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Democracia genocida

Ana Luiza Pinheiro Flauzina

No chão da resistência negra, falar do presente é sempre tratar do


passado. Não dos eventos que se amontoam na memória como fontes
estanques, mas da própria disputa do sentido das narrativas, da re-
contagem dos feitos que divide o tabuleiro social entre vencedores e
vencidos, arrojados e passivos, dominadores e dominados. Para nós, a
passagem do tempo tem aportado a atualização das tragédias, novas
configurações para velhos dilemas, reedição de livros sórdidos cujas
edições não esgotam jamais. Vivemos um “presente de longa dura-
ção”, pontua Edson Cardoso, e a chegada a qualquer ponto que quei-
ra se dizer futuro passa pela ruptura com esse estado perene de dor
(CARDOSO, 2015, p.45).
Considerando essa perspectiva, a conjuntura política atual não
pode ser lida sob a lente da ruptura, como as análises formatadas pe-
las dinâmicas da branquitude insistem em pontuar. Se a trajetória é
de continuidades, a demarcação desse cenário como exceção parece
sinalizar mais para o alcance dos corpos que passa a atingir do que
para a completa inovação das práticas em curso. Analisar o que se tem
qualificado como um golpe de Estado sob uma ótica que considere a

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questão racial é, assim, desmobilizar os ares estupefatos e o discurso


raivoso pautado na ordem do dia, inscrevendo a denúncia do genocí-
dio negro como o centro nervoso das disputas em curso.
A fim de contribuir com uma análise que situe as dinâmicas po-
líticas conservadoras que não se iniciam, mas se intensificam com o
impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, proponho uma refle-
xão que nos permita visualizar a convivência do que se entende por
democracia com as políticas de terror que ditam a existência social da
população negra no país. A ideia é promover um deslocamento que
nos ajude a entender a compatibilização dos marcos constitucionais
com as dinâmicas do genocídio negro, para situar o golpe como cate-
goria definidora dos meandros das elites, com efeitos nefastos para os
segmentos marginalizados.

Sobre o genocídio

A reivindicação do genocídio como categoria política e jurídica defi-


nidora dos assaltos promovidos contra as populações negras na Diás-
pora é tão antiga quanto ignorada. Em 1951, William Patterson de-
nunciava em We Charge Genocide, as atrocidades a que estava
submetido o segmento negro num contexto social de intensa segrega-
ção racial nos Estados Unidos (PATTERSON, 1970). Em 1978, em
O genocídio do negro brasileiro, Abdias do Nascimento faz movimento
semelhante ao apontar as mazelas sociais racialmente orientadas para
a mitigação da vida das pessoas negras no Brasil. (NASCIMENTO,
1978). Apesar de estarem sob a órbita do sistemático apagamento
historiográfico que vige entre nós, esses esforços denotam a consciên-
cia política em se pautar a vulnerabilidade da vida como o marco
fundante da existência social negra na Diáspora.
Atentando para as múltiplas acepções e desdobramentos desse
estado patente de violação das comunidades negras, pontuo aqui al-

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gumas dimensões que tenho destacado como fundamentais para a


compreensão do fenômeno do genocídio negro.
Em primeiro lugar, destaco que o processo genocida, que se afir-
ma nas pegadas na antinegritude, tem como uma de suas principais
características a naturalização da dor (VARGAS, 2016). Se o racismo
experimentado no processo escravista inscreve a violação de corpos
como prática sistemática, a desumanização é seu legado mais caro.
Esse padrão arraigado no imaginário é ferramenta poderosa que ma-
terializa o vilipêndio, a tortura e a morte como o destino natural do
contingente negro. A incapacidade de se reconhecer a dor quando ela
é infligida diretamente em carne negra é, portanto, um pressuposto
fundamental do genocídio. Em outras palavras, é preciso entender
que as dinâmicas do terror racial conseguiram expropriar o sentido de
humanidade de forma tão brutal dos corpos negros que o sofrimento
imposto a esse segmento populacional não é socialmente inteligível.
É esse o mais dileto trunfo das práticas genocidas que permitem que
se acumulem os massacres sem a implicação das consciências (FLAU-
ZINA, 2016a).
Além dessa dimensão, um segundo aspecto que venho problema-
tizando no debate do genocídio é o que lança luzes sobre o fato de
este ser um processo desencadeado pelo racismo com suas complexas
dimensões de gênero e sexualidade.
Aqui, é importante sublinhar que a guerra de alta intensidade
travada contra as comunidades periféricas em todo o Brasil tem na
figura de uma mãe negra “ultrajada” sua imagem mais bem-acabada
(ROCHA, 2017). Mulheres que choram a dor do aniquilamento e
do sequestro dos corpos de seus filhos e filhas para as barbaridades em
curso. Imagem reificada que não gera empatia, mas a criminalização
do sofrimento. Maternidades culpabilizadas, responsabilizadas pelos
“desvios” da prole. Mães de assassinos fabricados, pelo descaso do
Estado ou evidências plantadas, que vão se mantendo de pé para dar
conta da vida e de joelhos ou cabeça no chão, buscando amparo espi-

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ritual para não sucumbirem à sentença da indiferença (ROCHA,


2017).
Apesar de essa ser uma representação acurada de uma das dimen-
sões mais perversas do genocídio negro, é importante fazer leituras
que não submetam essas mulheres a um regime de maternidade limi-
tador de suas experiências sociais. Aqui, chamo atenção para o fato de
que as mulheres negras não sofrem dores apenas derivadas das dores
dos homens, mas também causadas por eles. É preciso, portanto, se
questionar o papel do racismo na conformação das masculinidades
negras cis-heretoconformes e suas implicações políticas. Há que se
perguntar qual o espaço destinado às mulheres e à comunidade
LGBT diante da afirmação de masculinidades embrutecidas. O ques-
tionamento do que representa ser um homem negro no centro de um
genocídio que tem dilapidado o sentido do amor, do comunitarismo
e da valoração da vida é, dessa maneira, fundamental para o enfren-
tamento do genocídio. (FLAUZINA, 2016a)
Além dessas duas variáveis pontuadas, quero tratar de uma tercei-
ra questão, ainda pouco articulada, que parece estar no centro nervo-
so dessa engenharia genocida perversa. Na contramão do que se apre-
goa como pressuposto inabalável, é importante compreender o fato
de que há uma flagrante compatibilização entre democracia e genocí-
dio. O quero problematizar, na esteira do que vem sendo discutido
por intelectuais negras e negros na Diáspora, é que a armadura demo-
crática no Brasil tem sido o veículo condutor das ações genocidas em
curso.
Considerando a pertinência dessa dimensão do genocídio para
uma melhor compreensão do contexto político atual − representado
como golpe −, passo a uma reflexão que nos permita visualizar a for-
ma como este é, em grande medida, um momento de acirramento
das disputas das elites que têm o racismo como o centro nervoso dos
embates.

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O genocídio da democracia

A visão romantizada do Estado democrático de direito como aquele


balizador dos direitos humanos e das garantias fundamentais que
opera a partir da soberania popular, obedecendo rigorosamente à di-
visão de poderes, é há muito criticada por diversas perspectivas teóri-
cas. Apesar disso, não há dúvidas de que foi sob a batuta dos baluartes
democráticos que se experimentaram os maiores avanços sociais. Por-
tanto, o enfrentamento da complexa relação entre democracia e racis-
mo aqui exposto, digo de antemão, não visa somar com perspectivas
aviltantes de legitimação da ditadura. O que me interessa fazer é des-
nudar a promessa democrática para que possamos nos libertar de suas
retóricas de paz assentadas na prática da violência.
Passo então a interpelar essa questão a partir de lentes de análises
lastreadas na discussão do racismo. Na esteira do que propõem auto-
res como Joy James e João Vargas, parece ser importante aproximar
esse debate da realidade brasileira compreendendo que os arranjos
constitucionais têm sido instrumentalizados para a manutenção do
genocídio. (VARGAS, 2016; JAMES, 2009)
Aqui, é preciso entender que o dito Estado democrático se sus-
tenta na base da desigualdade que, no horizonte do racismo, só se
consolida com o salvo-conduto do terror. (VARGAS, 2016). Nessa
dinâmica que confunde os sentidos, os arranjos constitucionais estão
pautados para a garantia de direitos, desde que jamais se perturbe a
ordem pragmática por controle. Ou seja, o limite da atuação da or-
dem constitucional no Brasil passa pelo respeito ao controle indiscu-
tível da decretação da morte de pessoas negras, que se constitui no
item inegociável da agenda das elites nacionais.
Essa afirmação certamente adquire um tom herético se analisar-
mos a própria consolidação da Carta Magna, que contou com a in-
tensa participação de diversos movimentos sociais, incluindo o movi-
mento negro, nas intensas disputas travadas na constituinte (PIRES,
2016). Esse movimento de pleitos por igualdade consubstanciado em

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instrumentos estruturais do Estado está lastreado nos esforços inter-


nacionais que se seguem à Segunda Guerra Mundial. Desde então, o
emprego do racismo de forma aberta pelos Estados é não só vedado
por instrumentos jurídicos como também rechaçado pela consciência
coletiva.
Num país de maioria negra, esse cenário redundou numa severa
criminalização do racismo, prática imprescritível e inafiançável. Além
disso, a partir das posturas potentes da militância negra, há sinaliza-
ções efetivas na órbita da salvaguarda de direitos, assim como na pau-
ta das ações afirmativas, nos meandros das políticas da saúde da po-
pulação negra e na conquista de direitos quilombolas. Há uma
agenda positiva, portanto, que quer se projetar como indicativo de
que o Estado e suas instituições estão vocacionados para a promoção
de garantias coletivas e individuais. Na narrativa da ordem do dia, o
descaso político é decorrente da má gestão dos recursos e da a corrup-
ção endêmica, obstáculos à efetiva promoção dos marcos de igualda-
de celebrados na carta constitucional.
O que há que se considerar, entretanto, é que as práticas de pro-
moção de igualdade racial entre nós têm tido poucos resultados no
combate às estruturas do racismo (CARDOSO, 2015). Observa-se a
conquista de territórios de direitos que jamais tocam no centro ner-
voso dos dilemas consolidados da população negra. São direitos con-
quistados a pulso, pelas pressões dos movimentos sociais, e que não
conseguem se sedimentar, vigorando num quadro de vulnerabilidade
constante. Trata-se de direitos frágeis, por assim dizer, passíveis de
revogação diante da mudança da temperatura política da vez.
Se olharmos para o plano da educação, em que se consolidam
grande parte dos avanços para a população negra da última década,
podemos constatar tal realidade. A edição da lei 12.711/2012, co-
nhecida como lei de cotas, ocorre quase uma década após a adoção da
reserva de vagas para estudantes negros e negras na UERJ, em 2003.
É a partir da intensa agitação e tensionamento nos espaços universi-

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tários que se consegue a institucionalização retardatária dessa deman-


da de importância central.
A avaliação do processo de implementação das ações afirmativas
para a educação superior no Brasil sinaliza a fragilidade do que se
entende como conquista nos embates em torno do racismo no país.
A entrada de estudantes cotistas nas universidades públicas brasileiras
não tem sido seguida por políticas de permanência efetivas. Além
disso, a universidade segue resistente a uma transformação profunda
trazida por esses indivíduos em termos do fazer epistemológico, das
pesquisas, das demandas urgentes da extensão. Os ambientes seguem
herméticos quanto à contribuição de intelectuais negros e negras e há
morosidade na implementação de cotas nas pós-graduações e no in-
gresso de docentes negros e negras em seus quadros em todo o país.
O sentimento em voga, mesmo após dez anos da presença de
alunos e alunas negras nas universidades brasileiras, é o de uma espé-
cie de concessão branca, que trabalha vigorosamente para defender
uma suposta excelência acadêmica − que não se vê em parte alguma
− da mácula que esses seres racionalmente comprometidos podem
gerar às instituições. Mais importante: essa é uma presença ameaçada
pela clara possibilidade de revogação dos parâmetros estabelecidos,
que está sempre à espreita nos discursos conservadores.
Assim sendo, os avanços em termos de consolidação de direitos
para a população negra, fruto de intensa mobilização da militância,
não são lidos como parte de conteúdos que compõe um acervo cons-
titucional a ser preservado. Ao contrário, são taxados como penduri-
calhos do politicamente correto que podem ser suprimidos a qual-
quer tempo.
A instabilidade dos direitos aportados constitucionalmente para
o segmento negro é contraposta pela garantia das violações que não
encontram espaço para a contestação efetiva em parte alguma. Como
pontuado anteriormente, o controle do direito à vida, ou melhor, a
disponibilidade de se decretar a morte das pessoas negras, nos termos
daquilo que Achille Mbembe entende por necropolítica, é o item

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mais bem guardado da agenda política das elites no país (MBEMBE,


2003). Nesse cenário, a artilharia do sistema de justiça criminal apa-
rece como peça-chave na produção do genocídio, indicando o apetite
incessante por carne negra.
O que se observa claramente é uma chancela social e jurídica para
uma atuação macabra do sistema de justiça criminal no Brasil. Aqui,
importante situar a indisponibilidade em se garantir uma leitura
constitucional que se oponha de frente às ações de extermínio siste-
mático que vem assolando as comunidades periféricas em todo o
país. De forma incipiente, opera-se apenas a criminalização pontual e
precária de policiais sem qualquer implicação e censura ao animus
que baliza a produção do genocídio. Ou seja, há uma conciliação do
trato constitucional com a plataforma da segurança pública, fazendo
com que as mortes, as torturas e os desmandos fiquem adstritos a
uma interpretação que os situe como desvios incidentais e não como
padrão a ser desmobilizado.
O que se percebe, portanto, é que o racismo impede que qual-
quer narrativa constitucional se aproxime dos massacres. Ou seja, é o
marco do direito constitucional que obstaculiza a proclamação do
terror de Estado, na medida em que não reconhece como um ataque
à ordem democrática os processos sistemáticos de extermínio da po-
pulação negra.
Essa constatação nos permite enxergar a complexidade com que
o genocídio se processa no Brasil. Trata-se de uma postura política
que, apesar de absorver parte das reivindicações da militância, tem
como baluarte essencial a mitigação da vida.
É essa dinâmica que torna compatível os dados aparentemente
paradoxais que acompanham a experiência social negra no país na
última década. De um lado, temos o ingresso de estudantes negros e
negras nas universidades pautando mudanças necessárias na perspec-
tiva de vida da juventude. De outro, esse mesmo contingente experi-
menta uma vitimização homicida que só pode ser comparada a locais
que vivem guerras declaradas. (BRASIL, 2018). De um lado, temos a

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edição de leis como a do feminicídio, proclamada como um impor-


tante baluarte na defesa dos direitos das mulheres (FLAUZINA,
2016b). De outro, vemos que, enquanto para as mulheres brancas
houve uma diminuição no número de mortes, para as mulheres ne-
gras houve aumento substantivo dos homicídios.
O que está em jogo, claramente, é a instalação de uma dualidade
fundamental para a consecução do genocídio. Esboça-se um quadro
em que se garante a imposição das sentenças de morte como o trunfo
inabalável da política de Estado, apesar das frestas abertas pela mili-
tância em outras searas vendidas como prova da benignidade da
branquitude. Na terra da convivência pacífica das raças, o terror ge-
nocida vai se consolidando com o uso de velhas estratégias de distor-
ção dos fatos, sendo as mazelas da população negra narradas como
fruto de sua inaptidão civilizatória, à despeito do que se retrata como
generosidade na cartela das supostas concessões das elites.
É importante sinalizar que essa lógica se afirma inclusive em mo-
mentos de ocupação institucional de setores ditos de “esquerda”, ce-
lebrados como progressistas no contexto político brasileiro. Diante
dessa constatação, uma leitura implicada com as dinâmicas do racis-
mo no país necessariamente questiona os sentidos do que vem sendo
classificado como um estado de exceção. Na trajetória de continuida-
des que tem balizado a relação entre a população negra e a arena
institucional, se pergunta: há que se falar de ruptura? O que se enten-
de por golpe? Em que medida o racismo estrutura esse contexto polí-
tico?

O racismo do golpe

Visualizar a dimensão da tragédia social brasileira passa necessaria-


mente por entender a forma como as elites operam para a garantia de
seus privilégios. Num desses raros, mas instrutivos momentos da his-
tória do país, as disputas internas dos círculos do poder extravasam as

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portas blindadas dos conchavos políticos e as batalhas se dão a céu
aberto.
No movimento do impeachment, que de maneira ilegal e ilegíti-
ma usurpou a presidência de Dilma Rousseff, os embates se dirigiram
aos termos da concentração da renda; aos interesses ávidos do agrone-
gócio; às pretensões indisfarçáveis das plataformas evangélicas; à pri-
vatização da riqueza do país. Todos esses interesses escamoteados na
retórica da corrupção que deu o salvo-conduto para as arbitrariedades
e distorções jurídicas que se seguiram.
A manobra brusca e arriscada na tomada do poder por grupos
conservadores valeu-se de um vocabulário economicista, hermético,
pouco acessível às pessoas comuns. Assistimos ao golpe pela TV estu-
pefatos com os escândalos dos desvios de dinheiro amontoados em
apartamentos e contas no exterior, seguidos de capítulos que tiveram
desde ponderações jurídicas complexas de pedaladas fiscais à compro-
vação de propriedade de apartamentos decorados. O judiciário cum-
priu seu papel em sentenciar seletivamente os grupos derrotados e a
mídia noticiou com prazer cada operação espetaculosa da então re-
dentora polícia federal.
Mas o golpe deixou um passivo de difícil superação, com um
governo ilegítimo, sem garantias de continuidade. Os desdobramen-
tos das delações fizeram com que a sangria da perseguição política
não estancasse como previsto e as peças do quebra-cabeça geraram
impaciência num mercado que vive de resultados.
Dar inteligibilidade a esse processo e tentar de alguma forma
conferir legitimidade a um governo exposto pela sua decadência ética
passou a ser demanda da ordem do dia. Nos sucessivos incidentes que
abalam as bases da já frágil estrutura institucional, a “crise” da segu-
rança pública do Rio de Janeiro foi apropriada como a cena perfeita
para uma investida publicitária que pintasse o quadro político com
cores mais amenas.
O carnaval, rotulado como caótico em cada flash televisivo, cons-
truiu a narrativa do caos. Apesar dos dados comprovarem que não

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houve aumento dos incidentes criminais na capital fluminense nas


festividades de 2018 em relação ao ano anterior, as câmeras relatavam
o perigo iminente de se andar pelas ruas de uma cidade tomada pela
“bandidagem” (RAMOS, 2018). As imagens eram muitas, eram per-
versas, eram negras. A saturação de flagrantes de jovens negros no
exercício da violência que lhes é creditada como natural e intrínseca
foi o ingrediente necessário para que a cultura punitiva cumprisse seu
papel.
No dia 16 de fevereiro de 2018, o presidente Michel Temer de-
cretou a intervenção militar das forças armadas no Rio, reproduzindo
uma fórmula desgastada, há muito sabida ineficiente, na cartilha da
segurança pública. Mas se os resultados em termos da dita contenção
da criminalidade se provaram pífios, o slogan da punição operou com
maestria. O terror deflagrado na direção da população negra margi-
nalizada da cidade pareceu finalmente dar os sinais positivos que o
governo tanto buscava.
Se os acordos de gabinetes e as intermináveis sessões do Supremo
Tribunal Federal traziam uma disputa política duvidosa envolta num
juridiquês de pouca apreensão, as medidas tomadas no Rio traduziam
a cara do golpe. Pôde-se, de forma pura e cristalina, explicar que a
agenda dos novos gestores do Brasil está conectada com a suspensão
das ações progressistas em curso, dando conta da histórica demanda
por controle e repressão. O governo gritou em alto e bom som que a
guinada conservadora aprofundaria o muro gradeado em torno do
segmento negro com a garantia das armas. Se esses novos atores ins-
titucionais não inventaram os termos dessa faceta do genocídio, que
já vinha se construindo por dentro da plataforma do dito governo
popular, a explicitação de que o derramamento de sangue negro esta-
va entre as prioridades institucionais respondeu às demandas sociais
reprimidas. Nessa dinâmica, percebe-se que, nesse longo processo de
instabilidade política, o racismo opera como o bálsamo seguro a que
se pode recorrer para amainar as ansiedades sociais.

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É essa faceta fundamental do que se entende por golpe que as


análises convencionais pautadas pelas lentes da branquitude parecem
não alcançar. As agendas da ordem econômica, materializadas em
propostas de reformas trabalhistas e tributárias obscenas, em cortes
nos orçamentos da saúde e da educação, entre outras barbaridades
anunciadas como progresso, não se sustentam fora do crivo do racis-
mo. Isso não só porque concretamente as consequências das mudan-
ças afetam de forma desproporcional a população negra no Brasil,
mas acima de tudo porque sua própria enunciação só é possível pela
sinalização de que o país será retomado pelas mãos das quais nunca
deveria ter saído. A simbologia da ordem e do progresso passa neces-
sariamente por um discurso que declare sem reticências o compro-
misso com a contenção da população negra no horizonte do extermí-
nio. É no casamento entre o discurso sedutor do liberalismo de
mercado e o terror racial que se encontram as formas de legitimação
desse empreendimento conservador.
Diante desse cenário, me interessa entender se, na perspectiva da
questão racial, a pavimentação desse contexto pode ser creditada de
forma exclusiva à tão denunciada ruptura política. Para tanto, enten-
do ser necessário sublinhar o fato de que as bases democráticas estão
implicadas com dinâmicas que garantem uma existência social dife-
renciada para brancos e negros.
Nesse tocante, a problematização das categorias antagonismo e
conflito, nos termos propostos por Frank Wilderson, ganha especial
relevância (WILDERSON III, 2003). Em sua obra, o autor sustenta
que as dinâmicas do terror de Estado se amoldam às prescrições do
racismo. Aqui, é importante pontuar que as disputas sangrentas entre
segmentos das elites têm um legado de violações e crueldade de fácil
comprovação histórica. Se atentarmos para o quadro brasileiro, per-
cebemos como a ditadura militar vulnerabilizou os corpos politizados
que ousaram desafiar suas estruturas. Nesse processo brutal, o encar-
ceramento, a tortura e o homicídio foram direcionados a segmentos
radicalizados das elites, maculando corpos brancos de forma incon-

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testável. Após anos de resistência, os registros no âmbito da Comissão


Nacional da Verdade reconhecem a magnitude do terror imposto a
esse segmento (PIRES, 2015)1. Esse processo, é importante sinalizar,
foi em grande medida desencadeado pela impressionante ascensão de
Dilma Rousseff, ex-combatente dos movimentos de resistência à di-
tadura, à presidência da República.
Esse panorama é exemplificador daquilo que Wilderson denomi-
na por conflito, como marca da ruptura dos agrupamentos brancos
na órbita de sociedades estruturadas pelo racismo (WILDERSON
III, 2003). O que se apreende da análise desse contexto é que as opo-
sições entre esses segmentos políticos têm a conciliação como seu
horizonte final. Isso porque se tratam de embates que tem a persegui-
ção de posturas políticas dissidentes como norte, não o aviltamento
gratuito de corpos taxados como perigosos à revelia de sua atuação no
mundo. A impressionante capacidade de reabilitação de uma ex-
-guerrilheira identificada com o terror para a ocupação do quadro
mais significativo da República sinaliza a força do sistema imunológi-
co da branquitude. As sangrias internas não comprometem a recupe-
ração dos tecidos que sustentam as plataformas de poder e a redenção
de grupos e indivíduos é possível com a emergência de novos arranjos
e cenários políticos.
Se pautarmos essa realidade a partir das lentes decisivas da ques-
tão racial, projeta-se um outro quadro. Nesse tocante, é importante
lembrar que as alcovas do sistema de justiça criminal no período da
ditadura militar aprofundaram os sentidos da barbárie para os que
passaram a ser classificados como “presos comuns”. Tratam-se dos(as)
encarcerados(as) cuja sangria não é contabilizada nos registros histó-
ricos no universo das vítimas do regime, e que têm suas trajetórias de

1
O apagamento da memória da resistência negra em sua oposição à ditadura militar
é capítulo a ser ainda plenamente enfrentado pelo acervo historiográfico. A esse res-
peito ver: PIRES, Thula Rafaela de Oliveira. Colorindo memórias e redefinindo olha-
res: ditadura militar e racismo no Rio de Janeiro. (Relatório de pesquisa). Rio de Ja-
neiro: Comissão da Verdade do Rio, 2015.

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dor naturalizadas como parte da agenda de segurança pública do pe-


ríodo. Aqui, não há a politização do papel que o racismo cumpre
naquele contexto de restrições. A contenção dos corpos negros era,
claramente, o ingrediente que, ao lado do controle das dissidências
políticas declaradas, compunham a agenda da repressão. Entretanto,
todo o quinhão do terror do Estado dirigido a esse segmento social é
lido como dado natural, sem qualquer tipo de impacto nas lógicas de
reparação (FLAUZINA, FREITAS, 2017)
A análise desse contexto histórico abre espaço para compreender-
mos o que Wilderson denomina como antagonismo em sua formula-
ção teórica (WILDERSON III, 2003). Diferentemente do que ocor-
re com os corpos brancos, o desencadear de lógicas de terror na
direção de pessoas negras não carece de qualquer justificativa fundada
em práticas ilícitas ou contestatórias. Trata-se de um tipo de “violên-
cia gratuita”, pontua o autor, que existe pela ameaça que a negritude
representa (WILDERSON III, 2003). Ou seja, as pessoas negras não
precisam estar engajadas em performances de rebeldia política para
serem consideradas perigosas.
Essa leitura é chave explicativa do porquê o terror, materializado
em violência e brutalização, é, até hoje, o artigo mais vendido nas
comunidades periféricas do país, sem qualquer tipo de alteração nas
consciências. O racismo, em última instância, faz da presença negra
um crime que pode ser reprimido legitimamente pelas redes trucu-
lentas do Estado. O “delito de ser negro”, como pontuou Abdias do
Nascimento, parece ser o grande crime imprescritível que justifica a
movimentação perversa do sistema de justiça criminal no país (NAS-
CIMENTO, 2014, p.290).
A compreensão das diferenças substanciais entre conflito e anta-
gonismo iluminam a debilidade das análises do golpe que não tomam
o racismo como variável central. Nessas teses míopes, o processo de
usurpação ilegal do poder é pintado como fruto de um ataque ao
Partido dos Trabalhadores e seus correligionários pela latitude de suas
ações engajadas. A conclusão é invariavelmente a mesma: a derrota

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dessa plataforma política equivale à derrota do povo e de suas aspira-


ções.
Mesmo as conjecturas que oferecem uma visão mais sofisticada
desse contexto, sinalizando para a necessidade de uma autocrítica ao
modelo adotado pelos governos petistas − nas aviltantes concessões
econômicas ao mercado e na consolidação de alianças políticas espú-
rias −, tendem a não problematizar o que está no centro nervoso
desse empreendimento: o fato de que as deformidades pautadas pelos
golpistas não estão em oposição completa ao substrato da democracia
cultivada pelos governos anteriores.
Essa assertiva se sustenta se levarmos a sério o pensamento enga-
jado que, como vimos, situa o direito à vida como o termômetro
fundamental na avaliação da experiência social da população negra.
Se o farol da vida é a métrica que determina a viabilidade de se afir-
marem os marcos democráticos, é fácil compreender que o golpe in-
tensifica os ataques e inova sua metodologia, sem alterar substantiva-
mente o trato que já estava delineado.
O que fica claro é que a marca das gestões dos governos petistas
estava afinada com a afirmação da inclusão social. Inclusão essa que
se deu pelas inúmeras investidas dos movimentos sociais nas brechas
abertas a punho nos engessados edifícios institucionais. As narrativas
de cada “vitória” na Esplanada, no que se refere aos direitos das mu-
lheres, aos direitos indígenas, LGBT, quilombolas, entre tantos ou-
tros, indicam a dificuldade de se fazer com que a retórica se transmu-
tasse em concretude. Por certo, não pactuo aqui com o discurso
cínico que nega os ganhos efetivos para a população com as políticas
sociais desenvolvidas no período. Estou chamando atenção para o
fato de que o fundamento da propaganda política foi o de converter
toda e qualquer conquista em benesse gratuita e natural das trinchei-
ras do governo dito popular. Em tempos de golpe, acentua-se a visão
romântica que nos impede de enxergar as dimensões conservadoras
que progressivamente conquistaram espaço nos celeiros que um dia
se afirmaram como de esquerda.

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Mais importante para a presente reflexão, há que se compreender


que, apesar das investidas da militância negra, a plataforma do direito
à vida foi assumida de forma meramente performática, permitindo
aos Estados atuarem em suas agendas de segurança pública na produ-
ção sistemática da morte. (FREITAS, 2015). Nessa dinâmica, o cen-
tro nervoso do empreendimento genocida jamais foi enfrentado. O
que se tentou vender como possibilidade foi uma espécie de conquis-
ta progressiva de direitos, em que o fim das baixas figurou sempre
como a próxima meta a ser atingida. Trata-se de uma espécie de res-
significação da democracia racial no país, em que a vocalização do
racismo pelas instâncias governistas serviu de escudo para a continui-
dade do extermínio. Nesse saldo, toda e qualquer crítica era tomada
como radical, todo avanço lido como generosidade, toda morte como
registro de uma tragédia inevitável.
É a apropriação dos termos dessa cartilha que os processos golpis-
tas vão aprofundar. O que ocorre nesse novo momento é uma altera-
ção fundamental da retórica institucional finalmente alinhada com as
ansiedades sociais conservadoras. Após uma década de sufocamento,
o discurso aberto das demandas do racismo, da misoginia e das fobias
LGBT pode ser bradado sem constrangimento. A reação às conquis-
tas periféricas dos movimentos sociais em suas dimensões práticas e
simbólicas está dada. Nessa paisagem, as políticas públicas essenciais
fragilmente enraizadas na agenda institucional perecem, enquanto o
centro nervoso do ataque à vida, há muito pavimentado, é incremen-
tado.
Diante disso, o que se pode constatar é que uma das disputas es-
senciais do golpe é pela metodologia em que se processa o genocídio.
Não no sentido da ruptura com seus preceitos fundamentais, como
querem alardear os defensores do governo deposto, mas pela forma
em que esse será instrumentalizado. As estruturas já ordenadas na
dinâmica institucional permitem que a gula da nova capangagem do
Estado seja saciada de forma impiedosa no extermínio da juventude,
no encarceramento vertiginoso das mulheres e em todas as outras

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mazelas deflagradas pelo arrefecimento da agenda da segurança pú-


blica no país. Mais, a fragilização de todas as outras arenas sociais
implica o sufocamento das comunidades negras, reclamando vidas
em várias frentes a partir da ampla latitude do genocídio.
Nesse cenário, o que se percebe são os distintos impactos dessa
guinada política devastadora no Brasil. Num primeiro plano, temos a
estigmatização das plataformas e dos partidos que se autoidentificam
como de esquerda, por meio da criminalização seletiva dos atores en-
volvidos em esquemas de corrupção e a humilhação pública de suas
principais lideranças. Nesse processo violento, a tentativa de desmo-
bilização desses grupos políticos passa pelo descredenciamento de
biografias e agendas associadas a tudo o que se entenda por popular.
Como contraponto, entra em cena a retórica da modernidade e do
desenvolvimento, na venda do agro como tech e da privatização como
processo de moralização das estruturas viciadas do Estado. No alveja-
mento de segmentos políticos das elites, vemos a sangria de estruturas
que levaram décadas para se sedimentar. Apesar das baixas inevitá-
veis, o que se pressente sem maiores surpresas é a busca por algum
tipo de composição que não tarda a chegar. Num ambiente de maior
polarização e embates acirrados, fica claro que a democracia encon-
trará uma nova equação para acomodar as vocações de todos os espec-
tros políticos patentes, desde que sigam abrigando a cartilha do não
desafio do eixo dos privilégios mais caros às elites.
Do outro lado desse panorama, estão as mazelas pautadas para a
população negra e suas lideranças. Nessas trincheiras, a resposta ins-
titucional se alinha ao antagonismo que não tem em seu horizonte a
possibilidade da conciliação. Nessa dinâmica perversa, a morte é o
registro que cala mais fundo na lógica do terror de Estado que vige
para esse segmento populacional em tempos de ditadura declarada,
oficiosa ou na democracia. Assim, fica fácil concluir que há uma con-
tinuidade macabra na direção dos corpos negros independentemente
do regime político constituído. A fungibilidade da negritude não re-

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presenta uma marca pontual, mas constituinte dos marcos democrá-


ticos (VARGAS, 2017).
Por isso, a demanda pela reabilitação da democracia nos termos
propostos pelos críticos do golpe é extremamente duvidosa para os
que politizam o racismo de forma consequente. Do ponto de vista da
construção de uma agenda que supere as entranhas do genocídio, o
passado próximo não é redentor do futuro que apavora. Se, de forma
compreensível, muitos(as) estiveram dispostos(as) a se alinhar prag-
maticamente às plataformas políticas “progressistas” no conturbado
processo eleitoral de outubro passado, no que diz respeito à uma teo-
rização comprometida da questão racial há que se enfrentar as contra-
dições postas sem vacilações.
Para um povo que vive sob a ameaça do extermínio, as perguntas
tornadas heréticas pelo senso comum crítico tem de prevalecer. Afinal
de contas, qual o real significado da democracia no Brasil? Que tipo
de implicações a assunção de seus preceitos tem para a resistência ao
racismo? Quais os obstáculos impostos pela cartilha constitucional à
um enfrentamento direto da violência “por todos os meios necessá-
rios”?
São essas e outras tantas formulações desconcertantes que nos
interessam postular a fim de encarar os efeitos nefastos do golpe. As
rupturas políticas dos acordos selados das elites devem servir para que
possamos interpelar a espinha dorsal do empreendimento que histo-
ricamente nos aniquila. Nas entranhas do genocídio, o golpe é uma
oportunidade de radicalização, não um chamado à nostalgia de tem-
pos duros que querem se apresentar como pacíficos.
É assim, na vocalização sem reticências da nossa tragédia, que se
pode reconfigurar as estruturas sociais que tem feito do Brasil o país
do carnaval e dos cemitérios clandestinos. É no reclame dos corpos
aviltados pela sua negritude, dos jovens friamente assassinados no
Cabula e de Marielle Franco, que pautamos nossa caminhada. É na
certeza de que a resistência negra é força motriz para a promoção da
igualdade, que andamos firmes, apostando sem vacilação nas pegadas

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efêmeras das utopias que nos ajudam a sonhar, que nos fortalecem
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