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Reino dos Mataka-o papel da rainha Achivanjila na luta contra o tráfico de

escravos (1850-1878/79)

“Nos territórios Yaawo, o papel das mulheres na vida de um homem transcende a condição conjugal, a
mulher desempenha o papel de retaguarda espiritual do homem, os segredos de sucesso das

campanhas de razias e de sacrifício são sempre atribuídos a mulher” (VENE: 2018)

Abstract

A História de Moçambique é rica em diversidade cultural, onde o sistema de parentesco


exerce forte influência no exercício do poder, sendo que para a zona a sul do Zambeze
predomina a filiação patrilinear e a norte a matrilinear. Esta diferenciação no sistema de
parentesco surgiu aquando da fixação bantu. O reino dos Mataca, constituíam
comunidades matrilineares conhecidas por Mbumba, cuja autoridade máxima era
designada Asyene Mbumba (grupo de irmãs, de suas filhas casadas e de filhos
solteiros, todos sob chefia de um irmão mais velho), espécie de guardião da linhagem.
A partir dos anos 1840/50, os Mataca entraram em contacto com a costa, surgindo
assim mudanças, onde podemos destacar a islamização dos grandes chefes,
fortalecendo assim o poder teocrático das elites. Para além da mudança na área social,
há que destacar a introdução do tráfico de escravos, facto este que aumentou o poder
económico e político dos chefes (Xeques).

O presente artigo surge no âmbito dos requisitos necessários para a frequência do


curso de Mestrado em História de Moçambique e da África Austral, na Faculdade de
Letras e Ciências Sociais, Departamento de História, com o propósito de conciliar
saberes teóricos e iniciação em pesquisa histórica, o mesmo versa sobre o papel da
rainha Achivanjila na luta contra o tráfico de escravos (1850-1878/79). Rainha
Achivanjila ou rainha Aluusi Apitigombe teve um papel determinante na luta contra o
tráfico de escravos, tendo contribuído para a valorização dos cativos, olhando para
estes como seres que merecem dignidade. Tendo para efeito desafiado a autoridade
do soberano. É objectivo do presente artigo discutir e analisar o papel da rainha
Achivanjila no combate ao tráfico de escravos e na valorização do ser humano. Sendo
a sociedade Mataaka marcadamente matrilinear, com “marcas” islão (dá primazia ao
poder masculino), discutir até que ponto o poder ideológico a ela atribuído terá
contribuído para a ascensão e sucesso da rainha Aluusi Apitigombe.
Não obstante o poder brutal e cruel do Mataaka I podemos avançar diversas hipótese
que poderão explicar a actuaçao da rainha Aluusi Apitigombe, mas nos parece mais
provável que, sendo a sociedade Yao marcadamente matrilinear, onde a mulher dentro
da estrutura governativa do Estado jogavam um papel importante na manutenção do
poder, presume-se que a rainha Achivanjila tenha utilizado a autoridade Asyene
Mbumba no combate ao tráfico de escravos. Pois é uma forma de poder culturalmente
aceite pelas comunidades.

Revisão bibliográfica
CABAÇO, José Luís. Moçambique: identidade, colonialismo e libertação. São Paulo:
UNESP.
2009
MEDEIROS, Eduardo. História de Cabo Delgado e Niassa. Maputo: AHM. 1997
VENE, Manuel. Liderança Feminina no Estado Mataca: mitos e poderes da rainha
Achivaanjila de Majuuni (Séc. XIX-XX). Lichinga: ARPAC. 2018
ZIMBA, Benigna. Achivanjila I and the making of Niassa slave routes. In: Zimba
Benigna;
YOHANNAH, Bernaba Abdallah. The Yaos. Chikala Cha Wayao. Londres: Frank Class.
1973