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Swing, o adultério consentido

Um estudo antropológico sobre troca de casais


O l i v i a V o n D e r W e i d

Swing, o adultério consentido


Um estudo antropológico sobre troca de casais

Luminária Academia

EDITORA MULTIFOCO
Rio de Janeiro, 2015
EDITORA MULTIFOCO
Simmer & Amorim Edição e Comunicação Ltda.
Av. Mem de Sá, 126, Lapa
Rio de Janeiro - RJ
CEP 20230-152

CAPA E DIAGRAMAÇÃO Wallace Escobar

Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca


de casais
WEID, Olivia Von Der

1ª Edição
Maio de 2015
ISBN: 978-85-8473-421-4

Todos os direitos reservados.


É proibida a reprodução deste livro com fins comerciais sem
prévia autorização do autor e da Editora Multifoco.
“No nosso casamento pode haver o adul-
tério, mas o adultério consentido, que é o
swing.
O swing é o adultério consentido”

depoimento de um pesquisado
Sumário
Agradecimentos..........................................13
Introdução................................................15
O swing como um tema de pesquisa................25
Gênero e juventude no trabalho de campo................................ 27
Entre razão e emoção.............................................................. 31
Primeira ida a uma casa de swing: ........................................... 33
uma descrição densa. ............................................................... 33
A primeira entrevista............................................................... 42
Os casais ............................................................................... 45
Em busca de um perfil? .......................................................... 54

A prática do swing, um panorama...............59


O swing no Brasil................................................................... 64
Swing: “à vera” ou “à brinca”?.................................................. 68
Casa de swing ou clube de swing?............................................ 74
Três é ímpar: a situação dos solteiros...................................... 79
Swing: dentro ou fora da ordem?............................................. 86

O swing e a dimensão prazer......................95


Desejo, fantasia e transgressão................................................ 95
O corno e a puta..................................................................... 101
O quarto coletivo: novo Boudoir?........................................... 107
Intensidade e excitação............................................................ 110
O swing e o mundo liberal....................................................... 116
Gênero, corpos e práticas sexuais...............123
Iniciando-se na prática..................................................123
Por trás dos panos........................................................ 126
Corpos despidos ..........................................................135
O masculino oculto.......................................................140
O feminino revelado......................................................148

Swing, o adultério consentido....................162


“Swing Social Clube”.....................................................172
Swing = adultério consentido?.......................................175

Considerações finais ..................................185


Referências bibliográficas...........................193
Olivia Von Der Weid

Agradecimentos

Tenho um reconhecimento profundo pelas pessoas que com-


põem minha teia de vida, que me guiaram nos anos de minha
formação e nessa arte de fazer pesquisa.
Devo um agradecimento especial à Mirian Goldenberg, minha
orientadora na graduação e no mestrado. Seu entusiasmo, incen-
tivo e a leitura cuidadosa de cada página e muitas outras além das
que aqui estão escritas, foram fundamentais para o desenvolvi-
mento desta pesquisa.
A abertura e o interesse das pessoas que pesquisei, ao falarem
de temas tão íntimos de suas vidas, foi um estímulo essencial,
sem o qual esta pesquisa dificilmente poderia ter sido realizada.
Agradeço a relação de confiança estabelecida, a simpatia e a re-
ceptividade. Sou grata, especialmente, a Ana e André, por terem
aberto portas e por se mostrarem tão dispostos a ajudar em todos
os momentos que precisei.
Outras pessoas tiveram importância fundamental no processo
de elaboração deste livro e na minha trajetória. Agradeço a Már-
cia Villas Boas, Livia Carvalho e toda a equipe da Multifoco, pela
receptividade ao projeto deste livro. Aos professores Peter Fry e
Luiz Fernando Dias Duarte, que compuseram a banca de mestra-
do, pelos comentários valiosos, pela discussão enriquecedora e
pelo incentivo que deram à publicação na ocasião da defesa. Aos
antropólogos e sociólogos do PPGSA e outras instituições, com
quem tive a sorte de cruzar meu caminho, pelo tanto que me en-
sinaram, pela inspiração viva de seus trabalhos: Laura Moutinho,

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Yvone Maggie, Bila Sorj, Jean-François Véran, Octavio Bonet, Fré-


déric Vandenberghe. Aos colegas e amigos do IFCS e do PPGSA,
pelo ambiente estimulante de aprendizado e troca, em particular:
Marisol Goia, Mariana Massena, Marcelo Ramos, Leonardo Cam-
poy, Bianca Arruda e Felipe Agostini. Um agradecimento especial
aos meus amigos e à minha família, pela amorosidade e pelo
apoio a cada passo. Minha gratidão profunda ao meu companhei-
ro de vida, Cadu, luz que me fortalece e me faz prosseguir, a cada
dia.
Agradeço às instituições que tornaram viáveis o desenvolvi-
mento desta pesquisa. Primeiramente à UFRJ, instituição que por
tantos anos foi minha segunda casa, onde tracei minha trajetória
de formação profissional, solo onde também vi nascer laços de
amizade e parceria. Ao CNPq e à FAPERJ, pelo apoio essencial
das bolsas de estudo, sem as quais teria sido muito mais penoso
levar a frente este projeto.

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Olivia Von Der Weid

Introdução

Para alguns, o swing é um mundo machista, de dominação


masculina e mulheres submissas. Nada mais do que o velho e
conhecido comportamento tradicional. Para outros, uma expe-
riência ousada, libertária e inovadora. Uma tentativa moderna de
viver um relacionamento.
O que se observa nestas posições é uma necessidade de clas-
sificar, de opor e de escolher um lado ou outro. No entanto, o que
encontrei ao longo da pesquisa que resultou na dissertação de
mestrado “Adultério Consentido: corpo, gênero e sexualidade na
prática do swing”, foi justamente a ambiguidade.
Quando iniciei a pesquisa, em março de 2003, ainda estava
na graduação e uma das questões que já vinha analisando em
trabalhos de iniciação científica era uma aparente contradição en-
tre um ideal de fidelidade e os anseios por liberdade sexual nos
relacionamentos amorosos. Interessava-me pensar sobre como as
pessoas lidam, por um lado, com a lógica do amor e da mono-
gamia que parece permear os casamentos e as relações afetivo-
-sexuais, com o imperativo do desejo, da experiência sexual e da
liberdade, que, por outro lado, também se encontra fortemente
presente na sociedade atual. Outro ponto de interesse eram as
diferenças de gênero nestas questões. Será que existiriam relações
onde coubesse uma vivência mais “livre” do desejo? Homens e
mulheres vivem esta “liberdade” da mesma forma?
Foram estes questionamentos iniciais, motivados por pesqui-
sa anterior, que me levaram à prática da troca de casais, também

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

conhecida como swing1, como um possível objeto de investigação


antropológica. Apesar de descobrir naquela pesquisa que uma
porcentagem relativamente alta de mulheres é infiel (47% contra
60% dos homens), me intrigava as justificativas de homens e
mulheres para sua infidelidade. O discurso feminino estava muito
mais relacionado a uma falta na relação (de carinho, de atenção,
de sexo), do que à vontade ou desejo. Outro tipo de discurso, que
justifica a infidelidade como fruto da atração sexual, também foi
encontrado, mas em um número menor de respostas (Golden-
berg, 2004, von der Weid, 2004).
Diante dos resultados, comecei a me questionar sobre como
as mulheres lidam com a sexualidade, se existiriam relações onde
o desejo sexual pudesse ser vivido de forma igualitariamente
mais livre. Antes do swing, pensei em estudar relacionamentos
“abertos”, onde a fidelidade sexual não fosse uma exigência. Uma
dificuldade para levar esse estudo adiante foi apresentada por
minha orientadora: o problema de encontrar casais que vivessem
uma relação estável deste tipo. Na mesma época li uma reporta-
gem no jornal sobre casais que praticavam swing. Até aquele mo-
mento nunca tinha ouvido falar na prática e não conhecia casais
swingers.
Fiz, então, uma pesquisa inicial na internet e descobri sites
de diferentes tipos. Muitos eram sites pornográficos, alguns de
boates ou casas de swing e outros de casais que falavam sobre
a prática. Nos textos dos sites era possível perceber uma certa
apologia da relação swinger, supostamente mais liberal e mais
honesta que um relacionamento comum, já que os casais não
precisavam esconder suas fantasias de se relacionar sexualmente
com outras pessoas.
1 Vale enfatizar que os termos swing, relação swinger, casais swingers são empregados aqui como
categorias nativas, utilizadas pelos pesquisados como autoclassificação e como classificação da
prática que realizam em casas de swing, sendo esta também uma categoria nativa.

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Olivia Von Der Weid

Este livro é resultado da pesquisa que realizei durante o mes-


trado, que defendi no ano de 2008 no Programa de Pós-Gradua-
ção em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da UFRJ. Partindo da
experiência de casais adeptos da prática do swing, procuro re-
fletir sobre as relações afetivo-sexuais entre homens e mulheres,
principalmente no que diz respeito ao casamento, sexualidade e
identidade de gênero.
Tento entender as motivações femininas e masculinas para a
prática da troca de casais e quais as regras criadas para delimitar
o que é permitido e o que é proibido em seus relacionamentos.
O swing inventa um novo modelo de casamento? Ou reforça os
modelos já existentes?
Busco também compreender as concepções dos praticantes
de swing sobre infidelidade. Outro foco de atenção são as práticas
sexuais masculinas e femininas no swing e o que elas revelam
sobre as concepções de gênero presentes em nossa sociedade. Por
meio de uma análise de discurso de casais adeptos da prática,
procuro entender quais as representações de gênero que estão
sendo construídas ou reproduzidas no meio. Qual o papel do cor-
po nas relações entre os casais? Que atributos ou características
contribuem para tornar um homem ou uma mulher desejáveis no
meio swinger?
Um estudo sobre a prática da troca de casais permite refletir
sobre as mudanças e permanências nas representações de gênero
e nos ideais de conjugalidade, presentes na cultura contemporâ-
nea. Busco entender as formas “alternativas” de conjugalidade
que podem ser verificadas em nossa sociedade, procurando pen-
sar de que maneira a prática do swing contribui para uma discus-
são mais ampla sobre infidelidade, casamento e sexualidade nos
relacionamentos afetivo-sexuais.

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

O discurso de casais adeptos do swing sobre suas relações


e sua prática traz à tona questões importantes sobre liberdade
sexual, dominação masculina, feminilidade, masculinidade, rela-
ções sexuais entre pessoas do mesmo sexo, entre outros temas.
A prática e o comportamento destes casais são bons pontos de
partida para se refletir sobre os modelos e as contradições que en-
volvem a construção de uma identidade de gênero na sociedade
contemporânea.
Os materiais coletados para essa pesquisa abarcam um pe-
ríodo de cinco anos, entre 2003 e 2007. Podem ser classificados
em três fontes principais: observação participante, entrevistas e
material de mídia (impressa e internet).
Realizei treze entrevistas em profundidade com onze casais
adeptos da prática do swing entre os anos de 2003 e 2007 na ci-
dade do Rio de Janeiro, além das incontáveis conversas informais
que tive com os casais pesquisados. A maior parte das entrevistas
foram feitas com os dois membros do casal juntos, porque era
assim que se sentiam mais à vontade para falarem sobre o tema
e eu não me opus. Alguns casais, com quem desenvolvi maior
proximidade, pude entrevistar separadamente. Outra fonte impor-
tante de dados para a análise foram as anotações resultantes de
observação participante que fiz ao longo de 19 encontros realiza-
dos por casais praticantes de swing em duas casas especializadas,
uma na zona sul do Rio de Janeiro e em outra no Centro.
Os encontros consistiam em uma conversa coletiva, antes da
realização da festa, sobre temas relacionados ao swing. Tinham o
propósito de descontrair o clima e discutir alguns temas polêmi-
cos. Além de uma troca de experiências pessoais, os praticantes
mais antigos buscavam iniciar os novatos no meio. Aconteciam
semanalmente, promovidos por um dos casais entrevistados, que

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Olivia Von Der Weid

foram os meus principais informantes. Eram denominados por


eles de “Swing Social Clube” e no início foram orientados a partir
de alguns temas: “Etiqueta Swing”, “Jogos de Adultos”, “Amor e
Sexo”, “O swing e a rejeição”, “O bissexualismo no swing”, “O
swing e o segredo”, entre outros.
Inicialmente, os encontros e as festas eram promovidos na
casa da zona sul. Era um estabelecimento de dois andares. No
primeiro, ficava a recepção e um salão com mesas, onde as pes-
soas podiam se sentar e conversar. No segundo, havia um bar,
uma pista de dança e dois quartos, um deles com treliças, onde
se realizavam as trocas sexuais. Ao longo da pesquisa, a casa foi
fechada e os encontros foram transferidos para a casa de swing
no Centro. Esta última era mais espaçosa, com um ambiente de
boate (bar e pista de dança) mais amplo e um número maior de
quartos (quatro, sem portas). A festa no segundo estabelecimen-
to era a mesma do primeiro, portanto o público que frequentava
transferiu-se de um local para o outro, chegando até lá pelo casal
que promovia a festa.
Posso dizer que a metodologia etnográfica clássica da obser-
vação participante foi o principal método de pesquisa que utilizei
para os encontros, se considerarmos que toda observação impli-
ca, em si mesma, uma participação. Mas meu esforço etnográfico
se constituiu, principalmente, na observação e participação dos
momentos falados dos encontros, não tanto das ocasiões em que
as práticas sexuais aconteciam, diferentemente do que realiza-
ram pesquisadores como Perlongher (2008), Oliveira (2006) ou
Díaz- Benitez (2007). Díaz-Benitez cunha o termo “observação
acompanhante” para descrever o método de pesquisa que utili-
zou para compreender os rituais de interação no dark room de
uma discoteca no Rio de Janeiro. Embora a autora explicite que

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

também não tomou parte das trocas sexuais que se realizam nes-
ses espaços, as ações e as práticas que aconteciam ao seu redor
foram o foco de sua análise, ao contrário do que faço aqui, onde
o enfoque está no referencial falado dos encontros, embora as-
pectos como a roupa ou o comportamento também apareçam em
alguns momentos da análise. 
Também foram fontes de dados para a pesquisa material de
mídia impressa e virtual (Internet). Foi feito o acompanhamento
regular de um blog (Fantasias de Casados), mantido por quatro
anos por um dos casais. Os textos são escritos pelo próprio casal
e tratam, em geral, de temas relacionados à prática do swing.
Também são analisados outros textos e publicações de páginas
pessoais de casais adeptos da prática e de casas de swing.
O livro está organizado em cinco capítulos. No primeiro, “O
swing como um tema de pesquisa”, faço uma reflexão sobre a
minha entrada como antropóloga neste campo e as dificuldades
e desafios enfrentados ao longo da pesquisa. Ao pensar sobre o
caminho trilhado e as soluções encontradas pretendo tornar evi-
dente a subjetividade do pesquisador e os limites entre tema de
pesquisa, pesquisadora e informantes em um trabalho de campo.
A polêmica em torno da minha decisão de escolher a prática
do swing como um tema de pesquisa antropológica, as reações ao
meu redor, se transformam em fontes de reflexão sobre a forma
como gênero e sexualidade são compreendidos em nossa cultura.
Procuro, ainda, fazer uma descrição detalhada dos primeiros pas-
sos de pesquisa - a primeira visita a uma casa de swing, a primei-
ra entrevista – e uma breve apresentação dos casais entrevistados.
No capítulo “A prática do swing: um panorama”, parto de al-
guns dados mais gerais que me ajudam a contextualizar a prática
do swing no mundo ocidental e no Brasil. Com as definições en-

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Olivia Von Der Weid

contradas entre os próprios entrevistados, em matérias da mídia


e em artigos sobre o tema, procuro delimitar a prática e o grupo
pesquisado, em contraste com outras formas “alternativas” de ex-
perimentar a sexualidade e as relações afetivo-sexuais. Apresento
algumas características encontradas no ambiente swinger, como
a particular maneira de conceber e organizar o espaço de uma
casa de swing.
Ainda neste capítulo, considero a inserção de um terceiro ele-
mento em uma prática de casais - a figura do(a) solteiro(a) – que
evidencia as regras vigentes no meio e os mecanismos utilizados
pelos casais para controlar os possíveis problemas decorrentes da
inserção deste novo elemento. Finalmente, procuro refletir sobre
uma relação swinger em oposição ao que seria considerado um
modelo tradicional de casamento. O discurso dos entrevistados e
reportagens veiculadas na mídia a respeito do tema evidenciam
um jogo de acusações e anonimato que permite refletir sobre
quais práticas podem ser reveladas e quais devem permanecer
ocultas em nossa sociedade.
No terceiro capítulo me volto para uma compreensão da di-
mensão do prazer que os casais praticantes de swing dizem obter
com a sua prática. Qual o sentido que os casais entrevistados dão
para a sua experiência? Até onde vai a busca pela satisfação de
fantasias sexuais? Há um limite para a intensificação do prazer?
Procuro analisar quais dimensões da experiência estariam envol-
vidas no discurso dos adeptos do swing sobre o prazer que obtém
em sua prática, abordando temas como fantasia, desejo, trans-
gressão, intensidade e controle. Analiso a forma como dois per-
sonagens míticos no imaginário brasileiro, o “corno” e a “puta”,
aparecem no universo swinger, desenvolvendo uma discussão
sobre papéis de gênero e práticas sexuais. Apresento, finalmen-

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

te, um suposto “mundo liberal” que, além da prática do swing,


abrangeria outras práticas sexuais consideradas desviantes ou
transgressoras se comparadas a comportamentos ou práticas mais
tradicionais.
O capítulo “Gênero, corpos e práticas sexuais” tem como foco
a construção do feminino e do masculino a partir do discurso
de casais adeptos do swing. Que tipos de comportamento de-
marcam o que é ser homem e ser mulher neste universo? De
que forma essas identidades se relacionam com o desempenho
de determinados papéis sexuais? Procuro comparar a construção
de uma identidade sexual masculina com a feminina, tentando
compreender as semelhanças e diferenças nestas identidades no
universo swinger.
Neste capítulo discuto a forma como as pessoas se vestem
para ir a uma casa de swing e o significado da roupa neste meio.
Outro ponto se refere à valorização de determinado ideal de apa-
rência e beleza e as diferenças nos usos, preocupações e formas
de um corpo feminino e de um corpo masculino. Busco discutir
também sobre as práticas sexuais “incentivadas” e “proibidas” e
o que isso pode dizer sobre a construção da masculinidade e da
feminilidade naquele ambiente.
No último capítulo, que dá nome ao livro, “Swing, o adultério
consentido”, procuro compreender um casal swinger e a forma
como se articulam amor e sexo neste relacionamento. Reflito so-
bre como a distinção entre sexo e amor se mostra central para a
preservação de seus relacionamentos e como, em seus discursos,
aparece uma lógica da intimidade e da cumplicidade em contras-
te, ao mesmo tempo que articulada, a uma lógica da satisfação
dos desejos sexuais. Faço também uma reflexão sobre as relações
de amizade entre os casais entrevistados e a importância que este

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Olivia Von Der Weid

vínculo adquire no universo pesquisado. Finalmente, procuro


entender qual a concepção nativa sobre infidelidade e de que
maneira o swing também pode ser pensado como uma tentativa
de “prevenção” ou controle deste problema nos relacionamentos
afetivo-sexuais.

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Olivia Von Der Weid

O swing como um tema de pesquisa

“Estou consciente de que se trata de uma interpretação e que por mais


que tenha procurado reunir dados “verdadeiros” e “objetivos” sobre a vida
daquele universo, a minha subjetividade está presente em todo o trabalho”
Gilberto Velho

Quando escolhi o swing como um tema de pesquisa certa-


mente tinha alguma ideia da polêmica em torno do assunto. Inva-
riavelmente as pessoas reagem de maneira inflamada ao tópico.
Como lembra Goldenberg (2004), a compreensão do outro que
buscamos em antropologia ajuda não só na compreensão de nós
mesmos, mas revela também aspectos obscuros, ocultos, silen-
ciados de nossas próprias vidas e da cultura em que estamos
inseridos.
Lembro-me de uma discussão em um encontro de família.
Em uma tentativa de mapear algum casal que praticasse swing
para uma primeira entrevista, perguntei para uma tia, que é do
meio artístico (supostamente mais aberto), se por acaso conhe-
cia alguém. O assunto foi parar em um jantar coletivo de família
e gerou um misto de curiosidade e crítica. Todos associavam o
swing com “suruba”, “bacanal”, “putaria”. Era unânime a pre-
missa de que uma casa de swing é uma espécie de bordel e de
que a mulher só aceita este tipo de prática para satisfazer o ho-
mem. Alguém disse que os casais que praticam não são normais
e este tipo de comportamento poderia ser considerado patológico.
Um diálogo com a minha avó materna me deu o primeiro in-

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

dicativo de algo que estava começando a enfrentar, a estigmatiza-


ção do pesquisador no estudo de temas estigmatizados (Golden-
berg, 2004). Ela não conseguia entender o motivo de eu querer
estudar um tema desses, para ela era “tudo putaria”. Perguntou
se tinha sido minha orientadora quem o sugeriu e eu respondi
que não. Sua conclusão foi a de que, então, era eu a “pervertida”
e “safada”. Muitas pessoas fazem essa associação e suas reações
ao tema da pesquisa faziam com que me sentisse algumas vezes
como se estivesse “difamando” o meu nome ao optar por estudar
este assunto. Não entendiam porque eu, aluna, filha, neta “tão in-
teligente”, fui escolher a troca de casais como objeto de pesquisa.
Goldenberg (2004), em seu estudo sobre mulheres amantes
de homens casados, revela como a ambiguidade da situação vi-
vida pelas “Outras” pesquisadas contamina a própria identidade
do pesquisador. As dúvidas que aparecem em torno da figura da
Outra são transferidas para quem pesquisa o assunto: “por que o
interesse pelo tema?”, “será que ela é ou foi a Outra?”. De manei-
ra semelhante, fui questionada algumas vezes: “por que estudar
swing?”, “você já fez ou tem vontade de fazer swing?”.
Existe também a associação do swing ao sexo por prazer, a
uma maior liberdade sexual, a casais modernos e com a “cabeça
aberta”. Este outro imaginário que permeia o swing aparecia ex-
plicitamente na curiosidade de algumas pessoas, principalmente
as mais jovens. Algumas amigas se mostravam curiosas e diziam
ter vontade de conhecer uma casa de swing, outras me conside-
raram corajosa. Foi interessante observar as reações dos meus
conhecidos homens na época em que fazia a pesquisa. Falar do
estudo despertava o interesse não só pelo tema, mas uma certa
curiosidade por mim também. Alguns se ofereciam para ir co-
migo a uma casa de swing, caso precisasse de companhia mas-

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Olivia Von Der Weid

culina. Mesmo falando que nunca tinha feito swing e que não
pretendia fazer, que estava apenas fazendo uma pesquisa, sentia
que associavam a mim a imagem de mulher liberal, contestadora
ou sexualmente livre pelo simples fato de pesquisar o assunto.

Gênero e juventude no trabalho de campo


Dentro do ambiente swinger também experimentei reações
diversas. Lembro-me especialmente de uma noite quando fui a
um dos encontros e deixei o lugar exausta e confusa. Desde o iní-
cio tentei manter uma postura que imaginava adequada ao meu
papel de pesquisadora. Apenas queria deixar claro que estava ali
pesquisando, observando, fazendo entrevistas. Mas até chegar
neste lugar que, posteriormente, consegui conquistar, foi como
se estivesse o tempo todo provando que a minha pesquisa não
era apenas uma desculpa para entrar no meio e experimentar o
swing.
Meinerz (2007) reflete sobre as condições de possibilidade de
uma pesquisa, considerando o quanto a sua posição de mulher
antropóloga, realizando um estudo sobre homossexualidade fe-
minina, possibilitou determinado tipo de interação com as mu-
lheres pesquisadas. A autora acredita que uma das condições de
acesso ao seu campo foi ter sido vista por suas pesquisadas como
uma possível parceira, o que ela chamou de “parceria potencial”.
No mesmo caminho, penso que a minha condição de jovem mu-
lher frequentando sozinha um ambiente swinger, perguntando
sobre temas relacionados à sexualidade e casamento, eram atitu-
des que também despertaram, especialmente no início, o interes-
se e a curiosidade dos casais, sendo interpretadas algumas vezes
por eles como um sinal suspeito de segundas intenções. Além de

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

pesquisadora interessada em fazer um estudo sobre a prática do


swing, no campo também fui considerada uma possível parceira
sexual, o que também possibilita determinado tipo de abertura e
acesso aos informantes.
No início sentia como se estivesse acontecendo um jogo, onde
o objetivo dos meus pesquisados era o de me iniciar na prática.
Nas brincadeiras, nos gestos, nos olhares ou até mesmo com per-
guntas diretas buscavam saber o que eu achava do swing, do bi
feminino, se não tinha vontade de fazer, sugeriam que eu poderia
me tornar uma “rolinha” (nome que os pesquisados davam para
a mulher solteira que frequenta casas de swing). Eu precisava
me esquivar das investidas, reafirmar as minhas intenções estri-
tamente acadêmicas, preocupando-me, também, em não parecer
agressiva para que não interpretassem as minhas negativas como
uma postura preconceituosa.
Nos primeiros encontros eu era a novidade. Uma jovem estu-
dante interessada em pesquisar troca de casais, fazendo pergun-
tas sobre infidelidade, fantasias sexuais, casamento. Quase todos
eram extremamente simpáticos, atenciosos. Não foram poucas as
brincadeiras que ouvi. Fui apresentada como “a nossa antropó-
loga” que “ainda” não faz swing, entre risos e comentários de
que estavam todos torcendo pelo dia em que resolvesse fazer.
No princípio, os comentários me incomodavam e era um pouco
cansativo porque prestava muita atenção em tudo o que fazia ou
falava, nos meus gestos, para onde estava olhando, para não dar
margem a novas brincadeiras ou a uma interpretação equivocada
e não passar uma imagem dúbia.
Acredito que estava passando por uma espécie de teste. Aos
poucos, fui ganhando a confiança deles e um lugar especial na-
queles encontros. À medida que percebiam que eu não cedia às

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Olivia Von Der Weid

provocações e mantinha a minha postura séria, porém interessa-


da, foram se acostumando, e eu também, e se estabeleceu uma
relação de respeito mútuo. As brincadeiras continuaram, mas fui
relaxando pouco a pouco, na medida em que fui conquistando
meu espaço. Já não as encarava como um desafio, eram apenas
brincadeiras. No fim, não precisava nem responder e até ria de
algumas, como na vez em que disseram que o dia em que eu de-
fendesse o mestrado seria o dia em que eu faria swing.
Vale de Almeida (1995) considera que ser um pesquisador
do gênero masculino influenciou a realização de sua etnografia
sobre masculinidade na aldeia portuguesa de Pardais. Ser homem
e solteiro permitiu que tivesse acesso mais fácil a determinados
informantes e determinados locais de sociabilidade, o que, con-
sequentemente, gerou determinada interpretação. De maneira se-
melhante, acredito que o fato de ser mulher e jovem - na época
que iniciei a pesquisa tinha 21 anos - em um ambiente como uma
casa de swing, trouxe consequências determinantes para a ma-
neira como se desenvolveu o meu trabalho de campo.
O fato de ser mulher também me fez tomar algumas precau-
ções que provavelmente um homem não tomaria. Estar acompa-
nhada na primeira ida a uma casa de swing e na primeira entrevis-
ta, são bons exemplos. A antropóloga Moreno (1996), ao relatar
sua experiência de estupro em campo, revela como o medo da
violência e do assédio sexual é algo que restringe os movimentos,
inclusive físicos, das mulheres durante o trabalho de pesquisa.
A autora considera que o antropólogo arquetípico é homem e
a teoria se constrói com base em um mundo supostamente li-
vre de gênero. Mas, no campo, essa ilusão de uma identidade
neutra de gênero entra em colapso. A possibilidade de violência
sexual, implícita ou explícita, restringe os movimentos e as ativi-
dades das mulheres em muitos contextos sociais, questão com a

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

qual a maioria das mulheres antropólogas precisa lidar, enquanto


homens antropólogos não precisam. Moreno ressalta que para a
mulher é sempre necessário, em todo lugar, encarar o espectro da
violência sexual de um modo diferente daquilo que os seus cole-
gas homens precisam combater.
A minha preocupação ao ingressar no campo não alcançou
tais dimensões, mas não posso negar que a presença masculina
no início serviu como uma espécie de proteção. Outro fator que se
agregava a esse temor essencialmente feminino era o fato do sexo
ser um tema explicitamente abordado pela pesquisa. Ao mesmo
tempo em que concordava que tomar alguns cuidados não seria
nenhum exagero, não queria adotar uma postura preconceituosa
em relação aos pesquisados. Fazer swing não os tornava mais pe-
rigosos do que quaisquer outros possíveis informantes.
Acredito ser importante realçar que pertencer ao gênero fe-
minino e ser uma jovem pesquisadora me abriram um caminho
bastante particular de interação com os pesquisados, com suas
vantagens e desvantagens. Sempre fui recebida com simpatia e
interesse por parte dos casais. Apesar de todos terem as suas
preocupações em relação à preservação de suas identidades, a
disponibilidade para conversar ou dar entrevistas era quase sem-
pre imediata, tanto da parte das mulheres quanto dos homens. Ao
mesmo tempo, precisei lidar durante a maior parte do trabalho
de campo com insinuações e cantadas por parte dos casais, tanto
dos homens quanto das mulheres, e também dos solteiros que
frequentavam a casa. Desenvolvi as minhas estratégias para lidar
com estas investidas e elas nunca se tornaram um empecilho para
a continuação do trabalho.

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Olivia Von Der Weid

Entre razão e emoção


Além das reações das pessoas, dentro do meio swinger e fora
dele, também tive que lidar com minhas questões pessoais re-
lacionadas ao tema e ao contato com os pesquisados. DaMatta
(1978) ao descrever o processo que chama de “anthropological
blues” revela como subjetividade e emoção se insinuam no traba-
lho de campo, ressaltando a importância de se recuperar o lado
extraordinário das relações entre pesquisador e nativo. Conside-
ra que, se este é o lado menos rotineiro e o mais difícil de ser
apreendido em uma situação antropológica, é justamente porque
se constitui no aspecto mais humano de nossa disciplina.
Wacquant (2002), em sua etnografia sobre lutadores de boxe
em Chicago, ressalta a importância de se considerar o agente so-
cial como um ser de carne, de nervos e de sentidos, um “ser que
sofre” e que é parte do universo que o faz e que, em contrapar-
tida, contribui para fazer, com todas as fibras de seu corpo e de
seu coração.
Durante o trabalho de campo a relação que estabeleci com os
meus pesquisados foi aos poucos se alterando. No início, estava
bastante preocupada em como manter uma postura objetiva, li-
vre de preconceitos, séria, respeitosa. Com o desenvolvimento
do trabalho fui me aproximando de alguns casais e vi nascerem
vínculos de amizade e confiança. Esta situação me levou a uma
contradição que questiono se é passível de ser superada, não só
por mim mesma naquele contexto específico, mas pela própria
antropologia. Alguém que está dentro e fora, cujo distanciamento
e postura compreensiva abrem um caminho de aproximação com
as pessoas, mas que é, também, o mesmo caminho que acaba por
afastá-las.

31
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Wacquant considera que a sociologia deve se esforçar para


capturar e restituir a dimensão carnal da existência, partilhada,
em diferentes graus de visibilidade, por todos e por todas, através
de um trabalho metódico e minucioso de descrição e registro, de
decodificação e escrita, capaz de “capturar e transmitir o sabor e
a dor da ação, o som e a fúria do mundo social que as abordagens
estabelecidas das ciências do homem colocam tipicamente em
surdina, quando não os suprimem completamente” (Wacquant,
2002:11). O autor questiona o distanciamento antropológico reve-
lando um envolvimento tal com seu objeto de pesquisa que che-
gou a cogitar a possibilidade de abandonar sua carreira universi-
tária para se tornar um profissional do boxe, mantendo assim a
relação de amizade com seus companheiros do gym e o técnico,
a quem passou a considerar um segundo pai.
Não cogitei a possibilidade de “passar para o outro lado”,
simplesmente porque não era uma prática que me atraía, mas
em certos momentos questionei profundamente minha postura
de pesquisadora. Vivi situações de maior aproximação com as
pessoas, visitando suas casas, presenciando momentos íntimos
com seus familiares, partilhando do espaço em que vivem todos
os dias. Conheci os filhos, lanchei e vi televisão, usei o banheiro
da casa, ouvi histórias que vão muito além do swing, problemas
e preocupações outros que não se relacionavam com a pesquisa.
Esses momentos contribuíram para, de certa forma, humanizá-
-los. Me preocupei com seus problemas, me sensibilizei com suas
atitudes, me percebi mobilizada. Sentia que desenvolviam um
afeto por mim, percebia esse afeto nas pequenas coisas, como na
preocupação de um dos casais em saber se cheguei bem em casa
quando deixei seu apartamento à noite, o imã de geladeira que
ganhei como lembrança por ter visitado e conhecido seu filho

32
Olivia Von Der Weid

com um mês de nascido, o convite para outras visitas que não


necessariamente tivessem ligação com a pesquisa. Ou ainda a
preocupação de uma entrevistada de ter sua casa arrumada para
me receber, a explicação detalhada para que não me perdesse
na volta pra casa, o lanche e a sugestão de que retornasse ou ao
menos ligasse para saber como ia a gravidez, notícia que soube
antes de muitos outros casais de amigos do meio. Tive vontade
de levar um presente para o bebê, mas não o fiz. É ambíguo,
porque foi a partir da postura de pesquisadora que alcancei um
lugar naquele grupo de pessoas, mas esse mesmo lugar também
passou a me afastar. Como traçar os limites da relação pesquisa-
dor–pesquisado e como lidar com a diferença que se coloca entre
o antropólogo e seus “nativos”?

Primeira ida a uma casa de swing:


uma descrição densa

Antes de fazer a primeira entrevista decidi que era preciso


conhecer o ambiente de uma casa de swing. Descrevo detalha-
damente a primeira visita porque questões que se apresentaram
neste momento reapareceram ao longo do trabalho e são apro-
fundadas nos próximos capítulos (Geertz, 2008). As principais
dizem respeito aos usos e significados da roupa, a forma de apro-
ximação entre os casais, a função do olhar nessa aproximação, a
organização do espaço em uma casa de swing, o papel feminino
na escolha dos casais para a realização da troca. A “explosão de
significados” do momento inicial de pesquisa foi um instrumento
vital para a análise posterior do campo (Malinowski, 1984).
Convidei um grande amigo e, na época, estudante de arqui-

33
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

tetura, Igor de Vetyemy, que já havia se oferecido para ir comigo2.


Fomos no dia 13 de setembro de 2003, um sábado. Minha primei-
ra preocupação foi em relação à roupa que deveria usar. Imagi-
nava que nesses lugares as mulheres estariam mais arrumadas,
com uma roupa sexy, mas o meu objetivo era ser o mais discreta
possível. Queria algo que me fizesse passar despercebida, um tra-
je neutro. Nada de decotes ou roupa colada. Busquei uma blusa
lisa, elegante e discreta. O dia estava chuvoso, acabei vestindo
uma calça social preta e blusa de manga comprida de cor telha.
Combinamos que naquela noite seríamos um casal de jovens
namorados, com um ano de relação. Outra dúvida se apresentou
em relação à minha postura. Deveria dizer que estava ali motiva-
da pela minha pesquisa? Decidi que sim, se alguém perguntasse
falaria que estava realizando uma pesquisa e que meu “namora-
do” estava ali para me acompanhar.
Eu e meu amigo passamos pelos seguranças da entrada e su-
bimos por uma escadinha até uma porta de vidro. Na porta tinha
uma placa que dizia ser “proibida a entrada de menores de 18
anos”. Cruzamos a porta e chegamos na recepção. Atrás de um
balcão, estava um homem que deveria ter em torno de 40 anos,
e ao lado, uma mulher com cerca de 30 anos, loira. A sala era
bem iluminada, pequena. O homem da entrada perguntou se era
a nossa primeira vez em uma casa de swing, respondemos que
sim. Ele falou que em função da chuva, talvez a casa não ficasse
cheia. Perguntou se queríamos entrar assim mesmo e informou
que havia cerca de 20 casais lá dentro. A mulher nos convidou
a dar primeiro uma olhada, mas estávamos decididos a ficar. O
homem passou então a descrever as atrações do lugar: a casa

2 Foi ele quem desenhou, para esta pesquisa, as plantas baixas da casa de swing que visitamos,
pelo que sou profundamente grata.

34
Olivia Von Der Weid

oferecia sauna, seca e a vapor, boate, quartos individuais e quar-


to coletivo e naquela noite teria show de strip-tease. O preço era
R$40,00 o casal e mais R$30,00 de consumação. Entregou-nos a
chave de um armário.
Passamos por uma porta no final da recepção, à esquerda,
entramos por um corredor e vimos a sala dos armários, onde ha-
via chinelos e roupões. Seguimos pelo corredor e logo à frente, à
direita, havia uma escada um pouco estreita com uma pequena
placa: “boate”. Resolvemos não subir e continuamos pelo corre-
dor. No final, avistamos uma porta com a placa: “saunas”. Estava
vazio e as saunas desligadas. Um pouco antes da porta da sauna,
uma nova placa: “quarto escuro”. Uma porta de treliça de madei-
ra, separava o corredor do quarto. No quarto, um grande sofá,
que circundava as paredes e parecia de couro. Do lado direito,
mais ao fundo, uma porta com mais uma placa: “massagista”.
Naquele momento, os dois ambientes estavam vazios.
Resolvemos subir para a boate. O espaço não era muito gran-
de, tinha nove mesas e sofás de couro em forma de L. Todas as
mesas estavam ocupadas. Reparei que não tinha nenhuma cadei-
ra para as pessoas se posicionarem em frente umas das outras,
todos precisavam se sentar no grande sofá, o que obrigava a se
voltarem para o meio, onde ficava a pista de dança. Parecia uma
organização que estimulava a abertura para fora, o olhar para as
mesas ao redor, para a pista e para o palco. Na parede atrás das
mesas havia um grande espelho. No canto do espaço, à direita ti-
nha um bar com balcão e alguns bancos redondos. No lado opos-
to ao bar, um pequeno palco, com espaço para o DJ no canto. As
músicas eram as mesmas que se tocavam em qualquer boate da
época, pop-rock e dance, músicas da moda. As pessoas pareciam
ter, em média, entre 35 e 50 anos. Mais jovens do que isso havia
apenas nós e mais dois casais.

35
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Como não tinha lugar nas mesinhas nos sentamos no bar e


pedimos uma cerveja. Um casal que estava ao nosso lado pergun-
tou se era a nossa primeira vez ali. Ele era baixo, parecia ter 45
anos e ela 35, era magra e usava um vestido tipo tubinho preto e
salto alto. A dinâmica da conversa me chamou a atenção, o ho-
mem sempre se dirigia ao Igor e a mulher a mim.
Decidimos continuar nosso tour para conhecer o ambiente e
nos despedimos do casal. Subimos para o terceiro andar. Perto
da escada havia um homem que ficou nos observando. Não vi
nenhuma mulher ao lado dele e senti que olhava de forma inte-
ressada. Nos observava tão fixamente que nos deixou constran-
gidos. O andar ainda estava vazio e tinha uma série de quartos
com portas de madeira e trancas nas portas. No centro de cada
quarto tinham camas de casal cobertas por um lençol branco. Ao
redor das camas um grande espelho, nenhuma outra decoração.
O último quarto era mais amplo, não tinha tranca e a cama era
bem grande, cabiam pelo menos 3 casais.
Descemos e voltamos para a boate. Igor foi ao banheiro. En-
quanto esperava no corredor, passou uma mulher nua, segurando
suas roupas na frente do corpo. Devia ter cerca de 30 anos. Um
homem veio atrás dela, mas estava vestido. De volta ao espaço da
boate, conseguimos uma mesa. Aquele primeiro casal nos viu e se
sentou ao nosso lado. Perguntaram se estávamos gostando do lu-
gar, dissemos que sim. Contaram que mais tarde as pessoas iriam
para as saunas ou para os quartos. O homem, então, disse que
eles nunca tinham feito a troca de casal propriamente dita. Falava
o tempo todo com o Igor. Disse que no swing tinha a vantagem
de poder olhar para outras pessoas sem ter ciúmes envolvido. A
mulher olhava para mim e me perguntou se eu sentia ciúmes.
Eu disse que ainda não sabia. Ela confessou que às vezes sentia.

36
Olivia Von Der Weid

O marido logo disse que amava uma única mulher, que era ela,
mas que se divertia nas casas de swing. Eles disseram que eram
casados e moravam em Niterói.
Uma voz ao microfone anunciou o show de strip-tease. Avi-
saram que começaria com a performance masculina. As luzes di-
minuíram e um homem surgiu na porta de entrada da boate todo
vestido de preto, com uma máscara que cobria o rosto, só mos-
trando os olhos. Ele era bastante forte, corpo musculoso. Durante
o show foi tirando a roupa, passava perto das mulheres sentadas
nas mesas e se insinuava para elas. Era a primeira vez que eu as-
sistia a um show de strip-tease. Uma mulher - que vestia uma blu-
sa vermelha bem decotada e aparentava 50 anos - passou a mão
ousadamente por toda a parte da frente do corpo do stripper. Ele
ficou só de cueca – vermelha - dançando provocativamente para
as mulheres. No fim, tirou a cueca, mas ficou com a mão na fren-
te, escondendo o pênis. Só mostrou para a mulher de vermelho,
mas tudo bastante rápido. Pegou as roupas e desceu as escadas.
Logo depois, a mesma voz anunciou as strippers femininas.
Eram duas e, ao contrário do homem, tinham “nome”: Aline e Va-
nessa. A mulher ao meu lado comentou, em tom de brincadeira,
“começou a desigualdade logo aí, por que são duas mulheres e
só um homem?”. As strippers entraram vestindo menos peças de
roupa do que o homem. As duas estavam de máscara, mas a boca
ficava de fora. Usavam botas pretas, um corpete que deixava os
seios aparecendo e calcinha “fio dental”. Uma delas estava com
um chicote e durante a apresentação fazia o papel de “sádica”. Ti-
nha os cabelos mais curtos, pretos, era mais magra e musculosa e
seus seios eram menores. A outra era loira, cabelos longos, seios
grandes. Diferente da performance masculina, onde o stripper só
tirou toda a roupa no fim, elas logo ficaram nuas, só de botas, en-

37
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

cenando posições sexuais bem mais explícitas do que as dele. A


de chicote passava a mão pelos seios da outra, ficaram em várias
posições que sugeriam o ato sexual e elas se abraçavam muito.
Acabou a performance e o casal ao lado nos disse que ia para
a sauna e perguntaram se já conhecíamos onde era. Sentimos
uma proposta para algo mais naquela pergunta e resolvemos dis-
farçar e tomar qualquer coisa no bar. Ficamos sentados por ali e
pouco depois fui ao banheiro. Quando voltei para o bar da boate
anunciaram no microfone que teria o “apagão”, que duraria duas
músicas. As luzes se apagaram e tudo ficou em uma completa
escuridão. Permanecemos no canto onde estávamos, um casal
se aproximou no escuro, se encostando na gente. Nos afastamos
devagar.
Quando as luzes se acenderam, o salão já estava quase va-
zio. Reparei em um casal que estava perto do bar. Ele era mais
velho, muito gordo, alto. Ela tinha o cabelo pintado de loiro, um
pouco abaixo dos ombros, e estava com um vestido muito curto.
Dançavam de forma sensual, principalmente a mulher. No outro
canto, um casal mais jovem olhava bastante para o nosso lado. A
moça fez um gesto nos chamando para sentar com eles. Fomos.
Depois que sentamos reparei que a configuração das pessoas na
mesa era semelhante à que ocorreu com o casal anterior: eu e a
moça no meio, os homens ao lado das mulheres. Me perguntei
se seria uma espécie de “etiqueta”, não se sentar ao lado do sexo
oposto do outro par. Eles perguntaram se era a nossa primeira ida
a uma casa, disseram que também era a primeira vez deles e que
estavam com um casal de amigos. A moça disse que namoravam
há dois anos, ela era estudante de história da Universidade Fede-
ral de Ouro Preto, e o rapaz fazia faculdade de direito no Rio. Eu
contei que fazia Ciências Sociais e resolvi falar sobre a pesquisa.

38
Olivia Von Der Weid

Disse que estava ali para observar como as coisas aconteciam e


que Igor estava me acompanhando. Eles contaram que seus ami-
gos eram frequentadores de casas de swing e que foram eles que
incentivaram a sua vinda, ao menos para conhecer. A moça fala-
va muito mais do que o rapaz. Ela disse que era de uma cidade
pequena, que seus pais tinham uma cabeça fechada, mas ela não.
Comentaram que o ambiente da boate lhes pareceu o de uma
boate comum. Continuamos um pouco a conversa, mas depois
decidimos deixá-los e dar uma volta para ver o que acontecia no
andar de baixo.
Descemos a escada, eu estava na frente, e cruzamos com um
homem grisalho, em torno de 45 anos. Me olhou muito fixamen-
te, parou o olhar na altura dos seios, depois perguntou se já es-
távamos indo embora. Respondemos que não e ele disse que se
quiséssemos, estaria lá em cima no bar, esperando. Achei inusi-
tado ser desejada dessa forma explícita mesmo com um homem,
supostamente namorado, ao meu lado. Naquele ambiente, entre-
tanto, aquele olhar era comum, partindo tanto de homens quanto
de mulheres, com seus parceiros ao lado.
Continuamos a descer a escada e Igor sugeriu entrarmos na
sauna. Vestimos o roupão e entramos na sauna seca. A luz era
bastante fraca. Do outro lado, um casal se beijava enquanto o
homem se tocava. Não ficamos muito, nos vestimos e voltamos
para o andar de cima. O casal de jovens nos viu e veio conversar
de novo. A moça falava muito mais e ele quase não participa-
va da conversa. Ela perguntou o que eu estava querendo com a
pesquisa. Tentei explicar que queria entender a lógica do swing,
como as coisas funcionam, compreender o comportamento dos
casais. Ela falou que para ela aquele era um espaço para as pes-
soas descobrirem que sexo é diferente de amor, que uma relação

39
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

só sobrevive ao tempo se tiver sexo com outras pessoas. Em se-


guida perguntou: “é esse o resultado que você quer para a sua
pesquisa, não é?”. Não respondi. Foi a primeira vez que apareceu
a separação sexo/amor, que voltou a ser repetida inúmeras vezes
pelos meus pesquisados. Quis saber há quanto tempo eu e Igor
namorávamos e eu respondi. Ela disse que ela e o namorado se
amavam, que não tinham ido para aquela casa com a intenção de
acontecer nada, mas que estavam abertos. Falou que tinha sido
muita coincidência nos encontrarmos e ser a primeira vez dos
dois casais. Então, perguntou: “e aí, o que vocês acham?”. Eu dis-
se que nós só estávamos lá por causa da pesquisa, não tínhamos
a intensão de fazer nada. Ela insistiu que eles também não, mas
que aquela poderia ser uma boa oportunidade, já que estávamos
na mesma situação. Disse que para eu fazer a pesquisa tinha que
experimentar, “quem está na chuva é para se molhar”. Comentou
que o sonho do namorado dela era ter uma namorada bi, aliás,
“o sonho de todo homem, né?”3. Falou que nunca tinha experi-
mentado, mas que estava aberta para isso, os homens poderiam
ficar só olhando. Nessa hora, olhou para o Igor, que disse que
as mulheres é que resolviam, passando a decisão para mim. Eu
neguei alegando que não estávamos prontos e, além do mais, já
estávamos pensando em ir embora. Ela lamentou, mas nos pas-
sou seus contatos, caso mudássemos de ideia.
Antes de irmos, subimos para ver como estava o terceiro an-
dar. Alguns quartos ocupados, mas com as portas fechadas. Na
porta dos quartos com tranca tinha uma placa que dizia: “aten-
ção, proibido forçar a porta ou bater insistentemente sem o con-
sentimento do casal”. No final do corredor, em frente ao quarto
maior estavam dois casais, os homens em pé e as mulheres ajoe-
lhadas fazendo sexo oral nos homens. Dentro desse quarto tinha
3 A prática sexual entre mulheres no swing é um assunto recorrente no meio, que será discutido adiante.

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Olivia Von Der Weid

mais um casal na cama, se relacionando na posição conhecida


por “69”.
Já tínhamos visto o suficiente. Na saída, o recepcionista per-
guntou se gostamos da casa e nos presenteou com um vale para
o sábado seguinte - caso retornássemos, estaríamos isentos da
entrada e só pagaríamos a consumação.

41
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

A primeira entrevista
Após a primeira ida a uma casa de swing, finalmente conse-
gui um contato, através da internet, para entrevistar o primeiro
casal, que posteriormente se tornou meu principal informante no
meio, que chamarei ao longo do livro de Ana e André. Eles manti-
nham um blog, “Fantasias de Casados”, onde discutiam a prática
e outros temas e convidavam os leitores a uma ida a uma casa de
swing. Organizavam a festa “Swing Social Clube” e os “Encon-
tros de mulheres liberais”. No blog havia um endereço de e-mail
e foi através dele que consegui o primeiro contato. Nos e-mails
trocados, soube que o encontro das mulheres liberais era um ba-
te-papo sobre temas relacionados ao swing.
Escrevi a respeito da pesquisa e perguntei se poderiam dar
uma entrevista. Surpreendeu-me a rápida resposta positiva e ain-

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Olivia Von Der Weid

da o convite para participar de um dos “Encontros de Mulheres


Liberais”. Por não saber o que esperar de um universo desconhe-
cido, decidi ir acompanhada neste primeiro encontro. Perguntei
ao antropólogo Marcelo Silva Ramos, um amigo e também pes-
quisador, se me acompanharia. Sua presença foi fundamental e
me deixou mais tranquila em relação à primeira entrevista.
Neste dia não houve o encontro das mulheres e a entrevista
com Ana e André durou 1h e 40 minutos. Os dois, além de bas-
tante simpáticos, se mostraram completamente disponíveis para
colaborar com o prosseguimento da pesquisa. Permitiram que a
entrevista fosse gravada, apenas pediram que se mantivesse o
anonimato. Consegui mais um contato para uma possível entre-
vista e o convite para retornar na próxima semana, quando os
encontros seriam realizados. Estava dado o pontapé inicial.

43
Olivia Von Der Weid

Os casais

Ana e André

A primeira entrevista com os dois foi feita em setembro de


2003. Em outubro de 2006 entrevistei André novamente e em
março de 2007 voltei a entrevistar Ana. Nesta segunda ocasião,
tinham se separado há poucos meses e tanto André quanto Ana
mencionaram que o swing foi um dos motivos da separação. À
época da primeira entrevista, estavam casados há 2 anos e 4 me-
ses e haviam se conhecido há 4 anos pela internet. Divorciaram-
-se em junho de 2006.
No blog que mantinham falavam principalmente sobre a prá-
tica do swing, mas também abordavam assuntos como política,
futebol, dicas de filmes, entre outros. O blog era principalmente
uma iniciativa dele, que disse gostar de escrever. Os dois men-
cionaram apreciar ir ao cinema, assistiam a filmes em cartaz e
do festival do Rio. Viagens e gastronomia eram outros de seus
interesses.
Em 2003, praticavam swing há 2 anos e iniciaram-se na prá-
tica juntos, por iniciativa dele. Disseram ter se relacionado no
swing com aproximadamente 20 casais. Moravam no bairro da
Tijuca e a renda familiar girava em torno de 25 salários mínimos.
Ana tinha 31 anos, estava no primeiro casamento e não tinha
filhos. Completou o ensino superior e trabalhava na área de re-
cursos humanos de uma empresa privada. Antes de casar com
André, teve 5 parceiros sexuais. Sua família é espírita e quando a

45
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

entrevistei novamente ela disse que tinha voltado a se aproximar


da religião. Tem carro e, após a separação, comprou um aparta-
mento no bairro de Vila Isabel.
André tinha 45 anos, ensino superior completo, economista,
casado pela terceira vez. Teve 3 filhos no primeiro casamento e 2
no segundo. Os dois primeiros casamentos duraram aproximada-
mente 10 anos cada um. Disse que desde os 20 anos não sabia o
que era ser solteiro, saiu de um casamento para entrar em outro.
Não precisou o número de parceiras sexuais antes do relaciona-
mento com Ana, mas afirmou que foram muitas. André tem carro
e moto. Ele se diz motoqueiro, gosta de fazer viagens de longas
distâncias de moto. Após a separação, estava morando em um
apart hotel no bairro da Barra da Tijuca.

Beatriz e Bernardo

Este casal namorou 2 anos e 7 meses e estavam casados há


1 mês quando os entrevistei. Eram da cidade de Teresópolis e re-
centemente tinham se mudado para a cidade do Rio de Janeiro,
morando de aluguel em um conjugado em Copacabana. A renda
familiar era de seis salários mínimos. Praticavam swing há 2 me-
ses e disseram ter se relacionado com 4 casais neste período.
Beatriz tinha 19 anos, casada pela primeira vez, com ensino
superior incompleto. Trancou a faculdade de direito no segundo
semestre e trabalhava como auxiliar administrativa. Bernardo foi
o seu primeiro parceiro sexual.
Bernardo tinha 20 anos, casado pela primeira vez, com en-
sino superior incompleto, tendo começado e trancado 3 facul-
dades. Tinha formação de técnico em informática e trabalhava
como assistente de gerente em uma empresa. Disse que antes de

46
Olivia Von Der Weid

Beatriz teve muitas parceiras sexuais, mas também não revelou


o número. Afirma que desde os 12 anos se interessa por sexo,
colecionava fotos, vídeos, revistas e já visitou inúmeros sites por-
nográficos. Na entrevista afirmou que já viu tudo o que tinha que
ver sobre sexo. Bernardo tinha um carro que ganhou do avô, mas
as despesas de seguro e manutenção ele mesmo arcava.

Carolina e Cláudio

O casal tinha 29 anos de relacionamento e 24 anos de casa-


dos. Moravam em Copacabana e quando perguntei sobre a renda
familiar Cláudio respondeu, ironicamente: “salário a gente ganha
salário mínimo”. Faziam swing há 3 anos e se relacionaram com
cerca de 15 casais. Têm dois filhos, maiores de idade. Os filhos
não sabiam que os pais eram adeptos da prática. Foi o casal que
mais apresentou preocupações em relação ao anonimato e ao fato
da entrevista ser gravada.
Carolina tinha 44 anos, o segundo grau completo e trabalhava
como comerciária. Carlos tinha 53, com ensino superior incom-
pleto, fez 3 anos de faculdade de engenharia e trabalhava como
autônomo. Os dois ressaltaram bastante o aspecto da diversão
que o swing trouxe para suas vidas e as amizades estabelecidas
com outros casais. Gostavam de ir à praia na Reserva, local que
costumava ser frequentado por casais adeptos do swing.

Daniela e Diogo

Estavam casados há 6 anos e faziam swing há 5 anos e meio.


Moravam na Ilha do Governador. Antes de se tornarem adeptos
da prática, experimentaram o ménage com mulheres. Mantiveram

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

um relacionamento fixo com uma mulher, que durou três meses.


Ela passava os finais de semana com eles e chegaram a pensar
na possibilidade de os três morarem juntos. Segundo disseram,
acabou não dando certo porque Daniela ficou com ciúmes, “sua
cabeça ainda não estava preparada para aceitar a ideia de um
casamento a três”. Não souberam responder com quantos casais
se relacionaram sexualmente depois que se iniciaram no swing,
responderam “com muita gente”. A renda familiar era de oito sa-
lários mínimos.
Daniela tinha 27 anos, com segundo grau completo e forma-
ção técnica. Trabalhava na área da saúde. Antes do relacionamen-
to com Diogo teve um noivo, seu único parceiro sexual até então.
Ela se considera bissexual e diz que só descobriu o prazer com o
sexo a partir de seu relacionamento com Diogo. Antes de entrar
para o meio swinger era católica e frequentava a igreja. Não tinha
filhos.
Diogo tinha 35 anos e era militar. Estava no quarto casamento
e praticava swing com a esposa anterior. Disse que quando seu
último casamento terminou já buscou em Daniela uma pessoa
que aceitasse a prática do swing, uma pessoa com quem pudesse
viver suas fantasias sexuais. Não soube dizer quantas parceiras
teve antes de Daniela, mas afirmou serem muitas. Tem um filho,
na época com 10 anos, do primeiro casamento.

Emília e Emanuel

Moradores do bairro do Flamengo, com renda mensal familiar


de 60 salários mínimos. Casados há dois anos e meio e adeptos do
swing há um ano e meio. Relacionaram-se com cerca de 10 casais.
Emanuel disse que a iniciativa para o swing foi dele, “mas que

48
Olivia Von Der Weid

foi por uma fração de segundos”. Afirmou que com eles não foi
como os outros casais, onde em geral o homem passa um tempo
convencendo a esposa a experimentar a prática. Foram duas se-
manas desde a primeira conversa até a primeira visita a uma casa
de swing. Disseram que as primeiras vezes “não foram legais, não
corresponderam às expectativas porque era muita gente e as coi-
sas aconteciam muito rápido”. Optaram, então, por experimentar
sexo com uma mulher e contrataram uma garota de programa.
Tiveram duas experiências deste tipo que consideraram satisfató-
rias. Não têm filhos juntos.
Emília tinha 38 anos, ensino superior completo e era fun-
cionária pública. Foi casada duas vezes antes de se casar com
Emanuel. Seus casamentos anteriores duraram onze e dois anos.
Tinha uma filha, na época com 15 anos, do primeiro casamento.
Antes de se casar com Emanuel teve entre 10 e 15 parceiros se-
xuais.
Emanuel tinha 44 anos, ensino superior completo e era en-
genheiro. Trabalhava na iniciativa privada. Foi casado três vezes
antes de Emília. Seus relacionamentos duraram 4, 7 e 6 anos. Não
teve filhos. Não soube dizer o número de parceiras sexuais antes
de Emília, mas falou que eram muitas.

Fernanda e Felipe

Os dois namoravam há um ano e praticavam swing há seis


meses. Sobre a renda mensal, Felipe respondeu: “classe média
normal”. No swing, tinham se relacionado com quatro “casais
mesmo” e mais seis solteiros. Antes de Fernanda, Felipe já tinha
falado sobre o swing com três parceiras, mas nenhuma aceitou a
ideia.

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Fernanda tinha 22 anos, estava fazendo faculdade de enfer-


magem. Nunca casou e nem teve filhos. Perdeu a virgindade aos
19 anos e teve quatro parceiros sexuais antes de Felipe.
Felipe tinha 41 anos, ensino superior completo e trabalhava
na área de teatro e eventos. Foi casado uma vez, por 3 anos e
meio e não teve filhos. Perdeu a virgindade aos 15 anos e, em um
primeiro momento, afirmou ter tido mais de 500 parceiras sexuais
antes de Fernanda. Depois falou em 300.

Gabriela e Guto

Moradores do Grajaú, estavam casados há quatro anos e fa-


ziam swing há 4 meses. A renda familiar mensal era de 10 salários
mínimos. No swing se relacionaram com cerca de 30 casais. An-
tes de praticarem swing, experimentaram o ménage duas vezes
com garotos de programa. Gabriela disse que Guto tinha vontade
de vê-la se relacionando com outro homem. Disseram que gosta-
vam muito de sexo e que a parte sexual de seu casamento sempre
tinha sido muito boa. Gabriela falou que gostava quando tinha
mais de um homem ao mesmo tempo e que Guto gostava de vê-la
se relacionando com vários homens.
Gabriela tinha 23 anos, segundo grau completo e trabalhava
em telemarketing. Estava no seu primeiro casamento e não tinha
filhos. Antes do relacionamento com Guto, teve um parceiro se-
xual. Disse que na sua relação anterior não sentia prazer e não
gostava de sexo.
Guto tinha 34 anos, ensino superior incompleto e trabalhava
como autônomo na área de comunicação visual. Teve um casa-
mento anterior que durou cinco anos, sem filhos. Antes de se
relacionar com Gabriela teve 60 parceiras sexuais.

50
Olivia Von Der Weid

Heloísa e Henrique

Moradores de Botafogo, casados há três anos, faziam swing há


um ano e meio. Conheceram-se pela internet e antes de Heloísa,
Henrique teve experiências com casais como homem solteiro, na
residência do casal ou em motéis, mas nunca em casas de swing.
Disse que saía com casais há mais de 10 anos. Heloísa tinha aca-
bado de dar à luz ao primeiro filho dos dois, que estava com um
mês quando fizemos a entrevista. A renda familiar mensal girava
em torno de 15 salários mínimos. Têm uma casa na Barra, onde
passam temporada e alguns finais de semana. Gostavam de peda-
lar e fazer passeios na Floresta da Tijuca.
Heloísa tinha 29 anos, segundo grau completo e trabalhava
como secretária. No momento da entrevista estava de licença-ma-
ternidade. Foi casada uma vez por 10 anos e o seu ex-marido foi
seu único parceiro sexual antes de Henrique. Perdeu a virgindade
aos 16 anos. No swing, só se relacionava sexualmente com mu-
lheres. Disse que sempre teve a fantasia de vê-lo se relacionando
com outras mulheres.
Henrique tinha 38 anos, ensino superior completo, trabalhava
como analista de sistemas. Teve um casamento anterior, que du-
rou quatro anos. Perdeu a virgindade aos 14 anos e afirmou não
ter ideia de quantas parceiras sexuais teve antes de Heloísa. Disse
que tinha a fama de ser “bem dotado”.

Irene e Ivan

Casados há quatro anos, faziam swing há dois. Moravam em


um condomínio no bairro do Méier. Irene diz que a iniciativa para

51
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

o swing partiu dela, que começou a se comunicar com outros ca-


sais em uma sala de bate papo na internet. Ele se interessou e fez
uma pesquisa por sites específicos para casais e sites de casas de
swing. A renda familiar mensal era de 20 salários mínimos.
Irene tinha 34 anos, ensino superior completo e trabalhou na
área da saúde, mas na época estava trabalhando com vendas. Foi
casada por 7 anos e teve três filhos com o primeiro marido, com
idades entre 10 e 15 anos. Duas filhas moravam com ela e com
Ivan e o filho morava com o pai. Perdeu a virgindade aos 18 anos
e antes de Ivan teve dois parceiros sexuais. No swing, até aquele
momento, tinha se relacionado com 15 homens.
Ivan tinha 35 anos, ensino superior completo, trabalhava na
área de esportes. Foi casado por 10 anos, mas não teve filhos. Per-
deu a virgindade aos 19 anos e antes do relacionamento com Ire-
ne, teve quatro parceiras sexuais. No swing, tinha se relacionado
com 6 mulheres. Irene disse que o swing foi muito bom para os
dois porque deu a oportunidade de terem outros parceiros sexuais
já que, tanto um quanto o outro, tiveram poucas experiências
sexuais anteriores.

Júlia e Jonas

Namoravam há nove meses e iam a casas de swing juntos há


sete meses. Antes de conhecer Júlia, Jonas já frequentava casas
de swing há 14 anos. Ela morava em São Conrado e ele em Ipa-
nema. A renda mensal de Júlia girava em torno de 13 salários
mínimos e a de Jonas em torno de 23.
Júlia tinha 41 anos, ensino superior incompleto, tendo ini-
ciado e trancado três faculdades. Trabalhava no comércio. Não
tem filhos e teve um casamento anterior de 7 anos. Falou que a

52
Olivia Von Der Weid

relação sexual com o seu ex-marido “era muito fraca”. Perdeu a


virgindade aos 18 anos e antes do atual relacionamento teve uma
média de 20 parceiros sexuais. Júlia dizia que não gostava de
frequentar casas de swing, só ia por causa de Jonas, porque ele
gostava. No swing, se relacionou apenas com um homem soltei-
ro. Antes de namorar com Jonas teve uma relação de dois anos e
meio com um homem casado.
Jonas tinha 48 anos, ensino superior completo, trabalhou na
área de aviação e estava aposentado. Nasceu em Santa Catarina,
teve dois casamentos anteriores que duraram sete anos cada um.
Tem uma filha, na época com 10 anos, do primeiro casamento.
As duas ex-mulheres praticavam swing com ele. Júlia disse que
Jonas era extremamente ciumento na relação com ela.

Laura e Lucas

Moravam na cidade de Campinas, no Estado de São Paulo.


Eram casados há 14 anos, faziam swing há oito. A renda familiar
mensal girava em torno de 15 salários mínimos. Quando se ini-
ciaram no swing ainda não tinha a facilidade da internet. Coloca-
ram um anúncio em uma revista procurando outras pessoas para
se relacionarem sexualmente. Disseram ter recebido em torno de
300 cartas como resposta. A primeira experiência foi um ménage,
com um homem.
Laura tinha 34 anos, ensino superior completo e trabalhava
como economista. Lucas tinha 41 anos, ensino superior completo
e trabalhava na área da computação. Disseram ter se relacionado
com mais de 50 casais no swing.

53
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Em busca de um perfil?
Quem são as pessoas que praticam swing? Quais os hábitos e
comportamentos dos entrevistados? Acredito ser difícil traçar um
perfil dos praticantes de swing, até porque não se pode falar em
homogeneidade entre aqueles que procuram este tipo de prática.
Entretanto, algumas informações socioeconômicas dos pesquisa-
dos são interessantes para tentarmos localizá-los social e cultu-
ralmente.
Trabalhei algum tempo com a noção de “camadas médias ur-
banas”, pensando que os praticantes de swing fariam parte de
um setor da sociedade que compartilharia uma visão de mundo e
um estilo de vida considerados de vanguarda, tendo o hedonismo
como um de seus valores principais (Velho, 1987). Mas ao longo
da pesquisa fui percebendo que não estava falando exatamente
deste ethos e que, apesar das aproximações, existiam diferenças
fundamentais. Entre os entrevistados há moradores de bairros da
Zona Sul, como Botafogo, Copacabana e São Conrado. Mas, tam-
bém, moradores da Zona Norte - como Méier, Tijuca ou Grajaú - e
ainda Zona Oeste - Barra ou Recreio. Nove dos dez casais entre-
vistados no Rio de Janeiro, à exceção do casal mais jovem, chega-
vam na casa de swing de carro. Entre as profissões, encontram-se
engenheiro, funcionária pública, analista de sistemas, jornalista.
E ainda enfermeiras, militares, secretárias, autônomos, gerentes
de loja, comerciários. Um dos entrevistados, quando perguntado
sobre sua renda familiar, respondeu da seguinte forma:

Classe média média. Não seria classe média alta,


nem classe média baixa, classe média média, se é
que existe classe média média né, mas é classe mé-
dia média, se não existir, pode botar classe média
baixa. Mas é uma coisa assim, a gente não passa

54
Olivia Von Der Weid

fome, dá para sair, tá endividado no cartão de crédi-


to, como todo mundo... (Felipe)

Uma hipótese sobre a origem social de praticantes de swing é


a de que seriam pessoas que ascenderam socialmente, mais bem
sucedidas do que a geração de seus pais. Uma camada média
ascendente.
Outra hipótese que levanto é que aqueles que têm algo a per-
der em serem reconhecidos neste tipo de ambiente – os que ocu-
pam posições importantes em seus empregos, os que têm maior
reconhecimento público – não frequentam uma casa de swing.
Podem até ser adeptos da prática, mas por meio de festas pri-
vadas, viagens internacionais ou conhecimento direto de outros
casais via internet. O público que frequenta uma casa de swing
seria um público que não correria grandes riscos, já que ir cons-
tantemente a estas casas, mesmo com variação de local, é viver
o perigo permanente de ser descoberto. O depoimento de Júlia
fundamenta a hipótese:

Eu sou gerente de uma loja, uma loja que eu só


atendo classe A, A, A, eu tenho as minhas funcio-
nárias que me respeitam muito, eu morro de medo
de chegar num lugar desses e encontrar uma cliente
minha, encontrar uma funcionária minha, eu vou
perder a moral. (Júlia)

Um ponto interessante que apareceu nas entrevistas e nas


conversas informais com os pesquisados é que haveria uma dife-
rença do público que frequenta casas de swing no Rio de Janeiro
e em São Paulo e também na própria infraestrutura das casas
paulistas. Aparece nos discursos a ideia de que em São Paulo o
ambiente swinger é mais sofisticado e moderno. Pesquisando no
sites das casas de swing paulistas e cariocas, algumas diferenças

55
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

podem ser notadas. Júlia também fala sobre esta diferença:

Ele sempre diz que em São Paulo é outro nível, que


o nível é muito melhor, tanto de aparência quanto
de inteligência mesmo. Eu não sei se eu sou uma
pessoa muito seletiva porque eu já morei fora, eu
estudei, eu trabalho com um público de uma classe
mais elevada, então eu estranho, eu me sinto um
peixe fora d água nesses lugares. (Júlia)

Pelos sites, os clubes paulistas me pareceram maiores e mais


bem elaborados, e os seus sites de melhor qualidade, do que os
cariocas. O bairro paulista de Moema, considerado um bairro de
classe média alta, concentra pelo menos sete das principais casas
de swing da cidade (no ano de 2015). O depoimento de um casal
entrevistado, que já frequentou clubes em São Paulo, ressalta as-
pectos da infraestrutura das casas paulistas:

Pergunta: vocês costumam ir à São Paulo?


Emília: a gente já foi duas vezes. Nossa os clubes
lá...
Emanuel: são maravilhosos, as instalações...
Emília: nossa, outra coisa.
Emanuel: é, o negócio é assim de outro mundo.
Emília: muito melhor do que aqui.
Emanuel: tem uns clubes, esse Nefertitti em São
Paulo...
Emília: é maravilhoso. Nossa senhora, que coisa,
demais, demais...
Emanuel: parece uma boate de Nova Iorque.
Emília: vários ambientes assim, grande, com cabi-
nes, labirintos, uma coisa assim... som, bebidas de
tudo quanto é tipo que você pensar...
Emanuel: muito legal, conforto.
Emília: muito legal, nota 10.

Esta é uma comparação que merece desenvolvimento e que,


em função do limite de tempo e de recursos financeiros, não foi
possível investigar para esta pesquisa.

56
Olivia Von Der Weid

Um aspecto que varia entre os casais que frequentam casas


de swing é a idade. Entre os casais entrevistados há desde um
casal jovem, que na época tinha 19 (mulher) e 20 anos (homem)
e um mês de casados, até um casal com 53 (homem) e 44 anos
(mulher) e 24 anos de casados. Mas apesar de tal variação, algu-
mas recorrências são notáveis no que se refere à faixa etária dos
entrevistados.
Oito das onze entrevistadas têm até 35 anos, sendo que cinco
têm menos de 30. A idade mais avançada encontrada entre as
mulheres foi de 44 anos. Nove dos onze homens têm mais de 35
anos, sendo que cinco têm mais de 40. A idade mais avançada
para os homens foi de 53 anos. As idades indicam que as mu-
lheres entrevistadas são mais jovens do que seus parceiros, com
uma diferença que chega a 19 anos em um dos casos. Dois entre-
vistados abordam esta questão etária na entrevista: “é mais fácil
você encontrar um cara muito mais velho e uma menina muito
mais nova” (Jonas) e “a maioria ainda tem o cara mais velho, né,
tentou fazer com uma, tentou fazer com outra” (Diogo).
No que se refere ao casamento e divórcio, oito dos onze ho-
mens foram casados anteriormente e dois estavam no primeiro
casamento. Dos oito, quatro tiveram um casamento anterior, dois
tiveram dois casamentos e dois foram casados três vezes anterior-
mente. Entre as mulheres, quatro já tinham sido casadas, cinco es-
tavam no primeiro casamento e duas nunca casaram, estavam em
uma relação de namoro com os parceiros atuais. Das que foram
casadas, três tiveram um casamento e uma teve dois casamentos
anteriores. Apenas dois casais tinham filhos, um casal com um
filho e o outro com dois. Três homens tinham filhos de casamen-
tos anteriores, um deles tinha 5 filhos (de dois casamentos), os
outros dois tinham um. Duas mulheres têm filhos de casamentos

57
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

anteriores, uma tinha uma filha, a outra tinha três filhos, sendo
que dois moravam com ela e o atual marido.
Em relação à aparência, não encontrei nada em particular que
os diferenciasse de pessoas que não são adeptas da prática. As
mulheres são, em geral, mais jovens do que os homens e parecem
se preocupar mais com a forma física, questão que será tratada
com maior profundidade nos próximos capítulos. Dez das onze
mulheres que entrevistei tinham cabelos longos, enquanto todos
os homens usavam cabelo curto. Três mulheres pintavam o cabe-
lo de loiro, uma de ruivo. Dois homens tinham cabelos grisalhos
e outros dois eram calvos.

58
Olivia Von Der Weid

A prática do swing, um panorama

Neste capítulo levanto algumas questões com o intuito de


contextualizar a prática do swing e seus adeptos. Partindo de um
panorama geral, busco levantar dados que possam ajudar a ca-
racterizar o swing praticado no Brasil, para então discutir o perfil
de seus praticantes e dos casais entrevistados. Com a figura da
pessoa sozinha que decide frequentar o meio - alguém de fora
que se insere em um ambiente “de casais” - busquei compreender
quais as regras e normas que permeiam a prática e quais as es-
tratégias utilizadas para garantir um comportamento considerado
“adequado”. Detalho também a organização do espaço em uma
casa de swing. Procuro, finalmente, refletir sobre a relação e o
comportamento de casais adeptos do swing em comparação com
o que é considerado “norma” em nossa sociedade no que se refe-
re ao casamento e à sexualidade, e as acusações que permeiam a
prática e seus adeptos.

***

Também denominada de troca de casais, a origem da prática


do swing não parece ser conhecida com exatidão. Alguns autores
a relacionam com a troca de esposas (Bartell, 1972, Bergstrand &
Williams, 2000). Identificada nos Estados Unidos nos anos 1950,
a troca de esposas, ou “wife swapping”, acontecia nas chamadas
“festas de chaves”, onde os maridos depositavam as chaves de
seus carros em um recipiente localizado no centro de uma sala e

59
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

as mulheres sorteavam uma chave ao acaso para passar a noite


com o homem sorteado.
Gould (1999), um jornalista investigativo americano, associa
a origem do swing nos Estados Unidos aos pilotos da força aérea
americana e suas esposas durante a Segunda Guerra Mundial. Em
uma pequena comunidade, a taxa de mortalidade entre os pilotos
era extremamente elevada. Segundo o autor, os pilotos desenvol-
veram laços estreitos de amizade, com a implicação de que, caso
o companheiro de front morresse ou fosse dado como perdido, os
outros maridos cuidariam e protegeriam sua esposa como se fos-
se a sua própria, tanto emocional quanto sexualmente. Embora
haja controvérsias sobre a origem da prática, sites como o Wiki-
pédia apontam que, em geral, se entende que o swing começou
entre comunidades militares americanas na década de 1950. Uma
das primeiras organizações de swingers teria se iniciado nos anos
1960, na Califórnia, na área da baía de São Francisco, considerada
sexualmente liberal, sob o nome de Sexual Freedom League. Nos
dias de hoje existe uma organização que se tornou internacional,
a NASCA (North American Swing Club Association), cujo objeti-
vo é estimular a disseminação de informações sobre a prática e o
estilo de vida dos swingers.
Bartell (1972), em estudo sobre a prática realizado no final
da década de 1960 nos Estados Unidos, aponta que o adepto do
swing americano daquela época era branco, de classe média, mo-
rador do subúrbio e com uma idade média de 29 anos para as
mulheres e 32 para os homens.
Gould (1999) relata que convenções do estilo de vida swinger
acontecem 12 vezes por ano em 8 estados americanos, mono-
polizando resorts inteiros por quatro dias a cada convenção. De
acordo com o autor, uma convenção no final dos anos 1990 reu-

60
Olivia Von Der Weid

niu 3.500 pessoas de 437 cidades e sete países diferentes. Sobre o


perfil dos participantes, Gould indica que um terço tinha diploma
de pós-graduação, quase um terço tinha votado no partido repu-
blicano nas últimas eleições nos Estados Unidos e 40% se diziam
protestantes, católicos ou judeus.
Nos dias atuais, em países de língua inglesa, a prática é co-
nhecida por swinging lifestyle, e os adeptos buscam se diferenciar
da antiga denominação de “troca de esposas” (wife swapping),
termo considerado androcêntrico e ultrapassado por não abran-
ger toda a gama de atividades sexuais nas quais os swingers po-
dem tomar parte. Cinco atividades costumam estar incluídas na
prática do swing: “exibicionismo”, relacionar-se sexualmente
com o seu parceiro enquanto é assistido por outros; voyeurismo,
assistir a relação sexual de outras pessoas; soft swing ou “troca
leve”, beijar, trocar carícias ou fazer sexo oral com uma terceira
ou quarta pessoa, o que pode ser feito em trio, em grupo ou lite-
ralmente trocando de casais; full swap ou “troca completa”, ter
sexo com penetração com outra pessoa além do parceiro, o que é
comumente reconhecido como swing, apesar de não ser necessa-
riamente o tipo mais comum; “sexo grupal”, todas as atividades
envolvendo múltiplos parceiros no mesmo ambiente.
Uma notícia do canal ABC News (“The lifestyle – real life
wife swaps”) indica que, de acordo com estimativas do Instituto
Kinsey e de outros pesquisadores, nos Estados Unidos mais de 4
milhões de pessoas eram praticantes de swing em 2006. O site
Swing lyfestyle oferece uma lista de clubes de swing em todos os
estados norte americanos e em diversos países do mundo.
É possível encontrar na internet muitos artigos estrangeiros
sobre a prática do swing em diferentes países, mas principalmen-
te nos Estados Unidos, Inglaterra e França. Alguns artigos datam

61
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

dos anos 1970, entre pesquisadores da temática da sexualidade4.


Artigos mais recentes falam das transformações sofridas pela prá-
tica e da sua expansão ao longo dos anos, da questão da AIDS e
de doenças sexualmente transmissíveis (DST), da prática bisse-
xual feminina no swing, da relação entre a indústria do turismo
e práticas como o swing, do papel de sites de clubes e páginas
pessoais de casais na internet para a disseminação da prática e
ainda do swing como um estilo de vida e uma alternativa ao ca-
samento tradicional5.
Já foram feitos alguns filmes que têm como tema a troca de
casais. Um dos mais conhecidos é o documentário do diretor Da-
vid Schisgall, The Lifestyle: swinging in America, do ano de 2000.
Outro documentário, chamado pelo fundador da Organização Li-
festyle de “a mais completa e honesta explicação do lifestyle que
eu já vi até agora”, chama-se PlayCouples e foi lançado em 2003,
sob a direção de Michael A. Bloom. Há ainda o filme holandês
“Swingers”, que conta as primeiras experiências de um casal pra-
ticante de swing.
Em 1998 realizou-se na cidade de Toulouse, na França, sob a
direção do sociólogo Daniel Welzer-Lang, o primeiro seminário
europeu sobre o Échangisme (nome francês para designar a práti-
ca do swing), com a colaboração das universidades de Toulouse,
Barcelona e Rovira i Virgili (Tarragona). Welzer-Lang (1998) es-
tima entre 200.000 e 400.000 pessoas a população swinger fran-
cesa. Rettore (1998) e Karottki (1998) também contribuíram para
este seminário dando um panorama da prática do swing na Itá-
lia e em Barcelona. Karottki aponta a existência de 10 clubes de
swing na cidade de Barcelona.

4 Ver, por exemplo, Henshel (1973), Denfeld & Gordon (1970), Cole & Spanier (1975), Butler (1979).
5 Ver, por exemplo, Jenks (1998), Worthington (2005), Dixon (2000), Rubin (2001), Powell (2006).

62
Olivia Von Der Weid

Um ponto que gostaria de ressaltar nesta contextualização do


swing no mundo ocidental é a inserção desta prática em um mer-
cado sexual e turístico mais amplo. Ao redor deste tipo de com-
portamento encontram-se não apenas os clubes de swing, mas
o consumo de produtos relacionados à indústria pornográfica,
como revistas, produtos de sexy-shop, filmes etc. Muitos eventos
e encontros swingers, principalmente internacionais, são realiza-
dos em resorts, hotéis, cruzeiros, Spas. Existem várias agências
de turismo internacionais que trabalham com roteiros especiais
para casais adeptos da prática, promovendo viagens em diferen-
tes países. México, França e Caribe são destinos bastante procura-
dos. De acordo com Gould (1999), os swingers têm a sua própria
indústria de viagens e mais de uma dúzia de resorts 4 estrelas
localizados no México e no Caribe. Ainda segundo o autor, exis-
tem mais de 400 clubes formalmente associados em 24 países e
milhares de clubes informais ao redor do mundo.
Em estudo que resulta de 10 anos de pesquisa nos Estados
Unidos, Bergstrand e  Sinski (2010) apresentam o swing como
uma das práticas contemporâneas de casamento heterossexual
alternativo, em que o casal decide, juntos, praticar sexo recreati-
vo, seja com um outro casal, seja com uma pessoa sozinha, mas
de todo jeito é sempre em conjunto que participam dessa prática.
A diferença entre uma relação extraconjugal e o swing é que os
parceiros concordam em ter sexo com alguém de fora juntos, não
há segredo ou mentira envolvidos. O swing combinaria uma mo-
nogamia emocional com a variedade sexual por meio da separa-
ção entre sexo e amor, ponto que discutiremos mais longamente
no decorrer do livro. 

63
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

O swing no Brasil
No Brasil os locais onde se realiza a prática da troca de casais
receberam tanto a denominação de casa de swing quanto de clu-
be, sendo a primeira a mais comum. Optei por manter a denomi-
nação de “casa” para falar dos locais brasileiros onde se pratica
o swing, exceto quando aparece de outra maneira no discurso
dos entrevistados ou no material da mídia, porque foi assim que
encontrei na maior parte dos casos. Algumas implicações dessa
denominação serão levantadas mais adiante.
Não existe informação precisa sobre a quantidade de casas
de swing existentes no Brasil ou sobre o número de adeptos. Esta
prática também se realiza em âmbito privado, em festas particu-
lares ou em motéis, por exemplo. A mídia tem contribuído para
a maior divulgação de práticas como o swing, além de facilitar a
comunicação entre os adeptos. Através da internet tornou-se mais
fácil o contato entre casais praticantes e o celular é garantia de
privacidade e sigilo.
Ao realizar uma pesquisa na internet sobre o swing no Brasil
obtive acesso a inúmeras páginas relacionadas ao tema. As publi-
cações vão desde páginas pessoais de casais (homepages), diários
eletrônicos (blogs) e matérias de revistas e jornais até sites de
casas específicas para adeptos de swing e sites pornográficos. Por
meio de pesquisa em dois sites para casais, “Portal do Swing” e
“Portal dos casais”, obtive informações que indicam a existência
de cerca de 40 casas de swing no Brasil. Percebe-se uma concen-
tração acentuada nas regiões Sul e Sudeste. Nestas regiões se des-
tacam as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, além da cidade
de Porto Alegre.
Uma hipótese para a maior densidade das casas de swing nas

64
Olivia Von Der Weid

grandes capitais está relacionada à questão do anonimato. Em ci-


dades como São Paulo e Rio de Janeiro, onde impera a velocidade
dos acontecimentos e a atitude, já identificada por Simmel (2005)
em habitantes de cenários urbanos, de reserva e indiferença mú-
tuas, práticas como a troca de casais podem existir discretamen-
te, com a garantia da impessoalidade e do sigilo daqueles que a
praticam.
Uma das dificuldades que me deparei em fase inicial da pes-
quisa foi encontrar um lugar apropriado para a realização das
entrevistas. Tendo em vista a garantia do anonimato dos entre-
vistados, precisava de um local que não fosse muito barulhento,
ou seja, não poderia ter música (ao vivo ou ambiente) e muito
menos pessoas ao redor, já que o teor das entrevistas era extre-
mamente privado. A solução encontrada para a maior parte dos
casos foi realizar as entrevistas na própria casa de swing onde
aconteciam as festas, em horário anterior ao início do evento. Em
outros casos, em fase mais avançada, entrevistei os pesquisados
em suas próprias residências e uma entrevista foi realizada em
um shopping center.
Há ainda algumas colocações sobre a abertura e fechamento
de estabelecimentos como as casas ou clubes de swing. O primei-
ro estabelecimento que visitei para a pesquisa localizava-se no
bairro do Jardim Botânico, nas dependências de uma terma. As
festas de swing já não acontecem mais no local, apesar da terma
ainda funcionar. Outras três casas em funcionamento na época
(em 2003) também fecharam: Paraíso dos Casais, Par ou Ímpar
e Cravo e Canela. Esta última era conhecida por ser a única casa
que se localizava na Zona Norte. O estabelecimento onde realizei
a maior parte da pesquisa de campo também não existe mais.
Entre 2003 e 2007, pelo menos outras quatro novas casas foram

65
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

inauguradas. Na cidade do Rio de Janeiro, os sites citados apon-


tavam onze casas de swing em 2007 e era possível verificar uma
concentração maior nas Zonas Oeste e Centro da cidade, com
quatro estabelecimentos em cada região. Ao rever o texto para
publicação do livro, entretanto, pude constatar que boa parte dos
estabelecimentos listados em 2007 estavam fechados 2015, um
novo também abriu, mas a lista havia diminuído para cinco. É
notável, portanto, que a rotatividade é grande nesse tipo de ramo.
A internet é um veículo importante para a divulgação da prá-
tica do swing e grande parte dos contatos entre os casais é feito
por meio de anúncios em sites especializados e pela criação de
páginas pessoais na rede. Essa é uma mudança que parece rela-
tivamente recente, uma vez que o casal Laura e Lucas revelaram
que, quando se iniciaram na prática, os contatos eram feitos atra-
vés de anúncios em revistas especializadas, como a Private, por
exemplo. Em uma matéria da revista Nova, edição de maio de
2002, os idealizadores do site “Swingers do Brasil” dão seu depoi-
mento revelando que em seis anos o número de assinantes do site
tinha passado de 1 mil para 23 mil.
Ana e André disseram que uma de suas primeiras atitudes em
direção ao swing foi colocar um anúncio em um site na internet.
Por meio dele, receberam e-mails que resultaram no primeiro en-
contro com outro casal adepto da prática. As novas possibilidades
de comunicação virtual, via mecanismos como MSN, Skype, fa-
cebook, whatsapp e outros, auxiliam ainda mais a aproximação e
a abordagem entre casais adeptos. Com a webcam, do celular ou
do computador, os casais podem se conhecer antes do primeiro
encontro e de alguma maneira controlar os riscos de uma primei-
ra vez mal sucedida. De acordo com os pesquisados, entretanto,
a melhor maneira para um casal se iniciar na prática é visitar

66
Olivia Von Der Weid

uma casa de swing. Acredito que a própria abertura de casas de


swing e sua divulgação a um público mais amplo é um processo
que se intensificou com o desenvolvimento e a assimilação social
das novas tecnologias (computador, internet, celular), já que a
programação das festas e dos eventos é divulgada eminentemente
online.
Além do material virtual disponível nos sites da internet que
tratam sobre o tema, começam a surgir alguns livros e material
impresso que abordam a prática do swing. Otavio Frias Filho,
diretor do jornal Folha de São Paulo, em seu livro “Queda Livre”,
publicado em 2003, relata experiências que classifica de “inves-
tigações participativas” em sete “ensaios de risco”. Em um deles,
intitulado “casal procura”, descreve suas aventuras em visita ao
mundo do “sexo transgressivo”, entre idas a casas de swing e
experiências de casais sadomasoquistas. Sob o pseudônimo de
Belle, surge em 2007 um livro publicado no Brasil de uma mulher
que relata suas experiências como praticante de swing (“Swing: a
vida real de uma praticante da troca de casais”). Marcos Entrenos,
um dos donos da boate 2A2, o clube de swing mais conhecido do
Rio de Janeiro, publicou em 2002 o livro “Um casal entre nós”, re-
unindo histórias de casais adeptos e esclarecimentos sobre a prá-
tica. Até o ano de 2008, quando finalizei o mestrado, não havia
nenhuma referência acadêmica de pesquisadores (antropólogos,
sociólogos ou psicólogos) que tivessem refletido sobre a prática
do swing no Brasil e, nesse sentido, a pesquisa que desenvolvi
pode ser considerada pioneira.

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Swing: “à vera” ou “à brinca”?


No meio swinger pode-se perceber uma disputa pelo que é o
verdadeiro swing e pelo que não é.
Klesse (2006), em estudo sobre o poliamor, demonstra como
a definição e a demarcação das fronteiras desta prática envolve
a noção de distinção de outras práticas, sendo a principal delas
o swing. O discurso dos adeptos do poliamor é um discurso de
“não-monogamia responsável”, sendo o amor o tema central nas
definições da prática. Ser adepto do poliamor abriria a possibi-
lidade de se manter múltiplas e intensas relações de intimidade
com mais de um parceiro, sob um acordo de não-exclusividade.
A ênfase no amor e na amizade para a conceptualização do po-
liamor vem acompanhada de uma menor ênfase na sexualidade.
De acordo com o autor, a ambiguidade das fronteiras entre ami-
zade, parceria e relações amorosas é um importante aspecto do
poliamor. A honestidade e o consenso entre aqueles que resolvem
aderir à prática são características percebidas por Klesse como
essenciais nos discursos sobre o poliamor, o que os aproxima dos
praticantes de swing, sendo que o consenso é resultado de um
processo de negociação.
A palavra “responsável” na definição do poliamor como uma
prática não-monogâmica já coloca de imediato a diferenciação de
práticas que seriam “não responsáveis”, ou “promíscuas”, como
aparece no depoimento dos entrevistados de Klesse. Os discursos
enfatizam a diferença entre os adeptos do poliamor e os pratican-
tes de swing, onde os primeiros teriam poucos parceiros e um
“interesse honesto” em construir uma relação íntima de longa
duração, enquanto os segundos estariam interessados apenas em
sexo casual, em uma aproximação não íntima, fortuita e arbitrá-

68
Olivia Von Der Weid

ria, sexo por prazer. Outra diferença, para eles, é que o swing
estaria enraizado na heterossexualidade, principalmente para os
homens, o que não ocorreria com o poliamor.
Para o autor, a estratégia argumentativa dos adeptos do polia-
mor é uma tentativa de distinção, que procura demonstrar que a
acusação de promiscuidade que recai sobre todas as práticas al-
ternativas ao convencional não se aplica a eles. Klesse lembra que
a cultura gay masculina tem sido patologizada, dentro e fora do
movimento gay, por não enfatizar suficientemente a intimidade e
os laços emocionais. Da mesma forma, os discursos do poliamor
tendem a estabelecer padrões exclusivos para o que deveria ser
considerado uma prática sexual e afetiva ética, o que acaba refor-
çando a marginalização de identidades e práticas sexuais como a
dos swingers, por exemplo, que “buscam sexo por prazer”, têm
um número “não-razoável” de parceiros sexuais, ou não desejam
relações íntimas de longo prazo. A dicotomia que se estabelece
neste caso seria entre o “bom poliamor” e o “mau swinger”. Pi-
lão e Goldenberg (2012), que investigam a prática do poliamor
em contexto brasileiro, também identificam que os poliamoristas
constroem a sua identidade por contraste, se opondo, principal-
mente, a monogamia das relações e casamentos convencionais,
mas também a outras práticas como o swing e o relacionamento
aberto. Constroem uma hierarquização de diversas modalidades
de conjugalidade para justificar sua opção pelo poliamor que,
para os adeptos, seria mais livre, mais igualitário, mais honesto e
mais amoroso do que outras formas de relacionamento.
Outras diferenciações podem ser encontradas no âmbito in-
terno da prática do swing. Internacionalmente, os clubes acei-
tam pessoas de todas as idades e tipos físicos. No final dos anos
1990, entretanto, começou a surgir, em Londres, festas em clubes

69
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

de swing que tentavam de alguma forma delimitar uma idade


máxima para os frequentadores, não só pelos anos em si mas,
principalmente, para fazer um recorte em torno de sua aparên-
cia física (algumas destas festas: Fever Parties, Lounge Parties e a
antiga Belle Baise). Conhecido como “swing seletivo”, as festas
selecionam a entrada por idade e aparência, sendo necessário que
o casal aspirante a frequentador envie fotografias para os organi-
zadores. As festas seletivas são referidas como “exclusivas” ou
“elitistas” pelos seus próprios organizadores.
A idade média dos frequentadores de festas seletivas é um
pouco abaixo dos 30 anos, enquanto nas festas tradicionais a mé-
dia de idade é de 40 anos. Os swingers “tradicionais” criticam
o swing “seletivo” argumentando que é antiético discriminar. O
crescimento do recente interesse pelo “swing seletivo” aumenta
a competição entre os adeptos. Os casais que se identificam com
o swing “tradicional” argumentam que não são “Ken e Barbie”,
rejeitando o que percebem como uma ideal superficial de juven-
tude e aparência física.
O que pude observar no caso do Rio de Janeiro é que, apesar
de não existirem festas seletivas, o público que frequenta as casas
de swing se divide por “tribos”. A primeira casa de swing que
visitei, por exemplo, foi classificada por meus informantes como
uma casa de público “mais velho”. No ano 2000 surgiu um grupo
no meio swinger carioca, o Bonde das Ninfas, que se distinguia
dos casais swingers tradicionais por fazer uma apologia à juven-
tude, beleza e à prática bissexual feminina. O texto encontrado
em seu site sugere que o grupo teria sido fundado como uma rea-
ção ao preconceito de casais “mais experientes” em relação a ida-
de, práticas sexuais e tipo de vínculo afetivo de seus integrantes:

70
Olivia Von Der Weid

O BDN surgiu como uma brincadeira de jovens ca-


sais que vieram da cultura GLS feminina e se tornou
uma forma de auto defesa contra os casais mais ex-
perientes, do meio swinger propriamente dito, que
sempre que se encontravam em clubes de casais,
acabavam por rotular os futuros fundadores do BDN
perante os frequentadores já conhecidos, como um
grupo de ninfetos com preferência pelo bissexualis-
mo feminino, onde alertavam qualquer casal que
estes jovens não deveriam receber atenção, pois não
eram “confiáveis” como os casais realmente casados
e “vividos” como eles.

O grupo contava com cerca de 600 membros, entre casais


(não necessariamente casados) e mulheres solteiras, não sendo
aceita a entrada de homens solteiros no grupo. O perfil do grupo
é definido como “casais bonitos, com esposas lindas de mente
e corpo e de preferência bissexuais!”. O texto termina com um
“ditado popular liberal para reflexão: os feios que me desculpem,
mas beleza é fundamental e inteligência é afrodisíaco...”. Uma das
minhas entrevistadas fala sobre as suas impressões deste grupo:

Criaram esse bonde das ninfas, quase todas são loi-


ras, novinhas, os caras são novos, as meninas são
novas, e eles não se misturam e é quase como se fos-
se assim uma sociedade Rosa Cruz, pra você entrar é
uma coisa difícil. Porque não é qualquer um que faz
parte do Bonde das Ninfas. Sabe? Tem que seguir,
tem que estar dentro daquele critério lá deles, eles
têm que aprovar, tem que ser menina nova, é cheio
de coisas. (Ana)

André, um dos pesquisados, fez uma diferenciação entre os


adeptos da troca de casais: aqueles que fazem swing “à vera” e os
que fazem swing “à brinca”. A expressão “à vera”, de acordo com
sua explicação, viria da expressão “de verdade”, seriam os casais
que são adeptos da troca de casais propriamente dita. No seu

71
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

entendimento: casais mais tradicionais, que não aderem a outros


tipos de práticas comuns no meio, como o ménage, por exemplo.
Já os swingers “à brinca” seriam os que fazem “de brincadeira”,
os que experimentam, além do swing propriamente dito, as va-
riações da prática.
Ana menciona que grande parte do público que vai a uma
casa de swing não chega a realizar a troca de casais, mas vai por
curiosidade, para ver:

Tem muita gente que vai e não faz nada. A grande


maioria vai e não faz nada. São poucos os casais
que vão e chegam junto, que realmente chegam lá e
transam com outros casais, que vai pra uma festa de
solteiros e fica com os solteiros, entendeu? São pou-
cos, a maioria não. Pela minha experiência, pelos
clubes que eu frequento, a grande maioria vai pra
olhar, pra dançar, se exibir, mas na hora do vamos
ver, foge da raia. (Ana)

Este ponto leva a mais uma diferenciação do público que fre-


quenta casas de swing, um público que é fixo, que é adepto da
prática e frequenta as casas com certa regularidade e outro que
é rotativo, que vai apenas por curiosidade, mas que não faz real-
mente a troca de casais. Aparece aí uma oposição entre fazer X
olhar, que acaba por ser complementar, uma vez que uma das
fantasias dos casais adeptos da prática é o exibicionismo. É im-
portante deixar claro que as pessoas que pesquisei eram adeptas
da prática, ou seja, elas faziam a troca de casais e frequentavam
com regularidade as casas de swing.
Uma matéria da revista TPM, de julho de 2007, distingue os
casais adeptos do swing, alguns casados há anos, dos outros fre-
quentadores que vão atrás do que a repórter chama de “balada
liberal”: “Todo mundo já foi – pelo menos uma vez, ‘para conhe-

72
Olivia Von Der Weid

cer’ – ou já ouviu falar de alguma casa de swing. Está na moda.


Como já esteve o karaokê da Liberdade, em São Paulo, ou o buraco
da Lacraia, no Rio”.
Além das casas de swing, parece que alguns lugares entram
nesta “moda” citada na reportagem, recebendo a visita de um
público classe média “moderninho”, atrás de lugares “alternati-
vos”. O “Buraco da Lacraia”, citado na reportagem, é um desses
lugares. A ocupação de bares na vila Mimosa, tradicional zona de
prostituição no Rio de Janeiro, as festas produzidas no hotel Pa-
ris, reduto de prostituição na praça Tiradentes (as festas eram no-
meadas SexArt) e a realização de festas de aniversário e eventos
em suítes de motel são outros exemplos, além das mencionadas
visitas a casas de swing.
Vale lembrar o sucesso de “Bruna Surfistinha”, ex-garota de
programa que relatou suas experiências sexuais em um livro que
entrou na lista dos mais vendidos do Brasil (“O doce veneno do
Escorpião”). Agências de viagens já incluíram em alguns de seus
tours pela cidade do Rio de Janeiro visitas a casas de swing, sen-
do que o público que procura estas visitas guiadas é formado não
apenas por estrangeiros, mas, principalmente, por casais cariocas
que querem conhecer uma casa.
O swing também foi tema de programas de TV, principalmen-
te nas redes de canais fechados. O GNT apresentou, em junho
de 2007, uma série de 5 episódios intitulada “casais modernos”,
dentro da programação “noites quentes”. A prática do swing tam-
bém foi tema do programa da Oprah, além de ter virado assunto
para uma série de tevê (Swingers Party). Uma hipótese que po-
deria explicar a curiosidade e a procura por tais lugares por um
público que aparentemente não quer e não pretende tornar-se
adepto do swing é a influência da mídia para uma certa “natura-

73
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

lização” destas práticas. A exibição de programas que mostram a


prática do swing, como se comportam os casais adeptos e onde
a prática é realizada acaba tornando o que antes era considerado
exótico mais familiar e mais próximo, estimulando o “turismo” e
a “visita” a estes locais. A sempre crescente curiosidade do pú-
blico a respeito de lugares ou experiências sensoriais novas pode
ser relacionada a sistemática exploração do corpo humano como
sede de uma busca indefinida pela exacerbação da sensibilidade,
do refinamento ou da intensificação do prazer de que nos fala
Duarte (1999).

Casa de swing ou clube de swing?


Com os famosos conceitos elaborados por DaMatta (1985)
para compreender a organização social dos espaços privados e
públicos no Brasil, proponho pensar a organização espacial e sim-
bólica de um clube de swing ou - como é mais amplamente co-
nhecido no Brasil - de uma casa de swing. Parto da ideia do autor
de que o espaço se confunde com a própria ordem social, não
existindo como uma dimensão social independente ou individua-
lizada, mas sim misturada, interligada ou embebida em valores
que servem para a orientação geral.
Pode-se pensar em uma festa de swing (realizada em geral
nestas casas especializadas) como um momento de carnavaliza-
ção, onde, segundo DaMatta (1985), estaria aberta a possibilida-
de do diálogo entre categorias divergentes que no mundo diário
estão subordinadas pelas hierarquias. Carnavalizar seria criar um
espaço ambíguo, formar triângulos, relacionar pessoas, catego-
rias e ações sociais que, normalmente, estariam soterradas sob o
peso da moralidade sustentada pelo Estado.

74
Olivia Von Der Weid

Focalizando a ideia ressaltada pelo autor de se estudar o que


está “entre” as coisas para compreender a sociedade brasileira –
uma sociedade relacional – gostaria de refletir sobre o swing, a
prática em si e os locais onde se realiza, como um espaço simbó-
lico entre a casa e a rua.
A associação imediata ao se pensar sobre a prática do swing,
em que está em evidência o sexo casual com indivíduos anôni-
mos, é relacioná-la ao universo da rua. Em uma casa de swing,
como na rua, reinam os imprevistos, os acidentes e as paixões. A
prática pode ser associada a valores modernos onde a lógica é a
da individualização, da impessoalidade, o “cada um por si”. Na
rua, como lembra DaMatta (1985), as relações têm um caráter
indelével de escolha. Os casais adeptos do swing, ao aderirem à
prática, adotam apelidos que mantém anônimas suas identida-
des. Ao entrarem no mundo perigoso da rua, onde o controle so-
cial se torna mais frouxo, local de luta e malandragem, procura-se
defender a identidade da casa, através da adoção de apelidos que
garantem o sigilo e a impessoalidade.
Porém, toda a atmosfera de surpresa e falta de controle que
ronda a prática sofre significativas alterações ao se observar o
funcionamento de uma casa de swing. O clima de movimento,
novidade e ação ainda são parte do ambiente, mas uma observa-
ção mais acurada revela tentativas de controle e organização das
ameaças características da rua. A porta de entrada é o primeiro
local onde alguma ordem se insinua: em geral só é permitida a
entrada de casais. Para os solteiros, a entrada se restringe a certos
dias específicos da semana. A presença de casais “armados” (ho-
mem acompanhado de uma prostituta) é altamente indesejável e
os casais procuram maneiras, seja na roupa ou no comportamen-
to, de identificar os “armadores” e afastá-los. Um esforço claro de

75
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

diferenciação, para que as pessoas não sejam tomadas pelo que


não são. A mulher, mesmo que no mundo do movimento e do
mais pleno anonimato da rua, é esposa e não pode ser confundi-
da com “mulher da vida”. A tentativa de diferenciação fica clara
no discurso de Júlia ao falar de uma casa de swing carioca:

Eu acho que casal é casal. O 2A2, em Copacabana,


tem muito homem com aquelas prostitutas de Co-
pacabana. Por isso que eu também não achei legal.
Porque aí foge da proposta da coisa que é você co-
nhecer casais que já estão juntos há muito tempo,
entendeu, então eu acho que não é a proposta do
lugar. (Júlia)

No grupo de pessoas que entrevistei e no material de mídia


pesquisado aparecem as regras de convivência e de respeito à
vontade do casal como fundamentais para o bom funcionamento
das festas. Algumas regras sugeridas são: a abordagem sutil, sa-
ber receber e entender um “não” ou só se aproximar de alguém
na presença de seu(a) parceiro(a). Nos dias onde a entrada dos
solteiros é permitida procura-se explicitar ainda mais tais regras,
em uma tentativa de garantir que o “ninguém conhece ninguém”
não se transforme, como no mundo da rua, no “ninguém é de
ninguém” (DaMatta, 1985).
Lembrando a ideia de gradação ou continuum na ordenação
dos espaços da casa e da rua é interessante analisar a divisão es-
pacial de uma casa de swing. Uma matéria da revista Marie-Claire
(“Swing: sexo sem limites”) descreve da seguinte maneira a en-
trada e a organização do ambiente:

A arquitetura das casas de swing é semelhante. Logo


depois do balcão de recepção, o espaço se abre para
uma área social como a de uma boate convencional:
mesas para quatro e duas pessoas, bar com balcão,
pista de dança, telão de vídeo e palco para shows.

76
Olivia Von Der Weid

A descrição e a planta da primeira casa de swing que fui, no


capítulo anterior, confirma a semelhança de arquitetura das casas
de swing mencionada na matéria. A recepção é como o hall de
entrada, passagem do mundo exterior para o interior. Segue-se a
boate, com as mesas ou sofás e o bar, podendo ser comparada à
sala de visitas, local onde as pessoas se encontram e se conhe-
cem, espaço intermediário entre a casa e a rua. A divisão dos
espaços em uma casa de swing parece seguir a lógica do maior
ou menor grau de intimidade permitida, possível ou abolida do
universo da casa descrito por DaMatta.
Para passar aos ambientes mais íntimos, onde as relações
sexuais efetivamente acontecem - o equivalente aos quartos de
dormir – é preciso atravessar um corredor ou subir uma escada,
a ponte entre o público e o privado. No espaço dos quartos, há
ambientes com níveis variados de privacidade, quartos com tran-
ca na porta, quartos com janelas de treliça ou de vidro e o quarto
coletivo, como observei na descrição da casa de swing. A mesma
matéria relata:

Do aquecimento à prática sexual, a clientela esco-


lhe em qual canto quer ficar. As cabines, projetadas
para exibicionistas e voyeurs, são salas de tamanho
médio ocupadas por gente que não se importa em
transar sob o olhar alheio. Algumas são envidraça-
das, parecendo um aquário enorme. Outras têm ja-
nelas com cortinas - o interessado em exibir o que
acontece lá dentro pode abri-las, há a opção das ca-
bines privês (as mais sem graça), com sofá para até
quatro pessoas.

As janelas dos quartos aparecem neste caso com a função es-


pecialmente ambígua de união do mundo exterior com o interior,
entre os que praticam o swing e os que desejam ver o movimento,

77
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

a comunicação entre o de dentro e o de fora. Sobre esta oposição


básica na sociedade brasileira entre o “ver” e o “fazer”, acredito
que o que acontece no swing se aproxima da complementarieda-
de observada por DaMatta (1985) tanto na relação entre a casa e a
rua - através das janelas e determinados espaços da casa – quanto
no que ocorre no carnaval, onde existem as pessoas que fazem
coisas e as que simplesmente olham.
Algumas relações criadas no mundo swing tornam-se víncu-
los de amizade. Muitos passam a frequentar as casas de pessoas
que conheceram em uma casa de swing, viajam com eles e seus
parentes e filhos, fazem programas “caretas” como ir ao cinema
ou sair para jantar. Com a formação de um novo grupo de ami-
gos, que compartilham do mesmo tipo de prática sexual, algumas
vezes as antigas amizades são postas de lado, passando a ser
percebidas como pouco interessantes.

Você quando abre o seu leque e entra nesse mun-


do você vê que são assim muitas pessoas, centenas
de casais, com histórias, com famílias, com tudo,
quer dizer, você não se sente tão assim à margem
da sociedade. Muito pelo contrário, você cria uma
nova sociedade para você e você acaba esquecendo
um pouco, os amigos, digamos assim, caretas entre
aspas. Você acaba querendo só ficar naquele meio,
que é um meio que você tem liberdade de conversar
sobre o que você quiser, falar sobre as suas intimi-
dades. (Daniela)

As duas denominações usuais dos espaços onde se realizam


as festas de troca de casais, casa de swing ou clube de swing, são
especialmente reveladoras da ambiguidade dos valores envolvi-
dos. Por um lado, relações de amizade e às vezes até de paren-
tesco6, ligadas ao corpo e ao sangue que, como lembra DaMatta

6 A irmã de uma das entrevistadas também chegou a frequentar festas de casais.

78
Olivia Von Der Weid

(1985), devem ocorrer e ser engendradas pelo espaço da casa. Por


outro lado, as relações naquele ambiente também implicam esco-
lha e vontade, como as exemplificadas pelo autor em associações
voluntárias como um clube, sendo parte do mundo público, do
domínio da rua. Dessa forma, de maneira singular, os ambientes
onde se pratica o swing parecem articular aspectos da casa com
características da rua.

Três é ímpar: a situação dos solteiros


Nem todos os casais adeptos do swing praticam apenas a
troca de casais. Muitos também realizam o ménage, masculino
ou feminino, prática sexual onde participam o casal e mais uma
terceira pessoa, homem ou mulher. As casas de swing do Rio de
Janeiro costumam ter, em sua programação semanal, um ou dois
dias específicos onde é permitida a entrada de pessoas solteiras.
Nas entrevistas, pude perceber que, para alguns casais, o mé-
nage é uma das situações que mais gera excitação. Realizar a fan-
tasia de se relacionar sexualmente com duas mulheres ao mesmo
tempo (no caso feminino com dois homens) é uma das possibili-
dades que esta prática permite.

Qual homem que não gostaria de estar numa boa-


te onde ele pudesse no mesmo dia conhecer, bater
papo e transar com sua mulher e transar com ou-
tra mulher? O homem que disser para você que não
gosta disso vai estar mentindo, é hipócrita”. (Guto)

Outra entrevistada, Carolina, acrescenta: “no ménage mascu-


lino já eu gosto que ele esteja junto, porque eu me sinto assim
poderosa com dois homens a minha disposição”.
Um elemento que parece causar excitação no ménage é a pos-

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

sibilidade de assistir o parceiro se relacionando com outra pessoa.


Muitos homens dizem ter prazer ao ver suas parceiras mantendo
relações com outros homens e, apesar de em menor número, as
mulheres também respondem que gostam de ver a performance
sexual de seus parceiros com outras mulheres.

O que me excita, é quando ela fica com tesão pelo


outro cara. O legal do swing é você ver o seu par-
ceiro ficar com tesão, sentir que tá gostando, não
é fazer para te agradar, não tem graça. Você ver a
trepada, a mulher participando, gostando, tomando
iniciativa, é isso que dá tesão. (André)

Já uma entrevistada diz:

Eu senti muito tesão de ver ele transando com outra


pessoa. É como se eu me visse do lado de fora, pu-
desse ver tudo. Porque quando você está transando
com uma pessoa, principalmente nós, a gente não
consegue ver muita coisa, porque a gente ou está
de costas ou está de frente, se tá de frente não está
vendo nada. Eu não, eu podia analisar, ver todas as
posições, ver tudo isso e me deu muito tesão e daí a
gente continuou. (Daniela)

No entanto, a inserção da terceira ponta do triângulo não se


dá sem conflitos. Percebe-se que a presença do solteiro, homem
ou mulher, gera um certo desequilíbrio, pois uma vez que não
tem um parceiro ou parceira para trocar e, portanto, “nada a per-
der”, este indivíduo representaria uma ameaça à estabilidade do
casal.

Enquanto só existe casal você sabe que naquele ou-


tro casal tem um sentimento entre aquelas pessoas,
existe um vínculo, existe um compromisso entre
eles. Então se resume única e exclusivamente a uma
troca pelo prazer. Quando existe a figura da pessoa
solteira, feminina ou masculina, ela não tem envol-
vimento com ninguém, não tem compromisso com
ninguém, então você está se expondo a acabar tendo

80
Olivia Von Der Weid

um sentimento ou algum vínculo com aquela pes-


soa. É muito mais arriscado quando rola o parceiro
solteiro do que quando rola o casal. (Ivan)

Para eles, todo cuidado é pouco e certas precauções são to-


madas pelos casais adeptos do ménage a fim de protegerem seus
relacionamentos. Uma das atitudes adotadas neste sentido foi a
criação de encontros com o objetivo de ensinar aos solteiros as
regras de comportamento em relação a um casal praticante de
swing. Nesses encontros relatava-se que muitos solteiros não sa-
bem o limite entre o assédio e a falta de respeito. Os pesquisados
comentavam que a mentalidade do homem solteiro é a de que se-
ria vantajoso ir a uma casa de swing por ser “uma grande suruba
com preço reduzido”. Outros acham que, porque pagaram, têm o
direito “transar” com qualquer mulher.
Os encontros organizados em dia de ménage tinham o claro
objetivo de ensinar para os solteiros as regras de convivência dos
casais e a maneira como devem proceder em uma casa de swing.
Os temas focalizados foram o respeito à vontade do casal, a me-
lhor forma de abordagem, a importância da sedução na hora da
conquista.
Procurava-se deixar claro que a presença dos solteiros em ca-
sas de swing é uma concessão dos casais e, portanto, eles preci-
savam se adaptar às suas vontades e às suas regras. Os homens
ressaltavam que numa casa de swing estavam acompanhados de
suas mulheres, os solteiros que frequentam não vão encontrar
“putas” em tais lugares. A mulher é quem determina se alguma
coisa vai ou não acontecer com o solteiro interessado. Segundo
os pesquisados, o solteiro não escolhe a mulher com quem quer
se relacionar numa casa de swing, ele é escolhido. Um dos pon-
tos ressaltados é que seria fundamental saber aceitar um “não” e
aprender a lidar com a rejeição.
Embora o desequilíbrio gerado pela presença da terceira pes-

81
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

soa possa ser causado tanto pelo homem quanto pela mulher
sozinha nota-se que a frequência masculina é muito mais signi-
ficativa do que a feminina. Portanto, as casas criam mecanismos
para controlar o número maior de homens solteiros e favorecer
o de mulheres solteiras. Em geral só deixam entrar, nas noites
de ménage, homens ou mulheres que estiverem acompanhados
de casais. Esta regra, porém, não é tão rígida para as mulheres.
Algumas casas limitam a entrada de homens pela quantidade de
casais que já ingressaram. O preço para os solteiros costuma ser
muito mais elevado do que para as solteiras. Em alguns lugares a
mulher solteira, se estiver acompanhada de um casal, não precisa
pagar ingresso.
Uma das casas de swing carioca divulga em seu site a festa
“Sexta Sexy Ménage”, que aceita solteiros, com os preços dos
ingressos por gênero e situação conjugal. Nota-se a gritante dife-
rença no preço da entrada de homens e mulheres desacompanha-
dos e, ainda, a necessidade de realização de reserva para o caso
masculino:

82
Olivia Von Der Weid

Outra casa, em noite de ménage, apresenta seus preços, jun-


tamente com um texto relativo aos homens solteiros:

Ingresso por Casal - R$ 130,00


Solteira – R$ 20,00 (Ingresso Ilimitado)
*Solteiro - R$ 350,00 - (Ingresso Limitado a 7 e
com reserva)
*Reservamos as quintas-feiras para a realização
de mais esta fantasia. Aceitamos solteiros/ho-
mens (somente às quintas-feiras), porém com
algumas restrições/regras, tais como: Serem só-
cios da casa e/ou amigos de casais e/ou esta-
rem acompanhados de casais e/ou conhecidos
do staff com o perfil adequado e em número
restrito. Não será permitida nenhuma atitude
deselegante ou inadequada por parte dos soltei-
ros. Todos são devidamente informados que a
casa pertence aos casais e orientados para que
a educação, gentileza e a discrição sejam a má-
xima do comportamento”.

É fácil notar que, quando se trata da entrada de solteiros em


uma casa de swing, a presença feminina é bem vinda e inclusive
facilitada, enquanto a masculina sofre severas restrições. A res-
salva em relação aos homens solteiros parece acontecer por duas
razões, a quantidade de homens que procuram estes lugares e a
forma como se comportam.
Um quadro montado a partir do somatório de anúncios pu-
blicados em um site de casais swingers na internet é interessante
para pensar esta questão:

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Procurando... Anúncios (com fotos)


Casal – Casais 1.270
Casal – Mulheres 862
Casal – Homens 530
Mulher – Casais 33
Mulher – Mulheres 27
Mulher – Homens 38
Homem – Casais 1.115
Homem – Mulheres 1.033
Homem – Homens 40

Um dado que chama atenção é que o número de mulheres


que toma a iniciativa de colocar um anúncio nesse tipo de site é
significativamente menor do que o número de homens. Enquan-
to os homens têm um total de 2.189 anúncios, as mulheres têm
apenas 98. A única categoria que apresenta um perfil masculino
e feminino semelhante é a de quem está buscando alguém do
mesmo sexo: mulheres têm 27 anúncios deste tipo, enquanto ho-
mens têm 40. A quantidade de anúncios de homens sozinhos se
aproxima bastante aos anúncios de casais, que têm um total de
2.662 anúncios. Percebe-se que o número de casais que procuram
mulheres é mais alto do que os que procuram homens (862 con-
tra 530), o que corrobora a ideia de que as mulheres são mais de-
sejadas neste meio do que os homens. A quantidade de homens
que procuram casais é significativamente superior à de mulheres
(aproximadamente 43 vezes maior), demonstrando – ao lado das
observações feitas sobre a frequência das casas em dias de mé-
nage - que a procura por este tipo de prática é muito maior entre
homens sozinhos do que entre mulheres.

84
Olivia Von Der Weid

Nos encontros, apesar de argumentarem que as regras de


abordagem e conduta em uma casa de swing valem tanto para
homens quanto para mulheres sozinhas, os casais se dirigiam o
tempo todo aos indivíduos do sexo masculino ali presentes, suge-
rindo que o problema do mau comportamento de pessoas soltei-
ras está muito mais relacionado aos homens do que às mulheres.
Em um dos encontros ouvi um relato de uma frequenta-
dora, solteira, que disse que os próprios homens solteiros têm
preconceito com as mulheres sozinhas que frequentam esses
lugares. No imaginário de alguns, tais mulheres estariam mais
próximas da acusação de “galinhas” ou “putas”, por se dis-
porem a ir desacompanhadas a uma casa de swing. A mulher
reclamava que os homens solteiros precisavam respeitar não
só as casadas, mas também as solteiras, ressaltando que não
podiam achar que “a mulher, só porque está solteira numa casa
de casais, vai transar com todo mundo”.
Tanto a diferença quantitativa quanto a qualitativa (tipo
de conduta) entre mulheres e homens solteiros que frequen-
tam as casas podem ser relacionadas a uma determinada moral
sexual ainda vigente em nossa sociedade, que estimula que
os homens tenham um grande número de parceiras sexuais,
enquanto as mulheres devem ser mais controladas, já que po-
dem sofrer a acusação de serem promíscuas. O homem que
se relaciona sexualmente com muitas mulheres é considerado
“garanhão”, enquanto a mulher com o mesmo comportamento
é “galinha” (DaMatta, 1997).

85
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Swing: dentro ou fora da ordem?


Gilberto Freyre, em março de 1980, concedeu uma entrevista
à revista Playboy, onde revelou sua opinião a respeito de diversos
comportamentos sexuais. Quando perguntado sobre o que pensa-
va de práticas como o sexo grupal e a troca de casais - segundo
o repórter, em moda na época - Freyre respondeu da seguinte
forma:
Eu temo que essas práticas favoreçam muito o aca-
nalhamento, mas acho que são admissíveis. O mé-
nage à trois, por exemplo, quando os três conhecem
o assunto e se toleram mutuamente, numa espécie
de consórcio, é perfeitamente admissível e é até uma
espécie de homenagem.

Em 2004, o jornal O Globo publicou a matéria “Os Novos Li-


bertinos”, que tratava da prática do swing, com depoimentos de
alguns casais (que preferiram não revelar suas identidades) e com
algumas fotografias tiradas em casas de swing, todas sem mostrar
o rosto. Na semana seguinte uma leitora comenta a reportagem
em uma carta publicada pela revista:

Há assuntos, como o que foi abordado na reporta-


gem “Os novos libertinos”, que nós leitores prefe-
ríamos desconhecer. É assunto para o cantinho de
alguma página, com muita discrição. Os conceitos
estão todos errados. Tenta-se perverter o bem com o
mal e torná-los a mesma coisa. Atividades como es-
sas não podem ser chamadas de programa familiar.
Não queremos que nosso país regrida séculos, aos
tempos da Grécia libertina e corrompida. Muitos ho-
mens se tornaram mártires para libertar esses povos
da profunda corrupção carnal e espiritual em que se
encontravam.

86
Olivia Von Der Weid

Entre os casais que entrevistei todos se preocupavam com


a preservação de suas identidades, identificando-se na internet
através do uso de apelidos. “Fora do meio swinger ninguém sabe,
nunca. Só os outros swingers sabem. Familiares, irmão, primos,
pais, ninguém sabe” (Lucas). Um dos grandes receios dos pesqui-
sados é encontrar uma pessoa conhecida em uma casa de swing.
Segundo uma pesquisada:

As pessoas têm preconceito, as pessoas olham para


você como se você fosse um E.T., como se você fos-
se uma promíscua, como se você fosse uma... sei lá,
uma puta que dá para todo mundo, as pessoas não
encaram como uma fantasia, não encaram como a
sua sexualidade, com o que você está a fim de fazer.
(Ana)

Em coluna intitulada “O swing visto de fora”, encontrada no


site Erotikafantasy, um casal critica as reportagens sobre o tema
veiculadas na mídia, as quais, segundo o casal, costumam abor-
dar o swing como “um mundo de libertinagem, sordidez, imoral,
onde tudo o que importa é fazer sexo”.
A frase de abertura da página de uma casa de swing na in-
ternet parece apresentar uma defesa para as acusações de trans-
gressão que o meio e os casais adeptos recebem: “Este website é
dedicado exclusivamente ao swing, portanto não existe nenhum
tipo de promiscuidade ou prostituição”.
Becker (2008), ao pesquisar o comportamento desviante, en-
contra que as pessoas que se envolvem em atividades conside-
radas desviantes costumam enfrentar o problema de que a sua
concepção sobre o que fazem não é partilhada por outros mem-
bros da sociedade. Existindo oportunidades de interação entre as
pessoas que se envolvem nessas atividades, o autor indica que
é provável que desenvolvam uma cultura, constituída em torno

87
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

dos problemas decorrentes das diferenças entre sua definição do


que fazem e a definição adotada por outros membros da socie-
dade. Segundo Becker, possivelmente, os grupos desviantes de
uma sociedade construirão uma “racionália”, uma ideologia que
fornece razões aos indivíduos para permanecerem com seu com-
portamento. Tal ideologia contém, muitas vezes, um repúdio ao
mundo convencional e às regras nele vigentes.
As passagens acima ilustram bem a discordância entre os
adeptos do swing e os que condenam este tipo de prática, clas-
sificando-a como promíscua, imoral ou libertina. Já a racionália
swinger parece refletir um valor muito presente na atualidade, o
hedonismo, aqui entendido como uma busca pelo prazer e pela
valorização do indivíduo. Procura-se, a partir da crítica a padrões
de comportamento tradicionais, edificar novas formas de relacio-
namento, condizentes com os desejos e vontades pessoais (Sim-
mel, 2001). O depoimento de Lucas sobre sua opção pela prática
do swing, em contraste com o que considera ser o cotidiano de
casais comuns, pode ser interpretado nesta direção. Sua identi-
dade swinger é construída em oposição ao que seria a conduta
normal em relação à sexualidade na sociedade atual:

Com o tempo, o que ia acontecer com o nosso casa-


mento? 15 anos [há 8 anos faziam swing] . Dizem
que a primeira crise é aos 7, nós já vivemos duas
vezes isso e mais 1. A qualidade de vida que nós te-
mos como um casal swinger é incomparável a de um
casal que não seja. É um casamento sem mentiras.
Você quer acabar com o meu final de semana? Diz
que a minha mulher vai viajar. Com outros casais o
marido comemora: oba, a censora, a controladora
não está aqui. Eu espero que passe um filme bom na
TV. Estando com minha mulher eu tenho a possibili-
dade de estar todo final de semana com uma mulher
casada, mãe de família, bonita e limpa, diferente. Já
se eu estou sozinho... (Lucas)

88
Olivia Von Der Weid

Praticar swing aparece no discurso dos pesquisados como


uma forma de viver o desejo livremente. Alguns praticantes se
consideram como parte de um “mundo liberal”. A chamada para
o website de uma casa de swing é sugestiva: “Elegante, sensual,
discreto e de vanguarda, assim como você”. O argumento que mar-
ca a distinção que os swingers fazem da sua forma de relaciona-
mento em relação ao modelo tradicional, pode ser associado à
noção de perfectibilidade, apontada por Duarte (1999) ao discutir
a sexualidade contemporânea. A perfectibilidade se expressa na
ideia de que a espécie humana é dotada de uma capacidade de
se aperfeiçoar indefinidamente, percebida em expressões como o
desenvolvimento, a transformação ilimitada, a vanguarda. É pos-
sível identificar no discurso dos entrevistados a respeito de sua
prática, que consideram “inovadora”, a valorização de um estilo
de vida que privilegia o novo sobre o “tradicional”, identificada
por Duarte como um dos aspectos presentes desde o século XVIII
na caraterização de um dispositivo da sexualidade.
O medo de sofrer acusações de promiscuidade e imoralidade
presente no discurso dos entrevistados e a evidente depreciação
da prática expressa na carta ao jornal citada anteriormente po-
dem ser interpretados a partir da concepção de Douglas (1976)
sobre pureza e perigo. As práticas sexuais destes casais estariam
na fronteira do que se concebe como sexualidade legítima de um
casal em nossa sociedade. Estando nas margens, se apresenta pe-
rigosa e os discursos que acusam este tipo de prática aparecem
como uma maneira de reafirmar e demarcar a ordem da morali-
dade. Como lembra Bento (2006), o processo de criação das mar-
gens e dos seres abjetos é parte do processo de criação de iden-
tidades. Discursos que, mediante alguns pontos de identificação,

89
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

geram as margens, voltando a eliminá-las por meio dos insultos


ou outras evocações prescritivas dirigidas a elas, preservando as-
sim, a identidade “normal” de contaminação.
Velho (2002) afirma que a acusação de desvio contém sem-
pre uma dimensão moral que aponta para uma crise de certos
padrões que dão sentido a um estilo de vida em uma sociedade.
Para o autor, o desviante funciona como um delimitador de fron-
teiras, permitindo que a sociedade se descubra pelo que não é ou
não quer ser. A lógica do discurso acusatório parte de uma diver-
gência e chega à caracterização de certos comportamentos como
nocivos a toda a vida social, classificando-os como moralmente
condenáveis.
É possível pensar, com Velho, que um dos grandes paradoxos
da sociedade moderna é gerar diferenciação e ao mesmo tempo
não conseguir conviver com ela, a não ser por meio de mecanis-
mos discriminatórios. O resultado desse processo seria o que o
autor chama de coerção normalizadora, uma produção ininter-
rupta de indivíduos considerados desviantes.
O medo de sofrer acusações parece fazer com que os pratican-
tes de swing tenham um zelo especial pela preservação de suas
identidades. Os swingers, fora de uma casa especializada, agem
como pessoas normais e prezam pelo anonimato. Em declaração
para a revista Época, Fabrício (nome fictício) revela “Jamais con-
tamos a qualquer amigo ou parente. A sociedade entende mais a
traição do que o swing”.
No meio swinger, os apelidos são frequentes e o casal é co-
nhecido por nomes que eles inventam. Da mesma forma que a
Outra, os swingers procuram manter seu comportamento oculto,
não deixando que contamine outros campos de sua vida (Golden-
berg, 1997).

90
Olivia Von Der Weid

Quando perguntado sobre os aspectos negativos da prática


do swing, Lucas responde: “negativo é não poder defender lá fora
uma visão sua. Você ouve coisas do tipo ‘gay tem que morrer’,
‘mulher que trai é puta’, ‘homem que trai é garanhão’ e você tem
que concordar com todas essas besteiras”. Heilborn (1996) coloca
que a identidade social dos indivíduos é entendida como um con-
junto de marcas sociais que os posicionam frente a um determi-
nado mundo social, nos lembrando que na cultura ocidental esta
identidade social mostra-se diretamente vinculada à identidade
sexual.
Acredito, como Velho (1981), que existe uma certa variação
nas leituras que os indivíduos ou subgrupos podem fazer de uma
cultura. Aqueles que sofrem a acusação de desviantes não estão
fora da cultura, mas fazem uma leitura divergente. O autor lem-
bra ainda que não é em todas as áreas que a divergência dos valo-
res dominantes aparecerá, existindo aquelas em que o indivíduo
agirá como qualquer cidadão normal.
É interessante notar que, no caso do swing, a possível acusa-
ção de desvio recairia sobre a prática em si e não diretamente so-
bre os indivíduos adeptos. Como mantêm o seu comportamento
em sigilo e não fazem nenhuma demarcação pública no sentido
de reivindicar uma identidade social ou política, suas identidades
individuais permanecem protegidas pelo anonimato. A prática é
desviante, mas não indivíduos determinados, pois estes em geral
se mantém invisíveis para o restante da sociedade.
A discussão de Butler (2003) ajuda a pensar sobre o que se
estabelece como norma social e de que maneira comportamentos
que estão fora desta norma se relacionam e ajudam a reforçar a
ordem. A autora aponta que o Estado se tornou o meio através do
qual o desejo e a sexualidade são reafirmados, conhecidos, decla-

91
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

rados e imaginados como permanentes ou duradouros. Através


do casamento, o desejo pessoal é mediado publicamente, tornan-
do-se um tipo de sexo público legitimado.
Para Butler, os agentes sexuais que funcionam fora da esfera
do vínculo do casamento constituem possibilidades sexuais que
nunca serão elegíveis a se traduzir em legitimidade. As opções
fora do casamento são excluídas como imponderáveis, sexual-
mente irrepresentáveis, um lugar não cooptado pela normativi-
dade.
A autora sugere que dentro da sexualidade inteligível haveria
zonas intermediárias, formações híbridas de legitimidade e ilegi-
timidade. Este seria o lugar do “quase reconhecível” - o que per-
turbaria a distinção entre legitimidade e ilegitimidade são essas
práticas sexuais que não aparecem de imediato como coerentes
no léxico de legitimação disponível.
Mas o swing poderia ser situado dentro da zona de ilegitimi-
dade descrita por Butler? É uma prática que efetivamente ameaça
ou contesta o casamento?
Mantendo sua prática no anonimato, sugiro que os pratican-
tes de swing encontraram uma forma de se tornarem sexualmen-
te representáveis. Não estão propondo formas não-monogâmi-
cas de conjugalidade ou um arranjo afetivo-sexual entre mais de
duas pessoas, ultrapassando a fronteira reconhecida pelo Estado
do que significa casamento. Para o mundo público e legal, não
abrem mão do sexo público legitimado e seu reconhecimento uni-
versal, conservando o “ilegítimo” em segredo. As próprias casas
de swing, locais onde se pratica a troca de casais, podem ser vis-
tas como uma possibilidade mais ou menos legítima de se viver
essa “diversidade” sexual sem colocar em questão o vínculo do
casamento.

92
Olivia Von Der Weid

É interessante destacar que, entre os casais pesquisados, os


filhos não sabem da prática dos pais. O que pode ser entendido
como uma evidência de que não estão contestando a norma ou
propondo uma alternativa ao casamento, pelo menos não uma
que possa ser ensinada aos filhos. Butler (2003) sugere que a
heterossexualidade é percebida como um sistema total e é justa-
mente essa percepção que afasta as suas possibilidades de ressig-
nificação. Para a autora, mesmo que a heterossexualidade apare-
ça como obrigatória ou presumida, não decorre daí que todos os
atos heterossexuais sejam radicalmente determinados.
Rubin (1984) demonstrou que na sociedade ocidental moder-
na os atos, as práticas e as escolhas sexuais se dão no interior de
um sistema hierárquico de valorização sexual, onde a sexualida-
de considerada normal é a que se realiza por meio de relações
heterossexuais firmadas no matrimônio, com fins reprodutivos.
A autora levanta uma série de outras situações em escala de va-
lorização decrescente, onde os casais gays e lésbicas estariam si-
tuados mais abaixo e, portanto, sofreriam uma desvalorização
social. Acredito que o estudo da prática do swing revela que as
relações heterossexuais fundadas no matrimônio não podem ser
vistas como um conjunto homogêneo. A heterossexualidade que
encontrei entre casais praticantes de swing envolve uma série de
práticas erótico-afetivas, incluindo práticas homossexuais entre
mulheres, que permitem problematizar este modelo de oposição
hetero versus homo como categorias fixas e excludentes, demons-
trando não existir uma única forma de se viver a heterossexuali-
dade.
Mesmo não contestando a forma principal e legítima de rela-
cionamento na sociedade – o casamento heterossexual – a prática
do swing traz à tona a problemática de como gerir o desejo dentro

93
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

desta norma compulsória de relação afetivo-sexual. E talvez, ain-


da que entrem em contradição, estejam buscando soluções mais
condizentes com suas vontades individuais que não sejam ape-
nas uma resposta imediata a padrões de comportamento. No jogo
da adequação ou inadequação, o swing parece estar, concomitan-
temente, dentro e fora da ordem.

94
Olivia Von Der Weid

O swing e a dimensão prazer

“O swing é um mundo onde você pode tudo, mas não é obrigado a nada”
Depoimento de um entrevistado

Procuro, neste capítulo, compreender certos aspectos do dis-


curso dos adeptos do swing sobre o prazer que obtém em sua
prática. Analiso diferentes categorias que aparecem relacionadas:
a fantasia, a transgressão, a intensidade e a excitação. Comparo
o quarto coletivo de uma casa de swing com o boudoir analisado
por Moraes (1994) a partir da obra de Sade, indicando possíveis
aproximações e afastamentos, tanto da estrutura física quanto
das práticas que se realizam nestes espaços. Problematizo o papel
de duas figuras presentes no imaginário brasileiro, o “corno” e a
“puta”, e a forma como aparecem no universo swinger. Abordo,
ainda, a existência de um suposto “mundo liberal” que englobaria
a prática, ligado às ideias de prazer, sexualidade e transgressão.

Desejo, fantasia e transgressão


Um aspecto interessante que pode ser observado na prática
do swing resulta de uma combinação de duas ideias: anonimato
e personagem. Tornar-se adepto de uma prática onde uma das
maiores preocupações é a preservação da identidade implica a
adoção de apelidos ou nomes fictícios por parte dos praticantes.
O ingrediente do anonimato permitiria uma maior liberdade para
a realização de fantasias específicas do casal, que pode brincar

95
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

com a noção de identidade adotando uma personagem naquele


meio.

Ana: as pessoas acreditavam num personagem que


a gente criou, do marido e da esposa, acreditavam
naquele personagem e a gente vivia aqueles perso-
nagens na frente das pessoas e quando a gente não
estava ali a nossa vida era completamente diferente.
Pergunta: As pessoas criam personagens para si
mesmas quando estão lá?
Ana: acho que cria... primeiro que você já troca de
nome, concorda? Você não é a Olivia, você passa a
ser a Joana. Aí se você já não usa o seu nome, você
já está tirando uma parte sua, você está usando um
pedaço seu. Não estou falando que esse personagem
não tenha coisas suas, mas não é você. Aí você pode
ser o que você quiser.

A proteção do anonimato permite um jogo de reinvenção que


se aproxima do que Freyre (2006) descreve durante o período car-
navalesco na sociedade brasileira desde os tempos imperiais. O
autor aponta que o carnaval daqueles tempos já era um período
em que homens, mulheres, escravos, meninos tinham a oportu-
nidade de se livrarem das opressões que normalmente estavam
submetidos na vida cotidiana. A brincadeira do swing - assim
como o carnaval, de natureza profundamente sexual - propõe que
a fantasia se torne realidade, na tentativa de criar um mundo
onde os mais diferentes desejos possam ser satisfeitos.
Parker (1991) chama atenção para a fantasia, construída com
pensamentos e imagens, como expressão ideal da lógica cultural
que organiza o erótico. Como todo imaginário erótico, o enfoque
da fantasia será a satisfação dos desejos. Sobre essa questão, é
interessante o que um entrevistado disse a respeito do swing:

Na verdade é uma fantasia nossa, nós não estamos


atrás de outros relacionamentos, nós estamos atrás

96
Olivia Von Der Weid

de fantasia. Então na verdade o que a gente vem


buscar aqui são personagens dessa fantasia, pode
ser qualquer personagem. Dentro desses persona-
gens você idealiza algumas coisas, já que é uma fan-
tasia e você está liberado para fantasiar, para sonhar,
então você também tem todo o direito de selecio-
nar, não quero esse personagem com esse biotipo,
eu quero um outro, com outro tipo, então é por aí.
(Felipe)

Nem todos os casais têm o mesmo perfil quando se trata de


realizar fantasias sexuais. Através das leituras de reportagens e
de sites, e das informações que obtive no trabalho de campo,
pude perceber que outros comportamentos sexuais, além da troca
de casais propriamente dita, são encontrados no meio swinger.
Existem diferentes tipos de casais que frequentam este meio, com
interesses variados. Alguns são adeptos do voyeurismo, outros do
exibicionismo. O ménage feminino (duas mulheres e um homem)
e o ménage masculino (dois homens e uma mulher) também são
comportamentos comuns.

Tem vários tipos de casais, tem casais que gostam


só de ver, tem casais que não aceitam a troca, tem
casais que só aceitam fazer no mesmo cômodo com
outro casal, mas que não gostam nem que encoste,
tem casais que só gostam que encoste, mas nada
mais do que isso... (Ana)

Em sua entrevista, André indica que existem casais que se


satisfazem com a troca ou com alguma fantasia específica, mas
que, para outros, a fantasia já realizada deixa de ser estimulante
após algum tempo e busca-se, então, a realização de novas fanta-
sias, em um jogo onde vai se ampliando o limite da transgressão.
De acordo com Campbell (1995), um determinado estímulo, se
não se transforma, rapidamente deixa de ser estimulante e, como

97
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

consequência, perde a sua possibilidade de gerar prazer. Nesse


sentido, a capacidade de se experimentar prazer repetidamente
com sensações derivadas de uma certa atividade será ameaça-
da caso haja uma exposição excessivamente frequente a ela ou
excessivamente longa. É interessante como esta ideia do autor
aparece exemplificada nas palavras de André:

Existem dois grupos de swingueiros. Tem os swin-


gueiros convictos e que não têm expectativa de
nada fora do swing. Vão ser sempre swingueiros.
Eu conheço casais que fazem swing há 20 anos e
são felizes da vida. Agora da grande maioria que eu
conheci, o swing, ele é assim, é um estágio da vida
do casal. Ele começa como um alimento, como um
ingrediente, como um aditivo, passa a ser parte da
rotina e depois desaparece, porque cai na mesmice,
é aquele mais do mesmo. (André)

A reflexão de Campbell sobre o hedonismo moderno ajuda a


compreender a busca por prazer entre os praticantes de swing, a
elaboração constante de novas fantasias e a sensação inevitável
de insatisfação que aparece em seus discursos. Segundo Cam-
pbell, um dos aspectos fundamentais que caracterizam o hedo-
nismo moderno seria a fantasia ou devaneio. Para o autor, o pró-
prio desejo se torna uma atividade prazerosa. Querer, ao invés de
ter, se torna o foco principal de quem procura o prazer. O dilema
aparece na constatação de que os prazeres atuais provindos de
uma experiência real não são comparáveis àqueles que se encon-
tram na imaginação. Não necessariamente por uma questão do
impacto da realização, mas sim pela perfeição que a fantasia ad-
quire na imaginação, mas que dificilmente pode adquirir quando
consumada na realidade. A consumação do desejo, nesse sentido,
será necessariamente uma experiência de desilusão, a fantasia
perfeita em contraste com a realidade, o que tem como resultado

98
Olivia Von Der Weid

o reconhecimento de que algo se perdeu.


A busca pelo swing é justificada pelos entrevistados como
uma procura por aumentar o prazer e por satisfazer as fantasias
sexuais do casal. Após três anos do início da pesquisa, voltei a en-
trevistar um dos casais, que se separou, e pude perceber a concre-
tização, no que diz respeito à sexualidade, do ciclo de desejo-a-
quisição-uso- desilusão-renovação-desejo, descrito por Campbell.
André descreveu da seguinte forma o seu cansaço em relação às
festas de swing:

Com relação às festas, por exemplo, chegou uma


hora que aquele ambiente cansou para nós. Esgotou.
A gente não estava tendo mais nenhum prazer em
participar daquelas festas naquele molde. Era sem-
pre mais do mesmo. Eu sempre gostei de coisa nova,
de novidade, e ela também, então a gente começou
a ir, virou monotemático demais. A gente ia sempre
e via as mesmas pessoas, falava as mesmas coisas,
era novidade para os outros, mas para a gente não
era mais. Pra mim, eu que montei a festa, montei
a estrutura, que criei aquela coisa toda, começou a
ficar chato, porque eu estava me repetindo. (André)

Um dos resultados deste ciclo descrito por Campbell pare-


ce ser o de que o prazer acaba exigindo doses cada vez maio-
res. Neste ponto cabe lembrar Simmel (2005) que, ao descrever
o comportamento dos habitantes das grandes cidades, destaca a
indiferença como uma consequência da atitude blasé, uma defesa
contra os excessos de estímulos e a velocidade dos acontecimen-
tos na metrópole. No discurso do entrevistado, pode-se perceber
este relativo anestesiamento e a sensação de ansiedade e insatis-
fação permanentes.

Fizemos uma viagem para Camboriú e fomos a dois


clubes de swing lá. Exatamente a mesma coisa que
a gente estava vendo aqui, de você não conseguir

99
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

se excitar com o ambiente mais. Falta novidade. Eu


acho que o swing, para a grande maioria das pes-
soas, ele é uma grande novidade durante um tem-
po. Eu me lembro da primeira vez que eu fui a um
clube, eu olhava aquelas coisas e me excitava só em
ver. Eu sentava do lado do casal que estava se to-
cando e ficava de pau duro. E depois com o tempo
ficou banal demais. Essa coisa pra nós ficou muito
costume. Então, por exemplo, eu estava numa festa
com um monte de gente pelada, a maioria das pes-
soas transando e eu não tinha o menor tesão, não
conseguia me excitar. E ela também não. Então a
gente falou “pô, não dá pra fazer por fazer”. A gente
montava a festa, organizava, todo mundo transava e
a gente não. (André)

Campbell indica que, após a sensação de frustração advinda


da concretização da fantasia, o devaneio será levado adiante e
será associado a um novo objeto de desejo de forma que os pra-
zeres ilusórios possam ser, mais uma vez, re-experimentados. A
alternativa adotada pelo casal entrevistado foi justamente a de
recorrer à imaginação para criar novas fantasias.

Mesmo não me excitando ir nas festas, eu continuei


liberal e querendo, aí nós começamos a procurar ou-
tras formas pra nos excitar. Então a gente começou
a fazer uma coisa canalha, mas que era o que dava
tesão... liga pro cara e propõe sair com ele dizendo
que eu não sabia, pra ver se ele topa. E o cara topou.
E ela começou a sair com ele, ele achando que eu
não sabia, mas eu sabia. Quer dizer o pato na his-
tória era ele. Ele achava que estava saindo com ela
e me traindo e não, a gente combinava, ela botava
o celular pra eu ouvir, aquela história toda, e isso
começou a dar tesão. (André)

Para Campbell, as combinações possíveis da fantasia são ili-


mitadas, mas a chave para a sua elaboração se encontra na lógica
da transgressão. Duarte (2004a) também enfatiza o aspecto da
transgressão na obtenção do prazer nas sociedades contemporâ-

100
Olivia Von Der Weid

neas. No swing, a fantasia é construída não só com pensamentos


e imagens, mas envolve a dimensão da vivência. Sair da esfera do
imaginário e entrar no mundo da experiência parece resultar, para
os pesquisados, em uma constante elaboração de novas fantasias
e, consequentemente, novas transgressões.

O corno e a puta
Levando um pouco adiante o papel da fantasia para a dimen-
são do prazer nas práticas sexuais, gostaria de refletir sobre dois
“personagens” que constituem o cenário sexual e de gênero bra-
sileiros, a puta e o corno, e que parecem rondar de maneira par-
ticular o universo swinger.
Parker (1991) destaca que no Brasil, homem e mulher se de-
finem não somente um em relação ao outro, mas também com
referência a uma série de figuras adicionais que incorporam uma
complexa ordem de possibilidades, positivas ou negativas, de ma-
chos e fêmeas. Para o autor, a representação do homem é cons-
truída não apenas em oposição à mulher, mas também em sua re-
lação com figuras como o machão, o corno, a bicha ou viado. Da
mesma forma, a mulher precisaria ser compreendida não apenas
em oposição ao homem, mas através de figuras como a virgem, a
piranha ou a sapatão.
Parker entende que a figura do homem brasileiro incorpora
valores tradicionalmente relacionados ao papel de macho, entre
eles força e poder, virilidade e potência sexual. O homem, como
machão ou pai, deve ser compreendido em contraste com as fi-
guras do viado e do corno. Na concepção do autor, o viado e o
corno representariam tudo aquilo que o verdadeiro homem não
pode ser.
Para Parker, a traição por parte da mulher fere e ao mesmo

101
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

tempo transforma o homem, constituindo um ataque frontal à


sua identidade masculina. A possibilidade de que a própria mu-
lher possa traí-lo a qualquer hora seria um dos fantasmas do ho-
mem brasileiro e, neste sentido, ela representa uma ameaça, um
perigo constante.
É interessante notar como a figura do corno entre os pratican-
tes de swing apresenta uma imagem ambígua que envolve prazer
e perigo. Por um lado, a prática do swing aparece para os homens
como uma tentativa de controlar essa eterna ameaça feminina, a
de ser traído a qualquer momento. No discurso de um entrevis-
tado a traição por parte da mulher aparece não como mera uma
possibilidade, mas como uma verdade incontestável.

Tem um outro ingrediente. O medo de ser corno ofi-


cial, corno sem saber é grande e leva alguns homens
a fazer a mulher, assim, desfrutar de... todo mundo
sabe que um dia a mulher vai trair. Essa é a máxima.
Um dia ela trai, nem que seja daqui a 10 anos, ela
vai te trair. Porque dificilmente uma pessoa conse-
gue se sentir atraída pela mesma pessoa a vida intei-
ra. Chega uma hora, daqui a algum tempo que vai
chegar uma pessoa que vai te dizer alguma coisa,
além dele. E os homens têm medo disso, entendeu?
De você estar sozinha numa situação e chegar al-
guém no seu ouvido e te levar. Então para não te dar
o motivo de fazer, o cara te dá essa oportunidade de
fazer com a anuência dele. (André)

Desta forma, ao dar a chance à mulher de ter relações sexuais


com outros homens com a sua concordância, procura afastar o
medo de ser “corneado”. O perigo, neste caso, reside não no ato
em si - a relação de sua mulher com outro homem - mas no seu
caráter oculto, escondido, incontrolável. O homem aparece como
uma vítima em potencial.
Por outro lado, permitir que a sua mulher se relacione sexual-

102
Olivia Von Der Weid

mente com outros homens, gera uma espécie de fascínio. Pelo


menos cinco pesquisados relataram que este é o seu maior pra-
zer na prática do swing. Dois disseram que tal prazer é maior,
inclusive, do que se relacionar sexualmente com duas mulheres
ao mesmo tempo, o que, para muitos, é a grande fantasia sexual
masculina. Segundo um entrevistado “a grande maioria das vezes
o tesão maior é do homem vendo a mulher transar, isso aí é... A
maioria das vezes é o homem que gosta de ver a sua mulher tran-
sar” (André).
O prazer parece ser despertado justamente pelo perigo, pela
ameaça de “perder” a mulher, uma espécie de desafio constante
à própria potência e virilidade. Ao ver a mulher tendo prazer com
outro homem se sente desafiado a melhorar ainda mais a sua
própria performance sexual, para provar que é merecedor de tê-la
como sua esposa.

Eu tenho muita segurança no meu desempenho


como homem com ela, na nossa relação afetiva e
eu tenho a certeza absoluta de que tudo que alguém
faça com ela eu posso fazer melhor. É até um desa-
fio para mim. Cada vez que ela transa com um cara
eu procuro, quando chego em casa, fazer melhor.
(André)

Estabelece-se, assim, uma competição entre homens, entre


machos, que procuram provar que são os melhores. Pode-se en-
contrar, nesta competição, reflexos de um possível desejo sexual
pelo outro homem. No entanto, no discurso dos pesquisados não
aparece esta questão.
O prazer derivado de ver a sua mulher com outro homem
pode ser pensado como uma prova de poder masculino, através
da exibição da performance sexual e corporal de sua esposa. O

103
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

fato de ela ser considerada uma mulher atraente e sensual aumen-


taria o seu poder, uma vez que ele é o “escolhido”, ele é o “dono”
do objeto de desejo de todos. É o que aparece no depoimento de
uma entrevistada: “porque eu acho que o tesão dele era assim, ‘ah
tem alguém comendo a minha mulher, ela é gostosa, mas ela é
minha’. Eu acho que a fantasia dele passava por aí. Acho que no
fundo ele tinha uma fantasia meio de ser corno” (Ana).
O prazer gerado seria uma espécie de combinação de poder e
perigo. O depoimento de uma entrevistada exemplifica bem esta
ideia: “ele falou que quando o homem chega perto de mim, dá um
frio na barriga dele, uma sensação de ciúme e que isso reaviva o
nosso relacionamento, que ele sente uma coisa forte por mim nes-
ses momentos” (Júlia).
Aparece ainda no discurso dos pesquisados outro lado des-
sa fantasia, o de “cantar” e se relacionar sexualmente com uma
mulher casada, sem que esta atitude se traduza em brigas ou de-
sentendimentos entre homens. A mesma entrevistada descreve a
fantasia de seu parceiro no swing:

Mexer com a mulher do outro, entendeu, sem que


haja algum problema, algum mal estar. E já percebi
que ele gosta sempre das mulheres que estão acom-
panhadas com os seus maridos ou namorados né,
geralmente ele não gosta de mexer com mulher so-
zinha. Ele gosta sempre de mulher que está casada,
está acompanhada. (Júlia)

A prática do swing pode ser entendida como uma forma de


evitar e se precaver contra a desmoralização e emasculação sim-
bólica de que nos fala Parker (1991). Os praticantes de swing
apresentam, assim, uma relação ambígua com a figura do corno.
Ao mesmo tempo que surge como uma acusação potencial a to-
dos os homens adeptos da troca de casais, já que permitem que

104
Olivia Von Der Weid

suas mulheres se relacionem com outros homens, também encon-


tram prazer e desafio no “perigo” de serem trocados.
Nas entrevistas ouvi relatos sobre a presença de casais “ar-
mados” em casas de swing, homens que pagam prostitutas para
acompanhá-los em dias onde a entrada é restrita a casais. Tais
“casais” adquirem uma imagem negativa entre os praticantes,
sua presença é considerada altamente indesejável e os adeptos do
swing procuram maneiras, seja na roupa ou no comportamento,
de identificar os “armadores” e afastá-los. A ideia é que a troca
com estes casais não seria uma troca justa, uma vez que o ho-
mem só paga a prostituta para acompanhá-lo, mas não para se
relacionar sexualmente com outros homens. A imagem que se
tem destes homens pode ser associada à do malandro, aquele
que vai a uma casa para “comer a mulher dos outros”, mesmo
que não possua nada para oferecer em troca (DaMatta, 1983). A
tentativa de afastar estes casais também pode ser vista como uma
busca de diferenciação por parte das esposas, que não querem ser
confundidas com a prostituta.
A puta aparece no depoimento das entrevistadas ao falarem
da acusação e do preconceito da sociedade em relação à sua prá-
tica. O depoimento de uma entrevistada reforça esta ideia: “as
pessoas olham para você como se você fosse um E.T., como se você
fosse uma promíscua, como se você fosse uma... sei lá, uma puta
que dá para todo mundo” (Ana).
Pode-se verificar, no entanto, a presença de outro imaginário,
desta vez cercado de positividade, relacionado ao potencial eróti-
co que a figura da puta parece despertar entre as mulheres. Para
Parker (1991), a confirmação da masculinidade e da virilidade
dos seus parceiros e ao mesmo tempo a negação do controle dos
homens sobre o seu comportamento sexual, tem como efeito a

105
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

produção de certo encantamento com esta personagem. A puta


representaria uma mulher sexualmente mais livre para viver seus
desejos e fantasias sexuais, uma mulher que gosta de sexo e pro-
cura valorizar e exibir o seu corpo. Esta representação se expressa
de maneira mais explícita no depoimento das entrevistadas, em
“brincadeiras”, ou na própria maneira de se vestir.
No blog de um casal (Bambam e Pedrita) encontrei uma frase
que me ajudou a refletir sobre as roupas e os comportamentos
de algumas mulheres nas casas de swing: “toda mulher sadia
tem a fantasia de ser uma puta!”. O uso de vestidos curtos, de
minissaias, saltos alto e o costume de algumas mulheres de fazer
strip-tease em um pequeno palco (chamado de “queijo” e espe-
cialmente localizado para este fim em casas de swing), pode ser
um indicativo da sedução que a figura da prostituta exerce sobre
aqueles indivíduos.
Muitas atitudes das mulheres praticantes de swing se relacio-
nam com as apontadas por Gaspar (1988) em seu estudo sobre as
garotas de programa. Na descrição do comportamento das mulhe-
res nas boates para arranjar um programa, a autora menciona a
dança como forma de sedução e erotização do corpo, a apresen-
tação sobre o “queijo”, o strip-tease feminino, as relações sexuais
entre mulheres, o uso de salto alto. Todos estes comportamentos
também podem ser vistos nas casas de swing. As roupas que as
mulheres vestem procuram valorizar as mesmas partes que as
garotas de programa estudadas por Gaspar buscavam com o uso
da lycra: as pernas, as nádegas e os seios. Algumas praticantes de
swing contam que, em algumas noites, tiveram relações sexuais
com oito ou dez homens diferentes.
A prática do swing aparece como uma espécie de desafio ao
imaginário que cerca estas duas personagens liminares: o corno e

106
Olivia Von Der Weid

a puta. Um homem que sabe e permite que sua mulher se relacio-


ne sexualmente com outros homens pode certamente ser acusado
de corno. Uma mulher que se veste em trajes curtos, justos e
sensuais, que se exibe e faz strip-tease em um palco e se relacio-
na sexualmente com muitos homens em uma noite é a perfeita
“piranha” descrita por Parker (1991).
O universo controlado de uma casa de swing permite que
certos aspectos apontados por Parker sobre a sexualidade tanto
feminina (o controle e a limitação), quanto masculina (cujo po-
tencial sexual precisa ser constantemente construído e sustenta-
do contra a constante ameaça de desvio que a figura do corno
representaria), sejam subvertidos. O medo de “ser corneado” não
deixa de aparecer. A prática do swing funcionaria como uma es-
pécie de atenuante desta ameaça, ao mesmo tempo em que pro-
duziria efeitos eróticos “inesperados”. De maneira semelhante, a
figura da puta não deixa de ser indesejada, como a presença de
uma profissional no local, pela troca desequilibrada que produz,
ou como fator de acusação, mas reaparece de outra forma nas
roupas, nas práticas e nas fantasias sexuais dos adeptos de swing.

O quarto coletivo: novo Boudoir?


Um dos aposentos que invariavelmente está presente nas ca-
sas de swing é o chamado “quarto coletivo”. Gostaria de fazer
uma aproximação entre o quarto coletivo e o boudoir, descrito
por Moraes (1994) a partir da obra de Sade, destacando as seme-
lhanças e diferenças entre praticantes de swing e libertinos.
Moraes (1994) descreve o boudoir como a unidade mínima do
espaço sadiano, de concentração da luxúria e síntese da libertina-
gem, local de excessos, onde acontecem as orgias, flagelações, as-

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

sassinatos, todas as volúpias. O boudoir representaria o interstício


entre o social e o pessoal, onde os novos regimes dos prazeres e
das satisfações são testados. Seria um pequeno aposento, onde os
devassos encontrariam a privacidade para realizar a intimidade
libertina.
Em uma casa de swing existem outros espaços além do quar-
to coletivo. Comparável ao banquete na sociedade setencentista,
a boate pode ser descrita como o lugar da sociabilidade, onde,
ainda vestidos, os casais se encontram, se conhecem, conversam,
dançam, comem e bebem. As mesas em geral circundam o espa-
ço de maneira a facilitar o contato entre os casais, todos podem
ver e serem vistos. Além da boate há os quartos individuais, que
possuem portas com trancas, onde dois casais (ou mesmo apenas
um) podem entrar e se isolar na intimidade das quatro paredes,
um local privado. Já o quarto coletivo é o lugar das “surubas”,
onde muitos casais e solteiros (nos dias em que a casa permite
sua entrada), interagem sexualmente. O espaço da “sacanagem”,
onde tudo é permitido, nada é obrigatório. A mesma economia de
objetos apontada por Moraes (1994) no boudoir pode ser encon-
trada ali. Ao invés da otomana, a cama king size, os espelhos que
circundam o ambiente e a não obrigação da presença de todos.
Moraes (1994) aponta a apatia como o princípio fundamental
da libertinagem. Envolvendo as noções de distância, deslocamen-
to e afastamento, é somente através da apatia que seria possível
chegar ao absoluto prazer. Ela permite isolar as experiências sen-
síveis das convenções morais, dando lugar à sensibilidade supe-
rior do crime. Esta indiferença e desligamento das exigências da
vida em sociedade são condições espirituais necessárias para o
alcance da felicidade que, para os libertinos, é temporal, material
e corporal, está ligada à noção de intensidade.

108
Olivia Von Der Weid

No swing, as práticas sexuais realizadas em um quarto coleti-


vo não se parecem com as de um boudoir, onde eram cometidos
assassinatos, incestos, mortes lentas, com o fim de aumentar a
sensibilidade dos órgãos e incrementar os prazeres da libertina-
gem. Entretanto, se traduzirmos para um contexto contemporâ-
neo, percebe-se que é também necessário um certo grau de dis-
tanciamento das convenções morais em um quarto coletivo. Ali
homens e mulheres assistem seus parceiros se relacionando com
outra pessoa, as mulheres fazem sexo com vários homens e com
várias mulheres, ao mesmo tempo ou em série. Um lugar onde
são praticados os “vícios privados”, inaceitáveis socialmente.
O relato de uma pesquisada sobre uma experiência que viveu
no swing ilustra o aspecto da intensidade do uso dos corpos.

Já aconteceu de eu chegar num clube e dar para 8


homens. Porque naquela noite eu estava com muita
vontade de fazer sexo, mas eu não queria fazer sexo
com o meu marido, eu tava a fim de fazer sexo com
outros homens, eu queria conhecer vários homens.
Realmente eu dei para 8 homens e depois eu fiquei
assim “meu Deus, como eu consegui”, mas eu pre-
cisava me experimentar, eu precisava saber o meu
limite, ver até aonde eu poderia ir. (Irene)

Podemos pensar sobre seu depoimento a partir do que nos


coloca Bataille (1980) a respeito do erotismo. O autor argumenta
que o erotismo implica uma dissolução das formas constituídas
ou regulares da vida social. Mas a regularidade não está conde-
nada a desaparecer, é apenas posta em questão, perturbada ou
transformada. O comentário da entrevistada após a experiência
de se relacionar sexualmente com oito homens em uma mesma
noite - “Meu Deus, como eu consegui” - manifesta os dois mo-
vimentos contraditórios a que estão submetidos os indivíduos:

109
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

a proibição e a transgressão. Bataille nos revela que a proibição


rejeita, mas o fascínio introduz a transgressão.
Há, entretanto, um aspecto fundamental que diferencia o
boudoir de um quarto coletivo. O desligamento do boudoir se dá
através da completa separação entre indivíduo e sociedade, onde
o objetivo último é a felicidade. No quarto coletivo, o distancia-
mento se expressa por meio da separação entre amor e sexo, com
o objetivo último do prazer, mas o desligamento em relação à
sociedade não é completo, uma vez que se mantém o vínculo
matrimonial.
A diferença fundamental e possível contradição dos casais
swingers é justamente a de querer realizar esta busca pelo prazer
e satisfação enquanto casal, não só preservando, mas também
valorizando o vínculo do casamento. A experiência swinger não é
radical como a libertina, pois não segue os desejos até as últimas
consequências. O casal é o limite e a experiência do prazer é vivi-
da somente se permitida pelo(a) parceiro(a). Quando analisamos
a prática do swing, é possível perceber a tensão que aparece en-
tre libertinagem e limite. Por meio do consenso, o swing adquire
uma legitimidade que o torna possível e é essa consensualidade
do casal - e entre casais - que permite controlar a radicalidade da
busca pelo desejo até as últimas consequências, que está presente
no boudoir.

Intensidade e excitação
Um aspecto que pode ser observado na prática do swing, e
que diz respeito à concepção sobre o prazer, é a importância da
intensidade da experiência. Esta intensidade está diretamente
relacionada aos corpos no sentido de experimentação, de ir até

110
Olivia Von Der Weid

ou além do limite. Nem todos os casais apresentam este tipo de


comportamento, mas ele está presente na prática do gang-bang,
por exemplo, quando a mulher tem relações com vários homens
ao mesmo tempo ou em série, um seguido do outro, como a que
Irene relatou anteriormente. Uma analogia com o uso das drogas
e seus efeitos pode ser interessante para compreender esta dimen-
são do prazer.
Vargas (1998), em seu estudo sobre o consumo de drogas
legais e ilegais, revela um processo de “analgesia coletiva” na so-
ciedade contemporânea. O autor enfatiza que o ideal médico do
“bem estar”, ao lado da luta contra a morte e pela cura das doen-
ças, demanda uma luta pela eliminação da dor e do sofrimento.
No processo de medicalização da dor, o próprio corpo deve se ca-
lar e, paralelamente a uma incitação ao consumo medicamentoso
de drogas legais, os limiares de suportabilidade do sofrimento
são reduzidos drasticamente, tendendo-se à supressão da própria
experiência da dor. Neste processo de “analgesia coletiva”, a saú-
de é reduzida à inconsciência do próprio corpo, uma espécie de
anestesiamento.
Em sociedades analgésicas há um aumento da demanda por
estímulos cada vez mais poderosos, para as pessoas terem a im-
pressão de que estão vivas. O autor sugere que a experiência do
consumo não medicamentoso de drogas coloca em jogo modos
intensivos de produção dos corpos, onde o vigor do instante da
vida se impõe sobre a duração da vida em extensão. Pode-se dizer
que algumas práticas observáveis no meio swing têm por caracte-
rística o uso intensivo dos corpos, não pelo consumo de drogas,
mas através de uma certa experimentação sexual.
Ainda assim, não parece trivial a analogia com o uso de dro-
gas - a partir da dimensão de vício - que aparece na entrevista

111
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

de um dos casais quando falam sobre a assiduidade à casas de


swing. A prática constante da troca de casais, para eles, pode se
tornar um vício. No depoimento deste casal, tornar-se viciado
aparece muito mais como uma característica masculina do que
feminina. À mulher caberia o papel de manter o equilíbrio do
casal, apontando os momentos em que se tornaria necessário um
afastamento do meio (ou do vício)7.

Henrique: a gente às vezes até tem que viajar um


pouco, para sair desse vício, porque isso é uma co-
caína.
Pergunta: você acha que se torna um vício?
Henrique: ah torna. Se ela não fosse o meu grande
freio, eu era muito mais viciado nisso.
Pergunta: mas vicia em que sentido?
Henrique: porque de repente aquilo deixa de ser o
tempero e você quer aquilo como o teu prato diário,
e aquilo tem que ser o tempero.
Heloísa: tem que ser que nem uma pimentinha, que
se botar demais vai estragar.
Henrique: aí ela é o meu ponto de equilíbrio disso,
ela diz não, está demais. Muda, isso muda o nosso
relacionamento. Mas o legal é quando a gente via-
ja, até mesmo passar o final de semana no Recreio,
a gente não entra em contato com o meio, a coisa
volta a fluir mais normalmente. Sem dúvida nenhu-
ma isso muda, você cria uma certa dependência da
coisa, eu sinto isso. É errado? É errado, mas é uma
cocaína. Porque a cocaína ela te dá uma dependên-
cia química, e isso é quase que uma dependência
química, é a tua química mesmo né, porque a gente
é tudo química, tudo é hormônio, glândulas. 8

7 Para uma discussão sobre vício em sexo, ver Giddens (1992). Segundo o autor, a experiência do
vício se expressa através de um comportamento compulsivo, envolvendo características como há-
bito, êxtase e dependência. Giddens analisa o vício em sexo a partir do depoimento de pessoas que
participam de grupos de Sexômanos Anônimos (Sex Addicts Anonymous – SAA), diferenciando a
forma como o comportamento compulsivo se manifesta para homens e mulheres.
8 Seria muito interessante pesquisar o consumo (ou não) de drogas neste meio. Mas esta questão
não foi analisada no presente trabalho.

112
Olivia Von Der Weid

O depoimento também chama a atenção para uma dimensão


que aparece relacionada ao prazer para estes casais: a do swing
como uma experiência intensa para os sentidos. Em uma casa de
swing, especialmente em certos aposentos como o quarto coleti-
vo ou o labirinto9, diversos estímulos ocorrem concomitantemen-
te, podendo afetar os cinco sentidos: olfato, tato, visão, audição
e paladar.
Na prática do swing o olhar é a experiência que mais se des-
taca, e a figura do voyeur é muito comum. De acordo com uma
pesquisada, a maioria dos casais que vai a casas de swing não
chegam a realizar a troca, vai somente para olhar.
No swing o prazer voyeur aparece explicitamente no compor-
tamento dos casais que frequentam uma casa apenas para olhar,
mas também inclui o prazer de ser visto. O exibicionismo e o
voyeurismo são práticas que se complementam e influenciam o
comportamento dos casais. De acordo com uma entrevistada:

Você vê que as mulheres quando transam fa-


zem muita mise-en-scène, sabe? Se eu vou dar
um gemido, o meu gemido é mais alto, se eu
vou transar, eu vou ter uma performance, eu
vou caprichar mais. Eu mesma já fiz isso várias
vezes, não vou dizer pra você que não fiz. Cla-
ro, porque você está ali em um ambiente que
está todo mundo te vendo, que você está se ex-
pondo, que você está se exibindo, que você está
se mostrando pra um outro homem que não é
o seu marido do dia a dia que te conhece, você
quer o quê? Você quer mostrar que você é gos-
tosa, que você é poderosa... eu acho que isso é
do humano, principalmente quando você está
em evidência. (Ana)

9 Labirinto é o nome que se dá a determinados ambientes em casas de swing onde há um cor-


redor escuro com uma parede que o divide ao meio. Nesta parede existem buracos de diferentes
tamanhos e as pessoas, nuas, se tocam através destes buracos, sem saber exatamente quem está
do outro lado.

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Outro ponto ligado à intensidade do prazer advindo da prática


é a tentativa de controlar este prazer e moldá-lo a padrões consi-
derados adequados, não apenas socialmente, mas, especialmente,
para os próprios casais. É interessante pensar este aspecto do
controle a partir do que Elias e Dunning (1992) afirmam sobre a
busca da excitação em sociedades contemporâneas. Segundo os
autores, nas sociedades industriais mais avançadas tanto as si-
tuações sociais de crise da humanidade quanto as paixões foram
sendo submetidas a um controle rigoroso. Explosões incontrola-
das de forte excitação tornaram-se menos frequentes e, mesmo
nas situações de grandes crises da vida privada dos indivíduos,
os fortes sentimentos que daí emergem são escondidos na intimi-
dade do círculo mais íntimo. Nas sociedades contemporâneas a
excitação e a emoção compensadoras são limitadas por restrições
civilizadoras.
Para os autores, é nas atividades miméticas de lazer que os in-
divíduos podem compensar a restrição das emotividades na vida
ordinária e viver a excitação de forma controlada. Elas se cons-
tituirão em um enclave para desencadear, dentro de um quadro
social aprovado, um comportamento moderadamente excitado
em público. Através destas atividades nossa sociedade satisfaz
a necessidade de experimentar em público a explosão de fortes
emoções, um tipo de excitação que não coloca em risco a relativa
ordem da vida social.
De acordo com Elias e Dunning, grande parte das atividades
de lazer desperta emoções que estão relacionadas com outras que
as pessoas experimentam em outras esferas - medo, compaixão,
ciúme, ou ódio, por exemplo – mas de uma maneira que não é
seriamente perigosa como muitas vezes é na vida real. Na esfe-

114
Olivia Von Der Weid

ra mimética estas sensações perdem o seu “ferrão”, tornam-se


prazerosas. Um argumento que surge entre os casais que entre-
vistei é o de que, quando sentem ciúme, tentam transformá-lo
em “tesão”. Este seria um complemento que tornaria a situação
ainda mais excitante, principalmente para os homens. Para um
entrevistado:

Eu sentia um ciúme que eu transformava em tesão.


Era assim, combustível pro tesão esse ciúme, de sa-
ber que ela estava com o cara e imaginar o que eles
estavam fazendo, falando, fora do meu controle e eu
transformava isso em tesão. Isso era uma coisa que
eu gostava muito, que me mantinha assim, excitado.
(André)

Elias e Dunning apontam que, nas atividades miméticas, as


emoções - ou os sentimentos desencadeados por elas - estão rela-
cionadas às emoções que se experimentam em situações de vida
real, transpostas e combinadas por uma espécie de prazer. Na
prática do swing, a emoção que se busca reviver novamente, em
analogia ao que acontece na vida real, parece ser a da sedução.
Um dos grandes prazeres mencionados pelos entrevistados é o
jogo de conquista entre um homem e uma mulher. Em um depoi-
mento, um entrevistado afirma que a diferença para os homens
na prática do swing é:

a novidade, o desconhecido. A oportunidade de cau-


sar boa impressão com uma conversa inicial envol-
vente, com uma abordagem física marcante e com
a possibilidade de satisfazer uma mulher que não
seja a sua companheira de vida de há tanto tempo.
Para as esposas a diferença é a de viver novamente
a gostosa sensação de ser conquistada, seduzida e a
de ter perto de si um homem determinado a agradar,
em satisfazer os desejos e anseios dela para só de-
pois pensar nos dele. (Lucas)

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Elias e Dunning sugerem que, na sociedade ocidental, a gran-


de excitação inerente ao encontro dos sexos foi limitada a uma
forma muito específica, para a qual a paixão brutal e a excitação
constituiriam um grande perigo. A maior excitação possível so-
cialmente reconhecida - simbolizada pelo conceito de amor - ao
ser ajustada à ordem social, é restrita, em princípio, a uma única
experiência na vida de cada pessoa. Os autores chamam atenção
para o papel que cumpre a representação do amor em boa parte
dos produtos da esfera mimética em nossa sociedade (filmes, li-
vros, comerciais de tv), com o intuito de proporcionar a renova-
ção da excitação específica associada à ligação de um homem e
de uma mulher. As atividades miméticas partilham a característi-
ca de produzir tensões de um tipo específico, o desenvolvimento
de uma “tensão-excitação” agradável, peça fundamental da sa-
tisfação. Sob este ponto de vista, poderíamos entender o swing
como uma atividade que, mantendo a relação amorosa social-
mente reconhecida entre homens e mulheres, mimetiza de uma
forma controlada a excitação inerente ao encontro dos sexos.

O swing e o mundo liberal


Parker (1991) analisa a ideia de sacanagem no contexto das
práticas sexuais transgressoras no Brasil, partindo de uma opo-
sição entre práticas aceitáveis e práticas proibidas. Como condi-
ção para esta divisão está a dicotomia entre público e privado na
cultura brasileira. Na ideologia do erótico, segundo a qual “entre
quatro paredes, tudo pode acontecer”, a dicotomia é temporaria-
mente invertida uma vez que a liberdade sexual, normalmente
associada à rua, a uma esfera pública, invade o domínio do inter-
no, o mundo privado.

116
Olivia Von Der Weid

A ideia de que “tudo” pode acontecer é fundamental para se


compreender o que o autor entende por sacanagem. Mistura de
tentação e perigo, a noção de sacanagem envolve a desobediência
de regras de decoro, que normalmente controlam o fluxo da vida
diária. Corresponde a uma forma de transgressão que procura
romper com as restrições que governam as relações sociais nor-
mais. No âmbito das ações sexuais, a transgressão se manifesta
no sentido de se fazer tudo o que normalmente seria proibido. No
sistema de referência erótico, encontra-se prazer e excitação em
práticas sexuais vistas socialmente como desviantes.
Os casais que procuram uma casa de swing não parecem
apresentar os mesmos desejos e fantasias e nem todos são adep-
tos das mesmas práticas sexuais.

Conceitualmente o swing é a troca de casais, se você


pegar ao pé da letra é a troca de casais. Só que hoje
é muito difícil um casal, até tem, mas o casal não faz
só swing, ele faz swing, ele faz ménage, faz um mé-
nage com homem, ménage com uma mulher. (Ana)

Respeitar a vontade do outro, no próprio relacionamento com


o parceiro e na relação com os outros casais aparece como um
dos princípios mais citados pelos entrevistados como fundamen-
tais no meio swing. Um entrevistado afirma: “o swing tem esse
código de ética forte, o respeito né, o respeito não só entre eu e ela,
mas o respeito entre nós e o resto, e a comunidade” (Emanuel).
Uma das principais frases que ouvi ao longo da pesquisa de
campo é a de que o swing é um mundo onde “você pode tudo,
mas não é obrigado a nada”. Não apenas no “tudo” desta frase,
mas também no comportamento dos casais e em suas concepções
sobre o erótico, o swing parece se aproximar daquilo que Parker
descreve como sacanagem. Um mundo onde são permitidas as

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

práticas que excedem o limite do bom gosto e que, justamente


por isso, são vistas como especialmente excitantes.
Uma matéria da revista Marie Claire exemplifica a diversidade
de práticas que são realizadas em casas de swing: “sob a etiqueta
´swing´, além da literal troca de casais, existem práticas diversas:
voyeurismo, sexo a três, homossexualidade feminina e sexo gru-
pal”. Nem todos os casais aderem, na prática, à troca de parcei-
ros. Existem aqueles que preferem só olhar, outros que trocam
carícias, mas só se relacionam sexualmente com seu parceiro, os
que só gostam de serem vistos e ainda aqueles que realmente são
adeptos da troca e de outras práticas.
Ao mesmo tempo, a esfera pública estaria protegida pelo ano-
nimato da prática. Os adeptos do swing são pessoas que prezam
pela preservação de suas identidades através do uso de apelidos e
do completo sigilo a respeito de seu comportamento para outras
pessoas que não as que também são praticantes. Para os prati-
cantes de swing, o aspecto do sigilo e o risco de ser descoberto
também torna a prática mais excitante.
Ao quebrar as regras e regulamentos dados pela ideologia de
gênero e pelo discurso da sexualidade, a própria ideia de praticar
swing faria parte do que Parker denomina como transgressão. No
ambiente swing muitas práticas consideradas proibidas são vistas
como positivas e as transgressões incluem a presença de outras
pessoas, expressando-se em práticas como assistir o parceiro se
relacionando sexualmente com outra pessoa, sexo no mesmo am-
biente com outros casais, a própria troca de parceiros, o ménage
feminino ou masculino, o chamado gang-bang, entre outras.
Um ponto que merece atenção diz respeito a uma ideia que
está muito presente no meio: a de um mundo liberal. Fui per-
cebendo, ao longo da pesquisa, que o swing estaria englobado

118
Olivia Von Der Weid

por uma espécie de mundo maior que seria este “mundo libe-
ral”. Nem todos os adeptos do swing fariam parte deste mundo,
que inclui práticas sexuais que podem ir muito além da troca de
casais propriamente dita. No mundo liberal estariam incluídas
a realização de fantasias específicas, como, por exemplo, a da
mulher sair sozinha com outro homem para depois contar para o
marido. Expressões como “vida liberal”, “essência liberal”, “po-
tencial liberal”, “perfil liberal”, “ambiente liberal” são recorrentes
nas entrevistas.

Na verdade o liberal, a ideia que se tem de liberal,


são pessoas que tem uma vida sexualmente liberal,
pode ser ménage, pode ser swing, pode ser suruba,
pode ser de ir lá só para assistir. Se você for pegar na
raiz mesmo, swing, é aquela pessoa que faz troca de
casais, só que a coisa não é tão simples assim, você
pode cair no meio de uma suruba, você pode ir e só
ficar olhando e não fazer nada e ser considerado um
casal liberal. Entendeu? Para mim um casal liberal
é um casal que se permite sexualmente tudo e que
não fica encanando do outro estar fazendo alguma
coisa. (Ana)

A ideia de uma “vida sexual liberal” presente na entrevista


pode ser pensada a partir do que Gregori (2004) coloca sobre o
surgimento de um erotismo “politicamente correto” nas práticas
sexuais contemporâneas. Em pesquisa realizada em sex-shops de
São Francisco (EUA) a autora encontra um movimento de deslo-
camento do significado de transgressão do erotismo, que passa a
ser articulado a um cuidado saudável do corpo e fortalecimento
do self. O sentido de tal erotismo seria o de transgredir as restri-
ções ao livre exercício da sexualidade. Gregori identifica ainda
uma dimensão de domesticação dos traços e conteúdos violentos
neste erotismo “politicamente correto”.
Os manuais encontrados por Gregori nos sex-shops (para
uso de sex-toys e práticas S/M10) procuram legitimar a prática em
10 A sigla S/M se refere às chamadas práticas sadomasoquistas.

119
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

questão. Tais manuais buscariam

desinvestir o caráter transgressor dos exercícios,


descaracterizar o caráter o patológico e perverso
dos agentes envolvidos e convidar os leitores a ex-
perimentarem essas formas de sexualidade. Todos
eles enfatizam como essa expansão das fronteiras
eróticas reforça a autoestima das pessoas, libertan-
do-as de preconceitos e estimulando a imaginação.
(2004:249)

O suposto mundo liberal a que se referem meus pesquisados


seria composto por casais que procuram vivenciar este “erotismo
politicamente correto”, ampliando o escopo de práticas sexuais
possíveis não apenas por meio do uso de acessórios disponíveis
no mercado erótico, mas também pela vivência de situações se-
xuais que incluem a presença e a participação de outros indiví-
duos.
Ser parte de um mundo liberal aparece nos discursos relacio-
nado à vivência de fantasias sexuais, a uma experimentação se-
xual maior e, consequentemente maior liberdade e maior conhe-
cimento de si. Ser parte deste mundo também pode ser vinculado
a um mercado pornográfico, envolvendo a esfera do consumo.
Frequentar casas de swing, festas de fetiche, ou contratar servi-
ços de prostituição, frequentar a praia em local onde se reúnem
casais adeptos do swing, homossexuais e simpatizantes, seriam
alguns exemplos. Fazer uso de produtos de sex-shops, visitar sites
da internet, também estariam inseridos nesta esfera. O sexo não
se restringe mais ao âmbito das quatro paredes, se espalha por
um ambiente mais amplo, mas que de qualquer maneira ainda
pode conter uma dimensão de controle por meio do anonimato.
A mesma pesquisada mencionada acima indica que nem to-
dos que praticam swing poderiam ser considerados parte des-
te mundo liberal. Ser liberal seria algo temporário para algumas

120
Olivia Von Der Weid

pessoas, uma fase da vida, enquanto que, para outras, seria mais
definitivo, da personalidade do indivíduo.

Eu acho que eu não tenho uma essência liberal, eu


passei por uma fase liberal entre aspas, e agora eu
não estou mais. No caso do Andre (ex marido da
entrevistada) ele sempre teve uma vida que não foi
liberal e aí a gente teve uma vida liberal e ele está
continuando, porque? Porque a essência dele é libe-
ral. Eu acho que é importante você saber o que você
quer para você. (Ana)

Foucault (2005) demonstrou que não apenas o sexo, mas tam-


bém o discurso sobre o sexo, se transformaram em uma fonte
de acesso à inteligibilidade individual, à totalidade do corpo ou
à própria individualidade no dispositivo da sexualidade. Na so-
ciedade ocidental moderna a construção da pessoa passa pela
emergência da sexualidade enquanto novo locus de verdade do
sujeito. O sexo é colocado em discurso e se transforma naquilo
que tem o poder de dizer a verdade sobre o indivíduo. Por meio
do discurso sobre o sexo, desenvolve-se um saber sobre o sujeito.
O depoimento desta entrevistada sugere que ser liberal, na es-
sência ou temporariamente, possibilitaria um maior conhecimen-
to de si a partir de experiências que envolvem práticas sexuais.
“Saber o que se quer para você” está relacionado as experiências
sexuais de sua vida, que definem aquilo que se é - liberal por
essência, fase da vida liberal – tendo consequências em sua tra-
jetória – continuar uma vida liberal ou interrompê-la. No caso da
entrevistada, como ela sugere, o marido continuou e ela própria
interrompeu, o que resultou no fim de seu casamento.

Neste capítulo desenvolvi uma reflexão sobre a dimensão da


sexualidade e do prazer entre os praticantes de swing. Quatro

121
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

características essenciais surgem articuladas à sua concepção de


prazer: a fantasia, a transgressão, a intensidade e o controle.
Começando com uma imagem de transgressão, com um com-
portamento sexual inusitado que “perturba a ordem”, vemos que
a prática de swing não pode ser entendida apenas por seu lado
contestador. A liberdade sexual não parece tão simples de ser
alcançada e os casais praticantes de swing tentam garanti-la bus-
cando sua adequação a padrões aceitáveis e regrados.
Ao contrário dos libertinos, os swingers não estão se propon-
do a uma experiência radical de prazer, buscam sim vivenciar cer-
tos prazeres dentro de uma determinada ordem que sirva como
controle e limite. No atual hedonismo moderno concretizar fan-
tasias não leva à satisfação, gerando apenas prazeres momentâ-
neos, frustração, novos desejos e novas fantasias a serem realiza-
das. O limite deste jogo aparentemente não tem fim, mas no caso
do swing, uma prática a dois, ele parece se encontrar nos limites
de uma relação afetiva. Aprofundaremos esta última discussão no
capítulo final.

122
Olivia Von Der Weid

Gênero, corpos e práticas sexuais

Neste capítulo procuro entender a construção do masculino


e do feminino no universo do swing. Que tipos de comporta-
mento demarcam o que é ser homem e ser mulher? De que for-
ma as identidades de gênero se relacionam com o desempenho
de determinados papéis sexuais? Comparo a construção de uma
identidade sexual masculina com a feminina, com o objetivo de
compreender como as semelhanças e diferenças nestas identida-
des nos ajudam a pensar sobre o que significa ser homem e ser
mulher neste meio.

Iniciando-se na prática
Através das entrevistas e nas conversas informais que tive ao
longo do trabalho de campo, pude observar que, ao se iniciarem
na prática do swing, as mulheres aprendem um certo tipo de con-
duta que a princípio é identificada como masculina. Nas palavras
de uma entrevistada: “é criação. É muito mais difícil uma mulher
romper certos dogmas do que um homem né? Você é educada para
ser casta e o homem é educado para ser galinha, não é verdade
isso? Então para ela romper isso é muito difícil” (Heloísa). Algu-
mas mulheres relataram que em suas primeiras idas a uma casa
de swing sentiram-se inseguras, tiveram ciúmes e que o começo
foi muito difícil. Já para os homens o discurso é que o impulso
sexual seria algo natural, “nascem com essa coisa de sexo, desde
pequenos, os pais acabam estimulando” (frase ouvida durante o
encontro “O swing e o casamento”). Nos encontros foi dito que a
mulher é educada para querer o príncipe encantado, casar com o

123
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

homem que ama e ficar a vida toda com ele.


Nove dos onze casais que entrevistei disseram que a iniciativa
para o swing partiu do homem. Alguns afirmam que demoraram
um ano ou mais para convencerem suas mulheres a experimenta-
rem a prática, como é o caso de um dos entrevistados: “Mais ou
menos com um ano de namoro eu toquei no assunto do swing e foi
um ano e meio de luta para conseguir” (Bernardo). Em diálogo de
um casal entrevistado sobre a iniciativa para a prática, colocou-se
a seguinte ideia:

Guto: toda a vez que a gente estava transando eu


ficava jogando, incrementando, entendeu? para ver
se ela se empolgava. As primeiras vezes eu senti que
ela ficou meio contrariada, meio puta mesmo...
Gabriela: no começo eu não gostava muito não, ou-
via e fazia de conta que não estava ouvindo, achava
falta de respeito. Aí depois eu comecei a gostar.
Guto: essa cantada de pé de ouvido levou quase um
ano, e ela se empolgando, quando eu vi ela já tava
completamente dominada pela ideia.

A iniciativa para o swing, na maioria dos casos pesquisados,


parte do homem. A mulher diz que aos poucos vai se adaptando
a um desejo masculino. É como se, para entrar em um mundo
onde o que impera é a lógica do sexo por prazer, sem envolvimen-
to afetivo - aspectos que caracterizariam uma cultura masculina
(Simmel, 2001) - a mulher tivesse que aprender a se comportar
como um homem. Ela entra para um ambiente swinger seguindo
um imaginário de prazer considerado masculino. A iniciativa é do
homem, o que não quer dizer que não existam exceções à regra,
como pode ser visto no seguinte relato:

Pergunta: mas pelo que você observou nesse tem-


po, como é essa coisa do convencimento?

124
Olivia Von Der Weid

Ana: é do homem, do homem.


Pergunta: do homem convencer?
Ana: o homem. A grande maioria das vezes. Não
vou dizer que não tenham mulheres que você vê
que elas estão lá muito mais pra curtir do que o
marido. Tem. Mas percentualmente eu diria pra você
que 80% são os homens que vão e levam as suas
mulheres, tem muitas mulheres que você vê que não
estão curtindo, algumas sim, e a maioria não.

A diferença de idade entre homens e mulheres pode ser obser-


vada entre muitos casais que aderem ao swing. Dos onze casais
que entrevistei, todos os homens eram mais velhos que suas par-
ceiras. Em dois casos a diferença é de apenas um ano. Nos outros
a distância aumenta, indo dos seis até dezenove anos. Segundo
um entrevistado “normalmente você vai encontrar casais que o
homem é mais velho que a mulher e tem uma experiência, uma
ascendência muito grande sobre a mulher” (André).
Nas entrevistas, relata-se que há mulheres que se submetem
ao desejo do marido de praticar swing por medo de ficarem so-
zinhas. E isso aparece especialmente no caso de casais em que a
mulher é muito mais jovem. André aborda esta questão:

Pode ser que ela tenha muito prazer, mas mesmo


que ela não tenha ela vai fazer para não perder o re-
lacionamento. E os homens usam isso de uma forma
canalha, nós somos canalhas por natureza, todo ho-
mem é canalha, não tem ‘ah, sou bom’, não é bon-
zinho, o cara é bonzinho até certo ponto, mas tem
aquela veia, o sangue podre do canalha, do cafajeste
igual a mim, não tem jeito. Então se o cara estiver
mal intencionado, ele pega uma menina nova e leva,
cansei de ver vários. O homem mais velho que a
mulher e ela é influenciada, totalmente influenciada
pelo companheiro. (André)

A dominação masculina, traços de uma sociedade patriarcal e

125
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

machista, também se reproduz no ambiente swinger, podendo ser


identificada na iniciativa para a prática, que em geral parte dos
homens, e na diferença de idade entre os membros do casal, os
homens mais velhos que as mulheres, onde a diferença de idade
também simboliza subordinação feminina e poder de controle e
convencimento masculinos.

Por trás dos panos


Na primeira vez que decidi ir a uma casa de swing, uma das
minhas preocupações foi sobre como deveria ir vestida. Buscava
uma blusa lisa, elegante e discreta. Queria algo que me fizesse
passar despercebida, um traje neutro. Imaginava que nesses luga-
res as mulheres estariam mais arrumadas, com roupa sexy, mas o
meu objetivo era ser o mais discreta possível. Com o desenvolvi-
mento da pesquisa descobri que a dificuldade que senti no início
não era apenas pessoal e que a roupa possui um significado no
meio, principalmente para as mulheres.
Na observação participante pude perceber que as mulheres
se vestem de forma sensual e provocante. Os trajes variam entre
vestido curto ou saia curta e justa, blusa de alcinha, vestido de
uma alça só, tomara que caia, decotes dos mais variados estilos.
Boa parte das mulheres que observei estavam sem sutiã. Quase
nenhuma veste calça comprida. Para um entrevistado “a maioria
das mulheres optam por usar vestidos ou saias porque fica mais
prático, para se expor também, mostrar o corpo” (Ivan). Mais do
que uma simples curiosidade, pude constatar que, no meio swing,
os trajes femininos podem simbolizar o status da mulher, inician-
te ou iniciada, ou sua disposição para a noite. No depoimento
de Ivan fica clara a função que a roupa da mulher exerce como

126
Olivia Von Der Weid

sinalizador de seu “estado de espírito”:

Então se você foi de calça jeans aí você já sabe que


ou existe uma dificuldade ou a pessoa está mens-
truada, ou a pessoa está indo, mas não quer fazer
nada. Aí quando existe uma roupa muito ousada,
você já sabe que a pessoa está ali porque quer fazer.
Quando existe uma roupa assim uma saia, uma coi-
sa mais light, você sabe que a pessoa está lá, mas
quer manter a postura, então de repente pode rolar,
mas é uma coisa que ela quer mais discrição, ela vai
ficar num canto... Você começa a interpretar a per-
sonalidade de cada um na roupa que cada um expõe
ali naquele dia. (Ivan)

Segundo os entrevistados, a mulher que está de calça em um


ambiente como este procura alguma forma de proteção. Como
era um assunto recorrente nas entrevistas e nos encontros, passei
a notar que uma estratégia que usei, no início inconsciente, era
estar sempre de calça. Posteriormente, os próprios pesquisados
perceberam este costume e chegaram a comentá-lo comigo.
Na fala de um entrevistado aparece o fascínio que certo tipo
de roupa exerce sobre os praticantes de swing: “só a roupa que ela
botou para vir pra cá, só o fato dela estar preparada para vir pra
cá, botando uma sainha ou esse vestido que ela está hoje, que eu
adoro, isso já é excitante para mim” (Felipe). Outra entrevistada
disse: “a gente vai a casas de casais eu gosto de estar arrumadi-
nha, uma roupa mais sexy, uma saia curtinha, um salto bonito,
uma calcinha nova” (Heloísa).
No swing a mulher procura “apresentar-se desejável”, o que
aparece não apenas nas roupas que escolhe usar, mas também em
uma preocupação com a forma física, podendo incluir uma certa
postura exibicionista. Uma espécie de ostentação narcisista do
homem, que não apareceria somente em uma esposa com pentea-

127
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

dos chiques e roupas caras (Freyre, 2006), mas em um corpo que


se apresente como sexualmente desejável11. As mulheres que ob-
servei durante o trabalho de campo escolhem cuidadosamente a
lingerie da noite e algumas fazem shows de strip-tease. Nos sites
de casais, nos anúncios presentes nas páginas de casas de swing
na internet e nos blogs, o corpo feminino está em evidência, em
poses sensuais e nus explícitos.

Hoje analisando de fora, engraçado porque você co-


meça a ter uma outra visão, você vê como a mulher
é tratada como objeto. Objeto assim pra satisfazer o
seu marido, objeto pro seu marido dar a sua mulher
pra um outro homem. Eu acho que tem um pouco
dessa coisa de “olha como a minha mulher é gostosa
que você está comendo”. (Ana)

Nos anúncios publicados nos sites das casas de swing e nas


páginas pessoais, os casais procuram parceiros para a realização
da “troca”. Nestes anúncios, a maioria com fotografias, o corpo
feminino aparece como forma de propaganda do casal, uma es-
pécie de “cartão de visitas”. Segundo os entrevistados, no swing
a mulher “é quem faz a ponte”, “é o chamariz” e seu corpo é
utilizado nestes anúncios como “vitrine”. Para um entrevistado, a
mulher “é mais um objeto de desejo, é o chamariz. E ela é chama-
riz tanto para a mulher do outro casal quanto para o homem. Se
botar um homem não né, vai ser chamariz para o outro homem”
(Emanuel).
DaMatta (1985), ao analisar o romance “Dona Flor e seus dois
maridos”, aponta para o aspecto relacional básico que o femini-
no assume na estrutura ideológica brasileira como mediador por
excelência. A mulher seria a fonte de elos entre os homens. No
11 Ostentação que certamente não se restringe ao ambiente swing, como podemos observar no erotismo explícito de
propagandas, outdoors, anúncios de revistas que usam e abusam da imagem e do corpo feminino.

128
Olivia Von Der Weid

swing esta função de mediação feminina aparece na forma como


o corpo feminino é utilizado nos anúncios. Nas fotografias, o cor-
po feminino é totalmente exposto, nos seus mínimos detalhes e
nas posições mais variadas. As mulheres mostram tudo, à exce-
ção do rosto. A construção do feminino nestes anúncios reforça
posições de subordinação feminina a um sujeito masculino do
desejo, visões sexistas que privilegiam o olhar masculino.
Quando se trata dos homens, a mesma preocupação e cuida-
do com a aparência não parece estar presente. A maioria veste os
mesmos trajes que usaria em outro evento social qualquer: calça
e camisa, no máximo social. Um entrevistado disse: “o homem
não, o homem é básico. Calça e camisa, calça e camisa, calça e
camisa, às vezes muda sapato ou tênis, calça e camisa, não tem
como, não tem, é característica, né?” (Ivan).
Existe uma prescrição de que à mulher cabe uma preocupa-
ção maior com a aparência, com o físico, enquanto o homem
precisa se restringir ao básico, não se preocupando com roupas
(ou ao menos demonstrando despreocupação).
Menos incomodados com a beleza e a forma física que parece
permear o universo feminino nestes ambientes, os homens pare-
cem se preocupar muito mais com a sua performance sexual. O
medo masculino é o de falhar na hora “H”. Nos encontros, esta
questão foi bastante discutida e chegou a se dizer que só os men-
tirosos nunca “broxaram”. No swing, esta preocupação ficaria
ainda mais evidenciada no caso dos homens que estão indo pela
primeira vez, porque, segundo eles, o nervosismo e a adrenalina
são os principais inimigos de uma boa ereção.
Um entrevistado relata uma de suas primeiras idas a uma
casa de swing da seguinte maneira:

Eu tinha aquela expectativa bem machista mesmo,

129
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

achava que ia chegar, ia ser uma suruba geral, todo


mundo comendo todo mundo, eu ia cair, mergulhar
e ia ser uma farra geral. Na verdade não foi isso, eu
me descobri um macho totalmente diferente do que
eu achava que eu era. Até pela minha idade nova eu
não estava habituado a certas fisiologias do meu pró-
prio corpo, entendeu? então eu achava que ia chegar
aqui e ia ser super desinibido e na verdade não fui.
Então no primeiro swing foi muito bom porque eu
estava só com ela, no segundo que eu já entrei “uhh,
vamos lá”. Não rolou, não rolou porque eu não con-
segui ficar ereto, não consegui ficar excitado, quer
dizer, excitado eu tava, mas eu não tava ereto, não
tava... cheguei à conclusão de que quando a oferta é
muita a gente não sabe para onde atirar, eu acho que
é problema de focalização. (Bernardo)

Cecla (2004) ajuda a pensar sobre o discurso do entrevistado


ao descobrir que seu pênis não é “infalível”. O autor argumenta
que o homem trata o seu pênis como se fosse uma máquina, e faz
parte da crise do macho descobrir que o órgão não é um princípio
autônomo, mas pertence ao seu próprio corpo. DaMatta (1997),
em sua reflexão sobre a construção da masculinidade no Brasil,
revela que uma das fantasias mais aterrorizantes para os homens
é o risco da falha ou da impotência sexual. Isso porque, segundo
o autor, o pênis representa o órgão central e explícito do masculi-
no, o traço distintivo da condição de “homem”. O medo de “virar
broxa” traria à tona a “problemática masculina”.
O que se observa é que ser homem parece sempre passar pela
necessidade de se provar que é homem. E a prova é demonstrar
que não é homossexual e não é passivo (Badinter, 1995). Preocu-
par-se demais com a forma física e a aparência em uma casa de
swing significaria correr o risco de ser acusado de “feminino”. A
possibilidade de falhar na hora “H” é motivo de preocupação por-
que colocaria em jogo a qualidade de “macho”. Este, entretanto, é

130
Olivia Von Der Weid

um aspecto que se questiona no swing, mesmo que entre piadas


e ironias, talvez por não ser um problema tão incomum assim.
Sobre esse assunto, relata-se no blog “Fantasias de Casados”:

Quem nunca falhou? Ou melhor, qual o homem que


nunca se preocupou com o desempenho quando
está com uma mulher pela primeira vez? Falando
sério? Por mais que a gente seja seguro, que o bicho
funcione como um relógio, que a testosterona ande
a mil, sempre há o fantasma de, na hora H, nosso
amigo de fé, irmão camarada não se apresentar para
o serviço. É bem provável que esta sacanagem aí já
tenha acontecido com muita gente boa neste blog.
Bom, se quando a gente está apenas com mais uma
pessoa na cama e acontece isso já é ruim, imagine
quando tem quatro ou seis ou oito? A broxada no
swing muitas vezes é difícil de administrar. Geral-
mente os casais mais esclarecidos tratam o assunto
melhor e sabem que isso se resolve sempre no se-
gundo encontro.

Para além da preocupação com o desempenho sexual, outro


ponto que parece ser um problema, tanto para homens, quanto
para mulheres praticantes de swing, é o tamanho do pênis. Baras-
ch (1997) aponta que a crença de “quanto maior, melhor” ainda
atormenta muitos homens. Para a autora, é possível que, na fan-
tasia de algumas mulheres, o tamanho do pênis gere excitação.
Seguindo esta lógica, pode-se supor que os homens que possuís-
sem um órgão sexual mais “avantajado” seriam mais procurados
no meio swinger. Entretanto, o que pude perceber nas conversas
informais com os praticantes e pelo que foi dito nos encontros, é
que no swing também acontece justamente o contrário. As mu-
lheres parecem não gostar quando o pênis do homem é muito
grande e algumas disseram que colocam limites para o tamanho
na hora de se relacionar sexualmente. Este aspecto também foi

131
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

observado por Goldenberg (2004) em artigo onde analisa os usos


do corpo pela juventude carioca. A autora destaca que possuir o
pênis grande aparece como defeito para duas pesquisadas, o que
parece contrariar as expectativas masculinas sobre o tema.
Outra questão abordada se refere ao passado sexual dos ho-
mens e mulheres entrevistados antes de se tornarem adeptos da
prática do swing. Um ponto que despertou minha atenção foi
quando perguntei sobre o número de parceiros sexuais das mu-
lheres. Sete das onze mulheres que entrevistei relataram que ti-
veram poucas experiências sexuais antes de praticar swing (até
dois parceiros), duas delas perderam a virgindade com o atual
parceiro e quatro tinham se relacionado com apenas um homem
além do parceiro. Os homens, ao contrário, responderam um nú-
mero significativamente maior, através de expressões como “não
tenho idéia”, “não sei dizer, são muitas” ou de uma faixa aproxi-
mada como “mais ou menos 60”, “mais de 500”. Nenhum homem
respondeu um número exato de parceiras sexuais. Goldenberg
(2004), ao analisar a sexualidade de jovens cariocas, identifica
uma aproximação nas idades em que homens e mulheres se ini-
ciam sexualmente. Porém, no que se refere ao número de par-
ceiros sexuais, a autora indica que a distância entre homens e
mulheres permanece, uma vez que os números masculinos são
imprecisos ou bastante superiores aos femininos.
As mulheres pesquisadas disseram que após se iniciarem na
prática do swing experimentaram relações sexuais com homens
variados e que esta possibilidade abriu portas para um maior co-
nhecimento do próprio prazer. Ao se tornarem adeptas da práti-
ca passaram a diversificar seus parceiros sexuais adquirindo um
comportamento tradicionalmente identificado como masculino
e socialmente “proibido” às mulheres. Uma entrevistada relata:

132
Olivia Von Der Weid

“transei com mais homens casada do que quando era solteira”


(Ana). Durante a observação participante, no encontro “O swing
e o casamento”, uma mulher contou que antes de conhecer o
marido teve apenas um parceiro sexual e depois de se iniciar no
swing relacionou-se com cerca de 30 homens em 4 meses. Outra
frequentadora, que teve somente um parceiro sexual antes do ma-
rido, fazia swing há um mês e neste período disse ter se relacio-
nado com nove homens diferentes.
Ter experimentado “de tudo” - sexo com outro homem na
presença do marido, ver o parceiro se relacionando com outra
mulher, sexo com dois, três, oito homens na mesma noite – con-
tribuiu, segundo elas, para um autoconhecimento maior das
potencialidades de seu corpo. A possibilidade de experimentar
relações sexuais com outros homens e mulheres permitiria um
conhecimento maior de seu desejo.

Eu acho que eu despertei sexualmente. Eu era muito


travada, eu me liberei sexualmente. Me liberei se-
xualmente até pra dizer o que eu quero e o que eu
não quero. Hoje nada me espanta, nada me assusta,
sexualmente eu sei o que eu gosto, o que me dá
prazer. Depois que eu experimentei várias coisas eu
tenho até discernimento pra dizer “ah isso aqui é um
cara que tem um... que me satisfaz”. Porque eu sei
o que eu quero de uma outra pessoa e eu sei o que
eu posso, eu sei o que o sexo tem pra me oferecer.
(Ana)

Outra entrevistada diz:

Antes de entrar nesse meio eu era uma pessoa assim


muito pudica, sabe? eu frequentava a igreja, eu era
católica e o sexo para mim tinha pouco tempo, então
ainda não tinha me descoberto, eu só me descobri
realmente depois que estive com ele. (Daniela)

133
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Para elas, ser desejada por outros homens e mulheres além


do marido, e experimentar este desejo concretamente nas práticas
sexuais, é uma espécie de poder que aumenta a autoconfiança.
É o que pode ser observado nos seguintes depoimentos de duas
mulheres:

Antes da coisa do swing eu era muito travada com a


minha libido, com a minha sexualidade, com o meu
lado mulher. Eu não usaria um salto enorme com
um vestido curto e querer chamar a atenção dos ho-
mens e me sentir gostosa e tentar seduzir alguém.
Hoje isso eu faço. (Ana)

Antes de ter um contato com o meio swing eu era


uma pessoa muito introvertida, fechada, não conse-
guia olhar para a cara das pessoas, eu tinha medo
de falar com as pessoas, de chegar nas pessoas, e
esse meio me fez com que eu chegasse nas pessoas,
eu me tornei muito extrovertida, falo muito mais do
que eu falava antes. Hoje em dia eu chego, falo, eu
brinco. (Daniela)

Para compreender este ponto, é interessante trazer a reflexão


de Duarte (1999) a respeito de dois dos temas presentes nas figu-
ras contemporâneas da sexualidade: o fisicalismo e a experiência.
Segundo o autor, o fisicalismo seria a consideração da corporali-
dade em si como uma dimensão autoexplicativa do humano. A
corporalidade humana seria dotada de sua própria lógica, a ser
descoberta, possuindo implicações imediatas sobre a condição
humana. É através da experiência em relação ao mundo exterior,
por intermédio dos sentidos, que serão construídas novas formas
de relação com o mundo. Em seus depoimentos as entrevistadas
articulam a ideia de que as experiências sexuais que viveram no
swing teriam proporcionado um conhecimento maior do seu cor-

134
Olivia Von Der Weid

po e prazer, permitindo-as alcançar uma “descoberta de si” que


não apenas diz respeito a essa dimensão corporal. Ainda que ad-
venha de tal dimensão, descobrir a lógica própria de seus corpos
também promoveria novas formas de se relacionar com o mundo,
que nos casos relatados envolve as noções de extroversão, con-
fiança e autoestima.
Por um lado, o corpo feminino no swing pode ser visto como
um corpo socialmente construído e que, portanto, reflete uma
cultura altamente sexista e hierárquica que se organiza em torno
do olhar masculino - o que aparece no swing pelo uso feminino
da roupa, no exibicionismo das fotografias, no corpo feminino
dos anúncios como objeto de desejo e sedução de um sujeito
masculino. Por outro lado, em uma abordagem mais focada no
papel do corpo nos processos de construção da subjetividade,
poderíamos pensar que as experiências eróticas vividas por essas
mulheres no swing também podem gerar uma transformação da
imagem que elas fazem do seu próprio corpo (e consequentemen-
te de si mesmas), por meio dessas experiências de descoberta de
si e afirmação de vontade própria através do exercício da sexua-
lidade. Experiências que escapam ao domínio que socialmente
se impõe ao desejo feminino e que, por isso, revelam um corpo
e uma subjetividade que subvertem a tentativa de controle que
vem do mundo externo.

Corpos despidos
O que contribui para um casal ser mais “desejável” do que
outro? Quando se trata de escolher os parceiros para a realização
da troca, percebe-se que alguns critérios entram em jogo e um
certo tipo de casal parece ter alguma vantagem. No discurso dos

135
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

entrevistados pode-se notar que, na hora da escolha, caracterís-


ticas como idade, altura, peso ou certo tipo de corpo, também
estão envolvidos.

Tem casais que só querem estar com outros casais


do tipo perfeitinhos, bonitinhos de corpos, rostinhos
bonitos. Se tem uma certa idade, casais acima de 40,
não curtem sair, acha que não vai ser legal, prefere
pessoas da mesma idade, saradão, malhadão, bundi-
nha empinada, peitinho bonitinho. (Heloísa)

Apesar de afirmarem que na hora da seleção contam atributos


como a “cabeça” e a “conversa”, características como a beleza e
a juventude parecem colaborar para um casal ser mais disputado
no meio. Nas palavras de Henrique: “todo mundo diz que beleza
não põe mesa, eu digo que beleza não põe mesa, mas convida para
sentar. Você vai lá para ver qual é, de repente não é, de repente
não pinta”. Outra entrevistada disse que o assédio acontece “prin-
cipalmente se for um casal jovem” (Gabriela).
No swing, o corpo parece ter um valor semelhante ao do sis-
tema de referência erótico descrito por Parker (1991): como objeto
de desejo e fonte de prazer. Observa-se uma valorização explícita
do potencial erótico dos corpos, caracterizado em termos de sua
beleza e sensualidade. Essa lógica acaba gerando uma divisão
dentro do swing, entre aqueles que são desejáveis e os que não
são. Os primeiros teriam uma possibilidade maior de escolha dos
parceiros sexuais, enquanto os últimos acabariam se relacionan-
do entre si. Diretamente vinculados ao ideal de sedução estão a
beleza, a magreza e a juventude. Uma entrevistada descreve da
seguinte maneira a forma como funcionam as escolhas eróticas
no swing:

As pessoas se juntam por tribo. Tem cara que você


vê que escolhe. Só que também tem aqueles grupos,

136
Olivia Von Der Weid

por exemplo, tinha uma menina lá que ela tinha 25


anos, mas assim, uma pessoa que não se cuidava,
não tinha o corpo bonito, não era bonita, então aca-
ba que ela se envolvia com pessoas mais ou menos
parecidas, porque um cara que é todo gostoso, a
maioria das vezes quer uma mulher gostosa. Uma
mulher que se cuida, eu sou uma pessoa que eu me
cuido, eu vou à academia, faço dieta, eu faço um
monte de coisas, então eu também não quero chegar
lá e ficar com um cara que eu olhe e fale ‘pô nada a
ver’, eu acho que eu posso conseguir uma coisa me-
lhor. Até porque eu não estou indo lá para arrumar
um namorado. (Ana)

Comparando o corpo da mulher francesa com o da mulher


brasileira, Malysse (2002) identifica que, na produção feminina
da aparência pessoal, o corpo se torna o centro das estratégias de
vestir na cultura brasileira. A exposição do corpo é o foco prin-
cipal e a roupa vira um simples instrumento de sua valorização,
uma espécie de ornamento do corpo. O uso da roupa e a exposi-
ção do corpo feminino no swing parecem reproduzir a estratégia
identificada por Malysse em mulheres brasileiras, quando usam
as roupas sobretudo para valorizar as formas do corpo, para exi-
bi-las, marcando especialmente partes como cintura, busto, qua-
dris e nádegas. Goldenberg (2007) acrescenta que, na cultura do
culto ao corpo carioca o corpo é a verdadeira roupa: “é o corpo
que deve ser exibido, moldado, manipulado, trabalhado, costura-
do, enfeitado, escolhido, construído, produzido, imitado” (Gol-
denberg, 2007: 25).
Dois atributos que parecem contar negativamente na hora da
conquista são o peso e a idade. Pelas entrevistas pode-se notar
que um casal mais velho, acima de uma certa faixa etária, teria
mais dificuldade para se relacionar sexualmente com outros ca-
sais. De acordo com um entrevistado:

137
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Às vezes tem um casal que a gente olha assim, sabe?


São mais velhos e tal, não é questão de preconceito,
nada, é questão... como é uma coisa de tesão, de
prazer, nós não estamos discriminando, o casal
chega aqui a gente conversa, conversa indis-
criminadamente com os novos, com os velhos,
com os feios e com os bonitos. Mas para fazer
sexo, entendeu, essa coisa de você... aí não é por
discriminação, é questão de tesão. Então às vezes
tem um pessoal coroa e tal, acho que a gente
vai ficar coroa um dia, a gente pensa pô, mais
aí vamos procurar um clube de coroa. (risos)
A gente, por exemplo, não se atrai por pessoas
mais velhas, a gente tem essa coisa, entendeu,
não se atrai. Não é uma regra que existe entre a
gente, pode até acontecer dela transar com um cara
mais velho ou eu transar com uma mulher mais
velha, mas de antemão não é a nossa preferência.
(Emanuel)

Uma entrevistada disse que para um casal mais velho seria


mais difícil relacionar-se com casais mais jovens: “Ou vai ter al-
guma coisa com um casal da mesma idade ou um pouco mais, se
for para ter alguma coisa com um casal mais novo, com certeza
não vai rolar” (Heloísa).
Um casal onde o homem é mais velho do que a mulher, às ve-
zes 15 anos mais velho, e a mulher é jovem, em torno de 30 anos,
por exemplo, teria mais chances de se relacionar sexualmente
com outros casais do que um casal onde tanto o homem quanto a
mulher têm mais de 45 anos. O que contaria negativamente para
o casal na hora da troca não parece ser tanto a idade do homem,
mas sim da mulher.
No swing, as mulheres parecem estar mais preocupadas com
sua forma física do que os homens. Segundo um entrevistado:

138
Olivia Von Der Weid

“eu não sei porque nesse meio tem muito casal em que a mulher
é muito bonita e o cara não é lá essas coisas, muito gordo, obeso,
sei lá” (Diogo). Outra entrevistada disse:

Não é nem aquele cara assim maravilhoso, mas


é lógico que eu não quero assim transar com
um cara, ninguém se imagina transando com
um cara gordo, esquisito, não sei o quê, mas
atributos físicos, um cara assim mais propor-
cional, sem barriga. Eu acho que a maioria, 99%
das mulheres são mais exigentes do que os homens
nessa coisa. (Emília)

Os dois atributos, o peso e a idade, também con-


tam negativamente nas relações entre mulheres.
Para uma entrevistada: “é difícil eu me relacionar
com mulheres, porque nos locais que a gente vai ge-
ralmente são mais velhas ou são gordas. Geralmente
eu me atraio por jovens e que sejam bonitinhas tam-
bém” (Fernanda). No discurso dos entrevistados ob-
serva-se um tipo específico de corpo mais desejável
do que outros, pessoas gordas e com uma idade mais
avançada seriam menos atraentes sexualmente.

O corpo mais valorizado no swing, como objeto de desejo


e fonte de prazer, se aproxima do corpo distintivo descrito por
Goldenberg & Ramos (2002). Aqueles que possuem corpos “em
forma”, trabalhados, sarados, malhados, teriam a sensação de
pertencimento a um grupo de “valor superior”. No swing esta
identificação e distinção aparecem explicitamente na escolha de
parceiros para se relacionar sexualmente.

Se você está ali pela sacanagem, pela coisa do sexo,


pela coisa da carne, você vai querer um cara... é que
nem boate, você está numa boate, você vai olhar
para aquele feio? Aí passa um deus grego na sua
frente e olha pra você, você vai querer o quê? O deus
grego. A mesma coisa no swing, eu também vim

139
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

aqui só para me divertir, só para me dar bem, enten-


deu? Não estou falando que você só olha para os bo-
nitos, mas você olha para as pessoas que fisicamen-
te te dizem alguma coisa. Chega numa festa você vai
olhar para quem te interessa, “ah não, tadinho, vou
lá dar pro feio”, o feio que vá comer outra feia, o
feio que vá ficar com quem ele quiser. Não vou dizer
que eu nunca fiquei com homens que depois eu falei
‘putz, nada a ver’, mas eu acho que eu era bastante
seletiva. (Ana)

Pelos depoimentos dos pesquisados percebe-se que, no swing,


o corpo ocupa o lugar central nas experiências de aproximação ou
afastamento, funcionando como um equivalente de sujeito ou de
pessoa (Le Breton, 2011). Na passagem do corpo objeto ao corpo
sujeito, o indivíduo se torna o seu próprio corpo. Todos os cuida-
dos convergem para a sua construção: academia, roupas, dietas,
salões de beleza. Não é qualquer corpo que adquire o status de
corpo desejável, mas aquele que é jovem, não tem marcas inde-
sejáveis (da idade ou de peso), moldado, esculpido. Considerado
por Baudrillard (2008) como “o mais belo objeto de consumo”,
os corpos no swing - especialmente os femininos - encarnam a
promessa implícita da diferenciação e do prazer, modelados pelos
signos do consumo.

O masculino oculto
Ao longo das entrevistas, durante a observação participante e
em conversas informais com os casais pesquisados, um dos pri-
meiros pontos que observei é que existem certas regras de condu-
ta em uma casa de swing. Entre estas regras encontra-se: ser ho-
nesto como outro casal a respeito de suas preferências, o respeito
pela vontade do outro casal e ainda “não desejar a mulher (ou o

140
Olivia Von Der Weid

homem) do próximo, quando o próximo não está próximo”. Tais


comportamentos parecem fazer parte de uma “etiqueta” swinger,
como enfatizado foi por Ana: “tem muito essa coisa da etiqueta
né? Os casais que frequentam têm muito essa coisa da etiqueta, de
ter cuidado com o outro para não ser inconveniente”.
As regras aparecem de maneira sutil e nenhuma é tão explí-
cita quanto a que se destaca na fala de André: “atualmente no
swing só tem uma regra que meio que todo mundo respeita que é:
não tem homossexualismo masculino12”.
Para refletir sobre esta questão, é interessante pensar sobre
como a masculinidade, na sociedade brasileira, se constrói a par-
tir da negação da passividade. Fry (1982), ao estudar as represen-
tações sobre a sexualidade em Belém, já indicava que é em torno
da distinção entre ativo e passivo que as noções de masculino
e feminino são construídas. O ato de penetrar e de ser penetra-
do adquire, através dos conceitos de atividade e passividade, o
sentido de dominação e submissão. Assim, homem é aquele que
penetra, e mesmo que este papel ativo seja desempenhado em
uma relação sexual com outro homem, não estaria sacrificando a
masculinidade.
Misse (2005) chama a atenção para as conotações pejorativas
e estigmatizantes que recaem sobre o passivo sexual em nossa
cultura. A virilidade estaria ligada a características como força,
proteção, autoridade, independência, todas refletindo uma pos-
tura masculina ativa. No que se refere à sexualidade, o heteros-
sexual masculino rejeita qualquer atribuição de passividade e se
considera ativo em todas as situações, fugindo do caráter desa-
creditado que recai sobre o sujeito passivo em nossa sociedade.
12 Os termos “homossexualismo” e “bissexualismo” são utilizados aqui como categorias nativas
para se referir à prática sexual com pessoas do mesmo sexo, não como conceitos, por isso são
mantidos entre aspas.

141
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Nos casais pesquisados nota-se claramente uma distinção en-


tre homens e mulheres no que se refere a suas práticas sexuais.
Os homens dizem que não apenas não se relacionam sexualmen-
te com homens, como evitam qualquer contato físico com outros
homens que tenha alguma conotação sexual. Em um encontro
cujo tema era “Bissexualismo no swing”, discutiu-se esta ques-
tão. Um dos presentes perguntou se alguma mulher tinha o de-
sejo de ver dois homens se relacionando sexualmente. A reação
neste momento foi imediata, todos falando ao mesmo tempo, rin-
do e fazendo brincadeiras, dizendo que isto seria “viadagem” e
que não eram “gays”. Após esta explosão inicial, iniciou-se uma
discussão onde enfatizavam que no swing não existe o “bisse-
xualismo” masculino, mas que não podiam ser preconceituosos
com quem apresentasse este desejo. Um dos homens presentes
afirmou:

Não que eu goste de bi ou que eu faça o bi, eu não


sinto vontade, eu não sinto prazer com homem,
mas acho que não pode existir o preconceito contra
aqueles que sentem e que querem. Ninguém é obri-
gado a fazer nada, mas não pode discriminar.

Percebe-se que os homens pesquisados tentam manter uma


certa postura que pode ser pensada como “politicamente correta”
de respeito ao desejo sexual por pessoas do mesmo sexo, mas que
é sempre do outro, nunca dele próprio. Alguns lembraram situa-
ções em que o homem do outro casal tomou alguma iniciativa
para um contato físico, mas sempre enfatizando que imediata-
mente recusaram. A fala de André neste mesmo encontro mostra
uma posição frequente no meio:

Não podemos ter preconceito, estamos em cima de


um telhado de vidro que nos separa da sociedade,

142
Olivia Von Der Weid

temos que entender as opções, respeitar. É muita hi-


pocrisia se eu, que sou swingueiro, discriminar um
cara que é gay, eu tenho que entender, tenho a obri-
gação de respeitar. (André)

Entretanto, nas entrevistas, ressalta-se constantemente a ne-


gação ao “homossexualismo masculino” e admite-se que haveria
certo preconceito em relação ao tema no meio swinger. Cláudio
disse: “os homens que fazem swing não aceitam isso”.
Kulick (1998), ao escrever sobre as travestis de Salvador, aju-
da a pensar sobre a questão da atividade e passividade, e como,
no Brasil, ser masculino está diretamente relacionado a uma pos-
tura sexualmente ativa. O status masculino de um homem depen-
de especialmente do que ele faz na cama. Um homem é aquele
que assume sempre o papel do “penetrador”. Entre as travestis
que pesquisou, um namorado só era considerado realmente ho-
mem se não apresentasse nenhum interesse pelo pênis da namo-
rada travesti, desempenhando sempre a posição de ativo. Kulick
ressalta que a masculinidade é o resultado de interesses e atos
específicos, um homem classificado como homem não pode se
interessar pelo pênis de outro homem.
Entre os meus pesquisados, um único homem, o mais jovem
que entrevistei, apresentou postura diversa dos outros e ao longo
da conversa admitiu seu desejo sexual por outros homens. Po-
rém, disse viver este desejo de forma escondida, já que no meio
swinger sua vontade não seria aceita:

Aqui no swing tem a regra geral, as mulheres são bi


e os homens são hetero, exclusivamente, e eu não
concordo com isso. Aí é posição minha, mas é uma
coisa que eu não posso mudar porque os caras são
muito machistas, extremamente machistas, enten-
deu? ninguém aqui sabe da minha opção: eu tenho

143
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

vontade também de transar com homens. (Bernar-


do)

É interessante observar que o mesmo pesquisado se refere


apenas ao órgão sexual masculino, o estímulo para ele seria o
“falo”, como se o órgão tivesse uma existência própria, separada
do resto do corpo.

Já tive transas com homens na minha adolescência,


três vezes, e fora aquela iniciação que todo garoto
começa, aprende a se masturbar com outro garoto.
Então tive um tempo de crise, pô será que eu sou
gay, será que eu sou gay, eu sou capaz de falar que
não quero, mas eu quero... aí eu resolvi e hoje eu
tenho vontade de transar com homens. Mas é uma
coisa engraçada porque eu não tenho tesão pela fi-
gura masculina, a figura masculina não me atrai, só
o falo. Uma coisa... você deve saber disso, deve ter
algum estudo, se não tem vai ter, mas não sei, é só
o falo. Agora aqui dentro isso não rola. Nem mesmo
tocar no assunto, o pessoal tem muito preconceito.
(Bernardo)

O pesquisado fala sobre o seu desejo sexual por outros ho-


mens ao lado de sua mulher, o que não pareceu em momento al-
gum ser um incomodo para ele ou para ela. Como aponta Kimmel
(1998), o verdadeiro medo masculino não seria das mulheres,
mas sim o de se sentir envergonhado ou humilhado diante de ou-
tros homens, se expor a rotulações e por isso passar a ser tratado
de fraco ou gay.  
A negação de um desejo masculino por pessoas do mesmo
sexo parece ser o que demarca a masculinidade dos homens no
meio swinger. De acordo com Kulick, o status de homem não é
algo dado na nossa cultura, mas deve ser produzido através de
desejos apropriados que se manifestam por práticas apropriadas.

144
Olivia Von Der Weid

Para o autor, é na cama que o gênero é verdadeiramente estabe-


lecido. Parker (1991) diz que a ameaça da penetração anal, seja
simbólica ou real, define as estruturas latentes dos relacionamen-
tos masculinos em nossa cultura, e a defesa contra os ataques
fálicos de outros homens se torna uma constante preocupação
durante as interações comuns da vida cotidiana.
Podemos pensar que os homens que praticam swing estariam
de certa forma desafiando uma das grandes ameaças à masculi-
nidade: o papel de corno. Como lembra Parker (1991), a traição
feminina na cultura brasileira, ao mesmo tempo fere e transforma
o homem. O autor enfatiza que tal traição é considerada uma in-
vestida violenta, um ataque frontal à identidade masculina do ho-
mem, e quando levada a cabo com sucesso poderia reduzi-lo ao
equivalente moral do “viado”. Ao serem tão enfáticos em sua pos-
tura contrária à prática de relações com outros homens, os prati-
cantes de swing talvez estejam tentando reafirmar sua posição de
homens, uma vez que só apresentariam um comportamento de
risco em relação à possibilidade de serem acusados de “cornos”.
Para entender a posição dos entrevistados é interessante lem-
brar da discussão de Fry e MacRae (1985) a respeito do surgi-
mento de uma identidade gay. No novo modelo de classificação
das identidades sexuais, baseado em relações igualitárias, pos-
tula-se a aceitação de relações afetivo-sexuais entre indivíduos
semelhantes. Ao invés de dividir o mundo entre masculino e fe-
minino, entre ativo e passivo, a divisão passa a ser entre hetero
e homossexuais. O que os autores indicam é que o movimento
homossexual, ao defender a adoção de uma identidade gay, aca-
ba por defender a adoção de uma identidade também imposta de
fora com suas regras pré-estabelecidas, sendo a principal delas a
que restringe a possibilidade de relações de homens com outros

145
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

homens. Machado (2014) identifica que os primeiros movimentos


homossexuais que surgiram no Brasil já enfrentavam a ambigui-
dade da construção identitária:  “de um lado produzir identidade
política positiva para enfrentar os interditos das fronteiras hege-
monicamente hierárquicas entre heterossexual e homossexual e,
de outro, apontar e criticar a arbitrariedade da construção social
hierárquica das fronteiras e seus constrangimentos sobre a se-
xualidade” (Machado, 2014: 20). Não apenas na esfera política,
a autora também reconhece uma relativização e uma crítica às
construções identitárias como verdades inflexíveis  nas esferas da
identidade como estilo de vida, performatividade e subjetivação.
Esta tensão e ambiguidade nas construções identitárias tam-
bém pode ser encontrada no universo pesquisado em torno do
comportamento dos homens, uma vez que, ainda que postulem
maior liberdade sexual, a manutenção de sua identidade de gêne-
ro no meio social swinger implica a obrigatoriedade de relações
sexuais apenas com indivíduos do sexo oposto, caso contrário,
correm o risco de ter sua masculinidade questionada sob acusa-
ções de “gay” ou “viado”.
O medo de ser acusado de “gay” ou de ter sua posição sexual
questionada está muito presente no meio swing. Os anúncios da
internet que incluem fotografias quase sempre retratam as mulhe-
res, em posições diversas e algumas vezes se relacionando com
mulheres, mas raramente os homens. Quando há uma fotografia
masculina, em geral é um ‘close’ do pênis ou uma fotografia com
a parceira. Um argumento apresentado pelos entrevistados para o
fato de quase não existirem fotografias de homens nos anúncios
está relacionado ao receio de atraírem outros homens. Este receio
está bem exemplificado na fala de Diogo: “às vezes a gente fica
com aquela preocupação né, se eu botar muita foto minha o cara

146
Olivia Von Der Weid

vai pensar que eu sou gay...”. Cláudio disse: “o homem também


vai atrair gay, vai atrair um monte de coisa”.
Pelos relatos dos pesquisados a respeito de suas práticas se-
xuais podemos dizer, com Fry (2005), que também no imaginário
erótico do swing a velha obsessão entre “ativo” e “passivo” con-
tinua dominante e ainda se celebra os valores da masculinidade,
sobretudo na performance social, mesmo que por trás dos panos
sejam problematizados - como sugere o depoimento de Bernardo.
Um dos pesquisados também disse que a prática do “bi mas-
culino” acontece no swing, mesmo que de forma oculta. A exis-
tência desta prática aparece no discurso de outro entrevistado sob
a forma de acusação ou “fofoca”.

Ele é um cara bissexual, que não é assumido. Mas


eu conheço gente que viu ele numa suruba chupan-
do o pau de um cara, escondido. E o cara viu e me
contou. Mas, ele não assume. Nesse meio o cara
chega e fala, vi fulano e tal... mas oficialmente não
é. (André)

Neste ponto cabe lembrar a “máxima” citada por Fry e Ma-


cRae (1985) ao refletirem sobre as práticas sexuais entre o travesti
e seu cliente: “na prática, a teoria é outra”. A respeito de regras,
os autores enfatizam que quebrar uma regra é fundamentalmente
reconhecê-la, pois é a exceção que comprova a regra. No swing,
a existência de práticas sexuais entre homens aparece no depoi-
mento dos entrevistados sobre a forma de acusação, como uma
exceção, e o sujeito destas práticas é sempre “outra pessoa” que
transgride a regra geral, amplamente citada e reconhecida por
todos: “não tem homossexualismo masculino”.
O aparecimento de um desejo sexual por outros homens na
forma de um segredo na fala do entrevistado mais jovem ou no

147
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

formato de acusação, no depoimento anterior, são indícios do


quanto a restruturação da masculinidade é um processo que se
dá de forma silenciosa, anônima e solitária e do quanto a afirma-
ção da virilidade é um forte condicionamento social que cerceia a
identidade de gênero masculina em uma sociedade ainda profun-
damente homofóbica (Nolasco, 1995, Bento, 1999). 

O feminino revelado
Diferentemente dos homens, dez das onze mulheres entre-
vistadas já tinham se relacionado com mulheres no swing e pelo
menos cinco se dizem “bissexuais”. Nas palavras de Ana: “bi fe-
minino eu diria para você que quase 90% da população swinger
faz bissexualismo feminino. É permitido e não está ligado à ho-
mossexualidade”.
Esta possibilidade, de sentir prazer sexual com outras mulhe-
res, parece ser uma descoberta decorrente da prática do swing,
já que oito dizem que antes de começarem a frequentar o meio
não haviam tido este tipo de experiência. Para Ana “dá prazer.
Se você está lá deitada, de olho fechado, tem uma pessoa fazendo
sexo oral em você, te dando um beijo na boca, independente de ser
homem ou mulher aquilo é gostoso, é prazeroso”.
É interessante notar como a prática sexual entre mulheres no
swing não é algo que questione a identidade de gênero de mulher.
Ao contrário dos homens, a feminilidade não está sendo posta à
prova. A mulher parece ter maior liberdade para ultrapassar cer-
tas barreiras sexuais. A construção ou negação da feminilidade
não passa pela prática sexual. Talvez o fato de estar ali acompa-
nhada de seu marido ou namorado já seja suficiente para garantir
sua posição de mulher.

148
Olivia Von Der Weid

Ao longo do trabalho de campo ouvi muitas vezes que a gran-


de fantasia sexual de todo homem é “transar” com duas mulhe-
res. Mais do que uma possibilidade, as mulheres são estimuladas
pelos maridos a experimentarem o “bi” feminino. Este ponto fica
claro na fala de Ana: “acho que incentivado... Porque assim, pri-
meiro tem essa fantasia de todo homem, né? A maioria dos ho-
mens tem essa fantasia dele e mais duas mulheres. A mulher eu
acho que ela tem isso muito mais elaborado na cabeça dela”.
Muitas vezes a mulher, quando experimenta a relação com
outra mulher no swing, tem como referência o desejo do marido.
O prazer estaria relacionado com a presença e o olhar do homem.
Os depoimentos de duas entrevistadas exemplificam essa ques-
tão:

A mulher quando é bi ela não é sapatão, ela troca


carinho, beijo, ou troca carícias, porque até mesmo
o meu marido gosta, a maioria das mulheres que tro-
cam carícias com certeza é porque o marido também
gosta de ver. (Gabriela)

Se eu sei que ele vai sentir prazer, isso me instiga,


entendeu, então quando ele, conversando comigo,
disse que adorava ver uma mulher com outra mu-
lher aí eu comecei a abrir mais a cabeça, começou a
me dar vontade de querer fazer para ver como é que
é. (Fernanda)

Outra pesquisada indica que relações com outras mulheres no


swing seria algo que complementaria a sua relação sexual com
seu marido:

Eu gosto do bi, mas é aquela coisa, não que neces-


sariamente tenha que rolar o bi, que eu tenha que
ficar com alguma outra garota, se tiver que rolar vai

149
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

ser bem aceito, mas não necessariamente tem que


ser aquilo, porque na verdade eu gosto que role o
bi, mas eu gosto que nos finalmentes eu venha a ter
relações com ele. Porque o bi para mim é um com-
plemento. (Emília)

A descoberta desse lado da sexualidade nem sempre acontece


no swing – quatro entrevistadas disseram que antes de experi-
mentarem a troca de casais já tinham se relacionado sexualmente
com mulheres. Uma das entrevistadas, que se diz “bi ativa”, só se
relaciona sexualmente no swing com mulheres e relata da seguin-
te maneira as suas preferências:

Eu gosto da pessoa quando é uma pessoa, uma mu-


lher quente. Tipo bem putona mesmo, que fale o
que sente, o que quer, que tá gostando, que peça
que faça assim ou assado, mete assim, bota assado,
bate, puxa, eu gosto assim. (Heloísa)

Outra entrevistada, que no swing tem relações sexuais com


homens e com mulheres, dá o seguinte depoimento sobre o seu
desejo por mulheres:

Se eu gosto de mulher? adoro. Se um dia nós vier-


mos a nos separar e eu vier a ter uma relação com
um homem que não pense assim como ele, para
mim ia ser muito difícil, ter uma relação que eu não
pudesse realizar as minhas fantasias. Porque mesmo
já tendo realizado, continua sendo uma fantasia. Eu
não me imagino mais não podendo transar com uma
mulher. (Daniela)

Ativa ou passivamente, por vontade própria ou por um in-


centivo inicial do marido, a mulher tem a possibilidade de expe-
rimentar uma relação com outra mulher, sem sofrer acusações
no meio. Na entrevista com um dos casais, travou-se o seguinte

150
Olivia Von Der Weid

diálogo:

Ana: a maioria das mulheres que fazem swing tem


contato entre si. Pode ser com sexo oral, pode ser
beijando na boca, pode ser só fazendo uma carícia,
pode ser qualquer coisa. Mas assim, a maioria, não
vou falar pelos outros, mas a maioria que eu co-
nheço não anda na rua e olha para uma mulher e
imagina...
André: não, não é sapatão.
Ana: é uma coisa que... a tua sexualidade não está
ligada na mulher, acontece de na hora dar tesão, rola
normalmente, assim, não tem um preconceito. E a
maioria gosta. É o que eu estou te falando, se você
perguntar é bom? É. Mas a minha sexualidade não
é homossexual. Não sei se dá para entender, é tudo
meio complicado...

Os depoimentos acima remetem a uma discussão a respeito


da distinção entre as categorias de sexo, gênero, prática sexual e
desejo na construção das identidades, nos levando a problemati-
zar noções estáticas como heterossexualidade, homossexualidade
ou mesmo bissexualidade para falar das práticas e comportamen-
tos sexuais de mulheres no swing.
Butler (2003) sublinha que o discurso de identidade de gê-
nero faz parte das ficções de coerência heterossexual e defende
que seria preciso desqualificar categorias analíticas como sexo ou
natureza, que levam à univocidade, em prol de um conjunto de
gêneros não coerentes, que ainda carecem de legitimidade narra-
tiva. Considerando as críticas à suposta universalidade da cate-
goria mulher desenvolvidas por Butler (2003) e Haraway (2004),
quero refletir sobre a produção de diferenças de gênero entre as
mulheres praticantes de swing tendo em conta a sua participação
em determinadas práticas sexuais com mulheres. Levando adian-
te o discurso reflexivo das pesquisadas a respeito de suas vivên-

151
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

cias, elas nos conduzem a comportamentos e desejos sexuais que


não se enquadram perfeitamente em nas nossas definições, suge-
rindo que suas práticas e os significados a elas atrelados resistem
às classificações.
No caso dos homens, o comportamento e a orientação sexual
encontrados no swing são exclusivamente ativo e heterossexual.
Já entre as mulheres encontra-se uma variedade de práticas se-
xuais que, de acordo com os depoimentos das entrevistadas, não
afetam seu papel de gênero feminino. Em uma casa de swing as
mulheres podem ser tanto passivas e heterossexuais quanto pas-
sivas com homens e com mulheres. Uma terceira possibilidade
para o caso feminino são as mulheres que podem ser passivas
ao se relacionarem com homens, mas passivas ou ativas em suas
relações sexuais com mulheres. A atividade e passividade das
mulheres nas relações sexuais com mulheres se refere basicamen-
te ao sexo oral. A mulher “bi ativa” é aquela que gosta de fazer
sexo oral em mulheres e a “bi passiva” é aquela que gosta apenas
de receber.
É possível, portanto, encontrar três tipos de mulheres em uma
casa de swing, tendo como referência as práticas sexuais com
pessoas do mesmo sexo: as que não se relacionam com mulheres
(entre as minhas entrevistadas, apenas uma disse não se relacio-
nar com mulheres), as que só se relacionam com mulheres de
forma passiva (seis das onze mulheres que entrevistei) e as que
se relacionam com mulheres de forma ativa ou passiva (quatro
das mulheres entrevistadas). O diálogo de um casal é ilustrativo:

André: ela, por exemplo, não sente tesão ativamen-


te por outra mulher.
Ana: mas na situação, quando rola...
André: ela se deixa...
Ana: é até bom. Por exemplo, quando você está ali
e beija uma mulher, é bom? É. A mesma coisa que

152
Olivia Von Der Weid

um homem.

Neste sentido, a prática sexual das mulheres no swing po-


deria ser considerada mais próxima da proposição do relatório
Kinsey, analisado por Gagnon (2006), ao compreender a sexuali-
dade não como uma divisão entre dois grupos distintos e polares,
heterossexuais e homossexuais, mas como contínua e flexível,
onde os indivíduos poderiam mover-se de um lugar para o outro
neste continuum.
Almeida e Heilborn (2008) já apontaram para a dificuldade
de se trabalhar com um conceito único de identidade sexual nos
trabalhos sobre a homossexualidade feminina. Ao refletirem so-
bre a formação de uma identidade lésbica, as autoras encontram
que o comportamento sexual - o fato de uma mulher realizar atos
sexuais com outra mulher - não é o único elemento-chave de uma
identidade lésbica. As autoras revelam que a construção de um
sujeito lésbico envolve múltiplos símbolos, inclusive corporais
(por exemplo, o corte de cabelo) e o “não assumir” pode estar
associado ao desinteresse por tais símbolos e comportamentos as-
sociados à lesbianidade. Tal postura seria fortemente combatida
pelas ativistas pesquisadas pelas autoras, que demonstram pouca
tolerância ao fato de mulheres que mantêm relações sexuais com
mulheres não referirem a si mesmas como lésbicas ou bissexuais,
acreditando que este tipo de comportamento “enfraqueceria”
uma identidade ameaçada. 
No swing, as pesquisadas utilizam a palavra bissexual para se
referirem mais especificamente ao seu comportamento sexual ou
desejo, mas quando empregam esta palavra não estão acionando
uma identidade social que informe um lugar político. O mesmo
poderia ser dito dos anúncios, quando o casal se descreve como

153
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

adepto do “bi feminino”. Ainda que elas mantenham práticas se-


xuais com mulheres no swing, isso não seria um comportamento
suficiente para configurar uma identidade homossexual ou lésbi-
ca.
Considerando que a sexualidade envolve as dimensões dis-
tintas do sexo biológico, da identidade de gênero e da orientação
sexual, é possível esclarecer a aparente ambiguidade do discur-
so de Ana, quando ela diz que, por mais que se relacione com
mulheres no swing, ela não se sente homossexual, ou de Ga-
briela, quando afirma que quando a mulher é bi no swing, ela
não costuma ser sapatão. Ainda que as práticas sexuais envolvam
pessoas do mesmo sexo, e mesmo que a orientação sexual seja
assumidamente bissexual, como no caso de Heloísa ou Daniela, a
identidade de gênero não parece estar em questão, elas se sentem
mulheres e se definem como tal. Mas nessa equação há ainda um
elemento complicador, elas não se sentem mulheres e ponto, são
mulheres heterossexuais que mantém relacionamentos estáveis
com homens e que podem gostar (algumas particularmente mais,
outras nem tanto assim) de se relacionar sexualmente também
com mulheres.
Diferentemente do que ocorre no caso masculino, a prática
sexual com outras mulheres é vista com uma certa naturalidade
no meio swing e parte tanto do incentivo de seus parceiros, quan-
to da iniciativa própria. Praticar sexo com mulheres no swing,
entretanto, não “contamina” uma identidade de gênero femini-
na. Apesar de se relacionarem sexualmente com outras mulheres,
não adotam uma identidade homossexual e continuam se consi-
derando mulheres heterossexuais.
Fry (1982) já apontava, no movimento homossexual da déca-
da de 1980, para um processo de discriminação dos machos em

154
Olivia Von Der Weid

duas categorias estanques, heterossexuais e homossexuais, que,


segundo o autor, foi de certa maneira reforçada pelo movimento.
Categorias estas que aparecem fortemente reproduzidas no meio
swing, especialmente como lógica classificatória e distintiva das
práticas sexuais masculinas. O mesmo não poderia ser afirmado,
entretanto, no caso das mulheres, seu comportamento sexual não
se enquadra nos termos de uma oposição binária hetero X homo
e acaba, de certa forma, ultrapassando o dualismo.
Juntamente com Meinerz (2008) acredito ser necessário ques-
tionar em que medida as ferramentas teóricas construídas no cam-
po de estudos da sexualidade são operativas para compreender as
relações sexuais e afetivas que se estabelecem entre mulheres. Se
a autora desenvolve a noção de “parceria sexual e afetiva” para
falar dos vínculos de mulheres que se relacionam com mulheres
em sua pesquisa, esta opção também não me parece adequada
para explicitar os comportamentos sexuais de mulheres no swing,
uma vez que elas mantém uma relação afetiva, sexual e estável
com um homem e relações fortuitas, sexuais e transitórias com
mulheres e com outros homens. O conceito de homossexualidade
feminina que, como indica a autora, estaria mais próximo de uma
leitura médica, e o de lesbiandade que, como vimos, está mais
alinhado com as reivindicações políticas do movimento social,
tampouco parecem apropriados.    
O que as práticas sexuais femininas no swing revelam é jus-
tamente o caráter aberto, contínuo e não linear da construção da
sexualidade, uma construção que envolve corpos, desejos, com-
portamentos e identidades. O desejo homossexual ou a prática
de relações sexuais com pessoas do mesmo sexo não tem como
implicação necessária aceitar uma determinada posição social,
adotar outra compreensão de si ou se posicionar a partir de ca-

155
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

tegorias explícitas de identificação, como “lésbica”, “homo” ou


“bissexual”.
Percorremos a variedade de configurações sexuais e os dis-
tintos níveis de desejo homossexual presente no discurso das
pesquisadas sobre suas práticas com outras mulheres no swing.
Ao mesmo tempo, a heterossexualidade de suas relações afetivas
principais também funciona como uma espécie de âncora que es-
tabiliza suas identidades sexuais e de gênero. Ao invés de propor
uma nova categorização que pretenda dar conta de suas práticas
e da ambiguidade de seus discursos, prefiro enfatizar o caráter
aberto, criativo e volátil de seus comportamentos.  
A dupla moral em relação à prática bissexual no meio swing
– a feminina é aceita e a masculina é recusada – também pode
ser observada no texto dos anúncios publicados pelos casais em
sites de casas de swing. Apresento a seguir dois anúncios onde a
posição fica bastante clara. Nos dois anúncios havia fotografias
de duas mulheres sugerindo a prática do “bi feminino”.

Somos um casal jovem, bonito e cheios de desejos e fantasias.


Gostamos da transa no mesmo ambiente, bi feminino e se hou-
ver afinidades algo mais. Definitivamente não para homens
desacompanhados, SM, HM e todo e qualquer tipo de aberração.
Odiamos as trocas de e-mails intermináveis e casais indecisos
que só nos fazem perder tempo. E-mails com fotos e telefone é
indispensável.
Um grande abraço a todos!!!13

Somos um casal de bem com a vida, nos amamos muito e dese-


jamos conhecer casais que curtam fazer amizades, sem envolvi-

13 HM: “Homossexualismo Masculino”. SM: “Sado-Masoquismo”.

156
Olivia Von Der Weid

mento financeiro. Não topamos SM, drogas, HM e homens sós


(por favor não insistam). Somos fumantes e bebemos socialmen-
te. O bi feminino será sempre bem vindo!! A troca de casais pode
acontecer se houver afinidades. Só serão respondidos e-mails com
fotos.
Mil beijos!!!!!!!

Durante as entrevistas e nas conversas dos encontros (princi-


palmente no encontro “O bissexualismo no swing”), ouvi o argu-
mento, tanto de homens quanto de mulheres, que a justificativa
para não acontecer o “bi masculino” é visual e estética, seria mais
“grosseiro” e “visualmente estranho” dois homens se relacionan-
do sexualmente. Mas o depoimento de uma entrevistada, ao falar
de suas fantasias sexuais, contradiz essa ideia:

A minha maior fantasia, que eu sei que por enquan-


to ele não vai realizar, era vê-lo fazendo sexo com
outro homem né (risos), coisa que eu sei que ele
não vai querer. Eu acho que a maioria das mulheres
que estão no swing tem sim esse tipo de fantasia, ou
ver com outro homem ou ela mesma fazer sexo anal
com o marido, que é o mais comum. Mas no swing
existe muito machismo, por isso que eu estou dizen-
do, eles são muito machistas, muito, não admitem
de jeito nenhum que eles possam fazer um bi, só
nós mulheres. E isso não estressa só a ele homem
não, nossa isso é um estresse geral para qualquer
homem que você toque no assunto, eles ficam logo
estressados, querem mudar de assunto. O machismo
dentro do swing é muito maior do que fora, muito
maior. Eles não admitem de forma alguma. Nossa
eles literalmente levantam a bandeira “homem que
é homem não dá a bunda”. Mas por que não, a mu-
lher não faz? Por que o homem não pode fazer? Mas
isso é um assunto bem polêmico entre os swingers,
muito polêmico por sinal. (Irene)

157
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

A performance sexual e de gênero de homens e mulheres


praticantes de swing não foge da estratégia de mantê-lo em sua
estrutura binária, como se percebe ao analisar a organização do
meio – a iniciativa e o desejo são masculinos e a aceitação e
submissão são femininos. Entretanto, algumas fissuras nessa es-
trutura – o prazer da mulher com o bi feminino e com a experiên-
cia de relacionar-se sexualmente com outros homens e, no caso
masculino, o desejo escondido por outros homens e as práticas
homossexuais que aparecem sob a forma de acusação – expõem
a fragilidade desta concepção binária de gênero e sexualidade,
revelando que o seu essencialismo visível também precisa ser
constantemente construído, defendido e ‘performatizado’ para
aparentar realidade (Butler, 2003).
É reconhecido que, por muitos anos, os homens, enquanto
representantes de um gênero, foram deixados intocados como
objeto de reflexão e estudo (Heilborn e Carrara, 1998). Por outro
lado, a amplitude de uma masculinidade hegemônica e opressora
vem sendo revelada pelos estudos de gênero e sexualidade que,
em geral, privilegiavam mulheres e homossexuais como sujeitos
de pesquisa. Estudos que denunciavam a violência doméstica, o
assédio sexual, o monopólio de postos e funções no mercado de
trabalho, as atitudes homofóbicas, entre outros temas, contribuí-
ram para impor um maior distanciamento a comportamentos e
valores que até então eram naturalizados, vistos como inerentes
ao corpo e ao mundo masculino. Heilborn e Carrara identificam
um deslocamento de ênfase do universo feminino e dos sexual-
mente desviantes para os sistemas ou hierarquias de gênero, que
prepararam a incorporação à análise do tema da masculinidade.
Com o aprofundamento dos estudos sobre o masculino, tornou-se
claro que não é mais possível se falar em masculinidade no sin-

158
Olivia Von Der Weid

gular, sem qualquer adjetivo. Existem masculinidades, diversos


modelos e modos de ser homem em uma mesma sociedade. 
Um movimento similar de multiplicação das identidades tam-
bém pode ser constatado nos estudos sobre sexualidade. O au-
mento do número de pesquisas sobre a homossexualidade nas
últimas décadas vem revelando uma série de variações, uma pro-
liferação de identidades, gostos e práticas sexuais entre pessoas
do mesmo sexo (Facchini, 2005). Apesar do preconceito e da ho-
mofobia, infelizmente, ainda serem realidades, a visibilidade po-
sitiva da homossexualidade também aumentou, o que pode ser
comprovado, por exemplo, pelo crescimento do mercado LGBT
(bares, boates, turismo, restaurantes, lojas, etc.) ou pelas paradas
gay que, em suas edições por todo o país, já reuniram milhões de
pessoas. 
Podemos pensar na prática do swing como um espaço que
torna possível o exercício de uma heterossexualidade variante,
por vezes ilegítima. Nela estão envolvidos comportamentos se-
xuais que, ainda que se mantenham dentro de um guarda-chuva
da identidade sexual hetero, desafiam o seu centro, sugerindo
que também não existe uma única maneira de se viver a hete-
rossexualidade: relações sexuais fora do casamento com o con-
sentimento e a participação do parceiro, sexo grupal, ménage a
trois, gang-bang, relações sexuais entre mulheres, o aparecimento
do desejo sexual masculino por outros homens e da fantasia se-
xual feminina de ver seu parceiro se relacionando sexualmente
com outro homem, mesmo que estes dois últimos exemplos ain-
da fossem mantidos na esfera do segredo. A ideia de uma hete-
rossexualidade variante – marginal - pretende sublinhar que não
há uma única forma - normal e esperada - de desenvolvimento
da heterossexualidade. A heterossexualidade, aceita e legítima,

159
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

também seria uma versão idealizada de sexualidade, que não dá


conta dos múltiplos modos de se viver o desejo e a sexualidade
dentro de uma relação estável entre um homem e uma mulher.
Como Butler (2003) já revelou, não existe uma versão original do
heterossexual, existem apenas cópias parodiadas.
Se, como indica Fry em entrevista (2005), o universo homos-
sexual vem multiplicando as identidades e os gostos sexuais, tor-
nando possível a variação de categorias e identidades entre ho-
mens que gostam de homens e mulheres que gostam de mulheres
- os clássicos bicha, veado, sapatão, lésbica, fancha, mas tam-
bém, mais recentemente, urso, barbie, bofinho, lady, indecisa,
entre outros - o mesmo não pode ser dito do universo heterosse-
xual. Não porque não existam variações, como é possível obser-
var pelo pequeno universo pesquisado, mas talvez porque, como
aconteceu no caso dos estudos sobre masculinidade, a heterosse-
xualidade variante ainda continua intocada ou anônima por trás
da noção de uma heterossexualidade compulsória e hegemônica.

É possível interpretar o swing pela ótica patriarcal, como um


comportamento herdado de uma cultura essencialmente machis-
ta, onde o homem manda, a mulher obedece, o homem é o su-
jeito do desejo, a mulher é o objeto. Tais aspectos estariam mais
diretamente presentes na iniciativa masculina para o swing, no
convencimento das mulheres a aderirem à prática e na forma
como o corpo feminino aparece no meio.
Pensando com Bourdieu (2003), pode-se dizer que o corpo
feminino no swing está subordinado à dominação masculina. O
autor argumenta que a exibição do corpo da mulher, combinan-
do um poder de atração e sedução, exerce a função de honrar os

160
Olivia Von Der Weid

homens de quem ela depende ou aos quais está ligada. Lógica


que está bastante presente na forma como os corpos femininos
são mostrados no universo swinger. As mulheres se exibem em
roupas curtas e sensuais, tiram fotografias nuas para os anúncios
da internet e fazem strip-tease. Os maridos assistem, orgulhosos,
ao espetáculo de suas parceiras.
Analisando as práticas sexuais do meio, o sujeito do desejo no
swing parece ser claramente o homem. São eles que convencem
suas parceiras a participar, que realizam a fantasia de se relacio-
nar sexualmente com duas mulheres e ainda outra grande fanta-
sia que aparece entre os entrevistados: a de ver a sua mulher se
relacionando com outro homem. Acredito, entretanto, que seria
um tanto simplista interpretar a atitude destas mulheres como
uma simples reprodução do modelo de submissão patriarcal, não
tendo vontade própria, apenas realizando o desejo do marido por
medo de perdê-lo.
Alguns elementos presentes no swing parecem fugir a essa
lógica. Ao contrário da tradicional divisão entre as mulheres “co-
míveis” e as mulheres honestas, encontrada por Parker (1991)
ao descrever a cultura sexual masculina no Brasil, os praticantes
de swing, ao mencionarem as razões de adesão à prática, dizem
que buscam unir a mulher da casa e a mulher da rua (a esposa
e a prostituta) em uma só mulher. Outro aspecto que também se
aproximaria de um modelo mais moderno de conjugalidade é a
descoberta da mulher como sujeito de seu próprio prazer.
A feminilidade das mulheres pesquisadas não deixa de cor-
responder a uma norma de gênero que Butler (2002) relaciona às
questões de disciplina, regulação e castigo. Mas em um univer-
so de liberdade controlada como o swing, as mulheres acabam
ultrapassando certas restrições que se encontram no mundo so-

161
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

cial: a de se relacionar sexualmente com vários homens em uma


mesma noite ou de experimentar relações sexuais com mulheres.
Romper com determinadas barreiras aparece, em seus discursos,
como uma descoberta que tem como resultado um conhecimento
maior do próprio corpo e desejo. Os homens parecem muito mais
presos ao seu papel de “macho dominador”, enquanto as mulhe-
res parecem mais livres para experimentar papéis e lugares que,
se vividos abertamente na sociedade, correriam o risco de sofrer
acusações e preconceitos. Neste sentido podemos concordar com
Bourdieu (2003) quando afirma que o homem é uma das grandes
vítimas da dominação masculina. No ambiente swinger ele pare-
ce muito mais resistente, ou talvez tenha mais dificuldade, para
romper com esta lógica.

Swing, o adultério consentido


“Amor e Sexo”
Rita Lee/Roberto de Carvalho/Arnaldo Jabor

Amor é um livro - Sexo é esporte


Sexo é escolha - Amor é sorte
Amor é pensamento, teorema
Amor é novela - Sexo é cinema
Sexo é imaginação, fantasia
Amor é prosa - Sexo é poesia
O amor nos torna patéticos
Sexo é uma selva de epiléticos

Amor é cristão - Sexo é pagão


Amor é latifúndio - Sexo é invasão
Amor é divino - Sexo é animal
Amor é bossa nova - Sexo é carnaval

162
Olivia Von Der Weid

Amor é para sempre - Sexo também


Sexo é do bom - Amor é do bem
Amor sem sexo é amizade
Sexo sem amor é vontade
Amor é um - Sexo é dois
Sexo antes - Amor depois

Sexo vem dos outros e vai embora


Amor vem de nós e demora

Esta música serviu de tema para o 6º Encontro de casais libe-


rais que acompanhei ao longo do trabalho de campo, intitulado
“o amor e o sexo”. Este é um tema recorrente para os casais que
praticam swing, uma vez que alegam que uma das premissas
para aderirem à prática é saber separar sexo de amor. No blog
Fantasias de Casados, na chamada para este dia, aparece o se-
guinte texto:

A gente resolveu, por acaso, ouvindo a Rita Lee no


caminho para o trabalho, que o tema no encontro
de amanhã será “O amor e o Sexo”. Na verdade esse
tema é algo extremamente recorrente no blog, já que
o swing nada mais é do que saber ou tentar separar
uma coisa da outra.

Os casais entrevistados dizem que ao se relacionarem com


outras pessoas em casas de swing estão praticando somente o ato
sexual, enquanto o ato amoroso, o “fazer amor”, reserva-se ape-
nas ao(a) parceiro(a). O swing, para uma entrevistada, “é o sexo
e acabou? Acabou, não fica nada, a gente não leva nada para casa
a não ser a experiência e a aventura que a gente viveu” (Carolina).
Relacionar-se sexualmente com outras pessoas seria uma respos-
ta a uma demanda exclusivamente fisiológica, com o objetivo da
satisfação momentânea.

163
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

O sexo é o casual, aquela forma bruta, que o teu cor-


po precisa, necessita, é uma coisa fisiológica, você
necessita do sexo, você necessita de outras pessoas
para ter prazer e para dar prazer. É completamente
diferente você fazendo sexo com uma pessoa que
realmente você ama e fazendo um sexo casual, é
completamente diferente. (Irene)

Bauman (2004), ao refletir sobre a liquidez dos relacionamen-


tos modernos, chama atenção para o avanço do isolamento do
sexo em relação a outros domínios da vida. Espera-se que o sexo
seja autossustentável e autossuficiente, para que seja julgado uni-
camente pela satisfação que possa trazer por si mesmo. O autor
argumenta que as atuais agonias do homo sexualis são as mesmas
do homo consumens. O que caracterizaria o consumismo não é
o acúmulo de bens, mas usá-los e descartá-los em seguida, a fim
de abrir espaço para novos bens e usos. O que mede o sucesso
na vida do homo consumens é a rotatividade e não o volume de
compras. Bauman acredita que a purificação do sexo permite que
a prática sexual seja adaptada aos avançados padrões de compra/
locação da lógica do consumo.
O autor questiona se é possível isolar o encontro sexual dos
demais propósitos da vida. Considerando a união sexual de curta
duração na vida dos parceiros, argumenta que nenhum episódio
estaria a salvo de suas consequências e que a incerteza nunca
se dissipa de modo completo e irrevogável. Analisando a prática
da troca de casais na França, Bauman aponta que, como uma
estratégia para enfrentar o espectro da incerteza dos episódios
sexuais, o échangisme, termo francês para a troca de casais, teria
uma vantagem sobre o sexo casual, já que a preocupação contra
consequências indesejáveis é, nesse caso, um dever e um inte-

164
Olivia Von Der Weid

resse compartilhado por todos os envolvidos no encontro. Dessa


forma, para o autor, as convenções do échangisme podem evitar
a espera para satisfazer os desejos, encurtar a distância entre o
impulso e a satisfação e evitar que um parceiro exija mais bene-
fícios do que o encontro episódico permite. No entanto, Bauman
pergunta se seria possível encontrar, em um clube de swing, inti-
midade, alegria, ternura, afeição e amor, questionando se o sexo
em si é tão importante como parece ser para esses casais.
Para os casais que entrevistei, o swing não surge apenas como
uma forma de satisfação de impulsos momentâneos, uma ma-
neira menos arriscada de se consumir o prazer e descartá-lo. Em
seus discursos, dizem obter com o swing resultados em seus pró-
prios casamentos que associam à esfera do amor e da intimidade.
Ver o outro se relacionando e ser visto, participar dessa interação
como observador ou ativamente, traria consequências para a re-
lação a dois no sentido de aumentar a liberdade e a intimidade e
melhorar a própria relação sexual do casal. Em uma entrevista,
um casal afirma:

Ivan: a gente passou a se observar mais e ter mais


possibilidades.
Irene: e a se proporcionar mais prazer. O respeito
aumentou, a admiração, a gente passa a perceber
mais quem está do nosso lado. Você passa a prestar
mais atenção em você mesma e nele também, prin-
cipalmente nele. Aí com certeza fica muito mais gos-
toso, muito mais prazeroso, porque você vai buscar
fazer o melhor de você e dar o melhor que você tem
para o seu parceiro, então isso acrescenta demais.

Respeito, admiração, cuidado com o outro, conhecimento do


próprio prazer e uma melhor relação sexual do casal são ganhos
que aparecem no discurso dos entrevistados como decorrentes da

165
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

prática do swing. No depoimento de outro casal, casados há 24


anos e praticantes de swing há 3, surge esta ideia de aprimora-
mento do casamento:

Carolina: mudou tudo para muito melhor. Mudou


que o sexo ficou melhor...
Cláudio: a gente passou a se conhecer melhor. Os
nossos limites, as coisas que nós temos dentro da
gente de vontades, restrições...
Carolina: fantasias sexuais, a gente conseguiu rea-
lizar melhor as nossas fantasias porque a gente co-
meça a fantasiar e tem a liberdade de falar, tem a li-
berdade de poder concretizar, que é o que é melhor.
Fantasiar e falar é um passo, agora você concretizar
é um bem maior né?
Cláudio: e concretizar sendo para os dois é a grande
dificuldade e quando você consegue, isso é que é
legal.

O casal swinger parece compartilhar dos valores descritos por


Heilborn (2004) para a conjugalidade igualitária − simetria nas
atribuições e ênfase no cuidado da relação e seus humores –,
que identifica como uma aproximação do masculino da experiên-
cia feminina. Os aspectos da confissão e da cumplicidade como
prova da relação de confiança no outro, apontados por Heilborn
como aspectos que reforçam a ideia de feminização da relação,
parecem essenciais entre os casais adeptos do swing. Nas pala-
vras de um entrevistado: “o swing é muito bom pro casal que está
bem, que tem uma relação estável, sexualmente muito boa, ativa,
satisfatória para os dois, o swing é fantástico, é um elemento de
união maior para aumentar a cumplicidade do casal” (André).
A confissão e a cumplicidade estão presentes nos desejos e
nas fantasias sexuais do outro e ainda nas próprias relações se-
xuais que ocorrem em uma casa de swing, durante a realização

166
Olivia Von Der Weid

da troca de casais ou até mesmo no relato de uma “cantada” que


receberam na rua.

Hoje eu posso olhar uma mulher na rua e di-


zer “nossa, que mulher gostosa, fiquei a fim de
comer ela”, entendeu? E ela a mesma coisa. A
intimidade, essa liberdade que a gente tem hoje
de expressar nosso tesão. Eu tenho a certeza
absoluta que eu não sou o único homem do
mundo que ela vai sentir tesão para sempre, e
ela a mesma coisa. Então a gente usa a nossa
relação para elaborar isso, botar no outro plano
e não ter que ficar escondido, não ter a hipocri-
sia. No swing não pode ter hipocrisia. (André)

Na busca por diversificar suas relações sexuais para além do


casal, os praticantes de swing parecem se aproximar da ordena-
ção do mundo público gay apontada por Heilborn (2004), que se
funda em relações múltiplas e muitas vezes anônimas.
Se a conjugalidade igualitária celebra uma feminização da
relação, a prática do swing parece também celebrar uma mascu-
linização da relação, especialmente no que diz respeito à diversi-
ficação das relações sexuais. Pensando em termos de erotização
da relação, os casais swingers estariam mais próximos dos casais
gays, mas sem deixar de lado a valorização da duração do casa-
mento. É como se valorizassem a estabilidade da relação conjugal
ao mesmo tempo que enaltecem a “caça sexual”. É ilustrativo
lembrar um depoimento de Ana: “transei com mais homens casa-
da do que quando era solteira”.
Os casais swingers articulam, portanto, dois eixos paralelos:
o de feminização do relacionamento, através do cuidado com a
relação, e o de masculinização, que se expressa na busca pela
diversificação de parceiros sexuais. Seus casamentos apresenta-

1 67
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

riam características que Heilborn (2004) identifica tanto no casal


lésbico quanto no casal heterossexual ou no casal gay.
Nos depoimentos dos pesquisados pode-se observar a impor-
tância da intimidade para o estabelecimento e o fortalecimento do
vínculo entre o casal. Por outro lado, a realização do prazer se-
xual recíproco também se transforma em um elemento-chave na
manutenção ou na dissolução do relacionamento. A importância
adquirida por estes dois elementos - a intimidade e a busca por
prazer sexual - nas relações conjugais foi identificada por Giddens
(1992), quando busca compreender as transformações dos rela-
cionamentos afetivos em sociedades modernas, delineando o que
chamou de “amor confluente”. No amor confluente a intimidade
se caracterizaria pela abertura em relação ao outro, indo contra a
dimensão projetiva do amor romântico. A ars erotica seria intro-
duzida no cerne do relacionamento conjugal. O amor confluente
seria um amor ativo, contingente, entrando em choque com as
categorias “para sempre” e “único” do amor romântico.
No encontro “Amor e sexo” foi ressaltado que a graça da prá-
tica do swing é que ela seja realizada em presença da esposa ou
do marido, com a pessoa que se ama ao lado, e não com outra
pessoa qualquer. Segundo eles, “fazer swing com outra pessoa
não tem a menor graça”. As razões dessa afirmação apontam jus-
tamente para a questão da intimidade e ainda da descoberta ou da
intensificação do prazer sexual com o parceiro. Um entrevistado
relata as mudanças que o swing trouxe para o seu casamento: “o
fator positivo foi esse, foi para mim a cumplicidade e o aumento
do tesão. As melhores trepadas que a gente tem é quando chega de
uma casa de swing. As melhores transas é quando a gente chega
daqui [...]” (André).
A exclusividade sexual não é a maneira pela qual os casais

168
Olivia Von Der Weid

swingers protegem o compromisso com o outro. Essa exclusivida-


de, entretanto, não deixa de aparecer, ainda que sob nova roupa-
gem. É justamente na separação entre sexo e amor que se encon-
tra a exclusividade nas relações swingers.
Cabe destacar a diferenciação feita pelos entrevistados entre
seus casamentos e o que seria um “casamento aberto”. Eles res-
saltam que em um relacionamento swinger o consentimento e
a permissão entre os parceiros é um aspecto central para que as
relações sexuais com outras pessoas ocorram.

As pessoas quando falam de casamento aberto, que


é o que eu entendo, é aquele casamento assim, eu
estou com você, você está comigo e a gente tem per-
missão para ficar com outras pessoas. Eu não acho
que a gente tinha um casamento aberto, porque a
gente tinha um pacto de falar o que queria fazer e o
outro dar a permissão ou não. (Ana)

Para os casais swingers, é importante que o/a parceiro/a par-


ticipe e seja cúmplice também da escolha da outra pessoa com
quem irão se relacionar sexualmente. Para além da escolha, é
importante que participe da própria relação sexual, seja por es-
tar presente fisicamente, seja através do relato detalhado do de-
senrolar do encontro sexual. Compartilhar com o/a parceiro/a a
experiência é o foco principal, o que incrementaria sua relação
amorosa.
Os entrevistados afirmam que o swing aumenta a cumplici-
dade, a intimidade e o tesão entre o casal. Segundo uma entrevis-
tada, “o nosso sexo com amor é o nosso sexo que a gente faz na
nossa casa e que é infinitamente melhor, sempre” (Ana). Outro
entrevistado disse: “geralmente quando a gente transa numa casa
de swing, quando chega em casa a gente faz amor” (Cláudio).
Para um casal:

169
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

André: a gente hoje separa o sexo do amor com a


maior facilidade. Eu estou muito a vontade para sen-
tir tesão por pessoas que eu não amo. E o tesão e o
amor tá muito ligado na mídia, as pessoas dizem ‘ah
sexo só com amor’, porra nenhuma, isso é hipocri-
sia, não tem isso.
Ana: se o sexo fosse só com amor não tinha tanto
motel, não tinha tanta gente transando...

Por meio da oposição entre sexo e amor, os casais acreditam


se manter exclusivos amorosamente, ainda que sexualmente “po-
lígamos”. Dessa forma, resolveriam as exigências da sexualida-
de episódica mantendo o vínculo do relacionamento (Bauman,
2004). A separação entre sexo e amor permitiria sustentar a esta-
bilidade e a permanência de uma relação conjugal, conservando
o ideal de uma exclusividade amorosa, e, ao mesmo tempo, tra-
zendo para dentro do relacionamento a diversificação das rela-
ções sexuais.
O “fazer amor” é associado ao cuidado, ao carinho, ao senti-
mento, à cumplicidade, enquanto o “fazer sexo” com outra pes-
soa em uma casa de swing responderia aos impulsos do corpo
e do desejo. Um entrevistado fala a respeito da separação entre
amor e sexo:

E qual é essa diferença, que é tão complicada? A


diferença, pelo menos pro meu ponto de vista eu
vejo o seguinte, quando existe carinho, respeito,
zelo, atenção, existe cumplicidade. Aí você pode
dizer que vai rolar amor, que é o ato sexual com
esses complementos todos. Quando não existe esses
complementos, só existe o ato sexual, é só sexo. O
que estou fazendo é uma questão fisiológica, eu vou
satisfazer o meu corpo. Mas com o meu companhei-
ro, com a minha parceira, a gente está satisfazendo
não só o corpo, a gente está satisfazendo os nossos
sentimentos, as nossas vontades, a gente está se rea-

170
Olivia Von Der Weid

lizando, porque a gente está fazendo aquilo com a


pessoa que a gente gosta. (Ivan)

Pode ser interessante pensar essa diferenciação entre sexo e


amor para os praticantes de swing a partir do que Duarte (2004a)
afirma a respeito dos valores românticos e de sua permanência,
sob a forma de um neorromantismo, em nossa cultura. O autor
aponta o valor da totalidade como uma das dimensões do ro-
mantismo, que adquire uma conotação de unidade. Relacionada
a essa dimensão está a categoria singularidade, que remete à ideia
de que todo ente pode ser considerado uma individualidade, um
entre muitos outros, ao mesmo tempo que é uma singularida-
de, uma unidade de totalidade em si. Trazendo essas ideias para
pensar sobre a separação entre sexo e amor no swing, pode-se
sugerir que é através de um ideal de amor que se singulariza o/a
parceiro/a na prática da troca de casais. Fazer sexo igualaria a
todos, cada indivíduo em uma casa de swing é um entre muitos
outros possíveis parceiros sexuais, mas o amor singulariza, pois é
capaz de transformar um indivíduo em alguém especial, em uma
unidade de totalidade em si.
“Fazer amor” é considerado pelos entrevistados como supe-
rior e especial, enquanto “fazer sexo”, ainda que desejável, ape-
nas responderia a necessidades fisiológicas. A justificativa para
se “fazer sexo” com outras pessoas é a de que ele serve para
aumentar a intimidade e melhorar a relação afetiva e sexual no
casamento, ou seja, incrementaria o “fazer amor”.
As razões apresentadas para a adesão à prática, as mudanças
identificadas pelos casais em seus relacionamentos e as vanta-
gens do swing para o casamento invariavelmente remetem a uma
lógica do amor, do aumento da cumplicidade e da intimidade,

171
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

enquanto a experimentação sexual e a vivência do desejo esta-


riam em um segundo plano, submetidas a esse sentimento mais
“nobre”.

“Swing Social Clube”

Estas duas imagens foram tiradas do blog Fantasias de Casa-


dos e eram os slogans das festas produzidas e organizadas pelo
casal: “Swing Social Clube” e “Encontros de mulheres liberais”. A
ideia de “sinta-se em casa” expressa um aspecto importante ob-
servado entre os casais pesquisados, a criação de uma rede social,
incluindo laços de amizade para além do ambiente das casas ou
festas de swing.
Nas conversas nos dias de encontro, ouvi relatos de viagens
em conjunto, incluindo a presença dos filhos de alguns casais,
menções a saídas para outros programas, onde o sexo não estava
incluído (como casas de dança, cinema ou jantares). Alguns ca-
sais passaram o ano novo de 2003 para 2004 juntos, tendo viajado

172
Olivia Von Der Weid

para o mesmo lugar, um indício da estreita amizade que criaram.


No depoimento de um casal destaca-se:

Cláudio: na realidade você acaba conhecendo pes-


soas e vira amizade e a pessoa acaba dando o ende-
reço e sem a gente precisar pedir... a gente tem ami-
gos que a gente freqüenta a casa já há um tempão.
Carolina: é, conhece a família inteira... conhece a
minha família e eu conheço a deles.
Cláudio: conhece filhos e a gente também conhece
filhos e quando está com os filhos ninguém... amigo,
pessoa normal entendeu? ninguém fala em swing.

A amizade que se estabelece entre os casais é apontada como


de um tipo especial, que envolve ou envolveu relações sexuais.
Esta possibilidade aumentaria o grau de intimidade e a cumplici-
dade da relação de amizade. No depoimento de outro casal entre-
vistado aparece esta questão:

Daniela: a gente conheceu pessoas maravilhosas...


Diogo: pode-se dizer que a gente ficou apaixonado
assim, por alguns casais...
Daniela: tem casais assim que a gente fica apaixo-
nado mesmo...
Diogo: porque a gente entranha tanto na vida deles,
eles entranham tanto na nossa vida, né, a gente tem
uma liberdade tão grande, que passa até a não fazer
mais sexo, mas tem uma intimidade...
Daniela: uma cumplicidade, uma intimidade assim
muito boa.

Outro ponto interessante que aparece neste depoimento é o


de que o desenvolvimento do vínculo de amizade pode contribuir,
dependendo do casal, para diminuir o interesse sexual. Tornar-se
amigo, tornar-se íntimo, seria um fator que “inibiria o tesão”.
Outro entrevistado também se refere a esta questão: “o que acon-
tecia, se reunia todo mundo, ia pra uma suruba e a gente acabava

173
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

não se envolvendo, porque? Primeiro que não dá pra transar com


amigo, tem gente que consegue, eu não consigo. Fiquei amigo de-
mais, sabe? não rola e ela também não” (André).
O desenvolvimento de relações afetivas de intimidade, que se
transformam em amizade, aparece como um ganho inesperado
da entrada para o swing. Em seus depoimentos, os casais inva-
riavelmente mencionam os amigos conquistados como um dos
principais aspectos positivos que o swing trouxe para suas vidas.
A imagem que tinham antes de aderirem à prática está relaciona-
da a encontros eróticos fortuitos, a aventuras sexuais episódicas,
mas em seus discursos o estabelecimento de laços contínuos e o
conhecimento de pessoas com interesses em comum é extrema-
mente valorizado.

Eu encontrei no swing uma coisa que eu não estava


esperando que é a amizade das pessoas, na minha
ideia era uma coisa muito... era só sexo, aquela coi-
sa de fantasias eróticas. Para mim isso ia chegar em
uma época em que “ah, não tem nada a ver, não
quero mais isso”, e no entanto você cria um grupo
de amigos. O mais legal de tudo realmente foi o gru-
po de amigos que a gente fez. (Carolina)

Outra entrevistada disse: “no swing eu fiz um casal de amigos


verdadeiros, que eu considero pra caramba que são eles dois, fre-
quentam, conhecem a minha mãe, entendeu?” (Ana).
Apesar da amizade poder ser vista como um problema para
alguns casais que buscam o sexo casual em casas de swing, ela
aparece como uma das motivações para se frequentar o meio. Ir a
uma casa de swing representa outras possibilidades além do sexo:
a dança, a música, a conversa com os amigos. Este lado social
se apresenta não apenas em uma casa de swing, mas em outros
ambientes frequentados por casais adeptos da prática.

174
Olivia Von Der Weid

Carolina: a gente era muito voltado para a casa,


para a família, então a gente estava meio que es-
quecido. A gente ia para o trabalho, casa... e agora
não, agora a gente pensa na gente, tá um dia de sol,
“ah, vamos para a praia, vamos encontrar com o
pessoal”, a gente tem disposição para sair de noite,
porque sabe que vai encontrar as pessoas, que vai
conversar.
Cláudio: e nem sempre a gente quando procura a
praia ou clube não vai com intenção de... se aconte-
cer aconteceu. E se acontecer é com quem interessa.
Carolina: a gente acaba indo mais por divertimento.
Cláudio: a gente vai hoje mais por divertimento do
que para procurar sexo.

Percebe-se, então, que a troca de casais, ao menos entre os


pesquisados, envolve importantes elementos além de uma troca
exclusivamente sexual. Com o surgimento do aspecto “social”, a
troca passa a ser não apenas de casais, mas entre casais. Sem per-
der de vista o objetivo erótico dos que praticam o swing, apare-
ce, também, como um ganho secundário, a amizade conquistada
no meio. Ao contrário do encontro puramente sexual e episódico
ressaltado por Bauman nos clubes de échangisme, em uma casa
de swing à brasileira também é possível encontrar intimidade,
afeição, alegria e amizade. Além de sexo. 

Swing = adultério consentido?


Em “A vontade de saber”, Foucault (2005) busca revelar o
regime de poder – saber – prazer que sustenta o discurso sobre a
sexualidade. Ao contrário do que coloca a hipótese repressiva so-
bre a existência de uma interdição e censura no que diz respeito
ao sexo, o autor argumenta que a partir do século XVIII assisti-
mos a uma verdadeira explosão discursiva em torno e a propósito
do sexo.

175
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Foucault destaca a centralidade que a confissão, como uma


técnica de produção de verdade, alcançou no Ocidente. Difundida
amplamente na justiça, na medicina, na pedagogia, nas relações
familiares, nas relações amorosas, na esfera mais cotidiana e nos
ritos mais solenes, a obrigação da confissão se tornou tão profun-
damente incorporada que não é mais percebida como efeito de
um poder que coage os indivíduos. Foucault enfatiza que não se
trata apenas de dizer o que foi feito – o ato sexual – e como, mas
sim de reconstituir nele e ao seu redor os pensamentos e as obses-
sões que o acompanham, as imagens, os desejos, as modulações
e a qualidade do prazer que o contém.Para o autor, na sociedade
ocidental, é na confissão que se ligam a verdade e o sexo, pela
expressão obrigatória e exaustiva de um segredo individual.
Através desta incitação permanente ao discurso, construiu-se
em torno do sexo um grande aparelho para produzir a verdade.
O sexo estaria oculto, transforma-se em segredo a ser revelado.
A sexualidade precisa ser conhecida, desvendada, dominada. Um
processo de desentranhamento da sexualidade como uma nova
dimensão do humano (Duarte, 2004b). Através da confissão en-
contra-se uma fala a respeito dos sentimentos, das fantasias, dos
sonhos.
A partir do que Foucault afirma sobre a construção da sexua-
lidade enquanto verdade do sujeito e a centralidade da confissão
nesse processo, é possível pensar a ideia de infidelidade para os
praticantes de swing. Relacionar-se sexualmente com outra pes-
soa além de seu próprio parceiro não constituiria uma traição
para os casais entrevistados. É importante, no entanto, enfatizar
que existem regras e limitações sobre este comportamento se-
xual. A principal delas é que a relação com outra pessoa só pode
acontecer com o consentimento do parceiro. Nas palavras de um

176
Olivia Von Der Weid

entrevistado: “no nosso casamento pode haver o adultério, mas


o adultério consentido, que é o swing. O swing é o adultério con-
sentido” (André). O que pode ou não ser feito varia de casal para
casal e segundo André “se for negociado, não tem regra”, mas
“tem que falar na hora, antes de acontecer”. Outro entrevistado
disse: “acontece de sair sozinho? Acontece. Mas nesse caso de sair
sozinho há o consentimento da outra parte de saber que a pessoa
está saindo sozinha” (Ivan).
Ser infiel, para eles, é quebrar o acordo existente, é fazer algo
fora do previsto, mentir ou esconder do parceiro. A infidelidade,
portanto, seria a “traição da confiança, do combinado”. Para uma
entrevistada, “a partir do momento que você esteja fazendo uma
coisa que o outro não está de acordo, é traição” (Gabriela). Outra
entrevistada disse que ser infiel é “se relacionar com outra pes-
soa sem o seu parceiro saber” (Emília). Para eles, a traição “não
precisa ser relação sexual”, fazer sexo com outra pessoa não é
sinônimo de infidelidade. Porém, quando essa relação envolve
algo além do sexo casual, quando é “sexo com sentimento”, aí sim
se estabeleceria um caso de traição. Segundo uma entrevistada:
“Para a gente a traição é do que foi combinado entre nós dois. Se a
gente combinou que não e o outro fez, então você traiu a confiança
que eu tinha em você e o combinado entre a gente, não é a traição
física” (Ana).
Observa-se, novamente, no discurso dos pesquisados, a sepa-
ração entre sexo e amor. Para uma entrevistada:

Eu estou assistindo o meu marido com outra mulher,


mas ele não está me traindo, porque eu estou assis-
tindo e eu estou consentindo. Ele ali está fazendo
sexo com ela, não está fazendo amor. Comigo ele faz
amor, com ela ele faz sexo e no caso, aí ele não vai
estar me traindo. Porque é completamente diferen-

177
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

te você fazer sexo com uma pessoa que realmente


você ama e fazer um sexo casual, completamente
diferente. (Irene)

O acordo em torno do qual se define a relação com outras pes-


soas não é o mesmo para todos os casais. Para um casal não há
problema se um dos dois sair com outra pessoa sem a presença
do parceiro. Essa saída é combinada previamente e vivida como
parte da fantasia dos dois. Já para outro casal não é permitido fa-
zer nada sem a presença do parceiro. Cada casal estabelece seus
princípios e demarca suas fronteiras. Goldenberg (2000) sugere
que liberdade e reciprocidade são as categorias que representam
melhor as intensas transformações que originaram os atuais ar-
ranjos afetivo-sexuais. Para a autora, homens e mulheres, ao in-
vés de reproduzirem modelos sociais, procuram nos dias de hoje
inventar suas formas de parcerias amorosas.
Um dos pontos que parece essencial para se entender o que
é e o que não é traição para os pesquisados é compreender que
a relação com outras pessoas numa casa de swing é considerada
estritamente sexual, movida pelo desejo, mas sem envolvimento
afetivo. A traição é justamente quando esse lado afetivo se apre-
senta: “infidelidade é quando rola sentimento” (Carolina) e no
swing “não pode existir amor” (Cláudio).
Torna-se difícil, entretanto, delimitar o que é considerado
amor ou sentimento e o que significa apenas satisfação de desejo
nas relações com outras pessoas. Quais os gestos e atitudes que
indicariam um envolvimento afetivo? Este limite parece variar de
acordo com o casal e também se modifica ao longo do tempo.
Cada um combina com seu parceiro o que aceita ou não aceita
que o outro faça. As regras do jogo mudam de jogador para joga-
dor. Um entrevistado coloca que inicialmente não se permitiam
beijar na boca de outras pessoas.

178
Olivia Von Der Weid

São regras que a gente vai aprendendo. Quando a


gente começou era proibido beijo. Aí um dia depois
ela virou para mim e falou “faltou alguma coisa”, eu
disse “o que você acha que faltou?”, “ah, sem beijo
não dá não, horrível”. Entendeu, então você vai evo-
luindo. (Henrique)

O mesmo entrevistado disse: “existem regras, com certeza


existem regras. Ela não gosta de eu ficar de cochicho no ouvido de
outra mulher”. (Henrique).
Procurar outra pessoa para se relacionar sexualmente, desde
que seja com o consentimento do parceiro, não constituiria uma
traição para os entrevistados. O importante é que tudo seja nego-
ciado. Revelar tudo ao outro - o que aconteceu durante uma “tran-
sa” numa casa, as fantasias sexuais, a “cantada” que se levou na
rua - mostra-se essencial para o casal praticante de swing, uma
forma de tornar a união ainda mais sólida. A ideia de “fidelida-
de confessional”, desenvolvida por Salem (1989) em seu estudo
sobre o casal igualitário, pode ajudar a compreender este tipo de
comportamento dos pesquisados. Segundo a autora, a confissão
atuaria como um mecanismo compensatório, como uma forma de
inclusão do cônjuge numa experiência da qual, a princípio, havia
sido excluído.
Foucault (2005) demonstra de que maneira a incitação ao dis-
curso sobre o sexo, aparentemente um movimento de liberaliza-
ção, é, ao contrário, uma forma de controle dos comportamen-
tos, parte de um dispositivo de poder. Vista por essa lógica, a
revelação dos desejos por parte dos casais swingers e sua busca
incessante por realização das fantasias, se inicialmente são vistas
como parte de uma atitude liberal, também podem ser percebidas
como uma maneira de controlar a sexualidade do outro, procu-
rando controlar inclusive a possibilidade de ser traído.

179
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

Goldenberg (2006) indica que a fidelidade é valorizada pe-


los casais por ela pesquisados não com base em prescrições mo-
rais, mas sim por uma disposição consciente de pessoas que se
amam, exigem direitos iguais no campo da sexualidade e têm
medo de acabar com um relacionamento amoroso em função de
uma aventura. Já os casais praticantes de swing consideram que
a possibilidade de viverem aventuras sexuais de forma negociada
dentro do próprio casamento tornaria uma eventual traição de um
dos parceiros ainda mais grave. Entre os entrevistados, a fidelida-
de, mais do que valorizada, parece ser uma condição essencial
para a preservação do casamento.
Mesmo que represente uma forma alternativa de se vivenciar
uma relação afetivo-sexual, aparentemente mais livre, a prática
do swing também envolve controle e regras rígidas. Ao contrário
do que ocorre no “casamento extraconjugal”, analisado por Béjin
(1987), onde os coabitantes admitem certas infidelidades, consi-
derando-as passageiras, os casais praticantes de swing encaram
a possibilidade de uma traição como uma atitude inadmissível.
Segundo um entrevistado, a infidelidade é resolvida “na bala”: “o
swingueiro não trai, a traição entre swingueiro é pior do que entre
casal que não faz swing. Porque o casal que não faz swing tem a
desculpa, o álibi, de que não tem liberdade, nós não” (André).
Outro entrevistado disse: “entre os swingueiros, não tem essa coi-
sa de sair para dar um pulinho de cerca ali, sozinho, não. É peca-
do mortal, gravíssimo” (Emanuel).
Não parece tão fácil derrubar esse grande problema que per-
meia as relações afetivo-sexuais: a infidelidade. Para Goldenberg
(2006), hoje em dia talvez seja mais comum encontrar homens e
mulheres infiéis do que fiéis, mas esse tipo de comportamento,
apesar de sua frequência, continua sendo percebido como um

180
Olivia Von Der Weid

problema gravíssimo e inaceitável, inclusive para aqueles que o


praticam. No caso do swing, mesmo mudando os termos que de-
finem a infidelidade, o problema permanece.
Ao analisar o material sadomasoquista disponível nas sex-
-shops, Gregori (2004) destaca outro aspecto do erotismo “politi-
camente correto”, a neutralização ou domesticação de conteúdos
violentos envolvidos nas práticas sadomasoquistas. Ao se buscar
legitimar o sadomasoquismo como uma alternativa erótica aceitá-
vel, o aspecto da violência que a ele está associado é substituído
por uma conotação de jogo consensual, onde os parceiros brin-
cam com conteúdos ligados a posições de dominação e submis-
são. A violência é encenada, mas ao mesmo tempo, afastada e
neutralizada. Pode-se pensar que no swing, a simulação / neutra-
lização que entra em jogo não é exatamente da violência, mas sim
da situação de traição. Com a proteção das regras que envolvem a
prática e por meio do consentimento entre o casal, encena-se uma
situação de traição que é domesticada pelo acordo de participar
da cena e pela possibilidade de sair dela quando se deixa uma
casa de swing ou quando a festa termina.
Na prática da troca de casais, a grande “tensão-excitação”
(Elias e Dunning, 1992) que é posta em jogo é o risco de ser
efetivamente trocado. Esse risco, no entanto, é supostamente
controlado pela série de restrições que envolvem a prática e, prin-
cipalmente, pelo acordo do casal em participar do jogo. É como
se experimentassem ali a possibilidade de manterem relações se-
xuais com outras pessoas, mas de maneira controlada, limitando
o risco da separação e também evitando a infidelidade tão temida.
A tensão oriunda dessa situação gera prazer, e o ápice da satis-
fação acontece na reafirmação do vínculo amoroso entre o casal.
A prática do swing, assim pensada, seria uma alternativa ado-

181
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

tada pelos casais para se prevenirem contra a infidelidade. Ao


controlar a sexualidade do parceiro consentindo que ele mante-
nha relações sexuais com outras pessoas, os swingers acreditam
estar se protegendo da tão indesejada situação de traição. A ideia
está presente no depoimento de uma entrevistada:

Eu já fui muito traída em outros relacionamentos,


né? A principal razão da minha separação do pri-
meiro casamento é que eu peguei o meu marido na
minha cama com outra mulher e hoje eu assisto o
meu marido na minha cama com outra mulher e não
me incomodo. (Irene)

O marido acrescenta: “é porque antes era às escuras, hoje


não” (Ivan).
Um slogan encontrado em um blog de um casal adepto do
swing (Bambam e Pedrita) também sintetiza esta ideia:

Em frases como “a prática do swing é uma forma de experi-


mentar novas sensações sem apelar para a traição” (blog “Com
Prazer”), pode-se notar que o swing representa para os seus pra-
ticantes uma espécie de proteção contra a infidelidade conjugal.
Nas palavras de um entrevistado: “se eu quisesse ter relação para-
lela eu não fazia swing, eu fazia como na minha relação anterior,

182
Olivia Von Der Weid

que eu não fazia swing e tinha mulheres na rua, tinha amantes e


tal” (André). Bauman (2004), ao abordar o échangisme na Fran-
ça, aponta as vantagens que esta prática possuiria sobre o simples
adultério: uma vez que todos são participantes, nenhum dos en-
volvidos é traído e nenhum deles tem seus interesses ameaçados.
Bataille (1980) já demonstrou o quanto a transgressão de algo
proibido está tão sujeita a regras quanto a própria proibição. As
barreiras são levantadas para se certificar de que a licença não ad-
quira um impulso ilimitado que se torne incontrolável. A preocu-
pação da regra pode ser sobretudo intensa na transgressão. Para
Bataille as festas ou orgias, para além do casamento, asseguram a
possibilidade de infração, ao mesmo tempo garantindo a possibi-
lidade da vida normal, consagrada à atividade ordenada. A infide-
lidade é desafiada e subvertida pelos praticantes de swing, desde
que a prática ocorra dentro de uma série de regras e restrições
que controlam o que é ou não é consentido pelo casal. Assim, a
prática do swing permitira experimentar uma agradável excitação
− o prazer sexual com outras pessoas − que pode ser desfrutada
sem ter como consequência as suas perigosas implicações sociais
e individuais - o fim do casamento monogâmico ou a separação
do casal.

183
Olivia Von Der Weid

Considerações finais

Ao longo dos cinco anos em que minha atenção esteve, de


uma forma ou de outra, voltada para o estudo do swing, obser-
vei diferentes reações diante de um assunto senão incômodo, no
mínimo polêmico. Nem sempre revelei meu tema de pesquisa a
alguém apresentado em um evento qualquer, a fim de me poupar
da inevitável enxurrada de perguntas ou da exaltada curiosidade
que provocava. Mas para os que revelava, íntimos ou desconhe-
cidos, do mundo acadêmico ou não, sempre observei em suas
reações uma polarização extremada.
Ao invés de me limitar a escolher um lado ou outro – tradição
ou vanguarda, conservador ou liberal - ao estudar a prática do
swing aprendi muito sobre a contradição, o inclassificável, sobre
o que significa estar entre dois lugares e não pertencer, de manei-
ra definitiva, a nenhum deles. Aprendi, também, a me posicionar
assim diante do mundo, por mais difícil que seja encontrar essa
postura, que por tantas vezes soa provocadora para aqueles que
esperam uma certeza, uma resposta ou um veredicto final.
Uma parte curiosa da pesquisa foi perceber o quanto exis-
te de subjetivo na postura de uma pesquisadora em campo e o
quanto esta subjetividade se reflete na maneira como a pesquisa
se desenvolve. Nos momentos iniciais esta foi uma preocupação
que me levava a muita tensão e cansaço. Acredito que, qualquer
que seja o tema de pesquisa, a postura do pesquisador diante
do tema e dos pesquisados exerce uma influência determinante
no trabalho. Mas em uma pesquisa cujo tema envolve, direta ou

185
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

indiretamente, o comportamento sexual, a postura a ser adotada


tornou-se um foco de atenção e de preocupação maior. Que fas-
cínio é este que o sexo exerce e que, apesar de excessivamente
discutido, mostrado, revelado, continua na esfera do proibido ou
do mistério?
Outra observação interessante foi a de que mesmo o ambiente
acadêmico carece de relativismo. A associação entre pesquisa-
dor e objeto de estudo é mais comum do que eu imaginava e,
ao longo da pesquisa, precisei desenvolver formas diversas de
enfrentar a “estigmatização do pesquisador no estudo de temas
estigmatizados”. O interessante é que, no caso do swing, o estig-
ma parece estar mais relacionado à própria prática do que a seus
praticantes, uma vez que estes, através de mecanismos diversos
como os apelidos, o uso do celular e da internet, podem manter
suas identidades anônimas para o resto da sociedade.
Qual a relevância de estudar um grupo que, à primeira vista,
parece tão minoritário, exótico e oculto por trás de casas sem
nome na porta ou letreiros na entrada? Acredito que o esforço de
compreender este grupo, seu discurso e seu comportamento, para
além do seu possível exotismo, permite refletir sobre questões
importantes a respeito de gênero, sexualidade e relacionamen-
tos conjugais no contexto contemporâneo. Como lembra Geertz a
partir de seu estudo da cultura javanesa: “ser humano certamente
não é ser Qualquer Homem, mas ser uma espécie particular de
homem” (Geertz, 2008: 65). Para o autor, é através do conheci-
mento das formas particulares, específicas e variadas que se en-
contra a possibilidade de compreensão (ou mesmo formulação)
de proposições gerais.
Em um ambiente de suposta liberdade sexual, onde homens
e mulheres, casados, se relacionam sexualmente com outros ca-

186
Olivia Von Der Weid

sais, algumas premissas e regras fundamentais buscam estabe-


lecer limites a essa liberdade e adequá-la a padrões aceitáveis
para os participantes. O swing é como um jogo. Uma “recreação
sócio-sexual”. E, como todo jogo, tem suas regras que devem ser
respeitadas.
A principal delas diz respeito ao consentimento, ao acordo
entre o próprio casal e com os outros casais – “você pode tudo,
mas não é obrigado a nada”. Pode-se pensar que o swing é uma
tentativa para controlar um dos principais fantasmas que apa-
recem nos relacionamentos conjugais: a infidelidade. Praticar o
“adultério consentido” seria uma maneira de se proteger contra o
adultério não-consentido – “se você pode fazer na minha frente,
por que fazer escondido?”
Esse “poder tudo” esbarra em uma das principais proibições
- talvez a única – que, explícita ou implicitamente, encontrei no
meio swinger: “não tem homossexualismo masculino”. Ao tentar
compreendê-la, pude perceber como, no Brasil, a construção da
masculinidade ainda é fortemente baseada no desempenho de
determinado comportamento sexual. Provar que é “homem de
verdade”, defender essa postura ativa, inclui se comportar de de-
terminada maneira e não de outra, se vestir de certa forma e não
ter sua imagem exposta ou exibida em fotografias para não ser
acusado ou confundido com um “gay”. Já no caso feminino, ser
mulher não depende de se relacionar sexualmente apenas com
homens. Entre as praticantes de swing, relacionar-se com mulhe-
res é muito comum e ter tido esta experiência não coloca em dú-
vida sua feminilidade nem para elas mesmas, nem para os outros.
No que diz respeito ao corpo, a mulher parece estar mui-
to mais preocupada em ser e parecer desejável, na roupa que
veste, no tipo físico determinado, enquanto a preocupação do

187
Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

homem em relação ao seu corpo parece estar centrada em um


único aspecto: o pênis. Não exatamente no órgão em si, mas em
seu funcionamento. Não muito diferente do que parece ocorrer
nos relacionamentos em geral, no meio swing, as mulheres cos-
tumam ser mais jovens do que os homens. A própria vantagem
ou desvantagem de um casal para se relacionar com outros casais
parece estar muito mais centrada na idade e na aparência física
da mulher do que nas do homem.
Foi curioso perceber as divisões e diferenciações existentes
em um meio em que se busca por maior liberdade. A separação
entre poliamor e swing, em uma esfera mais global, entre swin-
gers à vera e swingers à brinca, entre aqueles que fazem e os que
olham, entre a tribo dos mais velhos, dos mais magros, dos mais
jovens ou dos mais desejáveis, foram diferenciações que parecem
limitar bastante esta procura por liberdade.
Outro ponto interessante diz respeito à vivência de fantasias
sexuais. O swing, para alguns, é apenas uma das fantasias em
uma série de muitas outras. Com o passar do tempo, para certos
casais (não todos), o swing deixa de ser um estímulo, não é mais
tão excitante, e novas fantasias são criadas e buscadas. A lógica
do desejo, fantasia, consumo, frustração e novos desejos, presen-
tes na sociedade de consumo, aparece aqui associada à esfera da
sexualidade.
Apesar de estarem dispostos a viver uma maior liberdade se-
xual em seus relacionamentos, os pesquisados pretendem manter
uma fidelidade amorosa. A proposta swinger incluiria uma “po-
ligamia sexual”, com a preservação de uma “monogamia amoro-
sa”. A separação entre sexo e amor parece ser um dos princípios
fundamentais para aqueles que aderem à prática. Os limites entre
o sexual e o afetivo, entretanto, nem sempre são claros e o que

188
Olivia Von Der Weid

pode e o que não pode é, mais uma vez, parte de uma negociação
de cada casal.
Tendo no corpo a sua principal fonte de prazer, os casais pro-
curam satisfazer as suas fantasias sexuais transgredindo, dentro
de um limite determinado, certas convenções sociais sobre sexo e
casamento. No entanto, por meio da separação entre sexo e amor
e sob o domínio do consentimento, o swing pode acabar reafir-
mando as convenções existentes.
A lógica da prática do swing aparenta ser a da dominação
masculina. Mas por trás dos panos, há também uma experimen-
tação feminina maior e aparentemente mais livre do que a mascu-
lina, no sentido de romper com certas barreiras sexuais impostas
socialmente. O homem parece muito mais prisioneiro deste mo-
delo de masculinidade hegemônica que, segundo Vale de Almeida
(1995), não sendo atingível por nenhum homem, exerce sobre
todos os homens um efeito controlador, através da incorporação,
da ritualização das práticas de sociabilidade cotidianas e de uma
discursividade que exclui todo o campo emotivo considerado fe-
minino.
É como se, no swing, o formato do jogo aparentemente res-
peitasse os padrões hegemônicos de gênero. Os homens seriam
portadores de uma masculinidade que exalta a força, despreza
a homossexualidade por meio de uma afirmação ostensiva da
atividade e considera as mulheres como objetos, cujo valor é o
“lucro” que podem lhe dar. No caso das mulheres, sua feminili-
dade estaria alinhada com o modelo de mulher objeto de desejo e
consumo, submissa às vontades do marido, participando passiva
e silenciosamente em mais um jogo masculino de dominação e
troca-de-mulheres.   
Ainda que aparentemente as regras sejam essas, basta um

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

olhar mais acurado para perceber as fissuras do padrão. A preocu-


pação masculina com o prazer da mulher problematiza o modelo
tradicional do masculino insensível e controlador. Contornar o
ciúme e enfrentar, prática e simbolicamente, a acusação de “cor-
no” ao incentivar que sua esposa se relacione sexualmente com
outros homens são novas faces desta moeda. Acrescento ainda o
espaço para o aparecimento de um desejo masculino por outros
homens, ainda que entre os mais jovens e mesmo que em segredo
ou nos discursos de acusação. Para as mulheres, a descoberta do
prazer sexual com outros homens e com mulheres. A experimen-
tação do corpo e da sexualidade sem que suas práticas sexuais
sejam determinantes de sua identidade de gênero. 
De um lado estão presentes os valores tradicionais de gênero
com os quais os homens e as mulheres pesquisados foram pri-
mariamente socializados e que podem ser objetivamente consta-
tados, por exemplo, na iniciativa predominantemente masculina
para a prática ou no número de parceiros sexuais das mulhe-
res antes de se iniciarem no swing. Por outro lado, os exemplos
mencionados de valorização e descoberta do prazer feminino e
a preocupação com a simetria nas práticas sexuais e amorosas
estariam mais próximos de valores mais modernos de relaciona-
mento, apontando para a incorporação de uma ideologia mais
individualista da liberdade, autonomia e igualdade.
A reflexão de Figueira (1985) pode ser útil para compreen-
dermos a aparente contradição do swing. O autor aponta que as
transformações vividas com o advento da modernidade parecem
não se dar de maneira imediata e também não aniquilam, de uma
hora para outra, antigos valores. Apesar das mudanças, muitos
estereótipos sobre os sexos continuam presentes. Para Figueira,
as pessoas lidam internamente com um modelo tradicional de

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Olivia Von Der Weid

família e de casamento, mesmo que estejam vivenciando formas


vanguardistas de conjugalidade. A convivência não pressupõe a
erradicação da forma tradicional e nem a integração das duas
formas, mas a presença, no mesmo indivíduo, de mapas contra-
ditórios. Tradição e modernidade, valores aparentemente opostos,
tentam se equilibrar na prática do swing e conviver em possível
harmonia.
Podemos, assim, entender o próprio swing e os discursos dos
casais pesquisados sobre a sua prática pelo prisma da ambigui-
dade já que, dentro de um mesmo contexto, coexistem mundos
tradicionais e modernos que se entrecruzam, misturando padrões
de masculinidade e feminilidade que, algumas vezes, entram em
conflito. Tal leitura corrobora a análise de outros autores que tam-
bém identificaram em suas pesquisas diferentes níveis de flexibi-
lidade, indeterminação e imprevisibilidade na construção das re-
lações e das identidades de gênero, apontando para um momento
de transição de modelos (Vaitsman, 1994, Nolasco, 1995, Bento,
1999).   
Realizar este estudo me permitiu refletir sobre temas que vão
além do universo swinger, que não se referem exclusivamente à
troca de casais: os dilemas entre sexo e amor em um relaciona-
mento afetivo-sexual; a busca por satisfação de desejos paralela
a preocupação com a estabilidade da relação amorosa; a domi-
nação de gênero presente mesmo em formas alternativas de ca-
samento e sexualidade; a maior liberdade feminina para viver
experiências sexuais que não questionam sua identidade como
mulher. Um dos pontos mais interessantes foi a possibilidade de
discutir o valor da fidelidade entre os praticantes de swing e a
ambiguidade existente entre liberdade e controle. Acredito que as
contradições que aparecem ao tentar entender a prática do swing

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Swing, o adultério consentido - Um estudo antropológico sobre troca de casais

- nas oposições entre tradicional X vanguarda, controle X liber-


dade, conservadorismo X subversão - são também expressões da
forma conflituosa como se vive a sexualidade, o casamento, a
infidelidade e a própria identidade de gênero nos dias atuais.

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Olivia Von Der Weid

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Este livro foi composto em ITC Slimbach pela
Editora Multifoco e impresso em papel offset 75 g/m².