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A INFLUÊNCIA INCONFESSÁVEL

Como o folhetim formou o romance brasileiro

Luís Roberto de Souza Júnior (PUCRS)


INTRODUÇÃO

“Deste caótico passeio em busca do folhetinzão europeu no Brasil fica a certeza


de ter ele deixado marcas indeléveis, e não só nos construtores do romance nacional...”
(MEYER, 1996, p. 313)
A afirmação acima é de Marlyse Meyer em Folhetim, uma história. O
calhamaço de Meyer (472 páginas) é, para usar as palavras de ninguém menos que
Antônio Candido na nota prévia, “um livro notável sob muitos pontos de vista: é
contribuição pessoal a um assunto mal estudado no Brasil.... é revisão a fundo de
noções mal aprendidas por todos nós que, no passado e no presente, estudamos a
literatura”.
Então nada melhor do tirar de Meyer o assunto de nossa pequena investigação.
Neste trabalho vamos atrás das “marcas indeléveis” de que fala a pesquisadora fala, mas
nosso foco será nos “construtores no romance nacional”, e em dois deles em particular:
José de Alencar e Machado de Assis.
Vamos mostrar como no folhetim moldou as principais características da
escrita de José de Alencar e como Machado de Assis, apesar de ter traduzido um
romance de folhetim e também empregar técnicas folhetinescas em sua primeira fase,
fazia questão de negar essa influência, chegando a afirmar que nunca lera folhetim em
sua vida.

UM BREVE HISTÓRICO

Quando dizemos folhetim, estamos nos referindo a um gênero narrativo


concebido na França, na década de 1830 por Émile de Girardin. Antes dele, folhetim
denominava um tipo de suplemento dedicado à crítica literária e a assuntos diversos,
normalmente publicados no rodapé do jornal.

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Girardin e seu ex-sócio Armand Dutacq perceberam as vantagens financeiras
que poderiam tirar do folhetim. Os jornais La Presse, de Girardin, e o Le Siècle, de
Dutacq, foram os precursores.
O romance-folhetim teve sua inauguração oficial em 5 de agosto de 1836,
quando o La presse começa a publicar Lazarillo de Tormes em partes diárias. Porém
Lazarillo de Tornes ainda era uma obra que não fora criada originalmente para ser
publicada por pedaços em rodapés de jornais, como aconteceria em seguida. O folhetim
faz sucesso e é incorporado à lógica capitalista, pois “publicar narrativas literárias em
jornais proporcionava um significativo aumento de vendas e possibilitava uma
diminuição nos preços, o que aumentava o número de leitores e assim por diante.”
(PENA, 1996, p. 29)
No início dos anos 1840, o gênero já está estabelecido e importantes escritores
franceses eram disputados pelos jornais do país para criar romances-folhetins
exclusivos. As principais características do folhetim são “novas condição de corte,
suspense, com as necessárias redundâncias para reativar memórias ou esclarecer o leitor
que pegou o bonde andando” (MEYER, 1996, p.59).
Como era dirigido a um público vasto, que abarcava todas as classes sociais, a
linguagem deveria ser simples e acessível. Segundo Mikail Baktin (1998, p. 421), o
folhetim “no lugar da nossa vida enfadonha nos oferecem um sucedâneo, é verdade,
mas se trata de uma existência fascinante e brilhante”. Talvez o sucesso se deva ao fato
de que “pode-se participar dessas aventuras e se auto identificar com os seus
personagens, tais romances quase servem de substitutos da nossa vida particular”.
(BAKHTIN, 1998, p. 421).
Outra característica é que com o tempo os leitores começam a enviar cartas ao
jornal e influenciar o andamento da história.

O CASO BRASILEIRO

Se o romance brasileiro só surgiu em 1843, com O filho do pescador, de


Teixeira e Sousa, o primeiro romance-folhetim a ser publicado no Brasil foi O capitão
Paulo, de Alexandre Dumas, em 1838, no Jornal do Commercio. Segundo Marlyse
Meyer, entre 1839 e 1842 os folhetins são praticamente cotidianos no Jornal do
Commercio, embora os autores ainda não sejam os mais modernos: “Até que,

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finalmente, chegam ao rodapé, em português, o tão esperado Mistérios de Paris. A data
é 1º de setembro de 1844”. (MEYER, 1996, p. 283)
No Brasil, antes de se serem publicados em jornais, os romances eram
acessíveis a poucos. Aos leitores, o preço dos livros era proibitivo. As escritores, era
muito difícil publicar uma obra – o país quase não tinha imprensa, a publicação tinha
normalmente de ser feita na Europa. Então o folhetim democratizou o acesso à literatura
e serviu de estímulo para que muitos escrevessem, uma vez que lhes dava a
possibilidade de publicação.
Quase todos os grandes escritores brasileiros do século XIX passaram por
jornais. Podemos citar alguns que entraram para o cânone, como Joaquim Manoel de
Macedo, Raul Pompéia, Aloísio de Azevedo e Euclides da Cunha. No entanto, nem
todos se adaptaram ao gênero folhetinesco. Ou seja, apesar de terem sido publicados em
rodapés de jornais, nem todos empregaram estritamente as características folhetinescas.
Tania Rebelo Costa Serra (1997, p. 21) faz uma diferença entre os dois tipos de
romance:
O romance em folhetim tem preocupações estruturais e temáticas que
diferem das do romance-folhetim, mais voltado ao grande público em
busca de diversão, embora esta não seja negada ao romance em
folhetim. A diferença básica está nos objetivos literários: o romance
em folhetim está sempre atento à sua organização interna, com vistas a
uma unidade da estrutura narrativa necessária para seu valor estético,
enquanto o romance-folhetim pode ir sendo construído no dia a dia até
o total esgotamento da curiosidade do público, o que causa,
frequentemente, falhas nessa unidade.

O ponto que defendemos aqui é que, pela contingência de manter a atenção do


leitor, mesmo os romancistas que desprezam o folhetim acabaram influenciados pelo
gênero. Como afirmam Marisa Lajolo e Regina Zilberman (1996, p. 19), “a forma como
autores e narradores do Romantismo brasileiro apresentam-se diante do leitor, nos livros
de ficção, é sintomática dos cuidados tomados diante desse público incipiente”.
Elas apontam uma relação de causa-consequência entre “leitor principiante,
narrador permissivo e tolerante” (LAJOLO E ZILBERMAN, 1996, p. 19) e que esse
narrador usaria recursos ou “procedimentos de sedução” (LAJOLO E ZILBERMAN,
1996, p. 20) como a retomada de eventos apresentados em capítulos anteriores,
explicação do aparecimento de novos personagens, simulação de reações do leitor e
legitimação das mesmas, ou seja, procedimentos associados ao folhetim.

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Por que influência? O caso José de Alencar

Escritor bastante popular em seu tempo, o autor José de Alencar nunca teve
problemas de admitir que bebeu na fonte folhetinesca.
No autobiográfico Como e porque sou romancista, ele conta que, ainda
estudante, ia esperar o trem que trazia o jornal – com o seu folhetim, é claro – e ali
mesmo na estação, debaixo do lampião a gás, um jovem do grupo era escolhido para ler
em voz alta o capítulo da semana. E depois se pergunta:

Foi essa leitura contínua e repetida de novelas e romances que


primeiro imprimiu em meu espírito a tendência para essa forma
literária que entre todas é a de minha predileção? Não me animo a
resolver essa questão psicológica, mas creio que ninguém contestará a
influência das primeiras impressões. (ALENCAR, 1998, p. 31)

Na biografia Inimigo do rei: uma biografia de José de Alencar, ou a


mirabolante aventura de um romancista que colecionava desafetos, azucrinava D.
Pedro II e acabou inventando o Brasil (biografia, aliás, que tem a estrutura
folhetinesca), Lira Neto conta a fascinação do autor na juventude com o folhetim e
revela como o gênero se faz presente ao longo da carreira do escritor. Lira Neto também
revela os primeiros folhetins escritos por Alencar (que acabaram não sendo publicados)
e relembra o sucesso de O Guarani, que pode ser considerado o maior folhetim
brasileiro, publicado no Diário do Rio de Janeiro em 1857.
Marlyse Meyer (1996, p. 311) aponta “o senso de corte de capítulos” que
Alencar conseguiu com tanto brio em O guarani ou a elaboração do herói ou do vilão,
que “é tão folhetinesca quanto são folhetinescas as relações de lealdade e traição” no
livro.
Ela destaca também o índio Peri e o sertanejo Arnaldo “também tudo a ver com
o herói da mais pura tradição do folhetim romântico”. (MEYER, 1996, p. 312)

Meyer (1996, p. 312) ainda afirma que Alencar “envereda magnificamente”


pelo folhetim de capa e espada em As minas de prata e Senhora.

Por que inconfessável? O caso Machado de Assis

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José Ramos Tinhorão (1994, p. 32) afirma em Os romances em folhetins no
Brasil : 1830 à atualidade que “não se deve procurar apenas nos grandes escritores
universais as influências sobre os mais importantes escritores brasileiros”. Machado de
Assis, no entanto, recusava-se terminantemente a admitir a herança do folhetim. Para
Tinhorão, Machado era muito preocupado com sua filiação literária, mas na obra do
escritor podem ser traçadas a origem real de muitas de suas “admirações
inconfessáveis”:

Basta recorrer à pesquisa de Miécio Tati sobre o que liam os


personagens de Machado de Assis para se concluir que entre os
autores de conhecimento do próprio romancista estavam, além do
citado Octave Feiullet, e de Dumas pai, outros nomes menores do
folhetim. (TINHORÃO, 1994, p. 33)

Marlyse Meyer chega à mesma conclusão. Machado, por exemplo, deixou


registrado que nunca tinha lido o maior sucesso folhetinesco francês, a série Rocambole.
Quanto a isso, Meyer (1996, p. 117) questiona se “não terá sido coquetismo de
Machado? Porque não lhe escapou a adequação do herói a seu tempo, o que
evidentemente supõe um mínimo de leitura do desdenhado folhetim [...]”
De acordo com Meyer, um rastreamento da obra machadiana pode comprovar a
intimidade do escritor com o folhetim e não só isso, mas também que é possível
encontrar traços nos personagens, na construção do enredo e no estilo que denotam a
influência folhetinesca.
Roberto Schwarz, em seu famoso artigo A viravolta machadiana, associa o
Machado da primeira fase, antes de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880), à ficção
romântica que “enxergou as peculiaridades da vida familiar brasileira sob o signo do
pitoresco e da identidade nacionais, a que superpôs fabulações mais ou menos
folhetinescas”. (SCHWARZ, 2004, p. 21 )
Marisa Lajolo e Regina Zilberman (1996, p. 20), também enxergam técnicas
aplicadas ao folhetim na obra da primeira fase machadiana: “A cumplicidade obtida por
expedientes similares se faz presente num dos primeiros contos de Machado, Questão
de vaidade, de 1864, em que parece não haver limite para o esforço do narrador em
estabelecer um clima de intimidade com o leitor”.
Elas ainda dizem que em A mão e a luva, romance de 1874, Machado retoma
essas técnicas. (LAJOLO; ZILBERMAN, 1996, p. 22)

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Marlyse Meyer, porém, sugere o folhetim deixou marcas mesmo nas obras da
segunda fase de Machado, quando ele, nas palavras de Schwarz (2004, p. 1), “escreveu
quatro ou cinco romances e algumas dezenas de contos de grande categoria, muito
acima da ficção brasileira”.
Sobre o conto longo Casa Velha, publicado em 1885 de forma seriada na
imprensa, Meyer (1996, p. 390) afirma que:

[...] acumula os chavões do romance “feminino” sentimental, mas


trabalhando ambiguamente com o amor e o incesto [...} até uma
conclusão bem machadiana, que obriga a recolocar o enredo noutra
perspectiva. Um conto-folhetim em suma, discretamente perverso,
como é em folhetim seu modo de publicação, tal como a grande parte
dos contos de Machado, aliás.

E comentando o aparente assumido desprezo do escritor ao gênero


folhetinesco, Meyer (1996, p. 313) diz:

E não se deve esquecer o quanto Machado de Assis, ainda que


desprezasse Rocambole, soube utilizar para efeitos machadianos a
ciência do corte nos seus contos publicados em folhetim, com seus
fins abruptos de capítulo e machadiana deriva na retomada da
sequência. Como, por exemplo, em Quincas Borba.

CONCLUSÃO

Concordamos com José Ramos Tinhorão (1994, p. 28), para quem, “de fato,
embora a maioria dos historiadores da literatura brasileira não chegue a mencionar essa
circunstância, é do romance de folhetim que se originam as principais características da
técnica do romance no Brasil”.
Isso se deveu ao fato de que o período de sucesso comercial do folhetim
começa ao mesmo tempo em que são escritos os primeiros romances brasileiros e se
estende durante a gestação de nossos primeiros grandes romancistas.
O folhetim não só influenciou tecnicamente a formação dos romancistas
nacionais, como proporcionou um espaço de experimentação para os romancistas já
estabelecidos e deu aos ficcionistas a primeira experiência de popularidade e de sucesso
nacional, servindo a muitos deles como o primeiro para a publicação de suas histórias
em livros.

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Praticamente toda a ficção em prosa da época passa a ser publicada em
folhetim e, apesar de que nem todos os romances adotem procedimentos estritamente
folhetinescos, parece-nos evidente que tal modo de publicação, com suas exigências
próprias de cortes de capítulo, de suspense, de condução do pela mão no meio do
labirinto (ou do rocambole) da história influenciou a estrutura de todo o romance a
partir de então. E isso inclui obviamente José de Alencar (como vimos, ele próprio o
admite) e, menos óbvio, Machado de Assis.
O que fizemos aqui foi apenas uma provocação, que deve ser continuada. Pois,
como tão bem diz “mestre” Antônio Candido na nota prévia ao monumental livro de
Marlyse Meyer Folhetim, uma história: “Além disso, mostra curiosas afinidades entre o
folhetim e mais de um romance “sério”, o que lhe permite escrever, com razão: „Haveria
que fazer um estudo sistemático das relações entre os dois modos de romance‟”.

REFERÊNCIAS

ALENCAR, José. Como e por que sou romancista. Porto Alegre: Mercado aberto, 1998.
BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Questões de literatura e de estética: a teoria do
romance. São Paulo: Hucitec, 1998.

LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo:


Ática, 1996.

PENA, Felipe. Jornalismo Literário. São Paulo: Contexto, 1996.

NETO, Lira. O inimigo do rei: uma biografia de José de Alencar, ou, a mirabolante
aventura de um romancista que colecionava desafetos, azucrinava d. Pedro II e acabou
inventando o Brasil. São Paulo: Globo, 2006.

COSTA SERRA, Tania Rebelo. Antologia do romance-folhetim brasileiro, . Brasília:


Editora UNB, 1997.

TINHORÃO, José Ramos. Os romances em folhetins no Brasil: 1830 à atualidade. São


Paulo: Duas Cidades, 1994.

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SCHWARZ, Roberto. A viravolta Machadiana. São Paulo. 2004. Disponível
em:<http://ebookbrowse.com/roberto-schwarz-a-viravolta-machadiana-pdf-
d89595198>. Acesso em: 28set. 2011.

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