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Treze

escritores
&
Muitos
segredos
Por que escrevo?
Sumário
Intro
04 04

05 Ana Elisa Ribeiro

Bruna Meneguetti 08

12 Márcia Barbieri

Alex Xavier 16

19 André Argolo

André Cáceres 23

26 Claudio Brites
Sumário
Eduardo Sabino 30

34 Lima Trindade

Marne Lúcio Guedes 38

41 Matheus Arcaro

Nelson de Oliveira 44

48 Whisner Fraga
Intro

O que escondem os escritores?


Quais são seus vícios?
Seus desejos?
Suas virtudes?
O que temem os escritores?
Que verdade alimenta, agride,
tortura sua inconsciência?
Quantos crimes de amor cometeram os escritores?
Onde enterraram os corpos?
Serão culpados?
Absolvidos?
Castigados?
Você teria coragem, querida leitora, querido leitor,
de suportar as confissões das próximas páginas?

Marne Lúcio Guedes Nelson de Oliveira


4
autora

Foto: Sérgio Karam

Ana
Elisa
Ribeiro

5
Saber experimentar

V im parar na literatura provavelmente por


acaso. Não tenho ideia de quem a teria me
apresentado, mas suspeito que tenha sido a
escola. Improvável gostar de literatura na escola? Não sei.
Só sei que foi assim. Em casa, havia os livros trancados
da minha mãe e uns poucos manuais de medicina do
meu pai. Nem mais uma linha. Já adolescente, depois de
amar as letras com certa distância compulsória, descobri
umas estantes de livros na casa de meus avós maternos.
Ali, sim, me aconcheguei e descobri parte de um mundo
novo. Eram, principalmente, romances russos e franceses,
Ana Elisa Ribeiro

em traduções de capa dura, provavelmente comprados


em bancas e juntados como quem coleciona figurinhas.
Dessas leituras e sedenta por outras, aprendi a explorar a
biblioteca escolar e, lá, descobri uma espécie de universo
paralelo: livros que existiam nas estantes, mas jamais
eram indicados ou comentados por professores. Tracei.
Tracei a precária biblioteca, fiz amizade com a carrancuda
bibliotecária, até que descobri um modo de comprar livros,
a fim de erigir uma biblioteca particular, inteirinha do meu
gosto. Era isto: gosto. Pegava os caraminguás do lanche
da escola, dados por minha mãe à porta de casa junto
com um beijo, e juntava. Quando inteiravam o valor de um
livro, eu descia do ônibus no centro da cidade e me dirigia,
meio furtivamente, à livraria que descobri dentro de um
shopping. Lá, nem perguntava. Ia direto às prateleiras de
literatura, em especial às de poesia, e adquiria um volume.
Chegava em casa com a mochila mais pesada, e mais
feliz, eu. Dessa paixão, todas as demais coisas da 6
minha vida inteira foram pensadas, escolhidas, medidas e
desejadas.

F
oi disso que veio minha profissão, é daí que vêm
meus passatempos, foi por conta disso que vivi
amores, tive um filho e fiz amigos e amigas, embora
digam por aí que o metiê literário não é lá dos mais
solidários.”

Mentira, mentira parcial. Construí, organicamente, uma


“vida de escritora”, mesmo tendo demorado a descobrir
que elas, as mulheres escritoras, também existiam. E por
isso mesmo pensei que ser uma delas exigiria um misto
de coragem, persistência, insistência e paixão. Mais de
Ana Elisa Ribeiro

três décadas depois dessas primeiras percepções, minha


casa, hoje, tem cheiro de livros, cor de livros, peso de livros,
movimento de livros. Minha vida de escritora tem pilares
fortes, espessura e umas alegrias a conta-gotas, porque
também é preciso, nisto, saber experimentar.

Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte, onde


trabalha e milita pela literatura. É linguista, doutora
em Linguística Aplicada pela UFMG, professora,
autora de mais de trinta livros (poesia, prosa,
infantis, técnicos), entre eles os poemários mais
recentes Álbum (Relicário, 2018) e Dicionário de
Imprecisões (Impressões de Minas, 2019/2020).
Escreve para o Digestivo Cultural há 17 anos e há 3
para a Revista Pessoa.

7
autora

Foto: Editora Patuá

Bruna
Meneguetti

8
O jeitinho dela

Q uando falo da literatura, é difícil não cair


em clichês. Logo imagino nós duas no
sofá, com um prato de brigadeiro no colo,
duas colheres e a luz da lua entrando pela janela
de forma a respingar direto na manta que se
esparrama pelo chão. Nós conversando por longo
tempo, e seriamente, até o momento em que nada
mais importa e a coisa desanda ao ponto de nos
embriagarmos com as palavras. Com algumas
frases a mais, ela quase me faz cuspir chá pelo
nariz depois de uma gargalhada violenta que me
Bruna Meneguetti

eleva o ânimo à décima potência e me lembra


do quão bom é o riso sem ressentimentos dado
durante uma madrugada silenciosa.

Continuando no clichê, me vejo contando segredos


íntimos e me debulhando em lágrimas. De alguma
forma, ela consegue acessar meus dissabores e os
coloca sob novos pontos de vista, como na sola do
sapato ou sobre a garrafa de água que repousa no
alto da estante. Então, pergunto: “O que a garrafa
de água está fazendo ali?”. É aí, então, que a
literatura sorri contente por ter me distraído com o
que realmente importava.

E
sse é o jeitinho dela. Se você já a conheceu,
sabe do que estou falando.
9
Ela é do tipo que tem sempre uma boa história
na manga, que poderia contar, por exemplo, tudo
sobre a vizinha, e também o marido da vizinha, e
também o canário da vizinha, e não se esqueça dos
antepassados da vizinha, e os filhos que a vizinha
ainda não teve, além dos netos que os filhos da
vizinha ainda não tiveram, porque a vizinha também
ainda não os têm. E, se lhe ocorrer perguntar, tenho
certeza de que ela igualmente saberá tudo sobre a
barata que passeou na cozinha da vizinha durante
o último sábado, enquanto a vizinha e o marido
copulavam para gerar a primeira criança, que
nascerá morta.
Bruna Meneguetti

Se ainda estiver tentando lembrar, talvez facilite


saber que a literatura tem um guarda-roupas
invejável e gosta de alternar estilos indo do
arcaico ao futurista. Por vezes, a encontrei e não
a reconheci, tão diferente estava em suas novas
roupagens e adereços que as deixavam ora anciã
ancestral, ora criança mal saída das fraldas. Seu
estilo camaleoa a faz múltiplas. Deve ser por isso
que a vejo em tantos lugares e desato em uma
prosa com ela nos horários mais improváveis.
Assim, a amo em cada detalhe. Gosto da verruga
na ponta de seu nariz, de seus suspensórios, da
chupeta que carrega no pescoço, de seus calçados
de sapateado, suas unhas compridas, pés peludos
e seu sorriso delicado.
10
Mais que essas peculiaridades, amo como posso
contar com ela a cada minuto de meu dia. Sinto
por todas as vezes que a deixei na soleira da porta
enquanto chovia, de quando ela me confessou a
melhor de suas ideias, mas eu, tão cansada, virei-
me e dormi um sono pesado, sem me certificar se
ela estava confortável, se no dia seguinte ainda
estaria lá. Não estava. É assim que a tenho em
minha vida: sempre em profunda gratidão por
sua existência. Ela, não se sabe. Apenas existe.
Esta boa amiga viu meu parto e é certo que verá
minha lápide. Porém, creio que não chorará. Não.
Ela apenas existe, e por apenas existir é que sorrio
aliviada certa de que nunca nos abandonará. Seu
Bruna Meneguetti

pacto, eu sei, é literário.

Bruna Meneguetti é jornalista e escritora. Possui dois


romances históricos: O céu de Clarice (Amazon,
2017) e O último tiro da Guanabara (Editora
Reformatório, 2019). Bruna também é coautora
do livro-reportagem Corações de Asfalto (Editora
Patuá, 2018) e colaboradora do Aliás, suplemento
literário do jornal O Estado de S. Paulo. Já ministrou
aulas e palestras em instituições como Sesc, Casa
Guilherme de Almeida, Faculdade Cásper Líbero,
Festa Literária Internacional da Mantiqueira e
programação paralela da FLIP.
Site: https://www.brunameneguetti.com/

11
autora

Foto: Grazi Brum

Márcia
Barbieri

12
A literatura e o miocárdio

E
u tinha apenas dois caminhos: seguir a
loucura desordenada herdada da minha
família ou seguir a trilha esquizofrênica da
escrita. Optei pela segunda alternativa.

A gente escreve para fracassar, e a cada história


fracassamos melhor, com mais ritmo, mais
jeito, mais gingado, mais graça. Começamos
completamente despidos e de repente ao
olharmos para o espelho nos deparamos com
um belo chapéu-coco. Inútil, não te protege nem
da chuva nem do sol, no entanto, é esteticamente
Márcia Barbieri

perfeito.

Se você fechar os olhos e conseguir vislumbrar


a sua vida sem a literatura, desista, pare agora
mesmo de escrever, por mais interessante que
possa parecer a sua próxima história, ainda que
você considere os personagens geniais, ainda
que possa apertar-lhes a mão e beijar de língua
sua boca, desista, pois sua escrita não valerá de
nada, não servirá nem para limpar a bunda dos
arrogantes.

A literatura não aceita quem gosta da segurança


das margens, ela exige o mergulho fundo dos
escafandristas, a insensatez dos amantes. Se
está procurando por segurança está no caminho
errado, vire à esquerda enquanto é tempo.
13
Eu escrevo para continuar respirando, para não
me tornar mais um número na lista de nascidos.
Quando não escrevo me equiparo a um cão, a um
gato, a todos os animais considerados inferiores
porque desprovidos de palavras, não que tenha
algo contra esses seres, até me agrada os miados,
os latidos, os grunhidos, essa espécie de barulho
sem sentido, contudo, a eles falta a potência da
linguagem que me é essencial, que me torna
extremamente viva.

De todos os amantes, a literatura é a única que


jamais abandonarei, porque apenas ela é capaz de
expandir o meu corpo. A escrita multiplicou minha
Márcia Barbieri

boca, meus ouvidos, meus braços, minhas pernas,


meus olhos, tornou toda caminhada justificável,
me ensinou que tudo pode ser transformado em
narrativa. Tenho dez mil corpos, um que fala, um
que cala, um que goza, um que carrega vigas, um
que está a sete palmos de profundidade.

Escrever é um ato solitário, mas ser lida é um ato


divino. As pessoas podem elogiar seu cabelo, a
cor dos seus olhos, suas mãos, suas coxas, o seu
jeito escancarado de sorrir, porém nenhum desses
elogios são capazes de alcançar a sensação de
êxtase experimentada quando um leitor diz que
se percebeu vivo ao ler o seu texto. Esse tipo de
partilha torna o ato de escrever incomparável. De
repente nos sentimos indispensáveis, de alguma
forma nossa alma se comunicou com outra alma.
14
N
ão há encontro mais significativo do que o
intermediado pela literatura. Além disso, é
um encontro atemporal. Quantas vezes visitei
as Minas Gerais de Drummond, os demônios de
Dostoiévski, os morros uivantes de Brontë, dormi na
cama de Henri Miller?

Escrevo porque nego a morte, uma história a ser


escrita me faz adiar a partida. Escrever é fracassar
com elegância, sem tirar a mão para estancar o
sangue dessa ferida invisível que é a vida.
Márcia Barbieri

Márcia Barbieri é escritora, autora da trilogia do


corpo, composta pelos romances: A Puta, O enterro
do lobo branco e A casa das aranhas. Atualmente,
trabalha na construção do romance Tempo de
cão.

15
autor

Foto: Ricardo Reis

Alex
Xavier

16
Um polvo gigante só meu

E
u queria fazer parte da tripulação de um
submarino e rodar o mundo. Para isso, só
precisei abrir o livro e embarcar na história.
Não sei quantos anos tinha quando li a clássica
aventura Vinte Mil Léguas Submarinas, do Júlio
Verne. Mas lembro da sensação de pertencer
à trama. Não apenas me imaginar no lugar do
professor Aronnax, do arpoador Ned Land ou do
próprio capitão Nemo. Enquanto lia, eu reescrevia
aquelas páginas na minha mente, criando um
personagem só para mim e colocando-o a bordo
do Náutilus.
Alex Xavier

Só a literatura me permite consumir e criar ao


mesmo tempo. Sou apaixonado por cinema.
Agradeço muito à Sétima Arte pela minha
formação narrativa. E, por muito tempo, achei que
abraçaria essa forma de contar histórias, como
diretor ou roteirista. Porém, é algo que já chega
pronto para mim, a visão de outra pessoa – no
caso de filmes, de toda uma equipe – e, nem se
assistido em 3D vai me transportar para a tela da
forma como viajo pelas páginas de um bom livro.
Ver a versão de Vinte Mil Léguas Submarinas com
Kirk Douglas, James Mason e Peter Lorre nunca
funcionou para mim. Eu queria o polvo gigante
assustador que havia imaginado a partir da leitura
e não aquele monstro risível padrão Disney. O meu
era melhor até que o do desenho na capa do livro.
17
D epois de publicado, um livro não pertence
mais ao seu autor, mas a cada um dos
leitores.

Depois de publicado, um livro não pertence mais


ao seu autor, mas a cada um dos leitores. A
forma como eles o leem, o tempo dessa leitura,
a bagagem que essa pessoa carrega e suas
experiências externas levarão a muitas outras
linhas narrativas e interpretações, distantes do
controle do escritor. Eu queria contar histórias que
fossem transformadas por todas as suas releituras
e virassem algo diferente, que nunca fui capaz
de imaginar. E se algum dia uma obra minha for
Alex Xavier

levada ao cinema, espero que seja totalmente infiel


ao original.

Alex Xavier é um jornalista refugiado na ficção. Autor


do livro de contos O Teatro da Rotina (2018, Patuá),
participou das coletâneas Não Pretendia Criar
Discórdia (2017, Giostri), Eros Ex Machina (2018,
Alink) e Era de Aquária (2019, Oito e Meio). Membro
do coletivo Discórdia, produz zines para feiras de
publicação independente.

18
autor

Foto: Arquivo pessoal

André
Argolo

19
Escrevo porque é meu direito

E screvo porque é meu direito. E ainda que


não me seja dado, o exerço e trabalho para
que mais gente possa fazer o mesmo. Morar,
comer. São direitos humanos, não? Mas na vida em
comum, conforme posta à mesa, se eu não tiver
dinheiro não como e não tenho teto. Com dois
desvalorizados reais compro um caderno. Com
outros dois saio da papelaria com lápis na mão. E
torço que não me desaponte. Onde e como pude
obter quatro reais para tal luxo? Nesse mundo de
direitos muito relativos (ao bolso), tenho exigências
fisiológicas urgentes a atender – não as escolho.
Ándré Argolo

Somente quando então satisfeitas sigo à fase dos


desejos da mente ou do espírito, essas nomeações
que se confundem e nunca se desatam. No “menu”
dos direitos, opcionais na prática e fundamentais
para mim, opto por poder escrever.

Veja que curioso: opto. Escolho ter a potência


para, a potência de, esse específico poder. Entre
outras aparentemente infinitas possibilidades,
cato esta, a escrita. Cato outras também: Mas
que barato isso, não tem limite? Posso mesmo ir
pegando o que acho bom? Escrever e tocar violão,
escrever e fazer aula de tiro, escrever e chegar à
Olimpíada, escrever e ser empresário, faxineiro,
médico, engenheiro ou pedreiro, tipo agricultor
& poeta? Com essa escolha vem junto e
20
gratuitamente meu direito de poder escrever e não
fazer.

Ouve: “eu preferiria não fazer”, diz o escrivão de


Melville. E era o trabalho remunerado dele, do
qual adquiria seus direitos “assegurados” de
humanamente morar em algum lugar e ter o que
comer. Preferiu não, ao extremo.


Eu? Optei por não dizer “não”.

E
se escrevo é porque leio. Trata-se de uma
dependência, não há “download” possível
até essas duas primeiras décadas do século
Ándré Argolo

XXI, para as obras que alimentam nossa escrita,


diretamente ao cérebro.... “uploading”. Se passei a
ler tardiamente, azar o meu. Mas digo: é sempre
tempo de.

A literatura não me faz melhor humano, uma


outra escolha – no entanto é estrutura bem-
vinda. Tenho o desejo de escrever. E anseio por
seu desejo de escrever. Ouso até publicar ou
buscar ser publicado. Que invasão essa de minha
existência na sua! Que desejo é esse de ter minha
existência invadida pela sua, extensão de vida que
leio e torno minha! A literatura mais comportada
já é transgressão. E eu a pude escolher, não sem
pagar caro por isso. Assinaria de novo esse longo
crediário inalcançável. A literatura é minha dívida
de vida.
21
André Argolo Mestrando no IEB/USP, formado em
Jornalismo e pós-graduado em Formação de
Escritores (Inst. Vera Cruz). Tem dois livros de
poemas publicados, Vento noroeste (Patuá, 2014) e
Bazar (Ateliê de Palavras, 2017), além da presença
nas antologias Realidades voláteis & Vertigens
radicais (Alink, 2019) e Vai ficar tudo bem (Storytel,
2020). Trabalha como redator, documentarista em
vídeo, ghostwriter e professor de escrita literária/
especialidade poesia.
Ándré Argolo

22
autor

Foto: Editora Patuá

André
Cáceres

23
Sobre o ofício da escrita

S
e há algo que supera o prazer de uma página
bem escrita é uma página em branco.
A página em branco — ou a tela, nestes
tempos menos elegantes — é como um bloco de
mármore que, depois de milhões de anos sendo
moldado pela atividade vulcânica e submetido a
altíssimas temperaturas, aguarda paciente que um
escultor o tome em suas mãos e liberte uma forma
impossível de seu interior.

A
cada vez que me vejo diante de uma página
em branco, sinto-me em um terreno baldio,
Ándré Cáceres

um solo recém-terraplanado onde devo dar


início a uma escavação. Creio estar lançando as
bases, a fundação de um monumento à literatura,
mas esse rasgo na terra é o intuito verdadeiro: ele
será minha tumba.

O ofício da escrita consiste em cavoucar


uma fenda utilizando-se das mais prosaicas
ferramentas que o gênero humano já concebeu:
vinte e seis letras, um punhado de acentos, as
marcas de pontuação e uma boa dose de espaços
em branco. Nada além disso é requerido para
perfurar a superfície da linguagem em busca de
seu interior profundo.

Mas essas vinte e seis letras podem se recombinar


em mais de quatrocentos septilhões de 24
possibilidades diferentes. Sob a camada fina de
vinte e seis grãos de areia esconde-se uma praia
inteira. Uma biblioteca de Babel se ergue das
profundezas do poço artesiano que vinte e seis
ferramentas são capazes de penetrar.

Minha paixão por esse ofício de escavação


linguística surgiu aos poucos, se insinuou pelos
recantos de minha mente e tomou conta de
mim quando eu descobri que poderia recrutar as
palavras, essas companheiras triviais do cotidiano,
e subvertê-las como um zumbi que infecta sua
vítima.
Ándré Cáceres

Desde então, a única coisa que me dá mais prazer


do que ler um bom texto é cooptar as palavras
para meus fins escusos, usar em seus corpos
frágeis as vinte e seis ferramentas de tortura que
me permitem transformá-las no que eu quiser.
E, como um perverso faraó, escavar as colossais
fundações de um edifício. É incerto se as pirâmides
sobreviverão aos tempos vindouros ou se voltarão
a ser areia, dissolvida em 26 tipos de grãos.

André Cáceres é jornalista e escritor. Autor de Cela


108 (Multifoco, 2015) e coautor de Corações de
Asfalto (Patuá, 2018), tem contos em antologias
e publicações literárias como Cândido, Relevo e
Revista Gueto, e escreve sobre literatura para o
jornal O Estado de S. Paulo.
25
autor

Foto: Wilson Domeneghetti Monticelli

Claudio
Brites

26
Saindo da estante

E
screvo porque tenho medo. Escrevo porque
meus intestinos exigem.

Minha relação com a literatura nasceu diante do


terror da solidão – não estou falando de solitude,
aquele estado inevitável de estar consigo, mas
de solidão mesmo: a total incapacidade de se
comunicar com alguém. Me sentia assim, o tempo
todo, no centro de uma ponte sem destino. Menino,
muito cedo fui acometido por uma sensação de
ser estrangeiro, em minha rua, minha casa, em
meu corpo. Eu parecia fraco, sem habilidade para
Cláudio Brites

o mundo dos homens, dos quais não conhecia o


idioma. Então me escondi atrás de uma estante.

Lá eu encontrei outros parecidos comigo. Um


país feito de exilados, aqueles personagens só
viviam quando alguém lhes permitia. Aguardavam
um olhar, como eu, então me incumbi da
responsabilidade de cuidar deles. Participei do parto
de um menino com asas, visitei a terra dos meninos
pelados, invejei por não ter um pé de laranja lima,
assustado com cadáveres ouvindo rádio, vampiros
noturnos, um homem vendo seu filho ser engolido
por um lagarto. Me sabia ali, queria ser também
personagem.

Então fui para o teatro na escola. Menos deslocado,


tendo em vista que já era natural para mim
transformar texto em vida. Já não me escondia 27
atrás das estantes, mas sim das coxias. As
peças escolares eram a realidade; minha vida, a
encenação. Arriscava um idioma comum, podia ser
um operário sem black-tie, um homem de cartola,
uma mulher ou um cão.

Foi natural querer que aquilo continuasse na


faculdade. Tentei Artes Cênicas, Jornalismo, porém
foi em Letras a descoberta do óbvio: por que só ler se
poderia também escrever? Criar outros irmãos como
eu, ampliar meu mundo formando terras conhecidas
só por mim, ampliando minha geografia. Mesmo
ainda resultado de uma educação precária, usando
pronome objeto no lugar de pessoal, escrevendo
casa com z, com textos tão herméticos que nem
Cláudio Brites

eu entendia, emulando bizarramente meu autores


favoritos, eu enfim brotava.

Me encantei tanto por esse eu, acabei indo estudar


autoralidade em um mestrado em Linguística.
Ainda perdido entre as vozes que me compunham,
fui entender sobre o não-dito, sobre o ato de falar,
analisar o mundo que era moldado pelo discurso,
compreender que não era por acaso que no princípio
era o Verbo. Somos a imagem e semelhança desse
dizer.

Essa conclusão me levou à Psicologia. Os livros já


eram mais do que amigos, eram meu trabalho,
como editor, leitor profissional, escritor. Mas não
eram suficientes. Atrás das estantes, das coxias, as
pessoas... Livros vivos, histórias em processo. Já não
me bastava o trabalho com o texto, era faminto por
narrativas. 28
A
prendi ser o inconsciente estruturado como
uma linguagem, de que a fala realmente
curava. O trabalho do psicólogo era
então ajudar que as pessoas, assim como eu,
encontrassem seu vocabulário próprio.

As palavras eram a nossa fundação, havia uma


base poética da mente. Fosse como escritor ou
psicólogo, a palavra era o centro do trabalho, a
busca por ela, meu motivo de estar no mundo.

Como você pode intuir, a solidão se foi. Livros,


pessoas, narrativas, meus textos e os textos dos
outros, solitude e companhia, uma trama. A vida.
O menino agora ocupa seu nome, o mundo sua
Cláudio Brites

nação, todos os mundos. Hoje me responsabilizo


pela minha história, eu, um menino-deus, inscrito
no meu próprio desejo.

Escrevo e leio porque me apaixono. Escrevo e leio


porque meu coração ainda insiste. Escrevo e leio
porque não há outra coisa a fazer estando aqui.

Claudio Brites é psicólogo e editor. Formado em


Letras, Psicologia e Mestre em Linguística, é autor
do romance Talvez (Terracota, 2013), contemplado
com a bolsa do ProAC. Participou e organizou
várias coletâneas e atualmente trabalha em São
Paulo com atendimento psicoterapêutico.
Instagram e Facebook: @claudiozedbrites

29
autor

Foto: Flávio Coelho

Eduardo
Sabino

30
Sobre Machados e Incêndios

E
screvo porque um dia um livro de ficção caiu
sobre mim. Não como história para atravessar
o tempo. Como um machado. Desses
machados hiperbólicos de animação japonesa,
afiadíssimo. O mesmo que Kafka diz que um livro
precisa ser: um machado capaz de quebrar o
gelo da alma. A primeira vez deve ter sido em um
quarto miúdo, que ganhou a extensão de uma ilha
perdida, ou quando desci ao centro da Terra, onde
Júlio Verne me apresentou ao fogo. Quando você
se assusta, não há mais volta: sairá à procura de
experiências similares ou mais fortes. A escrita
Eduardo Sabino

nasceu assim, do cruzamento de referências,


enquanto eu acendia fósforos pela madrugada,
tentando fabricar meus próprios machados e
incêndios.

O que a escrita me trouxe, além da má postura,


foi um estado de espírito antes, durante e após
a escrita do qual não consigo mais abrir mão. A
necessidade de criar. Aplacar um vício e me sentir
melhor. Um vício nem sempre de manutenção
fácil, que me exige cada vez mais tempo, técnica,
imaginação, vida.

Q uanto de vida estamos dispostos a dar a um


texto? O que você está disposto a entregar
ao Frankenstein com ganas de Ícaro que
nem começou a ser escrito e já lhe pede asas?
31
Escrever, para mim, é criar vida. Da forma mais
inventiva e autêntica que posso. Entrar em um jogo
perigoso entre a memória e a imaginação. Saltar
na piscina da linguagem, aquela mesma de Piglia,
sem a certeza de conseguir nadar outra vez. Não
importa: certezas não me interessam ao escrever.
O que me interessa é o mistério, o sonho do qual
tento, ao criar, tomar as rédeas. Controlo o sonho
e sou conduzido por ele. Após a criação, a mente
se desanuvia. Descem ao branco do Word ideias,
demônios, pensamentos tortos que me tiravam o
sono. Se algo ficou para trás, não me preocupo.
Esta é uma das magias da coisa: a mente do
escritor é um sistema de autorreciclagem. Nossos
Eduardo Sabino

tormentos sempre voltam. Em outras roupas, mais


intensos.

Escrevo também porque vou morrer. Sou um fruto


que se desprendeu do abacateiro do cemitério
e envelheço em plena queda. Enquanto caio,
porém, descobri uma maneira de “parar” o tempo
e dilatar a vida, estabelecer e ampliar um ponto
de vista particular, muitas vezes delirante, sobre o
que é habitar este mundo e este tempo. Escrever
literatura tem essas funções contraditórias, fuga
e confronto na mesma medida. Você avista um
buraco dimensional na rua da mesmice cotidiana e
anda feliz em sua direção – adeus, inferno, já volto
–, mas, neste mergulho do inconsciente, encontra
também com os horrores do real, esta planta
carnívora no horizonte.
32
Gosto ainda mais da literatura do que do cinema,
porque ela é capaz de filmar um estado de
espírito. De jogar o leitor no furacão interno de um
personagem. No universo do autor. No universo
que é, ainda que de modo difuso, criptografado,
o próprio autor. É bom ter sempre à mão a
possibilidade de resgatar Dante dos círculos
infernais, Emily Dickinson do paraíso, John Fante do
pó. Abrir um livro é o mesmo que dizer levanta-te e
anda. Me diga quem você é e como você enxerga
tudo isto.

Escrevo para encontrar um modo de ver tudo isto.


Eduardo Sabino

Eduardo Sabino é escritor e editor, autor de quatro


livros de contos, entre os quais Naufrágio entre
Amigos (Editora Patuá), Estados Alucinatórios
(Caos e Letras) e Limbo (Amazon Kindle).
Recebeu, pelo conto Sombras, o prêmio Brasil em
Prosa, organizado pela Amazon e o jornal O Globo.
É um dos fundadores da Caos e Letras, editora
de literatura independente localizada na Região
Metropolitana de Belo Horizonte.

33
autor

Foto: Marcelo Frazão

Lima
Trindade

34
Eu queria ser desenhista

N
ão é fácil examinar a própria história em
busca da plena compreensão dos motivos
e forças que nos fizeram ser quem somos
e desenvolvermos determinadas características
ou preferências. O que me fez ser um escritor? O
que definiu meu gosto por arte, particularmente
literatura? Embora, por princípio, eu busque a
exatidão para exprimir uma resposta, tenho
consciência da parcialidade que meu discurso
assume perante o que imaginamos e classificamos
como “fato”, as sinuosidades e elipses orquestradas
pela memória, a pulsão irrefreável de reinventar
Lima Trindade

o vivido para, então, reinventar-me, amenizando,


assim, o olhar do outro sobre mim e, de certa
maneira, seduzindo esse outro a tomar o meu
ponto de vista como o dele, para que, enfim, eu não
me sinta julgado ou rejeitado. A única alternativa
encontrada para resolver esse problema, durante
o meu processo de escrita, foi a de assassinar o
leitor. Espero que você não se sinta desconfortável.
Veja, não se trata de uma ameaça. Nem de
misantropia. É que, desse modo, esquecendo
a sua existência, eu creio poder me encontrar
comigo mesmo. Estando só, talvez eu possa ser
minimamente honesto. Sim, pode ser uma ilusão.
Nada impede que, mesmo sem vê-lo, mesmo
fingindo que você não está presente, eu minta para
mim mesmo. Em todo caso, prometo tentar.

35
Eu nasci e cresci num cenário de faroeste. Em
minha infância, não ouvia ninguém falar de
literatura, arte e muito menos escritores. Minha
casa não possuía biblioteca nem livros avulsos.
Quando tinha seis anos, encontrei uma revista
do Brasinha jogada no chão da rua. Estava
acompanhado da minha mãe. Ela não viu quando
me abaixei para pegar o gibi. Havia outra criança
um pouco à frente de nós. A mãe dele também
não reparou no acontecido. Brasinha era um diabo
menino. Com esse possível roubo, iniciei minha
paixão pela leitura.

A fantasia do universo dos quadrinhos era


Lima Trindade

um refúgio para uma realidade inóspita. No


princípio dos anos 70, era comum os adultos
nos amedrontarem com histórias de ciganos
que raptavam e matavam crianças. Ao mesmo
tempo, ouvíamos falar em “Esquadrão da morte” e
perseguições políticas. Era igualmente comum um
amigo sussurrar que os pais o advertiram a não
falar mal do presidente em público.

Depois do Brasinha, muitos outros títulos se


sucederam. Havia Disney, Maurício de Sousa e as
revistas de heróis.

O engraçado é que, nessa época, eu jamais


pensei em escrever minhas próprias
histórias. Meu sonho era ser desenhista.

36
Para mim, o desenhista era quem verdadeiramente
criava, quem dava o ritmo que a história pedia e
fazia tudo acontecer. Já os livros, eles só entrariam
na minha vida após a exibição do seriado do Sítio
do Picapau Amarelo na tevê. Eu gostei tanto do
programa que fiquei curioso por descobrir quem
era Monteiro Lobato. Fui na biblioteca do colégio
e retirei o Reinações de Narizinho emprestado. A
partir daí, minha vida mudou. Comecei a admirar
os escritores tanto quanto os desenhistas.

Eu praticava meu traço incessantemente e


recebia muitos elogios de todos os que viam meus
esboços. No entanto, sempre que tentava transpor
Lima Trindade

as imagens da minha cabeça para o papel eu


me sentia frustrado. Meu grau de exigência não
era baixo. Queria ser nada menos do que um Alex
Raymond, um Harold Foster, um Milo Manara. Creio
que a escrita surgiu como uma compensação
dessa minha incapacidade. Quando escrevo um
conto, novela ou romance, recupero a criança
que fui e sinto como se estivesse desenhando ou
pintando um mundo novo.

Lima Trindade nasceu em Brasília e mora em


Salvador desde 2002. É mestre em Letras pela
Universidade Federal da Bahia. Publicou As
margens do paraíso (2019) e  O retrato ou um
pouco de Henry James não faz mal a ninguém
(2014), entre outros. Seus contos estão traduzidos
para o inglês, espanhol e alemão. Atualmente
trabalha em seu segundo romance.
37
autor

Foto: Sabrina Feldman

Marne
Lúcio
Guedes

38
Eus, e minha perversão

S
ou um romântico apaixonado, violento.
Alguém que experimenta a vida na sua
intensidade máxima. Sempre fui assim. Sou
neurótico, não posso ser diferente, e pago um
preço alto por viver desse jeito. Mas não reclamo.
A vida é a busca desesperada por um rosto.
Enquanto essa face não ocorre, adeus serenidade.
E foi trilhando este caminho que me encontrei, me
reconheci na palavra. Não qualquer palavra, dita,
ouvida, pensada, mas a palavra escrita. Signo
ambíguo. Esfinge indecifrável.
Marne Lúcio Guedes

Sim, nunca achei que as palavras fossem mera


representação. Nuvem, sempre foi mais que nuvem,
uma forma leve de eternidade. Árvore, céu, noite,
penhasco, vazio, dúvida, algo, expressam muito
mais do que parecem. Leio essas palavras de
muitas formas, e me reconheço nesse olhar. Foi
assim que me tornei escritor, um amante-cativo
da literatura, porém diferente: um autor-peixe fora
d’água.

Alguns escritores escrevem como se o texto


nascesse deles e se transformasse em algo
distinto, externo, pura ficção. Respeito essa forma,
mas sinto diferente. Não existem personagens
na minha literatura. Tudo que escrevo sou Eus
em palavras. Cada verbo tem meu gosto, cheiro,
sêmen, sangue, contém meu DNA, e o leitor
39
que o reconheça como seu desejo, se puder-
quiser. Caso contrário, se as minhas palavras lhe
parecerem vazias, que não titubeie: Queime-as, em
um ritual de purificação. Ou faça melhor: Vá até a
falésia mais próxima e atire-as ao mar. Palavras
sem alma não servem para nada. Merecem o
afogamento.

É nessa violência, nesse tudo ou nada, nesse


ir além, que reside meu sorriso, meu prazer,
minha perversão pela literatura. Sempre me
perguntam por que escrevo, e a resposta vem
simples: É por amor que faço (Existe algo mais
Marne Lúcio Guedes

perverso que o amor?).

E continuarei assim, sentindo-escrevendo,


sonhando-escrevendo, fracassando-escrevendo,
até que o destino me traga o inexorável fim.

Marne Lúcio Guedes é escritor, dramaturgo e roteirista


de cinema/TV. Escreveu a coletânea de contos
CIO (Editora Desatino), e participou de diversas
coletâneas, entre elas: Cartas do Fim do Mundo
(Editora Terracota), Geração Zero Zero (Editora
língua Geral), seleta dos principais escritores que
lançaram seus livros de estreia na primeira década
deste século. É criador do projeto de oficinas
criativas: Erro, mas escrevo, em parceria
com a Livraria da Vila, em São Paulo, assim como
em parceria com o SESC, instituição no qual
ministrou mais de 12 oficinas, ao longo dos últimos
três anos. Atualmente, finaliza seu romance PALI , a
ser lançado em breve.
40
autor

Foto: Arquivo pessoal

Matheus
Arcaro

41
Literatura e Fisiologia

C
erta vez, Nietzsche escreveu que só a arte é
capaz de transformar os aspectos absurdos
da existência em representações com as
quais se torna possível viver. Concordo e vou
além com Albert Camus, que afirmou que quem
quisesse ser filósofo, deveria escrever literatura. A
arte, sobretudo a literatura, é uma das maneiras
mais viscerais de mergulhar na condição humana.

O gosto pela escrita veio cedo. Lembro-me que


adorava as aulas de ditado nos primeiros anos de
escola. Desde 2006 artigos, contos e poesias de
Matheus Arcaro

minha autoria vêm sendo publicados em sites e


revistas regionais e nacionais. Porém, de maneira
mais sistemática, comecei a escrever em 2010,
depois que fiz uma oficina de contos com Menalton
Braff. Desde então, ganhei alguns prêmios literários
e publiquei quatro livros, todos pela editora Patuá:
dois de contos, um romance e um de poesia.

A literatura me ensina constantemente que não


existe um manual ou um receituário pra viver. Me
ensina que, muito mais do que uma corrida de cem
metros, a vida é uma dança: é possível aprender os
passos, mas não há um caminho pré-estabelecido
ou um objetivo estanque.

Escrever ficção é se colocar no lugar do outro.


Tanto no lugar da personagem, quanto no lugar 42
do leitor (com isso, não quero dizer que escrevo para
um público a priori). Óbvio que não significa que ser
escritor te deixa mais solidário ou altruísta. Significa
que, no meu caso, escrever abriu possiblidades para
que eu expandisse minha visão sobre o outro. E sobre
o mundo.

Como está no colofão do meu primeiro livro,

E screver, pra mim, é uma necessidade


fisiológica”. A escrita literária é minha
ferramenta, meu instrumento, minha arma
pra revolucionar o mundo. Mesmo que seja o meu
mundo.

Matheus Arcaro é Mestre em Filosofia contemporânea


pela Unicamp. Pós-graduado em História da Arte.
Graduado em Filosofia e também em Comunicação
Social. É professor, artista plástico, palestrante e
escritor, autor do romance O lado imóvel do tempo
(Editora Patuá, 2016), dos livros de contos Violeta
velha e outras flores (Editora Patuá, 2014) e Amortalha
(Editora Patuá, 2017) e do livro de poesias Um clitóris
encostado na eternidade (Editora Patuá, 2019) .
Também colabora com artigos para vários portais e
revistas.
Site: www.matheusarcaro.art.br

43
autor

Foto: Tereza Yamashita

Nelson de
Oliveira

44
Suporte da sanidade subjetiva

L
iteratura é um tipo oceânico de sonho lúcido.
Um tipo atípico de viagem onírica. Todos
os poetas & ficcionistas são oneironautas,
exploradores do mundo-vertigem. Mas quando
eu penso cuidadosamente no tipo de oneironauta
que eu sou, quando me pergunto o que me trouxe
ainda jovem pras ondas gigantescas da literatura,
a conclusão é sempre a mesma: foi a filosofia. E a
percepção da morte, porque essas duas loucuras
− fome de conhecimento & medo da extinção −
costumam nascer lado a lado & andar juntas a
Nelson de Oliveira

vida toda.

Ainda muito pequeno, quando finalmente


compreendi que as pessoas morrem, o choque
me congelou. A garganta e a boca ficaram secas.
As mãos ficaram frias & úmidas. Em pensamento,
minha primeira pergunta furiosa foi a mesma de
todos os inocentes em idêntica paralisia sem voz:
karalho, por quê? Por quê? POOOR QUÊÊÊ?!

Por que nasci, se não seria pra sempre?, eu


finalmente gritei para meus pais, para meus tios &
avós, sem saber que estava arremedando um dos
personagens de Ionesco.

N esta UTI chamada existência, literatura


é meu sistema de suporte da sanidade
subjetiva.
45
Meu território virtual de realidade integral. Hoje eu
percebo claramente que tudo o que eu escrevi é
filosofia em forma de conto, romance ou poema.
Filosofia onírica. Que tenta responder de maneira
satisfatória a pergunta fundamental: por que nasci,
se não seria pra sempre?

A ciência tenta descobrir o que o universo é, a


filosofia tenta descobrir por que o universo existe. Aí
está, potente, o núcleo pulsante de minha literatura.
De minha paixão xamânica por esse sonho lúcido
que não aceita o determinismo da extinção.
Nelson de Oliveira

Em meus contos, romances & poemas eu atualizo


& problematizo oniricamente, pra mim mesmo,
as verdades vibrantes do pandemônio: “Cada
indivíduo é sua própria medida de todas as coisas”
(Protágoras), “Só sei que nada sei” (Sócrates).
“Morte significa ausência de sensações” (Epicuro),
“Deus é Natureza” (Espinosa), “Os limites de
minha linguagem são os limites de meu mundo”
(Wittgenstein), “A existência precede a essência”
(Sartre), e o principal: “Ardemos no desejo de
encontrar uma plataforma firme & uma base
última & permanente sobre a qual edificar uma
torre que se erguerá até o infinito, mas os alicerces
logo desabam e a terra se abre para o abismo”
(Pascal).

Gigante pela própria natureza é meu romance mais


recente. Navegando nele eu finalmente encontrei a
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resposta verdadeira para a questão fundamental:
por que existimos? Confesso que não foi fácil
suportar a verdade. Tive febre alta. Perdi parte das
funções motoras. Passei dois meses preso à cama
dessa delirante UTI chamada existência. Então
decidi guardar (esconder?) a resposta nas linhas
& entrelinhas do meu romance-esfinge. Onde ficará
preservada para as gerações futuras, oxalá muito
melhor preparadas pra aceitar a suprema verdade,
imperatriz de todas as verdades.

Nelson de Oliveira é escritor & coordenador de


oficinas de criação literária. Publicou os romances
Nelson de Oliveira

Gigante pela própria natureza e Subsolo infinito e


as coletâneas de contos Vinte & um e Às moscas,
armas!, entre outras obras. Venceu duas vezes o
Prêmio Casa de las Américas, em 1995 e 2011.

47
autor

Foto: A. L. Zacarin

Whisner
Fraga

48
Louvor

F
oi a escola pública no interior de Minas Gerais,
a professora no banco de um pátio com o
livro aberto e um amor absurdo a infestar
os olhos, um menino se embrenhando na timidez
para descobrir o autor, o título, a conversa jamais
desaprendida, o abismo, o presente: a literatura e
suas teias abrasivas.

Foi a amargura de me dissolver naquelas


primeiras frases, já decifradas por outro paladar, já
alarmantemente ressoando na vontade de ter um
texto meu, de ter um jeito próprio de me dedicar a
Whisner Fraga

acontecimentos voláteis, talvez importantes não só


para mim.

As primeiras ficções surgiram tragadas por


estas anomalias, por estas frases de certa forma
canonizadas por uma religião que eu havia
adaptado para justificar um vício. Eu tinha de
permanecer devoto até que compreendesse de
tal jeito as variáveis daquela equação e rompesse
com tudo: daí viria o estilo.

A supuração daqueles velhos dogmas até que se


tornassem vestígios. É preciso esquecer. Uma vez
tudo abandonado, vários amálgamas me diziam
que o medo ainda rastelava aquela vergonha
primitiva e a literatura não nos permite isso: é
imprescindível se confessar inteiro, ela exige esse
49
mal, esse novo sacramento blasfemo. Não há dom,
inspiração ou chamado. Queria traduzir em nacos
de louvor esse demônio que carneia minha crença
inaugural: daí viria a transgressão.

F oi o escárnio que me fez persistir: o riso


obsceno zombando de meu esforço por
domar tudo.

As palavras me advertiam de uma liberdade


que eu tentava castrar com frases fáceis – eu
entregava a farsa. Era urgente reciclar os ecos que
guiavam os aparatos ficcionais que podia chamar
de pessoais, para que, a partir desta premonição,
Whisner Fraga

ressurgisse cada vez mais frágil e covarde: daí


surgiria o escritor.

E o escritor, após décadas tentando capturar


a consciência por meio de signos que jamais
conseguirão abranger um quantum de fantasia,
ainda é apaixonado pela linguagem. E será sempre
assim.

Whisner Fraga é escritor, autor de, entre outros livros,


Coreografia de Danados, contos, 2002, A cidade
devolvida, contos, 2005, Abismo poente, romance,
2007, Sol entre noites, romance, 2009, O privilégio
dos mortos, romance, 2019. Já foi traduzido para o
inglês, alemão e árabe.

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