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Domínio Leitura Ficha 2

Ficha 2 · Apreciação crítica

Lê com atenção as duas apreciações críticas que se seguem, alusivas ao filme Uma Rapariga
Regressa de Noite Sozinha a Casa.

Texto A

Uma Rapariga Regressa


de Noite Sozinha a Casa
Realização: Ana Lily Amirpour

Atores: Sheila Vand, Arash Marandi, Marshall Manesh




Ana Lily Amirpour não precisou de muito tempo para mos-


trar as garras (ou os dentes, se se preferir). Em “Uma Rapariga
5
Regressa de Noite Sozinha a Casa”, aquela que é a sua primeira
longa-metragem, a jovem realizadora americana de ascendên-
cia iraniana cruza com enorme confiança e graça referências e
estilos muito diferentes. A cuidadosa composição espacial dos
planos, a atenção votada à música, à iluminação e à caracteriza-
ção dos atores revela não só o domínio da estética e dos códigos de género (o filme de terror, o
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western1, o noir2), mas também uma originalidade que não se fica pelo pastiche 3 ou a home-
nagem.
A atitude crítica e criativa de Amirpour está presente, desde logo, no título do filme, que
joga com as nossas expectativas e preconceitos. Em “Uma Rapariga Regressa de Noite
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Sozinha a Casa” não é “a rapariga” (Sheila Vand) que corre perigo: ela é o perigo. O típico
xador4 negro que a cobre da cabeça aos pés não simboliza a sua submissão à lei patriarcal, não
serve para esconder a sua beleza frágil mas antes para acentuar a natureza fantástica de uma
predadora implacável.
Totalmente falado em farsi5, o filme passa-se num qualquer subúrbio industrial a que se
chamou, simplesmente, “Cidade Má”. Neste cenário desolado, entre bandidos, prostitutas e
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drogados, vão-se cruzar dois seres solitários: ele (Arash Marandi), um jardineiro com ares de
James Dean, ela, uma vampira muito cool6 que parece saída de um filme da nouvelle vague7.
O magnetismo que a atriz empresta à personagem é absolutamente irresistível – não só para
as suas vítimas como para a própria câmara, que a segue avidamente.
Em “Uma Rapariga Regressa de Noite Sozinha a Casa”, a quase ausência de diálogo é, sem
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prejuízo, substituída pela qualidade do detalhe visual. Como numa pequena alegoria, a ambi-
guidade moral é servida pela fotografia a preto e branco onde o sangue se confunde com o
batom e o recurso a velhas lentes anamórficas 8 estica e distorce ligeiramente a imagem
esbatendo os limites entre o bem e o mal. Será este um sinal de esperança ou de danação 9?
MAIA, Catarina, 2015. “Uma Rapariga Regressa de Noite Sozinha a Casa”. Metropolis, n.º 31, setembro de 2015 (p. 18)

OEXP11 © Porto Editora 1


Domínio Leitura Ficha 2

Texto B

UMA RAPARIGA REGRESSA DE NOITE


SOZINHA A CASA
De Ana Lily Amirpour

Com Sheila Vand, Arash Marandi (EUA)


Terror M/12

ESTREIA A primeira longa-metragem de Ana Lily Amirpour começa por impor

um décor10: o de uma desolada cidade industrial iraniana (trata-se, de facto, de


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Bakersfield, na Califórnia, Estados Unidos), que se deixa dominar pelo vício.
É sobre este fundo (fotografado num preto e branco opressivo) que se recortam
as figuras centrais do filme: um rapaz sem eira nem beira e uma jovem vampira
que vai matando em série os pecadores da cidade. Na companhia destas silhuetas,
vamos esperando que Ana Lily Amirpour desenvolva os vários elementos
10
que põe em jogo (a condição feminina no Irão, a adolescência).
Mas não é preciso esperar muito até que se perceba que o cenário e as perso-
nagens são só os suportes de um exercício de estilo, onde, à visão, se prefere o
‘visual’, isto é: a construção de um look11 de filme indie12, que se esgota na sua
própria pose. Ficamos assim com um entediante pot-pourrie13 de géneros (o filme
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de vampiros, o western spaghetti14) […], que não olha a meios para camuflar o seu
vazio, dando-se até ao luxo de oferecer, em câmara subjetiva, um ponto de vista a
um morto.
MARQUES, Vasco Baptista, 2015. “Uma Rapariga Regressa de Noite Sozinha a Casa”.
E (Expresso), n.º 2236, 5 de setembro de 2015 (p. 71)

1. género narrativo caracterizado por cenas de tiroteio e de luta entre cowboys, índios, pistoleiros, etc.; 2. termo
utilizado para designar o género fílmico desenvolvido em torno de crimes; 3. imitação humorística ou satírica;
4. Traje feminino muçulmano, de origem iraniana, que cobre a cabeça e o corpo, deixando o rosto descoberto;
5. Língua persa; 6. descontraída e sofisticada; 7. movimento do cinema francês, dos anos sessenta do século
XX, caracterizado pelo intuito transgressor dos filmes, pela juventude dos atores e pela inspiração na vida de
uma individualidade humana; 8. que deformam as imagens; 9. raiva, fúria; 10. cenário; 11. ambiente; 12.
desvinculado de grandes editoras ou produtoras e de características menos comerciais; 13. mistura de
elementos; 14. género fílmico marcado pelos traços de western (cf. nota 1.) mas produzidos e realizados por
europeus (inicialmente, italianos).

Responde, de forma estruturada, às questões apresentadas.


1. Os Textos A e B concretizam apreciações críticas do filme Uma Rapariga Regressa de Noite
Sozinha a Casa.
1.1. Delimita, em cada um dos artigos, o momento dedicado à descrição sucinta do objeto
em análise.
1.2. Conjugando a informação recolhida em ambos os textos, sintetiza o argumento do filme.

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2. Classifica como verdadeiras (V) ou falsas (F) as afirmações que se seguem, justificando
as que considerares falsas com recurso a elementos textuais.

a. Ambos os textos qualificam o espaço onde decorre a ação de Uma Rapariga Regressa

de Noite Sozinha a Casa de forma idêntica.


b. O recurso à “fotografia a preto e branco” (Texto A, l. 25) é destacado e valorizado
enquanto opção estética do filme nas duas apreciações críticas.
c. O Texto A e o Texto B coincidem na caracterização positiva dos protagonistas da
película.
d. O autor do Texto B coloca em destaque a expectativa criada pelo início do filme
relativamente à hipótese de abordagem de temas de cariz social.
e. À “originalidade” (l. 9) do filme de Ana Lily Amirpour, referida no Texto A, o Texto B
contrapõe o seu “vazio” (l. 14) de construção.
f. O autor do Texto B elogia o trabalho da atriz que dá vida à personagem principal
feminina.
g. A “quase ausência de diálogo” (Texto A, l. 23) é apontada, no Texto A, como um
elemento menos bem conseguido no filme.

3. Transcreve passagens de ambos os textos que evidenciem a distinta perceção e apreciação


dos críticos em relação à combinação de estilos e de géneros concretizada em Uma
Rapariga Regressa de Noite Sozinha a Casa.

4. Atendendo à apreciação produzida ao longo do artigo, interpreta a primeira frase do Texto A,


destacando:
a. o recurso à expressão idiomática “mostrar as garras”;
b. a expressividade do discurso parentético.

5. Explicita a crítica feita ao filme nas frases finais do Texto B.

6. Explica de que modo o título do filme de Ana Lily Amirpour “joga com as nossas expectativas
e preconceitos” (Texto A, l. 12).

7. Identifica a expressão valorativa que, na tua opinião, em cada um dos textos sintetiza a
apreciação crítica desenvolvida.

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