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Ursula Prutsch

A emigração de austríacos para o Brasil (1876-1938)

Na primavera de 1919, um grupo de ex-oficiais do exército austro-húngaro, que


tinham ficado desempregados quando este foi dissolvido no fim da Primeira Guerra
Mundial, reuniu-se na Estação Ferroviária do Oeste, em Viena, para dar início à sua
emigração para o Brasil, um país a respeito do qual tinham uma idéia muito vaga, marcada
pelo exotismo, comumente ligado a ele naqueles tempos. Alguns deles anunciaram que
iriam se tornar rapidamente “proprietários de uma grande plantação de café e senhores de
dúzias de negros”, tal como escreve Friedrich Wenger em suas memórias; os que não os
acompanharam teriam lhes pedido para trazer, quando voltassem, “uma indiazinha bem
bonitinha”.1
A identidade dos oficiais tinha sido fortemente abalada pelas reviravoltas políticas e
sociais causadas pela derrocada da monarquia dos Habsburgo. Aposentadorias
compulsórias e o empobrecimento causado pela exiguidade das indenizações só podiam
contribuir para turvar o seu relacionamento com o novo Estado, que era incapaz de lhes
oferecer possibilidades de identificação. Eles esperavam chegar agora, no Brasil, a atingir
rapidamente um bem-estar que lhes permitiria, passados poucos anos, retornar ao seu
país de origem revestidos de uma aura que infundisse novo respeito. O Brasil era, para
todos eles, uma terra incógnita; porém graças a numerosos relatos de viagem, imaginavam
que apresentasse uma alteridade exótica e erótica. As palavras de Wenger refletem um
sentimento de superioridade européia; a idéia de uma existência de proprietário, digna dos
feácios, com poder e autoridade sobre grupos de povos oprimidos, deveria compensar o
opróbrio sofrido pela derrota na Grande Guerra.
Esses oficiais, membros da “operação de emigração Gamillscheg“, não foram, de
modo algum, os primeiros austríacos a emigrarem ao Brasil. Imigrantes austríacos
começaram a chegar ao país a partir de 1824; contudo, a sua quantidade, a sua
distribuição geográfica e as suas profissões e carreiras dificilmente podem ser
reconstruídas. Os motivos para tanto residem na percepção, ou melhor, na falta de
percepção dos austríacos, tanto na historiografia brasileira quanto naquela escrita em
língua alemã.
Os austríacos2 eram frequentemente subsumidos nas categorias de “alemães”,
“italianos” ou “poloneses”, apagando-se assim as categorias culturais e nacionais. Apenas
a partir do ano 1876 as autoridades da monarquia austro-húngara passaram a fazer
registros estatísticos sistemáticos. As representações diplomáticas instaladas no Brasil

1
Friedrich WENGER, Auswanderererlebnisse, manuscrito não publicado, São Paulo, sem data, pág.
1 ss..
2
Com essa denominação eu me refiro, resumidamente, aos habitantes dos reinos e países
representados no “Reichsrat”, ou seja, aos originários da “Cisleitânia”, isto é, a porção austríaca do
Império Austro-Húngaro.
tentavam pesquisar da melhor forma possível o local de residência e a carreira dos seus
compatriotas austríacos. De um total de 3,5 milhões de emigrantes que saíram da Áustria-
Hungria para ultramar entre 1876 e 1910, aproximadamente 64.540 foram para o Brasil,
dos quais 55.860 eram oriundos da metade austríaca do império. Estima-se que por volta
de 1914 viviam no Brasil perto de 150.000 austríacos, incluindo nesta cifra os seus
descendentes. 3 De acordo com as estatísticas brasileiras, a Áustria ocupava o quarto lugar
entre os países dos quais mais imigrantes tinham chegado ao Brasil, atrás da Itália,
Portugal e Espanha. 4
Mas quais são os motivos pelos quais os emigrantes do império austro-húngaro
geralmente não são mencionados nas publicações sobre as migrações, embora esse
império contasse entre as nações européias nas quais a emigração, entre 1880 e 1918, se
transformou num “movimento de massas”? O que significava “Áustria”, antes de 1918, em
termos de território e de etnia?
O império austro-húngaro era multiétnico e multicultural. Essa heterogeneidade não
significava uma “vizinhança” entre culturas nacionais; as fronteiras étnicas não
correspondiam exatamente às linguísticas e às territoriais. Elas estavam entrelaçadas entre
si, interpenetravam-se umas com as outras – mormente nos centros urbanos. Após a
conclusão da assim chamada “compensação” com a Hungria, no ano de 1867, o Império
Austro-Húngaro foi transformado numa monarquia dupla. Ambas as metades do império
tornaram-se Estados independentes, com igualdade de direitos. Ambas estavam unidas
sob o poder de um único Chefe de Estado (Francisco I era Imperador da Áustria e Rei de
Hungria), sob uma única política de relações exteriores, tinham unidade em suas Forças
Armadas, assim como naquelas áreas da fazenda pública que se referiam à monarquia
comum. Em 1910 constituíam o segundo maior Estado da Europa, atrás apenas da Rússia.
Sua extensão era de mais de 676.000 km2 e sua população era de aproximadamente 53
milhões de pessoas. 5

A metade austríaca do Império (também chamada de Cisleitânia) abrangia no ano


de 1920 quinze “províncias pertencentes à Coroa”: A Áustria abaixo do rio Enns (Baixa
Áustria), a Áustria acima do rio Enns (Alta Áustria), Estíria, Caríntia, Salzburgo, Tirol,
Vorarlberg, Carniola, a área costeira (Gorizia-Gradisca, Trieste, Ístria), Dalmácia, Boêmia,
Morávia, Silésia Austríaca, Galícia e Bukowina. Estas províncias estavam habitadas por
onze nacionalidades reconhecidas como tais: as de língua alemã (35,5% em 1910),
magiares, tchecos, eslovacos, croatas, poloneses, rutenos (= ucranianos), romenos,

3
Cf. Karl Ritter von ENGLISCH, Die österreichische Auswanderungsstatistik, in: Statistische
Monatszeitschrift 18, N.F. (1913), S. 122. Cf. os resultados do censo de 31.12.1910 nos países
representados no “Reichsrat”, 2, N.F.3, 1912. S. 40. Este cálculo corresponde aos relatórios
enviados pelo Consulado Austríaco em 1916.
4
Cf. ENGLISCH, Auswanderungsstatistik, p. 119.
5
http://www.aeiou.at/aeiou.encyclop.o/o818181.htm [último acesso: 40.01.2010]. Os países da
„sacra coroa húngara de Santo Estevão“ (Transleitãnia) eram Hungria, Siebenbürgen, Croácia,
Eslavônia e Fiume; faziam parte ainda da Áustria-Hungria antigas províncias turcas: Bósnia e
Herzegowina, que foram ocupadas em 1878 pela monarquia austro-húngara, incorporadas em 1908
como „Reichsland“ e administradas pelo mesmo Ministério das Finanças.
eslovenos, italianos e judeus. A população era composta de 77% de católicos, 8,8% de
evangélicos, 8,7% de cristãos ortodoxos, 4% de judeus e 0,8% de seguidores de outros
credos. 6
Estas “províncias da Coroa” mantiveram até 1918 as suas tradições administrativas
e constitucionais específicas; concorriam entre si nas áreas da língua e da educação.
Justamente devido a esta convivência crescentemente marcada, em algumas regiões, por
crises e conflitos, assim como por motivo dos crescentes nacionalismos, o governo
austríaco esforçava-se em cultivar a consciência de que a Áustria significava o Estado
como um todo, para além das fronteiras étnicas e regionais. 7 Esta “austro-consciência”
constituía-se graças à coexistência de diferentes fatores: os grupos portadores de uma
noção de lealdade, como as Forças Armadas, a aristocracia próxima à corte, o
funcionalismo público e o clero. Eles criavam uma “instância de socialização”, a fé na
lealdade pelo monarca, ou seja, pela figura integradora do “bom Imperador”, Francisco
José I. Também faziam parte dos mecanismos de integração a uniformização das técnicas
administrativas, o uso de uma moeda comum, o sistema escolar, assim como –
diferentemente do caso do Império Alemão – a existência de um mesmo centro marcante
ao longo de vários séculos: a grande capital, Viena. Os esforços em prol de um Estado
unificado foram justamente transferidos também para o nível cultural. Formas de expressão
cultural como a música, a arquitetura, as iguarias de uma nacionalidade ou de uma etnia,
difundiam-se também em outras partes do Império, através de processos de interação.
Valsas, polcas e marchas também eram a expressão musical da identidade de um único
Estado. Esta “austro-consciência” certamente não estava enraizada uniformemente em
todas as camadas sociais. Os poloneses e os rutenos da Galícia, uma das mais pobres
“províncias da Coroa”, na metade austríaca do Império, que eram em sua maioria
analfabetos e viviam longe de Viena, do centro do poder, presumivelmente não devem ter
percebido muito dessa política de identidade supranacional. Aqueles que tinham alguma
formação escolar estavam socializados como austríacos, tinham aulas de história austríaca
e lhes era transmitida uma sensação de identidade supranacional.

Problemas relativos à detecção de emigrantes austríacos no Brasil

Pela constituição austríaca de 1867, somente o dever de prestar o serviço militar limitava o
direito à emigração do Império Austro-Húngaro. Deste modo, deixavam de existir
informações estatísticas das autoridades provinciais; a “Real e Imperial Comissão Central

6
A parte austríaca do império chamava-se oficialmente “os reinos e províncias representadas no
Reichsrat”, mas também Cisleitânia, isto é, os territórios a oeste do rio Leitha, que demarca a
fronteira entre Áustria e Hungria; o nome Áustria entrou na linguagem oficial até 1915 apenas no
título geral de “Monarquia Austro-Húngara” e no título do monarca como “Imperador da Áustria”. A
partir de 1915 falava-se em “Estados Austríacos” Cf. Erich ZÖLLNER, Geschichte Österreichs,
2
Oldenbourg 1990, 412s. A Cisleitânia tinha uma superfícies de 300.000 km e, em 1910 uma
população de 29 milhões de pessoas.
7
Cf. Moritz CSÁKY, Die Vielfalt der Habsburgermonarchie und die nationale Frage, in: Urs
ALTERMATT (Ed.), Nation, Ethnizität und Staat in Mitteleuropa, Viena-Colônia-Weimar 1996, p, 44-
64.
de Estatística” passou a se basear em fontes externas. Os emigrantes eram contados a
partir das suas localidades de origem ou de seus domicílios, ou pelas autoridades dos
portos 8 em que embarcavam para suas viagens ao exterior. 9 No caso dos emigrantes
entravam em cogitação os portos alemães de Hamburgo e Bremen, assim com os de
Gênova e Trieste (naqueles tempos o principal porto do Império Austro-Húngaro), Fiume
(hoje Rijeka, na Croácia), Le Havre e Rotterdam. 10 As estatísticas das autoridades
portuárias estavam longe de ser perfeitas quanto à verificação da origem dos emigrantes.
Os funcionários do porto de Hamburgo baseavam-se, quando do preenchimento dos
formulários de passagem, em documentos de identificação (passaportes falsos nunca
devem ter sido casos de exceção) e nas informações dos agentes que tinham recrutado os
emigrantes. Estes, por seu lado, orientavam-se pelo domicílio mais recente de cada
emigrante. 11 Até 1910, o “Comissariado do Reich Alemão para Assuntos de Emigração”
publicava relatórios anuais nos quais os súditos austro-húngaros eram divididos segundo
três esquemas, em boêmios (!), húngaros e outros austríacos. 12 Nos portos italianos, os
austríacos de fala alemã eram misturados com os suíços, assim como com os súditos do
Reich Alemão. 13 Os funcionários brasileiros observavam as listas de passageiros,
orientavam-se frequentemente pela autodefinição dos recém chegados ou pela bandeira do
navio que os transportava.
Um exemplo da difícil classificação destes imigrantes pode ser visto no modo de
entender o conceito “alemão”, devido às mudanças que ele sofreu ao longo da história. No
Sul do Brasil viviam e vivem ainda muitos teuto-brasileiros, descendentes dos imigrantes
provindos dos diferentes pequenos Estados alemães, unificados em 1871 no assim
chamado Reich Alemão. Em muitas publicações que se referem aos “alemães” em geral,
ou mais especificamente a “imigrantes alemães”, austríacos e suíços de fala alemã eram –
e em muitos casos ainda são – entendidos como fazendo parte de uma grande
comunidade alemã, que teria vindo a se constituir ao longo da história, sendo subsumidos
sob o conceito de “alemães”. Em muitos casos essa incorporação deveu-se a mero
descuido ou a uma auto-imagem alemã, pois muitos austríacos de fala alemã se definiam a
si mesmos, pelos menos até 1918, como “alemães”, obedecendo ao critério da língua que
falavam, sem que com isso se considerassem cidadãos do Reich Alemão. 14 A guerra de

8
Nos passaportes ficavam registrados o nome, a profissão, o domicílio e a província da coroa. Na
carta de cidadania, o distrito e a província.
9
Cf. Friedrich PROPST, Die übereseeische österreichische Auswanderung, in: Statistische
Monatszeitschrift 18 (1892), p. 1-25.
10
Cf. Hans CHMELAR, Höhepunkte der österreichischen Auswanderung. Die Auswanderung aus
den im Reichsrat vertretenen Königsreichen und Ländern in den Jahren 1905-14, Viena 1974, p. 67.
11
Cf. ENGLISCH, Auswanderungsstatistik, p. 65-167.
12
Cf. PROPST, Überseeische Auswanderung, p. 3; CHMELAR, Höhepunkte der Auswanderung, p.
21. Os EUA diferenciavam entre boêmios, poloneses e austríacos. Entre os imigrantes provenientes
da “Polônia” também estavam incluídos os habitantes da Áustria-Hungria e das províncias da
Prússia e da Rússia.
13
Cf. Haus-, Hof-und Staatsarchiv Wien (a seguir citado como HHStA), F15, pasta 56, Argentina, Zl.
1633/7651, 8 de dezembro de 1882.
14 2
Cf. Emílio WILLEMS, A aculturação dos alemães no Brasil, São Paulo 1980, S. 38-41. Neste
importante trabalho de sociologia, “Áustria” aparece no registro quatro vezes; também há uma
confusão entre categorias de Estado e de etnia: “Ao lado dos [...] imigrantes alemães havia [...]
1866, em que a Prússia venceu a Áustria, a qual criou as condições prévias para a criação
do primeiro Estado alemão prussiano em 1871, trazendo como consequência a exclusão
da Áustria da Aliança Alemã, significou para muitos dos 10 milhões de austríacos de fala
alemã uma perda de poder cultural e político. Aqueles que consideravam que a sua pátria
estaria num Reich Alemão, e não na Áustria-Hungria (apelidados de “grandes alemães”),
encontravam a sua pátria política no movimento nacionalista alemão (que mais tarde se
converteu num partido político), que rapidamente assumiu características anti-clericais,
anti-semitas e, finalmente, anti-parlamentaristas. Uma grande maioria continuava a
entender-se como alemã, no sentido de ser um cidadão austríaco ou húngaro de fala
alemã, o que não implicava a adesão ao pequeno Estado alemão prussiano. Em 1910,
35,6% dos cidadãos na parte austríaca do Império eram de fala alemã. 15 Este fato foi
muitas vezes negligenciado na historiografia alemã e brasileira mais recente, mas também,
pelo menos em parte, na historiografia e na etnografia austríacas marcadas por uma
ideologia alemã nacionalista, ao exemplo de Karl Ilg, que publicou alguns textos sobre a
emigração austríaca para Brasil e reduziu a sua definição dos imigrantes provenientes da
parte austríaca do Império àqueles de fala alemã. 16
Este exemplo mostra que os imigrantes eram frequentemente registrados de acordo
com a língua que falavam ou à etnia à qual pareciam pertencer, critérios estes amiúde
igualados aos critérios territoriais. As categorias “alemão”, “italiano” ou “polonês” foram
aplicadas muitas vezes, e esta última servia mesmo no caso de imigrantes “poloneses”
provenientes da Rússia, da Prússia (a partir de 1871 do Reich Alemão), ou da Áustria-
Hungria. Os rutenos ou ucranianos também foram registrados geralmente como poloneses.
17
Questões relativas à origem de muitos desses imigrantes, por exemplo, se aqueles
registrados como poloneses, mas que provinham do Império Austro-Húngaro, traziam
consigo padrões culturais e identidades diferentes daqueles outros, que provinham da
Rússia ou da Prússia, quais eram as imagens de sua pátria de origem, quais as suas
tradições históricas, todas as questões deste tipo são praticamente irrespondíveis
atualmente. Qualquer tentativa de reconstrução da história da imigração austríaca ao Brasil
anteriormente ao ano de 1918 terá que recorrer a uma historiografia transnacional e será
possível unicamente mediante uma cooperação com outros cientistas, cidadãos dos países

austríacos, russos, poloneses, quase todos de língua alemã“, S. 39. Cf. neste contexto também
Ezekiel Stanley RAMIREZ, As Relações entre a Áustria e o Brasil, 1815-1889, São Paulo 1968.
15
Cf. ZÖLLNER, Geschichte Österreichs, 416, 444.
16
Karl Ilg teve o grande mérito de, nos anos de 1960 e 1970, fazendo difíceis viagens para colônias
distantes formadas por emigrantes austríacos, reconstruir a sua quantidadese as suas condições de
vida. Contudo, ele se concentrou apenas às colônias de fala alemã, fazendo de conta de que o
Império Austro-Húngaro contasse apenas com súditos de fala alemã. Para ele também foi um
critério essencial verificar se a “germanidade” tinha ficado conservada ou não. Caso os austríacos a
tivessem “perdido”, ele – que defendia a ideologia nacional-socialista quanto à interpretação da
identidade nacional – considerava esse fato como algo negativo. A historiografia moderna distancia-
se nitidamente desse modo de ver a história, pois vê a cultura como o resultado de um processo,
sem diferenciar entre culturas “com valor” e culturas “sem valor”. Cf. Karl ILG, Deutsche
Pionierleistungen in Südamerika. Vier österreichische Siedlungen in Brasilien und Peru. In:
Eckartbote deutscher Kultur und Schutzarbeit, 18. Ano 1970.
17
Cf. Dietrich von DELHAES-GÜNTHER, La influencia de la inmigración en el desarrollo y
composición étnica de la población de Rio Grande do Sul, in: Jahrbuch für Geschichte von Staat,
Wirtschaft und Gesellschaft Lateinamerikas 13, Viena-Colônia 1976, p. 420-433.
que surgiram após o desmembramento do Império Austro-Húngaro, por exemplo, tchecos,
eslovacos, poloneses, ucranianos, eslovenos, croatas.
A problemática da classificação de algumas etnias já foi tema de controvérsias entre
diplomatas austríacos na virada do século XIX para o XX. Quando o então embaixador
austro-húngaro no Brasil, Eugen vom Kuczynski, fez em 1901 uma visita aos seus antigos
compatriotas residentes no Rio Grande do Sul. Ele não apenas apresentou relatórios
entusiásticos sobre a sua cerimoniosa recepção pelo governo municipal de Porto Alegre,
mas também sobre a nova visão dos austríacos lá residentes, tanto a das autoridades
quanto a da imprensa, como consequência de sua viagem àquela cidade:

Foi igualmente gratificante a forte impressão causada sobre os brasileiros pelo amor
à pátria e pela fidelidade com o Império, expressas com grande entusiasmo pela
nossa Colônia. Pois estes, se bem tivessem conhecimento da existência em seu
meio de muitos alemães, poloneses e italianos, pareciam não saber que uma boa
parte deles era composta por cidadãos do grande Estado [da Áustria-Hungria, N.
T.]. Somente agora eles perceberam que o Império Austro-Húngaro tem trazido e
ainda traz para o Rio Grande [do Sul] um contingente bastante considerável de
pessoas capazes e trabalhadeiras, que fazem parte dos colonos alienígenas mais
úteis e apreciados e aos quais se deve uma bela porção do trabalho de cultura no
seu país. Quase todos os artigos publicados na imprensa local, os quais tomaram a
minha visita como objeto de sua atividade jornalística, confirmaram este fato, com
comentários lisonjeiros sobre a nossa colônia, e o jornal publicado em Londres
“South American Journal” de 27 de julho chegou até mesmo a falar, numa nota, da
“large and influential Austrian colony in Rio Grande do Sul“.18

Embora os diplomatas austro-húngaros, devido à escassez de pessoal diplomático,


nunca puderam ter uma visão global aproximadamente correta do paradeiro e das
condições de vida de suas colônias, eles não apenas se esforçavam em colher dados os
mais precisos possíveis, mas também propugnavam a manutenção de uma identidade
supranacional de seus antigos súditos. Os motivos para tanto deverão ser explicitados na
primeira parte do presente trabalho. Daqui em diante, devido ao fato de as fontes que eu
pude consultar estarem à minha disposição em Viena, concentrar-me-ei nos emigrantes
provenientes da parte austríaca do Império, deixando de lado os emigrantes provenientes
da parte húngara do mesmo. 19

Motivos para a emigração austríaca ao Brasil.

18
Relatório de von KUCZYNSKI, in: HHStA, F 4, pasta. 180, linhas. 77.402, 1901. O enviado
também se esforçou em transformar o consulado honorário austríaco em Porte Alegre num
consulado profissional.
19
O material relevante para o estudo da emigração dos “austríacos” para o Brasil estão no Haus-,
Hof- und Staatsarchiv em Viena, em parte em caixa de papelão etiquetadas com a palavra
“Argentina”. O material relevante para o estudo da emigração húngara encontram-se sobretudo em
Budapeste, e a correspondência era redigida em língua húngara.
A emigração de austríacos para ultramar, portanto, também para o Brasil, foi uma
das consequências da modernização da economia, da substituição do trabalho doméstico
proto-industrial por formas mais avançadas de organização da indústria, em concomitância
com um elevado crescimento populacional. Na segunda metade do século XIX, a migração
passou paulatinamente a ter uma componente de caráter social normativo, na medida em
que cresceu a sua aceitação como solução para problemas de caráter econômico e social.
A “emigração em massa” de fins do século XIX foi consideravelmente fomentada pelo
crescimento da navegação a vapor, pelo aperfeiçoamento dos sistemas de transporte em
geral e pela oferta de passagens a preços favoráveis.
Para as camadas móveis da sociedade, a emigração serviu de instrumento de
ascensão social e de melhora individual das condições de vida. 20 Contudo, a maior parte
dos migrantes provinha de áreas rurais empobrecidas; eram trabalhadores sem formação
profissional adequada ou pequenos comerciantes. Além disso, as grandes empresas viam
numa emigração direcionada para determinados países uma possibilidade para a criação
de novos mercados. E ainda, as remessas de dinheiro feitas pelos emigrantes aos seus
familiares no país de origem tinham um papel bastante relevante para as economias destes
mesmos países.
As diversas províncias do Império, cujas estruturas econômicas divergiam
fortemente entre si, foram atingidas pelas consequências da industrialização em momentos
muito diferentes. Os primeiros grupos de imigrantes, que chegaram paulatinamente ao
Brasil na década de vinte do século XIX, eram compostos de camponeses, trabalhadores
rurais e pequenos comerciantes provindos da Boêmia, Moravia, Silésia, Alta Áustria, do
Tirol e das províncias litorâneas. Boa parte deles estava endividada, devido à abolição da
sujeição territorial, em 1848, ou não soube fazer bom uso de suas novas liberdades
econômicas, por falta de iniciativa ou de experiência. Vendas irrefletidas de propriedades
rurais e um excessivo parcelamento das propriedades em casos de divisão de heranças
entre os membros de famílias numerosas também contribuíram para o endividamento.
Nesse contexto, houve tiroleses que emigraram (juntamente com camponeses
provenientes da Renânia) em 1858 para Espírito Santo, lá fundando a Colônia Tirol.
A partir dos anos sessenta do século XIX, os produtores austríacos de carne e de
cereais nos vales alpinos passaram a sofrer uma forte concorrência. A abertura da fronteira
entre Hungria e Áustria em 1850 barateou a importação de cereais e de gado de corte da
Hungria para Áustria. A essas importações vieram a se juntar as de cereais baratos
provenientes de ultramar, da Argentina, do Canadá e dos EUA. A criação local de ovelhas
perdeu o mercado local de lã para as importações australianas. A mecanização da
agricultura dificultou a luta pela existência de numerosos camponeses que habitavam as
encostas das montanhas nos vales alpinos. O endividamento de muitos pequenos

20
Cf. Heinz FASSMANN, Auswanderung aus der österreichisch-ungarischen Monarchie 1869-1910,
in: Traude HORVATH, Gerda NEYER (Ed.), Auswanderungen aus Österreich. Von der Mitte des 19.
Jahrhunderst bis zur Gegenwart, Viena-Colônia-Weimar 1996, p. 33—55, aqui p. 49.
produtores rurais e a execução hipotecária de muitas propriedades rurais de menor porte
levaram à multiplicação dos latifúndios. 21 E os efeitos da crise econômica mundial de 1873
transformaram muitos operários do setor urbano em emigrantes ultramarinos.
Na década de oitenta do século XIX aumentou o número de tiroleses de fala italiana
que emigraram para o Brasil. 22 Uma década mais tarde emigraram, sobretudo, poloneses
e rutenos da Galícia e da Bukowina, os “asilos para pobres” do Império. Em ambas estas
províncias predominavam os latifúndios, e as pequenas propriedades rurais não passavam
de um a dois hectares de extensão. Entre 1881 e 1910, uma décima parte dos habitantes
da Galícia deixou a sua terra natal. Apenas nos anos 1895 e 1896, 20.000 poloneses e
rutenos austríacos emigraram da Galícia e da Bukowina para o Brasil. 23 Entre os grupos
de emigrantes da década de noventa do século XIX também havia iugoslavos da Dalmácia,
onde os solos secos e de baixa produtividade punham em perigo a capacidade de
subsistência de seus habitantes. 24 Numa fase em que diminuiu sensivelmente o volume de
vendas de armas, numerosos operários da fábrica Steyr emigraram para Ijuí, no Rio
Grande do Sul.
A discriminação política também se tornou um motivo para a emigração.
Justamente os rutenos eram dominados e reprimidos culturalmente pelos poloneses.
Embora a constituição de 1867 determinasse a igualdade de direitos entre poloneses e
rutenos na Galícia, as disputas entre esses dois povos perduraram pelo menos até 1918. O
governo austríaco havia concedido autonomia aos poloneses e, através disso, direitos
políticos e culturais mais amplos que os concedidos pelos governos da Prússia e da
Rússia. Embora as diferentes línguas faladas na Galícia tivessem status de línguas oficiais,
a única língua considerada como oficial no Conselho Regional era o polonês. 25 Os
poloneses reprimiam as reivindicações nacionais e culturais dos rutenos, social e
politicamente mais fracos, para não abrirem mão de seus privilégios.
Contudo, a dinâmica das migrações não é determinada apenas pelos motivos que
levam à emigração, mas também pelos interesses dos países que recebem os imigrantes.
Em 1808, o rei de Portugal, ao deixar o seu país para procurar refúgio no Brasil, ordenou a
abertura dos portos da maior de suas colônias e, através de um edital de 25 de novembro
de 1814, começou a incentivar a chegada de imigrantes europeus. Leopoldina de
Habsburgo, filha do imperador Francisco I e esposa de Dom Pedro I, o primeiro imperador
do Brasil, é considerada pelos estudiosos brasileiros da imigração como a iniciadora da
imigração de pessoas de fala alemã Ela foi fomentada por motivos econômicos, e também

21
Cf. ZÖLLNER, Geschichte Österreichs, 445 s..
22
Cf. RAMIREZ, As Relações entre Áustria e Brasil, p. 210; Statistische Mitteilungen 17, 3, Viena
1870, p. 82.
23
Em 1908 o serviço de emigração foi centralizado e uma comissão européia de propaganda foi
fundada em Paris, a qual fez intenso trabalho propagandísticos durante dois anos. Cf. HHStA, F 15,
pasta 60, Brasil, Zl. 80686, 5.9.1908.
24
Cf. Alois MOSSER, Die Wirtschaft im Habsburgerreich, in: Das Zeitalter Kaiser Franz Josephs 2:
1880-1916, p. 61; Henryk BATOWSKI, Die Polen, in: Peter URBANITSCH, Adam WANDRUSZKA
(Ed.), Die Habsburgermonarchie 1848-1918, 2, Viena 1980, p. 541. Por volta de 1900 ao re3dor de
200.000 camponeses da Galícia oriental possuíam menos de 1 ha de terra cada.
25
Cf. BIHL, Die Ruthenen, in: Peter URBANITSCH, Adam WANDRUSZKA (Ed.), Die
Habsburgermonrachie 1848-1918, 2, Viena 1980, p. 557.
para proteger a fronteira com o que viria a ser a República Oriental do Uruguai. Foi
certamente graças ao trabalho de agentes enviados à Europa pela imperatriz Leopoldina
que os primeiros imigrantes austríacos chegaram ao Brasil. Após a proibição do tráfico de
escravos africanos para o Brasil, em 1850, concomitantemente com o crescimento da
cafeicultura, foram atraídos cada vez mais imigrantes europeus, entre os quais também
austríacos, para substituir a mão-de-obra escrava nas fazendas da província (a partir de
1891 Estado) de São Paulo. Quando a Prússia, dando ouvidos a notícias alarmantes sobre
as condições de vida de seus emigrantes, mediante um decreto promovido pelo ministro
von Heydt proibiu entre 1859 e 1896 a emigração de prussianos, os angariadores
concentraram a sua ação no Império Austro-Húngaro.
O Brasil meridional tinha necessidade de agricultores e de trabalhadores rurais em
geral, assim como de pedreiros e outros operários para a construção dos centros urbanos
em rápido crescimento, especialmente Rio de Janeiro e São Paulo, assim como para a
ampliação da rede ferroviária e rodoviária. Mormente após a abolição da escravatura, em
1888, foi sobretudo a partir de São Paulo que se tentou atrair imigrantes europeus, através
de assim chamadas passagens gratuitas. O valor dessas passagens era adiantado pelo
governo paulista ou por companhias de colonização ou de navegação, e deveria ser
restituído passado certo prazo. Dava-se preferência à migração de famílias numerosas,
pois estas, enquanto “unidades familiares”, eram menos flexíveis e podiam ser mais
facilmente exploradas, justamente na cafeicultura.
A emigração era um negócio lucrativo, que trazia benefícios não apenas para os
países receptores, mas também para as empresas de navegação, de colonização e para
as estradas de ferro. Construiu-se assim uma rede de agentes e auxiliares, que ganhavam
uma quantia certa per capita, por cada imigrante que conseguiam angariar. Campanhas de
propaganda habilmente montadas na Europa, apoiadas por figuras proeminentes nas
cidades e aldeias, tais como padres, professores e estalajadeiros, acharam um solo fértil
justamente em meio à população mais pobre da Galícia, onde os índices de analfabetismo
eram elevados, atingindo 52% dos homens e 60% das mulheres. Os agentes forneciam
aos migrantes informações falsas sobre as condições de vida, sobre o preço do solo e as
quantias necessárias para a sua aquisição, de modo a que, ao invés de poderem comprar
terra, esses imigrantes acabavam trabalhando a preço vil e levavam anos para restituir o
dinheiro adiantado pelas passagens, ou mesmo nunca chegaram a pagá-lo de volta.
Os truques dos agentes eram muitos. Havia cartazes pendurados nas estalagens e
estações de trem, apareciam anúncios em jornais e folhetos eram colocados dentro dos
livros de orações. Na cidade de Wadowice (hoje Polônia), uma agência especialmente bem
sucedida tinha pendurado na parede um retrato do imperador e uma efígie da águia
imperial, para se fazer passar de repartição pública do governo austríaco. Os agentes
também tiravam habilmente proveito dos conflitos étnicos. Assim, por exemplo, fez-se
circular o boato de que o Brasil estaria sob o domínio do príncipe Rodolfo, filho do
imperador Francisco José e morto em 1889, e de que o próprio imperador estaria
recomendando a emigração para aquele país, fato este que os poloneses estariam
ocultando dos rutenos. Outros boatos afirmavam que a “rainha do Brasil”, a imperatriz
Leopoldina, após sua morte e com o apoio do Papa, teria legado terras brasileiras aos
camponeses poloneses. 26 Todas estas estratégias dos agentes demonstram que vale a
pena questionar estatísticas e categorizações esquemáticas que falam em “alemães”,
“poloneses” e “italianos”. Mas não apenas os agentes foram “motores” da migração para o
Brasil. Também o foram os relacionamentos ou contatos familiares, de parentesco ou de
vizinhança.
Devido à já mencionada insegurança a respeito das fontes de informação e às
categorizações enganosas, não é mais possível reconstruir com exatidão a distribuição
territorial de muitos dos migrantes. O certo é que eles se fixaram, sobretudo, nas
províncias, depois Estados, da região Sul do Brasil, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande
do Sul. Adicionando-se os seus descendentes, segundo cálculos dos diplomatas
austríacos, por volta de 1916 aproximadamente 30.000 austríacos viviam em São Paulo.
Friedrich Sommer fala em São Paulo, Pariquera Assú, Sabaúna, Piaguí e a capital de São
Paulo como locais de residência de austríacos de fala alemã. 27 Em Jorge Tibiriçá, Campo
Belo, Santo Amaro, Vila Mariana, Campinas, Rio Claro, Capivari, Amparo e Piracicaba
viviam austríacos de diversas nacionalidades; em Santana e Santa Olímpia, por exemplo,
muitos provenientes do Tirol do Sul. Entre 70.000 e 80.000 emigrantes da porção austríaca
do Império viviam no Estado do Paraná, dentre os quais 40.000 a 45.000 devem ter sido
rutenos e entre 26.000 e 30.000, poloneses. Em Curitiba havia uma Sociedade Filantrópica
Austro-Húngara. que cuidava dos emigrantes provenientes do Império. Em São Paulo foi
fundada em 1913, pouco antes da irrupção da Primeira Guerra Mundial, a Associação
Austríaca Donau. Antes dela existira uma associação austríaca com o nome latino de
Viribus Unitis. Após uma breve fase de fechamento durante a Grande Guerra, ela foi
reaberta em 1919. Seu presidente era o industrial austríaco Theodor Putz, também cônsul
honorário da Áustria em São Paulo.
Ao redor de 16.000 austríacos viviam em Santa Catarina, e perto de 30.000 no Rio
Grande do Sul, em São Bento, Pelotas, Porto Alegre, São Leopoldo, Cruz Alta, Novo
Hamburgo e, sobretudo, em Ijuí. 28 O grupo de tiroleses que se estabeleceu na Colônia
Tirol, hoje no município de Santa Leopoldina, assim como em Vitória, no Espírito Santo,
constitui uma exceção. Esses tiroleses, vindos ao Brasil em 1860, dedicavam-se,
sobretudo, à cafeicultura, e já em 1860, quando o imperador Dom Pedro II visitou a colônia,
passavam por graves problemas econômicos, devidos às dificuldades de acesso aos
mercados e à aridez do solo. Desde a década de noventa do século XX, o governo do Tirol

26
Cf. Leopold CARO, Auswanderung und Auswanderungspolitik in Österreich, Leipzig 1909, p. 65;
Marcin KULA: El Brasil y la Polonia de fines del siglo XIX en las cartas de los campesinos
emigrados, in: Jahrbuch für Geschichte von Staat, Wirtschaft und Gesellschaft Lateinamerikas 13
(1976), p. 39-55, aqui p. 39.
27
Friedrich SOMMER, Die Deutschen in São Paulo. São Paulo 1945.
28
Cf. Österreichisches Staatsarchiv, Arquivo da República, pasta. 2234, GZ 2453.
e algumas organizações austríacas de ajuda ao desenvolvimento ocupam-se do apoio
material aos antigos compatriotas. 29
Os austríacos que se fixaram nas fronteiras entraram em contato também com
posseiros, que não possuíam documentos de propriedade das terras, não tinham feito
plantações nas mesmas, mas passaram a vendê-las aos colonos. No Paraná e em São
Paulo, as tribos dos tupis, gês e caingangues foram deslocadas pelos colonos europeus
para as regiões menos férteis desses Estados. Embora os contatos entre colonos e índios
fossem geralmente pacíficos e amiúde baseados no escambo, há fontes nos arquivos
oficiais austríacos da virada do século XIX para o XX que falam de ataques sanguinários
de índios às novas colônias de poloneses e rutenos, ocorridos entre 1896 e 1900, com
mais de vinte vítimas fatais. Esses conflitos deram trabalho às representações diplomáticas
austro-húngaras, assim como às autoridades brasileiras e à imprensa, que por vezes
reproduzia o discurso racista que falava sobre “índios selvagens” ou “botocudos
antropófagos”, que teriam esquartejado suas vítimas, mas em muitos casos tentaram
analisar e entender os motivos que teriam levado os grupos indígenas a tais atos. Assim,
por exemplo, a imprensa mais liberal chamou a atenção para o fato de os índios não
quererem abrir mãos de suas terras, nas quais estavam sepultados os seus antepassados.
Naquela época já existiam algumas organizações locais de proteção aos índios, que não
consideravam os aborígines como cidadãos brasileiros, mas como elementos de uma
natureza a ser preservada. A discussão em torno da proteção ou da sanção dos grupos
indígenas levou à formação de uma guarda constituída em sua maior parte por mestiços,
cuja função seria a de vigiar as áreas colonizadas e de proteger os índios. As suas ações
de “limpeza” tiveram, contudo, um número maior de vítimas entre os nativos do que entre
os colonos. 30

O papel e a transmissão de uma consciência de nacionalidade austríaca no Brasil.

A migração não significa apenas um deslocamento geográfico, mas também uma


transferência de grupos e indivíduos, junto com a sua bagagem cultural e social, o seu
capital cognitivo, as suas idéias políticas. 31 As diversas nacionalidades da parte austríaca
do Império Austro-Húngaro também tendiam a se fixar em colônias que falassem a mesma
língua ou em meio a grupos étnicos uniformes, pois isso, primariamente, contribuía a
vencer barreiras de língua e facilitava aos recém-chegados a se estabelecerem nas terras
para eles ainda desconhecidas. Mas as autoridades brasileiras também forçaram, de caso
pensado, a formação de colônias pluriculturais, para impedir a proliferação de tendências

29
Wilfried SCHABUS, Alexander SCHLICK, Colônia Tirol. Eine Tiroler Siedlung in Brasilien.
Innsbruck 1996.
30
Cf. HHStA, F 15, pasta 58, Relatório Nº LXIII, 14/10. 1900. Curitiba, 24.9.1900. Cf. Ad 10854/1901;
Curitiba, cf. 25.10.1900, Relatório Jurystowski; Cf. Relatório Zl. Ad 21169/1901, “Der Beobachter”,
12. ano, 30, 30.1.1901, p. 2.
31
Cf. Aldair MARLI LANDO, Eliane CRUXEN BARROS, A colonização alemã no Rio Grande do Sul.
Porto Alegre 1976, S. 60. Cf. Giralda SEYFERTH, Etnicidade e Imigração: O Caso Teuto-brasileiro
(II Congresso Argentino de Antropologia, Buenos Aires 1986).
de segregação étnica e para dificultar a formação de blocos fechados. Foi assim que na
colônia paulista de Jorge Tibiriçá se estabeleceram imigrantes vindos da Boêmia, da
Galícia, da Estíria, Carníola e Croácia. 32
Outro exemplo de coabitação de diferentes etnias pode ser encontrado no município
de Ijuí, no Rio Grande do Sul. Lá se fixou em 1893 um grupo de operários desempregados
provindos da Estíria e da Baixa Áustria, assim como da antiga fábrica de armamentos
Steyr, na Alta Áustria, que em 1892, devido à radical queda de seu volume de vendas,
dispensou 10.000 trabalhadores. Vieram ainda, três anos depois da fundação da colônia de
Ijuí, imigrantes austríacos de fala italiana, oriundos do Tirol meridional. A sua convivência
foi pacífica e não levou a conflitos, tal como foi narrado quarenta anos mais tarde numa
publicação comemorativa. Naquele momento, embora o Tirol meridional passasse a ser
parte da Itália a partir de 1918, eles ainda se “entendiam como austríacos”. 33 Já em 1897
tinha sido criado o “Centro Cultural Austríaco de Ijuí”, que continua a existir até o presente.
Em 1898 foi fundada uma “Sociedade Escolar Austro-Húngara”. Robert Löw, nascido em
Praga, fundou em Ijuí um jornal com o nome de Serra-Post.
Embora alguns dos imigrantes, decepcionados com as ocorrências na sua terra de
origem, passassem a lhe dar as costas, algumas formas simbólicas de “identidade
austríaca” persistiram ao longo dos anos. Conta-se que o nome “Francisco José” foi
frequentmente dado a muitos filhos das primeiras gerações nascidas nas famílias desses
imigrantes. Atestados de dispensa do serviço militar, assim como antigas gravuras que
representavam a cidade de Viena ou a Catedral de Santo Estevão, enfeitavam as paredes
de muitas casas destes colonos. Marchas, polcas e valsas eram tocadas nas festas;
preparavam-se e serviam-se às visitas pratos da cozinha austríaca e mesmo a cultura dos
cafés vienenses foi mantida, até certo ponto. Um cônsul austríaco chegou a relatar que até
mesmo um cidadão brasileiro decorou o salão de sua pousada com um retrato de
imperador Francisco José, para satisfazer o desejo de seus fregueses tiroleses, tanto os do
Norte quanto os do Sul do Tirol. E estes conviviam sem conflitos. 34
Toda vez que um diplomata austríaco visitava as colônias, os colonos
demonstravam a sua lealdade e a sua fidelidade à cultura de sua antiga pátria através da
celebração de festividades típicas. Os cônsules austríacos enviavam partituras da Marcha
de Radetzky e do Hino Nacional Austríaco às sociedades musicais, revistas com
ilustrações de Viena e retratos do imperador Francisco José, cujo aniversário ou as datas
de seus jubileus costumavam ser celebrados na maioria das colônias. 35 Os oficiais
austríacos que emigraram ao Brasil em 1919, após a dissolução das Forças Armadas
Austro-Húngaras, ainda vestiram seus uniformes em 1921 na data do aniversário do

32
Cf. HHStA, 15, pasta. 60, Brasil 17.
33
Cf. Festschrift aus Anlaß der 40-jährigen Wiederkehr der Niederlassung der Österreicher-Kolonie
in Ijuhy. 24. Februar 1893-5.März 1933: „[...] Cada um ainda gosta de se entender como austríaco, e
fica orgulhoso com isso[...]“, p. 5.
34
Cf. HHStA, F 15, pasta 61, Brasil, Zl. Ad. 34725, 1914.
35
Cf. HHStA, F 15, pasta 57, Argentina, Zl 39147, 21.5.1908.
imperador Francisco José, em meio aos cafezais de Corumbataí, uniformes estes que
tinham trazido do seu país natal como símbolo de sua identidade, ora vilipendiada. 36
Os diplomatas austríacos enviados ao Brasil sempre se esforçaram em manter ou
em construir a consciência de uma identidade austríaca supra-regional, entre outros
motivos porque o Império Austro-Húngaro, enquanto Estado pluricultural, sempre teve que
lidar, dentro de seu território, com conflitos entre as diversas nacionalidades e, por isso,
tentava neutralizar, na medida do possível, qualquer influência negativa que pudesse
atingir seus súditos no exterior. Não todos os emigrantes ficaram no Brasil; alguns voltaram
ao seu país de origem. Os contatos com as famílias, via de regra, não eram interrompidos.
Os imigrantes não traziam consigo apenas bagagem material e cultural, mas também as
suas ideologias políticas. Aquilo que os diplomatas austro-húngaros mais temiam eram
movimentos nacionalistas. Justamente as escolas e as associações eram instituições
marcantes na criação e manutenção de imagens de identidade e de alteridade e, através
disso, locais que exerciam influência política e histórica na formação das novas gerações.
Também as igrejas exerciam um papel importante na configuração do senso de identidade.
Alguns exemplos, apresentados a seguir, tornarão mais claro o dito acima.
Segundo relatórios consulares, os conflitos entre rutenos e poloneses no Brasil 37
manifestavam-se devido à escassez de docentes e na questão dos livros didáticos. Devido
ao fato de o Estado brasileiro ter inicialmente poucas condições de criar escolas nessa
nova fronteira, o imigrantes criaram as suas próprias. O Ministério de Educação e Cultura
da Áustria enviava regularmente livros didáticos para o Brasil e, ciente dos conflitos entre
poloneses e rutenos, fazia finca-pé numa distribuição equânime entre textos em língua
polonesa e em língua ucraniana. Era enviado material escolar em geral, mapas, livros de
aritmética, cartilhas, livros de história bíblica e o Manual da História Pátria da Áustria, assim
como livros de leituras. 38 Também vinham remessas de livros do respeitado Gräflich-
Ossolinskischen Nationalanstalt [Instituto Nacional do Conde Ossolinski], em Lemberg
[atualmente Lviv, Polônia]. Os cônsules austríacos chamavam a atenção para o fato de que
os livros publicados em língua polonesa no Brasil, “devido à sua tendência, mormente livre-
pensadora, não corresponderiam às idéias religiosas ortodoxas dos pais”. 39 Pois o
emprego de livros publicados pela comunidade polonesa no Brasil, que eventualmente
formulariam uma pretensão a um Estado polonês independente, deveria ser evitado. Numa
portaria dirigida ao governador da Galícia, o Ministério da Educação esforçou-se na
procura de professores de escola primária e de sacerdotes poloneses e rutenos a serem
enviados ao Brasil. 40 Um dos desejos primordiais dos rutenos, que, diferentemente dos

36
Cf. Ursula PRUTSCH, Das Geschäft mit der Hoffnung. Österreichische Auswanderung nach
Brasilien. 1918-1938, Viena-Colônia-Weimar 1996, p. 75.
37
No Brasil, os poloneses e rutenos se fixaram mormente no Paraná. Cf. HHStA, F 15, pasta 60,
Brasil, Zl. 42125.
38
Cf. HHStA. F 15, pasta 57. Argentina, Zl. 38096.
39
Cf. HHStA, F 15, pasta 57, Argentina, Zl. 60304, 1909. O cônsul Kostanjevic acrescentava que
também poderiam ser enviados livros didáticos ultrapassados, pois as escolas no Brasil estariam
bem atrasadas.
40
Cf. HHStA, F 15, pasta 57, Argentina, Zl. 59476, 1907. Os livros enviados eram, em parte, em
ruteno-alemão e polonês-alemão, e não tinham serventia para os colonos.
poloneses, não eram católicos apostólicos romanos, mas faziam parte da igreja grega
ortodoxa, era promover a vinda de sacerdotes do seu credo, também devido ao fato de que
sacerdotes ortodoxos russos, com o apoio do governo da Rússia, faziam propaganda em
meio aos rutenos. Por vezes também chegavam ao Brasil missionários ortodoxos russos,
provindos dos EUA. Ryszard Stemplowski chamou a atenção para o fato de que
justamente os rutenos descobriram a consciência de sua identidade nacional no exterior. 41
Os esforços para manter viva uma identidade austríaca tiveram o seu papel também
nos grupos de fala alemã e italiana. A ligação entre política cultural e política econômica
transformara-se num elemento importante da política expansionista do Reich alemão já em
fins do século XIX. Uma forma deste “imperialismo pacífico”, orientado para uma “conquista
moral”, foi uma política migratória com uma clara orientação pela “germanidade”, assim
como pela conquista de mercados para a importação de produtos alemães. As sociedades
escolares assumiram neste contexto um papel relevante. 42 No Estado de Santa Catarina a
“Sociedade Colonizadora Hanseática” era possuidora de imensas extensões de terra, que
eram sistematicamente ocupadas por colonos de fala alemã, dentro de uma política
segundo a qual os austríacos, através da atuação das escolas e dos sacerdotes, deveriam
ser integrados na comunidade de fala alemã. As representações diplomáticas austríacas
estavam preocupadas com o perigo de que os colonos austríacos acabassem por perder a
sua identidade num contexto em que predominavam os interesses do Reich alemão. Esse
era um dos motivos que levavam o Ministério de Educação e Cultura da Áustria a enviar
livros e material didático austríaco ao Brasil. Também à religião coube um papel importante
neste contexto, pois a maioria dos emigrantes alemães era protestante, enquanto os
emigrantes austríacos de fala alemã professavam a religião católica. 43
A mesma coisa se deu no caso de livros didáticos enviados pelo governo italiano,
assim como no caso da Sociedade Escolar Dante Alighieri. Os cônsules austríacos a viam
como um perigo, porque despertaria interesses nacionalistas e faria propaganda em prol da
Itália nos meios dos tiroleses meridionais. 44 Leopold von Andrian, um diplomata austríaco
que esteve no Brasil entre 1902 e 1905, descreveu num memorando esse tipo de
influências:

Lembro de um cônsul italiano no Brasil, o qual [...] numa localidade onde não havia
cônsul austríaco, mas com uma grande população trentina, 45 a quem foi confiada a
representação diplomática austríaca, e que explorava a sua posição de modo a, por
um lado, contrabandear livros didáticos irredentistas para dentro de uma das
escolas financiada por nossos colonos, e, por outro lado, se aproveitar da

41
Cf. Ryszard STEMPLOWSKI, Misiones auf dem Weg in die nationalstaatliche Gemeinschaft, in:
Acta Poloniae Histórica, Caderno 58, 1988, 90.
42
Cf. Jürgen KLOOSTERHUIS, „Friedliche Imperialisten“. Deutsche Auslandsvereine und auswärtige
Kulturpolitik, 1906-1918, Frankfurt a.M. 1994.
43
Cf. HHStA, F 15, pasta 57, Argentina, Zl.. 38096, 19112; Zl. 24696, 1911.
44
Cf. idem, Zl. 99488, 1908. Foram enviados livros de história bíblica e cartilhas em língua italiana.
45
A população de fala italiana do Tirol Meridional, que até 1918 pertenceu à parte austríaca do
Império, e que hoje é uma província autônoma da Itália.
ingenuidade desses pobres camponeses para convencê-los de que o fato de seus
interesses estarem sendo representados por um italiano era apenas um prelúdio de
pronta cessão da região do Trento [para a Itália]. 46

A Primeira Guerra Mundial deteve a emigração do Império Austro-Húngaro em geral.


Áustria-Hungria foi um dos países derrotados, e acabou desmoronando devido aos
conflitos entre as muitas nacionalidades que a compunham. As consequências da guerra
tornaram a despertar o interesse de muitos austríacos pela emigração, e o Brasil foi um
dos países a lucrar com esta situação.

A emigração austríaca para o Brasil entre 1918 e 193847

Não apenas os integrantes das Forças Armadas, os soldados que retornaram à sua
pátria no fim da Primeira Guerra Mundial, faziam parte da massa de 130.000
desempregados dos primeiros anos do após-guerra. Também havia entre eles muitos
funcionários públicos de fala alemã, que deixaram os seus locais de trabalho em toda parte
do fenecido Império dos Habsburgo e integraram o fluxo das massas que se dirigiam a
Viena, o centro da recém criada República da Áustria. O novo Estado, cujo território havia
encolhido para uma área de apenas 80.000 quilômetros quadrados, com uma população
de meros 6 milhões de habitantes, tinha que dar conta da perda da maior parte de seu
antigo espaço econômico, do retorno a uma produção para tempos de paz, da destruição
causada pela guerra, assim como tinha que reduzir drasticamente um gigantesco aparato
de funcionários públicos administrativos, nos correios, nas estradas de ferro e nos bancos,
tomando medidas que fizeram crescer o exército de desempregados. Portanto, a política
de redução do funcionalismo também teve reflexos sobre o movimento de emigração.
As primeiras a se aproveitar do crescente interesse pela emigração foram
numerosas sociedades e agências francamente desonestas. A sua proliferação tornou
necessário um controle estatal mais estrito, assim como a criação de postos de informação.
A primeira instituição oficial de informação para interessados em emigrar foi criada já em
fevereiro de 1920. Em 1921 ela foi subordinada ao Gabinete do Primeiro Ministro, com a
denominação de “Wanderungsamt“ [Instituto de Migrações]. Este “Wanderungsamt“
orientava os interessados em emigrar a respeito dos documentos e do dinheiro necessário,
assim como sobre as metas possíveis e as ofertas de trabalho nos países receptores. Pelo
fato de a Áustria ter um número reduzido de representações diplomáticas e consulares
justamente na América Latina, o “Wanderungsamt“ pedia aos já emigrados que enviassem
regularmente informações a respeito de sua situação social e econômica nas suas pátrias

46
Leopold von ANDRIAN, Wahrnehmungen über den italienischen Irredentismus in den
Südprovinzen unserer Monarchie und im Königreich Italien. Die Möglichkeiten der Bekämpfung
dieser Strömung. Viena, Outubro de 1910. Cf. Deutsches Literaturarchiv Marbach a.N., A: Andrian,
Nr. 4135.
47
O texto a seguir é um resumo da minha tese de doutorado: Das Geschäft mit der Hoffnung.
Österreichische Auswanderung nach Brasilien 1918-1938. Viena-Colônia-Weimar 1996.
de adoção. No ano de 1923 atingiu-se o ápice da onda de emigrantes entre as duas
Guerras Mundiais: 15.500. Naquele ano, 3.400 pessoas escolheram o Brasil. Anton
Retschek, que durante dois anos foi diretor do “Wanderungsamt“, assumiu em 1925 o
cargo de Encarregado de Negócios na então reaberta Embaixada do Brasil no Rio de
Janeiro.
A instalação dessa Embaixada demonstra a importância do Brasil para a Áustria,
enquanto país receptor de imigrantes, no período de entre as duas Guerras Mundiais.
Nesse período, 56,5% dos emigrantes austríacos escolheram o Brasil como sua nova
pátria, fazendo com que durante dois anos os EUA ocupassem o segundo lugar nesse
ranking. Este ápice está relacionado com a política imigratória restritiva dos EUA, que em
1924 limitou drasticamente a imigração para aquele país. O fato de tantos austríacos e
tantas austríacas terem interesse em emigrar justamente para o maior país da América
Latina está ligado fortemente também aos esforços feitos nesse sentido pelo Brasil.
Embora a teoria “push-pull” no campo das migrações seja pouco empregada e esteja
sendo relativizada nas mais recentes pesquisas sobre esta temática, a sua aplicação na
análise da interação entre pressões políticas e sócio-econômicas no país de origem e
interesses do país receptor para atrair imigrantes parece ser cabível no caso da migração
de austríacos para o Brasil, no período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.
Os austríacos que emigraram para o Brasil após a Primeira Guerra Mundial ainda
tiraram proveito da última década de uma política liberal de imigração, aplicada com
especial ativismo pelo Estado de São Paulo, em benefício de seus cafeicultores. Tal como
tinha ocorrido durante o século XIX, agentes de empresas ferroviárias e de colonização
tentavam atrair novos imigrantes. Assim, por exemplo, um imigrante austríaco escreveu em
meados da década de vinte do século XX ao „Wanderungsamt“:

Na primavera de 1925, o nosso grupo de 8 famílias austríacas zarpou de


Amsterdam no navio “Flandria”, do Real Lloyd Holandês. Os agentes da companhia
em Viena tinham nos prometido diversas regalias durante a viagem de trem e de
navio, mas aconteceu exatamente o contrário. [Em São Paulo] apareceram depois
no salão dois húngaros, supostos trabalhadores em fazendas de café, louvando a
vida e os soldos naqueles lugares (chamarizes). Então nos foi dito que as famílias
austríacas e alemãs iriam para uma fazenda de café no Sul do Estado de São
Paulo. [...] acabamos indo parar [...] numa fazenda na fronteira com o Estado de
Minas Saraes. Ninguém nessa fazenda falava uma palavra de alemão. 48

Um mecanismo que acabou sendo extremamente eficiente e que o Estado de São Paulo
empregou até 1926/27 consistia em adiantar o dinheiro para pagar as passagens
transatlânticas às famílias que contassem com pelo menos três pessoas em condições de
trabalhar, com idades entre 12 e 50 anos, adiantamento este que deveria ser restituído

48
Arquivo da República, Wanderungsamt, pasta 2236/290, GZ. 29005-25, Ludwig Ollmann ao
Wanderungsamt, São Paulo 15.9.1925. Onde se lê Minas Saraes, leia-se Minas Gerais.
num prazo que variava entre cinco e oito anos. São Paulo investiu muito mais verbas em
campanhas de propaganda do que o Governo Federal brasileiro. Os trabalhadores nas
fazendas de café trabalhavam até a década de sessenta do século XX no sistema de
colonato, segundo o qual cuidavam de uma determinada quantidade de pés de café contra
o pagamento de um salário mensal, podendo usar pequenas faixas de terreno entre os pés
de café para cultivos de subsistência.
As famílias atraídas para a produção na lavoura deveriam cuidar de lotes de 25
hectares, as assim chamadas “colônias”, agrupados em volta de um ponto central, ao longo
das estradas de ferro, mas também podiam estar dispersas a muitos quilômetros de
distâncias umas das outras. Nessas porções de terra, que deveriam ser pagas dentro de
um determinado prazo, havia, na melhor das hipóteses, casas muito modestas para os
colonos habitarem. Na maioria dos casos, as sementes e as ferramentas também eram
oferecidas gratuitamente, até a primeira colheita. Teoricamente, um colono deveria ter a
possibilidade de pagar o seu lote num prazo de dez anos, para assim obter um título de
propriedade. Como por volta de 1920 não havia mais terra disponível para ser adquirida no
Rio Grande do Sul, os imigrantes austríacos se fixaram em Santa Catarina, Paraná ou São
Paulo.
Para os imigrantes austríacos existia o problema de que a maior parte deles nunca
tinha trabalhado na lavoura. A maioria da massa de migrantes era constituída, como já foi
dito, por membros das extintas Forças Armadas, antigos funcionários públicos, e, a partir
de meados da década de vinte, também industriários desempregados das regiões atingidas
pela crise econômica em Viena e na Estíria. Para obter as tão almejadas passagens
gratuitas, muitos austríacos que desejavam emigrar escreviam, frequentemente com o
apoio de funcionários austríacos, em seus pedidos de passaporte que a sua profissão era a
de “agricultor”, sem que jamais tivessem tido uma enxada na mão. Estas informações
serviam depois para as estatísticas a respeito da formação profissional dos emigrantes. É
verdade que muitos operários cuidavam em seu país de origem de pequenas hortas ou
possuíam alguns conhecimentos agrícolas. Mas decididamente não eram trabalhadores
rurais.
É de se admitir que a política migratória austríaca não obedecia a diretrizes claras
no períodos entre as duas Grandes Guerras. Não se subvencionavam projetos de
emigração, para não ter que assumir nenhuma responsabilidade em caso de insucesso.
Mesmo assim, a emigração foi considerada até meados da década de vinte do século XX
como uma solução aceitável, ou até mesmo como a última solução possível para aliviar o
mercado de trabalho, e chegou a ser discutida nesses mesmos termos também nas
confederações de trabalhadores e empregados.
Contudo, como demonstra o exemplo da “Ação Gamillscheg”, o primeiro dos dois
grandes programas de emigração da Áustria no período entre as duas Grandes Guerras,
boas parte dos homens e das mulheres que emigraram da Áustria para o Brasil
fracassaram na dura labuta nos cafezais e não se deram bem com as condições climáticas
locais.
A “Ação Gamillscheg”

O primeiro grande programa de emigração da Áustria para o Brasil, imediatamente


após o fim da Primeira Guerra Mundial, foi concebido pelo capitão de cavalaria Othmar
Gamillscheg, para ajudar os ex-oficiais austríacos, desempregados pela dissolução das
Forças Armadas do Império, que tinham caído na miséria. Gamillscheg pensou desde o
início de sua empreitada numa emigração para América Latina, onde, segundo ele achava,
erros de caráter econômico não teriam imediatamente consequências catastróficas e onde
a pressão para a assimilação não seria tão forte quanto nos EUA. O entusiasmo de
Gamillscheg em ajudar um grupo de seus camaradas a terem o sonhado sucesso e assim
levantarem novamente a recentemente abalada confiança em si mesmos desencadeou
uma febre emigratória que teve efeitos contagiantes e despertou esperanças irracionais.
Othmar Gamillscheg criou já em fins de 1918 uma empresa denominada “Neue
Heimat” [Pátria Nova], e tinha arrebanhado em maio de 1919 perto de mil pessoas, das
quais 400 eram antigos membros das Forças Armadas. Como o Brasil dava preferência a
famílias de lavradores e os oficiais eram, em sua maioria, solteiros (era necessária uma
permissão especial para contrair matrimônio), muitos homens que se inscreveram no
programa de Gamillscheg inseriram nos jornais anúncios à procura de mulheres
interessadas em compartilhar com eles a aventura brasileira.
Par financiar a emigração, foi organizada com ajuda da “Cruz de Prata” (uma
associação de auxílio mútuo dos militares) duas séries de coletas nos Países Baixos, na
Grã Bretanha, Suécia e Suíça. Em 1919, Gamillscheg fez uma viagem de pesquisa para o
Brasil. Enquanto ele negociava com autoridades do governo brasileiro e com empresas de
colonização, à procura de terras, os dois primeiros grupos, cansados de tanto esperar,
partiram de Viena, pois Gamillscheg enviara à capital austríaca relatórios positivos sobre os
resultados de suas negociações. Mas na verdade ele obtivera apenas promessas vagas e
nenhuma resolução concreta. Depois do terceiro grupo de 300 pessoas ter embarcado, em
outubro de 1919, em Trieste, Gamillscheg assinou precipitadamente com o governo
paulista um contrato sobre trabalhos de lavoura na fazenda de café “Boa Vista”, em
Corumbataí. Prometia-se que, após um estágio de aprendizado de seis meses, seriam
postas à disposição dos colonos certas porções de terra. Lembranças fixadas por escrito
por um membro desse grupo ilustram a imagem do Brasil dos imigrantes e a reação das
autoridades brasileiras. Pois durante a sua permanência nas dependências da Hospedaria
dos Imigrantes, no bairro Brás, em São Paulo, os veteranos, com suas roupas quase
militares, seus mal reformados uniformes, suas pesadas botas, suas perneiras de enrolar e
suas calças cinzentas de montaria, despertaram uma curiosidade generalizada. Na
passagem pela alfândega, foram confiscadas praticamente todas as suas armas.

Um oficial tinha trazido nada menos do que 12 fuzis Mannlicher, um outro até
mesmo uma metralhadora desmontada. Mas foram nos deixados todos os fósforos
e velas, que tínhamos trazido em grandes quantidades, porque com nossa falta de
experiência imagináramos que tais coisas não existiriam no Brasil. 49

Muitos deles só ficaram sabendo de que no Brasil se fala português depois de


embarcados. Logo depois dos primeiros dias de trabalho, os membros do grupo de
Gamillscheg na fazenda “Boa Vista”, abandonada em meio à floresta tropical, já tinham
atingido os limites de suas forças. Parte deles se deslocou rapidamente para a cidade de
São Paulo, enquanto Gamillscheg fez vir ao Brasil, até começos de 1920, novos colonos.
Foram 850 ao todo. A “Ação Gamillscheg” foi um fracasso. O patrimônio da sociedade ficou
rapidamente reduzido a zero. Os conflitos aumentaram rapidamente e a empresa se
estilhaçou. Os austríacos que permaneceram na fazenda “Boa Vista” aguentaram até
meados de maio de 1920, quando ficou claro que não viriam os esperados subsídios do
governo. Um pequeno grupo tentou sobreviver até 1922 como trabalhadores assalariados
em terras da Sociedade de Colonização Hacker, organizada por brasileiros e alemães em
Porto União, perto da fronteira entre Paraná e Santa Catarina.
Embora o “Wanderungsamt“ já tivesse sido criado em 1921, a falta de controle
estatal favoreceu na Áustria as intensas atividades de sociedades de fomento à emigração,
que frequentemente fraudavam os interessados, lucrando com as contribuições que
recebiam de pessoas de famílias empobrecidas, crédulas ou ignorantes, que desejavam
emigrar. Tais sociedades faziam propaganda, sobretudo para a emigração em direção à
América Latina, pois a imigração para os EUA, como já foi dito, estava submetida a
controles mais severos, sendo, portanto mais restrita. Organizações menores, que
fomentavam a emigração para o Brasil, não raramente tiveram a mesma sina da ação
“Pátria Nova”, de Gamillscheg. A “Sociedade de Colonização para Trabalhadores e
Empregados”, cujos membros provinham principalmente das regiões industriais mais
fortemente atingidas pela crise, na Estíria, fez em 1926/27 uma intensa campanha em prol
da ilha de Cananéia. Foram muitos os fatores que levaram ao fracasso desse projeto dos
antigos operários, entre eles, as condições climáticas, a malária, o fato das terras dessa
região não serem muito apropriadas para a agricultura e as dificuldades de acesso aos
mercados. Em 1931, apenas uma das famílias emigradas continuava a morar lá. O governo
do Estado de São Paulo deixou de subvencionar os emigrantes logo após o início da
colonização, pois via os austríacos como “colonos de cartola”, e queria evitar um segundo
desastre como o de Gamillscheg.
Um outro grupo, formado por 77 trabalhadores têxteis vindos da região de
Vorarlberg, também teve pouco sucesso. Sob a direção de um homem chamado Rudolf
Grabher, eles se estabeleceram em 1921 como futuros agricultores perto de Itararé, no
Estado de São Paulo. A sua Colônia Áustria, localizada perto da linha da Estrada de Ferro
Sorocabana, também foi chamada de Bairro da Seda. Embora eles tentassem cultivar
diversas espécies, tais como algodão, cana de açúcar, café e mandioca, em meados da

49
AdR, BMAA, pasta 117, HP 14, III, GZ. 1774-19, Conferência Gamillscheg.
década de sessenta do século passado a maioria dessas famílias tinham migrado para
outros lugares. 50 Outras famílias austríacas foram em 1927 para a Colônia Costa
Machado, em São Paulo, onde já havia outros emigrantes austríacos, vindos ainda durante
a existência do Império Austro-Húngaro. Um desses imigrantes chegados em 1927 era
Francisco Stockinger, que anos depois se transformou num renomado artista plástico.
Desde o início da década de vinte do século XX, havia austríacos que viviam em
Francisco Sá, em Minas Gerais. A eles vieram se juntar em 1926 outros conterrâneos, que
se fixaram em Brucutu e, mais tarde, em Raul Soares. Através da mediação do enviado
austríaco Anton Retschek, emigrantes vindos da Estíria e da Alta e Baixa Áustria foram
para Presidente Penna, localidade próxima à linha de trem que ia da Bahia para Minas
Gerais. Também neste caso, devidos ao clima extremamente úmido e à incidência da
malária, eles não demoraram em se mudar para Belo Horizonte.
As famílias que deixavam as colônias e as plantações iam geralmente para cidades
de menor porte, mas também para os grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro, São
Paulo e Belo Horizonte, que estavam em pleno crescimento, devido às migrações internas,
e passavam por uma fase de auge na indústria da construção civil. Trabalhadores
austríacos na indústria da construção foram contratados em 1929 por empresas de Belo
Horizonte. Entre 3.000 e 6.000 austríacas e austríacos viviam do comércio, eram artesãos
ou meros empregados em empresas alemãs em São Paulo. Perto de 1.500 moravam no
Rio de Janeiro, onde acabaram formando parte da classe média baixa, para mais tarde
atingirem uma nível de vida melhor. Inicialmente, foram poucos os que puderam exercer
uma profissão condizente com a sua formação. Como o exercício de uma profissão
acadêmica no Brasil exige exames de revalidação dos títulos, a serem prestados em língua
portuguesa, muitos dos imigrantes formados em arquitetura indicavam a sua profissão
como “pedreiro”, médicos diziam ser “enfermeiros”, e prestaram os seus exames mais
tarde. Os salários reais pagos no Brasil eram mais baixos que a média dos salários pagos
na Áustria. Além disso, no Brasil desse tempo inexistia uma legislação trabalhista e um
sistema de seguridade social, conquistas estas obtidas na Áustria já em 1918.
A exigüidade das fontes de informação não permite estabelecer informações exatas
sobre a quantidade e a distribuição territorial dos austríacos no Brasil, no período entre
1918 e 1938, pois até meados da década de trinta do século XX, a legislação brasileira não
previa o registro dos habitantes nos seus respectivos municípios.

Migrações para o Brasil na década de trinta do século XX

A crise econômica mundial de 1929 marca uma nítida pausa na política e no


comportamento migratório. A emigração da Áustria para o Brasil diminuiu sensivelmente.
Entre 1930 e 1937 ela montou a apenas 13,4% das migrações transatlânticas em geral. Em
1930, devido a uma vertiginosa queda do preço do café nos mercados internacionais, à

50
Werner DREIER, Colônia Áustria. Bairro da Seda. Vorarlberger Auswanderer nach Brasilien,
Bregenz 1996.
crise econômica mundial, à diminuição das importações e à redução das receitas
alfandegárias, o Brasil chegou à beira da falência. Depois de Getúlio Dornelles Cargas
assumir o poder, o país viu-se obrigado a criar um sistema econômico de substituição de
importações. O “Estado Novo” instituiu no Brasil em 1937 uma ditadura modernizadora,
entre cujas metas estava a criação de um conceito de identidade brasileira que abrangesse
todos os cidadãos. Nesse projeto de formação de um Estado nacional, previu-se, entre
outras coisas, a obrigação de as empresas contarem entre seus assalariados,
trabalhadores ou empregados, com um mínimo de dois terços de cidadãos brasileiros. O
aumento da migração do interior do país para as grandes cidades tornou desnecessária a
imigração provinda da Europa. A legislação sobre imigração tornou-se mais severa.
Em 1931 as estatísticas mostravam que havia na Áustria um total de 334.000
desempregados. Em 1933, com uma população total de 6,5 milhões, o número de
desempregados já passava de meio milhão. A produção industrial decrescia, a dívida
interna triplicou. Mesmo assim, a emigração teve nessa época um papel bem menos
importante do que na década anterior. O governo austríaco já não via a emigração como
uma das soluções para resolver os graves problemas da economia e do desemprego em
massa. Passou a preferir a redução da jornada de trabalho e a criação de projetos de
colonização interna. Essas propostas também correspondiam melhor aos conceitos dos
governos austríacos de 1933 até março de 1938; propagava-se uma retomada da
economia agrária e uma “desproletarização” da classe trabalhadora, mediante o incentivo
ao trabalho rural, também com o objetivo de “sanar” a questão da propriedade rural e de
frear a diminuição da população em geral.
Nesse contexto, é duplamente surpreendente o fato de o único projeto de
emigração de austríacos em grupo para o Brasil realmente bem sucedido, ter ocorrido
justamente entre setembro de 1933 e janeiro de 1938. Durante esse período houve
quatorze viagens transatlânticas com um total de quase 800 pessoas, trazendo famílias
compostas, em sua maior parte, de agricultores tiroleses, que se estabeleceram em Santa
Catarina, perto da cidade de Joaçaba, numa área escolhida para tanto pelo antigo ministro
da agricultura Andreas Thaler. Mais de 63% dos emigrantes para o Brasil, nesse período,
eram integrantes da Organização Thaler.

O Projeto Thaler – Treze Tílias

Entre os anos 1927 e 1933, Andreas Thaler interveio em vão junto ao governo
austríaco, à procura de subvenções para o seu projeto migratório. A sua meta era criar na
América Latina condições dignas de sobrevivência para as pessoas afetadas pela tradição
tirolesa de privilegiar os primogênitos em casos de herança, pelas elevadas taxas de
desemprego e pelo deterioro dos preços dos produtos agrícolas, assim como pela
legislação alemã da época, que praticamente paralisou a vinda de turistas alemães ao
Tirol. 51 Thaler pediu demissão do seu cargo de ministro em 1931, para passar a se
concentrar na criação, na forma de uma cooperativa, de uma colônia de famílias de
agricultores e artesãos de religião católica, num país onde a “preservação do caráter do
povo”, isto é, da tradição, da fé, dos costumes e da língua, não fosse ameaçada por uma
pressão para a assimilação. Os operários, devido à sua experiência rural reduzida ou nula,
eram quase que indesejados para assumir o papel de colonos.
As terras apropriadas foram escolhidas por Walther com Schuschnigg 52, que já
tinha estado no Brasil como integrante do projeto Gamillscheg e acabou assumindo
agendas consulares para a Alemanha no oeste de Santa Catarina. Este plano de
emigração foi elaborado por Thaler e Schuschnigg com a pretensão de ter uma missão
cultural, pois Schuschnigg queria impedir a fixação naquela de região de mais imigrantes
de fala italiana. Por isso, ele via o projeto de colonização de Thaler como um elo de ligação
entre as áreas de colonização de fala alemã no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.
Andreas Thaler pôde tornar realidade o seu ambicioso projeto Treze Tílias, concebido para
envolver 10.000 pessoas, não obstante se defrontar com forte resistência nos meios
políticos austríacos, graças à sua amizade com o primeiro ministro Engelbert Dollfuss,
quem, por sua própria decisão, pôs a metade do orçamento anual previsto para projetos de
colonização (500.000 xelins) 53 à disposição do projeto, para a compra das terras, os
custos das viagens e de equipamento técnico, com a única condição de que este último
deveria ser adquirido na Áustria. “Esta ação deve ser vista como concebida por um ‘Führer’
[...], portanto, não poderá ser submetida a um exame detalhado do projeto [...] pois ela se
baseia única e exclusivamente na profunda confiança do senhor Primeiro Ministro pelo
Ministro Thaler.”
O financiamento foi concedido sem a obrigação de Thaler prestar contas a ninguém
quanto à sua utilização. O primeiro grupo chegou ao Brasil em outubro de 1933, com
80.000 kg de bagagem. As verbas destinadas ao projeto demonstraram ser insuficientes.
Thaler, devido à necessidade de conceder generosos empréstimos aos colonos
empobrecidos, assim como de um rápido estabelecimento de uma infra-estrutura e de
escolas na colônia, devido também aos preços exagerados pagos pelas terras e aos
ingentes investimentos em máquinas e equipamentos, teve necessidade de pedir uma
nova subvenção, no montante de 357.000 xelins. O estabelecimento da colônia de início
obedeceu estritamente os princípios cooperativistas. O trabalho era remunerado pela
metade com vales, e havia prêmios para quem trabalhasse acima da média. Isso levou a
protestos por parte dos colonos, que levaram Thaler a abrir mão deste sistema e a permitir
a privatização e o arrendamento das terras. As terras foram distribuídas entre os
agricultores austríacos. Até a década de oitenta do século XX, Treze Tílias e o seu

51
Em maio 1933 o governo do Reich alemão proclamou sanções econômicas contra a Áustria, que
obrigavam todo cidadão alemão que quisesse viajar para a Áustria a pagar uma taxa de 1.000
marcos (em valores de hoje, aprox. € 10.000). Esta sanção impediu a vinda de turistas alemães para
Áustria, e secou a principal fonte de renda para a região do Tirol e de Salzburgo. Essa medida foi
revogada em 1936.
52
Walther von Schuschnigg era primo do primeiro ministro Kurt Schuschnigg.
53
Em valores de hoje, perto de três milhões de Euros.
subúrbio, denominado Dollfuss, tiveram uma existência precária, porque a estrada que
levava até Joaçaba era ruim, dificultando assim a venda dos produtos agrícolas.
Após a anexação da Áustria à Alemanha, em março de 1938, esta última tentou,
através da ramificação do partido nazista que agia no Brasil, anexar também esta colônia,
planejando a vinda para aquela mesma região de novos colonos, desta vez, alemães
provenientes da região dos Sudetos. O começo da Segunda Guerra Mundial, problemas
relacionados com a legitimação desse projeto de anexação, resistências em meio aos
colonos austríacos e, finalmente, a ruptura das relações diplomáticas entre Brasil e
Alemanha em começos de 1942, levaram ao fracasso desses planos. Andreas Thaler já
tinha falecido, em 1939, durante uma enchente do rio que atravessa Treze Tílias.
Nos anos quarenta, Treze Tílias mudou de nome, passando a se chamar “Papuã”,
pois o Brasil entrara na Segunda Guerra Mundial em agosto de 1942 do lado dos aliados,
e, para indicar a sua inimizade com os países do Eixo, não apenas proibiu que se falassem
em público as línguas alemã, italiana e japonesa, mas também passou a mudar os nomes
das localidades criadas por imigrantes alemães, italianos e japoneses. Em 1959, a
sociedade criada em 1933 na Áustria para cuidar da administração e da realização das
viagens dos emigrantes, com sede em Innsbruck, acabou sendo dissolvida, depois de ter
recebido do governo brasileiro a soma de 400.00 xelins a título de indenização. Os últimos
títulos de propriedade em Treze Tílias foram outorgados em 1961. Hoje Treze Tílias é um
município próspero, visitado por numerosos turistas brasileiros, atraídos pelo seu caráter
exótico, pelas belas peças de artesanato em madeira e pela sua frequente presença na
mídia. Há, ainda, uma contribuição regular de subvenções por parte do governo provincial
do Tirol, assim como uma migração temporária de seus habitantes para o Tirol e para a
Áustria.

A partir de 1921 (ano em que começaram a ser levantadas estatísticas) e até 1937,
um total de mais de 75.000 austríacos emigrou da Áustria para outros países, quase
14.000 dos quais em direção ao Brasil. A maior parte deles o fez por motivos sócio-
econômicos, pressupondo que a sua pátria natal, depois de ter “encolhido” tanto, não
atingiria um grau de estabilidade suficiente para lhes oferecer uma base para garantir a sua
sobrevivência. Estavam convictos de que o problema do desemprego não seria algo
transitório. Outro fator essencial foi a atividade de agentes dos diversos governos, das
companhias de navegação e das empresas de colonização, que contribuíam para
aumentar o interesse pela emigração, na medida em que reforçavam as esperanças numa
rápida melhora das condições econômicas e numa mais fácil ascensão social. Um terço
dos emigrantes austríacos para o Brasil escolheu o formato mais vantajoso da emigração
em grupos fechados. A discrepância amiúde gigantesca entre a imaginação, nutrida por
tantos mitos, e a realidade encontrada no Brasil, na maioria dos casos levou muito tempo
para ser superada, depois da passagem por fases física e psiquicamente pesadas, na
labuta nas fazendas, nas colônias e mesmo nos centros urbanos. A falta de reservas em
dinheiro para o financiamento dos investimentos no país ou de viagens de retorno, levou
em muitos casos à prolongação do período de permanência, embora a emigração, mesmo
a um país tão distante da Áustria como o Brasil, em muitos casos não fosse pensada como
sendo definitiva.

A consciência de uma identidade austríaca no Brasil nas décadas de vinte e trinta do


século XX

As sociedades ou associações de emigrados fazem parte dos locais ideais para


demonstrar a pertença a um grupo étnico ou nacional. O sociólogo francês Maurice
Halbwachs criou, junto ao conceito da “memória cultural”, aquele da “memória nostálgica”,
por ele vista como algo positivo. Tal memória permitiria uma “fuga do presente”, criando a
possibilidade da lembrança seletiva de experiências e aspectos do passado. 54 As
associações fundadas por emigrantes austríacos no Brasil tinham nomes tais como
“Donau” ou “Babenberg”. Organizavam bailes a caráter, encenavam operetas, ofereciam
concertos com música austríaca e noitadas ao estilo tirolês, em espaços com decorações
simbólicas, dando assim a possibilidade de encenar memórias nostálgicas, mas também
políticas. Assim, por exemplo, a Associação Austríaca de Porto Alegre comemorou em
1931 o aniversário da criação, em 12 de novembro de 1918, da primeira República da
Áustria. O discurso do autor austríaco Anton Wildgans em louvor da Áustria foi lido
solenemente, e os hinos do Brasil e da Áustria foram cantados pelo público presente.
As associações também serviram para transferir ideologias políticas, que chegaram
a provocar controvérsias e conflitos políticos. A partir de 1933, quando a organização
alemã denominada “Deutscher Volksbund“ [Aliança dos Povos Alemães] começou a enviar
maciçamente material escolar e de propaganda nazista para as empresas e escolas
alemãs no Brasil, o entusiasmo pela nova fase que atravessava a antiga pátria alemã
passou a se manifestar nitidamente através de instrumentos carregados de simbolismo.
Nas praças de esportes dos clubes ligados à Alemanha eram içadas bandeiras com a cruz
suástica. Mesmo a Associação Donau, criada em 1913 por emigrantes austríacos, que,
com seus perto de 1.000 associados, era um importante centro de comunicação para as
austríacas e os austríacos residentes em São Paulo, assumiu de forma cada vez mais
nítida, a partir de 1935, um caráter germânico e nitidamente nazista, mantendo, contudo, a
catedral vienense de Santo Estevão como emblema nas suas publicações. O “pacto de
amizade” assinado em julho de 1936 entre a Alemanha hitlerista e a Áustria foi festejado
pela Associação Donau com encenações de teatro de bonecos, vinho e pratos típicos
austríacos, música folclórica austríaca e celebração do solstício. Isso demonstra que a
associação, que apresentava suas dúvidas acerca de identidade tradicional austríaca em
suas publicações, comprovava-a com “imagens da velha Áustria”.
Por esses emotivos, um grupo mais pró-austríaco separou-se da “Associação
Donau” em 1935 e criou a “Associação Austro Brasileira Babenberg”, que subsiste até hoje.

54
Vide Leo SPITZER, Hotel Bolivia. Auf den Spuren der Erinnerung an eine Zuflucht vor dem
Nationalsozialismus, Viena 2003, p. 218-222.
A politização da cultura no exterior pelo regime nazista podia tornar-se um problema para
as austríacas e os austríacos anti-nazistas, que trabalhavam em empresas alemãs ou eram
beneficiados por associações filantrópicas alemãs, quando tais empresas ou associações
exigiam um posicionamento político de seus funcionários ou beneficiários. O exemplo da
“Associação Donau” mostra que também dentro da comunidade austríaca (dos emigrados
antes e depois de 1918) havia simpatizantes do nacional-socialismo. Essa simpatia
também ficava patente em pequenos grupos de caráter político, que foram tolerados no
Brasil, ou mesmo ignorados, pelo menos até o começo dos anos quarenta. Em 1933
surgiram, inicialmente na Argentina e no Uruguai, mas logo também no Brasil, ramificações
de uma variante austríaca do NSDAP, o partido nazista alemão, chamada
“Deutschösterreichische Vereinigung “ [União teuto-austríaca], a qual, através de
campanhas de ódio anti-semita e anti-austríaco, no seu jornal de campanha Der
Deutschösterreicher, tentava cindir associações, provocando a reação da imprensa local
em língua alemã. Os seus sócios fundadores foram privados, antes do fim da década de
trinta, de sua cidadania austríaca, ainda por intervenção do enviado austríaco Retschek. A
partir de meados dessa década, o governo austríaco tentou, através da criação de filiais da
“Frente Patriótica” (essa era a denominação da coalizão partidária que assumiu em 1933
poderes ditatoriais na Áustria), incentivar em muitas cidades da América Latina uma
corrente patriótica, aliás, bastante fraca, contrária às que nutriam simpatia pelo nazismo.
Uma outra organização, fundada em 1926, a “Österreichische Auslandsbund“ [União
Austríaca no Exterior], apelava pelo mundo afora aos sentimentos pátrios austríacos.
Emigrantes austríacos radicados em São Paulo chegaram a publicar, de 1927 a 1934, um
jornal denominado Österreichische Zeitung, que refletia regularmente a política interna
austríaca.
A anexação da Áustria ao Reich alemão foi comentada não apenas na imprensa
latino-americana em língua alemã. O “plebiscito” de 10 de abril de 1938, mascarado pelos
representantes da Alemanha na Áustria como “comício de simpatia”, ocorreu também no
Brasil, aliás, por motivos de respeito à soberania nacional, em navios ancorados fora das
águas territoriais brasileiras. Mas no Brasil só alguns austríacos votaram a favor da
anexação. A maioria manteve-se pró-austríaca, ou neutra.

Depois do fim da Primeira Guerra Mundial, em 1919, até a anexação da Áustria pela
Alemanha, em meados de 1938, um total de 15.513 pessoas emigrou da Áustria para o
Brasil. Mas o fluxo migratório não se deteve, pois entre 1938 e 1942, apesar da política
imigratória do Brasil, crescentemente marcada pelo anti-semitismo, muitos fugitivos do
nazismo, perseguidos tanto por motivos políticos como “raciais”, ainda vieram para o Brasil.
Muitos imigraram indicando como profissão a de “agricultor”. Na América Latina, o Brasil
foi, junto com o México e a Argentina, um dos países que mais refugiados abrigou. 55 Dos
16.000 refugiados de fala alemã, a maioria deles judeus, perto de 1.500 deve ter sido

55
Jeffrey LESSER: Welcoming the Undesirables: Brazil and the Jewish Question. Berkeley 1994.
austríacos. Embora o até hoje mais famoso deles continue a ser Stefan Zweig, outros
intelectuais, tais como Otto Maria Carpeaux, Hans Klinghoffer, Fritz Feigl, Agi Strauss,
Alfred Gartenberg, Axl Leskoschek, Fritz e Otto Heller, Gina Trebitsch, Paul Frischauer,
Leopold von Andrian e muitos mais, contribuíram para enriquecer o ambiente científico e
cultural do Brasil daquela época.56
Muitos deles deixaram valiosos testemunhos literários e historiográficos de suas
vidas, de suas esperanças e de suas avaliações do país que os acolheu – oscilando
amiúde entre a gratidão por terem sido acolhidos pelo Brasil e a crítica ao regime de
Getúlio Vargas, que lhes proibiu o uso da língua alemã, mas que até 1941 simpatizava com
o Reich alemão. Alguns desses austríacos encontraram trabalho em instituições políticas
da ditadura local. Graças ao engajamento de juristas austríacos, discípulos de Kelsen, o
governo de Getúlio Vargas aceitou a criação do “Comitê de Proteção dos Interesses
Austríacos no Brasil”, como única associação de estrangeiros. Tratava-se de um privilégio,
pois, a partir de 1938, ficaram proibidas as organizações e associações políticas. Embora
alguns desses refugiados voltassem à sua terra natal depois de 1945, ou se mudassem
para os EUA, muitos deles transformaram o Brasil em sua nova pátria. A imagem
eufemística do Brasil, veiculada pelo best-seller de Stefan Zweig, Brasil, País do Futuro,
transformou-se em realidade para milhares de emigrantes e refugiados austríacos, vindos
entre 1824 e 1942, muitas vezes após longos anos de penúria. Eles transferiram o seu
saber, a sua cultura musical e arquitetônica, a sua culinária, as suas mentalidades para o
país que os acolheu, e contribuíram assim para fazer do Brasil a nação complexa e pluri-
cultural de hoje.

56
Marlen ECKL, “Das Paradies ist überall verloren”. Das Brasilienbild in ausgewählten Schriften von
Flüchtlingen des Nationalsozialismus, tese de doutorado não publicada. Viena 2008.