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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO/UFRJ


OS ARQUIfHOS DA MEMÓRIA:
Reitor Aloisio Teixeira
SOCIOGÊNm DAS PRÁTICAS Df PRtStRVACÃO
Vice-Reitora Sylvia Vargas
Coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura Beatriz Resende DO PAIRIMÔNIO CUllURAl NO BRASil (ANOS 1930-1940)

EDITORA UFRJ
Diretor Carlos Nelson Coutinho
Coordenadora de Edição de Texto Lisa Stuart
Coordenadora de Produção Janise Duarte

Conselho Editorial . Carlos Nelson Coulinho (presidente),


Charles Pessanha, Diana Maul de Carvalho,
José Luís Fiori, José Paulo Netto,
Leandro Konder, Virgínia Fontes MÁRCIA RtGlNA ROMflRO CHUVA
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2009

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SUMARIO

Agradecimentos 11

Lista de siglas 15

Lista de figuras 19

Lista de quadros 23

Prefácio 25
António Carlos de Souza Lima

Introdução 29

Capítulo 1 - Estratégias de construção da nação: a materialização 43


da história pelo Sphan

Duas noções imersas na história: nação e património 43

Formação do Estado e construção da nação na constituição 57


do "património nacional"

Capítulo 2 - Relações entre intelectuais e Estado nas décadas 91


de 1930 e 1940

Modernidade e tradição na base da noção de património 91

Modernismo e património: a crença na universalidade da cultura e da arte 101

Estado Novo: intelectuais ilustrados e nacionalismo 113

Conflitos interburocráticos no Estado Novo 120

'Tradição com saudade" ou modernidade com tradição 124

Capítulo 3 - A proteção institucionalizada 143

A gestão estatizada de bens simbólicos 146

Construindo a doxa: o decreto-lei n s 25/1937 152


Os projetos de lei dos anos 1920 153
O anteprojeto de Mário de Andrade 159
2
O decreto-lei n 25/1937 165
a
Legislações complementares ao decreto-lei n 25/1937 174
A "musealização" do património histórico e artístico nacional 181

Capítulo 4 - Práticas de tombamento: a invenção do património 195


histórico e artístico nacional
A profissionalização do arquiteto: os "construtores" da nação 199
História objetivada e história incorporada: os bens tombados e os 205
profissionais em jogo
A hierarquização do património histórico e artístico nacional 206
A enunciação do nacional entre o sofisma e a retórica: o Conselho 221
Consultivo do Sphan
As atribuições do Conselho Consultivo do Sphan e os atributos dos 223
conselheiros
Casos de tombamentos impugnados pela Igreja 228
A Igreja Matriz de São Pedro, em Rio Grande, no Rio Grande do Sul 229
Relações entre proprietários particulares e o Conselho Consultivo do Sphan 233
Modelos discursivos dos pareceres 235

Capítulo 5 - As linhas editoriais do Sphan: a ideia de património 245


no Brasil
Estratégias político-editoriais 245
A série Publicações do Sphan: a "civilização material" do Brasil 249
A Revista do Spharr. o barroco brasileiro 258
A composição temática da Revista do Sphan 266

Capítulo 6 • Rotinização das práticas de conservação do património 279


As redes de relações: compromisso, fidelidade e negociação 279
O caso da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Porto Alegre 289
Distinções no interior das redes: estratégias de priorização das ações 294
de conservação
Relações entre o Sphan e os poderes municipais 298
Relações entre o Sphan e a Igreja 301
Relações entre o Sphan e os proprietários particulares 305

Capítulo 7 - A arquitetura da memória nacional 317


A constituição dos vestígios das "origens" do nacional 327
Princípios e critérios de restauração do património 338
Um caso exemplar: a Igreja e Casa de Oração da Ordem Terceira do 346
Carmo, de Cachoeira, na Bahia

A distinção da modernidade 356

Conclusão 373

Referências bibliográficas 381

Créditos das figuras 411

Anexos
Anexo 1 • Quadro, por grupo, de autores, e sua participação, 419
por número, na Revista do Sphan (1938-1946)

Anexo 2 - Quadro geral de autores, membros do Conselho 423


Consultivo e/ou técnicos do Sphan (anos 1930-1940)

Anexo 3 - Acerca da arquitetura moderna. Manifesto de 447


Gregori Warchavchik, de 1925

Anexo 4 - Decreto-lei n8 25, de 30 de novembro de 1937 451

Anexo 5 - Relação dos bens tombados pelo Sphan (1938-1946) 459


55 Este periódico circulou com regularidade anual, de 1940 a 1975, constituindo excelente fonte
CAPíTULO 3
do ideário institucional, em que os "conservadores" analisavam peças, coleções, buscando
a "autenticidade" aos objetos que selecionavam para conservação (Abreu, 1990). Os Anais A PI?01ErlO INSTlTUCIONAlIZADA
do Museu Histórico e' Nacional volltaram a ser editados em 1995.

56 Sobre Augusto de Lima Júnior, ver os anexos 1 e 2.

57 Na "Relação das valiosas doações do senhor presidente da República ao Museu Histórico


Nacional - 1930-1940", constam, de uma forma geral, placas, álbuns fotográficos e outras
lembranças recebidas por Vargas de outros presidentes, clubes e sindicatos, por ocasião
de inaugurações, implantação de decretos e leis, diplomas de sócio-benemérito, flâmulas, Arte é uma palavra geral, que [...] significa a habilidade com que
medalhas etc. (Dumans, 1997). o engenho humano se utiliza da ciência, das coisas e dos fatos.
58 As obras foram realizadas nos seguintes monumentos: Igreja de Nossa Senhora do Carmo; Mário de Andrade1
chafariz dos Contos; chafariz do Passo de Antônio Dias; Igreja de Nossa Senhora da
Conceição de Antônio Dias; Igreja de Nossa Senhora do Rosário; chafariz dos Cavalos;
ponte de São José; ponte dos Contos; Igreja de Nossa Senhora das Mercês; Igreja de Nossa
Senhora do Pilar; chafariz do Rosário.

59 ACI-SO 262/1.116. Informação n° 229, de Lucio Costa, 17 dez. 1951. Igreja do Rosário de
Padre Faria, Ouro Preto/MG.

60 Conforme concepção de Norbert Elias, que trata das especificidades de constituição de uma
intelligentsia nos processos de construção da nação, comparando os casos alemão e francês
Conforme se buscou tratar anteriormente, as redes de relações tecidas entre
(Elias, 1989).
agentes e agências de poder na constituição das ações de preservação cultural
no Brasil, nas décadas de 1930 e 1940, foram de tal forma eficientes que légi-
timaram um determinadogrupo no controle da agência do Estado criada para esse
fim - o Sphan - e suas representações acerca do patrimônio histórico e artístico
nacional.
Contradizendo tal evidência, corltudo, a memória histórica do período relativo
.'
à gestão de Rodrigo Meio Franco de Andrade - chamado de fase heroíca -, enfa-
tiza o aspecto de "dedicaçãoà causa", motivo pelo qual a agência teria sido capaz
de sobreviver num contexto histórico hostil (Sphan, 1980a; Falcão, 1984). Man-
tendo-se nessa mesma linha, a história oficial do órgão insiste, ainda hoje, em
demarcar uma "desidentificação" do Sphan com relação ao regime autoritário
estadonovista, questão essa permanentemente reatualizada por "intelectuais do
patrimônio", num esforço aparentemente anacrônico (Campofiorito, 1985 e 1997).
Os anos iniciais da gestão de Rodrigo Meio Franco de Andrade foram, ao con-
trário, um momento de grande investimento na concretização de projetos, por meio
da gestão do ministro Gustavo Capanema, quando foram criadas as condições

[142 I 05 ARQUIlfl05 DA MfMÓRIA

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para que o Sphan se legitimasse e se consolidasseem bases legais. A aprovação
do decreto-lei nº 25/1937, vinte dias após o golpe que instalara o Estado Novo,
é o primeiro sinal do que viria se dar ao longo dos anos seguintes, até o final
da ditadura Varqas."
O decreto-lei nº 25/1937 foi, efetivamente, uma lei que pegou. Ao completar
setenta anos, ele se mantém atual, tendo sido, constantemente, uma referência
fundamental às legislações que se seguiram. O perfil jurídico-institucional então
configurado e a problemática delineada, que ainda persistem na atualidade como
referencial dessas ações em âmbito nacional, serão objeto deste capítulo. Preten-
de-se, portanto, mapear os caminhos que levaram à constituição de um aparato
legal, entrelaçando os projetos de lei apresentados e as iniciativas tomadas nas
décadas de 1920 e 1930 - considerados textos mediadores do processo de pro-
dução do decreto-lei nº 25/1937 -, assim como as legislações e instituições cria-
das a partir deste, complementando e/ou retocando seu conteúdo, aperfeiçoando
e/ou ampliando uma dada forma de proteção do "patrimônio nacional". Trata-se de
Figura 8. Igreja de São Pedro dos Clérigos, no Rio de Janeiro, demolida
determinar os enunciados, os lugares e os sujeitos de enunciação, isto é, de loca- para a abertura da avenida Presidente Vargas (sem data).
lizar os agentes envolvidos nesse processo, assim como as diferentes posições
que ocupavam, e os diferentes interesses em disputa, investigados aqui a partir
dos vários textos que instituíram e legalizaram tais ações.
Pretende-se, com isso, tornar "visível" aquilo que constitui os textos legais
como doxa (Bourdieu, 1989), visando desnaturalizá-Ios e reconstituir-Ihes seu
lugar na história. Tais textos foram essenciais para institucionalizar as ações de
proteção, que foram atuadas para tornar "visível" o "invisível", e para constituir
a coleção de semióforos (Pomian, 1984). Lucio Costa, em 1943, estava atento para
aspecto semelhante:
E, como, afinal, o que importa preservar são precisamente os elementos concretos
e autênticos ''visíveis'' do monumento [...J, o fato de a parte "não visível" da estrutura
da igreja ser reconstituída [...J em pouca diferença importará, pois [oo.J já não estará
ali a mesma igreja.3

Figura 9. Altar-mor e retábulos da Igreja de São Pedro dos Clérigos, no Rio de


Janeiro, que seriam guardados após a demolição da igreja, para serem remontados
após sua pretendida reconstrução, que jamais ocorreu (sem data).

[}ill OS ARQUITEIOS OA HHÓRIA A PROfEriO INSIIIUClONALlZAOA CIID

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 GmÃo mATIZADA Df BfNI IlhlBÓLlCOI No Brasil, o decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, que organizou a
A ampliação da noção de patrimônio, processada notadamente a partir do final proteção do patrimônio histórico e artístico nacional; foi a primeira norma jurídica
brasileira a dispor acerca da limitação administrativa ao direito de propriedade,
da década de 1970 e começo da de 1980, no Brasil e no mundo, foi acompanhada
criando o instituto do tombamento. Este é um ato administrativo que deu origem
de uma ampliação da ação pública relativa à preservação cultural, com o aumento
à tutela do Estado sobre o patrimônio histórico e artístico nacional, em virtude do
significativo da rede de agentes e agências de poder envolvidos com a temática.
valor cultural que lhe fosse atribuído, por meio do Sphan. O tombamento tem come
Foi nesse período que a agência estatizada brasileira em nível federal ampliou
finalidade impor uma delimitação de propriedades, públicas ou privadas, sem, na
suas redes de forma considerável, criando novas sedes regionais, do mesmo
entanto, promover a desapropriação ou impedir sua aJienabiJidade.Sem dúvida, c
modo que os poderes municipais e estaduais começaram a atuar nesse âmbito,
patrocinando institutos e conselhos de preservação patrimonial em suas esferas contexto de implantação do decreto-lei nº 25/1937, durante o Estado Novo, foi
político-administrativas. Entidades representativas da sociedade civil, tais como fundamental nesse sentido, já que foram construídos os meios e técnicas neces
as associações de bairro, que proliferaram nesse momento, começavam a buscar sários para sua aplicação, execução e legitimação, consagrando a ideia da pre-
na preservação um recurso para enfrentar poderes econômicos especulativos servação cultural nas mãos do Estado. Vale lembrar que, de 1937 a 1946, o Sphan.
imobiliários, ou para valorizar ou "resgatar", "recuperar", suas identidades de aplicando o tombamento, protegeu legalmente mais de 40% de todo o acervo de
grupo. Empresas públicas também começaram sua sanha preservacionista, bens tombados até 1997.
criando setores para construção de memórias institucionais, tais como a "Memória Desde sua aprovação, o decreto-lei nº 25/1937 sofreu apenas duas rnodiíica
da Eletricidade" da Eletrobrás e o Preserf, da antiga Rede Ferroviária Federal S.A.; ções. A mais recente introduziu a necessidade de homologação ministerial nc
além da proliferação de museus, como o do Telefone, o da Light e o do Bonde, procedimento de tombamento, visando maior controle sobre as ações autônomas
dentre muitos outros. mstitucionals.'
O mesmo tem se processado em outras partes do mundo. As iniciativas de Já a primeira modificação se deu ainda no Estado Novo, dispondo sobre a
preservação na França, por exemplo, partem, atualmente,de diferentes lugares, possibilidade de cancelamento do tombamento de bens do patrimônio histórico E
órgãos e entidades, configurando um sentido novo, voltado para a afirmação das artístico nacional, pelo presidente da República, mediante a aplicação da noçãc
diferenças de grupos identitários de toda ordem, reunidos sob a tutela estatal, e de uli/ídade pública, conferindo, assim, plenos poderes ao chefe do Executivo:
não mais no sentido da divisão, que a exclusão e/ou pertencimento ligado à ideia O Presidenteda República,atendendoa motivosde interessepúblico,poderá
de grupo-nação propiciava. As solicitações feitas ao Estado passam a demandar determinar,deofícioouemgrauderecurso,interpostoporqualquerlegítimointeressado,
uma participação na conservação daquilo que cada grupo considere seu patri- [que]sejacanceladoo tombamentode benspertencentesà União,aos Estados,aos
mônio. Com isso, pode-se vislumbrar uma concorrência, em termos de legitimi- Municípiosou a pessoasnaturaisou jurídicasde direitoprivadofeito no Serviço do
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dade, entre a noção de monumento nacional e a de monumentos .da história par- PatrimônioHistóricoe ArtísticoNacional,de acordocomo decreto-leinº 25, de 30 de
novembrode 1937.(Decreto-leinQ 3.866,de29 de novembrode 1941.Brasil,1967a)
cial, dos grupos etc. (Hartog, 2003). O mesmo processo foi detectado por Handler
(1988). ao analisar a trajetória da construção de um patrimônio québécois e a No ano da implantação desse decreto-lei, 1941, a Capital Federal vivia um
ampliação dessa noção mediante o confronto com a ideia de "patrimônio nacional" momento crucial, quando estavam sendo feitas as obras para a abertura da
no Canadá. Segundo o autor, essa ampliação se deu sem que fosse rejeitada a avenida Presidente Vargas. Na· reta das demolições,-encontravam-se alguns bens
noção de uma cultura "autêntica", mas localizando-a em outro lugar: na vida coti- tombados, sob a guarda do Sphan, tais como o Campo de Santana (atual praça
diana dos cidadãos comuns, concebendo a própria vida como objeto a ser preser-
vado, documentado e exibido, tanto num museu quanto num palco de um teatro
ao ar livre.
, da República), que foi destombado e reduzido para passar a avenida. Encontrava-
se, também, a Igreja de São Pedro dos Clérigos, tombada em 1938, que teve seu
tombamento cancelado, em 1943, também apoiado nesse decreto-lei, para que

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pudesse ser derrubada. Apesar de o Sphan ter apresentado um projeto alternativo com a soma de bens lombados no período, outros cancelamentos de tombamento
ao da prefeitura para o traçado da nova avenida, não obteve êxito. Por um lado, ocorreram, cujos motivos e soluções encontradas variaram relativamente. De um
os agentes do Sphan lutavam efetivamente para atuar e intervir na definição de total de 417 bens tombados de 1937 a 1946, foram cancelados apenas 9 tom-
padrões de ocupação do espaço urbano, intenção revelada em inúmeras outras bamentos," dos quais 7 foram motivados por interesses políticos e/ou econômicos
süuações.' Por outro lado, ficou patente que seu poder de barganha era relativo, em disputa;" os 2 restantes não foram cancelados pelo presidente da República,
num caso em que poderosos interesses econômicos e políticos estavam em jogO.6 mas pelo próprio diretor do Sphan, motivado pelo desaparecimento do bem, em
No processo de tombamento (e destombamento) do Campo de Santana,' encon- função da inoperância na fiscalização do imóvel tombaoo."
tram-se os embates travados nas correspondências trocadas entre vários agentes, O decreto-lei nº 25/1937 vem sendo permanentemente atualizado por diferentes
dentre os quais, Rodrigo Meio Franco de Andrade e Henrique Dodsworth, prefeito formas de apropriação de seu conteúdo e reapropriações que o mesmo possibilita.
da Capital Federal, responsável pela reforma urbana no Rio de Janeiro. No Em 1987, quando se comemoravam os cinquenta anos da instituição, a assessora
processo de institucionalização das ações de proteção, os agentes ligados ao jurídica da Sphan, então Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional,
Sphan lutavam por abarcar um amplo universo em que se incluía a intervenção Sônia Rabello de Castro," assim considerava acerca do tombamento, no debate
na estruturação urbana das cidades onde havia bens tombados, confrontando-se, promovido pela Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional:
por vezes, com interesses antagônicos presentes no interior do próprio Estado.
[...] existe preservaçãono Brasil, mais ou menos desejável,'mas exisiê. Então,acho
Embora as investi das visando tal amplitude tenham sido raramente bem-suce- que só o aspectohistóricodessalei [decreto-lein2 25/1937] mostraque é uma lei que
didas, o sentido dado às ações de proteção puderam, a partir daí, delimitar um pegou,quetevelegitimidade,alémde ser a primeiralei queveiointervirna propriedade,
domínio específico sob o monopólio da agência estatizada, legitimando um lugar dandoao uso socialda propriedadecunho prático.(Castro, 1987, p. 70)
próprio conquistado no calor das disputas.
A ampliação da noção de patrimônio foi consagrada constitucionalmente em
No caso da Igreja de São Pedro dos Clérigos, as ações empreendidas pelos 1988, momento em que o decreto-lei nº 25/1937 foi reinvestido de atualidade, na
agentes institucionalizados não conseguiram evitar sua demolição, nem tampouco medida em que os agentes envolvidos com a preservação cultural adaptaram sua
o cancelamento do tombamento. No entanto, na tentativa de conciliação de interes- aplicação aos novos preceitos. Não contemplava ainda as novas formas de pro-
ses, coube ao Sphan determinar os métodos para desconstrução do monumento teção, posto que esse dispositivo legal regulamentava apenas o instituto do tomba-
visando sua reconstrução em outro local, com "reintegração nela do material an- mento. A Constituição de 1988, no seu artigo 216, definiu de forma mais detalhada
tigo".8 Nesse sentido, Lucia Costa elaborou um parecer, apresentando duas alter- e ampla o que seria merecedor de proteção tutelar e novas formas para sua
nativas técnicas para execução do desmonte. Contudo, ele parecia já poder efetivação além do tombamento, embora até hoje não regulamentadas por lei:
imaginar o desenrolar dos acontecimentos - e a franca desvantagem em que se
Constituempalrimônioculturalbrasileiroos bensde naturezamaterialou imaterial,
encontravam os interesses representados pelo Sphan em jogo naquela disputa.
tomadosindividualmenteou emconjunto,portadoresde referênciaà identidade,à ação,
Desta forma, ainda que tenha optado pela alternativa que lhe parecia melhor à memóriados diferentesgrupos formadoresda sociedadebrasileira,nos quais se
politicamente, para controle da efetiva realização do acordo firmado, ela nem incluem:
mesmo se concretizou, por exigir mais tempo e custos. Efetivamente, foram sim- I - as formas de expressão; :.
plesmente retirados os retábulos, altares - o material antigo de seu interior - e 11- os modosde criar, fazer e' ·\iver;
transferidos para um depósüo onde ficariam aguardando a reconstrução da Igreja, 111- as criaçõescientfficas,artísticas e tecnológicas;
que jamais aconteceu. IV - as obras,objetos,documentos,edificaçõese demaisespaçosdestinadosàs
Os casos relatados acima são. exemplares da fragilidade do Sphan frente a manifestaçõesartístico-culturais;
interesses econômicos e políticos poderosos. Embora poucos, comparando-se

[iill OS ARQUITETOS DA MEMÓRIA A neutt» INSlITUCIONAlIlADA []I]

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v - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, [...] o bem cultural - histórico ou artístico - faz parte de uma nova categoria de bens,
arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. junto com os demais ambientais, que não se coloca em oposição aos conceitos de
Parágrafo 1º - O" Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá o privado e público, [...] porque ao bem material que suporta a referência cultural ou
patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento ambiental [...] se agrega um novo bem, imaterial, cujo titular não é o mesmo sujeito

,.. e preservação. (Brasil, ·1988; grifos meus)

A legitimidade alcançada pelo Sphan, ao longo dos anos, fez com que fossem
do bem material, mas toda a comunidade. Este novo bem que surge da soma de dois,
isto é, do material e do imaterial, ainda não batizado pelo direito, vem sendo chamado
de bem de interesse público, e tem titularidade difusa, e talvez outro nome lhe caiba
circunscritos em torno do decreto-lei nQ 25/1937 os debates jurídicos a respeito melhor, como bem socioambiental, porque sempre tem de ter qualidade ambiental
dessa ação - consagrada no Brasil como uma questão de política pública -, e humanamente referenciada. (Souza Filho, 1997, p. 18)
também que o mesmo servisse de base ou parâmetro para a maioria das legisla-
A temática patrimonial, sem dúvida, comporta uma gama de abordagens, recor-
ções criadas por estados e municípios. No debate jurídico sobre o assunto, desta- tes e olhares, que corresponde não somente às diversas especializações por meio
cam-se os trabalhos de Sônia Rabello de Castro (1991) e o de Carlos Frederico das quais se analisa o assunto, mas, principalmente, a diferentes posicionamentos
Marés de Souza Filho (1997).13 Os aspectos relacionados à propriedade privada, frente ao problema - gerados no interior de uma luta acirrada -, que está relacio-
no que tange à proteção de bens culturais, são tratados por Castro, considerando nado, diretamente, à configuração do mundo capitalista ocidental. Em detrimento
os vários dispositivos c?nstitucionais que interagem com a matéria. O tema da de uma análise dos debates jurídic)s atuais sobre o tema, que por si só já eviden-
propriedade aparece relacionado aos aspectos relativos à questão do interesse ciariam posições distintas no campo· político, optou-se aqui por uma leitura direta
público, a partir da noção de "função social da propriedade", presente em todas dos textos legais que instituíram ou partilharam da produção desse aparato legal
as constituições desde 1934, quando a matéria da preservação patrimonial tornou- que institucionaliza as ações de proteção no Brasil, a fim de extrair de seu conteú-
se item constitucional. Sônia R. de Castro, portanto, reconstrói - reatualiza na do as representações e os projetos que embasou, assim como os interesses hege-
memória -, a partir de uma discussão jurídica relacionada aos tempos de hoje, monizados nesse processo.
os fundamentos político-ideológicos que embasaram a produção do referido
O Sphan insere-se no universo das "instituições de memória", cujos objetivos,
decreto-lei, visando mantê-Io no universo da doxa, lugar que todo texto legal genericamente, assemelhavam-se à construção da "nação brasileira", pela ins-
tensamente ocupa, ainda que seja, na verdade, construção ideativa historicamente trumentalização da história como legitimadora de ações e amálgama da sociedade,
determinada: por meio da produção de discursos em busca das raízes e origens da nação
Nesse sentido, entendemos que nenhum direito individual explicitado, como é o (Hobsbawm, 1984a), inserindo-se no contexto mais amplo de formação do Estado
direito de propriedade, pode ser tido como mais fundamental do que outro direito, ainda e construção da nação." Dentro deste vasto universo, as tarefas atribuídas ao
que não explicitamente mencionado, mas cujo sentido se possa inferir do conjunto de Sphan, definidas no decreto-lei nQ 25/1937, circunscreveram-no na problemática
normas constitucionais. Se, por um lado, a Constituição faz nascer o direito à propriedade da cultura material, assemelhando-se, sob este aspecto, à questão mais tradicio-
individual, este direito já nasce limitado em função de um outro dispositivo da própria
nalmente colocada pelos museus. Estes participaram conjuntamente do processo
Constituição, que, dispondo sobre a ordem econômica e financeira, determina a
de construção de um "patrimônio nacional", pressupondo um recurso ao con-
necessária presença de interesse público e social para o seu exercício. (Castro, 1991,
p. 11) creto - cultura material - que deveria informar sobre um passado selecionado.
As especificidades administrativas do Sphan, no entanto, caracterizadas no
Souza Filho, com preocupações de ordem bastante diversa, em termos das
referido decreto-lei, a partir da aplicação do instituto do tombamento com exclu-
possibilidades de intervenção no mundo social, acrescenta um novo olhar ao
sividade pelo Sphan, imprimiram-lhe uma atuação bastante diferenciada,
problema, sem, necessariamente, antagonizar com a referida autora:
promovendo a criação de um campo novo em que atuava o Estado, diante da tarefa

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[]I] 01 ARQUIlEJOI OA MEMÓRIA A PRfl{E(io INSlIIUCIONAlIZAOA


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comum de produção do "patrimônio nacional", Em termos de procedimentos, o uma profunda intertextualidade, calcada na figura de Capanema como interlocutor
decreto-lei nº 25/1937 distinguia o Sphan das outras instituições afins, inclusive do processo de produção de ambos. O processo de produção do texto legal defi-
dos museus, que, diferentemente deste, participavam da preservação da cultura nitivamente aprovado pode ser analisado em sua relação com o anteprojeto,
material mediante a incorporação de bens culturais aos seus acervos, basicamente considerando-se este como um texto mediadorY
por meio da doação e da compra, Tal distinção deve-se ao fato de o Sphan ser a .'~;,..
O caráter mediador do anteprojeto deveu-se ao papel fundador que teve neste
única organização administrativa - dentre todas as do gênero - fundada na relação
processo, bem como aos vínculos entre os agentes envolvidos, até se chegar ao
de tutela," e no consequente "poder de polícia", O poder daí originado implicou
texto legal definitivo, Esse caráter se confirmou também ao se detectar, na prática
garantir o monopólio dos atos de definir e controlar o que fosse - ou não - o patri-
da agência estatizada regida pelo decreto-lei nº 25/1937, vestígios das ideias
mônio nacional sobre o qual tal poder incioirla. No que se refere ao aspecto
contidas no anteprojeto, conformadas em novos moldes. Estes documentos
jurídico da tutela:
mantêm, portanto, relações intertextuais, sendo matérias significantes, produtoras
[",] os valores e interesses coletivos, de diversas ordens - higiene, saúde, segurança, de sentido.
cultura e outros -, são o objeto das restrições e limitações administrativas, tuteladas
Apesar do papel decisivo atribuído ao anteprojeto, ouíros textos também
pela administração pública por meio do seu poder de polícia administrativa, (Castro,
1991, p. 34)
mediaram a produção do decreto-lei nº 25/1937, tendo Rodrigo Meio Franco de
Andrade assumido o papel de articulador de diversas proposições, algumas na
forma de projetos de lei, que circularam no Congresso Federal, na década de
(ONIIRUINDO A fJfJ;(J: O DECRflO-lEI Nº 25/1937
1920, além do caráter referencial da legislação francesa, de 1913, que instru-
Um texto de lei deve ser lido como elemento constituinte da sociedade política, mentalizou várias dessas propostas. No entanto, a referência a uma possível in-
cuja função coercitiva, no sentido da imposição de regras de controle, assegura fluência estrangeira não foi reconhecida por aqueles que viveram de perto aquele
"legalmente" a disciplina sobre o conjunto da sociedade. Nem por isso, no entanto, momento, ao se contar a história da produção do texto legal, cuja memória
o texto legal deixa de ser atravessado pela dimensão ideológica. Ao contrário, "o histórica tem priorizado a influência de Mário de Andrade nesse processo."
efeito propriamente ideológico consiste precisamente na imposição de, sistemas
Se a participação de Mário de Andrade não deve ser minimizada, por outro
de classificação políticos sob a aparência de taxinomias filosóficas, religiosas,
lado, para uma melhor compreensão das estratégias adotadas, deve-se levar em
jurídicas ate." (Bourdieu, 1989, p. 14).
conta o empenho de Rodrigo Meio Franco de Andrade para se manter na linha de
O texto legal, em verdade, caracteriza-se como um discurso que ocupa a po- frente da temática patrimonial de seu tempo, considerando-se as diversas
sição dominante, Nessa posição, a visão de mundo que apresenta, isto é, o que,
proposições a que se pode ter acesso e fazendo novas apropriações das mesmas.
ela tem de arbitrário, é tido corno verdade - como doxa - não passível de conhe-
cimento (Bourdieu, 1989), Analisar um texto legal, nessa perspectiva, visa des- Os projetos de lei dos anos 1920
construir a doxa para situá-Ia na história. Ao papel exclusivo do Estado, tanto na
identificação (leia-se seleção), quanto na proteção (e seus meios) do chamado Alguns projetos para institucionalização da proteção ao "patrimônio nacional"

patrimônio histórico e artístico nacional, é conferi da uma condição dóxica, e, desta foram produzidos no bojo do nacionalismC que se configurava na década de 1920.
forma, não percebida como um ato produtor de sentido, parecendo, sobretudo, algo Nenhum deles, contudo, partiu daqueles intelectuais envolvidos com as diferentes
evidente e natural. correntes do movimento modernista. Esse envolvimento se configurou somente na
década de 1930, quando engajaram-se na concratização de seus projetos, institu-
Sob essa ótica, a comparação entre o anteprojeto de Mário de Andrade, datado
cionalizando políticas anunciadas de forma dispersa e assistemática, enfatizando,
de 24 de março de 1936, para criação do Span e o decreto-lei nº 25/1937 tomou-se
na prática, a articulação entre modernidade e tradição, não projetada anteriormente.
reveladora." Enquanto dois corpi discursivos distintos, eles foram marcados por

11521 01 ARQUITlIOI DA ME~ÓRIA A PROfECio INSlllUCIONAlIlADA lJ.?lJ


~. 1

É ínteressarfe notar o caráter federativo que tiveram as iniciativas da década queológico "pré-histórico" (ibid.), conforme era recorrente na arqueologia, na qual
de 1920, na medida em que propunham às tarefas de proteção uma ação conjunta o Museu Nacional investia pioneiramente no Brasil. Tal iniciativa partiu de uma
entre uma entidade federal e instituições congêneres estaduais, além de atribuir solicitação do professor Bruno Lobo, ex-diretor do Museu Nacional e membro da
inúmeras responsabilidades aos executivos estaduais. Embora fossem iniciativas Sociedade Brasileira de Belas Artes (SBBA). Alguns aspectos sobre esse
em que a marca da região não estava submetida ao nacional, todas elas referiam- processo engendrado na década de 1920 serão considerados, e, posteriormente,
se a um "patrimônio nacional", característica histórica da noção de patrimônio, destacadas as características de cada um deles, identificadas no decreto-lei
~ imbricada à ideia de constituição da nação. Da mesma forma, tais propostas nº 25/1937.
previam a utilização de instituições jurídicas disponíveis na sociedade política, Na verdade, tais projetos não representaram interesses hegemônicos que Ihes
tais como "registro público-de hipotecas", ou a eleição do judiciário como poder conferissem a força política necessária ;.para alteração de princípios constitu-
autorizado para fazer o "registro" do patrimônio e para dirimir conflitos que por- cionais vigentes, em que a questão do uso social da propriedade não estava pre-
ventura surgissem, com a aplicação das medidas preservacionistas. Da mesma vista.20 Isso se daria somente com a Constituição de 1934, ao tratar da temática da
forma, a autoridade técnica do especialista era buscada também no universo cultura e da proteção patrimonial, dispondo sobre o dever da União nessa matéria:
institucionalizado preexistente, propondo formalmente o envolvimento do IHGB e
Cabe à União, aos estados e aos municípios favorecer e animar o desenvolvimento
suas filiais, do Museu Histórico Nacional e da Escola de Belas Artes. Todos es- das ciências, das artes, das letras e da cultura em geral, proteger os objetos de in-
ses aspectos, no momento em que foi produzido o decreto-lei nº 25/1937, seriam teresse histórico e o patrimônio artístico do País, bem como prestar assistência ao
solucionados no interior do próprio Sphan. Seriam criados, para esse fim, meca- trabalhador intelectual. (Sphan, 1980a, p. 16)
~ nismos dentro da estrutura burocrática do Sphan, com poder decisório, autoridade
Os vários projetos então em circulação nesse momento estavam articulados
técnica e atributos administrativos que proporcionariam o controle e a execução
a poderes regionais, redes de relações tecidas em níveis locais que não conquis-
de todos os procedimentos da ação de proteção do patrimônio histórico e artístico
taram espaço como política nacional. Destacam-se, dentre tais redes, as ligações
nacional.
de Gustavo Barroso, que esteve ao lado dos projetos de criação das inspetorias
Um outro aspecto bastante interessante, com relação aos projetos de lei da estaduais na Bahia (em 1927) e em Minas Gerais, além de manter laços de ami-
década de 1920, refere-se ao fato de terem sido tomadas iniciativas por represen- zade com Augusto de Lima Júnior, autor do projeto de lei de 1924 (Anais do Museu
tantes dos estados de Minas Gerais, Bahia e Pernarnbuco." Os projetos de lei Histórico Nacional, n. 4, 1947, p. 558). Também a Sociedade Brasileira de Belas
encaminhados ao Congresso Federal foram: do pernambucano Luiz Cedro, em Artes - agência periférica no campo das disputas das artes, com estreitos vínculos
1923, visando a organização da defesa dos monumentos históricos e artísticos do com o movimento neocolcnial conforme visto anteriormente - esteve ao lado dos
País; o do mineiro Augusto de Lima Júnior, em 1924, visando a proibição de saída projetos, pelo Museu Nacional, de Alberto Childe e de Bruno Lobo, também mem-
do País de obras de arte tradicional; o do baiano José Wanderley de Araújo Pinho, bro da SBBA. Quanto a Luiz Cedro, era amigo e conterrâneo de José Mariano
em 1930, reapresentado em 1935, visando a criação de uma Inspetoria Estadual Filho, líder da corrente neocolonial e membro da SBBA.
de Monumentos Nacionais, não chegando, contudo, a ser votado em nenhuma das Os modernistas que participavam então de outras redes, na década de 1930,
ocasiões (Sphan, 1980a). tomariam as rédeas desse projeto junto a Capanema. Noções como as de "passa-
Apenas o anteprojeto produzido por Alberto Childe, professor de Arqueologia dismo" e de "culto à saudade", defendidas por aqueles agentes na década de 1920,
do Museu Nacional, e que'. posteriormente comporia o Conselho Consultivo do seriam desconsideradas pelo grupo que se articulou junto ao MES. Ainda assim,
Sphan, tratou-se de uma iniciativa sem cunho regional e fora do universo daqueles tais projetos guardam muitas semelhanças com o decreto-lei nº 25/1937.
três estados. Datando de 1920, esse anteprojeto sintetizava preocupações Por outro lado, o grupo articulado junto a Capanema e ao Sphan reafirmou a
relativas não a um patrimônio "histórico e artístico", mas 'a um patrimônio ar- ênfase na valorização de um "patrimônio nacional" nas regiões de Minas Gerais,

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l!lli 01 ARQUlltlOI OA MfMÓRIA A PRofECio INllllUCIONAlIIAOA ps[]
Bahia e Pernambuco, parecendo pertinente pensar que essa valorização vinha se propostas: "proibição de destruição no todo ou em parte, como ainda de qualquer
construindo e sendo consagrada, desde a década de 1920, por diferentes grupos modificação, reforma ou restauração sem que as obras sejam aprovadas pela
e frações de classe. Excetuando-se o Rio de Janeiro - que também teve, nas Inspetoria" (Sphan, 1980a, p. 63).26
décadas de 1930 e 1940, um alto índice de bens tombados pelo Sphan, represen-
Essas ideias são advindas da legislação francesa, que assim tratou em seu
tando o cosmopolitismo da "Corte", dada a presença histórica do poder central -,
texto:
Minas Gerais, Bahia e Pernambuco foram os estados onde um maior número de
tombamentos foi realizado," consagrando-se o período colonial como fundador da
o imóvel protegidocomo monumentohistórico não pode ser destruído,deslocado,
modificado, mesmoque em parte, nem pode ser objeto de um trabalho de restauração
nacionalidade, a partir de alguns recortes significativos. Minas Gerais, com suas
ou reparaçãosem a autorizaçãopréviado Ministérioda Cultura. O imóvelprotegidonão
cidades históricas e a opulência de suas igrejas barrocas, constituía-se, progressi- pode ser cedido (dado, vendido, legado [...]) sem que o ministro seja informado.
vamente, a partir especialmente da década de 1920, na representação mais genuí- (Direction du Patrimoine,1984, p. 6)
na das origens da nação e fundadora de uma produção artística "autenticamente
O mesmo ocorreu na primeira legislação preservacionista da província de
nacional". Na Bahia, foram valorizadas as produções seiscentistas, como as
Ouebec, no Canadá, em 1923, cujo texto muito se assemelha ao francês, utilizando
sedes de fazenda do Recôncavo Baiano e suas capelas rurais, que, segundo
também o termo classement
definição de Rodrigo Meio -Franco de Andrade, eram os "monumentos mais ar-
caicos e genuínos do acervo arqulíetônico de nosso país" e, para ele, "as maiores Essa lei trata da "classificação"de "monumentose objetos de arte cuja preservação
é de interesse nacionalsob o ponto de vista histórico e artístico". Uma vez classificado
e mais imponentes", pela sua "ancianidade e o valor arquitetônico" (Andrade,
[no Diário Oficial de Québec], o bem imóvel não poderá ser destruído, refomnado,
1986b, p. 135). Somava-se a isso a majestade jamais perdida da cidade de
restaurado ou alterado sem o consentimentodo secretário provincial, que deve ser
Salvador, cuja "ancianidade" de primeira capital da Colônia lhe valeu também um aconselhadopela Comissãode MonumentosHistóricos, formada por cinco membrose
caráter fundador: "sentimento comum de todos os baianos amantes das tradições estabelecida por lei. (Handler, 1988, p. 142)
imortais de sua terra, berço da naclonalidade"." -
Sem minimizar o caráter referencial da França em matéria cultural para boa
A "arquitetura arcaica" era representada pelas construções anteriores ao século parte do mundo ocidental, especialmente naquele momento em Ouebec os motivos
.XVIII, marco a partir do qual Minas Gerais assumia papel preponderante, cuja seriam ainda mais evidentes, na medida em que os québécoises lutavam para
produção arquitetônica foi denominada "tradicional". Pernambuco, portanto, tam- "resgatar" e garantir suas origens francesas - nada mais apropriado do que se
bém tinha sua arquitetura "seiscentista - isto é, arcaica - valorizada, suas capelas utilizar da matriz a partir da qual queriam referendar-se.
e engenhos que consubstahciavam uma ancianidade para a nação, e suas fortifi-
O projeto de lei do pernambucano Luiz Cedro, de 1923, propunha a criação
cações, que faziam lembrar a vitória portuguesa sobre os holandeses, relativa a
de uma Inspetoria de Monumentos Históricos dos Estados Unidos do Brasil, "para
esse tempo remoto, que era reatualizado na memória como um primeiro momento
o fim de conservar os imóveis públicos ou particulares que, do ponto de vista da
de nacicnalismo."
história ou da arte, revistam um interesse nacional" (Sphan, 1980a, p. 63). Nele
Outro aspecto que reunia os três projetos de lei conslderados" era o fato de ficava explicitamente referida a necessidade de um arquiteto,-como o protlssional
terem possivelmente se baseado na legislação da França de 1913, aspecto mais adequado para realizar tais tarefas, e as fotografias seriam a fonte docu-
perceptível devido a algumas semelhanças que' se evidenciam nos textos. Primei- mental privilegiada para o trabalho de análise e avaliação. Esses dois aspectos
ramente, por proporem a criação de uma "inspetoria", dentro da estrutura minis- não seriam considerados no texto do decreto-lei n2 25/1937; contudo, fariam parte
terial pertinente, e utilizarem a noção de classificação e/ou catalogação de mo- das práticas que se rotinizaram no Sphan. As fotografias se tornariam, na prática
numentos a serem incluídos numa lista geral, tal e qual a norma francesa." Além do Sphan, um elemento fundamental de conhecimento e informação, em todos os
disso, a definição das restrições impostas se repetia textualmente nas diversas trabalhos realizados, quer no momento da "descoberta" ou seleção do bem para

[1STj DI ARQUIIETOI DA MEMÓRIA A PNOfECio IHIIIIUCIONAlIIADA lJ2zJ


, r,"

tombamento, quer nas etapas do trabalho relativas a sua conservação e a sua [...] todas as coisas, imóveis ou móveis, a que deva estender a sua proteção o Estado,
restauração. Esse assunto será retomado mais adiante, ao serem consideradas em razão de seu valor artístico, de sua significação histórica ou de sua peculiar e
notável beleza, quer pertençam à União, aos estados, ao Distrito Federal, aos
as práticas de restauração empreendidas pelo Sphan, valendo destacar, por hora,
municípios, a coletividades ou a particulares. (Sphan, 1980a, p. 79)
que a fotografia é uma forma de expressão não substituível pelo texto escrito,
cujas especificidades lhe conferem um poder de autenticação do real - "assim é O conjunto desses projetos caracterizou-se, principalmente, pela tentativa de
a foto: não pode dizer o que ela dá a ver" (Barthes, 1984, p.15). definir medidas juridicamente cabíveis para a "proteção do patrimônio histórico e
artístico nacional" e seus procedimentos burocrático-administrativos. No entanto,
Embora não tenham sido apresentados ao Congresso Nacional como projeto
f nenhum deles aprofundou, como o fez Mário de Andrade em seu anteprojeto, as
de lei, os trabalhos da comissão designada pelo presidente de Minas Gerais, Meio
concepções de cultura e arte, assim como o papel do intelectual especializado
Viana, para "organizar a pr.oteção do patrimônio histórico e artístico" resultaram
na execução dessas ações. Este foi, por sua vez, um texto frutificador de ideias,
num anteprojeto de lei federal apresentado pelo mineiro Jair Uns, em 1925. Ele
propondo procedimentos, de forma integrada às concepções que os embasavam,
propunha:
engajado que estava seu autor na construção de uma "cultura nacional". Se tais
Os móveis e imóveis, por natureza ou destino, cuja conservação interessar à concepções não foram plenamente apropriadas no texto do d~~reto-Iei n: 25/1937,
coletividade, devido a motivo de ordem histórica ou artística, serão catalogados total
serviram de escopo para a constituição de um pensamento a respeito da temática
ou parcialmente, na forma desta lei e, sobre eles, a União ou os Estados terão direito
da preservação cultural, que, apesar de hegemonizado àquela época, manteve-se
de preferência [...]. (Sphan, 1980a, p. 71)
atual, tendo sido em boa medida retomado na década de 1970, no bojo do processo
Os principais aspectos desse projeto, incorporados pelo decreto-lei nº 25/
de ampliação da noção de patrimônio.
1937, advinham de sua ênfase na noção de direito de preferência conforme expos-
to anteriormente; das possibilidades de catalogação "voluntária" ou "compulsória" o anteprojeto de Mário de Andrade
com relação ao interesse do proprietário do bem; da proposição de criação de uma
Segundo Sônia R. de Castro,
revista especializada sobre a temática patrimonial, proposta por d. Helvécio, arce-
bispo de Mariana e membro da referida comissão mineira, agente que, posterior- Até na questão históricadas duas propostas legislativas, a de Mário de Andrade,
mente, apoiaria inúmeras ações do Sphan; da preocupação em preservar também que nem foi uma proposta,foi um ensaio, e a proposta de que saiu mesmo o decreto-
a vizinhança do bem "catalogado"; e, por fim, da criação de um livro especial para lei nO25/1937, a coisa é muitoclara. O que Mário de Andrade propunha era uma política
de preservação, Mas aquela política de preservação não tinha os instrumentos legais
"catalogação", ideia que seria reelaborada por Mário de Andrade e incorporada
para efetivar uma intervenção na propriedade. (1987, p. 75)
plenamente pelo decreto-lei nº 25/1937. 27

Para Mário de Andrade, que procurava interpretar o Brasil situando-o no qua-


O projeto de lei do representante baiano José Wanderley de Araújo Pinh028
dro internacional, a cultura brasileira deveria ser apreendida como uma totalidade
serviu como importante referencial no processo de produção do decreto-lei nº 25/
individual, coesa e unitária. Assim, o folclore, as tradições populares das várias
1937. Ainda assim, este projeto, como os anteriores, não atribuiu à proposta "Ins-
localidades brasileiras foram valorizadas como partes constitutivas da própria
petoria de Defesa do Pâtrimônio Histórico e Artístico Nacional" a autonomia de
nacionalidade. Para ele, era a ideia de t;!nídade cultural que interessava resgatar,
ação e independência co~ relação às entidades preexistentes, recorrendo ao
fazendo questão de demarcar sua oposição a qualquer espécie de regionalismo
"registro público local de hipotecas" para oficialização da "catalogação", assim
(Andrade, 1981).
como associava o cargo de inspetor ao de diretor do Museu Histórico Nacional,
estratégia que seria adotada em ·1934, pela Inspetoria de Monumentos Nacionais, Na busca por caracterizar o papel que o Brasil deveria ocupar no cenário
conforme visto anteriormente. Definia como patrimônio histórico e artístico internacional, seu interesse voltou-se para a problemática da identidade nacional.
nacional: Na concepção intelectualizada de Mário de Andrade, o modernismo deveria ser

LillJ os ARQUIlfIOS OA ilEilÓRIA A noutto INSlllUCIONAlIZADA jTsJ]


o aglutinador dos elementos constituintes da brasilidade e gesto r do processo de Estas propostas foram incorporadas nas ações do Sphan, que criou uma linha . ~
constituição da entidade nacional, com o objetivo de referenciar a nação como editorial, analisada no capítulo 5.
~ uma realidade una e indivisa. Conforme Eduardo Jardim de Moraes, "O moder- Duas noções básicas foram formuladas por Mário de Andrade e integralmente
nismo de Mário de Andrade tem de si mesmo a crença de constituir o momento incorporadas no decreto-lei nQ 25/1937, como fundamento de várias práticas que
de fundação da vida cultural do país. Cabe a ele a tarefa de desvendar os próprios se engendraram no cotidiano do Sphan: a primeira delas é a noção de pertenci-
fundamentos da nacionalidade" (1988, p. 236; grifos meus). mento à categoria de patrimônio artístico nacional, que, efetivamente, caracterizou
O processo de produção do anteprojeto foi marcado pela informalidade de um a distinção entre os bens tombados e redundou na atribuição de um status dife-
ensaio, o que possibilitou, por um lado, a explicitação de opiniões e dúvldas, e, renciado entre os mesmos. A ausência do termo histórico na denominação dada
por outro, uma dedicação maior ao desenvolver as ideias que Mário de Andrade por Mário de Andrade não implicava na sua desconsideração, mas no entendi-
pretendia reforçar e aprofundar. mento de que esta seria uma dentre as várias categorias por ele criadas para a
A partir dessa liberdade no processo da escrita, notou-se que a posição obra de arte patrimonial - esta sim soa categoria-chave, passível de classifi-
ocupada pelo autor era a 'de. um intelectual cuja pretensão - marcadamente totali- cações. Identificando, assim, arte e cultu~a, arte patrimonial seria aquilo que no
zante, naquele momento otimista que vivia à frente do Departamento de Cultura entendimento de hoje é denominado "cultura material". Nesse sentido, definiu o
de São Paulo - era não deixar escapar nada de seu universo de conhecimento que constituía o patrimônio artístico nacional como "todas as obras de arte pura
no que dizia respeito à cultura. Revelava, ao elaborar uma "política de preser- ou de arte aplicada, popular ou erudita, nacional ou estrangeira". As categorias
vação", seu projeto de ação estatizada, que deveria ser capaz de proteger efetiva- criadas foram: 1. Arte arqueológica; 2. Arte ameríndia; 3. Arte popular; 4. Arte
mente toda diversidade e pluralidade possíveis, mediante a atuação de intelectuais histórica; 5. Arte erudita nacional; 6. Arte erudita estrangeira; 7. Artes aplicadas
gestores do espólio da cultura da nação. Conforme expressão de Mário em seu nacionais; 8. Artes aplicadas estrangeiras.
anteprojeto, a identidade nacional seria um somatório de "Brasis" - uma síntese Em seu anteprojeto, Mário de Andrade fez extensa lista de critérios para
de diferentes costumes e formas de expressão, resultado também de suas preocu- inclusão nessas categorias, cabendo destacar alguns dos mais significativos. Pri-
pações acerca do tolclors." Tratava de enfatizar sua perspectiva antropológica, meiramente, o tratamento dado à categoria arte histórica. Nela se incluíam:
especialmente ínteressante, para ele, no que chamava de "etnografia popular": "o
[...] todas as manifestações de arte pura ou aplicada, tanto nacional quanto estrangeira,
povo brasileiro em seus çosíumes e usanças e tradições folclóricas, pertencendo
que de alguma forma refletem, contam, comemoram o Brasil e sua evolução nacional.
à própria vida imediata, ativa e intrínseca do Brasil"30 (Andrade, 1981, p. 61). [...] Certas obras de arte arquitetõnica, escultórica, pictórica, que, sob o ponto de vista
Neste sentido, Mário de Andrade não se colocava questões quanto à proteção de arte pura, não são dignas de admiração, não orgulham a um país nem celebrizam
estatal do "patrimônio artístico nacional", pois lhe parecia uma ideia inquestionável. o autor delas. (Sphan, 1980a, p. 93)

Além disso, o texto, encomendado por Capanema, teria circulação restrita e não Mas, prosseguia o autor, foram criadas para um determinado fim que se
se propunha a deter-se na "eficácia jurídica", voltado que estava para os aspectos tornou histórico, porque nelas ou por elas se passaram fatos significativos de nos-
conceituais de definição do que se enquadraria na categoria de "patrimônio sa história, ou porque nelas ou por meio delas viveram pessoas ilustres da
artístico nacional". nacionalidade. A arte histórica definia-se ainda mediante uma datação: tudo aquilo
Dentre os objetivos expressos no anteprojeto estavam as ações de organizar, que, sem outros atributos, fosse anterior a 1900 ou tivesse, doravante, mais de
conservar e defender o patrimônio artístico nacional. Para a ação proposta de cinquenta anos. Dessa forma, esta categoria não se definiu por atributos intrín-
propagar, Mário de Andrade previa a criação de uma "Seção de Publicidade" para secos ao objeto material, servindo, assim, como uma espécie de "coringa", ou seja,
o Span, com duas séries de publicações capazes de divulgar os seus trabalhos. abrigando aqueles objetos sem atributos artísticos. Critérios bastante semelhantes,

lliQJ 01 ARQUIlETOI DA '\H~ÓRIA A PROfECio IN\lIIUClONAlIlADA 11ill

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(
relacionados à inscrição no Livro de Tombo Histórico, foram utilizados, corrente- estabelecer uma hierarquia legal/formal entre os diferentes livros, sendo o
mente, na prática do SptjJn, e serão oportunamente tratados no capítulo 4. tombamento o atributo comum a todos eles. O anteprojeto previa outras finalidades
Para inclusão nas categorias de arte erudita nacional, arte erudita estrangeira, aos livros, integrando os museus nacionais à proteção do patrimônio, conforme
artes aplicadas nacionais e artes aplicadas estrangeiras, Mário de Andrade explicitado anteriormente, junto às denominações dadas aos livros. Tais museus
buscava conjugar critérios 'de consagração externos, tais como: se o artista era deveriam ser criados ou incorporados ao Span para cumprirem o objetivo de
vivo ou morto; se a obra havia sido oficialmente premiada; se o artista estrangeiro propagar o patrimônio artístico nacional. Heloísa Alberto Torres, então diretora do
era reputado de mérito; se era uma propriedade pública etc. Isentava, desta forma, Museu Nacional, consultada por Rodrigo Meio Franco de Andrade a: respeito do
os agentes institucionalizados desse papel. Já, para as categorias de arte arqueo- anteprojeto de Mário de Andrade, fez sérias críticas a essa tentativa de incor-
lógica, arte ameríndia, arte popular, ele especificava o tipo de objeto que deveria poração de museus nacionais, deixando transparecer, inclusive, que em algum
se enquadrar, fornecendo vários exemplos e deixando a atribuição de valor, para momento havia sido proposta por Mário a incorporação do próprio Museu Nacional,
esses casos, a cargo da agência do Estado, e não mediatizada por atributos exter- ou melhor, seu desmembramento para criação de um Museu Etnográfico. Projeto
nos, como as anteriores. no mínimo ousado, levando-se em conta as negociações necessárias para sua
Se vários desses critérios foram posteriormente utilizados pelo Sphan, não o realização. A diretora do Museu Nacional argumentava, enfaticamente, contra a
foram como norma explicitada no decreto-lei nº 25/1937, mas como uma reapro- ideia de afastar os "laboratórios de etnografia dos de qualquer ramo de estudo da
priação desse ideário, o que foi percebido em alguns momentos, especialmente história natural", explicando como essa seção, no Museu Nacional, recorria aos
caracterizados no trabalho do Conselho Consultivo, analisado no próximo capítulo. demais laboratórios, considerando que a pesquisa etnográfica estava ligada às
ciências naturais:
A segunda noção básica no anteprojeto era a de classificação e registro do
patrimônio, de acordo com a inscrição daquilo que pertencesse ao patrimônio [...] fosse o novo museuetnográficodotadode um botânico e de um etno-zoólogo,ainda
artístico nacional, em quatro Livros de Tombo. A noção de registro parecia advir assim não estaria suprida a falta [...]. Não se pode atribuir ao nosso museu etnográfico
a função de museu-arquivoque o projetoparece recomendar. Em todo ele apenas uma
de uma necessidade de. controle jurídico e de fiscalização, tal qual os Livros de
palavra faz crer que a pesquisatambémé admitida [...] o termo enriquecer o patrimônio.
Tombo existentes em museus. Já a ideia de classificação, que resultou na criação
[...] O projeto não abre novas possibilidadesaos estudos aníropolóqicos."
de quatro livros diferenciados, reaglutinava as oito categorias de obra de arte dis-
secadas num primeiro momento, conforme exposto anteriormente, criando uma nova Rodrigo Meio Franco de Andrade promovia, então, um intenso debate, do qual

tipologia. A inscrição nesses livros efetivava o tombamento, expressão cunhada pôde fazer suas próprias leituras e aprorlações, tomando uma posição a partir
pelo autor: das relações que ia tecendo. Nesse embale, Mário de Andrade, confrontando-se
abertamente com Heloísa Alberto Torres, escrevia para Rodrigo esclarecendo sua
1) Livro do Tombo 'Arqueológico e Etnográfico (categorias 1, 2 e 3);
proposta de desmembrar o Museu Nacional:
2) Livro do Tombo Histórico (categoria 4);
Um museu etnográfico deve estar separado dum museu de história natural [...].
3) Livro do Tombo das Belas-Artes / Galeria Nacional de Belas-Artes
D. Heloísa, ao entender etnografia,pelassuas especializações,só pensa em "etnografia
. ;'1
(categorias 5 e 6); ameríndia", ao passo que eu, pelas minhas especializações, entendo principalmente
4) Livro do Tombo das Artes Aplicadas / Museu de Artes Aplicadas e Técnica "etnografia popular". Se não me engano, no meu trabalho mostrei que a etnografia
Industrial (categorias 7 e 8). ameríndia podia estar ajuntadaà arqueologia.E tudo não fará um desgraçadomal que
fique no Museu de História Naturalque é o Museu Nacional. Mas a etnografia do nosso
A organização destes livros em quatro volumes diferentes promovia um enqua- povo brasileiro tem, creio, só uma sala no Museu Nacional, e essa é a parte pra mim
dramento desse patrimônio, de uma dada forma particular, sem, contudo, mais importante." (Andrade, 1981, p. 61)

,;

lJgJ OS ARQUITETOS DA MEMÓRIA A PROfEriO INSJlIU(IONAlIlADA IJTIJ


Em defesa de seu projeto, Mário de Andrade bradava, na mesma carta: renovadoras. Essa curiosa proposta de Mário de Andrade revelava, por um lado,
uma intenção pluralista, em que fossem contempladas as diferentes posições,
Imaginar mesmo em ponto de dúvida que eu penso que um museu é apenas
colecionar objetos, só não ofende porque não tenho vontade de ficar ofendido. AChar assim como um certo encantamento em relação à possibilidade de dar solução
que o Span é sentimental, pra defender de não querer reorganizar o Museu nacional, aos problemas "técnicos" por meio de conhecimentos especializados - atributo
não pode provir da verdadeira Heloísa Alberto Torres. O Span é um organismode todo dos "novos tempos". É visível o crédito dado ao somatório desses conhecimentos
em todo cultural com forte base econômica [00']' (Ibid.) como meio para se alcançar um posicionamento objetivo no momento da escolha
Segundo depoime~to ,de Judith Martins, secretária de Rodrigo Meio Franco de de bens a serem protegidos, sendo exatamente essa a margem de reconhecimento
Andrade desde 1936, seu primeiro trabalho foi datilografar o anteprojeto de Mário de sua arbitrariedade. Por outro lado, a sutil associação entre a idade dos conse-
de Andrade, que era ,bem, maior, segundo ela, do que restou acessível hoje. Ela lheiros e suas posições - acadêmicas '~,u renovadoras - revelava os limites para
relata ainda que, naq,uele momento, Rodrigo Meio Franco de Andrade convocava efetivação de suas ideias, cuja solução 'encontrada acabou revelando uma certa

amigos para discuti-Io. Afirmava "dona" Judith: ingenuidade de Mário de Andrade. Ele próprio, àquela altura, em qual categoria
se enquadraria, com seus 43 anos?
Reduzir o projeto inicial a esse decreto-lei [nO25/1937] foi uma luta tremenda [00']'
O Mário de Andrade subordinava todos os museus ao Patrimônio. Os diretores de A concepção do anteprojeto fundava-se na ideia da competência técnico-
museus se insurgiram, não quiseram concordar. E o trabalho de elaboração desse profissional, por meio da qual, para seu autor, o Span seria legitimado, instrumen-
decreto-lei foi muito grande, levou muitos meses para concatenar todos os pareceres talizando-se em termos de quadros profissionais de excelência técnica. Ao que
e reduzi-los à essência. (Martins, 1987, p. 26) parece, o aprendizado a respeito das relações entre saber e poder fez-se marca-
O anteprojeto preocupou-se em definir os diferentes tipos de profissionais damente presente na trajetória pessoal e profissional de Mário de Andrade. Nesse
considerados necessários para apoiar as decisões da direção do Serviço. De sentido, ele expressava sua crença na valorização da competência técnica, com
acordo com Mário de Andrade, o Span deveria ter um arqueólogo, um etnólogo, a pretensão de garantir, por meio dela, a manutenção do conflito de interesses em
um historiador e um professor de história da arte, em sua área central, asses- disputa circunscrito à esfera da própria agência, que estaria autorizada, mediante
sorando a direção. O r\,~smo quadro de profissionais deveria se repetir em cada essa legitimidade e reconhecimento, a dirimir quaisquer dúvidas, questionamentos
um dos estados da União. Estes profissionais deveriam propor a inscrição de e controvérsias no exercício das tarefas do Span.
obras de arte nos respectivos estados, ficando a decisão final a cargo da direção
central do Span. Quanto ao Conselho Consultivo proposto por Mário de Andrade, o decreto-lei nO 25/1937
suas atribuições não ficaram discriminadas, mas foram definidos sua composição Como se viu, em alguns dos textos mediadores referidos acima, em especial
e os critérios para sua renovação. Este Conselho deveria constituir-se de cinco no anteprojeto de Mário de Andrade, foi identificada uma preocupação em definir
membros fixos (diretor do Span e quatro diretores dos museus) e mais vinte mem- o tipo de profissional necessário para lidar com a problemática da proteção ao
bros móveis: dois historiadores, dois etnógrafos, dois pintores, dois escultores, "patrimônio nacional". O autor do decreto-lei nº 25/1937, ao contrário, embora fa-
dois arquitetos, dois arqueólogos, dois gravadores, dois artesãos e dois escritores/ zendo uso de várias ideias anteriormente enunciadas, não se deteve no assunto.
críticos de arte. A definição de profissionais se faria na prática do Span, conforme se verá no de-
A renovação do Conselho Consultivo deveria se dar parcial' e anualmente, correr deste trabalho." Com certeza, essa indefinição não resultou de esque-
trocando-se dez membros móveis, sendo vetada a reeleição sem descanso de cimento, mas da conveniência de se manter em aberto uma amplitude de possi-
dois anos. Os critérios para a escolha de nomes seriam a partir de cada "par bilidades.
móvel", que deveria conter um representante com mais de quarenta anos, outro Os limites e os recursos formais impostos à produção do texto legal, ao
com menos e, de preferência, um representando ideias acadêmicas e outro, ideias contrário do anteprojeto, fizeram talvez com que a escrita do decreto-lei nQ 25/1937

lJill 01 ARQUllfIOI OA ~EMÓRIA A PROfECio INlfllUCIONAlIZADA ~


r
assumisse uma condição dóxica, descontextualizada da história e do próprio Da mesma maneira, o decreto-lei nº 25/1937 foi mais abrangente ao tratar
processo produtivo dessa' escrita, configurando-se como se fosse produção de daquilo que constituía o patrimônio histórico e artístico nacional, utilizando expres-
verdade, e não como arbítrio. Nesse sentido, a posição de seu autor não pode sões tais como "fatos memoráveis", "excepcional valor", "feição notável", nas
estar evidenciada expfcitamente: o texto, como tantos outros de caráter normativo, quais, pela sua subjetividade, quaisquer tipos de "bem móvel ou imóvel", "mo-
deve ser lido cornoverdade universal, sem autoria subjetivada. O texto legal numentos, sítios ou paisagens" poderiam ser incluídos, deixando que a própria
caracterizou-se pela abrangência de conceitos e, ao mesmo tempo, pelo detalha- prática do órgão viesse a definir o seu conteúdo (ver quadro 3.1).37 Desta forma,
mento das normas jurídicas e dos procedimentos administrativos para consecução o detalhamento apresentado no anteprojeto a respeito das categorias de arte patri-
de seus objetivos." monial foi substituído pela generalidade e subjetividade, permitindo considerar que
Rodrigo Meio Franco de Andrade, à frente do órgão criado ainda em caráter qualquer objeto poderia estar no interior da categoria de patrimônio histórico e
experimental, encaminhou a Capanema, em julho de 1936, projeto de lei federal para artístico nacional, tornando-se, sem dúvida, mais abrangente, qualidade também
organização definitiva do Sphan. O referido projeto, encaminhado ao Congresso que lhe tem garantido atualidade ainda nos dias de hoje. Esse aspecto assemelha-
Nacional em outubro do mesmo ano, ainda tramitava quando o Congresso aprovou o ao texto legal francês, em que os imóveis passíveis de proteção são aqueles
a nova estrutura do MES, pela lei nº 378, de 13 de janeiro de 1937, por meio da que apresentem "um interesse público do ponto de vista histórico ou artístico"
qual foi criado o Sphan, "com a finalidade de promover em todo o País, de modo (Direction du Patrimoine, 1984, p. 4). Portanto, não fazendo alusão nem à natureza
permanente, o tombamento, a conservação, o enriquecimento e o conhecimento do nem à ancianidade do patrimônio, permitia a proteção de qualquer imóvel.
patrimônio histórico e artístico nacional" (Lei nº 378/1937, art. 46. Sphan, 1980a, O decreto-lei nº 25/1937 apropriou-se das noções de classificação e de re-
p. 107). gistro, contidas na criação de quatro Livros de Tombo, sendo que os museus
Por meio da mesma lei, foi criado o Conselho Consultivo do Sphan, que "se nacionais ficariam desvinculados do Sphan e de tais Livros. Nesse item, acres-
constituirá de diretor do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, dos centava apenas que a inscrição de um bem poderia se dar em um ou mais livros
diretores dos museus nacionais de coisas históricas ou artísticas, e de mais dez e, tal qual no anteprojeto, o tombamento estaria concretizado com as inscrições.
membros, nomeados pelo presidente da República" (ibid., p. 107).35 O decreto-lei n° 25/1937 operava aí com uma certa classificação do patrimônio,
tendo o cuidado, no entanto, de ressalvar que a especificação dos bens que se
Esta lei definiu ainda que o Museu Histórico Nacional, o Museu Nacional de
incluem em cada uma das quatro categorias não seria definida neste texto legal
Belas Artes (MNBA) e qualquer outro museu nacional deveriam cooperar com as
(artigo 4º § 2º).38
atividades do Sphan, autorizando o executivo, no exercício de 1937, a destinar
verbas para a implantação do novo órgão (dentro do orçamento do MES). Foi ex- O decreto-lei nº 25/1937 constituiu um extenso conjunto de procedimentos
tinto pela mesma lei o Conselho Nacional de Belas Artes, cujas funções passaram administrativos, determinando os "efeitos do tombamento", não previstos no texto
a ser exerci das pelo Sphan e MNBA, conjuntamente, por meio do Conselho de Mário de Andrade, que atingiriam diretamente o direito de propriedade, então
Consultivo do Sphan.36' ' submetido aos preceitos constituciónais de 'função social da propriedade" e de
"interesse público". A subjetividade de tais preceitos deram sustentação à ação
No quadro 3.1, foram destacados alguns pontos-chave de comunicação entre
estatal relativa à temática patrimonial. A suposta oposição entre público e privado
os dois textos. Nele, podem ser observados os objetivos expressos no decreto-
ficava garantida por lei e, ao mesmo tempo, diluída nas relações em jogo e nas
lei, sintetizados na ação de proteger o patrimônio histórico e artístico nacional.
trocas simbólicas que o próprio instrumento legal legitimava. Ãlém daqüiío que se
Esse objetivo exclusivo e abrangente partia da concepção de patrimônio como
pode extrair da construção da lei, essas relações foram melhor desvendadas a
algo preexistente que corria risco de perda, abrangendo, assim, as ações de
partir da rotinização das práticas do Sphan, que teve nesse aparato jurídico seu
organizar, conservar e defender, expressas no anteprojeto.
suporte de legalidade.

[fuJ 01 ARQUITETOI OA ~E~ÓRIA A mfECio INlIl1UCIONAlIlAOA 1167]


QUADRO 3.1. ~PHAN - (OMPARA(ÃO ENIRE O OECRHO-lEl N
Q
25/1937 E O ANIEPROlHO DE MÁRIO DE ANORAOE

ANTEPROJETO DECRETO-LEI Nº 25/1937


1) Finalidades do "Determinar, organizar, conservar, defender e propagar o patri- Proteger o patrimônio histórico e artístico nacional.
Sphan mônio artístico nacional (PAN)"

2) Aplicação Ao PAN, ou seja, 'todas as obras de arte pura ou de arte aplica- "A presente lei se aplica às eoísas pertencentesàs pessoas natu-
da, popular ou erudita, nacional ou estrangeira, pertencentes aos rais, bem como às pessoasjurídicas de direito privado e de direito
poderes públicos, a organismossociais -e a-particulares nacionais, público interno." (Art. 2') .- <,

a particulares estrangeiros residentes no Brasil". . -


3) O que pertence ao "Exclusivamente as obras de arte que estiverem inscritas, indivi- i...
]só serão considerados parte integrante do patrimônio histó-
PAN/Phan dual ou agrupadamente, nos quatro livros de tombamentoadiante rico e artístico nacional, depois de inscritos separada ou agrupa-
designados." damente num dos quatro livros do Tombo."

4) Condições de Obras de arte classificadas em oito categorias (arte arqueológica; Que sua "conservação seja de interesse público": 'quer por sua
pertencimento/inclusão ameríndia; popular; histórica; erudita nacional; erudita estrangeira; vinculação a fatos da história do Brasil, quer por seu excepcional
aplicadas nacionais e aplicadas estrangeiras). Especifica as valor arqueológico ou etnógrafico, bibliográfico ou artístico", e
formas e tipos de manifestaçãode cada uma delas como critério/ "monumentos naturais, bem como os sítios e paisagens que im-
condição de inclusão. portem conservar e proteger".

5) Finalidades dos Inscrição dos nomes de artistas, coleções públicas e particulares, A realização do tombamento com a inscrição dos bens descritos
livros do Tombo e das obras de arte que pertencerão oficiallmente ao PAN. noartigo 1', no livro que for correspondente. São eles: 1) livro
Correspondência entre os livros, as oito categorias de arte e os do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico (arte arqueo-
museus nacionais pertencentese ao Span: 1) Livro do Tombo Ar- lógica, ameríndia e popular e monumentos paisagísticos); 2)
queológico e Etnográfico (arte arqueológica, ameríndia e popular); livro do Tombo Histórico (coisas de ínteresse histórico; obras

contmua .(J.

2) livro do Tombo Histórico (arte histórica); 3) Livro do Tombo de arte histórica); 3) livro do Tombo de Belas-Artes (arte erudita
de Belas-Artes/Galeria Nacional de Belas-Artes (arte erudita nacionaf e estrangeira); 4) Livro do Tombo de Artes Aplicadas
nacional e estrangeira); 4) Livro do Tombo de Artes Aplicadas (artes aplicadas nacionais e estrangeiras).Quantoà especificação
(nacionais e estrangeiras). Deverão ser instalados os museus dos bens que se incluem em cada um dos quatro livros, afirma
Histórico Nacional, Arqueológicoe Etnográfico,e deverá ser criado que 'serão definidos e especificados no regulamento que for
C>
o Museu de Artes Aplicadas, vinculando-os aos respectivos livros. expedido para execução do Sphan".
~
=
6) Procedimentos para Quem faz a inscrição do tombamento é o diretor do Span, com 1) O proprietário deve ser sempre notificado; 2) quando de bens
tombamento (inclusão) exposição de motivos, apoiado por área técnica chamada Chefia pertencentes à União, estados ou municípios, se fará de ofício
de Tombamento, composta por um núcleo centraf com: um ar- por ordem do diretor, 3) quando de coisa de propriedadeprivada,
queélogo; um etnógrafo; um historiadore um professor de história poderá ser voluntário ou compulsório; 3.1) voluntário: quando o
da arte; e comissões regionais, compostas dos mesmos tipos de proprietárioanuir a notificação; ou quando pedir seu tombamento,
profissionais, com função de escolher e sugerir o tombamento e a juízo do Coselho ConsuHivodo Sphan, for avaliado com os
das obras de arte de seus estados respectivos,sem função deci- requisitos necessários para constituir parte integrante do patrimô-
<,
séria A participação do Conselho Consultivo será apenas na de- nio histórico e artístico nacional; 3.2) compulsório: quando o pro-
cisão das obras de arte erudita nacionaf ou estrangeira, quando prietário se recusar a anuir a inscrição; terá quinze dias para im-
deverá avaliar se são de "mérito nacional" para tombamento. pugnar, justifICandosuas razões, e o Sphan terá mais quinze dias
para elaborar suas contra-razões.Caberá ao Conselho ConsuHivo
a decisão final.

7) Conselho Consultivo Sua composição: os quatro chefes dos museus mais vinte mem- Suas atriquiçães estão acima descritas (art. 7' e 9') (ver item 6
bros móveis: dois historiadores; dois etnógrafos; dois músicos; deste quadro); o art. 14' detenminaainda que cabe ao Conselho
dois pintores; dois escultores; dois arquitetos; dois arqueólogos; Consultivo decidir se a coisa tombada poderá sair do País e o
dois gravadores; dois artesãos; dois escritores. Renovação: prazo que' ficará fora para fim de intercâmbiocuHuralsem transfe-
anualmente, de dez dos membros móveis de cada par. Cade par rência de 'domínio. Não apresenta sua constituição, composição
móvel deverá conter um representantecom mais de 40 anos de e renovação. (A lei n' 378, de 13 de janeiro de 1937, determina
idade e outro com menos de 40, de preferência um que repre- que seus membros serão escolhidos pela presidência da Repú-
sente ideias acadêmicas, e outro, ideias renovadoras blica, sem esclareder os critérios).
o tombamento não retirava o direito do proprietário de alienar seu patrimônio. O Conselho Consultivo deveria ser ouvido também quando se tratasse de
Contudo, impunha o direito' de preferência, obrigando que o bem a ser alienado tombamento compulsório - casos em que o proprietário, não anuindo ao tomba-
fosse oferecido prevlarnentéà União, ao estado e ao município onde o mesmo se mento, apresentasse suas razões de impugnação, num prazo de quinze dias da
encontrasse, nessa ordem." Semelhante aos projetos de lei anteriormente citados data de recebimento da notificação, devendo o Conselho, em sessenta dias,
e ao texto da legislação francesa, no artigo 17 do decreto-lei nº 25/1937 ficava
2 avaliar e decidir a respeito. A partir do Regimento Interno de 1946, todo pedido
determinada a obrigatoriedade do proprietário na conservação do bem tombado e de tombamento passa a ser julgado pelo Conselho Consultivo.
a autoridade do Sphan como único orgão competente para garantir a integridade .. Com tais medidas, embora criando mecanismos de integração com agentes
de tais bens, vigiando, fiscalizando e definindo as formas apropriadas para' sua sociais interessados, a agência estatizada tinha grande autonomia e domínio do
restauração: processo de decisão, em função dos próprios critérios de inclusão/seleção expli-
[ ... J as coisas tombadas não poderão, em caso nenhum, ser destruídas, demolidasou citados (ver itens 2 e 6 do quadro 3.1), na medida em que não ficaram esclarecidos
mutiladas, nem, sem prévia autorização especial do Serviço do Patrimônio Histórico e os procedimentos para renovação dos membros do Conselho Consultivo (nem
Artístico Nacional, ser reparadas,sob pena de multa de 50% do dano causado. (Sphan, mesmo em sua lei de criação, conforme já foi visto). Esse, que atuava no sentido
1980a, p. 115)'" de dirimir possíveis conflitos como uma instância superior, garantiria o exercício
Para que um proprietário pleiteasse o financiamento pelo Sphan de obras em de articulação discursiva a respeito da ri~cionalidade, com o triunfo do "interesse
seu imóvel tombado, deveria comprovar não dispor de recursos, devendo comu- público", legitimando as práticas seletivas do sphan."
nicar o estado precário em que se encontrasse o bem. Ao Sphan caberia a de- O decreto-lei nº 25/1937 (Sphan, 1980a) desenvolveu, ainda, um aspecto
cisão sobre a necessidade de financiar e executar as obras. Por outro lado, caso levantado brevemente no anteprojeto, a respeito da necessidade de proibição de
o Sphan julgasse necessárias obras em quaisquer dos imóveis tombados, poderia saída do País de obras de arte tombadas. Segundo o que ficou estabelecido no
"projetá-Ias e executá-Ias" sem que o proprietário as solicitasse. decreto-lei, as obras de arte tombadas somente poderiam sair do País para fins
Tais regras, pertinentes aos bens arquitetônicos, maciçamente privilegiados de intercâmbio cultural, por curto espaço de tempo e a juízo do Conselho Consul-
na atuação do Sphan, garantiram a criação de um vasto mercado de obras e res- tivo; caso contrário, se caracterizaria crime de contrabando.
taurações aos arquitetos que lá se aparelharam. Se por um lado esses proce- Nesse sentido, o decreto-lei imputava ao Sphan o direito de controlar o
dimentos, assim definidos; possibilitaram ao Estado garantir a permanência de um comércio de antiguidades, visando intervir também sobre o mercado de arte em
considerável acervo de bens culturais arquitetônicos, por outro, sua aparente res- formação, já que obrigava não somente os "negociantes de antiguidades, de obras
ponsabilização mútua - dÇJp'roprietário e do Estado - escamoteava a subjetividade de qualquer natureza, de manuscritos e livros antigos ou raros" (artigo 26) a se
que permitia aos aqentes do Sphan tratamentos diferenciados na escolha dos cadastrarem no Sphan, como a terem autenticados pelo mesmo, ou por perito de
bens, cujas obras seriam financiadas pelo poder público." sua confiança, quaisquer desses objetos, antes de serem leiloados ou vendidos.

O decreto-lei nº 25/1937 definiu os procedimentos para consecução do tomba- Essa autenticação seria feita mediante o pagamento de uma taxa de peritagem,
equivalente a 5% do objeto avaliado e avalizado peio Sphan.43 Com essas me-
mento, considerando a possibilidade de haver tombamento voluntário - quando o
didas, visou-se evitar o contrabando de peças incluídas na categoria de patrimônio
proprietário do bem anuísse à notificação de tombamento obrigatoriamente feita a
histórico e artístico nacional, o que foi efetivamente feito, ainda que precariamente.
ele pelo Sphan - e de haver casos em que a indicação e a conclusão do tomba-
Por outro lado, o Sphan passou a valorizar o mercado de arte, nele intervindo por
mento não ultrapassariam a esfera da direção do Sphan; ou quando o pedido de
tombamento fosse feito pelo próprio proprietário do bem ou por interessados.
meio de sua autenflcação."
Nesse caso, o Conselho Consultivo deveria ser ouvido a respeito do merecimento O anteprojeto de Mário de Andrade tentou garantir, no processo de composição
ou não de tal bem receber a chancela do tombamento e a tutela do Estado. e renovação do Conselho Consultivo do Span, a multiplicidade de competências

LillJ OS ARQUITETOS OA MEMÓRIA A fl/omio INlIllUCIONAlIlAOA illIJ


\.

técnicas e posições conflitantes, legitimando o papel do intelectual na adminis- classés, nos quais nenhuma demolição, restauração ou alteração poderia ser efe-
tração pública e vice-versa, isto é, legitimando esta, a partir da especialização tuada sem o consentimentodo Ministério da Cultura. Quando essa permissão era ''' •• 1

técnica, delimitando o lugar das disputas de posições no universo de intelectuais dada, os trabalhos deveriam ser executados sob a supervisão do Serviço de Mo-
consagrados da agência estatizada. numentos Históricos (arquiteto responsável pelas restaurações, arquiteto dos edi-
Tais procedimentos, como tantos outros, não foram incorporados no decreto- fícios da França responsável pela manutenção) (Direction du Patrimoine, 1984,
t. p. 8). Isto é, somente os arquitetos pertencentes aos quadros das duas reparti-
lei n° 25/1937, mas constituíram as bases de legitimação do Sphan, nos anos
subsequentes, em seus diversos toei de ação. A variedade de conhecimentos ções - Arquitetos dos Edifícios da França ou Arquitetos dos Monumentos Históri-
especializados foi mais restrita e, obviamente, sem a lógica proposta por Mário cos - poderiam supervisionar o trabalho que, frequentemente, era executado às
de Andrade. Ela foi cuidadosamente distribuída de acordo com os objetivos do custas do próprio poder público. Existiam, ainda, mais de vinte mil edifícios ins-
órgão, em seus diterenciados, âmbitos de atuação e, com certeza, o arquiteto erits, nos quais o proprietário deveria notificar o referido Ministério com quatro
passou a ter uma participação n~ Sphan jamais imaginada por um intelectual como meses de antecedência sobre qualquer modificação que pretendesse fazer; sua
Mário de Andrade, imbuído de' premissas universalizantes. Por sua vez, no Con-
I
obrigação, no entanto, restringia-se a conservá-Io no estado em que se encontrava
selho Consultivo, o arquiteto não teve participação significativa. quando tornou-se um monumento inserit, mas o Ministério da Cultura poderia
O Sphan engendrou, em sua prática, a legitimidade de tais procedimentos conceder subvenção de até 20% do montante requerido pela obra" (Gouveia,
previstos em lei, naturalizando a exclusividade de seus agentes nessas tarefas. 1985; Direction du Patrimoine, 1984).
Obviamente, a hegemonia e o consenso alcançados pouco a pouco, durante o Com efeito, por meio da construção do discurso legal, foram reificadas ideias
Estado Novo, não se deram sem conflitos, os quais serão tratados nos capítulos construídas num tempo e lugar muito precisos, tais como a noção explícita de per-
seguintes. Neles, serão analisados diferentes IDei de ação do Sphan. tencimentolinclusão, e a concentração do processo de seleção e de decisão de
A legislação francesa foi inspiradora da produção dos projetos de lei ante- inclusão dos bens na categoria de patrimônio histórico e artístico nacional nas
riores e do próprio decreto-lei r'lº 25/1937, especialmente com relação à presença mãos da direção da agência estatizada e de um Conselho Consultivo escolhido
do Estado nesse assunto. No éntanto, se com a lei de 1913 o Estado francês pas- pela presidência da República. Isso dava ampla margem ao Estado, mediante sua
sa a financiar 50% das' obras de restauração dos imóveis "classificados", gerando agência, para construir uma visão particular da nação, escolhendo aquilo que me-
um ônus real ao poder público, que compartilhava, assim, efetivamente, da restau- lhor representasse a história que pretendia consagrar. Inaugurou-se, assim, oficial-
ração do "patrimônio nacional" por ele designado como tal, no caso brasileiro, o mente, a ação de preservaçãodo patrimônio histórico e artístico no Brasil, fundada
decreto-lei nº 25/1937 foi bem menos claro com relação aos critérios de escolha na sua identificação com o Estado. É a própria história do Estado que é contada,
de qual bem tombado mereceria financiamento público para restauração, per- pelo seu "não reconhecimento"como uma escolha política que a diferenciasse de
mitindo, por sua vez, uma proliferação de tombamentos de bens sem que hou- outras ações possíveis. O Estado se autoatribuiu o papel de agente dá memória
vesse, necessariamente, o correspondente investimento em sua conservação. Por da nação, detentor da tutela do paírímônohisíórtco e artístico nacional - e também
outro lado, inúmeras restaurações foram feitas às custas do Estado, sendo que de sujeito da história.
os critérios de seleção dos bens tombados a serem restaurados ficavam basica- Foi sob essa ótica que se deu a escolha dos bens a serem conservados, aos
mente a cargo do Sphan, sujeito a injunções de toda ordem." quais se atribuiu paralelamente toda uma série de significados, num esforço de
Também na França o arquiteto tornou-se o especialista das ações de proteção seleção daquilo que não deveria ser esquecido, daquilo que, para consolidação
ao "patrimônio nacional", ainda que, como no Brasil, isso não estivesse definido da nação, deveria permanecer na memória, materializando-se nos bens tombados.
por lei. Na década de 1980, somavam-se, na França, mais de doze mil edifícios Tratava-se de encerrar escolhas de um passado que representassetoda a nação.

[TU] 01 ARQUIlHOI DA .IIE,\IÓRIA A WJfECio INSlIlUClOHAlIZADA l!ZlJ

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1º) a preservação e conservação adequada de arquivos, documentos e outros bens
Legislaçõescomplementaresao decreto-lei nQ 25/1937
móveis de valor histórico ou artístico [...J. (Brasil, 1967, p. 15)
O processo de institucionalização da prática oficial de preservação cultural
Na década de 1960, foi aprovada a lei n° 3.924, de 26 de julho de 1961,47
levou à criação de algumas legislações complementares. Parte delas, notada-
dispondo sobre os monumentos arqueológicos e pré-históricos, no sentido de
mente motivadas por problemas conjunturais e pontuais, tratou de aspectos
regulamentar as ações do Sphan nesse âmbito, expressas no decreto-lei nº 25/
bastante específicos, para os quais o exercício de aplicação do decreto-lei nº 25/
1937. Era, no entanto, dificilmente executável, pois, apesar de previsto como
1937, exclusivamente, mostrou-se ineficaz. Por meio da criação de novas leis,
passível de proteção, a natureza do "patrimônio arqueológico" não se adequava
buscava-se mediatizar conflitos gerados a partir da implementação do decreto-lei
à aplicação do tombamento, devido à pesquisa de prospecção, que, por si, des-
nº 25/1937.
truía o bem, ato inadmissível a um bem tombado. Nesse sentido, a monumenta-
O decreto-lei nº 2.809, de 23 de novembro de 1940, por exemplo, dispôs sobre
lização do 'patrimônio arqueológico", que ampliava o domínio do sagrado para
a aceitação e aplicação de donativos particulares pelo Sphan. Segundo seu texto,
abaixo da superfície da terra e para um tempo ainda mais remoto, dava lugar à
o Sphan ficava autorizado a receber qualquer quantia que lhe fosse oferecida a
sua objetivação científica, permitindo-se que o mesmo fosse dissecado, manu-
título de contribuição, por iniciativa particular, visando realizar trabalhos concer-
seado, desmontado, em busca de vestígios subterrâneos de uma pré-história, ou
nentes à defesa, conservação e restauração dos monumentos e de obras de valor
mesmo de uma história ancestral, até então invisível, da nação.
histórico e artístico existentes no País, e definia, então, os procedimentos a serem
adotados. O diretor do Sphan deveria submeter as contas referentes à aplicação Se, por um lado, essa lei regulamentou esse assunto em aberto no decreto-
desses recursos à aprovação do Ministério da Educação e Saúde (ver Sorgine, lei nº 25/1937, por outro, ampliou em muito o âmbito de intervenção da instituição,
2008). Por sua vez, o doador poderia determinar o destino da quantia doada. garantindo-lhe um poder exclusivo também nessa área. O assunto era matéria de
Dessa forma, mantendo em seu poder essa decisão, o capital (econômico e sim- grandes interesses econômicos e de segurança nacional, na medida em que esta-
bólico) do doador se sobrepunha ao "interesse público", que, segundo o próprio va relacionado, dentre outros aspectos, aos projetos de mineradoras, barragens,
discurso instituinte das práticas do Sphan, deveria ser o único capaz de decidir hidrelétricas etc. Essa lei definiu o que era considerado monumento arqueológico
o que deveria ser priorizado nas ações de conservação e/ou restauração de ou pré-histórico e determinou a proibição de seu aproveitamento econômico, sua
monumentos, aquisição de obras etc. O "dono" do capital privado, nesse momento, destruição ou sua mutilação, antes de devidamente pesquisados, considerando
portanto, poderia também capitalizar-se, simbolicamente, passando a integrar o rol tais práticas como crime contra o patrimônio nacional.
dos "sabidos". Por meio dessa lei, a Dphan passava a ter responsabilidade sobre o cadastra-
Já o decreto-lei nº 3.365, de 21 de junho de 1941, dispondo sobre desapro- mento de pesquisadores - "para efeito de registro, fiscalização e salvaguarda do
priações por "utilidade pública", incluía nesse conceito a temática patrimonial, interesse da ciência" - e sobre o registro de jazidas arqueológicas no Cadastro
reforçando a noção de uso social da propriedade. Ele reuniu um amplo universo dos Monumentos Arqueológicos do Brasil. E, ainda, sobre a concessão de licença
de possibilidades de configuração do patrimônio histórico e artístico nacional, evi- para transferência de objetos de interesse arqueológico ou pré-histórico, histórico,
tando dúvidas que fossem geradas quanto à atribuição de "valor cultural", segundo numismático ou artístico para o exterior, assim como a autorização para escava-
fica explicitado na descrição de casos passíveis de serem considerados "utilidade ções arqueológicas por pesquisadores estrangeiros e para aproveitamento eco-
pública". No aspecto em questão, assim tratava o decreto-lei: nômico das jazidas após exploração clentltlca."
k) a preservação e conservação dos monumentos históricos e artísticos, isolados ou Com o término do Estado Novo, foi dada nova organização a inúmeras agên-
integrados em conjuntos urbanos ou rurais, bem como as medidas necessárias a cias estatizadas criadas até então, dentre elas o Sphan, quando foi feito seu Regi-
manter-Ihes e realçar-Ihes os aspectos valiosos ou característicos e, ainda, a proteção mento Interno, pelo qual ele passou a Diretoria (Ophan)," e foram instituciona-
de paisagens e locais particularmente dotados pela natureza; [...J

[ill.J 01 ARQUIlElOI DA ME~ÓRIA I noutto INS1IlUClONAlIlAOA OTIJ


lizados alguns procedimentos técnico-administrativos que vinham sendo consoli- então genericamente de Seção Técnica. Eram elas: a Divisão de Estudos e Tom-
dados ao longo dos nove anos de funcionamento, consagrando, dentre outros bamento, dirigida pelo arquiteto Lucio Costa, e subdividida em Seção de Arte,
aspectos, as fortes relações hierarquizadas, estabelecidas entre setores da "área chefiada pelo arquiteto Alcides da Rocha Miranda, e Seção de História, chefiada
central" no Rio de Janeiro e as áreas regionais do Sphan." Esse Regimento por Carlos Drummond de Andrade; e a Divisão de Conservação e Restauração,
Interno foi, nesse sentido, um instrumento de controle mediante a institucionali- dirigida pelo arquiteto Paulo Thedim Barreto, e subdividida em Seção de Projetos,
zação de procedimentos, cujo papel não deve ser minimizado, devendo, por sua chefiada pelo arquiteto José de Souza Reis, e Seção de Obras, chefiada pelo ar-
vez, ser localizado dentro do projeto de racionalização administrativa a que o novo quiteto Renato Soeiro. Havia ainda quatro Distritos, que deveriam reproduzir, em
governo pretendia dar prosseguimento. De todo modo, as autorrepresentações dos suas sedes, a estrutura organizacional da "área central", ainda que com equipes
agentes institucionalizados acerca de sua "dedicação à causa" foram engendradas bastante reduzidas, ficando a maioria dos assuntos sob a responsabilidade do pró-
com base nas fortes relações pessoais estabelecidas e permanentemente em prio chefe do Distrito. Eles foram assim constituídos: 1º Distrito, chefiado pelo en-
jogo, nos laços de amizade e nos compromissos de fidelidade daí advindos. Im- genheiro Ayrton Carvalho, com sede em Recife, e responsabilidade sobre os esta-
portantes redes de relações foram tecidas a partir do "sentimento de pertencimento dos do Rio Grande do Norte, da Paraíba, de Pernambuco e de Alagoas; 2º Distrito,
à causa", que se constituiu em capital simbólico acumulado, muitas vezes mais chefiado pelo escritor e historiador da arte Godofredo Filho, com sede em Salvador,
eficiente como recurso de convencimento, controle e fiscalização do que as nor- atuando na Bahia e em Sergipe; 3º Distrito, chefiado pelo arquiteto Snvio Vasconcelos,
mas legalmente estabeleci das. com sede em Belo Horizonte, atuando exclusivamente em Minas Gerais; 4º Dis-
Conforme o Regimento Interno, a Dphan tinha por finalidade, considerando a trito, chefiado pelo engenheiro Luiz Saia, com sede em São Paulo, responsável
"necessidade de dar aos serviços de proteção do patrimônio de arte e de história pelo estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.51
do País, organização técnica e administrativa consentânea com o seu desenvol- Desta forma, os Distritos, exercendo as atribuições das Divisões, deviam tam-
vimento atual": bém colaborar com as autoridades municipais, estaduais e eclesiásticas em bene-
fício do patrimônio histórico e artístico nacional e entender-se com autoridades da
[...] inventariar, classificar, tombar e conservar monumentos, obras, documentos e
objetos de valor histórico e artístico existentes no País, competindo-lhe promover: União, estados e municípios para o cumprimento das finalidades da Dphan, sem-
1) a catalogação sistemática e a proteção dos arquivos estaduais, municipais, pre mediante autorização, e a critério da direção da mesma. Estavam subordina-
eclesiáslicos e particulares, cujos acervos interessem à história nacional e à história dos à "área central" (Direção, Divisões e Seções no Rio de Janeiro), e obrigados
da arte no Brasil; 2) medidas que tenham por objetivo o enriquecimento do patrimônio a enviar mensalmente ao diretor boletins de atividades e mapa de consumo de
histórico e artístico nacional; 3) a proteção dos bens tombados na conformidade do material. Com exceção de Carlos Drummond de Andrade, que permaneceu chefe
decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, e, bem assim, a fiscalização sobre os de gabinete de Gustavo Capanema até o fim de sua gestão à frente do MES, todos
mesmos, extensiva ao comércio de antiguidades e obras de arte tradicional do País,
os nomes citados já estavam ligados formalmente ao Sphan, desde o começo da
para os fins estabelecidos no citado decreto-lei; 4) a coordenação e a orientação das
atividades dos museus federais que lhe forem subordinados, prestando assistência aos década de 1940, constituindo o grupo fundador do órgão.52 Em torno desse grupo,
demais; 5) o estímulo e a orientação no País da organização de museus de arte, se reuniu uma série· de agentes que, com maior ou menor envolvimento, se agre-
história, etnografia e arqueologia; e 6) a realização de exposições temporárias de obras gou à "causa do patrimônio", nos seus diferentes toei de ação, o que ficará melhor
de valor histórico e artístico, assim como de publicações e quaisquer outros empreendi- evidenciado no decorrer do trabalho.
mentos que visem difundir, desenvolver e apurar o conhecimento do patrimônio histórico
Ao diretor da Dphan cabia propor ao ministro nomes para ocupação dos cargos
e artístico nacional. (Brasil, 1967, p. 40)
da Diretoria e das cadeiras do Conselho Consultivo. Os três museus ligados ao
Além do Gabinete do diretor-geral e de um Serviço Auxiliar, a Dphan orga- Sphan, criados no período - da Inconfidência, das Missões e do Ouro -, funcio-
nizava-se em duas divisões, que constituíam a sua "área central", denominada até nariam subordinados à Diretoria. O diretor deveria centralizar os trabalhos, cuja

Oill aI ARQUIIElOI DA MEMÓRIA A PROfECio INHIIUCIONAlI1ADA


Liill
orientação - a ser ouvida em qualquer situação - mantinha-o a par de todas as seleção, escolhas e esquecimentos, como a priorização de bens para restauração,
iniciativas e procedimentos adotados nos diversos níveis da hierarquia institucio- reformas ete. Fosse em função de suas atribuições legais - histórica e conjuntu·
nal, dando a palavra final. Esse controle, expresso do Regimento Interno, já era ralmente determinadas -, fosse em função daquele que ocupava sua direção, esta
exercido por meio da estreita correspondência travada com os chefes dos distritos, Divisão tornou-se mentora da ação institucional, como centro de produção das
que deviam manter o diretor permanentemente informado sobre o andamento dos ideias e concepções a respeito do patrimônio histórico e artístico nacional. Quantc
trabalhos. ao cargo de direção dessa Divisão, esteve sempre nas mãos de um arquiteto.
Esses procedimentos foram engendrados, paulatinamente, no processo de As duas seções dessa Divisão - Seção de Arte e Seção de História - reuniam
rotinização das práticas, reproduzindo-se no Regimento Interno, no qual foram em suas denominações os atributos nomeadores do "patrimônio nacional", isto é,
reafirmados como regras explicitamente determinadas. Lucio Costa conta que, histórico e artístico. Essas seções foram homologamente situadas na hierarquia
reticente de assumir um cargo na nova Dphan, Rodrigo lhe convencia dizendo institucional determinada pelo Regimento Interno, mas distinguiram-se na prática
"Mas tudo vai continuar como antes. Não se preocupe". Lucio Costa diz ter sido pelas atribuições definidas para cada uma delas. Nesse sentido, à Seção de Arte
sempre "um simples consultor de Rodrigo [...] que tinha uma cadeira e uma mesa cabia inventariar os "monumentos e obras de arquitetura, pintura, escultura e arte
lá".53 aplicada de valor histórico e artístico existente no País" (Brasil, 1967b, n.p.), li-
À Divisão de Conservação e Restauração, dirigida por Paulo Thedim Barreto, dando, assim, com os próprios objetos materiais constituidores do patrimônio
competia ações relativas aos bens já tombados. Nela, a Seção de Projetos devia histórico e artístico nacional. A Seção de História, por sua vez, deveria inventariar
elaborar estudos técnicos, projetos e orçamentos para obras de restauro ou os "textos manuscritos ou impressos de valor histórico e artístico existentes no
reparação em bens tombados; e, ainda, a vigilância dos bens tombados, a revisão País", assim como a "documentação iconográfica que constitua fontes diretas ou
das especificações de orçamentos de obras definidos pelos Distritos, estudos subsidiárias para o estudo da história da Arte no Brasil" e, também, indicá-Ios
sobre a necessidade de equipamentos e obras nas edificações dos museus para tombamento e/ou restauração, tal qual a Seção de Arte, apesar de nenhum
federais e subordinados à Dphan, bem como a organização de exposições come- tombamento de acervos documentais (textuais) ter sequer ocorrido no período do
morativas ou temporárias relativas ao patrimônio histórico e artístico nacional. À Estado Novo (ibid.). Mas a rotinização das práticas, engendradas pelos agentes
Seção de Obras cabia a execução e/ou fiscalização das obras e, ainda, a exe- institucionalizados, tradicionalmente monopolizada pelos arquitetos, viria confirmar
cução de moldagens dos "elementos mais valiosos e característicos da arte tradi- esta hierarquia subliminarmente colocada no Regimento Interno, visto que as
cional", mantendo um acervo em depósito." O poder "técnico" dessa Divisão práticas do Sphan, consolidadas nos anos anteriores, demonstravam que o "patri-
estava, precisamente, na manipulação da aplicação das verbas de obras, embora mônio nacional" deveria constituir-se de objetos da cultura material, basicamente
sempre escassas, relativamente expressivas se comparadas ao restante aplicado de monumentos arquitetônicos.
em outras ações da mesma açêncla." A pretensa homologia estabelecida pelo Regimento Interno, portanto, não se
Por sua vez, a Divisão de Estudos e Tombamento, chefiada por Lucio Costa, estabeleceu concretamente, uma vez que raras foram as ações institucionais no
por meio de sua Seção de Arte, ficava responsável pela indicação dos bens a sentido da preservação de acervos documentais, que teriam, na verdade, um novo
serem reparados ou restaurados, quer fosse para definição regular no "plano de universo de questões e ações a serem implementadas, não consideradas como
atividades", quer em "caráter de urgência". Dessa forma, embora essa Divisão não política institucional até então." À Seção de História cabia, ainda, a catalogação
manipulasse um capital financeiro, o capital simbólico que fazia circular acabava de "arquivos federais, estaduais, municipais, judiciários, eclesiásticos e particula-
por torná-Ia hierarquicamente superior, estando os outros setores institucionais, res cujos acervos fossem de interesse à história nacional e à arte no Brasil. Tal
direta ou indiretamente, a ela subordinados. Responsável também pela proposição ação também não se deu de forma sistemática, mas pontualmente, subentendida
de bens para tombamento ao diretor, essa Divisão definia tanto os critérios de dentro de outras ações sob sua alçada.

O-i 8 I 01 ARQUIIElOI OA MEMÓRIA A PlOfE(jO IHIlllUUONHllAOA IJZIJ


A Seção de História responsabilizou-se, basicamente, pela organização de um ao presidente da República sobre recursos para o cancelamento de tomba-
instrumental burocrático-administrativo e constituição de acervo bibliográfico mentos (decreto-lei nº 3.866/1941) e para projetos de monumentos comemorativos
especializado, controlando o arquivo e a biblioteca da Dphan, com a guarda dos a serem erigidos com auxílio financeiro da União (Decreto-lei nº 1.497/1939.
Livros do Tombo e a responsabilidade pela inscrição dos bens tombados nos Brasil, 1967).
,
mesmos. Coube-lhe também a execução de algumas medidas determinadas pelas Cabe, por fim, destacar um dado interessante, que foi enunciado no texto do
legislações complementares ao decreto-lei nº 25/1937, tais como a instrução dos Regimento Interno, ao descrever os poderes instituídos aos quais a Dphan deveria
recursos de cancelamento de tombamento, a fiscalização do comércio de antigui- prestar assistência e/ou partilhar responsabilidades:ao lado dos três níveis de po-
dades, e a organização do plano para aplicação de recursos doados por particula- der público - federal, estadual e municipal -, era também enumerado o eclesiás-
res à Dphan. Tratava-se da noção de História como escrita e, desta forma, cons- tico. O texto parecia sugerir, com isso, a constituição deste em mais uma instância
tituía a parte escrita do tombamento. de poder da sociedade política. Nessa aparente contradição com o princípio formal
Enfim, a Seção de História, sob a direção de Carlos Drummond de Andrade, de Estado leigo, revelava-se o comprometimento desse Estado com os interesses
controlava a edição e a distribuição das publicações do Sphan. Cabia-lhe "divul- da Igreja, aparelho privado de hegemonia, proprietária de vasto acervo que cons-
gar, desenvolver e apurar o conhecimento de arquitetura, pintura, escultura e arte tituía a maior parte do conjunto de bens tombados pelo Sphan - fiel guardião de
aplicada tradicionais do País" (ibid.), e estimular os estudos históricos "naquilo seu patrimônio -, com quem sempre manteve relações bastante estreitas, ainda
em que se vinculem à história da arte do País" (ibid.). Era o lugar da escrita do que nem sempre harmoniosas.
patrimõnio. Até então, tais atribuições haviam ficado a cargo exclusivamente da
direção do Sphan. A "MU\EAlIZ~(ÃO" DO P~TRIMÔNIO~I\TÓRI(O t ~RTílTl(Q N~(ION~L

Respeitando-se as atribuições legais da agência, estabelecidas no decreto-lei Embora não se pretenda aqui analisar a constituição e a trajetória dos museus
nº 25/1937, o Regimento Interno definia que as quatro Seções das duas Divisões criados pelo Sphan no período, a compreensão dessa ação como parte das polí-
da Dphan deveriam prestar assistência aos museus federais; no entanto, em seu ticas de proteção do patrimônio histórico e artístico nacional, basicamente por
texto não foram explicitadas as formas dessa assistência, que se manteve às meio dos textos legais que Ihes deram origem, torna-se bastante reveladora das
custas de relações de poder pessoais, em função de interesses pontuais, não se concepções que embasaram a musealização do "patrimônio nacional". A criação
constituindo num setor especializado dentro da agência, ainda que, a partir da dé- de museus vinculados ao Sphan, no período do Estado Novo, teve um caráter
cada de 1950, a Dphan passasse a incorporar em seus quadros alguns poucos estruturante das concepções e práticas que vinham se constituindo. Buscava-se
profissionais das áreas de museoíoqia." formular uma vertente museológica para o Sphan que conjugasse as represen-
Por fim, o Conselho Consultivo da Dphan teve suas atribuições razoavelmente tações espaciais que ao imóvel-sede do museu pudessem ser atribuídas, com o
ampliadas pelo Regimento Interno, na medida em que deveria, a partir de então, ajui- acervo que nele seria exposto.
zar sobre todos os pedidos de tombamento, o que antes se restringia exclusiva- Segundo Lígia Martins Costa," em 1937 esse assunto foi levado a Rodrigo
mente aos casos de impugnação, segundo determinado no decreto-lei nº 25/1937. Meio Franco de Andrade por Lucia Costa, que, a pedido do primeiro, havia viajado
Passava, assim, a avalizar todas as ações de tombamento da Dphan, ganhando para São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, a fim de averiguar o estado
um poder decisório sobre a definição do patrimônio histórico e artístico nacional em que se encontravam as ruínas das antigas missões jesuíticas. Ao retornar, o
como um todo, a partir do encaminhamento da Direção. Ficaram também expres- arquiteto propôs, além dos trabalhos de contenção e recuperação arquitetônicas,
sas algumas atribuições que já exercia, responsabilizando-se, legalmente, pela a constituição de um pequeno museu, para "dar ao visitante uma impressão tanto
conveniência de saída temporária do País de bens tombados, opinando ainda junto quanto possível aproximada do que foram as Missões".59Lígia Martins Costa con-

[}80-] 01 ARQUIlEIOI DA MEMÓRIA A P/lOfE(JO INIlITUCION!lIZAOA m:o


siderava que tais recomendações haviam sido decisivas para Rodrigo Meio Franco e nomes, mas tudo disposto de forma atraente e objetiva, tendo-se sempre em vista
o alcance popular.6'
de Andrade, vindo este museu a se tornar um "padrão-ideal para os museus regio-
nais monográficos que [o Sphan] iria organizar" (Costa, 1991, p. 121). Lucio Costa entendia que, por meio dessa dupla construção - didática e físi
I
Os monumentos e os objetos móveis, ambos como semióforos, tornavam-se ca -, seriam reafirmadas a forte influência de um padrão artístico erudito europeu.
também ícones da ideia de cultura. Nesse sentido, a "coletividade" que a nação e a "docilidade" daqueles indígenas que ali experimentaram uma vida distinta. SUá
representava deveria ser protegida por meio da conservação daquilo que ela forte admiração à empreitada jesuítica fazia crer na insanidade destruidora de obra
possuísse. Os objetos recolhidos aos museus mudavam do status de propriedade tão cara a toda a humanidade, com a qual a nação seria obrigada a conviver €

particular, papéis velhos, móveis antiquados, artefatos, objetos de um tempo lembrar - antigos fatos seriam (re)lembrados como uma história própria e familiar.
passado, para o status de arte, ou seja, deixavam de ser vistos como vestígios passando-se a reconhecê-Ios como "antigos fratricídios":
de um "outro" particular, para serem incluídos como parte integrante da cultura Não encontramos, porém, nas peças estudadas, vestígios, senão muito vagos, de
tradicional da nação - monumentos da uma história ancestral. Dessa forma, influência indígena. [...] a maneira especial de "ornamentar" provém não só da falta de
proteger o patrimônio cultural como propriedade pertencente à coletividade do experiência dos "operários" [...] mas, também, da colaboração de escultores do centro
grupo-nação implicava fazer o inventário do que se possuía, a aquisição de tudo e do norte da Europa - que não foram poucos os que vieram juntamente com italianos
aquilo que se mostrasse autêntico, genuíno e representativo do ser nacional, e a e espanhóis, trazendo com eles aquele renascimento retardatário e impregnado ainda
de gosto gótico e até mesmo românico, que durante tanto tempo se manteve ali, lado
proteção, pelo isolamento dessa propriedade por regras especiais e pela cons-
a lado com o desenvolvimento da escola erudita e latina [...]. Este [o elemento nativo],
trução de museus nacionais, onde deveria ser exposta (Handler, 1988).
vencida a primeira fase de rebeldia, deixou-se moldar com docilidade pela vontade
O Museu das Missões60 seria instalado numa construção projetada para esse poderosa do jesuíta. Parece mesmo não ter havido da parte dos irmãos, cientes da
fim por Lucia Costa, reconstituindo uma das seções dos antigos alpendrados que superioridade de sua própria técnica, compreensão e simpatia pelo que as interpretações
formavam a praça do Povo de São Miguel. A obra foi executada pelo arquiteto Lucas dos indígenas pudessem apresentar de imprevisto e pessoal, por que desprezavam
como errado tudo o que fugisse às receitas do formulário europeu, estimulando, pelo
Meyerhofer, que prestou serviços ao Sphan, no Rio Grande do Sul. O acervo do mu-
contrário, as cópias servis - a que, aliás, eles se entregavam de bom grado e com
seu foi constituído, basicamente, de artefatos dos jesuítas nas Missões e de peças
muito "proveito" - e impondo, assim, junto com a nova crença e a nova moral, uma
artesanais produzidas pelos indígenas reduzidos nas missões, encontrados na região beleza já pronta."
e reunidos para proteção e exibição no museu. Deveria a dizimação dos indígenas
Nessa mesma trilha, aberta ainda em 1937, foram idealizados mais dois mu·
ser lembrada ou esquecida? E a tomada de posição da metrópole portuguesa ao
seus em Minas Gerais: o Museu da Inconfidência, de Ouro Preto, e o Museu de
expulsar os jesuítas, aqueles que, segundo uma série de bens arquitetônicos tom-
Ouro, de Sabará." Ambos seguiram a proposta de aproveitamento de prédios cuja
bados quis significar posteriormente, firmaram um dos pilares da nacionalidade?
história tinha vinculação com a temática definida para o museu. No primeiro caso,
Para Lucio Costa, a recuperação da "ambiência", com a consolidação das
sua sede foi a antiga Casa de Câmara e Cadeia de Ouro Preto, edifício doado à
ruínas de São Miguel, e a construção de um museu teriam uma função educativa:
União pelo estado de Minas Gerais, cujas obras de restauração e adaptação para
Aliás, para que os visitantes - geralmente pouco ou mal informados - "compreen- o novo uso foram feitas pelo arquiteto da Seção Técnica do Sphan Renato Soeiro.
dam" melhor a significação das ruínas, sintam que já houve vida dentro delas [...], Por seu turno, o mausoléu para abrigar, dentro do museu, os despojos dos lncon
parece-me indispensável a organização de uma série de esquemas e mapas, além da
fidentes - com os restos mortais de Tiradentes, trasladados para o Brasil - foi
planta de São Miguel, acompanhados de legendas que expliquem de maneira resumida,
concebido por José de Souza Reis, também arquiteto da Seção Técnica do Sphan,
porém clara e precisa, a história em verdade extraordinária das Missões, e como eram
as casas, a organização dos trabalhos nas estâncias e oficinas, as escolas de ler e em 1942 (Costa, 1991). Junto ao mausoléu foram reunidas peças relacionadas ae
de música, as festas e os lazeres - a vida social da comunidade, em suma. Com datas martírio do "herói nacional", assim como os autos da Devassa, a condenação de

[U1si[ 01 hRQUllElOl Oh MfMÓRlh h nouuo INlTlfUClONhlIlhOh


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Tiradentes, e os remanescentes da forca. O museu reuniu peças de Aleijadinho, recolhendo, classificando, conservando e expondo elementos característicos das
além de um acervo variado da arte barroca mineira. jazidas, formações e espécimes de diamantes existentes no Brasil. Por outro lado,
objetivavam a reunião de objetos considerados de valor histórico e artístico -
O Museu do Ouro teve como sede a antiga Casa da Intendência do Ouro, pre- ,
viamente restaurada pelo Sphan. Na proteção do patrimônio cultural como proprie- propriedade cultural da nação -, documentos comprovadores de uma história que
dade da nação, pretendia-se reunir em seu acervo testemunhos da cata, pesagem permanentemente se desejava construir, relativa ao desenvolvimento técnico e
e quintagem do ouro, e miniaturas reproduzindo a evolução dos antigos processos tecnológico do qual a nação era herdeira, advindos da fração portuguesa, consi-
extrativos do metal. O museu mantinha ainda uma biblioteca especializada. Valo- derada majoritária no processo de formação de uma herança material nacional:
rizava-se o empenho daquela heroica empreitada mineradora, cujos recursos ma- [...] [objetos] relacionados com a indústria daquela mineração em face dos aspectos
teriais primitivos de exploração colonial e escravista que caracterizaram os méto- principais do seu desenvolvimento, da sua técnica e da sua influência na economia e
dos da metrópole portuguesa - poder simbolicamente abrigado nesse imóvel - meio social do antigo Distrito Diamantino e de outras regiões do País. (Brasil, 1967,
p.65)
importava esquecer, ou, talvez, quem sabe, mesmo lembrar, mais uma vez, como
reafirmação do fratricídio que era necessário conceber para a construção de uma Sua sede seria no imóvel de propriedade da União, "já restaurado na sua fei-
história nacional. ção colonial pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional", segundo
Esses foram passos decisivos para a consagração do tempo recortado como o próprio texto da lei (ibid., p. 65).65
origem da nacionalidade e seus ícones, representados pela Inconfidência Mineira A rede burocrático-administrativa foi assim constituída, conseguindo reunir,
e por seus protagonistas, assim como por objetos expressivos do extrativismo do num curto espaço de tempo, agências e subagências, e criar seus dispositivos
ouro, do garimpo e da tradição artística do período, em Minas Gerais. Foram valo- legais. Mário de Andrade deixou seu legado, muito embora não conseguindo co-
rizadas as temáticas relativas ao período colonial, como mais um exemplo dos locar em prática suas teses fundamentais. Seus projetos para criação de museus
inúmeros investimentos feitos no sentido da consagração e do reconhecimento da ligados ao Span, como se viu, guardam longa distância do que foi concretizado
história contada pelo próprio Estado por meio da ação de sua agência, reafirmando pelo Sphan, cuja tônica recorrente - e quase uníssona - nada se aproximou da
as Minas Gerais do século XVIII como marco desse processo de fundação da multifacetada perspectiva cultural daquele intelectual que, não sem percalços no
nação. Além disso, na proposta de museus temáticos, esse investimento caracte- caminho, dedicou-se, ainda assim, tenazmente, como "funcionário". Seu projeto
rizou-se pela conjunção da concretização dessa história selecionada numa ma- totalizante de conhecimento e preservação da "cultura brasileira" esteve à margem
terialidade que a autenticava, por meio de objetos tanto arquitetônicos quanto do que efetivamente se constituiria no Sphan.
móveis. Destaca-se, nesse aspecto, o fato de que, nos três casos, a implantação Mário de Andrade prestou serviços ao Sphan ao retornar a São Paulo, em
dos museus envolveu obras de restauração, elou construção, feitas por arquitetos 1941. Dentre esses trabalhos, resultou o estudo biográfico Padre Jesuíno do
do Sphan - como dito, espaço de trabalho privilegiado para esta categoria profis- Monte Carmelo, lançado, após sua morte, na série Publicações do Sphan
sional - e reservadas a ele. A marca dessas obras revela o resgate de sua feição (Andrade, 1945). Em 1944, Mário de Andrade parecia estar arrematando a vida,
original, ponto crucial da afirmação das características "genuinamente" brasileiras pensando em todos os detalhes, quando, concluindo seu último trabalho para o
transpostas para o conceito de restauração arquitetônica. Sphan, retomava o primeiro deles, comprando o sítio de Santo Antônio, São
No segundo Governo Vargas foi criado o Museu do Diamaníe," em Diamantina, Roque, no estado de São Paulo, que conhecera em 1936, em suas viagens ao inte-
em Minas Gerais, subordinado à Dphan. Persistindo, assim, na temática mineira, rior do estado, e sobre o qual escrevera seu belo artigo no nº 1 da Revista do
as finalidades expressas para esse museu visavam, por um lado, o reconheci- Sphan, em 1937. Em carta a Rodrigo, comunicava a compra e a sua intenção de
mento de um "patrimônio natural da nação", por meio de suas "riquezas minerais", doá-Ia "ao Brasil", impondo como condição que a destinação do imóvel, após sua

[1m DI áRQUITETOI Oá 11IEIliÓRlá á PII0fECio INITIlUCIONHIZâOá Oill


morte, fosse para repouso de artistas brasileiros (Andrade, 1981, carta de 14 fev. engajados com a temática patrimonial e as redes então tecidas (capítulo 5)
1944).66 Considerando a "área técnico-administrativa" como um loeus de ação privilegiad,
Diferentemente também do que propunha Mário de Andrade, aos poucos, os para análise, nos capitulos 6 e 7 serão investigados, respectivamente, os proces
principais postos da estrutura técnico-administrativa do Sphan foram sendo sos de rotinização das práticas de conservação do patrimônio histórico e artste
ocupados, principalmente, por arquitetos e engenheiros. Na sua direção, um nacional e a constituição de um discurso de caráter técnico a partir das restaura
intelectual, advogado e profundo conhecedor daquilo que denominarou-se "história ções dos imóveis empreendidas pelo Sphan.
da arte tradicional" no Brasil, cuja competência maior foi, justamente, sua
capacidade de entrelaçar redes de relações em torno da "causa" do patrimônio. NOJA\

Até o momento, foram consideradas as noções historicamente construídas que Anteprojeto para criação do Span, de 1936 (Sphan, 1980a, p. 96).
embasaram as representações acerca da proteção do patrimônio histórico e O texto do decreto-lei nº 25/1937 encontra-se no anexo 4.
artisüco nacional, assim como a inserção dessa problemática no amplo processo
Parecer de Lucia Costa, de 1943, sobre a reconstrução da Igreja de São Pedra dos Clérigos,
de construção do Estado e de formação da nação. Foram consideradas, ainda, as
RJ, que teve seu tombamento cancelado para ser demolida em função da abertura da
redes de relações tecidas e os agentes e agências de poder que, constituindo a avenida Presidente Vargas (ACI-processo 17-T).
própria ossatura material do Estado, consolidaram, nas décadas de 1930 e 1940,
Esta modificação se deu por meio da lei nº 6.292, de 15 de dezembro de 1975 (Sphan,
as estratégias de construção do "patrimônio nacional", com base num eficiente
1980a).
aparato legal.
Nesse momento, a categoria profissional de arquiteto disputava com sanitaristas e enge-
Nos capítulos subsequentes, buscar-se-á analisar as práticas e procedimentos nheiros a legitimidade de atuar como urbanista, o que foi conquistado com a abertura do
engendrados cotidianamente, que se consolidaram, se reproduziram e se legitima- primeiro curso, denominado de Arquitetura e Urbanismo, em 1945. Isso será abordado no
ram, posteriormente, de forma naturalizada, embora comportando uma série de capítulo 4.
conflitos, posições em disputa, visões ou (di)visões do mundo social tensamente Caso semelhante a esse, ocorrido no Rio Grande do Sul, será considerado no capítulo 4.
em confronto. Sem dúvida, contudo, instituíram-se regras visando a racionalização
ACI-processo 99-T-38.
administrativa, na verdade, nunca plenamente alcançada, posto que uma outra
ordem de regras, determinada pelas relações pessoais, foi sempre poderosamente Parecer de Lucia Costa, de 1943 - Igreja de São Pedra dos Clérigos/RJ (ACI-processo
17-T).
determinante no funcionamento do Sphan, tal qual na administração pública federal
brasileira de uma forma geral. Embora não tenha sido possível quantificar esses mesmos dados para o total de tomba-
mentos realizados até o presente, pode-se afirmar terem sido mantidas as proporções
Com tais objetivos, serão analisados, a seguir, a partir das diferentes formas
semelhantes às daquele período, tendo sido extremamente reduzidos os cancelamentos
de registro dos discursos - a produção impressa, o exercício das práticas admi- realizados com relação às 1.040 inscrições de tombamento realizadas até 2008.
nistrativas e a arquitetura dos monumentos - os três loei de ação do Sphan, a
10 Dentre eles, destacam-se o destombamento da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em
fim de evidenciar as distinções entre o lugar da "escrita do patrimônio", e o lugar Porto Alegre/RS, a ser analisado no capítulo 6; e o da cidade de São João Marcos, no
da sua "materialização". Os loei de ação foram assim considerados: a "área téc- Rio de Janeiro, em função de uma represa da Light que inundaria a região. Para este último,
nico-administrativa"; o Conselho Consultivo do Sphan - ambos responsáveis pela ver Paula, 1994.
seleção e classificação de bens para inclusão na categoria de patrimônio histórico 11 Foram também, no mesmo período, arquivados 24 processos abertos pelo Sphan, cujas
e artístico nacional, a serem analisados no capítulo 4; e as linhas editoriais do justificativas variaram entre ausência de "excepcional idade" (seis casos); julgados com valor,
Sphan, cujas publicações ampliaram significativamente o universo de agentes mas a demora para aplicação da lei fez com que se perdessem suas características, tendo

lJlli 01 ARQUllElOI DA ffiEffiÔRIA A PRomio INIlI1UCIONALlZADA ~


sido demolidos ou arruinados, ou, ainda, irremediavelmente reformados (oito casos); dois Tais discursos 'ocultos' [...] assumem papel instrumental na produção de um dado objeto
casos foram impugnados pelos proprietários e as razões acatadas pelo Conselho Consultivo discursivo e constituem, por isso mesmo, um lugar privilegiado em que transparecem alguns
do Sphan; e a um último não foi dado prosseguimento porque o proponente - um particu- dos mecanismos ideológicos em ação na produção" (1980, p. 80-81).
lar - desistiu do pedido. 18 Ver entrevista de Lucio Costa reafirmando não terem consultado, então, as experiências
" Livre-docente em Direito Administrativo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro internacionais (Costa, 1992). Por outro lado, Capanema, na "Exposição de motivos" para
(Uerj), onde é professora da Faculdade de Direito. Participou da reorganização do Iphan, encaminhar o texto do decreto-lei ao presidente Vargas, comenta ter sido consultada a
no final da década de 1970, e chefiou a assessoria jurídica do órgão na década de 1980. legislação internacional para o assunto (Sphan, 1980a).
Seu livro (Castro, 1991), resultado de sua monografia de livre-docência, é uma análise 19 Nesse mesmo sentido, as legislações visando a criação de inspetorias estaduais de
jurídica verticalizada do decreto-lei nº 25/1937. monumentos nacionais ocorreram na Bahia e em Pernambuco: no governo da Bahia, de
13 Carlos Frederico Marés de Souza Filho foi presidente do Instituto Socioambiental do Paraná Francisco Marques de Góis Calmon, foi criada a Inspetoria Estadual de Monumentos
e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná. Seu livro, intitulado Bens Nacionais, por meio das leis estaduais nº 2.031 e 2.032, de 8 de agosto de 1927,
culturais e proteção jurídica (1997), é uma edição revista de sua dissertação de mestrado regulamentadas pelo decreto nº 5.339, de 6 de dezembro de 1927; em Pernambuco, no
em Direito Público, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), defendida em 1989, em Governo de Estácio Coimbra, a lei nº 1.918, de 24 de agosto de 1928, autorizava a criação
que apresenta, de forma bastante acessível ao público leigo, um panorama da questão de uma Inspetoria Estadual de Monumentos Nacionais e de um museu (Sphan, 1980a,
patrimonial em termos jurídicos, no Brasil, referenciando as mesmas ações em nível inter- p. 15).
nacional. Foi reeditado em 1999, em Porto Alegre, e a terceira edição saiu em 2005, em 20 Sobre a evolução desse aspecto como matéria constitucional, ver Souza Filho, 1997.
Curitiba. Apresenta as progressivas mudanças ocorridas, suas motivações históricas e a
ampliação da ação de proteção patrimonial nos níveis estaduais e municipais. Em sua
21 Setenta e cinco por cento dos tombamentos do período foram feitos nos estados da Bahia
trajetória profissional, realizou trabalhos na prefeitura de Porto Alegre, além de ter uma ativa (28%). Rio de Janeiro (22%), Minas Gerais (15%), cujas cidades históricas contam unita-
participação junto à questão indígena; tem buscado articular a temática indígena à riamente nesse percentual, isto é, seis tombamentos, mas, na verdade, foram centenas de
socioambiental e à patrimonial, dando apoio a ações populares, ONGs etc. imóveis tombados em conjunto, e Pernambuco (10%). Todos os outros estados juntos so-
mam apenas 25% do total, sendo que nenhum deles ultrapassa a taxa de 5% (o assunto
14 Como, por exemplo, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), a Biblioteca será tratado no capítulo 4).
Nacional, o Museu Nacional, Museu Nacional de Belas Artes, cujas origens remontam ao
século XIX, e o próprio Museu Histórico Nacional, criado em 1922. 22 Carta do cônego secretário do Arcebispado, em nome do arcebispo primaz, a Rodrigo Meio
Franco de Andrade, 24 novo 1944. Convento de Santo Antônio (ou Igreja e Convento de
15 ''Tutela - [...] encargo ou autoridade que se confere a alguém, por lei ou por testamento, Paraguassu). Cachoeira/BA (ACI-SO 7/35).
para administrar os bens e dirigir e proteger a pessoa de um menor que se acha fora do
pátrio poder, bem como para representá-Io ou assisti-Ia nos atos da vida civil" (Holanda, 23 Ver os seguintes artigos publicados na década de 1940, na Revista do Sphan: Cardoso,
s.d., p. 1.421). Dentro do vocabulário jurídico, "tutela administrativa - conjunto de poderes 1940; Leão Filho, 1945 e 1946.
expressos em lei, mas limitados, que o Estado confere aos órgãos centrais das pessoas 24 Os já citados: de Luiz Cedro, Pernambuco; de Augusto de Lima Júnior, Minas Gerais; e
jurídicas públicas maiores a fim de que exerçam ininterrupta vigilância jurídica sobre os atos de José Wanderley de Araújo Pinho, Bahia.
editados pelos órgãos ou pelos agentes das pessoas jurídicas administrativas descen-
25 Quem sugeriu a utilização do termo tombamento foi Mário de Andrade, em seu anteprojeto
tralizadas, territoriais ou institucionais, para garantir-lhe a legalidade e a conveniência,
incorporado no decreto-lei, distinguindo-se da terminologia aplicada na legislação francesa.
assegurando a consecução dos interesses coletivos" (Cretella Jr., 1948).
Os princípios de ambos, contudo, são bastante semelhantes.
16 O anteprojeto e o decreto-lei nº 25/1937 encontram-se reproduzidos em Sphan, 1980a,
26 Ver também Sphan, 1980a, p. 82 e 74, projeto de lei de Wanderley Pinho (art. 12º). e esboço
p. 90-106 e 111-119, respectivamente.
de anteprojeto de Jair Lins (art. 7º). respectivamente.
17 Segundo Veron: 'Trata-se, no processo de produção de um certo discurso, do papel de
ri Os museus, há tempos, possuem um Livro de Tombo, no qual catalogam as peças de seu
outros discursos relativamente autônomos que, embora funcionando como momentos ou
acervo, e que serve também de registro e controle. Tal livro, nos museus, no entanto, nada
etapas da produção, não aparecem na superfície do discurso 'produzido' ou 'terminado'. [...]

I 18S] 01 ARQUllElOI DA ~{~ÓRIA A PROrE(io INIIIIUCIONAlI1ADA c:IEJ


tem a ver com a aplicação do instituto do tombamento, criado posteriormente. Ainda assim, (Sphan, 1980a, p. 90-106; 111-119). As expressões citadas assemelham-se às do projeto
vale ressaltar que a ideia de criação de Livros de Tombo, concretizada no decreto-lei de lei de Wandeiley Pinho, citado anteriormente.
nº 25/1937, com certeza adveio deste uso pregresso, mas tem, desde então, objetivos e
3B Com pequenas diferenças em relação ao anteprojeto, os livros são assim criados: 1. Livro
consequências diversas.
do Tombo Histórico; 2. Livro do Tombo das Belas-Artes; 3. Livro do Tombo Arqueológico,
26 Wanderley Pinho era proprietário de uma fazenda seiscentista no Recôncavo baiano - hoje Etnográfico e Paisaqísüco., 4. Livro do Tombo das Artes Aplicadas. A classificação do
sede do Museu do Recôncavo - tombada e restaurada pelo Sphan na década de 1940 (Casa patrimônio histórico e artístico nacional a partir da inscrição em cada um deles será analisada
e Capela do Engenho da Freguesia, Candeias/BA. ACI-processo 322-T-43). Pinho era no capítulo 4.
também autor de uma História de um Engenho do Recôncavo, citada por Rodrigo Meio
39 Este aspecto da lei esteve previsto em diferentes projetos da década de 1920, conforme
Franco de Andrade em seu artigo "Capelas rurais", publicado em março de 1955 na revista
tratado anteriormente. No projeto de lei de Wanderley Pinho, contudo, é curioso notar que
Módulo (Andrade, 1986b, p. 135). O caso da restauração desse imóvel será tratado no
a ordem de preferência se estabelecia inversamente, isto é, município, estado, e União.
capítulo 6.
40 Até hoje sem a devida regulamentação, tais multas nunca foram cobradas.
29 Seu trabalho serviria de inspiração ao que foi realizado, posteriormente, pelo Instituto
Nacional do Folclore. Para o assunto, ver Vilhena, 1997. 41
Esse aspecto será tratado no capítulo 6.

30 Carta a Rodrigo Meio Franco de Andrade, 29 jul. 1936. 42 Conforme será visto no capítulo 4.

31 Carta a Rodrigo Meio Franco de Andrade, 9 maio 1936 (ACI - Pasta de personalidades - 43 Esses aspectos não se concretizaram, como também não foram regulamentados, não
Heloísa Alberto Torres). havendo até hoje procedimentos definidos para sua execução. Apesar disso, o Sphan atua,
legitimamente, até hoje, no controle de saída de obras de arte do País.
32 Carta de 29 jul. 1936.
44 Em 1965, a lei nº 4.845 ampliou esse controle, proibindo a saída para o exterior não somente
33 Até hoje, não há uma determinação a respeito do assunto. Seus profissionais são denomi-
de obras tombadas, mas de obras de arte e ofícios "tradicionais" produzidos no País, até
nados 'técnlcos em preservação cultural".
o fim do período monárquico, assim como as oriundas de Portugal e "incorporadas ao meio
34
Esse aspecto fica bastante marcado por se dar dentro do regime autoritário. O Executivo nacional durante os regimes colonial e imperial", ou "produzidas no estrangeiro que represen-
era responsável por todas as proposições, pois o Congresso encontrava-se fechado, tendo tem personalidades brasileiras ou relacionadas com a história do Brasil, bem como paisagens
sido bastante recorrente, no Estado Novo, a implantação de leis, criação de agências etc., e costumes do Brasil", anteriormente restrita aos bens tombados, sem prévia autorização,
sem uma definição clara de onde partiram as iniciativas para sua concretização. atribuição incorporada pelo Conselho Consultivo (Brasil, 1967).
35 Como se pode ver, diferentemente da proposição de Mário de Andrade, a composição do 45 Esse foi, sem dúvida, o espaço do clientelismo, ainda que as verbas do Sphan tenham sido
Conselho Consultivo não ficou determinada, a não ser quanto à sua constituição por dez frequentemente escassas; tratar-se-á do assunto no capítulo 6.
membros indicados pelo presidente da República.
46 Os trabalhos devem ser realizados pelo proprietário, "conduzidos pelo arquiteto dos Edifícios
36 Segundo o próprio Rodrigo Meio Franco de Andrade, seu projeto de lei foi aprovado pela da França ou por um arquiteto de sua escolha" (Direction du Patrimoine, 1984, p. 8; minha
Câmara sem emendas, votado pelo Senado Federal, incorporando algumas modificações, tradução). Como se sabe, o turismo é uma das principais fontes de recurso francesas. O
mas não retornou à Câmara, devido à dissolução do Congresso Nacional, em 10 de investimento na área de patrimônio, desta forma, tem atualmente um sentido econômico
novembro de 1937. Em 30 de novembro foi promulgado o decreto-lei nº 25/1937, organizando nada desprezível naquele país.
a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional, que manteve a base do projeto de
lei anteriormente formulado (Andrade, 1987). 47 A lei nº 3.924, também conhecida como a "lei dos sambaquis", que divide as escavações
segundo quem as realiza e em que propriedade é realizada. As terras a serem escavadas
37 As restrições que o decreto-lei nº 25/1937 apresentou a essa definição ampla referiram-se podem ser particulares ou públicas, e a execução pode ser por particulares ou por instituições
exclusivamente a questões diplomáticas, referentes à não interferência na propriedade cientificas do poder público (Souza Filho, 1997, p. 54). Trata-se, ainda hoje, da legislação
estrangeira, e neste aspecto assemelhava-se ao anteprojeto. Ambos incluíram em seus fundamental para o assunto.
textos itens relativos ao que fica excluído, apenas no sentido de explicitar esta questão

~ DI ARQUITETOI DA IHiIIÓRIA A PROfECio INIIIIUCIONAlIZADA CTIIJ


48 A "lei dos sambaquis" evidenciava que o patrimônio arqueológico encontrável no Brasil não 57 Formados pelo Curso de Conservadores de Museus do Museu Histórico Nacional.
era do tipo da arqueologia clássica, europeia e, talvez, também por esse motivo, não fosse •
58 Museóloga aposentada do Iphan, formou-se no Curso de Conservadores de Museus, (
considerado pertinente o seu tombamento, pois não representava bens materiais de valor
MHN, tendo ingressado no órgão como funcionária de carreira em 1952.
histórico e artístico 'tradicionais". Apesar de o assunto não estar diretamente relacionado
ao objeto ora em pesquisa, parece interessante demarcar as proporções atingidas pelo órgão 59 Relatório de Lucio Costa, datado de 20/12/1937, a respeito de sua viagem à região d(
de preservação cultural. Por outro lado, parece que o Sphan nunca teve autonomia dentro Sete Povos das Missões, no Rio Grande do Sul, primeiro trabalho realizado pelo srquite
do Estado para aplicar a referida lei em situações em que interesses econômicos de peso para o Sphan, por solicitação de Rodrigo Meio Franco de Andrade (ACI - Pasta (
estiveram em jogo, garantindo minimamente seu papel de cadastramento das jazidas e personalidades - Lucio Costa).
autorização de pesquisas.
60 Criado em 1940, pelo decreto-lei nº 2.077, com a finalidade de reunir e conservar as obre
49 Pelo decreto-lei nº 8.534, de 4 de janeiro de 1946. A estrutura hierarquizada em que se de arte ou de valor histórico relacionadas com os Sete Povos das Missões Orientais (Bras
realizariam as finalidades definidas nesse decreto-lei, regulamentando a organização e as 1967). O tombamento das ruínas da Igreja de São Miguel, em Santo Ângelo, no Rio Granc
competências de cada área dentro do órgão, foi dada pelo decreto nº 20.303, de 10 de janeiro do Sul, data de 1938 (ACI-processo 141-T-38). Em 5 de dezembro de 1983, as ruínas foral
de 1946 (Brasil, 1967, p. 35-57). inscritas na Lista do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural da Unesco.

50 Este regimento funcionou até a década de 1970, quando o órgão passou a instituto (Iphan). 6\
Relatório de Lucio Costa, 20 dez. 1937 (ACI - Pasta de personalidades - Lucio Costa
Nessa ocasião, não foi feito novo regimento para ele.
62 Relatório de Lucio Costa, 20 dez. 1937 (ACI - Pasta de personalidades - Lucio Costa
51 Os assuntos de interesse do Distrito Federal e dos outros estados e territórios não incluídos
63 Respectivamente, pelo decreto-lei nº 965, de 1938, e pelo decreto-lei nº 748, de 1945 (Bras
nos Distritos seriam tratados diretamente pela "área central" do órgão.
1967).
52 Ver quadro 4.1 e anexo 2.
64 Pela lei nº 2.200, de 12 de abril de 1954 (Brasil, 1967).
53 Depoimento de Lucio Costa, colhido em entrevista realizada por Márcia Chuva, Lia Motla
6S Outros dois museus foram criados no Governo Juscelino Kubitschek, em 1957, visand
e Cícero Almeida, em 4 de julho de 1997, em sua residência no Leblon, Rio de Janeiro
outros enfoques do "nacional". O Museu Nacional de Imigração e Colonização, em Joinvillr
(RJ).
SC, criado por meio da lei nº 3.188, de 2 de julho de 1957. Este museu simbolizava a polític
54
Essa produção de moldagens não se tornou prática rotineira, nem um acervo foi constituído, desenvolvimentista de JK, e teve como finalidade recolher todos os objetos que recordassa
aparecendo estranhamente no Regimento Interno, tipo de documento normativo que tratou a imigração no Sul do país e documentos e publicações afins. Para sua sede, autorizoi
das ações mais diretamente ligadas às ações substanciais do órgão. Encontram-se, hoje, se a aquisição de edifício pertencente a herdeiros do príncipe de Joinville, conhecido com
exemplares dispersos, como o profeta de Aleijadinho existente no segundo andar do Palácio Palácio do Príncipe. E o Museu da Abolição, em Recife/PE, criado pela lei nº 3.357, d
Gustavo Capanema (antigo prédio do MES), Rio de Janeiro, onde, desde sua inauguração, 22 de dezembro de 1957, que determinava a aquisição de tudo quanto se relacionasse ac
encontra-se a sede do Sphan, seu Arquivo Central e sua Biblioteca Noronha Santos. "leitos memoráveis" das leis imperiais relacionadas ao processo da Abolição da Escravatur
(Brasil, 1967).
55 Conforme se pode verificar nas propostas orçamentárias para o período (Ministério da
Fazenda, 1936, 1938, 1939, 1940a, 1940b, 1941a, 1941b, 1942, 1944, 1945b). 66 No capítulo 5, ao se tratar das edições do Sphan, esses estudos de Mário de Andrade serã
considerados.
56 A criação do Programa Nacional de Preservação da Documentação Histórica (Pró-Do-
cumento), em 1984, vinculado à Fundação Nacional Pró-Memória, foi uma iniciativa nesse
sentido, que teve o mérito de especializar profissionais de história na área de documentação,
além de organizar uma equipe multidisciplinar para diagnóstico de acervos documentais.
Contudo, foi extinto em 1988, tendo sua equipe e proposições sido dispersamente aproveita-
dos em diferentes agências estatizadas voltadas para a problemática dos acervos documentais.

lJR] OS ARQUIlElOS OA ~E~ÓRIA A PROfECio INSlIlUCIONAlIlADA 1193


'I

CAPíTULO 4
PRATICA) DE TOMBAMENTO: A INVENCÃO DO
PMRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTíSTICO NACIONAl

o monumento apresenta características arquitetônicas de


interesse,mas sou de:parecer que se restrinjaseu tombamento
(TernboHistórico). '.
Lucia Costa 1

No capítulo anterior, o decreto-lei nQ 2511937 foi analisado detalhadamente, à


luz de outros textos que mediaram sua confecção. Uma característica destacada
foi a falta de definição, no texto legal, do perfil do profissional talhado para a tarefa
de proteção do patrimônio histórico e artístico nacional, embora esta definição
constasse dos textos analisados que inspiraram o decreto. Concluiu-se, então, que
esse perfil foi sendo delineado a partir da efetivação das práticas de proteção pelo
Sphan.

Por outro lado, em pouco tempo essa indefinição foi diluída, com o ingresso
maciço de arquitetos para os quadros do Sphan, concentrados' na sua Seção
Técnica, e também na direção das suas representações regionais, chegando-se
ao final da década de 1940 com uma definição bastante clara a esse respeito.
Considerando que as formas de intervenção dos agentes na realidade social são
delimitadas, em grande medida, a partir do seu perfil profissional, pretende-se neste
capítulo analisar, inicialmente, a formação desse profissional - o arquiteto - que
toma as rédeas da proteção ao patrimônio histórico e artístico nacional. É de
especial relevância a relação entre a trajetória do Sphan e a luta travada pelos
rI arquitetos, naquele momento, para constituir uma profissão autônoma em relação

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,: à engenharia e às belas-artes," levando à constituição e consolidação da profissão Rodrigo Meio Franco de Andrade, construindo os meios e as técnicas para se
de arquiteto no Brasil. A afirmação do Sphan, nas décadas de 1930 e 1940, consti- proceder à seleção e à classificação de objetos a serem incluídos na categoria
tuiu mercado de trabalho privilegiado para a profissão que se autonomizava, con- de patrimônio histórico e artístico nacional - os "bens culturais" representativos
forme preconizava o próprio Lucio Costa, ao falar que conhecer a "nossa casa" da nação.
é ''Trabalho a ser feito, senão pelo homem do ofício, ao menos com a assistência Nesse sentido, responsabilizaram-se pela conservação da "materialidade" de
dele, a fim de garantir exatidão técnica e objetividade, sem o que perderia a uma história, objetivada nos bens arquitetônlcos." Conforme Bourdieu,
própria razão de ser" (1937, p. 36).
A história no sentido de tes gestae constitui a história feita coisa, a qual é levada,
As lutas de representação que se configuravam no bojo das disputas .também "atuada", reativada pela história feita corpo e que não só alua como traz de volta aquilo
travadas para afirmação da "nova arquitetura" acabaram por marcar iridelevel- que a leva. [...]
mente a formação do arquiteto no Brasil, como também as práticas engendradas A história objetivada, instituída, só se transforma em ação histórica, isto é, em
no Sphan. Conforme ·se verá, essa formação se constituiria na única de caráter história "atuada" e atuante, se for assumida por agentes cuja história a isso os predispõe
e que, pelos seus investimentos anteriores, são dados a interessar-se pelo seu funcio-
técnico especializado com atuação na agência estatizada, embora um conjunto de
namento e dotados de aptidões necessárias para o pôr a funcionar. (1989, p. 82-83)
intelectuais tenha sereunido no interior do Sphan.
Pretende-se também, neste capítulo, analisar os dois loci de ação em que fo- O quadro 4.1 retrata a presença maciça dessa formação profissional nos pos-

ram instituídos os tombamentos do patrimônio histórico e artístico nacional dentro tos de direção do Sphan, junto às regionais, ou mesmo na sua Seção Técnica, hie-

do Sphan. O primeiro deles, majoritariamente ocupado por arquitetos, foi aqui rarquicamente superior àquelas. Observa-se, a partir do quadro, que apenas num

considerado como a "área técnico-administrativa" do Sphan, constituída pelas primeiro e breve momento os cargos nas representações regionais foram ocupa-
representações regionais do Sphan, e pela sede (composta pela Seção Técnica dos por intelectuais sem formação especializada. Logo em seguida, contudo, a
e pelo Gabinete do Diretor). O segundo locus aqui analisado é o Conselho Consul- ocupação desses postos foi feita, em substituição, por arquitetos ou ençenheiros.'
tivo do Sphan, que complementava e intervinha nas decisões do primeiro, quando A distinção entre a formação de engenheiro e de arquiteto, evidenciada no
se instauravam conflitos de interesses entre as determinações de tombamento e quadro 4.1, se verificou especialmente por não existir, na época, curso autônomo
os proprietários dos imóveis. A partir das relações estabelecidas entre esses se- de Arquitetura, como se verá a seguir, havendo duas possibilidades de formação:
tores, com base em procedimentos determinados no próprio decreto-lei nQ 25/1937 pela Escola de Belas Artes, no Rio de Janeiro, que formava artistas, escultores
e calcados numa forte hierarquia, esses dois loci de ação constituíram a autori- e arquitetos, ou pelas Escolas Politécnicas de Engenharia, que formavam os
dadelegal para a aplicação do instituto do tombamento e definiram, por sua vez, engenheiros.
a feição da nação brasileira, a partir de seu "patrimônio nacional". Nesses primeiros anos, os arquitetos concentraram-se na Seção Técnica do
Arquitetos ligados à vertente modernista ocuparam, desde cedo, postos no Sphan, na sede do órgão, localizada na Capital Federal, com poder de coordena-
Sphan, onde teceram uma rede de relações pessoais na distribuição de projetos ção sobre os trabalhos das representações regionais, onde se encontravam, basi-
e obras de arquitetura e restauração, explorando o conteúdo da aparente contra- camente, os engenheiros, já que não existiam escolas de Belas-Artes no âmbito
dição verificada entre seu papel de "revolucionários de novas formas artísticas estadual. Posteriormente, com a proliferação das escolas de Arquitetura, a partir
e os árbitros e zeladores do passado cultural", conforme se referiu Cavalcanti de 1945, os novos quadros do Sphan foram sendo preenchidos especialmente por
(1993). Isso levou à constituição, ali, de um campo próprio de atuação para a car- arquitetos, consagrando uma hegemonia desse profissional dentro do órgão, sem
reira. Eles efetivamente tiveram peso significativo no processo de rotinização das que se descaracterizasse, no entanto, a hierarquia entre Seção Técnica e regionais.
práticas de preservação cultural no Brasil, sempre sob a orientação e direção de

LiliJ OS ARQUITETOS DA MEMÓRIA PRÁTICAS DE TOMBAMENTO


LIill
~r
I,
II
Ir QUADRO 4.1. 5PHAN - fUNCIONÁRIOS DA SECÃO HCNICA E REPRElENIANIEI REGIONAIS junto de disposições. Dentre os escritores, apenas um representante solitário da
I:
NOME ATIVIDADE PERíoDO FUNÇÃO categoria, Godofredo Filho, permaneceu por longos anos à frente dos trabalhos
PROFISSIONAL do Sphan na Bahia. Os outros escritores foram eventualmente agregados à insti-
Augusto Meyer Escritor 1937 a 1939 Representante regional no tuição a partir de relações pessoais. Dessa forma, Mário de Andrade retomou à re-
~ Rio Grande do Sul gional de São Paulo somente em 1941, como auxiliar técnico de Luiz Saia. Augusto
Lucas Mayerhofer Arquiteto 1939 a 1940 Representante regional no Meyer, amigo de Mário, ocupou o cargo de assistente técnico na regional do Sul,
Rio Grande do Sul
e fora indicado para o Sphan pelo amigo, em carta a Rodrigo Meio Franco de
Godofredo Filho Escritor 1938 a 1970 Representante regional na Andrade que continha um "pedido singelamente imoral";
Bahia
[...] o Meyer tem um desejo infeliz de conhecer Congonhas e Ouro Preto. [...J Você
Gilberto Freyre Sociólogo 1938 a 1939 Representante regional em
não podia dar um jeitinho pelo Sphan e mandá-Iocoma mulher e filhos a essas mara-
Pernambuco
vilhas? (Pacheco, 1996, p. 236)
Ayrton Carvalho Engenheiro a partir de 1938 Representante regional em
Pernambuco Augusto Meyer, conforme dito anteriormente, exerceu o posto por curto espaço
Epaminondas de Macedo Engenheiro 1936 a 1938 Representante regional em de tempo, pois logo transferiu-se para a direção do INL, o que acabou por gerar cons-
Minas Gerais trangimentos junto a seu amigo Mário de Andrade. Este último, após ter sido desti-
Salomão de Vasconcelos Historiador 1938 a 1945 Representante regional em tuído da Secretaria de Cultura de São Paulo, em 1938, esperava que Capanema
Minas Gerais
o acolhesse, dando-lhe a direção da Enciclopédia Brasileira, ligada ao INL. Mário de
Sitvio de Vasconcelos Arquiteto a partir de 1945 Representante regional em
Andrade, contudo, não teve o posto concedido, sentiu-se traído pelos dois amigos _
Minas Gerais
Augusto Meyer, por ter indicado outro nome, e Capanema, por tê-Io aceito.6
Mário de Andrade Escritor 1937 a 1938 Representante regional em
1941 a 1945 São Paulo. Funcionário do No contexto da década de 1930 e da constituição da profissão de arquiteto,
Sphan em São Paulo a figura de Lucio Costa' foi decisiva. Ele reuniu, a um só tempo, os papéis de
Luiz Saia Engenheiro a partir de 1939 Representante regional em principal mentor do modernismo em arquitetura no Brasil, de formalizador das
São Paulo bases conceituais que caracterizariam a profissão do arquiteto, quando esteve à
José de Souza Reis Arquiteto a partir de 1937 Seção Técnica frente da Escola de Belas Artes (1930-1931) e de formulador das posturas e con-
, ,
Renato Soeiro Arquiteto a partir de 1937 Seção Técnica cepções do Sphan, como profissional de carreira desde 1938.
Alcides da Rocha Miranda Arquiteto a partir de 1940 Seção Técnica

Paulo Thedim Barreto Arquiteto a partir de 1940 Seção Técnica A PROfllSIONAlIZACÃO DO ARQUIlElO: 01 "CONIIRUIOREI" DA NACÃO
Edgar Jacinto Arquiteto a partir de 1938 Seção Técnica
O Relatório sobre o Ensino de Arquitetura no Brasil,a de 1974, referia-se a um
Lucio Costa Arquiteto a partir de 1938 Seção Técnica
ofício apresentado pelo Instituto Politécnico Brasileiro ao Governo Imperial que
Fonte: Pastas de personalidades, Arquivo Central do Iphan." denunciava a disparidade dos cursos na Escola Politécnica e na Academia Impe-
rial de Belas Artes, solicitando
Excetuando-se os arquitetos e/ou engenheiros, os profissionais que ocuparam
[...] um maior desenvolvimento.à parte artística do curso de Arquitetura, a fim de se
cargos no Sphan não permaneceram por muito tempo em seus postos, e sua for-
criar, nesse estabelecimento,um título especial de arquiteto, independente do de
mação não configurava especificidades próprias. Eles foram se formando dentro
engenheiro civil, conservando-sena Academia de Belas Artes o curso de artistas
do Sphan, que, ao criar uma prática, estruturava uma 'tormação", ou seja, um con- desenhistas. (Abea, 1977, p. 51)

l!ill 01 ARQUIIETOI DA MEMÓRIA PRÁTICAI DE TOMBAMENTO


Liill
A Escola Politécnica demonstrava uma certa preocupação com a possibilidade o exame das realidades profundas do fenômeno arquitetônicocontemporâneoirá
nos mostrar, mais uma vez, que uma página foi virada, que se trata de amanhã, não
t de se promover a formação, fora de seu espaço acadêmico, de profissionais capa-
de ontem- não de uma escolailustre, encantadora,ou fácil, mas de exprimirpela arte
citados a construir. Pretendia, então, tomar para si o ensino da arquitetura e evitar
a conquista épica dos novos tempos [...1. (Le Corbusier, [19361,1984, p. 56).
com isso uma disputa, em, termos de mercado, com o artista, buscando valorizar
a "competência técnica", para o trabalho específico da construção civil. Outras disputas travadas por engenheiros e sanitaristas - e, posteriormente,
também pelos arquitetos -, em busca do controle legítimo do mercado de trabalho'
Propunha, assim, ampliar seu próprio curso, introduzindo justamente o que mais
que vinha se constituindo nas políticas públicas com a invenção do urbanismo -
o distinguia da formação de) arquiteto em Belas-Artes, isto é, sua parte artística.
que também se constituía naquele momento como uma nova área de conhecimento
Foram então estabelecidos no~os moldes para o curso de engenheiro-arquiteto,
e de trabalho -, marcaram aquele momento. Do mesmo modo como se processou
a fim de, por um lado, adequar-se às características próprias da arquitetura, e,
em todo o mundo ocidental, também no Brasil os arquitetos conquistaram essa
por outro, restringir a formação, na Academia de Belas Artes, a "artistas desenhis-
nova fatia do mercado, tornando-se profissionais hegemônicos no setor. Nessa
tas". Configurava-se, então, uma tentativa de distinção, de controle do espaço e
disputa, conquistaram inclusive o título de "urbanista" em sua formação - a maio-
do mercado de trabalho, para o qual a Escola Politécnica pretendeu desqualificar
ria dos cursos de formação de arquitetos, a partir de 1945, recebeu a denominação
o profissional formado pela de Belas Artes, caracterizando-o apenas como um
de "Arquitetura e Urbanismo" (Silva, 1995).
"artista".
Conforme foi tratado no capítulo 2, a partir da década de 1920, começaram a
Com a República, a Academia foi transformada em Escola de Belas Artes (EBA),
ser introduzidas no Brasil as discussões a respeito de uma arquitetura que se
separando-se dela o Conservatório de Música. Na década de 1920, iniciou-se a
adaptasse à realidade dos novos tempos, quando o arquiteto russo Gregori
criação de entidades representativas, visando a organização da categoria. Segun-
Warchavchik (1971) publicou, em São Paulo, o Manifesto acerca ria arquitetura
do Koatz (1996), o Instituto Brasileiro de Arquitetura, atualmente Instituto dos Ar-
moderna (anexo 3). O texto apresentava as bases dos embates que vinham sendo
quitetos do Brasil, foi criado em 26 de janeiro de 1921, na sala de História e Teoria
travados, especialmente na Europa, naquele momento. Em seu Manifesto, o arqui-
do Curso de Arquitetura da EBA.
teto demarcava os pontos fundamentais defendidos pela arquitetura moderna:
A criação da Faculdade Nacional de Arquitetura dar-se-ia em 1945, após a
utilização de materiais e tecnologias próprios do seu tempo; valorização do aspec-
consolidação das diferentes posições, que se encontravam em disputa desde a
to funcional da construção; raciona/idade na utilização dos espaços; harmonia de
década de 1920, com a demarcação das "peculiaridades" do arquiteto, marcada-
formas e proporções a serem aprendidas nos clássicos; ausência de estilo, em suma,
mente entre os anos 1930 e 1945. Como pontos fundamentais desse processo,
contemporaneidade.
destacaram-se: a disputa profissional no mercado da construção civil, que era, em
Nesse manifesto, Warchavchik demonstrava, assim, seu profundo desgosto
geral, controlado pelos mestres-de-obras, os quais engenheiros e arquitetos bus-
com o papel desempenhado pelos arquitetos, presos a velhos estilos, atrapalhando
caram desqualificar pela argumentação da "competência técnica"; e a introdução
o conforto proporcionado pelas novas tecnologias, nas quais os engenheiros eram
de novas tecnologias na construção civil, com destaque para o concreto armado,
mestres:
o que contribuiu ainda mais para ampliar as diferenças entre o profissional diplo-
mado e o mestre-de-obras. [ ... 1 o esqueleto de um tal edifício poderia ser um monumento característico da
arquiteturamoderna,comoo sãotambém pontes de cimentoarmadoe outrostrabalhos,
A utilização das tecnologias de ponta, trazidas pela Revoluç~o Industrial como
puramente construtivos, do mesmo material. E esses edifícios, uma vez acabados,
forma mais apropriada para inserção nos "novos tempos", foi um dos princípios
seriam realmente monumentosde arte da nossa época, se o trabalho do engenheiro
básicos adotados pelos arquitetos da vertente modernista, que, no Brasil, tiveram construtor não se substituísse em seguida pelo do arquitetodecorador. É aí que, em
como principal mentor Le Corbusier: nome da ARTE, começa a ser sacrificada a arte. C.,: arquiteto,educadono espírito das

l1QQJ 05 ARQUITEl05 DA MEhlÓRIA PRÁIICA5 DE lOM8AhlEHIO lli.!J


,
tradiçõesclássicas,não'compreendendoque o edifício é um organismoconstrutivocuja engenheiro-geógrafo ou geógrafo, do agrimensor e do engenheiro-agrônomo ou
fachadaé sua cara, prega uma fachada postiça,imitaçãode algumvelhoestilo,e chega agrônomo.
muitas vezes a sacrificar as nossas comodidadespor uma beleza ilusória,
As atribuições definidas para o "engenheiro civil" e para o "arquiteto ou en-
Na década de 1930, LuCio Costa tornou-se um dos personagens fundamentais genheiro-arquiteto" tiveram pontos em comum, sugerindo que as atribuições do
no processo de profissionalização do arquiteto, no que se referia à formulação de engenheiro passavam a ser partilhadas pelo arquiteto. As distinções, entretanto,
uma fala própria à categoria. Já era então um arquiteto de renome, tendo já se faziam sentir, nitidamente, pelo aspecto técnico do perfil do engenheiro civil:
conquistado prêmios em concursos nacionais e internacionais. Por indicação de trabalhos topográficos e geodésicos; estudo, projeto, direção, fiscalização e cons-
t Rodrigo Meio Franco de Andrade, na ocasião chefe de gabinete do ministro da trução de edifícios, com todas as suas obras complementares, assim como das
Educação e Saúde, Francisco Campos, Lucio Costa assumiu, em 8 de dezembro estradas de rodagem e de ferro, das obras de captação e abastecimento de água,
de 1930, a direção da EBA. das obras de drenagem e irrigação, das obras destinadas aos aproveitamentos de
Lucio Costa implantou, então, reformas na Escola, que passou a comportar energia e dos trabalhos relativos às máquinas e fábricas, das obras relativas a
dois cursos didaticamente autônomos: um de Arquitetura e outro, de Pintura e portos, rios, canais e aeroportos, das obras peculiares ao saneamento urbano e
Escultura. Gregori Warchavchik veio de São Paulo para lecionar Composição de rural, dos servços de urbanismo (artigo 29 do decreto federal nº 23.569/1933). A
Arquitetura. Para o curso de Pintura e Escultura, o novo diretor criou o "Salão Livre", distinção se dava também quanto ao aspecto artístico atribuído ao arquiteto ou
onde reuniu artistas não consagrados pelas exposições oticiais." Os antigos pro- engenheiro-arquiteto: estudo, projeto, direção, fiscalização e construção de edifí-
fessores, afastados, abriram campanha ostensiva contra as reformas impostas; os cios, com todas as suas obras complementares, assim como das obras com cará-
estudantes se solidarizaram com Lucio Costa e promoveram uma greve de seis ter essencialmente artístico ou monumental, dos servços de urbanismo, das obras
meses, conseguindo a manutenção de pontos básicos da reforma, mas Lucio de arquitetura paisagística, das obras de grande decoração arquitetõnica (artigo
Costa afastou-se da direção, em 19 de setembro de 1931 (Koatz, 1996).'0 30). Demarcavam-se, assim, progressivamente, as atribuições das duas categorias
Em 1932, foi promovida,' pelo ministro Washington Pires, uma reorganização profissionais, delimitando as fatias do mercado, em plena ascensão para esses
das disciplinas, a pedido da congregação da EBA, com a criação de novas cadei- profissionais de ponta no mundo moderno (Conselho Federal de Engenharia e
ras científicas, artísticas e de estudos de Urbanismo." Em 1933, foi criado o pri- Arquitetu ra, 1947).
meiro instrumento legal de regul~mentação das profissões de engenheiro, arquiteto Em 1935, realizou-se o concurso para seleção de projeto de construção do
e agrimensor, com o decreto' Iederal nº 23.569/1933, que demarcou o mercado de prédio do MES. A história desse episódio já foi tratada, com vasta documentação,
trabalho dessas profissões, sendo que permanecia a garantia do exercício das por Lissovsky e Sá (1986) e também por Cavalcanti (1995), cabendo aqui enfatizar
funções de arquitetos, arquitetos-construtores e agrimensores aos profissionais 1."
o significado das disputas travadas no momento. O vencedor do concurso foi o , I

não diplomados, mas licenciados pelos estados e Distrito Federal, se provado o projeto de Arquimedes Memória, professor catedrático e diretor da EBA desde a ~.v ~

exercício à data da publicação do decreto (Conselho Federal de Engenharia e saída de Lucia Costa. No entanto, seu projeto não foi realizado, e, em março de
Arquitetura, 1947). 1936, Capanema convidava Lucio Costa para elaborar uma nova proposta. Lucio
"
Por meio desse decreto, ficaram também criados o Conselho Federal de En- Costa constituiu então uma equipe, junto com alguns arquitetos desclassificados
genharia e Arquitetura e os Conselhos Regionais de Engenharia e Arquitetura, nos no concurso: Carlos Leão, Jorge Moreira, Afonso Eduardo Reidy, Oscar Niemeyer
quais todo profissional em exercício deveria registrar-se. Foram definidas as e Ernani Vasconcelos. Com apoio de Carlos Dnummond de Andrade (então chefe
atribuições do engenheiro civil; do arquiteto ou do en,genheiro-arquiteto, do enge- de Gabinete de Capanema). Mário de Andrade, Rodrigo Meio Franco de Andrade
nheiro industrial, do engenheiro mecânico eletricista, do engenheiro eletricista, do e Manuel Bandeira Oá engajados no Sphan), Lucio Costa convenceu diretamente

lmJ OS ARQUIIElOS DA .IIE.IIÓRIA PRàllW DE 10.llBA.IIENI0 U031


Vargas, sob os auspícios de Capanema, a convidar Le Corbusier para orientar a cas não deveria desvincular-se do exame das condições em que estas deveriam
confecção de um novo projeto, em bases modernas. O prédio do MES tornou-se ser utilizadas. Palavras como 'racionalização", "verdade", "autenticidade", "legiti-
um dos marcos decisivos' no' reconhecimento oficial da arquitetura modernista, no midade", passariam a integrar necessariamente o seu vocabulário, que, no Brasil,
Brasil e no mundo. se constituiu no bojo da consagração da vertente modernista na arquitetura. Nesse
O período estadonovista possibilitou a consolidação e oficialização da vertente contexto, os arquitetos se autoatribuíram o sentido da modernidade, como algo
modernista da arquitetura, que teve na obra e na figura de Lucio Costa seu maior intrínseco à proíissâo," visando a retomada dos aspectos peculiares à experiência
paradigma e sua maior liderança. Criou as possibilidades da institucionalização brasileira, e enriquecendo-se da racionalidade contemporânea, com utilização
da arquitetura modernista, com a formulação de um discurso perfeitamente en- efetiva das novas tecnologias.
quadrado nas questões mais presentes daquele momento, até mesmo no que diz
respeito à recuperação da tradição passada, sempre de acordo com uma visão HISIÓRIA OBJEIIVADA E ~ISIÓRIA INCORPORADA:
moderna de mundo: em vez de imitar ou reproduzir a tradição, atualizá-Ia "no que OS BENS IOMBADOS E OS PROfiSSIONAIS EM JOGO
ela tinha de melhor: a pureza das formas, o lirismo, o equilíbrio etc." (Lissovsky
Os anos iniciais de consolidação do Sphan foram também fundamentais para
e Sá, 1996, p. xxi).
o reconhecimento ou mesmo para a naturalização da ideia de que seriam os
Além disso, a vertenie modernista parece ter se adequado aos ideais do
arquitetos os profissionais mais "adequados" ao trabalho de seleção de bens para
regime estadonovista, no que diz respeito à "monumentalidade":
tombamento. Em depoimento colhido em 1982, Judith Martins relatou: "Quando
o edifício do Ministérioda Educaçãoe Saúdeé fruto do desejo irreprimívelde cons- vinha impugnação [ao tombarrenío], aí entravam os juristas, que viam a validade
truir de uma administração e de uma época. O Brasil Novo funda-se em um projeto disto, daquilo ou daquilo outro. E os arquitetos também." (1987, p. 9). Judith desta-
construtivo: assentar as bases da nacionalidade,edificar a Pátria,forjar a brasilidade.
cou também a posição ocupada por Lucia Costa "quando havia qualquer dúvida
(Ibid., p. xix)
sobre o tombamento, ou sobre a reparação ou conservação do monumento. Era,
A proliferação das faculdades de Arquitetura se deu a partir de 1945.'2'Re- então, dado parecer aqui, sempre com o beneplácito de Lucio Costa" (ibid., p. 11).
servou-se, enfim, um campo específico para o novo profissional - o arquiteto. A
Por sua vez, segundo Lucio Costa, o historiador não era dado à objetividade,
arquitetura distinguiu-se paulatinamente no campo de disputa socioprofissional
considerada necessária no exercício diário de proteção ao patrimônio histórico e
travada com a engenharia civil, cujo código de pertencimento foi dado pelo seu
artístico nacional, encontrando-se dentro do órgão, apropriadamente, nos espaços
caráter eminentemente técnico.
reservados à produção discursiva:
Tais lutas de representação viriam a caracterizar a profissão do arquiteto
Contudo,não é necessário,nemmesmotalvez aconselhável,o recurso exclusivo
como aquela capaz de propor uma adaptação permanente ao contexto sociocultural
a historiadoresde profissão,umavez que a curiosidadedo ofício os conduz insensivel-
em que fosse produzida, voltando-se para a leitura das condições sociais e mentea pesquisaslateraisdemoradase absorventescom prejuízodos informessimples
tecnológicas existentes no tempo e no espaço em que se concretizaria. O habitus e precisos que interessam à repartição.Pode-se recorrer com proveito a estudantes
do arquiteto poderia ser pensado a partir da amplitude considerada própria à_ for- universitáriosem período de férias e a intelectuaisde várias categorias necessitados
mação, com um pouco de cada uma das especialidades do artista, do engenheiro, de amparo."
do historiador e do soclóloqo." A rotinização das práticas de, proteção ao patrimônio, junto à agência esta-
Um dos traços mais característicos dessa orientação - que se firmou como tizada, configurou uma feição particular e uma identidade própria ao Sphan, que,
"própria do arquiteto" - foi justamente a intenção de uma abordagem multifacetada, neste período, efetivamente, consolidou procedimentos e um conceito de patri-
situando-se a meio caminho entre a técnica, a arte e a história. O estudo das técni- mônio histórico e artístico nacional a partir da seleção de determinados objet9s

, ! ~

llliJ OS ARQUllEIOS DA MEMÓRIA PRÁTICAS Df TO~BUfNTO Uosl


~'

para tombamento, Nesse período, o Sphan tombou 417 bens, representando exata- primeiro ano de funcionamento do órgão. Em muito pouco tempo, portanto, atingi-
mente 40% de todos os bens tombados até 2008, ram essas altas taxas, possibilitando a hegemonização de uma determinada

A partir desse universo de bens tombados, buscou-se compreender as "(di)vi- prática seletiva. Os arquitetos do Sphan, ocupando lugares decisivos, a partir de

sões de mundo", representadas pelas escolhas então feitas, construindo uma uma central idade dada pela figura de Rodrigo Meio Franco de Andrade, foram

coleção de bens da cultura material que deveriam expressar a "memória nacional" coautores, de fato, dos critérios de seleção, definindo, nessa prática contundente

ou a produção cultural "mais autêntica" da nação, capaz, portanto, de narrar' sua e incisiva, as características básicas que delinearam esse patrirnõnio."

história e origem, conforme expressão distintiva e recorrente nos discursos dos Os percentuais de tombamento relativos aos anos subsequentes - 1939 a
agentes do órgão, A adjetivação expressava, assim, a desqualificação daquilo que 1946 - caíram significativamente, mantendo-se apenas Minas Gerais ainda com
não estivesse nela incluído, como não significativo da "brasilidade", altas taxas, em 1939, dando continuidade ao projeto identificatório de um tempo
originário da nação. Os trabalhos de seleção, depois do surto inicial, organizaram-
A hierarquização do patrimônio histórico e artístico nacional se com maior regularidade, mantendo, em anos intercalados, uma taxa em torno
de 11% (1939, 1941 e 1943), e taxas bastante baixas nos anos de 1940,1942 e
A partir da análise da listagem dos bens tombados no período de 1938 a 1946,
1944. Tratavam-se, talvez, de períodos de "buscas" de novos "capitais" ou de or-
foi possível fazer algumas ilações a respeito do tipo de bem selecionado como
ganização dos investimentos feitos nos anos anteriores. A partir de 1944, as taxas
"patrimônio nacional", Conforme estabelece o decreto-lei nº 25/1937, o tombamento
mantiveram-se abaixo dos 3%, denotando um retraimento da prática seletiva, que
se concretiza mediante a inscrição do bem selecionado em um ou mais Livros de
já havia acumulado volumoso trabalho de controle, fiscalização e eenservação
Tombo, de acordo com decisão do Diretor e/ou do Conselho Consultivo, Os Livros
desse vasto acervo tombado.
de Tombo são assim denominados: Livro das Belas-Artes; Livro Histórico; Livro
Arqueológico, Etnográfico e', Paisagístico; e Livro das Artes Aplicadas. Rubino (1992a) chega a conclusões bastante semelhantes a respeito do tipo
de bem que foi tombado, analisando um período mais longo, relativo à gestão de
Alguns procedimentos administrativos devem ser adotados antes de sua
Rodrigo Meio Franco de Andrade, de 1937 a 1967. A partir dessa constatação,
concretização: a partir da indicação, um processo de tombamento é aberto, rece-
pode-se concluir que a feição dada ao patrimônio histórico e artístico nacional,
bendo um número e o nome do bem indicado, cidade e estado onde se localiza,
a qual reproduziu-se posteriormente, foi delineada e consagrada ainda nas déca-
Embora qualquer pessoa pudesse Iazê-lo, as indicações, nesses primeiros anos
das de 1930 e 1940. Qual feição seria essa, então?
de funcionamento do Sphan, partiram, basicamente, dos próprios agentes do
órgão, não contendo, portanto, nos processos a motivação da indicação." O contexto de nacionalização do Estado brasileiro em que se inseriu a gestão
estatizada de bens simbólicos encetada a partir do Sphan caracterizou-se pelo
A concentração de tombamentos de bens arquitetônicos foi um dado flagrante
projeto em que nacionalizar significou, antes de tudo, impingir unidade, impedindo
e já bastante conhecido, perfazendo um total, no período, de 93,76%. O patrimônio
qualquer feição plural da nação. Nessa busca de "capitais simbólicos" que deve-
histórico e artístico nacional constituiu-se, portanto, pela arquitetura, sendo os
riam sintetizar a nação numa única brasilidade, reuniram-se diferentes frentes de
6,24% restantes inexpressivos." A quantidade de tombamentos realizada somente
ação no MES, numa ampla teia que ia da pedagogia à higiene, na tentativa de "cons-
no ano de 1938 - 56,59 %
do total - foi reveladora da clareza, convicção e cons-
trução do homem brasileiro". O Sphan investiu no projeto de construção da nação,
ciência que os agentes do Sphan possuíam, previamente, a respeito daquilo que
consagrando uma história concreta, autenticando-a pela material idade de um
pretendiam enquadrar na categoria de patrimônio histórico e artístico nacional.
patrimônio histórico e artístico nacional apresentado, conforme a prática seletiva
Reunindo-se os estados em que houve maior concentração de tombamentos - Rio
revelou, como um objeto predefinido e que, ness: momento, estava apenas sendo
de Janeiro (20,14%), Bahia (13,19%), Pernambuco (9,11%) e Minas Gerais
(des)vendado, (des)coberto.
(5,28%)18 -, chega-se a 47,7% dos bens tombados em todo o período, apenas no

1206-1 01 ARQUIIEfOI DA MEMÓRIA PRÁmAI DE fOMBAMENTD l}õ!]


"1.0

[
A seleção dos bens resgatou a produção artística e arquitetônica do período
! encenado como a única fala sobre o assunto, naturalizando-se o monopólio do
colonial, sendo identificada aos discursos sobre a história do Brasil que busca- Estado na produção desses bens simbólicos?
vam, naquele mesmo período, as raízes fundadoras da nacionalidade. O processo A história da preservação do patrimônio histórico e artístico no Brasil ficou
histórico decorrido nas Minas Gerais, que propiciou o surgimento do movimento marcada pela relação entre "conservação do passado" e "modernização do pre-
de 1789, foi considerado a expressão-síntese da origem da nacionalidade, con- sente", especialmente em função dos agentes envolvidos com a questão. Regis-
cretizada com o tombamento das cidades mineiras. Além disso, foi também extre- tre-se que esse aspecto não tem precedente em outros países, tendo se tornado
mamente valorizada a arquitetura jesuítica como representativa da ancestralidade uma das especificidades do caso brasileiro no processo de invenção do "patrimô-
da nação. De todo modo, a chamada "arquitetura tradicional", então selecionada nio nacional".
como representativa das-oriqens da nação, reafirmava permanentemente as raízes Ambas as concepções compunham um mesmo projeto, que buscava como
portuguesas, especialmente expressivas nas construções religiosas, como forma- características constituintes da nacionalidade a sua "racionalidade", "simplicidade"
doras da nacionalidade. e "pureza", identificadas pelos arquitetos aparelhados no Sphan como qualifica-
Ainda que esse momento tenha sido crucial para a naturalização dessa "bio- tivos da "boa arquitetura" de qualquer época, e particularmente presentes na do
grafia" da nação, conforme diria Anderson (1991), há que se ressaltar que, desde período colonial.
fins do século XIX, os positivistas ortodoxos, também preocupados com as "ori- Fundamentando essa ideia, Lucio Costa tew.; a oportunidade de expressar, em
gens da nacionalidade", já preconizavam a respeito da "raça" portuguesa, predomi- 1939, alguns dos critérios básicos que nortearam a ação seletiva do Sphan, em
nante na formação do "povo brasileiro", que, "apesar dos seus desmandos, era carta pessoal ao diretor do órgão,20 motivada por questões surgidas a respeito de
a verdadeira herdeira do mundo da Idade Média e, portanto, portadora de imensos construções novas na cidade de Ouro Preto, tombada em 1938. Nessa carta, defi-
valores morais e espirituais" (Azzi, 1980, p. 105). Por sua vez, o papel desempe- ne a obra de arte por critérios de "beleza e verdade"; pela pureza de linhas e equi-
nhado pelos jesuítas teria sido fundamental "na luta contra as invasões protes- líbrio; sem compromissos com estilos, mas baseada em técnica atualizada, para
tantes": "Devemos especialmente não esquecer o papel eminente que co~be à resolver seus problemas de construção da melhor forma possível, no momento de
Companhia de Jesus na defensão dos míseros fetichistas americanos, vítimas da sua produção. Segundo ele, o patrimônio histórico e artístico nacional era
cobiça colonial" (Teixeira Mendes apud Azzi, 1980, p. 115). constituído de obras de arte, desde que contendo aqueles atributos:
Na verdade, quando se trata do século imperial brasileiro, muito se poderia Ora, o projeto de ONS [Oscar Niemeyer Soares] tem pelo menos duas coisas
falar a respeito do surgimento de uma historiografia que buscou dar conta dessa em comum com elas: belezae verdade.Compostode maneiraciara, direta, sem com-
"biografia" nacional. É nesse bojo que a instrução deveria cumprir um papel funda- promissos [...]. De excepcionalpureza de linhas, e de muito equilíbrio plástico, é, na
verdade, uma obra de arte, e, como tal, não deverá estranhara vizinhançade outras
mental, para permitir que o Império se colocasse ao lado das "nações civilizadas",
obras de arte, emboradiferentes,porquea boa arquiteturade um determinadoperíodo
proposta essa que, fundamentalmente, "vislumbrava no alcance de uma civilização vai sempre bem com a de qualquerperíodo anterior- o que não combina com coisa
a condição de o povo - isto é, a 'boa sociedade' - não só conservar o lugar que nenhuma é a falta de arquitetura.(Apud Moita, 1987, p. 109)
ocupava na sociedade, mas também reconhecer as diferenças e hierarquizações
A arquitetura colonial nomeava a nação e, segundo essa mesma concepção,
no seu próprio interior" (Maltos, 1990, p. 259-260), parte do processo então en-
~ teria havido uma ruptura da produçãoarquitetônica, em fins do século XIX e
gendrado de constituiçã,o ?e, uma classe senhorial e do processo de longa duração,
começo do XX, interrompendo a orodução daquelas obras de arte. A partir daí,
que se vem tratando aqui, 'de formação do Estado. r~ as novas produções tornaram-se espúrias, porque importadas e não mais autenti-
Mas quais seriam os elementos estruturantes do discurso que formulou tais
escolhas dentro do Sphan e se constituiu em critério de verdade, podendo ser t camente nacionais - aquilo que não era identificado com a nação e não podia
legitimamente nomeá-Ia. Para Lucio Costa:
t
~ OS ARQUIlElOS DA NHÓRIA PRÁTICAS DE TOMBAMENTO l1QYJ
Os mestres-de-obras estavam, ainda em 1910, no bom caminho. Fiéis à boa favor do papel de reveladores. Assumiam, com isso, um papel magnãnimo, cujo
tradiçãn portuguesa de,não mentir, eles vinham aplicando naturalmente, às suas suporte era justamente a crença na "causa" da preservação da memória nacional.
construções meio telosas,' todas as novas possibilidades da técnica moderna [...].
A nação tem sentimentos, tem cultura, mas precisa de porta-vozes.
Conviria, pois, trazer os esíudos até nossos dias, procurando-sedeterminaros motivos
do abandonode tão boas normas e a origem dessa desarrumaçãoque há vinte e tantos Por meio da fala de seus construtores, a arquitetura moderna no Brasil foi
anos se observa. (Costa, 1937, p. 32) identificada com a arquitetura do período colonial, e, numa transferência do cons-
trutor para a obra construída, o objeto arquitetônico foi subjetivado, tornando-se
Dessa forma, conceitualizava o patrimônio histórico e artístico nacional como
o próprio identificante do eu-nação que o pensamento nomeava, ou seja, o iden-
obra de arte arquitetõnica, cuja essência estaria na "qualidade construtiva",
tificado. Conforme Aulagnier (1985), essa unidade identificante-identificado é
encontrada especialmente na arquitetura produzida até o começo do século XIX,
condição fundamental de existência do eu. A manutenção desse investimento dos
sem imitações ou "compromissos" com estilos estrangeiros. A obra de arte era,
pensamentos com função identificatória só persiste enquanto o identificante pre-
portanto, essencialmente descompromissada: sua qualidade estava no engenho de
serva a crença de que esses enunciados correspondem efetivamente ao eu que
o construtor fazer o melhor e o mais belo possível, dentro das condições tecnoló-
eles nomeiam.
gicas vigentes, o que .a,. contextualizava em seu próprio tempo histórico, sem
disfarces. Foi esta também uma das bases conceituais fundadoras da arquitetura A nação, assim, se humanizava recebendo um nome originário - arquitetura
moderna, que buscava' universalizar-se como verdade - como obra de arte. colonial -, tendo-lhe sido negados, para tanto, outros atributos. A nação, agora,
reconhecendo-se por um nome, apropriando-se desse enunciado como primeira
Segundo Lia Motta, Lucio Costa
antecipação de seu futuro ou primeira aspiração identificatória, era capaz de
[...] aborda o problema da arquitetura nova nos centros antigos segundo um ponto de
encontrar a unidade identificante-identificado no processo de identificação desse
vista modernista e dogmático que visava a manutenção da cidade como objeto
eu-nação - na coisa com o pensamento que a nomeia. Um batismo de nascimento.
idealizado.[...] Esvaziadaeconomicamente,a cidade foi usadacomo matéria-primapara
um laboratóriode nacionalidadede inspiração modernista,deixandoas populaçõesque No entanto, para que o eu-nação se reconheça como enunciante de seus pen-
lá moravam subordinadas a esta visão idealizada, não sendo elas sequer motivo de samentos, precisará fazer suas próprias aspirações identificatórias, investindo no
referência. (1987, p. 110) futuro e não mais como simples desejo de retorno dp passado. Sendo assim, para
Dentro desse universo discursivo, enquadraram-se as especificidades do que o eu-nação se preserve, é necessário que o identificante assegur~ o inves~i-
projeto modernista, propondo um resgate, uma reapropriação e uma modernização mento de dois suportes: o identificado atual (arquitetura colonial) e a transformação
desse saber esquecido. Utilizando-se de tais estratégias discursivas, atribuíram desse identificado (arquitetura moderna brasileira).
a esse projeto a capacidade de concretizar uma produção arquitetônica autentica- Lucio Costa afirmou, sobre as construções brasileiras coloniais, que "o enge-
mente nacional, identificando-se com a fala produzida no Sphan sobre a definição nhoso processo de que são feitas - barro armado e madeira - tem qualquer coisa
do que seria o patrimônio histórico e artístico nacional. de nosso concreto armado" (1937, p. 34).
A crença, portanto, na existência de uma memória e de uma identidade nacio- Essa afirmativa apresenta-se de forma invertida, como num espelho, tendo
nais a serem desvendadas (e não construídas pelos agentes em relação no mundo sido reveladora desse projeto de identificação, posto que seria no concreto armado
social e constituintes do processo histórico de formação do Estado e construção da que se deveria encontrar algo daquele "engenhoso processo", pois a tecnologia
nação brasileira) fundamentou a concepção de nação como sujeito - eu-nação -, existente na época colonial nem sequer sonhava com a possibilidade de sua
entidade viva, que devia ser conhecida, descoberta. Nessa concepção, caberia a invenção.
esses agentes apenas dar-lhe voz, deixá-Ia expressar sua fala. Ocultava-se, as- Foi necessário, portanto, transformar a nação em sujeito, para garantir as
sim, o papel de construtores (nos seus vários sentidos), enunciantes de ideias, em condições de identificação dos seus próprlos agentes produtores, pois, mediante

. -s . ~.

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essas estratégias, esses agentes se legitimavam, identificando-se com uma ideia No discurso de Lucio Costa, a afirmação da origem "colonial" da nação foi con-
de nação - nomeavam-se e nomeavam' sua obra de nacional. Por meio dessa fala, sagrada e canonizada. A partir de então, 'tudo acabou", e seria justamente aquele
procuraram tornar-se, no âmbito da proteção do "patrimônio nacional", os únicos patrimônio que deveria ser desvendado e reconhecido. A arquitetura daria materia-
capazes de identificar a nação e de investir no seu futuro. Em vários momentos, lidade à nação, e seria esta a função primordial do Sphan - dar concretude à nação,
a nação - e, por vezes, a própria arquitetura - foi subjetivada nas palavras dos desvendando a todos os brasileiros aquilo que, embora existente, encontrava-se
agentes do Sphan. escondido, e também, quem sabe, construindo essa materialidade.
Nesse sentido, Lucio Costa, analisando a arquitetura colonial, referiu-se à Luclo Costa, no mesmo artigo de 1929, atribuía um sentimento de amor à na-
"nossa arquitetura", tratando-a como uma entidade, dotada de sentimentos, desejos ção inato a todos brasileiros, em busca da nacionalidade perdida:
e morte. Desconsiderou, ainda, os "pequenos detalhes" que particularizariam as
Vendo aquelas casas, aquelas, de surpresa em surpresa, a gente como que se
diferentes produções encchtradas no Brasil, criando tipos para fins de uma homo-
encontra, fica contente, feliz, e se lembra de coisas esquecidas, de coisas que a gente
geneização, o que, conforme entendia, foi o que concebeu "essa espécie de nacio- nunca soube, mas que estavam lá dentro de nós, não sei - Proust devia explicar isso
nalidade que é nossa", A busca dessa origem levou-o a uma comparação com a direito. (Costa, 1929, p, 15; grifos meus)
Grécia Antiga repetidas vezes, Em seu artigo "O Aleijadinho e a arquitetura tradi-
Na busca da identidade entre a produção da arquitetura moderna brasileira e
cional", de 1929, Costa já apresentava essas ideias, que mais tarde frutificariam
a arquitetura do período colonial, o discurso tornou-as, a um só tempo, constituido-
dentro do Sphan:
ras e constituintes uma da outra. Tratou-se de levar ao passado questões relativas
Aleijadinho nunca esteve de acordo com o verdadeiro espírito geral de nossa ao tempo presente, numa operação teleológica c'.,)lcada na ideia de que legitima-
arquitetura. A nossa arquitetura é robusta, forte, maciça, e tudo que ele fez foi magro, vam uma à outra.
delicado, fino, quase medalha. A nossa arquiteturaé de linhas calmas,tranquilas, e tudo
que ele deixou é torturado, nervoso, Tudo nela é estável, severo, simples, nada per- Este foi, sem dúvida, um momento em que tradições precisavam ser inventa-
nóstico. [...] Toda sua obra como que desafina de um certo modo com o resto da nossa das, pois o presente passava a informar o passado e não mais o contrário. Asso-
arquitetura. [...] O essencial é outra parte, essa outra parte alheia à sua obra, e onde ciadamente ao processo de formação do Estado, tratava-se, portanto, de se
a gente sente o verdadeiro espírito de nossa gente. O espírito que formou essa espécie construir uma "biografia" da nação, que deveria lhe dar profundidade histórica. Se
de nacionalidade que é nossa. t...] entretanto, há mais de um século, quase dois, que
desde fins do século XIX havia, no Brasil, projetos nesse sentido, em que as con-
isso tudo acabou, parou. [.!.] Custa acreditar que seja a mesma gente, o mesmo povo.
cepções dos positivistas ortodoxos tiveram papel importante na construção de
É em ponto pequeno, pequenfssirro, o mesmo que aconteceu com a Grécia Antiga.
Ninguém consegue Gompre~nder que as criaturas que moram lá hoje em dia sejam uma história da nação (Azzi, 1980), somente com o projeto de nacionalização lm-
descendentes das mesmas criaturas que fizeram o Parthenon, o Discóbolo, a /Irada. plementado a partir da década de 1930 se aglutinaram medidas no sentido da
(Costa, 1929, p. 15-16; grifos meus) construção maciça de uma "memória nacional".

Inicialmente valorizando a arquitetura vernacular do período colonial, rejeitava Além da seleção daquilo que nomearia a. nação, processou-se também uma
a erudição da obra de Aleijadinho. Ao longo dos anos, contudo, a rejeição transfor- hierarquização dos bens considerados "patrimônio nacional". Apesar de os quatro
mou-se em admiração - consagração do gênio de Aleijadinho -, discurso assim Livros de Tombo terem sido criados para um enquadramento dos bens em função
veiculado pelo Sphan e reconhecido por Lucio Costa: de sua "natureza" diversa, sem qualquer hierarquia preestabelecida entre eles no
decreto-lei n2 25/1937, ao se analisar os livros em que foi inscrito cada um desses
Eu fazia certas restrições a essa obsessão das pessoas por Aleijadinho, quando
havia uma tradição colonial muito variada. [...] Eu, erradamente,lamentava a projeção bens tombados (o que poderia ser feito em um ou mais livros), identificou-se uma
de Aleijadinho. Hoje reconheço que a personalidade importante na história da nossa significativa distinção entre eles. No entanto, isso não se encontrava explicita-
arquitetura é o Aleijadinho. Sou apaixonado por ele. (Costa, 1996c, n. p.) mente informado na documentação constante dos processos. Nesse sentido, para

LmJ 01 ARQUITETOI DA /i\Eh\ÓRIA PRÁIICAI Df 10~BA~fNI0


lJill
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compreensão dos critérios que levaram a escolhas diferenciadas no momento da privilegiado de uma forma geral, imóveis localizados em áreas urbanas e centrais
inscrição nos Livros de Tombo, foi feito um esquadrinhamento dos tipos de bens foram considerados obras de arte. Essas áreas foram primordiais na economia por-
inscritos em cada livro, a partir da listagem geral desses bens tombados, consi- tuguesa escravista colonial e suas histórias foram materializadas e objetificadas,
derando-se ainda sua denominação e sua localização. Dessa forma, foram ou seja, autenticadas, por esses bens em bases sólidas - de pedra e cal -, riqueza
criadas, para efeito da. análise, categorias de bens por tipo de arquitetura. No cru- material e técnica que qualificavam o patrimônio. Nesse sentido, pode-se perce-
zamento desses dados, foi possível identificar vários dos critérios então utilizados ber, também no Livro de Belas-Artes, que esses bens hierarquizados estavam
concentradamente nas capitais dos estados acima discriminados, o que é distin-
pelos agentes do Sphan, para uma hierarquização do bem tombado mediante a
tivo em relação aos outros livros. Aquilo que ficou fora desses estados recebeu
escolha do livro em que o mesmo foi mscrno."
tratamento distinto pelos agentes do Sphan, como se verá a seguir.
Analisando-se tais dados, constata-se que a escolha dos Livros de Tombo
Na construção desse universo, adjetivações como "autêntico" e "genuíno" ser-
para a inscrição dos bens tombados privilegiou o Livro de Belas-Artes (com 173
viram para distinguir os bens tombados. Em termos de produção artística, esses
inscrições, sendo que 6 delas reunindo centenas de imóveis das cidades mineiras
eram atributos essenciais da arquitetura do período colonial, especialmente a mi-
tombadas) e os Livros de Belas-Artes e Histórico conjuntamente (185 inscrições),
neira, que serviu constantemente de parâmetro. Ela serviu ainda para secundarizar
e, em seguida, o Livro Histórico, com 44 inscrições.
o "valor histórico", utilizado como compensação à ausência de valor artístico "pu-
Evidenciou-se também que, ao Livro de Belas-Artes, ficaram reservados ro", ou para caracterizar a excepcionalidade, que definia o conceito de obra de arte.
aqueles bens considerados obras de arte - obras autênticas da produção artística
Somadas, essas duas formas de inscrição mais recorrentes - somente no Livro
originária da nação, em que o recorte privilegiado da arquitetura mineira colonial,
de Belas-Artes, e conjuntamente nos Livros de Belas-Artes e Histórico - perfi-
especialmente religiosa, foi consagrado.
zeram um total de 358 inscrições (85,8% dos bens tombados no perlodo)." Ao
O Livro de Belas-Artes destinou-se, basicamente, aos bens considerados inscreverem um mesmo bem nos Livros de Belas-Artes e Histórico, os agentes
monumentais, localizados concentradamente nos principais centros urbanos da do Sphan buscaram conjugar os aspectos relativos à antiguidade do bem e à sua
antiga colônia, assim como nas cidades históricas mineiras. Esse livro deveria localização, pois, malgrado estivessem situados nas mesmas regiões privilegia-
servir aos bens com atributos coloniais e territorializados em Minas Gerais, ou das - Minas, Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco -, caracterizadas como especí-
ter estes como parâmetro de qualidade. A maioria absoluta desses tombamentos ficas das obras de arte, inverteram-se os lugares. Ou seja, nesses casos, os bens
foi processada ainda em 1938, ano inaugural dessa prática: somente neste ano, localizam-se nas regiões periféricas, onde se processou uma espécie de apro-
49% dos bens tombados foram inscritos somente no Livro de Belas-Artes. Para priação popular da produção artística, conforme se depreendeu de textos de Lucia
todo o período, as inscrições feitas com exclusividade nesse livro representaram Costa (1941) e mesmo de Mário de Andrade (1937; 1945), que consideraram a
41,49% do total. São percentuais bastante altos, considerando-se que havia quatro necessidade de um tratamento diferenciado, especialmente em comparação com
Livros de Tombo diferentes e, ainda, a possibilidade de inscrição de um mesmo as obras de arte encontradas em Minas Gerais e na Bahia.
bem em mais de um livro. De 1938 a 1942 foram escolhidos os bens merecedores Os bens inscritos conjuntamente nesses dois livros, portanto, reafirmavam a
deste status das belas-artes. Nos anos seguintes, de 1943 a 1946, não houve mais hierarquização identificada anteriormente, concentrando-se aqui os bens perten-
tombamentos exclusivos nesse livro. centes a cidades do interior, e sendo residual a presença das capitais. Com rela-
Observando-se ainda '0 Livro de Belas-Artes, a hierarquização se com ple- ção a Minas Gerais, foram apenas cinco inscrições. As opções de inclusão de bens
mentava pelas regiões que tiveram bens inscritos exclusivamente neste livro. Os a partir da reunião desses livros - Belas-Artes e Histórico - sintetizaram a hierar-
estados da Bahia, Minas Gerais, Pernambuco e Rio de Janeiro comportaram prati- quia estabelecida entre o artístico e o histórico, que configurou efetivamente a prá-
camente todos os bens considerados obras de arte. Se o objeto arquitetônico foi tica do Sphan, apesar de o órgão ter sido nomeado de forma isonômica.

llliJ 01 ARQUIlHOI DA MEMÓRIA PRdllCAI DE 10MBAMENIO lJKl


As inscrições de tombamento feitas somente no Livro do Tombo Histórico não Além das três alternativas de inscrição acima analisadas - somente no Livro
tiveram o mesmo caráter de "compensação". Nelas, foram valorizadas a ideia da de Belas-Artes, conjuntamente nos Livros de Belas-Artes e Histórico e somente
repetição, isto é, de seleção de exemplares pertencentes a séries históricas, com .. no Livro Histórico -, um pequeno conjunto de bens teve outras formas de ins-
a finalidade de documentá-Ias, assim como a de originário, que se pretendia alcan- crição. Ao que parece, isso foi devido à própria natureza do bem tombado. Foram
çar em função da antiguidade do imóvel selecionado, mesmo que não contivesse somente quinze inscrições, sendo a maioria composta por aqueles poucos bens .
dotes artísticos considerados de peso. não arquitetônicos que foram tombados no período. Exclusivamente no Livro do

Os bens de tipo r~ligioso são excelentes exemplos dos critérios anteriormente Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico foram feitas somente oito ins-

identificados para inscrição no Livro Histórico, visto que se encontram nesse livro crições, das quais apenas dois bens arquitetônicos.

tanto pela sua antig~i~ade, quanto por pertencer a séries históricas que tipificam Já o Livro das Artes Aplicadas não vingou. Apenas duas inscrições foram
as igrejas por época de-construção, conforme classificação feita por lucia Costa feitas aí até hoje, referentes a cinco jarras de louça encontradas em Cachoeira,
(1941), e não por uma qualificação de excepcionalidade como obra de arte. Outro na Bahia. A ideia desses quatro Livros de Tombo foi extraída do anteprojeto de
aspecto a ser destacado é o fato de que todos os bens inscritos somente no Livro Mário de Andrade, reproduzida, na íntegra, no decreto-lei nº 25/1937, como já dito.
Histórico se encontram iocaíizados em regiões distantes das áreas privilegiadas No entanto, a denominação "arte aplicada" - que, para Mário de Andrade, poderia
como produtoras de obras de arte, conforme o parâmetro mineiro de classificação, ser erudita ou popular - não foi incorporada na prática do Sphan. Os objetos que,
que servia também para a exclusão. Situam-se em cidades distantes do centro conforme o anteprojeto, se encaixariam nessa categoria (móveis, joias etc.) foram
da economia escravista colonial. Apesar de os objetos serem ainda as igrejas - efetivamente tombados, ainda que em pequena proporção, mas inscritos nos
majoritariamente selecionadas -, identificou-se a configuração de áreas peri- outros livros. -.
féricas de seleção. Dentre estas, as localizadas em capitais de estados são: cinco Dentre as combinações de uma mesma inscrição em mais de um livro, encon-
igrejas em Belém, no Pará; duas em Vitória, no Espírito Santo; uma em João traram-se, além da combinação dos Livros de Belas-Artes e Histórico, apenas
Pessoa, na Paraíba. O restante é constituído por representantes do "interior" quatro bens inscritos simultaneamente nos três livros - Belas-Artes; Histórico; e
(Pirenópolis, em Goiás: ~I)gra dos Reis, no Rio de Janeiro; Carapicuíba, em São Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. E, por fim, uma única inscrição foi feita
Paulo; Anchieta, no. Espírito Santo, esta última tanto pela ancianidade quanto por conjugando-se os Livros de Belas-Artes e Arqueológico, Etnográfico e Paisagís-
ter sido cela de Anchieta). tico, tratando-se de uma casa na ladeira do Valongo, na cidade do Rio de Janeiro.
Outra característica do conceito de histórico, contido na seleção e inscrição A história contada por meio da maioria absoluta dos bens selecionados foi
de bens exclusivamente nesse livro, é a ideia fetichista de homenagear persona- demarcada cronologicamente no período colonial, com ênfase no processo sacio-
gens vinculadas a uma história a ser contada por meio de edificações que as cultural advindo da proliferação de cidades auríferas mineiras, assim como nos
simbolizavam, como, por exemplo, "a casa onde nasceu Ana Néri".23 Ao fazê-Ia, centros de poder político e econômico desse período - Salvador e Rio de Janeiro;
criavam heróis que teriam sido, nessa perspectiva, peças-chave na construção a região de ocupação antiga em Pernambuco, graças à economia açucareira, onde
da nacionalidade. Vários dos bens inscritos aqui enumerados foram selecionados foi também enfatizado, na seleção de bens, o caráter de berço da nacionalidade,
nesse sentido, correspondendo ao item do decreto-lei nº 25/1937, que atribuía va- referindo-se à vitória sobre os holandeses em Pernambuco; e a arquitetura jesuí-
ler aos bens com "vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil".24 Um tica e a "sobriedade" de suas formas artísticas, conforme escreveu lucio Costa
único bem de tipo arquitetura rural foi inscrito somente no Livro Histórico, e a (1941).
motivação foi, mais uma vez, sua "ancianidade", expressa em artigo na Revista Dentro desses recortes cronológico e territorial-temático, foi supervalorizado
do Sphan.25 o aspecto religioso do período colonial - atríbunâo valor artístico às manifestações

[lliJ OS ARQUITETOS OA MEMÓRIA PRÁTICAS DE TOMBAMENTO lli7J


de poder da I'greja Católica e à representação material da fé cristã -, consagrado acesso a essas regiões distantes da Capital Federal, mas, principalmente, por
em todas as regiões, màs,"especialmente, em Minas Gerais e nas construções serem consideradas como regiões "distantes da civilização",sem construções
jesuíticas. O Estado, a partir de sua própria ossatura material, promovia também significativas.
a monumentalização da fé. Por outro lado, muitas igrejas perderam sua função A fala que os intelectuais do Sphan construíram nesses primeiros anos a partir
como espaço de culto religioso, abrigando centros culturais, museus etc. Essa es- da seleção de bens para tombamento instituiu uma taxinomia que naturalizou a
tratégia, embora não tenha sido geral, impingia uma nova ordem de sacralidade
noção de patrimônio histórico e artístico nacional, constituindo-se em 'fala legítima",
ao imóvel - agora, um espaço de culto à nação, afastando aqueles moradores lo-
que se reproduziu e foi reproduzida de modo a manter a crença, e, com ela, o
cais de seus espaços sociais de convívio para torná-los espaços de visitação
exercício do poder de imposição simbólico radicado no desconhecimento. O poder
(Anderson, 1991). Sem dúvida, essa seria uma evidente descontextualização do
de desmobilização daí gerado pode ser assegurado justamente pela fala tornada
objeto material sem, contudo, extraí-Io do seu espaço físico de origem - tomando-o
doxa, a não consciência do arbitrário, sobretudo mediante o poder que detêm as
semióforo em função da perda de seu valor de uso e aquisição de um valor de troca
taxinomias instituídas (Bourdieu, 1989).
novo -, para exibição de significados até então invisíveis, como tratou Pomian
(1984). Musealizados, esses espaços' foram reposicionados como insígnias da Nesse sentido, a 'tala legítima' se reproduziu, posteriormente, sustentada pelo

nação e reproduzidos infinitamente por meio de fotos, da imprensa, de livros "estado de alienação"
didáticos etc. [...] que visa um estadoa-conflitualpormeio da abolição de todas as causas de conflito
Os recortes operados para a definição do universo de bens culturais, objetos entre o identificantee o identificadoe tambémentreo E'J e seus ideais, isto é, abolição
de qualquer conflito entre o Eu, seus desejos e os de"ejos do Eu dos outros por ele
privilegiados na seleção para proteção e sacralização, não poderiam, portanto, ser
investidos. (Aulagnier,1985, p, 34) ,'
desvendados sem um olhar atento ao aparelhamento feito no Sphan pelo profis-
sional arquiteto: por um lado, foram privilegiados os bens arquitetônicos, adicio- Segundo a autora, os suportes essenciais em que se apoia o estado de alie-
nados ao recorte de uma dada arquitetura (colonial), resgatada como representante nação do eu são, por um lado, uma idealização maciça daquele que exerce para
mais genuína da produç~Q nacional, que conferia uma profundidade histórica à ele a função de força alienante, e que é, portanto, suporte de um desejo de alienar;
nação e legitimava sua ancestral idade. A monumentalização dessa arquitetura e, por outro, a retomada, pelo sujeito alienado, desse mesmo desejo e desta mes-
deu-se, basicamente, por ~ma valorização estética dela como obra de arte. Por ma função em relação aos outros, só que agora como adepto. Ele atribui ao poder
outro lado, a própria produção do profissional arquiteto ficava também delimitada alienante a capacidade de demonstrar e de garantir sua verdade, supremacia e
no âmbito artístico - afinal.. são eles os construtores desse patrimônio. "bondade". É sempre em nome de uma "boa causa" que se aliena o pensamento.
. ".

O discurso que se constrói para a arquitetura em torno dos conceitos de bele- O que caracterizao discurso do poder [...] é proibir os sujeitos de reconhecero
za e verdade, da obra de arte como algo atemporal, recortou uma história da nação, que, nesta realidade,é a atuação de uma finalidade pulsional, a realizaçãoparcialou
a ser contada por meio da material idade dos bens tombados, em busca das "raízes fantasmáticada realidade.
de nossa nacionalidade", a ser resgatada no momento contemporâneo, embora O sujeito, para conquistaro direito de cidadania neste espaço social, é obrigado
com a pretensão de retomar o elo perdido no final do século XIX, para dar continui- a lhe atribuir pensamentose palavras que negam a realidade, a interpretaçãoe a
dade à sua produção, resgatando a "boa tradição", como dizia Lucio Costa (1937). fantasmatizaçãoque o induziram e que ele induz por sua vez. (Ibid., p. 39)

Alguns estados não foram contemplados com tombamentos nesse período, A nação torna-se palpável, além de visível. A crença na "causa" deu suporte
excluídos também da organização dada aos novos distritos pelo Regimento Interno à concepção de uma história "comprovada" pela materialidade dos objetos-teste-
da Dphan, de 1946, já visto. São eles: Mato Grosso, Amazonas, Acre, Goiás, Ceará, munhos. A seleção de bens que representassem uma história "remota" é "origi-
Maranhão e territórios. Possivelmente, isso se deu não só pelas dificuldades de nária" possibilitou a omissão dos conflitos na história da nação, que se fundou

~ 01 ARQUI1E101 DA MEMÓRIA PRÁ tlW DE tOMBAMENtO DJ1J



~-

pela possibilidade de, ao distanciar-se do presente, construir heróis nacionais e estilo, eram apenas escravos do espírito do seu tempo. Foi assim que se criaram,
espontaneamente,os estilos de arquitetura conhecidos não somente por monumentos
uma origem "pura", que deveriam informar as ações no futuro e conter as dife-
conservados-edifícios, como também por objetos de uso familiar colecionados pelos
renças no presente. O mesmo pode ser dito quando se identificou a arquitetura
museus. E é de se observar que esses objetos de uso familiar são do mesmo estilo
moderna com a do perí~dó ~olonial. Negavam-se as produções contemporâneas que as casas onde se encontram, havendo entre si perfeita harmonia. Um carro de
diferentes, que não se enquadrassem nesse padrão, desqualificando-as para o cerimônia traz as mesmas decorações que a casa de seu dono.
. "
confronto. 1

José de Souza Reis" arqúiteto da Seção Técnica do Sphan, desde 1937, em


artigo irititulado "Arcos da Carioca"," realimentou essas ideias, afirmando a exis-
tência de um "princípio arquitetônico de verdade construtiva". Estabeleceu, assim,
um fundamento geral para toda e qualquer arquitetura, em que se aplica também
a concepção de patrimônio histórico e artístico nacional. Foi assim que apresentou
o aqueduto da Carioca como exemplar inquestionável de "nosso" patrimônio.
Buscava também universalizar a arquitetura moderna ao relacioná-Ia não só ao
aqueduto, mas também, e principalmente, à arquitetura da Antiguidade clássica,
recorrendo à origem latina da palavra:

Os antigos aquedutos,' grandes estruturas de outros tempos, também se funda-


mentaram rigorosamente, com relação à respectiva técnica, no mesmo princípioarquite-
tônico de verdade construtiva. E, da mesma maneira que as obras da arquitetura e do
urbanismo contemporâneo, eles tiram sua força plástica das grandes leis de ritmo e
simetria, da simplicidade e proporções dos vastos planos e superfícies, e da escala
monumental que Ihes permite contar na paisagem. Feitas para prover à vida e à saúde
dos homens, as Arcuatum opus são soluções exatas e lógicas que impressionampelas Figura 10. Aqueduto da Carioca, no Rio de Janeiro, comparado por José de
combinações das formas e volumes dentro da sua serenidade grandiosa: elasconstituem Souza Reis a uma obra arquiletônica da Antiguidade clássica (sem data).
grandes monumentos de arquitetura. (Reis, 1955, p. 95-96)

Em busca de um sentido nacional para a "arquitetura moderna", foi forjada a A ENUNCIACÃO DO A'tI(jON;jf EN1RE O IOfI5/M E A RHÓRICA: O (ONIHHO (ONIULIIVO DO SPHAN
origern da nação, identificando-se, ern sua pretensão evolutiva, "arquitetura moder-
Em termos legais, a ação de proteção ao patrimônio histórico e artístico nacio-
na" e "arquitetura colonial", e esta, com a da "Antiguidade clássica": a tríade da
nal foi fundada com base na tutela jurídica, a partir da aplicação do instituto do
"boa arquitetura".
tombamento, por meio da qual o Estado obteve o monopólio dos atos de definir
Para não deixar de retomar o texto de Warchavchik, Manifesto acerca da
e controlar o que seria este patrimônio.
arquitetura moderna:
O monopólio do Estado, no enlanto, se deu não por relações de força, mas
O arquiteto moderno deve estudar a arquitetura clássica para desenvolver seu
pela sua "eufemização", mediante o reconhecimento do poder a ele atribuído.
sentimento estético e para que suas composições reflitam o sentimento do equilíQrio
Nesse sentido, o Estado investiu na legitimação do seu papel para o desempenho
e medida, sentimentos próprios à natureza humana. Estudando a arquitetura clássipa,••.
poderá ele observar quanto os arquitetos de épocas antigas, porém fortes, sabiam dessa nova tarefa, ao longo das décadas de 1930 e 1940, a partir dos discursos
corresponder às exigências daqueles tempos. Nunca nenhum deles pensou em criar Vm e práticas dos intelectuais que se áparelharam na nova agência, quando o Sphan

lliQJ ./" 05 ARQUllfT05 DA Mf~ÓRIA PRÁrlCA5 Df rOMBAMfNro


um
'1 .
obteve os meios para. imposição de uma fala própria. Esta fala circunscreveu o As atribuições do Conselho Consultivo do Sphan
espectro de bens culturais passíveis de serem identificados como nacionais, tor- e os atributos dos conselheiros
nando-se, assim, critério de verdade. Conforme definido no decreto-lei nº 25/1937, as atribuições do Conselho
As práticas discursivas adotadas pelo Conselho Consultivo do Sphan, loeus concentravam-se na análise dos bens indicados para tombamento impugnados pe-
de ação com poder decisório em casos de conflito, exerceram papel fundamental, los proprietários, ou dos tombamentos solicitados pela sociedade civil. Era papel
mediante o prestígio e a representatividade de seus membros no interior dos cam- do Conselho Consultivo, portanto, interceder nos casos de conflito entre a socie-
pos intelectual e político, ao' engendrar uma retórica legitimadora e consagradora dade civil e a sociedade política, avaliando as razões e contra-razões impetradas,
das ações impositivas do Sphan. supondo, para uma decisão, por um lado, a defesa do "interesse público", e, por
As características deste locus permitiram uma compreensão ainda mais evi- outro, que a agência não extrapolasse os princípios legais da ação institucional.
dente das estratégias de Estado no processo de construção da hegemonia porque Nesse sentido, o Conselho Consultivo funcionou como um "tribunal de segunda
estavam baseadas, nesse âmbito de atuação, no aprimoramento da retórica relativa instância", conforme as palavras do diretor do Sphan e presidente do Conselho,
ao "interesse público" e à constituição do "nacional". Trata-se da nomeação oficial, Rodrigo Meio Franco de Andrade,"
segundo a definição de Bourdieu: "ato de imposição simbólica que tem a seu favor O núcleo das atenções do Conselho Consultivo, portanto, concentrava-se nos
toda a força do coletivo, do consenso, do senso comum, porque ela é operada por casos de tombamento, ato consagrador da ação institucional. O discurso veiculado
um mandatário do Estado, detentor do monopólio da violência simbólica legítima" nos processos de tombamento analisados nas reuniões do Conselho Consultivo
(1989, p. 146; grifos meus). foi dos mais conservadores dentre aqueles veiculados nos outros loci de ação do
A análise desse locus de ação ficou bastante enriquecida, e até mesmo viabi- Sphan. A partir dele, estruturaram-se solidamente as representações a -respelto
lizada, a partir da operacionalização do conceito de Estado como fruto do jogo do valor nacional e da "eficiência" do decreto-lei nº 25/1937, aprimorando-se,
de forças e interesses doe'frações de classe, resultante das imbricadas relações nesse locus, os mecanismos jurídicos e retóricos para sua aplicação. Embora o
estabelecidas entre sociedade política e sociedade civil." Nestas, frações de discurso aí produzido tenha possibilitado em grande medida que o decreto-lei
classe e/ou grupos de in~er~sses encontram-se em permanente disputa pela hege- nº 25/1937 "pegasse", esse mesmo discurso circunscrito ao locus do Conselho
monia e pelo consenso. Tratá-se, portanto, da imposição pelo grupo hegemônico não possuía necessariamente uma coerência interna entre seus diversos enuncia-
de sua "visão de mundo" .ao 'c'ônjunto da sociedade, visão esta apresentada de for- dores. Ou seja, as diferentes propriedades de posição de cada conselheiro, entre-
" •• , \ I

ma naturalizada e legitimada. por um reconhecimento que impede que a mesma cruzadas a fatos conjunturais surgidos em diferentes ocasiões, propiciaram toma-
seja compreendida como arbitrária. das de posição bastante variadas, muitas vezes de acordo com o público-alvo

Para se compreender os atributos legais e retóricos que configuraram as parti- envolvido no confronto - a posição ocupada pelo proprietário interessado, ou as

cularidades da ação do Conselho Consultivo, dentre as diferentes frentes abertas forças políticas e econômicas em jogo. Por terem sido casos polêmicos, foram

pelo Sphan visando a imposição de uma fala própria e legítima, pretende-se, a utilizados recursos retóricas e também políticos bastante contundentes, que contri-

seguir, caracterizar o âmbito de atuação desse Conselho, os mecanismos burocrá- buíram para tecer a trama em que estava sendo circunscrita a temática preserva-

ticos que o configuraram como instância máxima na decisão de casos polêmicos ção no Brasil, e sua consagração sob a tutela do Estado.
de tombamento, a constituição de seus quadros e as estratégias discursivas por Segundo a legislação que o crlou," o Conselho Consultivo deveria ser cons-
eles utilizadas, o que se fez a partir da seleção de alguns casos mais represen- tituído pelo diretor do Sphan, seu presidente, pelos diretores dos museus nacionais
tativos dos embates e das' distinções internas, do próprio Conselho, e externas, ligados a objetos históricos ou artísticos, e por mais dez membros nomeados pela
nas relações estabeleci das com a sociedade civil. presidência da República, sem que fossem estabele-idos os critérios para a es-

lmJ OS ARQUllElOS OA MEMÓRIA PRÁTICAS OE IOMBAIi\ENTO lBlJ


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colha desses ndriJés:;~'d;Conselho foi composto, sem dúvida, "por especialistas de suas carreiras, beneficiados, de algum modo, com trabalhos executados para o
I notável competência ~ \I~comprovado espírito público", assim valorizado no dis- poder público. Este último foi sócio de Lucio Costa num escritório de arquitetura
curso do ministr~ Gust~v~ ·Capanema, na sessão inaugural do órgão, em 10 de de 1933 a 1936 e integrou a equipe de arquitetos modernistas que projetaram o
li
J
Ir11
maio de 1938.30
O conjunto dos conselheiros do Sphan possuía outros importantes atributos
que os tornavam personagens fundamentais para a legitimação da tutela do Estado
mitológico prédio do Ministério da Educação e Saúde. Carlos Leão afastou-se do
Conselho Consultivo em dezembro de 1939, após desentendimento provocado por
sua derrota para Oscar Niemeyer, numa disputa travada dentro do Sphan a res-
r
sobre as ações de proteção ao patrimônio histórico e artístico nacional, a partir peito do projeto vencedor para a construção do Grande Hotel na cidade histórica
da teia de relações que mantinham e das posições estratégicas por eles ocupadas de Ouro Preto." Quem o substituiu provisoriamente foi o arquiteto Lucio Costa,
como notórios integrantes dos campos intelectual e político brasileiros. Nesse cuja atuação no Sphan havia se iniciado em 1937.
'I sentido, dentre os atributos que compartilhavam, estava o fato de que todos os É curioso notar que a diversidade de especializações característica. desse locus
seus membros tinham' alguma forma de inserção no Estado. Dentre os componen- de ação do Sphan, identificada como um de seus atributos fundamentais, não se
tes do Conselho, h~v!a aqueles que o eram por força da lei, devido aos postos fez sentir, conforme visto anteriormente, na constituição de seus quadros técnicos.
que ocupavam na rede burocrática do MES: os diretores do Museu Nacional de Estes, na verdade, tiveram a presença maciça e quase absoluta do arquiteto que,
Belas Artes (Oswaldo Teixeira, artista), do Museu Nacional (Heloísa Alberto no entanto, teve uma representação bastante reduzida no Conselho Consultivo,
Torres, antropóloga), do Museu Histórico Nacional (Gustavo Barroso, advogado nesses primeiros anos de funcionamento.
ll)
e historiador) e do Museu Imperial (Alcindo de Azevedo Sodré, historiador). O an- Desta forma, os critérios para a escolha dos nomes objetivavam, dentre ou-
h\
'[
(. tropólogo Edgard Roquette-Pinto teve assento no Conselho Consultivo não por tros aspectos, uma variedade de especializações, dentre intelectuais de "notório
direito legal, mas por seu prestígio, como antigo diretor do Museu Nacional e como saber"." Tendo por base esses critérios, outras razões influenciaram as escolhas,
fundador e diretor do Instituto Nacional do Cinema Educativo. a partir das propriedades de posição desses agentes, apenas sugeridas no quadro
Havia também os que participaram do Conselho mesmo sem ocupar cargos 4.2, que reúne também o conjunto de conselheiros do Sphan, no período de 1938
que os tornassem membros naturais. Eram pesquisadores e/ou professores de a 1946 (ver também anexo 2).
instituições de ensino federais, ligados a atividades profissionais cuja especifi- A sessão inaugural do Conselho Consultivo, realizada em 10 de maio de 1938,
cidade precisava ser demarcada como pertencente ao território multifacetado do foi presidida pelo ministro Gustavo Capanema. Em seu discurso, Capanema abriu
patrimônio histórico e artístico nacional. Tal é o caso dos pesquisadores Alberto ritualisticamente os trabalhos do Conselho, destacando as iniciativas tomadas pelo
Childe e Raimundo Lopes da Cunha, respectivamente arqueólogo e antropólogo do Governo Federal, desde 1934, em defesa dos monumentos artísticos e históricos
Museu Nacional; de' Francisco Marques dos Santos, historiador da arte, perito do existentes no País. Não "se esquecendo" da Inspetoria de Monumentos Nacionais,
Sphan, professor da USP e membro do IHGB; do afamado escritor modernista teceu elogios ao seu antigo diretor, ali presente, Gustavo Barroso, esclarecendo,
Manuel Bandeira, professor da Faculdade Nacional de Filosofia; de Afonso Arinos no entanto, a necessidade de criação de uma "repartição autônoma, com atribui-
de Meio Franco, jurista e político, professor da Universidade do Brasil; de Augusto ções privativas para assumir a proteção do patrimônio histórico e artístico nacio-
José Marques Júnior, artista, que por longos anos participou do elitizado Salão nal", assim como a de um Conselho. com atribuições consultivas e deliberativas.33
Nacional de Belas Artes, e professor da Escola Nacional de Belas Artes. Dessa forma, deu uma aura de continuidade aos esforços já empreendidos, tazen-
Dentre os componentes do Conselho, apenas José Otávio Corrêa Lima (artista do seu papel conciliador naquele momento solene, mas, ao mesmo tempo,demar-
consagrado comilnurneras obras públicas no Rio de Janeiro) e Carlos de Azevedo cando o começo de um novo tempo, distinto daquele simbolizado pela figura de
Leão (arquiteto) não exerceram o magistério, sendo profissionais de ponta em Gustavo Barroso, agora em franca desvantagem.

01 ARQUllfTOI DA ~EJl.ÓRIA PRÁTlCAI DE 10Jl.BAMENlO


QUADRO 4.2. ~PHAN - MEMBROS DO CONSElHO CONSU1I1VO (1938-1946) apreciado. A maioria dos casos de impugnação de tombamentos foi levada ao
Conselho Consultivo com parecer técnico de arquitetos do Sphan e com parecer
CONSELHEIROS ATUAÇÃO
do diretor, este, sugestivamente intitulado "Parecer do Sphan", Como prática re-
Afonso Arinos de Meio Franco Jurista corrente, eram solicitados pareceres a colaboradores eventuaís."
Alberto Childe Arqueólogo As reuniões ordinárias deveriam ser mensais, e as extraordinárias, realizadas
Alcindo de Azevedo Sodré Historiador mediante convocação do presidente ou requerimento assinado por dois ou mais
Augusto José Marques Júnior Artista conselheiros, Na verdade, no período de 1938 a 1946, realizaram-se apenas treze
Carlos de Azevedo Leão Arquiteto ;~" reuniões, concentradamente nos dois primeiros anos (cinco em 1938 e .cinco em
Edgar Roquette-Pinto Antropólogo 1939), uma em 1940 e as duas últimas somente em 1946.36
Francisco Marques do~' santos ' Historiador da arte Diante do vasto universo de 417 bens tombados, pode-se dizer, por um lado,
Gilberto Ferrez Historiador que as relações então tecidas entre o Sphan e a sociedade civil, de um modo
, ,
Gustavo Barroso Advogado geral, eram ainda bastante tênues, e as estratégias de poder de Estado deram-
Heloísa Alberto Torres Antropóloga se prioritariamente a partir da própria agência, já que, no período do Estado Novo,
José Otávio Corrêa uma Artista houve somente três casos de solicitação de tombamento por parte de particulares
Lourenço Luiz Lacombe Historiador e apenas treze casos de impugnação aos tombamentos propostos pelo Sphan.
Manuel Bandeira Escritor Desses, seis foram encaminhados por representantes da Igreja e sete por repre-
Oswaldo Teixeira Artista sentantes particulares, O quadro 4,3 apresenta esse panorama.
Raimundo Lopes da Cunha Antropólogo

Rodolfo G. de Siqueira Historiador de arte QUADRO 4.3. ~PHAN - \MPUGNACÕts AO 10MBAMENIO (1938-1946)
CASO IMPUGNANTE PARECER SOLUÇÃO

TECNICO CONSELHEIRO T A C
Na solenidade, ficou determinado que o Salão Nacional de Belas Artes, DOSPHAN

anteriormente responsabilldade do Conselho Nacional de Belas Artes, extinto pela Casa da praça Proprietária José de Souza Edgard x
Condessa de Reis Roquette-Pinto
mesma lei que criou o Conselho Consultivo, passaria a ser tratado por uma comis- Frontin 52,
são especializada para o assunto, presidida pelo diretor do Museu Nacional de Rio de Janeiro/RJ .'
Belas Artes, Oswaldo Teixeira, e composta pelos conselheiros artistas plásticos: Palácio Episcopal de Arcebispo Aníbal Fernandes " Francisco Marques x
Olinda e Seminário, de Olinda dos Santos
José Otávio Corrêa Lima e Augusto José Marques Júnior." OlindalPE

As formas de funcionamento do Conselho Consultivo foram regulamentadas Fazenda do Viegas, Proprietários Paulo Thedirn Raimundo Lopes x
Rio de Janeiro/RJ Barreto
também na sessão inaugural, quando se deliberou que a distribuição dos proces- Capela da Jaqueira, Invenlariante Anfbal Fernandes Carlos Leão x
sos de tombamento a serem analisados se fizesse pelo presidente do Conselho - Recife/PE do espólio

o diretor do Sphan -, considerando que a circunstância da nomeação havia sido Igreja de Nossa Vigário Paulo Thedim Rodrigo Melo x
Senhora da Penha responsável Barrete Franco de Andrade
inspirada no critério de especialização dos seus membros e que este, também di- de França, pela igreja
retor do Sphan, estaria melhor inteirado das necessidades de cada caso a ser Rio de Janeiro/RJ
continua q

1226J 01 ARQUITETOI DA !I\{,\\ÓRIA PRÁII(AI OE 10MBAMENI0 um


Igreja de Nossa Arcebispo. de Augusto Meyer Carlos Leão x A Igreja, por meio de seus representantes locais, foi responsável pelo encami-
Senhora do Rosário, Porto Alegre nhamento de seis dos treze casos de impugnação julgados pelo Conselho Consul-
Porto Alegre/RS
tivo. Para tais casos, localizados em diversas cidades e regiões do Brasil, foram
Arco do Teles, Proprietário Rodrigo Meio Afonso Arinos de x
praça XV, li'
Franco de Andrade Meio Franco apresentados argumentos bastante semelhantes entre si, sendo o enunciado mais
Rio de Janeiro/RJ
recorrente a "necessidad~ de satisfação das exigências religiosas" mediante re-
Casa na rua Proprietário Rodrigo Meio Alberto Childe x
Marquês de São Franco de Andrade formas para ampliação de seus espaços, já pequenos para o culto, o que passaria
Vicente, a ser proibido após o tombamento. Confrontavam-se, assim, duas ordens distintas
Rio de Janeiro/RJ
de representações simbólicas - 'terrenas" e "espirituais" -, que viriam gerar uma
Casa da Pedra Proprietário Rodrigo Meio x
(gruta), Franco de Andrade -- série de constrangimentos ao poder público.
Tiradentes/MG
Os representantes da Igreja também se autoatribuíam a capacidade de avalia-
Capela da Quinta Proprietário Raimundo Lopes x
das Laranjeiras, ção do valor histórico ou artístico concedido a seus bens patrimoniais, na medida
São Luis/MA
em que foram eles próprios os "construtores" da maioria do acervo de bens arqui-
Igreja de São Pedra, Bispo de Augusto Meyer Carlos Leão x x
Rio Grande/RS Pelotas tetônicos reconhecidos pelo Sphan como patrimônio da cultura nacional. Coloca-
Igreja e Convento Província José de Souza Manuel Bandeira x vam-se, assim, em pé de igualdade com relação aos intelectuais responsáveis por
da Lapa do Desterro, Carmelita Reis
Rio de Janeiro/RJ Fluminense
essa "identificação da nação", indo diretamente de encontro com a exclusividade
Portão da Quinta Congregação -- Raimundo Lopes x almejada pelo Sphan nesse novo território que "beneditinamente" vinha sendo de-
das Laranjeiras, Marista marcado, conforme frisou Ayrton Carvalho (1944).
São Luís/MA
Justamente em função desse estreito envolvimento, os representantes da Igreja
Legenda: T - tombado; A - arquivado; C - cancelado.
Fonte: Atas do Conselho Consultivo do Sphan e Processos de Tombamento - Arquivo tinham opinião própria sobre o assunto. Em vários casos, "desqualificavam" seu
Central do Iphan.
próprio patrimônio, fosse desconsiderando-o como "monumento artístico", fosse
em função das obras ou reformas que neles já tinham sido feitas. Neste embate,
Ioso: de tombamentos impugnados pela Igreja
representantes dos altos postos da Igreja colocavam em suspeição, de forma
A Igreja manteve estreitas relações com o regime varguista, engenhosamente extremamente arrogante, pareceres do Sphan, questionando a competência dos
teci das, desde 1931, quando o núncio apostólico, em visita ao Brasil, hospedou-se técnicos e cobrando-Ihes maior precisão a respeito do que entendiam por obra de
no Palácio do Catete; e ~ão na Casa do Bispo, como seria de praxe (Santos, 1997). arte.
A inauguração da estátua. do Cristo Redentor foi uma celebração de união entre
A seguir, será analisado um dos casos tratados pelo Conselho Consultivo,
Estado e Igreja que- não ..se, via desde a declaração de estado leigo pela Cons-
considerado exemplar para evidenciar os confrontos estabelecidos nas relações
tituição republicana de 1891,: No âmbito da gestão estatizada de bens simbólicos,
tecidas entre Estado e Igreja, nesse âmbito da produção simbólica.
este fato não se deu de forrri~ diíerente, tendo sido a Igreja a entidade civil mais
atingida pelo ato de tombamento nesse período, como proprietária de mais de 50%
.4 /grf!jalda/riz de fão Peo'r~em Rio frand~
dos bens tombados então. A Igreja foi também a grande beneficiária das obras
no Rio {ronde·do fV/31
de restauração empreendidas pelo Sphan, na maioria absoluta das vezes finan-
ciadas pelo próprio poder público. As relações então tecidas entre Sphan e Igreja o relatório apresentado por Augusto Meyer, assistente técnico do Sphan no
foram bastante estreitas, propiciando, em muitos momentos, um apoio à "causa" Rio Grande do Sul, indicando para tombamento a Igreja Matriz de São Pedro, ain-
da preservação cultural, mas também atritos em função de interesses divergentes. da em 7 de julho de 1937, tratava do acirrado debate - instaurado desde 1935 -

l1.?!J 01 ARQUlltlOl DA MIMÓRIA PRÁTICAS DI TOMBAMENTO


lillJ
\ sobre a intenção do padre. em promover a sua dernollção." O assunto vinha geran- claros e precisos, sobre o que pode se constituir obra de arte em arquitetura
I do polêmicas, inclusive na imprensa local e de Porto Alegre, e, em torno dele, uma religiosa, e mande pessoa competente e idônea para examinar se a Matriz de São
I.

extensa rede se articulava: contra a demolição da Igreja, o engenheiro Fernando Pedro responde"."
!
Duprat da Silva,39 que h'avia cedido para o Sphan plantas e desenhos de fachada Rodrigo Meio Franco de Andrade respondeu às acusações, apresentando uma
que possuía da Igreja, e q presidente da Biblioteca Riograndense, Abeillard Barreto, resposta aos "quesitos" solicitados:
escrevendo em jornais, fazendo apelo aos intelectuais do Estaoo,? ofereceu ao
[...) pela conveniência de serem preservadas no País as obras arquitetônicas caracte-
Sphan extenso histórico da referida igreja, com vasta bibliografia; o cardeal dom
rísticas de determinados períodos de nossa história, carecem de ser tombadas todas
Sebastião Leme também envolveu-se no assunto, enviando telegrama ao bispo de as igrejas que se enquadrem no partido geral de composição peculiar à arquitetura
Pelotas em defesa da manutenção da igreja. O encaminhamento do tombamento religiosado século XVIII e que apresentem nas fachadas certos elementos e pormenores
foi feito, então, por Augusto Meyer. também característicos daquele período."

Rodrigo Meio Franco de Andrade ainda ressaltou, como critério de atribuição


de valor, a necessidade de se relativizar as características artísticas do imóvel
comparativamente com o patrimônio artístico da região. Buscou também legitimar
a existência do decreto-lei nº 25/1937, passando a sua defesa a ser feita com base
no discurso da legalidade:

[...] sua preservação se impõe tanto mais quanto me.os é rico o patrimônio artístico
do Estado [...]. A simplicidade de concepção e execução da Matriz não constitui razão
suficiente para lhe negar valor como obra de arte [...]. Não seria possível fazer tal lista
de quesitos porque a conceituação e especificação dos elementos que possam distinguir
[...] não lograram ainda ser apurados, daí a existência do decreto-lei nQ 2511937.44

Por fim, para refutar a acusação de leviandade feita contra Meyer, responsável
pela proposta de tombamento, Rodrigo Meio Franco de Andrade saiu em sua defe-
sa, afirmando veementemente que ele havia feito acurado estudo, com relatório,
fotos, plantas e bibliografia.

Figura 11. Igreja Matriz' de' São Pedra, em Rio Grande, Rio Grande do Sul (sem data). Em seu parecer, Augusto Meyer utilizou-se do "critério histórico", dada a "insig-
nificância do ponto de vista artístico", afirmando que "Exceptuada a zona missio-
Foi O próprio bispo' de Pêlotas que apresentou a impugnação, de modo arro- neira, [...] pouco ou quase nada apresenta o Rio Grande do Sul indiscutivelmente
gante, questionando, inclusive, a idoneidade do representante do Sphan em Porto digno de tombamento"." Segundo ele, abandonar a Matriz ao seu destino seria
Alegre - Augusto Meyer -, e fazendo exigências quanto aos critérios que o Sphan abrir uma porta a todas as concessões, tendo sido esta uma preocupação recor-
adotava. As considerações do bispo foram de que a Matriz estava pequena para rente naquele momento.
o culto, necessitando de reformas para sua ampliação, visto que não seria conve- O conselheiro Carlos Leão assim abordou essa ideia em seu parecer:
niente trocá-Ia de lugar, devido às "tradições paroquiais". Duvidava das qualidades
Se fôssemos nos cingir a tombar exclusivamente obras perfeitas de arte, bem
arquitetônicas da igreja, afirmando que "não é nenhuma obra de arte, como por
pouco teríamos no Brasil [...). Não se trata de comparar os nossos monumentos-com
tal erroneamente dada ao Sphan - são puras paredes sustentando um teto já grandes obras da Grécia, Itália ou França, mas sim de proteger nosso patrimônio
bastante arruinado"." Sugeriu, enfim, que o Sphan fizesse uma "lista de quesitos, histórico e artístico."

12301 " OS ARQUITETOS OA MEMÓRIA PRÁTICAS DE TOMBAMENTO [lli]


o tombamento foi aprovado por unanimidade, e inscrito no Livro de Tombo das Correios que estavam sendo feitas na praça, apesar de o Conselho Consultivo do
Belas-Artes." Sphan ter julgado que também ela estava tombada. A polêmica foi assim solucio-

No entanto, o caso não nada, evidenciando que o capital político do Sphan, nessas disputas, não foi capaz
, se encerrou por aí. O Rio Grande do Sul precisava ser
atado a essas redes, oque não parecia tarefa fácil naquele momento. Os diversos de sensibilizar o executivo federal, na rede de relações tecidas. Vários artigos

interesses envolvidos nesse episódio foram ficando em evidência. O vigário insis- continuaram saindo nos jornais, inclusive do Rio de Janeiro, sobre o assunto,

tia em reformar a Capela de São Francisco, anexa à Igreja de São Pedro, dizendo durante o ano de 1948.51

que a capela não estava tombada. A prefeitura também entrava em confronto com
o Sphan, porque desejava construir na praça da igreja um prédio de oito andares.
Relações entre proprietários particulares
O arquiteto Lucas Mayerhofer, prestando serviços ao Sphan no Sul, em 1939, en-
e o Conselho Consultivo do Sphan
tendia que isso prejudicaria a Matriz, e, portanto, a praça deveria ficar como esta- Os casos de impugnação a tombamentos feita por particulares, analisados
va, apenas com árvores e jardim. Em carta a Rodrigo Meio Franco de Andrade, pelo Conselho Consultivo, reportaram-se, todos eles, a uma única argumentação -
pedia que conversasse com Lucio Costa sobre o que julgava conveniente para o direito de propriedade. Os proprietários consideravam o tombamento um ônus
atender às reclamações do vigário, sem a demolição da Igreja de São Pedro. Caso allíssimo sobre suas propriedades, podendo causar-Ihes sérios prejuízos econô-
o vigário não concordasse, entendia que deveriam apenas reparar o telhado para micos. Um dos casos chegou a questionar a constitucionalidade do decreto-lei
a segurança do monumento. Assim, sugeria que se fizesse "Abertura de arcos nas nQ 25/1937, com base nas restrições ao direito de propriedade que ele impingia.
paredes da nave, conservando-se como está a da capela-mar; cessão do interior A conquista paulatina com relação à legitimidade do Sphan no que se refere a
de São Francisco para instalação da casa canônica, respeitada, bem entendido, esse aspecto foi, sem dúvida, um ponto crucial para o reconhecimento da ação
a sua fachadinha"." de proteção ao patrimônio histórico e artístico nacional nas mãos do Estado.
Em carta encaminhada a Rodrigo Meio Franco de Andrade, em 11 de fevereiro Na análise dos procedimentos adotados para solução da impugnação impetrada
de 1942, o vigário da Matriz reclamava que o Sphan fazia apenas obra no telhado ao tombamento da casa à praça Condessa de Frontin, nQ 52, na cidade do Rio de
e que não podia pedir dinheiro aos fiéis para fazer o restante das obras, porque, Janelro," transpareceram aspectos significativos das posições em disputa.
-. , ..
dizia ele, "ouvimos invariavelmente a resposta - o Sphan que o faça".49
Este imóvel foi uma antiga chácara, pertencente ao visconde de Estrela. A
Diante de demorada polêmica, o diretor do Sphan enviou Paulo Thedim Barreto proprietária, Elvira de Souza Ferreira, apresentou sua impugnação, alegando o
ao Rio Grande para vw.a~ obras da Matriz. Este reafirmou em seu relatório que prejuízo econômico que sofreria. Com um vocabulário bastante inteirado das
a Capela de São Fran~is60 era parte do conjunto tombado da Matriz, não podendo disposições existentes no jíecreto-lei nQ 25/1937, a proprietária não questionou o
ser demolida.50 Parecia,
. I
por

um lado, que a Matriz, sacralizada com o tombamento, "valor artístico" do imóvel, dizendo-se com interesse em "cooperar com Vª. Sr'!.
havia "contagiado" a capela anexa. Por outro lado, a pretensão de intervir na orde- para a seleção artística do nosso Patrimônio Nacional Artístico e Histórico, [...)
nação urbana da cidaoe, ao .tratar do agenciamento da praça, visava manter uma achando até uma grande honra possuir uma propriedade de tal valor"." Ainda
ambiência condizente 'com.' a' igreja tombada, entendendo que as alterações pro- assim, solicitava que o tombamento não fosse realizado.
postas pela prefeitura poderiam profanar o bem sacralizado. Recorrentemente, os
O arquiteto do Sphan José de Souza Reis fez seu parecer, afirmando ser o
agentes do Sphan buscavam aíuar como urbanistas, argumentando, para isso, em
imóvel
defesa do patrimônio tombado.
[...) bastante interessantesob o ponto de vista histórico-artísticopelo seu aspecto
Em 1948, o presidente Eurico Gaspar Dutra cancelou o tombamento da praça
exterior, [...) mostrandoum bom exemplo de arquitetura residencialde época: estilo
como parte integrante do, tombamento da Matriz, a fim de legalizar as obras dos sóbrio, boa proporção,a forma característicade sobrado ocupandosó a parte central,

llRJ 01 ARQUllfIOl DA ~E~ÓRIA PRÁIICAS DE 10'\\BA~ENI0 lmJ


com as paredes laterais revestidas de telhas, barra de azulejos na fachada principal,
Foi aprovado o arquivamento do caso, de acordo com as condições colocadas
boas estatuetas sobre o ático."
por Roquette-Pinto, sendo que Manuel Bandeira, contrariamente ao parecer do
li
No entanio,âfir,m'~u também que o imóvel estava internamente desfigurado, relator, foi a favor do tombamento.
11"

havendo, na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, exemplares semelhantes com


Mantiveram correspondência, o Sphan e a proprietária, para fins de cum-
interior ainda pres~rVé)do e, nesse sentido, não via "maior inconveniente em aten-

~ f"j>/'fé"-
der à impugnaçãodà proprietária. Nesse caso, seria conveniente mandar fazer
primento das exigências então feitas. Lucio Costa lntervelo no assunto, fazendo
a cada momento novas exigências à proprietária. Uma "informação técnica" de
' documentação fótográfica' do prédio"."
Costa, datada de 1942, determinava que
'[i O parecer do Sphan ao Conselho Consultivo, elaborado por Rodrigo Meio
Deverão ser entregues pelo proprietário, e:l1 perfeito estado de conservação
Franco de Andrade, considerava que a argumentação apresentada na impugnação,
[elementos arquitetõnicos do prédio] a fim de serem devidamente preservados, como
face ao decreto-lei n2 25/1937, não tinha valor, posto que a proprietária alegava parte integrante do acervo destinadoao Museu de Arquitetura Civil a ser criado opor-
motivos pessoais, de ordem financeira, sem contestar que sua preservação fosse tunamente nesta Capital, com seções nos diferentes estados e municípios.58
de "interesse público", já que não questionou os atributos artísticos do imóvel.
Tal museu jamais foi criado, e, em 1955, o prédio, já em péssimo estado de
Nesse sentido, Rodrigo Meio Franco de Andrade ponderava que "a conveniência
,ilh' canse Nação e interditado pela saúde pública havia alguns anos, foi demolido, sem
para a coletividade está acima da individual". No entanto, concordava com o pa-
I que pudesse ser recolhido o referido material.
recer do arquiteto José de Souza Reis, sugerindo que fosse escolhido, em Niterói,
, '~,',," "um exemplar bem típico para ser tombado". Assim, ele mesmo forneceu os
~ Modelos discursivos dos pareceres
argumentos que a proprietária não havia sido capaz de formular, afirmando:
l Analisando esse loeus de ação do Sphan, percebeu-se a recorrência de proce-
[...) o tombamento só deverá prevalecer quando o interesse público que houver na
preservaçãode um monumento ou de uma obra de arte primar insofismavelmentesobre dimentos que, ao mesmo tempo, instituíam uma racionalidade administrativa no ór-
o interesse particular que porventura militar em sentido contrário." gão e o legitimavam, ao legitimar o próprio Conselho Consultivo. Segundo Santos,

N'em sempre a retórica, porém, foi utilizada em favor dos interesses do pro- [...] procuravam fazer coincidir a autorrepresentaçãode seus membros com a autorre-
prietário. Assim, revelou-se, nesse caso, a maleabilidade do "interesse público" e presentação da instituição Sphan. Assim, é preciso reafirmar continuamente a neces-
sidade de reconhecimentopúblico da legitimidade da instituição Sphan. (1996, p. 82)
a curta distância entre o sofisma e a retórica, enquadrando-se convenientemente
num lugar ou noutro, de acordo com os interesses em disputa. Neste caso, optou- Esses procedimentos se engendraram a partir de três tipos de pareceres, hie-
se por uma conciliação de interesses em que a evidente aparelhagem intelectual rarquicamente situados na sua estrutura de funcionamento, seguindo essa ordem:
da proprietária para lidar com o assunto tornava-a cúmplice da "causa", sendo o parecer técnico do arquiteto; o parecer do Sphan, de Rodrigo Meio' Franco de
conveniente ao órgão atender a um pedido de âmbito privado. Andrade; e o parecer do relator do Conselho Consultivo do Sphan, Considerando
O relator do caso foi o conselheiro Roquette-Pinto. Visando não desprestigiar os pareceres como uma técnica discursiva 'que impõe regras e consubstancia a
a lei, o conselheiro propôs uma solução conciliatória, entendendo que ambos os hierarquia institucional, como dispositivos que prescrevem ao descrever, eles
interesses poderiam ser atendidos, exerciam diferentes papéis e se distinguiam na forma e no conteúdo.
,
[...) desde que o Sphan recolha ao Museu Histórico Nacional ou a outra qualquer Os pareceres técnicos, na maioria das vezes emitidos pelos arquitetos, carac-
repartição colecionadora a maquete, em justa proporção, do ediffcio [...). Resolvendo terizavam-se por serem descritivos das características físicas do objeto - embora
nos termos aqui propostos os casos idênticos, atenderá ao justo interesse particular em termos vagos, crípticos e manipuláveis - e por demonstrarem um conheci-
sem abrir discutíveis exceções que virão, em pouco tempo, inutilizar a lei que hoje regula mento específico das técnicas construtivas e do universo de bens do qual ele fazia
a matéria.57 (Grifos meus)
; parte como peça exemplar ou mesmo única. Dentre os aspectos recorrentemente

...: ,.,
llill 01 ARQUITfl01 DA MEMÓRIA
t ,', LlliJ
tratados, continham, todos eles, descrições detalhadas das características arqui-
tetõnicas e dos materiais utilizados, e do "apuro técnico" com que foi produzida
a obra arquitetõnica em análise, assim como comentários sobre os trabalhos de
restauro necessários para voltar-Ihes a "feição original". Era sempre valorizado
o fato de serem os objetos "exemplares únicos", o que podia ser definido pelas
características arquitetõnicas destacadas ou pela escassez de exemplares no
âmbito regional. Neste caso, era colocada a necessidade de relativização dos va-
lores das diferentes regiões.
Nesse tipo de parecer, o ''valor histórico" era considerado dado para as cons-
truções do século XVIII ou anteriores. Já o critério de valorização propriamente
histórico como justificativa para o tombamento era utilizado, secundariamente, em
função da "insignificância do material sob o ponto de vista artístlco"," tratando
hierarquicamente o interesse não só histórico-artístico do objeto em análise, mas
Figura 12. Fazenda do Viegas, no Rio de Janeiro, constderada por Paulo
o "puramente artístico". com a utilização frequente da expressão "boa arquitetura".
Thedim Barreto um exemplar t1pico da habitação rural brasileira (sem data).
Eram consideradas,' assim, essenciais as características arquitetônicas de dispo-
sição interna e externa, a conservação dos elementos construtivos, seu aspecto Os pareceres do Sphan, por sua vez, eram propositivos e argumentativos,
primitivo e as características de estilo. considerando as "descrições técnicas" realizadas e aspectos jurídiCOS do tomba-
O arquiteto do Sphan' Paulo Thedim Barreto sugeriu, inclusive, a existência mento. Geralmente, esse tipo de parecer conciliava-se com a argumentação de
de uma "planta típica" d~ habitação rural brasileira ao analisar a sede da Fazenda "caráter técnico", no entanto, em alguns momentos, Rodrigo Meio Franco de Andrade
do Viegas, no Rio de J~nei~0.60 Fazendo uma descrição física detalhada do imó- emitia opiniões divergentes a respeito das proposições e encaminhamentos, sendo
vel, considerava que seus 'elementos um parecer estratégico dentro dessa rede hierárquica, pois definia uma tomada de
[...] demonstram o apuro com que foi feita a obra. [...] A casa conserva no que é posição para o Sphan.
essencial, isto é, a sua disposição externa e interna e seus principaiselementoscons- Os pareceres dos conselheiros relatores tinham caráter decisório, pois ainda
trutivos, o aspecto primitivo. [...] Boa arquitetura rural da época já bem remota, que
que dependessem da aprovação pela maioria do Conselho Consultivo, raras vezes
se conserva, e como' um dos poucos exemplares do tipo, existente na l' região [do
foi tomada decisão diferente daquela encaminhada pelo relator. Nesse tipo de
Sphan],"
parecer, considerava-se o "valor nacional" do bem indicado para tombamento e os
A profundidade histórica da nação - sua ancianidade - poderia ser construída
aspectos político-institucionais de legitimação do Sphan. Apoiados nos pareceres
também a partir do conhecimento de tipos arquitetõnicos que se enquadrassem em
anteriores, eles preocupavam-se permanentemente com o caráter nacional do ob-
séries históricas, cuj'a~ características se repetiriam e se transformariam lenta-
jeto apreciado, que articulava, retoricamente, as diferenças das produções arquite-
mente, dependendo do tipo de arquitetura, da região e da época da construção.
tônicas do Brasil, ao relativizar os valores regionais, ainda que também esses
Dessa forma, se constituía uma tipologia arquitetõnica brasileira, uma homoge-
valores fossem hierarquicamente tratados. Esse aspecto ficou bem sintetizado
neidade, uma constância. Os pareceres técnicos eram principalmente caracteri-
nas palavras do arquiteto conselheiro Carlos Leão, citadas anteriormente, no caso
zados dessa forma.
relativo ao tombamento da Igreja Matriz de São Pedra, em Rio Grande.

[illJ 01 ARQUITETOI DA MEMÓRIA PRÀTICAI OE TOMBAMENTO Ilill


1'1
'I ·i
'

Alberto' Child~~I~~~~rrireferiu-se ao assunto, de forma talvez resignada, de- se em descrença, perdendo sua força ou tornando-se "letra morta". Para Raimundo
monstrando, por su"â vez,"a 'subjetividade do decreto-lei nº 25/1937, na medida em Lopes, o tombamento poderia "evitar deturpações do utilitarismo conterrporáreo"."
que a inclusão na "datego'ria de patrimônio histórico e artístico nacional dependia Reafirmando as concepções sobre o que seria o patrimônio histórico e artístico
somente de uma bcia retórica. Percebe-se também um forte empenho em consi- nacional, as quais o Sphan consagrava em sua prática seletiva e classificatória,
derar os pedidos de tombamentos feitos por particulares. Nesse sentido, referindo- o debate no Conselho Consultivo concentrou-se sobretudo em torno da valorização
se à solicitação de tombamento de um bem de arquitetura religiosa descrito como do aspecto artístico-arquitetônico, estando presente entre os conselheiros, tal
de feição popular, a Igreja de Santa Rita, em Uberaba, Minas Gerais, feita por um como entre os arquitetos, a preocupação com a unidade arquitetônica primitiva,
morador da cidade, considerou: "Na falta de outro monumento em Uberaba de valor intenção essa que revelava o desejo de que a arquitetura fosse intocável, tal qual
histórico ou artístico, deve ser considerada obra de excepcional valor"." uma obra de arte. Ainda assim, Raimundo Lopes amplia a noção de "interesse
público" sem deixar de enfatizar o "caráter nacional" que tanto o preocupava:

A notoriedade própria de um grande centro rural, e aquele que, na região, melhor


conservava as características antigas, é mais valiosa do que se ali tivesse morado
algum personagem ilustre. [...] o que interessa ao poder público conservar não se mede
tanto pela excepcional beleza técnica ou luxo da obra, mas pelo caráter nacional,
ambientação e conexões arqueológicas. [...] O caso é de interesse para nossa incipiente
arqueologia histórica."

Como se pode perceber, ainda que de forma hegemonizada no interior


do Conselho Consultivo do Sphan, o antropólogo maranhense foi bastante sensível
a uma abordagem mais historicizada do bem cultural, evidenciando que o patri-
mônio histórico e artístico nacional estava sempre em construção - não estava
dado a priori. Não se deve perder de vista, portanto, que as visões de mundo e
as posições nos diversos campos (político, cultural, religioso, intelectual etc.) de-
terminaram, muitas vezes, as tomadas de posição dos agentes em jogo. Na gestão
estatizada de bens simbólicos, escolhas políticas estavam permanentemente
Figura 13. Igreja de Santa Rita, em Uberaba, Minas Gerais; igreja de feição sendo feitas, as quais uma boa retórica era, de um modo geral, capaz de sustentar,
popular, seu tombamento foi defendido por Alberto Childe por não haver outro no amplo universo de possibilidades de "invenção" do patrimônio.
exemplar de valor histórico ou artístico na cidade (sem data).
Ainda assim, essas variáveis político-conjunturais no tratamento de cada caso
o outro aspecto recorrente - a busca de legitimação das ações de preser- observadas nas relações tecidas a partir do Conselho Consultivo do Sphan esti-
vação do patrimônio cultural, sob a tutela do Estado, por meio do reconheci- veram contidas por um contomo amplo porém preciso do que seria considerado
mento do decreto-lei n 25/1937 - ficou evidenciado em alguns dos casos descri-
Q patrimônio histórico e artístico nacional -:- então denominado "arquitetura tradicio-
tos. Em mais de uma oportunidade, se falou em defesa das regras do decreto-lei nal". O recorte de bens selecionados para tombamento e classificados nos Livros
nQ 25/1937, sendo a 'sua valorização uma preocupação permanente, inclusive, num de Tombo definiu a coleção do patrimônio histórico e artístico nacional de forma
/, .
claro tom de lnseqerança e de empenho para que se fizesse a lei "pegar". Busca- hierarquizada em diferentes níveis do sagrado (Handler, 1988). Prímsiramente.,»
va-se, assim, evitar v~cilações na sua aplicação, para que a legislação pão caís- "patrimônio nacional" foi definido em termos de um nacionalismo conservador e
j
I'.
"

l1ill 01 ARQUllfJOI DA MEMÓRIA PRÁIIW DE TOMBAMENTO 12391


clerical. Nessa perspectiva, a substância da "identidade nacional" dependia da Informações complementares foram extraídas da série Memória Oral, publicada pelo Iphan

sua origem lusitana e também católica, ainda que reapropriada e transformada (Martins, 1987; Silva-Nigra, 1991).

numa "nacionalidade que é nossa", como dizia Lucio Costa. A respeito desse assunto, ver Pacheco, 1996, especialmente p. 260-262.

Outros atributos também delinearam a grande coleção de bens patrimoniais: Conforme tratado anteriormente, Lucio Costa formou-se pela Escola de Belas Artes em 1924,
sua antiguidade e/ou o "caráter histórico" de bens vinculados a personagens ou ligando-se ao movimento neocolonial. Ao abandonar essa corrente, fazia sua crítica afirmando
, . ser "irrelevante a querela entre o falso colonial e o ecletismo dos falsos estilos europeus"
a fatos memoráveis da história nacional, condensando assim a própria existência
(Coutinho, 1962, p. 350).
da nação. E, também, aqueles que 'fipiticavam" a arquitetura brasileira, para os
quais eram feitas taxinomias por tipo de arquitetura ou técnica construtiva, nas Ver, por exemplo, União Internacional dos Arquitetos - Unesco. Relatório sobre o ensino
de Arquitetura no Brasil - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São
quais se buscava, por exemplo, conhecer a "planta típica", conforme afirmou Paulo
Paulo, out 1974 (Abea, 1977).
Thedim Barrete." Ern" resumo, o que era histórico e típico era autêntico, e esta
autenticidade deveria.ser objetivamente perceptível. A relação entre a nação e a A respeito do revolucionário Salão de 1931, ver Vieira, 1984.

cultura deveria, assim, $ei caracterizada pelos atributos de originalidade e auten- 10 Foi quando Lucio Costa associou-se com Warchavchik e, juntos, projetaram a "Vila Operária
fi ,.' . I
da Gamboa", no Rio de Janeiro. De 1933 a 1936, associou-se com Carlos Leão (que seria
ticidade, todavia, seguirido':.s~mpre a suposição de que a nação portadora de cultu-
posteriormente membro do Conselho Consultivo do Sphan), e, em 1935, foi professor da
ra existe naturalmenre (ibid., 1988).
UDF. Em 1936, iniciam-se as negociações para construção do MES.

11 Posteriormente, a EBA passou a fazer parte da Universidade do Brasil, transformando-se


NolAS
em Escola Nacional de Belas Artes (Enba).
Parecer de Lucio Costa, 19 novo 1954. Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em
12 "A Faculdade Nacional de Arquitetura, oriunda da Escola Nacional de Belas Artes, nasceu
Matias CardosolMG (ACI-processo 493-T-54).
em 1945; [em São Paulo] a Faculdade de Arquitetura Mackenzie, separada da Escola de
Sobre o processo de constituição da profissão do arquiteto deforma autônoma à engenharia Engenharia Mackenzie, apareceu em 1947; a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo,
e às belas-artes, ver Cavalcanti, 1995; Koatz, 1996; Silva, 1995. ~ separada da Escola Politécnica, em 1948; a Faculdade de Arquitetura da Universidade do
Rio Grande do Sul, oriunda do Instituto de Belas Artes, em 1952; a Faculdade de Arquitetura
Segundo Bourdieu, para se escapar à distinção slrnplista entre o individual e o social, deve-
da Universidade Federal da Bahia, originária da Escola de Belas Artes da Bahia, em 1959,
se observar que "toda ação histórica põe em presença dois estados da história (ou do social):
juntamente com a Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco." (Abea,
a história no seu estado objetivado, quer dizer, a história que se acumulou ao longo do tempo
1977, p. 54)
nas coisas, rnáqúlnas, edifícios, monumentos, livros, teorias, costumes etc., e a história
em seu estado incorporado, que se tornou habitus. [...] Essa atualização da história é 13 Sobre a constituição de um habitus advindo da formação escolar e a construção de
consequência do habitus, produto de uma aquisição histórica que permite a apropriação do mecanismos de prestígio e promoção por meio da formulação de discursos e práticas de
adquirido histórico" (1989, p. 82-83). reconhecimento e pertencimento/exclusão, ver Bourdieu e Saint Martin, 1987; Bourdieu,
1982. !,~
Judith Martins, Hélcia Dias, Maria de Lourdes Pontual e Nair Batista trabalhavam na sede
em serviços administrativos, da mesma forma que José Bento, em São Paulo, Cartos Ott, 14 Isso fica bastante evidente quando os arquitetos dessa vertente atualizam esse tema,
em Salvador, dentre vários outros que permaneceram por longos anos como funcionários fazendo questão de serem tratados, ainda hoje, não por modernistas, mas por "modernos',
do Sphan. Os diretores dos museus criados no período eram o cônego Raimundo Trindade, a fim de não serem identificados a um estilo arquitetõnico de época, mas representantes
do Museu da Inconfidência, e Antônio Joaquim de Almeida, do Museu do Ouro. Dom de principias universais. Para o assunto, ver a apresentação de halo Campofiorito, integrante
Clemente da Silva-Nigra, erudito em arte sacra beneditina dos séculos XVI e XVII, foi da equipe de arquitetos da "Nova Cap", empresa responsável pela construção de Brasília,
incorporado ao Sphan, numa conjugação dos interesses do Sphan e da ordem, que o nomeou em Lissovsky e Sá, 1996.
arquivista-mor da ordem beneditina do Brasil. 15 Plano de trabalho para a Diretoria de Estudos e Tombamento da Dphan -1949, de Lucio
Costa (ACI - Pasta de personalidades).

lliQJ OS ARQUIlEIOS DA ~E~ÓRIA PRÁIICAS DE lO~RAMENIO lliU


I'

16 Os processos de tombamento das décadas de 1930 e 1940 contêm pouca documentação, 'EI Sociedade civil constitui-se de agências ou aparelhos privados de hegemonia (Igreja,
geralmente apenas a notificação ao proprietário do imóvel, sua anuência e o consequente escolas, órgãos de representação profissional etc.), enquanto a sociedade política constitui-
"Inscreva-se" do diretor. Somente os casos que foram impugnados pelos proprietários se das agências, ou aparelhos de Estado, no sentido restrito (partidos políticos, instituições
contêm um conjunto mais variado de documentação, como será visto adiante, ao se analisar públicas etc.). Ambas, conjuntamente, conformam espaços em que o poder ordenador da
o Conselho Consultivo do Sphan. Os processos de tombamento encontram-se no Arquivo cultura se exerce no sentido de construção da hegemonia (Gramsci, 1978; 1991).
Central do Iphan - Série Processos.
26 Ata da Sessão Inaugural do Conselho Consultivo, realizada em 10 de maio de 1938
17 O anexo 5 traz a relação de todos os bens tombados pelo Sphan de 1938 a 1946. (ACI - Livro de Atas das Reuniões do Conselho Consultivo do Sphan, v. 1).
(

18 Foram oito conjuntos urbanos tombados entre 1938/1946, sendo sete cidades mineiras e 26 Lei nº 378, de 13 de janeiro de 1937, citada no capftulo 3 (Sphan, 1980a)
uma paulista: Das sete mineiras, tombadas pelo Sphan até hoje, apenas o Conjunto
"" ACI - Livro de Atas das Reuniões do Conselho Consultivo do Sphan.
Arquitetõnico e Urbaní~tico de Congonhas/MG foi tombado em 1941 e inscrito no Livro de
Tombo Arqueológico, 'Etnográfico e Paisagístico. Todas as outras foram tombadas em 1938 31 Sobre o assunto, ver Cavalcanti, 1995.
e inscritas no Livro de Tombo de Belas-Artes. São elas: Conjunto Arquitetõnico e Urbanístico
32 Nesse aspecto, esteve de acordo com a proposição de variedade apresentada por Mário
de Diamantina; Conjunto Arquitetõnico e Urbanístico de Mariana; Conjunto Arquitetõnico e
de Andrade no anteprojeto, no entanto, diferindo desse em função do não detalhamento de
I

Urbanístico de Ouro Preto; Conjunto Arquitetõnico e Urbanístico de São João dei Rei; tais critérios. ';', '
Conjunto Arquitetõnico e Urbanístico de Serro e Conjunto Arquitetônico e Urbanístico de
Tiradentes. O tombamento da cidade paulista - Conjunto Arquitetônico e Urbanístico da 33 Ata da Sessão Inaugural do Conselho Consultivo, realizada em 10 de maio de 1938.
Aldeia de Carapicuíba/SP - data de 1940, tendo sido inscrito no Livro de Tombo Arqueológico, (ACI - Livro de Atas das Reuniões do Conselho Consultivo do Sphan, v. 1).
Etnográfico e Paisagístico. 34 A comissão deveria definir regulamento, prêmios e recursos, ainda não previstos no
19 Ver anexo 5. orçamento, para sua concreüzação. Na segunda e na quarta reuniões do Conselho Consultivo
(14 de junho de 1938 e 10 de agosto de 1938), o artista premiado José Rescala relatou
20 Esta carta está reproduzida na íntegra em Moita, 1987, p. 109-110.
as viagens que realizara pelo Brasil como consequência da premiação. A partir do orçamento
21
Diferentemente das legislações francesa e da província de Quebec, no Canadá, que definem de 1939, passa a figurar verba específica para organização e premiação do Salão (Ministério
categorias hierárquicas para classificação do "patrimõnio nacional" (Handler, 1988), no Brasil da Fazenda, 1939; 1940; 1941; 1943).
isso se processou sem que fosse explicitado pela lei, mas por meio dos procedimentos
35 Encontraram-se, no período, colaborações relativas ao Palácio Episcopal e Seminário de
adotados no momento de inscrição de bens tombados nos quatro Livros de Tombo, que,
Olinda/PE, dos pernambucanos Anfbal Fernandes e Gilberto Freyre, este último um consultor
na prática, acabaram sendo hierarquizados.
de todas as horas, bastante envolvido com a temática patrimonial (ACI-processo 131-n,
22 Vale lembrar, novamente, que, embora com 41,49% de inscrições somente no Livro de
36 Em 1947, reuniram-se mais três vezes; depois, uma única vez, em 1949, somente voltando
Belas-Artes, ou seja, inferior aos 44,36% das inscrições conjuntas nos Livros de Belas-Artes
a se reunir em 1953,
e Histórico, elas foram consideradas como primeiro patamar da hierarquia, porque nelas
estão incluídas 6 cidades mineiras que reúnem centenas de imóveis cada uma, apesar de 37 Caso analisado na l' Reunião Extraordinária do Conselho Consultivo, em 17 de maio de
contarem como apenas uma inscrição. 1938 (ACI - Livro de Atas das Reuniões do Conselho Consultivo do Sphan, v. 1).

23 Em Cachoeira/BA (ACI-processo 246-T-1941). 36 Relatório de Augusto Meyer, 7 jul. 1937. Igreja Matriz de São Pedro, Rio Grande/RS
(ACI-processo H).
" Como se verá a seguir, o conselheiro maranhense Raimundo Lopes questionou este tipo
de valoração para um caso por ele analisado, no Conselho Consultivo do Sphan . 39 Engenheiro da Diretoria de Obras do Rio Grande do Sul, da Secretaria de Estado de Ne-
. ,1
gócios das Obras Públicas (ACI-SO 423/1845).
25 Ver, por exemplo, L}lCombe, Lourenço Luiz. A Fazenda de Santo Antõnio em Petrópolis.
Revista do Sphan, n. 8, 1944. ., Em 13 de maio de 1936, escreveu o artigo "Tradição que se apaga", em jornal do Rio Grande
do Sul (ACI-SO 423/2845),
26 Publicado na Revista do I Sphan, n. 12, 1955.

1 242J 01 ARQUllflOI DA MfMÚRIA PRÁllCAI Df JOM8AMfNJO l?ill


..

41 Parecer de Rodrigo Meio Franco de Andrade, 8 dez. 1939 (AGI-processo l-T).


CAPíTULO 5
42 Ibid.
A~ lINHA~ EDITORIAIS DO SPHAN:
'" Ibid. -A IDflA Df PATRlh\ÔNIO NO BRASil
•• Ibid.

45 Relatório de Augusto Meyer, 7 jul. 1937 (AGI-processo t-T),

4ô Parecer de Garlos Leão, 15 dez. 1939 (AGI-processo t-T).

47 Ver ata da 9ª Reunião do Gonselho Gonsultivo do Sphan ( AGI- Livro de Atas das Reuniões
Divulgar o conhecimento de arte e de história que o Brasil possui
do Conselho Gonsultivo do Sphan, v. 1).
e contribuir empenhadamente para o seu estudo.
•• Garta de Lucas Mayerholer a Rodrigo Meio Franco de Andrade, 1939 (AGI-SO 423/1845). Rodrigo MeIo Franco de Andrade'

" Carta do Vigário a Rodrigo Meio Franco de Andrade, 11 lev. 1942. (AGI-SO 423/1845).

50 Relatório de Paulo Thedim Barreto, 1942 (AGI-SO 423/1845).

51 Cópias desses artigos em AGI-SO 423/1845.

52 Caso analisado na 11 Reunião Extraordinária do Conselho Gonsultivo, em 17 de maio de


1938 (AGI-processo 53- T):'

53 Impugnação da proprietáriaElvlra de Souza Ferreira, mar. 1938 (AGI-processo 53-T).

54 Parecer de José de Souza Reis, 10 maio 1938 (AGI-processo 53-T). fSIRAlfGIAS pOliIlCO-fOIlORIAIS
Ibid.
55
o investimento numa produção impressa foi uma das ações eficientemente
56 Parecer de Rodrigo Meio Franco de Andrade, 4 maio 1938 (AGI-processo 53-T)._ adotadas visando uma dada forma de proteção do patrimônio histórico e artístico
57 Parecer de Roquette-Pinto, de 16 maio 1938 (AGI-processo 53-T). nacional. Teve papel articulador de um debate entre intelectuais e propagandistas
da ação institucional implementado por meio de notfcias, artigos e polêmicas na
58 Parecer de Lucio Gosta, 27 jul. 1942 (AGI-processo 53-T).
grande imprensa, assim como por meio das edições do Sphan, que somavam o
58 Parecer de José de Souza Reis. Casa de Garibaldi, Piratini/RS (AGI-SO 423/1843). caráter legitimador ao caráter divulgado r de um conhecimento especializado pres-
so Parecer de Paulo Thedirn Barreto, 13 jun. 1938. Fazenda do Viegas/RJ (AGI-processo crito pela agência do Estado. O espaço editorial do Sphan - a "menina dos olhos
54-T). ~• de Rodrigo", como disse lucio Costa' - era, sem dúvida, um locus de ação bastan-
~.' ,

61 Ibid. te distinto, inclusive no que se refere à variedade de autores e de temáticas abor-


dadas, em comparação aos dois laei anteriormente tratados (a "área técnico-admi-
62 Parecer de Alberto Ghilde, 19 maio 1939 (AGI-processo 187-T-38).
nistrativa" e o Conselho Consultivo). embora articulado com eles.
63 Parecer de Raimundo Lopes, 16 jun. 1938. Fazenda do Viegas/RJ. (AGI-process~ 54- T).
São exatamente as publicações do Sphan que se pretende analisar neste capí-
•• Ibid.
tulo, pois elas caracterizaram a positivação de uma excelência institucional: tiveram
65 Parecer de Paulo Thedim Barreto, 13 jun. 1938. Fazenda do Viegas/RJ (AGI-processo ampla circulação nos meios intelectuais e acadêmicos, sustentada pelo investi-
54-T).
mento político significativo para que fossem mantidas a regularidade da qualidade
de seus artigos e da colaboração de autores de prestígio, e uma periodicidade,

I 244J DI ARQUIlfIOI DA /lHO RIA


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