Você está na página 1de 36

EDUCAÇÃO INFANTIL, IGUALDADE RACIAL E DIVERSIDADE: ASPECTOS

POLÍTICOS, JURÍDICOS, CONCEITUAIS


(Maria Aparecida Silva Bento – Org.)

ASPECTOS CONCEITUAIS E JURÍDICOS DA EDUCAÇÃO PARA A IGUALDADE RACIAL NA


EDUCAÇÃO INFANTIL

A criança pequena e o direito à creche no contexto dos debates sobre infância e relações
raciais

- Pontos importantes
- A realidade dos últimos anos
- O papel das instituições de educação infantil
- A ampliação do mercado de consumo infantil
- Educação infantil como atividade do gênero feminino
A opção brasileira nos anos 1970 por expandir a educação infantil por meio de
um modelo não-formal apoiado nos baixos salários de professoras leigas,
prioritariamente para a região Nordeste, diferenciou o padrão de oferta do
atendimento, não só quanto ao desenvolvimento regional mas, também, aos
segmentos raciais. Esses programas a baixo investimento do Estado atingiram
principalmente as crianças negras, pobres, principais usuárias de creches
públicas e conveniadas.
Políticas e práticas na creche

Questão a ser abordada: a necessidade de efetuarmos um estudo sobre o tema,


ponderando o quanto conhecemos e o quanto necessitamos conhecer para
instruirmos políticas e práticas de educação infantil que superem desigualdades
raciais, regionais, sociais e etárias.
Brasil, um país de descompassos
- O descompasso entre “o Brasil legal e o Brasil real” poderia ser explicado
pelo fato de o país ser pobre. Mas, conforme economistas, o Brasil não é um
país pobre, mas um país com intensa desigualdade econômica e social, com
grande número de pobres. Por exemplo, o país foi classificado, em 2010,
como a sétima maior economia do mundo (a partir do Produto Interno
Bruto – PIB), porém, o Índice de Desenvolvimento Humano situa-nos na 73ª
. posição (0,699), o que evidencia níveis intensos de desigualdade social.
Um bebê custa menos para a sociedade brasileira por quê? Não porque seja
intrínseco à sua condição de bebê custar menos, à sua “essência” ou “natureza”,
ou porque seu tamanho seja menor que o de crianças maiores, adolescentes e
adultos, mas porque as ideologias de gênero e de idade valorizam o padrão
adulto e masculino associado à produção e administração da riqueza, e não à
produção e administração da vida. Porque se desvaloriza essa função – a de
educar e cuidar de crianças pequenas – por ser produção e reprodução da vida.

Em nossa caminhada para extensão da condição de cidadania a subgrupos


humanos, as crianças constituem um dos últimos grupos (se não o último) a
terem direitos reconhecidos (Bobbio, 1992).
Estudos sociais sobre a infância

- Philippe Ariès (1961):


- visão da infância como uma construção social, dependente ao mesmo
tempo do contexto social e do discurso intelectual;
- alçar a infância à condição de objeto legítimo das ciências humanas e
sociais;
- tratar a infância como construção social;
- conceber a criança como ator social.
O termo reprodução interpretativa significa que as crianças não apenas
internalizam a cultura, mas contribuem ativamente para a produção e a mudança
cultural. Significa também que as crianças são circunscritas pela reprodução
cultural. Isto é, crianças e suas infâncias são afetadas pelas sociedades e culturas
das quais são membros (Rosemberg e Mariano, 2010, p. 31).
(...) nas sociedades contemporâneas, apesar de cada vez mais afastada da
produção econômica, a infância produz recursos econômicos, é “útil”. Em
primeiro lugar, a demarcação de sua especificidade dinamiza os mercados de
trabalho e de consumo. Ao se lhe reconhecerem necessidades (ou direitos)
específicas, geram-se novas profissões no mercado de trabalho adulto que, por
sua vez, geram, também, a produção de novas mercadorias e serviços, inclusive
os de natureza política, acadêmica, filantrópica, comunitária, ou solidária.
A prática contemporânea de prover instituições organizadas por classes de idade
(creches e escolas), o que Ariès (1961) denominou “enclausuramento das
crianças”, e do controle adulto do espaço da rua, reforça a reduzida visibilidade
pública de crianças, especialmente das menores, dos bebês. Como apontado, os
bebês constituem uma população cativa e reclusa em espaços privados. A
discussão contemporânea sobre acessibilidade a espaços públicos como direito
ainda não incorporou os bebês, as crianças até os 3 anos de idade.
Relações raciais e infância

No plano simbólico, o racismo opera ainda via expressão aberta, latente ou


velada, de preconceito racial considerando o grupo social negro como inferior ao
branco. Esse plano do racismo é devastador, mas insuficiente para explicar toda a
desigualdade racial brasileira. No plano material, negros (e indígenas), em seu
conjunto, não têm acesso aos mesmos recursos públicos que brancos, recursos
sustentados por políticas públicas. Isso se deve à história da colonização e
escravidão e às condições atuais de repartição dos bens públicos
(...) ao conceber o racismo também em sua dimensão material, parece-me um
equívoco considerar-se que o racismo brasileiro seja provocado exclusivamente
pelo preconceito racial interpessoal. É possível conceber ações racistas que
redundam em discriminação contra os negros, sem que se expressem
preconceitos contra negros. Ao se alocarem verbas insuficientes para a creche
pública de qualidade, mesmo que não seja ação específica contra negros, a
insuficiência terá impacto na manutenção das desigualdades materiais-
estruturais e simbólicas contra negros.
Refletindo os valores da sociedade, a escola se afigura como espaço privilegiado
de aprendizado do racismo, especialmente devido ao conteúdo eurocêntrico do
currículo escolar, aos programas educativos, aos manuais escolares e ao
comportamento diferenciado do professorado diante de crianças negras e
brancas. A reiteração de abordagens e estereótipos que desvalorizam o povo
negro e supervalorizam o branco resulta na naturalização e conservação de uma
ordem baseada numa suposta superioridade biológica, que atribui a negros e
brancos papéis e destinos diferentes. (...) Cristaliza-se uma imagem padronizada
que diminui, exclui, sub-representa e estigmatiza o povo negro, impedindo a
valorização positiva da diversidade étnico-racial, bloqueando o surgimento de um
espírito de respeito mútuo entre negros e brancos e comprometendo a ideia de
universalidade da cidadania”. (Marcha Zumbi dos Palmares, 1995)
Pesquisa infância-criança e relações raciais

Analisando as taxas de frequência à creche e à escola dos diferentes segmentos


raciais observamos que 84,5 % de crianças negras e 79,3 % de crianças brancas
não frequentavam a creche em 2008. A diferença do percentual de frequência
entre crianças negras e brancas é reduzido: 5,2 % (PNAD, 2008, apud IPEA, 2010).
Porém, as crianças pequenas, negras e brancas, são altamente prejudicadas.
Politicamente, antes de preocupar-me com o hiato racial, me preocuparia com o
hiato de idade, pois é ele que maior impacto tem entre as crianças negras. Minha
prioridade não seria atentar para os 5,2 % de crianças negras que não atingem o
mesmo patamar de frequência à creche que crianças brancas, mas os 84,5 % de
crianças negras de 0 a 3 anos que não dispõem de creche.
A política de creche brasileira sustenta e provoca desigualdade racial? Com
certeza. Apenas via discriminação específica contra crianças ou famílias negras?
Penso que não: também via desigualdades regionais, via desigualdades
econômicas, via desigualdades de gênero e, sem dúvida, via desigualdades de
idade.
AS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS E A SOCIOLOGIA DA INFÂNCIA NO BRASIL:
ALGUNS APORTES

Criança e o plural da infância

- Criança no Século XIX


- Passou a receber um olhar médico
- A psicologia, então, mediu a inteligência, prescreveu o desenvolvimento,
dividiu as crianças por idades e capacidade mental
- A idade, o período de desenvolvimento e a etapa da vida puderam ser
colocados em um gráfico, havendo a curva da normalidade e aqueles que
se desviavam
- A criança passou a ser global e universal
- Sociologia da infância
- A sociologia da educação permaneceu durante longo período presa à
definição durkheimiana de imposição dos valores adultos sobre a criança,
levando-as a permanecerem no silêncio, mudas, ou seja, em uma posição
marginalizada e passiva diante do mundo adulto.

- Sociologia da infância: a maior parte dos estudos feitos sobre as culturas


infantis foi realizada em contextos escolares, ocupados
predominantemente por crianças e, por isso mesmo, locais onde os
pesquisadores puderam encontrar mais facilmente seus “sujeitos de
investigação”.
- A criança negra
- A socialização da criança negra na escola é diferente da vivenciada pela
criança branca
- Pesquisas: apresentam a criança negra com problemas de relacionamento
com seus colegas e professores ocasionados pela cor, gerando uma relação
conflituosa e, muitas vezes, nociva para aqueles que acabam sendo
rejeitados por seus atributos físicos.

- Dificuldade dos professores de enfrentar situações envolvem preconceito.


(Exemplo: [...] uma criança branca pergunta à educadora se ficará suja se
pegar na mão de outra criança negra. A educadora que também era negra
contou o caso sorrindo e disse à criança “que é claro que não, todo mundo
é igual”).
- Análise crítica: (...) a socialização que se inicia na família e se amplia com o
convívio escolar, ao invés de ser uma experiência positiva no desenvolvimento
da criança negra, acaba sendo um fator negativo na constituição de sua
autoimagem. E o silêncio que envolve a questão racial nas diversas
instituições sociais favorece que se entenda a diferença como desigualdade,
como desvio, como anormalidade.

Você também pode gostar