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BENJAMIN, Walter. Baudelaire e a modernidade. Trad. João Barrento. 1 ed.

Belo Horizonte:
Autêntica Editora, 2017.

Capítulo 1 – A Paris do Segundo Império na obra de Baudelaire

1. A bohème

“Proclamacoes surpreendentes e secretismos, rompantes bruscos e ironia impenetrável fazem parte


da razão de Estado do Segundo Império. E os mesmos traços se encontram nos escritos teóricos de
Baudelaire.” (p. 14)

“O Salão de 1846 é dedicado ‘à burguesia`; nele o autor arvora-se em defensor dessa classe, e o seu
gesto não é de advogado do diabo.” (p. 14)

1850 – a arte não se separa do que é útil. Pouco depois, defende a arte pela arte. Contradições

“poderia ter feito suas as palavras de Flaubert, quando este diz: `De toda a politica só compreendo
uma coisa: a revolta.” (p. 15)

Denunciante da polícia francesa. “Aquilo que deu essa fama a Baudelaire na Bélgica dificilmente
poderá ter sido apenas a inimizade que manifestou contra o então proscrito Victor Hugo, muito
celebrado nesse país. O aparecimento de tal boato deveu-se também à sua devastadora ironia, pode
muito bem ter sido ele mesmo a espalhá-lo. O culte de la blague, que encontramos também em
Georges Sorel e que se tornou componente inalienável da propaganda fascista, dá em Baudelaire os
seus primeiros frutos.” (p. 16)

“Os trapeiros começaram a aparecer em grande numero nas cidades quando o lixo passou a ter
certo valor, devido aos novos processos industriais. Trabalhavam para intermediários e
representavam uma espécie de indústria domestica situada na rua. O trapeiro fascinou sua época.
Os olhares dos primeiros investigadores do pauperismo recaíam sobre ele com a pergunta muda:
Ate onde irão os limites da miséria humana?” (p. 21)

Poema “Abel e Caim” – Caim fundador da raça proletária, os deserdados.

Marx em O Capital fala de “uma raça de proprietários de mercadoria”  proletariado 


descendentes de Caim. “Trata-se, de fato, da raça daqueles que não dispõem de outra mercadoria
que não seja a sua força de trabalho.” (p. 24)

“Esse duplo rosto de Satanás é perfeitamente familiar a Baudelaire. Para ele, Satanás não fala
apenas para os de baixo, mas também para os de cima.” (p. 25)

“Os seus versos resguardaram-se daquilo que a prosa não se força sutil que, mesmo nos momentos
de exaltação desesperada, lhes permite não renegar totalmente aquele que é objeto da indignação
do bom senso e da humanidade. Em Baudelaire, quase sempre a afirmação da devoção se faz ouvir
como um grito de combate. Não quer que lhe tirem o seu Satanás. Esse é o verdadeiro móbil no
conflito de sacramentos e de orações; trata-se do direito luciferino a ofender aquele Satanás que
nos domina.” (p. 26)
Crise da poesia – desintegração entre cidade e campo. O poeta “empresta o seu ouvido ora às
florestas, ora às massas.” Pierre Dupont, amigo de Baudelaire.

No começo do século XIX, a atividade literária era divulgada por meio de resvistas. Depois, por meio
dos jornais diários que só podiam ser lidos por assinantes. Assim, os que não podiam abarcar a
despesa em cima dessa assinatura, iam aos cafés. Salto no número de assinantes de jornais ao longo
do século XIX.  redução do preço, introdução de anúncios e dos romances de folhetim.

“Ao mesmo tempo, a informação breve e incisiva começou a fazer concorrência ao relato
convencional das gazetas, recomendando-se pela sua utilidade mercantil.” (p. 28) reclame abriu
caminho. Noticia paga.

“A informação não precisava de muito espaço; era ela, e não o artigo de fundo politico ou o romance
de folhetim, que dava ao jornal o aspecto diariamente novo, inteligentemente variado pela
paginação, no qual residia uma parte do seu encanto. A informação tinha de ser constantemente
renovada: os mexericos da cidade, as intrigas do meio teatral, também as ‘curiosidades’ eram as
fontes prediletas dessa parte do jornal.” (p. 29)

Literato – sociedade = boulevard. “É no boulevard que passa as suas horas de ócio, que apresenta às
pessoas como parte do seu horário de trabalho. Comporta-se como se tivesse aprendido com Marx
que o valor de cada mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para
a sua produção. Desse modo, o valor da sua própria força de trabalho adquire qualquer coisa de
quase fantástico em face do dilatado ócio que, aos olhos do publico, é necessário para a sua
realização plena.” (p. 30)

Colocar a curiosidade no lugar da politica. Altos honorários aos escritores de folhetim  abertura
para a politica. OS autores eram pagos para escrever sobre algo de interesse dos próprios políticos.

Baudelaire tinha de contar com a pratica de vigaristas, editores que só aceitavam seu manuscritos se
ele conseguisse mais assinaturas. “O comportamento do próprio Baudelaire explica-se por essa
situação. Oferece o mesmo manuscrito a varias redações para publicação, autoriza reimpressões
sem identifica-las como tal. Desde muito cedo não teve quaisquer ilusões quanto ao mercado
literário. Em 1846 escreve: ‘Por mais bela que seja uma casa, o que ela tem em primeiro lugar – e
antes de nos determos a observar a sua beleza – são tantos metros de altura e tantos de
comprimento. O mesmo se passa com a literatura, que dá forma à substancia mais difícil de avaliar,
e sobretudo enche linhas; e o arquiteto literário, a quem o simples nome já não promete lucros, tem
de vender a qualquer preço’. Baudelaire teria até o fim da vida uma má cotação no mercado
literário. Calcula-se que não ganhou mais de quinze mil francos com a totalidade da sua obra.” (p.
35)

“Baudelaire sabia qual era a real situação do homem de letras: é o flaneur que se dirige ao mercado
dizendo a si mesmo que vai ver o que se passa; mas na verdade já anda à procura de comprador.” (p.
36)
2. O flâneur

Literatura panorâmica  “O escritor que alguma vez desceu ao mercado começa por olhar em
volta, como num ‘panorama’. Um gênero literário especifico faz as suas primeiras tentativas de
orientação.” (p. 37) 1840. Fisiologia do humano, fisiologia da cidade, fisiologia dos povos. Elas
nascem quando as Leis de Setembro entram em vigor, eram medida de censura. “Com elas, um
grande numero de artistas capazes e adestrados na caricatura satírica viram-se subitamente
afastados da politica. Se isso resultou no domínio das artes gráficas, muito mais facilmente as
manobras do governo seriam bem-sucedidas no âmbito da literatura.” (p. 38)

A vida burguesa: tudo desfilava e era visto, os dias de festa e os de luto.

“O registro tranquilo dessas descrições ajusta-se aos hábitos do flâneur, que é uma espécie de
botânico do asfalto. Mas já a essa altura não se podia passear calmamente por todos os pontos
da cidade.” (p. 39)

As passagens cobertas com estabelecimentos comerciais. Para os pedestres. Cada passagem era
um mundo em miniatura, uma cidade.

“O flâneur sente-se em casa nesse mundo; é ele que oferece ‘a esse lugar predileto dos
transeuntes e dos fumantes, a essa arena de todas as pequenas profissões’ o seu cronista e o
seu filósofo. Mas para ele próprio esse lugar é o remédio infalível contra o tédio, uma doença
que grassa facilmente sob o olhar mortífero de um regime reacionário saturado.” (p. 39)

Entre a rua e o interior. Transforma o boulevard em interior.

“A rua transforma-se na casa do flaneur, que se sente em casa entre as fachadas dos prédios,
como o burguês entre as suas quatro paredes. Para ele, as tabuletas esmaltadas e brilhantes
das firmas são adornos murais tão bons ou melhores que os quadros a óleo no salao burguês;
as paredes são a secretaria sobre a qual apoia o bloco de notas; os quiosques de jornais são as
suas bibliotecas, e as esplanadas as varandas de onde, acabado o trabalho, ele observa a
azáfama da casa. A vida em toda a sua diversidade, na sua inesgotável riqueza de variações, só
se desenvolve entre as pedras cinzentas da calçada e contra o pano de fundo cinzento do
despotismo: esse é o pensamento politico secreto da forma de escrita a que pertenciam as
fisiologias.” (p. 39-40)

Incomunicabilidade das pessoas nos trens, bondes etc. foi o momento em que as pessoas
começaram a passar mais instantes num mesmo lugar mas sem falarem umas com as outras

“O que mais importava era de fato dar às pessoas uma imagem agradável umas das outras. Assim, as
fisiologias teciam, à sua maneira, a sua parte da grande tapeçaria fantasmagórica da vida parisiense.
Mas o método não podia levar muito longe. As pessoas conheciam-se umas às outras como
devedores e credores, como vendedores e fregueses, como patrão e empregado – e sobretudo
conheciam-se como concorrentes. A longo prazo, não parecia muito promissor querer despertar
nelas uma imagem dos respectivos parceiros como sujeitos inofensivos. Por isso, cedo surgiu nesse
tipo de escrita outro ponto de vista que iria ter um efeito muito mais tonificante.” (p. 41)

Conhecer a pessoa apenas pelas suas vestes.


Essas fisiologias foram ultrapassadas por este outro tipo de literatura.

“Já a literatura que se tinha fixado nos aspectos mais inquietantes e ameaçadores da vida urbana
estaria destinada a ter um grande futuro. Também ela tem a ver com as massas, mas o seu método é
diferente do dos fisiologistas. Pouco lhe interessa a identificação de tipo, preocupa-se sobretudo
com as funções próprias das massas nas grandes cidades. [...]. Aqui, a massa surge como o asilo que
protege os associais dos seus perseguidores.” (p. 43) origem do romance policial.

“Em tempos de terror, quando cada um tem algo de conspirador, todos podem também
desempenhar o papel de detetiva. A flanerie oferece para isso as melhores perspectivas.” (p. 43)

Baudelaire: “O observador é um príncipe que em toda parte faz uso pleno do seu estatuto de
incógnito.”

“O herói decide ir em busca de aventuras, seguindo o rastro de um pedaço de papel que deitou ao
vento. Seja qual for a pista que o flaneur siga, todas o levarão a um crime. Isso torna claro como
também o romance policial, não obstante o seu calculismo sóbrio, contribui para a fantasmagoria da
vida parisiense.” (p. 43)

Baudelaire e Poe – o antissocial. No romance policial, há o desaparecimento do rastro individuo no


meio da multidão da grande cidade.

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