenomes
perdem-se na burocracia ou são adulterados por conveniências conjunturais. A
história oral compareceu como a possibilidade metodológica mais apropriada
para dar conta dessas perspectivas, em que se buscou a singularidade dessas
trajetórias de imigrantes, meio para alcançar a subjetividade social.

35
A mericanidade | Hispanidad
As narrativas dos migrantes
falam da Hispanidad.
Teria paralelos com a germanidade
ou com a italianidade determinando
matrizes de imposição simbólica
de diferenciação?
O problema substantivo, conceitual e histórico imediato a ser enfren
tado sobre a imigração espanhola no Brasil é que a construção identitária desse
migrante é atravessada pela condição histórica da colonização portuguesa e a
sustentação dessa no quadro do Antigo Pacto Colonial desde o século XVI. A
tarefa foi grandiosa, uma vez que a América, no horizonte Europeu, ao tempo
das grandes narrativas, foi discursivamente apresentada como o Novo Mundo.1
Entre o desmoronamento do Pacto e o período das grandes migrações
européias com destino às Américas, decorreu a formação das nacionalidades
americanas com a independização das colônias.
Em meio às disputas entre as coroas da Península Ibérica, os reinos de
Portugal e Espanha, produziu-se um imaginário. Esse imaginário foi elaborado
pelas elites intelectuais e iria inscrever-se e naturalizar-se como parte instituinte
da identidade social também do migrante, o mais das vezes sujeito passivo dessa
elaboração histórica. A América foi parte da projeção da dominação do Império
Espanhol, e sua contrapartida é o que fazer, hoje, com o projeto hispano-ameri
cano que embalou o tempo das grandes migrações e o os modos de inscrição na
nova sociedade.2
Para Nuria Tabanera Garcia, a reflexão intelectual constituiu representa
ções, ideologias e discursos críticos que remontam ao medievo e apontam ligações
entre as leituras sobre a América a partir dos distintos projetos de nação que
têm sua origem na Espanha. De modo que a concepção da identidade nacional
é o resultado dessa reconstrução como uma releitura da história espanhola e da
história da Espanha na América.
A identidade nacional espanhola seria uma síntese das noções de ser,
simultaneamente, um Estado, uma nação política e uma nação cultural, produto
de uma:

“acción, bastante exitosa, por cierto, aunque com fuertes contestaciones, del
Estado moderno castellano de difusión e imposición de uma consciencia de
identidadad e pertenencia suprema” isso com a finalidade de assimilar a nação
cultural castellano-espanhola com uma nação política onde é coincidente o
âmbito estatal.3

É preciso, segundo ele, reportar-se para a unidade política sob os Reis


Católicos, no medievo, em que alguns, consideram a presença de uma consci
ência nacional como produto da expansão do Estado castelhano, “que ya em el
siglo XVIII integró y absorbió a los demás”. P. 118.
A conseqüência é que desde as Cortes de Cádiz, sob a influência da Revo
lução Francesa, a Espanha colocou como programa a adoção de uma concepção
civilista de nação, isto é, uma comunidade de leis que obriga os cidadãos serem

38
dança, Uma tradição cUltivada.
Teatro da OSPA, década de 1980. Acervo do Centro Espanhol de Porto Alegre.

conforme a vontade nacional geral e soberana. A comunidade espiritual com a


predominância da raiz castelhana solidarizou distintos projetos ideológicos.
Para essa linha de pensamento a América se apresentava como um “mito
compensatório” por onde esses projetos, tão distintos, abrigavam amplas expec
tativas. Desse modo, a América sempre esteve no pensamento espanhol como
um imaginário constituído de imagens, idéias e representações coletivas solida
rizadas pela projeção da nação espanhola no mundo desde 1492.
Em 1898, quando ocorre a perda das últimas colônias americanas, mani
festam-se pessimismos consoantes com sentimentos de perda da projeção da
Espanha na civilização moderna. Une-se ao desastre colonial a noção de deca
dência nacional, dando vazão a movimentos intelectuais. Na segunda metade
do século XIX duas visões da Espanha predominam e, com elas distintos papéis
definidos para a América: o pan-hispanismo, que joga para a América um
imaginário de afirmação nacionalista e o hispano-americanismo progressista,
segundo o qual a América seria um estímulo para a modernização do país. Deri
vado do pan-hispanismo unificador do catolicismo e do nacionalismo, nos anos
20 pode ser situado el ideal de la Hispanidad, como pretexto para defender uma
ideologia reaccionaria, lhamado a durar más de lo esperado4. Assim é que:

39
mediante uma profunda revisión histórica, centrada em la revalorización de los
ideales misionales de la España del siglo XVI y la censura de los principios del
liberalismo, Maeztu y sus seguidores construyeron el mito de la hispanidad para
reivindicar la ideologia tradicionalista y su expresión política, en clara oposición
a la España republicana, culminación de los errores y las desviaciones de los
siglos pasados. El mito del imperio, de la conquista y la colonización espanõla
serán integrados en el pensamiento falangista y, posteriormente, franquista.5

A conclusão para ele é tentar entender o que teria ocorrido entre a


mensagem de Franco à América desde Zaragoza, em 12 de outubro de 1939.
Naquela oportunidade saudava a la comunidad hispánica porque ella nos podrá
servir un día a todos de potencia y honory a ninguno de vilipendio compara
tivamente ao discurso do Rei Juan, Carlos, na sua proclamação como Chefe de
Estado em 22 de novembro de 1975:

España es el núcleo originario de una gran familia de pueblos hermanos. Cuanto


suponga potenciar la comunidad de intereses, el intercambio de ideales y la
cooperacíon mutua es un interés común que debe ser estimulado.6

Desse modo, continuaria a América desde o século XIX, sendo o mito


compensatório do horizonte espanhol. O que fica evidente nessa breve apre
sentação da história das idéias é como a criação de um imaginário ideal sobre
a América conserva profundas raízes desde o feudalismo e como de certo modo
está subjacente ao discurso contemporâneo.
Quando os espanhóis comemoram a hispanidad, alguns conteúdos desse
imaginário podem estar presentes e devem ser mais bem examinados em estudos
posteriores.

Notas do capítulo
1A bibliografia é imensa. A começar pelos estudos pós-coloniais inaugurados por SAID, Edward W.
Orientalim. London: Routledge & Kegan, 1978. Ver, entre outros, NOVAIS, Adauto. A descoberta do
homem e do mundo (Org.) São Paulo: Companhia das Letras, 1998; TODOROV, Tzvetan. A conquista
da América: a questão do outro. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
2 GOMEZ-MARTINEZ, Luis. Mestizaje y Frontera como categorias culturales iberoamericanas. Estú
dios Interdisciplinares de América latina y el Caribe. v. 5. n. 1. Enero- Junio, 1994. Disponível em:
http://www.tau.ac.il/eial/V_1/martinez.htm. Acessado em: 16/01/2007
3 GARCIA, Nuria Tabanera. El horizonte americano en el imaginário español, 1898-1930. Estúdios

Interdisciplinares de América latina y el Caribe (EIAL). v. 8, n. 2. jul/dez, 1997. P. 2. Disponível em:


http://www.tau.ac.il/eial/VIII_2/garcia.htm. Acessado em: 16/01/2007.
4 Ibidem, p. 15.
5 Ibidem, p. 15.
6 Ibidem, p. 23.

40
U ma periodização possível

Os estudos migratórios seguem


paradigmas sociológicos e atendem ao hábito de
conhecer o mundo pelo procedimento científico,
tais como ordenar e classificar.
Portanto, costumam principiar com
generalizações. A premissa é a de que o ato
de migrar, embora quase sempre uma decisão
individual e autônoma, liga-se a uma série de
predisposições sociais. Daí nascem às tentativas
de periodização das correntes migratórias, como
a realizada para a Espanha para o século XIX
proposta por Demétrio Ramos Perez.1
É preciso inserir a perspectiva histórico
política nos marcos classificatórios, o que cada
estudo mais regionalizado faz, quando consegue
adensar a perspectiva generalizante.
a saUdade nos registros familiares.

Essa periodização está subdividida em seis fases: 1. a “fase da emigração


conspiradora”, na qual a predominância dos fatores políticos decorrentes da
situação européia impulsionaram a emigração de espanhóis, principalmente,
para a Inglaterra e França; 2. a “fase da emigração dirigente”, em direção agora
também para o México; 3. a “fase da emigração adaptável”, já trazendo os
traços da presença de agricultores pra a América, com destaque pra a Venezuela,
por conta da cisão com a Gran Colômbia; 4. a “fase da emigração forçada”,
em meados do século XIX, quando prisioneiros são enviados principalmente
para a Cuba e Porto Rico, na condição de colônias de Espanha. 5. a “fase das
contratas”, um sistema de contratações em massa efetuada pelo Equador, como
levado a efeito no Brasil, geraria abusos por parte dos contratadores; por fim a
prevalente até o momento, denominada “fase das emigrações abertas” quando
se suspendem as sujeições anteriores.2
Destaca-se como a suposta predisposição de políticas migratórias decorre,
a cada conjuntura, mais da soma de interesses tanto pelos estados “expulsores”
como “receptores” de mão-de-obra que da mera receptividade das sociedades. A
tessitura de atos dispositivos que facilitam o processo, pelas isenções de taxas
e facilidades de recrutamento, tais como embarque, as condições da viagem e
destino dos espanhóis ficaram invariavelmente à mercê das oscilações econô
micas e políticas de cada país, independente do continente. Políticas de governos
aliaram-se aos interesses de companhias de navegação, de colonização e de
grandes proprietários.

42
A Real Ordem de 12 de janeiro de 1865 disciplina na Espanha, o fluxo
migratório para os países como o Brasil, ainda que em 1910 outro Real Decreto
de 26 de agosto venha a proibir a viagem gratuita. Essa última restrição força
as companhias de navegação a não mais realizarem contratos de transporte em
massa. A partir de então os imigrantes custeiam suas próprias passagens, ou
seus parentes emitem as “cartas de chamada”, prática comum observada na
emigração de italianos, pelo Decreto Prinetti de 26 de março de 1902. Ainda
assim, pelos cálculos de Peres chegam para as Américas em torno de 300.000
emigrantes, apenas entre 1882 a 1900.
Acrescente-se, para o caso brasileiro, a resistência lingüística que os espa
nhóis precisam superar, pois a afinidade lingüística, razões econômicas e fami
liares fizeram convergir a maior parte dessa emigração para os países colonizados
pela Espanha, como México, Venezuela, Colômbia, Argentina e Uruguai, além da
atração pelos Estados Unidos da América e Canadá. Apenas para a Argentina
aportaram, do final do século XIX ao início do século XX, mais de dois milhões de
espanhóis, enquanto que o Uruguai recebeu, no mesmo período, cerca de 500.000
deles. Esse movimento foi, para muitos espanhóis, a transição da emigração que
apenas se completaria no Brasil. O que só aumenta a dificuldade sobre a nitidez
dos censos demográficos disponíveis dessa migração em particular.
Fatos em especial afetam a emigração espanhola já nas primeiras décadas do
século XX, incorrendo em sua diminuição: a crise econômica de 1929, que altera ra
dicalmente a dinâmica da economia mundial3, a Guerra Civil espanhola e o esforço
de reconstrução pós-guerra. As condições políticas iriam sobrepor-se para a decisão
de migrar, dada as restrições impostas em relação à livre saída dos espanhóis.
Ainda assim, entre 1946 e 1959, afora os que dirigiram-se para os demais
países europeus,4 os espanhóis continuam a afluir para a América do Sul. É
preciso lembrar que, nessa conjuntura, algumas economias latinas, em razão
dos vazios deixados pela guerra na Europa, galgaram posições vantajosas no
mercado mundial, iniciando períodos de desenvolvimentismo industrial, além
das tradicionais posições de países agro-exportadores. O mercado da cidade
torna-se atrativo, fazendo pender o perfil ideal de migrante urbano para a
inserção nesse processo de modernização. As oportunidades surgem para os
imigrantes europeus, recém-saídos de uma devastadora guerra, principalmente
para os portadores de algum capital inicial.
Outro fator a ponderar é que toda migração espontânea possui um forte
caráter de rede familiar, ou assemelhada, funcionando como apoio. É possível
aventar que no pós-guerra, como é narrado por tantas histórias de vida de
migrantes, ainda esteja ocorrendo à recomposição de famílias separadas pela
guerra, entre outras causas possíveis. Um estudo poderia constatar essa possi
bilidade. Sejam quais forem os fatores favoráveis, o fato é que para a Argentina

43
dirigem-se 231.360 pessoas, para a Venezuela, 139.898 pessoas e, por último,
para o Brasil, apenas 91.500 pessoas.
Já em ritmo descendente e por conta da recuperação econômica da Europa,
foi a imigração seguinte: entre 1960 e 1965, chegam 37.723 espanhóis para a
Argentina, 35.816 para a Venezuela e 22.672 para o Brasil, de acordo com os
dados apontados por Martinez.5
Um comentário antes de prosseguir, mesmo correndo o risco de descaracte
rizar situações específicas, essa tentativa de periodização efetuada por Perez é útil
para pensar a existência de “superposições” de sentidos e significados no movi
mento migratório espanhol. A consideração dessas temporalidades constituindo
distintos espaços por onde se afirmou o sentido de ser migrante espanhol ajuda a
relativizar a tentação de estabelecer uma versão decaída do tipo-ideal weberiano,
que pretende representar o “espanhol” no nosso País, cercado de estereótipos
fáceis e caricatos, muitas vezes pejorativos, como frutos do senso comum.

Notas do capítulo
1BELLOTTO, Manoel Lelo. A imigração espanhola no Brasil: Estado do fluxo migratório para o
Estado de São Paulo (1931-1936). Estudos Interdisciplinares de América Latina e Caribe.
Disponível em: http://www.tau.ac.il/eial/III_2/bellotto.htm. Acessado em 15/12/2006.
A periodização está disponível no trabalho citado (1978:151-173). Em relação à emigração espanhola
para o Brasil indica os trabalhos de E.E. Gonzalez Martinez, H.S.Klein e os seus próprios. Dentre a
produção da emigração espanhola para as Américas, cita J. Hernandez Garcia, D. Ramos Perez, N. San
chez-Albornoz, J. Nadal, Fe. Iglesias, B. Sanchez-Alonso, A Vasquez, H. A Silva e P. Tornero Tinajero.
2 O embrião da legislação migratória espanhola para o século XX teria sido a Ordem Real Circular do

ministro do governo de 16 de setembro de 1853. Por ela, estabeleceu-se as regras da emigração para
as colônias espanholas e para os Estados da América. Ver MARTINEZ, Elda Evangelina Conzález. O
Brasil como país de destino para os migrantes espanhóis, In: FAUSTO, Boris (org). Fazer a América.
São Paulo: USP, 2000. p. 242.
3 Ibidem, p. 241. Segundo a autora, teriam ingressado no Brasil entre 1930 e 1939, 13.746 espa
nhóis e, na década seguinte, apenas 5.003.
4 Ibidem, p. 241-242. Prossegue apontando que nesse período, apenas entre 1960 a 1964, 30.132
espanhóis optaram pela Europa. Nos anos posteriores, a tendência só fez aumentar; 1.117.307
(nossos cálculos totais) foram os espanhóis que partiram. Com a recuperação econômica da Espanha,
desde 1979, o ímpeto emigratório diminuiu. Em nota explicativa ainda aponta para o caráter dessa
emigração, qual seja: “a maioria o fez para estabelecer-se de forma permanente, mas dada a proxi
midade geográfica, havia os que iam e voltavam em um ano. Uns para realizar trabalho por tempo
rada: em geral eram homens que trabalhavam na colheita de uvas na França, e, dentre estes, três em
quatro vinham da Andaluzia. Outros iam com um contrato temporário para trabalhar na construção
ou na hotelaria, geralmente na Suíça, e, neste caso, três de cada quatro emigrantes eram galegos.”
p. 242. Para ela, os galegos podem ser tidos como “povo emigrante por excelência”.
5MARTINEZ, Elda González. Los inmigrantes invisibles: condiciones de vida e identidad de los
españoles em São Paulo, em la segunda mitad Del siglo XX.
Disponível em: http://www.tau.ac.il/eial/XI_I/gonzalez.html Acessado: 16/1/2007.

44
I migrantes espanhóis no Brasil
A urbanização de Porto Alegre segue a
direção da formação urbana brasileira,
isto é, vai do litoral para o interior, seguindo
os ciclos econômicos da dinâmica internacional
e dos arranjos políticos. Desse modo, camadas e
camadas de imigrantes são notícias mesmo antes
da imigração no Brasil Imperial.
Por ocasião da Independência do Brasil, em 1822, predominava na
composição demográfica a população nativa, como índios, descendentes de
portugueses e de negros escravizados durante o Brasil-Colônia e mestiços. Sob
o leque do termo migração, abriga-se na formação brasileira, migrações em
massa, forçadas, migrações internacionais dirigidas e permanentes, como as
que possibilitaram a vinda dos casais de açorianos para o Rio Grande do Sul,
bem como migrações temporárias e individuais. Os registros são precários, mas
dados publicados por Artur H. Neiva e J. Fernando Carneiro informam que, entre
1820 e 1839, entraram no Brasil 1.507.581 italianos, 1.428.032 portugueses,
596.961 espanhóis, 233.392 alemães e 182.799 japoneses.1
Essa pode ser considerada a primeira grande onda imigratória do século
XIX no Brasil. Com o advento da imigração oficial, como política real e a colo
nização em alguns pontos do país, o vigor da burguesia periférica parece
sublinhado. Os brasileiros, principalmente os negros, são preteridos em favor
dos imigrantes no mercado de trabalho, conforme estudos como o de Giralda
Seyferth, em que se alinha a construção da nação ao racismo na política de
imigração e colonização brasileira.2
Fica evidente a diferença entre os imigrantes, há o estrangeiro já insta
lado na sociedade local e o recém chegado. O primeiro está inserido em centros
urbanos como Porto Alegre por força do processo histórico que deu origem aos
grandes deslocamentos populacionais do século XIX, quando se completa o pe
ríodo da nova geografia política européia. Alguns autores, como Diégues Jr.,
destacam a diferença de significado da inserção econômica e política verificada
nos diversos períodos de migração. Tais pesquisadores, por vezes, subdividem o
processo de inserção do imigrante na sociedade brasileira, em períodos com ca
racterísticas peculiares, ou seja, estes períodos são de 1808-50, outro de 1850
88 e, ainda, de 1888 em diante.
Os primeiros imigrantes vêm para o Brasil por força da expulsão do
processo imperialista que, através de Dom Pedro II, formula sua política de colo
nização para uma sociedade ainda agrária e hierarquizada, dos barões do café
do sudeste aos fazendeiros e criadores do sul.3
Na conjuntura entre-guerras ainda ressoam os efeitos da Primeira Guerra
Mundial, cuja economia vivia nas brechas do próprio conflito internacional.
Tanto Diégues Jr. quanto Boris Fausto apontam que a deflagração da guerra
deteve em grande medida a imigração internacional para a América, a qual
voltou a recuperar-se a partir de 1920, sem jamais retomar o ímpeto anterior.4
Nesta época os imigrantes já estão fracionados familiarmente: parte da família
já emigrou, outra ainda não pôde, mas está prestes a partir.5
Entre 1930 e 1940, a imigração só perdeu intensidade pela Lei dos Dois
Terços, que estabelecia cotas para a entrada de imigrantes estrangeiros, prova

46
do crescente nacionalismo restritivo. Diégues Jr. afirma que em 1940 a migração
se dá em número menor que em 1920. Segundo ele, “o texto Constitucional
de 1934, Art. 121 § 6º estipula que essa entrada [...] não podendo, porém, a
corrente de cada país exceder, anualmente, o limite de dois por cento sobre o
número total dos respectivos nacionais fixados no Brasil durante os últimos
cinqüenta anos”.6
Apesar da barreira lingüística, o Brasil foi importante país receptor da
emigração espanhola desde o século XIX. Figurado como terra promissora,
com muitos atrativos e ampla diversidade, tolerância política e religiosa, foram
fatores de atração atuantes na opção pelo País. Mas há uma periodização a ser
realizada, quando houver uma expressão maior de análise sobre o impacto dessa
imigração em particular. Conta-se apenas com dados esparsos, alguns estudos
regionais, nada que possibilite uma visão mais coerente com a totalidade social
requerida para dar conta do processo. Há poucas estatísticas sobre a vinda dos
mesmos, as quais estão relacionadas a períodos específicos.
Boris Fausto7, fazendo coro com os demais estudiosos, ao registrar que
os espanhóis constituíram a terceira maior etnia que imigrou para o Brasil,
após apenas dos portugueses e dos italianos. Para a América Latina também foi
expressiva, uma vez que entre 1880 e 1972 representou cerca de 14% do total
de imigrantes.
O Instituto Espanhol de Emigração estima que entre 1890 e 1940, 3,5
milhões migraram. Por causa do corte das subvenções, em função da crise dos
preços do café, a principal demanda por trabalhadores rurais para o Brasil reflui
em 1904. No entanto, há recuperação entre 1911 e 1920. Isso porque, por hipó
tese, os agentes recrutadores continuam forçando caminho apesar de medidas
restritivas, como a do rei italiano Vitório Emanuel III que proíbe os subsídios,
dada as denúncias de violência contra os bracianti.8
Quem são os imigrantes espanhóis? Seguindo a tendência apontada por
Martinez nesse período, a grande maioria era de galegos, que se fixaram prin
cipalmente em centros urbanos brasileiros de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas
Gerais e Bahia. Para o Rio Grande do Sul, os dados são ainda mais dispersos.
Seriam em torno de 10.000, segundo o Consulado Espanhol, nos núcleos de
Porto Alegre, Pelotas, Uruguaiana, Bagé, Santana do Livramento, etc. O que
justifica a existência de sociedades espanholas nessas cidades, hoje algumas já
desativadas. Para Porto Alegre, os dados são precários, conta-se com os registros
do Consulado Espanhol (Anexo 1).
Ainda para Martinez9 238.739 espanhóis saíram de portos espanhóis com
destino ao Brasil, entre 1882 e 1929. A possibilidade de obter uma passagem
subsidiada contou muito. O pico ocorreu entre 1890-1894 com 34.513; caindo
em 1900-1904 para 14.510. Houve um salto nestes números em 1905-1909

47
Um momento especial de lazer.
Acervo família Flórez.

para 59.551 e a partir de 1910-1914 este índice decresceu paulatinamente.


De modo que entre 1882 e 1929, Martinez registra a presença de 567.176
imigrantes espanhóis no Brasil. O que chama de segunda etapa com início em
1950, entraram 94.693, em 1960 já cai para 28.397. Com a restauração da
economia européia, mudou o sentido, os espanhóis preferem migrar para outros
países da Europa mesmo.
Para Klein10, entre 1952 e 1970, o Brasil recebeu 111.100 imigrantes
europeus, sendo 24.459 espanhóis, 22% de todos os europeus vindos para o
Brasil (abaixo apenas da Argentina e acima da Venezuela) e 29% entre todos os
espanhóis que migraram para a América Latina. O Comitê Intergubernamental
para las Migraciones Europeas (Genebra, 1951) teve seu papel: de 1952 a 1970,
patrocinou a migração de 1,8 milhões de europeus, metade dos quais de seus
próprios países e outra metade de refugiados. Austrália foi o grande receptor
dessa onda, mas a América latina contou 338 mil emigrantes, sendo 85 mil
espanhóis. Os que vieram pela CIME somaram 875 do total.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, ocorreu o último surto da imigração
espanhola, até os anos 60. A situação da Espanha, no esforço de reconstrução de
sua economia, mais o crescimento industrial brasileiro, no governo de Juscelino
Kubitschek, capitaneado pela indústria automobilística demanda mão-de-obra
especializada. Seria a migração com outro perfil, a dos espanhóis adaptados ao
mundo industrial.

48
“hijas de galicia”.
Registro de Universo Flórez Gonzalez, 1930. Acervo família Flórez.

A considerar-se a importância que o setor metal-mecânico assumiu na


Região Metropolitana de Porto Alegre, mais na Zona de Caxias do Sul, essa
demanda preenchida por muitos espanhóis é plausível para o Estado igual
mente. Sempre lembrando que a situação em termos demográficos é bastante
mascarada pela vinda de hispano-americanos, tornando difícil à ponderação
real da emigração desde a Espanha, nessas últimas décadas. Os registros no
Consulado (Anexo 1 e 2) podem auxiliar, mas é bom ter presente que a data
de registro não corresponde ao ingresso no Estado. Muitos dos entrevistados
levaram anos para efetuarem seus registros e, ainda assim, movidos por inte
resses muito pontuais.

Notas do capítulo
1 CARNEIRO, J. F. Imigração e colonização no Brasil. Rio de Janeiro, São Paulo: Faculdade de Filo
sofia, 1950. p. 34.
2 A crença na raça, língua e civilização comuns embasa as ideologias nacionalistas que marcam a
passagem do século XIX ao XX. Ver SEYFERTH, Giralda. Construindo a nação: hierarquias raciais e
o papel do racismo na política de imigração e colonização. In: MAIO, Marcos Chor e SANTOS, Ricardo
Ventura. Raça, ciência e sociedade. Rio de Janeiro: FioCruz, 1995. p. 41-58.
3A imigração para o Brasil. Correio do Povo. 8 jul 1920 ANO –XXVI. n. 156 p. 4. 8 jul 1920. “Segundo

os elementos coligidos pela Diretoria do Serviço de Povoamento, verifica-se que no período de 1820
a 1912, entraram no Brasil, 3.576.275 imigrantes sendo 3.337.903, no período de 1820 a 1913;
82.572, em 1914; 32.206, em 1915; 34.003, em 1916; 31.193, em 1917; 20.501, em 1918, 37.898,
em 1919. Por nacionalidades, esses imigrantes estão assim descriminados: Italianos, 1.378.876;
portugueses, 1.021.291; espanhóis, 501.378; alemães, 127.321; russos, 105.225; australianos,
79.302; turco-árabes, 55.120; franceses, 29.665; ingleses, 18.728; suíços, 11.376; suecos, 5.502;
belgas, 5.289, e diversos, 237.232.
4 A imigração em 1924. Correio do Povo. Porto Alegre. ANO – XXXI. n. 113 p. 4. 14 mai 1925.
Segundo os dados apurados pela Diretoria Geral do Serviço de Povoamento, entraram durante o
ano findo, pelos diferentes portos brasileiros, 98.125 imigrantes de 2a classe e de 3a classe, contra

49
86.679 em 1923 e 66.968 em 1922. De acordo com as estatísticas organizadas por aquela repar
tição, destacando-se, como nacionalidades predominantes, as seguintes: português, 28.267; Alemã,
22.108; italiana, 13.844; espanhola, 7.483; romena, 6.340; japonês, 2.673; polaca, 2.010 e outras.
O movimento de imigrantes nos portos de entrada foi o seguinte: Belém 1.154 pessoas; Recife, 951
pessoas; São Salvador, 842 pessoas; Rio de Janeiro, 40.711 pessoas; Santos 51.300 pessoas; Para
naguá 279 pessoas; Rio Grande, 2.602 pessoas.
5Entradas de Imigrantes. Correio do Povo. Porto Alegre. Ano XXXII n. 112. p. 14 mai 1926. A Dire
toria Geral de Serviço de Povoamento, por intermédio da intendência de Imigração, visitou, no 1º
trimestre deste ano 219 vapores, entrados no porto do Rio de Janeiro do exterior os quais trouxeram
13.885 imigrantes. Destes foram para á Ilha das Flores, de acordo com o decreto 16.761 de 13 de
dezembro de 1924 e 12.910 passageiros de 3a classe e intermediária, onde foram examinados pela
Saúde Publica, e os suspeitos de moléstias, depois do exame de olhos, vista e bacteriológico, no gabi
nete ali instalado, foram despedidos, por serem os exames feitos negativos. Estão incluídos nesse
numero 6.251 imigrantes subsidiados pelo Estado de S. Paulo, que, com os demais passageiros,
além do exame medico, foram identificados, seguindo o seu destino os desimpedidos diretamente
para as lavouras em sete trens especiais. Os imigrantes pelas suas nacionalidades eram alemães,
1.301; argentinos, 70; armênios 2, austríacos 109, belgas 21, brasileiros 405, búlgaros 2, chilenos
6, chineses 4, colombianos 4, costa-riquenses 2, cubanos 4, dantsguenses 2, dinamarqueses 12,
egípcios 4, estonianos 37, finlandeses 2, franceses 73, gregos 5, guatemalgenses 1, espanhóis 387,
holandeses 18, húngaros 26, ingleses 79, italianos 686, japoneses 60, letoneos 8, libaneses 7, litu
anos 526, luxemburguenses 3, marroquinos 1, norte-americanos 20, noruegueses 1, palestinos 8,
paraguaios 5, peruanos 2, polacos 331, portugueses 4.424, rumenos 4, suíços 45, sírios 328, tche
coslovacos 63, turco-árabes 30, ucranianos 47, uruguaios 30, yugo-slavos 407 – Total: 13.885.
6Para a política de restrição ver ainda DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. Imigração, urbanização e indus
trialização: estudos sobre alguns aspectos da contribuição cultural do imigrante no Brasil. Rio de
Janeiro: Instituto Nacional de Estudos pedagógicos/Ministério da Educação e Cultura, 1964. p.
334-141.
7 FAUSTO, Boris. Fazer a América. São Paulo: USP, 2000. Ver também BELLOTTO, Manoel
Lelo. A imigração espanhola no Brasil: Estado do fluxo migratório para o Estado de São Paulo
(1931-1936).
Disponível em: http://www.tau.ac.il/eial/III_2/bellotto.htm. Acessado em 15/12/2006.
Ver também no mesmo endereço: Estúdios interdisciplinarios de América Latina Y el Caribe.
8GUIMARÃES, Lucia Maria Paschoal. VAINFAS, Ronaldo. Brasil 500 anos de povoamento. Rio de
Janeiro: IBGE. 2001. V. 1.
9MARTÍNEZ, Elda Evangelina González. O Brasil como país de destino para os migrantes espanhóis.
(2000, p. 239) In FAUSTO, op. cit. a escolha recaía para a Argentina e Cuba, que receberam em torno
de 82% dessa migração. No período compreendido entre 1882 e 1930, dos 3 297312 migrantes
chegados à Ibero América, 1 594 622 dirigiram-se para a Argentina e 1 118968 para Cuba segundo
as estatísticas oficiais. Por outro lado, é importante registrar que a confiabilidade desses dados
iniciados apenas em 1882 é relativa embora a Espanha, a partir da Ordem Real de 26 de agosto
de 1865, exigisse o registro sobre a movimentação de entrada e saída de passageiros em todos
os portos espanhóis. Como deixam de constar os que emigraram de Leixões e Gilbratar, portos de
importante emigração de espanhóis, toda estatística é bastante parcial. (p. 279-272). Ver também
MARTINEZ, Elda. Los imigrantes invisibles;condiciones de vida e identidad de los espanõles en São
Paulo, en la segunda mitad del siglo XX. Estudios Interdisciplinares da America Latinay Caribe. V.
5. n. 1, enero/junio, 2000.
Disponível em: http://www.tau.ac.il/eial/V_1/martinez.htm. Acessado em 16/01/2007.
10
KLEIN, Herbert. A imigração espanhola no Brasil. São Paulo: FAPESP, 1994, p. 60-62. Ver também
História General de la Emigracion espanõla a Iberoamerica. História 16. CEDEAL. Madrid. 1992.

50
M
igração espanhola no Rio Grande
do Sul: é possível propor-se
uma endogamia histórica?

Para inciar o desdobramento dessa


proposição é pertinente trazer a
observação de Chacon:

ao contrário de Portugal, a memória histórica


brasileira tem gratas recordações da União
Ibérica; foi depois dela que começou a legalização
da quadruplicação do território do Brasil pela
penetração dos bandeirantes paulista e ibéricos no
Oeste, além dos limites do Tratado das Tordesilhas,
retratada nas obras de Afonso Taunay “História
Geral das bandeiras paulistas”; “Marcha para o
Oeste”, de Cassiano Ricardo; com Sérgio Buarque
de Hollanda, na “Visão do Paraíso”,
“O extremo Oeste”, “Monções”, no contexto
da síntese “Raízes do Brasil”.1
O problema imediato a ser enfrentado pelo pesquisador é partir de onde,
quando e como é possível definir “o espanhol”. A construção identitária nesses
casos é atravessada pela condição histórica do Brasil – Colônia de Portugal e
limítrofe da América dita hispânica. Conquista e defesa da territorialidade da
nação e da unidade lingüística e cultural fizeram por encobrir facetas2 que
nas demais migrações (italianos, alemães, japoneses, etc.) funcionaram como
traços diacríticos importantes e plenamente aceitos – à exceção dos períodos de
conflito bélico envolvendo os países de origem em campos opostos ao alinha
mento brasileiro.
O marco fundamental do processo histórico que une a fundação de Porto
Alegre a esse processo pode ser o período compreendido entre 1680 a 1772,
quando o Rio Grande do Sul foi incorporado a Colônia do Brasil, seguindo a
trilha desde a Colônia do Sacramento. A incorporação a essa rota conduz ao
surgimento de povoados próximos aos campos de Tramandaí e Viamão, quando
chegam os casais de açorianos ao Porto de Viamão.
A imbricação das coroas ibéricas, a disputa na região tanto estabeleceu
o conflito como a assimilação da presença espanhola antes mesmo do Rio
Grande do Sul ser constituído como unidade administrada e pertencente ao
Império do Brasil.
Visível na lingüística, na culinária, na prosa gauchesca e assim por
diante, historiadores da vertente platina como Manoelito de Ornellas propug
naram a singularidade do Rio Grande do Sul. Como outra faceta da leitura de
uma americanidade/hispanidad, vista anteriormente, a obra de Manoelito e
outros historiadores tributários das idéias do historiador, mesclou as vertentes
historiográficas hispanistas e americanas. Afirmou a contribuição árabe ao Rio
Grande do Sul, vinda através tanto dos espanhóis como dos portugueses, afir
mando a unicidade do pampa durante o domínio colonial, e o desenvolvimento
autóctone do gaúcho, produto da fronteira.
Discussão que merece novas reflexões importa que qualquer estudo
historiográfico sobre estados fronteiriços como o Rio Grande do Sul precisam
levar em conta a disputa discursiva entre a matriz platina e a matriz lusitana,
trazendo manifesto o intuito latente de afirmação de cunho ideológico.3
Apenas para assinalar uma questão transcultural: nenhuma fronteira
político-administrativa logrou delimitar ou restringir as trocas culturais entre
essas regiões, desde então. A história dessas disputas também estabeleceu como
se deu a troca cultural.
Quer pela existência de regiões naturais assemelhadas, quer pelas afini
dades culturais e uniões conjugais, uma base histórica comum, ainda que
conflitual fosse condicionante e constitutiva da própria identidade cultural do

52
Rio Grande do Sul. Onde a afirmação simbólica do gauchismo e do pampa são
produtos. Em parte, de uma historicidade e, em grande parte, provavelmente, de
um imaginário que interessava.
Os próximos séculos serão de luta pela posse da região, hoje Rio Grande
do Sul, pela Coroa portuguesa que buscou estender por todos os meios todos os
limites determinados pelo tratado de 1492.
O litoral rio-grandense prestou-se às primeiras expedições da Coroa Portu
guesa com vistas à ocupação do Rio da Prata. As lutas pela posse dessa região
ocuparão os séculos XVI, XVII e parte do XVIII, na parte sul do estado, o que
concorreu para o interesse em torno da região de Porto Alegre4.
Fabio Khun5 dá conta de que anterior à fundação do povoamento, seja
português ou espanhol – afora as reduções jesuíticas – no que constituiria o
Continente do Rio Grande do Sul, é precoce a presença de hispanos na povoação
de Laguna. Registros da freguesia de Viamão assinalam desde o primeiro livro
de batismo (1747 a 1759) conta-se mais de 10%, entre metropolitanos, criolos
e mestiços. Eram castelhanos, galegos, andaluzes, valencianos, mais os sul
americanos de Corrientes, Santa Fé, Córdoba, Santiago, Tucumán, Salta, Buenos
Aires e Asunción. Seria em torno de quarenta indivíduos de origem hispânica
nos campos de Viamão (nos 15 anos iniciais). Os fluxos regionais comerciais
explicariam dados tão reveladores.
A fundação de Porto Alegre costuma-se iniciar pela apresentação das
circunstâncias aleatórias que, alinhadas ao acaso, conformaram sua inscrição
histórica. Começa-se pelos primeiros sesmeiros, que em 1732, aqui pretendiam,
conforme Clovis Siveira de Oliveira, Jerônimo de Ornelas Menezes e Vasconcelos,
Dionísio Rodrigues Mendes e Sebastião, instalarem as estâncias de criação
de gado. Tardariam a chegar os casais de açorianos em 1752, que alojados
precária e provisoriamente na região, terminariam por constituir o agrupamento
humano inicial da ocupação da futura cidade. Vindos para povoar as Missões
irão aguardar por décadas pela transferência que não se efetivou.
É importante lembrar que em 1763, com a invasão espanhola da cidade de
Rio Grande, então capital da capitania, a sede do governo passou a ser Viamão.
A região irá acumular a função político-administrativa e militar. Em 1803 houve
tratativas para a criação de municípios para facilitar a administração da região;
motivo pelo qual seis anos após D. João VI determinou a primeira divisão admi
nistrativa territorial do Rio Grande do Sul.
Em 1810 Porto Alegre foi elevada à Vila, passando a sede de um dos quatro
municípios anteriormente. Em 15 de novembro de 1822 a vila de Porto Alegre
recebe foros de cidade. Em 1889 dá origem a 13 outros municípios sendo que a
região desde 1870 concentrou mais da metade da população rio-grandense.

53
r egistros de Uma longa jornada.

O modelo de sociedade imigrante hispânica em Porto Alegre:


um objeto (des)conhecido

Economia e migração levaram em conta os aspectos fisiográficos da


região de Porto Alegre. Ao começar pela sua instalação na extremidade de uma
das elevações que se estende na frente do delta do Rio Jacuí, sobre o estuário
do Guaíba quando “as grandes facilidades proporcionadas pelo rio Jacuí para
atingir as elevações do planalto e as serras da região sudeste, colocam Porto
Alegre em uma área de primitiva significação continental”.6
Os entrevistados, galegos, principalmente, entre outros fatores, desta
caram positivamente os aspectos da Depressão Central onde foi edificada a
cidade. Seria por contraste com sua região, a maioria das vezes, como da Galícia,
mais o clima temperado, em relação à zona tropical da região do Rio de Janeiro,
cidade onde a maioria dos entrevistados teve o primeiro contato com as terras
brasileiras ao desembarcarem, sendo um motivo da adaptação dos espanhóis
em Porto Alegre.
Os espanhóis ingressaram em maior número na economia urbana de
Porto Alegre quando já decorria a urbanização nas demais regiões ligadas aos
ciclos da economia agro-exportadora brasileira como Minas Gerais, Bahia, Rio
de Janeiro, Pernambuco, São Paulo. Nessas regiões ingressaram os espanhóis

54
que se beneficiam das passagens subsidiadas para serem trabalhadores para
as plantações de café, construtores de estradas, etc. No geral denominavam-se
agricultores para cumprir as exigências dos subsídios do transporte da Espanha
para o Brasil. Aqui chegados, muitos tomavam a direção das cidades. Como no
RS essas serão mero trampolim para as ocupações urbanas (comércio, pequenas
indústrias locais, etc). Denominam-se agricultores o mais das vezes para cumprir
a exigência dos subsídios no transporte desde a Espanha.7
No século XIX Porto Alegre engatinhava por meio da função comercial
principalmente na comercialização do trigo, levada pelos açorianos no primeiro
século de sua existência; posteriormente os produtos das colônias de migrantes
alemães e italianos aceleraram sua importância comercial. A polifonia está em
potencial nas ruas da cidade.
Conforme os números da Fundação de Economia e Estatística, em 1890,
contabiliza em Porto Alegre dados referentes ao ano de 1872: 43.998 habitantes,
entre livres e escravos. Pelo critério de sexo, a população é de 26.409 homens e
26.012 mulheres, totalizando 52.421 habitantes. No Rio Grande do Sul, como
um todo, pelo critério da nacionalidade há em 1900, 1.013.986 brasileiros,
129.329, estrangeiros e 57.551 ignorados.8
A intensa migração desde 1824, dos alemães, e em 1870, dos italianos,
estabelecem uma forte economia colonial que repercute na importância da cidade
como centro comercial, aliado ao da exportação, pelo porto, da economia da
Campanha. Sua função industrial delineia-se no segundo quartel do século XIX.
A acumulação de capital comercial produzida com a venda dos produtos
da economia da região colonial, os gêneros alimentícios exportados para subsi
diar a economia urbana do centro – do país impulsionada pelo café em São Paulo,
a partir da República permitiu um princípio de diversificação econômica.
Os espanhóis não fizeram parte da experiência da política colonial que
modelou a experiência migratória como a dos italianos e a dos alemães, dentre
os principais grupos étnicos que povoaram o Estado. Essa empresa migratória
foi sempre individual, e, além disso, dependente, muitas vezes, dos ciclos da
economia e da política dos países do Prata, que sempre exerceram atração para
os espanhóis, mantendo intenso e sazonal intercurso na fixação dos espanhóis.
Muitos casamentos foram realizados (e interrompidos) nesses deslocamentos.
Em período de refluxo, ingressaram no Rio Grande do Sul por essa fron
teira Prata), o que também dificulta o trabalho da mensuração do fluxo migra
(o
tório espanhol no Brasil. Aportuguesamento dos nomes, entradas clandestinas,
atividades de contrabando, entre outros, mascaram os números dessa presença
hispânica e hispano-americana.
O que é sabido é que os espanhóis que se dirigiram para Porto Alegre e
para as demais cidades do Rio Grande do Sul deixaram suas marcas na cons

55
tituição de sociedades espanholas, como nas cidades Bagé, Santana do Livra
mento, Pelotas, etc. O que apenas confere consistência à afirmação de que essa
migração em especial constitui uma partitura topológica e topográfica bastante
diferenciada das verificadas em relação a outras etnias que moldaram o Estado.
As figuras em Anexo (de 3 a 9) foram levantadas a partir dos registros no
Arquivo Histórico do Estado do Rio Grande do Sul sobre a Hospedaria Xarque
adas (1880-1908) e no Consulado Geral da Espanha no Estado (1920-2000). E
permitem certa visibilidade da presença e de aspectos da estrutura da imigração
espanhola para o estado.
O problema para se quantificar demograficamente essa migração loca
lizou-se 634 registros entre 1890 a 1908 no Arquivo Público do Estado do Rio
Grande do Sul (APERGS) – é igualmente o apontado por Péres9. A partir dos
sobrenomes analisados no fundo documentais constituído com os testamentos
no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERGS), acredita serem
alguns sobrenomes, na realidade, de brasileiros que durante os períodos mais
conflituosos do Rio Grande do Sul mudaram-se para a Argentina, Uruguai e Para
guai retornando após. Ou outros motivos, como a intensa troca comercial nas
cidades fronteiriças, a posse de propriedades rurais, por brasileiros, como o líder
da Revolução Federalista, Gumercindo Saraiva no Uruguai, ou os matrimônios
como o do líder Farroupilha Gal. Bento Gonçalves, casado com uma uruguaia.
Da passagem de espanhóis, desde os países do Prata, outro percurso
muito usual, cita 40 espanhóis que na década de 40, vindos de Montevidéu para
Pelotas, acabaram por alguns vir para Porto Alegre, trazidos pela boa situação
de familiares aqui instalados.10
Cabe uma explicação: o caráter espontâneo dos registros de imigrantes,
no Consulado Espanhol enseja interpretações pouco precisas sobre a densidade
e sobre o ingresso de espanhóis. O Consulado Geral da Espanha estabeleceu-se
em 1927, passando a efetuar o registro dos imigrantes posteriormente (1937
conforme informação do Consulado). A região consular hoje abrange o Estado de
Santa Catarina, sendo que no Rio Grande do Sul estão implantados os vice-consu
lados honorários de Uruguaiana, Bagé, Rio Grande e Santana do Livramento.
Localizou-se, pois, entre 1940 a 2007, aproximadamente 2583 registros,
1153 mulheres e 1430 homens. A questão é que entre esses registros, constam
os que se mudaram para outra região consular, ou dados de falecimentos ou os
que não efetivaram a regularização e os que retornaram para a Espanha. Traba
lhou-se, portanto, com o número absoluto dos registrados, independentemente do
destino que suas vidas tenham tomado.11
Três movimentos, portanto, podem ser apontados como constituintes da
presença espanhola em Porto Alegre, além dos que chegam dos países do Prata.
Com a diversificação das funções de Porto Alegre há estrangeiros que efetuam o

56
trampolim rural-urbano. Muito peculiar, em torno das guerras na Espanha, é a
vinda de imigrantes diretamente para a cidade, além de camponeses e operários,
movidos por um caráter individual, como artistas, intelectuais e auto-exilados
políticos, entre outros, que chegam na cidade. Enfim, existe um largo leque de
condições de imigração que explicam a performance da atual urbanidade e do
cosmopolitismo da capital.12
Traduzida em arte e cultura na sociedade de recepção, as performances
dos espanhóis nem sempre serão compreendidas em seu tempo sequer pelos
próprios, como foi relatado em muitas passagens pelos entrevistados.
Por vezes prestaram-se ao estranhamento por parte dos demais, dando mar
gem rotulações, as reduções. Sabe-se, para confirmar a origem dessas noções,
às
que intelectuais como Tavares Bastos apoiaram o projeto migrantista em relação
aos alemães e britânicos, os do norte europeu, por afinidade cultural e religiosa
(o protestantismo), para “melhorar a raça”, em detrimento dos católicos e do sul,
como italianos, espanhóis e mesmo, portugueses. Apenas mais uma das facetas
do discurso higienista13 predominante no período “das grandes migrações”.
Os migrantes estrangeiros, pobres em sua maioria, na chegada na cidade
buscam a assimilação como podem. A pequena burguesia migrante como parte
dos italianos meridionais e os alemães estava em estágio de consolidação, enri
quecida pela atividade comercial e/ou já detentora de pequeno capital ao tempo
da migração para Porto Alegre.
O trabalho já é livre, incrementado pela migração estrangeira: os espa
nhóis serão, na cidade republicana, como os demais, seus encanadores, pedreiros,
eletrecistas, azulegistas, construtores, pintores, comerciantes, industriários,
padeiros, confeiteiros, açougueiros. Muitos trazem uma tradição familiar espe
cializada, os filhos de pedreiros, cantoneiros, por exemplo, acostumados com a
economia galega. Outros se reinventarão, como feirantes, amoladores de facas,
cozinheiros.
Os espanhóis estão na economia urbana de Porto Alegre em 1895 de modo
ainda tímido. Dos 286 estabelecimentos registrados, em 1895, 161 pertencem a
estrangeiros, sendo 78 italianos, 48 alemães, 22 franceses; 22 dividem-se entre
espanhóis, árabes, judeus, poloneses, gregos, sendo a maioria dos restantes, 13
não identificáveis.14
Alguns “reclames” denotam essa presença. Na Seção “Interesses comer
ciais”. Subtítulo “Junta Comercial” – “Maria Sevilha de Lopez, n/c pedindo
registro de sua firma comercial, para fábrica de brinquedos, esquadrias etc. com
o capital de 20.000$, à Estrada do Mato Grosso 1634 – Registre-se”.15
Em 1911 está publicado o anúncio de “Alcaraz e C. – Construtora e recons
trutora de embarcações de ferro – Estaleiro e oficina. End: 132 Voluntários da
Pátria – 134. Tel. Ganzo 526 – União 427”.16

57
Outros dados conferem certa noção sobre essa inserção. Para 1863-1907
Pérez contabiliza os testamentos registrados no APERGS, indicadores significa
tivos das posses e dos investimentos em determinados segmentos econômicos,
sendo 438 de riograndenses; 177 de portugueses; 38 de alemães (incluindo
alguns poucos austríacos, prussianos, bávaros, suíços), 13 de espanhóis, 43 de
africanos; 44 do resto do país; 131 que não especificam a origem.
Importa destacar que os espanhóis teriam especial interesse comercial,
financeiro e de especulação com os terrenos que se urbanizava rapidamente. O
subsetor imobiliário parece predominar.
Na realidade, os altos preços dos terrenos estimulava o aluguel e a
compra. A especulação imobiliária numa cidade sem planificação urbana, com
os graves problemas físicos apontados favorecia o setor.17
Além do setor imobiliário, o investimento no sistema financeiro ou em
empresas de serviço teria sido a estratégia preferida dos espanhóis bem-suce
didos. Sendo citado o Banco da Província e aparecendo também o London of
Brasilian Bank Limited, Ações da Companhia Hidráulica, da Companhia Indus
trial de Cerveja são arroladas nos testamentos. Também posse de escravos
comparece, igualmente, até a abolição da escravatura com a Lei áurea de 1888,
sendo os escravos urbanos uma prática recorrente.
Em 1925 anuncia-se a organização do Centro dos Proprietários de Prédios.
Constituída pelos “incorporadores o dr. Verissimo Ribeiro, advogado deste fôro,
e os srs. Renato Antonio Vasques e Ernesto Weyrauch, proprietários”. A finali
dade é a defesa dos interesses dos proprietários “junto aos poderes competentes,
promovendo todo e qualquer serviço judicial ou extra-judicialmente, no inte
resse dos mesmos. A sua sede está provisoriamente funcionando à rua General
Câmara n. 53”18. Em 1931 é a vez do anúncio de venda de terrenos de Ricardo
Gonzalez, Junto à Destilaria Rui Barbosa; Rua Santo Antônio, n. 38019.

Migrantes na cidade
Os imigrantes que chegam vão-se colocando onde e como podem. Muitos
vão iniciar a ocupação do que será um bairro, décadas após. Quando as notícias
sobre os primeiros espanhóis são registradas em 1889, Porto Alegre está com 52
mil habitantes.20
Os primeiros tempos, normalmente, são sublocações ou moradias de “fa
vor” com os parentes aqui estabelecidos. Na visão do planejador urbano, o caos é
o resultado da contingência física, somada à economia urbana. Os urbanistas e
geógrafos, como Jean Roche, lamentam a configuração física da cidade e o caos
da ocupação urbana. São as distintas temporalidades dos processos de urbaniza
ção, que tecem “essa sucessão irregular de bairros povoados e de zonas diversas
e o crescimento constante da distância entre os bairros residenciais e o centro”.

58
A cidade se estendeu ao longo dos eixos de acesso, sendo que ao longo
da geratriz Voluntários da Pátria se desenvolve para a zona do Quarto Distrito,
o Bairro Navegantes e São João na concentração das atividades industriais e
habitações de migrantes. Os aterros avançam na cidade, principalmente na
península (centro), a área atual é o dobro da original, mas também para o norte
e para o sul da cidade.A composição étnica dos espaços, apesar dos obstáculos
físicos de ocupação, acabou configurando uma certa homogeneidade. No Bairro
Bons Fins localizavam-se os judeus, na Cidade Baixa, os italianos, os alemães
concentraram-se no Bairro Floresta.
Os espanhóis não determinaram uma ocupação por bairros, mas insta
laram-se entre a área central, zona sul, Guarujá, Ipanema, Teresópolis e no
bairro Bom Jesus. A polifonia da cidade está nas ruas, basta um olhar atento aos
sobrenomes: na Rua Duque de Caxias, “a mais nobre da cidade” em 1900 vai
começar a ser habitada por estrangeiros, como La Porta, que em 1924 constrói
seu palacete no afã de modernização da cidade a luz da Belle Époque.

Concessionário da Loteria de Santa Catarina, adquiriu há tempos os prédios sob os


ns. 226 e 228 da rua dos Andradas, esquina da Uruguai. Agora resolveu demoli
los, afim de construir um palacete de quatro andares [...] terá quinze peças e
a sua construção obedecerá aos estilos modernos. [...] para embelezar aquela
esquina da nossa principal artéria, será dotado de elevadores.21

A conjuntura aberta em 1930, com Borges de Medeiros no Estado, Flores


da Cunha como interventor em Porto Alegre, redefine a vocação agrária do país.
A crise da Bolsa de Nova Iorque, a política de sustentação do café, o principal
produto de exportação brasileiro, vai ser sustentada também pela implantação
da infra-estrutura básica para industrialização brasileira.
Após a segunda guerra, com a democratização e eleição de Vargas, a fisio
nomia do Estado é de perda de centralidade do setor agrário. A sólida consti
tuição de uma sociedade urbano-industrial determinou a decadência de cidades
que concentravam espanhóis, no período anterior, como Rio Grande, Pelotas.
Pode-se falar em metropolização a partir de 1945 para Porto Alegre. No
período do Governo de Jobim a Dorneles (1947 a 1955) há crescimento na renda
interna no Estado, com exceção dos anos de 51 e 54. Entre 1940/50, entram
135 mil pessoas no Estado. Mas a crise agrária tanto nos minifúndios como nos
latifúndios leva ao êxodo; entre 1950/60, saem 162 mil e entre 1960/79, mais
340 mil saem para outras regiões brasileiras, principalmente. Desafoga-se uma
crise que poderia adquirir maior vulto principalmente nas cidades.
A partir de 1945 a indústria de Porto Alegre desloca-se para a região
periférica da cidade, nos municípios vizinhos da própria região metropolitana

59
a alegria nos momentos de descontração.
Acervo família Gonzalez.

ou ao norte, na região de Caxias do Sul. Porto Alegre assume a sua função de


serviços, no processo de desindustrialização dos últimos decênios, em favor das
vantagens locacionais ofertadas pelos municípios adjacentes, alimentando o
crescimento das cidades médias, nova tendência da urbanização brasileira.
Em suma, de 1890 a 1945 Porto Alegre engrenou sua substituição de
importações e impulsionou sua industrialização – como foi possível em algumas
das outras regiões, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais – aproveitava
se em especial as condições dos mercados internacionais afetados pelas duas
guerras mundiais.
Em termos da repercussão sobre os ciclos migratórios, na década de 50
o dinamismo da economia brasileira ainda atraí uma mão de obra mais espe
cializada, mas os picos de entrada de espanhóis no estado, em Porto Alegre,
apontam para a gradativa perda de ímpeto, após os anos de 1960.
Como conclusão parcial, para justificar o descenso emigratório, a própria
Espanha atrai, o Brasil está desestabilizado politicamente, em 1964. Muitos
espanhóis preferiram retornar. Prenúncio da situação atual: o perfil do inves
timento espanhol, no estado, e em Porto Alegre, como capital do estado, ao
contrário, não configura atração de migrantes.

Notas do capítulo
1CHACON, Vamireth. A Grande Ibérica: convergencias e divergencias de uma tendência. São Paulo:
Unesp; Brasília: Paralelo 15, 2005. P. 28.
2Lei dos Estrangeiros, de Adolfo Gordo, que normatizava a expulsão de espanhóis.

60
3 GUTFRIEIND, Ieda. A historiografia gaúcha. Porto Alegre: Ed Universidade/UFGRS, 1992. Ver
também ALMEIDA, Marlene Medaglia. A análise crítica da historiografia sul-riograndense: uma
tarefa que se impõe. Porto Alegre: UFRGS. Cadernos de estudos. N. 1. Nov, 1986. P. 11.
4 OLIVEIRA, Clovis Silveira de. Porto Alegre: a cidade e sua formação. Porto Alegre: Metrópole, 1993.
5 KHUN, Fábio. Breve história do Rio Grande do Sul. Temas do novo século. Porto Alegre: Leitura

XXI, 2007. P. 25-35.


6 OLIVEIRA, Clovis Silveira de. Porto Alegre: a cidade e sua formação. Porto Alegre: Metrópole,

1993. P. 11.
7CÁNOVAS, Marilia Klaumann. Hambre de Tierra: Imigrantes espanhóis na cafeicultura paulista
1880-1930. São Paulo: Lazuli, 2005; ver também D`ÁVILA, Rosemeire Pereira. Lembranças da
imigração: Cenas e cenários de vida dos imigrantes espanhóis em Bauru 1892-1930. São Paulo:
EDUSC, 2004 (Coleção História).
8 BRUM, Rosemary Fritsch. Uma cidade que se conta; imigrantes italianos e narrativas no espaço

social de Porto Alegre (1920-1937). Porto Alegre: PUCRS (Teses), 2003.


9 Pérez, Jesus Paniagua. A presença hispânica em Porto Alegre. Revista Múltipla. Brasília, V. 15, n.

21, dez. 2006.


10
Ibdem.
11Agradecemos a colaboração quanto aos dados para compor as figuras 1 e 2 em Anexo fornecidos
pelo Consulado Espanhol e das informações sobre a operacionalização do mesmo, prestadas pelo
Canciller José Macias Benitez.
12TRENTO, Angelo. O período entre as duas guerras. In: ______. Do outro lado do Atlântico: um século
de imigração italiana no Brasil. São Paulo: Nobel/Instituto Italiano di Cultura di San Paolo/Instituto
Ítalo-brasileiro, 1988 a. p. 267-404. Ver Também DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. Imigração, urbanização
e industrialização: Estudo sobre alguns aspectos da contribuição cultural do imigrante no Brasil. Rio
de Janeiro: Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos-Ministério da Educação e Cultura, 1964.
13
“[...] a escolha do colono ideal, porém, teve seus determinantes biológicos articulados a pressupo
sição da superioridade européia.” SEYFERTH, Giralda. “Colonização, Imigração e a questão racial no
Brasil”. In: Revista USP. São Paulo: USP, CCS, 2002. Março/abril/maio. N. 53. P. 119
14CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Italiano na esquina: imigrantes na sociedade porto-alegrense.
Porto Alegre: EST, 1991. P. 151.
15
Correio do Povo. Porto Alegre. 7 jan 1931.
16
Correio do Povo. Porto Alegre. 2 jul 1911.
17
FERRETTI, Rosemary Brum. Uma casa nas costas: análise do movimento social urbano em Porto
Alegre. Porto Alegre: UFRGS, (Dissertação), 1984.
18
CENTRO DOS PROPRIETARIOS DE PRÉDIOS. Correio do Povo. Porto Alegre. ANO - XXXI Num. 16,
p. 4. 18 jan. 1925.
19
Correio do Povo. Porto Alegre 3 jan. 1931.
20Em 1920 a população se estende para o norte, em bairros pouco habitado ou novos bairros. Centro,
32.000; Azenha, 46.000; Glória, 15.000; Floresta, 35.000; São João, 23.000. No mesmo ano de 1920,
em relação ao domínio da leitura, escrita e faixa etária até os 14 anos, em Porto Alegre há 9.018
homens; 8.830 mulheres, no total de 17.848; na faixa dos 15 anos ou mais, 45.466 homens; 41.4652
mulheres; perfazendo 87.118, totalizando no geral 104.996 pessoas. Reunindo sexo e origem, há, no
Rio Grande do Sul, 1.014.905 homens brasileiros, 87.031 homens estrangeiros e 2.050 ignorados,
total 1.103.986. Já as mulheres brasileiras são em número de 1.013.185 para 63.994 estrangeiras e
1.548 ignoradas, no total de 1.078.727. FERRETTI, op. cit., 1984; BRUM, op. cit., 2003.
21
CONSTRUÇÃO de um Palacete. Correio do Povo. Porto Alegre. ANO – XXX N. 52, p. 1, jan, 1924.

61
V
Os erbos dos migrantes espanhóis:
partir, transitar e chegar
Tentar refazer essa narrativa da presença
espanhola para a cidade de Porto Alegre
significa demover continuamente as fronteiras
e demarcações da historiografia regional,
entendendo-se a dinamicidade dos processos
de constituição de grupos étnicos e suas trocas
culturais, econômicas e políticas.
Vale lembrar o óbvio: a proximidade da cidade com a região do Prata,
afora a barreira lingüística, representou desde sempre um ponto de trânsito que,
em muitos casos, se tornou ponto definitivo, ainda que não planejado, da traje
tória de migrantes que partiram desde a Espanha, ou de espanhóis residentes
provisoriamente em outros países europeus.
Os migrantes espanhóis reconstituem ao longo de gerações, o que resta
dessas rupturas dramáticas e dos novos laços com a terra estranha, onde seus
netos e filhos nascem e inscrevem outras identidades culturais. Quem sou? Tal
resposta muitas vezes começa a surgir quando revisitam a terra do seu imagi
nário familiar e uma Espanha configura e encarna, enfim, o mito das histórias
e narrações em família.1
Os modos de nascer, viver, amar, cultuar e morrer são reconstituídos pelos
grupos humanos deslocados em condições as mais adversas, em países como o
Brasil, tido historicamente como aberto a toda forma de recepção de migrantes,
ainda que tenha tardado em abrir-se para os asiáticos. Afinidades decorrentes
da formação territorial e política brasileira, onde os reinos ibéricos alternaram
a dominação no extremo sul do Brasil das coroas portuguesas e espanholas,
redesenhando os seus mapas coloniais, reservaram um papel importante para
tamanha porosidade em relação à presença espanhola desde o povoamento e a
colonização no Brasil como já foi dito anteriormente.

A aventura americana

O Novo Mundo atraiu os espanhóis. O espírito de aventura imantou a


decisão dessa vertente migratória apolítica, esgotadas as possibilidades no
Velho Mundo. Já na vertente política exacerba-se a condição de exílio partilhada
por qualquer migrante.
Romper com uma história que tinha tudo para ser reproduzida ad
eternum é a clivagem de qualquer percurso de migrantes. Nem todos podem
decidir; a impossibilidade de continuar no país força a partida. Que o digam
Cid, o Campeador, os jesuítas desterrados, ou Miguel de Unamuno, o reitor
exilado durante a Guerra Civil Espanhola.
Nas secções anteriores, viu-se como no final do séc. XIX e início do séc.
XX iniciam os registros e notícias de migrantes espanhóis em Porto Alegre.
Conforme o Arquivo Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, mais precisa
mente abril de 1889.
Antes, uma introdução sobre a narrativa dos discursos adotada no que
segue. Os excertos das histórias de vida dos entrevistados aqui retraduzidos na
escrita da História estão ancorados nos seguintes parâmetros:

64
•O processo migratório tende a ser intermitente, refletindo-se como tal
na produção narrativa. Lacunas imensas acompanham a tentativa de conferir
uma coerência e uma inteligibilidade ao relato. A imaginação colabora, unindo
pontas e pistas abandonadas aqui e ali pelas personagens;

•A memória, sempre seletiva, vai desvelando, ao mesmo tempo em que


encobre, os acontecimentos das famílias, dos grupos humanos, nas distintas
temporalidades e espacialidades envolvidas no ato de migrar, transitar e
chegar;

• Epílogos nem sempre são felizes, do ponto de vista dos sonhos e


projetos que imantaram a separação. Como tentativa de sobrevivência mesmo
que simbólica, não obstante, alcançam um certo sucesso, como se pretendeu
demonstrar. Questão de perspectiva, mas qual narrativa não o é?

Hermínio, Carmen e Estelita: galegos em Porto Alegre

Os seguintes entrevistados enquadram-se no já ilustrado itinerário cujo


destino seriam, principalmente, os países do Prata, Uruguai e Argentina. Afini
dade lingüística, dizem eles, para justificar suas opções.
Perfazendo o trajeto Rio de Janeiro – São Paulo – Rio Grande do Sul,
muitos sequer se empregavam, e alegando engano, obtinham passagens para
o Rio Grande do Sul, Porto Alegre, pela acessibilidade aos países do Prata. Mas
as ofertas de trabalho, associadas a uma rede de espanhóis, principalmente de
galegos, na cidade, acabavam por atrair os aventureiros. E esses aqui se estabe
leceram. A história a seguir é paradigmática. Nela a auto-representação do grupo
é caracterizada pelo pertencimento galego.
Carmen Gandara Rodrigues (1918), nascida em Santiago de Compostela,
terminou envolvida na migração pelo ímpeto de aventura que se instalara preco
cemente na família de seu marido Antonio Fernandez Suarez, igualmente galego.
Esse tinha uma história interrompida para resgatar, um ideal romântico,
viver no país da América Latina, o Uruguai, onde nascera sua mãe, Ermenegilda
Suarez Fernandez. E pretendia seguir os passos de sua mãe, com o seu imagi
nário incendiado pela recuperação das origens.
Refazer essas trajetórias pessoais requer iniciar em 1890 quando Fernando
Fernadez Pastoriza, sogro de Carmen, chegou ao Uruguai, como tantos outros
que estavam migrando da Espanha, em busca de melhores condições de vida.
Casada por procuração, como era usual, na Galícia, a sogra teve filhas e filho. Lá
vive, até defrontar-se com problemas familiares. Inconformada com a situação
pede para ser repatriada e retorna para a Espanha. E perde-se o fio da história

65
desse espanhol. Restou a admiração da família, pela autonomia da atitude da
sogra, considerando os padrões morais vigentes. De resto, essas lacunas nas
histórias de famílias, mormente de famílias que migram, é recorrente.
Esses anos precedem a alteração da política migratória espanhola, pois
em 1907, a Espanha limitou a emigração para o Brasil. Sobretudo, desde a
Proclamação da República no Brasil, que a Espanha só reconhecerá em 6 de
abril de 1890 e afetada posteriormente pela ação brasileira em desconformidade
com a Espanha, na guerra de Cuba.
O fato é que seu marido Fernando veio para Porto Alegre, em 1953, de
passagem para Montevidéu, mas agradou-se da Cidade. Na Galícia era agente
do correio, “e escrevia cartas, era um intelectual, diferente de todos os homens
lá da região [...] onde morava, alfabetizou quase todo mundo lá, meu pai lia
muitos livros, sabia muita história... era um homem muito culto” na descrição
da filha Elisa, que atuou na entrevista de Carmen.
As buscas das origens e da expansão por novas oportunidades foram
menos determinantes que a Guerra Civil, onde combateu do lado legalista. “A
guerra não escolhia, tinha idade para ir, tinha que ir”, Com o seu término, a
pobreza na Espanha precipitou a decisão. Na Guerra Civil combateu durante três
anos, como os irmãos de Carmen, que perdeu quatro primos na mesma.
Ele permaneceu em Porto Alegre durante três anos, retornou à Espanha
em 1956, optando definitivamente pelo Brasil. Carmen veio para a cidade nesse
ano, nos seus 38 anos, tendo passado a Segunda Guerra com os quatro filhos,
Manuela, Elisa, Ramon e Adelina, (12, 11, 10 e 4 anos).
Trabalhou no setor de serviços urbanos artesanais, no Bairro Glória, Tris
teza, Assunção, Ipanema, Jardim Isabel, como afiador de facas, modo de inserção
na economia urbana bastante comum para os estrangeiros que chegavam.
Decorridos todos esses anos, no entanto, é ainda intensa a saudades
de Carmen e da sua Galícia “eu trabalhava na colônia e vivia muito bem com
meus filhos, tinha pai, tinha irmãos, vivia maravilhosamente bem”. A guerra
empobrecera a Espanha, a Europa, mas não afetara tanto o seu estilo de vida.
Conforme a narrativa de Elisa:

não era o nosso caso. Como éramos colonos, tínhamos muita fartura porque morá
vamos pertinho de Santiago. Nossa terra lá era muito fértil, muito boa... Vamos
fazer uma comparação: a Vila Nova é um núcleo agrário que existe dentro de Porto
Alegre; onde nós morávamos na Galícia era a mesma coisa que aqui a Vila Nova,
não tinha muita dificuldade para nós. Já para outros estrangeiros que moravam na
cidade, para a família do meu marido que morava em um lugar mais pobre, mais
montanhoso, aí sim, eles vieram por motivo de fome e de dificuldade mesmo. É
que meu pai não gostava de trabalhar na terra, meu pai era muito aventureiro.

66
as malas: nossas testemUnhas silenciosas.

A tarefa de instalação do marido de Carmen é favorecida quando conhece


um grupo de espanhóis que terminarão futuramente fazendo parte de sua
família. No restaurante onde se conhecem é convidado a sair da pensão onde
se hospedava e morar no quarto vago na casa dessa família. “Era uma família
de amigos que foram se tornando parentes depois porque eu me casei com
um sobrinho dessa mesma família. Ficou assim, a mesma coisa que família,
ficaram compadres”, conta Elisa. A sobrevivência possibilitando os casamentos
endogâmicos.
Carmen inicia sua aventura americana “quando embarcou no navio com
seus quatro filhos, até Santos, levando 14 dias e 14 noites”. Depois de Santos
para São Paulo de ônibus, onde aguardaram três dias até haver avião para Porto
Alegre. Ao partir vendeu as terras, a casa, herança de seu pai.
Vão morar na Rua Manduca Rodrigues, onde morava Antonio com outros
espanhóis. Havia uma casa vaga, onde ficaram. Complementa: “sete anos
depois da Glória nós fizemos nossa casa aqui, há 48 anos”. Sendo os primeiros
moradores do Bairro Nonoai. O sistema de cooperação voltou a operar, quando
abrigaram outra família de galegos, que acabaram voltando para a Espanha, do
mesmo modo como haviam sido protegidos, nos momentos iniciais em 56.
A primeira providência após a chegada foi a escola para os filhos,
no Bairro Glória, na Escola Venezuela. Depois na Escola Machado de Assis,

67
comprovando o valor familiar atribuído à educação como meio de superação das
dificuldades decorrentes da migração.
O trabalho doméstico de Carmen complementava o de afiação de facas;
a montagem de guarda-chuvas. Vinha o esqueleto, a armação e o pano, sendo
que os pedidos vinham do Gideon, que juntava uns 50 panos para a montagem
domiciliar. A família posteriormente chegou a ter uma banca na Praça XV, a “17
de março” mas o sedentarismo da atividade não lhe agradou e desistiu, após
certo tempo.
Uma existência na qual a matriarca buscou manter os costumes da
Galícia, a começar pela criação de animais: “criando porcos aqui atrás (da resi
dência) e no sítio, onde tínhamos cavalos, vaca de leite, ovelhas. Hoje o sítio
está semi-abandonado. Mas já teve até caseiro”.
A depender dessa espanhola, não haveria migração, embora ainda
negocie com sua vida no Brasil: “tenho uma pensão de meu marido da Espanha
e por aqui também e não me falta nada de nada. Mas até hoje me arrependo de
ter saído da minha casa”.
Sobre a disposição de voltar, em algum momento de sua vida, Carmen
declarou seu senso de adaptação, uma compreensão que nas circunstâncias
dadas, não havia muito que fazer, senão tentar a nova vida: “eu vi casar meus
filhos, aqui estudaram, e lá, trabalhando a terra, não estudariam; aqui sempre
trabalhamos, temos a nossa casa, aqui no Brasil sempre gostei muito, todos
estão bem; na Espanha também estariam, pero que no hay terra, no hay nada”.
De certo modo, a filha Elisa questiona a migração, uma vez que não
participa ativamente dessa Espanha moderna. Valores afetivos pesam, tanto
que nunca deixou de manter contato com a família na Galícia e anota:

eu acho que os outros se adaptaram melhor porque lá eu morava mais com meu
avô do que com minha família. Então foi difícil a adaptação, levei muito tempo;
depois de adulta fui me adaptar....Com meus irmãos foi mais tranqüilo... porque
o adulto sabe porque vem, mas é difícil para a criança; se deixa o lugar, a família,
os brinquedos e começa num lugar diferente; eu digo isso para meus filhos hoje:
o jovem que vem de lá assim, novinho, como nós viemos, tem que ser muito forte
porque não foi uma decisão dele, entende?

Elisa, casada, já teve várias empresas, dentre elas, uma metalúrgica, a


“Pelegrense”. Quando alugaram o prédio, fixaram-se no ramo dos vidros, há 37
anos na zona sul, no Guarujá. Hoje reorientam a empresa para as molduras,
acompanhando as oscilações do mercado de porte médio. Seu irmão, empre
sário em São Paulo, mantém também contatos com a numericamente impor
tante comunidade galega paulista.

68
Esses percursos bem-sucedidos perfazem uma espécie de característica
do grupo, ao comentar a dinâmica da interação onde foi socializada na cidade.
Não haveria diferença social no grupo de galegos que interagia com a família,
por conta de que:

quando chega num país, com a malinha na mão, o galego é tipo italiano, não
tem medo de nada, passa necessidade e a primeira coisa que faz é comprar o
apartamento, a casinha... para sobreviver legal, uma das coisas é estudar, se
formar ou partir para o comércio; como exemplo posso pegar a família do meu
marido, todos eles são comerciantes: super mercado, madeireira, coisas assim.

Essas narrativas alternadas entre gerações, mãe e filha reunidas para


compor o “retrato familiar”, as dissonâncias e as afirmações cúmplices dos
segredos familiares, o que pode vir ao público, compuseram ao fim, o que já se
sabia: os valores do trabalho para os galegos, nas cidades onde se instalaram,
por todo o Brasil. Porto Alegre não é exceção.
Outro perfil revela-se na história de Estelita de Aguiar Branco (1949)
artista plástica, professora, nascida em Porto Alegre. Seu pai, nascido em 1888,
José Fernandes Blanco (apesar de ter sido registrado como Branco na sua chegada
ao Brasil), só chega a Porto Alegre aos 25 anos.
Quando seu pai migra, a intenção, irrealizada, seria ir para a Argentina,
como tantos outros. Porém optou pela cidade, em vista da existência de uma
rede de apoio de galegos, comum ao fato migratório bem-sucedido.
Partiu da Espanha e veio ao Brasil com apenas 12 anos (nascido em
1888), acompanhando o irmão, Mariano Fernandes Blanco, com 21 anos na
época. A Guerra do Marrocos, em 1901, ameaçava a convocação deste. Sua mãe,
Izolina de Aguiar Branco, sabendo da existência de espanhóis em Salvador,
Bahia, apoiará a partida. Essa colônia de galegos talvez seja ainda hoje a maior
do Brasil, superando a do Rio de Janeiro e São Paulo. Os dois irmãos desembar
caram na Bahia e, logo em seguida, dirigiram-se para o Rio de Janeiro rumo ao
trabalho na estrada de Santos. É bom salientar: na época, poucos segmentos da
economia brasileira absorviam tanta mão-de-obra estrangeira não especializada
como a construção de estradas. Acorriam homens, jovens, a maioria solteiros,
para esses trabalhos. Depois de estabelecidos, chamavam o restante da família,
mulheres, crianças, idosos, esses muito raramente.
Porém a depressão acomete seu irmão Mariano, e tudo indicava que retor
nariam. Com o dinheiro obtido, de fato, este retorna, mas José vem para Porto
Alegre e acabou especializando-se em cantaria, à convite de um grupo de espa
nhóis que trabalhava em pedra, na Serraria, zona sul da cidade. Nessa região
havia antigamente um tipo de trenzinho que se dirigia até o Espírito Santo,

69
denominada “a linha do tiro” em função da explosão das pedreiras na região do
Guarujá, Serraria e Espírito Santo.
Também migram por essa época, só que para a Argentina, duas irmãs
de José e outro irmão mais moço, que se dirige a Porto Alegre e se casa com a
irmã da mãe de Estelita. A artista considera relevante, nessa opção, os aspectos
físicos, do lugar:

[...] os morros, a pedra, que era característica marcante do pueblo dele, e a proxi
midade com o Rio Guaíba. Essa imensidão de água para ele era uma coisa muito
maravilhosa, pois no Norte da Espanha há poucos rios e a maioria que eles tem
acesso, são geralmente filetes. Então isso, aqui, era o paraíso, era tudo que ele
queria encontrar. O clima era propício porque lá é muito frio e neva. É claro que
para muitos espanhóis a Bahia, o Rio de Janeiro e São Paulo eram muito quente,
muito diferente. Aqui nós temos essa possibilidade do frio e do inverno e do
vento, essa coisa assim o aproximava da lembrança do passado.

A região de José permanece quase intocada. Estelita, em viagem à Galícia,


em 1987, conhece pueblo de seu pai, San Tigoso, pertencente à Agudiña, uma
passagem de trem importante e próxima à fronteira com Portugal. A criação
doméstica de animais, o pastoreio de cabras e de cabritas ainda são realizados
tal como seu pai fazia, quando José era criança. Com emoção, Estelita assiste à
mesma cena que seu pai descrevia: “pessoas reunindo suas cabras num grande
pasto, e depois o pastor com a flautinha subindo para a montanha com todo o
grupo de cabras e ovelhas”.
Mas a sobrevivência de José seria estritamente urbana em todas as cidades
percorridas. Em Porto Alegre, o grupo de espanhóis que o acolheu não tinha
família, moravam numa espécie de galpão. Ali ficou por muito tempo, até casar
se com Izolina uma descendente de italianos, aos 37 anos. Casamento arranjado
que o fez desistir de retornar para a Espanha e também lhe deu o direito de
ocupar sua casa, como todos que casavam.
Os sete filhos que o casal teve receberam seus nomes em homenagem aos
países de adoção e aos parentes próximos, mas afastados pela migração. Hábito
nas famílias, na época, mas acentuado pelas diásporas familiares que separou
para sempre José da maioria de seus parentes. Expressam a trajetória migratória.
A saber: Américo (já falecido), em homenagem à América, porque ainda
acalentava a esperança de retornar, Faustino, nome em homenagem ao avô de
Estelita (Sr. Brasilino) óbvia homenagem. Quando chegou a notícia da morte
de seus pais, desistiu de retornar, definitivamente; a próxima filha chamou-se
Estela, para homenagear a irmã que migrara para a Argentina, e a outra, Eleonor,
também em homenagem a outra irmã migrante; em seguida nasce Aristides,

70
Farinheiro de pedra2.
Acervo de Estelita de Aguiar Branco (Blanco).

nome de um primo, e por fim Estelita, nascida fora do tempo, o pai com 60 anos,
a mãe, quarenta anos.
José e suas irmãs na Argentina nunca se visitaram, porém se escreviam.
Aos pais, na Espanha, José enviava as “letras”, certa quantia do que chamavam
dinheiro, que depositado em banco, era retirado na Galícia.
Estelita estava com 9 anos quando seu pai faleceu, aposentado e traba
lhando na roça, em Ponta Grossa nas terras que comprara – retomara seu passado
galego. Da rotina familiar, recorda que seus irmãos começaram muito cedo a
trabalhar com o pai. Um dos meninos se orgulhava de dizer que fazia aos 7 anos,
por dia, três ou quatro blocos quadrados de pedra. Já mais adulto, competia com
os grandes cortadores. Disciplina imposta pelo pai, que fazia dos filhos seus
seguidores e da esposa e das filhas, obedientes adultos em formação.
Essa experiência rompe com o papel tradicional conferido às mulheres,
nessa cultura de raízes rurais. Estudou no Instituto de Artes da UFRGS onde
cursou Licenciatura. Casou-se, separou-se, tem os filhos Alex e Aline, os netos
Hector e Isadora.
Desde o autodidatismo do pai que estudou astronomia, desenho geomé
trico e lia literatura para a mãe semi-analfabeta, aos irmãos mais velhos, todos
com o ensino básico, a escala ascendente da educação formal salta para o irmão
mais velho que fez Economia e para os sobrinhos e seus próprios filhos, com
pós-graduação e doutorado. A trajetória parece ter superado as adversidades
que fizeram o pai migrar. Vidas bem-sucedidas, prazerosas de narrar.
Talvez, por tudo isso, sua memória tenha conservado de modo espe
cial à lembrança dos objetos que seu pai produziu e as histórias que ouviu em
família. Como artista que perdeu prematuramente esse laço afetivo, preservou a
história pessoal na memória social, quase étnica, num certo sentido, pois reúne
na sua trajetória ambas as referências. Reconstituiu imagens paternas segundo
dobras numa leitura afetiva, outro modo de perceber a dedicação a determi
nados objetos, o uso contumaz de cadernos, lápis ou de pedras e instrumentos
para cinzelar do pai.

71
Guarda Louças.
Acervo de Estelita de Aguiar Branco (Blanco)

“O lado macio”, como diz, do pai e de seu trabalho na pedra, visualizou


a transmutação e o apagamento das fronteiras entre o mundo do trabalho e o
mundo da fantasia, da sensibilidade. Às vezes no mero carinho demonstrado
num ovo de pedra para a costura das meias que seu pai cinzelou para sua mãe,
no abandonado ato de cerzir e nas sessões que reuniam as mulheres da família,
noutras épocas. Ou no guarda-louça que ao fazer, destinou-o a acompanhar a
família durante 50 anos, “testemunha muda” conforme a artista, desde que
perdeu seu pai em 1958, em Porto Alegre.
Estelita mostra, pelos caminhos da estética, este lado do pai que se apri
morou estudando. Abriu passagens na memória familiar através desse lado
galego, que transformou em arte, nas instalações com fotografias, bordados. A
sua percepção exacerba, transita da mera funcionalidade dos objetos para ver no
homem e seu trabalho, o ato:

de uma beleza muito grande para um homem marcado, mais duro; era o lado macio
dele; tanto na pedra, esculpir um ovo, não tem uma coisa mais bonita ou moranga
que é de madeira ou essa fruteira que ele fez em forma de flor; essas coisas todas

72
mais os cadernos que ele tinha de desenho geométrico, que ele fazia estudos; eu
acho que me marcaram, porque desde menina eu desenhava muito; escrevia histó
rias e desenhava minhas histórias e as lia para os meus irmãos como meu pai.

Sua narrativa foi peculiar, não poderia ser diferente. Produziu-se em meio
a fotos, obras de exposições, folders, slides, portifólio, explicando e interpre
tando os panos, os bordados. Outra narrativa histórica, certamente.
O último perfil galego é trazido pela história de Hermínio Garcia Gamallo
(nascido em 1933). Trânsito e dispersão das famílias espanholas entre os países
americanos também ocorreu com sua família. Há familiares que se localizam
atualmente na Venezuela, Uruguai e Argentina (com estes ainda mantém
contato). Chegou a Porto Alegre aos 14 anos, com sua mãe, Maria Gamallo Rey,
então com 47 anos em 1959.
Seu pai, José Garcia, carpinteiro, os antecedera, chegando ao Brasil em
1954. A decisão de migrar decorreu do quadro dramático da Guerra Civil, quando
foi padioleiro nas áreas de ambulâncias, convocado pelos legalistas. Com os
rumores de que haveria uma segunda guerra, abandona a Espanha. Nunca
gostou de comentar sobre essa guerra que, inclusive, lhe resultou em trauma.
Migrou sem definição sobre o destino final e, ao acaso, vem a Porto Alegre em
1955, de passagem para a Argentina, como tantos outros, fugidos da guerra.
Como nas demais histórias de vida de migrantes, ao encontrar-se em Porto
Alegre foi acolhido por uma rede de espanhóis localizados em vários bairros da
Cidade: Tristeza, Petrópolis, Avenida Assis Brasil. “...o clima também favoreceu
um pouquinho, porque no Rio de Janeiro ele não se adaptou”, acrescentou.
Ser carpinteiro era uma tradição de família desde a Galícia e vinha coin
cidir com uma conjuntura favorável. Desde 1950, o processo de modernização
nas principais cidades latino-americanas incita a busca pela imagem da cidade
metrópole, o que vai demandar uma grande quantidade de mão-de-obra para a
construção civil, sendo bem-vinda a migração de operários especializados.
Esta Porto Alegre contrastou com as imagens do passado rural recente
de Hermínio. Até migrar, viveu como qualquer jovem na Galícia, lembrando da
tirânica rotina da sobrevivência de pós-guerra:

a vida era de como qualquer criança; todo dia na escola e quando não havia
escola era trabalhar no campo. A cidadezinha que eu nasci era um lugarzinho
pequeno, com umas cinqüenta famílias, um pueblo chamado Figueroa, ajunta
mento de Cerdera. Tinha que trabalhar para garantir a comida durante a semana.
Se plantava, se comia; se não plantava, se não trabalhasse, não se comia. Quando
cheguei ao Brasil praticamente não tinha saído da minha região... o máximo que
eu tinha saído era até Pontevedra.

73
Ao partir para o Brasil, nesses anos de 1950, Hermínio e sua mãe, como
tantos galegos, embarcou no porto de Vigo, Pontevedra, no navio cabo Hornos.
Atracaram nas Canárias, rumo ao Rio de Janeiro, depois São Paulo, enfim, Porto
Alegre. Quando chegou ao Rio de Janeiro: “a imensidade do país, vamos dizer
assim, das coisas; muito grande; a impressão ao chegar é que era tudo imenso”.
A sucessão de panoramas inusitados alterna com as peripécias da
viagem, fixadas em trânsito de migrantes. Ainda mantém a narrativa juvenil
dessa epopéia:

Canárias foi isso aí; um lugar bonito, eu de lá de cima, é uma região muito bonita,
na encosta do morro, vista do porto, era tudo plantação de banana; muito dife
rente daquilo que a gente conhecia. Mesmo do Brasil eu tinha informação, só
história, geografia que se conhecia na escola. Depois sim; aí tinha as informações
do pai e tal; mas eram informações só sobre a família e eu estava louco para vir
ao país.

A maioria das cartas trocadas entre os familiares, durante o período inter


mitente, quando estão, por vezes, anos separados, não abordam as temáticas
para além do universo da sobrevivência e dos ritos principais que marcam os
nascimentos, os casamentos, as mortes, além das agruras das guerras, para
os espanhóis em especial. A dimensão do Brasil, as especificidades culturais
e históricas são relegadas a segundo plano. Não espanta que a imagem inicial
estivesse focada na natureza e na sua dimensão, por contraste a Galícia, como o
tipo físico humano dominante nas duas cidades, no Rio de Janeiro, mais misci
genado, outro, Porto Alegre, com traços europeus.
A narrativa dessa viagem detém-se em contratempos também, dada a
cerração que ocorreu nas Canárias, e o jovem, curioso, subindo à proa, adoece,
vai ser tratado e quase operado, na enfermaria do navio. Fatos que marcam um
adolescente. E segue contando as imagens de chegada, quando os familiares os
levam para um passeio no Balneário de Ramos por um dia, até tomarem o trem
até Santos. O Rio de Janeiro, conforme Hermínio:

não era o que hoje; era uma vegetação na encosta dos morros, não tinha favela,
quer dizer, em termos; devia ter favela mas não na proporção que é hoje; eu vi ali
na encosta de Santos, na beira da estrada, naqueles morros, era tudo plantação
de banana, vegetação verde, era outro Rio que não é hoje; que por sinal eu só
estive mais uma vez no Rio, não sei como está agora.

De Santos, tomaram um trem até a Estação da Penha, em São Paulo.


De lá, enfim, o trem até Porto Alegre. Esse último trecho, em todos relatos,

74
nos anos de 1950, compareceu negativamente. O tempo demandado pratica
mente era o mesmo que o de atravessar o Oceano de navio. A narrativa desse
percurso alinha as memórias de criança com as do adulto que se formou enge
nheiro. A estrada de ferro iniciava por um tipo de bitola que ia se modificando
ao longo do trajeto. Isso requeria baldeações como a ocorrida em Santa Cata
rina quando passaram de um trem para o outro com o rio quase alcançando
os trilhos. Segue Hermínio:

em Santa Bárbara do Sul ficamos uns dois dias parados no meio do campo porque
estragou o trem... só se enxergava o campo e o gado e era gado morto no campo;
na beira da via férrea. Não tinha as plantações que tem hoje.

Aventuras à parte, na chegada a Porto Alegre aguardavam um contato,


uma vez que expedira um telegrama avisando, ainda em São Paulo “que até hoje
não chegou, deve estar chegando”. As dificuldades para a família se apresen
taram de imediato; como localizar esse pai, esse marido?
Acontece que a expansão urbana levou à delimitação de bairros novos
para as camadas médias e baixa da população que migravam incessantemente.
Sem muita infra-estrutura, desconhecidos para além de seus próprios mora
dores. De táxi, na madrugada, às três horas, foram Hermínio e sua mãe até o
Bairro Santo Antonio, até onde sabiam, encontrariam parentes.
O endereço do pai era outro, morava na Vila Bom Jesus. Ninguém conhecia,
perambularam de táxi. Na delegacia, outra indicação, mais duas horas despen
didas. No retorno ao bairro já visitado, uma pessoa, com uma camionete, pron
tifica-se: “se existe o endereço, vamos achar!” E às seis da manhã os conduz
até uma casa. “Uma cena engraçada” não era seu pai, mas o motorista que os
auxiliava, amedrontado, armado de dois revólveres, mais dois cassetetes, vai
subindo a Protásio Alves, a Barão do amazonas até encontrarem a casa do pai.
Até hoje o Bairro Bom Jesus concentra um número expressivo de espanhóis
dessa época e onde ainda reside Hermínio, hoje casado.
Começou ali a vida americana para Hermínio. Quanto à dificuldade com a
língua; “fácil, o galego e o português são línguas parecidas, não é como o espa
nhol, que eu falava na escola; porque fora da escola era o galego, o dialeto... Aí
entrei para o colégio, para concluir o primeiro grau”.
A vida foi escola e trabalho. O trabalho foi acompanhar o pai. A primeira
obra que lembra acompanhar foi na Cristóvão Colombo. Um edifício sendo cons
truído, próximo da então Brahma, de onde vinha um cheirinho de cevada... tem
que se adaptar, a gente que era do campo.
O estudo à noite, por sua vez, dificultou a vida social de Hermínio. O colégio,
depois a Faculdade, absorveram esse tempo. Aceitou o desafio de uma chefia:

75
“tu não vais conseguir fazer a faculdade, porque o serviço não é só dentro do
horário”. “Bom, das oito da manhã às seis da tarde, que é o horário que eu tenho
que trabalhar na empresa cumpro minha obrigação, depois... estou livre para o
que eu desejar fazer”. [Assim o fez]

Filho único deixou-se absorver pelos compromissos também com a família.


O pai faleceu aos 70 anos, dobrando sua responsabilidade familiar. Com a Espa
nha, mantém contato até hoje, mas jamais retornou. De Pontevedra, já recebeu a
visita de primos, dando conta que o lugar permanece o mesmo, uma vila no meio
do campo. A filha já conheceu, comentando que não imagina sua vida lá. Ficou
com parentes, conheceu países, mas preferiria ficar em Barcelona. Naturalizado
brasileiro, em 1970, porque foi admitido no serviço público, na Companhia Esta
dual de energia elétrica, manteve, ele e a esposa, a cidadania espanhola. Tenta
passar para os netos. Filho professor de informática, a filha formada na PUCRS.
Migrante que organizou sua vida em torno da modernidade, cerca-se
da informação pelo canal internacional. Tem opiniões. Para ele a performance
econômica de seu país de origem possuí uma faceta interessante, porque “se há
modernidade, há recursos”. Por exemplo “o governo espanhol oferece pensões,
auxílios, intercâmbios”. Como muitos casos que conhece no Bairro Bom Jesus,
de espanhóis que necessitam absolutamente dessas pensões. Mas há um cálculo
social nisso, qual seja ser mais fácil “manter o migrante fora do que levar para a
Espanha como no caso da Argentina: quantos milhares de pessoas retornaram
para a Galícia devido à crise?”.
Não deixa de ser procedente: a economia européia, e Espanha não é
exceção, está às voltas com os custos dos benefícios sociais de uma população
envelhecida, fora do mercado de trabalho. A possibilidade de reversão da direção
da migração dos ditos improdutivos sobrecarrega o Estado, que já se encontra
com excesso de migrantes dentro da comunidade européia.
E hoje com as comunicações se sabe o que está passando lá e o que está
passando aqui; hoje a tecnologia evoluiu... é mais interessante que fiquem por
aqui; claro, não vão dizer assim ‘tu és um galego, eu vou te excluir; não fizeram
isto e eu acho que não vão fazer.
Lamenta, por outro lado, que mesmo com a demanda crescente, com a
vinda do capital espanhol para o Rio Grande do Sul, como por exemplo, a Tele
fônica, ou Parque Eólico de Osório (em conjunto com o capital alemão) onde
executou algum trabalho, não exista maior interesse de fixação de residência,
apenas interesses econômicos. Seria na contramão dos jovens que buscam os
EUA, a Europa, desconhecendo a própria cultura de seus antepassados. Finaliza
Hermínio que: ”se não cultiva a cultura, ela se perde”. Há 55 anos no Brasil,
completados à época da entrevista, sabe o que diz.

76
A história transversal de Marilice

Com Jesus Maria Corona, nascido em Cúdon, em Santander, (1871) bisavô


da artista plástica e professora Marilice Vileroy Corona (1964), a inscrição da
América Hispânica na história familiar teve conotação menos como “aventura
americana” e mais política. Quando narra, Marilice recorre à escrita dos 24
cadernos do diário inédito de seu avô, Fernando Corona e sua memória familiar.
Quando as lacunas surgem, recorre à mãe, Magali Vileroy Corona, para trazer
as pontas que restabelecem a narrativa.
A história da família Corona na América Latina principiou em Buenos
Aires, como conta Marilice sobre seu bisavô (republicano, arquiteto e escultor)
aproximadamente em 1911 estava trabalhando na decoração da Catedral de
Vitória quando ocorre um fuzilamento em Barcelona. A esse fuzilamento seguiu
um comício de repúdio na localidade. Houve repressão e novas mortes, quando
foi ameaçado de prisão e de morte pelas forças políticas monarquistas, resolveu
fugir para New York. Seu filho Fernando, então com 13 anos, recebeu a incum
bência de voltar e avisar a mãe que se encontrava em Santander.
Jesus Maria Corona, em vez disso, vai para Buenos Aires, onde há trabalho.
Da oficina de João Vicente Friederich que estava recrutando artistas, artesãos e
arquitetos na Argentina, parte o convite que fará o escultor vir para Porto Alegre.
A edificação suntuosa das elites, a estatuária, a Belle Époque nas primeiras
décadas do século XX demandava a mão-de-obra estrangeira especializada.
A década de 1920 sinaliza para o avanço da aura monumentalista nacio
nalista. A densidade social do mito farroupilha terá seu auge nos anos de 1930,
e diferentes localidades no Rio Grande do Sul disputavam visibilidade e legitimi
dade no discurso de formação histórica do estado. Em 17 de setembro a Secre
taria de Obras Públicas lança edital para apresentação de projetos “à memória
de Bento Gonçalves e dos demais revolucionários de 1835, e um Pantheon, ao
qual serão recolhidos os restos mortais dos rio-grandenses notáveis e das que
se devotaram ao serviço do Rio Grande do Sul”. Concorre Jesus Corona, como
concorreria em outros projetos. Não vence. Mas na Confeitaria Rocco ainda pode
ser apreciada sua escultura, na fachada, como em outras obras ainda resistentes
à modernização dos anos 1950 na cidade.
Em 1912, Fernando Corona, aos 16 anos, reencontra o pai e, juntos,
estarão presentes na evolução da escultura e no ornato de prédios, alguns visí
veis na atualidade. Um exemplo é o edifício da Sociedade Espanhola de Socorros
Mútuos de Porto Alegre, construído pela colônia espanhola, em 1929, um dos
muitos projetos de Fernando Corona e cuja fachada permanece intacta na rua
Andrade Neves, nº 85.

77
Diário de Fernando Corona. Acervo de Marilice Corona.
Nos anos de 1930, a presença espanhola destacou-se com a doação dos
espanhóis da Fonte de cerâmica de La Reina nos comemorativos do Centenário
da Revolução Farroupilha. A fonte de Talavera iria tornar-se um dos marcos
permanentes da Cidade. Todo o projeto foi acompanhado e teve a responsabili
dade de Corona.3
Importa salientar o esforço dessa visibilidade étnica, em momento de mais
radicalização ideológica. Período de imposição da identidade nacional no Brasil,
o Presidente Getúlio Vargas estimulava as manifestações culturais que tivessem
um cunho de afirmação de símbolos constitutivos do projeto nacional.
As sociedades étnicas no Estado, em especial no cenário da capital dispu
tavam nesse Centenário a solidarização dos mitos farroupilhas aos dos migrantes
como contribuintes que, embora estrangeiros, eram partícipes assimilados ao
progresso e modernização brasileiros. Irresistível pensar-se que em especial os
espanhóis necessitavam solidarizar seus próprios conflitos internos. A iniciativa
da oferta da fonte partiu da Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos de Porto
Alegre. Através de comissão presidida por Isidoro Vila, que se encarregou dos
contatos com a Espanha.
Os fundos necessários foram arrecadados, através de doação, em todo o
Estado, sendo que o governador General Flores da Cunha subsidiou tais expedi
ções. Em gesto de boa vontade, Vargas liberou a taxação de direitos alfandegá
rios de entrada do país da fonte.
A localização da fonte presta-se a uma boa análise semiótica. O Major
Alberto Bins, então Prefeito do Município. Concordou em ceder à colônia espa
nhola o espaço central em frente à Prefeitura Velha, Praça Montevidéu, transfe
rindo a escultura A Samaritana, de Alfredo Adolf para outro local. Cedia, como
Corona adjetivou no seu discurso de inauguração, “a sala de visita da cidade”,
“marco zero” de Porto Alegre.
Tedioso enumerar as demais contribuições de Corona à Cidade. Melhor
consultar Fernando Corona e os caminhos da arquitetura moderna em Porto
Alegre a arquiteta Anna Paula Canez (1998) onde estão arrolados e comentados
os trabalhos entre 1930-50 que marcaram a sua presença no patrimônio arqui
tetônico de Porto Alegre. Destaca-se o Edifício Guaspari (1936), a Casa Sloper
(1938), a Galeria Chaves Barcellos, em colaboração com Agnello Nilo de Lucca
(1936), Banco do Comércio, atual Matriz do Banco Santander (projeto das
fachadas e decorações escultóricas em 1926), Escola Norma (atual Instituto de
Educação Flores da Cunha em 1933), Instituto de Belas Artes do Rio Grande do
Sul (1940) e o projeto do Cemitério Espanhol (1957). Mais que presença espa
nhola, uma presença “de espanhol”. Mais que tentar definir a presença espa
nhola, Corona foi uma presença “de espanhol”. Como disse Mallarmé: “definir é
matar, sugerir é criar”.

79
Atelier de Corona e Ghiringhelli4. Acervo de Marilice Corona.

Marilice está no processo de descoberta de várias obras de Corona que


não possuem autoria do mesmo, uma vez que ele não possuía reconhecimento
legal de sua formação como arquiteto, principalmente da época em que traba
lhou na firma Azevedo Moura e Gerton. A isto se deve também sua não inserção
como professor da faculdade que ajudou a fundar, a Faculdade de Arquitetura da
Universidade Federal em 1952.
O que está em aberto é o Corona da ação e da afirmação da hispanidad,
como buscou traduzir em ato, a sua identidade. Todos os entrevistados dos anos
50 fazem referência a esse intenso compromisso de uma vida. A iniciar pelo
campo artístico-institucional, lutando pela construção dos institutos universitá
rios e trabalho desde 1938, lecionando a disciplina de Escultura e Modelagem,
o esforço para a construção do novo prédio, hipotecando a própria casa, (como
conta Marilice) lecionando no Curso de Arquitetura Desenho Artístico e Mode
lagem, até sua exclusão quando da regularização da Faculdade em 1952.
O envolvimento político do pai de Corona prossegue, para além dele, com
o filho. Em 1964, Luís Fernando Corona, o arquiteto e professor da Faculdade
de Arquitetura, projetou com o pai, impedido de assinar, uma das referências do
imaginário da Cidade, o Edifício Jaguaribe (1951), será cassado no golpe de 64.
Do campo político, em aberto ao pesquisador dessa vida interrompida
desde a Espanha, as referências foram sendo construídas entre descobertas
pessoais e vultos de tios e tias, na narrativa de Marilice.

O que a gente ouvia, por exemplo, é que um dos meus tios esteve em campo de
concentração do Franco. O que a minha mãe conta é que quando esteve um final de

80
Escultura da Igreja Maronita em Porto Alegre. Acervo de Marilice Corona.

semana no Brasil ficou hospedado na casa do meu avô. Quando minha vó abriu o
armário, viu pilhas de sabonete, porque ele saiu como uma doença devido a imun
dície das condições de vida no campo de concentração. Diz que era na beira da praia
que eles dormiam, faziam tudo, comiam, bebiam. Ele saiu completamente trauma
tizado. Eu descobri também que meu bisavô era maçom quando veio para Buenos
Aires. E ingressou na maçonaria aqui em Porto Alegre também... participar dessa
coisas revolucionárias e tal, contra a monarquia e ser perseguido e depois meu tio
avô também, e para completar meu pai foi cassado em 64 no Instituto de Artes”.

O avô de Marilice e o grupo profissional ao qual pertencia, constituído


por brasileiros em sua maioria, tiveram um papel fundamental para arte, a
arquitetura da cidade. Um espanhol na cidade, que essa neta vai descobrindo
enquanto transita em Porto Alegre.5

O “último navio”: chegam Crispina, Olga e Hélios

Distintos dessas histórias de vida estão os espanhóis abrigados pela ação


internacional de várias agências interessadas no deslocamento dos espanhóis
asilados por força da Guerra Civil espanhola, principalmente os localizados na
França. A existência de fortes componentes ideológicos nesse grupo permeará
a vida social de Porto Alegre. As narrativas desta diáspora são ilustradas em
pequenos trechos nos quais algumas dimensões foram destacadas pela sua
importância para a história política.

81
ÁlbUm de família.
Santander, 1911. Acervo de Marilice Corona.

Para além dos grupos organizados politicamente, a solidariedade, a


formação política e o contato com os grupos que tinham ficado na Espanha, na
França, no México, uniram esse segmento espanhol, geograficamente disperso.
No governo mexicano de Cárdenas, se criou um governo paralelo no exílio,
fonte de intensos contatos mantidos desde então pela diáspora dos exilados.
Esperanças de manutenção de suas vidas como cidadãos nos países de adoção
reflete na perspectiva dos tempos a entrevistada Olga. Talvez igualmente com
prejuízo no ingresso mais efetivo na política local, acrescenta ela.
De qualquer maneira, a vertente dita política da migração espanhola
para as Américas, no Brasil, para o ano de 1952, assinalou a presença em Porto
Alegre dos Gonzáles, dos Garcez, dos Falceto, entre outros. Todos embarcaram
no “Castel Bianco”, no porto da cidade de Gênova, a última viagem de navio
promovida pela International Refugee Organization (IRO), a ação internacional
de ajuda aos exilados políticos da Guerra Civil Espanhola para as Américas.
Embarcaram Crispina Garcez (1925), professora, e seu marido, costureiro,
Juan Felix Garcez. Ela, nascida na em San Vicent Torello, região de Barcelona,
fora exilada, com seus pais na França desde seus 12 anos. Estava com 25 anos
quando chegou ao Brasil. Também Hélios Puig Gonzalez (1947), urbanista,
nascido em Muret, França, aos 5 anos acompanhando a mãe Matilde, com 31
anos e o pai, Juan Puig Elias, com 53 anos, catalão de Barcelona. Ainda Olga

82
Garcia Falceto, médica psiquiatra (1949), nascida em Barcelona (completando
três anos quando chegou ao Rio de Janeiro) e sua mãe, Remédios. O ramo da
família Garcia (tia e avó) seguiu para São Paulo e para Porto Alegre seguiu o
ramo da família Falceto.
O cruzamento das referências das histórias de vida ensejou uma escrita
agrupando a partir da memória social do que pode ser considerado como grupo,
conservada a devida singularidade quando foi o caso. Isso porque as disso
nâncias internas que surgiram, nas entrevistas, fez sobressair a subjetividade
social, sob as mesmas condições históricas.
De todo modo, qualquer exposição das narrativas colhidas é sempre um
expediente para a melhor comunicação e como tal deve ser compreendida. Traços
de uma história do tempo presente, com certeza, com a abertura para as revisões
historiográficas que podem ser realizadas desde então. Advoga-se uma certa
licença poética que as narrativas e as personagens apresentadas sugerem.
A primeira história é a de Crispina. Seus pais, saídos da Guerra Civil,
quando combateram Franco, refugiam-se na França, em Toulouse, onde os
exilados espanhóis se agruparam depois da Guerra Civil Espanhola. Mas as
alternativas de sobrevivência em território francês eram duras e escassas; ou
as minas, ou a agricultura. Saído do campo de concentração, a agricultura não
era conveniente porque a jornada era de oito horas, enquanto nas minas era de
seis horas.
Assim é que seu pai trabalhou de 1940 a 1948. Nascido em 1889, faleceu,
aproximadamente, aos 50 anos; o trabalho nas minas o consumira. As difi
culdades duplicaram para ela, sua mãe e sua avó. Aos 18 anos. Estando na
Escola Superior, empregou-se como monitora de crianças no alto dos Pirineus
Franceses, exatamente em Saint’ Marie. “Era uma espécie de funcionária indi
retamente da ONU e diretamente do que agora seria chamado de uma ONG,
americana”. Chegou a esse trabalho respondendo a um anúncio no jornal, no
qual uma entidade anônima procurava uma propriedade com grande área, para
aluguel ou compra, para ser uma colônia de crianças espanholas que vinham
dos campos de concentração. Os pais tinham falecido ou estavam impossi
bilitados. “As crianças se chamavam em francês desclassadas (fora do lugar
normal)”. O trabalho requeria uma terapia especial. Crispina foi selecionada,
pois era professora, falava francês, espanhol, fora chefe de bandeirantes.
Conheceu Juan Felix Garcez no enterro do seu pai, que também se inscre
vera para o trabalho nas minas. Anarco-sindicalista, ligado à Confederação
Nacional de Trabalhadores (CNT), saíra apenas em 1948 da Espanha. Lá ele
trabalhou como representante da Nestlé, como seu pai, até a situação ficar
insustentável e fugir para Toulouse. Mas para casar com Crispina havia uma
condição: “disse a ele que não casaria com um mineiro”. Deste modo, Garcez foi

83
aprender o ofício de alfaiate porque desse modo poderiam trabalhar juntos, ele
e sua mãe. Por fim, ele e Crispina casaram-se.
Conforme seus ideais políticos, Garcez organizou uma comunidade subsi
diada pela ONU e pelo Governo francês, o que era comum no esforço econômico
pós-guerra. Nos estatutos, houve permissão para a criação de uma comunidade
composta por inválidos e feridos da Guerra Civil espanhola, ao lado de pessoas
plenamente capacitadas. Aprovada em Paris, a experiência começou com seis
feridos, três válidos e Crispina de cozinheira. Ao ter seu primeiro filho lá em
Toulose, ela abandonou essa atividade e começou a fazer “as suplências com
estudantes de férias, quando meu filho já tinha uns oito meses”.
A situação dos espanhóis na Europa, principalmente na França, depois
da Segunda Guerra Mundial na Europa, para os que haviam contribuído signifi
cativamente para a derrocada do regime nazista, na França principalmente, era
crítica. Muitos ensaiavam uma retomada da Espanha, acrescenta Hélios, com
várias tentativas de invasão:

uma comunidade grande que tinha lutado na resistência francesa, os Maquis,


mesmo com a vitória contra os nazistas, defrontavam-se com sua estrangei
ridade. A sobrevivência na França era difícil, a influência nazista (xenofobia)
persistia. “Houve, então, uma ação combinada entre altos organismos interna
cionais, igreja, procurando aliviar a tensão nas áreas fronteiriças”.

Estabeleceram prioridades para cessão de viagens e passagens para a


evacuação e colocação em outros países. Mas partir para o Brasil não seria
facilitado pelas circunstâncias para Crispina, sua mãe e Garcez. O diretor das
comunidades francesas relutava em dar o passaporte francês, pois temia pela
continuidade do projeto, caso Garcez partisse; como de fato aconteceu. Mas o
espectro da Guerra Fria precipitava a decisão. Ainda uma dificuldade pessoal
para Crispina: dada sua gestação pelo sexto mês, as autoridades obstaculi
zavam a autorização para viajar.
O problema foi resolvido, às custas de sofrimento: na última hora esposa
do Diretor informou que poderiam embarcar, tomando o último trem que os
levariam ao encontro dos demais que estavam em Marselha e de lá iam para
Gênova, porto no qual embarcariam.
Como os demais, fizeram as bagagens, “o que eu sei na certa é que eu
trouxe coisa de lá que não precisava aqui e deixei coisa lá que havia de ser
necessário, isso eu sei... viajava conosco, alemães, austríacos, etc.”
A viagem quase não se efetiva, uma vez que de véspera sentiu-se mal.
Chamado o médico da IRO, um médico italiano que se ocupava dos refugia
dos políticos, foi decidida a necessidade de um aborto. O que foi realizado.

84
Embarca finalmente e é atendida durante o percurso (12 dias) pelo Dr. Pujol,
também componente do grupo e médico que iria ter intensa atuação na cidade
nos anos seguintes.
O destino dos Garcez em Porto Alegre está prestes a cruzar com o de
Olga e sua mãe Remédios. A história familiar de Remédios inicia em Aragon,
quando migra para Barcelona. Seus avós, como tantos outros migrantes rurais,
filhos de pequenos proprietários de terras, ficam sem herança: seu avô por ter
sido herdeiro preterido, a avó por não ser a primogênita, como era o costume.
Foram então trabalhar numa propriedade maior até que a avó decide migrar
para Barcelona seguida depois pelo avô “pois quem é que foi na frente para
Barcelona? As mulheres”.
Corresponde ao complexo quadro econômico de todo séc. XIX, quando
a indústria e o comércio com as América impulsionam o ciclo de riqueza em
Barcelona. Migrantes rurais, mulheres solteiras, inclusive, afluíam para o setor
urbano da economia, atraídas pela recente prosperidade, ante sala da futura
crise e instabilidade do séc. XX espanhol. As mulheres ensaiavam a sazona
lidade e a formação da rede de apoio para a migração, ao longo, por vezes, de
gerações. Como estima Olga:

isto é importante em termos da nossa história tri geracional, mas já quadri gera
cional, da história das mulheres na família; nós somos mulheres muito metidas
a poderosas... Então a minha avó migrou para Barcelona na frente do meu avô
– é porque na população pobre as mulheres têm mais facilidade para encontrar
emprego – inicialmente trabalhou como empregada doméstica; quando ela já
estava mais situada, meu avô veio e começou a trabalhar na construção civil em
Barcelona, e depois eles foram se instalando.

Durante a Guerra Civil, seu avô foi motorneiro da Carris de Barcelona,


chegando a diretor da empresa, quando essa foi tomada pelas cooperativas
dos trabalhadores. Na juventude, já estava na França. Mas quando terminou a
Guerra Civil, dada sua posição de destaque teria sido preso, quando as forças
franquistas tomaram Barcelona. Fugiu “no que chamamos a ‘retirada’, as
colunas de pessoas caminhando e carregando seus bichos e coisas que entraram
na França através dos Pirineus”. Sua avó ainda ficaria com os filhos, em Barce
lona nos nove anos seguintes, até conseguir partir ao seu encontro.

O que manteve a saúde mental deles e a capacidade de se desenvolver foi a vida


comunitária e a vida política que eles conservaram; os homens foram embora e
ficaram as mulheres e os jovens tentando se reorganizar; tinham grupos polí
ticos que faziam a resistência ao franquismo dos quais o meu pai participava.

85
em “los pirineUs”.
Caledonio Garcia, José Luis Facerias e Enrique Martinez6. Acervo de Olga Falceto.

O pai de Olga, Celedônio Garcia, viria a falecer quando ela tinha seis
meses, durante o conflito na fronteira da França com a Espanha. A morte do pai
nos Pirineus ocorreu nas circunstâncias abertas pela sua tarefa de ligação entre
a França e a Espanha, nas viagens que realizavam a pé pelas montanhas. Sua
mãe já estava na França, na ocasião, agosto de 1949.
Quando completou cinqüenta anos da morte de seu pai, Olga, sua mãe e
seus filhos foram localizados por pesquisadores espanhóis que descobriram a
família em Porto Alegre, através de uma pesquisa histórica. Lograram realizar
um enterro decente para ele. Quando faleceu e foi enterrado fora do cemitério,
por fazer parte destes grupos de resistência, os Maquis espanhóis que conti
nuaram no Maquis franceses – não recebeu a extrema-unção.

Na Espanha, não por acaso, cinqüenta anos são mais que uma geração; então
eles estavam podendo retomar a história da Guerra Civil, dos mortos, dos feridos,
das disputas entre os lados. A homenagem foi realizada na cidadezinha aos pés
dos Pirineus onde ele está enterrado, recuperando a história, de quem era aquele
jovem e mais o outro companheiro dele que foi morto junto. Nós fomos para lá e
refizemos o caminho como parte da homenagem para ele; esta viagem que eles
faziam a pé; é exaustiva, mas eles obviamente eram muito jovens e cheios de
energia... Foi maravilhoso; a cura definitiva da minha... do meu luto pelo pai que

86
eu praticamente não tive. Os historiadores são muito importantes, para curar as
feridas pessoais e sociais...

Olga também faz pesquisa histórica, pois toda essa narrativa é acompa
nhada do desfilar de fotos.

Esse meu avô, na retirada, pouco depois que ele saiu do campo de concentração,
por que os franceses infelizmente receberam os espanhóis em campos de concen
tração; minha tia que viveu dos seis aos nove, dez anos nos campos de concen
tração; então ela tem uma memória assim fantástica; este é o meu vô e a minha
vó, reencontrados depois de nove anos separados, na França; este aqui é o meu
pai e o meu tio em Paris, que é onde morávamos, meus avós moravam no interior
junto com o meu tio, e a minha mãe, o meu pai e eu em Paris; aqui sou eu peque
nininha... Estas são fotos da fazenda em que eles moravam na França; quando
voltaram a trabalhar no campo... Essas aqui são as fotos do grupo do meu pai
que fazia este trabalho político de ligação, eles faziam tudo a pé.

Olga e sua mãe ainda têm os cartões não enviados aos amigos, em
Gênova, comunicando da súbita partida, onde está escrito, simplesmente:
“conseguimos embarcar no navio”. A história começa para Olga quando
tinha, então, três anos. Reportando-se a essas viagens, vai mais longe do
folclore criado em torno: localiza mesmo como a origem da sua família social:
“parte da família porque como nós não tínhamos muita família de sangue,
a família eram os amigos que migraram junto; me criei com estas histórias
todas compartilhadas. Parece que naquela época a Cris estava particularmente
cansada, e que ela passou mal na viagem, como todos”.
A história política da resistência integrou a história pessoal do funcio
nário público, o urbanista Hélios Puig Gonzalez (1947), desde a França, onde
nasceu, em Muret. Ao contar a história da migração de sua família, novas
páginas de história estão sendo abertas. A narrativa de Hélios rememora
quando seus pais se conheceram no momento em que o catalão Juan Puig
Elias palestrava em Paris, como Secretário de Cultura e Propaganda e a mãe
Matilde (exilada basca desde 1939) costureira, fora assistir a ele. Casaram e
foram morar em Toulouse.7
Hélios conta sobre um propósito de reorganização política nas Américas.
Seu irmão, Floreal Puig Roca, arquitetou um plano de organizar uma comu
nidade que se chamaria “Liberdade”. Seriam em torno de sessenta famílias,
na expectativa de disporem das condições apregoadas pelas campanhas de
migração para o Brasil, terras férteis, liberdade para desenvolverem os ideais
libertários.

87
Juan não estaria engajado no Projeto, apenas seu filho Florian, porém
acabou concordando com a migração para acompanhar o filho passando a ser
o professor dessa mesma comunidade. Outros aderiram, por razões várias não
necessariamente políticas. Essa narrativa prossegue a seguir.

Viver em Porto Alegre


Diferentemente dos galegos, andaluzes e os demais desta pesquisa, o
destino final desse grupo já está traçado para chegar a Porto Alegre.
Olga, Hélios e Crispina, espanhóis provenientes de área urbana possuíam
referências sobre o Brasil que, em certa medida, contrastavam com as imagens
formuladas pelos galegos. A diversidade étnica impressionou ambos, tanto
dos que passaram pelo Rio de Janeiro quanto para os que desembarcaram em
Porto Alegre. O estranho mesmo foi à condição de viagem do trem que, como
Hermínio já comentara, foi “inesquecível”, conforme o relato humorado de
Crispina. A aventura iniciou ao comprar os bilhetes para a viagem de trem.
Acostumados ao padrão dos trens europeus, o bilheteiro pergunta:

então que vocês querem, primeira ou segunda? “Meu marido disse: – primeira
ou segunda, é indiferente”. Pegamos a segunda, porque não havia a terceira de
lá, (na Espanha e na França); com a diferença que a terceira de lá, as poltronas
eram iguais e aqui eram de madeira. A viagem durou 3 dias e 4 noites (ou vice
versa). Nós conhecemos os porquinhos, as galinhas e todo o resto dos animais
que entravam no trem conosco. Conhecemos os revólveres, aquelas facas
grandes penduradas; tudo isso os homens mostravam com umas caras bem
alegres... e por fim nós chegamos em Porto Alegre e aqui começa a história.

O estranhamento comum à condição de migrante, nesse grupo passará


pela mediação do campo político. Protegidos pela IRO, contam na chegada
com a rede de apoio fornecida pelos espanhóis aqui já instalados e as organi
zações ideológicas afins com o pertencimento do grupo. A afinidade ideoló
gica favoreceria uma instalação de caráter gregário, na cidade, diferenciada
em relação aos espanhóis que realizaram sua empresa migratória individual,
como os galegos, os andaluzes e assim por diante.
Se o choque inicial da cidade foi amenizado pela rede de apoio ofere
cida, ao mesmo tempo projetou esse grupo como categoria étnica diferen
ciada ideologicamente no decorrer dos anos. A narrativa dos entrevistados
demonstra isso.
A memória de Hélios, no presente, recobre os eventos vividos pela inter
pretação histórico-política do adulto que se constituiu conforme a visão de
mundo desse grupo, como segue.

88
Discorre sobre a conjuntura política, situa a presença de uma lógica de
organização em Porto Alegre, através de:

um contato local com o operário de sobrenome “Valinho” que funcionava na


ligação com os membros da Confederação Operária Brasileira, COB, nos núcleos
operários locais da Federação Operária do Rio Grande do Sul, semi-clandestinos.
A Associação Internacional dos Trabalhadores da Europa fazia a comunicação
entre a COB no Rio de Janeiro, através de Manoel Peres e com Porto Alegre,
ligados aos princípios da Primeira Internacional.

De todo modo, na avaliação de Hélios, o projeto de Floreal e dos demais


pressupunha que haveria em Porto Alegre um estímulo para tirar da clandesti
nidade os remanescentes do “Sindicalismo Operário” e os espanhóis que aqui
estavam desde o início do século e haviam vindo de barco, de trem, etc. Dentre
eles, Rafael Fernandez, que ao lado de outros espanhóis “libertários”, nos anos
50 estavam formando uma rede de apoio junto aos operários locais. Lembra de
outros de origem espanhola, como Jesus Ribas, que fundou o Instituto de Assis
tência e Proteção à Infância no Morro da Cruz.8
O grupo ao qual o pai de Hélios pertencia tinha ligações com a Confede
ração Nacional dos Trabalhadores, que hoje está reconstruída na Espanha. A
mesma se ligava à Associação Internacional dos Trabalhadores. Vinham como
militantes do “Movimento Libertário Espanhol no Exílio” e atuaram também na
França, porque “era uma tentativa de reconstruir o movimento operário, com
uma base diferenciada da hegemonia existente”.
Ocorre que quando chegaram ao Rio de Janeiro, em função de o irmão
Floreal Puig Rocca Elias estar doente, ao contrário de Crispina, de Olga e de
outros, necessitaram viajar de avião até Porto Alegre, por conta da IRO, a
“Internacional de Refugiados Obreros”, ligada ao Partido Socialista. O apoio da
colônia espanhola existente partiu, pois, de amigos e da Sociedade Espanhola
de Socorros Mútuos de Porto Alegre: “do consulado eles não podiam contar
porque eles eram avessos ao regime franquista”.
A fusão da agitação política com a situação de exilado espanhol causou
constrangimentos rotineiros, naqueles anos. Um deles, inexistente para os
demais migrantes espanhóis, foi a legalidade da situação como exilado. Na
memória, ficou registrado para Hélios que:

nós pertencíamos a um grupo de pessoas registradas no consulado espanhol, e


nossas fichas tinham uma tarja vermelha como que indicando que eles eram os
“vermelhos”. Então quando eu precisava de um documento para eu ir estudar em
um colégio, eu era obrigado a ir no Consulado Espanhol, que ficava na esquina

89
da Coronel Vicente com a Alberto Bins, e aí eu tomava contato com essa reali
dade que eu era um apátrida, não tinha nacionalidade, porque o meu registro
não havia sido feito na França, foi feito dentro do consulado espanhol na França
porque ali havia polaridade entre os grupos, e nós viajamos para o Brasil com
documentação do governo francês. E em Porto Alegre nós buscamos nos regis
trar no consulado, e enfrentamos os percalços da burocracia nesse sentido...
Coisa que mudou agora, apesar dos seus resquícios.

A tarefa de inserção na economia urbana de Porto Alegre foi premente. Os


pais de Hélios chegaram em Porto Alegre “no fim de semana, já sem dinheiro,
não havia terras a disposição. Conseguiram na praia de Ipanema uma casa
onde várias famílias foram morar naquela, essa casa era o núcleo da comuni
dade e se arrumou como pode”. Sobreviver nesses anos:

foi um salve-se quem puder; cada um foi para um lado; tentaram empurrar
a comunidade “Liberdade”, onde cada um teria uma função, meu pai era
professor, o outro era um médico, meu irmão era eletricista, e assim por diante.
Planejavam também a construção de residências, em regime de solidariedade, já
que entre eles havia várias especialidades de trabalhadores. As relações pode
riam agregar e solidificar o grupo. Nada disso foi possível. Meu irmão terminou
partindo para Uruguaiana, depois de um tempo.

Pela narrativa de Hélios fica-se sabendo de um grupo que se instalou na


orla, na parte de Camaquã e Tristeza um outro grupo, não muito concentrado;
houve dispersão porque a questão da sobrevivência coletiva não foi possível.
É preciso aqui lembrar que nessa área também estão localizados, nos anos 50,
muitos galegos, a exemplo do relato de Estelita sobre sua família. Se houve
fusão entre uns e outros, aparentemente, não.
Antônio Martinez é um dos espanhóis instalado na Praia de Ipanema
(na época esta localidade de Porto Alegre era conhecida como praia). Adquire
uma propriedade na beira do Guaíba e com seu bar “Latino Americano” cons
titui um dos pontos de referência para os demais. Esses fabricavam barcos,
“estilo pedalinho, barcos a remo, barquinhos, eram pequenos catamarãs com
duas bóias, um assento, um encosto e remos”. E onde sobreviveram por curto
espaço de tempo alugando barcos.
Parte do grupo onde estava seu pai ficou na fruteira da Avenida Cris
tóvão Colombo que depois se transformou em loja. Mas inicialmente Puig loca
lizou-se na Rua Saudável, 235, no Bairro Glória fornecendo churros no Mercado
Público, o casal e mais outro espanhol. Depois, já na Cristóvão, tiveram que
“paletear” carregar nas costas caixas de verdura do Mercado até uma fruteira

90
que tinham e vir a pé porque era mais barato que tomar o bonde para vender
ali. Por último seu pai montou uma livraria, uma loja comum, na Rua Cristóvão
Colombo, 16, que se chamou depois “Livraria Minerva”, subtítulo “Cultura e
Artes Gráficas”, até aproximadamente 1969.
Ao cabo de anos, esse grupo que apoiou tal empreendimento inicial na
Cristóvão Colombo, que reunia um número expressivo das famílias dos anos 50,
foram se diferenciando internamente. A formação universitária abriu alguns
caminhos: aquele que era médico se empregou na Empresa de Aviação VARIG;
outros especialistas lançaram-se em pequenos empreendimentos e assim por
diante. Um desses que contribuiu à manutenção do grupo, apesar de sua natu
reza comercial, foi a “Foto Trevo”, na Rua da Praia, que reunia pessoas como
Manoel Fernandez, “um espaço na frente do edifício ‘Santa Cruz’ e até hoje
existe”. Conclui-se que essa rede organizada teve efeitos prolongados.
Suspendendo a análise política, foi possível perceber o cotidia
no de migrante em busca da assimilação na cidade, na vida relatada pelos
entrevistados.
O estranhamento pode iniciar desde a simples vestimenta, uma esté
tica reveladora de um estilo de vida a ser assimilado ou não, pela sociedade
de recepção, tal como o adulto retém na sua memória pessoal, os eventos da
infância que transcendem o campo político como lembra Hélios:

pesavam coisas com as pessoas desde a tez das pessoas, da etnia espanhola,
da Europa. Por ex., todo mundo clarinho, aqui os caras já mais misturados,
indígena, mistura africana, pessoas diferenciadas. Além de que o tipo de meu
pai fazia: usava um cavanhaque que era uma coisa que aqui só servia para o
Júlio de Castilhos. Na rua as pessoas eram capazes “de jogar pedras” porque te
ridicularizavam. O europeu chegava aqui e usava um chapéu para sol, os caras
não usavam, ou não estavam acostumados a usar camiseta de física; se andava
de calça curta, se era reprimido; valores assim diferenciados e ligados à cultura
local te deixavam sempre numa posição ruim.

Como sobre tais aspectos, sobrepôs-se a vida econômica, duas situações


se apresentaram: a do migrante convencional, atraído pelas possibilidades de
trabalho, e a do exilado, acolhido pelo país que estabeleceu tratados especí
ficos internacionalmente e que contou com uma rede internacional de apoio.
Mas na realidade, as condições ainda que diferenciadas, fundiram-se ao longo
do tempo da assimilação.
O modo de recepção foi diferenciado para o grupo, conforme relata
Crispina, cujos contatos iniciais com Porto Alegre prenunciavam as dificul
dades. Conta como as indicações partiam de amigos, igualmente amigos dos

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conhecidos que vinham, que prometiam apoio, trabalho. E os grupos foram se
montando, evitando o isolamento social: “o Dr. Pujol e outros vieram conosco
porque não iam ficar em outro lugar qualquer sem ter conhecido ninguém. Nós
podíamos ir a um hotel, quando muitos outros, antes de nós, tinham ido para
a ‘Ilha das Flores’”.
Na chegada, na noite de Porto Alegre, uma inesperada exploração dá
o tom dos hábitos a serem conhecidos pelo grupo. O hotel em que se hospe
daram foi o Hotel Porto Alegrense, na quadra entre a Rua Voluntários da Pátria
e a Alberto Bins, na Rua Pinto Bandeira, no centro. Segue seu relato bem
humorado.

Essa foi a nossa primeira noite em Porto Alegre: como estávamos com frio,
quisemos tomar um café. E fomos lá na esquina da Pinto Bandeira com a Volun
tários da Pátria, descendo a Pinto Bandeira à direita, tinha um café que fazia
a esquina, agora não sei o que é lá. Um tempo atrás lá tinha um café. “– Olha
senhor, nós queríamos café”, estava no Brasil, aí nos perguntaram se nós querí
amos cafezinho ou café? “Cafezinho não, café”. Pensando que era uma xícara de
café daquelas. Em todo caso tinha mulheres lá, e muitas pessoas olhando para
nós meio carrancudo. Foi muito divertido.

No dia seguinte, já estabeleceram contato com amigos que aqui estavam


há meses, iniciando a formação da rede do trabalho. Principiaram uma pequena
produção de camisas, com apoio de um conterrâneo já residente, bem posicio
nado, gerente da Nacional (as antigas máquinas de contabilidade das lojas),
casado, uma filha, que lhes ofereceu uma letra de representação e uma letra
bancária. “Não sei quanto dinheiro tinha lá, nós nunca utilizamos, nós devol
vemos para ele um ano depois, nunca havia sido utilizada”.
Prossegue a narrativa de como esse espanhol introduziu alguns clientes
que tinha, e Juan começou a trabalhar fazendo confecção, primeiramente como
confeccionista na Rua Senhor dos Passos, na parte da Alberto Bins até a Volun
tários. Havia vários estabelecimentos de confecções, provavelmente de judeus
e que trabalhavam como autônomos. Depois passaram a produzir para outro
confeccionista duas ruas acima da Rua Liberdade, no Bairro Rio Branco. Mãe e
marido compraram uma máquina de costura, depois um rádio:

eles trabalhavam 24hs por dia, não trabalhavam 25 por que não dava; quando
um estava cansado levantava da máquina e o outro sentava. Eu levava os
moldes da confecção que já tinha sido feita para o confeccionista que tirava as
peças, simplesmente para cortá-las. Nesse tempo também eu comecei a estudar
um pouco o português.

92
Na entrevista para um emprego de secretária tradutora de francês ou
português, foi contratada pela Empresa Brasília Obras Públicas (que agora
já não existe mais), na época era a concessionária brasileira de uma firma
francesa.
Trabalhou três anos e pediu demissão em 1956. Motivo? Sentiu-se dis
criminada “porque eles fizeram uma distribuição de agendas para todo o gêne
ro masculino que tinha trabalhado lá e se esqueceram do gênero feminino que
eram só dois, a secretária do diretor e eu, secretária tradutora”. Escreve então
uma carta na qual formaliza o pedido. Instada pelo chefe sobre suas razões,
declara: “o senhor se esqueceu de me dar uma agenda”. Ele riu, “mas eu lhe
entrego uma”. “É muito sério” diz Crispina. “Mas mulher não precisa” diz ele.
No final ficaram amigos.
O restante do tempo foi gozar as férias e quando retornou para buscar
os documentos foi procurada pelo consulado da França. Acreditando que o
assunto era a pensão da mãe como viúva, para sua surpresa era uma proposta
de emprego. E imediatamente inicia uma carreira de 34 anos. “Depois disso a
minha vida ficou aqui em casa, ocupando-me de certas coisas”.
Pertencendo ao mesmo grupo, a história pessoal de Olga dependeu de
uma família exclusivamente constituída por sua mãe Remédios e tios.

Há um irmão mais velho da mãe que ficou lá, hoje com oitenta e três anos, e
que tentaram durante cinco anos morar aqui; ele veio com minha tia e com o
filho dele, tentaram viver aqui, mas não se adaptaram... a família da minha
tia não se conformou que ela veio, aí puxaram ela de volta; em parte até eles
se arrependeram de voltar; não que eles estejam mal, eles até talvez estejam
no mínimo tão bem economicamente quanto eles estariam aqui, por que já se
foi a época em que se vivia mal na Espanha; se vive muito bem hoje. Moraram
inicialmente numa casa em Teresópolis, compartilhando com o irmão do Hélios
Puig, o Floreal, a esposa e um dos filhos que já havia nascido. Depois moraram
no Passo da Areia, igualmente de modo compartilhado, com outro espanhol, o
Enrique Ollé, uma figura na nossa infância; era tipo um Dom Quixote assim,
um cara magro, muito especial; estas figuras que existem na infância da gente.
Era tudo apertado, tínhamos que dividir os gastos... coisa que foi bem sofrida
no começo.

A dificuldade para a empregabilidade feminina, mais que a masculina,


residia em ter que dominar o sistema lingüístico. Além disso, havia preconceito
cultural diante do trabalho feminino, mesmo nos anos 50 de Porto Alegre. O
primeiro emprego da mãe foi o de camareira no hotel na Rua Uruguai. Seus
conhecimentos de secretária bilíngüe, domínio de francês, e de espanhol de
nada valiam porque não dominava o português. “Não agüentou dois dias; ela

93
era uma mulher bonita, de vinte e quatro anos, camareira de hotel... São super
desrespeitadas. Ela voltava para casa e chorava, chorava... o Floreal Puig Rocca
Elias disse para ela: ‘se tu não estás agüentando, não vai mais’. Aí no terceiro
dia ela não foi trabalhar”. A experiência de operária também foi frustrante,
como tecelã em uma fábrica de tecidos.

Era um inferno, ela teve que aprender a trabalhar com aquelas máquinas indus
triais enormes, cheias de fios, que era um sufoco conseguir... ela acordava de noite
em sobressalto; “será que eu estou passando os fios direitinho, será que não ?”

A oportunidade iniciou pelo emprego numa multinacional, quando sua


tia, casada com o tio Falceto, trabalhava como Secretária da direção “em uma
empresa francesa em Canoas e recebeu uma outra oferta melhor em Porto Alegre,
noutra empresa francesa”.
Sua mãe conseguiu esse posto e possibilitou uma melhoria de vida. Olga
então teve a possibilidade de estudar em colégio particular. A primeira opção
era o Instituto de Educação, mas não havia vagas. “A mãe soube que os judeus,
como davam muita importância para a educação, deveriam oferecer um bom
ensino”. Então Olga cursa o Jardim da Infância e o ensino básico no Colégio
Israelita. Recorda do seu estranhamento:

eu me lembro de guria no colégio, tendo uma necessidade brutal de ser igual


aos outros; mal eu me dava conta na época; depois é que no meu processo de
auto conhecimento eu fui me dando conta, que os outros também eram filhos
de imigrantes, só que não eram do mesmo grupo imigrante que eu, eram judeus
imigrantes da geração anterior que tinha imigrado; mas eles já pareciam muito
mais implantados, só que o (bairro) Bom Fim daquela época era muito menos
desenvolvido que o de agora, muito mais pobre, porque era uma imigração
recente; só que eu me achava que eu era a única imigrante, então eu tinha uma
pressa danada de me tornar bem brasileira.

Uma trajetória de cientista foi preparada pela mãe para a filha. Sua esco
laridade abriu as possibilidades de transpor os limites do grupo dessa vertente
mais política. Cursou o restante de sua formação no Colégio de Aplicação, sendo
admitida em primeiro lugar no exame de ingresso. O peso do pertencimento ao
grupo de espanhóis foi sendo atenuado: naturalizada aos dezoito anos, sendo
que aos dezessete já poderia ter legalmente optado, estava para começar a ambi
valência identitária que acomete todo migrante com dupla cidadania. Nessa
época, tinha “pressa, havia entrado já na Faculdade de Medicina e eu queria de
uma vez me tornar brasileira, era muito importante naquela época”.

94
Como toda cidade estrangeira, a Porto Alegre dos anos 50 manifestou
suas incógnitas a cada momento para esses migrantes. Possíveis semelhanças
com as cidades deixadas para trás, Barcelona, Toulouse, Paris trouxeram um
princípio de decifração dos seus segredos. A idéia reconfortante é que havia
como destinar ao trabalho do tempo e da paciência o domínio dos labirintos
propostos pela cidade meridional, em relativa segurança política.

Outra história transversal: José Ayete

Decorridos 24 anos da vinda desse grupo encabeçados por Hélios, Pujol,


Crispina e tantos mais, chega o confeiteiro José Ayete Negro, catalão de Barce
lona, nos anos de 1970. Conta que:

sobreviver ao chegar em Porto Alegre também não foi fácil. Na Argentina era
muito barato e eu procurava uma confeitaria, porque sou confitero, mas não tinha
como eu procurava. Comecei comprando uma lancheria na General Vitorino, andei
fazendo uns cursinhos por lá, onde há uma galeria. Foi muito bem, mas eu vendi
porque o Zaffari estava me procurando para trabalhar. Isso faz 27 anos e fui
trabalhar durante dois anos e estava muito bem. Mas eu pensava em sair porque
eu vim da Espanha com o intuito de trabalhar independente. Saí, abri uma confei
taria pequenina, com meu capital, sem sócios. A minha senhora me ajudava.
Después comprei este prédio (o atual), comprei outro e a minha senhora adminis
trava. Trabalhava mais que yo; creio que parte do meu capital devo a ela.

Aventura e desencanto conjugam-se na decisão de José Ayete de migrar.


São Paulo, Buenos Aires, Montevidéu estão nesse trajeto até a instalação defi
nitiva em Porto Alegre. Da Espanha, retém as imagens de guerra.

Você quer falar da Espanha, depois da guerra? Yo prefiro no falar da guerra,


muito obrigado. Es preferível sabe... No, yo falo sim: mio pai foi preso. La minha
mãe era maestra e como era mulher de um socialista lhe tiraram da escola.
Tinha três filhos, nosostros passamos muita fome, muita fome, por isso quando
muita gente me preguntou aqui durante muitos anos: “tu não te lembra da
Espanha?”, yo dice “sim, quando tenho fome”, provei dias comendo ervas e
frutas, era o que tinha.

Como está no relato de todos, depois da Guerra Civil a sobrevivência


tornou imperativa a migração. As famílias, de algum modo, participaram da
moderna diáspora espanhola do séc. XX. Quem pôde, migrou.

95
La guerra da Espanha foi dramática para os espanhóis durante muitos anos. Meu
pai era socialista, os integrantes do partido foram todos presos. Quando yoia ve
lo en la prisão dizia: “olha filho, no me espera aqui porque no se vou sair daqui.
Chegava la noite fulano de tal, fulano de tal, vamos a predar, iam para o mata
douro”, Infelizmente foi isso. Nós passamos muita necessidade na Espanha, na
Espanha se foi los dias que tinha a confeitaria. Meu pai saiu de la prisão, mas com
maior dificuldade, como falei, era uma pessoa muito culta, escrevia muito bem,
mas não garantiu o emprego, tudo o que fazia era camelô, tudo que ele precisava
ficava marcado. Eu quis trazer o meu pai aqui para a América, mas quando foram
ver a ficha dele para a viagem não me deixaram trazer. Minha mãe después por
influência de um tio meu, le deram de nuevo em la escola, pertencio na escola tra
dicional, e vivemos com um pouco que ganhava meu pai e minha mãe, mas com
dificuldade. Después crescemos, começamos a trabalhar em orla e eu era o irmão
mais pequeno, e assim foi muito difícil, não quero nem lembrar de la Espanha.

Quando migrou:

já estava trabalhando, era confeitero. Estava muito bem, mas aos 25 anos não
pensa com a cabeça, pensa em aventura. Tinha uma persona conhecida em São
Paulo, vim aqui para ganhar muito dinheiro. Trabalhei no Hotel Othon. No prin
cípio só me davam arroz e feijão e perguntava; “quando se termina o arroz e o
feijão, pelo amor de deus!”. Então ficamos numa pensão espanhola e aí trocavam
um pouco mais (a comida) [...] yo no tenia muita convivência (na cidade) porque
trabalhava muito. Trabalhava numa confeitaria de tarde e a noite noutra. Yo
queria me adaptar a São Paulo, mas vir de Barcelona, montar-se em São Paulo
não é fácil. Eu saía com meus amigos da pensão, mas tinha outros brasileiros
amigos. São Paulo é muito diferente de Barcelona. Acontece que me falaram que
em lo Uruguai era la “Suíça da América”. Aí correndo me fui para o Uruguai”.

Na seqüência dessa trajetória conhece sua esposa, Sonia Gil Solares,


moradora da fronteira com o Brasil e Uruguai, acabando por insistir na decisão
de vir para Porto Alegre.
A imagem de Porto Alegre segundo ele, não restam maiores traços da
influência espanhola na Cidade. Conclui com uma certa injustiça, que essa
presença nunca existiu. Talvez se deva ao fato do desconhecimento geral da
Cidade, sobre a história dos seus migrantes espanhóis.
Realmente, a Porto Alegre que vivenciou desde então é a da modernização
avançando pela Cidade, estendendo o perímetro urbano em novas direções, o
desenho viário rasgando novas vias e avenidas. As favelas sendo empurradas
para mais longe do olhar do cidadão.

96
Essas foram as narrativas de migrantes colhidas com um roteiro prévio,
mas subvertido a cada passo, na medida em que as histórias de vida, impressões
e avaliações sobre a presença espanhola na cidade de Porto Alegre cruzaram os
tempos e os espaços das odisséias pessoais.
Imperativos da história oral, na qual se privilegia a subjetividade. Não
apenas por ausência de documentos escritos, mas porque se partilha a concepção
metodológica e epistemológica que nada substitui a narrativa da testemunha.
Também não por ser o “espelho” da realidade, da veracidade, o que as ciências
humanas já desconstituíram, ou seja, a narrativa totalizante como critério cien
tífico. E sim porque a oralidade ainda que não tenha – nem pretenda – trazer o
vivido como tal, intacto, mas a perspectiva, desde o presente do entrevistado,
do significado de eventos e do trabalho da reflexão sobre o vivido, mesmo na
situação do “ouvir dizer”. Isso porque uma narrativa é sempre uma costura de
si, nas narrativas dos outros.
Se nesta presente secção, a tentação em deter-se a cada história pessoal
foi imensa, o sabor pela pesquisa só se fez acentuar. Contidas, as próximas
secções sugerem o quanto o adensamento historiográfico pode prosseguir, na
medida em que é ainda praticamente desconhecida a trajetória dos espanhóis
na cidade de Porto Alegre.

Notas do capítulo
1Apenas a migração judaica, vinda da totalidade dos paises gradativamente dominados pelo nazi
fascismo, terá o exílio como força comparável à violência do Estado perpetrado comparável.
2 Farinheiro é um utensílio utilizado para guardar farinha e adornar a mesa de jantar.

3Produzida na região da Talavera, dos montes de Castela e elaborada pelo atelier de Juan Ruiz de
Lima, Província de Toledo, denominou-se “De la reina” porque o rei Afonso XI a deu de presente em
1328 à rainha D. Maria, filha do rei de Portugal e sua esposa. Essa região espanhola notabilizou-se
pela influência muçulmana até 1082, quando foi reconquistada, mas doando à cultura espanhola
a indústria cerâmica e a referência artística e industrial até o século XVII. A recuperação histórica
e detalhada da elaboração e recuperação estética-patrimonial inclusive do processo de confecção
do azulejo, é composto de barro cozido recoberto de verniz ou esmalte, tecnicamente descrito como
“louça vidrada” Cadernos de restauro III. Fonte Talavera. Porto Alegre, Prefeitura Municipal, Secre
taria Municipal da Cultura, 2002.
4 Fotografia datada aproximadamente em 1967. Da esquerda para a direita: Magali Corona (nora),

Luiz Fernando Corona (filho), Fernando Corona, Maria Villeroy (mãe da nora), Venuta Corona
(esposa), Luiz Corona (irmão), Fernando Corona (neto) e Marilice Corona (neta).

5 Outros importantes artistas e espanhóis: Luiz Maristany de Trias (1886), conhecido “Marinhista”
por abordar temas ligados ao mar, rios e barcos. Nasceu em Barcelona, onde cursou a Academia de
Belas Artes de Barcelona. Suas obras contrastam paisagens da Europa com da América do Sul, conti
nente no qual chegou em 1906. Produziu e expôs em diversas cidades como Argentina, Uruguai,
Paraguai e Chile. Em Porto Alegre foi professor de Anatomia Artística e Paisagem no Instituto de
Artesna década de 1930. Conviveu principalmente com os artistas que faziam parte dos IBA, como
Fahrion, Lutezemberger, Corona, Ângelo Guido, Dias Corrêa e o andaluz do Benito Mazon Castañeda

97
(1885), outro destacado artista e professor radicado em Porto Alegre. Estudou na Escola Indus
trial de Artes e Ofícios de Cádiz. Chegou a América do Sul em 1930, residindo primeiro na Argen
tina, chegando ao Brasil em 32, e estabelecendo-se em Porto Alegre possivelmente em 1935, até
seu falecimento em 1950. No mesmo ano participou da mostra coletiva do centenário Farroupilha.
Também foi restaurador do Museu Júlio de Castilhos e lecionou como professor interino das adeiras
de desenho e pintura. Emeroteca Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS).

6Trata-se de Maquis Espanhóis na região dos Pirineus na Catalunha em janeiro de 1949. O primeiro,
Caledonio Garcia, é o pai de Olga Falceto.
7Conta que sua “formação era das humanas, tendo uma iniciação muito grande na educação na
Espanha, porque ele foi um seguidor de Francisco Ferrer. Tinha uma escola na cidade de Artez.
Organizou e seguiu um método a Escola Natura como chamavam o método pedagógico Durante a
guerra manteve nos Pirineus uma colônia escolar para filhos de combatentes, e crianças francesas,
uma colônia escolar. Foi ao mesmo tempo articulador do plano de ensino que se chamou Caudal da
Revolução Espanhola durante aquele período da República, uma reorientação de toda a educação
pelo menos na Catalunha, o que se chamou de Conselho da Escola Nova Unificada (CENU). Ele dava
aula nos sindicatos, ou seja, a educação desses trabalhadores era feita pelos próprios trabalhadores,
trabalhadores da escola dos trabalhadores. Os que quisessem de alguma maneira co-validar seu
estudo, fariam depois um exame no Estado, nas escolas oficiais. Mas eles recebiam basicamente a
educação que vinha das escolas da Confederação Nacional do Trabalho, onde meu pai era um dos
professores e da Federação Nacional de Ciência. Com essa titulação e com o mandato dos sindicatos é
que ele passa a ser um dos coordenadores e depois o Presidente do Conselho Escola Nova Unificada.
Consta segundo um outro espanhol que meu pai tinha muitos estudantes, tinham feito um busto
lá na Universidade de Barcelona para ele e uma das primeiras coisas que fizeram foi trucidar o tal
do busto”.
8 O jornalista Marçal tem uma pequena biografia sobre os anarquistas no Rio Grande do Sul (1995).

Nela respalda as referências de Hélios sobre a criação pelos espanhóis mencionados, na criação
de uma entidade, o “Centro Cultural e Artístico Euclides da Cunha” como se chamava o centro de
cultura com a finalidade de tirar militantes operários da clandestinidade e recuperar o movimento
sindicalista. Os espanhóis terão importante atuação no restante da conjuntura da Sociedade Espa
nhola dos Socorros Mútuos dos anos de 1930/40, quando a transformaram num núcleo antifascista.
O Centro foi presidido em 1952/53 por Jesus Ribas Sieiro (Galícia, 1895) o qual funcionava na sua
residência, no Morro de Santo Antônio. O trabalhador em pedreira, eletricista e mestre-de-obra Ribas
chegou depois de 1910 a Porto Alegre; ainda menino, da Espanha migra ainda menino para o Rio
de Janeiro, passa por Salvador, Bahia, Rio Grande do Norte. Em Porto Alegre mantém contato com
o grupo que dirigia a Escola Moderna, na Colônia Africana, onde conhece a professora e militante
Dorvalina Martins, com quem se casou. Ribas foi editor do jornal A Luta, em 1928 com o líder
anarquista Frederico Knniestdt. Quando foi recenseador em Erechim e continuou com o projeto
educacional. Ao retornar para Porto Alegre, passou a militar na Federação Operária do Rio Grande
do Sul, a FORGS. No restante de sua vida será pedreiro no Morro Santo Antonio. Conheceu e atuou
com Rafael Fernandez (Bilbao, 1900). No grupo Marçal cita ainda Anastácio Gago Filho, Francisco
Diaz, Daniel Conde. Rafael “o último militante anarquista da velha guarda na Grande Porto Alegre”,
como Marçal o define, da Espanha vai para a Argentina, trabalhar entre os camponeses e como cozi
nheiro em Buenos Aires. Chegou em Porto Alegre em 1927; passou pelo trabalho nas Minas do Butiá
e participando do movimento sindical, retorna à cidade como ajudante de pedreiro, quando atuou
na organização dos canteiros com os trabalhadores da construção civil, até adotar a profissão de
amolador. Então quando podia ser visto em várias regiões da cidade amolando facas e distribuindo
jornais políticos, até 1980, quando faleceu na cidade de Viamão. MARÇAL, João Batista. Os anar
quistas no Rio Grande do Sul: anotações biográficas textos e fotos de velhos militantes da classe
operária gaúcha. Porto Alegre: EU/Porto Alegre, 1995. GERTZ, René E. Memória de um Imigrante
Anarquista. Porto Alegre: EST, 1989.

98
E star junto em Porto Alegre
O contato social, para Barth, não
desfaz a noção de fronteira étnica, ao
contrário, este mesmo contato pode
fortalecer o senso das diferenças.
Essas implicam
a inclusão ou
exclusão, por onde categorias discretas
ainda que se
permanecem transformem
na participação e na pertença, ao longo
das vidas individuais.1
Categorias e identidades étnicas partem de processo diferenciados. A
primeira é definida externamente, a segunda é criação interessada do próprio
grupo. A freqüentação dos espaços tendo a afinidade étnica como motivação prin
cipal é um indicador do grau e do modo de assimilação do migrante no país de
recepção. A forma mais usual é a criação pelos migrantes de espaços de celebração
de sua pertença ao grupo. Visibilidade, projeção social, portanto, são recorrentes.
Ao fim, os espaços apropriados pelos migrantes ensejam narrativas por
meio das quais o princípio de continuidade busca moldar o mito de fundação do
grupo onde são solidarizados fatos, eventos, sentimentos. Demonstrar a força
dessa permanência cumpre uma função social porque sinaliza a coesão do grupo
étnico. Excluir ou ser incluído são os imperativos sociais que podem desestabi
lizar o ciclo vital das sociedades, clubes e outras formas de agregação social.
O sentido de pertencimento é, assim, portador dessa virtual possibilidade
de “acontecer” como manifestação de uma essência, na qual a memória social
atua intensamente. Espaços, lugares, duração e datação de eventos, todos são
mecanismos que requerem visibilidade e sacralizações protegidas por onde ritu
alizar esse pertencimento. E que podem existir apenas como matéria da memória
geracional, aquilo que os lugares ajudam a lembrar, isto é, a sustentação da
memória nela mesma.
Celebrar as origens nas sociedades muitas vezes é mais uma performance,
um simulacro de citações várias, as quais, com o decorrer do trabalho dos tempos,
persistem mais na memória geracional do que propriamente na cotidianidade
da existência social do grupo. Na medida em que ocorre a subtração física da
presença dos fundadores, apenas a memória social vai garantir a narrativa e a
densidade social do mito de fundação do grupo.
É essa a razão do porquê os restaurantes espanhóis, excursões promovidas
por entidades associativas, festas de todo gênero, romarias, foram perfeitas refe
rências identitárias do que se passou no tecido da rede dos migrantes de várias
gerações e estratos sociais e confissão religiosa, ao menos até meados do séc.
XX. No caso dos espanhóis de Porto Alegre, houve a disputa do mito de fundação
da hispanidad ou um termo próximo, adequado para designar a sua identidade
social. Tal radicalidade, percebe-se nos documentos, torna complexo o controle
do imaginário sobre o “ser espanhol”, assim como a disputa dessa memória.

Ossímbolos da alma hispânica: as touradas e os hipódromos

Aos 27 de junho de 1897 em Porto Alegre já se noticiava o circo de touros,


sendo o Ximenes Minuto, Bahiano, Figueirita, Oliva, Oliver e Nenê os persona
gens citados na matéria jornalística sobre a tourada ocorrida dois dias antes e

100
descrita antes como um rodeio.2 Tratava-se de uma promoção da Cia. Tauroma
chica, sendo que outra exibição ocorreria dois dias após, desta feita promovida
pelos proprietários da Cia. Tortose e Aguila.
A tourada ou a corrida de touros e seu rito de sacrifício é uma persistente
manifestação cultural espanhola e teve na cidade igualmente a sua expressão.
Nossos entrevistados não recordam, há apenas registros. Como o do jornalista
italiano Vittorio Bucelli, que em visita a Porto Alegre, em 1906, já vaticinara ao
ver o hipódromo na várzea do Rio Gravataí, no Arraial dos Navegantes:

os rio-grandenses são criadores de belas e fortes raças eqüinas; cavalgam como


nenhum outro povo do mundo e [sobre isso] Garibaldi se recordava com orgulho e
com emoção dos momentos mais solenes da campanha do risorgimento italiano.
E por conseqüência amava os cavalos, se não com a exclusividade absoluta dos
argentinos, que chegam ao delírio, com uma paixão imensa.3

De modo que a predileção dos espanhóis também pela equitação


adequou-se perfeitamente ao cenário cultural dos gaúchos. Entre os meados
do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, enquanto ocorria a
ocupação urbana da Cidade, a disponibilidade de extensas áreas tornou
possível essas práticas. Os hábitos de freqüentação das corridas de cavalos, a
“cancha” e seus sucedâneos, os hipódromos foram preferenciais na opção da
população masculina da Cidade. Os locais foram: o Arraial do Menino Deus,
com o Prado Rio-Grandense; o Arraial de São Miguel, com o Prado Boavista; o
Arraial de São Manoel, com o Prado Independência; o Arraial de Navegantes,
com o Prado Navegantes e a Redenção (Várzea) com a Praça de Touros, tida
como a preferida.
Achilles Porto Alegre conta, em uma das suas crônicas, que “há quarenta
anos levantou-se ali na Várzea, onde está a Escola de Direito, o primeiro ‘circo
de touradas’, que tivemos em Porto Alegre. Era o grande bandarilheiro Francisco
Pontes, que informado das gauchadas do povo da nossa querida terra, vinha
aqui mostrar como se pega touro à unha”. Pontes retornaria em outras duas
ocasiões em torno de 1884, a promover o circo e cavaleiros gaúchos, sem o seu
estilo, mas granjeando uma ampla assistência.4
As últimas notícias são as de 1932 na Revista Nueva América n. 7 de
março, quando Fernando Corona descreve as seis corridas de touros na Avenida
João Pessoa, no anfiteatro Plaza de toros Alhambra, do qual foi projetista e era
de propriedade de Vicente Rodriguez. Essa tentativa de construção do anfiteatro
foi retomada em 1936 pela a Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos de Porto
Alegre, através do presidente José Barreras lançando a idéia de arrendar uma
área para o El Prado Espanõl.

101
Fachada da “Sociedade de SocorroS MútuoS
de Porto alegre”, 2008.

De toda maneira, a persistência cultural desses esportes entre os hispânicos


pode ser encontrada na atual freqüentação ao Prado de Porto Alegre, na zona sul
da cidade, quando inclusive migrantes americano-hispânicos reforçam o público,
principalmente, nos eventos de grande premiação como na “Redentora”.

Omutualismo e a Sociedade
Espanhola de Socorros Mútuos de Porto Alegre

A primeira experiência propriamente associativista dos migrantes espa


nhóis em Porto Alegre foi mutualista e data de 1893. O mutualismo foi impor
tado das experiências européias em decorrência das necessidades sociais dos
trabalhadores à medida em que o capitalismo avançava.

102
Associam-se na experiência histórica das sociedades aqui criadas, uma
faceta étnica ao lado da classista. Todo tipo de interpretações são válidas.6
Para Hélios:

a Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos de Porto Alegre tinha um ideal de


unir não somente os espanhóis, mas todos os que necessitavam de assistência
independente de filiação político-partidária; uma idéia ampla, com base na soli
dariedade. Foi criada dentro do movimento mutualista que é uma vertente do
movimento operário do Proudhon, entendido como infra-estrutura necessária
para a revolução.7

Essa definição foi à baliza da pesquisa realizada para o CPH. Como o


objetivo foi o de traçar o perfil da presença espanhola na Cidade, o interesse
sobre o associativismo foi surgindo a partir das entrevistas. Recorreu-se, poste
riormente, à documentação e outros trabalhos como os de Iolanda Guimarães
Vargas, de 1979 e o de Vicente Aramburu Gurruchaga, de 1993.
A reconstrução da história da Sociedade com o esforço de reconstrução
de uma sede; utilizavam-se até então de outros salões para exercer suas ativi
dades como o da Beneficência Portuguesa, o do Palacete Rocco e o da Sociedade
Italiana Vitorio Emanuel II. Em 1911 adquirem o terreno para a atual sede na
rua Andrade Neves, n. 23, iniciando a campanha para arrecadação de fundos.
A inauguração foi em 14 de março de 1929.8
Em 1930, foi criada a Casa de Galícia e prometia compartir com a Socie
dade objetivos do mutualismo.9 Funcionava na Rua Sete de Setembro, n. 1078,
os
sendo o primeiro presidente Isidro Villa. Palestras iriam dar o cunho cultural a
Casa de Galícia juntamente com os cursos de espanhol e de português.
No entanto, o acirramento da política espanhola em 1931 com os republi
canos no poder altera os rumos da Sociedade. Ocorrem cisões, os remanescente
vão criar o Centro Republicano, que funciona no interior da Sociedade, contra
riando os termos do não-alinhamento político da entidade.
A Policlínica Ramon Carvajal foi inaugurada em 1º de agosto de 1936,
sendo que no mesmo ano recebeu a doação oficial do Centro Médico para a “Socie
dade”. Incentivada pelo presidente, Don José Barreras,as reformas do prédio ofere
ceram a partir de então, serviços grátis aos associados de cirurgia, ginecologia,
pediatria, clínica geral, obstetrícia, otorrinolaringologia e serviços de raio X.
Outra atividade importante para a Sociedade foi à criação de uma biblio
teca. A circulação da literatura foi um passo importante da formação identitária
e as iniciativas por uma biblioteca despontam no período. O acervo da biblioteca
se fez por doações.10 Em 8 de março de 1934, registrou-se, enfim, o lançamento
da biblioteca. Denominada “Biblioteca Daniel Fernãndez Shaw”, inauguraram

103
na com uma placa de bronze e retrato de Don Daniel Fernández Shaw, o primeiro
Cônsul Republicano em Porto Alegre.
A nova conjuntura delineava os rumos da Sociedade. Com a República
Espanhola de 1931, a Guerra Civil Espanhola de 1936, o exílio e a vinda de
espanhóis para Porto Alegre e o Governo Vargas, irão circunscrever o período no
qual se acirram disputas, definem-se novos hábitos de freqüentação, altera-se a
cultura política e a sociabilidade na Cidade. Muitos dos espanhóis já residentes
passaram a evitar o convívio social, público, para não se envolverem.11

Aorigem da Casa de Espanha de Porto Alegre

A adesão de espanhóis locais à Frente Nacionalista (bando nacional,


requetês, monarquistas...), exército dos rebeldes, Igreja e a falange, na
Espanha, tem ressonância em Porto Alegre, com a fundação do “Centro Nacio
nalista” para se contrapor aos republicanos. Há um hiato de informação que
possibilita ligar as pontas dessa história de modo a relacionar as circunstân
cias de criação desse Centro Nacionalista aos que constituíram o “Grupo da
Amizade” e ao Consulado Espanhol na origem da Casa de Espanha de Porto
Alegre, é preciso ter todo cuidado para evitar uma visão estanque, pois se
sabe que existiam espanhóis que transitaram nas duas entidades. Embora
sem sede, o “Grupo da Amizade” promovia suas excursões, bailes etc, de
modo a congregar a colônia, como as “Festas das 12 Uvas”, as de despedida
do ano, as Gitanas, Madrilenhas, as festas por São Isidro, o que manifestava,
no discurso, a tentativa de consagrar o caráter apolítico que pautaria a ação
social do grupo.
Em 1953, na Rua Dr. Flores, n. 220, ocorre o ato de fundação da Casa
de Espanha de Porto Alegre pelos membros da colônia espanhola, em sua
maior parte integrantes do Grupo de Amizade 12 de Outubro, composto por
41 espanhóis que constaram na relação de sócio fundadores. Em ata de 15
de novembro de 1953 estão registradas as providências para a locação de um
imóvel para as atividades dessa sociedade. O imóvel alugado estava localizado
na Avenida Júlio de Castilhos, n. 133 e 139.
Nesse período, o consulado estava distanciado da Sociedade, estando
sem canal de expressão junto à colônia. Um dos efeitos práticos da criação da
Casa de Espanha de Porto Alegre será a credenciamento dessa junto ao Insti
tuto de Emigração para receber e qualificar-se ao Plano Assistencial.12
O período é crítico para os que estão chegando, também pela exacer
bação nacionalista, pelo rescaldo da Grande Guerra. O que sucedeu após o ano
de 1937 está indelével na fala dos entrevistados: a Guerra Civil. O silêncio da

104
língua era o silêncio político designado na Cidade para o lugar do estrangeiro e
de sua cultura, nos anos seguintes. Nas falas, ainda ressoa o apoliticismo dos
mais velhos, testemunhas da transição de uma potência posta em questão.
Mas isto já é outra história: a do silêncio, quebrado somente pelos
depoimentos. A subjetividade social está na avaliação de Hélios, que se volta
para esse período através da lente do grupo dos anos 50 ao qual pertencia seu
pai Juan, e para as circunstâncias que modelaram a separação das sociedades
espanholas em Porto Alegre. Sua narrativa inicia pelo mito de fundação, como
toda boa história deve iniciar, e se detém na conjuntura de atuação do grupo.
Não apenas ele, mas Crispina, Olga e, de certo modo, Marilice, confluem em
muitos pontos com o trabalho de pesquisa já realizado.13

A sociabilidade na Sociedade Espanhola


de Socorros Mútuos de Porto Alegre

Hélios relata como transcorria o estímulo à cultura, “sem separatismo”,


preservando as singularidades das províncias.

Estes iam desde estimular arte Gitana, o Flamenco, até as Sardanhas, que é
uma música que é típica da Catalunha, e outras coisas que eu poderia dizer dos
galegos e outras etnias, outras autonomias que fazem parte dessa autonomia
ibérica. Destaca-se também a importância de alguns espanhóis durante certo
tempo, cada um no seu momento. Dalmiro, num dado momento, depois tem
Martinez, que são indivíduos que mantiveram no economato da Sociedade espa
nhola a união, e que nas festividades da Sociedade o congraçamento da colônia
espanhola... Flávio Alcaraz, Cândido Norberto, uma série de nome de pessoas. O
Guazzelli, foi a Cuba e o trouxeram para falar. Também no dia 12 de outubro se
festejava o “dia da raça”. Eles procuravam dar outra conotação a essa questão de
raça, chamavam o “dia da hispanidad”, quando então chamavam todo mundo e
faziam eventos culturais.

O Recanto Espanhol foi outra alternativa de lazer da Sociedade. O terreno


adquirido em 1966 à rua Jazipuia, n. 135, no Bairro Guarujá e ampliado em
1969 prestou-se até mais recentemente aos encontros familiares.14 Isso ocorre
com as imagens de infância de Marilice nas reuniões em família e entre
amigos para saborear as paellas feitas pelos adultos empenhados nos ritos
dessa preparação. Lamentado por todos entrevistados, o Recanto Espanhol
sofreu mais recentemente um incêndio e se encontra desde então praticamente
abandonado.

105
Baile de Aniversário da Sociedade
Espanhola de Socorros Mútuos de
Porto Alegre, 195715.
Acervo de Olga Falceto.

Já a Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos de Porto Alegre foi local


de muitas e diversificadas celebrações. Olga tem fotos e recordações de festas e
de memoráveis paella para a festa de sete anos do filho e ainda vibra, rememo
rando os cenários e as expectativas pelas festas, na sua memória de infância.

Essa foto é o tio José Falceto, que foi um dos presidentes da Sociedade. A festa
mais memorável para mim, foi esta festa onde vinha uma orquestra, pelo menos
uma vez ao ano, a maravilhosa Cassino de Sevilla, e que tocava paso dobles. Da
minha infância eu lembro de nós todos indo para o baile, porque iam as famílias
inteiras com as crianças; corríamos pelo meio do salão – porque não tinha nem
com quem deixar as crianças e nem se deixaria; o conceito bom era ir velhos,
jovens, pequenos, todo mundo para o baile – o mais memorável foi um que eles
fizeram com todos os jovens se vestindo com as roupas tradicionais das regiões
espanholas, e fizeram as danças... Foi magnífico!

Essa orquestra, Cassino de Sevilla, teve uma larga tradição de espetáculos


no Brasil e na América latina, figurando seguramente nos “quadros sociais de
memória”16 de várias gerações uma vez que a formação da orquestra data dos
tempos da invasão da Catalunha pelas tropas napoleônicas.
Um grupo de senhoras reúne-se semanalmente na sede, desde 1982.
Conhecidas como As Dulcinéias, representam mais uma das facetas da sociabi
lidade da colônia espanhola.

106
Festa dos Reis Magos.
Acervo do Centro Espanhol de Porto Alegre.

A sociabilidade na Casa de Espanha de Porto Alegre

Os galegos como Hermínio, Carmen e suas famílias, que “iam sempre”


à Casa de Espanha de Porto Alegre, tinham como principal atrativo às “Festas
galegas”, as festas religiosas como a dos “Reis Magos”, para as crianças ou os
comemorativos do 1° de maio, em torno de uma paella valenciana. Os demais
espanhóis igualmente realizavam suas festas regionais.
Os entrevistados não reportaram detalhadamente essas festas e a pesquisa
limitou-se ao cenário descrito por outros trabalhos que salientam com riqueza
de detalhes o folclore e a culinária regional. Acredita-se ainda que as festas
perderam seu ímpeto, como eles mesmos relataram, em parte porque a própria
sociabilidade contemporânea mudou.
O registro, portanto, é mais ilustrativo dos aspectos culturais do que
a expressão da dinâmica cultural atual da Casa de Espanha de Porto Alegre,
tal como segue conforme Wilma Ferreira Kreling tratando de uma conjuntura
bastante superada.17
A autora situa que as festas dos Reis Magos começaram a acontecer em
1954. As festas religiosas, costume importado da religiosidade cristã espanhola à
época da expulsão dos muçulmanos, rememoravam os Três reis magos Baltazar,
Gaspar e Melchior, ofertando presentes ao menino Jesus. Essa celebração foi esten
dida a todas as crianças e reproduzida onde a Espanha deixou sua marca cultural.

107
Festa Galega, julho de 1988. Acervo do Centro Espanhol de Porto Alegre.

De modo que, nessa festa, todas as crianças menores de oito anos eram presentea
das, apresentando-se com as roupas típicas da região de origem de seus pais.
A dinâmica geracional foi dura com esse tipo de evento: as crianças, hoje
adultas, não reproduzem com seus próprios filhos essas tradições. Muito menos
os jovens: segundo Hermínio, as festas religiosas e regionais hoje são pouco atra
tivas para esses. A união das duas sociedades no Centro Espanhol têm buscado
preservar elementos como certos hábitos, danças, festas, música, culinária, mas
não na mesma intensidade como anos atrás e nem na mesma amplitude como
ainda é possível na vida privada de alguns espanhóis e sua descendência. Ele
mesmo participou de quase todas festas galegas – umas cinqüenta, calcula –
sendo a data comemorativa o Dia de Santiago Apóstolo, dia vinte e cinco de julho,
o patrono da Espanha e da Galícia. Lembra que sua origem como festa popular na
Espanha vem desde o século XVI, quando se inclui igualmente as romarias.
Mas sigamos a narrativa de Kreling. As festas galegas tinham na gaita
o elemento principal, representativo do meio pastoril, sendo a dança a moli
nera (La Coruña) uma reminiscência grega. Ël carballeira, a Araxada, Ël marela
são danças acompanhadas por instrumentos como o pandeiro e o tambor, além
das gaitas galegas. A jota galega talvez pertença ao século XVIII. Na Casa de
Espanha de Porto Alegre a cozinha galega apresentava o pulpo à marinheira, a
sopa montañesa, a tortilla montañesa, a pescada galega. Os vinhos El Ribeiro,
Valdeoras, Ulla, da região de Monterrey; Alvarino de Pontevedra.
Desde 1961, a cultura do folclore das regiões foi uma constante nas
festas específicas. As direções buscaram estimular a dança, a música, através
do “Clube de Danças”. Importante na pesquisa das coreografias, figurinos e das
melodias, Gladis Galicano, durante anos, esteve à frente do grupo.

108
A jota aragonesa foi à primeira das apresentações do grupo, em 12 de
outubro, na festa nacional que homenageava a “Virgem de Pilar”, a padroeira
da Espanha e em especial, da Província de Aragão. A guitarra e as castanholas,
feitas de madeira “Boj” ou de granadillo são os instrumentos que acompanham
o ritmo e a dança folclórica aragonesa. As rondallas, a conhecida música das
rodas, obriga a jota e nas paradas, o cantador recita os versos. Sua origem
remonta ao séc. XVII e expressava melodicamente a dança de guerra. Nas ceias
aragonesas a culinária prestava-se à oferta do pollo a la chilidron, ensaladade
hortelana, o balão al ajo arriero.
As festas valencianas remetem à formação romana, muçulmana e grega,
sendo a região de dois reinos: Coroa de Castela, com o herói El Cid e a Coroa
de Aragão. A tradição religiosa se realiza em Corpus Christi, com a Virgem dos
desamparados, padroeira da região e a elaboração das fogueiras de São José e
dos “milagres” de São Vicente, quando o donsainer, o estandarte de seda com
a representação do santo recebia os donativos no percurso, tudo cercado das
festas populares dos colóquios, dos contarielese e das fallas. A falla valenciana
é tida como a mais popular. Sua origem está na Turia, onde as associações de
carpinteiros elaboravam fogueiras com as sobras das tiras de madeira, na noite
de São José. Na Casa de Espanha de Porto Alegre, organizava-se no mês de
março a ceia com a paella valenciana, acompanhada de músicas como a conhe
cida “Valencia” e “Rapsódia Valenciana”, seguida da jota jijona.
As festas da Catalunha homenageavam durante a Semana Santa a caval
gada dos Reis Magos e a Festa de Santo Anastácio. A festa principal era da
Nossa Senhora de Monte Serrat, La Morenete, a Virgem Morena. Essa narrativa
remonta em torno da Idade Média quando ocorreu a expansão dessa devoção
sendo a montanha, local de romarias. Nos seus bailes, as músicas e cantos
aconteciam o Ball de Ram, símbolo dos bailes catalães. Já a jota Fogueada, da
Tarragona, dança de origem árabe e popular entre os campesinos, em pares e em
cirandas, sem as castanholas, diferencia-se das demais.
As festas dos asturianos recorriam aos gaiteros como os galegos, porém
eram mais vigorosas por possuírem elementos que expressavam a vida dos
vaqueiros, agricultores e mineiros dessa região, onde irrompeu o movimento da
Espanha cristã (que remonta ao ano de 718, quando o rei D. Pelayo derrotou os
maometanos). O símbolo é Covadonga, sendo o santuário de Covadonga cons
truído em 1777, em devoção à Santíssima Virgem de Covadonga. Astúrias se
faz representar por Covadonga, sendo as festividades a Fiesta de Covadonga, em
que se perde a origem das danças típicas como El Corri-corri. A bebida era sidra,
que tem origem no norte e pelo litoral e ao centro (entre os rios Sella e Nálon),
sempre acompanhado do bolo prenãdo.

109
As festas andaluzas tinham nas castanholas o elemento principal.
Malorca, Segóvia, Sevilha ensejaram as canções da malagenã, segyuidilla,
sevillana, gitana, el pollo, la taranta, fogadillos, el marinete. O bolero com seu
olé, o flamengo de origem árabe, tornaram-se marcas da Espanha.
Pode-se concluir que, dada sua natureza, os sócios da Casa de Espanha
de Porto Alegre tiveram oportunidades de convivência com outras sociedades
culturais espanholas no Estado e de outros países do Prata, como um efetivo
espaço de representação consular. Essa dupla face entre o social e o diplomá
tico, pode ser entendida também como um fator de isolamento do restante dos
demais espanhóis não afinados com a política espanhola franquista.
As festas consulares ali realizadas atenderam, como atendem, às datas
oficiais; quais sejam o Dia da Raça, 1º de maio ou da Hispanidad, na América co
memorada desde 1913 pelo Centro Ibero-americano de Madrid; e 24 de Junho, Dia
de “São João” e comemoram o onomástico do rei desde 1976 data na qual se deu a
primeira Festa Nacional Onomástica do rei Don Juan Carlos Bourbon de Bourbon.
A expressão artística representada pela dança espanhola, principal
mente, a andaluza, figura no modelo de representação cultural espanhol. Como
acentua a narrativa de Olga Falceto, quando destaca “uma coisa viva que tem
é o Grupo de Danças do Centro Espanhol, que este é um lugar vivo de manu
tenção da cultura espanhola pelo mundo; fora isto tem o ‘Tablado Andaluz’, na
Avenida Oswaldo Aranha, assim como o Santander Cultural18, que é um lugar
que preserva a cultura; e está por aí”.19

Um viés político-ideológico

Quando chega a Porto Alegre em 1952, o grupo de Puig encontra a situ


ação radicalizada entre os espanhóis aqui residentes. A história política dá
conta do enfrentamento dos grupos no interior da Sociedade.20 Hélios lembra
de uma exposição importante “marcadamente libertária”, que foi a exposição de
jornais antifascistas espanhóis. O evento granjeou desconforto para o Secretário
de Cultura, finalmente assimilado, a partir do espírito de que “a Sociedade espa
nhola não era lugar de conflito”.
Local de debates políticos, intelectuais freqüentaram a Sociedade, nesses
anos. Conforme Olga:

este grupo foi muito importante na formação intelectual de alguns grupos porto
alegrenses; os médicos, por exemplo, foram extremamente importantes. Traba
lhavam em um segmento que se chamava Pasteur, o criador da vacina; eles foram
muito influenciados pelo Pujol, que tinha uma grande história de atividade polí

110
tica; o Fernandes tinha também uma grande formação política; então eles conse
guiram se inserir na cidade. Olha aqui: a Crispina Garcez (mostra uma foto); então
isto aqui é uma assembléia na Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos de Porto
Alegre... O Cândido Norberto, o Sinval Guazelli, o Juan Puig, pai do Hélios. Então
eles tinham uma inserção política e era uma época em que as “pessoas mais demo
cratas”, como diria a minha mãe, tinham um grande respeito pela luta política
na Espanha, então o nosso grupo era muito benquisto em um determinado setor.
Tinha diálogo; agora, eles não se vincularam a nenhum partido, que eu saiba.

Continua Hélios, agora reportando-se à neutralidade religiosa da


Sociedade:

achava interessante era outras coisas: nenhuma data religiosa se celebrava na


“Sociedade Espanhola”. Isso chamava atenção, quer dizer do ponto de vista da pe
dagogia, não havia uma imposição de uma religiosidade, ou seja, da mesma ma
neira que se procurava não ficar vinculado a uma relação ideológico-político-parti
dária, também se procurava – claro que isso tinha uma ideologia, – a de não trazer
para cá esses elementos que se considerava divisores da classe trabalhadora.

Mas em 1964, conforme o entrevistado, com o golpe militar, o esvazia


mento da Sociedade é notório. O associativismo que visava a garantir o mínimo
para a sobrevivência de espanhóis e não-espanhóis, por sua vez é superado pela
própria renovação da Previdência Social Brasileira, centralizadora e substitutiva
das iniciativas isoladas.

A s excursões e os restaurantes

Outros locais irão estabelecer a sociabilidade dos espanhóis nos anos de


1950. Espaços públicos foram modulados pelo senso de pertencimento espanhol
nas suas variadas gamas ideológicas. Os locais privilegiados da sociabilidade
espanhola, como restaurantes, parques, de uma Porto Alegre que quase desapa
receu, são nomeados nas entrevistas.
O esforço é o da memória autobiográfica, episódica, a que estabelece
nexos entre o que é hoje e o que foi. Os entrevistados necessitaram articular
com a memória semântica ou coletiva, o ouvir dizer dos pais, das narrativas em
circulação, mesmo nos resíduos da memória, permeada pela História.
Assim é com Olga, quando relembra sua educação musical no modo de
recepção da ópera. Essa é devedora da freqüentação do restaurante Torero, do
casal Crispina e Garcez, localizado na Avenida Oswaldo Aranha.

111
momentos de lazer na praia do lami. Excursão organizada pela Sociedade de
Socorros Mútuos de Porto Alegre (1954)21. Acervo de Olga Falceto.

Lá organizaram um coral de repertório espanhol. O regente do coral


improvisado era o já mencionado Dr. Pujol. Lembrando, obviamente, dos tempos
de Barcelona, quando estudante de medicina, participava da claque de outros
estudantes universitários, contratados para disciplinar o público para bater
palmas nos intervalos adequados nas apresentações artísticas.
Além de disseminadores da culinária espanhola regional, os restaurantes
como esse foram importantes como um segmento da economia da Cidade que
absorveu muitos espanhóis. Em particular nesse restaurante, em razão da
projeção social dos proprietários, reuniam-se intelectuais como Mario Quintana,
políticos, além dos espanhóis.
Outra forma de sociabilidade ocorria no lazer ligado a passeios. O grupo
da Sociedade realizava expedições para conhecer a serra, as cachoeiras da volta,
os rios, as praias. Quando chegava o verão, todos os fins de semana buscavam
ir para um balneário como Ipanema. Mantiveram esse “espírito de piquenique”,
vamos chamar de excursões, sempre coisas locais e próximas, como visitar a
”Festa da uva”; iam à Canela na casa do Garcez, como situa Hélios.
Quando criança Olga usufruía e, hoje em dia, como adulta ela psicana
lisa estes encontros que recompunham as lacunas decorrentes da migração, ao
mesmo tempo em que estimularam hábitos na população porto-alegrense.

Pois esse grupo que se tornou nossa família e que na verdade se reunia por razões
políticas e amorosas, de vínculos familiares; então a gente tinha uns fins de
semana juntos. A coisa mais maravilhosa da minha infância eram as excursões

112
que se faziam, em termos de sociabilidade super legal; nós fomos provavelmente
um dos primeiros grupos que descobriram o Lami, por exemplo. Então se alugava
um ônibus, aqui tem o ônibus (mostra uma foto); eu me lembro pequenininha,
devia ter cinco anos, caminhando de mãos dadas, pela rua imensa do Passo da
Areia, até chegar no ônibus que ia nos levar para o centro, e depois o outro que
levaria ao Lami; e a gente ia cantando e voltava cantando; isto era o melhor antí
doto para a depressão de todo mundo....Aqui, por exemplo, tem uma roda com
uma moça dançando flamenco no meio (mostra uma foto), no Lami.

Como o ocorrido na vivência de Hélios, Olga, Crispina e os demais, a Casa


de Espanha de Porto Alegre também patrocinou romarias, excursões. A ausência
de uma sede campestre, como o Recanto Espanhol, levou a promoções nas quais
os motivos religiosos confundiram-se com os de lazer, o que explica as romarias
de Nossa Senhora do Caravaggio, a Fenavinho e assim por diante, o mais das
vezes levando junto à apresentação da Academia de Bailes da Sociedade. As
excursões às ilhas do Guaíba e a fazendas foram outros dos hábitos de freqüen
tação desse grupo.

A vida social nos clubes

Desde 1920, existiam no centro da Cidade, o Clube do Comércio de Porto


Alegre, o Clube Caixeiral Porto-Alegrense, sociedades carnavalescas e recrea
tivas, o Palacete Rocco, o Teatro Apolo, o Bar Florida e o Theatro São Pedro
a Sociedade Leopoldina, a Associação dos Empregados no Comércio de Porto
Alegre e as sociedades étnicas, como as sociedades italianas e alemãs.
Nesses anos, a vida cultural é intensa e a presença hispânica foi uma
constante. Transitam na Cidade os espetáculos da Cia.: Nina Panche, Duo da
Africana, La Gran Via, como as artistas Aurora Rodrigues, Suarez e Urrunaga.
A Cia. Lahoz apresenta a ópera como o maestro Ernesto Lahoz. Algumas dessas
promoções tinham o apoio de outra forma associativa, a do Clube Jocotó que
chegou a ter 1000 sócios. Nascido no Bairro Tristeza, nos anos de 1930-40, em
torno do médico Mário Totta. O clube atuou sem sede própria, alugando espaços,
salões para os finos recitais e palestras culturais. Como em 1927 quando o
uruguaio Augusto Bado proferiu a palestra sobre “poetas do Uruguai”. Sotero
Cosme, nesta noite vai desenhar a lápis os convidados presentes. Ou quando
com grande alvoroço na cidade, entre dezembro de 1928 e janeiro de 1929,
com a chegada de Francisco Villaespesa, conhecido como “Príncipe dos poetas
de Espanha”. Osvaldo Aranha, Secretário do Interior faz as honras oficiais ao
poeta, que vem cumprir uma intensa programação.

113
A cultura espanhola foi prestigiada na “Festa Espanhola”, em 1928,
quando os bailados andaluzes e danças sevilhanas foram apresentadas. As
transmissões de rádio levaram longe as sessões do Clube Jocotó, exorbitando os
limites reservados mesmos aos seus associados.
Por outro lado, a notícia de 4 de julho de 1911 demonstra como a convi
vência entre as sociedades étnicas foi amigável. Como quando22 a agremiação
Vittorio Emanuelle II comemorou seu 34º aniversário de fundação, e o Secre
tário da Sociedade prestou homenagem.
Décadas decorreram, o panorama é outro. Segundo Olga, como os de sua
geração, muito cedo, depois da infância optou por se inserir na sociedade brasi
leira, ou seja, estudar, trabalhar, ter filhos. Embora manifeste desejo de retornar
e participar na Sociedade, na época, creditava a um certo isolamento do grupo
da vida da cidade o seu afastamento gradativo.
O mercado de trabalho colocou em contato pessoas fora dessa colônia de
espanhóis, como é próprio das sociedades modernas. A rede familiar – ou social
– vai sendo vivenciada em paralelo com as novas redes que vão sendo criadas.
Olga considera que “a preocupação com a sobrevivência da próxima geração, que
é a minha, foi a de nos preparar desde cedo... a preocupação de uma educação
formal para poder sobreviver e uma formação moral, ética, social.”
Houve um sentimento de exclusão na colônia de espanhóis que persiste.
Hermínio comenta ainda que entre os galegos e não-galegos, “até pode ser que
há uma pequena diferença, pois é um grupo mais unido em princípio”. Recorda
que nas festas a presença das outras regiões existia. Para ele, os jovens não se
interessam pela preservação cultural. Pois “hoje em dia as pessoas que faziam as
festas, a maioria já não está mais conosco; então a juventude hoje em dia, está
em outra... Então os galegos ainda permanecem um pouquinho mais... coesos.”
Há outro aspecto ainda: as casas regionais. Segue Crispina, por exemplo:

no Rio de Janeiro a “Casa de Galícia”, em Montevidéu, tem o “Casarão Catalão”. Aqui


a ‘Sociedade Galega’ está dentro do “Centro Espanhol”; eles têm uma comissão,
não tem entidade própria, porque não têm bastante galegos para manter uma
“Casa de Galícia” ainda que predominem em Porto Alegre, como na Bahia, em
Salvador. Mas em São Paulo a presença de outras regiões é importante.

Em qualquer caso, o esvaziamento posterior dessa freqüentação foi apon


tada nas entrevistas como uma questão de geração. Olga exemplifica a partir da
experiência de sua mãe que jamais se naturalizou brasileira ou como o seu tio
Falceto, que participou de várias diretorias da Sociedade.
Quanto à Comissão de Residentes, ela sobrevive das contribuições do
Governo Espanhol, diretamente, tendo atualmente outras pessoas atuando nela.

114
Para esses espanhóis, a definição ideológica e a demanda de serviços (saúde,
jurídico, etc.) determinou os ritmos que pautaram a freqüentação e a vida das
sociedades. Fenômeno não exclusivo de Porto Alegre, sendo verificado nas
demais sociedades espanholas brasileiras.
Depoimentos obtidos para a pesquisa revelaram serem rigorosamente
corretos: tais organizações e sociedades reunidas em torno do princípio de
estratificação étnica, largo espectro; sofrem os efeitos da inserção dos migrantes
na economia da sociedade de recepção. Se no primeiro momento de instalação
podem ser vitais, como referência identitária e alguma assistência social e
mesmo orientação burocrática, gradativamente vão se esvaziando se não conse
guem atrair as novas gerações por alguma espécie de benefício.

Rumo à reconciliação da colônia espanhola em Porto Alegre

Entre 1970 e 1971, ainda seguindo a narrativa de Kreling, o Cônsul da


Espanha em Porto Alegre, Don Juan de La Veja tenta reconciliar os espanhóis
na Cidade. Apenas em 1975, com o falecimento do General Francisco Franco, e
o retorno à democracia na Espanha, o então Cônsul Don Miguel Dáz Pache em
1977 retomou a aproximação.
Nesse período, Manuel Iglesias Capell, Presidente da Casa de Espanha de
Porto Alegre e José Falceto Abadia, Presidente da Sociedade, convocam separa
damente uma assembléia extraordinária para iniciar os termos da unificação
das entidades. Outros desdobramentos demandariam anos, no entanto. O
Centro Espanhol congrega hoje a Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos de
Porto Alegre, a Casa de Espanha de Porto Alegre e a Sociedade de Beneficiência
Hispano-Brasileira, a sede campestre do Guarujá e o Cemitério Espanhol.
Em 1985, o Real decreto 530/1985 de Sua Majestade o rei Juan Carlos de
Borboun promove a formação do Conselho dos Residentes espanhóis, encarregado
de preservar os direitos dos residentes espanhóis. O presidente regional é Felix
Garcez, sendo sua secretária por longo período a mãe de Olga Remédios Falceto.
A fundação da Sociedade de Beneficiência Hispano-Brasileira, decorreu
dos escassos recursos para o fundo mutualista. Para os sócios que nunca haviam
contribuído para a Seguridade Social. A Espanha oferece assistência para os
espanhóis necessitados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
A elaboração dos Estatutos do Centro Espanhol demandou muito
trabalho23. O nome Centro Espanhol foi uma sugestão do Governo espanhol para
padronizar internacionalmente as denominações das sociedades espanholas.
Podem ser indicados em meados de 1990, no mínimo três conjunturas nas
tentativas de unificação, após 10 a 12 anos de tentativas anteriores. Duas séries

115
principais de obstáculos são apontadas por personagens autorizadas: as difi
culdades de ordem jurídicas esbarravam nos estatutos da Sociedade Espanhola
de Socorros Mútuos de Porto Alegre e os da Casa de Espanha de Porto Alegre,
somadas aos distintos entendimentos do que deveria ser o destino de ambas.
Os detalhes que fizeram parte desses processos ao longo desses anos
todos seguramente merecem maior densidade de pesquisa histórica, oportuni
zada pela ampla documentação disponível e pela presença de personagens.
A resistência dos personagens fundadores das sociedades foi sendo
parcialmente vencida em decorrência mesmo da dinâmica geracional, em que
os filhos e netos passaram a buscar novos rumos tanto para a Sociedade como
para a Casa de Espanha de Porto Alegre. Mas é preciso considerar a existência
anterior de um movimento interno de exclusão de sócios não afinados com a
política administrativa que norteava as últimas direções da Sociedade Espa
nhola de Socorros Mútuos de Porto Alegre (Sociedade Espanhola) e que condu
ziram posteriormente a integração à Casa de Espanha de Porto Alegre.
Os estatutos de ambas (com suas normas pétreas) impediam a extinção,
a troca da denominação, assim sendo qual seria a destinação patrimonial (Casa
de Espanha de Porto Alegre, a Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos de Porto
Alegre, a sede social do Guarujá e o Cemitério Espanhol). Outra dificuldade na
Casa de Espanha de Porto Alegre eram as distintas categorias de sócios que
traduziam diferentes graus de comprometimento com a aquisição patrimonial.
Na Sociedade Espanhola, as categorias estabelecidas eram de sócios ativos e
de contribuintes; entre os primeiros, estão aqueles que foram sendo nomeados
como beneméritos e conseqüentemente dispensados da contribuição social.
Efetuadas as assembléias, elaborados os estatutos e levados ao Cartório
de Registro dos imóveis com a Ata de Incorporação, um grupo de sócios da
Casa de Espanha de Porto Alegre procede uma interpelação judicial, tentando
a impugnação do mesmo. Superada essa dificuldade, com a contestação ao
Recurso, a integração das duas casas é efetivamente consagrada em maio de
1995, provada a justificativa de que não há ofensas aos estatutos porque não
se trata de uma nova entidade e sim de uma incorporação em que permanece
íntegra a incorporadora, a Casa de Espanha de Porto Alegre. Entre outras delibe
rações, mantêm-se as cores vermelho e amarelo e os símbolos da figura montada
do Quixote, mais o lema Hoy por ti, manãna por mi, sendo o domicílio legal a
sede de Higienópolis onde se localiza a Casa de Espanha de Porto Alegre.
Problemas que também traduziam o destino do patrimônio histórico
ideológico. A proposta de um sistema híbrido na incorporação da Sociedade à
Casa de Espanha de Porto Alegre, com o desaparecimento das antigas denomi
nações foi negociada sobre obstáculos jurídicos acima indicados. Nas últimas
décadas, o esforço de união dos espanhóis em Porto Alegre é agenda em cons

116
lembranças de Um tempo passado.
Libório Sanvicente. Acervo família Sanvicente.
Ao lado, Amadora Gonzalez Rodriguez, em Cuba. Acervo família Florez.

trução, busca atenuar as diferenças ideológicas importadas desde a Espanha e


atrair os jovens que não participaram dos dilemas como o dos espanhóis que
não freqüentavam nem uma, nem a outra sociedade.
Para esses, tratava-se de não tomar partido, como o pai de Estelita: “não
participava. Ele comentava que havia duas facções, então ele não queria tomar
partido, que ele estava longe disso. Ele tinha vindo por causa de uma guerra e
não queria conviver com isso. Então ele preferia se reservar para a família”.
Enfim, o que parece ter sido determinante para a frequentação das socie
dades foi à polarização ideológica do século XX, mas sem sentido para as gera
ções pós-Franco. Na maioria dos casos, o capital simbólico que ainda dispõem
é insuficiente como fator de comprometimento. A tentativa de integração das
sociedades espanholas em Porto Alegre não tem galvanizado o interesse da
geração atual porque estão diante de possibilidades de sociabilidades distantes
daquela com a qual se defrontaram as primeiras gerações. Para essas, sim, havia
motivo para se decidir por uma participação mais ou menos comprometida com
a celebração da manutenção dos laços culturais que, teoricamente, é a razão de
ser das mesmas.

Notas do capítulo
1BARTH, Fredrik. Grupos étnicos e suas fronteiras. In: POUTIGNAT, Philippe; STREIFF-FENART,
Jocelyne. Teorias da etnicidade: seguido de grupos étnicos e suas fronteiras de Fredrik Barth. São
Paulo: Fundação UNESP, 1998. p. 188.

117
2 Correio do Povo. 29 jun. 1897.
3BUCELLI, Vittorio. Un viaggio a Rio Grande del Sul. Milão: Pallestrine, 1906. P. 98.
4 PORTO ALEGRE, Achilles. História popular de Porto Alegre. Porto Alegre: EU/Porto Alegre, 1994.

P. 90-91.
5 Fotografia retirada em 2007 pelo estagiário do CPH Nathanael Reis de Figueiredo – acadêmico do
curso de História do Centro Universitário Metodista Instituto Porto Alegre (IPA).

6 Deve-se ao esforço de Don José Maria Buyo a implantação na América do ideal mutualista, ao
criar em 1853 no Uruguai a primeira experiência; em 1857 será a vez de Buenos Aires. Outros
países foram organizados em confederações, como Venezuela, México, Colômbia. No Brasil, em
Salvador, a Sociedade data de 1899, que unida ao Centro espanhol em 1910 fundam o Hospital
Espanhol; em 1960 é criada a Sociedade Caballeros de Santiago, constituída exclusivamente por
descendentes; em Belo Horizonte foi criado o Centro Espanhol em 1960 transformado em 1961
em Instituto de Cultura Hispânica; em Juiz de Fora, o Centro Espanhol; no Rio de Janeiro, em
1859 a Sociedade Espanhola de Beneficiência do Rio de Janeiro, mais a Casa de Galícia; em Tere
sópolis a Casa de Espanha; em Niterói o Centro Recreativo Espanhol do Rio de Janeiro; o Estado
de São Paulo concentra o maior número de entidades regionais: em Santos, como local de desem
barque dos migrantes, em 1895 criou-se o Cassino Espanhol, depois Centro de Repatriação de
Santos, muito atuante na epidemia de 1918 e acabou transformando-se em hospital epidêmico,
hoje possuidor de sólido acervo sobre a repatriação sob seu auxílio. No Rio Grande do Sul, a Socie
dade de Beneficencia y Socorros data de 1868, com sede própria desde 1934; em Livramento, em
1879; Uruguaiana, 1876; Pelotas e Rio Grande extinguiram-se no período crucial desde a Guerra
Civil em diante, com a Lei das nacionalidades de 1938;a de Triunfo durou apenas de 1923 a 1939.
Hoje apresentam outro quadro, cabe confrontá-los para a realidade de 2007. VARGAS, Iolanda
Guimarães. História da Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos de Porto Alegre. Porto Alegre:
PUCRS, (Dissertação), 1979. P. 18-27 e p. 24-47. Percorrendo o período até 1993, ver também a
monografia de GURRUCHAGA, Vicente Aramburu. História del centenário de la Sociedad Espanõla
de Socorros Mútuos de Porto Alegre. Porto Alegre, 1993. Nesses trabalhos, toma-se conhecimento
de que o primeiro presidente da Sociedade foi Agapito González. Socorro, assistência social e
seguros foram o tripé da ação da mesma. O “Cemitério espanhol” foi um dos projetos levados a
efeito pela Sociedade, uma vez que os espanhóis, até então, eram enterrados na Santa Casa de
Misericórdia desde 1906.
7Associação Internacional dos Trabalhadores, AIT ou Iª Internacional: 1864(66)-1872. Foi fundada
por Marx e Engels que tiveram funções de dirigentes. Tinha como programa, basicamente, o Mani
festo do Partido Comunista (1848). Por esta época, a organização dos trabalhadores passava por
diversas concepções ideológicas em relação à revolução, ao Estado, sendo a mais importante
nesse embate com os comunistas, socialistas, a anarquista. E aqui, Bakhunin surge como o prin
cipal personagem com seu ideário coletivista, ao lado das outras concepções anarquistas como
o Mutualismo baseado nos escritos de Proudhon, o Anarco-comunismo de Kropotkin, o Anarco
sindicalismo, de origem francesa, depois desenvolvido na Europa e nas Américas e, finalmente,
o individualismo anarquista onde aparecia claramente a violência de cunho anarquista. Contra
a teoria marxista e contra a tática operária, os bakhuninistas desenvolveram, principalmente, a
tese da negação de todo Estado, inclusive a idéia de ditadura do proletariado, propondo a idéia
de comunas livres, federadas e independentes, chocando-se de frente com a idéia de Marx, de um
comunismo de Estado baseado num partido centralizado e disciplinado. Basicamente os pontos
que caracterizam a polêmica marxista-bakhuninista estão na questão de organização e na questão
tática da classe operária. Quanto à organização, os bakhuninistas acusavam os marxistas de
centralizadores e autoritários, preconizando a autonomia – doutrinária e tática – das secções e
federações operárias. Quanto à questão tática, os bakhuninistas propunham a não-intervenção
parlamentar, criticando todo e qualquer tipo de contato com as organizações políticas. Limitavam

118
a luta política à questão econômica, às greves ou à insurreição espontânea dos operários. Daí a
idéia de “ação direta”, muito cara aos sindicalistas – partidários do chamado sindicalismo revo
lucionário – que negavam a necessidade da luta política da classe operária, a função dirigente
do partido e a ditadura do proletariado. Acreditavam que os sindicatos, através da organização
de uma greve geral operária sem revolução poderiam acabar com o capitalismo. Os marxistas
propunham a participação política nos parlamentos, sem ignorar a ação ilegal, em princípio. Dessa
maneira, objetivavam melhorar a situação material do proletariado, além das perspectivas de ação
revolucionária. Essas questões e as posições de Bakhunin, acabam provocando uma cisão na I
Internacional.
8A comissão foi constituída por Francisco Raya Diaz, Juan Arbos, Fernando Corona, responsável
pelo projeto. Demolida a casa original, a Sociedade se instala provisoriamente na Rua Riachuelo,
277, até a finalização da obra. A fachada barroca espanhola da obra tem no centro a figura de uma
mulher, simbolizando a Espanha. No piso, a imagem e os dizeres: duas mãos entrelaçadas: Hoy
por ti, manãna por mi. Dizeres conservados quando da constituição do “Centro Espanhol”. GURRU
CHAGA, Vicente Aramburu. História del centenário de la Sociedad Espanõla de Socorros Mútuos de
Porto Alegre. Porto Alegre, 1993. P. 3.
9Nas primeiras décadas de seu funcionamento a Sociedade abrigou o Grupo Espanhol Cervantes,
desligado em 1908, assim como criou o Grupo Espanhol Dramático em 1912. Com a aprovação da
criação do Centro Castelhano Cervantes em 1918, que visava unir os iberoamericanos e espanhóis;
em 1919, a Sociedade ingressa na “Sociedade ibero-americana de Madrid”, que na época reunia
quase todas as Sociedades Espanholas de Socorros Mútuos da América; o “Tratado de Recipro
cidade” firmado no Uruguai garantiu a circulação dos sócios onde houvesse outra entidade de
mesma natureza. Firmado no Uruguai e de onde se origina o termo sociedadhermana. Esse tratado
foi de longa duração, sendo reconfirmado no I Congresso de Instituciones Espanholas del Cono Sur,
de 1976, em Punta del este, mas a Sociedade nesse último não esteve presente, não o firmando,
conforme VARGAS, Iolanda Guimarães. História da Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos de
Porto Alegre. Porto Alegre: PUCRS, (Dissertação), 1979. P. 316-330.

10Em 1930 a biblioteca recebeu do então professor Ignácio Montanha os 24 tomos da Biblioteca
internacional de obras célebrese no ano seguinte o Consulado doaria outras obras, dentre elas a
Constituição Republicana Espanhola. Seu bibliotecário, Isidro Vila (fundador da Casa de Cervantes
como departamento cultural dentro da Sociedade) foi importante na disseminação da cultura
espanhola. Posteriormente essa biblioteca receberia outras doações como os livros da livraria do
pai de Hélios, Juan Puig, quando o mesmo encerrou essa atividade. VARGAS, Iolanda Guimarães.
História da Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos de Porto Alegre. Porto Alegre: PUCRS, (Disser
tação), 1979. P. 256-263.
11As crises da República espanhola repercutiam. Mantendo o caráter apolítico expresso pela Socie
dade, os espanhóis republicanos decidem fundar fora desta o “Centro Republicano”, com apoio do
Cônsul, e de sócios, entre os quais Luiz Alcaraz, Fernando Corona, Isidro Vila, Lourenço Pico. Com
Enrique Gaspar imprimem o “España Republicana”.
12
Conforme KRELING, Wilma F. História da Casa de Espanha de Porto Alegre. Porto Alegre: PUCRS,
(Dissertação), 1979. o primeiro presidente da Casa de Espanha foi Juan Quintana Rós. O terreno
finalmente é adquirido em 1969, na esquina da Rua Portugal com a Travessa Sul, com 1.500m,
na valorizada área da Cidade. O primeiro projeto a ser apresentado foi o de Corona, mas acabou
por ser aprovado o da construtora Arquesul. Em 1972 a Embaixada Espanhola no Brasil, através
do Ministro do Trabalho e do Presidente do Instituto Espanhol de Emigração destina um milhão
de pesetas para a obra. A sede é uma realidade e, em 1974, mudam para o novo endereço. Salão
de festas, biblioteca com trabalhos de cerâmica de Talavera de La Reina não poderiam deixar de
estar presentes, assim como as modernas outras instalações onde passam a receber os sócios,
simpatizantes, festas consulares e toda atividade considerada pertinente à auto-representação

119
dos espanhóis em Porto Alegre. Representação consular e reabilitação do espaço de vivência e
disseminação da cultura hispânica perfilaram a atuação da Casa de Espanha.
13Nessa conjuntura, o governo Vargas modifica sua relação com os estrangeiros e suas represen
tações. O Decreto-Lei n. 383 de 18 de abril de 1938 exige que todas as sociedades sejam dirigidas
por brasileiros, o que ocasiona a demissão de todos os dirigentes estrangeiros.
O presidente da Sociedade, à época, Don Juan González Lörez, promoveu as reformas, ampliando
14
em 1969, quando adquiriu quatro novos terrenos, havendo uma praça de esportes e um parque
infantil.
15Encontram-se na fotografia José Falceto e Paulita Rabadan vestidos de Madrilenhós.
16 HALBAWCHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
17 KRELING, Wilma Ferreira. História da Casa de Espanha de Porto Alegre. Porto Alegre: PUCRS
(Dissertação), 1979.
18Empreendimento de promoção cultural na Cidade cito na Rua Sete de Setembro, n. 1028, Centro,
o Santander Cultural promove mostras de Artes Visuais como as Bienais do Mercosul e ações
interativas no prédio outrora pertencente ao Banco Meridional, ex-Banco da Província do Estado
do Rio Grande do Sul integrado posteriormente ao banco espanhol. Como tal contém importantes
coleções numismática da região Sul. Como promotor cultural apresenta programações de cinema,
música, seminários e um centro gastronômico que fazem parte da animação cultural prestada á
cidade.
Localizado no Bairro Bom Fim, o local oferece espetáculos de danças flamencas, comidas típicas
19
como as tapas.
20
Desde 1958, os espanhóis vão enfrentar os sócios brasileiros comunistas ou não, assim como
outros espanhóis (acredita-se) que controlavam a Sociedade. No enfrentamento, em 14 de fevereiro
15 sócios espanhóis são excluídos. Eram Juan Puig Elias, Isidro Colet Baulo, Manuel Martines
Moreno, Leopoldo Martinez Sanchez, Cristóbal Castellaranao Soller, Félix Garcés Rubio, Bernardo
Orell Torrealba, Emeterio Villamosa Marco, José Canabal Treitinõ, Juan González Lorez, Juan
Moreno Martinez, Galo Amavirzca, Crispina Pares Garcez, Isabel Mondejo Colet, Isidro Vila y Taló.
Segundo o registro de VARGAS (op. cit. p. 390) as lacunas na documentação impedem até 1961 a
continuidade na pesquisa. Anos após, Puig irá formalizar a interdição judicial e outros, n. 4569
na 5° Vara Civil da Comarca de Porto Alegre. A reintegração e a reinvestitura de toda a diretoria
ocorrerá apenas em 1960. Nessa fase, buscaram atrair as novas gerações, com atividades cultu
rais, etc.
21 Dançando no centro está Aurora González.
22
Correio do Povo. Porto Alegre, 4 jul. 1911.
23Informações prestadas pelo Dr. Emílio Fernando Rosato, atuante no processo de consolidação do
Centro Espanhol e dirigente da entidade em 1995 e 2005. Porto Alegre, 1º de novembro de 2006.

120
V
A ida privada e a sede da hispanidad:
casamentos, culinária, festas e língua
A vida privada do migrante espanhol
permitiu a preservação da tradição ou, melhor,
sua tradução no novo habitat. Afora o que se
passou no interior das associações ditas étnicas,
a sociabilidade urbana exigiu a equalização, a
padronização. A diferença cultural apresentada
por grupos de diferentes etnias traz sempre uma
nova dinâmica à tendência da massificação ou
uniformização de comportamentos próprios da vida
em grandes aglomerados urbanos. Uma estética
luta por se impor e se traduz por outras formas de
sensibilidade diferentes à sociedadede recepção.
ÁlbUm de família. Acervo de Carmen Gandara Rodrigues.

A reinvenção da tradição pode ainda, como de fato o é, ser um simu


lacro captado pelo turismo cultural, deixando de ser genuína. O fato é que no
âmbito privado das famílias entrevistadas a subjetividade social pode acon
tecer. Combateram até o presente o risco do desaparecimento das tradições tidas
como espanholas, mesmo diante do fato inexorável de que os ritos dependem de
uma geração “testemunha”. A terceira geração atualiza ou adquire o repertório
sobre as “origens” através dos meios de comunicação, na comunidade virtual,
em busca dos parentes. Quando possível, viajam, requerem o passaporte espa
nhol que dará acesso à Comunidade Européia.
Transportando-se na Internet ou na história familiar, a memória social
da migração compete com a “veracidade” histórica. Como é fraca a presença
das testemunhas, dos avós, pais e tios, a imaginação tem que fazer seu papel,
costurar, estabelecer pontes nas lacunas das narrativas. Outras perspectivas
surgem, concorrem entre si pelo regime de verdade.
Para o migrante, lembrar da presença de sua cultura na cidade amorfa
pode ser frustrante, dado o processo de uniformização urbana, pois se percebe
devorado em seus referenciais patrimoniais, ou associativos, das festas que não
existem mais, dos debates que caíram no silêncio da memória.
O mesmo não ocorre quando percorre os tempos de sua memória da vida
familiar. Culinária, festas, amizades, casamentos vão exibindo as cenas domés
ticas, na língua materna, com o vigor da atualização.

122
Lembra Carmen: “minhas gurias eram amigas dos espanhóis, a casa
estava sempre cheia”. Destaca Silvia, a filha de Elisa, a diferença da sociabi
lidade regional: “Música e dança tem mais na parte do Brasil. Nas reuniões
familiares era mais confraternização, os galegos não têm esse hábito. Nós aqui
gostamos muito de música, mas não eram habituais. Com os espanhóis aqui em
casa, mais era comilança, conversar, essas coisas assim”.
Elemento básico da vida privada é o anseio pela reprodução da cultura
gastronômica. Ritos, sabores, odores conjugam-se na celebração da identidade
do grupo. Carmen orgulha-se: “faço muito putiero com grão de bico”. A trans
missão cultural se faz através das gerações, porque há sucessores: a irmã de
Elisa “faz muita paella em dia de festa, as comidas típicas, então a família vem
toda para cá. A mãe conservou muito as origens de lá, tanto é que nós tivemos
lá (Galícia) várias vezes, e não sentimos diferença assim dos costumes deles lá
e da nossa casa aqui, não mudou muito”.
Como foi freqüentemente mencionado, a culinária brasileira não agra
dava aos espanhóis. Carmen é afirmativa: “eu tenho cinqüenta anos de Brasil
e até hoje ainda não sou brasileira na comida, não gosto de muitas coisas, não
gosto da carne, nem do feijão, nem do arroz. A minha comida é mais bacalhau,
camarão”. É preciso reportar ao cardápio servido nas festas galegas, na come
moração dos santos oficiais, para entendermos a preferência regional.
A cultura gastronômica dos espanhóis emprega verduras e igual varie
dade de produtos do mar. Constituiu-se em estranhamento a culinária gaúcha
e não foram poucos os comentários sobre a ausência desses produtos, a par da
monotonia do típico arroz com feijão nos primeiros tempos. Foi mesmo fator de
sobrevivência para os espanhóis o consumo de peixes, a preços mais acessíveis,
desprezados pela culinária local “podíamos nos alimentar de peixes, camarões,
miolos, coisas que os gaúchos não consumiam”, disse um dos entrevistados.
A presença espanhola na economia alimentar de Porto Alegre passou
a modificar os hábitos gastronômicos e a produção local, nos anos seguintes.
Compara Olga, a partir de outra região, com outra importante culinária catalã:
“estávamos acostumados a comer variedades de verduras aqui [Porto Alegre]
não tinha verdura! Até que chegaram os japoneses, graças a Deus, e começaram
a plantar verduras e hoje a gente tem praticamente tudo que tem na Espanha; e
outras coisas assim; da Catalunha”.
Para a família de Olga, o Natal não é festejado com o sentido religioso,
já que os mesmos são ateus, mas sim para celebrar a solidariedade com um
grande banquete.

Natal a gente considera a festa da solidariedade universal; então a gente festeja,


festeja bem... E adoro paella, as comidas, todas as semanas nós vamos comer

123
na casa do meu tio, e a minha tia que cozinha, e ela faz aquelas comidinhas..
minha tia é catalã, catalã da gema, fala catalão e tudo é a comida tipicamente
espanhola. E na minha casa com freqüência a gente faz paella, nas festas que
tem a família, o cozido é maravilhoso...

O cozido sofre variações conforme a região assim como a paella, sendo


a valenciana a referência andaluziana, mais a paella com legumes, a paella
mista e assim por diante. Como é próprio do trabalho das tradições, alguns
pratos típicos de regiões tornaram-se símbolos nacionais, traduzidos “na típica
comida espanhola”.
Vários pratos foram incorporados, principalmente, nos restaurantes de
propriedade de espanhóis ao cardápio brasileiro. Ainda que, para Olga “já houve
épocas que tinham restaurantes espanhóis excelentes, agora atualmente, não
conheço; já foram muito bons; a comida espanhola é maravilhosa, fantástica
esteja faltando em Porto Alegre”.
A lista é imensa, por exemplo: arroz al caldero, com cogumelos, com
galinha no açafrão, a madrileña; atum com laranja, bacalhau com tomate,
no forno; banderillas, batata com camarão, berinjelas gratinadas, biscoitos de
gergelim, bistecas flambadas, bolo de conhaque, brandade de bacalhau em taças,
camarão com óleo, cebolas à espanhola, churros, coelho ao vinho tinto, coquetel
don Quixote, creme ao rum, escalivada, filé a parrilla, frango ao licor, frango
ibérico de sevilla, fritada catalã de batatas, galinha a rioja, gazpacho, lagarto na
panela, legumes recheados, lombo com açafrão, lubina à manteiga, lula empa
nada, melão com presunto, merluza com laranja, merluza galeguinha, molho
de alcaparras, molho de pimentão, molho romesco, pastel Vasco, pato ao creme,
à valenciana, pavê de laranja, peito de cordeiro, peixe com legumes, pernil ao
xerex, pescado aromático, piña colada, potaje de espinaca com garbanzos, pudim
de castanha, pudim de pêra, papa de nozes, rosquinha com pimenta, salada de
nozes, almorejo, sangria, siri no conhaque, sonhos de pêssego, sopa de legumes,
sopa de lentilhas, sopa de pimentão, torta de pimentão, de ricota, tortilla de
atum, de batata, de camarão, zarzuela.
Os casamentos denotam o grau da troca cultural com a sociedade brasi
leira: muita endogenia, baixa troca. Partilhar a cultura depende, além do desejo,
da existência de relações afetivas e parentais próximas. A mais persistente
delas é o casamento endogâmico, embora os rituais tenham mudado substan
cialmente, ainda há traços persistentes. A migração espanhola no Brasil, ao
contrário das duas outras importantes, a dos alemães e a dos italianos, é a
que apresenta maior grau de casamentos interétnicos, sendo o fator lingüís
tico o grande facilitador na primeira geração em diante, na medida em que
muitos vindo solteiros, transitando na região do Prata, acabaram por casar-se

124
com os nacionais ou migrantes, como eles, mas já mais assimilados, como os
italianos.
Carmen chegou casada, mas seus filhos necessitaram adaptar-se a outros
costumes. Avaliando os casamentos em família: “minha outra filha é casada
com um brasileiro de descendência italiana. O outro filho é casado com uma de
Livramento. E está tudo misturado”.
Pondera Elisa como as “coisas se repetem, ao contrário”.

Não sei se é importante, mas como as coisas se repetem! A minha filha mais
nova acabou casando com um espanhol, de Aragon. Ela o conheceu pela Internet,
depois se conheceram num fórum lá na PUC, quando se apaixonaram. Então ele
trancou sua faculdade, veio atrás dela e casou com ela. Está apenas esperando
ela se formar para depois irem morar lá. As coisas se repetem, ao contrário.
Então acho muito engraçado isso, porque nos dias de hoje um espanhol vir para
cá e aqui está, padecendo, sofrendo tudo que pode de saudades lá da terra dele.
Mas os casamentos já não são muito comuns na colônia de espanhóis. Eu fui a
única que casou com um espanhol, de todas as minhas amigas espanholas. Isso
depois de tanto bater pé dizendo que eu nunca ia casar com um espanhol.

Com Hermínio não foi muito diferente; a sociabilidade étnica contribuiu.


Sua esposa, galega da mesma região, migrou um ano antes dele para Porto
Alegre. Conta que: “nos conhecemos na Galícia. Por coincidência nos encon
tramos aqui de novo. Os pais dela já estavam aqui e eram conhecidos de meus
pais. Iam para o trabalho juntos. A gente se reviu e continuamos a vida até que
um dia nós nos casamos, mas isso depois de um longo tempo”.
Conforme Hélios há explicações possíveis.

Para o espanhol, também pelo que eu ajudei a difundir, pelo menos por um
monte de tempo, tem muito peso a família, seja a família libertária, seja a
família burguesa. Malatesta coloca a família como diferente da visão de Engels,
como uma evolução da resistência entre as pessoas e não como algo estranho
que possa funcionar como instrumento de dominação. Ele justifica ser por essa
razão que a igreja tenta comandar essa relação familiar. A família é tudo isso
aqui, então os envolvimentos eram marcados por tragédias, grandes emoções,
grandes paixões, tudo é grandioso em alguma coisa.

As dificuldades para a integração do migrante são de toda ordem, isso


fica claro na continuação do depoimento deste descendente:

Do ponto de vista também dos espanhóis, isso também é uma coisa difícil, porque

125
além de ter de se integrar no seu bairro, na cidade, na escola, as relações também
são tumultuadas, diferenciadas, são difíceis. No meu caso não, mas muitos acre
ditavam, procuravam ou até orientavam para que as pessoas procurassem, como
na escolha do bairro, que se casem e se reproduzam também no meio, naquele
contexto: mas as novas gerações de gurizada querem um mundo novo.

Os casamentos na família de José são elucidativos do trânsito fronteiriço


no Estado. Sua mulher era de Rivera, cidade do Uruguai que faz fronteira com
o Rio Grande do Sul. Dos seus filhos, nascidos durante sua estada no Uruguai,
sua filha, que atua na administração da confeitaria, espera um filho de um
português. Decide ainda qual será a nacionalidade do bebê. Um retorno à Penín
sula Ibérica completaria exemplarmente nessa terceira geração por nascer, a
trajetória das migrações iniciadas no século XIX para a América Latina.
A semelhança física atua na exogamia, e a diversidade religiosa não é
fator que obstaculize os casamentos. A busca da inserção vai sendo exercida
através dos casamentos exogâmicos. Para Olga, o casar-se com judeu brasileiro,
tendo dois filhos brasileiros, hoje um médico, e uma psicóloga que vai fazer
um período de imersão no país dos avós através de um mestrado na cidade de
Barcelona.

Esse é um grupo social, cultural que tem uma grande facilidade, somos da
mesma cor, e rapidamente nos integramos nas famílias brasileiras: eu casei com
um brasileiro a primeira vez, na segunda vez casei com um judeu... A endogamia
ocorreu naqueles casamentos dos que migraram já adolescentes, a maioria casou
entre si, mas os filhos destes não; nós, da minha geração, apesar de eu não ter
nascido aqui, eu já me considero da geração que é daqui... Entre nós não.

Poucos traços identitários são tão marcantes como a língua. Da língua,


o migrante traz o tema das origens no rio semântico de onde a gramática social
é exata. Inserir sua trajetória pessoal na história do grupo que lhe dá refe
rência de pertencimento e, ao mesmo tempo, empoderar-se da língua do país de
recepção é lutar pelo espaço de representação sociopolítica.
Em contrapartida, não dominar a lingüisticidade estrangeira é perma
necer periférico na gramática que designa o eu, o tu, os outros que [constituem]
o campo simbólico da assimilação ao lugar. É ser outsider e transmitir à sua
descendência e sua marginalidade auto-imposta, uma forma de resistência que
pode vir a ser prejudicial.
Muitos, ao contrário, obscurecem o domínio de sua língua materna, qual
traço diacrítico pouco valorizado socialmente, na tentativa de rápida assimi
lação à sociedade brasileira.

126
Ao seu modo, os avós tentam transmitir a herança lingüística. Como José
Ayete, que ensinou a neta de 5 anos em torno das recompensas da confeitaria:
“peça em espanhol e ganha um doce”. Tanta insistência produziu resultados,
pois uma filha leciona espanhol. Os outros dois filhos aprenderam na faculdade
e hoje falam perfeitamente.
O domínio da língua portuguesa para os migrantes, como é comum,
ocorreu no ensino formal. Em geral, este não costuma ser acessível aos estran
geiros, principalmente nos anos de 1950, conforme a experiência de Hélios.

Estudei no “Grupo Escolar Marechal Floriano Peixoto”. Uma professora, depois


de eu acertar todas as coisas do exame oral, se divertiu comigo porque pediu
para eu dizer “a galinha cacareja”, e eu era francês, “–tu não consegue dizer
cacareja, tu diz ‘cacarreja’”, aí a mulher conseguiu me rodar no primário, que
não tinha volta. Quer dizer, esse fascismo, na pedagogia também, apesar de que
tinha pessoas muito boas, ali dentro do colégio, professores de Porto Alegre, ou
seja, perseguido, ajudado, perseguido, ajudado, parece uma coisa estranha.

Já os códigos informais da Cidade podem ser mais acessíveis. O galego é o


espanhol falado na Galícia. Dialetos ou línguas são falados pelo maior contingen
te de migrantes espanhóis também em Porto Alegre. A filha de Carmen lamenta:

quando a gente veio para cá se esforçavam muito para falar o português. O pai
falava direitinho, a mãe nunca se esforçou tanto, então sempre falou enrolado.
Como diz a minha neta: ’Vó, tu fala errado’. Nós quando viemos para cá, em
menos de dois anos já estávamos falando português.

O que ocorre é que a língua materna passa a ser garantida apenas pelo
patriarca ou matriarca. E perde-se: “Não conseguia falar o galego em casa.
Ninguém se interessou em aprender. Quando a gente fala, na Espanha, a gente
entende, dá umas ‘enroladas’. Eu falo com minha tia, mas nada que se diga
assim o galego perfeito”.
O caso extremo é dos espanhóis que não transmitem nem aos seus o
domínio da língua. E que também não estimulam os filhos, principalmente
as filhas, a terem uma educação formal que poderia ultrapassar algumas
barreiras sociais.
Nem todas as experiências deixam marcas assim. Quando a assimilação
da língua estrangeira é induzida desde o ambiente familiar, sem que esteja
presente a necessidade de comunicação seguindo os imperativos da sobrevi
vência, torna-se muito agradável, como também ocorre com a escrita, a litera
tura de todo tipo. Para Olga, isso não apresenta dessa forma:

127
Na minha casa sempre se falava espanhol, o que eu considero um tesouro que
eu ganhei; a coisa melhor que tenho é saber quatro idiomas muito bem, que me
permite andar por qualquer lugar do mundo com a maior facilidade e, e eu sempre
digo que eu acho que vou morrer falando em espanhol, porque aprendi a falar
primeiro... Na verdade as minhas primeiras palavras foram em francês, o que me
facilitou depois aprender francês, que saía com sotaque... Pouco sotaque; mas
eu acho que eu aprendi a falar em espanhol, por toda vida falamos espanhol em
casa, agora em outras casas, na tentativa de fazer rapidamente esta integração,
os pais falavam português com os filhos, e os filhos não prenderam a falar; agora
falam espanhol, porque esta é uma herança muito importante; tenho uma amiga
um pouquinho menor do que eu (mais nova), e que nunca aprendeu a falar espa
nhol em casa quando era guria, mas agora ela faz questão de falar; e os filhos
dela foram morar na Espanha, inclusive. Esta coisa geracional assim de quando
os pais não podem os filhos acabam fazendo e os netos acabam fazendo...

Ou como rememora a neta de Corona, Marilice,

Essa pauta de contato com a América Latina e com a cultura, ao mesmo tempo
eu me dou conta, não sei se por uma coisa familiar ou por ser Porto Alegre e o
sul do país, mas desde muito cedo leio o espanhol, ninguém nunca me ensinou
a ler espanhol, nunca fiz curso de espanhol. O meu avô não falava espanhol em
casa. Ele tinha sotaque, um pouco, não muito. Falava bem o português, claro há
tantos anos, desde os dezesseis anos no Brasil, mas havia muito livro espanhol
em casa. Então eu leio literatura, mas principalmente livros de arte. Eu fiquei
com toda a biblioteca dele, tem coisas aqui e na minha mãe. Nunca tive dificul
dade, praticamente leio espanhol como leio português, salvo um ou outro termo.
Estranha a ausência do domínio do espanhol na cultura urbana da cidade. Fico
abismada que as pessoas não sabem ler espanhol. Tenho alunos que não sabem
ler espanhol, e para mim sempre foi normal ler em espanhol. E as pessoas aqui
no sul ainda lêem mais espanhol do que no resto do Brasil. Provavelmente por
esse contato com a imigração e com a proximidade com a Argentina e os países
aqui do sul. ...eu nunca pensei sobre isso, uma das coisas talvez porque a nossa
colonização tenha sido diferente, tenha sido misturada. Pela divisão que teve
do Tratado, pelo que eu me lembre das aulas de História de como se deu a colo
nização mesmo da parte da América Latina e da nossa relação com os portu
gueses, os açorianos e depois a vinda dos italianos e dos alemães, de como
isso foi diversificando. Penso que a entrada super forte dos jesuítas na América
Latina, fêz uma diferença grande. Uma coisa da colonização.

Estelita aponta como o senso comum em relação ao domínio lingüístico


faz crer o domínio do espanhol. Aponta afinidades de outra espécie.

128
Ser espanhol no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre só nos diferencia em relação
à língua. Coisa do gaúcho, de achar que fala espanhol, é muito engraçado; às
vezes até as crianças e adolescentes dizem que falam espanhol porque têm esse
contato com o uruguaio e o argentino que vêm para cá para as nossas praias, e
vêm a Porto Alegre. É mais a própria “fricção” com a fronteira que mescla.

Ao contrário, para ela no caso da língua escrita, a transmissão literária é


bastante desconhecida. Aponta a recepção de lendas como indicativo. O espaço
mítico abrangido pela lenda “Salamanca do Jarau” que buscou situar no espaço
físico, é um excelente exemplo da transmissão cultural e histórica que enlaça a
temporalidade do Rio Grande do Sul, Países do Prata, no ciclo de expansão do
Reino de Espanha e na expulsão dos jesuítas espanhóis no continente. Estelita
expõe sua trajetória artística:

No último trabalho que nós fizemos, onde fiz a organização e a curadoria da


pesquisa da lenda “A Salamanca do Jarau” – fomos à cata do local da trajetória
da lenda.1 Casualmente no ano anterior quando estivemos na Espanha, pela
segunda vez em Salamanca, que é de onde vem a princesa moura. E também
estivemos em Andaluzia, vendo o último castelo dos mouros, que é a casa real
de um califa, em Medina Al Sara, que representaria este início da lenda. De
onde veio esta princesa moura que se transformou em uma lagartixa aqui na
nossa região. A primeira parte da lenda que é ligada às Missões – por que é uma
mitologia dos povos das Missões – fomos até Santo Tomé, Argentina. Querí
amos saber o lugar, e o que eles contavam da lenda. Apesar disto, em São Borja
que é geminado, não se vê essa influência. Depois, em Quarai [cidade], que tem
a segunda parte da lenda do Cerro do Jarau. Atravessamos a Ponte Artigas e
percebi uma permeabilidade maior.

Nenhum dos entrevistados mencionou, na sua geração, sobre sua utili


zação das ofertas de cursos das sociedades étnicas, que são antigas: há regis
tros de tentativas de disseminar o ensino da língua na “Sociedade”. Em 1916,
alguns sócios se ofereciam para ministrar aulas de espanhol, como Ignácio
Montana e Ramón Rovira. Entre os espanhóis migrados e o Governo espanhol,
algumas tentativas foram realizadas (uma delas de 1919), de por intermédio da
União Ibero-americana, em Madri, organizar, na América, cursos com profes
sores espanhóis. Da parte do governo brasileiro, em 1942, algumas ações são
tomadas, mas, apenas em 1958, o Presidente Juscelino Kubitschek estipula seu
ensino na educação básica, como um desdobramento do ideário do pan-ameri
canismo. O consulado disponibilizou algumas das suas salas para os cursos; em
1954, foram transferidos para algumas das dependências da PUCRS. Apenas em

129
1959, surge o Instituto de Cultura Hispânica, com orientação do irmão Dionísio
Fuertes Alvarez.2 O religioso dirigiu o Instituto até 1972. Em 2006, o acervo do
mesmo foi integrado ao da PUCRS.
Hoje os cursos de espanhol na cidade estão integrados à paisagem
cultural. Destaca-se a inauguração a 23 de maio de 2007 na sua sede em Porto
Alegre, do Instituto Cervantes, órgão oficial do governo espanhol. Criado para
divulgar a cultura hispânica e o estudo do idioma, no mundo, em 1991, e tendo
como presidente de Honra o Rei D. Juan Carlos I, com sede em Madri e em Alcalá
de Henares, cidade de Miguel de Cervantes, busca ampliar e disseminar o inter
câmbio cultural Brasil-Espanha.
Profetiza o rei Don Juan Carlos “espanhol já é patrimônio valioso em
mais de vinte países e para centenas de milhões de pessoas que formam uma
comunidade plural, aberta a todos, a qual precisamente une e identifica a língua
comum... Atualmente, o espanhol é a mais importante fronteira cultural em
movimento de todo planeta”.3

Notas do capítulo
1 A lenda coletada por Simões Lopes Neto (Pelotas, 1865-1916) versa sobre o personagem Blau,
gaúcho, pobre, que nas andanças nos campos encontra um “santão”, e do diálogo surge a lenda que
ouviu da sua avó charrua, tribo que dominou do Rio Quaraí até o Uruguai e dizimada pelas lutas
na região. A continuidade da transmissão oral sofreu com isso. Simões nessa lenda que faz parte
do Lendas do Sul, 1913, reúne temporalidades e espacialidades, no fio da licença poética. A saber:
Salamanca refere-se à furna encantada, cidade espanhola onde a tradição afirma ter existido uma
escola de magia. Cerro do Jarau, na Coxilha Geral de Santana, linha divisória com a República do
Uruguai, ao norte da cidade do Quaraí. A cidade de São Tomé na Argentina, sobre o Rio Uruguai,
entre o Rio Icamaquã e a cidade rio-grandense de São Borja, é narrada de acordo com a Coletânea
Lendas Gaúchas (Porto Alegre: Zero Hora, 2000. V. 5. P. 36), no qual o Revº C. Teschauer é citado:
“destruídas as reduções do Guaíra e expulsos pelos mamelucos, estabeleceram-se os missionários
primeiro no centro do Rio Grande do Sul entre os rios Pardo e Jacuí. Mas só por poucos anos. Mas
tarde, outra vez perseguidos e expulsos pelos mesmos, refugiaram-se uns para as hodiernas Sete
Missões, os outros para a margem direita do Uruguai; incorporando-se à redução de Santo Tomé,
de cujas ruínas se levantou depois a cidade do mesmo nome, quase em frente de S.Borja”. Em 1682,
após a expulsão, ao voltarem para a região noroeste do Estado fundaram as sete reduções com
os índios guaranis evangelizados: São Francisco de Borja, São Nicolau, São Lourenço Mártir, São
João Batista, São Miguel Arcanjo, São Luis Gonzaga e Santo Ângelo Custódio, que legaram ao Rio
Grande do Sul a experiência artística “missioneira”.
2 Nascido em Villorio de Orligo, Província de Leon, em 1913 e no Brasil desde 1931. Em 1957 o
religioso foi agraciado com a Comenda de Afonso X, “O Sábio”, pela sua vida destinada à difusão
da Língua e da cultura espanhola. KRELING, Wilma Ferreira, 1979.
3 Conselho do Instituto Cervantes.Guia do Instituto Cervantes. Mimeo. s.d.

130
P ara estas últimas páginas:
uma reflexão sobre a
migração de artistas na vida e
no trabalho de Porto Alegre
Ao suspender a jornada desafiante sobre a presença espanhola na cidade
de Porto Alegre, em tão curto espaço de tempo, muito ficou no caminho. Como
toda pesquisa exploratória alguns pontos se mostraram irredutíveis, enquanto
outros se abriram na singeleza da obviedade. Porém, ainda assim, necessitavam
da lente do pesquisador.
Como contribuição aos pesquisadores e interessados na cultura dessa
etnia, deseja-se a boa sorte de encontrar pessoas disponíveis como se encon
trou. Nunca será demais agradecer aos entrevistados, mesmo aqueles que não
desejaram divulgar sua história de vida. Com certeza contribuíram igualmente
para a interpretação hermenêutica do significado e grandeza da contribuição dos
espanhóis para o Rio Grande do Sul e para a história da cidade de Porto Alegre.
Algumas indicações merecem ser pautadas. A primeira delas se refere ao
dilema do migrante entre a pertença social e a tarefa de inclusão na sociedade
nacional. Ao considerar-se a inflexão da política do século XX, na Espanha, não
foi simples essa escolha. A construção simbolizada da pertença a determinados
grupos do espectro ideológico exigiu atos de separação. Como disse Olga:

desde a infância era muito espanhola. Imagina o que um grupo de ex-comba


tentes de uma guerra civil, juntos, o que eles falavam? Guerra, guerra, guerra...
Eu não agüentava aquilo lá; eu via a Espanha dentro de casa e o Brasil na rua,
e nas reuniões... era interessante aquelas histórias heróicas e tal, mas lá pelas
tantas eu já cansava. Então tinha sempre esta dupla sensação, da fascinação e
da irritação que aquilo me tornava diferente demais e, sei lá, complicava minha
vida, minha inserção, tinha sempre aquela história arrastando nas costas...

Muitas vezes esse contraste cultural permite a identificação identitária, na


qual o migrante vai buscar unir as pontas de uma história iniciada na Espanha e
reiniciada na experiência brasileira. Enfim, uma forma de apaziguar a referência
do que se é, foi e será. Cada migrante resolveu ao seu modo, dentro de suas pos
sibilidades, a hifenização identitária. A de Olga surgiu no contraste com a cultura
norte-americana, durante um curso de especialização. Tratando-se de categori
zação étnica, realizada pelos não-pertencentes ao grupo promotor da identidade
étnica, a convocação pela afirmação, solidarizou a sua história de vida:

lá que eu mais me senti brasileira; brasileira com herança espanhola, porque lá


eles perguntavam “de onde você é?”; eu não dizia que eu era espanhola, porque
nem tinha este direito, eu dizia que era brasileira; que nasceu na França, filha
de exilados políticos espanhóis; então isto é interessante, como os espaços, as
distâncias permitem que a gente pense nas coisas; é todo um processo; ...incluir
aquele lugar na formação da gente, versus o lugar de origem, o lugar histórico.

132
A reprodução social dessa pertença identitária torna-se tarefa das gera
ções quando há possibilidades de retomar a narrativa familiar. Ouvir histórias
das famílias, conhecer os locais que na Espanha dizem dessa história interrom
pida, dominar o registro lingüístico pode ser gratificante para a geração atual
dos filhos e netos.
Nem sempre será prazeroso: pode o migrante espanhol retornar e não
obter registro de sua passagem no tempo e no espaço daquela cidade, escola ou
da casa para costurar a história familiar e para chamar de pátria, a síntese de
tudo isso.
A ruptura identitária se defronta com a imersão na cultura local, feita
de contatos interétnicos, sob a consagração do “ser gaúcho”. Também por
contraste, a visitação ao local de origem pode trazer um referente identitário
inusitado. Como o ocorrido com Estelita, quando refez a rota de Quixote na
Andaluzia, ou quando foi conhecer o País Basco onde, em Bilbao, estavam suas
primas galegas.
Ou mesmo quando a viagem nos escritos de família elucidam as marcas
nos lugares daquele bisavô de Marilice, na Catedral de Vitória: “quando lá estive
não sabia que meu avô fazia parte do projeto! Uma coisa muito impressionante
ler que ali tem um rastro, uma coisa de alguém, e isso está atrás de ti”. Na
estada de cinco meses com seu irmão, o músico Antonio Villeroy, que morou dez
anos e meio em Madri, conheceu a região do avô, reencontrou tios, tias, levou
esboços de desenhos para expor à crítica do tio Luis, artista que sempre visitava
a família em Porto Alegre, exalava arte. E os que ficaram lá atrás?

Quem foi aquela tia que costurava, que ajudava muito a família, fazia camisas
belíssimas com linho da Holanda, que costurava para a alta classe lá de Santander
e com isso mantinha a família e ajudava os sobrinhos? Que quando ele (o avô)
está para viajar, vir para cá, ela prepara um enxoval de camisas do melhor linho
para ele andar bem arrumado, bem vestido. Então se fica imaginando essa tia, não
precisa ser artista, que fazia costura lá, e o que eu tenho dela que está lá, atrás?
[...] Eu estava lendo esse diário, mas fico pensando, o que essa minha bisavó não
passou com essas ausências o tempo inteiro, ela com cinco filhos e essa coisa do
outro viajando o tempo todo, e vai, busca, leva, a insegurança, viver. O que essas
mulheres não passaram. Tu te vê numa rede, parece que não está sozinho [...] Não
se está a deriva neste mundo. Se é um pedacinho dessa rede.

No término dessa jornada, palpitam questões. Fica outra pendência para


a reflexão sobre espanhóis e como convivem com ela, qual seja o papel das
regiões e das províncias autônomas da Espanha moderna. Alguns, como Cris
pina, possuem a seguinte opinião:

133
não sou, por assim dizer, separatista, ao contrário, eu sou internacionalista...
Agora eu acho que cada região tem que manter os seus traços próprios, viver
a sua cultura própria, mas nunca esquecendo que antes de serem catalães,
galegos, andaluzes o que seja, são espanhóis. (No passado) eu era espanhola,
primeiro; depois catalã.

Para José Ayete, o quadro da Espanha hoje (a qual visita com freqüência),
é crítico, uma vez que:

hoje, a Espanha é ”um Deus me livre”: o Catalão não quer ser espanhol, pergunta
a um Basco se eres espanhol: “não, soy Basco”. Em Andaluz: “tu es Andaluz, es
español?” –“no, soy Andaluz”. Ninguém quer ser espanhol. Acontece que Franco
proibiu falar o Basco, (obrigou) falar em espanhol; talvez essa razão dessa revolta
deles por Franco, tenha resultado em nos queremos ser Catalanos sem ser espa
nhol. Catalano não quer ser espanhol, eles rejeitam; dizem que es um idioma.
“Yo soy Catalão”. Em Catalunha se vai alguém que não sabe falar Catalão, não
arranja emprego em uma loja; es muy locatário. Catalão, no um castelhano que
case com uma Catalana. Es muy separatista Catalão.

No quadro da União Européia, a entrada da Espanha é vista com certo


desagrado.

Catalão devem estar contentes com o mercado comum europeu; esse separatismo
não é tão grande como é o Basco. Nada de atirar bombas e fazer essas sabotagens
que fazem os Bascos. El Catalão e el Basco são separatistas; Andaluz também.
Como todos na Espanha, ninguém quer ser espanhol. Por toda via cada região
diz “”tu fica com este e tal”. Eles pensam assim, es curioso. Aí yo voy a Brasil e tu
perguntas a qualquer brasileiro de Norte, Sul, Leste, Oeste: “tu de onde és?” –“eu
sou, brasileiro”. Es verdade, no és Rio Grande, no és carioca, no és paulista.

Outro ponto é que se acredita que a “presença espanhola” em Porto Alegre,


está na imagem que deixaram no ser para o outro através da função das artes.
Arte de carpinteiros, cinzeladores, arte do trabalho na narrativa de Hélios.

Caímos lá no Recanto Espanhol, os irmãos Martinez, que trabalhavam com ferro,


e trabalhavam muito bem, deram um novo impulso na arte da cidade. Para
vincular essa relação eu teria que pensar nas obras desses mestres de obras,
esses pedreiros, pessoas que atuaram como profissionais nos seus trabalhos
específicos. Teria que pontuar em diversos pontos. Por exemplo, lá na Tristeza
um grupo de espanhóis, Estevan Farre Camp. Eles montaram uma fábrica de

134
artefatos de cimento, quer dizer, na cidade naquele momento se conseguia indus
trializar a produção de canos de cimento como tanques, essas coisas simples e
originais que tem na casa de qualquer um, era um avanço tecnológico. Outro
grupo de espanhóis, os artistas espanhóis, o pintor Alcon Cezimann que trans
forma qualquer parede em mármore, vamos chamar assim, na pintura ele podia
fazer qualquer coisa, ele era ótimo; o Herrera era um painelista interessante, tem
um quadro na Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos de Porto Alegre. É um
disseminador dessa cultura e das coisas e dos símbolos dos espanhóis. Chama
atenção também da arte em ferro que era feito pelos Melissos. Além dos Corona,
lembro de um grande construtor de imóveis, Hugo Flores, a família Flores, seus
antepassados foram perseguidos, o pai, parece, no regime fascista, e construiu
inúmeros edifícios.”

É inevitável querer iluminar a cena da cidade quando chegam os intelec


tuais, os pintores e os artistas que a cidade recebeu. Esta tarefa para o migrante
espanhol requereu compreender os vários significados sobre sua experiência;
nem sempre evidentes por si. Como interpretou Marilice, sobre o papel de
Fernando Corona:

eu acho que para a cidade ele teve uma importância muito grande, juntamente
com outros como Castro Corrêa, principalmente na construção e fundação do
Instituto de Artes e de um pólo cultural da cidade. Outra coisa foi da minha
relação com a escolinha de arte, que começa quando eu sou criança, aluna,
porque ele foi um dos fundadores da escolinha de arte da UFRGS, junto com
o Cabral e outros professores, Alceu Soares, Alice Bruggmann. Ele projetou o
Instituto de Artes, o prédio, e o anexo. Uma das coisas que mais me orgulham
é quando ele e os outros professores se reúnem, porque foi uma briga tremenda
conseguir inaugurar o Instituto, fundar o Instituto. O Estado, eu penso que eles
recorriam ao Estado, eles não viam nenhuma importância. Têm passagens dele
contando (no diário) que iam pedir recursos para montar o Instituto, e era dito
“que a arte não interessava de maneira nenhuma”... foi uma luta com os polí
ticos, para demonstrar a importância da constituição da cultura em Porto Alegre,
ao ponto deles, como não conseguiram recursos, hipotecarem suas próprias
casas para fundar o Instituto... na pesquisa da Ana Paula Canez eu fui descobrir
que a obra começa trabalhando com meu bisavô nestas coisas de decorações
dos capitéis e das fachadas, dessas esculturas. Fachadista tem uma história da
Catedral de Porto Alegre, em um concurso que meu bisavô ganha e dão um para
outro....Eu comecei a me dar conta de que muitos dos prédios, dos lugares que
eu transitava em Porto Alegre e que eu gostava, como a Slopper... essas eram
construção dele...

135
m emórias bordadas de estelita branco.
Acervo de Estelita Branco.

Estelita e Marilice Corona, as duas artistas descendentes de espanhóis,


viram-se diante da pergunta: “Qual a percepção da cultura espanhola na sua
obra e na cidade de Porto Alegre?” Nada simples, nada mais revelador. Complexo?
Mas necessário, na medida em que a presença espanhola se traduziu na insta
lação de outros signos. Marilice vasculha seu baú de lembranças, desvela seu
modo de assimilar essa estética:

a cultura espanhola estava bem presente em casa, eu não sei dizer quanto à
arte, mas por exemplo, eu via no meu pai, em todos os projetos tem azulejos, no
meu mestrado aprofundei isso e nas pinturas eu utilizava como referência uns
catálogos de azulejos espanhóis que eram dele, por causa dos padrões e que ao
mesmo tempo é uma referência a todo um espaço que eu vivi, na casa da minha
mãe, na praia, na casa do vizinho que meu pai. Então isso, como é que eu vou
dizer, não é uma coisa direta, mas é subliminar, está impregnado, eu me criei
com os objetos de Toledo como tesouras de costura da minha mãe, aquilo não
era objeto turístico para gente, como quando as pessoas vão viajar, aquilo era
um objeto comum dentro de casa, o dedal de Toledo, eram objetos que se encon
travam em casa e faziam, agora me dou conta, são florais o tempo inteiro, isso
no meu trabalho... como a pintura preto com dourado.

136
estelita branco “borda” sUas origens.
Acervo de Estelita Branco.

São manifestações que vão aparecer como performances culturais e


novos modos de apresentação de categorias estéticas e que terão interfaces
sofisticadas; vão problematizar o universo cultural, porém nascem de ambientes
muitas vezes privados.
A pesquisa histórica limitou-se a tangenciar pistas do que é próprio da
teoria da arte, ou dos estudos etnográficos. Fez a sua parte, suscitou a reflexão
estética baseada no fundo histórico. Por exemplo, o que move uma artista porto
alegrense a refazer o caminho imaginário de Dom Quixote e Sancho Pança na
rotas de Toledo, Albacete e La Roda, cidades onde transcorre a narrativa de
Miguel de Cervantes, no Século XVII? E retraduzi-los em uma série artística
como produziu Estelita ao tentar fixar sua paixão pela saga do “cavaleiro de
triste figura”?
A circularidade arte-cultura quanto à migração espanhola, na amálgama
para definir os determinados traços identitários não foi tarefa simples, nem para
os pesquisadores, nem para os entrevistados. Na ausência de definições, passa
se a palavra para outra artista descendente de espanhóis, que nesse insigts,
tentou definir o indefinível.

O objeto de criação em grande parte daria para ser traduzido no tipo que eu
criei, vamos dizer um esquema, para analisar como se dá uma obra. Eu falo de
três espaços, o espaço da memória, o espaço da história e o espaço estético, no
cruzamento, destes três eixos. O que seria o espaço da memória? É tudo aquilo
que te constitui durante a vida, são todos os objetos, imagens, músicas, escritos,

137
tudo aquilo que emociona, tudo aquilo que te toca alma, que te coloca num
estado diferente de outras pessoas. São aquelas coisas particulares, que dão a
singularidade, que vão garantir a singularidade da obra, é a energia, é o motor,
e que faz parte de mim e não do outro, é a essência. Isso sozinho não é obra. A
minha vida, o meu pai, as coisas que eu vivi, o ambiente que eu vivi, o espaço
físico, a arquitetura, as imagens, a música, os sentimentos, as sensações, essas
são coisas particulares, são minhas mesmo, mas isso não é obra. Para que seja
obra tem que ter a informação disso, isso tem que virar forma, para isso virar
forma tem que ter uma discussão com a História, no meu caso se é pintura tem
que ter uma discussão com a História da pintura, vamos dizer o meu trabalho,
mas passando pelo viés da singularidade e além da discussão com a pintura,
as discussões contemporâneas da produção de obra de arte, da produção com a
pintura, vamos dizer, a questão estética e aí colocar os discursos em confronto,
em contato, Então a obra teria dessas três coisas e estas influências, os florais,
os mostruários de azulejos, os catálogos, as imagens arquitetônicas, os espaços
arquitetônicos que eu utilizo. Eu sou hoje aquilo que a gente está conversando,
esse somatório de narrativas que eu já não sei mais o que é meu e o que é contado
pelos outros. Eu não sei mais o que eu me lembro e o que é uma fala contada da
família, não se sabe mais qual é a minha experiência e qual é a do outro, porque
é nesse contato que a gente se constrói, e é isso que é mola de trabalho. Então
com o tempo se vai descobrindo e talvez com a idade mesmo que as coisas da
infância da gente e das vivências estão mais declaradas e aparentes no trabalho
do que se imagina. É uma coisa, como se a gente fizesse um processo... Então
eu acho que essas coisas da arquitetura, dos padrões, do azulejo, quando eles
começam a surgir, surgem de uma maneira um pouco, inconsciente, porque eu
acho no início que eles vêm simplesmente da pintura e do discurso da pintura e
lá pelas tantas eu vejo que não, que isso vem de uma constituição, de um cruza
mento de coisas, afetivas, emocionais, é uma coisa ligada com o prazer.

Enfim, essa foi uma narrativa de tantas que estão à espera da pesquisa
continuada, sobre espanhóis em Porto Alegre. Foi emocionante adentrar nessas
histórias de vida, espreitar o quanto ainda está lá, entre a memória, a imagi
nação e a história. Em tempo de esquecimentos, acredita-se ser essa obra uma
contribuição à história da cidade.
Nem tudo se deve guardar, mas o que aqui está é uma elaboração iden
titária constituinte da cidade na contemporaneidade, que tudo pode tragar na
homogeneização, o que significa a perda do ato criativo que faz do prazer da
vida, obra e criatura.

138
G ráficos, uma época em números
Imigração espanhola por década registrada no
Consulado Espanhol – 1940-2000

Fonte: Consulado Espanhol do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 1920-2000.


Dado Absoluto: 2.583
Elaboração própria.

140
Porcentagem de imigrantes espanhóis por sexo registrado no
Consulado Espanhol – 1940-2000

Fonte: Consulado Espanhol do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 1940-2000.


Elaboração própria.

Porcentagem de imigrantes espanhóis registrados por idade na Hospedaria


Xarqueadas de 27/04/1889 até 21/08/1908

Dado Absoluto: 634 registros.


Elaboração própria.

141
Porcentagem de imigrantes espanhóis registrados por estado civil na
Hospedaria Xarqueadas de 27/04/1889 até 21/08/1908

Dado Absoluto: 634 registros.


Elaboração própria.

Porcentagem de imigrantes espanhóis registrados na Hospedaria Xarqueadas


de 27 041889 até 21/08/1908

Fonte: Arquivo Público Estado do Rio Grande do Sul.


Elaboração própria.

142
Porcentagem de imigrantes espanhóis casados registrados na Hospedaria
Xarqueadas de 27/04/1889 até 21/08/1908

Dado Absoluto: 634 registros.


Elaboração própria.

Porcentagem de imigrantes espanhóis viúvos registrados na Hospedaria


Xarqueadas de 27/04/1889 até 21/08/1908

Fonte: Arquivo Público Estado do Rio Grande do Sul.


Elaboração própria.

143
Porcentagem de imigrantes espanhóis registrados por grau de instrução na
Hospedaria Xarqueadas de 27/04/1889 até 21/08/1908

Fonte: Arquivo Público Estado do Rio Grande do Sul.


Elaboração própria.

Porcentagem de imigrantes espanhóis ingressantes no Rio Grande do Sul


registrados na Hospedaria Xarqueadas de 1980 até 1908

Fonte: Arquivo Público Estado do Rio Grande do Sul.


Elaboração própria.

144
R eferências
Fontes Orais

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abril de 2007. Entrevistadores: Rosemary Fritsch Brum e Jardel Azambuja.

2. Marilice Vileroy Corona. Entrevista realizada em sua residência, Porto Alegre,


em 10 de abril de 2007. Entrevistadores: Rosemary Fritsch Brum e Jardel
Azambuja.

3. José Pascual Ayete Negro. Entrevista Entrevista realizada no seu estabeleci


mento, Porto Alegre, em 10 de abril de 2007. Entrevistadores: Rosemary Fritsch
Brum e Marina Oliveira.

4. Carmen Gandara Rodrigues e Elisa Gandara Rodrigues. Entrevista realizada


no CPH, Porto Alegre, em 10 de abril de 2007. Entrevistadores: Rosemary Fritsch
Brum e Jardel Azambuja.

5. Estelita de Aguiar Branco. Entrevista realizada no CPH, Porto Alegre, em 10


de abril de 2007. Entrevistadores: Rosemary Fritsch Brum e Jardel Azambuja.

6. Hermíno Garcia Gamallo. Entrevista realizada no CPH, Porto Alegre, em 10 de


abril de 2007. Entrevistadores: Rosemary Fritsch Brum e Jardel Azambuja.

7. Crispina Garcez. Entrevista realizada em sua reisdência, Porto Alegre, em 10


de abril de 2007. Entrevistadores: Rosemary Fritsch Brum e Jardel Azambuja.

8. Olga Falceto. Entrevista Entrevista em sua clínica, Porto Alegre, em 10 de


abril de 2007. Entrevistadores: Rosemary Fritsch Brum e Jardel Azambuja.

146
Fontes Escritas

Fontes Primárias
Arquivo Público do Rio Grande do Sul.
Associação Comercial do Rio Grande do Sul.
Emeroteca Museu de Arte do Rio Grande do Sul.
Instituto Brasileiro de Economia e Estatística.
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Consulado Geral da Espanha no Rio Grande do Sul.
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Relações Brasil Espanha.


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