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CAPÍTULO 0 – INTRODUÇÃO À HIDRÁULICA

I – A ÁGUA como substância


A água é a única substância que tem a propriedade de passar pelos estados sólido,
líquido e gasoso nas condições de temperatura e pressão reinantes na superfície da Terra. Cerca
de 97,6% da água do planeta é constituída pelos oceanos, mares e lagos de água salgada. A água
doce, representa apenas 2,4% do total e tem a sua maior parte situada nas calotes polares
(1,9%), inacessível aos homens pelos meios tecnológicos actuais. Da parcela restante (0,5%),
mais de 95% é constituída pelas águas subterrâneas.

A água era tida como uma substância simples até ao final do século XVIII, quando foi
obtida em laboratório pela combustão do hidrogénio. Actualmente, é definida como uma
substância composta, resultante da combinação de dois átomos de hidrogénio com um de
oxigénio. Na realidade, sabe-se hoje em dia, que a água é uma substância complexa.

A água geralmente contém impurezas, mesmo quando sofre em laboratório três


destilações sucessivas, devido ao seu grande poder de dissolução. Na natureza, a água só é
isenta de substâncias dissolvidas quando se encontra em estado gasoso.

Para definir a qualidade da água natural, vários são os termos técnicos utilizados tais
como dura ou salobra, salgada ou salina, mineral, termal, radioactiva, doce, poluída,
contaminada, turva, ácida, alcalina, tratada, pura, potável, etc.

E como sem água não há vida, desde que o Homem se conhece como tal, assim como
todos os outros seres vivos, sempre fez uso da mesma, em função do seu estado de
desenvolvimento. Ele sempre tentou interpretar os fenómenos da natureza que estivessem
directamente ligados com a água, nomeadamente as chuvas, evaporação, as cheias, os períodos
de estiagem, a existência de água subterrânea, etc.

II – O Cíclo Hidrológico

É difícil falar da Hidrologia e Hidráulica como ciências, sem falar do Cíclo Hidrológico.

A quantidade de água existente na Terra, imutável no tempo se considerada em conjunto, varia


nas diversas porções em que existe no estado sólido, líquido e gasoso.

No estado líquido, a água apresenta-se:

- acima da superfície terrestre, constituíndo a chuva;


- na superfície formando os rios e riachos, lagos e lagoas, oceanos e mares;
- abaixo da superfície terrestre criando os lençóis freáticos e bolsas de água subterrâneas
(também denominados aquíferos);

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Pela acção dos raios solares, a água que se encontra na superfície terrestre desprende-se da
superfície líquida como vapor, que se eleva na atmosfera para constituir as nuvens.

As nuvens são arrastadas pelos ventos. Quando o ar fica saturado de humidade e decresce a
temperatura, elas se condensam para formar as chuvas, que em grande parte se precipitam no
mar.

Embora grande parte das precipitações atmosféricas produza chuva, a condensação pode formar
igualmente neve, geada, granizo, nevoeiro ou orvalho. As chuvas que não caem no mar,
escoam-se na superfície da Terra alimentando os riachos e rios, lagos e lagoas, ou infiltram-se
para abastecer os aquíferos.

Nos rios e riachos, frequentemente chamados de cursos de água, bem como nos lençóis
subterrâneos, a água desloca-se pela acção da gravidade em direcção ao mar, isto é ao ponto de
partida de grande parte dela. No caso dos lençóis subterrâneos, esse deslocamento leva o nome
de percolação.

Nem toda a água oriunda do mar volta a ele, como a que se evapora antes de atingi-lo ou a que
fica retida nos lagos e aquíferos.

Esquema da circulação da água das diversas formas possíveis

O ciclo hidrológico embora pareça um mecanismo contínuo com a água movendo-se de uma
forma permanente e com uma taxa constante, é na realidade bastante diferente pois o
movimento de cada uma das fases do ciclo é feito de um modo bastante aleatório, variando tanto
no espaço como no tempo.

Em determinadas ocasiões a natureza parece trabalhar em excesso quando provoca chuvas


torrenciais que ultrapassam a capacidade dos cursos de água provocando inundações. Noutras
ocasiões parece que todo o mecanismo do ciclo parou completamente e com ele a precipitação e
o escoamento superficial.

E são precisamente estes extremos de cheias e secas que mais interessam aos engenheiros desde
os primórdios dos tempos, pois hoje muitos dos projectos de Engenharia Hidráulica são feitos
com a finalidade de protecção contra estes mesmos extremos.

Por isso é a Hidrologia uma ciência muito antiga. Ela nasce com o início do uso da água para a
irrigação. Este processo dá os primeiros passos utilizando a água dos rios Nilo e Amarelo. A
história da Hidrologia compreende:

– Período de Especulação – até ao ano 1400:


Todos os conhecimentos fluviais são encarados como forma divina e disso se aproveitam os
sacerdotes egípcios;

– Período de Observação – 1400 a 1600:

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Em pleno renascimento, começa a definir-se uma tendência para explicar racionalmente os
fenómenos naturais;

– Período de Medição – 1600 a 1700:


Já se medem as precipitações (chuvas), a evaporação, os caudais do rio Sena;

– Período de Experimentação – 1700 a 1800:


Aparecem os grandes técnicos de hidráulica: Bernoulli, D´Lambert, Chézy. Em 1760 é criada
em França a primeira escola de engenharia: École des Ponts et Chaussées;

– Período de Modernização – 1800 a 1900


Afirmação da Hidráulica/Hidrologia;

– Período do Empirismo – 1900 a 1930:


Fase unicamente descritiva onde se pretende reduzir os fenómenos hidrológicos a meras
fórmulas;

– Período de Racionalização – 1930 a 1950:


Aparecimento do 1º computador (ENIAC em 1045);

– Período Teórico – depois de 1950 e até aos nossos dias:


Aparecem os grandes hidrólogos, Ven Te Chow, Linsley, Meyer, Roy Sherman, Robert Horton,
Merril Bernard. Em 1962 aparece a grande obra “Handbook of Applied Hidrology” de Ven Te
Chow e outros autores.

III – Conceitos Gerais da Hidráulica


Com a crescente necessidade de utilização da água para os mais variados fins, vai-se
desenvolvendo o estudo da Hidráulica ao longo dos tempos.

A Hidráulica pode ser definida como sendo a ciência que estuda as leis de estabilidade e
movimento dos líquidos.

Ela dá-nos com base em experiências efectuadas ao longo dos anos e através do
desenvolvimento de teorias concretas, métodos para a utilização dessas leis visando resolver
diferentes problemas da prática da engenharia.

Em geral, pode-se afirmar que a HIDRÁULICA não é mais do que a Mecânica Aplicada dos
Fluídos.

Para se resolver grande parte dos problemas hidráulicos que quotidianamente se nos deparam,
utilizam-se métodos simplificados pelo que, a solução destes mesmos problemas têm em muitos
dos casos, um carácter de certo modo aproximado. Isto é, para a sua solução, aprecia-se de uma
forma exacta somente a característica fundamental do fenómeno em estudo e opera-se com
factores aproximados e médios.

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Pelo seu carácter, a disciplina da mecânica técnica dos fluídos ou HIDRÁULICA, pode ser
comparada à disciplina da Resistência dos Materiais, a qual, partindo do mesmo ponto de vista,
analisa a mecânica dos corpos sólidos.

IV – Subdivisões da Hidráulica
A Hidráulica pode ser dividida em duas grandes partes: a HIDROSTÁTICA que estuda as leis
da estabilidade dos líquidos e a HIDRODINÂMICA que estuda as leis de movimento dos
líquidos.

Às leis da HIDRÁULICA estão relacionadas a Hidrometria, a Hidrologia, a Hidrotécnica que,


devido às experiências efectuadas nestes ramos, muito contribuem para o desenvolvimento
global da HIDRÁULICA.

A HIDRÁULICA ALICADA pode ser sub-dividida em:


Hidráulica Urbana – que engloba os sistemas de abastecimento de água, esgotos sanitários e
industriais, galerias de águas pluviais;
Hidráulica Rural ou Agrícola – relacionando-se à irrigação, enxugo, drenagem;
Hidráulica Fluvial – que estuda o comportamento dos rios, cálculo de canais, represas,
barragens, diques, açudes;
Hidráulica Marítima – Engloba a áreas dos Portos e obras marítimas;
Instalações Hidráulicas Industriais;
Técnica Hidroeléctrica.

V – Evolução da HIDRÁULICA
As obras hidráulicas de hoje, são uma continuidade das obras de certa importância que
remontam à Antiguidade. Isto porque na história do desenvolvimento do Homem, a água
sempre teve um papel importante. Na Mesopotâmia existiam canais de irrigação construídos na
planície situada entre os rios Tigre e Eufrates e em Nipur (Babilónia) poe exemplo existiam
colectores de esgotos desde os anos 3750 a.n.e.

Importantes obras de irrigação também foram executadas no Egipto, 25 séculos a.n.e.


sob orientação de UNI.

O primeiro sistema público de abastecimento de água do qual se tem notícia, o aqueduto


de Jerwan, foi construído na Assíria, 691 a.n.e.

Alguns princípios da Hidrostática foram anunciados por ARQUIMEDES (grande


geómetra e engenheiro de nacionalidade grega), no seu tratado sobre os corpos flutuantes (250
a.n.e.).

Grandes aquedutos foram construídos em várias partes do mundo a partir de 312 a.n.e.
No séc. XVI, a atenção dos filósofos voltou-se para problemas encontrados nos projectos das

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fontes monumentais, que estavam na moda em Itália.

LEONARDO DA VINCI (pintor, escultor, arquitecto, músico e cientista italiano)


apercebeu-se da importância deste sector. Em 1856, STEVIN (engenheiro civil no ramo militar
e matemático holandês), ajudado por GALILEU (físico e pesquisador italiano), TORRICELLI
(discípulo de Galileu, também físico e pesquisador italiano) e BERNOULLI (cientista suíço,
fundador da Física e Matemática), constituíram a base para um novo ramo científico.

É de realçar as teorias criadas por PASCAL, sobre a lei de transmissão das pressões no
interior de um líquido e de NEWTON que descubriu as leis da resistência nos líquidos.

Em 1738, DANIEL BERNOULLI publicou um importante tratado sobre os problemas


do movimento e resistência dos fluídos, dando desta forma início à HIDRODINÂMICA. Neste
trabalho, JACQUES BERNOULLI fundamentou o famoso teorema sobre a variação da energia
cinética dos corpos que até hoje, tem um peso importante na resolução dos problemas de
Hidráulica.

Em 1755 LEONARDO EULER, matemático suíço deduziu as equações diferenciais


para um líquido ideal, dando início à Hidromecânica Teórica, que estuda o movimento dos
fluídos com o método de análise matemático.

Vários foram os cientistas que deram grande contribuição à Hidráulica, sendo injusto
não se fazer referência a PITOT, CHÉZY, VENTURI para além de outros que fizeram com que
a partir do séc. XIX a HIDRÁULICA tevessetido um enorme desenvolvimento.

VI – Água como recurso escasso e indispensável


A água é também um veículo para a propagação dos mais diversos tipos de doenças, quando
poluída ou contaminada. Estudos feitos ao nível mundial sobre o saneamento do meio,
constatou-se a alarmante realidade de que cerca de 90% dos esgotos são lançados sem qualquer
tratamento prévio nos solos e rios ou riachos em todo o planeta. Estima-se que na ordem de 1,2
bilhão de pessoas no mundo carecem de água potável e que 1,9 bilhão não dispõe de adequados
serviços de saneamento. A falta de água potável e de saneamento básico provoca a morte de
cerca de 4 milhões de crianças anualmente, vitimadas por doenças de veiculação hídrica como a
cólera, a diarreia, etc.

Devido à degradação da sua qualidade que se acentuou a partir da II Guerra Mundial, a água
doce líquida que circula em muitas regiões do mundo já perdeu a sua característica especial de
recurso renovável, em particular nos países ditos do Terceiro Mundo, na medida em que os
efluentes e/ou os resíduos domésticos e industriais são despejados no ambiente natural sem
tratamento ou de forma inadequada.

Além dos desequilíbrios da oferta de água às populações, a questão da disponibilidade e dos


conflitos pelo seu uso também apresentam os seus aspectos preocupantes. Assim é que alguns
países apresentam escassez hídrica absoluta, tais como Kuwait, Egipto, Arábia Saudita,

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Barbados, Singapura ou mesmo Cabo Verde; outros como Burundi, Argélia e Bélgica padecem
de seca crónica; em vários locais afloram conflitos decorrentes de desequilíbrios entre demanda
e disponibilidade, tais como Madrid e Lisboa pelo Rio Tejo, Síria e Israel pelo Rio Golam, Síria
e Turquia e Iraque e Turquia pelo Rio Eufrates, Tailândia e Laos pelo Rio Mekong, etc.
Diante desse cenário turbulento, a água subterrânea vem assumindo uma importância cada vez
mais relevante como fonte de abastecimento, devido a uma série de factores que restringem a
utilização das águas superficiais bem como ao crescente aumento dos custos da sua captação,
adução e tratamento. Além dos problemas facilidade de contaminação inerentes às águas
superficiais, o maior interesse pelo uso da água subterrânea vem sendo despertado pela maior
oferta deste recurso e em decorrência do desenvolvimento tecnológico, o que promoveu uma
melhoria na produtividade dos poços e um aumento de sua vida útil.

VII – Carta Europeia da Água


Dada a sua importância e actualidade, apresenta-se os 12 artigos que compõem a
CARTA EUROPEIA DA ÁGUA:

01 – Não há vida sem Água. A Água é um bem precioso indispensável a todas as


actividades humanas;
02 – Os recursos hídricos não são inesgotáveis. È necessário preservá-los, controlá-los e
se possível aumentá-los;
03 – Alterar a qualidade da Água é prejudicar a vida do Homem e dos outros seres vivos
que dela dependem;
04 – A qualidade da Água deve ser mantida em níveis adequados às utilizações previstas
e em especial, satisfazer as exigências da saúdepública;
05 – Quando a Água após ser utilizada volta ao meio natural, não deve comprometer as
utilizações que dela serão feitas posteriormente;
06 – A manutenção de uma cobertura vegetal apropriada, de preferência vegetal, é
essencial para a conservação dos recursos hídricos;
07 – Os recursos hídricos devem ser objecto de um inventário;
08 – A eficiente gestão de Água deve ser objecto de planos definidos pelas entidades
competentes;
09 – A salvaguarda da Água implica um esforço importante de investigação científica,
de formação técnica de especialistas e de informação pública;
10 – A Água é um património comum, cujo valor deve ser reconhecido por todos. Cada
um tem o dever de a economizar e utilizar com cuidado;
11 – A gestão dos recursos hídricos deve inserir-se no âmbito da bacia hidrográfica
natural e não no das fronteiras administrativas e políticas;
12 – A Água não tem fronteiras. É um bem comum que impõe uma cooperação
internacional.