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CARTA PÚBLICA

Brasília, agosto de 2020

Pela permanência do CAPS ad III CANDANGO no SETOR COMERCIAL SUL:


SERVIÇO CERTO PORQUE ESTÁ NO LUGAR CERTO

As ações do Sistema Único de Saúde (SUS) no campo da saúde mental e do consumo


de álcool e outras drogas, especialmente no trabalho dos Centros de Atenção Psicossocial
(CAPS), são qualificadas como “serviço ambulatorial de atenção diária que funcione segundo a
lógica do território”. O Setor Comercial Sul (SCS) em Brasília é caracterizado há muito tempo
como local de maior periculosidade e dominado pela presença de trabalho sexual, tráfico de
drogas, consumo de substâncias psicoativas e moradia para várias pessoas em situação de
rua.
No entanto, em 2014, o CAPS ad III Candango estabeleceu-se no coração do SCS.
Esta decisão estratégica do Governo do Distrito Federal (GDF) foi tomada com o objetivo de
intervir de maneira construtiva e transformadora neste cenário, caracterizada pelo cuidado e
presença definitiva da assistência estatal na região. Atualmente, o CAPS ad III Candango,
realiza em média 1100 atendimentos mensais, com assistência em regime integral (24 horas) e
articulação para promoção dos direitos das pessoas em situação de maior vulnerabilidade.
Como função, o CAPS articula intersetorialmente ações junto à Segurança Pública, à
assistência social e aos demais serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), através da
promoção da saúde e das possibilidades de vida, sendo reconhecido pela população atendida
como uma referência local positiva de serviço público, inclusive para a população em situação
de rua. Em suas ações, intervém diretamente para a diminuição da violência na região, o que
deve ser fortalecido por todos os atores do Setor e apoiado pelas entidades que defendem os
direitos humanos e a cultura de paz, na direção da construção de soluções coletivas possíveis
aos problemas estruturais que afligem aquela região.
Nos últimos dias, circularam informações de que o GDF, pressionado por setores de
comerciantes da região, teria a intenção de retirar o CAPS ad III Candango do SCS, tentando
associá-lo ao aumento da população em situação de rua na região, e até mesmo ao aumento
da criminalidade! Este discurso manipulatório busca, no mínimo, esconder o fato de que o
Distrito Federal é considerado o território mais desigual do país (Mapa das desigualdades
2019, do INESC).
Entendemos que a saída desse serviço do SCS enfraquecerá as ações de saúde e de
políticas públicas ali desenvolvidas e aumentará os problemas sociais e estruturais crônicos
deste setor. Como único serviço do SUS deste tipo disponível no Plano Piloto, significará
também a desassistência às pessoas que atualmente são atendidas por ele.
Ao invés deste movimento de lógica higienista de retirada do CAPS, devem ser
apoiadas iniciativas para seu fortalecimento, com a urgente integração de sinergias para oferta
de apoio intersetorial de políticas públicas integradas para quem mais precisa. Ao invés de
preconceito, discriminação e falta de comunicação, propomos o diálogo e o respeito ao trabalho
realizado. Quando se passa por cima dos interesses coletivos que determinam a permanência
do CAPS onde está, nos perguntamos:

- Quem ganha com isso?

A RAPS do Distrito Federal vem sendo sucateada há alguns anos, sem ampliação de
novos CAPS e criação de leitos de saúde mental em hospital geral, pela ausência de
residências terapêuticas, sem a contratação de novos profissionais nem de formação
continuada e com mudança de gestores por indicação política, sem capacidade técnica. Em
plena situação de pandemia mundial por COVID-19, a proposta de realocação de um CAPS se
torna uma violência ao direito à saúde, como também ao acesso às demais políticas públicas
voltadas para a população e em especial às pessoas em maior situação de vulnerabilidade.

Assim propomos:

As políticas públicas de Estado devem ser realizadas no território, onde as pessoas


estão;

Reforçamos a necessidade de manter os espaços de interlocução coletivos;

Pela retomada da elaboração e monitoramento participativo do Plano Diretor de Saúde


Mental;

Pela homologação do concurso de preceptores do Programa de Residência


Multiprofissional em Saúde Mental do adulto e seu fortalecimento nos serviços substitutivos;

Pela aquisição e/ou construção de sedes definitivas dos CAPS no Distrito Federal;

Pelo fortalecimento estrutural da RAPS;

Pela presença coletiva das ações de políticas públicas de Estado como solução aos
graves e históricos problemas estruturais no Setor Comercial Sul.

Pela permanência do CAPS AD III Candango no Setor Comercial Sul!

Diante de todas razões acima expostas, as pessoas e entidades que assinam esta carta
defendem que o Governo do Distrito Federal mantenha o CAPS ad III Candango no local onde
ele está, pois ele é o SERVIÇO CERTO PORQUE ESTÁ NO LUGAR CERTO.

Movimento Pró- Saúde Mental

Apoiadores
Conselho Regional de Serviço Social do Distrito Federal - CRESS - DF
Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal - CRP 01/DF
Rede de Redução de Danos e Profissionais do Sexo do Distrito Federal e Entorno
TULIPAS DO CERRADO
Movimento Brasileiro de Redução Do Distrito Federal MBRD-DF
Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas do DF RENFA- DF
Coletivo Voz e Rua
Nacional na Rua
Fórum da Rua de Brasília
Núcleo de Estudos em Linguagem e Sociedade - CEAM/UnB
Movimento Nacional da População em Situação de Rua do DF - MNPR
Centro Brasileiro de Estudos de Saúde - CEBES/DF
Fórum sobre Medicalização da Educação e Sociedade - DF
Coletivo Semente Social- Gama/DF
Comissão Permanente de Acompanhamento da RAPS - CSDF
Abrato Associação Brasileira dos Terapeutas Ocupacionais - regional do Distrito
Federal
Movimento Passe Livre do DF e Entorno
Bossa & Poesia
Fórum Nacional Contra a Violência no Trabalho
Rede Brasil Mulher
Federação Nacional dos (as) Sociólogos (as) do Brasil - Delegação Sindical Brasília/DF
Subverta - Coletivo Ecossocialista e Libertário
Movimento Voz e Rua
Coletivo de residentes do programa de saúde da família e da comunidade da ESCS