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A presente obra

sobre a 7ª Fase do “Projeto-


Aventura Desafiando o Rio-
Mar” ‒ Expedição Centenária
Roosevelt-Rondon ‒ Parte I,
em três tomos, reverencia
dois ícones da história da
humanidade que gravaram
para sempre seus nomes
dentre os mais corajosos
desbravadores de todos os
tempos, ao sulcar as
tumultuárias águas de um Rio
inóspito, enfrentando a fome,
os Saltos, as Cachoeiras, os
Rápidos e toda a sorte de
adversidades impostas pela
densa floresta tropical e seus
habitantes.

Dedicamos esta obra a um


personagem quase
desconhecido – o Sargento
Manoel Vicente da Paixão –,
do 5° Batalhão de
Engenharia, um veterano que
participou com destaque dos
trabalhos da Comissão das
Linhas Telegráficas,
enfrentando as adversidades
do Sertão no planalto dos
Paresí. Como Cabo, foi
nomeado, por Rondon, para
comandar um Posto Militar
instalado no Juína, local que
serviria de ponto de apoio à
Comissão de Rondon. Nesse
Posto ele recebeu, em 1911,
a visita de um grupo de
índios Nhambiquara tendo o
mérito de lhes conquistar a
confiança e o prestígio.
Prefácio
Por Marc André Meyers

Quando cerrei a última página do livro de Candice


Millard, “The River of Doubt”, a cerca de dois anos,
uma ideia me veio à mente: seguir as pegadas da
Expedição Científica Roosevelt-Rondon, de 1913-
1914, usando, tanto quanto possíveis, meios seme-
lhantes de transporte. Esta ideia ressoou com velhos
sonhos, que eu carregava dentro de mim desde
1969, quando participei do Projeto Rondon, nas pro-
fundezas da Amazônia, no Rio Purus. Mas a semente
nasceu mesmo antes, com histórias fantásticas
trazidas por turmas de pescadores que deixaram
minha cidade de Monlevade e se aventuraram mais e
mais para dentro da Bacia Amazônica. Poraquês
elétricos, peixes com dentes gigantescos, piranhas
sedentas de sangue. Então, me juntei a eles uma
vez, em 1964, e passei 48 horas na carroceria de um
caminhão Fenêmê [FNM], atravessando o planalto
Brasileiro a 40 km/h, suportando o frio mais amargo
de toda a minha vida quando, às três da madrugada,
a friagem da noite juntava-se ao vento do caminhão
aberto para nos torturar. Nós finalmente chegamos,
depois de sermos salvos de um atoleiro nos pântanos
perto do Rio, por seis juntas de bois. A pesca foi
extremamente pobre, uma vez que atingimos o Rio
Javaé, que estava quase seco, em vez do lendário
Rio Araguaia.

Mas meu entusiasmo destemido e curiosidade conti-


nuaram ao olhar hipnotizado as figuras de um livro
que tínhamos em nossa casa com o nome “Tupari”
mostrando uma tribo em seu estado natural. O etnó-
logo alemão documentou a vida diária desta tribo e
as fotografias ainda estão gravadas em minha
mente.
1
Então, a ideia de que se apossou de mim foi a
concretização de um sonho ao longo da vida. No
entanto, há uma enorme distância entre o sonho e a
realidade, e eu não sabia por onde começar. Minhas
tentativas de despertar o interesse e a participação
do Exército Brasileiro para reviver os acontecimentos
importantes falharam. No entanto, no turbilhão de
uma atividade aleatória houve um evento fantástico,
protagonizado por meu ex-aluno e colega Coronel
Luís Henrique Leme Louro. Em uma mensagem
eletrônica, ele relatou-me que tinha ouvido falar de
um oficial brasileiro lendário que tinha percorrido
mais de 11.000 km na Amazônia em um caiaque,
sendo o primeiro a descer vários destes Rios. Minha
esperança transformou-se em emoção quando o
Coronel Hiram Reis e Silva respondeu seu e-mail e
apoiou o projeto com entusiasmo. Eis as suas pala-
vras, a 14.02.2014, dirigidas ao Cel Louro:

Caro amigo estamos “De Pé e à Ordem”.


Este ano, em princípio tenho mais três Expedições a
realizar:
1ª Travessia da Laguna dos Patos de Porto Alegre a
Rio Grande pela Margem Oriental;
2ª Fechando minhas jornadas pelos amazônicos
caudais (11.400 km) ‒ 7ª Expedição: Santarém ‒
Macapá ‒ 01.08.2014;
3ª Circunavegação da Lagoa Mirim – 17.09.2014.
Nada que não possa ser reagendado caso o Dr. Marc
Meyers deseje que eu participe, com meu caiaque
oceânico, de sua Expedição pelo Rio Roosevelt. Seria
mais uma oportunidade de homenagear a figura
humana que considero mais importante e carismá-
tica de toda nossa história.
Envio uma cópia do meu livro Descendo o Rio Negro
onde presto reverência especial a Rondon ‒ meu
Farol como desbravador. Agradeço sua deferência e
coloco-me, como pesquisador do DECEx, inteira-
mente à disposição do Dr. Marc Meyers.
2
Tinha o Cel Hiram três importantes atividades programa-
das, mas, imediatamente, transformou em realidade a
Expedição Centenária Roosevelt-Rondon. A partir deste
momento as minhas esperanças foram fortalecendo-se.

Ele me guiou através do processo já que eu sou, em


comparação a ele, um neófito em canoagem. Minha expe-
riência mais longa é de remar 8 horas consecutivas. Uma
infinidade de outros assuntos foram tratados e tratativas
foram exploradas desde a seleção de equipamento até a
estratégia da Expedição.

A descida não foi fácil. Na verdade, ela colocou desafios às


vezes intransponíveis, mas o Cel Hiram, assim como seu
predecessor Rondon, usou prudência sempre que neces-
sário e ousadia quando não havia outra opção. Algumas
vezes eu fiz uma pequena oração e, como os cavaleiros de
outrora, entreguei minha alma ao “Mais Alto” antes de
descer uma corredeira.

Com paciência, ele me salvou da água três vezes e devo-


lhe, portanto, um agradecimento especial. Tivemos três
vantagens sobre a Expedição Original de 1914:

1ª Época. Chegamos um pouco antes do início da


temporada das chuvas, quando o Rio estava em
seu nível mais baixo, enquanto que a Expedição
de 1914, que desceu no período fevereiro-março,
devido aos muitos atrasos provocados por
Roosevelt. Enfrentaram um verdadeiro inferno
provocado pelas águas revoltas e insetos.
2ª Embarcações. O Cel Hiram conhece muito bem os
Rios da Amazônia e recomendou os caiaques
oceânicos. Isto provou ser uma escolha sábia. Nós
complementamos estes com uma canoa desmon-
tável feita de uma estrutura de alumínio coberta
por lona. Apesar de mais lenta, com dois rema-
dores foi mais rápida do que eu no meu caiaque.
Esta canoa permitiu que levássemos nosso equi-
pamento. Rondon tinha à sua disposição canoas
pesadas, construídas pelos nativos, e algumas
delas foram perdidas.
3
3ª Número de membros e equipamentos. A Expedi-
ção original tinha 22 membros, dos quais 14 se
encarregaram da maior parte do remo, carrega-
mento, e fainas do acampamento. Ela também
tinha quase 300 caixas de equipamentos e supri-
mentos. Tivemos quatro pessoas e um mínimo de
equipamento e material, cerca de 300 kg.
Descrevo aqui um dia típico. De madrugada, ele era o
primeiro a despertar e, com disciplina espartana, saia à
frente em sua missão de reconhecimento.

Seus mapas meticulosos continham as informações essen-


ciais para o nosso progresso e as rotas propostas para
superar as cachoeiras e corredeiras.

O Coronel Hiram não é apenas um explorador talentoso,


mas também um historiador, e este livro detalha não
somente a nossa Expedição, mas compara-a com a
Expedição Científica Roosevelt-Rondon. Procurou as fontes
primárias importantes para definir o cenário e, desta
forma, ele desempenhou o papel de Rondon.

Eu também tenho de reconhecer no Cel Angonese um


oficial Brasileiro de grande coragem com vasta experiência
na selva. O seu entusiasmo e energia indomável motiva-
ram todos nós.

Representando os EUA, Jeffrey Lehmann documentou toda


a Expedição e demonstrando uma grande resistência e
capacidade de remar.

Esta descida do Rio Roosevelt não poderia ter ocorrido e,


mais importante, teria falhado se o Coronel Hiram Reis
não tivesse usado todo o seu conhecimento e energia para
nos liderar. Sua admiração por Rondon, que também era
um Coronel na época da Expedição histórica e trágica,
transpareceu nas diversas discussões em que me infor-
mou sobre a complexa interação entre a história e aven-
tura que convergiram para a Expedição de 1913-1914 e
para conquista subsequente desta região da Amazônia.

4
Esta foi uma aventura inesquecível, uma vez que
representa não só uma experiência pessoal, mas também
uma avaliação dos aspectos históricos, que são de grande
importância. O Coronel Hiram trata estes dois aspectos de
uma forma admirável neste livro, e sinto-me honrado por
ter sido escolhido para escrever o seu prefácio.

5
O Nadador
(Castro Alves)

Ei-lo que ao Rio arroja-se.


As vagas bipartiram-se;
Mas rijas contraíram-se
Por sobre o nadador...
Depois se entreabre lúgubre
Um círculo simbólico...
É o riso diabólico
Do pego zombador!

Mas não! Do abismo ‒ indômito


Surge-me um rosto pálido,
Como o Netuno esquálido,
Que amaina a crina ao mar;
Fita o batel longínquo
Na sombra do crepúsculo...
Rasga com férreo músculo
O rio par a par,

Vagas! Curvai-vos tímidas!


Abri fileiras pávidas (1)
Às mãos possantes, ávidas
Do nadador audaz! ...
Belo, de força olímpica
‒ Soltos cabelos úmidos ‒
Braços hercúleos, túmidos... (2)
O rei dos vendavais!

Mas ai! Lá ruge próxima


A correnteza hórrida,
Como da zona tórrida
A boicininga (3) a urrar... [...]

1
Pávidas: tímidas.
2
Túmidos: grossos.
6
Agradecimentos
A Vanessa, Danielle e João Paulo, meus filhos
queridos que, mesmo diante de todas as dificuldades
pelas quais estamos passando com o problema de
saúde de minha esposa inválida e consequentes dificul-
dades financeiras, sempre me apoiaram e incentiva-
ram;

Ao meus irmãos, Luiz Carlos Reis e Silva e


Carlos Henrique Reis e Silva, amigos de todas as horas,
o apoio irrestrito e oportuno à minha família;

Ao General-de-Exército Edson Leal Pujol ‒


Comandante do Comando Militar do Sul (CMS) e ao Cel
Eng Rogério Cetrim de Siqueira, meu chefe imediato,
que sancionam nossas pesquisas em todo o território
nacional. Ao General-de-Exército José Luiz Dias Freitas
‒ Comandante do Comando Militar do Oeste (CMO), ao
Tenente-Coronel Inf Ricardo Kleber Lopes Coelho, Cmt
do 2° B Fron, Cáceres, MT, ao Tenente-Coronel Inf
Niller André de Campos, Cmt do 17° B Fron, Corumbá,
MS, e a cada um de seus subalternos pelo apoio
irrestrito e amigo ao nosso projeto.

Ao Dr. Marc Meyers, mentor intelectual da


Expedição Centenária, e seu irmão Pedro Meyers
patrocinador solitário e solidário de nossas jornadas.

Aos caros escudeiros e amigos da “Calypso”


formada pelo Sargento Andrade, seu Comandante, seus
escudeiros e piloteiros Elierd e Amazonas e o
Masterchef “bicudo” pela sua atenção, competência
profissional e dedicação.
3
Boicininga: cascavel.
7
A meu amigo, irmão e mestre Cristian Mairesse
Cavalheiro meu primeiro e mais fiel colaborador que
continua apoiando nossas jornadas;

Ao querido amigo e Ir Coronel Leonardo


Roberto Carvalho de Araújo, esteio fundamental na
divulgação do Projeto e conselheiro, criterioso, nas
minhas entrevistas e artigos;

Aos Professores Sérgio Pedrinho Minúscoli e


Major R/1 Eneida Aparecida Mader, do Colégio Militar
de Porto Alegre (CMPA), que realizaram uma criteriosa
revisão deste livro.

À minha querida parceira Rosângela Maria de


Vargas Schardosim, de Bagé, artífice do Blog
“desafiandooriomar.blogspot.com”, que incansavelmen-
te contribuiu nas pesquisas, sugestões, divulgação de
artigos relativos ao Projeto–aventura e a questões
amazônicas em diversos periódicos nacionais, além de
assessorar no planejamento e coordenação da captação
de recursos;

E a todos os que, de uma forma ou de outra me


apoiaram antes, durante ou mesmo depois da execução
do empreendimento. Estejam certos de que vossa
contribuição foi um patriótico investimento.

8
Mensagens
Coronel Gélio Augusto Barbosa Fregapani

Com tristeza reconheço que esta é a realidade. Sei


que uma andorinha só não caracteriza o verão, mas
agradeço a Deus por termos um oficial como Você,
Coronel Hiram. Apesar de tudo, avante heroico
navegador. Seu espírito indomável jamais se dobrará
perante a mesquinhez. Talvez tudo isto seja
ignorado, como era por mim até agora, mas os que
tomarem conhecimento, oferecerão a Você, um
herói, uma reconhecida continência, como o faço
agora.

Coronel Manoel Soriano Neto

Caríssimo amigo e acendrado patriota Hiram!

Muitas palmas para o seu novo livro! Que o ex-


cepcional lavor de sua nova obra, de forte conteúdo
cívico-patriótico, sirva de bom luzeiro àqueles que
amam, de fato, a Terra em que nasceram! Quando
eu tive o privilégio de escrever as abas de seu livro
“Desafiando o Rio-Mar ‒ Descendo o Solimões”,
afirmei e agora reitero: “Tal como Orellana e Pedro
Teixeira, no heroico pretérito, o Coronel Hiram, pela
epopeia há pouco realizada [a singradura do Rio
Solimões], acaba de consagrar, galhardamente, o
seu ilustre nome em nossa historiografia, “ad
perpetuam rei memoriam”.

As belezas e lições atemporais entesouradas em seu


magnífico e mais recente escrito têm o condão de
robustecer, de forma superlativa, o sentimento de
brasilidade, o apreço à nossa Soberania e a
relembrança de nossos avoengos lusitanos ‒ “De
nada a brava gente se temia” ‒ mote que se adapta,

9
à perfeição, à saga por você empreendida, desta
feita ao longo do Rio Roosevelt, prenhe de audácia e
coragem...

Insista, persista e não desista, destemido argonauta


de nossa Amazônia! E nos momentos de descrença,
pois, desgraçadamente, eles vêm e nos atordoam,
lhe transmito, para reflexão, um importante pensa-
mento de autoria do notável escritor Jacob August
Riis:

Quando nada parece ajudar, eu vou e olho o


cortador de pedras martelando sua rocha talvez cem
vezes, sem que nenhuma só rachadura apareça. No
entanto, na centésima primeira martelada, a pedra
se abre em duas e eu sei que não foi aquela a que
conseguiu isso, mas TODAS AS OUTRAS QUE
VIERAM ANTES!
“Ex toto corde” (“De todo o coração”), o mais
amigo dos abraços deste seu sempre admirador,
Soriano.

Coronel Aguinaldo da Silva Ribeiro

Caro Coronel Hiram,

Tenho a absoluta certeza de que o senhor concluirá


com êxito mais essa tarefa, em que pese todos os
tipos de obstáculos. É oportuno destacar que a
“árvore da adversidade também dá fruto doce”,
sendo assim, as remadas continuadas e vigorosas
nos Rios amazônicos que o Comandante costuma
executar, vencerão não só as marolas, mas também
os pessimistas e a desconfianças dos descrentes.

Pessoalmente, pude acompanhar e saudar, nas


águas do Tapajós, mais um dos seus feitos. Foi
naquela oportunidade que engajei o “Batalhão
Rondon”.
10
A colaboração foi com o barco regional “Piquiatuba” e
com os nossos valorosos homens dos Rios. Jovens
caboclos que de maneira desinteressada coope-
raram, seja com ou sem luminosidade, sob Sol ou
chuva, com vento ou sem vento, o acompanharam
até a sua chegada na Pérola do Tapajós.

Sua amizade com aquela tropa se consolidou e tenha


certeza que há um respeito mútuo pela camara-
dagem, liderança, determinação, humildade, tena-
cidade, confiança, exemplo, entre outros atributos,
que tive o privilégio de vivenciar e de ter como
referência pessoal. Dessa forma, busquei retribuir ao
meu Comandante de Pelotão um pouco dos ensina-
mentos e do apoio recebidos durante o período
acadêmico.

Lembro também do caso que o senhor destacou e


que resultou na sua punição. Até para os compa-
nheiros de turma esse fato é pouco comentado ou
desconhecido. A forma como foi disparado, envol-
vendo um dos seus Cadetes, aquele que inclusive lhe
fez acordar mais cedo, nas férias, para cuidar do
carro dele e, creio que, com a filha no colo. Recordo,
ainda, da sua chegada em Aquidauana, quando eu o
encontrei preparando a casa para receber a sua fa-
mília. O tempo passa, mas esse infortúnio parece
não ser esquecido, nem relevado, tampouco descon-
siderado, apesar de destacar que lhe trouxe coisas
boas. Todavia, já que não se consegue apagar total-
mente esses rastros do passado, é importante que as
explicações e o relato dos fatos sejam do conheci-
mento de mais e mais almas.

“Tâmo” junto Comandante e torço por mais um


sucesso e, como dizia o Marechal RONDON, “Pra
frente, custe o que custar”.

Boas remadas e fique com Deus. Seeeelva!!!


11
Coronel Luiz Carlos Carneiro de Paula

Hiram, bom dia

Mais uma vez, meus parabéns e o meu abraço.


Lembre-se que “uns querem e não podem, outros
podem e não querem, nós, que queremos e
podemos, agradecemos a Deus!”.

Carneiro

Coronel Flávio André Teixeira

Prezado Amigo e Ir Hiram,

Inicialmente quero te parabenizar pelo êxito da


Expedição Rondon. Não vi muita coisa ainda, mas o
que vi, me deixou bem impressionado. Para variar o
caminho percorrido não foi fácil, como sempre. As
tuas aventuras realmente tem de ser “aventuras”.
Fico feliz que o Angonese foi teu parceiro, assim
ficou mais fácil tua jornada e dividiu os obstáculos e
infortúnios momentâneos. Aproveito e te questiono
da nova jornada: Oriximiná ‒ Macapá. Se já sabes
quais são as tuas datas para esta nova aventura,
pois, se não surgir nenhum contratempo, e você per-
mitir, pretendo te acompanhar neste percurso final
do “Desafiando o Rio Amazonas II”. Fico no aguardo
de teu retorno.
Meu fraternal abraço.
SELVA!!!
Flavio A. Teixeira

12
Sumário
Prefácio.................................................................................................................... 1
Agradecimentos ................................................................................................... 7
Mensagens ............................................................................................................. 9
Sumário ................................................................................................................. 13
A Saga de um Notável Desbravador .......................................................... 17
Coronel Amílcar Botelho ................................................................................. 37
Coronel Rondon .................................................................................................. 52
Theodore Roosevelt .......................................................................................... 62
Foz do Apa – Porto Murtinho....................................................................... 114
Porto Murtinho ‒ Forte Olimpo ................................................................... 122
Forte Olimpo ‒ Forte Coimbra .................................................................... 148
Forte Coimbra ................................................................................................... 178
F. Coimbra – Corumbá .................................................................................. 206
Corumbá – Boca do Rio Cuiabá ................................................................. 239
Boca do Cuiabá – Fz S. João ....................................................................... 257
Fazenda S. João ‒ Descalvados ................................................................. 271
Descalvados ....................................................................................................... 291
Descalvados – Cáceres .................................................................................. 319
Bibliografia ......................................................................................................... 333

Índice de Imagens

Imagem 01 – Anexo n° 5 e Impressões da C. Rondon ...................... 37


Imagem 02 – Fon Fon, n° 609, 16.05.1914 ........................................... 41
Imagem 03 – Mapa de Três Lagoas até Foz do Apa (DNIT) ............. 48
Imagem 04 – Localização da Foz do Apa, em 1913 ............................ 51
Imagem 05 – Conferências Realizadas no Teatro Fênix .................... 52
Imagem 06 – Vapor Nyoac ............................................................................ 56
Imagem 07 – Roosevelt e Rondon à bordo do “Nyoac” ..................... 57
Imagem 08 – Fon Fon, n° 594, 31.01.1914 ........................................... 60
Imagem 09 – Fon Fon, n° 608, 09.05.1914 ........................................... 60
Imagem 10 – In The Brazilian Wilderness – Th. Roosevelt .............. 62
Imagem 11 – Through the Brazilian Wilderness ................................... 64
Imagem 12 – Through the Brazilian Wilderness ................................... 65
Imagem 13 – Roosevelt e Lauro Müller no Rio de Janeiro ................ 71
Imagem 14 – Roosevelt e Edwin Morgan no Rio de Janeiro ............. 81

13
Imagem 15 – O Paiz, n° 10.605 ‒ Roosevelt ..........................................85
Imagem 16 – Roosevelt à Bordo do Van Dyck .......................................95
Imagem 17 – Roosevelt no Instituto Butantan, SP ..............................97
Imagem 18 – O Paiz, n° 10.606 – Salve T. Roosevelt ......................103
Imagem 19 – O Paiz, n° 10.607 – Brilhante Recepção .....................104
Imagem 20 ‒ Vista del Pan de Azúcar (BOSSI) ...................................123
Imagem 21 – Planta do Fecho dos Morros (Mello, 2014) .................126
Imagem 22 – Forte Borbón, Paraguai ......................................................130
Imagem 23 – Fuerte Olympo ......................................................................132
Imagem 24 – Descripción de la Nueva Provincia .................................141
Imagem 25 – Fuerte Borbón (BOSSI) ......................................................143
Imagem 26 – Pão de Açúcar ........................................................................146
Imagem 27 – Forte Borbón, Paraguai ......................................................146
Imagem 28 – Forte Borbón, Paraguai ......................................................147
Imagem 29 – Forte Borbón, Paraguai ......................................................147
Imagem 30 – Planta do Novo Forte Coimbra (RFAS).........................160
Imagem 31 – Forte Coimbra (Bossi) ........................................................176
Imagem 32 – Gameleira Secular (João S. da Fonseca) ....................189
Imagem 33 – Forte Coimbra........................................................................202
Imagem 34 – Forte Coimbra........................................................................202
Imagem 35 – Forte Coimbra........................................................................203
Imagem 36 – Museu do Forte Coimbra ...................................................203
Imagem 37 – Gruta Ricardo Franco ..........................................................204
Imagem 38 – Gruta Ricardo Franco ..........................................................204
Imagem 39 – Gruta Ricardo Franco ..........................................................205
Imagem 40 – Gruta Ricardo Franco ..........................................................205
Imagem 41 – Ponte Presidente Eurico Gaspar Dutra .........................208
Imagem 42 – Porto Esperança ‒ Corumbá (DNIT) .............................211
Imagem 43 – Posto Telegráfico – Porto Manga, MS ...........................213
Imagem 44 – Forte Junqueira, MS ............................................................214
Imagem 45 – Apoio do 17° B Fron............................................................216
Imagem 46 – Guerreiro Guaicuru ..............................................................218
Imagem 47 – Placa de bronze com Inscrição Alusiva ........................220
Imagem 48 – Viagens e Caçadas em Mato Grosso .............................226
Imagem 49 – Orla do Paraguai ...................................................................235
Imagem 50 – Calypso ....................................................................................235
Imagem 51 – Pescaria no Pantanal (Timothy Radke) ........................236
Imagem 52 – 17° B Fron ..............................................................................236
Imagem 53 – Hotel Galileo...........................................................................237
Imagem 54 – Hotel Galileo...........................................................................237

14
Imagem 55 – Hotel Galileo .......................................................................... 238
Imagem 56 – Corumbá ................................................................................. 238
Imagem 57 – The Outlook, december 20, 1913 ................................. 255
Imagem 58 – Serra do Amolar, MS (Haroldo Palo Jr.) ..................... 258
Imagem 59 – Urubu jangadeiro (Timothy Radke) ............................. 259
Imagem 60 – Hotel Pantanal Norte.......................................................... 260
Imagem 61 – Portos Zé Viana, Jofre e Fazenda S. João ................. 263
Imagem 62 – Capivaras no Rio Cuiabá .................................................. 269
Imagem 63 – Sede da Fazenda São João .............................................. 269
Imagem 64 – Quarto de Roosevelt na Fazenda São João ............... 270
Imagem 65 – Onças no Rio Cuiabá .......................................................... 270
Imagem 66 – Mapa do MS ‒ Rios Cuiabá e S. Lourenço ................. 288
Imagem 67 – Serra do Amolar .................................................................. 289
Imagem 68 – Dédalo Pantaneiro............................................................... 289
Imagem 69 – Biguás no Rio Paraguai (Timothy Radke) .................. 290
Imagem 70 – Descalvados .......................................................................... 290
Imagem 71 ‒ Diário de Notícias n° 2.105, 09.04.1891 ................... 304
Imagem 72 ‒ Descalvados .......................................................................... 317
Imagem 73 – Descalvados .......................................................................... 317
Imagem 74 – Tripulação do Calypso, Cáceres, MT ............................ 318
Imagem 75 – Catedral e Marco do Jauru ............................................... 318
Imagem 76 ‒ 2° B Fron, Visita ao IHGC e Nudheo ............................ 326
Imagem 77 – Jornal Oeste e Unemat...................................................... 327

Índice de Poesias

O Nadador .............................................................................................................. 6
Meu Velho ............................................................................................................. 17
Hino dos Bandeirantes..................................................................................... 36
Pagmejera ‒ O Grande Chefe ....................................................................... 61
Heroísmo............................................................................................................. 113
Rondon ................................................................................................................ 113
Hino patriótico .................................................................................................. 144
A Roosevelt ........................................................................................................ 145
Canção do Quadro de Engenheiros Militares ........................................ 177
Brasileidas I ....................................................................................................... 234
O Escrínio ........................................................................................................... 257
Pinçando uma das Facetas Aprazíveis do Pantanal ............................ 272
Brasileidas II ..................................................................................................... 338

15
A Noite
(Gonçalves Dias)

Eu amo a noite solitária e muda,


Quando no vasto céu fitando os olhos,
Além do escuro, que lhe tinge a face,
Alcanço deslumbrado
Milhões de sóis a divagar no espaço,
Como em salas de esplêndido banquete
Mil tochas aromáticas ardendo
Entre nuvens d’incenso!
Eu amo a noite taciturna e queda!
Amo a doce mudez que ela derrama,
E a fresca aragem pelas densas folhas
Do bosque murmurando:
Então, malgrado o véu que envolve a terra,
A vista, do que vela enxerga mundos,
E apesar do silêncio, o ouvido escuta
Notas de etéreas harpas.

Eu amo a noite taciturna e queda!


Então parece que da vida as fontes
Mais fáceis correm, mais sonoras soam,
Mais fundas se abrem;
Então parece que mais pura a brisa
Corre, – que então mais funda e leve a fonte
Mana, – e que os sons então mais doce e triste
Da música se espargem. [...]
16
A Saga de um Notável Desbravador
Meu Velho
(José e Piero – Versão Nazareno de Brito)

Eu o estudo desde longe


Porque somos diferentes
Ele cresceu com os tempos
Do respeito e dos mais crentes
Velho, meu querido velho
Agora caminha lento
Como perdoando o vento
Eu sou teu sangue meu velho
Teu silêncio e o teu tempo [...]

Desde a tenra idade tive um ser humano que foi


meu Modelo, Mestre, Amigo, meu Norte e meu Farol
para toda a vida – meu querido Pai Cassiano. Ele me
ensinou tudo que sei. O amor à natureza, às coisas
simples, a tratar a todos com o mesmo respeito, a não
me apegar às coisas materiais. Eu o acompanhava,
fascinado, pelas coxilhas, nas caçadas de perdizes,
ouvindo suas histórias e aprendendo a identificar os
bandos de aves quando estes ainda apontavam no
longínquo horizonte, analisando sua formação, batida
das asas e velocidade. Nas pescarias eu brincava
alegremente nas margens dos açudes e aprendia a
fazer “esperas” para traíras e a tarrafear lambaris para
o espinhel. Fui criado a campo, sem limites a estorvar
meus passos, com ele aprendi a valorizar os livros, que
devorava empoleirado nos galhos mais altos das
árvores. Meu querido velho tem-me acompanhado a
cada remada pelos Amazônicos Caudais, Pantanal,
Guaíba ou Lagunas Litorâneas, sinto sua presença nos
meus momentos mais felizes ou de intensa dor, sinto
sua mão a me amparar e a me estimular quando vacilo.
17
“Viejo mi querido Viejo”, serás eternamente meu
Herói, meu Mestre e meu melhor Amigo e, embora
trilhemos hoje dimensões diversas sei que estarás
sempre comigo me ensinando a amar e decifrar os
mistérios do universo, da natureza e das gentes. Cada
vez que ouço a música “Meu Velho” meus olhos
marejam e sinto sua mão pousar carinhosamente no
meu ombro. Seu exemplo de disciplina, amor ao
trabalho, dignidade, honestidade, compaixão marcou-
me eternamente e ainda hoje procuro imitar seus
passos.

Outro Modelo que cultuo, como explorador, é o


de Rondon um ícone tão magnífico que a história
resolveu materializar sua grandeza emprestando seu
nome a um estado brasileiro – Rondônia. Vejamos a
sinopse de sua vida nesta reportagem de Ivan Lins:

Boletim Geográfico Volume XXIV, n° 187


Rio de Janeiro, RJ ‒ Julho-agosto de 1965

A Obra de Rondon (4)


(Ivan Lins)

Muito se fala em Rondon, mas poucos são os que,


em nosso país, realmente conhecem o que foi a sua
obra de desbravamento dos nossos sertões. Ao
desvendar tão grande trato desconhecido de nossa
pátria ‒ escreve o professor Fernando de Azevedo:

4 Transcrito do Jornal do Commércio, de ½ de maio de-1965. (N.A.=


Nota do Autor)
18
de tal forma cuidou das investigações científicas que,
no julgamento autorizado de Artur Neiva, seu nome,
como propulsor das ciências naturais no Brasil dos
tempos modernos, vem logo depois do de Osvaldo
Cruz. (5)

Se tivermos, de fato, em vista. – comenta ainda o


professor Fernando de Azevedo:

o que tanto em botânica [oito mil números


colecionados, muitos pelo próprio Rondon], como em
zoologia [seis mil exemplares] representam as
sessenta e seis publicações da Comissão de Linhas
Telegráficas e Estratégicas de Mato Grosso ao
Amazonas, podemos concluir com Artur Neiva “que
nenhuma expedição científica brasileira concorreu
com tão alto contingente para o ·desenvolvimento da
história natural entre nós e nenhuma exaltou mais
no estrangeiro o nome de nossa pátria”. (6)

Desejando Rondon filiar-se à Igreja e Apostolado


Positivista do Brasil, abandonou, em 1892, de acordo
com as bases da mesma Igreja, o lugar de professor
substituto de Astronomia e repetidor de Mecânica
Racional da Escola Militar do Rio de Janeiro, lugar
para o qual fora nomeado por Benjamin Constant.

A exigência de não pertencerem os membros do


Apostolado às Congregações oficiais de ensino muito
estorvou entre nós a expansão do Positivismo, cujo
campo de ação é exatamente o pedagógico e foi
através dele que principalmente se difundiu entre
nós. No caso, porém, de Rondon, foi essa proibição,
inserta nas Bases do Apostolado Positivista, que o
encaminhou para a carreira de sertanista.

5 Vide Artur Neiva: “Esboço histórico sobre a zoologia no Brasil”, apud


Fernando de Azevedo: “A Cultura Brasileira – Introdução ao estudo da
cultura no Brasil”, pág. 235, Serviço Gráfico do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, 1943. (N.A.)
6 Ibidem, pág. 236 (N.A.)
19
Conduzindo-o à glória, pode-se dizer que não é só
“Deus quem escreve certo por linhas tortas”, por-
quanto também o fez, a propósito do grande desbra-
vador, a Igreja e Apostolado Positivista do Brasil. Ao
desistir de ser professor de um estabelecimento
oficial de ensino, foi Rondon levado, através do
Serviço de Fronteiras e Linhas Telegráficas, a pene-
trar o nosso “hinterland” e a proteger os nossos
indígenas.

Em fins de 1906, regressara ao Rio de Janeiro por


haver terminado a construção da rede telegráfica
alcançando as fronteiras com o Paraguai e a Bolívia.
E, projetando, no ano seguinte, o Presidente Afonso
Pena uma série de medidas tendentes a completar e
assegurar a recente incorporação dos territórios do
Acre, do Alto Purus e do Alto Juruá, foi a Rondon que
confiou a construção da rede telegráfica destinada a
ligar esses territórios e os do Amazonas à capital do
país.

Tinha em vista o Presidente Afonso Pena [que foi, no


dizer de Rondon, “o precursor da Marcha para o
Oeste”] tornar possível exercer-se sobre esses terri-
tórios, com a regularidade exigida pelos interesses
nacionais, a ação do Governo.

Ao aceitar o difícil encargo, por muitos tido como


irrealizável, assentou Rondon, desde logo, com o
Presidente da República, que a nova Comissão se
encarregaria, não só da construção, mas ainda de
todos os trabalhos que se prendessem ao completo
conhecimento da região que se ia atravessar. Devia
esta ser estudada quer sob os aspectos geográfico,
botânico e mineralógico, quer quanto às caracte-
rísticas das populações indígenas que lá vivessem, as
quais ficariam sob os cuidados da Comissão, no
intuito de resguardá-las e evitar-lhes os flagelos e
cruezas de que haviam sido vítimas os habitantes de
20
outras regiões por ocasião de empreendimentos
análogos. (7)

Estava Rondon acostumado em todas as suas


expedições, a conduzir equipamentos científicos de
que se servia para determinar coordenadas, colher
dados geológicos, antropológicos e etnográficos,
assumindo assim, em suas mãos, comissões de
objetivo originariamente estratégico, o caráter de
empreendimentos de larga envergadura científica,
civilizadora e política.

Foi o que já havia revelado na incumbência que, em


1900, lhe confiara o então ministro da Guerra,
Marechal Mallet, vale dizer, encerrar os principais
pontos estratégicos dos confins do Brasil com o
Paraguai e a Bolívia, nas malhas de uma rede
telegráfica, cujos fios enfeixando-se em Cuiabá,
permitissem ao Governo Central e à Nação
comunicarem-se permanentemente com aquelas
longínquas paragens, sobre elas exercendo ativa
vigilância.

No desempenho dessa importante comissão em que


construiu, de 1900 a 1906, uma rede de 1.746
quilômetros, servindo 17 estações, não se limitou
Rondon a executar as obras indispensáveis à já de si
dificultosíssima instalação dos serviços telegráficos.

7 Vide “Missão Rondon, Apontamentos sobre os trabalhos realizados pela


Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao
Amazonas sob a direção do Coronel de Engenharia Cândido Mariano da
Silva Rondon de 1907 a 1915”, publicados em artigos do Jornal do
Commercio do Rio de Janeiro em 1915 [Tipografia do Jornal do
Commercio, 1915, págs. 62 a 63].
Os artigos contidos na coletânea que vem de ser citada são da lavra do
professor Luís Bueno Horta Barbosa, catedrático de matemática do
Ginásio de Campinas, o qual, desejando filiar-se à Igreja Positivista,
abandonou aquela cátedra para ingressar em 1911, no Serviço de
Proteção aos índios, consolidando, em colaboração com Manuel
Miranda, a pacificação dos Caingangs. (N.A.)
21
Desdobrando prodigiosa atividade, realizou enorme
série de explorações tendentes a desvendar os se-
gredos dos pantanais, executou estudos geográficos
e fez a determinação precisa das coordenadas de
pontos que poderiam servir de base a futuras
operações geodésicas. Tornou-se, depois disso, a
vastíssima região sul-mato-grossense uma das mais
bem conhecidas de todo o território nacional, não só
do ponto de vista cartográfico, mas também dos
atinentes a população, riquezas naturais do solo,
capacidade de produção, recursos atuais, vias de
comunicação e outros elementos necessários para
facilitar qualquer ação posterior do Governo. Dos
dados que Rondon colheu, serviu-se vantajosamente
o Barão Homem de Melo para o traçado do mapa de
Mato Grosso em seu Atlas do Brasil. (8)

E, assim, imprimiu, na observação do professor Luís


Bueno Horta Barbosa, um sentido novo ao título de
geógrafos, realçando-o com a sua figura
humaníssima, porque, geógrafo dos mais eminentes,
quando profundamente estudava uma região
selvática, também o fazia pelo amor que consagrava
às populações que a habitavam, e pelos meios de
que assim ficava o Governo armado para melhor
servi-las e beneficiá-las.

Com esse vastíssimo programa executou a obra


grandiosa de que resultaram o descobrimento e
início da assimilação de imensas regiões,
inteiramente incultas e bravias, até então sem outro
significado, no conjunto do território brasileiro, do
que o de uma misteriosa incógnita geográfica, como
as que só eram designadas, pelos antigos
cartógrafos, através dos animais que nelas
imaginavam existir:

8 Vide “Missão Rondon”, pág. 42. (N.A.)


22
“hic sunt leones; haec et psittacorum regio”. (9)

Só uma vontade superior, guiada pela máxima de


César.

“Nil actum reputans si quid superesset agendum”.


(10)

Seria capaz de levar a termo, em tão curto tempo,


um empreendimento de tamanhas proporções como
o da construção das linhas telegráficas do Amazonas
e do Acre, por entre imensos tropeços. Eram estes
suscitados, a cada instante, pela deficiência dos
meios de transporte, pelas canseiras das viagens,
pelos cuidados incessantemente empregados para
não deixar perecer os animais e evitar o ataque de
índios, ainda não pacificados, e do atroz
impaludismo, que nessas regiões grassava como em
nenhuma outra do Brasil. Havia ainda os embaraços
imprevistos e imprevisíveis que surgiam, nos sertões
mais do que alhures, ameaçando aniquilar, de uma
hora para outra, os serviços mais bem planejados, e
conduzidos, ora sob aguaceiros diluvianos, ora sob a
inclemência de um Sol abrasador, com as noites mal
dormidas, quase sempre ao relento. (11)

Basta considerar quanto custa, na mata virgem, der-


rubar uma árvore a fim de transformá-la em poste,
para avaliar o que foi a realização de Rondon. E que
não representou de esforço o transporte, através dos
sertões de Mato Grosso e das florestas do Amazonas
e do Acre, do material imprescindível, pesando cada
isolador de porcelana e o respectivo braço de ferro
três quilos e cerca de quilo e meio cada segmento de
cem metros de fio de ferro zincado?

9 “Aqui existem leões; esta é a região dos papagaios”. (Hiram Reis)


10 “Não considerando nada por concluído, se existe, ainda, algo a ser
feito”. (Hiram Reis)
11 Vide “Missão Rondon”, páginas 44, 219 e 220. (N.A.)
23
Ademais, na seção do Norte, na parte da linha
tronco, que se estendia de Santo Antônio até à
estação do Rio de Janeiro, e no ramal que, partindo
também de Santo Antônio, ia subindo o Madeira e
depois o Guaporé, até atingir o Guajará-Mirim, na
fronteira boliviana, não pôde Rondon aproveitar os
recursos da mata, porquanto a extração de postes
exigia boiadas e a falta absoluta de campos e
pastagens impedia mantê-las nas florestas
amazônicas.

Nestas condições, era imprescindível recorrer aos


postes de ferro, porquanto, divididos em três partes,
podiam ser transportados por muares, para os quais
havia, entretanto a necessidade de atentamente
providenciar as forragens.

E assim, removendo obstáculo de toda ordem,


plantou Rondon nada menos de três mil postes de
ferro. Quem quer que conhece às dificuldades de
transporte ainda hoje existentes em zonas relativa-
mente prósperas do país, imagina facilmente o que
foi a sua epopeia nos sertões mato-grossenses e nas
florestas amazônicas, no começo do século, quando
nem aviões, nem as comunicações hertzianas havi-
am ainda surgido.

Tão árduo era o empreendimento que mais de uma


vez se disse haver sido conseguida a construção da
linha telegráfica à custa de tantas vidas que a cada
poste erguido correspondia um homem morto.
Todavia, graças aos cuidados de Rondon e ao seu
conhecimento dos sertões, as obras do ramal de
Mato Grosso, efetuadas numa das zonas mais
insalubres do território nacional, foram concluídas
apenas com 15 baixas, das quais várias por molés-
tias como a varíola, a tuberculose e outras, contraí-
das, não nos sertões, mas já levadas das cidades e
arraiais.
24
De 1915 e 1919, última fase de sua grande
campanha sertanista, inaugurada com o
descobrimento do Rio Juruena, consagrou Rondon
seus esforços ao levantamento geográfico de pontos
e regiões importantes de Mato Grosso, estudando o
vale do Araguaia com travessia para o Xingu e o vale
do Tapajós com transposição para o Sucunduri e
Canuman. Completou então o levantamento dos
vales do Madeira e do Paraguai, traçando o divisor
das águas do Paraná com o Taquari e o Aquidauana.
Fez também o levantamento das cabeceiras dos Rios
Correntes, Itiquira, Garças, São Lourenço, Arinos e
Teles Pires [antigo São Manuel], e delineou os
divisores destes Rios e do Xingu com o Cuiabá e o
Rio das Mortes.

Voltou ao setor compreendido entre o Ji-Paraná, o


Guaporé e o Madeira para levantar o divisor do
Machadinho com o Anari; deste com o Jaru; deste
com o Urupá e seus respectivos cursos. Realizou
ainda o levantamento das cabeceiras dos Rios Branco
e Preto do Jamari; Preto do Ji-Paraná; Juruazinho;
Jamari; Canaan, Pardo, Quatro Cachoeiras, Urupá,
Cautário, Cautarinho, São Miguel, Ricardo Franco,
assinalando, neste último trecho, o divisor do Ji-
Paraná com o Guaporé.

Caracterizou, então, as diferentes serras desses


divisores e a extremidade norte da cordilheira dos
Parecis, determinando, por intersecção, a ponta
oriental da Serra Pacaá-Novo, que define a grande
garganta dos campos dos Urupás, nódulo geográfico
relevante, do qual promanam águas que vão para o
Ji-Paraná, Madeira e Guaporé. Mais para o sul,
patenteou importantes contrafortes daquela
cordilheira, aos quais denominou: Uopiane, Aleixo
Garcia, Pires de Campos, Pascoal Moreira e Antunes
Maciel regiões habitadas pelos índios Cabixis do
Norte, Uômos Aruás, Purus-Borás e Macurapes.
25
Com esses estudos orográficos completou Rondon a
descoberta de 1908 e 1909, da origem da Serra do
Norte, onde nasceu os Rios Nhambiquaras, 12 de
Outubro e Iquê, contribuintes do Camararé, e onde
vivem os Nhambiquaras-anunzês.

De 1920 a 1922, finalmente, retificou os


levantamentos realizados no divisor do Arinos e
Paranatinga com o Cuiabá e explorou o Culuene,
formador do Xingu.

Estudou a cabeceira principal do Paraguai e o vara-


douro que liga a estação telegráfica de Vilhena à foz
do Cabixi, cujo levantamento realizou, estabelecendo
a navegação deste Rio, através do qual começou a
prover o alto sertão do Noroeste mato-grossense
com víveres e mercadorias importados de Manaus e
Guaporé.

Construiu ainda a linha telegráfica de Aquidauana a


Ponta-Porã, passando por Campo Grande, Campos
de Vacaria, Brilhante e Caiuás, com o desen-
volvimento de 508 quilômetros de linha assentada,
completando, assim, o estabelecimento de linhas
telegráficas nas fronteiras de Mato Grosso.

Para aproveitar o imenso cabedal topográfico,


astronômico e corográfico, acumulado desde o
advento da primeira Comissão Telegráfica, instalou
Rondon, no Rio, um escritório central com uma
Seção de Cartografia e Desenho, cujos trabalhos,
orientados pelo então Coronel Francisco Jaguaribe
Gomes de Matos, se resumem com eloquência em
numerosos e importantes mapas, além de diferentes
cartas para ilustrar as monografias de Botânica,
Zoologia, Geologia, Mineralogia e Etnografia dos
cientistas que, em sua companhia, se encarregaram
dessas pesquisas.

26
Entre os resultados econômicos de suas investiga-
ções, destacam-se a revelação das minas de sulfu-
reto de ferro nas cabeceiras do Rio São Lourenço; o
descobrimento das de ouro e diamantes nas cabe-
ceiras do Cabixi e Corumbiara; de jazidas de mercú-
rio metálico na floresta do Rio Gi; de manganês nas
origens do Rio Manuel Correia na serra Pires de
Campos e no Vale do Rio Sacre; de gipsita nas
cabeceiras do Cautário; de mica no Córrego do
Campo, contribuinte do Pimenta Bueno; de ferro no
vale do Baixo Garças.

Também verificou a existência abundante de ipeca


cinzenta (12) no vale do Pimenta Bueno e margens do
Ji-Paraná até Urupá, do Cautário e do São Miguel,
muito ao norte da região onde essa rubiácea foi
primeiramente conhecida e industrialmente explora-
da, na célebre Mata da Poaia do Alto Paraguai.
Determinou, finalmente, as regiões em que a.
“Hevea”, a “Bertholetia”, e a “Castilloa” vivem em
grandes associações ao norte do paralelo de
Diamantino, entre os Rios Araguaia e Guaporé.

Contavam os contemporâneos de Rondon na Escola


Militar que ainda estudante, frequentemente ele se
referia a um ideal alimentado desde tenra infância: o
de retalhar o seu estado natal por uma rede
telegráfica que lhe ligasse todos os povoados, ainda
os mais longínquos, à capital.

A sua realização entretanto, ultrapassou os seus


sonhos juvenis; não só cobriu o território mato-
grossense de linhas telegráficas, como ainda o ligou

12 A ipeca (ou ipecacuanha – Psychotria ipecacuanha, Stokes), pertence à


família Rubiaceae, natural da Amazônia, tem um porte rasteiro (de 30
a 40 cm de altura), e ciclo de vida perene. As folhas são oval-
lanceoladas, as flores de coloração branca e frutos de cor avermelhada
e formato ovoide. (Hiram Reis)

27
ao resto do Brasil e – o que é mais “escalou os
sertões ínvios desde as remotas plagas do Bororos
aos domínios dos Mundurucus, sendo o primeiro a
rasgar as misteriosas matas em cujas ásperas
dificuldades cinco expedições anteriores se haviam
malogrado. De um só passo, estabeleceu uma união
territorial, até então tida por inatingível e povoou os
ermos que, por centenas de léguas, se estendiam
indefinidos, mostrando o alto valor da energia
humana, quando guiada por um ideal superior. Para
tal, desenvolveu durante mais de seis lustros
inconcebível atividade física, curtindo por vezes, as
torturas da fome e da sede; palmilhando
frequentemente léguas e léguas, com o peso de sua
própria bagagem, tremendo de febre sob a influência
de um acesso palustre: ausentes todos os carinhos e
confortos do lar; privado, não por dias, mas por anos
e anos, do convívio da família e da sociedade; e só
através das nuvens de saudades infindas entrevendo
as imagens queridas da esposa e dos filhos”. (13)

“Qu'est-ce qu'une grande vie?” (14)

Pergunta o cantor de “Eloá” e responde:

“Une pensée de la jeunesse exécutée par l'âge mur.”


(11)

Perante esta definição, que terá sido a vida de


Rondon, se foi além, muito além de seus sonhos de
moço?

E, realmente não só apresentou opiniões novas sobre


o procedimento dos civilizados relativamente aos
indígenas, mas ainda pôs em prática essas opiniões,

13 Vide “Missão Rondon”, páginas 6, 7, 44 e 47. (N.A.)


14 O poeta Alfred Vigny perguntou a si mesmo: “O que é uma grande
vida?” E ele mesmo responde: “Um sonho juvenil concretizado na
maturidade”. (Hiram Reis)
28
das quais decorria uma nova política a ser adotada
nas relações com os últimos autóctones de nossa
Pátria.

Essa política pode resumir-se no princípio: “só


penetrar no sertão com a paz e jamais com a
guerra”. Não consentiu, pois, ao ser flechado no
descobrimento do Juruena, exercessem os seus
companheiros represálias contra os selvagens, que,
atacando-o, usavam do mais natural e legítimo
direito de defesa, pois lhes invadia os territórios sem
que soubessem quais as suas intensões, que assim
como eram boas também podiam ser péssimas,
como quatro séculos de martírio haviam evidenciado.

Declarou, por isto, aos seus companheiros que


queriam reagir, não haver ido à conquista de índios,
mas sim, levar até o Juruena o reconhecimento
indispensável à construção da linha telegráfica. Nada
restava, pois, fazer, à vista da animosidade dos
indígenas, senão retroceder, até que, pacificados lhe
permitissem livre trânsito.

E afirmava com inabalável convicção:

Eu, acima de tudo coloco o sentimento de justiça,


encarando, com meditada reflexão, os deveres
morais impostos pela causa dos aborígenes
brasileiros, os quais há quatro séculos, vivem·
espicaçados pelo aguilhão do mais requintado
egoísmo nosso e dos nossos antepassados. ( 15)

Tomou, por isto, como divisa inflexível: “Afrontar


todos os perigos até a morte; matar – nunca!”
Ecoava lugubremente aos seus ouvidos ‒ nas
palavras de Alípio Bandeira um de seus
colaboradores:

15 Vide “Missão Rondon”, página 111. (N.A.)


29
a voz estrangulada de doze gerações de mártires,
bradando contra quatrocentos anos de extermino.
Voz de infortúnio e desespero, vinha das selvas
desconhecidas, vinha dos descampados longínquos,
das brenhas misteriosas dos nossos sertões, e falava
como uma trompa apocalíptica, do sacrifício de
alguns milhões de índios que, em vez de terem sido
chamados ao convívio da civilização, foram
barbaramente imolados aos ditames da ganância, da
fereza e até ‒ força é dizê-lo! ‒ da cobardia. Voz
sagrada e tempestuosa de vítimas. Clamores de
mães, cujos filhos ceifou na infância a crueldade
monstruosa; recriminações de esposas que viram os
maridos fortes tombar fulminados pela bala do
aventureiro; imprecações, queixas e súplicas de
velhos, mulheres e crianças trucidados, muitas vezes
inutilmente, pelo crime de defenderem a liberdade e
a terra sua e de seus avós. (16)

Desprezando os conselhos de Maquiavel, como


indignos de quem se consagra ao bem comum.
Rondon empregou, só e exclusivamente, o altruísmo,
como força política. E conseguiu assim deter a
marcha assoladora de injustiças seculares ao
reerguer diversos povos que já haviam entrado na
fase da agonia que precede a extinção total,
·abrangendo, numa obra toda de paz conciliação e
bondade, onze populações diferentes, nitidamente
separadas umas das outras, pelos costumes, idiomas
e ritos. Várias tinham-nos por inimigos tradicionais e
intransitáveis e de outras nem apenas
suspeitávamos a existência.

Transformou, assim, Rondon, em amigas, as nações


do gênio belicoso dos Nhambiquaras, Barbados,
Quepiqueriuats, Pauatês, Tecuatêps, Ipotiuats,
Urunis e Ariquemes como já o havia feito, em 1893,

16 Vide Alípio Bandeira: “Coletânea Indígena”, pág. 5, Rio, Tipografia do


Jornal do Commercio, 1929. (N.A.)

30
em relação aos Bororos do Rio das Garças. E
implantou, no coração dos Parecis, Bacaeris, Jarus,
Urupás e Caripunas a inabalável confiança na lisura e
desinteresse de seus propósitos. Tem destarte, o
Serviço de Proteção aos Índios que decorreu da
Comissão de Linhas Telegráficas, chamado ao campo
de sua ação benfazeja, numerosas tribos, umas
ainda mais guerreiras, outras já pacíficas. Dos seus
nomes, muitos ainda ressoavam, no começo do
século, como notas de clarim e clamores de batalha.
Os Caingangs, os Botucudos, os Parintins, e tantos
outros, lembravam, nas palavras de Rondon:

“fulgores de vastos incêndios de duração secular


ainda mal extintos”.

De todos os casos, porém, comprovativos da exce-


lência e do acerto do método de pacificação pratica-
do pelo Serviço de Proteção aos Índios, é caracte-
rístico o dos Caingangs de São Paulo, em que Ron-
don foi coadjuvado pelos então Tenentes Pedro Dan-
tas e Manuel Rabelo, e por Manuel Miranda e Luís
Bueno Horta Barbosa. A luta impiedosa, entre
Caingangs e civilizados vinha já desde os albores do
século passado, e como salienta o professor Horta
Barbosa quanto mais durava, mais se amiudavam,
de um lado e de outro, os assaltos, e os morticínios,
acompanhados de crueldades cada vez maiores.

Em vão colocara o Governo de São Paulo suas


esperanças na catequese [subvencionado desde
1903], a cargo dos frades capuchinhos de Campos
Novos do Paranapanema. A situação piorava de ano
para ano. O reconhecimento e levantamento dos Rios
Feio, Aguapeí e Peixe, pela Comissão Geológica do
Estado, teve de fazer-se à mão armada, e, ·ainda
assim, não se conseguiu evitar o sacrifício de vidas
em ambos os campos.

31
A construção da. Estrada de Ferro Noroeste do
Brasil, correndo pelo divisor das águas do Feio e
Tietê, constituiu nova fonte de hostilidades. Às
batidas dos bugreiros sucediam-se os assaltos, cada
vez mais violentos, dos índios contra os
trabalhadores da estrada, imperando o pavor por
todo o sertão, onde ninguém se encontrava sem uma
carabina de repetição, de que usava dia e noite em
descargas a esmo, para afugentar o “bugre”. Em
1910 [quando apenas Rondon começa a organizar o
Serviço de Proteção aos Índios] tão premente era a
situação da Noroeste que o empreito oficiava ao
Ministro da Viação avisando-o:

estar na iminência de suspender as obras de


construção da estrada pela impossibilidade de conter
os silvícolas e fazer parar-lhes as correrias.

Foi quando, depois dos reconhecimentos preliminares


dos Tenentes Pedro Dantas e Manuel Rabelo, Rondon
resolveu partir para o vale do Aguapeí a fim de
estudar a questão em suas fontes diretas e traçar o
rumo que conviria seguir de modo a conquistar a
amizade dos temidos Caingangs, estabelecendo a
paz e a ordem naquele vasto e fértil sertão. Estudada
a região, Rondon assentou o plano de pacificação e
dele encarregou o então Tenente Manuel Rabelo,
tendo como principais auxiliares Tenentes Cândido
Sobrinho e Sampaio. Com seis meses de trabalho o
Tenente Rabelo deixava o programa de pacificação
dos Caingangs, antes tidos como irredutíveis,
nitidamente encaminhado para o feliz desfecho, logo
após levado a termo por Manuel Miranda e Luís
Bueno Horta Barbosa. O que foi o alcance dessa
pacificação na imensa zona do estado de São Paulo
despovoada em consequência da presença dos
Caingangs é fácil avaliar pela respectiva valorização
das terras numa época em que não havia inflação.
Enquanto, em 1910, dois anos antes da pacificação,
32
o alqueire valia 13$000 em 1914, um biênio depois
já valia 100$000, e, em 1919, isto é, apenas 7 anos
mais tarde, 200$000. Não se enganava o Ministro
Rodolfo Miranda quando, em março de 1910
escrevia, ao convidar Rondon para chefiar e
organizar o Serviço de Proteção aos Índios:

A espontaneidade da escolha do vosso nome é a


consagração formal da conduta humanitária e
generosa, que tanto vos recomendou à confiança
indígena, na longa e heroica jornada que realizastes
por zonas até então vedadas aos mais audaciosos
exploradores. Quem, denodadamente e com rara
abnegação, sacrificou a sua quietude, a calma de
seu lar, a sua própria vida, por bem servir à Nação;
quem pode fazer do indígena - na plenitude de seu
domínio no seio das florestas, defendido dos
artifícios da civilização pelas asperezas da vida
inculta – um amigo, um guia cuidadoso, reúne, sem
dúvida, os requisitos de vontade e altruísmo, que
devem caracterizar a campanha que há de redimir
do abandono os nossos silvícolas e integrá-los na
posse de seus direitos. (17)

Nada menos estranhável, pois, haja sido a obra de


Rondon mais de uma vez calorosamente exaltada na
Europa, encontrando imensa repercussão e irrestritos
aplausos no Congresso Internacional das Raças,
reunido em Londres em 1913.Na América do Norte,
era conhecido como “O William Penn (18) do Brasil” e
a sua obra era apontada “como um exemplo a ser
imitado para honra da civilização universal”.

17 Vide “Rumo ao Oeste”, volume avulso da Biblioteca Militar, pág. 60,


Rio, 1942. (N.A.)
18 O escritor William Penn (1644/1718) foi um dos primeiros membros da
“Sociedade Religiosa dos Amigos” (Quakers) e um dos pioneiros a
defender os ideais democráticos e a liberdade religiosa e notabilizou-se
por promover harmônicas e exitosas relações e tratados com os
nativos americanos. (Hiram Reis)
33
Em 1923, o “National Geographic Magazine”, de
Washington, assim se expressava sobre ele:

Durante 23 anos o General Rondon trabalhou no


longínquo sertão... Mas, o seu serviço mais meritório
foi, sem dúvida, o que ele realizou, como diretor do
Serviço de Proteção aos Índios do Brasil, cargo no
qual a sua política de não hostilizar os índios, nem
mesmo em represálias, e de usar com eles de
brandura, lhes captou a amizade, preservando-lhes a
civilização e constituindo o que se pode chamar a
maior conservação de aborígene realizada no Novo
Mundo de nossos dias.

Vejamos o que sobre ele escreveu Nordenskjold (19):

Rondon realizou uma obra tão importante e


grandiosa que dentro destes 50 anos vindouros será
única: o meu trabalho bem como o de Rooseevelt
são apenas seus complementares.

O Presidente Theodore Roosevelt, na longa e íntima


convivência que teve com Rondon, de 11.12.1913 a
07.05.1914, partindo da Foz do Rio Apa penetrando
no sertão do Norte pelo Rio da Dúvida [hoje
Roosevelt] e saindo em Manaus pelo Amazonas num
percurso de mais de 3.000 quilômetros, pode, não só
admirar de perto a grandeza da realização de
Rondon em nossos sertões, mas ainda ver
confirmada a verdade do que, sobre ele, escreveu
Roquette Pinto:

Há homens que diminuem à medida que deles nos


aproximamos; outros de longe, brilham como estre-
las e quando nos chegamos, vemos que são mundos
ainda maiores de sentimento e de caráter. ( 20)

19 Nils Otto Gustaf Nordenskjöld (1869/1928): geólogo sueco conhecido


universalmente pela expedição que fez à Antártida em 1902 com o
navio Antartic. (Hiram Reis)
20 Roquette Pinto: “Rondônia’, pág. 108 da 3.a edição, Companhia Editora
Nacional, São Paulo, 1935. (N.A.)

34
Contribuição importante de Rondon à vida pública
brasileira foi ainda a missão de Letícia. Quando, em
1934, a Colômbia e o Peru apelaram para o Brasil a
fim de lhes demarcar as fronteiras em litígio, foi
Rondon aos setenta anos o homem para o qual todos
se voltaram. Era uma rude tarefa, mesmo para um
sertanista como ele, pois ia, idoso e cansado, para
um lugar desprovido de quaisquer recursos, onde
passaria mais de quatros anos, e, acometido de
glaucoma, perderia uma das vistas, ficando com a
outra seriamente comprometida.

Estava, porém, em perigo a paz sul-americana. Não


vacilou, e, atendendo ao apelo de Afrânio de Mello
Franco, deu desempenho à missão de Letícia,
acrescentando mais uma página de glória à cintilante
fé de ofício de uma longa vida toda consagrada ao
bem público. Contribuiu, assim, de conformidade
com seus princípios positivistas, como verdadeiro
cidadão do mundo, para o advento desse futuro em
que, para um só globo, “tornando em patrimônio
universal e em lar comum, haja também uma só
Humanidade, uma só grei!” (BOLETIM GEOGRÁFICO
VOLUME N° 187)

35
Hino dos Bandeirantes
(Guilherme de Almeida)
Paulista, para um só instante
Dos teus quatro séculos ante
A tua terra sem fronteiras,
O teu São Paulo das “bandeiras”!

Deixa atrás o presente:


Olha o passado à frente!

Vem com Martim Afonso a São Vicente!


Galga a Serra do Mar! Além, lá no alto,
Bartira sonha sossegadamente
Na sua rede virgem do Planalto.
Espreita-a entre a folhagem de esmeralda;
Beija-lhe a Cruz de Estrelas da grinalda!
Agora, escuta! Aí vem, moendo o cascalho,
Botas-de-nove-léguas, João Ramalho.
Serra-acima, dos baixos da restinga,
Vem subindo a roupeta
De Nóbrega e de Anchieta.

Contempla os Campos de Piratininga!


Este é o Colégio. Adiante está o sertão.
Vai! Segue a “entrada”! Enfrenta!
Avança! Investe!

Norte – Sul – Este – Oeste,


Em “bandeira” ou “monção”,
Doma os índios bravios.

Rompe a selva, abre minas, vara rios;


No leito da jazida
Acorda a pedraria adormecida;
Retorce os braços rijos
E tira o ouro dos seus esconderijos!
36
Coronel Amílcar Botelho

Imagem 01 – Anexo n° 5 e Impressões da C. Rondon

Padrões de Heroísmo

Neste momento de terror, de discórdia universal, não


vejo referência mais oportuna do que às “Impressões
da Comissão Rondon”, a que chamarei, sem favor,
Bíblia do Patriotismo Brasileiro.

Escrita com singeleza e com sinceridade de apóstolo,


por um dos arrojados da civilização brasílica ‒ Major
Botelho de Magalhães ‒ conforta pelos exemplos de
energia e resignação; deleita pela variedade interes-
sante dos episódios; comove até as lágrimas pelo
altruísmo sem par desses soldados catequistas, que,
embora armados e municiados, mostram a mais
sublime das coragens – da imolação ao nobilíssimo
ideal a que se votaram, matando no próprio peito o
orgulho militar das façanhas cruentas!
37
Como cada capítulo sugira, consoante à natureza dos
anotadores, um comentário novo, visto que em todos
eles há matéria capaz das mais elevadas considera-
ções de ordem moral, religiosa, social e política,
escolho para as reflexões aquele que alude às
humildes mulheres, cujas covas ondulam o deserto,
como se fossem leirões (21) de onde brotaram as
negras e tristes árvores do sacrifício – as cruzes –
que o luar dos ermos torna ainda mais tristes...

Se é verdade que estes lúgubres madeiros fazem a


solidão bem mais melancólica, não é menos certo
que os seus braços hirtos ali ficam para orientar os
viajores, que ousadamente se aventuram às imensi-
dades dos rincões agrestes.

Não sou dos que exalçam (22) as vantagens da


existência do sertanejo, porque não creio em que
seja menos branda que a do campino a vida dum
tecelão ou dum foguista: um, curvado sobre as
meadas, atento ao risco dos matizes, horas a fio;
outro, à boca rubra duma fornalha, os olhos sempre
fitos nessa visão do inferno, que o leva pouco a
pouco à cegueira.

Nem sei que menos árdua seja a existência dum


cavouqueiro (23), pendente da rocha a pique, sob a
soalheira brava, da que a dum pastor ou vaqueano
que respire livremente os ares puros dos alcantis e
as brisas frescas dos campos gerais. O povo é
resistente, sóbrio e resignado, tanto no centro
quanto no litoral. [...]

Goulart de Andrade.

21 Leirões: sepulturas.
22 Exalçam: exaltam.
23 Cavouqueiro: indivíduo que trabalha em minas ou pedreiras.

38
Expedição Roosevelt
Considerações

[...] O Governo brasileiro, atendendo aos desejos


manifestados pelo notável e saudoso estadista da
América do Norte, organizou uma Comissão Brasi-
leira para o acompanhar na arrojada travessia do
Sertão de nossa Pátria e escolheu para chefiar essa
Comissão “the right man to the right place” – o
então Coronel Rondon. À larga visão de um jovem
estadista – o Sr. Lauro Müller – Ministro das Relações
Exteriores nessa época, devem-se os extraordinários
benefícios que advieram para o nosso país, com a
acolhida de tal iniciativa, não só pelo reconhecimento
geográfico de uma região até aí desconhecida e pelos
estudos de história natural realizados na zona per-
corrida, como também pelo valor da propaganda do
Brasil no estrangeiro, especialmente na América do
Norte, através do livro que Roosevelt publicou sob o
título “Through the Brasilian Wilderness”, livro que
ele foi escrevendo no decorrer da própria Expedição.

Esta publicação pertence ao raro número das que se


cingem à estrita verdade dos fatos narrados e que
revelam da parte do autor qualidades de uma justa
observação dos homens e das coisas. Na generali-
dade dos casos os narradores de expedições, quando
não inventam situações para sobrelevar as suas
qualidades pessoais, como os “Savages Landor” (24),

24 Savages Landor: O Sr. Roosevelt [...] relatou ao Cel Rondon o seguinte


episódio: Quando ele exercia a presidência dos Estados Unidos, foi o
Sr. Savage Landor às Filipinas. Os oficiais do exército de ocupação
receberam o visitante com as maiores considerações e proporciona-
ram-lhe os meios de realizar uma viagem segura pelo interior das
ilhas. Pois a imaginação do fecundo explorador não precisou mais do
que isso, para vir relatar à Europa embasbacada que havia realizado
arriscadíssimas expedições, no decurso das quais descobrira, entre
outras coisas espantosas, uma tribo de índios brancos! (SENADO
FEDERAL ‒ V. 8)

39
contam os fatos com parcialidade acentuada, sendo
exceção os que se podem relacionar entre aqueles
que observam e julgam com exatidão. Roosevelt,
porém, era um narrador imparcial e exato, como
devem ser os historiadores que bem mereçam o
qualificativo.

Logo que Lauro Müller transmitiu o convite a Rondon,


este acedeu imediatamente ao apelo do Governo,
ponderando em todo o caso que estaria pronto para
o desempenho da Comissão certo de que não se
tratava de um mero passeio de “sport”, mais ou
menos perigoso, mas que o Governo ligaria aos
intuitos de uma travessia pelo Sertão, objetivos
científicos de utilidade para nossa Pátria. [...]

Na verdade, depois que Roosevelt fez a sua


Expedição à África, a presunção geral era de que o
arrastavam exclusivamente preocupações cinegé-
ticas. No decorrer da Expedição Roosevelt, adqui-
rimos a convicção de que o seu espírito superior e a
sua coragem individual, só estavam ao serviço das
caçadas com o nobre objetivo de obter espécimes
destinados ao Museu de New York e com os desejos
de ser ele próprio o caçador dos animais de maior
porte e de aquisição mais perigosa.

A Expedição durou quase cinco meses, desde que


Roosevelt se encontrou com a Comissão Brasileira,
em 12.12.1913, na Foz do Rio Apa, limite do Brasil
com o Paraguai, até fins de abril de 1914. Durante
dois meses Roosevelt, Rondon e o pequeno grupo de
expedicionários que desceram o “Rio da Dúvida”,
atravessaram uma região inteiramente virgem e
sentiram as sensações das surpresas do desconhe-
cido e as emoções inesquecíveis das verdadeiras
explorações, que se caracterizam pelas incertezas de
seu êxito e da sobrevivência dos exploradores...

40
Roosevelt “Versus” Savage
Tertius Gaudet (25)
Quando no Pará e antes de embarcar para os Estados
Unidos, o Sr. Roosevelt prometeu que iria contestar todas as
patranhas e lorotas que o explorador Savage Landor tem
dito sobre o grande sertão norte do Brasil. Sabedor
disso, o Sr. Savage Landor já desafiou o Sr. Roosevelt
a que realizasse tal ameaça.

Imagem 02 – Fon Fon, n° 609, 16.05.1914


Roosevelt:‒ Engole! Engole todos canarás que tua fantasia es-
quentada tem produzido. Você é um explorador de meia tigela!
Savage Landor:‒ E Você acha que é melhor do que um sapo?
Zé Povo:‒ Hein, seu Lauro Isto é o diabo! Que me diz a esse
futuro bate-barbas?
Lauro Muller:‒ Digo-te que tudo quanto o diabo faz, também é
para melhor. Nesse próximo duelo de explorações sairá vencedor o
Brasil explorado, que ficará mais conhecido.

25
Tertius Gaudet: o Terceiro se beneficia.

41
Trabalhos Realizados

[...] A parte geográfica compreendeu o levantamento


dos Rios da Dúvida, Papagaio, trechos do Taquari, do
Comemoração de Floriano e Ji-Paraná. Todas as
cadernetas desses levantamentos e os desenhos
correspondentes foram incorporados ao acervo da
Comissão Rondon e estão sendo aproveitados para a
remodelação da Carta Geográfica do Estado de Mato
Grosso.

Revelações Geográficas

A Expedição identificou o Rio da Dúvida ao Alto-


Castanha, resolvendo simultaneamente duas incógni-
tas: uma apresentada pela Comissão Rondon, quan-
do, pela primeira vez, em 1909, cortou esse curso de
água que, pela direção, poderia ser afluente do
Aripuanã, ou do Ji-Paraná [donde o nome de Rio da
Dúvida]; outra quanto à posição até então desco-
nhecida das cabeceiras do Rio Castanha verificou que
se tratava do mesmo Rio e o locou definitivamente
no Mapa do Brasil, dando-lhe o nome de Rio
Roosevelt, desde suas cabeceiras até sua Foz no
Madeira e considerando o Rio Aripuanã como seu
afluente da margem esquerda, além da homenagem
prestada ao estrangeiro ilustre, a Comissão Rondon,
atribuindo ao antigo Rio Castanha o papel de
principal, modelou o acidente geográfico lançado ao
Mapa, segundo as mais modernas teorias, que fazem
prevalecer como principal, não o Rio de maior volu-
me de água, mas o que se apresenta na direção ge-
ral do vale, relegando ao segundo plano a condicio-
nal da descarga. É evidente que essa descoberta só
foi realizada graças à ideia de Roosevelt atravessar o
nosso Sertão e que só este duplo resultado seria
atingido com a exploração e o levantamento a que se
procedeu, percorrendo a parte desconhecida e nunca
penetrada desse Rio.

42
Outra descoberta de ordem geográfica é a que se
refere ao Rio Papagaio. Quando a Comissão Rondon,
sob a iniciativa de seu ilustre chefe, começou a
apagar das velhas cartas existentes a indicação de
desconhecido que cobria larga faixa do Noroeste do
Brasil, ao interceptar com a linha telegráfica e com
as suas explorações o vasto leque formador do Rio
Tapajós, ainda formulara a princípio a hipótese de
que o Rio Papagaio iria lançar-se no Sacuruiná
[Xacuruiná em certos mapas] logo abaixo da
confluência deste com o Rio do Sangue. A Expedição
Roosevelt, destacando uma turma de exploração que
desceu e levantou o Rio Papagaio, determinou o seu
verdadeiro curso, desde o passo da linha telegráfica
[Estação Telegráfica de Utiariti, onde se encontra o
belo e potente salto do mesmo nome] até a Foz no
Rio Juruena. Assim o Rio Papagaio, depois de confluir
com o Sacre, recebe o Buriti pela margem esquerda;
reune-se-lhe a jusante ainda e pela mesma margem
o Saueuiná [nome Paresí do Papagaio] indo afinal
lançar-se no Juruena pela margem direita. O Rio do
Sangue [Zutiaharuiná em língua Paresí], depois da
confluência com o Sacuruiná, recebe sucessivamente
de montante para jusante o Membeca, o Treze de
Maio e o Cravari, descendo depois a desaguar no
Juruena pela margem direita, abaixo do Papagaio.

A publicação número 26 da Comissão Rondon [3°


volume do relatório geral do Chefe] traz apenso um
Mapa do Rio Juruena, organizado segundo os últimos
trabalhos e que qualquer curioso poderá confrontar
com as cartas anteriores, para verificar a profunda
modificação decorrente do serviço geográfico realiza-
do nessa zona, mesmo comparando-se o que ali está
com o que se encontra na segunda edição [1913] do
Mapa do Brasil, editado pelo Jornal do Brasil, onde já
entraram correções geográficas provenientes dos
nossos trabalhos.

43
Minha Colaboração

[...] Ao concluir os serviços de campo, fui nomeado,


em maio de 1914, Chefe do escritório central da Co-
missão Rondon, cargo que me honro de desempe-
nhar até a presente data (26). Já empossado destas
funções, coube-me o trabalho de encerrar as contas
da Expedição, visto que o então Cel Rondon, despe-
dindo-se de Roosevelt, em Belém do Pará, regres-
sara ao insano labor do Sertão, na árdua tarefa de
concluir a Linha Telegráfica de Cuiabá a Santo Antô-
nio do Madeira, inaugurada em 1915. Além disto,
cumulativamente ao afanoso encargo que assumira,
superintendi os trabalhos de publicação dos Relató-
rios da Expedição Roosevelt. A este propósito cum-
pre salientar que nem todos os nossos homens de
Governo compreendem o alcance que representa a
impressão dos mapas e dos trabalhos de história
natural! O Sr. Lauro Müller, porém, manifestava-se
de acordo com o nosso ponto de vista: “sem publi-
car, tudo se perde nos arquivos, além de representar
um capital inativo, à falta de circulação”. [...]

Frases de Roosevelt – Observações de


Roosevelt sobre o Brasil e os Brasileiros

Roosevelt era espirituoso e alegre, não parecendo


incomodar-se muito com os enxames de abelhas e
de mosquitos, que, às vezes, lhe cobriam as mãos,
enquanto, impassível, escrevia as suas impressões e
a sua correspondência (27) durante as refeições e ao
terminá-las, detinha-se a palestrar conosco, em fran-
cês, e distinguia com evidente simpatia o admirável
palestrador que é também o Comandante Heitor
Xavier Pereira da Cunha, distintíssimo oficial da
26 Presente data: 1921.
27 O “The Outlook”, um dos grandes diários de New York, pagava-lhe os
artigos à razão de um dólar por palavra!

44
Marinha de Guerra, hoje reformado, nosso compa-
nheiro durante o começo da Expedição. Pereira da
Cunha deleitava-nos com a sua verve (28), ao mesmo
tempo em que provocava inteligentemente as opi-
niões de Roosevelt, mas sempre correto e gentil,
como um homem de fina educação que é.

Em uma dessas palestras, a propósito dos japoneses,


Roosevelt declarou formalmente condenar a
emigração desse povo para o seu país, porque lhes
observara as tendências acentuadas para a absorção
e para o predomínio sobre o elemento nacional. Por
condenar as violências de seus patrícios, para repelir
e expulsar os japoneses da América do Norte, estes
interpretaram os seus atos como respeito aos
japoneses, que eram formidáveis! Esta arrogância
teve como resposta ao pé da letra o celebérrimo
“raid” (29) da esquadra norte-americana, com
passagem obrigatória pela Ásia. (MAGALHÃES, 1942)

Vamos reproduzir, a seguir, parte do Anexo 5 ‒


Relatório apresentado ao Sr. Coronel Cândido Mariano
da Silva Rondon pelo Capitão Amílcar Armando Botelho
de Magalhães, Ajudante da Expedição Científica
Roosevelt-Rondon, publicado em 1916:

Capítulo 1
Sob a Vossa Chefia imediata

02 a 05.12.1913: Em 2 de dezembro desse mesmo


ano, obedecendo a tão honrosa indicação, parti em
vossa companhia pelo noturno de luxo, às 21h30. No
dia 3 chegamos a S. Paulo, com um atraso de 02h20
e às 20h13 partimos pela Estrada de Ferro Soroca-
bana.
28 Verve: oratória.
29 Raid: ataque.

45
Às 10h30 do dia 4 chegamos à estação Bauru, onde
nos aguardava um trem especial, posto a vossa
disposição; às 11h50 partimos de Bauru e às 21h00
desembarcamos em Araçatuba, onde pernoitamos,
visto não estar em certo trecho consolidada a linha,
de modo a permitir que se viajasse à noite. Em
caminho para Araçatuba, fez-se uma pequena
parada na estação provisória “Heitor Legrue”, onde
os índios Kaingangs, esses mesmos considerados
ferozes e cuja pacificação foi feita pessoalmente por
vós, em época bem recente, vieram documentar
vivamente a injustiça de que eram vítimas, feste-
jando a vossa passagem pelas suas terras.

Às 03h00 do dia 5 partimos para Itapurá onde


apenas demoramos 20 minutos; às 09h00, desem-
barcamos na estação provisória de Jupiá. Às 12h00
desatracou o “ferry-boat” conduzindo-nos para a
margem direita do Rio Paraná, o que vale dizer,
transportando-nos do Estado de S. Paulo para o de
Mato Grosso. Reorganizado o trem sobre os trilhos
da outra margem, partimos às 14h00 para Três
Lagoas onde almoçamos às 14h30. Às 15h30 retor-
namos ao trem e às 20h30 desembarcamos na esta-
ção do Rio Verde, última estação inaugurada nesse
trecho e na qual fizemos a nossa segunda refeição.

06 a 09.12.1913: Às 05h00 de 6 partimos para a


ponta dos trilhos; às 08h00 saltamos do “wagon” e
às 09h30 partimos montados, da ponta dos trilhos,
com destino ao Rio Pardo, onde apeamos às 16h05
(30) em Rio Pardo, onde às 19h00 fizemos a única
refeição desse dia, aguardamos a chegada da tropa,
que só apareceu às 22h00, recebendo ordem vossa
de prosseguir viagem, substituindo-se alguns ani-
mais cargueiros que davam mostras de cansaço.
30 Tínhamos feito, nessa primeira marcha a cavalo, vinte léguas ou 120
quilômetros, contados pelos marcos da estrada quilometrada!
(MAGALHÃES, 1942)
46
Às 02h00 do dia 7 iniciamos a nova marcha, apro-
veitando a claridade das estrelas e, às 10h15, apea-
mos junto ao Córrego Campo Alegre, onde tomamos
a única refeição desse dia; às 16h10 prosseguimos
viagem. No dia 8 às 02h30 apeamos em um sítio
pertencente ao Cel Sebastião de Lima, a uma légua
de Campo Grande, aí pernoitando. Às 08h35 do
mesmo dia oito, chegamos à Vila de Campo Grande
onde aguardamos a vinda dos cargueiros que condu-
ziam nossa bagagem, o que só se deu às 13h00.
Nesse mesmo dia partimos às 18h00 e à 01h00 do
dia 9 chegamos ao acampamento da construção do
outro trecho da Estrada de Ferro Noroeste. Ainda a
9, às 06h15 partiu o trem especial posto à vossa
disposição para vos conduzir a Porto Esperança.
Adiante da vila de Aquidauana o trem parou alguns
minutos, junto à estação provisória “Visconde de
Taunay”, onde um numeroso grupo de índios
“Terenas”, soltando foguetes e cantando na sua
língua, dava mostras do quanto os alegrava a vossa
presença entre eles. Não me posso furtar ao dever
de citar episódios como esse, visto envolver o assun-
to de tão grande interesse para a nossa Pátria,
ferindo o grande problema das relações do homem
civilizado com o homem que habita as selvas. É curi-
oso assinalar, como nota probatória do prestígio em
que é tida a vossa pessoa entre eles, o fato de traze-
rem as mães, de muito longe, os seus filhinhos re-
cém-nascidos, para receberem o ósculo afetuoso que
lhes imprimíeis, fato a que também se liga o senti-
mento afetivo do índio. Desembarcamos às 22h00,
em Porto Esperança (31), passando-nos com as baga-
gens para bordo do paquete “Nyoac”, onde afinal a
urgência da marcha permitiu que fosse tomada uma
refeição nesse dia. Às 23h30 partia o “Nyoac”, Rio
Paraguai abaixo, com destino à foz do Apa.

31 Porto Esperança: 19°36’35,71” S / 57°27’22,98” O.


47
Imagem 03 – Mapa de Três Lagoas até Foz do Apa (DNIT)

10 a 11.12.1913: No dia 10, às 04h00, paramos


defronte ao nosso legendário Forte de Coimbra (32),
glorioso baluarte da honra nacional, teatro de um
choque armado da bravura paraguaia contra a bra-
vura brasileira e onde se imortalizaram Portocarrero
e o pequeno grupo de obscuros, mas heroicos defen-
sores da nossa Pátria. Às 05h30, prosseguimos
viagem a bordo do “Nyoac” e no dia 11, 05h30,
arriamos ferro em frente a Porto Murtinho (33),
pequeno povoado mato-grossense da margem es-
querda do Rio Paraguai. De Porto Murtinho partimos
às 08h05 e às 09h50 encontramos navegando contra
nós o paquete “Brasil” de cujo bordo retiramos as
nossas malas de fardamento fino, embarcadas no Rio
de Janeiro conjuntamente com a carga destinada à
Expedição, fazendo-nos ao largo novamente às
10h30. Ancoramos às 13h30 do dia 11, defronte
embocadura do Rio Apa onde aguardamos a chegada
do Sr. Roosevelt, olhando simultaneamente as terras
brasileiras da sua margem direita e as terras para-
guaias de sua margem esquerda. Nessa expectativa

32
Forte de Coimbra: 19°55’13,35” S / 57°47’31,70” O.
33 Porto Murtinho: 21°41’55,10” S / 57°53’22,57” O.

48
passamos a noite do dia 11, estabelecendo o serviço
de vigilância e conservando-nos de “prontidão” se-
gundo a terminologia militar.

12.12.1913: No dia 12 às 10h40 foi assinalada, a


jusante, a fumaça de um navio no extremo do
estirão (34) em que nos encontrávamos e às 11h10
(35) ancorava a bombordo a canhoneira paraguaia
“Adolpho Requielme”, em que viajava o Sr.
Roosevelt. Após os cumprimentos de estilo, levados
a bordo da “Riquielme”, partimos às 12h10 comboi-
ando com o “Nyoac” aquele navio de guerra (36).
(MAGALHÃES, 1916)

34 Na página seguinte podemos notar que o processo de assoreamento da


Foz do Rio Apa, em decorrência da remoção da vegetação ciliar da sua
Bacia, projetou a margem esquerda sobre a ilha frontal à boca elimi-
nando-a, numa extensão de mais de 2 km rumo Oeste e os sedimentos
foram carreados, na maior parte, para SO em virtude da corrente do
Paraguai. O desvio do talvegue do Rio, em consequência, dirigiu a tor-
rente contra a margem direita que foi paulatinamente solapada ampli-
ando a curva à direita que já existia. Podemos afirmar, então, que o
encontro dos expedicionários deu-se, aproximadamente, nas coorde-
nadas 22°05’24,48”S/57°58’21,01”O, pois a lógica nos leva a conside-
rar que os nautas abrigar-se-iam da correnteza ancorando a embarca-
ção ao Sul da margem direita do Boca do Apa ao mesmo tempo que
esta localização facilitava a visão do Estirão que se alongava no sentido
SSE (Susudeste). As cartas antigas mostram uma ilha, ou banco de
areia, na vazante, na Boca do Apa que com o passar dos anos foi pro-
gressivamente incorporada ao continente pelos sedimentos.
35 Há uma diferença de 7 minutos entre os cronômetros do Cap Amílcar
(11h10) e do Telegrama enviado pelo Cel Rondon (11h17) ao Ministro
Lauro Müller. Nas suas Conferências no Teatro Fênix, por sua vez,
Rondon afirma que: às 11h30, a “Riquielme” estava a bombordo do
“Nyoac”. O que nos leva a poder considerar que o “Riquielme” ancorou,
portanto, após as 11h00 à bombordo do “Nyoac”.
36 Telegrama do Cel Rondon publicado, no Jornal “O Paiz”:
Porto Murtinho, 14.12.1913 – Participo a V. Exª termos chegado, no
dia 11, às 13h30, e ancorado na Foz do Rio Apa, onde aguardamos a
passagem do Coronel Roosevelt, e sua comitiva. Às 11h17 do dia 12,
ancorou a nosso bombordo a canhoneira Adolpho Requielme, a cujo
bordo veio o ilustre Ex-presidente norte-americano. Após cumprimen-
tos, levados pela Comissão Brasileira, a bordo do navio paraguaio,

49
levantamos ferro Rio acima, comboiando aquela embarcação. (O PAIZ,
n° 10.662)
Imagem 04 – Localização da Foz do Apa, em 1913
51
Coronel Rondon

Imagem 05 – Conferências Realizadas no Teatro Fênix

A Expedição Científica Roosevelt-Rondon

No dia 04.10.1913, chegava eu à estação de Barão


de Melgaço, vindo da Barra dos Bugres, ponto extre-
mo Meridional das Linhas Telegráficas de Mato Gros-
so ao Amazonas, cujas obras e serviços inspecionara,
quando recebi do Sr. Ministro das Relações Exterio-
res, Dr. Lauro Müller, um telegrama, convidando-me
para acompanhar o Ex-presidente dos EUA, Sr. Cel
Theodoro Roosevelt, na viagem que projetava reali-
zar pelo interior do Brasil, até alcançar o território de
Venezuela. Respondi, aceitando o honroso encargo;
e no mesmo dia, segui em demanda do Rio
Comemoração de Floriano, que desci, servindo-me
dos meios de transporte criados pela Comissão das
Linhas Telegráficas; entrei no Pimenta Bueno e em
seguida no Ji-Paraná, em cuja foz encontrei o aviso
“Cidade de Manaus”, que me levou à Capital do
Amazonas.
52
Atendendo à urgência que havia, de providenciar
sobre a organização de elementos indispensáveis à
travessia da Expedição, tomei desde logo algumas
medidas que seriam aproveitáveis qualquer que
viesse a ser o itinerário finalmente escolhido pelo
eminente estadista americano, para sair do Maciço
Central do Brasil na Bacia Amazônica. De todos os
caminhos que se poderiam seguir, pareceu-me
preferível um dos oferecidos pelos cursos do Arinos,
Juruena, Papagaio e Dúvida; por esse motivo,
mandei preparar canoas à margem de cada um
desses quatro Rios, em pontos de fácil acesso para
expedicionários que penetrassem no Chapadão dos
Paresí, vindos das cabeceiras do Paraguai.

Durante a minha viagem para Manaus, recebi


comunicação de que o projeto do Sr. Roosevelt era
entrar no Amazonas pelo Tapajós e neste pelo
Arinos.

Mas, evidentemente, tal percurso, de novo, pouco


poderia proporcionar a uma Expedição que visava
desvendar aspectos ainda desconhecidos dos nossos
Sertões. Decidi, pois, submeter à apreciação do nos-
so ilustre hóspede outros itinerários, que poderiam
com mais vantagem ser seguidos pela sua comitiva,
e para esse fim telegrafei de Manaus para o Rio de
Janeiro, ao Chefe da Seção de Desenho da Comissão
Telegráfica, 1° Tenente Jaguaribe de Mattos, que lhe
apresentasse, por intermédio do Ministério do
Exterior, as cartas geográficas traçadas no escritório
técnico com os elementos fornecidos pelas nossas
explorações, indicando os seguintes percursos:

a) De S. Luiz do Cáceres ou de Cuiabá, seguir pela


estrada da Comissão das Linhas Telegráficas até a
estação “Barão de Melgaço”, e aí embarcar em
batelões para descer os Rios Comemoração de
Floriano, Ji-Paraná e Madeira;

53
b) Seguir o mesmo itinerário até a estação “José
Bonifácio”, anterior à de “Barão de Melgaço”, e
daí, ganhando o passo da Linha sobre o Dúvida,
descer e explorar este Rio, que provavelmente
levaria a comitiva ao Madeira;
c) Ganhar o Tapajós, descendo o Juruena, e não o
Arinos, que é caminho conhecido há mais de um
século, a ponto de ter servido por largo tempo de
via comercial entre Pará e Mato Grosso;
d) De S. Luiz de Cáceres passar para o vale do
Guaporé; descer em lancha, a partir da Cidade de
Mato Grosso, este Rio e o Mamoré, até a
cachoeira de Guajará Mirim; tomar aí a estrada de
ferro Madeira-Mamoré, para chegar à cidade de
Santo Antônio do Madeira;
e) Finalmente, alcançar, pela estrada da Linha
Telegráfica, o Rio Papagaio, na estação de Utiariti,
e por ele entrar no Tapajós.
Destas cinco propostas, a que encerrava maiores
dificuldades e imprevistos, era a relativa ao Rio da
Dúvida; foi a escolhida pelo Sr. Roosevelt.

Ainda em viagem de Manaus para o Rio de Janeiro,


onde cheguei a 11 de novembro, organizei o quadro
da Comissão Brasileira, escolhendo profissionais que
se pudessem encarregar, com o maior aproveita-
mento possível para o País, dos serviços de astrono-
mia e determinação de coordenadas geográficas, de
topografia, botânica, zoologia e geologia, além dos
relativos à administração.

Destes meus dedicados auxiliares, os que se


achavam no Rio de Janeiro seguiram, em turmas
sucessivas, de 22 de novembro a 05 de dezembro,
para Montevidéu, afim de dali subirem o Paraguai,
em demanda de Corumbá e de outros pontos em que
deveriam aguardar a chegada da Expedição, apres-
tando os serviços de que se achavam encarregados.

54
Quanto a mim, obrigado a demorar-me na Capital da
República, para atender às últimas necessidades do
aparelhamento dos meios indispensáveis ao bom
êxito da Comissão que me fora confiada, seguiria por
terra o mais tarde possível, mas ainda a tempo de
descer o Paraguai e ir esperar a entrada do Sr.
Roosevelt no território da nossa Pátria; para me
acompanharem nessa viagem retive comigo o Capi-
tão Amílcar Magalhães e o Dr. Euzébio de Oliveira,
respectivamente ajudante e geólogo da Expedição.
Todos os volumes de material e bagagens seguiram
também por água, via Montevidéu.

A 28 de novembro comunicou-me o Ministério do


Exterior que o Sr. Roosevelt partiria de Buenos Aires
para Assunção, no dia 04 ou 05 de dezembro, e três
dias depois continuaria a subir o Paraguai, em
demanda de Corumbá. De posse desse aviso, saí do
Rio de Janeiro para S. Paulo, no trem da noite de 02
de dezembro, tendo antes tomado as providências
necessárias para poder viajar ininterruptamente
pelas estradas de ferro Central do Brasil, Sorocaba-
na, Noroeste e Itapurá a Corumbá.

Ao anoitecer do dia 05, chegávamos à ponta dos


trilhos da estrada Itapurá a Corumbá, que se achava
com a construção um pouco além do Rio Verde, e
isso mesmo tendo alguns quilômetros ainda não
consolidados e só trafegados por trens de lastro. Aí
organizamos a nossa marcha a cavalo, para alcan-
çarmos o extremo da linha que se vinha construindo
de Porto Esperança para Itapurá. Percorremos, as-
sim, 168 quilômetros, até Campo Grande, onde
chegamos às 06h00 do dia 09. Três horas depois
saíamos de Campo Grande em trem especial, que
nos levou a Porto Esperança, situado a 2.248 quilô-
metros do Rio de Janeiro, e onde desembarcamos às
23h00.

55
Imagem 06 – Vapor Nyoac
Passamo-nos imediatamente para bordo do vapor
“Nyoac”, do Lloyd Brasileiro, que, por ordem do Sr.
Ministro do Exterior, aguardava, de fornalhas acesas,
a nossa chegada, e demos ordem de zarpar ainda
antes de começar a madrugada do dia 10. Pouco
depois de uma hora da tarde de 11, ancorávamos
defronte da Foz do Rio Apa, onde nos cumpria ficar à
espera do Sr. Roosevelt e da sua comitiva.

No fim de duas horas, descobrimos a silhueta de um


vapor, que vinha subindo a toda velocidade; corre-
mos a fazer os últimos aprestos para a recepção, que
julgávamos dever realizar-se daí a pouco. No tom-
badilho do “Nyoac” já envergando o uniforme branco
designado para essa ocasião, não desprendíamos a
vista da embarcação, que, novo Protheus, se nos afi-
gurava mudar de forma a cada instante, ora confir-
mando as nossas esperanças, ora desenganando-
nos. Afinal, acabamos reconhecendo não ser o tão
desejado “Riquielme”, mas sim um rebocador carre-
gado de índios Chamacocos, que passavam para
algum estabelecimento industrial das margens do
Paraguai e lá iam continuar o triste fadário de semi-
escravizados de uma sociedade de estranhos, que
transformaram as suas livres florestas numa Pátria
madrasta, desafeituosa e dura.

56
Imagem 07 – Roosevelt e Rondon à bordo do “Nyoac”

Assim passamos o dia e a noite de 11 de dezembro.


A manhã imediata já nos encontrou a postos,
inspecionando o caminho de Assunção. As horas
escoaram-se lentamente até às 10h00, e já iam
prosseguindo na sua marcha fatal, quando todos nos
alvorotamos, vendo aparecer ao fundo do estirão,
um navio. Em breve descobrimos o pavilhão que tre-
mulava no mastro de popa e por ele reconhecemos a
canhoneira paraguaia.
57
Às 11h30, a “Riquielme” estava a bombordo do
“Nyoac”, e do seu portaló o Sr. Roosevelt corres-
pondia aos acenos de antecipadas saudações que
íamos levar a bordo, com os oferecimentos de
afetuosa hospedagem que o Governo do meu País
lhe mandava oferecer. Ainda a âncora paraguaia não
havia mordido o fundo do Rio, e já eu, com os meus
auxiliares, me dirigia para o navio, cujo tombadilho
ia servir de palco às cerimônias das primeiras
apresentações que se tinham de fazer entre um
estadista iniciado nos altos segredos ao protocolo da
diplomacia europeia e um homem que, havia perto
de 25 anos, vivia internado nos Sertões, frequen-
tando as chancelarias Bororos, Paresí e Nhambi-
quaras e aprimorando-se na etiqueta das respectivas
cortes. Contudo, não me atormentavam os calafrios
da estreia, porque, afinal, o conjunto das circuns-
tâncias exteriores, que formam o meio em que
temos de agir, nos amparam e ajudam a encontrar
os gestos adequados ao momento que atraves-
samos; e se, quando nos cumprimentamos em
Bororo, logo nos dispomos a sentir o odor acre de
corpos nus, pintados de urucum, em compensação,
quando trocamos amabilidades na língua de Corneille
e de Molière, insensivelmente somos arrastados para
os domínios das gentilezas e da graça, e sem esforço
reencontramos as encantadoras filigranas de que se
entretece a vida dos nossos salões.
Eis-me, pois, no tombadilho do navio de guerra para-
guaio cumprimentando o Sr. Roosevelt em nome do
Governo Brasileiro, reiterando-lhe o oferecimento da
nossa hospitalidade e apresentando-lhe os membros
da Comissão Brasileira, que, desde aquele momento,
ficavam às suas ordens. O Sr. Roosevelt respondeu
às nossas palavras, não só com a distinção carac-
terística do seu grande espírito e alta cultura, mas
também com a afabilidade de um verdadeiro amigo
da nossa terra e da nossa gente.
58
Era pensamento do Governo Brasileiro que ali
mesmo, na Foz do Apa, recebêssemos a bordo do
“Nyoac” a Comissão Americana; mas, ao aludirmos a
esta parte do nosso programa, vi que a oficialidade
paraguaia passaria por verdadeira decepção se fosse
privada da honra de transportar o Ex-presidente dos
Estados Unidos até Corumbá. Como o desejo de
todos colimava acordemente o mesmo objetivo, que
era prestar homenagem ao nosso hóspede, cedi o
passo aos paraguaios, satisfeito de que o Destino
tivesse sido tão benévolo para comigo a ponto de me
proporcionar, logo da primeira vez que me encon-
trava em caráter oficial nesse País, ocasião de
manifestar os meus sentimentos de fraternidade
para com o povo de fundo mais genuinamente ame-
ricano dentre todos os que se formaram nestas
terras de Colombo. Resolvido isto, pouco depois do
meio-dia a “Riquielme” continuou a subir o Rio, em
direção ao Brasil, e o “Nyoac” seguiu-a de perto,
comboiando-a.

59
Imagem 08 – Fon Fon, n° 594, 31.01.1914

Imagem 09 – Fon Fon, n° 608, 09.05.1914


60
Pagmejera ‒ O Grande Chefe
(Cel Eng Antônio Lara Rondon)

Envolvido neste “SONHO VARONIL” reflito e revejo, no


passado, um olhar ameno e sonhador. Um ser tenro,
tez acaboclada que brinca e corre pelos campos de
Mimoso. O ser cresce, vigor e formosura
Entrelaçam-se, juntos permanecem, forjando a
Têmpera do Desbravador que o Brasil jamais esquece.
Mergulhando impávido nas selvas brasileiras, levando
no coração lição de paz e amor deixaste para as
gerações o exemplo nobre do Estadista, Humanista,
Benfeitor. Conheceste o âmago da solidão aprendendo
desde cedo a viver de saudade, contudo, nada
esmoreceu a bravura e o ideal do jovem mimoseano.

E, nesta saga de ideais sinais telegráficos até então


desconhecidos alcançaram os mais remotos rincões da
Amazônia, percorrendo a imensidão do solo pátrio, pés,
que mais terras tropicais percorreram, deixando para o
mundo a imensidão da obra, concretizada no mais rude
cerrado e floresta virgem, desafio vencido graças ao
trabalho, tenacidade e pioneirismo de uma plêiade
brilhante de jovens oficiais e praças.

Silêncio! A selva pressente o inevitável, o nambu chora


a falta da companheira, árvores frondosas escondem o
perigo iminente, dorsos nus curvados pelo esforço do
arco guerreiro, logo o silêncio é cortado pelo zumbido
da flecha defensora. A montaria assusta-se movimentos
bruscos e agressivos partem dos companheiros de
aventura e, no entanto, a Índole Pura impede o
massacre, no lugar do troar do fuzil, ecoa no vazio da
floresta a palavra do verdadeiro altruísta ‒ MORRER, SE
PRECISO FOR; MATAR, NUNCA! [...]
61
Theodore Roosevelt

Imagem 10 – In The Brazilian Wilderness – Th. Roosevelt

Voltemos agora nosso olhar para um dos perso-


nagens formidáveis e, considerado por alguns contro-
vertido, dessa epopeica jornada. Vamos reportar suas
impressões, seu pensamento para que o leitor possa
julgar por si só esta personalidade marcante cujas
ações alteraram profundamente os destinos da huma-
nidade no alvorecer do século XX.
62
No seu livro “Nas Selvas do Brasil” o Ex-
presidente Theodore Roosevelt faz um relato porme-
norizado de Expedição Científica Roosevelt Rondon:

Dedicatória

A S. Exª Lauro Müller

Ministro das Relações Exteriores do Brasil e a seus


colegas de Governo.

Ao Coronel Rondon

Distinto oficial do exército, homem de alta enverga-


dura mental e moral, explorador intrépido e a seus
auxiliares Capitão Amílcar, Tenente Lira, Tenente
Melo, Tenente Lauriano, Dr. Cajazeiras, do Exército
Brasileiro e Eusébio de Oliveira, nossos compa-
nheiros no trabalho científico e na Expedição aos
Sertões.

Este livro lhes é dedicado com estima, consideração


e afeto, pelo seu amigo

Theodoro Roosevelt

Capítulo I
A Partida

Certo dia, em 1908, ao findar meu mandato presi-


dencial, o Padre Zahm (37), sacerdote de minhas
relações, veio procurar-me. Fôramos camaradas por
algum tempo; éramos, ambos, admiradores de
Dante e gostávamos de história e ciências. Eu
costumava recomendar aos teólogos o seu livro
“Evolução e Dogma”.

37 Zahm: John Augustine Zahm.


63
Imagem 11 – Through the Brazilian Wilderness
64
Imagem 12 – Through the Brazilian Wilderness

65
Natural de Ohio, aprendera as primeiras letras à
velha maneira americana, numa pequena escola de
madeira, onde, por sinal, era também aluno
Januarius Aloysius MacGahan, mais tarde famoso
correspondente de guerra e amigo de Skobeloff. O
Padre Zahm me contou que, já naquele tempo,
MacGahan acrescentava à sua extremada intrepidez
uma cavalheiresca simpatia pelos fracos: era sempre
o defensor de qualquer menino maltratado por outro
mais forte. Mais tarde, o Padre Zahm frequentou a
Universidade de Notre Dame, em Indiana, junta-
mente com Maurício Egan, que eu nomeei para
Ministro na Dinamarca, quando ocupei a presidência.
Por ocasião de sua visita, o Padre Zahm acabava de
regressar de uma viagem pelos Andes, havendo
descido em seguida o Amazonas, e viera propor-me
que, terminado o período presidencial, fôssemos
juntos subir o Paraguai, atingindo os Sertões da
América do Sul. Naquela ocasião, meu desejo era ir à
África; e, assim, o assunto ficou de lado. Mas, de vez
em quando, voltávamos a tratar do assunto.

Cinco anos depois, no verão de 1913, aceitei os


convites que me foram dirigidos pelos Governos do
Brasil e Argentina, para pronunciar Conferências em
determinadas associações desses países. Ocorreu-me
então que, em vez de fazer uma viagem convencio-
nal de turista, unicamente por Mar, em torno da
América do Sul, eu poderia vir para o Norte, depois
de acabar minhas Conferências, pelo centro do
continente, até o Vale do Amazonas.

Resolvi escrever ao Padre Zahm, revelando meus


projetos. Antes, porém, queria avistar-me com os
diretores do Museu Americano de História Natural, de
Nova York, para verificar se lhes interessaria eu levar
comigo dois naturalistas ao interior do Brasil e
realizar, durante a viagem, coleta de espécimes para
o Museu.
66
Escrevi a Frank Chapman, Chefe da Seção de
ornitologia do Museu, e aceitei seu convite para
almoçar no Museu num determinado dia em começos
de junho. Além de vários naturalistas, também
encontrei no almoço, com grande surpresa, o Padre
Zahm. Disse-lhe então que pretendia realizar a
viagem à América do Sul. Também ele resolvera
empreendê-la e fora procurar o Sr. Chapman para
ver se este podia recomendar um naturalista para
acompanhá-lo. Desde logo declarou que iria comigo.
Chapman ficou muito satisfeito quando soube que
nós pretendíamos subir o Paraguai e atravessar o
Sertão até o vale do Amazonas, porque grande parte
da área que teríamos de atravessar ainda não fora
explorada com o fim de se obterem espécimes para
coleções.

Entendeu-se com Henry Fairfield Osborn, Presidente


do Museu, que me escreveu dizendo que o Museu
teria satisfação em comissionar, sob minha direção,
dois naturalistas que Chapman escolheria com a
minha aprovação. Os homens que Chapman reco-
mendou foram os Srs. George Kruck Cherrie e Leo
Edward Miller. Aceitei-os com prazer. O primeiro
teria de atender, sobretudo, à ornitologia e o
segundo à mamalogia (38) da Expedição, mas ambos
deveriam auxiliar-se mutuamente.

Seria impossível encontrar dois homens melhores


para uma Expedição dessa natureza. Eram ambos
veteranos das florestas tropicais americanas.

O jovem Miller, natural de Indiana, era um natu-


ralista entusiasta, e com aptidão literária e científica.
Achava-se, na ocasião, nas florestas da Guiana, e
reuniu-se a nós em Barbados.

38 Mamalogia ou Mastozoologia: ramo da zoologia que se ocupa do estudo


dos mamíferos.
67
Cherrie, mais idoso, natural de Iowa, era então
fazendeiro em Vermont. Tinha esposa e seis filhos. A
senhora Cherrie acompanhara-o por dois ou três
anos, nos primeiros tempos de casados, em suas
viagens de coleta pelo Orenoco. O segundo filho do
casal nascera num acampamento duas centenas de
milhas distante de homens e mulheres brancos. Em
uma noite, poucas semanas depois, foram obrigados
a abandonar o local onde pretendiam pernoitar, por-
que a criança estava impertinente, e com seu choro
atraiu uma onça que se pôs a rondar o acampa-
mento, ao escurecer, e cada vez mais próximo, até
que o casal julgou mais seguro voltar ao Rio e buscar
outro lugar para dormir. Cherrie passara cerca de 22
anos colhendo materiais nos trópicos americanos. Tal
como a maioria dos naturalistas de campo que tenho
conhecido, era ele um homem excepcionalmente
destemido e eficiente; por vontade própria ou por
força das circunstâncias, vira-se obrigado a mudar
de profissão várias vezes, chegando a tomar parte
em revoluções.

Por duas vezes esteve preso em consequência des-


sas atividades; passou três meses no cárcere de um
país Sul-americano, esperando a cada momento ser
fuzilado. Em outro país, como interlúdio às suas
ocupações ornitológicas, tomou o partido de um
aventureiro político, levando 2,5 anos nessas ativi-
dades entrecortadas de imprevistos. O “chefete”
revolucionário, a cuja sorte ele se ligou, subiu ao
poder e Cherrie imortalizou-o dando seu nome a uma
nova espécie de tordo papa-formigas – detalhe deli-
cioso, por associar duas atividades que raramente
vivem juntas: a ornitologia e as guerrilhas.

Em Anthony Fiala, que fora explorador ártico, encon-


tramos um homem excelente para cuidar da orga-
nização do equipamento e do embarque. Além dos
seus quatro anos de região ártica, Anthony Fiala
68
servira na esquadrilha de Nova York em Porto Rico,
durante a guerra com a Espanha, e nessa ocasião
conheceu sua gentil esposa, que era de Tennessee.
Ela veio com os quatro filhos do casal para as despe-
didas no cais.

Meu secretário, o Sr. Frank Harper, seguiu conosco.


Jacob Sigg, que servira três anos no Exército dos
Estados Unidos, e que era ao mesmo tempo enfer-
meiro e cozinheiro, com inclinação natural para
aventuras, ia como assistente pessoal do Padre
Zahm.

No Sul do Brasil, meu filho Kermitt reuniu-se a mim.


Trabalhava na montagem de uma ponte e, dois
meses antes, quando estava numa enorme viga de
aço suspensa por um “derrik”, esta falseou e ele caiu
com a ferragem sobre o leito de pedras. Escapou
com duas costelas quebradas, dois dentes arranca-
dos e um joelho em parte deslocado, mas já estava
praticamente restabelecido quando partiu conosco.

Em sua composição, a nossa Expedição era tipica-


mente americana. Kermitt e eu éramos de velha
cepa revolucionária, correndo em nossas veias um
pouco de todas as espécies de sangue que existiam
neste lado do oceano nos tempos coloniais. O pai de
Cherrie nascera na Irlanda e sua mãe na Escócia;
vieram muito jovens para os Estados Unidos e seu
pai serviu durante toda a guerra civil num regimento
de cavalaria de Iowa. Sua mulher era de velha es-
tirpe revolucionária. O pai do Padre Zahm era um
imigrante alsaciano e sua mãe, filha de escocês e
americana, descendia de uma sobrinha do General
Braddock. O pai de Miller viera da Alemanha e sua
mãe, da França. Os pais de Anthony Fiala eram
tchecos da Boêmia. O pai servira quatro anos na
guerra civil, no Exército da União. Sua mulher,
natural de Tennessee, descendia de revolucionários.
69
Harper era natural da Inglaterra e Sigg da Suíça.
Éramos tão diferentes em matéria de credo religioso,
quanto em origens étnicas. O padre Zahm e Miller
eram católicos, Kermitt e Harper episcopais, Cherrie
presbiteriano, Fiala batista, Sigg luterano e, quanto a
mim, pertencia à igreja protestante holandesa.

Como armamento, os naturalistas levavam espingar-


das de dois canos calibre 16, das quais uma, a de
Cherrie, tinha um terceiro cano, estriado, sob os
outros dois. As armas de fogo para o resto da
Expedição foram fornecidas por Kermitt e por mim,
inclusive a minha carabina Springfield, duas carabi-
nas Winchester de Kermitt, uma de calibre 405 e 30-
40, a espingarda Fox calibre 12 e outra calibre 16 e
dois revólveres, um Colt e um Smith and Wesson.

Levamos de Nova York duas canoas de lona, bar-


racas, mosquiteiros, bastante filó, inclusive redes pa-
ra chapéus, e camas de vento e redes leves. Leva-
mos cordas e roldanas que nos foram muito úteis em
nossa viagem de canoa. Cada qual se vestiu segundo
suas preferências. Minhas roupas eram de pano
cáqui, como as que usei na África, com duas camisas
de flanela do Exército americano e duas camisas de
seda; um par de sapatos ferrados e perneiras e um
par de botas de couro, com atacadores, que me
subiam até os joelhos. Os dois naturalistas me
haviam prevenido de que convinha usar ou perneiras
ou botas altas como proteção contra cobras; levei
também luvas por causa dos pernilongos e mutucas.
Pretendíamos, sempre que possível, alimentar-nos
com o que pudéssemos encontrar, mas levamos
algumas rações de emergência, das que se usam no
Exército, e também 90 latas, cada uma com
provisões diárias para cinco homens, preparadas por
Anthony Fiala. [...]

70
Imagem 13 – Roosevelt e Lauro Müller no Rio de Janeiro

Meu plano exato de operações teria de ser, neces-


sariamente, um tanto indefinido. Mas, chegando ao
Rio de Janeiro, o Ministro Lauro Müller, que com a
maior gentileza manifestara grande interesse pessoal
pela minha Expedição, informou-me de que havia
arranjado as coisas de modo que no Alto Paraguai,
na cidade mato-grossense de Cáceres, eu me encon-
trasse com um Coronel do Exército Brasileiro quase
índio pelo sangue. O Cel Rondon tem sido durante
um quarto de século o mais destemido explorador do
“hinterland” brasileiro. Naquela ocasião estava em
Manaus, mas seus subordinados se encontravam em
Cáceres e foram avisados de nossa chegada.

O Sr. Lauro Müller, que, além de eminente homem


público, é também um espírito dotado de grande cul-
tura, possuindo traços que me faziam lembrar John
Hay, se propôs a me auxiliar no sentido de dar a
minha viagem muito maior alcance do que eu havia a
princípio planejado. Tomado de vivo interesse na
exploração e desenvolvimento do interior do Brasil,
convenceu-se de que minha Expedição podia ser uti-
lizada para difundir no estrangeiro um conhecimento
mais geral do país.
71
Declarou-me que cooperaria comigo de todas as
maneiras, se eu quisesse chefiar uma Expedição que,
entrando pela área inexplorada do Oeste de Mato
Grosso, tentasse descer um Rio que corria para rumo
desconhecido, mas que exploradores bem informa-
dos, acreditavam ser um Rio caudaloso inteiramente
desconhecido pelos geógrafos. Pressuroso e satisfei-
to, aceitei a proposta, pois senti que com esse apoio
a Expedição podia ter alto valor científico e trazer
uma contribuição considerável ao conhecimento geo-
gráfico de uma das regiões menos conhecidas regi-
ões da América do Sul. De acordo com o nosso
entendimento, ficou assentado que o Cel Rondon e
alguns de seus auxiliares me encontrariam em
Corumbá ou em outro local Rio abaixo, e que juntos
tentaríamos a descida do tal Rio cujas cabeceiras
eles já haviam atravessado.

Eu precisava viajar pelo Brasil, Uruguai, Argentina e


Chile, durante seis semanas, a fim de cumprir meus
compromissos, fazendo Conferências. Quanto a Fiala,
Cherrie, Miller e Sigg, eles se separaram de mim no
Rio de Janeiro, prosseguindo para Buenos Aires no
navio em que viéramos de Nova York. De Buenos
Aires, subiram o Paraguai para Corumbá, onde fica-
ram esperando por mim. Os dois naturalistas
seguiram na frente, a fim de começarem a colheita
de material; Fiala e Sigg viajaram com mais vagar,
levando a bagagem pesada. (ROOSEVELT, 1976)

Roosevelt foi recebido e aclamado no Brasil


como grande estadista que era em função de suas
memoráveis intervenções facilitando o equacionamento
da Questão Acreana agravada com a criação do Bolivian
Syndicate e mediando com ponderação e acerto os
termos do Tratado de Portsmouth.
72
O reconhecimento mundial pelos seus esforços e
determinante atuação em prol da assinatura do Tratado
de Portsmouth, conciliando interesses tão antagônicos,
entre a Rússia e o Japão, foi materializado através da
concessão do prêmio Nobel da Paz de 1906, tornando-
se o primeiro norte-americano a receber tal distinção. O
Jornal “O Paiz”, RJ, publicou uma série de reportagens
à respeito da vinda de Roosevelt ao Brasil:

O Paiz, n° 10.594 ‒ Rio de Janeiro, RJ


Quinta-feira, 09.10.1913

A Vinda do Sr. Roosevelt

Está em viagem para o Brasil o Sr. Theodore


Roosevelt, que deve ser acolhido aqui com mani-
festações excepcionais de apreço, tanto pela radia-
ção do seu nome notável no domínio do pensamento,
como na arte de governar, e pelo que a sua perso-
nalidade tem de intensamente representativa da civi-
lização americana. “Deve ser” não significa uma deli-
beração já assente por parte das autoridades ou dos
centros intelectuais da metrópole brasileira, mas a
obrigação em que uns e outros se acham de mani-
festar ao grande estadista e vigoroso escritor o alto
conceito em que tem a sua obra de democrata, a sua
capacidade de diretor da política de uma grande na-
ção, o seu talento de publicista possante e original.

É tempo de se pensar na melhor maneira por que se


há de acolher o Ex-presidente dos Estados Unidos,
espírito de renome e influência universal, e que tão
particulares testemunhos de interesse mostrou pelo
progresso da nossa República.
73
São visitas desta ordem, espontâneas, ditadas pela
curiosidade intelectual por um visível sentimento de
simpatia, que nos devem lisonjear. O Sr. Roosevelt
tem um grande público que admira a sua
independência de caráter, a justeza das suas
observações, a superioridade do seu critério, e,
assim, o que da sua pena sair sobre a situação da
nossa terra, sobre os problemas que o preocupam,
sobre os traços especiais da nossa evolução social,
política e econômica, sobre o pitoresco das nossas
paisagens e dos nossos costumes, há de atrair para
o Brasil uma larga atenção, produtora mais tarde de
excelentes frutos.

Não é por esse lado somente que a sua vinda deve


ser apreciada, embora não fique mal a nenhum
povo, como a nenhum indivíduo, pensar nos provei-
tos nobres que pode colher de um incidente, para o
qual não concorreu, mas que, inteligentemente apro-
veitado, lhe pode determinar resultados utilíssimos.

O que acima de tudo, é claro, nos impõe o grato


encargo de festejar o advento do Sr. Roosevelt é a
compreensão que todos temos da grandeza da sua
ação política, do seu amor à paz universal, do seu
empenho pela concórdia e pela prosperidade ameri-
cana. Os Estados Unidos devem ao grande homem
monumentos de verdadeiro orgulho patriótico, tão
brilhante foi o concurso que trouxe ao acréscimo do
seu prestigio internacional.

Ao gênio político de Roosevelt deve a poderosa


República grande parte da influência de que dispõe
no concerto das potências e o ambiente de confiança
e admiração com que nos principais países do conti-
nente passaram a ser, julgadas as suas ideias e
tendências em relação às Repúblicas latinas, por cuja
integridade ela sempre zelou, fiel ao compromisso
tradicional de Monroe.
74
O período da sua administração constitui uma das
páginas mais vibrantes e gloriosas da história daque-
le admirável país. A paz entre a Rússia e o Japão,
trabalho do Presidente daquela República, bastaria
para dar à sua individualidade uma fulguração imor-
redoura. Não há, nos últimos tempos, exemplo de
uma tão grande autoridade envolta em tão larga,
carinhosa e entusiástica estima, como aquela de que
gozou o eminente democrata durante os anos de sua
fecundíssima presidência. O cortejo que algumas
monarquias poderosas fizeram ao chefe dessa
deslumbrante democracia, disputando-lhe as graças
e enaltecendo-lhe o valor, dá a medida do êxito
dessa administração inolvidável.

Este artigo não visa, porém, a reconstituição dos


serviços que, em escala espantosa, prestou ao
progresso do seu país e ao aumento da civilização
universal. Não chegou ainda a hora do cumprimento
desse dever; o que se quer é simplesmente relem-
brar a imponência desse vulto, que, fora do poder, e
por ele tão nobilitado, ainda exerce sobre os espírito
dos governantes e dos povos a fascinação do talento,
como condutor perspicaz que foi das energias e das
aspirações da sua vigorosa e liberalíssima nacionali-
dade.
O Sr. Roosevelt, dissemos atrás, mostrou sempre
pelo Brasil um grande interesse, acompanhando os
seus progressos e prestando-lhe até o auxílio da sua
boa vontade na solução das dificuldades que para o
problema do Acre criara a fundação do Bolivian Syn-
dicate.

Sem a intervenção do Governo Americano, esse gru-


po financeiro não teria aberto mão dos seus direitos
ao verdadeiro domínio do território em que se insta-
lara, escudado numa “Carta” do gênero das grandes
companhias exploradoras dos Sertões africanos.
75
A solicitude com que a Chancelaria da grande
República, interpretando os sentimentos de cordiali-
dade do Sr. Roosevelt com o nosso país, procurou
obter a acomodação da empresa aos desejos de Rio
Branco, recomendou logo o grande estadista ao
apreço nacional.

A viagem de Elihu Root ao Brasil, para assistir à


inauguração da Conferência Pan-Americana, obede-
ceu ao pensamento do Chefe do Estado que se
esforçava por manifestar à opinião Sul-americana o
seu espírito de amizade sincera, dissipando velhos e
desarrazoados preconceitos sobre o caráter auto-
ritário e imperialista da política dos Estados Unidos,
em relação aos povos latinos do continente. Se o Sr
Root percorreu diversas Repúblicas, não há negar
que só pensou nessa visita depois de resolvida a
viagem à metrópole brasileira.

Era claro que essa audição a uma República Sul-


americana, motivada pelo fato da reunião da
Conferência Internacional, devia ser tomada pelas
outras como uma prova da perfeita amizade que os
Estados Unidos lhes votavam, alheiados por comple-
to de qualquer ideia de preponderância, num futuro
mais ou menos próximo. O Sr. Root quis, porém, ser
gentil com as principiais, para que não houvesse
entre elas motivo para ciúmes, e prolongou a sua
excursão de proveitosa e inteligente confraternidade.

O Brasil não pôde esquecer, porém, o empenho que


o Governo de Roosevelt pôs em lhe patentear o seu
afeto por essa ocasião, delicadeza que o povo com-
preendeu naturalmente emocionado, festejando por
forma verdadeiramente entusiástica o seu eminente
auxiliar de Governo. Além do dever em que nos
achamos, como sociedade culta, de demonstrar a
nossa admiração por um dos espíritos mais notáveis
do tempo, com uma bela folha de serviços à liber-
76
dade, à paz, à civilização, ilustre nas letras, grande
na política, soldado heroico e pensador profundo, há
ainda a consideração especial do reconhecimento
que nos cumpre prestar pelas suas provas de estima,
tão sinceras como úteis. [...] (O PAIZ, n° 10.594)

O Paiz, n° 10.602 ‒ Rio de Janeiro, RJ


Sexta-feira, 17.10.1913

Roosevelt
A Sua Próxima Chegada a Esta Capital

A próxima visita do Sr. Theodore Roosevelt, o


brilhante estadista “yankee” e antigo Presidente da
grande República do Setentrião, vai ser, dentro de
uma semana, a nota sensacional da vida brasileira.
Além de se tratar de um homem notável por todos os
títulos, político, pensador e tribuno, “sportman” con-
sumado e perfeito “gentleman” em toda a extensão
do vocábulo, hoje de nomeada mundial, conquistada
vitoriosamente desde o seu vigoroso Governo nos
Estados Unidos até as suas múltiplas excursões pelos
diversos continentes, em cujo coração se há entra-
nhado em curiosos e interessantes estudos, tem
ainda para nós um outro encanto – é haver sido
sempre um grande amigo da nossa Pátria.

O Governo, em nome do Brasil, vai recebê-lo com


todas as honras, se bem que a sua vinda ao nosso
pais se revista de caráter puramente particular,
tendo mesmo, por principal escopo, estudar o nosso
meio e as nossas coisas, como tem feito em outros
países, o que exige uma certa tranquilidade de âni-
mo e, para que não dizer logo, requer, acima de
tudo, uma justificada liberdade de ação.
77
Seria assim insensato que se pretendesse entre nós,
quer pelo mundo oficial, quer pelas outras classes da
nossa sociedade, tomar-lhe o tempo inteiro; de que
dispõe, e que não é muito, com festas sobre festas e
intermináveis homenagens, transformando-o em um
simples prisioneiro de Exagerados carinhos privando-
o de satisfazer a natural curiosidade científica que o
atrai principalmente às nossas plagas.

Não há dúvida que é dever nosso cercá-lo do grande


afeto, de que fez jus por mais de uma ocasião, quer
como simples cidadão, quer como chefe supremo de
seu país, dando-nos constantes e evidentes provas
de alta estima e consideração, e concorrendo com
isso a reafirmar as cordiais e fecundas relações que
sempre ligaram as duas maiores potências da
América, desde que ambas se tornaram indepen-
dentes das respectivas metrópoles. [...]

Tudo isto justifica a satisfação com que o Governo da


República e os brasileiros em geral receberão tão
ilustre e prezado hóspede; estamos certos de que o
acolhimento que terá de todos será tanto mais
sincero e expressivo, quanto não se revestirá de
excessivas exibições, que não estão mais ao nível de
nossa cultura, e que nos reduziriam, diante do seu
olhar perscrutador de sociólogo e cientista, às ridícu-
las proporções de certos povos que, conto mesmo
nos descreve, teve ensejo de visitar em algumas
regiões pouco civilizadas.

Se o Governo brasileiro adotar para a recepção do


grande estadista o protocolo “Yankee” se não
servilmente, ao menos em suas linhas gerais, em se
tratando de um ex-chefe de Estado, o seu desem-
barque se deverá realizar no Arsenal de Marinha,
onde, em sala especial, receberá os cumprimentos
do representante do Presidente da República,
Ministros das diversas pastas, Presidentes do Senado
78
e da Câmara, com as respectivas comissões de
diplomacia; embaixador americano e seus
secretários; diplomatas estrangeiros que o desejem
cumprimentar; altos funcionários da República;
Presidente e demais diretores do Instituto Histórico,
no qual vem especialmente fazer uma conferência e
delegados de outras instituições de ciência, letras e
comércio. [...]

Além da recepção em que, naturalmente, deverá


apresentá-lo à sociedade brasileira o Sr. Edwin
Morgan, e das festas promovidas pela colônia norte-
americana, é possível que o Sr. Ministro das
Relações Exteriores lhe ofereça um “garden-party”
em um dos nossos soberbos parques, e as Comis-
sões de diplomacia do Senado e da Câmara lhe deem
um grande baile.

O ilustre estadista terá assim ensejo de se achar em


contato com a nossa sociedade culta durante alguns
dias; e, depois de fazer a sua Conferência no
Instituto Histórico, é possível que passe a visitar,
além do Instituto Oswaldo Cruz, alguns dos nossos
grandes estabelecimentos fabris, para fazer ideia do
progresso real das nossas indústrias, seguindo a
percorrer um dos Institutos de instrução agrícola,
fundados pelo Ministério da Agricultura, e uma ou
duas das nossas colossais fazendas de café.

A sua demora nesta cidade será agora curta,


partindo depois para S. Paulo, onde passará alguns
dias, e visitando talvez Minas Gerais.

Deixando sua ilustre família em companhia de seu


filho, em S. Paulo, o Sr. Roosevelt irá por terra,
através do Paraná, S. Catarina e Rio Grande do Sul,
até Montevidéu, passando-se daí para Buenos Aires e
seguindo, finalmente, até ao Chile.

79
Daquela República, onde ficará uma semana talvez,
regressará ao Brasil, onde virá encontrar-se com o
Coronel Rondon, com este empreendendo uma longa
excursão pelos nossos Sertões, devendo percorrer
zonas até hoje jamais transitadas por estrangeiros,
sendo possível que com o seu intrépido companheiro
faça a exploração de um Rio que nunca foi estudado.

Essa viagem será para Roosevelt talvez a mais bela


página das suas ousadas aventuras pelas florestas.

Chamado pelo Governo, é provável que chegue hoje


a Manaus o Coronel Rondon dali partindo hoje
mesmo em um dos paquetes do Lloyd, devendo aqui
aportar poucos dias depois daquele ilustre viajante.
[...] Seja bem-vindo o grande amigo do Brasil. (O
PAIZ, n° 10.602)

O Paiz, n° 10.604 ‒ Rio de Janeiro, RJ


Domingo, 19.10.1913

Roosevelt
A Sua Visita ao Brasil

O programa da recepção nesta capital ainda não está


definitivamente assentado ‒ Telegrama do Sr.
Ministro do Exterior para a Bahia ‒ Em vez de três
dias, espera-se que Roosevelt demore-se uma
semana no Rio de Janeiro ‒ Excursão com Senadores
e Deputados à Tijuca e à Gávea ‒ Chegada do
eminente estadista à Bahia ‒ O povo o recebe com
entusiasmo ‒ Discursos de Roosevelt ‒
Últimas notas.

80
Imagem 14 – Roosevelt e Edwin Morgan no Rio de Janeiro

[...] Constando que era, intenção do ilustre estadista


“Yankee” demorar-se apenas três dias entre nós,
seguindo logo depois para S. Paulo, somos informa-
dos de que o Sr. Ministro das Relações Exteriores
telegrafou para a Bahia, perguntando-lhe se não
seria possível dilatar esse prazo, aqui ficando uma
semana. Se a resposta do ilustre viajante for favo-
rável, é possível que tenha ensejo de poder apreciar
com mais segurança os nossos progressos materiais
e econômicos e o grau de elevação da nossa cultura
intelectual no convívio dos nossos homens mais no-
táveis nas ciências, nas letras e na política.

É assim provável que, no mesmo dia em que o Sr.


Lauro Müller oferecer ao Sr. Roosevelt, em nome do
Governo, uma “Garden Party” no Jardim Botânico,
faça S. Ex., em companhia de diversos Senadores e
Deputados, uma pitoresca excursão pela Tijuca e
pela Gávea. [...]

81
Os excursionistas almoçarão no Alto da Tijuca e
depois de passearem os pontos mais dignos de
admiração dessa deliciosa serra, descerão pela
estrada da Gávea até ao Jardim Botânico, onde
encontrarão já reunida toda a alta sociedade carioca.
[...]

Como se verá do telegrama que abaixo publicamos,


o Sr. Roosevelt foi condignamente recebido na Bahia,
associando-se todas as classes sociais às demons-
trações de apreço promovidas pelos poderes públicos
do Estado. [...]

S. SALVADOR, 18.12.1913

Chegou hoje, a bordo do paquete “Van Dyck”, que


amanheceu no porto desta cidade, o Coronel
Theodore Roosevelt, Ex-presidente dos Estados
Unidos da América do Norte, acompanhado de sua
comitiva.

Às 07h00, a bordo do iate “Dois de Julho”, dirigiram-


se a bordo daquele paquete o Dr. J. J. Seabra,
Governador do Estado; representantes do mundo
oficial e o cônsul americano nesta cidade, apresen-
tando as boas-vindas ao ilustre viajante e sua comi-
tiva. Após os primeiros cumprimentos, os ilustres
excursionistas transportaram-se para bordo do iate
“Dois de Julho”, tomando este a direção do Arsenal
de Marinha, onde se efetuou o desembarque. Todos
os navios surtos (39) neste porto embandeiraram em
arco (40). Apesar da hora, o Arsenal de Marinha e
suas circunvizinhanças achavam-se repletos de povo,
desembarcando o Sr. Roosevelt e sua comitiva, às
08h00.

39 Surtos: atracados.
40 As bandeiras são içadas pelos cabos quase até ao topo dos mastros,
indo um dos seus extremos para a proa e outro para a popa.

82
Por essa ocasião prestou continências ao eminente
estadista o 3° Corpo de Polícia, tendo o povo pror-
rompido (41) em aplausos e aclamações ao Sr.
Roosevelt. Foi, então, organizado um imponente
cortejo de 40 automóveis, que tomaram direção do
Palácio do Governo. O Sr. Roosevelt seguiu em
“landau” (42), do Estado, em companhia do Dr. J. J.
Seabra, Governador do Estado; Dr. Júlio Brandão,
Intendente e do representante do General João José
da Luz, Inspetor da 7° Região Militar, com sede
nesta capital, sendo o “landau” escoltado por um Es-
quadrão de Cavalaria. Durante o trajeto, o Sr.
Roosevelt foi constantemente aclamado. Em, frente
ao Palácio do Governo prestou continências ao ilustre
Ex-chefe de Estado o 1° Corpo de Polícia. Após um
pequeno descanso, foram servidos doces e chocolate
aos ilustres hóspedes, organizando-se, em seguida,
um cortejo, que percorreu as obras da Avenida 7 de
Setembro, indo até o arrabalde da Graça, voltando
depois à cidade, visitando o Sr. Roosevelt e sua co-
mitiva a igreja de S. Francisco e a Faculdade de Me-
dicina. Este último estabelecimento, cujas dependên-
cias foram detalhadamente percorridas pelo Sr.
Roosevelt, recebeu de S. Exª calorosas referências,
dizendo S. Exª ser, no gênero, um dos melhores do
mundo.

Sempre acompanhado do Dr. J. J. Seabra, do Dr.


Júlio Brandão e de outra autoridades estaduais e
municipais, dirigiu-se o Sr. Roosevelt ao edifício do
Conselho Municipal, onde assistiu à sessão solene,
realizada em sua honra. Nesse estabelecimento
achavam-se representantes de todas as classes
sociais, da imprensa e diversas famílias da elite
baiana, sendo o Sr. Roosevelt muito aclamado à sua
41 Prorrompido: manifestou-se.
42 “Landau” (“landô”): carruagem de quatro rodas cuja dupla capota ser
removida, se for o caso.

83
chegada. [...] Agradecendo, disse o Sr. Roosevelt
lamentar não conhecer a língua portuguesa, a fim de
dirigir palavras ao povo baiano manifestando a sua
gratidão pelo feliz acolhimento que aqui teve, e
também por parte do Governo do Estado, sentindo-
se ainda penhorado pela saudação que lhe dirigiu o
Dr. Francisco de Castro Rebello, devendo confessar
que em toda a sua vida político social tem encontra-
do todo o auxílio por parte da classe médica. Em se-
guida, S. Exª fez referências à Bahia, salientando a
sua remodelação, dizendo que este Estado, que co-
nhece agora, pessoalmente, já o conhecia de nome,
pelas suas riquezas, fazendo, referências, também
ao seu Governo e terminando em dirigir uma sauda-
ção ao Estado da Bahia, nas pessoas do Dr. Seabra,
seu Governador, e do Dr. Júlio Brandão, Intendente
de S. Salvador. Ao terminar o seu brilhante discurso,
o ilustre excursionista foi delirantemente aclamado
pela numerosa e seleta assistência.

Após a sessão solene do Conselho Municipal, em


bonde especial, acompanhado de mais seis bondes
repletos de povo, dirigiu-se o eminente estadista, em
companhia de todas as autoridades estaduais e
municipais, ao edifício do Instituto Normal, onde
tomou parte no banquete de 200 talheres, oferecido
em sua honra. [...] (O PAIZ, n° 10.604)

O Paiz, n° 10.605 ‒ Rio de Janeiro, RJ


Segunda-feira, 20.10.1913

A Sua Chegada Hoje ao Rio de Janeiro


Welcome Sir Theodore Roosevelt

84
Imagem 15 – O Paiz, n° 10.605 ‒ Roosevelt

O Rio de Janeiro vai ter hoje a honra de hospedar o


Sr. Theodore Roosevelt. Raros homens de Estado
têm sido mais discutidos e atacados do que o Ex-
presidente dos Estados Unidos.

A sua nomeada, hoje mundial, é em boa parte


devida ao grande ruído que muitas vezes se há feito
em torno de sua personalidade, quer como político
eminentemente ousado e franco em suas ações e
modos de pensar e sentir quer como sociólogo e
cientista, um tanto original nos seus conceitos e nos
seus escritos, quer pessoalmente, como simples
cavalheiro, dotado de qualidades muito distintas e
recomendáveis de coração e de caráter.

O Brasil político e o Brasil intelectual vão agora


apreciá-lo de perto; e, estamos certos, a impressão
que há de deixar entre nós, bom amigo que se tem
mostrado sempre do nosso País, há de ser a mais
agradável e auspiciosa, consolidando ainda mais a
velha simpatia que nos liga à sua gloriosa Pátria.
85
Como uma amostra do grande valor moral e
intelectual do ilustre estadista que nos vai honrar
com a sua visita, publicamos hoje o mais famoso de
seus discursos. Essa notável peça oratória, seguida,
meses depois das memoráveis mensagens que diri-
giu ao Congresso Norte-Americano, em 04.01.1904 e
06.12.1904, provocou os mais calorosos e varie-
gados (43) comentários por parte dos grandes órgãos
da imprensa europeia e alguns da sul-americana,
tendo também levantado acesas polêmicas no
próprio jornalismo “Yankee”. À 30.04.1903, escreve
um dos seus mais impenitentes adversários, ao se
inaugurar a Exposição S. Luiz, o Sr. Roosevelt pro-
nunciou um discurso, que não pôde passar sem os
mais severos e meditados comentários.

Nenhuma das suas numerosas orações, como Presi-


dente dos Estados Unidos, indica com mais proprie-
dade o estado de espírito atual do povo americano.
Nenhuma sintetiza mais completamente o seu orgu-
lho do passado e a sua confiança no futuro. Nenhu-
ma poderia mais fielmente fazer compreender as
tendências do Presidente e as da grande Nação, de
que era, ao mesmo tempo, o eleito, o representante
mais autorizado, a personificação mais absoluta! Na
verdade, o que querem demais a mais os Estados
Unidos é se tornarem uma das maiores potências e,
talvez mesmo, a maior potência do Universo. E para
alcançar esse fim, estão prontos a tudo arriscar; e,
contra aqueles que se insurgem contra os seus
planos, o Sr. Roosevelt está sempre disposto a
responder que a expansão continua é uma lei natural
de todo o organismo vivo, e que, seguir essa lei, é
dar prova de uma sabedoria maior que a maior
sabedoria daqueles que julgam ser mais sábios,
mostrando-se menos ousados.

43
Variegados: diversos.
86
É ele ainda quem nos afirma que não é só a audácia
que o povo americano deve os seus sucessos passa-
dos, e deverá, sem dúvida, os futuros no seu inces-
sante trabalho de expansão territorial; mas, à exce-
lência das suas instituições, que são aos olhos dos
americanos, como afirma Hanser, as melhores que
se possam sonhar, instituições que seria até legítimo
e caridoso impor ao mundo inteiro, impondo-lhe com
o mesmo golpe, como meio de alcançar a felicidade
completa, “a dominação americana!” Eis a famosa
peça oratória do Ex-presidente, ao abrir a exposição
de S. Luiz, peça em que, desde as primeiras pala-
vras, se sente o vibrar incessante do mais intenso
amor à sua grande e gloriosa Pátria:
Nós estamos reunidos aqui para celebrar o centési-
mo aniversário do acontecimento capital, que, mais
do que nenhum outro, desde a fundação deste Go-
verno [abstração feita, bem entendido, das lutas
pela sua conservação], determinou o caráter da nos-
sa vida nacional, determinou que seríamos uma
grande potência sempre em expansão, em lugar de
um País relativamente pequeno e estacionado. Não
foi, na verdade, com a aquisição da Luisiana, que
começou a nossa carreira de expansão. Em meio da
guerra, da Revolução, a região de Illinois, que com-
preende os Estados atuais de Illinois e de Indiana,
foi acrescentada ao nosso domínio pela força das
armas e consequência da expansão aventurosa de
George Rogers Clark e de seus mosqueteiros da
fronteira. Os Tratados de Jay e de Pinckney, mais
tarde, estenderam de uma maneira importante os
novos domínios para o Oeste. Mas, nenhum destes
acontecimentos teve um caráter muito notável para
ferir a imaginação popular.
As antigas Treze Colônias tinham sempre reclamado
o direito de se estender para lado de Oeste, em
direção ao Mississipi, e por mais vagas que fossem
essas pretensões, até que a conquista a ocupação e
a diplomacia as tivessem feito boas, não contri-
buíram menos para dar impressão de que os
87
movimentos do nosso povo para o Oeste não eram
mais do que uma maneira muito natural de
preencher um domínio nacional já existente. Mas,
não podia haver nenhuma ilusão relativamente a
aquisição do vasto território, que, além do Mississipi,
se estendia naquele rumo, e que era já então
conhecido pelo nome de Luisiana. Nenhum de nós
tinha em tempo algum reivindicado dele um só
polegar. A sua aquisição não podia, de modo algum,
ser considerada como cumprimento de reivindica-
ções já existentes.

Quando fizemos demonstrar, da maneira a mais


evidente, que, uma vez por todas e de propósito
deliberado, teríamos de embarcar em uma carreira
de expansão, e que tínhamos tomado de todo um
lugar entre essas nações empreendedoras e ousadas
que sabem arriscar muito com a esperança e o
desejo de ocupar um posto importante entre as
grandes potências do Universo. E, como acontece
muitas vezes, na natureza, a lei desenvolvimento
natural de todo o organismo vivo se afirmou por seu
turno na própria obra, provando que ela era mais
sábia que a sabedoria dos mais sábios... Nunca,
antes disso, o mundo tinha visto uma expansão do
gênero da que se deu à nossa nação toda esta parte
do continente americano, que se acha a Oeste dos
nossos treze Estados primitivos. Nosso triunfo na
marcha da nova expansão ficou indissoluvelmente
ligado ao sucesso de nosso sistema particular de
Governo Federal.

Quando os nossos antepassados se reuniram para


chamar à existência esta nação, empreenderam uma
tarefa que não tinha um precedente sequer para
encorajar. O desenvolvimento da civilização desde os
períodos mais remotos parecia estabelecer a verdade
destas duas proposições: primeiro, que tinha sido
sempre muito difícil assegurar ao mesmo tempo em
um Governo a liberdade e a força; segundo, que
tinha sido demonstrado, como quase impossível para
uma nação, engrandecer sem se desmembrar, ou
sem se tornar uma tirania centralizada.
88
Do sucesso de novos esforços para combinar uma
união nacional, forte, real e capaz de reprimir toda a
desordem no interior, de salvaguardar fora do País a
nossa honra e os nossos interesses, não preciso
falar-vos. Esse sucesso foi assinalado e particular
importante; mas não se pode negar que foi sem
precedente, atendendo-se a que o nosso modo de
expansão não teve também precedentes.

A história de Roma e da Grécia sintetiza admiravel-


mente os dois modos de expansão que foram em-
pregados nos tempos antigos e que tinham sido
universalmente admitidos como sendo os dois únicos
possíveis até o dia em que começamos nós mesmos
a tomar posse, como nação, deste continente. Os
Estados gregos realizaram notáveis feitos de coloni-
zação; mas, apenas criada, cada colônia tornava-se
independente da metrópole e era, anos depois, tão
susceptível de se tornar sua inimiga como de ficar
sua aliada. O “self-government” local, a independên-
cia local, eram assegurados, mas unicamente pelo
sacrifício de tudo que podia assemelhar-se a uma
unidade nacional. O poder e a grandeza nacionais
eram sacrificados à liberdade local.

Com Roma, foi exatamente o contrário, o que


aconteceu. A Cidade imperial elevou-se à dominação
absoluta a princípio de todos os povos da Itália,
depois estendeu a sua lei sobre todo o mundo
civilizado, por um processo que manteve a nação
forte e unida; mas fez isto sem deixar lugar algum
para as liberdades locais e para as administrações
autônomas. Todas as outras cidades e todas as
outras nações tornaram-se súditas de Roma. Em
consequência disso, esta grande e magistral raça de
guerreiros, governantes, construtores de estradas e
administradores imprimiu o seu cunho indelével em
toda a vida posterior da nossa raça. Ela deixou, por-
tanto, que uma supercentralização desunisse os ele-
mentos vitais do seu Império até que se tornou uma
casca vazia de modo que, quando vieram os bárba-
ros, estes não desuniram senão o que já era sem
valor para o Mundo.
89
O vício inerente a cada um destes sistemas era as-
saz evidente, e o remédio hoje parece muito sim-
ples: mas, quando os próceres da nossa República
formularam a princípio a Constituição, sob a qual
vivemos, ninguém podia predizer como funcionaria.
Eles mesmos começaram quase imediatamente a
experiência, acrescentando novos Estados aos treze
primitivos. Excelentes espíritos na parte Este de
nossa Nação viam com grandes sustos esta expan-
são inicial do País. Do mesmo modo que durante o
período colonial, muitos bravos cidadãos da mãe
Pátria consideravam como coisa importante que os
peões fossem excluídos do Vale do Ohio no interesse
das companhias, também muita gente boa da costa
do Atlântico, quando nos tornamos uma nação,
sentia graves apreensões e receava ser levada pela
extensão do País para as bandas de Oeste.
Não faltou quem sacudisse a cabeça a propósito da
formação de novos Estados no fértil Vale do Ohio,
que é hoje uma parte do próprio coração do País, e
declarasse que iríamos até a destruição da República
quando, pela aquisição da Luisiana, acrescentamos à
nossa Pátria o que é hoje a metade do seu território.
E nesse sentimento nada havia que não fosse
natural. Só se pôde pedir aos que são ousados, aos
que veem longe, experimentar o sistema de expan-
são, porque o País que engrandece é um País que
entra em uma grande carreira, e, com a sua
grandeza veem necessariamente perigos que ater-
rorizam a todo mundo, salvo os homens de grande
coragem.
Nós nos temos engrandecido retalhando a selvageria
em territórios e fabricado com esses territórios
novos Estados quando receberam, na qualidade de
residentes permanentes um número bastante de
indivíduos de nossa própria raça. Sendo uma nação
prática, nunca experimentamos impor a seção algu-
ma de no nosso território uma forma não apropriada
de Governo, unicamente porque essa forma
convinha a outras regiões, que se achavam em
condições diferentes.
90
Do território coberto pela antiga Luisiana, por
exemplo, uma só porção recebeu, no fim de alguns
anos, o privilégio de se constituir em Estados; en-
quanto uma outra parte não tem ainda obtido este
favor, bem que um século se haja escoado desde a
sua aquisição, bem que sem dúvida seja em breve
chamada a obtê-lo. Em cada um desses dois casos,
temos mostrado o gênio prático da nossa Nação
dividindo os métodos segundo as necessidades, não
insistindo pela aplicação igual de algum plano
abstrato a todas as nossas novas concessões, por
mais incongruente que pudesse parecer em certos
casos uma tal aplicação.
Nossa população se espalhou, todavia, sobre a maior
parte dos territórios, em uma proporção tão
considerável, que pudemos, no correr do século XIX,
formar Estados sobre Estados, provido cada um de
uma completa independência local relativa ao que
diz respeito unicamente aos seus próprios interesses
domésticos. Essa independência é idêntica à dos
treze Estados de origem, ligado todavia cada Estado
novo pela mesma fidelidade à União.
Essa maneira de proceder é essencialmente moderna
e de origem puramente americana, enquanto que
Washington via, durante a sua presidência, novos
estados entrarem na União, em pé de completa
igualdade com os antigos, cada nação europeia, que
possuía colônias, continuava a administrá-las como
dependências, e cada mãe Pátria tratava o colono
não como um igual governando-se por si mesmo,
mas como um súdito.
O sistema de que tivemos a iniciativa foi seguido de-
pois por todas as grandes nações, capazes ao mes-
mo tempo, de expansão e de autonomia, e agora o
mundo inteiro o aceita como processo natural, como
a regra. Há cerca de 120 anos esse processo era,
não só excepcional, mas, mesmo desconhecido. Tal
é, pois, a grande significação histórica do movimento
de contínua expansão, de que a aquisição da
Luisiana foi a prova mais edificante.

91
Ficará mesmo assinalada em alto relevo, nos fastos
de uma nação, cujos membros foram tomados por
um processo de seleção natural entre os indivíduos
mais empreendedores das diversas nações da
Europa Ocidental, a aquisição do nosso vasto terri-
tório. Foi, com efeito, não somente a obra dos
grandes homens de Estado, aos quais imediata-
mente a devemos, mas, também, o resultado do
caráter agressivo e dominador do nosso povo ousa-
do, a cuja inquieta energia deram esses estadistas
uma direção e um fim. E a verdade é que ele tem
sempre ido mais longe do que o conduzem...

Temos o direito, o mais legítimo, de nos orgulhar


dos altos feitos dos nossos antepassados; mas, seria
mostrarmo-nos indignos de ser seus descendentes,
se tomássemos o que eles fizeram por desculpa,
para ficar deitados e inativos, em lugar de ver nisso
o encorajamento para nos elevarmos à altura deles,
pelos nossos atos.

Os dias passados foram grandes, porque os homens


que viviam, então, tiveram poderosas qualidades; a
nós outros, mostrando as mesmas, compete tornar
também grandes os novos dias. Devemos ter
coragem, resolução, tenacidade, ousadia e fertili-
dade de recursos. Armemo-nos de virtudes fortes e
viris. Saibamos provar que, além de termos a
consciência do que somos e do que valemos,
respeitamos o direito dos outros.

Em suma, demonstraremos sempre o nosso horror


pela crueza, pela brutalidade, pela corrupção, tanto
na vida pública como na vida privada. Se nos
faltarem algumas dessas qualidades, cairemos
miseravelmente; mas, se como eu creio, de
nenhuma delas, estamos privados, procuremos
levantar no futuro essas qualidades do passado a um
nível ainda mais alto, e então no século que se
inicia, faremos desta República a Nação mais livre,
mais bem constituída, mais justa e mais poderosa de
todas que tem surgido até hoje da noite dos tempos.

92
Notas Biográficas

Theodore Roosevelt, o 26° Presidente dos Estados


Unidos, nasceu em Nova York, em 1858, graduou-se,
em 1880, na Universidade de Harvard. Em 1882, foi
eleito membro da Legislatura do Estado de Nova
York, exercendo estas funções até 1884. Em 1889 o
Presidente Benjamin Harrison o nomeou membro da
Comissão de Serviços Civis dos Estados Unidos.

Em 1895 foi colocado à frente do Comitê de Polícia


da Cidade de Nova York. As suas excepcionais
qualidades de precisão e de energia, a sua
extraordinária capacidade de trabalho lhe valeram o
Subsecretariado do Ministério da Marinha do Governo
do Presidente William McKinley, nas vésperas da
guerra Hispano-americana.

Ao romperem hostilidades Espanha e América do


Norte, Roosevelt organizou e dirigiu o 1° Regimento
de Cavalaria Voluntária dos Estados Unidos, os
“Rough Riders”, cuja conduta na guerra, que se
originou da explosão do Maine, lhe valeu uma
extraordinária nomeada em todo o seu País. Depois
da campanha de Cuba tornou-se Roosevelt de uma
intensa e extensa popularidade nos Estados Unidos,
O seu nome circulava, com tanto ou maior sucesso,
como os de Dewey (44), Hobson (45) e outros perso-
nagens eminentes, que se evidenciaram no sangren-
to conflito bélico entre a velha Espanha e a jovem
América. E dentro em breve era Roosevelt feito
Governador do Estado de Nova York.

44 Dewey (George Dewey): almirante americano conhecido por sua vitória


na Batalha de Cavite durante a Guerra Hispano-Americana.
45 Hobson: durante a Guerra Hispano-Americana era Assistente da
Marinha dos Estados Unidos e foi encarregado de afundar o USS
Merrimac no porto para bloquear a frota espanhola. A missão
fracassou, e Hobson e sua equipe foi capturada. Foi consagrado herói
nacional ao receber, em 1933, a Medalha de Honra.
93
Em 1900, juntamente com McKinley, eleito Presiden-
te, o Partido Republicano sufragou o nome de Roose-
velt para Vice-presidente da República Americana,
elegendo-o por notável maioria sobre os candidatos
democratas. No ano seguinte, em 1901, McKinley
sucumbia ao atentado de Czolgoss (46), assassinado
ao inaugurar um “certâmen” internacional em
Buffalo, assumindo Roosevelt as rédeas do Governo
de sua Pátria.

Foi como chefe de Estado que mais se acentuou a


poderosa individualidade do grande norte americano,
imprimindo um cunho pessoal à sua ação admi-
nistrativa, tomando iniciativas grandiosas e sobre-
modo atrevidas e ousadas, advogando um imperia-
lismo de acordo com as bases do Partido Republi-
cano, dando combate enérgico aos “trusts”, propu-
gnando pela eficiência militar da nação. Manifestando
um assinalado amor pela democracia, intervindo nas
questões entre operários e patrões para resolvê-las
equitativamente e de acordo com as conquistas libe-
rais da época, procurando extinguir o secular conflito
de raças dos Estados Unidos, entre brancos e negros,
por tudo isso, muitas vezes afrontando possíveis
impopularidades, Roosevelt firmou um conceito de
homem de ação e de energia que lhe deram a
admiração que lhe consagra hoje o mundo inteiro.

Para dissipar as constantes explosões de odiosidade


dos brancos pelos negros, rompendo com invete-
radas praxes e consagrados usos, Roosevelt assen-
tou à sua mesa os homens de cor notáveis, o que
causou, ao começo, uma grande sensação e talvez
um início de reprovação da gente “yankee”. Um dos
mais belos gestos do grande estadista que hoje
aporta à capital do Brasil, e que o há de consagrar
como benemérito da humanidade, foi o da

46 Leon Frank Czolgosz: anarquista estadunidense de origem polonesa.


94
Imagem 16 – Roosevelt à Bordo do Van Dyck

Conferência de Portsmouth, por ele promovida, para


pôr fim ao colossal duelo de morte em que se
empenhavam a Rússia e o Japão.

Deve-se, de fato, a este homem das mais audazes


iniciativas, o Tratado de Paz que se seguiu às
formidáveis batalhas de Mukden e de Kharbine.

Deixando o Governo da União Americana, ao findar o


seu período governamental, passou-o Roosevelt ao
seu sucessor, William Howard Taft, que fora seu
Secretário da Guerra. Empreendeu, então, o Ex-
presidente uma aventurosa viagem pelo continente
negro, às mais inóspitas e escaldantes regiões
africanas, onde quis se comprazer na arriscada
empresa de caça de animais ferozes, que vivem
naquela terra ainda não sujeita aos influxos da
civilização da nossa raça.
95
Foi às vésperas da sucessão de Taft que Roosevelt se
apresentou novamente ao cenário político norte
americano. Despendendo as suas extraordinárias
energias em todos os colégios eleitorais, o paladino
esforçado da grandeza dos Estados Unidos se
multiplicou e se dividiu na propaganda da sua
candidatura de combate à do Sr. Taft.

Foi em um desses comícios, em que a sua eloquên-


cia, então demolidora, analisava com expressões
veementes a obra de seu concorrente, que Roosevelt
foi ferido, não se sabe se por um adversário, mas,
sem dúvida, por um louco. Não esmoreceu, com este
contratempo, a combatividade incansável do ardoro-
so democrata. E, assim lhe permitiu o seu restabele-
cimento, estava ele novamente à frente da campa-
nha presidencial, em que a sua dissidência apro-
veitou aos democratas, com a eleição de Woodrow
Wilson para a presidência da República, conseguindo,
porém, Roosevelt uma imensa e significativa maioria
de votos sobre o candidato que tão tenazmente hos-
tilizara.

Não é só orador vibrante e convincente, abundante e


preciso, o Ex-presidente Roosevelt; é ainda um
escritor forte, sadio, de uma eloquência sóbria e de
conceitos profundos, merecendo sempre as suas
produções o exame e a ponderação que suscitam as
obras de valor intrínseco e de profícuas revelações
originais sobre problemas de interesse geral. Entre
os livros com que Theodore Roosevelt há enriquecido
as letras pátrias e universais, pois acham-se
propagadas as tuas ideias pelo mundo inteiro, estão
“The Naval War of 1812”, “Hunting Trips of a
Ranchman”, “Life of Thomas H. Benton”, “Life of
Gouverneur Morris”, e, além de outros, as suas
últimas publicações, de tão justa notoriedade
universal, entre as quais “A Vida Intensa” proemina
magnificamente. [...]
96
Imagem 17 – Roosevelt no Instituto Butantan, SP

Um Radiograma de Roosevelt

O Sr. Lauro Müller, Ministro das Relações Exteriores,


recebeu o seguinte radiograma do Coronel Theodore
Roosevelt:

Muito apreciei seu telegrama, que agradeço, Sinto-


me deveras satisfeito, por já me achar no Brasil, e
espero ansiosamente o momento de nosso encontro
– Theodore Roosevelt.
As Festas na Bahia

O Dr. Lauro Müller, Ministro das Relações Exteriores,


recebeu ontem o seguinte telegrama do Dr. J. J.
Seabra, Governador do Estado da Bahia:

Tenho a honra de comunicar a V. Exª que o Sr.


Roosevelt foi recebido pelo Governo do Estado com
todo carinho e as maiores distinções, rendendo-se-
lhe todas as homenagens. Sua família, recebida por
um grande número de senhoras, sentiu-se desvane-
cida com a gentileza do afetuoso acolhimento.
97
O eminente estadista americano foi saudado na
Câmara Municipal, em sessão soleníssima, pelo Dr.
Intendente, e em nome do povo, pelo professor Dr.
Frederico de Castro Rebello. Saudei-o em nome do
Estado, no banquete do Instituto. Povo por toda a
parte aclamou o Sr. Roosevelt, que chegou às
05h00, desembarcando às 08h30. Partiu agora,
14h00, sendo acompanhado até a bordo do “Van
Dyck” por todo inundo oficial, pessoas do povo e
grande número de senhoras. O Sr. Roosevelt
significou o seu contentamento e gratidão em
elevadas palavras ao meu Governo, à Bahia e ao
povo. Aceite V. Exª minhas afetuosas saudações.

A Mocidade

Desejando a Associação Brasileira de Estudantes


tomar parte nas manifestações projetadas ao Sr.
Roosevelt, em cuja homenagem pretende realizar
uma sessão solene, os Srs. Bruno Lima e Renato
Almeida têm se entendido com o Itamarati e a
Embaixada Americana, no sentido de obterem o
apoio necessário para o êxito da ideia. O Sr. Edwin
Morgan prometeu ao Secretário Geral envidar
esforços para a realização do desejo da Associação,
pondo em contato com a mocidade estudiosa o
grande estadista que, em breve, hospedaremos. A
Associação conferiu ao Sr. Roosevelt o diploma de
Associado Honorário, diploma que pretende entregar
com solenidade, na presença dos Acadêmicos desta
capital. [...]

Uma Opinião do “Times”

O correspondente do Times, em Washington, escre-


veu ao seu jornal, não há muito tempo, isto é, depois
que o Sr. Theodore Roosevelt regressou da sua
excursão à África, e preparava-se para pleitear a sua
reeleição, uma interessante crônica a respeito da
influência que o eminente estadista exercia sobre os
seus concidadãos.
98
Disse esse correspondente:

Sr. Roosevelt representa tudo o que há de vital, tudo


o que há de mais desejável, pela maioria do povo
para a vida americana.
A sua personalidade servia de apoio à sua política,
dando-lhe popularidade; essa política, o tempo e o
método de enumerá-la puseram em relevo uma
personalidade sempre enfática, como os que atraem
as imaginações populares.
A popularidade de Sr. Roosevelt é, na verdade, a
melhor justificativa da sua presidência. Significa que
os ideais por que combateu são os ideais do País
inteiro. Mas, o êxito da sua propaganda não explica
inteiramente a sua popularidade.
A influência do político não teria sido robustecida
pela influência dessa personalidade de primeira
grandeza. Os seus esforços teriam sido qualificados
de grotescos, e é muito possível que o tivessem
vaiado, se o caráter não tivesse inspirado respeito e
carinho.
O Sr. Roosevelt é um homem. Os seus próprios
inimigos o reconhecem. Os seus admiradores – e são
muitos – vão mais longe. Julgam-no um conjunto de
tudo o que de bom tem a Nação Americana.
A sua facilidade de adaptação, a honorabilidade, a
limpidez absoluta da sua vida, as rápidas etapas na
sua carreira política, cada qual mais feliz do que a
anterior, granjearam a estima dos seus concidadãos.
Sorriam, ao verem os seus grandes gestos, mas não
supunham que fossem desagradáveis. Ao contrário,
não havia quem não encontrasse em Mr. Roosevelt
qualquer coisa de atraente.
Para os habitantes do Leste americano, era um
“Harvard man” [antigo aluno da Universidade de
Harvard], e para os alunos de Harvard, o reformador
de Nova York. Para os habitantes do Oeste, era um
“rancher” feliz, um ousado caçador.

99
Os soldados do Oriente e do Ocidente americanos
recordam os seus “rough-riders”. Os marinheiros não
esqueceram que foi ele quem preparou a frota para
a vitória de Manilha.
Os literatos e os naturalistas conhecem seus livros
sobre história e sobre os “sports”. Os políticos, que é
um homem de grande inteligência; os diplomatas,
que soube guiar, com mão firme, os Estados Unidos
durante o período da perigosa transição, que se
seguiu à guerra com a Espanha; os jornalistas
inclinam-se ante a habilidade técnica com que redige
as suas mensagens e os seus discursos, com as suas
frases lapidárias e a sua força compulsiva.
Se há, por acaso, alguma coisa de superficial nas
qualidades de Mr. Roosevelt, nem por isso perdem
de valor. Talvez não seja em gênio, se se excetua a
sua infinita capacidade de trabalho e de
concentração. A sua energia é tão notável, quanto o
é a sua facilidade de assimilação.
Na sua presidência desempenhou o seu papel com o
entusiasmo de um moço, o senso prático de um
estudante e o otimismo de um idealista. E por toda a
sua vida corre um sopro de invencível perseverança,
de persistência ‒ persistência na sua fé no povo e na
sua intenção de ajudá-lo a elevar-se por si mesmo.
(O PAIZ, n° 10.605)

O Paiz, n° 10.613 ‒ Rio de Janeiro, RJ


Terça-feira, 28.10.1913

Roosevelt – Sua Chegada à S. Paulo

Manifestações Oficiais e da Sociedade Paulista


 Passeios e Visitas 
A Conferência na Escola Normal

100
S. PAULO, 27.10.1913

O trem especial em que se transportou a esta capital


o Sr. Theodore Roosevelt chegou à Estação da Luz
pela manhã, às 07h30. Ali foi S. Ex. recebido pelo
Capitão Lejene, representando o Presidente do
Estado, em exercício, Dr. Carlos Guimarães; Dr.
Altino Arantes, Ministro do Interior; Sampaio Vidal,
Ministro da Justiça e Segurança Públicas; Dr. Paulo
Moraes Barros, Ministro da Agricultura; Eloy Chaves,
Ministro da Fazenda; Meirelles Reis Filho, Secretário
do Presidente; [...]

Em frente à Estação da Luz, formava a 4ª Compa-


nhia do Batalhão da Força Policial, que prestou conti-
nências ao grande estadista. Após os cumprimentos
e apresentações, o Sr. Theodore Roosevelt tomou o
automóvel do Estado, seguindo acompanhado por
sua comitiva e pelas autoridades que assistiram ao
desembarque, para o Palacete do Conde de Prates,
situado à Avenida Rio Branco, onde se hospedou. Aí,
foi S. Ex. recebido por um crescido número de outras
pessoas gradas, contando-se algumas das principais
famílias paulistas.

Após ligeiro descanso, realizou o ilustre viajante


alguns passeios pela cidade, excursionando pelos
principais pontos.

De regresso, e já ao meio dia, S. Ex. almoçou


juntamente com a sua comitiva e outras pessoas da
nossa melhor sociedade; mostrando-se todos solíci-
tos em patentear ao distinto hóspede a grande
satisfação que experimentavam com a sua visita a
São Paulo.

Às 13h30, o Ex-presidente dos Estados Unidos se di-


rigiu ao Palácio do Governo, acompanhado do Coro-
nel Achilles Pederneiras e do Capitão-tenente Nóbre-
101
ga Moreira, e do Padre Zahm, afim de ali visitar o Dr.
Carlos Guimarães, Presidente do Estado. [...]

Depois de curta palestra, foi o Sr. Roosevelt até ao


Museu do Ipiranga, sendo aí recebido pelo Diretor do
estabelecimento. [...]

O Dr. Rodolpho, Diretor do estabelecimento, recebeu


o grande estadista acompanhado do pessoal daquela
repartição, prestando-lhe todos os esclarecimentos
necessários. Em sua companhia, o Sr. Roosevelt e
sua comitiva visitaram todas as dependências do
edifício.

Às 16h00, realizou-se, na residência do Sr. Martho


Mackenzie, onde S. Ex. deu uma recepção à colônia
americana, a que o ilustre ex-chefe de Estado com-
pareceu.

Às 20h30, o Sr. Theodore Roosevelt pronunciava a


sua Conferência no edifício da Escola Normal; com
uma seleta concorrência. Foi esta a Conferência que,
sobre o “Caráter e a Civilização”, produziu o Sr.
Theodore Roosevelt:

Nós, cidadãos dos diversos governos do Novo


Mundo, estamos empenhados em uma dupla tarefa.
Fazemos o possível para reter, sem perdas, a civili-
zação de cultura que herdamos dos nossos antepas-
sados, que para aqui vieram do Velho Mundo.
Estamos também empenhados em desenvolver e
adaptar essa civilização do Velho Mundo, de modo a
expurgá-la de todo o mal que possa estar misturado
ao bem que ela contém, a tirar dela novo bem e a
ajustá-la às necessidades e oportunidades que possa
ter o Hemisfério Ocidental. Ambos os lados desta
tarefa apresentam graves dificuldades. O trabalho de
conquistar o Novo Continente é incrivelmente árduo.
Os homens de civilização superior são dificilmente
apropriados para esse fim.
102
Imagem 18 – O Paiz, n° 10.606 – Salve T. Roosevelt
103
Imagem 19 – O Paiz, n° 10.607 – Brilhante Recepção

104
Só homens de tenaz vontade e caráter corajoso e
aventureiro podem consegui-lo. O esforço que em-
pregam os pioneiros empenhados nesta ação é tal,
que eles tendem a perder alguma coisa da cultura
que os seus antepassados do outro lado dos mares
adquiriram vagarosamente, através de longos sécu-
los.
É, portanto, do nosso dever, exercer uma guarda
constante, para que não percamos uma parte que
seja da nossa herança da civilização mundial; e se
nos arriscarmos a perder alguma, reavê-la pronta-
mente. Ainda mais; não é pouco o mal que nos
legaram nossos antepassados do Velho Mundo; é,
para nós, uma obrigação procurarmos remediá-lo.
Demais, as circunstanciais da nossa existência sob
as novas condições resultantes da vida em novos
continentes, não só nos oferecem maiores oportu-
nidades que aos nossos parentes do Velho Mundo,
como também nos expõem a tentações a que, só em
menor grau, estão sujeitos os habitantes do Velho
Mundo.
Finalmente, temos necessidades a nós peculiares,
que devemos tratar de novo modo. Estas necessi-
dades podem, muitas vezes, ser de caráter diame-
tralmente oposto. As necessidades de uma classe
podem ser totalmente diferentes das necessidades
de outra, ou de todas as classes em outros tempos.
Por exemplo, é um fato curioso que, no nosso Novo
Mundo, as condições de esforço demasiadamente
penoso do tempo aos pioneiros estão arriscadas a
ser sucedidas por perigo maior: o da demasiada
facilidade, uma vez que tivermos passado este
tempo de formação; o perigo para os filhos é o
oposto do que o que ameaçou os pais; no entanto,
tão ameaçador é um como o outro.
Do mesmo modo, em cada uma das nossas grandes
comunidades industriais modernas, a tensão
perigosa nos pobres é, na maior parte, não só
totalmente diferente, mas exatamente contrária à
não menos perigosa tensão dos ricos; os perigos são
105
exatamente opostos, não obstante, cada um de per
si é um perigo tão sério que, se não for convenien-
temente atacado, pode acarretar a ruína da nacio-
nalidade.
Nenhuma das comunidades do Velho Mundo está tão
isenta como nós dos perigos externos, e o que suce-
de com estes verifica-se, igualmente, embora em
menor grau, com o esforço e o trabalho internos, e
não precisamos dizer a nenhum estudante de histó-
ria que a imunidade do perigo, apesar de desejável,
deve despertar-nos o receio do enfraquecimento da
fibra.
Por conseguinte, é verdade que, não obstante todas
as nossas vantagens e oportunidades há tanto
perigo, não de um desastre esmagador, mas de uma
decomposição lenta e impossibilidade de adianta-
mento ao menos no que se refere aos povos das
duas Américas, como entre as nações do Velho
Mundo.
Não podemos, embalados pelo devaneio, fechar os
olhos a este fato evidente e assombroso, se formos
verdadeiros para conosco, se tivermos juízo e força
viril para aproveitarmos as nossas oportunidades,
teremos diante de nós, nas nossas muitas nações,
um futuro sem paralelo, entre as nações do velho
mundo, cujas oportunidades são necessariamente
menores.
Mas, se não formos leais a nós mesmos, se não nos
deixarmos cair numa indolência fácil, e fizermos do
excitamento vicioso e vão, o nosso ideal provável
será que sucumbamos tanto mais lamentavelmente,
quanto o sucesso completo e absoluto nos poderia
pertencer.
Para evitar isso e conseguir o triunfo, que coroará a
nossa obra, se tivermos poder de conquistá-lo, mui-
tas coisas são necessárias: uma, porém, prevalece
sobre todas: é o caráter. Traço algum, em qualquer
Nação, pode substituir uma forte média de caráter
pessoal entre os indivíduos, homens ou mulheres,
que compõem a Nação.
106
Sou um crente no emprego do poder do povo, em
sua capacidade coletiva, que é o Governo, na sua
maior extensão, para melhorar os interesses gerais;
e digo que a habilidade, para cooperar com eficácia,
é uma das mais altas provas de força de caráter
individual numa Nação.
Mas, esta ação conjunta, este emprego de poderes
do Governo, no interesse de todos os cidadãos,
nunca poderá suceder, a menos que corresponda a
uma alta média de caráter individual.
A ação do Governo pôde suprir e aumentar
imensamente a eficiência produtiva do caráter
individual; mas nunca poderá substituí-lo, e, se falta
o caráter ao cidadão, o sistema de Governo do qual
ele é uma unidade proeminente, fatalmente se
desagregará.
O caráter, para mim, representa a soma das
qualidades, distintas das qualidades intelectuais, que
são essenciais à eficácia moral.
Entre estas, estão: resolução, coragem, energia, o
domínio de si próprio, combinado com a audácia em
tomar uma iniciativa e assumir responsabilidades,
um justo cuidado para com os direitos dos outros,
junto com uma indomável resolução de sucesso,
sejam quais forem os obstáculos e barreiras que
tiverem de ser vencidos; estas qualidades e quali-
dades iguais a estas, são as que nos vem à mente
quando dizemos de um homem ou de uma mulher
que tem caráter, em oposição a quem possui só
inteligência.
Há ainda uma qualidade que, podemos dizê-lo, é
tanto intelectual como moral, mas que falta, às
vezes, em homens de grande capacidade intelectual
e sem a qual não pode haver verdadeiro caráter,
quero referir-me ao dom fundamental do senso
comum.
Estou longe de desacreditar a inteligência. Associo-
me ao mundo inteiro para render-lhe homenagem.
Sem ela, e, acima de tudo, sem a sua mais alta

107
expressão, o gênio, o mundo progrediria muito
lentamente e os raios purpúreos da vestimenta
cinzenta da nossa vida atual, ficariam tristemente
destituídos da sua glória.
No entanto, assim como a força vem antes da
beleza, assim também o caráter está acima da
inteligência, acima do gênio.
A inteligência é própria para ser utilizada como serva
hábil, mas será sempre má senhora, se não for
dominada pelo caráter. Isto é verdadeiro em relação
ao indivíduo, muito mais verdadeiro o é, tratando da
Nação, da agremiação de indivíduos.
Mas, é uma verdade que os homens tendem a
perder de vista; as Repúblicas Sul-americanas, Norte
e Sul, mostraram várias vezes, no passado, um
curioso esquecimento desta verdade.
No meu País, temos uma tendência a fazer
sobressair aquele indispensável, mas parcial tipo de
vigor intelectual, que se mostra no comercialismo,
essencialmente na gestão de negócios, uma espécie
de poder intelectual que é absolutamente necessário
ao sucesso individual ou nacional, nas condições de
hoje, e em todas as circunstâncias mas que se torna
um malefício em vez de benefício, se é tomado com
um fim, em lugar de ser um instrumento para esse
mesmo fim.
Em alguns outros países, as manifestações
intelectuais, em vez de se submeterem a essas
imposições materiais observadas, tomam um rumo
artístico, literário ou filosófico. Aqui também deve
haver um movimento intelectual, nesse sentido, se a
Nação tem que deixar uma durável e elevada
impressão na história; entretanto, deve haver algo
mais que esse desenvolvimento, se a Nação tem que
cumprir tudo que promete a sua inteligência.
No ponto de vista da grandeza nacional, nem a in-
teligência que se exprime pelo comercialismo, nem a
que se mostra em feitos de arte, pode efetivamente
impor-se, se ela não tem a sua base no caráter.

108
Essa é a lição dada por três dos mais famosos povos
da antiguidade. No século terceiro antes da nossa
era, o mundo civilizado estava dividido, e sob o do-
mínio, dos romanos, dos gregos e dos fenícios, habi-
tantes de Cartago. Os gregos eram, sem dúvida, o
povo mais brilhante que existiu, desde então até ho-
je, e todos os poetas, artistas filósofos e historiado-
res curvam-se diante deles como mestres. Eles de-
senvolveram até ao mais alto grau, nunca depois
atingido, a cultura intelectual. Por outro lado, a for-
ma de inteligência, totalmente diferente, que se deli-
neia no desenvolvimento comercial de hoje, nunca
foi tão desenvolvida quanto pela rica oligarquia mer-
cante que governava Cartago, enquanto que seme-
lhantes oligarquias tinham dominado Sidon e Tyro.
Miguel Ângelo, Rafael, Dante, Cervantes e Camões,
todos os estudantes e filósofos das mais famosas
universidades medievais, eram herdeiros espirituais
das Repúblicas Helênicas e dos reinos Helênicos; e
todos os efeitos dos “lords” das finanças e dos
capitães da indústria moderna, tendo em conside-
ração os meios que empregavam os antigos, como
nunca, para a prosperidade de uma Nação.
Se os homens de fortuna e posição de um País se
dão à preguiça e o ao luxo, se fogem ao dever que
lhes reclama essa mesma situação de destaque, em
benefício popular, se perdem eles o sentimento do
patriotismo, e, quer no seu País, quer no estran-
geiro, se dão à indolência e ao vício, se este é o
caso, nenhum cultivo intelectual, nenhuma perícia
em transações financeiras, nada os salvará do des-
prezo de todos aqueles cujo respeito se impõe, pela
sua maior significação.
Certamente, qualquer manifestação de corrupção, no
campo da política, como dos negócios, representa
uma ofensa tão grave contra a coletividade, que o
ofensor deveria ser perseguido como um criminoso;
e, quanto maior a sua habilidade e quanto maior o
seu sucesso, tanto maior é o mal cometido e tanto
mais pesado deve ser o castigo aplicável.

109
A simples indiferença ou a simples convivência com
a corrupção, são práticas quase tão prejudiciais
como a prática da própria corrupção.
A honestidade, na sua elevada acepção, é a virtude
básica, e sem ela nenhuma outra virtude poderá
preencher-lhe a falta.
Precisamos de virtudes positivas e viris; estas
virtudes essenciais não devem ser, e em uma
comunidade sã, não o são, excepcionais.
Uma República pode progredir mesmo que a média
dos seus homens não constitua uma brilhante inte-
lectualidade.
Mas não pode prosperar se os homens se tornarem
fracos de espírito e de alma, se temem o trabalho e
se cuidam de evitar o que lhes é duro e
desagradável; ou se, sendo de temperamento auto-
ritário, procuram ocasiões de se elevarem por meios
pouco escrupulosos acima dos seus semelhantes
mais fracos e menos afortunados.
Só é um bom cidadão aquele que não teme o
trabalho honesto, que não se envergonha de ganhar
a vida honradamente, que se pode defender do mal
que lhe queiram fazer, mas que despreza o fazer mal
a outrem; aquele que compreende que todos temos
um dever para com os outros, assim como temos
conosco. Estas são as virtudes comuns, ordinárias e
de todo o dia, mas são as virtudes essenciais e que
devem ser somadas para formar o caráter.
O Estado não pode prosperar, se a média dos seus
indivíduos não cuida de si mesmo. Não pode
prosperar, se esses indivíduos não compreendem
que, além de cuidar de si, eles devem cooperar com
as demais células constitutivas do organismo social,
com bom senso, honestidade e conhecimento prático
das suas obrigações para com a coletividade toda
em prol das causas vitais do interesse coletivo. Deve
haver idealismo, mas deve também haver eficácia
prática, ou então o idealismo se perde.

110
Precisamos de corpos sadios e precisamos de
espíritos sãos para esses corpos, mas acima do
espírito ou do corpo está o caráter, o caráter que se
constitui de muitos elementos, dos quais três estão
acima de todos – a coragem, a honestidade e o
senso comum. Se os homens e as mulheres de nível
cominam em um País tem caráter, o futuro da
República está assegurado e se aos cidadãos lhes
falta a força de solidariedade para o bem comum
então não há brilhantismo intelectual, não há
prosperidade material, que salvem da destruição o
Estado.

Amanhã, às 09h00, seguirá S. Ex., em companhia da


sua comitiva para o Butantan a fim de visitar o
Instituto Serumtherápico (47). À tarde desse dia,
visitará S. Ex. a Anglo Brazilian Iron Company, em
São Bernardo e à tarde, partirá para Porto Alegre,
em trem especial da Sorocabana.
O Palacete Prates foi ricamente ornamentado para
servir de hospedagem ao notável estadista.
Apresenta um riquíssimo mobiliário e luxuosas
ornamentações primorosamente cuidadas. O Sr.
Roosevelt o sua comitiva ocupam oito aposentos do
vasto edifício. O serviço culinário ficou a cargo da
“Rotisserie Sportsman”. Para a iluminação da
fachada, jardim e interior do Palácio foram dispostas
2.500 lâmpadas.

A esposa e sobrinha do festejado homem público,


ficarão em S. Paulo, durante a sua excursão pelo Sul.
Aqui serão as distintas senhora e senhorita alvo de
significativas demonstrações de apreço, sendo-lhes
projetadas muitas festas pela sociedade paulista.
47 Instituto Serumtherápico: o Instituto Butantan foi fundado em 1898
com a finalidade de combater um surto de peste bubônica. O
laboratório foi considerado uma instituição autônoma, em fevereiro de
1901, recebendo a denominação de Instituto Serumtherápico.
111
Os jornais matutinos e vespertinos, noticiando a
visita do Ex-presidente Roosevelt, publicam fotogra-
fias encimando a sua biografia, descrevendo por fim,
minuciosamente, as festas aqui realizadas e proje-
tadas em sua honra. Todos felicitam o grande esta-
dista pela passagem do seu aniversário natalício.

O Dr. Paulo de Frontin, digno Diretor da Central,


recebeu, ontem, procedente da Estação da Luz, no
Estado de S. Paulo, o seguinte despacho telegráfico,
firmado pelo Dr. Carlos Steveson, Chefe da Tração:
O especial do Coronel Roosevelt chegou à Estação da
Luz, às 08h30, sendo a viagem a melhor possível.
Os ilustres viajantes estão muito satisfeitos e
encarregaram-me de agradecer a V. Exª as atenções
que lhes foram dispensadas. Aguardava a chegada
do trem o Sr. Luiz Carlos, que cumprimentou o
ilustre viajante em vosso nome. Saudações
atenciosas.

Tendo descido anteontem de Petrópolis, pelo trem


das 15h00, para esta cidade, o grande estadista
americano que nos honrou com a sua visita, o
aguardavam, àquela hora, na estação da Raiz da
Serra os oficiais da Fábrica de pólvora da Estrela.
Logo que o comboio parou, dirigiram-se ao vagão
especial os Srs. Major José Pacheco de Assis,
ajudante, e Tenentes José Travassos da Veiga
Cabral, Comandante da Força Permanente e Thestino
Ribeiro, secretário, e, em nome do Tenente-coronel
José da Veiga Cabral, Diretor daquela fábrica, e em
seu nome próprio, cumprimentaram o notável
estadista.

O Sr. Theodoro Roosevelt agradeceu vivamente as


saudações e mostrou-se extremamente penhorado
pela distinção da oficialidade, para com a sua
pessoa. (O PAIZ, n° 10.613)
112
Heroísmo
(Amílcar Armando Botelho de Magalhães)
Para mim, este heroísmo é bem mais nobre e bem mais
difícil, demanda muito mais energia e tenacidade do que o
heroísmo do momento, de duração efêmera, como o que
requer o ataque de uma trincheira inimiga: a primeira é uma
temeridade refletida; a segunda, uma temeridade que se
incendeia como a pólvora negra, ao calor repentino do
entusiasmo contagioso das massas, que arrastam
o homem às maiores loucuras.
Lá é o comandante que fascina a massa com o seu
entusiasmo viril, aqui a massa que eletriza o comandante,
envolvendo-o na onda magnética dos hurras
comunicativos...

Rondon
(Amílcar Armando Botelho de Magalhães)
Para responder prematuramente aos que me acoimarem de
engrossador, lanço aqui, altiva e tranquilamente, a
declaração de que a opinião que formo a respeito do Coronel
Rondon, não a adapto a nenhum dos atuais Ministros de
Estado, nem ao próprio Sr. Presidente da República. O
conjunto de qualidades morais, intelectuais
e práticas, reunidas nesse homem,
constitui exceção benéfica da natureza.
[...] são dessa têmpera os que influem na sociedade
humana e lhe servem de farol nas conquistas da
civilização... Todos os grandes homens
são vítimas da mediocridade.
(Trecho de uma carta publicada por Amílcar Botelho no
jornal “O Republicano”, de Cuiabá, em 23.06.1918)
113
Foz do Apa – Porto Murtinho
Rondon: altura média, testa larga, fisionomia distinta, traços
finos, olhos amendoados, queixo delgado. Herói que nasceu
soldado e morrerá soldado. Mas herói “sui generis” que, para
não matar, nem deixar que se matasse um só homem,
preferiu arrostar cem vezes a morte...
(Mehmed Fuad Carim ‒ Embaixador da Turquia no Brasil)

O Ex-Presidente Theodore Roosevelt reporta, no


seu diário, a jornada fluvial desde Assunção, Paraguai,
até a Foz do Rio Apa a bordo da canhoneira paraguaia
“Adolpho Riquielme” onde encontrou-se com Rondon e
sua equipe:

Roosevelt: Subindo o Rio Paraguai

09.12.1913: Na tarde de 9 de dezembro deixamos


a atraente e pitoresca cidade de Assunção para subir
o Paraguai. Com generosa cortesia, o Governo para-
guaio havia posto à minha disposição a canhoneira-
iate do próprio Presidente, vapor fluvial muito con-
fortável, de modo que os primeiros dias de nossa Ex-
pedição foram absolutamente agradáveis. O alimento
era bom, nossas acomodações asseadas, dormíamos
bem, embaixo ou no convés, usualmente sem mos-
quiteiro. Durante o dia o convés, sob o toldo, era
agradável. [...]

10.12.1913: Muito tarde, no segundo dia de nossa


viagem, pouco antes da meia noite, chegamos a
Concepción. Nesse dia, quando paramos para rece-
ber lenha e conseguir provisões – em lugares
pitorescos, onde mulheres moradoras em choças
cobertas de sapé e de paredes de barro lavavam
roupas no Rio, ou cavaleiros maltrapilhos nos mira-
vam, parados na barranca, ou estancieiros morenos
e bem trajados estavam em frente de casas cobertas
114
de telhas – apanhamos muitos peixes. Pertenciam
eles a um dos mais temíveis gêneros de peixes que
existem no mundo: a piranha ou peixe canibal, que
devora o homem quando se dá oportunidade. Mais
para o Norte existem espécies de piranhas miúdas
que andam em cardumes. [...]

11.12.1913: Na madrugada do terceiro dia, vendo


que ainda estávamos atracados ao largo de
Concepción, fomos à terra em canoa e perambu-
lamos pelas ruas da bonita e pitoresca cidade antiga
que, como Assunção, foi fundada pelos conquista-
dores, três quartos de século antes dos nossos
antepassados ingleses e holandeses desembarcarem
onde hoje existem os Estados Unidos. Os jesuítas
tomaram então, virtualmente, posse completa do
que é hoje o Paraguai, dominando e cristianizando os
índios e elevando suas florescentes missões a um
apogeu de prosperidade a que nunca atingiram
missões em qualquer outra parte. [...]

12.12.1913: Continuamos navegando Rio acima. De


quando em quando cruzávamos com outra embarca-
ção – um vapor, ou, com surpresa nossa, um ber-
gantim, talvez, ou escuna. O Paraguai é uma grande
artéria comercial. Certa ocasião passamos por uma
grande fábrica de carnes em conserva. Casas de
estâncias apareciam em ambas as margens, poucas
léguas distantes uma das outras, e nós parávamos
nos portos de lenha, à margem ocidental. [...]

Às 12h00 do dia 12 chegamos à fronteira brasileira.


Durante esse dia passamos por colinas baixas, de
forma cônica, próximas ao Rio. Por espaços, touças
de palmeiras irrompiam através das restingas de
mato baixo e se estendiam por um ou dois quilô-
metros, orlando as margens do Rio. [...] Paramos em
um curtume. O proprietário era um espanhol e o

115
gerente um “oriental”, como a si mesmo se
chamava, uruguaio descendente de alemães. [...]

Na fronteira brasileira encontramos um vapor de


fundo chato, que conduzia o Cel Cândido Mariano da
Silva Rondon e outros membros brasileiros da
Expedição. O Cel Rondon imediatamente mostrou
seu valor, que superava tudo quanto se pudesse
desejar. Era evidente que conhecia a fundo seu ofício
e era igualmente óbvio que seria um companheiro
agradável. Fora colega do Sr. Lauro Müller, na Escola
Militar do Brasil. É de sangue índio quase puro, e
positivista ‒ os positivistas constituem, realmente,
uma forte agremiação no Brasil, como sucede na
França e no Chile. [...]

Na comitiva do Cel Rondon estavam o Cap Amílcar


de Magalhães, o Ten João Lira, o Ten Joaquim de
Mello Filho e o Dr. Eusébio de Oliveira, geólogo. Os
vapores pararam. O Cel Rondon e vários de seus
oficiais, corretamente uniformizados de branco,
vieram a bordo; à tarde visitei-o no seu navio, para
trocar ideias sobre nossos planos. [...] O Cel falava
francês tão bem como eu; mas é claro que ele e os
outros preferissem o português e então Kermit servia
de intérprete. (ROOSEVELT, 1944)

Expedição Centenária
03.08.2017: Chegamos a Porto Murtinho, MS,
no dia 03.08.2017, por volta das 19h00, e fomos
gentilmente recepcionados com um magnífico jantar no
Saladeiro Cuê gerenciado pelo Ir:. Antônio Carlos Dias
Barreto (Toninho) e sua querida esposa Conceição
Aparecida Montanheri. A organização do evento foi pa-
trocinada pela 2° Cia Fron sob a coordenação impecável
de seu SCmt Cap Tiago de Lima Ferreira e do 1° Ten
Walmir Mathias Teixeira.

116
Enquanto os amigos expedicionários, o anfitrião
e os amigos da 2° Cia Fron conversavam animada-
mente eu e a D. Conceição confidenciávamos à cabe-
ceira da grande mesa. D. Conceição mesclava nosso
bate-papo declamando e cantando para os convidados.
Depois de conhecer minha história de vida, da situação
da minha esposa, enferma há quase 14 anos, ela pediu
para que eu declamasse uma de minhas poesias
preferidas – Vento Xucro de Jayme Caetano Braun e
depois cantou uma música de sua autoria especial-
mente dedicada ao seu caro esposo Toninho.

No dia em que eu te conheci


O céu abriu as portas e eu entrei
Um novo sentimento eu conheci
Eu tive tanto medo, mas eu te amei.
Você me deu coragem e eu cresci
Nas nuvens mais distantes flutuei
Você mostrou-me a fonte e eu bebi
Soprou-me as asas e eu então subi.
Sonhando em teus braços eu voei
Eu voei, voei alto como só voa o Condor
Vendo estrelas do prazer do nosso amor.
Junto comigo você também voou
Eu voei entre os astros de mãos dadas com você
Se pus fé nas minha asas foi porque
Você me fez bem mais forte do que sou
Foi em você que eu me descobri
Mas como aconteceu isso eu não sei
Eu tinha um coração batendo aqui
Mas antes de você eu nem notei.
Você é muito mais do que eu pedi
É a força da palavra de um Rei
É a neve que ampara o meu esqui
É o livro onde amar eu aprendi.

117
Eu sei que em outras vidas eu já te amei
Eu voei, voei alto como só voa o Condor
Vendo estrelas do prazer do nosso amor.
Junto comigo você também voou
Eu voei, entre os astros de mãos dadas com você
Se pus fé nas minha asas foi porque
Você me fez bem mais forte do que sou.
(D. Conceição Aparecida Montanheri)

Com os olhos rasos d’água, gravei a linda


declaração em forma de canção que D. Conceição
solicitou que eu, um dia, levasse até o leito de minha
esposa e tocasse para ela ouvir. A viagem até Porto
Murtinho foi altamente recompensada graças à
oportunidade de poder conviver, ainda que por breves
momentos, com este fantástico casal do Saladeiro Cuê
além de poder conhecer as instalações da charmosa
pousada às margens do Paraguai.

A partir do século XVI, os espanhóis introdu-


ziram, na região, a pecuária que deu origem à indústria
do charque que se transformou, a partir do século XIX,
em uma das principais atividades econômicas. A indús-
tria do charque ou “saladeiros”, contava com mais de
20 instalações, construídas às margens do Rio Paraguai
com o intuito de facilitar a importação de insumos e a
exportação de seus produtos. Os saladeiros aproveita-
vam além da carne e do couro, o osso, o chifre, a
gordura e o casco. O empresário uruguaio José Grosso
de Ledesma (Don Pepe) fundou, em 1912, no Barranco
Branco, a sua indústria que, em 1917, foi transferida
para o local onde atualmente funciona o Hotel Saladeiro
Cuê, que era composto de chalés para diretores e
operários. A maioria do gado era oriundo da Fazenda
São Francisco, do próprio Don Pepe.

118
O estabelecimento, que funcionou até a década
de 1960, processava cerca de 100 reses por dia e
empregava mais de 100 indivíduos. A produção atendia
ao mercado interno, principalmente Rio de Janeiro e
Nordeste, e era exportada, também, para o mercado
europeu.

Pernoitamos a bordo da embarcação KEMOSABE


ancorada no porto da 2ª Cia Fron.

Por espaços, touças de palmeiras irrompiam através


das restingas de mato baixo e se estendiam por um ou
dois quilômetros, orlando as margens do Rio.
(ROOSEVELT, 1944)

04.08.2017: Acordei, como de costume, antes


do alvorecer, às 05h00. A avifauna promovia uma
agradável manhã festiva nas barrancas do Paraguai.
Visitei a Agência Fluvial da Marinha, comandada pelo
Capitão-Tenente Sandro Silvetri, com a finalidade de
solicitar, se possível, o uso de sua rede para reportar
nossa jornada.

Fiquei sabendo, então, que a embarcação que


tínhamos contratado (KEMOSABE) não estava com a
documentação em dia, e, portanto, impedida de seguir
viagem. O Cap-Ten Silvetri autorizou que o 1° Sgt
Leonardo Abrantes de Lima Nova nos orientasse na
busca de uma nova nau, sendo, depois de muitas
tratativas, acordado que seria a Chalana “Calypso”.

À tarde, visitamos a 2° Cia Fron e depois fomos


até a Boca do Rio Apa, apoiados por militares da Com-
panhia de Fronteira. Extensas matas de carandás
(Copernicia alba) adornavam as margens majestosa-
mente.

119
O Carandá é uma palmeira nativa da região do
Chaco boliviano e paraguaio, Brasil (MS e MT) e Argen-
tina. Seu belo tronco, que pode atingir até 30 m, de
altura é usado na indústria madeireira, suas folhas na
alimentação dos animais, cobertura de abrigos e produ-
ção de artesanato. Os frutos são usados como isca.

05.08.2017: Mantive minha espartana rotina e


antes do Sol nascer fui dar um passeio pela cidade.
Porto Murtinho é uma cidade por demais pacata e
agradável.

Uma sadia miscigenação gerou um cadinho de


finas especiarias dentre as quais as que mais se desta-
cam são a simpatia e a educação de seus ordeiros habi-
tantes. O site da Prefeitura nos informa:

Estrategicamente localizado na fronteira com o


Paraguai, Porto Murtinho foi criado em 1911 e
emancipado em 13.06.1912, tendo como cenário
principal, a exuberância do Rio Paraguai. Com mais
de 100 anos, o município se destaca por ter sido
palco de uma série de acontecimentos marcantes na
história do nosso País, como a Guerra da Tríplice
Aliança e a Revolução de Getúlio Vargas de 1932.

Foi também um dos municípios mais importantes


para o desenvolvimento de Mato Grosso do Sul, pois,
devido ao Porto de exportações, passou por ciclos
econômicos importantes que à época impulsionaram
a economia do Estado. As construções arquitetônicas
e monumentos históricos espalhados por toda a
cidade são verdadeiros museus a céu aberto e se
tornaram um dos principais atrativos turísticos. Uma
volta pela cidade expõe a riqueza vivida pela
população no auge dos ciclos da erva-mate, tanino e
charque. [...]

120
Roosevelt: Porto Murtinho

12.12.1913: Pela tarde, logo após o nascer da lua,


paramos para receber lenha em Porto Murtinho,
pequena cidade brasileira, onde vivem cerca de
1.200 habitantes. Alguns edifícios eram de alvenaria;
uma grande morada particular, com uma torre
acastelada, era de pedra; havia casa de comércio e
correio, depósitos, um restaurante, salão de bilhares
e armazém para o mate, que em grande vulto é
produzido na região adjacente. Na maior parte as
casas eram baixas, com telhados inclinados em
rampa, e havia jardins com altos muros, em cujo
interior se viam árvores, muitas das quais olorosas.

Vagueamos em ruas largas e cheias de pó, cami-


nhando em seus estreitos passeios. Era um anoitecer
cálido e o cheiro dos trópicos impregnava o ar abafa-
diço de dezembro. Pelas portas e janelas abertas
avistamos vagamente os moradores seminus das
casas mais pobres; mulheres e meninas ficavam sen-
tadas fora de suas portas, ao luar. (ROOSEVELT)

121
Porto Murtinho ‒ Forte Olimpo
Esse caboclo, peregrino por patriotismo, viajante por
ideal, desbravador por destino, apaixonado por ofício,
pioneiro por temperamento, incansável por dever,
estoico por profissão, soldado da paz, a serviço das
fronteiras que ajudou a demarcar e do Sertão, que
ajudou a revelar, na mais nobre das conquistas e na
mais santa das vitórias, Rondon é glória que reúne os
mais altos méritos militares aos mais altos méritos
civis. (Benjamim Delgado de Carvalho Costallat)

06.08.2017: P. Murtinho – F. Olimpo

Passamos toda manhã envolvidos na transpo-


sição do material individual da Kemosabe para a
Calypso. Partimos à tarde rumo Norte, deixando para
trás a Isla Margarita e Puerto Carmelo Peralta, aproa-
dos na direção do Morro Pão de Açúcar (21°26’45,68”S
/ 57°52’33,48”O), de mais de 500 m de altitude, locali-
zado na Fazenda Porto Conceição, a quase 25 km ao
Norte de Porto Murtinho. A região pródiga em belezas
naturais possui uma trilha que leva até o cume do mor-
ro de onde se tem uma vista privilegiada do Pantanal.
Passamos pelo Pão de açúcar ao anoitecer (19h15). O
atraso, provocado pela troca de embarcações, forçou a
tripulação a navegar à noite e não tivemos a
oportunidade de conhecer a cidade de Fuerte Olimpo
nem o antigo Fuerte de Borbón (21°02’11,91” S /
57°52’10,75” O). Uma Expedição desta magnitude ficar
atrelada a um calendário pré-determinado é um verda-
deiro atentado ao bom senso, nas minhas amazônicas
jornadas procuro não me amarrar a datas que não
podem ou não devam ser cumpridas para não compro-
meter às pesquisas de campo.

122
Imagem 20 ‒ Vista del Pan de Azúcar (BOSSI)

Relatos Pretéritos: Pan de Azúcar

Félix de Azara (1781)


XXI
Regreso y muerte del adelantado Don Pedro de
Mendoza. Sigue la expedición y descubrimientos con
el mismo título y autoridad Don Juan Ayolas [...]
33. [...] Continuaron, y en los 21°22’ de latitud,
encontraron en la costa Oriental un cerrito notable
en aquella llanura de país, a quien llamaron monte
de San Fernando. Hoy le dan los españoles el nom-
bre de pan de azúcar, y los guaranís el de Ytapucú-
guazú. (AZARA)

Semanario (1850)

Es la segunda vez que las fuerzas nacionales dejan


las playas de la Asunción para dirigirse a vindicar al
Norte los derechos de la Republica. En 1850, la
ocupación del territorio paraguayo por fuerzas
brasileras obligó a nuestro gobierno a enviar una
pequeña expedición que dio por resultado el desalojo
del cerro de Pan de Azúcar [...] (SEMANARIO,
17.12.1850)
123
Bartolomé Bossi (1862)

A los 21°25’ latitud y 60°14’ de longitud, se levanta


el no menos hermoso cerro de Pan de Azúcar,
memorable por un hecho de armas muy honroso
para los soldados del Brasil, y que merece narrarse
por el interés que ofrece.

En el Pan de Azúcar fue atacada por doscientos


paraguayos una guardia brasilera de 25 hombres. El
combate fue reñido a pesar de la desproporción del
número. La pequeña guardia resistió hasta haber
quemado su último cartucho; y antes que rendirse,
prefirió retirarse y ganar los montes y desiertos.

En esos bosques salvajes fueron sorprendidos esos


pocos valientes por los Indios Guaycurús, tribu muy
guerrera y audaz que habita esas cercanías. Los
barbaros decidieron matar a todos los prisioneros;
pero uno de los Indios se opuso al sangriento desi-
gnio de sus compañeros, tratando de persuadirlos
que no solo estaban obligados a conservar sus vidas,
sino a acordarles su protección. El orador redujo la
ferocidad de sus hermanos hasta inclinarlos a la
piedad, y se decidió unánimemente que los prisione-
ros serían conducidos al través de esos bosques y
desiertos hasta la ciudad de Cuyabá.

Después de trabajos penosísimos, y cuando ya se les


creía muertos, aparecieron las victimas lloradas
rodeadas por los Indios, escolta singular, que había
mitigado con sus prolijos cuidados los sufrimientos
de aquellos infelices.

El gobierno brasilero pronto siempre á recompensar


las acciones generosas, prodigó sus obsequios a los
Indios y les colmó de regalos, concediéndole el
honroso grado de capitán al iniciador de aquella
loable acción á que debían la vida sus súbditos.
124
Desde entonces le quedó al indio condecorado el
título de capitán de papel, que con burlesca ironía le
dan en su tribu, entre la cual no es compatible ese
honor sino para vasallos de sangre noble. En conse-
cuencia el despacho de capitán brasilero, no es para
los indios sino un pedazo de papel sin importancia ni
significación, y para su poseedor un título de honor.
(BOSSI)

Barão de Melgaço (1870)

Apontamentos Para o Dicionário Corográfico


da Província de Mato Grosso
Pelo Barão de Melgaço (48)

Fecho de forros: Há na margem esquerda do Rio


Paraguai, entre os paralelos 21°24’ a 21°30’, um
grupo de morros do quase duas léguas de extensão
ao longo do Rio e uma do largura, separado por um
espaço de três léguas de terreno alagadiço das terras
altas do Distrito de Miranda. Sobre a oposta margem
do Rio existe um morro isolado e no meio do Rio
uma ilha pedregosa de 1.300 a 1.500 metros de
comprimento, 400 metros de largura e 21 na maior
altura. Os dois canais, que forma, são navegáveis;
porém o melhor é o de Oeste. Terá umas cinquenta
braças [120 metros] de largura. O outro, mais
estreito, tem algumas pedras, das quais é preciso
resguardar-se, tanto do lado da ilha como do da
margem esquerda.

Dos morros da margem direita o mais notável é o


“Pão do Açúcar”. Sua base dista da beira do Rio
quase 3 quilômetros. Seu cume tem a altitude de
412 metros acima do Rio, ou 507, acima do mar.

48 Augusto João Manuel Leverger.


125
Imagem 21 – Planta do Fecho dos Morros (Mello, 2014)
126
Dez milhas abaixo do “Fecho de Morros” há na mar-
gem esquerda um morro isolado, que os Espanhóis
chamam Batatilla, com um recife que toma quase
metade da largura do Rio.

Esse lugar é por nós conhecido pelo nome de “Passo


da Tarumã”. É onde se faz a passagem do gado
vacum e cavalar trocado entre a nossa gente e os
índios do Chaco.

Foi neste local, que em 1775, pretendeu o Capitão-


general Luiz d’Albuquerque estabelecer o presídio,
que veio a fundar-se em Coimbra. Em junho do
1850, colocou-se aí um destacamento, que foi
visitado pelo Presidente da Província em setembro, e
em outubro expelido pelos paraguaios. (RIHGB ‒
XLVII - II, 1884)

Raul Correia Bandeira de Mello (1935)

A Fortaleza de Coimbra
Breve Estudo Histórico e Geográfico

15 – É oportuno recordar-se que, não obstante deci-


dido o estacionamento militar em Coimbra, sempre
se conservou latente e ainda persiste em potencial a
ideia do artilhamento do “Fecho dos Morros”, como
um elemento indispensável à integridade do Brasil.
Em 1847 o Presidente da Província de Mato Grosso
autorizou o Comandante da fronteira do Baixo
Paraguai a providenciar sobre a instalação de um
destacamento do Exército no “Pão de Açúcar”,
construindo um quartel e algumas lunetas e
redentes.

Retornava-se às ideias dos chefes militares que sem-


pre acharam o “Fecho dos Morros”, inclusive a ilha
mediana, uma posição estratégica de 1ª ordem, de
vez que constitui verdadeira barragem natural.
127
Após a ocupação esta posição notabilizou-se,
segundo diz Luiz d’Albuquerque, pelo ataque que em
1850 traiçoeiramente lhe levaram os paraguaios por
ordem de Carlos Antônio López (49). Em número de
400 homens (50) inesperadamente agrediram a gua-
rnição, composta de 25 praças do 2° Batalhão de
Artilharia a Pé e do Comandante Tenente Francisco
Bueno da Silva.

A guarda retirou-se com perda de vidas para a


margem direita após tentar a defesa que lhe foi pos-
sível. Surge então a infelicíssima ordem do Governo
Imperial, de outubro de 1850, determinando ao
Presidente Caetano Pinto de Miranda Montenegro que
desistisse da ocupação do “Fecho dos Morros” afim
de que em virtude de reclamação de potência amiga
pudesse a questão ser resolvida diplomaticamente e
“à luz de uma discussão pacífica e aprofundada”.

E a ofensa violentamente assacada contra nossa so-


berania foi esquecida e jamais se tratou do assunto.
(BANDEIRA DE MELLO)

MOURA, Carlos Francisco (1975)

As obras foram interrompidas com a sua completa


destruição, em 14 de outubro do mesmo ano, por
tropas paraguaias e o projeto definitivamente arqui-
vado pelas autoridades brasileiras.

Em verdade, o Governo brasileiro tentou com essa


iniciativa resgatar um projeto de 1775, quando o
Capitão Ribeiro da Costa, encarregado pelo Governa-
dor Luís de Albuquerque de construir o Forte de
Coimbra, enganou-se no reconhecimento do local,
apesar das instruções do governador:

49 Pai de Francisco Solano López Carrillo.


50 Os historiadores divergem variando de 200 a 400 militares paraguaios.
128
No lugar de aportar no Fecho dos Morros, desem-
barcou 44 léguas antes, no local denominado
estreito de São Francisco Xavier, cuja topografia
apresenta alguma semelhança com o primeiro.
(MOURA)

Acyr Vaz Guimarães (1990)


Ano do nascimento de N.S.J.C. de 1850, vigésimo
nono da Independência e do Império, aos 21 graus e
20 minutos de latitude, 40 léguas ao sul do Forte de
Coimbra, em lugar denominado “Fecho dos Morros”,
à margem esquerda do Paraguai, 800 braças a Oeste
da mais alta montanha conhecida pela denominação
de “Pão de Açúcar”, sobre a base inferior do Morro
de pedra viva mais saliente ao Rio em forma de um
colete esférico e sobranceiro ao pequeno monte que
jaz na margem oposta, achando-se presente o
Comandante Geral desta fronteira, o Capitão do
Estado Maior de 1ª classe, Exmo. Sr. J. J. de
Carvalho, o Tenente C. F. de Caçadores Francisco
Bueno da Silva, o missionário apostólico frei Mariano
de Banhaia e todas as praças que fizeram parte da
comitiva do mesmo Cmt.

Depois do arvorado o pavilhão nacional, acompa-


nhado de entusiásticos vivas a S. M. Imperador e à
integridade do império, foi empossado o novo
destacamento de que é Cmt o já referido Ten
Francisco B. de Silva e deu-se imediatamente
princípio à construção do edifício que tem de servir
provisoriamente de Quartel Guarnição Parque de
Armas, Casa de Oficiais e Armazém de Artigos
Bélicos até que, segundo as ordens do Governo, seja
edificado o Forte permanente. E para todo o tempo
constar, lavrou-se o presente que assinam o Cmt
Geral, o Cmt da Guarnição do novo destacamento, o
missionário apostólico e todas as praças presentes
aos 29 dias do mês de junho. (GUIMARÃES)

129
Imagem 22 – Forte Borbón, Paraguai

Após a jornada pelo Rio Paraguai, em agosto,


desci o Rio Acre de caiaque, em setembro, e retornei,
em outubro, à região para documentar este esplêndido
e histórico sítio.

ROOSEVELT: Forte Bourbon (Borbón)

13.12.1913: Pela manhã, muito cedo, paramos em


um lugarejo paraguaio, aninhado entre o arvoredo
verdejante, no sopé de um grupo de morros baixos,
junto à margem do Rio. Sobre um dos morros apare-
cia um pitoresco forte antigo, de pedras, conhecido
como Forte Borbón, nos tempos coloniais da Espa-
nha. Agora flutua sobre ele a bandeira paraguaia e é
guarnecido por um punhado de soldados paraguaios.
Aí o padre Zahm batizou os dois filhos mais novos de
uma vasta família de gente pequena, de pele fina e
cabelos louros, cujo pai era paraguaio e a mãe
“oriental” ou uruguaia.

130
Nenhum padre estivera no lugarejo de três anos
àquela parte, e as crianças tinham respectivamente
um e três anos de idade. Serviram de padrinhos o
comandante local e um casal de austríacos. Respon-
dendo a uma pergunta, de simples formalidade, so-
bre se eram ou não católicos, os pais declararam
inesperadamente que não. Indagações subsequentes
revelaram que o pai se dizia “livre-pensador católico”
e que a mãe era “protestante católica” e tivera como
genitora uma protestante, filha de um imigrante da
Normandia. Entretanto, ficou esclarecido que os ou-
tros filhos tinham sido batizados pelo Bispo de As-
sunção, e assim o padre Zahm, atendendo às vivas
instâncias dos pais, consentiu em continuar a ceri-
mônia. Eram boa gente; embora cada qual desejasse
ter a liberdade de pensar do modo que lhe agradas-
se, também queriam estar filiados e ter seus filhos
filiados a alguma religião, de preferência à religião da
maioria do seu povo. [...]Almoçamos – o almoço
brasileiro das 11h00 – no navio do Cel Rondon.Os
jacarés estavam-se tornando mais abundantes.Os
feios animais jazem nas praias e nos bancos de lodo
como toras de madeira, cabeça levantada, algumas
vezes com as fauces escancaradas. São com fre-
quência perigosos para os animais domésticos, são
sempre um flagelo para os peixes e é agradável ati-
rar neles. Matei meia dúzia e errei outros muitos – a
trepidação do vapor não auxiliava a pontaria. Passa-
mos matas de palmeiras que se estendiam por espa-
ço de léguas, e vastos pantanais onde se viam socós,
garças pardas e jaburus, bandos de biguás e mergu-
lhões sobre as praias, e talha-mares e nuvens de lin-
das andorinhas esvoaçando à nossa frente. Cerca do
meio-dia passamos o ponto mais alto do Rio passa-
mos o ponto mais alto do Rio que velhos conquista-
dores e exploradores espanhóis [...] haviam atingido
no decorrer de suas maravilhosas viagens na pri-
meira metade do século XVI [...]. (ROOSEVELT)

131
Imagem 23 – Fuerte Olympo

132
MAGALHÃES: Forte Bourbon (Borbón)

13.12.1913: Durante o trajeto para Corumbá, a


mais ampla cordialidade orientou a nossa ação
relativamente ao Ex-presidente e sua comitiva. No
dia 13 às 09h15, ancoramos ao lado da canhoneira
defronte ao Forte Olimpo, onde o Governo do
Paraguai mantém uma guarnição militar. Em
retribuição à visita que vos foi feita em nome do Sr.
Coronel Crisóstomo Machucas, Comandante dessa
guarnição, a este fui levar pessoalmente os agrade-
cimentos apresentando-lhe os vossos cumprimentos
cordialíssimos, bem como os da Comissão Brasileira
sob vossa chefia. (MAGALHÃES, 1916)

Reporta-nos María Teresa Gaona do Internatio-


nal Scientific Committee on Cultural Routes (CIIC): sob
o título “El Fuerte de Borbón” (51):

Antecedentes

Por volta de 1750 a 1792, os bandeirantes paulistas


e mamelucos, cheios de audácia e armas, marcha-
ram lenta, mas progressivamente para as regiões do
Alto Paraguai, Mojos e Chiquitos, forçando a migra-
ção da população ali existente para Assunção. O Tri-
bunal de Madri tentou impedir esse avanço através
de Tratados de Limites Definitivos. No entanto, o
Tratado de 1750 deu ganho de causa às pretensões
portuguesas acarretando uma derrota moral para a
Espanha. Por isso, o demarcador espanhol Manuel A.
Flores, recomendou em seu relatório ao Marquês de
Valdelirios que deveria fortalecer militarmente a
Província do Paraguai. Como a Coroa Espanhola
ignorasse esses apelos, as autoridades coloniais to-
maram a iniciativa de estabelecer novas estratégias
51 Tradução livre do autor.

133
de defesa em torno de Assunção, através de uma
série de Fortins e Fortes cujas construções tiveram
curta duração, em decorrência da precariedade dos
materiais empregados, da própria estratégia de
defesa de fronteiras que exigia uma mudança cons-
tante de posição e, mais tarde, com o fim das amea-
ças. Para salvaguardar as fronteiras do país, espe-
cialmente ao Norte, no século XVIII, foi decidido
estruturar um sistema defensivo-ofensivo à montan-
te (52) do Rio Paraguai para barrar o ataque dos
índios Mbya. Em 1763, o Governador Martinez Fontes
preparou a defesa do território em ambas as
margens do Rio Paraguai. Em 1773, o Governador
Don Agustín de Pinedo, não conseguiu materiais ou
elementos para a criação de novos Fortes e fundou
apenas a Vila Real de Nossa Senhora da Conceição.

No Governo de Melo e Alós, aparecem integrados ao


sistema “Costa-arriba” as guardas sediadas nas cida-
des de Kuarepotí, Yguamandiyú e Concepción, bem
como a nova prisão de Ypytá. Em 1790, o
Governador Joaquín Alós y Brú organiza as milícias
em quatro Regimentos: Regimento de Dragões de
Quyquyó, Regimento de Dragões de Tapuá;
Regimento de Dragões da Cidade de Assunção e
Regimento de Dragões de Cavalaria. Aparentemente,
o Governador considerou que essa organização não
era suficiente e decidiu criar uma série de Fortes no
Rio Paraguai até Coimbra.

Em 1791, a Carta Real determinava ao Vice-rei de


Buenos Aires que criasse estabelecimentos de defesa
nas margens do Paraguai, por meio de guardas de
Coimbra à Vila Real de la Concepción. Os Fortes, pre-
sídios e cidades que formavam a linha defensiva es-
tavam localizados ao longo do Rio Paraguai e Apa.

52 À montante: “Costa-arriba”.

134
Neste Rio, um dos primeiros e mais importantes
Fortes foi o Forte de San Carlos. Em 1792, foi
fundado o Forte de Borbón, que fazia parte da linha
defensiva na margem esquerda do Rio Paraguai, na
região do Chaco, no Paraguai.

Fundação do Forte de Borbón

O Governador Joaquín Alós y Brú nomeou, em


27.11.1791, o Tenente-coronel José Antonio Zavala y
Delgadillo, Superintendente e Comandante-chefe do
Regimento dos Dragões do Paraguai, responsável por
uma Expedição encarregada de construir os novos
estabelecimentos de defesa da Banda Ocidental do
Rio Paraguai. A Expedição subiu o Rio primeiramente
até a Latitude 19°58’, mas, em decorrência das
dificuldades apresentadas pelo terreno, optaram por
um sítio na região denominada “Tres Hermanas”
considerando que as pequenas colinas seriam imunes
às inundações do Rio. Em 25.09.1792, as obras do
Forte de Borbón, um pouco abaixo do Rio Branco, a
21°01’39” S (53), foram concluídas, e José Antonio
Zavala y Delgadillo designou José de Isasi como o
primeiro Comandante do Forte. A aprovação real
desta fundação foi efetivada em 27.02.1793.

Aspectos Históricos do Forte de Borbón

O Forte de Borbón, sob a invocação da Virgem de


Dolores, assim nomeado pela a Dinastia Real da
Espanha, é um dos Fortes mais importantes da
Região Ocidental do Paraguai. Localizado no topo de
uma colina foi criado com o objetivo de proteger a
Fronteira Norte do Vice-reinado do Rio de Prata
contra os ataques dos portugueses de Mato Grosso e
as invasões dos índios do Chaco, que nos primeiros
anos tinham sido considerados amigos e aliados.

53 21°01’39” de Latitude Sul: 21°02’11,91”S / 57°52’10.75”O.


135
Mas, devido aos assaltos constantes e para tomar
posse das escassas provisões do Forte foram decla-
rados, a maioria deles, inimigos, punindo culpados e
inocentes. A partir da leitura dos documentos do
Governador Joaquín Alós y Brú, pode-se deduzir que
esta proteção de fronteira visava permitir o acesso
ao Peru. Desde a sua fundação esteve subordinado à
Real Vila da Concepción e, durante os últimos 18
anos de dominação espanhola, este Forte cumpriu
um duplo papel, o de Presídio e o de Fortaleza. Era
uma base obrigatória tanto para as campanhas
contra os índios Chamacocos e de defesa contra as
invasões paulistas e, também, contra a Expedição de
Don Lázaro de Rivera, no início do século XIX.
Finalmente, em 1810, quando chegaram à Assunção
notícias da Revolução de maio contra os realistas no
Paraguai, coincidindo com a da Argentina, o Gover-
nador Velasco sufocou essa tentativa e capturou
muitos cidadãos que foram enviados para o Forte de
Borbón.

Em 24.07.1810, um congresso reunido, em Assun-


ção, ante a iminente invasão dos argentinos solicita
aos Comandantes dos Fortes de S. Carlos e Borbón
que enviassem armas e soldados para reforçar a de-
fesa da Capital. Mais tarde, o Forte de Borbón é
abandonado, talvez por falta de provisões, e o lugar
é ocupado pelos Payaguaes, que foram, mais tarde,
despejados pelos portugueses, que mais uma vez
tentaram invadir o território do Chaco por Fuerte
Olimpo e Salinas e foram expulsos, com ajuda dos
indígenas, pelas tropas paraguaias que o ocuparam
de novo. Poucos dias após a sua nomeação como
Ditador Supremo da República do Paraguai, o Dr.
Francia nomeou novas autoridades para o Forte. Du-
rante seu Governo, embora não tenha se preocupado
com a assinatura de Tratados, Francia defendeu e
cuidou com obstinação das fronteiras do Paraguai.
136
Monitorou constantemente todo o curso do Rio
Paraguai, não descuidando dos Fortes, Fortins e de
sua guarnição, conseguindo com isso, manter os
invasores à distância. Em 1820, o Dr. Francia proibiu
a guarnição do Forte de negociar com os portu-
gueses. Em 25.12.1823, o Dr. Francia alterou o
nome do Forte de Borbón para Forte Olimpo com a
finalidade de demonstrar claramente a independên-
cia da Espanha.

Don José León Oliden, cita o Forte Olimpo na


descrição da viagem que ele fez ao longo do Rio
Paraguai, entre agosto de 1837 e fevereiro de 1838.
A Viagem é registrada em carta dirigida ao Dr.
Francia que não foi recebida por este.

Em 1840, o Comandante do Forte Olimpo, Manuel


Antonio Delgado, em um ofício dirigido aos
conselheiros, informou sobre os limites do Paraguai
com o Brasil ante as demandas do Cônsul brasileiro
Correa Câmara, destacando a importância do mesmo
neste aspecto.

O geógrafo E. Mouches, Capitão da Marinha francesa,


foi encarregado pelo seu Governo de elaborar um
mapa do Paraguai e do Brasil e no relatório
apresentado, no dia 06.05.1862, ante a Sociedade
Geográfica Francesa, considerou como fronteira en-
tre os dois países o Forte Olimpo, construído pelos
espanhóis às margens do Rio Paraguai (231°). [...]

E. Bougarde, em 1889, produziu um Mapa do Para-


guai no qual o Forte aparece, sem deixar de
mencionar o Tratado da Tríplice Aliança.

Em uma carta enviada ao Dr. Pinilla, Embaixador de


Negócios Interinos da Bolívia, e datada de
03.11.1888, defendendo os direitos paraguaios sobre
o Chaco consta que o Governador Joaquín de Alós y

137
Brú, no ano de 1792, decretou o estabelecimento de
uma fortaleza na fronteira Norte do território
paraguaio, na parte Ocidental do Rio, não apenas
para monitorar e conter qualquer avanço ou
usurpação do território, mas também para indicar e
marcar de forma fixa e permanente que o direito do
Rio pertencia ao Paraguai de fato e de direito.

No século XX, o Forte continua sendo citado


constantemente, especialmente nos documentos
submetidos à delimitação dos limites com a Bolívia,
após a Guerra do Chaco, 1932-1935, como um
bastião de direitos e defesa do território Chaco.
Também aparece em obras como o Mapa Cleto
Romero, de 1904; o mapa da Missão Peña −
Machaín, de 1930. Em um livro de Geografia do
Paraguai, de acordo com Amarilla, em 1928, a escola
ao lado do Forte tinha 128 alunos.

Descrição do Forte de Borbón

O projeto desta fortaleza é do famoso Azara, e foi


executado pelo Comandante José Antonio Zavala e
Delgadillo, por ordem do Governador Alós e Brú. No
mesmo ano foi concluído e ocupado por uma
guarnição paraguaia, com soldos pagos. Este paga-
mento fazia parte de um projeto do Governo de criar
empregos de acordo com um relatório do tesoureiro
do final do século XVIII. O principal objetivo desta
base foi a defesa da fronteira Norte.

Uma descrição do engenheiro Julio Ramón de Cesar


e um desenho do Forte de “Bourbon” mostra a
precariedade dos meios tecnológicos. Ele disse a
construção era de pau a pique, coberta de palhas
que tocam o chão, ideia infeliz do construtor, de
acordo com Cesar, sem o menor conhecimento de
tais obras.
138
A fortaleza é formada por um quadrilátero de arqui-
tetura modesta e pequena elevação, cujos ângulos
são defendidos por um bastião semicircular com
várias seteiras e um abrigo para a sentinela corres-
pondente. A presença de apenas três bastiões ou
cotovelos em que os canhões estão localizados
atraem a atenção. Dentro do layout retangular havia
várias cabanas internas para armazéns, cozinhas,
banheiros, alojamentos, prisões e gabinete do
Comando.

Em 1801, Don Pedro Antonio de Mier informa ao


Governador Intendente Don Lázaro de Rivera que o
Forte de Borbón como sistema de defesa deixa muito
a desejar porque as fundações estavam totalmente
podres, o vento dobra as estacas, como se fossem
juncos, os armazéns estavam quase todos derruídos
e a guarnição deixava muito a desejar.

Em 23.09.1817, o Dr. Francia ordenou a reforma do


aquartelamento, porque se os portugueses fortifica-
ram Coimbra “yo también”, diz o Dr. Francia me
atrevo a fortalecer Bourbon com o emprego de cal,
com boas muralhas e baluartes, pois há pedras em
abundância na colina.

Com esta decisão, o Forte deixa de ter como mura-


lha, uma estacada de carandás, material precário. Na
primeira etapa, deverá ser construído com pedras e
cal como cimento, sem que se altere o projeto
original. As muralhas do Forte são reparadas bem
como os telhados e outras dependências.

As obras foram concluídas, em 1818, de acordo com


uma comunicação do então Comandante de
Concepción ao Ditador. Em 1823, o Dr. Francia
voltou a enviar pedreiros, tijolos e cal para realizar
melhorias no Forte. [...]

139
Na Praça de Armas da Fortaleza havia uma pedra de
granito gravada: “Este Forte Olimpo foi restaurado
em 31.08.1856 sob o comando dos cidadãos
Marcelino Antonio Coronel e José Manuel Gimenez”.
A única notícia que se tem, depois disso, sobre as
reparações do Forte Olimpo, é de 1932. As obras
ficaram a cargo do Sr. Rodríguez Alcalá que colocou
uma placa comemorativa. (GAONA, 2002)

Relatos Pretéritos: Forte Borbón

D. José Leon Oliden (1837-1838)

[...] continuamos Rio baixo, avistando logo em


seguida o Forte de Borbón, aonde chegamos duas
horas depois. Saudamos a Fortaleza como é de
costume com alguns tiros de fuzil, mas não fomos
correspondidos. Assim que aportamos apareceu um
soldado pelo qual enviei meus cumprimentos ao
Comandante pedindo permissão para ir até a
Fortaleza cumprimentá-lo.

O soldado retornou com a autorização e me levou


até o Comandante do Forte. Este solicitou meu pas-
saporte que lhe apresentei imediatamente. Disse-lhe
que tinha algumas cartas particulares para serem
entregues à Sua Excelência o Ditador Supremo do
Estado, ao que ele respondeu que não podia permitir
sem a devida permissão do mesmo. Solicitei então
que me permitisse ir a Assunção, entregá-las pesso-
almente, e ele respondeu negativamente à esta pro-
posta também. Tendo em vista o insucesso de mi-
nhas demandas, despedi-me e retornei à minha em-
barcação enquanto aguardava a devolução do
passaporte.

140
Imagem 24 – Descripción de la Nueva Provincia

O Forte de Borbón, chamado hoje de Olimpo, é uma


excelente Fortificação. Mantém uma centena de
homens entre artilheiros e fuzileiros, é um povo
bonito, alto e bem conformado, com uma fisionomia
expressiva, branco e muito educado, falam guarani e
castelhano. Eles me deram de presente erva-mate,
da Vila Real de Concepción e folha de tabaco, e eu,
em contrapartida, dei-lhes pólvora, palha de milho e
outras bagatelas, o que os deixou muito felizes.

O Forte tem doze peças de ferro, mas as pessoas


estão maltrapilhas e esfomeadas, porque raramente
lhes chegam provisões da Vila Real e ali não têm
absolutamente nada, porque não podem se afastar
cem passos da Fortaleza sem serem perseguidos
pelos índios Guaicurus.
141
A Fortaleza está localizada a meio quarteirão da
margem do Rio em uma colina, e o campo no seu
entorno é muito bonito. O Capitão Comandante do
Forte é um homem velho que deve ter quase cem
anos e que raramente se afasta da cama. Ele tem
tanta confiança em seus soldados que não há um
único fuzil deixado fora da sala d’armas, exceto
aquele que carrega a sentinela postada no portão do
Forte.

Alguns sargentos e outros militares vieram até minha


canoa conversar, mas não se arriscaram a falar
muito, nem de seu Governo nem da situação de seu
país, embora eu os provocasse; até que me fizeram
ver que havia dois homens mais velhos que o
Comandante enviara, para nos observar e ouvir o
que falávamos.

Eu notei, entre outras coisas, uma muito estranha –


quando o nome do Ditador Supremo era pronun-
ciado, todos retiravam a cobertura, dando uma
demonstração cabal do estado de desesperança e
submissão em que se encontram.

Chegaram dois homens decentes e idosos, e um


deles se aproximou de mim e me perguntou sobre
uma determinada família da cidade de Oruro na
Bolívia, ao que eu lhe respondi que, por esse nome,
conhecera um Sargento-major do exército, e ele me
disse que essa era sua família e se retirou.

Não há uma única mulher em Borbón, há 15 anos


estes militares estão nesta guarnição e me disseram
que o tempo de permanência neste destacamento
era de vinte e cinco anos.

Quatro horas depois, o Comandante devolveu meu


passaporte, me dizendo que eu podia me retirar o
que fiz retrocedendo Rio acima. (OLIDEN)
142
Imagem 25 – Fuerte Borbón (BOSSI)

Bartolomé Bossi (1862)

Sobre la costa del Chaco en la latitud 21°01’ Sud,


longitud 60°15’ Oeste, se halla el Fuerte Olimpo,
ocupado por una guarnición paraguaya, ultima
guardia de esa Republica en el territorio de su
jurisdicción. Ese Fuerte fue construido por los espa-
ñoles. Los Guaycurús lo atacaron diversas ocasiones
y lo tomaron a los Paraguayos, que actualmente y
como una justa precaución conservan fondeada una
balandra de guerra para refugiarse en caso de un
nuevo contraste. Este Fuerte bajo la autoridad
española se llamó Fuerte Borbón. El vapor fondea
breves momentos para llenar una formalidad de uso.
(BOSSI)

Alfred Louis Hubert Ghislain Gray (1862)

Las montañas de Olympo están formadas de seis


colinas principales, todas próximas al río. Las tres
primeras, que son las más altas, se llaman “Las Tres
Hermanas”; están después dos más bajas, sobre una
de las cuales está edificado el Fuerte, y la sexta,
Cerro del Norte, está separada de las precedentes
por una bahía en que corre un brazo del río que se
separa arriba de la embocadura del Rio Blanco.
143
El Fuerte Olimpo, a catorce leguas del Pan de Azúcar,
está construido con pedazos de la roca que forma
esas montañas, unidas entre sí por cimientos de cal.
El fuerte es muy conveniente, pero el terreno de la
costa cultivado para el alimento de la guarnición, no
está al abrigo de las inundaciones. De la parte del
Chaco, la vista se ex tiende sobre un vasto campo
muy bajo, sembrado de palmeras, y la costa Oriental
presenta una sucesión de terrenos bajos, cortados
por pequeños ríos que forman gran número de islas
y de lagos. La bahía que separa el Cerro del Norte de
la colina en que está edificado el fuerte, deja
descubiertas, en la estación en que bajan las aguas,
playas en que se producen eflorescencias de sal de
muy buena calidad. Las montañas de Olimpo,
aunque poco abundantes en maderas de buena
calidad, suministran el guayacán, y no lejos se
encuentra un árbol cuya fruta es una calabaza y que
se conoce bajo el nombre guaraní de Ibirá-acá-
jyá. (GRAY)

Hino patriótico
(Castro Alves)
Não ouvis como um grito de fogo
Rasga ardente este éter azul?
É a voz da vitória que irrompe
Das montanhas, dos vales do Sul.
Glória! Glória! Brasil. Lá no Prata
O teu povo gigante venceu! ...
Ergue vivo a bandeira nos ares,
Ergue morto a mortalha no céu...
Águia altiva dos Andes descida
Pelos pampas em brasa roçou;
E com a ponta das asas possantes
Mais um povo do mundo apagou! [...]
144
A Roosevelt
(Rubén Darío)

¡Es con voz de la Biblia, o verso de Walt Whitman,


Que habría que llegar hasta ti, Cazador!
Primitivo y moderno, sencillo y complicado,
Con un algo de Washington y cuatro de Nemrod
Eres los Estados Unidos, eres el futuro invasor
De la América ingenua que tiene sangre indígena,
Que aún reza a Jesucristo y aún habla en español.

Eres soberbio y fuerte ejemplar de tu raza;


Eres culto, eres hábil; te opones a Tolstoy
Y domando caballos, o asesinando tigres,
Eres un Alejandro-Nabucodonosor.
[Eres un profesor de energía,
Como dicen los locos de hoy]
Crees que la vida es incendio,
Que el progreso es erupción;
En donde pones la bala el porvenir pones.
No.

Los Estados Unidos son potentes y grandes.


Cuando ellos se estremecen hay un hondo temblor
Que pasa por las vértebras enormes de los Andes.
Si clamáis, se oye como el rugir del león. […]

Mas la América nuestra, que tenía poetas […]


La América en que dijo el noble Guatemoc:
“Yo no estoy en un lecho de rosas”; esa América
Que tiembla de huracanes y que vive de Amor,
Hombres de ojos sajones y alma bárbara, vive. [...]
Se necesitaría, Roosevelt, ser Dios mismo,
El Riflero terrible y el fuerte Cazador,
Para poder tenernos en vuestras férreas garras.

Y, pues contáis con todo, falta una cosa: ¡Dios!


145
Imagem 26 – Pão de Açúcar

Imagem 27 – Forte Borbón, Paraguai

146
Imagem 28 – Forte Borbón, Paraguai

Imagem 29 – Forte Borbón, Paraguai


147
Forte Olimpo ‒ Forte Coimbra
O distinto engenheiro Ricardo Franco por algum tempo
opinou pela sua inutilidade; diversas considerações, porém,
fizeram-no modificar o seu parecer e insinuar ao Governador
Caetano Pinto a conveniência da continuação do Forte, que o
mesmo oficial levou a efeito quase sem dispêndio da
Fazenda Real, servindo ele de Arquiteto, de Feitor e de
Mestre carpinteiro e pedreiro.
(Barão de Melgaço)

08.08.2017 (Forte Coimbra)

A alvorada magnífica permitia vislumbrar, ao


longe, ainda imerso no nevoeiro, o bastião monumental
erguido pela férrea determinação de Ricardo Franco. Na
chegada ao Forte fomos gentilmente recepcionados
pelo Cmt da 3° Cia Fron Cap Glauco Viana Coitinho que
nos acompanhou, pela manhã em uma visita ao Forte.

14.12.1913: Forte Coimbra

Magalhães

Às 10h45, continuamos a subir o Rio Paraguai,


montando, às 13h55, a pirâmide de base quadrada
que, a poucos metros da margem direita, assinala os
limites do Brasil com a Bolívia. Às 15h00, paramos
junto ao porto de Coimbra. (MAGALHÃES, 1916)

Rondon

A 14 estávamos em frente do legendário Forte de


Coimbra; o Sr. Roosevelt não o visitou, nem a
famosa Gruta do Inferno, por considerar que o
tempo de que dispunha para estar ausente da sua
Pátria, mal comportaria a realização do programa
anteriormente traçado. (RONDON)
148
Roosevelt

No decurso do dia seguinte o terreno à margem


Oriental se tornara um vasto pantanal escalonado,
aqui e ali, de coroas de terras mais altas, cobertas
de mata. A manhã estava chuvosa, em contraste
com o bom tempo que até então havíamos tido.
Passamos portos de lenha e fazendas de gado. O
proprietário de uma destas, argentino filho de
irlandeses, que ainda falava inglês com o sotaque da
terra nativa de seus pais, observou que era a
primeira vez que o pavilhão americano aparecia no
Alto do Paraguai, pois nossa canhoneira levava-o
hasteado no mastro grande. Tendo, ao começo da
tarde, alcançado o ponto onde ambas as margens do
Rio eram território brasileiro, chegamos ao antigo
Forte Coimbra, da época colonial portuguesa. Está
situado onde dois escarpados morros se erguem, um
de cada lado do Rio (54), e defende a garganta fluvial
que entre eles passa. Foi tomado pelos paraguaios
durante a guerra havida há quase meio século.
Alguns canhões modernos foram aí montados e
existe uma guarnição de tropa brasileira. O Forte
alveja ao alto, na encosta do morro, na qual se
encastoa, e sobe, terrapleno após terrapleno, com
bastião (55), parapeito e muro ameado (56). No sopé
do morro, na planície ribeirinha, estende-se a antiga
vila com suas casas cobertas de folhas de palmeira.
Na vila residem algumas centenas de almas ‒ na
maioria oficiais, soldados e suas famílias. Tem uma
comprida rua. (ROOSEVELT)

54 Local também conhecido como “Fecho dos Morros”.


55 Bastião (baluarte): parte saliente de uma fortificação, normalmente de
forma um pentagonal, com duas faces formando um ângulo saliente
dianteiro, enquanto outras duas, mais curtas, formam flancos
reentrantes, que protegem as obras adjacentes.
56 Ameado: muro que tem a borda superior recortada em forma de
ameias.

149
Para entendermos melhor o contexto que levou
o Capitão-general Caetano Pinto de Miranda Monte-
negro, ao assumir o Governo da Capitania do Mato
Grosso, a nomear como Comandante da Fronteira Sul o
Tenente-Coronel Ricardo Franco vamos reportar o
Capítulo II, da Sexta Parte, do livro “Um Homem do
Dever – Coronel Ricardo Franco de Almeida Serra” do
General Raul Silveira de Mello – o grande memorialista
do Forte Coimbra:

SEXTA PARTE
II CAPÍTULO
Ricardo Franco Encontra Fragílima
A Defesa de Coimbra e da Fronteira Sul

A paliçada construída por Matias Ribeiro da Costa,


em 1775, era uma obra de emergência. Os outros
Comandantes, até 1797, nada mais fizeram do que
retocá-la e melhorá-la, sem nada adiantar quanto ao
seu valor defensivo. A crosta terrosa do sítio em que
fora construída media uns dois palmos de espessura
e assentava diretamente na rocha, de tal sorte que
as estacas, mal firmadas, podiam ser derrubadas
com um murro, como dissera o Major Joaquim José
Ferreira. Certa vez, uma pedra, rolando do morro, de
encontro ao Presídio, derrubou as estacas que achou
pela frente, tal como bola no jogo do boliche. Este
fato inquietou o então Comandante, advertindo-o de
que tal expediente poderia ser usado de surpresa
pelos castelhanos, em plena noite, e até pelos índios,
para estabelecerem a desordem na guarnição.
Ricardo Franco, ao assumir o comando do Presídio
em agosto de 1797, ficou admirado de como essa
frágil posição se tivesse mantido, face às possibili-
dades oferecidas aos índios Guaicurus, senhores da

150
região, ou aos castelhanos de Assunção, aliados dos
Paiaguás, de virem expugná-la e varrerem dali os
portugueses. Foram certamente estes considerandos
(57) e a responsabilidade de que estava investido que
levaram Ricardo a formular o projeto de um Forte
permanente, de alvenaria de pedra, e de propor a
sua construção. Eis como se exprime ele a respeito,
no ofício de 02.09.1797, a que me referi no capítulo
anterior:

Ficam patentes os defeitos que oferece esta


estacada [...]. Mas, quando ainda os não tivesse,
bastaria ser uma débil e estreita estacada de 12
palmos de altura e menos de um de grosso [...].

para que nada de resistência pudesse oferecer à


artilharia do inimigo. A obra, porém, que Ricardo
Franco desejava levantar, em substituição à velha
paliçada, por si só era bastante para aumentar a
confiança e o valor dos homens da guarnição contra
qualquer investida de inimigos. Não se pode acusar
de todo os Capitães-generais de desídia (58) ou
descaso pela falta de atendimento às necessidades
de defesa da Fronteira Sul, reclamadas sem cessar
pelos Comandantes de Coimbra e da Povoação de
Albuquerque.

É sabido, todavia, que Luís de Albuquerque se inte-


ressara, em caráter de preferência, pela construção
do Forte do Príncipe da Beira. Ali empenhara enor-
mes somas de dinheiro, muito embora esse local, na
margem direita do Guaporé, não mais sofresse
contestação dos confrontantes, por estar resguar-
dado pelos Tratados de Limites. Assim, porém, não
acontecia a Coimbra e Albuquerque. Estas se
achavam na margem Oeste do Rio Paraguai, fora das
raias portuguesas.

57 Considerandos: motivos.
58 Desídia: desleixo.
151
Não havia direito líquido sobre elas. A partir de 1777,
as Comissões Demarcadoras deveriam definir, no
terreno, a linha de separação dos territórios das duas
metrópoles. Ora, prescrevendo o Tratado de Limites
que as raias correriam pelo Rio Paraguai, era neces-
sário que houvesse acordo nas demarcações para
que fossem reconhecidas, como portuguesas, as ocu-
pações destes na margem direita do Rio. Todavia, os
comissários de limites, durante longos anos de
negaças (59) e desentendimentos, não conseguiram
arrancar do impasse aqueles importantes casos
controvertidos. Os Capitães-generais, não obstante
sustentarem perante a Corte os direitos subsistentes,
e as razões vitais da manutenção de Coimbra e
Albuquerque, temiam que o Governo Português, por
outros motivos, não menos poderosos, chegasse a
negociar a evacuação daquelas posições e entregá-
las às autoridades castelhanas. Essa ideia não é
gratuita. Ela andou bailando na cabeça dos Gover-
nantes Portugueses. Não fosse a resistência tenaz de
Luís de Albuquerque, talvez ela tivesse vingado, à
custa de compensações de outra ordem de interes-
ses. O Gabinete Português chegou mesmo a prome-
ter à Corte Madrilena, talvez para lograr outras van-
tagens, talvez por despistamento, que abandonaria
aquelas posições.

Fá-lo-ia, no entanto, em duas etapas. Primeira-


mente, evacuaria a região de Albuquerque para que
viesse a servir às ligações fluviais de Chiquitos com
Assunção e o Prata. Posteriormente, mediante novo
acordo quanto ao tempo, destruiria o Presídio de
Coimbra e abandonaria também essa posição. Não
padece dúvida a existência desse entendimento luso-
castelhano. Azara, em suas cartas, faz menção dele
e acusa as autoridades mato-grossenses de não lhe
darem cumprimento.
59 Negaças: enganos, logros.
152
Sincero fosse ou não, o que é fato é que Luís de
Albuquerque e seus sucessores não julgaram
prudente realizar obras permanentes ou dispendiosas
naquela região contestada. Nem a Povoação de
Albuquerque nem Coimbra, até 1790 pelo menos,
tinham consentimento para construírem obras de
alvenaria, na suposição de as terem de abandonar
aos castelhanos. Esta assertiva figura na conversa-
ção entretida por José Antônio Pinto de Figueiredo,
Cmt de Albuquerque, e o piloto Martin Boneo (60), no
encontro que tiveram no Rio Paraguai em setembro
de 1790. Declarou o Sargento-mor português àquele
oficial espanhol, que o povoado de Albuquerque tudo
produzia bem, e, portanto, no sentido de melhorar-
lhe as condições de habitabilidade, propôs construir
ali casas duráveis, de tijolo e telhas. A isso lhe
respondeu o Capitão-general que tratasse tão só de
conservá-lo nas condições em que estava, até que se
realizassem as demarcações, pois poderia acontecer
que esses terrenos passassem à Espanha e tudo o
que ali fizessem ficaria perdido. Coimbra recebera
idêntico aviso, afirmou Pinto de Figueiredo. Boneo
certificou-se que Figueiredo não adiantara uma
informação graciosa, porque, quanto a Coimbra, já
antes lho havia dito o Cmt daquele Presídio:

hay mucha piedra de cal, y se halla buen barro para


teja y ladrillo, que no se hacían por prohibición.

60
Martin Boneo e Inácio de Pasos, em 1790, por ordem do Governador
do Paraguai, Joaquín de Alós y Brú, comandaram uma Expedição que
partiu de Assunção, Paraguai, com a missão de forçar a retirada dos
portugueses do Forte de Nova Coimbra. Os castelhanos foram informa-
dos de que os portugueses tinham se estabelecido, na mesma margem
do Rio Paraguai, na Povoação de Albuquerque. Boneo tentou, então, ir
até lá, no que foi impedido pelo Comandante do Forte de Nova
Coimbra. Boneo tentou, então, subir o Paraguai, sendo impedido, desta
feita, pelo Comandante de Albuquerque. Apesar destes contratempos,
Boneo conseguiu obter e levar, até o Governador do Paraguai, informa-
ções importantes sobre o efetivo e artilhamento das guarnições dos
Fortes portugueses nas regiões por onde passou sua Expedição.
153
Por estes considerandos (61), verifica-se que demora-
ram as providências dos Capitães-generais para
tornar o Presídio de Coimbra uma posição eficiente e
capaz de impor-se definitivamente, a exemplo do
Príncipe da Beira. Seria, neste caso, o melhor e mais
legítimo título do domínio português na margem
Ocidental do Rio Paraguai. A ideia e o interesse de
melhorar as condições defensivas de Coimbra e Albu-
querque só tomaram vulto após a visita de Martin
Boneo àquele Presídio. A esse tempo, não mais ocor-
ria temor algum na Frente (62) do Guaporé. Acon-
teceu então que, excluído o ano de 1775, pela
primeira vez volveu sua atenção para a Frente Sul o
Governo de Vila Bela. Nos primeiros tempos, coman-
daram Coimbra oficiais de milícia, improvisados, ho-
mens dedicados e leais, capazes de todos os sacri-
fícios, mas grosseiros e sem luzes necessárias para
apreciar devidamente uma situação tática e defron-
tar-se com tropas regulares inimigas. Foi, pois, so-
mente a partir de 1790, sob a perspectiva de um
ataque castelhano, que a Expedição Martin Boneo
fizera prever, que o Governo de Vila Bela decidiu
inscrever na ordem de primeira importância os
problemas de segurança da fronteira Sul. O primeiro
Comandante à altura da nova situação enviado para
ali, foi o Major Joaquim José Ferreira, do Real Corpo
de Engenheiros, que ali esteve de 1790 a 1792.
Agravando-se, porém, de novo, em 1797, as
relações entre as metrópoles, decidiu Caetano Pinto
enviar para o Presídio de Coimbra, no comando da
Fronteira Sul, o oficial de maior relevo na Capitania,
que era Ricardo Franco, então Tenente-Coronel. Foi
este grande soldado que impôs, em definitivo, o
domínio português na margem Ocidental do Rio
Paraguai e assegurou defesa e respeito à Fronteira
Sul da Capitania.

61 Considerandos: motivos.
62 Frente: linha de território contínuo sujeita às ações bélicas.
154
Caetano Pinto

Nesse encargo o encontrou o novo Capitão-general


Caetano Pinto de Miranda Montenegro, ao tomar
posse do Governo a 06.11.1796. Naturalmente,
colheria informações referentes ao militar, caso não
lhe bastasse o que porventura já soubesse a respeito
do geógrafo. E como recebesse de Coimbra notícias
alarmantes acerca da Expedição do Coronel José
Espíndola contra os Guaicurus, e, de Lisboa, reco-
mendação para se manter de sobreaviso, em
consequência das inquietações provocadas por
Napoleão, resolveu confiar a Ricardo Franco o
Comando do Forte de Coimbra. E endossou-lhe, com
louvável bom senso, todos os projetos de
fortalecimento dos meios defensivos, apesar da
penúria que o levou a escrever ao Governador de
Goiás a 11.03.1797:

aqui carece de tudo – ouro, gente, armas e muni-


ções, mas a primeira falta é a que se faz mais sensí-
vel, porque sem dinheiro só os índios silvestres é
que sabem atacar e defender-se.
Sabia que fora transferido de Moxos para o Governo
de Assunção D. Lázaro de Ribeira, no tocante a cujas
hostilidades, esclareceu João de Albuquerque:
sujeito que verdadeiramente não faz mistério de
inventar chicanas, e engendrar ideias, para nos
incomodar, tendo até mesmo correspondido mal à
atenção com que foi tratado pelo Comandante e
demais oficiais do Forte do Príncipe da Beira. (Carta
de 30.09.1791).

Além da abnegação do Tenente-Coronel, não poderia


Caetano Pinto, magistrado mal afeito às apreensões
guerreiras, dispor de indispensáveis elementos béli-
cos referidos por ocasião das hostilidades:
155
Eu tinha previsto, desde o ano de 1797, mas, com a
infelicidade de não terem-me enviado ainda nem da
Corte, nem do Pará, nem de São Paulo, nem do Rio
de Janeiro, uma única peça de artilharia, uma única
espingarda, um único artilheiro, um único cartucho
de pólvora, além de outros muitos socorros que
desde aquele ano requeri, ou sou tido e reputado por
Santo, julgando-se que passo fazer milagres ou aliás
sou o pior dos Governadores, pois me expõem a
todos os caprichos da fortuna. (FILHO)

SEXTA PARTE
III CAPÍTULO
INICIATIVA, PROJETO
E CONSTRUÇÃO DO FORTE

Ricardo Franco conhecia a situação e as condições do


velho Presídio. [...] Não ignorava a história da frágil
estacada. Sabia também da vida de penúrias e des-
conforto que levavam os homens daquela guarnição,
visto que participara, em 1796, do Governo de su-
cessão, por morte de João de Albuquerque. Chegan-
do ali a 11.08.1797, em poucos dias de observação,
verificou que nada mais se podia esperar da velha
paliçada. Estava em lugar baixo, sem comanda-
mento, e sujeita a ser surpreendida e escalada pela
retaguarda. O estudo do terreno e do Rio lhe deram
a conhecer:

1° que era de capital necessidade a construção de


um Forte permanente, de boa alvenaria;

2° que a melhor posição para o Forte seria a uns 130


m à esquerda da estacada, a cavaleiro do saliente
do morro. A ponta deste, nesse ponto, avança até
a beira do Rio, a moda de promontório, e nela
estaca bruscamente, formando alterosa barranca,
rochosa e a pique.
156
O lugar era escarpado e de difícil ajustagem a
construções. Todavia, dali se podia enfiar, pela vista
e pelo canhão, longo estirão, de uns 10 km Rio
abaixo, e de onde se ficava em condições de bater os
flancos da posição até muito além do alcance das
armas portáteis. O ponto fraco seria a gola do
reduto, à retaguarda, que olhava a encosta e o pico
do morro. Haveria um recurso: era dar maior vulto à
muralha nessa parte e dispô-la de uma linha de
seteiras e órgãos de flanqueamento, que responde-
riam à possibilidade de assaltos de revés (63) ou da
retaguarda.

O Forte, assim disposto, ligar-se-ia pela vista com o


pico do morro, de uns 100 m de elevação, e a 300 m
de distância, excelente observatório, de onde se
descortinava todo o horizonte. Em longo ofício de
02.09.1797, Ricardo Franco propõe a construção do
Forte, faz minuciosa exposição do projeto e submete
tudo à consideração do Capitão-general. Eis alguns
dizeres desse documento:

Na adjunta folha, vão unidos três diversos planos,


que a escassez do tempo só me permitiu formar um
borrão, todos relativos e anexos ao Presídio de
Coimbra.
O n° 1 é a planta deste Presídio, em que a sua
superfície vai lavada de cor escura, as casas de
amarelo, e a estacada que forma o seu recinto, de
contíguos e pequenos círculos pretos. O Monte pega
com o lado da dita estacada, oposto ao da frente do
Rio vai espanejado de tinta da China (64). Monte que
ficando unido e eminentemente sobranceiro a este
Presídio, lhe serve de inaudito padrasto ( 65).
O n° 2 é a seção do mesmo Presídio no seu maior
comprimento [...]

63 Revés: flanco.
64 Tinta da China: nanquim.
65 Padrasto: que domina o terreno.
157
Continua a descrição do projeto, chamando a
atenção para o desenho, no qual ele marca, com
letras, os sítios e pontos que menciona. A seguir,
relaciona o material de que precisa para as cons-
truções e acrescenta estas sugestões:

[...] no caso que V. Exª queira mandar fazer esta


obra, para animar estes trabalhadores da guarnição
se faz necessário alguma aguardente de cana que
todos os dias se dê a provar aos obreiros. Enfim,
Senhor, eu julgo esta obra indispensável e só a posi-
tiva única e possível segurança deste lugar, que
considero como o mais importante dos Estabeleci-
mentos Portugueses do Paraguai; olhado como a
mais Austral barreira; aos próximos Espanhóis de
Bourbon, de que dista em linha reta vinte e duas
léguas. E a rivalidade destes dois vizinhos e diversos
estabelecimentos exige que eles se respeitem
temam e vigiem reciprocamente; sem que possamos
avançar mais para o Sul, nem eles para Norte,
enquanto existirem Coimbra e Bourbon.
Além do que Coimbra é a chave que guarda e cobre
os Rios Emboteteu, e Taquari, e ainda Paraguai-
mirim; entrando todos no grande Paraguai superior-
mente a este Presídio, e inferiores em igual distância
à Povoação de Albuquerque; a qual não serve de
obstáculo algum que possa impedir aos Espanhóis,
ou seja como inimigos ou sub-reptícia e clandes-
tinamente o penetrar, ver e navegarem pelos dois
nossos privativos Rios Mondego e Taquari e ainda
pelo Furo do Paraguai-mirim.
As ponderadas vantagens só as tem Coimbra que,
sem dúvida, se deve considerar como um passo para
a navegação Espanhola pois, apesar da larga inun-
dação das respectivas campanhas, que lateralmente
formam as extensas margens do Paraguai, estas
alagadas planícies têm suas interpoladas elevações
no terreno que veda o passo, e não dão vão aos
grandes barcos Espanhóis que só pelo álveo do
Paraguai, ou seja no tempo das secas, ou no das
águas podem navegar, passando necessariamente
158
entre o Monte de Coimbra e o que lhe fica na oposta
margem: circunstância atendível, e que mostra
quanto é preferível a segurança deste lugar ao de
Albuquerque; que fortificado como exponho a V. Exª
fica muito mais respeitável, e ainda defendido do
que a dita Povoação.
O ofício a respeito dele que tenho a honra de jun-
tamente dirigir agora, com este relativo a Coimbra, a
respeitável presença de V. Exª evidencia, na combi-
nação de ambos a preferência e atenção que por
todas as faces patenteia e merece este Presídio de
Coimbra.
Eu já quis dar alguns princípios a esta obra que não
deixam de ter alguns defeitos e que só grande des-
pesa e maior Guarnição podem evitar, porém o pro-
jeto exposto é o que os pode remediar da mais
possível forma. Suspendi porém o dar algum prin-
cípio a esta obra temendo nos fizesse ela novidade,
ou servisse de algum pretexto aos Espanhóis.
Mormente por dizer o Cabo Batista, que foi a
Bourbon levar as cartas de V. Exª que o Padre Perico
que ali se acha queria vir até este Presídio a
confessar-se com o nosso Capelão. Por todo o expe-
dido, espero as ordens de V. Exª que determinará o
que lhe parecer mais justo.
Noutro ofício da mesma data, declara que projeta
assentar o Forte na encosta do morro e discute
todos os aspectos da defesa do Rio nesse lugar. A
seguir, em ofício de 7 de setembro, volta a tratar do
projeto do Forte. Diz que o mapa, em borrão, n° 5,
representa o terreno contíguo ao Presídio. Passa a
descrever a situação deste, o morro adjacente, os
canais do Rio, etc.
Descreve o morro fronteiro, diz que é escarpado e
inacessível, de aspérrima escarpa e sem assentos
para opositores, havendo somente acesso praticável
pela parte Norte. O cume é composto de furnas e
saltos, havendo nele de espaço a espaço umas
pequenas e estreitas assentadas que só podem
acomodar pequeno número de ofensores.
159
Imagem 30 – Planta do Novo Forte Coimbra (RFAS)

Trata a seguir dos arredores do morro fronteiro, do


paul (66) que se estende na frente até ao Rio, da Baía
que lhe fica ao Norte, dos baixios em roda e da
bateria que lá devia ser colocada para cruzar fogos
sobre o Rio com os canhões do Forte.
Este mapa, e os do n° 1 e correspondentes ofícios
que faço agora chegar a preclaríssima presença de
V. Exª mostram que, se em lugar desta fraquíssima
Estacada de Coimbra, se fortificasse com competen-
tes muralhas a ponta do morro, neste lugar se pode
contar com um positivo fecho [...]
Ricardo Franco, tendo chegado ao Presídio a
11.08.1778, a 03 de novembro lançou a primeira pe-
dra das muralhas do Forte, como se lê na planta que
ele mesmo desenhou. Esperara até aí a aprovação do
projeto e a palavra do Governador para dar início às
obras. Escolhera aquele dia, por ser o primeiro ani-
versário da chegada de Caetano Pinto à Vila Bela. Em
22 de dezembro, Ricardo Franco inicia a muralha e
enquanto não chegou o mestre pedreiro que V. Exª
remeteu, eu mesmo fui mestre
declara ele ao Capitão-general.
66 Paul: área plana de abundante vegetação que permanece grande parte
do tempo inundada.
160
Em 01.01.1798, Ricardo Franco cai doente e só
convalesce, a 20.02.1798. O impaludismo, de que
era fértil a baixada mato-grossense, assaltava fre-
quentemente o incansável lutador. A 06.03.1798, di-
rige Ricardo Franco longo ofício, 10 folhas de miúda
caligrafia, ao Capitão-general. Começa dizendo que
chegou ali o Cap Pedro Antônio Miers, Comandante
do Forte Bourbon, trazendo-lhe uma carta de D. Lá-
zaro de Ribera, Governador do Paraguai, em respos-
ta a que lhe escrevera a 06.10.1797.
A dita carta de D. Lázaro não deixa de mostrar a há-
bil sutileza deste distinto oficial que, sem falar do
estabelecimento de Mondego, derramou nela expres-
sões vagas e lisonjeiras.
Informa Ricardo Franco que os oficiais espanhóis fo-
ram hospedados no Presídio e, quando saíram, foram
observando, do meio do Rio, a nova Fortificação que
se mostrava na ponta do morro e dava-lhes a ideia
de quanto seria alterosa. Declara, em consequência,
que espera que D. Lázaro mande qualquer dia um
oficial a tratar com ele a respeito [...] da nova
Fortificação. Quando assim acontecer:
[...] faço conta de responder o seguinte: Que duas
forçosas e pungentes razões me obrigam a isso:
1ª que reedificando-se a Estacada que forma o
recinto deste Presídio há sete anos, e achando-se
ela na maior parte arruinada e podre, sem que,
nos largos campos e terrenos que a cercam e por
distância de muitas léguas, haja madeiras pró-
prias para esses consertos, esta dificuldade me
suscitou e pôs na ideia daquela nova obra; e tam-
bém a saúde desta guarnição, porque como a su-
perfície da máxima enchente do Paraguai fica
quase de nível com o solo e pavimento deste
Presídio, sucede que no dito tempo fica [...] como
um receptáculo de víboras, sapos, e outros inse-
tos venenosos além da muita umidade que o
cerca. O que o faz sumamente doentio.

161
2ª e principal razão daquela obra, além da referida,
consiste que, resultando das três últimas
expedições espanholas contra os Guaicurus, que
se tinham acolhido e abrigado nos terrenos que
formam o Rio Mondego, ou Emboteteu, o Domínio
Português, que estes índios segundo a paz que
tinham contraído com os Portugueses, esperando
que nós os coadjuvássemos no seu despique ( 67),
acharam pelo contrário só uma tácita negativa e
repulsa dissuadindo-os dos seus intentos hostis,
coibindo-os e embaraçando-os, e ainda com vio-
lência, motivo por que veio a maior parte deles a
mostrar manifesto alvoroto (68) derramando-se
entre todos o conceito de que os Portugueses os
queriam entregar à vingança dos Espanhóis.
Conceito, segundo eles constantemente contam,
lhes é ministrado pelos Guaicurus, do Capitão-
general Montenegro, que vive próximo a Bourbon,
com paz e aliança com eles, Espanhóis. Com que
fez que alguns se retirassem mais para o interior
do país e que outros, em magotes (69), dessem
sinais da sua costumada cantiga pérfida,
chegando a ameaçar-nos e a virem algumas e
imprevistas vezes arrostar este Presídio, e só a
grande vigilância, que houve com reforçadas e
armadas patrulhas faria talvez ver, ineficazes os
seus denegridos e bárbaros projetos, e que à
vista de todo o referido, vendo-me dentro de uma
Estacada podre, [...]
índios por vezes, para entrarem, arrancarem
alguns paus, tudo me obrigou a urgentíssima
precisão da segurança deste Presídio, e da sua
diminuta Guarnição, construindo na ponta do
morro conjunta a ele um muro de pedra e barro
para formar um recinto que lhes fosse menos
acessível, e não pudessem queimá-lo, e arrancar-
lhe alguns paus.

67 Despique: na sua vingança.


68 Alvoroto: alvoroço.
69 Magotes: bandos.

162
Assim, Ilm° e Exm° Senhor lanço sobre eles,
espanhóis, a causa desta nova Fortificação, e espero
talvez até o fim de maio o dito protesto, e se a V.
Exª lhe parecer, que esta minha resposta não é coe-
rente, nem correlativa ao estado político e críticas
circunstâncias, em que se acha esta Fronteira me
faça V. Exª especial graça em insinuar-me o que
devo dizer, pois tenho amor próprio, como a minha
reputação, inda que afigure para com estes Espa-
nhóis com luzes alheias, muito Superiores a minha
fraca instrução.
Em ofício de 02.10.1798, Ricardo Franco informa ao
Governador:
A obra deste Forte estaria mais adiantada a não ser
falta de trabalhadores próprios, tendo já assentado o
portão principal, e dado princípio ao parapeito, que
deve ultimar toda a Tenalha (70) que olha para Poen-
te e domina pelo alto do vizinho Monte: já está res-
peitável; e se ao concluir-se será a necessária e in-
dispensável segurança da guarnição deste Presídio;
que encurralada na antiga e fraquíssima estacada
corre evidente perigo, pois duas horas não poderiam
estas delgadas estacas resistir a um ataque vigoroso
de duas peças de maior alcance do que a de curtís-
simo porte deste Presídio, ao mesmo passo que no
novo Forte; inda ao alcance de mosquete, enquanto
se não abatessem as muralhas só por um lado
acessíveis se podia ofender e resistir muito.
Continua dizendo que, quando os espanhóis vierem
ao presídio, dir-lhes-á que tais obras são feitas por
causa dos Guaicurus, com o fim de impedir-lhes as
correrias que fazem para cometer roubos e traições.
Ricardo Franco, não obstante a carência de operá-
rios, trabalhava ativamente na construção do Forte,
pois sabia que os castelhanos de Assunção, alarma-
dos do que se passava em Coimbra e Miranda, con-
certavam medidas para precaver-se delas ou contra-
70 Tenalha: pequena obra de duas faces de uma Fortaleza que forma um
ângulo reentrante para o lado do campo.
163
arrestá-las (71). Denota Ricardo Franco certa apreen-
são, ao informar ao Capitão-general, em ofício de
22.12.1798, da estada de Lázaro de Ribera no Forte
de Concepción, ao Norte do Ipané, consoante aviso
que lhe trouxeram índios daquelas proximidades.
Com o ofício de 05.08.1799, Ricardo Franco envia ao
Capitão-general os mapas de efetivos das três
guarnições e da população da fronteira. Anexa ainda
os seguintes dizeres a respeito das obras e da
importância militar do Forte e dos recursos que ele
precisa armazenar para torná-lo inexpugnável:
As obras deste novo Forte de Coimbra, nos passados
seis meses, apenas se trabalhou nelas pouco mais
de três, pelas friagens chuvosas que ouve, e pela
falta de gente pois quando estão fora deste Presídio,
duas condutas ficamos na inação, contudo, a
muralha que forma seu recinto, está quase fechada,
faltando só uma Face Flanco, e parte dessa cortina,
tudo de extensão de quinze braças ( 72), pouco dos
parapeitos do resto da mais obra, a qual,
acomodando e eu atendendo à desigualdade deste
monstruoso terreno, tem alguma diferença de
configuração da planta que já remeti a V. Exª pelo
que devo fazer outra, como na realidade ficar esta
Praça, quando se concluir. Esta obra é maior e mais
forte do que se pensa, faltando-lhe só sua mais
grossa Artilharia, e mantimento dobrado para seis
meses: para se fazer respeitável a qualquer
atentado dos nossos vizinhos.
Quanto ao ano de 1800, a única notícia que encon-
trei sobre as obras do Forte é a que consigna RFAS
ao Capitão-general em ofício de 31 de maio, pelo
qual se vem a conhecer que as construções prosse-
guiam com as dificuldades tais e tais, que enumera,
faltando ainda 40 palmos de muralha, sem falar tal-
vez as da gola, à retaguarda, como se verá a seguir.

71 Contra-arrestá-las: contra-atacá-las.
72 15 Braças = 33 m.
164
Em 1801, ano do ataque de Lázaro de Ribera, parece
quase nada se fez. Nenhuma informação encontrei a
esse respeito no Arquivo Histórico de Cuiabá. Levan-
do em conta que Ricardo Franco trabalhava sempre
com reduzido pessoal obreiro e, às vezes, fazendo
ele mesmo o ofício de pedreiro e carpinteiro e, além
de lutar com a falta de ferramentas e ferragens, de
subsistência, etc., a progressão das obras teria sido
lenta e penosa. Dá-nos ideia dessas dificuldades e da
assombrosa dedicação e atividade do grande soldado
este tópico do ofício de 27.02.1802 de Caetano Pinto
ao Ministro do Reino:

O Tenente-Coronel Ricardo Franco foi quem me


propôs esta obra, foi o primeiro que conheceu a sua
necessidade, e o que tem continuado até o ponto em
que se acha, com a mesma guarnição, e quase sem
despesa da Real Fazenda, servindo ele de Arquiteto,
de Feitor, de Mestre Pedreiro e Carpinteiro.
O melhor depoimento, porém, quanto à iniciativa das
obras, a carência de meios e esforços para sua
realização, é o que nos dá, anos depois, um colega,
colaborador e sucessor de Ricardo Franco no
Comando do Forte:

[...] logo que foi comandada [a fronteira] pelo


Tenente-Coronel Ricardo Franco, que conheceu a
inutilidade daquela estacada incapaz de defesa, e
toda dominada pela montanha contígua, propôs ao
sexto General, Caetano Pinto de Miranda Montene-
gro, o projeto de novo Forte na extremidade da
mesma montanha, que abeira o Rio; porém não per-
mitindo o estado já decadente da Província, empre-
ender esta obra, se resolveu o próprio Comandante
fazer o que pudesse com a sua mesma guarnição, e
sem despesa da Real Fazenda, mais que em algumas
ferramentas, e um pouco de pano de algodão já
servido em sacos que conduz do Cuiabá os manti-
mentos para os soldados fazerem camisas e calças,
que consumiam no penoso serviço da pedra e barro
165
de que a obra carecia, animando-os igualmente com
alguma aguardente e fumo de sua própria algibeira
(73), sendo mais notável a arte que teve em criar
pedreiros e carpinteiros de pessoas que não pos-
suíam tais ofícios. Quanto pode a industriosa neces-
sidade! [...] Esta obra foi começada em novembro
de 1797, entrando na sua construção pedra e barro,
únicos materiais que o local oferecia; e pelo acima
exposto se conhece quanto devia ser lento o seu
andamento, de maneira que em 1801 ainda restava
a fechar parte do recinto, faltando a cortina da
tenalha da montanha, e sem que houvesse cômodo
ou habitação alguma no seu recinto. Neste estado se
achava o novo Forte, quando os espanhóis em se-
tembro do mesmo ano, empreenderam surpreender
o Presídio, pois ainda se ignorava o rompimento
entre as duas nações; porém, sendo o Comandante
Ricardo avisado pelos Guaicurus dos preparativos de
guerra que os espanhóis faziam, imediatamente
abandonou a estacada, passando-se com a guar-
nição, e o diminuto número de petrechos, para o
incompleto recinto: esta resolução transtornou
completamente os planos do General espanhol D.
Lázaro de Ribera, que esperava encontrá-los dentro
da estacada, segundo as informações que ele havia
obtido pelo Frade Espinoza, que dois meses antes
tinha estado de visita em Coimbra, para onde tinha
sido enviado como espião, a fim de reconhecer o
estado do Forte, a força da guarnição, e se ela
existia (74) na estacada.
Por este fidedigno testemunho, de quem conviveu e
trabalhou com Ricardo Franco na construção do
Forte, se vem a saber que, nem mesmo em setem-
bro de 1801, se achava completa a ossatura externa
do Forte. Faltava-lhe a gola ou cortina à retaguarda,
que seria, nesse tempo, como foi em 1864, o ponto
preferido para o assalto. Quanto ao recinto, nada
havia nele, nem uma só coberta; nem se havia co-
73 Sua própria algibeira: seu próprio bolso.
74 Se ela existia: se encontrava.

166
meçado a desobstrução da rocha para as construções
internas. A guarnição alojava-se ainda no velho Pre-
sídio. Foi nos dias 14 e 15 e na manhã de
16.09.1801 que Ricardo Franco, ao saber da aproxi-
mação da frota castelhana, mudou, às pressas, o
armamento, o material prestante e o pessoal para o
interior do Forte. Homens e material, tudo ficou ali
ao relento. É o que nos diz o valoroso soldado em
sua parte de combate de 1° de outubro:

esteve toda esta guarnição, nos nove dias de


ataque, no maior incômodo, e no meio do terreno,
sem casa, sem abrigo...
Incômodos esses agravados

por causa de um grande vento Norte e não menor


tempestade que houve nos dias 23 e 24.
Essas eram as condições materiais do Forte ao ser
atacado por Lázaro de Ribera a 16.09.1801. Veremos
depois que não menos desfavoráveis – irrisórias até
‒ eram as condições da artilharia, da munição de
guerra e de boca e do efetivo da guarnição; apenas
sobrava intrepidez no destemido Cmt e nos poucos
homens que lhe foram fiéis. Da análise do desenho
do Forte tiram-se as seguintes conclusões: é um po-
lígono irregular, atenalhado e redentado (75) na fren-
te e à esquerda, e abaluartado (76) à direita e à
retaguarda. Um pronunciado saliente, como ponta de
lança, justapõe os dois baluartes morro acima. Os
redentes beiravam o Rio e as rampas rochosas de
onde não se podia esperar assalto. Os baluartes,
pelo contrário, olhavam as encostas do morro, únicas
direções vulneráveis a investidas e assaltos inimigos.

75 Redente: é uma obra de fortificação com duas faces, sem flancos,


projetada da linha da murada formando um ângulo saliente voltado
para o lado de um possível ataque.
76 Baluarte: construção situada nas esquinas e avançada em relação à
estrutura principal de uma fortificação.
167
O desenho faz ver um fosso na frente abaluartada.
Todavia, esse fosso não chegou a ser construído.
Seria difícil cavá-lo na rocha viva, e, em Coimbra não
ficou vestígio algum de que ele fosse realizado. Para
supri-lo, nessa frente ao menos, as muralhas teriam
sido mais altas, variando de 3,30 e 5,50 m de altura.
[...] diz Ricardo Franco em sua Memória [...]:

Tem as suas muralhas dez palmos ( 77) de grosso, e


de quinze (59) até vinte cinco palmos (59) de alto,
sobre desigual terreno e áspera subida; pelos dois
lados edificados sobre o angulo reto que este monte
faz no Paraguai, e uma rocha cortada a prumo, e
pelos outros dois mais praticáveis, cercado por um
escavado recinto de áspera penedia, na áspera
escarpa e descida deste íngreme monte [...].
Em tais condições de local e de penúria de recursos,
fez o construtor o que pôde. Adaptou a obra, tática e
arquitetonicamente, ao terreno. Objeta-se que o
recinto se apresentava, à maneira de um alvo, às
vistas do inimigo e aos tiros diretos do canhão.
Grave foi esse defeito, inclusive na forma atual do
Forte. [...]

Os atiradores, nas seteiras do baluarte posterior,


ficavam expostos, pelas costas, aos disparos diretos
partidos do Rio ou do morro fronteiro. Para corrigir
esses defeitos seria necessário fossem construídos
no interior do Forte três planos ou pavimentos provi-
dos de anteparos murados, não só para desenfia-
mento e proteção das comunicações internas, como
para cobrirem as barbetas (78) e banquetas (79)
escalonadas em altura. [...]

77 Dez palmos: 2,2 m; Quinze: 3,3 m; Vinte cinco palmos: 5,5 m.


78 Barbeta ou barbete: é uma plataforma de uma fortificação onde estão
instaladas bocas de fogo que disparam por cima do parapeito.
79 Banquetas: degrau ao longo da parte interna das muralhas, sobre o
qual os combatentes atiram contra o inimigo, devidamente protegidos.
168
Pelo estado atual do Forte, todavia, pode concluir-se
que o recinto fora disposto, da frente para a reta-
guarda, em três pavimentos, ficando os alojamentos
do pessoal e a administração no primeiro plano à
frente, e, ainda assim, visíveis aos que passavam no
Rio. Os outros dois pavimentos, de 2ª e 3ª ordem,
estariam protegidos por anteparos de alvenaria,
atrás dos quais haveria barbetas e pátios. Numa
depressão do segundo plano, à esquerda, vê-se o
lugar para o paiol de pólvora a prova de bomba. O
portão principal dava para a direita, onde ficaria a
ponte sobre o fosso, se este tivesse existido. Outro
portão secundário, ao centro da face esquerda,
permitia saída para esse lado. Não há indicação de
saída pela gola (80) do Forte, à retaguarda. [...]

Registro de Ordens do Forte

Tendo em 22 ou 24.08.1801, alguns índios Guaicurus


participado, que os Espanhóis vinham em marcha
para atacar esta fronteira, fiz os avisos necessários
para a Capital, e pedi socorro de gente e mantimento
a Cuiabá.

Em 29.08.1801, mandei alguns Guaicurus de con-


fiança até Bourbon para verificar esta notícia, e
tardando estes índios mais do que deviam, mandei
no dia 12.09.1801, o Cabo Antônio Baptista em duas
canoas, e mais três dragões, até os índios Cadiéus,
vizinhos de Bourbon, a ver se davam alguma notícia
dos outros, ou da guerra que nos tinham anunciado.

Pelas 03h00 desse dia 12 para o dia 13.09.1801,


defronte da Boca da Baía Negra, indo as ditas canoas
em descuido, navegando pela força da corrente
[como de costume de noite], viram as embarcações
espanholas, ancoradas; foram logo cercados por
80 Gola: espaço compreendido entre as extremidades dos lados de um
ângulo saliente, nas fortificações.
169
vinte pequenas canoas espanholas, gritando “entrega
Portugueses” e que os pôs em algum embaraço, por
irem em descuido. O dragão Manoel Correa de Mello
deu seis tiros nas ditas canoinhas, que as pôs em
desordem, causando-lhes algumas mortes; e as
nossas se retiraram. No dia 14.09.1801, chegaram a
Coimbra com esta notícia, nesse dia, e no dia
15.09.1801, nos mudamos para o Forte, onde não
havia ainda casa alguma, e no Armazém apenas
meio saco de farinha, um saco de arroz, e coisa de 5
libras (81) de toucinho.

SEXTA PARTE
IV CAPÍTULO
Fundação do Presídio de Miranda e mais
Providências de Ricardo Franco na Fronteira Sul

Em ofício de 09.11.1802, Ricardo Franco esclarece:

Em 16 de setembro de 1801, dia da chegada dos


espanhóis, mal eles dobraram a ponta da Ilha (82) e
se expuseram em franquia [...]. Está bem claro que
a frota castelhana, assim que ultrapassou a ponta
Norte da Ilha do Coração, tomou o dispositivo de
combate e abriu fogo contra o Forte. Quanto, porém,
a quem coube a iniciativa do rompimento do fogo,
subsistia até hoje divergência entre as duas partes
de combate e a intimação de Lázaro de Ribera. Este
alega que teve “el honor de contestar el fuego de ese
Fuerte”, e Ricardo Franco, pelo contrário, faz
entender, numa e noutra parte, que a frota
castelhana, vencida a ponta Norte da Ilha, pôs-se em
franquia e abriu fogo. Estava eu na firme suposição,
pouco antes, de que a abertura de fogo partira da
frota castelhana e não de Ricardo Franco.

81 5 libras: 2,26 quilos.


82 Ilha: Ilha do Coração.
170
E entendi ainda que o dizer de Lázaro de Ribera
“contestar el fuego” ‒ não significava uma réplica,
mas um jogo de palavras, de que ele era fértil, para
descartar-se da responsabilidade do rompimento
sem prévio sinal, pois que, no ataque paraguaio de
1864, Barrios só desencadeou o canhoneio após a
troca de mensagens. Tal suposição, porém, se des-
vaneceu de todo quando deparei, por último, um
apógrafo (83) da Biblioteca Nacional, em que se con-
tém o relato principal (84) de Ricardo Franco sobre o
ataque. Nesse documento, o grande soldado põe em
evidência que os primeiros disparos não partiram da
frota castelhana, mas dos canhões do Forte.

Registro de Ordens do Forte (R.F.A.S.)

No dia 16.09.1801, a favor de um vento Sul, se


viram vir remontando o Paraguai três grandes
sumacas espanholas, um grande barco, e vinte e
tantas canoas pequenas; e pelas 4 horas da tarde
desse dia, tendo entrado pelo canal d’além da Ilha, e
vencida a sua ponta de cima, iam navegando o
Paraguai, pelo lado oposto a este Forte. Mandei-lhe
fazer um tiro com a maior peça que tinha, de calibre
1, e levantar a bandeira, e continuando a navegação
lhe mandei fazer segundo; então içou o inimigo a
bandeira, e logo uma sumaca, e depois outras duas
fizeram fogo aturado até as Ave Marias (85). (MELLO)

Continuando com o escritor Virgílio Correia Filho:

No dia 17.09.1801, por volta das oito horas da


manhã, depois de içarem a bandeira branca, o
Tenente D. José Theodoro Fernandes entregou uma
carta a Ricardo Franco com o seguinte teor:

83 Um apógrafo: uma cópia.


84 Relato principal: Ordens.
85 Ave Marias: 18h00.
171
Ayer a la tarde, tuve el honor de contestar el fuego
que V. S. me hizo; y habiendo reconocido en
aquellas circunstancias que las fuerzas con que voy
inmediatamente atacar ese Fuerte son muy
superiores a las de V. S., no puedo menos de
vaticinarle el último infortunio; pero, como los
vasallos de S. M. Católica saben respetar las leyes
de la humanidad, aun en medio de la misma guerra,
requiero, por tanto, a V. S. se rinda prontamente a
las armas del Rey mi Amo pues de lo contrario el
cañón y la espada decidirán la suerte de Coímbra,
sufriendo su desgraciada guarnición todas las
extremidades de la guerra, de cuyos estragos se
verá libre si V. S. conviene con mi propuesta,
contestándome categóricamente en el término de
una hora. A bordo de la sumaca Nuestra Señora del
Carmen, 17.09.1801.
Sor Comandante del Fuerte de Coímbra.
De V. S. su atento y reverente servidor – Lázaro de
Ribera.
Não necessitaria Ricardo Franco do prazo marcado
para a resposta. Pesando bem as palavras e as
consequências, retruca em termos incisivos.

Ilm° e Exm° Sr.


Tenho a honra de responder categoricamente a V.
Exª que a desigualdade de forças sempre foi um
estímulo que muito animou os portugueses, por isso
mesmo, a não desampararem os seus postos e
defendê-los, até as suas extremidades, ou de repelir
o inimigo ou sepultar-se debaixo das ruínas dos
Fortes que se lhes confiaram: nesta resolução se
acham todos os defensores deste presídio ( 86), que
têm a honra de ver em frente a excelsa pessoa de V.
Exª a quem Deus guarde muitos anos.
Coimbra, 17.09.1801.
Ricardo Franco de Almeida Serra.

86 Presídio: Praça de guerra.


172
Não tinha, na frase, a fanfarronice do agressor, nem
os recursos bélicos de que este se achava munido,
mas sabia cumprir heroicamente o seu dever.
(FILHO)

Voltando com o memorialista do Forte Coimbra –


General Raul Silveira de Mello:

No dia 17.09.1801, pelas 20h00, saíram seis canoas


espanholas rio acima, e dobrada a ponta do estirão,
fizeram fogo de mosquete em que deram 60 tiros
contra canoas que se supôs seriam alguns
desertores.

Em 18.09.1801, pelo meio-dia, desaferrando do


ponto onde estavam, avançaram a reboque até mais
da metade do Rio, e postas as três sumacas em
batalha, fizeram um fogo terrível sobre a Praça por
mais de três horas; e vendo que a nossa artilharia,
pelo seu pequeno calibre e curto alcance não os
ofendia, vieram a reboque, encostando-se à margem
do Poente do Rio, e descendo até emboscarem pelo
campo, que estava alagado, pouco acima da Boca
chamada Barrinha, a primeira e segunda já estavam
ancoradas, os inimigos todos fardados, e armados de
espada e armas, e gente embarcada nas canoas pe-
quenas para desembarque, quando, fazendo-se fogo
de mosquete sobre as duas primeiras que avança-
ram, em uma caíram 5 homens ao Rio, na outra 2
fazendo-se igualmente fogo sobre as mesmas suma-
cas, que deixou a gente exposta por um movimento
de leme mal executado, com o que se retiraram para
o meio do Rio. Esta ação durou 4 horas, e de noite
se foram ancorar no pouso da noite antecedente.

Dia 19.09.1801, desde as 24h00 do dia antecedente


até a tarde deste dia, nos fizeram um fogo constante
e vago das 3 sumacas, e findo eles levantaram ferros
e desceram o Rio pelo Canal de lá da Ilha que sal-
173
taram, e vieram a fundear no Canal de cá, de frente
da Horta do Paratudo, de onde continuaram o fogo.

Dia 20.09.1801 continuaram o mesmo fogo.

No dia 21.09.1801 continuaram o mesmo fogo con-


tra o portão, saltaram alguns em terra, apesar de
estar ainda cheia de lodo, e alguma água da cheia, e
principiaram a colher cebolas e couves da horta, e
depois a laçar porcos e gado que ali encontraram;
nesta diligência os colheu de emboscada o Anspe-
çada (87) de pedestres Joaquim de Souza Buenavi-
des, com 10 pessoas armadas, que deram 10 tiros
com os quais ficou um Espanhol morto no lugar, dois
mortalmente feridos, que os Castelhanos conduziram
às costas, e outros três bem feridos, que foram
conduzidos e arrastados pelos braços dos outros.

Em 22.09.1801, fizeram um ativo fogo, advertindo


que as peças eram de calibre 8, 6, 4, e 3, e uma
sumaca se veio postar na ponta da Ilha, sobre a qual
fizemos fogo com a peça de um, suposto que por
elevação, porém ativo; ela quis se retirar, o General
a mandou ficar no seu posto, começou a fazer água,
e querendo passar duas canoas da ponta da Ilha
para adiante, com o fogo de mosquete, que se lhe
fez, se retiraram. Não se continuando o fogo sobre
aquela próxima sumaca, por haverem apenas 23
balas do dito calibre 1, que se guardaram enquanto
se não fizeram outras de chumbo, para alguma
ocasião em que as ditas sumacas estivessem mais
próximas, ou para algum desembarque.

No dia 23.09.1801, não houve fogo, ocuparam-se no


conserto da sumaca, e em aterrar o terreno para a
descarregarem.

87 Anspeçada: nome que se dava antigamente ao posto militar acima de


Soldado e subordinado ao Cabo.
174
Em 24.09.1801, finalmente postas as três sumacas
em linha atravessando o Rio, e muito próximo do
Forte, principiaram pelas três horas da tarde, uma
depois das outras, um terrível fogo na frente do
portão em que deram 100 tiros até as Ave-Marias,
uma sumaca foi postar-se na ponta da Ilha, e as
outras duas à margem fronteira a ela, e pelas 20h00,
com o grande escuro que fazia, desceram o Rio,
foram pousar no lugar do Rebojo, e se retiraram.
[...]. (MELLO)
As autoridades, tão logo chegou o pedido de
socorro do Tenente-Coronel Ricardo Franco, buscaram,
imediatamente, tomar as urgentes e devidas providên-
cias.
O Capitão-general Caetano Pinto de Miranda
Montenegro determinou ao Mestre de Campo José
Peres Falcão das Neves, que selecionasse Oficiais e
Praças que deveriam acompanhá-lo em socorro da
fronteira, e ao Juiz de Fora Joaquim Ignácio da Silveira
Motta que providenciasse gêneros e munições para a
Expedição.
Estas medidas estavam em andamento quando
chegou, a 16.09.1801, a notícia de que o Forte fora
atacado por três embarcações espanholas. Relata-nos o
General Raul Silveira de Mello:
Registro de Ordens do Forte (R.F.A.S.)
Sobre os socorros pedidos, o Ten Francisco Rodri-
gues, Comandante de Miranda, com 5 canoas com
mantimento e 54 pessoas, chegou no dia 02.10.1801
ao lugar do Piúva e de Vila Bela, em 13.11.1801,
chegou o Cap de Milícias Francisco José Freitas, e o
Quartel Mestre José de Brito Freire, o Cb de Dragões
Antonio Pinto da Fonseca e o Anspeçada Paulo Pires
do Amaral, conduzindo 2 peças de bronze de calibres
3, e alguns petrechos.
175
Imagem 31 – Forte Coimbra (Bossi)

O socorro pedido a Cuiabá, com 3 meses de demora


e conduzido pelo Ten-Cel Cândido Xavier de Almeida
e Souza, chegou no dia 23.11.1801, chegando
apenas a Coimbra, dos 300 homens que vinham de
reforços, 100 milicianos, além de 50 remeiros de que
se compôs a dita Expedição. (MELLO)
Encerrando com Virgílio Correia Filho:
O Tratado de Paz de Badajós, 06.06.1801, certamen-
te homologaria a conquista, como sucedeu no Rio
Grande do Sul, em relação aos Sete Povos das Mis-
sões. Tal não aconteceu, todavia, mercê da presença
do intrépido paladino e de sua atuação militar,
enaltecida pelo Capitão-general a Rodrigo de Souza
Coutinho.
Escudado em sua própria construção, resistiu
bravamente ao inimigo, apesar de dispor apenas de
37 dragões, 12 pedestres, 60 paisanos, vinte dos
quais eram “Henriques Velhos” (88), que rechaçaram
a fúria de mais de 600 atacantes. (FILHO)

88 Henriques: dois regimentos havia em Pernambuco em que soldados e


oficiais todos deviam ser pretos, chamavam-se um dos velhos e outro
dos novos Henriques. Brancas eram as fardas com vivos escarlates, o
aspecto militar e de impor a disciplina em nada inferior à dos outros
regimentos. Nem soldados nem oficiais recebiam soldo, satisfeitos com
a honra do serviço, e dava este sentimento seguro penhor da sua
fidelidade. (SOUTHEY, Volume VI)
176
A atitude heroica do Cel Ricardo Franco de
Almeida Serra foi uma valiosa contribuição ao espírito
valente e soberano do povo brasileiro. Nada mais justo
então que hoje, três de agosto, seus discípulos,
integrantes do Quadro de Engenheiros Militares,
rendam merecida homenagem ao seu ilustre Patrono.
Canção do Quadro de Engenheiros Militares
(Cel QEM Gilberto Gonçalves de Lima)
Para frente, Engenheiros Militares!
Trabalhemos, com toda a união
E a pureza dos tempos escolares,
No fiel cumprimento da missão,
Sempre avante, Engenheiros sem abandono,
Da coragem na defesa
De nossa terra
Inspirado no exemplo do teu Patrono:
Cel Ricardo Franco de Almeida Serra!
Combatentes da tecnologia
Pela Pátria devemos nos impor;
Conjugando saber e valentia,
Nós do QEM: lutaremos sem temor!
Sempre avante, Engenheiros sem abandono,
Da coragem na defesa
De nossa terra
Inspirado no exemplo do teu Patrono:
Cel Ricardo Franco de Almeida Serra!
Certamente, o nobre Engenheiro
Tem no peito a fibra varonil.
É vibrante, veraz e, altaneiro,
Segue honrado, de pé pelo Brasil!
Dos projetos maiores à história
Vem provar a dedicação inteira
De Engenheiros que doam vida e glória
À Força Terrestre brasileira.
177
Forte Coimbra
Anchieta, Aspilcueta (89) e Nóbrega ressurgem unificados
nessa personalidade incomparável, única, abençoada, nesse
homem que tão alto eleva a nossa raça, a nossa
nacionalidade, desmentindo, pelo exemplo, por atos e
palavras, o pessimismo ultramontano dos que descreem de
nossos destinos... Rondon, ao lado das tarefas de técnico,
desdobra, maravilhosamente, as energias de um Santo. E de
tribo em tribo, de taba em taba, de maloca em maloca, vai
esse homem admirável surgindo, de olhos brilhantes e
sorriso nos lábios, estendendo ao silvícola, sobre a
palma da mão leal, sementes de fraternidade, germes de
progresso, de paz, de harmonia e confiança.
(Álvaro Sá de Castro Menezes)

08.08.2017: Forte Coimbra

À tarde o Cmt da 3° Cia Fron, Cap Glauco Viana


Coitinho, guiou-nos até Gruta Ricardo Franco (90), an-
teriormente batizada pelo próprio Ricardo Franco de
“Gruta do Inferno”. O Cap Glauco foi um cicerone à al-
tura discorrendo com desenvoltura sobre as caracterís-
ticas e histórico do local. A estreita entrada da gruta dá
acesso, através de um terreno íngreme, a uma peque-
na galeria inicial.

A luminosidade natural vai esmaecendo à medi-


da que se penetra na caverna e seria difícil continuar a
progressão sem o auxílio da iluminação elétrica ali ins-
talada. Mais adiante, adentramos em um amplo salão,
onde se destacam um lago de águas límpidas, um teto
deslumbrante do qual pendem formosas estalactites e
um solo fértil de onde brotam belas estalagmites.

89 Padre João de Aspilcueta.


90 Gruta Ricardo Franco: 19°53’15,2” S / 57°47’32,1” O.
178
Alguns destes conjuntos formam sólidas e
torneadas colunas. Do grande salão partem túneis e
corredores que conduzem a outras galerias menores.
Relatos Pretéritos: Gruta do Inferno

Capitão Ricardo Franco de A. Serra (1786)


GRUTA DO INFERNO
Diário da Diligência do Reconhecimento do
Paraguai desde o Lugar do Marco da Boca do
Jauru até Abaixo do Presídio de Nova
Coimbra... – Ano de 1786

09.07.1786: [...] logo fomos vendo os montes de


Coimbra, a que chegamos no dia 09 de manhã, com
16 léguas de caminho total desde o morrete de Albu-
querque. O morro de Coimbra está situado na mar-
gem Ocidental do Rio Paraguai, e na margem oposta
há outro pouco menor; ambos abeiram no Rio; o que
faz chamar, a este estreito passo, fecho dos morros;
ambos estão cercados de campos que se alagam nas
cheias; o 1° se navega à roda dele em 70 min, e o
2°, que é menor, e do lado de nascente, em 50.

10.07.1786: Em 10, circundando em canoa este


monte, o configuramos: tem meia légua de compri-
mento de Norte a Sul, a sua grossura maior, que é
no meio dele, tem um terço desta distância. A ponta
de Norte é baixa, e junto dela há uma pequeníssima
lagoa, pouco afastada do Rio, donde nasce um furo
que torneando este monte, pelo Oeste, vai sair, for-
mando grande baía, 3 léguas abaixo no Paraguai. Na
dita ponta fomos ver uma caverna curiosa que ali há;
45 passos andamos em terreno plano pelo mato do
pé do monte, e 145 mais subindo a sua escarpa, que
não é muito íngreme, até darmos em dois buracos
retangulares, feitos na penha (91) viva.
91 Penha: rocha.

179
Dependurados por uma destas quebradas, e caindo
de pedra em pedra, descemos coisa de duas braças
até cairmos em uma abóbada subterrânea de 50
palmos do comprido, e 25 de largo; o seu teto ótima
só pedra quebrada com os buracos por que
entramos, e por que lhe entra a luz. Desta abobada
pendem muitas pirâmides agudíssimas de pedras
chamadas Estalactites, formadas por antiquíssimas
lapidificações (92); algumas são da grossura, na sua
base, de um homem, e da sua altura, e outras
menores; o chão está coberto de sólidos penedos o
de outros sólidos da matéria das mesmas pirâmides,
superabundância da sua formação.

A dita abóbada para parte de Sul vai caindo em 45


graus, para o centro deste monte, e formando com o
pavimento que para a mesma parte igualmente
desce, uma profundidade ou espaço aéreo cheio de
mil penedos, cujo fundo se perde na escuridade (93);
a largura deste espaço em cima é de uma braça, e
em baixo parecia de 3 palmos; enfim uma pedra que
lançamos gastou 5 segundos em tempo de chegar lá
até o fundo. A ponta de Sul deste monte, que é a
única parte dele que abeira no Rio, terá 200 braças
de largura; no meio desta distância está o Presídio
de Nova Coimbra, erigido em 1775. Consiste em
uma estacada retangular e flanqueada em recíproca
defesa; o lado maior que olha para o Rio tem 45
braças, e o menor 16; na parte de Leste desta ponta,
e 64 braças distante do Presídio, há uma mina das
pedras denominadas Dondrites; isto é, uma espécie
de lajeados arroxeados, em que se vê esculpidas
com curiosa delicadeza as mais perfeitas e miudís-
simas ramificações de cor negra; de tal forma que
dividindo-se cada uma destas pedras em delgadas
laminas, em todas elas se vê o mesmo.
92 Lapidificações: petrificações.
93 Escuridade: escuridão.

180
A outra extremidade defronte desta ponta, que dista
pouco mais do Presídio, é funestamente célebre pela
mortandade de quase 60 Portugueses, do dito Presí-
dio, que aleivosamente despedaçaram, há poucos
anos, os Gentios Cavaleiros com título de paz. Ao
cume deste monte subimos, onde há uma guarita
que vigia e descobre muitas léguas à roda; dele só
vimos para qualquer parte, uma extensa e geral
alagação que cobria os vastos campos gerais, que
vêm desde a boca do Paraguai Mirim, cortando o
Paraguai Grande por entre eles, alagação a que se
não via fim. A situação geográfica de Coimbra é na
Latitude austral de 19°55’, e na Longitude de
320°01’45”; a agulha varia 10° de Norte para Leste;
a cheia apenas tinha descido um palmo da sua
máxima altura. (RIHGB – XX, 1857)

Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira (1791)

GRUTA DO INFERNO

04.04.1791: A mesma Gruta do Inferno [que assim


ouvi chamar a quem a descreveu, o Sargento-mor
Ricardo Franco] é outra armadilha, de que creio que
até o presente não tem lançado mão o gentio, por
não ter dado fé dela. Para examiná-la, a cumprir as
soberanas ordens de Sua Majestade, que por V. Exª
me foram intimadas, saí daquele Presídio (94), pelas
08h30, de 04 de abril, embarcado em canoa ligeira e
equipada; e com uma hora e quarto de caminho que
fiz, rodeando a dita colina, pela parte do Norte,
cheguei ultimamente ao porto de desembarque, de
onde gastei ainda um quarto de hora a fazer uma
picada ligeira, e andar a distância de boas 19,5
braças entre umas 4,5 de terreno plano e matoso,
que andei pela base da colina, e as 14,5 de escarpa,
que subi, até a boca da mencionada gruta.

94
Presídio: Forte.
181
Está situada na contraponta do morro que olha para
o Norte; e a interposição de uma grande pedra a
divide em duas, ambas retangulares; porém a pri-
meira, que é inferior, tem 11 palmos de comprimen-
to ao rumo de Nascente, e 8 de largura; e a segun-
da, que é a superior, por onde entrei, tem 10 palmos
de comprimento E.O., e 7 de largura. Pelo que
mostram ambas elas, ninguém pode ajuizar do que
dentro em si é semelhante gruta. O mesmo
Sargento-mór Ricardo Franco de Almeida Serra,
quando nela entrou, e a descreveu, não a viu em
toda quanto é a sua extensão e magnificência.

Pelo que, se alguém até agora tem parecido encare-


cida a sua descrição, é porque a ninguém ocorreu
examiná-la como deve ser, para vir no conhecimento
do quanto ela é realmente superior a todo o encare-
cimento. Não é como a celebrada Gruta das Onças,
onde, excetuada a grandeza, nada mais há que ver
senão água, entulhos e morcegos: porém, até na
grandeza a deixa muito a perder de vista a Gruta do
Inferno, digna certamente de um mais apropriado
nome que este, posto por quem a viu primeiro, que
sem dúvida se horrorizou da sua escuridão e
profundidade.

Para ver-lhe o fundo, me conduzi com muito jeito por


uma precipitada escarpa à baixo, até dar comigo na
profundidade de 190 palmos, sendo aquela escarpa
um enormíssimo entulho de pedras abatidas da
abobada, que constitui o teto da gruta, por onde está
sempre pingando água. Marchavam adiante de mim
doze pedestres com outros tantos archotes, que eu
providentemente havia mandado fazer, não só para
me guiarem os passos ao descer por um tão
tenebroso precipício, mas também para iluminaram a
gruta, de maneira que pudessem ver à vontade
ambos os desenhadores que me acompanhavam,
para a figurarem como convinha.
182
Porém, tão grande se foi ela mostrando, e tão
temerosamente escura, que espalhando-se as luzes,
apenas via cada qual o precipício de que escapava,
se bem que assim mesmo nos conduzimos sem a
menor lesão, até chegarmos ao seu verdadeiro
fundo.

Eis aqui onde a natureza me tinha preparado o


maravilhoso espetáculo, que recompensou digna-
mente tanto o meu perigo, como o meu trabalho.
Porque, olhado à primeira vista o todo, depois de
distribuídas as luzes em proporcionadas distâncias,
representou-se-me uma mesquita subterrânea, e
observadas as suas partes, cada uma delas fazia
saltar aos olhos uma diferente perspectiva.

A que do fundo daquele grande salão se oferece à


vista do espectador colocado à entrada dela, e a de
um magnífico e suntuoso teatro, todo decorado de
curiosíssimos estalactites, uns dependurados da
abóbada, que constitui o teto, à maneira de outras
tantas goteiras fusiformes, curtas ou compridas,
grossas ou delgadas, redondas ou compressas,
simples, bifurcadas, ramosas, tuberosas, verrugosas;
outras saindo do pavimento, à maneira de pilares,
colunas, columelas lisas ou caneladas, pavilhões de
campo, e um tão grosso, que dois homens o não
abarcam.

Ao lado esquerdo da mesma sala se deixa ver, como


debruçada sobre ela, uma superbíssima cascata na-
tural, com todas as suas pedras cobertas de incrus-
tações espatosas (95) e calcárias, que vivamente re-
presentavam alvos borbotões de espuma das águas
precipitadas daquela altura. Em outra parte, porém,
do mesmo lado parece que a natureza se moldou no
gosto da arquitetura gótica.

95
Espatosas: como o carbonato de cálcio hialino.
183
Por todo esse lado estão espalhados diversos
labirintos, cada um dos quais de per si constitui uma
curiosíssima gruta: tem aquela sala a sua linha de
direção lançada ao rumo de Leste, que é o mesmo
que segue o interior de toda a gruta, com diferença
de ser cruzada. Pelo que segue a boca inferior, viu-
se que tão somente o salão, incluída uma câmara
sua, tinha de comprimento total cinquenta e uma
braças. Todo o seu plano, que, aliás, era irregular, se
havia então convertido em um lago de água salobra,
porém clara, fria e cristalina; e reconheceu-se que
pouco ou nenhum curso tinha, por estar represada
pela enchente do Rio. (FERREIRA)

Francis de Castelnau (1845)

11.02.1845: Em Cuiabá tínhamos ouvido falar


numa gruta muito curiosa existente nas proximida-
des de Nova Coimbra. Assim, desde que aí chega-
mos, procuramos obter as informações necessárias
para ir conhecê-la.

Disse-nos o comandante que a empresa era inexe-


quível naquela estação, pois a gruta devia estar
debaixo d’água. Entretanto, como fossem contra-
ditórias as informações dadas por várias pessoas
presentes, tomamos a resolução de, fosse como
fosse, fazer na manhã do dia seguinte uma tentativa.
O comandante, depois de esgotar todos os meios
para nos demover do nosso intento, ofereceu-se para
ser ele próprio o nosso guia.

12.02.1845: No dia 12, às 06h00, já nos


achávamos a caminho, montados em pequenos
cavalos índios e acompanhados por uma dúzia de
soldados. Com essa escolta, marchamos rapida-
mente em direção ao “Buraco do Inferno”, nome que
dão na zona à caverna que nos ocupa e que não fica
mais de meia légua a Nornoroeste de Coimbra.
184
Chegando a poucas centenas de metros da entrada,
deixamos os cavalos e galgamos uma colina de mui-
to difícil acesso e coberta de mata virgem, onde se
destacavam muitos cactos espinhosos. A entrada da
gruta fica a meia encosta da colina e a um tiro de ca-
nhão do Rio. Logo acima dela, uma figueira introme-
teu pelas pedras as suas raízes possantes. Este ou-
teiro faz parte da serra que desde a Boca do Rio S.
Lourenço (96) até o Forte de Coimbra se vê acompa-
nhando a margem direita do Paraguai, a maior ou
menor distância. A pedra em que se abre a gruta é
um calcário de grande dureza, fétido, sedimentar de
grãos salinos, e contendo traços de ferro e de quar-
tzo. Tem cor vermelho-escura e a aparência do grés.

O local era bem conhecido de muitos dos homens


que nos acompanhavam. Traziam quase todos fachos
que antes de entrar foram logo acesos, enquanto
alguns empunhavam armas, para a defesa contra as
onças que às vezes procuram refugiar-se na escuri-
dão da gruta, como no-lo atestavam os rastos exis-
tentes na areia. Entra-se na gruta por um buraco
quadrado que tem pouco mais de um metro de lado.
Achamo-nos imediatamente debaixo de uma abóba-
da muito irregular; o solo nesta parte é muito incli-
nado, a ponto de ser necessário nos agarrarmos às
anfractuosidades das rochas e às pedras que juncam
o chão. Tem-se de evitar com cuidado um profundo
buraco existente à esquerda da entrada; mais adian-
te a passagem se alarga, mas o chão se torna muito
escorregadio, ao mesmo tempo que o calor e a umi-
dade produzem uma sensação muito incômoda. A
uns 30 de profundidade, ou seja mais ou menos ao
mesmo nível dos campos que ladeiam o Paraguai,
entramos numa galeria espaçosa, alta e decorada de
estalactites do mais extravagante aspecto.

96 Rio São Lourenço: Rio Cuiabá.


185
Estendiam-se estas estalactites em lençóis dentea-
dos, umas com a forma de imensos cogumelos,
outras direitas e lisas, semelhantes a grandes círios.
Aqui eram colunas caneladas e carregadas de enfei-
tes parecidos com os das nossas igrejas medievais;
acolá eram lindos pingentes, que faziam lembrar ain-
da mais a arquitetura elegante e caprichosa destes
templos. Segurando sempre nas pedras, em certo lu-
gar passa-se por uma abertura estreita embaixo de
uma magnífica cortina de estalactites, que dir-se-ia
imitar, em posição invertida, estas imensas pias ba-
tismais de alabastro encontradas em muitas velhas
catedrais. Do chão escabroso do salão das colunas
erguem-se estalagmites, cujos topes ameaçam unir-
se às águas da abóbada, as quais, sob a luz dos
fachos, brilhavam com todas as cores do arco-íris.

Arrastando-nos sobre enormes blocos de pedra, ou


escorregando por cima de superfícies lisas, muitas
vezes sem conseguir, no meio da escuridão,
encontrar apoio nas pedras que cediam sob o nosso
esforço, é que chegamos finalmente a outro salão,
ainda maior do que o anterior. Estendia-se aqui à
nossa frente uma cortina de estalactites magnifica-
mente recortadas, enquanto por toda parte se ergui-
am do solo troncos de colunas e mamilos. No fundo,
entre gigantescos blocos de tocha, estende-se um
lençol de água pura e límpida, onde entraram logo
muitos de nossos homens.

Queixaram-se todos do frio que sentiam; mas, con-


forme verificamos mergulhando na água o termô-
metro, a temperatura ali era apenas de três graus
abaixo da caverna [temperatura da água 23,8º; do
ar ambiente 27 graus]. Nunca esquecerei a curiosa
cena que representavam os nossos soldados pretos a
se debaterem nessas águas subterrâneas, nadando
com um dos braços e suspendendo com o outro as
tochas acesas.
186
A completa escuridão que não nos permitia ver
senão pequena parte da tenebrosa galeria, os
trechos que surgiam à nossa vista iluminados pelo
clarão dos archotes, os gritos que ecoavam por
aqueles corredores desconhecidos, o ruído que ali
ouvíamos, tudo isso evocava os quadros concebidos
pela imaginação para representar as regiões
infernais.

A profundidade do lago subterrâneo parece ser


bastante grande, mas varia muito, obedecendo ao
nível das águas no Rio Paraguai, de modo a fazer
que estas águas subterrâneas sejam alimentadas por
canais subterrâneos provenientes das infiltrações do
Rio. Elas continuam por entre as rochas, cobrindo o
chão de uma galeria que parece muito extensa, mas
cuja entrada é interceptada pela cortina de
estalactites, que desce até abaixo do nível da água.
Ligadas a esse salão há ainda outras galerias, mas
estas se achavam inundadas na ocasião de nossa
visita. Há na gruta vários buracos onde nunca
ninguém entrou, mas que parece serem bastante
fundos, a julgar pelo tempo que gastam as pedras
para chegar ao fundo.

A direção geral dessa caverna parece-me Norte e


Noroeste. Os guias nos contaram que na água da
Lagoa uma vez foi encontrado um pequeno jacaré.
Quanto a nós, só vimos dentro da gruta uma
perereca, alguns morcegos e muitos mosquitos.

Nesse mesmo dia, às 13h00, deixamos Nova


Coimbra. Quase logo abaixo do forte o Rio se divide,
formando uma ilha, que deixamos à nossa direita. As
margens aqui são muito baixas e quase sem árvores.
Campinas se veem de um lado e de outro do Rio
Paraguai, que se torna muito mais largo.
(CASTELNAU)
187
João Severiano da Fonseca (1875)

CAPÍTULO III

A Gruta do Inferno

[...] 04.06.1875: Cerca de 02 quilômetros acima do


Forte ficam as celebradas cavernas de que muitos
viajantes têm falado, mais ou menos satis-
fatoriamente; o que não obsta que cada novo
visitante goste de narrar por sua vez as surpresas e
emoções por que passou e anime-se à buscar
descrevê-la.

Desembarcamos, no ponto pouco mais ou menos,


mais próximo à gruta, em sítio que revelava o –
porto – num claro aberto entre os arbustos ribeiri-
nhos, sarans (97), como chamam-lhes os naturais, e
um trilho que daí partia serpeiando no macegal.

Até o flanco da montanha é o terreno uma baixada


sujeita às inundações. Dali ao Rio mediarão uns
quatrocentos metros na largura do terreno.
Gramíneas e cyperaceas, e uma malvacea dos
terrenos palustres, o “algodão do campo”, formam-
lhe o tapete botânico; sombreiam-lhe a margem
ingazeiros e saraus de diferentes tipos e famílias: na
montanha desde o sopé, já vão aparecendo as
bauhinias, tão encontradiças no nosso solo, ora
arborescentes e vivendo em plena independência,
ora crescendo e enroscando-se em moitas, no chão,
ora enredando os madeiros dessa esplendida
vegetação dos trópicos, já tão minha conhecida, e
entretanto sempre nova pelo grande número de
vegetais diferentes dos das floras de outros lugares.
97 Saran: arbusto da família das Euforbiáceas, de cujas sementes é
extraído um óleo usado na produção de sabão. Esta vegetação forma
grandes aglomerados denominados saranzal.

188
Imagem 32 – Gameleira Secular (João S. da Fonseca)

Ali ensinaram-me pela primeira vez a “crendiuba”, o


“cascusdinho”, o “capotão”, o “guatambu” preciosa
madeira de lei do mais formoso amarelo; a umbura-
na, notável árvore de grosso tronco, tão verde e tão
brando como a haste das pitas (98), e cujo epiderma
se desprende em folhetas tênues e coriáceas; e o
preciosíssimo “guayaco” ou “pau santo”, de delicioso
aroma e gratíssimas virtudes. Aí chamou-me a
atenção, pelo deslumbrante da coloração escarlate e
por um tamanho triplo do comum, uma formosa
“clytoria” e essa outra curiosa “borboletacea” que
serviu de tipo ao “Affonséas” de Auguste de Saint-
Hilaire. As árvores da baixada e as do começo da
escarpa do monte serviam de metro às enchentes do
Rio, marcando a altura a que tinham chegado as
águas com as limosas cintas nos troncos, ou os
“hydrophytos” que ficaram suspensos nos galhos e
que agora se viam já secos.
98 Pitas: fibras das folhas da piteira, planta amarilidácea, de folhas rígidas
e carnosas e inflorescências sobre uma haste longa.

189
Vai a subida do morro por uma boa centena de
metros. A entrada da gruta fica-lhe a mais de meia
altura. É uma fenda que bem pode passar por
portão, com os seus dois metros de alto e quase
outro tanto de largura. Declare-se, desde já, que as
medidas aqui indicadas são todas de mera
estimativa.

Assombra essa entrada uma enorme gameleira


secular, cujas imensas raízes, grossas como troncos
de palmeiras, penetram no interior da caverna até os
seus últimos recessos. Nessa entrada descem-se
duas lajes irregulares dispostas em degraus, e
encontra-se escavado na rocha um pequeno espaço
de quatro a cinco metros sobre dois a três de largo,
trancado de penedos, tendo um outro, enorme, por
teto, e deixando, entre aqueles, duas aberturas que
dão descida à gruta.

Dizem que a da esquerda é a maior e de mais fácil


descenso; todavia é ele alguma cousa difícil, sendo
necessário fazê-lo de gatinhas, ajundando-se (99) ora
das asperezas dos blocos soltos e amontoados uns
sobre os outros, formando às vezes altos degraus,
ora das raízes que os irrompem.

É uma escadaria de mais de trinta metros de altura,


isolada das outras paredes laterais da gruta, e dei-
xando entrever, principalmente à esquerda, precipí-
cios, cujo fundo a vista não devassa. Descida essa
escada gigante, chega-se à uma escura esplanada,
cuja conformação e limites não me foi possível
averiguar; e donde, olhando-se para cima, vê-se, no
meio dessa escuridão que nos cerca, a porta, clara
com a luz do dia, deixando coar uma facha de luz
brilhante, que empresta à essa parte da caverna um
encanto indizível.

99
Ajundando-se: apoiando-se.
190
A escuridão aqui à meio, ali já é tão completa que os
olhos custam a acostumar-se a ela; nos outros
pontos tão cerrada e profunda, que nada se
distingue. Acendidos os lampiões e archotes de que
dispúnhamos, mais estupenda nos foi a visão. À luz
avermelhada das tochas admiramos a estranha
magnificência do labor da natureza: aqui eram
colunatas (100) de estalactites, torcidas como
enormes alfenins (101), que desciam de altura que os
olhos não divisavam, parecendo sustentar um teto
invisível; eram estalagmites que, no chão,
semelhavam maravilhosamente rendas, brocados,
coxins, sob mil formas surpreendentes. Aos lados, a
tênue penumbra deixava entrever caprichosas
formações, ora engastando os penedos soltos ora
soerguendo-se dentre eles em fantásticas volutas
(102), Ora entretecendo-se umas com as outras;
além, tão compacta a escuridão, que nada era
possível distinguir-se.

No alto, via-se a porta, como um pedaço de céu,


dando um suave contentamento aos olhos e coração,
e permitindo perceber pendentes do teto, como
filigranas enormes, as tão caprichosas concreções:
no chão, ora pedregoso, ora de finíssima areia
branca, poças de água salobra eminentemente
carregada de carbonato calcário, essa mesma água
que, merejando (103) das abóbadas, tinha sido a
produtora de tão notáveis maravilhas, dissolvendo as
terras, decompondo-se ao contato do ar e perdendo
parte do ácido carbônico que a satura; espessando-
se pouco a pouco, ficando suspensa às abóbadas ou
caindo em grossas gotas cheias daquele sal, as
100 Colunatas: colunas enfileiradas simetricamente para adornar um
edifício.
101 Alfenis: massa de açúcar, seca, muito alva, vendida em forma de

flores, animais.
102 Voluta: ornato em espiral de um capitel de coluna.
103 Merejando: gotejando.

191
quais, gradualmente se solidificando e se justa-
pondo, vão “pari-passu” crescendo o engrossando de
volume, graças à nova “lympha” que incessan-
temente sobre elas desce e às novas gotas que aí
cristalizam.

Descemos uns quarenta companheiros; e os pri-


meiros que baixamos gozamos, ainda, de um agra-
dável espetáculo que não foi dado à todos fruir. Era
curioso e importante ver, tênue luz dessa penumbra,
os retardatários agarrados às asperezas das rochas
com uma mão, enquanto na outra sustinham a lan-
terna ou o archote ainda apagados, descendo a esca-
daria, pondo em prática todas as leis do equilíbrio
para não se despenharem nos abismos, cujas enor-
mes goelas viam negras e medonhas, escancaradas
à direita e à esquerda.

Como já o disse, pequenas poças d’água salitrada,


rasas e de fina e branca areia, aparecem aqui e ali,
entre o pedregal que assoalha o terrapleno. Numa
dessas poças encontramos um crânio de jacaré, já
muito antigo e gasto pela ação das águas; talvez o
de algum descendente do que o ajudante de
Coimbra, F. Rodrigues do Prado, aqui encontrou há
oitenta anos, já com um braço de menos, que
alguma onça lhe roubara.

Contornando para a esquerda as pedras da descida,


e olhando-se para cima, vê-se a avantajada altura do
precipício que ladeia a escadaria, e que começa com
ela, desde a porta. Nesse primeiro piso, que é a
antessala de tão maravilhosa estância há várias
saídas para outras tantas cavernas, que suponho
pequeninas e sem interesse, visto que não tem sido
praticadas. Os guias e práticos do local que
conduzem os visitantes, encaminham-nos logo para
a grande caverna, que denominam salão e nenhuma
notícia dão sobre elas; entretanto não é por medo,
192
visto que têm-se animado à maiores cometimentos,
como o da passagem de uma estreita e comprida
galeria, mais soterrada que as outras cavernas, com
as quais estabelece a comunicação, escuríssima e
completamente alagada e quase sem ar, o que
impede-lhe o uso da luz artificial. Se fosse o perigo a
causa de não serem visitadas, se acabassem em
precipícios e abismos, disso restaria memória, a
tradição. Um dos nossos companheiros, o Sr.
farmacêutico Mello e Oliveira, penetrou alguns
passos num desses escuríssimos antros, que ficava
quase fronteiro à descida mas não se aventurou
além.

Formam as paredes das diferentes grutas vastas


concreções estalactiformes manifestadas sob formas
as mais curiosas. Aqui e ali caem em panos como
formosas cascatas, que a natureza tivesse
petrificado, ou como acinzentadas cortinas, com as
suas dobras, os seus fofos (104) e apanhados,
cobrindo em parte as falhas do rochedo – que são as
portas que comunicam as diferentes grutas, ou
melhor salas.

Não fantasio, nem se julgue que minhas compa-


rações sejam frutos da imaginação ajoviada (105)
pelas maravilhas que vê: são verdadeiros simulacros
de cascatas, são cortinas, colunas, coxins e rendi-
lhados esses processos calcários.

Causam admiração e prazer vê-los; e vendo-os o


espírito é obrigado ao recolhimento e à reflexão.
Está-se, numa dessas ocasiões em que na frase de
Vitor Hugo, qualquer que seja a posição do homem,
a alma está de joelhos.

104 Fofo: formação decorativa formada pelas águas.


105 Ajoviada: assombrada.

193
Transposta uma dessas cortinas, à direita, e se me
não engano, a que recobre a Porta maior, entra-se
numa escavação atulhada de penedos irregulares,
postos a nu pela desagregação e dissolução das
terras, e em seguida no salão, o salão nobre desse
estupendo palácio, que, sem dúvida alguma, é um
“espécimen” de tudo o que há de mais bizarro e
caprichoso nas maravilhas da natureza.

Apesar dos inúmeros fogachos que levávamos, não


se podia descortinar tudo à satisfação; acendeu-se
uma tigelinha de sinais, única que trazíamos, cuja luz
brilhantíssima, patenteou-nos, sob novos prismas,
esse quadro assombroso.

O clarão das luzes dava um tom irizado indescritível


à atmosfera da gruta, variando desde o des-
lumbrante escarlate do fogo, até o violate e o azul-
marinho. Parecia que nas paredes treluziam cons-
telações de rutilantes gemas. Miríades de estrelas de
cambiante fulgor caíam em chuvas de fogo,
reproduzindo de uma maneira fascinante, e em
maravilhosa escala esse fenômeno celeste, tão
comum nas nossas noites de verão, das estrelas
cadentes; ou antes, parecia que invisíveis fadas
abriam inesgotáveis escrínios e despejavam a nossos
pés diamantes, rubis, safiras, esmeraldas. Tudo
brilhava… e ainda as poças e veios d’água que
tínhamos aos pés, e umectavam as pedras do chão,
reproduziam e estrelavam os mil fulgores que
enchiam os ares.

A princípio, deslumbrado com o brilho da luz da


tigelinha, não pude fazer uma ideia perfeita do que
se apresentava a meus olhos, e somente, quando
coloquei-a longe de mim, ao ouvir as estrepitosas
exclamações dos companheiros, é que pude melhor
apreciar o espetáculo sobrenatural e indizível que
apresentava esse “palácio de fadas”.

194
Mas sua duração foi pouca para satisfazer meus
desejos: quando apagou-se ainda era brilhante e
esplendida a caverna, alumiada à luz de tantos
archotes; Mas o deslumbramento e o fulgor de sua
fascinadora magnificência tinham-se amortecido de
muito.

A maior parte dos companheiros deu-se por satisfeita


e voltou; eu e outro, o Sr. João Cândido de Faria,
negociante do Rio Grande do Sul, seguindo dois
soldados do Forte que quiseram servir-nos de guias,
aventuramo-nos a percorrer outras dependências da
majestosa caverna.

Passamos à terceira sala, ora subindo, ora descendo


as asperezas de uma espécie de muralha de
rochedos, de uns três metros de alto. Era a sala por
demais irregular e atravancada de penedos que
ocultavam socavões lôbregos (106), escuros e talvez
profundos, e que não pudemos vantajosamente
apreciar por dispormos de poucas luzes.

Aí, entre aquela muralha e um grande bloco isolado,


à direita, tem começo a galeria de que acima falei,
verdadeiro túnel que liga essa sala com outras da
direita, isto é, o primeiro grupo de cavernas e o
menos conhecido, com o segundo e quase geral-
mente ignorado.

Tínhamos vindo bem acondicionados para o frio, que


diziam ser excessivo na gruta: achamos o contrário e
estávamos em junho. Tiramos as roupas pesadas, e
eu conservei o colete, não só para conduzir o relógio,
como para não me desagasalhar muito o tórax.

Entramos no túnel, que aí seria de uns dois metros


de alto e mais de cem de largo, e logo reconhecemos
106 Lôbregos: medonhos.

195
que seu leito baixava em relação ao solo das outras
cavernas. A água, que aí não chegava ao terço
inferior da perna, em pouco subiu aos joelhos, e a
cada passo que dávamos ia-se elevando até chegar à
cintura, pelo que vi-me na necessidade de ir
suspendendo e dobrando o colete para evitar que o
relógio se molhasse. Não tinha previsto essa
emergência... e veio-me então um tal ou qual
arrependimento de, pelo menos, não ter-me também
livrado daquela peça do traje. Contudo essa
inadvertência foi-me de proveito.

Após alguns passos, já caminhávamos curvados para


não batermos com as cabeças nas asperezas da
parede superior do túnel, tanto ia este baixando na
altura ao tempo que a água continuava a subir.
Compreendi que o túnel ia soterrando-se cada vez
mais: ocorreu-me retroceder, mas pode mais em
mim a curiosidade de continuar essa maravilhosa
viagem e de conhecer esses segredos do que o
receio de perder o relógio.

A passagem tornava-se cada vez mais difícil,


abaixando-se mais e mais na altura: mas agora a
água decrescia também, o que notei com espanto e
muita satisfação; diminuindo tanto, que ocasião
houve de só podermos caminhar de rastros, e ainda
assim batendo a cada passo com a cabeça nas
asperezas da abóbada; e, entretanto, logrei a
felicidade de conservar ileso o relógio. Sem dúvida,
agora o solo do túnel se elevava também e era o que
fazia a angustura do passo.

Graças àquele incidente, pude facilmente estabelecer


essas comparações de profundidade, altura e
horizontalidade da galeria; mas infelizmente não me
é dado rigorizar a sua extensão nem a direção que
segue.

196
Para atender à primeira faltou-me a isenção de
ânimo, pela ânsia e mesmo susto, difícil de evitar à
quem por aí passa, e mormente pela primeira vez,
como eu; para a segunda fora-me necessário uma
bússola. Será, porém, de uns trinta metros e segue
quase numa linha angular. À meio, mais ou menos,
do seu percurso avistam-se as duas aberturas, de
entrada e de saída, brancas de uma luz crepuscular,
mas ainda assim bastante sensível na espessa
escuridão do túnel.

Desse trajeto não é difícil a primeira metade, e faz-


se parte dela ainda à luz amortecida dos archotes,
amortecida pela deficiência do ar respirável; a
segunda, porém, é tão custosa, que somente a vista
do claro da saída poderia influir à percorrerem-na de
todo e não voltarem atrás os primeiros e intrépidos
visitantes. Termina em uma grande sala tão baixa,
nos seus três a quatro metros de altura, que, com a
lôbrega luz que aí reina, divisa-se suficientemente o
abobadado calcário do teto, cheio de pequenas e
finas estalactites de moderna formação, que já vão
aparecendo entre os restos informes das antigas,
devastadas.

É que, sendo raros os curiosos que visitam a gruta,


raríssimos são os que transpõem o túnel; e, pois,
essa segunda parte da fadárica (107) estância é a
mais rica e aprimorada de ornato. Notei mais clara
esta sala do que as outras, seja por um efeito
natural qualquer, seja porque meus olhos já
estivessem acostumados à escuridade.

Abundavam os mesmos torsos e volutas, as mesmas


colunas, as mesmas cortinas revestindo as entradas
das outras salas, intrincado labirinto onde nos vimos
quase perdidos.

107
Fadárica: afanosa.
197
Havia de mais as novas concreções que do teto
pendiam em forma de mil agulhetas e pequeninas
pirâmides. A estalagmite afetava em geral a forma
de uma alfombra (108) que atapetava todo o solo; à
esquerda da saída do túnel elevava-se mais,
assemelhando-se à um pitoresco canapé, estofado,
bastante áspero nos seus coxins de rocha, mas em
que sentei-me com gosto por alguns instantes.

Antigos visitantes tinham trazido um fio de “merlim”


ou barbante grosso, para guiá-los nessa viagem
subterrânea. Já no túnel havíamos encontrado e
agora víamo-lo estendido sob a água que, aqui,
conservava um bom palmo de altura. Sua direção
era no prolongamento do túnel à porta fronteira. O
“canapé” era um índice apreciável para a orientação
deste, assim não descurei de notá-lo, bem como sua
posição em relação ao fio. Seguimos a sua direção e
entramos na primeira sala, tendo antes observado,
ou melhor espiado, apenas duas entradas, duas ou
três outras salas que com aquela se comunicavam e
que pouco diferiam entre si. Aquela para onde o fio
se dirigia era a mais extensa de todas as que vi, sem
excetuar mesmo o salão, e mais estreita em relação
ao tamanho. Mediria uns quatro metros de largo: a
largura foi-me impossível de estimar. Parecia um
longo corredor, ou antes galeria, cercada de
colunadas e de todas essas fantásticas e caprichosas
produções da natureza. No chão encontramos
imensas raízes de gameleira [ficus doliaria], que
suponho da que ensombra a entrada da gruta: e
que, sendo assim, indica que essas salas não estão
tão afastadas da entrada, como parecem.

Uma circunstância nos privou de continuarmos nossa


visita e privou-me do prazer de melhor observar a
formosa galeria, que é cheia de socavões e recôn-

108 Alfombra: tapete espesso e muito macio.


198
ditos de um e outro lado, e dignos sem dúvida da
mais detida contemplação: notamos, à princípio
descuidados mas depois com algum temor, que o fio
tão satisfatoriamente encontrado e no qual deposi-
tamos cega confiança, nos traíra, estando partido em
vários pedaços, que se moviam, tomando ora uma,
ora outra direção, levados pelo movimento da água,
que remexíamos andando.

Os soldados tinham-se adiantado e penetrado nos


outros recessos, em busca de mais mimosas e
delicadas concreções, tais como só aí se encontram.
A nós faltou já a vontade de prosseguir: todo nosso
fito foi a volta; e mesmo uma espécie de terror nos
enfraquecera os ânimos, lembrando-nos de que,
segundo nos haviam contado, pouco tempo havia
que um oficial de marinha aí se perdera e só ao cabo
de longas horas conseguira sair desse dédalo. Buscá-
vamos orientar o fio; embalde (109)! O que víamos
quieto e marcando uma direção, já tinha tido outras,
que novo movimento das águas mudara.

Entravamos ora aqui, ora ali, num socavão, numa


sala; estranhávamos, não a conhecíamos: voltáva-
mos, passávamos à outras; ou ainda não as tínha-
mos visto, ou pelo menos tal se nos afigurava:
buscávamos outra saída, dávamos noutra caverna
que ainda era nova para nós, ou porque realmente
assim seria, ou por efeitos do medo, que nos assalta-
ra, de perdermo-nos nesse intrincado labirinto, afas-
tando-nos cada vez mais da saída.

Entramos por vezes na sala do “canapé”, vimo-lo,


reconhecemo-lo e ficamos alegres e como que
tranquilos: mas debalde procurávamos a entrada do
túnel, apesar de supormo-la bem assinalada: não a
encontrávamos, e só novas salas e novos recônditos.
109 Embalde: debalde.

199
Desanimados voltamos à galeria para esperarmos os
soldados, que eram práticos. Já não tínhamos olhos
para contemplar as magnificências que nos
rodeavam. E talvez que essa parte da gruta seja a
mais bela, como é a mais conservada, por não ser
tão accessível como as outras, e ter menos sofrido
da mão insaciável e devastadora dos curiosos que as
visitam.

Já estávamos na gruta havia mais de cinco horas.


Era meio-dia e as nossas embarcações deviam sair
às 14h00. Chegaram os soldados, e renascida a con-
fiança tratamos da retirada. Mas, em pouco esmo-
recemos de novo, e desta vez quase de todo, vendo-
os, eles os práticos, nossa única esperança, confusos
confessarem que não atinavam com o caminho. Ao
cabo de não sei que tempo, séculos de ansiedade,
sempre esperançados no cordel e sempre ludibria-
dos; já seguindo um troço, já outro que ficava
perpendicular ao primeiro; entrando ora aqui, ora ali;
entregamo-nos, afinal ao acaso e passamos a revis-
tar todas as salas e buracos mais próximos.

Entramos, uma última vez, na sala do canapé: vimo-


lo, reconhecemo-lo de novo; e só a custo os
soldados descobriram a boca do túnel, que já muitas
vezes tínhamos visto, mas não reconhecido, por
parecer-nos mais estreita, mais baixa e sem fundo!

Quase seis horas depois da nossa descida chegá-


vamos à sala da entrada e encontramos os compa-
nheiros, já aflitos com a nossa demora. Haviam
chamado e gritado por nós, sem que os ouvíssemos;
e um deles chegou a disparar os seis tiros do seu
revolver junto a boca do túnel, com o mesmo
resultado; esquecendo-se de que, querendo fazer-
nos bem, podia, com esse modo de avisar, fechar-
nos a porta do abismo. (FONSECA)

200
Cândido M. da Silva Rondon (1903)

03.03.1903: Afinal, beirando o Rio Paraguai, chega-


mos à tarde ao Forte de Coimbra onde se achava o
25° Batalhão do qual fora Cabo o Ex-presidente
Getúlio Vargas.

Aproveitei para visitar a Gruta do Inferno. A entrada


da gruta é um simples buraco que dá acesso à antes-
sala de um verdadeiro “Palácio de conto de Fadas”.

Ensombra-a uma grande figueira de folha larga,


Ficus doliaria, cujas raízes penetram pelas frestas e
gretas das pedras soltas, semiengastadas no maciço
que constitui o Morro do “Buraco Soturno” ou “Gruta
do Inferno”. Há aí uma escada que permite descer
para a antessala. Vê-se ao lado direito da entrada
um segundo buraco por onde é iluminado o compar-
timento, constituído por grandes pedaços de pedras
soltas, atirados desordenadamente aqui e ali e, entre
eles, depósitos de carbonato de cálcio, verdadeira
argamassa feita por mão inteligente.

Para lá chegar, é necessário passar por dentro


d’água, nadando, e com luzes, porque a escuridão é
completa. Assim se passa de salão em salão, e há
verdadeiro deslumbramento quando a luz se reflete
nas estalactites e estalagmites de cristal, raras na
antessala.

É um palácio encantado que os séculos construíram,


com a concreção sucessiva de cada gota.

Observamos, entretanto, consternados que a


selvageria de alguns visitantes, sob pretexto de
colecionar minerais, destruíra à alavanca e martelo
grande parte das estalactites. Será necessário
proteger tão maravilhosa beleza natural contra tais
vândalos. (VIVEIROS)
201
Imagem 33 – Forte Coimbra

Imagem 34 – Forte Coimbra


202
Imagem 35 – Forte Coimbra

Imagem 36 – Museu do Forte Coimbra


203
Imagem 37 – Gruta Ricardo Franco

Imagem 38 – Gruta Ricardo Franco


204
Imagem 39 – Gruta Ricardo Franco

Imagem 40 – Gruta Ricardo Franco


205
F. Coimbra – Corumbá
Na travessia longa em que os guiava a bússola, se não se
levantavam vagalhões, impunham-se montanhas. Era aqui
uma floresta densa, além uma catarata, adiante um
pantanal escuro, fervilhando em podridão deletéria,
exalando hausto letal. Tudo lhes era adverso. Mas à voz
enérgica do chefe, cada qual dava conta do que fizera; e
desse herói que regressa do deserto, desse civilizador e
pacificador, semeador de póvoas (110) que serão cidades,
plantador de roças que serão lavouras, dirão mais tarde as
gerações agradecidas o que disse o poeta (111):

Tu cantarás na voz dos sinos, nas charruas,


No esto (112) da multidão, no tumultuar das ruas,
No clamor do trabalho e nos hinos da paz!
E, subjugando olvido, através das idades,
Violador de Sertões, plantador de cidades,
Dentro do coração da pátria viverás... (Coelho Neto)

09.08.2017: O jantar oferecido pelo Cmt da 3°


Cia Fron, Capitão Glauco Viana Coitinho, aos membros
da Expedição Centenária demonstrou, mais uma vez, o
apoio e a cortesia com que o Exército Brasileiro nos
tem distinguido. Iniciamos às 07h30, depois do café, na
Casa de Hóspedes da 3° Cia Fron, nosso deslocamento
do Forte Coimbra ao Porto Manga. O amanhecer, no Rio
Paraguai, era mágico, a exuberância da flora diversi-
ficada ganhava um tom especial realçado pelas flores
violetas das inúmeras piúvas (113).

110 Póvoas: pequenas povoações.


111 Olavo Bilac em “O Caçador de Esmeraldas”.
112 Esto: fervor.
113 Piúva (Handroanthus impetiginosus): árvore ornamental conhecida

como Ipê-roxo ou pau-d’arco. Sua floração ocorre de maio a agosto


período em que perde todas as folhas. As flores, variam do rosa ao lilás
e servem de alimento aos insetos polinizadores, aves e macacos.
206
A fascinante paisagem mergulhava nas águas
serenas do Rio refletindo um cenário fantástico que
lembrava uma fina renda entretecida pelas mitológicas
náiades ou ainda um mimoso ñanditu (114) criado pelas
mãos das hábeis artesãs paraguaias. A navegação
transcorria com muita tranquilidade e conforto, à bordo
da “Calypso”, graças a amabilidade e competência de
sua tripulação. Além dos expedicionários originais, Dr.
Marc Meyers e Cel Angonese, contávamos nesta etapa
com um reforço importante na equipe proporcionado
pelo Dr. Timothy Radke e sua querida esposa Judith
Radke de San Diego, Califórnia, USA, bem como do Cel
José Francisco Mineiro Júnior, pesquisador do Exército.

Às 15h00, cruzamos pela magnífica Ponte Ferro-


viária Presidente Eurico Gaspar Dutra. A construção da
ponte, que teve início no dia 01.10.1938 e foi concluída
em nove anos, contou com a participação de 2,1 mil
operários. Sua inauguração, no dia 21.09.1947, contou
com a presença do General Eurico Gaspar Dutra, então
Presidente da República, que emprestou seu nome à
obra de arte. A Ponte faz parte da Estrada de Ferro
Noroeste do Brasil (FENOB).

A capacidade da ponte foi calculada para trens


de 27 toneladas por eixo (TB 27) e é constituída por
arcos de distintos vãos, sendo o maior deles o arco
sobre o talvegue com um comprimento de 110 m e um
tirante de ar (115) de 21 m acima do nível normal do Rio
Paraguai e de 14 m relativo à maior cheia observada
desde 1905, permitindo a passagem de todos os navios
que trafegam na Hidrovia do Rio Paraguai.
114 Ñanditu (teia de aranha): bordado muito delicado de origem paraguaia
que utiliza motivos geométricos e zoomorfos.
115 Tirante de ar: vão livre que permite a passagem das embarcações.

207
Imagem 41 – Ponte Presidente Eurico Gaspar Dutra

O periódico “O JORNAL”, do Rio de Janeiro, do


dia 23.09.1947, publicou:

O Jornal, n° 8.405 ‒ Rio de Janeiro, RJ


Terça-feira, 23.09.1947

Inaugurada sobre o Rio Paraguai a maior


Ponte do Continente, que Servirá à Ligação
Brasil-Bolívia ‒ 23.09.1947

CORUMBÁ 22 (A. N.) ‒ Um dos espetáculos mais im-


ponentes a que assistimos, na tarde de anteontem,
nesta, próspera cidade, foi a espontânea e ruidosa
manifestação que o povo corumbaense prestou ao
Presidente Eurico Gaspar Dutra, na Praça da
Independência. [...]

208
Ao Longo do Rio Paraguai

A viagem do Presidente da República ao Rio Para-


guai, repercute no seio da população deste pedaço
do Brasil, onde é gritante o contraste entre a exube-
rância da natureza e a carência de povoamento, co-
mo a confirmação do desejo do primeiro mandatário
do País em querer equilibrar a vida econômica de
Mato Grosso, restaurando a vitalidade dessa unidade
federativa que o viu nascer (116). Neste sentido,
aliás, foi bastante significativo o gesto do Chefe do
Governo, quando, em Corumbá depois de prestar
uma homenagem ao herói da retomada da cidade
aos paraguaios, fato verificado em 1865, que
plantou, sob verdadeiro delírio de aclamações, uma
muda de uma grande árvore, que futuramente, se
erguerá frondosa e acolhedora, crescendo, na razão
direta do progresso mato-grossense hoje anunciado
pelo Presidente da República.

Em Porto Esperança

A BORDO DO MONITOR “PARNAÍBA”, SOBRE O RIO


PARAGUAI, 22 (A. N.) ‒ Após oito horas de viagem o
“Parnaíba” está chegando a Porto Esperança. A Ponte
que vai ser inaugurada pelo Presidente Dutra.
Estende-se sobre o Rio banhado de Sol, atraindo a
curiosidade dos que a divisam. O General Dutra
contempla-a através do binóculo do Comandante do
navio, tecendo comentários com o Almirante Lobato
Aires, que comanda o Distrito Naval com base em
Ladário. A Ponte é uma caprichosa obra de engenha-
ria e tem uma grande significação, pois ligando as
suas margens em território nacional, aproxima
igualmente dois grandes oceanos: o Pacífico e o
Atlântico. [...]

116 O Presidente Eurico Gaspar Dutra nasceu, no dia 18.05.1883, em


Cuiabá, Mato Grosso.
209
O Que é a Ponte

O Chefe de Governo, em ato a que estiveram


presentes altas autoridades da República, inaugurou
solenemente, a ponte Internacional “Presidente
Eurico Gaspar Dutra”, sobre o Rio Paraguai. [...]
Acompanhado dos membros de sua comitiva, o
Presidente da República chegou sob aclamações ao
local, declarando pouco depois inaugurada a impor-
tante obra que deverá desempenhar um grande
papel no tráfego internacional do futuro, nesta re-
gião, com os trabalhos que se ativam na Estrada de
Ferro Brasil-Bolívia, para a ligação transcontinental
Santos-África.

A ponte é toda de cimento armado e do tipo mais


moderno e de rara beleza. A grande obra possui, no
canal do Rio, para, permitir a navegação, 25 m de
altura acima do nível das cheias, e para conseguir tal
altura foram construídos dois grandes viadutos in-
clinados sendo um de ascensão e outro de descida.

2.000 Metros de Comprimento

Seu comprimento total é de quase 2.000 m, dos


quais 900 constituem o viaduto de acesso do lado do
Porto Esperança, com 4 arcos de 90 m e um de 110
m no leito do Rio, sendo mais de 500 m de descida
nos patamares da margem direita do Paraguai, onde
prosseguirão os trilhos da Estrada de Ferro Noroeste
do Brasil rumo a Corumbá e ligação à E. F. Brasil-
Bolívia, consubstanciando o velho sonho dos dois
povos irmãos. A FENOB passará, com a inauguração
da “Ponte Presidente Eurico Dutra”, a desempenhar
função da maior relevância, cooperando no setor
ligado aos transportes nacionais, evidenciando-se do
mesmo modo a ação dos nossos homens públicos, no
empenho de servir cada vez melhor aos interesses
do Brasil. (O JORNAL, n° 8.405)
210
Imagem 42 – Porto Esperança ‒ Corumbá (DNIT)
211
09.08.2017: Passamos, às 18h00, pela Ponte
Poeta Manoel de Barros (117), localizada no Porto Morri-
nho, que faz a ligação de Corumbá e Ladário ao restan-
te do Mato Grosso do Sul, através da BR-262. A ponte
tem 1.890 m de extensão e vão central de 110 m de
comprimento. A programação era pernoitar na Foz do
Miranda, mas, com pane seca a vista, combinamos an-
corar à jusante do Porto Manga (19°15’28,75” S /
57°14’06,05” O), onde poderíamos abastecer.

10.08.2017: Depois do café, percorremos a BR-


228 (Estrada Parque) (118), uma trilha aberta por
Rondon no final do século XIX, das 06h00 às 10h30,
um bom exercício aeróbico para uma Expedição extre-
mamente sedentária como a nossa. O Dr. Marc fez
questão de levar o crânio de um jacaré morto e os
demais expedicionários fotografaram alguns animais ao
longo da rodovia. O grupo era barulhento demais
assustando a fauna e, no retorno, resolvi ir à frente e,
graças a essa medida, avistei um grupo de filhotes de
jacaré. Aguardei a equipe chegar e apontei para o Dr.
Timothy Radke aonde se encontravam os pequeninos.
Na volta da Estrada Boiadeira, o Cmt Elierd, que nos
aguardava com a voadeira, comunicou-nos que uma
equipe do 17° B Fron (Corumbá) comandada pelo Sgt
Langue nos aguardava em Porto Manga para apoiar-nos
no deslocamento pela BR. Uma falha na comunicação
que acarretou um deslocamento desnecessário de uma
viatura militar. Aproveitamos para visitar o posto tele-
gráfico construído por Rondon em palafita que resiste
heroicamente até os dias de hoje.

117 Ponte Poeta Manoel de Barros: Lei 4.685, de 15.06.2015 ‒ Diário


Oficial do Estado de Mato Grosso do Sul.
118 Estrada Parque Pantanal (EPP), também conhecida como Estrada da

Integração, Estrada Boiadeira ou Estrada da Manga.


212
Imagem 43 – Posto Telegráfico – Porto Manga, MS

Partimos para Corumbá, por volta das 11h00,


aonde chegamos à noite. O “Calypso” ancorou no porto
do 17° B Fron e pernoitamos à bordo, a agenda para o
dia seguinte era intensa e precisávamos estar
descansados para enfrentá-la.

11.08.2017: Após o café fomos apresentados


ao Comandante do 17° Batalhão de Fronteira Tenente
Coronel Niller André de Campos que nos indicou o Ten
Agnaldo José Heleodoro de Arruda para nos levar até o
Forte Junqueira (Forte da Pólvora). O seu nome home-
nageia o então Ministro da Guerra, Dr. João José de
Oliveira Junqueira, que foi quem determinou sua cons-
trução. O Forte em alvenaria de pedra argamassada,
apresenta planta no formato de um polígono octogonal,
com seis ângulos salientes e dois reentrantes, e seis
canhoneiras. O Ten Heleodoro é outro historiador que
também diverge da localização apontada por alguns
para o Porto Canuto (119).
119 Marco simbólico do fim da Retirada da Laguna, situado às margens do
Rio Aquidauana, MS, antes dos retirantes seguirem para Cuiabá.
213
Imagem 44 – Forte Junqueira, MS

Relatos Pretéritos: Forte Junqueira


João Severiano da Fonseca (1880)
Cinco Fortins defendem Corumbá pelo lado do Rio e
uma cortina por terra. Concluídos uns na adminis-
tração do Sr. Conselheiro Tenente-coronel Francisco
José Cardoso e outros na do General Hermes, rece-
beram a denominação de S. Francisco e de Junquei-
ra, em honra do Presidente e do Ministro da Guerra,
estes os de Conde D’eu, Duque de Caxias e Major
Gama, este em homenagem ao, hoje Ten-Cel, o Sr.
Dr. Joaquim Gama Lobo d’Eça, o modesto e distinto
engenheiro que os planejou. (FONSECA)

Augusto Fausto de Sousa (1885)


Presídio fundado, em 1778, por ordem do Governa-
dor Luiz de Albuquerque, na margem direita e acima
de Nova Coimbra e em honra ao Governador teve o
nome de Albuquerque Velho. Ocupado pelos Para-
guaios em 03.01.1865, foi por eles fortificado com
trincheiras regulares armadas com 6 canhões, e aí se
mantiveram até junho de 1867 e, no dia 13, foi to-
mada de assalto pelo 1° Btl Provisório comandado
pelo Major Antônio Maria Coelho, tendo sido tão
enérgica a defesa, que foram mortos todos os oficiais
paraguaios e quase todos os soldados, excetuando
apenas os 27 prisioneiros, e esses mesmos feridos.
214
Esta vitória trouxe o grande resultado da evacuação
dos pontos do São Joaquim, Pirapitangas, Urucu e
Albuquerque, que com outros anteriormente aban-
donados constituíam o Distrito Militar do Alto
Paraguai. Evadida a posição pelas forças brasileiras
por causa do flagelo da bexiga, foi novamente ocu-
pada por paraguaios em 08.07.1867 até abril de
1868, em que de uma vez a abandonaram. Termi-
nada a guerra foram planejadas novas fortificações
pelo Major Joaquim da Gama; e segundo comunica-
ções oficiais, compõe-se ela de uma linha contínua
com baluartes cobrindo a vila, com proporções para
admitir 60 canhões, e o Forte do Limoeiro, à margem
do Rio, uma milha abaixo da Vila, cruzando fogos na
direção do canal com os Fortins São Francisco, Jun-
queira, Conde d’Eu, Duque de Caxias e Major Gama,
construídos durante as administrações do Coronel
Cardoso e Brigadeiro Hermes. A posição é excelente,
o porto capaz de receber naus, e as Fortificações
bem delineadas; é pena porém, diz o Dr. João
Severiano na sua “Viagem ao Redor do Brasil”, que
só se limpe o mato, que nelas cresce, quando se
espera a visita do Presidente e autoridades da
Província. (RIHGB – XLVIII – II, 1885)

O Ten Heleodoro, nosso dileto historiador, co-


nhece muito bem o contexto histórico em que se pro-
cessou a construção do Forte Junqueira e dos eventos
que se sucederam. O Ten Cel Niller, mais tarde, home-
nageou-nos com uma emocionante Formatura Matinal.

Estático, visivelmente emocionado, com os olhos


a marejar, relembrava os velhos tempos em que tive a
honra de envergar, orgulhoso minha segunda pele ‒ a
farda verde-oliva. O Comandante fez-me a entrega,
como oficial mais antigo da Expedição, de uma bela
recordação que, por dever de justiça, repassei, mais
tarde, ao Dr. Marc Meyers, mentor da Expedição.
215
Imagem 45 – Apoio do 17° B Fron

Ainda na parte da manhã os membros da Ex-


pedição fizeram uma apresentação, no 17° B Fron, a
respeito dos objetivos, dificuldades e sucessos enfren-
tados pela Expedição Centenária, em 2014, na com-
plexa navegação do Rio Roosevelt, em 2015, na versátil
jornada de Cáceres à Vilhena em que empregamos
voadeiras, mulas, viatura além de realizar uma exte-
nuante marcha a pé, bem diferente da etapa que ora
realizamos em uma confortável embarcação regional. O
almoço foi servido na Casa de Pedra do 17° B Fron,
com direito a música ao vivo e uma visão panorâmica
do Rio Paraguai e do Pantanal que se estende por uma
bela planície aluvial desmedidamente vasta onde se so-
bressai o “Morro do Sargento”.
216
Relato Pretérito: Morro do Sargento

Jose Vieira Couto de Magalhães (1874)

Os tigres não são menos para temer-se, porque,


ilhados nos pequenos altos que ficam acima d’água,
nem sempre têm os meios de alimentar-se, e, famin-
tos, tornam-se ousados como leões; o leitor o ava-
liará pelo seguinte, que é também uma recordação
da Expedição de Corumbá: estavam na ocasião de
retirada dois mil homens acampados em um morri-
nho, defronte à Vila, cuja explanada seria menos da
metade do Morro do Castelo; quer dizer que estava
quase todo o espaço ocupado pela força; um tigre
(120) saltou sobre um 1° Sargento do Primeiro de
Voluntários, sacudiu-o sobre o ombro, e fugiu com
tal precipitação que, perseguido e morto em menos
de meia hora, tinha tido tempo para decepar a
cabeça do infeliz Sargento, sugar-lhe todo sangue, e
devorar parte do peito. (DE MAGALHÃES)

À tarde fizemos uma visita à Casa de Cultura


Luiz de Albuquerque onde tive a oportunidade de me
deparar com a histórica placa de bronze que Rondon
mandara colocar em homenagem ao Tenente Frederico
Bueno Horta Barbosa no passo da “corixa (121) do
Saran”, em que ele perecera afogado. Rememoremos:

Alferes-Aluno Frederico B. Horta Barbosa

Nos fastos das Comissões Rondon, basta que se


chame “Horta Barbosa”, para que seja digno de toda
a reverência, não só como caráter e competência,
como pelos méritos de trabalhador infatigável e
inteligente.

120 Um tigre: uma onça.


121 Canal por onde se escoam as águas dos lagos, brejos ou várzeas.
217
Imagem 46 – Guerreiro Guaicuru

A sua morte ocorreu em circunstâncias trágicas e há


quem a decline como uma demonstração da força do
destino e da teoria do fatalismo. A verdade é que foi
ele vítima do altruísmo que pregava e praticava,
como fervoroso adepto das doutrinas de Augusto
Comte. Ofereceu-se para substituir o engenheiro seu
colega, escalado para serviços em zona de corixas e
pantanais, à margem do Rio Paraguai, com a
magnânima preocupação de que esse colega não
sabia nadar e correria risco de se afogar. Obtido o
consentimento do Chefe para essa troca, marchou
ele com a sua turma de soldados ao primeiro clarão
do dia; quando, porém, o crepúsculo da tarde
começava a apagar a luz do Sol, o destino implacável
apagava também a preciosa vida desse destemido e
dedicado lutador.
Fazia-se, por essa ocasião, a linha telegráfica que
ligou Corumbá, e os trabalhos, normalmente acelera-
dos pela própria orientação de Rondon, haviam
tomado uma febre de velocidade proporcional ao
“tour de force” (122) imposto pelo Governo e que foi
122 “Tour de force”: grande esforço.

218
levado a termo: a inauguração da linha em
01.01.1904, para atender a injunções prementes da
política internacional. No relatório apresentado pelo
Chefe da Comissão, eis como é referido o doloroso
acontecimento:

Por determinação minha, seguira, no dia


01.12.1903, do acampamento à margem direita do
Paraguai para o interior, o Alferes-aluno Francisco
Bueno Horta Barbosa com uma turma de praças, a
fim de completar a distribuição de postes entre as
corixas Saran e Areão. Tendo-se dado o extravio,
nas águas de uma Baía próximo do Saran, de um
dos postes que eram arrastados por meio de
carretão, o Alferes-aluno Horta Barbosa deixou aí
alguns praças incumbidos de retirar o poste do fundo
da Baía, enquanto pessoalmente ia verificar quantas
estacas estavam ainda sem poste, prometendo
voltar sem demora.

Até escurecer, como não houvesse regressado o


Alferes-aluno Horta Barbosa, resolveram os praças ir
pernoitar no Capão que lhes servira de pouso no dia
anterior e que era o único, nas circunvizinhanças,
que não estava submerso. Ao amanhecer do dia
seguinte, de novo vieram os praças à citada Baía,
não encontrando aí o oficial. Seguiram então até a
corixa Saran, que encontraram totalmente cheia, em
consequência das copiosas chuvas dos dias anterio-
res. Próximo à corixa achava-se, apenas com o
cabresto, o animal que servira de montaria do ofi-
cial. Trouxeram os praças o referido animal até a
corixa, examinaram o passo e aí encontraram dentro
da água os arreios de uso do oficial.

Todas estas circunstâncias lhes causaram as mais


sérias apreensões, e como não pudessem passar a
corixa, para indagar da turma da frente acerca do
paradeiro do oficial, esperaram por ela que, tendo
notícia do ocorrido, declarou não o ter visto. Proce-
dendo todos a novo exame do local, nenhum vestígio
foi notado de haver o Alferes Horta Barbosa, a pé ou
219
montado, transposto a corixa.

Imagem 47 – Placa de bronze com Inscrição Alusiva


Ficou assentado que de tudo fosse feita comunicação
ao Chefe da segunda Seção, Capitão Ávila, que
tendo disso conhecimento na noite do dia quatro,
enviou, na mesma ocasião, dois Praças e um Guia do
Pantanal para, no local indicado, efetuar as neces-
sárias pesquisas, no sentido de descobrir o destino
do referido oficial. No dia seguinte, ao meio-dia,
tendo já regressado ao acampamento aqueles
praças, com a comunicação de terem encontrado, no
fundo do passo da corixa Saran, o esqueleto do
Alferes Horta Barbosa, cuja identidade foi
reconhecida pelo seu vestuário e vários objetos que
lhe pertenciam. Expediu o Capitão Ávila um Praça,
portador de um ofício em que participava o doloroso
acontecimento e, ao mesmo tempo, providenciou no

220
intuito de ser removido o mesmo esqueleto para o
acampamento, onde chegou nesse dia à tarde.
Logo após, foram inumados (123) provisoriamente, os
restos mortais do prezado companheiro na praça do
acampamento. Havia eu partido para o acam-
pamento da primeira Seção e me achava em marcha
daí para a estação telegráfica provisória, instalada
na Fazenda do Paraíso, quando recebi a triste
comunicação do Capitão Ávila. Sem demora, parti
para o acampamento da segunda Seção e aí
providenciei a remoção do inditoso oficial para
Corumbá, em cujo cemitério foi definitivamente
inumado.

Chegando a este acampamento, mandei proceder a


Inquérito Policial-Militar entre os Praças que faziam
parte das turmas sob a chefia do Alferes Horta
Barbosa. Desse inquérito, nada resultou que esclare-
cesse tão lamentável desastre, ficando, entretanto,
averiguado que nenhuma culpabilidade havia da
parte dos Praças. No passo da corixa do Saran, em
que ele perecera afogado, mandei colocar uma placa
de bronze com uma inscrição alusiva ao lamentável
acontecimento. (MAGALHÃES, 1942)

Depois da Casa de Cultura visitamos o Hotel


Galileo que Roosevelt cita textualmente que “dirigido
por um italiano, era tão confortável quanto possível –
chão ladrilhado, teto alto, grandes portas e janelas, um
pátio descoberto e fresco e banho de chuveiro”.

A seguir fizemos uma breve incursão à Bolívia,


onde os Dr. Marc e Timothy compraram algumas
garrafas de vinho para abastecer a adega do Calypso. A
visão das ruelas imundas não era nada agradável e os
bolivianos só nos tratavam com uma afetada e falsa
simpatia quando nos propúnhamos a adquirir algum
dos seus produtos. À noite, os desbravadores fizeram
123 Inumados: enterrados.

221
uma apresentação da Expedição aos alunos da Univer-
sidade Federal (UFMS).
Relatos Pretéritos

15.12.1913:
Rondon
Havíamos passado, às 14h00, pelo Marco da
fronteira boliviana, na margem direita do Paraguai e
só 24 horas depois começamos a avistar a cidade de
Corumbá, em cujo porto entrou a “Requielme”
comboiada por grande número de embarcações,
cheias de famílias, que tinham saído ao encontro do
nosso ilustre hóspede. Ainda a bordo, recebeu o Sr.
Roosevelt os cumprimentos do comandante da flo-
tilha de guerra do Brasil no Rio Paraguai, transmi-
tidos por um 1° Tenente da nossa Armada, e em
terra foi acolhido pelo Comandante e oficialidade da
13ª RM, pela Câmara Municipal, autoridades federais
e estatuais e por toda a população da cidade, que se
entregava a manifestações de regozijo por hospedar
o eminente homem de Estado. (RONDON)

Roosevelt
À 15 alcançamos Corumbá. Por espaço de 6 a 8 km
antes da chegada à margem Ocidental em que está
situada a cidade, é o terreno elevado e rochoso,
assumindo formas de penhascos. A região adjacente
era evidentemente bem povoada. Vimos gaúchos,
boiadeiros, cavalgando ao longo da barranqueira.
Mulheres lavavam roupas, seus filhos desnudos ba-
nhavam-se na praia; disseram-nos que os jacarés
raramente se aventuram em lugares movimentados
e que os acidentes geralmente ocorriam nos reman-
sos ou estirões solitários do Rio. Vários vapores se
adiantaram para nos encontrar e nos acompanhar
por uns 20 km, com bandas de música a tocar e os

222
passageiros dando vivas, exatamente como se nos
estivéssemos aproximando de alguma cidade das
margens do Hudson.

Corumbá, situada numa íngreme encosta de morro,


tem ruas largas, calçadas de pedra bruta, algumas
das quais ladeadas de belas árvores de flores
escarlates e casas bem construídas, muitas delas
térreas e algumas de 2 e 3 andares. Fomos homena-
geados com uma recepção pela Câmara Municipal e
nos ofereceram um banquete oficial. O hotel (124),
dirigido por um italiano, era tão confortável quanto
possível – chão ladrilhado, teto alto, grandes portas
e janelas, um pátio descoberto e fresco e banho de
chuveiro. Corumbá, é claro, ainda é uma cidade da
fronteira. Os veículos são carros de bois ou carros
puxados por muares; não há carros de praça e tanto
os bois quanto os muares são usados para montaria.
A água de beber provém de um grande poço central;
em torno dele se reúnem os carros-pipas e seu
conteúdo distribuído pelas diversas casas. As famílias
mostravam a mistura de raças característica do
Brasil; uma mulher, depois que seus filhos foram fo-
tografados em trajes caseiros, pediu que voltás-
semos para fotografá-los em costume domingueiro,
no que foi atendida. Em um ano, a via férrea que
vem do Rio chegará a Corumbá, e então esta cidade
e a região adjacente conhecerão um grande progres-
so. Neste lugar nos reunimos ao resto da comitiva e
muito nos alegramos de os ver. Cherrie e Miller já
haviam reunido cerca de 800 espécimes de mamí-
feros e aves. (ROOSEVELT)

Magalhães

No dia 15, às 12h50, passávamos pela povoado do


Ladário e, às 15h00, estávamos junto às altas
124 Hotel: Hotel Galileo.
223
barrancas de Corumbá onde, às 16h00, desem-
barcamos acompanhando a Comissão Americana à
terra. (MAGALHÃES, 1916)
16.12.1913

Roosevelt

Na manhã seguinte à de nossa chegada a Corumbá,


pedi ao Cel Rondon que inspecionasse nosso
equipamento, pois sua experiência de viagens na
zona tropical fora adquirida em um quarto de século
de árduas explorações do Sertão. Fiala reunira nos-
sos alimentos, barracas, utensílios de cozinha e
abastecimentos de toda espécie; ele e Sigg, durante
a estada em Corumbá, tinham posto em ordem tudo
para nossa arrancada. (ROOSEVELT)

Rondon

Esta manhã de 16 ofereceu a Comissão Brasileira à


oficialidade do navio Paraguai um almoço de despe-
dida, do qual participou o Sr. Roosevelt e sua comiti-
va, sendo levantado o brinde de honra à República
que, ainda uma vez, se irmanava conosco, tomando
parte tão brilhante nas homenagens prestadas ao
estadista mais representativo, no momento atual, da
política de fraternidade americana. Esse dia perma-
necemos em Corumbá, verificando os volumes da
Comissão Americana e examinando a conveniência e
a propriedade dos artigos que ela destinava a serem
utilizados no Sertão. (RONDON)

O Comandante Heitor Xavier Pereira da Cunha


relata no seu livro o felicíssimo acaso que lhe permitiu
“gozar da honrosa companhia do ilustre e notável esta-
dista e explorador Mr. Theodore Roosevelt” e a grata

224
oportunidade de reproduzir “suas palestras e, sem in-
discrição, o picaresco (125) de suas intimidades”.

O Comandante Pereira da Cunha partiu do Rio


de Janeiro, no dia 06.09.1913, com destino ao Pantanal
para realizar “um dos sonhos dourados – poder caçar
uma onça pintada” (126). Relata Pereira da Cunha:

Muita vez repeti que esperava não morrer antes de ir


a Mato Grosso caçar onças, e quis a minha sorte que
não só me fosse dado ir a Mato Grosso tentar a
realização de tão ambicionado sonho, como, jun-
tando uma surpresa, tão inesperada quanto agradá-
vel, tivesse, ainda a rara felicidade de caçar e
conviver aí, durante algum tempo, com o eminente
americano Theodore Roosevelt. [...]

CAPITULO II
Corumbá – Jiboia – Ladário –
Pantanal – Aves Aquáticas

22.10.1913 a 16.12.1913: A cidade de Corumbá, à


margem direita do Paraguai, é construída em grande
elevação sobre o Rio, num dos contrafortes da
vizinha serra do Urucum. Suas ruas, direitas, de boa
largura e mal calçadas, são ladeadas de casas, em
muitas das quais o comércio ostenta recursos
bastante consideráveis e que vão muito além do que
supõe a generalidade dos brasileiros; fábricas de
gelo, de cerveja, padarias, hotéis, boas farmácias,
livrarias, jornais, casas de ferragens, alfaiatarias,
armarinhos e casas de modas, bar, colégios, etc,
enfim, todos os elementos componentes de uma
125 Picaresco: lado cômico.
126 CUNHA, Comandante Heitor Xavier Pereira da. Viagens e Caçadas em
Mato Grosso: Três Semanas em Companhia de Theodore Roosevelt –
Brasil – Rio de Janeiro – Livraria Francisco Alves, 1922.

225
verdadeira cidade lá se encontram, formando a parte
alta de Corumbá, a mais extensa e onde também
estão as casas de morada, quartéis e repartições
públicas.

Imagem 48 – Viagens e Caçadas em Mato Grosso

Embaixo, numa faixa estreita e apertada entre o Rio


e a encosta abrupta da montanha, está o grosso
comércio, representado por casas com capitais que
sobem a milhar e mesmo a milhares de contos de
réis; são as casas que negociam em borracha,
couros e gado, que têm navios e lanchas, e que
importam da Europa o que o Sertão troca por seus
produtos. Logo ao saltarmos em Corumbá a nossa
atenção foi chamada para os condutores de carroças
que, todos munidos de aventais de couro terminados
em franjas, faziam uma algazarra confusa que era
produzida pelo idioma que falavam, – o Guarani;
eram quase todos paraguaios e todos falavam essa
áspera língua; e, se foi a nossa primeira impressão
essa especialização de profissão, não tardamos a
verificar que a cidade de Corumbá era, como é, das
mais cosmopolitas que possam existir. No hotel, na
rua, no bar, nas casas de comércio, por toda parte,

226
enfim, ouvem-se falar todas as línguas nessa longín-
qua e pequena Babel, e não serei exagerado se,
principalmente não entrando em conta com a
guarnição da cidade, disser que o português não é o
idioma que mais se fala.

Três ou quatro dias após a nossa chegada, ainda


alojados em um hotel de Corumbá, resolvemos ir até
o lugar denominado Urucum, a três léguas e pouco
de distância, a fim de vermos se possível seria aí
fixar a nossa residência. Bem cedo montamos a
cavalo: eu, o amigo Sebastião Botto, a quem fora
recomendado, o meu colega H. e uma francesa com
ele vinda da Europa não havia dois meses, e,
portanto, na maior ignorância das coisas do nosso
país. Se o estrangeiro, em geral, se arreceia (127) das
feras e das cobras em pleno Rio de Janeiro, é justo
conceder que, a respeito de Mato Grosso, suponham
eles só encontrar bugres antropófagos e animais
ferozes por toda a parte, pois que, mesmo entre nós,
o nome de Mato Grosso não dá ideia de coisa muito
diferente.

Entre Corumbá e Urucum, mais ou menos a meio


caminho, só existe uma choça de pobres bolivianos
que aí têm pequena plantação e meia dúzia de
cabeças de gado, e, afora isso, a estrada, a princípio
descoberta e depois umbrajosa (128), corre sempre
deserta e silenciosa de vozes humanas. Chegados à
roça dos bolivianos, apeamos e tomamos leite,
descansamos um pouco, e, de novo a cavalo,
seguimos com rumo a Urucum. Mlle. R., apesar de
fazer estreia como amazona, seguia na frente, com
bastante desembaraço, montando um bom cavalo
que, embora manso, era bastante vivo; nós seguía-
mos logo após, mas, como era natural, a nossa
127 Arreceia: tem receio.
128 Umbrajosa: sombria.

227
ordem variava de instante a instante, conforme os
caprichos da estrada e da conversa.

Eu não posso ter certeza dos pensamentos que então


atravessaram o cérebro daquela estrangeira; mas,
apesar da bravura que mostrava como cavaleira, é
lícito supor que, diante daquele espetáculo novo para
ela, na vastidão daquele deserto que por certo nunca
vira, em meio daquela mataria, o seu pensamento se
voltasse, ao menos de quando em vez, para “les
sauvages, les serpents et les tigres”; mas, fosse
como fosse, não estávamos um quilômetro distante
da palhoça que deixáramos, quando, a um grito de
Mlle. R., vimos o seu cavalo passando por cima de
uma jiboia que atravessava a estrada. Para quem
quer que fosse, o caso não deixaria de causar uma
certa emoção; mas, considerando o caso especial da
nossa companheira de viagem, pode-se bem imagi-
nar a impressão que teria tido; e, de fato, pálida a
ponto de assustar-nos bastante, Mlle. R., num mo-
mento involuntário, puxava as rédeas do cavalo que,
impedido assim de seguir adiante e sapateando no
local, estava na iminência de pisar a jiboia, embora
todos nós gritássemos que afrouxasse as rédeas,
primeiro, senão o único auxílio que lhe poderíamos
prestar. Com rara felicidade o cavalo recuou, sem
pisar na jiboia nem derrubar a amazona; e eu e o
amigo Botto, já então apeados, ambos desarmados
como estávamos todos, recorremos ao primeiro
projétil usado pelo homem e fornecido pela natureza
– a pedra – e iniciamos o bombardeio da jiboia.

Abro aqui um parêntesis para admitir a incredulidade


do leitor, mas, para que me não suponham êmulo do
Barão de Münchausen, ficam os testemunhos das
pessoas que me acompanhavam. Sem conseguirmos
dominar o inimigo, continuamos por algum tempo
esse bombardeio, mas, a jiboia, ora armando botes
para nós e ora se esgueirando, conseguiu entrar num
228
recanto de pedras e gravatás, onde não só difícil
seria atingi-la a pedradas, como nos arriscaríamos a
alguma surpresa; foi então que, em boa hora,
lembrei-me de procurar uma arma com os bolivianos
e, montando novamente, para lá galopei.

Dentro em pouco estava de volta com uma arma de


dois canos, calibre 16, e, apeando e entrando no
mato onde o Botto ficara de sentinela à cobra, a pus
fora de combate com um tiro que lhe espatifou a
cabeça.

Foi essa a minha estreia cinegética em Mato Grosso,


e aqui a registro apenas pela sua originalidade.

Como inúteis fossem os nossos esforços para


encontrar morada que nos conviesse em Corumbá,
mudamo-nos, e instalamo-nos na freguesia de
Ladário, sede da flotilha e, como Corumbá, cons-
truída no mesmo contraforte, em terreno calcáreo
muito duro, com uma elevação de cerca de cinquenta
metros sobre o Rio.

As ruas largas e sem calçamento algum, poeirentas


ao Sol e lamacentas à chuva, são flanqueadas de
casas esparsas, acanhadas e impropriamente cons-
truídas para aquele tórrido clima e sem o menor
conforto.

Como Corumbá, o Ladário não possui esgoto, e a


água, apanhada do modo mais primitivo na margem
do Paraguai, que se incumbe de arrastar de Corumbá
tudo quanto lhe despejam, é distribuída pelas casas
em originais carroças, e pelo preço de mil réis o
barril.

A “população canina” da pacata freguesia é por certo


maior que a sua população humana; mas não são
esses os únicos animais domésticos que perambulam
229
pelas suas acidentadas ruas; porcos, galinhas,
cabras, bois e cavalos pascem tranquilamente pela
“urbs” e aí elegem seus dormitórios; e não raro é
que, se deixardes a porta aberta, tenhais a surpresa
de encontrar dentro da vossa sala um jumento ou
um boi.

Além dos animais domésticos, outros, talvez com a


mesma falta de cerimônia, andam pelas ruas,
invadem as casas e, sem falar dos mosquitos, esses
inseparáveis e importunos companheiros de todos os
instantes e capazes de enlouquecer quem deles não
se possa defender, as terríveis aranhas carangue-
jeiras, os lacraus (129) e as cobras fazem visitas que
nem sempre são muito protocolares. E foi assim que,
na primeira noite que dormi no Ladário, em rede,
caiu do telhado sobre mim [as casas não têm teto]
um lacrau; mas, graças ao mosquiteiro, caindo o
lacrau sobre este, não tive de ser despertado por tão
incisiva carícia.

De outra feita, à noite, estávamos eu e o meu amigo


Nelson encostados aos umbrais da porta de entrada
para a sala, enquanto outros colegas, sentados em
cadeiras, conversavam, próximo, dentro da sala;
súbito ouvimos um alarido e um barulho de arrastar
de cadeiras e, com grande surpresa, verificamos que
o estranho movimento era motivado pela aparição de
uma cobra que, com toda a tranquilidade, passara
entre nós, ou por detrás de um de nós, e penetrara
na sala.

Contudo, a morada no Ladário poupava-nos o


trabalho da viagem obrigatória a Corumbá, dava-nos
a liberdade completa de roça, e permitia uma
proximidade muito cômoda dos nossos navios,
inclusive do meu “Oyapock”, que já havia deixado a
129 Lacraus: escorpiões.
230
carreira. Como disse, a enchente do Rio Paraguai,
em 1912 para 1913, foi das grandes cheias que, de
tempos a tempos, cobrem imensas áreas de campo,
assolando todo o vale desse Rio e de quase todos os
seus afluentes, zona essa que constitui o que se
chama o pantanal de Mato Grosso; e como grande
tivesse sido esta cheia, em meados de setembro de
1913, época em que chegamos a Corumbá, muito
altas estavam ainda as águas do caudaloso Rio, e
cobertos estavam os pantanais.

Em frente ao Ladário, existe uma extensa zona de


pantanal, em meio da qual surge isolado o morro do
“Sargento”; entre esse morro e o Rio Paraguai corre
o “Bracinho”, braço desse Rio, que durante as cheias,
liga dois pontos distantes de seu curso, e que, nas
épocas normais, só é acessível a embarcações de
diminuto calado, comunica com o grande Rio apenas
na parte inferior.

Entre o Bracinho e o Paraguai, as águas, baixando


pouco a pouco, foram deixando ver, hoje os cimos
dos arbustos, amanhã as pontas da macega, e,
enfim, quando a água já tinha deixado de dar ao
pantanal o aspecto de “mar” e o tinha transformado
em lodaçal, bandos incontáveis de marrecas, irerês,
frangos dágua, carões, curicácas, tabuiaiás (130),
cabeças-secas, tuiuius, colhereiros, garças, socós e
biguás cobriam todo aquele pantanal, fervilhavam
naquele charco, e para chegar até essa região, tão
rica em caça, bastava atravessar o Rio!

A um tiro que se disparasse, bandos e bandos de


irerês e marrecas erguiam o voo e, em verdadeiras
nuvens, atordoavam o caçador com o seu ininter-
rupto assobio.

130 Tabuiaiá: João grande (Ciconia maguari).


231
As garças, voando com lentidão e majestade, muito
alto, cruzavam o espaço em longas filas, brancas, al-
vas, luzidias; e, ao cair da tarde, como se acor-
ressem a um sinal de comando, chegavam elas de
todos os pontos do horizonte para, dentro em pouco,
cobrir de um lençol branco um longo renque de
árvores que margeiam o Bracinho.

Durante o dia, das alturas do Ladário, via-se o cam-


po coberto de largas manchas brancas, constituídas
por colossais bandos de garças; além, uma revoada
de enormes tuiuius dava o aspecto de um “meeting”
de aviação; e, principalmente ao começo, e mesmo
durante a noite, os bandos de irerês não interrom-
piam a música do assobio que lhes dá o nome.

Muita vez, descendo um pouco o Paraguai e entrando


pelo Bracinho, gozávamos do belíssimo espetáculo
que ofereciam as suas margens, crivadas de todas
essas aves aquáticas que, à nossa aproximação,
erguendo o voo, nos deixavam boquiabertos perante
cena tão bela. Destacavam-se, dentre todos os
colhereiros cor de rosa, que voando em bandos
compactos sob um Sol brilhante, produziam um
efeito cuja descrição não pôde sequer dar uma ideia
da enorme beleza.

Infelizmente, por ser recém-chegado, e só ter


relações com os colegas, entre os quais não havia
caçadores, muito pouco aproveitei, dessa vez,
daquela ocasião magnífica e que raro dura mais de

232
quinze dias, no começo e no fim das cheias; ainda
assim, dei que fazer à minha Greener, que abateu
um grande número de peças. (CUNHA)

233
Brasileidas I
(Carlos Alberto Nunes)

Musa, canta-me a régia poranduba


Das bandeiras, os feitos sublimados
Dos heróis que o Brasil plasmar souberam
Través do Pindorama, demarcando
Nos sertões a conquista e as esperanças.

Dá que em versos eu fixe os fundamentos


Históricos e míticos da pátria
Brasileira, deixando-os perpetuados
Na memória de todos os teus filhos:
A luta dos Titãs, os novos deuses,
As Amazonas varonis e a raça
Que o Gigante de pedra fez do solo
Surgir, robusta e bela, ideias novas
De grandeza forçando à eternidade.

Sobe, imaginação! Abre os arcanos


Das lendas ameríndias, e dos Andes
Me facilita os penetrais augustos.

Deixa ficar meu verso como o rio


Das famosas guerreiras, quando as águas
Aos tálamos da luz solene guia:
Caudal e majestoso. Não menores
Imagens me concede, altos remígios
Aos feitos adequados, porque eu canto
Do Brasil a excelência, na aristía (131)
Do férreo bandeirante celebrada. [...]

131 Aristía: narrativa sobre as façanhas de um herói, dignas de serem


exaltadas.
234
Imagem 49 – Orla do Paraguai

Imagem 50 – Calypso
235
Imagem 51 – Pescaria no Pantanal (Timothy Radke)

Imagem 52 – 17° B Fron


236
Imagem 53 – Hotel Galileo

Imagem 54 – Hotel Galileo


237
Imagem 55 – Hotel Galileo

Imagem 56 – Corumbá
238
Corumbá – Boca do Rio Cuiabá
O que me fascina é o seu espírito, o seu princípio de amor, a
sua violência de amor. Rondon é uma energia de coração.
[...] Rondon é um apóstolo. Que lhe importaria vencer o
deserto, se, com o deserto, não viessem para nós as almas
rudes que o dominam? Que importariam a árvore, a
cachoeira, a flecha homicida, a febre se, depois de afrontar o
ermo, ele não trouxesse para a civilização os extraviados da
selva? A medida de sua obra é a felicidade do homem. O
velho mundo, hoje, digladia-se num duelo sem tréguas.
Sobre tantos horrores paira, promissor de nova era, o
heroísmo de Rondon. (Alcides Castilho Maya)

12.08.2017: Acordei antes do alvorecer e


continuei revisando e diagramando o livro “Descendo o
Juruá II”. Ajudei, como sempre, o nosso Mestre Cuca
“Bicudo” a arrumar a mesa e, logo depois, tomei calma
e solitariamente meu café enquanto os demais expedi-
cionários ainda aninhavam-se nos sonolentos braços de
Morfeu. A equipe de bordo agiu com perícia e, às
07h00, partimos do Porto do 17° B Fron em direção ao
Posto Limoeiro para abastecimento e realizar algumas
compras de última hora.

Por volta das 08h30, partimos, finalmente,


levando gratas lembranças dos amigos de Corumbá. A
bela e moderna cidade, emoldurada pela Serra do
Urucum (132), apresenta em primeiro plano, às margens
do Rio Paraguai, os Casarios do Porto um magnífico
patrimônio histórico e cultural de Corumbá.

132 O Maciço do Urucum foi assim denominado em virtude tom averme-


lhado de suas terras, que lembram a cor do urucum. É a maior forma-
ção rochosa do MS, com altitude máxima de 1.065 m. Urucum é
detentor de consideráveis reservas minerais, tais como a criptomelana
(maior reserva brasileira) e itabirita (3ª maior do Brasil).
239
Às 09h18, ultrapassou à Boreste do Calypso o
Navio-Transporte Fluvial “Almirante Leverger” (133) da
Marinha do Brasil. O “Almirante Leverger” tem um
comprimento de 44 m, calado de 1,10 m, velocidade
cruzeiro de 12 km/h, uma autonomia operacional de 30
dias e pode de operar com um helicóptero. A viagem
transcorreu na tranquilidade de sempre com o Pantanal
nos presenteando com paisagens exuberantes. Per-
noitamos a meio caminho da Boca do Rio Cuiabá.

13.08.2017: Por volta das 08h00, embarcamos


na Fênix VI, uma das voadeiras, com a finalidade de
realizar uma caminhada. Depois de navegarmos, um
bom tempo, procurando um local adequado para
ancorar, pois a maioria das trilhas estava totalmente
alagada, aportamos, por volta das 09h00, na sede da
Fazenda Porto Mangueira. Foi uma caminhada em ritmo
bastante lento com o objetivo de observar a flora e a
fauna circundante.

Retornamos, por volta das 12h00, depois de


executar um exercício físico razoável, mas sem encon-
trar nenhum animal ao longo da trilha. Em contraparti-
da ao retornarmos para o Calypso um grande e curioso
jaburu (134) passou voando pela embarcação e alterou
sua rota de modo a nos indicar o local em que preten-
dia pousar. Era um macho adulto e muito vaidoso, pois
mudava, a todo o momento, de posição e postura per-
mitindo que tirássemos belas fotos suas.

133 O “Almirante Leverger” tem capacidade de transportar equipamentos e


130 militares componentes da Força de Emprego Rápido. O navio é
empregado, prioritariamente, no transporte fluvial, além de executar
tarefas de apoio às operações ribeirinhas, atendimentos médicos e
odontológicos, assistência cívico social, patrulha fluvial, inspeções
navais bem como atividades de Defesa Civil.
134 Jaburu (Jabiru mycteria): Tuiuiu.

240
Retornamos ao Calypso satisfeitos com a em-
preitada. Instalados na nossa sala de estar desfrutamos
da temperatura agradável sem que fosse necessário
ligar o ar-condicionado. Acampamos na Boca do Cuia-
bá. A Expedição Centenária não desceu o Rio Paraguai
rumo à Fazenda Palmeiras como a Expedição Científica.
Vamos reproduzir, então, a experiência dos expedicio-
nários originais de Corumbá até à Fazenda Palmeiras,
rio abaixo e depois rumo à Boca do Cuiabá que eles
chamam, erroneamente, de S. Lourenço (135):

Relatos Pretéritos
17.12.1913
Magalhães
No dia 17, às 07h20, partia o “Nyoac” Rio Paraguai
abaixo com destino ao Rio Taquari, em cuja Boca de
jusante denominada Riozinho penetramos até o Porto
da Fazenda das Palmeiras, atracando no mesmo dia,
às 19h00, e aí pernoitando. (MAGALHÃES, 1916)

Pereira da Cunha
Às 16h00, deixamos o Paraguai e entramos no
Riozinho, Braço do Rio Taquari, transformado hoje
em verdadeiro Rio; e como tivesse naufragado a
lancha destinada a subir esse Rio até um dos portos
da Fazenda das Palmeiras, tentávamos agora subir
com o próprio “Nyoac”. Bandos enormes de tuiuius,
garças, colhereiros e outras aves orlavam as
margens do pitoresco Rio; campos extensos, ainda
alagados da cheia, estendiam-se além; os jacarés
pululavam por toda a parte.

135 Até o início do século XX, o São Lourenço tinha como afluente o Rio
Itiquira. Em 1909, o São Lourenço abriu, definitivamente, o furo do
Taigara passando a correr por ele. O Itiquira e o São Lourenço
passaram, então, a ser considerados afluentes do Cuiabá.
241
Dentro em breve o navio transformou-se em corpo
de atiradores contra esses animais; apareciam armas
de todos os sistemas e calibres, e era uma fuzilaria
contínua, ininterrupta, entrecortada de risadas,
aplausos, troças e vaias. (CUNHA)

Rondon

Mas, na manhã seguinte, tendo-me apresentado ao


Sr. Roosevelt, pronto a embarcar quando ele o
desejasse, tomamos o “Nyoac” e seguimos para o
Taquari, Rio que entra, no Paraguai por vários
braços, um dos quais se chama Riozinho. É neste
braço que se acha o Porto da Fazenda das Palmeiras,
para onde nos dirigimos.

Mas, antes de o atingirmos, às 17h30, avistamos, de


bordo, um tamanduá-bandeira que, no seu andar
desajeitado, de pequenos pulos, vagueava pelo
campo. Era este um dos espécimes da nossa fauna
que o Sr. Roosevelt desejava obter para as coleções
zoológicas do Museu de História Natural de New
York. Mandei parar o navio e saltamos para terra; os
cachorros já corriam embaraçando a fuga do
esquisito quadrúpede; Kermit, o Dr. Soledade e eu
completamos o cerco e o Sr. Roosevelt atirou com a
sua Springfield, carabina do tipo das usadas no exér-
cito norte-americano, muito precisa e de admirável
penetração.

O animal caiu, e nós, animados pelo feliz início que


assim tinham as caçadas do nosso hóspede, felici-
tamo-lo; ele a todos correspondeu com grande satis-
fação, aliás muito justificada pela beleza do exemplar
que acabava de adquirir, digno, na verdade, de for-
necer a pele que há de recomendar aos nova-iorqui-
nos admirados, toda a raça dos tamanduás sul-ame-
ricanos. (RONDON)

242
Roosevelt
Logo após chegamos a um dos postos avançados da
grande estância que estávamos prestes a visitar e
atracamos no barranco para o pernoite. Havia ali um
embarcadouro, ranchos e currais. Muitos “peões” ou
gaúchos tinham vindo ao nosso encontro. Depois que
caiu a noite, acenderam fogueiras e, sentados junto
a elas, cantaram cantigas dolentes, acompanhadas
por violões. As labaredas rubras dançavam ao fundo
de suas rudes figuras acocoradas longe do fogo, no
ponto de encontro entre a sombra e a claridade,
fazia calor. Não havia vento. Havia pernilongos, é
claro; outros insetos de toda espécie enxameavam
em torno de cada luz; mas o navio era confortável e
passamos uma noite agradável. (ROOSEVELT)
18.12.1913

Roosevelt
Ao nascer do Sol já nos dirigíamos para a “Fazenda”
do Sr. Barros. A bagagem seguiu num carro de bois,
que fez a viagem em 2 dias; meus objetos chegaram
à fazenda um dia depois de mim. Montávamos pe-
quenos e fortes cavalos de campo. A distância era de
umas 5 léguas. A região toda era de pantanal, varia-
da com manchas de terreno mais alto; embora estes
trechos subam apenas um metro ou pouco mais
acima dos alagadiços, eram cobertos de matagal
denso, na maior parte palmitais, ou então de outras
palmeiras. Por espaço de uma légua cavalgamos
pelos alagadiços; de vez em quando cruzávamos
baixadas lamacentas, onde os cavalinhos forcejavam
para não ficarem atolados. Nosso guia, de pele
escura, ia vestido de camisa, calças e avental de
couro franjado, levando esporas nos pés descalços;
usava uma corda como rédea e tinha dois ou três
dedos do pé metidos num pequeno estribo de ferro.

243
[...] Depois de cinco ou seis horas de viagem através
da região pantanosa e de florestas de palmeiras,
chegamos à Fazenda que era nosso destino. Na
vizinhança havia figueiras gigantescas, isoladas ou
em grupos, com densa folhagem verde-escuro. Nas
proximidades, brejos recobertos de plantas aquáti-
cas. Campinas alagadas e pastagens meio secas,
descampadas ou com manchas de palmares entre-
meados de árvores dos pântanos, desdobravam-se
por todos os quadrantes, por espaço de muitos
quilômetros. Existiam cerca de 30 mil cabeças de
gado na Fazenda, além das manadas de cavalos e
varas de porcos e de uns poucos rebanhos de car-
neiros e cabras. As edificações da sede da fazenda
ficavam num quadrilátero, rodeado por uma cerca
baixa de paus em pé. (ROOSEVELT)

19.12.1903

Rondon

Quando o homem e a onça se defrontam não mais


esta se preocupa com a matilha: fixa a atenção no
principal inimigo, estudando o meio de subjugá-lo.
Agora, é preciso ter calma, pontaria firme e reso-
lução: às pernas não se deve pedir, nesses instantes,
mais do que a força para sustentarem o corpo imó-
vel, sem tremores, que comprometeriam a justeza
do tiro; e ainda que pudéssemos merecer o epíteto
de velocípedes (136) como o grande herói de Homero,
de nada nos valeria correr, porque se não matarmos,
seremos mortos.

O caçador, no entanto não se apressa a atirar; seria


muitíssimo perigoso errar o alvo. Ele procura, pois, a
melhor posição e o instante mais oportuno para ferir
de morte o animal, logo ao primeiro golpe.

136 Velocípedes: que tem pés velozes.


244
Mas é forçoso estar atento: se a fera entra a agitar a
cauda, não há tempo a perder: ou uma bala certeira
a fulmina, ou ela parte para o caçador, rápida como
uma flecha, em espantosos saltos de felino enraive-
cido, atirando-se sobre a presa. No último salto, a
onça, erguida sobre as patas traseiras, está rente à
sua vítima subjuga-a pelos ombros, com as garras
poderosíssimas, e com os dentes formidáveis esmi-
galha-lhe o crânio. As caçadas de onça não são, pois,
isentas de perigos, para um homem só e armado de
carabina. Por isso, em Mato Grosso, os caçadores
prudentes se fazem acompanhar do que lá chamam
um “azagaieiro”, nome derivado de azagaia, ou lança
curta, cujo ferro tem na base um travessão, de modo
que só até ele pode a choupa (137), regularmente
comprida, penetrar no corpo do animal.

O azagaieiro está ao lado do caçador; mas se, por


qualquer motivo, a onça investe o seu dever é pas-
sar, rápido e resoluto, para frente, atraindo sobre si
a atenção do animal. Com a azagaia em riste, firme,
sem procurar atirar golpes, que seriam infalivelmen-
te rebatidos com uma pancada de braço do felino,
espera que este, levantando-se sobre as pernas e
jogando a parte dianteira do corpo para o amplexo
fatal, venha por si mesmo, espetar-se no ferro, que
lhe é apresentado. Assim o agressor, cego de fúria,
além de ferido, fica a distância de se não poder
utilizar das garras, porque o travessão da lança
impede a haste de varar as carnes, no ponto
atingido, dando ao homem a certeza de ter a sua
arma livre e desembaraçada para novo assalto. A
fera cai; mas, ainda cheia de vigor, volta ao ataque,
com redobrado ímpeto; fere-se de novo e de novo
tomba, e nesta luta porfia até que o atirador possa
encontrar ocasião favorável para fulminá-la com um
tiro.

137 Choupa: ponta da lança.


245
Como se vê, a função do azagaieiro não é matar,
mas simplesmente proteger o caçador durante o
tempo em que este é obrigado a conservar na mão a
espingarda como arma inerte e inutilizável. Contudo,
por divertimento ou por bravata há homens que só
com a azagaia vão procurar onças, obrigam-nas a
aceitar o combate e acabam matando-as. Semelhan-
te façanha tem muito de temerária, e nisto com
certeza reside o encanto que nela encontram os que
a praticam. Verdade é que, mesmo quando coope-
ram os dois caçadores, ainda se podem dar graves
acedentes.

Relatarei um, ocorrido há tempos, na região em que


o Sr. Roosevelt ia caçar.

Certo dia, o criador Cyriaco Rondon notou que, nos


campos da sua fazenda, as rezes estavam sendo
perseguidas e dizimadas por onça. Mandou, pois, a
caçadores procurar o seu rasto, para, seguindo por
ele, descobri-la e matá-la. Para tal fim, fazendo-se
acompanhar da necessária matilha, saíram dois
homens: um caboclo armado de espingarda “pica-
pau” e um índio Guaicuru, perito azagaieiro. Com
facilidade, os cachorros descobriram os rastos do
carnívoro, que logo depois estava acuado no interior
de pequeno capão de mato.

Tratava-se de uma canguçu que tinha de proteger e


defender a sua prole, um casal de oncinhas que se
havia refugiado em espessa touceira de gravatá. Os
caçadores dirigiram-se para ali e quando procuravam
avistá-la, eis que de repente a veem surgir do meio
da intrincada vegetação com tal fúria e rapidez, que
o Guaicuru não teve tempo de se utilizar da sua
arma. Mas, no instante em que ela, levantando-se
sobre as patas, ia agarrar o pobre índio pelo ombro,
este segurou-lhe os braços possantes e com esforço
hercúleo, susteve-a no ar.
246
O animal, enfurecido, debatia-se desesperadamente
e, com as garras dos pés, dilacerava as carnes das
coxas e das pernas do seu impávido antagonista.

O companheiro deste aterrorizado com a vista de tal


cena, não se animava a socorrê-lo; de longe ouvia o
outro gritar-lhe que nada havia a temer, porque a
onça estava segura.

Afinal, como a luta se prolongasse, o caboclo acabou


recobrando ânimo: aproximou-se e desfechou o tiro
da sua espingarda; os grãos de chumbo atingiram a
cara e talvez os olhos de fera e ela, com a dor, fez
um esforço supremo, conseguindo soltar-se das
mãos do índio e fugir para o mato, em cuja espes-
sura desapareceu. O herói desta luta selvagem foi
dali transportado a braços para a Fazenda, onde
chegou quase morto; mas depois de longo tratamen-
to, conseguiu salvar-se.

Agora, podemos todos compreender quais foram as


providências adotadas para poupar-nos o desgosto
de ter de lamentar algum desastre nas caçadas do
Sr. Roosevelt. Feitos todos os aprestos, na madru-
gada de 19 de dezembro saímos para o campo.

A turma compunha-se do Chefe americano, do seu


filho Kermit, de mim e de dois azagaieiros; não
convinha que ela fosse mais numerosa, porque os
grupos grandes só servem para espantar as caças.
Levávamos é bem de ver, uma boa matilha, dos
melhores onceiros que eu conhecia em Mato Grosso
e que reuni expressamente para esse fim, fazendo-
os vir de lugares distantes.

[...] No entanto, não conseguimos encontrar nesse


dia mais do que um tamanduá, do sexo feminino,
que foi abatido pelo Sr. Kermit. (RONDON)
247
20.12.1913

Rondon
Para evitar outras caminhadas improfícuas, mandei
no dia seguinte um dos azagaieiros, denominado
Miguel Henrique, correr os campos, a ver-se encon-
trava sinais recentes da presença de onças. O ho-
mem voltou com a notícia de haver descoberto ras-
tros da noite precedente, reveladores da passagem
de um casal daqueles felinos para um Capão de
mato, onde eles tinham o seu refúgio. (RONDON)

21.12.1913

Rondon
Para esse lugar partimos na madrugada e 21 e,
pouco depois das 06h00, descobríamos a primeira
onça, um belo espécime da nossa temível canguçu,
que foi abatida por uma bala certeira da Springfield
do Sr. Roosevelt. (RONDON)

22.12.1913

Rondon
No dia imediato tomamos rumo do Taquari Velho e
descobrimos a segunda onça, que foi morta pelo Sr.
Kermit, a tiro de Winchester. (RONDON)

23.12.1913

Magalhães
A 23, pelas 11h15, partiu a carreta conduzindo as
bagagens e às 14h45 partiu a comitiva da Expedição
através dos campos alagados, de regresso ao porto
do Riozinho [braço do Rio Taquari] onde reembarcou
todo pessoal no paquete “Nyoac”, que aí aguardava
essa chegada. (MAGALHÃES, 1916)
248
24.12.1913

Pereira Cunha
Às 07h00, deixávamos o Porto do Riozinho, águas
abaixo, entrando às 08h20 no Rio Paraguai e por ele
subindo em busca de Corumbá. Estávamos na
véspera do Natal, esse dia que a humanidade inteira,
com ou sem ideia de religião, dedica ao aconchego
do lar, às doçuras da família e principalmente às
crianças; e nós, todos nós ali reunidos, distantes dos
lares e das famílias, tínhamos, insensível, involun-
tariamente, pensamentos que voltejavam em torno
disso.

Ao almoço, Roosevelt, que desde o primeiro dia


tinha-me sempre como seu vizinho, encaminhou a
conversa para a religião; eu discorri larga e franca-
mente sobre o que penso a respeito: a grande
vantagem da sua ação sobre as massas, o apoio para
os crentes, o consolo para os que sofrem, e a dificul-
dade que sentia na adoção de qualquer delas, embo-
ra me sentisse perfeitamente equilibrado, pautando
meus atos por uma sã moral, fruto principal de qual-
quer religião bem formada.

Estendi-me ainda sobre o difícil problema de encami-


nhar os filhos na religião, a escolha que fizera para
os meus depois de muito refletir e, após todo o meu
discurso, algumas vezes interrompido para discussão
de um ou outro ponto, ficamos de pleno acordo, co-
mo em geral sucedia com as nossas constantes pa-
lestras.

Eu ia terminar nesse dia a minha excursão e deixar,


com pesar, tão agradável companhia, mas Roosevelt
insistia para que eu continuasse e, de acordo com o
Coronel Rondon, tudo ficou arranjado de modo que
fosse satisfeita a sua vontade, que bem se casava
com a minha.
249
Realmente, durante os poucos dias dessa primeira
parte da excursão, as nossas relações eram cada vez
mais estreitas e amistosas, e dir-se-ia que, a cada
sessão de prosa, que correspondia, em geral, a cada
refeição, mais intenso tornava-se esse sentimento
recíproco. Aliás, pouco após a apresentação em que,
como sempre, não se trocam mais que palavras
banais, a primeira vez que tive ocasião de conversar
com o Ex-presidente dos Estados Unidos, na manhã
em que partíramos de Corumbá, fácil foi sentir
através da sua conversa, do seu olhar, da sua
expressão, o homem forte, enérgico, pronto e inteli-
gente.

A inteligência de Roosevelt não é dessas que se


percam em especulações filosóficas vazias, sonhos
quiméricos de cérebros inúteis que se divertem em
tecer palavras em torno de hipóteses, não, Roose-
velt, como ele próprio diz, não vê importância
alguma nas palavras, uma vez que elas não repre-
sentam ações ou fatos; ama e defende a liberdade,
mas não faz dessa “palavra” um ídolo intangível, pois
que, para que todos gozem com ordem dessa mesma
liberdade, é preciso regularizá-la e não consentir que
cada um tome a porção que lhe aprouver; esse é que
é o fato real e é isso que tem importância e cunho
prático; a palavra liberdade em si nada vale, e utili-
zá-la sem peias é querer a anarquia.

Roosevelt é o tipo do forte, de energia sã e ação


pronta, e a prova era a viagem que ia empreender
através do Brasil: descer um Rio desconhecido, e
isso com 55 anos de idade. Mas, como ficou dito, e
sem acrescentar mais elogios ao meu novo e distinto
amigo, uma vez decidido que prolongaria a minha
excursão, foi preciso tratar de pôr em ordem o que
me pertencia, ver o que era mister adicionar para a
nova empresa e preparar-me para saltar no Ladário,
onde necessitaria tomar e ordenar providências.
250
Às 14h00, passamos pela foz do Paraguai Mirim,
Braço que liga ao Rio S. Lourenço e célebre na
retomada de Corumbá pelo General José Maria
Coelho, que por aí desceu de Cuiabá, para retomar
Corumbá com tropas por ele organizadas; e, enfim,
às 16h00, tomava eu o escaler do meu navio,
deixando o “Nyoac” seguir para Corumbá. Se o
prazer da agradável companhia e o gênero de
esporte já constituíam para mim encantos dos quais
um bastaria para arrastar-me, calcule-se como não
seria intensa a minha alegria, ao juntar-se ainda o
ignorado do rumo da excursão que íamos empreen-
der.

Correndo o mais que me era dado, só às 19h00


estava pronto e embarcava na lancha do meu navio,
o “Oyapock”, para apanhar o “Nyoac”, em Corumbá,
quatro milhas de Rio acima. Com ânsia, esperei que
o motor da lancha quisesse acabar com um desses
caprichos que os motores de explosão reservam para
desesperar e muitas vezes matar os homens, se
deles depende, como nos aeroplanos, a vida dos
mortais; o motor em movimento e embarcado que
fui, mal nos tínhamos afastado poucas dezenas de
metros do costado do navio; e eis de novo o
recalcitrante motor parado, em plena correntada do
Rio Paraguai... Oh raiva indizível! Oh desespero! Oh
destino cruel e maldito! Já se havia esgotado uma
hora de trabalho incessante e inútil e de irritação
improfícua; a lancha descia plácida e serena pela
tranquila correnteza do Rio, enquanto o “Nyoac”
ficava cada vez mais distante e suspenderia ferro, às
22h00! Amargurados momentos! Quando passamos
a contrabordo pelo meu navio, eu pedi socorro, mas,
àquela hora, só estava arriado um pesado bote a
dois remos, e foi ele o enviado em nosso auxílio;
mas, se a esse bote já era difícil fazer vencer a
correnteza, calcula-se o que seria a dar reboque à
nossa lancha, aliás bem pequena.
251
Avançávamos aos centímetros e com esforços
incríveis; o tempo corria vertiginoso, e a esperança
de apanhar o “Nyoac” fugia com a mesma
velocidade. Quase às 21h30, conseguimos atingir o
monitor “Pernambuco” e, aí conseguindo uma outra
lancha, no seu motor, também à explosão,
embarquei todas as minhas esperanças. Os quarenta
minutos de subida do Rio foram, como sempre
sucede em circunstâncias análogas, de uma lentidão
esmagadora; as luzes dos vapores fundeados em
Corumbá não permitiam que eu distinguisse o
“Nyoac” dentre eles e, assim, só ao termo da atribu-
lada viagem, ou antes, a uns 50 m do navio, con-
segui verificar que o “Nyoac” ainda não tivera deixa-
do o porto; mas era bem tempo. Faltavam cinco
minutos para as 22h00, e essa tinha sido a hora
fixada para termo da minha espera. O alívio que
senti ao saltar a bordo e a satisfação demonstrada
por Theodore Roosevelt, ao abraçar-me, fizeram dis-
sipar o mau humor que havia bem explodido contra
os motores de explosão, que tantos e tão bons
serviços nos prestam... quando funcionam bem.

Às 22h00, deixamos o porto, águas acima; o Para-


guai dá aí 3 compridas voltas das quais se avista, por
longo tempo, Corumbá, cujo efeito é realmente belo
com a sua profusa e intensa iluminação elétrica, cin-
tilante na elevação em que é construída, debruçada
sobre o Rio, pitoresca e garbosa como é difícil imagi-
nar a quem nunca tenha visto essa longínqua cidade.

Por detrás dela, ao longe, recortando o céu límpido,


avista-se a massa negra da serra do Urucum, que
encerra as ricas minas de manganês, a serra de S.
Domingos e a de Piraputanga; e, enquanto de um
lado tem-se esse espetáculo, do lado esquerdo,
apertando o Rio, em que navegávamos, o pantanal
imenso, sombrio e triste na escuridão da noite,
estende-se sem fim. (CUNHA)
252
25.12.1913

Pereira da Cunha

O dia seguinte, Natal, foi todo de navegação no Rio


Paraguai; a monotonia das margens baixas, alagadi-
ças, despovoadas e tristes, aumentava as tristezas
do Natal fora de casa, mas, a conversa animada e o
bom humor de alguns souberam vencer ou abafar a
melancolia dos outros. À tardinha, para o jantar, o
“salão” do “Nyoac” estava enfeitado com palmeiras e
flores agrestes, e assim, não faltou a esse dia a
pompa que era possível dar-lhe naquelas condições.

A “sala de refeições” desse nosso vaporzinho, bas-


tante ampla para que sejam armadas as redes,
quando funciona como dormitório, fica a dois palmos
d’água, e finos varões de ferro, largamente espaça-
dos, cercam-no sem nenhum outro anteparo; duas
grandes lâmpadas a petróleo, penduradas ao centro,
intervaladas no sentido de popa à proa, iluminam
essa peça ao rés do chão, perdão, ao rés d’água,
cuja ausência de anteparos tanto a refresca quanto
permite a franca e livre entrada dos mosquitos, mu-
tucas, mariposas, cascudos e toda a espécie de
insetos que os pantanais de Mato Grosso têm por
bilhões de bilhões, e que, salamandras aladas, ar-
dem pela luz. Ora, a Roosevelt, sempre meu vizinho
à mesa, foi designado um lugar bastante próximo a
um desses lampiões, embora mais próximo ainda,
bem em frente, tivesse então de ficar este seu
modesto vizinho; a cortesia fica bem mesmo quando
nos possa trazer algum proveito, e foi assim que não
tive dúvidas em aconselhar Roosevelt a tomar outro
lugar mais distante do fascinador de insetos. O meu
vizinho da esquerda não deve ter ficado muito
contente com o conselho que a minha cortesia e boa
precisão fizeram o nosso hóspede aceitar, pois que,
daí em diante, a ele coube a “melhor” porção dos im-
253
portunos insetos. Roosevelt e eu ficamos um pouco
menos atormentados durante o jantar, mas, em
compensação, de quando em vez, olhava para o pre-
judicado vizinho e para o lampião, e exclamava: “le
rusé commandant...” (138)

Apesar dos turbilhões de insetos que esvoaçavam em


torno dos lampiões, certa noite encontrei o nosso
ilustre hóspede, sob uma dessas lâmpadas, muito
vermelho, suando por quantos poros tinha, envolvido
por uma nuvem de insetos que, sem conta da fidal-
guia da hospedagem, irreverentemente caiam sobre
a cabeça, pescoço, mãos e papéis em que escrevia
Roosevelt. Este limitava-se a soprar continuamente o
papel em que corria o seu lápis-tinta e, se não fora
essa necessidade de desobstrução a sopro, dir-se-ia
que aquela avalanche que o envolvia e atormentava
não lhe causava o menor transtorno. Ao vê-lo traba-
lhando assim, não me foi possível deixar de pergun-
tar como podia ele escrever daquela forma; e Roose-
velt, interrompendo um momento o seu trabalho,
disse-me: “meu amigo eu tenho um contrato; devo
dar tantos artigos até tal época, e é preciso cumprir”.
E, como se estivesse escrevendo em sua secretária
de Sagamore Hill, continuou, imperturbável, rubro,
suando e soprando, a escrever o seu artigo. Roose-
velt escreve sempre a lápis-tinta e, intercalando dois
“carbonos” entre as folhas do bloco de papel, tem
sempre duas cópias, além do original; este ele
conserva, remete uma das cópias [do primeiro ponto
em que isso é possível], guarda a segunda e remete-
a de outro lugar. Com tal sistema, diz ele, um, ao
menos, há de salvar-se. Mas, ainda que não tenha
artigos para escrever, ou mesmo que os tenha,
Roosevelt trabalha sempre porque, enquanto viaja,
escreve o livro que tem de publicar, e de modo tal
que terminada a viagem está terminado o livro. [...]
138 Le rusé commandant: a astúcia comandante.
254
Imagem 57 – The Outlook, december 20, 1913
255
O nosso hóspede mostrava-se seguro do nosso
rápido progresso, e, assim, asseverava ter certeza
de que, dentro de cinquenta anos, às margens do
Paraguai estariam como estão hoje as do Mississipi;
dizia que estava farto de ouvir dizer que não havia
energias sob os trópicos.
No entanto, tinha encontrado a cidade do Rio de
Janeiro, que sabia reformada em curtíssimo prazo, e
que era mais bem Iluminada, mais limpa, mais bem
calçada e melhor policiada do que Nova York, Paris,
Londres, Chicago, ou Berlim, só excetuando esta
última quanto ao policiamento; que vira a Avenida
Beira-Mar, feita pela mão do homem, e que desafia
qualquer outro passeio no mundo; que vira o Insti-
tuto Oswaldo Cruz e o colossal resultado da campa-
nha contra o mosquito.
Visitara ainda o Instituto Butantã, onde se
entusiasmara diante dos trabalhos e resultados
obtidos pelo Dr. Vital Brasil sobre o soro antiofídico,
e diante o bem cuidado aparelhamento daquele
Instituto, único no mundo, apesar da grande
Inglaterra possuir as Índias e aí ser a cobra um
verdadeiro flagelo; que vira, finalmente, além de
outras coisas, o caminho aéreo do Pão de Açúcar,
concebido por brasileiros, construído por operários e
engenheiros brasileiros, com capital brasileiro, e que,
se fosse em S. Francisco da Califórnia, todo o mundo
diria: “veja o gênio, a audácia dos americanos!”
Como suspeitasse poder pairar dúvidas em nossos
espíritos sobre a sinceridade do que dizia, Roosevelt,
cuja sagacidade é extraordinária, acrescentou: “e
isso que lhes estou dizendo não é para ser
agradável; já escrevi”.

E, de fato, no número da revista americana “The


Outlook”, publicada a 20 de dezembro desse ano, os
maiores elogios são feitos à nossa capital. (CUNHA)
256
Boca do Cuiabá – Fz S. João
Rondon, esta alma forte que se interna pelo Sertão, na
sublime missão de assistir o selvagem, é uma das
personalidades brasileiras que mais me impressionam.
Rondon dá-me a impressão de uma figura do Evangelho.
(Louis Charles Athanaïse Cécile Cerveaux Prospe)

14.08.2017: Ontem, à tarde, uma paisagem


magnífica me encantou, desde o Ocidente ‒ a Serra do
Amolar. Quando finalmente acampamos na Boca do
Cuiabá (17°54’1,83”S / 57°27’39,75”), fiquei admiran-
do extasiado aquele monumento criado pelo Grande
Arquiteto do Universo e cinzelado com esmero invulgar
pelas forças da natureza durante milênios.

O Escrínio
(Manoel de Barros)
Estamos por cima de uma pedra branca enorme que o Rio
Paraguai, lá embaixo, borda e lambe Já posso ver na
semiescuridão os canoeiros que voltam da pescaria.

A Serra do Amolar marca limite Ocidental da


planície pantaneira e delineia caprichosamente o con-
torno sinuoso no Rio Paraguai. A Serra, qual maestro
monumental, rege cada Rio da planura infinita que se
rende ao compasso de suas escarpas e, com análogo
esmero, determina a conformação das Lagoas e Baías.
A Serra, com quase 80 km de extensão, imergindo des-
te extraordinário Oceano Fluvial, tem uma biodiversi-
dade ímpar graças a elevações que chegam a ultrapas-
sar os 1.000 m de altitude, abrigando biomas diversos.
257
Imagem 58 – Serra do Amolar, MS (Haroldo Palo Jr.)

Hoje, ao acordar antes do raiar do dia, subi ao


convés superior para admirar aquela fantástica obra de
arte natural que se metamorfoseava a cada instante
pincelada pelos resplandecentes raios do Astro Rei que,
inimigo das trevas, afugentava a escuridão tingindo
aquele ciclópico maciço de variados matizes. A transfor-
mação processava-se lenta e preguiçosamente desde o
cume até o sopé, como se o Criador quisesse nos
apresentar primeiro o topo desafiador para depois nos
mostrar as humildes e acessíveis faldas. Em momentos
como este me aproximo do Grande Arquiteto e atinjo
uma intensa e indescritível paz interior.

Por volta das 08h00, o Dr. Marc Meyers conduziu


uma sessão de fotos dos Expedicionários, e, por volta
da 09h00, subíamos o Rio Cuiabá, rumo à Fazenda São
João. Seguíamos uma rota no sentido NE, deixando a
Amolar à nossa popa. Avistamos um urubu jangadean-
do e devorando uma carcaça de jacaré e veio-me à
mente um relato de Roosevelt, também subindo o
mesmo Cuiabá: “um jacaré morto flutuava Rio abaixo
com um corvo a devorá-lo”.
258
Imagem 59 – Urubu jangadeiro (Timothy Radke)

Era impressionante a quantidade de jacarés e


capivaras banhando-se ao Sol nas margens do Cuiabá e
a avifauna era, agora, igualmente muito mais densa e
variada. Aportamos para o pernoite no Porto Zé Viana
(17°37’29,8” S / 56°58’03” O).

15.08.2017: Partimos do Porto Zé Viana, às


05h30, e aportamos no Porto Jofre (139) (17°21’56,9”S
/ 56°46’33”O), por volta das 16h00, do lado do Hotel
Pantanal Norte, também conhecido como Hotel do Jamil
(km 145 da Rodovia Transpantaneira). Com uma
infraestrutura invejável o hotel recebe hóspedes de
todo o planeta que desejam conhecer a diversidade da
fauna e da flora do bioma mais preservado do Brasil.

139 Porto Jofre não é sequer uma vila. Antes da Transpantaneira chegar
até ali, era apenas a Fazenda São José, apenas um ponto de referência
no caminho de terra que chegaria até Corumbá. Quis o acaso que a
estrada terminasse ali, e o lugar entrou nos mapas meio sem querer
com o nome de uma outra grande fazenda da região: a Jofre. E por ser
um porto de barcos de pesca, um dos poucos pontos habitados na
divisa dos dois Estados, o local passou a chamar-se Porto Jofre e a
Fazenda São José foi transformada num Hotel Fazenda quase que
exclusivamente para pescadores. (Portal Pantanal)

259
Imagem 60 – Hotel Pantanal Norte

Por estas felizes coincidências a Dona Benedita,


esposa do proprietário do Hotel, Sr. Jamil Rodrigues da
Costa, trabalhava no 9° BEC, em Cuiabá, MT, quando
eu lá servi, como Tenente, nos idos de 1978/79.

Aproveitei a tarde para conhecer as instalações


e admirar a fauna que perambula pelas cercanias do
Hotel, onde recebem alimentação farta e fácil. Apesar
de ter percorrido os mais diversos rincões desta Terra
Brasilis aqui encontrei a maior concentração das belas
araras azuis (Anodorhynchus hyacinthinus). As capiva-
ras perambulam tranquilamente por um banhado que
cerca a pousada, paralelo ao Rio, e que no período de
estiagem é alimentado por uma bomba d’água que fun-
ciona ininterruptamente bombeando água do Cuiabá.

16.08.2017: Partimos na Fênix VI com destino


à Fazenda São João (16°56’42,7”S / 56°37’57,5”O),
depois de navegarmos por uns 12 km passamos pela
Foz do Rio Itiquira e a 6,5 km adiante pela do Rio São
Lourenço.
260
Reportemos algumas observações do Ex-
presidente neste trecho:

Periquitos e tangarás de cabeça vermelha animavam as


árvores sobre nossas cabeças. Uma espécie de casa
flutuante, primitiva, estava encostada ao barranco. Numa
extremidade dela uma mulher fazia o almoço num peque-
no fogão. A tripulação estava em terra. A embarcação era
uma das que são verdadeiros armazéns e viajam acima e
abaixo pelos Rios, carregadas com o de que mais precisam
os habitantes da região, parando nos lugares onde havia
fazendas. Eram as únicas casas de comércio que muitos
habitantes do interior veem durante anos seguidos.
Rodam com a corrente, Rio abaixo e Rio acima são
levadas a varejão pelos tripulantes. Às vezes conseguem
que algum vapor as reboque. A que encontramos tinha
uma parte coberta de zinco; outras a têm cobertas de
colmo ou de couro. O Rio ia serpeando pelo vasto
pantanal, cortado de restingas e mato. Os dois
naturalistas encontravam sempre alguma coisa
interessante para contar, de sua experiência passada,
sugerida por alguma ave ou animal que se nos deparava.
Japins pretos e amarelos, com pequena crista, de duas
espécies diferentes, eram vistos pelo Rio. Fazem ninhos
em colônias e por elas passamos muitas vezes, ficando os
compridos ninhos pendentes de galhos de árvores,
diretamente sobre a água.

Cherrie contou haver achado uma dessas colônias cons-


truída em torno a uma caixa de marimbondos de vários
palmos de diâmetro. Os marimbondos são malignos e
irritáveis, e poucos inimigos ousariam aventurar-se a se
aproximar de um ninhal que estava sob tão formidável
proteção; mas aqueles pássaros nada temiam e em óbvio
que não corriam perigo de entrar em conflito com seus
perigosos protetores. Vimos um escuro jaburu voando em
frente à proa do vapor, emitindo seu canto grave de duas
notas. Miller contou que no Orenoco aquelas íbis saqueiam
os ninhos das tartarugas do grande Rio. São muito
sagazes para achar o ponto em que a tartaruga põe os
ovos e, desenterrando-os da areia, quebram as cascas e
bebem o conteúdo. (ROOSEVELT)
261
Aportamos na Fazenda São João, às 11h20 onde
tivemos o privilégio de conhecer o Sr. Luís Antônio
Fellipe que nos acompanhou em um “tour” pela sede da
fazenda onde hospedara-se Roosevelt e mostrou-nos o
quarto em que teriam ficado Roosevelt e Rondon:

Roosevelt alojara-se em terra, em um quarto da sala de


visitas, e nós, com o nosso “Nyoac” atracado à barranca,
ficamos alojados a bordo [...]. (CUNHA)

O Luís Antônio enviou-me, mais tarde, como


prometera, uma cópia da obra “Viagens e Caçadas em
Mato Grosso: Três Semanas em Companhia de Th.
Roosevelt” de autoria do Comandante Heitor Xavier
Pereira da Cunha. De volta ao Porto Jofre, fizemos uma
parada para o almoço, por volta das 14h00, na Resi-
dência Pantaneira da Camargo Correia (17°03’24,64”S
/ 56°37’57,4”O). Retornamos ao Rio Cuiabá e por volta
das 16h30 notamos uma intensa agitação e uma
enorme concentração de voadeiras próximas à margem
direita observando uma onça com seu filhote
(17°15’26,8” S / 56°34’55,10” O). O Biólogo Rogério
Cunha de Paula afirma que estão investigando o:

uso cevas tanto no Pantanal de Cáceres como na


região de Barão de Melgaço e Poconé para facilitar o
avistamento de onças. Há alguns anos foram feitas
denúncias quanto ao uso de iscas por um empresário
estrangeiro que possui pousada na região de Porto
Jofre, próximo ao Parque Estadual Estação das
Águas. O site da pousada garantia o avistamento do
felino e chegava a afirmar que devolveria o paga-
mento do turista caso não observasse a presença de
uma onça. Até hoje não se conseguiu comprovar a
denúncia, mas a prática de ceva é apontada por
moradores e funcionários de pousadas.

262
Imagem 61 – Portos Zé Viana, Jofre e Fazenda S. João
263
Relatos Pretéritos

26.12.1913

Magalhães

No dia 26, às 04h00, começamos a viajar em águas


do Rio S. Lourenço e às 09h15 minutos encetamos a
subida do Rio Cuiabá. (MAGALHÃES, 1916)

27.12.1913

Roosevelt

Paramos então em uma grande fazenda de criação


para conseguir leite fresco e carne de vaca. Havia
várias construções, ranchos e currais junto à mar-
gem do Rio, e 50 ou 60 vacas leiteiras estavam reu-
nidas em um curral. (ROOSEVELT)

Pereira da Cunha

Parávamos em S. José Velho, uma pequena roça em


meio daquelas extensões enormes e desabitadas,
“estação” onde os navios se abastecem de lenha, e
onde se encontra, às vezes, um pouco de leite, carne
e uma ou outra galinha. (CUNHA)

Magalhães

Às 20h30, paramos defronte ao Aterradinho, peque-


na habitação à margem esquerda do Rio Cuiabá,
onde aguardamos o tempo suficiente para que a
chegada da Expedição à fazenda de S. João não se
verificasse durante a noite. É muito interessante
assinalar que o terreno, justificando perfeitamente o
nome dado a esse lugar, é aí constituído por cama-
das de aterro, superpostas provavelmente pelos pri-
mitivos habitantes indígenas dessa zona.
264
Justificam as hipóteses: a exceção da qualidade e da
posição das terras nesse ponto, como em outros
semelhantemente constituídos e a descoberta de
fragmentos de objetos da cerâmica elementar dos
aborígines, fragmentos esses encontrados nas
escavações locais. (MAGALHÃES, 1916)

28.12.1913

Rondon

Ao romper do dia 28, continuamos a subir o Cuiabá;


avistamos, à nossa esquerda, uma aldeia de índios
Guatós, os “eternos canoeiros” de Couto de
Magalhães (140) e, antes das 09h00, descobrimos o
navio “Mato Grosso”, acompanhado de uma lancha,
embarcação em que vinham o Presidente do Estado
e pessoas da sua comitiva, desejosos de antecipar os
cumprimentos e finezas com que iam acolher o
ilustre hóspede do Brasil. Ainda nesse dia os Srs.
Roosevelt e Costa Marques, fizeram comigo, uma
pequena excursão venatória (141). (RONDON)

Roosevelt

Na manhã de 28 chegamos à sede da grande


fazenda de São João, do Sr. João da Costa Marques.
Nosso anfitrião e seu filho mais novo João, que era
Secretário da Agricultura do Estado, sua encantadora
esposa, bem como o Presidente de Mato Grosso com
vários outros cavalheiros e senhoras tinham descido
o Rio para nos cumprimentar. Desceram um Rio, a
várias centenas de quilômetros de distância. Como
sempre, fomos tratados com generosa e cordialís-
sima amabilidade.

140 José Vieira Couto de Magalhães. Região e Raças Selvagens do Brasil ‒


Brasil ‒ Rio de Janeiro ‒ Tipografia de Pinheiro e Cia, 1874.
141 Composição poética cujas personagens são caçadoras.

265
Alguns quilômetros abaixo da sede da Fazenda a
comitiva foi ao nosso encontro em um vapor de roda
na popa e uma lancha enfeitada com bandeiras.

A bela casa da fazenda ficava apenas poucos metros


afastada da beira do Rio, numa clareira gramada,
semeada das nobres árvores que são as palmeiras
imperiais. Outras árvores, edifícios de toda espécie,
jardins floridos, hortas, campos, currais e pátios de
altos muros brancos, ficavam próximos à vivenda.

Um destacamento de polícia do Estado, com banda


de música, achava-se formado em frente à casa, e
dois mastros haviam sido erguidos, estando um
deles já com a bandeira brasileira desfraldada. O
pavilhão americano foi hasteado no outro, quando
pisei em terra, e a banda tocou os hinos nacionais
dos dois países. (ROOSEVELT)

Pereira da Cunha

Às 6 e tanto da manhã seguinte, 28, deixamos o


Aterradinho, e continuamos a subir o Rio com
destino à Fazenda de S. João, a cerca de duas horas
de, caminho; antes, porém, de a termos atingido,
encontramos o vaporzinho “Mato Grosso”, no qual
vinham ao nosso encontro, o Presidente do Estado,
comitiva e convidados, mas todos em trajes simples,
como convinha, o que muito agradou a Roosevelt,
que, perspicaz como é, logo lançou os maliciosos
olhos para mim, repetindo: “le rusé commandant...”

Comboiados pelo “Mato Grosso”, chegamos, pouco


depois das 8 da manhã, ao barranco da bela
fazenda, onde, antes já saltara o Presidente do
Estado, que veio a bordo dar as boas-vindas ao
visitante ilustre. Logo saltamos todos e, ao pormos
pé em terra e ao ser içada a nossa bandeira em um
dos mastros para isso preparados, uma banda de
266
música entoou o hino nacional; todos a isso
assistimos parados, de chapéu na mão ou em
continência, e, uma vez a cerimônia terminada,
dispúnhamo-nos a caminhar quando em outro
mastro, sobe a estrelada bandeira “Yankee” ao som
de uma música desconhecida para os meus ouvidos;
fizemos todos o que já havíamos feito para com a
nossa bandeira, mas ao terminar a nova cerimônia e
ao encaminharmo-nos até a casa da fazenda,
perguntei a um dos da comitiva, que música era
aquela e se por acaso seria o hino do Estado de Mato
Grosso!

O homem olhou-me espantado e respondeu: “não,


Senhor, é o hino norte-americano, e foi coisa que
obtivemos com grandes dificuldades; graças a um
disco de gramofone é que nos foi possível fazê-lo
hoje executar, mas foi uma trabalheira enorme para
escrever as partes organizar, enfim, este conjunto”.

Tive dó do homem no qual, pelo carinho com que


falava daquele “tour de force”, se descobria o autor;
mas, eu, que conhecia tão bem o belo e imponente
hino americano, não podia deixar persistir aquele
engano, e, contando antes, como consolo, a história
verídica de um nosso navio de guerra que, em um
porto do Japão, executou uma música qualquer, com
todas as continências e salvas da pragmática na
suposição de que fosse o hino japonês, desfiz o
engano do pobre homem, cuja explicação tão
interessante quanto a “gafe”.

Naturalmente, o disco do gramofone tinha, indicando


uma música ou canção americana – “american song”
– os homens traduziram a coisa como – Hino
americano – e, com entusiasmo e segurança,
aplicaram-no ao içar da bandeira... E eu sempre
queria saber o que teria pensado Roosevelt a
respeito de tal extravagância.
267
Com o nosso hóspede em “grand ténue” (142), isto é,
de paletó vestido, penetramos na boa e confortável
casa da vasta Fazenda de S. João, pertencente ao
Sr. João Epifânio da Costa Marques, fazenda com
cerca de quarenta léguas quadradas de terras e
40.000 cabeças do gado vacum. (CUNHA)

29.12.1913

Rondon

Mas, no dia imediato, 29 de Dezembro, choveu


tanto, que não foi possível tirar partido das caçadas,
nem assistir ao rodeio em que deveriam figurar seis
mil rezes, tocadas e reunidas por vaqueanos a
cavalo. (RONDON)

142 Grand tênue: grande estilo.

268
Imagem 62 – Capivaras no Rio Cuiabá

Imagem 63 – Sede da Fazenda São João


269
Imagem 64 – Quarto de Roosevelt na Fazenda São João

Imagem 65 – Onças no Rio Cuiabá


270
Fazenda S. João ‒ Descalvados
O meu intuito não foi apenas o de dar uma demonstração de
afeto ao General Rondon, de quem me honro de ser amigo.
Quis chamar a atenção do grande público francês para a
importância da sua obra, quer sob o ponto de vista
brasileiro, quer sob o que diz respeita ao conhecimento
científico do Universo. Ao mesmo tempo, transmiti à
Sociedade Geográfica de França o relatório completo das
diversas obras por ele publicadas, com documentos
complementares que permitirão apreciar a extensão dos
serviços que prestou à causa geral da Humanidade.
(General Maurice Gustave Gamelin)

17.08.2017: Partimos, às 05h30, de Porto


Jofre, rumo à Foz do Rio Cuiabá. A viagem transcorreu
sem grandes alterações a não ser um ligeiro encalhe
em um banco de areia facilmente transposto pela
tripulação. Acampamos na Boca do Cuiabá, por volta
das 18h00, (17°52’27,5” S / 57°28’51” O) tendo como
pano de fundo a majestosa Serra do Amolar.
Única pelo seu tamanho porque está no interior do
continente e pela diversidade de domínios da natureza.
(Aziz Ab’Saber)

A Serra do Amolar, além de moldar o Rio


Paraguai a seu bel prazer, bloqueia, sufoca a enorme
massa líquida da “planície inundável” (143), dando
origem às Baías do Burro e Infinita e a três colossais
Lagoas Mandioré, Gaíva e Lagoa Uberaba.
143 Aziz Nacib Ab'Saber em o “O Pantanal Mato-Grossense e a Teoria dos
Refúgios”.
271
É difícil descrever o que sentimos ao percorrer
estes fluídos caminhos, este imenso mosaico aquático
que se tinge, que se metamorfoseia a cada dia como se
o Patrão Maior do Universo estivesse a ensinar jovens
querubins a aperfeiçoar a arte da aquarela.

Pinçando uma das Facetas Aprazíveis do Pantanal


(Ramão Garcia)

O Pantanal é a própria poesia do grande Universo da


perplexidade, onde o singular surge e o inalterável acontece.
É como se a garça cantasse a delirante sinfonia do bando.
Quando elas se aconchegam pantaneiramente e o pantaneiro
se extasia diante do brilho da pintura especial do quadro
de grandeza e todo enlevo com que a natureza
presenteia o colibri, no delírio invulgar de sua
estática posição junto às flores nos jardins.
É como se o cisne fizesse ouvi-lo na corte, empenhado com
sua bela fêmea, no emoldurado postal no passeio do Lago.
No garboso desfile com a amada, um grande elo das
próprias origens, numa demonstração
viva e cristalina da nobreza.
A arrogância lhe dá ares incontestes de imperialismo.
Natural!
Inclinado mais nesse namoro para ver-se cortejado, do que
tentar fazê-lo, esse rolar de amores,
aguardando nessa postura real a linda
jovem acompanhante a conquistá-lo.
É a nossa dedução da divina tela, no balé dos cisnes nas
águas dos Lagos ou das garças no pantanal, ou ainda do
colibri, na horizontal, beijando as flores, em instantes
indescritíveis, que, pacificamente, é alto-relevo.
Como aprimorá-lo? Como aprimorá-lo?

272
Para mim e o pantaneiro, é a poesia, patente na nudez
cristalina desses inadiáveis instantes, aos olhos da alma e
das frases que se coadunam, pela fantasia natural da
inspiração, retratando a sensibilidade e a harmonia na
condução de uma aquarela, na pintura desse cenário, que a
natureza nos deu e orquestração sinfônica que surge nesse
inusitado estado, como que adorno primoroso para o quadro
que tentamos pintar, ou, ainda, que seja a própria moldura.

Mas o quadro, tentamos proclamá-lo – mas o quadro,


tentamos proclamá-lo.

Durante a viagem o Dr. Marc Meyers comentou


que Esther de Viveiros, no livro “Rondon Conta sua
Vida”, afirmara que a Expedição, da Foz do Cuiabá,
teria descido o Rio Paraguai até Corumbá e, depois,
trocado de embarcação rumo à S. Luiz de Cáceres.

Como estava envolvido no planejamento para a


“Descida do Rio Acre”, em setembro, eu não tivera
tempo de me preparar adequadamente para esta etapa
da Expedição Centenária, consultando os relatos preté-
ritos dos participantes da Expedição Científica, e pro-
meti ao amigo que me debruçaria sobre o problema tão
logo concluísse minhas missões ‒ o que só aconteceria
no mês de novembro. Relata Esther de Viveiros:
Atingimos no dia seguinte (144) a confluência do São
Lourenço (145) com o Paraguai, retomando o rumo
que fora abandonado pela visita às duas fazendas.
[...] Um dia mais e chegávamos a Corumbá (146).
Seguimos, então, em um dos pequenos vapores que
faziam as linhas Corumbá-São Luís de Cáceres e
Corumbá-Cuiabá. (VIVEIROS)

144 Dia seguinte: 02.01.1914.


145 São Lourenço: Cuiabá.
146 ???

273
Os capítulos denominados “Expedição Científica
Roosevelt-Rondon – A, B e C” do livro de Viveiros foram
baseados, também, no original, em inglês, “Through
the Brazilian Wilderness” de Theodore Roosevelt, que
foi editado pela primeira vez em dezembro de 1914.
Parece que o equivocado parágrafo em que a autora
advoga que a Expedição Científica da Foz do Cuiabá re-
tornou à Corumbá levou em conta apenas um pará-
grafo, fora de contexto, da obra de Roosevelt sem que
a autora tivesse a preocupação de checar sua afirma-
ção com o relato de outros expedicionários.

Vejamos o que dizem eles:

02.01.1914
Roosevelt

No dia imediato descemos o São Lourenço até sua


junção com o Paraguai e mais uma vez começamos a
subir este último. [...]

Cinco parágrafos adiante, Roosevelt faz um co-


mentário a respeito da dificuldades de se navegar neste
trecho devido ao calado das embarcações:

A confluência do S. Lourenço e do Paraguai fica a um


dia de viagem acima de Corumbá, de onde parte um
serviço regular com vapores de pequeno calado para
Cuiabá, acima do primeiro entroncamento, e para
São Luiz de Cáceres, acima da segunda bifurcação.

Os vapores não têm grande força e a viagem para


cada uma dessas pequenas cidades dura uma
semana. Há outras ramificações navegáveis. Acima
de Cuiabá e Cáceres, as lanchas prosseguem rio
acima em vários dias de viagem, exceto durante os
períodos de maior estiagem. (ROOSEVELT)
274
Não apenas Theodore Roosevelt, foi muito claro
que a Expedição subiu o Paraguai, a partir da Foz do
Cuiabá, mas, também, Rondon, Magalhães e o Coman-
dante Pereira da Cunha:

Rondon
Depois da trabalhosa e improfícua jornada de 1° de
janeiro, descemos o S. Lourenço (147) e entramos de
novo no Rio Paraguai tomando o rumo de S. Luiz de
Cáceres, águas acima. (RONDON)

Magalhães
Efetuadas estas (148), regressou o “Nyoac” a 02 de
janeiro de 1914, descendo o Rio S. Lourenço (149) e
passando a subir o Rio Paraguai, às 19h15, em
demanda de S. Luís de Cáceres, aonde chegamos às
17h30 do dia 05 do mesmo mês. (MAGALHÃES,
1916)

Cunha
Descemos com o “Nyoac” até um bom pouso, e, ao
clarear do dia seguinte (150), começamos a descer o
Rio, desta vez com intenção de retornarmos ao Rio
Paraguai, pelo qual deveríamos subir ainda muito.
Com duas horas de viagem encontramos o Cuiabá,
em cuja Foz nos despedimos dos companheiros que,
seguindo na lancha, deveriam voltar à Fazenda S.
João; algum tempo depois, atracávamos em S. José
Velho, donde, depois de alguma demora, largamos
águas abaixo até que, depois de navegarmos todo o
dia, entramos, às 19h00, no caudaloso Paraguai.
(CUNHA)

147 S. Lourenço: Cuiabá.


148 Estas: estas caçadas.
149 S. Lourenço: Cuiabá.
150 Dia seguinte: 02.01.1914.

275
18 a 20.08.2017: A navegação diuturna foi um
desafio para nossos três piloteiros que se revezavam na
condução do “Calypso” por aquele intrincado dédalo
fluvial. Infelizmente a navegação noturna privou-nos de
poder admirar e documentar grande parte das paisa-
gens únicas daquele colossal paraíso das águas e berço
de uma das mais ricas faunas do planeta, tanto em
variedade como em quantidade.

Na madrugada de 20.08.2017, passamos por


Descalvados e, embarcados na “Fênix VI”, O Dr. Marc,
eu e os Coronéis Francisco e Angonese fomos visitar
suas instalações. Ao percorrermos as instalações histó-
ricas sentimos uma compulsão quase incontrolável de
adentrar nas históricas instalações, onde tinham per-
noitado há cem anos o Ex-presidente Roosevelt e o
então Coronel Rondon, mas não tínhamos autorização e
isto caracterizaria invasão de propriedade privada.

Minha educação familiar não me permitiria tal


atitude. A formação recebida na caserna apenas refor-
çava aquilo que aprendera de meus pais, como dizia o
então Capitão Wantuil Ferreira de Camargo, comandan-
te da 2ª Companhia do Curso Básico da Academia
Militar das Agulhas Negras – “Aqui não corrigimos
Defeitos, apenas aprimoramos Virtudes”.

Aqueles que tiveram o privilégio de dar os pri-


meiros passos no caminho da honra e do dever com
seus progenitores sabem do que estou falando. Sou do
tempo em que a palavra de um Homem valia mais do
que qualquer documento oficial e que um compromisso
assumido era honrado a qualquer custo. Devemos cum-
prir aquilo que determina o respeito ao nosso próximo
em qualquer circunstância, principalmente quando não
estamos sendo vigiados ou observados.
276
Só adentramos às Centenárias instalações
depois que o caseiro Jéferson acordou e nos acompa-
nhou na visita. Vamos dedicar o próximo capítulo
somente aos Descalvados e por isso mesmo me abste-
nho de me alongar mais sobre o tema.

Relatos Pretéritos

03 a 04.01.1914

Rondon

Nesta época do ano, o pantanal, invadido pelas


águas que se estendem a perder de vista, terras a
dentro, coleando por entre os firmes coroados de
verdura, apresenta-se como um lago imenso de
superfície serena em que se espelham as belíssimas
palmas dos carandás e dos acuris (151), de fuste es-
belto lançado para o alto.

A vida de toda aquela dilatada região concentra-se


nesses encantadores refúgios, emergidos do seio da
portentosa inundação: na espessura dos seus arvo-
redos, vagueia o jaguar famulento (152), bramindo
sob o aguilhão do desejo sexual, que o faz, mais do
que nunca, temeroso, enquanto pelas ramadas,
saltam os grotescos bugios ou pousam os negros
bandos de biguás, em contraste com as garças de
penas alvíssimas.

O romper do dia, tingindo o céu as terras e o


longuíssimo lençol d’água de mil cores cambiantes,
pondo nuns lugares sombras profundas e noutros
claridades resplandecentes, debruando a brancura
151 O Acuri (Scheelea phalerata) é uma palmeira da família Arecaceae
também conhecido como Bacuri, Auacuri , Cabeçudo , Coqueiro-acuri ,
Guacuri e Ganguri.
152 Famulento: esfomeado.

277
láctea de uma nuvem com a vermelhidão mordente
de uma brasa, marchetando d’ouro as ondas esme-
raldinas da folhagem, arrebata-nos a imaginação e
atira-nos para fora do círculo em que vivemos fecha-
dos pelo jogo regular dos sentidos e da reflexão. O
Sr. Roosevelt extasiava-se diante do maravilhoso
espetáculo e declara-nos que nunca em sua vida
experimentara emoção igual à que sentia vendo
aqueles quadros da natureza da nossa Pátria.
(RONDON)

Pereira da Cunha

03.01.1914: No dia seguinte soube que, durante a


noite, havíamos parado no lugar denominado Acuri-
zal, onde recebemos o Tenente Vieira de Mello, co-
mandante do destacamento que acompanharia a
Expedição, oficial que, além de trazer os cronô-
metros da Comissão, trouxera também uma carta
para mim. Tratava-se, nada mais nada menos, do
meu regresso ao Ladário, para assumir o comando
da nossa Força Naval, regresso que deveria ser
urgente e, se possível, feito na condução que era
portadora da carta.

Ora, já tendo a lancha regressado à Corumbá, havia


dois dias, e não havendo meio de transporte para
mim, só me restava um recurso, continuar a viagem
até S. Luiz de Cáceres, agora nosso ponto de
destino. Assim fiz, e agora subindo o Rio entre suas
margens chatas, baixas, ladeadas sempre de
renques de “aguapés”, tínhamos a impressão, quase
de navegar em uma vereda (153) fluída através de
uma baixa campina, pois, já tínhamos deixado por
nosso bombordo, na margem direita, as montanhas
que formam os fundos das grandes Baías de
153 Vereda: trilha.

278
Mandioré (154) e de Guaíba, esta tão vasta talvez
como a nossa Guanabara, e onde, ao longe, se
avistava um dos marcos divisórios dos nossos limites
com a Bolívia.

Pelas 15h00 ou 16h00, o nosso “Nyoac” atracou à


barranca para limpar fogos; a temperatura desse
dia, das mais altas que suportamos, era talvez de
mais de 40 graus centígrados à sombra, e o Sol,
causticante como fogo, elevava essa temperatura a
muito mais de 60 graus! Como o navio atracasse,
todos nós pensamos em aproveitar a ocasião para
caçar; eu, porém, refletidamente considerando a
ardência do Sol e a quase nenhuma probabilidade de
êxito, deixei-me ficar a bordo, “gozando do fresco”
que nos proporcionava o abrigo da coberta. Quase
todos saltaram, e até mesmo o louro e vermelho
comandante do navio, resolvendo nesse dia cultuar
Santo Humberto (155), saltou com o Dr. Soledade.

Roosevelt, mal transpôs a prancha que se lançava


para o barranco, desistiu e achou que mais valia
seguir o bom exemplo do “rusé commandant”. Cerca
de cinco minutos depois, o robusto Dr. Soledade com
a roupa encharcada de suor, e o Comandante do
navio transformado em lagosta cozida, regressaram
exaustos e abatidos pelo Sol realmente insuportável.
Todos regressaram, enfim, salvo Kermit que, ao que
parecia, não sofria as influências da canícula. Já ali
estávamos, havia mais de uma hora, e, como
estivessem limpos os fogos, e Kermit não apareces-
se, fizemos apitar o navio para prevenir de que
estávamos prontos.

154 Mandioré: lagoa de 25 km de comprimento por 10,5 km de largura


com uma área de 152 km² dos quais 90 pertencem à Bolívia (município
de Puerto Quijarro) e 62 ao Brasil (município de Corumbá).
155 Santo Humberto: patrono dos caçadores.

279
O nosso sinal foi compreendido, e não tardou que
víssemos aparecer no barranco o infatigável compa-
nheiro, tal como se tivesse saído de um banho, tão
encharcadas de suor estavam as suas roupas.
Quando Kermit apareceu nós estávamos sentados à
mesa do lanche, e qual não foi a nossa surpresa ven-
do que, desprezando a prancha, o nosso Kermit ati-
rou-se ao Rio para galgar o navio. Vencendo a dis-
tância, aliás curta, que nos separava de terra, o nos-
so bom companheiro, agora encharcado d’água, sen-
tou-se fleumaticamente à mesa, fez lanche em nossa
companhia, e só depois disso foi mudar a roupa.

A viagem, nesse trecho de Rio, talvez se tornasse


monótona se não fosse a agradável palestra dos
bons companheiros, tranquila, porém, não poderia
ela ser, porque, como se não bastassem os
mosquitos, bandos de mutucas [enormes moscas
ouro-negras de ferrão acerado (156)] perseguiram-
nos terríveis e importunos, sem nos dar um instante
de sossego, e já era com impaciência e ânsia que
esperávamos a hora dos mosquitos, isto é, a noite,
único remédio contra as terríveis mutucas.

Os fotógrafos não tinham agora muito que fazer, ain-


da assim, e talvez por isso, conseguiram uma foto-
grafia original. Roosevelt não se conformava com a
dormida em rede, e nem mesmo dela se utilizava
para repousar ou ler durante o dia, mas, lá uma vez,
ou por não ter à mão uma cadeira, ou porque qui-
sesse ensaiar, deitou-se a ler, e foi quanto bastou
para ser apanhado pelas objetivas. Outra vez, estan-
do o Ex-presidente dos Estados Unidos, de agulha
em punho, a remendar as calças, corri para a minha
“Goerz”, mas não fui bastante feliz para ter essa in-
teressante prova fotográfica das habilidades do notá-
vel estadista.

156 Acerado: aguçado.


280
Durante as refeições as nossas palestras conti-
nuavam sempre e, certa ocasião, dizendo o nosso
hóspede que não dava importância alguma à questão
de tarifas, que tanta celeuma sempre levantava,
objetei-lhe que, de fato, isso visava os interesses
internacionais, o meu interlocutor, porém, que havia
julgado a questão sob um ponto de vista mais geral,
respondeu-me com esta pergunta:
“acredita que a Inglaterra livre cambista, e a Alema-
nha protecionista, teriam deixado de atingir o ponto
em que estão, se tivessem trocado os sistemas!”.
E, continuando no seu ponto de vista, Roosevelt
acrescentou:
“há uma série de questões teoricamente muito
importantes, que apaixonam as massas e até os
dirigentes, que são mesmo, às vezes, causa de lutas
desastradas, e que, na prática, não têm a menor
importância, isto é, que a adoção do método
preconizado por um ou por outro é de resultado
perfeitamente idêntico. O direito de voto às mulhe-
res, por exemplo, é uma questão que tem sido muito
debatida em toda a parte, pois bem, nos Estados
Unidos, nós temos Estados em que as mulheres têm
os mesmos direitos políticos do que o homem, ao
passo que, em outros Estados, esses direitos não
são a elas extensivos. Ora, não pode haver um
melhor campo de observação do que esse, oferecido
dentro de um mesmo país, de uma mesma raça e
sob a influência, portanto, dos mesmos hábitos e
costumes. Pois bem: quer num, quer noutro caso, as
mulheres que sabem ter e manter um lar e o fazem
igualmente com qualquer dos dois sistemas, ao pas-
so que as transviadas da missão de mães de família,
que não sabem e não querem ser procriadoras e
educadoras de seus filhos, também não mudam de
propósito, quer tenham, quer não tenham os direitos
políticos, do homem”. “Um dos problemas mais
sérios que eu vejo”, dizia Roosevelt, “é o do capital;
e uma das coisas que eu mais admiro em nosso país
é a ausência de anarquistas”. [...]
281
Retorqui-lhe dizendo que julgava a inexistência de
anarquistas no Brasil proveniente do que imputavam
como um dos nossos principais defeitos, isto é, a
nossa desmedida liberalidade ou nenhuma ideia de
economia. Com o nosso sistema de gastar tudo, sem
pensarmos em juntar reservas, e com a nossa natu-
ral generosidade, o capital subdivide-se, espalha-se,
e desaparecem a fome e as necessidades prementes,
que são os alicerces do anarquismo.

Se, em vez disso, fosse a índole do povo a causadora


desse fenômeno que, com justa razão, entusiasmava
Roosevelt, os maus elementos, uma vez importados,
germinariam e progrediriam; entretanto, a planta
ruim, transportada para o nosso solo bom e fértil,
logo se transforma, pois que não mais mergulha as
suas raízes na dura necessidade, lugar, aliás, onde
florescem os grandes capitães.

De pleno acordo, deixamos a mesa de jantar.

04.01.1914: Só no dia seguinte, cedo, antes das 6


da manhã, nos encontrávamos, ao enfrentar com o
nosso “Nyoac” um aldeamento de Guatós, esses
grandes canoeiros e caçadores.

Um velho e um rapazinho, cada um em sua canoa,


correram para o navio assim que o viram parado, e
aquele, já viciado pela civilização, e já também
conhecedor e escravo desse grande flagelo que é o
álcool, pedia instantemente que recebêssemos um
remo em troca de meia garrafa de cachaça. Mas,
seguindo adiante, deixamos sem cachaça o incon-
solável Guató, destinado, como a sua grande tribo, a
rápido desaparecimento.

Esses índios são grandes caçadores de onças, e, em


tais caçadas, adotam um processo que tem tanto de
original quanto de ardiloso e arrojado: aproveitando
282
que o pantanal cheio transforme alguns capões de
mato em ilhas, o nosso Guató observa em qual
destes terá ficado uma onça ciosa de amores ou de
combates, e, conforme a época, de um outro capão
julgado próprio, o ardiloso Guató provoca o animal
ao combate, ou o atrai aos desejos, imitando o urro
que for conveniente; a mulher do índio acompanha-o
na perigosa empresa, e quando a onça, iludida pelo
arremedo do índio, procura a nado ganhar o capão
de onde a chamam, o casal de índios lança-se na
canoa ao encontro da fera, e o vasto e deserto
pantanal é testemunho desse combate em que, o
índio armado de zagaia e a índia de espingarda, ou
flecha, nem sempre levam de vencida o nosso
valente felino, que tem na água quase que a mesma
assombrosa agilidade com que em terra faz
prodígios.

Já deixamos para bem longe o pequeno aldeamento


de Guatós, subimos sempre, e agora, quase sem
aguapés em suas margens, o Rio corre entre
imensas campinas cobertas de macega alta onde, de
longe em longe, rareiam pequenas ilhas de
vegetação mais alta, ou pequenos capões.

Nessas vastas planícies abunda o nosso belo


galheiro, o cervo, e já viramos, distante, o majestoso
galopar desse garboso animal; no dia seguinte,
porém, tão próximos apareceram três desses cervos
que, sem refletir na maldade e só ouvindo o instinto
de caçador, corri ao meu mosquetão Mauser e alvejei
o mais belo exemplar.

O nosso vaporzinho trepidava bastante, o que muito


dificultou a precisão do tiro, e, por isso ou porque
tivesse mal visado, o caso é que, infelizmente, errei
o tiro, e os três cervos, galopando velozes e
soberbos, desapareceram na campina imensa.
(CUNHA)
283
Relatos Pretéritos: Descalvados

Barão de Melgaço (1870)

Descalvado: Pequeno monte, cujo cume é destituído


de terra vegetal; termina a cordilheira, que margeia
pela esquerda o Alto Paraguai até à Latitude de
16°42’. Coisa de 8 ou 10 quilômetros abaixo, existiu
na oposta margem um destacamento, que impropria-
mente chamou-se também do Descalvado. Agora há
aí o primeiro saladeiro que formou-se na Província
[1875]. (RIHGB - XLVII - II, 1884)

Rondon (04.01.1914)

Nesta tarde de 04 de janeiro, fundeávamos no porto


da Fazenda do Descalvado, atual propriedade do Sr.
Farquahr, que a adquiriu do Sindicato Belga “Produits
Cibils” há, pouco mais ou menos, dois anos. O seu
primeiro proprietário formou-a com o auxílio dos
índios Bororos da Campanha, e nos seus campos, de
mais de 200 léguas quadradas (157), existiram cerca
de 600 mil rezes, das quais, dizem, algumas vieram
tocadas da Fazenda Nacional de Caiçara. Aliás, arre-
banhar gado de propriedade do Governo constitui
profissão, não só rendosa, mas sobretudo pacífica,
de brasileiros e até de bolivianos, difícil, só era tirar
alguns bois de estabelecimentos particulares porque
a isso se dava o nome de roubo e quem o praticava
era chamado ladrão e como tal tratado.

Por morte do opulento proprietário, os seus herdeiros


venderam o Descalvado, como coisa de somenos
valor, à firma comercial Cibils & Cia., da República
Argentina, e essa firma revendeu-o ao já aludido
Sindicato, do qual fez parte o Rei Leopoldo. Os
belgas exploraram os rebanhos da enorme fazenda
157 200 léguas quadradas: 4.662 km2.
284
durante 30 anos, matando sem método nem escolha,
todas as rezes que vinham no rodeio; ainda assim,
não conseguiram extinguir a criação: reduziram-na a
menos de 100 mil cabeças. Os novos proprietários
projetam continuar a indústria da fabricação do
extrato líquido de carne, que era dos belgas; mas,
por enquanto, estão repovoando os campos. Aí, o Sr.
Roosevelt teve carinhosa recepção dos seus
patrícios, o administrador do estabelecimento e um
cowboy do Texas, encarregado de superintender o
serviço dos campeiros, quase todos de nacionalidade
paraguaia. (RONDON)

Pereira da Cunha (04.01.1914)

Antes das 16h00 desse mesmo dia 04, atracávamos


ao trapiche de madeira da enorme fazenda
“Descalvados” (158), na margem direita do Paraguai,
com mais de duzentas léguas quadradas, e sessenta
mil cabeças de gado. Apesar do fundo dessa fazenda
ser linha de limite com a Bolívia, pertence ela ao
estrangeiro – a “Brazil Land Cattle and Packing
Company”, ‒ que, por sua vez, a comprou de uma
companhia belga, que aí fabricava extrato de carne.

Esse colosso possuía quinhentas mil cabeças de


gado, mas, os Belgas, no afã de fabricar o seu
produto, estúpida e criminosamente, abatiam tudo
quanto repontava o rodeio, sem olharem sexo nem
idade, juntava-se a isto o roubo que, constan-
temente, praticavam na fronteira da Bolívia, e que,
segundo nos informaram o administrador e outras
pessoas, chegava a ser de mil cabeças por mês;
pois, ainda assim, após trinta anos de domínio belga
e manutenção de tal “regímen”, a nova companhia
encontrou sessenta mil cabeças, que não serão
facilmente dizimadas, pois que, além de não
158 Descalvados: 16°43'59.05"S / 57°44'57.05"O.
285
prosseguirem na matança estúpida, mantêm os
novos proprietários, segundo ouvimos, uma polícia
ativa e numerosa, e capaz de evitar a continuação
dos roubos. Nessa colossal fazenda vimos pilhas de
couros de onça, na maioria mortas pelos índios
Guatós, mas, outras pilhas de couros seguiam-se às
de couros de onça, e eram essas fornecidas pelos
cervos, cuja matança bárbara e destruidora vai a
mais de mil animais por ano! (CUNHA)

Roosevelt (04.01.1914)

Uma tarde paramos na sede ou Quartel General de


uma das fazendas longínquas da “Brasil Land an
Cattle Company”, do sindicato Farquahar, sob a dire-
ção de Murdo Mackenzie – não temos nos Estados
Unidos cidadão melhor, nem mais competente cria-
dor de gado do que ele. Naquela fazenda existiam
umas 70 mil cabeças de gado. Fomos cordialmente
recebidos por Mclean, administrador da Fazenda, e
por seu auxiliar Ramsey, um meu velho amigo do
Texas.

Entre os outros auxiliares, todos igualmente cordiais,


havia vários belgas e franceses. Os trabalhadores
eram paraguaios e brasileiros e, em pequeno
número, índios ‒ um grupo de homens destemidos,
sempre armados e sabendo como usar suas armas,
porque há frequentes conflitos com ladrões de gado,
que vêm através da fronteira boliviana, e a Fazenda
tem de se proteger por si mesma. Esses vaqueiros
eram do tipo a que já nos habituáramos: homens
magros, de pele tisnada, mal-encarados, chapéus
quebrados na testa, camisa e calça surradas, aven-
tais de couro franjado e pesadas esporas nos pés
descalços. São cavaleiros e laçadores magníficos e
não temem homens nem feras. Notei um vaqueiro
índio, de pé, na atitude exata de um Shilluk do Nilo
Branco, com a sola de um pé apoiada na outra per-
286
na, acima do joelho. Aquela região oferece extraordi-
nárias possibilidades para a criação de gado.

Na fazenda, havia curtume, matadouro, seção de en-


latamento, capela e edificações de várias espécies e
com todos os graus de conforto para as 30 ou 40 fa-
mílias que tinham o local como seu Quartel General.
A bela casa branca, de dois andares, erguia-se entre
limoeiros e flamboyants na beira do Rio. Havia toda
sorte de bichos domesticados em torno da casa. O
mais interessante era um veadinho malhado que
gostava de ser acariciado. Meia dúzia de mutuns de
espécies várias passeavam pelas salas; havia tam-
bém papagaios de diferentes espécies e, logo fora da
casa, quatro ou cinco garças, com as asas não apa-
radas, deixavam que nos aproximássemos até pou-
cos palmos de distância, voando então graciosa-
mente para longe; mas voltavam pouco depois ao
mesmo lugar. Entre elas notavam-se pequenas e
grandes garças brancas e também as de cor arro-
xeada e pérola, com a cabeça em parte preta e o
bico multicor, que voam com um rápido voo picado,
em vez do usual bater de asas compassado das gar-
ças.

No depósito, notavam-se dúzias de peles de onças,


pumas, gatos bravos, jaguatiricas, e uma pele do
grande lobo vermelho de dentes miúdos. Eram todas
trazidas pelos vaqueiros e índios amigos, pagando-
se-lhes determinado preço por cada uma, pois de-
vastavam o gado. As onças matavam cavalos e va-
cas adultas, mas não os touros. Os pumas matavam
novilhos. Os outros animais vitimavam ocasional-
mente algum bezerro novo, mas ordinariamente só
atacavam carneiros, leitões e galinhas. Havia um
couro de onça preta; o melanismo é muito mais
comum entre os jaguares do que entre os pumas;
não obstante, Miller vira um puma preto morto por
um índio.
287
Imagem 66 – Mapa do MS ‒ Rios Cuiabá e S. Lourenço

288
Imagem 67 – Serra do Amolar

Imagem 68 – Dédalo Pantaneiro


289
Imagem 69 – Biguás no Rio Paraguai (Timothy Radke)

Imagem 70 – Descalvados
290
Descalvados
Vamos repercutir o excelente capítulo intitulado
“Descalvados: uma Fábrica na Fronteira Oeste” da lavra
do professor Domingos Sávio da Cunha Garcia retirado
da obra “Território e Negócios na ‘Era dos Impérios’: Os
Belgas na Fronteira Oeste do Brasil” editado pela
Fundação Alexandre de Gusmão em 2009, para que se
possa ter uma real ideia da história daquele formidável
empreendimento plantado nos ermos dos sem fim
pantaneiros.

Descalvados: uma Fábrica na Fronteira Oeste

O período que se abriu após a Guerra do Paraguai foi


marcado pelas dificuldades criadas pela destruição
provocadas pela guerra, que atingiu principalmente a
população pobre de Mato Grosso. [...]

Assim que a guerra terminou, no entanto, novas


possibilidades econômicas se abriram para a
Província, estimuladas por diversos fatores. A região
beneficiava-se do aumento da demanda de produtos
de origem primária no comércio internacional. [...]

No plano comercial, a reabertura da navegação do


Rio Paraguai e a consequente retomada do fluxo de
mercadorias que havia se iniciado antes da guerra,
também permitiram o rápido desenvolvimento de
alguns setores da economia da Província.

Entre esses setores estava a pecuária, que se


beneficiou do prolongamento em direção a Mato
Grosso do seu crescimento na região do Prata, bem
como de um processo inicial de industrialização de
derivados de carne bovina que se desenvolvia
naquela região e que se destinava ao mercado
internacional.
291
Esse processo incentivou o desenvolvimento de
charqueadas e fazendas de criação de gado
semelhantes àquelas que se espalhavam pela região
platina e que encontrou em Mato Grosso as
facilidades proporcionadas pela existência de grandes
áreas ainda não ocupadas e propícias para a criação
de gado de forma extensiva. O desenvolvimento
dessas atividades não atraía apenas o capital
interno. Elas abriam novas oportunidades para o
capital estrangeiro, que já operava no comércio e na
extração da borracha em Mato Grosso e que passou
a ter na pecuária mais uma possibilidade de
investimentos, associando interesses locais ligados
ao comércio de gado e a produção de carne e seus
derivados.

Dessa convergência de fatores irá surgir Descalva-


dos, que se transformará no maior empreendimento
agroindustrial de Mato Grosso naquele período,
tornando-se também uma referência da presença
estrangeira na fronteira oeste do Brasil entre as
décadas de 1880 e 1910. O início desse empre-
endimento liga-se ao desenvolvimento da pecuária
ao longo do século XIX em Mato Grosso, em grandes
fazendas de criação de gado.

Entre essas fazendas, a que mais se destacava era a


fazenda Jacobina, localizada a cerca de seis léguas
de Vila Maria, atual Cáceres, na estrada que ligava
essa cidade a Cuiabá. Jacobina foi fundada por
portugueses ainda no período colonial e
desenvolveu-se como centro de criação de gado e
produção de alimentos.

No início do século XIX Jacobina já era a mais impor-


tante fazenda da Província e seu proprietário foi pro-
gressivamente adquirindo mais e mais terras, a
ponto de dizer aos integrantes da Expedição Langs-
dorf que possuía mais terras que o Rei de Portugal.
292
Quando morreu o seu fundador, Leonardo Soares de
Souza, a fazenda Jacobina passou à sua filha única e
herdeira, Maria Josepha de Jesus Leite, que havia se
casado, no ano de 1813, com o Coronel de milícias
de Portugal, João Pereira Leite, então servindo no
Comando do Distrito Militar de Vila Maria. Desse
casamento nasceram 10 filhos, antes que João
Pereira Leite e sua sogra falecessem, no ano de
1833.

A partir daí a administração da Fazenda Jacobina e


dos negócios da família passaram às mãos de Maria
Josepha e, principalmente, de seu segundo filho,
João Carlos Pereira Leite, conhecido como “Major
João Carlos Pereira Leite”, que progressivamente
ascendeu à chefia da família, assim permanecendo
até sua morte, em 1880.

As terras da Jacobina se estendiam em um vasto


território, desde as regiões altas do Oeste de Mato
Grosso até o Pantanal Norte, na fronteira com a
Bolívia, ultrapassando o Rio Paraguai no sentido
Leste-oeste.

A parte das terras da fazenda Jacobina que ficava na


margem direita do Rio Paraguai, até a fronteira
natural com a Bolívia, no Pantanal Norte, era
formada por campos, entremeados por pequenos
capões de mata fechada. Nessa região o Major João
Carlos Pereira Leite tomou posse de um conjunto de
sesmarias onde teve grande desenvolvimento a
criação de gado, que aí se espalhou rapidamente.

Dessas sesmarias, a mais importante foi aquela a


que se deu o nome de “Fazenda do Cambará”, que
centralizava a criação de gado na parte da antiga
Jacobina. No início da década de 60 do século XIX, já
havia mais de 20 mil cabeças de gado na fazenda do
Cambará.
293
Mais ao Sul dessa Fazenda, também na margem
direita do Rio Paraguai, havia uma região de terras
altas chamada “Escalvado”, onde, ainda no período
colonial, costumeiramente se instalava uma
Fortificação Militar para impedir o avanço dos
espanhóis, em direção à Vila Maria e Vila Bella.

Essa região alta foi progressivamente mudando o


nome para Descalvados [provavelmente “do Escalva-
do” e depois “D’Escalvado”, antes de Descalvados],
assim que foi sendo ocupada pelo Major João Carlos
Pereira Leite, como uma das suas sesmarias de
criação de gado.

Durante a Guerra do Paraguai o Major João Carlos


Pereira Leite participou das tentativas de expulsão
dos paraguaios do Sul de Mato Grosso. Mas seu
principal feito durante a guerra foi impedir a
passagem pela fazenda Jacobina de pedestres vindos
de Cuiabá, no período vivendo grande epidemia de
varíola, contraída por soldados que haviam
participado da primeira tentativa de expulsão dos
paraguaios de Corumbá. Essa sua decisão teria
evitado que a epidemia se alastrasse por Vila Maria e
pela região Oeste de Mato Grosso.

Terminada a Guerra do Paraguai, afluiu para Mato


Grosso importante leva de argentinos, uruguaios e
europeus, principalmente aqueles que atuavam como
fornecedores das tropas e que haviam acumulado
certo montante de capital na atividade comercial.

Entre esses estrangeiros estava o argentino Rafael


Del Sar que comprou, em 1876, a sesmaria de
Descalvados do Major João Carlos Pereira Leite e
montou nela uma charqueada rudimentar, seguindo
o modelo daquelas que se desenvolviam em grande
número na região platina.

294
A venda da sesmaria de Descalvados para Rafael Del
Sar e a sua transformação em uma charqueada foi
um bom negócio para o Major João Carlos Pereira
Leite. Ele passou a ter um mercado próximo para seu
gado, sem precisar levá-lo em longas caminhadas
para ser vendido na região de Uberaba, na Província
de Minas Gerais, como fazia até aquele momento.
Por outro lado, para Rafael Del Sar a vantagem
estava na matéria prima, próxima e barata.

Ao mesmo tempo em que fornecia o gado que Rafael


Del Sar abatia na sua charqueada em Descalvados, o
major João Carlos Pereira Leite procurava desenvol-
ver a sua criação de gado, importando para isso
cavalos do Paraguai. Essa importação era necessária
para suprir as suas fazendas na região, naquele
período já infestada por uma doença que atacava o
rebanho cavalar, dizimando-o e impedindo que o
gado fosse manejado, o que, com o tempo, tornava-
o bravio e de difícil abate. Rafael Del Sar também
importava cavalos e utensílios utilizados nas Char-
queadas de Descalvados.

O Major João Carlos Pereira Leite morreu em outubro


de 1880 e seus bens foram a leilão, em hasta
pública. A totalidade de suas terras, localizadas na
margem direita do Rio Paraguai, foi arrematada por
um uruguaio, Jaime Cibils Buxareo. Junto com essas
terras, Buxareo também comprou a charqueada de
Descalvados, pertencente a Rafael Del Sar. Falemos
um pouco de Buxareo e suas atividades.

Jaime Cibils Buxareo era uruguaio, descendente de


famílias de imigrantes catalães, que vieram para o
Uruguai na primeira metade do século XIX. Da união
de duas dessas famílias, os Cibils e os Buxareo,
resultou o casamento de Jaime Cibils e Plácida
Buxareo.

295
Jaime Cibils construiu fortuna em Montevidéu,
dedicando-se a atividades mercantis nas áreas de
saladeira, bancária e armadora, vindo a morrer
muito rico, em 1888. De seu casamento resultaram
13 filhos, dos quais Jaime Cibils Buxareo era o
primogênito.

Jaime Cibils Buxareo acompanhou o pai em suas


atividades mercantis e se casou em 1862 com
Florentina de las Carreras Moore, passando a viver
em Buenos Aires. Ele havia dedicado largo período
de seu trabalho às atividades de Saladeria no
Uruguai, atividades que tiveram grande desenvol-
vimento naquele país ao longo da primeira metade
do século XIX, quando o Uruguai tornou-se grande
fornecedor de charque para o Brasil e para Cuba. Por
volta dos anos 70 do século XIX, somente duas
empresas produziam carnes conservadas e extrato
de carne no Uruguai: “The Liebig’s Company Extract
of Meat” e “La Trinidad”.

Nas décadas de 70 e 80 começaram a aparecer as


novas tecnologias de conservação de carne, por res-
friamento ou congelamento, abrindo novas possibi-
lidades de exportação para o mercado europeu. Mas
até esse momento era dominante a Saladeria, dedi-
cada à produção de charque. Entre as grandes em-
presas desse setor estava o Saladeiro de Jaime
Cibils, que havia inclusive expandido as suas ativida-
des, adquirindo novas instalações nas cercanias de
Montevidéu e ampliando-as.

O fim da escravidão ensejava perspectivas negativas


em relação às exportações para o Brasil e para Cuba
o que levou Jaime Cibils e seu filho a procurarem
novas possibilidades de expansão de suas atividades.
Tinham como objetivo não só diversificar e moderni-
zar a produção, mas também buscar alternativa para
o fornecimento do gado a ser abatido em regiões
296
mais afastadas de Montevidéu, reforçando o tráfico
de mercadorias pelo porto da capital uruguaia,
naquele momento já sofrendo forte concorrência do
porto de Buenos Aires, mais moderno e em franco
desenvolvimento.

Agindo nessa direção, construíram uma fábrica de


extrato de carne, charque e derivados bovinos em
Salto, às margens do Rio Uruguai, em 1875, a partir
de um antigo Saladeiro. Essa fábrica já adotava
modernos métodos de produção que era em grande
parte destinada à exportação. Jaime Cibils havia feito
a opção pela produção por métodos que não
utilizassem o congelamento da carne. Na direção de
sua nova unidade de produção estava o químico
francês Dr. Emilio Soulez.

A partir daí Jaime Cibils procurou novos centros


fornecedores de gado, que garantissem a qualidade
adequada para o produto que queria fabricar.
Necessitava de gado mais magro e mais rústico. É
então que surge a possibilidade de arrematar as
terras do Major João Carlos Pereira Leite, em Mato
Grosso, que, em 1881, iriam a leilão em hasta
pública.

O conhecimento desse leilão por Jaime Cibils e seu


filho, Jaime Cibils Buxareo, demonstra a intensa
circulação de informações, de possibilidades de
negócios e de transações comerciais que existia
nesse período, entre a então Província de Mato
Grosso e os países da região do Prata, que estava
entrando em rápido desenvolvimento econômico.

Esse processo era facilitado pela crescente presença


de estrangeiros nas atividades comerciais de Mato
Grosso, que também experimentou grande incre-
mento no período posterior à Guerra do Paraguai,
como observamos.
297
Jaime Cibils Buxareo se dirige então para Mato
Grosso acompanhado do químico Dr. Emilio Soulez,
na perspectiva de participar do leilão das terras do
Major João Carlos Pereira Leite. O empreendimento
que haveria de iniciar em Mato Grosso era de retorno
arriscado, mas, segundo Jaime Cibils Buxareo, o
capital investido poderia ser recompensado com um
produto de boa qualidade, que encontraria mercado
na Europa.

A viagem de Jaime Cibils Buxareo até Cáceres [que


então se chamava Vila Maria], o arremate das terras
do espólio do Major João Carlos Pereira Leite, o
reconhecimento que empreendeu dos campos da
Fazenda do Cambará, onde Descalvados era uma das
sesmarias, bem como os planos que começou a fazer
para o seu novo empreendimento, estão em um
diário que escreveu durante a sua viagem e primeira
estadia em Mato Grosso.

Jaime Cibils Buxareo comprou a fazenda do Cambará


por 557.572$800 réis [quinhentos e cinquenta e sete
contos, quinhentos e setenta e dois mil e oitocentos
réis], com uma entrada de 150.012$800, devendo o
restante ser pago em letras vencíveis em seis, doze,
dezesseis, dezoito, vinte e quatro, vinte e oito e
quarenta meses.

Nesse valor estavam incluídas as terras de todas as


sesmarias do Major João Carlos Pereira Leite,
situadas à margem direita do Rio Paraguai, entre o
Rio Jauru, ao Norte, e a lagoa Uberaba ao Sul.

Estavam incluídas também, suas benfeitorias, bem


como todo o gado, animais cavalares e animais de
criação. O gado foi calculado por Buxareo como
tendo entre 150 e 180 mil cabeças. A venda foi
efetuada em 11.10.1881. A sesmaria de
Descalvados, então, já pertencente ao argentino
298
Rafael Del Sar, também foi comprada por Jaime
Cibils Buxareo pelo valor de 65 contos de réis, pagos
pela sesmaria e pelas benfeitorias, equipamentos e
instalações da Charqueada. Em seu diário Buxareo
diz que o valor pago a Rafael Del Sar já fazia parte
do total pago pela Fazenda do Cambará. No entanto
a escritura de compra e venda firmada entre eles diz
que o valor foi pago à vista ao próprio Del Sar.

Para intermediar a transação e acompanhar o


pagamento das prestações, bem como para requerer
os autos de medição das terras que havia comprado,
junto ao Governo da Província de Mato Grosso, Jaime
Cibils Buxareo contratou o desembargador Firmo
José de Matos, comerciante de terras em Corumbá, a
quem estabeleceu procuração para esse fim.

Em seguida Jaime Cibils Buxareo começou a exami-


nar o melhor local para instalar a sua fábrica de ex-
trato de carne. A opção da margem da lagoa
Uberaba, localizada no estremo Sul da fazenda do
Cambará, tinha a vantagem de ser um local onde o
leito do Rio Paraguai era mais profundo, o que
permitiria a atracação de embarcações de maior
calado, semelhantes àquelas que se deslocavam pelo
Rio Paraguai até Corumbá.

Com isso não seria necessário fazer o transbordo das


mercadorias o que reduziria bastante o tempo de
viagem até Montevidéu ou Buenos Aires. A outra
opção seria a Sesmaria de Descalvados, onde estava
localizada a Charqueada construída por Rafael Del
Sar, localizada no centro da Fazenda do Cambará,
local que permitiria o acesso mais rápido aos reba-
nhos de gado de todas as demais sesmarias. Após
analisar as duas opções, Buxareo decidiu montar a
sua fábrica de extrato de carne onde estava a antiga
charqueada de Rafael Del Sar.
299
A partir desse momento toda a antiga fazenda do
Cambará passou rapidamente a se chamar Descal-
vados, porque foi na Sesmaria desse nome que
passou a funcionar a sede do novo empreendimento
de Jaime Cibils Buxareo. Sua dimensão, de cerca de
um milhão de hectares, se encarregaria de consolidar
seu nome como o equivalente ao conjunto das
sesmarias, conjunto algumas vezes chamado de
“domínios do Descalvados”.

Após tomar essa decisão, Buxareo passou a se


dedicar à organização do funcionamento da fazenda
e da fábrica, da força de trabalho e da administração
de seu novo empreendimento. De fato começou a
reorganizar toda a estrutura de funcionamento e
administração de Descalvados, preparando aquela
rústica Charqueada e fazenda para que funcionasse
como uma moderna fábrica, como um grande
empreendimento capitalista.

Uma das preocupações de Buxareo era com a


questão da legalização das terras de Descalvados,
até aquele momento, não efetivada. O Major João
Carlos Pereira Leite havia feito a medição de forma
esparsa, salteando as sesmarias, de tal forma que
foram medidas somente aquelas que não eram
atingidas pelas enchentes do Pantanal, ficando as
demais sesmarias sem medir. Isso somente seria
revelado mais tarde, quando Jaime Cibils Buxareo
pediu o reconhecimento dos títulos da totalidade das
sesmarias que possuía, reunindo toda a área da
antiga Fazenda do Cambará.

Essa situação acabou criando embaraços para


Buxareo, como veremos. No entanto Buxareo sabia
dessa situação, visto que havia percorrido os campos
de Descalvados e calculado a área das terras que
estava comprando.

300
Outro problema detectado por Jaime Cibils Buxareo,
ainda em relação às terras da antiga Fazenda do
Cambará, foi que essas terras continuavam em
direção ao Oeste, do outro lado do Corixo Grande,
cruzando a fronteira do Brasil com a Bolívia e
adentrando em território boliviano. No território
boliviano havia duas sesmarias que pertenciam à
Fazenda do Cambará: Salinas e Santa Fé.

Aqui é necessário fazer um curto comentário. O fato


de que existiam duas sesmarias em território da
Bolívia, que tinham pertencido ao Major João Carlos
Pereira Leite, indicava o tamanho das terras daquele
membro da antiga oligarquia agrária mato-
grossense. Por outro lado, e é isso que mais nos
interessa, indica a ausência de demarcação de
limites entre os territórios do Brasil e da Bolívia,
apesar do acordo para fixação desses limites ter sido
ajustado em 1867, ainda durante o período da
Guerra do Paraguai. Mais de 15 anos haviam se
passado e os limites não tinham sido demarcados.
Isso fazia com que os proprietários brasileiros [e
talvez bolivianos, de outro lado] movimentassem os
limites de suas terras para o lado, em direção ao
território vizinho, na expectativa de que essas terras
fossem reconhecidas como suas e, portanto,
pertencentes ao Brasil, quando essa região da
fronteira fosse demarcada. Com isso, na prática,
estariam expandindo o território do Brasil. Como
veremos, essa situação irá perdurar até o início do
século XX, quando explodirá a Questão do Acre, com
todas as consequências dela advindas.

Para Buxareo, no entanto, criou-se uma situação em


que as terras de Descalvados eram recortadas pela
fronteira do Brasil com a Bolívia. Essa situação viria
lhe trazer dissabores, com constantes invasões de
ladrões de gado, provenientes do território boliviano.

301
Para resolver os problemas imediatos que essa
situação criou, Jaime Cibils Buxareo logo tratou de
entrar em contato com as autoridades bolivianas,
com quem discutiu a situação do trânsito de animais
de um lado para outro da fronteira, questão
importante para seu empreendimento, que dependia
fundamentalmente do gado como matéria prima.

Buxareo definiu também que Descalvados seria uma


fábrica de carnes conservadas, incorporando os
últimos avanços tecnológicos. A fábrica seria movida
por máquinas a vapor, que acionariam carpintarias,
bombas de água e ferraria, possuindo ainda um
ancoradouro próprio.

Quanto à organização da força de trabalho da fábrica


e da criação de gado, Buxareo procurou separar as
atividades mais rústicas das mais sofisticadas. As
primeiras eram confiadas aos peões brasileiros e de
outras nacionalidades que viviam na região. As
atividades mais sofisticadas seriam confiadas a um
administrador contratado em Montevidéu e a
membros de sua família.

Da mesma forma, procurou estabelecer uma rotina


de trabalho mais coerente com a nova situação da
empresa, mais metódica e evitando os vícios mais
comuns entre os peões, como a embriaguez.
Estabeleceu também um novo mecanismo de
fornecimento para os peões e uma nova forma de
pagamentos.

Descalvados foi então reconstruída e reorganizada. O


rústico Saladeiro de Rafael Del Sar foi transformado
em pouco tempo no moderno estabelecimento
industrial de Jaime Cibils Buxareo, encravado no
Pantanal norte da Província de Mato Grosso, próximo
à fronteira com a Bolívia.

302
O principal produto fabricado em Descalvados era o
extrato de carne, segundo a técnica já adotada na
Europa pelos anglo-belgas da Liebig, que também
possuíam uma fábrica no Uruguai. Além do caldo de
carne, a fábrica de Descalvados também passou a
produzir derivados do gado, como línguas e couro,
que após serem devidamente preparados e acondi-
cionados também eram exportados. A localização de
Descalvados, distante do litoral, longe dos centros
fornecedores de produtos manufaturados, obrigou
Jaime Cibils Buxareo a estruturar a fábrica de modo
a operá-la com a maior autônoma possível, sem
depender em larga escala de fornecedores que
estavam localizados no litoral, no Prata, ou mesmo
na Europa. Levando em consideração essas carac-
terísticas, a fábrica contava com todas as máquinas
destinadas ao abate do gado e a imediata trans-
formação da carne em caldo, bem como para o apro-
veitamento de seus derivados e subprodutos, princi-
palmente o couro. Além disso, produzia a própria
embalagem que era utilizada no envio dos produtos
ao mercado consumidor europeu. Matéria publici-
tária, veiculada no Rio de Janeiro, em 1891, descre-
via assim a fábrica de Descalvados:

A PEDIDOS
Breve notícia sobre a grande propriedade do
Descalvado, no Estado de Mato Grosso.

É quase desconhecido por nós o Estado do Mato


Grosso, cujas extraordinárias riquezas naturais estão
ainda por explorar. Dotado do feracíssimo solo, cuja
seiva alimenta as mais alterosas florestas, de cam-
pos criadores extensíssimos e férteis, de abundância
de água e de Rios navegáveis, possui ainda ricas
jazidas de carvão e de ferro, toda a sorte de mine-
rais preciosos e cristais que oferecem remuneração
segura e generosa ao trabalho inteligente em
qualquer ramo da indústria, e da agricultura.

303
Imagem 71 ‒ Diário de Notícias n° 2.105, 09.04.1891
Só falta o trabalhador adstrito ao solo, a que tenha
ligado o seu interesse e a estabilidade do seu futuro,
para que a terra produza, e se aproveitem tantos
elementos de riqueza, asseguradores de prosperi-
dade imediata e do infalível progresso; só falta que o
encurtamento das distâncias por meio da construção
das vias aceleradas e do melhoramento da navega-
ção, venha pôr termo a esse quase exílio secular,
que tem oprimido e esterilizado tão bela parte do
território brasileiro, tolhendo-lhe as conquistas do
progresso e conservando-a estacionária, quando
andam a caminho da riqueza os demais Estados,
seus irmãos.
Ainda bem que a picareta protetora, desbravando a
estrada, que tem de aproximar da Capital Federal e
dos portos consumidores esse torrão abençoado, já
se avizinha, de Goiás, e dentro em pouco há de ferir
a terra virgem, de cujo seio há de brotar a
abundância e o bem estar das gerações que a
povoarem. Será, então, disputada a posse do solo
valorizado em progressão ascendente e maravilhosa,
como vimos acontecer em outros Estados, e serão
remunerados a largo juro os adiantamentos atuais
sobre o futuro da sua agricultura e da sua indústria.

304
Sem o propósito de uma demonstração, que daria a
este trabalho um desenvolvimento inoportuno,
limitar-nos-emos a breve notícia de uma parte do
Estado, ocupada pelo seu mais importante estabele-
cimento, hoje limitado à exploração, em larga esca-
la, de uma só indústria; mas podendo explorar e
desenvolver outras várias com os extraordinários
recursos naturais que contém, e com os variados e
poderosos elementos de que dispõe.
Referimo-nos ao extenso domínio e feitoria do
Descalvado, propriedade do grande industrial sr.
Jayme Cibils Buxaréo, cuja atividade incansável e
inteligente labor ali criou um estabelecimento
maravilhoso, onde trabalham máquinas possantes e
moderníssimas, e onde se exerce a sua direção,
produzindo fecundíssimos resultados, de que tira a
mais farta remuneração. Por muitas vezes o distinto
industrial registrou já o seu nome entre os
beneméritos dos “certâmens” internacionais, rece-
bendo prêmios conferidos à superioridade dos
produtos e à inteligência do trabalho.
Não têm valido para entibiar-lhe o ânimo nem a
distância, nem desconhecimento do país em prol do
cujo progresso há tantos anos luta. Os seguintes
dados fornecem aproximada ideia dos terrenos e
fábricas que formam o colossal domínio do ‒
Descalvado, ‒ cujas riquezas mal se podem calcular
precisamente, e cuja grande extensão, se não
percorre facilmente.
SITUAÇÃO
Situado no Estado do Mato Grosso, entre as
Latitudes 16° e 17°50’ S e Longitude 57°25’ e
59°30’ a Oeste de Greenwich, a propriedade do
Descalvado é limitada: a Leste, pelo Rio Paraguai, ao
Sul pelos Lagos da Gaiva e Uberaba, a Oeste pela
Corixa Grande que a separa da Bolívia, o ao Norte
pela Fazenda Nacional da Caissára e pelo Rio Jauru.
As cidades mais próximas são Corumbá, 350 milhas
abaixo e Villa Maria ou S. Luiz de Cáceres, 125
milhas acima do seu território.

305
SUPERFÍCIE
A propriedade do ‒ Descalvado ‒ conta 350 léguas
quadradas de superfície e tem cultivadas onze
estâncias ou sesmarias, duas das quais em território
da Bolívia. Foram medidas essas sesmarias, cada
uma das quais tem uma légua de frente o três de
fundos, representando uma área de 150 milhas, não
tendo sido levados em conta os banhados
intercalados, conto é de lei, e tendo sido a medição
aprovada pelo Governo.
Sendo contíguas as sesmarias, que formam uma
elipse ou quase círculo, há no centro delas vastos
campos de terras devolutas pertencentes ao Estado,
e sobre as quais tem preferência legal o proprietário
das sesmarias, ao qual somente aproveitam. Em
épocas periódicas inundam-se esses campos, e o
gado neles encontrado só tem refúgio nas terras
altas que os cercam, e que pertencem ao domínio do
‒ Descalvado.
Na sua maior extensão a superfície do solo cobre-se
de uma camada plana do aluviões, quase sempre de
primeira ordem e variando raramente até a areia
pura; e há por toda a parte espalhadas colinas
calcárias ou do grés, povoadas de abundantes
matas. Duas dessas colinas estão encostadas à
grande fábrica do estabelecimento, uma pelo lado do
Norte e outra pelo lado do Sul.
Há uma longa facha de terra denominada ‒
Cordilheira ‒ coberta de matas, que atravessa a
parte Noroeste dos campos, e nestes se sucedem
alternativamente os bosques e as clareiras. Os
campos nada sofrem na estação da seca, porque é
constante a vegetação, e a própria flora abundante e
variada em todo o ano.
PROPRIEDADE
É inatacável a propriedade do Sr. Jayme Cibils
Buxaréo, que a houve por compra feita em praça
judicial dos herdeiros de João Carlos Pereira leite e
de alguns de seus parentes em 1882, tendo

306
adquirido na mesma ocasião a grande Charqueada
de Del Sar, que se juntou ao domínio do ‒
Descalvado.
CLIMA
É tropical o clima, chegando o calor às vezes a 40°
centígrados no verão e temperado em seis meses no
ano, baixando consideravelmente a temperatura de
abril a julho, em que se sente frio. Não há geadas e,
segundo atesta o viajante C. H. Krabbe, que fez
minuciosa descrição de sua passagem por aquelas
regiões, o clima é “maravilhosamente saudável”
[wonderfully healthy], não havendo ali nem mesmo
as febres intermitentes ou palustres, que são
comuns na parte Norte de Mato Grosso.
POPULAÇÃO
É escassa a população e de boa índole. A indígena se
compõe dos índios Bororós, que são mansos e se
prestam de boa mente ao trabalho, mediante módica
retribuição. Em épocas certas do ano procuram
trabalho no Descalvado os índios Chiquitanos,
habitantes indígenas da Bolívia, das antigas missões
dos jesuítas, e que são homens fortes e aptos para
os mais rudes trabalhos, que aceitam sem
repugnância.
MADEIRAS
É rico o domínio de todas as qualidades de madeira,
inclusive as de lei; abundando o angico, a aroeira, a
piúva e congêneres nas densas maltas do “plateau”
e colinas; espalhando-se por todo o domínio as
qualidades próprias para a construção de ranchos,
cercas, etc, e para lenha.
ÁGUA
Limitado pelos Rios Paraguai e Jauru a Leste e ao
Norte, todo o domínio do ‒ Descalvado ‒ é
abundante de nascentes. Nos Pontos mais baixos, as
chuvas formam banhados, que secam depressa,
beneficiando os campos por meio dessa rega
periódica e demorada.

307
MEIOS DE COMUNICAÇÃO
A grande propriedade comunica-se com S. Luiz de
Cáceres a Corumbá por meio de pequenos vapores
que fazem a navegação do Paraguai. A comunicação
com Montevidéu é feita pelos vapores do Lloyd
Brasileiro, que vão ter agora duas viagens por mês,
não só do Uruguai como do Rio de Janeiro para
Corumbá. Situada a grande fábrica do estabe-
lecimento à margem do Paraguai, não há despesas
para o embarque fácil de seus produtos e são
relativamente pequenos os fretes exigidos. O
estabelecimento possui um vapor que faz o
transporte dos produtos, diminuindo-se assim a
verba dispendida com os fretes pagos aos vapores
do Lloyd.
GADO
O principal valor do domínio do ‒ Descalvado ‒ está
representado na grande quantidade de gado que
existe em seus campos ubérrimos; não foi possível
ainda precisar-lhe o número, apesar das tentativas
feitas, com sacrifício de grande número de cavalos.
Dependo isso da divisão dos campos em cercados
onde se pudesse encerrar o gado dividido em tropas
manejáveis. A opinião, porém, dos que o trabalham
consecutivamente e o apartam para as matanças, e
a opinião do capataz dos campos, que os percorre
em todas as direções e a longas distâncias é que
excede de 300.000 cabeças o número atual dos bois
apropriados ao corte. Sejam, porém, 250.000
cabeças, é certo que a tal respeito afirma o Sr.
Krabbe em sua notícia escrita em outubro de 1888
que do gado existente nos campos do ‒ Descalvado
‒ se poderiam abater sistematicamente em cada ano
de 50 a 60 mil cabeças, sem diminuir o “stock”.
Calculada, pois, a existência, então, de 250.000
cabeças e avaliada a procriação na razão mínima de
30%, teríamos em outubro de 1889 o extraordinário
número de 325.000 cabeças e o de 400.000 em
outubro de 1890, salvos os claros abertos pela
matança nesses dois anos.
308
CAVALOS
Depende em muito de boa cavalhada o progresso da
indústria de criação; tem havido, entretanto, falta
dela; depois que a epizootia, denominada ‒ peste
das cadeiras, ‒ dizimou grande número dos cavalos
primitivamente adquiridos pelo proprietário do
Descalvado.
Hoje está evitado o mal, e iniciada a criação dos
utilíssimos animais, graças à intervenção da ciência,
a que recorreu o ativo industrial. Aconselhou o
distinto médico do Rio de Janeiro, Dr. Lacerda, o
emprego do arseniato de soda, e isso bastou para
salvar 90% dos cavalos atacados de tão pernicioso
mal.
Os que existem em número superior a 600, além de
200 jumentos, sete garanhões, e muitos potros, são
tratados a milho comprado pelo estabelecimento,
que possui excelentes terras para o cultivo do tão
útil cereal, bem como para qualquer outro e para
café, e engordam facilmente nos excelentes campos,
que percorrem em todas as direções.
ARAMADOS
O estabelecimento possui lá grande extensão de
campos divididos por cercas de arame, que
permitem encurralar o gado para ser cuidado
convenientemente; são, porém, insuficientes os
cercados existentes, e indispensável a construção
doe muitos outros, pois compensam a despesa as
vantagens que deles se tiram. Há cerca de 40 léguas
lineares de cercados construídos que podem conter
perto de 44 mil cabeças de gado, sendo os principais
em Cerro Boiada, Presidente, Intermédio, Cangi-
queiro, Paratudal, Carandazal, Sucuri, S. Bento,
Jauru e Florida.
EDIFÍCIOS
O estabelecimento possui, na sua parte principal,
uma excelente casa para morada, com dependência
que serve de escritório, e casas próprias para
residência do administrador, do capataz dos campos
309
e dos operários com suas famílias. Tem, além disso,
uma padaria em casa apropriada, um galpão para
couros, um outro maior, coberto de ferro
galvanizado, de 40x130 jardas para o trabalho de
matança, um outro de 40x40 jardas ocupado por
oficinas, e uma igreja recentemente construída. O
cais é ligado ao depósito, oficinas e fábricas por
“tramways” (159). No Cambará, Tremedal, Jauru, etc,
há casas cobertas de telhas e em 40 ou 50 outros
lugares, há outras menores para peões e operários.
MAQUINISMOS
No galpão para oficinas está a máquina a vapor, que
põe em movimento uma grande serra vertical para
cortar toros de madeira; duas outras circulares com
suas banquetas; um grande torno de metal
completo; máquinas e pedras para amolar e separar
a ferramenta, que é completa, dispondo as oficinas
de forjas e todo o necessário para o trabalho a que
se destinam.
Em um dos compartimentos há prensas para a
extração de peotonal vegetal; e na parte externa do
galpão há currais para o gado que tem de ser
abatido, e que são construídos segundo o plano
geralmente seguido nas charqueadas, terminando
em um corredor, que é percorrido por vagões sobre
trilhos.
O serviço de matança nada deixa a desejar. Há um
plano entijolado para o escoamento do sangue;
pilhetas para o envenenamento dos couros, e o
necessário para a separação dos intestinos dos
animais e à direita ganchos e estendedores para a
carne retalhada. Há em um plano inclinado três
grandes caldeiras, servidas por um vagão sobre
trilhos que lhes leva o sebo. Há uma pequena
máquina a vapor que faz passar a carne
desembaraçada dos nervos e das partes inúteis, por
cilindros, de onde sai tirado por elevadores, que
depositam em seis grandes caldeiras, onde é cozida.

159 Tramways: trilhos.

310
Há pilhetas de evaporação, bombas centrifugas para
elevar o caldo concentrado em filtros acima dos
evaporadores. Há uma oficina de funileiro, onde se
fabricam as embalagens de folhas para o extrato de
carne destinado à exportação; há outra de tonoaria
para as tintas e barris destinados às línguas e outros
produtos para a exportação. Fornalhas, caldeiras
horizontais, tubos a vapor, cozinhadores de carne,
de geradores, e bombas suplementares que trazem
a água do Rio a reservatórios de ferro, e postes e
varais para a seca dos couros completam os
elementos de que dispõe a grande fábrica, a mais
importante daquele Estado.

VALOR DA PROPRIEDADE

O referido Sr. Krabble, de Buenos Aires, interessado


na compra da propriedade para a formação de uma
sociedade entre seus amigos Buenos Aires, Londres
e Antuérpia avaliou as máquinas e edifícios em
546.000 pesos em ouro, que correspondem
1.100:000$ e o gado a 8$ por cabeça, moeda
nacional; custaram, entretanto, os primeiros mais
de" 800.000 pesos: que e é o preço médio do gado,
hoje muito aumentado em número, 10$ por cabeça,
o que eleva a soma a cerca de 4.000:000$ de nossa
moeda.
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Os produtos do estabelecimento tem sido premiados
com sete diplomas de honra, uma estrela, doze
medalhas de ouro e cinco de prata. Crescem eles
todos os anos, indo em ascendência progressiva à
exportação, que de hoje se faz também em grande
escala de produtos suínos: tendo tomado esta
indústria extraordinário aumento.
Do prospecto consta a demonstração das rendas
extraordinárias, não incluídos, contudo, os novos
elementos que vão contribuir para o alargamento do
campo industrial; multiplicando-se as forças da mais
importante fazenda e feitoria desta parte da
América.

311
Sem mesmo a criação de novas industrias, basta que
se façam as fainas com o gado invernado, para que
cresçam de 25%, os resultados atuais, crescendo
mais o valor do território com o estabelecimento da
ferro-carril de S. Luiz de Cáceres ao Catalão, que
permite o transporte do gado em pé aos mercados
dos Estados convizinhos; e mais crescendo depois
com a aproximação da estrada de ferro Mogiana,
que caminha em busca de Mato Grosso.
Montado como se acha o estabelecimento com todos
os maquinismos necessários, − não pesará sobre ele
a influência do câmbio para satisfação de
encomendas feitas fora do país; e antes reverterá
ela em favor de suas rendas, com o pagamento que
receberá em ouro pelos seus produtos exportados.
Não há mais prometedora nem mais brilhante
perspectiva para o capital empreendedor; assim
como não há mais patriótica empresa, que essa do
progresso assegurado de tão importante Estado.
Assim o compreende a praça do Rio de Janeiro, onde
vai ser lançada à fecunda ideia da incorporação da
Companhia Fomento Industrial e Agrícola do Estado
do Mato Grosso.
Capital Federal; 28 de janeiro de 1891.
Orozimbo Muniz Barreto.
Jaime Cibils Buxareo já tinha construído reputação
internacional para os produtos da marca Cibils, a
partir das fábricas de sua família no Uruguai. Dessa
forma não deve ter sido difícil exportar para a Europa
os produtos da fábrica de Descalvados.

Toda a produção de extratos de carne, de caldos, de


língua salgada e de couros era destinada à exporta-
ção para a Europa, onde os produtos de Descalvados
também passaram a ter boa aceitação e receberam
diversos prêmios em exposições das quais participa-
ram ao longo da década de 1880. Sobre isso, a ma-
téria publicitária a que nos referimos acima dizia:
312
Os produtos do estabelecimento tem sido premiados
com sete diplomas de honra, uma estrela, doze
medalhas de ouro e cinco de prata. Crescem eles
todos os anos, indo em ascendência progressiva á
exportação, que hoje se faz também em grande
escala de produtos suínos, tendo tomado essa
indústria extraordinário aumento.
Além da produção de extrato de carne, caldos, língua
salgada e couro, que eram exportados, havia em
Descalvados uma fábrica de sebo e de sabão,
produtos que eram vendidos no mercado da própria
Província de Mato Grosso.

Apesar da boa aceitação de seus produtos no


mercado europeu, a rentabilidade de Descalvados,
frente ao volume de capital investido, deve ter ficado
abaixo das expectativas de Buxareo. Em 1885 Jaime
Cibils Buxareo pediu ao Governo de Mato Grosso a
isenção dos impostos de exportação cobrados sobre
os produtos de Descalvados pelo período de 15 anos.
Argumentava que os saladeiros argentinos e uru-
guaios, seus concorrentes, tinham apoio de seus go-
vernos, além de estarem situados em regiões mais
próximas dos mercados consumidores, o que bara-
teava o transporte e reduzia os custos.

A argumentação de Buxareo era verdadeira somente


em parte. Como vimos, um dos fatores que o
levaram a investir em Mato Grosso era a necessidade
de buscar um novo tipo de matéria prima, um gado
mais rústico, adequado à produção de extrato de
carne, assim como o fornecimento mais seguro e
barato dessa matéria prima.

Evidente estava que, ao adentrar fundo no interior


do continente sul-americano, o problema dos custos
de transporte estaria colocado, como contrapartida
negativa para os benefícios que o preço e o tipo de
gado ofereciam.
313
A localização geográfica de Descalvados devia pesar
na disputa que seus produtos travavam com aqueles
produzidos em outras regiões, mais próximas do
litoral. Descalvados, localizada a cerca de três mil
quilômetros de Buenos Aires por via fluvial, levava
grande desvantagem nessa disputa.

Ao buscar a redução dos impostos cobrados sobre os


produtos exportados, Buxareo procurava aumentar a
rentabilidade sobre o capital investido e ter um
retorno compensador.

Os impostos cobrados sobre os produtos exportados


por Descalvados, notadamente o extrato de carne,
estavam fixados em dez por cento. O Presidente de
Mato Grosso, Galdino Pimentel, posicionou-se favora-
velmente às pretensões de Buxareo, argumentando
que Descalvados era uma indústria sem similar na
Província, que estava exportando para a Europa onde
era conhecida, e que deveria ser protegida. No
entanto, a Assembleia Provincial de Mato Grosso
manteve a taxação. Dois anos depois Jaime Cibils
Buxareo tentou novamente a redução dos impostos
cobrados sobre os produtos exportados por
Descalvados. O presidente da Província então,
coronel Raphael de Mello Rego, também se
posicionou favorável ao peticionário com argumentos
semelhantes aos de seu antecessor, sugerindo que
se não acabasse com o imposto, pelo menos que
este fosse reduzido de dez para cinco por cento. No
entanto, mais uma vez Buxareo não foi atendido.

O não atendimento das reivindicações de Jaime Cibils


Buxareo deve ser entendido como parte das
limitações fiscais do Estado brasileiro do período,
com o imposto sobre exportação sendo a mais
importante fonte de receita das províncias. Não
cobrá-lo sobre determinados produtos que tinham
importância no volume total exportado pela Província
314
de Mato Grosso, significava não apenas abrir mão de
recursos que poderiam fazer falta para a minguada
receita provincial, como também abrir um
precedente para que outros ramos do setor
exportador fizessem a mesma reivindicação.

Em outra frente de atuação, Jaime Cibils Buxareo


vinha tentando obter os títulos de posse das terras
de Descalvados. Havia entrado com esse pedido
junto ao Governo imperial que, em 1885, pediu
informações sobre Descalvados ao Governo
provincial. Após consultar a Câmara Municipal de
Cáceres, município onde estava localizada
Descalvados, o presidente da Província [o então
coronel Floriano Peixoto] se posicionou de forma
favorável às pretensões de Buxareo.

O Governo imperial, no entanto, engavetou o pedido,


deixando Buxareo sem resposta. Essa ausência de
resposta pode ter sido proposital, sinalizando uma
contemporização do Governo do Império com a
situação peculiar de Buxareo. Sendo estrangeiro, ele
possuía um impedimento legal para ter acesso a
terras públicas na região de fronteira. Caso
respondesse negativamente ao pedido feito por
Buxareo, entretanto, o Governo central colocaria em
questão os investimentos que este havia feito em
sua fábrica de Descalvados.

Buxareo fez um novo pedido ao Governo imperial em


1889, quando uma nova informação foi passada ao
Governo central. A mudança de regime, com a
proclamação da República, fez com que o pedido,
dessa feita, fosse analisado por Francisco Glicério,
ministro da Agricultura do Governo Provisório, que
decidiu indeferi-lo. Apesar de não dizer as razões do
indeferimento no ofício em que comunicava sua
decisão, Glicério dizia em decisão para caso
semelhante que se baseou na Lei de Terras.
315
Mais importante que as razões do indeferimento, no
entanto, é observar a estratégia embutida no
requerimento de Buxareo, mostrando que as terras
públicas estavam sendo apropriadas em larga escala,
em uma região de fronteira, onde o Estado não tinha
condições de exercer o seu papel fiscalizador e
organizador, até porque essa situação servia em
primeiro lugar aos interesses da oligarquia agrária
mato-grossense, a principal beneficiária desse
processo. Jaime Cibils Buxareo pedia ao Governo
central a concessão de títulos de posse somente
sobre 435600 hectares de terras, quando a área total
de Descalvados ultrapassava a um milhão de
hectares, conforme suas anotações e conforme
observamos. Buxareo utilizava o mesmo mecanismo
usado pela oligarquia agrária mato-grossense,
pedindo uma coisa e fazendo outra [...]

Dessa forma Buxareo repetiu o método utilizado pelo


Major João Carlos Pereira Leite, fundador da antiga
fazenda do Cambará, de requerer a posse de
sesmarias de forma salteada, pedindo os títulos das
terras altas e se apossando das sesmarias
intermediárias, em geral localizadas nas terras
baixas do Pantanal, alagáveis durante o verão.
Enquanto Jaime Cibils Buxareo procurava aumentar a
rentabilidade de seu empreendimento em
Descalvados pela via da redução de impostos e
tentava legalizar as terras que ocupava, a
proclamação da República abria um novo período na
política brasileira trazendo consequências para a
fronteira Oeste. (CUNHA GARCIA)

316
Imagem 72 ‒ Descalvados

Imagem 73 – Descalvados
317
Imagem 74 – Tripulação do Calypso, Cáceres, MT

Imagem 75 – Catedral e Marco do Jauru


318
Descalvados – Cáceres
E é pela grande Pátria que o General Rondon tem sempre
vivido a vida mais cheia, mais forte que já se viveu... É o
Bandeirante por excelência, mas um Bandeirante que não é
impelido pela ânsia de riqueza, de conquista, de domínio.
Não destrói, constrói; não afugenta, atrai... Indiferente às
pedrarias que faíscam e fazem faiscar a cobiça nas almas,
segue Rondon impavidamente a grande tarefa de levar a
civilização às selvas e trazer os silvícolas à civilização. Dá
todos os dias ao mundo lições de sociologia prática. É um
dos mais altos catedráticos do Universo. Não se limita a
ensinar os selvagens, mas também os civilizados.
Das suas lições podem os incultos tirar certos ensinamentos
e outros ensinamentos podem tirar os sábios...
(Alexandre Correia Teles de Araújo e Albuquerque)

20.08.2017: Partimos, por volta das 09h10, da


Fazenda Descalvados, a toda velocidade, e o motor de
50 Hp da “Fênix VI” permitiu-nos abordar a “Calypso”,
que continuara seu curso Rio acima, antes do almoço. A
tripulação não conhecia esta região do Rio Paraguai à
montante da Foz do Rio Cuiabá e, em virtude disso, a
progressão era bastante lenta (de 2,5 a 4,0 nós).

Três vezes encalhamos nos bancos de areia, na


terceira vez, um solicito “habiloc” (habitante local) veio
auxiliar-nos a desencalhar a “Calypso” e antes de partir
orientou o Comandante Geraldo de Andrade qual a rota
a seguir. A sinalização realizada pela Marinha do Brasil
não facilitava. O trabalho de balizamento dos 1.905 km
do Rio Paraguai de Cáceres a Porto Murtinho realizado
pela Marinha do Brasil, consta da fiscalização das mais
de 300 balizas periodicamente, mas todo este trabalho
é comprometido seriamente pela intensa dinâmica do
escoamento fluvial e o transporte de sedimentos.
319
Por volta das 16h00, uma Embarcação Tática de
Grupo ‒ a “Jauru” (Guardian 25), do 2° Batalhão de
Fronteira (2° B Fron), atracou a contrabordo da
“Calypso”. As Guardian 25 estão sendo empregadas na
fiscalização das fronteiras e operações ribeirinhas.
Dotadas de dois potentes motores Mercury Optimax de
200 Hp, podem atingir até 80 km/h, e graças a um
tanque central de combustível de 602 litros, tem uma
autonomia de dez horas de navegação. A Guardian é
artilhada na proa com uma metralhadora .50; na popa,
um lança granadas de 40 mm e a Boreste e Bombordo
duas metralhadoras MAG 7,62 mm e tem capacidade de
transportar 12 militares armados e equipados. O
Subtenente Valdecir Freitas de Oliveira, adjunto de
Comando (160) do 2° B Fron, tinha como missão nos
conduzir, à bordo da Guardian, até a posição original do
Marco do Jauru. Retornamos à Calypso para o jantar
para o qual foi convidada a tripulação da “Jauru”. O
Subtenente Valdecir retornou à cidade deixando
conosco um prático para pilotar a “Calypso” com mais
tranquilidade, à noite, até Cáceres onde aportamos de
madrugada.

Marco do Jauru

O Marco do Jauru foi erguido com a finalidade de


demarcar a Fronteira Territorial, estabelecida pelo Tra-
tado de Madri, entre os domínios espanhóis e portugue-
ses na América do Sul. Atualmente o Marco encontra-se
na Praça Barão do Rio Branco em frente à Catedral de
São Luís, em Cáceres.
160 A criação do cargo de Adjunto de Comando [Adj Cmdo] tem como um
dos objetivos distinguir o subtenente ou o primeiro-sargento que
apresente destacada liderança, reconhecida competência profissional e
ilibada conduta pessoal. A ideia foi concebida com a finalidade de
valorizar a carreira do graduado. (www.eb.mil.br)
320
Relatos Pretéritos: Marco do Jauru

05.01.1914

Pereira da Cunha

Passamos a Foz do Rio Jauru, antiga divisa do domí-


nio espanhol, perto daí existia um marco de mármo-
re e cantaria, felizmente ainda hoje conservado, pois
que ornamenta a Praça Principal de São Luiz de
Cáceres. Nesse mesmo Rio Jauru avistamos sobre a
barranca da margem direita e junto à Foz, um barra-
cão de zinco, antigo depósito de cargas destinadas
ao Rio Guaporé, e de borracha vinda desse mesmo
Rio. Esse entreposto sofreu as consequências da
construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré,
visto como o escoamento da borracha e o aprovi-
sionamento dos seringais do Guaporé são hoje feitos
com o aproveitamento de tal estrada. [...]

A Cáceres antiga ainda nos oferece à vista a impo-


nente ruína da grande igreja, e, na Praça Principal, o
artístico e histórico marco (161), a que já fiz refe-
rência, todo de mármore, assente em base de alve-
naria, encimado pela cruz de Malta, e apresentando,
nas quatro faces, inscrições que transcrevo, sem a
menor alteração, por ter achado o assunto deveras
interessante: Face Oeste [Sob as armas de Espanha,
a seguinte inscrição, em letras maiúsculas de impre-
nsa] ‒ Sub Ferdinando VI. Hispanie Rege Catholico;
Face Este [Sob as armas Portuguesas, a seguinte
inscrição] - Sub Joanne V Lusitanorum Rege
Fidelíssimo; Face Norte — Ex Pactis Finium regun-
161 No dia 02.02.1883, o então Tenente-Coronel Antônio Maria Coelho,
transportou o Marco para o Largo da Matriz (hoje Praça Barão do Rio
Branco), em frente à Catedral de São Luís, em Cáceres. Em maio 2009,
uma equipe multidisciplinar, liderada pelo Historiador e Sargento do
Exército Sandro Miguel da Silva Paula, foi determinada a localização do
sítio original do Marco, situado a 544 m da Foz do Jauru.
321
dorum Convenctis Madritz Idibus Januarii MDCCL;
Face Sul – Justitia et Pax Osculatae Suns. E fica-se
pasmo ao pensar no esforço, na soma colossal de
energia e de trabalho destinados ao transporte da-
quelas, talvez, 15 toneladas, em época tão remota,
com tão deficientes meios de transportes, através de
tão rudes, longos e penosos caminhos, pois que, pela
era (162) nele inserida, deveria esse marco ter vindo
pelo Amazonas e, depois talvez e provavelmente,
pelo Madeira, Guaporé, e Jauru, a menos que tivesse
subido o Tapajós e o Arinos, atravessado por terra as
muitas léguas que separam este Rio das cabeceiras
do Paraguai, e por ele descido até o Jauru. Mas, seja
como for, e ainda mesmo que tivesse subido ao
Jauru pelo Prata, Paraná e Paraguai, é mister render
homenagem à máscula energia dos nossos avoen-
gos, infatigáveis lutadores, cuja fibra, igualando em
rijeza ao caráter, era capaz até de construir o célebre
Forte Príncipe da Beira! (CUNHA)

21.08.2017

Esse encontro foi importante porque permitiu


compreender os sentidos da revitalização, um século
após a passagem da Expedição Roosevelt-Rondon,
dos trajetos percorridos por eles e suas relações
[tanto ontem, quanto hoje], com as populações
indígenas amazônicas
(Professoras Socorro Araújo e Olga Castrillon)

De manhã visitamos o Instituto Histórico e


Geográfico de Cáceres/IHGC, a Secretaria Municipal de
Indústria, Comércio e Turismo (SICMATUR), prédio que
abrigou a residência do patologista norte-americano
Alexander Daveron e o Museu Municipal de Cáceres.

162 Era: data.

322
Foram doze anos no exercício do magistério, nos
quais sempre atendeu a seus alunos a qualquer
tempo, fosse através da internet ou pessoalmente,
no contraturno, nos finais de semana e nos feriados.
Graças a essa disponibilidade, atenção e carinho,
partiu, dos próprios discentes, a solicitação de aulas
às vésperas das provas e, segundo as palavras do
Coronel HIRAM, “pedido de aluno sempre foi e será
uma ordem”. E assim ele cumpriu essa rotina
durante doze anos, que, de acordo com a
manifestação e o sentimento do insigne Mestre,
foram: de muito sucesso e grande recompensa
pessoal, para mim não era sacrifício, mas um
gratificante dever.
(Genessi Sá Junior ‒ Cel Cmt do CMPA)

Os expedicionários deslocaram-se para o 2° B


Fron para o almoço e no Corpo da Guarda nosso ônibus
foi parado para que eu, como oficial mais antigo, rece-
besse as apresentações de praxe, dispensei as mesmas
e nos dirigimos para o rancho. No refeitório dos
Oficiais, o Oficial de dia veio até mim, demonstrando
profunda tristeza, e disse que tinha se preparado
especialmente para aquela apresentação, no princípio
não entendi o porquê de tamanha deferência do jovem
Aspirante para com a minha pessoa até que olhei para
o nome gravado no seu biriba − SASSO. O Aspirante da
Arma de Infantaria Nícolas Sasso de Vargas foi meu
aluno no Colégio Militar de Porto Alegre e, onde, graças
ao GADU, tenho mantido um laço de amizade muito
profundo com meus ex-alunos e seus familiares.

À tarde fomos até o Núcleo de Documentação de


História Escrita e Oral (NUDHEO) da UNEMAT onde
repassamos uma série de documentos digitalizados
sobre a Expedição Centenária Roosevelt-Rondon.

323
À noite participamos de um jantar, no Círculo
Militar de Cáceres, que contou com a presença do
Excelentíssimo Sr Gen Bda Fernando Dias Herzer,
Comandante da 13ª Bda Inf Mtz e comitiva, integrantes
do 2º Batalhão de Fronteira e professores da Universi-
dade do Estado de Mato Grosso.

22.08.2017

Por volta das 08h30, adentrávamos novamente


no aquartelamento do 2° B F Fron com a finalidade de
realizar mais uma palestra, desta feita no auditório do
Batalhão para seus Quadros. Novamente nosso ônibus
foi parado no Corpo da guarda e lá estava o Asp Sasso
me aguardando. Não podia, nem queria me furtar à
apresentação do querido amigo e foi com viva emoção
e lágrimas nos olhos que cumpri aquela rotina que
deveria ser apenas uma formalidade regulamentar. Foi
sem dúvida o momento mais emocionante de toda
Expedição. Obrigado Sasso.

Relatos Pretéritos

04.01.1914

Pereira da Cunha

Antes das 18h00, deixamos “Descalvados” e, como


de costume, pouco depois das 21h00 fui deitar-me.
Há um grupo que faz dormitório, em um espaço
livre, que fica em cima, na tolda do navio, avante,
entre os primeiros camarotes e a roda do leme.
Durante o dia é aí que sempre estamos todos, mas,
à noite, uns de um bordo e outros de outro, vão
armando as suas camas ou redes, sempre cedo e
sempre na mesma ordem: a Boreste, e mais para a
proa, dorme, em cama, Padre Zham; logo depois,
324
também em cama, durmo eu, e, mais para ré e mais
próximo da antepara dos camarotes, em rede, dorme
Kermit, mas, ao longo de toda a antepara desses
camarotes, voltado para a proa, existe um banco, e
sobre ele há pilhas de pesadas malas, cuja firmeza
não é grande, pois que assentam em muito estreita
base.

Desde Descalvados, o Rio, alargando muito, fazendo


inúmeras ilhas, torna-se extremamente baixo, cheio
de bancos movediços e canais caprichosamente in-
constantes; as suas margens são agora sempre
orladas de vegetação alta, as montanhas aparecem e
sucedem-se, e os pantanais desapareceram.

Navegávamos nessa zona de bancos e baixios, e o


sono já a todos tinha ganho, quando, pelas 22h30,
estando o navio a toda força, sente-se um violento
choque e somos atirados para vante, infelizmente,
porém, não éramos somente nós, seres vivos, que
estávamos animados de movimento relativo; a
velocidade restante – restava – também para as
malas que estavam empilhadas sobre o banco e, ao
forte choque, degringolam (163) elas e desabam
sobre Kermit e sobre mim, a rede, afastando-se ao
embate de uma das malas, salvou Kermit e, graças
ainda a um dos punhos dessa rede, a mala que vinha
em cheio sobre mim raspa-me apenas a cabeça e cai
pesadamente sobre o meu travesseiro, vergando os
pés da cama de ferro.

O choque fora devido a ter o navio batido em um


banco de talude a pique, de sorte que, não
encalhando, logo seguimos viagem, parando esta
mesma noite em Barranco Vermelho, onde
demoramos duas horas recebendo lenha. (PEREIRA
DA CUNHA)
163 Degringolam: rolaram.

325
Imagem 76 ‒ 2° B Fron, Visita ao IHGC e Nudheo
326
Imagem 77 – Jornal Oeste e Unemat
327
Relatos Pretéritos

05.01.1914

Rondon

Prosseguindo a viagem, chegamos, na tarde do dia


5, à cidade de S. Luiz de Cáceres, cuja população,
bem como a oficialidade do 5° Batalhão de Engenha-
ria, prestou as costumadas homenagens ao nosso
hospede. (RONDON)

Pereira da Cunha

Às 04h00, novo encalhe vem surpreender-nos, desta


vez, porém, sem choque violento, mas, por esse
mesmo motivo, tendo o navio entrado muito pelo
suave declive do banco, só após duas horas de rude
e constante trabalho foi possível safá-lo e continuar a
viagem para Cáceres, em pleno dia 5. [...]

Às 17h00 desse dia 5, chegamos a Cáceres,


velhíssima marginante do extenso Paraguai e escala
forçada da outrora Capital da Província, a velha e
abandonada cidade de Mato Grosso. Ao longo de
todo o alto barranco em que repousa a velha cidade
apinhava-se quase toda a sua população. As
girandolas (164) de foguetes, indispensáveis e clássi-
cos nos acontecimentos do nosso interior, subiam
anunciando a nossa chegada, e o “Nyoac”, atracando
à ladeira de barro que, à guisa de cais e escadaria,
dá acesso ao barranco, aí encontrou a oficialidade da
guarnição de Cáceres e representantes da Câmara,
que vieram trazer as boas-vindas a Roosevelt, não
tendo sido esquecida a banda de música, com-
panheira inseparável dos foguetes.

164 Girândolas: roda ou travessão onde são postos foguetes para serem
queimados ao mesmo tempo.
328
Desembarcamos e seguimos através de algumas
ruas da vetusta S. Luiz, e, apesar da falta de
calçamento e estreiteza das mesmas, da casaria
baixa e do pequeno movimento da cidade, logo nos
sentimos presos pelo “nacionalismo” que aí se respi-
rava, pelo cunho característico de cidade brasileira
do interior, pela lhaneza (165) de sua boa gente. Uma
das coisas interessantes que me despertaram a
atenção na cidade a que acabávamos de aportar,
foram as venezianas, são feitas de sarrafos de
madeira, estreitos e cruzados em diagonal, formando
pequenos paralelogramos, e quis eu ver nessa
insignificância uma reminiscência espanhola,
oriunda, por sua vez, da influência mourisca do
“moucharabieh” (166). Quem, pelas estreitas vielas,
foi ao cais de Bulah, aos mercados, ou enfim, já viu
o velho Cairo, não pode deixar de ser tomado por
esse sentimento de aproximação entre o artístico
“moucharabieh” e as interessantes venezianas da
nossa longínqua cidade patrícia, mas, não são ape-
nas as originais persianas que despertam a nossa
atenção. [...]

Acompanhamos Roosevelt até a casa do Tenente


Lyra, um dos membros da Expedição que aí a
aguardava, e dispersamo-nos pela cidade, uns
percorrendo suas ruas, outros comprando mais uma
ou outra coisa que lhes faltava para a investida do
Sertão, pois estavam no último mercado onde seria
possível prover-nos, e essa praça ultrapassou de
muito a nossa expectativa, pelos grandes recursos
comerciais de que dispõe, apesar do extremo
afastamento dos centros comerciais e chamados
civilizados.

165 Lhaneza: singeleza.


166 Moucharabieh: gelosia geralmente de madeira que cobre toda a
extensão de uma janela, protegendo o interior do aposento da luz e
permitindo que se observe o exterior sem ser visto.
329
Roosevelt, na célebre caçada de 1° de janeiro, tendo
sido diversas vezes obrigado a nadar, teve, em con-
sequência, parado o seu relógio, velho companheiro
da guerra de Cuba que ele muito estimava, e, como
não houvesse tempo para fazer funcionar de novo tal
relógio, estava eu, depois de ter feito alguns
passeios, em uma casa de negócio, com Kermit,
onde este escolhia um relógio novo para seu ilustre
pai, quando recebi um chamado urgente do Coronel
Rondon.

Rápido em atendê-lo, fui à casa em que se


hospedara Roosevelt, e aí encontrando o nosso
Coronel, dele recebi uma missão diplomática origina-
da por uma interpretação errônea de um seu
telegrama, que o deixava um tanto tolhido (167) junto
de Roosevelt. Para satisfazer o justo desejo do nosso
hóspede, que, como já dissemos, não estava prepa-
rado para solenidades e pompas, Rondon telegrafou
para Cáceres pedindo que o não constrangessem
com recepções e banquetes, para o que ele não
estava preparado, e, tendo sido tal recomendação
atendida demasiado ao pé da letra, soube Rondon, já
bastante tarde, que não havia jantar algum para
Roosevelt... nem para nós.

Foi nessas circunstâncias que me chamou o nosso


chefe, para que eu manobrasse de modo tal que
houvesse jantar para todos a bordo do nosso
salvador “Nyoac”, e para que Roosevelt fosse
prevenido com bastante diplomacia, afim de evitar
qualquer mau efeito. “Le rusé Commandant” saiu-se
perfeitamente da sua missão, mas, à sobremesa do
nosso mágico jantar, tomando a taça de champanhe
e um ar de grande seriedade, ofereci, nos termos
vulgares usados nessas ocasiões, aquele jantar a
Roosevelt, em nome do Intendente de Cáceres...
167 Tolhido: embaraçado.

330
No meio das risadas que despertou o inesperado
oferecimento, cuja malícia sou forçado a confessar, o
nosso distinto hóspede, tomando esse mesmo ar de
solenidade oficial, entrou a responder-me com a
chapa do costume, chapa tão batida que Kermit
auxiliava a sua emissão intercalando frases já suas
velhas conhecidas.

Tiveram assim pleno sucesso o jantar e as pilhérias,


e, como estivéssemos em tão boa disposição de
ânimo, Roosevelt, que tem o grande mérito da
franqueza e não esconde as suas “gaffes”, contou-
nos o que lhe sucedera, naquela tarde, relativamente
ao disparate de uma sua observação.

A banda de música, que havia figurado na nossa re-


cepção, tinha-nos acompanhado e, por algum tempo,
tocado em frente à casa de Roosevelt, o mestre de
tal banda de música, regendo-a e tocando com
desembaraço, era um homem de estatura regular,
sólidos músculos, tez fortemente bronzeada, pouco
bigode, nenhuma barba, olhos negros e cabelos
também negros, escorridos, bem lisos e luzidios.

Ora, se bem descrevi o tipo do mestre da banda,


todos viram nele um nosso bugre ou um mestiço
com forte dose de sangue de índio, e Roosevelt,
grande observador, logo notando esse fato, começou
a refletir sobre a tão perfeita adaptação, se o homem
era bugre, ou sobre a nenhuma influência da sua
origem, se fosse mestiço.

Justamente curioso com aquele caso observado em


larga escala no tão distinto Coronel Rondon, Roose-
velt chamou o mestre da banda e, interrogando-o
por meio de um intérprete, soube que aquele homem
de tez brônzea, olhos negros e cabelos escorridos,
era pura e simplesmente italiano. (PEREIRA DA
CUNHA)
331
Relatos Pretéritos

06.01.1914

Pereira da Cunha

No dia seguinte, passeando durante a manhã pelas


tranquilas ruas de Cáceres, deparei com um edifício
em construção, de grandes proporções e magnífica
aparência, e, indagando qual seria o destino, soube,
com vivo prazer e não sem algum espanto, que era
destinado a uma grande escola pública, que estava
sendo edificada sob os moldes paulistas, e que uma
missão de professores, também paulistas contratada
pelo Estado, estava espalhada por algumas das
principais cidades, tendo sido Cáceres contemplada
nesse número. Fui bastante feliz por ter ensejo de
travar conhecimento com o jovem educador que aí
se achava e, com ele visitando as antigas escolas,
tive conhecimento do progresso obtido aí e em
outras cidades de Mato Grosso. Roosevelt que, como
homem inteligente e experimentado estadista, liga
uma grande importância ao magno problema da
instrução, teve palavras muito elogiosas para com o
professor, a quem apresentei e, à página 127 ( 168)
do seu interessante livro, cita com elogio o fato que
ali fica exposto e que tanto me satisfez. (CUNHA)

168 Página 127: Mas ali mesmo em Cáceres o espírito do novo Brasil já ia
penetrando; fora construído um belo edifício público para grupo
escolar. Fomos apresentados ao diretor, um homem esforçado que
realiza excelente obra, um dos muitos professores trazidos nos últimos
anos para Mato Grosso, de São Paulo, centro do novo movimento
educacional que muitíssimo fará em benefício do Brasil. ROOSEVELT
332
Bibliografia
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Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Volume XX,
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Cândido Mariano da Silva Rondon no Teatro Phenix do Rio
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Rondon e da Comissão Telegráfica ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ
– Tipografia do Jornal do Comércio, de Rodrigues & C., 1916.
ROOSEVELT, Theodore. Através do Sertão do Brasil ‒ Brasil ‒
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a direção do Coronel de Engenharia Cândido Mariano da
Silva Rondon, de 1907 a 1915 – Brasil – Brasília, DF – Senado
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do Ano de 1817 – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Revista Trimestral
do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil – Tomo XIII – 1°
Trimestre de 1850 – Tipografia de João Ignácio da Silva, 1872.
SOUTHEY, Robert. História do Brasil – 1750 a 1808 – Brasil –
Rio de Janeiro, RJ – Livraria Garnier – Volume VI, 1862.
VIVEIROS, Esther de. Rondon Conta sua Vida ‒ Brasil ‒ Rio de
Janeiro, RJ ‒ Livraria São José, 1958.

336
337
Brasileidas II
(Carlos Alberto Nunes)

[...] Muito peregrinou Raposo invicto,


Por todo o Tapuirama, correntezas
Em seu curso transpondo inumeráveis.
Longe os fortes paulistas arrebata,
Léguas grandes à Pátria incorporando.
Na direção do ocaso os lindes pátrios
Afastou, sempre à frente de seus homens,
Desde a Serra do Mar, desde a corrente
Sagrada do Anhembi, por toda a costa
Que o grande abalador bramando açoita.
Já dos Andes retorna; já, nas águas
Do grande mar de dentro, as Amazonas
Belicosas procura, que tão grande
Terror sabiam despertar em todas
As tribos aguerridas do Mar Doce.
Loucas! Pois intentaram revoltar-se
Contra o poder dos Andes, como os nobres
Titãs, vindo por isso a ser entregues
Aos deuses catatônicos. Mas a glória
Das Amazonas não baixou nas águas
Que lhes tragou o império; em fascinantes
Visões revive agora, inseparável
Da do maior dos sertanistas pátrios,
E eternizada neste canto que há de
Ser ouvido por todo o Pindorama. [...]
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Dali, Paixão passou a servir
no Acampamento Geral da
Construção onde, foi
promovido a graduação de
Sargento, graças aos seus
relevantes serviços.
Concluindo seu tempo de
serviço nas fileiras do
Exército, reengajou no 5°
Batalhão de Engenharia,
continuando a contribuir com
sua invulgar capacidade de
trabalho e liderança à
Comissão de Linhas
Telegráficas e, mais tarde, à
Expedição Científica
Roosevelt-Rondon. O
Sargento Paixão sempre
demonstrou aos seus
superiores, pares e
subordinados uma inexcedível
boa vontade no desempenho
de suas funções e, como
disse Rondon: “servindo de
exemplo aos seus camaradas,
pelo espírito de disciplina que
imprimia a todos os seus
atos, e sobretudo pela
moralidade de sua vida de
Soldado e de Homem”.
O Sargento Paixão foi
covardemente assassinado
por um dos camaradas que
vinha furtando,
sistematicamente, os
escassos víveres destinados a
suprir a todos os membros da
Expedição.
Coronel Hiram Reis e Silva
(Pesquisador Militar)

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