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Sexualidade feminina

Em 1948, um geneticista inglês chamado Angus Bateman publicou um


dos artigos científicos mais influentes já escritos sobre a evolução do
comportamento sexual.
Depois de estudar padrões de herança entre filhotes da mosca comum
da fruta, Drosophila melanogaster, Bateman concluiu que a divisão entre
homens “ardentes” (que procuram várias parceiras) e fêmeas “tímidas” (que
procuram apenas um parceiro) era “um atributo quase universal de reprodução
sexual” em todo o reino animal.
Bateman argumentou que, porque as fêmeas produzem
significativamente menos óvulos do que os homens produzem esperma, e
porque os ovos são fisiologicamente mais “caros”, o sucesso reprodutivo
feminino não aumentaria se a fêmea acasalasse com mais de um macho. Em
vez disso, as fêmeas deveriam se concentrar em escolher o “melhor” macho
que podiam e, em seguida, direcionar sua energia para manutenção da prole.
Por outro lado, machos que acasalavam com várias fêmeas aumentavam
grandemente o seu próprio sucesso reprodutivo.
Qualquer semelhança com o pensamento ocidental de como homens e
mulheres da espécie humana devem se comportar no sexo não é mera
coincidência.
Durante décadas, a maioria dos biólogos evolutivos basearam sua
compreensão da escolha de acasalamento do sexo feminino nesse artigo.
Problema: ele estava totalmente incorreto.
6 Revelações sobre a sexualidade feminina
Diversas outras pesquisas e evidências que vieram depois dele
descobriram que as fêmeas nem sempre escolhem o “melhor macho” em vez
de escolher a promiscuidade, e que a promiscuidade pode ser uma opção
melhor para elas em termos reprodutivos, em determinados cenários.
Em geral, hoje sabemos que, se a sociedade quiser dizer que é melhor
para as mulheres ter um só parceiro, não pode usar a ciência como argumento
a favor disso. Na verdade, a ciência está do lado de quem quiser procurar
quantos parceiros estiver a fim.
Porque Bateman estava errado
Em junho de 2012, a bióloga Patricia Gowaty da Universidade da
Califórnia em Los Angeles (EUA) e seus colegas replicaram o estudo de
Bateman e descobriram que ele tirou conclusões erradas porque sua
metodologia era severamente falha.
Sem análise genética moderna à sua disposição, Bateman conduziu
seus estudos com machos e fêmeas de linhagens mutantes conhecidas cujos
descendentes podiam ser facilmente identificados. No entanto, ele contou
apenas descendentes que tinham duas mutações – uma do pai e uma da mãe
– a fim de ter certeza do sucesso reprodutivo de uma determinada mosca.
Esta abordagem resultou em uma amostra tendenciosa, porque moscas
com algumas mutações tinham menos probabilidade de sobreviver do que com
outras. No final, o estudo que havia sido citado por mais de 2.000 outros artigos
continha um erro grotesco facilmente identificável, que só foi descoberto depois
de 64 anos.
Mas por que demorou tanto?
“Nossas visões de mundo restringem nossa imaginação”, disse Gowaty.
“Para algumas pessoas, o resultado de Bateman era tão reconfortante que não
valia a pena desafiá-lo. Acho que as pessoas apenas o aceitaram. A implicação
desconfortável é que o paradigma de Bateman foi tão amplamente citado
porque estava de acordo com suposições sobre como a sexualidade feminina
deveria ser. Essas premissas foram construídas sobre uma longa história e
havia se infiltrado na cultura ocidental de forma tão completa a ponto de ser
quase invisível”.
Sim, para elas variedade também pode ser melhor
A primatologista Sarah Hrdy estudou fêmeas do langur-cinzento-das-
planícies-do-norte, uma espécie de macaco do oeste da Índia, no final de 1970.
Desde que Darwin fez a suposição entre os biólogos evolutivos de que
as fêmeas eram tímidas e exigentes em seu comportamento sexual, enquanto
os homens eram ardentes – a ideia de que elas procuram apenas um bom
parceiro e eles várias parceiras –, ninguém sequer se propôs a examinar se o
comportamento era mesmo verdadeiro na natureza.
Quando Sarah observou langures fêmeas perseguindo ativamente
machos de grupos que nem sequer eram os seus – elas apresentaram esses
avanços sexuais em qualquer fase de seu ciclo estral, mesmo quando já
estavam grávidas -, a comunidade científica ficou escandalizada.
Os benefícios genéticos que vieram da busca de acasalamentos com
múltiplos parceiros para essas fêmeas levaram por água abaixo a antiga teoria
de que elas “tinham” que ser tímidas.
Mulheres que querem desejar: Como funciona o distúrbio de libido
feminino
Mais de 30 anos de pesquisa subsequente confirmaram as descobertas
de Hrdy e revelaram que as fêmeas de muitas outras espécies de primatas,
incluindo seres humanos, envolvem-se em uma diversidade de estratégias
sexuais para melhorar seu sucesso reprodutivo global.
Por exemplo, saguis solicitam sexo a vários machos que vão, todos,
ajudar a cuidar de sua prole; lêmures acasalam com até sete machos durante
uma única noite; macacos-prego procuram oportunidades de acasalamento nos
primeiros estágios da gravidez, provavelmente para confundir os machos sobre
a paternidade; bonobos fazem sexo com todo mundo e qualquer um etc.
Cultura x ciência
A ideia de que a mulher ou fêmea deve ter um só parceiro é totalmente
cultural e nada científica.
Em 1633, o missionário francês Paul Le Jeune escreveu do nordeste do
Canadá à sua ordem jesuíta na Europa sobre as grandes dificuldades que
estava tendo em converter os indígenas ao cristianismo. “A inconstância dos
casamentos e a facilidade com que se divorciam uns dos outros são um grande
obstáculo para a fé de Jesus Cristo”, queixou-se.
Le Jeune considerava abominável a tendência de mulheres e homens
casados de ter amantes, muitos dos quais criavam abertamente juntos os
filhos. O missionário tentou dizer que não era honroso para uma mulher amar
qualquer outra pessoa exceto seu marido, e que era péssimo para um pai nem
saber se aquele era mesmo seu filho. A resposta que a tribo deu? “Vocês
franceses amam somente seus próprios filhos; mas todos nós amamos todos
os filhos de nossa tribo”.
A literatura antropológica tem uma rica tradição de homens brancos
privilegiados expressando choque e indignação com o comportamento sexual
de outras culturas. No entanto, mesmo desde o início dos tempos, a
monogamia de estilo ocidental nunca foi a norma. Pelo contrário – só se tornou
a norma nos cantos do mundo os quais eles “conquistaram” a ferro e fogo.
O etnógrafo americano Lewis Henry Morgan, por exemplo, escreveu em
seu 1877 no seu livro “Sociedade Antiga” que um sistema de casamento
flexível era comum em sociedades “primitivas” e que a “promiscuidade [era]
reconhecida dentro de limites definidos”. O trabalho de Morgan era tão influente
na época que Darwin foi forçado a admitir em “A Descendência do Homem e
Seleção em Relação ao Sexo” que “parece certo que o hábito de casamento foi
gradualmente desenvolvido, e que a relação quase promíscua já foi
extremamente comum em todo o mundo”.
E o que a ciência tem a dizer sobre esse comportamento?
Que a promiscuidade pode valer a pena para as mulheres.
Um caso de sucesso é o estudado pela antropóloga Brooke Scelza. Nas
aldeias na bacia Omuhonga do noroeste da Namíbia, mulheres casadas dos
Himba, seminômades que vivem quase que exclusivamente da pecuária,
casam-se cedo em uniões arranjadas, mas cometem adultério com frequência
– uma atitude que não é condenada.
Das 110 mulheres entrevistadas pela pesquisadora, um terço disse que
procurou casos extraconjugais que resultaram no nascimento de pelo menos
um filho. Como não há nenhum estigma social associado a estas gestações na
sociedade Himba, de acordo com a análise de Scelza, “as mulheres que
tiveram pelo menos um nascimento fora do casamento tiveram sucesso
reprodutivo significativamente maior do que as mulheres com nenhum”.
Essa não foi a primeira vez que o adultério foi ligado ao sucesso
reprodutivo feminino. Estudos anteriores relataram evidências de infidelidade
feminina nas sociedades de pequena escala, como os Kung da África do Sul,
os Ekiti da Nigéria, os Vanatinai da Nova Guiné, os Tiwi do Norte da Austrália,
os Tsimane da Bolívia e os Yanomami do Brasil.
O que podemos aprender com as sociedades em que as mulheres
mandam
Além disso, existem sociedades na América do Sul em que
“paternidades divididas” são comuns, e as crianças com mais de um pai
morrem menos e são mais bem nutridas. Isso talvez não seja tão diferente da
situação comum de crianças ocidentais que recebem apoio tanto seu pai
biológico quanto de um padrasto atual. Essas crianças podem muito bem se
beneficiar de ter dois pais.
Enquanto uma grande diversidade de normas sexuais existe em todo o
mundo, que vão desde a monogamia rigorosamente aplicada ao poliamor, de
acordo com os estudos de Scelza, há dois contextos ambientais em que as
mulheres geralmente escolhem parceiros múltiplos e isso é melhor para elas.
A primeira é quando as mulheres têm mais apoio material de seus
parentes ou mais independência econômica. Isso pode explicar por que a
poligamia é mais comum entre sociedades de pequena escala matrilocais (em
que as mulheres permanecem em sua aldeia natal após o casamento), e
também pode explicar por que a infidelidade feminina tem aumentado nas
sociedades ocidentais conforme as mulheres ganham maior independência
política e econômica.
Sob este cenário, as mulheres escolhem parceiros múltiplos porque têm
mais opções disponíveis, podem contar com uma rede de apoio durante
períodos de transição, e têm maior autonomia pessoal.
O segundo contexto ambiental identificado é quando há uma escassez
de homens ou um alto nível de desemprego masculino (indicando uma
escassez de homens que podem fornecer apoio). Nesses ambientes, as
mulheres tendem a ter maiores taxas de gravidez na adolescência, bem como
nascimentos ilegítimos. A poligamia pode ser uma maneira de “cobrir as suas
apostas” em um ambiente instável. Ao perseguir uma estratégia sexual
ardente, as mulheres são capazes de escolher os melhores parceiros
potenciais, bem como obter o apoio de que necessitam para maximizar seu
sucesso reprodutivo.

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