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Introdução de

Atos a
A poca li pse
Dados Internacionais dc Catalogação na Publicação (CIP)
Angélica Ilacqua CRB-8/7057

Blombcrg, Craig L.
Introdução de Atos a Apocalipse : uma pesquisa abrangente
de Pentecostés a Patmos / Craig L. Blomberg ; tradução dc Mareio
Loureiro Redondo. ‫ ־‬São Paulo : Vida Nova, 2019.
768 p.

Bibliografía
Título original: From Pentecost to Patmos: Acts to Revelation
ISBN 978-85-275-0921-3

1. Bíblia N.T. - Atos 2. Bíblia - Crítica c interpretação 3. Bíblia N.T.


Apocalipse I. Título II. Redondo, Mareio Loureiro

190683‫־‬ CDD 226.6

índices para catálogo sistemático

1. Bíblia N.T. - Atos a Apocalipse


Craig L. Blomberg

Introdução de
Atos a
Apocalipse
Uma pesquisa
abrangente de
Pentecostés
a Patmos

Tradução
Mareio Loureiro Redondo

‫ים‬
VIDA NOVA
·;)2006, Craig L. Blomberg
Título do original: From Pentecost to Patmos: Acts to Revelation, an introduction and survey,
edição publicada por A pollos, divisão académica
da I nter -Varsity P ress (Nottingham, Reino Unido).

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por


S ociedade R eligiosa E dições Vida N ova
Rúa Antonio Carlos Tacconi, 63, São Paulo, SP, 04810-020
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1.a edição: 2019

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Todas as citações bíblicas sem indicação da versão foram traduzidas diretamente da New
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da New American Standard Bible (NASB), da King James Version (KJV), da Today’s New
International Version (TNIV),da Good News Translation (GNB) e da Living Bible.

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G erência editorial
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E dição de texto
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Leandro Bachega

P reparação de texto
Virginia Neumann
Mareia B. Medeiros

R evisão de provas
Gustavo N. Bonifacio

G erência de produção
Sérgio Siqueira Moura

D iagramação
Aidair Dutra de Assis

C apa
OM Designers Gráficos
τη Μαριάμ
αδελφή γνησία έν τη ττίστει.
Sumário

Reduções gráficas de periódicos acadêmicos.......................................................... 9


Reduções gráficas de coleções e editoras............................................................... 11
Agradecimentos.................................................................................................... 13
Introdução............................................................................................................ 17

Parte 1 Os atos dos apóstolos..................................................................... 25


capítulo 1 Atos: o evangelho se espalha........................................................... 27

Parte 2 Paulo e suas cartas............................................................................121


capítulo 2 Paulo: vida e ministério................................................................... 123
capítulo 3 Gálatas: o estatuto da liberdade cristã.............................................. 165
capítulo 4 A correspondência tcssalonicense:
uma visão equilibrada da volta de Cristo......................................... 193
ITessalonicenses: Cristo está vindo em breve........................................ 193
2Tessalonicenses: mas não tão breve!.................................................... 209
capítulo 5 A correspondência corintia: combatendo idéias
equivocadas sobre a maturidade cristã.............................................. 225
1Corintios: imaturidade interna e ameaças
helenizantes externas..........................................................................225
2Coríntios: crescendo em maturidade, mas sofrendo
a infiltração de ameaçasjudaizantes.................................................... 279
capítulo 6 Romanos: a exposição mais sistemática
do evangelho de Paulo...................................................................... 319
capítulo 7 As Cartas da Prisão: introdução geral............................................... 367
Filemom: uma resposta cristã à escravidão............................................ 371
Colossenses: Cristo como Senhor do cosmo e da igreja............................ 383
INTRODUÇÃO DE ATOS Λ APOCALIPSE

Efésios: unidade na diversidade como testemunho


aos "poderes".......................................................................................405
Filipenses: alegrem-se em todas as circunstâncias................................. 433
capítulo 8 As Cartas Pastorais: introdução geral.............................................. 455
Tito: um manual de organização da igreja.......................................... 465
lTimóteo: comopastorear uma igreja e afastá-la da heresia...................475
2Timóteo:passe adiante...................................................................... 495

Parte 3 Outros escritos do Novo Testamento.............................................. 507


capítulo 9 A Carta de Tiago: “A fé sem obras c morta”.................................... 509
capítulo 10 A Carta aos Hebreus: a superioridade de Cristo............................. 537
capítulo 11 lPedro: perseverança apesar da perseguição......................................577
capítulo 12 A Carta de Judas: “Lute pela fé”........................................................603
capítulo 13 2Pedro: “Onde está a promessa de sua vinda?”................................. 617
capítulo 14 As cartas de João: os testes da vida.................................................. 631
1João: opondo-se aos separatistas........................................................ 631
2João: os separatistas atacam defora................................................... 649
3João: os separatistas tomam 0 poder?................................................. 653
capítulo 15 O livro de Apocalipse: os planos de Deus
para a história cósmica..................................................................... 661

ín d ic e de passagens bíblicas 731


ín d ic e rem issiv o ...................... 745
Reduções gráficas de
periódicos acadêmicos


♦♦♦

AusBR Australian Biblical Review


A JT Asia Journal o f Theology
AUSS Andrews University Seminary Studies
BBR Bulletin fo r Biblical Research
Biblnt Biblical Interpretation
Bib Bíblica
BibRes Biblical Research
BSac Bibliotheca Sacra
BT Bible Translator
BTB Biblical Theology Bulletin
CBQ Catholic Biblical Quarterly
CBR Currents in Biblical Research
CT Christianity Today
CTJ Calvin TheologicalJournal
CTR Criswell Theological Review
E JT European Journal oflheology
E vQ Evangelical Quarterly
ExpTim Expository Times
ExAud E x Auditu
FN Filología Neotestamentaria
CTJ Grace IheologicalJournal
HBT Horizons in Biblical Theology
HTR Harvard Theological Review
In( Interpretation
JAAR Journal o f the American Academy of Religion
JBL Journal o f Biblical Literature
10 1 IN T R O D U Ç Ã O D E APOCALIPSE

JETS Journal o f the Evangelical Theological Society


JP T Journal of Pentecostal Theology
JS N T Journalfor the Study o f the New Testament
JT S Journal o f Theological Studies
LS Louvain Studies
Neot Neotestamentica
N ovT Novum Testamentum
NTS New Testament Studies
PRSt Perspectives in Religious Studies
PSB Princeton Seminary Bulletin
RB Revue Biblique
ResQ Restoration Quarterly
RevExp Review and Expositor
RevO Revue de Qumran
SJT1 Scottish Journal o f Theology
ST Studia Theologica
STJ Stulos TheologicalJournal
SWJT Southwestern Journal o f Theology
TJ Trinity Journal
TS Theological Studies
TynBul Tyndale Bulletin
USQR Union Seminary Quarterly Review
VC Vigilae Christianae
WTJ Westminster TheologicalJournal
ww Word and World
ZNW Zeitschrift fur die neutestamentliche WissenschaJ't
Reduções gráficas
de coleções e editoras

ΛΒ Anchor Bible
ANTC Abingdon New Testament Commentary
BBC Blackwell Bible Commentary
B EC N T Baker Exegctical Commentan' on the New Testament
BNTC Black’s New Testament Commentary
BIP Biblical Institute Press
BST Bible Speaks Today
CBAA Catholic Biblical Association of America
CUP Cambridge University Press
ECC Eerdmans Critical Commentaryj
HNTC Harper’s New Testament Commentary
ICC International Critical Commentary
IVP Inter-Varsity Press
IV PN TC Inter-Varsity Press New Testament Commentary
]S O T Journalfor the Study o f the Old Testament
LUP Leuven University Press
NAC New American Commentary
NCB New Century Bible
NCBC New Cambridge Bible Commentary
NIBC New International Biblical Commentary
N IC N T New International Commentary on the New Testament
N IG TC New International Greek Testament Commentary
NIVAC NIV Application Commentary
NTC New Testament Commentary
NTG New Testament Guides
N TinC ont New Testament in Context
12 I INTRODUÇÃO DE ATOS / APOCALIPSIS

OUP Oxford University Press


PIB Pontificio Istituto Bíblico
PilNTC Pillar New Testament Commentary
SAP Sheffield Academic Press
SBL Society of Biblical Literature
SBS Standard Bible Studies
SCM Student Christian Movement
SHBC Smyth 8c Helwys Bible Commentary
SP Sacra Pagina
SPCK Society for the Promotion of Christian Knowledge
THNTC Two Horizons New Testament Commentary
TM Texto Massorético
T N TC Tyndale New Testament Commentary
UBS United Bible Societies
UPA University Press of America
W BC Biblical Commentary
WJKP Westminster John Knox Press
ZEC Zondervan Exegetical Commentary
Agradecimentos

' alvez não seja preciso um vilarejo inteiro para criar um livro, mas mui-
tas pessoas merecem uma palavra de agradecimento por ajudarem esta
obra a ver a luz do dia. E claro, há as turmas de estudantes de graduação
e pós-graduação ao longo de um período de 22 anos — em lugares tão diversos
quanto a Palm Beach Atlantic College, West Palm Beach, estado da Flórida; o
Sangre de Cristo Seminary, em Westcliffe, estado do Colorado; a Universidade
do Colorado, no campus de Boulder; 0 Southern Baptist Theological Seminary,
em Louisville, estado de Kentucky; a Universidade Cristã de São Petersburgo, na
Russia; o Irish Bible Institute, em Dublin, Irlanda; a Bible College of Victoria,
cm Melbourne, Austrália; a Moore College, em Sydney, Austrália; e, acima de
tudo, o Denver Seminary, no antigo campus de Englewood e no novo em Littleton,
ambas cidades do Colorado — que interagiram com versões anteriores de uma
parte ou da totalidade deste material, ajudando-me a ver pelo menos algo do que
era e não era importante e do que estava e não estava claro.
Além disso, há o Institute ofTheological Studies, em Grand Rapids, estado
de Michigan, cujo convite, por intermédio do falecido Harold van Broekhoven,
para criar uma serie de fitas cassetes com uma apostila ampliada para um curso
de correspondência sobre as Cartas e Apocalipse, levou a uma edição anteces-
sora deste volume, produzida em 1995 e revisada em 2000, com pouco menos
da metade do tamanho da edição atual. Outreach, Incorporated, à qual o Insti-
tute ofTheological Studies estava subordinado, também gentilmente permitiu
que eu mantivesse os direitos autorais daquele material, reproduzido em forma
de bloco de notas cm espiral, justamente para que, caso surgisse oportunidade,
um dia eu pudesse revisá-lo, suplementá-lo e reutilizá-lo.
Sou igualmente grato ao corpo docente e à junta diretora do Denver Semi-
nary, que me concederam um semestre sabático durante a primavera de 2004,
o que me permitiu realizar boa parte da pesquisa e redação adicionais necessá-
rias para produzir esta edição já no tamanho de um livro didático (junto com o
material sobre Atos, que não havia sido previamente posto por escrito em meio
14 I INTRODUÇÃO DE ATOS Λ APOCALIPSE

algum). O dr. Philip Duce, editor de livros teológicos da Inter-Varsity Press, no


Reino Unido, e seu colega no B 8c H Publishing Group, o dr. John Landers, con-
tinuaram ajudando bastante na produção deste segundo volume tanto quanto
ajudaram com o primeiro. E, é claro, nenhum dos dois trabalha isoladamente,
mas cercado por equipes muito competentes e cordiais.
Inúmeros colegas de trabalho e alunos mc ajudaram nos processos de digi-
tação, edição, verificação de referências e revisão do texto, em especial a sra.
Jeanette Freitag, assistente do corpo docente; a professora Elodie Emig, instru-
tora de grego e Novo Testamento; o sr. Michael Hemenway, estudante do mes-
trado em estudos da Bíblia e funcionário da área de informática; e a sra. Jennifer
Foutz, que, cm seu último ano no mestrado profissionalizante em teologia, tam-
bém trabalhou para mim avaliando trabalhos e provas dos estudantes. Há muito
tempo, Jeanette tem, incansavelmente, com toda disposição, com rapidez incrível
e impressionantemente pouquíssimos erros, concluído quase todo tipo de edito-
ração que tenho solicitado para meus projetos. Elodie checou meticulosamente
incontáveis citações e notas de rodapé para garantir a precisão. Mike converteu
meus slides de PowerPoint em documentos do Word para que eu pudesse fundi-
Tos com meu texto, enquanto a Jennifer revisava todo o manuscrito e, com notá-
vel habilidade, criava a primeira versão de todas as perguntas para revisão. Ela
também leu para mim várias fontes recém-publ içadas durante os meses entre eu
submeter o manuscrito e a editora enviá-lo preparado para minha revisão, des-
tacando idéias que eu talvez quisesse incorporar nesta obra, para que meu texto
final fosse o mais atualizado possível. A eles sou profundamente grato por me
permitirem concluir este projeto muito mais rapidamente do que eu teria con-
seguido e também com maior precisão e um texto mais fluente.
Como sempre e sem exceção, a equipe da biblioteca Carey S. Thomas, do
Denver Seminary, foi bastante prestativa. Em particular a sra. Jeannette France,
bibliotecária de apoio à pesquisa, continuou indo muito além de sua responsa-
bilidade, tratando de mais questões relativas à localização de materiais do que a
maioria dos usuários da biblioteca chegam a pedir a ela. A sra. Kim Backhand,
gerente de nossa livraria, e sua equipe estavam sempre animadas e prontas a enco-
mendar novos livros que eu precisava para que pudesse me manter atualizado
com obras acadêmicas ainda não disponíveis em bibliotecas locais ou mediante
empréstimo entre bibliotecas. Kim, em particular, foi muito além de sua respon-
sabilidade e me indicou novos materiais que eu nem mesmo havia descoberto e
me incentivou em momentos importantes durante a pesquisa, quando estava me
sentindo um pouco sobrecarregado.
Uma pessoa, no entanto, me proporcionou muito mais ajuda do que qualquer
outra. Não tenho palavras suficientes para expressar minha gratidão à Mariam
Kamcll, que logo deve concluir seu doutorado e foi minha assistente de pesquisa
durante os dois anos letivos de 2003 a 2005, por seu esforço incansável neste
AGRADECIMENTOS I 15

projeto. Sem seu trabalho em várias frentes, em especial examinando um grande


número de textos acadêmicos recentes que tratam de Atos a Apocalipse e estão
enfurnados em periódicos, este livro (mais uma vez) não teria ficado pronto tão
cedo nem se caracterizaria por um levantamento tão exaustivo sobre o que os
estudiosos estão dizendo hoje, com frequência incluindo perspectivas bem dife-
rentes das minhas. Quando, na primavera de 2004, sofri por três meses com o
ressurgimento de uma lesão por esforço repetitivo, ela também assumiu uma
parte considerável de meu trabalho de digitação. Ela suportou minhas mudanças
de humor durante o problema com a LER c mais tarde perdoou graciosamente
uma ou duas vezes em que de fato perdi a paciência, em grande parte resultantes
da minha frustração tanto com meu envolvimento excessivo com atividades pro-
fissionais quanto com minha incapacidade de controlar o ritmo de conclusão de
meus projetos. Nos anos letivos de 2004 a 2006, ela se tornou uma colega valiosa,
ensinando como professora adjunta em nosso Departamento de Novo Testa-
mento, ao mesmo tempo que iniciava seu doutorado na Universidade de Saint
Andrews, na Escócia. Seu estilo de vida piedoso e sua personalidade otimista são
uma inspiração para muitos, não apenas para mim. Dedico, portanto, este livro à
Mariam, esperando que, em sua carreira e ministério como professora e erudita
do Novo Testamento, nosso Senhor lhe conceda pelo menos tanta satisfação e
alegria quanto me concedeu no meu ministério. Mas a Deus seja toda a glória.
Introdução


uitos produtores cinematográficos fazem filmes que são continuação


de outros filmes de grande sucesso. A maioria dessas sequências não é
feita com tanto cuidado ou tanta qualidade artística quanto os filmes
originais. De vez em quando surgem exceções; são casos incomuns que geram
longas séries de filmes. A sequência de seis filmes de Guerra nas estrelas, feita ao
longo de três décadas e distribuída no mundo inteiro, é sem dúvida o exemplo
contemporâneo mais conhecido.
Em 1997 tive o privilégio de ver meu livro Jesus and the Gospels: an introduc-
tion and survey ser publicado.1 Essa obra surgiu em decorrência de anos lecionando
esse material a cada trimestre, primeiro no nível de graduação e, mais tarde, no
de pós-graduação. O que começou com o material que eu preparava para minhas
próprias aulas havia se transformado em esboços detalhados impressos que eu
distribuía a meus alunos e, mais tarde, um livreto encadernado em espiral em
que eu acrescentava ainda mais informações como texto corrido. Quando a edi-
tora Broadman & Holman estava procurando um livro-texto introdutório jus-
tamente sobre esse assunto, fiquei radiante em poder expandir o material mais
uma vez e transformá-lo em um livro para publicação. Também fiquei extasiado
porque a editora Inter-Varsity Press, no Reino Unido, estava desejosa de publi-
car uma edição britânica.
Naquela época não imaginava escrever uma continuação. A Broadman &
Holman já havia contratado John B. Polhill para produzir uma introdução equi-
valente para Atos e Paulo, e o livro foi lançado em 1999 com o título Paul and
his letters [Paulo e suas cartas], um texto extraordinariamente abrangente, preciso

’Craig L. Blomberg (Nashville/Lciccstcr, Reino Unido: Broadman &. H olm an/Apollos, 1997)
[edição em português: Jesus e os Evangelhos: uma introdução ao estudo dos 4 Evangelhos, tradução de
Sueli da Silva Saraiva (São Paulo: Vida Nova, 2009), relançada sob o título Introdução aos E va n -
gelhos: uma pesquisa abrangente sobre Jesus e os 4 Evangelhos, tradução de Sueli da Silva Saraiva (São
Paulo: Vida Nova, 2017)].
18 I INTRODUÇÃO DIC ATOS A APOCALIPSE

e fácil de ler e que formava par com o meu livro.2 Entretanto, fiquei muito ani-
mado com a acolhida que Jesus and the Gospels estava tendo. Descobri que estava
sendo usado como livro-texto em salas de aula de faculdades e seminários em
todo o mundo de língua inglesa, e logo também foi traduzido para o alemão.3 De
modo parecido, leigos espontaneamente informaram que consideraram o livro
útil para o estudo sério e pessoal, independentemente de qualquer instituição de
ensino ou curso de graduação.
Logo várias pessoas começaram a me perguntar quais livros-texto eu usava
quando lecionava de Atos a Apocalipse. Explique! que o material que eu prepa-
rava para minhas aulas havia começado a passar por uma metamorfose parecida.
Aliás, em 1995, eu havia produzido a primeira edição de um caderno em espiral
com introdução e comentários sobre “As Cartas e o Apocalipse”, para acompa-
nhar uma série de aulas sobre aqueles livros e que haviam sido gravadas em fitas
cassetes para o curso por correspondência do Institute for Theological Studies.
No caso de Atos, eu ainda usava apostilas em forma de esboço, mas elas haviam
crescido e se tornado um conjunto de trinta páginas grampeadas com notas
impressas em espaçamento simples. Por isso, no início do novo milênio comecei
a pensar seriamente em uma continuação de meu primeiro livro-texto. As duas
editoras que haviam publicado meu livro sobre os Evangelhos manifestaram inte-
resse no projeto, de maneira que minha pesquisa avançou. John Landers sugeriu o
título em inglês desta obra, From Pentecost to Patmos [De Pentecostés a Patmosj.
No outono de 2004 c de 2005 meus alunos da disciplina “Compreendendo
os Evangelhos e Atos”, como parte das atividades acadêmicas, tiveram de ler
meu material sobre Atos. Na primavera de 2005 e dc 2006 as aulas da disciplina
“Entendendo as Cartas e o Apocalipse” utilizaram meu texto sobre aquela metade
do Novo Testamento. Caso nosso seminário ainda seguisse o sistema trimestral,
Jesus and the Gospels se encaixaria perfeitamente no primeiro trimestre, e Introdução
de Atos e Apocalipse no segundo e no terceiro. Mas o Denver Seminary, assim
como aconteceu nos últimos anos em muitas instituições de nível superior nos
Estados Unidos, mudou para o sistema de disciplinas semestrais, de modo que
a divisão se torna mais difícil.
Estou animado com o fato de que a introdução ao Novo Testamento que
Ralph Martin escreveu em dois volumes estabeleceu um precedente para a divisão
do trabalho aqui representado e conseguiu servir muito bem a uma geração de
alunos de teologia.4 Não vislumbro escrever mais alguma coisa e que criaria uma
serie mais longa; no Antigo Testamento não tenho a competência, por exemplo,

2Paul and his Letters (Nashville: B& H , 1999).


Jesus and die Evangelien: E injuhrung und Uberblick (Nümburg: V T R , 2000).
4Ralph R M artin, N ew Testament foundations (Grand Rapids/Carlisle, Reino Unido: Eerd-
mans/Paternoster, 1975-1978), 2 vols.
INTRODUÇÃO I 19

para criar “prequelas” como George Lucas fez na série Star wars\ Mas, caso aque-
les que se beneficiaram de Jesus and the Gospels achem que o novo volume forma
um bom par com aquele primeiro livro, meu tempo terá sido bem investido.
Assim como o primeiro livro, este procura oferecer ao leitor um guia para
encontrar em um único lugar tudo o que eu gostaria que os estudantes de teo-
logia conhecessem sobre os livros bíblicos abordados. Tipicamente as “introdu-
ções” têm abordado essas informações básicas tais conto autor, data, destinatários,
procedência, propósitos, gênero, esboço, teologia e coisas do tipo, ao passo que
“panoramas” têm apresentado, em sequência, amostras do conteúdo dos livros
da Bíblia, no estilo de um comentário em miniatura, com apenas um mínimo de
informações básicas. Cada vez mais ambos os tipos de livro realizam ambas as
tarefas, só que em proporções diferentes. Introduções recentes têm reconhecido
que um conhecimento mais profundo do conteúdo e das implicações dos textos
bíblicos é, com frequência, a necessidade mais premente que estudantes de teologia
têm hoje em dia e estão incluindo cada vez mais esse tipo de informação.’ Alguns
ressaltam formas mais especializadas de análise que vêm ganhando popularidade,
em particular a crítica literária e a sociológica,6 ou talvez se concentrem em ques-
tões teológicas mais do que acontece costumeiramente — uma tarefa deixada
no passado para textos de “teologia bíblica”.' Em geral, todas essas abordagens
pressupõem que os professores complementarão os livros-texto em sala de aula
com uma exegese de passagens importantes e com análises mais detalhadas de
controvérsias interpretativas.
M inha experiência mc levou a um procedimento praticamente na direção
oposta. O que mais interessa aos estudantes do século 21 e o que mais precisam
para o ministério e a vida é um conhecimento mais profundo e detalhado dos
significados dos próprios textos das Escrituras. Todos esses outros tópicos são
importantes, mas não tão básicos, de maneira que tentei tratar dos itens mais
essenciais da introdução com detalhes suficientes para fornecer os antecedentes
necessários à correta interpretação dos livros do Novo Testamento, com notas
de rodapé e bibliografia indicando onde é possível encontrar análises mais deta-
lhadas. Passo, no entanto, a maior parte do tempo examinando a estrutura e o
conteúdo concretos de cada livro, as idéias principais de cada seção, as passagens

’E.g., Paul J. Achtemeier; Joel B. Green; M arianne M . Thompson, Introducing the N ew Tes-
foment: its literature and theology (Grand Rapids/Cambridge: Ecrdmans, 2001); D . A. Carson;
Douglas J. M oo, A n introduction to the N e w Testament, ed. rev. (Grand Rapids/Leicester, Reino
Unido: Zondervan/Apollos, 2005) [edição em português: Introdução ao Novo 'Testamento, tradução
de M areio Loureiro Redondo (São Paulo: Vida Nova, 1997)J.
',Veja esp. David A . deSilva,yí77 introduction to the N ew 'Testament: contexts, methods and minis-
try form ation (Leicester, Reino Unido/Downers Grove: Apollos/IVP, 2004).
7Veja esp. Carl R. H011aday,vi critical introduction to the N ew Testament: interpreting the message
an d meaning o f Jesus Christ (Nashville: Abingdon, 2005).
20 I INTRODUÇÃO DE ATOS Λ APOCALIPSE

peculiarmente difíceis do ponto de vista exegético e vários itens-chave para apli-


cação contemporânea. Desse modo, caso os estudantes nunca comparecessem às
aulas, mas conhecessem e entendessem detalhadamente o que escrevi, eu teria a
consciência tranquila de que teriam uma excelente base quanto aos livros bíbli-
cos abordados.
E claro que essa aprendizagem detalhada raramente é tão boa quando os
alunos estão sozinhos em comparação com quando também assistem às aulas! Por
isso uso o tempo de aula para uma ampla variedade de atividades: testes perió-
dicos como incentivo para aprender bem o livro-texto; breves revisões das ques-
tões mais essenciais de cada seção, “minipalestras” complementares para entrar
mais detalhadamente em questões-chave do que o livro consegue entrar ou para
introduzir questões correlatas que meu texto omite por completo; pausas pro-
Aceitosas para conversas sobre a leitura, com perguntas e respostas (feitas tanto
a mim píelos alunos quanto a eles por mim), estudos de caso e outros tipos de
aplicação. Fotografias, vídeos e clipes de DVD podem ajudar a tornar partes do
mundo do Novo Testamento mais vivazes; gráficos e apresentações em Power-
Point podem esclarecer, ilustrar e reforçar princípios-chave. Estudantes inter-
nacionais e de minorias (e outros com experiência internacional ou transcultural
significativa) podem ressaltar questões que a maioria dos alunos talvez não leve
em consideração, e assim por diante.
Assim como em Jesus and the Gospels, adoto uma perspectiva evangélica
inclusiva. Um número significativo das fontes em minhas bibliografias, em espe-
ciai nas seções de comentários, é de autores evangélicos. Mas tenho lido bastante,
interagido com uma vasta gama de estudiosos e tentado apresentar uma amos-
tra expressiva de abordagens encontradas em um amplo segmento na escala de
posições teológicas. Quando se trata das passagens mais controversas e de ques-
tões interpretativas, é quase impossível fazer justiça a todos os pontos de vista,
com a consequência de que descobri que os alunos parecem aprender e enten-
der melhor quando leem sobre minhas perspectivas, mas ao mesmo tempo me
ouvem repetidamente dizer que têm toda liberdade para discordar de mim. O
tempo de aula e trabalhos escritos de natureza exegética ou temática podem ser
usados para explorar diferentes opções. Talvez eu possa esperar que uma ampla
variedade de professores considere meu livro suficientemente útil para que o tra-
tem de modo parecido — contudo, sem pensar que, para considerarem o texto
útil, tenham de concordar com a imensa maioria de minhas idéias sobre questões
especificas, mas usando-o como uma oportunidade para os estudantes apren-
derem e entenderem um dos pontos de vista evangélicos que é razoavelmente
difundido e representativo sobre um tópico. (Eu raramente adoto uma posição
que apenas uma pequena minoria de comentaristas tem sustentado.) Então, nas
outras partes da aula, eles podem complementar minhas perspectivas com quais-
quer outras que desejarem.
INTRODUÇÃO I 21

A estrutura geral do livro é simples e direta. Atos vem primeiro porque na


sequência canônica aparece imediatamente depois dos Evangelhos e porque
constitui o contexto narrativo em que muitas das cartas podem ser inseridas com
maior entendimento. A seção sobre as cartas de Paulo apresenta um panorama
de suas epístolas de acordo com a melhor sequência cronológica que consegui-
mos reconstruir. Esses capítulos são precedidos por uma introdução à vida e ao
ministério de Paulo, a qual inclui, entre muitas outras coisas, uma explicação de
por que suas cartas foram organizadas em nosso cânon do Novo Testamento
em uma sequência diferente (p. 150-1). A data das Cartas restantes — Hebreus,
Tiago, 1 e 2Pedro, 1,2 e 3João e Judas — é mais difícil de determinar. Mas uma
cronologia possível, cuja sequência temos seguido em nossas análises, é Tiago,
Hebreus, lPedro, Judas, 2Pedro e 1,2 e 3João.8 Apocalipse foi, com quase toda
certeza, o último dos livros do Novo Testamento a ser escrito.
Ao longo da história da igreja, essas cartas vieram a ser chamadas de Cartas
“Gerais” ou “Católicas” (originariamente a palavra católico significava “universal”),
porque se acreditava que não tinham sido endereçadas a uma igreja específica ou
a um grupo específico de igrejas. Hoje em dia essa certeza tem sido quase uni-
versalmente rejeitada, conforme explicaremos quando introduzirmos cada uma
delas. M as essa crença explica por que, tal como no caso das cartas de Paulo,
foram tratadas em bloco como uma das grandes seções do Novo Testamento.
Depois de as cartas ocuparem várias e diferentes posições, a sequência seguida
hoje em dia parece ter sido ditada por dois fatores principais. Em primeiro lugar,
pelo fato de a importância e a influência de Paulo serem tão generalizadas desde
os primordios do cristianismo, é natural que suas cartas vieram a ser colocadas
antes das demais Cartas. Em segundo lugar, parece mais uma vez que, dentro
das Cartas “Gerais”, as obras foram dispostas de acordo com a importância de
seus autores na primeira geração da história da igreja. Tiago foi o primeiro pres-
bítero da igreja em Jerusalém e o meio-irmão biológico de Jesus, Pedro se tor-
nou o líder dos Doze, João permaneceu seu colega próximo, enquanto Judas foi
o menos conhecido dos quatro.
Hebreus não traz atribuição de autoria em nenhum de seus manuscritos
mais antigos. Alguns pais da igreja achavam que seu autor era Paulo; muitos
não pensavam assim (cf. abaixo, p. 539-41), de maneira que, por fim, a carta se
acomodou no “espaço” entre as cartas paulinas e as supostamente mais gerais.
Apocalipse, é claro, não é em si uma carta, embora inclua sete cartas nos capítu-
los 2 e 3 e partilhe de certas outras características do gênero epistolar (adiante,
p. 665). Todavia, Apocalipse é mais predominantemente literatura apocalíptica e

8A divergência mais provável dessa cronologia viria com a Carta de Judas, que pode ser consi-
dcravclmente mais antiga que todas as outras cartas não paulinas, exceto talvez Tiago. Mas, dada a
estreita relação textual entre Judas e 2Pedro, faz sentido tratá-las juntas. Veja mais abaixo, p. 603-4.
22 INTRODUÇÃO DE ATOS A APOCALIPSE

profética. Tendo em vista que seu conteúdo culmina com os acontecimentos que
cercam a volta de Cristo, o fim da história humana e um novo céu e uma nova
terra, era natural que acabasse no final da Bíblia, independentemente da data em
que foi de fato escrito, embora provavelmente também tenha sido o último livro
a ser cronologicamente escrito.
Os comentários sobre cada livro começarão com considerações introdu-
tórias. Em seguida, seguirão observações abreviadas em forma de comentário
sobre os detalhes mais centrais, interessantes, relevantes e/ou controversos do
livro e, finalmente, análises passagem por passagem (e às vezes até versículo por
versículo) com notas de rodapé que indicam a origem de conceitos ou citações
específicos ou onde é possível encontrar uma análise mais aprofundada das ques-
tões. Por fim, haverá algumas observações breves a respeito da aplicação con-
temporánea de cada livro e uma bibliografia selecionada de obras para estudo
adicional. As bibliografias começam com comentários organizados em três cate-
gorias: obras avançadas, cuja compreensão é geralmente otimizada por algum
conhecimento do grego (embora esse conhecimento não seja obrigatório); tex-
tos de nível intermediário, que incluem comentários detalhados mas não exces-
sivamente técnicos, escritos com base no texto bíblico em inglês e com pleno
conhecimento do original grego e da pesquisa acadêmica contemporânea; e
livros introdutórios, que são mais breves ou com foco maior na aplicação, mas
que ainda refletem uma pesquisa sólida e atualizada, avaliada à luz das línguas
e textos originais das Escrituras.
Y,m Jesus and the Gospels, usei a New International Version’s Inclusive
Language Edition [Edição com Linguagem Inclusiva da Nova Versão Inter-
nacional] (NIVI), publicada no Reino Unido (London: Hodder Sc Stoughton,
1996) como minha tradução básica em inglês, da qual extraí as citações. Desde
então, um equivalente parcial publicado nos Estados Unidos, denominado
Today’s New International Version [Nova Versão Internacional para Hoje]
(T N IV ),foi completado (Colorado Springs/Grand Rapids: IBS/Zondervan,
2005). Infelizmente, surgiu uma controvérsia acalorada, em grande parte res-
trita aos Estados Unidos, sobre essas e outras traduções recentes que, mais do
que as versões antigas, usam linguajar inclusivo para se referir à humanidade.
Boa parte desse debate envolve mal-entendidos e deturpações sobre essas tra-
duções e os princípios que elas seguiram, mas algumas questões teológicas reais
também estão envolvidas.9
Lamentavelmente, o debate obscurece ou ignora o fato de que uma maio-
ria significativa das mudanças feitas na TN IV não tinha nenhuma relação com
questões de gênero, mas melhorou o texto da NIV, tornando-a uma tradução

,Veja esp. D . A. Carson, The inclusive language debate: a plea fo r realism (Grand Rapids: Baker,
2001).
INTRODUÇÃO I 23

O CANON DO NOVO TESTAMENTO

Mateus
di

‫ך‬W¡) Marcos

>
Lucas
a
João

Atos

Cartas de Paulo a igrejas


(em tamanho decrescente)

Cartas de Paulo a individuos


(em tamanho decrescente)

Hebreus

‫־‬3 Tiago
V
O
(Λ 1 e 2Pedro
4-»
U
3
o
1,2 e 3João

Judas

Apocalipse

mais literal}'‫ ''׳‬Apesar disso, no momento que escrevo, a terceira edição da New
International Version [Nova Versão Internacional] (NIV; Colorado Springs: IBS,
1984; Grand Rapids: Zondervan, 1985), que é uma edição mais antiga, continua
sendo a versão preferida entre evangélicos de língua inglesa de todo o mundo.
Voltei, portanto, a citar a NIV (a menos que específicamente assinalado), para10

10Para uma documentação detalhada, veja Craig L. Blomberg, “Today's N ew International Ver-
sion: the untold story o f a good translation”, in: Perspectives on the T N IV fro m leading scholars and
pastors (Grand Rapids: Zondervan, 2004), p. 85-115; texto ligeiramente atualizado para B T 56
(2005): 188-211.
24 INTRODUÇÃO DE ATOS Λ APOCALIPSE

que o maior número possível de leitores consiga me acompanhar facilmente. Em


passagens em que, pelo fato de a NIV usar uma forma masculina que origina-
riamente tinha sentido genérico, alguns talvez sejam levados a pensar que elas
indicam um gênero específico, e por isso evitei apresentar uma citação literal de
qualquer versão bíblica. Se, para deixar claro o que quero dizer, é necessário citar
o texto, então parafraseio as Escrituras com minhas próprias palavras, sem usar
qualquer versão existente. Outros princípios relativos ao uso de linguagem “poli-
ticamente correta” ou “incorreta” continuam os mesmos do volume anterior, e
indico aos leitores minha breve análise ali incluída.11
Embora eu leia amplamente textos acadêmicos de várias línguas e culturas,
limito minhas notas de rodapé e a bibliografia, com raras exceções, a textos cm
inglês disponíveis ao estudante de teologia que está no começo de seus estudos.
Textos grifados, perguntas para revisão no final de cada capítulo e mapas, gráfi-
cos e diagramas visam igualmente tornar a obra mais fácil de usar.
Em meu volume anterior, concluí minha introdução convidando meus lei-
tores a contribuírem com crítica construtiva, em particular quanto à utilidade do
livro como texto voltado para a educação teológica. Esse convite continua de pé.
Meu objetivo é que leitores venham a entender melhor o cristianismo do pri-
meiro século, os textos que ele produziu e vieram a ser considerados especialmente
sagrados e cheguem, por meio deles, a uma melhor apreciação do Senhor Jesus
Cristo, adorado por essa igreja nascente, muitas vezes em circunstâncias hostis, e
enfrentando dificuldades notadamente semelhantes às que a igreja enfrenta hoje
em todo o mundo, apesar das mudanças nas formas culturais c tecnológicas cm
que esses desafios podem estar encobertos.

1Bloniberg,/(?«« and the Gospels, p. 3.


parle 1

Os atos dos apóstolos


♦♦♦

capítulo 1

Atos: o evangelho se espalha

♦S#

INTRODUÇÃO

A singularidade de Atos
quinto livro do Novo Testamento se mostra singular de várias maneiras.
Em primeiro lugar, é a única ,‘continuação" intencional no cânon. Nenhum
outro Evangelho além do de Lucas passa a narrar os acontecimentos
da primeira geração da história cristã. E, conquanto várias cartas tenham dado
ensejo a outras, nunca duas cartas — pelo menos até o ponto em que sabemos
— chegaram a ser concebidas desde o início como uma unidade. Assim, não se
pode entender plenamente o livro de Atos sem antes estudar o Evangelho de
Lucas.1 Por mais clara e objetiva que essa ideia possa parecer, com frequência não
se percebe isso porque, no processo canônico de agrupar os quatro Evangelhos,
o de João se intrometeu e ficou entre o primeiro e o segundo volume de Lucas.2
Em segundo lugar; 0 conteúdo dos Atos permanece singular. É o único livro a
tratar do período entre a crucificação de Jesus (provavelmente em 30 d.C.) e o
fim do ministério de Paulo (ou pelo menos perto do fim, em algum momento na
década de 60). Frequentemente tem se observado que o título tradicional atri-
buido ao livro, “Os atos dos apóstolos”, é um tanto enganador porque o único dos
doze apóstolos originais que desempenha um papel de proeminência nessa obra é
Pedro. O personagem humano mais destacado é Paulo, que se considerava após-
tolo, mas não era um dos Doze. Além disso, lemos um pouquinho sobre João, os

1Sobre isso veja Craig L. Blom berg,/ 1?íz¿f and the Gospels: an introduction and survey (Nashville:
Broadman & Ilolm an, 1997), p. 140-55, e os textos ali citados [edição em português: Introdução
aos Evangelhos: um a pesquisa abrangente sobre Jesus e os 4 Evangelhos, tradução de Sueli da Silva
Saraiva (São Paulo: Vida Nova, 2017)].
2Cf. I. Howard Marshall, “Acts and the ‘former treatise”’, in: Bruce W . W inter; Andrew D .
Clarke, orgs., 7he book o f Acts in its ancient literary setting (Grand Rapids/Carlislc, Reino Unido:
Eerdmans/Paternoster, 1993), vol. l,p . 163-82.
28 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

outros dez são relacionados, mas os personagens restantes não são apóstolos de
modo algum. Talvez devamos, então, pensar na obra como “Os atos de Pedro c
Paulo”, ou melhor, “Os atos do Espírito Santo”, uma vez que Lucas entende clara-
mente que o trabalho da igreja primitiva é “dirigido pelo Espírito”.3 Ainda assim,
qualquer que seja o título, essa é a única obra existente dentro oufora do cânon das
Escrituras que trata dessa primeira geração da história da igreja. Desse modo, todos
os apelos à “igreja do Novo Testamento” como modelo para a vida cristã cm qual-
quer outro tempo e lugar acabam, mais cedo ou mais tarde, examinando Atos.
Em terceiro lugar; esse livro apresenta problemas singulares na aplicação. Ao
contrário das cartas, há poucas ordens formais. Até mesmo os quatro Evange-
lhos, com sua ênfase na instrução ética de Jesus, têm material mais explicitamente
didático do que Atos. A maior parte de seu conteúdo simplesmente apresenta
vários acontecimentos curtos que envolvem os personagens que Lucas escolhe
destacar. E frequente leitores posteriores se verem indagando: “O que é norma-
tivo?”; “Qual é um exemplo positivo para imitar ou negativo para evitar?”; ou “É
possível afirmar que certos acontecimentos são incluídos por outros motivos —
talvez apenas porque aconteceram e permaneceram importantes para explicar os
desenvolvimentos na igreja incipiente?”. Um axioma hermenêuticofundamental
para responder a essas questões éfazer distinção entre padrões constantes de compor-
tamento em contextos múltiplos dentro do livro (e, de um modo mais geral, dentro do
restante do Novo Testamentoj epadrões que variam de um contexto para outro. Como
narrador, Lucas também pode dar pistas indiretas, assinalando a bênção divina
em decorrência de alguma atividade — mais uma maneira de indicar que essa
atividade serve de modelo.4
Porfim , o livro de Atos aparece em uma posição singular no progresso da reve-
lação de Deus à humanidade. Está claro que a primeira geração cristã constituiu
um período de transição da era da lei para a era do evangelho. Ninguém acor-
dou no dia depois de Pentecostés para ouvir um arauto da cidade de Jerusalém
anunciando o fim da antiga aliança e o início da nova! A diferença que Jesus
fez por meio de sua vida, morte c ressurreição só gradualmente veio a ser perce-
bida por seus seguidores. Paralelamente a esse desenvolvimento houve a trans-
formação do primeiro grupo de discípulos de Jesus de uma seita exclusivamente
judaica centralizada em Jerusalém naquilo que uma geração mais tarde havia
se tornado um movimento predominantemente gentílico espalhado por todo
o Império Romano. Dessa maneira, enquanto muitos acontecimentos em Atos
mostram cristãos, em especial cristãos judeus, ainda cumprindo a Lei, a ênfase5

5Justo L. González, Acts: the gospel o f lhe Spirit (Maryknoll: Orbis, 2001), p. 8 [edição em por-
tugues: Atos: 0 evangelho do Espírito Santo, tradução de Lena Aranha (São Paulo: H agnos, 2011)!.
'1Para urna excelente análise dessa questão, veja Walter L. Liefeld, Interpreting the book o f Acts
(Grand Rapids: Baker, 1995).
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA I 29

teológica do próprio Lucas recai em destacar como o cristianismo pouco a pouco


rompeu com a Lei. E essa liberdade (sem usá-la como licença para pecar) que
permanece normativa após o fim desse período de transição.5

Autoria
O processo de comparar os prefácios de Lucas e de Atos, juntam ente com o
estilo das duas narrativas em geral, tem convencido praticamente todos os estu-
diosos de que o autor desses dois volumes é necessariamente a mesma pessoa.
Mas quem é ele? Estritamente falando, Atos, à semelhança dos quatro Evan-
gelhos, é anônimo. Pelo que sabemos, os títulos dos livros não apareceram nos
documentos originais e foram provavelmente acrescentados pela primeira vez no
segundo século, à medida que os vários livros do Novo Testamento começaram
a ser reunidos.6 No entanto, 0 testemunho dos antigos ■pais da igreja afirmava una-
nimemente que Lucas, a quem Paulo chama de seu “médico amado”(Cl 4.14, KJV),
fo i 0 autor, um homem que parece ter sido um gentio, visto que Paulo se refere a
ele só depois de mencionar “os únicos judeus entre meus cooperadores” que con-
tinuaram com ele (v. 11). A tradição da igreja também explica aquelas seções de
Atos em que o autor muda a narrativa da terceira pessoa para a primeira pes-
soa do plural (descrevendo o que “nós” fizemos) em decorrência da presença de
Lucas com Paulo naquelas ocasiões (16.10-17; 20.5—21.18; 27.1—28.16).7 Não
obstante, em tempos modernos estudiosos têm proposto pelo menos duas outras
opções. Primeiro, esse “material caracterizado pelo nós”poderia refletir o diário,
as memórias ou a lembrança oral de uma testemunha ocular e companheiro de
Paulo, que foram consultados por outra pessoa enquanto escrevia o livro intei-
ro.8 De modo alternativo, alguns acham que se trata um recurso literário total-
mente artificial baseado em práticas supostamente semelhantes, em particular
na narração de relatos de viagem, especialmente por mar, de vários personagens
em histórias greco-romanas, mesmo quando o autor não tivesse vínculo algum
com qualquer participante nessas aventuras.9

'Craig L. Blombcrg, “The Law in Luke-Acts”,./iSTVT22 (1984): 53-80.


6Veja, porém, Martin H engel {Thefour Gospels and the one gospel o f Jesus Christ [London, Reino
Unido/Harrisburg: SCM/Trinity, 2000J), que defende que os títulos eram originais.
'E.g., o Canon Muratoriano; Ircneu, Contra as heresias 3.1.1,3.14.1;Tertuliano, Contra Marc ião
4.2; Eusebio, História eclesiástica 3.4.
8Veja esp. Stanley E. Porter, “The ‘we’passages”, in: David W. J. Gill; Conrad H . Gempf, orgs.,
The book o f Acts in its Graeco-Roman setting (Grand Rapids/Carlisle, Reino Unido: Eerdmans/
Paternoster, 1994), p. 545-74; A. J. M . Wedderburn, “The ‘we’-passages in Acts: on the horns o f a
dilemma”, Z N W 93 (2002): 78-98.
9Veja esp. Vernon K. Robbins, “By land and by sea: the we-passages and ancient sea-voyages”,
in: C. H . Talbert, org., Perspectives on Luke-Acts (Danville: NABPR, 1978), p. 215-42. Veja, contudo,
a resposta de Colin J. Hemer, “First person narrative in Acts 27— 28”, TynBuPMs (1985): 79-109.
30 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

No final do século 19, William Hobart defendeu que um vocabulário tipi-


camente médico aparecia por todo o livro de Lucas-Atos, corroborando a tradição
de que um médico escreveu essas obras.10 Entretanto, no início do século 20,
Henry Cadbury demonstrou que esse vocabulário aparecia com a mesma fre-
quência em obras não médicas, demonstrando que o argumento de Hobart era
inadequado.11 Apesar disso, cm tempos mais recentes, Loveday Alexander mos-
trou que os paralelos mais próximos dos prefácios de Lucas e Atos são encon-
trados em tratados científicos greco-romanos. Embora isso não prove que Lucas
era um “cientista”, ou mais específicamente um médico, é pelo menos coerente
com a tradição da igreja primitiva.12
Com o surgimento da crítica bíblica moderna, em particular no século 19,
muitos seguiram a influente filosofia de Ferdinand Christian Baur, que desen-
volveu seu pensamento com base na visão dialética que Georg W. F. Hegel
tinha da história, visão dialética segundo a qual um movimento (tese) final-
mente enfrentava oposição (antítese) até que se alcançasse uma solução conci-
liatória entre os dois (síntese). Baur acreditava que “Lucas” fez mediação entre
o cristianismo judaico extremado de Pedro e Tiago e o cristianismo gentílico
extremado de Paulo, criando uma síntese bem tardia em meados do segundo
século. Se as duas obras eram assim tão posteriores, então é claro que nenhum
companheiro de viagem de Paulo poderia tê-las escrito. Hoje essa abordagem
foi praticamente abandonada.
O ceticismo contemporâneo quanto à autoria lucana tem se concentrado
muito mais nas aparentes contradições teológicas entre Atos e as cartas de Paulo
não contestadas, para defender que nenhum seguidor próximo de Paulo poderia
ter sido o autor de Atos. A exposição clássica dessa afirmação aparece em um
pequeno artigo de Philipp Vielhauer, que destacou quatro grandes diferenças:
(1) Atos admite uma “teologia natural” em que os seres humanos, mediante reve-
lação geral, podem vir a encontrar Deus (At 17.16-31), ao passo que Paulo tem
uma ideia totalmente negativa da possibilidade de salvação sem a fé explícita em
Cristo (e.g., Rm 1.18-32). (2) A atitude de Paulo de obedecer à lei é mais posi-
tiva em Atos em comparação especialmente com sua crítica, em sua Carta aos
Gálatas, àqueles que impunham a lei aos cristãos. (3) A cristologia de Paulo em

1‫״‬W illiam K. Hobart, The medical language o f St. Luke (London, Reino Unido: Longmans and
Green, 1882).
11H enry J. Cadbury, The style a n d literary method o f L uke (Cambridge: Harvard University
Press, 1920).
12Loveday C . A . Alexander, The preface to L uke’s Gospel (Cam bridgc/New York: CUP, 1993).
Alexander também demonstrou que, apesar de certas características de Atos que à primeira vista
poderiam ter parecido fictícias, cm um exame mais cuidadoso o estilo c o genero de Lucas m os-
tram que ele pretendia escrever um livro que fosse aceito como “fato” (“Fact, fiction and the genre
o f Acts”, N T S 44 [1998J: 380-99).
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA I 31

Atos, à semelhança da de outros dos primeiros pregadores cristãos, gira em torno


da ressurreição, ao passo que Paulo, em lCoríntios 2.2, refere-se à crucificação
como o cerne único de seu evangelho. (4) Por fim, a escatologia de Lucas parece
“postergada”, isto é, 0 autor reconhece que um tempo razoável pode transcorrer
até que Cristo retorne, ao passo que o Paulo das cartas ainda mantém a espe-
rança viva de uma parúsia iminente.13
Há observações válidas nessas sínteses de contrastes-chave entre Atos e as
cartas, mas elas podem ser facilmente exageradas. (1) O texto de Romanos 1.19,20
concorda com Paulo em Atenas (At 17) a respeito de que toda a humanidade deve,
com base na natureza da criação, reconhecer que existe um criador. (2) Mesmo
em Atos, o texto de 13.39 deixa claro que Paulo não crê que a lei possa salvar
alguém, ao passo que lCoríntios 9.19-23 enfatiza a disposição de Paulo de se
colocar sob a lei com a finalidade de conquistar seus contemporâneos judeus. (3)
Nem a crucificação nem a ressurreição representam a totalidade da obra salvífica
de Cristo, assim como o próprio Paulo observa ao enfatizar, em lCoríntios 15, a
necessidade da ressurreição. (4) Finalmente, um exame mais minucioso tanto de
Atos quanto das cartas de Paulo indica as vertentes de uma expectativa vivida da
volta próxima de Cristo, juntamente com a possibilidade de que ela, na verdade,
talvez não aconteça por algum tempo (c£, e.g., Lc 17.20-37; A t 13.40,41,47;
lTs 4.13—5.10).
Diante disso David !‫׳‬Venham chega acertadamente à conclusão de que as
diferenças entre Atos e as cartas provavelmente comprovam que o próprio Paulo
não escreveu Atos (embora, é claro, ninguém tenha afirmado isso)! Entretanto,
as diferenças não demonstram que um associado seu, ele próprio treinado teolo-
gicamente na fé cristã dos primordios e tendo suas próprias ênfases ao escret^er
a um público específico com necessidades particulares, não poderia ter escrito
essa obra.14 Além do mais, jamais chegou a ser apresentado algum motivo con-
vincente para o fato de a igreja primitiva ter aceitado Lucas — alguém que, no
demais, seria um personagem obscuro — e afirmado que ele foi o autor tanto
do Evangelho quanto de Atos, caso não fosse o verdadeiro autor dessas obras.

Data
Conforme assinalado acima, em meados do século 19 era popular datar Atos do
início ou mesmo de meados do segundo século. Essa data tardia permitia que

13Philipp Vielhauer, “On the ‘Paulinism’ o f Acts”, in: Leandcr E. Keck; J. Louis Martyn, orgs.,
Studies in Luke-Acts (Nashville: Abingdon, 1966; London, Reino Unido: SPCK, 1978), p. 33-50.
14D avid W enham , “A cts and the Pauline corpus II. The evidence o f parallels”, in: W inter;
Clarke, orgs., The book o f Acts in its ancient literary setting, p. 215-58. Para um estudo aprofun-
dado sohre Paulo cm Atos, veja Stanley E. Porter, Paul in Acts (Tübingen: Mohr, 1999; Peabody:
H endrickson, 2001).
32 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

estudiosos rejeitassem com razoável facilidade a confiabilidade da narrativa de


Lucas sob a alegação de ser uma apresentação tendenciosa, ocultando as sérias
diferenças que dividiram a primeira geração cristã. O cristianismo petrino e o
paulino eram vistos como trajetórias profundamente diferentes no primeiro
século, com a síntese de Lucas ocorrendo apenas em um desenvolvimento muito
posterior. A passagem de Gálatas 2.11-15, e não Atos 15, parecia refletir melhor
essas primeiras tensões.
No entanto, hoje em dia uma maioria considerável de estudiosos atribui a
Atos uma data em algum momento depois de 70 d.C. e antes de meados da década
de 90. A década de 80 se revela mais popular e quase podería ser considerada a
data de consenso entre comentaristas mais liberais. Datas posteriores são rejei-
tadas porque a essa altura as cartas de Paulo estavam se tornando amplamente
conhecidas, de modo que o silêncio de Atos acerca delas seria inexplicável. Uma
vez que Atos é a continuação do Evangelho de Lucas e já que muitos atribuem
a Lucas uma data após a queda de Jerusalém (em particular com base na suposta
“profecia depois do fato acontecido”, a qual foi feita por Jesus e está registrada
em Lucas 21.20), a data de Atos também teria de ser posterior ao ano 70. De
modo parecido, as supostas contradições teológicas associadas a Vielhauer (veja
acima) levam estudiosos a pressupor que transcorreu algum tempo a partir do
momento que as cartas foram escritas nas décadas de 50 e 60, para que ocorresse
um desenvolvimento maior do pensamento.
Em contrapartida, a maioria dos conservadores ainda datam Atos do período
entre aproximadamente 62 e 64 d. C. O final abrupto do livro, com Paulo aguar-
dando o resultado de seu apelo a César em Roma, tem sugerido para muitos que
Lucas escreveu quase imediatamente depois da ocorrência desses acontccimen-
tos finais. Tendo em vista que Atos 21—28 veio narrando com muitos detalhes
a detenção de Paulo, suas várias audiências e seus encarceramentos, tudo isso em
um crescendo que é resultado de seu apelo ao imperador, é difícil entender por
que Lucas não teria registrado o resultado daquele apelo, caso tivesse escrito em
uma data suficientemente posterior para tomar conhecimento disso. O período
de dois anos de prisão domiciliar em Roma, com o que termina o livro de Atos,
provavelmente deve ser datado de 60 a 62 d.C., pois Festo ascendeu ao poder
em 59 d.C. e Paulo foi enviado de navio para Roma naquele outono. Se dermos
algum tempo para Lucas escrever seu Evangelho, então chegaremos à data suge-
rida acima. E mais, caso seja exata a tradição da igreja primitiva de que Paulo
foi de fato libertado em decorrência desse apelo (apenas para ser preso de novo
e martirizado mais tarde naquela década), com praticamente toda certeza isso
deve ter ocorrido antes de Nero começar a perseguir os cristãos em 64 d.C. (veja
abaixo, p. 113-4). Conforme analisamos em nosso volume anterior, não é preciso
interpretar que Lucas 21.20 escreva os acontecimentos da história sob o disfarce
de profecia depois do fato acontecido. Não obstante, caso Lucas 21.20 reflita uma
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALIΙΛ ‫ ן‬33

previsão real da parte de Jesus, então isso não nos ajuda, de uma maneira ou de
outra, a determinar a data da redação de Lucas.13
Ainda assim, é importante ressaltar que o debate não é exclusivamente entre
conservadores que optam por uma data antes do ano 70 e liberais que preferem
uma data depois de 70. Vários eruditos evangélicos proeminentes optam pela
data posterior, pressupondo que a intenção de Lucas foi concluir seu relato com
o evangelho chegando a Roma.1516 Esse era 0 coração do império, de onde 0 evan-
gelho poderia realmente alcançar “os confins da terra” (At 1.8), e é bem possível
que na mente de Lucas esse tenha sido um clímax apropriado, mesmo que susce-
tibilidades contemporâneas queiram saber o resultado do apelo de Paulo. A possí-
vel estrutura quiástica da obra lucana em dois volumes também poderia respaldar
esse entendimento. Tendo, bem no início do Evangelho, situado o plano divino
de salvação em Jesus no contexto da história romana, Lucas conclui Atos com o
cumprimento daquele plano em Roma. Em uma estrutura quiástica, o clímax apa-
rece na verdade no centro do documento, nesse caso, os relatos da ressurreição de
Jesus. Aí se encontra o dado teológico mais decisivo de Lucas, e há menos urgência
para que o fim da obra tenha um clímax tão acentuado. Em contrapartida, John
Robinson, o bispo inglês liberal e bem conhecido na década de 1970, datou Atos
(como fez com todos os documentos do Novo Testamento) de antes de 70 d.C.
por uma série de razões, incluindo sua convicção de que Lucas 21.20 era vago
demais para ser uma apresentação expostfado da pilhagem romana de Jerusalém.17

Público-alvo
Tanto os Evangelhos em si quanto a tradição da igreja primitiva normalmente
nos dão o mínimo de informação sobre o público-alvo a que cada um dos Evan-
gelhos e Atos eram dirigidos. No versículo inicial de ambas as suas obras, Lucas
se refere a Teófilo, um nome que significa “aquele que ama a Deus” e que alguns
têm interpretado como uma referência genérica aos cristãos. A maioria reco-
nhece, no entanto, que esse era um nome próprio no antigo mundo de língua
grega e qu z provavelmente se refere ao patrocinador de Lucas em seu projeto reda-
cional, tendo em vista o tempo e as despesas envolvidas em pesquisar e ditar a
um escriba um empreendimento tão ambicioso quanto esse. Dado o prefácio do
Evangelho (Lc 1.1-4), parece que Teófilo era um novo cristão ou então o que

15Veja ainda Blomberg,/í.‫׳‬íí« and the Gospels, p. 151.


16E.g., David J. W illiams, Acts, ed. rev. (Peabody: Hendrickson, 1990), p. 11-3 [edição em por-
tugues: Atos, tradução de Oswaldo Ramos, Novo Comentario Bíblico Contemporâneo (São Paulo:
Vida, 1996)]; Ben W itherington III, The Acts o f the Apostles: a socio-rhetorical commentary (Grand
Rapids/Cambridge/Carlislc, Reino Unido: Eerdmans/Paternoster, 1998), p. 62.
1,John A . T. Robinson, R edating the N e w Testament (Philadelphia/London, Reino Unido:
W cstm inster/SCM , 1976), p. 86-117.
34 I OS ATOS DOS APOSTOLOS

chamaríamos de “alguém que está buscando”, a quem Lucas deseja instruir ainda
mais em assuntos da fé para que pudesse crer neles com maior segurança. Mas a
igreja primitiva costumeiramente entendia que todos os Evangelhos foram escritos
em primeiro lugar para todas as pessoas das comunidades cristãs e, em seguida, deve-
riam ser rapidamente difundidos para benefício da igreja como um todo. As especula-
ções quanto à localização da igreja de Lucas têm sido Antioquia, Êfeso, Filipos,
não havendo praticamente meio algum de se chegar a uma identificação segura.
Por causa do interesse de Lucas no tema de bens materiais e ao fato de apresen-
tar em Atos diversos dos primeiros crentes relativamente ricos, também sefa z a
sugestão plausível de que ele talvez estivesse escrevendo a uma comunidade cristã um
pouco mais abastada situada em algum lugar predominantemente gentílico e defala
grega na metade oriental do império. Mas, fora isso, não podemos dizer pratica-
mente nada com segurança.18

Propósitos
Pelo menos três propósitos principais prevalecem em Atos, talvez em um grau
ainda maior do que prevaleceram no Evangelho de Lucas. 0 primeiro é claramente
histórico. Por ser o único autor de Evangelho a escrever uma continuação, é óbvio
que Lucas queria preservar um registro seletivo de acontecimentos importantes
na vida da primeira geração cristã. Apesar de um punhado de contradições apa-
rentes, que serão tratadas na seção de comentário, um grande número de nomes,
lugares, costumes, datas e outros detalhes aparece no livro de Atos, os quais
podem ser corroborados mediante consulta a fontes não cristãs, e um número
ainda maior pode ser harmoniosamente combinado com dados encontrados nas
cartas para estabelecer uma cronologia detalhada e plausível desse período de
aproximadamente trinta anos. Um exemplo clássico envolve os termos precisos
que Lucas emprega para os dirigentes políticos de várias cidades e províncias,
termos que incluem procónsul, magistrado, governador, comandante, escrivão da
cidade, tribuno, procurador ç. politarca. Alguns desses termos mudaram, até mesmo
durante o primeiro século, ainda assim em cada um dos casos Lucas usa o termo
certo na comunidade certa no período certo, algo muito improvável de aconte-
cer com alguém despreocupado em apresentar um relato histórico cuidadoso.19
Aliás, o respaldo arqueológico para os Evangelhos não é nada em com-
paração com o volume de informações disponíveis de todos os locais tratados
em Atos. Até hoje turistas viajam por toda a Itália, Grécia, Turquia e o M edi-
terrâneo oriental, visitando cidades modernas tanto quanto ruínas antigas que

lsB10m berg,/««í and the Gospels, p. 150-2.


1‘'Craig L. Blomberg, M aking sense o f the N ew Testament: three crucial questions (Grand Rapids/
Leicester, Reino Unido: Baker/IVP, 2004), p. 50-3 [edição em português: Questões cruciais do Novo
Testamento, tradução de Dcgmar Dias (Rio de Janeiro: C PAD , 2010)].
ATOS: O lí VANG ELI IO SE ESPALIΙΛ I 35

se harmonizam bem com uma serie de detalhes do segundo volume escrito por
Lucas. H á mais de cem anos o arqueólogo británico Sir William Ramsay se lan-
çou a refutar a historicidade de Atos, mas, depois de um extenso trabalho, em
particular na Turquia, ficou convencido da confiabilidade do livro e se converteu
ao cristianismo. Suas obras ainda contêm uma riqueza de informações valiosas,2‫״‬
mas têm de ser complementadas pela obra magistral de Colin Hemer The book
o f Acts in the setting o f Hellenistic history [O livro de Atos no contexto da histó-
ria helenística], que contém o mais extenso compêndio de informações histó-
ricas mediante as quais se pode avaliar a historicidade de Atos.2021 Hemer chega,
sem sombra de dúvida, a um veredito muito favorável. Também essencial para
entender de forma mais geral os antecedentes históricos de praticamente todos os
lugares, acontecimentos e costumes tratados em Atos é a coleção de cinco volu-
mes organizada por Bruce W inter e intitulada The book o f Acts in itsfirst-century
setting [O livro de Atos em seu contexto do primeiro século].22
No entanto, para os propósitos de Lucas, seus motivos teológicosforam ainda mais
fundamentais do que a história. Lucas não está narrando história secular, mas his-
tória da salvação (do alemão Heilsgeschichte) — o plano divino de redenção — ,
conforme ela se desenrola durante esse momento decisivo entre a antiga e a nova
alianças estabelecidas por Deus. Dessa forma, Deus, em especial por meio de seu
Espírito Santo, aparece como o agente básico que provoca 0 desenrolar dos aconte-
cimcntos do livro. De particular proeminência é o avanço geográfico do evangelho
à medida que novas igrejas são plantadas. Esforços evangelísticos são ressalta-
dos, bem mais do que o necessário trabalho subsequente de “acompanhamento”
dos novos convertidos.23 Conquanto a ideia tenha sido exagerada, é correto assi-
nalar que Lucas reconhece que o fim talvez não venha imediatamente. Aliás, é
possível que ele tenha sido o primeiro cristão (ou pelo menos o primeiro autor
cristão) a suspeitar que a igreja talvez continuasse existindo por tempo suficiente
para que uma história teológica corno a sua se comprovasse valiosa.24
A pesquisa recente e definitiva dos principais temas teológicos em Atos é
editada por David Peterson e I. Howard Marshall.25 Um compêndio evangélico

20Veja csp. W illiam M . Ramsay, Sí. Paul the traveller and Roman citizen, eel. rev., edição dc Mark
W ilson (London, Reino Unido/Grand Rapids: Angus Hudson/Krcgcl, 2001; edição original: 1895).
21Edição dc Conrad H . G cm pf (Tübingen: Mohr, 1989).
22Em cinco volumes (Grand Rapids/Carlisle, Reino Unido: Eerdmans/Paternoster, 1993-
1996). Cf. tb. Ben W ithcrington III, org., History, literature and society in the hook o f Acts (Cam-
bridge/N ew York: CUP, 1996).
25Veja csp. Michael Green, Evangelism in the early church, ed. rev. (Grand Rapids/Cambridge:
Eerdmans, 2004) [edição em português: Evangelização na igreja prim itiva, tradução de Plans Udo
Fuchs (São Paulo: Vida Nova, 1984)].
2iVeja esp. Daniel Marguerat, Thefirst Christian historian: writing the “Acts o f the Apostles" (Cura-
bridge/N ew York: CUP, 2002).
2‫ י‬Witness to the gospel: the theology o f Acts (Grand Rapids/Cambridge: Eerdmans, 1998).
36 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

abrangente de estudos da teologia de Atos, essa pesquisa inclui, junto com outros
textos mais gerais ou metodológicos, contribuições sobre temas tais como 0 plano
de Deus, as Escrituras e a realização dos propósitos de Deus; história da salvação
e escatologia; Deus como Salvador; a necessidade de salvação; salvação e saúde; o
papel dos apóstolos; missão e testemunho; o avanço da palavra; oposição e perse-
guição; a pregação de Pedro; a fala de Estêvão; a pregação e a defesa de Paulo; o
espírito de profecia; o novo povo de Deus; o culto da nova comunidade; o cris-
tão e a Lei de Moisés; prática missionária e teologia em construção; Israel e a
missão aos gentios; reciprocidade e ética.
Não exatamente um tema, mas ainda assim relacionado de modo essen-
ciai com o propósito teológico de Lucas, é sua aparente motivação apologética:
defender a fé contra vários tipos de crítica. Se não é apenas Teófilo que Lucas
quer que conheça com certeza a verdade do evangelho (Lc 1.4), mas todos os
crentes das comunidades que receberão seu escrito, então é bem possível que
Lucas reconheça que tradições apócrifas rivais sobre personagens e acontecí-
mentos da primeira geração cristã haviam começado a circular, se ainda não
por escrito, pelo menos de boca em boca. Ainda mais provável é que houvesse
acusações que vinham de fora, feitas tanto por judeus quanto por romanos, e que
mereciam uma resposta cristã. De várias maneiras, ambos os grupos achavam
que os cristãos estavam transgredindo suas respectivas leis. Lucas se esforça ao
longo de Atos para mostrar que esse não é o caso. Lucas talvez também esteja
defendendo a fé perante os gentios existentes dentro ou fora da igreja, os quais
começaram a se perguntar por que essa seita originariamente judaica estava se
tornando predominantemente gentílica, com a maioria dos judeus rejeitando
o cristianismo no decorrer de trinta anos depois de seu início. Dessa maneira,
Lucas mostra como o cristianismo é o desdobramento natural e necessário do
judaísmo e como são os judeus incrédulos, e não os crentes em Cristo, que se
desviaram da vontade de Deus.26
Um terceiro propósito, embora sem dúvida subordinado a interesses históricos
e teológicos, parece ser literário. Lucas escreve muitos de seus relatos de maneira
artística e bastante criativa. Quem consegue ler o relato sobre a tempestade e o
naufrágio de Paulo, no capítulo 27, sem sentir o suspense em inúmeros pontos?
Quem não consegue deixar de rir daqueles que estão orando na casa de João
Marcos, no capítulo 12, e se recusam a crer que suas orações foram atendidas
e que Pedro foi libertado da prisão, mesmo quando a criada, de nome Rode,
lhes diz que ele está do lado de fora da porta? Quem não se impressiona com
as extremas mudanças de atitude supersticiosa pelos pagãos de Listra (cap. 14)
ou da ilha de M alta (cap. 27), os quais em um instante pensam que Paulo é

26Paul W. Walaskay, "And so we came to Rome”: the political perspective o f St. Luke (Cambridge/
N ew York: CUP, 1983).
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA 37

divino e no instante seguinte acham que é um criminoso condenado? Lucas


repete os relatos que se revelam centrais para ele, narra mais extensamente falas
e episódios, dependendo da importância de cada um, usa o recurso literário de
prefiguração (e.g., com o papel de Saulo no apedrejamento de Estêvão) e, em
geral, parece se deliciar em contar com certa habilidade estética as obras que
Deus opera em seu mundo.27
Um aspecto particularmente controverso do estilo redacional de Lucas
envolve falas ou sermões atribuídos a várias pessoas. Com frequência Tucídides, o
antigo historiador grego, tem sido citado por explicar como tentou conseguir fon-
tes confiáveis ao atribuir falas a seus personagens, mas também admitiu que nem
sempre foi capaz de fazê-lo. Nesses casos, ele criou livremente palavras que acre-
ditava que presumivelmente refletiam o tipo de coisa mais provavelmente dita
em determinada ocasião (Guerra do Peloponeso 1.22.1-2). Estudiosos de Atos têm
frequentemente citado uma ou outra dessas duas abordagens mencionadas nos
comentários de Tucídides como explicação para as falas em Atos.28 Sem dúvida
alguma, as mensagens, à semelhança do ensino de Jesus nos Evangelhos, eram
com frequência abreviadas drasticamente. De acordo com a prática histórica e
literária plenamente aceitável na época, Lucas deve ter se sentido à vontade para
expressar com suas próprias palavras seu entendimento do âmago ou da essên-
cia daquilo que determinada pessoa enunciou. O fato de que, para compor seu
Evangelho, Lucas dependeu costumeiramente de relatos de testemunhas ocula-
res, de tradição oral fidedigna e de fontes escritas mais curtas torna, àprimeira
vista, provável que também tenha procedido assim no livro de Atos.
Por exemplo, o historiador romano Lívio, de modo um tanto ou quanto dife-
rente de Tucídides, declarou que sistematicamente dependeu de fontes que her-
dou, ao passo que Políbio censurou aqueles que fabricavam história. Ao mesmo
tempo, há em Atos falas ocasionais orais ou escritas em que parece improvável
que algum cristão poderia ter tido acesso a elas. Um exemplo clássico é a carta
do comandante Cláudio Lisias ao governador Félix em 23.26-30, e é possível que
Lucas até dê indicações de que nessas ocasiões está registrando informações de
modo menos literal (veja abaixo, p. 105-6). Todavia, no geral, não temos motivos
para duvidar da exatidão geral das falas de Atos.29*

2'Cf. Richard I. Pcrvo, Profit w ith delight: lhe literary genre o f the Acts o f the Apostles (Philadel-
phia: Fortress, 1987); junto com Leland Rykcn, Words o f life: a literary introduction to the N ew 'Us-
lament (Grand Rapids: Baker, 1987), p. 77-87. Veja tb. John Goldingav, “Arc they comic acts?”,
E v Q 69 (1997): 99-107.
28Stanley E. Porter, “Thucydides 1.22.1 and speeches in Acts: is there a Thucydidean view?”,
N o v T Z 2 (1990): 121-42.
29F. F. Bruce, The speeches in the Acts o f the Apostles (London, Reino Unido: Tyndale, 1943),
ainda é valioso, devendo ser suplementado csp. por Conrad Gempf, “Public speaking and publi-
shed accounts”, in: W inter; Clarke, orgs., The book o f Acts in its ancient literary setting, p. 259-303.
38 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

Gênero literário
“O antigo título Praxeis era um termo que designava uma forma literária grega
específica, um relato narrativo dos feitos heroicos de personagens históricos ou
mitológicos famosos”.30 Está claro que Lucas acredita que seus personagens são
históricos. Designações mais especializadas em estudos recentes dedicados ao
gênero de Atos destacam paralelos importantes entre o segundo volume de Lucas
e a “monografia histórica curta”, a “biografia intelectual antiga”, a “historiografia
apologética” e a “história bíblica [i.e., do Antigo Testamento]”, embora ao mesmo
tempo também se reconheça que, assim como os Evangelhos, o produto final
de Atos é uma mistura singular de gêneros.31 Como o segundo volume da obra de
Lucas escrita em duas partes, Atos gera expectativas de seu gênero se assemelhar
bastante com o dos Evangelhos. No entanto, como o foco não é mais o personagem
único e central de Jesus, mas vários líderes cristãos primitivos e a igreja incipiente
que eles dirigiram, o rótulo não precisa ser idêntico. Se a melhor descrição dos
Evangelhos é a de biografias teológicas, então talvez a melhor descrição de Atos
seja a de história teológica.32 E, conforme assinalado acima, isso não exclui o fato
de que Lucas também escreve de um jeito bem artístico e esteticamente agradável.
A semelhança do antigo historiador Éforo, Lucas organiza uma série de assuntos
históricos por áreas geográficas,* 33 ao passo que, retoricamente, Lucas mistura ele-
mentos do estilo da Septuaginta com características de oradores greco-romanos.34

Estrutura
Dos muitos e diferentes sumários propostos para Atos, quatro levam em conside-
ração aspectos significativos do texto que necessariamente influenciam qualquer
proposta sobre a estrutura do livro. Em primeiro lugar; Atos 1.8 tem sido costu-
meiramente visto como uma declaração programática do sumário do livro. Aí
Jesus profetiza que os discípulos serão suas testemunhas, começando em Jerusalém, se
espalhando para a Judeia e Samaria e, finalmente, alcançando os confins da terra. As
três etapas — nos capítulos 1—7, 8— 12 e 13—28 — correspondem aproxima-
damente a esse sumário em três partes. Não há dúvida alguma de que, do ponto
de vista temático, a progressão do pensamento de Lucas mostra o movimento
cristão incipiente se espalhando cada vez mais longe de suas origens em Israel.

·10Joseph A. Fitzmyer, The Acts o f the Apostles (N ew York/London: Doubleday, 1998), p. 47.
11Sobre essas propostas, junto com outras menos prováveis, veja o levantamento cm Todd Fenner,
“Madness in the method? The Acts o f the Apostles in current study”, CBR 2 (2004): 233-41.
'‫׳‬, Craig L. Blombcrg, “The diversity o f literary genres in the N ew Testam ent”, in: D avid A.
Black; David S. Docker)‫·׳‬, orgs., Interpreting the N e w Testament, ed. rev. (Nashville: Broadman &.
Holman, 2001), p .277-9.
33W itherington, Acts, p. 35.
34Howard C. Kee, To every nation under heaven: the Acts o f the Apostles (Harrisburg: Trinit}‫׳‬,
1997), p. 20.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA I 39

Em segundo lugar, os capítulos 1— 12 e 13— 28 correspondem de modo geral um


ao outro pelofato de que a missão cristã ainda opera de modo predominante em círculos
judaicos na primeira "metade" do volume, com Pedro como opersonagem principal, ao
passo que com Paulo, na segunda “metade", o ministério se volta predominantemente
para o mundo gentílico. O mais intrigante é que inúmeros paralelos específicos
aparecem entre os ministérios de Pedro e Paulo. Ambos pregam sermões reple-
tos de citações bíblicas cumpridas em Jesus. Ambos experimentam libertações
miraculosas da prisão. Ambos curam os doentes e ressuscitam os mortos. Ambos
forçam os limites do judaísmo ao promoverem cada vez mais um evangelho livre
da Lei. Ambos se preocupam com os pobres e organizam coletas para atender às
necessidades deles, e assim por diante. Há também paralelos entre, de um lado, o
ministério de um dos dois ou de ambos e, de outro, o ministério do próprio Jesus
conforme descrito no Evangelho de Lucas, alguns dos quais incluem detalhes
bem parecidos (veja, e.g., abaixo sobre At 9.32-43 ou 19.21).>‫נ‬
Em terceiro lugar, e ajudando a dividir o livro em segmentos mais curtos,
Lucas registra seis declarações resumidas, todas descrevendo sucintamente como a
palavra de Deus crescia e se espalhava, a igreja era abençoada e se multiplicava
numericamente e idéias parecidas. Cada uma dessas declarações aparece no final
de uma “seção” de textos razoavelmente homogêneos do ponto de vista geográ-
fico: 6.7; 9.31; 12.24; 16.5; 19.20; e 28.31.3536 Combinar as percepções de todas
essas três abordagens conduz ao seguinte sumário:

I. A missão cristã aos judeus (1.1— 12.24)


A. A igreja em Jerusalém (1.1—6.7)
B. A igreja na Judeia, Galileia e Samaria (6.8—9.31)
C. Avanços na Palestina e na Síria (9.32— 12.24)
II. A missão cristã aos gentios (12.25—28.31)
A. A primeira viagem missionária de Paulo e o Concilio Apostólico
(12.25— 16.5)
B. A segunda e a terceira viagens missionárias de Paulo (16.6—19.20)
C. As viagens finais de Paulo a Jerusalém e a Roma (19.21—28.31)

Além disso, parece que, juntos, Lucas c Atos são organizados como um longo
quiasmo. O Evangelho de Lucas começa situando o nascimento de Jesus no con-
texto da história mundial e do domínio romano. Passa a descrever o Jesus adulto

35Veja esp. Andrew C. Clark, Parallel lives: the relation o f Paul to the apostles in Lucan perspec-
tive (Carlisle, Reino Unido: Paternoster, 2001); cf. Charles H . Talbert, Reading Acts (N ew York:
Crossroad, 1997).
36Cf. Richard N . Longenecker, “Acts”, in: Frank E. Gaebelein, org., The expositor's Bible com-
mentary (Grand Rapids: Zondervan, 1981), vol. 9, p. 244-7.
40 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

exclusivamente na Galileia, desloca-o para Samaria e para a Judeia ao longo da


grande secção central da narrativa de viagem e culmina com Jesus em Jerusalém.
Entre os autores dos Evangelhos, apenas Lucas limita as aparições da ressur-
reição àquelas que ocorreram em Jerusalém e se refere rapidamente à ascensão.
Atos resume, então, as aparições da ressurreição e detalha a ascensão, antes de
descrever a igreja se espalhando por Jerusalém, Judeia e Samaria, e por todo o
mundo gentílico, uma vez que a narrativa termina com a pregação do evange-
lho por Paulo se estendendo até Roma.37 As únicas seções que, em um primeiro
momento, não parecem ter correspondência entre si são Jesus na Galileia e a
igreja no mundo gentílico, até que nos lembramos que, desde a época de Isaías,
a Galileia era conhecida como “Galileia dos gentios” (cf. Is 9.1; M t 4.15) e que
ela também tinha uma considerável população gentílica no primeiro século.38

Crítica textual
Críticos textuais do Novo Testamento costumeiramente identificam quatro gru-
pos principais de manuscritos que tendem a seguir padrões reconhecíveis e são
designados de acordo com as regiões do Império Romano em que eles predomi-
navam. Esses quatro tipos de texto são o alexandrino, o cesariense, o bizantino e
o ocidental. Conforme sugerido pelo próprio nome, o texto ocidental reflete cm
particular manuscritos associados à Itália, incluindo as mais antigas traduções do
Novo !estamento para o latim. O principal manuscrito uncial grego (do período
mais antigo cm que a escrita se fazia inteiramente com letras maiúsculas) é o
Códice Beza (com frequência abreviado simplesmente como D e datado do quinto
século). Conquanto outros trechos do Novo Testamento estejam menos alterados
no Códice Beza, 0 texto ocidental de Atos é cerca de 10% mais longo do que os outros
tipos de texto em que se baseiam nossas várias traduções em linguagem mais contempo-
rânea. E possível que as notas que os escribas originariamente fizeram na margem
de textos tenham sido inseridas na narrativa do próprio livro de Atos quando
cópias de Atos foram feitas posteriormente. O que é particularmente intrigante
quanto ao texto ocidental de Atos é que várias dessas inserções parecem fornecer
informações históricas adicionais, ainda que não reflitam o que Lucas escreveu
originalmente. Talvez a mais famosa delas apareça em 19.9 (veja abaixo, p. 96).
Contudo, uma doutrina evangélica das Escrituras depende apenas daquilo que

37E curioso que seja possível estabelecer uma correlação entre esse esboço e o de Bruce
Longcnecker (“Lukan aversion to humps and hollows: the case o f A cts 11.27— 12.25”, N T S
50 [2004]: 185-204), que considera que quatro “elos” interligados funcionam com o chave para
entender a estrutura de Lucas, gerando o esboço de 1.1— 8.3 (a igreja em Jerusalém); 8.4— 12.25
(a perseguição e a propagação do cristianismo); 13.1— 19.41 (as viagens missionárias de Paulo); c
20.1— 28.31 (a série de acontecimentos que levam Paulo de Jerusalém a Roma).
38B lo m b c rg ,/« « and the Gospels, p. 142-4; e Kenneth Wolfe, “Tire chiastic structure o f Luke-
-Acts and some implications for worship”, S W J T 2 2 (1980): 60-71.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA I 41

mais provavelmente apareceu nas cópias originais de cada livro, de maneira que
aqui não gastaremos mais tempo com essa questão textual.9‫׳‬

Fontes
Conforme já assinalado, c provável que Lucas tenha usado uma variedade de fontes
ao compilar o livro de Atos. Entre autores recentes, Fitzmyer tem o mais detalhado
conjunto de propostas.4" Com frequência se pressupõe que Antioquia era um lugar
onde teria sido possível conseguir um volume considerável de informações, por
causa de seu papel de “hase de operação” para Paulo e de ponto de encontro para
vários outros apóstolos. Quando acompanhou Paulo até Jerusalém no final de sua
terceira viagem missionária, Lucas teria uma oportunidade ainda maior de entre-
vistar testemunhas oculares do Jesus histórico e do movimento cristão primitivo,
bem como consultar quaisquer documentos menos longos que pudessem ter sido
produzidos sobre acontecimentos em que não esteve pessoalmente presente. Com
o Evangelho de Lucas, podemos desenvolver algumas hipóteses plausíveis, por-
que temos outros Evangelhos com os quais podemos compará-lo. Dessa forma, a
maioria dos estudiosos acredita que Lucas dependeu em parte de Marcos, de uma
coleção de ditos de Jesus (denominada Q__— o material em grande parte didático
que Mateus e Lucas têm em comum e que não c encontrado em Marcos) e pos-
sivelmente de uma fonte mais curta que relata uma parte ou a totalidade do mate-
rial peculiar a Lucas (L). Entretanto, sem relatos paralelos com Atos, a atividade
de crítica das fontes se revela bem mais subjetiva. A menos que ocorram algumas
descobertas novas e espetaculares no Oriente Médio ,provavelmentejamais come-
guiremos esboçar com alto grau de confiança asfontes de Atos.39*41

Cronologia42
A data mais incontestável do livro de Atos está em 18.12, quando Paulo aparece
diante de Gálio em Corinto. Com base cm uma inscrição em pedra encontrada
em Delfos, parece que Gálio foi procónsul só entre julho de 51 e julho de 52. De
acordo com Josefo, a fome de Atos 11.27-30 foi na verdade uma série de perío-
dos de escassez que durou de 44 a 46, embora o efeito disso tenha continuado
por talvez outros dois anos. O texto de Atos 12.25— 14.28 dá a entender que a

39Quanto a detalhes, veja Eldon J. Epp, The theological tendency o f Codex Bezae Cantabrigioisis
in Acts (Cambridge/New York: CUP, 1966); c W. A. Strange, The problem o f the text, o f Acts (Cam-
bridge/N ew York: CUP, 1992).
411Fitzinyer, Acts, p. 8 0 8 ‫־‬.
J1Cf. ainda Lewis R. Donclson, “Cult histories and the sources o f Acts”, Bib 68 (1987): 1-21;
Justin Taylor, “The making o f Acts: a new account”, R B 97 (1990): 5 0 4 2 4 ‫־‬.
42Para detalhes completos, cf. esp. Rainer Riesner, Paul's early period: chronology, mission strategy,
theology (Grand Rapids/Cambridge: Eerdmans, 1998). A documentação de referências selecionadas
em fontes antigas c específicas aparece nos devidos pontos em nosso comentário abaixo.
42 I OS ATOS DOS APOSTOLOS

primeira viagem missionária de Paulo aconteceu relativamente pouco depois de


Paulo e Barnabé voltarem de Jerusalém, aonde tinham ido entregar ajuda para
os pobres enfrentarem a fome.
Em Gálatas 1.18 e 2.1, Paulo descreve intervalos de três e catorze anos, res-
pectivamente, entre sua conversão e as duas primeiras viagens a Jerusalém. Parece
provável que essas viagens correspondam a Atos 9.28 e 11.30 (para uma defesa
mais detalhada, veja adiante nossa análise de Gálatas). O próximo passo é iden-
tificar as datas específicas dessas duas visitas. Mesmo que a missão de Paulo de
socorro à fome em 11.30 tenha ocorrido em uma data tão tardia quanto 47, isso
empurraria sua conversão para 30 d.C., um total de dezessete anos antes, que é o
ano mais provável da crucificação dc Cristo. Isso não parece dar tempo suficiente
para os acontecimentos de Atos 1— 8, isto é, entre a crucificação de Cristo e a
conversão de Paulo, e absolutamente não daria certo caso a morte de Cristo tenha
ocorrido em 33 d.C., a próxima escolha mais comum. Por consequência, alguns
acham que é necessário interpretar que os três e os quatorze anos de Gálatas 1.18
e 2.1 se sobrepõem, isto é, que ambos devem ser contados a partir da conversão
de Paulo, de modo que o período total de tempo entre ele se tornar cristão até
sua segunda viagem a Jerusalém foi dc apenas catorze anos. Isso permitiría que
a conversão de Paulo tivesse ocorrido até o ano 33, mas esse não parece ser o
sentido mais natural da gramática de Gálatas.
Uma solução melhor é perceber que os sistemas antigos de datação costu-
mavam empregar o “computo inclusivo”, em que se contavam tanto o primeiro
quanto o último ano de determinado período. Desse modo, os “dezessete” anos
desde a conversão de Paulo até sua visita de socorro à fome poderíam ter sido
de apenas quinze anos e pouco. Isso pode situar a conversão de Paulo logo após
o martírio de Estêvão em aproximadamente 32 d.C. e sua visita de socorro à
fome em 47. A primeira viagem de Paulo a Jerusalém teria, então, ocorrido em
35 (32 mais os três anos de G 11.18).
Robert Jewett defendeu veementemente que essa linha do tempo é inviável
e que não é possível manter a historicidade total da cronologia de Atos. Jewett
observa que Aretas IV não recebeu o controle de Damasco até 37 d.C., mas é o
rei de quem Paulo fugiu antes de sua primeira visita a Jerusalém (2Co 11.32,33),
acontecimento que estamos datando de 35 d.C.43 Em contrapartida, nem mesmo
sabemos com certeza que Aretas recebeu de fato tanta autoridade em 37. E ape-
nas uma hipótese, visto que o reinado de Caligula como imperador começou em
37 e ele frequentemente dava aos reis vassalos poderes mais amplos do que os
imperadores normalmente concediam. Por isso, parece melhor acompanhar F. F.
Bruce, que sugere que a influência de Aretas foi mais oficiosa, permitindo a data

43Robert Jewett, Dating Paul's life (London, Reino Unido: SC M , 1979), p. 30-3; editado tam-
bem com o título A chronology o f P aul’s life (Philadelphia: Fortress, 1979).
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA I 43

PONTOS FIXOS NA CRONOLOGIA DE ATOS

Ascensão e Pentecostés 30 30 Atos 1 e 2

Apedrejamento de Estêvão e conversão


de Paulo 32 ou 33

Primeira visita de Paulo


a Jerusalém c. 35 35

40

A morte de Herodes Agripa I 44 Atos 12


45
Auge da fome na Judeia 46 Atos 11.27-30
A segunda visita de Paulo a Jerusalém,
Primeira viagem missionária,
Concilio Apostólico e segunda
viagem missionária 49
50
Gálio em Corinto 51-52
Atos 18.12

Terceira viagem missionária 51-52

(três anos em Éfcso) 53-56 55

Volta a Jerusalém/detenção e
encarceramento 57-59
Sob Félix (dois anos)
Acessão de Festo 59
Dois anos cm Roma 60-62 60s Atos 24.27
44 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

mais antiga. Na realidade, nenhum trecho das Escrituras lhe dá o título oficial
de governante dc Damasco; Paulo apenas declara que fugiu de Aretas.44
Josefo data de 44 d.C . a m orte de Plerodes A gripa I, descrita em
Atos 12.19b-25. Isso faz com que os acontecimentos de Atos 12 ocorram antes
daqueles no final de Atos 11, mas isso não é problema, porque Lucas não liga os
capítulos cronologicamente. O texto grego de 12.1 diz apenas “por volta dessa
época”, e cm seu Evangelho Lucas frequentemente organiza acontecimentos
por tópicos e não em ordem cronológica. Aqui, o vínculo temático seria o tópico
comum de acontecimentos relacionados a Antioquia ao longo de 11.19-30. Uma
tradição da igreja primitiva afirma que Pedro permaneceu doze anos em Jerusalém
depois da crucificação (Atos de Pedro 5.22), o que significaria que seu encarcera-
mento, libertação milagrosa e partida da cidade, também narrados em Atos 12,
aconteceram em 42.
A primeira viagem missionária de Paulo, o Concilio Apostólico c sua
segunda viagem até sua chegada a Corinto devem todos eles ser datados dos
anos 47 a 52. Uma vez que Paulo esteve em Corinto pelo menos um ano e meio
(18.11), c que, ao que parece, a maior parte desse período foi antes de seu com-
parecimiento perante Gálio, ele provavelmente chegou à cidade já no final do
ano 50. A data mais comum para o Concilio Apostólico é, portanto, 49, mas
poderia ter sido até um ano antes. A primeira viagem missionária de Paulo, que
foi mais curta, poderia ter ocorrido em 48 ou em 49 ou nesses dois anos. A ter-
ceira viagem dc Paulo dá a impressão de rápidas visitas a cidades previamente
evangelizadas, de modo que a única parada longa foi seu período de quase três
anos em Efeso (20.31). Dessa maneira esses anos seriam provavelmente 52-55
ou possivelmente 53-56.
A próxima data bem estabelecida envolve a acessão de Festo como pro-
curador da Judeia. Com base em uma comparação de vários trechos de Eusébio
e de outros autores cristãos da época, parece que Félix governou de 52 a 59,
embora alguns contestem uma das datas ou até ambas. Se estiver correta, a cro-
nologia situaria a prisão de Paulo em Jerusalém em 57, uma vez que ele passou
dois anos na prisão durante o governo de Félix (24.27). Isso permitiría até um
ano ou mais para o restante da terceira viagem missionária de Paulo, um tempo
razoável, na qual ele revisitou cidades evangelizadas na segunda viagem missio-
nária e em seguida regressou a Jerusalém. As audiências de Paulo perante Festo
e Agripa parecem ter ocorrido logo depois da acessão de Festo, de modo que o
apelo de Paulo a César aconteceu logo em seguida. Assim, é provável que a via-
gem a Roma tenha se iniciado no outono de 59 e que os passageiros náufragos
que haviam passado o inverno na ilha de Malta tenham chegado ao seu destino

+IF.F. Bruce, Paul: apostle o f the heart setfree (Grand Rapids: Eerdmans, 1977), p. 76-82,475 [edição
cm português: Paulo, 0 apóstolo da graça, tradução de Hans Udo Fuchs (São Paulo: Shedd, 2003)J.
ATOS: O EVAN OKI ,HO SE ESPALHA I 45

na primavera de 60. Os dois anos de prisão domiciliar de Paulo em Roma (28.30)


devem, então, ter se estendido de 60 a 62.45

PERGUNTAS PARA REVISÃO


1. Quais são os aspectos singulares do livro de Atos e qual c a importan-
cia deles?

2. Quais são os argumentos a favor e contra Lucas ser o autor de Atos?

3. Quais são os argumentos a favor e contra Atos ter sido escrito antes de
70 d.C.?

4. O que podemos supor de modo plausível acerca do público-alvo de Atos?

5. Qual é o provável gênero literário de Atos c qual a importância disso?

6. Quais parecem ser os três principais propósitos de Atos, e como cada


um influi em nossa interpretação do livro?

7. Que pistas textuais nos permitem propor várias estruturas para Atos?

8. Que características singulares cercam o estudo do texto e das fontes de


Atos?

9. Quais são as datas mais incontestáveis para vários acontecimentos no


livro de Atos e como elas nos ajudam a chegar a outras datas-chave de
outros acontecimentos?

COMENTÁRIO

A missão cristã aos judeus (1.1— 12.24)

A igreja em Jerusalém (1.1 — 6.7)


Prefácio (1.1-5). O livro de Atos começa com um prefácio muito parecido
com o início do Evangelho de Lucas. Em Atos 1.1, Lucas se dirige ao mesmo

45Praticamente todas essas datas são conjecturais. Muitos estudiosos concordam com o esboço
geral, mas variam as datas menos certas cm um ano ou dois para mais ou para menos. Uma varie-
dade de modificações mais radicais também tem sido proposta de tempos em tempos, mas nenhuma
recebeu amplo apoio.
46 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

patrocinador, Teófilo, e se refere à sua obra anterior. Fazer referencia a “tudo o


que Jesus começou a fazer e ensinar” sugere que esse segundo volume reflete
o que Jesus continua fazendo e ensinando na igreja por meio do Espírito Santo.
De todos os textos do Novo Testamento, só aqui ficamos sabendo a respeito do
período de quarenta dias das aparições do Jesus ressurreto (v. 2 5 ‫)־‬. È possível perce-
ber pelo menos três motivos para a menção a esses quarenta dias. Em primeiro
lugar, eles têm um valor apologético ao demonstrar repetidas vezes que Cristo
estava verdadeiramente vivo em forma corpórea.4647Em segundo lugar, têm valor
didático ou instrutivo porque Jesus usou esse tempo para ensinar aos discípulos
como todas as passagens representativas do Antigo Testamento se cumpriram
nele (veja Lc 24.25-27). Boa parte da pregação cristã dos primordios pode ter
tido origem naquilo que os apóstolos aprenderam durante esse período. Em ter-
ceiro lugar, as aparições têm valorpreditivo, delineando o programa de Deus para
o ministério vindouro do Espírito Santo.
Os discípulos não devem começar imediatamente seu ministério, mas aguar-
dar o que João Batista havia prometido: 0 batismo do Espírito Santo. Essa expressão
é usada de muitas e diferentes maneiras nas igrejas contemporâneas, mas, para
permanecermos fiéis ao uso bíblico da terminologia, iremos reservá-la para a
experiência inicial do Espírito na vida da pessoa. Dos seis usos dessa expressão
no Novo Testamento, cinco deles (como este aqui) se referem à predição, por
João Batista, do papel do Espírito no ministério do Messias vindouro. Desse
modo, referem-se à primeira imersão dos seguidores de Jesus no poder do Espírito, e
não a qualquer “segunda bênção” subsequente, por mais significativa e real que
essa experiência possa ser para vários crentes. O único outro uso de “batismo
do Espírito” ocorre em ICoríntios 12.13, em que Paulo fala de todos na igreja
terem tido essa experiência, presumivelmente até os cristãos mais imaturos. Isso
torna a sugerir que a expressão se refere ao momento de conversão da pessoa.4'

Ascensão (1.6-11). A segunda seção introdutória de Atos narra a ascensão de Cristo


(v. 6-11). Os discípulos parecem ainda estar esperando que seu Messias reine sobre
um reino terrestre de Israel (v. 6). Jesus não nega que um dia poderá atuar nesse
papel, mas esse tempo não é agora. Em vez disso, quando o Espírito vier sobre
os discípulos, eles terão de cumprir a Grande Comissão (v. 7,8; cf. M t 28.18-20).
Essa passagem fornece uma advertência essencial contra todas as supostas pro-
fecias que, em qualquer época, afirmem conhecer a hora da volta de Cristo. Os

46A expressão traduzida como “provas convincentes” era na verdade um termo técnico da his-
toriografia grega. Veja David L. Mealand, “l h e phrase ‘many proofs’ in Acts 1,3 and in Hellenistic
writers”, Z N W 80 (1989): 134-5.
47Veja csp. James D . G. Dunn, Baptism in lhe Holy Spirit (London, Reino Unido/Philadelphia:
SGM/Westminster, 1970).
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA I 47

termos “tempos ou datas” representam duas das palavras mais genéricas em lín-
gua grega (chronos e kairos) para designar períodos e não nos permitem afirmar
conhecer nem mesmo a geração em que Jesus voltará. O versículo 8 constitui um
minissumário do restante do livro e do avanço do Evangelho que Lucas regis-
trará. Tem inspirado cristãos ao longo das eras a começar o evangelismo em casa
e, em seguida, ir expandindo a evangelização em círculos cada vez mais amplos.4s
Nos versículos 9 a 11, Jesus é levado para o céu. Isso não prova que o céu
seja um lugar lá em cima, mas, em vez disso, indica aos discípulos que as apart-
ções da ressurreição acabaram. Conforme explicado pelos anjos, a ascensão também
indica a maneira pela qual Jesus voltará um dia: de modo público e visível, sobre
as nuvens do céu (cf. M t 24.24-27; M c 14.62). Para o próprio Jesus, a ascensão
implica a conclusão de sua obra de salvação, pois agora ele retorna ao Pai celestial.4
849

Aguardando 0 Espirito Santo (1.12-26). O restante do capítulo 1 descreve os dis-


cípulos aguardando a vinda do Espírito. Os versículos 12 a 14 os mostram obe-
decendo ao versículo 4 c destacam a unidade deles.50 O versículo 15 informa seu
número; é curioso que no judaísmo 120 pessoas constituíam uma comunidade
legítima e distinta.51 Continuando a orar em vez de agir de modo precipitado,
Pedro lidera a reunião que escolhe um substituto para Judas. Os versículos 18 e 19
explicam como Judas tirou a própria vida. Parece que Mateus 27.3-10 apresenta
um relato bem diferente de sua morte, mas é possível harmonizar os dois textos.
A corda na árvore em que ele se enforcou poderia ter se rompido e o cadáver
caído sobre uma rocha, ao passo que pode se considerar que a aquisição da pro-
priedade pelos sacerdotes foi uma compra feita por Judas por intermédio deles.52
Mais importante ainda, Pedro entende que dois salmos importantes atri-
buidos a Davi, em que ele luta contra um arqui-inimigo (69.25; 109.8), também
precisam ser tipológicamente cumpridos no primeiro século (v. 16,17,20). Dessa
maneira, o grupo precisa escolher um sucessor de Judas. Embora essa passagem
tenha se tornado um texto usado de forma descontextualizada para a doutrina
da sucessão apostólica na igreja primitiva, em nenhuma outra passagem a Bíblia
chega a descrever um dos Doze sendo substituído. Específicamente, quando Tiago,
o irmão de João, é martirizado (At 12.2), Lucas não dá indicação alguma de que
se procurou alguém para preencher sua função. Ao que tudo indica é importante

48E. Earle Ellis, “ The end o f the earth’(Acts 1:8)”, B B R 1 (1991): 123-32.
49Cf. ainda John F. M aile, “The ascension in Luke-Acts”, T y n B u l37 (1986): 29-59.
50Aliás, uma palavra característica ao longo dos primeiros capítulos de A tos é homothumadon
(“unánimemente”— KJV). Veja 1.14; 2.46; 4.24; 5.12; 7.57; 8.6 etc.
51OT. Sanhedrin 1:6.
S21. Howard Marshall, lh e Acts o f the Apostles (Leicester, Reino Unido/G rand Rapids: IV P /
Ecrdmans, 1980), p. 65 [edição em português: Atos: introdução e comentário, tradução de Gordon
Chown, Série Cultura Bíblica (São Paulo: Vida Nova, 1982)].
48 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

para a liderança da igreja incipiente ter doze apóstolos logo no início, para simbolizar
a igreja como o verdadeiro Israel, mas não ao longo de sua historia. No início, cm sua
fase totalmente judaica, a igreja se tornou o novo ou verdadeiro Israel.5‫’־‬
Os critérios para a escolha do substituto também são reveladores (v. 21,22).
O novo apóstolo precisava ter sido parte do grupo maior de seguidores de Jesus,
dos dias do ministério de João Batista em diante, e uma testemunha da ressur‫־‬
reição. Está claro que, de acordo com essa definição de apóstolo, esse ofício só
podcria ter existido no primeiro século. Em contrapartida, Paulo usará a palavra
cm suas listas de dons espirituais como uma das maneiras pela qual Deus equipa
seu povo em todas as épocas (veja abaixo, p. 261). A maneira de escolher entre os
dois principais candidatos é ainda mais fascinante (v. 23-26). Como acontece frc-
quentemente na época do Antigo Testamento, os discípulos lançam sortes, algo
parecido com quando jogamos dados. Acaso isso significa que os crentes de hoje
devem usar esse método para determinar a vontade de Deus? É provável que não.
O método nunca volta a ser usado no Novo Testamento, e “a vinda do Espírito
logo deu à igreja um guia mais seguro para descobrir a vontade de Deus”.*54 Ao
mesmo tempo, nada na narrativa de Lucas sugere que os discípulos empregaram
uma abordagem errada nessa ocasião. Embora às vezes se defenda que nunca
mais ouvimos falar de Matías e que Paulo foi o “autêntico duodécimo” apóstolo
de Deus, isso ignora o fato de que, além de Pedro e João, nunca mais ouvimos
falar de quaisquer dos outros apóstolos no livro de Atos.55

Pentecostés (2.1-41). Atos 2 nos introduz a um acontecimento de grande impor-


tância, cujo significado dificilmente pode ser superestimado. 0 Pentecostés completa
a sequência de acontecimentos que iniciou com a morte de Cristo, incluiu sua ressur-
reição e ascensão e agora oferece a oportunidade para Deus conceder seu Espírito sobre
todo 0 seu povo. No Antigo Testamento, o Espírito Santo vinha temporariamente
sobre certos israelitas para a operação de atos especiais de poder e serviço; agora
ele viverá de modo permanente dentro de todos os crentes. A ocasião é uma
festa de colheitas comemorada cinquenta dias depois da Páscoa (Lv 23.15-22).
Já durante o período entre os Testamentos, os judeus haviam decidido que essa
festa assinalava o momento da entrega da Lei no monte Sinai {Jubileus 1.1). Era,
portanto, apropriado que, assim como a primeira aliança foi estabelecida com
sinais e maravilhas, a nova aliança fosse anunciada com acontecimentos espeta-
culares. Além disso, embora Deus tenha confundido as línguas dos habitantes
da terra na Torre de Babel (Gn 11), aqui ele começa a desfazer aquela confusão.

55Para um estudo pormenorizado, cf. Aric Zvvicp ,Judas and the choice o f M atthias: a study in
context and concern o f Acts 1:15-26 (Tubingen: Mohr Siebeek, 2004).
54W illiams, Acts, p. 35.
55W illiam J. Larkin Jr.,A d s (Leicester, Reino Unido/Downers Grove: IVP, 1995), p. 47.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA 49

VERMELHO
50 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

Não está claro o que aconteceu literalmente quando o Espírito desceu sobre
os discípulos (v. 1-4). Lucas usa símiles para explicar que veio um som “parecido”
com um vento impetuoso (a mesma palavra usada para espirito em hebraico e
grego) e línguas “como” de fogo (o sinal do juízo divino no Antigo Testamento).
De modo miraculoso, todos os visitantes judeus vindos de outras partes do impé-
rio e em cujas nações falavam-se idiomas próprios que teriam sido diferentes do
grego podiam agora ouvir os apóstolos falarem naqueles idiomas (v. 5-12).54*56*Difi-
cilmente esse milagre era necessário para possibilitar a comunicação, pois todas as
pessoas conheciam grego o suficiente para falar umas com as outras e, acima de
tudo, entender as festividades. Além disso, Pedro subsequentemente se dirige à
multidão, explicando o fenômeno que acabaram de presenciar, e naquele momento
ele também fala em grego. Em vez disso, o milagre oferece uma confirmação
espetacular da origem e verdade divinas da mensagem dos discípulos. Também
aqui Lucas introduz a expressão “ser cheio do Espírito”, que para ele é diferente
do batismo do Espírito. Conquanto alguém seja batizado só uma vez por ocasião da
conversão, elepode ser enchido repetidas vezes, isto é, capacitado para dar testemunho
ousado oupara outro serviço a Deus (e.g., Lc 1.15,41,67; At 2.4; 4.8,31; 9.17;13.9).7‫ל‬
O primeiro sermão de Pedro (v. 14-41) passa a interpretar esse primeiro
exemplo de falar em línguas à luz da profecia de Joel 2.28-32. M as o que
no Antigo Testamento veio apenas “depois disso” (J1 2.28) está agora ocorrendo
explícitamente “nos últimos dias” (At 2.17). O Novo Testamento afirma siste-
maticamente que os últimos dias, ou fim dos tempos, começaram com a primeira
vinda de Cristo. Por sua vez, o derramamento do Espírito de Deus leva-0 a con-
ceder dons ao seu povo (v. 17,18). Os sinais cósmicos preditos por Joel (v. 19,20)
podem ser interpretados um tanto ou quanto figuradamente e entendidos como
cumpridos na crucificação (veja o eclipse do sol em Lc 23.45) ou compreendí-
dos como algo que ainda não aconteceu.58 De qualquer maneira, Lucas quer citar
Joel até a promessa final de que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será
salvo” (v. 21). Aqui aparece a primeira indicação em Atos de que os discípulos
entendem que por fim o evangelho também irá aos gentios. Os versículos 22 a 36
constituem o âmago da mensagem de Pedro nessa ocasião e seguem a seguinte
lógica. Se os últimos dias chegaram, então o Messias necessariamente apareceu.
Ele esteve aqui; era Jesus (v. 22-24). As evidências são, então, reunidas a partir das

54“As regiões específicas relacionadas em 2.9-11 formam uma moldura em torno da Judeia e de
Jerusalém, sugerindo uma ampla amostra de povos dos quatro cantos da terra” (F. Scott Spencer,
Journeying through Acts: a literary-cultural reading, cd. rev. [Peabody: Hendrickson, 2004], p. 44
Lcom tabcla]).
” Sobre esses e outros ministérios do Espírito cm Lucas c A tos, veja os varios textos dc Max
Turner, esp. Power fro m on high: the Spirit in Israel’s restoration and witness in Luke-Acts (Sheffield,
Reino Unido: SAP, 1996).
5‫־‬F. F. Bruce, The book o f the Acts, ed. rev. (Grand Rapids: Eerdmans, 1988), p. 6 1 2 ‫־‬.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬51

Escrituras hebraicas. A passagem de Salmos 16.8-11 (v. 25-28) parece sugerir que
Davi estava falando de si mesmo, mas é claro que ele não era imortal. Sabendo
que Deus havia prometido estabelecer seus descendentes no trono judaico para
sempre (2Sm 7.12-16), Davi profetizou sobre o Messias vindouro, crendo que,
em última instância, a morte não conseguiría detê-lo (veja esp. o v. 31).9‫ י‬Quanto
a Salmos 110.1 (v. 34,35), o próprio Jesus já havia interpretado esse texto como
referência a seu papel messiânico (Mc 12.35-37 e parais.). Desse modo, a con-
clusão de Pedro é inexorável: Deus de fato ressuscitou Jesus, elevando-o à mesma
posição exaltada no céu que ele havia ocupado anteriormente, dessa maneira jus-
tificando o título de “Senhor” assim como o dc “Cristo” (Messias) (v. 36).*60
A reação ao sermão de Pedro se mostra formidável, levando-o a fazer o que
pode ser considerado o primeiro “apelo” na história da pregação cristã (v. 37-41).
Pedro especifica duas coisas que seus ouvintes precisamfazer (arrepender-se e ser batí-
zados) efaz duas promessas acerca do que receberão (perdão e 0 dom do Espírito Santo).
Podemosfalar desses quatro elementos como 0 pacote pentecostal porque são conside-
rados como uma unidade, aqui e na maior parte do Novo Testamento. Haverá três
aparentes exceções no livro de Atos, as quais trataremos quando chegarmos a
elas. Nesse ínterim, precisamos definir nossos termos. O arrependimento, con-
forme acontece sistematicamente nas Escrituras, não significa apenas tristeza
pelo pecado, mas uma perceptível mudança de comportamento. O batismo na
água, que era bem conhecido dos judeus por praticarem o batismo de convertí-
dos ao judaísmo e não apenas por causa do ministério de João Batista, era um
sinal exterior e um testemunho da mudança interior que Deus havia começado
na pessoa.61 O fato de que esse batismo devia ser ministrado em nome de Jesus
Cristo não contradiz a Grande Comissão, em que aparece uma fórmula trinitá-
ria (M t 28.19). Pelo contrário, mostra que nessa época tão remota da história da
igreja não havia nenhuma fórmula fixa para as palavras que deviam ser recitadas
por ocasião do batismo dc alguém.
À primeira vista, podería parecer que Pedro está exigindo o batismo na
água para o perdão dos pecados, mas isso entraria em contradição com inúme-
ros textos que falam da salvação exclusivamente pela graça de Deus. Mesmo no
capítulo 3, em seu próximo sermão, Pedro fala de arrependimento sem exigir o
batismo (v. 19). E provável que o versículo 38 constitua um quiasmo (A. B. B. A.),

‘5',Para um levantamento de abordagens do uso petrino do salmo 16 e para uma defesa da idéia
de que ele entendia que o salmo era uma profecia direta sobre a vinda do Messias, veja Gregory V.
Trull, “Views on Peters use o f Psalm 16:8-11 in Acts 2 :2 5 3 2 ‫”־‬, BSac 161 (2004): 194-214,432-48.
',0“Não foi que Jesus sc tornou alguém diferente de quem era antes, mas que entrou em uma
nova etapa em sua vida, ou assumiu novos papéis depois da ascensão” (Witherington,Z?r/r, p. 149).
Para uma avaliação equilibrada de Jesus como Senhor em Atos e na mensagem do evangelho, veja
Darrell L. Bock, “Jesus as Lord in Acts and in the gospel message”, BSac 143 (1986): 146-54.
61Um a corroboração notável disso vem do testemunho de Joscío, Antiguidades 18.5.2.
52 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

em que o arrependimento está ligado ao perdão, e o batismo, ao nome de Jesus.62


Diferentemente das listas paulinas de carismas [dons] (ensino, profecia, contri-
buição etc.), “o dom do Espírito Santo” não se refere a um dom espiritual espe-
cífico. Em vez disso, emprega um genitivo apositivo: o dom “que é” o próprio
Espírito. Assim como no versículo 22, Pedro volta a enfatizar que essa promessa
é para todos (“para vocês e seus filhos” [v. 39]), tanto para a atual geração judaica
quanto para seus descendentes, bem como para “todos os que estão longe”, pre-
sumivelmente deixando implícito gentios, bem como judeus.

Compartilhamento comunitário (2.42-47). O parágrafo final de Atos 2 descreve


a organização inicial daqueles que responderam positivamente ao convite de
Pedro e se uniram aos 120 (v. 42-47). O versículo 42 c geralmente citado como
a descrição mais antiga de quatro elementos centrais do culto cristão, que devem
caracterizar a igreja à medida que ela se reúne em qualquer tempo e lugar:pregação
ou ensino da palavra de Deus, comunhão, ceia do Senhor (comunhão ou eucaristia)
e oração. A comunhão é, então, detalhada nos versículos 43 a 47 como algo que
vai muito além de simples conversa trivial durante uma refeição! Pelo contrário,
envolve compartilhamento comunitário, em particular dos bens materiais.63 Os
tempos imperfeitos ao longo desses versículos sugerem um processo de compar-
tilhamento, e não de uma renúncia absoluta e definitiva aos bens pessoais. Esse
não é o sistema moderno do comunismo contemporâneo, que é ateu e coercitivo.
Por amor a Deus e amor uns pelos outros os discípulos reuniram seus recursos de
modo inteiramente voluntário. Ao mesmo tempo, o versículo 45 fornece, sim, o
fundamento para a primeira metade do famoso manifesto de Marx: “a cada qual
segundo as suas necessidades”. A outra metade também aparecerá em Atos —
cm 11.29 (veja abaixo, p. 75).
O povo de Deus deve compartilhar com os pobres e necessitados que há em
seu meio! Esse parágrafo não permite a interpretação de que essas práticas foram
um erro (baseada na ideia de que a pobreza posterior da igreja podería ter sido
evitada, caso ela não tivesse dado seu dinheiro para essa causa). Como narrador,
Lucas deixa claro que Deus aprova esse esquema ao concluir a passagem destacando
que Deus “aumentava diariamente o número daqueles que iam sendo salvos”.64

',2A mudança da forma plural “arrependam-se” para a forma singular “seja batizado” respalda a
ideia de que os dois verbos estão sendo tratados dc modo diferente. Cf. Luther McIntyre, “Baptism
and forgiveness in Acts 2:38”, BSac 153 (1996): 53-62.
63Quanto aos arranjos parcialmente paralelos em Qumran, veja Brian Capper, “The Palesti-
nian cultural context o f the earliest Christian community o f goods”, in: Richard Bauckham, org.,
The book o f Acts in its Palestinian selling (Grand Rapids/Carlisle, Reino Unido: Eerdmans/Pater-
noster, 1995), p. 323-56.
64Sobre todo esse parágrafo, veja ainda Craig L. Blomberg, Neither poverty nor riches: a bibli-
cat theology o f possessions (Leicester, Reino Unido/Dovvners Grove: Apollos/IVP, 1999), p. 161-3
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬S3

PERGUNTAS PARA REVISÃO


1. Qual é o significado das narrativas da ressurreição c da ascensão?

2. Quais aspectos de Atos 1.12-26 são normativos e quais são específicos


para a circunstância particular, e como podemos distinguir entre eles?

3. O que devemos inferir do fenômeno de línguas no Pentecostés e o que


não devemos inferir?

4. Identifique a lógica do sermão pentecostal de Pedro e explique o “paco-


te” pentecostal de 2.38. O que está envolvido em cada elemento desse
pacote?

5. Quais elementos de Atos 2.42-47 são normativos e quais são específicos


para a circunstancia particular, e como podemos distinguir entre eles?

Urna cura no templo e suas consequências (3.1—4.31). A passagem de Atos 3.1—■4.31


descreve a primeira cura realizada pela igreja incipiente junto com seus desdo-
bramentos. O relato do milagre em si ocorre cm 3.1-11. Assim como no Pen-
tecostes, um acontecimento notável conquista ouvintes abertos ao evangelho.
Tal como aconteceu quando Jesus enviou os Doze para reproduzir seu ministé-
rio (M t 10 e parais.), os apóstolos são capacitados a reproduzir seus milagres de
cura. Mas precisam fazê-lo “em seu nome”, em vez de ordenar dirctamente, como
ele podia fazer. O versículo 6 demonstra a prioridade da cura espiritual sobre a
física. Ao mesmo tempo, a restauração física da saúde do homem lhe permite
voltar a trabalhar e suprir suas necessidades materiais de uma maneira melhor
do que a mendicância permitia.65 E, conforme vimos em 2.42-47, a preocupação
com a condição financeira de alguém constitui um componente essencial das pri-
meiras providências comunitárias cristãs.
O segundo sermão de Pedro é descrito em 3.12-26. A estrutura acompa-
nha de perto a mensagem apresentada no Pentecostés e estabelece um padrão
para a pregação cristã ao longo desse livro: foco em Jesus; o papel dos líderes
judeus em sua crucificação; a ressurreição c exaltação; chamado ao arrependi-
mento; e respaldo do Antigo Testamento para mostrar que tudo isso é o cum-
primento de profecias. Uma diferença essencial em relação ao sermão anterior

[edição em português: N em pobreza, nem riqueza: as posses segundo a teologia bíblica, tradução de
Aline Marques Kaehlcr (Curitiba: Esperança, 2009) |.
65Marshall, Acts o f the Apostles, p. 88. Cf"., com detalhes, M cG loryT. Spcckman,“I lealing and
wholeness in L uke-A cts as a foundation for econom ic development: a particular reference to
ολοκληρία in Acts 3:16‫״‬, Neoi 36 (2002): 97-109.
54 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

de Pedro envolve títulos cristológicos diversos que não são encontrados frequcn-
temente fora dos primeiros capítulos de Atos. Dessa maneira, no versículo 13,
Jesus é o Servo Sofredor de Isaías 52—53; no versículo 14, ele é o Santo eJusto.
De modo parecido, Pedro se refere a ele como o Autor da vida (v. 15), ao passo
que no versículo 22 ele é, em cumprimento de Deuteronômio 18.15-18, o pro-
feta semelhante a Moisés. Richard Longenecker analisa todos esses títulos em
uma obra sobre a cristologia do cristianismo judaico primitivo, mostrando que
essas referências peculiares respaldam que aqui Lucas usa tradições antigas
e confiáveis.66
O segundo sermão de Pedro também oferece outras indicações de que ele
chegou a entender a ordem aos discípulos para irem a todo o mundo, mesmo
que ainda não tenha saído de Jerusalém. O versículo 21 exige um intervalo de
tempo para a volta de Cristo, para permitir que a missão aos gentios avance.
Esse período também refuta a ideia de que, caso os judeus tivessem, de coração,
respondido positiva e uniformemente ao evangelho, Jesus teria voltado imedia-
tamente. Conforme os versículos 19 e 20 por si mesmos já deram a entender a
alguns, a Grande Comissão foi parte do plano de Deus desde o início, não ape-
nas um “plano B” depois que a liderança judaica rejeitou Jesus. Desde que Deus
chamou Abraão e o abençoou para que pudesse abençoar as nações, a intenção de
Deus foi que, da semente de Abraão (e espec. do Messias), a palavra alcançasse
todos os povos (v. 25).67
Não é de surpreender que essa mesma liderança, que apenas alguns meses
antes havia crucificado Jesus, não fosse perm itir que essa pregação ousada
prosseguisse debaixo de seu nariz por muito tempo. O capítulo 4 narra, por-
tanto, o primeiro conflito pós-ressurreição entre os discípulos c 0 Sinédrio. A
oposição vem basicamente dos saduceus, refletida na liderança do sumo sacer-
dote e de sua família (v. 5,6). Recordamos, com base nos Evangelhos, que cer-
tos fariseus de destaque haviam de fato se posicionado do lado de Jesus (e.g.,
Nicodemos, José de Arimateia), e logo ficaremos sabendo de outro (Gamaliel).

66Richard N . Longenecker, The Christology o f early Jewish C hristianity (Naperville/London,


Reino Unido: A llenson/SC M , 1970). Em uma abordagem mais geral, Larry Hurtado (Lord Jesus
Christ [Grand Rapids: Eerdmans, 2003] [edição em português: SenhorJesus Cristo: devoção a Jesus no
cristianismo prim itivo, tradução de Elicl Vieira (São Paulo/Santo Andró: Paulus/Academia Cristã,
2012)]) demonstra como urna cristologia elevada surgiu cm uma data surprccndcntcmente remota
por toda a igreja primitiva (contrariamente àqueles que defendem que foi um lento desenvolví-
mento evolutivo). Sobre esses capítulos introdutórios de A tos, veja tb. Rainer Riesner, “Christo-
logy in the early Jerusalem community”, Mishkan 24.1 (1996): 6-17.
67“Pedro adm ite que, em sua misericórdia, D eu s perdoará esses judeus por aquilo que o
Messias por ele enviado sofreu e, especialmente, que D eus lhes concederá tempos de refrigério,
isto é, um tempo quando serão capazes de se arrepender c se converter antes do fim” (Fitzmyer,
Acts, p. 288).
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA I 55

Aliás, ao longo de todo o livro dc Atos, sempre que os cristãos são levados
perante as autoridades judaicas, suas crenças são descritas como causadoras
de um debate interno no judaísmo. Os fariseus criam na ressurreição vin-
doura de todas as pessoas (Dn 12.2), ao passo que os saduceus não criam nisso
(eles derivavam uma doutrina perscritiva somente com base nos cinco livros de
Moisés). Assim, ao longo desse livro, a crença distintiva do cristianismo primi-
tivo é regularmente retratada como centrada na ressurreição de Jesus (sobre isso
veja v. 2).
O interrogatório dos discípulos dá a Pedro uma terceira oportunidade de
pregar publicamente, nesse caso à liderança judaica (v. 8-12). E curioso que
Lucas já tenha descrito como o número de crentes em Jerusalém cresceu de
três mil após o Pentecostés para mais de cinco mil (v. 4). Alguns têm usado
essa estatística como respaldo bíblico para medir 0 crescimento da igreja pelo
número de convertidos, 0 que pode ou não ser uma boa ideia em qualquer con-
texto específico. Não obstante, com relação ao Novo Testamento, vale a pena
destacar que em nenhuma outra passagem esses dados são registrados. Se há
um modelo a ser imitado aqui, é simplesmente a pregação ousada que, diante
da perseguição e do possível martírio, Pedro e João fazem, à medida que eles
transformam cada oportunidade de falar em uma oportunidade de direcionar
as pessoas a Jesus.
O resumo lucano abreviado dessa mensagem chega ao clímax com a afir-
mação bem exclusiva no versículo 12: a salvação não é encontrada em nenhum
outro nome. Por toda a Bíblia a palavra “nome” se refere, com frequência, a mais
do que apenas à maneira dc uma pessoa ser chamada e inclui o poder ou auto-
ridade dessa pessoa. Esse versículo não resolve, portanto, o debate sobre o que
acontece com aqueles que nunca ouviram falar de Jesus, mas insiste sim que todos
os que são salvos em qualquer época recebem a salvação por causa da obra de
Cristo na cruz. É óbvio que o povo de Deus no tempo do Antigo Testamento
não tinha ouvido falar literalmente do nome Jesus, e os sacrifícios de animais não
faziam expiação completa de seus pecados (veja o livro de Hebreus), mas aquele
povo acertou seu relacionamento com Deus à medida que ele anteviu a expiação
completa que a crucificação de Cristo realizaria/’6*8
A fé e a ousadia dos discípulos em proclamar o evangelho impressiona os
líderes judeus, em particular porque reconhecem que essas são pessoas sem edu-
cação formal alguma além do ensino básico compulsório que meninos judeus
recebiam (v. 13). Para alguns estudiosos as duas palavras gregas usadas nesse
versículo (agrammatos e idiõtcs) têm dado a entender que os discípulos eram de

6”Sobre as várias e principais abordagens ortodoxas ao longo da história da igreja quanto à


questão daqueles que nunca ouviram o evangelho, veja John Sanders, No other name: an investiga-
tion into the destiny o f the unevangelized (Grand Rapids: Eerdmans, 1992).
56 I OS ATOS DOS APOSTOLOS

fato analfabetos, mas na verdade o que elas querem dizer nesse contexto é que
os seguidores de Jesus não estudaram formalmente com um rabino após a idade
de doze ou treze anos, quando no demais a formação deles cessava.69 A instrução
teológica formal, tanto naquela época quanto hoje, pode melhorar a competência
de alguém no ministério, mas dificilmente é necessária para Deus operar pode-
rosamente por meio de quem quer que seja!
Igualmente significativa na reação do Sinédrio ao testemunho ousado dos
discípulos é sua incapacidade de reunir contra-argumentos eficazes. Em vez
disso, o conselho simplesmente proíbe que esses pregadores continuem a pro-
clamar sua mensagem (v. 14-17). Por sua vez, Pedro e João fornecem um dos
paradigmas clássicos de desobediência civil na Bíblia (v. 19,20). Sempre que leis
humanas conflitam com as leis de Deus, 0 povo de Deus precisa estar preparado para
transgredir as leis do pais.70 Nesse caso, as autoridades não conseguem decidir
como devem agir, então soltam os discípulos (v. 21,22). È notável que a soltura
leva o pequeno grupo de seguidores de Jesus a louvar a Deus e a orar para que
a ousadia no testemunho continue a caracterizar o seu ministério (v. 23-31).71
Citando em particular Salmos 2.1,2 (v. 25,26), continuam entendendo que as
Escrituras se cumprem tanto na oposição contra eles quanto na incapacidade de
aquela oposição prevalecer.

Mais vida em comum — boa e ruim (4.32—5.11). Em 4.32—5.11, Lucas retorna


ao modelo de compartilhamento comunitário.72 Os versículos 32 a 35 fornecem
a segunda declaração resumida da atividade da igreja. Os versículos 32 e 34 mos-
tram que os bens pessoais eram mantidos, mas vendidos quando necessário. O
versículo 33 demonstra que a preocupação social ou socioeconómica não subs-
tituiu a pregação do evangelho; em vez disso, tornou-a possível ou, pelo menos,
mais eficaz. Em seguida, Lucas apresenta um exemplo positivo de alguém que
vendeu um campo e doou os ganhos para a “caixinha” (v. 36,37). Seu nome é

6,Witherington, Acts, p. 195. Em outras passagens do Novo Testamento idiõlês significa “leigo”.
Agram m atos, palavra não encontrada em nenhuma outra passagem das Escrituras, podia, cm
grego antigo, referir-se àqueles que sabem ler ou escrever, mas sem proficiência ou que sabem ler
ou escrever em uma língua, mas não cm outra. Veja Thomas J. Kraus, “‘Uneducated,’ ‘ignorant,’ or
even ‘illiterate’? Aspects and background for an understanding o f α γρ ά μ μ α τοι (and ίδιώ ται) in
Acts 4.13", N T S 45 (1999): 434,441-2.
7‫״‬Ajith Fernando (Acts [Grand Rapids: Zondervan, 1998], p. 221) fornece uma boa lista de
criterios de como é possível pôr cm prática a desobediência civil da maneira mais ponderada pos-
sívcl e apenas como último recurso.
71A o longo de A tos, “libertação da prisão” é “também uma libertação para proclamação” (John
B. Weaver, Plots o f epiphany: prison-escape in Acts o f the Apostles [B crlin/N ew York: de Gruyter,
2004], p. 286).
77Sobre isso, veja csp. Richard J. Cassidy, Society and politics in the Acts o f the Apostles (Maryknoll:
Orbis, 1987).
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA 57

José Barnabé; o segundo nome era na verdade seu apelido, que significa “filho
do incentivo”.73 Posteriormente ele se tornará mais conhecido por ser um grande
incentivo para o apóstolo Paulo, mas é revelador que seja por causa de sua gene-
rosidade financeira que é inicialmente descrito com esse apelido.
Em contraste com o comportamento exemplar de Barnabé, Ananias e Safira
fornecem um exemplo negativo (5.1-11). Depois de fingir dar todos os ganhos
com a venda de uma propriedade quando, na verdade, estavam retendo parte
do valor recebido, Deus faz com que esse casal caia morto. A questão exegética
mais premente em torno dessa passagem é obviamente por que Deus agiu de
forma tão drástica quando, ao longo da história, ele normalmente deixa, pelo
menos nesta vida, de punir pecados bem mais sérios. E possível apresentar
pelo menos nove respostas a essa pergunta.
( 1 ) 0 verbo “reteve” (v. 2, da raiz grega nosphizõ) carrega o forte sentido de
“ludibriou” e ocorre apenas outra vez em toda a Bíblia em grego, na história do
pecado de Acã em Josué 7.1. Em ambos os casos, Deus estava estabelecendo um
povo da aliança, e, para assegurar que a comunidade sobrevivesse, pode ter sido
necessária uma disciplina mais rígida logo no início. (2) Tanto Ananias quanto
Safira cometeram conscientemente seus pecados como atos premeditados. É
revelador que Safira não pôde alegar que estava simplesmente se submetendo
ou obedecendo ao marido!74 (3) Alguns, com base na fraseologia do versículo 3,
têm defendido que esse casal era possuído por demônios. Mas é provável que a
frase “Satanás encheu de tal forma seu coração” seja uma expressão idiomática
semítica com o sentido de “Satanás levou você a se atrever”.75 Ainda assim, a
fraseologia é forte e sugere um pecado extremamente grave. (4) A mentira não
foi apenas para a igreja, mas para o Espírito Santo, que é diretamente identifi-
cado com Deus (v. 3,4), portanto, parece provável algum tipo de batalha espi-
ritual entre Deus e Satanás. (5) O pecado não foi o casal se recusar a dar todo
o dinheiro que ganhou, mas afirmar que estava dando todo ele. (6) Aliás, nada
obrigava esse casal a dar qualquer quantia de seu dinheiro, pois o processo era
inteiramente voluntário.

'3Talvez do hebraico bar nabi — “filho de profeta”— , aqui tendo-sc cm vista o ministério pro-
fético de exortação ou encorajamento.
74Conforme explicação de Ivoni Richter Reimer ( Women in the Acts o f the Apostles [Minneapolis:
Fortress, 1995], p. 24 [edição em português: Vida de mulheres na sociedade e na igreja: uma exegese
fem inista de Atos dos Apóstolos (São Paulo: Paulinas, 1995)]), “o marido comete o ato; a esposa sabe
disso, mas não faz nada para sc opor a essa ação corrupta e corruptora”. Dessa maneira, “ela se torna
igualmente culpada c, em última instância, também sc coloca em perigo”.
7'Bruce M . M etzger, A textual commentary on the Greek N e w Testament, cd. rev. (N ew York/
London: United Bible Societies, 1994), p. 285 [edição cm português: Variantes textuais do Novo
Testamento grego, ampliação, atualização e simplificação por Roger Omanson (Barueri: Sociedade
Bíblica do Brasil, 2017)].
58 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

(7) Talvez seja até forte demais dizer que Deus causou sobrenaturalmente a
morte deles, embora, é claro, isso seja possível. Mas com frequência tem se suge-
rido que ficaram tão chocados com a confrontação e com a exposição pública
de seu pecado a ponto de terem experimentado algo como um ataque cardíaco.
(8) Apesar da tragédia, esses acontecimentos tiveram um efeito poderoso, jun-
tamente com outros “sinais e maravilhas” que permitiram que a igreja crescesse
ainda mais (v. 5,11,12,14). (9) Ainda que os dois tenham morrido, não há motivo
para questionar a salvação deles. São descritos como crentes que simplesmente
perderam a vida física. Compare com aqueles que morreram depois de profanar
a ceia do Senhor em ICoríntios 11.29,30.
De qualquer maneira, mesmo depois de enumerar essas nove circunstâncias
atenuantes, a dureza do veredito divino permanece. Talvez o comentário final
mais importante seja, portanto, simplesmente que toda situação em que Deus
não castiga tão seriamente o pecado é um testemunho de sua maravilhosa graça,
porque 0 salário de todo pecado é a morte (Rm 6.23).

Mais crescimento e conflito (5.12-42). O restante do capítulo 5 descreve mais eres-


cimento e conflito na vida da igreja em Jerusalém. Não causa surpresa que, à luz
da maneira pela qual Deus operou com Ananias e Safira por meio dos apóstolos
(v. 12,13), bem poucas pessoas quisessem ter demasiada proximidade com eles.
Ainda assim, Deus continuou abençoando a igreja com crescimento, até mesmo
usando superstição popular para operar curas e exorcismos (v. 14-16).7<i As auto-
ridades locais voltam a deter os apóstolos, mas o Senhor milagrosamente abre as
portas da cadeia, permitindo que fujam. Em vez de se esconderem, simplesmente
voltam ao templo, proclamando a mensagem sobre Jesus (v. 17-26). Enfurecido
com esse comportamento, o sumo sacerdote volta a confrontar os Doze, orde-
nando-lhes que cessem sua proclamação, mas de novo eles se recusam (v. 27-32),
insistindo que precisam obedecer a Deus e não até mesmo às mais altas autori-
dades humanas quando há conflito entre as duas instâncias (v. 29). A essa altura,
Gamaliel intervém e salva a vida deles (v. 33-40).
E provável que esse renomado rabino fosse neto de Hillel e, por esse motivo,
pertencesse à ala mais liberal do farisaísmo. Infelizmente seu conselho (v. 39)
tem sido frequentemente aplicado em outras situações em detrimento dos eren-
tes. Nem todos os movimentos religiosos cujas origens não são divinas automa-
ticamente atrofiam e morrem, caso abandonados à própria sorte. Simplesmente
porque Deus usou providencialmente o conselho de Gamaliel para libertar os76

76“É possível citar paralelos não tão próximos, mas provavelmente seja correto dizer que no
pensamento antigo pouco importava sc um milagre era realizado pela sombra, pelas mãos ou pelas
palavras do operador de milagres. D e qualquer maneira, o agente aqui é D eus”(C. K. Barrett, Acts:
a shorter commentary [Edinburgh/Ncw York: TScT Clark/Continuum, 2002], p. 74).
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA I 59

crentes não significa que seu conselho estivesse baseado em princípios eternos.77
A crença na inerrancia e na autoridade das Escrituras não implica que tudo o
que é dito por cada personagem da Bíblia seja verdadeiro, mas apenas que tudo
o que foi dito é o que aquelas pessoas de fato disseram!
Um problema mais difícil com a fala de Gamaliel envolve a referência que
ele faz aTeudas no versículo 36. De acordo com Josefo, Teudas liderou revoltas
em 44 d.C. depois da época dos acontecimentos de Atos 5 e bem depois da rebe-
lião de Judas, o galileu, em 6 d.C. (v. 37), que Gamaliel parece pensar ter ocorrido
mais tarde (c{.Antiguidades 20.97,102,171; Guerra dosjudeus 2.259-64). E claro
que Josefo pode estar errado, conforme fica claro que às vezes está (embora não
com frequência), ou talvez Gamaliel tenha conhecimento de outro Teudas. O
nome era bastante comum, e Josefo faz sim referência a inúmeras revoltas. Mas
uma solução totalmente satisfatória ainda tem de ser encontrada.78 No entanto,
é imprová\'el que Lucas atribuísse a Gamaliel uma comparação entre Jesus e
possíveis revolucionários, dessa maneira se arriscando a provocar uma confusão
sobre a missão de Jesus, a menos que Cristo fosse percebido dessa maneira pelos
principais adversários.79

Hebreus e helenistas (6.1-7). O trecho da primeira seção desse segundo volume


de Lucas nos leva a 6.1-7. A igreja enfrentou oposição externa e teve de lidar
com a rebelião de um casal da própria igreja [oposição interna], mas agora está
diante da primeira cisão total. Os dois grupos envolvidos são literalmente des-
critos como “hebreus” e “helenistas” (v. 1). Um debate acadêmico vibrante tem
tentado determinar se as diferenças entre esses dois grupos eram puramente lin-
guísticas ou também culturais.80No mínimo‫׳‬, devemos entender que os hebreusfala-
vam aramaico como língua materna, enquanto os heletiistas, vindos defora de Israel,
falavam grego como sua primeira língua. Entretanto, como algunsjudeus que viviam
na Diáspora assimilaram a cultura grega, enquanto outros mantiveram práticas mais
peculiares e até continuaram falando aramaico e/ou hebraico, é bem possível que dife-
renças culturais também tenham dividido os dois grupos. Paulo, por exemplo, pôde*7

7'Considere-se o exemplo do rápido crescimento do Islã, com frequência por coerção, em inú-
meros períodos dc sua história, incluindo hoje. Em uma abordagem mais geral, W illiam J. Lyons,
“The words o f Gamaliel (Acts 5.38-39) and the irony o f indeterminacy”,J S N T 68 (1997): 23-49.
7sCf. Fitzmyer {Acts, p. 334): Ό fato de que as informações contextuáis apresentadas por Lucas
podem ser corroboradas com tanta frequência talvez sugira que é mais sensato deixar em aberto
essa questão em particular, ao invés de acusá-lo de ter cometido um erro”.
7,Jeffrey A . Trumbower, “The historical Jesus and the speech o f Gamaliel (Acts 5.35-9)”, N T S
39 (1993): 500-17.
SIIA obra clássica que defende diferenças culturais é M artin H engel, Between Jesus and Paul
(London, Reino Unido/Philadelphia: SCM/Fortress, 1983); uma resposta importante que defende as
diferenças meramente linguísticas é Craig Hill, Hellenists and Hebrews (Minneapolis: Fortress, 1992).
60 I OS ATOS DOS APOSTOΓ,OS

dizer que era hebreu (Fp 3.5), mesmo que em seus primeiros anos tenha sido
criado em Tarso, na Cilicia.
O problema que deu origem à tensão entre os dois grupos é, na descrição
do texto bíblico, o fato de os hebreus ignorarem as viúvas helenistas na distri-
buição diária (a NIV acrescenta “de alimentos” no v. 1). E bem possível que essa
tenha sido uma forma de ajuda para fornecer mantimentos para os mais neces-
sitados da comunidade; mas, com base em analogias judaicas, também pode ter
incluído a distribuição de dinheiro. De uma maneira ou de outra, os apóstolos,
como líderes dos hebreus, delegaram aos helenistas a responsabilidade de esco-
lher em seu próprio meio os correspondentes líderes para resolverem o problema
(v. 2-6). Agindo assim, reconhecem uma distinção de ministérios — alguns que
pregam a palavra e outros que “servem (diakonein) as mesas”— , uma distinção
que constituiría o precedente para o posterior estabelecimento do ofício de diá-
conos como algo independente do ofício de presbíteros de uma igreja. Ao mesmo
tempo, é importante observar que os critérios para a escolha desses novos líderes
são em todos os aspectos tão espirituais quanto os dos presbíteros (“cheios do
Espírito e de sabedoria”— v. 3; cf. lTm 3.1-7). Embora em certo sentido possa
ser que os sete desempenham um papel mais prático, eles precisam ser crentes
igualmente maduros. E interessante que as únicas atividades concretas, na des-
crição de Lucas, que esses homens realizam são os ministérios totalmente espi-
rituais de ensino e cura (por Estêvão e Filipe em 6.8— 8.40).81
Vários outros princípios também surgem em 6.1-7. Quando diferenças
linguísticas ou étnicas separam grupos de cristãos que tentam trabalhar juntos,
a liderança deve ser delegada para que ambos os grupos sejam representados
de forma justa. Também faz sentido que igrejas escolham seus próprios líderes,
desde que se empreguem critérios divinos para isso. Teria sido fácil aos apósto-
los hebreus nomearem os líderes para os helenistas, mas, em vez disso, insistiram
que os helenistas os escolhessem por si mesmos (v. 3). Dessa maneira, esse texto
tem sido usado para respaldar uma forma congregacional de governo da igreja.
Contudo, também veremos modelos diferentes em outras passagens de Atos.
Além do mais, todos os sete nomes dos homens que eles escolhem são gregos, o
que sugere que escolheram pessoas de seu próprio meio. A liderança autóctone
também é uma prática importante para a igreja em todas as épocas.82
O versículo 6 reflete uma cerimônia de comissionamento já conhecida no
judaísmo — a imposição de mãos — , que era usada para dedicar ou consagrar
várias pessoas para funções de liderança. Contudo, nem no judaísmo da época
nem no cristianismo do Novo Testamento aparece uma clara divisão entre “clero”

slSobre esse parágrafo, veja ainda Blombcrg, Neither poverty nor riches, 167-9.
“2Contudo, não às custas da unidade da igreja. Veja Eckhard J. Schnabel, Early Christian mission
(Downers Grove/Leiccstcr, Reino Unido: IV P /Apollos, 2004), vol. 1, p. 654-5.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA I 61

e “leigos”, nem aparecem quaisquer “ofícios” específicos que exigissem ordenação


no sentido contemporâneo do termo. Aliás, há certa ironia na observação de
que sete era o número especificado para juntas ou comitês judaicos ad hoc^
ao passo que hoje em dia o diaconato se tornou, em alguns círculos, uma função
praticamente vitalícia com inúmeras tradições inalteráveis ligadas a ele. De qual-
quer maneira, a mensagem importante que Lucas quer deixar conosco, ao concluir
a primeira sexta parte de seu livro, é que a palavra de Deus se espalhou c Deus
abençoou grandemente a atividade da nova igreja. Até mesmo muitos sacerdotes
— que eram em sua maioria saduceus e, desse modo, os adversários mais fortes
da igreja — vieram à fé (v. 7).

PERGUNTAS PARA REVISÃO


1. Compare e contraste os milagres e sermões em Atos 2 e 3.

2. Quais são as mais importantes observações exegéticas sobre 0 conflito


da igreja com o Sinédrio em Atos 4.1-31?

3. Que novas informações sobre o compartilhamento comunitário da igreja


primitiva aprendemos em 4.32-35?

4. Como podemos explicar a severidade de Deus ao julgar Ananias e Safira?

5. Com ente sobre a natureza do conselho e da precisão histórica de


Gamaliel.

6. Quem eram os hebreus e os helenistas? Qual foi o problema entre eles?


Como foi solucionado? Com base nessa solução, que princípios perma-
nentes podemos deduzir para a igreja de hoje?

A igreja na Judeia , Galileia e Samaria (6.8— 9.31)


O ministério e martírio de Estêvão (6.8— 8.3). A segunda seção retrata a igreja
começando a se deslocar para fora de Jerusalém. O ímpeto inicial vem do minis-
tério e martírio de Estêvão, um dos primeiros “diáconos”. Falando poderosa-
mente e operando milagres, ele atrai a atenção e a desaprovação das autoridades
(v. 8-14). Elas o acusam de blasfêmia contra Moisés e contra Deus, alegando
que ele está tentando mudar os costumes transmitidos por Moisés (v. 11,13).
Em outras palavras, acreditam que Estêvão está, de alguma maneira, ensinando9

9’Marshall, Acts, p. 126. \a d hoc é uma expressão latina que significa literalmente “para isso”,
“para essa finalidade”, ou tem o sentido “para um fim específico”. (N. do F‫) ״‬
62 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

outros a transgredir a lei. Em segundo lugar, afirmam que ele não para de falar
contra “este lugar santo” (v. 13,14), que no mínimo se referia ao templo, mas tam-
bém poderia ser referencia a toda a terra de Israel. Embora Lucas se refira a essas
acusações como falsas, sem dúvida elas continham pelo menos meias verdades
— “falsas mais ñas nuances e na intensidade do que em sua natureza”.84
Estêvão é levado à presença de Caifás provavelmente no período de dois anos
depois da crucificação de Cristo (veja nossa abordagem sobre a cronologia). A pri-
meira vista, seu “discurso de defesa” (7.2-53) mais parece embromação, à medida
que vai recapitulando a bem conhecida historia bíblica diante da alta corte. Ele
espera que esqueçam a pergunta que fizeram a ele? Em um exame mais aprofun-
dado, fica claro que Estêvão escolheu e estruturou cuidadosamente sua resposta.
Lucas sabe muito bem como abreviar falas longas, de modo que o espaço que
dedica a esse discurso mostra sua importancia para ele, sem dúvida para ilustrar
a transição de uma igreja exclusivamente judaica em Jerusalém para um movi-
mento mais helenístico e geograficamente diverso.85A defesa de Estêvão menciona,
por sua vez, cada urna das três possíveis acusações contra ele. Nos versículos 2 a 18,
ele destaca como todos os patriarcas serviram fielmente a Deus, mas nenhum
deles chegou a herdar plenamente a Terra Prometida.86 Nos versículos 18 a 43, ele
recapitula longamente os acontecimentos mais importantes da vida de Moisés,
concentrando-se em particular na maneira pela qual o próprio Moisés predisse
a vinda de um profeta como ele (o Messias) a quem o povo feria de seguir (v. 37;
citando D t 18.15). Jesus foi aquele profeta; por isso, os judeus deviam ouvi-lo. A
mensagem de Estêvão é, portanto, o verdadeiro cumprimento da Lei. Quanto
ao templo, os versículos 44 a 50 destacam que o Tabernáculo — e não o Templo
— representava o plano inicial de Deus para seu povo. Os israelitas haviam rejei-
tado aquele plano, clamando por um templo exatamente como os das nações ao
redor. Um dos perigos de um templo imóvel, em contraste com o Tabernáculo,
que era mais portátil, era que as pessoas talvez começassem a pensar que Deus*8

84Longenecker, “A cts”, p. 335. A o m esm o tempo, temos de evitar a tentação de considerar


Estêvão alguém hostil ao templo; ele simplesmente reconhece que o papel do templo na história
da salvação foi suplantado. Veja James P. Sweeney, “Stephen’s speech (Acts 7:2-53): is it as ‘anti-
-Temple’as is frequently alleged?”, T J 23 (2002): 185-210.
s5Para um estudo detalhado dessa fala, veja John Kilgallcn, The Stephen speech: a literary and
redactional study o f Acts 7,2-53 (Rome: Biblical Institute Press, 1976). Para um resumo atualizado,
cf. idem, “lire speech o f Stephen, Acts 7:2-53”, E xp T im 115 (2004): 293-7.
8‫’׳‬Várias discrepancias menores entre a narrativa de Estêvão e o texto hebraico dos textos rele-
vantes do A ntigo Testamento aparecem e têm sido explicadas de diversas maneiras. Contudo,
uma vez mais, tal com o acontece na fala de Gamaliel, ter urna ideia elevada das Escrituras não
nos obriga a afirmar que durante sua defesa o próprio Estevão teve uma lembrança exata de tudo.
Pelo contrário, significa que Lucas registrou um relato preciso do que Estêvão disse. Veja Rex A.
Koivisto, “Stephen’s speech: a theology o f errors?”, G T JS (1987): 101-14.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA I 63

estava confinado a um local especial — razão pela qual Estêvão cita Isaías 66.1,2
nos versículos 49 e 50.
Desse modo, o “panorama do Antigo Testamento” apresentado por Estêvão
mostra que são os judeus incrédulos que têm sistematicamente desobedecido a
Deus. Ele não é um transgressor da Lei, mas eles são, e o presente tratamento que
lhe dispensam corresponde a esse padrão histórico (v. 51-53). Ben Witherington
descreve essa fala como um exemplo de resistência não violenta.87Também parece
refletir um entendimento mais radical dessa religião incipiente em relação à pers-
pectiva anterior dos apóstolos. Os seguidores de Jesus estão avançando na direção de
se emanciparem do judaísmo de uma maneira que anteriormente não imaginaram.

O GRANDE AVANÇO DE ESTÊVÃO (ATOS 6 E 7)

Acusações ( Terra ) ( Templo )


( Lei )
Rejeitar o ensino de
Deus sobre
‫{י‬

Defesa Os patriarcas Aponta para Não é nem


Nenhum permanece não precisavam Cristo mesmo o ideal
sem alteração dela de Deus

Implicações Os cristãos Ética baseada Adoração


Todas se cumprem herdam a no N T e em Espírito
em Cristo terra toda também no AT e verdade

Bem ao contrário de se convencerem, os líderes judeus ficam indignados e


começam a apedrejar Estêvão (7.54— 8.3). Sob a lei romana, eles não tinham o
direito de aplicar a pena de morte nesse tipo de situação (Jo 18.31), mas a nar-
rativa se parece mais com as ações de uma turba violenta indiferente com as res-
triçóes legais. Estêvão já os provocara ainda mais, ao olhar para o céu e afirmar
que via a glória de Deus e Jesus, o Filho do Homem, em pé à direita de Deus
(v. 55,56).88 É curioso que essa seja a única passagem fora dos Evangelhos em
que “Filho do Homem” aparece como título.89 Enquanto está morrendo, Estêvão

87W itherington, Acts, p. 275.


88Barrett {Acts, p. 110) faz a sugestão plausível “de que o Filho do Homem está de pé porque está
prestes a vir — ao mártir no momento de sua morte assim como, no final, virá a todos os homens”.
8,Kee {To every nation under heaven, p. 103) assinala aquilo que podería ser chamado de “visão
trinitaria” após a fala de Estêvão: Estevão está cheio do Espírito Santo, vê a glória de Deus e, em
seguida, vê Jesus ao seu lado.
64 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

continua imitando seu Senhor, orando para que Jesus receba seu espírito e não
impute esse pecado às autoridades (v. 59,60; cf. Lc 23.34,46).
Nesse contexto, Lucas volta a nos lembrar que Saulo está presente — um
recurso de prefiguração preparando os leitores para o papel proeminente que
(como Paulo) ele desempenhará mais adiante no livro (8.1). Alguém talvez espe-
rasse que esse primeiro martírio cristão desestimulasse a pregação da palavra,
mas acontece justamente o oposto. Conforme Tertuliano comentaria mais de um
século depois, com frequência o sangue dos mártires se torna a semente da igreja
(Apologia 50). Embora, em 8.1, Lucas diga que “todos, com exceção dos apóstolos,
foram dispersos”, é possível que ele esteja usando os apóstolos para representar
mais genericamente os hebreus.90 Caso Estêvão, como representante dos hele-
nistas, tivesse um entendimento mais radical de como seguir Jesus rompia com
a lei judaica, é possível que as autoridades tenham sido ainda mais intolerantes
com ele do que com os hebreus, que até esse momento pareciam cumprir a lei
dentro de limites aceitáveis. Isso também poderia explicar a ira e a perseguição
de Saulo contra a igreja (v. 3), o que torna a preparar o palco para sua impressio-
nante e ainda futura conversão.

O ministério de Filipe, 0 evangelista (8.4-40). O capítulo 8 passa de Estêvão para


Filipe, outro dos sete líderes dos helenistas. Aqui Lucas narra dois acontecimentos
envolvendo esse “diácono” que se torna mais conhecido como evangelista (e que
deve ser distinguido do apóstolo com o mesmo nome). Nos versículos 4 a 25,
lemos sobre o encontro de Filipe com um grupo de samaritanos e seu líder, Simão
Mago. Inúmeras polêmicas teológicas surgem com esse episódio intrigante, o
qual analisaremos logo em seguida. Mas, ao fazê-lo, não devemos perder de vista
aquilo que para Lucas sem dúvida era a ideiafundamental: 0 evangelho está agora
deixando Jerusalém, até mesmo a Judeia, e indo para Samaria, a província habitada
basicamente por descendentes dos casamentos ilegítimos entrejudeus e gentios séculos
atrás. O samaritano era o mestiço desprezado, muitas vezes ainda mais detes-
tado do que quem não tinha sangue judeu algum. Em Cristo, essas hostilidades
humanas estão caindo por terra.91
Contudo, como devemos entender Simão? Ele parece crer (v. 13), mas ainda
assim tenta comprar o poder do Espírito Santo, e a reação de Pedro é condená-
-10 energicamente (v. 18-23). A tradição da igreja primitiva era quase unânime
em sua convicção de que Simão nunca foi salvo (veja esp. Ireneu, Contra as here-
sias 1.23; Justino Mártir, Apologia 1.26), ao passo que a seita gnóstica dos simo-
nianos remontava sua origem a esse homem (embora não haja prova concreta

90Richard Bauckham, “James and the Jerusalem church”, in: Bauckham, org., The book o f Acts
in its Palestinian setting, p. 429.
91JohnT. Squires, “The function o f Acts 8.4-12.25”, N T S 44 (1998): 608-17.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA 65

dessa afirmação).92 Com certeza Pedro reage com suficiente dureza para sugerir
que não acredita que Simão estivesse salvo a essa altura. Aliás, o versículo 20 diz
mais literalmente, como na paráfrase de J. B. Phillips, “Vá para o inferno com
seu dinheiro!”. De modo parecido, a declaração de Pedro de que “você não tem
parte neste ministério nem participa dele” parece mais absoluta do que seria apro-
priado, caso Simão fosse um crente verdadeiro, por mais equivocado que estivesse.
Aqueles que creem que cristãos verdadeiros podem perder sua salvação aplicam,
com frequência, essa crença a Simão; aqueles que afirmam a “segurança eterna”
normalmente defendem que a “crença” inicial de Simão foi meramente superfi-
ciai — mais resultante de seu assombro com Filipe e sua mensagem do que um
compromisso verdadeiro (v. 13).
Duas observações de natureza gramatical podem dar respaldo a essa segunda
abordagem. O termo traduzido por “assombrado” (v. 13) é o mesmo verbo grego
usado no versículo 11, em que é traduzido por “admirado”. Mas a admiração dos
samaritanos ao verem Simão dificilmente implica uma total fidelidade a ele. Em
segundo lugar, tanto os samaritanos em geral quanto Simão em particular “cre-
ram em Filipe” (v. 12), ao passo que a expressão mais usual no Novo Testamento
para designar a fé salvadora é que as pessoas creem em Jesus — talvez uma pista
aqui de algo que não chega a ser uma verdadeira confiança no Senhor.93
Uma questão exegética ainda mais espinhosa talvez seja a aparente demora
da chegada do Espírito Santo. Por que ele não vem sobre os samaritanos quando
eles inicialmente creem e são batizados, mas apenas depois que Pedro e João
chegam de Jerusalém? Historicamente, católicos romanos e alguns protestantes
têm usado esse intervalo para justificar o batismo na infância separado da
confirmação na adolescência. Mas nenhum desses dois ritos é absolutamente
descrito nessa passagem. Ê frequente pentecostais verem isso como um para-
digma clássico de uma “segunda bênção”. No entanto, se o Espírito não veio no
início, então essa é apenas uma “primeira bênção”! A maioria entre eles simples-
mente nega que essa passagem forneça um padrão normativo, citando a situação
peculiar da extensão do evangelho aos samaritanos. Sem o endosso da liderança
da igreja e, de um modo mais geral, dos cristãos judeus de língua hebraica,
a reconciliação entre judeus e samaritanos em círculos cristãos talvez nunca
tivesse acontecido.
Em contrapartida, duas pequenas observações gramaticais podem mais
uma vez sugerir uma abordagem diferente. Adotar a interpretação assinalada
acima de que Simão “crê em Filipe” dá a entender que os samaritanos também

92Para uma análise exaustiva do material bíblico e extrabíblico sobre as tradições acerca de Simão
Mago e para uma demonstração das ambiguidades teológicas que as cercam, veja Stephen Haar,
Simon Magus: thefirst gnostic? (Berlin/New York: dc Gruyter, 2003).
"Quanto a essas duas ideias, veja D unn, Baptism, p. 64-5.
66 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

não haviam se convertido verdadeiramente no momento de seu batismo na água.


Além disso, a ordem das palavras no versículo 16 (“eles haviam simplesmente
sido batizados em nome do Senhor Jesus”) sugere que o contraste é entre ser
batizado no nome de Jesus e alguma outra ação dirigida a Jesus (como é o caso
de crer).94 Dessa maneira, se os samaritaños não creram verdadeiramente até a
chegada de Pedro e João, então não há conflito algum com o padrão de Pente-
costes observado anteriormente.
O outro episódio que envolve Filipe no capítulo 8 é descrito mais sucin-
tamente. Os versículos 26 a 40 descrevem seu encontro com um eunuco etíope,
alguém que era oficial do rei e tinha sido castrado para poder supervisionar
o harém com segurança. Novamente, 0 objetivo mais importante de Lucas é mostrar
0 evangelho se espalhando a grupos que, no demais, eram marginalizados pelojudaísmo
(veja D t 23.1, mas cf. Is 56.3-S).95 Sendo etíope, com praticamente toda certeza
esse homem também é negro.96 E bem possível que fosse um temente a Deus,
um não judeu que tenha vindo a crer no Deus de Israel. Ele está lendo o rolo de
Isaías e se perguntando quem é o Servo Sofredor. Filipe explica que essa profecia
se cumpriu em Jesus. Parece que a maioria dos judeus da época do primeiro século
entendia que Isaías 52—53 se referia coletivamente a Israel. Embora haja um
pequeno indício de que havia uma interpretação pré-cristã de que esse texto era
messiânico,97 essa é claramente a maneira que o cristianismo primitivo 0 entendia.
Uma questão mais subordinada envolve a estreita correlação entre crença (pres-
suposta no v. 35) e batismo nas águas. O fato de Filipe e o etíope terem descido
à água e em seguida saído dela (v. 38,39) sugere batismo por imersão, embora
também seja possível que tenha sido feito por efusão (derramar água sobre uma
pessoa que está de pé em um tanque ou rio).98

A conversão de Saulo (9.1-31). O trecho final da segunda seção de Lucas abrange o


texto de 9.1-31 e descreve a conversão de Saulo. Os cristãos o conhecem melhor

94Ibidem, p. 58.
<ísKcith H . Reeves, “'Hie Ethiopian eunuch: a key transition from H ellenist to G entile m is-
sion: Acts 8:26-40”, in: Robert L. Gallagher; Paul Hcrtig, orgs., Mission in Acts: ancient narratives
in contemporary context (Maryknoll: Orbis, 2004), p. 114-22.
96Sobre essa identificação e sobre pessoas negras nas Escrituras em geral, veja esp. J. Daniel
Hays, From every people and nation: a biblical theology o f race (Leicester, Reino U nido/D ow ners
Grove: Apollos/IVP, 2003).
97M artin H cngcl, “Zur W irkungsgeschichte von Jes 53 in vorchristlicher Zeit", in: Bernd
Janowski; Peter Stuhlmacher, orgs., D er leidende Gottesknecht:Jesaja S3 and seine Wirkungsgeschichte
(Tiibingen: Mohr, 1996), p. 49-91.
"Alguns manuscritos tardios acrescentam, no início do versículo 37, “Filipe disse: ‘Se crê de
todo o coração, você pode’. O eunuco respondeu: ‘Creio que Jesus Cristo c o Filho de Deus”’(como
na KJV). Mas está claro que essa é uma tentativa de um copista posterior de levar o eunuco a fazer
uma confissão adequada, e não é provável que seja o que Lucas escreveu originalmente.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ¡ 67

como Paulo e muitas vezes pressupõem que ele adotou esse novo nome por oca-
sião de sua conversão, mas Atos só faz a mudança em 13.9, quando ele começa
decididamente seu ministério entre os gentios. Na verdade, era comum cidadãos
romanos terem três nomes, e, caso fossem judeus, presumivelmente um nome
judaico adicional. Assim, “Paulo” (de uma palavra latina que significa “pequeno”)
era um dos três nomes romanos desse homem, mas não sabemos qual deles." A
família e a educação de Saulo o deixaram singularmente preparado para ministrar
a judeus, gregos e romanos. Seu antecedente tricultural incluía cidadania romana
por direito de nascimento, herdada de um ou ambos os genitores (22.28). Como
passou a sua infância em Tarso (9.11), deve ter sido educado no terceiro maior
centro (depois de Atenas e Alexandria) de cultura grega e de vida universitária
no mundo mediterrâneo do primeiro século. Por fim, seus estudos sob a orien-
tação de Gamaliel em Jerusalém para se tornar fariseu e rabino (22.3,6) devem
ter inculcado profundamente nele a religião judaica de seus antepassados. Esse
estudo formal deve ter ocorrido em algum período entre os doze e dezoito anos
de idade, embora não tenhamos certeza se ele completou os estudos ou se foi
formalmente ordenado (veja abaixo comentário sobre 26.10). A perseguição, por
Paulo, da seita conhecida como “o Caminho”*100 não estava em conformidade com
o espírito liberal de Gamaliel (veja acima, p. 58), mas alunos frequentemente
divergem de seus professores em aspectos importantes.
O mais provável é que Saulo estivesse convencido de que esse grupo de
seguidores de Jesus (“apóstatas”) estava impedindo Deus de abençoar os judeus
e de introduzir a era messiânica (a qual não poderia ter vindo por intermédio
de Jesus, pois, na condição de criminoso crucificado, ele teria sido amaldiçoado
por Deus; D t 21.23). Por esse motivo, o extermínio da seita tinha de ser a von-
tade de Deus. De muitas maneiras a atitude de Paulo teria se equiparado à de
grupos extremistas do Oriente M édio de hoje; N. T. W right o compara — o
que não é implausível — com alguns terroristas contemporâneos.101 Embora
sua conversão subverta totalmente sua teologia, seu zelo por suas convicções
permanece infindável.
Uma maneira de Lucas indicar a importância da conversão de Saulo102*é
o fato de incluir três narrativas a respeito. Não apenas ele a apresenta aqui; ele

"Fitzm yer (Acts, p. 502) acha que Paulo era o cognomen; como nome judeu adicional, Saulo
seria o supernomen.
100Provavelmente uma designação derivada da afirmação do próprio fesus de ser “o caminho”
(Jo 14.6).
101N . T. W right, W hat Saint Paul really said (Oxford/Grand Rapids: Lion/Eerdmans, 1997),
p. 28,35.
102Um rótulo apropriado, tendo em vista a narrativa em que Lucas apresenta as mudanças pelas
quais Saulo passou. Veja Philip H . Kern, “Paul’s conversion and Luke’s portrayal o f character in
Acts 8— 10”, T y n B u /5Λ.2 (2003): 63-80.
6S I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

descreve Saulo contando a própria história duas vezes nos capítulos 22 e 26. H á
pequenas diferenças entre os três relatos, talvez mais notadamente sobre quem
ouviu o quê e quando,103 mas todos atestam a impressionante reviravolta cau-
sada por esse acontecimento de tremenda importância. Não chega a ser exagero
dizer que todas as principais colunas da nova teologia de Saulo devem ter sur-
gido enquanto ele refletia sobre essa experiência na estrada de Damasco. E óbvio
que sua cristologia foi alterada quando agora reconheceu Jesus como o Messias.
No entanto, isso significou que sua soteriologia tinha de ser transformada; agora
a salvação era necessariamente mediante a fé cm Jesus, e não por meio das obras
da lei. De modo parecido, se o Messias havia chegado, então a era messiânica
havia começado, dessa maneira alterando a escatologia de Saulo. Por fim, sua ecle-
sio/ogia não podia mais afirmar que os judeus eram o povo peculiarmente eleito
de Deus; em vez disso, essa categoria necessariamente abrangia os seguidores de
Cristo qualquer que fosse a origem étnica deles.104
Desde que M artinho Lutero iniciou a Reforma protestante no início do
século 16, um entendimento popular sobre a conversão de Saulo era que ele, à
semelhança de Lutero, havia, por longo tempo e em vão, tentado cumprir a Lei.
Desse modo, Saulo estava psicologicamente maduro para a impressionante gui-
nada pela qual passou. As vezes afirma-se que Romanos 7.14-25 dá respaldo a
essa interpretação, mas veremos abaixo uma interpretação mais plausível desses
versículos (p. 339-40).Tanto Gálatas 1.14 quanto Filipenses 3.4-6 sugerem que
Saulo se considerava relativamente irrepreensível e maduro em seu judaísmo,
agradando a Deus e obedecendo à vontade divina de modo mais pleno do que a
maioria das pessoas do seu mundo. Justamente por causa desse zelo, Deus pre-
cisou intervir de maneira tão impressionante e sobrenatural.105*
Temporariamente cego, Saulo segue a boa prática farisaica de orar e jejuar
(v. 9). É levado à casa de um crente de Damasco chamado Judas, e Ananias
(não confundi-lo com o homem que foi morto de modo fulminante no cap. 5!)
é levado até lá pelo Senhor para curá-lo. A essa altura acontece sua cura física e
espiritual (v. 10-19). O Senhor revela a Ananias como Saulo se tornará um mis-
sionário pioneiro aos gentios, mas sua proeminência trará grande sofrimento
(v. 15,16). Assim que é instruído adequadamente, Saulo é batizado (v. 18) e, tal
como no Pentecostés, é enchido com o Espírito. O batismo é acompanhado pela
imposição de mãos, mas vale a pena assinalar que não é nem um apóstolo nem

'111Sobre isso, veja esp. John B. P01hill,Zte (Nashville: Broadinan, 1992), p. 4 5 7-62,498-504.
101Q uanto a esses e a desenvolvimentos relacionados, veja Seyoon Kim, The origin o f P a u l’s
gospel (Tübingen: Mohr, 1981; Grand Rapids: Eerdmans, 1982), e Richard N . Longenecker, org.,
The road from Damascus (Grand Rapids/Cambridgc: Eerdmans, 1997).
105Veja esp. Krister Stendahl, “The apostle Paul and the introspective conscience o f the W est”,
H T R 56 (1963): 199-215.
ATOS: C.) EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬69

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351 361
70 I OS ATOS DOS APOSTOLOS

qualquer outro líder formal da igreja que realiza a cerimônia. Em parte alguma
as Escrituras limitam quem pode batizar o povo de Deus (ou servir-lhe a ceia
do Senhor). As vezes pentecostais fazem distinção entre a conversão de Saulo
e seu posterior enchimento pelo Espírito, mas apenas três dias se passaram, e o
ensino de Ananias provavelmente foi essencial antes de Saulo poder assumir um
compromisso total e consciente com Cristo.1“
Ao contrário de alguns que ao longo da história da igreja têm insistido
que novos convertidos passem por um longo período de treinamento antes de
começarem a proclamar suas convicções a outros, Saulo começa a pregar quase
imediatamente a seus colegas judeus (v. 20-22). Aliás, com frequência novos
crentes têm de imediato algumas de suas maiores oportunidades de compar-
tilhar sua fé incipiente com amigos e familiares, antes de assimilarem tanto a
cultura da igreja a ponto de restarem bem poucos conhecidos não cristãos! Na
verdade, Saulo passa “muitos dias” (v. 23) pregando o evangelho, um período
que Gálatas 1.18 indica que é de três anos. Mas Lucas está interessado ape-
nas em confirmar a mudança repentina de crença e comportamento de Saulo
e em levá-lo de volta a Jerusalém, onde inicialmente o havíamos encontrado.
No entanto, Paulo agora se tornou a antítese total daquilo que outrora havia
sido. O relato de 9.1-31 em sua íntegra prepara o palco para Saulo, que agora é
conhecido pelo nome de Paulo, tornar-se o personagem principal da narrativa
de Lucas nos capítulos de 13 a 28.

PERGUNTAS PARA REVISÃO


1. Quais foram as acusações contra Estêvão, e como sua fala o defende
delas?

2. Quais são as principais idéias dos relatos sobre o ministério de Filipe


em Atos 8? Quais são as controvérsias teológicas mais secundárias aqui
e como você as soluciona?

3. O que é particularmente significativo sobre os antecedentes de Saulo?


E sobre a sua conversão?

4. O que podemos aprender com o que acontece logo após à conversão


de Saulo?106

106Para uma boa relação de características típicas de conversões bíblicas, veja Fernando, Acts,
p. 302-4. A s conversões bíblicas podem scr graduais bem com o instantâneas. Veja esp. Scot
M cK night, Turning to Jesus: the sociology o f conversion in the Gospels (Louisville /L ond on, Reino
Unido: WJKP, 2002). '
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬71

Avanços na Palestina e na Síria (9.32— 12.24)


0 ministério de Pedro: três acontecimentos (9.32— 11.18). Ao mostrar como os
seguidores de Jesus continuaram a se deslocar de Jerusalém e a se afastar dojudaísmo
que a cidade representava, a terceira seção da primeira metade de Atos prepara o
caminho para Saulo ocupar o centro das atenções. A primeira subdivisão apre-
senta três acontecimentos nos quais Pedro tem papel central. Dois breves acon-
tecimentos concluem o capítulo 9. Primeiro, mediante o poder de Jesus Cristo,
Pedro cura um paralítico chamado Eneias (v. 32-35). A passagem se assemelha
bastante com a cura de um paralítico pelo próprio Cristo em Marcos 2 .1 1 2 ‫ ־‬e
paralelos. Ela também leva Pedro até Lida (e em seguida a Jope), afastando-se
cada vez mais de Jerusalém.
De forma ainda mais miraculosa, Pedro ressuscita uma jovem chamada Dorcas
(v. 36-43). Esse milagre espelha a ressurreição, operada por Cristo, da filha do diri-
gente da sinagoga, Jairo, em Marcos 5.21-43 e paralelos. Até o nome da mulher
em aramaico parece significativo. Pedro ordenou a c]3.,“Tabitha, koum” (v. 40),
enquanto que nos Evangelhos as palavras de Jesus dizendo à “jovem” para ressus-
citar foram “Talitha, koum”.107 O poder de operar milagres que Cristo delegou aos
apóstolos lá em Mateus 10 e paralelos está tendo um efeito impressionante. Obser-
vamos, além disso, que Pedro está hospedado na casa de um homem com nome
judeu (Simão) que pratica um ofício impuro (curtidor), por trabalhar com couro
(de peles de porco). O versículo 43 preparou o cenário para o terceiro episódio
que envolve Pedro e ocupa todo o capítulo 10, em que ele chega a reconhecer que
Deus está declarando puros todos os animais e, portanto, todos os alimentos.
O espaço dedicado por Lucas para narrar a conversão de Cornélio mostra
a importância dessa conversão para ele; assim como acontece com a conversão
de Saulo, a de Cornélio aparecerá três vezes em Atos.108 Depois de ocupar todo
o capítulo 10 para contar a história, Lucas leva Pedro a repetir tudo o que acon-
tece quando retorna a Jerusalém (11.1-18). Ele também fará uma breve menção
a respeito no Concilio Apostólico (15.7-11). Se Atos 8 retrata um Pentecostés
samaritano, o capítulo 10 retrata um Pentecostés totalmente gentílico.109
A historia oferece um notável exemplo de Deus preparando simultaneamente
tanto Pedro quanto Cornélio para os acontecimentos que se desenrolarão. Os ver-
sículos 1 a 8 nos apresentam o centurião romano, um comandante de cem solda-
dos, como alguém temente a Deus. A semelhança de muitos nessa condição, é bem
possível que ele tenha aceitado todas as leis judaicas com exceção da circuncisão

107Cf. Fernando, Acts, p. 310.


'8‫״‬Ronald D . W ithcrup, “Cornelius over and over and over again: ‘functional redundancy’ in
the Acts o f the Apostles”, J S N T 49 (1993): 45-66.
109Sobre isso, veja esp.J. Julius Scott fr.,“The Cornelius incident in the light o f its Jewish set-
ting”, J E T S 34 (1991): 475-84.
72 I (‫ אי‬ATOS DOS APÓSTOLOS

— a ordem mais difícil para homens gentios adultos obedecerem em um mundo


em que não havia anestesia! A aparição do anjo a ele se iguala à experiência perió-
dica de pessoas que buscam a Deus ao longo da história da igreja. Conquanto
não seja a norma, o próprio Jesus ou um mensageiro angélico podem aparecer
diretamente a uma pessoa, mesmo sem a presença de um missionário humano.
Pedro também está sendo preparado (v. 9-23a). Ele se lembrará do ensino
de Jesus na Grande Comissão a respeito de ir aos gentios (M t 28.18-20), mas
esse mandato nunca esclareceu a relação entre o evangelho e a Lei. De igual
maneira ele ouviu Jesus explicar que nada que entra no corpo pode tornar alguém
impuro (Mc 7.14-19a), contudo, por terem sido ordenadas nas próprias Escrituras
hebraicas (Lv 11), as leis kosher judaicas estavam tão arraigadas que, para aban-
doná-las, ele precisaria de um impulso ainda maior da parte de Deus. E verdade
que Marcos 7.19b explica que Jesus havia proclamado puros todos os alimentos,
mas aquela observação parece ser o comentário parentético de Marcos quando
estava escrevendo seu Evangelho duas ou três décadas após os acontecimentos
de Atos 10. Nada sugere que esse entendimento tão radical tenha ocorrido ime-
diatamente aos discípulos.110*
No entanto, nesse relato Pedro recebe, da parte de uma voz celestial, uma
ordem direta, inequívoca e tripla para comer a carne de um conjunto heterogêneo
de animais, tanto puros quanto impuros. Depois de recusar inicialmente, talvez
achando que Deus o estivesse testando de alguma maneira, ele finalmente reco-
nhece o que está acontecendo. A chegada imediata dos amigos de Cornélio per-
mite que Pedro entenda a ligação entre comida não kosher e os gentios. Se Deus está
declarando puros todos os alimentos, então de precisa estar proclamando puras todas as
pessoas.m Pedro pode ir à casa de Cornélio, comer com ele e pregar-lhe o evangelho.
Os t'ersículos 23b a 48 colocam Pedro e Cornélio juntos. O versículo 34
mostra explícitamente o reconhecimento por Pedro de que “Deus não mostra
favoritismo, mas aceita homens de todas as nações que o temem e fazem o que
é certo”.112 À medida que Pedro conta a Cornélio a história de Jesus, o Espírito
Santo “interrompe” sua pregação, e o comandante e seus companheiros começam

110“Essa noção é tão radical que sua mensagem na forma da visão se repete três vezes, e a ori-
gem celestial desse lampejo é confirmada pelo fato de o lençol e o que tem ali dentro voltarem
para o ‘céu’” (Kee, To every nation under heaven, p. 137).
1,1Cf. Charles E. Van Engen, "Peter’s conversion: a culinary disaster launches the Gentile mis-
sion: Acts 10:1— 11:18”, in: Gallagher; H ertig, orgs., Mission in Acts, p. 133-43. E curioso que
o Midrash sobre os Salmos (146.4), um texto bem tardio, prediz que o Messias purificará todos os
animais, mas não há como saber a fonte ou a data originais dessa tradição.
112“Lucas quer dizer que D eus julga os homens de maneira justa de acordo com as oportuni-
dades deles. Deus olha com benevolência para aqueles que, à medida que o conhecem, o temem e,
à medida que sabem o que é a justiça, a praticam, e ele tornará possível àqueles que chegaram até
esse ponto irem mais longe” (Barrett, Acts,p. 154).
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬73

a falar cm línguas (v. 44-46). Essa é a segunda passagem em que o pacote Pente-
costal de acontecimentos parece estar de alguma maneira dissociado. Parece que
aqui o Espírito vem sobre as pessoas antes mesmo de se arrependerem ou crerem!
Entretanto, quando se examina o que Pedro estava proclamando no momento
que o Espírito chegou, vê-se que ele estava falando explícitamente sobre o per-
dão dos pecados por meio da fé no nome de Jesus (v. 43). Sem dúvida Cornélio
e seus amigos estavam se arrependendo naquele exato momento, de modo que o
Espírito desceu mesmo no instante da conversão deles. Mais uma vez o batismo
na água segue logo em seguida o mais rápido possível (v. 47,48).
A outra grande controvérsia interpretativa em torno dessa passagem envolve
o exemplo seguinte de falar cm línguas em Atos (v. 46). No Pentecostés, as
pessoas ouviram os apóstolos falarem em línguas conhecidas, mas aqui nada
mais se explica acerca dessas línguas. É verdade que Pedro faz a observação
de que “eles receberam o Espírito Santo assim como nós” (v. 47), mas isso não
significa que todos os aspectos daquele recebimento foram idênticos.'13 Em
ICoríntios 12— 14, Paulo se referirá a línguas como um dom espiritual que exige
(mas talvez nem sempre receberá) uma interpretação e, portanto, não pode ser o
mesmo fenômeno do Pentecostés. E impossível ter certeza sobre que forma de
línguas se tem cm mente aqui cm Atos 10, mas o fato de que nenhuma men-
sagem é proclamada pode sugerir o segundo modelo. Aqui a g/ossolalia (0 termo
técnico parafalar em línguas) parece autenticar as conversões em vez de transmitir
novas informações.114
De qualquer maneira, é importante assinalar que essa é apenas a segunda
ocorrência de línguas em Atos, ainda que muitas pessoas já tenham sido salvas
a essa altura. Por esse motivo, dificilmente se pode dizer que os fenômenos são
necessários para a salvação ou então para a maturidade cristã. Mas Lucas tam-
bém não faz crítica alguma às línguas, de modo que também não devem ser vis-
tas como algo aberrante (sobre mais a respeito de línguas, veja abaixo p. 265-8).
Por fim, Pedro retorna a Jerusalém e relata o que aconteceu. No início os
cristãos de Jerusalém permanecem desconfiados, mas finalmente admitem que
o testemunho de Pedro é irrefutável. No entanto, isso não significa necessária-
mente que apreciem o ocorrido, pois uma nova hostilidade ao cristianismo gen-
tilico tornará a irromper em Atos 21.1

11,“Pedro não diz que Cornélio e aqueles que estavam com ele falaram da mesma maneira que
no Pentecostés; simplesmente afirma que receberam o mesmo Espírito tal como havia acontecido
com os ouvintes em Pentecostés” (W itherington, Acts, p. 360).
"4Gentios falarem em línguas para sugerir que são dominados pelo Espírito Santo “teria cons-
tituído o mais forte estímulo imaginável para que os membros judeus que havia na igreja aban-
donassem sua visceral aversão a se misturarem com gentios” (Philip F. Eslcr,“Glossolalia and the
admission o f Gentiles into the early Christian community”, B T B 22 [1992J: 142).
74 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

A igreja emAntioquia (11.19-30). O capítulo 11 conclui com o único texto em


Atos que parece não seguir a sequência cronológica estrita (v. 19-30). Lucas quer
contar a historia de como alguns crentes agora começam a pregar mais ampla-
mente aos gentios, em particular em Antioquia da Síria (v. 19-22). Antioquia
era um importante centro urbano, o terceiro maior do império depois de Roma
e Alexandria, tendo talvez meio milhão de habitantes.11' Porto fluvial e centro de
comércio, Antioquia abrigava o templo de Apoio no local das fontes de Dafne,
lugar lendário por sua moral permissiva. Os judeus representavam cerca de um
sétimo da população, uma porcentagem considerável para uma cidade de língua
grega. Ela se tornaria a base de operação de Paulo à qual ele voltaria depois de
cada uma de suas duas primeiras viagens missionárias. Antioquia também é a
cidade em que os crentes são pela primeira vez chamados de cristãos (v. 26b). O
sufixo da palavra “cristão” era latino, o que sugere “seguidores” (de Cristo), e o
título parece ter sido dado a eles por pessoas de fora, assim como os partidários
de Herodes vieram a ser conhecidos como herodianos.116
Aqui Barnabé reaparece, desta vez como emissário de Jerusalém. E óbvio
que ele sabe da conversão de Saulo e o traz de Tarso para Antioquia, onde os dois
ministram juntos (v. 22-26a). O que Saulo vinha fazendo e quanto tempo se pas-
sou desde seu tempo em Jerusalém no capítulo 9 é impossível determinar.117 Não
obstante, quando lidamos acima com questões cronológicas, vimos que o mais
provável é que sua conversão seja datada de 32 d.C., sua primeira visita a Jeru-
salém, em 35 d.C., e sua primeira viagem missionária (começando em At 13) de
48-49 d.C. Há, portanto, uma janela de oportunidade de treze ou catorze anos
para esse ministério em Antioquia acontecer.
A fome que os versículos 27 a 30 retratam estava no auge em 46 d.C., pelo
menos de acordo com Josefo (Antiguidades 20.51-53). Assim, esse parágrafo inclui
acontecimentos um pouco posteriores à morte de Herodes (44 d.C., novamente
de acordo com Josefo; veja abaixo, p. 76-7), com que começa o capítulo 12. Con-
tudo, ao que parece, Lucas queria manter juntas todas as suas informações sobre
Antioquia, seguindo um esboço temático pelo menos nesse ponto específico. Esses
versículos contêm a primeira de duas aparições de um profeta cristão chamado
Ágabo, cuja predição permite que cristãos mais abastados ajudem a amenizar a
pobreza dos crentes na Judeia, a parte do império mais duramente atingida. Aqui

"5Bruce, Paul, p. 130.


‫ ״‬í’Para Tácito (A nais 15.44), a palavra cbristianoi é, com certeza, depreciativa no início do
segundo século. E possível que aqui os de fora tenham sido líderes romanos que consideravam os
crentes cncrcnqueiros c sediciosos. Veja Justin Taylor, “W hy were the disciples first called ‘Christians’
at Antioch? (Acts 11,26)”, R B 101 (1994): 75-94.
’1'Entretanto, provavelmente ele ocupava boa parte desse tempo ensinando outros. Veja esp.
Martin Hcngcl; Anna Maria Schwemer, Paul between Damascus anã Antioch (Louisville/London,
Reino Unido: W fK P /SC M , 1997).
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA I 75

também aparece a segunda metade do famoso manifesto de Marx (“de cada qual,
segundo sua capacidade”, v. 29; veja o comentário sobre 2.45). Porém esse con-
texto é explícitamente cristão, o que é ainda mais significativo porque a preocu-
pação com irmãos necessitados está cruzando fronteiras étnicas e nacionais.118
Esse não é o modelo idêntico de ajuda aos pobres que vimos nos capítulos 2 e 4
ou no capítulo 6, mas a mesma preocupação se manifesta. Também é interessante
assinalar que a ajuda foi enviada aos presbíteros de Jerusalém, um ofício de lide-
rança que já era uma característica básica de cada sinagoga judaica e que presu-
mivelmente o cristianismo primitivo adotou do judaísmo.Talvez a essa altura os
apóstolos estivessem frequentemente envolvidos em missões itinerantes, de modo
que havia necessidade de líderes locais residentes para cada igreja.119

A perseguição da igrejapor Herodes e seufim (12.1-24). Antes de Lucas passar a


tratar exclusivamente dos feitos de Paulo, ele tem outros dois incidentes para
narrar, ambos envolvendo o rei Herodes Agripa I. Neto de Herodes, o Grande,
e sobrinho de Herodes Antipas, Agripa é mais amistoso com os judeus do que
a maioria dos governantes que Roma nomeou em Israel. Como favor para os
líderes judeus, ele providencia que o apóstolo Tiago (irmão de João e filho de
Zebedeu) seja martirizado (v. 1,2). Herodes planeja fazer o mesmo com Pedro,
mas Deus o liberta de modo miraculoso da prisão (v. 3-11), assim como havia feito
anteriormente em 5.19. Nada sugere que Pedro fosse de alguma forma mais fiel
que Tiago, um lembrete importante de que a perseguição ou outros infortúnios
não estão necessariamente ligados ao grau de obediência dos cristãos. Também
é bastante engraçado que, quando Pedro escapa e vai para a casa onde os crentes
estão orando por ele, no início eles não aceitam que tenha sido de fato libertado
(v. 12-19).120 Será que estamos sempre ocupados demais orando ou preocupa-
dos com nossas petições que deixamos de observar as respostas de Deus? Assim
que Pedro os convence de que está realmente vivo e bem, Lucas explica que ele
parte para “outro lugar” (v. 17). Embora uma tradição católica venerável afirme
que o lugar era Roma, nenhum texto do Novo Testamento chega a nos dizer
aonde ele foi.121 Mas o fato de dar destaque a Tiago (obviamente não o apóstolo

"8E revelando o entendimento da igreja cm Antioquia acerca de sua responsabilidade de minis-


trar à “igreja-mãe”. Aqui está a “missão de mão dupla’’, um conceito-chave para projetos dc plantação
de igreja no próprio país e no estrangeiro se desenvolverem hoje cm dia, até mesmo atravessando
fronteiras nacionais. Veja González ,Acts, p. 142-3.
119Veja ainda Bauckham, “James and the Jerusalem church”, p. 437.
,2I)J. Albert Harrill (“The dramatic function o f the running slave Rhoda (Acts 12.15-16): a
piece o f Greco-Roman comedy”, N T S 46 [2000!: 150-7) mostra como essa cena cômica fornece
alívio para a tensão sobre a maneira pela qual Pedro será recebido.
121Mas é improvável que tenha ido a Roma antes da década de 60, porque até 57 d.C., quando
Paulo escreve sua Carta aos Romanos, ele não demonstra nenhum conhecimento de algum após-
tolo ter estado lá antes.
76 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

martirizado, mas o meio-irmão de Jesus com o mesmo nome) se harmoniza com


a notícia de que, no capítulo 15, Tiago aparece como o principal presbítero da
igreja de Jerusalém. Talvez encontremos aqui alguma corroboração para a ideia
de que os presbíteros já haviam substituído os apóstolos como autoridades locais
na capital judaica.
Provavelmente em parte como reação ao gesto traiçoeiro de Herodes, os
versículos 20 a 23 relatam como o Senhor logo o castigou. A causa mais ime-
diata foi ele aceitar adoração como deus durante uma aparição régia diante dos
habitantes de Tiro e Sidom .Josefa inclui um relato independente desse mesmo
acontecimento:

Ali ele celebrava espetáculos cm homenagem a César, sabendo que haviam


sido instituídos como uma cspccie de festa pelo bem-estar do imperador.
Para essa ocasião estava reunido um grande número de homens que ocupa-
vam cargos ou haviam alcançado alguma posição de importância no reino.
No segundo dia dos espetáculos, vestindo uma roupa totalmente tecida de
prata, de modo que sua textura era de fato maravilhosa, ele entrou no teatro
ao romper do dia. Ali a prata, iluminada pela incidência dos primeiros raios
do sol, era maravilhosamente radiante e, com seu brilho, inspirava temor e
admiração naqueles que a olhavam fixamente, ¡mediatamente seus bajula-
dores levantaram a voz de vários cantos do teatro — embora não para o bem
de Herodes — dirigindo-se a ele como a um deus. “Que você nos seja pro-
pício”, eles acrescentaram, “e, se até aqui temos temido você como homem,
de agora em diante concordamos que cm seu ser você é mais que mortal”.
O rei não os repreendeu nem rejeitou sua bajulação como ímpia. Mas logo
em seguida olhou para cima e viu, cm uma corda acima de sua cabeça, uma
coruja empoleirada. De imediato, reconhecendo que isso prenunciava aflição,
assim como outrora havia prenunciado boas notícias, sentiu uma pontada de
dor no coração. Também teve um espasmo no estômago provocado por uma
dor que sentiu imediatamente cm todo o corpo, e isso foi muito forte desde
o início. Dando um salto, disse aos amigos: “Eu, um deus aos olhos de vocês,
agora tenho de entregar a vida, pois o destino refuta ¡mediatamente as palavras
mentirosas que acabaram de mc ser dirigidas. Eu, que fui chamado imortal
por vocês, estou agora sob sentença de morte. Mas preciso aceitar meu des-
tino conforme Deus o quer. Na verdade, não tive uma vida comum, mas vivi
naquele grande estilo que é aclamado como verdadeira felicidade”. No exato
momento que falava essas palavras, foi acometido de dor mais intensa. Por
isso, eles se apressaram a levá-lo ao palácio; e rapidamente se espalhou entre
todos a informação de que ele estava bem à beira da morte, ¡mediatamente
a população, até mesmo mulheres e crianças, se assentou vestida de pano de
saco, de acordo com seus costumes ancestrais, e suplicou a Deus cm favor do
rei. O som dos gemidos e lamentos prevaleceu por toda parte. O rei, deitado
em seu suntuoso quarto de dormir e olhando com desprezo para as pessoas
que se prostravam, não estava ele próprio com os olhos secos. Exausto depois
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALI1Λ I 77

de cinco dias seguidos de dor no abdomen, partiu desta vida no 54.” ano de
sua vida e no sétimo ano de scu reinado (Antiguidades 19.343-50).

Está claro que Josefo apresenta urna narrativa bem mais extensa do que Lucas,
e nem todos os detalhes dos dois relatos se correspondem precisamente. Mas é
interessante que os dois autores — ao que parece, de forma independente —
reconheceram tanto urna causa natural quanto uma sobrenatural para a morte
de Herodes, e ambos também entendem sua morte como um castigo divino para
a autodeificação. Ao terminar a primeira metade de seu livro, Lucas acrescenta
que “a palavra de Deus continuou a crescer e a se espalhar” (v. 24).122

A missão cristã aos gentios (12.25—28.31)

Λ prim eira viagem missionária de Paulo e 0 Concilio Apostólico (12.25 — 16.5)


O comissionamento de Barnabé e Sau/o (12.25— 13.3). Daqui até o final de Atos,
acompanhamos o progresso de Saulo/Paulo. Essa curta subdivisão fornece o
segundo exemplo de uma cerimônia informal de ordenação, desta vez quando
se impõem as mãos sobre Barnabé e Saulo para comissioná-los para o serviço
missionário.123 As categorias permanecem maleáveis; os dois também são cha-
mados dc profetas e mestres. Em 14.14, o único texto em Atos em que Lucas
abandona sua prática, esses dois também são chamados de “apóstolos”. Antes de
partirem, acrescentam um terceiro companheiro, João Marcos, cm cuja casa o
grupo de oração de Jerusalém havia se reunido (12.12). Essa referência prenuncia
desdobramentos posteriores e mais significativos que envolvem o discípulo mais
conhecido simplesmente como Marcos, o qual também mais tarde escrevería o
Evangelho que leva o seu nome.

A primeira viagem missionária (13.4—14.28). Uma vez que Barnabé era de Chi-
pre (4.36), era natural partir primeiro para aquela ilha (13.4-12). O único acon-
tecimento ocorrido na ilha que Lucas narra com algum detalhe envolve um raro
milagre de destruição (veja Jesus secando a figueira; Mc 11.20-25 e paral.). Elimas,
um feiticeiro, fica temporariamente cego. Ele também tem um nome judaico

122A variante textual original mais provável nesse versículo traz “para Jerusalém”, c não “de
Jerusalém”. M as c provável que o texto deva ser pontuado para que a tradução seja: “Barnabé e
Paulo voltaram, tendo completado sua missão para Jerusalém”. Veja Luke T. Johnson, lhe Acts o f
the Apostles (Collegeville: Liturgical, 1992), p. 216.
m “A mensagem que a igreja recebeu foi liberar o melhor dela para o serviço missionário (13.2),
c a seriedade dela era tal que estava disposta a faze-lo (13.3)” (Fernando, Acts, p. 377). Com fre-
quência tem sc subestimado a importância de Barnabé no início da história cristã. Quanto à sua
reabilitação e a uma reconstrução plausível de sua biografia, veja Bernd Y.0 \\m 2.m\, Joseph Barnabas:
bis life and legacy (Collegeville: Liturgical, 2004).
78 OS ATOS DOS APÓSTOLOS

(Barjesus), de modo que a condenação é cabida, urna vez que judeus sabiam muito
bem que deviam evitar os poderes do oculto. Além disso, o milagre teve o efeito
positivo de levar o procónsul Sérgio Paulo à fé no Senhor.124
De Chipre nossos missionários seguem para o norte, para a parte confinen-
tal daquilo que hoje é a Turquia. Mas, em vez de ficarem ao longo da costa, onde
havia várias cidades importantes, eles se dirigem para o norte, até a região do
planalto central da Pisídia. Em outra cidade com 0 nome de Antioquia, encon-
tram uma sinagoga e são convidados a pregar um sermão no Sabbath (v. 13-41).
Essa era uma das comunidades da grande província romana da Galácia, à qual
mais tarde Paulo escrevería sua primeira carta. Será que se dirigiram para lá por
causa de uma doença que Paulo havia contraído (cf. G1 4.13)? As regiões costei-
ras baixas eram notórias por serem endêmicas de malária; pessoas que haviam
contraído a doença frequentemente se dirigiam a regiões mais altas e mais secas
para se recuperar. Mas também é interessante que Sérgio Paulo tivesse parentes
cm Antioquia da Pisídia, de modo que talvez ele já tivesse incentivado o grupo a
se dirigir para lá.125 Inexplicavelmente, João Marcos abandona Paulo e Barnabé,
voltando para casa, em vez de acompanhá-los pelo interior (v. 13). Mais tarde
Paulo deixará claro que sentiu que Marcos estava errado (15.36-41).
Na sinagoga em Antioquia da Pisídia, Paulo prega com detalhes para os judeus
sobre como o ponto culminante dos acontecimentos essenciais da história judaica
é Jesus de Nazaré. Os paralelos com sermões anteriores de Pedro e Estêvão levam
alguns críticos a considerarem que todas as falas em Lucas são mais redacionais do
que autênticas. Entretanto, esperaríamos que, ao se dirigirem a outros judeus, os pri-
meiros pregadores cristãos usassem um conjunto parecido de textos das Escrituras.
C. H. Dodd acreditava que era capaz de até mesmo discernir um kerygma comum c
primitivo nessas falas, as quais ele acreditava que posteriormente influenciaram Mar-
cos na composição de seu Evangelho.126 Além disso, os versículos 38 e 39 contêm
um toque bem paulino e fornecem um clo-chave com as cartas, porque, no demais,
Atos analisa a teologia da crucificação e da expiação de Cristo de forma relativa-
mente esparsa. O que ocorre após a pregação de Paulo oferece um precedente daquilo
que aconteceria repetidas vezes. Há grande interesse e crescente oposição, e, por fim,
Paulo se volta de seus ouvintes judeus para um público gentílico (v. 42-52).127

'2,,Observe os paralelos com a cegueira anterior de Paulo: ambos os homens haviam se oposto
fortemente à palavra de Deus, ambos ficaram cegos e ambos tiveram dc ser conduzidos pela mão.
Veja ainda Johnson, Acts, p. 226-7.
125Veja Barrett, Acts, p. 195.
126C. H . D odd, lhe apostolic preaching and its developments (London, Reino Unido: H odder &
Stoughton, 1936), p. 54-6.
'2,John Kilgallen (“Hostility to Paul in Pisidian Antioch [Acts 13,45] — why?”, Bib 84 [2003]:
1-15) defende que os adversários judeus dc Paulo aqui e nas regiões vizinhas refletiam o crescente
fanatismo da época.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬79

A PRIMEIRA VIAGEM
MISSIONÁRIA DE PAULO
Atos 13.4-14,28
• Cidade sit I nia
PONTO
-< — Itinerário de Paulo

-------- ViaSebaste

Paulo e Bernabé fogem de kónio


Paulo enfrento intensa cposiçào Idepcis de um compió para matá-bs
judaico 00 evangelho .;*^Cesare¡a‫׳‬r ’
(M^zaca)^
CAPÂDÓC
Quios - ‫״‬Ϊ‫׳‬ des «1‫· י‬ »■'''^‫ ״‬, 10‫״יי‬ Paulo e Barnabé sáo
confundidos com deuses
Paulo continua a viagem depois
‫ ־*»**ג‬H n de ser apedrejado em Ustra

Somos * . C a b e c e ia *
ca■-;■-' y... . ; ·-.-.-λ■ /> ‫ ׳‬â
CÁRIA <
Patmos ' ' ' ‫״ ·י‬A Á '.
Hallcam asso ·‫׳‬
LÍCí A a ‫י‬/;‫ ־‬Mo
,Cnidò ‫** ־‬°' Seléücia ,Antioqui^
*Rodes ‫■■׳‬/¡,f ‫־‬Traqueótida♦.
Rodes

SÍRIA
S a la m ii Hamate
Z¿-■Grçta A igreja em Antbguio envia Paulo
e Bernabé poro o trabalho missionário

Tripoli./·;‫'־‬-'‫^־·״‬ Palmira
Procónsul (Tadmor)
Sérgio Paulo
se converte
Damasco

MAR MEDITERRANEO
Cesareia Marítima;

‫ ן‬À Filadélfia
Jerusalér (Ama)

MAR Λ
ΜΟΡΙΟ^
Alexandria*

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: 7
80 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

De Antioquia da Pisídia, Paulo e Barnabé seguem para as outras comuni-


dades gálatas de Icónio, Listra e Derbe e, finalmente, retornam para sua base em
Antioquia da Siria (14.1-28). Os únicos elementos novos e importantes registra-
dos nesse capítulo incluem o ministerio deles em Listra (v. 8-18). Dessa vez os
críticos se queixam de que a fala de Paulo (v. 15-17) é diferente demais da ante-
rior para ser auténtica! Mas não há judeus em Listra; a estratégia de Paulo tem
de ser mais criativa. Os gentios dessa região em particular eram especialmente
supersticiosos,128 crendo, entre outras coisas, que séculos antes os deuses Zeus
e Hermes haviam visitado uma área cultivada ñas proximidades, só para serem
ignorados pela maioria das pessoas na região, as quais foram posteriormente cas-
tigadas por seu desrespeito (Ovidio, Metamorfoses 8.626-724). Será que Barnabé
foi relacionado a Zeus (o chefe do panteão grego) porque, dos dois, era maior
e com melhor aparência? Paulo foi associado a Hermes porque, à semelhança
do deus mensageiro, ele era o principal orador? O texto apócrifo e posterior de
Atos de Paulo e Tecla 3 (= Atos de Paulo 3.3) contém uma descrição suficiente-
mente desfavorável de Paulo, o que permite considerá-la precisa: “um homem
de baixa estatura, calvo e com as pernas tortas, com corpo em boas condições,
com sobrancelhas que se juntam e nariz meio aquilino, cheio de cordialidade;
uma hora se parecia com um homem, em outra tinha o rosto de um anjo”.129 A
superstição local também se reflete nas visíveis e súbitas mudanças de opinião.
A cura milagrosa levou inicialmente a serem aclamados deuses (v. 8-13),130*porém
mais tarde judeus de cidades anteriormente visitadas por Paulo convencem as
pessoas a apedrejá-lo (v. 19).
Não há espaço para comentarmos sobre todos os detalhes importantes de
cada um dos locais onde Paulo ministra. Não obstante, já durante essa primeira
viagem, surgem vários padrões em sua atividade missionária que vale a pena ressal-
tar. Quanto mais sistemático 0 padrão, mais provável que cristãos de outros tempos e
lugares devam reproduzi-loP1
(1) Onde quer que haja uma comunidade judaica, Paulo começa primeiro
com ela, mas ele também sempre passa para os gentios (cf. Rm 1.16). Ou, genera-
lizando de forma transcultural, ele começa onde esperava-se que a Palavra de Deus
fosse pregada (mas cuja proclamação era inexistente ou deficiente) e então vai
avançando cada vez mais na direção de pessoas menos “alcançadas”. Llostilidade

,28Dean Béchard,“Paul among the rustics: the Lystran episode (Acts 14:8-20) and Lucan apo-
logetic”, CBQ 63 (2001): 84-101.
12‘‫׳‬Bruce, Paul, p. 468.
130E possível que, para os moradores de T.istra, o olhar fixo de Paulo c o fato de falar com voz
alta também tenham sugerido a presença de uma divindade. Veja Rick Strclan, “Recognizing the
gods (Acts 14.8-10)”, N T S 46 (2000): 488-503.
1’1Cf. Robert C .T annehill, Tie narrative unity o f Luke-Acts (M inneapolis: Fortress, 1990),
vol. 2, p. 182.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA I 81

em uma cidade jamais leva Paulo a mudar sua abordagem na cidade seguinte, de
modo que são perigosamente erradas as idéias de que, no livro de Atos, alguma
ocasião específica em que os judeus de determinado lugar rejeitam o evangelho
é um ponto decisivo de mudança de rumo na história da salvação, após o qual a
mensagem cristã não deve mais ser pregada ao potm judeu.
(2) Um padrão sistemático em todos os sermões de Paulo mostra-o esta-
belecendo uma base comum com cada grupo de ouvintes, conduzindo a uma
explicação do evangelho em linguagem compreensível, com respaldo para sua
mensagem ou na revelação geral (e.g., as evidências de Deus na natureza, 14.17)
ou na revelação especial (e.g., as Escrituras hebraicas, 13.16-41).
(3) Com poucas exceções, Paulo concentra as atividades nos principais cen-
tros urbanos do Império Romano, porque a partir desses locais sua mensagem
se espalhará facilmente para as regiões mais rurais (ao passo que o movimento
inverso não era de modo algum tão comum). (4) Paulo retorna repetidas vezes a
áreas previamente evangelizadas para “acompanhamento”, para discipular novos
crentes. Quando igrejas estão prontas para a liderança autóctone, ele nomeia
presbíteros (14.23), reconhecendo a necessidade de cada igreja ter um governo
local autossustentável. (5) Por fim, Paulo faz tudo isso a despeito de adversidade
e oposição, destacando que “temos de passar por muitas dificuldades para entrar
no reino de Deus” (14.22).132

0 Concilio Apostólico (15.1-35). Seria difícil exagerar a importância do concilio em


Jerusalém, o qual ocupa os versículos 6 a 29. Uma vez que a divisão entre hebreus
e helenistas incluía divergências teológicas com respeito à relação entre o evan-
gelho e a Lei, podemos ver as tensões de 6.8—8.3 chegarem a um ponto crítico
aqui. Alguns da Judeia (presumivelmente os cristãos judeus de língua hebraica c
mais conservadores) vêm até a Síria e Antioquia, onde Paulo está ministrando.
Esses judeus estão ensinando que a circuncisão é uma exigência para a salvação
(v. 1-5). É bem possível que tenham afirmado que tinham apoio dos apóstolos,
mas o versículo 24 esclarece que eles saíram sem autorização apostólica. Exigir a
circuncisão equivalia, na prática, a requerer que gentios (ou mesmo os tementes
a Deus)133*precisassem guardar toda a Lei, em resumo tornando-se primeiramente
judeus para, então, se tornarem cristãos, pois para muitos homens adultos a cir-
cuncisão era a última etapa da conversão total ao judaísmo. Caso essa abordagem
tivesse sido amplamente adotada, o cristianismo talvez nunca tivesse passado de

1” Sobre a abordagem equilibrada de Paulo ao contextualizar o evangelho sem cair em sincrc-


tismo, veja Hans-Josef Klauck, “W ith Paul in Paphos and Lystra: magic and paganism in the Acts
o f the Apostles”, A fev28 (1994): 93-108.
133Sobre isso, veja esp. Irina Levinskaya, 'lhe book o f Acts in its Diaspora setting (Grand Rapids/
Carlisle, Reino Unido: Eerdmans/Paternoster, 1996).
82 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

mais outra seita judaica. Não é dc surpreender que a questão seja suficientemente
séria para que se convoque uma reunião em Jerusalém para tratá-la.
Agora vemos os apóstolos e presbíteros juntos na capital judaica (v. 6).
Barnabé e Paulo também estão presentes, representando “os acusados”. Falando
em nome dos apóstolos, nessa ocasião Pedro dá a Paulo um endosso vibrante
(v. 6-11). Sua atitude parece bem diferente da de seu confronto com Paulo em
Antioquia (G1 2.11-15), uma questão que trataremos quando apresentarmos
Gálatas mais adiante. Aqui, no entanto, recordando sua experiência com Cor-
nélio, ele parece seguro de que a graça de Deus exclusivamente em Cristo salva
as pessoas (v. 7-11).134
Barnabé e Paulo falam em seguida (v. 12). Em vez de debater teologia, eles
recorrem aos inegáveis milagres que Deus tem operado por meio deles entre os
gentios, como crentes em Cristo, independentemente da obediência à Lei. É
possível abusar desse tipo de apologética, mas ela tem o seu lugar. Satanás pode
falsificar sinais, e seres humanos podem fabricá-los; mas, quando pessoas pie-
dosas estão pregando o verdadeiro evangelho e servindo a bons propósitos que
resultam apenas em uma vida santa e crescimento cristão, a lógica do apelo à
experiência se mostra convincente.
Por fim,Tiago fala, representando os presbíteros (v. 13-21). Agora as Escri-
turas confirmam o argumento (v. 16-18; Am 9.11,12). O problema aqui é expli-
car como a passagem dc Amós dá respaldo à ideia dc Tiago. A versão que Lucas
reproduz é a Septuaginta (LXX), que é visivelmente diferente do texto hebraico
(TM ). Este último fala de Israel possuir o remanescente de Edom, e não de o
remanescente da humanidade buscar ao Senhor. No entanto, dois documentos
do M ar M orto (4QFlorilégio e CD 7.16) contêm variantes hebraicas que, em
contraste com o T M , se assemelham bastante à LXX,135136de maneira que talvez
as palavras de Tiago reflitam sim o texto original das Escrituras. Em contrapar-
tida, o argumento de Tiago pode estar limitado ao significado comum a ambas
as versões, a saber, que nos últimos dias Deus levará os gentios a Israel e os unirá
em um único corpo. Uma forma mais antiga de dispensacionalismo sustentava
que essa era, nas Escrituras, a passagem mais importante sobre ofuturo de Israel,
mas hoje em dia quase todos reconhecem que “depois disso” no versículo 16 é
uma paráfrase das palavras de Amós “naquele dia”, mostrando pelo menos um
cumprimento parcial que já começa no primeiro século (veja o uso, por Pedro,
de Joel 2.17 no Pentecostés).'36

1’4John Nolland, “A fresh look at Acts 15.10”, N T S 27 (1980): 105-15.


153Jan de Waard,yi comparative study o f the Old Testament text in the Dead Sea Scrolls and in the
N ew Testament (Leidcn/N eiv York: Brill, 1965), p. 24-6.
136Robert L. Saucy, The casefo r progressive dispensalionalistn (Grand Rapids: Zondervan, 1993),
p. 179.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬83

À primeira vista, a solução que o concilio adota parece surpreendente. Depois


de todas as partes terem aparentemente concordado que a salvação era pela graça de
Deus e não pelas obras da lei, agora elas impõem quatro restrições aos gentios que
estão aceitando o evangelho (v. 19-21): eles devem “se abster de alimentos conta-
minados por ídolos, de imoralidade sexual, da carne de animais estrangulados e de
sangue”. Mas por que essas quatro restrições? O texto ocidental de Atos exclui a
referência a animais estrangulados, aparentemente interpretando as três questões
restantes como questões morais: idolatria, fornicação e assassinato. Contudo, essa
parece ser uma tentativa posterior de entender o sentido do decreto. Caso a pala-
vra traduzida por “imoralidade sexual” tenha aqui o sentido mais restrito de casa-
mentos proibidos entre parentes, todas as proibições talvez correspondam a leis
encontradas em Levítico 18.6-18, que são leis mandatórias para os estrangeiros
residentes em Israel tanto quanto para os israelitas.137 Outros ainda acham ou que
esses tabus correspondiam a proibições oriundas de tradições judaicas sobre leis
dadas a Noé, e que até mesmo os gentios precisavam cumprir,138 ou que todos os
itens proibidos faziam parte em potencial do culto idolátrico nos templos pagãos.139
Qualquer que seja sua exata origem, a observação importante a sefazer é que 0
concilio não está impondo aos crentes gentios uma nova lei aqui, ainda que abreviada.
As práticas que devem evitar continuam sendo particularmente ofensivas aos
judeus, que haviam se dispersado pela maior parte do Império Romano (v. 21).
Quando o concilio escreve sua carta aos crentes de Antioquia e regiões vizinhas
explicando sua decisão (v. 22-29), conclui simplesmente com a afirmação de que
“vocês farão bem em evitar essas coisas” (v. 29), dificilmente uma maneira de se
referir a uma legislação compulsória. Essas são apenas restrições que os líderes
cristãos esperam que os crentes gentios voluntariamente adotem para não ofen-
der desnecessariamente a consciência dos judeus.140 O fato de os cristãos que
receberam essa carta se sentirem alegres e incentivados, enviando os portadores
da carta de volta com uma bênção de paz, sugere que entenderam o “decreto” no
sentido mais moderado (v. 30-35). O fato de que mais tarde Paulo escreve tanto
aos corintios (lC o 8— 10) quanto aos romanos (Rm 14.1— 15.13) sobre comida

7‫ ״‬E.g., Terrance Callan, “The background o f the apostolic decree (Acts 15.20,29; 21.25)”,
CBQ 55 (1993): 284-97.
>3sE.g., Markus Bockmuchl, “The Noachide commandments and N ew Testament ethics, with
special reference to Acts 15 and Pauline Halakhah”, R B 102 (1995): 93-5.
lwE.g., Charles 11. Savcllc, “A reexamination o f the prohibitions in Acts 15”, BSac 161 (2004):
449-68.
1‫ ״‬Sobre isso, veja ainda Craig L. Blomberg, “The Christian and the Law o f Moses”, in: Marshall;
Peterson, orgs., Witness to the gospel, p. 407-10. Bruce {Paul, p. 187) observa que “Paulo estava con-
vencido de que a liberdade do Espirito era um estímulo mais poderoso para a vida virtuosa do que
todas as ordenanças e decretos do mundo”. É claro que a imoralidade sexual c sempre errada, mas
aprendemos isso em varios outros textos, não nesse.
84 I OS ATOS DOS APOSTOLOS

sacrificada a ídolos, sem fazer referência a essa decisão, sugere igualmente que 0
escopo e os destinatários da decisão são restritos.
A subdivisão final dessa seção de Atos descreve os preparativos de Paulo e
Barnabé para retornarem às cidades da Galácia em que haviam plantado igrejas.
No entanto, os dois missionários não conseguem concordar sobre o que fazer
com Marcos, que anteriormente os abandonara (15.36-41). O fato de Lucas
não ocultar a seriedade da divergência fica demonstrado em seu uso da palavra
paroxysmos (cf. nosso vocábulo “paroxismo”)! Então os dois concordam em dis-
cordar e se separam, cada um partindo com diferentes companheiros. Não ouvi-
mos mais nada sobre Barnabé em Atos, mas pelas cartas sabemos que Paulo c
Marcos mais tarde se reconciliaram (Cl 4.10; 2Tm 4.11; Fm 24).
Em 16.1-4, Paulo e seu novo companheiro, Silas, voltam para a Galácia e
convidam Timóteo, um jovem crente da região, a se juntar a eles. Uma vez que é
meio judeu, ele deveria ter sido circuncidado como judeu, de maneira que Paulo
toma providências para corrigir a situação. Mas acaso essa não é uma flagrante
contradição com tudo pelo que ele lutou no Concilio Apostólico? Não, por-
que ali a questão era a salvação; aqui a questão é evitar ofender desnecessária-
mente enquanto evangelizamos os judeus. Aliás, Paulo está adotando a mesma
estratégia que o “decreto” do concilio seguiu e que ele próprio enunciaria em
ICoríntios 9.19-23.141 Mais uma vez Lucas conclui sua seção destacando como
Deus abençoou e as igrejas cresceram (v. 5).

PERGUNTAS PARA REVISÃO


1. Como os curtos episódios que envolvem Pedro no final de Atos 9 pre-
param para aquilo que ele experimenta nos capítulos 10 e 11?

2. Qual é a finalidade das visões que Pedro e Cornélio recebem? Qual é a


importância da conversão do centurião? Como e por que Lucas conta
essa história três vezes?

3. O que acontece em Antioquia e por que isso é importante?

4. Compare e contraste as duas partes de Atos 12.

5. Quais são os vários padrões recorrentes da atividade missionária de Paulo


que Atos 13— 14 apresenta?

1'"William O. Walker Jr., “The Timothy-Titus problem reconsidered”, E xpT im 92 (1981): 231-5.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALIIA I 85

6. Analise cada etapa do Concilio Apostólico c descreva a importancia de


cada urna.

7. Como o comportamento subsequente de Paulo parece contradizer as


decisões do concilio e como é possível solucionar a aparente contradição?

A segunda e a terceira viagens missionárias de Paulo (16.6— 19.20)


0 chamado à Macedonia (16.6-12). Depois de voltar a visitar as cidades da Gala-
cia e da região vizinha da Frigia,142 Paulo e seus colaboradores viajam cada vez
mais para o oeste. Enquanto procuram seu próximo local de ministério, rece-
bem orientação divina tanto de modo negativo quanto positivo. Lucas não nos
diz como o Espírito “fechou as portas” nas regiões da Ásia, Mísia e Bitínia, mas
0 que é significativo é que Paulo não se acomodou nem ficou esperando por ins-
truções especiais do Senhor antes de sondar todas as possibilidades nas proximi-
dades. Por fim, na cidade costeira de Trôade, ele tem a visão de um macedônio
implorando que venha ministrar naquela parte nórdica da G récia.^ medida que
os crentes também buscam a orientação de Deus hoje em dia, des precisam reconhe-
cer que Deus usa uma ampla variedade de maneiras para se comunicar com seu povo.
As vezes, também serápor meio de portas abertas efechadas, às vezes significará uma
orientação mais surpreendente e, às vezes, envolverá simplesmente usar 0 bom senso
comum e santificado, sem plena certeza de que se tomou a única epossível decisão cor-
reta.143 Afinal, 15.28 parece notavelmente moderado para um decreto de tanta
importância: “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós”.

Ministério em Filipos (16.13-40). Lucas menciona várias paradas à medida que


nossos missionários atravessam o estreito de Bosforo para chegar à Europa, mas
só quando chegam a Filipos é que lemos a respeito de quaisquer de suas ati-
vidades.144 Essa colônia romana era um conhecido local onde se concentravam
líderes militares aposentados, mas não tinha praticamente população judaica
alguma.145 Ainda assim, Paulo está tentando alcançar primeiramente os judeus.

142Aliás, o texto se refere a uma única região da Frigia e da Galácia, um reconhecimento pre-
ciso de como a administração provincial romana havia unido as duas províncias, embora apenas
por um período relativamente curto da história daquelas províncias. Veja Colin J. Hcmer, “The
adjective Phrygia”, J T S 27 (1976): 122-6.
14·,E às vezes ele se comunica por intermédio da comunidade cristã mais ampla. Relembre
13.1-3 (González, Acts, p. 153-4). Veja ainda Gene L. Green, “Finding the will o f God: historical
and modern perspectives — Acts 16:1-30”, in: Gallagher; Hertig, orgs., Mission in Acts, p. 209-20.
144O uso por Lucas do pronome “nós”comcça c termina cm Filipos ncssa parte do livro (16.7;
20.5), o que talvez sugira que Lucas era daquela cidade, unindo-se ao grupo e liderando-o ali por
esse motivo.
145Quanto a várias opções de como Filipos poderia ser chamada de a principal cidade daquele
distrito (v. 12), sendo que Tcssalônica era maior, veja W itherington,/írft, p. 4 8 9 9 0 ‫־‬.
86 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA

Para constituir uma sinagoga, eram necessários dez chefes de família do sexo
masculino; ao que parece, Filipos não tinha sequer esse pequeno número. Em
vez de um local fechado para encontros, os judeus deveríam se reunir ao ar livre
para oração, de preferência junto a água corrente. Paulo vai, portanto, ao rio que
atravessava a cidade e descobre um grupo de mulheres judias reunidas ali no
Sabbath (v. 13). A maioria dos líderes religiosos do mundo de Paulo dificilmente
teria se dado ao trabalho de falar com um grupo tão pouco promissor, mas desse
pequeno bando Paulo faz sua primeira convertida na Europa, Lídia, e a partir
dele se forma o núcleo de uma igreja na cidade (v. 14,15). O nome da mulher
talvez signifique simplesmente “uma mulher da província de Lídia” (na Turquia
contemporânea); como mulher de negócios, sem nenhuma menção a marido, é
bem possível que não fosse casada, embora às vezes esposas helenistas fossem
mais influentes e “liberadas” do que suas colegas judias (cf. 13.50; 17.4). O fato
de ser “uma adoradora de Deus” pode significar que era uma gentia temente a
Deus e que se unia às mulheres judias para oração.
No segundo episódio envolvendo Paulo em Filipos, ele está exorcizando
uma escrava com “espírito pitónico” (v. 16-18). Assim chamado por causa de
Pitón, o dragão mítico, esse espírito fazia alusão à insanidade, à ventriloquia ou
à possessão demoníaca. Paulo reconhece que essa menina está sofrendo a última
dessas aflições. A mensagem dela (v. 17) é totalmente verdadeira, mas não dese-
jável. Na batalha espiritual, conhecer o nome ou a identidade de alguém era com
frequência uma chave para dominar aquele ser. Assim como nos Evangelhos, o
demônio ou demônios dentro dessa jovem estão, na verdade, tentando repelir
Paulo e seus companheiros, de maneira que finalmente ele tem de agir.6‫ ״‬A cura
que ele opera, no entanto, significa perda de renda para os donos da jovem, de
maneira que prendem Paulo e Silas e os acusam falsamente perante as autorida-
des locais (v. 19-21). (Timóteo e Lucas, que eram respectivamente 50% gentio
e 100% gentio, podem ter sido ignorados por isso.) Os magistrados açoitam os
“criminosos” e os lançam na prisão (v. 22-24).
Assim como ocorreu anteriormente com Pedro duas vezes, Paulo e Silas
serão agora resgatados de modo miraculoso da cadeia durante a noite (v. 25-28).
Quando percebe o que aconteceu, o carcereiro se prepara para fazer o que era
considerado honroso no mundo greco-romano: tirar a própria vida em vez de
ser executado, que era o castigo por deixar que presos escapassem. Paulo grita a
tempo de evitar o suicídio, o que deixa o carcereiro tão admirado que ele indaga:
“O que preciso fazer para ser salvo?” (v. 29,30).A resposta de Paulo constitui algo
parecido com 0 "João 3.16”de Atos: “Creia no Senhor Jesus e será salvo ” (v. 31). Esse146

146O mesmo fenômeno ocorre nos Evangelhos quando os demônios reconhecem quem é Cristo;
a respeito disso veja, e.g., W illiam L. Lane, The Gospel according to M ark (Grand Rapids: Eerdmans,
1974; London, Reino Unido: Marshall, M organ & Scott, 1975), p. 74.
88 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

versículo passa a acrescentar “você e sua casa”, o que sugere a alguns que nessa data
bem remota o cristianismo já aceitava bebês como crentes na igreja. De maneira
que, no versículo 33, o carcereiro e toda sua família são batizados — um texto
favorito, usado fora de seu contexto, a favor do batismo infantil (veja também o
v. 15). Mas o versículo 32 deixa claro que Paulo e Silas falaram a palavra de Deus
a todos os membros da família, enquanto o versículo 34 acrescenta que a família
inteira veio a crer em Deus. Desse modo, conquanto seja verdade que famílias
antigas eram frequentemente grandes e muitas vezes incluíam criancinhas, nessa
passagem não há indício algum de que essa família as tivesse.147 O que a história
ressalta sim é a importância de alcançar chefes de família em culturas patriarcais
porque as chances de influenciar o restante da família para Cristo aumentam de
modo considerável, a um nível que muitas vezes não acontece se apenas a esposa
ou o filho são os primeiros a crer.148
Os versículos 35 a 40 descrevem o que aconteceu depois que a sentença de
prisão foi interrompida. Na verdade, os presos haviam voltado à cela para passar o
resto da noite (!), contudo, de manhã as autoridades romanas se ofereceram para liber-
tar Paulo e Silas sem que outros soubessem. Em vez de aceitar a proposta e ir embora
em silêncio, Paulo declara sua cidadania romana e expõe o processo ilegal da noite
anterior.149Mas por que assegurar seus direitos agora e não na noite anterior? Pre-
sumivelmente ele reconheceu que esse era o momento mais estratégico para fazê-lo,
não para seu bem-estar, mas pelo bem do cristianismo em Filipos de modo geral.
Com uma declaração pública pelas autoridades romanas de que Paulo e Silas não
haviam cometido mal algum, a igreja incipiente conseguiría crescer livre do assédio
legal.15015Cristãos de qualquer contexto que estão tentando decidir quando assegurar seus
direitos e quando voluntariamente renunciar a eles devem, deforma parecida, indagarse
essa ação apenas os beneficiará ou se recámentepermitirá que 0 evangelho prospere mais.1‫יי‬

Em Tessalônica (17.1-9). A próxima parada sobre a qual Lucas narra alguns deta-
lhes aparece mais adiante ao longo de uma rota costeira que atravessa o leste
da Macedonia praticamente de norte a sul. Desenrola-se o mesmo padrão de

147Da mesma maneira Barrett ,Acts, p. 256.


'‘·,3A evangelizaçâo de lares inteiros em Atos também cumpre a instrução dada aos 72 em Lucas
10.5-7 de evangelizar lares acolhedores c tomar refeições com eles, pois o ministério dos 72 prenun-
cia a missão aos gentios. Veja David L. Matson, Household conversion narratives in Acts (Sheffield,
Reino Unido: SAP, 1996).
14,Aliás, essa passagem forma um paradigma para a ctica social paulina em Atos. Veja esp. David
Suazo, “El poder de la verdad para transformar culturas”, Kairós 37 (2005): 97-110.
- 11Era frequente cidadãos romanos que viajavam bastante carregarem pequenas tábuas de argila
que atestavam sua cidadania, de maneira bem parecida como usaríamos passaportes hoje cm dia.
151Cf. ainda González, Acts, p. 196. Weaver {Plots o f epiphany, p. 287) também acredita que,
como ocorre em outros textos greco-romanos, “a abertura da prisão c uma sinédoque espacial para
a abertura da cidade ao culto a deus”.
ATOS: O EVANGEL! K) SE ESPAL1 ΙΑ ‫ ן‬89

Paulo pregando que Cristo foi crucificado e ressuscitado segundo as Escritu-


ras, primeiramente aos judeus, e por fim o apóstolo é rejeitado e perseguido.
Lucas se refere explícitamente ao ministério na sinagoga por apenas três Sabbaths
(v. 2). Acaso Paulo ficou na cidade por mais tempo? Alguns, à luz de textos como
lTessalonicenses 2.9 ou Filipenses 4.16, pensam que sim, mas realmente não
temos certeza. A melhor tradução do versículo 6 não é “virou o mundo de cabeça
para baixo” (KJV), mas tem o sentido moderadamente depreciativo de “perturbou”
(NASB) o u “causou problemas”(NIV).l52z?Pn»í«V« Carta aos Tessalonicenses con-
firma quão bem e quão rapidamente ajovem igreja cresceu, apesar do tempo relativa-
mente curto que Paulo passou na cidade. Os capítulos 1 a 4 dessa carta constituem,
dentre todas as cartas de Paulo, a seção mais longa de elogio ininterrupto. Uma
das principais razões para o crescimento bem-sucedido foi o fato de os tessalo-
nicenses aceitarem que o evangelho é verdadeiramente a palavra de Deus (2.13).

Em Bereia (17.10-15). A parada seguinte levou nossos missionários a uma cidade


menor e menos importante; mas era a mais próxima independentemente de
tamanho. Talvez os missionários esperassem que ela fosse refúgio para eles, mas
não seria. O padrão idêntico de ministério seguido de oposição se repete, exceto
que a oposição vem quase inteiramente de forasteiros que estão no encalço de
Paulo. O que essencialmente distinguía os bereanos era sua mente aberta; 0 versículo 11
explica que eles “examinavam as Escrituras todos os diaspara ver se 0 que Paulo dizia
era verdade". Embora frequentemente se use essa descrição como texto fora de
contexto para os crentes terem um momento devocional diário ou um período
diário de estudo da Bíblia, no contexto Lucas está se referindo a judeus ainda
não convertidos que, com afinco, vasculham sua Bíblia e debatem uns com os
outros para ver se concordam com o que Paulo tem pregado.

Em Atenas (17.16-34). Provavelmente o sermão mais famoso de Paulo ocorre


nessa próxima comunidade a ser evangelizada, a capital e centro cultural da Gré-
cia. Ali havia estátuas e templos de todo o panteão grego, o que “angustiou
grandemente” o apóstolo (v. 16). Depois de tratar rapidamente do ministério de
Paulo com os judeus, Lucas passa a descrever a interação de Paulo com os filó-
sofos da ágora, o mercado ao ar livre (v. 17-21). Como parte do centro de uma
cidade antiga, a ágora era o local onde as pessoas se reuniam diariamente tanto
para ouvir as últimas notícias quanto para fazer compras e conversar umas com
as outras. Os equivalentes contemporâneos mais próximos seriam os meios de
comunicação de hoje (jornais, rádio, televisão, internet etc.), não necessariamente
locais públicos ou comerciais (em que os únicos oradores que as pessoas esperam

152Demonstrando a percepção de um elemento subversivo na fé cristã. Veja González, Acts, p. 198.


90 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

encontrar talvez sejam membros de seitas ou vendedores). Faculdades e univer-


sidades representam outro fórum parcialmente equivalente, visto que a stoa (ou
passarelas com colunatas) ao redor da ágora era onde os filósofos ensinavam seus
·alunos. O Areópago era o local original em que o conselho da cidade se reunia,
mas o termo havia passado a se referir ao conselho tanto quanto ao local, e é pos-
sível que nos dias de Paulo eles se reunissem na extremidade da própria ágora.m
Como em outros lugares, Paulo começa estabelecendo uma base comum
com seus ouvintes, comentando sobre o altar deles a um deus desconhecido
(v. 22,23) e prometendo tornar conhecido aquele deus.154 Adotando várias eren-
ças dos filósofos, mas rejeitando outras, em essência Paulo joga os estoicos e os
epicuristas uns contra os outros. Paulo declara que Deus está bem próximo de
todos e nesse sentido até mesmo cita Epimênides, um cretense do sexto século
a.C. (v. 27,28a). Mas nega a crença estoica de que tudo faz parte de deus (pan-
teísmo). Concordando com os epicuristas, ele crê que Deus ou os deuses criaram
as pessoas, mas, discordando deles, nega que os deuses tenham se tornado tão
distantes do mundo a ponto de não estarem envolvidos nele. De novo cita um
autor pagão, dessa vez Arato da Cilicia, que viveu no terceiro século a.C. (v. 28b).
Dessa maneira, Paulo revela Deus como aquele que criou e ainda age na
história, tendo finalmente o levado à história de Jesus e de sua ressurreição, o que
gera a necessidade de arrependimento por parte de todas as pessoas (v. 29-31).
De modo parecido hoje em dia, muitos missionários transculturais têm des-
coberto que precisam começar a apresentação do evangelho com Gênesis 1.1,
explicando a natureza da crença cristã em Deus, antes de poderem prosseguir
para citar João 3.16 e fazer com que o amor de Deus em Jesus seja entendido.1”
Apesar de algumas diferenças marcantes entre esse sermão e os outros de Paulo,
os princípios gerais adotados afastam a noção de que o texto é uma criação de
Lucas.156 Contudo, é um exemplo de evangelização transcultural, em particular para
os nossos centros cosmopolitas contemporâneos. Os comentários de Kenneth Gangel*156

153Em essência, a câmara municipal diz a Paulo: “Nós temos o direito legal de julgar o que c
esse novo ensino”. Veja Bruce W. Winter, “On introducing gods to Athens: an alternative reading
o f Acts 17:18-20‫״‬, T ynB ul47 (1996): 82.
15'1Essa introdução também refutaria a acusação de que Paulo estava promovendo divindades
estrangeiras (v. 18). A palavra traduzida na N IV como “religiosos” (v. 22) também pode significar
“supersticiosos”. Com o parte de uma introdução que visava estabelecer uma base comum c conse-
guir com que fosse ouvido com uma atitude positiva, Paulo certamente pretendia que seus ouvintes
entendessem isso com o sentido positivo de “reverentes a D eus”, mas é bem possível que Lucas e
seus leitores tenham percebido um duplo sentido com nuances mais negativas.
155Aliás, a famosa Missão Novas Tribos desenvolveu todo um currículo que basicamente conta a
história da Bíblia desde o início e é usado para evangelização e discipulado entre povos não alcançados.
16'‫־‬A lém disso, Paulo já vem pregando aos atenienses (v. 17-21), de modo que esse “sermão” não
precisa proclamar todo o evangelho. Veja ainda John J. Kilgallen, “Acts 17:22b-31 — what kind o f
speech is this?”, R E 110 (2003): 417-24.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA I 91

feitos há uma geração continuam totalmente válidos: “O cristianismo contem-


porâneo não tem apresentado à elite intelectual da sociedade americana de hoje
um testemunho tão marcante acerca da verdade como aquele que os filósofos
gregos ouviram naquele dia em Atenas. A ‘pregação da cruz’ não tem de con-
sistir em rodeios verbais simplistas, calculados para evocar reações emocionais
apropriadas. O sermão no Areópago nos oferece um padrão de excelência em
profundidade e relevância. Que os atenienses dos dias de hoje tornem a ouvir a
palavra do Cristo ressuscitado”.157
Ainda assim, é fácil ler os versículos 32 a 34 e sentir certa decepção, em espe-
ciai quando nos lembramos das exultantes reações ao evangelho no Pentecostés. E
provável que a noção de um corpo ressuscitado tenha sido a maior pedra de tropeço
para gregos cultos, os quais em geral criam apenas na imortalidade da alma. Uns
poucos creram, dois dos quais Lucas menciona pelo nome: Dionisio, um dos mem-
bros do conselho, e uma mulher chamada Dâmaris, provavelmente uma convidada
de honra, porque o conselho em si era constituído apenas de homens. Outros esta-
vam pelo menos abertos para ouvir mais em data posterior. Plausivelmente essa rea-
çâo foi e é o paradigma mais típico no caso de ministérios em importantes centros
pagãos urbanos.158 De qualquer maneira, Lucas não dá respaldo à ideia, sugerida por
alguns, de que Paulo, ao contrário do que fez em Corinto (ICo 2.2), adotou uma
estratégia equivocada em Atenas ao não pregar o “evangelho simples” de Cristo c
ele crucificado. Um levantamento em toda Primeira Carta aos Corintios demonstra
que ele falou sobre uma ampla gama de temas, enquanto fica óbvio que o relato de
Lucas sobre 0 sermão de Paulo em Atenas está drasticamente abreviado.159

Para Corinto e em seguida de volta para casa (18.1-22). Localizada em um pequeno


istmo, Corinto era um importante porto e centro comercial. Notória por sua baixa
moral e prostituição desenfreada, a cidade legou à língua grega a gíria “moça
corintia” como sinônimo de prostituta. Dizia-se que, pelo menos no período
pré-cristão, o templo de Afrodite no Acrocorinto, uma enorme montanha de
pedra com vista para a cidade, empregava mais de mil sacerdotes ou sacerdoti-
sas sagrados que também se tornavam parceiros sexuais de adoradores que que-
riam conseguir se unir à deusa.160 Não é de admirar que Paulo permaneça nessa*15

1,7“Paul’s Areopagus speech”, BSac 127 (1970): 312. Cf. tb. J. Daryl Charles, “Engaging the
(neo)pagan mind: Paul’s encounter with Athenian culture as a model for cultural apologists (Acts
17:16-34)”, T J 16 (1995): 47-62; e Karl O. Sandnes,“Paul and Socrates: the aim o f Paul’s Areopagus
speech”, J S N T 50 (1993): 13-26.
lssCf. Patrick Gray,“Implied audiences in the Areopagus narrative”, TynBul55 (2004): 205-18.
15,Sobre o sermão todo c sua coerência com as idcias dc Paulo em suas cartas, veja JBertil Gartner,
The Areopagus speech and natural revelation (Lund: Gleerup, 1955).
1',"Quanto aos antecedents histórico-culturais dc Corinto, veja Jerome M urphy-O’Connor, St.
Paul’s Corinth: texts and archaeology (W ilmington: Glazier, 1983).
92 OS ATOS DOS APÓSTOLOS

comunidade por mais tempo até o momento — mais de ano e meio (v. 11) — ,
tentando estabelecer uma igreja viável.
Os versículos 2 a 4 nos dão um vislumbre de como Paulo frequentemente
se sustentava durante seu ministério itinerante: exercendo um ofício que prova-
velmente havia aprendido com o pai quando era jovem, o dc fazer tendas. Em
geral, os rabinos judeus eram proibidos de aceitar dinheiro por seu ministério
de ensino, logo precisavam de outra ocupação com a qual se sustentar (veja mais
adiante nossa análise sobre lCoríntios 9). Em algumas ocasiões, Paulo aceita,
sim, presentes de igrejas, exceto a igreja em que está ministrando no momento
(veja seção sobre Filipenses), mas a ajuda de outros não dá conta da maioria de
suas despesas enquanto viaja.161 Aqui ele se encontra com Aquila e Priscila, uma
equipe de colegas fazedores de tendas, formada por marido e mulher, os quais,
por seus próprios méritos, se tornarão importantes líderes cristãos da igreja nos
primordios à medida que a narrativa progride.
Com base nesse parágrafo inicial sobre o tempo de Paulo ern Corinto tam-
bém ficamos sabendo da expulsão, ordenada por Cláudio, dos judeus de Roma
(v. 2), provavelmente ocorrida em 49 d.C., um acontecimento igualmente des-
crito pelo historiador romano Suetônio. Suetônio explica que a expulsão foi
desencadeada por um tumulto de judeus em Roma por instigação de alguém
chamado Chrestus, que a maioria dos estudiosos acredita ser uma referência
truncada a Christus, a palavra latina para Cristo, e que o que realmente aeon-
teceu foi uma disputa entre cristãos e judeus não cristãos sobre a mensagem
do evangelho ( Vida de Cláudio 25). Com isso ficou claro que o cristianismo já
não era apenas mais uma seita judaica; ao contrário do que havia acontecido
com o judaísmo, Roma gradativamente não daria ao cristianismo o privilégio
de ser considerada religio licita (religião lícita), livre da exigência de adorar o
imperador. Todavia, depois da morte de Cláudio em 54 d.C., muitos judeus
retornaram para Roma, e houve outra década de relativa paz até que Nero
desencadeou sua perseguição no ano 64.
O ministério de Paulo em Corinto segue o agora previsível padrão de
pregação aos judeus, mas por fim recebe oposição significativa a ponto de ele se
voltar para os gentios (v. 5-11). Não causaria surpresa se ele experimentasse consi-
derável desânimo a essa altura. De qualquer maneira, em uma rara passagem em que
Jesus diz algofora dos Evangelhos, elefala diretamente a Paulo, animando-o acerca de
que está com ele eprometendo que “tenho muitas pessoas nesta cidade”(v. 10). Como
não há indício algum de que o cristianismo precedeu a Paulo em Corinto, o que
o Senhor deve estar dizendo é que ele já determinou que um número significa-
tivo de pessoas responda positivamente ao evangelho enquanto Paulo continua

1',1Sobre todas essas práticas, veja ainda Blomberg, Neither poverty nor riches, p. 185-6.
ATOS: O EVANGELI10 SE ESPALHA I 93

falando. Como acontece por todas as Escrituras, a doutrina da eleição não é um


obstáculo, mas um incentivo à cvangelização.’62 Sem a atividade inicial de Deus na
vida das pessoas, não havería esperança de sequer alguém chegar a aceitar a Cristo.
A oposição judaica culmina, por fim, com Paulo sendo levado à presença de
Gálio, o procónsul romano cm Corinto. Mas Gálio ainda considera que a disputa
é algo interno dentro do judaísmo e se recusa a julgar Paulo. Isso estabelece um
importante precedente para a legalidade do cristianismo em Corinto, compará-
vel com a libertação de Paulo em Filipos.163 E interessante que a multidão, em
grande parte pagã, reage voltando-se contra Sostenes, o dirigente da sinagoga,
enquanto Gálio fecha os olhos para o espancamento, uma prova do profundo
antissemitismo no mundo grego daquela época.164165E de imaginar se esse é o
mesmo Sostenes cujo nome aparece no versículo inicial de lCoríntios. Afinal,
Crispo, seu predecessor como dirigente da sinagoga, já havia se convertido (v. 8).
O parágrafo final que trata da segunda viagem missionária de Paulo
(v. 18-22) descreve Paulo cortando o cabelo em Cencreia “por causa de um voto
que havia feito” (v. 18). O mais provável é que esse tenha sido um voto de nazi-
reu (veja Nm 6), que teria culminado em ele oferecer um sacrifício no templo
quando chegou a Jerusalém.163 Será que Paulo teria realmente feito isso como
cristão, visto que Jesus era o sacrifício definitivo pelos pecados? É difícil saber;
Lucas não dá atenção à questão e, mesmo que tivesse dado, o sacrifício podería
ter sido uma oferta de ação de graças, e não uma oferta pelo pecado.166 Lucas
também menciona que Paulo faz uma breve parada em Efeso, onde recusa o con-
vite para ficar por algum tempo, mas promete voltar (v. 19-21). Aliás, Efeso será
a mais proeminente parada da terceira viagem de Paulo.

Tornando a visitar cidades da primeira viagem (18.23). Com o último versículo da


subdivisão anterior e esse primeiro versículo sobre a mais nova viagem de Paulo,
Lucas mostra a rapidez com que consegue cobrir enorme distância e tempo nas
viagens de Paulo. No entanto, é importante observar a preocupação contínua
de Paulo com aqueles anteriormente evangelizados, com as igrejas que ajudou

1“ Um excelente levantamento desse tema é James I. Packer,Evangelism and the sovereignty o f


God (London, Reino Unido/Downcrs Grove: 1VP, 1961) [edições em português: A evangelização e
a soberania de Deus, tradução de Gabriele Grcggersen (São Paulo: Cultura Cristã, 2002) e A evan-
gelização e a soberania de Deus, tradução de João Marques Bentes (São Paulo: Vida Nova, 1990)].
1“ Mais específicamente, mostrando que o cristianismo ainda era uma religio licita. Veja Bruce
W. Winter, “G albos ruling on the legal status o f early Christianity (Acts 18:14-15)”, T y n B u l50
(1999): 222.
164Veja tb. Moyer V. Hubbard, “Urban uprisings in the Roman world: the social setting on the
mobbing o f Sosthcnes”, N T S 51 (2005): 416-28.
165A referencia de Lucas a “subir” leva naturalmente a pensar cm Jerusalém, visto que física-
mente sempre se subia para chegar à colina em que Jerusalém estava situada.
166Sobre o voto, veja esp. W itherington, Acts, p. 557.
94 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

a plantar c com o crescimento do cristianismo, em particular em regiões onde


experimentava oposição significativa. No entanto, Lucas está bem mais interes-
sado no que acontece em Efeso, cidade da qual ele trata em seguida.

Ministério em Efeso (18.24— 19.20). Aqui Paulo permanecerá quase três anos
e talvez um pouco mais. Efeso era outro importante centro de cultura e vida
religiosa no mundo romano.167 O primeiro acontecimento narrado por Lucas
(v. 24-28), começando antes de Paulo chegar, nos apresenta Apolo. Algo da
natureza cosmopolita do império do primeiro século se revela quando reconhe-
cemos que ele era um judeu do Egito, ensinado por romanos na Asia, para pre-
gar na Grécia! Ele conhecia seu Antigo Testamento, havia sido instruído sobre
alguns elementos do cristianismo, ensinava com precisão acerca de Jesus, mas
“conhecia apenas o batismo de João” (v. 24,25). Presumivelmente isso significa
que ele não tinha ouvido falar do batismo do Espírito, ou pelo menos não como
se cumpriu no Pentecostés, e, desse modo, em certo sentido, estava pregando uma
mensagem incompleta. Priscila e Áquila lhe suprem quaisquer informações que
ele não tivesse (v. 26). É interessante que, tal como nos versículos 18 e 19, Lucas
mencione primeiro o nome da esposa, naquela época uma sequência incomum.
Talvez devamos reconhecer que, de alguma forma, ela era a pessoa mais proemi-
nente dos dois, mas concluir que, em algum sentido, ela é formalmente uma líder
ou ocupante de cargo na igreja extrapola o que o texto diz. Em contrapartida,
isso mostra sim que é apropriado mulheres ensinarem homens em pelo menos
alguns contextos cristãos (uma importante ressalva a se ter em mente quando
nos debatemos com lTm 2.12).168
Atos 19.1-7 apresenta um dos relatos mais curiosos desse livro. Quando
Paulo volta a Efeso, encontra doze homens a quem Lucas chama de “discípu-
los” (v. 1). Contudo, quando ficamos sabendo de tudo o que ele tem a nos dizer
sobre essas pessoas, parece altamente provável que esteja simplesmente empre-
gando o termo de modo fenomenológico, isto é, de acordo com a descrição que
fazem de si mesmos. Afinal, ao contrário de Apolo, que aparentemente não havia
ouvido apenas sobre o batismo do Espírito, esses “crentes” nem mesmo ouviram
falar de um Espírito Santo (v. 2)! Isso significa que não eram judeus, porque o
Espírito aparece em todo o Antigo Testamento. Mas também significa que não
poderíam ter sabido muito a respeito da mensagem de João Batista, apesar de
afirmarem ter recebido seu batismo, porque a predição por João de alguém que
viria batizar no Espírito era básica em sua mensagem. E certamcnte também não

1',7Quanto aos antecedentes históricos, cf esp. Paul Trebilco, The early Christians in Ephesusfrom
Paul to Ignatius (Tubingen: Mohr, 2004).
1“ O texto ocidental acrescenta ao versículo 27 que os efésios pediram a Apolo que viesse e
ministrasse a eles.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA 95

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96 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

teriam conhecido muito acerca de Jesus, uma vez que, particularmente no Evan-
gelho de Lucas, costuma-sc dizer que ele c capacitado pelo Espírito.
Assim, conquanto, à primeira vista, essa passagem pareça ser 0 terceiro e
último distanciamento do “pacote Pentecostal” (veja comentários sobre caps.
8 c 10), porque tanto o batismo cristão quanto a chegada do Espírito estão sepa-
rados da “crença” inicial, na verdade é impossível imaginar esses discípulos terem
sido cristãos desde o princípio. Somente depois de Paulo preencher as imensas
lacunas no conhecimento deles é que eles têm condições de assumir um com-
promisso verdadeiro e abalizado, e então o batismo e a vinda do Espírito advêm
imediatamente (v. 4-7). Essa é também a terceira e última passagem em Atos em
que aparece o falar em línguas (v. 6) (veja a respeito nossos comentários acima,
p. 72-3).169
Os versículos 8 a 10 mostram o ministério de ensino de Paulo seguindo o
mesmo padrão de antes: primeiro aos judeus e em seguida aos gregos. É aí que
o texto ocidental do versículo 9 acrescenta que Paulo ensinava no auditório de
Tirano “da quinta à nona hora” (i.e., das l l h às 16h). Como essa era a hora mais
quente do dia e incluía um tempo para uma sesta à tarde, é bem possível que 0
salão estivesse disponível, e esse pequeno acréscimo talvez reflita uma verdade
histórica. Isso nos leva a indagar o quão comprometidos nós estamos em ensi-
nar ou ouvir a palavra de Deus, até mesmo na hora menos desejável de nosso
dia. Os versículos 11 e 12 descrevem Paulo operando milagres espetaculares
que fazem lembrar os de Pedro em 5.15, sem dúvida outro paralelo deliberado
entre os retratos dos dois homens. O poder de Deus em Jesus é demonstrado
como algo real.zí natureza quase mágica desses milagres talvez seja apropriada
na cidade que era 0 centro de prática de muitas “magias" antigas — mais parecidas
com 0 que hoje chamaríamos de ocultismo.17° Entretanto, Lucas toma o cuidado de
destacar que Deus realizou esses extraordinários milagres; não foi nem Paulo
nem a roupa que causou as curas.171
Aliás, o episódio logo em seguida ilustra o poder e o perigo daquela magia
(v. 13-19). Os sete tolos filhos de Ceva172 tentam manipular o poder de Jesus, da
mesma maneira que praticantes de encantamentos mágicos tentavam manipular
deuses pagãos, mas, em vez disso, se veem dominados pelos poderes demoníacos.

1‫׳‬,,'Cf. D unn, Baptism, p. 83-9.


1,0Quanto aos milagres “mágicos” em Efeso, veja Fernando, Acts, p. 520, que também apresenta
uma análise equilibrada da aplicação contemporânea.
171Hans-Josef Klauck, Magic and paganism in early Christianity: the world o f the Acts o f the Apostles
(Edinburgh: T&.T Clark, 2000), p. 98-9.
12‫׳‬Nenhum sumo sacerdote chamado Ceva aparece em quaisquer dos antigos registros judaicos.
Parece que o nome era um apelido que significa “canhoto”. Ê possível que ele simplesmente tenha
afirmado falsamente que era sacerdote (Kee, To every nation under heaven, p. 231), embora m ui-
tos pensem que era um judeu renegado que se tornou sumo sacerdote de alguma religião romana.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬97

Uma fórmula notadamente paralela foi preservada nos papiros: “Conjuro você pelo
Deus dos hebreus, Jesus”. No entanto, 0 verdadeiro poder divino requer a crença
em Cristo para se apropriar devidamente desse poder.173 A medida que a notícia
do fiasco se espalha, muitos se arrependem, e acontece a primeira cerimônia de
“queima de livros” na história da igreja.174 Particularmente significativo é quanto
dinheiro se perdeu com isso — o equivalente a cinquenta mil dias de remune-
ração pelo salário mínimo. Que bom seria que os cristãos de hoje se importas-
sem em causar um prejuízo tão grande na, digamos, indústria pornográfica! O
fato de milhares desses papiros mágicos de uma data um pouco posterior terem
sobrevivido nos lembra de que a reforma não durou muito tempo. Mas a essa
altura a reação foi suficientemente positiva para que Lucas voltasse a mencionar
a difusão da palavra do Senhor e concluísse outra seção de seu volume (v. 20).

PERGUNTAS PARA REVISÃO


1. Que princípios para orientação divina podemos deduzir das etapas ini-
ciais da segunda viagem missionária de Paulo?

2. Como 0 ministério de Paulo em Filipos demonstra o uso de seus ante-


cedentes triculturais?

3. Compare e contraste o ministério de Paulo em Tessalônica e Bereia.

4. Se a abordagem de Paulo em Atenas não foi basicamente falha, como


podemos explicar uma reação tão fraca ali? Que princípios permanentes
podemos extrair de seu modelo de pregação ao Areópago?

5. Como o ministério de Paulo em Corinto demonstra seu uso de seus


antecedentes triculturais?

6. Qual é a importância de cada um dos quatro episódios envolvendo Apoio


e Paulo em Éfeso em Atos 18.24— 19.19?

173“Lucas está tentando passar a ideia de que o cristianismo não tem nenhuma relação com
magia c que o nome de Jesus não é uma fórmula mágica de encantamento” (Fitzmycr,Z?rfí, p. 646).
Clinton E. Arnold {Ephesians: pow er and magic [Cambridge/New York: CUP, 1989], p. 19) observa
que: “Na religião fazem-se orações e pedidos aos deuses; na magia dão-se ordens aos deuses e, por-
tanto, esperam-se resultados garantidos”.
1'4Mais uma vez é importante salientar que esses não eram documentos que apenas narravam
histórias de pessoas envolvidas com o ocultismo. Faziam parte da parafernália usada nos próprios
rituais diabólicos (em que se incluíam encantamentos, fórmulas, cantilenas e feitiços). Cf. Klauck,
Magic and paganism, p. 101-2.
98 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

As viagem finais de Paulo a Jerusalém e a Roma (19.21 — 28.31)


Os últimos dias em Efeso (19.21-41). Essa é a única passagem no sumário de
Lucas em que o começo de urna nova subdivisão não parece corresponder exa-
tamente ao inicio ou ao final de uma viagem missionária, um lembrete de que
falar de viagens diferentes talvez seja impor uma exatidão moderna à narrativa
de Lucas. Mas o versículo 21 oferece um claro paralelo com Lucas 9.51, em que
Jesus toma a firme decisão de ir para Jerusalém. Conquanto Paulo não vá ser
crucificado ali, será detido, julgado e encarcerado, assim como aconteceu com
Jesus, e quase morrerá na desventurada viagem a Roma. Parece, então, prová-
vel que Lucas veja paralelos entre as etapas finais dos ministérios de ambos
os homens e esteja deliberadamente destacando-as.1/5 Embora Paulo ainda vá
permanecer um pouco mais em Efeso, a partir desse momento da narrativa ele
está realmente vislumbrando Jerusalém, de modo que essa é, afinal, uma rup-
tura natural no sumário do livro (observe como, no v. 22, ele já está enviando
ajudantes adiante dele).
O acontecimento final que Lucas decide registrar antes de Paulo partir da
cidade é o tumulto instigado pelo ourives Demétrio (v. 23-41). Efeso tinha um
templo à deusa Artemis (em grego) ou Diana (em latim), divindade padroeira
da caça e também da fertilidade. Ali ela era representada por uma grande está-
tua de uma mulher com muitos seios, supostamente caída do céu. O templo foi
considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo. Uma vez que os cristãos
têm granjeado uma abertura tão grande na comunidade, antigos pagãos estão
abandonando a adoração de ídolos de maneira que isso está trazendo dificulda-
des para a economia, baseada na fabricação esmerada, com uso de prata, de esta-
tuetas da deusa. Demétrio, que pode, por assim dizer, ser comparado com 0 que hoje
seria chamado de líder sindical, tenta expressar sua queixa com termos religiosos, mas
é claro que éa questão econômica que impulsiona a sua ira (v. 23-27).
Incitando a multidão ao delírio, os ourives provocam uma desordem tão
grande que as autoridades romanas têm de intervir para salvar os companheiros
de Paulo. O próprio Paulo teria tentado falar à multidão, caso seus amigos não
o tivessem impedido (v. 28-34). O escrivão da cidade explica à turba o perigo de
aquele motim ser relatado a Roma e a viabilidade de o devido processo legal se
dar ali mesmo, de modo que conseguiu dispersar a multidão (v. 35-41). De novo
as autoridades romanas demonstram que os cristãos não fizeram nada ilegal.175176

Começando a regressar (20.1-16). O capítulo 20 descreve as etapas iniciais da via-


gem de Paulo de volta a Jerusalém (v. 1-16). Enquanto torna a visitar as igrejas

175Talbert, Acts, p. 12.


,7,’C f. ainda Robert F. Stoops Jr., “Riot and assembly: the social context o f Acts 19:23-41”,
J B L 108 ( 1989): 73-91.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬99

que plantou em sua segunda viagem missionária, Paulo também reúne delega-
dos de várias delas, sem dúvida de acordo com os rígidos mecanismos de con-
trole que ele estabelece para acompanhar a coleta de dinheiro que está levando
de volta para a Judeia (v. 1-6; cf. 2Co 8— 9).177
Um detalhe pequeno e levemente engraçado aparece nos versículos 7 a 12.
Parando em Tróade, Paulo pregou “no primeiro dia da semana” quando os crentes
“se reuniram para partir o pão” (v. 7). Há aqui urna importante e antiga referência
a cristãos não mais se reunirem no Sabbath judaico, mas no domingo, embora na
semana de trabalho romana eles não teriam tido esse dia de folga. Como acon-
tecería até o quarto século (quando, para contribuir para o progresso do cristia-
nismo, Constantino tornou o domingo dia consagrado), os crentes se reuniam ou
bem cedo nas manhãs de domingo, enquanto ainda estava escuro e antes de irem
para o trabalho, ou, mais comumente, nas noites de domingo depois do trabalho
e também depois de escurecer. Estaríamos empenhados em participar costumei-
ramente dos cultos, caso essas restrições nos fossem impostas? O culto incluía o
partir do pão, que talvez se refira à ceia do Senhor. De qualquer maneira, tanto
por causa do ambiente abafado quanto por causa do demorado ensino de Paulo,
um jor‫׳‬em chamado Eutico vai ficando cada vez mais sonolento, cai da janela
em que estava sentado e parece ter morrido. Mas Paulo se lança sobre o jovem e
declara que ele está vivo. Embora seja possível que Eutico nunca tenha realmente
morrido, parece mais provável que Lucas queira que entendamos que Paulo é
alguém com poder de realizar uma ressurreição, da mesma maneira que tanto
Pedro quanto Jesus haviam feito antes dele.

Falando aos presbíteros de Efeso (20.17-38). A caminho do leste Paulo e seus


companheiros fazem rápidas escalas em vários portos, mas apenas em Mileto
ele para por algum tempo (v. 13-16). Não querendo que o persuadam a passar
muito tempo na própria Efeso, ele convoca os presbíteros daquela comunidade
para irem a esse porto próximo e se despede dando-lhes uma instrução imbuída
de autoridade (v. 17-35). E revelador que nessa fala encontremos mais pontos
em comum com a teologia das cartas de Paulo do que em qualquer outra de suas
falas ou sermões em Atos. Afinal, essa c a única mensagem registrada por Lucas
em que Paulo prega a um grupo existente de cristãos, e não como parte de um
trabalho evangelístico.178 Paulo também age assim quando escreve suas cartas
a igrejas estabelecidas. Uma fala de despedida era um gênero judaico comum

177O fato de, em 24.17, Paulo sc referir a trazer esmolas a Jerusalém confirma essa suspeita.
178Particularmente notáveis são o número e a natureza dos paralelos com ITessalonicenses,
esp. sobre liderança, mas também sobre sofrimento, trabalho e dinheiro, e a morte de Jesus. Veja
Steve W alton, Leadership and lifestyle: the portrait o f Paul in the M iletus speech and 1 Ihessalonians
(Cambridge/Ncw York: CUP, 2000), p. 140-85.
100 I OS ATOS DOS APOSTO] .OS

oral e/ou escrito. O exemplo bíblico mais antigo vem de Jacó em Gênesis 49; o
próprio Jesus faz uma longa despedida em João 14— 16 (e uma mais breve em
Lucas 21). Sem dúvida Lucas enxerga outro paralelo aqui entre Paulo e Cristo.
A ênfase dafala de Paulo é sua insistência de que terminou seu trabalhofiel-
mente entre os efésios, em particular ao pregar todo 0 conselho da palavra de Deus
fu 20,27,31).179 Paulo também prevê seu sofrimento vindouro (v. 22-25), o que
para alguns é sinal de que Lucas escreveu depois da morte de Paulo. Mas, assim
como ocorre no Evangelho, se Deus é capaz de revelar acontecimentos futuros,
então não há motivo algum para entender essa como uma “profecia depois do fato
acontecido”. Paulo instrui os presbíteros a serem fiéis (v. 28-31) em uma seção
que identifica os “presbíteros” (presbuteroi) com os “supervisores” (episkopoi) e
“pastores” (o grego mantém uma forma verbal de poimaínõ). Esses três termos
vêm de palavras cuja raiz pode, em outros contextos, ser traduzida por “présbite-
ros”, “bispos” e “pastores”, respectivamente. Conquanto essas seis palavras tenham
vindo a significar muitas coisas diferentes em diferentes denominações ao longo
da história da igreja, no Novo Testamento elas aparecem como sinônimos para se
referir ao “ofício” mais alto de líder da igreja em uma congregação local.180 Porque
em qualquer comunidade em particular “a igreja” teria sido composta de várias
congregações nas casas, uma vez que a congregação superasse as 35 a 50 pessoas
que era possível comportar em uma casa abastada no antigo Império Romano,
tendo cada casa provavelmente um presbítero nomeado. E possível que periodi-
camcnte toda a assembléia cristã de determinada comunidade se reunisse, pre-
sumivelmente ao ar livre.181
A fala de Paulo em Mileto contém um versículo de particular importância
teológica. O final do versículo 28 faz referência à “igreja de Deus, que ele com-
prou com seu próprio sangue”. Pelo fato de Lucas não enfatizar a expiação tanto
quanto oí autores dos outros Evangelhos fazem ou tanto quanto Paulo faz cm
suas cartas, ler essa afirmação nos assegura que Lucas reconhece sim 0 sacrifício
substitutivo de Jesus. Se a tradução da NI V estiver correta, essa é também uma
referência singular não apenas ao sangue de Jesus, mas também ao sangue de
Deus, uma metáfora realmente notável. Mas é igualmente possível traduzir o
grego como “que ele comprou com o sangue do seu próprio (i.e., do seu filho)”,
o que pode ser a interpretação correta.

179“Paulo não deixou dc proclamar a mensagem completa, independentemente das consequên-


rias que isso lhe trazia. Um segundo fato é que ele alcançava todos os lugares e todas as pessoas
que era possível alcançar” (Dean S. Gilliland, “For missionaries and leaders: Paul’s farewell to the
Ephesian elders — Acts 20:17-38”, in: Gallagher; Hcrtig, orgs., Mission in Acts, p. 264.
150Veja ainda Robert L. Saucy, The church in God’s program (Chicago: Moody, 1972), p. 151-2.
181Sobre igrejas nas casas aqui e cm todo o mundo cristão primitivo, veja Bradley Blue, “Acts and
the house church”, in: Gill; Gempf, orgs., The book o f Acts in its Graeco-Roman setting, p. 1 1 9 2 2 2 ‫־‬.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬101

Paulo conclui o comissionamento com outro lembrete de ele ser pessoal-


mente exemplo do evangelho (v. 32-35), dessa vez ressaltando como não cobi-
çou ajuda financeira. Nesse contexto Paulo cita um dito de Jesus não encontrado
em nenhum dos Evangelhos existentes: “É mais abençoado dar do que receber”
(v. 35). Esse é um lembrete valioso de que nem tudo o que Jesus ensinou chegou
a ser incluído nos Evangelhos escritos (cf. Jo 21.25) e de que, mesmo antes de
sua composição, havia gente preservando os ensinos de Jesus de boca em boca.
No geral, a partir da liderança servil de Paulo é possível discernir pelo menos
dez princípios cristãos, em especial nessas etapas finais de seu ministério público:
(1) o foco em servir a Cristo; (2) capacitar outros a servir; (3) mentoreamento;
(4) lidar pessoalmente com as questões mais difíceis; (5) ênfase sobre as respon-
sabilidades das igrejas; (6) liderar mediante persuasão e exemplo; (7) treinamento
de liderança; (8) foco nas pessoas e não nos resultados; (9) contextualização mui-
ticultural; e (10) terminar bem.182

DeMileto a Jerusalém (21.1-16). Essa subdivisão seguinte é mais um itinerário de


viagem do que uma série de acontecimentos diferentes. Talvez a questão teoló-
gica mais interessante que surge desses versículos envolva a natureza da profecia
cristã.183 Em 21.4, os fiéis em Tiro instam Paulo, “por meio do Espírito”, a não ir
a Jerusalém. Essa expressão emprega a locução grega (dia pneumatos) idêntica a
11.28, quando Agabo profetizou. Mas o versículo 5 descreve Paulo e seus segui-
dores prosseguindo na viagem. Então, nos versículos 10 e 11, o próprio Ágabo
aparece predizendo específicamente que Paulo será entregue aos gentios em
Jerusalém, e sua predição é explícitamente atribuída ao Espírito Santo. De novo
um grupo de cristãos suplica a Paulo que não continue sua viagem, contudo, ele
insiste em que precisa ir. Quando não conseguem dissuadi-lo, as pessoas decía-
ram: “A vontade do Senhor seja feita” (v. 12-14)!
O que está acontecendo aqui? Paulo está indo contra a vontade de Deus?
As pessoas não reconhecem isso? Uma explicação melhor é que, ao contrário das
profecias do Antigo Testamento — que, caso procedessem verdadeiramente do
Senhor, tinham de ser 100% exatas — , os profetas do Novo Testamento exercem
um dom espiritual (veja abaixo, p. 261), que precisa ser testado em cada igreja
em que o dom se manifesta (1C0 14.29). Nenhum outro dom espiritual chega
a ser empregado de forma perfeita pelos cristãos, portanto, parece inadequado
insistir em que o exercício da profecia como dom cristão precisa ser inerrante.*18

182Grace P. Barnes, “The art o f finishing well: Paul as servant leader — A cts 18:1-28 and
20:17-38”, in: Gallagher; Hertig, orgs., Mission in Acts, p. 246.
18‫׳‬,Não se deve ignorar o versículo 9, cm que as filhas de Filipe profetizam, em cumprimento
de Joel 2.28,29 (lembre-sc de A t 2.17,18). “Elas participaram, portanto, da proclamação do evan-
gelho” (Reimer, Women in the Acts o f the Apostles, p. 248).
102 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

Nesse caso, provavelmente os cristãos de Tiro receberam a mesma mensagem


que Agabo anunciou mais tarde e então — de modo natural, mas incorreto —
pressupuseram que, se Paulo ia ser preso em Jerusalém, não devia ser da vontade
de Deus que ele fosse para lá. Mas eles fizeram essa declaração como se toda ela
tivesse vindo diretamente do Senhor.
Há aqui uma advertência para profetas contemporâneos — sejam aqueles
que de modo carismático declaram proferir as próprias palavras de Deus, sejam
aqueles de círculos não carismáticos que simplesmente proclamam com toda
confiança “o Senhor me disse” ou “o Senhor diz a vocês”, sem dar margem para
possíveis equívocos de interpretação humana.184 Aliás, a determinação de Paulo
em prosseguir continua sendo exemplar, e rapidamente recorda-se da experiên-
cia de Jesus no Getsêmani (v. 13,14).

A chegada cm Jerusalém (21.17-26). O que começa como uma recepção calorosa


logo se torna um clima tenso, quando fica claro que o problema temporariamente
solucionado no Concilio Apostólico ainda assola os cristãos de Jerusalém. Crentes
têm a falsa impressão de que Paulo está ensinando os judeus a abandonar a Lei
mosaica e proibindo a circuncisão, quando na verdade tudo o que Paulo ensinou
era liberdade da Lei, embora claramente acreditando que deve-se praticá-la com
vistas à evangelização dos judeus, mesmo quando ninguém pensava que a salvação
estava em jogo (cf. IC o 9.20). Para aplacar a ira dos cristãos judeus seguidores
da Lei, os presbíteros sugerem que Paulo se purifique e pague pelos sacrifícios
em favor de alguns homens que estão cumprindo um voto (v. 17-26). Tornam a
surgir todas as mesmas questões que anteriormente envolveram o próprio voto
de nazireu feito por Paulo (veja acima, p. 92-3). Críticos denunciam que o retrato
feito aqui por Lucas é incompatível com o Paulo das cartas, o qual jamais apoiaria
sacrifícios do templo. Entretanto, uma vez mais, é bem possível que Paulo esteja
simplesmente praticando sua própria estratégia de ser “tudo para todas as pes-
soas” para que por todos os meios conseguisse salvar alguns (IC o 9.22).185 Em
contrapartida, talvez Lucas esteja dando a entender que essa não foi a melhor
ideia, pois na verdade o tiro sai pela culatra.186 Nos versículos 27 a 32, alguns
judeus de fora da cidade incitam a multidão, relatando falsamente que Paulo levou
um gentio àquela parte do recinto do templo reservada aos judeus. Segue-se um 18

18“1Cf. a explicação de Murray J. Harris, “Appendix”, in: Colin Brown, org., 'The new internado-
nal dictionary o f N ew Testament theology (Grand Rapids: Zondervan, 1978), vol. 3, p. 1183 [edição
em português: O no vo dicionário internacional de teologia do Novo Testamento, tradução de Gordon
Chown (São Paulo: Vida Nova, 2000), 2 vols.]: “Instigados por uma predição do Espirito, cías
disseram a Paulo que não fosse a Jerusalém”. Cf. tb. as várias obras dc Waync Grudem sobre pro-
fecia neotestamentária.
195Esta é a opinião de Fitzmvcr, Acts, p. 692.
,86Esta c a posição dc Barrett, Acts, p. 328.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬103

grande tumulto, e Paulo tem de ser detido pelas autoridades romanas para ser
protegido das multidões judaicas!1s7
Outro detalhe estranho dessa passagem envolve os presbíteros dc Jerusalém
reafirmarem o decreto apostólico no versículo 25 como se ninguém tivesse ouvido
falar antes a respeito. Alguns têm suposto que Lucas estava se baseando em fon-
tes que se sobrepunham aqui, mas o mais provável é que, assim como o objetivo
do decreto foi evitar ofender desnecessariamente a consciência dos judeus, da
mesma maneira esse plano de Paulo ajudando os homens a cumprirem seu voto
visava afastar suspeitas desnecessárias sobre Paulo. Ao reafirmá-lo, os apósto-
los de Jerusalém também estão reafirmando seu compromisso com o decreto.*188

A detenção e afala à multidão em Jerusalém (21.27—22.29). Enquanto Paulo está


sendo detido/resgatado, ele fala com os soldados em grego (a língua franca ou
idioma comum que permitia que pessoas de todo o império e com diferentes lín-
guas maternas falassem umas com as outras). Paulo pede, então, permissão para
falar à multidão (21.37-39). O comandante fica surpreso porque confundiu Paulo
com um terrorista egípcio, talvez o mesmo revolucionário que é mencionado por
Josefo e que, ao contrário de milhares de seus seguidores, havia escapado de ser
morto por Félix em 55 d.C. (Guerra dosjudeus 2.261-3; Antiguidades 20.169-72).
Mas, quando Paulo tem a oportunidade de falar a seus colegas judeus, usa ara-
maico, agora surpreendendo a multidão, tendo em vista todos os rumores de
Paulo ter abandonado sua herança judaica (21.20—22.1).
Aliás, Paulo se desdobra para enfatizar sua criação e formação como judeu
ortodoxo, seu zelo por sua religião — até a ponto de perseguir os cristãos — e
como foi apenas a revelação impressionante e sobrenatural do próprio Jesus que
0 fez se voltar para a direção diametralmente oposta (22.2-11). Ele então des-
creve como Ananias ministrou a ele e como veio a entender seu novo chamado
(v. 12-16). Acrescentando um detalhe que Lucas não nos contou anteriormente,
Paulo menciona que em outra revelação a ele, no templo em Jerusalém, o Senhor
profetizou que o povo judeu em geral não aceitaria seu testemunho (v. 17,18).
Quando Paulo protestou que eles deviam saber de seu zelo passado, o Senhor
respondeu cjue a incumbência básica de Paulo seria ir “para longe, aos gentios”
(v. 19-21). E revelador que a multidão escute atentamente todo 0 testemunho
de Paulo até essa última afirmação. Enquanto hoje em dia os cristãos frequen-
temente achem que os judeus não estão dispostos a ouvi-los falar a respeito de

ls'Ao contrário de outros textos antigos que criticam encarceramentos romanos, aqui, e até
o final de A tos, Lucas descreve um preso (Paulo) que, de maneiras decisivas, é ajudado, em par-
ticular na propagação do evangelho, pelo fato de estar preso. Veja M atthew L. Skinner, Locating
Paul: places o f custody as narrative settings in Acts 21— 28 (Atlanta: SBL, 2003).
188W itherington,^irft, p. 650.
104 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

Jesus de modo algum, isso não foi um obstáculo nesse contexto, mas a afirmação
de Paulo de quefo i enviado aos gentiosfo i.m Aí estava o ponto de controvérsia,
compreensível quando recordamos da intensa hostilidade que com frequência
irrompia entre judeus e gentios.
Tendo usado seu conhecimento de grego para falar aos soldados e seu
domínio do aramaico para se dirigir à multidão, Paulo agora se vale de sua cida-
dania romana para evitar ser açoitado sem um devido julgamento (v. 22-29). De
novo parece que ele está agindo não apenas por interesse pessoal, mas também
para que o cristianismo seja vindicado publicamente. “O uso por Paulo de sua
cidadania romana nos ensina que, em busca de proteção do bem-estar físico dos
cidadãos cumpridores da lei, é possível apelar ao Estado — como expressão da
ordem moral de Deus e quando as leis que governam o exercício do poder pelo
Estado são justas. O apelo do cristão sempre precisa ser em favor do avanço do
evangelho.”*190 Afinal, Paulo se submeteu cinco vezes ao horrível castigo de 39
chicotadas em sinagogas judaicas (2Co 11.24), quando poderia ter renunciado
totalmente ao judaismo, ser excomungado e não estar mais sujeito à jurisdição
delas. Mas nas sinagogas ele estava tentando conquistar seus compatriotas, per-
manecendo como integrante da comunidade deles. Quando os interesses do
evangelho ditavam, Paulo estava surpreendentemente pronto a se submeter ao
sofrimento pessoal.

Defesaperante o Sinedrio (22.30—23.11). Como os romanos haviam “detido” Paulo


mais para resgatá-lo da turba enfurecida do que em virtude de que ele havia visi-
velmcnte quebrado a lei romana, 0 comandante ordenou que Paulo comparecesse
perante a corte judaica (22.30).191 Paulo começa sua defesa afirmando ter uma
consciência limpa (23.1; cf. Fp 3.6), o que não é o mesmo que dizer que nunca
pecou. Pelo contrário, está insistindo que não é culpado de nada que mereça jul-
gamento. A essa altura o sumo sacerdote — mais um Ananias — ordena que
batam nele (v. 2), ao que Paulo reage com talvez sua declaração mais vingativa
em qualquer passagem de Atos ou de suas cartas (v. 3).192 Os espectadores ficam

18,“Aqueles que ouvem Paulo não suportam escutá-lo dizer que o ccu o comissionou para pre-
gar uma mensagem de salvação a pessoas que não tcriam de observar a lei mosaica” (Fitzmyer,
Acts, p. 711). Quanto aos paralelos entre essa fala e a de Estêvão, veja Clark, Parallel lives, p. 273-8;
Tannehill, N arrative unity, vol. 2, p. 272-4.
190Larkin, Acts, p. 325.
1,1Sobre as várias audiências preliminares de Paulo, veja H. W.Tajra, The trial o f St. P a u la ju r i-
dical exegesis ofthe second h a lf o f the Acts o f the Apostles (Tübingen: Mohr, 1989).
192Uma parede caiada sugere alguém que esconde contaminação com uma camada bem fina
(Fitzmyer, Acts, p. 717). As palavras de Paulo também poderíam ser interpretadas como profecia,
cumpridas quando Ananias foi assassinado por revolucionários no início da Guerra Judaica (Josefo,
Guerra dosjudeus 2.441).
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬IOS

chocados com Paulo em razão de ter insultado o sumo sacerdote (v. 4), ao que
Paulo replica que não percebeu que esse era o sumo sacerdote. Ele parece se
desculpar, até mesmo citando as Escrituras (v. 5; cf. Ex 22.28). Comentaristas
se debatem para entender essa troca de palavras, a maioria achando que Paulo
fez um pedido sincero de desculpas, mas se perguntando como tena sido pos-
sível para ele não saber que Ananias era o sumo sacerdote. Porventura ele teria
estado longe de Jerusalém por tanto tempo assim? (No entanto, o sumo sacer-
dote usava um manto específico que indicava quem ele era.) Será que essa era
uma sessão não tão formal do Sinédrio, de modo que os sacerdotes não estavam
usando seus mantos? (Não obstante, ainda assim teria ficado claro quem era o
líder deles levando-se em conta quem convocou a reunião.)
Talvez a melhor sugestão seja que a declaração de Paulo no versículo 5a
reflete sarcasmo — Paulo não conseguia imaginar que a pessoa que, sem razão,
ordenou que batessem nele pudesse ser 0 verdadeiro sumo sacerdote193 — e que
0 versículo 5b não faz parte da resposta de Paulo (recorde que nos manuscritos
originais as citações nunca foram sinalizadas com aspas), mas é um comentário
editorial de Lucas para explicar a seriedade da troca de palavras nos versículos
4 e 5a.194195*
De qualquer maneira, Paulo adota um estratagema para dividir o conselho.
Sabendo que os fariseus e os saduceus discordavam se a vida depois da morte era
ou não física, ele estrutura 0 âmago de sua mensagem como “esperança na ressurreição
dos mortos”(v. 6).m Contudo, parece que durante a maior parte do primeiro século
os fariseus eram minoria no Sinédrio, de maneira que até mesmo o apoio deles
não seria suficiente para inocentá-lo. O debate se torna violento, de modo que
mais uma vez as tropas romanas retiram Paulo (v. 10). Em um momento quando
Paulo poderia facilmente ter ficado consternado, o Senhor volta a falar direta-
mente com ele, dizendo-lhe para se animar e prometendo que ele será capaz de
testemunhar até mesmo em Roma (v. 11). Mas é importante observar que essa
promessa não leva Paulo à inatividade, como se Deus orquestrasse acontecimen-
tos para Paulo sem sua participação ativa. Aliás, mais tarde ele apelará explicita-
mente ao imperador (25.11), 0 que acabará sendo a maneira que Deus cumpre
sua promessa.

Transferência para Cesareia (23.12-35). A promessa do Senhor foi, no entanto,


perfeitamente cronom etrada, porque bem no dia seguinte a vida de Paulo

193Witherington,x7c/s, p. 689; cf. Johnson, Acts, p. 397.


194Craig L. Blombcrg, “The Christian and the Law o f M oses”, in: Marshall; Peterson, orgs.,
Witness to the gospel, p. 415.
195Mais difícil c a interpretação de “nem anjos nem espíritos” no v. 8. Quanto às várias opções,
veja Floyd Parker, “The terms ‘angel’ and ‘Spirit’ in Acts 23.8”, Bib 84 (2003): 344-65.
106 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

sofre séria ameaça. Providencialmente, um sobrinho fica sabendo da tram a


c vai à prisão alertar o tio (dessa maneira também demonstrando que Paulo
tinha parentes cm Jerusalém). Aqui também Paulo não fica de braços cruza-
dos, mas envia o menino ao centurião romano para que os guardas pudessem
proteger o apóstolo (v. 1 2 2 2 ‫)־‬. O comandante, Lisias, providencia um grande
destacamento militar para acompanhar Paulo e levá-lo rapidamente de noite
até a guarnição existente no litoral e, onde residia Félix, o procurador de toda
a Judeia (v. 23,24).1%
E aí que Lucas inclui uma carta escrita pelo comandante ao governador
(v. 26-30), a qual, conforme assinalamos na introdução (p. 37), provavelmente
não teria saído das mãos dos romanos para Paulo ou qualquer outro cristão fica-
rem sabendo.Todavia talvez Lucas queira que saibamos da carta, porque no ver-
sículo 25, traduzido de modo não objetávcl na NIV como “ele escreveu uma carta,
conforme segue”, o grego diz literalmente “tendo escrito uma carta deste tipo”.
Essa redação pode sugerir que, assim como explicado por Tucídides, quando a
informação não estava disponível, o historiador podería escolher as palavras que
lhe parecessem o que mais provavelmente teria sido dito ou escrito. Mesmo se
esse for o caso, a introdução específica de Lucas mostra sua preocupação em ser
o mais preciso possível e não enganar seu público sobre o que está fazendo.197 É
claro que pode ter havido alguma maneira, a qual desconhecemos, de a carta ou
seu conteúdo terem de fato chegado às mãos de Lucas.198 De qualquer modo,
tal como o enviado, a carta alcança seu propósito, e Paulo chega a Cesareia em
segurança (v. 31-35).

Paulo se defende perante Félix efica sob sua custódia (24.1-27). Assim como havia
acontecido com Pilatos duas décadas antes, Félix se vê em um dilema, precisando
agradar o imperador em Roma sem desagradar os judeus que moravam na Judeia,
que poderíam se revoltar e criar-lhe problemas com Roma. Apesar do fato de
Paulo ser inocente de qualquer crime com que Roma pudesse se preocupar, Félix
nunca o solta. Em sua defesa formal, à qual estiveram presentes o sumo sacerdote
e alguns de seus colegas, um advogado chamado Tértulo desempenha o papel
de promotor. Seu nome grego sugere que os acusadores judeus de Paulo querem
empregar alguém que tenha mais probabilidade de conseguir o resultado que
desejam, ainda que ele seja gentio. Lucas apresenta o suficiente dos comentários
iniciais de Tértulo para podermos reconhecê-los como um exemplo clássico da

1'"’O texto ocidental acrescenta que Lisias temia a acusação de receber dinheiro para permitir
que Paulo fosse morto c a ameaça dc ele mesmo scr morto.
‫' ״‬Cf. Marshall, Acts, p. 370.
198Q uanto a sugestões sobre com o Lucas talvez tenha tido acesso a essas informações, veja
W itherington,z/tò, p. 698.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬107

pompa retórica aduladora comum no mundo greco-romano (v. 2-8), outro sinal
da verossimilhança do relato de Lucas.199
Qyando é sua vez de falar, Paulo de novo se recusa a admitir que quebrou
alguma lei e redireciona o foco da discussão para a ressurreição (v. 10-21). Quando
Félix adía o caso, promete dar um veredito quando o comandante, Lisias, che-
gar. Entretanto, à medida que o relato de Lucas prossegue, fica claro que isso é
apenas uma tática para ganhar tempo. Félix fica suficientemente intrigado com
Paulo para convocá-lo a falar com ele em várias ocasiões, mas também espera o
costumeiro suborno que compraria a liberdade de Paulo, suborno esse que o preso
nunca oferece. Desse modo, Paulo fica abandonado na prisão por dois anos,200
ainda que tenha, de tempos em tempos, oportunidade de pregar o evangelho ao
governador (v. 22-27).201*

Sob a custódia de Festo, Paulo se defende perante ele (25.1-12). Em 59 d.C., Roma
depôs Félix, em parte por causa de sua crueldade, e o substituiu por Festo,
que tinha a reputação de ser administrador bem mais competente (cf. Josefo,
Antiguidades 20.8.9). Não há indicação alguma de que Festo pensasse diferente-
mente de Félix e achasse que Paulo era culpado de algum crime pelas leis roma-
nas, mas continuou na mesma situação precária de outros procuradores romanos,
precisando agradar tanto os judeus quanto Roma. Então ele tenta dar ao Siné-
drio outra oportunidade de julgar Paulo. Tendo ou não conhecimento do novo
complô contra a sua vida, Paulo com certeza se lembra do anterior e consegue
facilmente imaginar que alguma coisa estava acontecendo. Mesmo que não sus-
peitasse de nada, sabia que não recebería um julgamento justo perante o conselho
judeu. Apesar das várias violações de direitos na justiça romana, a experiência lhe
ensinara que ele tinha uma chance melhor naquele sistema. Se um governador
provincial não estivesse disposto a ouvir seu caso, o que lhe restava era apelar
ao imperador. Apenas os cidadãos romanos tinham esse privilégio; e, assim que
Paulo fizesse seu apelo, Festo era obrigado a acatá-lo.

Paulo perante Agripa I I (25.13—26.32). Antes que Paulo possa ser enviado a
Roma, ele tem de suportar mais uma audiência. Agripa II, filho do Agripa que

m O próprio Paulo, com sua introdução no versículo 10, tenta conquistar o favor do governa-
dor, mas suas palavras não chegam a ser tão bajuladoras. Sobre ambas as introduções, veja Bruce
W. Winter, “l h e importance of the captatio benevolentiae in the speeches ofTertullus and Paul in
Acts 24:1-21”,J T S 42 (1991): 505-31.
2C0A obra definitiva sobre as condições das prisões na Roma antiga é Brian Rapske, The hook o f
Ads and Paul in Roman custody (Grand Rapids/Carlisle, Reino Unido: Eerdmans/Paternoster, 1994).
2“1Félix, na verdade, tinha um casamento adulterino com Drusila, ela mesma uma judia, fazendo
com que as referências dc Paulo a “justiça, autocontrole e o juízo vindouro” fossem ainda mais
apropriadas.
108 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

foi ferido de morte em 12.23, chega a Cesareia para ver Festo, fica sabendo do
célebre prisioneiro e quer ouvi-lo pessoalmente (v. 13-22). O fato de Lucas dedi-
car tempo para descrever Festo repetir os fatos do caso para Agripa mostra sua
preocupação constante em demonstrar a inocência de Paulo. O fato de Festo ter
consentido tão prontamente com 0 pedido de Agripa revela as delicadas relações
entre os representantes dos dois sistemas que, na Roma do primeiro século, com-
petiam pela jurisdição sobre Israel. Depois do reinado cruel de Arquelau, filho
de Herodes, o Grande, terminado em 6 d.C., Roma substituiu os membros da
família herodiana por aqueles que o próprio império nomeou como procurado-
res na Judeia e em Samaria. Do ponto de vista cristão, o mais famoso deles foi
Pôncio Pilatos, que governou de 26 a 36 d.C. Félix e Festo ocuparam esse mesmo
ofício no final da década de 50 e início da de 60. Nesse ínterim, os descendentes
de Herodes continuaram governando na Galileia e na Pereia. Mas por um curto
período de três anos, de 41 a 44 d.C., Israel tinha sido unido outra vez sob o rei-
nado de Agripa I, neto de Herodes, o Grande. Roma pensaria em fazer isso de
novo com o filho de Agripa? Festo não tinha como saber e, por isso, teve de lhe
mostrar alguma deferência.202
Particularmente escandaloso para o povo judeu era o fato de que Agripa
II morava com sua irmã Berenice, e corria todo tipo de boatos sobre eles terem
um relacionamento incestuoso (Josefo, Antiguidades 20.145-7; Guerra dosjudeus
2.217). Apesar disso, esse Agripa, à semelhança de seu pai, descendente do Hero-
des original que havia professado conversão ao judaísmo, conhecia muito sobre
as crenças e a moral judaicas, bem mais do que os governadores romanos geral-
mente conheciam, e Paulo pôde tirar proveito disso em sua defesa. Mais uma vez
Lucas registra uma longa introdução a essa audiência, demonstrando ainda mais
a deferência de Festo para com Agripa e o fato de ele não ter considerado Paulo
culpado de crime algum. Talvez essa nova audiência venha a dar a Festo alguma
acusação para enviar junto com Paulo ao imperador (25.23-27).
Uma vez que esse não é um julgamento formal, nenhuma acusação é feita
contra Paulo; ele é simplesmente convidado a falar por si. Como Paulo sabe que
Agripa está familiarizado com costumes judaicos e poderia até mesmo se apre-
sentar como alguém que no fundo era judeu,20’ sua estratégia se assemelha bas-
tante com a tática que adotou em várias reuniões com judeus. Ele reafirma sua203

203Para complicar ainda mais, havia o fato de que não estava claro quem tinha jurisdição sobre
o caso de Paulo. Os líderes judeus formularam uma questão religiosa cm termos políticos para levar
Paulo perante os governadores romanos, ao passo que Paulo insistiu que o assunto era religioso,
mas ainda assim pertinente às autoridades romanas! Além disso, Cláudio havia nomeado Agripa
curador do templo de Jerusalém, com poderes de nomear o sumo sacerdote judeu. Por esse motivo,
Festo devia vê-lo como uma autoridade judaica mais alta do que qualquer um no Sinedrio. Veja
ainda W itherington, Acts, p. 724,727-8.
303Barrett, Acts, p. 392.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬109

criação ortodoxa c formação, a ponto de ter vivido como fariseu, perseguindo os


cristãos204 e estando a caminho de causar mais estragos quando Cristo o confron-
tou na estrada de Damasco (26.1-14). Jesus não apenas se revela como o verda-
deiro Senhor, mas nomeia Paulo para testemunhar acerca do que viu e do que
aprenderá e, em particular, para se tornar um emissário aos gentios (v. 15-18).
Como ele poderia fazer qualquer outra coisa senão obedecer a um chamado tão
impactante e persuasivo? De novo ele insiste em que sua mensagem é o desdo-
bramento natural do judaísmo e o cumprimento de suas profecias, que culmi-
nam na ressurreição de Jesus (v. 19-23). Mas, quando Paulo ecoa a fraseologia
de Isaías 9.1,2 sobre os gentios, e não apenas Israel, serem iluminados,20■ ’ Festo
interrompe e declara que Paulo está louco (v. 24).
Paulo nega a acusação, mas em seguida volta a dirigir a atenção a Agripa.
Ele desafia o rei vassalo a admitir sua simpatia pelo judaísmo ao aceitar o teste-
munho dos profetas, o qual Paulo acredita que se cumpriu cm Cristo (v. 25-27).
A resposta de Agripa no versículo 28 tornou-se famosa na KJV nas palavras “por
pouco tu me persuades a ser cristão”. Mas, com praticamente toda certeza, essa
tradução sugere uma reação positiva demais; em vez disso, é provável que Agripa
esteja fazendo uma pergunta um tanto ou quanto sarcasticamente: “Você acha que
pode me tornar cristão com tanta facilidade?”.206 De uma maneira ou de outra,
Paulo queria ter esse poder, mas o rei termina a audiência nesse ponto (v. 29,30).
Naquilo que, sem uma crença na orientação providencial de Deus, seria o ápice
de ironia trágica, Agripa e Festo concordam que Paulo é inocente de qualquer
crime e poderia ter sido libertado ali mesmo (v. 31,32). Mas Paulo, à semelhança
do leitor, sabe que Deus prometeu levá-lo a Roma, e seu apelo acaba sendo exatamente
0 mecanismo de Deus para cumprir sua promessa.

Viagem marítima e 7laufrágio (27.1-44). Esse capítulo apresenta uma das his-
tórias mais notáveis e cheias de suspense de todas as Escrituras. Lucas inclui
bem mais detalhes — tanto sobre os vários portos de escala quanto sobre as
atividades a bordo do navio durante a tempestade — do que seria de esperar,
tendo em vista a natureza de suas narrativas até aqui. Frequentemente tem

204O texto dc 26.10 leva muitos a se perguntarem se Paulo realmente havia feito parte do
Sinédrio. N o entanto, a expressão “lancei meu voto contra eles”poderia ser uma maneira metafórica
de se referir à anuência de Paulo, e não a uma referência literal a ser membro votante do conselho.
Afinal, Paulo teria sido consideravelmente mais jovem do que a idade típica que homens judeus
tinham quando eram nomeados para o tribunal superior.
20’D ennis H am m (“Paul’s blindness and its healing: clues to symbolic intent [Acts 9; 22 and
26]”, Bib 71 [1990]: 63-72) apura como referências à visão e à cegueira de Paulo em seus três rela-
tos de conversão também simbolizam realidades espirituais — tanto para si quanto para outros.
206O u, caso seja uma afirmação, pode ser um comentário mais descontraído, como “Em um
tempo tão curto vocc acha que pode me tornar cristão!”. Veja Marshall, Acts, p. 399-400.
no ‫ן‬ OS ATOS DOS APÓSTOLOS

havido a alegação de que essa historia é uma criação fictícia nos moldes de
outras lendas marítimas antigas, mas na verdade os supostos paralelos não são
próximos, e as informações de Lucas são tão precisas, em particular os detalhes
náuticos, que especialistas em navegação têm defendido que a história pode-
ria ter sido escrita apenas por alguém que tivesse experimentado essa viagem.
O estudo clássico desse ponto de vista é a obra de James Smith The voyage and
shipwreck o f St. Paul [A viagem c o naufrágio de São Paulo |, publicada pela
primeira vez em 1856207 e nunca refutada com êxito (embora com frequência
ignorada). Ao mesmo tempo, Lucas escreve com detalhes as suas reminiscências
de acordo com formas literárias tradicionais da época, com seus cinco ciernen-
tos: diário de viagem, previsão do tempo, tempestade, falas e preocupação com
a segurança.208
Paulo é entregue a um centurião, Júlio, que levará um grupo de prisioneiros
a bordo de uma nau com destino à Ásia Menor, onde presumivelmente serão
transferidos para um navio com destino à Roma (v. 1,2). Os versículos 3 a 8
esboçam o itinerário, incluindo uma parada em que Paulo tem permissão para
desembarcar e passar tempo com, literalmente, “os amigos”— talvez uma antiga
designação de irmãos em Cristo. Sidom era um porto importante para o car-
regamento de cargas com destino às cidades no oeste, ao passo que M irra, a
maior cidade da Licia, era outro porto importante para navios de grãos. Ali
encontraram um navio que ia para a Itália c conseguiram chegar até uma das
cidades de Creta. A navegação se tornou cada vez mais perigosa “depois do
Jejum”, que é o Dia da Expiação. Se o ano for 59 d.C., a data é provavelmente
5 de outubro.209 O período entre meados de setembro e meados de novembro
era de tempo suficientemente ruim para tornar arriscado navegar pelo Mediter-
râneo, a não ser em viagens bem curtas (Vcgécio, De re militari 4.39). Depois,
no inverno, tornava-se quase inavegávcl. A viagem toda de Jerusalém a Roma
com tempo bom poderia ter sido concluída em um mês; mas, conforme se per-
cebe, o navio nem mesmo conseguiu chegar a um porto melhor mais adiante
no litoral de Creta (v. 9-12).
Enganado pelo céu limpo e ventos suaves e ignorando o conselho de Paulo, o
capitão do navio inicia viagem. Mas logo são acometidos por uma ventania vinda
do nordeste (v. 13-26). Essa tempestade deve ter empurrado o navio na direção
sudoeste, para as áreas mais perigosas e desprotegidas do mar. Quando, depois
de muitos dias, a tempestade não diminui e toda esperança parece perdida, Paulo

207Minneapolis: James Family. Quanto a uma breve atualização, cf. J. M . Gilchrist, “l h e histo-
ricit}‫ ׳‬o f Paul’s shipwreck”,J S N T 6 1 (1996): 29-51.
208Susan M . Pracder, “Acts 27:1— 28:16: sea voyages in ancient literature and the theology o f
Lukc-Acts”, CBQ 46 (1984): 683-706.
2'”Bruce, Acts, p. 481.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALI LA ‫ ן‬111
112 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

não consegue mais resistir ao ímpeto de, em essência, dizer: “Bem que eu avi-
sei”. Ainda assim, ele passa a explicar como um anjo lhe prometeu que chegaria
em segurança a Roma e salvaria a vida de todos os homens que o acompanham.
Duas semanas inteiras após o início da tempestade, a tripulação exausta
finalmente percebe que estão se aproximando de terra firme. Dessa vez o grupo
está pronto a ouvir o conselho de Paulo. Ele insiste em que ninguém tente aban-
donar o navio (v. 27-32), encoraja-os a se alimentar e parte o pão e dá graças a
Deus diante de todos (v. 33-38). Para alguns o linguajar do versículo 35 sugere
uma refeição eucarística. Não obstante, é improvável que Paulo celebrasse a ceia
do Senhor com um grupo de companheiros em grande parte pagãos, e a fraseo-
logia é suficientemente tradicional para aplicar a qualquer refeição judaica. Por
fim, o navio encalha naquela que vem a ser a ilha de Malta, e o centurião elabora
um esquema para salvar a vida de Paulo. Entretanto, Deus assegura providen-
cialmente que nenhum dos prisioneiros escape ou pereça (v. 39-44).

Em terrafirme na ilha de Malta (28.1-10). De modo bem parecido com os mora-


dores de Listra em 14.11-19, os malteses se mostram ao mesmo tempo bastante
acolhedores e supersticiosos. Eles cuidam das necessidades do sofrido bando de
sobreviventes da tempestade; mas, quando uma víbora pica a mão de Paulo,210
eles concluem que ele tem de ser um assassino que a “Justiça” (muitas vezes vista
como um deus) agora está castigando. No entanto, quando o veneno não pro-
voca mal algum, a opinião deles oscila subitamente para o extremo oposto, pois
estão prontos a endeusá-lo (v. 1-6). Pensa-se também nas drásticas oscilações de
opinião sobre Jesus durante sua última semana de vida.
A principal autoridade de M alta (lit., “homem chefe”) do mesmo modo
demonstra grande hospitalidade para com os marinheiros; em retribuição Paulo
é miraculosamente capacitado a curar o pai desse homem de uma doença grave.
Isso leva a uma cura em massa de outras pessoas doentes na ilha. E interessante
que Lucas use o que no Novo Testamento é o verbo relativamente raro therapeuõ, o
qual era usado com frequência para designar a cura por meio das práticas médicas
normais da época. Será que devemos imaginar Lucas, o médico, ajudando aqui?

Finalmente a caminho de Roma (28.11-31). Os versículos 11 a 16 completam o


itinerário de Paulo. Cristãos se encontram com ele ao longo da Via Apia, que ia
até Roma, e o acompanham até lá. A essa altura ele terá escrito sua carta aos
cristãos romanos; essa carta, junto com a notícia de sua chegada nessas condições

210Em grego antigo echitina não significava apenas cobra venenosa, mas era usada para uma
variedade de serpentes e pequenos répteis. Dessa maneira, a queixa de que cobras venenosas não
são encontradas em M alta não põe cm xeque a credibilidade de Lucas aqui. Veja Kee, To every
nation under heaven, p. 337, nota 62.
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬113

extraordinárias, deve ter gerado interesse antecipado e consideravelmente posi-


tivo com sua vinda. Em Roma, ele é colocado em prisão domiciliar, enquanto
aguarda seu caso ser ouvido pelo imperador. Essa forma de encarceramento
era a mais branda possível no mundo romano, embora seja possível que ficasse
acorrentado — mas tendo alguma liberdade — a um soldado que a cada qua-
tro horas era trocado por uma nova guarda.211 Paulo podia convocar visitantes,
receber e enviar correspondências, mas não podia deixar o domicílio, pelo qual
tinha até mesmo de pagar aluguel. Os amigos provavelmente lhe forneceram
comida, pois não havia provisão legal de o Estado pagar a alimentação de pre-
sos nessas circunstâncias.
Como cm muitas outras comunidades, Paulo convoca os anciãos da sina-
goga (já que ele não pode ir e falar na sinagoga) e prega o evangelho a eles
(v. 17-28). Ele volta a contar seu testemunho, insistindo em que o evangelho é
o cumprimento da “esperança de Israel” (v. 20). A reação dos anciãos reflete a
comunicação pouco objetiva da época de Paulo. O Sinédrio não exerce jurisdição
sobre os judeus da Diáspora, e com Paulo tão distante e sob custódia romana, a
corte, ao que parece, não sente necessidade de enviar cartas a respeito de Paulo
aos líderes judeus em Roma. Judeus romanos que retornam de viagens à Judeia
não relatam críticas procedentes contra Paulo, mas a fábrica de boatos forneceu
bastante munição para difamação (v. 21-23).
Visto que um número ainda maior volta em uma ocasião posterior para
ouvir 0 preso, Lucas resume a mensagem de Paulo como uma mensagem de pro-
clamação do reino de Deus (v. 23), um importante lembrete de que a mensagem
de Paulo ainda se harmoniza com as ênfases de Jesus, apesar do fato de que nem
em Atos nem em suas cartas as referências ao reino são tão comuns quanto nos
Evangelhos.212 Assim como Jesus em Lucas 24.27, Paulo recorre para uma ampla
gama de textos da Lei e dos Profetas para tentar convencer seus ouvintes judeus
de que Jesus era o Messias prometido (v. 24). Alguns se convertem, mas no geral
a resposta não é suficientemente positiva para Paulo continuar esse ministério. Dc
forma um pouco dura, porém compreensível à luz do padrão persistente de reação
que tem recebido ao longo de sua carreira, Paulo cita Isaías 6.9,10 (o mesmo
texto que Jesus havia usado para explicar sua pregação em parábolas e as diversas
reações das pessoas a essa pregação) e considera que mais uma vez a profecia se
cumpriu na obstinação desse grupo de líderes judeus (v. 25-27). Assim como em

211N o entanto, os cidadãos romanos não deveríam ser acorrentados, de maneira que é possível
que o versículo 20 seja metafórico (Barrett, Acts, p. 423). A troca de guarda de quatro em quatro
horas é defendida por Witherington.Xírft, p. 789 (embora sua referência de Josefo não esteja correta).
212Polhill {Acts, p. 538) nos lembra que o livro também começou com uma das relativamente
raras referências de Atos ao reino (1.6). Dessa maneira, com esse tema Lucas cria um inclusio [mol-
dura] cm torno de seu livro.
114 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

outras cidades, Paulo voltará a pregar basicamente aos gentios, prevendo uma
reação mais positiva (v. 28).
Marshall explica a intransigência de alguns: “Uma vez que alguém deli-
beradamentc recusa a Palavra, chega um ponto em que ele é privado da capa-
cidade de recebê-la”.213 No entanto, mesmo essefinal marcante do tempo de Paulo
com osjudeus romanos não representa uma rejeição inalterável por Deus de todo 0
povo judeu, nem mesmo um momento depois do qual não seria mais apropriado aos
cristãos pregarem 0 evangelho aosjudeus (cfi th. 0final positivo de Isaías 6). Esse é
simplesmente 0 último caso registrado em Atos do padrão “ primeiro aojudeu e tam-
hém ao grego".213214215
Atos termina com dois versículos notáveis (v. 30,31). Paulo continua em
prisão domiciliar por dois anos inteiros. Casos levados ao imperador deve-
riam ser ouvidos no prazo de dois anos ou então ser rejeitados (cf. Filo, Contra
Flauco 16.128), o que leva alguns estudiosos a se perguntarem se essa é a maneira
de Lucas indiretamente revelar que Paulo foi posteriormente libertado. Com
base na tradição da igreja primitiva nos primordios, é bem possível que Paulo
tenha sido absolvido, para ser preso de novo e executado alguns anos mais tarde
(.lClem. 5.5-7; Eusébio, História eclesiástica 2.22),215 mas parece improvável que
aqui Lucas esteja aludindo a isso. Tribunais antigos e contemporâneos costu-
meiramente não conseguem cumprir os prazos! O que Lucas quer destacar, no
entanto, é que mesmo nessas circunstâncias estranhas (normalmente não nos
refeririamos ao encarceramento como algo “sem impedimento”!) o evangelho
avançou com poder e vidas foram transformadas.216 Caso deva-se datar Filipen-
ses da época desse aprisionamento romano (veja abaixo, p. 433-6), então é fasci-
nante que Paulo declare que o evangelho ficou claro a toda a guarda do palácio
(Fp 1.13). Se um grande número de soldados se revezava vigiando Paulo, pode-
mos facilmente ver como isso aconteceu. Mesmo que um número relativamente
pequeno se revezasse nessa responsabilidade, eles poderiam ter, com igual faci-
lidade, espalhado a palavra a outros. Deus trouxe sua mensagem por meio de
seu apóstolo especial aos gentios, até mesmo em Roma, o coração do império.
Lucas pode concluir seu volume, mesmo que não saiba o resultado do recurso
de Paulo.217

213M arshall,A cts,p. 425.


214Tannehill, Narrative unity o f Luke-Acts, vol. 2, p. 328.
215Para um bom levantamento da possível trajetória dos últimos anos da vida de Paulo, após o
final de Atos, veja Bruce, Paul, p. 441-55.
216W inter (“Gallio’s ruling”, 223-4) mostra que o termo poderia significar que não havia obs-
táculo legal algum ao que Paulo estava fazendo.
217“O final aberto de Atos sugere que a mensagem da obra salvadora de Deus em Jesus Cristo
continuaria de uma maneira significativa” (Marion L. Soards, The speeches in Acts: their content, con-
text and concerns [Louisville: WJKP, 1994J, p. 208).
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬115

PERGUNTAS PARA REVISÃO


1. Indique as idéias mais importantes presentes na fala de Paulo aos pres-
bíteros de Efeso.

2. Explique as aparentes contradições entre Atos 20.22; 21.4 e 21.11.

3. Como Paulo poderia ter concordado cm apoiar os cristãos judeus ofe-


recerem sacrifícios de animais no templo?

4. De que modo Paulo usa seu antecedente tricultural em sua detenção e


fala à multidão judaica em Atos 21.27—22.29?

5. Resuma a abordagem principal de Paulo em cada uma de suas quatro


aparições depois de sua detenção — perante o Sinédrio, Félix, Festo e
Herodcs Agripa II. De que maneiras a sua defesa continua igual o tempo
todo e de que maneiras ela muda?

6. Que ensinamento teológico podemos aprender com a viagem e o nau-


frágio de Paulo?

7. Qual é a ideia central de cada um dos episódios de Atos 28 e como cada


um deles contribui para o fim da obra de Lucas?

APLICAÇÃO
Um grande número de princípios específicos para a vida e a missão cristãs con-
temporáneas surgiram ao longo de nosso exame de Atos. O quadro maior revela
a igreja se movendo sempre para fora, ávida por incorporar mais e mais pessoas à
comunidade dos redimidos. Ao longo de boa parte da história humana, com seus
grupos razoavelmente homogêneos de pessoas em aglomerados locais, provin-
ciais e até nacionais, tem sido mais fácil para os cristãos, pelo menos como uma
enorme generalização, testemunhar a pessoas mais próximas de casa do que bem
distantes. Embora esse princípio continue válido para muitas pessoas no mundo
de hoje, nossa aldeia global, com suas oportunidades sem precedentes de trans-
porte e comunicação, torna mais fácil alcançar pessoas de todas as etnias, naciona-
lidades, raças e religiões do que as gerações anteriores jamais teriam conseguido
imaginar. Em grandes cidades ocidentais é possível proclamar pessoalmente o
evangelho a pessoas de dezenas de culturas, sem sair da região metropolitana
dessas cidades. Por meio da internet, é possível alcançar representantes de todas
as nações e de milhares de subeulturas ao redor do mundo, embora, quanto mais
pobre o país, menos pessoas terão acesso a essa tecnologia.
116 I OS ATOS DOS APÓSTOLOS

O modelo de Atos não tem sido, contudo, repetido com êxito apenas quando
pessoas de muitos e diferentes locais e origens se tornam crentes. A etapa seguinte
é incorporá-las às igrejas — comunidades cristãs saudáveis e em crescimento que
as instruem nas verdades centrais da fé, ministram às necessidades físicas e espi-
rituais, levam-nas a amar e a adorar a Deus, orientam-nas a amar e servir ao pró-
ximo (tanto aquele que está perto quanto aquele bem mais distante), apoiam-nas
em épocas dc provação e perseguição e saem em busca de outros para expandir
ainda mais o impacto do reino de Deus. Em vez de criar uma abordagem-padrão
específica para a evangelização e o discipulado cristãos, Atos demonstra como é
essencial contextualizar a mensagem do evangelho para cada nova cultura e sub-
cultura. As verdades básicas continuam as mesmas, mas a maneira pela qual são
comunicadas pode mudar drasticamente. Ter uma vida santa exige a obediência
idêntica às ordens normativas das Escrituras, contudo, a maneira de incutir esses
princípios pode variar amplamentc. Com demasiada frequência ao longo dc sua his-
tória, a igreja em uma parte do mundo tem, em seus esforços missionários, levado
pelo menos tanto cultura nacional ou tribal quanto ensino bíblico autêntico, não
importando quão impróprios seus costumes possam ser em outra parte do mundo.
O livro de Atos também nos lembra sistematicamente que a razão de ser
da igreja não são programas, mas pessoas. Não somos nós que determinamos a
metodologia perfeita para o crescimento da igreja, mas o Espírito de Deus que
opera regularmente nos lugares mais improváveis entre as pessoas mais desven-
turadas e das formas mais surpreendentes. E verdade que é possível discernir cer-
tos princípios daquilo que parece funcionar bem ou mal cm vários momentos e
lugares, mas assim que os crentes os institucionalizam, dependem deles ou rece-
bem crédito por eles, é provável que o Espírito soberano comece a trabalhar de
modo diferente! Se existe um método permanente, é a dependência da oração, a
única discipüna espiritual para a qual muitas igrejas ocidentais parecem menos
inclinadas a dar prioridade.
Atos é o banco de dados para determinar muito do que uma “igreja neotes-
tamentária” deve ser, mas repare na diversidade de igrejas, todas pensando que só
elas captaram a síntese perfeita do paradigma de Atos. As igrejas em Jerusalém
e Antioquia funcionam de modo congrcgacional, pelo menos em certo grau; os
presbíteros das várias igrejas de Efeso se assemelham a um presbitério; e os após-
tolos e evangelistas itinerantes fornecem precedentes parciais para a autoridade
do posterior modelo episcopal, até mesmo com bispos cuja jurisdição abrangería
grandes extensões de território. Igrejas carismáticas recorrem regularmente aos
diversos padrões da vinda do Espírito e da ocorrência de glossolalia em Atos; igre-
jas não carismáticas, de maneira igualmente válida, apontam para os textos sobre
línguas e épocas incomuns para a chegada do Espírito como exceções que diver-
gem da norma. Igualitários ressaltam as inúmeras mulheres líderes que são descri-
tas em Atos, em particular Lídia, Priscila e as filhas de Filipe. Complementaristas
ATOS: O EVANGELHO SE ESPALHA ‫ ן‬117

observam acertadamente que nunca há descrição de mulheres atuarem como


presbíteras ou supervisoras em uma igreja local. Arminianos enfatizam a liber-
dade e a necessidade de todos os seres humanos reagirem com arrependimento à
mensagem do evangelho; calvinistas reagem apontando para a presciência de Deus
e a eleição dessas reações humanas livres. Batistas enfatizam os repetidos exem-
pios de imersão em água logo após a crença inicial. Pedobatistas especulam sobre
criancinhas participarem dos batismos nas casas que Lucas também narra. Esses
debates teológicos simplesmente não serão solucionados com base apenas em Atos!
Em contrapartida, existem sim alguns princípios imutáveis em Atos, embora
expressos de várias maneiras de um contexto para outro, os quais muitas ramifi-
cações da igreja na atualidade ignoram com demasiada frequência: a preocupação
veemente com os pobres para que no meio de qualquer igreja cristã nem uma única
pessoa continue com necessidades; um trabalho holístico de evangelização que
insiste em cuidar das necessidades físicas e espirituais das pessoas; o compromisso
dos líderes da igreja de trabalhar eles mesmos fora de seus empregos seculares, por
assim dizer, discipulando e capacitando outros a usarem seus dons; c uma disposi-
ção de falar com ousadia e tato, mesmo sob ataque c ameaça de prisão e/ou morte.
Talvez o menos imitado de tudo isso seja o empenho incessante nas igrejas de Atos
em buscar uma heterogeneidade que una judeus e gentios (e todos os diferentes
tipos de judeus e todos os diferentes tipos de gentios) em um organismo vivo e
amoroso, e isso de tal maneira que exija que um observador imparcial reconheça
alguma força sobrenatural operando, ainda que sem impor regras, aquilo que pode
acontecer apenas em relação a pessoas que estão tão entusiasmadas com o fato
de o evangelho ser livre da lei, e com elas mesmas estarem pessoalmente libertas
dos grilhões do pecado, que vivem uma vida de gratidão espontânea a Deus com
0 desejo de servir a Cristo tanto quanto puderem. É claro que esse estilo de vida
deixa com ciúmes muitos dos poderosos influenciadores deste mundo, de maneira
que a perseguição aos crentes se torna comum. No entanto, isso apenas provoca
nos sofredores uma confiança maior em seu soberano Deus.218

BIBLIOGRAFIA SELECIONADA

Comentários

Introdutórios
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Gaventa, Beverly. The Acts of the Apostles. A N TC (Nashville: Abingdon, 2003).

218Para uma excelente aplicação de A tos, incluindo o contexto transcultural, veja Gallagher;
Hertig, orgs.,M ission in Acts; Fernando, Acts. Em uma abordagem mais geral,cf. esp. Green, thirty
years; idem, Evangelism.
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Paulo e suas cartas
capítulo 2

Paulo: vida e ministerio


oucos contestara que, depois do próprio Jesus, Saulo de Tarso foi o líder
cristão mais influente na primeira geração do cristianismo. Treze cartas
do Novo Testamento são atribuídas a ele. Ele se tornou alguém sem igual
como apóstolo e missionário aos gentios. Seu entendimento da doutrina cristã
abriu caminho para que a religião incipiente se tornasse um fenômeno em todo
0 império, ainda profundamente arraigada no judaísmo, mas cada vez mais des-
pojada das restrições etnocêntricas e nacionalistas que tanto dificultaram as rela-
ções em meio a judeus e gentios no primeiro século. Entre estudiosos céticos, ele
chegou até a ser chamado de o verdadeiro fundador do cristianismo. Um rápido
panorama da vida e ministério de Saulo, além daquilo que já aprendemos em
Atos, constitui dessa maneira um antecedente essencial para o nosso estudo de
cada uma de suas cartas canônicas.

UM PANORAMA DA VIDA DE PAULO

Herança e criação
O termo traduzido por “jovem” em Atos 7.58 (neanios) frequentemente se refe-
ria a alguém entre 18 e 22 anos de idade.1 Sc está sendo usado com essa precisão
e se Estêvão foi apedrejado entre 30 e 32 d.C. (veja p. 41-4), então Saulo teria
nascido por volta de 10 d.C. Em Atos 9.11; 21.39 e 22.3, ficamos sabendo que ele
nasceu em Tarso, onde, ao que parece, passou os anos de infância. Tarso era uma
comunidade próspera e multicultural com várias escolas de retórica, uma grande
universidade, uma escola de filosofia estoica e uma comunidade minoritária de
judeus. Todas essas influências nos primeiros anos da vida de Saulo também apa-
recem em suas cartas.2 Entretanto, os judeus também tendiam a viver em bairros

1John McRay, Paul: his life and teaching( Grand Rapids: Baker, 2003), p. 33.
2M ichael J. Gorman, Apostle o f the crucified Lord: a theological introduction to Paul and his letters
(Grand Rapids/Cambridge: Kerdmans, 2004), p. 51. Cf. Bruce Chilton, R abbi Paul (N ew York/
London, Reino Unido: Doubleday, 2004), p. 6-24.
124 I PAULO E SUAS CARTAS

separados, até mesmo na Diáspora, para preservar a própria cultura. Desse modo,
em Tarso, o mais provável é que Saulo também teria recebido o ensino básico tradi-
cionaljudaico ministrado na sinagoga local a meninos entre aproximadamente os cinco
e os doze anos, e teria se dedicado à memorização e interpretação das Escrituras
judaicas.3 E bem possível que sua chegada -à idade adulta, aos doze ou treze anos,
tenha sido comemorada com o antigo equivalente do bar mitzvah, o animado
ritual de iniciação pelo qual um rapazinho se tornava “filho do mandamento”,
adotando para si mesmo a religião judaica e tomando sobre si o “jugo da Torá”.
Alguns têm inferido, com base em Atos 22.3, que a família de Saulo se
mudou para Jerusalém quando ele era ainda bem pequeno porque ele afirma que
foi “criado nesta cidade”.4 No entanto, a ordem das palavras gregas desse versículo
(uma frase longa) pode dar a entender que essa formação se refere a seu estudo
sob a supervisão de Gamaliel, o que teria ocorrido depois do término de sua
educação básica. Assim, é provável que sua mudança de Tarso para Jerusalém tenha
ocorrido quando ele estava pronto para se submeter a seu treinamento mais avançado
sob a supervisão do estimado rabino (algo parecido com uma educação teológicaperso-
nalizada!) durante ■vários anos entre as idades de treze e dezoitos

AVIDA DE PAULO ANTES DE SUAS CARTAS

Entre 5 e 10 d.C. Nascimento em Tarso

Idade de cinco a doze Educação básica?

Idade de doze a catorze? Aprendizagem de fabricação de tendas

Idade de quinze a dezoito? Estudo com Gamaliel em Jerusalém

Entre 32 e 35 d.C. (vinte


Conversão/chamado/comissionamento
e poucos anos de idade)

“Anos ocultos”, mas, por fim, no


Até 47-48 d.C.
ministério em Antioquia da Síria

3Richard N . Longenecker, The ministry and message o f Paul (Grand Rapids: Zondervan, 1971),
p. 21-2.
4 Veja a obra clássica sobre o assunto W . C. van Unnik, Tarsus orJerusalem: the city o f P aul’s
youth (London, Reino Unido: Epworth, 1962).
s Para outros argumentos a favor dessa conclusão depois de uma análise incisiva de ambos os
lados do debate, veja Martin Hengel, The pre-Christian Paul (London, Reino Unido/Philadelphia:
SCM/Trinity, 1991), p. 18-39.
PAULO: VIDA E MINISTÉRIO ‫ ן‬125

Como os rabinos normalmente não recebiam remuneração por seu ministé-


rio, eles também precisavam aprender um ofício, em geral como aprendiz de um
consagrado artífice de algum tipo de ofício. Com frequência aquele artífice era
0 pai do menino, que ensinava ao filho as mesmas habilidades que havia adqui-
rido. Se Saulo aprendeu afazer tendas6 (At 18.3) com opai, 0 mais provável é que isso
tenha ocorrido durante os primeiros dois ou três anos após a conclusão de sua educação
escolar e antes de se mudar para Jerusalém. Com muito mais frequência no mundo
antigo do que hoje em dia, famílias nucleares e estendidas permaneciam juntas
mesmo durante o processo de mudança de um lugar para outro, de modo que é
bem natural imaginar a família inteira de Saulo se mudando com ele. O fato de
mais tarde a irmã de Saulo ser descrita como alguém que morava em Jerusalém
junto com o filho (At 23.16) poderia sugerir que é possível que parentes próxi-
mos já tivessem vivido ali há tempo, tornando a ideia dessa mudança ainda mais
atraente. Mas isso também significa que os pais de Saulo poderiam ter arranjado
para que ele se mudasse e fosse morar com quaisquer outros parentes que resi-
dissem ali. Portanto, não temos como, de maneira alguma, saber quem se mudou
com Saulo, se é que houve alguém.
Uma geração anterior de estudiosos via frequentemente com ceticismo as
repetidas afirmações de Atos de que Paulo tinha antigas ligações com Jerusalém.
Como alguém que defendia tão incisivamente a igualdade de cristãos gentios
podia realmente se designar “fariseu, filho de fariseu” (At 23.6), ainda por cima
empregando o tempo presente, como se quase trinta anos depois de sua conversão
ainda estivesse alinhado com esse partido que perseguia os crentes? A teologia
de Paulo tinha poucos pontos de contato com aquilo que, com base em tex-
tos rabínicos, conhecemos dos ensinos de Gamaliel. O argumento era que os
dados de primeira mão das cartas devem, com certeza, receber preferência em
relação ao testemunho de segunda mão (e, portanto, menos confiável) de Atos.
No entanto, em 2Coríntios 11.22, Paulo se refere a si mesmo no tempo presente
como hebrcu, israelita e descendente de Abraão. Em Filipenses 3.5, ele também
se identifica como “hebreu de hebreus” (i.e., não um judeu helenista, apesar de
crescer na Diáspora; veja acima, p. 59) e fariseu, ainda que passe a esclarecer que
já não tem orgulho algum de sua origem judaica, mas sacrificou tudo isso por
amor a Cristo (v. 7).
Assim, no contexto polêmico de tentar provocar uma divisão no Sinédrio
ao proclamar a ressurreição de Jesus, que, em princípio, os fariseus não deveríam
rejeitar, é compreensível o motivo pelo qual Paulo usaria o tempo presente. E
uma geração dedicada à investigação detalhada das cartas de Paulo em contraste com

“A palavra grega para “fabricante de tendas” em Atos 18.3 (shênopoios) também poderia ser
traduzida como “fabricante de peças de couro”, e, de qualquer maneira, na época de Paulo a maio-
ria das tendas era feita de couro (McRay, Paul, p. 23).
126 I PAULO E SUAS CARTAS

os antecedentes dojudaísmo do primeiro século tem mostrado como de continuou total-


mente imerso nas Escrituras hebraicas, nasformas judaicas de raciocínio e lógica, nas
categorias teológicas centrais de monoteísmojudaico, eleição, escatologia e outras tais.
Caso ele não tivesse recebido o tipo de treinamento que naquela época só poderia
vir por meio da orientação formal de um rabino competente, temos dificuldade
de explicar como chegou a ter todas essas habilidades e convicções.7
Ao mesmo tempo, os costumes e a cultura helenísticos haviam permeado
Israel e até mesmo a capital, Jerusalém, de modo que, independentemente de
quando ele se mudou de Tarso para Jerusalém, Paulo deve também ter absorvido ali
um grande número de aspectos do pensamento grego. Não há prova concreta alguma
de que ele chegou a estudar formalmente a literatura ou a retórica gregas, mas
um conhecimento básico de conceitos populares, provérbios-chave proferidos
por filósofos ou poetas famosos, bem como práticas culturais e religiosas influen-
tes devem simplesmente ter estado “no ar” em ambas as cidades para morado-
res que se envolviam com a vida pública. Ainda assim, seu domínio de técnicas
retóricas específicas e a prevalência de escolas helenísticas de oratória em Tarso
poderíam sugerir que ele esteve cm um contexto educacional grego mais for-
mal por um ou dois anos depois da “escola primária” e antes de se mudar para
Jerusalém. E sua familiaridade, ao longo de sua carreira, com a versão grega das
Escrituras hebraicas, a Septuaginta, dificilmente pode ser atribuída a qualquer
outro período de sua vida que não quando ainda era um judeu que vivia fora da
terra de Israel.8Todos esses antecedentes, combinados com a facilidade de Paulo
se envolver com os mais altos círculos de líderes políticos e religiosos das pro-
víncias que ele evangeliza, sugerem que ele veio de um estrato socioeconómico
razoavelmente elevado.9
Será que Saulo chegou a concluir seu treinamento para o rabinato? Isso
depende bastante da interpretação de Atos 26.10, em que ele diz a Agripa II
que “votou contra” os cristãos que ajudou a prender, quando o Sinédrio estava
discutindo a possível execução deles. Caso essa expressão seja interpretada literal-
mente, o próprio Saulo necessariamente fez parte do Sinédrio e foi, obviamente,

7Cf. ainda H engcl, The pre-C hristian Paul, p. 40-62. Embora exagerado em alguns pontos,
cf. csp. Brad H . Young, Pau! the Jewish theologian (Peabody: Hendrickson, 1997).
s Sobre todos esses detalhes e outros relacionados, veja Jerome M urphy-O’Connor, Paul: a criti-
cal life (Oxford: Clarendon, 1996), p. 32-51 [edição cm português: Paulo: biografia crítica, tradução
de Barbara Theoto Lambert (São Paulo: Loyola, 2000)]. Para um tratamento completo sobre Paulo
c os filósofos populares, veja Abraham J. Malherbe, Paul and the popular philosophers (Minneapolis:
Fortress, 1989). Em uma abordagem ainda mais ampla, cf.Troeis Engberg-Pedersen, org., Paul
in his Hellenistic context (Minneapolis: Fortress, 1995); c J. Paul Sampley, Paul in the Greco-Roman
■■world: a handbook (Harrisburg: Trinity, 2003) [edição em português: Paulo no mundo greco-romano:
um compêndio, tradução d ejóse Raimundo Vidigal (São Paulo: Paulus, 2008)].
9Gillian Clark, “The social status o f Paul”, E xpT im 96 (1985): 110-1.
PAULO: VIDA K MINISTÉRIO ‫ ן‬127

um rabino ilustre. Contudo, moços na casa dos vinte anos quase nunca atingiam
os requisitos para essa honra, e a expressão cm grego também pode ser usada de
modo metafórico para indicar a concordancia mais informal de Saulo com a deci-
são. Caso Saulo tivesse estado no Sinédrio, com praticamente toda certeza tcria
dito isso em suas cartas quando estava rebatendo os judaizantes.10 O debate sobre
seu papel religioso tem também ligação direta com a questão de seu estado civil.
Todos os membros do Sinédrio tinham de ser casados (b. Sanh. 36b), e quase todos
os rabinos eram. Por esse motivo, na população em geral apenas uma pequena por-
centagem dos homens judeus permanecía solteira por toda a vida. A referencia de
Paulo a não estar casado em lCoríntios 7.8,9 poderia então deixar implícito que
em meados da década de 50 ele já era viúvo ou divorciado. A primeira opção teria
sido bem mais provável, pois em círculos judaicos poucas mulheres conseguiam
se divorciar de seus maridos, e, à luz do ensino do próprio Paulo em lCoríntios 7
(v. 10-16), é altamente improvável que ele alguma vez tivesse iniciado um divór-
cio, mesmo que sua esposa não tivesse se tornado seguidora de Jesus.11
Já comentamos sobre o ardente zelo e lealdade a Yahweh que levou Saulo a
perseguir os cristãos. Enquanto ele acreditava que Jesus era impostor e blasfemo,
sua “teo-lógica” permaneceu impecável. N. T. W right acredita que as atividades
de Saulo demonstram que ele estava entre os fariseus shammaítas mais rigorosos,
apesar de sua formação aos pés de Gamaliel, um fariseu hillelita mais tolerante.12*
E bem possível que tenha sido assim; às vezes os alunos escolhem ideologias
bem diferentes daquelas que seus professores promoveram! Grande número de
escritores tem tentado fazer análises psicológicas dessa personalidade aparen-
temente volátil. Apenas uns poucos chegaram a se basear minuciosamente em
toda a gama de dados das Escrituras sobre esse apóstolo intrigante e sem inserir
no texto inúmeras pressuposições que o próprio texto não consegue respaldar.12
Além disso, precisamos sempre ter em mente os antecedentes sociológicos
do antigo mundo mediterrâneo.14 Como qualquer outra pessoa de sua época,

,"John B. Polhill, Paul and his h ite n (Nashville: Broadman & Holman, 1999), p. 37.
11M urphy-O ’Connor, Paul, p. 64-5.
12W right, W hat S a in t Paul really *?/«, (Oxford/Grand Rapids: Lion/Eerdmans, 1997), p. 26.
Sobre o zelo de Paulo, veja tb. Terence L. Donaldson, “Zealot and convert: the origin o f Paul’s
Christ-Torah antithesis”, CBQ 51 (1989): 6 5 5 8 2 ‫־‬.
15Para uma excelente apreciação do assunto, veja James R. Beck, The psychology ofP aul (Grand
Rapids: Kregel, 2002).
14Reveja nossa introdução em B 10m berg,/««r a n d the Gospels: an introduction a n d survey
(Nashville: Broadman & Holman, 1997), p. 64-6 [edição cm português: Introdução aos Evangelhos:
uma pesquisa abrangente sobreJesus eos 4 Evangelhos, tradução de Sueli da Silva Saraiva (São Paulo:
Vida Nova, 2017)]. Cf. ainda Ben W itherington III, rIhe Paul quest: the renewed searchfo r the Jew
o f Tarsus (Leicester, Reino U nido/D ow ners Grove: Apollos/IVP, 1998), p. 18-51, e os textos ali
citados. Particularmente esclarecedor é Jerome H . Neyrey, Paul, in other words: a cultural reading
o f his letters (Louisville: WJK.P, 1990).
128 I PAUI,O E SUAS CARTAS

Paulo deve ter se definido muito mais com relação aos grupos aos quais era
leal, em vez de se identificar com tipos específicos de personalidade. Também
observamos que não há sinais, tanto na narrativa biográfica por Lucas quanto
na informação autobiográfica de Paulo, de que ele em algum momento foi um
“judeu frustrado”, no sentido de ser alguém que continuou se esforçando cada
vez mais para cumprir a lei ao mesmo tempo que reconhecia quão longe estava
do ideal de Deus. Aos seus olhos, ele estava indo muito hem e melhor do que a maioria
(veja acima, p. 66-70)/ Os acontecimentos impressionantes na estrada de Damasco
mudariam tudo isso.

Conversão, chamado e comissionamento


Tradicionalmente, a mudança radical de alinhamento de Saulo, deixando de per-
seguir “o Caminho” para se tornar um de seus adeptos mais ativos, tem sido rotu-
lada de sua “conversão”. Mas isso significa que Saulo se viu mudando de religião,
como a expressão frequentemente sugere? Com praticamente toda certeza não.
Ele veio a entender que Jesus era o Messias, uma categoria claramente judaica.
No entanto, se a era messiânica havia de fato chegado, então estava próximo o
tempo de se cumprirem as profecias sobre o servo de Deus ser luz para os gentios
(Is 42.6). A semente de Abraão finalmente proporcionaria aquela bênção mediante
a qual todas as nações da terra seriam abençoadas (Gn 12.3). Anos depois, Paulo
se referiría aos cristãos como os verdadeiros judeus (e.g., Rm 2.28,29). As eren-
ças e práticas que veio a adotar representavam o cumprimento, não a abolição,
daTorá judaica (G15.14).Talvez a demonstração mais significativa de que Paulo
ainda se considerava judeu foi sua disposição, em nada menos de cinco ocasiões,
de se submeter às autoridades da sinagoga para receber os 39 açoites (2Co 11.24).
Caso ele tivesse declarado que havia se convertido a uma religião totalmente
diferente, os líderes judeus teriam rejeitado sua mensagem, mas dificilmente o
teriam sujeitado a castigo físico. Eles simplesmente o teriam chamado de após-
tata, alguém que não estava mais sob sua jurisdição, pois teria aberto mão de sua
condição pactuai com Deus.15
Acaso a experiência de Saulo na estrada de Damasco não foi, portanto, de
conversão? Alguns têm defendido que deve se pensar nessa experiência apenas
como um chamado ou comissionamento para a etapa seguinte de seu serviço
a Deus.16 De modo surpreendente, estudiosos judeus de tempos recentes têm
estado mais dispostos do que muitos cristãos a classificar Paulo como “conver-
tido”. A obra definitiva de Alan Segai demonstra que uma mudança de identidade
e comunidade religiosa é suficiente para produzir um “convertido”, e Saulo claramente

1‫ ־‬McRay, Paul, p. 49.


'6Veja o texto clássico sobre o assunto: Stcndahl,“Thc apostle Paul and the introspective cons-
cicncc o f the West".
PAULO: VIDA E MINISTERIO ‫ ן‬129

passou por ambas as mudanças}‘ Uma reorientação radical de convicções e crenças,


de conduta e comportamento, de filiação e pertencimento a grupos, caracteri-
zou a mudança de Saulo do judaísmo farisaico para o judaísmo messiânico.ls A
passagem de Filipenses 3.1-11 resume a ruptura dramática que Paulo fez com
seu passado, com seus valores nacionalistas e etnocêntricos. Sua disposição de
se misturar íntima e extensamente entre os gentios em seu trabalho missionário
com o propósito de alcançá-los só podería ter provocado mais ressentimento e
hostilidade por parte de judeus mais tradicionais. Aliás, parece que um de seus
objetivos básicos em seu ministério itinerante era “implantar comunidades mui-
ticulturais de crentes em Cristo, constituídas igualmente de judeus e gentios”.17189
Ainda assim, continua sendo correto descrever 0 encontro de Cristo com Saulo
também como um chamado e uma comissão. Em Gálatas 1.15, Paulo percebe que,
tal como outrora havia acontecido com Jeremias, Deus o havia separado para
esse serviço já antes de seu nascimento. Deus então “me chamou por sua graça”
e “teve o prazer de revelar seu Filho em mim para que eu pudesse pregá-lo entre
os gentios”.Também em Romanos 15.15,16, Paulo explica que a graça de Deus
0 levou a se tornar “ministro de Cristo Jesus aos gentios com o dever sacerdotal
de proclamar o evangelho de Deus”. Embora ele nunca parasse de evangelizar
os judeus, e, aliás, de acordo com sua política de ir “primeiro aos judeus e depois
aos gentios” (Rm 1.16), continuasse a iniciar a evangelização de cada nova comu-
nidade que visitava com a pregação aos judeus, o resultado final desse padrão
resultaria em passar a maior parte de seu tempo com gregos e romanos. Dessa
maneira, não é exagero ele declarar que “lhe havia sido confiada a tarefa de pre-
gar o evangelho aos gentios, assim como a Pedro fora confiada a pregação aos
judeus” (G12.7). Todas essas referências autobiográficas confirmam o que Lucas
declara de segunda mão em Atos 22.21, a saber, que o Senhor disse a Paulo: “Vá;
eu 0 enviarei para longe, aos gentios”.20
Já observamos como o encontro de Saulo com o Cristo ressuscitado o teria
levado a começar imediatamente a repensar doutrinas teológicas fundamentais

17Alan F. Segai, Paul the convert: the apostolate and apostasy o f Saul the Pharisee (N ew H aven/
London, Reino Unido: Yale University Press, 1990) [edição em português: Paulo, 0 convertido:
apostolado e apostasia de Saulofariseu, tradução de Luiz Alexandre Solano Rossi, Série Academia
Bíblica (São Paulo: Paulus,2010)].
18Gorman, Apostle ofthe crucified Lord, p. 60. Cf. esp. Peter T. O ’Brien, “Was Paul converted?”,
in: D . A. Carson; Peter T. O ’Brien; Mark A . Seifrid, orgs .,Justification a n d variegated nomism
(Tiibingen/Grand Rapids: Mohr/Baker, 2004), vol. 2, p. 3 6 1 9 1 ‫־‬.
19Gorman, Apostle ofthe crucified Lord, p. 63. Terence L. Donaldson {Paul and the Gentiles: remap-
ping the apostle’s convictional world [Minneapolis: Fortress, 1997]) explora esse tema cm detalhes,
concluindo que Paulo foi convertido, mas jamais se tornou um convertido típico.
20Cf. ainda John M . G. Barclay, “Paul among Diaspora Jews: anomaly or apostate?”, R B 60
(1995): 8 9 1 2 0 ‫ ; ־‬James D . G. D unn, “W h o did Paul think he was? A study o f Jewish-Christian
identity”, N T S 45 (1999): 174-93.
130 I PAULO E SUAS CARTAS

(acima, p. 66-7). Mas mudanças em crenças secundárias também podem ter


vindo em seguida como corolários lógicos. Se Deus tomou a iniciativa de ir até
Saulo e redirecioná-lo, ele necessariamente não apenas o “salvou”, mas também o
reconciliou consigo mesmo. Se a era messiânica havia chegado, então também
era a hora do cumprimento da nova aliança prometida, que se completou com a
internalização mais plena da lei ou vontade de Deus. E necessariamente também
o tempo de acontecer o profetizado derramamento do Espírito Santo. Como o
Espírito capacitava e concedia dons a todos os crentes de acordo com sua escolha
soberana, independentemente de gênero, uma orientação menos patriarcal sobre os
papéis de gênero no lar e na igreja começaria a caracterizar o ensino e a prática de
Paulo. Aliás, a liberdade mitigada pelo amor formaria, de modo mais geral, o ponto
central da ética paulina.21

O ministério paulino além do livro de Atos


A maior parte do que sabemos sobre a vida de Saulo como cristão vem das
seções relevantes de Atos dos apóstolos, conforme examinado anteriormente. É
claro que esses episódios são filtrados pela grade teológica de Lucas. Os reían-
ces autobiográficos desse período revelados por Paulo em suas cartas se mos-
tram igualmente subjetivos. Muitos corroboram ou completam os dados que
não foram apresentados por Lucas. No entanto, baseados apenas em Atos, não
teríamos tido conhecimento algum das cartas de Paulo. O que mais as cartas
revelam com exclusividade? Com base em outras informações históricas sobre
aquele período de tempo, 0 que é possível inferir razoavelmente acerca do curso
do ministério de Paulo? O que pode estar implícito em Atos e/ou nas cartas,
ainda que não seja explícitamente dito? E será que podemos fazer generaliza-
ções a respeito da carreira de Paulo que já não tenham surgido em nossa aná-
lise texto a texto de Atos?
Os períodos de três e catorze anos entre a conversão de Saulo e suas duas
viagens a Jerusalém para se encontrar com os apóstolos (G1 1.18; 2.1) estão
envoltos em incerteza. Somente depois da segunda dessas viagens é que acontece
a maior parte de seu ministério descrito em Atos. Ainda assim, Atos 9.20-22
nos lembra que Saulo começou a pregar a seus contemporâneos em Damasco
quase imediatamente após a sua conversão, quando sua visão e força física foram
restauradas. Dessa forma, devemos imaginar que provavelmente sua ida para a
Arábia durante aqueles três primeiros anos (G1 1.17) também teve o propó-
sito de ministério. Talvez ele já tivesse reconhecido que precisava evitar evan-
gelizar aqueles a quem outros já estavam ministrando (Rm 15.20; 2Co 10.16).
Os árabes também eram, por meio de Ismael, descendentes de Abraão, vivendo

21 Quanto a todas essas ideias, veja os artigos relevantes cm Longenecker, org., The road from
Damascus (Grand Rapids/Cambridgc: Eerdmans, 1997).
PAULO: VIDA E MINISTERIO I 131

relativamente próximos (e não tão longe de Jerusalém, onde mais recentemente


ele vinha morando), e, por esse motivo, eram em vários aspectos os destinatários
apropriados de sua pregação.22
Durante o período mais longo de catorze anos, omitido em Atos, é prová-
vel que Saulo tenha passado tempo considerável de ministério em Tarso e seus
arredores. Em Gálatas 1.21, ele anuncia que foi para as províncias da Síria e da
Cilicia durante esse tempo. A Síria, é claro, incluía Damasco, assim como Tarso
estava na Cilicia. Atos 9.30 explica que depois do primeiro encontro cm Jeru-
salém, os crentes o enviaram a Tarso para evitar aqueles que queriam atacá-lo.
A escolha de sua cidade natal como local de refúgio se mostrou natural. Então,
em 11.25, Barnabé foi a Tarso para encontrar Saulo a fim de trazê-lo de volta a
Antioquia (da Síria), onde ministraram juntos por um ano, ao que parece ime-
diatamente antes da segunda visita de Paulo a Jerusalém. As referências à Cilicia
em Atos 15.23,41 dão respaldo adicional a um ministério paulino anterior em
toda aquela região — por qual outro motivo 0 decreto apostólico seria dirigido
a eles tanto quanto à Síria da Antioquia e seus arredores? Por qual outro motivo
ele viajaria por ambas as regiões “fortalecendo as igrejas”?23 Caso não tivesse con-
tinuado em um ministério efetivo durante esses anos “ocultos”, é difícil explicar
por que Barnabé o traria a Antioquia como seu ajudante ou por que Saulo tão
rapidamente ofuscou seu amigo em influência e importância.24*O tempo de Paulo
em Antioquia trouxe uma nova estabilidade à sua vida e o levou a uma integração
no corpo de uma igreja local, a qual se tornaria sua “base de operação” e ponto
inicial de suas viagens posteriores.2’
As três principais viagens missionárias de Paulo, pelo menos como vieram
a ser conhecidas, o retratam indo cada vez mais para o oeste, com o desejo de
finalmente chegar à Espanha, o ponto extremo do mundo conhecido da época
(Rm 15.24). O princípio de avançar cada vez mais longe continua a se aplicar
durante toda sua carreira, mas por que se dirigir para o oeste, e não para o norte,
leste ou sul? Isaías 66.18,19 profetiza que Yahweh reunirá todas as nações, em
parte mediante o envio de emissários aos povos a oeste de Israel, incluindo
Grécia, Espanha e “as ilhas distantes que não têm ouvido da minha fama nem
têm visto minha glória”. Se Paulo recebeu um chamado especial para evangelizar
os gentios, ele poderia ter facilmente entendido que esse texto sugeria que estava

22 Hengel; Schwemer, Paul between Damascus and Antioch (Louisvillc/London, Reino Unido:
W JK P/SC M , 1997), ρ. 109-18. Cf. tb. Jerome M urphy-O ’Connor, “Paul in Arabia”, C B Q 55
(1993): 732-7.
23Cf. Mark W ilson, “Cilicia: the first Christian churches in Anatolia”, TynBul 54 (2003): 15-30.
24Veja ainda Hengel; Schwemer, Paul between Damascus and Antioch, p. 151-77.
2’ Embora algumas de suas sugestões pareçam tênues, no geral Nicholas Taylor {Pau¡, Antioch
and Jerusalem [Sheffield, Reino Unido: JSOT, 1992] destaca melhor do que muitos estudos o papel
central dessa cidade para Paulo.
132 I PAULO E SUAS CARTAS

sendo enviado para o oeste.26 Em Romanos 15.19, ele sugere que pregou “dessa
maneira desde Jerusalém até o Ilírico” (no que hoje é a Albânia), um arco mais
ou menos contíguo à “metade” oriental e de língua grega do império. Isso deixa
implícito considerável atividade evangelizadora adicional àquela que Atos expli-
citamente revela, embora, sem dúvida, aquilo a que ele se refere represente a ati-
vidade missionária e de plantação de igrejas em cada região principal. Não causa
surpresa que Romanos 15 passe a descrever seu desejo de, em seguida, dar aten-
ção à “metade” ocidental e de fala latina, de Roma à Espanha (v. 23,24).
Várias outras generalizações podem caracterizar apropriadamente esse
período do trabalho missionário de Paulo. Michael Gorman sintetiza os papéis
do ministério de Paulo, classificando-os em três categorias principais: umpre-
gador itinerante, um fundador de comunidades e um servo sofredor.2728E difícil exa-
gerar as adversidades associadas de fato a todas essas viagens, com frequência
provavelmente a pé. Essas adversidades incluíam o mau tempo ou a topografia
desfavorável, ladrões e agressores e o desgaste geral do corpo. Junte tudo isso à
perseguição descarada e aos males sofridos resultantes de ele pregar o cristia-
nismo e conclui-se que ele foi necessariamente alguém bastante forte e física-
mente resistente (uma observação que descarta certas teorias sobre seu “espinho
na carne”, mencionado em 2Co 12.7). Vários dos sofrimentos que Paulo relaciona
em 2Coríntios 11.23b-33 são ilustrados em Atos, mas muitos não. Pelo menos
enquanto estava “na estrada”, a vida era quase o tempo todo uma luta somente
para sobreviver.
Ao mesmo tempo, não era algo que ele fazia sozinho. Ao longo de todas
as suas viagens missionárias registradas, ele levou companheiros de viagem con-
sigo, os quais, sem dúvida, inicialmente eram colegas mais jovens (exceto talvez
no caso de Barnabé) que ele estava treinando e mentoreando. Mas nas cartas ele
frequentemente se refere a seus companheiros como colaboradores e parceiros,
como soldados, escravos ou prisioneiros como ele, também elogiando-os pelo
trabalho extenuante deles e por sobreviverem às adversidades. A missão era res-
ponsabilidade de todos.2s A razão do êxito de Paulo no uso de equipes minis-
teriais pode ser atribuída ao espírito fraterno deles, sem nenhuma atmosfera de

2'‫ י‬Ricsner, P aul’s early period: chronology, mission strategy, theology (Grand Rapids/Cambridge:
Eerdmans, 1998), p. 245-53. James M . Scott {Paul and the nations [Tubingen: Mohr, 1995J defende
que Paulo e Pedro, assim com o os judeus em geral, teriam naturalmente pensado em dividir o
mundo de acordo com a Tábua das Nações em Gênesis 10, com Paulo se concentrando nos jafe-
titas (europeus), e Pedro, nos semitas.
27Gorman, Apostle o f the crucified Lord, p. 65-71.
28Para urna lista completa dos 57 cristãos m encionados apenas nas cartas, que de alguma
maneira estiveram envolvidos no ministério dc Paulo, alguns dos quais são explícitamente chama-
dos de colaboradores (ou com expressão parecida), veja L. J. Lietaert Pecrboltc, Paul the missionary
(Leuven: Pecters, 2003), ρ. 228-30.
PAULO: VIDA E MINISTÉRIO ‫ ן‬133

dominação, os quais serviam os de fora e uns aos outros em amor.29 As expe-


riências extáticas e até mesmo as místicas, assim como a visão que Paulo teve do
céu é descrita em 2Coríntios 12.1-6, também podem tê-lo sustentado durante
algumas de suas horas mais sombrias.30‫׳‬
As metáforas que Paulo aplica em suas cartas a seu próprio ministério mis-
sionário e pastoral também se mostram reveladoras: enviado, plantador, edificador,
pai/mãe/ama e sacerdote. Ele enxerga seu papel como o de representante de Deus,
encarregado da tarefa de iniciar o ministério em muitos locais, dedicado a seu
povo como se essas pessoas fossem uma família literal ou ajudantes bem chega-
dos da família, e de se interpor como mediador informal entre eles c Deus.31 E
provável que alguém que tenha sido aprendiz de fabricante de tendas, mas tam-
bém treinado como rabino fariseu, tinha vindo de uma família relativamente bem
de vida (veja acima, p. 125-7). Entretanto, ao depender do trabalho manual para
se sustentar na maioria dos lugares e ao aceitar dinheiro para o ministério ape-
nas quando vinha de igrejas às quais não estava ministrando naquele momento,
ele deve ter sido visto, em especial na avaliação greco-romana, como alguém que
abriu mão de determinada posição social que podería ter sido sua — uma prá-
tica geralmente vista como desonrosa.32
Paulo foi mais do que desrespeitado; em alguns círculos foi abertamente
odiado, caso contrário não teria enfrentado a oposição tão severa e contínua que
enfrentou. Elizabeth Castelli acusa Paulo da mais vil manipulação ao exercer sua
autoridade apostólica de maneira opressiva, o que por certo explicaria parte dessa
oposição.33 E é verdade que, quando desafiado por judaizantes e outros falsos
mestres, Paulo se desdobra para enfatizar que sua autoridade se equipara à dos
apóstolos de Jerusalém (veja esp. G1 1—2; 2Co 10— 13; Fp 3). Além do mais,
ele pode ameaçar igrejas específicas com ação disciplinar severa, tentando cons-
trangê-las a um bom comportamento, e, quando as advertências por si mesmas
não funcionam, pode de fato por em prática suas ameaças (efi, e.g., 1C0 4.14-21
com 5.1-5). Mas a pequena Carta a Filcmom o mostra como o mestre da per-
suasão diplomática, preferindo não ter de usar a autoridade que realmente pos-
sui. Considerando-se os padrões de sua sociedade altamente patriarcal e imperial,
0 que deve ter ido na contramão não foi sua capacidade de expedir um decreto
imbuído de autoridade, mas seu exemplo, em muitos lugares, de liderança de

29 Eddy Paimoen, “The importance ofP aul’s missionary team”, S T J 4 (1996): 175-91.
3nCf. detalhadamente Jean Paillard, In praise o f the inexpressible: Paul's experience o f the divine
majesty (Peabody: Hendrickson, 2003).
31 Stephen C. Barton, “Paul as missionary and pastor”, in: James D. G. Dunn, org., The Cambridge
companion to S t Paul (Cambridge/New York: CUP, 2003), p. 35-9.
32W itherington, Paul quest, p. 128.
33Veja esp. Elizabeth A . Castelli, Im itating Paul: a discourse o f power (Louisville: WJKP, 1991).
134 I PAULO E SUAS CARTAS

servo (e.g., lC o 3; Fp 2 .5 1 1 ‫) ־‬, incluindo servir por meio do sofrimento (e.g.,


lC o 4.82 ;13‫ ־‬Co 4.7-12; 6.3-10).34
Será que podemos dizer algo mais além daquilo que dissemos ao estudar
Atos acerca do final da vida de Paulo? Alcm do testemunho, dado por Clemente e
Eusébio, sugerindo que Paulo foi subsequentemente libertado e mais tarde voltou
a ser preso e foi executado (veja acima, p. 114), podemos acrescentar o seguinte: o
Canon Muratoriano, escrito entre meados e o final do segundo século, afirma que
Lucas omitiu a viagem de Paulo “quando partiu de Roma para a Espanha”.35 O
livro Atos de Paulo 11.3-5, um texto talvez ainda desse mesmo período, descreve
a execução de Paulo por decapitação em Roma durante a perseguição de Nero
(entre 64 e 68 d.C., tarde demais para corresponder à prisão de Atos 28.16-31).36
No quarto século, Jerónimo faz eco à afirmação de Eusébio de que Paulo foi
libertado de seu primeiro encarceramento romano {De viris illustribus 5). Inú-
meras tradições locais por toda a Espanha se baseiam na convicção de que o
apóstolo de fato chegou a regiões daquele país e as evangelizou. Se ele também
conseguiu executar os planos delineados nas Cartas Pastorais de voltar a visitar
certas áreas a leste da Itália, isso pode ter ocorrido ou antes ou depois de uma
viagem à Espanha.
No entanto, é difícil determinar em que ponto alguns desses documentos, ou
mesmo todos eles, deixam para trás os fatos c entram no campo da ficção. Outras
afirmações, espalhadas por toda a tradição cristã tardia, parecem totalmente fie-
tícias. Por exemplo, Crisóstomo afirmou que Nero se vingou de Paulo por que
este levou a concubina favorita do imperador a se converter. Outra história des-
creveu que a cabeça de Paulo saltou três vezes depois de o carrasco decapitá-lo,
fazendo com que fontes de água jorrassem em cada lugar onde ela saltou!37 Por
consequência, muitos estudiosos acreditam que todas as “informações” adicionais
sobre a vida de Paulo depois do final de Atos são simplesmente falsas e que ele
continuou encarcerado desde o período de sua detenção até a sua execução.
Havia, afinal, muitas lendas apócrifas que também se desenvolveram acerca
do ministério de Paulo, um bom número delas transformando-o em um pregador
e praticante de ascetismo mais do que aquilo que é respaldado por suas cartas

34Cf. ainda W itherington, Paul quest, p. 156-72; Jerry L. Sumney, “Paul’s weakness: an integral
part o f his conception o f apostleship”,./&VT52 (1993): 71-91. Contra-argumentando diretamente
com Castclli, veja Trevor J. Burke, Family matters: a socio-historical study o f kinship metaphors in 1
Ihessalonians (London, Reino Unido/Ncvv York: TScT Clark, 2003).
’5Bruce, Patti, p. 449.
36Para uma defesa minuciosa da sequência tradicional das Cartas da Prisão (F m /C l/E f, Fp,
2Tm) no local tradicional (Roma), com considerações detalhadas sobre as condições do encar-
ceramento, veja Richard J. Cassidy, Paul in chains: Rom an imprisonment and the letters o f St. Paul
(N ew York: Crossroad, 2001).
37Polhill, Paul and his letters, p. 439-40.
PAULO: VIDA E MINISTERIO ‫ ן‬135

canônicas. A mais famosa delas é um romance dramático de como uma mulher


casada, Tecla, ficou tão embevecida não apenas com o evangelho, mas também
com o apoio de Paulo ao celibato, que abandonou o marido para se tornar uma
companheira itinerante e colaboradora de Paulo (Atos de Paulo 3)! As descrições
apócrifas de Paulo também o retratam como alguém que opera muitos milagres
adicionais, semelhantes às curas, aos exorcismos e à ressurreição atribuídos a ele
em Atos. Essas duas tendências se fundem em uma das lendas mais estranhas
associadas ao apóstolo. Depois de batizar um leão que veio até ele com o desejo
de se tornar cristão e asceta, mais tarde ele se encontra na arena para ser morto
por um animal “feroz” que não é outro senão o mesmo leão. Aproveitando-se de
uma chuva de granizo que acontece oportunamente naquele momento, prisio-
neiro e animal escapam juntos e ilesos. Posteriormente essa lenda ajudaria a ins-
pirar a famosa e nova versão, por George Bernard Shaw, de um paralelo parcial
encontrado no antigo folclore grego,Androcles e o leão?*
Assim como acontece com a Igreja do Santo Sepulcro, que assinala o
local da execução de Jesus em Jerusalém, uma igreja bastante rebuscada foi
construída em Roma para celebrar o local em que se acredita que Paulo mor-
reu e foi enterrado. Cham a-se São Paulo Extramuros e é a maior igreja de
Roma depois da Basílica de São Pedro, no Vaticano. Nenhuma escavação de
maior envergadura foi realizada ali; mas, assim como acontece com o local que
homenageou a morte de Jesus, aqui também remonta aos dias de Constan-
tino a tradição de que esse era o local correto, nesse caso confirmado por urna
inscrição que assevera o martírio do apóstolo. Três fatores tornam improvável
que esse local tenha sido inventado por cristãos posteriores devotados a Paulo:
(1) o local abrigava um cemitério pagão; (2) estava situado em um espaço bas-
tante estreito entre duas ruas; e (3) o terreno era pantanoso por ficar na mar-
gem inundável do rio Tibre.3839
Quaisquer que sejam os detalhes eventualmente incertos, 0 martírio de Paulo é
0 ápice de uma vida de imitação de Cristo depois de abandonar seu empenho, quando
ainda jovem e antes de se tornar cristão, em transformar os seguidores de Jesus em
mártires. No entanto, ele se deu conta de que outros cristãos também seguiríam seu
caminho, sendo perseguidos e até martirizados, pois também imitavam seu Senhor.
É claro que nem Paulo nem qualquer outro crente fez, por meio de seu sofri-
mento, expiação pelos pecados de quem quer que seja, mas eles frequentemente

38Sobre as tradições pós-paulinas sobre Paulo como asceta e operador dc milagres, cf. o levan-
tamento cm Calvin J. Roetzel, Paul: the man and the myth (Columbia: University o f South Carolina
Press, 1998), p. 157-76. Em uma abordagem mais geral, cf. Dennis R. Macdonald, The legend and
the apostle: the battle for Paul in story and canon (Philadelphia: Westminster, 1983).
39Jack Finegan, The archaeology o f the N e w Testament: the M editerranean w orld o f the early
Christian apostles (Boulder: Westview, 1981), p. 30.
136 I PAULO E SUAS CARTAS

demonstraram a autenticidade de sua fé, de seu crescimento no discipulado e de


seu direito à liderança por meio dessas adversidades.'10

PAULO EA REDAÇÃO DE CARTAS

A epistolografia helenística em geral

A forma e a estrutura de uma carta


Até cerca de cem anos atrás, os estudiosos dispunham apenas das obras clássicas
da Grécia antiga, incluindo cartas altamente literárias, para comparar com as car-
tas de Paulo. Então, nas décadas que antecederam a Primeira Guerra Mundial,
Adolf Deissmann traduziu e analisou muitos papiros não literários descobertos
fazia pouco tempo, especialmente papiros do Egito. Deissmann defendeu uma
clara dissociação entre a retórica rebuscada das cartas clássicas e a prosa simples
e comum dos papiros, imaginando que, na forma e no estilo, Paulo se aproximava
bem mais dos papiros do que das cartas clássicas.4041 Ploje em dia os estudiosos
situam as cartas de Paulo entre esses dois extremos da escala que vai da escrita
formal à informal, mas o estilo pessoal e, às vezes, até casual das cartas ainda
mostra maior afinidade com seus equivalentes não literários.42
A estrutura simples das breves e singelas cartas helenísticas, mesmo quando
significativamente ampliada na forma ou na extensão, é responsável por uma
maioria considerável das cartas do Novo Testamento atribuídas a Paulo. (1) A
carta começava com uma introdução, na qual havia (a) o nome do autor, (b) os
destinatários e (c) uma breve saudação. (2) Continuava com rápidas palavras
de ação de graças e/ou um desejo ou oração pelo bem-estar dos destinatários.
(3) 0 corpo da carta vinha a seguir, (a) transmitindo as principais informações
que o escritor queria comunicar, seguidas, quando necessário, de (b) uma seção
de pedidos ou exortações aos destinatários. A carta então terminava com (4)
saudaçõesfinais.43
As maneiras em que Paulo mais divergia desse formato convencional
provinham da natureza nitidamente teológica de sua correspondência. Tanto
a introdução quanto as ações de graças eram explícitamente cristãs, e as ações
de graças rotineiramente antecipavam temas-chave no corpo propriamente dito

40 Veja esp. John S. Pobee, Persecution and martyrdom in the theology o f Paul (Sheffield, Reino

Unido: JSOT, 1985).


41 A d o lf Deissmann, L ig h tfro m the ancient East, cd. rev. (N ew York/London, Reino Unido:

Harper 8 0 Bros./Hodder 8 c Stoghton, 1922), p. 146-251.


42 E.g., David E. Aunc, The N e w Testament in its literary environm ent (Philadelphia: W est-
minster, 1987), p. 218.
43 Cf. McRay, Paul, p. 265; H 0 1 1 aday,vi critical introduction to the N e w Testament: interpreting

the message and meaning o f Jesus Christ (Nashville: Abingdon, 2005), p. 267-71.
PAULO: VIDA K MINISTERIO ‫ ן‬137

das cartas.44 O corpo das cartas era grandemente expandido e cuidadosamente


elaborado; e com frequência o volume de exortações ultrapassava considera-
vclmente os paralelos nos papiros. Saudações finais muitas vezes recapitulavam
temas-chave e acrescentavam os nomes de uma ou mais pessoas que, junta-
mente com Paulo, enviavam cumprimentos aos destinatários.45 Ainda assim,
em comparação com os grandes poetas e dramaturgos da Grécia do quarto e
quinto séculos a.C., o estilo de Paulo permaneceu relativamente simples.

A CARTA GRECO-ROMANA TÍPICA


Saudação
• Saudações de X para Y
Oração e/ou ação de graças
Corpo
• Informação principal
• Exortação ou pedido
Saudação final

Usos de retórica
Mais difícil de encaixar no modelo não literário de redação da época é a retó-
rica de Paulo. Três grandes gêneros retóricos existiam no antigo mundo medi-
terrâneo: judicial (ou forense), deliberativo e epidítico. A retórica judicial era
usada cm tribunais (ou em situações equivalentes) para proferir um veredito.
A retórica deliberativa predominava na assembléia quando oradores apresen-
tavam argumentos favoráveis e contrários a várias linhas de ação que estavam
sendo consideradas. A retórica epidítica se concentrava em elogiar ou condenar,
especialmente cm discursos fúnebres ou concursos de oratória em vários ambientes
públicos.46*Algumas das cartas de Paulo refletem combinações de dois ou mais des-
ses gêneros retóricos, e algumas são mais difíceis de classificar do que outras, mas
tentativas de análise podem ajudar a esclarecer. Gálatas parece ser judicial nos vere-
ditos condcnatórios que Paulo pronuncia contra os judaizantes, 2Tessalonicenses
emprega basicamente retórica deliberativa quando Paulo recomenda determi-
nada perspectiva sobre a escatologia para acalmar o ardor de alguns na igreja

44Veja esp. Peter T. O ’Brien, Introductory thanksgivings in the letters o f Paul (Leiden/N ew York:
Brill, 1977). Sobre a forma em si, cf. Jeffrey T. Reed, “Are Paul’s thanksgivings ‘epistolary’?”,/S A T 61
(1996): 87-99.
45Veja esp. Jeffrey A. D . W eima, Neglected endings: the significance o f the Pauline letter closings
(Sheffield, Reino Unido: SAP, 1994).
46W itherington, Paul quest, p. 116. Para uma apresentação e análise detalhadas, veja Stanley E.
Porter, org., Handbook o f classical rhetoric in the Hellenistic period (Leiden/N ew York: Brill, 1997).
138 I PAULO E SUAS CARTAS

tessalonicense, ao passo que Efésios contém grandes doses de discurso epidítico,


louvando a Deus por aquilo que, em Cristo, fez pela humanidade.
Potencialmente ainda mais esclarecedores são os esquemas dos antigos
discursos helenísticos. Assim como nas cartas, as peças de oratória continham
uma série de seções especificadas que podiam ser modificadas ou subdivididas
de várias maneiras, sendo possível acrescentar-lhes outras subseções ou supri-
mir subseções existentes. O mais comum desses esquemas incluía o exordium
(ou introdução), a narratio (explicando a natureza da questão a ser analisada), a
propositio (a tese a ser defendida), a probatio (argumentos ou provas), a refuta-
tio (refutando os argumentos contrários) e a peroratio (resumo e apelo final).47
Abaixo (p. 171) apresentaremos uma síntese bastante persuasiva proposta nesses
moldes para Gálatas.
Os bons redatores de discursos refletiam cuidadosamente sobre três dimen-
sões gerais de seu estilo oratório: ethos,pathos e logos. Ethos envolvia “um apelo ao
caráter moral do orador”; pathos, “um apelo às emoções”; e logos, “um apelo à
lógica”.48A seção deprobatio ou de provas no corpo da carta podia ela própria com-
binar esses três elementos. Bons escritores e oradores reconheciam que cada um
dos três atrairía e persuadiría diferentes tipos de ouvintes em diferentes momen-
tos, de modo que todos permaneciam importantes. Naquela época, tal como hoje,
apelos emocionais podiam às vezes conquistar mais apoio para uma causa do que
a lógica ou um exemplo moral!49
Muitas aplicações de análise retórica a cartas escritas como as de Paulo têm
sido rejeitadas sob a alegação de que cartas não são discursos. No entanto, uma
vez que cartas antigas eram escritas para serem lidas em voz alta, havia inevita-
velmente alguma sobreposição entre as duas formas. Não podemos supor que
cada carta — seja de Paulo, seja de qualquer outra pessoa — necessariamente se
conformava com um esquema retórico específico; mas as propostas feitas pelos
estudiosos devem ser testadas caso a caso, em vez de serem rejeitadas ou aceitas
in totum simplesmente porque determinado estudioso está convencido de que as
cartas tinham ou não uma dimensão retórica significativa.50

4‫ ׳‬W itherington, Paul quest, p. 117-8. O próprio W itherington tem escrito nos últimos anos
vários comentários sociorretóricos sobre os livros do N ovo Testamento, ressaltando com deta-
lhes aquilo que ele acredita serem os gêneros retóricos e os contornos por trás dc cada um. Duane
Watson tem feito o mesmo cm vários artigos com análises das cartas.
4s Gorman, Apostle o f the crucified Lord, p. 85.
49Cf. esp. Thomas H . Olbricht; Jerry L. Sumney, orgs., Paul and pathos (Atlanta: SBL, 2001).
·0‫ י‬Para advertências valiosas quanto ao uso da análise retórica cm cartas, veja Stanley E. Porter,
“The theoretical justification for application o f rhetorical categories to Pauline epistolary‫ ׳‬litera-
ture”, in: Stanley E. Porter; Thomas H . Olbricht, orgs., Rhetoric and the N ew Testament (Sheffield:
JSOT, 1993), p. 100-22. Para uma resposta equilibrada, veja Janet Fairweather, “The Epistle to the
Galatians and classical rhetoric”, TynBul 45 (1994): 1-38,213-43.
PAULO: VIDA F. MINISTÉRIO I 139

Modificaçõesjudaicas
Um número bem menor de cartas judaicas, em comparação com as greco-roma-
nas, foi preservado desde a antiguidade. Aquelas que ainda existem se parecem,
às vezes, com cartas puramente helénicas por causa do avanço de culturas não
judaicas em comunidades judaicas em muitos lugares ao redor do império. Outras
se parecem mais com algumas das formas de cartas que mais adiante veremos
nas denominadas “Cartas Gerais”. Não é de surpreender que Paulo introduza
muitas técnicas judaicas de argumentação e análise, em especial em suas cita-
ções e aplicações de textos do Antigo Testamento. Várias formas de interpretação
midráshica apresentam uma ampla gama de recursos de comentários exegéticos
destinados a explicar o significado e/ou a importância de textos obscuros ou então
a atualizar para a época do autor leis e textos centenários que, à primeira vista,
não parecem ser tão relevantes quanto outrora.51 Interpretações pesher entendem
que cumpre-se na época do autor profecia antiga, seja preditiva, seja tipológica.
Outros inúmeros recursos interpretativos hebraicos também aparecem inseridos
ao longo das cartas de Paulo.52

Considerações adicionais
Em um mundo de viagens e comunicações sem precedentes, mas ainda bastante
distante da tecnologia de hoje, as cartas, especialmente as de Paulo, substituíam
a presença pessoal de alguém. As questões sérias, sobre as quais acharíamos
necessidade de conversar pessoalmente com alguém, simplesmente não podiam,
salvo raras exceções, ser tratadas dessa maneira no antigo mundo mediterrâ-
neo, caso a pessoa vivesse muito longe.53Talvez o exemplo mais impressionante
disso nas cartas seja o pronunciamento por Paulo do veredito de excomunhão
(ou morte?) contra o ofensor incestuoso em Corinto (1C0 5.1-5). Mais do
que acontecia com muitas cartas helenísticas, Paulo usou a forma epistolar
para tratar de controvérsias ideológicas e comportamentais que atormentavam

51Judah G oldin, “M idrash and Aggadah”, in: M ircea Eliade, org., 'Ihe encyclopedia o f religion
(New York: Macmillan, 1987), vol. 9, p. 512.
’2Para um bom panorama, veja Richard N . Longenecker, Biblical exegesis in the apostolic period,
ed. rev. (Grand Rapids/Cambridge: Eerdmans, 1999), p. 6-35. Q uanto a uma análise mais geral
do uso por Paulo do Antigo Testamento, veja esp. Richard B. Hays, Echoes o f Scripture in the letters
of Paul (New H aven/London, Reino Unido: Yale University Press, 1989); Christopher D. Stanley,
Paul and the language o f Scripture (Cam bridge/New York: CUP, 1992); Craig A. Evans; James A.
Sanders, Paul and the Scriptures o f Israel (Sheffield: JSOT, 1993); James W. Aageson, Written also
for our sake: Paul and the art o f biblical interpretation (Louisville: WJKP, 1993); c Francis Watson,
Paul and the hermeneutics o f fa ith (London, Reino U nido/N ew York: T & T Clark, 2004).
’‫ נ‬Robert W . Funk, “The apostolicparousia: form and significance”, in: W illiam R. Farmer;
C. F. D . Motile; R. R. Niebuhr, orgs., Christian history and interpretation (Cambridge/New York:
CUP, 1967), p. 249-68.
140 I PAUl.O E SUAS CARTAS

seus leitores.5'4 Mais do que acontecia com a maioria das cartas não literárias
e informais, Paulo se dirigia a comunidades inteiras (i.e., igrejas ou grupos de
igrejas), e não a meras pessoas. Conforme veremos, até mesmo as quatro cartas
dirigidas a indivíduos (1 e 2Timóteo,Tito e Filemom) têm como destinatários
também as congregações que esses homens lideram.

Gêneros e formas constituintes

Os principais gêneros epistolares


O autor anônimo que no primeiro século a.C., em nome de certo Demetrio,
escreveu uma obra chamada Sobre 0 estilo, ele detalhou e exemplificou nada menos
de 21 subgéneros de carta. O mais comum desses subgéneros incluía cartas de
amizade, cartas de família, cartas de elogio e condenação, cartas de mediação e
acusação, cartas de contabilidade e cartas apologéticas. As cartas de exortação
e conselho eram tão comuns que poderíam ser ainda subdivididas nas catego-
rias dissuasão, admoestação, consolação, repreensão, censura e assim por diante.*55
Em nossa análise de cada uma das cartas do Novo Testamento apresentaremos
sugestões de classificações plausíveis de acordo com esses e outros gêneros epis-
tolares relacionados.
Uma classificação das cartas greco-romanas estudada com menos rigor inclui
correspondência mais pública ou oficial. Aqui é possível identificar três grandes
grupos: “relatórios a um órgão constituído”, “cartas executivas ou administrativas”
e “cartas de um cidadão a funcionários públicos”. Essas categorias amplas podem,
por sua vez, gerar tipos mais específicos de carta, tais como cartas diplomáticas,
éditos régios, elogios honoríficos, cartas de recomendação e outros parecidos com
eles.56 Vários desses tipos também aparecerão em nossas análises das cartas de
Paulo. E óbvio que, quanto maior a precisão com que conseguirmos identificar o
gênero de uma carta, o que por sua vez oferece pistas sobre os propósitos de seu
autor e as maneiras pelas quais os destinatários originais devem tê-la entendido,
melhor estaremos em posição de interpretar seu significado para a sua época c
a importância para a nossa.

Sí Veja csp. C. K. Barrett, Paul: an introduction to his thought (London, Reino Unido/Louisville:
Geoffrey Chapman/WJKP, 1994), p. 22-54.
55 A respeito de todas essas categorias, com inúm eros exem plos reais do antigo m undo
mediterrâneo, veja Stanley K. Stowers, L etter-w riting in Greco-Roman antiquity (Philadelphia:
W estminster, 1986). Cf. tb. John L. W h ite, L ig h t fr o m ancient letters (Philadelphia: Fortress,
1986). Para urna lista concisa, com definições, veja deSilva,^in introduction to the N e w Testament:
contexts, methods and m inistry & form ation (Leicester, Reino U nido/D ow ners Grove: A p ollos/
IVP, 2004), p .5 3 2 -4 .
56Cf. csp. M . Luther Stircwalt Jr., Paul the letter writer {Grand Rapids/Cambridge: Eerdmans,
2003), p .25-55.
PAULO: VIDA E MINISTERIO 141

Formas literárias incorporadas em cartas


De igual maneira os intérpretes fazem bem em entender formas literárias c]ue
compõem determinada carta. Embora nenhuma carta inteira corresponda ao
antigo gênero de diatribe, em vários trechos de Romanos Paulo está levan-
tando objeções hipotéticas à sua linha de raciocínio e respondendo a elas (c.g.,
Rm 2.1-4,176.1-4,15-18 ;4.1-3,9-12 ;3.1-9,27-31 ;24‫ ־‬etc.). Com base em
adversários reais ou imaginários, é justamente isso que a antiga diatribe fazia
regularmente.57 Várias das cartas de Paulo contêm listas de virtudes ou de depra-
■vações. Essas incluem extensas listas de atributos e ações essenciais que os cris-
tãos devem ou praticar ou evitar. Pensa-se, por exemplo, em Romanos 1.29-31,
!Corintios 6.9,10 e Gálatas 5.19-23. Comparações com as listas de virtudes e
depravações preponderantes encontradas em vários documentos judaicos, gregos
ou romanos da época nos permitem avaliar rapidamente semelhanças e diferenças
essenciais em relação ao cristianismo primitivo. A humildade, por exemplo, era
muito mais valorizada no judaísmo e no cristianismo do que na filosofia e reli-
gião greco-romanas, nas quais eram, com frequência, vistas como fraqueza.’8 O
mesmo continua válido hoje em dia em uma variedade de culturas não cristãs, o
que sugere que a humildade é um traço de caráter que os crentes devem cultivar
cuidadosamente para que outros possam ver com clareza a diferença que Jesus
pode fazer na vida de alguém.
A Primeira Carta aos Corintios contém vários exemplos razoavelmente
claros, junto com vários exemplos questionados, de slogans ou lemas adotados
por alguns da congregação corintia. Dessa forma, a maioria dos comentaristas
concorda que o próprio Paulo não podería ter afirmado que todas as coisas são
permissíveis para o cristão (lC o 6.12), ainda mais no contexto em que advoga
que os crentes estão livres da lei judaica. Por consequência, a NIV coloca essa
declaração entre aspas nas duas vezes em que ela aparece nesse versículo, enten-
dendo que as palavras restantes refletem a refutação, por Paulo, de uma pers-
pectiva que alguns na igreja em Corinto estavam defendendo vigorosamente.
Mas será que podemos usar esse mesmo método para prescindir do texto pro-
blemático de 14.34,35, que, ao que parece, impõe silêncio a todas as mulheres
na igreja? E provável que não. Esses versículos não têm a brevidade ou memo-
rabilidade típica dos slogans, nem os versículos 36 a 38 soam naturalmente como
uma refutação.59

s' Stanley K. Stowers, The diatribe and Paul's Letter to the Romans (Chico: Scholars, 1981).
58Craig A. Evans, “Jesus’ethic o f humility”, T J 13 (1992): 127-38.
59Cf. ainda W illiam W. Klein; Craig L. Blomberg; Robert L. Hubbard Jr., Introduction to btbli-
cal interpretation, ed. rev. (Nashville: Nelson, 2004), p. 436-7 [edição em português: Introdução à
interpretação bíblica, tradução de Maurício Bezerra Santos Silva (Rio de Janeiro: Thomas Nelson
Brasil, 2017)].
142 I PAULO E SUAS CARTAS

Também relevante para os debates sobre os papéis de gênero no lar e na


igreja são as regras da casa. Essas seções das cartas de Paulo (encontradas mais
extensamente em E f 5.22— 6.9 e Cl 3.18— 4.1) delineiam as responsabilidades
de quem tem autoridade e de quem é subordinado em relacionamentos como
governo e cidadãos, senhores e escravos, pais e filhos, marido e esposa, presbíteros
e outros membros da igreja, e assim por diante. Uma vez mais uma comparação
com os deveres não cristãos da época faz com que as perspectivas contracultu-
raímente positivas de Paulo sobre os papéis das mulheres se destaquem de modo
notável, ainda que ele não chegue a apoiar a “liberação feminina” total que algu-
mas pessoas defendem hoje em dia.60
Por fim, podemos chamar a atenção para unidades independentes de textos
doutrinários sucintos que afirmam inúmeras verdades teológicas (e csp. cristoló-
gicas) essenciais, muitas vezes com uma estrutura poética no texto grego. Esses
têm sido alternadamente chamados de credos, confissões defé ou até mesmo hinos.
O texto de Filipenses 2.6-11 oferece o exemplo mais claro desses “hinos” e nos
alerta para casos em que é bem provável que Paulo esteja adotando (e às vezes
adaptando) material tradicional que teria sido comumente conhecido na igreja
primitiva. Outros textos com alta probabilidade de serem credos ou hinos pauli-
nos incluem Colossenses 1.1520‫ ־‬e lTim óteo 3.16.6' Uma vez que, dentre essas
passagens, encontramos algumas das afirmações mais sublimes sobre Jesus e ainda
assim necessariamente anteriores às principais cartas de Paulo escritas na década
de 50, surgem fortes indícios de que a “cristologia elevada” apareceu no início da
história cristã, e não simplesmente em alguma data tardia, separada do tempo e
contexto originais de Jesus por duas ou três gerações e por uma ou mais culturas.62
Ainda outros segmentos das cartas de Paulo, conquanto talvez concentrados
unicamente em uma doutrina cristã, também parecem suficientemente separáveis
de seu contexto e com estilo cuidadosamente estruturado para podermos consi-
derá-los tradição pré-paulina. Vez ou outra a menção, por Paulo, a estar passando
adiante aquilo que havia recebido confirma explícitamente essa hipótese. E pro-
vável que o mais significativo de todos esses exemplos seja o tratamento dado à
morte, ao sepultamento e à ressurreição de Cristo, incluindo uma lista de todas as
primeiras testemunhas daquele acontecimento notável ( 1 C 0 15.3-7). Até mesmo
Gerd Lüdemann, um renomado ateu e cético que atribui a experiência dos disci-
pulos com a ressurreição a visões subjetivas e a realização de desejo, reconhece que

“ Veja esp. W illiam J. Webb, Staves, women and homosexuals (Carlislc/Downers Grove: Pater-
noster/IVP, 2001).
',‫ י‬Para uma análise completa, veja Robert J. Karris, A symphony o f N e w Testament hymns (C ol-
legeville: Liturgical, 1996).
1,2Veja esp. o texto todo dc Hurtado, LordJesus Christ (Grand Rapids: Ecrdmans, 2003) [edição
em português: Senhor Jesus Cristo: devoção a Jesus no cristianismo prim itivo (São Paulo: Paulus/Aca-
demia Cristã, 2012)].
PAULO: VIDA E MINISTERIO ‫ ן‬143

0 testemunho que Paulo repete aqui deve ter constituído uma instrução catequé-
tica fundamental para todos os novos cristãos. Se Paulo se converteu em 32 d.C.,
então, menos de dois anos após a morte de Jesus, a crença em sua ressurreição
física era reconhecida como doutrina central. Independentemente de como se
opte por explicar essa crença, é impossível alegar que é resultado de uma lenda
helenística décadas depois que o contexto judaico original e a verdade sobre o
assunto haviam sido esquecidos!63

A natureza situacional do gênero epistolar


O resultado de todo esse debate sobre o gênero “carta” é que as cartas são as mais
situacionais dos quatro principais gêneros que constituem o Novo Testamento
(evangelhos, atos, cartas, apocalipse). Quer dizer, são as mais adequadas a uma
situação específica na vida das igrejas às quais são dirigidas. Embora os outros
três tipos de textos também tenham sido escritos para grupos específicos de eren-
tes, a natureza de seus respectivos conteúdos sugere que deveríam ser espalhados
rápida e bem mais amplamente. Alguns dos conteúdos das cartas de Paulo são, é
claro, bem mais gerais do que outros. Romanos é o exemplo mais claro de uma
carta com grandes trechos de material rapidamente generalizável. Ainda assim,
mesmo nessa carta, como acontece dc modo mais geral com todas as cartas, sem-
pre temos de conhecer o máximo possível sobre o público específico a que ela
foi originalmente destinada. À semelhança de cartas de muitos tipos ao longo
da história humana, muitos detalhes podem ser bastante pessoais, muitas ins-
truções podem se limitar a pessoas ou situações específicas, e muitas maneiras
de ver questões complexas podem estar pressupostas porque o autor já conhece
bem os destinatários e também sabe o que eles já sabem bem.64
Por esse motivo, é necessário desenvolver um mecanismo para identificar as
instruções em uma carta a fim de determinar o que será aplicado sem alteração a
todos os cristãos de todas as épocas e lugares e o que talvez tenha de ser aplicado
de maneiras radicalmente diferentes, conforme os diversos contextos determi-
narem. Quatro princípios para o reconhecimento de material específico a uma
situação podem ser formulados como perguntas: (1) O contexto imediato se
justapõe a uma ordem aparentemente contraditória? (2) Determinada instrução
parece contradizer o ensino de outras passagens nos escritos do mesmo autor?

63Cf. ainda Gcrd Lüdemann, com a colaboração dc A lf Õ zen, What really happened to Jesus: a
historical approach to the resurrection (Louisville: WJKP, 1995), p. 15.
64Uma excelente introdução à interpretação das cartas à luz de sua natureza situacional apa-
rece em G ordon D . Fee; D ouglas Stuart, H o w to read the Bible fo r all its w orth, cd. rev. (Grand
Rapids: Zondervan, 2003), p. 55-87 Ledição em português: Entendes 0 que lês?: um guia para enten-
der a Biblia com 0 auxílio da exegese e da hermenéutica, 3. ed. rev. amp]., tradução de Gordon Chown
(São Paulo: Vida Nova 2011)].
144 I PAULO 1·; SUAS CARTAS

(3) O fundamento lógico de uma ordem específica não funciona absolutamente


em urna cultura diferente da original? (4) A carta introduz um contexto espe-
cífico para um ensino em particular? Complementando essas questões, há duas
perguntas que, se respondidas afirmativamente, sugerem aplicação atemporal ou
normativa: (5) Acaso determinada ordem apela à maneira pela qual Deus ini-
cialmente estabeleceu as coisas na época do Antigo Testamento ou à maneira
pela qual ele as está restabelecendo na época do Novo Testamento? (6) Deter-
minado ensino reflete um amplo princípio transcultural declarado ou implícito
no texto? O esmiuçamento e exemplos de todos esses princípios podem ajudar
o intérprete novato a progredir nessa área.65

O PROCESSO DE REDAÇÃO DE CARTAS


Em nosso mundo de mensagens de texto enviadas por celulares, e-mails e inúme-
ras outras maneiras de entrar quase instantaneamente em contato com as pessoas,
é fácil esquecer como era enfadonho na antiguidade o processo de se comunicar
com alguém que estava fisicamente distante. Basicamente, as duas únicas opções
eram mandar um amigo para falar diretamente com aquela pessoa ou enviar uma
carta. Com frequência ambos os processos entravam simultaneamente em ação.
As informações eram postas por escrito para que um mensageiro não esquecesse
ou distorcesse o que o remetente quis dizer, mas, como era necessário um por-
tador para entregar a correspondência, essa pessoa agia como intérprete do que
estava sendo comunicado, dando ainda mais detalhes sobre seu significado e as
intenções de seu autor.
Em um mundo com elevado índice de analfabetismo, muitas pessoas inteli-
gentes e até mesmo abastadas nunca aprenderam a escrever. Portanto, elas tinham
de fazer uso de escribas profissionais para transformar seus pensamentos em
palavras escritas em papiro. Ainda assim, a minoria que era capaz de escrever
muitas vezes achava mais fácil ou mais prático pagar a alguém com experiência
em tomar o ditado para transcrever suas palavras enquanto falava em voz alta. O
termo técnico grego para esse escriba era amanuensis. Um número seleto des-
ses amanuenses também havia aprendido uma forma de taquigrafía, o que lhes
permitia anotar as palavras de alguém na velocidade normal em que eram ditas.
Como judeu com formação rabínica, Paulo devia estar entre os leitores e
escritores mais bem treinados de seu mundo. Ainda assim, está claro que ele
fez uso de um amanuense pelo menos uma vez, e é provável que tenha proce-
dido assim com todas as suas cartas. Em Romanos 16.22,Tércio se identifica

65Veja ainda Craig L. Blomberg, M aking sense o f the N ew Testament: three crucial questions (Grand
Rapids/Leicester, Reino Unido: Baker/IVP, 2004), p. 131-6 [edição cm português: Questões cruciais
do Novo Testamento, tradução de Degmar Ribas (Rio dejaneiro: C PAD, 2009) J; Klein; Blomberg;
Hubbard, Introduction to biblical interpretation, p. 485-98.
PAULO: VIDA E MINISTERIO I 145

explícitamente como aquele que transcreveu a carta. Em IC oríntios 16.21,


Gálatas 6.11, Colossenses 4.18,2Tessalonicenses 3.17 e Filemom 19, Paulo faz
referência a escrever as palavras finais da carta “de próprio punho”, o que dá a
entender que, com exceção dessas conclusões, tudo foi escrito por um amanuense.
A ocorrência de pós-escritos semelhantes em outras cartas, junto com o fato de
que escritores antigos geralmcnte usavam escribas o tempo todo ou então rara-
mente, sugere que Paulo pode ter composto todas as suas cartas de forma parecida.
Mas que tipo de “ditado” estava envolvido? Quatro abordagens diferentes
para anotar os pensamentos de alguém são identificadas em textos greco-roma-
nos antigos. Primeiro, o ditado literal, palavra por palavra, podia ocorrer. Segundo,
um amanuense podia apanhar os pensamentos ou palavras de um autor e edi-
tá-los para adequação estilística, ao mesmo tempo que o conteúdo permane-
cia inalterado. Terceiro, os remetentes secundários podiam dar sua contribuição,
em questões de estilo ou de conteúdo, o que o escriba tinha de levar em conta.
Finalmente, em casos raros (basicamente, em textos remanescentes, limitados a
Cícero), um autor podería dar instruções sobre a forma e o conteúdo de uma
carta, mas deixar que o amanuense de fato a compusesse.66 Essas opções pesam
diretamente no debate sobre algumas das cartas atribuídas a Paulo serem ou não
realmente pseudônimas.
Contudo, antes de passar para esse debate, cabe mais uma palavra sobre esse
tópico. Nunca devemos perder de vista o fato de que Paulo viveu em uma cultura
oral. Como bem poucos cristãos seriam suficientemente ricos para possuir uma
cópia do pergaminho de uma das cartas de Paulo, a maioria, para poder se fami-
liarizar com o ensino de Paulo, dependia inteiramente de ouvir as cartas serem
lidas em voz alta na igreja. Sem dúvida, assim que uma carta chegava à igreja à
qual era destinada, a igreja toda ouviría sua leitura do começo ao fim na próxima
vez que as pessoas se reunissem. Entretanto, como as cartas eram reconhecidas
como normativas e úteis, haveria repetidas leituras, e, por fim, assim como os
judeus fizeram com as Escrituras hebraicas, trechos consecutivos das cartas de
Paulo seriam lidos domingo a domingo juntamente com sequências semelhantes
de textos dos Evangelhos. Por fim, esse sistema de lecionário tornou-se fixo e,
mais tarde, seria abreviado para cobrir apenas trechos selecionados do Antigo e
do Novo Testamentos. Mas a ideia a se destacar aqui é que 0 conhecimento pelos
primeiros cristãos dependia de o autor da carta elaborar sua mensagem de uma

“ A respeito de todas as informações dadas até aqui sobre o processo de redação de cartas,
veja o texto todo dc E. Randolph Richards, The secretary in the letters o f Paul (Tübingen: Mohr,
1991). Uma ampliação dcssc material em um texto mais acessível c encontrada em idem, Paul and
first-century letter w riting: secretaries, composition and collection (Leicester, Reino Unido/Downers
Grove: Apollos/IVP, 2004), cm que Richards claramente opta por uma combinação da segunda e
da terceira abordagens mencionadas aqui.
146 I PAULO E SUAS CARTAS

forma memorável, para que seus ouvintes (e não leitores) rapidamente viessem
a assimilar, preservar e transmitir o conteúdo da carta. Recursos estilísticos de
vários tipos nas cartas de Paulo demonstram que ele estava de fato preocupado
com essas questões mnemónicas.67

O problema da pseudonímia
Por uma série de razões que serão analisadas nas introduções às cartas pertinentes,
nos últimos dois séculos muitos estudiosos chegaram à convicção de que até seis
das cartas do Novo Testamento atribuídas a Paulo não foram realmente escritas
por ele. Com frequência 2Tessalonicenses tem sido suspeita de ser pseudônima,
embora muitos argumentos a favor de sua autenticidade continuem de pé. Colos-
senses tem sido objeto de um pouco mais de dúvida; Efésios perceptivelmente
ainda mais; e as Cartas Pastorais, pela grande maioria de estudos especializados
sobre o assunto. Os motivos mais centrais para esses vereditos têm relação com
os estilos e conteúdos característicos dessas cartas quando contrastadas com os
outros sete, e em grande parte não contestados, escritos paulinos.68
Até recentemente, a maioria dos estudiosos que chegava a essas conclusões
também defendia que a pseudonímia era um recurso (ou até mesmo gênero)
literário reconhecido nos antigos mundos judaico e greco-romano, de modo
que usá-la não refletia intenção alguma de enganar alguém. Eles também defen-
diam que é improvável que alguém tenha sido enganado por seu uso. Motivos
para atribuir um documento a alguém renomado de uma era passada podiam
incluir: obter maior autoridade para a obra; a percepção de estar simplesmente
prosseguindo na tradição teológica ou ideológica daquela pessoa (de tal modo
que o crédito deveria ser dado mais ao mestre do que ao aluno); a possibilidade
(particularmente no caso de literatura apocalíptica) de alguém ter tido algum
tipo de experiência extática ou visionária na qual o autor acreditava que estava
temporária, mas intimamente ligado à pessoa nominada; ou simplesmente era
uma convenção-padrão em certos gêneros de ficção (esp. no caso de narrativa de

67Polhill, Paul and his letters, p. 121. Para maiores detalhes, veja John D . Harvey, Listening to
the text: oralpatterning in Paul’s letters (Grand Rapids: Baker, 1998). Para uma análise detalhada de
um dos mais comuns e complexos desses recursos mnemônicos, veja Ian H . Thomson, Chiasmus
in the Pauline Letters (Sheffield, Reino Unido: SAP, 1995).
6s Periodicamente modelos matemáticos têm sido empregados para tentar testar essas diferenças
e ver se elas variam suficientemente para se qualificarem como “resultado estatístico significativo”.
Os resultados têm sido variados; mas, na maioria das vezes, a resposta tem sido negativa. Para uma
avaliação dos mais importantes desses estudos e para a análise mais ambiciosa feita até hoje, com
uma defesa veemente da autenticidade de todas as treze cartas atribuídas a Paulo, veja George K.
Barr, Scalometry and the Pauline Epistles (London, Reino U n id o/N ew York: T 8 t T Clark, 2004).
Cf. também Kenneth J. Neumann, The authenticity o f the Pauline Epistles in the light o f stylostatis-
ticalanalysis (Atlanta: Scholars, 1990).
PAULO: VIDA E MINISTERIO I 147

despedida ou testamento final de alguém). Defensores dessa abordagem “inócua”


da pseudonímia recorreram a textos das Escrituras hebraicas amplamente con-
siderados pseudônimos (mais notadamente Daniel), a inúmeros escritos inter-
testamentários (em particular da literatura apocalíptica) atribuídos a patriarcas
e heróis da história judaica antiga, bem como a cartas greco-romanas atribuídas
sob pseudônimo a personagens bem conhecidos como Sócrates, Platão, Pitágo-
ras, Apolônio de Tiana e Diógenes, o Cínico.69

CARTAS CONTESTADAS E NÃO CONTESTADAS DE PAULO

Não contestadas Um pouco contestadas


• Gálatas • 2Tessalonicenses
• Romanos • Colossenses
• 1Corintios
• 2Coríntios Muito contestadas
• ITessalonicenses • Efésios
• Filemom • lTim óteo
• Filipenses • 2Timóteo
• Tito

Essas supostas analogias, no entanto, precisam ser avaliadas à luz de várias


observações. Em primeiro lugar, o judaísmo pré-cristão parece ter aceitado todas as
atribuições de autoria do Antigo Testamento e entendido que todos os seus docu-
mentos canônicos tinham origem realmente profética. Em segundo lugar, não havia
dificuldade alguma em reconhecer que um documento que acabara de ser divul-
gado no segundo ou no primeiro séculos a.C., e atribuído a, digamos, Enoque, não
poderia ter vindo de um personagem da era antediluviana. Contudo, é bem dife-
rente para um cristão da segunda geração atribuir um documento a alguém que
viveu apenas uma geração antes dele, que é o que estudiosos do Novo Testamento
afirmam costumeiramente. Em terceiro lugar, os paralelos na forma e no conteúdo
entre as cartas do Novo Testamento e as cartas pseudepigráficas do mundo hele-
nístico são bem poucos. Porfim , e mais importante, todas as evidências inequívo-
cas que temos de reação cristã a casos de pseudepígrafe conhecidos na época (i.e.,
de meados do segundo século em diante) mostram que essa prática era rejeitada.
Aliás, atribuições corretas de autoria, uma vez que davam condições à igreja de

69Para uma defesa evangélica dessa perspectiva, veja esp. David G . Meade, Pseudonymity and
canon (Grand Rapids: Eerdmans, 1986). Para um estudo desse gênero greco-romano específico de
literatura, veja Charles D . N . Costa, Greekfictional letters (N ew York: OUP, 2001).
148 I PAULO E SUAS CARTAS

avaliar a apostolicidade de determinado documento (i.e., que foi escrito por um


apóstolo ou por um colaborador próximo de um apóstolo), tiveram um papel mais
preponderante do que qualquer outro critério isolado na aceitação de um texto
cristão primitivo como legítimo para ser usado e considerado como Escrituras.
Mas e se o cristianismo do primeiro século e do início do segundo teve uma
atitude diferente? Muita coisa mudou em meados do segundo século, quando essa
nova religião quase perdeu de vista suas raízes judaicas e ficou firmemente arrai-
gada no helenismo. E há alguns textos cristãos do segundo século que, depen-
dendo da interpretação de certos detalhes controversos, podem, em determinadas
condições, ser entendidos como aprovação limitada de pseudepígrafe. Esses tex-
tos incluem: os comentários de Serapião sobre o apócrifo Evangelho de Pedro;
os comentários de Tertuliano sobre os Atos de Paulo, bem como de que Marcos
dependeu de Pedro, e Lucas, de Paulo; e vários comentários espalhados no frag-
mento muratoriano sobre livros a serem incluídos no cânon. Até mesmo uma
referência mishnaica ao ponto de vista do judaísmo do segundo ou terceiro séculos
sugere que as palavras de um discípulo poderiam ser tratadas como se fossem
de seu mestre. (Acerca dos dois mais sugestivos desses textos cristãos e judaicos,
veja abaixo, p. 620.) Dessa forma, em princípio os estudiosos das Escrituras não
devem necessariamente fazer objeção a certos tipos de sugestões pseudepigrá-
ficas, da mesma forma que não precisam se preocupar com as parábolas serem
um tipo dc ficção poética que visa comunicar verdades inspiradas e normativas.70
No entanto, a mais recente fornada de análises detalhadas, tanto sobre essas
afirmações específicas acerca dos pseudepigráficos quanto sobre os documentos
muitas vezes citados como analogias, tem lançado sérias dúvidas sobre os cris-
tãos terem ou não aceitado de forma generalizada essa convenção literária ou
sobre essa convenção até mesmo ter ou não existido, pelo menos entre os autores
dos textos que fazem paralelo mais próximo com as cartas do Novo Testamento.
E mais, esses estudos têm demonstrado que o conceito de propriedade literária
estava difundido no antigo mundo mediterrâneo, de modo que o mais provável
é que a pseudepígrafe, quando de fato ocorria, pretendia enganar pessoas, levan-
do-as a crer que certos textos de fato vieram das pessoas a quem foram atribuí-
dos. Desse modo, se alguma das cartas atribuídas a Paulo foi na verdade escrita
por uma segunda geração de discípulos do apóstolo, o mais provável é que seus
autores quisessem que o mundo cristão imaginasse que Paulo realmente as escre-
veu. Além disso, todas as evidências que temos de debates no cristianismo pri-
mitivo sobre a autoria e/ou canonização das cartas de Paulo sugere que a igreja
acreditava sim que o próprio Paulo escreveu essas cartas.

70Cf. o panorama breve dc Terry L. Wilder, “Pscudonymity and the N ew Testament”, in: David
A. Black; David S. Dockery, orgs., Interpreting the N ew Testament, cd. rev. (Nashville: Broadman 8c
Holman, 2001), esp. p. 301-8. W ilder considera essas evidências pouco convincentes.
PAULO: VIDA 1CMINISTÉRIO ‫ ן‬149

Essa conclusão não exclui o uso de amanuenses, mesmo de alguns que


podem ter tido maior liberdade literária para pôr por escrito, em seu próprio estilo
e até mesmo com suas ênfases características, os pensamentos e as instruções de
Paulo. Paulo ainda teria sido responsável por aprovar cada palavra dessas obras,
de modo que essa hipótese continua sendo bem diferente da de alguém com-
por documentos em nome de outra pessoa depois da morte desta.71 Mas estu-
dos recentes questionam sim a ideia de que os primeiros cristãos poderíam ter
escrito em nome de Paulo (ou de qualquer outro líder falecido) impunemente,
usando um recurso literário aceito. E, ao contrário do que muitos gostariam que
acreditássemos, os argumentos contra a autoria paulina não são tão irrefutáveis.72

A compilação e a canonização das cartas de Paulo


É curioso que os únicos sete livros do Novo Testamento que foram seriamente
questionados nos primeiros debates cristãos sobre o cânon são todos da última
terça parte do Novo Testamento, depois dos Evangelhos, de Atos e das cartas
paulinas. Esses sete eram: Elebreus (por causa das incertezas sobre quem o escre-
veu); Tiago (por causa de suas aparentes contradições com Paulo); 2Pedro (por-
que seu estilo era muito diferente do de IPedro); Judas, 2 e 3João (porque eram
muito curtas e de natureza bastante situacional); c Apocalipse (por causa das
controvérsias em torno de como interpretá-lo).73Todos esses tópicos voltarão a
ser abordados quando tratarmos de cada um desses livros.
Em contrapartida, as cartas de Paulo começaram rapidamente a circular
além das comunidades ou pessoas a quem foram dirigidas. Logo se tornaria natu-
ral juntar duas ou mais delas em pequenas coleções, em particular quando duas
cartas foram escritas à mesma igreja. Romanos, 1 e 2Coríntios e Gálatas foram
reconhecidas como cartas que continham o “filé-mignon” teológico de Paulo e
poderíam ter formado uma unidade natural de quatro cartas. O mesmo também
podería ter acontecido com Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses, por serem
de tamanho parecido e terem vários tópicos comuns, especialmente em Gálatas
e Filipenses e em Efésios e Colossenses. Também é possível que Paulo tenha
seguido a prática comum na antiguidade de fazer para si cópias de suas cartas,
mantendo-as em Roma em um códice parecido com um caderno, e que, depois

'* A respeito de todas as idéias dessa subseção, veja esp. Terry L. Wilder, Pseudonymity, the New
Testament, and deception (Lanham/Oxford: UPA, 2004); e Jeremy N . Duff, “A reconsideration o f
pseudepigraphy in early Christianity'” (Oxford: tese de doutorado, 1998).
72 Para uma defesa da autenticidade de todas as denominadas cartas dêutero-paulinas, veja
Bo Rcicke, Re-exam ining Paul's letters: the history o f the Pauline correspondence, edição dc David P.
Moessncr; Ingalisa Reicke (Harrisburg: Trinity, 2001).
73Cf. esp. R F. Bruce, The canon o f Scripture (Leicester, Reino Unido/Downers Grove: IVP, 1988)
[edição em português: O canon das Escrituras: como os livros da Bíblia vieram a ser reconhecidos como
Escrituras Sagradas?, tradução de Carlos Osvaldo Pinto (São Paulo: Hagnos, 2011)], esp. p. 198-203.
150 I PAULO 1CSUAS CARTAS

de sua morte, seus discípulos tenham preservado e copiado a coleção inteira.74


Quer o surgimento de um canon paulino tenha sido gradual, quer tenha ocorrido
em vagalhões repentinos, quer tenha acontecido de uma só vez, o surgimento de
um cânon paulino se tornou necessário para combater as heresias do segundo
século e desempenhou um papel decisivo nessa luta, assim como muitas das car-
tas de Paulo enfrentaram heresias do primeiro século.75
No início a sequência das cartas variava, mesmo quando todas as treze cartas
começaram a ser compiladas. Da mesma maneira, à medida que todo o cânon do
Novo Testamento começou a tomar forma, as cartas de Paulo às vezes eram colo-
cadas no início, às vezes depois dos Evangelhos, com frequência depois de Atos
e, por vezes, até depois das Cartas Gerais.767Contudo, por fim elas se estabelece-
ram depois de Atos, que, do ponto de vista cronológico e temático, era a posição
em que faziam sentido, pois foram escritas depois dos acontecimentos descritos
nos Evangelhos, mas, de modo concomitante com muitos dos acontecimentos
de Atos, em muitos dos quais o próprio Paulo desempenha até mesmo um papel
direto. A sequência em que as cartas de Paulo foram finalmente organizadas
adotou uma abordagem usual de compilação dessas obras na antiguidade. Elas
foram dispostas simplesmente em ordem decrescente de extensão, primeiro em relação
às cartas dirigidas a igrejas e em seguida com referência àquelas dirigidas a pessoas.
Apenas duas exceções violam esse padrão. De modo compreensível, quando duas
cartas foram escritas à mesma igreja ou pessoa, elas foram mantidas juntas. Além
disso, Efésios é um pouco mais longa do que Gálatas, ainda que venha depois
desta. E possível que em algum momento Gálatas tenha sido colocada à frente
do grupo de quatro cartas, que também incluía Efésios, Filipenses e Colossen-
ses, por causa de sua referência ao kanõn (palavra grega para “regra” ou “cânon”,
0 princípio regulador para a escolha de livros da Bíblia) em 6.16.'7

TEOLOGIA PAULINA

Paulo por ele mesmo


O elevado número de livros que vieram da pena de Paulo cria problemas singu-
lares para poder sintetizar sua teologia. Deve-se tentar relacionar os temas prin-
cipais de cada carta individualmente e só depois disso criar uma grande síntese

74 E. Randolph Richards, “Tire codex and the early collection o f Paul’s letters”, B B R 8 (1998):
151-66.
75Para um panorama e crítica de todas as principais opções, veja Stanley E. Porter, “W hen and
how was the Pauline canon compiled? An assessment o f theories”, in: Stanley E. Porter, org., The
Pauline canon (Lcidcn/Boston: Brill, 2004), p. 95-127.
76Veja as tabelas em McRay, Paul, p. 274-5.
77Cf. ainda W illiam R. Farmer, com a colaboração de D enis M . Farkasfalvy, Theform ation o f
the N eu' Testament canon (N ew York: Brill, 198.3), p. 79-81.
PAULO: VIDA E MINISTÉRIO I 151

deles?'8 Deve-se usar todas as treze cartas atribuídas a Paulo ou apenas as sete
relativamente não contestadas?7879 Deve-se organizar os resultados por tópicos
nos moldes da maioria das teologías sistemáticas compostas na história da igreja
(como o faz a maioria dos autores) ou deve-se organizá-los com base nas histó-
rias ou narrativas pressupostas e recontadas ou revisadas por Paulo na formula-
ção de sua doutrina?80 Deve-se identificar um “centro” do pensamento paulino ou
pelo menos um grupo dos temas mais centrais e atribuir-lhes maior importância
do que os temas mais periféricos?81 Deve-se dar margem para a ideia de que o
entendimento de Paulo sobre determinado tópico se “desenvolveu” ao longo do
tempo? E relevante se esse “desenvolvimento” se parecer mais com a evolução
orgânica de um entendimento anterior ou mais com o repúdio radical de uma
posição anterior?82 E o que dizer daqueles que consideram as posições de Paulo,
mesmo nas cartas não contestadas, às vezes irremediavelmente contraditórias?83
Felizmente os temas centrais do ensino de Paulo permanecem relativamente os
mesmos, independentemente das respostas a essas perguntas específicas, ainda
que, em decorrência daquelas respostas, haja consideráveis divergências em um
grande número de questões secundárias.
Michael Gorman identifica “doze convicções fundamentais” da teologia de
Paulo, as quais bem poucos contestariam, ainda que talvez classifiquem sua impor-
tância ou analisem suas inter-relações de formas variadas: (1) O único verdadeiro
Deus criador do mundo elegeu peculiarmente Israel para ser o principal veículo

78 E o pensam ento dc, e.g., Ί. Howard M arshall, N e w Testament theology (Leicester, Reino
Unido/Downers Grove: Apollos/IVP, 2004), p. 209-469 [edição em português: Teologia do Novo
Testamento: diversos testemunhos, um so evangelho, tradução dc Sueli da Silva Saraiva; Marisa K. A.
de Siqueira Lopes (São Paulo: Vida Nova, 2007)].
'9Veja esp. Thomas R. Schreiner, Paul: apostle o f God’s glory in Christ (Downers Grove/Leicester,
Reino Unido: IV P/Apollos, 2001) [edição em português: Teologia de Paulo: 0 apóstolo da glória de
Deus em Cristo, tradução dc A . G. M endes (São Paulo: Vida Nova, 2015)]; e James D . G . D unn,
The theology o f Paul the apostle (Grand Rapids/Cambridge: Ecrdmans, 1998) [edição em português:
A teologia do apóstolo Paulo, tradução de Edwino Royer, Biblioteca de Estudos Bíblicos (São Paulo:
Paulus, 2003)], respectivamemte.
80É o pensamento de, e.g., Ben W itherington III, P aul’s narrative thought world: the tapestry
o f tragedy a n d trium ph (Louisville: WJKP, 1994). Cf. tb. Bruce W . Longcncckcr, org., Narrative
dynamics in Paul: a critical assessment (Louisville/London, Reino Unido: WJKP, 2002).
81 Veja esp. Johan C. Beker, Paul the apostle: the trium ph o f God in life and thought (Philadel-
phia: Fortress, 1980).
82Quanto à primeira abordagem, no que diz respeito ao entendimento de Paulo sobre a res-
surreição c a escatologia, uma questão-chave em Paulo, razão pela qual a maioria tem adotado
a segunda hipótese, veja Ben F. Meyer, “D id Paul’s view o f the resurrection o f the dead undergo
development?”, T S 47 (1986): 363-87; e Paul Woodbridge, “D id Paul change his mind? — an exa-
mination o f some aspects o f Pauline eschatology”, Themelios 28 (2003): 5-18.
83Veja esp. Heikki Rãisãnen, Paul and the L a w (Tubingen: Mohr, 1983; Philadelphia: Fortress,
1986). Para uma refutação, cf.Tcunis E. van Spanje, Inconsistency in Paul? (Tübingen: Mohr, 1999).
152 I PAULO E SUAS CARTAS

de bênção divina entre as nações do mundo e, para isso, estabeleceu aliança com
esse povo. (2) O pecado humano separou pessoas e grupos daquele Deus que
estabelece a aliança; a lei judaica, apesar de seus muitos benefícios, é incapaz de
libertar as pessoas de seus pecados e suscitar a justiça que traz a vida eterna. (3)
A natureza justa de Deus leva-0 a ser fiel à sua aliança e a exercer poder salvador
sobre seu povo, estendendo misericórdia aos gentios da mesma maneira que faz
com os judeus. (4) Essa salvação é ensejada pela “crucificação reveladora, repre-
sentativa c reconciliadora de Jesus, o Messias”. (5) A subsequente ressurreição e
exaltação de Jesus vindica sua vida e ensino e o exibe ao cosmo como 0 Senhor
de tudo. (6) Dessa forma, Cristo constitui o ponto culminante da aliança, cum-
prindo todas as profecias de Deus. Contudo, ao contrário da expectativa judaica
convencional, ele as cumpre em duas etapas, que correspondem àquilo que hoje
em dia se chama de primeira e segunda vindas. Nesse ínterim, vivemos no “já,
mas ainda não”, a sobreposição entre a antiga e a nova era da história da salvação.
(7) Viver nesse período intermediário em um relacionamento reconciliado
com Deus acontece apenas mediante sua atividade justificadora, da qual os seres
humanos se apropriam pela graça por meio da fé. A obediência às obrigações
estabelecidas na aliança com ele vem em seguida como o desdobramento natural
de um relacionamento restaurado com Deus, e não como um meio de alcançá-
-10. (8) E apropriado, aliás, é essencial, falar sobre Jesus (c sobre o Espírito Santo
que o capacitou e agora capacita os crentes) com um linguajar outrora reservado
apenas a Yahweh, Deus de Israel. Em outras palavras, Paulo enuncia um trinita-
rismo incipiente. (9) Seguir Jesus se concentra basicamente na “cruciformidade”,
na abnegação, no amor aos outros e ate no sofrimento que também caracteri-
zou a vida e a morte de Cristo. (10) O Espírito também funciona em nossa vida
como sinal daquelas promessas de Deus que ele já cumpriu e como garantia da
esperança de que no futuro agirá de modo parecido, de conformidade com suas
outras promessas ainda não cumpridas. (11) Os cristãos devem se reunir para cul-
tuar, para o exercício de seus dons espirituais e para o incentivo mútuo, criando
uma comunidade contracultural convincente, contrária às instituições corruptas
do mundo. (12) Por fim, a história culminará naparousia (a volta de Cristo), na
ressurreição de todas as pessoas para a vida ou morte eterna e no triunfo final de
Deus contra todos os seus inimigos, humanos ou demoníacos.84
Desde a Reforma, intérpretes protestantes têm regularmente acompanhado
o entendimento de M arti nho Lutero de que a “justificação pela fé” é o tema
mais central do pensamento de Paulo. No início do século 20, a ideia de Albert
Schweitzer de que estar “ern Cristo” constituía o centro reuniu um considerável
número de seguidores. Ñas décadas de meados daquele mesmo século o existen-
cialismo influente de Rudolf Bultmann chamou a atenção para a difícil condição

Si Gorman, Apostle o f the crucified Lord, p. 131 -44.


PAULO: VIDA E MINISTERIO I 153

(pecado) da humanidade e para a decisão de viver “autenticamente” perante Deus


e os demais como solução para aquela condição. Depois da Segunda Guerra
Mundial, W. D. Davies prenunciou um retorno às raízes profundamente judaicas
de Paulo e considerou que a crença em Jesus como o Messias judeu era teolo-
gicamente a mais central. Não muito tempo depois, Ernst Kãsemann reabilitou
a apocalíptica judaica, crendo que era a categoria fundamental para interpretar
Paulo.85 Não obstante, hoje em dia todos esses desdobramentos têm sido eclipsa-
dos pelo debate sobre a denominada “novaperspectiva sobre Paulo”, a qual remonta
basicamente ao livro de E. P. Sanders Paul and Palestinian Judaism [Paulo e o
judaísmo palestino], publicado em 1977.86
Sanders mostrou com grande quantidade de detalhes que descrições aca-
dêmicas do judaísmo em Israel antes de 70 d.C. continham considerável ana-
cronismo histórico, pois descreviam que os contemporâneos judeus de Paulo não
eram diferentes de seus descendentes rabínicos séculos depois. O argumento de
Sanders era que, quando alguém se concentrava em textos judaicos comprova-
damente pré-cristãos, identificava-se o predomínio do “nomismo pactuai”— uma
abordagem da vida religiosa segundo a qual os judeus consideravam que as obras
da lei eram a forma de demonstrar seu relacionamento pactuai com Yahweh, não
uma forma de basicamente merecer inclusão na comunidade de seu povo. Afi-
nal, o nascimento como judeu (e, para os meninos, o rito da circuncisão) já havia
alcançado isso. Dessa maneira, na realidade, Paulo e 0 judaísmo predominante de
sua época concordavam que as boas obras não visavam que alguém pudesse “ser
salvo”, mas que essa pessoa “permanecesse” salva. A principal divergência entre
Paulo e seus contemporâneos não era sobre o papel da Lei, mas sobre a questão
de saber se o Messias já havia chegado em Jesus.
James D unn se baseou no trabalho inovador de Sanders, chamando tam-
bém a atenção para aquelas obras da Torá que ele denominou “símbolos nacionais
de justiça”. Em particular a circuncisão, a guarda do Sabbath e as leis alimenta-
res separavam os judeus de todos os povos vizinhos e os deixavam vulneráveis
ao orgulho etnocêntrico. Para Dunn esse nacionalismo injustificado, em vez do
legalismo clássico (tentar salvar-se por meio de boas obras), tornou-se a melhor
maneira de entender as objeções de Paulo contra a liderança judaica de sua época.87
N.T. W right tem extraído várias percepções adicionais importantes a partir da
estrutura interpretativa estabelecida por Sanders e Dunn. De modo mais notável,

85Para uma análise adicional de todos esses desdobramentos, veja W right, W hat Saint Paul
realty said, p. 11-8.
s6 London, Reino Unido/Philadelphia: SCM/Fortress.
8'James D . G. D unn {Jesus, Paul and the Law : studies in M ark and Galatians [London, Reino
Unido/Louisvillc: SPCK/W JKP, 1990]) inclui vários de seus estudos pioneiros nessa área. Para
uma apresentação completa da abordagem de D unn e de com o ela trata todo o pensamento de
Paulo, veja sua obra The theology o f Paul the apostle.
154 I PAULO E SUAS CARTAS

o “evangelho” (ou “boas-novas”) é bem mais amplo do que apenas o anúncio de


como as pessoas acertam seu relacionamento com Deus; é a declaração de que
Jesus é Senhor sobre todo o cosmo. Nem todos reconheceram esse fato, de modo
que a “justificação”, pelo menos no início, não era tanto um método de se tor-
nar reconciliado com Deus, mas um critério para distinguir, entre todos aqueles
que afirmavam fazer parte da comunidade pactuai de Deus, quem verdadeira-
mente era seu povo. Aqueles que de fato estavam “dentro” confessariam, pela fé,
Jesus como Senhor (contrariamente às reivindicações do próprio César de ser 0
supremo mestre divino de seu povo) e procurariam deixar que aquele senhorio
influenciasse todas as áreas de sua vida, individual e coletivamente.88
A “nova perspectiva” tem, de longe, gerado mais reações nos últimos anos
do que qualquer outro tema nos estudos sobre Paulo. Alguns aceitam essa pers-
pectiva de forma acrítica; outros invariavelmente a condenam. Os dois extremos
geralmente refletem a falta de uma compreensão plena das questões envolvidas.
Entretanto, a maioria reconhece pontos tanto fortes quanto fracos no movimen-
to.89 Ele está certo na maior parte do que afirma sobre o judaísmo do primeiro
século, porém errado em boa parte do que nega sobre a justiça pelas obras. Três
observações em particular se mostram essenciais aqui. Em primeiro lugar, uma
parcela da “teologia do mérito” (julgamento final baseado em as boas obras de
alguém superarem seus pecados) aparece sim em fontes judaicas pré-cristãs. Con-
quanto projetar no primeiro século o pensamento rabínico posterior muitas vezes
induza em erro, Sanders não reconheceu a diversidade de abordagens já presen-
tes na época de Paulo (csp. porque ele ignorou os Manuscritos do Mar M orto).90
Em segundo lugar, a “teologia do remanescente” (apenas uma minoria de judeus
seria de fato salva) era muito mais predominante na literatura judaica intertesta-
mentária do que Sanders reconheceu, e o critério decisivo para distinguir quem
realmente era um judeu fiel (dentre o grupo muito maior que reivindicava, com
base apenas na etnicidade, desfrutar do favor divino) era a obediência à Torá.91
Em terceiro lugar, em um mundo que ainda não havia desenvolvido plenamente a
noção de “segurança eterna” (ou “perseverança dos santos”, para usar a expressão
posterior da era da Reforma), as obras da lei não apenas eram resultado natural

ss Wright, What Saint Pau! really said, p. 39-150.


s,D e muitos levantamentos esclarecedores e detalhados, o mais recente (e melhor?) é Stephen
Wcsterholm, Perspectives old and new on Paul: the “Lutheran" Paul and his critics (Grand Rapids/
Cambridge: Eerdmans, 2004).
50Acerca do judaísmo pré-cristão, o levantamento mais atualizado que demonstra essa diversi-
dade é, no momento, D. A. Carson; Peter T. O ’Brien; Mark Seifrid, orgs .,Justification and variegated
nomism (Tiibingen/Grand Rapids: Mohr/Bakcr, 2001), vol. 1. O vol. 2 (2004) repensa questões-
-chave em Paulo à luz dessa diversidade, mostrando que os reformadores foram precisos cm mui-
tos dos entendimentos que tiveram de Paulo.
91 Veja csp. Mark A. Elliott, The survivors o f Israel (Grand Rapids/Cambridge: Eerdmans, 2000).
PAULO: VIDA E MINISTERIO I 155

da fé em Yahweh, mas continuavam sendo um fator determinante no dia do juízo


para comprovar que alguém havia permanecido fiel a Deus.92
Por consequência, o cenário total do mundo de Paulo era — e isso não é de
surpreender — muito mais complexo do que os reformadores e seus herdeiros
reconheceram. Além disso, muitas vezes lembrado nos estudos sobre Jesus, mas
esquecido nas análises sobre Paulo está o imperialismo dominante e opressivo
promovido por Roma. Boa parte dos escritos de Paulo inverte implicitamente os
costumes políticos de seu mundo, e não apenas os teológicos.93 Ao mesmo tempo,
não precisamos descartar nenhuma das idéias centrais da teologia da Reforma,
mas simplesmente suplementá-las e refiná-las. Afinal, quanto mais, aos olhos
de Paulo, o judaísmo reconhecia a graça e ainda assim ficava aquém da glória de
Deus, mais era realçada a depravação total da humanidade. A denominada nova
perspectiva sobre Paulo e o judaísmo não remove, mas acentua esse elemento da
teologia de Paulo.94
Paulo combateu sim 0 legalismo, mas também combateu 0 nomismopactuai e 0
nacionalismo ou etnocentrismo. Embora muitas igrejas cristãs dos dias de hoje evi-
tem em grande parte a primeira dessas heresias, as demais nem sempre têm sido
abordadas de maneira tão adequada.

Paulo e Jesus
Para muitos leitores das cartas de Paulo, causa surpresa que ele cite os ensinos de
Jesus com pouca frequência. Com exceção da morte e ressurreição de Cristo, ele
se refere ainda menos aos acontecimentos que envolvem Jesus. Os temas princi-
pais do Jesus dos Evangelhos Sinóticos, muitos dos quais geralmente se acredita
serem o mais próximo daquilo que podemos descobrir do Jesus histórico, são
igualmente bastante raros nas cartas, assim como são bastante raros nos Sinó-
ticos os temas centrais de Paulo. O reino de Deus domina o ensino de Jesus; a
justificação é essencial para Paulo. Um Jesus judeu que prega uma mensagem de
arrependimento a seus correligionários principalmente em Israel cede lugar para
0 apóstolo aos gentios que estabelece a igreja de Cristo com judeus e não judeus
sendo aceitos em bases totalmente iguais. O mestre de Nazaré, que só raramente

92Veja esp. Simon J. Gathercole, Where is boasting? (Grand Rapids/Cambridgc: Eerdmans, 2002).
93Veja esp. John Dominic Crossan; Jonathan L. Reed, In search o f Paul (San Francisco: Harper-
SanFrancisco, 2004) [edição cm português: E m busca de Paulo: como 0 apóstolo de Jesus opôs 0 reino de
Deus ao Império Romano, tradução de Jaci Maraschin, Bíblia e Arqueologia (São Paulo: Paulinas,
2007)]. Cf. N eil Elliott, Liberating Paul: the justice o f God and the politics o f the apostle (Maryknoll:
Orbis, 1994) [edição cm português: Libertando Paulo: a justiça de Deus e a política do apóstolo., tra-
dução de João Rezende Costa, Biblioteca de Estudos Bíblicos (São Paulo: Paulus, 1998)[; Bruno
Blumenfeld, 'Lhepolitical Paul:justice, democracy and kingship in a Hellenistic fram ew ork (Sheffield,
Reino Unido: SAP, 2001).
94 Dan G . McCartney, “N o grace without weakness”, W T J 6 1 (1999): 12.
156 I PAULO E SUAS CARTAS

faz declarações diretas sobre sua identidade, é proclamado, com toda confiança,
como Messias, Senhor e Filho de Deus. Como devemos explicar essa situação?
Acaso o entendimento de Paulo acerca das boas-novas de Cristo foi um afasta-
mento radical das ênfases concretas do Jesus histórico?95
Aliás, embora haja poucas citações diretas de Jesus nas cartas, existe um bom
número de alusões. Considerando que nenhum dos Evangelhos ainda havia sido
escrito, de modo que o conhecimento de Paulo sobre os ensinos de Jesus deve
ter vindo inteiramente da tradição oral, não causa surpresa a ausência de citação
exata. Quando a “liturgia” cristã provavelmente levou à fixidez de certas tradições,
encontramos sim citação direta; observe a reprodução, por Paulo, das palavras
de Jesus sobre o pão e o vinho durante a Ultima Ceia em lCoríntios 11.23-25
(cf. esp. Lc 22.19,20). As injunções éticas de Jesus são frequentemente men-
donadas de uma maneira que sugere que Paulo conhecia não apenas ditos iso-
lados, mas sermões inteiros ou séries de ensinos sobre o assunto. Dessa forma,
Romanos 12.14 cita o Sermão do M onte/da Planície (Lc 6.28; M t 5.44) com
sua ordem para abençoar, e não amaldiçoar, aqueles que perseguem os crentes. No
versículo 17, Paulo acompanha Mateus 5.38 no que diz respeito a não retribuir
mal com mal, ao passo que os versículos 18 e 19 parecem aludir a Lucas 6.27,36
em relação a amar os inimigos. Exemplos individuais do uso da tradição acerca
de Jesus para respaldar as injunções éticas de Paulo incluem sua ordem para
que aqueles que pregam o evangelho ganhem o seu sustento desse evangelho
( 1 C 0 9.14; cf. Lc 10.7), suas instruções sobre divórcio (IC o 7.10; cf. Mc 10.2-12
e parais.), sua injunção aos cristãos para que paguem seus impostos (Rm 13.7; cf.
Mc 12.17 e parais.) e sua insistência em que Jesus declarou puros todos os ali-
mentos (Rm 14.14; cf. Mc 7.18,19 e paral.).
Com relação a tópicos teológicos, Paulo alude às crenças de Jesus mais comu-
mente quando está tratando de escatologia. Uma vez mais encontramos uma
série de referências, desta vez ao Discurso do Monte das Oliveiras (M t 24—25
e parais.), em textos como lTessalonicenses 4.15 sobre a ressurreição dos crentes
por ocasião da última trombeta (cf. Mc 13.26 e M t 24.31); 5.2,4 sobre o ladrão
que vem de noite (cf. M t 24.43,44 e paral.); 5.3 sobre as “dores de parto” que
precedem a chegada do Messias (cf. Mc 13.8 e paral.); e 5.4-6 sobre ser sóbrio e
vigilante (cf. Mc 13.33 e parábolas relacionadas). Mais uma vez a lista de exem-
pios também pode ser consideravelmente multiplicada.96

95A maior parte do material nessa subseção é uma condensação drástica de Blombcrg, M aking
seme o f the N ew Testament, p. 7 1 -1 0 6 .0 melhor e mais extenso tratamento sobre o assunto é David
Wcnham, Paul:follower oj,Jesus orfounder o f Christianity? (Grand Rapids/Cambridge: Ecrdmans, 1995).
96Veja csp. o gráfico com 31 itens compilados por Scyoon Kim, “Jesus, sayings o f ”, in: Gerald
E Hawthorne; Ralph R Martin; Daniel G. Reid, orgs., Dictionary o f Paul and his letters (Leicester/
Downers Grove: I VP, 1993), p. 481 [edição em português: Dicionário de Paulo e suas cartas, 2. ed.,
tradução de Barbara Theoto Lambert (São Paulo: Vida Nova/Paulus/Loyola, 2008)], ainda que
PAULO: VIDA E MINISTÉRIO ‫ ן‬157

Q uanto a acontecimentos envolvendo Cristo, Stanley Porter apresenta


uma lista confiável, ainda que mínima, acerca do que podemos ter certeza de
que Paulo sabia: “Ele nasceu como ser humano (Rm 9.5) a uma mulher e sob
a lei, isto é, como judeu (G1 4.4), descendia da linhagem de Davi (Rm 1.3;
15.12), embora não fosse como Adão (Rm 5.15), teve irmãos, incluindo um de
nome Tiago (IC o 9.5; G 11.19), tomou uma refeição na noite em que foi traído
(1C0 11.23-25), foi crucificado e morreu em uma cruz (Fp 2.8; IC o 1.23; 8.11;
15.3; Rm 4.25; 5.6,8; lTs 2.15; 4.14 etc.), foi sepultado (IC o 15.4) e foi ressus-
citado três dias depois (IC o 15.4; Rm 4.25; 8.34; lTs 4.14 etc.), e depois disso
foi visto por Pedro, pelos discípulos e por outros (IC o 15.5-7)”.97
Alusões adicionais podem muito bem revelar o conhecimento da concepção
virginal de Jesus (G1 4.4), seu batismo por João (G1 4.6), sua vida sem pecado
(2C0 5.21), seu padrão de vida e sua preocupação com os pobres (2Co 8.9), sua
transfiguração (2Co 3.18), sua liderança de servo (2Co 10.1) e assim por diante.
Comparações teológicas mais amplas tornam a mostrar que a distância entre Jesus
e Paulo também não é tão ampla, ao contrário do que se costuma alegar. “Justificação”
traduz a palavra grega dikaiosunê, a qual também significa “justiça”. No entanto,
Jesus ensinou seus discípulos a orar pelo reino vindouro de Deus, o que incluía
sua vontade ser feita (M t 6.10), e com certeza isso envolve justiça para aqueles
tratados injustamente (cf. Lc 10.25-37; M t 25.31-46). Além disso, Paulo se refere
sim explícitamente ao reino em cerca de uma dezena de ocasiões, assim como,
pelo menos uma vez, no final da Parábola do Fariseu e Cobrador de Impostos
(Lc 18.14), Jesus usa a forma verbal justificado exatamente da mesma maneira que
Paulo. As comparações entre o ministério aos judeus e o ministério aos gentios
simplesmente correspondem àquilo que tanto Jesus quanto Paulo reconheceram
explícitamente como uma sequência cronológica de prioridades (cf. M t 10.5,6
com 28.19,20; Rm 1.16). Por fim, a mudança de uma cristologia mais implícita
para uma mais explícita é justamente o que se deve esperar depois que a ressur-
reição vindicou o ministério e as afirmações anteriores de Cristo. Uma vez mais,
poderiamos continuar com muitas comparações parecidas.98

alguns desses se revelem menos conclusivos do que outros. O s dezoito mais ambíguos aparecem
cm um gráfico bem prático cm Bruce N . Fisk, “Paul: life and letters”, in: Scot McKnight; Grant
R. Osborne, orgs., Theface o f N ew Testament studies (Grand Rapids/Leiccstcr, Reino Unido: Baker/
Apollos, 2004), p. 311-2 [edição em português: Faces do Novo Testamento: um exame das pesquisas
mais recentes, tradução de Lena Aranha (Rio de Janeiro: CPAD, 2018)].
57Stanley E . Porter, “Images o f Christ in Paul’s letters”, in: Stanley E. Porter; M ichael A .
Hayes; David Tombs, orgs., Images o f Christ: ancient and modern (Sheffield, Reino Unido: SAP,
1997), p .98-9.
58Veja tb. J. P. Arnold, “The relationship o f Paul to Jesus”, in: James H . Charlesworth; Loren
L. Johns, orgs., H illel and Jesus: comparative studies o f tw o major religious leaders (Minneapolis: For-
tress, 1997), p. 256-88.
158 I PAULO E SUAS CARTAS

Contudo, depois de dizer tudo isso, ainda assim é impressionante o quão


pouco do conteúdo dos Evangelhos reaparece, em qualquer forma que seja,
em Paulo. A esta altura, várias outras observações continuam importantes. (1)
Nenhuma das cartas de Paulo reflete evangelização feita pela primeira vez; ele
escreve a pessoas e igrejas que já conhecem os princípios básicos da história nar-
rada nos Evangelhos, justamente porque já são convertidos. (2) Nenhuma das
outras cartas do Novo Testamento tem uma frequência notavelmente maior
de referências ou alusões ao Jesus histórico, nem mesmo as cartas de João, que
foram escritas pela mesma pessoa que escreveu um dos Evangelhos! Ao que
parece, citar Jesus simplesmente não era um objetivo básico da redação de cartas
pelos primeiros cristãos. (3) Os autores das cartas, à semelhança dos primeiros
cristãos de um modo mais geral, rapidamente perceberam que a morte e a res-
surreição de Jesus ofuscaram tudo mais que ele fez ou ensinou cm importância
e, acertadamente, se concentraram naqueles acontecimentos nas referências que
existem à sua vida terrena. (4) A frequente tensão que Paulo sentiu em relação
àqueles que afirmavam (com ou sem razão) representar os doze apóstolos (que
haviam andado com o Jesus histórico como seus seguidores) indica que ele pre-
cisou enfatizar sua independência em relação a eles. Ressaltar seu encontro direto
com Cristo na estrada de Damasco alcançaria isso bem mais do que a citação
frequente de palavras e acontecimentos da vida de Jesus ocorridos em uma época
quando ele ainda não era discípulo ou testemunha ocular. (5) Por fim, e como
desdobramento dessa última ideia, o próprio senso de inspiração divina que diri-
giu Paulo (lC o 7.12,25,40; lTs 2.13) deu-lhe a liberdade de dizer aquilo que
acreditava que o Senhor estava lhe dizendo diretamente, quer isso pudesse ou
não ser expresso em um linguajar que ecoasse o que o próprio Jesus havia ensi-
nado durante seu ministério na terra."

CONCLUSÃO
Muitos difamariam Paulo hoje em dia, talvez por causa de, no passado, ter havido
uma excessiva ênfase em suas cartas, levando na prática à exclusão de outras par-
tes do cânon, talvez por causa de uma antipatia a alguns de seus posicionamen-
tos éticos, por não serem suficientemente radicais, ou talvez por causa de uma
preferência por textos narrativos a textos didáticos. Ainda assim, seus escritos
continuam fascinando inúmeras pessoas — e de modo algum todas são cristãs
— e sempre recompensam aqueles que os estudam com cuidado. Sua perspectiva
cruciforme sobre a vida cristã ainda escandaliza aqueles que seguem asfilosofias do

‫ ״‬Veja esp. Herman Ridderbos, Paul andJesus (Grand Rapids: Baker, 1958). Cf. ainda F. F.
Bruce, Paul andJesus (Grand Rapids: Baker, 1974); Traugott H oltz, “Paul and the oral Gospel tra-
dition”, in: H enry Wansbrough, org .,Jesus and the oral Gospel tradition (Sheffield, Reino Unido:
JSOT, 1991), p. 380-93.
PAULO: VIDA E MINISTERIO ‫ ן‬159

mundo caído, uma vez que, em última análise, todas elevam a humanidade acima de
seu legítimo lugar aos olhos de Deus.100No entanto, elepraticou 0 que pregou, e aque-
les que acreditam na autoridade singular das Escrituras precisam dar à obra de Paulo
um lugar central em sua reflexão e obediência.

PERGUNTAS PARA REVISÃO


1. Quais são os acontecimentos mais importantes da vida pré-cristã de Paulo
para entender suas experiências posteriores, c por que são importantes?

2. De que maneiras o encontro de Saulo com Jesus foi uma experiência de


conversão? De que maneiras foi um chamado e um comissionamento?

3. Quais são alguns dos detalhes mais importantes da vida cristã de Paulo
que apenas suas cartas revelam (i.e., detalhes não encontrados em Atos),
e por que são importantes?

4. De que modo Paulo usa com eficácia os principais gêneros retóricos e


formas literárias menores do mundo de língua grega de sua época? Dê
exemplos específicos.

5. Visto que a pseudonímia era um recurso reconhecido e aceito no antigo


mundo judaico e greco-romano, quais são algumas respostas apropriadas
à afirmação de alguns estudiosos de que algumas das cartas atribuídas a
Paulo podem ser pseudônimas?

6. Quais são os motivos para as cartas paulinas ocuparem sua presente


posição no cânon geral do Novo Testamento? Por que suas cartas são
organizadas na sequência em que agora aparecem na Bíblia?

7. Quais são as convicções teológicas fundamentais que formam a base do


pensamento de Paulo?

8. Identifique princípios hermenêuticos específicos que ajudam alguém do


século 21 que lê as cartas de Paulo a decidir quais instruções são pres-
critivas para todas as épocas e culturas e quais devem ser aplicadas de
maneira diferente, dependendo de circunstâncias contextuáis.

100Ou imaginam, como triunfalista,o papel de Deus nesta era. Veja Sylvia Keesmaat,“Cruci-
fied Lord or conquering Savior: whose story o f salvation?”, H B T 26 (2004): 6 9 9 3 ‫־‬.
160 I PAULO E SUAS CARTAS

9. O que é possível saber com certeza sobre o final da vida de Paulo? Quais
são algumas fontes confiáveis para ajudar a elaborar esses detalhes? Que
princípios podem ser extraídos do martírio de Paulo?

10. Qual é a relação entre os ensinos de Paulo e os ensinos e a vida do Jesus


retratados nos Evangelhos? Identifique semelhanças significativas. Quais
são algumas observações essenciais que ajudam a explicar as diferenças
entre as ênfases de Paulo e as ênfases dos autores dos Evangelhos?

BIBLIOGRAFIA SELECIONADA

Introdutória
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Luiz Alexandre Solano Rossi. Academia Bíblica (São Paulo: Paulus, 2010).
Tradução de: Paul the convert.

Bibliografia sobre as cartas paulinas


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As c a r ta s e A p o c a lip s e

PERGUNTAS PARA CADA LIVRO


ara cada livro estudado, tenha certeza de identificar, à medida do possível,
as circunstâncias que envolvem a composição do livro, incluindo autor,
data, local de composição, público-alvo, questões relativas ao público-alvo,
frases ou parágrafos que resumem temas (ou teses), gênero ou subgénero literá-
rio, formas literárias constitutivas importantes e uma ideia geral do esboço do
livro com suas principais divisões e subdivisões. Além disso, enquanto progride,
repare nas perguntas mais particulares para revisão de cada livro ou pequeno
grupo de livros.

CRONOLOGIA DAS CARTAS DE PAULO


Gálatas 48-49

1 e 2Tessalonicenses 50-51

1Corintios 55
2Coríntios 56
Romanos 57

Filemom/Colossenses/Efésios 60-61
Filipenses 61-62
Tito, lTim óteo c. 62

2Timóteo c. 68
capítulo 3

Gálatas: o estatuto
da liberdade cristã

INTRODUÇÃO

Destino e data
ois problemas-chave cercam a identificação das circunstâncias que leva-
ram Paulo a escrever a carta que conhecemos como Carta aos Gálatas. O
primeiro é se ele estava se dirigindo a igrejas situadas na região menor
daquilo que hoje seria o norte e o centro-norte da Turquia, que incluía gálatas
étnicos, isto é, pessoas que teriam usado esse termo para se identificar, ou se ele
tinha em mente a província romana maior da Galácia, que incluía uma parte
bem maior de território no centro e no centro-sul da Turquia. Em 25 a.C., Roma
havia unido as regiões anteriormente conhecidas como Galácia (no norte) e Frigia
(no sul), e a combinação desses termos em Atos 16.6 e 18.23 sugere que Lucas
pelo menos reconheceu essa reorganização provincial. Entretanto, no plano local
as distinções étnicas geralmente eram mantidas, e pessoas da Frigia não teriam
naturalmente se identificado como gálatas.
A solução do debate depende em parte de o ministério inicial de Paulo
aos gálatas (descrito em G1 3.1-5 e 4.12-16) dever ou não ser combinado com
qualquer de suas viagens missionárias descritas em Atos. Naquele livro não há
registro algum de Paulo pregar no norte da Galácia, ou Galácia étnica, mas Atos
claramente ignora outros trechos das viagens de Paulo reveladas em suas cartas,
de modo que por si mesmo esse fato dificilmente é decisivo. Em contrapartida,
Atos 13— 14 delineia 0 ministério de Paulo em Antioquia da Pisídia (na verdade
situada na Frigia, mas perto da fronteira com a Pisídia e assim denominada para
distingui-la de outra Antioquia no centro da Frigia) e em Icônio, ambas locali-
zadas no sul da Galácia, ou Galácia romana. Regiões da Licaônia também foram
166 I PAUI.O li SUAS CARTAS

incorporadas à Galicia romana maior, de modo que as cidades de Listra e Dcrbe


também podem ter sido incluídas.1
O segundo problema-chave, que está entrelaçado com o primeiro, é se enten-
demos que Paulo escreveu Gálatas antes ou depois do Concilio Apostólico, ocor-
rido aproximadamente em 49 d.C. e descrito em Atos 15.1-29. A maioria dos
estudos liberais acredita que Gálatas 2.1-10 contém demasiadas semelhanças com
aquele concilio para não ser um relato independente da mesma disputa — Paulo
e os apóstolos de Jerusalém decidindo se a circuncisão (e, portanto, a guarda de
toda a Lei mosaica) era pré-requisito para a salvação cristã. No entanto, uma
vez que se faz essa identificação, as discrepancias remanescentes entre Gálatas
e Atos parecem inconciliáveis. Por exemplo, Paulo, Barnabé e T ito se encon-
tram em particular em Gálatas 2.1,2, ao passo que Paulo e Barnabé aparecem
publicamente em Atos 15. Em Gálatas 2.6-10, os apóstolos de Jerusalém não
acrescentam nada à mensagem de Paulo; em Atos 15, acrescentam as quatro res-
trições que constituem o decreto apostólico (v. 19-21).2 E um número pequeno,
mas suficiente de detalhes incluído em um relato está ausente no outro, levan-
do-nos a cogitar se esses textos realmente se referem ao mesmo acontecimento.
Entretanto, caso Gálatas 2.1-10 não tenha relação com Atos 15, então surge a
pergunta de como poderia chegar a surgir um segundo desentendimento sobre
pelo menos alguns dos mesmíssimos tópicos, como se nenhuma decisão hou-
vesse sido alcançada anteriormente.
Há, no entanto, fortes motivos para considerar que os dois relatos se referem
a acontecimentos diferentes. Caso se confie em Atos como fonte histórica, temos
então de explicar o fato de que ele descreve duas visitas de Paulo a Jerusalém antes
do concilio do capítulo 15. Em Atos 9.26-29, lemos sobre a primeira viagem de
Paulo para lá depois de sua conversão, ao passo que, em 11.27-30, ele e Barnabé
vão de Antioquia a Jerusalém para entregar uma doação aos crentes empobrecí-
dos pela fome. Gálatas 1.18-24 igualmente se refere à primeira viagem de Paulo
a Jerusalém, e a impressão que temos é que 2.1-10, embora catorze anos depois,
é a vez seguinte em que Paulo volta àquela cidade. Isso exigiría de nós o enten-
dimento de que Atos 9.26-29 corresponde a Gálatas 1.18-24, e Atos 11.27-30,
a Gálatas 2 .1 1 0 ‫־‬. Atos 15.1 — em que “alguns homens desceram da Judeia para
Antioquia” e estavam ensinando aos cristãos que, “a menos que vocês sejam cir-
cuncidados de acordo com o costume ensinado por Moisés, vocês não podem

1Veja esp. F. F. Bruce, The Epistle to the Galatians (Exeter/Grand Rapids: Paternoster/Ecrdmans,
1982), p. 3-32. Para um texto mais sucinto, cf. Frank J. Matera, Galatians (Collcgcville: Liturgical,
1992), p. 19-24. E claro que simplesmente concluir que a carta foi escrita para o sul da Galácia não
prova que se tinha em vista essas cidades específicas. E possível que Paulo também tenha evange-
lizado outras comunidades do sul da Galácia não mencionadas em Atos.
·’Cf., e.g., J. Louis Martyn, Galatians (N ew York/London, Reino Unido: Doubleday, 1997),
p. 187-211.
GÁLATAS: O ESTATUTO DA LIBERDADE CRISTÃ ‫ ן‬167

ser salvos”— então se encaixaria muito bem com a referência em Gálatas 2.12
sobre como “certos homens vieram da parte de Tiago [...] os quais pertenciam ao
grupo da circuncisão” e levaram Pedro e Barnabé a se dissociar hipocritamente
dos gentios, junto com quem anteriormente vinha tomando refeições.34
Esse conjunto de correlações também pressupõe que Paulo não omitiu
visitas a Jerusalém em seus comentários autobiográficos em Gálatas 1—2. Essa
suposição parece muitíssimo pertinente, porque o propósito todo de Paulo em
relatar essa história é mostrar sua independência em relação aos apóstolos de
Jerusalém. Seu argumento teria ficado muito prejudicado, caso se descobrisse
que ele havia omitido a menção a uma ou mais dessas visitas, de maneira que,
pelo que se presume, ele incluiu todas.'1
Um ponto fraco dessa série de correlações envolve as notáveis diferenças
entre Atos 11.27-30 e Gálatas 2.1-10. No entanto, nenhuma contradição real
aparece, ao contrário do que ocorre quando tentamos estabelecer correspon-
dência entre Gálatas 2.1-10 e Atos 15. E, ainda que a versão lucana abreviada
dessa segunda visita se concentre apenas na doação para os pobres, dois deta-
lhes interessantes em Gálatas 2.1-10 se encaixam muito melhor em Atos 11
do que em Atos 15. O primeiro é Gálatas 2.2, em que Paulo explica como foi
a Jerusalém “em resposta a uma revelação”— o que se harmoniza muito bem
com a profecia de Ágabo em Atos 11.27,28. O segundo é a observação final
de que Paulo e seus companheiros “deviam continuar a se lembrar dos pobres”,
exatamente 0 que ele estava ansioso por fazer — o que se encaixa perfeitamente
com a doação de Atos 11.29,30.5
O fato de Pedro recuar de um acordo pre\damente alcançado não causa
tanta surpresa, dada a natureza explosiva do assunto. Dificilmente Pedro seria a
primeira pessoa na história da humanidade que precisou de mais de uma con-
versa para consolidar seu compromisso de se comportar de uma maneira nova
e radical. Na verdade seria mais surpreendente caso o conflito registrado em
Gálatas 2.11-15 tivesse ocorrido depois do concilio mais formal descrito em Atos
15, até mesmo com acordos escritos, do que se Pedro tivesse simplesmente vol-
tado atrás no acordo mais pessoal e informal de Gálatas 2.1-10.
Os problemas de destino e data estão ligados porque, caso se dê preferên-
cia ao norte da Galácia, é mais fácil imaginar Paulo indo para o norte depois de
voltar a visitar as cidades do sul da Galácia em sua segunda viagem missionária,
quando ele está reconhecidamente vagando pelas regiões próximas em busca da

,Veja ainda C olin J. H em er, “A cts and Galatians reconsidered”, Themelios 2 (1977): 81-8.
Cf. L. Ann Jem s, Galatians (Peabody: Hendrickson, 1999), p. 7-15.
4Robert K. Rapa, The meaning o f "works o f the Law " in Galatians and Romans (NewYork: Peter
Lang, 2001), p. 79-80.
5Cf. ainda Richard N . Longenecker, Galatians (Dallas: Word, 1990), p. 4 7,59-60.
168 I PAULO K SUAS CARIAS

orientação de Deus sobre aonde ir em seguida (At 16.6-10), do que concebé-


-10 arranjando tempo para um percurso adicional na primeira viagem missioná-
ria, que foi mais curta e rápida, quando teria viajado do sul da provincia para as
cidades do sul da Galácia e voltado de lá. Assim, a maioria daqueles que favore-
cem um destino no sul da Galácia data a carta de 48 ou 49 d.C., antes, portanto,
do Concilio Apostólico. A maioria daqueles que favorecem um destino no norte
da Galácia data a carta de 51 a 53, depois de Paulo ter seguido viagem do cen-
tro da “Turquia” para cidades na Grécia,6 embora alguns atribuiríam uma data
ainda mais tardia. Não obstante, não há correlação necessária entre as duas ques-
tões, e vários estudiosos combinam um destino no sul da Galácia com uma data
posterior,7 ao passo que, muito raramente, uns poucos optam por combinar um
destino no norte da Galácia com uma data anterior.8

PAULO EM JERUSALÉM TANTO EM ATOS


QUANTO EM GÁLATAS

Atos Gálatas

Conversão (9.1-25) Conversão (1.15-17)

Primeira viagem (9.26-30) Primeira viagem (1.18-24)

Segunda viagem (11.27-30) Segunda viagem (2.1-10)

Problemas em Antioquia (15.1,2) Problemas em Antioquia (2.11-14)

Paulo escreve a carta

Concilio Apostólico (15.4-29)

Entre os evangélicos, no entanto, a combinação sul da Galácia e uma data


anterior continua sendo a favorita. E interessante que essa não era a ideia da
maioria dos primeiros pais da igreja, mas parece que isso tem relação com o fato
de que, a partir de 74 d.C., uma reorganização pelos romanos tornou a encolher

6Francis W atson {Paul, Judaism and the Gentiles [Cam bridge/New York: CUP, 1986], p. 59)
observa que Gálatas 2.10 mostra que essa carta tem de ser datada de antes de lC oríntios, em que
Paulo começa a colocar em prática esse acordo, ao levantar outra coleta para os pobres em Jerusalém.
7E .g., Herman N . Ridderbos, The E pistle o f P aul to the churches o f Galatia (Grand Rapids:
Eerdmans, 1953), p. 22-35.
8E.g., Hans Dieter Betz, Galatians (Philadelphia: Fortress, 1979), p. 5 ,1 2 .
CALATAS: O ESTATUTO DA LIBERDADE CRISTA ‫ ן‬169

0 território que chamava de Galácia, de modo que autores posteriores simples-


mente pressupuseram as divisões geográficas existentes em sua época.
Uma vantagem óbvia da hipótese do sul da Galácia é que nos permite cor-
relacionar a carta com as informações contextuáis de Atos 13— 14. Aliás, dois
detalhes chamam nossa atenção se fizermos isso. O primeiro é Gálatas 3.1, em
que Paulo indaga “Quem os enfeitiçou?”, empregando um verbo que pode se
referir à antiga crença de certas pessoas serem capazes de lançar feitiços sobre
outras, lançando sobre eles um “mau-olhado”.9 Apenas em lugares mais “atra-
sados” e supersticiosos como Listra — onde os habitantes oscilam rapidamente
entre os extremos de adorar a Paulo, porque acham que é um deus, e apedrejá-
-10, quando percebem que não é — esse linguajar seria apropriado. O segundo
é 4.14, que lembra essa primeira reação a Paulo e Barnabé em Listra, enquanto
Paulo descreve de modo que foram recebidos como se fossem anjos de Deus ou
mesmo o próprio Jesus.

Outras circunstâncias e propósitos


Felizmente, o foco principal da carta de Paulo não é afetado por esses debates
espinhosos. O que fica claro em qualquer teoria sobre o destino ou a data é que,
depois de Paulo ter plantado igrejas na Galácia, um grupo de judeus que pro-
fessavam ser cristãos foi até ali, promovendo a crença de que a circuncisão como
sinal de iniciação na guarda da Lei mosaica é exigência para a salvação. Paulo se
referirá a essa prática como “judaizar” (2.14), de modo que estudiosos passaram a
se referir a essas pessoas como judaizantes. Conquanto alguns estudiosos defen-
dam que esses são judeus absolutamente não cristãos tentando desfazer as con-
versões que Deus operou por meio de Paulo,10 o texto de 6.12 (que fala de evitar
ser perseguido por causa da cruz de Cristo) torna muito difícil essa interpretação.
No entanto, esse mesmo versículo também torna plenamente compreensível por
que judeus que professavam a fé cristã teriam desejado continuar cumprindo a
lei o máximo possível e evitar a acusação de que estavam ensinando aos gentios
qualquer outra coisa (recorde do problema em At 21.20-26).
Aliás, à medida que a frustração judaica com Roma foi crescendo ao longo
do primeiro século c os precursores do movimento zelote foram surgindo, o
problema de cristãos parecerem diferentes dos judeus se exacerbou porque não
dava para contar com eles para ajudarem na causa contra Roma.'1 Curiosamente,

',Sobre a prática, veja Jerome H . Neyrey, “Bewitched in Galatia: Paul and cultural anthropo-
logy”, CBQ 50 (1988): 72-100.
10Cf. esp. Mark D . Nanos, The irony o f Galatians: Paul's letter in first-century context (M innea-
polis: Fortress, 2002).
"Sobre esses desdobramentos, veja esp. Robert Jewett, "The agitators and the Galatian con-
gregation”, N T S 17 (1970-1971): 198-212. Para um comentário inteiro elaborado em cima desse
pressuposto, veja Martyn, Galatians.
170 I PAULO E SUAS CARTAS

dentre os Manuscritos do Mar Morto um dos fragmentos recentemente traduzi-


dos (4QM M T) retrata entre certos judeus essênios uma atitude para com a Lei
mosaica parecida com aquela que Paulo combate em Gálatas.12134Por esse motivo,
não podemos estar inteiramente certos quanto à origem ou aos antecedentes dos
oponentes de Paulo.
Em resumo, parece que Pauloficou sabendo dejudaizantes que estavam alterando
a mensagem que ele proclamava às igrejas deAntioquia da Pisídia, Icônio, e talvez
também Listra e Derbe, de uma maneira bem parecida com 0 confronto que ele mesmo
havia tido comjudaizantes emAntioquia da Síria. Se 0 Concilio Apostólico de Atos 15
ainda não havia ocorrido, então Paulo estava necessariamente escrevendo Gálatas no
curto espaço entre 0 confronto com Pedro e osjudaizantes em Antioquia da Síria e a
viagem a Jerusalém para discutir detalhadamente 0 problema. O curto intervalo de
tempo, junto com a seriedade da questão para Paulo, explica 0 tom urgente e às vezes
até mesmo severo da cartaP

Gênero e estrutura
Se quisermos classificar essa carta com mais precisão, ela talvez seja melhor
entendida como carta apologética. Quer dizer, Paulo está apresentando uma apo-
logia ou defesa de sua autoridade apostólica e, por conseguinte, da veracidade do
evangelho conforme havia inicialmente pregado aos gálatas. E possível fazer um
esboço da carta de modo que se conforme bem de perto com a antiga estrutura
dessa forma de carta.‫ ״‬Várias e recentes análises retóricas da carta contestam
que ela use a retórica judicial da apologética formal, preferindo, em vez disso,
entender que ela está empregando retórica deliberativa.15 Mas o tom defensivo
de Paulo, em especial quando comparado com muitas de suas outras cartas que
adotam claramente retórica deliberativa, torna razoável a identificação de uma
forma apologética de expressão. Contudo, para efeitos deste estudo, basta assi-
nalar, junto com a maioria dos comentaristas, três pontos básicos do argumento
que Paulo apresenta entre a introdução e a conclusão:16

12James D . G . D unn, “4Q M M T and Galatians”, N T S 43 (1997): 147-53.


13Quanto a questões culturais mais amplas que podem ter levado pessoas dessa região a ser
atraídas pelos falsos ensinos que Paulo tem de combater, veja Clinton E. Arnold, “‘I am astonished
that you are so quickly turning away’ (Gal. 1:6): Paul and Anatolian folk belief”, N T S 51 (2005):
429-49.
14O exemplo clássico é Betz, Galatians, p. 14-25.
15Quanto a um levantamento completo das abordagens, com os devidos cuidados relativos à
aplicação de análises de retórica oral às cartas escritas de Paulo, veja Philip H . Kern, Rhetoric and
Galatians (Cambridge/New York: CUP, 1998).
16Cf. os três temas principais em Frank J. Matera, “The death o f Christ and the cross in Paul’s
Letter to the Galatians”, L S 18 (1993): 283-96.
GAl a t a s : o e s t a t u t o d a l i b e r d a d e c r is t a 171

I. Saudação (1.1-5)
II. Defendendo a autoridade apostólica divinamente concedida a Paulo
(1.6—2.14)
A. A exclusividade do evangelho (1.6-10)
B. A conversão de Paulo (1.11-17)
C. O encontro com os apóstolos em Jerusalém (1.18—2.10)
D. Paulo confronta Pedro cm Antioquia (2.11-14)
III. Definindo a justificação pela fé, e não pela lei (2.15—4.31)
A. Tese: a justificação pela fé (2.15-21)
B. Argumentos defendendo a tese de Paulo (3.1-18)
C. Os propósitos da lei (3.19—4.7)
1. Aumentar a transgressão (3.19,20)
2. Dissuadir do pecado (3.21—4.7)
D. Mais argumentos defendendo a tese de Paulo (4.8-31)
IV. Descrevendo a liberdade em Cristo por meio do Espírito (5.1—6.10)
A. Permaneça firme na liberdade (5.1)
B. Não há meio-termo (5.2-12)
C. A lei de Cristo (5.13— 6.10)
V. Conclusão (6.11-18)

GÁLATAS COMO CARTA APOLOGÉTICA


Preâmbulo epistolar (1.1-5)
Exordium — declaração do problema (1.6-11)
Narratio — tese a ser demonstrada e demonstração dos fatos (1.12—2.14)
Propositio — resumo dos pontos de concordância e do que continua sendo
questionado (2.15-21)
Probatio — provas ou respaldo (3.1—4.31)
• Tipos de argumentos
Lógico
Emotivo
Ilustrativo
Imagético
Exhortatio — parênese (5.1— 6.10)
Pós-escrito epistolar (6.11-18)
172 I PAULO K SUAS CARTAS

COMENTÁRIO

Saudação (1.1-5)
De pelo menos oito maneiras significativas, Paulo começa a sua carta desta-
cando que ele tem o direito de contar às pessoas o verdadeiro evangelho tanto
quanto qualquer outra pessoa, até mesmo tanto quanto os apóstolos que foram
companheiros de Jesus durante todo o seu ministério. O primeiro método toca
até nas observações introdutórias de Paulo. Ele escreve uma saudação extraor-
dinariamente detalhada e teológica, mencionando até mesmo sua identidade
como apóstolo, isto é, alguém comissionado por Deus para a missão, e destaca
a necessidade de as pessoas serem resgatadas desta “presente era maligna” (v. 3).
O segundo desses métodos se mostra ainda mais impressionante. Em flagrante
desafio à prática convencional, ele omite qualquer palavra de ação de graças ou
de oração pelos gálatas, mas passa diretamente a falar de seu espanto diante do
comportamento dos gálatas.17

Defendendo a autoridade apostólica divinamente


concedida a Paulo (1.6—2.14)

A exclusividade do evangelho (1.6-10)


A terceira característica surge quando Paulo inicia o corpo da carta. Ele imedia-
tamente declara que não há nenhum outro evangelho além de sua mensagem
e invoca maldições contra a perversão do evangelho por meio da lei que está
seduzindo os gálatas (v. 6-9). Paralelos da severidade dessa retórica podem ser,
em parte, encontrados em outros escritos da antiguidade, desde as maldições de
Deuteronômio 27 invocadas sobre si pelos israelitas, caso desobedecessem ao
Senhor, até 0 castigo que os médicos permitiam que os deuses lhes trouxessem,
caso violassem o juramento de Hipócrates. Também é significativo que Paulo não
dirija essas palavras condenatorias diretamente aos judaizantes, mas advertindo
a igreja que ele mesmo plantou contra eles. Dessa maneira, a severidade do lin-
guajar de Paulo não é justificativa para hoje em dia imprecarmos contra os não
cristãos com linguajar grosseiro; se nosso objetivo é ganhá-los para Cristo, essa
tática gcralmcnte os afastará ainda mais! Ainda assim, a seriedade da preocupação
de Paulo para com aqueles que negam os fundamentos da fé continua clara.18
Falar de modo tão aberto refuta quaisquer acusações feitas contra ele de que suas*1

'‫׳‬Ben W itherington III ( Grace in Galatia: a commentary on P aul’s Letter to the Galatians [Grand
Rapids/Edinburgh: Ecrdmans/TSeT Clark, 1998], p. 79-80) observa que,em situações extraordinaria-
mente sérias, o prólogo de uma carta podería substituir elogio ou ação de graças por culpa. Cf. o texto
todo de Robert A. Bryant, 'lhe risen crucified Christ in Galatians [Atlanta: SBI., 2001), esp. p. 111-42.
1SC£ ainda Betz, Galatians, p. 50-2.
GÁI.ATAS: O ESTATUTO DA LIBERDADE CRISTA ‫ן‬ 173

tentativas, em outros contextos, de ser tudo para com todos (1 C 0 9.19-23) visa-
vam simplesmente obter aprovação humana (v. 10).19

A conversão de Paulo (1.11-17)


Paulo continua destacando o mandato divino por trás de seu ministério à medida
que compartilha detalhes de sua biografia em 1.11— 2.14. A quarta maneira
usada para enfatizar sua autoridade apostólica envolve sua conversão20 — o que
ele considera como algo de iniciativa exclusiva de Deus e para o que sua vida pré-
-cristã de modo algum o preparava (v. 11-14).21 Esses comentários, juntamente
com Filipenses 3.6, refutam a interpretação, popular desde a época de Martinho
Lutero, de que Paulo foi alguém que (assim como Lutero) experimentou confusão
interior, lutando contra sua incapacidade de cumprir a Lei, e, portanto, estava
psicologicamente maduro para a conversão. Nada menos do que a revelação
miraculosa de Jesus a Paulo na estrada de Damasco foi necessária para operar
essa mudança radical de vida (veja acima, p. 66-70).22
Em quinto lugar, depois de sua conversão Paulo não consultou imediata-
mente os apóstolos de Jerusalém, mas passou três anos em Damasco e arredores
(v. 15-17). Talvez uma parte desse tempo tenha envolvido preparação adicional
para o ministério, mas o mais provável é que ele tenha se envolvido rapidamente
na divulgação do evangelho cristão (veja At 9.20-25; 11.25,26). Não devemos
pensar no deserto de hoje quando lemos sobre ele ir para a Arábia; essa deve ter
sido uma referência ao território povoado não muito longe de Damasco.23

19Longenecker, Galatians, p. 18.


20Muitos contestariam que Paulo chegou a “se converter”porque isso podería sugerir que estava
mudando de religião, ao passo que parece que Paulo entendeu suas novas convicções como o aim -
primento do judaísmo. Contudo, veja Segal, Paul the convert: the apostolate and apostasy o f Saul the
Pharisee (N ew Havcn/London, Reino Unido: Yale University Press, 1990) [edição cm português:
Paulo, 0 convertido: apostolado e apostasia de Saniofariseu, tradução dc Luiz Alexandre Solano Rossi,
Academia Bíblica (São Paulo: Paulus,2010)], c veja acima, p. 128-30.
21Esses versículos não significam, no entanto, que não tenham ensinado a Paulo um volume
considerável de informações adicionais sobre o evangelho ao longo de sua vida cristã. Em outras
passagens ele descreverá o que aprendeu da “tradição” (e.g., IC o 11.23) ou o que “recebeu” (e.g.,
1C0 15.3), provavelmente se referindo a um corpo razoavelmente fixo de informações ensinadas
aos novos cristãos. Veja ainda Knox Chamblin, “Revelation and tradition in the Pauline euange-
lion, W TJ4S (1986): 1-16.
22Quanto à possibilidade de que Paulo, como judeu, estivesse associado aos zelotes, veja Mark
Fairchild, “Paul’s pre-Christian Zealot associations”, N T S 45 (1999): 514-32. No entanto, os zclotcs
não se tornaram um movimento organizado senão na década de 60, então c melhor vê-los (e talvez
também a Paulo) como “pessoas atentas que tomavam a lei cm suas próprias mãos, quando obser-
vavam casos dc violações gritantes da Torá”. Veja T. Sealand, “Saul o f Tarsus and early Zealotism:
reading Gal 1,13-14 in light o f Philo’s writings”, Bib 83 (2002): 471.
23Para detalhes completos sohre o que se pode inferir acerca desse período da vida de Paulo,
veja Hengel; Schwemcr, Paul between Damascus and Antioch. Contudo veja tb. N .T . Wright (“Paul,
174 I PAULO E SUAS CARTAS

O encontro com os apóstolos em Jerusalém (1.18 — 2.10)


Em sexto lugar, quando ele finalmente se encontrou com os apóstolos, o contato
foi mínimo, mas eles louvaram a Deus pelo ministério dele (1.18-24). Paulo
menciona ter visto apenas Pedro e Tiago, o irmão do Senhor, descrevendo ambos
como apóstolos (v. 18,19). Isso está em consonância com o uso mais amplo, por
Paulo, do vocábulo “apóstolo”, se comparado com o uso observado da mesma
palavra em Atos, em que normalmente se refere apenas a um dos Doze.Tam-
bém se harmoniza com Atos 12.17, em que Tiago já era um líder em Jerusalém
antes de Pedro se retirar. Ao mesmo tempo, conquanto Paulo queira minimizar
a importância de seus contatos com os apóstolos de Jerusalém, esse período de
duas semanas deve ter se mostrado decisivo para ele ficar sabendo de todo tipo
de detalhes relativos à fé cristã e ao Jesus histórico.24
Gálatas 1.22,23 inicialmente apresenta um problema porque Atos 9.26-30
sugere que Paulo teria se tornado bem conhecido em Jerusalém e arredores. No
entanto, em um exame mais cuidadoso, essa última passagem nunca informa
quantos apóstolos Paulo viu, e o que ele fez em Jerusalém foi conversar e deba-
ter com os judeus helenistas (v. 29). Ao que parece, ele passou a maior parte do
tempo com seus antigos amigos e colegas, compartilhando com eles a fé recém-
-encontrada, em vez de se misturar com os cristãos da região.25 E possível que
aqui também haja uma lição importante, válida nos dias de hoje, para novos cris-
tãos. Logo depois da conversão é, com frequência, a melhor hora para conversar
com outras pessoas sobre o que aconteceu, antes de a pessoa se socializar em um
ambiente de igreja e ter menos amigos próximos não cristãos.
A sétima maneira com a qual Paulo defende sua autoridade apostólica envolve
seu encontro seguinte com os apóstolos em Jerusalém, um total de catorze anos
depois (2.1-10). Dessa vez ele se encontrou por mais tempo com eles, mas eles
endossaram o ministério de Paulo de pregar a salvação aos gentios independente-
mente da guarda da Lei mosaica. Nessa ocasião, Paulo levou consigo seu colabo-
rador Tito, um grego, e a reunião decidiu explícitamente que Tito não precisava
ser circuncidado (v. 3), ainda que alguns judeus que professavam ser cristãos esti-
vessem tentando insistir nisso (v. 4). O versículo 2 poderia sugerir que Paulo estava
incerto de sua posição frente ao evangelho, mas isso destoaria do espírito do res-
tante da carta. O mais provável é que seu receio de que pudesse ter corrido em vão
significa que temia que seus esforços por manter o cristianismo livre do legalismo
fracassaria, e não que ele mesmo estivesse pregando uma mensagem incorreta.26

Arabia and Elijah [Galatians 1:17T ,J B L 115 [1996]: 683-92), que acha que há paralelos delibe-
rados com a vida de Elias.
24James D . G. D unn, The Epistle to the Galatians (Peabody: Hendrickson, 1993), p. 73.
25Cf. ainda Ronald Y. K. Fung, The Epistle to the Galatians (Grand Rapids: Eerdmans, 1988), p. 82.
26Caso os apóstolos de Jerusalém não tivessem dado respaldo a Paulo, seu ministério pode-
ria facilmente ter sido destruído, c a unidade que a igreja precisava para avançar com eficácia em
CALATAS: O ESTATUTO DA LIBERDADE CRISTA ‫ ן‬175

Os versículos 6 e 9 se referem ambos ao que os apóstolos de Jerusalém


“pareciam ser” ou “tinham a fama de ser”, o que poderia significar que Paulo
os desprezava. Entretanto, essa interpretação não é necessária, e a ênfase desse
parágrafo está no acordo a que se chegou.27 A divisão do trabalho no versículo 9
também tem intrigado os leitores, uma vez que Paulo e Pedro igualmente minis-
travam a judeus e gentios. Provavelmente é uma referência ao público-alvo prin-
cipal de cada um, com Paulo ministrando mais amplamente aos gentios do que
aos judeus, ao passo que Pedro, Tiago e João se concentrariam basicamente nos
judeus.28 Facilmente esquecido é o versículo 10, um lembrete de que 0 compro-
misso com os pobres, em particular em círculos cristãos e mais especialmente
entre os mais necessitados da Judeia, não era uma mera preocupação de Lucas
ao escrever Atos, mas remonta às etapas mais remotas do cristianismo.

Paulo confronta Pedro emAntioquia (2.11-14)


O oitavo e último ponto da defesa de Paulo nos leva a um sério conflito na igreja
primitiva. Depois de Pedro ter concordado que a salvação era pela graça indepen-
dentemente da guarda da lei (ao endossar a mensagem de Paulo em v. 1-10), e
mesmo depois de ter reafirmando essa posição em Antioquia da Síria, judaizantes
mais conservadores chegaram de Jerusalém, fazendo Pedro voltar atrás em seu
compromisso (v. 11-13).29 O fato de esses indivíduos “virem da parte de Tiago”
(v. 12) não significa necessariamente que Tiago os autorizou (veja At 15.24), mas
é bem possível que tenham afirmado que tinham essa autorização. De qualquer
maneira, Paulo vê o abandono de princípios por parte de Pedro como 0 cúmulo
da hipocrisia e confronta-o diretamente (v. 14). E de presumir que Pedro não
recuou nem admitiu imediatamente seu erro, caso contrário Paulo teria registrado
isso para reforçar seu argumento. Felizmente, por ocasião do Concilio Apostólico,
Pedro já devia ter voltado às suas convicções anteriores (At 15.10,11).30

sua missão talvez nunca tivesse se desenvolvido. Veja ainda Charles B. Cousar, Reading Galatians,
Phi/ippians, and 1 lhessalonians (Macon: Smyth & Helwys, 2001), p. 37.
27James M . Boice (“Galatians”, in: Frank E. Gaebelein, org., The expositor’s Bible commentary
[Grand Rapids: Zondervan, 1976], vol. 10, p. 74) observa que Paulo reconheceu a autoridade dos
apóstolos de Jerusalém sem diminuir a sua própria, evitou afirmações exageradas sobre a autori-
dadc daqueles líderes, separou o evangelho das regras dos legalistas e, em contraste com os lega-
listas, assinalou a unidade entre ele e os D oze.
28Martyn, Galatians, p. 211-2. Veja acima, p. 129-30. Sobre os quatro principais círculos aposto-
licos de ministério que surgiram na igreja primitiva, cujos centros eram Paulo, Tiago, Pedro e João,
veja Paul Barnett, Jesus a nd the rise o f early Christianity (Downers Grove: IVP, 1999), p. 276-327.
29Q uanto a um debate paralelo no judaísmo não cristão, veja }o stío , Antiguidades 20.2.1-5.
Cf. Kang-Yup Na, “The conversion o f Izates and Galatians 2:11-14”, H B T 2 7 (2005): 56-78.
20Caso Pedro soubesse 0 que mais tarde Paulo escrevería em lCoríntios 9.19-23, dá para ima-
giná-10 recorrendo a uma linha parecida de raciocínio: “Eu estava apenas sendo como um judeu
para ganhar judeus”. Afinal, o acordo de 2.1-10 não abordou específicamente a questão de comer
176 I PAULO E SUAS CARTAS

Definindo a justificação pela fé e não pela lei (2.15—4.31)

Tese: ajustificação pela f é (2.15-21)


Dependendo da posição em que se coloquem as aspas finais (depois de 2.14 ou
de 2.21), 2.15-21 poderia ser a continuação da resposta de Paulo a Pedro ou então
o comentário subsequente de Paulo sobre o acontecimento.31 De um modo ou
de outro, 2.15-21 constitui a tese da carta toda. A passagem define o evangelho
assim como Paulo o entende e constitui a transição para os capítulos 3 e 4, que
passam a defender essa definição.

PAULO V E R S U S OS JUDAIZANTES
Judaizantes
Fé em Cristo + obras da lei ‫ >־־‬justificação

Paulo
Fe cm Cristo ‫ >־־‬justificação + obras do Espírito

O termo essencial para Paulo nesses versículos é o verbo “justificar” (dikaiõ)


e seu substantivo cognato “justificação” (dikaiosune). Os antecedentes desse grupo
de palavras são legais ou forenses; com frequência a justificação se referia à absol-
vição em um tribunal. Paulo está dizendo que pela fé em Cristo,32 e não pelas
obras da lei, somos declarados “inocentes” dos pecados que cometemos (v. 16).

com os gentios. Entretanto, os gentios da Galácia eram cristãos como eles, e não judeus não evan-
gelizados. A o mesmo tempo, a mensagem dos judaizantes, exigindo obediência à lei para salvação,
comprometia de tal maneira o evangelho que podería causar efeitos devastadores. Para uma com-
paração mais detalhada das duas passagens, veja D . A . Carson, “Pauline inconsistency: reflections
on 1 Corinthians 9.19-23 and Galatians 2.11-14”, Churchman 109 (1986): 6-45.
!lOs versículos 15 a 21 não soam como uma conversa pessoal, mas como o âmago da mensa-
gem de Paulo aos Gálatas (Leon Morris, Galatians: Paul’s charter o f Christian freedom [Leicester/
Downers Grove: IVP, 1996], p. 83).
WI loje em dia muitos estudiosos defendem interpretar essa expressão aqui c em todos os tex-
tos dc Paulo como um genitivo subjetivo, isto é, como “a fidelidade de Cristo”. O mais importante
estudo aprofundado que respalda essa abordagem e a aplica a Gálatas c Richard B. Hays, lhefa ith
o f Jesus Christ: the narrative structure o f Galatians 3:1— 4:11, ed. rev. (Grand Rapids/Cambridge:
Eerdmans, 2002). Apesar do que parece ser uma tendência crescente nessa direção, continua
havendo argumentos convincentes para interpretá-la como um genitivo objetivo, isto é, “(nossa) fé
em Cristo”. Veja esp. R. Barry Matlock, “Detheologiz.ing the ττίστι ν Χριστοί) debate: cautionary
remarks from a lexical semantic perspective”, N o v T 42 (2000): 1-23. Cf. também Roy A . 1 larris-
ville 111, Π ίστιν Χ ρίστου: witness o f the fathers”, N o v T 36 (1994): 233-41; Arland J. Hultgrcn,
“Tirepistis Christou formulation in Paul”, N o v T 22 (1980): 248-63.
CALATAS: O ESTATUTO DA LIBERDADE CRISTA ‫ ד‬77

Todavia, ele também fala de “Cristo [...] em mim” (v. 20), capacitando-o a viver
o tipo de vida que anteriormente não conseguia. Assim, a justificação também
tem uma dimensão moral ou relacionai.33 Daria para comparar o conceito com
um ju'17, que primeiramente paga a multa devida por alguém condenado por uma
infração menos séria (ou cumpre sentença de prisão no lugar de um criminoso),
mas, em seguida, convida a pessoa libertada a vir morar com ele e sua família
como filho ou filha adotivos (cf. 4.5,6).
No entanto, esse grupo de palavras também pode significar “retidão” ou “tor-
nar reto”. Um entendimento pleno da justificação inclui, portanto, ambos os lados
no debate entre protestantes e católicos na época da Reforma. Quando aceitamos
a Cristo, temos sua retidão “imputada” a nós. Entretanto, por meio do Espírito
que habita em nós, também iniciamos um processo pelo qual nossa vida é cada vez
mais transformada, de maneira que, com o tempo, também adquirimos a justiça
“outorgada”.34 Não somos apenas tratados como se nunca tivéssemos pecado; na
verdade, com o tempo de fato pecamos menos. Em vários contextos, dikaiosunê
também tem o sentido de “justiça”. À medida que os crentes crescem em reti-
dão, devem cada vez mais buscar justiça para aqueles a quem lhes foi negada.35*
O versículo 20 também fala da crucificação “com Cristo”, de maneira que “eu
não vivo mais, mas Cristo vive em mim”. Se é errado pressupor que tornar-se cristão
pode acontecer sem absolutamente nenhuma transformação moral, o erro oposto
é imaginar que nesta vida alguém consegue erradicar o pecado. Várias psicologias
e teologías populares têm, às vezes, dado tanta ênfase à morte decisiva represen-
tada pela crucificação a ponto de sugerirem que o crente não tem mais a natureza
pecaminosa. Contudo, o mesmo “eu”, que em uma perspectiva não vive mais, cia-
ramente ainda vive porque Cristo vive em “mim”. No contexto, o versículo 20 não

>!Boice (“Galatians”, p. 450) assinala que essa não c uma ficção jurídica, mas uma transfor-
mação real.
34E.g., John H. P. Rcumann, org., "Righteousness"in the N ew Testament (Philadelphia: Fortress,
1982); mais rcccntcmente, cf. a declaração “Evangelicals and Catholics together”, de 1994, c a
declaração conjunta luterana c católica de 1999 sobre a justificação. Cf. Stephen E. Robinson (Fol-
lowing Christ [Salt Lake City: Deseret, 1995], p. 5), que reflete uma ênfase crescente pelo menos
em alguns círculos da Igreja dc Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias: “Recebemos crédito por
aquilo que Cristo fez, e é seu mérito infinito, e não nosso próprio desempenho imperfeito, que,
no final, assegura o veredito de ‘inocente’para a nova criatura que nos tornamos em Cristo e com
ele” (citando G1 2.16). Com relação ao tema da adoção, cf. p. 18: “Pcssoalmente, encontro grande
força c consolo em saber que, enquanto trabalho para Cristo, trabalho como filho, rodeado pelos
braços de seu amor, tendo uma posição dc segurança em seu reino. Creio que a gratidão e o amor
que sinto como reação a esse conhecimento é uma motivação mais forte para fazer o bem do que
a motivação que o medo e a angústia em virtude de algum julgamento futuro ou possível punição
jamais conseguiríam criar”.
35Elsa T am ez, The am nesty o f grace: justification by f a it h fr o m a Latin-A m ericanperspective
(Nashville: Abingdon, 1993).
178 I PAULO E SUAS CARTAS

trata de morte para o pecado, mas de morte para a lei (v. 19), ou, mais especifica-
mente, para tentativas de salvar a si mesmo mediante as obras da lei.36

Argumentos em defesa da tese de Paulo (3.1-18)


O capítulo 3 prossegue com uma série de quatro argumentos que defendem a
tese de Paulo de que a justificação é pela fé e não pelas obras da lei. Em primeiro
lugar, Paulo apela à experiência pessoal dos gálatas — que é a maneira pela qual
ouviram o evangelho pela primeira vez e foram salvos (v. 1-5). O Espírito Santo
entrou em sua vida independentemente de esforço humano, e eles estavam até
mesmo dispostos a sofrer37 consideravelmente por essa fé (mas também viram
milagres acontecerem). Exemplos tanto de milagres quanto de sofrimento apa-
receram em Atos 14.1-20. Em segundo lugar, Paulo desenvolve um argumento
baseado na cronologia da história judaica: Abraão, por assim dizer o fundador da
nação, foi justificado pela fé, e não pela Lei, sendo exemplo para todos os gen-
tios que um dia seriam salvos em Cristo (v. 6-9). As passagens que se referiam
ao plano de Deus para as nações por meio dos descendentes de Abraão e à sua
fé (Gn 12.3 e 15.6, respectivamente) apareceram ambas antes de seu conhecido
exemplo de obediência à ordem de Deus de estar pronto para sacrificar seu único
filho, Isaque (cap. 22), o que a maioria dos judeus citava como o motivo clássico
para recorrer a Abraão como o exemplo de realização de boas obras. Abraão foi,
portanto, considerado justo aos olhos de Deus dada sua fé; suas obras simples-
mente foram resultado dessa fé.38

HISTÓRIA EM ROMANOS E GÁLATAS


Promessa Lei Cumprimento
Abraão Moisés Jesus

Em terceiro lugar, os versículos 10 a 14 defendem que a lei é, sem importar a


maneira, incapaz de salvar qualquer pessoa, podendo apenas direcioná-los a Cristo.
A lógica desses versículos é particularmente difícil de entender e tem gerado bas-
tante controvérsia. Mas parece que a lógica de Paulo é que o próprio Antigo Tes-
tamento comprova o fato de existirem maneiras certas e erradas de usar a Lei.
Aqueles que acham que podem obedecer perfeitamente à lei, e, dessa maneira,

,6G. Walter Hansen, Galatians (Downers Grove: IVP, 1994), p. 74-6.


17O verbo (do grego, pascho) também pode ser traduzido com o “experimentar”. Porém esse
é um significado menos comum, e o testemunho de Atos 13— 14 é que crentes de fato sofreram
na Galácia.
38Tim othy George, Galatians (Nashville: Broadman & Holman, 1994), p. 221.
CALATAS: O ESTATUTO DA LIBERDADE CRISTA ‫ ן‬179

merecer a salvação, irão sempre falhar (v. 10,12). Aqueles que seguem a lei em
decorrência de sua fé em Deus e em suas promessas serão salvos (v. II).39 Antes da
vinda de Cristo, judeus fiéis ofereciam sacrifícios de animais para obter 0 perdão
(temporário) dos pecados, na expectativa de uma era vindoura em que o pecado
seria tratado completamente. Mas agora, com Jesus, aquela era chegou. Cristo nos
resgatou completamente da maldição da lei sobre aqueles que falharam em guar-
dá-la (v. 13,14). A morte por crucificação já havia passado a ser interpretada como
suficientemente parecida com pendurar em uma árvore, de modo que a maldição
de Deuteronômio 21.23 também se tornou associada a isso (llQTem plo 64.6-13;
4Q169 1.17,18). No entanto, isso também significava que não era mais possível
continuar a obedecer à Lei, nem mesmo oferecendo todos os sacrifícios corretos,
como expressão adequada de fé em Deus. A fé nas promessas de Deus signifi-
cava reconhecer o cumprimento da lei em Cristo, confiando nele como o sacri-
fido definitivo pelo pecado e deixando de confiar na lei como meio de salvação.40

LEI VERSUS EVANGELHO

Fé nas promessas de Fé em Cristo como


FE
Deus ao longo do AT cumprimento do AT

Tentativas de obedecer à Lealdade a qualquer


OBRAS
lei para salvar a si mesmo outra coisa, incluindo o
AT (além de Cristo)

Em quarto lugar, os versículos 15 a 18 completam essa seção, retornando ao


argumento histórico. A Lei mosaica entrou em vigor um bom tempo depois do
princípio da justificação pela fé visto em Abraão, e, desse modo, não anula o prin-
cípio original. O versículo 16 tem se revelado difícil porque as várias passagens
do Antigo Testamento que prometem bênçãos aos descendentes (ou “semente”)
de Abraão parecem usar substantivos coletivos no singular para designar inúme-
ros descendentes. Entretanto, Salmos 72.17, que, ao que parece, se refere a uma
daquelas passagens (Gn 22.17b,18a), entende claramente que o cumprimento

39Moisés Silva, “Abraham, faith, and works: Paul’s use o f Scripture in Galatians 3:6-14”, W T J fâ
(2001): 251-67.
*Bruce, Galatians, p. 160-1. Para urn exame aprofundado de como esses conceitos se aplicam
à questão de viver a vida cristã, veja Andrew H . Wakefield, Where to live: the hermeneutical signi-
ficante o f P aul’s citationsfrom Scripture in Galatians 3:1 -1 4 (Leiden/Boston: Brill, 2003), embora
Wakefield desnecessariamente oponha essa abordagem à aplicação do texto a como alguém é salvo.
180 I PAULO E SUAS CARTAS

ocorre com um só rei. O cumprimento inicial da promessa também teve como


alvo uma só pessoa, Isaque. Dessa maneira, a aplicação, por Paulo, ao Messias
não está em desacordo com a própria tradição interpretativa do Antigo Testa-
mento.41 Além disso, seu uso da mesma promessa em Gálatas 3.29 mostra que
ele entende que sua aplicação também é coletiva.
O outro problema nesse parágrafo é a referência à Lei vir 430 anos depois
da promessa (v. 17). Gênesis 15.13 havia predito que os israelitas seriam escra-
vizados no Egito por 400 anos, de maneira que o tempo adicional de Abraão a
José teria sido consideravelmente maior do que 30 anos. O número 430 tam-
bém aparece em Êxodo 12.40 como o tempo da escravidão, talvez como um
total mais exato do que a cifra mais redonda de 400, mas isso só aumenta o pro-
blema. Talvez Paulo tivesse em mente a última vez, antes do ñm da era patriar-
cal, em que Deus renovou sua promessa, naquela ocasião com Jacó (Gn 49.20),
com o que restaria, então, aproximadamente 430 anos até o Êxodo e a entrega
da Lei no monte Sinai.42

Os propósitos da lei (3.19— 4.7)


Paulo interrompe sua série de argumentos a favor da justificação pela fé para
tratar de uma possível objeção que ele provavelmente suspeitava que já estivesse
na mente de seus ouvintes. Se a lei não foi dada para salvar pessoas, nem mesmo
no tempo do Antigo Testamento, qual era então o seu propósito? Paulo apre-
sentará duas respostas nessa seção; uma terceira aparecerá mais adiante na carta.

Aumentar a transgressão (3.19,20). A primeira resposta é analisada apenas por


alto: a lei foi dada “por causa das transgressões” (v. 19). A preposição grega não
é uma das palavras usuais com o sentido de “porque”, mas é um vocábulo rela-
tivamcnte raro que também pode significar “a fim de causar” {charm). A pala-
vra “transgrcssão” (paralasis) significa “pecado consciente”. No mínimo, dar a lei
aos israelitas aumentou 0 pecado consciente porque, quando faziam algo errado,
agora sabiam que isso era contra a vontade de Deus. Mas Paulo também pode
estar dizendo que a entrega da lei defato levou algumas pessoas a lhe desobedecerem
ainda mais\ em todas as culturas a natureza humana tem demonstrado que “o
fruto proibido sempre parecerá mais doce”.434Em Romanos, Paulo retorna a esse
tema em várias ocasiões (4.15,16; 5.20,21; 7.7-13) e deixa claro que, à medida que

4'T. D esm ond Alexander, “Further observations o f the term ‘seed’ in G en esis”, T yn B u l 48
(1997): 363-7.
42Gleason L. Archer, Encyclopedia o f Bible difficulties (Grand Rapids: Zondervan, 1992), p. 403
f edição cm português: Enciclopédia de temas bíblicos: respostas às principais dúvidas, dificuldades e
“contradições"da Bíblia, tradução de Oswaldo Ramos (São Paulo: Vida, 2002)].
44Quanto a essas duas idéias, veja Fung, Galatians, p. 159-60.
GAIATAS: O ESTATUTO DA LIBERDADE CRISTÃ 181

a profundidade de nossos pecados se torna óbvia, também se torna óbvia nossa


consciência da necessidade de um Salvador. Desse modo, a lei prepara o cami-
nho para a pregação do evangelho (cf. tb. toda a estrutura de Rm 1.18—3.31).44

Dissuadir do pecado (3.21— 4.7). Se, no entanto, esse fosse o único propósito da
Lei, parecería um caminho bastante sinuoso para alcançar os objetivos de Deus.
Entretanto, Paulo passa a explicar um segundo propósito com muito mais detalhes:
a lei também tem, para muitas pessoas, um efeito dissuasor, diminuindo 0 total depeca-
dos em sua vida (3.21—4.7). Tem uma função de guardiã — mantendo-nos sob
controle — até a vinda de Cristo. Paulo ilustra essa função com três metáforas:
(1) o carcereiro que protege a sociedade dos presos (e os presos deles mesmos!),
versículos 22 e 23; (2) o “pedagogo” (paidogõgos; NIV “encarregado”) ou escravo
que trabalhava para uma família abastada e era responsável para cuidar que, com
segurança, o filho fosse até a escola e voltasse para casa, versículos 24 e 25;4‫ י‬e
(3) guardiões e curadores que supervisionam os bens de uma pessoa menor de
idade, 4.1-7. Mas Paulo, em cada uma dessas ilustrações, passa a destacar que o
período de guardiania expirou; por meio da fé em Cristo, o preso está livre, os dias
de escola acabaram, e o filho atingiu a maioridade.4 56 Essa liberdade em Cristo é
4
simbolizada de modo visível em nosso batismo (3.26-29).
No meio desse último parágrafo citado há um versículo que para muitos
é um dos mais importantes de todo o pensamento de Paulo. A liberdade cristã
une judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher (v. 28). Isso representa uma
inversão essencial da oração judaica padrão em que um homem piedoso agrade-
cia a Deus o fato de o ter criado judeu e não gentio, livre e não escravo, homem
e não mulher (e.g., t. Berakot 7.18 e j. Berakot 13b). E importante não atribuir
peso demais nem de menos a esse versículo. Por um lado, há outros textos judai-
eos e greco-romanos que se assemelham bastante ao de Paulo e ainda assim con-
firmam claras distinções de papéis, por exemplo, entre homens e mulheres. De
maneira que, por si mesmo, esse versículo não pode provar se Paulo promoveu

44O versículo 20 é notório pelo número dc interpretações que tem gerado ao longo da história
da igreja. Talvez a melhor seja que o próprio conceito dc mediador implica uma pluralidade que
contrasta com a unicidadc dc D eus. Veja ainda Terrance Callan, “Pauline midrash'■ the exegeti-
cal background o f Gal 3:19b”, J B L 99 (1980): 549-67. M ais específicamente, a afirmação de que
um mediador “não é de um só” talvez signifique que M oisés não estava trabalhando apenas para
uma única parte (Deus), mas, sim, para várias partes (os anjos, v. 19b; cf. D t 33.2 LXX; SI 68.17;
At 7.38,53; Ilb 2.2) e, dessa maneira, foi mediador de uma aliança inferior (por ser mais indireta)
com Deus. Veja Sam K. W illiams, Galatians (Nashville: Hendrickson, 1997), p. 99.
45Veja esp. Richard N. Longcnccker, “The pedagogical nature o f the Law in Galatians 3:19—4:7”,
JE TS 25 (1982): 53-61.
46Justamente no momento certo, exato e ordenado por Deus na historia (4.4), e possibilitando
uma intimidade maior com Deus, refletida na palavra aramaica abba, que o próprio Jesus usou ao
se dirigir a seu Pai celestial (v. 6).
182 I PAULO I·. SUAS CARTAS

um igualitarismo total; outros textos terão de decidir a questão. Por outro lado,
esse versículo sugere mais do que apenas alguma igualdade espiritual invisí-
vel em Cristo. Ele está situado no contexto de batismo, um ritual exterior em
que homens e mulheres participavam em iguais condições, em nítido contraste
com seu equivalente no Antigo Testamento, a circuncisão, que era reservada aos
homens. Parece, portanto, que a aplicação contemporânea desse texto deve conclamar
os cristãos a procurar expressões visíveis, exteriores e marcantes da igualdade de todas
as pessoas em Cristo.4748

M ais argumentos defendendo a tese de Paulo (4.8-31)


Agora Paulo pode retomar sua série de argumentos favoráveis à sua convicção de
que a justificação vem pela fé somente. Em primeiro lugar, em 4.8-11, ele apela
ao fato de que, antes de se tornarem cristãos, os gálatas estavam escravizados a
“princípios fracos e desprezíveis” (stoicheia, v. 9) e se admira que quisessem voltar
a algo parecido. O termo se refere, no mínimo, a regras e normas provenientes da
vida deles como pagãos; também pode sugerir poderes demoníacos por trás dessa
religião.'18Aplicar à observância da lei judaica um termo designativo de paganismo
e adoração de demônios era realmente chocante! Em segundo lugar, nos versículos
12 a 20, ele os lembra do zelo correto que haviam tido com ele e o contrasta com
o zelo motivado de forma indevida pelos judaizantes. E aí que Paulo revela ter
ido pela primeira vez à Galácia em razão de uma doença (v. 13). Não sabemos
que doença era essa. Se o versículo 15 é interpretado literalmente, então Paulo
tinha algum tipo de problema nos olhos, mas é bem possível que “arrancar os
próprios olhos” seja metáfora. A outra sugestão mais comum é malária, porque o
litoral sul daquilo que hoje é a Turquia era notório por hospedar essa doença, e
os doentes frequentemente iam para o norte a fim de recuperar no ar mais seco
e rarefeito da região planáltica. Não obstante, para Paulo a ideia importante é
o contraste entre o cuidado original dos gálatas com ele e o presente distancia-
mento entre eles e o apóstolo, levando-o a sofrer como uma mulher em trabalho
de parto (v. 17-20)! Assim como a mãe está em trabalho de parto até que sua
criança nasça plenamente formada, de igual maneira Paulo deseja sinceramente
a formação espiritual madura dos cristãos da Galácia (v. 19).49

47A análise nesse parágrafo tem uma grande dívida para com Ben W itherington III (“Rite and
rights for women — Galatians 3.28”, N T S T I [1981]: 593-604), que também dá as referências de
fontes primárias relevantes. Cf. tb. sua obra Grace in Galatia, p. 2 7 0 8 1 ‫־‬.
48Clinton E. Arnold, The Colossian syncretism (Grand Rapids: Baker, 1996), p. 158-94. Os “dias
e meses e estações e anos” do versículo 10 fazem basicamente referência às celebrações judaicas de
Sabbaths, festas de lua nova, festas anuais e anos sabáticos.
49Cf. ainda Beverly R. Gaventa, “The maternity o f Paul: an exegetical study o f Galatians 4:19”,
in: Robert T. Fortna; Beverly R. Gaventa, orgs., The conversation continues: studies in Paul and John
(Nashville: Abingdon, 1990), p. 189-201.
CALATAS: O ESTATUTO DA LIBERDADE CRISTA ‫ ן‬183

A TIPOLOGIA DE PAULO EM GÁLATAS 4.2131‫־‬

Descendência Descendência
física espiritual

Isaque Cristãos
Judeus
(por meio (Jerusalém Livres
(atual Jerusalém)
de Sara) do alto)

Ismael
Cristãos Judeus
(por meio Escravos
(esp. gentios) não cristãos
de Agar)

Idéias dos
Idéias de Paulo
judaizantes

Em terceiro lugar, nos versículos 21 a 31, Paulo recorre à historia de Abraão


e suas duas esposas, Agar e Sara, para criar uma alegoria que põe em xeque a
aplicação que os judaizantes provavelmente estavam fazendo da história.50 Acei-
tando‫־‬se genealogias simplesmente físicas, a observação seria que os judeus eram
os descendentes de Sara, a mulher livre; e os gentios, os filhos de Agar, a escrava.
Entretanto, Paulo destaca paralelos espirituais que em grande parte invertem

50Veja csp. Longenecker, Galatians, p. 198. O grego do versículo 24a diz literalmente “Essas
coisas estão sendo interpretadas alegóricamente” — i.e., pelos judaizantes; aqui Paulo apresenta
sua “correção” à interpretação alegórica deles. Q uanto a uma explicação plausível da referência
notoriamente difícil a Agar como um monte e ainda na Arábia (v. 5), veja Susan Elliott, “Choose
your mother, choose your master: Galatians 4:21— 5:1 in the shadow o f the Anatolian mother o f
the gods",JB L 118 (1999): 661-83. O s gaiatas deveríam ter conhecimento a respeito de monta-
nhas de sua região que eram personificadas como deusas-mãe e garantidoras do cumprimento da
lei. Assim que Paulo tivesse associado Agar aqueles escravizados pela lei, a descrição dela como
uma “mãe-monte”— específicamente com relação ao monte Sinai, em que M oisés recebeu a Lei
— seria natural. Arábia era uma designação suficientemente vaga para poder se referir a várias
regiões desérticas perto de Israel.
184 I PAULO K SUAS CARTAS

essas linhagens. Cristãos (judeus ou gentios) são o povo verdadeiramente livre,


enquanto os judeus (não cristãos) permanecem escravizados à Lei. Paulo não está
dizendo que essa alegoria é o significado original da história em Gênesis, mas que
é assim que ela se aplica em sua época. E, assim como Abraão e Sara finalmente
mandaram Agar embora, da mesma maneira os gálatas precisam expulsar de
seu meio o ensino de que as obras da lei são necessárias para a salvação (v. 30).51*

Descrevendo a liberdade em Cristo por meio do Espírito (5.1—6.10)

Permaneçafirm e na liberdade (5.1)


Até aqui a polêmica de Paulo tem sido inteiram ente unilateral: combater
o legalismo. No entanto, sempre há o perigo do excesso do lado oposto — o
antinomianismo (viver contra a lei). O cristianismo não dá a seus adeptos o direito
de fazer o que bem entenderem. Viver de maneira imoral reflete, na realidade,
escravidão ao pecado — e não liberdade. Não sabemos se, lado a lado com os judai-
zantes, havia uma facção antinomiana real na Galácia, ou se Paulo estava ciente
do perigo de o pêndulo oscilar longe demais na direção oposta. De um modo ou
de outro, ele começa essa última seção principal do corpo de sua carta com um
chamado retumbante para se posicionar firmemente em defesa da liberdade.

Não há meio-termo (5.2-12)


Antes de passar a explicar o conteúdo dessa liberdade, no entanto, a seriedade da
situação leva Paulo a um apelo ardoroso aos gálatas a não acharem que podem
misturar as abordagens e fazer com que seu cristianismo seja parcialmente lei e
parcialmente graça. As palavras incisivas contra a circuncisão nos versículos 2 e 3
não devem ser tiradas do contexto. No versículo 6a, Paulo esclarecerá que nem
a circuncisão, nem a incircuncisão têm qualquer valor para a salvação. O que ele
quer destacar no começo do parágrafo é, portanto, que, se alguém é circunci-
dado (conforme os judaizantes devem ter insistido) por acreditar que isso é um
requisito para a salvação (v. 4), então seria necessário obedecer perfeitamente a
todo o restante da Lei. A expressão “caíram da graça” no versículo 4 não significa
necessariamente que os cristãos verdadeiros perderam a salvação. Contudo, no
mínimo, significa que essas pessoas deixaram de viver a vida cristã pela graça para
tentar vivê-la de acordo com a Lei, e, desse modo, a comunhão com Cristo foi

51Ou talvez até os próprios mestres. Veja G. Walter Hansen, Abraham in Galatians: epistolary
and rhetorical contexts (Sheffield, Reino Unido: JSOT, 1989), p. 146. John Stott ( Only one way: the
message o f Galatians [Downers Grove/Leicester: IVP, 1968], p. 136 [edição em portugués: A mensa-
gem de Gálatas, tradução dc Yolanda Mirdsa Kricvin, A Bíblia Fala Hoje (São Paulo: ABU, 1989)])
acrescenta: “Atrevo-me a dizer que, se estivéssemos tão interessados na igreja de Deus c na Palavra
de Deus quanto Paulo estava, também desejaríamos que falsos mestres não existissem mais na terra”.
CALATAS: O ESTATUTO DA LIBERDADE CRISTÁ ‫ ן‬185

interrompida.52 Não obstante Paulo não é contra as boas obras (!); o versículo 6b
destacará a necessidade da “fé que se expressa por meio do amor”.53
No versículo 7, Paulo compara a vida crista dos gálatas a urna corrida de atle-
tismo.54 No entanto, outros corredores invadiram as raias dos gálatas e os impe-
diram de correr como deveríam. Não é isso o que Dcus faz (v. 8). Ainda que seja
pequeno o número desses judaizantes, seu falso ensino pode infectar rapidamente
a igreja toda (v. 9). Mas Paulo reafirma sua confiança de que os gálatas cairão em
si, voltando a ter a perspectiva do apóstolo, e de que os judaizantes serão refuta-
dos (v. 10). De novo Paulo reflete sobre aqueles que poderiam estar acusando-o
de, em outros contextos, ter pregado uma mensagem judaizante parecida a fim de
tentar ganhar judeus (v. 11; veja comentário sobre 1.10) e esclarece que, nesse
caso, a maldição escandalosa associada à crucificação de Jesus (veja 3.13) teria
sido em vão. Por fim, assim como em 1.6-10, Paulo reserva seu linguajar mais
duro àqueles que promovem esse tipo de religião de obras (v. 12), porque, quando
seguida sistematicamente, ela se revela condenatoria. Se insistirem em cortar o
corpo de outros homens por meio da circuncisão, em vez disso seria melhor que
cortassem o próprio corpo por meio de automutilação!5556

A lei de Cristo (5.13 — 6.10)


Agora Paulo está pronto para voltar ao tema da liberdade em Cristo, tema com
o qual começou em 5.1. Essa liberdade não é uma liberdade sem lei; há exigên-
cias éticas que são decorrência do evangelho. Aqui aparece 0 terceiro uso ou pro-
pósito da lei no pensamento de Paulo: orientação moralpara uma vida sa n ta l Mas

53Cf. Boicc, “Galatians”, p. 488.


SÍJ. B. L ightfoot (The Epistle o f St. Paul to the Galatians, rcimpr. [Grand Rapids: Zondcrvan,
1957], p. 205) chama o versículo 6 de “ponte sobre o abismo que parece separar o linguajar de São
Paulo c o de São T iago”.
!4A N IV mantém o jogo de palavras em grego com o verbo “cortar”— um verbo apropriado
para corridas assim como para circuncisão. [Embora pouco usado com esse sentido em português,
cabe a tradução “quem os cortou de permanecer na verdade” (N. doT.)] E bem possível que gálatas
familiarizados com os ga l li escravizados e autocastrados, que serviam como sacerdotes das deusas-
-mãe das montanhas da Anatólia, tenham entendido que a descrição, por Paulo, dos circuncisos se
assemelhava a escravos de um falso deus. Veja Susan Elliott, Cutting too closefor comfort: Paul's Letter
to the Galatians in its Anatolian cultic context (London, Reino Unido/New York: T & T Clark, 2003).
ssCf. Phemc Perkins, Abrahams divided children: Galatians and. the politics o f fa ith (Harrisburg:
Trinity, 2001), p. 98: “A proposta grosseira de que a castração seria uma punição adequada para todos
aqueles que estivessem causando problemas na Galácia (v. 12) convida os ouvintes e leitores da carta
a descarregar sobre essas pessoas a raiva e a condenação que sentiram ter sido anteriormente diri-
gida a eles mesmos”. A fraseologia de Paulo pode de fato se referir a cortar o pênis e não os testículos.
56Para uma explicação detalhada de todos os três usos, veja In-G yu H ong, The L a w in Gala-
tians (Sheffield, Reino Unido: JSOT, 1993). Para uma abordagem mais geral, cf. Frank Thielman,
From plight to salvation: a Jewish fram ew ork fo r understanding Paul’s view o f the L a w in Galatians
and Romans (L ciden/N ew York: Brill, 1989).
186 I PAULO E SUAS CARTAS

isso difere de uma adesão literal aos 613 mandamentos da Lei mosaica, como
se a vinda de Cristo não tivesse alterado nada. E possível identificar cinco seg-
mentos nessa seção, os quais relacionam as obrigações do cristão.57 (1) Os crentes
precisam amar uns aos outros e, agindo assim, cumprem a lei em sua totalidade
(v. 13-15; veja o v. 6). (2) Precisam evitar a satisfação a “carne”, isto é, a natureza
pecaminosa de cada um (v. 16-21). Os versículos 19 a 21 relacionam pecados
exemplificativos, destacando a má conduta sexual e o excesso de “festas”, mas se
concentrando ainda mais na desavença entre as pessoas.58 (3) Em contraste, os
cristãos corporificarão o fruto do Espírito (v. 22-26). Paulo torna a enunciar uma
série de exemplos-chave (v. 22,23a) e depois declara: “contra essas coisas não há
lei” (v. 23b). Em outras palavras, é impossível legislar sobre virtudes como amor,
alegria, paz e assim por diante.59 De novo, tal como em 2.19,20, Paulo declara que
a “carne” foi crucificada, contudo, ele passa imediatamente a ordenar a seus leito-
res que não cometam os atos da carne, mas que andem pelo Espírito (v. 24-26),
demonstrando que os cristãos sempre têm a possibilidade de cair e servir à velha
natureza que continua a residir neles e que compete com sua nova natureza cristã
(veja ainda comentário sobre Rm 7.14-25).6061
(4) Os cristãos precisam carregar os fardos uns dos outros, quando estes se
tornam pesados demais, ao mesmo tempo que não devem rejeitar assumir sua
própria responsabilidade (v. 1-5). Essa é a explicação mais provável da aparente
contradição entre os versículos 2 e 5.6’ Quando descobrem que irmãos na fé estão
em pecado, eles têm a dupla responsabilidade de confrontá-los na esperança de
levá-los ao arrependimento e, ao mesmo tempo, de fazê-lo da maneira mais amá-
vel possível — aliás, exatamente da maneira que gostariam de ser tratados caso a
situação fosse inversa (v. 1). A humildade resultante de reconhecer a própria vul-
nerabilidade também os ajudará a não superestimar sua própria maturidade espi-
ritual (v. 3,4). (5) A administração financeira correta, cm especial no sustento de
mestres cristãos, também se mostra essencial (v. 6-10). Tratar os versículos 7 a 10

57Veja esp. John M . G. Barclay, Obeying the truth: a study o f Paul's ethics in Galatians (Edinburgh:
T & T Clark, 1988; Minneapolis: Fortress, 1991).
56No versículo 21, “aqueles que vivem dessa maneira” é literalmente “aqueles que praticam con-
tinuamentc essas coisas”. As pessoas cujo estilo de vida se caracteriza sistematicamente por essas
depravações não são crentes verdadeiros, mas isso não significa que crentes não possam cometer
pecados graves. Cf. Ernest deW. Burton, A critical and exegetical commentary on the Epistle to the
Galatians (Edinburgh: T & T Clark, 1921), p. 312.
5'7Bruce Longeneckcr,‘“Until Christ is formed in you’: suprahuman forces and moral character
in Galatians”, CBQ 61 (1999): 92-108.
60Jon Lambrecht,“Tire right things you want to do: a note on Galatians 5:17d”,B ib 79 (1998):
515-24.
61O grego, aliás, usa duas palavras diferentes: no versículo 2, barê pode significar um fardo
pesado, ao passo que, no versículo 5,phortion se refere a uma carga normal ou leve (Morris, Gala-
tians, p. 180, nota 12).
GÁLATAS: O ESTATUTO DA LIBERDADE CRISTÃ ‫ ן‬187

como um parágrafo à parte poderia dar a impressão de que Paulo mudou para
um assunto diferente do versículo 6, mas os principios presentes nesses ver-
sículos — colher aquilo que semeia, fazer o bem e ter uma colheita — se apli-
cam tão bem à questão da administração que é provável que Paulo ainda tenha
esse tema em mente, mesmo que não exclusivamente.62 O versículo 10 também
nos lembra de que temos uma responsabilidade especial para com irmãos em
Cristo necessitados, ainda que sem excluir a responsabilidade de, quando pode-
mos, ajudar não cristãos.
Todas essas obrigações éticas e outras semelhantes formam juntas a “lei de
Cristo” (6.2). A referência a cumprir sugere uma alusão ao ensino de Jesus em
Mateus 5.17 de que ele veio para cumprir a totalidade das Escrituras hebrai-
cas. O que os cristãos chamam de Antigo Testamento ainda continua sendo
autoridade para eles, porém somente quando entendem como as várias leis
do Antigo Testamento se aplicam à luz da revelação do Novo Testamento.63
Não obstante, a impressão predominante que se tem da análise de Paulo em
5.13— 6.10 é que a ética cristã, refletindo a vida no Espírito, flui do coração
e de um relacionamento amoroso com Deus e com os outros, muito mais do
que de uma lista específica de coisas que se deve e não se deve fazer. Nas pala-
vras de Bruce Longenecker, a lei de Cristo se refere à “Lei mosaica que chega
à sua devida e mais completa expressão nas relações de serviço mútuo dentro
da comunidade daqueles” cuja vida está sendo transformada pelo Espírito em
conformidade com o caráter de Cristo.64

Conclusão (6.11-18)
E provável que, no versículo 11, Paulo pare de ditar a seu amanuense (veja acima,
p. 144) e acrescente, de próprio punho, sua saudação final, escrevendo com letras
grandes, provavelmente para ênfase. Os versículos 12 a 15 recapitulam os princi-
pais temas da carta, destacando a natureza cruciforme do evangelho. Uma vez que
ninguém consegue guardar perfeitamente a lei, a lei como um todo ou qualquer
mandamento específico nunca poderão constituir um caminho para a salvação.
Pelo contrário, a cruz de Cristo precisa conduzir seus seguidores a uma vida
baseada na fé (tornando-os novas criaturas), vida essa que renuncia a qualquer

62Max Anders, Galatians, Ephesians, Phi/ippians & Colossiam (Nashville: Broadman Sc Holman,
1999), p. 79-80. Cf. Matera, Galatians, p. 222-3.
63Cf. ainda Klein; Blomberg; Hubbard Jr., Introduction to biblical interpretation, ed. rev. (Nashville:
Nelson, 2004), p. 27 8 -8 3 [edição cm português: Introdução à interpretação bíblica, tradução de
Maurício Bezerra Santos Silva (Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017)].
',4Bruce W . Longenecker, The triumph o f Abraham's God: the transformation o f identity in Gala-
tians (Edinburgh/Nashville: T & T Clark/Abingdon, 1998), p. 86. D e modo parecido, M ichael
Winger (“The law of Christ”, N T S 46 [2000]: 537-46) imagina que a lei de Cristo é viver pelo
Espírito debaixo do senhorio de Cristo.
188 I PAULO E SUAS CARTAS

coisa que eles possam ser ou fazer para merecer o favor de Deus.65 O signifi-
cado do versículo 16 tem sido calorosamente debatido, mas parece implicar que
os cristãos judeus, ou então todos os cristãos, são agora o verdadeiro “Israel de
Deus”, isto é, seu novo povo escolhido.66 Paulo ora por paz e misericórdia para
esses crentes. Ele então lhes lembra do que sofreu, incluindo castigos físicos, por
ser um seguidor de Jesus (v. 17), e dá um “adeus” cristão (v. 18).

APLICAÇÃO
Gálatas é um clamor estridente contra todas as formas de legalismo em qualquer
época. Sua aplicação mais óbvia acontece em casos daquilo que tem sido chamado
de “legalismo rígido”: indivíduos, mesmo cristãos professos, que alegam que, para
ser salva, a pessoa precisa realizar certas obras ou rituais humanos. Entretanto, só
raramente o judaísmo e a judaização do primeiro século se revelaram tão eviden-
tes; com frequência eles praticavam o que tem sido chamado de “legalismo leve”
(ou, em terminologia mais técnica, “nomismo pactuai”; veja acima, p. 153), que
trata a vida religiosa como um conjunto de regras e normas, e não um relaciona-
mento que se tem com Deus e do qual a conduta correta decorre naturalmente.
Com demasiada facilidade essa abordagem se torna “meus esforços por meio dos
meus recursos para obedecer a Deus a fim de obter minha recompensa”. Esse
tipo de legalismo ou nomismo tem sido bem mais comum na história da cris-
tandade, mas a perspectiva de Paulo é clara: é uma abordagem religiosa falsa que
não pode salvar ninguém. Isso não torna a vida cristã uma vida sem lei, mas a
ética cristã é fundamentalmente interior e atitudinal (“amor, alegria, paz, paciên-
cia, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e autocontrole”, 5.22,23a). É
impossível cultivar esses traços de caráter mediante a criação de leis; eles fluem
de um coração transformado pelo Cristo que habita no cristão.67 E, uma vez que
a “justiça baseada nas obras” do judaísmo do primeiro século era com frequên-
cia uma “justiça nacional”, Gálatas também é uma censura a todas as formas de
ctnocentrismo ou lealdade excessiva a determinado grupo social.

65Nenhuma outra carta contém uma recapitulação tão detalhada ou específica de temas, o que é
mais uma indicação da urgência do problema que afeta os leitores (Cousar‫־‬, Reading Galatians, p. 109).
“ O mais provável é que seja a última opção. Veja Andreas J. Kõstcnbergcr, “Tire identity o f the
ιςραηλ του ΘΕΟΥ (Israel o f God) in Galatians 6:16”, Faith and Mission 19 (2001): 3-24.
67Para excelentes explicações e aplicações contemporâneas desses temas, veja Charles R. Swin-
doll, The grace aw akening (Dallas: Word, 1990) [edição em portugués: O despertar da graça: crer
na graça é uma coisa, vivè-la é outra, tradução de Neyd Siqueira (São Paulo: Bompastor, 1994)];
Chap Clark, The performance illusion (Colorado Springs: NavPress, 1993); e Philip Yancey, What's
so am azing about grace? (Grand Rapids: Zondervan, 1997) [edição cm português: Maravilhosa
graça, tradução de Yolanda M . Krievin (São Paulo: Vida, 1999)]. Quanto a insights estimulantes,
transculturais c práticos, veja Elsa Tam ez, “Hagar and Sarah in Galatians: a case study in free-
dom”, W W 2 0 (2000): 265-71.
CALATAS: O ESTATUTO DA LIBERDADE CRISTA ‫ ן‬189

Em contrapartida, em muitos contextos de hoje a aplicação mais oportuna


se baseia nos capítulos 4 a 6. Nas palavras de Sam Williams, “só um pai pode
adotar um escravo como filho. Deus não obriga as pessoas a se unirem à família,
mas, caso escolham fazê-lo, precisam agir como membros da família. Não basta
sentir-se membro da família ou responder corretamente a uma lista de pergun-
tas sobre quais as implicações de ser membro da família. O que conta é portar-se
como filho ou filha”. Só dessa maneira a fé verdadeira é demonstrada, pois —
Williams prossegue em seu raciocínio — “a fé não são sentimentos, nem mesmo
sentimentos agradáveis sobre Deus. A fé não é a anuência da mente a certas
proposições sobre Jesus ou sobre a própria condição pecaminosa. Fé é a entrega
absoluta do ‘eu’ a Deus e tão somente a Deus”.68

OUTRAS PERGUNTAS PARA REVISÃO


1. Indique as diferentes hipóteses apresentadas para a data e o destino da
Carta aos Gálatas. Qual data é geralmente associada a qual destino? Por
quê? Qual combinação de data e destino tem a vantagem de ter corre-
lação com Atos? Como?

2. O que é peculiar na estrutura de Gálatas quando comparada com outras


cartas paulinas? Como o gênero da carta ajuda a explicar a estrutura?

3. Que métodos Gálatas 1.1—2.10 emprega para enfatizar a autoridade


que Paulo recebeu de Deus para contar às pessoas o verdadeiro evange-
lho? Que circunstâncias na Galácia exigiram essa defesa da autoridade
apostólica de Paulo?

4. Resuma em suas próprias palavras a tese da Carta aos Gálatas. Quais


são os quatro argumentos específicos que Paulo usa em Gálatas 3 para
respaldar essa tese?

5. Como é possível responder às afirmações de que Paulo interpreta errado


Gênesis 22.17,18 e de que sua referência, em Gálatas 3.17, a 430 anos
é historicamente imprecisa?

6. Quais são os dois exemplos chocantes que Paulo usa para refutar os
judaizantes no capítulo 4? Por que foi surpreendente Paulo usar o termo
stoicheia com relação à obediência à Torá?

68W illiams, Galatians, p. 161.


190 I PAULO E SUAS CARTAS

7. Na “alegoria” de Agar e Sara, com qual das duas os judaizantes devem


ter se associado e por quê? Como Paulo, de modo habilidoso, dá um
sentido totalmente diferente a essa alegoria?

8. De acordo com Paulo, quais eram os propósitos pretendidos para a lei


antes de seu cumprimento em Cristo? Como a lei preparou especifica-
mente o caminho para o evangelho? Como ela teve papel de guardiã?

9. Quais dos propósitos pretendidos ainda têm aplicação depois da vinda


de Cristo? Quais são as obrigações do cristão de acordo com a “lei de
Cristo”?

10. Como é possível equilibrar o ensino de Gálatas sobre estar livre da lei e
suas advertências contra o comportamento ímpio?

11. O que são legalismo, nomismo pactuai e etnocentrismo? Onde encon-


tramos exemplos contemporâneos desses fenômenos em círculos supos-
tamente cristãos?

BIBLIOGRAFIA SELECIONADA

Comentários

Introdutórios
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Bibliografia sobre Gaiatas


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capítulo 4

A correspondência tessalonicense:
uma visão equilibrada da volta de Cristo

1 T e s s a lo n ic e n se s:
C risto e s tá v in d o e m b re v e

INTRODUÇÃO
essalônica era a maior cidade e a capital da província da Macedonia, a
qual ocupava aproximadamente a metade norte da Grécia de hoje. Situa-
va-se no litoral nordeste, sendo um dos principais portos no mar Egeu
e importante parada na estrada central conhecida como Via Inácia.Tessalônica
foi a primeira cidade grega em que, na descrição de Atos, Paulo evangeliza em
sua segunda viagem missionária (At 17.1-9). Um centro do culto imperial,
Tessalônica também abrigava santuários de muitas divindades nacionais e locais
e tinha várias associações profissionais voluntárias ou guildas comerciais, todas
elas atreladas tipicamente a elementos religiosos. A devoção a um deus pró-
prio da região chamado Cabiro era demonstrada erigindo-se uma estátua na
forma de um falo gigante!1
Em Atos ficamos sabendo que Paulo seguiu seu costume de primeiro pro-
curar a oportunidade de pregar em uma sinagoga local, e de fato ele pregou na
sinagoga de Tessalônica em três Sabbaths diferentes. Lá ele destacou profecias

1Sobre o culto imperial, veja J. R. Harrison, “Paul and the imperial gospel at Thessaloniki”,
J S N T 25 (2002): 71-96; sobre outras religiões greco-romanas, veja Karl P. Donfried, “Tire cults
ofThessalonica and the Thessalonian correspondence”, N T S 31 (1985): 336-56; sobre as guildas,
veja Richard Ascough, “The Thessalonian Christian community as a professional voluntar}‫ ׳‬asso-
ciation”,//? /, 119 (2000): 311-28.
194 I PAULO E SUAS CARTAS

bíblicas sobre Jesus, seu sofrimento e sua ressurreição (At 17.2,3). Por conse-
quência, pôde plantar uma pequena igreja, composta de alguns judeus mas um
número maior de tementes a Deus (sobre isso, veja acima, p. 88-9) e “não pou-
cas mulheres proeminentes” (v. 4). Além disso, Atos somente nos informa sobre
como o tempo de Paulo em Tessalônica terminou: alguns dos judeus que rejeita-
ram sua mensagem iniciaram um tumulto, hostilizaram alguns dos novos cristãos
e, em essência, forçaram Paulo e seus companheiros a deixar a cidade (v. 5-10a).23
Os estudiosos avaliam se Paulo passou um período mais longo na cidade
depois de deixar de ir à sinagoga. M uitos acham improvável que uma igreja
pujante pudesse ter sido estabelecida com base apenas no que Lucas descreve
em Atos 17.1-4. Filipenses 4.16 retrata Paulo recebendo ajuda repetidas vezes
enquanto esteve em Tessalônica, o que parece exigir mais do que uma estada de
três semanas. A Carta de lTessalonicenses em si parece pressupor uma igreja com-
posta basicamente de gentios convertidos (veja, e.g., 1.9), o que teria envolvido
ministério adicional na cidade depois que Paulo deixou de ir à sinagoga. Dadas
as inúmeras lacunas na narrativa de Lucas, não há nada implausível nessa suges-
tão, mas, mesmo que seja aceita, é provável que Paulo não tenha passado mais
do que uns poucos meses em Tessalônica nessa específica viagem missionária.·5
E provável que, para manter a clareza e a simplicidade, Atos também omita
certos detalhes relativos às viagens subsequentes dos companheiros de Paulo. Sabe-
mos que Timóteo vem acompanhando Paulo e Silas nessa viagem (At 16.1-5),
embora em 17.10 não se faça menção alguma sobre ele partir de Tessalônica rumo
a Bereia junto com Paulo e Silas. No entanto, precisamos pressupor que ele 0
fez, porque, no versículo 14, Paulo passa de Bereia para Atenas, deixando Silas e
Timóteo para trás. Só quando Paulo chega à sua próxima parada, Corinto, é que
Silas e Timóteo voltam a se unir a ele (18.5). No entanto, em lTessalonicenses
Paulo recorda ter ficado sozinho em Atenas, quando enviou Timóteo de volta a
Tessalônica para incentivar os crentes dali (3.1,2), e mais adiante acrescenta que
Timóteo acaba de voltar trazendo boas notícias sobre o crescimento espiritual
dos tessalonicenses (v. 6). Por esse motivo, podemos supor que Paulo está escre-
vendo essa carta enquanto está em Corinto, mas também que pelo menos Timó-
teo veio necessariamente de Bereia para Atenas, foi em seguida enviado de volta
a Tessalônica, antes de finalmente voltar a se unir a Paulo em Corinto. Nada em
Atos contradiz isso; Lucas apenas deixa de fora esse material adicional.4

2Para inúmeros detalhes sobre a natureza c a motivação dessa perseguição à luz da teoria socio-
lógica do desvio, veja Todd D . Still, Conflict at Thessalonka: a Pauline church and its neighbors (Shef-
field, Reino Unido: SAP, 1999).
3Cf. ainda Charles A . Wanamaker, The Epistles to the Ihessa/onians (G rand Rapids/Exeter:
Eerdmans/Paternoster, 1990), p. 6-8.
4Cf. ainda D. Michael Martin, 1 ,2 Thessa/onians (Nashville: Broadman & Holman, 1995), p. 25.
A CORRESPONDÊNCI A 1T.SS ALON ICENSE: UMA VISÃO EQUILIBRADA... ‫ ן‬195

Com base em nossa cronologia de Atos, se Paulo está escrevendo de Corinto


em sua segunda viagem missionária, então lTessalonicenses precisa ser datada em
algum momento entre os anos de 50 e 52. Como Paulo aparenta estar ansioso
em ter notícias de Tessalônica, parece mais provável uma data mais próxima do
início do que do final desse período. Por esse motivo a maioria dos estudiosos
data a carta de 50 ou então 51.
A carta assume a forma de uma carta parenética ou exortativa? A retórica é
basicamente deliberativa, mas com uma boa dose de elogios epidíticos.56 Em com-
paração com a maioria das outras igrejas às quais Paulo escreve, Tessalônica não tem
quase nada de errado em seu meio e muito para ser elogiado. Aliás, a introdução, o
agradecimento e o corpo da carta (caps. 1—3) constituem, dentre todas as cartas
de Paulo, o mais longo trecho de elogio ininterrupto a uma igreja específica. Isso é
ainda mais notável à luz do tempo relativamente curto que Paulo passou na cidade e
da severidade da perseguição que essa igreja experimentou subsequentemente (1.6).
Os capítulos 4 e 5 introduzem pelo menos duas questões sobre as quais é necessá-
ria alguma instrução adicional: trabalhar duro e cuidar da própria vida, e questões
sobre escatologia, específicamente sobre o que acontece quando um cristão morre.
Ambas as questões tornarão a aparecer de forma ligeiramente diferente em 2Tes-
salonicenses. A divisão mais simples da carta é, portanto, como segue:

I. Introdução (1.1-10)
A. Saudação (1.1)
B. Ação de graças (1.2-10)
II. As preocupações de Paulo durante e após o seu ministério em Tessa-
lônica (2.1—3.13)
A. O ministério de Paulo quando ainda estava em Tessalônica (2.1-16)
B. Os sentimentos e ações de Paulo depois de partir de Tessalônica
(2.17—3.13)
III. Exortações (4.1— 5.28)
A. Vida moral (4.1-12)
B. Perguntas sobre escatologia (4.13—5.11)
C. Instruções finais (5.12-22)
D. Orações e saudações finais (5.23-28)

5Abraham J. Malherbe {The Letters to the lhessa/onians [New York/London, Reino Unido: Dou-
bleday, 2001], p. 85) pensa que esse é um dos melhores exemplos dessa forma de carta. Intimamente
relacionada a essa forma é a carta de consolo, a categoria que Juan Chapa (“Is First Thessalonians a
letter o f consolation?”, N T S 40 [1994]: 150-60) prefere. Cf. tb. Abraham Smith, Comfort one ano-
tier: reconstructing the rhetoric and audience o f 1 Thessalonians (Louisville: VVJKP, 1995).
6Jan Lambrecht, “A structural analysis o f 1 Thessalonians 4— 5”, in: Karl R Donfricd; Johannes
Beutler, orgs., The Thessalonians debate: methodological discord or methodological synthesis? (Grand
Rapids/Cambridgc: Eerdmans, 2000), p. 177.
196 I PAULO E SUAS CARTAS

COMENTÁRIO

Introdução (1.1-10)

Saudações (1.1)
As breves saudações iniciais da carta, com sua apresentação sucinta de coautores,
destinatários e votos de bem-estar, estão, em comparação com o início de Gálatas,
mais próximas da forma-padrão greco-romana. O fato de, junto com o seu nome,
Paulo incluir os nomes de Silas e Timóteo como os remetentes poderia sugerir que
os dois eram amanuenses, portadores da carta ou simplesmente seus companhei-
ros naquela época. No entanto, o mais provável é que, em algum aspecto, estiveram
envolvidos na composição da carta.7 O fato de o Senhor Jesus Cristo ser associado
a Deus Pai pode sugerir, se não um pensamento trinitário remoto, então pelo menos
um pensamento binitário. “Graça”era a saudação grega convencional, sendo “paz” seu
equivalente judaico. Paulo os combinou e os cristianizou com sua referência a Jesus.

Ação de graças (1.2-10)


Essa carta também restaura a ação de graças convencional omitida em Gálatas.
Aliás, proporcionalmente à extensão da carta, lTessalonicenses tem a mais longa
ação de graças de todas as cartas de Paulo. Aqui Paulo faz muitos elogios à igreja
tessalonicense por seu rápido crescimento e relativa maturidade, apesar da per-
seguição que experimentou. As orações de ação de graças de Paulo caracteristi-
camente introduzem temas-chave que ele desenvolverá no corpo de suas cartas.8
Neste caso, estão contempladas tanto sua gratidão pelo exemplo que a igreja se
tornou quanto sua preocupação em ensinar mais aos cristãos de Tessalônica sobre
os acontecimentos que cercam a volta de Jesus (v. 3-9 e 10, respectivamente).
Na NIV a tradução do versículo 3 é particularmente polida. O grego apresenta
simplesmente três genitivos subjetivos em paralelo: trabalho de fé, empenho de
amor e perseverança de esperança, que são transformados nas expressões bem
mais naturais: “trabalho produzido pela fé”, “empenho estimulado pelo amor”e
“perseverança inspirada pela esperança”. A tríade fé, amor e esperança também
voltará a aparecer no final da carta (5.8) e se tornará muito mais conhecida por
sua posterior aparição em !Corintios 13.13, em que o amor é o ponto culminante.

7I. Howard Marshall, 1 and 2 Thessalonians (London, Reino Unido/Grand Rapids: Marshall,
Morgan & Scott/Ecrdmans, 1983), p. 50 (edição em português: I e !lTessalonicenses: introdução
e comentário, tradução de Gordon Chown, Série Cultura Bíblica (São Paulo: Vida Nova, 2012)].
sPaul Schubert, Form andfunction o f the Pauline thanksgivings (Berlin: Topclm ann, 1939);
Peter T. O ’Brien, Introductory thanksgivings in the letters o f Paul (L eiden/N ew York: Brill, 1977).
Sobre a natureza e importância da gratidão ao longo das cartas dc Paulo de um modo mais geral,
veja David W. Pao, 'Ihanksgiving: an investigation o f a Pauline theme (Leicester, Reino U nido/D ow -
ners Grove: Apollos/IVP, 2002).
A CORRESPONDÊNCIA TESSALONICENSE: UMA VISÃO EQUILIBRADA... | 197

Paulo está particularmente impressionado com os efeitos que a mensagem


do evangelho teve nesses novos crentes, 0 que ele pode atribuir apenas ao poder
sobrenatural de Deus (v. 4,5a). Os versículos 5b e 6a introduzem um tema proe-
mínente na correspondência com os tessalonicenses e, até certo ponto, nas cartas
de Paulo em geral: o tema de imitar bons exemplos. Filósofos, mestres e líderes
religiosos no mundo de Paulo não comunicavam apenas informações; seguidores
cm potencial observavam a vida deles e decidiam se os imitariam.9 Nesse caso a
imitação ocorreu apesar do grande sofrimento, o qual presume-se que seja refe-
rência à perseguição que esses crentes experimentaram por causa de sua nova
fé (v. 6b). Quando lermos em 2Coríntios 4, 6,11 c 12 as listas de adversidades
enfrentadas por Paulo, entenderemos como, nesse aspecto, ele era um exemplo
particularmente apropriado.10*
Igualmente louvável era o fato de que a igreja em Tessalônica se tornou
exemplo para os crentes de outros lugares da Grécia (v. 7-10). Essa afirmação
pressupõe um intervalo de pelo menos alguns meses, se não mais, para Paulo
estabelecer igrejas em outros lugares da região, embora, é claro, sempre seja pos-
sível que outros esforços evangelizadores tenham precedido o seu e simplesmente
não sejam mencionados em outras passagens. Ainda que “em todos os lugares” no
versículo 8 seja um pouco hiperbólico, a expressão sugere sim que não é preciso
limitar o “eles mesmos” (v. 9) aos outros crentes. Pode muito bem ser que, quando
Paulo começou a evangelizar outras comunidades, vários judeus ou gregos lhe disse-
ram que, dada a atividade dos tessalonicenses, elesjá conheciam algo do evangelhoP
O capítulo 1 oferece um excelente resumo daquilo que estava envolvido nas con-
versões de gentios: afastar-se dos ídolos e servir ao Deus vivo e verdadeiro (v. 9).
A oração de Paulo termina com uma alusão à segunda vinda de Cristo (v. 10),
como também acontecerá com cada um dos próximos três capítulos.

As preocupações de Paulo durante e após o seu ministério


em Tessalônica (2.1—3.13)

O ministério de Paulo quando ainda estava em Tessalônica (2.1-16)


O corpo da carta de Paulo se divide em duas partes. Primeiramente Paulo des-
creve seu ministério quando esteve com os tessalonicenses. As questões que ele

, Sobre isso, veja ainda Abraham J. Malherbe, Paul and the Thessalonians: the philosophic tradi-
tion o f pastoral care (Philadelphia: Fortress, 1987).
10“Um testemunho eficaz acontece quando a igreja se torna exemplo de fidelidade em meio
ao sofrimento, ao imitar Cristo e os apóstolos” (Gregory K. Beale, 1 a n d 2 Thessalonians [Leicester,
Reino Unido/Downers Grove: IVP, 2003], p. 55).
1’Alcm disso, parece que os tessalonicenses eram ostensivamente evangelizadores e que Paulo
esperava que continuassem assim. Veja James Ware, “l h e Thessalonians as a missionary congrc-
gation: 1 Thessalonians 1,5-8”, Z N W 8 3 (1992): 126-31.
198 I PAULO E SUAS CARTAS

trata e os comentários que faz acerca deles sugerem que talvez tenha recebido
um pouco de crítica ou dentro ou fora da igreja.12Teria sido fácil para alguns
afirmarem que 0 tempo de Paulo em Tessalônica foi um fracasso, uma vez que
foi expulso bem rapidamente da cidade, ou então alegar que sua rápida saída da
cidade deu a entender sua falta de cuidado com os novos crentes. Entretanto, ele
ressalta que isso aconteceu sistematicamente com ele em outros lugares sem que
fosse considerado um fracasso, ao passo que os resultados pelos quais ele agradeceu
a Deus em 1.2-10 certamente refletem um êxito considerável (2.1,2). No mundo
helénico, muitos mestres itinerantes cobravam bastante para falar em público, 0
que levou alguns a se tornarem céticos sobre a motivação deles. Frequentemente
essas pessoas adulavam seus principais patrocinadores para assegurar apoio finan-
ceiro contínuo. Paulo nega ter se comportado como aqueles mestres (v. 3-6).13
Passando daquilo que ele e seus companheiros não fizeram em Tessalônica
(v. l-6a) para o exemplo positivo deles (v. 6b-12), Paulo agora emprega duas metá-
foras que falam da atenção dos pais a fim de enfatizar o cuidado e a preocupação
dele com esses novos crentes. Por um lado, Paulo, Silas e Timóteo foram como
uma mãe cuidando dos filhos (v. 7); por outro lado, como um pai que incentiva,
consola e exorta os filhos e as filhas (v. 11). A maneira de se reagir a essas metá-
foras depende em grande parte das experiências que a pessoa teve com os pais
humanos, mas Paulo está empregando as metáforas com um sentido inteiramente
positivo para enfatizar seu amor e compromisso profundos, afetuosos e contínuos
com seus filhos espirituais,14 ao mesmo tempo que ainda conserva a autoridade
que, em seu mundo, era associada aos pais (pai e mãe) e especialmente ao pai.15
As mesmas motivações legítimas e ilegítimas para o ministério pastoral conti-
nuam existindo hoje. Se alguém está envolvido nele principalmente por dinheiro
ou elogios, provavelmente logo o abandonará. O verdadeiro êxito exige a per-
severança que é exibida por pais comprometidos com os filhos nos bons e nos
maus momentos e pela qual muitas vezes não recebem agradecimento algum.16
Nessa seção, Paulo também destaca o quanto ele e seus companheiros trabalha-
ram arduamente de forma que não fossem um peso para os tessalonicenses (v. 9).
Com isso ele quer dizer que eles praticaram seus ofícios — no caso de Paulo,

12Jeffrey A . D . W eima, “An apology for the apologetic function o f 1 Thessalonians 2:1-12”,
J S N T 68 (1997): 73-99.
1JBruce W. W inter (“!"he entries and ethics o f orators and Paul [1 Thessalonians 2:1-12]”, Tyn-
B u i44 \ 1993]: 55-74) defende a tese de que Paulo está se oponto à comparação com os sofistas.
1'1Beverly R. Gaventa, “Our mother St. Paul: toward the recovery o f a neglected theme”, PSB
17 (1996): 3 3-36 ,42.
15Trevor J. Burke, “Pauline paternity■■ in 1 Thessalonians”, T y n B u l51 (2000): 59-80.
16Cf. esp. Jeffrey A . D . W eima, “Infants, nursing mother, and father: Paul’s portrayal o f a pas-
tor”, TynBul 52 (2001): 1-31; M . Carson, “For now we live: a study o f Paul’s leadership in 1 Thes-
salonians”, Ihemelios 30 (2005): 23-41.
A CORRESPONDÊNCIA TESSALONICENSE: UMA VISÃO EQUILIBRADA... ‫ ן‬199

fabricação de tendas (veja At 18.3) — para suprir suas próprias necessidades, em


vez de exigir sustento da nova igreja que estavam plantando.17
O versículo 7 exige uma decisão textual particularmente difícil. Muitos
manuscritos antigos trazem “bebês” em vez de “gentis”; aliás, a T N IV reverteu
a decisão da N IV (que diz “fomos brandos entre vocês”), adotando a tradução
“fomos como criancinhas”. A evidência externa favorece ligeiramente e a evidên-
cia interna favorece fortemente “criancinhas” (i.e., “bebês”). Em grego a diferença
entre as palavras “bebês” e “brandos” é de apenas uma letra (êpioi vs. nêpioi), e
é mais provável que a metáfora mais chocante com que Paulo se descreve tanto
como bebê quanto como mãe no mesmo versículo tenha sido alterada para o con-
ceito de ser brando do que a mudança tenha sido no sentido contrário.18
A primeira metade da carta de Paulo termina com uma segunda ação de
graças (v. 13-16), uma característica não encontrada na maioria das cartas de
Paulo e outra indicação das boas condições gerais da igreja tessalonicense. O
versículo 13 fornece uma pista essencial sobre por que ela cresceu tão rápido e tão
bem: os crentes reconheceram a mensagem do evangelho como as próprias palavras
de Deus operando ativamente neles para capacitá-los afazer tudo 0 que Deus exige.
Isso lhes permitiu perseverar mesmo quando perseguidos, uma característica
que associava sua experiência à da igreja na Judeia (v. 14-16).19 Com frequên-
cia os comentários de Paulo aqui têm sido equivocadamente descritos como
antissemitas, embora o erro seja compreensível à luz de suas duras palavras. No
entanto, Paulo não está condenando todo o povo judeu, apenas aqueles “que
mataram o Senhor Jesus e os profetas e também nos expulsaram” (v. 15).20 Em
outras palavras, aqueles que perseguiram os porta-vozes de Deus na época do
Antigo Testamento ou Jesus e seus seguidores na era do Novo Testamento expe-
rimentarão a ira de Deus. Essa não é uma declaração mais forte do que muitos
juízos proferidos por profetas do Antigo Testamento contra aqueles israelitas
que, em sua época, estavam se rebelando contra Deus, contudo, ninguém acusa
os autores das Escrituras hebraicas de serem antissemitas!21 Aliás, a crítica de

17Ronald F. H ock (7he social context o f P aul’s m inistry [Philadelphia: Fortress, 1980], p. 31-7)
dcscrcve as longas horas laboradas por trabalhadores manuais e o desprezo que a elite tinha pelo
trabalho deles.
18Jeffrey A. D . Weima, ‘“But we became infants among you’”, N T S 46 (2000): 547-61.
1,E possível que a perseguição específica que aflige a igreja da Judeia tenha sido a hostilidade
com que foi tratada por zelotes judeus em 48-52 d.C. (Gene L. Green, lhe Letters to the Thessalo-
nians [Grand Rapids: Eerdmans, 2002], p. 143).
20Por esse motivo, a vírgula depois de “judeus” induz cm erro e deve ser removida. Veja Frank
D. Gilliard, “The problem o f the anti-Semitic comma between 1 Thessalonians 2.14 and 15”, N T S
35 (1989): 481-502.
21Particularmente intrigantes são os paralelos conceituais e estruturais entre lTcssalonicenses
2.13-16 e T. L e v i 6 .1 -1 1 . O versículo 11 claram ente se parece com o final de IT essaloni-
censes 2.16. Veja Jeffrey S. Lamp, “Is Paul anti-Jewish? Testament o f L e v i 6 in the interpretation
200 PAULO E SUAS CARTAS

Paulo a outros “cristãos” em Gálatas, Filipenses e 2Coríntios é ainda mais dura,


mas mesmo assim é impossível Paulo ser anticristão.22*
Outra controvérsia interpretativa cerca a frase final do versículo 16. O verbo
traduzido por “veio” pode refletir o uso profético do pretérito e transmitir o sen-
tido de “virá”, referindo-se ao dia do juízo. Caso se refira a um acontecimento
realmente passado, então é provável que aponte para o início do juízo, efetivado
pela própria crucificação e ressurreição, contra os inimigos de Cristo. E claro
que é possível que Paulo tivesse em mente um pouco de cada uma dessas duas
perspectivas.22 É igualmente incerta a tradução das duas últimas palavras desse
versículo — em grego, eis telos. Poderiam significar “por fim” ou “ao máximo”, e
tanto um sentido quanto o outro podem se encaixar no contexto. Finalmente, é
interessante que o linguajar de Paulo nesse parágrafo faça paralelo com muitos
dos próprios comentários de Jesus em seus ais contra os fariseus e os escribas
em Mateus 23, em particular nos versículos 31 a 36. E bem possível que Paulo
esteja dependendo de tradição oral sobre o ensino de Jesus, uma vez que essa
carta é anterior à forma escrita de qualquer dos Evangelhos.24 Essa observação
também torna improvável a sugestão de que lTessalonicenses 2.14-16 seja uma
interpolação posterior feita por alguém que não Paulo, uma proposta que aborda
de forma bem diferente o suposto antissemitismo!25

Os sentimentos e ações de Paulo depois departir de Tessalónica (2.1 7— 3.13)


A segunda metade do corpo da carta passa do período de Paulo em Tessalónica
para os dias e semanas desde que partiu. Em 2.17—3.10, Paulo revela sua profunda
preocupação com o bem-estar dos tcssalonicenses e, em seguida, sua profunda gra-
tidão ao ouvir que eles, apesar de seu sofrimento exterior, estavam muito bem

o f 1 Thessalonians 2:13-16”, CBQ 65 (2003): 4 0 8 2 7 ‫־‬. Para reflexões perspicazes sobre a aplicação
dos versículos 13 a 16 em outras épocas c lugares, veja M ichael W. H olm es, 1 a n d 2 Thessalonians
(Grand Rapids: Zondervan, 1998), p. 86-92.
22Por esse motivo, Carol J. Schlueter (Filling up the measure:polemical hyperbole in 1 Thessalonians
2:14-16 [Sheffield, Reino Unido: SAP, 1994]) identifica o estilo retórico de Paulo como urna hipér-
bole polêmica, com notáveis paralelos nos Manuscritos do Mar Morto.
22Markus Bockm uehl (“1 Thessalonians 2:14-16 and the church in Jerusalem”, T yn B u l 52
[2001]: 1-31) defende que Paulo tem em mente a recente perseguição da igreja de Jerusalém por
Cláudio em 48-49 d.C., que foi interpretada como desencadeando uma série de juízos divinos con-
tra o judaísmo, incluindo um banho de sangue na área do Templo instigado por Ventídio Cumano
durante a semana da Páscoa, fomes esporádicas e o decreto de Cláudio para que os judeus fossem
expulsos de Roma.
24W enham , Paul: fo llo w e r o f Jesus orfounder o f C h ristia n ity? (G rand R apids/Cam bridge:
Eerdmans, 1995), p. 319-21.
25Jon A. Weatherly, “The authenticity o f 1 Ihessalonians 2.13-16: additional evidence”,J S N T 42
(1991): 79-98. Uma geração mais antiga de estudiosos muitas vezes postulava que esses versículos
eram uma interpolação não paulina, uma ideia agora cada vez mais abandonada.
A CORRESPONDÊNCIA TESSALONICENSK: UMA VISÃO EQUILIBRADA... ‫ ן‬201

espiritualmcntc. Inicialmente o próprio Paulo quis voltar a Tessalónica e fez repe-


tidos esforços para isso (2.17,18). O texto não nos conta de que maneira “Satanás
impediu” o apóstolo, embora faça sentido que este impedimento esteja relacionado
com o mesmo tipo de hostilidade que primeiro o expulsou da cidade (e não ape-
ñas em Tessalónica). Os versículos 19 a 20 completam o capítulo, explicando a
profundidade do sentimento de Paulo. Ao contrário daqueles que preferem se
gloriar em bens terrenos ou materiais, Paulo reconhece que tudo o que ele pode
levar consigo para o mundo vindouro são relacionamentos redimidos.
O texto de 3.1-3 apresenta seu plano de contingencia para voltar a visitar
os tessalonicenses. Ele enviará Timoteo para verificar o andamento das coisas e
incentivar os novos crentes. O versículo 4 parece confirmar nossa suspeita de que
o problema que estava mantendo o próprio Paulo afastado envolvia persegui-
ção. Uma tentação natural nessas circunstâncias é abandonar a fé, por isso Paulo
quer ter certeza de que os tessalonicenses não reagiram dessa maneira (v. 5).26
Felizmente, ele fica sabendo que eles têm perseverado. Aliás, a fé e o amor dos
crentes de Tessalónica permanecem fortes, assim como o desejo de verem Paulo
(v. 6-8). Naquilo que é quase uma terceira ação de graças, os versículos 9 e 10 lou-
vam a Deus pela alegria que a maturidade deles produz e oram para que Paulo
possa de fato voltar e continuar a cuidar deles.27 Os versículos 11 a 13 se tornam
uma doxologia completa, desenvolvendo esses temas. Uma vez mais um capítulo
termina com a expectativa do término do processo de crescimento cristão quando
Cristo voltar. Com quase toda certeza, os “santos” do versículo 13 são anjos, não
crentes anteriormente arrebatados. O linguajar ecoa de perto Zacarias 14.5, em
que claramente se contempla anjos. Veja também 2Tessalonicenses 1.7.

Exortações (4.1—5.28)

Vida moral (4.1-12)


O material exortativo da carta cobre 4.1—5.24. O trecho de 5.25-28 constitui o
encerramento da carta, ao mesmo tempo que ainda inclui pedidos e ordens. Paulo
começa incentivando seus amigos a continuarem a viver ainda mais de maneiras
que agradem a Deus (v. 1,2). Então, como ocorre sistematicamente nas Escrituras,
ele define a vontade de Deus em categorias morais — ser “santificado” (v. 3a) — e
aplica esse tema de santidade a uma área de grande tentação no mundo antigo
(e contemporâneo): a impureza sexual (v. 3b-8). A palavra traduzida no versículo 3

2',“Parte do catecismo básico para novos crentes era constituído de instruções sobre os sofri-
mentos que suportariam” (Green, Thessalonians, p. 161).
2'Aliás, pode se pensar cm lTcssalonicenscs 1— 3 praticamente como uma grande ação de gra-
ças interrompida por várias digressões (Jan Lambrecht, “Thanksgivings in 1 Thessalonians 1— 3”,
in: Donfried; Bcutler, orgs., The Thessalonians debate, p. 135-62).
202 I PAULO E SUAS CARTAS

como “imoralidade sexual” é porneia, que na língua grega é o mais amplo de todos
os termos para designar o pecado sexual, abrangendo todas as formas de relação
sexual fora do casamento heterossexual monogâmico.28 Um trecho de difícil tradu-
ção aparece no versículo 4, que diz literalmente “adquirir um vaso” (NIV: “contro-
lar o próprio corpo”). Uma vez que lPedro 3.7 (KJV) se refere à esposa como um
“vaso” mais fraco, alguns têm achado que Paulo estava falando de como encontrar
um cônjuge. Mas hoje em dia a maioria dos estudiosos reconhece que a expressão
é provavelmente um eufemismo para controlar o próprio comportamento sexual
e reservá-lo para um cônjuge legítimo (cf. tb. v. 5).29 Alguns têm especulado que
o versículo 6 introduz um novo tópico, uma vez que a palavra “questão” pode ser
uma referência a negócios. Contudo, em sua maior parte os comentaristas, prova-
velmente de modo acertado, entendem que “essa questão” ainda se refere à pureza
sexual (cf. v. 7,8). Uma vez mais Paulo insiste que sua instrução é a própria pala-
vra de Deus. Desse modo, rejeitá-la é rejeitar o próprio Espírito de Deus (v. 8).
Ao invés de concupiscência, o ideal é o amor verdadeiro, por isso é natu-
ral que Paulo ordene isso logo em seguida (v. 9,10). Aqui ele reconhece que os
tessalonicenses estão se saindo bem e simplesmente os incentiva a continuar a
crescer. Ofinal do versículo 10 poderla ser traduzido por “sobressair-se ainda mais”,
0 que também pode refletir 0 tema principal da carta.
Os versículos 11 e 12 ordenam aos tessalonicenses ter um viver tranquilo,
cuidar da própria vida e trabalhar com as próprias mãos.30 Pelo fato de Paulo ter
tido de ordenar alguns a fazer o próprio trabalho e não depender de mais nin-
guém, muitos têm visto aqui as sementes do problema de ociosidade que é cada
vzz maior antes de Paulo escrever 2Tessalonicenses 3.6-15. Tanto a autossufi-
ciência na comunidade cristã quanto 0 respeito por pessoas de fora são necessá-
rios. Hoje em dia temos problemas com as duas coisas. Santidade dentro efora
da igreja ajudaria bastante. “Se não podemos ser santos em nosso trabalho, não
vale a pena se dar ao trabalho de ser santos em outros momentos.”31

Perguntas sobre escatologia (4.13 — 5.11)


Finalmente Paulo chega a uma questão aparentemente doutrinai que está incomodando
os cristãos tessalonicenses. Talvez um ou mais de seus membros tenha acabado de

28Joseph F. Jensen, “D oes porneia mean fornication? A critique o f Bruce M alina”, N o v T 20


(1978): 161-84.
2‘,Cf. Robert Yarbrough, “Sexual gratification in 1 Thess 4 :1-8”, T J 20 (1999): 215-32; Jay
E. Smith, “Another look at 4Q 416 2 ii 21, a critical parallel to First Thessalonians 4:4”, C BQ 63
(2001): 499-504; e idem ,“l Thessalonians 4:4: breaking the impasse”, B B R 11 (2001): 65-105.
3"Cuidar da própria vida era justamente o oposto de se envolver em assuntos públicos ou poli-
ticos (Green, Thessalonians, p. 210).
3,León Morris, The First and Second Epistles to the Thessalonians, ed. rev. (Grand Rapids: Ecrd-
mans, 1991), p. 132, nota 48, em que cita James Denney.
A CORRESPONDÊNCIA TKSSALON1CENSE: UMA VISÃO EQUI LIBRADA... | 203

falecer.32 É bem possível que Paulo não tenha tido tempo de ensinar em detalhes
tudo o que desejaria explicar sobre a vida após a morte. Não há dúvida de que
destacou as promessas de Cristo de voltar em breve, de modo que alguns talvez
estivessem se perguntando se uma volta vinte anos depois da morte de Jesus ainda
podia ser considerada “em breve”. Quaisquer que sejam as exatas preocupações,
Paulo fornece instruções essenciais nessa seção sobre a doutrina da escatologia.
Podemos ressaltar seis idéias em particular.
1. Os cristãos não devem lamentar a perda de entes queridos cristãos de
uma maneira não cristã (v. 13). Paulo não está proibindo todo lamento; a tristeza
faz parte natural do ser humano. Mas não devemos lamentar da maneira que os
incrédulos o fazem, “os quais não têm esperança”. Epitáfios em lápides greco-
-romanas são um testemunho vivido do desespero que muitos sentiam quando
a morte se aproximava, ainda que a maioria das pessoas acreditasse em alguma
forma vaga de vida incorpórea após a morte.33
2. A razão da esperança dos cristãos é delineada no versículo 14. Os eren-
tes podem se alegrar que entes queridos cristãos vivem com Jesus e retornarão
com ele quando ele voltar. Com base em outras passagens em Paulo, fica claro
que ninguém recebe um corpo ressurreto até a segunda vinda (e.g., 1 C 0 15.23).
De maneira que aqui Paulo necessariamente quer dizer que, entre a morte e a
ressurreição, os crentes viverão com Cristo em um estado intermediário em uma
existência consciente e incorpórea.34
3. Os cristãos que estiverem vivos quando Jesus retornar não terão van-
tagem alguma sobre aqueles que já tiverem morrido (v. 15), de modo que não
precisam se preocupar se não viverem para ver a parúsia (a volta de Cristo).
Uma vez que nesse versículo Paulo escreve na primeira pessoa do plural, mui-
tos comentaristas têm defendido que ele tinha certeza de que viveria até que
Cristo voltasse. Isso exigiría que mais tarde ele mudasse de ideia, à medida
que envelhecia e não tinha certeza se viveria tanto tempo (e.g., Fp 1.22). No
entanto, o segmento de frase “nós que ainda estivermos vivos” não precisa ser tão
exato. Essa expressão pode, com igual facilidade, significar “quem ainda estiver
vivo, quer isso inclua ou não alguns de vocês ou eu”. Afinal, em 5.10, ele volta
a usar “nós”, mas considera a possibilidade de estar “acordado” ou “dormindo”
por ocasião da parúsia.35 Paulo também introduz esse versículo, e talvez os dois
seguintes, com a fórmula “segundo a palavra do próprio Senhor”. Conquanto

32Veja esp. o texto todo de Colin R. Nicholl, From hope to despair in Thessalonica (Cambridge/
New York: CUP, 2004).
33“A s esperanças são para os vivos, mas aqueles que morrem não tem esperança” (Teócrito,
Idilio, 4.42, citado em Beale, Ihessa/onians, p. 130).
34O sono era um eufemismo comum para a morte tanto no mundo judaico quanto no greco-
romano, de modo que aqui não é necessário recorrer a uma teoria do “sono da alma”.
35A . L. M oore, Theparousia in the N ew Testament (Leiden/N ew York: Brill, 1966), p. 78-9.
204 I PAULO E SUAS CARTAS

alguns entendam isso como a palavra de um profeta cristão, há paralelos sufi-


cientes com o Sermão Escatológico de Jesus (esp. em M t 24) para sugerir que
ele conhece alguma forma daquela tradição.36
4. Todos os crentes que estiverem vivos na terra quando Cristo voltar “serão
levados junto” com aqueles que o estiverem acompanhando “para encontrar o
Senhor nos ares” (v. 16,17). Esse acontecimento veio a ser chamado de “o arre-
batamento”, do latim raptus, o substantivo derivado do verbo “levar” (no sentido
de apanhar). Essa é a única passagem nas Escrituras que usa essa imagem espe-
cífica de ser levado no ar, embora o mesmo verbo grego (harpazo) apareça em
2Coríntios 12.1-4, quando Paulo é levado até o terceiro céu, ou dentro ou fora
do corpo — ele não sabe. Os teólogos têm debatido extensamente se esse é um
acontecimento diferente da volta pública, física e visível de Cristo no final da his-
tória humana. Uma vez que, em outras passagens, as Escrituras parecem ensinar
acerca de uma “grande tribulação” imediatamente antes da volta de Cristo (e.g.,
M t 24.21-28; Ap 7.14), intérpretes têm debatido a relação entre a tribulação c 0
arrebatamento, dividindo-se em pré-tribulacionistas, mesotribulacionistas e pós-
-tribulacionistas. Mas a maioria concorda que nenhum texto da Bíblia jamais fala
de tribulação e arrebatamento ao mesmo tempo, de modo que sínteses teológi-
cas de inúmeros textos são necessárias para chegar a conclusões.37
É, no entanto, interessante observar que o termo usado nessa passagem
para “encontrar” o Senhor no ar (gr., apantêsis) é a mesma palavra frequente-
mente usada para as boas-vindas e a escolta oferecidas a um rei que voltava ou
a um dignitário em visita a uma antiga cidade greco-romana. As outras duas
ocorrências dessa palavra no Novo Testamento correspondem exatamente a esse
uso. Em Mateus 25.6, as damas de honra que esperam acordam para encontrar
e acompanhar o noivo e sua nova esposa para a casa dos pais dele, onde vive-
rão juntos. Em Atos 28.15, os cristãos de Roma saem da cidade para encon-
trar Paulo na estrada c acompanhá-lo até a cidade. De modo parecido, aqui em
lTessalonicenses 4.17, a imagem sugere a interpretaçãopós-tribulacionista do arre-
batamento. Jesus está descendo do céu até a terra por ocasião da segunda vinda,
e seus seguidores formam um grupo de boas-vindas para encontrá-lo no meio
do caminho e em seguida acompanhá-lo triunfalmente à terra.38 É curioso que

“ Seyoon Kim, “The Jesus tradition in 1 Thcss. 4.13— 5.11”, N T S 48 (2002): 225-42.
17Para um guia esclarecedor sobre o debate, veja Richard R. Reiter; Paul D . Feinberg Gleason
L. Archer; Douglas J. M oo, The rapture:pre-, mid-, orpost-tribulational? (Grand Rapids: Zondcr-
van, 1984).
‫־‬,sCf. ainda Robert H . Gundry,“A brief note on ‘Hellenistic formal receptions and Paul’s use o f
λπαντηεις”, B B R 6 (1996): 3 9 -4 1 .Também é revelador que 4.15-17 c 5.1-11 reflitam uma série
contínua de referências a M ateus 24, o que sugere que, à semelhança do Discurso do M onte das
Oliveiras, ambas as passagens se referem à volta pública e final de Cristo. Veja David W enham ,
The rediscovery o f Jesus’eschatological discourse (Sheffield, Reino Unido: JSOT, 1984), p. 303-14.
A CORRESPONDÊNCIA TESSA!,ONI CENSE: I ).VIA VISÃO EQUILIBRADA... ‫ ן‬205

é justamente o ^áv-tribulacionismo aquí que dá melhor respaldo à interpretação


de que Paulo é/>n?'-milenarista. Pois qual a razão de trazer Cristo de volta à terra
a menos que seja para ele começar seu reinado terreno, que alguns tessalonicen-
ses temiam que seus falecidos irmãos em Cristo perderíam?’9
5. A mensagem de Paulo visa incentivar e consolar (4.18; cf. 5.11). Que
quaisquer discordancias que tenhamos quanto a detalhes do arrebatamento não
ousem nos dividir ou impedir a comunhão e o serviço cooperativo. A literatura
apocalíptica em ambos os testamentos visa regularmente consolar cristãos acos-
sados, não dividi-los em campos opostos de batalha!
6 .0 tempo do fim não pode ser previsto, mas podemos nos preparar para ele
(5.1-10). Aqueles que não estão esperando que Cristo volte serão pegos despre-
venidos (v. 1-3), da mesma maneira que chegam de surpresa um ladrão que vem
arrombar de noite ou o início das dores de parto em uma mulher grávida. Com-
parar a volta de Cristo a um ladrão é um símile tão impressionante que, com pra-
ticamente toda certeza, Paulo está ecoando a tradição sobre Jesus (veja M t 24.43).
Tanto Jesus quanto Paulo destacaram que é impossível prever o momento da
parúsia, mesmo que ao longo da história da igreja crentes demasiadamente impa-
cientes tenham, com frequência, ainda assim tentado fazê-lo. No mínimo, o fim
virá em um momento quando nenhum sinal levar as pessoas a esperá-lo. “Paz e
segurança” (v. 3) era um slogan ou lema da época de Augusto, indicando a segu-
rança gerada pela pax romana.^ Mas nenhum governo pode proporcionar a paz
verdadeira que permeará a terra só depois da volta de Cristo. Entretanto, o que os
crentes podem c devem fazer é permanecer alertas e viver de modo piedoso para
que, quando quer que chegue o fim, eles estejam prontos (v. 4-11). O versículo 4
“não significa que a igreja saberá quando esse dia virá, mas na verdade esclarece
que os cristãos são aqueles que estão preparados para esse acontecimento final”.39*41
A tríade paulina de fé, amor e esperança torna a aparecer aqui, agora usando metá-
foras da armadura de um soldado (v. 8), originalmente baseadas em Isaías 59.17.

Instruçõesfinais (5.12-22)
Paulo conclui sua exortação com mais ordens variadas, em diversos aspee-
tos parecidas com listas de conclusão em outras cartas (cf. esp. Rm 12.9-21).
Talvez essas fossem preocupações relativamente usuais.42 No entanto, certas

39Seth Turner, “The interim, earthly messianic kingdom in Paul”,/S7V T 25 (2003): 323-42,
esp. 326-32.
*Khiok-Khng Yeo (“A political reading o f Paul’s eschatology in I and II Thessalonians”, A J T 12
[1998]: 77-88) mostra como grandes trechos de ambas as cartas, incluindo as análises de epifanía,
parúsia e apocalipse, devem ter sido ouvidos como contrapontos aos papéis e funções do imperador.
41Green, Thessalonians, p. 235.
42Para um quadro comparativo dos paralelos entre Romanos, IPedro e ITessalonicenses, veja
Marshall, Thessalonians, p. 145-6.
206 I PAULO E SUAS CARTAS

admoestações têm relação com as circunstâncias peculiares em Tessalônica, em


particular o lembrete para trabalhar arduamente (v. 12) e advertir os ociosos
(v. 14).43 Umas poucas outras ordens merecem um breve comentário, uma vez
que podem ser facilmente interpretadas de modo equivocado. “Agradeça em
todas as circunstâncias” (v. 18) não significa agradecer por tudo o que acontece,
como se devéssemos ser gratos pelo mal assim como pelo bem. Pelo contrário,
conforme esclareceremos no comentário sobre Romanos 8.28, Deus está ope-
rando para tirar algum tipo de bem de todas as situações, até mesmo das más,
e é por isso que podemos agradecer-lhe.
O versículo 22, em particular na KJV (“abstende-vos de toda a aparência
do mal”), tem induzido muitos em erro, dando a entender que até boas ações
devem ser evitadas, caso de alguma maneira outros possam interpretá-las erro-
neamente. Contudo, no grego, a palavra traduzida por “aparência” (eidos) não
significa algo que pareça aquilo que não é (como na frase “a sombra à frente na
estrada tinha a aparência de uma poça d’água”), mas a presença real de algo (i.e.,
“a aparição”). Por esse motivo, a NIV acertou o sentido com sua tradução “evi-
tem todo tipo de mal”.‘'4

Orações e saudaçõesfinais (5.23-28)


Nos versículos 23 e 24, Paulo conclui essa carta com uma oração pela santificação
completa de seus leitores. Não se deve pensar em espírito, alma e corpo como
três partes separadas do ser humano; em outras passagens das Escrituras o sign¡-
ficado de “alma” c “espírito” se sobrepõe bastante para se referir à parte imaterial
da pessoa. Em vez disso, essa é uma maneira vivida de se referir à pessoa em sua
totalidade.45 De outra maneira, seria necessário entender que Marcos 12.30 —
que nos ordena a amar a Deus de coração, alma, mente e força — divide a pes-
soa em quatro partes, ao passo que Hebreus 4.12 sugeriría uma divisão séxtupla
(alma, espírito, juntas, medula, pensamentos e atitudes)!
Nas palavras finais de Paulo (v. 25-28), duas questões merecem ser men-
donadas. O ósculo santo desempenhava um papel central no culto cristão dos
primordios. Ñas antigas culturas mediterráneas era uma saudação-padrão entre
amigos próximos e membros da familia, como ainda é em várias partes do mundo,
e não tinha conotações sexuais. A injunção no versículo 27 nos lembra que essa
carta, como presumivelmente todos os livros do Novo Testamento, era original-
mente para ser lida em voz alta a uma congregação do povo de Deus.

43O u talvez o termo (ataktoi) deva ser traduzido como “indisciplinados" (Beale, Thessalonians
p. 163).
44Cf. Malherbe, Letters to the Thessalonians, p. 334.
',5Earl J. Richard, First and Second Thessalonians (Collegeville: Liturgical, 1995), p. 285-6.
A CORRESPONDÊNCIATESSALONICENSE: UMA VfSÀO EQUILIBRADA... ‫ן‬ 207

OS TESSALONICENSES E A VOLTA DE CRISTO


2 T e s s a lo n ic e n s e s :
m a s n ã o tã o b re v e !

INTRODUÇÃO

Autoria
mbora nenhum estudioso sério duvide que Paulo escreveu Gálatas ou
ITessalonicenses, cerca de metade dos eruditos bíblicos acredita que 2Tessalo-
nicenses é obrapseudônima. Há sete razões principais para atribuir a autoria
a alguém que não seja Paulo: (1) A Primeira e a Segunda Carta aos Tessaloni-
censes são extremamente parecidas entre si por conterem duas ações de graças
(em que a primeira ação de graças é desproporcionalmente longa, e a segunda é
um pedido de oração), os mesmos tópicos gerais ao longo do corpo da carta, os
mesmos elementos na conclusão na mesma sequência e, em boa parte, o mesmo
vocabulário e estilo. Argumenta-se que é improvável que a mente fértil e criativa
de Paulo tivesse escrito para a mesma comunidade duas cartas com tão poucas
diferenças. (2) A segunda carta não revela, ao contrário da primeira, a mesma
estreita relação entre o autor e sua igreja. (3) A segunda carta não contém, ao
contrário da primeira, a mesma rica gama de temas teológicos, tendo estreitado
0 foco quase exclusivamente para a escatologia. (4) De modo parecido, as preo-
cupações éticas de 2Tessalonicenses foram reduzidas unicamente à questão de
ociosidade ou vida desleixada. (5) O curto intervalo entre as duas cartas, 0 qual
é exigido pela pressuposição de que Paulo escreveu ambas, deixa pouquíssimo
tempo para as cartas espúrias escritas em seu nome serem escritas e enviadas
(cf. 2Ts 2.2,15). (6) A mudança na situação também parece exigir mais tempo
transcorrido. Na primeira carta, parece que os problemas giram em torno da
demora da volta de Cristo; agora parece que alguns estão afirmando que ela já
aconteceu! (7) Parece que 2Tessalonicenses depende de tradição já existente mais
do que a primeira carta, em particular no que diz respeito a convicções judaicas
e cristãs sobre o Anticristo (2.3-10).46
Nenhum desses argumentos parece particularmente forte. Semelhanças tanto
no estilo quanto na forma seriam naturais se Paulo teve de se dirigir à mesma
comunidade a respeito de vários dos mesmos tópicos. Caso a situação tivesse
se deteriorado, seria igualmente natural que Paulo empregasse um tom mais

Í6C£ ainda Beverly Gaventa, First and Second Thessalonians (Louisville: VVJKP, 1998), p. 93-7;
Bonnie Thurston, Reading Co/ossians, Ephesians and 2 Thessalonians (N ew York: Crossroad, 1995),
p. 159-62.
210 I PAULO E SUAS CARTAS

distante e menos pessoal. De modo parecido, sua atenção teria de se concentrar


nas questões mais urgentes em foco. A questão de quanto tempo é necessário
entre as duas cartas depende bastante da interpretação de 2Tessalonicenses 2.2
e 2.15. Se essas são referências a documentos apócrifos, é possível que a lógica
dos céticos tenha algum fundamento. Mas veremos abaixo que é possível inter-
pretar esses versículos como referência a uma leitura equivocada de lTessaloni-
censes, em cujo caso não é preciso mais tempo a não ser aquele necessário para a
intensificação da perseguição dos crentes em Tessalônica. Quanto ao uso de tra-
dição preexistente, seja judaica ou cristã, Paulo não exibe ao longo de suas cartas
nenhum padrão sistemático de quando depende fortemente desse material e de
quando segue do seu próprio jeito.
Por esse motivo, o debate sobre as evidências internas não prova quase nada.
Entretanto, as evidências externas a favor da autoria paulina dessa carta são fortes:
Policarpo, Inácio, Justino e a Didaquê conheciam a carta na primeira metade do
segundo século. Em meados do segundo século, os cânones de Marcião e Mura-
toriano a incluem. Ireneu, no final do segundo século (Contra as heresias 26.4), e
os pais da igreja posteriores a citam invariavelmente como paulina.47 Para aque-
les que não estão convencidos por esses argumentos, 2Tessalonicenses muito
provavelmente reflete a resposta para um novo problema — o do fervor apoca-
líptico em Tessalônica — dada por um escritor pertencente à escola paulina de
pensamento na geração posterior a Paulo.48 Contudo, não causa surpresa que o
mais recente e detalhado comentário escrito em uma perspectiva crítica sobre
essas cartas não apenas defenda a autoria paulina, mas também conclua que não
é razoável chamar pseudônima uma carta que (1) trata de comunicação anterior
atribuída ao autor, (2) refere-se ao que o autor ensinou oralmente e em carta, e
(3) enfatiza sua própria autenticidade (2.2,15; 3.17). Essa conclusão, que dá res-
paldo à autoria paulina, parece a mais sólida.49

Sequência das cartas


A maiorparte da história da igreja tem pressuposto que 2Tessalonicensesfoi escrita depois
de ITessalonicenses. Isso é verdade, quer se aceite Paulo como seu autor, quer não.
Porém, conforme vimos, o motivo principal para a inclusão dessas duas cartas
nessa sequência no cânon bíblico parece ser a extensão decrescente, e não a ordem
cronológica. Assim, de tempos em tempos um punhado de estudiosos tem pro-
posto que a segunda carta na verdade veio antes da primeira.50 Cinco argumentos
principais dão sustentação a essa ideia: (1) Várias passagens em ITessalonicenses

47David J. W illiams, 1 a n d 2 Thessalonians (Peabody: Hendrickson, 1992), p. 13.


48Earl J. Richard, First and Second Thessalonians (Collegeville: Liturgical, 1995), p. 2 5 -9 ,3 2 .
49Malherbe, Letters to the Thessalonians, p. 373.
50Veja csp. Wanamaker, Thessalonians, p. 37-45.
A CORRESPONDÊNCIATESSALONICENSE: UMA VISÃO EQUILIBRADA... | 211

parecem pressupor uma correspondência anterior com Paulo. A expressão “agora


a respeito de” (lT s 4.9; 5.1) parece introduzir respostas a perguntas levanta-
das anteriormente pelos destinatários (cf. 1C0 7.1), ao passo que é possível que
lTessalonicenses 3.1,2 se refira a Paulo enviando Timóteo com uma carta anterior.
(2) A perseguição abordada em 2Tessalonicenses ainda parece estar ocorrendo
(1.4-7), ao passo que em lTessalonicenses parece ser coisa do passado (2.14).
(3) Da mesma maneira, o problema de desordem em 2Tessalonicenses 3.11-15
também parece ser algo novo, ao passo que em lTessalonicenses 4.10-12 é tra-
tado como um problema conhecido. (4) O texto de 2Tessalonicenses 3.17 não é
verdade caso lTessalonicenses o preceda, pois naquela carta Paulo não ressalta
uma saudação de próprio punho no final. (5) O texto de lTessalonicenses 5.1
(sobre os leitores não precisarem de instrução sobre o fim dos tempos) faz mais
sentido se 2Tessalonicenses 2.1-12 o precedeu.
Mesmo quando analisados em conjunto, esses argumentos parecem rela-
tivamente fracos. Nada em (1) aponta inquestionavelmente para lTessaloni-
censes como parte de qualquer correspondência anterior. No que diz respeito a
(2), a maioria dos leitores tem entendido que a perseguição piorou da primeira
para a segunda carta, e, com essa pressuposição, não há nada que soe estranho.
Com a sequência padrão das cartas o problema da ociosidade também faz sen-
tido. (Quanto à questão 3, de modo parecido, aquele problema também teria
se deteriorado da primeira carta para a segunda.) A ideia referente a (4) não
é que, no final de todas as cartas, Paulo chame a atenção para sua saudação,
mas apenas que, em cada ocasião, ele apanha sim a pena na mão para escre-
ver essa saudação. Gálatas 6.11 confirma a prática; não há motivo algum pelo
qual lTessalonicenses 5.25-28 não pudesse ser um segundo caso, sem que Paulo
tivesse específicamente indicado isso. E certo que em suas cartas posteriores ele
não “assina” de maneira explícita. Q uanto a (5), não se pode forçar o texto de
lTessalonicenses 5.1, uma vez que, de qualquer maneira, Paulo está no processo
de dar instrução escatológica detalhada.51

Data
O que uma análise como essa demonstra é que dentro das duas cartas não há
praticamente evidência conclusiva alguma para comprovar a sequência delas. Não
obstante, em vez de quaisquer argumentos fortes contrários, a abordagem ado-
tada pela imensa maioria de comentaristas, em especial na igreja primitiva, não
deve ser deixada de lado sem mais nem menos. Partiremos, portanto, da pressu-
posição de que a ordem canônica dessas duas cartas é também a ordem crono-
lógica. Nesse caso, 2Tessalonicenses teria sido escrita provavelmente não muito

slCf. ainda Williams, 1 a n d 2 7hessalonians, p. 13-5. Sobre 0 uso da tradição em 2Tessalonicenses,


veja G. S. Holland, lhe tradition that you receivedfrom us (Tubingen: Mohr, 1998).
212 I PAULO E SUAS CARTAS

depois da primeira carta e, por esse motivo, presumivelmente enquanto Paulo ainda
estava em Corinto (e recorde que ele permaneceu ali pelo menos um ano e meio,
At 18.11). De qualquer maneira, Corinto é o único lugar que Atos diz expli-
citamente que a partir dali Paulo e Silas estão juntos (cf. 2Ts 1.1). As datas de
2Tessalonicenses variam, portanto, de 50 a 52, sendo 51 ou 52 as mais prováveis.

Antecedentes e gênero
A mensagem que, por meio de 1 Tessalonicenses, Paulo parece ter comunicado com êxito
a respeito daparúsia é que ninguém precisava duvidar da promessafeita por Cristo
de voltar em breve. No entanto, é bem possível que os tessalonicenses tenham reagido
exageradamente, porque a essência da mensagem de sua segunda carta é ,‘mas não tão
breve!". Paulo faz referência a “alguma profecia, relato ou carta supostamente
procedente de nós, dizendo que o dia do Senhor já chegou” (2Ts 2.2). A origem
dessa afirmação poderia ser de círculos quase gnósticos que acreditam cm uma
ressurreição espiritual invisível de todos os cristãos que ocorreu por ocasião da
conversão e não deixava mais necessidade alguma de uma ressurreição física pos-
terior.52 No entanto, também é possível que as palavras de Paulo se refiram a uma
interpretação equivocada e a uma reação exagerada à primeira carta de Paulo. O
grego desse versículo diz literalmente “um espírito, palavra ou carta, como por
meio de nós, como se o dia do Senhor tivesse chegado”. I. H. Marshall explica
que o mais provável é que a expressão “como por meio de nós” acompanhe todos
os três substantivos que a precedem, “e que ela não se refere às fontes do ensino
serem ou não realmente paulinas, mas, sim, a se a mensagem atribuída a Paulo
era ou não uma representação fiel de seu ensino”.53*5
Em 3.6, Paulo fala daqueles que são ociosos (ou indisciplinados; veja acima).
Muitas vezes tcm se interpretado que essas pessoas eram crentes que pararam
de trabalhar porque achavam que Cristo voltaria imediatamente. Então, quer
Paulo esteja se dirigindo àqueles que receiam terem perdido a parúsia, quer ape-
nas àqueles que acham que está bem próxima, ele usa o corpo da carta para

52Cf. os seguintes trechos do Tratado sobre a ressurreição, 46-9: “O pensamento daqueles que
são salvos não perecerá. A mente daqueles que o conheceram não perecerá”. “Mas há alguns (que)
desejam entender, na investigação sobre aquelas coisas que estão examinando, se aquele que c salvo,
caso deixe o corpo para trás, será salvo ¡mediatamente. Q ue ninguém tenha motivo para duvidar
disso f...] aliás, os membros visíveis que estão mortos não serão salvos, pois (somente) os [mem-
bros] vivos que existem dentro deles ressuscitarão.” “Aliás, é mais apropriado dizer que o mundo
c uma ilusão, e não a ressurreição que veio a existir por meio de nosso Senhor, o Salvador, Jesus
Cristo.”“Portanto, não [...] vivam em conformidade com essa carne [...] mas fujam das divisões e
dos grilhões, e vocês já têm a ressurreição. Pois, se aquele que morrer sabe a respeito de si mesmo
que morrerá — mesmo que passe muitos anos nesta vida, é levado a isso — , por que não se con-
siderar ressuscitado e (já) levado a isso?”
55Marshall, Ihcssalonians, p. 187.
A CORRESPONDÊNCIATESSALONICENSK: UMA VISÃO EQUILIBRADA... ‫ ן‬213

lembrá-los de que, antes que Cristo possa voltar, várias coisas precisam ocorrer
primeiro. Embora, assim como em lTessalonicenses, haja elementos de exor-
tação e consolação, no geral o gênero da carta não se encaixa tão claramente
em uma categoria epistolar definida do antigo mundo mediterrâneo. Contudo,
podemos pensar nela como uma carta de orientação, pois Paulo aconselha os
tessalonicenses a não imaginar que perderam o dia do Senhor, e sim a se man-
terem distantes dos ociosos.54 Porém, com visivelmente menos elogios, a retó-
rica é mais sistematicamente deliberativa.

Estrutura
Assim como em lTessalonicenses, Paulo segue de perto a forma padrão de car-
tas greco-romanas, com introdução, ação de graças, corpo da carta (dividido em
informação e exortação) e conclusão. Por questão de simplicidade, podemos juntar
a introdução e a ação de graças e anexar a conclusão às exortações finais. Segue-
-se um esboço em três partes, com uma seção principal por capítulo.

I. Introdução (1.1-12)
A. Saudação (1.1,2)
B. Ação de graças (1.3-12)
II. Mais sobre a parúsia: ainda há sinais por vir (2.1-17)
A. Tese (2.1,2)
B. Sinais que ainda precisam ocorrer (2.3-7)
C. Juízo contra os incrédulos (2.8-12)
D. Fidelidade ordenada aos crentes (2.13-17)
III. Conclusão (3.1-18)
A. Exortações (3.1-15)
B. Orações e saudações finais (3.16-18)

COMENTÁRIO

Introdução (1.1-12)

Saudação (1.1,2)
Assim como em sua carta anterior, Paulo, Silas e Tim óteo indicam que cola-
boraram para escrever essa carta (quanto às opções sobre o que isso envolveu,
veja acima, p. 196). No geral, essa saudação é exatamente igual à abertura de
lTessalonicenses, exceto pelo fato de que nossos autores acrescentam uma segunda
referência a Deus e a Jesus.

s4Cf. Wanamaker, Thessalonians, p. 48; Maarten J. J. M enken, 2 Thessaloniam (London, Reino


Unido/Ncw York: Routlcdgc, 1994), p. 20.
214 I PAULO E SUAS CARTAS

Ação de graças (1.3-12)


Mais uma vez segue uma oração de ação de graças teologicamente rica, pessoal-
mente vigorosa e relativamente detalhada. Os paralelos com a primeira carta con-
tinuam quando Paulo e os companheiros agradecem a Deus pela fé, pelo amor
e pela perseverança desses cristãos (v. 3,4). Conquanto “esperança” não apareça
explicitamente, seguramente o conceito de perseverança está baseado nela. Mas
a ideia que obtemos com o final do versículo 4 é que as perseguições desenca-
deadas contra os tessalonicenses vêm sendo cada vez mais severas. Embora o fato
em si de os crentes serem maltratados não demonstre sua maturidade ou fide-
lidade (pessoas podem ser hostilizadas simplesmente por terem um comporta-
mento insuportável!), testemunhas ativas da fé cristã experimentarão, cedo ou
tarde, alguma hostilidade (v.5).5‫ י‬Uma chave para perseverar nessas dificuldades
(e não reagir cm retaliação) é reconhecer os terríveis juízos que um dia os inimi-
gos de Deus enfrentarão, caso nunca se arrependam (v. 6).556 5 O dia do juízo tam-
bém trará alívio e recompensa derradeiros ao povo de Deus (v. 7).
Os versículos 8 e 9 passam a detalhar o castigo que os inimigos de Deus
recebem. Essas pessoas são definidas de duas maneiras complementares. De
um ponto de vista relacionai, elas não conhecem a Deus; de uma perspectiva
comportamental, não obedecem ao evangelho (v. 8). É claro que a exigência fun-
damental do evangelho que precisa ser seguida não é alguma boa obra específica,
mas a fé em Jesus Cristo. O versículo 9 oferece uma das mais claras declarações
nas Escrituras sobre o destino eterno dos perdidos. Conquanto outros textos
frequentemente se refiram a fogo inextinguível ou a trevas exteriores — con-
ceitos que, caso entendidos em sentido literal, não podem ser simultaneamente
verdadeiros57 — , aqui temos uma descrição inequivocamente üteral: “destruição
eterna e exclusão da presença do Senhor e da majestade do seu poder”. Alguns
têm defendido que “destruição eterna” sugere a doutrina da aniquilação, mas 0
único outro uso dessa expressão em textos judaicos relacionados à Bíblia aparece
em 4Macabeus 10.15, que claramente faz referência a sofrimento interminá-
vel na vida após a morte.58 Em contrapartida, o versículo 9 ensina que todos os
incrédulos serão separados de Deus e de todas as coisas boas, o que deveria ser

55Muitas vezes sc pensa que é o fato de os crentes suportarem a aflição que aponta para o justo
juízo de D eus, mas isso pode ser simplesmente a própria aflição. Veja Jouette M . Bassler, “The
enigmatic sign: 2 Thessalonians 1:5”, CBQ 46 (1984): 496-510.
56“A ênfase na vingança de Deus c calculada para incentivar irmãos e irmãs diante de grande
adversidade, proporcionando-lhes uma perspectiva escatológica que os capacitará a avaliar corre-
tamente sua atual situação” (Green, Thessalonians, p. 287).
57Essa c a opinião de George E. Ladd,ví theology o f the N ew Testament, cd. rev. (Grand Rapids:
Eerdmans, 1993), p. 196 [edição em português: Teologia do Novo Testamento, ed. rev., tradução dc
Degmar Ribas Júnior (São Paulo: H agnos,2003)].
,8Beale, Thessalonians, p. 188.
A CORRESPONDÊNCIA TESSALON1CENSE: UMA VISÃO EQUILIBRADA... | 215

suficiente para levar qualquer pessoa a querer evitar esse destino.59 O versículo 10
reafirma uma vez mais que esse juízo final acontecerá quando Cristo retornar,
quando os crentes podem voltar a atenção para a sua glorificação (sobre isso,
veja ainda p. 344).

Mais sobre a parúsia: ainda há sinais por vir (2.1-17)

Tese (2.1,2)
Os dois primeiros versículos do capítulo 2 constituem a tese da carta. Paulo precisa
insistir que os tessalonicenses rejeitem qualquer afirmação de que o dia da volta
do Senhor já veio. A expressão “sermos reunidos com ele” (v. 1) sugere natural-
mente o mesmo acontecimento de lTessalonicenses 4.17, isto é, o arrebatamiento.
E revelador que Paulo não diga que é impossível que sua igreja tivesse perdido a
volta de Cristo porque ela precisava ser precedida por um arrebatamiento secreto
em que os crentes são tirados da terra. No entanto, caso Paulo cresse em um
arrebatamento antes da tribulação, isso seria a coisa óbvia a se dizer: enquanto
todos os cristãos vivos ainda estiverem neste mundo, é impossível o fim ter che-
gado. Entretanto, se no entendimento de Paulo o arrebatamento devia ocorrer
ao mesmo tempo que a volta de Cristo (veja acima, p. 203-5) e se alguns dos
tessalonicenses haviam adotado equivocadamente a noção de que Cristo pode-
ria retornar sem que todos o vissem, então o erro deles é compreensível.60 Em
vista de que o gnosticismo posterior acreditava em uma ressurreição espiritual
na qual a nova era irrompia neste mundo e os crentes eram aperfeiçoados sem
uma intervenção cataclísmica, visível e universal vista por todos, como é o caso
da volta pública do Senhor, é possível que aqui os tessalonicenses tenham sido
induzidos em erro a adotar idéias parecidas.

Sinais que ainda precisam ocorrer (2.3-7)


Para corrigir essa escatologia equivocada, Paulo delineia acontecimentos específi-
eos que são relacionados com o fim dos tempos e ainda precisam acontecer. Dois
em particular são dignos de nota. Primeiro, é necessário que seja revelado 0 “homem
da iniquidade"que está 'destinado à destruição" (v. 3,4). A descrição desse indivíduo
vincula-o à difundida expectativa judaica de um arqui-inimigo de Deus surgir

59Esse versículo não contesta a onipresença de Deus, apenas que seu consolo permanece indis-
ponível para as pessoas no inferno. Veja Charles L. Quarles, “The Ά Π Ο o f 2 Thessalonians 1:9
and the nature o f eternal punishment”, W TJ 59 (1997): 201-11.
60Ό versículo aqui lança por terra a noção popular de que de alguma maneira o arrebatamento
da igreja ocorrerá antes da tribulação” (Green, Thessalonians, p. 301, nota 4). Diante da objeção de
que, se ainda houver sinais que devem acontecer, a volta de Cristo não pode acontecer a qualquer
momento, Beale ( Thessalonians, p. 204-5, nota) observa que os sinais podem ocorrer com tanta
rapidez que eles simplesmente introduzem a volta de Cristo e fazem parte dela.
216 I PAULO 1CSUAS CARTAS

logo antes da era messiânica. Essa parece ser a mesma pessoa a quem João mais
tarde se referirá como o Anticristo ( 1 J 0 2.18) e como a “besta que vem do mar”
(Ap 13.1). Esse indivíduo surgirá por ocasião da “rebelião” (gr., apostasia — um
“afastamento”), o que, pelo contexto, provavelmente significa uma revolta contra
Deus e a autoridade da lei.61 Ele se estabelecerá “no templo de Deus”, uma des-
crição reminiscente da profanação do templo judaico pelo governante selêucida
Antíoco Epifânio em 167 a.C. e da tentativa fracassada do imperador romano
Caligula de erguer estátuas de si mesmo naquele mesmo edifício em 40 d.C.
Alguns têm pensado que 0 cumprimento da profecia de Paulo exige a recons-
trução do templo na Jerusalém de hoje. No entanto, o único aspecto exclusivo do
templo era seu papel como lugar de sacrifício para o perdão dos pecados; o culto
semanal podia se dar e de fato se dava em sinagogas locais. E é difícil harmo-
nizar o restabelecimento de sacrifícios de animais com o claro ensino do Novo
Testamento de que Cristo acabou definitivamente com eles (veja esp. Elb 10.18;
cf. o texto todo de H b 7— 10). Aliás, todos os demais usos paulinos dessa pala-
vra com o sentido de “templo” {naos) são metafóricos, referindo-se aos cristãos
ou individual ou coletivamente (ICo 3.16,17 [2x]; 6.19; 2C0 6.16 [2x]; E f 2.21).
Talvez o Anticristo surja de dentro de uma igreja que se professa cristã, inicial-
mente fazendo-se passar por crente de verdade. Ou talvez todas essas idéias sejam
literais demais e Paulo esteja simplesmente destacando a total oposição dessa
pessoa a toda verdadeira adoração a Deus.62
O segundo sinal-chave que ainda deve aparecer envolve um “detentor" que tem de
ser removido (v. 5-7). Alguém (a palavra é masculina no v. 7) e/ou alguma coisa
(a palavra é neutra no v. 6) está, no presente momento, detendo o homem da
iniquidade, impedindo sua aparição, e essa pessoa ou poder precisa ser tirado do
meio do caminho. Com frequência os pré-tribulacionistas têm entendido que o
detentor é a igreja, mas a palavra grega para igreja (ekklêsia) é feminina, de modo
que a interpretação não se presta. Muitos identificam o detentor com o impera-
dor e o governo imperial da época de Paulo (ou com qualquer uma das inúmeras
potências mundiais subsequentes). O u então a referência poderia ser ao próprio
Deus, agindo talvez por meio de seu Espírito Santo.63

61Era frequente os dispensacionalistas mais antigos defenderem que a apostasia era o mesmo
que levar os crentes embora no arrebatamento, mas cm nenhuma passagem do Novo Testamento
a palavra tem um significado nem mesmo remotamente parecido. Veja ainda E F. Bruce, 1 and 2
Ihessalonians (Waco: Word, 1982), p. 166-7.
62Cf. Bruce, Ihessalonians, p. 169: “Uma maneira marcante de dizer que ele planeja usurpar a
autoridade de Deus [...] ele exige não apenas a obediência, mas também a adoração devida apenas
a D eus”. Cf. tb. Marshall, Ihessalonians, p. 191-2: “A manifestação culminante do mal com o um
poder antiteísta que usurpa o lugar de Deus no mundo”.
“ O u por meio de um representante angélico. Cf. C. N icoll, “M ichael, the restrainer removed
(2 Thess. 2:6-7)‫״‬, J T S 51 (2000): 27-53.
Λ CORRESPONDÊNCIATESSALONICENSE: UMA VISÃO EQUILIBRADA... ‫ ן‬217

Juízo contra os incrédulos (2.8-12)


Qualquer que seja a maneira de interpretarmos essas alusões, o restante desse capí-
tulo nos dá duas garantias significativas. Em primeiro lugar, todos os ímpios serão
julgados. Quando o Anticristo finalmente aparecer, seu tempo será curto porque
Cristo voltará rapidamente e o destruirá (v. 8). Ainda assim, seus milagres falsos
terão enganado muitos daqueles que não conhecem a Cristo (v. 9,10a). De novo
Paulo descreve os perdidos a partir de perspectivas complementares. Nada menos
que três agentes pessoais diferentes desempenham um papel naqueles que não vêm
à fé em Jesus. As próprias pessoas são responsáveis porque se recusam a amar a
verdade (v. 10b). No entanto, Deus também as confirma em sua rejeição ao evan-
gelho (v. 11,12; cf. ainda o comentário sobre Rm 1.24,26,28), ao passo que Satanás
desempenha um papel intermediário por ser o agente mais direto do engano (v. 9).
0 versículo 12 também apresenta duas frases complementares que descrevem aque-
les que se recusam a amar a verdade: não creram e tiveram prazer na maldade. Em
nossa mente finita e caída não entendemos como todas essas afirmações podem
ser simultaneamente verdadeiras. Apesar disso, as Escrituras costumeiramente as
mantêm lado a lado, e, por esse motivo, nós também precisamos fazê-lo.64

Fidelidade ordenada aos crentes (2.13-17)


A segunda garantia é mais positiva. Os crentes foram escolhidos e chamados por
Deus para serem salvos. Analisaremos mais detalhadamente a eleição ou predes-
tinação junto com Romanos 8— 9 e Efésios 1, mas aqui já podemos observar que
as escolhas de Deus jamais passam por cima da liberdade humana ou eliminam a
responsabilidade humana.65 Os meios pelos quais as pessoas são salvas são, de uma
perspectiva divina, “a obra santificadora do Espírito”, mas da perspectiva humana,
“crença na verdade” (v. 13).66 Dessa maneira, Paulo pode ordenar aos tessalonicenses
que permaneçam firmes em sua fé (v. 15). Assim como no final do corpo da carta
em lTessalonicenses, aqui também Paulo conclui com uma doxologia (v. 16,17).

Conclusão (3.1-18)

Exortações (3.1-15)
Paulo pede orações para que sua pregação do evangelho continue a produzir fru-
tos e que ele seja protegido da oposição (v. 1,2). Presume-se que ele esteja, em

64Uma vez que Satanás está subordinado a Deus e seus poderes estão limitados por Deus, suas
ações podem ser usadas c redirecionadas por Deus para atender aos propósitos de Deus (cf. Williams,
1 and2 Thessalonians, p. 130-1).
65W illiam W. Klein (“Paul’s use o f kalein·. a proposal”,J E T S 27 [1984]: 53-64) entende que
aqui, e em todos os textos de Paulo, “chamado” c um termo técnico que significa “designar” aque-
les que são o próprio povo de Deus.
“ Cf. ainda Malherbe, Letters to the Thessalonians, p. 426.
218 I PAULO E SUAS CARTAS

retribuição, orando pelos tessalonicenses, e fazendo-o confiadamente porque crê


na fidelidade de Deus em responder aos mesmos dois pedidos em favor deles
(v. 3,4). Entretanto, uma prioridade ainda mais importante é a espiritualidade
deles: permanecer no amor de Deus (v. 5).
A principal advertência nessa seção exortativa volta a tratar do problema dos
ociosos ou indisciplinados (v. 6-15). Paulo ordena à igreja que se mantenha longe
dessa pessoa, caso ela se recuse a procurar trabalho (v. 15). Em geral, o entendí-
mento tem sido de que esses indivíduos eram aqueles que achavam que a parú-
sia estava tão próxima a ponto de não precisarem mais trabalhar. Com tempo
excessivo à disposição, eles acabavam interferindo nos assuntos dos outros, de
maneira que no versículo 11, em um jogo de palavras preservado na NIV, Paulo
pode explicar “eles não estão ocupados; estão ocupados com a vida dos outros”.
Uma explicação sociológica mais recente tem granjeado maior respaldo: essas
pessoas eram parte do grande número de tessalonicenses pobres que dependiam
financeiramente de doações de “senhores” ricos, aos quais prestavam uma varie-
dade de serviços eventuais. Paulo estaria, então, tentando afastar essas pessoas
da dependência do clientelismo — no mundo greco-romano o equivalente mais
próximo da assistência social — e dizendo-lhes para, em vez disso, encontrarem
um trabalho idôneo de tempo integral.67Talvez estivessem envolvidos elementos
de cada uma dessas abordagens.68
Assim como fez em lTessalonicenses 2, Paulo volta a destacar seu exem-
pio de ganhar o próprio sustento enquanto plantava a igreja, de maneira que não
teve de depender de ninguém para seu sustento financeiro (v. 7-9). O versículo 10
é facilmente interpretado de modo errado; ele não quer dizer que todos os cris-
tãos desempregados devam morrer de fome! O grego não usa o tempo futuro do
verbo “trabalhar”, mas emprega um verbo totalmente diferente com o sentido de
“desejar”. Uma tradução menos ambígua seria “Qualquer um que não esteja dis-
posto a trabalhar não deve comer”. Paulo não está se opondo a atos de bondade
(ou à assistência social) para com os necessitados que tentam, mas não conseguem
encontrar emprego. Aliás, talvez haja até um contexto mais específico para esse
versículo. Robert Jewett cita evidências de que grande parte dos cristãos (em sua
maioria pobres) em várias comunidades greco-romanas podem ter regularmente
vivido naquilo que, na antiguidade, equivalia a cortiços e refeições comunitárias
compartilhadas (incluindo a ceia). Crentes irresponsáveis seriam, dessa maneira,
excluídos dessas refeições específicas. Afinal, seria difícil entender como uma

6'Veja esp. Robert Jewett, The lhessalonian correspondence: Pauline rhetoric and millenarian piety
(Philadelphia: Fortress, 1986). Cf. Bruce W. Winter, ‘“If a man does not wish to work...’: a cultural
and historical setting for 2 Thessalonians 3.6-16”, T yn B u l40 (1989): 303-15.
68M . J. J. M enken, “Paradise regained or still lost? Eschatology and disorderly behavior in 2
Thessalonians”, N T S 38 (1992): 271-89.
A CORRESPONDÊNCIA TESSALONICKNSE: UMA VISÃO EQUILIBRADA... | 219

comunidade cristã podería pôr em prática o versículo 10, a menos que fosse uma
referência a refeições específicas sobre as quais ela tivesse controle direto.69
Qualquer que seja o cenário exato, Paulo insiste em que todos os eren-
tes vão trabalhar e sempre façam o que é certo (v. 11-13). Então ele repete sua
instrução sobre evitar aqueles que desobedecem às suas ordens (v. 14,15). Essa
não parece ser uma excomunhão no pleno sentido da palavra, na qual membros
da igreja que pecam ostensivamente e não se arrependem são tratados como se
estivessem totalmente fora da fé (como em M t 18.15-17). Essas pessoas ainda
devem ser consideradas irmãos na fé (v. 15), mas Paulo espera que, pela provi-
dência da igreja de não se associar com eles, eles se envergonhem de seu com-
portamento e mudem de conduta (v. 14). A reprovação pode, na verdade, estar
limitada à proibição de participarem da ceia do Senhor. Afinal, mesmo no caso
mais extremo de tratar alguém como “pagão ou coletor de impostos” (Mt 18.17),
presume-se que as pessoas mantinham contato com o pecador, da mesma maneira
que Jesus chamava os pecadores ao arrependimento. De modo parecido hoje
em dia, estudos têm mostrado que raras vezes romper totalmente a comunhão
com cristãos que erram produz o arrependimento desejado, ao passo que tirá-
-los de posições de liderança, removê-los da condição de membros da igreja ou
impedi-los de participar de atividades selecionadas — ao mesmo tempo que se
trabalha com eles por meio de grupos aos quais têm de prestar contas, de perío-
dos probatórios e de outras estratégias de restauração — têm uma taxa de êxito
bem mais elevada.70

Orações e saudaçõesfinais (3.16-18)


Assim como graça e paz se unem para formar a saudação inicial de Paulo, de igual
forma agora ele volta a orar para que Deus conceda aos tessalonicenses ambas
as qualidades (v. 16,18). Em face da confusão que a comunicação anterior cau-
sou (2.2,15), ele também ressalta que essa carta é verdadeiramente dele (v. 17).

APLICAÇÃO
Juntas, a Primeira e a Segunda Carta aos Tessalonicenses proporcionam um equi-
líbrio essencial e necessário em nosso mundo contemporâneo a respeito da volta
de Cristo. A maior parte da igreja age como se Cristo nunca viesse a voltar lite-
raímente ou pelo menos não no futuro próximo. Uma minoria barulhenta está
convencida de que ele necessariamente voltará dentro de determinado período;
alguns até tentam estabelecer datas. Essas cartas nos lembram que precisamos
estar sempre atentos para a possibilidade do fim, mas jamais ter a presunção de

69Robert Jewett, Paul: the apostle to America (Louisville: WJKP, 1994), p. 73-86.
,0Michael E. Phillips, “Creative church discipline”, Leadership 17.4 (1986): 46-50.
220 I PAULO F. SUAS CARTAS

saber quando ele virá. A vida crista fiel e moral, enquanto compartilhamos nossa
fé com os incrédulos (como igrejas e como pessoas) e compartilhamos nossos bens
com os crentes necessitados (que estão dispostos a fazer a sua parte da melhor
maneira possível), continua sendo nossa tarefa central, por mais longa ou curta
que seja a nossa espera. Tentar enxergar “os sinais dos tempos” nos acontecimen-
tos atuais ou calcular quanto tempo falta até a volta de Cristo, na melhor das
hipóteses, nos distrai de nosso chamado e, na pior das hipóteses, trabalha contra
nossa missão, pois toda vez que os crentes proclamam com toda confiança que
o fim está próximo e o mundo continua inalterado, nossa mensagem geral perde
credibilidade aos olhos de muitas pessoas.71
Esses princípios também se aplicam ao momento da própria morte. Não
nos atrevemos a afirmar que sabemos quantos anos nos restam de vida ou que
temos absoluta certeza de que não temos tantos anos assim. Às vezes Deus decide
curar miraculosamente até mesmo doenças terminais e em outras ocasiões inter-
romper a vida sem prévio aviso. A vida fiel no presente continua sendo sempre
nossa primeira prioridade.
Um equilíbrio parecido é necessário nos debates sobre 0 arrebatamento. Os
pré-tribulacionistas às vezes promovem uma mentalidade de “navio naufragando”,
em que se recusam a obedecer a totalidade do conselho da Palavra de Deus, no que
diz respeito a envolvimento cristão no mundo, e procuram apenas “salvar almas”.
Os pós-tribulacionistas às vezes adotam uma “mentalidade de cerco” parecida
com sobrevivencialistas seculares, que estão convencidos de que sofrerão o pior
e armazenam bens a fim de se preparar para a violência daqueles que os ataca-
rão. Ambos os extremos se revelam altamente perigosos. Jamais devemos buscar
o sofrimento pelo sofrimento nem afirmar que escaparemos do pior sofrimento.
Pelo contrário, precisamos orar para que Deus nos ajude a amadurecer e nos use
para a sua obra no reino, seja o que for que surja em nosso caminho.
Uma parte essencial desse trabalho é o exemplo de vida. Precisamos urgen-
temente de um grande número de cristãos que em suas motivações e comporta-
mento sejam tão transparentes e exemplares quanto Paulo. Não precisamos de
novos programas de discipulado, apenas de mentores maduros e honestos que
podemos observar para entender como os crentes devem viver, incluindo como
se demonstra o arrependimento quando alguém peca, que é o que todos fazemos
repetidamente. Quando cristãos sofrem perseguição, esses exemplos se revelam
ainda mais decisivos.

71Um guia sensato em resposta àqueles que estabelecem datas e à histeria apocalíptica (esp. em
relação àquilo que cercou o finid de 1999 c o alvorecer de 2000) c Robert G . Clouse; Robert N .
Hosack; Richard V. Pierard, The new millennium manual: a once and fu tu r e guide (Grand Rapids:
Baker, 1999). Cf. tb. B. J. Oropeza, 99 reasons why no one can know when Christ w ill return (Downers
Grove: I VP, 1994).
A CORRESPONDÊNCIA TESSALONICENSE: UMA VISÃO EQUILIBRADA... ‫ ן‬221

OUTRAS PERGUNTAS PARA REVISÃO


1. Qual é a questão textual crítica em lTessalonicenses 2.7? Qual das
variantes reflete mais provavelmente o manuscrito original e por quê?

2. Em meio aos elogios generosos que Paulo faz aos destinatários das
cartas aos tessalonicenses, quais são as duas principais exortações que
Paulo apresenta? Que circunstâncias dentro da igreja exigiram essas
advertências?

3. Identifique os princípios atemporais que lTessalonicenses estabelece


para elaborar uma doutrina escatológica adequada.

4. De que maneiras as evidências internas e externas refutam o argumento


de que 2Tessalonicenses é obra pseudônima?

5. Se aceitarmos a sequência de 1 e 2Tessalonicenses apresentada no Novo


Testamento, quais são os temas-chave abordados em lTessalonicenses que
precisam ser ainda mais desenvolvidos ou têm de ser novamente aborda-
dos cm 2Tessaloniccnses? Compare as teses de cada uma dessas cartas.

6. De que modo tanto a Primeira quanto a Segunda Carta aos Tessalonicen-


ses corroboram um ponto de vista pós-tribulacionista do arrebatamento?

7. De que modo, juntas, 1 e 2Tessalonicenses dão respaldo a uma aplicação


equilibrada da escatologia cristã para aqueles que, no século 21, ficam à
espreita de sinais do fim dos tempos?

BIBLIOGRAFIA SELECIONADA

Comentários

Introdutórios
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capítulo 5

A correspondência corintia:
combatendo idéias equivocadas
sobre a maturidade cristã

1 C o rin tio s: im a tu r id a d e in te rn a e
a m e a ç a s h e le n iz a n te s e x te rn a s

INTRODUÇÃO

A cidade de Corinto
orinto era um importantíssimo centro urbano grego que estava sob domí-
nio romano e já vinha ofuscando Atenas em tamanho e importância
quando Roma incendiou a cidade em 146 a.C., destruindo grande parte
dela. Júlio César reconstruiu a cidade em 44 a.C. como colônia romana, com tal-
vez cerca de cem mil habitantes. Na época de Paulo, Corinto havia se tornado
a cidade mais rica da Grécia. Situada entre as duas cidades portuárias de Cen-
creia e Lequeu, constituía um importante centro de comércio. O istmo estreito,
em que Corinto estava localizada, tinha um caminho, o diolkos, ao longo do qual
os marinheiros arrastavam seus barcos descarregados, entre os mares Adriático
e Egeu, em vez de navegarem mais de 160 quilômetros circundando o extremo
sul da Acaia.
A cada dois anos Corinto sediava os Jogos ístmicos, ficando atrás apenas
das Olimpíadas em proeminência entre as competições de atletismo na Grécia.
A cidade abrigava um teatro com capacidade para dezoito mil pessoas, um audi-
tório para três mil pessoas e um grande mercado central para produtores rurais.
226 I PAULO E SUAS CARTAS

Uma enorme montanha de pedra conhecida como Acrocorinto, com seu templo
dedicado a Afrodite e assentado no topo do monte, se destacava acima da cidade
e simbolizava o domínio de cultos pagãos. Dizia-se que em tempos pré-cristãos 0
templo havia empregado até mil sacerdotes ou sacerdotisas cultuais que também
atuavam como prostitutos. Ao pé da montanha ainda outros prostitutos e pros-
titutas ofereciam o corpo aos muitos visitantes da cidade tanto quanto à popu-
lação local. E, embora seja possível que o número deles fosse consideravelmente
menor na época de Paulo, não causa surpresa alguma que em sua carta Paulo
chegue a tratar de tantas questões de pecado sexual. Também não é excepcional
que a palavra grega “corintizar” tenha vindo a significar “ser prostituta”, assim
como “moça corintia” se tornou uma gíria equivalente à nossa expressão “mulher
da vida”.1 Entretanto, as ruínas de uma pequena sinagoga judaica em Corinto
também foram descobertas, de modo que Paulo pôde apelar a algum conhecí-
mento da lei de Deus quando chegou à cidade.2 Em uma comparação bem apro-
priada feita por Gordon Fee, Corinto é a Nova York, Los Angeles e Las Vegas
do mundo antigo, todas reunidas em uma única cidade.3

Circunstâncias que levam à carta


Cerca de três a cinco anos se passaram desde que Paulo escreveu 2Tessalonicen-
ses. Ele terminou uma segunda jornada missionária e passou um tempo consi-
derável em Efeso, seu principal ponto de parada durante sua terceira viagem. Em
ICoríntios 16.8, ficamos sabendo que ele ainda está lá, na esperança de voltar
mais uma vez a Corinto, mas querendo aguardar até depois da festa de Pente-
costes, na primavera. Então, dando margem para as viagens de Paulo e uma per-
manência de quase três anos em Efeso (At 19.10; 20.31), a data mais provável
para essa carta é o final do inverno ou início da primavera de 55 d. C.
A descrição dos esforços evangelísticos iniciais de Paulo cm Corinto apa-
rece em Atos 18.1-17. Os primeiros cristãos eram uma mistura de judeus e gen-
tios, mas os gentios predominavam. Depois de pregar primeiramente aos judeus,
conforme era seu costume, Paulo experimentou suficiente hostilidade da parte
de alguns a ponto de mudar seu ministério da sinagoga para a casa ao lado, que

1Aristófanes cunhou o verbo, c Platão, o substantivo. Veja D . Kelly Ogden; Andrew C. Skin-
ner, N e w Testament apostles testify o f Christ: a m id e for Acts throuvh R evelation (Salt Lake City:
Deseret, 1998), p. 129.
2Q uanto a boas introduções sobre a cidade de C orinto na época de Paulo, veja M urphy-
-O ’Connor, St. P aul’s Corinth. G ood New s Studies (W ilmington: M ichael Glazier, 2002), vol. 6;
Donald Engels, Roman Corinth: an alternative modelfor the classical city (Chicago: University of
Chicago Press, 1990).
‫'־‬Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 3 [edi-
ção em português: ICoríntios: comentário exege'tico, tradução de M areio Loureiro Redondo (São
Paulo: Vida Nova, 2019].
A CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDÉIAS EQUIVOCADAS... ‫ ן‬227

pertencia a um temente a Deus,Tício Justo, que havia se tornado crente. Dada a


proximidade das duas construções e o fato de o dirigente da sinagoga, Crispo, e
toda a sua família haverem se convertido e também acompanhado Paulo, as ten-
sões entre as duas comunidades necessariamente se elevaram. Não é de admirar
que depois de um ano e meio vários judeus se uniram contra Paulo e o levaram
perante o procónsul Gálio. Conforme vimos em nossa análise da cronologia de
Atos, o curto período de Gálio em Corinto (mais provavelmente do verão de 51
ao verão de 52) constitui uma data relativamente estabelecida, permitindo-nos
datar com razoável precisão inúmeros acontecimentos do ministério de Paulo.
A própria Primeira Carta aos Corintios revela que ‫־‬Paulo recebeu, da parte
daspessoas da casa de uma mulher chamada Cloe, relatórios orais sobre a situação da
igreja em Corinto (1.11). Em 16.17, Paulo também se refere a um trio de crentes
— Estéfanas, Fortunato e Acaico — que vieram a Éfeso, presumivelmente de
Corinto, e “supriram o que estava faltando da parte de vocês”, dando refrigério
ao espírito de Paulo (v. 18). É possível que um ou mais desses homens fossem
os representantes da casa de Cloe, mas não há de fato como ter certeza disso.
Supõe-se que Cloe era uma cristã corintia, talvez solteira ou viúva, ao passo que
membros de sua casa poderíam ter incluído filhos adultos, outros parentes ou até
escravos. E possível que a carta escrita pelos corintios a Paulo tenha sido entregue
por esses três homens ou pelos membros da casa de Cloe, caso formassem um
grupo diferente, mas de novo isso é especulação. O capítulo 7 revela ainda que os
corintios escreveram a Paulo uma carta com várias perguntas (v. 1), ao passo que 5.9
faz alusão a uma carta anterior que Paulojá havia enviado a eles.
E possível perceber o conteúdo da carta enviada pelos corintios a Paulo a
partir da coleção de questões que Paulo trata de 7.1 até o final da carta. O con-
teúdo de sua carta para Corinto permanece quase totalmente desconhecido, com
exceção daquilo que ele menciona em 5.9-11. Ao que parece, ele advertiu a igreja
a não se associar com pessoas sexualmente imorais, o que os corintios enten-
deram erroneamente como referência a incrédulos, quando na verdade Paulo
estava falando de cristãos professos. Ao longo da história da igreja leitores têm
feito perguntas fascinantes, mas sem resposta a respeito dessa carta apostólica,
incluindo a razão por que ela não foi preservada. Pode se imaginar que seu con-
teúdo fosse tão limitado ou suas aplicações fossem tão restritas a Corinto que
a igreja em geral reconheceu que ela não tinha o mesmo valor permanente das
cartas posteriores de Paulo, porém, uma vez mais, simplesmente não sabemos.
A apócrifa 3Coríntios, um texto do terceiro século, é pura ficção, mas reflete um
desejo cristão primitivo, perceptível em muitos dos apócrifos do Novo Testa-
mento, de preencher lacunas deixadas pelo registro canônico.4

'1W ilhelm Schneemelcher, “Acts o f Paul”, in: W ilhelm Schneemelcher, org., N ew Testament
Apocrypha (London, Reino Unido/Louisville: James Clark/WJKP, 1992), vol. 2, p. 217,235.
228 I PAUL,() E SUAS CARIAS

Estrutura
O esboço geral dc lCoríntios é talvez mais claro do que o de qualquer outra carta
paulina porque Paulo simplesmente segue item por item uma lista de questões
que assolavam a igreja em Corinto. Uns poucos estudiosos, com base em vários
paralelos tópicos ou estruturais, têm tentado identificar certas questões e atri-
buir algumas aos relatórios orais c outras à carta dos corintios. Por exemplo, tem
se defendido que toda vez que Paulo diz “agora concernente a” (ou “agora acerca
de”), ele está se referindo a uma questão da carta corintia. Entretanto, a inter-
pretação mais natural de 7.1a (“agora, quanto aos assuntos sobre os quais vocês
escreveram”) é que até esse ponto da carta Paulo vinha tratando estritamente das
informações recebidas dos mensageiros que vieram pessoalmente, ao passo que a
partir daí todas as questões que ele aborda procedem da carta que lhe foi escrita.5
Isso nos permite montar um esboço com a seguinte estrutura:

I.Introdução (1 .1 9 ‫)־‬
A. Saudação (1.1-3)
B. Ação de graças (1.4-9)
II. Reagindo a notícias da parte de Cloe (1.10— 6.20)
A. Divisões na igreja (1.10— 4.17)
1. Esboçando o problema (1.10-17)
2. A necessidade de se concentrar na cruz de Cristo
(1.18—2.5)
3. Sabedoria cristã (2.6-16)
4. Dois tipos de cristãos (3.1-23)
5. O verdadeiro ministério apostólico (4.1-21)
B. Incesto na igreja (5.1-13)
C. Processos judiciais entre cristãos (6.1-11)
D. A seriedade da imoralidade sexual em geral (6.12-20)
III. Reagindo à carta dos corintios (7.1— 16.4)
A. Sobre o casamento (7.1-40)
B. Sobre comida sacrificada a ídolos (8.1— 11.1)
1. Análise inicial (8.1-13)
2. Um exemplo paralelo (9.1-18)
3. O princípio unificador (9.19-27)
4. Uma proibição absoluta (10.1-22)
5. Três princípios resumidos (10.23— 11.1)
C. Sobre o culto (11.2— 14.40)

5Margaret M . Mitchell (“Concerning 77677/ ΔΕ in 1 Corinthians”, Ν ο ν Τ Ά λ [1989!: 229-56)


mostra que essa fórmula introdutória não desempenha nenhum papel necessário em distinguir
assuntos na carta aos corintios dc outras cartas.
A CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDK1AS EQUIVOCADAS... | 229

1. Cobertura na cabeça de homens e mulheres (11.216‫) ־‬


2. Usos e abusos da ceia do Senhor (11.17-34)
3. O uso certo e errado de dons espirituais (12.1— 14.40)
D. Sobre a ressurreição (15.1-58)
E. Sobre a coleta para Jerusalém (16.1-4)
IV. Conclusão (16.5-24)
A. Os planos de viagem de vários cristãos (16.5-18)
B. Saudações finais (16.19-24)

No entanto, essa abordagem de tratar item por item uma lista com os mui-
tos problemas que afligem a igreja de Corinto não se encaixa de modo algum
em qualquer subgénero epistolar específico. Talvez o máximo que se possa razoa-
velmente sugerir é que ela se parece com uma carta peticionária helenística com
a estrutura peculiar de “pedido-ordem-pedido”.6 Mas na maior parte da carta a
retórica é clara, com predominância de formas deliberativas.7

Temas unificadores
A primeira vista, 1Corintios não parece ter um foco unificador, mas soa como a
enumeração de problemas de uma igreja imatura. Em um exame mais cuidadoso
surgem vários temas centrais. A filosofia grega, em especial a partir de Platão,
era radicalmente dualista, quer dizer, os mundos material e espiritual estavam
nitidamente separados. Em boa parte do pensamento, e especialmente naquelas
vertentes dafilosofia que gerariam■ o gnosticismo em seu pleno sentido já no final do
primeiro século e início do segundo, supunha-se que a matéria era intrínseca-
mente má. Só o espírito poderia ser salvo. Esse dualismo levou, paradoxalmente,
a dois desdobramentos éticos diametralmente opostos. Em sua maioria os gnós-
ticos eram ascetas, isto é, tentavam de várias maneiras negar o corpo (mal) e seus
apetites naturais. A minoria era hedonista, cedendo aos impulsos do corpo, já que
este era irremediavelmente corrupto. Parece que ambas as linhas de pensamento
estavam presentes em Corinto. Aqueles envolvidos nos problemas de incesto,
ações judiciais e promiscuidade (caps. 5— 6); os cristãos “fortes” que comiam
alimentos sacrificados a ídolos (caps. 8— 10); as profetisas descontroladas e os
ricos excessivamente permissivos à mesa do Senhor (cap. 11); e aqueles que, de
um modo mais geral, abusavam dos dons espirituais (caps. 12— 14) — todos se
encaixavam no campo hedonista. Aqueles que estavam promovendo o cefibato
(cap. 7), as pessoas temerosas de comer carne sacrificada a ídolos (caps. 8— 10)

6Linda L. Belleville, “Continuity or discontinuity: a fresh look at 1 Corinthians in the light o f


first-century epistolary forms and conventions”, E v Q 59 (1987): 15-37.
'Ben W ithcrington III, Conflict and community in Corinth: a socio-rhetorical commentary on
1 and2 Corinthians (Grand Rapids/Carlislc, Reino Unido: Eerdmans/Paternoster, 1995), p. 75.
230 I PAULO E SUAS CARTAS

e os membros da igreja que negavam a ressurreição física (cap. 15) eram clara-
mente ascéticos.8

NEGANDO OS SATISFAZENDO
DESEJOS/A OS DESEJOS/A
HUMANIDADE HUMANIDADE
Falsa sensação de maturidade Pecado sexual
Reivindicação de sabedoria Processos judiciais
especial
Ingestão de alimento sem
Defesa do celibato preocupação com os outros
Proibição de certos alimentos e Exigência de pagamento pelo
bebidas trabalho cristão
Crença apenas na ressurreição Embriaguez à mesa do Senhor
espiritual
Desrespeito com a aparência de
decoro sexual
Culto caótico

ASCETISMO HEDONISMO

Resultados de uma divisão demasiadamente acentuada


entre corpo e espírito

Vários estudiosos têm tentado identificar com mais precisão certos opo-
nentes ideológicos de Paulo e os desafios filosóficos que estavam levando vários
membros da igreja de Corinto a se desviar. E bem possível que a sabedoriajudaica
helenística tenha contribuído para a mistura de idéias,9 e vários grupos religiosos
locais poderiam ter facilmente exacerbado o pecado sexual ou produzido exemplos
para práticas divisivas, como profecia e falar em línguas.10 No entanto, a proposta

8Cf. ainda Robert M cL . W ilson , “G nosis at Corinth”, in: M orna D . H ooker; Stephen G.
W ilson, orgs., Paul and Paulinism (London, Reino Unido: SPCK, 1982), p. 102-14; c John Pain-
ter,“Paul and the πνειιματικοί, at Corinth”, in: ibidem, p. 237-50.
9Veja esp. James A. Davis, Wisdom and Spirit: an investigation o f l Corinthians 1.18— 3.20 against
the background o f Jewish sapiential traditions in the Greco-Roman period (Lanham: UPA, 1984).
10Veja esp. Christopher Forbes, Prophecy and inspired speech in early Christianity and its Helle-
nistic environment (Tubingen: Mohr, 1994; Peabody: Hendrickson, 1997).
A CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO 1DE1AS EQUIVOCADAS... I 231

mais convincente sobre os antecedentes históricos entende que a escola de filoso-


fia e retórica conhecida como sofistica foi particularmente influente, em especial
com sua forte ênfase no discurso refinado e elegante, muitas vezes enfatizando
a forma em detrimento do conteúdo.11
Acentuando esses problemas ideológicos estava o sectarismo da igreja de
Corinto. Os capítulos 1 a 4 deixam claro o problema das divisões (veja 1.10-12).
Assinalaremos abaixo que explicações teológicas para essas divisões cederam
lugar, em grande parte, a explicações sociológicas, com a possibilidade de dife-
rentes igrejas nas casas refletirem a rivalidade da lealdade a diferentes líderes cris-
tãos. Além disso, as censuras de Paulo sugerem que a igreja estava permeada por
uma espécie de triunfalismo — a sensação equivocada dos crentes sobre sua pró-
pria maturidade (veja esp. 4.8). Anthony Thiselton atribuiu plausivelmente isso
a uma escatologia excessivamente realizada, isto é, a uma noção errada de quanto
crescimento espiritual e liberdade do pecado o cristão pode alcançar nesta vida.u
Um desdobramento da análise sociológica da carta indica ainda que uma
grande porcentagem dos problemas pode ser atribuída às divisões entre ricos e
pobres}2,13O texto de 1.26-29 revela que, de acordo com os padrões de sua socie-
dade, não muitos dos cristãos corintios eram sábios, influentes ou nascidos em
famílias nobres. Mas é claro que isso significa que alguns eram. E muito prová-
vel que todos os crentes abastados originários do contexto greco-romano fossem
patronos, isto é, responsáveis por vários “dependentes” sob seu patronato. O sis-
tema de patronato era o equivalente antigo mais próximo da assistência social,
em que se esperava que os ricos se cercassem de um grupo de pessoas mais pobres
cujas necessidades materiais eles cuidariam, e em troca disso essas pessoas depen-
dentes forneciam trabalho sazonal, serviam seus superiores em suas casas, acia-
mavam-nos publicamente nas praças e nos fóruns e lhes davam apoio político.
Ao longo do Novo Testamento um número incontável de indicações sugere que
no cristianismo primitivo diversos problemas eram resultado de crentes, ricos ou
pobres, ainda tentarem operar debaixo do sistema de patronato (ou clientelismo)
e da minuciosa reciprocidade que lhe era intrínseca.14
Analisando somente ICoríntios, é possível que o sectarismo dos capítulos
iniciais tenha se assemelhado à disputa entre patronos rivais e seus apoiados. O
único motivo concebível para a igreja não ter disciplinado o homem que praticou

11Veja esp. Bruce W. W inter, Philo and Paul among the Sophists, ed. rev. (Grand Rapids/Cam-
bridge: F.crdmans, 2002).
12Anthony C. Thiselton, “Realized eschatology at Corinth”, N T S 24 (1977-1978): 510-26.
13Andrew D . Clarke, Serve the community o f the church: Christians as leaders and ministers (Grand
Rapids/Cambridge: Eerdmans, 2000), p. 174-85.
‫ ״‬Veja csp. Andrew D . Clarke, Secular and Christian leadership in Corinth (Lciden/N ew York:
Brill, 1993); John K. Chow, Patronage and power: a study o f social networks in Corinth (Sheffield,
Reino Unido: JSOT, 1992).
232 I M U LO E SUAS CARTAS

incesto mencionado no capítulo 5 era ele ser um patrono poderoso.15 Em sua


maior parte as ações judiciais eram iniciadas apenas pelos ricos, geralmente con-
tra outros ricos, mais com o objetivo de conquistar honra adicional aos olhos
do público do que acumular mais riqueza.16 Era comum o jovem romano abas-
tado aguardar ansiosamente as festas em que comemoraria a chegada à maiori-
dade, nas quais estavam incluídas a presença de cortesas ou prostitutas de “alto
nível”.17As pessoas pobres da cidade em geral comiam carne apenas por ocasião
de festas em templos locais nas quais havia aspectos claramente pagãos.18 Acei-
tar dinheiro para o ministério normalmente implicava que os patronos podiam
“dar as ordens”.19 Apenas mulheres ricas tinham tempo bastante de lazer para
receberem suficiente formação religiosa e se emanciparem socialmentc para
causar o tipo de rupturas descritas nos capítulos l i e 14.20 Conforme veremos,
os abusos cometidos na ceia do Senhor refletem claramente a discriminação
dos ricos contra os pobres.21 É provável que até mesmo a tendência de alguém
alardear os próprios dons espirituais afligisse os ricos mais do que outros gru-
pos socioeconómicos.22

COMENTÁRIO

Introdução (1 .1 9 ‫)־‬

Saudação (1.1-3)
Nessa carta Paulo apresenta Sostenes como seu corremetente (quanto às opções
sobre o que esse papel podia significar, veja acima, p. 196). Embora não possa-
mos ter certeza, é natural associar esse Sostenes ao dirigente da sinagoga espan-
cado diante do magistrado romano em Atos 18.17 (veja acima, p. 92-3), sendo
bastante possível que Sostenes tenha se tornado cristão depois disso. Essa é a
única carta em que, além de a uma igreja local específica, Paulo se dirige a todos
os cristãos de todos os lugares. Talvez ele tenha percebido que a gama de pro-
blemas que assediavam os corintios incluía questões que quase todas as igrejas
enfrentariam uma hora ou outra.

15Bruce W. W inter ,A fte r P aul left Corinth (Grand Rapids/Cambridgc: Eerdmans, 2001),
p. 44-57.
16Ibidem, p .58-75.
17Ibidem, p. 76-109.
lsO que há de mais esclarecedor com informações sobre antecedentes e análise exegética apa-
rece em Wendell L. W illis, Idol meat in Corinth (Chico: Scholars, 1985), p. 14.
1,Hock, The social context o f Paul’s ministry, csp. p. 59-62.
20Antoinette C. W ire, The Corinthian women prophets (Minneapolis: Fortress, 1990).
21Gerd 'lheisscn, 7he social setting o f Pauline Christianity (Philadelphia: Fortress, 1982), p. 145-74.
22Dale Martin, “Tongues o f angels and other status indicators”,J A A R 59 (1991): 547-50.
A CORRESPON DÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDKIAS EQJHVOCADAS... | 233

Ação de graças (1.4-9)


Uma vez mais Paulo apresenta em sua oração de ação de graças temas-chave que
voltarão a aparecer ao longo da carta. O que é mais impressionante é como ele
pode ter uma atitude tão positiva, agradecendo a Deus pela maneira com que cie
concedeu dons aos corintios nas áreas que se revelaram mais problemáticas (v.
4-7; cf. caps. 12— 14). Os versículos 8 e 9 explicam o seu entusiasmo: ele confia
que 0 poder de Deus os levará à maturidade.23

Reagindo a notícias da parte de Cloe (1.10— 6.20)

Divisões na igreja (1.10 — 4.17)


Esboçando 0 problema (1.10-17). Quando o corpo da carta começa, Paulo expõe
um dos principais problemas cjue afligem a igreja em Corinto — o sectarismo
— e apela para uma restauração da unidade. As divisões se dão de acordo com os
diferentes grupos locais. Vários grupos prometem lealdade a Paulo, Apoio, Pedro
e Cristo, respectivamente (v. 12).Tradicionalmente tem se pressuposto que essas
eram divisões teológicas — talvez as facções de Paulo e de Pedro espelhassem o
debate em Antioquia (G1 2.11-14), ao passo que Apoio enfatizava a “sabedoria”
do evangelho (cf. At 18.28, sobre suas habilidades retóricas). O “grupo de Cristo”
talvez tivesse então incluído aqueles que se recusavam a se alinhar com qualquer
líder humano, embora isso não signifique necessariamente que com isso fossem
menos sectários.2‘1
Estudos mais recentes têm, em vez disso, se concentrado cm possíveis divi-
sões sociológicas. E provável que a igreja em Corinto fosse um vago ajuntamento
de “congregações nas casas”, cada uma com não mais de trinta a cinquenta mem-
bros. É possível que o punhado de membros ricos (1.26)25 tenha hospedado as
várias congregações, já que ninguém mais teria espaço suficientemente grande
para acomodar essas reuniões. Conforme vimos na introdução, é possível que eles
ainda tenham confiado na posição de poder que, antes de virem a Cristo, tinham
como patronos, a fim de criar grupos rivais, em vez da unidade que o evangelho
pretendia promover. Os versículos 14 a 17 dão uma indicação adicional sobre a
natureza das facções. Aqui Paulo minimiza o valor do batismo, não porque não
fosse importante, mas porque não é suficientemente relevante para ser assunto
que cause divisão. Talvez os membros dos vários grupos estivessem simplesmente se

23Richard B. Hays, First Corinthians (Louisville: VVJKP, 1997), p. 18.


24Para uma recente e rara tentativa de defender a existência de diferenças em grande parte teo-
lógicas entre as facções, veja M ichael D . Gouldcr, Paul and the competing mission in Corinth (Pea-
body: Hendrickson, 2001).
25E possível que também tenha havido uma pequena classe media, conforme defendido por Dirk
Jongkind, “Corinth in the first century A.D.: the search for another class”, TynBul 52 (2001): 139-48.
234 I PAULO E SUAS CARTAS

alinhando com os líderes humanos que inicialmente os conduziram a Cristo e sob cujo
ministérioforam, em virtude disso, batizados?b

A necessidade de se concentrar na cruz de Cristo (1.18—2.5). Se a exata natureza


do problema não é clara, a solução é. Em 1.18—2.5, Paulo chama os corintios
para voltar a se concentrar naquilo que Cristo fez por eles na crucificação (veja
esp. 2.2). O chão está de fato nivelado ao pé da cruz; é difícil se exaltar acima
de outros crentes enquanto se medita na absoluta humilhação que Cristo sofreu
em nosso favor. O mundo considera tola a mensagem de um Messias crucificado
(1.18-25), entre os judeus porque demonstra a maldição de Deus (D t 21.23) e
entre os gentios porque ressalta a fraqueza de Cristo, e não a sua força. Além
disso, os judeus procuravam sinais absolutamente inequívocos, o que nem mesmo
os milagres de Cristo proporcionaram, ao passo que os gregos procuravam o tipo
de sabedoria filosófica requintada à qual a mensagem simples e direta de Cristo
não se equiparava. Por esse motivo, os “sábios” de ambas as culturas rejeitavam
0 evangelho. Contudo, Paulo destaca que Deus decidiu salvar as pessoas mediante
aquilo que muitos dos intelectuais de sua época consideravam tolo.17
O fato de a maioria dos cristãos de Corinto não provir da minoria rica, pode-
rosa ou com a boa formação daquela antiga sociedade comprova a ideia (1.26-31).
E a maneira pela qual Paulo inicialmente pregou a eles oferece corroboração adicio-
nal; pelos padrões dos filósofos da época, mais notadamente dos sofistas, a retórica
de Paulo era bem elementar (2.1-5; cf. 2Co 10.10). Nada nesses parágrafos deixa
implícito que os crentes devam desprezar a formação, abster-se da preparação cui-
dadosa de um sermão ou pregar exclusivamente sobre a crucificação. O exemplo
do próprio Paulo contradiz todas essas noções. Ele regularmente se baseia em suas
percepções tanto dos antecedentes judaico e greco-romano quanto da cultura desses
povos. O texto de 2Coríntios 10— 13 demonstra um uso sagaz e bem refletido da
retórica, e ICoríntios examina muito mais do que a cruz de Cristo. Não obstante,
o que Paulo evita é toda e qualquer tentativa de confiar nos próprios recursos, não
levando em conta a capacitação do Espírito para uma vida e ensino cruciformes.26278

26Lyle D . Vander Broek (Breaking barriers: the possibilities o f Christian community in a lonely
world [Grand Rapids: Brazos, 2002], p. 40) observa que a forte reação de Paulo a uma situação
perigosa se devia a uma devoção inadequada dos corintios a certos líderes, junto com um enten-
dimento incorreto da pregação — que valorizava a exibição da sabedoria humana por m eio da
lógica, da persuasão e da beleza da retórica refinada.
27A imagem de Paulo desempenhando o papel de louco também pode ter tido, em parte, ori-
gem no mundo do teatro. Cf. ainda L. L. Welborn, Paul the fool o f Christ: a study o f 1 Corinthians
1■— 4 in the Cynic philosophic tradition (London, Reino U n id o/N ew York: T & T Clark, 2005); e
Duane Litfin, St. Paul's theology o f proclamation: 1 Corinthians l — 4 a n d Greco-Roman rhetoric
(Cambridge/Ncw York: CUP, 1994).
28N o entanto, o escândalo da cruz continua central para toda a ética de Paulo, conforme expli-
cado em H . H . D . W illiam s, “Living as Christ crucified: the cross as a foundation for Christian
A CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDÉIAS EQUIVOCADAS... ‫ ן‬235

Sabedoria cristã (2.6-16). Aliás, os cristãos precisam se empenhar para se torna-


rem tão sábios quanto possível, não ao imitar a “sabedoria” da sociedade ímpia ao
redor deles, mas adotando a sabedoria de Deus (veja 1.24) mediante o poder do
Espírito (veja 2.4). Dessa maneira, o texto de 2.6-16 analisa mais detalhadamente
0 tipo apropriado de sabedoria que os crentes devem obter e incentiva os corín-
tios a amadurecer para que ponham de lado seu presente sectarismo. Aqui Paulo
fala de uma “sabedoria secreta” (v. 7a), o que podería soar como alguma forma de
elitismo. No entanto, o que outrora era secreto e oculto, e o que permanece oculto
aos poderes não cristãos da época de Paulo (v. 7b-9), c agora revelado aos crentes
(v. 10). Aliás, é provável que alguns dos corintios estivessem se vangloriando de
sua sabedoria e se colocando acima dos demais na igreja como verdadeiramente
“maduros” (gr., teleioi). Nas religiões de mistério esse termo frequentemente se
referia a iniciados em um grupo religioso específico que haviam passado a entender
verdades espirituais secretas que o restante do grupo não conhecia. Paulo inverte
essa abordagem, empregando o mesmo termo para se referir a todos os crentes
em contraste com os incrédulos, em y&z de criar duas categorias de cristãos.29
Assim, nos versículos 11 a 16, Paulo faz distinção entre a pessoa “natural”
(psychikos) e a pessoa “espiritual” (pneumatikos), para usar as traduções que a KJV
tornou famosas. A NIV acertadamente reconhece esses termos como equivalen-
tes de “o homem sem o Espírito” (v. 14) e “o homem com o Espírito” (v. 15), res-
pectivamente. Só os que são cristãos e, portanto, têm o Espírito que neles habita
são capazes de discernir as coisas na perspectiva de Deus. Esses versículos não
significam que os não cristãos não possam entender cognitivamente ou descrever
com precisão as afirmações cristãs ou as verdades bíblicas, apenas que eles não
as aceitam como de fato procedentes de Deus (v. 14). Afinal de contas, em uma
perspectiva bíblica a única e derradeira forma legítima de “entender” é aquela
que aceita o evangelho.30

Dois tipos de cristãos (3.1-23). No capítulo 3, no entanto, Paulo faz um tipo dife-
rente de comparação. Agora ele usa o termo “espiritual” para se referir a crentes
maduros, que, pensa ele, a essa altura os corintios já deveríam ter se tornado, em

ethics in 1 Corinthians”, E v Q 75 (2003): 117- 31. Quanto ao papel que, de urn modo mais geral,
a cruz desempenha na carta, veja Raymond Pickett, lh e cross in Corinth: the social significance o f the
death o f Jesus (Sheffield, Reino Unido: SAP, 1997).
29E, à m edida que o Espírito capacita os crentes com dons espirituais para a edificação da
igreja, é possível falar de cristãos — tanto coletiva quanto individualmente — terem “a mente de
Cristo” (v. 16). Veja Allen R. I Iunt, The inspired body: Paul\ the Corinthians, and divine inspiration
(Macon: Mercer, 1996).
30Peter Stuhlmacher, “The hermeneutical significance o f 1 Cor 2:6-16”, in: Gerald F. Haw-
thorne; O tto Betz, orgs., Tradition and interpretation in the N ew Testament (Grand Rapids: Eerd-
mans, 1987), p. 328-47.
236 I PAULO E SUAS CARTAS

contraste com os cristãos “mundanos” (NIV) ou “carnais” (KJ V) (sarkinos/sarki-


kos), ainda imaturos. Precisamos observar com cuidado os sinais de imaturidade
que Paulo tem em mente. Os corintios não são crentes nominais que têm apenas
um relacionamento secundário com a igreja. Pelo contrário, permanecem ativos,
mas ativos de maneiras que causam divisão. Dessa forma, Paulo torna a aludir
às lutas e sectarismo entre eles (v. 1-4) como aquilo que os torna mundanos. Ao
longo da história da igreja alguns cristãos têm usado a categoria de cristão car-
nal ou mundano para justificar sua crença de que uma pessoa pode fazer uma
profissão superficial de fé em algum momento da vida, não mostrar sinal algum
de vitalidade espiritual mesmo por anos a fio, morrer nessa condição e ainda ser
salvo. Dificilmente é isso o que Paulo tem em mente nesse contexto!31 Pelo con-
trário, os corintios são crentes com dons (veja 1.7), mas estão empregando seus
dons para propósitos egoístas e não para a edificação do corpo de Cristo.
O restante do capítulo 3 ilustra a igualdade fundamental que todas as pes-
soas têm em Cristo e que deve eliminar o sectarismo dos corintios. Em primeiro
lugar, Paulo compara a igreja à lavoura de Deus, na qual todos os crentes são coo-
peradores (v. 5-9a). Os diferentes líderes cristãos que os corintios estão jogando
uns contra os outros são simplesmente lavradores, totalmente dependentes de
Deus para produzir uma colheita. Eles podem desempenhar papéis diferentes,
mas isso não legitima exaltar um papel acima de outro.
Em segundo lugar, a igreja se assemelha a pedras que em uma construção são
colocadas sobre o alicerce, que é Cristo (v. 9b-17). Embora o dia do juízo traga à
luz as diversas qualidades das obras de diferentes cristãos (v. 12-15), nessa seção
o principal contraste é entre aqueles que estão pelo menos edificando dc alguma
maneira c aqueles que estão apenas tentando destruir o prédio (v. 16,17).32 Com
frequência os versículos 12 a 15 são citados como respaldo para a ideia de que os
cristãos podem vir a experimentar diferentes graus de recompensa no céu. Sem
dúvida, aqui e em outras passagens, as Escrituras descrevem os crentes tendo
experiências totalmente singulares diante dc Deus no dia do juízo à medida que
sua vida c recapitulada. Contudo, nem esse texto nem qualquer outro ensina que
teremos diferentes condições ou privilégios variados que perdurarão por toda a
eternidade. Afinal, se a vida futura é perfeita, é logicamente contraditório falar de
graus de perfeição. A Parábola dos Trabalhadores na Vinha (M t 20.1-16) retrata
todos os seguidores de Jesus recebendo a mesma recompensa pelos graus de tra-
balho bastante variados, justamente o que devemos esperar, caso a salvação seja
pela graça por meio exclusivamente da fé e não por boas obras.33 E interessante

'1Fee, First Corinthians, p. 121-8.


2'‫־‬H ays, First Corinthians, p. 58.
"Veja ainda Craig 1.. Blomberg, “Degrees o f reward in the Kingdom o f Heaven?”, J E T S 35
(1992): 159-72.
Λ CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDEIAS EQUIVOCADAS... 237

que a doutrina dc graus eternos de recompensa no céu foi uma continuação, na


era da Reforma, da noção católica de purgatório.34 Todavia, M artinho Lutero
advertiu duramente contra isso (veja, e.g., Works 51.282-3).
Um grande perigo associado a essa doutrina se parece com 0 problema de
aplicar a categoria de cristão carnal a praticantes nominais da fé. E muito fácil dar
a si mesmo ou a outros a falsa esperança de que está de fato “dentro”, mesmo que
por pouco, quando na verdade a falta de compromisso contínuo sugere que, para
início de conversa, a pessoa nunca esteve “dentro”. Esse parece ser justamente o
problema com aqueles que Paulo menciona nos versículos 16 e 17. Na verdade,
os corintios que mais causavam divisão talvez não estivessem absolutamente con-
tribuindo para a obra de Deus, e, ao tentarem destruir essa obra, demonstram
que não são salvos, mas estão a caminho da destruição eterna. Nesses versículos
Paulo também passa da descrição de um prédio não especificado para retratar
0 mais santo dos prédios de seu mundo: um templo. Mais tarde ele se referirá a
cristãos individuais como templo do Espírito Santo (6.19), mas aqui está falando
da igreja coletivamente. Aqueles que destroem a unidade de uma entidade tão
sagrada estão flertando com a ira eterna dc um Deus justo e santo!35
Os versículos 18 a 23 resumem o capítulo, lembrando-nos de que todos os
crentes têm igual acesso a todos os privilégios espirituais. Por esse motivo, não há
necessidade alguma de se vangloriar de um líder em detrimento dc outro ou de se
exaltar. Aliás, o Senhor conhece os pensamentos das pessoas, de modo que conse-
gue reconhecer atitudes de orgulho antes mesmo de se transformarem em ações.

0 verdadeiro ministério apostólico (4.1-21). O capítulo 4 conclui a resposta às


facções em Corinto concentrando-se na atitude correta que se deve ter para
com Paulo e seus colegas apóstolos. Em primeiro lugar, os versículos 1 a 5 os
descrevem como administradores fiéis. O termo usado para “servo” (hyperelês)
no versículo 1 denota uma pessoa a quem são confiados uma propriedade e/ou
outros sevos, mas que ainda está subordinada ao seu senhor.35 De igual maneira,
Paulo, embora tenha recebido grande autoridade e responsabilidade como
apóstolo e missionário, ainda assim continua sendo um mero servo de Cristo.
Dessa forma, quando Paulo diz que não está preocupado com a maneira de os
corintios o avaliarem ou até mesmo com o modo pelo qual sua própria cons-
ciência o julga, ele não está fazendo pouco caso da igreja, mas simplesmente *36

14Emma Disley, "Degrees o f glory: Protestant doctrine and the concept o f rewards hereafter”,
JTS 42 (1991): 77-105.
45A nthony C. Thiselton, lhe F irst Epistle to the Corinthians (Grand Rapids/Carlisle, Reino
Unido: Eerdmans/Patcrnostcr, 2000), p. 318.
36Paul Ellingworth; Howard l latton,/? translator's handbook on Paul's First Letter to the C onn-
Mans (N ew York: UBS, 1985), p. 75.
238 I PAULO E SUAS CARTAS

enfatizando que, cm última instancia, apenas a avaliação de Deus sobre alguém


é o que importa (v. 2-5).
Em segundo lugar, os versículos 6 e 7 destacam que avaliações adequadas
devem se basear nas Escrituras. O versículo 6 contém um trecho notoriamente
difícil de traduzir: Qual a origem do dito e o que significa não ir além do que
está escrito? A citação não é um trecho das Escrituras. Alguns têm cogitado se
isso se refere à maneira de as crianças greco-romanas serem ensinadas a escrever,
desenhando as letras do alfabeto e não ultrapassando as linhas. Outros especulam
que é referência a seguir regras de solução de problemas no local de trabalho. Não
obstante, a sugestão mais provável é que significa que todas as ações da pessoa
devem ser baseadas na Bíblia.37 Isso eliminará o orgulho que está promovendo as
facções. Afinal, toda capacitação que os crentes recebem por meio dos dons pro-
cede de Deus e não de qualquer coisa que tenham feito. O verbo traduzido por
“aplique¡” no versículo 6 é, em uma tradução mais literal, “transformei”. Portanto,
é possível que Paulo esteja indicando que 0 verdadeiro problema reside entre os
líderes corintios, não entre ele e Apolo: mas ele está escrevendo de forma mais
alusiva, a fim de evitar uma confrontação tão direta.38
Em terceiro lugar, o verdadeiro ministério apostólico muitas vezes envolve
sofrer, mesmo sofrer injustamente (v. 8-13). A lista pungente de perseguições e
adversidades que Paulo apresenta contrasta fortemente com o triunfalismo de
alguns na igreja de Corinto. O versículo 8a precisa ser entendido como sarcasmo.
Conforme a segunda metade do versículo deixa claro, os corintios não se tor-
naram realmente ricos nem começaram a reinar. Paradoxalmente, caso tivessem
amadurecido em um verdadeiro sentido espiritual, estariam sofrendo junto com
Paulo.39 Contudo, a concepção que têm da vida cristã não permite que sejam
tratados como “a escória da terra, o lixo do mundo” (v. 13). As palavras tradu-
zidas aqui como “escória” e “lixo” são bastante vulgares no original grego;40 seus
equivalentes mais próximos ofenderíam um número tão grande de pessoas que,
em vez disso, traduções contemporâneas usam palavras eufemísticas como essas!
Porfim, e com um enfoque mais positivo, os apóstolos têm uma relação espe-
ciai com os corintios (v. 14-21). Paulo em particular é o pai espiritual de mui-
tos na igreja, dando-lhe o direito de falar tanto com dureza quanto com ternura
(v. 14,15).41 Assim como agiu com os tessalonicenses, Paulo exorta os corintios

3'David E. Garland, 1 Corinthians (Grand Rapids: Baker, 2003), p. 135.


38David R. H all, “A disguise for the wise: μ ετα σ χη ά α τ ισ α in 1 Corinthians 4.6”, N T S 40
(1994): 143-9.
39Cf. esp. K. A. Plank, Paul and the irony o f affliction (Atlanta: Scholars, 1987).
40Thiselton, First Corinthians, p. 365: “as palavras mais baixas, mais fortes e mais terrenas”.

,1Cf. Eva M . Lassen, “The use o f the father image in imperial propaganda and 1 Corinthians
4:14-21”, T yn B u l42 (1991): 127-36.
A CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDÉIAS EQUIVOCADAS... I 239

a imitá-lo (v. 16),4243e, uma vez que não pode estar com eles naquele momento,
enviará sua carta junto com Timóteo, que também passará algum tempo forne-
cendo-lhes instruções adicionais e mostrando-lhes o comportamento de Paulo,
que é semelhante ao de Cristo (v. 17). Entretanto, caso essa abordagem branda
não seja eficaz, Paulo retornará pessoalmente a Corinto e intervirá de uma forma
mais dura para castigar aqueles que não abandonaram sua arrogância (v. 18-21).44

Incesto na igreja (5.1-13)


Do problema generalizado de sectarismo, Paulo passa a tratar de uma série de
questões específicas cm que certos corintios parecem estar alardeando (e enten-
dendo equivocadamente) suas liberdades (caps. 5— 6). A primeira questão é a
de um homem que está tendo relações sexuais com sua madrasta. Uma vez que
Paulo se refere à mulher como “esposa de seu pai” (v. 1), com praticamente toda
certeza não se refere a uma mãe biológica. Como a segunda esposa era com fre-
quência consideravelmente mais jovem do que seu marido, é possível que a idade
dessa mulher fosse mais próxima da do filho do que da do pai, o que explicaria
a atração do filho por ela. O incesto era, no entanto, a única ofensa sexual que
até mesmo o devasso mundo greco-romano desaprovava seriamente (Cícero, Pro
Cluentio 15), e aqui a igreja age como se estivesse orgulhosa da “liberdade” que
tem em Cristo para tolerar esse comportamento (v. 2)! Nessa situação, Paulo não
hesita em usar sua autoridade para ordenar a excomunhão do infrator impeni-
tente (v. 3-5) a fim de preservar a pureza da igreja (v. 6-8). Pelo menos é assim
que a NIV entende o versículo 5. Mas a palavra traduzida por “natureza pecami-
nosa” é sarx (lit., “carne”), que também pode se referir ao corpo físico do homem.
Por isso, alguns comentaristas entendem que de alguma maneira a ordem
de Paulo inclui a morte do homem. Talvez ele tenha uma doença sexualmente
transmissível e em suma Paulo esteja dizendo “Deixe-o morrer”. Ou talvez Paulo
imagine que Deus o ferirá mortalmente de uma maneira mais sobrenatural. No
entanto, quer interpretemos a injunção de Paulo como referência à morte ou a
excomunhão, seu propósito é claramente corretivo: para que o “espírito do homem
[seja] salvo no dia do Senhor”. Uma vez que os capítulos 2 e 7 de 2Coríntios se
referem a um notório pecador em Corinto que foi punido pela igreja, se arrepen-
deu e deve, conforme incentivo de Paulo à igreja, ser recebido de volta, parece

4aÉ revelador que esse pedido de Paulo surja apenas três versículos depois da descrição minu-
ciosa de seu sofrimento. A respeito do terna da mímese em Paulo de forma generalizada, veja esp.
Andrew D . Clarke, “ Be imitators o f me’: Paul’s model o f leadership”, T ynB ul 49 (1998): 329-60.
43Para uma excelente exposição e aplicação dos cap. 1 a 4, veja D . A . Carson, The cross and
Christian m inistry (Grand Rapids: Baker, 1993) [edição cm português: A cruz e o ministerio cristão:
lições sobre liderança baseadas em 1 Corintios, tradução de Francisco W ellington Ferreira (São José
dos Campos: Fiel, 2011)].
240 I PAULO K SUAS CARTAS

mais provável que aqui esteja envolvida excomunhão e que a ação disciplinar
alcançou o pretendido efeito restaurador.'14
E nesse contexto que ficamos sabendo de uma carta anterior que Paulo
escreveu aos corintios (v. 9-13; cf. acima, p. 226-7). Ele destaca, portanto, que
a igreja confundiu totalmente o propósito daquela comunicação. Eles estão se
separando de pecadores incrédulos ao mesmo tempo que toleram a imoralidade
flagrante no meio deles, ao passo que deveríam estar se purificando ao mesmo
tempo que permaneciam suficientemente próximos dos incrédulos para terem
uma influência positiva sobre eles. É impressionante a frequência com que a
igreja cristã conservadora inverteu essas prioridades nos séculos subsequentes!

Processosjudiciais entre cristãos (6.1-11)


Igualmente vergonhosa é a prática de cristãos levarem uns aos outros à justiça
para resolverem disputas legais (v. I).445 No mundo de Paulo o tipo mais comum
de processo judicial envolvia disputa por bens. No universo greco-romano era
comum “patronos” ricos darem início a ações na justiça para melhorar sua posição
social e envergonhar seus opositores.46 No entanto, os cristãos deviam no mínimo
seguir o precedente judaico de buscar uma “solução interna” para resolver as pró-
prias disputas (v. 2-6). Na maioria dos casos a legislação rabínica proibia os judeus
de recorrerem a tribunais greco-romanos, ao passo que as sinagogas tinham uma
“dupla função”, funcionando também como local em que os judeus podiam julgar
seus próprios casos. Se o versículo 4 for traduzido e pontuado tal como na NIV,
então “homens de pouca importância” necessariamente se refere à maneira pela
qual as pessoas de fora teriam rotulado os crentes. Contudo, o mais provável é
que deva ser dada preferência à tradução existente na margem da NIV: Paulo está
perguntando “Vocês pedem uma decisão da parte daqueles cujo estilo de vida é
desprezado na igreja?”, quer dizer, uma decisão da parte dos magistrados gentios.47
Os versículos 7 e 8 se mostram ainda mais desafiadores. Conquanto Paulo
reconheça que pessoas caídas precisam ter mecanismos para resolver suas dispu-
tas, o ideal cristão jamais seria buscar reparação apenas para si mesmo. Isso não
significa que os crentes não possam lutar por justiça por outros que foram opri-
midos ou despojados de seus direitos. Também não significa que não possam ter

44Garland, 1 Corinthians, p. 181: “A igreja anda em uma corda bamba entre, de um lado, ser
uma comunidade acolhedora que aceita pecadores confessos e ajuda os que erraram a se levantar
e, dc outro, ser uma comunidade moralmente frouxa cm que tudo c aceitável”.
"Esse assunto tem relação com o capítulo 5, ]torque uma vez mais os membros da igreja dei-
xaram de agir com o comunidade e de assumir responsabilidade uns pelos outros (H ays, First
Corinthians, p. 93).
4'‫׳‬D . Neufeld, “Acts of admonition and rebuke: a speech act approach to 1 Corinthians 6:1-11”,
B ib in t 8 (2000): 375-99.
47Reginald H. Fuller,“First Corinthians 6:1-11: an cxegctical paper”, E x A u d itu 2 (1986): 100.
A CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDÉIAS EQUIVOCADAS... ‫ ן‬241

de recorrer a tribunais seculares para questões que envolvem não cristãos. Mas a
pergunta que os cristãos precisam fazer a si mesmos quando consideram qual-
quer ação legal é se a publicidade trará descrédito ao evangelho ou melhorará a
maneira pela qual os de fora o veem.48*Considerando-se a crescente prolifera-
ção, pelo menos nos Estados Unidos, de ministérios cristãos de mediação, não há
praticamente desculpa alguma para que reclamações deixem de ter uma “solução
interna” e cheguem a sair da igreja.
Paulo ressalta a seriedade dessa questão, associando-a à prática contínua de
várias formas de imoralidade sexual, idolatria, roubo, cobiça, embriaguez, difama-
ção e peculato (v. 9,10). O fato de Paulo usar formas substantivas para caracte-
rizar as pessoas que cometem esses pecados (“idólatras”, “adúlteros” etc.) sugere
que ele não está falando de um deslize esporádico, mas de um estilo de vida cos-
tumeiro. Essas pessoas não têm lugar no reino de Deus. Entretanto, é claro que
a pessoa pode se arrepender, seguir a Cristo, mudar seu procedimento e ser salva
(v. 11). Os termos traduzidos por “prostitutos” {malakoi) e “transgressores homos-
sexuais” (arsenokoitai) se referem, respectivamente, aos parceiros mais passivos e
mais ativos na relação homossexual entre homens.'19 Comentaremos mais deta-
lhadamente sobre a prática homossexual ao comentarmos Romanos 1, mas por
ora é importante ressaltar que essas palavras, quando usadas de maneira combi-
nada, não podem se limitar apenas a certas formas de comportamento homos-
sexual, tais como prostituição ou pederastía.

A seriedade da imoralidade sexual em geral (6.12-20)


Paulo volta ao tema da transgressão sexual, mas amplia-o para advertir contra
qualquer tipo de promiscuidade, em especial a prostituição. Nos versículos 12 e 13,
ele introduz uma forma de argumentação, forma essa que empregará repeti-
das vezes ao longo do restante da carta e foi chamada de lógica do “sim, mas... ”.
Em cada caso parece que está citando um “slogan ou lema” dos corintios — uma
perspectiva que alguns da igreja haviam adotado, com a qual Paulo pode con-
cordar até certo ponto, mas para a qual também precisa fazer muitas ressalvas.
Aqui a NIV coloca os slogans entre aspas. É verdade que, de um ponto de vista,
em um evangelho livre da lei tudo é permissive!, mas isso não faz com que tudo
seja bom ou aceitável (v. 12). Ao que parece, com base na ideia da destruição do

48Cf. Fee, First Corinthians, p. 238.


4,David F. W right, “Translating Ά Ρ Σ Ε Ν Ο Κ Ο Ι Τ Α Ι (lC o 6:9; lT m 1:10)”, VC 41 (1987):
396-8; David E. M alick, “The condemnation o f homosexuality in 1 Corinthians 6:9”, BSac ISO
(1993): 479-92. Em contrapartida, os termos representam aqueles que tem relações homossexuais
reais, não aqueles que talvez sintam desejos ou anseios de relações homossexuais, mas permane-
cem celibatários, rccusando-sc a agir de acordo com seus impulsos. Veja W illiam L. Petersen,
“Can arsenokoitai be translated b y ‘homosexuals’? (1 Cor. 6.9; ITim . 1.10)”, FC(1986): 187-91.
242 I PAULO E SUAS CARTAS

corpo os corintios também estavam raciocinando que, assim como comer é urna
questão moralmente neutra, também é moralmente neutro ter relações sexuais
de qualquer maneira que se deseje (v. 13a).‫י‬° Aqui Paulo objeta explícitamente.
A relação sexual é a forma mais íntima de comunicação pessoal na esfera física e
reflete uma unidade interpessoal que deve ser reservada para alguém com quem
se está fundamentalmente comprometido (v. 13b-18).5051 Paulo volta a apelar ao
fato de que o corpo dos cristãos é templo do Espirito Santo por causa da sua
redenção em Cristo (v. 19,20), mas dessa vez está pensando mais individual do
que coletivamente (veja o comentário sobre 3.16,17). “Fomos comprados por
um preço, um preço doloroso: o sangue expiatorio de Cristo.” Dessa maneira, os
cristãos “devem refletir sua gratidão por esse pagamento infinito em suas atitu-
des e comportamento”.52

Reagindo à carta dos corintios (7.1— 16.4)

Sobre 0 casamento (7.1-40)


Agora Paulo se dirige à ala ascética da igreja. A chave para entender o capítulo 7
é reconhecer, como se vê na nota na margem da NIV, que o versículo lb constitui
um slogan dos corintios. O pai da igreja Orígenes afirmou isso em seu comentário já
em aproximadamente 200 d.C. O grego diz literalmente “É bom que um homem
não toque uma mulher”. Mas “toque” era eufemismo para relações sexuais. Alguns
em Corinto defendiam o celibato — abstinência sexual completa — como norma
para todos os cristãos. Paulo afirma que o celibato pode ser bom, mas se recusa a
torná-lo absoluto — mais uma vez sua lógica “sim, mas.. .”.3‫נ‬
Ele começa examinando os quejá são casados. A facção pró-celibato promo-
via a abstinência mesmo entre marido e mulher. O versículo 2 não significa que

50As aspas talvez devam se estender até o final da frase “Deus destruirá ambos”. A frase seguinte
começa com um “mas”, que a N IV deixa de traduzir.
51Veja esp. Brendan Byrne, “Sinning against one’s own body: Paul’s understanding o f the sexual
relationship in 1 Corinthians 6:18”, CBQ 45 (1983): 613. Bruce N . Fisk (“Π Ο Ρ Ν Ε Υ Ε ΙΝ as body
violation: the unique nature o f sexual sin in 1 Corinthians 6:18”, N T S 42 [1996J: 558) conclui que
“outros pecados podem destruir o corpo (e.g., suicídio, glutonaria), destruir a comunidade (e.g.,
fofoca, dissensâo) ou desvirtuar o espírito (e.g., idolatria), mas para Paulo, uma vez que o pecado
sexual une corpos de um modo todo especial, ele também profana corpos de um modo todo especial”.
,2Ogden; Skinner, Acts through Revelation, p. 134.
‫ ״‬A explanação desse capítulo tem uma grande dívida para com Fee, F irst C orinthians,
p. 266-357. E possível que a facção pró-celibato reivindicasse funções de liderança baseando-se
em ter recebido inspiração ou revelação em consequência de seu ascetismo, como acontecia com
frequência na cultura pagã ao redor. Veja Judith M . Gundry-Volf, “Celibate pneumatics and social
power: on the motivations for sexual asceticism in Corinth”, U SQ R 48 (1994): 105-26. Quanto à
ideia de que influências estoicas e cínicas prevaleciam na facção pró-celibato, veja W ill Deming,
Paul on marriage e celibacy (Cambridge/New York: CUP, 1995).
A CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDEIAS EQUIVOCADAS.. 243

cada pessoa deve tomar para si um cônjuge, mas que cada pessoa casada deve
continuar a ter relações sexuais com seu cônjuge (da mesma forma nos v. 3,4). E
importante assinalar aqui e ao longo desse capítulo que Paulo dá ordens exata-
mente paralelas tanto ao marido quanto à esposa, tratando-os como totalmente
iguais um ao outro.14 Paulo chega a fazer a seus opositores uma única concessão,
permitindo que um casal casado se abstenha de sexo por um curto período por
mútuo consentimento com vistas à disciplina espiritual. Mas reconhece que a
imposição prolongada dessa disciplina pode simplesmente levar um ou ambos os
cônjuges a buscar satisfação sexual em outro lugar; e, por esse motivo, o apóstolo
não pode apoiar isso, exceto como breve mudança de rotina com objetivos espi-
rituais particulares (v. 5,6). É nessa passagem que podemos inferir que Paulo não
era casado, pelo menos quando estava escrevendo essa carta (v. 7a). No entanto,
mesmo expressando sua preferência pela vida a sós, ele reconhece que apenas aque-
les que receberam esse dom da parte de Deus devem buscá-la (cf. M t 19.10-12).
Nos versículos 8 e 9, Paulo se dirige a viúvos (que aqui é provavelmente uma
tradução melhor do que “não casados”) e viúvas. Nesse caso, ele pode considerar o
celibato de modo bem mais favorável porque Paulo também não é casado, sendo
possivelmente até mesmo viúvo. No entanto, o casamento é preferível à luxúria
e à promiscuidade. O verbo “conseguir” não aparece no texto grego do versículo
9a; uma tradução precisa diría “Mas, se eles não estão se controlando, devem se
casar”. No versículo 9b, o grego diz apenas “É melhor casar do que arder”, mas
a NIV acrescenta corretamente “de paixão”. Os romances gregos regularmente
faziam afirmações parecidas em contextos de celebração do prazer sexual no casa-
mento, de maneira que para os corintios isso não teria soado como a concessão
relutante que muitas vezes nos parece.ss
Os versículos 10 a 16 tornam a considerar os casados, mas dessa vez aque-
les que poderíam estarpensando em divórcio como meio de se livrar de ter relações
sexuais. Essa seção contém aquilo que veio a ser chamado de privilégio pauhno,
a segunda das duas exceções bíblicas à proibição geral de divórcio. Jesus havia
admitido o divórcio em caso de infidelidade sexual (M t 5.32; 19.9); Paulo agora
0 permite quando um cônjuge descrente deseja deixar o outro cônjuge crente
(v. 15,16). Contudo, em outras situações, caso a separação ou o divórcio já tenha
ocorrido sem ter acontecido um novo casamento, as partes que se separaram
devem se reconciliar e voltar a ficar juntas ou então permanecer sem se casar
(v. 10,11). Duas perguntas exegéticas decisivas dividem os comentaristas nesse
ponto. Em primeiro lugar, é o abandono ou o casamento misto (ou ambos) que*5

54A o contrário de todas as culturas e religiões ao redor. Cf. G. W. Peterman, “Marriage and
sexual fidelity in the papyri, Plutarch and Paul”, TynBul 50 (1999): 1 6 .372‫ ־‬.
5‫’־‬Veja J. Edward Ellis, “Controlled burn: the romantic note in 1 Corinthians 7”, P R S 29
(2002): 89-98.
24 4 I PAULO K SUAS CARTAS

provoca a cxccção admitida por Paulo? Muitos têm pressuposto que era a rela-
ção incompatível, mas é interessante que, caso a atenção se concentre no aban-
dono, então tanto Jesus quanto Paulo puseram o dedo em um dos dois elementos
constitutivos fundamentais do casamento conforme definidos em Gênesis 2.24:
deixar e unir-se (versus abandono) e tornar-se uma só carne (versus infidelidade
sexual). Então, c possível que o casamento misto seja simplesmente o elemento
mais específico da situação.
Em segundo lugar, será que os ensinos de Jesus e de Paulo cobrem todas as
situações imagináveis em que o divórcio poderia refletir a vontade (permissiva)
de Deus? E óbvio que o ensino de Jesus não foi exaustivo, caso contrário Paulo
não poderia ter acrescentado algo a ele. De modo parecido, Paulo não revela ter
conhecimento da exceção admitida por Jesus, de maneira que sua lista de uma
(única) situação excepcional também não pode ser abrangente. Por esse motivo,
vários intérpretes têm sugerido outras situações extremas em que o divórcio pode
ser o menos nocivo de várias opções. Entretanto, é provável que o melhor seja não
aumentar a lista bíblica, mas simplesmente tratar outros casos um a um, inda-
gando se o casamento foi de fato fundamentalmente destruído, como se tivesse
ocorrido infidelidade sexual ou abandono definitivo.56*
O contraste entre os versículos 10 e 12 também tem intrigado muitos lei-
tores. Acaso Paulo está dizendo que é inspirado no primeiro contexto, mas não
no segundo? Provavelmente não, em vista do versículo 40! Em vez disso, no ver-
sículo 10, ele está se referindo a uma palavra do Jesus histórico, ao passo que,
no versículo 12, ele não conhece ensino específico algum de Cristo que possa
citar.5, Da mesma maneira, no versículo 25, Paulo também não está negando a
inspiração; ele acredita que sua avaliação procedeu da misericórdia confiável do
Senhor.58 E, no versículo 40, o mais provável é que ele esteja dando um toque
de ironia em seus comentários, não revelando dúvidas sobre a orientação divina.
Afinal, os elitistas de Corinto devem ter defendido que só eles tinham o Espí-
rito, por isso Paulo acrescenta o fato de acreditar que ele também tem o Espírito.

511Veja ainda Craig L. Blomberg, “Marriage, divorce, remarriage, and celibacy”, T f 11 (1990):
161.-96, csp. p. 186-94. Os melhores c mais recentes livros que analisam o assunto com profundi-
dade são Craig S. Keener, ...A n d marries another: divorce and remarriage i >1 the teaching o f the N ew
Testament (Peabody: Hendrickson, 1991); c David Instone-Brewer, Divorce and remarriage in the
Bible (Grand Rapids/Cambridge: Eerdmans, 2002). E possível que Paulo também esteja refutando
aqueles que temiam que esses casamentos mistos tornassem impuro o cônjuge cristão. Veja Yonder
M . GiUihan, “Jewish laws on illicit marriage, the defilement of offspring and the holiness of the
temple: a new Halakic interpretation o f 1 Corinthians 7:14", J B L 121 (2002): 730.
5 Fee, 1 Corinthians, p. 291.
58Aliás,gnome poderia ser traduzido como “máxima”, o que condiz com a forma desse versículo
e sugere que Paulo está refutando o slogan do versículo 1 com uma sabedoria proverbial que ele
pode endossar. Veja Rollin A. Ramearan, “More than an opinion: Paul’s rhetorical maxim in First
Corinthians 7:25,26”, C B Q S l (1995): 531-41.
A CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDEIAS EQUIVOCADAS... | 245

CASAMENTO E DIVORCIO EM MATEUS 19


E EM !CORINTIOS 7

C onstituindo um casamento R om pendo um casamento

No entanto, mais um versículo nessa seção tem se revelado espinhoso. À pri-


meira vista o versículo 14 parece ensinar que, se em uma família o pai ou a mãe
aceitar a Cristo, todos os membros da família serão salvos! Essa interpretação
equivocada ocorre porque Paulo usa costumeiramente o verbo “santificar” para
se referir a crentes. Contudo, o significado da raiz verbal é simplesmente “sepa-
rar’ou “colocar em um ambiente de santidade”. Uma vez que nos próximos dois
versículos Paulo enfatizará que uma pessoa crente não pode contar que levará
seu cônjuge ao Senhor, ele não pode estar se referindo à salvação no versículo 14.
Em vez disso, ele necessariamente está querendo dizer que um genitor cristão
levará uma aura de santidade à família e criará maiores oportunidades para os
outros membros confiarem em Cristo.”
Os versículos 17 a 24 oferecem uma conclusão preliminar que pode ser
assim parafraseada: floresçam onde ■vocês estão plantados. Aplicando-se aos defenso-
res do celibato, Paulo estaria dizendo para não fazerem nada radical apenas para5

5'JNigeI W atson, lhe First Epistle to lhe Corinthians (London, Reino Unido: Epworth, 1992),
P· 71·
246 I PAULO E SUAS CARTAS

sc livrar de ter relações sexuais, mas ele também aplica o princípio mais ampla-
mente a outras questões. Ao longo da história da igreja o versículo 21b tem sido
traduzido de duas maneiras diametralmente opostas, com frequência com base
em atitudes preconcebidas em relação à escravidão. O grego diz literalmente
que, se um escravo puder ganhar sua liberdade, “muito mais, use [isso]”. Qual
é o significado disso: “fique muito mais ávido em aproveitar a oportunidade de
liberdade” ou “pelo contrário, permaneça em sua situação atual”? O minucioso
estudo histórico e gramatical de Scott Bartchy tem convencido a imensa maio-
ria de comentaristas que a primeira opção é a correta.60 Afinal, na maioria dos
casos, se um proprietário optou pela manumissão de um escravo, o escravo não
tinha o direito de recusar!
Nos versículos 25 a 35, Paulo se dirige àqueles que nunca se casaram. Ele incen-
tiva os proponentes do celibato a permanecer sem se casar, mas, ao contrário deles,
ele se recusa a exigir essa condição. Além disso, sua fundamentação lógica para
seu encorajamento é totalmente diferente da deles. Paulo está preocupado com “a
crise atual” (v. 26). Mas que crise é essa? Alguns pensam que está ligada a vestí-
gios da grande carestía do final da década de 40, mas o contexto imediato sugere
uma resposta mais convincente. No versículo 29, Paulo explica: “O que quero dizer
[...] é que o tempo é curto”. Paulo não sabe quão breve Cristo voltará e dará fim a
este mundo tal como o conhecemos (v. 31) e, por esse motivo, quer que os crentes
sejam tão livres quanto possível para dedicar todas as suas energias à obra do reino
(v. 32-35). Ainda assim, tal como em cada uma das outras seções desse capítulo,
Paulo reconhece que Deus prepara apenas certos crentes para esse estilo de vida
específico. Então, contrariamente a seus oponentes, ele ressalta que aqueles que
se casam não pecaram (v. 28).61 Com que frequência cristãos que estão pensando
em se casar perguntam se um cônjuge em potencial lhes permitirá servir melhor
ao Senhor? Caso não consigam imaginar de modo realista maneiras pelas quais
isso podería acontecer, é provável que não estejam prontos para “subir ao altar”.
Os versículos 36 a 38 colocam o tradutor diante de outra decisão difícil.
Conforme destacado na nota de rodapé da NIV, Paulo poderia estar se dirigindo
a um pai que tentava decidir se daria sua filha em casamento. Contudo, recentes
pesquisas léxicas demonstraram de modo bem convincente que esse é um casal
comprometido que está tentando decidir se deve ir adiante com o casamento.62

',0Scott Bartchy, μ ά λ λ ο ν χ ρ η ς α ¡:first-century slavery and 1 Corinthians 7:21 (Missoula: Scholars,


1973). Quanto à ideia de que o texto dc Paulo é intrínsecamente ambíguo, veja Brad R. Braxton,
The tyranny o f resolution: 1 Corinthians 7:17-24 (Atlanta: SBL, 2000).
‘ 1O equilíbrio que Paulo busca repetidas vezes alcançar nessas questões levou V incent L.
W im bush a dar a seu livro o título Paul: the worldly ascetic [Paulo, o asceta mundano] (Macon:
Mercer, 1987).
',2Bruce W. Winter, “Puberty' or passion? The referent o f ύ π ερα κ μ ος in 1 Corinthians 7:36”,
TynBul 49 (1998): 71-89.
A CORRESPONDENCIA CORINTIA: COMBATENDO I DEI AS EQUIVOCADAS... | 247

Paulo concorda com os proponentes do celibato que esse casal não está obrigado
a consumar o casamento, mas ele não tem o poder de insistir que permaneçam
solteiros. Sua compreensão de não estar casado o leva a preferir essa opção, mas
ele torna a ressaltar que a alternativa não é pecaminosa.
O capítulo conclui com um lembrete de que 0 casamento deve durar a vida
toda (v. 39,40). Entretanto, quando um cônjuge morre, o cristão fica livre para
voltar a se casar — desde que o novo cônjuge também seja crente — , embora
pela última vez Paulo lembre aos destinatários da carta sua preferência pela vida
a sós. No grego a palavra traduzida por “presa” no versículo 39 não é idêntica à
do versículo 15, mas as duas palavras são em grande parte sinônimas. Como o
capítulo não trata explícitamente da questão de um novo casamento depois de
um divórcio bíblicamente admissível, a observação mais relevante que podemos
fazer é que, se não estar “preso” naquele versículo significa liberdade para voltar
a se casar, então o mais provável é que também tenha esse sentido no outro ver-
sículo. Além disso, o direito de voltar a se casar depois de um divórcio legítimo
era universalmente aceito entre judeus, gregos e romanos; portanto, se Paulo
estivesse se desviando dessa pressuposição, teria de declará-lo explícitamente.63

Sobre comida sacrificada a ídolos (8.1— 11.1)


Análise inicial (8.1-13). Nos três capítulos seguintes tanto a ala ascética quanto a
hedonista da igreja entram em cena. O primeiro grupo está se recusando a comer
carne sacrificada a ídolos. E possível que muitas dessas pessoas estivessem entre
os cristãos mais pobres que não tinham condições de costumeiramente com-
prar carne e que associavam comê-la aos rituais do templo pagão de Corinto.
O segundo grupo veio a perceber que não há nada intrínsecamente imoral em
comer essa carne, mas não estão levando em conta aqueles que Paulo chama de
“irmãos mais fracos”. Eles ignoram 0 problema de que a liberdade cristã pode se tor-
nar licenciosidade. A lógica paulina “sim, mas...” volta a ganhar destaque, quando
8.1-3 expõe o problema: a liberdade cristã pode se tornar licenciosidade. Aqueles
que têm o conhecimento correto sobre a natureza moralmente neutra da carne
sacrificada a ídolos têm de moderar esse conhecimento com o amor. Conforme
a nota marginal na NIV, é provável que “Todos temos conhecimento” seja outro
slogan dos corintios para o qual a resposta de Paulo é “O conhecimento ensober-
bece, mas o amor edifica” (v. I).64

63David Instone-Brcwer, “1 Corinthians 7 in the light o f the Graeco-Roman marriage and


divorce papyri”, T y n B u l52 (2001): 1 0 1 -1 6 ,2 2 5 -4 3 . Sobre os caps. 5 a 7 com o um todo, cf. csp.
Brian S. Rosner, Paul, Scripture and ethics: a study o f 1 Corinthians 5— 7 (L eiden/N ew York: Brill,
1994; Grand Rapids: Baker, 1999).
M0 que há de mais detalhado c esclarecedor tanto com informações sobre antecedentes quanto
com análise exegética aparece em W illis, Idol meat in Corinth. Antecedentes ainda mais completos,
24 8 I PAULO E SUAS CARTAS

Λ principal aplicação do princípio de Paulo aparece em 8.4-13. Embora não


haja nada intrínsecamente errado em comer comida sacrificada a ídolos (v. 4-6,8),
os cristãos devem evitá-lo, caso isso faça seu irmão em Cristo cair em pecado
(v. 7,9-13). E provável que esses corintios poderíam ter pecado em razão de sua
incapacidade de fazer distinção entre comer carne adquirida no mercado e pre-
viamente abençoada por um sacerdote pagão (cf. 10.25) e comer no contexto do
culto pagão; ou então em razão de sua incapacidade de fazer distinção entre, de
um lado, outros fatos ocorridos no recinto do templo e que envolviam comer
carne sacrificada a ídolos (casamentos, festas, guildas) e, de outro, rituais osten-
sivamente religiosos com comida semelhante (cf. v. 10a). O u pode ter sido sim-
plesmente que o cristão mais fraco comia carne em um contexto não religioso,
mas não tinha uma consciência limpa ao fazê-lo (v. 10,12).*63*5
E importante observar nesse contexto quem Paulo não inclui como “irmão
[ou irmã] mais fraco”. Paulo não está pensando no irmão em Cristo que fica sim-
plesmente ofendido ou incomodado porque outro crente participava de uma prática
moralmente neutra que a pessoa ofendida acha que está errada. Nessas situações
não há praticamente chance alguma de que a pessoa ofendida viesse a imitar a
prática em questão; é justamente por isso que ele está incomodado que alguma
outra pessoa esteja envolvida nisso! É claro que não devemos nos empenhar em
ofender alguém, mas há ocasiões em que o bem maior do evangelho talvez exija
isso. E interessante que, com frequência, são de alguns dos métodos evangeliza-
dores mais criativos, originais c eficazes que outros cristãos presos à tradição dis-
cordam. Nesses casos, é bem mais importante se esforçar ao máximo para alcançar
o incrédulo do que se preocupar em nunca ofender um único crente tradicional
(9.19-23).Também é possível sugerir um grande número de outras ilustrações.66

porém uma exegese m enos convincente, se encontram cm D erek N ew ton , D eity a n d diet: the
dilemma o f sacrificialfood at Corinth (Sheffield, Reino Unido: SAP, 1998).
63A reconstrução dos acontecim entos adotada aqui segue de perto Bruce N . Fisk, “Eating
meat offered to idols: Corinthian behavior and Pauline response in 1 Corinthians 8— 10”, T J 10
(1989): 49-70; cf. tb. E. C. Still, “The meaning and uses o f Ε ΙΔ Ω Α Ο Θ Υ Τ Ο Ν in first century
iion-Pauline literature and 1 Cor 8:1— 11:1: toward resolution o f the debate”, 7J23 (2002): 225-34.
Vários estudos recentes têm defendido que Paulo de fato proíbe que toda carne oferecida a ídolos
seja comida cm qualquer lugar exceto cm uma residência em que ninguém chame a atenção para
a origem da carne, mas, ao contrário das duas obras acima, esses estudos não tratam adequada-
mente dos argumentos mais sutis. O argumento dc Still de que Paulo recomenda, então, àqueles
que têm conhecimento que renunciem totalmente ao direito de comer carne oferecida a ídolos
não c uma conclusão inevitável, nem se harmoniza com as ênfases da conclusão em 10.23— 11.1.
66Q uanto a aplicações adicionais, veja Garry Friesen com a colaboração dc Robin Maxson,
Decision-making and the w ill o f God (Portland: Multnomah, 1980), p. 382-3 [edição cm português:
Como descobrir efa z e r a vontade de Deus: uma alternativa bíblica em face das opiniões tradicionais,
tradução dc Oswaldo Ramos (São Paulo: Vida, 1990)]; e Joseph C. Aldrich, Life-style evangelism
(Portland: M ultnomah, 1981), p. 39-76 [edição em português: Am izade, a chave para a evangeli-
zação, tradução de la H . Kietzmam (São Paulo: Vida Nova, 1987)].
A CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDÉIAS EQUIVOCADAS.. ‫ ן‬249

Ali no meio dos versículos 4 a 6 está uma teologia importante que não deve
ser ignorada de modo algum. E óbvio que o objetivo principal de Paulo é endos-
sar o monoteísmo; os deuses c deusas politeístas do mundo greco-romano não
têm existência objetiva. O versículo 6 não deve ser interpretado como sugestão
de que tudo é subjetivo, isto é, que os cristãos acreditem existir apenas um Deus,
que outros discordam e que não há maneira alguma de chegar a uma conclusão
a respeito. Pelo contrário, o que Paulo quer dizer com “para nós” é que “nós sabe-
mos” (enquanto outros não sabem) que há apenas um único Deus verdadeiro no
universo. No entanto, ainda mais impressionantes são as palavras de Paulo na
segunda parte do versículo 6, em que ele faz declarações praticamente idênticas
acerca de Jesus como fez a respeito de Deus. Há “apenas um só Deus, o Pai, de
quem todas as coisas vieram e para quem vivemos; e há apenas um só Senhor, Jesus
Cristo, por meio de quem todas as coisas vieram e por meio de quem vivemos”.
Assim como vimos em Atos, a primeira geração do cristianismo não se esqui-
vou de fazer as mesmas afirmações sobre Jesus que fez sobre Yahweh, o Deus de
Israel, ainda assim sem crer em dois deuses diferentes! Por Jesus ser de alguma
forma o próprio Deus, ele também é Criador e Sustentador do universo. Se isso
não é ainda um pensamento trinitário, é pelo menos binitário.67

Um exemplo paralelo (9.1-18). Em 9.1-18, Paulo dá um exemplo diferente de limi-


tação da liberdade cristã. A primeira vista parece que ele simplesmente passou
para um novo assunto. No entanto, o capítulo 10 deixará claro que não foi isso
que ele fez. Em vez disso, Paulo está analisando outra questão controversa que
existe em Corinto e exige a aplicação dos mesmos princípios que comer carne
sacrificada a ídolo impunha. Conquanto os ministros cristãos tenham o direito
de viver do evangelho (v. l-1 2 a,13,14), jamais devem exigir esse direito. Aliás,
se isso provoca um escândalo em potencial — por exemplo, a acusação de pre-
gar pelo motivo errado — , eles devem ministrar sem cobrar nada e atender de
outras maneiras às suas necessidades materiais, assim como o próprio Paulo fre-
quentemente fazia (v. 12b,15-18). O fato de, no mundo greco-romano, filósofos
itinerantes e mestres religiosos frequentemente cobrarem (e às vezes cobrarem
exorbitantemente) por seus serviços levava facilmente ao questionamento de suas
motivações, e Paulo não quer de modo algum que haja esse tipo de percepção
equivocada de seu ministério. Além disso, conforme já vimos, com frequência os

67Uma característica surpreendentemente difundida mesmo no pensamento e textos cristãos


mais antigos. Veja esp. Hurtado, Lord Jesus Christ (Grand Rapids: Eerdmans, 2003) [edição em
portugués: Senhor Jesus Cristo: devoção a Jesus no cristianismo p rim itivo, tradução de Eliel Vieira
(São Paulo/Santo Andrc: Paulus/Academia Cristã, 2012)]. Interpretar conjuntamente os ensinos
de Paulo sobre D eus, sobre Jesus e sobre o Espírito nos permite sim falar também a respeito de
trinitarismo nessa época. Veja Ulrich Mauser, “O ne G od and Trinitarian language in the Letters
of Paul”, H B T 2 0 (1998): 99-108. Veja esp. 1C0 12.4-6.
250 I PAULO E SUAS CARTAS

ricos patronos do ministério de outras pessoas achavam que tinham o direito de


“dar as ordens”, ao passo que Paulo não se submetería a quem quer que achasse
que podia lhe dizer o que devia ou não dizer/’8
Nessa seção várias idéias menos centrais merecem breve comentário. Os
versículos 1 e 2 associam o apostolado dc Paulo ao fato de ter testemunhado
o Jesus ressuscitado, sugerindo que Paulo se via como apóstolo não apenas por
ter o dom espiritual de apostolado, mas no sentido mais forte de ser testemu-
nha ocular da ressurreição (tal como os Doze). Os versículos 3 a 6 levantam a
questão de se Paulo foi casado em algum momento, embora ele talvez tenha
mencionado o assunto simplesmente por causa de Barnabé. Um dos usos mais
estranhos do Antigo Testamento no Novo aparece nos versículos 9 e 10. Paulo
aplica a ordem mosaica de não amordaçar um boi enquanto debulha (Dt 25.4)
à responsabilidade dos crentes de não impedirem o trabalho de seus ministros
“de tempo integral” deixando de lhes pagar (ou não lhes pagando o suficiente)!
Dá para entender como as situações são análogas, e os autores do Novo Testa-
mento aplicaram regularmente a situações de sua época textos do Antigo Tes-
tamento, sem afirmar que estavam esclarecendo o significado original daquelas
passagens. Contudo, o que é particularmente intrigante aqui é que Paulo parece
estar dizendo que esse texto das Escrituras foi escrito “inteiramente” (pantos) por
nossa causa (cf. NASB: “ou será que ele está falando exclusivamente por nossa
causa?”). Mas a palavra também pode significar “seguramente” (como na NIV) ou
mesmo “certamente”, no sentido de que a aplicação do texto não pode se limitar
a animais, o que é, sem dúvida, o que Paulo tinha em mente/9‫׳‬
Por que Paulo insiste com tanta veemência no direito de receber dinheiro
para o ministério, se, no final das contas, ele ressalta que regularmente abre mão
desse direito? Presumivelmente ele age assim por causa de outros na mesma
situação. O versículo 14 até mesmo alude a um dito de Jesus (cf. Lc 10.7, citado
de novo em lTm 5.18) que fundamenta a obrigação das pessoas de sustentarem
aqueles que ministram a elas. Quando Paulo não percebe nenhum conflito de
interesse em potencial, ele próprio é realmente grato por essa ajuda (Fp 4.10-20),
mas se recusa a exigi-la. O ministério bivocacional tem sim suas vantagens, em
especial porque a pessoa tem uma plataforma “secular” a partir da qual pode com-
partilhar regularmente o evangelho, assim como Paulo fazia enquanto fabricava
e vendia tendas.'068*70

68Para uma reconstrução detalhada das possíveis acusações contra Paulo, veja Peter Marshall.
E nm ity in Corinth: social conditions in Paul’s relations ·with the Corinthians (Tübingen: Mohr, 1987),
p. 282-340.
6‘,Garland, 1 Corinthians, p. 410: pantos pode significar “ccrtamente”, “sem dúvida”, “segura-
mente”, “especialmente” ou “simplesmente”.
70Para vim livro que trata da questão de pedir dinheiro no Novo Testamento, veja Jouette M.
Basslcr, God and M amm on (Nashville: Abingdon, 1991).
A CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: C:OMBATENDO IDEIAS EQUIVOCADAS... | 251

0 principio unificador (9.19-27). A motivação de Paulo por trás de suas abordagens


tanto do debate sobre comida sacrificada a ídolos quanto da questão de aceitar
dinheiro para o ministério é remover o máximo possível de obstáculos desnecessários
quepodem estar impedindo as pessoas de terem um encontro com Cristo (v. 19-23). E
claro que, ao tornar-se tudo para com todos, Paulo não cometeu ações pecami-
nosas reais (como se tivesse se tornado um bêbado para ganhar os bêbados etc.).
Entretanto, em qualquer situação moralmente neutra, mesmo que suas práti-
cas parecessem contradizer o que ele fez em outras ocasiões (veja a circuncisão
de Timoteo em A t 16.3), ele se esforçou em levar incrédulos ao Senhor. Acaso
temos a mesma paixão em nosso mundo de hoje?71
Nesse contexto Paulo se apropria de metáforas da pista de atletismo e do
ringue de boxe, ressaltando em cada caso a preparação extenuante exigida para
a competição (v. 24-27).72 Não seguir o exigente estilo de vida cristão dos ver-
sículos 19 a 23 deixa a pessoa em perigo de ser “reprovada” (v. 27). É sempre mais
fácil declarar que práticas questionáveis são totalmente erradas ou totalmente
certas do que tratar, com sensibilidade e caso a caso, situações específicas. Mas
esse não é o modelo bíblico. Nem podemos suavizar a ideia de não ser aprovado
para receber o prêmio e fazer com que signifique simplesmente uma perda de
recompensa no céu. O adjetivo “reprovado” (adokimos) vem da mesma raiz de
“teste” (dokirnazo) em 3.13, que se referiu ao dia do juízo. Paulo quer assegurar
que seu estilo de vida demonstre o fruto, condizente do começo ao fim com o
arrependimento, para que, antes de qualquer outra coisa, Deus não lhe diga que
ele nunca foi auténtico!73

Uma proibição absoluta (10.1-22). Nem toda questão ética cai, no entanto, em
urna área cinzenta. A Bíblia ensina sim que certas coisas são intrínsecamente
erradas c, nessas áreas, o cristão não tem liberdade de satisfazer seus próprios
desejos. Assim, nos versículos 1 a 13, Paulo passa para o capítulo trágico da his-
tória de Israel quando a idolatria do povo e a imoralidade resultante levaram a
um duro juízo da parte de Deus. Apesar do “batismo” de Israel em Moisés (v. 2)

'1Cf. Michael Prior, The message o f 1 Corinthians (Leicester, Reino Unido/Downers Grove: IVP,
1985), p. 162 [edição em português: A mensagem de 1 Corintios: a vida na igreja local, tradução de
Yolanda Mirdsa Krievin, A Bíblia Fala Hoje (São Paulo: ABU , 1993)]: “A versatilidade de Paulo
em procurar conquistar homens de todas as origens para Cristo nos desafia a transpor o abismo
cultural entre a subcultura crista com seus encontros acolhedores c conversa santa e a cultura pagã
de nossa comunidade local. A tarefa de se identificar com nosso paganismo contemporâneo e de
se encarnar nele é, dentre todas, uma das maiores que a igreja enfrenta”.
72Acerca disso, veja Victor C. Pfitzner, Paul and the agõn motif (Leiden/New York: Brill, 1967),
p. 82-98.
' 'Cf. ainda Judith M . Gundry-Volf, Paul and perseverance: staying in andfalling away (Louis-
ville: YVJKP, 1991), p. 233-47.
252 I PAULO E SUAS CARTAS

— isto é, sua identificação com Moisés quando a nação foi guiada por Deus e
miraculosamente pôde atravessar o mar — , muitos dos israelitas se rebelaram
(v. 7,8a,9a, 10a) c foram mortos por Deus (v. 8b,9b,10b). De modo parecido,
aquelas pessoas também experimentaram no deserto a provisão miraculosa de
maná e de água proveniente de uma rocha, a qual Paulo entende como um pre-
núncio tipológico de Cristo (v. 4),74 mas ainda assim se esqueceram da provi-
são de Deus, desafiaram suas ordens e por consequência morreram (v. 5). Assim
como acontece com material narrativo ao longo do Antigo Testamento, Paulo
reconhece aí uma função de exemplo. Nesse caso, o comportamento dos isracli-
tas visava advertir gerações posteriores a não agir de maneira semelhante (v. 6),
em particular quando a era messiânica chegasse (v. 11,12).75 Mesmo que Paulo
leve doze versículos dessa passagem para fazer sua advertência, ele termina sim
com uma nota de incentivo. Os que pertencem ao povo de Deus podem sempre
resistir à tentação, caso se submetam ao seu Espírito; ele nunca lhes dará mais
do que aquilo que conseguem lidar com sua ajuda (v. 13).
Paulo introduziu o exemplo da idolatria dos israelitas para preparar terreno
a fim de advertir os corintios contra uma falsa adoração semelhante. Aqui está sua
única proibição absoluta: eles não devem participar de um culto realizado no templo e
dedicado a adorar os deuses da Grécia ou de Roma (v. 14-22). Embora em si mesmos
aqueles deuses não tenham existência objetiva (veja 8 .4 6 ‫)־‬, os poderes demonía-
cos se escondem sim por trás de todas as formas falsas de religião (v. 19-22). Um
aspecto básico do culto pagão era uma refeição sacrificial na qual os celebrantes
criam que estavam se unindo aos deuses. A semelhança com a eucaristia cristã leva
Paulo a destacar que os dois ritos são mutuamente exclusivos (v. 14-17).
E importante reconhecer, contrariamente à ideia de muitos, que a liber-
dade — e não a restrição — continua sendo o princípio mais fundamental. “A
preocupação de Paulo em lCoríntios 10.23-31 é declarar apoio ao uso de direi-
tos individuais quando um entendimento da sensibilidade da comunidade está
firmemente estabelecido.” Além disso, “a liberdade do indivíduo não deve ser

74Pelo fato de D eus ter providenciado água da rocha tanto perto do início quanto perto do
fim das peregrinações dos israelitas, tradições judaicas desenvolveram a ideia de que correntes de
água ou um poço cheio de água realmente acompanharam o povo de Deus durante suas viagens.
A distância entre essa crença e o conceito dc uma rocha itinerante que pode fornecer água em
abundância é curta (F. F. Bruce, 7 a n d 2 Corinthians [London, Reino Unido: Marshall, M organ &
Scott, 1971; Grand Rapids: Eerdmans, 1980], p. 91). “A mitologia local também atribuía a uma
rocha ferida a principal fonte de Corinto” (Craig S. Keener, 1-2 Corinthians [Cambridge: CUP,
2005], ρ. 85, nota 181).
75Sobre o uso do Antigo Testamento nessa seção, veja Wayne A. Meeks, “And rose up to play’:
Midrash and Paraenesis in 1 Corinthians 10:1-22”,J S N T 1 6 (1982): 64-78. Todavia, parece impro-
vávcl a ideia de M eeks e dc outros de que essa seção (ou pelo menos 10.1-13) era um midrash já
existente. Veja B. J. Oropeza, “Laying to rest the Midrash: Paul’s message on meat sacrificed to
idols in light o f the Deuteronomic tradition”, Bib 79 (1998): 57-68.
Λ CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDÉIAS EQUIVOCADAS... ‫ ן‬253

escravizada pelos escrúpulos dos fracos porque a própria identidade dos crentes
é como aqueles que, tendo sido libertos na morte de Cristo, são agora agracia-
dos por Deus com todas as coisas para serem usadas para a glória de Deus”.76

Três princípios resumidos (10.23— 11.1). A medida que Paulo conclui sua aná-
lise, ele repete três princípios essenciais que deram unidade aos capítulos 8 a 10.
Em primeiro lugar, o cristianismo implica estar livre do lcgalismo em relação
a tudo o que não é intrínsecamente mau (v. 23a,25-27,29b,30). Em segundo
lugar, deve-se voluntariamente restringir a própria liberdade em várias situa-
ções por causa daqueles que, de outro modo, poderíam ser levados a pecar
(v. 23b,24,28,29a,32,33). Em terceiro lugar, em ambos os casos, glorificar a Deus
continua sendo a motivação maior (v. 31). A maneira pela qual esses princípios
se aplicam à questão da comida sacrificada a ídolos é que os crentes têm plena
liberdade de comer qualquer carne vendida no mercado, mesmo que tenha sido
abençoada por sacerdotes pagãos e/ou sacrificada anteriormente aos deuses em
uma cerimônia no templo. Os crentes podem comer essa comida quando estão
só eles à mesa ou mesmo quando ela é servida por amigos pagãos. A única res-
trição é se alguém chamar a atenção para a natureza da comida em um contexto
no qual a consciência dessa pessoa poderia ser ferida — isto é, um contexto em
que a pessoa poderia juntar-se aos demais naquela refeição sem acreditar que
realmente tinha a liberdade de fazê-lo.
Comer carne sacrificada a ídolos não representa um dos cem maiores dile-
mas morais para a maioria dos cristãos ocidentais, embora continue sendo uma
questão delicada em várias outras partes do mundo. No entanto, esses mesmos
três princípios se aplicam a inúmeras questões que dizem respeito, sim, a oci-
dentais e a outros grupos: o consumo de álcool, várias modas e penteados, prá-
ticas recreativas, formas de entretenimento, certos tipos de meditação, terapias
e técnicas de autoaperfeiçoamento no mundo dos negócios e assim por diante.
Ao identificar irmãos ou irmãs “mais fracos”, precisamos lembrar uma vez mais
que Paulo não está falando de pessoas que talvez se ofendam com determinada
atividade, mas sem elas mesmas jamais se sentirem inclinadas a participar. Pelo
contrário, está se referindo àqueles que, sem terem a consciência tranquila a res-
peito, realmente seriam levados a se envolver no comportamento moralmente
neutro ou àqueles que iriam além da prática discutível e se envolveríam com algo
claramente pecaminoso. Se captarmos esse equilíbrio, estaremos realmente imi-
tando Paulo, assim como ele imitou Jesus (11.1).77

,',Ramsaran, Paul’s use o f liberating rhetorical maxims in 1 Corinthians 1— 10 (Valley Forge: Tri-
nit)1996 ,‫)׳‬, p. 71.
"Cf. R. L. Plummer, “Imitation o f Paul and the church’s missionary role in 1 Corinthians”,
JETS 44 (2001): 225: “a reafirmação da exortação paulina à autonegação com vistas à evangelização”.
254 I PAULO E SUAS CARTAS

Sobre 0 culto (11.2 — 14.40)


Cobertura na cabeça de homens e mulheres (11.2-16). Os quatro capítulos seguintes
tratam de três problemas que afligiam os corintios por ocasião do culto.78 Paulo
torna a empregar nos versículos 2 e 3 sua lógica característica “sim, mas...”. Parece
que a igreja captou o ensino básico de Paulo sobre esse assunto, porém ainda há
alguns problemas que ele precisa corrigir. E bem possível que eles tenham reco-
nhecido os privilégios da liberdade cristã, então entenderam que a vestimenta
externa ou penteados eram intrinsecamente amorais. Contudo, deixaram de per-
ceber que certas práticas poderíam passar indícios equivocados a um mundo que
observa. É até mesmo possível que, à semelhança de alguns no mundo do culto
pagão greco-romano, eles talvez estivessem tentando “transcender” sua sexualidade
e recriar o suposto ser humano andrógino original. Dessa forma, Paulo lembra-
-lhes que o marido é o “cabeça” da esposa'9 assim como Cristo é o do homem, e
Deus, o de Cristo. Quer se traduza kephalê (cabeça) como “autoridade” ou como
“fonte”,80 de acordo com o contexto o significado é “alguém que deve ser honrado”.
Marido e esposa refletem, então, seus respectivos papéis mediante o uso ou
não, no culto, de cobertura para a cabeça (v. 4-16). Que tipo de cobertura Paulo
tinha em mente? M uitos têm pressuposto que era um véu, mas essa palavra
nunca aparece no grego, exceto no versículo 10 em uns poucos manuscritos tar-
dios (que influenciaram a KJV). No primeiro século algumas mulheres judias e
algumas greco-romanas ainda usavam véu no rosto (ou outras coberturas exter-
nas para a cabeça), mas a prática estava desaparecendo. Nos versículos 13 a 15,
a cobertura para a cabeça que se tem em vista é claramente o cabelo, e isso tam-
bém se encaixa bem com o contraste com a cabeça raspada nos versículos 5 e 6.
Há boas razões para considerar que algo nos moldes da nota à margem da NIV
é a melhor explicação para os versículos 4 a 7. Então a questão do cabelo curto
ou comprido seria a questão em jogo ao longo da passagem.81
Quer fosse uma cobertura exterior para a cabeça, quer fosse apenas cabelo
comprido, por que, quando os cristãos se reuniam para 0 culto, as mulheres deve-
riam ter isso e os homens não? No mundo grego, mulheres casadas que usavam

7"“A tendência dos corintios de se verem com o exím ios solistas espirituais não c cm parte
alguma mais evidente do que em seu comportamento no culto” (Hays, First Corinthians, p. 182).
7,Os termos gregos podem significar hom em c mulher ou então marido e esposa. U m a vez
que mulheres não casadas que não mais moravam na casa do pai não tinham nenhum homem em
particular como “cabeça”, a segunda tradução parece melhor.
80Apesar das afirmações radicais dc alguns de que ou um ou o outro desses significados não
tem absolutamente atestação no grego antigo, exemplos razoavelmente claros de ambos tem sido
apresentados, ainda que cada um deles seja raro. A imensa maioria dos usos do termo se refere
concretamente àquela parte do corpo de uma pessoa ou animal.
81Veja esp. David E. Blattenberger, Rethinking 1 Corinthians 11:2-16 through archaeological and
moral-rhetorical analysis (Lewiston/Lampeter: M ellen, 1997).
A CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDEIAS EQUIVOCADAS... | 255

xales na cabeça frequentemente procediam assim para mostrar que não estavam
mais “disponíveis”. Mas profetisas pagas descobriam a cabeça e soltavam o cabelo
durante o êxtase frenético que acompanhava o culto. Para os homens, uma cober-
tura para a cabeça talvez se parecesse com as togas que os sacerdotes romanos
usavam e com as quais cobriam a cabeça enquanto cultuavam seus deuses. Se a
questão é cabelo curto ou comprido, então é digno de nota que, no mundo grego,
no caso de mulheres, o cabelo excessivamente curto ou a cabeça raspada podiam
ser sinal de serem a parceira mais “masculina” em um relacionamento lésbico, ao
passo que, no caso de alguns gregos, cabelo excessivamente comprido indicava
homossexualidade. Quaisquer que sejam os antecedentes histórico-culturais que
alguém aceite, com praticamente toda certeza o que Paulo quer destacar é que em
Corinto as coberturas para a cabeça simbolizavam fidelidade sexual ou religiosa em
contraste com a infidelidade.82
Uns poucos cristãos ainda interpretariam toda essa passagem como norma-
tiva, mas eles deixam de perceber que hoje em dia o significado da maioria dos
penteados ou coberturas para a cabeça mudou. Mesmo no mundo de Paulo havia
homens honrados que jamais cortavam o cabelo (e.g., os judeus nazireus). Por esse
motivo, muitos cristãos se perguntam se alguma dessas passagens continua nor-
mativa, mas em outra passagem Paulo ensina que toda a Escritura está imbuída
de autoridade e é de alguma maneira sempre relevante (2Tm 3.16). Provável-
mente é melhor considerar que a questão de cobertura para a cabeça é peculiar
a essa cultura, mas que o princípio de honrar seu líder espiritual, até mesmo por
meio de vestimentas apropriadas e conduta exterior, é um mandato atemporal.
Afinal, nos versículos 8 e 9, a fundamentação para as injunções de Paulo é, sim,
a maneira pela qual Deus criou o homem e a mulher antes da Queda. Mas esses
versículos vêm imediatamente após o contraste paulino entre o homem como a
glória de Deus e a esposa como a glória do marido (v. 7), relacionamentos que
têm clara conexão com os papéis descritos no versículo 3.83 Eles não fazem uma
ressalva direta às ordens relativas à cobertura para a cabeça nos versículos 4 a 6.
Os argumentos com que Paulo dá respaldo a isso nos versículos 13 a 16 tratam
diretamente de cabelo curto e comprido, mas a fundamentação lógica de cada
um deles está ligada à cultura. O que é “apropriado” (v. 13), “vergonhoso” (v. 14)
ou “glorioso” (v. 15) varia de uma cultura para outra, pelo menos no que diz res-
peito à aparência pessoal. Conquanto Paulo empregue regularmente “natureza”
(v. 14) para se referir à ordem criada por Deus, o contraexemplo dos nazireus

82Para uma gama mais completa de opções, veja Craig L. Blomberg, 1 Corinthians (Grand
Rapids: Zondervan, 1994), p. 210-1.
8,O paralelismo é, no entanto, deliberadamente parcial. O hom em é a imagem e a glória de
Deus, mas a mulher não é a imagem e a glória do homem. Ambos os gêneros refletem igualmente
a imagem de Deus. Cf. Garland, 1 Corinthians, p. 523.
256 I PAULO E SUAS CARTAS

demonstra que nesse contexto a palavra necessariamente significa “costume”. À


primeira vista o versículo 16 parece mais abrangente, mas tudo o que ele precisa
significar é que a igreja ào primeiro século não tinha prática diferente alguma.84

! CORINTIOS 11.2‫ ־‬16

Coberturas para
Cabelo? a cabeça?

Sacerdote romano:
Cabelo comprido =
culto com a toga Homens
a<> (Λ homossexualidade
υ o‫צ‬ cobrindo a cabeça
d
greco-rom
Antecede

“Coquc’Vvéu como
Cabelo curto =
sinal de casamento
parceira “masculina”
versus Mulheres
em um relaciona-
Sacerdotisas gregas
mento lésbico
em êxtase frenético

> }
Mas recorda Inversão do uso Homens
Antecedentes

os nazireus posterior do quipá


judaicos

Pena modificada
“Véu” como sinal
no caso dc adúl- Mulheres
de casamento?
tera condenada

Também é importante observar o equilíbrio entre, de um lado, os versículos


8 e 9 e, de outro, 11 e 12. H á entre homens e mulheres diferenças que transcen-
dem a cultura, mas entre os cristãos a interdependência mútua deve ser o que mais

SJ0 fundamento lógico expresso no versículo 10 é notoriamente obscuro. M as talvez a melhor


sugestão seja que Paulo faz eco à crença judaica de que anjos tinham em parte a função de guar-
diães do culto e, portanto, não teriam desejado ver uma falta de decoro na igreja corintia. A N1V
acrescenta injustificadamente “um sinal de”, que não está no grego. Uma tradução melhor seria
“a mulher dever ter controle sobre a sua cabeça”, i.e., ter sobre si a cobertura culturalmcntc apro-
priada. Veja ibidem, p. 5 2 4 5 ‫־‬.
A CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDEIAS EQUIVOCADAS... | 257

caracteriza as relações interpessoais. Ainda mais revolucionárias são as implicações


do versículo 5. No antigo mundo mediterrâneo a profecia envolvia fenômenos
extremamente variados, indo desde falas preparadas até elocuções espontâneas,
unidas pela convicção de que o falante estava transmitindo uma mensagem que
lhe fora dada por Deus ou pelos deuses. Embora a profecia não se limitasse à pre-
gação de sermões, parece que incluía pelo menos pregação cheia do Espírito (veja
abaixo, p. 261-2), e, por esse motivo, é de presumir que Paulo abriu espaço para
as mulheres pregarem, contanto que o fizessem de uma maneira que demons-
trasse sua subordinação às autoridades acima delas. Isso pode ser facilmente
implementado hoje em dia quando uma mulher casada prega com a bênção de
seu marido e quando qualquer mulher prega sob a autoridade da liderança mas-
culina de determinada igreja (veja mais adiante, p. 480-3).8‫נ‬

Usos e abusos da ceia do Senhor (11.17-34). Sobre esse assunto Paulo demonstra a
seriedade do problema ao deixar de lado sua abordagem “sim, mas...” e não fazer
elogio algum (v. 17). Os versículos 17 a 22 descrevem o problema: nas refeições
comunitárias que a igreja primitiva compartilhava (aquilo que Judas 12 chama
de “refeições de amor”) os cristãos mais abastados estão trazendo mais comida
e bebida do que os outros participantes e estão comendo demais e se embebe-
dando às custas dos cristãos mais pobres. Por esse motivo Paulo lembra-os da
tradição sobre o ensino de Jesus acerca dessa refeição (v. 23-26). Essa é a mais
longa citação da tradição sobre Jesus em qualquer trecho das cartas, e seu con-
teúdo se aproxima bastante da forma das “palavras de instituição” encontradas
no Evangelho de Lucas (22.17-20). Considerando que 1Corintios antecede a
Lucas em pelo menos sete anos, aqui temos uma importante confirmação de que
até mesmo as formas características de paralelos de ditos de Jesus encontradas
mais tarde nos Evangelhos não foram criações dos autores dos Evangelhos, mas
se basearam em tradição já existente. E, é claro, quanto mais antiga a tradição,
maior a probabilidade de sua confiabilidade.8586*
Ao longo da história da igreja incontáveis debates têm girado cm torno do
significado das palavras de Cristo quando ele partiu o pão e o chamou de seu

85Para detalhes adicionais sobre todas as posições acerca dessa passagem, veja Craig L. Blom-
berg, “Women in ministry: a complementarían view”, in: James R. Beck, org., Two views on women
in ministry, ed. rev. (Grand Rapids: Zondervan, 2005), p. 155-61. Para um argumento de que a
profecia e o ensino devem ser claramente distinguidos e de que a profecia do Novo Testamento
“está sempre relatando algo que Deus traz espontaneamente à mente”, veja Wayne Grudem, E va n -
gelkalfem inism and biblical truth (Sisters: M ultnomah, 2004), p. 228-32. Grudem defende que “na
igreja as mulheres podem profetizar, mas não ensinar” (p. 230).
86Acerca tanto do significado quanto da história da tradição da ceia do Senhor, veja csp. I.
Howard Marshall, Last Supper and Lord’s Supper (Grand Rapids/Exeter: Eerdmans/Paternoster,
1980).
258 PAULO E SUAS CARTAS

corpo e quando pegou o cálice e se referiu a ele como seu sangue. M as é bem
pouco provável que qualquer de seus seguidores, ao vê-lo segurar esses elemen-
tos e declarar “Isto é...”, tivesse imaginado que ele queria dizer que o pão e 0
vinho haviam se tornado extensões reais de seus braços ou mãos. Quando per-
cebemos que com praticamente toda certeza Jesus falava em aramaico e que,
quando uma afirmação era suficientemente clara sem uma forma do verbo “ser”,
com frequência o aramaico omitia essa forma, torna-se ainda mais improvável
que ele estivesse afirmando que os elementos literalmente se transformaram em
seu corpo e sangue.87 A semelhança dos profetas do Antigo Testamento, Jesus
está encenando uma parábola visual para retratar vividamente o simbolismo da
refeição.88 Aqueles que comem e bebem com ele devem se lembrar de sua morte
expiatória pelos pecados da humanidade e aguardar com expectativa os dias em
que ele voltará e celebrará seu banquete messiânico com todos os seus seguido-
res. Nesse ínterim, ele está espiritualmente presente com os crentes, e isso em
particular durante essa ordenança especial.
Os versículos 27 a 34, portanto, advertem os corintios a não comer ou beber
de modo egoísta, para que Deus não os julgue, até mesmo com doença ou morte.
No versículo 27, a expressão “de modo indigno” traduz o advérbio grego “indig-
namente” (anaxiõs). Isso não implica que aqueles que são ou se sentem “indig-
nos” (um adjetivo) precisam se abster da mesa do Senhor. A celebração da ceia
do Senhor é justamente para pecadores! A expressão significa que aqueles que
não estão dispostos a compartilhar seus bens materiais com cristãos mais necessitados
no meio deles não devem participar. O mais provável é que, nesse contexto, “sem
reconhecer o corpo do Senhor” (v. 29) signifique “não estar devidamente preo-
cupado com o restante da igreja”. “O corpo do Senhor” é, nessa interpretação,
apenas um sinônimo da expressão favorita de Paulo, “o corpo de Cristo”.89 Por
derivação, é possível que Paulo também queria dizer que aqueles que participam
devem entender o significado da morte de Cristo.90
De um modo ou de outro, apenas crentes verdadeiros podem satisfazer
esses critérios e apenas eles devem ter permissão para celebrar a eucaristia. Mas
não há justificativa alguma para impedir que outras pessoas, simplesmente por
serem de uma denominação cristã diferente, participem dos elementos. E, assim
como no batismo (veja p. 68-70), não há passagem bíblica alguma que indique
que a ceia precisa ser ministrada por algum tipo em particular de cristão que tem

K7Hays (First Corinthians, p. 199) assinala que a ceia do Senhor expressa justamente o oposto
de uma presença real, ao reconhecer a ausência do Senhor, lembrando a sua morte e aguardando
o seu retorno.
ssDavid Wenham, “H ow Jesus understood the Last Supper: a parable in action”, Themeltos 20
(1995): 11-6.
59Thiselton, First Corinthians, p. 890.
90Fee, t Corinthians, p. 559,563.
A CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDEIAS EQUIVOCADAS... 259

determinado cargo. Parece que em praticamente todas as denominações cristas a


sobreposição da cultura e da tradição encobriu a prática original dessas duas orde-
nanças mais do que qualquer outro aspecto da vida da igreja, de modo que essas
denominações impõem restrições que vão muito além das prescrições bíblicas!

0 uso certo e errado dos dons espirituais (12.1— 14.40). O último dos tres proble-
mas que envolvem o culto dos corintios exige uma correção mais minuciosa.91
Podemos subdividir esses capítulos em pelo menos seis seções principais:
1. O reconhecimento dos dons (12.1-3). Vários cultos greco-romanos exibiam
características parecidas com aquelas apresentadas por seus equivalentes cristãos,
mais notadamente no que diz respeito a profecia e línguas. Todas as aparentes
manifestações de dons espirituais, portanto, precisam ser avaliadas. O teste fim-
damental é se aqueles que praticam os dons realmente reconhecem Jesus como
Senhor (v. 3).
2. A distribuição dos dons (12.4-11). Em resumo, Deus quer criar diversidade
dentro da unidade. Para fazer isso, ele dá a diferentes pessoas diferentes dons,
embora todos eles provenham do mesmo Deus triúno (v. 4-6). Pressupondo-se
que “Senhor” se refira a Cristo, os versículos 4 a 6 refletem um trinitarismo inci-
píente adicional.Todo cristão recebe pelo menos um dom espiritual (v. 7a), e cada
um deles deve ser usado para a edificação mútua (v. 7b). Paulo dá, então, exem-
pios de alguns desses dons (v. 8-10). Outras listas aparecem em Romanos 12.3-8
e Efésios 4.11. Não há prova alguma de que era para alguma dessas listas — ou
todas elas juntas — ser abrangente.92 Uma classificação útil divide os dons entre
aqueles que simplesmente acentuam características esperadas de todos os eren-
tes, aqueles que refletem papéis característicos de liderança e os fenômenos mais
“sobrenaturais” que Deus opera periodicamente por meio de alguns cristãos, mas
não refletem habilidades que eles podem invocar à vontade.93 O versículo 11 res-
salta o fato de que o Espírito de Deus determina quais crentes recebem quais
dons; eles não são algo que produzimos de acordo com nossos desejos.

91Sobre esses três capítulos, veja esp. D . A . Carson, Showing the Spirit (Grand Rapids: Baker,
1987) [edição cm português: A manifestação do Espírito: a contemporaneidade dos dons à luz de 1 Corin-
tios 12— 14, tradução de Caio Peres (São Paulo: Vida Nova, 2013)].
,2Para mais detalhes sobre os vários dons, veja esp. Kenneth Hemphill, Spiritual gifts (Nashville:
Broadman, 1988).
91Uma classificação a que se chega combinando os melhores insights de Michael Green, I believe
in the Holy Spirit, ed. rev. (Grand Rapids: Eerdmans, 2004) [edição em português: O Espirito Santo
(São Paulo: Shedd: 2018)], p. 210-59, com os de Donald Bridge; David Phypers, Spiritual gifts and
the church (London, Reino Unido: 1VP, 1973), p. 18-89. Existem vários testes para ajudar os eren-
tes a identificar seus dons espirituais; um dos mais simples, mas ainda assim útil, é encontrado em
Eddie Gibbs, I believe in church growth (Grand Rapids/London, Reino Unido: Eerdmans/Hodder
& Stoughton, 1981), p. 452-3.
260 I PAULO E SUAS CARTAS

Ainda assim, os dons espirituais vão desde habilidades que são dadas a
cristãos e são totalmente diferentes de qualquer coisa que eram capazes de fazer
como incrédulos até talentos que eles claramente já tinham, mas agora são santi-
ficados e usados para atender aos propósitos do reino de Deus.94 Dessa maneira,
alguns dons podem ser claramente desenvolvidos, da mesma maneira que nos-
sas habilidades melhoram com a prática. Mas induz em erro sugerir que pode-
mos ter qualquer dom que quisermos, caso simplesmente sigamos a prescrição
de determinada fórmula.
3. A importância de todos os dons (12.12-26). A semelhança do corpo físico,
a igreja é constituída de partes mutuamente interdependentes, cada uma das
quais é necessária, ainda que nem todas sejam igualmente proeminentes. Nosso
batismo comum nos lembra que o mesmo Espírito Santo habita em todos nós
(v. 13). Considerando que, apesar da imaturidade desenfreada existente na igreja
corintia, Paulo pôde afirmar que todo cristão de Corinto tem o Espírito, esse é,
no Novo Testamento, um dos textos mais fortes de respaldo à convicção de que
todo crente foi batizado no Espírito (veja acima, p. 46-7). Se há uma hierarquia
de dons, não são aqueles que capacitam líderes ou aqueles que falam em público
que se revelam os mais valiosos. Assim como cobrimos nossas partes íntimas por
causa do grande valor que atribuímos a elas, da mesma forma os crentes cujos
dons não necessariamente os colocam no centro das atenções podem ser às vezes
os mais necessários (v. 22-24). Pensa-se, por exemplo, naqueles capacitados a
exercitar graus especiais de fé ou de contribuição.
A. A hierarquia dos dons (12.27-31a). Mesmo que Paulo tenha acabado de
comparar os dons menos visíveis com os mais públicos e tenha sugerido que, em
certo sentido, aqueles se mostram mais valiosos, ele realmente não estava expres-
sando preferência por um dom em detrimento de outro. O foco central dos ver-
sículos 12 a 26 foi a importância de todos os dons. Contudo, diante do fato de
os líderes corintios superestimarem sua própria importância, Paulo quis nivelar
a esfera de atuação. Agora ele parece voltar a se contradizer, caso os versículos
27 a 31 estabeleçam um tipo diferente de hierarquia. Essa seria uma contradi-
ção mais fundamental, porque parece que aqui ele restabelece dons de liderança
como apostolado, profecia e ensino como os mais importantes (v. 28). O mais

4‫״‬Cf. Ralph P. Martin, The Spirit and the congregation (Grand Rapids: Eerdmans, 1984), p. 37:
“Qualquer situação de vida pode se tornar o charisma dado por Deus a alguém ‘apenas quando reco-
nheço que o Senhor o tem dado para mim e que devo aceitar esse dom como seu chamado e sua
ordem para mim’”. Além do mais, “nenhum ‘dom’ c inercntcmcntc carismático, mas tem a possi-
bilidade dc sc-lo, caso seja colocado e usado debaixo do domínio de Cristo. Assim, a ordem natu-
ral é ‘sacralizada’ por pertencer a Cristo”. Cf. tb. Prior, 1 Corinthians, p. 198: “Também parecería
errado, por um lado, confinar os dons do Espírito a habilidades naturais preparadas e outorgadas
por D eus ou então, por outro lado, afirmar que os dons reais do Espírito são apenas aqueles que
são manifestamente sobrenaturais”.
A CORRESPONDÊNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDEIAS EQUIVOCADAS... | 261

provável é que a classificação implícita em “primeiramente”, “em segundo lugar”


e “em terceiro” seja a ordem cronológica de certos dons. A fim de até mesmo ter
uma igreja, precisa haver um missionário ou plantador de igrejas (o significado
da raiz de “apóstolo”), aquele que proclama a Palavra de Deus (a função de um
“profeta”)95 e aquele que ensina aos novos discípulos o corpo doutrinário cristão.
Então, c só então, todos os demais dons podem entrar em cena.

CLASSIFICAÇAO DOS DONS ESPIRITUAIS


ROMANOS 12, !CORINTIOS 12, EFÉSIOS 4

Virtudes ordenadas Papéis especiais de Carismas


a todos os cristãos liderança “sobrenaturais”

• Sabedoria • Apóstolos • Cura


• Conhecimento • Evangelistas • Milagres
• Fé • Pastores • Profecia
• Serviço • Mestres • Discernimento
• Exortação • Administradores de espíritos
• Dar • Línguas
• Compartilhar • Interpretação de
• Misericórdia línguas

A ordem desses dons restantes parece, com exceção do último, em grande


parte aleatória. Apesar de não fazer pouco caso das línguas em si, Paulo reco-
nhece que os corintios vinham exaltando demais esse dom específico e, por esse
motivo, o rebaixa para o fim de sua lista. No texto grego as questões retóricas dos
versículos 29 e 30 empregam todas elas o advérbio negativo que indica ser um
“não” a resposta implícita a cada uma delas. Os cristãos que afirmam que todos
os crentes deveríam receber ou até mesmo procurar um dom espiritual especí-
fico contradizem categoricamente a Palavra de Deus nessa questão. O que, então,
Paulo quer dizer ao concluir essa seção com a ordem de “desejar ansiosamente os

95“Profetas realizam pronunciamentos de anúncio, de proclamação, de juízo, dc questiona-


mento, de consolo, de apoio ou de encorajamento, ao passo que mestres realizam pronunciamentos
de transmissão, de explicação comunicativa, de interpretação de textos, de instituição dc credos, de
esclarecimento de significado c de implicações e atos comunicativos mais cognitivos e de menor
aplicação temporal” (Thiselton, First Corinthians, p. 1017). D ito de maneira mais simples, pode se
definir a profecia como “a declaração da vontade dc Deus ao povo” (Garland, 1 Corinthians, p. 582)
ou como “pregação pastoral” (David H ill, N ew Testament prophecy [London, Reino Unido/Atlanta:
Marshall, M organ Sc Scott/John Knox, 1979], p. 123).
262 I PAULO E SUAS CARTAS

melhores dons”(v. 31a)? É provável que nesse contexto ele esteja deixando implí-
cito que se deve aspirar aos papéis menos visíveis, por trás dos bastidores, que bem
poucos corintios estão desempenhando. E de todo correto orar pedindo certos
dons, desde que a pessoa deixe espaço para o Espírito responder àquelas orações
da maneira que preferir. Deus sempre nos incentiva a derramar diante dele os
desejos de nosso coração, mas precisamos sempre permitir que ele seja soberano
e jamais ter a pretensão de lhe dizer o que fazer ou de saber como ele reagirá.
5. O papel do amor (12.31b— 13.13). Muitas pessoas bem pouco familiari-
zadas com a Bíblia em seus pormenores — quaisquer que sejam — têm, ainda
assim, ouvido ou lido o capítulo 13 de Corintios. E um texto favorito recorrente
em casamentos, em especial em círculos cristãos. No entanto, bem poucos pare-
cem ter consciência de que essa passagem não é um poema ou uma rapsódia inde-
pendente que exalta o amor, mas está bem no meio da análise de Paulo sobre os
dons espirituais. Os versículos 1 a 3 relacionam vários dons como exemplos para
destacar que, sem amor, até os melhores dons são inúteis.96 Os versículos 4 a 7
apresentam uma lista de qualidades positivas e negativas do amor que particular-
mente os corintios precisavam praticar ou evitar. Com frequência tem se desta-
cado que esses traços de caráter estão perfeitamente de acordo com o exemplo de
vida de Jesus, de maneira que, à medida que crescemos nesses atributos, nos tor-
namos mais parecidos com Cristo. Uma excelente síntese da descrição feita aqui
sobre o amor é “a doação espontânea do melhor que você tem em favor de outro,
independentemente da reação”.97 Além do mais, “o amor se torna uma maneira
de combater um mundo ainda cheio de pecados; é algo que fazemos pelos outros
apesar de quem eles são e apesar de nossos sentimentos sobre eles”.98
Nos versículos 8 a 13, Paulo torna a escolher uma amostra de dons, desta-
cando sua transitoriedade em comparação com a permanência do amor (e, mais
adiante, com a permanência da fé e da esperança, v. 13). À luz de 1.7 (“portanto,
vocês nãc têm falta de dom espiritual algum enquanto aguardam ansiosamente
que nosso Senhor Jesus Cristo seja revelado”), com praticamente toda certeza “o
que é perfeito”, no versículo 10, se refere à volta de Cristo. Essa imagem também
se encaixa no contexto imediato. Conquanto alguns tenham tentado defender que
Paulo está falando do fim da era apostólica ou do fechamento do canon, os eren-
tes não conheceram tudo nem cresceram até a perfeita maturidade no primeiro

‘,6H á uma importante variante textual no versículo 3, conforme destacado na nota marginal
na N IV (“para que eu tenha de que me vangloriar” em vez de “às chamas"). Por causa da improba-
bilidade de um copista mudar a variante mais vivida do texto da N IV para a alternativa marginal,
parece provável que devamos aceitar a variante na margem como a original.
,,‫׳‬Esse é o lema criado por Richard Walker para A M O R Ministries (Murray, estado de Ken-
tuck)')· Walker é urn pastor c missionário batista que atua há muito tempo na bacia do alto Ama-
zonas no Brasil.
98Vander Broek, Breaking barriers, p. 146.
A CORRESPONDÊNC1Λ CORINTIA: COMBATENDO IDÉIAS EQUIVOCADAS... ‫ ן‬263

século (v. 9,10). Nem viram Deus “face a face”, como todos veremos quando
Jesus voltar em pessoa (v. 12). O argumento de que apenas certos dons — isto c,
os mais sobrenaturais — cessaram no final do primeiro século deixa de levar em
conta que, na verdade, eles continuaram com certa frequência até a parte inicial do
terceiro século da era cristã e continuaram a reaparecer (embora de forma relati-
vamente rara) aqui e ali ao longo da história da igreja." Além disso, essa posição
defende muitas vezes que as línguas cessarão por si mesmas (i.e., antes dos dons
menos sobrenaturais) porque no versículo 8 o verbo traduzido por “silenciarão”
está na voz média. Contudo, na prática, no grego do primeiro século, esse verbo
grego (pauomai) havia se tornado praticamente um verbo depoente, de modo
que não há diferença entre essa forma e a voz ativa, o que é simplesmente uma
afirmação de que, em algum momento no futuro, o dom não mais continuará.100
Por esse motivo, quando a era cristã chegar ao fim, as línguas (como todos
os demais dons) não serão mais necessários porque não estarão mais edificando
a igreja. Mas a fé, a esperança e o amor permanecerão (v. 13a). Isso sugere que
essas três virtudes perdurarão por toda a eternidade, o que faz sentido, “caso a fé
seja entendida como crença em Jesus e como serviço fiel a ele e caso a esperança
se refira à expectativa das boas coisas que Deus tem no futuro para nós”.101 Con-
tudo, o amor continua sendo o maior, provavelmente porque é o mais básico e o
mais central para a ética cristã.
6. Comparando profecia e línguas (14.1-40). Agora Paulo põe em desta-
que os dois dons que mais dividem os corintios. A “idéia central” desse capí-
tulo é dar preferência à profecia sobre línguas. Os versículos 1 a 25 explicam por
que a profecia (a proclamação inteligível, de modo preparado ou espontâneo,
da Palavra de Deus) é superior: é imediatamente compreensível (v. 1-19) e, em
comparação com as línguas, é menos provável que leve os não iniciados a pen-
sar que os cristãos são loucos (v. 20-25). A semelhança da profecia, falar em
línguas assumia várias formas no antigo mundo mediterrâneo. Comum a essas

"Um bom histórico sobre o falar cm línguas aparece cm Morton Kelsey, Tongues speaking: the
history and meaning o f Charismatic experience (N ew York: Crossroad, 1981). Um bom estudo sobre
a profecia em um setor influente da igreja no terceiro século é Cecil M . Robcck Jr., Prophecy in
Carthage: Perpetua, Tertullian, Cyprian (Cleveland: Pilgrim, 1992). Para um estudo mais breve e
mais geral, cf. a lista de referencias à presença contínua dos dons mais sobrenaturais nos primeiros
séculos da história da igreja em C. H .Talbert, Reading Corinthians (N ew York: Crossroad, 1987),
p. 82-3,88-90. Além disso, nada cm quaisquer dos escritos de Paulo revela qualquer consciencia de
aproximar-se o fim de urna “era apostólica” ou o “fechamento de um canon”. Os pais da igreja siste-
maticamente identificaram o “perfeito”com a parúsia; veja Gar}‫ ׳‬S. Shogren,"How did they suppose
the perfect would come? 1 Corinthians 13.8-12 in Patristic exegesis”,J P T 1 5 (1999): 99-129. No
dizer de Hays (First Corinthians, p. 229), o linguajar de Paulo é “patentemente cscatológico”, c a
interpretação daquilo que é “perfeito” como o final do primeiro século “é simplesmente bobagem”.
100Cf. Carson, Showing the Spirit, p. 66-7.
101Blomberg, 1 Corinthians, p. 260.
264 I PAULO E SUAS CARTAS

formas era o som de uma língua desconhecida, mas não era necessária a pre-
scnça de uma estrutura linguística formal.*1002 E claro que, assim que são inter-
pretadas, as línguas podem funcionar como profecia (v. 5).103 Entretanto, não há
garantia alguma de que um intérprete estará presente em qualquer contexto no
qual alguém que fala em línguas exercite seu dom, de maneira que Paulo não
consegue ficar tão empolgado com a utilização desse carisma em particular. Os
versículos 6 a 12 oferecem várias analogias de combinações de sons que per-
manecem potencialmente ambíguos. Uma vez que as pessoas de Corinto não
ouviam automaticamente a glossolalia como idiomas compreensíveis, sabemos
que esse é um fenômeno diferente daquele que acompanhou a descida do Espí-
rito por ocasião do Pentecostés (At 2).
À luz dos problemas que as línguas estavam causando, deve ter sido tentador
para Paulo simplesmente proibir a prática por completo. Mas os versículos 13 a
19 deixam claro que ele resiste a essa tentação. Aqueles que têm o dom devem
orar por um intérprete ou para que Deus lhes dê a interpretação. Caso contrário,
devem exercer seu dom em particular (algo provavelmente parecido com aquilo
que os carismáticos de hoje chamam de “língua de oração”) e empregar mais
habilidades cognitivas em público. De forma um tanto ou quanto surpreendente,
Paulo admite que fala em línguas mais do que todos os corintios (v. 19), mas é
bem possível que eles nem mesmo soubessem disso, porque ele o faz quase que
exclusivamente fora da “igreja”.
Paulo continua detalhando sobre seu tema, a saber, o que é mais inteligível e
menos propenso a enganos (v. 20-25). Citando Isaías 28.11,12 (v. 21), ele deduz
que as línguas “são um sinal, não para os crentes, e sim para os incrédulos; mas a
profecia é para os crentes, não para os incrédulos” (v. 22).104 Contudo, isso parece
estar totalmente invertido! Enquanto passa imediatamente a explicar, Paulo está
preocupado que, quando vão a um culto cristão, incrédulos criem aversão por causa
da estranheza e da potencial ininteligibilidade das línguas (v. 23). Então como
as línguas podem ser um sinal para os incrédulos? A resposta surge ao se consi-
derar a citação de Isaías em seu contexto original. Ali o profeta estava prevendo
a invasão assíria de Israel como parte do juízo de Deus contra seu povo rebelde.
Assim também as línguas podem funcionar como um sinal de juízo quando os
incrédulos reagem negativamente e, dessa maneira, não se aproximam de Cristo.
A profecia envolve, em contrapartida, principalmente pregar aos crentes. Mas o

102Carson, Showing the Spirit, p. 77-88. Dale B. Martin (“Tongues o f angels and other status
indicators”,J A A R 59 [1991J: 547) mostrou que na época de Paulo frequentemente se pensava que
as línguas eram idiomas dos anjos, o que também talvez explique 13.1.
101Garland, 1 Corinthians, p. 635.
1114Sobre os contrastes entre as comunidades daqueles “em Adão” e daqueles “a n Cristo”, ambas
entendidas como realidades ontológicas, veja Sang-Won (Aaron) Son, Corporate elements in Pauline
anthropology (Rome: PIB, 2001).
A CORRKSPONT)ÈNCIA CORINTIA: COMBATENDO IDEJAS EQUIVOCADAS... | 265

poder de convencimento do Espírito Santo pode também usá-la para levar pes-
soas de fora ao Senhor (v. 24,25).105
A segunda metade do capítulo 14 cria uma generalização a partir da ideia
principal de Paulo (dar preferência à profecia), aplicando-a à ordem necessá-
ria no exercício dos dons espirituais em geral. O versículo 26 descreve um culto
típico, no qual cada pessoa que tem um dom de elocução pode ter a oportunidade
de usá-lo. Os cultos contemporâneos fariam bem em criar oportunidades, pelo
menos de tempos em tempos, para que haja semelhante espontaneidade; é difícil
entender como deixamos o Espírito ser soberano quando nada ocorre na igreja
que não tenha sido planejado com pelo menos vários dias de antecedência! Mas
0 propósito dessas oportunidades é a edificação da igreja, não os crentes desfi-
larem sua piedade em público! Paulo então volta a tratar de normas específicas
para os dois dons particularmente controversos, línguas c profecia (v. 27-33a).
Em ambos os casos ele limita o número de pessoas com permissão de participar
e insiste em que ninguém interrompa outra pessoa. No caso de línguas, precisa
haver interpretação. Se nenhuma surgir, aquele que fala deve permanecer em
silêncio até que haja motivo para crer que há um intérprete presente. No caso de
profecia, a igreja deve avaliar a credibilidade daquilo que ouve.106
O simples fato de pessoas dizerem “O Senhor nos revela hoje...” não signi-
fica necessariamente que Deus está falando por meio delas. Mesmo que tenham
recebido uma mensagem do Senhor, os crentes nunca exercitam perfeitamente
dom espiritual algum; por esse motivo podem acrescentar algumas de suas pró-
prias conclusões interpretativas à mensagem, 0 que pode ou não ser o que Deus
pretende (veja At 21.4). Por conseguinte, a necessidade de testar as instruções de
Paulo igualmente implica que mesmo aqueles dotados dos dons mais sobrenaturais*16

105Veja ainda David E. Lanier, “W ith stammering lips and another tongue: 1 Cor 14:20-22
and Isa 28:11,12”, C T R 5 (1991): 259-85. Cf. Karl O. Sandnes, “Prophecy — a sign for believers
(1 Cor 1 4 ,2 0 -2 5 )”, Bib 77 (1996): 1-15.
16‫״‬E necessário fazer distinção entre a avaliação da profecia c o dom espiritual de discerni-
mento de espíritos (12.10). Este último envolve decidir se um fenômeno espiritual procede mesmo
da parte do Senhor. Veja Wayne A. Grudem, 'lhe g ift o f prophecy in 1 Corinthians (Lanham: UPA,
1982), p. 263-88. Tendo em vista a expressão específica usada por Paulo (hoi alloi em vez dc hoi
loipoi), o mais provável é que “os outros” no versículo 29 (que devem ponderar cuidadosamente a
suposta profecia) sejam referencia a toda a igreja, e não aos demais profetas — Carson, Showing
the Spirit, p. 1 2 0 .0 texto não informa os critérios específicos que devem ter sido usados para julgar
declarações proféticas, mas M ichael Green (To Corinth w ith love [London, Reino Unido: Hodder
e Stoughton, 1982J, p. 77-8) combina varias passagens das Escrituras para fazer sete sugestões:
(1) A declaração profética glorifica a D eus cm vez do orador, igreja ou denominação? (2) Está de
acordo com as Escrituras? (3) Edifica a igreja? (4) É dita com amor? (5) Aquele ou aquela que
fala se submete, com humildade espiritual, ao julgamento e ao consenso de outros? (6) Aquele ou
aquela que fala está no controle dc si mesmo ou de si mesma? (7) Há uma quantidade razoável de
instrução, ou a mensagem parece ter detalhes excessivos?
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