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MANA 16(2): 501-522, 2010

RESENHAS

Barcelos Neto, Aristóteles. 2008. Apa- principal estilo cerimonial do Alto Xingu.
paatai. Rituais de máscaras no Alto Xingu. A respeito das relações entre rituais de
São Paulo: Edusp. 328pp. cura e rituais funerários, o etnógrafo dos
Wauja sustenta ainda que ambos constitu-
am um “continuum cerimonial” operando
Marina Vanzolini Figueiredo em prol da fabricação e da afirmação de
Doutora pelo PPGAS Museu Nacional figuras de liderança, homens e mulheres
amunaw (chefes/nobres). A publicação da
Apesar de inúmeros e importantes pes- etnografia de Barcelos Neto representa,
quisadores terem passado pelo Alto Xingu portanto, um acréscimo importante ao
desde a primeira visita de Karl von den nosso ainda parco conhecimento sobre a
Steinen, em fins do século XIX, foi apenas vida ritual xinguana.
entre as décadas de 60 e 80 que um corpo Enquanto a maioria dos trabalhos
mais sistemático de conhecimentos sobre sobre o Alto Xingu até então produzidos
a região veio a público. De lá para cá pou- enfocava a sociologia strictu sensu, isto
ca coisa nova apareceu. A etnografia de é, as relações entre pessoas e grupos nos
Aristóteles Barcelos Neto, ora publicada, níveis intra e interaldeão, Barcelos Neto
marca uma nova fase da xinguanologia, investiga as associações entre a ordem
que mostra ter acompanhado os desenvol- política wauja e a cosmologia na qual está
vimentos teóricos da antropologia feita na inserida e da qual – como demonstra o au-
Amazônia e alhures. tor – não pode ser isolada. As relações en-
O autor pesquisou entre os Wauja, tre humanos e não-humanos revelam-se
grupo aruak já estudado por Emilienne assim elemento fundamental das relações
Ireland, cujos trabalhos, no entanto, são intra-humanidade, ao mesmo tempo em
pouco divulgados no Brasil. Além de que as noções de humano e não-humano
oferecer mais um ponto de vista sobre o entram em questão. Explorando o que já
conjunto multiétnico xinguano, um dos havia notado Ellen Basso sobre a política
principais méritos do livro de Barcelos kalapalo (carib xinguanos) a respeito da
Neto é prover o registro detalhado de uma associação entre o patrocínio de rituais
modalidade ritual xinguana até agora de cura e a acumulação de prestígio que
pouco estudada, a saber, ritos ligados ao condiciona a fixação de certos indivíduos
processo de cura de doenças provocadas em posições de poder, Barcelos Neto se
pelo contato com os seres apapaatai – os propõe a analisar como se dá tal associa-
quais, ao lado dos rituais funerários e ção, ou quais são os princípios que garan-
de iniciação, podem ser vistos como o tem a eficaz transformação de relações
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com espíritos patogênicos em relações dono do ritual, isto é, patrocinador da


internas ao mundo humano. festa e distribuidor de alimentos. Esta
O autor se vale para tanto do modelo posição, por sua vez, lhe permite exercer
desenvolvido por Alfred Gell para anali- um aspecto central e definidor da mora-
sar a arte melanésia. Segundo Gell, uma lidade humana: a generosidade. Como
antropologia dos objetos se caracteriza nos lembra o autor, mais do que ideal
pelo estudo das relações sociais que tais de humanidade, a generosidade define
objetos engendram ou nas quais estão o ideal da chefia wauja, de modo que a
inseridos; em outras palavras, os objetos condição de dono ritual seria fundamen-
são aí analisados como agentes sociais de tal à constituição de figuras de liderança.
pleno direito, isto é, enquanto termos e Valendo-se do conceito explorado por
operadores de relações sociais. Parte do Fausto, Barcelos Neto entende o ritual
esforço analítico de Barcelos Neto se volta como processo de familiarização dos
para demonstrar como isto se passa entre entes não-humanos: se antes a alma do
os Wauja, tanto em relação às máscaras doente era raptada para residir com os
e aos instrumentos musicais produzidos apapaatai em suas moradas na floresta,
para representar os apapaatai durante os a partir do ritual aqueles entes é que são
ritos, quanto em relação aos objetos ofere- chamados a compartilhar do alimento
cidos pelos participantes do ritual ao ex- humano – a comida oferecida pelo ex-do-
doente como pagamento pela comida que ente, transformado em dono/patrocinador
este distribui durante a cerimônia. Dado da festa, e consumida pelos dançarinos
que no Alto Xingu quase nada se passa que representam/encarnam, através do
sem que haja circulação de objetos entre uso de máscaras, instrumentos sonoros
humanos e destes com não-humanos, e outros objetos, os apapaatai raptores.
temos aqui um importante movimento O ritual é descrito, enfim, como processo
em direção a uma teoria geral dos objetos de aparantamento por comensalidade,
naquela sociocosmologia. no qual um ente canibal patogênico é
O livro é composto de três partes. convertido em agente protetor.
A primeira visa esclarecer o fundo cosmo- Na segunda parte do livro, quando
lógico subjacente ao processo de adoeci- se dedica à análise dos aspectos formais
mento pela ação patogênica de apapaatai das máscaras e sua associação com os
e ao processo de cura. Na segunda parte, a apapaatai representados, Barcelos Neto
ritualística é descrita com minúcia, desde demonstra que, sem obedecer a uma
o diagnóstico xamânico que a condiciona gramática com elementos formais de
até a realização das cerimônias; aqui o conteúdo fixo, o aspecto das máscaras
autor analisa tanto a sociologia dos atores rituais corresponde somente à visão do
envolvidos quanto os aspectos formais dos xamã, em seu transe provocado pelo
objetos produzidos em função do ritual. tabaco, do modo como estão vestidos
Na terceira parte, Barcelos Neto procura os entes patogênicos envolvidos num
descrever de que modo o ritual seria dado processo de adoecimento. Os seres
mobilizado no sentido da manutenção da apapaatai conjugam, segundo descrição
ordem política intra-aldeã. do autor, uma identidade não-humana
O argumento central de Barcelos Neto – onça, sapo, fogo, trovão, canoa etc.
é que, através dos ritos de cura, a potência – uma roupa-instrumento aparente
de apapaatai é apreendida pelo doente, apenas para o xamã – flautas, clarinete,
que se converte de vítima da predação máscara – e uma aparência humana com
canibal dos agentes não-humanos em a qual se mostra ao doente em sonhos
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ou nos transes causados pela doença. sar as transformações como passagens


A noção de apapaatai, assim, associa forma inequívocas de uma categoria a outra,
humana e não-humana – dupla aparência seja em processos reversíveis, seja em
replicada na estilística das máscaras, que processos irreversíveis. O que resulta
reproduzem uma síntese visual ora de an- desse estilo descritivo é uma exploração
tropomorfia, ora de monstruosidade, como insuficiente do fato de que, se por vezes
demonstra o autor, e elementos (“roupas”) as noções de espírito, gente e animal são
que operam como modulações dos seres empregadas para designar classes ou ti-
patogênicos que atacam a pessoa. Longe pos de ser – assim podemos falar de entes
de esgotar o panteão de monstros wauja, indubitavelmente apapaatai, como certas
a lista de apapaatai fornecida por Barcelos figuras monstruosas da floresta ou do
Neto não deve obscurecer o fato de que rio – em muitos contextos estes mesmos
as variedades desses seres são em poten- termos designam modos ou estados do
cial infinitas – qualquer coisa podendo ser, definidos sempre em relação ao seu
revelar-se contingencialmente agente contexto de apreensão.
patogênico. A mesma espécie de rigidez classi-
Isto posto, não se justifica certa rigi- ficatória reverbera na interpretação de
dez na descrição da cosmologia nativa, Barcelos Neto sobre as implicações so-
na primeira parte do livro. A distinção ciopolíticas do ritual de apapaatai. Assim
entre animais em si e animais-agentes, como parece ser verdade em relação à
indicada no texto pela representação ideia de espírito, talvez nos fosse possível
dos primeiros com letra minúscula (p. afirmar que a noção de chefe se comporta
ex., “sapo”), enquanto os segundos são ora como categoria – um tipo de pessoa, o
designados pela maiúscula (o apapaatai nobre, em oposição aos não-nobres – ora
“Sapo”), faz perder de vista o alto grau como estado, em relação de continuidade,
de indeterminação da identidade de neste último caso, com a noção de gente:
qualquer ser ou coisa com que se entre o chefe seria uma pessoa plenamente
em contato naquele universo. No mesmo constituída, um estado máximo da perso-
sentido, quando – ao transcrever o relato nitude (como sugeriu Viveiros de Castro
feito por um Wauja do sonho em que viu para os Yawalapití, aruak xinguanos).
as pessoas que estavam lhe fazendo mal O que escapa à leitura de Barcelos
– coloca a palavra pessoa entre aspas, Neto é o duplo efeito que a captura de
avisando num colchete que se trata ali apapaatai no ritual pode produzir, algu-
de apapaatai, o autor não parece estar mas vezes reiterando, outras conjurando
levando em consideração que talvez a chefia como classe: se permite que
para o Wauja os apapaatai sejam de fato chefes afirmem uma condição adquirida
pessoas e não “pessoas”, ou seja, que o por outros meios (como a posse de nomes
conceito de pessoa aplicado pelo Wauja de chefes recebidos de parentes da se-
talvez tenha um significado diferente gunda geração ascendente), o patrocínio
do conceito mobilizado na descrição de rituais possibilita, por outro lado, que
etnográfica. indivíduos considerados não-chefes, ou
Vale questionar também a tabela em chefes menores, se afirmem como líderes.
que o autor classifica diferentes “mo- Pois um ponto frequentemente enfatizado
dos de transformação” dos seres. Num na literatura sobre o Alto Xingu, é que
mundo onde humano e não-humano nunca há um acordo absoluto quanto a
muitas vezes não se comportam como quem é e quem não é chefe, amunaw, por
classes, talvez não seja o caso de pen- direito. Um dos problemas da análise de
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Barcelos Neto parece ser a definição de dentais, Bazin aproxima-se do “Outro” e


chefe/nobre (amunaw) a partir da noção dissolve a alteridade radical que funda-
de substância nobre, de tal modo que menta a antropologia moderna.
o status de distribuidor/generoso/chefe O livro está organizado em quatro
seria a confirmação de algo dado previa- partes temáticas nas quais, ao longo dos
mente. Mas isso que estaria dado não é, 17 textos compilados, são discutidas ques-
com efeito, claramente definido. Nesse tões ligadas à alteridade e à diferença, à
sentido, uma discussão aprofundada da interpretação e à descrição, à história e
noção de pessoa e dos processos de fa- sua produção, aos objetos e sua mise en
bricação corporal, explicitando sobretudo scène. Apenas o artigo “Le chalet basque”
a relação entre a constituição de chefes (capítulo IV, parte I), que trata dos proces-
e a constituição de não-chefes entre os sos de etnificação, é inédito, e seu formato
Wauja, seria do maior interesse. A au- ainda inacabado, se comparado ao rigor
sência de tal análise, contudo, não tira dos demais, fica evidente. Vale ressaltar
os méritos da obra, cuja qualidade reside ainda que o livro foi prefaciado por Alban
justamente no fato de que, ao responder Bensa (antropólogo) e Vincent Descombes
com competência determinadas questões, (filósofo), ambos eminentes professores da
suscita outras. École des Hautes Etudes en Sciences So-
ciales de Paris. Na primeira parte do texto
de abertura, Bensa recupera a trajetória
de seu colega – e, sobretudo, amigo –
BAZIN, Jean. 2008. Des clous dans la Jocon- Bazin e marca a importância crítica que
de: l’anthropologie autrement. Toulouse: ele imprimiu no campo da antropologia
Anacharsis. 606 pp. francesa; Descombes, por sua vez, retoma
as críticas formais que Bazin faz ao tra-
balho etnológico e, ao aplicá-las à noção
Pablo Antunha Barbosa de cultura, afirma que esse conceito foi
Doutorando do PPGAS/Museu Nacional/UFRJ – usado como uma ferramenta que buscou
EHESS/Paris superar o nível de descrição e transformar
arbitrariamente “a observação etnográfica
“Pregos na Gioconda”: esta seria a tra- em conhecimento etnológico” (:23).
dução literal do título do livro de Jean Na primeira e na terceira partes do
Bazin, publicado postumamente em 2008. livro – “Le bal des sauvages” e “Interpré-
Este título evocativo, que também o é de ter ou décrire”, respectivamente – Bazin
um dos artigos compilados, emerge num expõe teórica e metodologicamente seu
primeiro instante como uma metáfora projeto antropológico. De certa forma, os
enigmática; a representação de um pesa- artigos ali reunidos aparecem como um
delo infame e herético para qualquer con- contramanual etnográfico, do qual emer-
sumidor e admirador de artes ocidentais. gem abertamente o debate filosófico entre
No entanto, essa imagem surreal é ape- hermenêutica e pragmática e os seus
nas um dos muitos subsídios que Bazin desdobramentos teóricos e práticos para
encontra para fazer uma “antropologia as ciências humanas. Nos textos “Inter-
de outro modo”, como sugere o subtítulo préter ou décrire. Notes Critiques sur la
muito mais sereno do livro. Ao forçar connaissance anthropologique” (capítulo
uma representação insólita, ao cogitar o III, parte III), “Questions de sens” (capí-
impensável e ao fazer da Joconda apenas tulo IV, parte III) e “L’anthropologie en
mais um dos fetiches dos fetichistas oci- question: altérité ou différence” (capítulo