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ANÁLISE DO DISCURSO

AULA 2

Profª Jovania Maria Perin dos Santos


CONVERSA INICIAL

Panorama histórico de estudos em análise do discurso

Nesta aula vamos fornecer um panorama histórico sobre os estudos


relacionados à análise do discurso (AD). Vamos também descrever o que é AD,
quais seus objetivos e quais suas principais influências teóricas. Na sequência
vamos estudar sobre o discurso e o poder, e sobre as condições de produção
dos discursos. Esses temas consistem em pilares importantes POR MEIO dos
quais muitos estudos sobre o discurso têm sido realizados.
A AD é uma área da linguística que estuda cientificamente o discurso e
teve grande crescimento a partir dos anos 1970. Isso não significa dizer que
apenas a partir da segunda década do século XX as pessoas passaram a
analisar, ou mesmo estudar os discursos. Reflexões nesse sentido já eram feitas
por estudiosos da Grécia antiga. Mas apenas muito recentemente é que se
passou a realizar estudos sistemáticos afiliados a uma corrente de estudos
chamada de ANÁLISE DO DISCURSO. Atualmente esse campo vem
fornecendo construto teórico para muitas áreas, desde as que estão voltadas ao
ensino, como a Pedagogia e os Estudos Literários e Linguísticos, como o Direito,
a Psicologia, a Sociologia, a Publicidade e a Propaganda, a Informática e a
Mídia. Seguem alguns exemplos:

1. Uma análise crítica do discurso jurídico: os sentidos implícitos na


linguagem dos livros didáticos de introdução ao direito (Bohm, 2002).
2. Discurso, ideologia e representações do sujeito nas redes sociais
(Amorim, 2016).
3. Discurso médico e o psicológico: uma análise discursiva da decisão
judicial (Santos, 2011).
4. Análise do discurso publicitário: o dito e o por se dizer nas propagandas
de cerveja (Cassol, 2013).
5. O discurso ambiental presente em projetos de educação ambiental de
unidades de conservação: o caso do Instituto Inhotim (Mendes, 2016).
6. O jovem discurso da culinária nos programas de receita: uma análise da
representação da cozinha e do ato de cozinhar (Veado, 2016).

Os trabalhos citados podem ser acessados via internet e são exemplos


do leque de áreas que usam os estudos da AD como fundamentação teórica.

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Por meio dos exemplos citados podemos ver como o discurso permeia todas as
relações comunicativas e estão presentes nas mais variadas formas de enunciar.

TEMA 1 – ESBOÇO HISTÓRICO

Nas primeiras décadas do século XX tiveram grande destaque, no campo


da linguística, os estudos estruturalistas. Nessa perspectiva a língua enquanto
um sistema ideologicamente neutro estava no centro das preocupações. Os
fonemas e as frases eram as unidades linguísticas usadas como referência.
Diferentemente dessa visão os trabalhos em AD passaram a dar centralidade ao
texto e ao discurso.
Em 1952 foi publicada uma obra com o título Discourse analysis, de
autoria de Harris. Embora o título seja ANÁLISE DO DISCURSO, não significa
que seu procedimento analítico fosse buscar o sentido do texto, mas estava
ainda centrado no nível da frase. De qualquer modo, o autor citado tinha a
preocupação em realizar um estudo formal de análise dos elementos superiores
que envolvem o entendimento de uma sentença. Essa análise passou a ser
usada mais tarde também, no âmbito textual. Mesmo sendo considerado uma
continuação dos estudos da linguística formal e por isso uma extensão da
linguística, esse trabalho é considerado o marco inicial da AD. Essa linha de
estudos deu origem à perspectiva americana da AD.
Na década de 1960, outras duas publicações deram grande impulso a AD;
foram as publicações de Jakobson (1963) e Benveniste (1966). Esses autores
são os pioneiros nos estudos sobre a enunciação, que é entendida como “o ato
pelo qual o sujeito falante se apropria do aparelho formal da língua” (BRANDÃO,
2003, p. 3). Para Benveniste (1966, CITADO POR Brandão, 2003, p. 3) “o que
transforma a língua em discurso é o ato da enunciação”.
Para melhor entendermos o que é um ato enunciativo, devemos imaginar
que é um processo que ocorre quando um falante se apropria dos sentidos e
isso faz com que possa expressar algo a alguém, ou seja, se comunicar. Ainda,
podemos dizer que se trata do processo que cada sujeito falante faz quando
transforma a língua (sistema linguístico disponível no aparato cognitivo) em
discurso. Sendo que o discurso está moldado/influenciado pelas ideologias.
Os estudos sobre a enunciação fizeram com que se atingisse um nível
bastante aprofundado sobre a descrição de como acontece a comunicação
humana. A versão defendida por esses autores ganhou notoriedade, sobretudo
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pelo seu cientificismo e, assim, a AD teve novos adeptos e mais espaço no
âmbito universitário. Essa linha de estudos é conhecida como a perspectiva
francesa da AD. Teremos uma aula especificamente para falar sobre essa linha.
Você observou que temos até aqui duas importantes tendências teóricas
na AD que são: a AD de linha americana e a AD de linha francesa. Essa última
foi influenciada pelo momento político vivido na França no final da década de
1960, mais precisamente em 1968. Brandão sugere que:

Lembremo-nos dos acontecimentos políticos ocorridos em maio de


1968, em que as indagações e perplexidade diante dos fatos e dos
discursos então produzidos fazem surgir um sentimento de urgência
teórica e política que vai buscar na Análise do Discurso um modo de
leitura para a interpretação desses eventos. (BRANDÃO, 2003, p. 5)

Durante a década de 1970 a AD passa a se consolidar por meio dos


trabalhos de pesquisa realizados. Essa é considerada a primeira fase da AD, de
acordo com Brandão (2003). Após 1975 a AD passa a se configurar na segunda
fase, a qual se caracteriza pela ampliação dos estudos com conexões com
outras áreas, pelo desenvolvimento das pesquisas sobre enunciação, pelas
reconfigurações do seu objeto teórico e, a partir dos anos 1980, pela influência
dos trabalhos bakhtinianos.
Nas últimas décadas do século XX teremos também o surgimento de uma
vertente da AD, que é a ANÁLISE DO DISCURSO CRÍTICA (ADC), também
chamada de ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO (ACD). Essas duas
possibilidades decorrem principalmente de diferentes formas de tradução do
termo em inglês CRITICAL DISCOURSE ANALYSIS. Esse termo foi elaborado
pelo professor britânico Fairclough e os estudos afiliados a esse autor são
chamados de ADC, mas é usado ACD quando estiverem associados à vertente
do professor holandês Van Dijk. Isso porque essa área de estudos tem sublinhas
que variam de acordo com as áreas de contato, então temos a ADC/ACD e suas
diferentes abordagens, que são:

1. a vertente britânica (proposta por Norman Fairclough e está alinhada à


Linguística Sistêmica Funcional e à Sociologia);
2. a vertente proposta por Van Dijk, que estabelece diálogo entre a
Linguística Textual e a Psicologia Social;
3. a vertente proposta por Ruth Wodak, que estabelece diálogo com a
Sociolinguística e a História (Resende, 2009, p. 12).

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Nos estudos de AD vamos usar os dois termos concomitantemente
ADC/ACD, pois não estamos fazendo uma distinção entre elas, mas assim
incluímos os diversos estudos relacionados a essa vertente da AD.
Eventualmente faremos a opção entre uma ou outra abreviação ou termo para
seguir a opção feita pelo autor(a) do texto o qual estivermos citando.
Os estudos em ADC/ACD têm em comum o foco na análise crítica das
teorias linguísticas e das ciências sociais. De acordo com Van Dijk (2010, p. 213):

A Análise Crítica do Discurso (ACD) é um tipo de investigação analítica


discursiva que estuda principalmente o modo como o abuso de poder,
a dominação e a desigualdade são representados, reproduzidos e
combatidos por textos orais e escritos no contexto social e político.

Destacamos também que para essa vertente da AD “a linguagem é


compreendida como semiose, o que inclui não apenas textos verbais orais e
escritos, mas também textos imagéticos ou visuais e textos multimodais”.
(Fernandes, 2011, p. 92).
Ao longo das aulas exploraremos mais detalhadamente todas as
informações que apresentamos nesta aula.

TEMA 2 – INFLUÊNCIAS TEÓRICAS

A AD é uma área conectada com muitas outras, apresentando assim


grande intersecção com campos diversos do conhecimento. Está ligada até
mesmo com o estruturalismo, teoria que foi questionada pela AD, mas que em
alguma medida lhe trouxe contribuições. Os estudos feitos por Saussure
(estruturalismo) contribuíram para o avanço da Linguística de modo geral,
principalmente pelas técnicas e metodologias dos seus estudos científicos.
Nesta aula, vamos explorar as influências teóricas predominantes desde o início
da AD. Você viu que no Tema 1 procuramos situá-lo quanto ao desenvolvimento
da AD ao longo do tempo. Agora, vamos retomar as principais influências na
constituição da AD não especificando as suas fases ou as suas vertentes, mas
os estudos interdisciplinares que lhe forneceram base teórica.

2.1 A Linguística

De acordo com Orlandi (2010, p. 19):

Nos anos [19]60, a Análise de Discurso se constitui no espaço de


questões criadas pela relação entre três domínios disciplinares que são

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ao mesmo tempo uma ruptura com o século XIX: a Linguística, o
Marxismo e a Psicanálise.

O primeiro dos domínios tem como objeto a própria língua, seus estudos
fazem uma relação direta termo a termo e se constitui por uma relação de não
transparência. Assim a língua é entendida como uma estrutura, e cada palavra
que a compõe tem um significado que vai se somando a outros e por fim se tem
uma sentença. Esse entendimento gera a chamada “análise de conteúdo”, que
também explora textos, mas sua forma de estudo é por meio de perguntas como:
“O que esse texto quer dizer?” (Orlandi, 2010, p. 17). Quando essa pergunta é
feita e, claro, seguindo a perspectiva linguística, o que se espera de resposta é
o sentido próprio que o texto está querendo dizer. Entende-se isso como uma
análise superficial ou imediata. É possível que num primeiro momento, quando
lemos ou ouvimos determinados textos, esse é o primeiro nível de compreensão
que normalmente nós fazemos. No entanto, num âmbito mais aprofundado, se
analisarmos o discurso que contém esse mesmo texto, podemos ter algumas
surpresas quanto ao seu real significado. Veja, por exemplo, os textos
publicitários que falam sobre promoções, queima de estoque, descontos que
aparentemente são muitos vantajosos etc. A análise do conteúdo diz que há
alguma vantagem na compra, mas a análise do discurso revela uma prática
publicitária que quer atrair compradores e não se sabe exatamente se terão
efetivamente boas vantagens.
A AD entende que a linguagem não seja transparente e que há muitas
nuances a serem consideradas. Por isso a AD procura atravessar o texto e ler o
que está além da sua aparente materialidade. A questão a ser levantada é: Como
este texto significa? (Orlando, 2010, p. 17). Observe que a pergunta é iniciada
por “como” e não por “O que”. Temos aqui uma boa diferença da forma de
analisar o texto. Essa forma de análise teve início com os formalistas russos, um
grupo de estudiosos predominantemente de crítica literária no período de 1910
a 1930. O autor de maior destaque é Roman Jakobson.
Embora os estudos em AD estejam direcionados ao discurso e a como os
textos constroem significados, é inegável a contribuição de diversas pesquisas
e construtos desenvolvimentos na linguística como alguns trabalhos de
Ferdinand de Saussure, Noam Chomsky, Roman Jakobson, entre outros. De um
modo geral a contribuição da linguística está relacionada aos estudos da
materialidade linguística, seja em fonologia, morfologia e sintaxe.

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2.2 O marxismo

O marxismo é uma corrente filosófica de análise socioeconômica que tem


influenciado os estudos da linguagem e em especial a AD. Sua influência ocorre
por alguns fatores entre eles o entendimento do que é a linguagem que de
acordo com Zandwais (2014, p. 1) é:

[…] o espaço onde as práticas sociais adquirem valores simbólicos,


sendo a linguagem configurada pela condição de ter-se inaugurado a
partir da necessidade de interação laboral para fins de produção.

Nessa citação a linguagem é entendida como necessária para fins de


produção. Essa é uma das máximas do marxismo. Temos também a ideia de
que a linguagem é “a consciência prática real que permite aos homens simbolizar
as experiências vividas, transformando suas relações com os objetos e
transformando-se ao mesmo tempo” (Zandwais, 2014, p. 2). Nessa última
citação vemos a ideia de transformação associada à linguagem. Essas ideias
vão ser absorvidas pela AD, assim como o conceito de “ideologia”.
Brandão explica que de acordo com Marx e Engels (os criadores do
marxismo) a “produção de ideias, de concepções e da consciência liga-se, a
princípio, diretamente e intimamente à atividade material e ao comércio material
dos homens, como uma linguagem da vida real” (Brandão, 2012, p. 20).
Precisamos considerar que o marxismo tem grande influência da teoria
sociológica e econômica, assim como conceitos relacionados ao pensamento de
dominação de classes sociais. De acordo com Marx e Engels (1965, p. 14) “as
ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a
classe que é a força material dominante é, ao mesmo tempo, sua força
espiritual”.
A contribuição do marxismo está em grande parte centrada na construção
de símbolos que vão influenciar nossa forma de entender a realidade social e na
visão crítica das condições de vida social.

2.3 A psicanálise

A psicanálise contribui para os estudos da AD à medida que autores


recorrem a conceitos que são elaborados por pesquisadores dessa área, em
especial, o de “sujeito inconsciente” largamente explorado por psicanalistas e
por analistas do discurso de linha francesa. Nessa perspectiva o discurso é

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pensado não apenas como uma fala consciente e real, mas influenciada por
aspectos inconscientes que historicamente estão impregnados da forma de
pensar e agir das pessoas.
De acordo com Authier-Revuz “a psicanálise questiona a unidade
significante da concepção homogeneizadora da discursividade” (Authier-Revuz,
1982, citado por Brandão, 2012, p. 65). Essa área de estudos entende o sujeito
como um efeito de linguagem e buscar compreendê-lo não na “‘fala homogênea’,
mas na diversidade da ‘fala heterogênea’ que é consequência de um sujeito
dividido” (BRANDÃO, 2012, p. 66). Para a psicanálise o “sujeito dividido” refere-
se à composição consciente e inconsciente que concomitantemente constitui os
sujeitos. Podemos entender isso observando, segundo Althier-Revuz, que:

[…] sob nossas palavras “outras palavras” se dizem, que atrás da


linearidade conforme “emissão por uma voz” se faz ouvir uma
“polifonia” e que “todo discurso quer se alinhar sobre os vários alcances
de uma ‘partição’, que o discurso é constitutivamente atravessado pelo
‘discurso do Outro”. (Authier-Revuz, 1982, p. 140)

O sujeito nesse sentido é clivado, cindido, ou seja, dividido. Assim o


sujeito não é uma entidade única e homogênea, “mas o resultado de uma
estrutura complexa que não se reduz à dualidade espetacular do sujeito com seu
outro, mas se constitui também pela interação com um terceiro elemento: o
inconsciente freudiano” (Brandão, 2012, p. 67).
Vale ressaltar que, nessa perspectiva teórica, o consciente não é uma
face aparente e que o inconsciente é uma estrutura profunda não revelada, mas
o que se entende é que há um movimento de modo a não haver controle dos
discursos ou ideias inconscientes que podem aparecer sem que se perceba de
formas diversas.
Vamos explorar mais a questão do sujeito na aula destinada à AD de linha
francesa.

TEMA 3 – A INFLUÊNCIA BAKHTINIANA

Bakhtin foi um filósofo e estudioso da linguagem que viveu na Rússia até


meados do século XX. Suas principais publicações foram O Marxismo e a
Filosofia da Linguagem e a Estética da Criação Verbal. Essas publicações
chegaram ao Brasil anos mais tarde de sua versão original em russo. O trabalho
de Bakhtin inicialmente foi destinado à crítica literária, mas sua contribuição não
se restringe a essa área. O autor usa termos como dialogismo e polissemia e

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suas ideias têm influenciado em grande medida os estudos da AD, dos gêneros
discursivos e do ensino de línguas. Podemos ver inclusive documentos
curriculares sendo baseados nas ideias bakhtinianas. No Brasil, o professor
Carlos Alberto Faraco e a professora Beth Brait são grandes estudiosos do
trabalho de Bakhtin apresentado em várias publicações. Gostaríamos de sugerir
como leitura de Linguagem & Diálogo: as ideias linguísticas do círculo de Bakhtin
(Faraco, 2009).
A teoria bakhtiniana entende a língua como dinâmica e como um
“elemento de coesão social” (Knoll; Pires, 2014, p. 1). Segundo essas autoras,
na visão bakhtiniana, a língua “advém de processos dialógicos que incluem as
relações dos sujeitos entre si e com o mundo concretamente vivido” (Knoll; Pires,
2014, p. 1). Essa descrição está relacionada ao conceito de dialogismo que
entende a linguagem como um processo constituído nas relações sociais por
meio de formas discursivas relativamente estáveis. Desse modo, a linguagem
está sempre em movimento e acontece das relações sociais mediadas pelo
diálogo. Conforme explica Bakhtin (2009, p. 99):

[…] na realidade, não são palavras o que pronunciamos ou escutamos,


mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais,
agradáveis ou desagradáveis, etc. a palavra está sempre carregada de
um conteúdo ou de um sentido […] vivencial.

Nessa perspectiva a língua existe na relação dinâmica entre os


participantes da interação. Esse processo está condicionado ao uso de esferas
comunicativas que são chamadas de gêneros discursivos. Quando
falamos/escrevemos usamos formas que são historicamente estabelecidas e
que nos permitem expressar nossas ideias. Cada esfera comunicativa exige que
utilizemos determinado vocabulário e estilo de linguagem para que seja
adequada ao interlocutor e ao espaço-temporal em que o texto vai circular. Não
nos comunicamos do mesmo modo se estivermos no trabalho e na nossa casa
com nossos familiares. A conversa informal comum das situações cotidianas e
domésticas faz parte dos gêneros primários enquanto que as práticas
comunicativas na sociedade letrada fazem parte dos gêneros secundários.
Quando falamos em gêneros discursivos estamos considerando as
diversas formas comunicativas as quais contêm uma dimensão discursiva, que
pode ser: o discurso narrativo, descritivo, argumentativo ou injuntivo. Esse último
refere-se aos discursos relacionados às formas imperativas, de dar ordens,
comandos, mas também de dar conselhos e orientações.
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As pesquisas fundamentadas nos estudos bakhtinianos são em sua
maioria na área de Letras conforme levantamento realizado por Silva e Alves
(2013). As autoras destacam que embora Bakhtin não tenha desenvolvido seus
estudos voltados à área da educação, elas acreditam que “seus contributos de
compreensão do mundo por meio das relações dialógicas que se materializam
pelas linguagens, sejam de grande pertinência aos que se ocupam das
problemáticas e cenários educacionais” (Silva; Alves, 2013, p. 101).
Fiorin, no livro Introdução ao pensamento de Bakhtin (2008), aponta dois
tipos de pesquisadores de Bakhtin os quais ele não recomenda, são eles: os que
apresentam os construtos bakhtinianos como “‘a’ verdade e cabe a nós apenas
comentá-la” (Fiorin, 2008, p. 5); e os que fazem uma simplificação muito grande
das noções bakhtinianas, que chega mesmo a sua vulgarização grosseira
(Fiorin, 2008, p. 6). O primeiro posicionamento traz essa teoria como um texto
sagrado e lhe dá uma configuração religiosa, enquanto que o segundo segue um
modismo. Fiorin sugere que fujamos desses dois posicionamentos.
Por sua vez, há quem questione o uso das teorias bakhtinianas de forma
superficial e apenas por ter se tornado uma teoria prestigiada no campo
educacional, principalmente nos estudos sobre os gêneros discursivos. Por isso,
citar Bakhtin deve implicar um estudo bastante aprofundado sobre sua obra, ao
invés de reproduzir citações já bastante conhecidas.

TEMA 4 – DISCURSO E PODER

Um autor que é grande referência nos estudos sobre o “poder” é Michel


Foucault, e seus trabalhos têm sido usados como construto teórico em textos da
AD de modo geral, mas especialmente da AD de linha francesa. Foucault
produziu suas principais obras nos anos 1960 e 70, e foi professor de filosofia na
França até sua morte, em 1984. Conforme explica Machado (2013) na introdução
do livro Microfísica do poder (Foucault, 2013), a questão central das
investigações de Foucault é a constituição histórica das ciências do homem.
Para Foucault “o interessante da análise é justamente sugerir que os
poderes não estão localizados em nenhum ponto específico da estrutura social.
Funcionam como uma rede de dispositivos ou mecanismos a que nada ou
ninguém escapa, a que não existe exterior possível” (Foucault, 2013, p. 17). Sua
visão sobre o poder é que não se trata de alguma coisa que se pode ter ou não.
Também “não existe um lado os que detêm o poder e do outro os que se
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encontram alijados dele. Rigorosamente o poder não existe; existem práticas ou
relações de poder” (Foucault, 2013, p. 17). Desse modo, o poder é algo que se
dissemina por toda relação social.
O legado de Foucault é bastante expressivo e sugerimos como leitura o
livro Microfísica do poder, obra organizada por Roberto Machado e publicada no
Brasil em 2013.
Vamos agora discorrer sobre o “discurso e o poder”, conforme é entendido
pela análise de discurso crítica (ADC) e a análise crítica do discurso (ACD). Para
essas vertentes da AD, “poder” está relacionado à dominação. O conceito de
poder é central para a ADC/ACD e está relacionado ao poder que provoca as
desigualdades sociais.
As pesquisas nessa área procuram identificar/investigar as marcas que
levam a construção do poder. Essas marcas podem ser “um pronome, uma
manchete jornalística, um tópico, um item lexical, uma metáfora, uma cor ou um
ângulo de câmera, entre uma gama de outras propriedades semióticas do
discurso […]” (Van Dijk, 2010, p. 9). A ADC/ACD não está interessada em
estudar tipos específicos de poder, mas nas consequências que as formas de
dominação e de poder provocam na sociedade. Por isso o discurso é estudado
como prática social ou mesmo “como um tipo de comunicação numa situação
social, cultural, histórica ou política” (Van Dijk, 2010, p. 12).
Como Van Dijk explica no seu livro Discurso e poder (2014), “a análise do
discurso em si não é um método; antes, constitui um domínio de práticas
acadêmicas, uma transdisciplina distribuída por todas as ciências humanas e
sociais” (Van Dijk, 2010, p. 11). O autor defende que não existe “uma” análise do
discurso como um método, mas que “podemos encontrar maneiras de estudar
as estruturas e estratégias da escrita e da fala” (Van Dijk, 2010, p. 11). Ele sugere
as seguintes estratégias: Análise gramatical; Análise pragmática dos atos de fala
e dos atos comunicativos; Análise retórica; Análise estilística; Análise de
estruturas específicas como gêneros; Análise conversacional da fala em
interação; Análise semiótica de sons, imagens e outras propriedades
multimodais do discurso e da interação. Ainda, o autor fala que é possível
combinar e sobrepor essas estratégias. No entanto, acredita que a análise do
discurso deve constituir-se como uma pesquisa crítica, mas para isso precisam
satisfazer um ou vários critérios, como:

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1. Relações de dominação de poder que são estudadas principalmente
da perspectiva do grupo dominante e do seu interesse. 2. As
experiências dos (membros de) grupos dominantes que são também
usadas como evidências para avaliar o discurso dominante. 3. Pode
ser mostrado que as ações discursivas do grupo dominante são
ilegítimas. 4. Podem ser formuladas alternativas viáveis aos discursos
dominantes que são compatíveis com os interesses dos grupos
dominantes. (Van Dijk, 2014, p. 15)

Se seguirmos essas linhas de estudo não teremos uma pesquisa de


cunho neutro, do tipo positivista. Isso porque ela exige um engajamento do
pesquisador que pode em alguns casos aproximar-se de uma postura militante.
As pesquisas críticas inserem-se num posicionamento explícito, por isso são
muito questionadas se realmente são científicas.
De acordo com Van Dijk os critérios para pesquisa em ACD “são
frequentemente mais exigentes do que os para outras formas de estudo de
discurso” (Van Dijk, 2014, p. 17), pois só assim poderiam efetivamente contribuir
para seus objetivos que são, em geral, contribuir para mudanças sociais.
Vamos retomar esse assunto na Aula sobre ADC/ACD.

TEMA 5 – CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DO DISCURSO

O último tema desta aula é reservado a uma reflexão sobre as condições


de produção dos discursos. Vamos observar o contexto que envolve a realização
de diferentes interações discursivas. Sabemos que os discursos acontecem em
espaços sociais e entre sujeitos que têm representações enquanto pessoas que
representam papéis diversos. São vários fatores que vão constituir a condição
de produção e de realização dos discursos.
Para visualizarmos esses espaços, vamos a alguns exemplos: observe
que se tivermos que escrever um e-mail para nosso chefe ou diretor e outro para
uma pessoa da nossa família, vamos precisar adequar nossa escrita a fim de
poder atingir nosso objetivo comunicativo. Um texto para o chefe geralmente
exige escolhas lexicais específicas e precisamos ser mais cautelosos com o que
escrevemos ou falamos. No entanto, se tivermos falando com nossos familiares
a tendência é uma fala ou escrita mais despreocupada e conseguimos nos
expressar de forma mais espontânea. O mecanismo de adequação dos
discursos implica uma capacidade natural, que tanto pessoas mais
escolarizadas como menos escolarizadas utilizam. É claro que essa capacidade
pode variar de uma pessoa a outra. Além disso, temos que considerar diversas
situações relacionadas ao nosso estado de ânimo no momento da comunicação.
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Situações de emoção, de nervosismo, de timidez, de constrangimento, ou
mesmo de alegria, de bem-estar, de autoconfiança, vão favorecer ou
desfavorecer todo o processo enunciativo.
As condições de produção dos discursos podem sofrer as mais variadas
influências. Existem influências históricas, ideológicas, socioculturais e também
pessoais. Assim, podemos entender que a linguagem constitui sentidos numa
perspectiva ideologicamente marcada, com carga histórica e com aspectos
pessoais.
Elementos contextuais irão contribuir para as diferentes formações
discursivas. Vale lembrar que de acordo com a linha teórica que seguirmos,
vamos ter descrições diferentes de quais são esses elementos contextuais. De
acordo com a AD a formação discursiva é que vai determinar o que pode ser
enunciado ou não de acordo com o lugar social em que estivermos inseridos.
Esse lugar social é constituído de “personagens” que irão regular a condição de
assujeitamento ideológico. De acordo com Schermack e Freitas, “as formações
discursivas são os espaços nos quais o discurso e a ideologia se articulam,
enquanto componente de uma formação ideológica […]” (Schermack; Freitas,
2012, p. 48). Nessa formação ideológica podemos ter os componentes como o
locutor e o interlocutor e o espaço em que circula o texto (empresarial, familiar,
estudantil etc.), que seriam mais facilmente perceptíveis, mas teríamos também
componentes que são vozes de outras pessoas que são constantemente
reformuladas e que nos ajudam a nos expressar. Estamos a todo tempo
parafraseando, ou seja, usando as palavras de outras pessoas para compor o
discurso que estamos proferindo no momento. Schermack e Freitas nos
explicam que:

Uma formação discursiva, por definir-se sempre em relação a um


externo, em relação a outras formações discursivas, tem seu espaço
atravessado pelo pré-construído, ou seja, por discursos que vieram de
outro lugar e são incorporados por ela numa relação de confronto ou
aliança de acordo com todo dizer já dito. Nesse contexto, vale destacar
que uma formação discursiva é constituída por um sistema de
paráfrases, por ser um espaço onde enunciados são formulados e
reformulados constantemente […]. (Sckermack; Freitas, 2012, p. 48)

Em todas as falas e também em textos escritos usamos ideias,


expressões ou trechos que já ouvimos antes ou que tivemos contato por meio
da leitura. Em textos escritos, com frequência nós usamos citações que
explicitamente são de outros autores, mas também fora das citações, como as
falas cotidianas, elas estão impregnadas por vozes que são constantemente
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reconstruídas. Em várias circunstâncias nos vemos repetindo falas que ouvimos
dos nossos pais, de nossos professores, de personagens famosos de filmes ou
da televisão. Isso quer dizer que quando enunciamos não estamos criando
absolutamente uma fala nova, diferente de tudo o que já foi dito, ou ainda, que a
nossa fala é exclusivamente nossa ou individual. Podemos perceber que há
conexão entre as formações discursivas em geral e assim temos a memória
discursiva, que consiste na capacidade de retomar os discursos e mesmo
expressões já ouvidas ou lidas anteriormente. Algumas citações são mais
facilmente identificáveis enquanto outras estão permeadas.

NA PRÁTICA

Para praticarmos os conteúdos trabalhados nesta aula escolha uma das


opções a seguir:

1. Selecione três trechos de textos (de qualquer fonte) e identifique as


citações ou ideias que são de outros autores ou mesmo ideias baseadas
em outras falas.
2. Selecione três trechos de textos (de qualquer fonte) que façam referência
a situações de abuso de poder. Use como base teórica a leitura do Tema
4.
3. Selecione três trabalhos científicos (artigos, dissertações ou teses) que
estudem algum tema relacionado à análise do discurso.

FINALIZANDO

Nesta aula tivemos como objetivo fornecer um panorama sobre os


estudos em AD, para isso fornecemos um esboço histórico a fim de situar você
quanto às origens desse campo de pesquisa. Citamos os principais construtos
teóricos ou correntes teóricas que deram base para a constituição da AD. Vimos
que têm sido criadas diferentes vertentes de acordo com as necessidades dos
pesquisadores e de seus interesses. Quando falamos em AD logo visualizamos
duas linhas teóricas que são a AD de linha francesa e a AD americana, além da
ADC/ACD, que é uma vertente que se direciona aos estudos críticos. Depois
desse panorama inicial seguimos, então, na próxima aula, para estudos
concentrados na AD de linha francesa que é a área mais usada em pesquisas
sobre o discurso especialmente no Brasil.

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REFERÊNCIAS

AMORIM, M. F. Discurso, ideologia e representações do sujeito nas redes


sociais. Anais do IV simpósio Internacional sobre Análise do Discurso:
Discursos e desigualdades sociais. Belo Horizonte: NAD/FALE/UFMG, 2016.

AUTHIER-REVUZ, J. Hétérogénéité montrée et Hétérogénéité constitutive:


élements pour une approche de l’autre dans le discours. In: Drlav – Revue de
Linguistique, n. 26, p. 91-151, 1982.

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