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Fórum do Campo Lacaniano Diagonal Rio de Janeiro | IF • EPFCL


Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano

Seminário O sintoma de Marx a Lacan


Coordenação: Clarice Gatto1 e Fabio Bonafini2
Colaboração: Andrea Scila3 e Edna Chernicharo4

12 e 26 de agosto | 16 e 30 de setembro | 7 e 21 de outubro | 4 e 18 de novembro

Os encontros serão quinzenais, às quartas-feiras das 20h30 às 22h.


e-mail: campolacanianoriodejaneiro@gmail.com // Instagram: @campolacaniano

Após o debate sobre o filme Bacurau, descobrimos nossa transferência-de-trabalho para com
Marx e decidimos organizar esse seminário e compartilha-lo. Estudaremos este ano, especialmente,
Marx n’O Capital Vol. I e alguns autores cuja análise nos auxiliará na leitura. O Capital se faz
necessário para nosso trabalho de pesquisa conceitual cuja referência é Lacan – em sua leitura tanto
de Freud quanto de Marx – para o debate sobre a psicanálise enquanto “tratamento que se espera de
um analista” (Lacan, Escritos, p.331).
Há uma variedade de citações e em momentos distintos do ensino de Lacan sobre Marx. O
“Index des noms propres et titres d’ouvrages dans l’ensemble des séminaires de J. Lacan” (Paris:
EPEL) nos servirá de orientação sobre o que Lacan atribuiu, recolheu, se serviu de Marx.
Está em Freud a expressão “Lustgewinnung” (“ganho de prazer”, Cia da Letras, Vol.6,
p.128) n’Os três ensaios para uma teoria sexual, de 1905 (GW, Band V, p.113). Está em Marx a
noção de “sintoma social” e vamos retoma-la porque o sintoma, também para a psicanálise, é o que
torna possível da análise, uma interpretação. Lacan chega a dizer que “Marx é o inventor do
sintoma”, em 18 de março de 1980 (“Senhor A”. Letra Freudiana. Rio de Janeiro n.0, p.54).
Apoiado em Marx é de Lacan a expressão “cada indivíduo é um proletário” n’A terceira, de
1974, contraponto, talvez, fundamental, quando ele assinala que o final da análise didática não é
separável do engajamento do sujeito em sua prática... no movimento simbólico que compromete o
psicanalista a “alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”, desde Função e campo da
fala e da linguagem em psicanálise em 1953, (Escritos, p.32).
Na aula de 20/11/1968 do Seminário – livro 16: De um outro ao Outro, Lacan aproxima a
mais-valia de Marx ao mais-de-gozar... e sobre este ponto Jairo Gerbase (2009) assinala que:

A definição mais bem acabada que poderíamos dar do que participa da formação
do sintoma, do que joga na formação do sintoma, em primeiro lugar, como
benefício, como vantagem primeira do sintoma, é este mais-de-gozar, razão pela
qual todo sintoma acaba se tornando um objeto precioso, um bem, um objeto de
amor do sujeito... É este benefício primário do sintoma (Freud) que o ato analítico
deve visar.
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Psicóloga. Psicanalista no Rio de Janeiro. Membro IF-EPFCL. Pesquisadora da Fiocruz. Doutorado em Psicologia
Clínica PUC-Rio. Coordenadora do Curso de Atualização Fundamentos da Experiência Psicanalítica ENSP/Fiocruz.
2
Graduando em Letras Português-Espanhol / UFRJ. Professor de espanhol e inglês no FISK.
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Psicóloga. Psicanalista no Rio de Janeiro. Membro IF-EPFCL. Especialista em Psicologia Clínica CRP-RJ.
Atualização em Fundamentos da Experiência Psicanalítica / ENSP-Fiocruz. Coordenadora do Serviço de Psicologia do
Ambulatório São Luiz Gonzaga / ASIA-RJ.
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Psicóloga. Psicanalista no Rio de Janeiro. Membro IF-EPFCL. Doutorado em Psicologia Social / UERJ. Coordenadora
da Clínica Laços / Centro de Pesquisa e Atendimento em Psicanálise.
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O estranho, nota Lacan (1974), é que “esse laço, seja com o gozo que for, supõe esse objeto
a, e que sua condição de mais-de-gozar, ele acreditou poder designar seu lugar como de nenhum
gozo”.

Nessa perspectiva, iniciaremos o nosso percurso retomando as indicações de Freud sobre a


possível relação entre a teoria psicanalítica e o marxismo na Conferência 35 Über eine
Weltanschauung (Novas Conferências) título, de acordo com alguns tradutores, praticamente
intraduzível. Momento em que Freud situa a psicanálise em relação às visões de mundo como uma
pesquisa crítica e “negativamente definida”.
A leitura dos textos de Slavoj Žižek, Como Marx inventou o sintoma? e o de Michel
Foucault, Nietzsche, Freud e Marx Theatrum Philosoficum nos ajudará no que expõem as analogias
estruturais entre o método de interpretação de Freud e Marx.
Investigaremos as afinidades temáticas e conceituais entre as formalizações lógicas de
Lacan e momentos da crítica da economia política de Marx: o indivíduo moderno, por exemplo,
entre a formação do Eu e a forma-mercadoria, e a relação entre mais-valor e mais-de-gozar.
O que é a ideologia? Há uma psicologia social? E a dialética...? para esses dois campos de
saberes distintos.
Tendo isso em mente, faremos uma leitura dos momentos iniciais de O Capital
acompanhando o desenvolvimento desse método na obra principal de Marx.

Rio de Janeiro, 10 de agosto de 2020.

Cronograma:

12-08-2020 - FREUD, S. Conferência 35: Acerca de uma visão de mundo; ZIZEK, S. Como Marx
inventou o Sintoma. FOUCUALT, M. Nietzsche, Freud e Marx...
26-08-2020 - MARX, K. A mercadoria, partes 1 e 2 (O Capital, Capítulo 1)
16-09-2020 - MARX, K. A mercadoria, partes 3 e 4 (O Capital, Capítulo 1)
30-09-2020 - MARX, K. O processo de troca. (O Capital, Capítulo 2)
07-10-2020 - MARX, K. A transformação do dinheiro em capital. (O Capital, Capítulo 4)
21-10-2020 - MARX, K. O processo de trabalho e o processo de valorização (O Capital, Capítulo 5)
04-11-2020 - MARX, K. O conceito de mais valor relativo. (O Capital, Capítulo 10)
18-11-2020 - MARX, K. Trabalho alienado. (Manuscritos Econômico-Filosóficos).

Referências bibliográficas:

Adorno, Theodor. MINIMA MORALIA. São Paulo: Ática, 1992.


Althusser, L. & Jacques Rancière & Pierre Macherey. Ler o Capital. Rio de Janeiro: JZE.
Arendt, Hanna. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.
Askoforé, Sidi. Figuras do sintoma: do social ao “individual”. A peste. São Paulo, v.3, n.2, p.105-
119, jul./dez. 2011.
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Bataille, George. A noção de despesa: a parte maldita. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
Freud, Sigmund. (1935) Conferência 35: Acerca de uma visão de mundo [Novas Conferências].
Sigmund Freud Obras Completas. Vol.18. São Paulo: Cia das Letras, 2010.
_________. (1921) Psicologia das massas e análise do Eu. [Tradução: Maria Rita Salzano Moraes].
Obras incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
Federici, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista.
[Tradução: Coletivo SYCORAX]. São Paulo: Elefante, 2019.
__________. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. [Tradução: Coletivo
SYCORAX]. São Paulo: Elefante, 2017.
Foucault, Michel. Nietzsche, Freud e Marx: Theatrum Philosoficum. Porto: Anagrama, 1980.
Gerbase, Jairo. a no nó. In.: Almeida, Amélia (Org.). Objeto a. Invenção lacaniana. Salvador.
Campo Psicanalítico, 2009.
González, Horacio. Karl Marx: o apanhador de sinais. 2a. edição. São Paulo: Brasiliense, 1987.
Hegel, G. W. F. Prefácio: §42 e §43. In.: ____. Fenomenologia do espírito. 6a. edição. Petrópolis:
Vozes, 2011.
Index des noms propres et titres d’ouvrages dans l’ensemble des séminaires de J. Lacan. Paris:
EPEL.
Lacan, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: JZE, 1998.
____________. O Seminário – livro 7: A ética da psicanálise (1959-1960). RJ: JZE, 1988.
____________. O Seminário – livro 16: De um outro ao Outro (1968-1969), RJ: JZE, 2008.
____________ . O Seminário – livro 17: O avesso da psicanálise (1969-1970). RJ: JZE, 1992.
____________. (1974) A terceira. Texto apresentado no Congresso da École freudienne de Paris,
VII, 1974, outubro; Roma, Itália. [Texto anexo].
_________ . (1974) La troisième. Disponível em: www.ecole-lacanienne.net.
_________ . O Seminário – livro 23: O Sinthoma (1975-1976), RJ: JZE, 2008.
Marx, Karl. (1867) O Capital. São Paulo: Boitempo, 2013, Vol.1.
Zizek, Slavoj. Como Marx inventou o sintoma?. In.:____. (org.). Um mapa da ideologia. Rio de
Janeiro: Contraponto, 1996, p.297-331.
Teixeira, Marcus do Rio. Objeto a: invenção lacaniana. In: Almeida, Amélia (Org.). Objeto a.
Invenção lacaniana. Salvador. Campo Psicanalítico, 2009.
Todorov, Tzvetan. A transferência como enunciação, a enunciação como transferência. In.: ____.
Teorias do Símbolo. São Paulo: EDIUSP, 2014.
Vanier, Alain. O sintoma social. Ágora. Rio de Janeiro v.5, n.2, jul./dez. 2002, p.205-217.

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