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JURISDIÇÃO

1. NOÇÕES GERAIS E CONCEITO

O termo “jurisdição” vem das expressões “juris dictio”, ou seja, “dizer o direito”, função hoje pertencente
ao estado, o qual é representando pelo poder judiciário. O artigo 16 do CPC aponta que “a jurisdição será exerci-
da pelos juízes e tribunais em todo o território nacional, conforme as disposições deste Código”.
Definimos a jurisdição como sendo a parcela de poder estatal que tem a função de aplicar a lei, com vis-
tas a solucionar as lides que lhe são submetidas.

2. CARACTERÍSTICAS

Pode-se afirmar que a função jurisdicional não se confunde com as demais funções exercidas pelo esta-
do (legislativa e administrativa), sendo marcada pelos seguintes caracteres:
a) Substitutividade: a jurisdição substitui a atividade das partes em conflito, pondo a sua vontade acima das
mesmas. Se Maria tem um débito para com João, por exemplo, não pode este, por força própria, ir até o
patrimônio de Maria e retirar bens para quitar o débito, sob pena de incidir em crime contra a administração da
justiça (artigo 345, CP). É necessário que ele proponha demanda contra a devedora para que o judiciário, uma
vez reconhecido o direito, possa praticar atos de expropriação dos bens de Maria (veja que o judiciário “substitui”
a atividade de João), com o objetivo de saldar a dívida. O artigo 16 do CPC aponta que “A jurisdição civil é
exercida pelos juízes e pelos tribunais em todo o território nacional, conforme as disposições deste Código.”
.
b) Inércia: o Estado não prestará a atividade jurisdicional sem a prévia provocação. O artigo 2º, CPC,
aponta que “o juiz não prestará a tutela jurisdicional senão quando provocado, salvo as exceções legais”. Se fosse
permitido ao magistrado iniciar um processo judicial, certamente que o mesmo não julgaria com base nas provas
constantes dos autos, mas, sim, de acordo com o sentimento que lhe motivou a abrir a relação processual, com-
prometendo, por consequência a sua imparcialidade.
c) Imparcialidade: significa que o órgão julgador é o sujeito desinteressado da relação. O juiz é conside-
rado como o sujeito imparcial da relação processual. É justamente por isso que o legislador disciplinou situações
as quais seria impossível ou mesmo desaconselhável a participação do magistrado em certos processos: são os
casos de impedimentos e suspeição, disciplinados, respectivamente, nos artigos 144 e 145, CPC.
Perceba, também, que o artigo 139, I, CPC determina, como primeiro dever do magistrado, “assegurar
às partes igualdade de tratamento”.
d) Definitividade: a atividade jurisdicional é marcada pela indiscutibilidade. Após esgotados os atos pro-
cedimentais e ocorrente o fenômeno da coisa julgada, não há que se falar em nova discussão daquilo que fora
objeto da decisão emitida, salvo exceções legalmente previstas, tal como ocorre com a ação rescisória, capitulada
nos artigos 966 e seguintes do CPC.
É por isso que, não obstante determinada relação jurídica tenha sido decidida no âmbito administrativo
(ex: discussão quanto à existência de débito tributário), fato é que a decisão em questão não impossibilita o su-
posto lesado a socorrer-se da via jurisdicional para sanar a lesão em questão.
A característica em questão está, inclusive, relacionada ao princípio da inafastabilidade do controle juris-
dicional da lesão ou ameaça direito (artigo 5º, XXXV, CF).
Vale ressaltar que a Lei nº 9.307/96 (lei de arbitragem) relativizou esta máxima ao criar a arbitragem co-
mo instrumento alternativo de solução de conflitos (diz-se “alternativo”, haja vista o seu uso facultativo - artigo 42,
CPC). A arbitragem é desenvolvida mediante atividade particular, equiparando a autoridade de sua decisão àque-
la emitida no seio judicial, visto que a sentença arbitral é considerada título executivo judicial por expressa dispo-
sição do artigo 31 da lei em referência.

COMPETÊNCIA

Preliminarmente, cabe ressaltar que, embora o processamento e julgamento das causas cíveis, perante
o poder judiciário, constituam a regra, o legislador facultou às partes instituírem juízo arbitral para dirimir as con-
trovérsias oriundas dos negócios jurídicos celebrados entre pessoas capazes, nos termos da lei de arbitragem (Lei
nº 9.307/96).

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1. DEFINIÇÃO

A jurisdição é a parcela de poder atribuída ao estado para dizer o direito. Dito poder é exercido sobre os
jurisdicionados de todo o território nacional, por diversos órgãos do judiciário, motivo pelo qual se faz mister repar-
tir as tarefas, mediante alguns critérios.
Assim, a competência é definida como o instituto que visa definir o âmbito de atuação, mediante critérios
específicos, dos órgãos encarregados da prestação jurisdicional.

2. CRITÉRIOS DE FIXAÇÃO DE COMPETÊNCIA: MATERIAL, FUNCIONAL, EM RAZÃO DO VALOR E TERRI-


TORIAL

Dentre os critérios utilizados pelo nosso sistema jurídico, é preciso destacar:


a) Material: a competência é fixada em razão da natureza da lide posta em juízo. O CPC estabelece que
a competência material será regida mediante normas de organização judiciária. Assim, é possível que uma lei
estadual crie varas especializadas (vara de família, vara de sucessões, órfãos e interditos, infância e juventude,
etc.) para o julgamento de matérias específicas.

b) Funcional: diz respeito à função exercida pelo órgão jurisdicional no processo. O critério atenta tanto
para a função dos tribunais quanto para a função dos juízos de primeiro grau.
Quanto aos tribunais, terão eles competência para funcionar originariamente (ex: processamento, pelo
STF, de mandado de segurança contra ato de Presidente da República; Processamento, pelo TRF, de mandado
de segurança contra ato de juiz federal; Mandado de segurança impetrado junto ao TJ contra ato de Governador
de Estado, etc.) ou a nível recursal- também conhecida como “competência hierárquica” - (ex: processamento e
julgamento de recurso de apelação pelo TJ ou TRF; processamento e julgamento de Recurso Especial pelo STJ,
etc.). Os tribunais também terão competência funcional para processar as execuções das causas de sua compe-
tência originária (artigo 516, I, CPC).
Quanto ao juízo de primeiro grau, este terá competência para funcionar originariamente (a maior parte
das ações é de competência originária do juízo de 1º grau!), e nas execuções das causas de sua competência
pois, ainda que a causa vá parar nas instâncias superiores, uma vez esgotados os meios recursais, os autos re-
tornarão ao juízo de origem para o cumprimento de sentença, a teor do preceituado no artigo 516, II, CPC. Terá,
também, competência para funcionar nas ações que guardam relação com causas anteriormente ajuizadas (ex:
competência do juízo da ação principal para conhecer de ação cautelar; competência do juízo que determinou a
apreensão do bem para conhecer da ação de embargos de terceiro; competência do juízo da ação principal para
conhecer da reconvenção, etc.).

c) Em razão do valor da causa: o valor da causa pode constituir fator determinante para a fixação de
competência. Assim como é possível que norma de organização judiciária local crie varas especializadas para o
conhecimento e julgamento de causas com matérias específicas (competência material), é, também, possível a
criação de varas com competência para processar e julgar ações de até certo montante (30, 40, 50 salários, etc.).
Tal critério, conforme afirmado, é disciplinado por normas de organização judiciária.
Cabe, ainda, ressaltar que a Lei federal nº 9.099/95 impôs a criação dos chamados “juizados especiais
cíveis”, cuja competência leva em consideração, dentre outros critérios, o valor da causa, o qual não pode ultra-
passar o patamar de 40 (quarenta) salários mínimos.

d) Territorial: este critério leva em consideração o exercício da função jurisdicional segundo a limitação
geográfica. Assim, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) possuem competên-
cia para processar demandas oriundas de todas as partes do país; o Tribunal Regional Federal (TRF) possui ju-
risdição sobre alguns estados; o Tribunal de Justiça, por sua vez, possui jurisdição no respectivo estado.
Mas o que importa, em sede de exame de ordem, são as regras relativas à competência territorial dos ju-
ízes de primeira instância, as quais foram fixadas pelo Código de Processo Civil, em seus artigos 46 e seguintes.
É importante atentarmos para as seguintes regras:
 Ação fundada em direito pessoal e a ação fundada em direito real sobre bens móveis: serão propos-
tas, em regra, no foro do domicílio do réu (art. 46, CPC). Considerando que, até que seja provado em contrário,
ninguém pode ser considerado culpado, o legislador quis dar a “comodidade” ao réu de responder a demanda em
seu domicílio.
Tendo mais de um domicílio, o réu será demandado no foro de qualquer deles. Havendo dois ou mais
réus, com diferentes domicílios, serão demandados no foro de qualquer deles, à escolha do autor.

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E se o réu não tiver domicílio nem residência no Brasil? neste caso, excepcionalmente, a ação será pro-
posta no foro do domicílio do autor.
 Ações fundadas em direito real sobre imóveis: é competente o foro da situação da coisa (art. 47,
CPC). Pode o autor, entretanto, optar pelo foro de domicílio do réu ou pelo foro de eleição se o litígio não recair
sobre direito de propriedade, vizinhança, servidão, divisão e demarcação de terras e de nunciação de obra nova.
A ação possessória imobiliária também será proposta no foro de situação da coisa, cujo juízo tem com-
petência absoluta (art. 47, § 2o, CPC).

ATENÇÃO!
Urge ressaltar que a presença da União ou de qualquer dos seus entes, na ação de usucapião, não
afasta a competência do foro da situação do imóvel (Súmula 11, STJ). Neste caso, a demanda será processada
perante o juízo federal da respectiva circunscrição territorial ou, inexistindo juízo federal na localidade, pelo juízo
estadual investido na função federal.

 Ações de inventário, a partilha, a arrecadação, o cumprimento de disposições de última vontade,


impugnação ou anulação de partilha extrajudicial e todas as ações em que o espólio for réu, ainda que o óbito
tenha ocorrido no estrangeiro: serão propostas no foro do domicílio do autor da herança, no Brasil; se o autor da
herança não possuía domicílio certo é competente o foro da situação dos bens; havendo bens imóveis em foros
diferentes, a demanda poderá ser proposta em qualquer destes. Não havendo bens imóveis, o foro do local de
qualquer dos bens do espólio.

 A ação em que o incapaz for réu: será processada perante o foro do domicílio de seu representante
ou assistente (art. 50, CPC).
Aqui o enunciado é bem fácil de ser entendido: a regra geral é a de que a ação deve ser proposta no fo-
ro do domicílio do réu. Pois bem, como o artigo 76, parágrafo único, do CC preceitua que o domicílio necessário
do incapaz é o do seu representante legal, logo, a ação deve ser proposta no foro do domicílio do representante
(que acaba sendo, em último caso, o foro do domicílio do réu ou incapaz).
 Causas em que haja a participação da União: se a mesma estiver na qualidade de autora, serão afo-
radas na seção judiciária onde tiver domicílio o réu; estando na qualidade de ré, poderão ser aforadas na seção
judiciária em que for domiciliado o autor, naquela em que tiver ocorrido o ato ou fato que deu origem à demanda
ou onde esteja situada a coisa, ou ainda, no distrito federal.

 Ação em que se pedem alimentos: será proposta no foro do domicílio ou da residência do alimentan-
do (art. 53, II, CPC).
Esta regra foi criada tendo em vista a necessidade do alimentando, o qual teria dificuldades em propor
demanda em domicílio distinto do seu.

ATENÇÃO!
Em se tratando de ação de investigação de paternidade cumulada com alimentos, a competência será
da regra especial, ou seja, foro do domicílio do alimentando (Súmula 1, STJ).

 Ação em que exigir o cumprimento de obrigação: proposta no lugar onde a obrigação deva ser satis-
feita;
 Ação de reparação do dano: deve ser proposta no lugar do ato ou fato.
 Nas ações de reparação do dano sofrido em razão de delito ou acidente de veículos, inclusive aero-
naves: será competente o foro do domicílio do autor ou do local do fato (art. 53, V, CPC).
 Ações de divórcio, separação, anulação de casamento e reconhecimento ou dissolução de união es-
tável: serão propostas no foro de domicílio do guardião de filho incapaz. Não havendo filho incapaz, a demanda
será proposta perante o foro do último domicílio do casal. Se nenhuma das partes residir no antigo domicílio do
casal, será proposta no foro do domicílio do réu (art. 53, I, alíneas “a”, “b” e “c”, CPC).

3. REGIME JURÍDICO: COMPETÊNCIA ABSOLUTA E RELATIVA

Cabe ressaltar, primeiramente, que os critérios de fixação de competência, tratados no item anterior, fo-
ram criados com um dos seguintes objetivos: 1) proteção do interesse público, no sentido de proporcionar uma
melhor organização e divisão de tarefas entre os diversos órgãos do judiciário; 2) proteção do interesse privado
da parte, no sentido de dar comodidade àquele que necessite, quando tiver de propor/responder a uma demanda.

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No primeiro caso, o legislador utilizou os critérios material e funcional para o atendimento do interesse
público; no segundo, valeu-se dos critérios em razão do valor e território para a consecução do interesse particu-
lar.
Os critérios eleitos para o atendimento do interesse público (material e funcional) são absolutos, no sen-
tido de serem atendidos, queiram ou não as partes, sob pena de nulidade processual. Outrossim, os critérios elei-
tos para o atendimento do interesse privado das partes (valor da causa e território) são relativos, no sentido de
que, se não forem atendidos de imediato, poderão ser “relevados” ou deixados “de lado”.
Feitas estas considerações preliminares, notamos que o regime jurídico acerca da competência irá variar
conforme a sua natureza.
Sendo relativa, a infração da regra de competência deve ser alegada pela parte, sob pena de preclusão
e consequente prorrogação de competência, tornando-se competente o juízo que, até então, não o era (Súmula
33, STJ). O réu arguirá o vício na própria contestação, através de preliminar (arts. 64 e 337, II, CPC), e não mais
através de exceção, como se dava sob a égide do CPC de 1973.
Questão interessante é a que diz respeito à cláusula de eleição de foro. Nos contratos em geral (inde-
pendentemente de ter natureza de adesão!) haverá a possibilidade do magistrado declarar a sua incompetência
territorial quando se deparar com cláusula abusiva de eleição de foro, remetendo os autos para o foro do domicílio
do réu. Tal declaração, entretanto, deverá ser feita ANTES da citação. Se a citação JÁ FOI realizada, caberá ao
réu alegar a abusividade, sob pena de preclusão (art. 63, §§ 3o e 4º do CPC). A incompetência territorial também
poderá ser declarada de ofício no âmbito dos juizados especiais cíveis, a teor do disposto no enunciado 89 do
Fórum Nacional do Juizados Especiais (FONAJE).

A infração à regra de competência de natureza absoluta (em razão da matéria ou hierarquia), por estar
apoiada em regras de ordem pública, acaba por gerar vício insanável, o qual poderá ser arguido em qualquer
momento e grau de jurisdição (ex oficio ou mediante preliminar de contestação). É mister salientar, inclusive, que,
não sendo o vício declarado pelo juiz ou mediante iniciativa das partes, a coisa julgada não terá o condão de es-
tabilizar-se. É que o artigo 966, II, CPC autoriza a instauração de rescisória na hipótese de incompetência absolu-
ta.

4. MODIFICAÇÃO DE COMPETÊNCIA: CONEXÃO E CONTINÊNCIA

Determina-se a competência no momento do registro ou da distribuição da petição inicial. Isto quer dizer
que, uma vez proposta a demanda a um determinado juízo, passará o mesmo a ter competência para conduzir o
processo até o final.
O legislador estabeleceu a regra de que são irrelevantes “...as modificações do estado de fato ou de di-
reito ocorridas posteriormente” (art. 43, CPC). É o que se denomina de perpetuatio jurisdictionis. Assim, por
exemplo, sendo o réu demandado no foro do seu domicílio e, fixada a competência de um juízo “x”, a alteração de
domicílio (modificação de fato) não acarretará a modificação da competência.
A regra da perpetuatio jurisdictionis sofre algumas exceções, senão vejamos:
 quando houver supressão do órgão judiciário: havendo a extinção do órgão jurisdicional (extinção
de uma vara cível, por exemplo), o processo será remetido ao juízo que o sucedeu em competência.
 quando houver alteração da competência absoluta (em razão da matéria ou hierarquia): se a al-
teração ocorrida no curso do processo acarretar a modificação de competência absoluta, aí não haverá outra
alternativa senão enviar os autos ao juízo que passou a ser competente para conhecer da lide.
Temos como exemplo, no primeiro caso (alteração de competência em razão da matéria), a modificação
de competência trazida pela emenda Constitucional 45. Imagine que uma causa que versa sobre representação
sindical entre sindicatos vinha tramitando perante a justiça comum. Com a EC-45, o artigo 114 da Constituição
passou a dispor que a justiça do trabalho seria competente para processar e julgar lides de representação sindical
“entre sindicatos”. Logo, os feitos tiveram de ser remetidos à justiça laboral.
Já no segundo caso (alteração de competência funcional), temos como exemplo a modificação trazida
por intermédio da Lei nº 11.232/05, a qual possibilitou que a execução pudesse ser processada perante o atual
domicílio do executado ou perante o local onde se encontram os bens passíveis de penhora (regra acrescida ao
CPC de 1973 através do artigo 475-P, § único e que fora reproduzida pelo art. 516, § único do CPC/2015). Perce-
ba que, embora fosse a execução processada perante o juízo onde a causa tramitou em primeiro grau de jurisdi-
ção (pois, após o trânsito em julgado, os autos “baixam” à vara de origem), dita competência passou a poder ser
deslocada para um dos juízos mencionados (do atual domicílio do executado ou do local em que se encontram os
bens passíveis de penhora), com o intuito de “acelerar” a execução, o que nos mostra mais um caso de alteração
de competência.

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Finalmente, poderá, ainda, haver alteração de competência relativa (veja que, até o momento, vínhamos
falando em alteração de competência do juízo apenas quando houvesse uma alteração de competência absolu-
ta!), em virtude da ocorrência dos fenômenos da conexão ou continência.

Haverá a conexão entre duas ou mais ações ajuizadas quando elas tiverem o mesmo pedido (ex: ações
movidas, por diversos sócios, com o objetivo de anular deliberação tomada por diretoria da sociedade) ou a mes-
ma causa de pedir (ex: vários moradores, em demandas distintas, acionam a construtora em virtude do desaba-
mento de edifício).
A continência se dará quando, entre duas ou mais ações houver as mesmas partes e causa de pedir,
mas o objeto de uma, por ser mais amplo, abrange o da outra (ex: Maria promove ação de investigação de pater-
nidade em face de João; em outra demanda, Maria pede, além da declaração de paternidade, a condenação do
suposto pai ao pagamento de pensão alimentícia).

ATENÇÃO!
Quando houver continência e a ação continente tiver sido proposta anteriormente, no processo relativo à
ação contida será proferida sentença sem resolução de mérito, caso contrário, as ações serão necessariamente
reunidas. É o que dispõe o artigo 57, CPC.

Havendo conexão ou continência, as ações deverão ser reunidas, para serem decididas conjuntamente,
sob pena gerar um risco de decisões contraditórias.
A competência para o julgamento de causas conexas ou continentes será do juízo prevento, ou seja,
aquele que primeiro conheceu da ação. Mas, qual o parâmetro utilizado para saber qual fora o juízo que primeiro
conheceu da demanda? O CPC nos responde, em seu artigo 59: “O registro ou a distribuição da petição inicial
torna prevento o juízo.”

ATENÇÃO!
A conexão não determina a reunião de processos, se um deles já foi julgado (art. 55, § 1o, CPC e Súmu-
la 235, STJ). Ora, embora possa existir conexão entre uma ação que esteja em curso e outra que esteja finda
(ação de revisão de cláusula contratual/ ação de busca e apreensão de veículo, por exemplo), não há interesse na
reunião de ambas, visto que o instituto da conexão visa o julgamento “conjunto” das ações a fim de evitar deci-
sões conflitantes, o que, in casu, inocorreria, pois uma delas já teria sido julgada.

TEORIA GERAL DO PROCESSO: PRESSUPOSTOS PROCESSUAIS

O processo pode ser definido como o instrumento utilizado pela jurisdição para a resolução dos conflitos
de interesses que lhes são levados à apreciação.
Pois bem, a validade do processo está condicionada a premissas concretas, denominadas de “pressu-
postos processuais”.
Pressupostos processuais são “supostos prévios”, “condições prévias”, a serem observadas, sob pena
de comprometer a existência e validade do processo.
Assim, por exemplo, seria inadmissível a instauração da relação processual sem a peça responsável pe-
lo seu desencadeamento (petição inicial); ou o desenvolvimento do processo sem o ato de convite ao réu para
que se defenda (citação); também não poderíamos imaginar um processo válido sem que houvesse um juízo
competente, a presença de advogado, etc.
Em todos os exemplos acima, verifica-se que a constituição e desenvolvimento da relação processual
estão condicionados à existência de formalidades (pressupostos processuais), as quais possibilitarão, ao final do
processo, um verdadeiro revestimento de imutabilidade à questão trazida à apreciação do judiciário.
Aqui vamos nos ater aos pressupostos subjetivos, que são formalidades traçadas pelo sistema jurídico,
relativamente aos protagonistas da relação processual: juiz e partes. Assim:

a) quanto ao juiz: este deverá estar dotado de jurisdição, competência e imparcialidade.


 jurisdição: o feito deverá ser conduzido por um juiz. Perceba que, de acordo com o artigo 16, CPC,
“A jurisdição civil é exercida pelos juízes e pelos tribunais em todo o território nacional, conforme as disposições
deste Código.”. Assim, não podemos imaginar um processo sendo conduzido por quem não seja juiz ou por quem,
embora fosse, já estivesse aposentado. Mas, há exceção? Existe a possibilidade de um conflito ser resolvido por
quem não seja juiz? Existe sim. O legislador, por intermédio da Lei nº 9.307/96 e do artigo 42, CPC, facultou às
partes, maiores e capazes, a instituição da arbitragem para a resolução de conflitos oriundos de um negócio jurí-
dico que celebrarem. Mas, ressalte-se: a jurisdição é regra, da qual a arbitragem é a exceção!

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 competência: não basta ser juiz. É necessário, também, que o mesmo seja competente para condu-
zir e julgar o processo. Não pode, por exemplo, um juiz da vara cível julgar demanda de competência da trabalhis-
ta; ou um juiz de primeiro grau julgar uma ação civil de competência originária de tribunal. A respeito da compe-
tência, vide considerações feitas na Parte I, item 5, deste livro.
 imparcialidade: além de competência, o juiz deverá ter imparcialidade, no sentido de não estar pré-
disposto ou pré-intencionado na condução do feito. Ele deve tratar as partes com igualdade. O tratamento igualitá-
rio, inclusive, é o primeiro dever do juiz, elencado no artigo 139, I, CPC.
Perceba (e aí vai uma “dica”!) que os três pressupostos processuais que dizem respeito ao juiz (jurisdi-
ção, competência e imparcialidade), correspondem, respectivamente, aos três princípios da jurisdição (investidura,
improrrogabilidade e juiz natural), visto que o juiz é a própria “encarnação” da jurisdição.

b) quanto às partes: estas deverão ter capacidade de ser parte, capacidade para estar em juízo e ca-
pacidade postulatória.
 capacidade de ser parte: esta exigência diz respeito a quem pode ocupar um dos polos da relação
processual. Em termos simples: quem pode ser autor ou réu em um processo? Terão a capacidade de ser parte:
1) pessoas naturais ou físicas: todo o ser humano pode ser autor ou réu de um processo, bastando o
nascimento com vida. Esta capacidade se confunde com a personalidade, estudada no direito civil, como aptidão
genérica de ser sujeito de direitos e obrigações. O raciocínio aqui é simples: nascendo, o ser humano adquire a
personalidade (passa a ser sujeito de direitos e obrigações); logo, poderá ser autor de ação para receber o que
lhe seja de direito e poderá ser réu para cumprir com as obrigações que a lei lhe confere.
2) pessoas jurídicas: como sujeitos de direitos e obrigações, também poderão ser autores ou réus em
processo judicial. As pessoas jurídicas são de direito público (União, estados, Distrito federal, territórios, municí-
pios, autarquias e fundações públicas) ou de direito privado (associações, sociedades, fundações privadas, or-
ganizações religiosas e partidos políticos).
As pessoas jurídicas não podem ser confundidas com os órgãos que a integram. Por exemplo, se um ci-
dadão deseja ingressar com ação de indenização em virtude dos danos materiais causados por uma bala “perdi-
da”, disparada pelo revólver de policial militar de Pernambuco, não poderá o mesmo propor a demanda em face
da polícia militar (que é mero órgão, sem personalidade jurídica), mas, sim, contra a pessoa jurídica a qual ela
integra, a saber, Estado de Pernambuco.

ATENÇÃO!
A sociedade ou associação sem personalidade jurídica não poderá opor a irregularidade de sua constituição
quando demandada. (art. 75, § 2o , CPC)
3) alguns entes despersonalizados: em regra, ente despersonalizado não pode ser parte, conforme afir-
mado no item anterior, haja vista que, não possuindo personalidade, não constitui-se em sujeito de direitos e obri-
gações. Ocorre que o legislador resolveu conferir capacidade de ser parte a certos entes, justamente como forma
de protegê-los, pois, do contrário, não existiria outra forma de defender seus interesses senão estando na quali-
dade de parte. É o que ocorre, por exemplo, com a massa falida, espólio e condomínio. Neste caso diz-se que os
mesmos, apesar de não possuírem “personalidade jurídica”, possuem “personalidade judiciária”.
O fenômeno em questão (personalidade judiciária) será aplicado, também, a alguns órgãos públicos (Mi-
nistério Público, Câmara de vereadores ou Assembleia Legislativa, por exemplo), apenas quando da defesa de
suas prerrogativas institucionais. Por exemplo, pode o ministério público, para a defesa do interesse público
(uma de suas prerrogativas), ser autor de uma ação civil pública contra uma fábrica que polui o meio ambiente;
Pode também, uma assembleia legislativa manejar um mandado de segurança contra ato de governador que vio-
lou competência daquela casa. Nestes casos eles estarão defendendo as suas prerrogativas institucionais.
Não estando, entretanto, o conflito de interesses ligado àquelas prerrogativas, a capacidade de ser parte
será da pessoa jurídica de direito público a qual o órgão integra, e não do mencionado órgão (MP ou Assembleia
Legislativa). Imagine, por exemplo, um atropelamento envolvendo um veículo oficial do ministério público do esta-
do de Pernambuco. Neste caso, a ação não terá como parte o Ministério público (que é mero órgão, sem persona-
lidade jurídica), mas, sim, a pessoa jurídica a qual ele integra (estado de Pernambuco).

ATENÇÃO!
Não confunda capacidade de ser parte com legitimidade ad causam. A capacidade de ser parte é
vista diretamente, com objetividade (quem pode e quem não pode ser parte num processo!) ao passo que a legi-
timidade ad causam (uma das condições da ação) se refere à titularidade (legitimidade) do direito lesado: tem
legitimidade ativa quem teve o direito violado e tem legitimidade passiva quem violou o direito.
Então, exemplificando, Maria pode ter a capacidade de ser parte (pois é pessoa natural), mas não ter
legitimidade para propor uma dada ação, pois não fora ela quem teve o direito violado.

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 capacidade de estar em juízo: refere-se à possibilidade de praticar os atos jurídicos processuais
(atos jurídicos dentro do processo). Terá a capacidade de estar em juízo toda pessoa que se ache no exercício
dos seus direitos (artigo 70 do CPC). Perceba, por exemplo, que uma criança de 5 (cinco) anos de idade terá a
capacidade de ser parte (pois tem personalidade), mas NÃO terá a capacidade de estar em juízo, pois não
pode, por si só, praticar os atos da vida civil.
Ressalte-se que as pessoas casadas também têm capacidade plena para estar em juízo, de modo que
um cônjuge não necessita da companhia do outro, seja para figurar como autor, seja para colocar-se na qualidade
de réu. A regra, no entanto, encontra exceções:
Para propor demandas, um cônjuge somente necessitará do consentimento do outro quanto às ações que
versem sobre direitos reais imobiliários. Isto quer dizer que a ação deverá ser intentada por ambos os cônjuges
(ambos serão autores), sob pena de ser decretada a ausência da capacidade processual, com a consequente
extinção do processo sem resolução de mérito. O motivo é simples: tudo que é adquirido após a constância do
matrimônio passa a pertencer a ambos. Assim, qualquer ação que verse sobre direitos reais imobiliários poderá
afetar a esfera de direitos do outro cônjuge sobre o bem disputado, motivo pelo qual haverá a necessidade de sua
participação. Esta regra processual só não será aplicada se o regime do casamento for o da separação de bens
(art. 73, CPC). O consentimento pode ser suprido judicialmente quando for negado por um dos cônjuges sem
justo motivo, ou quando lhe seja impossível concedê-lo.
Por outro lado, ambos os cônjuges deverão ser citados (figurarão como réus) nas ações que versem so-
bre direito reais imobiliários ou nos casos de composse ou de atos por ambos praticados.
Preocupado com a defesa do interesse dos incapazes, o legislador criou o instituto da representação,
que nada mais é do que a defesa em juízo, em nome alheio, de interesse alheio.
Assim, os incapazes serão representados ou assistidos por seus pais, tutores ou curadores (artigo 71,
CPC). Numa ação de alimentos proposta contra o pai, por exemplo, o incapaz será o autor (pois o direito é seu!),
mas, como não poderá estar em juízo, deverá ser representado por sua genitora. Perceba que a mãe estará na
qualidade de representante, pois estará em nome alheio (pois a criança é quem figurará como autora da ação!),
defendendo interesse alheio (interesse da criança).
É preciso ficar atento à figura do curador especial (art. 72, CPC).
A lei menciona que o juiz dará curador especial: a) ao incapaz, se não tiver representante legal, ou se os
seus interesses colidirem com os daquele; b) ao réu preso; c) ao revel citado por edital ou com hora certa, en-
quanto não for constituído advogado.
Esta função é exercida pelo defensoria pública (art. 72, § único, CPC).
Ao curador especial incumbe a função basicamente defensiva (ou seja, defender alguém que está numa
situação de desvantagem no processo- incapaz, réu preso e revel citado por edital ou hora certa). Assim, não
pode o curador valer-se de instrumentos de “ataque” (reconvenção, ação declaratória incidental, etc), mas, tão
somente de defesa.
Ressalte-se que a sua atuação limita-se ao âmbito processual em virtude de fato autorizador, não se
confundindo, portanto, com o curador comum, o qual representa os incapazes para os atos da vida civil em geral.

ATENÇÃO!
Duas nuances precisam ser ressaltadas:
A primeira, no sentido de que a nomeação de curador especial é aplicada, também, nas execuções em
que o executado, citado fictamente, seja revel (Súmula 196, STJ).
A segunda é que o curador especial, ao apresentar a contestação, NÃO se submete ao ônus da im-
pugnação específica (regra segundo a qual o réu deve se manifestar sobre todos os pontos narrados na petição
inicial, sob pena de presumir-se como verdadeiro o ponto que não fora impugnado). Aqui o motivo é simples: co-
mo o curador especial cai de “paraquedas” no processo, não tem o ele conhecimento “a fundo” dos fatos, poden-
do, portanto, apresentar contestação por “negativa geral”.

Ainda dentro da temática da representação, é necessário ficar atento à representação do artigo 75 do


CPC. É que, nele, o legislador listou uma série de entes com os seus respectivos representantes judiciais, ativos
ou passivos.
Isto quer dizer que todas as pessoas e entes que estão listados no mencionado artigo terão a capacidade
de ser parte (pois poderão ser autores ou réus), mas para terem a capacidade de estar em juízo necessitarão
estar representados pelos sujeitos que lá figuram, senão vejamos: a) a União, os Estados, o Distrito Federal e
os Territórios, pela Advocacia-Geral da União, diretamente ao mediante órgão vinculado; b) o Município, por seu
Prefeito ou Procurador; c) a massa falida, pelo administrador judicial; d) a herança jacente ou vacante, por seu
curador; e) o espólio, pelo inventariante; f) as pessoas jurídicas, por quem os respectivos estatutos designarem,

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ou, não os designando, por seus diretores; g) IX - a sociedade e a associação irregulares e outros entes
organizados sem personalidade jurídica, pela pessoa a quem couber a administração de seus bens; h) a
pessoa jurídica estrangeira, pelo gerente, representante ou administrador de sua filial, agência ou sucursal
aberta ou instalada no Brasil (o gerente da filial ou agência presume-se autorizado, pela pessoa jurídica
estrangeira, a receber citação inicial para qualquer processo); i) o condomínio, pelo administrador ou pelo
síndico.

 capacidade postulatória: é a aptidão para o exercício da defesa técnica em juízo. Em nosso orde-
namento jurídico ela é exercida pelos advogados, profissionais regularmente inscritos perante os quadros da Or-
dem dos Advogados do Brasil (OAB). Vale salientar que, nos juizados especiais cíveis, a presença do advogado é
facultativa nas causas que não ultrapassem 20 salários mínimos (artigo 9º da Lei nº 9.099/95).
ATENÇÃO!
Verificada a incapacidade processual ou a irregularidade da representação da parte, o juiz suspenderá o
processo e designará prazo razoável para que seja sanado o vício.
Descumprida a determinação, caso o processo esteja na instância originária: I - o processo será extinto, se
a providência couber ao autor; II - o réu será considerado revel, se a providência lhe couber; III - o terceiro será
considerado revel ou excluído do processo, dependendo do polo em que se encontre.
Por outro lado, descumprida a determinação em fase recursal perante tribunal de justiça, tribunal regional
federal ou tribunal superior, o relator:
I - não conhecerá do recurso, se a providência couber ao recorrente;
II - determinará o desentranhamento das contrarrazões, se a providência couber ao recorrido

TEORIA GERAL DO PROCESSO: SUJEITOS DO PROCESSO

Três são os sujeitos que participam diretamente do processo: autor, réu e juiz. Os dois primeiros são de-
finidos como “partes” ou “sujeitos parciais”, os quais são diretamente interessados na demanda. O juiz, entretanto,
é o sujeito desinteressado da relação, estando acima e equidistante das partes.
É possível, também, que um terceiro venha “migrar” para a relação processual no curso da demanda. É
o que se denomina de “intervenção de terceiros”.
O representante do Ministério Público também é um sujeito que comumente participa da relação proces-
sual, seja na qualidade de parte ou de na qualidade de fiscal da lei.
Por fim, a “máquina” jurisdicional necessita de profissionais colaboradores, denominados de auxiliares
da justiça.
Analisemos alguns destes protagonistas.

1. DAS PARTES E DOS PROCURADORES

Considerando que já foram analisados os pressupostos processuais referentes às partes (capacida-


de de ser parte e de estar em juízo), faremos considerações, agora, aos deveres das partes, seja na perspectiva
da atuação direta, ou sob o prisma das despesas. Veremos, também, a temática que se refere à substituição das
partes no processo.

A) Deveres na atuação processual

O CPC/2015, em seu artigo, especifica um rol de deveres das partes e de todos aqueles que, de qual-
quer forma, participam do processo, a saber:
I - expor os fatos em juízo conforme a verdade: certamente que é natural que a parte enfatize os fatos
que lhe são favoráveis e despreze aqueles que lhes são prejudiciais. O que o legislador proibiu, entretanto, foi a
utilização de artifícios que venham a “manchar” com a verdade. É o exemplo da parte que induz testemunha a
mentir em juízo ou nega a assinatura em um dado documento, do qual sabe de antemão ser sua.
II - não formular pretensões, nem alegar defesa, cientes de que são destituídas de fundamento:
aqui é necessário que, aquele que formulou a pretensão, esteja ciente de que a mesma carece de fundamento,
sendo necessário o magistrado apreciar, em cada caso, a existências ou não de erro grosseiro. É o caso do autor
que move ação rescisória para impugnar decisão, com o objetivo de reapreciação dos fatos da causa.
III - não produzir provas, nem praticar atos inúteis ou desnecessários à declaração ou defesa do
direito: a função da produção probatória é demonstrar como os fatos ocorreram, sendo certo que será relevante a
produzir aquilo que tenha relação direta com o objeto da lide. Assim, é vedado às partes discutir, na relação pro-
cessual, fatos irrelevantes, que em nada contribuirá à resolução da lide. Imagine, por exemplo, que o réu, em seu

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depoimento pessoal, confessasse sua culpa num acidente de trânsito na medida em que, ao efetuar a manobra,
não ligou o sinal indicador do veículo (seta). Se, após a confissão, o autor insistisse na oitiva de uma testemunha
para provar que o réu “não ligou o sinal indicador”, estaria ele produzindo prova desnecessária à declaração do
direito.
IV - cumprir com exatidão os provimentos mandamentais e não criar embaraços à efetivação de
provimentos judiciais, de natureza antecipatória ou final: o dispositivo em questão tem um duplo comando: a)
que a parte cumpra com as ordens judiciais (“mandamentais” vem de “mandamento”, “ordem”, que deve ser cum-
prida pela parte, como, por exemplo, inclusão de candidato nas demais etapas de um concurso, entrega de medi-
camentos a paciente que deles necessite, etc.); b) que não crie embaraços à realização das ordens judiciais (por
exemplo, pai que oculta criança, dificultando atividade de oficial de justiça no cumprimento de mandado de busca
e apreensão).
Ressalvados os advogados públicos ou particulares, membros do Ministério Público e da Defensoria Pú-
blica, os quais se sujeitam exclusivamente aos órgãos de classe ou corregedoria, a violação a deste mandamento
constitui ato atentatório ao exercício da jurisdição, podendo o juiz, sem prejuízo das sanções criminais, civis e
processuais cabíveis, aplicar ao responsável multa em montante a ser fixado de acordo com a gravidade da con-
duta e não superior a vinte por cento do valor da causa; não sendo paga no prazo estabelecido, contado do
trânsito em julgado da decisão final da causa, a multa será inscrita sempre como dívida ativa da União ou do Es-
tado. Perceba que a multa em questão será revertida para o Estado ou União, a depender de tramitar o processo
perante a justiça estadual ou federal, pelo motivo de que o fato gerador da mesma consiste no descumprimento
de ordem judicial.
Finalmente, como último dever expresso que é imposto pelo CPC, está a proibição às partes e seus ad-
vogados de empregarem expressões injuriosas nos escritos apresentados no processo, cabendo ao juiz, de ofício
ou a requerimento do ofendido, mandar riscá-las. Quando as expressões injuriosas forem proferidas em defesa
oral, o juiz advertirá o advogado que não as use, sob pena de lhe ser cassada a palavra.
Embora não tenha sido expressamente referido no rol do artigo 77 pelo CPC de 2015, outro dever da
parte e de todos aqueles que participam da relação processual é proceder com lealdade e boa-fé. Tal dever
acaba por abranger todas as outras espécies de obrigações. Agir com lealdade é agir com probidade, ser honesto
no transcorrer da relação processual.
Velando pela leal atuação na relação processual, o CPC disciplina a existência do instituto da litigância
de má-fé, apontando que responderá por perdas e danos aquele que pleitear de má-fé como autor, réu ou inter-
veniente.
Segundo o legislador, reputa-se litigante de má-fé aquele que: I- deduzir pretensão ou defesa contra tex-
to expresso de lei ou fato incontroverso; II - alterar a verdade dos fatos; III - usar do processo para conseguir obje-
tivo ilegal; IV - opuser resistência injustificada ao andamento do processo; V - proceder de modo temerário em
qualquer incidente ou ato do processo; Vl - provocar incidentes manifestamente infundados; VII - interpuser recur-
so com intuito manifestamente protelatório.
De ofício ou a requerimento, o juiz condenará o litigante de má-fé a pagar multa, que deverá ser superior a
um por cento e inferior a dez por cento do valor corrigido da causa, a indenizar a parte contrária pelos prejuízos
que esta sofreu e a arcar com os honorários advocatícios e com todas as despesas que efetuou.
Quando forem 2 (dois) ou mais os litigantes de má-fé, o juiz condenará cada um na proporção de seu res-
pectivo interesse na causa ou solidariamente aqueles que se coligaram para lesar a parte contrária.
Sendo o valor da causa for irrisório ou inestimável, a multa poderá ser fixada em até 10 (dez) vezes o valor
do salário-mínimo.
O valor da indenização será fixado pelo juiz ou, caso não seja possível mensurá-lo, liquidado por arbitra-
mento ou pelo procedimento comum, nos próprios autos.
Cabe ressaltar, por oportuno, que as regras que tratam da litigância de má-fé (de natureza geral) não terão
aplicação cumulativa com multas específicas, criadas por disposições próprias, sob pena de incidirmos num bis in
idem. É o que ocorreria, por exemplo, com a aplicação cumulativa do artigo 80, VII, CPC (interposição de recurso
meramente protelatório) com o artigo 1.026, § 2o, CPC (embargos de declaração protelatórios).

B) Dos deveres quanto às despesas e às multas

 Considerações iniciais: Salvo as disposições concernentes à justiça gratuita (pois aí não haverá ne-
cessidade de pagamento dos gastos), cabe às partes prover as despesas dos atos que realizam ou requerem no
processo, antecipando-lhes o pagamento desde o início até sentença final; e bem ainda, na execução, até a plena
satisfação do direito previsto no título (artigo 82, CPC).
As despesas abrangem não só as custas dos atos do processo, como também a indenização de viagem,
diária de testemunha e remuneração do assistente técnico.

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 Regra geral: é no sentido de que o pagamento será feito por ocasião de cada ato processual, pela
parte que realizar o ato. No entanto, compete ao autor adiantar as despesas relativas a atos, cuja realização for
determinada de oficio pelo juiz ou quando for requerida pelo Ministério público quando atuar como fiscal lei. Mas,
atenção!: Em relação à perícia, ainda quando esta for determinada de oficio, os honorários periciais serão ratea-
dos por ambas as partes.
A Fazenda Pública, inclusive, quando parte no processo, ficará sujeita à exigência do depósito prévio
dos honorários do perito (Súmula 232, STJ).
Ressalte-se que, ao final, a sentença condenará o vencido a pagar ao vencedor as despesas que ante-
cipou e os honorários advocatícios. A verba honorária será devida, também, nos casos em que o advogado funci-
onar em causa própria.

 Honorários Advocatícios: a sentença condenará o vencido a pagar honorários ao advogado do


vencedor. São devidos honorários advocatícios na reconvenção, no cumprimento de sentença, provisório ou
definitivo, na execução, resistida ou não, e nos recursos interpostos, cumulativamente.
Eles serão fixados entre o mínimo de 10% (dez por cento) e o máximo de 20% (vinte por cento) sobre o
valor da condenação, atendidos: a) o grau de zelo do profissional; b) o lugar de prestação do serviço; c) a
natureza e importância da causa, o trabalho realizado pelo advogado e o tempo exigido para o seu serviço.
Se cada litigante for em parte vencedor e vencido, serão recíproca e proporcionalmente distribuídos e
compensados entre eles os honorários e as despesas. É o que chamamos de “sucumbência recíproca”. Ressalte-
se que, nas ações de indenização por dano moral, a condenação em montante inferior ao postulado na inicial não
implica sucumbência recíproca (Súmula 327, STJ).
Se um litigante decair de parte mínima do pedido, o outro responderá, por inteiro, pelas despesas e ho-
norários.
Nas causas em que for inestimável ou irrisório o proveito econômico ou, ainda, quando o valor da causa
for muito baixo, o juiz fixará o valor dos honorários por apreciação equitativa.

 Fazenda Pública: nas causas em que a Fazenda Pública for parte, o valor dos honorários, que serão
fixados após a devida liquidação do julgado, observará os seguintes percentuais:
I - mínimo de 10% e máximo de 20% sobre o valor da condenação ou do proveito econômico obtido até 200
(duzentos) salários-mínimos;
II - mínimo de 8% e máximo de 10% sobre o valor da condenação ou do proveito econômico obtido acima
de 200 (duzentos) salários-mínimos até 2.000 (dois mil) salários-mínimos;
III - mínimo de 5% e máximo de 8% sobre o valor da condenação ou do proveito econômico obtido acima de
2.000 (dois mil) salários-mínimos até 20.000 (vinte mil) salários-mínimos;
IV - mínimo de 3% e máximo de 5% sobre o valor da condenação ou do proveito econômico obtido acima de
20.000 (vinte mil) salários-mínimos até 100.000 (cem mil) salários-mínimos;
V - mínimo de 1% e máximo de 3% sobre o valor da condenação ou do proveito econômico obtido acima de
100.000 (cem mil) salários-mínimos.
É bom ressaltar que será considerado o salário-mínimo vigente quando prolatada sentença líquida ou o que
estiver em vigor na data da decisão de liquidação.
Mas, como calcular tais valores? O cálculo será simples: a fixação do percentual de honorários deve ob-
servar a faixa inicial e, naquilo que a exceder, a faixa subsequente, e assim sucessivamente.

Por fim, aponte-se que serão devidos honorários no cumprimento de sentença contra a Fazenda Pública
que enseje expedição de precatório, desde que não tenha sido impugnada.

 Procedimentos de jurisdição voluntária: as despesas serão adiantadas pelo requerente, mas rate-
adas entre os interessados. Nas ações de alienação judicial de coisa comum, por exemplo, geralmente o reque-
rente adianta o pagamento das custas, as quais serão partilhadas entre os interessados, na proporção de seus
quinhões.

 Desistência, renúncia ou reconhecimento do pedido: as despesas e os honorários serão pagos pela


parte que desistiu, renunciou ou reconheceu a procedência do pedido. Se o réu reconhecer a procedência do
pedido e, simultaneamente, cumprir integralmente a prestação reconhecida, os honorários serão reduzidos pela
metade.

 Transação: havendo transação e nada tendo as partes disposto quanto às despesas, estas serão
divididas igualmente.

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 Extinção sem resolução de mérito: quando, a requerimento do réu, o juiz declarar extinto o processo
sem julgar o mérito, o autor não poderá intentar de novo a ação, sem pagar ou depositar em cartório as despesas
e os honorários, em que foi condenado.

 Assistência: se o assistido ficar vencido, o assistente será condenado nas custas em proporção à
atividade que houver exercido no processo.

 Perícia: cada parte pagará a remuneração do assistente técnico que houver indicado; a do perito será
paga pela parte que houver requerido o exame, ou rateadas pelas partes, quando ambas tiverem requerido ou a
mesma for determinada de ofício pelo juiz (valendo salientar que, ao final, a parte será reembolsada das despesas
que antecipou!).

Quando o pagamento da perícia for de responsabilidade de beneficiário de gratuidade da justiça, ela poderá
ser: I - custeada com recursos alocados no orçamento do ente público e realizada por servidor do Poder Judiciário
ou por órgão público conveniado; II - paga com recursos alocados no orçamento da União, do Estado ou do
Distrito Federal, no caso de ser realizada por particular, hipótese em que o valor será fixado conforme tabela do
tribunal respectivo ou, em caso de sua omissão, do Conselho Nacional de Justiça.
Após o trânsito em julgado da decisão final, o juiz oficiará a Fazenda Pública para que promova, contra
quem tiver sido condenado ao pagamento das despesas processuais, a execução dos valores gastos com a perí-
cia particular ou com a utilização de servidor público ou da estrutura de órgão público. Caso o responsável pelo
pagamento das despesas seja beneficiário de gratuidade da justiça, a obrigação decorrente de sua sucumbência
ficará sob condição suspensiva de exigibilidade e somente poderá ser executada se, nos 5 (cinco) anos subse-
quentes ao trânsito em julgado da decisão que a certificou, o credor demonstrar que deixou de existir a situação
de insuficiência de recursos que justificou a concessão de gratuidade, extinguindo-se, passado esse prazo, a obri-
gação do beneficiário.

C) Sucessão de Partes

De logo, urge ressaltar que a sucessão de partes (alteração de um dos sujeitos do processo) não se
confunde com a substituição de partes (quando alguém postula, em nome próprio, direito alheio). É por isso que o
CPC/2015 (arts. 108 e seguintes) utilizou-se da expressão “sucessão de partes” ao invés de “substituição de par-
tes”, que até então era utilizada pelo CPC de 1973.
Realizada a citação, ocorre a estabilização dos elementos da ação (partes, causa de pedir e pedido).
Após este momento, a alteração do pedido ou causa de pedir só ocorrerá mediante consentimento do réu, deven-
do, no entanto, manter-se as mesmas partes.
Excepcionalmente, o CPC contempla duas hipóteses de sucessão.
A primeira, prevista no artigo 109, se refere à hipótese em que o bem litigioso é alienado por ato inter
vivos, caso em que é possível a substituição do alienante pelo adquirente, desde que haja consentimento da ou-
tra parte. Ressalte-se que, não havendo consentimento da outra parte, o adquirente poderá adentrar na lide na
qualidade de assistente litisconsorcial do alienante ou cedente, tendo em vista que a possibilidade de ter sua esfe-
ra jurídica afetada pelos efeitos da sentença.
A segunda constitui modalidade obrigatória. Ocorre quando há a morte de qualquer das partes, caso
em que se dará a substituição pelo espólio ou seus sucessores, mediante suspensão do feito. O feito somente
será extinto (sem resolução de mérito) se a ação for considerada intransmissível.

2. INTERVENÇÃO DE TERCEIROS

As partes são os sujeitos que primitivamente se assentaram num dos polos da relação jurídica. Após es-
te momento, o ingresso póstumo de qualquer sujeito lhe dará a condição de terceiro.
Em regra, aqueles que se assentaram primitivamente permanecerão na qualidade de parte até o final.
Entretanto, algumas relações jurídicas se estabelecem como que “em teias” ou “cadeias”, a ponto da relação pro-
cessual poder surtir efeitos sobre a esfera jurídica de quem, a princípio, nada tinha a ver com a relação. É exata-
mente nestes casos que a ordem jurídica autorizou o ingresso de sujeitos, os quais ostentam a condição de “ter-
ceiros”.
Destarte, terceiro pode ser definido, por exclusão, como aquele que, não revestindo a qualidade de par-
te, ingressa no feito em virtude de vínculo jurídico estreito que mantém com a relação processual deduzida em
juízo.

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Aludida intervenção poderá se operar de forma voluntária (assistência e amicus curiae) ou provocada
(chamamento ao processo, denunciação da lide, e desconsideração da personalidade jurídica).
Urge ressaltar, ainda, que, com exceção da desconsideração da personalidade jurídica, a intervenção de
terceiros não é admitida nos juizados especiais cíveis (artigo 10 da Lei nº 9.099/95), haja vista a necessidade de
celeridade.
Passemos a analisar cada uma das modalidades de intervenção.

A) Assistência

 Aplicação: caberá a assistência todas as vezes que um terceiro tiver interesse jurídico de que a sen-
tença seja favorável a uma das partes. Nela, o ingresso do terceiro objetiva a vitória de uma das partes, haja vista
que o resultado do julgamento poderá afetar a sua esfera jurídica (e não meramente econômica!). Imagine, por
exemplo, que “A” ingresse com ação em face de “B” para reaver um imóvel que fora dado em locação. Ocorre que
“B” já havia sublocado esse imóvel para “C”. Perceba que, sendo o pedido julgado procedente, “C” terá sua esfera
jurídica afetada, na medida em que verá extinta a relação jurídica (contrato de sublocação) que mantém com “B”.
Por isso, estará o mesmo autorizado a ingressar no feito, na qualidade de assistente, para “torcer” pela vitória de
“B”.
 Modalidades: a assistência será simples quando o resultado da sentença puder afetar a relação jurí-
dica entre assistente e assistido, conforme fora vista no exemplo acima.
Outrossim, será litisconsorcial quando o julgamento puder afetar a relação jurídica entre o assistente e o
adversário do assistido. Na verdade, o assistente poderia ter, primitivamente, sido parte na relação processual
(“litisconsórcio” vem de “consórcio” ou “agrupamento” de litigantes), não o sendo por circunstância meramente
eventual.
Pense, como exemplo, a ação reivindicatória movida por apenas um dos condôminos e o ingresso poste-
rior de outro condômino; Outro exemplo seria a ação proposta por um dos sócios visando anular deliberação ado-
tada pela sociedade, ingressando, posteriormente, sócio que não figurava como parte. Observe que, em todos
esses exemplos, o assistente possui pretensão a ser defendida em juízo (por isso, poderia ter sido parte desde o
início, só não o sendo, pelo fato de ter ingressado no processo posteriormente), diferentemente da modalidade
simples, a qual, apesar do mesmo poder ser prejudicado pelo resultado da decisão, o seu direito não está “em
jogo”.

 Regime jurídico: na modalidade simples, o assistente vincula-se às declarações do assistido. É que,


apesar de figurar na demanda, o interesse controvertido é do assistido. Assim, poderá o assistido reconhecer a
procedência do pedido, desistir da ação, efetuar transação, etc. Fato é que a atuação é de mero auxiliar ou coad-
juvante da parte principal.
Vale ressaltar que o assistente não poderá, em outro processo, questionar a justiça da decisão (art. 123,
CPC). O termo “justiça da decisão” se refere aos fundamentos da decisão e não ao dispositivo (até mesmo por-
que, não sendo parte, não poderia ser o mesmo atingido pela coisa julgada). Gonçalves (2011:213) esclarece bem
a situação, ao trazer exemplo ilustrativo do qual ora nos valemos. Imagine que, num acidente automobilístico, o
sujeito é demandado e, como não houve denunciação da lide, o seguro decide entrar na lide para auxiliar a parte,
visto que poderá sofrer os efeitos da sentença. Pois bem, encerrada a demanda, não poderá o seguro questionar
em outra ação a justiça da decisão (existência de acidente, autoria do réu, culpa da vítima, etc.), podendo, tão
somente, questionar outros fatos que não serviram de base ao decisório primitivo (ausência de vínculo contratual,
pois o segurado teria deixado de pagar o seguro, ou que o contrato não contemplaria aquela espécie de sinistro,
etc.).
Por outro lado, na modalidade litisconsorcial, ambos (assistente e assistido) têm direito a defender em ju-
ízo, motivo pelo qual o assistente não se vincula às declarações emitidas pelo assistido, de modo que se forma
um verdadeiro litisconsórcio. Lembre-se: Os litisconsortes serão considerados, em suas relações com a parte
adversa, como litigantes distintos, exceto no litisconsórcio unitário, caso em que os atos e as omissões de um não
prejudicarão os outros, mas os poderão beneficiar (art. 117, CPC).
 Ingresso do assistente: não havendo impugnação no prazo de 15 (quinze) dias, o pedido do assis-
tente será deferido, salvo se for caso de rejeição liminar. Se, no entanto, qualquer parte alegar que falta ao reque-
rente interesse jurídico para intervir, o juiz decidirá o incidente, sem suspensão do processo.

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B) Denunciação da lide

 Aplicação: modalidade de intervenção provocada, prevista nos artigos 125 a 129 do CPC, mediante
a qual se pretende exercer o direito de regresso, seja em virtude de evicção (ex: ação judicial em que se objetiva
coisa anteriormente adquirida a terceiro) ou seja em razão de vínculo contratual ou legal de responsabilidade (ex:
empregador que é demandado pelos prejuízos causados por seu obreiro - artigo 932, CC; ou ação movida contra
condutor de veículo, quando o mesmo denuncia à lide o seguro).

ATENÇÃO!
O objetivo do instituto em tela é facilitar o exercício do direito de regresso, nada impedindo que este seja
exercido, também, mediante ação autônoma. Tanto o é, que o CPC/2015 aponta que o direito regressivo será
exercido por ação autônoma quando a denunciação da lide for indeferida, deixar de ser promovida ou não for
permitida (art.125, § 1o).

 Regime jurídico: três observações devem ser feitas. A primeira é que a denunciação poderá ser
efetuada tanto pelo autor da ação originária (na própria inicial, efetuando-se a citação do denunciado juntamente
com a do réu) quanto pelo réu (no prazo para contestar); A segunda é que, se o denunciante for vencido na ação
principal, o juiz passará ao julgamento da denunciação da lide. Em terceiro lugar, se o denunciante for vencedor, a
ação de denunciação não terá o seu pedido examinado, sem prejuízo da condenação do denunciante ao
pagamento das verbas de sucumbência em favor do denunciado

C) Chamamento ao processo

 Aplicação: modalidade de intervenção provocada. O chamamento ao processo ocasiona o alarga-


mento processual, na medida em que se inclui na demanda sujeito que partilha responsabilidades com o réu da
demanda originária.
O CPC contempla o chamamento do afiançado pelo fiador; dos demais fiadores pelo fiador demandado;
ou, finalmente, dos demais devedores solidários quando demandado apenas um ou alguns deles (art. 130, CPC).
Das hipóteses de cabimento acima listadas, colhe-se um aspecto interessante: perceba que se pode
chamar ao processo sujeitos que sejam “tão responsáveis quanto” ou “mais responsáveis do que” aquele que
efetua o chamamento. Assim, é possível que o fiador chame ao processo o devedor principal, mas o inverso não é
admissível.
Observe que, enquanto na denunciação da lide o cumprimento da obrigação é de responsabilidade do
denunciante da demanda originária (o qual denuncia com o escopo de valer-se do direito regressivo), no chama-
mento ao processo a obrigação seria tanto do réu primitivo quando do terceiro, o qual não fora demandado, por
isso que chamado posteriormente.
 Regime jurídico: a citação daqueles que devam figurar em litisconsórcio passivo será requerida pelo réu
na contestação e deve ser promovida no prazo de 30 (trinta) dias, sob pena de ficar sem efeito o chamamento. Se
o chamado residir em outra comarca, seção ou subseção judiciárias, ou em lugar incerto, o prazo será de 2 (dois)
meses.

Ingressando o terceiro e havendo o alargamento da relação processual, a sentença que julgar proceden-
te o pedido servirá de título executivo em favor do que satisfizer a dívida para que execute o coobrigado nos autos
do mesmo processo.

D) Incidente de desconsideração da personalidade jurídica


 Considerações gerais: Já sabemos que a lei conferiu proteção à formação de entidades abstratas, de-
nominadas de “pessoas jurídicas”. Elas são constituídas com vistas a fomentar diversas atividades de interesse
social e, como forma de gerar vínculos próprios, adota-se o princípio da autonomia patrimonial, de modo que a
sua personalidade não se confunde com a personalidade das pessoas naturais que as integram.
Noutros termos, como tais atividades guardam em si riscos inerentes, foi necessário que o legislador criasse
um “manto”, um “véu” protetivo, apto a separar o patrimônio da pessoa jurídica do patrimônio das pessoas natu-
rais que a constituem.
Ocorre que, muitas vezes, dita proteção acaba por servir de “escudo” para a o desvio de finalidade entre ou-
tras práticas escusas.
Neste diapasão, foi necessário criar um instrumento efetivo para combate a estes abusos, de modo que o
mesmo servisse para atingir os bens de seus sócios integrantes: é a desconsideração da personalidade jurídica,
já prevista no artigo 50 do CC e, agora, disciplinada pelo CPC/2015.

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 Cabimento: O incidente de desconsideração, que obedecerá aos pressupostos previstos em lei, será ca-
bível em todas as fases do processo de conhecimento, no cumprimento de sentença e na execução fundada em
título executivo extrajudicial.
 Legitimidade: O incidente de desconsideração da personalidade jurídica será instaurado a pedido da
parte ou do Ministério Público, quando lhe couber intervir no processo.
 Formalidades: A instauração do incidente suspenderá o processo e será imediatamente comunicada ao
distribuidor para as anotações devidas.
Dispensa-se a instauração do incidente se a desconsideração da personalidade jurídica for requerida na pe-
tição inicial, hipótese em que será citado o sócio ou a pessoa jurídica.
O requerimento deve demonstrar o preenchimento dos pressupostos legais específicos para desconsidera-
ção da personalidade jurídica.
Instaurado o incidente, o sócio ou a pessoa jurídica será citado para manifestar-se e requerer as provas ca-
bíveis no prazo de 15 (quinze) dias. Concluída a instrução, se necessária, o incidente será resolvido por decisão
interlocutória. Se a decisão for proferida pelo relator, cabe agravo interno.
Acolhido o pedido de desconsideração, a alienação ou a oneração de bens, havida em fraude de execução,
será ineficaz em relação ao requerente.

E) Amicus Curiae

 Considerações gerais: O amicus curiae, também conhecido como “amigo da corte” consiste em
pessoa, entidade ou órgão que intervém na causa porque possui interesse na questão jurídica que está sendo
deduzida em juízo. A sua atuação se dará exatamente pelo fato de que aquilo que será decidido no caso concreto
poderá surtir efeitos sob algum seguimento da sociedade.

 Ingresso: O novo CPC autoriza a utilização deste instituto ao estipular que o juiz ou o relator, consi-
derando a relevância da matéria, a especificidade do tema objeto da demanda ou a repercussão social da contro-
vérsia, poderá, por decisão irrecorrível, de ofício ou a requerimento das partes ou de quem pretenda manifestar-
se, solicitar ou admitir a participação de pessoa natural ou jurídica, órgão ou entidade especializada, com repre-
sentatividade adequada, no prazo de 15 (quinze) dias de sua intimação.
 Poderes: Caberá ao juiz ou ao relator, na decisão que solicitar ou admitir a intervenção, definir os poderes
do amicus curiae. O CPC/2015, no entanto, já antecipa que o amicus curiae não está autorizado a interpor recur-
sos, ressalvadas a oposição de embargos de declaração ou interposição de recurso contra decisão que julgar o
incidente de resolução de demandas repetitivas.

3. DO JUIZ

O juiz é o sujeito imparcial, desinteressado da relação processual, que está acima das partes e equidis-
tante das mesmas. Quatro aspectos, pertinentes ao juiz, merecem tratamento especial nesta obra: seus deveres
gerais, responsabilidades, atuação e os casos em que está proibida a sua participação no processo em virtude
dos fenômenos de impedimento ou suspeição.

A) deveres

O juiz dirigirá o processo, competindo-lhe os seguintes deveres:

I - assegurar às partes igualdade de tratamento: é o que se chama de “isonomia”. Como condutor do


processo o juiz não pode dar tratamento diferenciado às partes, a não ser quando a lei previamente estabeleça. É
o caso, por exemplo, da concessão de prazos diferenciados (artigos 180, 183 e 186, CPC).
II - velar pela duração razoável do processo: o juiz deve resolver a lide no lapso temporal mais breve
possível, fazendo com que a prestação jurisdicional seja eficaz. Esse é o motivo pelo qual poderá o está autoriza-
do a indeferir diligências ou provas inúteis.
III - prevenir ou reprimir qualquer ato contrário à dignidade da justiça: considerando que é o juiz
quem preside o feito, deverá o mesmo cuidar para que haja o zelo e respeito para com a justiça. Assim, deve o
juiz punir os atos que vão de encontro à dignidade da justiça, como, por exemplo, o ato que de embaraço à ordem
judicial, punido com multa. Outro exemplo é visto no artigo 360, CPC. Aqui o legislador apontou que o juiz exerce
o poder de polícia nas audiências, competindo-lhe manter a ordem e o decoro, podendo ordenar que se retirem da
sala os que se comportarem inconvenientemente e até mesmo requisitar, quando necessário, a força policial.

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IV - determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias necessá-
rias para assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas ações que tenham por objeto presta-
ção pecuniária: aqui o novo CPC procurou legitimar o uso, pelo magistrado, de todas as medidas necessárias à
efetivação da ordem judicial. Assim, poderá o magistrado valer-se, por exemplo, de multa diária, remoção de pes-
soas ou coisas, impedimento de atividade nociva, etc.
V - promover, a qualquer tempo, a autocomposição, preferencialmente com auxílio de conciliadores
e mediadores judiciais: é o que se chama de “dever de composição”. Por mais que o juiz tenha a função de
resolver lides, é indicado que o mesmo tente sempre, primeiramente, uma solução por meio da atividade das
próprias partes. Com o novo CPC, estará o mesmo auxiliado por conciliadores e mediadores judiciais.
VI - dilatar os prazos processuais e alterar a ordem de produção dos meios de prova, adequando-os
às necessidades do conflito de modo a conferir maior efetividade à tutela do direito: ressalte-se que, aqui, o
magistrado poderá prorrogar os chamados “prazos dilatórios” e não os peremptórios, os quais são improrrogáveis,
como regra.
VII - exercer o poder de polícia, requisitando, quando necessário, força policial, além da segurança
interna dos fóruns e tribunais;
VIII - determinar, a qualquer tempo, o comparecimento pessoal das partes, para inquiri-las sobre os
fatos da causa, hipótese em que não incidirá a pena de confesso;
IX - determinar o suprimento de pressupostos processuais e o saneamento de outros vícios proces-
suais;
X - quando se deparar com diversas demandas individuais repetitivas, oficiar o Ministério Público, a
Defensoria Pública e, na medida do possível, outros legitimados a que se referem as leis 7.347/85 e
8.078/90, para, se for o caso, promover a propositura da ação coletiva respectiva.

B) responsabilidades

O artigo 143 do CPC estipula que o magistrado responderá por perdas e danos nas seguintes hipóteses:
I – quando, no exercício de suas funções, proceder com dolo ou fraude: perceba que não existe,
em nosso ordenamento jurídico, a possibilidade de responsabilização pessoal do juiz por ato culposo, mas tão
somente doloso ou fraudulento. Isto quer dizer que, se o jurisdicionado tiver prejuízo em virtude de atividade juris-
dicional culposa, poderá apenas voltar-se com ação de indenização contra o Estado (se a justiça for estadual) ou
contra a União (sendo a justiça federal) e não contra o juiz.
II – quando recusar, omitir ou retardar, sem justo motivo, providência que deva ordenar de ofício,
ou a requerimento da parte: reputar-se-ão verificadas essas hipóteses somente depois que a parte, por intermé-
dio do escrivão, requerer ao juiz que determine a providência e este não lhe atender ao pedido dentro de 10 (dez)
dias.

C) atuação processual

O CPC procurou estabelecer diretrizes para a regular atuação do juiz no curso da relação processual.
Eis as regras:
I- indeclinabilidade: o juiz não se exime de sentenciar ou despachar alegando lacuna ou obscuridade
no ordenamento jurídico. No julgamento da lide caber-lhe-á aplicar as normas legais; não as havendo, recorrerá à
analogia, aos costumes e aos princípios gerais de direito (art. 140, CPC).
II- equidade: é o senso de justiça do juiz. Julgar por equidade seria adotar a solução que ele - o juiz -
acredite ser mais justa. O julgamento por equidade, em regra, não é admitido em nosso ordenamento pátrio (pois
a regra é a de que o juiz julgue com base no que diz a lei). Excepcionalmente, o juiz decidirá por equidade, desde
que a lei lhe permita. É o que ocorre, por exemplo, com a fixação de honorários advocatícios nas causas de valor
inestimável ou irrisório (artigo 85, par. 8º, CPC).
III- inércia: o juiz decidirá a lide nos limites em que foi proposta, sendo-lhe defeso conhecer de ques-
tões, não suscitadas, a cujo respeito a lei exige a iniciativa da parte (art. 141, CPC).
IV- simulação: convencendo-se, pelas circunstâncias da causa, de que autor e réu se serviram do pro-
cesso para praticar ato simulado ou conseguir fim proibido por lei, o juiz proferirá sentença que obste aos objetivos
das partes e ainda poderá aplicar, de ofício, as penalidades por litigância de má-fé. É o que determina o artigo
142, CPC. Imagine, por exemplo, que marido e mulher utilizaram do processo para simular uma separação com
partilha de bens, com o intuito de fraudar credores. Percebendo a simulação, deverá o juiz extinguir o feito sem
resolução de mérito.
V- impulso oficial: caberá ao juiz, de ofício ou a requerimento da parte, determinar as provas necessá-
rias à instrução do processo, indeferindo as diligências inúteis ou meramente protelatórias. A jurisdição necessita

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de provocação da parte apenas para instaurar e não para resolver a relação processual. Isto quer dizer que, uma
vez provocado, o juiz passará a atuar por impulso oficial, ou seja, “por dever do cargo”.
VI- princípio da livre convicção motivada (persuasão racional): o juiz apreciará livremente a prova,
atendendo aos fatos e circunstâncias constantes dos autos, ainda que não alegados pelas partes; mas deverá
indicar, na sentença, os motivos que lhe formaram o convencimento. Em outros termos, significa dizer que o juiz é
“livre” para formar o seu convencimento com base no meio de prova que desejar (testemunhal, pericial, documen-
tal, etc.), mas, na sentença, ele deverá informar quais foram essas razões, ou seja, deverá dar publicidade ao
raciocínio que utilizou para chegar àquela conclusão. Essa “publicidade” serve para que a parte inconformada
possa conhecer do raciocínio empregado pelo juiz na decisão e, por consequência, possa “combatê-la” por meio
do recurso cabível.

D) Dos impedimentos e da suspeição

Preocupado em manter a imparcialidade do julgador, o legislador estabeleceu hipóteses em que estaria


vedada a sua atuação. Umas mais graves (impedimento), outras menos graves (suspeição), mas que, ainda as-
sim, comprometeria a sua isenção.
As hipóteses de impedimento estão listadas no artigo 144, CPC. Nele, o legislador estabelece que é defeso
ao juiz exercer as suas funções no processo contencioso ou voluntário: I - em que interveio como mandatário da
parte, oficiou como perito, funcionou como membro do Ministério Público ou prestou depoimento como
testemunha; II - de que conheceu em outro grau de jurisdição, tendo proferido decisão; III - quando nele estiver
postulando, como defensor público, advogado ou membro do Ministério Público, seu cônjuge ou companheiro, ou
qualquer parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive; IV - quando for
parte no processo ele próprio, seu cônjuge ou companheiro, ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou
colateral, até o terceiro grau, inclusive; V - quando for sócio ou membro de direção ou de administração de pessoa
jurídica parte no processo; VI - quando for herdeiro presuntivo, donatário ou empregador de qualquer das partes;
VII - em que figure como parte instituição de ensino com a qual tenha relação de emprego ou decorrente de
contrato de prestação de serviços; VIII - em que figure como parte cliente do escritório de advocacia de seu
cônjuge, companheiro ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive,
mesmo que patrocinado por advogado de outro escritório; IX - quando promover ação contra a parte ou seu
advogado.

Como forma de assimilar as hipóteses acima, basta lembrar que elas se resumem a três situações: a)
quando o juiz atua no processo (como parte; ou como sócio ou membro de direção de pessoa jurídica que figu-
re como parte no processo) ou já atuou no processo (como juiz, mandatário, perito, órgão do MP ou testemu-
nha); ou b) quando seu cônjuge, companheiro ou um parente seu, na linha reta ou colateral até o terceiro
grau, estiver atuando no processo (na condição de parte, advogado, defensor ou membro do Ministério Públi-
co). c) quando o juiz ou seu cônjuge, companheiro ou parente possuir relação jurídica com uma das partes
(juiz for empregador ou mantiver relação com instituição de ensino; a parte é cliente de escritório de advocacia do
cônjuge, companheiro ou parente do juiz).

Fora as hipóteses acima, todas as outras que comprometerem a imparcialidade do juiz configurarão
hipóteses de suspeição. Como não foi possível ao legislador listar todas elas, preferiu mencionar apenas algumas
e, ao final, deixar em aberto, por meio das frases “interessado no julgamento da causa em favor de uma das
partes” e “poderá, ainda, o juiz declarar-se suspeito por motivo íntimo”, o que nos leva a contemplar um rol
meramente exemplificativo. Vejamos as hipóteses listadas: I - amigo íntimo ou inimigo de qualquer das partes ou
de seus advogados; II - que receber presentes de pessoas que tiverem interesse na causa antes ou depois de
iniciado o processo, que aconselhar alguma das partes acerca do objeto da causa ou que subministrar meios
para atender às despesas do litígio; III - quando qualquer das partes for sua credora ou devedora, de seu
cônjuge ou companheiro ou de parentes destes, em linha reta até o terceiro grau, inclusive; IV - interessado no
julgamento do processo em favor de qualquer das partes.

Outra forma para conseguir diferenciar as hipóteses de impedimento e suspeição é verificando que as
primeiras são de fácil constatação (é fácil provar que o juiz é parte no processo ou que mantém parentesco com
alguma das partes, por exemplo!), ao passo que as hipóteses de suspeição são mais difíceis de serem provas (é
difícil, por exemplo, provar que o juiz é amigo íntimo ou inimigo de uma das partes).
No prazo de 15 (quinze) dias, a contar do conhecimento do fato, a parte alegará o impedimento ou a suspei-
ção, em petição específica dirigida ao juiz do processo, na qual indicará o fundamento da recusa, podendo instruí-
la com documentos em que se fundar a alegação e com rol de testemunhas.

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Se reconhecer o impedimento ou a suspeição ao receber a petição, o juiz ordenará imediatamente a remes-
sa dos autos a seu substituto legal, caso contrário, determinará a autuação em apartado da petição e, no prazo de
15 (quinze) dias, apresentará suas razões, acompanhadas de documentos e de rol de testemunhas, se houver,
ordenando a remessa do incidente ao tribunal.
Distribuído o incidente, o relator deverá declarar os seus efeitos, sendo que, se o incidente for recebido: a)
sem efeito suspensivo, o processo voltará a correr; b) com efeito suspensivo, o processo permanecerá suspenso
até o julgamento do incidente.
Verificando que a alegação de impedimento ou de suspeição é improcedente, o tribunal deverá rejeitá-la.
Acolhida a alegação, tratando-se de impedimento ou de manifesta suspeição, o tribunal condenará o juiz nas cus-
tas e remeterá os autos ao seu substituto legal, podendo o juiz recorrer da decisão.
Ressalte-se, por fim, que, reconhecido o impedimento ou a suspeição, o tribunal fixará o momento a partir
do qual o juiz não poderia ter atuado.

4. DO MINISTÉRIO PÚBLICO

O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, prevista na


Carta Maior de 1988 (artigos 127 ao 130-A) com a tripla função de defender: 1) a ordem jurídica; 2) o regime de-
mocrático; 3) os interesses sociais e individuais indisponíveis.
A constituição federal trata desta instituição de forma ampla, consagrando regras acerca de suas fun-
ções, princípios informadores, composição, etc.
Considerando, no entanto, o objetivo desta singela obra, é necessário que abordemos apenas os aspec-
tos relativos à atuação do ministério público no processo civil, cuja disciplina vem encartada nos artigos 176 a 181
do CPC.
Pela leitura dos referidos artigos, perceberemos que o Ministério Público poderá atuar na qualidade de
parte ou de fiscal da ordem jurídica.

A) O Ministério Público na qualidade de “parte”

Em primeiro lugar, o legislador estabeleceu que o Ministério Público exercerá o direito de ação nos ca-
sos previstos em lei.
Apesar de não ser “pessoa” (mas, sim, “órgão”, sem personalidade jurídica, portanto), o Ministério públi-
co é dotado de “personalidade judiciária” para figurar como parte na defesa de suas prerrogativas institucio-
nais, previstas em lei. Assim, o Ministério Público está autorizado a atuar como parte nas ações de investigação
de paternidade (Lei nº 8.560/92), anulação de casamento (artigo 1.549, CC), ação civil pública (Lei nº 7.347/85),
ação civil de improbidade administrativa (Lei nº 8.429/92), etc.
Atuando na qualidade de parte, cabe-lhe, no processo, os mesmos poderes e ônus que às partes. Isto
quer dizer que, além de gozar dos mesmos favores processuais (poder de recorrer, participar de audiência, juntar
rol de testemunhas, impugnar documentos, etc.), o órgão ministerial também se sujeitará aos mesmos encargos.
Mas não podemos equiparar totalmente o tratamento do representante do ministério público àquele dado
aos particulares. É que, em virtude dos interesses relevantes que defende, o ministério público deve gozar de
certas prerrogativas, não concedidas aos litigantes particulares. É o que ocorre, por exemplo, com o prazo dobra-
do para se manifestar-se nos autos (artigo 180, CPC), isenção no pagamento das custas do recurso (artigo 1.007,
parágrafo 1º, CPC) e a intimação pessoal, com vista dos autos (artigo 180, CPC).

B) O Ministério Público na qualidade de “Fiscal da ordem jurídica”

O ministério público ainda pode intervir na qualidade de fiscal da ordem jurídica. Neste caso ele será um
“zelador” ou “cuidador” do interesse que justificou a sua intervenção.
Quando a lei considerar obrigatória a intervenção do Ministério Público, a parte promover-lhe-á a intima-
ção sob pena de nulidade do processo. O legislador levou tão a sério esse comando, que estipulou como hipótese
ensejadora de ação rescisória a não participação do representante do Ministério público nos casos em que a lei
exija (artigo 967, III, “a”, CPC).
Compete ao Ministério Público intervir:

 nas causas em que há interesses de incapazes: vale ressaltar que deverá o Ministério público es-
tar presente no feito, independentemente de estar o incapaz representado ou assistido pelo respectivo represen-
tante legal. Ora, não podemos confundir capacidade de estar em juízo (realização de atos, pelo representante,

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em nome do representado, já que este, por si só, não pode praticar atos) com a intervenção ministerial (fiscali-
zação da preservação do interesse do incapaz).
 nas ações que envolvam litígios coletivos pela posse da terra rural e nas demais causas em
que há interesse público ou social: o objetivo foi proteger o interesse público, o qual não se confunde com o
mero interesse patrimonial da fazenda pública. O simples fato de uma pessoa jurídica de direito público figurar
como parte numa demanda não significa que haja interesse público que justifique a intervenção ministerial (artigo
178, parágrafo único, CPC). É por isso que, em certas ações, o representante do MP se manifesta no sentido de
dizer que não há relevante razão que justifique a sua participação no feito.
Atuando como fiscal da ordem jurídica, o Ministério Público terá vista dos autos depois das partes, sendo
intimado de todos os atos do processo. Poderá, também, juntar documentos e certidões, produzir prova em audi-
ência e requerer medidas ou diligências necessárias ao descobrimento da verdade.

C) Responsabilidade

O órgão do Ministério Público será civilmente responsável quando, no exercício de suas funções, proce-
der com dolo ou fraude (artigo 181, CPC).
Perceba que, assim como ocorre com o juiz, não existe, em nosso ordenamento jurídico, a possibilidade
de responsabilização pessoal do representante do Ministério Público por ato culposo, mas tão somente doloso ou
fraudulento. Isto quer dizer que, se o jurisdicionado tiver prejuízo em virtude de ato culposo do representante do
Ministério Público, poderá apenas voltar-se com ação de indenização contra o Estado (em se tratando do MP es-
tado) ou contra a União (acaso se trate de MP federal) e não contra o representante do Ministério Público.

ATOS PROCESSUAIS

Assim como ocorre com os atos jurídicos em geral, os atos processuais são ações voltadas à produção
de feitos jurídicos. Aqui, todavia, o objetivo é produzi-los no âmbito da relação jurídica processual (endoprocessu-
al).

A) Forma

Os atos processuais não dependem de forma, a não ser quando a lei expressamente estabelecer. Mas,
ainda que estabeleça forma, o ato será realizado se, realizado de outra maneira, atinja a sua finalidade. É o que
chamamos de “princípio da instrumentalidade das formas”, expresso no artigo 188, CPC.
Em todos os atos do processo é obrigatório o uso da língua portuguesa.
Ressalte-se que o emprego de certas expressões estrangeiras (mutatis mutandis, data vênia, verbi gra-
tia, etc.) já faz parte do cotidiano forense, não sendo proibida a sua utilização.
O documento redigido em língua estrangeira só poderá ser juntado aos autos quando devidamente tra-
duzido, na língua nacional, por tradutor juramentado.

B) Publicidade

Os atos processuais são públicos. Esta publicidade tem um duplo significado: publicidade das audiên-
cias e publicidade quanto à consulta dos autos.
As audiências são públicas, sendo, a princípio, proibidos os julgamentos secretos. O objetivo é evitar o
arbítrio por parte dos julgadores. Assim, qualquer pessoa poderá adentrar e sair das salas de audiências.
Por outro lado, a consulta dos autos também é pública. Isto significa que qualquer pessoa poderá se di-
rigir até um cartório judiciário e manusear os fólios de um processo (a retirada, no entanto, é facultada apenas às
partes).
A regra da publicidade dos autos sofre exceção: é o que chamamos de “segredo de justiça”. O legislador
determinou o processamento de certos feitos em segredo de justiça preocupado em preservar o interesse público
ou a intimidade das partes (que versem sobre casamento, separação de corpos, divórcio, separação, união
estável, filiação, alimentos e guarda de crianças e adolescentes; em que constem dados protegidos pelo direito
constitucional à intimidade).
Nestes casos, o direito de consultar os autos e de pedir certidões será restrito às partes e aos seus ad-
vogados. O terceiro, que demonstrar interesse jurídico, pode requerer ao juiz certidão do dispositivo da sentença,
bem como do inventário e partilha.

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C) Classificação dos atos processuais

A depender do protagonista que realiza o ato, podem eles ser classificados da seguinte forma:
 atos das partes: a maior gama dos atos processuais são realizados pelas partes, as quais são os su-
jeitos diretamente interessados no feito. Os seus atos podem ser chamados de “atos de obtenção” ou de “atos de
disposição”. Os atos de obtenção são aqueles que visam a aquisição de vantagem processual (ex: petição inicial,
defesa, depoimento pessoal, etc.); por sua vez, os atos de disposição, que são aqueles pelos quais as partes vi-
sam dispor de um direito que possuem (ex: desistência da ação, reconhecimento da procedência do pedido, tran-
sação, etc.).

ATENÇÃO!
Os atos processuais realizados pelas partes produzem efeitos de imediato, independentemente de ho-
mologação judicial. Significa dizer que se, por exemplo, o recorrente renuncia expressamente ao direito de recor-
rer (ato de disposição), não pode ele, posteriormente, “voltar atrás” e querer interpor o recurso, pois o ato proces-
sual de renúncia produziu instantaneamente os seus efeitos.
Mas, atenção! A regra cima possui exceção: ela diz respeito à desistência da ação (art. 200, parágrafo
único, CPC). A desistência da ação somente produzirá efeitos depois de homologada pelo juiz. Assim, por exem-
plo, se o autor apresentar petição na qual desiste da ação, enquanto esta não for homologada pelo juiz, poderá
ele “voltar atrás” e dar seguimento ao feito.

 atos do juiz: três são os pronunciamentos do juiz: sentença, decisão interlocutória e despacho. A
sentença é o ato do juiz que põe fim ao procedimento de conhecimento em primeiro grau, resolvendo ou não o
mérito; a decisão interlocutória é o ato que resolve uma questão incidente sem, no entanto, pôr fim ao processo
(ex: decisão que concede ou nega uma tutela antecipada; decisão que resolve incidente de contradita de teste-
munha, acolhendo ou rejeitando a oitiva da mesma, etc.); o despacho, por sua vez, é o ato do juiz que visa dar
mero seguimento ao feito, sem nada decidir (ex: despacho de citação do réu; despacho para intimar as partes da
designação de audiência, etc.); o acórdão é a decisão proferida pelos tribunais (chama-se “acórdão” pelo fato de
ser tomada por mais de um juiz que “entram em acordo”, ou seja, eles “acórdão”).
É importante identificar qual a espécie de ato do juiz, na medida em que a espécie recursal (apelação,
agravo, etc.) cabível dependerá da natureza do ato. Ressalte-se que, dos despachos, não caberá recurso haja
vista que o mesmo não possui carga decisória e, por isso, não poderá prejudicar a parte.
 atos do escrivão: são aqueles praticados pelo serventuário em questão, com o devido auxílio de ou-
tros serventuários (técnicos judiciários, analistas judiciários ou escreventes), chamados de “auxiliares da escriva-
ninha”.

D) Comunicação dos atos

Para que o procedimento se desenvolva e o processo consiga alcançar o seu objetivo, é necessário que
se estabeleça uma comunicação entre o juízo e os demais sujeitos processuais (comunicação interna) ou en-
tre o juízo que conduz o feito e outro juízo colaborador (comunicação externa). No primeiro caso a comunica-
ção é feita por meio da citação e intimação; no segundo caso, a comunicação é feita por meio das cartas.
 citação: Citação é o ato pelo qual são convocados o réu, o executado ou o interessado para integrar a
relação processual (art. 238, CPC)

É nulo o processo em que não tenha havido a citação, ressalvadas as hipóteses de indeferimento da pe-
tição inicial ou de improcedência liminar do pedido (art. 239, CPC). É possível até que o réu não compareça, mas
o que não se admite é que o mesmo não tenha sido citado.
O comparecimento espontâneo do réu supre, entretanto, a ausência de citação. É que, neste caso, ape-
sar de não ter sido regularmente citado, a finalidade fora alcançada: a ciência, pelo réu, do ajuizamento da ação.
Por isso, fluirá a partir desta data o prazo para apresentação de contestação ou de embargos à execução.
A citação pode ser real ou ficta.
Será real quando houver a certeza de que dela o destinatário tomou conhecimento. É o caso da citação
pelo correio e por intermédio de oficial de justiça (art. 246, I E II, CPC). Nestas situações, como há a necessidade
de que o réu ponha sua assinatura no aviso de recebimento (se feita pelo correio) ou cópia do mandado (se feita
por oficial de justiça), haverá uma certeza de que o mesmo tomou conhecimento.
A citação ficta, por sua vez, é aquela em que há uma mera presunção ou ficção de que o destinatário
tomou conhecimento. Aqui se incluem as citações por hora certa (feita quando há suspeita de ocultação do réu
que fora procurado por duas vezes) e por edital (réu incerto ou que reside em local incerto ou não sabido). Nestas

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situações, não se tem a certeza de que o réu tomou conhecimento (pois inexiste qualquer elemento “real” que
afirme sua ciência), mas há tão somente uma presunção criada pela lei.
Visto ser um ato jurídico, a citação é capaz de produzir efeitos. Assim, a citação válida, ainda quando
ordenada por juízo incompetente, induz litispendência, torna litigiosa a coisa e constitui em mora o devedor.

Ressalte-se que a interrupção da prescrição, operada pelo despacho que ordena a citação, ainda que
proferido por juízo incompetente, retroagirá à data de propositura da ação. Assim, não será possível, por
consequência, decretar a prescrição ou decadência pela demora da citação, se esta ocorreu em virtude de
mecanismos inerentes à justiça (Súmula 106, STJ).

ATENÇÃO!
Não se fará, porém, a citação, salvo para evitar o perecimento do direito: I - de quem estiver participando de
ato de culto religioso; II - de cônjuge, de companheiro ou de qualquer parente do morto, consanguíneo ou afim,
em linha reta ou na linha colateral em segundo grau, no dia do falecimento e nos 7 (sete) dias seguintes; III - de
noivos, nos 3 (três) primeiros dias seguintes ao casamento; IV - de doente, enquanto grave o seu estado.

 intimação: é intimação é o ato pelo qual se dá ciência a alguém dos atos e termos do processo, para
que faça ou deixe de fazer alguma coisa. As intimações efetuam-se de ofício, em processos pendentes, salvo
disposição em contrário.
As citações serão feitas, preferencialmente, por meio eletrônico. Quando não realizadas por meio eletrô-
nico, consideram-se feitas as intimações pela publicação dos atos no órgão oficial.
Os advogados poderão requerer que, na intimação a eles dirigida, figure apenas o nome da sociedade a
que pertençam, desde que devidamente registrada na Ordem dos Advogados do Brasil (art. 272, § 1o, CPC)
Sob pena de nulidade, é indispensável que da publicação constem os nomes das partes e de seus ad-
vogados, com o respectivo número de inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil, ou, se assim requerido, da
sociedade de advogados.
Vale ressaltar que a grafia dos nomes das partes não deve conter abreviaturas.

A retirada dos autos do cartório ou da secretaria em carga pelo advogado, por pessoa credenciada a pe-
dido do advogado ou da sociedade de advogados, pela Advocacia Pública, pela Defensoria Pública ou pelo Minis-
tério Público implicará intimação de qualquer decisão contida no processo retirado, ainda que pendente de publi-
cação.
Não sendo o caso de intimação eletrônica e na localidade não houver órgão de publicação oficial, as in-
timações serão feitas às partes, aos seus representantes legais e aos advogados pelo correio ou, se presentes
em cartório, diretamente pelo escrivão ou chefe de secretaria.
A intimação da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Municípios e de suas respectivas autarquias
e fundações de direito público será realizada perante o órgão de Advocacia Pública responsável por sua represen-
tação judicial.
Far-se-á a intimação por meio de oficial de justiça quando frustrada a realização pelo correio.

 Cartas: expedir-se-á carta de ordem quando o juiz for subordinado ao tribunal do qual dela emanar;
carta rogatória, quando dirigida à autoridade judiciária estrangeira; e precatória quando solicitada a juízo de mes-
ma hierarquia, localizado em diferente comarca.
O artigo 260 do CPC aponta os requisitos das cartas de ordem, precatória e rogatória: I - a indicação dos
juízes de origem e de cumprimento do ato; II - o inteiro teor da petição, do despacho judicial e do instrumento do
mandato conferido ao advogado; III - a menção do ato processual que lhe constitui o objeto; IV - o encerramento
com a assinatura do juiz.
A carta tem caráter itinerante, podendo, antes ou depois de lhe ser ordenado o cumprimento, ser enca-
minhada a juízo diverso do que dela consta, a fim de se praticar o ato. O encaminhamento da carta a outro juízo
será imediatamente comunicado ao órgão expedidor, que intimará as partes.

E) Prazos processuais

Sabe-se que o direito não protege os que dormem. Assim, faz-se mister a fixação de lapso temporal no
qual deva ser o ato processual realizado, tudo com o fito de evitar com que o processo se eternize.

Prazo processual pode ser definido como o lapso temporal no qual o ato deva ser praticado. Conside-
rando os dispositivos legais pertinentes à matéria, podemos expor a seguinte classificação:

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 legais: são aqueles previstos em lei. Em regra, os atos processuais serão realizados nos prazos pre-
vistos em lei (art. 218, CPC). Assim, a resposta do réu será apresentada em 15 (quinze) dias (art. 335, CPC); o
recurso de apelação será interposto no prazo de 15 (quinze) dias (art. 1.003, § 5o, CPC) etc.
 judiciais: são aqueles fixados pelo juiz. Quando a lei não estipular o prazo, o juiz o fixará, atentando
a complexidade do ato (ex: a lei não menciona qual o prazo para a entrega do laudo pericial, deixando para que o
juiz fixe).
Ressalte-se que, não havendo prazo legal ou judicial, o ato a cargo da parte deverá ser realizado em 5
(cinco) dias (art. 218 § 3o , CPC).
 peremptórios: são aqueles que não podem sofrer prorrogação. Coincidem com os prazos legais, os
quais, em regra, não sofrerão dilatação.
 dilatórios: aqueles suscetíveis de redução ou prorrogação mediante convenção das partes (desde
que feito ao juiz antes do vencimento e se funde em motivo legítimo) ou decisão judicial.

ATENÇÃO!
Nas comarcas de difícil transporte, o juiz poderá prorrogar quaisquer prazos, mas nunca por mais de
dois meses; em caso de calamidade pública, poderá ser excedido o limite em questão.

 próprios: são aqueles destinados às partes e cujo descumprimento acarreta ônus, ou seja, ou posi-
ção de desvantagem no processo. Se o réu não contestar dentro do prazo, por exemplo, sofrerá os efeitos da
revelia (presunção de veracidade dos fatos afirmados na petição inicial).
 impróprios: são destinados aos juízes e demais protagonistas da jurisdição (auxiliares e serventuá-
rios). É o que ocorre, por exemplo, com o prazo que o juiz dispõe para emitir um despacho (cinco dias) ou senten-
ça (trinta dias), conforme disposto no artigo 226, CPC. O descumprimento de um prazo impróprio não acarreta
uma posição de desvantagem por um motivo muitos simples: o magistrado e os serventuários não possuem inte-
resse no feito.

Aspecto interessante, relativamente aos prazos, é o que diz respeito à sua contagem.
“Início do prazo” não se confunde com “cômputo do prazo”. O “início do prazo” é marcado por ser o ter-
mo inicial fixado para a prática do ato (não levado em consideração na contagem), ao passo que o “cômputo do
prazo” é o primeiro dia levado em consideração à contagem do prazo. Assim entende o legislador quando o mes-
mo aponta que “contam-se os prazos excluindo-se o dia do começo e incluindo-se o do vencimento” (art. 224,
CPC). Dessa forma, se Maria, por exemplo, for intimada de uma decisão numa terça-feira (termo inicial ou início
do prazo), o cômputo somente se dará no primeiro dia útil seguinte (quarta-feira), e assim, por diante.
Com o CPC/2015, os prazos passam a ser contados em dias úteis, de modo que não se inclui no côm-
puto os domingos e feriados (art. 219, CPC).
Os dias do começo e do vencimento do prazo serão protraídos para o primeiro dia útil seguinte, se coin-
cidirem com dia em que o expediente forense for encerrado antes ou iniciado depois da hora normal ou houver
indisponibilidade da comunicação eletrônica.

ATENÇÃO!
Lembre-se de que certos sujeitos possuem a prerrogativa de prazos mais “elastecidos”. Assim:
O Ministério Público e as pessoas jurídicas de direito público disporão de prazo dobrado para mani-
festação nos autos (arts. 180 e 183, CPC); Quando os litisconsortes tiverem diferentes procuradores, de dife-
rentes escritórios de advocacia, ser-lhes-ão contados em dobro os prazos para contestar, para recorrer e, de mo-
do geral, para falar nos autos (art. 229, CPC); a defensoria pública também terá todos os prazos contados em
dobro (art. 186, CPC).

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FORMAÇÃO, SUSPENSÃO E EXTINÇÃO DO PROCESSO

Antes de proceder a uma abordagem do procedimento (o passo a passo da relação processual), cabe,
no momento, verificar mais uma temática relevante dentro da teoria geral do processo: os fenômenos jurídicos
que ocasionam a formação, suspensão e extinção da relação processual.

A) Formação

O processo civil começa por iniciativa da parte (ante a inércia da jurisdição), mas se desenvolve por im-
pulso oficial. Significa dizer que o processo é formado por iniciativa da parte (com a entrega da petição inicial),
mas, uma vez proposta a ação, a relação processual se desenvolverá automaticamente pelo juízo (com a citação
do réu, intimação do autor para apresentar a réplica, designação de audiência preliminar, audiência de instrução,
etc.).
Considera-se proposta a ação quando a petição inicial for protocolada.
Feita a citação, é defeso (proibido) ao autor modificar o pedido ou a causa de pedir, sem o con-
sentimento do réu, mantendo-se as mesmas partes (estabilização dos elementos da ação), salvo as substitui-
ções permitidas por lei.
A alteração do pedido ou da causa de pedir em nenhuma hipótese será permitida após o saneamen-
to do processo.

ATENÇÃO!
Podemos estabelecer o seguinte esquema de fixação:

# Antes da citação: é possível ao autor alterar ou aditar o pedido;


# Depois da citação: a alteração ou aditamento dependerá de consentimento do réu;
# Após o saneamento: em nenhuma hipótese será permitida a alteração ou aditamento;

Ressalte-se que, em caso de alteração ou aditamento, será assegurado o contraditório mediante a pos-
sibilidade de manifestação deste no prazo mínimo de 15 (quinze) dias, facultado o requerimento de prova suple-
mentar (art. 329, II, NCPC).

B) Suspensão

Uma vez iniciada a relação processual, esta se desenvolverá até a plena realização do direito. Ocorre
que, no curso processo, podem surgir fatos que ocasionem a paralisação da marcha, do curso da relação proces-
sual.
As hipóteses de suspensão do processo foram listadas, de forma exemplificativa, no artigo 313, CPC.
Diz-se “exemplificativas”, pois existem outras situações de suspensão previstas ao longo do diploma processual.
O processo será suspenso nos seguintes casos:
 pela morte ou perda da capacidade processual de qualquer das partes, de seu representante legal
ou de seu procurador: no caso de morte ou perda da capacidade processual de qualquer das partes, proceder-
se-á com o pedido de habilitação, o qual será feito pelo interessado, através do ajuizamento da ação de
habilitação, prevista nos artigos 687 a 692, CPC. Não ajuizada ação de habilitação, ao tomar conhecimento da
morte, o juiz determinará a suspensão do processo e observará o seguinte: I - falecido o réu, ordenará a intimação
do autor para que promova a citação do respectivo espólio, de quem for o sucessor ou, se for o caso, dos
herdeiros, no prazo que designar, de no mínimo 2 (dois) e no máximo 6 (seis) meses; II - falecido o autor e sendo
transmissível o direito em litígio, determinará a intimação de seu espólio, de quem for o sucessor ou, se for o caso,
dos herdeiros, pelos meios de divulgação que reputar mais adequados, para que manifestem interesse na
sucessão processual e promovam a respectiva habilitação no prazo designado, sob pena de extinção do processo
sem resolução de mérito.

No caso de morte do procurador (advogado) de qualquer das partes, ainda que iniciada a audiência de
instrução e julgamento, No caso de morte do procurador de qualquer das partes, ainda que iniciada a audiência
de instrução e julgamento, o juiz determinará que a parte constitua novo mandatário, no prazo de 15 (quinze) dias,
ao final do qual extinguirá o processo sem resolução de mérito, se o autor não nomear novo mandatário, ou orde-
nará o prosseguimento do processo à revelia do réu, se falecido o procurador deste.

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 por convenção das partes: as partes poderão convencionar a suspensão do processo, desde que
por período que não exceda a 6 (seis) meses, findo o prazo, o escrivão fará os autos conclusos ao juiz, que orde-
nará o prosseguimento do processo.

ATENÇÃO!
Perceba que a suspensão do processo por convenção das partes é direito subjetivo concedido pelo le-
gislador às partes, não estando sujeito a condições.

 quando for apresentada arguição de suspeição ou impedimento: a arguição consiste em um ins-


trumento processual onde a parte se volta contra a pessoa do juiz, alegando a sua suspeição ou impedimento.
(arts. 144 e 145, CPC). A suspensão, nos casos em tela, ocorre por um motivo lógico: se a parte está se insurgin-
do contra quem irá conduzir o processo (juiz), é necessário que o incidente seja julgado antes de se prosseguir
com a relação processual.

 pela admissão de incidente de resolução de demandas repetitivas: conhecido como “IRDR”, alu-
dido incidente foi trazido pelo novo CPC com o objetivo de promover a celeridade processual e segurança jurídica,
na medida em que possibilita que seja adotada um tese única para uma multiplicidade de processos que versem
sobre uma mesma matéria de direito no âmbito territorial de dado tribunal. Sobre este incidente teceremos as de-
vidas considerações no momento oportuno.

 quando a sentença de mérito depender de uma questão prejudicial: é possível que o andamento
do processo seja paralisado em virtude de pendência a ser solucionada por outro juízo. É o que se chama de
“questão prejudicial”. O CPC afirma que o processo será suspenso quando a sentença de mérito: a) depender do
julgamento de outra causa, ou da declaração da existência ou inexistência da relação jurídica, que constitua o
objeto principal de outro processo pendente; b) não puder ser proferida senão depois de verificado determinado
fato, ou de produzida certa prova, requisitada a outro juízo; c) tiver por pressuposto o julgamento de questão de
estado, requerido como declaração incidente.
Observa-se, portanto, que a suspensão se justifica pelo fato do juízo necessitar aguardar resolução de
questão prévia, a qual influencia no teor da questão subordinada. É o caso, por exemplo, da suspensão de ação
civil de indenização em virtude de ato ilícito em virtude da pendência de ação penal cujo objeto é verificar se o
houvera ou não o fato ilícito; ou da paralisação de uma execução de título judicial em virtude da existência de
ação rescisória cujo objeto é justamente rescindir a sentença que serve de base àquela execução.
Ressalte-se que, em todos os casos, o período de suspensão nunca poderá exceder 1 (um) ano. Findo
este prazo, o juiz mandará prosseguir no processo.
Se o conhecimento do mérito depender de verificação da existência de fato delituoso, o juiz pode de-
terminar a suspensão do processo até que se pronuncie a justiça criminal. Se a ação penal não for proposta no
prazo de 3 (três) meses, contado da intimação do ato de suspensão, cessará o efeito desse, incumbindo ao juiz
cível examinar incidentemente a questão prévia. Proposta a ação penal, o processo ficará suspenso pelo prazo
máximo de 1 (um) ano, ao final do qual cessará o efeito e o juízo cível decidirá a questão prejudicial.

 por motivo de força maior: é o acontecimento inesperado, consistente em calamidade pública (tal
como enchentes, deslizamento de barreiras, terremoto, etc.) ou outro fato relevante (greve, por exemplo).

 quando a advogada tornar-se mãe ou o advogado tornar-se pai: a Lei 13.363/16 acrescentou
mais uma hipótese de suspensão do processo, a saber, quando a única advogada da parte tornar-se mãe ou o
único advogado tornar-se pai, independente de tratar-se de filiação natural ou por adoção. Para que haja a sus-
pensão do feito é necessário que seja efetuada a comprovação da maternidade ou paternidade, mediante certidão
de nascimento ou documento similar que comprove a realização do parto, ou o termo de adoção. O prazo de sus-
pensão processual será de 30 (trinta) dias em se tratando de maternidade ou de 08 (oito) dias em se tratando de
paternidade, contados do parto ou da concessão da adoção.

Vistas as hipóteses de suspensão, é mister ressaltar, que, durante a suspensão, é defeso praticar qual-
quer ato processual; poderá o juiz, todavia, determinar a realização de atos urgentes, a fim de evitar dano irrepa-
rável.

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C) Extinção

“Extinguir” significa “finalizar” o processo. Até o ano de 2005, o CPC de 1973 utilizava das expressões
“extinção do processo sem julgamento do mérito” (artigo 267) e “extinção do processo com julgamento do mérito”
(artigo 269) para indicar a finalização da relação processual.
É que, após a sentença (ato que punha fim ao processo), a execução seria instaurada mediante uma
nova relação processual, agora denominada de “processo de execução”, ou seja, tínhamos dois processos: o
processo de conhecimento (que se extinguia com a sentença) e processo de execução.
Ocorre que, com o advento da Lei nº 11.232/05, o legislador dispensou a instauração de uma nova rela-
ção processual executiva quando a sentença não fosse cumprida, de modo que os atos executivos passaram a
ser realizados no bojo do mesmo processo (o processo passou a ser “sincrético”, composto de fase cognitiva e de
fase de cumprimento de sentença).
Perceba, portanto, que, com a nova sistemática, o conceito de sentença necessitou ser alterado, haja
vista que o processo não mais seria “extinto” com a mesma, prosseguindo-se os atos executivos nos próprios
autos em que a fora proferida a decisão.
É por isso que a expressão “extinção do processo com julgamento do mérito”, contida no artigo 269 do
CPC de 1973, passou a ser substituída pela expressão “haverá resolução de mérito”. Tal mudança foi reproduzida
no CPC de 2015.
O Código de Processo Civil de 2015, em seu artigo 485, aponta as situações de extinção do processo
sem resolução de mérito:
 quando o juiz indeferir a petição inicial: quando houver um vício insanável, outra alternativa não
restará ao julgador, a não ser indeferir a petição inicial. As hipóteses de indeferimento estão listadas no artigo 330
do NCPC: I - quando for inepta; II - quando a parte for manifestamente ilegítima; III - quando o autor carecer de
interesse processual; IV - quando o advogado, que não informou o endereço em que receberia intimações, não
cumpriu com a determinação judicial de efetuar a emenda da petição inicial em 5 (cinco) dias. V- quando o autor
não emendar a petição inicial nos casos legais

ATENÇÃO!
Muitas vezes há dificuldade de identificar quando uma petição inicial é inepta (inciso I). Petição inepta é
o mesmo que “inapta”, “inabilitada” “defeituosa”, que não pode produzir efeitos.
Uma regrinha bem simples, útil para identificar se uma petição é inepta, é verificando se o “problema” es-
tá relacionado ao pedido (lembre-se de que são três os elementos da ação: partes, causa de pedir e pedido).
Assim, perceba os casos de inépcia, listados no parágrafo único do artigo 330 do CPC: I – quando lhe faltar
pedido (não existe pedido!) ou causa de pedir (o defeito também estaria no pedido, pois o mesmo estaria sendo
formulado sem uma causa de pedir); II – quando da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão (o
pedido está sendo formulado sem que a causa antecedente seja lógica); III - contiver pedidos incompatíveis entre
si (formulação de pedidos que se anulam. É o caso, por exemplo, do autor que formula dois pedidos em sua
ação: o de declaração de nulidade de contrato e o de cumprimento do mesmo contrato pelo réu); IV - o pedido for
indeterminado, ressalvadas as hipóteses legais em que se permite o pedido genérico.

Veja, portanto, que em todos os casos, o “problema” diz respeito ao pedido.

 quando ficar parado durante mais de 1 (um) ano por negligência das partes: o juiz ordenará o
arquivamento dos autos, declarando a extinção do processo, se a parte, intimada pessoalmente, não suprir a falta
em 5 (cinco) dias.
 quando, por não promover os atos e diligências que lhe competir, o autor abandonar a causa
por mais de 30 (trinta) dias: o juiz ordenará o arquivamento dos autos, declarando a extinção do processo, se a
parte, intimada pessoalmente, não suprir a falta em 5 (cinco) dias. Ressalte-se que, oferecida a contestação, a
extinção dependerá de requerimento a ser efetuado pelo réu, a teor do Súmula 240, STJ e do artigo. 485, § 6º,
CPC
 quando se verificar a ausência de pressupostos de constituição e de desenvolvimento válido e
regular do processo: sendo matéria de ordem pública, pode a mesma ser, inclusive, declarada de ofício pelo
magistrado. A respeito dos pressupostos processuais, vide parte III, Seção I, item 2, supra.
 quando o juiz acolher a alegação de perempção, litispendência ou de coisa julgada (pressu-
postos processuais negativos): são fatos impeditivos ao regular desenvolvimento da relação processual. Ocor-
rerá perempção quando o autor, por três vezes, der causa à extinção do processo mediante abandono; a litispen-
dência ocorrerá quando o autor repetir ação que se encontra em curso; outrossim, haverá coisa julgada quando se
repetir ação anteriormente julgada e da qual não caiba mais recurso.

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 quando verificada a ausência de legitimidade ou interesse processual: as condições da ação
também são matéria de ordem pública e que, se não estiverem presentes, ocasionam a extinção do processo sem
resolução de mérito. A respeitos das condições da ação, confira as considerações feitas na parte II, item 4 desta
obra.
 pela convenção de arbitragem: é fato impeditivo que, se presente, provoca a extinção processual.
Se duas pessoas, ao celebrarem determinado negócio jurídico, estipularam que um árbitro resolveria eventual
conflito, não pode uma delas, uma vez instalada a controvérsia, dirigir-se ao judiciário em virtude de fato impediti-
vo existente (convenção de arbitragem).
 quando o autor desistir da ação: aqui, três nuances são muito importantes e precisam ser verifica-
das:
A primeira, no sentido de que desistência da ação (modalidade de extinção do processo sem resolução
do mérito) não se confunde com renúncia ao direito em que se funda a ação (modalidade de extinção do processo
com resolução de mérito).
A segunda, é que, apresentada a contestação, o autor não poderá, sem o consentimento do réu, desistir
da ação (art. 485, § 4o, CPC).
A terceira, é que a desistência da ação pode ser apresentada até a sentença (art. 485, § 5o, CPC).

 em caso de morte da parte, quando a ação for considerada intransmissível por disposição le-
gal: viu-se que, com a morte da parte, ocorrerá a sucessão da mesma pelos seus herdeiros. Ocorre, entretanto,
que existem situações que o direito contido na ação é considerado intransmissível, por ser ele personalíssimo.
Imagine, por exemplo, uma ação movida por João, servidor público, em face do estado, com o objetivo de anular
ato administrativo abusivo que ordenou a sua transferência para localidade distante de sua residência. Se, no
curso da demanda, João viesse a falecer, o processo seria extinto sem resolução de mérito, por ser o direito con-
tido na ação considerado intransmissível.

As hipóteses de extinção do processo com resolução de mérito estão previstas no artigo 487 do CPC
(quando o juiz acolher ou rejeitar o pedido do feito na ação ou reconvenção; quando a parte reconhecer a proce-
dência do pedido feito na ação ou reconvenção; quando o juiz homologar a transação; quando o juiz pronunciar a
decadência ou a prescrição; quando a parte renunciar ao direito sobre que se funda a ação ou reconvenção).
Aqui vai uma dica bem simples para identificar todas elas: existe sempre um responsável pela finaliza-
ção do processo: o juiz, o autor, o réu, as partes ou o tempo.
Assim, temos: a) quando o juiz acolher ou rejeitar o pedido feito na ação ou reconvenção (iniciativa do
juiz); b) quando o juiz homologar a renúncia à pretensão formulada na ação ou reconvenção (iniciativa do autor
ou réu); c) quando o juiz homologar o reconhecimento da procedência do pedido feito na ação ou reconvenção
(iniciativa do autor ou réu); d) quando o juiz homologar a transação (iniciativa de ambas as partes); quando o juiz
pronunciar a decadência ou a prescrição (iniciativa do tempo).

DAS TUTELAS DE URGÊNCIA

O Estado realiza a jurisdição sob duas formas: pela cognição, quando o magistrado, diante dos elemen-
tos trazidos aos autos pelas partes (provas), faz a concreção da norma ao caso abstrato, dizendo a vontade da lei;
e pela execução, quando torna efetiva, vale dizer, real, esta mesma vontade.
Acontece que a prestação não surge instantaneamente, sendo certo que o adequado decisório apenas
se dará após uma longa sequência de atos que levarão ao convencimento do juiz.
E é justamente nesse interregno (demora-tempo) que o estado de pessoas e bens pode sofrer mutações
(desvio, deterioração, alienação etc.) que, se não obstadas, levam à inutilização do provimento jurisdicional.
De nada adiantaria determinar a partilha de bens em divórcio se um dos cônjuges já tivesse dilapidado
os bens ao tempo da prolação da sentença; ou determinar que o devedor pagasse dívida quando este, no curso
do processo de conhecimento, já tivesse dissipado os bens que possuía.
Tanto pessoas quanto os bens podem, em virtude da demora, enfrentar situação de risco de dano, por
conduta de um dos litigantes ou por evento ocasional, casos que poderão comprometer o resultado útil do proces-
so. Para a proteção provisória de todos eles tem cabimento a atuação da tutela de urgência de natureza caute-
lar.
Existem situações, entretanto, em que a urgência vai mais além, justificando a entrega imediata do pró-
prio objeto da relação litigiosa, sob pena de perecimento do direito postulado pela parte: são os casos de tutela
de urgência de natureza antecipada.
Imagine, por exemplo, que o plano de saúde negasse autorização de cirurgia a determinado paciente,
levando-o a ajuizar ação de obrigação de fazer. Sendo a cirurgia de urgência, não poderia o autor esperar todo o

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transcorrer da relação processual para só ao final poder submeter-se a intervenção cirúrgica. Assim, seria neces-
sária providência de urgência que possibilite o gozo imediato do próprio objeto do litígio (no caso, a obrigação de
fazer).
Dentro de uma perspectiva do amplo acesso, o objetivo da jurisdição é conceder a solução “justa”, ou
seja, apta a produzir efeitos que restabeleça, em efetivo, a ordem jurídica abalada.
O novo CPC tratou das tutelas de urgência (de natureza cautelar e antecipada) em sua parte Geral, Livro
V.
Passaremos, nas próximas linhas, a tecer considerações que julgamos relevantes acerca dos institutos
em tela.

ASPECTOS COMUNS ÀS TUTELAS DE URGÊNCIA

A) Considerações gerais

A tutela de urgência de natureza cautelar é baseada na necessidade de prevenir situações de perigo de


dano ou risco o resultado útil do processo. Ressalte-se que a mesma não tem caráter satisfativo, uma vez que não
chega a antecipar o objeto do litígio.
No sistema do CPC de 1973 a tutela cautelar era fornecida através de um processo autônomo, de natu-
reza cautelar. Assim, ele era apresentado como um terceiro gênero de manifestação da jurisdição, ao lado dos
processos de cognição e de execução. A postulação de uma medida de urgência de natureza cautelar demandava
a apresentação de petição inicial, endereçada ao juízo vinculado ao processo principal, com a necessidade de
distribuição e recolhimento das respectivas custas processuais.
Visando promover a celeridade e simplificação dos procedimentos, o CPC de 2015 passa a possibilitar a
concessão de tutela de urgência de natureza cautelar dentro da mesma relação processual que visa preser-
var, sem que haja, portanto, a necessidade de instaurar novo processo, com os pagamento das respectivas cus-
tas.
É o que chamamos de “sincretismo processual”. Portanto, diante da sistemática atual, é possível que,
dentro de uma mesma relação processual, tenhamos providências de natureza cognitiva, executiva ou cautelar.
Por outro lado, a tutela antecipada é medida de urgência de caráter satisfativo que visa conferir à parte
o gozo imediato e provisório do objeto perseguido na demanda.

B) Requisitos

Considerando que as medidas de urgência têm caráter, muitas vezes, restritivo de direitos, não podem
ser as mesmas concedidas sem que estejam preenchidos certos requisitos.
Destarte, é mister que haja a presença de dois requisitos, previstos no artigo 300 do CPC, a saber: pro-
babilidade do direito (conhecido tradicionalmente como fumus boni iuris) e o perigo de dano ou risco ao resultado
útil do processo (conhecido como periculum in mora).
A probabilidade do direito pode ser traduzida como “aparência do bom direito”. Aqui o direito da parte
requerente necessita ser “plausível”, “provável”, “verossímil”.
Destarte, o magistrado deverá verificar, através das provas disponíveis, se existem resquícios de um di-
reito merecedor de proteção.
O periculum in mora é requisito que se relaciona ao risco efetivo de que a ausência da medida cause
dano ou comprometa o resultado útil do processo. A parte não pode simplesmente alegar um risco. Ela tem de
provar a sua alegação. O risco, ademais, tem de ser relevante. A mera suposição de risco ou ameaça é pouco
para o deferimento da medida.
Preenchidos os requisitos legais, a tutela será concedida através de fundamentação adequada.
Assim, cabe ao magistrado apontar, de forma clara e precisa, as razões do seu convencimento.

C) Características

As tutelas de urgência possuem as seguintes características:

 Instrumentalidade: a instrumentalidade decorre do fato das tutelas servirem à efetividade do proces-


so.
O objetivo do processo é o acertamento do conflito submetido à apreciação judicial. O mais comum é
que o processo seja manejado por quem acha que teve um direito violado. A ação, então, é para que aquele que,
em tese, violou o direito da parte, submeta-se a uma pretensão, efetuando a devida reparação.

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Ocorre que, no mais das vezes, pessoas e coisas sofrem alterações no seu estado em função do decur-
so natural do tempo ou por uma ação voluntária de outrem. Todas as vezes que a alteração no estado das pesso-
as e das coisas puder causar dano ou risco ao resultado útil do processo, é possível o manejo das medidas de
urgência.
A efetividade do processo e dos direitos é uma das maiores preocupações dos que operam o direito na
atualidade. O processo é efetivo quando a atividade jurisdicional é transformada em um resultado prático e útil em
proveito daquele que tinha o direito.
É neste sentido que se diz que as medidas de urgência têm caráter acessório, exatamente pelo fato de
existem em função do processo ao qual visam tutelar.

 Revogabilidade: Não obstante tenham sido deferidas, as medidas de urgência podem ser revogadas
a qualquer tempo, quando não estiverem presentes os requisitos que as ensejaram, a teor do disposto no artigo
296 do CPC.
Imaginemos que numa ação de divórcio, a esposa, com receio de ver frustrada uma futura partilha de
bens, tenha requerido uma tutela de urgência cautelar de sequestro dos bens do casal, sob a alegação de que o
esposo estaria vendendo os bens. O magistrado deferiu o pedido. Ocorre que, posteriormente, o marido demons-
tra que, na verdade, apenas teria vendido um bem do casal que se encontrava em péssimo estado de conserva-
ção e o dinheiro da alienação teria sido depositado numa conta conjunta do casal. Verificando tal fato, por óbvio,
não haveria mais razões para tal medida permanecer perante o mundo jurídico, haja vista que o perigo de dano
restaria ausente. Destarte, a medida de urgência mereceria revogação.
Ressalte-se que, consoante os termos do artigo 298 do CPC, na decisão que revogar a medida de ur-
gência, o juiz deverá fundamentar o seu convencimento de modo claro e preciso.

 Provisoriedade: A medida de urgência de natureza cautelar, ao lado da medida de urgência de natu-


reza antecipada, estão inseridas como espécies de “tutela provisória”.
Significa dizer que a medida já nasce com a vocação para sobreviver por tempo delimitado, preci-
samente entre a sua efetivação e o fim do processo em que a mesma fora deferida.
Assim, por exemplo, uma medida cautelar de arresto futuramente desaparecerá e será substituída pela
penhora. Da mesma forma, uma medida de natureza antecipada que tenha fixado uma obrigação de fazer será
futuramente substituída por uma decisão definitiva que julgar o mérito da demanda.

 Sumariedade: decorrente do caráter perfunctório, superficial, do juízo de cognição exercido. Aqui o


magistrado decide com base num juízo de mera probabilidade (fumus boni iuris). Tanto o é que, após o transcor-
rer da demanda e a coleta exaustiva dos elementos de prova, a medida de urgência poderá ser revogada.

D) Distinção

A tutela de urgência cautelar não tem o escopo de satisfazer antecipadamente o direito material posto
em questão na causa principal. O que se obtém na tutela de urgência de natureza cautelar é tão somente uma
prevenção contra risco de dano imediato que afeta interesse litigioso da parte e que compromete a eficácia da
tutela definitiva a ser outorgada no processo de mérito.
Já a tutela de urgência de natureza antecipada busca conceder à parte o gozo provisório e imediato do
próprio direito perseguido.
Assim, enquanto a tutela cautelar visa apenas assegurar o objeto do processo, a tutela de urgência an-
tecipada concede, de imediato, tal objeto. Noutros termos, a tutela cautelar “assegura para, ao final, “satisfazer”,
ao passo que a tutela antecipada “satisfaz” para, ao final, “assegurar”.

E) Responsabilidade no manejo da medida

Independentemente da reparação por dano processual, a parte responde pelo prejuízo que a efetivação
da tutela de urgência causar à parte adversa, se: I - a sentença lhe for desfavorável; II - obtida liminarmente a
tutela em caráter antecedente, não fornecer os meios necessários para a citação do requerido no prazo de 5 (cin-
co) dias; III - ocorrer a cessação da eficácia da medida em qualquer hipótese legal; IV - o juiz acolher a alegação
de decadência ou prescrição da pretensão do autor.
A indenização será liquidada nos autos em que a medida tiver sido concedida, sempre que possível.

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TUTELA DE URGÊNCIA DE NATUREZA CAUTELAR

Conforme verificado nas linhas anteriores, a tutela de urgência de natureza cautelar objetiva resguardar
pessoas ou coisas, com a finalidade de assegurar o resultado útil do processo.
Cabe-nos, agora, analisar o procedimento para o seu deferimento, seja em caráter incidental, seja em cará-
ter preparatório.

a) Tutela de natureza cautelar requerida em caráter incidental

Com o CPC de 2015, a tutela de natureza cautelar, quando já existente processo em curso, passa a ser re-
querida através de simples pedido no processo principal, dispensado o recolhimento de custas ou abertura de
nova relação processual.
A tutela de urgência de natureza cautelar pode ser efetivada mediante arresto, sequestro, arrolamento de
bens, registro de protesto contra alienação de bem e qualquer outra medida idônea para asseguração do direi-
to.

b) Tutela de natureza cautelar requerida em caráter antecedente

O deferimento da tutela de urgência de natureza cautelar, quando requerida em caráter antecedente, deve-
rá atender às seguintes regras:
 Petição inicial: a petição inicial da ação que visa à prestação de tutela cautelar em caráter antecedente
indicará a lide e seu fundamento, a exposição sumária do direito que se objetiva assegurar e o perigo de dano ou
o risco ao resultado útil do processo.
 Citação: o réu será citado para, no prazo de 5 (cinco) dias, contestar o pedido e indicar as provas que
pretende produzir.
 Posturas do requerido: não sendo contestado o pedido, os fatos alegados pelo autor presumir-se-ão
aceitos pelo réu como ocorridos, caso em que o juiz decidirá dentro de 5 (cinco) dias. Contestado o pedido no
prazo legal, observar-se-á o procedimento comum.
 Formulação do pedido principal: efetivada a tutela cautelar, o pedido principal terá de ser formulado
pelo autor no prazo de 30 (trinta) dias, caso em que será apresentado nos mesmos autos em que deduzido o pe-
dido de tutela cautelar, não dependendo do adiantamento de novas custas processuais.
A causa de pedir poderá ser aditada no momento de formulação do pedido principal.
Vale ressaltar que o pedido principal pode ser formulado conjuntamente com o pedido de tutela cautelar (art.
308, § 1o, CPC).
O indeferimento da tutela cautelar não obsta a que a parte formule o pedido principal, salvo se o motivo
do indeferimento for o reconhecimento de decadência ou de prescrição.
 Adoção do rito comum: apresentado o pedido principal, as partes serão intimadas para a audiência de
conciliação ou de mediação, por seus advogados ou pessoalmente, sem necessidade de nova citação do réu.
Destarte, não havendo autocomposição, seguir-se-á o prazo para contestação e demais termos.
 Cessação da eficácia da medida cautelar: Cessa a eficácia da tutela concedida em caráter anteceden-
te nas hipóteses do artigo 309, NCPC, a saber: I - o autor não deduzir o pedido principal no prazo legal; II - não for
efetivada dentro de 30 (trinta) dias; III - o juiz julgar improcedente o pedido principal formulado pelo autor ou extin-
guir o processo sem resolução de mérito.
Se por qualquer motivo cessar a eficácia da tutela cautelar, é vedado à parte renovar o pedido, salvo sob
novo fundamento.

TUTELA DE URGÊNCIA DE NATUREZA ANTECIPADA

Já verificamos que a tutela de urgência de natureza antecipada visa conceder, de imediato, à parte, o gozo
provisório da tutela pretendida no pedido inicial.
Cabe-nos, nas próximas linhas, analisar o procedimento para o seu deferimento, seja em caráter incidental,
seja em caráter preparatório.

a) Tutela de natureza antecipada requerida em caráter incidental


Assim como ocorre com a medida de natureza cautelar, a tutela de urgência de natureza antecipada em ca-
ráter incidental será pleiteada através de simples requerimento, desde que preenchidos os requisitos legais. De
igual modo, aqui não haverá necessidade de recolhimento de custas adicionais.

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b) Tutela de natureza antecipada requerida em caráter antecedente
Nos casos em que a urgência for contemporânea à propositura da ação, o procedimento observará o se-
guinte:
 petição inicial: pode limitar-se ao requerimento da tutela antecipada e à indicação do pedido de tutela fi-
nal, com a exposição da lide, do direito que se busca realizar e do perigo de dano ou do risco ao resultado útil do
processo.
Na petição inicial, o autor terá de indicar o valor da causa, que deve levar em consideração o pedido de tute-
la final.
 indeferimento da tutela: caso entenda que não há elementos para a concessão de tutela antecipada, o
órgão jurisdicional determinará a emenda da petição inicial em até 5 (cinco) dias, sob pena de ser indeferida e de
o processo ser extinto sem resolução de mérito.
 deferimento da tutela e aditamento: concedida a tutela antecipada, o autor deverá aditar a petição ini-
cial, com a complementação de sua argumentação, a juntada de novos documentos e a confirmação do pedido de
tutela final, em 15 (quinze) dias ou em outro prazo maior que o juiz fixar. Não realizado o aditamento, o processo
será extinto sem resolução do mérito.
Vale salientar que o aditamento dar-se-á nos mesmos autos, sem incidência de novas custas processuais.
 procedimento comum: o réu será citado e intimado para a audiência de conciliação ou de mediação.
Não havendo autocomposição, seguir-se-á o procedimento, com a apresentação da contestação e demais termos.
 estabilização da medida de urgência de natureza antecipada: A tutela antecipada torna-se estável se
da decisão que a conceder não for interposto o respectivo recurso, caso em que o processo será extinto.
Qualquer das partes poderá demandar a outra com o intuito de rever, reformar ou invalidar a tutela anteci-
pada estabilizada. A tutela antecipada conservará seus efeitos enquanto não revista, reformada ou invalidada por
decisão de mérito proferida na ação ajuizada.
Para instruir a petição inicial da ação, qualquer das partes poderá requerer o desarquivamento dos autos em
que foi concedida a medida, devendo a demanda ser distribuída por dependência perante o juízo em que a tutela
antecipada foi concedida.
O direito de rever, reformar ou invalidar a tutela antecipada estabilizada extingue-se após 2 (dois) anos, con-
tados da ciência da decisão que extinguiu o processo.
A decisão que concede a tutela não fará coisa julgada, mas a estabilidade dos respectivos efeitos só se-
rá afastada por decisão que a revir, reformar ou invalidar, proferida em ação ajuizada por uma das partes.

DA TUTELA DE EVIDÊNCIA

Sabemos que, geralmente, é o autor que acaba sofrendo o ônus da demora do processo, sendo certo que
somente alcançará aquilo que postula em juízo ao final do trâmite processual, máxime com o trânsito em julgado
da decisão ou, ao menos, com decisão que não esteja sujeita a recurso com efeito suspensivo.
Ocorre, todavia, que existem situações onde o direito da parte é tão evidente que seria injusto fazê-la espe-
rar por todo o trâmite processual para que a mesma viesse gozar o bem da vida.
É neste contexto que surge a tutela de evidência como modalidade de tutela provisória que consiste na an-
tecipação do objeto da demanda, independentemente da existência de urgência.
As situações estão listadas no artigo 311, CPC, senão vejamos:
I - ficar caracterizado o abuso do direito de defesa ou o manifesto propósito protelatório da parte:
aqui a doutrina costuma denominar como “tutela de evidência punitiva”, uma vez que o motivo de sua concessão é
exatamente um comportamento “reprovável” por parte do réu. É o que ocorre, por exemplo, quando o réu é con-
tumaz ligante, e se utiliza de defesas “padrão”, muitas vezes impugnando pedidos que, sequer, foram formulados
pelos autor, tudo no intuito de protelar o feito.
II - as alegações de fato puderem ser comprovadas apenas documentalmente e houver tese firmada
em julgamento de casos repetitivos ou em súmula vinculante: nesta hipótese, a ideia é que o magistrado
possa conceder o gozo provisório à parte do direito “pacificado” no âmbito dos tribunais, seja através de súmula
ou de julgamento de casos repetitivos.
III - se tratar de pedido reipersecutório fundado em prova documental adequada do contrato de de-
pósito, caso em que será decretada a ordem de entrega do objeto custodiado, sob cominação de multa: a
hipótese trata da chamada “ação de depósito”, a qual era disciplinada como procedimento especial no CPC de
1973. O atual CPC deixou de discipliná-la como ação de rito especial (passando a ser, por consequência, ação de
rito comum), mas assegurou o deferimento imediato de medida provisória que assegurasse ao autor reaver a coi-
sa depositada.
IV - a petição inicial for instruída com prova documental suficiente dos fatos constitutivos do direito
do autor, a que o réu não oponha prova capaz de gerar dúvida razoável: caso a petição inicial esteja devida-

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mente instruída com prova suficiente dos fatos constitutivos do autor, e o réu não apresente prova que seja capaz
de colocar o magistrado diante de dúvida razoável, poderá haver o deferimento da tutela de evidência.
Considerando que as hipóteses descritas nos itens I e IV pressupõem a existência de um comportamento
por parte do réu, a tutela de evidência somente poderá ser deferida “liminarmente” sem a oitiva do réu nas hipóte-
ses dos incisos II e III.

PROCESSO DE CONHECIMENTO

Sabe-se que a jurisdição se vale do processo como instrumento para o cumprimento de seu mister, que
é dizer o direito (juris dictio).
O processo, assim, pode ser definido como o instrumento utilizado pela jurisdição para a resolução dos
conflitos de interesses.
O procedimento, por sua vez, é a forma pela qual o processo se exterioriza (modo de ser do processo).
Em outros termos, é o caminho percorrido, o encadeamento de atos que se ligam e sucedem temporalmente uns
aos outros, com vistas a um resultado, que é fazer justiça entre as partes.
O processo se distingue do procedimento, na medida em que este último indica o aspecto puramente
formal e exterior do fenômeno processual, ao passo que a noção de processo é essencialmente finalística (resol-
ver conflitos).
Assim, o processo é o instrumento pelo qual se exerce a jurisdição; o procedimento representa o meio
extrínseco pelo qual ele se opera.
O procedimento pode ser comum ou especial. Os procedimentos especiais estão previstos tanto no
CPC (ação de consignação em pagamento, possessórias, monitória, etc.) quanto em leis extravagantes (mandado
de segurança, juizados especiais, etc.).

PROCEDIMENTO COMUM

O Novo CPC deixa de lado a divisão do procedimento comum existente no CPC de 1973 (ordinário e
sumário) para tratar de um único procedimento, denominado simplesmente de “comum”, nos artigos 319 e
seguintes.
A dinâmica passa a ser a seguinte:

1. PETIÇÃO INICIAL

A) Requisitos
Para que produza efeitos, é necessário que a mesma atenda aos requisitos legais, previstos nos artigos
319 e 320 do CPC:

 o juízo a que é dirigida: a petição será endereça à autoridade judiciária competente, atentando-se às
regras de competência.
 II - os nomes, os prenomes, o estado civil, a existência de união estável, a profissão, o número de
inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, o endereço
eletrônico, o domicílio e a residência do autor e do réu: é necessário delimitar os sujeitos da lide, os quais
constituem um dos elementos da ação (partes). Perceba que será necessária a indicação do CPF ou CNPJ, bem
como dos endereços eletrônicos. A exigência de CPF e CNPJ certamente é feita com vistas a facilitar futuro
procedimento executivo em face de devedor. Já o endereço eletrônico é requisito relacionado ao modelo
contemporâneo de processo informatizado, trazido desde a lei 11.419/2006.
Ressalte-se que, caso não disponha das informações relativas à qualificação das partes, poderá o autor, na
petição inicial, requerer ao juiz diligências necessárias a sua obtenção. Ademais, a petição inicial não será
indeferida se, a despeito da falta dessas informações, for possível a citação do réu.
 os fatos e os fundamentos jurídicos do pedido: é a causa de pedir. São as razões de fato e de di-
reito que dão suporte ao pedido.
 o pedido, com as suas especificações: requisito, a nosso ver, de maior relevância, motivo pelo qual
faremos, à frente, maiores considerações.
 o valor da causa: a toda causa deve ser atribuído um valor, ainda que não possua conteúdo econô-
mico. O valor da causa corresponderá ao benefício pretendido pelo autor. Ressalte-se que aqui se fala em “bene-
fício pretendido” e não em “benefício devido”. Muitos réus têm levantado impugnação aos valores atribuídos às
causas sob a alegação de que o autor não possuiria o direito a que se referia. Perceba que essa discussão diz
respeito apenas ao mérito da causa, não sendo o momento para haver discussão desta monta. Portanto o valor

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deve corresponder ao benefício “pretendido” pelo autor. O artigo 292 do CPC estabelece as diretrizes para calcu-
lar-se o valor da causa: I - na ação de cobrança de dívida, a soma monetariamente corrigida do principal, dos ju-
ros de mora vencidos e de outras penalidades, se houver, até a data de propositura da ação; II - na ação que tiver
por objeto a existência, a validade, o cumprimento, a modificação, a resolução, a resilição ou a rescisão de ato
jurídico, o valor do ato ou o de sua parte controvertida; III - na ação de alimentos, a soma de 12 (doze) prestações
mensais pedidas pelo autor; IV - na ação de divisão, de demarcação e de reivindicação, o valor de avaliação da
área ou do bem objeto do pedido; V - na ação indenizatória, inclusive a fundada em dano moral, o valor pretendi-
do; VI - na ação em que há cumulação de pedidos, a quantia correspondente à soma dos valores de todos eles;
VII - na ação em que os pedidos são alternativos, o de maior valor; VIII - na ação em que houver pedido subsidiá-
rio, o valor do pedido principal.
O juiz corrigirá, de ofício e por arbitramento, o valor da causa quando verificar que não corresponde ao
conteúdo patrimonial em discussão ou ao proveito econômico perseguido pelo autor, caso em que se procederá
ao recolhimento das custas correspondentes.
Ressalte-se que o réu também poderá impugnar, em preliminar da contestação, o valor atribuído à causa
pelo autor, sob pena de preclusão, e o juiz decidirá a respeito, impondo, se for o caso, a complementação das
custas.

 as provas com que o autor pretende demonstrar a verdade dos fatos alegados: a petição inicial
trará consigo as provas documentais. As demais serão produzidas por ocasião da instrução, motivo pelo qual o
autor deve apontar, na inicial, aquelas que serão apresentadas oportunamente.

 a opção do autor pela realização ou não de audiência de conciliação ou de mediação: O CPC


aposta nestes instrumentos de resolução de conflitos, visando implementar a celeridade processual. Aludida audi-
ência somente deixará de ser realizada se o litigio não admitir autocomposição ou se ambas as partes manifesta-
rem, expressamente, desinteresse na composição.

 documentos indispensáveis: além dos requisitos acima (intrínsecos), a petição deverá vir acompa-
nhada dos documentos indispensáveis à propositura da demanda (requisitos extrínsecos). Assim, por exemplo,
em uma ação de alimentos, a petição inicial estará acompanhada da certidão de nascimento, com o objetivo de
provar o parentesco que justifique a concessão dos alimentos; ou em uma ação possessória, a petição deverá vir
acompanhada de documento que comprove a existência da posse.

B) Pedido

A sua importância se justifica no fato de que ele (o pedido) tem a função de delimitar a atividade jurisdi-
cional, de modo que, uma vez proposta a ação, não pode o juiz julgar fora do pedido (extra petita), além daquilo
que fora pedido (ultra petita) ou deixar de se pronunciar sobre o pedido (citra ou infra petita).
Finalmente, alguns aspectos de grande relevância referente ao pedido devem ser analisados.
O primeiro deles diz respeito à cumulação de pedidos.
Pois bem, é possível que a petição inicial contenha mais de um pedido. A dita cumulação pode se dar de
forma:
# simples: quando houver a possibilidade de se formular pedidos que podem ser atendidos de forma
englobada ou somada, de modo que o autor pretenda obter sucesso em todos eles (art. 327, CPC). É o que ocor-
re com a ação de indenização por danos materiais e morais.
# sucessiva: quando o autor, de igual modo, formular mais de um pedido, pretendendo o êxito de todos
eles. O que diferencia a cumulação simples da sucessiva é que, nesta, o resultado da análise de um pedido re-
percutirá na do outro. É o que acontece na ação de investigação de paternidade c/c alimentos ou na ação de in-
vestigação de paternidade c/c petição de herança, por exemplo. Perceba que, em ambos os casos, a concessão
dos alimentos ou direito à herança dependerá da procedência do pedido de reconhecimento de paternidade.
# subsidiária ou eventual: quando formulado mais de um pedido para que o juiz, não podendo conce-
der o anterior, conheça do posterior (art. 326, CPC). É o que ocorre, por exemplo, com a ação ordinária movida
contra companhia aérea para o cumprimento de obrigação de fazer (entrega de mala extraviada) ou pagamento
do correspondente em perdas e danos.
# alternativa: quando a obrigação puder ser satisfeita por mais de uma forma. É o que ocorre com ação
ordinária ajuizada contra casa de eventos que perturba vizinho. Formulam-se dois pedidos: que a ré seja conde-
nada a se abster de produzir barulhos a partir de determinado horário ou que proceda com a instalação de acústi-
ca que impeça ruídos. O ponto marcante e que diferencia a cumulação subsidiária da cumulação alternativa é

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que, aqui, não há ordem de prioridade entre os pedidos. Na cumulação alternativa, o que o autor busca é a
realização da obrigação, não importando como.
O segundo aspecto importante, relativamente ao pedido, é o que ele deve ser certo e determinado.
Significa que, além de delimitar a natureza do pedido (o que é devido ao autor, ou seja, o an debeatur),
deve o autor especificar o montante do pedido (o quanto devido, ou seja, o quantum debeatur). Assim, em uma
ação ordinária, além do autor indicar a natureza do seu pedido (indenização por danos materiais, por exemplo), é
necessário que ele informe, também, o quanto lhe é devido (quantum debeatur).
O legislador possibilita, excepcionalmente, que o autor formule o chamado “pedido genérico”. Significa
dizer que existem situações em que, embora seja possível ao autor informar o que lhe é devido (an debeatur), não
tem ele condições de apontar o quanto lhe é devido (quantum debeatur). É permitido formular pedido genérico nos
seguintes casos:
# nas ações universais, se não puder o autor individuar na petição os bens demandados: ações
universais são aquelas em que se demandam uma universalidade ou “coletividades” de bens ou direitos. É o que
ocorre com o filho que ajuíza ação de petição de herança, mas não tem conhecimento da totalidade dos bens
existentes no patrimônio do autor da herança. Ele faz um pedido certo, dizendo o que lhe é devido (herança), mas
o pedido não é determinado, pois ele não tem condições de determinar o quanto a que tem direito.
# quando não for possível determinar, de modo definitivo, as consequências do ato ou do fato ilí-
cito: é possível que as consequências de um ato ilícito causado ao autor ainda não tenha cessado quando do
ajuizamento da ação. É o que ocorre com alguém que, ao ajuizar ação de indenização por danos materiais, ainda
está em processo de recuperação (pagando diárias hospitalares, fisioterapias, medicamentos, etc.). Neste caso,
apesar de apontar na inicial o an debeatur, ou seja, o que lhe é devido (indenização por danos materiais), não tem
o autor como apontar o quantum debeatur, ou seja, o quanto devido, haja vista que as consequências danosas
ainda não cessaram.
# quando a determinação do valor da condenação depender de ato que deva ser praticado pelo
réu: é possível, também, que o quantum debeatur dependa de ato a ser praticado pelo réu. Exemplo comumente
citado é o da ação de prestação de contas. Se João, que mantém parceria em dado negócio com Marcos, deixa
de prestar contas do apurado, impedindo que o mesmo tenha sua participação real nos lucros, Marcos poderá
ajuizar ação de prestação de contas. Ocorre que o valor devido ao autor dependerá de ato a ser praticado pelo
réu (a prestação das contas).

Importante frisar, também, que o pedido deve ser interpretado de acordo com o conjunto da postu-
lação e observará o princípio da boa-fé (art. 322, § 2o, CPC). Existem aqueles que são presumidos como exis-
tentes (pedidos implícitos). Para eles não há necessidade de expressa formulação, por serem decorrentes da
lógica factual e jurídica. É o que ocorre com os juros (Súmula 254, STF) e condenação em custas e despesas
processuais bem como nos honorários advocatícios (Súmula 256, STF). Ademais, as prestações periódicas consi-
derar-se-ão incluídas no pedido, independentemente de declaração expressa do autor, se o devedor, no curso do
processo, deixar de pagá-las ou consigná-las (art. 323, CPC).
A exemplo do que já ocorria com o CPC de 73, o CPC/2015 também aponta a possibilidade de alteração
do pedido ou da causa de pedir até a citação (independentemente de consentimento do réu) ou após a citação
e até o saneamento do processo (com o consentimento do réu).
Ocorre que, em caso de alteração, será assegurado o contraditório mediante a possibilidade de
manifestação do réu no prazo mínimo de 15 (quinze) dias, facultado o requerimento de prova suplementar.

2. ADMISSIBILIDADE

Recebida a petição inicial, o juiz poderá adotar as seguintes posturas:

A) Emenda
O juiz, ao verificar que a petição inicial não preenche os requisitos acima referidos ou que apresenta
defeitos e irregularidades capazes de dificultar o julgamento de mérito, determinará que o autor, no prazo de 15
(quinze) dias (e não mais de dez!), a emende ou a complete, indicando com precisão o que deve ser corrigido ou
completado.
Se o autor não cumprir a diligência, o juiz indeferirá a petição inicial.

B) Indeferimento
A petição inicial será indeferida quando:

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I - for inepta: Considera-se inepta a petição inicial quando lhe faltar pedido ou causa de pedir; o pedido for
indeterminado, ressalvadas as hipóteses legais em que se permite o pedido genérico; da narração dos fatos não
decorrer logicamente a conclusão; contiver pedidos incompatíveis entre si.
Perceba que, como a possibilidade jurídica do pedido deixou de ser condição da ação, passando a integrar
o exame de mérito, a sua ausência não mais importará no indeferimento da inicial (e consequente extinção sem
resolução de mérito), mas, sim, na improcedência da demanda (extinção com o exame do mérito).
II - a parte for manifestamente ilegítima: a legitimidade é condição da ação, representada pela pertinência
existente entre o sujeito e o direito material posto em juízo.
III - o autor carecer de interesse processual: outra condição da ação, representada pelo binômio
necessidade-adequação;
IV - não atendidas as prescrições dos arts. 106 e 321: estes artigos referem-se ao descumprimento de
providências emanadas do juiz, a saber: a) dever que tem o advogado de informar, no prazo de cinco dias, o
endereço, seu número de inscrição na OAB e o nome da sociedade de advogados da qual participa, para o
recebimento de intimações, caso não tenha feito na petição inicial; b) dever de emendar a petição inicial, no prazo
de 15 dias, quando existentes vícios que possam ser corrigidos.
Indeferida a petição inicial, o autor poderá apelar, facultado ao juiz, no prazo de 5 (cinco) dias (e não mais
48 horas!), retratar-se. Se não houver retratação, o juiz mandará citar o réu para responder ao recurso.

C) Improcedência liminar do pedido


Nas causas que dispensem a fase instrutória, o juiz, independentemente da citação do réu, julgará
liminarmente improcedente o pedido que contrariar: I - enunciado de súmula do Supremo Tribunal Federal ou do
Superior Tribunal de Justiça; II - acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de
Justiça em julgamento de recursos repetitivos; III - entendimento firmado em incidente de resolução de demandas
repetitivas ou de assunção de competência; IV - enunciado de súmula de tribunal de justiça sobre direito local;
O juiz também julgará improcedente o pedido quando verificar, desde logo, a ocorrência de decadência ou
de prescrição. Perceba que, no CPC de 1973, a verificação de decadência ou prescrição importava no
indeferimento da petição inicial. Por isso, andou bem o CPC, uma vez que estamos diante de questões meritórias
sendo, por isso, mais adequado tratar-se de “improcedência” ao invés de “indeferimento”.
Contra a sentença de improcedência liminar, caberá recurso de apelação, podendo o magistrado retratar-se
em 5 (cinco) dias. Se houver retratação, o juiz determinará o prosseguimento do processo, com a citação do réu,
e, se não houver retratação, determinará a citação do réu para apresentar contrarrazões, no prazo de 15 (quinze)
dias.
D) Recebimento da petição inicial
Se a petição inicial preencher os requisitos essenciais e não for o caso de improcedência liminar do
pedido, o juiz designará audiência de conciliação ou de mediação, citando o réu para comparecimento.

3. AUDIÊNCIA DE CONCILIAÇÃO OU DE MEDIAÇÃO

A audiência de conciliação ou de mediação será designada com antecedência mínima de 30 (trinta) dias,
devendo ser citado o réu com pelo menos 20 (vinte) dias de antecedência.
O conciliador ou mediador, onde houver, atuará necessariamente na audiência de conciliação ou de
mediação, observando o disposto no CPC, bem como as disposições da lei de organização judiciária.
Poderá haver mais de uma sessão destinada à conciliação e à mediação, não podendo exceder a 2 (dois)
meses da data de realização da primeira sessão, desde que necessárias à composição das partes.
A intimação do autor para a audiência será feita na pessoa de seu advogado.
Conforme mencionado anteriormente, a audiência não será realizada em duas hipóteses: I - se ambas as
partes manifestarem, expressamente, desinteresse na composição consensual; II - quando não se admitir a
autocomposição.
O autor deverá indicar, na petição inicial, seu desinteresse na autocomposição, e o réu deverá fazê-lo, por
petição, apresentada com 10 (dez) dias de antecedência, contados da data da audiência.
Havendo litisconsórcio, o desinteresse na realização da audiência deve ser manifestado por todos os
litisconsortes.

ATENÇÃO!
O não comparecimento injustificado do autor ou do réu à audiência de conciliação é considerado ato
atentatório à dignidade da justiça e será sancionado com multa de até dois por cento da vantagem econômica
pretendida ou do valor da causa, revertida em favor da União ou do Estado.

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As partes devem estar acompanhadas por seus advogados ou defensores públicos, podendo as mesmas
constituir representante, por meio de procuração específica, com poderes para negociar e transigir.
A autocomposição obtida será reduzida a termo e homologada por sentença.

4. POSTURAS DO RÉU

Uma vez citado, o réu poderá adotar uma das posturas a seguir.

A) Inércia
A primeira postura traduz-se em omissão. Apesar de regularmente citado, o réu não compareceu à relação
processual, sendo, por isso, considerado revel.
Revelia é fenômeno representado pela ausência de contestação. Tal fenômeno acarretará efeitos de
natureza material e processual.
Os efeitos processuais da revelia são dois:
 julgamento antecipado da lide: como o réu não apresentou a contestação, os fatos afirmados pelo
autor se tornaram incontroversos. Sendo assim, não há necessidade de produção de provas (pois só se prova
aquilo que é controvertido!), podendo o juiz, por consequência, julgar antecipadamente a lide.
 dispensa de intimação específica: Os prazos contra o revel que não tenha patrono nos autos fluirão da
data de publicação do ato decisório no órgão oficial.

Quanto aos efeitos materiais, se o réu não contestar a ação, será considerado revel e presumir-se-ão
verdadeiras as alegações de fato formuladas pelo autor. Como os fatos narrados na petição inicial não encontra-
ram resistência pela parte adversária, os mesmos se tornaram incontroversos e, portanto, presumidos como ver-
dadeiros.
Existem situações, entretanto, em que não ocorrerão os efeitos materiais da revelia. Em outras palavras,
é possível que o réu seja revel, mas o juiz não possa presumir como verdadeiros os fatos afirmados na inicial. As
hipóteses estão previstas no artigo 345, CPC e para entendê-las não é necessário “decorar”, bastando seguir um
puro raciocínio lógico, senão vejamos:
 havendo pluralidade de réus, um deles contestar a ação: se uma demanda é proposta contra mais
de um réu, basta que um deles apresente a contestação para que os fatos narrados na inicial se tornem controver-
tidos. Imagine, por exemplo, que Maria propõe ação de indenização em face de um médico e de uma clínica, em
virtude de danos causados por intervenção cirúrgica. Regularmente citados os réus, apenas a clínica apresenta
contestação. Perceba que, por mais que o médico seja revel (pois não apresentou contestação), os fatos narrados
não poderão ser presumidos como verdadeiros, haja vista que a contestação apresentada pela clínica os tornou
controvertidos.

ATENÇÃO!

A contestação aproveitará ao réu revel desde que os interesses dos réus não sejam distintos! Assim, por
exemplo, imagine que Maria, que teve a cerimônia de casamento frustrada, propõe ação de indenização em face
de uma loja de vestidos (por não ter entregado o vestido dentro do prazo) e contra uma gráfica (por ter entregado
os convites com o endereço incorreto). Citados os réus, apenas a loja de vestidos apresentou a contestação, ale-
gando que o vestido fora entregue fora do prazo por culpa da autora, a qual solicitou diversos ajustes de última
hora. Sendo a gráfica revel, esta não poderá ser beneficiada pela contestação apresentada pela loja, pois as de-
fesas não lhes são comuns.

 quando a ação versar sobre direitos indisponíveis: direitos indisponíveis são aqueles de natureza
extrapatrimonial (interesses de incapazes, por exemplo) e públicos. Sendo indisponíveis, eles não serão afetados
com a ausência do réu, pois o réu não pode deles dispor (ainda que com ato omissivo). Assim, por exemplo, em
uma ação em que se postula a guarda de um incapaz, por mais que haja a revelia (pois o réu não apresentou
contestação), não poderá o juiz presumir como verdadeiros os fatos narrados na inicial. Outro exemplo diz respei-
to às ações ajuizadas contra a Fazenda Pública (pessoas de direito público). Por mais que um município seja re-
vel numa ação (pois não apresentou contestação), o juiz não poderá presumir como verdadeiros os fatos contra
ele narrados, haja vista indisponibilidade do interesse público.
 quando a petição não estiver acompanhada por instrumento público, a que a lei considere in-
dispensável à prova do ato: existem documentos que deverão, obrigatoriamente, acompanhar a petição inicial,
pois são indispensáveis à prova do ato gerador do direito. É o que ocorre, por exemplo, com a ação em que se

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reivindica imóvel, a qual deve vir acompanhada de escritura pública. Estando desacompanhada do documento em
questão, por mais que o réu seja revel, não há como presumir-se a veracidade dos fatos, pois a existência do
direito independe da vontade do réu, mas sim da existência do próprio documento.

ATENÇÃO!
O revel poderá intervir no processo em qualquer fase, recebendo-o no estado em que se encontrar. Ele
poderá, inclusive, produzir provas, desde que compareça em tempo oportuno (Súmula 231, STF).

B) Contestação
A hipótese mais comum de resposta é, de fato, a contestação. Nela, o réu deduzirá toda a matéria, de fato e
de direito, com que impugna o pedido do autor.
O réu poderá oferecer contestação, por petição, no prazo de 15 (quinze) dias.
Tal prazo será contado da data: I - da audiência de conciliação ou de mediação, ou da última sessão de
conciliação, quando qualquer parte não comparecer ou, comparecendo, não houver autocomposição; II - do
protocolo do pedido de cancelamento da audiência de conciliação ou de mediação apresentado pelo réu;
No caso de litisconsórcio passivo, ocorrendo o pedido de cancelamento por parte de todos os litisconsortes,
o termo inicial para apresentação de resposta será, para cada um dos réus, a data de apresentação de seu
respectivo pedido de cancelamento da audiência.
É necessário que o réu apresente todos os argumentos, pois, na eventualidade de o juiz não acolher o
anterior, passará a analisar o posterior. É o que a doutrina denomina de “princípio da eventualidade”.
Perceba que, neste contexto, é lícito ao réu apresentar todas as defesas possíveis, ainda que sejam
contraditórias entre si. Assim, por exemplo, em uma ação de indenização por danos morais, o réu poderá levantar
dois argumentos, aparentemente contraditórios: 1) que não houve dano moral; 2) que o quantum indenizatório
deve ser pequeno. Este segundo argumento só fora levantado para ser apreciado na eventualidade do magistrado
não acolher o primeiro.
As defesas apresentadas na contestação poderão ser preliminares e de mérito.
Preliminares são defesas de natureza meramente processual. Nelas o réu não discute o mérito da
demanda, mas, tão somente, aspectos relativos a vícios do processo. O objetivo do réu é apresentar argumentos
que venham extinguir o feito ou, pelo menos, retardar o curso da relação processual. No primeiro caso, temos as
defesas peremptórias (ex: litispendência e coisa julgada), cujo vício é insanável e acarreta o fim do processo; no
segundo caso, temos as defesas dilatórias (ex: incapacidade de parte e defeito de representação), cujo vício pode
ser corrigido e, por isso, ocasiona apenas um atraso na marcha procedimental.
Eis as matérias que poderão ser suscitadas em sede de PRELIMINARES:
 inexistência ou nulidade da citação: A citação é pressuposto processual e a sua ausência importará
em nulidade.
 incompetência absoluta e relativa: com o CPC, a arguição de incompetência relativa deixa de ser
apresentada em peça em separado (chamada de “exceção”) para ser apresentada na própria contestação,
através de preliminar, assim como já ocorria com a arguição de incompetência absoluta.
Havendo alegação de incompetência relativa ou absoluta, a contestação poderá ser protocolada no foro de
domicílio do réu, fato que será imediatamente comunicado ao juiz da causa, preferencialmente por meio
eletrônico.
A contestação será submetida a livre distribuição ou, se o réu houver sido citado por meio de carta
precatória, juntada aos autos dessa carta, seguindo-se a sua imediata remessa para o juízo da causa.
Reconhecida a competência do foro indicado pelo réu, o juízo para o qual for distribuída a contestação ou a carta
precatória será considerado prevento.
Alegada a incompetência, com o protocolo da contestação no foro do domicílio do réu, será suspensa a
realização da audiência de conciliação ou de mediação, se tiver sido designada. Definida a competência, o juízo
competente designará nova data para a audiência de conciliação ou de mediação.
 incorreção do valor da causa: aqui, o CPC trouxe mais uma mudança relevante, ao determinar que a
alegação de incorreção do valor da causa seja feito na própria contestação, através de preliminar, ao invés de
apresentação de peça específica de impugnação ao valor da causa, conforme era feito na vigência do CPC de
1973 (art. 261). Assim, agora o réu deverá, em sede de preliminar de contestação, impugnar o valor atribuído à
causa pelo autor, sob pena de preclusão, e o juiz decidirá a respeito, impondo, se for o caso, a complementação
das custas (art. 293, CPC).
 inépcia da petição inicial: conforme afirmado alhures, considera-se inepta a petição inicial quando lhe
faltar pedido ou causa de pedir; o pedido for indeterminado, ressalvadas as hipóteses legais em que se permite o
pedido genérico; da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão; contiver pedidos incompatíveis
entre si.

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 perempção: é a perda do direito de ação. Haverá perempção quando, mediante abandono, o autor der
causa à extinção do processo por três vezes.
 litispendência: há litispendência quando se repete ação que está em curso.
 coisa julgada: Há coisa julgada quando se repete ação que já foi decidida por decisão transitada em
julgado.
 conexão: haverá conexão quando, entre duas ou mais causas, houver identidade de pedido ou causa de
pedir. Para evitar decisões conflitantes, o réu poderá arguir a conexão e pleitear a junção das demandas, a fim de
que sejam reunidas e julgadas pelo juízo prevento.
 incapacidade da parte, defeito de representação ou falta de autorização: a parte deverá atuar em
juízo revestida da tríplice capacidade: de ser parte, de estar em juízo e da capacidade postulatória, por nós
analisadas quando do estudo das partes e procuradores. Qualquer irregularidade apresentada pelo autor deverá
ser suscitada pelo réu em sede de preliminar contestação.
 convenção de arbitragem: A ausência de alegação da existência de convenção de arbitragem implica
aceitação da jurisdição estatal e renúncia ao juízo arbitral.
 ausência de legitimidade ou de interesse processual: Alegando o réu, na contestação, ser parte
ilegítima ou não ser o responsável pelo prejuízo invocado, o juiz facultará ao autor, em 15 (quinze) dias, a
alteração da petição inicial para substituição do réu. Realizada a substituição, o autor reembolsará as despesas e
pagará os honorários ao procurador do réu excluído, que serão fixados entre três e cinco por cento do valor da
causa.
Quando alegar sua ilegitimidade, incumbe ao réu indicar o sujeito passivo da relação jurídica discutida
sempre que tiver conhecimento, sob pena de arcar com as despesas processuais e de indenizar o autor pelos
prejuízos decorrentes da falta de indicação. Perceba, portanto, que a “nomeação à autoria” deixa de ser
apresentada em requerimento, separadamente, para ser apresentada, agora, como preliminar de contestação.
Este foi o motivo pelo qual o legislador deixou de contemplá-la como uma das modalidades de intervenção de
terceiros, reguladas pelos artigos 119 a 138, do CPC.
O autor, ao aceitar a indicação (nomeação), procederá, no prazo de 15 (quinze) dias, à alteração da petição
inicial para a substituição do réu, reembolsando as despesas e pagando os honorários do advogado do réu
excluído, que serão fixados entre três e cinco por cento do valor da causa.
Nada obsta que, no prazo de 15 (quinze) dias, o autor possa optar por alterar a petição inicial para incluir,
como litisconsorte passivo, o sujeito indicado pelo réu.
 falta de caução ou de outra prestação que a lei exige como preliminar: às vezes a lei pode exigir do
autor a prestação de caução para o ajuizamento da demanda, a exemplo do que ocorre com a ação rescisória
(arts. 966 a 975, CPC). A ausência poderá ser alegada pelo réu, em sede de preliminar.
 indevida concessão do benefício de gratuidade de justiça: Assim como ocorreu com a alegação de
incompetência relativa e impugnação ao valor da causa, o CPC também determinou que a impugnação à
concessão da gratuidade da justiça fosse feita na própria contestação, através de preliminar, evitando-se a
confecção de mais uma peça processual. Perceba que o CPC simplificou o procedimento, evitando uma
aglomeração desnecessária de peças judiciais.

ATENÇÃO!
Excetuada a convenção de arbitragem e a alegação de incompetência relativa, o juiz conhecerá de ofício
das matérias acima referidas.

Por outro lado, NO MÉRITO, incumbe ao réu alegar toda a matéria de defesa, expondo as razões de fato e
de direito com que impugna o pedido do autor e especificando as provas que pretende produzir.
A defesa de mérito pode ser direta ou indireta.
Será direta quando o réu negar os fatos (ex: empresa ré que, em ação de indenização, nega que alarme da
loja fora equivocadamente acionado quando o autor estava saindo) ou negar seus efeitos jurídicos (ex: no
exemplo citado, a ré poderia apenas dizer que, embora o alarme tivesse sido acionado, o fato não constituiria
motivo para surgimento de dano moral).
A defesa será indireta quando o réu, embora não negue as afirmações feitas na petição inicial, apresen-
ta outros fatos que são extintivos, modificativos ou impeditivos do direito do autor. Imagine, por exemplo, uma
ação de cobrança de dívida proposta por Maria em face de João. Este poderia apresentar defesa indireta confir-
mando a celebração de dívida com o autor, mas alegando fatos novos, no sentido de que a dívida já fora paga
(fato extintivo), fora paga pela metade (fato modificativo) ou que já prescreveu (fato impeditivo). Considerando
que, com a defesa indireta o réu traz fatos novos, é necessário que o autor seja intimado para se pronunciar sobre
eles por meio do instrumento denominado “réplica” ou “impugnação à contestação”.

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Ressalte-se que incumbe ao réu manifestar-se precisamente sobre as alegações de fato constantes da
petição inicial, presumindo-se verdadeiras as não impugnadas. É o que se denomina de “ônus da impugnação
específica dos fatos”. A ausência de impugnação específica somente não implicará em presunção de veracidade
dos fatos narrados na inicial em três hipóteses: a) não for admissível, a seu respeito, a confissão; b) a petição
inicial não estiver acompanhada de instrumento que a lei considerar da substância do ato; c) estiverem em
contradição com a defesa, considerada em seu conjunto.
O ônus da impugnação especificada dos fatos não se aplica ao defensor público, ao advogado dativo e ao
curador especial.
Depois da contestação, só é lícito ao réu deduzir novas alegações quando relativas a direito ou a fato
superveniente; quando competir ao juiz conhecer delas de ofício; quando, por expressa autorização legal,
puderem ser formuladas em qualquer tempo e grau de jurisdição.
Certamente que uma das maiores novidades, em sede de resposta do réu, foi a inserção da reconvenção
na própria contestação, no compartimento de mérito.
Existem situações em que o réu alega ter pretensão em face do autor e essa pretensão está justamente
relacionada aos fatos trazidos na ação originariamente intentada. Assim, por uma questão de economia
processual, poderá o réu, em vez de propor ação em separado, demandar contra o autor no mesmo processo em
que fora demandado. Isto se faz por meio do instrumento de reconvenção. O legislador estabeleceu a sua
utilização com o intuito de evitar a proliferação de ações com pedidos ou causa de pedir semelhantes.
Mas, tecnicamente falando, quando cabe a reconvenção?
Em primeiro lugar, o legislador autorizou o manejo da reconvenção, pelo réu, “para manifestar preten-
são própria, conexa com a ação principal...” (artigo 343, 1ª parte, CPC).
É bem simples de entender. A Conexão é fenômeno que representa semelhança entre ações. Duas
ações são conexas (parecidas) quando possuem o mesmo pedido ou a mesma causa de pedir. Então, a recon-
venção será cabível quando ela for conexa (parecida) com a ação principal, ou seja, quando possuir o mesmo
pedido ou a mesma causa de pedir da ação principal.
É o que ocorre, por exemplo, com a ação de separação intentada pela esposa, alegando o adultério do
marido e a reconvenção apresentada pelo marido pedindo, também, a separação, sob a alegação de tentativa de
homicídio por parte da esposa (conexão pelo pedido, já que são idênticos); ou a ação de cobrança de dívida mo-
vida pelo banco, apoiada em contrato, e a reconvenção do cliente, postulando outra obrigação do banco, apoiada
no mesmo contrato (conexão pela causa de pedir, já que são idênticas).
Em segundo lugar, caberá reconvenção quando o réu quiser manifestar pretensão “conexa com o fun-
damento da defesa...” (artigo 343, 2ª parte, CPC).
Aqui deve ser entendido o seguinte: o que leva o réu ao “contra-ataque” é justamente o fundamento da
defesa. Em outras palavras, o direito do réu está diretamente relacionado aos motivos expostos na defesa. É o
que ocorre com ação de cobrança de dívida proposta contra réu e este, por não dever (fundamento), apresenta
reconvenção pedindo o pagamento dobrado da quantia indevida; ou a ação de indenização proposta contra réu
em virtude de acidente e este, alegando culpa do autor (fundamento), apresenta reconvenção pedindo o paga-
mento de indenização pelos prejuízos sofridos.
Perceba que, nos exemplos acima, o réu só pediu o pagamento da dívida em dobro (reconvenção) por-
que não devia (fundamento da defesa); só pediu indenização por danos causados no acidente (reconvenção) por-
que não fora ele o causador (fundamento da defesa).
Algumas regras processuais, relativas à reconvenção, merecem destaque.
Pois bem, proposta a reconvenção, o autor será intimado, na pessoa de seu advogado, para apresentar
resposta no prazo de 15 (quinze) dias.
Apesar de apresentada na própria contestação, a reconvenção não perdeu o seu caráter autônoma. Assim,
a desistência da ação ou a ocorrência de causa extintiva que impeça o exame de seu mérito não obsta ao
prosseguimento do processo quanto à reconvenção.
A reconvenção pode ser proposta contra o autor e terceiro, bem como proposta pelo réu em litisconsórcio
com terceiro.
Se o autor for substituto processual, o reconvinte deverá afirmar ser titular de direito em face do substituído,
e a reconvenção deverá ser proposta em face do autor, também na qualidade de substituto processual.
Urge salientar, por fim, que o réu pode propor reconvenção independentemente de oferecer contestação.

5. DAS PROVIDÊNCIAS PRELIMINARES E DO SANEAMENTO

Realizada a fase de resposta pelo réu, o juiz passa a ter uma “visão panorâmica” da relação processual:
já conhece a tese trazida pelo autor e a antítese trazida pelo réu. Caberá, agora, ao juiz estabelecer a síntese.

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Mas, antes de dar seguimento ao processo, talvez seja necessário resolver algumas questões “pendentes”. São
as chamadas “providências preliminares”. Nesta fase poderão ser adotadas as seguintes condutas:

A) Da Não Incidência dos Efeitos da Revelia


Já sabemos que, havendo revelia (e consequente presunção dos fatos afirmados pelo autor), é comum que
o juiz julgue antecipadamente a lide. Ocorre que é possível que, embora o réu não conteste, os efeitos da revelia
não ocorram. Neste caso, o magistrado terá que prosseguir no feito, intimando o autor para que especifique as
provas que pretenda produzir em audiência, se ainda não as tiver indicado.
Ao réu revel será lícita a produção de provas, contrapostas às alegações do autor, desde que se faça
representar nos autos a tempo de praticar os atos processuais indispensáveis a essa produção.

B) Do Fato Impeditivo, Modificativo ou Extintivo do Direito do Autor


Se o réu alegar fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor, este será ouvido no prazo de 15
(quinze) dias, permitindo-lhe o juiz a produção de prova. É o que se chama de réplica, momento marcado pelo
despacho: “à replica, em 15 (quinze) dias”.

C) Das Alegações do Réu


Se o réu alegar qualquer das matérias relativas às preliminares de contestação, o juiz determinará a oitiva
do autor no prazo de 15 (quinze) dias, permitindo-lhe a produção de prova.
Verificando a existência de irregularidades ou de vícios sanáveis, o juiz determinará sua correção em prazo
nunca superior a 30 (trinta) dias.
Cumpridas as providências preliminares ou não havendo necessidade delas, o juiz proferirá julgamento
conforme o estado do processo, nas hipóteses a seguir descritas.

6. DO JULGAMENTO CONFORME O ESTADO DO PROCESSO

Proposta a demanda e apresentada a resposta, o processo se desenvolverá seguindo uma sequência


lógica de atos (réplica do autor, saneamento e fase instrutória) até culminar com a sentença. Pode ocorrer, entre-
tanto, que tais atos não sejam necessários, de modo que o feito seja extinto de forma “anormal”. Diz-se “anormal”,
pelo fato de que o processo “normalmente” deve seguir aquela longa cadeia de atos até que seja resolvida a lide.
O julgamento conforme o estado do processo ocorrerá nas seguintes situações:

A) Da Extinção do Processo
Ocorrendo qualquer das hipóteses que ocasionam a extinção do processo, SEM resolução de mérito
(litispendência, coisa julgada, ausência de legitimidade ou interesse, etc.) ou COM resolução de mérito
(reconhecimento da procedência do pedido, prescrição/decadência, renúncia ao direito em que se funda a ação
ou reconvenção, etc.), o juiz proferirá sentença.
Aqui, diz-se que a extinção se dá de forma “anormal” porque o “normal” é que o processo seja extinto
quando o juiz acolher ou rejeitar o pedido.
Acaso a extinção seja relativa apenas a parcela do processo, a decisão será impugnável por agravo de
instrumento.

B) Do Julgamento Antecipado do Mérito


O juiz julgará antecipadamente o pedido, proferindo sentença com resolução de mérito, em duas hipóteses:
I - não houver necessidade de produção de outras provas; II - o réu for revel e ocorrerem os efeitos da revelia.
Aqui o processo já está “maduro” para julgamento, não havendo que se falar em instrução.

C) Do Julgamento Antecipado Parcial do Mérito


O juiz decidirá parcialmente o mérito quando um ou mais dos pedidos formulados ou parcela deles mostrar-
se incontroverso ou estiver em condições de imediato julgamento.
A decisão que julgar parcialmente o mérito poderá reconhecer a existência de obrigação líquida ou ilíquida.
A parte poderá liquidar ou executar, desde logo, a obrigação reconhecida na decisão que julgar
parcialmente o mérito, independentemente de caução, ainda que haja recurso contra essa interposto. Se houver
trânsito em julgado da decisão que julgar parcialmente o mérito, a execução será definitiva.
A liquidação e o cumprimento da decisão que julgar parcialmente o mérito poderão ser processados em
autos suplementares, a requerimento da parte ou a critério do juiz.
É mister salientar que a decisão proferida que julgar parcialmente o mérito será impugnável por agravo de
instrumento.

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7. DO SANEAMENTO E DA ORGANIZAÇÃO DO PROCESSO

A palavra “saneamento” tem a conotação de “limpeza”, “organização”, apontando alguns cuidados e


deliberações que o magistrado deverá tomar antes de prosseguir na condução da lide.
Assim, não ocorrendo nenhuma das hipóteses narradas anteriormente, deverá o juiz, em decisão de
saneamento e de organização do processo:
I - resolver as questões processuais pendentes, se houver;
II - delimitar as questões de fato sobre as quais recairá a atividade probatória, especificando os meios de
prova admitidos: É o que se chama de “fixação dos pontos controvertidos da lide”. Significa que o juiz verificará o
que necessita ser provado. Se, por exemplo, Maria propõe ação cobrando dívida de R$ 10.000,00 e João afirmar
dever apenas R$ 5.000,00, a instrução processual girará em torno da existência da dívida de R$ 5.000,00 (ponto
controvertido).
III - definir a distribuição do ônus da prova;
IV - delimitar as questões de direito relevantes para a decisão do mérito;
V - designar, se necessário, audiência de instrução e julgamento.
Realizado o saneamento, as partes têm o direito de pedir esclarecimentos ou solicitar ajustes, no prazo
comum de 5 (cinco) dias, findo o qual a decisão se torna estável.
As partes podem apresentar ao juiz, para homologação, delimitação consensual das questões de fato e de
direito, a qual, se homologada, vincula as partes e o juiz.
Caso tenha sido determinada a produção de prova testemunhal, o juiz fixará prazo comum não superior a
15 (quinze) dias para que as partes apresentem rol de testemunhas. O número de testemunhas arroladas não
pode ser superior a 10 (dez), sendo 3 (três), no máximo, para a prova de cada fato.
O juiz poderá limitar o número de testemunhas levando em conta a complexidade da causa e dos fatos
individualmente considerados.
Se a causa apresentar complexidade em matéria de fato ou de direito, deverá o juiz designar audiência para
que o saneamento seja feito em cooperação com as partes, oportunidade em que o juiz, se for o caso, convidará
as partes a integrar ou esclarecer suas alegações. Neste caso, as partes devem levar, para a audiência prevista, o
respectivo rol de testemunhas.
Caso tenha sido determinada a produção de prova pericial, o juiz deverá nomear o perito e, se possível,
estabelecer, desde logo, calendário para sua realização.
As pautas deverão ser preparadas com intervalo mínimo de 1 (uma) hora entre as audiências.

8. DA AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO E JULGAMENTO

É o momento propício para a coleta dos demais elementos de prova. Fala-se em “demais”, tendo em vis-
ta que a prova documental já fora trazida por intermédio da inicial e da contestação.
O CPC também deslocou a temática da “produção antecipada de provas” para o capítulo probatório, reti-
rando-o da seara relativa às “ações cautelares”, tendo em vista a perda da autonomia procedimental do processo
cautelar existente no CPC de 1973.
Cabe-nos, aqui, fazer uma análise acerca da audiência de instrução e julgamento, a qual objetiva colher as
provas orais.
Pois bem, no dia e na hora designados, o juiz declarará aberta a audiência de instrução e julgamento e
mandará apregoar as partes e os respectivos advogados, bem como outras pessoas que dela devam participar.
Instalada a audiência, o juiz tentará conciliar as partes, independentemente do emprego anterior de outros
métodos de solução consensual de conflitos, como a mediação e a arbitragem.
Urge ressaltar que, em dita audiência, o juiz exerce o poder de polícia, incumbindo-lhe: a) manter a ordem
e o decoro; b) ordenar que se retirem da sala de audiência os que se comportarem inconvenientemente; c)
requisitar, quando necessário, força policial; d) tratar com urbanidade as partes, os advogados, os membros do
Ministério Público e da Defensoria Pública e qualquer pessoa que participe do processo; e) registrar em ata, com
exatidão, todos os requerimentos apresentados em audiência.
As provas orais serão produzidas em audiência, ouvindo-se nesta ordem, preferencialmente:
I - o perito e os assistentes técnicos, que responderão aos quesitos de esclarecimentos;
II - o autor e, em seguida, o réu, que prestarão depoimentos pessoais;
III - as testemunhas arroladas pelo autor e pelo réu, que serão inquiridas.
Enquanto depuserem o perito, os assistentes técnicos, as partes e as testemunhas, não poderão os
advogados e o Ministério Público intervir ou apartear, sem licença do juiz.
A audiência poderá ser adiada nas seguintes hipóteses:
I - por convenção das partes;

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II - se não puder comparecer, por motivo justificado, qualquer pessoa que dela deva necessariamente
participar;
III - por atraso injustificado de seu início em tempo superior a 30 (trinta) minutos do horário marcado.
O impedimento deverá ser comprovado até a abertura da audiência, e, não o sendo, o juiz procederá à
instrução.
O juiz poderá dispensar a produção das provas requeridas pela parte cujo advogado ou defensor público
não tenha comparecido à audiência, aplicando-se a mesma regra ao Ministério Público.
Quem der causa ao adiamento responderá pelas despesas acrescidas.
Havendo antecipação ou adiamento da audiência, o juiz, de ofício ou a requerimento da parte, determinará
a intimação dos advogados ou da sociedade de advogados para ciência da nova designação.
Finda a instrução, o juiz dará a palavra ao advogado do autor e do réu, bem como ao membro do Ministério
Público, se for o caso de sua intervenção, sucessivamente, pelo prazo de 20 (vinte) minutos para cada um,
prorrogável por 10 (dez) minutos, a critério do juiz, para a apresentação das razões finais orais.
Havendo litisconsorte ou terceiro interveniente, o prazo, que formará com o da prorrogação um só todo,
dividir-se-á entre os do mesmo grupo, se não convencionarem de modo diverso.
Quando a causa apresentar questões complexas de fato ou de direito, o debate oral poderá ser substituído
por razões finais escritas, que serão apresentadas pelo autor e pelo réu, bem como pelo Ministério Público, se
for o caso de sua intervenção, em prazos sucessivos de 15 (quinze) dias, assegurada vista dos autos.
A audiência é una e contínua, podendo ser excepcional e justificadamente cindida na ausência de perito
ou de testemunha, desde que haja concordância das partes.
Diante da impossibilidade de realização da instrução, do debate e do julgamento no mesmo dia, o juiz
marcará seu prosseguimento para a data mais próxima possível, em pauta preferencial.
Encerrado o debate ou oferecidas as razões finais, o juiz proferirá sentença em audiência ou no prazo de
30 (trinta) dias.
O servidor lavrará, sob ditado do juiz, termo que conterá, em resumo, o ocorrido na audiência, bem como,
por extenso, os despachos, as decisões e a sentença, se proferida no ato.
Quando o termo não for registrado em meio eletrônico, o juiz rubricar-lhe-á as folhas, que serão
encadernadas em volume próprio.
Subscreverão o termo o juiz, os advogados, o membro do Ministério Público e o escrivão ou chefe de
secretaria, dispensadas as partes, exceto quando houver ato de disposição para cuja prática os advogados não
tenham poderes.
O escrivão ou chefe de secretaria trasladará para os autos cópia autêntica do termo de audiência.
Nada impede que a audiência seja integralmente gravada em imagem e em áudio, em meio digital ou
analógico, desde que assegure o rápido acesso das partes e dos órgãos julgadores, observada a legislação
específica. A gravação também pode ser realizada diretamente por qualquer das partes, independentemente de
autorização judicial.
Registre-se, por fim, que a audiência será pública, ressalvadas as exceções legais.

9. PROVAS

A prova pode ser definida como o instrumento jurídico-processual que tem por objetivo formar a convic-
ção do julgador acerca dos fatos da causa.
Em direito não basta alegar; aquele que alega tem a tarefa de demonstrar a veracidade de suas alega-
ções. É nesse contexto que surge a prova: instrumento que procura convencer o juiz do modo como os fatos ocor-
reram.

A) Objeto

A prova tem por objeto os fatos. Mas não são todos os fatos que necessitam ser provados: apenas os
controvertidos, ou seja, aqueles cujas afirmações das partes divergem.

ATENÇÃO!
Considerando que apenas os fatos controvertidos são merecedores de provas, o legislador determinou
que não necessitam de prova os fatos incontroversos, afirmados por uma parte e confessados pela outra, notórios
e aqueles em cujo favor milita a presunção legal de existência ou veracidade (artigo. 374, CPC). Fatos incontro-
versos são aqueles que não foram “rebatidos” pelo réu na contestação; confessados são aqueles admitidos pela
parte quando a mesma presta o seu depoimento pessoal; notórios são aqueles cujos quais não pairam dúvidas,
por serem de conhecimento de todos (ex: não há necessidade de provar que ocorreu o desabamento de edifício

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que vitimou famílias, se tal fato ficou nacionalmente conhecido por meio dos meios de comunicação); fatos em
cujo favor milita presunção legal de existência ou veracidade são aqueles os quais a lei afirma como existen-
tes (ex: se o réu não contestar a ação, a lei afirma que serão verdadeiros os fatos narrados na petição inicial, a
teor do disposto no artigo 344, CPC).

Conforme dito, é necessário que se prove apenas os fatos. O direito não precisa ser provado, pois o juiz
já o conhece (iura novit cúria). Assim, por exemplo, basta o autor provar que foi esbulhado em sua posse (fatos),
não havendo necessidade de provar a vigência de texto de lei que o ampare (art. 1.210, CC), pois o juiz já o co-
nhece; basta ao autor provar que experimentou danos materiais em virtude de ato danoso cometido pelo réu (fa-
tos), não havendo necessidade provar a vigência de texto de lei que o ampare (art. 927, CC), pois o juiz já o co-
nhece, e assim por diante.
Excepcionalmente, a prova será necessária quando disser respeito a direito municipal, estadual, estran-
geiro ou consuetudinário, e se assim determinar o juiz (art. 376, CPC). É que o juiz deve ser conhecedor da lei
federal, não estando obrigado a dominar e conhecer (até porque seria impossível!) o direito municipal, estadual,
estrangeiro ou consuetudinário. Assim, por exemplo, numa ação ordinária proposta por um servidor público muni-
cipal, onde se postula uma determinada vantagem com base numa lei municipal, é necessário que o autor prove
em juízo o teor e vigência do texto legal, juntando em juízo a respectiva prova documental.

B) Ônus da prova

Na relação processual, a simples afirmação não basta. Quem afirma, tem o ônus de provar. Ônus signifi-
ca “encargo”, do qual deve a parte se desincumbir, sob pena de não serem aceitas as alegações efetuadas.
O CPC divide o ônus de provar da seguinte forma:
 Ao autor cabe provar o fato constitutivo do seu direito: fato constitutivo é aquele que deu origem
ao direito postulado. Se Maria afirma que tem um crédito para receber de João, deverá a mesma provar a existên-
cia do fato que deu origem ao crédito, apresentando em juízo, por exemplo, o título de crédito.
 Ao réu cabe a prova do fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor: se o réu,
embora reconhecendo a existência inicial do direito do autor, alegar que ocorreram fatos novos, impeditivos, modi-
ficativos ou extintivos do direito, deverá prová-los. Assim, no exemplo acima, é possível que João alegue que a
dívida não pode ser cobrada, por ter havido a prescrição (fato impeditivo); ou que o valor do débito não é o postu-
lado, por já ter havido o pagamento parcial (fato modificativo); ou que a dívida não existe por ter havido o paga-
mento total (fato extintivo).
Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade ou à ex-
cessiva dificuldade de cumprir o encargo de provar ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário,
poderá o juiz atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que
deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído. Tal decisão não pode gerar
situação em que a desincumbência do encargo pela parte seja impossível ou excessivamente difícil.

10. SENTENÇA

Encerrados os debates ou oferecidas as razões finais, o juiz proferirá sentença em audiência ou no prazo de
30 (trinta) dias.
A sentença pode ser definida como o ato do juiz que põe fim ao procedimento (e não processo!) cognitivo
de primeiro grau.

A) Requisitos estruturais
A sentença possui os seguintes elementos estruturais:
 relatório: é o compartimento da sentença que visa demonstrar a obediência procedimental às regras do
devido processo legal. Ele conterá os nomes das partes, a identificação do caso, com a suma do pedido e da
contestação, e o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo;
 os fundamentos: é a exposição das razões do convencimento do julgador. Nele o juiz analisará as
questões de fato e de direito.
Os fundamentos constituem a parte intermediária, na qual o magistrado expõe, de maneira lógica e
articulada, as razões de seu convencimento. De fato, a fundamentação é o compartimento mais importante da
sentença, tendo em vista que o mesmo torna público o raciocínio utilizado pelo magistrado para chegar ao
convencimento e, por conseguinte, acaba por fornecer elementos para que o inconformado questione a sua
permanência perante o mundo jurídico. Cabe salientar que, nos casos de extinção do processo sem resolução de
mérito, o juiz decidirá de forma concisa, ou seja, resumida.

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Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que:
I - se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação com a
causa ou a questão decidida;
II - empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de sua incidência no caso;
III - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão;
IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão
adotada pelo julgador;
V - se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos
determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos;
VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem
demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento.
No caso de colisão entre normas, o juiz deve justificar o objeto e os critérios gerais da ponderação efetuada,
enunciando as razões que autorizam a interferência na norma afastada e as premissas fáticas que fundamentam
a conclusão.
 o dispositivo: também chamado de “conclusão”, é o compartimento onde o juiz resolverá as questões
principais que as partes lhe submeterem. O juiz resolverá o mérito acolhendo ou rejeitando, no todo ou em parte,
os pedidos formulados pelas partes.
B) Certeza
A sentença deverá ser certa e de valor determinado. Assim, na ação relativa à obrigação de pagar
quantia, ainda que formulado pedido genérico, a decisão definirá desde logo a extensão da obrigação, o índice de
correção monetária, a taxa de juros, o termo inicial de ambos e a periodicidade da capitalização dos juros, se for o
caso.
Entretanto, quando não for possível determinar, de modo definitivo, o montante devido ou a apuração do
valor devido depender da produção de prova de realização demorada ou excessivamente dispendiosa, assim
reconhecida na sentença, o valor devido deverá ser apurado mediante liquidação. Tal regra também se aplica
quando o acórdão alterar a sentença.

C) Limites
Quanto aos limites, é vedado ao juiz proferir decisão de natureza diversa da pedida, bem como conde-
nar a parte em quantidade superior ou em objeto diverso do que lhe foi demandado. É o que se chama de princí-
pio da correlação da sentença ao pedido, no sentido de que é vedado ao julgador proferir decisão com conteúdo
que “fuja” aos termos da petição inicial. Se assim o fizer, o juiz estará efetuando julgamento extra, ultra ou citra
petita. Ocorrerá julgamento extra petita quando a sentença deferir conteúdo diverso do pedido (ex: postulado
certo valor a título de aluguel, o juiz também declara a rescisão contratual, em que pese não ter sido pleiteada).
Por outro lado, haverá julgamento Ultra petita quando for emitida sentença de conteúdo superior ao postulado.
(ex: postulado indenização por danos materiais, o juiz concede indenização em montante superior ao almejado na
inicial). Finalmente, citra petita é a decisão de cunho lacunoso, no sentido de não haver se pronunciado acerca
do total objeto da lide. (ex: pleito de dano moral e material, limitando-se o julgador a apreciar o primeiro e omitin-
do-se acerca do segundo). A sentença citra petita é, geralmente, corrigida por intermédio dos embargos de decla-
ração.

ATENÇÃO!
Vale ressaltar, entretanto, que se, depois da propositura da ação, algum fato constitutivo, modificativo ou
extintivo do direito influir no julgamento da lide, caberá ao juiz tomá-lo em consideração, de ofício ou a
requerimento da parte, no momento de proferir a sentença (ex: autor propõe demanda para postular indenização
em virtude da perda de uma mão e, no transcorrer da lide, vem a perder todo o braço). Por mais que o autor não
tenha mencionado tal fato como ensejador de uma indenização mais elevada, o juiz deverá levá-lo em
consideração, haja vista que o mesmo somente surgiu no transcorrer do processo. Se constatar de ofício o fato
novo, o juiz ouvirá as partes sobre ele antes de decidir.

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