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ANÁLISE DO DISCURSO

AULA 1

Profª Jovania Maria Perin Santos


CONVERSA INICIAL

Esta aula visa fornecer conceitos básicos que contribuirão para o estudo
a ser realizado nas aulas seguintes. A análise do discurso (AD) é um campo de
estudos da linguística que examina, em especial, o discurso, porém há uma série
de conceitos que estão muito próximos ao objeto central de estudos dessa área.
Falar em discurso implica também falar em língua, texto, enunciação e ideologia,
apenas para citar alguns termos. Por isso, vamos, nesta aula inicial, nos
concentrar em definir e exemplificar os conceitos mais importantes da AD e que
nortearão o decorrer das aulas.
Embora a AD, como linha de estudos, envolva muitos conceitos que, por
vezes, podem parecer amplos, complexos e muito abstratos, na verdade a AD é
uma tarefa que todos nós fazemos frequentemente. Para o bem ou para o mal,
tecnicamente ou intuitivamente estamos sempre analisando as falas de nossos
amigos, conhecidos, colegas, chefes, pais, filhos e, até mesmo, ou
principalmente, desconhecidos.
De acordo com Orlandi (2010, p. 15), “a palavra discurso,
etimologicamente, tem em si a ideia de curso, de percurso, de correr por, de
movimento. O discurso é assim palavra em movimento, prática de linguagem:
com o estudo do discurso observa-se o homem falando”. Podemos destacar uma
noção presente, nessa citação, que é a ideia do movimento associada ao
conceito de discurso. Essa é uma noção importante para considerarmos ao longo
dos estudos sobre a AD.
De um modo geral, em situações do cotidiano, a palavra discurso remete
a fala, mais ou menos longa, de alguém que esteja numa situação de destaque
socialmente. Nesse sentido, os discursos costumam ser eloquentes e
apresentam tentam exibir uma linguagem normalmente formal. E você, qual é a
sua ideia sobre o significado da palavra discurso? O que vem primeiro, a sua
mente, ao ouvir essa palavra?
Nesta aula, vamos estudar o sentido de discurso nos estudos linguísticos.
Vamos ver que toda forma de expressão, seja escrita, seja oral, tem nela
impregnado algum discurso e até mesmo mais do que um. A ideia do senso
comum de que discurso é uma fala formal e eloquente para tentar defender uma
ideia ou convencer alguém também faz parte dos estudos que a AD tem
desenvolvido. Vamos, então, dar início a esta aula fornecendo algumas noções

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preliminares sobre conceitos que nos ajudarão a compreender os estudos da
AD, os quais são muito importantes para o ensino e para a nossa vida prática
também.

TEMA 1 – LÍNGUA E LINGUAGEM

Iniciaremos este tema com reflexões sobre o que é língua e linguagem,


especialmente sob o ponto de vista da AD. Podemos ver esses termos escritos
separadamente, como acabamos de fazer, mas também juntos, como é o caso
de língua/linguagem. Esse último cria uma relação de dependência maior entre
as duas palavras. Isso também ocorre em inglês, pois existe apenas um termo,
language, tanto para a tradução de língua como de linguagem. O que difere,
então, essas duas palavras? Vamos iniciar com o termo língua.

1.1 Conceito de língua

O conceito de língua pode variar muito, dependendo de qual perspectiva


teórica estamos considerando. Podemos ter língua como identidade e
constituição de um povo, cujo período de maior desenvolvimento foi a segunda
metade do século XIX; língua como sistema de regras, conceito com base nos
estudos de Ferdinand Saussure (teórico suíço de grande destaque nos estudos
linguísticos no início do século XX); língua como capacidade inata da espécie
humana, conceito defendido, na década de 1950, por Noam Chomsky (teórico
norte-americano criador do gerativismo); língua como fato social e como
interação, conceito que vem vigorando desde os anos 1960 e tem grande
contribuição da sociolinguística. Isso apenas para falar das concepções mais
conhecidas, mas claro que existem outras.
De acordo com Orlandi (2010, p. 15), “na análise de discurso, procura-se
compreender a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do
trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua história”. Seguindo essa
ideia, a língua tem importância fundamental para toda existência humana, pois
é por meio dela que nos constituímos e que construímos nossa história. Vemos
que, nessa perspectiva, a língua ocupa lugar central na existência humana, por
ser através dela que construímos sentido, ou seja, que podemos atribuir
significado às coisas e às ideias com as quais convivemos. No entanto, essa
ideia não faz uma distinção entre língua e linguagem. Na citação de Orlandi

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(2010), quando lemos língua podemos ler também linguagem. Isso porque,
muitas vezes, autores não só da AD, mas de outras áreas também, escrevem
língua, mas querem fazer referência a toda composição das expressões
linguísticas, ou seja, a língua e a linguagem.
Para seguirmos com uma avaliação mais detalhada, vamos recuperar
conceitos que são atribuídos a Saussure. Para esse autor, há uma distinção
entre língua e fala: a primeira é coletiva e “[...] contratualizada em sociedade”
(Mazière, 2007, p. 13). A segunda é entendida como uma expressão individual.
Essa separação é chamada de dicotomia, porque são dois lados de uma mesma
“moeda”, ou seja, de um mesmo item que não pode ser separado, a não ser pelo
olhar de um cientista.
Nessa mesma linha, temos o conceito de língua como apresentado por
Brandão (2012, p. 108):

[...] a língua é um sistema abstrato, virtual ou potencial, enquanto que


a fala é o ato linguístico material e concreto, é o uso que cada indivíduo
faz da língua. Se a linguagem só existe como atividade, língua e fala
não se excluem, pois se a fala é a realização concreta da língua, aquela
não existe sem esta.

Essa citação salienta a dependência entre os termos língua, fala e


linguagem. No entanto, por questões didáticas ou de estudo científico, podemos
considerar a língua como o conjunto de elementos fonéticos/fonológicos,
morfológicos e sintáticos que, combinados, constituem um sistema usado para
a comunicação. Quanto à fala, trata-se do uso desse sistema em condições
sociais. Por isso, a língua é entendida como coletiva, pois existe um grupo (por
vezes, uma nação) que a fala língua. Ela pertence a todos e é continuamente
transformada pelos seus falantes.
Quando nos referimos à língua como um sistema, estamos mais próximos
do sentido proposto pelo estruturalismo. Observe que, no conceito que
mostramos antes, de Orlandi (2010), a língua é entendida como um fator social,
que é parte constitutiva das pessoas e da sua história. Talvez esse ponto de vista
não exclua o entendimento de base proposto por Saussure, mas é possível
perceber que o enfoque de Orlandi (2010) é outro, ou seja, abarca sua
importância social.
De qualquer modo, podemos perceber que, com um conjunto pequeno de
fonemas que cada língua tem, é possível construir uma grande quantidade de
palavras. Além disso, com ordem sintática relativamente restrita, os falantes de

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uma língua conseguem montar sentenças variadas, com a possibilidade de
expressar uma infinidade de ideias.

1.2 Linguagem

Vamos agora tratar, especialmente, do termo linguagem. Como já


mencionamos, esse termo é usado muitas vezes como sinônimo de língua e
também de forma composta: como língua/linguagem. Isso acontece devido à
grande proximidade, também dependência, entre esses termos. É provável que
diferenciar língua de fala seja mais difícil do que diferenciar língua de linguagem.
O que você acha? Como você explicaria essas palavras?
Uma explicação um tanto generalizadora é dizer que a língua é um
sistema linguístico – fonético, morfológico, sintático –, enquanto que a linguagem
abrange um conjunto variado de expressões, sons, gestos, até movimentos.
Temos, por exemplo, a linguagem corporal, referindo-se às expressões do corpo
e da face. Levantar as sobrancelhas, quando estamos falando, tem razões claras
de transmitir alguma ideia ou mensagem. Outro exemplo são as charges ou
desenhos em quadrinhos; há, inclusive, os que são apenas desenhos, então
linguagem não verbal. Também os desenhos/ícones usados para identificar o
banheiro feminino e o masculino. Essas imagens expressam ideias e comunicam
algo e não se tratam de uma linguagem verbal, ou seja, com elas não se utilizam
palavras.
Tanto as formas verbais quanto as não verbais constituem todo o aparato
comunicativo de expressão humana. Se estivermos falando do sistema usado
pelas abelhas e pelos golfinhos para se comunicar, vamos nos referir à
linguagem das abelhas, por exemplo. Isso porque elas não apresentam um
sistema fonético e um sistema de regras verbais. Já a língua brasileira de sinais
(libras), vamos chamar de língua porque, embora ela aconteça por meio de
expressões e gestos, se trata de uma língua porque perpassa um sistema
cognitivo e linguístico, com regras sintáticas e morfológicas como as existentes
em outras línguas naturais. A questão é que, para a libras, são usados os gestos
ao invés das palavras, para manifestar essa língua.

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TEMA 2 – LÍNGUA: LINGUAGEM E DISCURSO

Quando estudamos a perspectiva do discurso, precisamos considerar não


apenas a língua entendida como o conjunto dos sistemas fonético, morfológico
e sintático. Vamos precisar levar em conta fatores diversos que constituem a
comunicação humana, como a linguagem e o discurso. Você percebeu que
agora temos outra palavra para conceituar, que é discurso? Vamos, então, a
mais uma conceituação.

2.1 O discurso

Vimos que um estudo de grande destaque foi realizado por Saussure, que
apresentou a oposição língua/fala. Brandão (2012, p. 11), referindo-se aos
estudos da AD, explica que os pesquisadores dessa área “[...] passaram a
buscar uma compreensão do fenômeno da linguagem não mais centrado apenas
na língua, sistema ideologicamente neutro, mas num nível situado fora desse
polo da dicotomia saussuriana. E essa instância da linguagem é a do discurso”.
Nessa perspectiva, o discurso é entendido como “[...] o ponto de
articulação dos processos ideológicos e dos fenômenos linguísticos” (Brandão,
2012, p. 11). Desse modo, o discurso está permeado da língua (como sistema
ou fenômeno linguístico) e da linguagem como expressão comunicativa em
sociedade ou de interação entre as pessoas.
Para Brandão (2012, p. 11), “A linguagem enquanto discurso não constitui
um universo de signos que serve apenas como instrumento de comunicação ou
suporte de pensamento; a linguagem enquanto discurso é interação, e um modo
de produção social; ela não é neutra, inocente”.
Podemos imaginar que a língua que falamos – aqui vista como o idioma
com que também escrevemos – pode ser entendida como um construto que tem
várias nuances ou esferas que se combinam. Apenas para contribuir para a
compreensão, podemos relacioná-la a uma comida que estamos preparando e,
para isso, acrescentamos vários ingredientes que, separados, têm suas
propriedades particulares, mas que, juntos, compõem outro elemento.
Entender a composição de um objeto ou construto teórico é função dos
pesquisadores de qualquer área. Nos estudos linguísticos, quando estudiosos
passaram a perceber e a descrever o discurso como uma parte da linguagem,
passou-se a ver esse objeto de estudos de outra forma. Com isso, foi-se

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observar com cientificidade as intenções ideológicas que estão vinculadas aos
mais diversos tipos de textos que produzimos.
A AD entende o discurso como um processo histórico-social,

[...] elemento de mediação necessária entre o homem e sua realidade


e como forma de engajá-lo na própria realidade, a linguagem é lugar
de conflito, de confronto ideológico, não podendo ser estudada fora da
sociedade, uma vez que os processos que a constituem são histórico-
sociais. (Brandão, 2012, p. 11)

Essa citação faz referência ao enfoque a ser assumido pela AD, no que
se refere aos estudos do discurso. Diante disso, é necessário levar em conta
que, quando se fala de discurso, não se está relacionando este a falas formais
proferidas em situações especiais. O discurso, para a AD, pode ser o discurso
religioso, político, publicitário, mas também aquelas vozes que ecoam no nosso
pensamento e que têm referência com as relações paternais, maternais,
profissionais, estudantis, regionais (como as vozes das pessoas de algum lugar,
cidade, estado, nação). Vendo assim, estamos todos envolvidos na trama dos
discursos.

TEMA 3 – TEXTO E DISCURSO

Os estudos relacionados ao discurso estão ligados aos textos verbais e


aos não verbais, como fotos, logomarcas, desenhos, caricaturas, símbolos etc.
Isso porque os textos não verbais se constituem com base em conceitos e
também em discursos que podem ser vistos não apenas na fala e na escrita,
mas na linguagem não verbal. Veja que, se chegarmos a um lugar que tiver na
parede um crucifixo, símbolo do cristianismo, vamos acessar informações
diversas que estão relacionadas com o nosso conhecimento de mundo e
também a um conjunto de dados frequentemente associados àquele símbolo.
Observe que estamos falando de um conjunto de informações que nos remetem
a impressões, conceitos, ideias e representações.
A palavra texto é frequentemente associada ao texto verbal e escrito. Mas,
um entendimento mais amplo e atualizado entende texto como qualquer unidade
de sentido que tem um ou mais propósitos, além de autoria e de ser destinado a
um ou mais interlocutores. Assim, uma charge é um texto, uma imagem ou um
desenho também podem ser textos. Conforme explica Orlandi (2010, p. 68), “Ser
escrito ou oral também não muda a definição de texto. [...] Mas ambos são
textos”.

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Para Brandão (2012, p. 110), texto é definido como sendo uma “[...]
unidade complexa de sentido cuja análise implica as condições de sua produção
(contexto histórico-social, situação, interlocutores)”. As condições de produção a
que se refere a autora estão ligadas às condições em que os textos são
produzidos. Todo texto (verbal ou não verbal) é produzido em um contexto
histórico-social, em determinada época e, por isso, apresenta as características
do período em que foi elaborado. Mesmo que um texto seja lido numa época
muito à frente do período em que foi produzido, ele carrega traços e informações
da sua época. É possível que existam textos considerados como atemporais.
Esse é o caso de alguns poemas que foram escritos em tempos passados, mas
que, lidos no momento presente, parecem neste se encaixar perfeitamente.
Temos aqui uma condição bastante especial, que é própria de textos literários.
No entanto, os textos de modo geral carregam dados que exprimem o momento
de sua elaboração.
Outra condição importante citada por Brandão (2012) são os
interlocutores, ou seja, os sujeitos que participam da construção de um texto,
que são o locutor e o interlocutor ou quem produz e quem lê. Os textos
efetivamente existem quando são lidos, ouvidos, vistos, analisados, sentidos ou
interpretados por alguém. Segundo Orlandi (citada por Brandão, 2012, p. 110),
“o texto como objeto teórico não é uma unidade completa; sua natureza é
intervalar, pois o sentido do texto se constrói no espaço discursivo dos
interlocutores”. No entanto, a autora argumenta que, quando se está
considerando texto como um objeto empírico de análise, ou seja, uma análise
mais informal baseada na observação e no conhecimento acumulado pelo senso
comum, o texto é visto como uma unidade com começo, meio e fim (Orlandi,
citada por Brandão, 2012, p. 110).
Precisamos considerar também que o locutor ou quem produz um texto
pode não estar sozinho, nessa condição. Isso porque, quando fazemos um texto,
usamos nosso conhecimento prévio, que é influenciado por falas e citações de
outras pessoas. Vamos estudar isso quando refletirmos sobre polifonia, que são
as vozes presentes em nossos textos.
Até agora, nos concentramos em falar sobre texto e valorizamos a sua
materialidade textual e sua condição de produção. Juntamente com essas
características, todo texto carrega um (ou mais) discurso(s). Como são
produzidos e lidos por pessoas que socialmente têm papéis e são influenciados

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por diferentes realidades, os textos apresentam grande carga discursiva. Os
textos não são meros construtos que visam transmitir uma informação de uma
pessoa para outra. Ao invés disso, estão cheios de intenções nem sempre
explícitas. Conforme explica Orlandi (2010, p. 72):

O texto é uma unidade de análise afetada pelas condições de produção


e é também o lugar da relação com a representação da linguagem:
som, letra, espaço, dimensão direcionada, tamanho. Mas é também, e
sobretudo, espaço significante: lugar de jogo de sentidos, de trabalho
da linguagem, de funcionamento da discursividade.

A autora fala também que os textos são objetos simbólicos e por isso são
objetos de interpretação (Orlandi, 2010, p. 72). Os textos permitem, em geral,
uma interpretação próxima entre as pessoas, mas é possível que haja diferenças
de interpretação, dependendo do modo como cada leitor ou interlocutor entende
o texto.
Em correlação com texto e discurso, temos outros dois termos que são:
textualidade e discursividade. Esses dois últimos se referem ao processo de
produção e de constituição dos dois primeiros. Textualidade e discursividade são
os elementos que permitem a elaboração dos vários textos com que temos
contato.

TEMA 4 – O SUJEITO E O ENUNCIADOR

Seguimos, agora, com mais alguns conceitos muito importantes para a


AD. O sujeito faz referência a uma entidade que tem papel de se expressar, por
meio de um texto. O sujeito traz consigo as condições sociais que há séculos as
sociedades vêm construindo. Quando falamos de um diretor, de um menino, de
um bêbado, de um doutor, de um escravo, temos em mente uma gama
significativa de imagens mentais e representações que tais palavras expressam.
Como explica Brandão (2012, p. 110), “o sujeito da linguagem não é o sujeito em
si, mas tal como existe socialmente, interpelado pela ideologia”.
O sujeito é entendido pela sua composição social, ou seja, pelo que as
comunidades onde os textos circulam entendem pelos sujeitos representados. A
ideia de sujeito está relacionada ao entendimento do que estudamos sobre
discurso. Como contraponto, temos o autor, que é quem assina o texto e que
geralmente é quem o produz. O autor está relacionado ao entendimento do que
estudamos sobre texto. Vamos refletir um pouco mais sobre esses conceitos.

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4.1 Autor e sujeito

É importante que quem esteja se iniciando nos estudos da AD considere


que a língua/linguagem seja construída por uma diversidade considerável de
elementos e que os estudos científicos tenham por objetivo pesquisar seu objeto
teórico. Uma das formas de fazer análises é justamente tentando entender como
nosso objeto de estudo é constituído.
Como já falamos, o sujeito está para o discurso assim como o autor está
para o texto. Existe uma relação de proximidade entre esses termos. De acordo
com Orlandi (2010, p. 75), “um texto pode até não ter um autor específico, mas,
pela função-autor, sempre se imputa uma autoria a ele”. Mesmo que um texto
tenha autor desconhecido, alguém o escreveu. Podemos ter também um texto
escrito por muitas mãos; de qualquer forma, texto e autoria são elementos
indissociáveis. Ainda segundo Orlandi (2010, p. 75), “É do autor que se exige:
coerência, respeito às normas estabelecidas, explicitação, clareza,
conhecimento das regras textuais, originalidade, relevância e, entre outras
coisas, unidade, não contradição, progresso e duração de seu discurso, ou
melhor, de seu texto”.
Tanto sujeito quanto autor têm várias características em comum e por isso
é tão difícil compreender como podem ser distinguidos. Vamos explorar mais
esses termos no decorrer das nossas aulas. Temos que considerar, também,
que há certa variação do entendimento do que eles significam, dependendo do
pesquisador que os descreve. A princípio, podemos considerar o autor mais
como o produtor do texto e o sujeito como a representação discursiva que esse
mesmo autor projeta no texto. Nesse caso, estamos considerando os efeitos
causados por ambos no interlocutor, que é quem lê e interpreta um texto.
Temos falado de locutor e interlocutor: esses dois termos são bastante
frequentes em toda a literatura da AD. Essa área de estudos não vê a
comunicação como a relação entre o produtor e o receptor. A análise proposta é
mais ampla. O locutor pode ser entendido como sendo “o sujeito falante” que
“representa o ‘eu’ do discurso”. Além disso, é visto como “[...] o ser apresentado
como responsável pelo dizer, mas não é um ser no mundo, pois se trata de uma
ficção discursiva” (Brandão, 2012, p. 109).
Sobre o interlocutor, seguindo a mesma perspectiva que descrevemos,
locutor é quem lê, ouve ou assiste a determinado texto, sendo esse o sujeito-

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leitor. E ele não é visto especificamente como um receptor, pois não ocupa uma
condição passiva, mas é o interlocutor que constrói os sentidos do texto, ao ter
contato com eles.
Por interlocução, de acordo com Brandão (2012, p. 108), podemos
entender “[...] o processo de interação entre indivíduos através da linguagem
verbal e não verbal”.
Concluímos esta seção destacando que, nos estudos da AD, vamos
sempre ver a palavra linguagem, mas não significa que esta esteja separada de
língua. Linguagem tem um sentido bastante abrangente, que pode abranger a
língua com seus elementos materiais; mas, especialmente, implica a diversidade
de formas e expressões da comunicação humana e que estão além da sua
constituição fonética, morfológica e sintática. A linguagem está, ainda, mais
próxima da ideia de discurso.

4.2 O enunciador

Fortemente ligados à relação de autoria, temos ainda o enunciador e a


enunciação. Você deve estar percebendo que, a cada seção, estamos
fornecendo novos conceitos e aprofundando a complexidade de compreensão
de cada um deles. Pois bem, sabemos que é um grande desafio, para qualquer
estudioso da linguagem, entender esses termos; de qualquer modo, o exercício
que fazemos para tentar compreendê-los nos dá uma visão mais ampla sobre a
complexidade da linguagem.
A enunciação é um termo bastante usado para se referir à produção de
textos de um modo geral. Podemos dizer que as pessoas, no mundo, falam umas
com as outras; mas, se estivermos considerando essa mesma ideia numa
perspectiva científica da AD, vamos dizer que os sujeitos/indivíduos interagem
socialmente por meio de enunciados ou da enunciação. Para Brandão (2012, p.
106), “enunciação é um conjunto de signos que é produto da interação de
indivíduos socialmente organizados. A enunciação se dá num aqui e agora,
jamais se repetindo. Ela se marca pela singularidade”.
A ideia da não repetição de uma fala é facilmente entendida por todas as
pessoas, mesmo elas não sendo pesquisadores da linguagem. Sabemos que o
que é falado pode até ser negado ou questionado; mas, uma vez proferido, assim
o será para sempre, porque não temos como fazer parar o tempo. Então,

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enunciar trata-se do ato de proferir, dizer, discorrer sobre alguma mensagem,
seja ela curta, seja longa, simples ou complexa.
Para se enunciar, é necessário que tenhamos o enunciador, que Brandão
(2012, p. 106) define como sendo “[...] a figura da enunciação que representa a
pessoa cujo ponto de vista é apresentado. É a perspectiva que o locutor constrói
e de cujo ponto de vista narra, quer identificar-se com ele quer distanciando-se
dele”.
Temos, agora, quatro palavras intimamente próximas: autor, locutor,
sujeito e enunciador. Todas elas se referem a quem fala, escreve, representa ou
se expressa de alguma maneira. É esse ser tão especial que produz textos, que
constrói ideias, ideologias ou que interage de algum modo. Para nós, que somos
esses sujeitos falantes, é um exercício bastante significativo distanciarmo-nos
de nós mesmos e observarmos a nossa condição de falantes. Existem várias
nuances nessa condição e elas podem ser entendidas de modo diferente, de
acordo com o enfoque com que destinamos a observação.
Não temos a intenção de fazer uma distinção estrita entre cada uma das
quatro palavras antes citadas, pois há grande intersecção entre elas; mas,
observe que podemos caracterizá-las com base na mais real, concreta, visível
que é o autor; para a mais abstrata e invisível, que é o enunciador.

TEMA 5 – O DISCURSO E A IDEOLOGIA

Quanto à palavra discurso, já discorremos sobre seu significado, nesta


aula. No entanto, temos agora o objetivo de discorrer sobre ideologia. É uma
difícil tarefa separar esses dois termos, mas essa separação se faz necessária
por questões didáticas. O discurso é uma “porção” subjetiva que contém
fragmentos ou nuances de posicionamentos ideológicos.
Bem, você observou que, quanto mais fomos avançando nos temas desta
aula, mais conceitos subjetivos fomos descrevendo. De fato, temos agora um
dos conceitos mais abstratos que envolvem a linguagem. Além disso, existem
entendimentos diferentes sobre a noção de ideologia. Podemos ter o
entendimento de uma concepção ligada ao marxismo,

[...] que apresenta o fenômeno ideologia de maneira mais restrita e


particular, entendendo-o como o mecanismo que leva ao
escamoteamento da realidade social, apagando as contradições que
lhe são inerentes. Consequentemente, preconiza a existência de um
discurso ideológico que, utilizando-se de várias manobras, serve para

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legitimar o poder de uma classe ou grupo social. (Brandão, 2012, p.
30)

Nessa perspectiva, entende-se ideologia como um pensamento


dominador e seu sentido será predominantemente negativo, pois representará a
intenção de alguns em detrimento da de outros. Como podemos ver na citação,
as ideologias servem para legitimar o poder de alguns, enquanto outros precisam
segui-las ou respeitá-las, seja consciente, seja inconscientemente. Mas, como
acontece essa “dominação”? Por meio de condições de autoridade que,
associadas a crenças das pessoas em geral; e por meio de sistemas políticos
que se constituem, ao longo do tempo, como ideologias. Para que determinada
ideologia seja legitimada, é necessário que esses fatores estejam presentes.
Mas, é possível nos comunicar e viver em sociedade sem que estejamos
compelidos a reproduzir algum tipo de ideologia? Bem, vamos analisar isso com
cuidado, pois não se trata de uma questão fácil de ser respondida.
Vimos que o sentido marxista de ideologia contém uma ideia de
dominação. Isso pode variar entre níveis mais ou menos dominadores. Em
determinadas épocas da vida, as pessoas estão mais sujeitas a ideologias,
enquanto em outras estão menos propensas a assujeitamentos. Também a
depender da condição social, as pessoas podem ser mais autônomas ou não.
Vale também considerar que, a depender do senso crítico e nível de
escolaridade, as pessoas serão menos ou mais influenciadas.
Segundo esse entendimento de ideologia, a linguagem não é jamais
inocente. Há sempre, nela, nuances de controle e de influência. Por isso é que
o trabalho realizado nas aulas de linguagens, em qualquer fase da
aprendizagem, é essencial para que seja despertada a capacidade crítica e de
análise. Talvez essa seja a função mais importante dos professores de
linguagens, para com seus alunos. Isso quer dizer que é necessário fornecer
estratégias e orientações para que os alunos possam ler de forma crítica, pois
todo texto está impregnado de ideologia. E as intenções comunicativas que
fazem parte de um texto, a depender do autor, podem ser manipuladoras e até
destrutivas.
Podemos citar como exemplos os textos publicitários, que estão
fortemente marcados por ideologias do mercado financeiro, basta-nos lembrar
os comerciais de bancos e de bebidas. E não estamos falando apenas dos
slogans ou frases de efeitos, mas das imagens, fotos, efeitos que compõem

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essas propagandas: todas estão carregadas de conceitos. Ao longo de nossas
aulas, iremos retornar aos tipos de discursos e a exemplos de textos que podem
ser usados para identificar induções ideológicas.
Vamos, agora, considerar outro conceito de ideologia, que se trata de uma
“[...] noção mais ampla de ideologia que é definida como uma visão, uma
concepção de mundo de uma determinada comunidade social numa
determinada circunstância histórica” (Brandão, 2012, p. 30). De acordo com esse
entendimento, toda forma comunicativa apresenta algum tipo de ideologia.
Assim, “não há um discurso ideológico, mas todos os discursos o são” (Brandão,
2012, p. 30, grifo do original). Nessa mesma linha de pensamento, “A ideologia
é um fenômeno insuperável da existência social, na medida em que a realidade
social sempre possuiu uma constituição simbólica e comporta uma interpretação,
em imagens e representações, do próprio vínculo social” (Ricœur, 1977, p. 75).
Essa ideia está ligada à capacidade de construir sentidos e, para isso,
necessitamos de abstrações e generalizações que vamos acumulando ao longo
de nossas vidas e mesmo que recebemos do conhecimento acumulado,
historicamente, na sociedade em que vivemos. Desse modo, estamos sujeitos a
algum tipo de influência ideológica. Essa última descrição não necessariamente
faz relação com um sentido negativo ou repressor, conforme é o entendimento
de ideologia para o marxismo, mas está voltada para os processos de construção
de sentidos, que necessariamente passam por conceitos ideológicos comuns a
todas as pessoas.
Conforme esse último sentido, todas as pessoas estão compelidas a
reproduzirem algum tipo de ideologia, por isso estamos condicionados a essa
realidade.

NA PRÁTICA

Para praticarmos o conteúdo desta aula, pedimos que você desenvolva


as seguintes atividades:

1. Preencha o Quadro 1 com um exemplo de texto com as seguintes


características, respectivamente, de texto verbal, de texto não verbal e de
texto verbal e não verbal.

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Quadro 1 – Exemplos, respectivamente, de texto verbal, de texto não verbal e
de texto verbal e não verbal

Texto verbal Texto não verbal Texto verbal e não verbal

2. Pesquise um texto que se caracterize com as formações discursivas


citadas a seguir. Você pode fornecer um texto completo ou apenas uma
parte.
a. Discurso religioso
b. Discurso publicitário
c. Discurso político

FINALIZANDO

Nesta aula, fornecemos alguns conceitos básicos que serão muito úteis
no decorrer do nosso estudo da AD. Vimos que o discurso faz parte da
linguagem, mas é a sua parte não materializada. O discurso projeta-se como um
conceito abstrato e que está intimamente ligado às condições sociais de
realização das formas comunicativas. Pudemos perceber, nesta aula, que a
linguagem humana é bastante complexa e que, para estudá-la, as linhas teóricas
apresentam conceitos específicos, com base no ponto de vista que lhes é
proeminente. Por isso, há a necessidade de identificarmos qual é a perspectiva
que embasa os conceitos que lemos.
Durante esta aula, falamos sobre língua e linguagem, discurso, sujeito,
autor, enunciador, locutor, interlocutor, interlocução e ideologia. Certamente,
ainda teremos outros termos para conceituar durante as aulas, mas iniciamos
com as palavras básicas e comuns para a área. Como a AD estuda os discursos,
lidamos com assuntos bastante abstratos, que não são fáceis de serem
exemplificados e nem compreendidos. No entanto, conforme os conteúdos forem
se configurando, mais será possível entendê-los.
Para finalizar, queremos frisar a importância dos estudos da AD para a
linguística e para o ensino. Dos anos 1990 até agora, esse campo de estudos
cresceu muito e cada vez mais vem se configurando como uma área importante.

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REFERÊNCIAS

BRANDÃO, H. H. N. Introdução à análise do discurso. 3. ed. rev. Campinas:


Editora da Unicamp, 2012.

MAZIÈRE, F. Análise do discurso: história e prática. São Paulo: Parábola


Editorial, 2007.

ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 9. ed.


Campinas: Pontes Editores, 2010.

RICŒUR, P. Interpretação e ideologias. Trad.: H. Japiassu. Rio de Janeiro:


Francisco Alves, 1977.

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