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GASTON BACHELARD

intuicão do instante

2'edição

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SF!Brasil)

2à ed.
Tradução
Bachelard.
Gaston.1884-1962.
Antonio de Padua Danesi
A intuição do instante / Gaston Bachelard; tradução
Antonio de PaduaDanesi.- 2i ed. - Campinas.SP: Verus
Editora.20]0
SBD-FFLCH-USP
Título original:L'intuition de linstant

lllllllll 11
Bibliografia
ISBN978-85-7686-010-5

1. Instante (filosofia) 2. Tempo Percepção 1.Título.


4 1 2 1 5 4
07-0720 CDD- 1 15

Índices para catálogo sistemático:


1.Instante: Intuição: Filosofia 115

SA PIENTIA
AINTUIÇÀO DOINSTANTE

[o, porque em certos ibomentos, no ápiceda idade, por exemplo,


percebemos quejá não podemos deixar para amanhã a guarda
de nossasesperanças. A amargurada vida é o desgostode não
poder esperar,dejá não ouvir osritmos que nos exortar-na to-
car nossaparte na sinfonia do devir. E então que a ''lamentação
ANEXO
risonha'' nos aconselhaa convidar a Morte e a aceitar,como
uma canção que acalenta,os ritmos monótonos da Matéria
E nessaatmosfera metafísica que nos apraz situar SÍ/oê;é com
essainterpretação pessoalque gostamos de ]er essaobra estra-
instante poético
nha. Ela nos fala, então, na Garçae na tristeza porque ela é ver- e justa-nte meta-Hsico*
dade e coragem. lyessaobra amarga e terna, com efeito, a ale-
gria é sempre uma conquista; a bondade ultrapassapor sistema
a consciência do mal, porque a consciência do mal é já o de-
sejo da redenção. O otiiTlismo é vontade mesmo quando o pes-
simismo é conhecimento claro. Espantoso privilégio da intirú-
dadel O coraçãohumano é verdadeiramentea maior potência
de coerência para as ideias contrárias. Lendo SÍ/oê,percebemos
bem que trazíamos,por nossocomentário, um quinhão de pesa- A poesia é uma metafísica instantânea. Num curto poema, ela
das contradições; mas a simpatia não tardaria, com a obra, a nos deve dar uma visão do universo e o segredode lulla alma,um
exortar a ter conâança nasliçõesque tiramos de nossospróprios ser e objetos, tudo ao mesmo tempo. Se segue simplesmente o
erj'os
]' tempo da vida, ela é menos que estaisó pode ser mais que a
Eis por que S//odé um belo livro humano. Ele não ensina, vida imobilizando-a, vivendo no próprio lugar a dialética das
ele evoca. Obra da solidão, é ullaa leitura para solitários. Reen- alegrias e das dores. Ela é, então, o princípio de uma siinulta
contramos o livro como nos reencontramos ao reentrar em nós neidade essencial ein que o ser mais disperso, mais desunido,
conquista sua unidade.
mesmos. Se o contradizenlos, ele nos responde. Sc o seguimos,
ele nos dá um impulso. Mal o fechamos e já renasce o desejo Enquanto todas as demais experiências metafísicas são pre
de reabri-lo. Mal se calou e um eco já acorda na alma que o paradas em intermináveis prólogos, a poesia recusa os preâm
compreendeu.
* Este texto de Bachelard, apresentado na edição francesa como complenlen
to a .4 flôr i'fãa dofnifanfe, 6oi originalmente publicado na revista A4cssnKes:
À4c
fap/iysíglle e/ Pois;c, n' 2, 1939, e prolonga a meditação do autor sobre a quem.
tão do tempo.

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bolos, os princípios, os métodos, as provas. Recusa a dúvida. o encantamento, para o êxtase, é preciso que as antíteses se con-
Quando muito, ela tem necessidadede uin prelúdio de silêncio. traiam ein ambivalência. Surge então o instante poético... Quan-
Primeiro, valendo-se de palavras ocas,ela faz calar a prosa ou os do menos, o instante poético é a consciência de uma ambivalên-
trinados que deixariant na alma do leitor uma continuidade de cia. Mas ele é mais, porque é uma ambivalência excitada, aviva,
pensamento ou de murmúrio. Depois, apósassonoridades va- dinâmica.O instantepoético obriga o ser a valorizar ou a des-
zias,elaproduz seuinstante.E para construir uln instantecom- valorizar. No instante poético o ser sobe ou desce, sem aceitar
plexo, para atar,nesseinstante, simultaneidades numerosas,que o tempo do mundo, que reduziria a ambivalênciaà antítese,o
o poeta destrói a continuidade simples do tempo encadeado. simultâneo ao sucessivo.
Em todo poema verdadeiro, polciem-se, então, encontrar os Verificaremos facilmente essarelação da antítese com a am-
elementosde uill tempo interrompido, de um tempo que não bivalência se quisermos comunicar-nos com o poeta, que, evi-
seguea medida,de um tempo que chamaremosde perfíca/ para dentemente,vive em um instante os dois termos de suasanta.
distingui-lo de um tempo comum que foge horizontalmente teses.O segundo ten-no não é evocado pelo primeiro. Os dois
com a águado rio, com o vento que passa.Daí o paradoxoque dermos nasceram juntos. Encontraremos, então, os verdadeiros
cumpre enunciar claramente: enquanto o tempo da prosódia é instantespoéticos de um poema em todos os pontos nos quais
horizontal, o tempo da poesia é vertical. A prosódia organiza o coração humano pode inverter asantíteses.Mais intuitivas-nes-
apenas sonoridades sucessivas,regula cadências, administra ím- te, a ambivalência bem atada revela-se por seu caráter tempo-
petos e emoções, por vezes,infelizmente, de modo inoportuno. ral: em vez do tempo masculino e intrépido que arremete e que.
Aceitando asconsequênciasdo instante poético, a prosódia per- bra, em vez do tempo melífluo e submisso que lastima e chora,
mite chegar à prosa,ao pensamento explicado, aos amores vi- eis o instante andrógino. O mistério poético é uma androginia.
vidos, à vida social, à vida comum, à vida escorregadia, linear,
contínua. Mas todas as regras prosódicos não passam de meios, 11
de velhos meios.A meta ê a t/erfíca/idade,
a profundidade ou a
altura; é o instante estabilizado em que as simultaneidades, or- Mas seráque também é tempo essepluralismo de acontecimen-
denando-se,provam que o instante poético tem uma perspec- tos contraditórios encerrados num só instante? Será que é tem-
tiva metafísica. po toda essaperspectiva vertical que se prqeta sobre o instante
O instante poético, portanto, é necessariamente complexo: poético? Sim, porque assimultaneidades acumuladas são simul-
ele comove, ele prova ávida, consola --, é espantoso e fami- Eaneidadesarde/lados.Elas conferem uma dimensão ao instante.
liar. Essencialmente,o instante poético é a relaçãoharmónica porque Ihe dão lmla 'ordem interna. Ora, o ten-tpoé uma or-
de dois contrários. No instante apaixonado do poeta, há sempre detn, e nada mais que uma ordem. E toda ordem é um tempo.
lml pouco derazão;na recusaracional, restasempreum pouco A ordem dasambivalênciasno instanteé, portanto, um tem-
de paixão.As antítesessucessivasagradam ao poeta. Mas, para po E é essetempo vertical que o poeta descobrequando recu-

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sao tempo horizontal,ou seja,o devir dosoutros,o devir da por vezes colocar o eco antes da voz e a recusa antes do con-
vida, o devir do inundo. Eis, portanto, as três ordens de expe- sentimento.
riências sucessivasque desacorrentam o ser encadeado no tem- Outros poetas,mais felizes,apreendemnaturalmente o ins-
po horizontal: tante estabilizado.Baude]airevê, como os chineses,a hora no
olho dos gatos,a hora insensívelem que a paixão é tão com-
1) habituar-se a não referir o tempo próprio ao tempo dos ou pleta que desdenhade realizar-se:"No fundo de seusolhos ado-
Eras-- romper os contextos sociais da duração; ráveis, vejo sempre a hora distintamente, sempre a mesma, uma
2) habituar-se a não referir o tempo próprio ao tempo dascoi- hora vasta,solene,grande como o espaço,sem divisõesde rú
sas-- romper os contextos 6enomênicos da duração; autos nem de segundos,uma hora imóvel que não é marcada
3) habituar-se -- duro exercício -- a não referir o tempo pró- pelos relógios [...]''.' Para os poetas que rea]izam assim o ins-
prio ao tempo da vida; não anaissaberse o coração bate, se tante com facilidade, o poema não se desenrola,ele se amarra,
a alegria avança -- romper os contextos vitais da duração. se tece de nó em nó. Seu drama não se e6etua.Seu mal é u:lla
flor serena.

Somente então se alcança a referência autossincrânica no Equilibrando-se sobre a meia-noite, sem nada esperardo
centro de si mesmo,sem a vida periférica. De repente toda a sopro das horas, o poeta alija-se de toda vida inútil; vivenda a
horizontalidadeplanasedesfaz.O tempojá nãocorre.Elejorra. ambivalência abstrata do ser e do não ser. Nas trevas, ele vê me.
Ihor a própria luz.A solidãoIhe trazo pensamentosolitário,
l ll pensamento sem diversão, pensamento que se eleva, que se acal-
ma exaltando-se puramente.
Para conservar, ou , antes, para reencontrar esseinstante poético O tempo vertical eleva-se.Às vezesele também soçobra.A
estabilizado, poetas há, como Mallarmé, que brutalizam direta- meia-noite, para quem sabeler O corPO, nunca mais soa hori-
naenteo tempo horizontal, que invertem a sintaxe,que inter- zontalmente. Ela soa na alma, descendo, descendo... Raras são
rompem ou desviam asconsequênciasdo instante poético. As as noites ein que tenho coragem de ir até o fundo, atê a déci-
prosódiascomplicadas põem seixosno riacho para que asondas ma segunda badalada,até a décima segunda batida, até a décima
pulverizen-t as imagens fúteis, para que os redemoinhos desfaçam segundalembrança. ..Volto então ao tempo plano; encadeio,
tor-
os reflexos. Lendo MalJarmé, tem-sc com frequência a sensação no a me encadear, volto para perto dos vivos, para a vida. Pai'a
de um tempo recorrente que veio pâr felino a instantesidos. viver, é preciso sempre trair os fantasmas...
Vivemos, então, retardatariainente os instantes que deveríamos E no tempo vertical -- descendo-- que se escalaramas pio-
ter vivido -- sensaçãotanto mais estranhaquanto não participa res dores,as dores sem causalidade temporal, asdores agudasque
de nenhum pesar,de nenhum arrependimento,de nenhuma nos-
talgia. Ela é deita simplesmente de um fenlpo fraga//lado que sabe ' Baudelaire,(Etruies,tomo 1, Plêiade,p. 429

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atravessam um coração para nada, sem jamais enlanguescer. E sedesenrolano bojo do instante,no sentido de um tempo verti
no tempo vertical -- subindo -- que se estabilizaa consolação cal, enquanto a causalidade eficiente se desenrola na vida e nas
sem esperança,essaestranhaconsolação autóctone, sem protelar. coisas, horizontalmente, agrupando instantes de intensidades va
dadas.
Em suma, tudo quanto nos aparta da causae da recompensa,
judo quanto nega a história íntima e o próprio desejo, tudo Naturalmente, na perspectivado instante,podem-se vivem
quanto desvalorizaao mesmo tempo o passadoe o futuro, en- dar ambivalências de mais longo alcance:''Criança, senti no co
contra-se no instante poético. ração dois sentimentos contraditórios: o horror da vida e o êxtase
da vida''.2 Os instantesem que esses
sentimentossãovivencia-
Deseja-se um estudo de un-l pequeno fragmento do tem doslí,r/zfos imobilizam o tempo, porque são vivenciados juntos
po poético vertical? Tome-se o instante poético da /a/lienfaç:ão ligados pelo interesse fascinante pela vida. Eles removem o ser
rIsO/2/za,
no momento mesmoem que a noite adormece e con- da duração comum.Tal ambivalência não pode descrever-seein
solida as trevas, em que as horas mal respiram, em que a solidão tempos sucessivos,como lml vulgar balanço das alegrias e dores
por si sójá é um remorsos Os polos ambivalentes da /anzenração passageiras.Contrários tão vivos, tão fundamentais,pertencem
n'se/l/za quase se tocam.A menor oscilação os substitui ujn ao ao domínio de uma meta6isica imediata.Vivemos-lhes a oscila-

outro. A /ame/oração riso/z/la é, portanto, uma das mais sensíveis ção num único instante,por êxtases e quedas que podem mes-
ambivalênciasde um coração sensível.Ora, ela se desenvolve, mo estar ein oposição aos acontecimentos: o desgosto de viver
evidentemente, num tempo vertical, porque nenhum dos dois nos acomete no gozo tão fatalmente quanto a altivez no inGor
momentos, sorriso ou lamentação,é antecedente.O sentimento túnio. Os temperamentos cíclicos que se desenrolam na duração
é aqui reversível, ou, melhor dizendo, a reversibilidade do ser é usual, seguindo a lua, dos estados contraditórios só apresentam
aqui se/lfí/7íenfa/ízada:
o sorriso lamenta e a lamentaçãosorri, a paródias da ambivalência fundamental. Somente uma psicologia
lamentação consola. Nenhum)ados tempos expressossucessiva aprofundada do instante poderá dar-nos os esquemasnecessá-
mente é a causado outro -- tal é, portanto, a prova de que se rios para a compreensão do drama poético essencial.
exprimem mal no tempo sucessivo,no tempo horizontal. Mas
existeainda assim,de um ao outro, lun devir, um devir que só lv
se pode vivenciar verticalmente, subindo, com a impressão de
que o pesar se alivia, de que a alma se eleva,de que o fantasma E notável que um dos poetasque maisfortemente apreenderam
perdoa. Então, verdadeiramente, a desventura floresce. Um me- os instantes decisivos do ser seja o poeta das correspo/ldénc/as.A
taâsico sensível encontrará assim, na /a/-p/enrafãoríson/za, a beleza correspondência baudelairiana não é, como tantas vezes se afir-
formal da desdita.Ê em Funçãoda causalidadeformal que ele
compreenderá o valor de desmaterialização ein que se reconhe- Idem. A4on(aln mís à lní, p- 88 [ed. bus.: À4crrmiafão dcsinldado,Nova Froil
ce o instante poético. Outra prova de que a causalidade formal Leira, 1981]

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ma, uma simples transposição que daria um código de ando duração que dispersa ecos. Ela busca o instante. SÓ tem neces-
giassensuais.
E um somatóriodo sersensível
num único ins- sidade do instante. Cria o instante. Fora do instante há apenas
tante. Mas assimultaneidades sensíveisque reúnem os perfumes, prosae canção.E no tempo vertical de um instanteimobilizado
as cores e os sons só fazem esboçar siilaultaneidades mais dis que a poesia encontra seu dinamismo especí6co. Há um dina-
dantese mais profundas. Nessasduas unidades da noite e da luz, mismo puro da poesiapura. E aqueleque se desenvolveverti
reencontra-sea dupla eternidade do bem e do mal. O que há calmente no tempo das formas e das pessoas.
de ''vasto'' na noite e na claridade não deve sugerir-nos uma vi-
são espacial.A noite e a luz não são evocadaspor sua extensão,
por seu infinito, mas por sua unidade.A noite não é uin espaço.
E uma ameaçade eternidade. lqoite e luz sãoinstantesimóveis
::) instantes escuros ou claros, alegres ou tristes, escuros e claros,
tristes e alegres.Nunca o instante poético 6oi mais completo
..j
que nesseverso em que sepode associarao mesmotempo a
l.L imensidade do dia e da noite. Nunca seâezsentir tão íisicamen-
['P [e a ambivalência dos sentimentos, o maniqueísmo dos prin-
a
cípios.
Meditando nesse can-anho, chega-se repeiatinamente a esta
conclusão: foda /7/0rn/idade é ínsfcz/,zfánea. O imperativo categóri-
co da moralidade não tem o que fazer com a duração. Não re-
tém nen]lluna causa sensível, não espera nenhuma consequência.
Vai direto, verticah-Dente,
ao tempo das6orinase daspessoas.O
poeta é, então, o guia natural do metafísico que quer compreen-
der todasaspotênciasde ligaçõesinstantâneas,o ímpeto do sa
orifício, scm se deixar dividir pela dualidade filosófica grosseira
do sujeito e do objeto, sem se deixar deter pelo dualismo do
egoísmo e do dever. O poeta anima uma dialética mais sutil.
Revela ao mesmo tentpo, no naesmo instante, a solidariedade
da forma e da pessoa.Prova que a forma é uma pessoa e que a
pessoaé uma forma.A poesiatorna-se,assim,um instante da
causaformal, um instante da potência pessoal.Ela se desinte-
ressa,então, daquilo que desfaz e daquilo que dissolve, de uma
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17/08/2018
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