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COMARCA DE SANTA MARIA

4ª VARA CÍVEL
Rua Buenos Aires, 201
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Processo nº: 027/1.11.0016720-0 (CNJ:.0038641-34.2011.8.21.0027)


Natureza: Indenizatória
Autor: Eliane da Silva Gomes
Réu: TIM Celular S.A
Juiz Prolator: Juiz de Direito - Dr. Luciano Barcelos Couto
Data: 25/09/2012

Vistos.

ELIANE DA SILVA GOMES, qualificada na fl. 02 dos


autos, ajuizou “ação de indenização por danos morais” em desfavor de
TIM CELULAR S.A., também qualificada.

Narrou a parte autora, em síntese, que contratou


plano de telefonia da empresa ré. Disse que, ainda que em dia com as
faturas, foi surpreendida com o bloqueio da linha, supostamente oriunda
de um débito no valor de R$ 280,00 (duzentos e oitenta reais). Referiu
que a demandada condicionou o desbloqueio ao pagamento da fatura do
mês, assim como ao adiantamento de R$ 120,00 (cento e vinte reais) da
dívida existente. Asseverou ter pago o montante combinado, todavia,
mesmo assim, foi inscrita nos órgãos de proteção ao crédito. Alegou ter
ajuizado ação junto ao Juizado Especial Cível, pela qual a demandada foi
condenada a emitir nova fatura, cobrando apenas os valores efetivamente
utilizados. Pediu a procedência do pedido para condenar a parte ré a
indenizar-lhe pelos danos morais sofridos. Requereu o benefício da
justiça gratuita.

Juntou procuração e documentos (fls. 16-64).

Foi deferida a justiça gratuita (fl. 66).

Citada (fl. 67v), a parte ré apresentou contestação


(fls. 68-81), alegando que o bloqueio da linha deu-se em razão da
utilização excessiva do serviço. Discorreu acerca do princípio da boa-fé

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e alegou ter procedido à exclusão do nome da autora logo após a
prolação da decisão. Defendeu a inexistência de dano moral a ensejar
condenação. Pugnou pela improcedência do pedido. Juntou documentos
(fls. 82-147).

Houve réplica (fls. 149-173).

Vieram os autos conclusos para sentença.

É O RELATÓRIO.

DECIDO.

Cuida-se de ação por meio da qual a parte autora


quer ver a parte ré condenada ao pagamento de indenização por danos
morais. Estando o feito estreme de vícios formais, passo à imediata
análise do mérito.

A hipótese em apreço lida com a inclusão indevida


do nome da demandante nos cadastros de restrição ao crédito e bloqueio
de sua linha telefônica.

De início, convém destacar que, por força da coisa


julgada e seus efeitos, não cabe mais discussão acerca da licitude da
cobrança efetuada pela parte ré.

Isso porque, na ação de nº 027/3.10.0006328-8, que


tramitou no Juizado Especial Cível desta comarca, o Juiz Leigo prolatou
parecer nos seguintes termos:

Compulsando os autos entendo que merece parcial


acolhimento a pretensão da parte autora.
A autora insurge-se contra fatura emitida pela ré,
com vencimento em agosto/2010, haja vista que
estava com sua linha telefônica bloqueada, desde
15/07/2010 e a fatura do mês anterior venceu em
20/07/2010.
A parte autora demonstrou, na peça exordial, claro

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intuito de quitar a fatura ora impugnada, porém,
apenas o valor adequado ao efetivo uso do serviço.
Disse, em audiência de instrução, que utiliza
bastante o aparelho celular no trabalho e impugnou
a fatura genericamente. Enfim, a consumidora não
compreende por que deve pagar serviços que não
lhe estavam disponíveis.
A fatura contestada refere-se ao período
compreendido entre 25/06/2010 a 24/07/2010, o que,
destaca-se, não exclui o direito da operadora de
telefonia ré de cobrar débitos anteriores a esse
período, haja vista que o art. 61 do Regulamento do
Telefone Fixo Comutado (anexo à Resolução n. 85
da Anatel) confere-lhe essa prerrogativa.
[...]
Por conseguinte, no que tange às ligações
telefônicas detalhadas na fatura, desde 22/06/2010
até 16/07/2010, não se vislumbra qualquer
irregularidade.
Importa esclarecer que, embora não tenha sido
colacionado aos autos o contrato de prestação de
serviços, a autora informou, na audiência de
instrução, que o contrato iniciou no final do mês de
junho/2010, logo, o valor atinente à ligação
realizada no dia 22 desse mês é devido.
Quanto às ligações faturadas no dia 16/07/2010,
apesar da autora ter informado que sua linha
telefônica foi bloqueada em 15/07/2010, as ligações
realizadas no dia 16 são para números
anteriormente discados pela autora, em função do
que se conclui pela legalidade das mesmas.
Outrossim, a análise minuciosa do tempo de
duração das ligações não indica a existência de
irregularidades, uma vez que não há sobreposição
de ligações. Também, a autora não impugnou os
números discados, em virtude do que se presume que
todas as ligações foram realizadas.
Todavia, quanto ao plano “Liberty”, entendo que a

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fatura merece reparos, pois cobrados 30 dias do
serviço, enquanto este esteve disponível, na
realidade, por 22 dias (25/06/2010 a 16/10/2010).
Destacando que a parte ré não contestou o bloqueio
da linha telefônica, tampouco esclareceu a razão da
interrupção do serviço. Logo, a cobrança deve ser
proporcional: 30 dias custou R$ 107,56, portanto,
22 dias custam aproximadamente R$ 78,88.
E ainda, a autora informou ter realizado
pagamento da fatura com vencimento em julho/2010
mais uma parcela, a título de adiantamento,
segundo lhe foi informado pela ré, no valor de R$
120,00, o que também já foi computado na fatura.
Por fim, apesar de não ter sido detalhada na fatura
todas as ligações telefônicas, considerando o valor
dessa fatura e o valor da fatura anterior, não se
verifica razão para contestar a legitimidade
daquela. É que a fatura vencida em julho, referia-se
ao período de 21/06/2010 a 24/06/2010, ou seja, 4
dias, pelos quais foram cobrados R$ 60,32.
Tendo em vista que a consumidora mostrou-se de
acordo com essa fatura e mencionou em audiência
que utiliza bastante a linha telefônica móvel no
trabalho, por certo que os valores cobrados a título
de ligações não se mostram fora do real consumo da
autora.
Acerca do pedido liminar, outrora deferido, em que
pese a maior parte do saldo devedor ser realmente
devido, entendo pela manutenção da medida, pois
não se revela prudente condicionar a liberação do
nome da consumidora à obrigação que depende da
ré. Todavia, a medida liminar só produzirá efeitos
até o cumprimento da decisão pela operadora ré,
podendo esta, posteriormente, em caso de
inadimplemento da autora, realizar novo cadastro
em órgãos de proteção ao crédito.
ISTO POSTO, OPINO pela PARCIAL
PROCEDÊNCIA da pretensão deduzida por

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ELIANE DA SILVA GOMES em face de TIM
CELULAR, a fim de condenar a ré a emitir nova
fatura, em nome da autora, referente ao período de
25/06/2010 a 24/07/2010, no valor de R$ 253,81
(duzentos e cinquenta e três reais e oitenta e um
centavos), em 10 dias, com prazo de vencimento de
20 dias, sob pena de multa diária de R$ 200,00
consolidada em 30 dias, em caso de
descumprimento.
Torno definitiva a medida liminar até o efetivo
cumprimento da decisão pela parte ré.
Sem condenação nos ônus sucumbenciais, inclusive
honorários de advogado, posto que incabíveis neste
grau de jurisdição, forte no artigo 55 da Lei
9.099/95.
[grifo meu]

O parecer transcrito foi homologado integralmente e


a sentença transitou em julgado sem modificações.

Ou seja: por força da decisão exarada no processo de


nº 027/3.10.0006328-8, a cobrança efetuada pela parte ré é ilícita, por
conter valores superiores àqueles efetivamente devidos.

Ilícita também é a inscrição da consumidora nos


cadastros de restrição ao crédito (fl. 45) em função de cobrança
parcialmente indevida.

Não obstante os argumentos trazidos à baila na


contestação, é impossível rediscutir a matéria já acobertada pela
coisa julgada.

Por conseguinte, resta apenas determinar se a


conduta que foi reconhecida ilícita naquela ação originou (nexo de
causalidade) algum dano injusto à demandante.

Nesse ponto, a jurisprudência é pacífica: a inclusão

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ilícita de consumidor nos cadastros de restrição ao crédito produz dano
moral in re ipsa.

Passo, portanto, a quantificar a indenização por


danos morais. A legislação pátria não professa critérios objetivos e
seguros para a quantificação de danos extrapatrimoniais. Enquanto a
reparação dos danos materiais procura restituir a vítima ao estado em que
se encontrava antes da ocorrência do evento lesivo, isto não é possível no
caso dos danos morais. Conseguintemente, à falta de regulamentação
própria e inexistindo um valor certo e definido a ser atribuído ao dano,
os tribunais têm levado em consideração uma série de critérios; destes,
trago à colação os critérios apontados pelo Des. Sérgio Gischkow
Pereira, na Apelação Cível nº 593133689: a) a reparação do dano moral
tem natureza também punitiva, aflitiva para o ofensor, com o que tem a
importante função, entre outros efeitos, de evitar que se repitam
situações semelhantes b) deve ser levada em conta a condição
econômico-financeira do ofensor, sob pena de não haver nenhum grau
punitivo ou aflitivo; c) influem o grau de culpa do ofensor, as
circunstâncias do fato e a eventual culpa concorrente do ofendido; d) é
ponderada a posição familiar, cultural, social e econômico-financeira da
vítima, e) é preciso levar em conta a gravidade e a repercussão da ofensa.

Desta feita, considerando: a) a natureza punitiva da


indenização, a fim de que a parte ré não reitere a conduta ilícita,
consistente em realizar cobranças parcialmente indevidas; b) a bastante
favorável condição financeira da parte ré; c) a condição econômica da
parte demandante; d) o dano efetivamente sofrido (atendando para o
fato de que o valor cobrado era devido em parte); e) a posição
jurisprudencial sobre o valor da indenização para este tipo de situação;
fixo a indenização pelos danos morais no valor de R$ 3.000,00 (três mil
reais).

O montante ora fixado será corrigido


monetariamente desde a data desta sentença e acrescido de juros de mora
a contar da própria inscrição, 18.08.2010, na forma da súmula 54 do STJ.

Pelo exposto, JULGO PROCEDENTE a ação


ajuizada por ELIANE DA SILVA GOMES em face de TIM CELULAR S.A.,

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para o fim de, com base no artigo 269, I, do CPC, CONDENAR a parte
demandada a pagar à parte autora o valor de R$ 3.000,00 (três mil reais),
a ser corrigido monetariamente, pelo IGP-M, desde a data desta
sentença, e acrescido de juros de mora de 01% ao mês, a partir de
18.08.2010.

CONDENO também a parte ré ao pagamento das


custas processuais e dos honorários advocatícios, em favor do
procurador da parte adversa, os quais fixo em 15% do valor atualizado
da condenação, forte no artigo 20, §§ 3º e 4º, do Código de Processo
Civil.

Publique-se. Registre-se. Intimem-se.

Fica desde logo autorizada a expedição de alvará


em favor da parte ré, para levantamento da quantia depositada pela
parte autora.

Santa Maria, 25 de setembro de 2012.

Luciano Barcelos Couto,


Juiz de Direito

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