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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

MUSEU NACIONAL

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL

“A MORTE NO SEU DEVIDO TEMPO”:

Disputas e controvérsias judiciais envolvendo pacientes terminais

Bárbara Rossin Costa

Rio de Janeiro

Fevereiro de 2017
“A morte no seu devido tempo”:

Disputas e controvérsias judiciais envolvendo pacientes terminais

Bárbara Rossin Costa

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-


Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional,
Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito
parcial à obtenção do título de Mestre em Antropologia
Social.

Orientador: Luiz Fernando Dias Duarte

Rio de Janeiro

Fevereiro de 2017
“A morte no seu devido tempo”:

Disputas e controvérsias judiciais envolvendo pacientes terminais

Bárbara Rossin Costa

Orientador: Luiz Fernando Dias Duarte

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia


Social, Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito parcial à
obtenção do título de Mestre em Antropologia Social.

Aprovada em

Banca Examinadora:

______________________________________________

Prof. Dr. Luiz Fernando Dias Duarte (Presidente)

PPGAS/MN/UFRJ

______________________________________________

Prof.ª Dr.ª Adriana de Resende Barreto Vianna

PPGAS/MN/UFRJ

______________________________________________

Prof.ª Dr.ª Rachel Aisengart Menezes

IESC/UFRJ

______________________________________________

Prof. Dr. Edmundo Pereira (Suplente)

PPGAS/MN/UFRJ

______________________________________________

Prof.ª Dr.ª Waleska de Araújo Aureliano (Suplente)

ICS/UERJ
CIP - Catalogação na Publicação

Rossin, Bárbara
R835m A morte no seu devido tempo: disputas e controvérsias
judiciais envolvendo pacientes terminais / Bárbara
Rossin. -- Rio de Janeiro, 2017.
106 f.

Orientador: Luiz Fernando Dias Duarte.


Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do
Rio de Janeiro, Museu Nacional, Programa de
Pós Graduação em Antropologia Social, 2017.

1. Morte. 2. Saúde. 3. Paciente Terminal. 4.


Bem morrer. 5. Tempo. I. Duarte, Luiz Fernando
Dias, orient. II. Título.

Elaborado pelo Sistema de Geração Automática da UFRJ com os


dados fornecidos pelo(a) autor(a)
AGRADECIMENTOS

Aos meus pais, por todas as batalhas financeiras, emocionais e espirituais


incansavelmente enfrentadas para que eu chegasse até aqui. Ao Marco Antonio da Silva
Mello, por ter sido o primeiro a me incentivar no estudo da morte e o morrer. Ao meu
orientador Luiz Fernando Dias Duarte, pela inspiração, confiança, compreensão e
cuidadosa mirada sobre cada pequeno parágrafo aqui escrito. À Adriana Vianna e Rachel
Aisengart Menezes, por terem tão gentilmente aceitado avaliar e comentar este trabalho.
Ao Tadeu, por me lembrar todos os dias que alguns laços construídos ao longo da vida
podem ser mais fortes do que aqueles estabelecidos ao nascer: você é meu irmão,
moleque! Aos amigos da Galerinha Bacana: Aline, Bael, Bruno, Cabelo, Dudu, Fernanda
(Mozin), Gabo, Juliane, Laura, Marcella, Marco, Mylena e Pedro, por fazerem desses
anos de escrita em frente ao Word menos amargos e solitários. Devo a minha sanidade a
vocês! Aos queridos Allan e Thamires, por transbordarem amor e generosidade de tantas
formas. Ao Guilherme Conde, por me auxiliar juridicamente e por ter tornado possível o
desarquivamento dos autos analisados nesta dissertação. Aos amigos, funcionários e
professores do PPGAS, por tamanha dedicação e carinho.
RESUMO

ROSSIN, Bárbara. “A morte no seu devido tempo”: disputas e controvérsias judiciais


envolvendo pacientes terminais. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social. Rio
de Janeiro: Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,
2017.

O objetivo desta dissertação é fornecer uma reflexão sobre a gestão jurídica e


médica da vida terminal. Os dados aqui descritos foram coletados de três processos
judiciais, advindos dos Tribunais de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) e São Paulo
(TJSP). Compreendo os artefatos jurídicos como vestígios, como extensões
indissociáveis de corpos e pessoas, assim como pistas valiosas que nos direcionam a
certas ontologias e visões de mundo. As tramas que se amarram ao longo dos autos não
apenas nos conferem um acesso às técnicas de registro e arquivamento dos cotidianos
jurídico e administrativo, mas uma entrada às práticas e formas de fabricação, reificação
e materialização de destinos, realidades e histórias de vida. Com base nesse conglomerado
de rastros e linhas vitais que compõe a tessitura dos processos, espero descrever o modo
como os movimentos e ritmos biográficos são narrados, decompostos e registrados, assim
como compreender como são construídas e defendidas por autoridades, especialistas e
pacientes as controvérsias sobre os limites éticos das ações terapêuticas, sobre a correta
temporalidade do viver, sobre a autonomia relativa ao próprio corpo e, por fim, sobre o
que seria uma boa morte e uma vida digna para pacientes em condição terminal.

Palavras-Chave: Paciente Terminal, Vida, Morte, Saúde, Corpo, Autonomia, Tempo,


Biopoder, Medicina, Direito.
ABSTRACT

ROSSIN, Bárbara. “Death in due time”: legal disputes and controversies involving
terminal patients. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social. Rio de Janeiro:
Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.

The purpose of this work is to provide a reflection about legal and medical
management of terminal life. The data described here was collected from three judicial
processes, originally from the courts of justice of Rio Grande do Sul (TJRS) and São
Paulo (TJSP), in Brazil. I understand the legal artefacts as inseparable extensions of
persons and bodies, valuable traces of certain ontologies and world perspectives. The
plots created throughout the court records show us not only registration and archiving
methods, but how to think over practices and forms of fabrication, reification and
materialization of destinies, realities and life stories. Based on this conglomerate of traces
and lines that compose the texture of these processes, I hope to describe how the
movements and rhythms are narrated, decomposed and registered, as well as understand
how controversies about the ethical limits of therapeutic actions, the right temporality of
life, the fair autonomy of one’s own body and concepts as “good death” and “decent life”
for terminal patients are constructed and defended by authorities, specialists and patients.

Keywords: terminal patients, life, death, health, body, autonomy, time, biopower,
medicine, law.
SUMÁRIO

Introdução 1

1. A papelada de uma vida: a impressão de sujeitos e verdades em um processo


judicial 6

1.1 Pelas trilhas do papel, pelas malhas do texto: etnografando documentos e discursos 6

1.2 O processo de um processo: a materialização de artefatos jurídicos e realidades 12

1.3 A arqui-textura documental 19

2. Um tempo para se morrer: paliando existências entre a natureza e a cultura 29

2.1 Sobre os tempos modernos 29

2.2 Historicizando a morte no Ocidente 34

2.3 A morte no seu tempo certo 40

3. Dignificando existências, santificando corporalidades: a tutela da vida no


Biopoder 57

3.1 Fazendo Viver, Deixando Morrer: A gestão da vida na Era do Biopoder 57

3.2 A morte como um projeto de bem-viver 62

3.3 Em defesa da dignidade da pessoa humana 72

3.4 Em defesa da santidade da vida humana 78

Considerações Finais 86

Referências Bibliográficas 91

Anexo I 99
Introdução

Descritos pelo sociólogo francês Robert Hertz em 1917 (1990), os Dayaks de


Bornéu, assim como outros tantos grupos na Indonésia, administram e organizam a morte
em dois momentos distintos, por meio de duplas exéquias que podem se arrastar por
meses ou até mesmo anos. Na primeira etapa cerimonial, o corpo morto é depositado
provisoriamente em um lugar distinto ao da sepultura, quase sempre em um local isolado,
à exceção de chefes e pessoas ricas, mantidas no interior de suas casas com belas
vestimentas para a apreciação pública. A alma, assim como o corpo, não é conduzida à
sua última morada (para viver ao lado dos antepassados) imediatamente após a morte: ela
vaga pela selva ou pelos lugares que costumava visitar e frequentar até que sejam
celebradas as últimas exéquias, aquelas que finalmente garantirão a entrada ao mundo
dos mortos. Enquanto as cerimônias fúnebres definitivas não são realizadas, o falecido e
seus familiares são expostos a graves perigos, ao ataque de espíritos malignos e à recepção
de influências nocivas. Durante esse período de transição, suas existências são
consideradas como ambíguas, precárias e marginais, experiências lúgubres e clandestinas
que os inserem no meio de dois mundos – aos quais não podem pertencer legitimamente.
“A morte não é uma questão de momento”, mas um processo gradativo de libertação da
alma em direção ao mundo dos mortos, o que somente ocorre com a total decomposição
das partes moles do corpo e a emancipação completa das impurezas.

Ao sul da Indonésia, entre os Toraja, as duplas exéquias também são praticadas.


(Koubi, 1979 apud Rodrigues, 2006). Como no caso anterior, é “preciso tempo para
morrer”, porque a morte biológica não é considerada a morte verdadeira. A morte
definitiva somente ocorre quando o morto atinge o domínio dos mortos e passa a ser nele
aceito e integrado - uma passagem nunca instantânea. Enquanto o período de transição
durar, o “morto” é considerado um doente, alguém que precisa de cuidados, que necessita
ser lavado, alimentado, vestido, enfeitado e exposto em cerimônias públicas até a evasão
total de seu princípio vital. A prática da dupla inumação ocorre ainda de modo semelhante
entre os Bororo, grupo indígena do Mato Grosso. Segundo Lévi-Strauss (1957), os rituais
fúnebres são iniciados com a disposição do cadáver em uma fossa coberta por ramos,
construída bem no centro da aldeia, onde o corpo deverá permanecer até que a carne se
putrefaça completamente e se converta em apenas esqueleto. Após essa primeira etapa,
os ossos são lavados no rio, pintados e ornados com mosaicos de penas coladas para,

1
enfim, serem colocados dentro de um cesto que seguirá pelo curso d’água - caminho que
levará a alma em direção ao reino dos mortos.

A divisão entre o viver e o morrer na tradição bororo não é construída com base
na continuidade ou parada das atividades corporais, mas a partir do momento em que se
percebe que a pessoa é portadora de um mal incurável. Assim que uma grave e
irremediável doença se manifesta, a morte é constatada e o doente/morto transferido para
as margens da aldeia – prática de exclusão também corriqueira entre os brou do Camboja
(Trubetzkoy, 1979 apud Rodrigues, 2006). No período em que esteve em contato com os
bororos, Lévi-Strauss pôde conhecer o caso de uma jovem tomada como morta por seus
pares, ainda que seu corpo permanecesse no canto de uma cabana ardendo em febre. Suas
descrições etnográficas, assim como aquelas fornecidas por outros etnólogos, informam-
nos quão diversas podem ser as fronteiras erigidas entre o início e o término da existência
humana e quão variáveis podem ser as temporalizações e consumações do morrer.
Especificidades que, como já percebido por Hertz no início do século XX, forçam-nos a
vislumbrar a morte não apenas como um evento de ordem biológica, mas sobretudo como
um fenômeno de dimensões “sociais” - perpassado por obrigações, moralidades, afetos e
crenças.

A tensão constante entre aquilo que já foi e o que ainda é, entre o não-ser e o ser,
entre a ficção e a realidade, parece ser um eixo central também para a moderna medicina
científica (tendo em vista o desenvolvimento de novas tecnologias médicas capazes de
transplantar órgãos, reproduzir gametas artificialmente e prolongar a vida humana
indeterminadamente), assim como para este trabalho, pretendido enquanto relato
autoantropológico.

O termo autoantropologia é considerado adequado por Marilyn Strathern (2014)


para designar toda e qualquer antropologia realizada no contexto social que a produziu -
para as pesquisas que apresentam continuidade entre o produto descritivo, realizado pelo
antropólogo, e o que as pessoas da sociedade estudada produzem em suas descrições
sobre si mesmas. Entre as premissas básicas por detrás das pesquisas de antropólogos em
suas próprias sociedades, segundo a autora, estariam a maior reflexividade e
autoconsciência: os antropólogos poderiam se tornar mais conscientes sobre si mesmos e
sobre o modo como se relacionam com o mundo, ao mesmo tempo em que poderiam
tornar complexos os “sensos-comuns” - com a vantagem de não precisar transpor
barreiras linguísticas e culturais em suas empreitadas.

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Ainda que correndo o risco de revelar o que todos já sabiam a partir de um
conjunto de mistificações desnecessárias, o etnógrafo poderia ser observado por aqueles
que estuda como alguém com quem se compartilha os mesmos construtos culturais e
modos de analisar e explicar os comportamentos. Ambos concordam que termos como
“sociedade” e “cultura” podem ser pontos de partida para pesquisas; ambos estão
habituados a conviver com o vocabulário de “papéis”, “relações”, “burocracia”. O que o
etnógrafo parece fazer, por esse sentido, é dar um relato especializado sobre essas ideias,
lançando uma luz diferente sobre as pessoas, de modo a iluminá-las e fazê-las
compreender melhor suas próprias realidades. Para o público leitor (sobretudo seus
próprios pares na academia), por outro lado, o etnógrafo poderia ser vislumbrado como
alguém cujo trabalho será sempre comparado e colocado em relação a um corpo de
conhecimentos preexistente e a um conjunto de estratagemas teórico-metodológicos.

Dada a especificidade na produção do conhecimento em casa, os relatos


oferecidos pelos autoantropólogos poderiam ser comparados ainda a relatos sobre o
próprio estratagema da disciplina da qual fazem parte: uma narrativa sobre estruturas,
modelos e sistemas que evidenciam o conhecimento da sociedade sobre ela mesma, a
partir de seus próprios modos de autoexpressão. Nesse contexto, desenvolver consciência
sobre os mecanismos de convenção e de criação de estratagemas produziria também,
como consequência, o conhecimento sobre os antropólogos como produtores de
estratagemas: em primeiro lugar, como participantes de uma vida social baseada em
estratagemas; em segundo lugar, como produtores ativos na construção do conhecimento
sobre essa vida social.

Compreendo as análises empreendidas ao longa desta dissertação como


autoantropológicas não somente porque meus interlocutores compartilham das mesmas
técnicas de organização e processamento do conhecimento e subjetividade, mas também
porque tomo como ponto de partida algumas experiências afetivas pessoais. Os eventos
que antecederam a morte de meu avô paterno William tiveram fundamental importância
para o desenvolvimento deste trabalho. No início de 2008, meu avô foi internado em um
hospital particular da zona oeste do Rio de Janeiro, sob suspeita de infecção da próstata.
Após a confirmação do quadro infeccioso e a exitosa medicalização, novos sintomas
foram surgindo, associados, dessa vez, ao aparelho intestinal. Por meio de exames,
verificou-se a existência de uma isquemia, também conhecida como enfarto do
mesentério - disfunção que leva o fluxo sanguíneo intestinal a ser radicalmente diminuído

3
por conta de trombose, embolia ou vasoconstrição das artérias mesentéricas. O tratamento
definitivo para a revascularização da região foi idealizado cirurgicamente, de modo que
fossem removidas as partes necrosadas e desobstruídas as vias sanguíneas. O
procedimento, contudo, não foi bem-sucedido. A localização exata das obstruções e
necroses não pôde ser determinada durante o ato cirúrgico, inviabilizando qualquer
perspectiva de cura. Com o paulatino esgotamento das atividades intestinais, outros
órgãos, em sequência, também passaram a entrar em falência – entre eles, pulmões e
coração. Ao longo de uma semana, meu avô sofreu 3 paradas cardiorrespiratórias, sendo
reanimado em todas elas, ainda que seu quadro clínico fosse irreversível e terminal. Após
as insistentes reanimações, o processo de necrose, iniciado no intestino, alastrou-se pelo
corpo, tornando-o irreconhecível, excessivamente inchado e enegrecido nas
extremidades. Ainda que esgotadas as possibilidades curativas, os procedimentos
terapêuticos apenas foram descontinuados após ameaças de meus familiares à unidade
hospitalar. O desfecho dessa morte tão adiada e sofrida imediatamente provocou em mim
uma série de dúvidas e indagações sobre as práticas e experiências médicas. Quais seriam
os limites das intervenções terapêuticas? Como deveriam ser administradas as vidas
humanas, especialmente aquelas em condição terminal? Quando interromper os
tratamentos curativos? Eles podem ser interrompidos? Quem deve responder pelos
pacientes nos casos de perda a consciência? Que direitos possuem os pacientes durante
uma internação?

O objetivo desta dissertação é oferecer uma reflexão sobre a gestão jurídica e


médica da vida terminal, tendo como base os relatos biográficos e autobiográficos
encontrados em três processos judiciais, advindos dos Tribunais de Justiça do Rio Grande
do Sul (TJRS) e São Paulo (TJSP). Pelo emaranhado de eventos, histórias e memórias
que se entrecruzam nos documentos selecionados, espero compreender como são
construídas e defendidas por autoridades, especialistas e pacientes as controvérsias sobre
os limites das ações terapêuticas, sobre a correta temporalidade do viver/morrer, sobre a
autonomia relativa ao próprio corpo e, por fim, sobre o que seria uma boa morte para
enfermos em condição terminal. Tomo as controvérsias como ponto de partida, por serem
fontes especiais que nos proporcionam os recursos necessários para o rastreio de conexões
sociais (Latour, 2000). Os enredos e tramas, aos quais elas nos direcionam, funcionam
como valiosas pistas para a descoberta de novas e velhas ontologias, novas e velhas
formas de se relacionar com o corpo, a vida, a doença, o outro. Caminhos e camadas de

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memórias e afetividades que nos guiam, simultaneamente, em direção a uma situação e
uma atitude, a um momento e a uma prática (Ricoeur, 2012), assim como a um difícil
equilíbrio entre o distanciamento e o engajamento pessoal.

No primeiro capítulo da dissertação, reflito sobre a feitura e a composição de um


processo judicial, levando em consideração a forma como pessoas e coisas vêm sendo
relacionadas na produção antropológica, bem como os desafios teóricos e metodológicos
circunscritos ao trato de papéis. Nessa seção, procuro discutir a importância de se
reconhecer os documentos como peças etnográficas. Parto do princípio de que eles não
são coisas autocontidas, mas um conglomerado de linhas e fluxos vitais que se
entrecruzam e que fazem emergir realidades, direitos, identidades, verdades, penalidades
e destinos. Por enfim, faço uma exposição inicial das histórias de vida de Irene Oliveira
de Freitas, João Roque de Atouguia e João Carlos Ferreira, os personagens principais
deste trabalho, apresentando brevemente seus lugares de fala, os campos aos quais fazem
parte, as relações de poder que os envolvem e as gramáticas emocionais que mobilizam.

No segundo capítulo, busco construir um panorama histórico dos modos de


administração e organização do tempo e da morte no Ocidente, a fim de analisar o impacto
causado pelo desenvolvimento das tecnologias médicas (especialmente aquelas
prolongadoras da existência) nas vidas dos pacientes incuráveis. Em seguida, com base
nas controvérsias relatadas nos autos, apresento as percepções de autoridades, pacientes
e familiares sobre os limites das ações terapêuticas, sobre a correta temporalidade
existência humana, sobre o que seria uma vida digna e sobre a oposição “natureza” e
“cultura”.

No terceiro capítulo, discorro sobre as estratégias biopolíticas de controle e


otimização dos corpos individuais e coletivos, desenvolvidas desde fins do século XVIII
e aperfeiçoadas ao longo do século XX. Posteriormente, desenvolvo de maneira mais
aprofundada a delicada tensão erigida nos processos entre a garantia de valores
fundamentais comuns a todos os cidadãos (capazes de fornecer os enquadramentos éticos
sobre os quais as leis se inspiram) e os espaços da liberdade e autonomia dos sujeitos
(esferas que permitem a cada um a escolha de seus atos e o direcionamento de sua vida
particular), dando especial atenção aos dilemas jurídicos e médicos que circundam a
autonomia corporal e existencial, a integridade psicofísica e a regulação e tutela da vida
humana.

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Capítulo 1

A papelada de uma vida:


a impressão de sujeitos e verdades em um processo judicial

1.1 Pelas trilhas do papel, pelas malhas do texto: etnografando documentos e


discursos

A distinção entre pessoas e coisas sempre ocupou um lugar central nas instituições
e procedimentos jurídicos da cultura ocidental. No direito contemporâneo, tal oposição é
tratada como um reflexo da estrutura ontológica do mundo, como uma divisão conceitual
que possibilita a apreensão da realidade, tal como é dada. De acordo com Alain Pottage
(2012), a origem dessa arquitetura ontológica poderia ser alocada nos primórdios do
direito romano (a base do direito ocidental), onde se estabelecia uma ligação entre pessoas
(personae) e coisas (res) por meio de um conjunto de transações e formas legais cabíveis,
capazes de prescrever todas as combinações relacionais possíveis entre ambos os termos.

Embora assumidas de forma silenciosa e convicta, as técnicas de reificação e


personificação dos sistemas legais do Ocidente vêm passando por fortes hesitações desde
as últimas décadas do século XX. As novas perspectivas e desafios, proporcionados
especialmente pelos avanços na biomedicina, lançaram as instituições jurídicas a um
árduo processo de revisão dos domínios e limites relativos às pessoas e coisas, assim
como às esferas da natureza e cultura. Os supostos “fatos naturais” de procriação
passaram a ser assistidos por avanços médicos e tecnológicos (como no caso da
reprodução assistida), ao passo que os “fatos sociais” de reconhecimento de parentesco
passaram a ser assistidos pela lei (STRATHERN, 1992). E, de modo semelhante, a
administração da morte, a detecção e administração de “riscos”, a manutenção e
otimização da saúde do corpo (ROSE, 2013), as transformações do paciente em
consumidor, a doação de órgãos, as terapias celulares, a dependência de equipamentos
altamente tecnológicos e a molecularização da vida possibilitaram novas combinações
entre os domínios do “artificial” e “natural”, reacendendo a necessidade de reavaliação
das fronteiras que separam pessoas e coisas.

Atentos às controvérsias e dilemas suscitados por essa biomedicina focalizada na


superação de destinos biológicos, na manipulação e aperfeiçoamento dos corpos
humanos, muitos antropólogos passaram a se dirigir aos modos de invenção e
6
gerenciamento das demarcações ontológicas entre pessoas e coisas (STRATHERN, 2005;
POTTAGE, 2012; BEVILAQUA, 2010).Podemos citar brevemente as obras de Marylin
Strathern - a respeito de embriões em processos de reprodução assistida, e de Ciméa
Bevilaqua - direcionada ao tratamento jurídico do ser humano após a morte. No trabalho
de Strathern, somos apresentados a uma oscilação ontológica, na qual os embriões podem
variar de potenciais pessoas (quando fazem parte de um tratamento de fertilidade) a não-
potenciais pessoas (quando são descartados ou quando estão congelados), a depender da
natureza da relação que os atualiza. De modo análogo, o trabalho de Ciméa Bevilaqua
nos direciona aos diferentes graus de inalienabilidade da personalidade em casos de
subtração de cadáver e exumação indevida (seguida de perda ou remoção inadequada para
algum ossuário), ao evidenciar sentenças que ora postulam uma identidade entre pessoa
(sujeito de direito) e ser humano; e ora se afastam de uma inspiração jusnaturalista,
constituindo pessoas e coisas sem afirmar uma correspondência necessária com
qualidades tidas como inatas ou naturais. Duas reflexões que, num certo sentido, elegem
o corpo (ou partes dele) como o meio ou ocorrência sobre a qual a distinção entre pessoas
e coisas pode ser negociada.

Entre as primeiras e mais célebres tentativas de dar conta dessa separação binária
na filosofia e teoria social, destaca-se a obra de Aristóteles dedicada à estética e geração
dos objetos. No modelo hilemórfico de criação, proposto pelo filósofo há mais de dois
milênios, imagina-se que a produção de artefatos é concretizada no momento em que
forma (morphé) e matéria (hyle) se encontram. Sob essa perspectiva, reproduzida até hoje
em debates dos mais variados campos, a forma é a ideia imposta por um agente, guiado
por determinados fins ou objetivos, sobre uma matéria passiva e inerte. Nesse modelo,
pressupõe-se uma divisão dualística elementar, que distancia a energia do humano da
energia da matéria: o agente é percebido como aquele capacitado a atuar sobre o mundo,
aquele que dispõe de intencionalidade, criatividade, propriedade intelectual e vontade,
por contraposição ao objeto – entidade passiva, manipulável, mero veículo ou canal para
a agência dos humanos.

Na tentativa de reequilibrar o modelo hilemórfico, teóricos têm despontado no


cenário acadêmico com propostas direcionadas ao poder de agência dos objetos,
insistindo que o mundo material não se constrói passivamente pela subserviência às
intenções humanas. Parte-se do princípio de que, assim como as pessoas podem agir sobre
os objetos que as rodeiam, de igual modo podem os objetos agir de volta, permitindo que

7
as pessoas façam ou alcancem aquilo que, de outro modo, não conseguiriam. É o que
propõe, por exemplo, Alfred Gell (1998) ao conceber os objetos tal como pessoas. Para o
autor, seria necessário abandonar a perspectiva que consagra aos objetos um mero lugar
de passividade e manipulação, para se referir à origem e à manifestação da agência como
um fato que ocorre no interior de um centro formado (em sua maioria) por objetos-agentes
que se entrelaçam de maneira profunda. Em sua proposição, os agentes podem ser
classificados segundo duas formas: 1) os agentes primários, seres que atuam de maneira
intencional e se distinguem das meras coisas; 2) os agentes secundários (artefatos,
bonecas, carros, obras de arte etc.), que, por meio dos agentes primários, conseguem
distribuir sua agência no centro de causalidade das ações. Tem-se, dessa forma, o objeto
como origem e destino de agência social dentro de um quadro de relações sociais
específicas (MERENCIO, 2013), ao mesmo tempo em que permanece como um mero
mediador ou recipiente da substância-agência atribuída aos sujeitos humanos. Ainda que
defendendo uma noção de agência distribuída, o que se afirma ao fim é a preponderância
do humano sobre o objeto pela manutenção das dicotomias objetividade x subjetividade,
materialidade x imaterialidade - já que a agência é uma força outorgada apenas aos
indivíduos.

Por um caminho um pouco diferente, Bruno Latour (2012) também confere aos
não-humanos um lugar central no debate sociológico. Tomando como ponto de partida as
controvérsias narradas por seus atores, o autor concebe o “social” como uma
performance, um princípio de conexões e associações que circulam por entre estreitos
canais – criados e alterados constantemente por agentes transformadores. Pela chamada
“teoria do ator-rede” (TAR ou ANT, pela sigla em inglês de actor-network theory),
influenciada fortemente pela “sociologia das associações” de Gabriel Tarde, qualquer
coisa que modifique ou faça diferença no curso da ação pode ser considerada um ator ou
actante, de modo que a agência não esteja concentrada em mãos humanas, mas distribuída
por todos os elementos (humanos e não-humanos) conectados ou entrelaçados num certo
campo de ação (rede). A potencialidade de agência, aqui, não é presumida de
intencionalidade, subjetividade e vontade (tal como na proposição de Gell): os não-
humanos são incluídos nas redes de associação por sua capacidade de autorizar, permitir,
estimular, influenciar, interromper ou proibir ações. Como o próprio autor pondera, a
TAR “não pressupõe uma ‘reconciliação’ da famosa dicotomia objeto/sujeito”
(LATOUR, 2012, p. 113), pois o que está em jogo não é a imputação de uma “simetria

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absurda” entre humanos e não-humanos, e sim o não reconhecimento de uma assimetria
dada ou prévia entre ação humana intencional e mundo material de relações causais.

Para Tim Ingold, contudo, “a ideia de que objetos têm agência é, na melhor das
hipóteses, uma figura de linguagem, imposta a nós pela estrutura de uma linguagem que
exige de todo verbo de ação um sujeito nominal” (2012, p. 34). A ênfase da literatura na
agência material estaria atrelada, sobretudo, a redução das coisas a objetos e sua
correspondente negação dos processos vitais. Tomar a vida das coisas pela agência seria
o mesmo que realizar uma dupla redução: de coisas a objetos, e de vida a agência –
reducionismos que nos levariam diretamente ao modelo hilemórfico aristotélico -
reprodutor da divisão entre matéria e forma, ao invés de crítico.

O grande problema na persistência da agência, nesse sentido, estaria relacionado


às tentativas de reanimar um “mundo de coisas já morto” ou tornado passivo pela quebra
dos fluxos de substâncias que proporcionam a vida. Para o autor inglês, a relação
fundamental não deve ser buscada entre a matéria e a forma, mas entre materiais e forças.
A ontologia que defende está centrada em processos de formação, em fluxos, contra-
fluxos e transformações dos materiais, ao invés de produtos finais ou estados da matéria.
Os caminhos ou trajetórias, através dos quais a prática improvisativa e criativa se
desenrola, não ocorreria dentro de redes e conexões, mas por linhas ao longo das quais as
coisas são permanentemente formadas (e nunca completadas). Inspirando-se nos
trabalhos de Deleuze, Guattari e Lefebvre, Ingold abandona a metáfora das conexões e
redes para aproximar-se de uma alegoria das malhas: um redirecionamento que nos leva
ao reconhecimento de trajetórias que se entrelaçam (por suas linhas-fios) de maneira
profunda e que não param de constituir a textura do mundo. E é assim que Ingold
estabelece sua diferenciação entre objetos e coisas: o objeto se colocaria diante de nós
como algo consumado, repleto de superfícies externas e congeladas; a coisa seria o lugar
onde vários “aconteceres” se entrelaçam, onde são tecidos vários agregados de fios vitais:

Consideremos um prédio: não a estrutura fixa e final do projeto do arquiteto,


mas o prédio real, repousando sobre suas fundações dentro da terra, fustigado
pelo clima, e suscetível de receber visitas de pássaros, roedores e fungos.

A casa real nunca fica pronta. Ela exige de seus moradores um esforço contínuo
de reforço face ao vaivém de seus habitantes humanos e não humanos, para
não falar do clima! A água das chuvas pinga através do telhado onde o vento
carregou uma telha, alimentando o crescimento de fungos que ameaçam
decompor a madeira. As canaletas estão cheias de folhas apodrecidas, e, como
se não bastasse, lamenta Siza (1997, p. 48), “legiões de formigas invadem o
batente das portas, e há sempre cadáveres de pássaros, ratos e gatos”. Não
muito diferente da árvore. A casa real é uma reunião de vidas, e habitá-la é se

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juntar à reunião – ou, nos termos de Heidegger (1971), participar com a coisa
na sua coisificação.(INGOLD, 2012, p. 30).

É nesse ponto que Ingold mais se distancia de Latour. Em seu esquema, as coisas
se transformam, entrelaçam-se umas às outras, movem-se, crescem e transbordam
justamente por estarem vivas, e não por terem agência. Por detrás de um aparente estado
de permanência e solidez, o que se observa é uma pluralidade de entidades cujas vidas
não podem ser contidas e confinadas em formas finais fechadas. Existir e habitar o mundo
teria a ver precisamente com se juntar a esses processos de formação, a fluxos e
contrafluxos permeáveis, instáveis e inacabados, posto que as entidades que compõem e
constroem os fios dessa densa malha estão continuamente fugindo ao controle e às
supostas superfícies que as englobam, entornando e escorrendo ao longo do caminhar. Ao
antropólogo, então, caberia a tarefa de seguir esses materiais em constante efervescência.
Um trabalho de observação e escrita itinerante que se apresente enquanto captura
momentânea desses múltiplos emaranhados de rastros, movimentos, encontros e fluxos
que atravessam a “arqui-textura” do mundo.

Na medida do possível, será esse o caminho a ser trilhado nesta dissertação. Pelo
conglomerado de fios-vitais tecidos ao longo de 1.127 páginas de três processos judiciais
- divididos em sete volumes e arquivados em três diferentes cidades brasileiras (Porto
Alegre, São Paulo e Viamão) – espero proporcionar uma certa entrada a três histórias de
vida, que apresentarei a seguir. Parto do princípio de que esses documentos devem ser
tomados como coisas vivas, que estão circulando por entre caixas, pastas, mãos, olhos,
corpos; servindo de abrigo para fungos, bactérias, alimento para roedores, traças, cupins,
carunchos, besouros. Materiais que estão num movimento triplo: de crescimento,
multiplicação e definhamento, observáveis no ganhar de novas páginas, laudos,
assinaturas, rubricas, certidões, prontuários, carimbos, adesivos de autenticação, fotos,
recursos, petições de desarquivamento, rearquivamento; nas inumeráveis disseminações
de si na forma de cópias (virtuais e físicas), anexos em outros processos (como
jurisprudência), reproduções em sites e livros de direito, transcrições em dissertações de
antropologia; no desintegrar de seus corpos, no amarelar, envelhecer, no alterar de suas
ligações e fibras celulósicas (oxidadas, quebradas) a cada encontro com a luz, umidade,
a cada toque de mão humana ou a cada a gota de café descuidadamente derramada sobre
sua superfície.

No entanto, faz-se necessário dizer que não almejo realizar aqui uma descrição da
feitura, gestão e circulação desses materiais pelas tramas burocráticas de departamentos,
10
fóruns e cartórios. Até mesmo por uma impossibilidade física – já que esses processos
chegaram até mim digitalizados, como cópias virtuais de documentos localizados em
gavetas e arquivos com os quais não tive a oportunidade de esbarrar, desarquivados e
duplicados por pessoas com as quais não tive acesso direto. Meu objetivo, portanto, será
diferente, porém não menos instrutivo: compreender como são construídas e defendidas
as controvérsias presentes nos autos, assim como esmiuçar o modo como os movimentos
e ritmos biográficos são narrados, decompostos e registrados ao longo de um documento
oficial. Nessa empreitada, minha malha será o próprio texto, tratado aqui não como mera
composição verbal, mas como um agregado de linhas vitais que nos inserem em múltiplas
e variadas temporalidades. Os discursos, frases e palavras serão as trilhas pelas quais
seguirei - caminhos que funcionam como indexes da existência de inúmeras vidas e como
rastros de encontros, desencontros, assimetrias e hierarquias.

Parto do princípio de que os papéis não são coisas autocontidas, mas um


conglomerado de ramificações e vidas que se entrecruzam e que fazem emergir
realidades, direitos, identidades, penalidades. Fragmentados por entre eventos, memórias,
sedimentos, materiais, os corpos e papéis não estão confinados em uma única coordenada
espaço-temporal, mas distribuídos e partilhados por esses diferentes lugares e tempos
simultaneamente. Assim como a teia se apresenta como uma “extensão do próprio ser da
aranha à medida em que ela vai trilhando o ambiente” (INGOLD, 2012, p. 40), acredito
que os papéis devam ser percebidos como os fios com os quais tecemos nossas vidas e
conduzimos nossa percepção e ação no mundo. Um sentido que privilegia a dimensão
processual desses acórdãos - a sua contínua incompletude e abertura que sempre desliza
no que parece estar fixo.

A partir desses movimentos irradiantes de resistência e acomodação, o vínculo


que se estabelece entre pessoas e papéis não se dá apenas pela representação, mas por
uma ideia de contiguidade e/ou extensão (PEIRANO, 2006). Em “De que serve um
documento?”, Mariza Peirano torna evidente essa proposição, ao relatar que

quando o indivíduo perde a sua ‘identidade’, essa experiência é verdadeira em


vários sentidos. Há um elemento de magia nessa associação: o indivíduo torna-
se cidadão por sua carteira de identidade, mas, ao se descobrir sem a carteira,
ele de fato não possui mais a identidade (que é civil e pública). (PEIRANO,
2006, p. 34)

De maneira semelhante, Letícia Ferreira discorre sobre corpos não identificados


no Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro, chamando a atenção para os perigos e

11
ameaças circunscritas aos homens desconhecidos - indivíduos que não puderam ser
controlados e reconhecidos pela máquina estatal após o óbito. Destituídos de documentos,
cartas, diários e outros dispositivos de inscrição de si na realidade, esses indivíduos sem
nome encarnariam a imagem da incógnita; a impossibilidade de se deixar conhecer, de
manifestar laços sociais e de pertencer a alguma coletividade. A ausência do papel traduz-
se em ausência de biografia, de trajetória e caminhar. E é por esse motivo que levo a cabo
a percepção dos artefatos jurídicos como vestígios, como extensões indissociáveis de
corpos e pessoas, assim como pistas valiosas que nos direcionam a certas ontologias e
visões de mundo.

1.2 – O processo de um processo: a materialização de artefatos jurídicos e


realidades

Como todas as disciplinas acadêmicas, a Antropologia está ancorada num campo


de significados que precede a sua formalização. Ainda que sempre diante de novas
condições históricas de performance, seus discursos, arsenais de tropos, temas e
afirmações legítimas estão fundamentados em fronteiras e pressupostos construídos
muito antes de seu próprio nascimento. De acordo com Trouillot (2003), a gênese dos
constructos antropológicos poderia ser alocada ainda na Renascença - período em que
proliferavam narrativas de viajantes, navegantes e escritores sobre “povos selvagens”
entregues a um “estado de natureza” em locais longínquos do globo terrestre. A partir
dessas descrições, que combinavam conteúdo etnográfico com inspeções coloniais e
utopias ficcionais, foram desenhados o quadro dentro do qual o mundo histórico poderia
ser lido e o novo lugar de onde a história pode ser feita e contada. Um traçado iniciado,
portanto, desde pelo menos o século XVI e que passou a costurar e demarcar uma certa
geografia da imaginação ocidental.

No entanto, esse lento e contínuo processo de invenção que criaria o próprio


Ocidente e o seu alter ego incivilizado e imperfeito, o seu “outro” diametralmente oposto
a ser conquistado e catequizado, certamente não teria sido possível sem a presença de
alguns artefatos, em especial os documentos e papéis. Ao fornecer uma certa narrativa
sobre o passado e ao mediar projeções políticas, econômicas e sociais sobre o presente e
o futuro, os papéis e arquivos se estabeleceram enquanto veículos de acesso às

12
informações sobre a diferença, alteridade e ao conhecimento acerca de um tipo particular
de subjetividade (CUNHA, 2004). Além de fonte de poder e controle, as descrições
realizadas por especialistas da colônia, “antropólogos de gabinete” e/ou “antropólogos de
varanda” ajustaram-se a uma ordem específica (a ordem ocidental, pautada na razão e
cultura contra a ordem do resto do mundo, pautada na natureza e a-historicidade) e
introduziram modos de legitimar a dominação, violência e a (suposta) superioridade racial
e cultural das metrópoles.

Paradigmáticos nas práticas do mundo moderno (RILES, 2006), os documentos


foram e ainda são materiais fundamentais nos regimes de autoridade, autenticação e
produção de verdades (FERREIRA, 2013). Por sua materialidade, categorias e
procedimentos da administração pública podem ser levados a cabo, classificando e
canonizando o conhecimento de que o Estado necessita e facilitando as tarefas de
identificação, agregação, contagem, taxação e controle da população (PEIRANO, 2006).
Sua relação estreita com o aparato colonial e sua potencialidade teórica em questões
relativas à produção de realidades logo foi percebida pelos antropólogos. Desde meados
dos anos 1980, a antropologia tem devotado aos documentos e arquivos um lugar
privilegiado em suas pesquisas, tornando-os objetos de interesse e o centro de suas
análises e preocupações. Entre as pesquisas brasileiras dedicadas a esse objeto de estudo,
destaca-se o trabalho pioneiro de Mariza Peirano (1986, 2006), focado nos modos de
produção da cidadania e identidade nacional por meio de documentos e registros (título
de eleitor, carteira de identidade, carteira de trabalho), assim como a pesquisa de Adriana
Viana (2002, 2014) sobre processos de guarda de menores pela Justiça da Infância e
Juventude, a de Olivia Cunha (2005) acerca de arquivos, documentos pessoais e coleções,
e a de Sergio Carrara (1998) sobre laudos, documentos e processos criminais de um
Manicômio Judiciário. Mais recentemente, uma nova geração de antropólogos vem dando
continuidade às investigações sobre papéis, entre eles: Letícia Ferreira (2011), com
pesquisa direcionada aos relatórios e documentos policiais de pessoas desaparecidas,
Laura Lowenkron (2012, 2014), com o foco em inquéritos envolvendo tráfico de pessoas
e pedofilia, e Lucas Freire (2015), atento aos documentos necessários para a
requalificação civil de pessoas transexuais – para citar apenas alguns exemplos.

Embora possamos notar uma familiaridade histórica da antropologia com os


documentos e arquivos, a relação entre ambos ainda hoje permanece marcada por certas
tensões, desconfortos e desafios teóricos e metodológicos. Parte desse relativo

13
estranhamento estaria relacionado às ficções míticas continuamente atualizadas a respeito
do trabalho de campo, “inclusive em algumas de suas vertentes mais reflexivas e
modernosas, com ênfase às vezes excessiva na subjetividade do pesquisador em seu
encontro com os interlocutores” (VIANNA, 2014, p. 45). A impossibilidade de se estar
lá, de se realizar um campo malinowskiano, fundamentado no contato direto com os
observados e no compartilhamento de experiências e fluxos de vida, funcionaria como
um estigma, uma marca que anunciaria a deficiência e fragilidade de textos parciais,
contaminados e superficiais. A legitimidade e autoridade de tais pesquisas estariam, sob
essa visão, ameaçadas, uma vez que o arquivo inviabilizaria o método consagrado pela
disciplina e borraria as fronteiras que a separam de outras cátedras, como a história,
museologia e arquivologia. Uma escolha, portanto, que aproximaria a antropologia de sua
era sombria de gabinetes e varandas, marcada por descrições artificiais e silenciamento
das vozes e consciências nativas. “Por esse viés, a pesquisa em arquivo aparece como
uma antítese da pesquisa de campo, e sua transformação em etnografia é vista com
ceticismo” (CUNHA, 2005, p. 293).

Entre as limitações e dilemas que sobressaem nos trabalhos com documentos e


papéis, destaca-se ainda a impossibilidade de diálogo com o material (ou a sua
possibilidade puramente experimental, pautado em técnicas não exatamente próximas às
do trabalho de campo tradicional), a parcialidade no contato com os informantes e as
subsequentes lacunas e silêncios presentes nas narrativas e registros. Ao contrário do que
normalmente ocorre durante uma observação participante, o acesso ao real e às vidas
relatadas nos autos e arquivos é alcançado de forma fragmentada, despedaçada, por entre
retalhos de biografias e discursos emocionados. Contudo, como nos lembra Adriana
Vianna: “é no desenho sinuoso da produção de suas faltas e parcialidades que devemos
procurar sua riqueza, sua força como construto (...), como marcas que nos indicam os
mundos de onde emergem, mas também os novos mundos que fazem existir” (VIANNA,
2014, p. 47). Reconhecer os documentos como peças etnográficas implicaria, assim, em
compreendê-los como produtos e produtores de realidades, destinos, temporalidades;
significaria “levar a sério” os rastros daqueles que os produzem, as suas condições de
produção, os lugares de fala, as hierarquias, as instituições às quais pertencem, os campos
dos quais fazem parte, as relações de poder que os envolvem, as gramáticas emocionais
que mobilizam.

14
Nesse sentido, uma etnografia de papéis se mostra particularmente valiosa, na
medida em que nos oferece um acesso às técnicas de registro e arquivamento do cotidiano
jurídico e administrativo (FERREIRA, 2011), bem como uma entrada aos modos de
fabricação e materialização de histórias de vida, destinos e realidades. Por essas tramas,
que se amarram ao longo de um auto judicial, podemos descortinar as ferramentas com
as quais o aparato da administração pública consegue descrever um certo estado das
coisas, afirmar um fato qualquer, relacionar pessoas e coisas, executar ações, prescrever
demandas, conceber versões de sujeitos, ocorrências e afetividades.
No que diz respeito à tessitura dos fios e linhas contidas nos acórdãos, a seleção,
composição e costura das biografias usualmente é realizada por pessoas com diferentes
atribuições e posicionamentos dentro de uma escala de distribuição de poder. Os
personagens que compõem o quadro de autoridades e partes legítimas nos acórdãos são
bastante definidos: nos casos em primeira instância, tem-se o juiz, o autor da ação, o réu,
os advogados de acusação e defesa (procuradores do autor e do réu, respectivamente),
membros do Ministério Público e, em casos onde se faça necessário, a presença de
testemunhas e peritos – indivíduos que oferecerão novas pistas e laudos para a produção
de verdades; nos casos em segunda instância, tem-se a ação julgada uma segunda vez por
um colegiado de desembargadores (os assim denominados juízes de segunda instância),
distribuídos por Câmaras, que se somam aos mesmos sujeitos já presentes na primeira
fase do processo.
Porta-voz autorizado durante a mediação do conflito, o juiz pode ser percebido
como a personificação física de um corpo social maior, um procurador das ideias e
crenças coletivas acumuladas ao longo do tempo (BOURDIEU, 1996). Por meio de seu
corpo, performance, investidura e discurso, o magistrado atua como representante do
Estado, da sociedade que o engloba e o reconhece como procedente, dos sujeitos que
disputam uma certa representação do real. Trata-se de um ofício dedicado à conversão do
conflito em diálogo, com vistas ao alcance da “verdade” e “justiça”, a partir de um
conjunto de regras e doutrinas consideradas imparciais.
Os intérpretes autorizados na análise das leis se dividem em dois grupos distintos:
1) os doutrinadores, normalmente, professores e acadêmicos encarregados do ensino e
análise das regras em vigor; 2) os magistrados, que se voltam para a avaliação prática das
leis aos casos particulares que chegam aos tribunais. O conjunto de todos os casos e
decisões jurídicas é denominado jurisprudência – o corpus de precedentes reconhecidos
e disponíveis para consulta, que funciona como um campo de possibilidades de onde se

15
pode sacar a solução para uma controvérsia. Isso significa que uma decisão judicial deve
ser manifesta não apenas como o produto de uma voz e consciência solitária, mas como
consequência de uma empreitada coletiva, de um encontro de vozes, opiniões e reflexões,
proferidas anteriormente por outros juízes e doutrinadores.
Ao decidir sobre um conflito ou ao realizar negociações acerca de coisas ou
pessoas, o juiz representa a forma da palavra autorizada, pública, oficial, enunciada em
nome de todos (inclusive do Estado) e perante todos, a partir de uma série de atos descritos
por Bourdieu (1996) como de instituição ou nomeação: atos que tendem a consagrar ou
a legitimar alguma ordem; fazer desconhecer como arbitrário e reconhecer como legítimo
e natural um limite convencional. Pelos conceitos e palavras cuidadosamente escolhidas
por esses porta-vozes habilitados, discursos emocionais e performáticos são tecidos nas
linhas documentais, fabricando e legitimando consigo certos princípios de visão e divisão
do mundo, uma nova definição de fronteiras e uma nova percepção sobre o real (mais
digna e ajustada à real “natureza” das coisas). Mais do que disputar o monopólio do
direito de produzir direitos - por meio da interpretação de um conjunto de textos que
consagram a visão legítima e justa do mundo social -, os juízes manejam o próprio poder
de reger fronteiras, limites e barreiras que delimitam e dividem o “real” e que cristalizam
um certo modo de unir e separar, congregar e excluir, sacralizar e profanar. Nesse sentido,
a disputa travada com artigos, laudos, petições, depoimentos pessoais, leis, prontuários,
certidões e atestados, acaba por transbordar os próprios tribunais, uma vez que o que está
em jogo não é apenas o ganho de uma causa, mas a definição e afirmação de uma
determinada realidade, um certo modo de existir, estar e perceber; o poder de “fazer ver
e fazer crer”, de fazer conhecer e reconhecer, de impor classificações legítimas do mundo
social.

Por essa razão, os processos não apenas questionam ou remodelam o formato das
relações expressas ao longo de seus autos, mas também constituem pessoas, coisas,
estabelecem estatutos, cristalizam certas ontologias, morais, valores, símbolos. À luz da
legislação e de valores oriundos da experiência social dos julgadores e sedimentados sob
a forma de técnica especializada na doutrina e na jurisprudência (BEVILAQUA, 2010),
cada sentença acaba carregando consigo uma força atualizadora das normas jurídicas. A
cada novo caso, a cada novo julgamento, circunstâncias, conjunturas e eventos inéditos
se entrecruzam, submetendo as regras formais e aparentemente rígidas dos códigos legais
à força inventiva de cada interpretação magisterial. Seguindo por essa trilha, o juiz, ao

16
invés de mero executante das leis a um caso particular, se afigura como uma entidade
com relativa autonomia de interpretação das regras escritas e dos textos consagrados no
campo (doutrina). Seu trabalho se assemelha ao ofício de tradução, em que “o tradutor é
obrigado a construir o significado na língua original para depois imaginá-lo e moldá-lo
uma segunda vez nos materiais da língua com a qual ele está transmitindo” (MAHARAJ;
apud HALL, 2009: 40). Por esse exercício de conversão dos dramas narrados por
médicos, pacientes e advogados em textos compreensíveis na linguagem jurídica, o que
ocorre é uma abertura dialógica que continuamente faz deslizar o que parece fixo: pelas
brechas e frestas das regras jurídicas e pelas interpretações particulares de cada
magistrado as fontes passam a ser adaptadas às novas circunstâncias, passam a ser
desestabilizadas, proporcionando a articulação de novos signos e possibilidades - num
movimento de contínua atualização, que sempre acrescenta algo novo no meio: o
elemento inventivo atualizador das regras.

A ideia de invenção, aqui, deve ser imaginada nos termos propostos por Roy
Wagner (2014): como uma força criativa, como um fenômeno mais geral da criatividade
humana que possibilita a construção de convenções num movimento continuamente
dialético, atado simultaneamente a impulsos de fixidez e fuga. No sentido defendido pelo
autor, o conceito faz referência não a um apanhado de atos ou ideias originais e
inovadoras (que se contrapõem a pensamentos e arranjos já estabelecidos e habituais),
mas a uma dinâmica de contínua renovação - operada a cada pequeno ato de expressão, a
cada ato de fala ou comunicação - que inevitavelmente relativiza, afrouxa e reinterpreta
o “real”. Em sua proposição, seria possível concebermos todos os seres humanos como
pesquisadores de campo e inventores da cultura - pessoas que controlam o choque cultural
das experiências cotidianas mediante uma série de regras, tradições, leis e fatos
construídos. Parte-se do princípio, portanto, de que não há ação sem invenção e de que
não há cultura sem esses indivíduos inventivos e transformadores, guiados por um
conjunto de convenções e contextos convencionais1. Pelo trabalho da invenção, as
orientações, expressões de vida, moralidades, gramáticas, costumes, percepções (as cores,
sons, tempo, espaço) e sensibilidades poderiam ser atualizadas, ao passo que, pelo esforço

1
Para Wagner, alguns contextos serão reconhecidos pelas culturas como mais básico ou primários, sendo
representados como inatos ou ainda sendo formados por propriedades de algum modo essencialmente
objetivas ou reais. Uma ilusão que seria necessária (parte do viver em uma cultura) e que forneceria a
sensação e impressão de absoluto e fixidez em um mundo em constante devir e transformação.

17
da convenção, esses aprendizados e conhecimentos, então, poderiam ser decompostos
num mundo reconhecível e assimilável por todos.

A relação entre a invenção e a convenção seria estabelecida de uma maneira


dialética, como uma tensão ou alternância, sob a forma de diálogo, entre duas concepções
ou percepções simultaneamente contraditórias e solidárias entre si. Tendo em vista que o
coletivo e convencional só poderia ser retido e reconhecido pelos indivíduos através de
seus filtros particulares (de suas formas singulares de enxergar o mundo), assim como as
características individuais e particulares de cada indivíduo só poderiam ser reconhecidas
como tais se filtradas pela malha do convencional (do social ao redor), o que Wagner
propõe se assemelha a um jogo de mão dupla, realizado por entre movimentos de
resistência e acomodação, interdependência e contradição. Uma possibilidade para
compreender o convencional e seu fundo não-convencional não como unidades que
persistem por si mesmas, mas como fluxos que continuamente são reinventados uns a
partir dos outros, num processo de combinação que inevitavelmente leva à relativização
dos controles e dos domínios do particular e coletivo.
Nesse processo de relativização e reinterpretação das convenções, o que se coloca
em discussão são as próprias cosmologias, as imagens mentais, os atos de percepção e
apreciação, de conhecimento e reconhecimento do mundo – bens disputados por
indivíduos que investem seus interesses e pressupostos. A atuação sobre o mundo,
portanto, dá-se também pela atuação sobre sua representação, conhecimento e
classificação. Pela malha de registros, protocolos e carimbos dos processos judiciais,
narrativas sobre sofrimento, dor, angústia, família, corpo, morte e vida vão sendo tecidas
por sujeitos que disputam uma certa representação da normalidade. O que entra em jogo
nos tribunais e acórdãos é a capacidade de ratificar e canonizar um determinado estado
de coisas, um modo de se relacionar com o corpo, de compreender as relações sociais no
interior da unidade doméstica, de se associar a um certo estilo de vida, em relação ao qual
todas as práticas diferentes tendem a aparecer como desviantes, patológicas ou
degeneradas. Levar a cabo a análise antropológica de artefatos jurídicos, dessa maneira,
torna-se uma atividade fundamental, não apenas por fornecer um acesso privilegiado a
esses modos de atualização da realidade, concretizados por figuras de autoridade (como
juízes, promotores e advogados), mas também por revelar as estratégias de pessoas
comuns na reinvenção de suas próprias narrativas de si, de seus relatos sobre o passado e
o presente nos discursos emocionados das linhas documentais.

18
Os “discursos emocionais” são assim classificados nesta dissertação por ter como
referência a proposta de Catherine Lutz e Lila Abu-Lughod (2008). Reivindicando um
novo olhar sobre o campo das emoções, capaz de focar na constituição, no domínio da
emoção e nas práticas de fala situadas emocionalmente, a proposta contextualizadora das
autoras estará interessada nas múltiplas formas de dar sentido e força às emoções, a partir
de sua localização e performance no reino do discurso público. Sob forte influência
foucaultiana, o termo discurso é percebido como práticas que sistematicamente formam
os objetos aos quais se referem. Não seriam simples reflexos da experiência ou
pensamento, mas práticas sociais atreladas a relações de poder e sociabilidade,
constituidoras de realidades e verdades; uma forma de ação social que cria efeitos no
mundo, efeitos que são lidos de uma maneira culturalmente informada, por uma audiência
específica. Segundo Lutz e Abu-Lughod, a atenção direcionada aos discursos conduziria
a uma visão mais complexa, múltipla e fluida dos possíveis significados nas trocas e falas
emocionais, tornando o conceito de emoção menos monolítico e engessado e levando-nos
a refletir sobre como os discursos são informados pelos valores e temas culturais, sobre
como ele opera num controverso campo da atividade social, como ele afeta o campo e
como serve de idioma para a comunicação não apenas de sentimentos, mas de conflitos
sociais, de papéis de gênero. Ao invés de tratar os discursos como meros veículos de
expressão, opta-se por compreendê-los como atos pragmáticos e performances
comunicativas, reproduzidas nos indivíduos como experiências incorporadas, a partir de
um conjunto de técnicas e posturas corporais que moldam hábitos e disposições.

1.3 – A arqui-textura documental

Além de instituir, legitimar ou negar determinados estados, valores e ideias, o


documento nos coloca diante de uma certa condição de possibilidade para o alcance da
interação. Normalmente, uma condição submetida às intempéries da burocracia, às
temporalidades funcionais do Estado, a um conjunto de práticas, atos, especialistas,
peritos e profissionais de diversas áreas, conformadores de um corpus legítimo e coerente
e reprodutores dos ideais “modernos” da racionalidade, impessoalidade, funcionalidade e
formalismo (WEBER, 1963). Do ponto de vista burocrático, a correta confecção de um
processo prevê a existência de um conjunto geral de documentos anunciadores,

19
descritivos e comprovadores de uma certa causa, ocorrência ou opinião. Sua
materialidade, usualmente, é viabilizada pela composição dos seguintes papéis:

1) A “petição inicial” - registro que apresenta o pedido e suas especificações, o


valor da causa, os fatos e fundamentos jurídicos que justificam a demanda, as
provas com as quais o autor pretende demonstrar sua verdade (laudos,
prontuários, recortes de jornal, artigo científicos) e um compilado com os
nomes, prenomes, estado civil, profissão, número de inscrição no Cadastro de
Pessoas Físicas (CPF) ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ),
endereço eletrônico, domicílio e residência do(s) autor(es) e do(s) réu(s).
2) A “contestação” - espaço reservado ao réu para a exposição de sua defesa2,
das razões de impugnação da ação e da produção de contraprovas, com o
objetivo de atestar a incompetência, a ausência de legitimidade, o incorreto
valor de causa e/ou a indevida citação realizada na proposição da petição.
Mediante o acolhimento desse material, o juiz se torna capaz de elaborar o
“saneamento e organização do processo”, o que significa delimitar as questões
de fato, resolver pendências, definir a distribuição do ônus da prova e designar
uma audiência.
3) A “audiência”, composta pela transcrição das provas orais fornecidas por
peritos, assistentes técnicos, autor(es), réu(s) e testemunhas perante o juiz,
com o intuito de conciliar as partes envolvidas e alcançar a resolução do
conflito.
4) A “sentença”, produzida num prazo máximo de 30 dias (após a audiência),
contendo o relatório com os nomes dos envolvidos, a identificação do caso, a
suma do pedido e da contestação, o registro das principais ocorrências havidas
no andamento do processo, a indicação das custas, os fundamentos jurídicos
utilizados pelo juiz na compreensão das questões, o dispositivo escolhido para
resolução das demandas e, por fim, a decisão - sentenciada de acordo com o
“princípio da boa-fé” na intenção de acolher ou rejeitar os pedidos executados
pelas partes (réu e autor), bem como estabelecer uma punição civil ou penal.

Nos casos em que há solicitação de “recurso”, ou seja, de questionamento da


sentença proferida pela parte vencida, por um terceiro prejudicado ou pelo Ministério

2
Nos casos em que o réu não contestar a ação, o mesmo será declarado “revel” e as acusações serão
presumidas como verdadeiras pelo juiz.

20
Público (fiscal da ordem jurídica), uma carta de “apelação” ou “agravo de instrumento”
é elaborada com a meta de expor novamente os fatos e as razões para a solicitação de
reforma, esclarecer obscuridade ou eliminar contradição, suprir omissão ou corrigir erro
material e requisitar uma nova decisão perante o juiz do Tribunal de Justiça - nominado
desembargador. Havendo discordância sobre a decisão de segundo grau, é possível ainda
recorrer à última instância jurídica do país: o Superior Tribunal de Justiça, comandado
por 11 ministros do Supremo Tribunal Federal e reservado a ocorrências que versem
exclusivamente sobre controvérsias de caráter repetitivo ainda não decididas pelas
instituições citadas (STF e STJ), interpretações divergentes sobre um determinado
dispositivo de lei, graves violações de direitos humanos e risco de descumprimento pelo
Brasil de tratados internacionais sobre o tema, crimes praticados por autoridades
(governadores, conselheiros de tribunais, desembargadores etc.), mandato de segurança
ou habeas corpus.

Reunidas em pastas numeradas, adesivadas com as informações básicas do


processo (a câmara ou cartório, a classe, subclasse, o assunto, o número de folhas e as
partes envolvidas), carimbadas e rubricadas por escrivães e/ou chefes de secretaria, as
inscrições obrigatórias são acrescidas ainda de muitos outros registros e intervenções
singulares, que fornecem aos autos densidade, organicidade, dramaticidade e
particularidade: laudos médicos e psicológicos, prontuários, recortes de jornal, artigos
científicos, bilhetes, fotografias. Por essa arqui-textura documental, as vidas expostas
conseguem romper as narrativas generalizantes e massificadoras da lei, assim como a
impessoalidade e o formalismo da máquina burocrática. Nos autos que me proponho a
analisar, um outro documento ainda se destaca como peça fundamental nesse trabalho de
curadoria, composição e agrupamento de informações e versões da realidade: o
“testamento vital”.

Redigido por uma pessoa no pleno gozo de suas faculdades mentais, o testamento
vital é um conjunto de instruções que dispõe acerca dos cuidados, tratamentos e
procedimentos pelos quais se deseja ou não ser submetido diante de uma doença
ameaçadora da vida, que circunscreva o indivíduo como fora de possibilidades
terapêuticas e/ou impossibilitado de manifestar livremente sua vontade. A confiança
excessiva na família, que, nos séculos XIX e XX, culminou com uma espécie de
“alienação do moribundo”; com uma relação tutelar de ocultamento, privação de
liberdade e informação sobres os cuidados médicos (ARIÈS, 2012), torna-se agora

21
abrandada por meio de um documento que congrega cinco premissas básicas: 1) um
paciente capaz, manifestando por escrito a recusa por tratamentos em caso de estado
vegetativo ou quadro de terminalidade; 2) a vontade do paciente, expressa no documento,
sobrepondo-se às vontades do médico, familiares e amigos; 3) a entrega do documento
ao médico pessoal, cônjuge ou advogado; 4) a assinatura e concordância de um Comitê
do hospital em que o paciente se trata; 5) a possibilidade de revogação do documento a
qualquer momento, antes que o paciente atinja o estado de inconsciência (DADALTO,
2015). Em conjunto com o “mandato duradouro” – documento de nomeação de uma
pessoa de confiança, por parte do outorgante, para responder e tomar decisões em seu
nome – formam as chamadas Diretivas Antecipativas de Vontade. Atualmente, a proposta
é legalizada em mais de dez países: Alemanha, Argentina, Áustria, Bélgica, Espanha,
Estados Unidos, França, Holanda, Hungria, Inglaterra, País de Gales, México, Porto Rico,
Uruguai, Portugal.

Na América Latina, Porto Rico foi o pioneiro na elaboração de legislação


específica sobre as Diretivas Antecipativas (em 17 de novembro de 2001), seguido pelo
Uruguai (3 de abril de 2009) e Argentina (21 de outubro de 2009). No Brasil, ainda não
há legislação sobre o assunto estabelecendo critérios específicos para a regulamentação
do registro, possíveis prazos de validade, idade mínima do outorgante ou qualquer outro
quesito relativo aos testamentos vitais. Entretanto, tendo em vista que não apenas as leis
conferem legitimidade e legalidade aos escritos, isso não o caracteriza como um
documento inválido, estando passíveis de interpretação diante de cada caso concreto.

Embora não tipificado na jurisdição brasileira, em 2012, o Conselho Federal de


Medicina passou a reconhecer a relevância dos testamentos vitais, por meio da Resolução
nº 1995, deliberando sobre os mesmos nas fichas médicas e prontuários e estabelecendo
que “nas decisões sobre cuidados e tratamentos de pacientes que se encontram
incapazes de comunicar-se, ou de expressar de maneira livre e independente suas
vontades, o médico levará em consideração suas diretivas antecipadas de vontade”. De
maneira semelhante, o Conselho Nacional de Justiça, durante a I Jornada de Direito à
Saúde (maio de 2014) - evento direcionado ao monitoramento e resolução de demandas
por assistência à saúde - editou o enunciado nº 37, dispondo que:

As diretivas ou declarações antecipadas de vontade, que especificam os


tratamentos médicos que o declarante deseja ou não se submeter quando
incapacitado de expressar-se autonomamente, devem ser feitas
preferencialmente por escrito, por instrumento particular, com duas

22
testemunhas, ou público, sem prejuízo de outras formas inequívocas de
manifestação admitidas em direito.

Entre os processos analisados nesta dissertação, as causas disputadas apresentam


dois diferentes propósitos: a “supressão das vontades” dos pacientes João Carlos Ferreira,
idoso de 78 anos, acometido por uma avançada necrose no pé esquerdo, e Irene Oliveira
de Freitas, idosa de 80 anos, acometida por descompensação cardíaca secundária,
insuficiência renal e pré-edema agudo do pulmão; e o “ressarcimento de danos” causados
pelo Hospital Metropolitano de São Paulo ao paciente João Roque de Atouguia, idoso de
69 anos. Ainda que apresentem diferenças quanto a sua classificação, os três casos
selecionados têm como fio condutor as disputas entre médicos e pacientes sobre a correta
temporalidade da morte/vida, assim como controvérsias envolvendo o direito de decisão
sobre a própria saúde e corpo. Pela exposição inicial das biografias, dos discursos e das
versões sobre a realidade contidos nesses três acórdãos, espero estabelecer uma primeira
familiaridade com os conflitos e sofrimentos narrados. Minha investigação será resumida
a esses três casos por um motivo bastante simples: foram essas as únicas peças
documentais que encontrei após a realização de buscas pela jurisprudência do STF, STJ
e dos Tribunais de Justiça do país, mediante as seguintes palavras-chave: eutanásia,
distanásia, ortotanásia, desligamento de aparelhos, abreviamento da vida e doença
terminal.

***

Caso 039/1.13.0003534-8
3ª Vara Cível da Comarca de Viamão

Ex-hanseniano e usuário-morador do Hospital Colônia Itapuã, localizado em


Viamão (cidade a aproximadamente 60 km do centro de Porto Alegre), João Carlos, um
idoso de 78 anos, apresentava grave lesão no pé esquerdo desde 2011. Embora tratada
com curativos e medicamentos, conforme o receituário médico, a ferida tornou-se crítica,
alcançando 12 cm de diâmetro em poucos meses. Com a proeminente evolução,
estabeleceu-se a indicação de amputação do membro a partir de dezembro de 2012, ainda
que o procedimento fosse veementemente recusado pelo idoso. O quadro clínico
mostrava-se complexo. Somava-se à “exuberante lesão couve-flor, extremamente
purulenta e fétida” um progressivo emagrecimento, acompanhado de depressão e anemia
acentuada, fruto do direcionamento da corrente sanguínea para a lesão tumoral. Infectada,

23
sangrante, repleta de exsudato (fluido inflamatório) esverdeado e com possível
osteomielite (infecção óssea), adicionava-se ao panorama ainda o risco de septicemia, ou
seja, de uma infecção generalizada que poderia leva-lo a morte. Conforme laudo de
Heláde Schroeder, psicóloga do Hospital, João Carlos permanecia lúcido, sem sinais de
demência, mas “apático”, “descorado”, “calado”, “entristecido com o descaso do filho” e
com recusas frequentes para se alimentar. Em prontuário médico do dia 09 de abril de
2013, a psicóloga relata:

O paciente está desistindo da própria vida, vendo a morte como alívio do


sofrimento. Ele também disse que precisava confessar pecados (então nesse
momento vê a morte como castigo máximo). Reforcei que ele é um homem
bom e seus pecados foram pequenos. Merece a vida, continuar vivendo. Sua
batalha é grande e antes de tudo precisa fazer a cirurgia de amputação do pé.

Estou de acordo com as evoluções da enfermeira Rita; muito claras. Porém, o


paciente apresenta depressão afetiva marcada. É importante também que
receba acompanhamento psiquiátrico com anti-depressivo. Mesmo com
autorização escrita do filho Inácio para amputação do pé, Seu João Carlos só
teria alguma força para suportar essa perda com acompanhamento
interdisciplinar, incluindo a psiquiatria. Se não, entrará em sofrimento psíquico
maior. (página 12)

Respondendo apenas se solicitado, João Carlos é descrito como “tranquilo” e


“resignado em relação à morte” no prontuário de 6 de abril (2013) da enfermeira Rita.
Nas linhas que se seguem, a enfermeira narra ainda o encontro com José Inácio, filho do
paciente. Procurada na tarde do dia 7 de abril por Inácio, que exalava “hálito de cerveja”,
a profissional é levada até o pátio central do hospital, onde o idoso se encontrava sentado.
Dizendo estar triste, nervoso e preocupado, o filho implora e suplica pela realização da
amputação ao próprio pai, cuja opinião permanece inalterada. Sofrendo por vê-lo “desistir
da própria vida”, Inácio solicita uma articulação conjunta de Rita para com a equipe
multiprofissional do hospital, de modo que, juntos, convençam o pai sobre o
procedimento cirúrgico.

Segundo consta na petição inicial do processo, formulada pelo Ministério Público


do Rio Grande do Sul, João Carlos corria risco de morte. No uso de suas atribuições legais
e funcionais e amparado no artigo 127 da Constituição Federal 3 e na lei nº 10.741/2003,
que dispõe sobre o estatuto do idoso, o Ministério Público passa a reivindicar perante o
juizado da Comarca de Viamão um alvará judicial para a supressão das vontades do
paciente, que desejava a própria morte. Tendo em vista o quadro depressivo do mesmo,

3
Art. 127. O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado,
incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais
indisponíveis.

24
a argumentação é construída em torno da “salvação do ser humano” e da necessidade de
tutela “ao maior bem do ser humano que é a vida” - bem indisponível e inviolável que
estaria ameaçado pela aspiração do paciente.

Optando pelo não comparecimento à audiência de conciliação na Promotoria de


Justiça Cível de Viamão, agendada para o dia 10 de abril daquele ano, João Carlos tem
seus desejos e vontades expressos por Salette, enfermeira do hospital que acompanhava
Alexandre Godoy, advogado e diretor-geral da instituição médica. Sem representação
formal no julgamento, o idoso tem sua história, aspirações e medos sempre narrados por
terceiros - personagens que carregam discursos e gramáticas específicos, reveladores de
suas atribuições, posição e expertise no desenrolar do caso. Na multiplicidade de vozes
que compõem os autos, nenhuma delas pertence a João ou ao seu filho. A ausência de
Inácio (filho do paciente) na sessão solene é, inclusive, registrada no prontuário da
enfermeira, o que apenas evidencia e reforça a modalidade indireta de discurso, repleta
de lacunas e vazios.

Caso 001/1.10.0335651-7

21ª Câmara Cível de Porto Alegre

Internada no dia 5 de dezembro de 2010 com o auxílio do neto Guilherme, Irene


Oliveira de Freitas, idosa de 82 anos, apresentava um quadro clínico de descompensação
cardíaca secundária, acrescido de insuficiência renal e pré-edema agudo de pulmão.
Como resultado dos altos índices de uréia e creatina no sangue, Irene passou ainda a
desenvolver delírios e confusões mentais - distúrbios psíquicos que a tornaram
“desorientada”, “confusa”, “apática”, “sonolenta”, “vulnerável” e “incapaz de tomar
decisões”, segundo consta nos laudos de Cinthia Vieira, médica do Hospital Ernesto
Dornelles. Com o avanço dos sintomas urêmicos, que poderiam levá-la ao coma e até
mesmo a óbito, a paciente passou a ter indicação médica expressa para a realização de
hemodiálise, tratamento rechaçado anteriormente por ela e Gilberto, seu filho e
representante legal. Em decorrência dos altos riscos envolvidos na diálise, complicações
que poderiam incluir arritmias cardíacas e a própria morte da paciente, o procedimento
foi considerado abusivo e descartado por ambos, por meio de um termo de “adesão por
antecipação”, escrito e lavrado em cartório a contragosto de Guilherme, neto da paciente:

Prezadas Doutoras,

25
Eu, Gilberto Augusto Oliveira de Freitas, na qualidade de filho e responsável
pela paciente Irene Oliveira de Freitas (quarto 571) e mesmo tendo
conhecimento da indicação clínica de tratamento de hemodiálise feita pelo
corpo médico, informo que vou respeitar o desejo de minha mãe,
desautorizando qualquer iniciativa que venha a conduzi-la para o procedimento
de hemodiálise. (página 240)

Diante da divergência de opiniões sobre o tratamento mais adequado ao caso de


Irene e levando em consideração as preocupações manifestas até mesmo entre os
pacientes dos leitos vizinhos à paciente, a Associação dos Funcionários Públicos do
Estado do Rio Grande do Sul, entidade mantenedora do Hospital Ernesto Dornelles,
decide elaborar um pedido de medida cautelar para suspensão das vontades de Gilberto
Oliveira de Freitas, filho de Irene, tendo como argumento a “proteção do bem maior que
é a vida e a saúde”.

Com o parecer do Ministério Público, a ação liminar, formulada pela Associação


dos Funcionários Públicos do Estado do Rio Grande do Sul (AFPERGS) contra Gilberto
e sua mãe, ganharia mais um aliado. Ancorados no princípio da preservação da vida
humana, os promotores do MP se posicionam de maneira favorável à realização da
hemodiálise, ressaltando a motivação não-legítima da paciente e a devida necessidade de
tutela de seu corpo e saúde:

A recusa do filho da paciente não encontra motivação em princípios


reconhecidos pela Constituição Federal de 1988 como a liberdade de crença e
dignidade da pessoa humana, situação reconhecida pelo egrégio Tribunal de
Justiça do Rio Grande do Sul como fundamento para recusa a tratamento
médico.

(...)

A situação dos autos é diversa, uma vez que a paciente não dispôs
expressamente a sua vontade de não se submeter a tratamento médico em razão
de convicção filosófica ou religiosa. O documento da fl. 240 apenas refere que:
mesmo tendo conhecimento da indicação clínica de tratamento de hemodiálise
feita pelo corpo médico, informo que vou respeitar o desejo de minha mãe,
desautorizando qualquer iniciativa que venha a conduzi-la para o procedimento
de hemodiálise.

Assim, em face da inexistência de motivo para a recusa ao tratamento médico


preconizado, tem-se que, para a preservação da vida, direito fundamental, deve
a autorização do familiar ser suprida a fim de se evitar prejuízos a [sic]
incolumidade física da paciente. (páginas 243 e 244)

Caso 004.10.0003009-6

3ª Vara Cível – Foro Regional IV Lapa

26
Desde 2005, João Roque de Atouguia, idoso de 69 anos, recebia tratamentos
periódicos para um câncer de laringe no Hospital Metropolitano, localizado no bairro de
Vila Romana, zona oeste de São Paulo. No início de 2007, após novos sintomas que
agravariam seu quadro, o paciente foi novamente internado, ainda que as recomendações
médicas sugerissem o tratamento domiciliar. Por necessitar de aparelhos de que apenas o
Hospital dispunha, como respirador, aspirador de sangue e balão de oxigênio, Marco
Antonio, Luis (filhos) e Maria da Conceição (viúva de João) não julgavam capaz o
procedimento em domicílio, tendo em vista a possibilidade de hemorragia, de afogamento
do paciente com o próprio sangue e a falta de recursos materiais e financeiros para sua
contenção em casa.

Com a irredutibilidade do Hospital sobre o correto local para a manutenção dos


cuidados, o caso passou a se tornar conflituoso e embaraçoso, culminando com “pressões
psicológicas” e “maus-tratos” aos familiares, como é afirmado na denúncia realizada na
Delegacia do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP) por
Luis Baptista de Atouguia, filho do paciente:

Então uma das vezes que ele estava internado, eles disseram que o hospital
estava cheio e não podiam deixa-lo pois deveria dar espaço a outros pacientes,
então conversei com o diretor do Hospital Metropolitano e ele transferiu meu
pai para um hospital de apoio como chamavam (Hospital Emed – Caieiras) lá
ficou na enfermaria, e amarrado já que não tinham pessoas para acompanha-
lo, sendo que o plano de saúde dele era o melhor que existia no convênio,
(Executivo), que tinha direito a apartamento. O tempo todo éramos
pressionados a leva-lo pra casa, uma das vezes, fui ameaçado pelo próprio
hospital com ligações da serviço social e recebi telegrama dizendo que se eu
não tirasse meu pai de lá iriam me processar e começar a cobrar todas as
despesas.

Ficamos muito desgastados, estressados e pressionados psicologicamente com


as pressões feitas pelo hospital, pois como o caso do meu pai era grave deram
como encerrado, deveria morrer em casa. Acontece que pagamos um plano de
saúde uma vida inteira, para que quando precisasse tivesse o amparo
necessário.

(...)

Eu e minha mãe ficamos perturbados psicologicamente pois trabalhávamos,


tínhamos que lidar com o problema de saúde do meu pai, ameaças e pressão o
tempo todo do hospital, pois já estávamos lidando com esse problema a 15
meses, nunca deixamos de pagar o plano de saúde para que ele tivesse o melhor
atendimento, quando ficou em casa pagávamos cuidadoras 24 horas para tomar
conta dele.

Toda vez que íamos no hospital era uma tortura psicológica, não dormíamos
mais, pois não tínhamos condições de montar uma UTI em casa, ele já não
andava, morávamos num sobrado aonde não tínhamos condições de levar e
trazer o tempo todo cada vez que ele passava mal.

27
Foi aí que a médica que cuidava dele, em mais uma de suas pressões pra que
ele fosse morrer em casa disse que iria começar a seda-lo e aumentar a dose de
sedação ao ponto de ele ter uma parada cardíaca, não sabíamos mais o que
fazer ou falar, não falamos nem sim nem não. Ele apesar do seu estado estava
consciente o tempo todo, entendia tudo apesar de não falar pois a uns 10 anos
atrás ele já tinha tirado as cordas vocais, não sentia dor, estava debilitado, mas
consciente o tempo todo e não se queixava de dor, só não podia engolir
alimentos sólidos.

Nesse dia fomos pra casa nos despedimos dele estava consciente, a noite estava
meio sonolento, no dia seguinte mais sonolento, porém quando estávamos no
quarto e dormiu, chamamos ele várias vezes e ele não acordou.

Depois ficamos sabendo que já havia começado o processo de sedação aonde


literalmente iriam mata-lo.

A MÉDICA ESCREVEU DE PRÓPRIO PUNHO NO PRONTUÁRIO


INTERNO: INICIAR O PROCESSO DE SEDAÇÃO EVOLUTIVA. NÃO
RECEBER TRATAMENTO COMO TRANSFUSÃO, ATB E OUTROS.
NÃO IRÁ PRA UTI CASO NECESSÁRIO.

Tenho a cópia do prontuário médico e testemunhas de toda tortura psicológica


que tivemos, na verdade se não tivessem feito isso com ele (sedação e omissão
de socorro) poderia viver mais, uma semana, um mês, não se sabe mas com
certeza o hospital e a médica jamais poderiam por fim na vida do meu pai, pelo
motivo financeiro, nunca deixamos de pagar o plano de saúde dele, mas ele era
custo alto para o plano de saúde. (páginas 20 e 21)

Amparados pela Constituição e pelo Código Civil, a ação movida pelos autores
tinha como objetivo o ressarcimento dos danos provocados à vida de João, a compensação
“dos dissabores sofridos pela vítima, em virtude da ação ilícita do lesionador”, a reparação
das ofensas e angústias acumuladas, que tanto reduziram a capacidade criativa e produtiva
de seus afetados e a condenação pela prática da eutanásia - crime considerado doloso,
porém passível de redução de pena em face da motivação moral e/ou de valor social.

28
Capítulo 2

Um tempo para se morrer:

paliando existências entre a natureza e a cultura

2.1 – Sobre os tempos modernos

Um calendário exprime o ritmo da atividade coletiva


ao mesmo tempo que tem por função assegurar
regularidade. (...) O que exprime a categoria de
tempo é um tempo comum ao grupo, é o tempo social,
se assim se pode falar.

(DURKHEIM, 1983, p. 212)

De acordo com o historiador alemão Reinhart Koselleck (2006), a história da


Cristandade, até o século XVI, seria uma história escatológica: uma narrativa marcada
pela contínua expectativa do final dos tempos e pelos repetidos adiamentos desse mesmo
fim de mundo. O grau de imediatismo dessas expectativas poderia variar conforme a
situação, mas as figuras essenciais do fim do mundo já estariam desde sempre definidas
pela cosmologia cristã. O futuro do mundo, assim como o seu fim, teriam sido
incorporados à própria história da Igreja e a uma cronologia da natureza, de modo que
qualquer nova profecia que contestasse sua temporalidade e previsão escatológica fosse
considerada uma heresia. Sob essa perspectiva, o futuro seria integrado ao tempo estático
da Igreja (perceptível como tradição), mas sem estar localizado no fim dos tempos, em
um sentido linear: o Juízo Final só poderia ser vivenciado, porque sempre fora colocado
em estado de suspensão pela própria Igreja, um momento permanentemente adiado – o
que fez com que sua história se aproximasse de uma história da Salvação.
A partir do século XVI, o cálculo político (impulsionado pela formação dos
Estados absolutistas) e a contenção humanista delimitariam um novo horizonte para o
futuro: um tempo diferente e novo, que renegava tanto as predições de um único e grande
fim de mundo, quanto as previsões de múltiplos e pequenos eventos capazes de prejudicar
o curso das coisas humanas. Como conceito antagônico às profecias, surgem na Itália,
entre os séculos XV e XVI, as previsões racionais e os prognósticos. Nessa visão, o futuro
29
teria se tornado um campo de possibilidades finitas, organizadas segundo maior ou menor
grau de probabilidade. Por essa ponderação sobre a probabilidade dos acontecimentos,
eliminou-se a compreensão do futuro pregado pelos partidos religiosos, assinalado pela
certeza do Juízo Final (o Bem e o Mal como única máxima de ação). Enquanto a profecia
apocalíptica destruía o tempo (alimentando-se do fim), o prognóstico teria produzido o
próprio tempo que o engendra e sobre o qual ele se projeta. Ele implicaria um diagnóstico
capaz de inscrever o passado no futuro: pelas experiências registradas no passado, seria
possível estabelecer previsões para o futuro e delimitar as manobras a serem realizadas
pelo Estado. O prognóstico, para Koselleck, seria o momento consciente da ação política,
relacionado a eventos cujo ineditismo ele mesmo revela. Contudo, a transformação do
futuro profetizado em futuro prognosticável não teria destruído completamente o
horizonte das profecias cristãs.
A ideia de prognóstico, inaugurada com o Absolutismo, também estaria atrelada
a uma temporalidade estática, operada a partir de grandezas naturais e compreendida a
partir de um caráter circular, de uma história que sempre estaria em vias de repetição, tal
como se observa na tradição cristã. Apenas com o desenvolvimento da filosofia da
história, a partir do século XVIII, é que a modernidade teria se desligado de seu próprio
passado, inaugurando um futuro inédito, pautado pelas ideias de progresso e
racionalidade. Desde então, teria sido possível acelerar e elaborar acertadas perspectivas
sobre o futuro, com o intuito de tirar o maior proveito possível do que estaria por vir. O
tempo, assim, passaria a ser acelerado e o presente impossibilitado de ser vivenciado
enquanto presente (o agora), por conta de sua diluição em um futuro-sempre-presente.
Nesse sentido, a uniformidade potencial e a capacidade de repetição peculiar às histórias
ligadas à natureza passariam a ser relegadas ao passado, fazendo com que a história
pudesse ser reestruturada na forma de uma grandeza não-natural. Natureza e história
puderam, então, ser separadas conceitualmente, o que teria possibilitado a emergência de
um tempo histórico, distante de uma cronologia natural, fundamentada no movimento das
estrelas e na sequência “natural” de governantes e dinastias. O futuro se tornaria
desconhecido e planejável, uma esfera a ser manipulada, transformada, aperfeiçoada, e
não mais uma experiência pálida e incontrolável, como reflexo de um passado já
demarcado. Nessa nova orientação, segundo Iparraguirre (2011), dois pontos se
revelariam essenciais: 1) a ideia de que o Tempo é imanente ao mundo e, portanto,
coextensivo a ele; 2) a ideia de que as partes do mundo podem ser analisadas como
relações temporais – preceitos que inauguravam uma nova relação entre tempo e espaço.

30
Uma ruptura da visão medieval e cristã (ou judaico-cristã) que trouxe consigo, portanto,
uma transformação qualitativa: o tempo como algo secular, contínuo, progressivo e
pautado por uma história natural. De acordo com Koselleck, a Revolução Francesa teria
tido um papel fundamental nessa transformação, ao introduzir no tempo uma dimensão
relacionada à esperança, ao “progresso”, a uma ideia de futuro que deve ser desejado e,
portanto, acelerado em seu ritmo para ser conquistado. A partir desse momento, teria se
tornado possível se referir ao passado como uma Idade Média, inaugurando a percepção
do que seria a modernidade (bem como sua tríade Antiguidade-Idade Média-
Modernidade) e a consciência de se estar vivendo nela.
Dessa forma, o início da chamada “modernidade” seria demarcado por uma
temporalização da história, por uma forma particular de aceleração e relação com o
tempo. Compartilhando desse entendimento, Bruno Latour (1994) também associa a ideia
de “modernidade” a uma passagem do tempo, à emergência de uma forma particular de
historicizar e classificar os elementos. Ao estabelecer um novo regime temporal, a
Constituição Moderna teria instaurado, segundo o autor francês, novas escalas,
deslocamentos, papéis, ações e competências, bem como discursos e repertórios
inovadores, que substituíram as ideias pelas práticas, os raciocínios apodíticos pela doxa
controlada e possibilitaram a compreensão da natureza a partir da experiência, do fato e
do testemunho.

A partir dessa virada, novos atores teriam sido considerados pela modernidade:
os corpos inertes, seres não-humanos considerados confiáveis, precisos, imparciais,
incapazes de vontade e preconceito, mas capazes de assinar, escrever e simular a natureza
sob os instrumentos de laboratório. O empirismo, desenvolvido pelo físico inglês Robert
Boyle, e a macroestrutura monista, idealizada por Hobbes, teriam redimensionado nossa
percepção e sensibilidade ao estabelecer uma nova dialética, uma nova assimetria para a
compreensão da realidade e do mundo do redor, em que caberia à ciência a relação com
os não-humanos, produzidos pela tecnologia; e à política a representação dos cidadãos.
Ambos foram peças fundamentais para a invenção do mundo moderno, no qual a
representação das coisas através do laboratório se encontra sempre dissociada da
representação dos cidadãos através do contrato social. “A partir de então, será em torno
da bomba de ar em seu espaço fechado, e a respeito do comportamento dotado de sentido
dos não-humanos, que as testemunhas irão continuar seus debates” (LATOUR, 1994, p.
29). Nessa nova configuração, seria estabelecida, de um lado, a força social, o poder, o

31
sujeito de direito; do outro, a força natural, o mecanismo, o objeto da ciência – divisões
sustentadas por três garantias fundamentais:

1) Ainda que possamos construir a natureza em laboratório, ela funciona como


se nós não a construíssemos;
2) Ainda que nós sejamos os criadores da sociedade, ela funciona como se nós
não a construíssemos;
3) A natureza e a sociedade devem permanecer absolutamente distintas; e o
trabalho de mediação deve permanecer distinto do trabalho de purificação.
Ao construir um modelo que conjuga três vezes a transcendência e três vezes a
imanência, os modernos teriam produzido algumas certezas ambíguas: “nós não criamos
a natureza; nós criamos a sociedade; nós criamos a natureza; nós não criamos a sociedade;
nós não criamos nem uma nem outra; Deus criou tudo; Deus não criou nada; nós criamos
tudo.” (LATOUR, 1994, p. 39). Segundo Latour, é a produção conjunta dessas três duplas
de transcendência e imanência que caracterizaria a modernidade, tornando invisível,
impensável e irrepresentável o trabalho de mediação que constrói os híbridos. Ao criar
fenômenos em laboratório e ao estabelecer a separação entre os encadeamentos naturais
e a fantasia dos homens, o homem moderno teria instituído um horizonte em que as coisas
deveriam ser purificadas, separadas cuidadosamente entre as partes pertencentes às coisas
em si e as partes pertencentes à economia, ao inconsciente, à linguagem, ao símbolo – um
trabalho sustentado pela crença no afastamento dos antigos híbridos e misturas indevidas
do passado (entre humanos e coisas).
No entanto, o mundo moderno jamais teria funcionado de acordo com as regras e
convenções por ele mesmo instituídas. No intuito de eliminar o trabalho de mediação e
proliferação de híbridos, a modernidade teria produzido justamente um efeito reverso: um
maior crescimento do número de misturas, combinações e monstros inclassificáveis entre
os pólos natureza e cultura; humano e não-humano. De acordo com Latour, os modernos
teriam edificado uma ilusão de realidade, uma ficção ontológica que visa esconder tudo
aquilo que compõe seus coletivos e os aproxima dos (ditos) pré-modernos, por meio da
negação do que se passa entre (no meio, entremeio) os reinos puros e homogêneos da
cultura, natureza, humanidade e não-humanidade. Com o surgimento e proliferação dos
quase-objetos (objetos que não se encaixam nem no pólo das coisas, nem no pólo dos
sujeitos, nem no pólo da natureza e nem no pólo da cultura), como os embriões
congelados, corações artificiais, máquinas digitais analisadoras de dados e sintetizadores

32
de genes, os pólos que sustentavam sua lógica acabaram se confundindo e se
embaralhando, uma vez que já não era possível estabelecer uma posição definida entre os
reinos possíveis.
De acordo com Latour, a feitura e o alastramento desses não-humanos quase-
objetos extraordinários teriam sido fundamentais para a edificação da própria
temporalidade e historicidade modernas. Alicerçada na distinção entre o contingente e o
necessário; o histórico e o intemporal, a história moderna seria pontuada por revoluções
copernicanas, cortes epistemológicos e rupturas sistêmicas, que introduzem uma
percepção de flecha do tempo que nos faz seguir sempre em frente, num movimento de
capitalização, progresso e radical ruptura com o passado. Em termos de temporalidade,
sua mensuração e pontuação será dada a partir da irrupção desses não-humanos: a
descoberta do heliocentrismo, o teorema de Pitágoras, o surgimento da máquina a vapor,
da bomba atômica, do computador – momentos miraculosos e transformadores que
edificariam um futuro de progresso e desenvolvimento e um passado de arcaísmos,
atrasos e confusões. “Será feita a distinção entre o tempo ‘antes’ e ‘depois’ do computador
assim como os anos ‘antes de Cristo’ e ‘depois de Cristo’” (LATOUR, 1994, p. 70).
O tempo moderno, então, seria antes de tudo o resultado de uma disciplina, de um
árduo trabalho de substituição de alguns elementos por outros, que passariam a se tornar
igualmente coerentes no período seguinte e que passariam a fornecer a impressão de um
tempo que passa, num fluxo contínuo que caminha do passado em direção ao futuro:

É uma projeção do Império do Centro sobre uma linha transformadora em


flecha através da separação brutal entre aquilo que não tem história mas que
ainda assim emerge da história – as coisas da natureza – e aquilo que nunca
deixa a história – os trabalhos e as paixões do homem. A assimetria entre
natureza e cultura torna-se então uma assimetria entre passado e futuro. O
passado era a confusão entre as coisas e os homens; o futuro, aquilo que não
os confundirá mais. (...) O tempo moderno provém de uma superposição da
diferença entre o passado e o futuro com esta outra diferença, mais importante,
entre mediação e a purificação. O presente é traçado por uma série de rupturas
radicais, as revoluções, que formam engrenagens irreversíveis para impedir-
nos, para sempre, de voltar atrás. (LATOUR, 1994, p. 70 e 71)

Contudo, o progresso modernizador só poderia ser concluído se todos os


elementos, prefigurados como contemporâneos pelo calendário, pertencessem ao mesmo
tempo. Se essa condição não for alcançada, o sistema completo e reconhecível da
temporalidade moderna estará ameaçado, possibilitando a emergência de objetos que
misturam e confundem épocas, ontologias e gêneros diferentes. E, para Latour, essa
exigência não apenas nunca foi alcançada, como o que sempre houve foi a proliferação
de objetos cujas datas e durações são incertas: “ninguém mais sabe se o urso dos Pireneus,
33
os kolkozes, os aerossóis, a revolução verde (....), a guerra nas estrelas, a religião
muçulmana (...) estão fora de moda, em dia, são futuristas, intemporais, inexistentes ou
permanentes” (LATOUR, 1994, p. 73). Para dar conta dessa realidade permeada de
quase-objetos transbordantes e afeitos a múltiplas temporalidades, o autor recupera a ideia
de um tempo espiral, onde o futuro e o passado já não seriam demarcados por uma linha
reta, mas por um círculo em constante expansão para todas as direções. Nesse modelo, as
ações se tornam politemporais e os elementos que anteriormente pareciam tão distantes
novamente se encontram ao longo da espiral, fazendo com que o passado e o presente
sejam retomados, reinterpretados, envolvidos e recombinados a cada volta e desenrolar.

2.2 – Historicizando a morte no Ocidente

No que tange às percepções relativas à morte no Ocidente, o conceito de “tempo”


se faz fundamental: ele orienta as decisões sobre a correta duração da vida, ele determina
as fronteiras dentro das quais o ser é circunscrito (os próprios limites da existência
humana) e, por fim, estabelece os planos e tramas sobre os quais é tecido e historicizado
o morrer. Entre os trabalhos historiográficos pioneiros dedicados à tarefa de categorização
dos elementos, emoções, rituais e práticas referentes ao luto e à perda, podemos destacar
a obra de Philippe Ariès (1977). Para o autor, as disposições fúnebres poderiam ser
classificadas segundo três grandes modelos, desenvolvidos no mundo ocidental desde a
Idade Média: a morte tradicional, a morte romântica e a morte moderna. Por essas três
formas de gestão da morte e dos sentimentos relativos à finitude, o autor desenvolve uma
temporalidade delineada por cortes ontológicos, marcos transformadores que instauram
novas eras, bem como estabelece uma relação de desconfiança para com o presente e o
futuro em nome de um passado mais dignificante e honroso - traço que o levou a receber
a alcunha de “romântico” por outros historiadores, como Norbert Elias (2001). A seguir,
apresento mais detalhadamente cada um desses modelos, atentando para as
especificidades atribuídas a cada momento histórico e salientando seu valor heurístico4.

Segundo Ariès, até meados do século XI, durante a alta Idade Média, a morte se
apresentava como uma cerimônia pública e organizada pelo próprio moribundo.

4
A partir dessa modelização, espero suscitar hipóteses e questionamentos, assim como dar luz aos
argumentos contidos nos processos judiciais que analiso neste trabalho. A tríade tradicional-romântico-
moderno não deve, portanto, ser reificada e entendida como uma forma pura .

34
Acompanhado em seu leito de morte por familiares, vizinhos, padres, assistentes e amigos
(o que incluía as crianças), o enfermo se dispunha como o responsável pela presidência e
coordenação dos protocolos mortuários. Salvo raras exceções, como nas mortes súbitas
ou acidentais, o fim da vida era pressentido. Advertido por signos naturais, por uma
simples convicção íntima ou premonição mágica, o moribundo vivenciava os últimos
momentos com calma, sem qualquer posicionamento dramático ou gestos de emoção
excessivos. A morte, nesse período, é descrita por Ariès como uma “morte domada”,
familiar e próxima, ritualizada, comunitária, vivenciada com aceitação e tranquilidade,
podendo ser ilustrada pela morte dos cavaleiros. A familiaridade e resignação, neste
momento, espelhava a própria aceitação da ordem da natureza, na qual o homem se sentia
inserido. Deitado de costas, jacente, com os olhos posicionados para o Céu, o enfermo
reconheceria o cumprimento do destino e proferiria suas últimas palavras de despedida e
seu derradeiro acerto de contas com os vivos (lamentos, pedidos, designação de heranças).

A partir do século XI e XII, algumas mudanças sutis teriam tornado a morte um


evento mais dramático e pessoal para a civilização ocidental. Ainda que o moribundo
prosseguisse como o centro das ações, o principal ator na cerimônia de sua própria morte,
uma carga nova de emotividade, individualidade e interioridade passou a ser atribuída a
esse momento. “No espelho de sua própria morte, cada homem redescobriria o segredo
de sua individualidade” (ARIÈS, 2012, p. 65). Ainda que a morte continuasse a ser
experienciada como um ritual coletivo, dotado de apoio e beneficência, a partir de agora
seria inserida também uma dimensão individualizante, dramática e inquietante, que
transformaria os sentimentos relativos ao fim da vida. Com a monopolização da violência
física e a extensão das cadeias de interdependência – observadas com a passagem do
período feudal para um Estado único, absolutista - a vida se tornou menos perigosa, mais
previsível e mais controlada. Aqueles que cercavam o moribundo, a partir desse período,
tenderão a poupá-lo e a lhe ocultar a gravidade de seu estado. A verdade se tornou um
problema. Instaurou-se um “processo civilizador” (ELIAS, 2001), em que as emoções se
tornaram moderadas, os sentimentos controlados, o moribundo e a sociedade poupados
do sofrimento, perturbação ou emoção excessivamente fortes.
Concomitante a essa série de transformações sobre os sentimentos do homem em
relação a seus pertences e sua vida, estava em curso, no mesmo período, uma revolução
escatológica que revigoraria o olhar ocidental sobre as noções de corpo e alma. A
“balança cósmica entre o bem e o mal”, que até os séculos XI e XII tinha lugar no fim

35
dos tempos (com a ressurreição dos corpos), agora ocorria no quarto do enfermo, em um
espetáculo solitário, reservado unicamente ao moribundo: o juízo final. Se antes a morte
era concebida como um sono misterioso do ser corpo-alma indivisível à espera do dia da
ressurreição, a novidade agora diz respeito a uma noção de pessoa moral (MAUSS, 2003),
enquanto entidade metafísica portadora de uma alma una e destacável do corpo, apta a
ser julgada por seus atos e pensamentos, imediatamente após a morte da carne. O acerto
de contas, a lista de prescrições e desejos, antes proferidos de viva voz, transformaram-
se em uma escritura sacramental, em um contrato de seguros entre o testador e a Igreja,
cuja finalidade será não apenas resguardar os bens materiais e assegurar sua correta
distribuição, mas sobretudo garantir a salvação da alma do morto e proporcionar um
destino digno ao seu corpo. A partir desse novo instrumento (o testamento), as riquezas
passaram a ser associadas à obra pessoal da salvação. A absolvição geral, presumida até
então, passa a ser desconsiderada e suplantada por uma quantidade de preces e atos
religiosos, pagas com as riquezas adquiridas ao longo da vida. O ato de dispor dos
próprios bens (ou parte deles), em benefício da Igreja, assegurava um “passaporte para o
céu” (LE GOFF, 1964 apud ARIÈS, 2012) e a certeza de uma eternidade tranquila, em
que a individualidade estaria a salvo da destruição temporal. Segundo Philippe Ariès, é
nesse movimento de rememorar o passado, observar o presente e prescrever decisões para
o futuro, em um documento testamental, que o homem começa a tomar consciência da
particularidade de sua biografia e personalidade. Com uma minúcia espantosa,
elencavam-se nas escrituras o apego às coisas, o afeto aos seres, a confissão dos pecados,
a reparação de erros, a escolha da sepultura e as numerosas disposições em favor da alma
(missas e preces), distribuídas detalhadamente em datas fixas, sem que houvesse qualquer
possibilidade de interferência da família sobre os desejos do doente:

Esse drama estabelecia um confronto entre o moribundo, o Juiz divino, os


acusadores diabólicos e os santos advogados. O moribundo ficava bastante só;
a ele apenas cabia garantir sua salvação, para assegurar seus direitos, segundo
as cláusulas desse contrato de salvação que era o testamento. Só pode contar
com ele próprio, tem que impor suas vontades aos herdeiros, mulher ou filhos,
ao mosteiro ou à fabrique (ARIÈS, 2012, p. 177).

Com o início do século XVIII, as sociedades ocidentais passam a dar à morte um


novo sentido. Exaltando-a, dramatizando-a, desejando-a, tornando-a impressionante e
arrebatadora, o homem romântico idealiza a morte como, antes de tudo, a morte do outro
– o outro cuja saudade e lembrança inspirarão, nos séculos XIX e XX, o novo culto aos

36
túmulos e cemitérios5 (ARIÈS, 2012). A morte no leito de outrora, com a presença de
amigos e familiares, ainda se mantém viva, mas com novos elementos: paixões
avassaladoras, emoções, choros, súplicas, expressões de dor por parte dos sobreviventes,
comoções dramáticas. Assim como o ato sexual, a morte será considerada uma
transgressão que arrebata o homem de sua vida quotidiana, de sua perfeita racionalidade
e serenidade para submetê-lo a um mundo irracional, violento e cruel. O corpo morto e
nu seria aproximado ao mesmo tempo de Eros e Tânatos, tornando-se belo, desejável,
curioso e objeto de deleite mórbido. E é justamente nesse período em que transbordarão
as afetividades “macabras” pela morte. Como efeito reverso do interdito, surgirão aqui as
literaturas de transgressão: poemas e contos que combinam fantasias erótico-macabras, a
curiosidade e valorização do morrer, bem como a complacência com a ideia da própria
morte.

É ainda no século XVIII, portanto, que se desenvolve uma certa intolerância à


finitude do outro. No entanto, será apenas na segunda metade do século XIX que essa
transformação acarretará em mudanças mais profundas. A morte, tão presente e tão
familiar no passado, será apagada, subtraída, tornada vergonhosa e objeto de interdição.
Uma revolução brutal nos sentimentos e ideias, acompanhada e relacionada
especialmente a dois eventos: as revoluções médico-sanitárias e o deslocamento do lugar
da morte para o hospital.

Com a consolidação da instituição hospitalar, medicamente administrada e


controlada, e com a ampliação do processo de medicalização do social (a partir do século
XIX e de maneira mais radical a partir do século XX), os encargos dos cuidados dos
moribundos passaram a ser de responsabilidade das instituições médicas. A morte
pública, comunitária, familiar, pressentida, realizada em casa, foi perdendo lugar para o

5
A nuclearização da família em túmulos torna-se comum nos cemitérios europeus e brasileiros apenas na
segunda metade do século XIX. Ainda mais recente é o culto ao indivíduo. Os primeiros túmulos
desvinculados de genealogias familiares nos cemitérios brasileiros datam dos primeiros decênios do século
XX (MOTTA, 2010). Durante toda a Idade Média, enterrava-se ad sanctos, ou seja, o mais perto possível
dos túmulos dos santos ou de suas relíquias, em um espaço sagrado que compreendia a igreja, seu claustro
e suas dependências. Os mais pobres ou humildes eram relegados ao lugar que veio a ser o cemitério – o
mais longe possível da igreja e suas paredes. Vale ressaltar que, para a Igreja, pouco importava o local do
sepultamento. Pelo contrário, recomendava-se preferivelmente uma indiferença para com a sepultura
(ARIÈS, 2012). O culto moderno dos mortos é um culto da lembrança ligada ao corpo, à materialidade, à
aparência corporal. A partir do século XIX, passa a ser assimilado tanto pelas igrejas cristãs quanto pelo
materialismo ateu, tornando-se uma manifestação religiosa comum a crentes e descrentes de todas as
confissões. Como aponta Foucault (2005), a individualização do cadáver, do caixão e do túmulo aparece
no final do século XVIII e início do XIX não por razões teleológicas de respeito ao cadáver, mas por
motivações político-sanitárias de respeito aos vivos, de modo que os vivos fossem resguardados da
influência nefasta dos mortos.

37
ambiente hospitalar, asséptico, isolado e distante. Os progressos técnicos, as reformas
sanitárias, a diminuição das mortalidades (em especial a infantil e neonatal) e o
consequente prolongamento da vida tornaram a morte um evento menos corriqueiro. A
vida se tornou mais previsível e controlada, assim como a própria morte. Nesse modelo
“moderno”, o local exemplar para a ocorrência das mortes é em um ambiente frio e
higienizado, em que o doente permanece absolutamente só, com seu corpo invadido por
tubos e máquinas e onde o tempo parece ser parcialmente abolido.

Uma das características mais notórias da morte moderna se torna o próprio


gerenciamento das emoções. Visando proteger a vida hospitalar da irrupção de crises
emocionais, por parte dos pacientes, a morte passa a ser camuflada. Oculta-se a verdade
ao moribundo para que o mesmo não tenha real conhecimento da gravidade de sua
doença. Mais do que resguardar o doente das angústias do fim da vida, resguarda-se o
hospital e sua rotina institucional, marcada por objetividades e autocontrole. Isolado,
ocultado da verdade, o enfermo passa a ser conduzido a um processo de desumanização,
despersonalização, assujeitamento e objetificação (MENEZES, 2004). Sua vida (ou o que
ainda resta dela) passa a ser entregue às mãos do médico, sem que tenha qualquer ciência
sobre seu real estado ou possibilidade de contestação.

Visando enfraquecer os excessos de poder da instituição médica, surgem, ao fim


dos anos 1960, inúmeros movimentos pelos direitos dos doentes. Reivindicando maior
autonomia, dignidade e humanização nos atendimentos, organizações civis despontam,
especialmente nos Estados Unidos e Inglaterra, com o intuito de propor uma nova prática
em relação à morte.

Em 1967, foi fundado o primeiro hospice em Londres, instituição exemplar desse


novo modelo de assistência não mais curativa: os Cuidados Paliativos. Nesse projeto,
sustentado por uma ampla rede de instituições, saberes (medicina, história, ciências
sociais, filosofia, ética, bioética, direito) e profissionais, busca-se minorar o máximo
possível as dores e demais sintomas dos doentes, mas sem realizar qualquer ocultamento,
negação ou silenciamento sobre seus quadros clínicos. A morte é colocada em discurso,
assim como doentes e familiares são empoderados nesse processo. A internação, nesses
casos, torna-se uma medida ocasional, devendo o enfermo ser mantido em sua residência
sempre que possível. Basicamente, os profissionais de cuidados paliativos devem assistir
o doente até seus últimos dias, de modo a minimizar seu desconforto e dar suporte
emocional e espiritual a seus familiares (MENEZES, 2004) – uma verdadeira

38
transformação operada sobre o olhar médico, direcionado agora não mais à cura e à
fragmentação da doença e do corpo, mas a uma “totalidade bio-psico-social-espiritual”,
de fundamentação multidisciplinar, relacional e holística.

As palavras de ordem, nesse novo modelo de cuidado, são a comunicação e o


diálogo, devendo o indivíduo enfermo e sua família ter acesso e controle sobre o processo
da morte, realizando escolhas e estabelecendo os limites terapêuticos em conjunto com
os médicos. A meta é uma melhor “qualidade de vida” nos momentos finais, oferecendo
dignidade, comunicação aberta e mantendo a identidade social e individualidade do
enfermo. Um modelo de morrer “neo-moderno” ou “pós-moderno” que proporcione uma
última oportunidade para que a pessoa se torne “verdadeiramente autêntica”, para que se
conheça sua “identidade interior”; para que entre em contato com a doença e com os
efeitos que ela lhe impõe.

Dando continuidade a esse modelo de bem morrer, podemos ainda listar o


movimento em prol da “morte natural”, surgido na Inglaterra por volta dos anos 1990.
Inspirado nas reivindicações pelos partos naturais e na humanização dos nascimentos, o
projeto naturalizante da morte se posiciona de maneira crítica à crescente tecnologização
social e médica e ao uso desenfreado de medicamentos e maquinários. Assim como os
partos naturais prevêem uma preparação corporal, exercícios e rituais que propiciam a
redução da ansiedade na parturiente, a morte natural busca técnicas e práticas voltadas
para a minimização do sofrimento e da ansiedade entre pacientes terminais. Por meio de
técnicas e saberes específicos, que incluem o uso de florais de Bach, exercícios
respiratórios e massagens, busca-se uma “mais natureza”; uma natura ótima e mais bem-
acabada. Um projeto abrangente, que ainda milita em prol do leito compartilhado do
moribundo com a pessoa de sua relação (companheiro, namorado, esposo, esposa etc),
em prol da inclusão da temática do adoecimento, morte e luto na educação básica (entre
crianças e adolescentes), e que advoga de modo favorável por um contato maior com a
natureza (rios, cachoeiras, belos jardins, lugares ao ar livre).

Nos Estados Unidos, o movimento inicial pelos cuidados paliativos foi


predominantemente anti-médico. Até o final dos anos 1970 e início dos anos 80,
voluntários, enfermeiros e a comunidade eram os grandes organizadores. A partir da
segunda metade dos anos 1980, com o surgimento da epidemia de AIDS, uma crescente
demanda pelos hospices e instituições de assistência paliativa foi sendo construída, o que
culminou com a incorporação desse tipo de amparo dento do próprio sistema de saúde

39
americano. Na América do Sul, a assistência paliativa começa a ser oferecida de forma
pioneira pela Argentina, a partir de 1982. Num processo similar ao ocorrido nos Estados
Unidos, emerge enquanto movimento atrelado a voluntários e organizações não-
governamentais, para, enfim, ser reconhecido pelo Ministério da Saúde argentino em
2000, com a publicação das normas de gerenciamento dos Cuidados Paliativos.

No Brasil, por outro lado, a mobilização pela assistência paliativa nasce como
iniciativa exclusiva dos profissionais de saúde por volta dos anos 1980. Em 1986, é
implantado o Programa de Atendimento ao Paciente Fora das Possibilidades Terapêuticas
(FTP), empreendimento precursor idealizado pelo Instituto Nacional do Câncer –
instituição pública referência na área, localizado na cidade do Rio de Janeiro. Em 1991,
é criado o serviço de Cuidados Paliativos do Hospital do Câncer I, o primeiro a funcionar
não apenas com voluntários, mas com profissionais contratados e especializados. Com o
aumento na demanda e a expansão de assistência aos doentes FTP, em 1998 passa a ser
construído o primeiro hospital totalmente destinado a atender estes pacientes: o Centro
de Suporte Terapêutico Oncológico - atualmente Hospital do Câncer IV (MENEZES,
2004).

2.3 – A morte no seu tempo certo

Se na historiografia e na literatura médica e antropológica as discussões sobre o


“bem viver” e o “bem morrer” têm se tornado cada vez mais frequentes (especialmente
após a década de 1970), o mesmo pode ser dito a respeito do âmbito jurídico. O aumento
na expectativa de vida (decorrente da ampliação das medidas de prevenção e controle
social da saúde e da doença) e o prolongamento do processo de morrer (fruto do
desenvolvimento de novas técnicas e tecnologias médicas) asseguraram uma profusão de
debates concernentes ao bem-estar e à qualidade de vida dos enfermos, aos limites éticos
das ações terapêuticas e às próprias fronteiras que circunscreviam a vida e a dignidade
humanas no Direito. Nesse embate, a própria determinação temporal da morte foi posta
em questão. Desde 1968, quando as cirurgias de transplantes de órgãos começaram a ser
realizadas em maior escala, o diagnóstico médico sobre a morte passou a encontrar um
novo paradigma: a ausência de atividade cerebral, e não mais a paralisação das funções
realizadas pelo coração e/ou pulmão (LOCK, 2002). A partir dessa transformação,

40
refinada posteriormente com a consolidação da “morte neocortical” (pela parada do
córtex, ainda que todo o sistema cerebral pudesse permanecer em funcionamento), o fim
da existência humana passou a ser compreendido como o fim da identidade pessoal, da
capacidade de racionalização e edificação de uma vida pessoal – uma mudança do estatuto
da pessoa centrada fundamentalmente na compartimentação binária entre corpo e mente.

Além da redefinição da morte com base em critérios cerebrais e do


desenvolvimento de aparelhos de ressuscitação e manutenção da vida (tendo destaque o
ventilador artificial e o reanimador), coadunaram-se nesse cenário ainda a reprodução
assistida, a fertilização in vitro e as terapias e pesquisas com células-tronco embrionárias,
que acabaram por dissolver os contornos acertados, consistentes e bem determinados
dentro dos quais a vida e a morte eram encerradas. Desde então, as fronteiras ontológicas
que separavam o viver e morrer, o fazer e o desfazer de pessoas, precisaram ser revistas,
assim como as relações de parentesco (LUNA, 2005; STRATHERN, 1992, 1995), os
direitos patrimoniais sobre órgãos, tecidos e partes do corpo humano (LOCK, 2002) e os
direitos de personalidade desses seres-humanos-quase-máquinas, não-humanos-quase-
objetos que passaram a proliferar dentro e fora do ordenamento jurídico.

Os autos analisados nesta dissertação são bastante reveladores quanto ao manejo


desses conflitos e controvérsias. As histórias de vida de João Carlos Ferreira, Irene
Oliveira de Freitas e João Roque de Atouguia nos fazem percorrer uma densa malha de
experiências e narrativas que abarcam os limites relativos à vida e a própria gestão da
pessoa humana. Pela arqui-textura documental à qual somos guiados, os embates
ontológicos se somam ainda aos múltiplos dramas e relatos de adoecimentos físicos e
psíquicos dos pacientes – linhas, costuradas sob o tempo da burocracia, que vão
compondo um certo modo de rememorar o passado, falar do presente e projetar o futuro.

Na petição inicial do caso de João Roque, formulada pela advogada da família, a


relação com o tempo e o vislumbre de um futuro hipotético se tornam fundamentais para
a argumentação, assim como para a conquista de empatia (perante o juiz) e o
questionamento das práticas médicas e seus prognósticos:

O fato mais grave, e que ensejou a propositura da presente Ação se deu na


última internação.

Como sempre ocorria, após alguns dias de internação, os médicos do Réu


passaram a insistir reiteradamente que ele fosse retirado do hospital, mesmo
sem estar recuperado e necessitando de aspiração por 2 a 3 vezes por dia.

41
Os Autores extremamente abalados e sem saber o que fazer foram abordados
por uma das Médicas da equipe que informou que iria aumentar a dose de
sedação ao ponto de ele ter uma parada cardíaca.

Os Autores não concordavam com este fato, mas já não tinham condições de
discernir o que era correto ou não.

No fundo, os Autores não tinham ciência que o Réu estava adiantando a morte
de seu pai.

A prática da eutanásia, isto é, aceleração da morte, está grafada no prontuário


médico do falecido que categoricamente diz:

INICIAR O PROCESSO DE SEDAÇÃO EVOLUTIVA, NÃO RECEBER


TRATAMENTO COMO TRANSFUSÃO, ATB E OUTROS. NÃO IRÁ
PARA UTI CASO NECESSÁRIO.

Se o Hospital Réu não tivesse adiantado a morte do Autor, este poderia ter
vivido por mais uma semana, um mês, um ano, e porque não dizer que ele
poderia estar vivo até a presente data?

A responsabilidade do Hospital Réu nos danos morais e materiais sofridos


pelos Autores está explícito e deverá ser indenizado por ser medida de direito.
(página 4)

Em sua defesa, o Hospital Metropolitano reitera seu comprometimento para com


o paciente, a ética presente em todos os procedimentos terapêuticos e a dedicação
empregada com vistas ao bem-estar do enfermo, que já se encontrava em condição
terminal, com ampla lesão tumoral na região do pescoço. De acordo com os advogados
da instituição, o atual processo e as alegações dos autores seriam “fruto de percepções
distorcidas da realidade dos fatos e só poderiam ser justificadas frente ao abalo emocional
instalado decorrente da perda de ente querido”. A acusação seria infundada e “maliciosa”,
já que o objetivo seria estabelecer um nexo causal entre uma possível má prestação do
serviço médico com a evolução clínica que levou à morte do paciente, o que os réus
consideram “de natureza eminentemente especulativa e tecnicamente imprópria”. Diante
do impasse e das mútuas acusações, a juíza Maria de Lourdes Cimino solicita em 11 de
maio de 2011, quinze meses após a abertura do caso, uma perícia médica para que sejam
constatados, com base nos depoimentos e prontuários, a real causa da morte de João, o
tempo de vida que ainda restava ao paciente e a legitimidade da conduta médica diante
do caso. No relatório do perito e médico Francisco Américo Fernandes Neto é colocado:

Segundo o diagnóstico e relato da internação clínica o paciente apresentava


doença avançada com recorrência e metástases pulmonares ou outra doença
neoplásica primária de pulmão. Por tais informações evidencia-se paciente fora
de possibilidade terapêutica curativa, ou seja: “paciente terminal em cuidados
paliativos”.

Um dos maiores dilemas do ser humano é a certeza da terminalidade de


qualquer ser vivo. Para muitos isto é motivo de fobias, apreensões, incertezas
religiosas e filosóficas. Viver eternamente seria a vontade de considerável

42
parte da humanidade, mas isto não possível mesmo com o rápido avanço
científico de nossa época. Também há de se considerar que nem tudo é
tecnicamente possível e eticamente correto e desejável pela maioria. Se a
missão médica é preservar a vida, o milenar princípio da medicina hipocrática
“sedare dolorem opus divinus est” complementa esta missão. Salvar vidas
quando possível mitigar o sofrimento sempre que não for possível salvar.
Todos somos seres terminais em maior ou menor tempo: “dispar cuique
vivendi facultas data est” (Sêneca).

No passado ainda não tão distante se observava, na prática médica, casos de


eutanásia passiva (deixar o paciente morrer sem nenhum tratamento) e a
eutanásia ativa em que se empregavam meios médicos para o êxito letal do
paciente terminal. Não se tratava o agônico (passividade) pela inexistência de
meios terapêuticos eficazes de combate à dor. Matava-se para diminuir a
angústia de quem padecia e dos que assistiam. A história médica universal é
prenhe de trágicos episódios eutanásicos.

Hoje não se justifica a eutanásia nem a Distanásia. Ambas são nocivas ao


paciente agônico, aos familiares e à sociedade. A medicina moderna nos brinda
com formidáveis, mas não totalmente perfeitas, máquinas que são capazes de
manter respirando, filtrando e bombeando o sangue um corpo inerte,
inconsciente, quase morto ou em morte clínica (morte encefálica), por algum
tempo.

A parafernália médica não é inócua podendo agravar o estado do paciente por


complicações, mormente infecciosas. Os meios artificiais de manutenção de
vida são criteriosamente empregados no auxílio de pacientes graves, com
possibilidade de vida (mesmo que vegetativa) após a superação das
insuficiências orgânicas agudas.

As UTIs e CTIs não se destinam ao tratamento de pacientes terminais, se


excetuando os que apresentam morte encefálica e se destinam à doação de
órgãos. Não se justifica à luz da ciência, da ética médica e mesmo do ordinário
bom senso leigo que o sofrimento seja mantido por meios artificiais. Isto seria
no mínimo ilógico e se configuraria a abominável, cruel e antiética Distanásia.
(páginas 377 e 378)

Considerando desumana a manutenção da vida por meios artificiais, o perito


constrói seu discurso tendo como norte a defesa da ortotanásia, isto é, a defesa de uma a
morte “natural”, digna, misericordiosa, vivenciada “no seu momento correto”. A sedação
terminal, nesse contexto, é interpretada como uma ação piedosa e ética, indicada sempre
que a dor e o sofrimento, proporcionados pela doença, tornam-se insuportáveis, não sendo
ela a responsável pela morte de João Roque:

A ortotanásia veio para afastar ambas as vilãs citadas. É filha da moderna


medicina e da bioética em seu mister de proporcionar ao paciente sem
esperança de cura o alívio de seu padecer, a serenidade e a dignidade na morte.

Definitivamente eutanásia não é o mesmo que ortotanásia. Não se pode


confundir. Na primeira não se sabe ou não se tem o que fazer para evitar o fim
doloroso. Não se intervém efetiva e eficazmente no sofrimento. Deixar morrer
ou acelerar a morte. No passado era dita: “morte piedosa ou por amor”, por
pura ignorância. A segunda se lastreia na medicina e nos conceitos bioéticos
hodiernos. Não abrevia o fim como a eutanásia nem prolonga o sofrimento pela
Distanásia. Proporciona a morte digna, tranquila e correta dos que sofrem sem
expectativa de melhora ou restabelecimento, mesmo que parcialmente.

43
O tratamento paliativo é um ato misericordioso e consumadamente
reconhecido alma científica universal. Os grandes centros de câncer pátrios e
estrangeiros possuem setores destinados a estes pacientes. Dá-se todo o
conforto, atenção aos que sofrem e em breve vão a partir. Quem trabalha com
pacientes sob terapia paliativa sabe que os medicamentos empregados
suavizam a existência terminal. Não curam nem matam. Quem faz sofrer e
mata é a doença. O câncer.

(...)

Ortotanásia é “a morte no momento certo, nem simplesmente apressada como


no caso da eutanásia, e nem prolongada como no caso da distanásia”. Deixar
morrer naturalmente por doença em fase terminal (“maligna” ou não), até
mesmo suspendendo tratamentos fúteis ou inúteis, não pode ser classificado
nem como auxílio ao suicídio, uma vez que o médico não forneceu droga letal
para isso e o paciente não tem outra escolha ao invés da morte! E, ainda o
tratamento suspenso jamais teria a possibilidade de evitar a inexorável
progressão dessa doença à morte! Assim, renunciamos ao temido e repugnado
“excesso terapêutico” (Papa João Paulo II)!

A manutenção do suporte extraordinário artificial da vida apenas é justificável


se tiver um sentido curativo ou, se paliativo, de melhora para se desfrutar
sobrevida com dignidade.

A morte não é fracasso do bom médico! É a derrocada do corpo humano


perante a doença implacável.

Determinar o início da ortotanásia é dever natural e indelegável do médico que


assiste o doente paliativo, mesmo que divida esta responsabilidade com outros
médicos e com a família do doente, sem retardar o alívio prático dos sintomas.

Segundo os autos, podemos concluir que João Roque de Atouguia faleceu de


maneira natural (ortotanásia, causa interna), durante tratamento paliativo, em
razão de doença neoplásica avançada de laringe (provavelmente estádio VI)
associada à complicações infecciosas (pulmonares) com falência de múltiplos
órgãos.

A sedação e a analgesia em pacientes fora de proposta terapêutica curativa, ou


seja, “pacientes terminais em tratamento paliativo”, não são administradas a
cada crise de dor. Não se espera que o paciente sinta forte dor para introduzir
a medicação analgésica sedativa. Se assim procedermos, haverá necessidade
de maior dosagem de analgésicos e sedativos. Por esta razão é que se institui a
sedação e analgesia em períodos regulares e contínuos e antes que a dor se
instale de maneira intensa. Não é a sedação que mata o paciente. O que mata o
paciente é a doença neoplásica maligna avançada. A isto, em medicina, pela
bioética se denomina ortotanásia. Esta é a maneira natural de morrer. Morte
por causa interna com assistência de familiares, equipe médica, trabalhando
para confortável, científica, ética e legalmente atenuar a dor e a ansiedade do
término de uma existência de um ser. Prolongar por meio artificiais o
sofrimento de um paciente terminal é no mínimo aético e imoral. Neste caso
teremos a distanásia. Que se atentem os interessados que a frase última deste
quesito: “para adiantar a morte do paciente” é uma afirmação de exclusiva
responsabilidade e intenção do autor do quesito

Nesse passo o perito ainda acrescenta, a bem da verdade científica. A sedação


não visa a morte. Se este for o intuito (matar) existem meio farmacológicos
mais rápidos (quase que instantâneos), práticos, baratos e que deixam poucos
vestígios somente perceptíveis por pessoal treinado no mister pericial médico
legal. A sedação analgésica propõe o bem estar do paciente terminal até o final
digno, natural, causado pela doença incurável e terrível. É este o princípio
hipocrático basilar da medicina. Não se garante a cura, mas a mitigação do

44
sofrimento nos casos impossíveis de cura ou sobrevivência. “Sedare dolorem
opus divinum est” (páginas 378, 379 e 410).

Nas linhas que se seguem, o perito ainda exalta a importância de se incorporar a


satisfação e o prazer pessoal nos momentos finais da vida do paciente. A morte digna
seria alcançada não apenas com a suspensão dos aparatos médicos e dos procedimentos
fúteis e invasivos, mas também por meio da concessão de pequenos prazeres ao enfermo,
como a possibilidade de fumar, beber álcool e ingerir alimentos anteriormente não
liberados pelos nutricionistas dadas as condições clínicas:

Paciente internado sofrendo constantemente de dor intensa é paciente mal


medicado. Taxar o paciente paliativo de “poliqueixoso” é assinar atestado de
incompetência como paliativista. Não basta ter ciência! Tem que ter muito bom
senso, aptidão e talento.

Não há porque realizar acessos venosos complexos e dolorosos, reposições


hidro-eletrolíticas ou sanguíneas, antibioticoterapias, suplementos ou dietas
enterais, sondagens, controles clínicos e laboratoriais, etc....Nos pacientes
paliativos em fase bem avançada da doença.

Aferir os sinais vitais é mais sofrimento para quem está morrendo. Além de
abolir os tão incômodos controles dos sinais vitais e/ou de exames fúteis ou
inúteis nesses casos, a enfermagem e o médico devem ter a sensibilidade e bom
senso de determinarem os horários das administrações das medicações,
mormente as orais, fora da madrugada, deixando o paciente dormir em paz.

Não há sentido algum em se gastar nossos já parcos recursos e provocar mais


sofrimentos para se saber, inexplicavelmente, a taxa de eletrólitos,
hemoglobina, comprometimento pulmonar ou hepático, etc. em pacientes
paliativos em fase terminal.

EXEMPLO PRÁTICO é o paciente paliativo com câncer de pâncreas,


diabético. Pode comer doce ou bolos gostosos conforme sua aceitação, apoiado
pela nutricionista, endocrinologista, enfermeira, copeira ou por quem quer que
seja. Assim como é crueldade e inútil privar um paciente paliativo com câncer
de pulmão avançadíssimo de fumar, ou desses pacientes de ingerirem bebidas
alcoólicas, etc.

Não apenas os médicos, mas os para-médicos (enfermagem, psicologia,


nutrição, fisioterapia, assistência social, etc.) também devem aprender a aplicar
mais o bom senso em seus tratamentos de pacientes paliativos na medida de
cada caso, história e prognóstico.

Proporcione, na medida do possível, o acesso prático às vontades finais e, até


mesmo, aos vícios (se possíveis e legais) dos pacientes terminais. O paciente
terminal jamais deve se tornar simples cobaia submetida a sofrimento
desumano ou inútil para experimentação desenfreada.

É muito importante que o paciente paliativo tenha uma mesma equipe


persistente e bem homogênea durante toda a sua sobrevida ATÉ A MORTE,
DE PREFERÊNCIA, EM SEU LAR.

Frequentemente, a distanásia é estimulada pelos familiares leigos. Cabe ao


médico ter calma, segurança, explícita clareza, bom relacionamento com o
paciente, familiares, agregando-os à dignidade e nobreza dos cuidados
paliativos. Uma equipe de serviços de saúde e familiares unida, coesa para o
exclusivo bem do paciente.

45
(páginas 412, 413 e 414)

Lamentavelmente, ao contrário do ocorrido com o senhor João Roque, não


estamos livres da amargura quando a parafernália médica hospitalar é
indevidamente usada aumentando o sofrimento do paciente e dos familiares.
Às vezes por ignorância e na maioria dos casos por ganância. Por isto é
corrente entre estudiosos da bioética e do biodireito o paradigma filosófico
“Para uma alma amputada, não existe prótese”. (página 419)

Como forma de corroborar e legitimar a sua interpretação sobre o caso de João


Roque, o perito e médico Francisco Américo Neto ainda anexa uma série de artigos,
cartilhas de Hospitais e recomendações do Conselho de Ética Médica a respeito da
Medicina Paliativa e dos cuidados indicados aos pacientes classificados como fora das
possibilidades terapêuticas curativas. Sua estratégia nos serve como um indicativo: a
cuidadosa seleção de aliados é um dos primeiros sinais de que a controvérsia está
suficientemente acalorada e acesa para produção de documentos técnicos. As referências
a outros documentos, citações, notas de rodapé, tabelas, gráficos e vocabulário específico
são os elementos que fornecem uma impressão de profundidade e fabricam o que poderá
ser transformado em ficção ou fato. Trata-se de um processo coletivo, dependente de uma
rede de associações, em que as alegações de um ou de alguns poucos indivíduos,
paulatinamente, tornar-se-ão a alegação de muitos. Por essa dinâmica, o fato se torna
aquilo que é retirado do centro dessas controvérsias e coletivamente estabilizado quando
a atividade dos textos ulteriores não consiste apenas em crítica ou deformação, mas
também em ratificação (LATOUR, 2000).

Entre os materiais selecionados pelo perito, destaca-se o artigo de Maria Elisa


Villas-Bôas, favorável à Resolução 1.805/2006 do Conselho Federal de Medicina, que
autoriza aos médicos suspender ou limitar os tratamentos e procedimentos que
prolonguem a vida de doentes terminais, respeitadas as decisões do próprio paciente e de
seus representantes legais:

Foi precisa muita discussão e maturamento para se chegar à conclusão – algo


óbvia, é de se dizer – de que ninguém é obrigado a morrer intubado, usando
drogas vasoativas (para o coração se manter, a duras penas, batendo) e em
procedimentos dialíticos numa UTI. O Direito não pode obrigar isso. O Direito
não tem por que obrigar isso. Não, não é crime morrer em casa, ou sob cuidados
que mais se aproximem dos domiciliares.

Na verdade, foi assim que sempre se morreu. E, de repente, a ciência vira uma
obrigação e uma pena para quem morre? O fato de os recursos existirem não
os torna compulsórios, notadamente se nada têm a oferecer, além de mais
algumas horas artificialmente providas, de sofrimento fútil e muitas vezes
indesejado. O desejo do paciente em passar por tais sacrifícios é, por sinal, o
juiz mais fiel dessa sobrevida artificial e precariamente oferecida. O direito à
vida não envolve um dever de sobrevida artificial a qualquer custo. Não se trata

46
de antecipar o tempo natural de vida, mas de vivê-lo até seu termo espontâneo.
A Resolução não tem intuito suicida ou homicida, mas salvaguarda, apenas, a
recusa à tecnologia, onde ela já não se mostre benéfica.

(...)

Não se trata de abandonar o paciente terminal, mas de mudar o foco de sua


abordagem, a fim de promover-lhe mais conforto e dignidade, em lugar de
mais degradá-lo com tentativas vãs que ele não deseja e pelas quais não precisa
passar. A ortonotásia, Senhores, é a negação à iatrogenia última no momento
de morrer, representada pelo mau uso dos recursos disponíveis. Nada mais que
isso. É a denegação dos recursos que se mostrem fúteis, que causam mais mal
do que bem, mais sofrimento do que a vantagem de algumas horas a mais de
sobrevida artificial, sofrida, sedada, degradada, tornada indigna pela excessiva
intervenção e manipulação indevida, invadida em sua intimidade e ferida em
sua autonomia.

O que a Resolução diz, em outras palavras, é: “não sejam iatrogênicos com


seus pacientes que morrem. Pesem a indicação técnica e humana, em lugar de
agirem como autômatos aplicadores de recursos e protocolos, e perguntem –
sim, perguntem! Eles pensam e sentem! – aos pacientes o que eles acham das
possibilidades, das vantagens oferecidas e das desvantagens das medidas que
vocês têm a oferecer”. A Resolução é, no mínimo, um compelir ao diálogo,
hoje tão raro, a despeito de tão precioso no relacionamento profissional-
paciente, sobretudo quando se aproxima o momento final.

Submeter-se à tecnologia não pode ser obrigação legal, mesmo porque ela
sequer é disponibilizada a todos, muitos dos quais dela efetivamente
necessitariam.

A ortotanásia é o direito de morrer de sua doença, na sua hora, a sua morte, se


já não há como debelar sua ameaça iminente. Onde a ilegalidade de dizer:
“cansei de tentativas vãs! Deixem-me morrer em paz a minha própria morte, e
simplesmente viver a minha vida até o fim, em lugar de me impingirem uma
sobrevida que já não me pertence, em que já não me pertenço, nem aos meus”?

Onde a inconstitucionalidade de negar uma tentativa de sobrevida que, de tão


artificial e manipulada, pode senti-la o paciente como já não pertencente a ele?
Haverá, pelo contrário, invasão maior, lesão maior aos direitos à intimidade e
à privacidade, que obrigar alguém a morrer ligado a modernos aparelhos contra
sua vontade e contra mesmo a efetiva finalidade desses recursos? A Resolução
é, somente, a negativa a isso. E não fiquemos a elocubrar no vazio, aumentando
as dúvidas e o medo da Justiça, como se ela fosse uma ameaça sem o mínimo
senso, a pesar sobre a humanidade. A Justiça e a Medicina têm de trabalhar na
mesma direção: a dignidade da pessoa, o respeito ao ser humano.

Isso não é crime. Isso é humano. É respeito. É dignidade. É o objetivo do


ordenamento jurídico, da medicina, da ética, da religião. Assim morreu João
Paulo II. Assim morreu Covas. Assim morreu Jorginho Guinle. Religião,
política e sociedade. Onde o delito? Quem questionou suas mortes? Por que,
então, contestar-se-ia a Resolução que nada diz além disso? A Resolução não
inova. Ela só vem tentar apascentar as dúvidas dos médicos que temem
injustificadamente ser acusados de eutanásia ou que não conseguem conviver
com a sensação de fracasso perante a morte que já não podem evitar e, com
isso, condenam seus pacientes à biotecnologia, em lugar de os beneficiarem
com ela.

A Resolução veio dizer: “sim, é possível deixá-los partir no tempo da natureza,


se já não há o que fazer”. Não se trata de abandoná-los. Nunca! Mas de mudar
o foco: do tentar desesperadamente curar – quando já se o sabe infrutífero –

47
para o cuidar, o paliar, o estar ao lado, o dar conforto, o sedar a dor, o amparar
a família, o segurar a mão, em lugar de apenas ajustar os botões.

Em síntese, a Resolução 1.805/2006 é, tão-somente, a consagração da milenar


máxima hipocrática[6], 460 a.C., de que “o médico deve tentar a cura daqueles
que podem ser curados, diminuir a morbidade de doenças onde é possível,
assegurar o conforto do paciente. E finalmente, quando a doença tiver vencido
e o paciente for morrer, o médico é obrigado a reconhecer isto” (páginas 423 a
426).

No que diz respeito ao caso de João Carlos Ferreira, usuário-morador do Hospital


Colônia Itapuã, os bens em disputa também são os mesmos: a correta temporalidade da
vida, o poder de decisão do paciente sobre seu próprio tratamento e os procedimentos
médicos mais adequados, diante do quadro clínico. Em novembro de 2013, sete meses
após a escritura da petição inicial (formulada pelo Ministério Público), é sentenciada a
decisão sobre a apelação cível. Por unanimidade, os desembargadores da 1ª Câmara Cível
do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul decidem pelo desprovimento do
pedido, ou seja, pela recusa da solicitação de supressão das vontades do idoso.
Sublinhando se tratar de caso “bastante singular”, Irineu Mariani, relator da sentença,
argumenta:

Com efeito, dentro do que se está a designar Biodireito, temos:

a eutanásia, também chamada de “boa morte”, “morte apropriada”, suicídio


assistido, crime caritativo, morte piedosa, assim entendida aquela em que o
paciente, sabendo que a doença é incurável ou ostenta situação que o levará a
não ter condições mínimas de uma vida digna, solicita ao médico ou a terceiro
que o mate, com o objetivo de evitar os sofrimentos e dores físicas e
psicológicas que lhe trarão com o desenvolvimento da moléstia, o que, embora
todas as discussões a favor e contra, a legislação brasileira não permite;

a ortotanásia, que vem a ser a morte no seu devido tempo, sem prolongar o
sofrimento, morte sem prolongar a vida por meios artificiais, ou além do que
seria o processo natural, o que vem sendo entendido como possível pela
legislação brasileira, quer dizer, o médico não é obrigado a submeter o paciente
à distanásia para tentar salvar a vida;

a distanásia, também chamada de “obstinação terapêutica” (L’acharnement


thérapeutique) e “futilidade médica” (medical futility), pela qual tudo deve ser
feito, mesmo que o tratamento seja inútil e cause sofrimento atroz ao paciente
terminal, quer dizer, na realidade não objetiva prolongar a vida, mas o processo
de morte, e por isso também é chamada de “morte lenta”, motivo pelo qual
admite-se que o médico suspenda procedimentos e tratamentos, garantindo
apenas os cuidados necessários para aliviar as dores, na perspectiva de uma
assistência integral, respeitada a vontade do paciente ou de seu representante
legal.

Pois bem.

O caso sub judice se insere na dimensão da ortotanásia. Em suma, se o paciente


se recusa ao ato cirúrgico mutilatório, o Estado não pode invadir essa esfera e
procedê-lo contra a sua vontade, mesmo que o seja com o objetivo nobre de
salvar sua vida.

48
Com efeito, o Papa João Paulo II, ao promulgar, em 1995, a Encíclica
Evangelium Vitae, condenou apenas a eutanásia e a distanásia, silenciando
quanto à ortotanásia. Isso é interpretado como implícita a sua admissão pela
Igreja Católica, que é, como sabemos, bastante ortodoxa nos temas relativos à
defesa da vida.

Sem adentrar na disciplina dada a esses temas pela Resolução nº 1.805/2006,


do Conselho Federal de Medicina, e ficando no âmbito constitucional e
infraconstitucional, pode-se dizer que existe razoável doutrina especializada
no sentido da previsão da ortotanásia, por exemplo, o Artigo ANÁLISE
CONSTITUCIONAL DA ORTOTANÁSIA: O DIREITO DE MORRER
COM DIGNIDADE, de autoria do Dr. Thiago Vieira Bomtempo, disponível
no seu portal jurídico na Internet.

(páginas 53 e 54)

Em decisão unânime, os desembargadores da 21ª Câmara Cível de Porto Alegre,


responsáveis pelo processo de Irene Oliveira de Freitas, também optam pelo respeito à
decisão da paciente de não se submeter à hemodiálise, sentenciando de maneira favorável
a uma morte “natural” e não prolongada inutilmente:

O presente processo, ultima ratio, reflete a disputa entre a ortotanásia e a


distanásia, corresponde a primeira o assegurar às pessoas uma morte natural,
sem interferência da ciência, evitando sofrimentos inúteis, assim como dando
respaldo à dignidade do ser humano, ao passo que a segunda implica
prolongamento da vida, mediante meios artificiais e desproporcionais,
adjetivando de “obstinação terapêutica”, na Europa, senão de “futilidade
médica”, nos Estados Unidos.

Jean Robert Debray foi o responsável pela introdução na linguagem médica


francesa da expressão ‘obstinação terapêutica’, que tinha o significado de
‘comportamento médico que consiste em utilizar processos terapêuticos, cujo
efeito é mais nocivo do que os efeitos do mal a curar, por inútil, porque a cura
é impossível ou o benefício esperado é menor que os inconvenientes
previsíveis’.

Na busca de precisão conceitual, existem muitos bioeticistas, entre os quais


GAFO (Espanha), que utilizam o termo ortotanásia para falar da ‘morte no seu
tempo certo’”.

Quiçá seja este um dos embates filosóficos de maior dimensão em termos de


definição humana, por estar embainhada pela percepção individual quanto ao
sentido da vida.

Particularmente no âmbito da atuação dos médicos, o tratamento decorrente


dos termos do art. 57, Código de Ética Médica, que veda ao médico “Deixar
de utilizar os meios disponíveis de diagnóstico e tratamento a seu alcance em
favor do paciente”, veio a receber considerável giro em seu alcance, quando o
Conselho Federal de Medicina baixou a Resolução CFM nº 1.805/2006.

Vale destacar artigo eletrônico de ALEXANDRE MAGNO FERNANDES


MOREIRA, notificando a legislação do Estado de São Paulo, claro, relativa
aos serviços médicos disponibilizados pelo Poder Público Estadual, e a
especialíssima circunstância a ela atrelada, por envolver saudoso personagem
da vida nacional:

“Aliás, já existe lei estadual dispondo expressamente em sentido contrário. Em


São Paulo, a Lei Estadual 10.241/1999, que regula sobre os direitos dos

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usuários dos serviços de saúde, assegura ao paciente terminal o direito de
recusar tratamentos dolorosos ou extraordinários para tentar prolongar a vida.
Mário Covas, governador do Estado à época, afirmou que sancionava a lei
como político e como paciente, já que seu câncer já havia sido diagnosticado.
Dois anos depois, estando em fase terminal, se utilizou dela, ao recusar o
prolongamento artificial da vida”. (páginas 273 e 274)

Em consonância com os ideais reivindicados pela Medicina dos Cuidados


Paliativos, todas as sentenças dos juízes, assim como as argumentações de peritos nos
casos apresentados são construídas em torno da defesa de uma morte “natural”, não
prolongada, realizada (preferencialmente) em casa, com o apoio e presença de familiares
e de acordo com os desígnios e sentimentos pessoais de cada paciente. Completando o
conjunto de justificativas, ainda podemos verificar a negação dos aparatos médicos
(considerados inadequados e responsáveis pelo sofrimento moral e físico dos doentes), a
valorização da integridade física e psíquica dos enfermos e a preservação da dignidade
humana – princípio que analisarei com maior detalhe na próxima seção. Pelas reflexões
expostas, a realização de exames, o assujeitamento às máquinas que controlam as funções
vitais e a invasão e fragmentação do corpo por tubos e sondas não seriam justificados,
tendo em vista a impossibilidade de cura e a agressividade dos intentos. A autenticidade
da vida, a possibilidade de desfrute dos momentos finais com tranquilidade, dignidade e
plenitude estariam ameaçados sob a égide do maquinário. Sob essa ótica, a transposição
dos limites físico-temporais, impostos pela “natureza”, promoveria uma sobrevida
espúria, não-genuína, que se apresenta como um espelho distorcido ou um mero
simulacro de vida - um falso pretendente, cópia degradada construída a partir de uma
dissimilitude, perversão e desvio:

o simulacro implica grandes dimensões, profundidades e distâncias que o


observador não pode dominar. É porque não as domina que ele experimenta
uma impressão de semelhança. O simulacro inclui em si o ponto de vista
diferencial; o observador faz parte do próprio simulacro, que se transforma e
se deforma com seu ponto de vista. Em suma, há no simulacro um devir-louco,
um devir ilimitado como o do Filebo em que o “mais e o menos vão sempre à
frente”, um devir sempre outro, um devir subversivo das profundidades, hábil
a esquivar o igual, o limite, o Mesmo ou o Semelhante: sempre mais e menos
ao mesmo tempo, mas nunca igual. (DELEUZE, 2000, p. 265).

Sob os cuidados da instituição hospitalar, a morte se tornaria um fenômeno


puramente técnico, um momento regulável que ocorreria por etapas de sucessivas
frustrações e derrotas do poder médico e que nada teria a ver com o andamento autônomo
do organismo (RODRIGUES, 2006). Os pedidos e clamores favoráveis à morte natural
reivindicam, assim, a possibilidade de vivência dos momentos finais como um processo,
como um caminhar que não leve o enfermo a perder sua própria individualidade e

50
integridade corporal, ameaçadas pelas práticas e rotinas hospitalares. Em termos ideais,
o instante mesmo da morte deveria ser marcado por uma ação corporal (como um fechar
de olhos, o último suspiro, a parada da respiração), e não por aparelhos (como os registros
de eletroencefalograma). Entende-se que a vida administrada nos leitos se torna
despedaçada, decomposta, dissimulada, “artificial”, indigna e alienada, uma vez que
retira do paciente o controle sobre sua própria morte e o “direito de morrer de sua própria
doença, na sua hora, a sua morte”. A temporalidade correta para se morrer, por esse
sentido, é entendida como aquela vivenciada dentro do tempo da natureza, arquitetada
por oposição ao tempo tecnologia, sempre em suspensão, petrificado, ilusório e simulado.
Um naturalismo que se sustenta por três axiomas: 1) o artificial nunca é tão bom quanto
o natural; 2) a criação fornece a prova da vida; 3) a homeostase (a auto-regulação) é a lei
fundamental (RABINOW, 2002).

O sentimento de desapreço para com o modo de vida mecanizado, a percepção do


indivíduo como um ente total e não compartimentado, assim como a celebração de um
passado próximo, marcado pela morte comunitária e domiciliar fornece às justificativas
uma dimensão romântica, de resistência e denúncia do individualismo universalista e de
seus corolários racionalista e fisicalista. Desenvolvido em fins do século XVIII como uma
reação às mudanças trazidas pela Revolução Francesa, o Romantismo, especialmente o
alemão, pode ser compreendido como uma corrente (ou contra-corrente) do pensamento
moderno de caráter hierárquico e holista, alicerçado sobre os valores da diferença,
totalidade, fluxo, pulsão, experiência e compreensão (DUARTE, 2004). No Romantismo,
a ideia de totalidade é articulada como um bem a ser recuperado após a fragmentação do
mundo e segmentação das partes de todos os entes, proporcionadas pela ideologia
universalista. Pela ênfase na totalidade, afirmam-se também as categorias
“vida”/”espírito” e a percepção de que a unidade é algo maior do que simplesmente a
soma ou justaposição das partes (como no modelo mecanicista). As bases do movimento
ainda estão escoradas sobre um caráter não igualitário, hierárquico ou distinto,
permanentemente dinâmico e móvel de todos os fenômenos e entes (por oposição ao
mundo estável e fixo do universalismo), subjetivo e experiencial, relacionado aos ritmos
e orientações únicos e singulares de cada fluxo vital.
Pelo traçado que se desenha nas alegações de juízes e especialistas, a morte
genuína seria aquela “nem prolongada, nem apressada”, experimentada com lucidez,
controle, sem aparelhos invasivos atrelados ao corpo e dentro do ritmo da natureza,

51
respeitando-se os limites cíclicos que ela impõe a cada existência humana. Imagina-se
que a natureza, deixada por conta própria, fará aquilo que será melhor aos homens,
inclusive para sua vida em comum, poupando-lhes ou prolongando-lhes o tempo de vida
da maneira mais adequada. Por esse caminho, cria-se a consciência de que as pessoas
possuem certos limites a serem atingidos, um corpo imaculado marcado por processos
naturais que deverão ser preservados, quando a perspectiva de cura já não é uma opção.
Além disso, a busca pela ortotanásia afasta a posição liminar, ambígua e incerta (VAN
GENNEP, 1978; TURNER, 2005) com a qual o doente em fase terminal poderia
conviver: alguém cujo corpo se dissolveria por entre máquinas e cuja vida poderia ser
estendida por períodos indeterminados, como um cadáver-vivo que gera angústias quanto
ao seu estatuto ontológico e que desafia as margens que separam a vida e a morte, o ser,
o não ser, a realidade e a ficção. Se os avanços técnicos e as novas demandas por
transplante e doação de órgãos fizeram transbordar novos híbridos entre os domínios da
natureza e cultura, da humanidade e não-humanidade, a defesa de uma morte natural surge
como uma tentativa de apaziguar as fissuras e ranhuras produzidas sobre a Constituição
Moderna. Dada a relação de assimetria instituída entre passado e futuro ou natureza e
cultura, retornar à tradição da morte domiciliar, livre de aparelhos e sondas, seria o mesmo
que circunscrever os momentos finais dentro do domínio fechado e puro da natureza,
dotando a morte de certeza e exatidão.

Na réplica concedida à advogada de João Roque, por outro lado, o entendimento


de que o paciente tivera a morte acelerada pelos médicos, sem o consentimento de
familiares, é reafirmado. A ilegalidade da ação se encontraria não apenas na falta de
respaldo legal para a atividade médica, mas também pelo seu fundo moral considerado
perverso. Dadas as alternativas e possibilidades terapêuticas disponíveis no momento da
internação, a morte do enfermo teria sido não apenas um fracasso médico, mas uma
tentativa “egoísta” de salvaguardar a rotina, as despesas e o controle das emoções no
ambiente hospitalar:

A prática da Eutanásia está explícita!

A eutanásia no Brasil é crime, trata-se de homicídio doloso que, em face da


motivação do agente, poderia ser alçado à condição de privilegiado, apenas
com a redução da pena. Laborou com acerto o legislador penal brasileiro, não
facultando a possibilidade da eutanásia. Ocorre, todavia, que na prática a
situação é bem diferente, pois envolve além do aspecto legal, o aspecto médico,
sociológico, religioso, antropológico, entre outros.

Por esses problemas é que a eutanásia, embora sendo crime, é praticada


impunemente no Brasil. Relatos de médicos que aplicaram a eutanásia em

52
parentes somam-se a relatos de médicos que a praticaram, sempre todos
imbuídos do espírito da “piedade”. Ora, não sejamos hipócritas, pois o que
realmente leva à prática da eutanásia não é piedade ou a compaixão, mas sim
o propósito mórbido e egoístico de poupar-se ao pungente drama da dor alheia.
Somente os indivíduos sujeitos a estados de extrema angústia são capazes do
golpe fatal eutanásico, pois o alívio que se busca não é o do enfermo, mas sim
o próprio; que ficará livre do “fardo” que se encontra obrigado a “carregar”.

Esta é a verdade. O Hospital Réu queria se “livrar do problema”, existia


interesse financeiro na situação.

A vida é nosso bem maior, dádiva de Deus. Não pode ser suprimida por decisão
de um médico, qualquer que seja a circunstância, pois o que é incurável hoje,
amanhã poderá não sê-lo e uma anomalia irreversível poderá ser reversível na
próxima semana.

Afinal, se a sociedade brasileira não aceita a pena de morte, é óbvio que esta
mesma sociedade não aceita que se disponha da vida de um inocente, para
poupar o sofrimento ou as despesas que causa. Enquanto for crime a eutanásia,
sua prática deve ser punida exemplarmente.

(...)

O Hospital Réu pressionava durante todo o tratamento que os Autores


retirassem o “de cujus” do Hospital para que ele pudesse “morrer em casa”,
não se preocupando com o bem estar da família e do paciente.

Tanto é verídica tal informação que está explícito no prontuário médico a


prática da eutanásia, vindo o Hospital a relatar que o paciente não iria para a
UTI caso necessário, isso é um absurdo!

Como pode o Réu se negar a prestar atendimento se necessário for?

É inconteste que o Réu contribuiu para a aceleração na morte do pai dos


Autores.

Não há que se falar em abalo moral dos Autores em relação à morte de um ente
querido, pois o abalo ocorrido fora por culpa exclusiva do Réu que
insistentemente negava tratamento ao “de cujus” que ao final de sua vida teve
sua morte acelerada.

Ora, nobre julgador, o fato da gravidade da doença não é motivo para que o
Hospital Réu negligencie no atendimento, nem tampouco que acelere a morte
como foi o ocorrido. (página 337)

No caso de João Roque, os aspectos relacionados à perfectibilidade, à experiência


e ao fisicalismo se revelam fundamentais para a construção argumentativa da advogada,
concentrada ainda sobre a santidade da vida e o dever de mantê-la a qualquer custo.
Preocupado com os modos de apreensão e edificação das realidades, sensibilidades e
afetividades no Ocidente, Luiz Fernando Dias Duarte (1999) estabelece a perfectibilidade
como a capacidade humana de se aperfeiçoar continuamente, dentro de um espectro que
seguiria em direção ao progresso, ao desenvolvimento, à transformação ilimitada e à
vanguarda. É uma ideia que pode ser considerada decorrente da faculdade de
racionalização e da impressão de que os sujeitos são portadores de um mecanismo de

53
“verdade” (a razão) que se encontra impresso em seu “interior” e que sustenta a sua
vontade. A potência vislumbrada pela perfectibilidade, contudo, só poderia ser
concretizada em relação ao mundo exterior por intermédio da experiência: é pelos
sentidos, pela maneira como os homens sentem e percebem o mundo que a razão humana
pode florescer e, assim, proporcionar uma existência cada vez mais aperfeiçoada,
capacitada e próxima do futuro. Em termos muito gerais, podemos encontrar aqui um
traçado metafísico elementar para o Ocidente há mais de dois milênios: aquele que separa
o mundo sensível (o nosso mundo, misturado, em transformação, lugar dos corpos e das
imagens) do inteligível (mundo superior, ideal, ordenado, estável, das essências e das
matemáticas) e que estabelece a possibilidade de acesso ao conhecimento e saber do
mundo sensível por meio da submissão aos objetos ideais do mundo inteligível, de modo
a copiar-lhes o modelo. O terceiro aspecto, o fisicalismo, diz respeito à corporalidade em
si como dimensão auto-explicativa do ser humano. Sua emergência está relacionada a
uma transformação cosmológica elementar (operada desde o final do século XVII), fruto
da separação radical estabelecida entre corpo e espírito e a partir da qual se passa a
considerar a corporalidade humana como dotada de uma lógica própria, que deve ser
descoberta e preservada.

No discurso promovido pela advogada, as sensibilidades ainda são desenvolvidas


em torno do sentimento de esperança na medicina e seus progressos técnicos, capazes de
alterar destinos, otimizar existências e produzir vitalidades: na crença conduzida por
expectativas futuras, por um “ainda não” que pode vir a se concretizar por meio de ações
tomadas no tempo presente (DURÃO; COELHO, 2013). As emoções aparecem como
forças imperativas, públicas, espontâneas, que distorcem a regularidade e controle das
instituições médicas, mas que nem por isso devem ser tolhidas ou controladas por práticas
consideradas criminosas, como a eutanásia. O caráter de denúncia sobre a resistência
médica na internação, assim como o questionamento da sedação terminal e a alegada
aceleração do processo de morte de João Roque são indicativos de um tipo de
aproximação estabelecida ao programa de controle e dominação da natureza e
particularmente à história da medicina curativa, comprometida com três grandes
princípios: a conservação da vida, a cura das doenças e o prolongamento da vida
(RODRIGUES, 2006). Sob essa perspectiva, entende-se que a implacabilidade da doença
e dos processos naturais poderiam ser aliviados pelo conhecimento médico, ao mesmo
tempo em que se constrói a concepção de organismo enquanto espécie mecânica

54
funcional, apta a ter suas peças substituídas, quando necessário, em prol da sua correta
atividade, produtividade e longevidade.

Ainda que não seja expresso nos autos o tipo de filiação religiosa de João Roque
e sua família, é possível identificarmos a percepção da vida “como bem maior e dádiva
de Deus”, como um valor imaculado, bem sacro a ser protegido e resguardado por meio
de todos os suportes tecnológicos e esforços humanos possíveis, embora as
recomendações da própria Igreja Católica caminhem em direção contrária - à ortotanásia
(a suspensão ou limitação dos procedimentos terapêuticos em caso de doença terminal),
como ressaltado nas sentenças dos casos anteriores. Desse modo, o que se defende é uma
morte medicalizada, monitorada, asséptica, inscrita em rotinas institucionais, em ações
práticas, em técnicas especializadas (MENEZES, 2004) e vivenciada sob o tempo do
maquinário. Por esse mote, reafirma-se também a capacidade humana de transformar o
fluxo natural das coisas, de reproduzir a natureza por meio de métodos artificiais e de
alterar as leis da genética ou de fazê-las operar ao seu favor pela sua interferência sobre
o mundo. A natureza não seria uma dimensão fixa e inalterável, mas uma esfera moldável,
suscetível a novos arranjos, um circuito aberto e dinâmico, sobre o qual o homem seria
capaz de prever, intervir e remodelar destinos biológicos, assim como manipular,
aperfeiçoar e disciplinar corpos imperfeitos e desgovernados, capazes de contradizer todo
o sistema direcionado à preservação da vida, como é o caso dos pacientes terminais.

De maneira complexa e contraditória, a polarização entre os elementos da


“natureza” e da “cultura”, no que se convencionou a chamar de Ocidente, pode ser
vislumbrada tal como um prisma que gera diferentes padrões ao ser girado, sendo ambos
ora percebidos como componentes circunscritos ora como circunscritivos
(STRATHERN, 2014). A ideia de que a sociedade é produzida por uma ação
empreendedora, com base na convicção central de que o homem produz a cultura, ao
mesmo tempo em que se relaciona com algo externo e incontrolável (sua própria
natureza), conecta-se ainda a outras tantas possibilidades, segundo Marilyn Strathern: ao
pensarmos a cultura como algo comum às espécies, fazemos referência a uma
manifestação da “natureza humana”; ao pensarmos a cultura como algo que particulariza
o gênero humano em relação ao resto do mundo, estabelecemos um certo refinamento da
“natureza animal” dada, que compartilhamos com outras espécies. A natureza, assim,
pode tanto fazer referência à natureza humana quanto ao ambiente não social.

55
Por meio de uma série de avaliações dessas imagens do mundo “real”, o que se
fabrica é uma lógica dividida entre a atividade e a passividade, o sujeito e o objeto, entre
a criação e o recurso, entre o estímulo e a limitação. Esses valores, portanto, não têm uma
posição e relação fixa, mas variam continuamente conforme o ponto em que se encontra
o observador. Em dado momento, a cultura pode ser uma força criativa e ativa que produz
forma e organização a partir de uma natureza passiva e dada. Em outro, pode ser o
resultado amansado e refinado de um processo proveniente de recursos externos a ela.
Outro conjunto de pressupostos que ocupa um lugar análogo ao da natureza e
cultura é o par indivíduo e sociedade. Nesse contexto, a natureza é pensada em termos de
ambiente, recursos, limitações, ao passo que a natureza humana é pensada em termos de
capacidades universais e inatas. O indivíduo (biológico) passa a ser contraposto à
sociedade, ora como a parte mais animal e incontrolável da oposição, ora como a base
sobre a qual a sociedade (e a cultura) poderá se desenvolver. Trata-se de um paradigma
constitutivo do mundo moderno, em que a cultura é feita de pedaços da natureza e em que
nós mesmos contemos uma natureza que é anterior à cultura. Por esse sentido, a noção de
natureza e cultura seria mais do que a soma das metades de um todo (uma dicotomia),
mas um contínuo, um processo que nos leva a classificar as coisas como mais ou menos
naturais ou civilizadas, inferiores ou superiores.

56
Capítulo 3

Dignificando existências, santificando corporalidades:

a tutela da vida no Biopoder

3.1 – Fazendo Viver, Deixando Morrer: A gestão da vida na Era do Biopoder

Até a Era Clássica, uma das prerrogativas mais fundamentais do poder soberano
se encontrava no direito de vida e de morte6; no direito de causar a morte ou impedi-la,
por meio de uma assimetria flagrante que demarcava o fazer morrer ou deixar viver.
Segundo Foucault (2005; 2009), nesse período o poder se exercia como uma instância de
confisco, subtração e apropriação das riquezas, bens e serviços, cuja sustentação era
garantida mediante mecanismos e estratégias de apreensão das coisas, do tempo, dos
corpos e, finalmente, das vidas humanas. A partir do século XVII, a velha prática da
subtração, realizada desde a Roma Antiga, seria atenuada e relativizada, concedendo ao
dominante o direito de causar a morte de inimigos apenas em caso de perigo e/ou ameaça
direta. O direito de vida e de morte passou a não mais ser utilizado como um privilégio
absoluto, mas como uma condição de defesa do soberano e de sua sobrevivência enquanto
tal. A potência de morte, que circunscrevia e simbolizava o poder soberano,
paulatinamente foi sendo substituída pela administração dos corpos e pela gestão da vida,
demarcando o início do que Foucault denomina como biopoder.

As bases sobre as quais se assentaria essa nova relação com a vitalidade humana
estariam relacionadas, sobretudo, ao reforço, controle, vigilância e majoração das forças
produtivas - manifestações orientadas para o crescimento e ordenação da vida, e não mais
para sua destruição e negação. A partir dessa nova perspectiva, a biologia humana passou
a ser gradativamente apreendida pelo Estado por meio de um conjunto de técnicas
políticas destinas ao viver, cujo foco se concentrou em duas esferas principais e
interconectadas (uma anatômica e outra biológica; uma individualizante e a outra
coletivizante): 1) a anátomo-política do corpo humano, procedimentos centrados no
corpo individual enquanto máquina a ser adestrada, ampliada em suas aptidões,
disciplinada, aprimorada, extorquida de suas forças e integrada a controles eficazes e

6
Herdeiro do estatuto da patria potestas, que concedia ao pai de família romano o direito de dispor da vida
de seus filhos e escravos (Foucault, 2009).

57
econômicos; 2) controle biopolítico das populações, fenômeno que ocorre a partir do
século XVIII e que consiste em controles reguladores do corpo enquanto espécie,
transpassado por processos biológicos; intervenções que tratarão de ajustar os
nascimentos, a mortalidade, o nível de saúde, a duração da vida, a longevidade.

Entre os saberes e instituições responsáveis por refletir o biológico no político,


destaca-se a moderna medicina científica, nascida em fins do século XVIII (com o
aparecimento da anatomia patológica entre Morgani e Bichat). Combinando elementos
da medicina de Estado alemã (que normalizava e centralizava a profissão médica), da
medicina urbana francesa (que atuava, principalmente, sobre as coisas e meios de
existência) e da medicina da força de trabalho inglesa (que tinha como alvo o controle e
vigilância dos pobres e proletários), a medicina desenvolvida no Século das Luzes estava
interessada no controle da saúde e do corpo das classes mais pobres (com o objetivo de
torná-las mais aptas e menos perigosas às classes mais ricas), na noção de higiene pública
e nas técnicas de contenção e modificação de ambientes e artefatos prejudiciais à saúde,
por meio da normalização do ensino e do saber médico, e sua consequente subordinação
a uma administração central estatal. Acompanhando o próprio desenvolvimento do
capitalismo, que socializou o corpo enquanto força de trabalho e produção, a medicina
moderna se estabeleceu a partir de uma dimensão global e coletiva, centrada no biológico,
no somático e no corporal, ainda que sempre mantendo presente seu aspecto
individualizante na relação médico-paciente.

Com a consolidação desse novo saber-poder, os fenômenos próprios da vida


humana passaram a ser envolvidos na história e no campo das técnicas políticas, dotando
os homens da experiência e do aprendizado sobre o que é ser uma espécie viva no mundo,
ter um corpo, performance corporal, probabilidade de vida e forças produtivas que podem
continuamente ser aprimoradas e repartidas de forma ótima (FOUCAULT, 2009). As
estratégias biopolíticas, capilarizadas ao longo de instituições, organizações e aparelhos
do Estado, possibilitaram a emergência de um certo discurso de verdade sobre os seres
humanos e sua “saúde”, um certo conjunto de autoridades consideradas competentes para
falar e intervir sobre a vida e a morte, assim como um certo modo de subjetivação que
levou os indivíduos a atuar e cuidar de si próprios, por meio de práticas do self
(RABINOW; ROSE, 2006). Por analogia com o que Butler desenvolve como sendo o
“sexo”, imagino a “saúde”, aqui, como uma categoria normativa de ideais regulatórios;
como uma força reguladora que produz os corpos que governa, demarcando-os,

58
circunscrevendo-os, diferenciando-os mediante certas práticas materializadoras de suas
normas. Acredito ser interessante resgatar a proposta da autora para pensarmos também
a própria noção de performance. Para Butler (2002), a performatividade pode ser definida
como uma prática reiterativa e referencial, por meio da qual os discursos produzem os
efeitos que enumeram. Sem dúvida nenhuma, podemos elencá-lo como um conceito
fundamental dentro do panorama biopolítico, não apenas por introduzir o quadro dentro
do qual os corpos podem ser lidos e imaginados, mas também por instituir certas normas
que classificam e identificam os comportamentos e atividades corporais como esperados,
corretos e saudáveis.

Uma consequência inegável deste desenvolvimento pode ser observada inclusive


na crescente importância dada à atuação da norma e do sistema jurídico. Na era do
biopoder, “já não se trata de pôr a morte em ação no campo da soberania, mas de distribuir
os vivos em um domínio de valor e utilidade” (FOUCAULT, 2009). A lei e a instituição
judiciária, dentro dessa lógica, passam a se integrar cada vez mais num contínuo de
aparelhos médicos e administrativos cujas funções serão, acima de tudo, regular, corrigir
e se encarregar da vida. Desde então, o que passou a ser reivindicado no Direito foi a
própria vida, entendida como as necessidades fundamentais, a essência concreta do
homem, a realização de suas virtualidades, um bem jurídico inviolável, observável
inclusive na própria Constituição Brasileira de 1988, que institui em seu artigo 5º a
igualdade de todos perante a lei e a inviolabilidade do direito à vida.

Se a vida se tornou um objeto político, assim como o próprio corpo, e saúde,


felicidade, satisfação, dignidade e sexualidade (foco fundamental de disputa na era do
biopoder, especialmente por articular os dois eixos pelos quais se desenvolveram as
tecnologias políticas da vida: as disciplinas do corpo e a regulação da população), o
mesmo pode ser dito a respeito da morte. Suplementando as técnicas biopolíticas, o direito
soberano de fazer morrer e deixar viver será ainda conservado, mantido vivo
sorrateiramente pelas entrelinhas da máquina estatal e manifestado, especialmente, sob a
forma do racismo. A potência de morte, que sustentava as ações soberanas na Era
Clássica, será apresentada como uma espécie de complemento (ainda que fundamental)
de um poder estatal que se exerce pela gestão, majoração e multiplicação do viver.
Elemento central na genealogia do biopoder, a concepção de raça se consolidou como um
prisma não apenas para a imaginação da nação, mas também para o controle político da
saúde e da vitalidade nacional. Entre as manifestações históricas que nos indicam essa

59
centralidade, podemos citar: a chamada “guerra das nações” do século XVIII,
posteriormente a biologização massiva no século XIX (ligada ao pensamento
evolucionista, pré e pós-darwiniano), com as teorias da degenerescência e as estratégias
de eugenia que se disseminaram pelo mundo a partir da segunda metade do século XIX
(RABINOW; ROSE, 2006). Por meio do racismo, a espécie humana pôde ser
fragmentada, distinta, hierarquizada, qualificada entre grupos superiores (bons) e
inferiores (ruins), demarcando, assim, um corte entre quem deveria viver e quem deveria
morrer. Numa sociedade de normalização, a raça, portanto, transformou-se, durante um
longo período, no elemento capaz de justificar a morte do outro, portador de uma
inferioridade, anormalidade, incapacidade e degenerescência; ser cuja própria existência
se tornava condenável biologicamente, passível de usurpação em nome de uma vida
coletiva supostamente mais elevada, sadia e pura.

Ao longo do século XX, no entanto, as racionalidades e estratégias biopolíticas


sofreriam algumas alterações. A jurisdição médica, anteriormente restrita ao controle de
acidentes, enfermidades e doenças, passaria a se confrontar com a administração da
reprodução, com os limites éticos e morais relacionados à produção da vida e da morte,
com a detecção e gestão de indivíduos e populações considerados de “risco”
(“suscetíveis”) e com a manutenção e otimização da saúde do corpo. A disciplina médica
se transmutaria em uma tecnomedicina, altamente dependente de redes de capitalização
de recursos e de sofisticados equipamentos para diagnóstico e terapia. Como
consequência, a própria vitalidade humana ficaria aberta à inovação técnica, à exploração
econômica e a formas de bioeconomia altamente competitivas, direcionando a
visualidade da vida para um outro nível: molecular, comprometido com a codificação de
bases nucleotídeas e suas variações, com o nexo entre as propriedades funcionais das
proteínas e de sua topografia molecular. E, ainda que boa parte das pessoas continue se
imaginando em termos de “mol” (na escala de membros, órgãos, tecidos, fluxos de
sangue, hormônios) e que o acesso a essas tecnologias não seja igualitário nem mesmo
entre os indivíduos das “sociedades liberais avançadas” (ROSE, 2013), o novo horizonte
molecular aberto pela biomedicina se torna inegável:

O conhecimento molecular da vida que assumiu forma desde os anos 1960 tem
sido ligado a toda sorte de técnicas de experimentação altamente sofisticadas
que intervieram na vida nesse nível molecular – não depois do evento, mas no
processo mesmo da própria descoberta -, como, por exemplo, nas técnicas de
cortar e juntar o gene, a reação em cadeia da polimerase para a criação de
múltiplas cópias e segmentos exatos de DNA fora de sistemas vivos, a
fabricação personalizada de sequências de DNA por encomenda, a fabricação

60
de organismos com ou sem sequencias específicas de genes. O laboratório
tornou-se um tipo de fábrica para a criação de novas formas de vida molecular.
E, ao agir assim, está fabricando uma nova forma de compreensão da vida.
(ROSE, 2013,p.27-28)

Engajada com o replanejamento biológico da vitalidade, essa nova biologia,


segundo Nikolas Rose (2013), estaria promovendo uma transformação a nível
epistemológico e ontológico, reconfigurando nossos modos de pensar a saúde, a doença,
o corpo e a própria vida. Ao contrário da biologia que emerge no século XIX,
fundamentada no “profundo”, no interesse por leis orgânicas subjacentes, que estariam
por trás de sistemas vitais fechados, a biologia contemporânea, ao menos em parte, seria
operada por campos “aplanados” de circuitos abertos, dinâmicos e complexos, com vistas
a prever e intervir em estados vitais futuros. Partindo de novas técnicas cirúrgicas (como
a substituição de órgãos), de novas formas de diagnóstico (como a neuroimagem ou o
teste genético) e de novos procedimentos terapêuticos, as tecnologias médicas
contemporâneas se apresentariam como agenciamentos híbridos de conhecimentos,
instrumentos, pessoas, sistemas de avaliação, edifícios e espaços - todos eles sustentados
por determinadas pressuposições e conjecturas acerca do que seria (e deveria ser) o
humano.

Tendo como pilares fundamentais as noções de suscetibilidade e aprimoramento,


as tecnologias de vida perseguirão não apenas revelar patologias invisíveis, mas,
sobretudo, calcular e recalcular os próprios processos vitais, maximizando o
funcionamento corporal, melhorando seus resultados, intervindo de modo a otimizar a
vida dos indivíduos, especialmente aqueles classificados como “de risco”. Se, no
passado, as intervenções médicas eram utilizadas para curar patologias, retificar desvios
ou para promover estratégias biopolíticas através da modificação de estilos de vida, agora
os receptores dessas intervenções são consumidores, pessoas com acesso e desejo aos
produtos otimizadores (remédios, exercícios, suplementos nutricionais, terapias
genéticas, etc) por meio da cultura de mercado e de consumo. Na era das tecnologias da
vida, o objetivo não será direcionado apenas à cura ao dano orgânico ou doença, nem tão
somente ao incremento da saúde, mas às tentativas de mudar o que deve ser o organismo
biológico. O corpo já não será apresentado como um ciborgue, como uma fusão menos
biológica do humano com o artificial (como no aumento da capacidade corporal através
de aparelhos auditivos ou marcapassos), mas como algo a ser remodelado por dentro. As
técnicas de incrementação almejarão a reconfiguração da própria vitalidade, de modo a

61
torná-la mais orgânica e ainda mais biológica (Rose, 2013), sem recair em hibridizações
do corpo com aparelhos robóticos ou equipamentos mecânicos.

3.2 – A morte como um projeto de bem-viver

Nesse cenário, construído em torno da otimização e perfectibilidade da vida,


novos modos de individualização e novas concepções de autonomia passaram a ser
edificados, com seus direitos associados à saúde, à liberdade e à posse de uma felicidade
e dignidade cada vez mais percebidas em termos corporais e vitais (RABINOW e ROSE,
2006). Segundo Rose (2013), podemos nos referir a um momento de emergência de
“cidadanias biológicas” - projetos de cidadania que atualizam políticas e incorporam
exigências de proteção particulares, tendo como base critérios médicos, científicos e
legais para a promoção do bem-estar e a inclusão econômica e social. Essas novas práticas
envolvendo a cidadania apresentariam tanto dimensões individualizantes, quanto
coletivizantes: pela aproximação às normas contemporâneas de saúde e educação
sanitária, os indivíduos produziriam novas linguagens de autodescrição e critérios de
autojulgamento (dentro de um regime de si mesmo direcionado à responsabilidade e
administração corporal), bem como construiriam novas “biossociabilidades”, formas de
coletivização em torno do status somático ou genético partilhado.

Contudo, se os esforços e expectativas têm avançado, progressivamente, em


direção a uma mais produtividade, mais performance e mais natureza, alguns corpos e
vidas parecem caminhar em sentido contrário, por entre trilhas e caminhos marginais que
desafiam e corrompem a ordem estabelecida. Penso, aqui, nas vidas de pacientes
terminais, cujos corpos já não podem ser aperfeiçoados, e nas vidas dos suicidas, cujos
desejos convergem para a disposição da própria vitalidade. Se no direito de soberania a
morte era o ponto em que mais brilhava o poder absoluto do soberano, agora, ao contrário,
a morte parece ser aquilo que escapa para fora dos domínios políticos e estatísticos do
Estado (FOUCAULT, 2005; 2009), um momento limite e intersticial que deve ser
reservado às esferas privadas (onde o indivíduo se volta para si mesmo). Não é de se
espantar que questões relativas à autonomia existencial e corporal, ao direito à eutanásia
e ao aborto sejam alvo de tantos debates, uma vez que colocam em questão o próprio

62
estatuto da pessoa e os direitos a ela circunscritos, assim como a dada inviolabilidade e
santidade da vida.

As condições clínicas e os tratamentos, aos quais são submetidos os pacientes em


condição terminal, normalmente ameaçam severamente ou impossibilitam a efetivação
de alguns dos principais valores que regem a noção de pessoa no Ocidente: a
preeminência da escolha individual (da presumida liberdade e autonomia individual), a
racionalização corporal, a busca pelo prazer e satisfação no mundo (por oposição ao
dolorismo cristão) e a crença na natureza como valor apreensível para a razão humana
(DUARTE, 2005; MENEZES, 2011). Para alguns pacientes, essas restrições se tornam
insustentáveis e fonte de relativização das próprias fronteiras ontológicas que dividem o
viver e o morrer: afinal, a vida se encerraria com o fim das atividades cerebrais/corporais
ou com o fim dos fundamentos que lhe forneciam sentido?

Na grande maioria dos pedidos por autorização de eutanásia ou suicídio assistido,


a argumentação é construída justamente sobre essa privação dos elementos referenciais
do viver (a vida com qualidade, prazer e sem sofrimento) e sobre a sensação de
descontrole de si mesmo, que poderiam ser afagados e apaziguados com o término da
própria vida (MENEZES, 2011). Contudo, é preciso ressaltar que ambas as práticas ainda
não são permitidas pela legislação brasileira: o artigo 121 do Código Penal prescreve
como conduta típica o ato de matar alguém, com pena estipulada entre seis e vinte anos,
suscetível de redução em até um terço nos casos de crime impelido por motivação moral
ou social7. No artigo 122, fica estabelecido que induzir alguém ao suicídio ou prestar-lhe
auxílio também se configura como conduta típica, com pena de reclusão ajustada entre
dois a seis anos, caso o suicídio se consuma; ou de um a três anos, se a tentativa de suicídio
resultar em lesão corporal de natureza grave. E o artigo 13 do Código Civil torna
repreensíveis quaisquer tentativas lesivas contra ao corpo, ainda que elas partam de seus
próprios proprietários: “Salvo por exigência médica, é defeso o ato de disposição do
próprio corpo, quando importar diminuição permanente da integridade física, ou
contrariar os bons costumes. Parágrafo único. O ato previsto neste artigo será admitido

7
Tramita no Senado um projeto de reforma do Código Penal, que visa incluir dois novos parágrafos ao
artigo 121 relacionados à ortotanásia. São eles: § 6º No âmbito dos cuidados paliativos aplicados a pessoa
em estado terminal ou com doença grave irreversível, não há crime quando o agente deixar de fazer uso de
meios extraordinários, desde que haja consentimento da pessoa ou, em sua impossibilidade, do cônjuge,
companheiro, ascendente, descendente ou irmão. § 7º A situação de morte iminente e inevitável ou de
doença irreversível, no caso do parágrafo anterior, deve ser previamente atestada por dois médicos. Fonte:
http://www.senado.gov.br/atividade/materia/getPDF.asp?t=142673&tp=1

63
para fins de transplante, na forma estabelecida em lei especial”. Atualmente, a eutanásia
é legalizada apenas na Holanda, Bélgica e Luxemburgo e o suicídio assistido no Canadá,
Alemanha, Holanda, Luxemburgo, Áustria, Suíça e Estados Unidos (onde é permitido em
cinco Estados). Em toda a América do Sul ambas as condutas são penalizáveis, embora
Uruguai (desde 1934) e Colômbia (desde 1997) prevejam a possibilidade de isentar quem
comete “homicídio piedoso” (o que na prática coloca nas mãos de cada juiz a decisão
sobre casos de eutanásia).

No que tange aos conceitos, a eutanásia pode ser definida e subclassificada a partir
de quatro formas: a eutanásia ativa e a eutanásia passiva (nomeada também como
ortotanásia); e a eutanásia voluntária e a eutanásia involuntária. A ativa envolve a ação
de um médico, com a administração de uma medicação ou injeção letal; a passiva se refere
à omissão de recursos, em que deixam de ser oferecidos quaisquer procedimentos
terapêuticos, medicamentos, hidratação e/ou alimentação. A eutanásia voluntária é aquela
expressa pelo próprio doente, enquanto a involuntária é aquela em que não há esse
consentimento prévio. No âmbito das discussões em torno da interrupção da vida,
destaca-se ainda o suicídio assistido. Neste caso, a diferença se encontra no sujeito da
ação: é o próprio doente que, com suporte e supervisão médica, comete o ato com a
ingestão de drogas (HOWARTH & LEAMAN, 2002 apud MENEZES, 2011).
Ao contrário de outros temas bioéticos, a ressignificação da eutanásia como uma
manifestação da cultura dos direitos humanos, isto é, como um elemento ético relativo a
autonomia e dignidade, tem sido um movimento crescente no Brasil (DINIZ, 2006). Em
novembro de 2006, o Conselho Federal de Medicina, por meio da resolução 1.805,
regulamentou a possibilidade de suspensão ou limitação dos procedimentos e tratamentos
que visem prolongar a vida de pacientes em condição terminal. E desde abril de 2010, o
novo Código de Ética Médica (revisado após mais de 20 anos) passou a estabelecer regras
relativas à assistência ao morrer:

Vedado ao médico abreviar a vida do paciente, ainda que a pedido deste ou de


seu representante legal. (Cap.4, Art. 41). Parágrafo único. Nos casos de doença
incurável e terminal, deve o médico oferecer todos os cuidados paliativos
disponíveis sem empreender ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou
obstinadas, levando sempre em consideração a vontade expressa do paciente
ou, na sua impossibilidade, a de seu representante legal. Nas situações clínicas
irreversíveis e terminais, o médico evitará a realização de procedimentos
diagnósticos e terapêuticos desnecessários e propiciará aos pacientes sob sua
atenção todos os cuidados paliativos apropriados.

64
Nos pedidos por suspensão ou limitação dos procedimentos terapêuticos, também
são frequentes os discursos emocionados que pranteiam a perda abrupta da qualidade de
vida, o constante sofrimento e dor, bem como a sensação de não pertencimento ao próprio
corpo. Contudo, a admissibilidade da ortotanásia no ordenamento jurídico e médico
trouxe consigo alguns dilemas, especialmente no que concerne ao limite das atividades
terapêuticas. Afinal, o que seria desnecessário durante um tratamento? Certamente, a
obstinação terapêutica não pode ser imaginada em termos absolutos (DINIZ, 2006). Um
mesmo conjunto de medidas terapêuticas pode ser considerado desejado e importante
para determinada pessoa e agressivo e excessivo para outra. A construção das fronteiras
que separam a utilidade e a futilidade nem sempre serão consensuais, uma vez que o que
entra em jogo também são as diferentes concepções sobre a existência humana. Nos autos
de João Carlos Ferreira, Irene Oliveira de Freitas e João de Atouguia, o dissenso relativo
à autonomia corporal e existencial dos pacientes também está presente, manifestando-se,
sobretudo, nos temas relacionados aos limites da vida e da medicalização humanas, bem
como nas discussões sobre a liberdade dos pacientes para decidir sobre os próprios
corpos.

Entre os fragmentos (referentes à autonomia e liberdade) que compõem o processo


de João Carlos Ferreira, destaca-se o parecer de Denise Duarte, Procuradora de Justiça do
Estado do Rio Grande do Sul. Citando o jusfilósofo Ronald Dworkin, Denise classifica o
caso como um hard case, tendo em vista as diferentes possibilidades hermenêuticas e
interpretativas que podem ser dadas. A “colisão de direitos fundamentais” no material em
questão é tratada como desafiadora, não sendo desqualificada a atitude do Ministério
Público em garantir o direito à vida e amenizar a “periclitação da saúde da pessoa idosa”.
Contudo, a Procuradora ressalta:

O ponto essencial é, todavia, é que o idoso não deseja que seu pé seja amputado
e ele é pessoa capaz, não sofrendo qualquer limitação legal.

Logo, é de se entender, nos termos da sentença recorrida, que não cabe ao


Estado interferir na vontade do ora Requerido, uma vez que não há provas de
qualquer vício na sua vontade livre e consciente de não aceitar o tratamento
recomendado pelos médicos que o acompanham.

Assim sendo, o fato do Requerido estar portando quadro depressivo


(alternando com quadros de alegria) não implica, por si só, que não tenha
vontade livre e consciente para negar o tratamento, que, como se sabe, é
indicado, não imposto ao paciente (não desconsideramos o caso de
toxicômanos, especialmente os usuários de crack, mas estes casos envolvem
saúde pública, tendo em vista que os viciados em droga podem causar danos
não somente a si, mas também a terceiros.

65
Em síntese, se não há vontade a suprimir, pois o Requerido de forma livre e
consciente optou por não ter o pé esquerdo amputado, não há como se defender
a intervenção estatal in casu.

A amputação do pé, contra a vontade do Requerido, “beneficiário” do


procedimento, implica interferência do Estado no núcleo essencial do direito à
liberdade, isto é, na sua vontade deliberada de não aderir ao tratamento
proposto e aceitar as consequências de tal ato. (páginas 42 a 44)

Ainda que as preocupações do Ministério Público e dos profissionais de saúde


sejam estimadas e classificadas como louváveis, todos os juízes e desembargadores do
caso de João Carlos são enfáticos ao argumentar que as ações do paciente “não são
desmotivadas”, mas fundamentadas no desejo por não passar pelo trauma da amputação,
procedimento que acarretaria maior “sofrimento moral”. Na decisão tomada por Irineu
Mariani, justifica-se ainda que “a Constituição institui o direito à vida, não o dever à
vida, razão pela qual não se admite que o paciente seja obrigado a se submeter a cirurgia
ou tratamento (página 54)”.

Na decisão da juíza Laura de Borba Fleck, responsável pelo caso de Irene Oliveira
de Freitas, a possibilidade de disposição da própria vida e do direito à saúde também são
reafirmados. Embora a velhice seja abordada como uma fase de “natural” fragilidade e
desprovimento (merecendo, portanto, especial proteção do Estado), o pleno
desenvolvimento da cidadania estaria fortemente relacionado à manutenção da autonomia
dos sujeitos, não devendo as interferências e intervenções de qualquer autoridade se
sobrepor aos desígnios e interesses particulares de cada indivíduo:

A Constituição Federal, bem como o Estatuto do Idoso, elevam o direito à vida


como garantia fundamental de primeira ordem. O idoso merece especial
atenção por sua natural hipossuficiência física, o que legitima algumas pessoas
à sua proteção, inclusive para interesse individuais, o Ministério Público,
quando indisponíveis.

No caso em tela, a solução da questão passa pela análise da disponibilidade do


direito à saúde e à vida, o que implica necessária análise da legitimidade ativa.

(...) Não pode o Hospital sobrepor-se à vontade da família e, mais


especificamente, do representante legal da paciente, para interferir de maneira
gravosa na vida da paciente, ainda que com boa intenção e para lhe dar mais
algum tempo de vida, porém, a custo de sofrimento que ela não pretende
passar. (páginas 245 à 248)

A relativização do direito à vida e o interesse em resguardar a liberdade e


autonomia dos sujeitos também são temas centrais para a argumentação de Adalberto
Alves e Pedro Fernandes, autores de artigos anexados pelo médico Francisco Américo
Neto, perito convocado a se manifestar sobre o processo de João Roque de Atouguia. Os
princípios da beneficência e não-maleficência são relembrados, de modo a sustentar a

66
ideia de que as ações médicas deverão sempre se embasar em um cuidadoso cálculo que
pondere os benefícios e nocividades proporcionados ao paciente, especialmente àqueles
sem perspectiva de cura:

Aqueles que entendem o contrário bradam com o direito à vida, também de


cunho constitucional (artigo 5º, caput).

De fato, o direito à vida é ditame constitucional de importância inquestionável,


mas não é absoluto, não está acima da liberdade nem tampouco da dignidade
da pessoa humana. Prova da relatividade do direito à vida é dada pelo próprio
Constituinte Originário, que expressamente permite a pena de morte em caso
de guerra declarada (artigo 5º, XLVII, a)

Fosse o direito à vida tão intangível quanto pugnam aqueles que censuram a
ortotanásia, o aborto, em qualquer das hipóteses, também seria inconstitucional
(e não é, nos termos do artigo 128, II, do CP). O mesmo pode ser dito em
relação ao homicídio praticado no estrito cumprimento do dever legal, que é
causa excludente de ilicitude (artigo 23, III, do CP).

Não tivesse o indivíduo disponibilidade sobre sua própria vida, certamente a


tentativa de suicídio deveria também ser tipificada como crime, mas não o é.

Nesse passo, tem-se mesmo a atipicidade penal da ortotanásia, eis que o


médico não pratica qualquer ato para apressar a morte do paciente, apenas
deixa que a natureza siga seu rumo, sem se descurar, inclusive, da prestação de
assistência física, psíquica e espiritual.

Deve-se deixar muito claro que através da ortotanásia suprime-se tão somente
aqueles tratamentos extraordinários e desproporcionais, sendo que o
acompanhamento médico ortodoxo persiste até a morte.

Assim, a ortotanásia não pode ser tipificada como homicídio, auxílio ao


suicídio ou tampouco omissão de socorro.

É necessário dizer, ainda, que o tema tratado está inserido no biodireito e na


bioética, que se assentam nos princípios (mandamentos nucleares e vetores
interpretativos dos sistemas) da beneficência, não maleficência, justiça e
autonomia, ressaltando-se que este último “Reconhece o domínio do paciente
sobre a própria vida (corpo e mente) e o respeito à sua intimidade, restringindo,
com isso, a intromissão alheia no mundo daquele que está sendo submetido a
um tratamento”.

Disso resulta que, também pelo viés do biodireito, justifica-se plenamente a


aceitação da ortotanásia.

Portanto, pôde-se ver que a Resolução nº 1.805/06 do CFM encontra espeque


na Constituição Federal e nos princípios que norteiam a bioética e o biodireito,
não sendo plausível a interpretação do ordenamento jurídico-penal que a
tipifique como crime. (páginas 448 a 453)

Na cartilha sobre “Indicações de Terapia Intensiva x Tratamento Fútil” do


Hospital Miguel Couto, também anexada pelo perito e médico Francisco Américo Neto,
a ideia de um enfermo como o protagonista de sua própria morte é reforçada, devendo os
médicos sempre respeitar sua integridade, decisões pessoais, anseios e desejos, assim

67
como controlar corretamente a dor e o sofrimento proporcionados pela doença e pelos
tratamentos:

As atitudes dos médicos frente ao modo de morrer são diferentes não só em


várias regiões do mundo, como também dentro de cada país. Apesar de não
haver diferenças éticas, morais e legais entre suspender e não introduzir novas
medidas terapêuticas, a última atitude é a mais frequente, pois geralmente se
prefere omissões a ações. Apesar de não existir no Brasil a tradição de
documento a DNR (decisão de não reanimar) como em outros países, a não
adoção de medidas de RCP (reanimação cardiopulmonar) frente a PCR (parada
cardiorrespiratória) é uma das formas mais comuns de limitação terapêutica.

Cuidar dignamente de uma pessoa que está morrendo significa respeitar a


integridade da pessoa e garantir, pelo menos:

Que o paciente seja mantido livre de dor tanto quanto possível, de modo que
possa morrer confortavelmente e com dignidade.

Que o paciente receberá continuidade de cuidados e não será abandonado ou


sofrerá perda de sua identidade pessoal.

Que o paciente terá tanto controle quanto possível no que se refere às decisões
a respeito de seu cuidado e lhe será dada a possibilidade de recusar qualquer
intervenção tecnológica prolongadora de “vida”.

Que o paciente será ouvido como uma pessoa em seus medos, pensamentos,
sentimentos, valores e esperanças.

Que o paciente será capaz de morrer onde queira morrer.

A medicina deve estar mais preocupada com a pessoa doente do que com a
doença da pessoa. Devemos promover uma vida boa, saudável, aumentar o
tempo de vida e sua qualidade. (páginas 438 a 441)

Entre os argumentos favoráveis à possibilidade de suspensão dos tratamentos e


procedimentos médicos em caso de doença terminal, destaca-se ainda a dimensão
financeira. Para o perito Francisco Neto, todos lucrariam com o não prolongamento da
vida: família, paciente, médicos, hospitais, planos de saúde, governo e a população em
geral. Por meio da suspensão ou limitação dos recursos, os altos custos direcionados aos
últimos dias de vida com internações, transportes, emergências e UTIs poderiam ser
otimizados e mais bem distribuídos durante o curso da doença, assim como os desgastes
emocionais e morais minimizados dentro do leito hospitalar.

Na decisão judicial do caso de João Roque de Atouguia, expedida pela juíza Maria
de Lourdes Cimino, o nexo causal entre a morte do paciente e a ação dos médicos que o
atenderam é considerado inexistente. Pontuando que a Unidade de Terapia Intensiva
(UTI) e o Centro de Tratamento Intensivo (CTI) são setores hospitalares destinados a
pacientes graves e com expectativa de cura, e não ao tratamento paliativo, a juíza pondera
que:

68
(...) diante do quadro irreversível do paciente, e considerando-se que eventual
cirurgia estava absolutamente fora de cogitação, só lhe restava suportar a dor
provocada pelo seu mal. E justamente para evitá-la ou lhe minimizar os efeitos,
optou-se pela sedação continuada (fls. 105), que não tem por escopo furtar
vidas, mas suavizar a existência terminal do paciente, como bem colocado pelo
perito judicial (fls. 179).

Em suma, não existe nexo causal entre a morte do paciente e a ação dos
médicos que o atenderam, do Hospital do réu, a ensejar pedido de indenização,
notadamente material, pois, no estado em que se encontrava o paciente –
esperando a morte -, não reuniria condições de voltar a exercer sua atividade
profissional – feirante. (páginas 573 a 577)

No direito, a “autonomia corporal”, entendida como a capacidade de


autodeterminação da pessoa em relação ao próprio corpo, está inserida dentro da seara da
existencialidade ou extrapatrimonialidade (BODIN DE MORAES; VIVEIROS DE
CASTRO, 2014), compondo o terreno sobre o qual se concretiza a liberdade. Em termos
operacionais, a oposição corpo e mente no campo jurídico cada vez mais vem sendo
imaginada enquanto dimensão interdependente e indissociável, levando a própria
integridade a ser reconhecida enquanto integridade “psicofísica”. No que se refere às
decisões dos juízes e desembargadores dos casos de Irene, João Carlos e João de
Atouguia, também encontramos uma certa abordagem direcionada à indissociabilidade
entre corpo e mente, fazendo com que a integridade possa ser vislumbrada como
composta por duas dimensões distintas, porém interconectadas: uma corporal e outra
psíquica. Sob essa perspectiva, as interdições feitas sobre a matéria corporal gerariam
consequências também para a constituição mental da pessoa.

Na produção antropológica, a relação entre corpo e mente também foi objeto de


estudo e curiosidade, desenvolvendo-se criticamente em textos clássicos e
contemporâneos. “As técnicas do corpo”, célebre obra finalizada em 1935 por Marcel
Mauss, pode ser considerada a publicação pioneira nas ciências sociais a respeito das
atividades e variações corporais. Rompendo com a tradição cartesiana, Mauss
vislumbrava o corpo como o primeiro instrumento do homem (2003), como uma matéria
sobre qual se interconectariam e se entrelaçariam dimensões biológicas, sociológicas e
psicológicas simultaneamente. Se, antes, a polarização corpo x mente era imaginada de
forma independente, sendo o corpo localizado dentro do domínio da natureza e da
biologia imutável, por contraposição à mente/alma localizada dentro do espaço da cultura
(o lugar da invenção, criatividade e artificialidade), agora ambos seriam percebidos como
domínios interdependentes, suscetíveis a uma mútua transformação, sendo o corpo tanto

69
uma ferramenta com a qual os humanos moldam o seu mundo, quanto uma substância
original a partir da qual o mundo humano é moldado (ALMEIDA, 2004).

A relação de coetaneidade entre mente e corpo também foi o ponto de partida para
Clifford Geertz (1989). De acordo com o autor, nunca teria existido um cérebro capaz de
um funcionamento autônomo ou um homem acabado que teria criado a cultura num
momento mágico, desenvolvendo-se corporal e intelectualmente de forma única desde
então. As evidências arqueológicas de estágios pré-linguísticos da hominização e o
caráter funcionalmente incompleto do sistema nervoso humano nos indicariam a presença
de um sistema de retroalimentação constante entre padrão cultural, corpo e mente, não
sendo possível percebê-los como campos fechados, isolados, soberanos e relacionados a
qualquer hierarquia da cadeia do ser (com cada nível – biológico, psicológico, cultural -
emergindo e dependendo do que está irremediavelmente abaixo).

Indo um pouco mais além, Tim Ingold (2012) coloca em questão a própria
oposição costurada sobre os termos mente e corpo. Por imaginar a vida como um
emaranhado de linhas e fluxos vitais nos quais a matéria (indistintamente biológica,
psicológica e cultural) pulsa sem continentes e fronteiras, Ingold propõe um
redirecionamento do olhar para além dos perímetros do “dentro” e “fora”, “interioridade”
e “exterioridade”. Para o autor, corpos, mentes e paisagens deveriam ser compreendidos
como um entrelaçamento contínuo de vida que se realiza na corrente dos materiais que
criam e reproduzem seus contextos específicos; como condensações materiais vivas e
deslizantes, construídas sobre um horizonte permanentemente aberto, fluido e dinâmico.
Por esse sentido, a mente já não deveria ser imaginada como delimitada por uma pele ou
fronteira corporal, posto que se estenderia para o entorno por meio dos múltiplos
caminhos da participação sensorial. De igual modo, o corpo não deveria ser apresentado
enquanto entidade estática, independente, pois se conceberia em movimento,
experimentando um crescimento contínuo e um desenvolvimento em função de suas
múltiplas relações ambientais e em função dos fluxos de materiais (luz, som, vento) que
o atravessam, diluindo seus limites e superfícies.

Nos casos de Irene e João Carlos, a manutenção das convicções pessoais de cada
paciente e o afastamento de tratamentos paternalistas se tornam elementos
argumentativos centrais, de modo que uma certa relação é estabelecida entre a
preservação da integridade física (pressuposto necessário para a manutenção da vida) e a
violação da unidade psíquica. Obrigando-os a continuar os tratamentos e, no caso de João

70
Carlos, forçando-o a amputar o pé esquerdo, médicos e funcionários do Estado estariam
corrompendo as esferas subjetivas e íntimas dos pacientes, expondo-os a um sofrimento
de caráter existencial. Por esse sentido, a liberdade de escolha sobre o próprio destino
emerge, aqui, como fundamento primordial para o próprio reconhecimento da pessoa,
tornando qualquer interferência paternalista perversora de seus corpos e desejos
desaprovável e incompatível com o regime democrático. Vale ressaltar ainda a
importância dada à capacidade de discernimento e responsabilidade em ambos os casos.
O direito à manutenção das vontades de Irene e João Carlos somente pôde ser cumprido
tendo em vista que suas faculdades de racionalização, compreensão e análise das
situações, bem como de consciência sobre suas escolhas e possíveis consequências
negativas estavam “preservadas”.

No caso de João Roque de Atouguia, o prolongamento da vida por meios artificiais


também passa a ser associado à violação da unidade psíquica. O sofrimento
proporcionado pela doença é percebido enquanto experiência desfragmentadora e
disruptiva da pessoa (RODRIGUES; CAROSO, 1998; BURY, 2011), o que poderia ser
minimizado com a suspensão dos tratamentos e com a introdução da sedação terminal,
isto é, a administração de fármacos sedativos capazes de controlar os sintomas por meio
da redução da consciência do paciente. Normalmente solicitada pelo próprio doente ou
familiar, a sedação é indicada àqueles que não mais suportam a dor, os sintomas físicos
(como nos casos de dor e dispneia graves e incontroláveis, sangramento sem possibilidade
de controle), a ansiedade diante da proximidade da morte e àqueles que apresentam algum
tipo de delirium (MENEZES, 2004). No caso de João, são os próprios médicos os
responsáveis pela introdução dos sedativos, decisão aparentemente não discutida com a
devida cautela e clareza na época da internação ou ainda uma deliberação realizada contra
a vontade dos familiares, como consta na petição inicial. Ainda assim, a ação médica
direcionada à sedação terminal é tratada pela cúpula magisterial como correta, uma vez
que afastaria o paciente de sofrimento maior e, consequentemente, “suavizaria” sua
própria existência, proporcionando maior qualidade e bem-estar aos momentos finais.

Por esse panorama, a morte se apresenta como uma possibilidade no processo de


construção da pessoalidade (MOREIRA, 2006) e como uma espécie de compensação ao
sofrimento provocado pela doença, sendo percebida não como uma afronta ao “direito à
vida e à saúde”, mas como um projeto de bem-viver empreendido por um sujeito tomado
como racional, responsável, livre e autônomo, que almeja a realização de sua própria

71
individualidade e a concretização de um tipo de vida que considera adequada: uma vida
com qualidade, prazerosa, em comunhão com a natureza e sem dor. Pela ideologia do
individualismo, enfatiza-se a preeminência da escolha pessoal, da presumida liberdade
individual, que se agrega ainda à disposição hedonista, sob a forma de uma realização
emocional pessoal (DUARTE, 2005; MENEZES, 2004). Resistindo nas fronteiras de um
sistema ordenado para a vida, esses pacientes reivindicam suas próprias mortes e o direito
de propriedade sobre seus corpos e vidas, de modo que possam ser os modeladores de
seus destinos e histórias, bem como os responsáveis por criar e recriar o que consideram
familiar, seguro, bom e desejável. Uma luta travada de dentro para fora e de fora para
dentro, com vistas à libertação das projeções sombrias que os colocam em um lugar de
desprezo, negação, degeneração, decadência e tutela estatal.

3.3 – Em defesa da dignidade da pessoa humana

A Lei Fundamental de Bonn (Constituição da antiga Alemanha Ocidental), de


1949, foi a primeira a estabelecer a dignidade como direito fundamental, em seu primeiro
artigo. Os horrores vivenciados ao longo da Segunda Guerra Mundial, a ascensão dos
regimes totalitários, as experiências advindas do lançamento de duas bombas nucleares
sobre o território japonês e a decorrente preocupação em torno dos Direitos Humanos
(observável pela escriturada Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, do
Pacto da ONU de 1966 e da Convenção Americana de Direitos Humanos, de 1969, para
citar alguns exemplos) promoveram uma transformação paradigmática das legislações,
retirando-lhes a centralidade da patrimonialidade para aproximá-las da proteção da pessoa
humana. Entre os países que também consagraram a dignidade da pessoa humana em seus
textos constitucionais, podemos citar: Portugal, em 1976; a Espanha, em 1978, e o Brasil,
em 1988 (TOMASEVICIUS FILHO, 2005). No caso brasileiro, diversas matérias de
direito privado foram reguladas pela Constituição de 1988 (também conhecida como
Constituição Cidadã) à luz do princípio da dignidade da pessoa humana, como a família
e a propriedade. Com a consolidação desse novo cânone, a tarefa de interpretação
normativa passou a encontrar seu próprio sentido no valor da dignidade, sendo esse seu
ponto de partida e seu ponto de chegada – especificidade que fez Maria Celina Bodin de
Moraes e Thamis Dalsenter Viveiros de Castro (2014) a interpretarem como um
superprincípio jurídico, um princípio matriz da Constituição, que incorpora as exigências

72
de justiça e de valores éticos, ao mesmo tempo em que confere suporte axiológico a todo
o sistema.

Concebida numa conjuntura de abertura à transição democrática, a Carta


Constitucional brasileira deu início a uma nova fase humanitária, especialmente
preocupada com a proteção da pessoa e com as ações humanas que envolvem escolhas de
caráter existencial. Os elementos relativos aos “direitos de personalidade” (como a
autonomia e dignidade), aos “direitos fundamentais” (como o direito à vida e à
propriedade) e às “invioláveis liberdades fundamentais” (como a liberdade de expressão,
a liberdade de crença e as liberdades políticas) passaram a ser tutelados de forma mais
intensa pelo Estado, de modo a valorizar o próprio protagonismo do ser humano e o seu
desenvolvimento cívico e pessoal. Pelo novo traçado delineado sobre o Direito Civil, não
apenas a centralidade e a prioridade das cartas jurídicas foram transformadas, como
também os próprios conceitos de pessoa e pessoalidade: entendidos agora por sua
pertinência à comunidade jurídica, e não mais como conceitos meramente funcionais,
relativos à aptidão dos sujeitos ou suas relações patrimoniais (TOMASEVICIUS FILHO,
2005):

Nesse contexto, a dignidade configura-se como cláusula geral de tutela e


promoção da personalidade, geradora de deveres positivos e negativos, a qual
pressupõe que a pessoa seja concebida a partir de uma reflexão
multidisciplinar. Isto é, a dignidade, no papel de princípio unificador do
ordenamento jurídico, impõe que o olhar dirigido à pessoa seja capaz de
englobar a integralidade do indivíduo, levando-se em conta o contexto social,
econômico, cultural e as necessidades físicas e psíquicas de cada sujeito.
(BODIN DE MORAES; VIVEIROS DE CASTRO, 2014, p. 6)

Em linhas gerais, o substrato material para a efetivação da dignidade decorreria


de quatro grandes princípios jurídicos: a igualdade (que veda qualquer discriminação
arbitrária e fundada na qualidade das pessoas), a liberdade (que assegura a autonomia
pessoal, a capacidade humana de criar suas próprias leis e compartilhá-las com seus
semelhantes), a integridade física e moral (que interconecta mente e corpo) e a
solidariedade (que garante e promove a coexistência humanas). Num sentido prático, a
vida humana digna seria aquela capaz de se desenvolver plenamente em termos corporais
e psíquicos e aquela capaz de ser reconhecida e respeitada em suas igualdades, vontades
e autodeterminações - pressupostos bastante próximos da ideologia individualista,
tornada hegemônica no Ocidente a partir das grandes transformações políticas do século
XVIII (especialmente a criação das repúblicas norte-americana e francesa). O homem,
enquanto indivíduo, é apresentado como um valor cardeal, a medida de todas as coisas,

73
ser dotado de consciência, sujeito autônomo, indivisível, livre, sagrado, absoluto,
monádico e igual a todos os outros (DUMONT, 1985). Pela ênfase dada à racionalidade
e consciência, estabelece-se no ordenamento jurídico que: “cada ser humano é humano
por força de seu espírito, que o distingue da natureza impessoal e que o capacita para,
com base em sua própria decisão, tornar-se consciente de si mesmo, de autodeterminar
sua conduta, bem como de formatar a sua existência e o meio que o circunda” (SARLET,
2007, p. 368). Por influência do kantismo, soma-se a essa base ainda a ideia de um sujeito
moral que deve reconhecer a existência dos outros como sujeitos iguais a ele, merecedores
do mesmo respeito à integridade psicofísica de que ele é titular, como seres dotados de
vontade livre e pertencentes a um grupo social. Nas palavras de Ingo Sarlet (2007), tem-
se como a dignidade da pessoa humana:

a qualidade intrínseca e distintiva reconhecida em cada ser humano que o faz


merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da
comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres
fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de
cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições
existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover
sua participação ativa e co-responsável nos destinos da própria existência e da
vida em comunhão com os demais seres humanos (SARLET, 2007, p. 383)

Em relação às peças documentais analisadas nesta dissertação, a necessidade de


manutenção do princípio da dignidade da pessoa humana também se faz presente. Sua
aparição nos processos está vinculada especialmente aos contextos de valorização da
escolha individual, de preeminência da autonomia dos sujeitos sobre seus próprios corpos
e vidas e de consagração da integridade física e moral, ameaçada pelos procedimentos e
tratamentos médicos que visam prolongar a vida dos pacientes em estado terminal. No
laudo pericial de Francisco Américo Neto, referente ao caso de João Roque de Atouguia,
dois artigos são anexados como forma de corroborar e condensar o entendimento do
médico acerca dos cuidados paliativos e das proteções direcionadas à pessoa humana:

O medo de processos judiciais ou de presenciar a evolução da morte à beira do


leito, a impaciência na vida cotidiana atribulada, a banalização dos avanços
tecnológicos exponenciais e médicas intensivas não curativas; o sentimento
arrogante de onipotência e o receio de pecar por omissão fazem do médico e
da família, cúmplices na distanásia em muitas situações.

Não deve e nem pode ser crime, além de parar com investimentos terapêuticos
fúteis, suspender tratamentos vigentes inúteis. Não apenas pela indispensável
dignidade ao ser humano vulnerável em nossas mãos, mas também pela
preservação de mais recursos disponíveis aos tantos desassistidos e ainda
viventes em nossa sociedade.

A Declaração de Óbito de um paciente paliativo terminal não carece de um


diagnóstico preciso anatomopatológico à custa de uma cruel e inútil biópsia

74
dolorosa para mera satisfação academicista de um médico ou curiosidade
angustiante familiar. Nem mesmo os novos exames tecnológicos avançados
têmalgum benefício com a descoberta da progressão lógica da doença
avançada. Ao contrário, trarão aumento significativo da depressão, da
ansiedade e da dor.

O que trata o doente são o remédio, o amor e o bom senso, não os exames de
última geração. Portanto, não é demérito o médico fazer ortotanásia sem o
diagnóstico anatomopatológico específico. (Artigo de autoria de Pedro
Ricardo de Oliveira Fernandes, especialista e membro titular do Conselho
Brasileiro de Cancerologia e do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Página 414)

(...)

Já no preâmbulo da Constituição de 1988 vê-se que o Constituinte Originário


elegeu a liberdade como um dos valores supremos do ordenamento jurídico,
sendo aqui conveniente ressaltar que o preâmbulo é fonte de interpretação
constitucional, indicando os fins e grandes objetivos do Poder Constituinte
Originário.

É essa liberdade, como valor supremo, que deve ser garantida a todos os
pacientes que optarem pela ortotanásia.

Além disso, no artigo 1º, III, da CF/88, exsurge a dignidade da pessoa humana
como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, dispositivo que
é complementado pela vedação da imposição de qualquer tratamento
degradante ao indivíduo, conforme reza o artigo 5º, III.

Ora, da conjugação da liberdade, da dignidade da pessoa humana e da vedação


da imposição de tratamentos degradantes, extrai-se, indubitavelmente, a
constitucionalidade da ortotanásia, enquanto extraordinários (custosos, de
caráter agressivo, de alta tecnologia, experimentais, etc) para o prolongamento
da vida, mas tão somente a manter os meios ordinários (que já são habituais e
temporariamente utilizados) até a hora derradeira. (Artigo de autoria de Pedro
Ricardo de Oliveira Fernandes, especialista e membro titular do Conselho
Brasileiro de Cancerologia e do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e de
Adalberto Alves, professor de Direito da Universidade Salesiana de Campinas
-Página 450)

Na decisão tomada por Irineu Mariani, relator do caso de João Carlos Ferreira, são
reafirmados e reconhecidos o direito de liberdade do paciente (possuidor de desejos
soberanos que se sobrepõem aos dos demais), o suporte a uma vida com qualidade, o
dever médico de respeitar as decisões do enfermo e a necessidade de se equilibrar o direito
à vida com o princípio da dignidade:

Resumindo, o direito à vida garantido no art. 5º, caput, deve ser combinado
com o princípio da dignidade da pessoa, previsto no art. 2º, III, ambos da CF,
isto é, vida com dignidade ou razoável qualidade.

(...)

Conforme o Artigo acima citado (“Análise Constitucional da Ortotanásia: o


direito de morrer com dignidade, de autoria do Dr. Thiago Vieira Bomtempo),
o entendimento de que “não se admite que o paciente seja obrigado a se
submeter a tratamento, embora haja dever estatal de que os melhores
tratamentos médicos esteja à sua disposição”, é também defendido por Roxana
Cardoso Brasileiro Borges. Acrescenta que o desrespeito pelo médico à
liberdade do paciente, devidamente esclarecido, em relação à recusa do

75
tratamento, “pode caracterizar cárcere privado, constrangimento ilegal e até
lesões corporais, conforme o caso”. (páginas 54 e 55)

No que diz respeito ao caso de Irene Oliveira de Freitas, a sentença proferida por
Laura de Borba Maciel Fleck, juíza da 16ª Vara Cível de Porto Alegre, condiciona a
possibilidade de viver dignamente com a manutenção dos desejos expressos pela paciente
e com o afastamento dos tratamentos invasivos (como a hemodiálise), proporcionadores
de um sofrimento dispensável nos momentos finais da vida:

A justificativa dada pelo descendente, para negar autorização para o


tratamento, foi de que seria esta a última vontade de Irene Freitas, o que é
factível, uma vez que é de conhecimento comum que o procedimento da
hemodiálise é muito desgastante. Constantes são as desistências pelas
dificuldades decorrentes e pela intensidade e tempo que o paciente fica atrelado
ao equipamento. Em época na qual é crescente a discussão sobre a necessidade
de ponderar-se o direito à vida, confrontando-o com o direito à dignidade da
pessoa, o qual também deve entender como a possibilidade de viver com
dignidade e sem sofrimento, tais tipos de tratamento e doenças, por serem
muito gravosos, muitas vezes são, de forma consentida, rechaçados.

Decisão recente do Juiz Federal Substituto da 14ª Vara/DF ROBERTO LUIS


LUCHI NETO, no processo nº 2007.34.00.014809-3, reconheceu a
legitimidade da Resolução nº 1.805/2006 do CFM, que liberou os médicos para
a realização de ortotanásia, nos seguintes termos:

Na fase terminal de enfermidades graves e incuráveis é permitido ao médico


limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do
doente, garantindo-lhe os cuidados necessários para aliviar os sintomas que
levam ao sofrimento, a perspectiva de uma assistência integral, respeitada a
vontade do paciente ou de seu representante legal.

Trata-se de análise da questão pela ótica do autor, Hospital, que pretende


isentar-se de responsabilidade pelo tratamento. Não somente pela decisão
acima, ainda passível de reforma, mas pelo privilégio da dignidade da pessoa,
podem os médicos aceitar a negativa de tratamento ao paciente nessas
condições. O caso em tela enquadra-se nesse contexto. O filho pretende,
negando a autorização, realizar o último desejo de sua mãe.

Dado o exposto, com mais razão, não há que se aceitar que a paciente não
poderia dispor de sua saúde, se quando ainda possuía discernimento, optou por
não mais submeter-se à hemodiálise. No documento da fl. 238, os médicos
responsáveis atestam que o tratamento possui risco de elevar a paciente ao
óbito, o que vem a confirmar a alegação do filho, réu, de que não pretendia
mais prosseguir lutando contra a doença. Além disso, não é a hemodiálise a
solução do quadro de saúde da paciente, que sofre, também, de
descompensação cardíaca secundária à insuficiência renal e pré-edema agudo
de pulmão.

Com relação à alegação de que o neto da paciente é favorável à realização do


tratamento, tal não corrobora com a pretensão do autor, pois que em primeiro
lugar, responde por ela o filho. Ademais, não há nos autos motivo para retirar
a legitimidade do fundamento do filho, quando se nega a autorizar a
hemodiálise. Teria toda a legitimidade, o neto, para pleitear o suprimento da
vontade, provando especial fato para alterar a vontade. (páginas 245 a 247)

76
Desde que se tornou um fundamento da Constituição brasileira, grandes esforços
foram feitos no âmbito jurídico para conferir um conteúdo concreto à dignidade, assim
como para delimitar seus limites e sua aplicabilidade. Por extrapolar as próprias esferas
de domínio do Direito (desdobrando-se por outros ramos das ciências humanas e sociais),
sua fixação conceitual sempre permaneceu demasiadamente aberta e afeita a múltiplas
interpretações. As dissonâncias a respeito da dignidade da pessoa humana podem ser
encontradas também sobre o caso de Irene. No parecer do Ministério Público, a proteção
da dignidade passa a ser associada à manutenção de convicções religiosas e filosóficas,
aproximando-se de uma certa moralidade imprescindível para que seja justificada.
Ancorados no princípio da preservação da vida humana e na ausência de motivação
necessária para a recusa da hemodiálise, os promotores ressaltam que:

A recusa do filho da paciente não encontra motivação em princípios


reconhecidos pela Constituição Federal de 1988 como a liberdade de crença e
dignidade da pessoa humana, situação reconhecida pelo egrégio Tribunal de
Justiça do Rio Grande do Sul como fundamento para recusa a tratamento
médico. Nesse sentido:

Ementa: AGRAVO DE INSTRUMENTO. DIREITO PRIVADO NÃO


ESPECIFICADO. TESTEMUNHA DE JEOVÁ. TRANSFUSÃO DE
SANGUE. DIREITOS FUNDAMENTAIS. LIBERDADE DE CRENÇA E
DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. PREVALÊNCIA. OPÇÃO POR
TRATAMENTO MÉDICO QUE PRESERVA A DIGNIDADE DA
RECORRENTE. A decisão recorrida deferiu a realização da transfusão
sanguínea contra a vontade expressa da agravante, a fim de preservar-lhe a
vida. A postulante é pessoa capaz, está lúcida e desde o primeiro momento em
que buscou atendimento médico dispôs, expressamente, a respeito de sua
discordância com tratamentos que violem suas convicções religiosas,
especialmente a transfusão de sangue. Impossibilidade de ser a recorrente
submetida a tratamento médico com o qual não concorda e que para ser
procedido necessita do uso de força policial. Tratamento médico que, embora
pretenda a preservação da vida, dela retira a dignidade proveniente da crença
religiosa, podendo tornar a existência restante sem sentido. Livre arbítrio.
Inexistência do direito estatal de “salvar a pessoa dela própria”, quando sua
escolha não implica violação de direitos sociais ou de terceiros. Proteção do
direito de escolha, direito calcado na preservação da dignidade, para que a
agravante seja submetida a tratamento médico compatível com suas crenças
religiosas. AGRAVO PROVIDO. (Agravo de Instrumento nº 70032799041,
Décima Segunda Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Cláudio
BaldinoMacial, Julgado em 06/05/2010).

A situação dos autos é diversa, uma vez que a paciente não dispôs
expressamente a sua vontade de não se submeter a tratamento médico em razão
de convicção filosófica ou religiosa. O documento da fl. 240 apenas refere que:
mesmo tendo conhecimento da indicação clínica de tratamento de hemodiálise
feita pelo corpo médico, informo que vou respeitar o desejo de minha mãe,
desautorizando qualquer iniciativa que venha a conduzi-la para o procedimento
de hemodiálise.

Assim, em face da inexistência de motivo para a recusa ao tratamento médico


preconizado, tem-se que, para a preservação da vida, direito fundamental, deve

77
a autorização do familiar ser suprida a fim de se evitar prejuízos a
incolumidade física da paciente. (páginas 243 e 244)

O que se percebe, nessas abordagens, é a construção da dignidade enquanto uma


dupla dimensão, que se manifesta simultaneamente como expressão da autonomia da
pessoa humana (vinculada à ideia de autodeterminação e de respeito às decisões
consideradas essenciais para a própria existência), bem como da necessidade de sua tutela
por parte da comunidade e do Estado, especialmente quando considerada “fragilizada” ou
até mesmo, e principalmente, quando se torna ausente a capacidade de autodeterminação
(SARLET, 2007) - como nos casos de perda da consciência e da racionalidade, comuns
nas fases mais avançadas de algumas doenças. O espaço político (e público) edificado em
torno da noção de vulnerabilidade desses corpos se torna fundamental, sendo um marco
expressivo, inclusive, da transformação operada sobre o ordenamento jurídico, cuja
atenção vem sendo direcionada às “diferenças que inferiorizam as pessoas” (TEPEDINO,
2004) e ameaçam a manutenção de suas dignidades existenciais. De acordo com Judith
Butler (2004), a vulnerabilidade seria sempre dependente de uma troca recíproca, de uma
relação de alteridade, de um “outro” por meio do qual os sujeitos podem contrapor suas
próprias existências, tomar consciência de suas precariedades e pleitear mudanças.
Somente as vidas reconhecidas e percebidas aos olhos dos outros poderiam se tornar
humanizadas, amparadas e compreendidas como espaços dignos, em que o luto e o pesar
podem ser manifestados de maneira livre. Reivindicar juridicamente a vulnerabilidade,
assim, seria reivindicar um corpo espectral, suspenso entre a vida e a morte, cuja
existência precisa ser amparada pelo Estado ou garantida nos termos propostos por seus
próprios proprietários. A partir da fabricação e impressão dessas vidas precarizadas nos
autos, cria-se uma obrigação moral dos operadores do Direito em promover o “bem-estar”
de todos os cidadãos, especialmente daqueles considerados como mais “frágeis”, tendo
como parte da retórica a exposição dos sofrimentos alheios e a produção de uma empatia
e compaixão pela/o autora/or da ação (FREIRE, 2015).

3.4 – Em defesa da santidade da vida humana

Apesar da progressiva demanda pelo direito de deliberar sobre a própria morte, os


debates envolvendo a autodeterminação sobre a vida não avançam sem dilemas e
controvérsias. Entre as principais tensões jurídicas, observáveis também nos processos de

78
João de Atouguia, Irene Oliveira de Freitas e João Carlos Ferreira, está a dificuldade em
se associar os interesses individuais de cada sujeito (a manutenção de suas vontades) à
proteção da vida e dignidade humanas. Parte da querela se concentra na discordância
ontológica construída entre a sacralidade da vida e a santidade da vida. De acordo com
Debora Diniz (2006), o direito de se manter vivo é um direito fundamental, expresso na
Constituição brasileira, e compartilhado por diversas correntes filosóficas e religiosas.
Ele parte do princípio de que a existência humana é um valor moral individual, garantido
publicamente e, em termos éticos, pode ser compreendido como a sacralidade da vida. A
santidade da vida, por outro lado, refere-se a um fundamento dogmático e religioso, que
pressupõe um caráter heterônomo da vida humana e sua inviolabilidade.

Na petição inicial do processo de João Carlos Ferreira, formulada pelo Ministério


Público do Rio Grande do Sul, torna-se notória a importância dada ao princípio da
santidade da vida e a abnegação construída em torno dos desígnios pessoais do próprio
paciente:

Nesse contexto (quadro depressivo do paciente), e porque o laudo firmado no


dia de ontem pela Dra. Linda Chee Ming Tse revela a gravidade do quadro de
saúde de João e a necessidade de tutela ao maior bem do ser humano que é a
vida, há evidente dever de agir frente ao iminente risco de morte, envidando-
se todos os esforços para a melhora do quadro clínico de João.

Assim, na espécie deve-se reconhecer a prevalência do direito à vida,


indisponível e inviolável em face da Constituição Federal, a justificar o
tratamento, mesmo que se contraponha ao desejo do paciente, uma vez que
reflete o próprio direito à sua sobrevivência frente à doença grave que enfrenta.

Frisa-se que a vida, por ser direito fundamental maior, garantida


constitucionalmente sua inviolabilidade e indisponibilidade pelo ordenamento
jurídico e tutelado com primazia pelo Estado, é elemento constitutivo
indeclinável ao exercício dos demais direitos inerentes à pessoa humana,
cabendo ao Estado o dever positivo de agir em relação à preservação da vida e
salvação do ser humano. (páginas 3 e 4)

No recurso de apelação, destinado à reformulação da sentença e a consequente


liberação para a amputação do pé esquerdo de João Carlos, o Ministério Público enfatiza
a morte iminente do paciente, alertando para o “risco de infecção generalizada, mal, que
é sabido, leva ao óbito por septicemia”. Diante do “dramático quadro em que está inserido
o ancião”, o MP se interpõe à sentença do juiz, esclarecendo ainda o não desconhecimento
sobre a opinião de parcela dos operadores do direito, defensores da autonomia dos
pacientes; da possibilidade de recusa de tratamento médico, ainda que haja risco sobre
sua vida. Ressaltam, contudo, a condição elementar para esse tipo de defesa entre seus

79
pares: “ser o paciente maior, capaz, estando no gozo de suas faculdades mentais”, o que
não condiziria com o contexto de paciente, segundo as palavras do Ministério Público:

Ocorre que, no caso em tela, o ancião não detém condições psíquicas de


recusar, validamente, o procedimento cirúrgico para amputação do pé
esquerdo, sem o qual a morte é certa, por infecção generalizada.

Também revelam a incapacidade do idoso de recusar validamente a cirurgia os


registros lançados, em 14/04/2013, pela Dra. Milene Dreyssing, em seu
prontuário (documento ora acostado nos autos, posto que encaminhado ao
Ministério Público posteriormente ao ajuizado de demanda), atestando que
João está em “depressão grave, agressivo quando sugere-se procedimentos
médicos cirúrgicos: amputação (...) Paciente quer punir-se e/ou punir alguém,
o que caracteriza depressão grave: sem condições mínimas de autocuidar-se e
de gerenciar sua vida”. (páginas 23 e 24)

Por volta da segunda metade do século XX, a saúde se tornou um dos valores
éticos fundamentais para as sociedades industriais do Ocidente (ROSE, 2013). Os
regimes de saúde realizados em casa e na educação básica passaram a ser fomentados e
encorajados, possibilitando a emergência de cidadanias estreitamente relacionadas ao
cuidado de si, aos hábitos de limpeza e domesticidade (que incidiram especialmente sobre
mulheres e mães), e às intervenções sobre o ambiente de trabalho em nome da saúde e
segurança. Uma ampla gama de organizações médicas e filantrópicas se engajou em
campanhas de educação e promoção da saúde, com o objetivo de maximizar e
potencializar a própria vitalidade, bem como produzir novos consumidores para o
mercado dos fármacos e da “medicina alternativa”. Essas novas condutas e manifestações
focalizavam, especialmente, a influência sobre os sentimentos, crenças e valores éticos
individuais e coletivos. De acordo com Rose (2013), esses novos comportamentos seriam
decorrentes de uma “etopolítica” - uma política orientada para a otimização dos estilos
de vida (potencial de saúde e bem-estar) e fundamentada em autotécnicas pelas quais os
seres humanos deveriam julgar e intervir sobre si mesmos para se tornarem melhores do
que são. A partir desse redirecionamento ético-político, os indivíduos puderam se
perceber como sujeitos “somáticos”, isto é, como seres cuja individualidade está, em
parte, fundamentada dentro de existências carnais, corporais, experienciadas e expressas
parcialmente pela linguagem da biomedicina e do vitalismo.

O desenvolvimento dessas novas subjetividades e pulsões fez brotar uma espécie


de “economia moral” (ROSE, 2013), na qual a ignorância, a resignação e a falta de
esperança perante o futuro são fortemente desaprovadas. Aqueles que não buscam o
aperfeiçoamento, aqueles que não mais o desejam ou estão impossibilitados de realizar o
cuidado de si passam a ser observados com desconfiança. Para o Ministério Público, a

80
depressão grave que aflige João Carlos o retira de sua plena consciência, autonomia e
capacidade jurídica. Os desejos e desígnios do paciente, orientados para a não-amputação
do pé esquerdo e a disposição do próprio corpo e vitalidade, seriam decorrentes de um
conhecimento imperfeito da realidade social, de distorções psíquicas condenáveis e
desautorizáveis, produtoras de palavras nulas, despossuídas de verdade e importância e,
por essa razão, não passíveis de acolhida perante a justiça. A doença de ordem
psiquiátrica, tratada como um distúrbio afetivo que diferencia João dos demais, é
codificada como incapacidade para a vida cívica, como inabilidade de se auto-representar
e como incompetência para com o próprio cuidado – o que justificaria a tutela de sua vida
por autoridades consideradas competentes, responsáveis e detentoras do correto
conhecimento sobre a saúde e administração corporal.

No caso de Irene Oliveira de Freitas, as ponderações realizadas pelo advogado do


Hospital Ernesto Dornelles destacam o receio da instituição em ser futuramente
responsabilizada por atender ou não determinado pedido médico. A divergência de
opiniões entre os familiares (acerca dos tratamentos terapêuticos a serem seguidos) e a
ausência de condições clínicas da paciente para revelar a sua vontade são consideradas
cruciais para o pedido de supressão de vontades:

Assim, pelo que se denota dos autos, a vontade da paciente e de seu filho é no
sentido de não realizar o tratamento de hemodiálise, o que realmente é
compreensível diante do sofrimento maior que tal procedimento ainda pode
causar ao enfermo e aos seus familiares, sem garantia de que o tratamento
proposto outorgará melhor qualidade de vida, pois a doença que a acomete não
tem cura.

No entanto, o Hospital Ernesto Dornelles vê-se diante de uma difícil escolha,


quase denominada a “Escolha de Sofia”, pois que a paciente não se encontra
em condições clínicas de revelar sua vontade e seus familiares não entram em
consenso quanto ao tratamento da mesma.

(...)

No caso específico posto em debate, trata-se da proteção à vida de pacientes


inconscientes, por instituições hospitalares, ou pela classe médica em geral,
quando inexiste consentimento expresso pelo próprio enfermo e, ainda, quando
a própria família não se posiciona de maneira unânime e consensual, deixando
dúvida acerca da efetiva última vontade do paciente.

Neste preciso contexto é de se reconhecer a legitimidade ativa das instituições


hospitalares e de médicos em geral, a fim de proteger e preservar o bem maior:
a vida, quando o próprio paciente e beneficiário da medida não encontra-se em
condição de definir por si acerca dos tratamentos médicos oferecidos (página
292).

Um mês após a suspensão dos tratamentos de Irene e o início dos cuidados


paliativos domiciliares realizados somente com a administração de fármacos, Gilberto

81
decide novamente internar a mãe. Do ponto de vista do advogado, tal mudança de postura
apenas corrobora o posicionamento da instituição em continuar os procedimentos e
salvaguardar a vida da paciente. O retorno à unidade hospitalar e aos ciclos de
hemodiálise são justificados por Gilberto com base na piora excessiva do quadro clínico
e no fato de que a própria Irene agora autorizava o tratamento, reviravolta jurídica
inclusive divulgada nos noticiários de Porto Alegre. Nos autos, temos acesso à matéria
“Vida em Debate: Hospital luta na justiça para medicar paciente” (Anexo I), publicada
pelo jornal local Zero Hora no dia 30 de junho de 2011 e anexada ao processo pelo
advogado do Hospital. A partir da reportagem, a instituição médica reafirma sua escolha
pela intervenção e a necessidade de tutela da vida, considerada um bem maior:

Dito isto, a Recorrente toma a liberdade de passar ao mérito do recurso: a


afronta à Constituição perpetrada pelo E. Tribunal recorrido, apontando-se ao
caput do artigo 5º da Constituição Federal.

O direito à vida, portanto, é tema delicado e merecedor de toda a cautela e


atenção quando de sua análise, quer sob enfoque médico ou jurídico. As
decisões judiciais, portanto, incorridas sob o enfoque do art. 5º da CF,
especificamente no tocante ao direito à vida, devem fundar-se em premissas
fortes e a salvo de divergências familiares. Quer-se com isso ressaltar que a
não autorização de realização de tratamento em uma enferma inconsciente,
com base em entendimento isolado de um filho, em detrimento de outra
opinião, é, no mínimo, balizar o direito à vida em frágil premissa, não sendo
esta, data máxima vênia, a proteção esculpida no art. 5º da Constituição
Federal. Em razão de tal realidade é que, a fim de proteger um bem maior, é
de ser reconhecida a legitimidade ativa das instituições de saúde para
demandas desta natureza (...).

O direito à vida é direito fundamental e deve, data máxima vênia, prevalecer


sobre eventual opinião divergente de familiares que, a despeito de nova
orientação acerca da ortotanásia, não detém declaração expressa da paciente,
mormente concordam quanto à realização ou não de determinado tratamento.
(páginas 292 e 294)

As considerações relativas à santidade da vida, presentes também no discurso da


advogada de João de Atouguia (onde é tratada como “nosso bem maior, dádiva de Deus”,
não podendo “ser suprimida por decisão de um médico, qualquer que seja a
circunstância”), vão se somando às retóricas de proteção e tutela judicial desses corpos
tomados como fragilizados. A perda da consciência, a ausência de racionalidade e/ou o
mero desejo de não mais prosseguir com os tratamentos revelariam uma (suposta)
condição de vulnerabilidade e inépcia desses sujeitos no exercício de controle das suas
próprias vitalidades, o que justificaria a intervenção externa dos aparelhos do Estado.
Nesse esquema, a doença emerge como uma experiência fragilizante e incapacitante, que
desqualifica os sujeitos para o cuidado de si e para a administração de seus próprios
corpos. O grave adoecimento pode ser percebido enquanto “perturbação físico-moral”

82
(DUARTE, 2003) – como uma situação ou evento de vida visto como anormal ou
irregular pelos sujeitos e que afeta não apenas as suas corporalidades, mas também suas
vidas morais, suas auto-representações, seus sentimentos e suas percepções relativas
aobem-estar, ao benefício, à felicidade e às necessidades - justamente os alvos sobre os
quais recairão as argumentações para a interferência na liberdade de ação dos indivíduos,
por meio de medidas paternalistas que interditam as vontades daqueles submetidos a essas
afetações.

De modo geral, tais modalidades de paternalismo jurídico podem ser


categorizadas segundo o fim a que se destinam (BODIN DE MORAES; VIVEIROS DE
CASTRO, 2014): algumas delas querem afastar o sujeito despido de autonomia
(temporária ou definitivamente) do mal que possa afetá-lo, enquanto outras têm como
objetivo promover o bem - que o sujeito não estaria apto a reconhecer como seu melhor
interesse. Na primeira modalidade, também conhecida como “paternalismo fraco”,
entende-se que o mal resulta na escolha ou na falta de conhecimento sobre o potencial
lesivo da conduta. Assim, julga-se necessário agir na dúvida sobre a voluntariedade ou
não da ação, como tirar uma pessoa de cima de uma linha de trem, mesmo sem saber se
ela deseja ou não levar a vida a termo. Na segunda modalidade, chamada de “paternalismo
forte”, admite-se a intervenção sobre a conduta quando o mal resulta de atividade
voluntária e informada: o sujeito sabe que determinada escolha lhe fará mal, mas ainda
assim deseja praticá-la. Tradicionalmente, o paternalismo forte pode ser encontrado em
políticas públicas de controle ao tabagismo, como nas campanhas de proibição do fumo
em lugares fechados ou ainda nas leis que restringem o porte de armas e nas que impõem
a vacinação obrigatória. Por esse sentido, também podem ser legitimadas pelo Estado
com o argumento de que resguardariam a vida de terceiros.

Os casos em tela estão dimensionados na modalidade fraca de paternalismo. Irene


Oliveira de Freitas, João Carlos Ferreira e João de Atouguia (bem como seus respectivos
familiares) são apresentados como sujeitos inabilitados para conhecer e decidir sobre seus
próprios quadros clínicos e procedimentos terapêuticos. A autonomia sobre o fim da vida,
assim, fica a cargo de autoridades consideradas competentes, como os médicos e juristas,
aos quais os pacientes deveriam sempre se submeter, dentro de um regime de tutela.

Pensando na história do enquadramento jurídico dado aos povos indígenas,


Antonio Carlos de Souza Lima vislumbra a tutela como um exercício de poder do “Estado
sobre os espaços (geográficos, sociais e simbólicos), que atua através da identificação,

83
nominação e delimitação de segmentos sociais tomados como destituídos de capacidades
plenas necessárias à vida cívica” (SOUZA LIMA, 2012, p.784). Essa contraposição
elementar entre uma “incorporação plena” e uma “incorporação deficitária” dos códigos
de conduta dominantes e socialmente aceitos também é identificada por Jair de Souza
Ramos (2003), sendo a citada divisão justamente a base sobre a qual repousa a lógica
tutelar. Pela marca da incapacidade relativa, vulnerabilidade ou ainda, utilizando-se do
vocabulário jurídico, da hipossuficiência, certos grupos e indivíduos passam a ser
considerados carentes, merecedores de proteção especial e destinatários de um tipo de
mediação pedagógica/doutrinatória, capaz de lhes fornecer inserção na comunidade
política e de prepará-los para a cidadania plena. Por esse sentido, a tutela teria como
finalidade a transformação do modo como os sujeitos gerenciam suas vidas e vivenciam
o pertencimento a uma comunidade mais abrangente, posto que seus conhecimentos e
crenças são considerados imperfeitos e desautorizáveis. De maneira geral, o poder tutelar
identifica alguns segmentos sociais como distintos e desviantes e os direciona a um
tratamento e proteção específicos. Entre os considerados incapazes de administrar seus
próprios destinos e escolhas, estão aqueles genericamente denominados como índios
(Souza Lima, 2013), menores (Vianna, 2002, 2014), imigrantes (Ramos, 2003), além dos
deficientes, idosos, crianças, estrangeiros, infratores e – proponho – os pacientes em
condição terminal.

Pelo princípio da dignidade da pessoa humana e pelo valor da santidade da vida


duas manifestações distintas de um mesmo regime tutelar podem ser decodificadas. Duas
formas de ação que se concentram em determinados alvos, sob o comando de especialistas
em administrar a saúde e a coletividade, mas que estabelecem focos de intervenção
distintos. Na defesa da dignidade da pessoa humana, a tutela é dirigida à
“existencialidade” (o “espírito” ou “mente”), isto é, ao modo como os sujeitos imaginam
e governam a si mesmos, relacionando-se com as construções ontológicas particulares
cultivadas por cada um no que diz respeito a sua própria felicidade, satisfação, virtude e
moralidade. Dentro dessa mirada, as convicções pessoais, as liberdades e os elementos
que conferem a cada indivíduo uma vida digna são tomados como centrais, sobrepondo-
se inclusive à própria vida (ou necessidade de viver). Por outro lado, quando se reivindica
a santidade da vida, a tutela se torna dirigida à própria vitalidade (ou “corporalidade”),
tomada como um fim em si mesmo e bem inviolável, passível de resguardo até mesmo

84
das possíveis atitudes lesivas de seus proprietários. Sob essa perspectiva, a vida se torna
uma obrigação e um dever, sobrepondo-se a qualquer outra esfera da vida social.

85
Considerações Finais

A antítese do nôvo e do obsoleto,

O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina

O que o homem ama e o que o homem abomina.

Tudo convém para o homem ser completo!

O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,

Uma feição humana e outra divina

São como a eximenina e a endimenina

Que servem ambas para o mesmo feto!

Eu sei tudo isso mais do que o Eclesiastes!

Por justaposição dêstes contrastes,

Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

Às alegrias juntam-se as tristezas,

E o carpinteiro que fabrica as mesas

Faz também os caixões do cemitério!...

(DOS ANJOS, 1963, p. 123)

Como já sublinhado por Michael Pollak (1989), as memórias individuais, assim


como as memórias coletivas e a ordem social para cuja existência elas contribuem,
emergem a partir de uma delicada gestão de contradições, interesses, silêncios e tensões.
Justamente por ser seletiva e objeto de disputas e conflitos, a memória se apresenta como
um elemento sujeito a flutuações, em função do momento em que está sendo articulada e
expressa, podendo ser recombinada e reapresentada de formas diversas por um mesmo
interlocutor. Nos autos, o trabalho de reconstrução de uma memória e identidade críveis
aos olhos dos outros lança os indivíduos em uma experiência de intensa reflexividade,
forçando-os a administrar seus próprios retratos e a negociar seus passados perante
autoridades e especialistas. Um trabalho que, simultaneamente, organiza a lembrança (por

86
exclusões e evidenciamentos) e articula a imagem que a pessoa adquire ao longo da vida
sobre si mesma e a imagem que ela pretende edificar e apresentar aos outros.

Por detrás da miniaturização, condensação e registro de tantas vidas e mundos nos


autos estão, portanto, as tarefas de desenho, modelagem e exposição de uma identidade e
memória, assim como a negociação das palavras e até mesmo da arquitetura das
narrativas, a partir da seleção do que poderá ou não ser fixado ou recordado
(LOWENKRON; FERREIRA, 2014). Algo não muito diferente do que ocorre na
produção de um texto etnográfico. Na feitura de um relato antropológico, alguns eventos,
personagens, obras e ideias precisam ser sintetizados, decompostos ou obliterados de
determinada forma, tal como retalhos a serem reunidos e costurados para apreciação do
leitor. Nesse esforço de organização, apresentação e conformação dos dados de campo
em um relato coerente e contínuo, nem tudo pode ser falado, nem tudo pode ser lembrado,
esmiuçado ou tratado com a devida (e merecida) profundidade – impossibilidades que
reverberam o próprio sentimento de pesar e luto contido no trabalho de escrita:

A escrita, se pretende mais que um jogo, ou uma aposta, não passa de um


longo, interminável trabalho de ascese, uma maneira de se desprender de si
prendendo-se a si: tornando-se si mesmo por não ter reconhecido, posto no
mundo o outro que sempre se é. Eis o nó: trabalho de memória é trabalho do
luto. E ambos são palavra de esperança, arrancada do não dito. (RICOEUR,
2012, p. 36)

A estrutura narrativa empreendida ao longo desta dissertação teve como norte a


compreensão da gestão jurídica e médica da vida terminal, a partir da exposição e
sistematização das controvérsias relatadas nos autos de Irene, João Carlos e João de
Atouguia sobre os limites éticos das ações terapêuticas, sobre a correta temporalidade do
viver, sobre a autonomia relativa ao próprio corpo e, por fim, sobre o que seria uma boa
morte e uma vida digna. O resultado deste trabalho deve ser vislumbrado como uma
captura momentânea de um certo emaranhado de rastros, encontros e fluxos terceirizados
ao menos duas vezes: primeiramente, por autoridades e familiares (aqueles que trataram
de narrar e interpretar as vidas dos pacientes nos tribunais) e, em segundo lugar, por mim.

Em termos gerais, os embates ontológicos construídos acerca dos corpos e


destinos de Irene, João Carlos e João de Atouguia podem ser decompostos em dois
grandes quadros. Duas dimensões que não devem ser entendidas como formas
antagônicas fechadas sobre as quais os indivíduos se engajam com exclusividade. Ao
contrário, devem ser compreendidas como um meio de caminho, como uma malha de

87
materiais culturais e possibilidades ideacionais disponíveis, a partir das quais os
indivíduos podem negociar suas próprias realidades e trajetos. Assim, temos:

1) De um lado, a defesa de uma morte domiciliar (com a presença de amigos e


familiares), não prolongada ou apressada, e vivenciada dentro do tempo da natureza,
respeitando-se os ciclos e ritmos que ela impõe a cada existência. Revisitando a própria
tradição hipocrática vitalista, tem-se aqui a máxima confiança do indivíduo na vida e nas
leis da “natureza”. Sob essa posição, o sujeito experimenta em relação à natureza uma
conexão filial, um sentimento de pertinência, subordinação e simpatia, não sendo os
fenômenos naturais estranhos ou estrangeiros, mas justamente aquilo que provê de
sentido e fundamento a vida humana. O universo é percebido como um organismo, um
todo harmonioso, espontâneo e homeostático, cujas próprias auto-regulações são
suficientes e genuínas. A autenticidade da vida, assim, estará fortemente relacionada a
um corpo livre de maquinários, aparelhos ou quaisquer outros exames tomados como
invasivos e capazes de fragmentar e corromper a própria existência humana. Aqui, o olhar
é dirigido ao passado, sendo valorizada nostálgica e saudosamente a “morte domada”
(ARIÈS, 2012) de outrora, aquela vivenciada com familiaridade, tranquilidade e
aceitação.

Dentro dessa perspectiva, são destacadas ainda a preeminência das escolhas


individuais e o respeito à liberdade e autonomia dos sujeitos, não devendo as
interferências e intervenções de autoridades e especialistas se sobrepor aos desejos e
interesses de cada indivíduo. A morte é compreendida como uma possibilidade no
processo de construção da própria pessoalidade, assemelhando-se a um projeto de bem-
viver (direcionado aos momentos finais) legítimo, que relativiza a própria obrigatoriedade
da vitalidade e a imaculabilidade do corpo humano. Dada essa especificidade, Rodrigues
(2006) observa os atos dispositores do próprio corpo/vitalidade como meios de
independência, fenômenos subversivos e transgressores, capazes de afrontar um poder
que pressupõe a negação da própria morte para existir:

A morte questiona radicalmente as ideologias da eficácia e da competência e


ridiculariza a competição social. Quebra radicalmente a linearidade do tempo
e demonstra que o tempo ou é reversível ou é nada, verdade insuportável para
um sistema que quer que o tempo seja linear e adverte que ‘tempo é dinheiro’.
Mostra que o ‘progresso’ é uma ilusão, que o progresso não tem fim e que
haverá sempre mais um progresso a realizar quando se morre. Acima de tudo,
para uma sociedade que quer acreditar nessa ilusão, a morte é inadmissível
porque elimina a possibilidade de atingir objetivos, porque mostra que a
realização pessoal e coletiva, nos termos definidos pelo sistema, é impossível
(RODRIGUES, 2006, p. 247).

88
Paradoxalmente, a vida humana digna seria aquela capaz de se realizar
autonomamente (conforme os desejos de seus proprietários) e aquela capaz de receber a
correta tutela pela comunidade ou Estado, sobretudo quando considerada “vulnerável” ou
“frágil”. No caso de João de Atouguia, a ambiguidade se torna evidente com a
administração da sedação terminal. Ainda que o procedimento não tivesse sido autorizado
à época pelos familiares (ou não devidamente explicado pelos médicos), a unanimidade
dos magistrados considerou a escolha correta, uma vez que a intenção era a produção do
bem-estar e o fim do sofrimento existencial do paciente, acometido por um câncer
avançado que o colocava em condição de vulnerabilidade.

Em resumo, podemos listar como palavras-chave para este primeiro modelo as


noções de Naturalismo, Vitalismo, Subjetivismo, Individualismo, Dignidade e Nostalgia.

2) Do outro lado, a defesa de uma morte monitorada, asséptica, prolongada em


seu máximo, realizada nos domínios seguros e higienizados do hospital e dentro do tempo
do maquinário. Por essa compreensão mecanicista, o vivente experimenta em relação à
natureza uma posição de independência, um sentimento de insubordinação e aspereza,
não sendo os fenômenos naturais irrepreensíveis e intocáveis, mas esferas sempre
sobrepujáveis, potencialmente aperfeiçoáveis e otimizáveis pelas capacidades humanas
de planejamento e racionalização - condensadas sob o epíteto da ciência. O universo é
percebido não como um todo austero e perfeito, mas como uma composição de partes
suscetíveis a transformação e reorganização. Aqui, o olhar é dirigido ao futuro e à
esperança, não apenas por uma série de crenças no conhecimento técnico da medicina e
nas suas promessas de cura, controle e perfectibilidade corporal, mas também por uma
infusão de afetos que inspiram ações dos próprios pacientes e seus familiares, bem como
das indústrias farmacêuticas e das pesquisas acadêmicas em direção a um amanhã mais
progressista e distanciado do sofrimento moral e físico proporcionado pela doença.

Por essa ótica, a vida se torna um imperativo, uma matéria inviolável, de contornos
santos, cuja existência deve ser mantida a todo custo por seus “proprietários”. Aqueles
incapazes de reconhecer esse valor, aqueles cujos desejos convergem para a disposição
da própria vitalidade e corporalidade, contrariando o curso dessa lógica orientada ao
progresso e otimização, são tomados como pessoas relativamente incapazes, seres
vulneráveis que precisam de um tipo especial de proteção para se realizarem civicamente
por completo. Por esse mote, as vidas em condição terminal são observadas como
existências menores (VIANNA, 2002), vidas em posição parcial de autonomia e vontade

89
que, por uma relação assimétrica de autoridade, tornam-se tuteladas e dependentes de
maiores, indivíduos (ou um conjunto de indivíduos) tomados como responsáveis por seus
cuidados e trajetos corporais.A morte é compreendida como um fracasso, como um
evento limite que expõe as fragilidades e perecibilidades de um sistema orientado ao
controle da vitalidade, à perfectibilidade e ao aprimoramento das performances humanas.

Em resumo, podemos listar como palavras-chave para este segundo modelo as


noções de Tecnologismo, Mecanicismo, Paternalismo, Tutela, Santidade da Vida
Humana e Esperança.

***

Os esforços empreendidos pelos teóricos dos cuidados paliativos (no âmbito


jurídico, médico e bioético) tornaram possíveis, pensáveis e pronunciáveis a assistência
ao morrer, a legalização do suicídio assistido e da eutanásia, a suspensão ou limitação de
tratamentos terapêuticos e a manutenção das autonomias e liberdades dos pacientes.
Desde então, o silêncio e o ocultamento construídos em torno do morrer puderam ser
amansados, ainda que processualmente, tornando viáveis a emergência de redes de apoio,
organizações não-governamentais e mercados dirigidos à paliatividade. Se a morte pôde
voltar a ser falada e discutida em alguns espaços, é porque também pôde ser melhor
controlada, administrada, encapsulada, comercializada e engolida pelo próprio biopoder.

Nos casos analisados nesta dissertação, o correto gerenciamento das vidas


terminais foi por vezes atravessado por assimetrias flagrantes, que estabeleciam alguns
corpos e destinos como mais livres e autônomos do que outros, mais responsáveis e sábios
do que outros. Ao mesmo tempo em que era oferecido um modelo de cuidado preocupado
com o correto controle das dores e demais sintomas físicos dos pacientes, com a
manutenção de suas identidades e totalidades “bio-psico-social-espirituais”,
simultaneamente, também eram capilarizados e refinados alguns mecanismos de controle
social, a partir de um conjunto de técnicas etopolíticas (ROSE, 2003) e a partir de uma
rede de profissionais e autoridades capazes de educar moralmente e ensinar
pedagogicamente a correta gestão da vida/morte e corporalidade humanas.

90
Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Miguel Vale. O Corpo na Teoria Antropológica. Revista de Comunicação


e Linguagens, n 33, pp 49-66, 2004.

ANZALDÚA, Gloria. Borderlands/La Frontera: The new mestiza. San Francisco,


Aunt Lute Books, 2012.

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