Você está na página 1de 52

Ano 16

n.1
jan/abril
2007
foto da capa:
Jupiterimages / David Wasserman /
France Presse

Editores
Anna Beatriz de Almeida Waehneldt
Claudia Guimarães

Editoração
Centro de Comunicação Corporativa Senac
Serviço Nacional
de Aprendizagem Comercial
Projeto Gráfico,
Programação Visual e Diagramação Conselho Nacional
Antonio Oliveira Santos
Bárbara Necyk
Presidente

Departamento Nacional
Revisão Sidney Cunha
Fabiano Gonçalves Diretor-Geral

Produção Gráfica
Sandra Regina Fernandes do Amaral
Senac/Departamento Nacional
Av. Ayton Senna 5.555 - Barra da Tijuca
CEP 22775-004 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil
http://www.senac.br
E-mail: senacnet@senac.br
E-mail da revista: educaambiental@senac.br

Os artigos assinados são de inteira


responsabilidade dos seus autores e sua
reprodução, em qualquer outro veículo de
informação, só deve ser feita após
consulta à editoria da publicação
Senac e Educação Ambiental.

Senac e educação ambiental. – Vol. 1, n. 1 (1992)-


. – Rio de Janeiro : Senac/DN, 1992- .
v. : il.

Quadrimestral.

1.Educação ambiental - Periódicos. 2. Ecolo-


gia – Periódicos. I. Senac.

Departamento Nacional.

CDD 574.507

Referência bibliográfica conforme as normas adota-


das pelo Sistema de Informações Bibliográficas do
Senac.
Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 2 Senac e Educação Ambiental
A notícia não era exatamente nova. Mas, de maneira surpreendente, caiu como uma verdadeira “bomba” no mundo
inteiro no início deste ano, como se, finalmente, a humanidade tivesse acordado de um longo período de hibernação.

O teor da informação – contida num relatório produzido por um painel de mais de 2.000 cientistas, sob a coordena-
ção da ONU – era muito claro: as atividades que emitem gases de efeito estufa estão sendo responsáveis, sim, por
um processo de aquecimento global. Em outras palavras, o ser humano está provocando um fenômeno de conse-
qüências muito graves e que poderia até, a longo prazo, inviabilizar a sobrevivência da própria espécie no planeta.

Independentemente dos cenários traçados – alguns mais otimistas e outros, claramente catastrofistas –, o fato é que,
a partir da divulgação desse relatório, ninguém mais pode ignorar a gravidade do processo de aquecimento global ou
as suas causas. A grande questão é: o que fazer para reduzir o seu ritmo e, na melhor das hipóteses, revertê-lo?

As respostas variam muito, segundo o setor de onde provêm, e vão de soluções técnicas e de natureza estritamen-
te econômica até propostas radicais, de ruptura de paradigma civilizatório, passando por mudanças de natureza
apenas comportamental.

Para o mercado, por exemplo, a negociação de créditos de carbono, prevista no Protocolo de Kioto, é uma das
saídas para atenuar o problema. Partindo do princípio de que o aquecimento global é um fenômeno em escala
mundial – e, portanto, é válida qualquer iniciativa de reduzir a emissão de gases de efeito estufa , não importa onde
seja feita – países e empresas têm investido crescentes somas em projetos que contribuem para esse objetivo.

Este tipo de iniciativa tem sido, porém, criticada por alguns setores ambientalistas, para os quais propostas como esta
não vão ao cerne do problema, pois buscam soluções para as questões ambientais sem romper a lógica do mercado,
dentro da qual a natureza é apenas mais uma mercadoria. Dessa forma, afirmam esses críticos, o mercado de carbono,
como outras iniciativas similares, não coloca em discussão a necessidade urgente de uma mudança no modelo de
sociedade atualmente hegemônico no mundo – por definição, um consumidor voraz e insaciável dos recursos
naturais do planeta. Além disso, alegam, iniciativas como a do mercado de carbono não questionam a utilização
desigual dos recursos naturais do planeta. Por último, lembram que os habitantes dos países ricos não só consomem
muito mais que o das nações em desenvolvimento, como têm um estilo de vida infinitamente mais poluidor.

Seja como for, o mercado de créditos de carbono é uma realidade e, portanto, deve ser melhor conhecido por todos
os que se preocupam com os problemas ambientais globais. E por isso, ele é, juntamente com a questão do
aquecimento global, o tema de Capa desta edição.

Na seção Entrevista, o ambientalista mexicano Enrique Leff analisa as raízes da crise ambiental atual e os desafios
epistemológicos e filosóficos que a humanidade enfrenta para instituir uma nova racionalidade planetária. “A vida
foi transtornada pela lógica do mercado e pelo poder tecnológico, levantando um problema ontológico, epistemo-
lógico e ético sem precedentes”, alerta.

Outro destaque desta edição é a reportagem sobre o Aqüífero Guarani, um gigantesco manancial de água doce
localizado em terras do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Apresentado muitas vezes pela mídia como “o maior
mar subterrâneo de água doce do mundo”, esse reservatório ainda está envolto em mitos e idéias equivocadas.
Mas, como mostra nossa reportagem, um esforço de pesquisa multinacional começa a desvendar seus segredos
e a relacionar as necessidades socioeconômicas e ambientais com as reais potencialidades do reservatório.

Além dessas matérias, você terá a oportunidade de conhecer projetos que conciliam a proteção ao meio ambiente
com a busca por maior qualidade de vida para a população, como o Poema, na Amazônia, os do Centro Escola
Mangue, em Pernambuco, e o Mova Caparaó, no Espírito Santo. Também poderá conhecer a enorme biodiversida-
de do Amapá, que começa finalmente a ser desvendada após uma série de expedições científicas.

Senac e Educação Ambiental 3 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


8 20 44
Entrevista Capa Especial
Enrique Leff: Aquecimento global: Aqüífero Guarani:
“É preciso romper o desafio do século o que se conhece
com a idéia de Relatório feito por cientistas de
desse bem público
um progresso todo o mundo não deixa mais multinacional
margem à dúvida de que as
sem limites” emissões de gás carbônico estão Novas pesquisas sobre o aqüífero,
relacionadas ao aquecimento que relacionam necessidades
Em entrevista exclusiva, o global. Em todo o mundo, prolife- socioeconômicas e ambientais com
conhecido ambientalista mexi- ram propostas e ações para tentar as reais potencialidades do reserva-
cano analisa as raízes da crise se reverter esse processo. Entre as tório, começam a dar uma idéia
ambiental atual e os desafios que ações já em andamento, está a mais precisa do que se pode
a Humanidade enfrenta para negociação de créditos nas bolsas esperar desse enorme manancial de
instituir uma nova racionalidade de mercado de carbono, um água potável. Uma boa gestão
em nível planetário. mercado que cresce rapidamente pública do aqüífero – com vistas a
em vários países, inclusive o Brasil. seu uso sustentável – depende
desse conhecimento.

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 4 Senac e Educação Ambiental


16
6
Biodiversidade
Desvendando as riquezas
do Amapá

Biodiversidade do estado mais


conservado do Brasil começou a ser
desvendada através de série de
expedições científicas. Parceria
interinstitucional aposta no desenvol-
vimento auto-sustentado da região
36
Qualidade de vida
32 Por uma alimentação
Educação Ambiental mais saudável

Que viva o mangue! Produtores brasileiros naturais


conquistam mercados no exterior e
Projeto que concilia preservação dos ampliam também o mercado interno
mangues com geração de renda, a para alimentos sem resquícios
partir da produção artesanal e químicos e cujos métodos de 3
cultural, valoriza saber tradicional e cultivo regeneram o solo e as águas
resgata auto-estima de comunidade Editorial
de pescadores de Recife

40
7
Soluções Sustentáveis
34 Cartas
Cultura Na Amazônia, pobreza e meio
ambiente viram Poema
O cinema como aliado da
educação ambiental Parceria entre os setores público e 13
privado e organizações não-gover-
Cinema e educação ambiental namentais nacionais e estrangeiras
Notas
mobilizam jovens capixabas no dá origem a um projeto que busca
entorno do Parque Nacional do propiciar melhor qualidade de vida
Caparaó, em um festival que usa a aos povos tradicionais da Amazônia,
sétima arte para promover cidadania aliada à preservação do meio
19
e conscientização ambiental ambiente Estante

Senac e Educação Ambiental 5 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


Para expor suas opiniões na Senac e
Educação Ambiental ou divulgar projetos
e programas voltados à resolução de
problemas socioambientais, escreva para:

Senac Nacional
Diretoria de Educação Profissional
Centro de Educação a Distância
Av. Ayrton Senna, 5.555 - Barra da Tijuca
CEP 22775-004 - Rio de Janeiro - RJ

Fax: (21) 2136-5735


E-mail: educaambiental@senac.br

Atendimento ao leitor:
Kátia Kitzinger

Atenção:
as cartas devem trazer o nome e o ende-
reço completo do remetente (no caso de
e-mail, a cidade e o estado).

Senac e Educação Ambiental


está na Internet:
http://www.senac.br

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 6 Senac e Educação Ambiental


Qualidade gráfica e editorial Gostaria de agradecer imensamente Ao cumprimentá-los pela qualidade
a oportunidade de estar recebendo editorial que é mantida nas edições
Me chamo Letícia e sou estudante estas revistas, tão importantes para o da revista Senac & Educação Ambi-
formanda do curso de biologia na Ul- desenvolvimento de meus estudos ental, gostaria de solicitar-lhes que o
bra/Canoas. Após ter um exemplar da e pesquisas, como também elogiar a envio da publicação fosse feito para o
revista Senac & Educação Ambiental revista pela qualidade das matérias meu novo endereço. Muito obrigado
em mãos, fiquei muito contente em apresentadas. e, mais uma vez, parabéns! A publi-
conhecer um novo meio de divulga- cação nos é muito útil na sala de aula.
ção desse tema tão importante, e que Maysa Rodrigues Fragoso José Carlos Sá Junior
finalmente tem tomado um âmbito Jaboatão dos Guararapes - PE
próximo ao ideal. Me chamou a aten- Porto Velho - RO
ção a qualidade da revista, tanto gráfi-
ca quanto editorial! Parabéns aos res-
Reflexão sobre temas ambientais
ponsáveis.
Tive acesso à revista Senac e Educa-
Primeiramente gostaria de parabenizar ção Ambiental e fiquei maravilhado,
Escrevo, além das parabenizações,
o excelente trabalho, as matérias não é muito útil e interessante... Sou su-
para saber como poderia estar tendo
apenas são informativas, mas, levam o pervisor de meio ambiente em um
acesso aos próximos números desta
leitor a uma reflexão sobre as ques- frigorífico e gostaria de saber como
revista, pois como formanda, estagiá-
tões ambientais. Bem, sou aluna do posso fazer a assinatura para estar re-
ria de pesquisa em educação ambi-
Curso de Especialização a distância de cebendo em minha residência.
ental e atual professora do ensino fun-
Educação Ambiental do Senac, e vári-
damental, estes me seriam de gran-
os textos indicados são da revista, as- Carlos Alexandre
de valia e interesse.
sim, gostaria de saber se é possível Goiânia - GO
Letícia Schmidt adquirir edições antigas.
Canos - RS
Fabricia Teodoro Programa de rádio
Foi com imensa alegria que recebi a Itajaí - SC
Gostaria de saber como adquirir a re-
Senac e Educação Ambiental, da qual
vista Senac & Educação Ambiental.
já estava sentindo muita falta. A re-
Publicação útil Faço um programa semanal sobre
vista está maravilhosa. Parabéns pela
meio ambiente na Rádio Câmara, em
excelente impressão e qualidade dos Acusamos o recebimento de exem- Brasília, e ouvi falar muito bem da
artigos. Ficarei aguardando ansiosa plares da revista Senac & Educação edição atual.
os próximos exemplares. Ambiental. Saibam que terão muita
utilidade no nosso trabalho de forma- Mônica Montenegro
Valdelice Cordeiro
dores em educação ambiental junto à Brasília - DF
Juazeiro do Norte - CE
rede pública de ensino. Agradece-
mos, de coração, a doação deste ma-
terial.
Material didático
Eliene Gomes dos Santos
Recebemos recentemente alguns
Tocantins
fascículos da revista Senac & Educa-
ção Ambiental, cujo conteúdo é bas-
tante interessante e didático. Consi-
derando que a Biblioteca Pública Mu-
nicipal Amadeu Amaral abriga a Sala
Verde, com acervo e materiais que
versam sobre ecologia, meio ambi-
ente e temas correlatos, seria muito
enriquecedor recebermos continua-
mente essa publicação para oferecê-
la ao nosso público leitor.

Claudete Cury Sacomano


São Carlos - SP

Senac e Educação Ambiental 7 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


foto: Luiz Carlos Marigo

O ambientalista mexicano Enrique Leff afirma que o Par reverter esse processo, o ambien-
talista engrossa o coro dos que de-
grande desafio socioambiental hoje é romper com a idéia fendem “novas formas de significa-
de um pensamento único e unidimensional, orientado ção do mundo, da vida e da nature-
za”, originando “um mundo onde cai-
rumo a um “progresso sem limites” que vem reduzindo e bam muitos mundos”. Também en-
superexplorando a natureza. fatiza que “a mudança nunca vem de
cima, mas de baixo, quando há uma
autêntica mobilização social”.
Claudia Guimarães
S&EA – Quais são os grandes desafi-
os ambientais do mundo moderno?
Para quem estuda as questões mação Ambiental para a América
ambientais, o nome de Enrique Latina e o Caribe no Pnuma. EL – São muitos: o aquecimento
Leff dispensa apresentações. Dou- global do planeta, o abastecimento
tor em Economia do Desenvolvi- Nesta entrevista exclusiva para a e uso sustentável da água e de to-
mento, o ambientalista mexicano Senac & Educação Ambiental, feita dos os recursos naturais, o desma-
é uma referência nos campos da durante uma de suas viagens ao tamento, a perda de fertilidade das
Epistemologia Ambiental, Ecologia Brasil, Leff analisa as raízes da crise terras e a erosão dos solos, a redu-
Política e Educação Ambiental. ambiental atual e os desafios epis- ção da biodiversidade e da diversi-
Autor de dezenas de livros, publi- temológicos e filosóficos que a hu- dade cultural...
cados em diversos países da Amé- manidade enfrenta para instituir
rica Latina (inclusive no Brasil), uma nova racionalidade planetária. Enfrentar esses desafios implica re-
Europa e Estados Unidos, Leff é “A vida foi transtornada pela lógica verter um processo de degradação
coordenador do Escritório das Na- do mercado e pelo poder tecnoló- socioambiental gerado pelas formas
ções Unidas para o Meio Ambien- gico, levantando um problema on- de conhecimento que construímos
te (Pnuma) no México, e desde tológico, epistemológico e ético sobre a natureza ao longo da Histó-
1986 está à frente da Rede de For- sem precedentes”, alerta. ria, que foram coisificando a nature-

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 8 Senac e Educação Ambiental


za, instrumentalizando-a, sob a égide do. Por isso, usamos hoje a expres- rialização da produção, na reciclagem
da racionalidade tecnológica e econô- são “um mundo onde caibam muitos dos rejeitos e nas chamadas “tecno-
mica da modernidade. mundos”. E isso significa também um logias limpas”.
mundo feito pelo encontro de muitos
Esse processo desvalorizou a nature- mundos... Já sob uma perspectiva ética, as mu-
za, não lhe dando o seu justo valor e danças nos valores e comportamen-
legitimando a sua superexploração. O grande desafio socioambiental hoje tos dos indivíduos se convertem em
Ou seja, estamos falando de uma his- é, portanto, romper com a idéia de condição fundamental para se alcan-
tória de criação de conhecimento e um pensamento único e unidimen- çar a sustentabilidade.
aplicação de uma racionalidade ins- sional, orientado rumo a um “progres-
trumental, na qual não “cabe o mun- so sem limites”, que vem reduzindo, S&EA – Qual é a sua idéia de desen-
do”, para dizer de alguma maneira... sufocando e superexplorando a natu- volvimento sustentável?
Uma racionalidade que é alheia às re- reza. E para isso não basta se firma-
EL – A meu ver, o desenvolvimento
lações ecossistêmicas do planeta das rem acordos e convenções, que de-
sustentável é um projeto social e po-
quais historicamente a vida sempre pois de colocados em prática vão ser
lítico que aponta para o ordenamento
dependeu – e continua dependendo. regidos por essa mesma racio-
ecológico e a descentralização terri-
nalidade instrumental e econômica
Então, o que vemos é uma contra- torial da produção, assim como para a
que hoje questionamos, mas sim ir
posição de racionalidades ou das for- diversificação dos estilos culturais de
legitimando outras formas de com-
mas ecossistêmicas de organização desenvolvimento e dos modos de
preensão da vida e da complexidade
da vida com a intervenção que histo- vida das populações que habitam o
do mundo e uma nova ética da práxis
ricamente vêm fazendo os seres hu- planeta.
no mundo.
manos no planeta, principalmente a
Mas a transição para um desenvolvi-
partir da instauração da modernidade S&EA – A luta por um desenvolvi-
mento sustentável não se fará por for-
científica, tecnológica e econômica. mento sustentável poderia ser uma
ça da eficácia da racionalidade econô-
resposta a esse gigantesco desafio?
Para mudar esse quadro é preciso re- mica e instrumental dominante, nem
verter todo um processo histórico e EL – Sim, mas, antes de tudo, lem- tampouco pelo recurso a um princípio
social de construção dessa racionali- bremos de que o discurso do desen- ético ou por um instinto de sobrevi-
dade, que vem se legitimando ao lon- volvimento sustentável não é homo- vência da humanidade. A História tem
go do tempo como uma racionalida- gêneo. Pelo contrário, expressa es- mostrado repetidamente como as ide-
de que poderíamos chamar de con- tratégias conflitantes que respondem ologias, os interesses e o poder são
tra-natura. a visões e interesses diferenciados capazes de burlar os mais elementa-
para alcançar o desenvolvimento sus- res princípios morais de convivência
S&EA – Como podemos reverter tentável. Suas propostas vão desde pacífica entre os humanos.
essa racionalidade tecnológica e eco- o neoliberalismo ambiental até a cons-
nômica, trazendo novos paradigmas Essas mudanças não serão alcança-
trução de uma nova racionalidade so-
à relação dos seres humanos com o das sem uma complexa estratégia
cial e produtiva, que incorpore os di-
meio ambiente? reitos das comunidades locais a se
apropriarem da sua natureza – aquela
EL – Na verdade, além de transformar com a qual co-evoluíram e geraram
os atuais paradigmas do conhecimen- seus mundos de vida –, com base em
to, é preciso instituir uma nova racio- suas próprias cosmovisões e seus
nalidade, que se contraponha à hege- saberes culturais.
mônica atualmente. Uma nova racio-
nalidade em que caibam as formas e Como sabemos, a perspectiva eco-
práticas culturais de valorização da nomicista privilegia o livre mercado
natureza e uma diversidade de matri- como mecanismo para internalizar as
zes de racionalidade. Ou seja, temos externalidades ambientais e para va-
que desconstruir a forma unitária, uni- lorizar a natureza, recodificando a or-
versalista, generalista de ver o mun- dem da vida e da cultura em termos
do a partir de um princípio absoluto, de um capital natural e humano. É uma
supremo e superior. estratégia que vai recodificando todas
as ordens da natureza da vida e do ser
Isso implica abrir novas formas de sig- em termos de capital. É a capitalização Leff: "A crise
nificação do mundo, da vida e da na- do mundo. ambiental é uma crise
tureza. E abrir caminho para esse en- do conhecimento"
contro de racionalidades culturais di- Por sua vez, as propostas tecnológi-
ferenciadas na reconstrução do mun- cas colocam a ênfase na desmate-

Senac e Educação Ambiental 9 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


foto: Carlos Carvalho
racionalidade científica estabelecida fi-
zeram com que muitos programas que
surgem com uma pretensão interdis-
ciplinar fracassem diante das dificul-
dades de transformar os paradigmas
atuais do conhecimento e os méto-
dos educacionais.

S&EA – O que se pode fazer para


mudar esse quadro?
"É preciso respeitar o direito das
EL – Na área da Educação Ambiental
comunidades tradicionais a se
formal, embora tenha havido um de-
apropriarem da sua natureza"
senvolvimento do saber ambiental
em vários ramos das ciências natu-
rais e sociais, vemos que esses co-
política, orientada por princípios de lógicos e sociais para destacar alguns nhecimentos não foram plenamente
uma gestão democrática do desen- dos problemas mais visíveis da de- incorporados aos conteúdos curricu-
volvimento sustentável, mobilizada gradação ambiental – como a conta- lares dos novos programas educacio-
pelas reformas do Estado e pelo for- minação dos recursos naturais e ser- nais. Ainda que tenha aparecido uma
talecimento das organizações da so- viços ecológicos, o manejo do lixo e oferta crescente de cursos de pós-
ciedade civil dentro de uma nova ra- a disposição final dos dejetos indus- graduação em diversas áreas ambi-
cionalidade social e produtiva que triais – em vez de traduzir o conceito entais, é questionável seu grau de
permita a apropriação sustentável da de ambiente e o pensamento da interdisciplinaridade e a ambientaliza-
natureza. complexidade na formação de novas ção de seus conteúdos.
mentalidades, conhecimentos, prá-
Isso implica, por sua vez, uma nova ticas e comportamentos. Afinal, essa mudança não pode ser
ética e uma nova cultura, que irão le- feita por imposição e há muita resis-
gitimando os direitos culturais e am- S&EA – A I Conferência Internacio- tência no mundo acadêmico a um
bientais dos povos, constituindo no- nal de Educação Ambiental, realiza- pensar diferente. Eles criam seus pa-
vos atores políticos e gerando movi- da em 1977 em Tiblisi (ex-União So- radigmas e depois o defendem com
mentos sociais pela reapropriação da viética e atual Geórgia), colocou a unhas e dentes, já que geram a sua
natureza. interdisciplinaridade como um prin- identidade científica. Alguns poucos,
cípio metodológico privilegiado na impulsionados por dúvidas e questi-
S&EA – Nesse contexto, qual seria Educação Ambiental. Passados 30 onamentos, conseguem romper es-
o papel da Educação Ambiental anos, constatamos a dificuldade em ses rígidos esquemas e se incorpo-
(EA)? Em diferentes ocasiões, o sr. se transpor esse conceito para a prá- ram às novas correntes de pensa-
tem alertado para o perigo de que tica. Como o sr. vê esse problema? mento ou iniciam um processo dife-
a EA seja reduzida a meras ações
renciado de busca de respostas para
de sensibiliza- EL – Antes de
a crise que vivemos.
ção dos cida- tudo, devo dizer
dãos e à inser- que a interdisci- Talvez essa desconstrução de para-
ção de “com- “O saber ambiental está plinaridade am- digmas se dê por contágio... (risos)
ponentes” de comprometido com a biental não se Mas não é fácil contagiar todo mundo
capacitação refere somente
dentro de pro- utopia, através de à articulação das
jetos de gestão novas formas de ciências exis-
ambiental ori- tentes, à cola-
entados por posicionamento dos boração de es-
Protesto antiglobalização (Mé-
xico): "reação vem de diferentes
critérios de sujeitos da História pecialistas em
movimentos e atores sociais"
rentabilidade diferentes disci-
econômica... face ao conhecimento” plinas para a so-
lução dos pro-
foto: Imelda Medina / Ag. EFE / O Globo

EL – Para come- blemas socio-


çar, devemos ter claro que os valores ambientais. Trata-se também, e sobre-
ambientais se inculcam através de tudo, de um processo de reconstru-
diferentes meios, e não só através dos ção social, através de uma transforma-
processos educacionais formais. ção ambiental do conhecimento.
No caso específico da educação for- Mas, respondendo à sua pergunta, o
mal, o que vemos é que a incorpora- que observamos é que os projetos
ção do meio ambiente limitou-se, em educacionais empreendidos desde
grande parte, a internalizar os valo- Tbilisi puseram a descoberto os obs-
res de conservação da natureza. Os táculos institucionais e os interesses
princípios do ambientalismo foram disciplinares que dificultam o avanço
incorporados através de uma visão da formação ambiental. As resistências
das inter-relações dos sistemas eco- teóricas e pedagógicas associadas à

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 10 Senac e Educação Ambiental


com esse vírus da dúvida, do questi-

foto: Carlos Carvalho


onamento e da paixão por pensar o
mundo novamente...

S&EA – Quando pensamos nos prin-


cipais desafios ambientais do mun-
do moderno, fica claro que as solu-
ções devem ser buscadas tanto em
nível local quanto planetário. Mas Fórum Mundial
como realizarmos esse projeto num Social: crença em
mundo que vive sob os ditames da que "um outro
globalização econômica e da pasteu- mundo é possível"
rização cultural?

EL – Não existe uma fórmula pron-


ta... O que vemos é que esse mundo A globalização é um projeto totalitário, por esse conceito?
homogeneizado por essa racionalida- em vez de ser um processo inclusivo,
integrador de saberes e projetos diver- EL – O mundo em que vivemos foi se
de globalizadora está gerando resis-
sos. Em contraste, o ambiente surge tornando cada vez mais complexo
tências em distintos movimentos e
como um potencial criativo e produti- como resultado da aplicação do conhe-
atores sociais em nível local, que so-
vo, no qual se renovam e articulam co- cimento produzido ao longo da Histó-
frem as conseqüências dos proces-
nhecimentos, saberes e interesses di- ria. Dito isso, penso que a complexi-
sos de degradação socioambiental.
versos. O discurso dade ambiental não é ecologização do
Esse processo está ambiental questio- mundo, nem é apenas a incorporação
levando ao surgi- da incerteza, do caos e da possibilida-
“A globalização é na os paradigmas
de na ordem da natureza, como colo-
mento de uma estabelecidos das
nova consciência e um projeto ciências para inter- cou Prigogine1. Ela é o entrelaçamen-
posicionamento to da ordem física, biológica e cultural;
no mundo sobre
totalitário, em vez nalizar um saber ori-
a hibridação entre a economia, a tec-
entado pela cons-
essas questões, e de ser um processo trução de uma nova nologia e a vida. É o reconhecimento
isso está se refle- racionalidade soci- da outridade e de sentidos culturais
tindo no campo da
inclusivo, diferenciados, não só como uma ética,
al. Ele não só gera
ecologia política e integrador de um conhecimento mas como uma ontologia do ser, plural
das políticas ambi- científico mais ob- e diverso. Apreender a complexidade
entais. A mudança
saberes e projetos jetivo e abrangen- ambiental implica um processo de
nunca vem de diversos” te, mas também construção coletiva do saber, no qual
cima, ela vem de produz novas sig- cada pessoa aprende a partir do seu
baixo, quando há nificações sociais, ser particular.
uma autêntica mobilização social. Aliás, novas formas de subjetividade e de
Na minha visão, parte dos graves pro-
hoje em dia temos um fenômeno posicionamento diante do mundo.
blemas ambientais atuais é provocada
muito interessante que é o diálogo de
O saber ambiental reconhece a iden- pelo desconhecimento da complexida-
saberes e de interesses diferenciados
tidade de cada povo, sua cosmologia de do mundo. Já mencionei o desco-
entre essas novas formas de pensa-
e seu saber tradicional como parte de nhecimento em relação à organização
mento e os movimentos de base.
suas formas culturais de apropriação ecológica do planeta. Mas, além disso,
de seu patrimônio de recursos natu- existe o desconhecimento sobre a com-
rais. Ele está comprometido com a plexidade do mundo humano.
utopia, através de novas formas de
A complexidade ambiental que es-
posicionamento dos sujeitos da His-
tamos presenciando, com todos os
tória face ao conhecimento.
problemas e conflitos sociambien-
Nesse sentido, a crise ambiental apa- tais, não é o resultado de um proces-
rece como uma crise do conhecimen- so de complexificação que vem da
to, alimenta novas fontes do saber e auto-organização da natureza e que
gera uma nova racionalidade na apro- vai se complexificando até chegar à
priação social da natureza, que apon- natureza humana. O que vemos são
ta rumo à construção de um futuro as formas de conhecimento científi-
sustentável para toda a humanidade. co, tecnológico e inclusive metafísi-
co, com sua visão abstrata e unitária
S&EA – A questão da complexidade do mundo, se implantando no mun-
é um dos temas centrais da sua aná- do, cercando-o, reduzindo-o, consu-
lise da crise ambiental que vivemos. mindo-o...
O sr. poderia explicar o que entende

1
Ilya Prigogine: cientista russo (1917-2003), ganhador do Prêmio Nobel de Química de
1977 pelos seus estudos em termodinâmica de processos irreversíveis com a formula-
ção da teoria das estruturas dissipativas.

Senac e Educação Ambiental 11 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


foto: Pablo Valadares / Ag. Estado

dia a complexidade do ser. Uma com-


plexidade que não se dá apenas na
relação entre o real e o simbólico e no
entrelaçamento das disciplinas cien-
tíficas, como já disse. A complexida-
de se dá numa percepção da relação
não somente do conceito com as coi-
sas, mas na relação entre o ser e o
"Os OGMs respondem a uma saber.
racionalidade que se separa da
ordem biológica e simbólica" É uma visão mais politizada do que hoje
em dia significa a emergência de iden-
Essas formas de ver o mundo termi- sicionamento epistemológico e filosó- tidades complexas. Primeiro de enti-
nam por acelerar os processos de fico diferente, no sentido da relação dades complexas e híbridas, em que
degradação ambiental, na medida em entre o real e o simbólico. A meu ver, já não há uma correspondência direta
que legitimam um crescimento eco- o real está estruturado como ordens entre o conceito e as coisas, porque a
nômico que implica um consumo da ontológicas diversas e diferenciadas, ordem propriamente ontológica das
natureza cada vez maior. É uma di- o que impede pensar em um pensa- coisas, das entidades, se complexifi-
nâmica econômica que desconhece mento holístico e em um paradigma cou como reflexo da intervenção do
limites e não leva em conta as condi- transdisciplinar que corresponda a uma pensamento e do conhecimento no
ções ecológicas do planeta, colocan- realidade complexa. Se falamos estri- mundo.
do em marcha, em escalas cada vez tamente do campo da ciência, em que
Por exemplo, a transgênese: hoje não
maiores, um processo de apropriação se geram os paradigmas científicos,
há um mundo da vida, que seja pura-
e consumo destrutivo da natureza. constatamos que os seus diferentes
mente biológico, interatuando com o
ramos não fluem, não se interconec-
S&EA – Já que estamos falando de mundo físico e químico. A tecnologia
tam facilmente. Nesse campo, se ge-
complexidade, gostaria que o sr. es- que interveio na vida gerou uma enti-
ram obstáculos epistemológicos que
clarecesse uma questão que intriga dade híbrida do simbólico, do tecno-
impedem que um ramo da ciência re-
os que acompanham o seu trabalho: lógico e do material. A produção de
almente dialogue com outro.
qual seria, basicamente, a diferença organismos geneticamente modifica-
entre sua visão de complexidade e a O que eu coloco é que entre o real e o dos (OGMs) e de culturas transgêni-
defendida pelo sociólogo francês Ed- simbólico, entre a realidade e as ciên- cas responde a uma racionalidade
gar Morin? cias, se geram estruturas diferencia- econômica e tecnológica, que se se-
das de pensamento e de poder, que para da ordem biológica e simbólica
EL – Embora tenhamos posturas se- não permitem que haja esse fluxo, in- na qual ocorrem as mutações da vida
melhantes em muitas questões fun- tegração e complementaridade entre e sua co-evolução com a cultura. A
damentais, temos também diferenças formas de simbolização da natureza, vida foi transtornada pela lógica do
qualitativas, que não são meras sutile- formas de comunicação e formas de mercado e pelo poder tecnológico,
zas. Sendo tão ampla e rica a produção ser das coisas. levantando um problema ontológico,
teórica do Morin, vou me ater aqui ape- epistemológico e ético sem prece-
nas aos aspectos epistemológicos do Ou seja, a meu ver, a relação entre o dentes.
pensamento dele sobre a complexi- simbólico e o real é muito mais com-
dade e às minhas idéias sobre a com- plexa que o pensamento complexo, já Essa visão muda a maneira de en-
plexidade ambiental. que está permeada por relações de tender que aspectos podem se en-
poder, por matrizes de racionalidade e trelaçar nesses processos de relaci-
Por exemplo, Morin vê a complexida- por formações culturais diversas. Es- onamento das coisas. Também gera
de como um processo de complexifi- sas estruturas e processos não se arti- formas de complexidade na forma-
cação crescente da physis – ou seja, culam simplesmente graças a um pen- ção de novas identidades, já que as
do mundo cósmico, material –, até que samento ou a um método que busque subjetividades também estão hoje
se gera a emergência do pensamen- entrelaçá-los. Entre o real e o simbóli- formadas por formas muito mais
to, do conhecimento e da ordem sim- co, nas formas de significação do mun- complexas do ser – o ser humano e
bólica. Morin busca entrelaçar os pro- do, se estabelecem relações e estra- não-humano da natureza. E tudo isso
cessos materiais e simbólicos, as in- tégias de poder que obstaculizam as se conjuga nos processos de reapro-
ter-relações entre as ciências e os dis- vias pelas quais poderiam se entrela- priação da natureza – uma reapropri-
tintos saberes, pensando esses flu- çar e se reunificar em um paradigma ação cultural, simbólica e política dos
xos quase como inter-relações eco- holístico. mundos da vida.
lógicas e como reciclagens ou circui-
tos cibernéticos de retroalimentação. S&EA – Além dessas divergências Em resumo, minhas diferenças em re-
Sua concepção é de uma “ecologia epistemológicas com Morin, ainda lação às posições de Morin seriam não
generalizada” – como o próprio Morin haveria diferenças de outra nature- apenas em termos de uma visão filosó-
a define –, em que todos esses pro- za... Poderia mencioná-las? fica diferente de como se constrói o
cessos diferenciados, tanto científicos conhecimento e como este interage
quanto simbólicos e materiais, se en- EL – É verdade. Também temos uma com a realidade, mas também de uma
trelaçam e complexificam. divergência de natureza talvez mais compreensão do que hoje implica a
filosófica do que meramente meto- complexidade aberta a uma política da
Para mim, a diferença vem de um po- dológica, na forma de olhar hoje em diferença, do ser, da outridade.

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 12 Senac e Educação Ambiental


A divisão do Ibama
O presidente da República em exercício, José Alencar, Segundo os educadores ambientais do Ibama, tal ato atin-
assinou no dia 26 de abril, a Medida Provisória (MP) Nº giu fortemente a capacidade do Instituto de executar as
366/07, que cria o Instituto Chico Mendes de Conservação políticas nacionais de meio ambiente, conforme estabele-
da Biodiversidade e três decretos autorizando mudanças cido na legislação em vigor. Embora a MP nº 366/07 e os
na estrutura do Ministério do Meio Ambiente e no Institu- Decretos nº 6.099 e nº 6.100 a mencionem como atribui-
to Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Reno- ção de ambos os Institutos, ainda não está claro qual o
váveis (Ibama). papel que a educação ambiental terá na nova estrutura.

Ao criar o Instituto Chico Mendes de Conservação da Bio- Por tudo o que pode vir a acontecer com essa divisão, os
diversidade, o governo federal dividiu o Ibama em dois. O servidores do Ibama se posicionaram contra a implantação
novo Instituto será responsável pela proposição, implan- do novo órgão, chegando a entrar em greve. Eles enten-
tação, gestão, proteção, fiscalização e monitoramento das dem que haverá quebra da unicidade da gestão ambiental
unidades de conservação instituídas pela União, enquanto e estão se mobilizando num grande movimento nacional
que o Ibama ficará com a fiscalização e o licenciamento que visa derrubar a MP no Congresso Nacional.
ambiental.
Entretanto, o secretário-executivo do Ministério do Meio
A decisão do governo federal de dividir o Ibama foi recebi- Ambiente, João Paulo Capobianco, discorda da avaliação
da com reserva por organizações ambientalistas e educa- dos servidores do Ibama. Ele declarou que as duas entida-
dores ambientais. A ONG WWF-Brasil, por exemplo, ma- des irão melhorar a gestão ambiental e que as medidas do
nifestou preocupação, devido à falta de informações dis- presidente Lula para a criação do Instituto fortalecerão o
poníveis para a sociedade e pela falta de um debate ante- sistema de gestão ambiental do governo federal. Ainda
rior à decisão. Segundo a WWF-Brasil, a reestruturação do segundo Capobianco o Ibama, por exemplo, será mais efi-
órgão já era algo discutido e desejado pela sociedade há ciente porque terá mais foco.
muito tempo. Porém, é preciso lembrar que esta mudança
foi feita no momento em que o presidente da República, Resta saber, porém como isso acontecerá. Com um orça-
Luiz Inácio Lula da Silva, e a ministra chefe da Casa Civil, mento que já é pequeno, o MMA terá que dividi-lo “ao
Dilma Roussef, acusam o Ibama de ter uma “atitude pouco meio”, para atender aos dois institutos, responsáveis pela
eficiente” em relação aos licenciamentos ambientais das execução da Política Ambiental Federal, sem falar nos re-
hidrelétricas do Rio Madeira, em Rondônia, em análise no cursos humanos, hoje já insuficientes para atender a um
Instituto. órgão.

Senac e Educação Ambiental 13 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


A polêmica em da no Estudo, que não considerou as variações do nível do
lago causadas por alterações na bacia hidrográfica a montan-
torno das usinas te (parte do rio que fica antes da barragem).

no Rio Madeira A análise do Ibama endossa a opinião do hidrogeólogo


boliviano Jorge Molina. No ano passado, ele denunciou
que amplas extensões do seu país seriam inundadas
As usinas hidrelétricas Santo Antônio e Jirau no Rio Ma- pela formação do lago de Jirau. O Madeira, observou
deira, em Rondônia, que poderão gerar 6450 MW, estão Molina, transporta enorme quantidade de sedimentos:
listadas como prioridade no Plano de Aceleração do Cres- em torno de 4.500 metros cúbicos por segundo passam
cimento (PAC) do Governo Federal. Contudo, o parecer naquele ponto do Rio Madeira, 50% da sedimentação
técnico do Ibama, emitido no dia 21 de março, sobre o de todo o Rio Amazonas. Depositados no fundo, ao lon-
Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado por Fur- go dos anos, eles diminuiriam a profundidade do lago e
nas Centrais Elétricas e a empresa Odebrecht, recomen- duplicariam a área alagada, podendo inclusive causar um
dou que o Ibama negasse a Licença Prévia ao projeto. conflito internacional com a Bolívia e o Peru. No Brasil
haveria alagamento de assentamentos do Incra e de uni-
Desde então, instalou-se uma grande polêmica no país e a dades de conservação na região, possibilidades também
questão que muitos já consideravam ultrapassada, sobre não mencionadas no EIA.
desenvolvimento versus proteção ambiental, ressurgiu
nos debates, de forma apaixonada. A demissão do diretor A construção de qualquer obra que impacte o território dos
de Licenciamento do Ibama, Luiz Felippe Kunz Jr., está países vizinhos exigiria por parte das três nações a assina-
sendo vista como um sinal claro de que o parecer negativo tura de um acordo internacional à moda de Itaipu – o que
à construção das usinas o colocou em uma posição delica- parece não ter sido cogitado pelo Brasil devido ao longo
da dentro do governo. Relatos de pessoas próximas a Kunz tempo necessário para negociações entre os Executivos e
revelam que a própria ministra Marina Silva pediu para que os Congressos dos três países.
ele deixasse o seu cargo.
E como será a distribuição da energia gerada? Esta é uma
O parecer foi assinado por oito técnicos da Diretoria de questão que ainda não foi definida pelo governo e que de-
Licenciamento do órgão, tem 220 páginas e sustenta que veria ser planejada em conjunto com as obras das hidrelétri-
as usinas do Madeira não possuem “viabilidade ambiental cas. Afinal, por onde irão passar as linhas de transmissão?
e que será preciso fazer novo estudo ambiental, bem mais Quanta floresta deverá ser retirada nesta etapa do projeto?
amplo.” O parecer é bem direto em suas conclusões: “Dado Quanto custará ligar o Norte ao Sul? Nada disso está respon-
o elevado grau de incerteza envolvido no processo; a iden- dido e nem parece preocupar os defensores da obra.
tificação de áreas afetadas não contempladas no Estudo;
(...) a equipe técnica concluiu não ser possível atestar a A energia produzida será integrada ao sistema de distribui-
viabilidade ambiental dos aproveitamentos hidrelétricos ção de energia nacional e as usinas estão sendo construí-
Santo Antônio e Jirau, sendo imperiosa a realização de das para abastecer as regiões Sul e Sudeste do país. Entre-
novo Estudo de Impacto Ambiental, mais abrangente, tan- tanto serão as populações da região amazônica que sofre-
to em território nacional como em territórios transfonteiri- rão os impactos da construção das usinas. Além dos im-
ços, incluindo a realização de novas audiências públicas. pactos causados aos cinco mil pescadores que temem fi-
Portanto, recomenda-se a não emissão da Licença Prévia”. car sem os recursos pesqueiros que os mantêm, outros
impactos sociais devem ser considerados. Não existe in-
O parecer pontua que a construção das barragens vai acar- fra-estrutura em Porto Velho para acomodar milhares de
retar o desaparecimento da dourada (Brachyplatystoma pessoas que serão atraídas pelas obras. Apenas 1,8% das
rousseauxii), um peixe de grande porte que serve de ali- residências têm tratamento de esgoto e menos de 40%
mento a milhares de pessoas – o famoso “bagre” ao qual o contam com abastecimento de água. Portanto, o adensa-
presidente Lula se referiu, dizendo que “havia sido jogado mento repentino da cidade causará um verdadeiro caos
em seu colo”. A importância da dourada é reconhecida urbano, ampliando os problemas de violência já vividos
também por estudiosos da Amazônia, que a apontam como por sua atual população.
base de sobrevivência para comunidades que vivem ao
longo do Madeira, em seu trecho que vai de Porto Velho a
Humaitá, no estado do Amazonas.

O Rio Madeira é o terceiro do


mundo em volume de água e um
dos maiores rios do planeta em
quantidade de peixes e diversi-
dade de espécies. Contudo, a
questão dos peixes é apenas uma
pequena parte das graves compli-
cações previstas com a construção
das usinas Santo Antônio e Jirau.
Os técnicos do Ibama identificaram
no EIA, sinais claros de omissão por
parte das empresas. Segundo o pa-
recer, a área a ser alagada poderá ser
duas vezes maior do que a apresenta-

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 14 Senac e Educação Ambiental


Plano de Manejo
na Resex O reconhecimento dos
Chico Mendes povos tradicionais
O Plano de Manejo da Reserva
Extrativista Chico Mendes – pri-
meira Resex criada no país – foi
aprovado por seu Conselho Deli-
berativo durante a III Reunião Or-
dinária, realizada nos dias 12 e 13
de dezembro de 2006 na cidade
de Xapuri, no Acre. Com isto, a
Resex Chico Mendes é a primeira
reserva extrativista a ter seu plano
de manejo aprovado.

Para o analista ambiental da dire-


toria, Rogério Egewarth, a aprova-
ção desse plano é resultado do
esforço de toda a equipe técnica
que trabalha nessa área e da parti- A ministra Marina Silva lançou no sua reivindicação de ser reconheci-
cipação dos moradores da Resex. mês de abril, a Política Nacional de do pelo que é individualmente e,
“O processo de construção do pla- Desenvolvimento Sustentável dos ao mesmo tempo, de fazer parte do
no de manejo incluiu várias etapas Povos e Comunidades Tradicionais todo.
de discussão com a comunidade (PNPCT), que tem por finalidade
“promover o desenvolvimento sus- Segundo o professor da Universi-
local da Resex, que definiu o que dade Federal do Amazonas, o an-
deveria estar contemplado no pla- tentável dos povos e comunidades
tradicionais, com ênfase no reconhe- tropólogo Alfredo Wagner, a noção
no. Esse documento servirá de de uma sociedade homogênea, for-
base para a elaboração do Plano de cimento, fortalecimento e garantia
dos seus direitos territoriais, sociais, mada por apenas um povo, está
Manejo de todas as Resex e Re- sendo substituída pela idéia de vá-
servas de Desenvolvimento Sus- ambientais, econômicos e culturais,
com respeito e valorização à sua rios povos, colocando em questão
tentável (RDS) Federais, muitos a concepção de uma única identi-
em fase final de elaboração” expli- identidade, suas formas de organi-
zação e suas instituições”. A PNPCT dade coletiva. Para ele, esta mudan-
cou Egewarth. ça é fruto das lutas e articulações
reconhece, valoriza e respeita a di-
As reservas extrativistas são um versidade socioambiental e cultural, dos movimentos sociais, que se or-
modelo genuinamente brasileiro levando em conta as etnias, raça, ganizam de acordo com suas iden-
de ocupação sustentável de áreas gênero, idade, religiosidade e ances- tidades. Alfredo Wagner explica
nativas. Ao criar uma reserva, o tralidade, bem como orientação se- que o cerne destes movimentos é
governo retira os habitantes tradi- xual e atividades laborais. a demanda não mais por terra, mas
cionais da condição de posseiros por territórios: “As novas identida-
e os eleva à categoria de cidadãos, Em 2004, o governo brasileiro já ha- des coletivas reivindicam territóri-
com direito ao usufruto da terra e via ratificado a Convenção sobre Po- os, onde podem manter e desen-
de seus recursos naturais. Além vos Indígenas e Tribais (Convenção volver suas próprias organizações
ter os direitos garantidos por lei, 169 da OIT, que garante tanto a auto- econômicas e culturais”.
os extrativistas ainda recebem aju- determinação destes povos como
sua participação nas demais decisões Tais populações – a maior parte sem
da de custo para a reforma da casa documentos de identidade e, por-
e a compra de equipamentos es- referentes às questões que lhes di-
zem respeito). Com o lançamento da tanto, totalmente à margem dos di-
senciais, financiamentos para a reitos civis – habitam um-quarto do
produção extrativa sustentável e PNPCT, grupos como pantaneiros,
caiçaras, ribeirinhos, seringueiros, território brasileiro, em todas as re-
assistência técnica – como é o caso giões do país, formando um contin-
dos planos de manejo, elaborados castanheiros, quebradeiras de coco
de babaçu, geraizeiros e ciganos, en- gente de cerca de 5 milhões de
com o apoio do Ibama. pessoas, equivalente à população
tre outros, foram incluídos no concei-
O Plano de Manejo é um documen- to de populações tradicionais, que de muitos países europeus. “De
to técnico, elaborado de acordo pela Constituição de 1988 era restri- forma inédita, o governo brasileiro
com um Roteiro Metodológico e to a indígenas e quilombolas. reconhece o Brasil como um Esta-
fundamentado nos objetivos ge- do pluriétnico; assim, abre possibi-
rais da unidade de conservação. Ele Durante o lançamento da Política, lidades de gestão mais enriquece-
estabelece o zoneamento e as nor- instituída pelo decreto presidencial dora para o conjunto da sua popula-
mas para o uso da área, incluindo o número 6.040, de 7 de fevereiro de ção”, disse Jorge Zimmermann, di-
manejo dos recursos naturais e a 2007, Marina Silva afirmou que a Po- retor de Agroextrativismo do Minis-
implantação das estruturas físicas lítica Nacional atende ao brasileiro na tério do Meio Ambiente.
necessárias à gestão da unidade.

Senac e Educação Ambiental 15 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


gundo o Instituto Brasileiro de Geo-
grafia e Estatística (IBGE), chega a
possuir mais de 90% de sua natureza
totalmente intactos.

Nesse local raro, alçado à condição de


estado a partir da Constituição de
1988, a preservação deve-se também
à proteção de aproximadamente 55%
do território por Unidades de Conser-
vação: são 12, e mais cinco terras in-
dígenas, que perfazem quase 10 mi-
lhões de hectares. As unidades, fe-
derais e estaduais, preservam cerra-
dos, campinas, formações rochosas,
manguezais e inúmeros tipos de flo-
restas – de várzea, de igapó, monta-
nas, de terra firme. Todas essas
áreas, muitas ainda sem nunca terem
sido visitadas, integram o Corredor de
Biodiversidade do Amapá, criado em
2003 e em fase de implantação, des-
tinado a ser um dos maiores do país
(ver box).

Porém ao longo de dois anos, de agos-


to de 2004 até junho de 2006, atra-
vés do projeto Inventário Biológico do
Corredor de Biodiversidade do Ama-
pá, uma grande parte da riqueza natu-
ral do estado foi desvendada. A inici-
ativa, que envolveu o Instituto Brasi-
leiro do Meio Ambiente e dos Recur-
sos Naturais Renováveis (Ibama), o
Instituto de Pesquisas Científicas do
Amapá (Iepa), a Secretaria de Estado
do Meio Ambiente (Sema) e a orga-
nização não-governamental Conser-
vação Internacional (CI-Brasil), promo-
veu 11 expedições científicas para
descobertas. As viagens, em diferen-
tes regiões inseridas em três Unida-
des de Conservação e no cerrado
Biodiversidade do estado mais dentro da área do Corredor do Ama-
conservado do Brasil começou a ser desvendada através pá, chegaram a áreas até então pouco
conhecidas pela ciência ou vistas so-
de série de expedições. Parceria interinstitucional aposta mente por meio de imagens aéreas.
no desenvolvimento auto-sustentado da região. No total, foram 222 dias de pesquisas
de campo, para um grupo de oito ci-
entistas de diferentes especialidades
Rosane Carneiro e a equipe de apoio. Como principal
resultado, anunciado em agosto du-
Se um arco-íris atravessasse o Brasil possui o meio ambiente mais preser- rante seminário em Macapá, está a
de sul a norte, certamente poderia vado dentre os da região – e de todo descoberta de 23 espécies novas para
terminar no Amapá. Localizado bem o Brasil. Com apenas cerca de 450 mil a ciência, ocorrências inéditas para o
no extremo norte da Bacia Amazôni- habitantes, concentrados em sua estado e o país e a redescoberta de
ca, com aproximadamente 14 mi- maioria nos municípios maiores, espécies que estavam sem registro
lhões de hectares, o estado é o que como a capital Macapá, o Amapá, se- no Amapá há algumas décadas.

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 16 Senac e Educação Ambiental


Foram visitados a Floresta Nacional pécie nova de um pequeno mamífero significativo. “Quando começamos as
do Amapá, a Reserva de Desenvolvi- (roedor), submetido a análise de taxo- expedições em agosto de 2004, tí-
mento Sustentável (RDS) do Rio Ira- nomistas para confirmar a descoberta. nhamos certeza que elas iriam con-
tapuru, o Parque Nacional do Tumu- tribuir significativamente para au-
cumaque e parte do cerrado amapa- Outro destaque é a redescoberta de mentar o conhecimento sobre a nos-
ense. As expedições tiveram longa espécies que há mais de três déca- sa diversidade”, afirma Antônio Car-
duração, em média de 21 dias cada, e das não eram registradas pelos cien- los Farias, secretário de Meio Ambi-
os locais eram de difícil acesso. “Em tistas nas florestas do Amapá. Desta- ente do estado. As espécies coleta-
todas as viagens tivemos muito cui- ca-se o lagarto Amapasaurus tetra- das também irão enriquecer a cole-
dado e atenção especial à organiza- dactylus, com último registro de ocor- ção regional, guardada pelo Iepa.
ção e logística para que nada desse rência no estado há 35 anos “O reapa-
errado. O que eu mais temia era que recimento de um animal é digno de “Sempre se falou muito sobre a ri-
algo de ruim acontecesse aos pesqui- comemoração como a descoberta de queza da Amazônia, mas com certo
sadores. Felizmente isso não ocor- uma nova espécie”, afirma Jucivaldo desconhecimento: esta é uma
reu”, completou Enrico Bernard, co-
ordenador de projetos da CI-Brasil
para a Amazônia e chefe das expedi-
ções. Bernard destaca que o estado
foi excelente campo para pesquisas
e importantes descobertas – a distân-
cia, a localização e a baixa demografia
sempre atuaram como fatores para a
preservação da biodiversidade do
Amapá. “É uma região muito diversa
e pouquíssimo pesquisada”, diz, en-
tusiasmado.
fotos: Conservação Internacional (CI-Brasil)

As descobertas
Entre as mais de 1,7 mil espécies de
animais e vegetais registradas, os pei-
xes formam o grupo com maior nú-
mero de novas espécies descober-
tas. Entre as 298 espécies cataloga-
das, dez jamais foram descritas pelos
cientistas, uma não havia sido relata-
da no Brasil, e 30 constituem novas Expedições científicas descobriram espécies novas ou que não eram vistas há décadas no Amapá
espécies para o Amapá.
Lima, herpetólogo integrante das ex- biodiversidade riquíssima, mas que
Em crustáceos, os pesquisadores en- pedições. Os pesquisadores deram biodiversidade é esta? As pesquisas
contraram três possíveis novas espé- ênfase aos registros de mamíferos, nos permitem conhecer o que existe
cies, com cinco ocorrências inéditas aves, répteis, anfíbios, crustáceos, e, então, mensurar e planejar mais
para o estado. Entre as aves, de 438 peixes e plantas superiores. “Termi- ações”, afirma Antônio Carlos Farias.
espécies encontradas, aponta-se a namos as expedições muito satisfei- Ele ressalta o pioneirismo do governo
descoberta de uma nova, que perten- tos com os resultados dos trabalhos”, do Amapá, ao propor e incentivar a cri-
ce ao gênero Myrmotherula, e é po- comemora Enrico Bernard. ação do Corredor da Biodiversidade do
pularmente conhecida como Choqui- Estado. “Quando muitas pessoas acre-
nha. A riqueza da biodiversidade das As informações colhidas nas expe- ditam que a conservação ambiental
áreas pesquisadas também é eviden- dições já estão sendo usadas para a tolhe o crescimento econômico, esta-
te nos resultados da herpetofauna – elaboração dos planos de manejo das mos querendo evidenciar o contrário,
répteis e anfíbios. Foram descober- unidades. O plano de manejo, funda- através das medidas em prol do ambi-
tos três novos registros para o país e mental para o funcionamento de qual- ente”, diz. O secretário de Meio Ambi-
mais de 50 para o estado, além de quer área protegida, contém todas as ente destaca ainda que os inventários
oito possíveis novas espécies, obser- informações sobre a unidade de con- são apenas parte do projeto de implan-
vando-se ainda a ocorrência de cinco servação: características, zoneamen- tação do Corredor, que também en-
espécies raras. Os pesquisadores re- to e regras de uso. No Amapá, até globa ações econômicas e sociais en-
gistraram também uma possível es- então quase inexplorado, o avanço é volvendo toda a sociedade.

Senac e Educação Ambiental 17 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


Tumucumaque,
um fenômeno
Caminho livre para a vida
Das expedições do Inventário Bio-
lógico do Corredor de Biodiversi- Os corredores de biodiversidade ou ecológicos foram criados pelo
dade do Amapá, as realizadas ao Ministério do Meio Ambiente em 1997. O novo conceito de conser-
Parque Nacional Montanhas do vação envolve a sociedade e áreas de diversidade biológica em um
Tumucumaque foram as mais im- determinado perímetro, englobando desde reservas a locais de culti-
pressionantes, pelo ineditismo e vo e centros urbanos. Em um corredor ecológico, as áreas ao redor
magnitude. Maior parque em flo- das Unidades de Conservação tornam-se protegidas, formando um
resta tropical do planeta, Tumucu- mosaico de territórios sustentáveis – o principal objetivo dos corre-
maque é também a maior Unidade dores é diminuir ou conter o isolamento das Unidades de Conserva-
de Conservação do país, com 3,867 ção, garantindo a preservação de seu entorno.
milhões de hectares – 0,7% do bi- A Amazônia possui seis corredores ecológicos, entre os quais se
oma amazônico – e 27% de todo o destacam o Sul-Amazônico, o dos Ecótonos Sul-Amazônicos e o
território do Amapá. Foram cinco Central. O primeiro começa em Belém, congregando várias unidades
as expedições ao local. O Parque, de conservação e 14 terras indígenas, além de reunir as florestas
localizado a 450 quilômetros de situadas entre a margem direita do Rio Madeira e o centro do Mara-
Macapá, foi criado em 2002, e faz nhão. O dos Ecótonos abrange o sul dos estados do Pará e Amazonas
parte do Programa Áreas Protegi- e norte de Mato Grosso, enquanto o Central abarca a fronteira norte
das da Amazônia (Arpa), que reú- entre o Pará e o Amazonas e se espalha pelo sudoeste do Amazonas,
ne o Ministério do Meio Ambiente incluindo a Floresta Estadual Rio Urubu, o Parque Estadual Cuieiras, a
e o Ibama, em parceria com esta- Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Cujubim, a Reserva
dos e municípios da Amazônia Le- Extrativista do Catuá-Ipixuna, a Reserva de Desenvolvimento Sus-
gal brasileira e entidades interna- tentável do Piagaçu-Purus e o Parque Estadual Samaúma.
cionais.
O Corredor da Biodiversidade do Amapá foi anunciado pelo governo
Durante as expedições a Tumucu- do estado no Congresso Mundial de Parques, na África do Sul, em
maque, as atenções de todo o país 2003. Maior do que o território de Portugal, o Corredor amapaense
voltaram-se para o Parque. A equi- chamou a atenção da comunidade internacional, com dois Parques
pe, com analistas ambientais do Nacionais, uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável, três Es-
Ibama e pesquisadores do Iepa e tações Ecológicas, três Reservas Biológicas, uma Reserva Extrativis-
da CI-Brasil, chegou a contar com ta, uma Área de Proteção Ambiental, uma Floresta Nacional, e quatro
auxílio do 1º Comando Militar da terras indígenas, das tribos juminá, galibi, uaça e waiapi, que reú-
Aeronáutica, do Comando Militar nem 4.500 índios.
da Amazônia e do Exército Brasi-
leiro, e ainda com os 2º e 3º Bata-
lhões de Infantaria de Selva, para
chegar a áreas mais longínquas da
unidade – como no extremo oes-
te, entre a fronteira do Brasil, Suri-
name e Guiana Francesa, durante
a segunda expedição, em janeiro
de 2005. O acesso, só possível de
helicóptero, teve como ponto de
apoio duas bases aéreas, do Exér-
cito e do Sistema de Vigilância da
Amazônia (Sivam), localizadas na
aldeia indígena Tiriyós. Equipa-
mentos, materiais e alimentos
não-perecíveis utilizados na expe-
dição perfizeram uma carga que
chegou a 1,5 tonelada e serviu às
duas semanas de árduo trabalho,
descendo corredeiras íngremes
em canoas e abrindo trilhas na
mata fechada, com 15 horas diári-
as de atividades.

Tumucumaque é a maior
Unidade de Conserva-
ção do país, com 3,8
milhões de hectares

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 18 Senac e Educação Ambiental


Governança Ambiental
Global: opções e Modelos e Ferramentas de
oportunidades Gestão Ambiental – desafios
Daniel C. Esty e Maria H. Ivanova
e perspectivas para as
(Orgs.). Editora SENAC, São
organizações
Alcir Vilela Júnior e Jacques
Paulo, 2005.
Demajorovic (Orgs.). Editora
Como conciliar a participação efe- SENAC, São Paulo, 2006.
tiva dos governos e da sociedade
no sentido de promover ações Temas como responsabilidade cor-
concretas e políticas públicas vol- porativa, ecoeficiência em servi-
tadas à gestão sustentável dos ços, educação ambiental na empre-
recursos ambientais, em escala sa, ecodesign, marketing ambiental, entre outros tópi-
global? Para debater esta questão, cos relevantes para a gestão ambiental nas organiza-
os organizadores Daniel C. Esty, diretor do Yale Cen- ções, são abordados nesta obra. Alcir Vilela Júnior,
ter for Environmental Law and Policy, e Maria H. Iva- coordenador do curso de Engenharia Ambiental do
nova, diretora do Global Environmental Governance Centro Universitário Senac (SP), e Jacques Demajo-
Project, convidaram especialistas para que apresen- rovic, coordenador do curso de bacharel em Gestão
tassem o tema da governança ambiental global, a par- Ambiental do Centro Universitário Senac e professor
tir de enfoques que pudessem ser aplicados na práti- do mestrado profissional em Sistemas Integrados de
ca. Propostas desafiadoras para o estabelecimento de Gestão, da Faculdade Senac de Educação Ambiental
uma agenda ambiental global devem contar com o (SP), reuniram 13 estudos de autores de diversas áre-
envolvimento de ONGs, governos, instituições, em- as, com artigos voltados para o ganho de produtivida-
presas e indivíduos, como fator imprescindível para de e de imagem nas empresas. A gestão socioambi-
que as decisões representem os interesses individu- ental é analisada por múltiplos enfoques, definindo as
ais e coletivos acerca da gestão e da preservação sus- limitações e potencialidades dos sistemas de gestão
tentável dos recursos naturais. Informações: Editora ambiental e dos sistemas integrados de gestão. Edito-
SENAC São Paulo. Tel: (11) 2187-4450/Fax: (11)2187- ra SENAC São Paulo. Tel: (11) 2187-4450/Fax:
4486 ou www.editorasenacsp. com.br. (11)2187-4486 ou www. editorasenacsp.com.br.

A Ecologia de Marx
– materialismo e natureza
John Bellamy Foster. Editora História Ambiental no Brasil
Civilização Brasileira, Rio de – pesquisa e ensino
Janeiro, 2005. Paulo Henrique Martinez. Editora
Cortez, São Paulo, 2006.
As transformações socioeconômi-
cas promovidas pelo sistema ca- O autor, professor do Departamen-
pitalista influenciam não apenas to de História da Faculdade de Ciên-
as relações de poder entre traba- cias e Letras da Unesp, ressalta a
lho e organização social, mas afetam a visão acerca da importância das pesquisas e do en-
natureza e o modo de o ser humano se relacionar com sino na área de História para compreender a relação
ela. Para entendermos as origens do pensamento eco- entre desenvolvimento humano, cidadania, educação
lógico atual, o autor propõe pensar a relação ser huma- e sustentabilidade ambiental. A proposta é poder arti-
no/natureza a partir de uma perspectiva histórica con- cular o conhecimento histórico com a realidade atual,
creta, trazendo as reflexões do materialismo histórico a partir da perspectiva do meio ambiente, refletindo a
dialético do filósofo e economista Karl Marx. Ao reto- preocupação dos centros de produção de ensino e de
mar as visões sobre a natureza desenvolvidas entre pesquisa com as atuais demandas da sociedade por
os séculos XVII e XIX, as formas de produção, a aliena- necessárias transformações políticas, culturais e eco-
ção do trabalho e da natureza, bem como o capitalismo nômicas. Martinez aponta como as questões ambien-
agrícola e a teoria da evolução, o autor conclui, de for- tais influenciam diretamente a qualidade de vida do
ma inovadora, que o pensamento de Marx sempre foi cidadão e analisa o papel da escola e da universidade
sistematicamente ecológico. na transformação da realidade, a partir dos limites e
das possibilidades da cidadania e da democracia. In-
Informações: Editora Civilização Brasileira. Tels: (11) formações: Editora Cortez. Tel/Fax: (11) 3611-9616
3286-0802 e (21) 2585-2000 ou www.record.com.br ou www.cortezeditora.com.br

Senac e Educação Ambiental 19 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


Estudo científico elaborado pela ONU comprova que as emissões de gás carbônico estão foto: EFE / Handout UK and Ireland Out / Ag. O Globo

relacionadas ao aquecimento global e faz um dramático apelo para que a comunidade


internacional tome medidas concretas para reverter esse processo

Flores desabrochando na Alemanha, rio do Painel Intergovernamental so- ma Andrew Weaver, um dos autores
estações de esqui fechadas na Suíça bre Mudanças Climáticas (IPCC, na do estudo.
por falta de neve, búlgaros desfrutan- sigla em inglês), cuja primeira parte
do das praias do país – tudo estaria foi divulgada no início de fevereiro O relatório mostra que a concentra-
“em ordem” se não se tratasse do passado. Após seis anos de estudos ção de gás carbônico – o mais impor-
mês de janeiro... Este ano, o inverno e análises, os mais de 2.500 cientis- tante do efeito estufa – na atmosfera
europeu começou com imagens des- tas de mais de 130 países envolvidos subiu de 280 para 379 ppm (partes
concertantes, que reforçaram a “sen- no IPCC concluíram que o drástico por milhão) desde o início da Revolu-
sação geral” de que o clima está mu- aumento no uso de combustíveis fós- ção Industrial, em 1750. “Os aumen-
dando, em todo o planeta. Mas como seis está relacionado à elevação da tos globais na concentração de dióxi-
e por quê? temperatura global. “É o mesmo que do de carbono se devem, sobretudo,
o IPCC vem dizendo há 20 anos, mas ao uso de combustíveis fósseis e a
A resposta – tida como óbvia já por com uma certeza científica muito mudanças no manejo da terra, en-
muitos – veio no mais recente relató- maior”, afirmou o especialista em cli- quanto o aumento de metano e óxi-

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 20 Senac e Educação Ambiental


do nitroso se deve, primordial- nacional de 2007. No chamado
mente, à agricultura”, diz o es- Primeiro Mundo, coube nova-
tudo. mente à Europa tomar a iniciati-
va de propor, no início do ano,
Se a explicação científica para o ações concretas para reduzir a
fenômeno do aquecimento glo- emissão de gases poluentes. A
bal pode ter soado hermética primeira sugestão foi a do en-
para a população, o quadro pin- tão presidente francês Jacques
tado ficou assustadoramente Chirac de taxar produtos impor-
claro. O relatório previu que até tados de países que se recusa-
o fim deste século, a tempera- rem a participar do acordo que

foto: EFE / Philippe Gisselbrecht / Ag. O Globo


tura da Terra pode subir de 1,8o C sucederá o Protocolo de Kioto.
– na melhor das hipóteses – até
4o C. As conseqüências seriam Poucos dias depois, a União Eu-
trágicas: aumento no nível dos ropéia propôs que os 27 países
oceanos de 18 a 59 cm (o que do bloco reduzam, unilateral-
obrigaria pelo menos 200 mi- mente, 20% de suas emissões
lhões de pessoas a abandona- de CO2 em relação aos valores
rem suas casas); chuvas mais de 1990. A ambiciosa proposta
intensas; encolhimento das ge- foi além: o volume dos cortes
leiras, afetando o suprimento de poderia chegar a 30% se outros
água de, no mínimo, 50 milhões Parlamento países desenvolvidos resolve-
de pessoas; secas mais fortes Europeu: rem aderir à idéia. “Precisamos
no Mediterrâneo, no sul da Ásia propostas visam de novas políticas para enfren-
e na África sub-saariana (só aí "desenvolvi- tar uma nova realidade; políticas
serão afetados mais de 250 mi- mento de uma que preservem a competitivida-
economia pobre
lhões de pessoas); desapareci- de da Europa, protejam o meio
em carbono"
mento de 80% dos recifes de ambiente e tornem nossa oferta
coral, fundamentais para a ma- de energia mais segura. A Euro-
nutenção da vida marinha; mai- pa deve liderar o mundo nessa
or freqüência e intensidade de ciclo- As poucas vozes dissonantes na co- revolução pós-industrial: o desenvol-
nes, furacões e tornados; derretimen- munidade científica não conseguiram, vimento de uma economia pobre em
to do gelo do Pólo Norte no verão, porém, desacreditar o estudo, o quar- carbono”, afirmou na ocasião o presi-
entre outras. to produzido pelo IPCC, uma entida- dente da Comissão Européia, José
de criada em 1988 pela Organização Manuel Barroso.
No caso do Brasil, as perspectivas não Meteorológica Mundial e pelo Progra-
são menos preocupantes. Segundo ma da ONU para o Meio Ambiente
um estudo coordenado pelo Instituto (Pnuma), com o objetivo de avaliar as Munique (Alemanha): flores
Nacional de Pesquisas Espaciais informações científicas e socioeconô- desabrocharam em
(Inpe) e divulgado no início de janeiro micas sobre o aquecimento global. A pleno inverno
deste ano, o Brasil sofrerá sérias mu- importância do IPCC pode ser men-
danças climáticas nos próximos 50 surada pelo fato do seu relatório de
anos, se não forem tomadas medidas 1995 ter servido de base para a ela-
de preservação do meio ambiente, boração do Protocolo de Kioto, e da
como a redução dos índices de des- atual publicação já estar sendo vista
matamento e de liberação de gases como uma referência para os acordos
causadores do efeito estufa. que sucederão o Tratado, em 2012.
A divulgação do relatório, que será
feita aos poucos até novembro deste
ano, foi marcada pela denúncia do jor-
nal britânico The Guardian de que o A Europa toma
American Enterprise Institute – cen- a dianteira
tro de estudos financiado pela Exxon
foto: Ag. Tyba

Mobil e com estreitas ligações com o Antes mesmo da divulgação da pri-


governo de George W. Bush – ofere- meira parte do relatório, a questão
ceu dinheiro para que cientistas pu- do aquecimento global havia entra-
sessem em xeque as conclusões do do com força total na agenda inter-
relatório.
Senac e Educação Ambiental 21 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007
Bush e Lula:

foto: Nilton Fukuda / Ag. Estado


interesse
comum na endossada no relatório do IPCC. são de dióxido de carbono, como
expansão do vem sendo pedido pela comunida-
etanol “Em algum momento, o mundo es- de internacional.
gotará os combustíveis derivados
dos hidrocarbonetos causadores do Na prática, o máximo que se viu foi
problema. Mas se continuarmos a uma ofensiva diplomática junto a paí-
usá-los ´normalmente´, o mundo ses que possuem programas de bio-
resultará irrecuperavelmente afeta- combustível, como o Brasil, que Bush
do bem antes do esgotamento des- visitou pela última vez em março des-
ses combustíveis. (...) Se agirmos te ano, e onde assinou uma série de
já, e colaborarmos internacional- acordos de cooperação nessa área.
mente, poderemos reduzir enorme- “Por tempo demais, nosso país tem
mente os riscos a custos modera- sido dependente de petróleo estran-
dos. Mas se permanecermos inati- geiro. E essa dependência nos deixa
vos por mais 10 ou 20 anos, os cus- mais vulneráveis a regimes hostis e
tos serão muito maiores, e os ris- aos terroristas”, afirmou no discurso
cos também”, afirma o Relatório de janeiro, numa clara menção ao go-
Stern. verno de Hugo Chávez na Venezuela,
país de onde os Es-
Esses anúncios ocorreram poucas tados
semanas depois da divulgação, em A posição no outro
fins de novembro de 2006, do Rela-
tório Stern, que ratificou a urgência lado do A tlântico
Atlântico
de medidas sobre o aquecimento do
planeta. Elaborado pelo economista Na contramão da posição euro-
inglês Nicholas Stern, a pedido do péia, o governo dos Estados
governo britânico, o estudo aceitou Unidos – país responsável
as esmagadoras provas científicas de por mais de 25% das emis-
que a mudança climática – resultante sões de gás carbônico no
das ações humanas – é uma ameaça planeta – continua irredu-
global à sustentabilidade da vida na tível na sua decisão de
Terra. não ratificar Kioto, sem-
pre alegando que isso
O Relatório Stern afirmou também prejudicaria a economia
que os custos mundiais para comba- norte-americana. No tradici-
ter as mudanças climáticas serão de onal discurso à nação, feito
aproximadamente 1% ao ano do Pro- no Congresso americano em
duto Interno Bruto (PIB) Global. Caso janeiro passado, George W.
esses investimentos não sejam fei- Bush reconheceu pela primeira
tos imediatamente, para amenizar os vez que a mudança do clima glo-
estragos futuros decorrentes do au- bal é “uma séria ameaça” e propôs
mento da temperatura, o montante uma redução de 20% no consumo
gasto seria de até 20% do PIB Global de gasolina em dez anos. Mas não
anual – perspectiva posteriormente anunciou qualquer corte na emis- Uni-
dos importam
grande parte do petró-
leo que consomem.

No entanto, por simples pragmatis-


mo ou genuína consciência da gravi-
dade dos problemas ambientais, a
maioria dos 50 estados americanos,
mais de 100 prefeitos de cidades im-
portantes e dezenas de empresas
transnacionais sediadas naquele país
vêm adotando, voluntariamente,
foto: Claus Meyer / Ag. Tyba

desde 2005, diferentes medidas de


redução de emissões de gases.

Alguns desses estados têm, inclu-


sive, governadores do Partido Re-
publicano – o mesmo de Bush –
como é o caso da Califórnia, gover-
nado pelo ator Arnold Schwarzene-
gger, que teve seu mandato reno-
vado nas eleições de novembro de

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 22 Senac e Educação Ambiental


2006. Lá, a Comissão Estadual de se juntar a crí-
Recursos Atmosféricos determinou, ticas que co-
em 2004, que até 2016 os fabrican- meçam a sur-
tes de veículos passem a produzir gir, timida-
automóveis com redução de emis- mente, den-

foto: Tony Karumba / Ag. France Presse


sões em 30%. O impacto da medida tro do próprio
será significativo, em um estado com governo. Em
uma frota calculada em 23 milhões 10 de janeiro
de veículos. último, por
exemplo,
Ainda em relação à indústria automo- pela primeira
bilística, vale lembrar que, em fins de vez um órgão
setembro de 2006, o procurador-ge- estatal – a
ral da Califórnia processou as seis Administra-
maiores fabricantes de automóveis ção Oceânica
dos Estados Unidos e do Japão – in- e Atmosféri-
cluindo General Motors, Ford e Toyo- ca Nacional –
ta – por danos relacionados à emis- sustentou
são de gases causadores do que o au-
efeito estufa. mento das
O emissões de gases do efeito estufa do aquecimento global, promovida
contribui, de fato, para o aquecimen- pelo ex-vice-presidente democrata Al
to do planeta. Gore, cuja produção Uma verdade in-
conveniente, que trata precisamente
Em março último foi a vez de John deste tema, ganhou em março o Os-
Deutch, chefe da Agência Cen- car de melhor documentário.
tral de Inteligência (CIA) em
1995 e 1996, preparar um re- O fato é que, em todo o mundo – seja,
latório para Comissão Trilate- nas grandes metrópoles, nas suas
O aquecimento global ral – que reúne lideranças degradadas periferias, ou no campo,
vai intensificar fenôme- empresariais e políticas da nos lugares mais remotos dos países
nos como as secas e as Europa, Estados Unidos e industrializados ou em desenvolvi-
enchentes na África e os Ásia –, no qual afirmou cate- mento –, foi dada a largada para inici-
furacões no Caribe goricamente: “Se os Estados ativas que consigam, de fato, reduzir
Unidos ou qualquer outro país as emissões de carbono e, conse-
da Organização para a Coope- qüentemente, o processo de aqueci-
ração e o Desenvolvimento Eco- mento do planeta. A maior parte de-
nômico (OCDE) que seja um gran- las não questiona, porém, o modelo
de emissor de gases de efeito estufa de desenvolvimento que permitiu
quiser continuar a ter liderança em ou- que a situação chegasse onde che-
tras áreas, ele não pode optar por ficar gou, e apenas se limita a promover
fora do processo político envolvendo um “casamento” da ecologia com a
pro- as mudanças climáticas”. economia. Se a união vai ser de lon-
cesso, go ou curto prazo e se vai nos livrar
aberto na Reforçando o coro de críticos, Eric de um passivo ambiental que não in-
justiça federal americana, Chivian – Nobel da Paz de 1995 – teressa a ninguém carregar nas cos-
foto: EFE / NOAA / Ag. O Globo

alega que as emissões dos veículos apoiou uma declaração conjunta de tas, é uma outra conversa. Quem vi-
afetaram a saúde dos californianos, cientistas e líderes da comunidade ver, verá.
prejudicaram o meio ambiente e ge- evangélica dos Estados Unidos, que
raram custos de milhões de dólares cobraram do presidente Bush, no iní-
ao Estado. cio deste ano, ações concretas para Claudia Guimarães
atenuar o problema do aquecimento
A Califórnia costura também um global. “O meio ambiente não é repu-
acordo para limitar emissões de ga- blicano, democrata, progressista ou
ses que, na prática, marca um rom- conservador, religioso ou laico. Res- Para saber mais:
pimento entre Schwarzenegger e piramos o mesmo ar e bebemos a
Bush. A medida permitirá que as em- mesma água”, enfatizou. Chivian, que Ralatóriod do IPCC:
presas locais (refinarias de petróleo, ganhou o Nobel pelo seu trabalho na www.ipccc.ch
produtores de cimento etc.) com- organização Médicos Internacionais
prem créditos de carbono de em- para a Prevenção da Guerra Nuclear e Relatório Stern:
presas que poluem menos, um me- atualmente é diretor do Centro de Es- h t t p : / / w w w . h m -
canismo adotado pelo Protocolo de tudos da Saúde e do Meio Ambiente t r e a s u r y . g o v . u k /
Kioto (ver matéria. da Universidade de Harvard. independent_reviews/
stern_review_economics_climate_change/
Essas iniciativas batem de frente com Isso para não mencionar a campanha stern_review_report.cfm
a posição do presidente Bush e vêm de sensibilização sobre o problema

Senac e Educação Ambiental 23 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


foto: Paulo Dimas / Ag. O Globo
A divulgação do relatório do IPCC alertou para a gravidade da ameaça do aquecimento
global e terminou chamando a atenção para as diferentes propostas de redução na
emissão de gases de efeito estufa. Entre elas, estão as iniciativas geradas no âmbito do
mercado de carbono, um negócio que vem se expandindo com força em muitos países.
Elias Fajardo
O Protocolo de Kioto, em vigor desde países desenvolvidos ou naqueles deram que é um mecanismo viável e
fevereiro de 2005, é o primeiro trata- que já praticamente esgotaram suas que pode, a longo prazo, dar bons re-
do planetário sobre o clima, com o possibilidades nessa área. Calcula-se, sultados no que se propõe: a redução
objetivo de diminuir o aquecimento por exemplo, que custa cerca de US$ dos gases de efeito estufa e, conse-
global que afeta todas as formas de 100 a redução de emissão de apenas qüentemente, do processo de aque-
vida. Estudos científicos comprova- uma tonelada de carbono no Japão. cimento global.
ram que a humanidade emite gases Uma outra possibilidade é comprar
que provocam o aumento do efeito créditos de outras empresas, regiões
estufa e é necessário e urgente ha- e países que conseguiram reduzir Onde tudo começou
ver uma redução dessas emissões. mais do que estava previsto – e aí
Até aí todo mundo concorda. Mas entra o mercado de carbono. O Protocolo de Kioto foi fruto de uma
como fazer isso? série de reuniões e iniciativas que
Muitos ecologistas criticam essa se- remontam a 1988, quando um encon-
Investir no processo de produção (nas gunda opção (ver, nesta edição, a ma- tro de governantes e cientistas sobre
fábricas, usinas, nas fazendas etc.) téria "A visão de pesquisadores e mudanças climáticas, realizado em
para lançar menos gases nocivos na ambientalistas"), alegando que ela Toronto, Canadá, descreveu o seu
atmosfera é a maneira mais óbvia de simplesmente ratifica o direito de impacto como “inferior apenas ao de
tentar reduzir o problema. Mas é tam- continuar poluindo e não questiona a uma guerra nuclear”. Firmado em
bém, segundo os técnicos, muitas utilização desigual dos recursos natu- 1997 e ratificado só oito anos depois,
vezes a mais cara, principalmente nos rais do planeta. Outros, porém, consi- o Protocolo é um novo componente

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 24 Senac e Educação Ambiental


da Convenção sobre Mudanças Cli- revisão do tratado deve ocorrer em Se alguma dúvida pairava sobre a dis-
máticas, assinada por mais de 160 2008, mas o assunto será retomado paridade de emissão de carbono en-
governos durante a Rio-92. Sua im- na próxima conferência do clima, que tre os países ricos e os em desenvol-
portância está no fato de conter, pela vai acontecer em dezembro deste vimento, ela foi dissipada no início de
primeira vez, um acordo vinculante ano, em Bali, na Indonésia. A primeira janeiro passado, quando um estudo
que compromete os países do Norte fase do Protocolo de Kioto expira em realizado pela ONG World Develop-
industrializado a reduzir suas emissões 2012 e cabe à COP determinar como ment Movement revelou que, ape-
de carbono. serão as futuras negociações. nas nos nove primeiros dias deste
ano, o Reino Unido havia lançado na
Segundo Isaura Frondizi, diretora da Se for implementado com sucesso, atmosfera um volume de CO2 equi-
Fundo Brasileiro para o Desenvolvi- estima-se que deva reduzir a tempe- valente ao que os países mais pobres
mento Sustentável (FDBS), a Con- ratura global entre 0,02º C e 0,28º C do mundo levarão todo o ano para
venção acatou a idéia de que os ga- até 2050. Entretanto, isso dependerá produzir. “Os países mais pobres do
ses que aceleram o efeito estufa – muito das negociações em curso que mundo, onde vivem 738 milhões de
como o dióxido de carbono (CO2), o definirão o futuro do tratado após pessoas, de fato, em nada contribu-
metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O), 2012, pois há influentes vozes na co- em para as mudanças climáticas. Mas
entre outros –, lançados no ar pelas munidade cientifica que afirmam ca- são estas pessoas que sofrerão os
atividades humanas, provocam o tegoricamente que a meta de redu- maiores impactos do aquecimento
aquecimento global da atmosfera. As ção de 5,2% em relação aos níveis de global”, afirmou o diretor da WDM,
conseqüências seriam discutíveis na 1990 é insuficiente para a mitigação Benedict Southworth.
sua intensidade, mas sérias demais do aquecimento global.
para serem ignoradas, como apontou A disparidade é real, mas a cada dia
o recente relatório do Painel Intergo- aumentam as pressões sobre as na-
vernamental sobre Mudanças Climá- O que é o ções em desenvolvimento com for-
ticas (IPCC): derretimento das gelei- te ritmo de crescimento econômico
ras, elevação do nível do mar a ponto
Protocolo de Kioto – como China e Índia – ou com altas
de inundar cidades litorâneas, aqueci- taxas de desmatamento – como o
O Protocolo determina que os países Brasil e a Indonésia – para que se in-
mento dos mares, aumento da fre-
desenvolvidos, os do Leste Europeu corporem de forma mais efetiva ao
qüência e intensidade de furacões e
e os que estão ligados a blocos como esforço internacional para reduzir as
tempestades, mudança do perfil agrí-
a Organização para Cooperação para emissões de gases causadores do
cola mundial, seca na Amazônia e epi-
Desenvolvimento Econômico efeito estufa.
demias devido à propagação de trans-
(OCDE), ou seja, as chamadas partes
missores de doenças.
do Anexo I, têm obrigação de reduzir
suas emissões em torno de 5% entre
Alguns desses efeitos estão sendo
2008 e 2012 em relação às que foram
Os mecanismos
sentidos fortemente nos últimos
anos, o que leva Frondizi a afirmar que registradas em 1990. de flexibilização
o mundo se pôs em movimento por-
Já os países que não estão no Anexo Um dos mecanismos previstos no
que os riscos e os custos são grandes
I, especialmente as nações em de- Protocolo de Kioto é o comércio de
demais e é preciso buscar saídas para
senvolvimento, não têm obrigação de allowances, palavra
atenuar os efeitos.
“Assim, foram cria- inglesa que significa
dos mecanismos fi- compensação, que
Alpes Suíços, janeiro de 2007: funciona da seguinte
nanceiros para tentar sem neve em pleno inverno
cumprir os compro- forma: cada país tem
missos assumidos na uma meta de redução
Convenção e no Pro- de emissões e prepa-
tocolo de Kioto de rou o seu plano de alo-
forma economica- cação, ou seja, como
foto: Ivo Gonzalez/Ag. O Globo

mente factível. Ou essas reduções vão


seja, é uma tentativa ser distribuídas e
de viabilizar financei- como devem ser assu-
ramente as reduções midas pelos seus dife-
necessárias”, resu- rentes setores eco-
me. nômicos. Na seqüên-
cia, cada indústria rece-
Na última reunião da beu uma cota máxima
COP-12 (12a Confe- de emissão que vai ser
rência das Partes da obrigada a respeitar. Se
Convenção-Quadro perceber que vai emi-
da ONU), realizada tir menos do que está
em Nairóbi, no Quênia, em novem- reduzir emissões, já que historicamen- previsto, ela pode vender a diferença
bro de 2006, as 189 nações presen- te não podem ser tão responsabili- para uma outra empresa que está ten-
tes assumiram o compromisso de le- zados por elas, mas devem participar do dificuldades em fazê-lo.
var aos seus governos a tarefa de re- do esforço global de luta contra o aque-
ver os prós e contras do Protocolo. A cimento acentuado da atmosfera. Esse mecanismo só é válido para os

Senac e Educação Ambiental 25 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


que têm dificulda- sendo válidos e seguros?
Antártica: degelo é des em captar re-
evidente cursos para pro- Por outro lado, os projetos aprovados
mover o desen- pelo MDL têm uma nítida vantagem:
representam uma iniciativa global em
foto: J. L. Bulcão / Ag. Tyba

volvimento limpo.
O MDL estabelece prol do meio ambiente, já que a natu-
que os créditos de reza não tem fronteiras físicas, e tam-
emissões têm de bém permitem mobilizar recursos dos
vir de projetos en- países ricos que poderiam ajudar co-
tre empresas, refe- munidades carentes e abrir novas
rendados por uma oportunidades de negócios – além,
Autoridade Nacio- evidentemente, de melhorar a ima-
nal Designada e gem da empresa que os realiza.
comprovadamen-
Segundo o ambientalista Fabio Feld-
te executados ou
man, secretário executivo do Fórum
países do Anexo I e já está em pleno em execução. O comprador é uma
Paulista de Mudanças Climáticas, “este
funcionamento na Europa, onde exis- empresa ou instituição num país que
é um mercado novo com a finalidade
tem diversas bolsas de mercado de tem metas de redução a cumprir e o
pública de combater o aquecimento
emissões: uma na Alemanha, outra vendedor é uma empresa de um país
global e, portanto, precisa encontrar
na França, outra para os países escan- em desenvolvimento, que valida sua
um balanço entre exigências neces-
dinavos etc. É bom lembrar que isso iniciativa dentro das normas estabe-
sárias e habilidade empresarial. É difí-
acontece porque, na União Européia, lecidas pela ONU.
cil conseguir esse equilíbrio, mas acho
há uma multa de 40 euros por tonela- O MDL prevê que sejam usadas tec- que, através dos mecanismos de fle-
da de gás carbônico emitida por aque- nologias mais limpas, derivadas do xibilização, é possível chegar ao es-
les setores que não conseguem cum- conceito de desenvolvimento sus- sencial: fazer com que ações que aju-
prir suas metas. Em vez de pagar tão tentável e exige também a adiciona- dem a preservar a vida estejam com-
caro, a maioria das indústrias prefere lidade, ou seja, que se comprove que patíveis com a idéia de ganhar dinhei-
negociar, recorrendo ao mercado de aquele projeto não seria viável se a ro.”
carbono. ele não fossem aportados os recur-
E dinheiro é o que parece não faltar
O segundo mecanismo é o joint sos vindos do MDL. O projeto tem de
nesse mercado. Segundo dados do
implementation, ou seja, imple- ter, pois, uma adicionalidade financeira
Banco Mundial, nos primeiros nove
mentação conjunta. Ele permite que e social, beneficiando as comunida-
meses de 2006, o mercado de carbo-
um país do Anexo I possa financiar a des da região onde se situa e propici-
no movimentou quase 22 bilhões de
implantação de um projeto em outro ando também transferência de tec-
dólares, mais que o dobro do valor al-
país do Anexo I, retirando benefícios nologia dos países desenvolvidos
cançado em 2005. O mercado foi do-
da economia de emissões gerada por para os em desenvolvimento.
minado pelo esquema da União Euro-
estes projetos. A adicionalidade é uma das questões péia (UE), que é visto como modelo
mais controversas sobre o MDL. “É o para um mercado global. Ainda assim,
grande gargalo do Protocolo de Kio- é alvo de críticas por permitir tetos de
MDL: uma proposta to”, afirma Luiz Pinguelli Rosa, secre- emissão generosos demais. “Se o es-
brasileira tário executivo do Fórum Brasileiro de quema da UE não dirigir o investimen-
Mudanças Climáticas. “É preciso pro- to para tecnologias de energia limpa, é
A terceira possibilidade de flexibiliza- var que, sem os recursos do MDL, o apenas um esquema para especula-
ção é o Mecanismo de Desenvolvi- projeto não seria viável, e isso coloca dores de commodities”, apontou Ste-
mento Limpo (MDL). Criado graças a de fora muitas empresas que já estão ve Sawyer, do Greenpeace.
uma proposta de técnicos e cientis- realizando, por si próprias, bons proje-
Nos Estados Unidos, a Bolsa de Chica-
tas brasileiros, é um instrumento tos de redução de gases poluentes.
go também adota princípios do Proto-
previsto no artigo 12 do Protocolo de Isso cria uma certa confusão e esse
Kioto e estabelece que os países de- colo de Kioto, mas não todas as regras
mecanismo vai ter de ser aperfeiçoa-
do MDL, e tem uma metodologia dife-
senvolvidos, caso não consigam ou do para não inibir boas iniciativas”.
rente. O mercado de Chicago é forma-
não desejem cumprir parte de suas
metas de emissão de gases poluen- Os especialistas em finanças conside- do por um grupo de empresas que, de
ram também que os projetos de MDL forma voluntária, assume compromis-
tes até 2012 em seus próprios terri-
têm embutido um alto grau de risco, sos de reduzir suas emissões. Desde
tórios, poderão cumprir parte de suas
metas comprando dos países em de- pois se realizam em países onde é mais o início das negociações da Bolsa de
difícil fiscalizar, e em condições ambi- Chicago, em dezembro de 2003, até o
senvolvimento títulos conhecidos
entais e climáticas que podem variar final de 2005, foram comercializadas
como Certificados de Emissões Re-
duzidas (CERs) ou créditos de carbo- muito ao longo do tempo. A questão três milhões de toneladas de CO2 equi-
é: como garantir a uma empresa que valente. O valor comercializado por
no. São papéis que representam aba-
está comprando hoje CERs, que, no tonelada oscilou de US$ 0,90 até um
timentos verificados de emissões em
países em desenvolvimento. futuro – principalmente depois de máximo de US$ 3,24.
2012, quando termina o prazo final para
No Brasil (ver matéria "Posição pionei-
A idéia surgiu para criar a possibilida- a implantação das resoluções do Pro-
de de financiar projetos em regiões ra"), a Fundação Brasileira para o De-
tocolo de Kioto – eles vão continuar
senvolvimento Sustentável (FBDS)
Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 26 Senac e Educação Ambiental
foi escolhida para selecionar, anali-
sar e apresentar projetos naquela
Bolsa, que podem ser de floresta-
mento e reflorestamento, aproveita-
mento do gás metano gerado em
aterros sanitários, além de iniciativas
ligadas à eficiência energética e a

foto: Mauricio Simonetti / Ag. Tyba


energias renováveis.

Desafio
Um mercado tão “suculento” como
esse está criando um conjunto de
oportunidades que vem despertan-
do interesse e cobiça no mundo todo.
Nos países em desenvolvimento, já
começam a surgir, inclusive, empre-
sas voltadas para “pessoas físicas”
que desejam neutralizar as suas
“pegadas ecológicas” – isto é, o im-
pacto ambiental produzido por ativi-
Os vilões do efeito estufa
dades diárias, como a locomoção até
O efeito estufa é o aumento das temperaturas médias no planeta, causado
o trabalho, a compra de produtos
pela emissão de gases poluentes na atmosfera. Funciona como uma es-
descartáveis ou a utilização de água
pécie de “cobertor” que envolve a Terra e mantém parte do calor do sol
e energia.
aprisionado na atmosfera. O problema é que o cobertor está ficando gros-
O mercado funciona da seguinte for- so demais: dos 7 bilhões de toneladas de gás carbônico emitidos anual-
ma: é feito um cálculo das emissões mente por atividades humanas, 3,2 bilhões permanecem na atmosfera.
de carbono produzidas por cada ativi-
Os gases do efeito estufa ocorrem naturalmente na atmosfera e são
dade do cliente e esse impacto ambi-
essenciais para manter a vida na terra. Sem eles, toda a radiação solar
ental é “compensado” com o investi-
que chega ao planeta seria refletida de volta ao espaço e a temperatura
mento em projetos de energia reno-
média global seria gélida. O problema é a aceleração da emissão de tais
vável ou de plantio de árvores em
gases, que provoca o aquecimento global. Alguns desses gases:
países pobres. Figuras do mundo pop
internacional – como o líder do con- • dióxido de carbono (CO2) ou gás carbônico, proveniente da quei-
junto de rock U2, Bono Vox – se orgu- ma de combustíveis fósseis (basicamente petróleo, carvão e gás
lham de utilizar esse mecanismo para natural ) usados em veículos em movimento, na indústria, nas ter-
neutralizar, por exemplo, as emissões moelétricas (que geram energia elétrica com gás natural) e em sis-
de gás carbônico resultantes das suas temas de aquecimento, além das queimadas. Cerca de 200 milhões
constantes viagens de avião. de toneladas de carbono, segundo o Centro Brasileiro para o Desen-
volvimento Industrial (Cebeds), são despejadas anualmente na at-
“O que estas firmas estão fazendo é mosfera. Antes da Revolução Industrial, que começou no século
manter o padrão de consumo das pes- XIX, havia 280 partes por milhão de carbono na atmosfera. Hoje, são
soas, deixando-as com a consciência 370 partes por milhão. As plantas são armazenadoras naturais de
limpa”, critica Steve Rayner, profes- carbono, pois usam o CO2 na fotossíntese para crescer e acabam
sor da Universidade de Oxford e estocando grandes quantidades da molécula de carbono em seus
membro do IPCC. tecidos. Quando a vegetação é cortada ou queimada, esse gás even-
tualmente retorna para a atmosfera, junto com outros gases guarda-
O fato é que o mercado de redução
dos no solo que ela recobria.
nas emissões de carbono tem cres-
cido rapidamente e tomado novas • metano (CH4), gerado na agricultura, pecuária e em aterros sanitá-
formas. Em vez de ignorá-lo, cabe en- rios. Um dado curioso: parte do metano jogado na atmosfera é gerada
tender seus mecanismos, possibili- pelo gado bovino. Todo boi ou vaca emite CH4 naturalmente pela
dades e limites. Para uma questão respiração. Já nas plantações de arroz alagado, o metano é liberado
complexa como esta, há sempre por microorganismos na ausência do oxigênio.
uma resposta simples que, na maio-
ria das vezes, está errada. Ou seja, • óxido nitroso (N2O), gerado por veículos em
não há certezas nem soluções fáceis, movimento e pelos fertilizantes, que decom-
mas podemos afirmar, com seguran- põem o nitrogênio do solo e liberam óxido ni-
ça, que está em andamento um es- troso. Já o plantio direto evita esse processo.
forço planetário para se repensar a
• hidrofluorocarbonos, perfluorocarbonos e
relação do ser humano com a natu-
hexafluoretos de enxofre, resultado de pro-
reza. A grande questão é saber se a
cessos industriais.
Humanidade estará à altura de um
desafio desse porte.

Senac e Educação Ambiental 27 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


Mercado de Carbono de créditos1. A China estava em primei-
ro lugar (34% do total global) e a Índia,
em segundo lugar (24%) de emissões

Brasil:
projetadas para o primeiro período de
obtenção de créditos.

Na opinião de José Domingos Gonza-

posição pioneira
lez Miguez, secretário-executivo da
Comissão Interministerial de Mudança
Global do Clima, esses resultados re-
presentam um avanço, pois, para paí-
ses como a China e a Índia, que usam
muito carvão mineral, é mais fácil dimi-
nuir suas emissões. “Aqui no Brasil, cuja
matriz energética é baseada principal-
mente em energia hidráulica, o custo
de fazer reduções de emissões é mais
caro. Tudo isso mostra o esforço de
nossas empresas e governos: se esta-
mos nos destacando, é porque estamos
mais organizados”, afirma.

Áreas mais expressivas


Qualquer setor da economia que pro-
duza gases causadores de efeito estu-
fa pode desenvolver projetos de MDL
e a distribuição dos projetos brasilei-
ros por tipo de metodologia indica que
a maioria das atividades (62%) é de
foto: Jonne Roriz / Ag. Estado

larga escala. Alguns exemplos: trata-


mento de aterros sanitários (que emi-
tem muito gás metano) e projetos de
co-geração de energia com o uso de
biomassa, inclusive bagaço de cana
(que evita o uso de combustíveis fós-
seis). Além disso, o setor sucroalcoo-
leiro apresenta boas perspectivas de
abocanhar parte desse mercado, com
a substituição de combustíveis e o uso
do etanol (o álcool extraído da cana) e
Autor da proposta do Mecanismo de Desenvolvimento do biodiesel para o transporte.

Limpo (MDL) – uma das formas previstas no Protocolo Já o setor florestal tem a possibilida-
de de trabalhar com o reflorestamen-
de Kioto para reduzir as emissões de dióxido de carbono –, to de áreas degradadas e recupera-
o Brasil investe cada vez mais em projetos que contribuem ção de matas ciliares, embora, até
para reduzir o processo de aquecimento global. novembro de 2006, ainda não estives-
se em funcionamento nenhum proje-
to florestal aprovado pelo Conselho
Desde a Rio-92, o Brasil vem assumin- Segundo dados divulgados na reunião
Executivo do MDL. “O mercado tem
do posição de crescente destaque na da COP-12, (12a Conferência das Partes
preferência por projetos de grande
discussão e no encaminhamento de da Convenção-Quadro da ONU), reali-
escala, que envolvem a queima de
soluções para as questões ambientais zada em Nairóbi em novembro passa-
combustíveis”, explica Marcelo Ro-
globais. E em relação ao Protocolo de do, dos 1.278 projetos dentro do MDL
cha, pesquisador da Escola Superior
Kioto, especificamente, não foi dife- em todo o mundo, o Brasil era respon-
de Agricultura Luís de Queiroz.
rente: o país é não só o autor da pro- sável por 193 projetos, só perdendo
posta do Mecanismo de Desenvolvi- para a Índia, com 460, e a China, com
mento Limpo (MDL), como um dos 175. Em termos de reduções de emis-
seus principais beneficiários. sões projetadas, em outubro de 2006, Carência de técnicos
o Brasil estava em terceiro lugar, já que, qualificados
na mesma data, era considerado res-
1
Os períodos podem ser, no máximo, de Se as oportunidades são muitas, os
ponsável por reduzir 187 milhões de
dez anos para projetos de tempo fixo ou de
sete anos para projetos renováveis. Os re- toneladas de CO2, o que corresponde a problemas não são menores. “Há fal-
nováveis podem sê-lo por, no máximo, três cerca de 12% do total mundial para o ta de experiência em lidar com re-
períodos de sete anos, totalizando 21 anos. primeiro período previsto de obtenção gulamentação de mercados”, afirma

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 28 Senac e Educação Ambiental


Marcelo Diniz Junqueira, da Econer-
gy Brasil.

Muitos reconhecem que é preciso de-


finir mais claramente regras contábeis,
fiscais e tributárias para direcionar a
ação do setor privado. O marco regula-
tório do MDL é considerado comple-
xo. Se, por um lado, a complexidade é
necessária para que se possa avaliar
os resultados dos projetos em anda-
mento, por outro lado, ela pode inibir
iniciativas, principalmente de entida-
des e empresas com menos cacife
econômico. Uma das críticas coloca-
das ao mercado de carbono é que ele

foto: Carlos Ivan / Ag. O Globo


só é acessível para quem tem muitos
recursos. Segundo cálculos dos técni-
cos envolvidos, cada elaboração de Projetos brasileiros aprovados
projeto dura cerca de 18 meses e cus- Os MDLs entraram em funcionamento no início de 2005 e o Brasil tomou
ta uma média de US$ 100 mil a US$ a dianteira nesse processo, sendo o primeiro país a estabelecer uma Auto-
150 mil. ridade Nacional Designada, encarregada de analisar os projetos nacionais
No futuro, a falta de profissionais qua- candidatos a financiamentos. É a Comissão Interministerial de Mudanças
Globais de Clima. Aprovados nesta instância, os projetos são enviados à
lificados também pode ser um proble-
ONU para serem registrados e analisados no Conselho Executivo do MDL.
ma brasileiro. “Se um engenheiro er-
rar na conta, a ONU, que aprova os pro- A maioria absoluta é baseada em geração de energia elétrica a partir de
jetos, vai brecar lá na frente. E a em- gases emitidos em aterros sanitários de lixo. Há também vários projetos
presa perde tempo e dinheiro”, afirma de co-geração de energia a partir de bagaço de cana. Devem ser mencio-
Antonio Carlos Porto Araújo, consultor nadas ainda iniciativas de criação e repotenciação de pequenas centrais
da Trevisan Consult. hidrelétricas, além de projetos de substituição de óleo combustível por
gás natural. Finalmente, foi também aprovada uma iniciativa de captura e
combustão de gases de efeito estufa em granjas de suínos no sul do país.
Novidades nas
Cabe lembrar que é brasileiro o primeiro projeto MDL aprovado pela ONU no
bolsas brasileiras mundo: o NovaGerar (foto), em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, um
aterro sanitário que reutiliza o gás metano liberado na decomposição do lixo.
Apesar das dificuldades, as possibili-
dades do mercado de carbono no Bra- O NovaGerar, aprovado em 2004, atraiu o interesse do governo da Holan-
sil estão sendo trabalhadas. Em setem- da, que, por meio do Banco Mundial, fechou contrato para comprar os
bro de 2005, a Bolsa de Mercadorias e créditos de carbono gerados. A operação foi aprovada em inspeções
Futuros (BM&F), a Bolsa de Valores do sucessivas do Banco Mundial, para aferir a adequação às normas do Proto-
Rio de Janeiro e o Ministério do De- colo de Kioto. O contrato com a Holanda foi previsto para durar 12 anos, e
senvolvimento, Indústria e Comércio a primeira parcela dele (1,5 milhão de euros) foi depositada em 30 de
lançaram o Banco de Projetos do Mer- junho de 2006.
cado Brasileiro de Redução de Emis-
sões, um sistema eletrônico de regis-
tro de projetos operado via internet.
deste ano, o presidente da Bovespa, e Ambientais (BVS&A). Ela funcionará
"O sistema faz o casamento entre as Raymundo Magliano Filho, anunciou a da mesma forma que a BVS, ou seja,
demandas e as ofertas. Se há um pro- ampliação da área de atuação da Bolsa como um ambiente de encontro entre
jeto de energia renovável registrado e de Valores Sociais (BVS), que agora investidores sociais e ambientais e
entra uma empresa interessada em abrigará também projetos ambientais. projetos que necessitam de recursos
investir em energia renovável, o siste- financeiros para serem implantados ou
ma automaticamente liga os dois", Com a mudança, a BVS – fundada em ampliados.
conta Guilherme Fagundes, chefe do 2003 e mantida pela Bovespa – passa-
Departamento de Projetos Especiais da rá a se chamar Bolsa de Valores Sociais Elias Fajardo
BM&F. "Isso reduz os custos, porque o
mercado de créditos de carbono é
muito fragmentado. Os compradores
estão principalmente na Europa e no Para saber mais:
Japão e têm dificuldade de conhecer Acesse o site http://www.mct.gov.br/clima. Nas seções, procure a da Co-
os projetos daqui", destaca. missão Interministerial de Mudanças Globais de Clima. Ali estão os projetos
de MDL aprovados, os aprovados com ressalva e os que estão em revisão.
Mais recentemente, outra iniciativa re-
lacionada à área ambiental movimen- Mercado: http://www.bvrj.com.br/mbre/faq/faq.asp#22
tou o mercado de bolsas. Em março
Senac e Educação Ambiental 29 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007
prios ambientalistas? Surgem con-
gressos, seminários, bolsas de car-
bono, tudo com muita mídia e muita
ONG e, assim, se esvazia o conteú-
do radical do pensamento que tenta
pegar o problema pela raiz. Hoje se
diz que tudo tem solução, desde
que passe pelo mercado. A questão
está justamente na expressão ´des-
de que´. É tudo muito condicionado
e este é o problema”, enfatiza o pro-
fessor.

Na opinião do ambientalista, “tudo


isto tem a ver com o Protocolo de
Kioto e o mercado de carbono. Se
ficarmos buscando soluções no mer-
cado, só vamos aprofundar o proble-
ma. O capitalismo não é um sistema
de organização social natural, aliás
como nenhum jamais será. A ques-
tão é saber se o sistema que tudo
mercantiliza é capaz de ver a nature-
za enquanto um potencial criativo e
foto: Luiz Claudio Marigo

a cultura dos povos, como diversida-


Mercado de Carbono de do potencial criativo da espécie
humana. As regiões onde há mais ri-
queza em biodiversidade e em água

A visão de pesquisadores são aquelas que ficaram à margem


do desenvolvimento mercantil. A
combinação de ecologia com econo-

e ambientalistas mia tem que deixar de confundir eco-


nomia com a forma capitalista de
pensar a economia”.

Nos meios acadêmico e ambientalista, não há quem não Como outros ambientalistas, Carlos
Walter é muito crítico em relação a
se posicione sobre o mercado de carbono. As opiniões iniciativas como a do mercado de
refletem diferentes visões de mundo e sociedade – o que carbono. “A economia mercantilista
enriquece a discussão. Eis alguns depoimentos de baseia-se na matemática, e faz tanta
abstração que se esquece das di-
personalidades significativas da vida pública e do mensões físicas e biológicas das coi-
ambientalismo brasileiros sobre essa questão. sas, não considera as leis da entro-
pia, por exemplo. É como o planta-
Elias Fajardo dor de tomate que
se preocupa em
quanto vai colher e
não se importa de
A análise de tendo que reavaliar nossas colocar muito agro-
reflexões, conceitos e práti-
Carlos Walter
Walter cas. O ambientalismo dos
tóxico na planta-
ção, pois ele mes-
anos 60 e 70 era considera- mo não vai comer
Carlos Walter Porto-Gonçalves é am- do subversivo e desafiante,
bientalista e professor da Universi- o tomate: só vai
pois colocava em xeque a ci- vendê-lo. Cerca de
dade Federal Fluminense. Seu livro vilização industrial. De lá para
A globalização da natureza e a na- 20% da humanida-
cá, vem acontecendo uma de consomem
tureza da globalização (Editora Civi- cooptação e um esvazia-
lização Brasileira) tem um capítulo 85% dos recursos
mento desta visão crítica.”, naturais. Enquanto isto ocorrer, vai
dedicado ao mercado de carbono. Ele aponta.
acrescenta uma visão histórica e crí- se continuar consagrando a visão co-
tica a essa discussão. Para Walter, “o incômodo que nós, lonial, em que países desenvolvidos
ambientalistas, estamos vivendo compram o direito de poluir e ainda
“Nunca se falou tanto em salvar o pla- agora é: se tudo que fizemos não im- acham que estão sendo generosos
neta como nos últimos 30 anos e nun- pediu a devastação, a quem interes- em investir nos subdesenvolvidos”,
ca se devastou tanto. Assim, estamos sa o ambientalismo senão aos pró- conclui.

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 30 Senac e Educação Ambiental


A crítica do Gabeira que essa repartição seja feita de forma nuar exigindo que os países ricos di-
que o ônus maior caiba a quem polui minuam suas emissões de gases no-
O deputado federal Fernando Gabei- mais, e o menor a quem polui menos”. civos à vida”, conclui Minc.
ra (PV) considera o MDL e o desen-
O cientista elogia o MDL – “é uma ma-
volvimento do mercado do carbono
neira coletiva de com- A ponderação
realidades positivas, ain-
pensar reduções de
da que signifiquem pou- de Lutes
emissões” – mas ressal-
co diante do aquecimen-
ta: “Ele precisa ser aper-
to global.
foto: Roberto Jayme / Ag. Estado

feiçoado, de modo a fa- Mark Lutes é pesquisador associado


zer com que baixe o cus- de políticas de mudanças climáticas
“Essas iniciativas, por
to geral de redução para da ONG Vitae Civilis. Ele considera
mais amplas que sejam,
o conjunto de países. Na que algumas críticas ao mercado de
são limitadas com relação
Europa, Japão e Estados carbono são válidas, mas diz que é
às necessidades reais.
Unidos, esses custos já preciso fortalecer o Protocolo de Kio-
Mas esta é uma discussão
estão sendo internaliza- to como um todo.
bizantina: não interessa
muito saber se vou salvar dos. A sociedade está se
dispondo a incorporá-los “O mercado internacional de carbono
o planeta ou apenas retar- não contribui diretamente para prote-
dar uma catástrofe. Am- em suas atividades eco-
nômicas e financeiras. ger o meio ambiente. Ele só cria mais
bas as causas são justas.” flexibilidade para países com metas a
Isso precisa se expandir
para outras regiões do mundo.” cumprir. Mas esse mercado gera inte-
Nesse cenário, ele critica o que tem
resse, apoio e oportunidades de en-
acontecido no Brasil. “No nosso país,
gajamento por parte do setor privado.”
a regulamentação interna do MDL foi
retardada por causa da incompreen- A proposta do Minc O pesquisador considera que a entra-
são política com relação ao Protocolo da em vigor do Protocolo de Kioto foi
de Kioto. A visão do PSB (Partido So- O deputado estadual pelo Rio de Ja- um passo muito pequeno e demora-
cialista Brasileiro), que assumiu em neiro (PT), Carlos Minc – atual secre- do, mas necessário para construir um
2003 o Ministério de Ciência e Tec- tário de Meio Ambiente do Estado – regime internacional capaz de limitar
nologia, era de que se tratava de um acrescenta novos pontos de vista ao emissões e concentrações atmosfé-
tema muito secundário e mais relati- tema. “Uma compensação para indús- ricas de gases de efeito estufa.
vo aos países desenvolvidos. Essa trias e países que poluem mais não
concepção provocou um certo atra- pode ser rechaçada, mas ela pode in- “O mais importante é que o regime
so, que está sendo recuperado ago- dicar que os ambientalistas estão mo- internacional negociado
ra”, diz o ambientalista netarizando a poluição, para depois de 2012 seja
criando um mercado futu- capaz de reduzir mais as
ro para ela. Os países ri- emissões em países in-

foto: Wilton Junior / Ag. Estado


A reflexão do cos não conseguem dimi- dustrializados e, ao mes-
nuir suas emissões e po- mo tempo, faça o mes-
professor Gylvan dem, nos países mais po- mo nas nações em de-
bres, ajudar a preservar senvolvimento. Para
O professor Luiz Gylvan Meira Filho, florestas ou diminuir as isso, os mercados de car-
doutor em astrofísica e pesquisador emissões de gás metano bono podem cumprir pa-
visitante do Instituto de Estudos do lixo. Isso é uma manei- pel mais amplo do que
Avançados da Universidade de São ra de ver a questão”. estão desempenhando
Paulo (USP), integrou a equipe de ne-
agora. Mas, em geral, as
gociadores brasileiros do Protocolo de Por outro lado, na opinião regras negociadas são ra-
Kioto. Para ele, “a limitação das emis- do secretário, quem pro- zoáveis, e o Conselho
sões de gases causadores de efeito voca um desequilíbrio, Executivo do MDL está cumprindo
estufa exige esforços sem preceden- ainda que local, tem que arcar com os suas responsabilidades, evitando os
tes. Não há indícios de que a econo- custos de diminuir a poluição ambi- piores abusos”, opina Lutes.
mia global vá ser preju- ental global. “Não se pode
dicada, mas os gover- ser contra que um país rico Segundo fontes oficiais, os projetos
nos precisam adotar invista em diminuir a po- de MDL já registrados vão evitar mais
foto: Clayton de Souza / Ag. Estado

medidas de compensa- luição nos países em de- de um bilhão de toneladas de gases


ção dos setores prejudi- senvolvimento. Mas te- poluentes no primeiro período de
cados pelos efeitos de- mos de ir mais fundo. Por compromisso (de 2008 a 2012). “A
correntes das mudan- isso, proponho que o mer- questão para o futuro é: a quantidade
ças que devem ser ado- cado de carbono deve ser de créditos precisa ser contraba-
tadas, principalmente na ampliado e os mecanis- lançada com metas de redução muito
área de geração de ener- mos de controle sejam fortes para os países industrializados,
gia, indústria e transpor- mais eficazes e transparen- para evitar o risco de uma super-ofer-
tes. É preciso mexer tes. Além disso, penso ta de créditos, que reduziria os pre-
dentro da economia e, que essas medidas não ços a um ponto em que eles não mais
principalmente, repartir podem calar os ambien- interessariam aos países ricos”, aler-
os custos. A tendência é talistas, que devem conti- ta o pesquisador.

Senac e Educação Ambiental 31 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


foto: João Roberto Ripper
Recife: cortada por rios e mangues, é
conhecida como a Veneza brasileira

Recife, capital do Estado de Pernambu- das à natureza prosseguiram ao longo


co e a mais antiga do país, fundada em dos anos. Hoje em dia, justamente por
Projeto que concilia 1537 pelos portugueses, é uma cidade essa intensa destruição do ecossiste-
preservação dos mangues litorânea recortada por diversos man- ma manguezal, o Recife é um lugar re-
com geração de renda, a gues. No Recife, como dizem por lá, pleto de problemas ambientais. Ecos-
acontece o encontro do Rio Capibaribe sistema protegido por legislação, o
partir da produção artesanal com o Rio Beberibe que deságüam no mangue é responsável pelo equilíbrio
e cultural, valoriza saber Oceano Atlântico. E, por conta das suas da temperatura da cidade, o amorteci-
características geográficas, é conhecida mento do impacto das águas e, quan-
tradicional e resgata auto- como a Veneza brasileira – graças à se- do sadio, é um grande produtor de pro-
estima de comunidade de melhança fluvial com a cidade européia. teína animal. No entanto, com a sua
pescadores de Recife degradação, a sua produtividade dimi-
Recife recebeu este nome devido a
nui, quebrando a cadeia alimentar e o
enorme muralha natural, composta por
Aline Almeida rochedos de corais ou arrecifes, que
ciclo reprodutivo de mais de 600 espé-
cies de peixes, crustáceos e moluscos.
acompanha boa parte do litoral da re-
Além disso, deixa de oferecer alimen-
“Pula aê Recife!! Pula aê!! gião. A praia de Boa Viagem é o seu
to e importante fonte de renda para as
O sol queimou, queimou a lama do rio principal cartão postal, com águas cla-
populações locais.
Eu vi um chié andando devagar ras e o sol brilhando imponente duran-
E um aratu pra lá e pra cá te o ano todo.
E um caranguejo andando pro sul
Saiu do mangue e virou gabiru”. Por volta de 1630, quando os holande- Brasília Teimosa
Teimosa
ses iniciaram a exploração dos mares
Chico Science – Da lama ao caos do Nordeste brasileiro, começou tam- Brasília Teimosa – nome dado em ho-
bém a destruição e degradação ambi- menagem à capital do país e uma clara
A letra de Chico Science, no clima do ental, quando a cidade ainda era recor- referência à insistência dos moradores
manguebeat, importante movimento tada por diversos mangues e enchar- em não deixarem a área – é vizinha à
coletivo de renovação da música nor- cados inundáveis. praia de Boa Viagem. É uma comunida-
destina, nos leva ao cenário pernam- de caracterizada por uma situação de
bucano de pontes, rios, ilhas e muitos Como em todo surgimento de grandes risco e insalubridade, precárias habita-
manguezais. centros urbanos, as alterações causa- ções e condições sanitárias (apenas
Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 32 Senac e Educação Ambiental
20% das casas são ligadas à rede de trabalho resgatar elementos ambientais Mudas, que já possui uma sementeira
esgoto). Ali faltam atendimento educa- e culturais da comunidade, por meio de de mangue em Brasília Teimosa, e ajuda
cional, assistência social e alternativas projetos culturais e educacionais volta- no reflorestamento do manguezal. O
de geração de emprego e renda. dos para professores, jovens, crianças e Centro oferece, ainda, a oficina de Músi-
seus familiares. Justamente pela sua ca e Dança, com aulas de instrumentos
“Morar em frente à maré que alimenta- relação afetiva e de convívio com o lu- de percussão e de danças praieiras.
va suas famílias, e agora ver ela se aca- gar, a professora escolheu o mangue
bando debaixo de um monte de lixo, é como tema gerador para as suas ações O Centro atua também junto aos jovens
de doer o coração”, diz a pescadeira educativas. moradores através da formação da Rede
Amarina. Jovem, composta por 25 jovens (entre
O Centro Escola Mangue acredita na in- 16 e 25 anos) que estão fazendo o pri-
A área ficou nacionalmente conhecida tegração entre a arte e a cultura como o meiro Curso de Turismo Ecológico de
quando foi visitada pelo presidente Lula, elo fundamental para o desenvolvimen- Base Comunitária. Em paralelo ao curso
acompanhado de alguns ministros, para to integral do ser humano, promoven- de turismo, existe uma parceira com o
promoção do Fome Zero. E não foi à toa do, na prática, as conexões e possibili- Projeto Golfinho Rotador, de Fernando
que esse local foi o escolhido, pois Bra- dades das relações entre esses concei- de Noronha, para a criação de um turis-
sília Teimosa ostenta um dos piores Ín- tos, como suporte para o desenvolvi- mo de observação de golfinhos em Bra-
dices de Desenvolvimento Humano mento da eco-pedagogia. Dessa forma, sília Teimosa.
(IDH) no Brasil, podendo ser comparado contribui para uma mudança de atitude,
ao de paupérrimos países africanos, aliada ao resgate da identidade e do exer- Durante o ano são promovidos os En-
como o Gabão. cício da cidadania. contros Anuais das Escolas Mangue, em
que participam todas as escolas da rede
Seus quase 20 mil habitantes possuem Nos projetos do Centro, um dos gran- municipal que tratam da questão da pre-
uma ligação muito forte com o mar e o des objetivos é conciliar a preservação servação dos manguezais nos seus pro-
manguezal, sendo que a maioria deles dos mangues com a geração de renda a jetos político-pedagógicos. Esses even-
sobrevive da pesca artesanal. É uma área partir da produção artesanal e cultural. tos contam com a participação de apro-
de muitos conflitos e interesses diver- Existe também uma preocupação mui- ximadamente 300 professores e, des-
gentes, principalmente pela sua locali- to forte com a valorização do saber tradi- de 2003, a Prefeitura do Recife incorpo-
zação na orla principal da praia e, conse- cional e o resgate da auto-estima dos rou esses encontros ao calendário ofici-
qüentemente, pela valorização e espe- pescadores e pescadoras locais: “A es- al da Rede Municipal de Ensino.
culação imobiliárias crescentes na região. cola é uma ponte de saber entre o mun-
do acadêmico e o popular. Podemos O Centro Escola Mangue também traba-
Por outro lado, mesmo com a expansão lha com o empoderamento das mulhe-
aprender com biólogos e com pescado-
urbana acelerada da cidade, essa área res locais, realizando encontros quinze-
res”, enfatiza Luciana.
de Brasília Teimosa é de grande impor- nais da Rede de Mulheres do Mangue.
tância ambiental, pois é o último rema- Atualmente, além das discussões sobre
nescente de manguezal do município de estratégias de geração de renda, é de-
Recife, e o maior manguezal urbano do
Muitos projetos
senvolvido o curso de Customização para
Nordeste. 35 mulheres da comunidade, em parce-
Atualmente, o Centro possui diversas
frentes de trabalho, pontuais e continua- ria com a Prefeitura do Recife.
das, como por exemplo, o atendimento
Por toda essa luta, o Centro Escola Man-
Iniciativa premiada diário de complementação escolar a 40
gue teve seu trabalho reconhecido pelo
crianças (entre 4 e 6 anos) e 100 crian-
recebimento da menção honrosa do Prê-
Foi nesse cenário, que em 2003 sur- ças e adolescentes (entre 8 e 16 anos).
mio Melhores Práticas Ambientais no
giu o Centro Escola Mangue, fruto de Depois do horário da escola, crianças e
Nordeste, promovido pela Sociedade
uma luta liderada pela professora pú- jovens podem participar de oficinas de
Nordestina de Ecologia. Esse prêmio foi
blica, formada em Ciências Sociais, Leitura e Matemática da Vida, durante as
criado para reconhecer e divulgar as boas
Luciana Maria da Silva. Segundo ela, o quais são realizadas expedições peda-
práticas de proteção ambiental em to-
maior objetivo da iniciativa é comba- gógicas nas praias de Brasília Teimosa
dos os estados do Nordeste, e na sua
ter a fome, a exclusão social e a degra- para catalogação de peixes, moluscos e
última edição (2006) premiou 12 iniciati-
dação ambiental em que vivem os crustáceos trazidos nas jangadas pelos
vas de organizações da sociedade civil,
moradores da região. Por isso, o públi- pescadores e pescadeiras.
entidades de ensino, instituições públi-
co-alvo das ações do Centro é a popu-
Além disso, uma vez por semana, du- cas e empresas.
lação ribeirinha, estuarina e da praia, já
que todos têm em comum o ecossis- rante todo o ano letivo, os alunos fazem
tema costeiro-marinho. um levantamento e pesquisa sobre os Para saber mais:
dados do pescado, dos ventos, do mo- Contatos: Luciana Maria da Silva – e-
Nascida em Brasília Teimosa, e até hoje vimento das marés, da lua, etc. Outra mail: ludomanguezal@gmail.com
moradora do local, Luciana busca no seu atividade é a oficina de Produção de 81.3566-8324

Senac e Educação Ambiental 33 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


timular a produção de filmes locais.

Luz, câmera, ação! Resultado: mais de 800 alunos envol-


vidos nas oficinas, 20 filmes produzi-
dos com temas socioambientais da
Lá vem o Mova Caparaó região e o segundo lugar no Prêmio
Cultura Viva 2006, do Ministério da
Cultura, categoria Gestão Pública.

“Na primeira fase, mostramos filmes


e vídeos com temas ambientais. En-
tão, partimos para um levantamento
de possíveis temas regionais a serem
abordados nas produções, que podem
foto: Jefferson de Albuquerque Junior

ser documentário, ficção ou mesmo


animação. Depois da escolha dos as-
suntos, os jovens recebem noções de
roteiro, direção, edição, pesquisa, tri-
lha sonora, cenário, figurino, ou seja,
de tudo que envolve a produção cine-
matográfica”, explica Jefferson.

Na segunda etapa, os estudantes se


reúnem em um único município para
uma oficina de roteiro. Os que se iden-
tificam mais com o gênero animação
seguem para uma oficina específica
sobre esse tipo de filme. Só depois,
já na terceira fase do Mova Itinerante,
os jovens vão a campo para as grava-
Cinema e educação Não se trata apenas de uma história ções, em seus municípios, e posteri-
interessante, mas do roteiro de um ormente participam da edição dos fil-
ambiental mobilizam jovens dos filmes produzidos por estudan- mes. Além da sensibilização e do trei-
capixabas no entorno do tes do ensino público fundamental e namento dos alunos, o projeto tam-
médio para o Mova Caparaó, mostra bém promove cursos de capacitação
Parque Nacional do com os professores sobre como usar
de vídeo ambiental que há três anos
Caparaó, em um festival vem unindo educação ambiental e o material audiovisual na escola como
que usa a sétima arte para cinema num só projeto. instrumento para a educação ambien-
tal. As escolas dos municípios envol-
promover cidadania e A iniciativa da Secretaria de Estado vidos, por sua vez, recebem cópias
conscientização ambiental da Cultura do Espírito Santo surgiu em dos vídeos produzidos pelos estudan-
2004 com a realização do I Mova, no tes durante as oficinas.
município de Guaçuí (ES). Na ocasião,
Márcia Soares concorreram produções de vários lo- Segundo Jefferson, água e lixo são os
cais do Brasil e foram apresentados temas que mais têm mobilizado os jo-
Os moradores da pequena vila de Pa- alguns filmes do Festival Internacio- vens durante as oficinas. Mas as abor-
trimônio da Penha, no Espírito Santo, nal de Cinema e Vídeo Ambiental dagens são as mais diversas possíveis:
não imaginavam que a chegada de (Fica), que ocorre em Goiás há oito “No Caparaó, o filme produzido tratou
alguns hippies causaria tantas mudan- anos. Percebeu-se, no entanto, que o da questão do desmatamento como
ças nas suas vidas. A época era os movimento ficaria mais rico se hou- causa da falta d´água. Em Alegre, a
anos 70, e a paisagem, plantações de vesse um trabalho prévio de forma- questão do esgoto foi o tema central,
café, que, aos poucos, foram adquiri- ção de platéia e de conscientização pois a cidade carece de saneamento
das por esses novos moradores com ambiental. Daí surgiu o Mova Itine- básico e não possui uma estação de
o objetivo de deixar a vegetação nati- rante, que, sob a coordenação do ci- esgoto sequer, fazendo com que tudo
va crescer novamente. Aos poucos, neasta e ambientalista Jefferson Al- seja jogado in natura no rio”, conta.
a comunidade hippie, que está na re- buquerque Jr., promove oficinas de
gião até hoje, promoveu uma verda- cinema em 11 municípios do entorno Na cidade de Jerônimo Monteiro, o
deira revolução na vila em termos do Parque Nacional do Carapaó, com enfoque foi a relação saúde e meio
ambientais. jovens de escolas públicas, para es- ambiente. “Durante a pesquisa, os jo-

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 34 Senac e Educação Ambiental


vens descobriram que a população lo- Promovido pela Coordenação de Ci- terra e passeio ecológicos monitora-
cal tem muito problema respiratório. nema e Vídeo da Secretaria de Esta- dos por técnicos ambientais”, conta a
Tudo indica que tem a ver com a rodo- do da Cultura do Espírito Santo, o coordenadora de Cinema e Vídeo da
via que corta a cidade, onde circula Mova Itinerante conta com a parceria Secretaria de Estado da Cultura, Mar-
muito caminhão que transporta mármo- das secretarias estaduais de Educa- garete Taqueti.
re”, diz Jefferson. Em São José do Cal- ção e de Meio Ambiente e Recursos
çado, o foco do documentário Marcas Hídricos, além das prefeituras locais Para este ano, o projeto já conta com
de um passado foi a transformação da e do Consórcio Caparaó, organização um suporte financeiro adicional, os R$
paisagem urbana e as mudanças ocor- que funciona como uma agência de 18 mil recebidos de premiação pelo
ridas em virtude do desmatamento. desenvolvimento sustentável na re- segundo lugar no Prêmio Cultura
gião, agregando governos municipais Viva. “Promovido pelo Ministério da
“A idéia não é só denunciar, mas tam- e instituições da sociedade civil. Cultura, em parceria com o Centro de
bém propor soluções e mostrar ex- Estudos e Pesquisas em Educação,
periências positivas que estejam acon- O Estado arca com os custos da equi- Cultura e Ação Comunitária (Cem-
tecendo na região”, ressalta o cineas- pe e equipamentos, ao passo que os pec), com o patrocínio da Petrobras, o
ta. Para isso, os alunos são estimula- municípios se responsabilizam pelos Cultura Viva visa destacar iniciativas
dos a buscar iniciativas interessantes gastos com transporte, produção, ali- nacionais que valorizem a cultura
na proteção do meio ambiente, du- mentação e outros gastos. As ofici- como meio de consolidação da iden-
rante a fase de pesquisa, e a valorizar nas geralmente ocorrem em escolas tidade e de construção de cidadania”,
o fato de estarem ao lado de uma im- públicas, o que minimiza os gastos explica Taqueti.
portante área protegida, o Parque Na- com local.
cional do Caparaó, o que dá à popula- O povoado de Patrimônio da Penha,
O III Mova Caparaó, realizado em ju-
ção desses municípios algumas van- aquele da comunidade hippie que
lho de 2006, na localidade de Pedra
tagens ambientais, como a presença transformou a consciência ambiental
Menina, contou com o apoio de em-
de nascentes de água, o contato com do lugar, já está se preparando para
presas como a Companhia Espírito-
a floresta e, conseqüentemente, um receber, no início de julho, o IV Mova
Santense de Saneamento (Cesan), o
clima mais agradável e ar puro. Banco de Desenvolvimento do Espí- Caparaó. Um evento que, certamen-
rito Santo (Bandes), a Vale do Rio Doce te, plantará novas sementes de mu-
Para o coordenador das oficinas itine- dança na pacata comunidade.
rantes, já é possível perceber os resul- e o Serviço Brasileiro de Apoio às
tados da iniciativa. “Este ano os alunos Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
estavam mais espertos com o tema O evento como um todo é composto Para saber mais:
pela Mostra Competitiva Nacional, Coordenação de Cinema e Vídeo:
ambiental e com uma postura de maior
pelo MovAnimação, pela Mostra de Tel.: (27) 3132-83 67
consciência”, destaca Jefferson.
Cinema Capixaba, pela Mostra Fica Fax: (27) 3132-8383
“O grande diferencial do Mova é que (que exibe alguns filmes do festival
e-mail: mova caparao@yahoo.com.br
ele vai além de ser um festival que dis- de Goiás) e pela Mostra Competitiva
/cinemaevideo@secult.es.gov.br
tribui prêmios, como há outros no país. de Vídeos Caparoenses, na qual con-
Ele promove cidadania, conscientiza- correm os filmes
ção e sensibilização para essa forma de produzidos pelos jo-
foto: Jefferson de Albuquerque Junior

arte. Eu já havia trabalhado anteriormen- vens da região nas


te com a produção de filmes ambien- oficinas do Mova Iti-
tais. Mas colocar os jovens para pes- nerante. Ao todo, o
quisar e produzir foi o trabalho mais rico concurso teve, em
de educação ambiental que eu já fiz”, 2006, cerca de 1.500
conta Jefferson, com orgulho. projetos inscritos.

“Além da programa-
Parcerias unem cultura ção de vídeos ambi-
entais do Caparaó,
e meio ambiente do Brasil e do mun-
do, quem participou
Para tirar do papel esse projeto de cul- do encontro em Pe-
tura e educação ambiental, foi neces- dra Menina também
sário muito mais do que um árduo tra- encontrou oficinas
balho: foi fundamental a parceria firma- para a comunidade,
da entre diferentes setores públicos, folguedos, shows,
em níveis estadual e municipal, além homenagens a figu- Equipe do Mova Caparaó utiliza como locação o próprio
da participação da sociedade civil. ras importantes da ambiente onde vivem, como esta antiga casa de fazenda

Senac e Educação Ambiental 35 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


foto: Vidal Cavalcante / Ag. Estado
Produtos orgânicos ganham espaço
Produtores brasileiros rança alimentar, que envolve o cuida- Frutas, legumes, cereais, mel, laticí-
do com a saúde da população. nios, carnes e pescados brasileiros
conquistam mercados no são os principais produtos sob vigi-
exterior e ampliam também Esta preocupação está se tornando o lância sanitária européia. Para dar
padrão dos principais países importa- maior confiabilidade a essa produção
o mercado interno para dores de produtos agropecuários, exportada, o Brasil está aperfeiçoan-
alimentos sem resquícios abrindo espaço para os cultivos lim- do os laboratórios encarregados de
pos, livres de agrotóxicos e que ob- analisar a presença de resíduos tóxi-
químicos e cujos métodos servam normas totalmente orgânicas, cos e hormônios. A desconfiança eu-
de cultivo regeneram o solo aspectos que se tornaram assim po- ropéia já suspendeu as exportações
e as águas derosos argumentos comerciais. de mel brasileiro, embora nosso pro-
duto seja considerado de alta quali-
Não deixa de ser curioso que, no dade. A próxima formação de comis-
Procópio Mineiro momento em quem se dá um auge sões técnicas permanentes euro-bra-
de tecnologia aplicada à produção sileiras, além do melhor aparelhamen-
No início de outubro de 2006, a União do campo, com a luta que se trava to de nossos laboratórios, para que
Européia anunciou que aumentará as em torno da biotecnologia e da trans- tenham a mesma eficiência dos eu-
exigências relacionadas com a prote- genia, se observe a expansão e va- ropeus, deverá facilitar em muito os
ção sanitária e segurança dos seus lorização da tendência à agricultura negócios. Com isso, haverá valoriza-
consumidores, especificamente totalmente limpa, em que argumen- ção ainda maior da produção livre de
quanto aos alimentos importados pela tos comerciais se unem a opções defensivos químicos e remédios.
comunidade. “A UE fará para o mer- ecológicas, sanitárias e até de filo-
cado externo as mesmas exigências sofia de vida. A promessa de alta
que faz para o mercado doméstico”, produtividade de cultivos defendi- Certificação
disse o ministro Markus Kiprianou, dos por agrotóxicos e pelas novíssi-
acentuando a importância cada vez mas técnicas transgênicas esbarra Neste processo, uma etapa funda-
maior que os europeus estão dando a agora na revalorização da produção mental é a certificação da qualidade
alimentos livres de hormônios, resí- orgânica, que tem a seu favor a am- realmente natural da produção. Para
duos de remédios, fungicidas e inse- pliação de mercado e até mesmo a tanto, institutos credenciados e reco-
ticidas. Os europeus e orientais fazem, aceitação de preços maiores, estes nhecidos acompanham a atividade
igualmente, sérias restrições a produ- resultantes da produção ainda rela- dos agricultores e criadores e fazem
tos transgênicos, em nome da segu- tivamente pequena. testes de laboratório, assegurando,

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 36 Senac e Educação Ambiental


através de selo, a confiabilidade dos pão, feira internacional de orgânicos mas trabalham o conceito de qualida-
produtos. No Brasil, o Instituto Biodi- realizada no final de setembro de 2006 de dos produtos, qualidade de vida
nâmico de Desenvolvimento Rural e que contou com a participação de para os que trabalham neste sistema
(IBD), de Botucatu, São Paulo, é uma 21 países. e respeito ao que é possível extrair
instituição cujo selo de certificação em sua propriedade sem desgastar o
tem aceitação internacional, pela me- Assim, segundo Ming, “as possibili- meio ambiente, a terra, nem criar con-
todologia que emprega, como o dades de desenvolvimento são pro- dições artificiais que superem o limi-
acompanhamento rigoroso do culti- porcionais ao que o país pode ofere- te natural da produção”, explica o es-
vo e as análises dos produtos. cer ao mercado e ao que o mercado pecialista paranaense.
externo tem de demanda. O Brasil é
Cosméticos, chá mate, tilápias,
óleo vegetal, sucos de frutas, açú- Os riscos da
car mascavo e café orgânicos fo-
ram algumas ofertas brasileiras
Produção orgânica: grande produção
menor quantidade,
na feira internacional Biofach- maior qualidade comercial
América, em Baltimore, nos Es-
tados Unidos, em outubro de É uma posição contrária ao
2006. Um dos resultados foi um do agronegócio, o qual, di-
contrato para distribuição de 40 ante da exigência comercial
orgânicos brasileiros numa rede de altas taxas de produtivi-
de lojas especializadas na costa dade, incorporou como ele-
oeste dos EUA, atestando o cres- mentos das culturas agríco-

foto: Rodrigo Azevedo / Ag. O Globo


cimento do mercado e a aceita- las e da criação animal um
ção dos nossos produtos. A mar- sem número de compostos
ca Jasmine exportará cookies, químicos capazes de extin-
feijão, soja, arroz, açúcar e fari- guir as formas de vida que
nha; a Nutrimental, barra de ce- afetam o desenvolvimento
reais; a Renks, frutas exóticas em das plantas ou que provo-
barras; a Ecoçucar, açúcar mas- cam doenças nos reba-
cavo; a Fazenda & Casa, legumes nhos. Ao lado das práticas
em conserva, e a Tradeland, mel. do melhoramento de se-
Os japoneses, por sua vez, já be- mentes e de raças animais,
bem saquê produzido lá, mas a da mecanização e da adu-
partir de arroz orgânico importa- bação química, o aperfeiço-
do de pequenas propriedades do amento dos agrotóxicos,
noroeste fluminense, e em bre- vacinas animais e aplicação
ve poderão estar consumindo de hormônios permitiram
quantidades significativas do chá uma maior produtividade
mate, que fez sucesso em recen- da agricultura e da pecuá-
te feira realizada em Tóquio. ria, em prejuízo da qualida-
de natural.
Segundo Ming Liu, gestor do pro-
jeto OrganicsBrasil, que une pro- Nesses alimentos, identifi-
dutores nacionais e agências ofi- cam-se restos químicos que
ciais de promoção de exportações, o hoje o sexto maior país com área cul- se tornam fontes potenciais de rea-
campo está aberto para os brasileiros, tivada com base orgânica, com cerca ções alérgicas, respiratórias, distúrbi-
que, por enquanto, movimentam ape- de 850 mil hectares, mas participa com os hormonais, problemas neurológi-
nas 250 milhões dos 27 bilhões de menos de 1% do que o mercado cos e até mesmo câncer.
dólares anuais do negócio mundial de mundial movimenta, que está em tor-
orgânicos. “O Brasil se vende pela no de 27 bilhões de dólares. Assim, Maior quantidade da produção, maior
imagem e extensão territorial. A qua- as perspectivas de participar deste segurança de alimentação para o
lidade dos produtos, o apelo da pre- mercado vão depender da qualidade mundo. Esta conclusão animadora,
servação da natureza, da biodiversi- dos produtos, de como a cadeia pro- porém, está em xeque hoje em dia.
dade e o processo de agricultura fa- dutiva vai conseguir agregar valor aos Primeiro, porque o aumento da pro-
miliar encantam os estrangeiros. A produtos para o mercado externo. dução mundial de alimentos não ga-
cada feira internacional ampliamos Orgânicos não comercializam volu- rantiu o acesso a uma quantidade mí-
nossa participação e os negócios”, me, não têm preços cotados em bol- nima de comida diária por parte de
disse Ming Liu, durante a Biofach Ja- sas mundiais ou pregões eletrônicos, todos os habitantes do planeta.

Senac e Educação Ambiental 37 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


Produtos alternativos têm permitido
reduzir os defensivos agricolas

prato do consumidor resquícios dos


venenos utilizados no cultivo.

Já o princípio número um da agricul-

foto: Nilton Fukuda/Ag. Estado


tura orgânica é o de utilizar apenas
técnicas naturais, que evitem o uso
de artificialismos tóxicos que agridam
seja a terra ou as águas, seja o próprio
vegetal ou a criação. Com isso, ofere-
ce-se uma produção limpa e garante-
se ao solo condições de equilíbrio.

Esta filosofia ambiental procura res-


peitar o ciclo da natureza, onde o que
nasce beneficia-se da reciclagem do
que morreu e vai ele próprio cumprir
seu destino de amadurecer e voltar a
Além disso, ao lado da quantidade, avançam por São Paulo, chegam ao Pa-
fertilizar a terra, devolvendo a ela os
tornou-se imperiosa a exigência da raná e Minas. No final do século XX,
nutrientes que consumiu. Assim, todo
qualidade. Dispor de maior quantida- surge a soja, nova necessidade inter-
resíduo é fonte de fertilização, desde
de de alimentos a preços mais bara- nacional, que desloca culturas antigas
o capim que virou estrume e que, de
tos continuará sempre a ser uma ou expande suas lavouras substituin-
volta à terra, vai se decompor em mi-
meta, mas, ao longo das últimas dé- do outras porções de florestas.
cronutrientes para as plantas, até res-
cadas, constatou-se que a forma mais
Dedicado a fornecer quantidades cada tos como folhas, galhos, frutas apo-
química de produzir pode sair caro para
vez maiores à fome internacional, o drecidas. Tudo fertiliza a terra por pro-
a saúde da humanidade: resquícios
agronegócio in- cessos naturais,
dos agrotóxicos e dos remédios e
corpora o máxi- em que os micro-
hormônios animais terminam, de al-
mo de elemen- organismos que
guma forma, afetando a saúde de
tos químicos decompõem a
quem consome tais produtos. Casos
(defensivos, matéria orgânica
extremos, como a chamada “doença
adubos, vacinas atuam direta-
da vaca louca” – resultante da forma
animais, hormô- mente na melho-
artificial de alimentar os rebanhos –
nios) úteis para ria das condições
alertaram os próprios governos para
do solo, tornan-
foto: Roberto Stuckert Filho / Ag. O Globo

a necessidade de maior rigor nas le- garantir a produ-


tividade e vencer do-o mais fértil.
gislações relativas à produção de co-
mida, diante do risco de doenças no- a competição
Este é o aspecto
vas surgirem e até mesmo provoca- com outros pro-
ambiental favorá-
rem epidemias ao redor do mundo. dutores. Pela ex-
vel que distingue
tensão de certas
esse modo de
A forma moderna de produzir alimen- lavouras, vene-
produzir, no qual
tos incorporou os laboratórios cientí- nos agrícolas
a terra fica livre
ficos como um instrumento indispen- chegam a ser es-
das doses cumu-
sável, deixando em segundo plano os palhados de
lativas de produ-
métodos tradicionais, que, ao longo avião, como nu-
tos químicos
dos milênios, caracterizaram a agro- vens, matando
agressivos que a
pecuária como uma atividade depen- as pragas, mas,
agricultura co-
dente da transmissão do conhecimen- igualmente, con-
mercial incorpo-
to de pai a filho. O avanço científico taminando os Transgênicos:
rejeitados em rou a seus méto-
tornou-se excessivamente caro para produtos e o
diversos dos rotineiros.
o agricultor individual, enquanto via- meio ambiente
países, como o Segundo os produtores, a adubação
bilizava a grande produção empresa- (terra, rios, vege-
Japão natural orgânica melhora as condi-
rial, o chamado agronegócio, afetan- tação, animais,
ções da terra, tornando-a mais fofa,
do até as estruturas de posse da terra insetos), e afe-
porosa, dotada de maior capacidade
dos principais países produtores de tando a saúde dos lavradores.
de absorção da água e do ar, refor-
alimentos.
çando o ciclo natural da fertilidade e
A atração do chamado mercado mun- sustentando o equilíbrio ambiental.
Orgânicos preservam
dial sempre comandou esse tipo de
negócio, caracterizado pela busca de o ambiente A forma ecológica de produzir tem se
caracterizado no país por ser pratica-
altos volumes exportáveis. No caso
A agricultura orgânica está se intensi- do em pequenas propriedades, o que,
brasileiro, florestas cederam lugar a in-
ficando e se organizando a partir da se por um lado representa certa limi-
finitas plantações de cana-de-açúcar, no
crescente conscientização dos male- tação ao volume de produção, por
Nordeste, já na primeira fase de coloni-
fícios comprovados ou potenciais da- outro lado significa uma especializa-
zação, no século XVI, e depois vieram
quela produção agroquímica de gran- ção com mercado em crescimento e
os pastos para gado, os cafezais andan-
de escala, a qual acaba levando ao retorno garantido.
tes, que começam no Rio de Janeiro,

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 38 Senac e Educação Ambiental


Na visão de Ming Liu, “a produção fa- migração para as periferias e favelas de repercussão na agricultura familiar.
miliar sem dúvida limita o volume, mas das grandes cidades. Apontam os programas de aquisição
temos de explorar esta característica de alimentos dos governos, seja para
pelo seu lado positivo. Um das for- Como se sabe, a agricultura comerci- os programas sociais, seja para a me-
mas seria estimular a associação de al extensiva, em geral dominada por renda escolar. Esta, em âmbito nacio-
famílias, criando-se pequenas coope- monoculturas de exportação, como a nal, representa, segundo os cálculos,
rativas de produção, capacitando-as soja, acaba absorvendo pequenas o maior programa de aquisição de ali-
para criar a cultura de empreendedo- propriedades e avançando sobre mentos do país. Se os orgânicos pas-
rismo conjunto e, a partir daí, ter con- áreas de florestas. sassem a ser incluídos, as crianças
dições de se desenvolverem em uma teriam um alimento mais saudável e
escala maior, mas sem perder as ba- a produção orgânica das pequenas
ses de sua origem. Já observamos Falta ainda uma propriedades receberia um estímulo
capaz de provocar uma pequena re-
esse processo em algumas regiões legislação adequada volução econômica pelo aumento de
onde o conceito de produção orgâni-
ca tem se desenvolvido. Este proces- produção, pela redistribuição de ren-
Ming Liu destaca que a conscien-
so serve até de aprimoramento tec- tização crescente no país da impor- da e pelo oferecimento de empregos.
nológico, com a troca de experiências tância dos orgânicos já cria condições Ming Liu conta que a tendência é de
em torno de diferentes problemas na de expansão para os produtores, em- crescimento dessa produção, mas
produção”, explica. bora hoje o principal mercado seja o falta ainda uma legislação adequada:
externo, onde o consumidor possui “A ampla veiculação na mídia dos pro-
Ainda segundo Liu, outra forma de um nível de renda que lhe permite
transpor a limitação de uma produção dutos orgânicos, seu crescimento,
fazer a opção por produtos sem quí- suas margens altas de remuneração,
em escala familiar é procurar desen- micas, sem se ver limitado por ques-
volver produtos diferenciados, de seu público, têm chamado a atenção
tões de preços. Para o pequeno pro- a muitos produtores e empresas, que
modo a realçar as qualidades do pro- dutor nacional que entra nessa cadeia
cesso. “Exemplo desses dois casos enxergam a conversão para o siste-
de comercialização, via cooperativas ma orgânico como uma saída para as
– assinala – é uma cooperativa de pro- ou apoio de agências de fomento, o suas crises financeiras. Mas falta
dutores nos Estados Unidos, chama- retorno é compensador, pela remu- ainda uma legislação para o setor.
da Organic Valley, que hoje comerci- neração em dólar. Desde 1999, criaram-se portarias e
aliza desde frutas e iogurtes a carnes
normas, mas a legislação ainda está
e produtos processados, que têm dis- Foi o caso dos produtores flumi-
nenses de arroz, na empobrecida re- em discussão e não foi sancionada.
tribuição em âmbito nacional. São
De outro lado, o produtor tem rece-
cerca de 700 famílias, localizadas em gião do noroeste do estado. Ao opta-
rem pela produção orgânica, associa- bido apoio governamental, seja atra-
diferentes estados, mas que, manten-
ram-se em cooperativa e contaram vés de programas nacionais, como
do suas bases de produção, origem e
o Pró-Orgânico e o Programa de
filosofia, criaram uma marca nacional com orientação do Sebrae para bus-
car mercados. Os grãos viraram um Agricultura Familiar (Pronaf), do Mi-
de comercialização, ressaltando as ca- nistério do Desenvolvimento Agrá-
racterísticas de cada região em cada saquê absolutamente natural nas ta-
rio, e até de governos e entidades
linha de produtos. Isto faz com que o ças do consumidor japonês e, no cai-
xa dos plantadores, depositaram dó- de capacitação técnica estaduais.
consumidor compre de forma cons- Isto, porém, ainda não é suficiente
ciente, sabendo que está contribuin- lares que afastaram os fantasmas da
para um setor que tem demonstra-
do para uma produção local de quali- crise que eles viviam.
do crescimento e que necessita de
dade e sem contaminantes ou ingre- uma normatização, para que possa
Os cultivadores orgânicos acreditam
dientes artificiais.” se desenvolver no futuro de forma
que um interesse maior dos gover-
nos poderia ser um impulso de gran- sustentável”, reclama Ming Liu, ges-
Conhecimentos da produção orgâni-
tor do OrganicsBrasil.
ca, especialização, cooperativismo,
certificação e adoção de técnicas ade-
/Ag. Estado

quadas de comercialização formam,


Feiras livres: consumi-
assim, um conjunto de atitudes capa-
dor não sabe quais e
zes de ampliar a viabilidade da agri- quanto agrotóxico os
cultura familiar, que dispõe de peque- produtos levam
Luiz Ferreira

nas porções de terra para seu traba-


lho e, em geral, nenhum recurso para
investimentos.

No caso brasileiro, uma política indu-


foto: Renato

tora de cultivos e comercialização de


orgânicos poderá ser uma forma de
dinamizar a agricultura familiar, o que
representaria produtos de qualidade,
preservação de empregos e movi-
mentação econômica em áreas hoje
estagnadas, com a conseqüente fixa-
ção do homem no campo e menor

Senac e Educação Ambiental 39 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


Na Amazônia, pobreza e meio
ambiente viram Poema
Poema
Parceria entre os setores público e privado e organizações não-
governamentais nacionais e estrangeiras dá origem a um projeto que
busca propiciar melhor qualidade de vida aos povos tradicionais da
Amazônia, aliada à preservação do meio ambiente

Fotos e texto: João Roberto Ripper

Só em uma
comunidade Poema – segundo o dicionário, “com-
beneficiada pelo posição poética de certa extensão”.
Poema, quase 400 Poema – projeto amazônico que se
pessoas partici- traduz pela união dos pobres em fa-
pam da coleta de vor do meio ambiente. Poema – uma
açaí forma de ação conjugada nos fortes
braços dos ribeirinhos e de outros tan-
tos povos da Amazônia que dedicam
seu amor e suas vidas à causa da flo-
resta, por simbiose, causa e conse-
qüência. Poema – cotidiano das mu-
lheres da mata, que se misturam com
árvores e sementes e fazem nascer
novos frutos. Preservação da nature-
za com organização social, geração de
renda e aumento da auto-estima. En-
fim, uma vida mais feliz, num ambi-
ente mais saudável, é a grande vitó-
ria do projeto Pobreza e Meio Ambi-
ente na Amazônia (Poema).

Nascido e fortalecido no aconchego


de uma linda casa de madeira às mar-
gens do rio Guamá, o Poema é um
projeto vinculado à Universidade Fe-
deral do Pará (UFPA), por intermédio
do seu Núcleo de Meio Ambiente da
Amazônia (Numa). Criado em 1992,
seu objetivo é gerar pesquisas e re-
plicar experiências em auto-susten-
tação dos povos pobres da região e
em defesa da Amazônia, por meio da
extração, beneficiamento e comerci-
alização dos bens renováveis da na-
tureza. Dessa maneira, busca conter
o desmatamento e o uso de agrotóxi-
cos, ao mesmo tempo em que gera
renda e meios de auto-sustentação
para as famílias pobres da região.

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 40 Senac e Educação Ambiental


Thomas Mitschein, sociólogo alemão agricultores passassem a conviver ou de uma célula solar, produz-se
que vive no Brasil há mais de 20 anos, com a floresta e jamais contra ela. uma corrente elétrica. Começa, assim,
foi um dos idealizadores e fundado- um processo eletroquímico que trans-
res do projeto. Numa época em que O Poema caiu como uma luva nas forma os componentes do sal em hi-
quase ninguém nos países desenvol- mãos dos moradores amazônicos, poclorito germicida, matando os ger-
vidos ou mesmo no interior da Ama- pois é forjado a partir das necessida- mes. Mesmo o morador que não dis-
zônia falava das possibilidades comer- des dos próprios habitantes locais. ponha de energia elétrica pode con-
ciais e industriais de projetos auto- Desde o princípio, o projeto mostrou seguir esse efeito com o uso da ener-
sustentáveis, a equipe de Thomas a sua natureza democrática e partici- gia solar.
começou a desenvolver seu trabalho pativa. A sua implementação come-
em parceria com pesquisadores das çou com a escolha de quatro comuni-
cidades alemãs de Stuttgart e Ulm. dades representativas da região. A Valorização das
partir de reuniões com os moradores,
Dez anos depois, o projeto Poema foram levantados os principais pro-
vocações locais
ganhou repercussão em várias partes blemas e aspirações, e traçadas me- Nazaré Imbiriba, uma das idealizado-
do mundo, com a reintrodução de fi- tas baseadas na realidade e nas de- ras do Poema, é doutora em Direito
bras naturais na indústria automobi- mandas dessas comunidades Internacional e responsável
lística na Europa, a come- pelas várias parcerias inter-
çar pela Alemanha, com a nacionais conquistadas
empresa Daimler Chrysler, pelo projeto, ultrapassando
que desde 1992 tem in- as fronteiras do meio aca-
vestido no projeto. A idéia dêmico. Segundo Nazaré,
do uso da fibra natural em hoje o Poema atua em 106
empresas automotivas já dos 143 municípios paraen-
chegou a outros países, ses, beneficiando mais de
como a África do Sul, e ten- 16 mil pessoas por intermé-
de a se expandir com o dio de diferentes subproje-
crescimento de um consu- tos, incentivando a mobili-
mo mais consciente, do zação e a auto-organização
ponto de vista ecológico. das comunidades pobres
da floresta por meio de es-
tratégias inovadoras de
O início do atendimento às suas ne-
projeto cessidades básicas.
Piscicultura: projeto gera trabalho e renda
Para a criação do projeto Po- “O projeto ajuda na identifi-
ema, Thomas colheu inspiração nas cação e valorização das vocações pro-
favelas paraenses. Na ocasião, conhe- Um dos principais problemas – co- dutivas, econômicas, ecológicas e cul-
ceu vários pequenos produtores que mum a várias comunidades – era a turais, gerando e transferindo às co-
não tinham conseguido sobreviver da questão da água. Embora a Amazônia munidades tecnologias e metodologi-
lavoura na Amazônia com a utilização seja privilegiada pela abundância de as que respondam às suas próprias de-
dos métodos convencionais de tra- água, a região sofre de grande escas- mandas”, explica Nazaré, carinhosa-
balhar a terra. Vendo pobreza intensa sez de água potável, o que resulta em mente chamada de “ministra das rela-
e até fome, o sociólogo teve a idéia inúmeras doenças. Cerca de 60% das ções exteriores” do Poema. “Além dis-
de criar um projeto pelo qual os agri- enfermidades tratadas nos hospitais so”, acrescenta, “fornece subsídios bá-
cultores pudessem sobreviver da ter- paraenses são conseqüência do con- sicos para a definição de prioridades
ra, sem precisar emigrar para os gran- sumo de água contaminada. de planos, programas ou projetos mu-
des centros, onde estariam condena- nicipais ou estaduais, contribuindo para
dos, na maior parte das vezes, a viver A partir desse diagnóstico, o Poema integrar as diferentes instâncias admi-
em extrema pobreza em favelas da iniciou um dos seus primeiros proje- nistrativas”.
periferia. tos: aproveitar a oxidação anódica na
produção de água potável asséptica. O Poema incentiva e desenvolve a
Para esse trabalho dar certo, era im- A explicação prática para esse nome cooperação e o intercâmbio entre pro-
portante apostar no conceito de inte- tão complicado é simples: a água é gramas que tenham como principal
ração entre a mata e o homem, por colocada em tanques com uma arma- objetivo a superação da pobreza e a
meio do aproveitamento dos bens ção de madeira, onde se instala uma proteção do meio ambiente na Ama-
naturais renováveis e da recuperação bomba de sucção. Acrescenta-se sal zônia. Também trata de elaborar e
do solo, de forma que os pequenos na água e, por meio de uma bateria implementar estratégias, a partir das

Senac e Educação Ambiental 41 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


especificidades do meio natural e so- gena, desenvolvido em parceria com
ciocultural, na definição das modali- o governo estadual.
dades de integração da Amazônia no
contexto global, incentivando a des- “Antes, nossa cultura agrícola era ou-
centralização do planejamento. O pro- tra. Só conhecíamos a queimada.
jeto busca, ainda, criar pontes entre a Hoje, recuperamos o solo com legu-
produção e o beneficiamento de pro- minosas e o tratamos como uma ter-
dutos naturais para viabilizar a con- ra que se renova. Aprendemos no-
quista de novos mercados. vas culturas, como a criação dos pei-
xes. Agora, os viveiros estão cheios
Hoje, o Poema tem 65 profissionais e vai dar pra comercializar. Além dis-
atuando nos seus vários projetos e so, temos o mel de abelha e o benefi-
ramos produtivos. Entre eles, estão ciamento do açaí, e a mulherada tá
desde engenheiros florestais, soció- firme no artesanato”, diz Francisco
logos e agrônomos até químicos, bió- Araújo da Silva, presidente da Asso-
logos, geógrafos, antropólogos e téc- ciação dos Agricultores Quilombolas
nicos agrícolas. Ao chegar à popula- da Comunidade de Santa Maria de Ita-
ção, o relato das pesquisas vira uma coã Mirim.
discussão prática de sua implantação
na floresta. Thomaz Mitschein ressal- Francisco explica que a maioria da
ta: “Temos que ter um mínimo de população da comunidade tem até 40
humildade para reconhecer que o co- anos e que o número de jovens e cri-
nhecimento da comunidade é impor- anças é grande. “Temos um grupo de
tante e o desenvolvimento sustentá- 40 mulheres quilombolas da comuni-
vel exige o diálogo entre os sistemas dade vizinha Guajará Mirim que são
de conhecimento da universidade e nossas associadas. Elas trabalham na
o da população rural”. piscicultura, desenvolvem um proje-
to de cultivo de galinhas, fizeram cur-
so de corte e costura e algumas ainda
Melhor qualidade trabalham na roça com os maridos.”
Uma das vertentes do projeto é o
de vida A comunidade tem ainda a Associa- aproveitamento das frutas locais
ção Filhos de Zumbi, cujo presidente
Na comunidade quilombola Itacoã é José Maria Alves Monteiro, 51 anos,
Mirim, distante 300 quilômetros de casado, pai de quatro filhos e que tra-
balha junto com Francisco. José ex- já temos 12 mil peixes”. Uma parte
Belém, a tradição era queimar a terra
plica que a associação foi fundada para dessa produção é vendida nas comu-
para plantar e produzir carvão vegetal
regularizar as terras de Guajará Mirim nidades vizinhas, outra parte é comer-
com o objetivo de vender e ajudar no
e Itacoã Mirim. “Conseguimos a re- cializada em duas feiras livres na uni-
sustento das famílias. Tais práticas
gularização em novembro de 2003, versidade. Ao todo, são 32 famílias
garantiam a sobrevivência da comu-
mas desde 2001 já temos o reconhe- produtoras na comunidade.
nidade, mas eram nocivas à natureza
da qual toda a comunidade depende. cimento de nossa área como área O grupo participa também do projeto
Os 450 moradores viram suas vidas quilombola.” Orgulhoso, ele conta: de manejo de açaizal. “O açaí ainda é
mudar quando o Poema começou a “Trabalhamos também com o projeto pouco, mas tem mulher espalhada por
fazer parte da comunidade em 2003, de geração de renda e preparação de todos esses rios da Amazônia, colhen-
por meio de um programa de resgate futuros dirigentes. Também nos de- do açaí, subindo nas árvores. É bonito
das raízes das culturas negra e indí- dicamos à piscicultura de tambaqui e de ver”, diz José, assegurando que, em
breve, poderão comercializar e consor-
ciar açaí e cacau com madeiras de lei.
O trabalho é feito em mutirão, uma vez
por semana, e já soma 400 pessoas
das duas comunidades, num total de
97 famílias. Outro grande projeto é o
da priprioca, planta cuja batata é apro-
veitada como aromatizante em perfu-
mes e outros produtos.

Projetos se
multiplicam
As mulheres têm
participação Uma imensa aliança está escrevendo
expressiva em a história do dia-a-dia do Poema: o
todos os projetos setor público, o privado e as organiza-
ções não-governamentais (ONGs)

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 42 Senac e Educação Ambiental


Os responsáveis pela
devastação da floresta
O jornalista Rainer Osnowski é um dos alemães que se engajaram no
Poema como forma de lutar tanto pela preservação da Amazônia como
por uma vida melhor para seus moradores. Em seu livro Poema, ele
aponta que os maiores predadores da natureza são os grandes projetos
industriais (por exemplo, os de extração de ferro nas minas de Carajás
e de produção de alumínio), bem como os gigantescos projetos de
represamento para distribuição de energia elétrica.

No livro, que tem a parceria fotográfica de Manfred Link, Rainer respon-


sabiliza também as madeireiras e os grandes fazendeiros como res-
ponsáveis pelo desmatamento da região, um processo que, segundo
ele, chega a cerca de 2 milhões de hectares por ano, o equivalente a
sete campos de futebol derrubados ou queimados por minuto.

Além dessas denúncias, seu livro traz à tona um aspecto pouco conhe-
cido da Amazônia: o fato de que os pequenos agricultores seriam res-
ponsáveis por cerca de um terço da devastação da floresta. Segundo
Osnowski, milhares desses agricultores vêm mantendo uma relação
predadora com a natureza, já que muitos deles vieram de outras regiões
– incentivados por promessas de antigos governos e acreditando numa
vida próspera na Amazônia – e não criaram vínculos com os povos, a
cultura e a história da região.

O problema é que eles mantêm uma produção itinerante, realizando


derrubadas e queimadas para preparar a terra, sem nenhum grande
conhecimento das características do solo. Depois de dois anos nesse
compõem a grande rede de parceri- esquema, a terra não está mais produtiva para o cultivo tradicional, pois
as, nacionais e internacionais, que se esgota a camada fina de húmus, e a cobertura protetora vegetal
buscam uma melhor qualidade de vida original é destruída. As fortes chuvas tropicais fazem o trabalho final de
para os povos amazônicos, aliada à destruição, varrendo o solo superior e deixando apenas uma paisagem
preservação da natureza. erosiva. Esses pequenos trabalhadores abandonam, então, o local e
vão promover a derrubada em outra área da floresta.
Essa aliança dá novos frutos a cada
ano. Em 1995, foi criado o Poemar - Rainer assinala que o ciclo se completa quando esse trabalhador rural
Núcleo de Ação para o Desenvolvi- se vê obrigado a abandonar a Amazônia para tentar a vida numa cidade
mento Sustentável, com o objetivo grande, inchando as favelas das periferias. Isso explicaria por que o
de dinamizar as ações do programa. Pará, segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Esta-
Nesse sentido, também surgiu o Pro- tística (IBGE), entre 1991 e 2000, foi o estado que apresentou maior
grama Regional Bolsa Amazônica, um índice de crescimento de favelas em todo o país.
mecanismo de capacitação, informa-
ção e promoção de negócios susten-
táveis que envolve os países amazô-
nicos. Em 2001, nasceu o a Poema-
coop, cooperativa mista de técnicos
e produtores rurais que procuram di-
namizar as atividades agroindustriais
dos pequenos agricultores.

Naquele mesmo ano, foi criado a Po-


ematec, fruto de um convênio de co-
operação entre a UFPA, por intermé-
dio do Poema, e a empresa alemã
Daimler Chrysler AG (então Daimler
– Benz AG), com apoio do Instituto
Paranaense de Assistência Técnica e
Extensão Rural (Emater), da Secreta-
ria de Desenvolvimento do Municí-
pio de Belém e da Secretaria de Agri-

Senac e Educação Ambiental 43 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


O Projeto Poema tem
vários subprojetos de
auto-sustentação, que
envolvem toda a
comunidade

cultura do Pará como participantes do nidade de Moju, nas beiras do rio ho- papel volta para perto da mata à qual
projeto. Fábrica mais moderna do mônimo, no norte do Pará, já recebeu já pertenceu um dia. A matéria é le-
mundo na construção de artefatos de 100 mil mudas para cultivar. É o início vada para Abaetetuba, onde 16 arte-
fibra de coco e látex, a Poematec é o de uma nova cadeia produtiva criada sãos criam diversos produtos com
ponto final de uma cadeia produtiva pelo Poema. Além do curauá, outras diferentes cores e texturas, como cai-
sustentável no estado do Pará. O ci- matérias-primas são utilizadas tam- xas, agendas, luminárias, biombos e
clo começa na coleta de recursos na- bém na confecção desses produtos. porta-retratos.
turais que, depois, são processados Entre elas, destacam-se vários outros
em oito unidades de beneficiamento tipos de fibras, frutos e raízes. Os papéis são feitos com a mão e o
da casca de coco, todas no estado do coração, a partir de plantas nativas
Pará e todas administradas por coo- Quando a fibra vem de uma comuni- como urucum, mangarataia, verônica,
perativas comunitárias. dade rural amazônica, é recebida em coco forte, muriqui, mucilage e açaí.
uma linda casa histórica do século Tem também miriti, fibras várias, vas-
Em relação ao látex, o processo co- XVII, pertencente à Universidade Fe- soura, capa de palito, coco seco e
meça em uma plantação de seringa deral de Belém. Nesse local, ela é cana. Em respeito ao ciclo da nature-
revitalizada, localizada em um assen- transformada em papel por caboclos za, alguns papéis só são produzidos
tamento de reforma agrária onde são amazônicos, em sua maioria treina- na safra da matéria-prima. Em cada
empregadas mais de 500 pessoas. A dos no Japão por meio da Agência de papel de fibra, registram-se um poe-
partir daí, o material chega na fábrica Cooperação Internacional do Japão ma e um testemunho de amor por um
e é tratado até se transformar no pro- (Jica). mundo mais civilizado.
duto final e ser comercializado na for-
ma de assentos e bancos de automó- Como a própria natureza que se reno- Para conhecer mais o projeto, aces-
veis, substituindo produtos à base de va, quando a fibra se transforma em se: http://www.ufpa.br/poema
petróleo, como a espuma de poliure-
tano. Esses materiais apresentam vá-
rias vantagens em relação aos produ- A confecção de papel e objetos de
tos dos concorrentes, como mais con- arte trouxe uma fonte de renda
forto e a possibilidade de uma poste- para as mulheres da região
rior reciclagem e biodegradação. A
produção atual é de 20 toneladas por
mês, mas a fábrica está preparada para
chegar a 80 toneladas/mês.

Outro subprojeto do Poema é a Ama-


zon Paper, empresa que utiliza maté-
ria-prima da floresta para a confecção
de papel e objetos de arte. Um dos
produtos utilizados é o curauá, uma
espécie de abacaxi, parente próximo
do ananás, que gera uma das fibras
mais resistentes do mundo. A comu-

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 44 Senac e Educação Ambiental


90% das lagoas e
rios são abasteci-
dos por águas
subterrâneas

foto: Carlos Carvalho


Novos estudos começam a apontar o real potencial e limites do que é considerado “o maior mar
subterrâneo de água doce do mundo”, um manancial que atravessa Brasil, Argentina, Uruguai
e Paraguai, e pode se tornar uma das principais fontes de água potável do continente

Enrique Blanco

Muitos equívocos relacionados ao lo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso envolvidos em estudos e pesquisas
Aqüífero Guarani decorrem da com- e Mato Grosso do Sul. de campo para avaliar as reais possi-
plexidade hidrogeológica dessa reser- bilidades desse recurso natural.
va multinacional de água, definida De acordo com dados da Agência
como Sistema Aqüífero Guarani Nacional de Águas (ANA), o aqüífero O Projeto de Proteção Ambiental e De-
(SAG), que se estende, de forma des- abrange centenas de cidades brasi- senvolvimento Sustentável do Sistema
contínua, por cerca de 1,2 milhão de leiras de médio e grande porte, dis- Aqüífero Guarani (PSAG) é a principal
quilômetros quadrados nos territóri- pondo de um volume aproveitável de iniciativa nesse sentido e desenvolve
os de quatro países: Brasil, Argenti- água 30 vezes superior à demanda da um sistema integrado de informação e
na, Paraguai e Uruguai. O Brasil de- população existente em sua área de gestão com o apoio do Fundo para o
tém 840 mil quilômetros quadrados ocorrência. Diversos órgãos governa- Meio Ambiente do Banco Mundial, da
do megarreservatório divididos pelos mentais e não-governamentais, enti- Organização dos Estados Americanos
seguintes estados: Rio Grande do dades de classe, centros de pesqui- (OEA), dos comitês de bacias hidrográ-
Sul, Santa Catarina, Paraná, São Pau- sa, universidades e institutos estão ficas e de agências de cooperação.

Senac e Educação Ambiental 45 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


Iniciado há oito anos, o Instituto Brasileiro de Ge-
projeto já passou por qua- ografia e Estatística
tro fases: concepção (IBGE), 51% da população
(1999–2000), preparação brasileira capta água des-
(2000–2001), negocia- ses reservatórios subter-
ção (2002–2003) e exe- râneos, incluindo o aqüífe-
cução (de 2003 até hoje). ro.
Com previsão de térmi-
no no fim de 2008, o pro- Esse fato tem motivado

foto: Carlos Carvalho


jeto apresentará aos qua- mais pesquisas acerca do
tro países participantes real potencial do reserva-
um marco técnico, legal tório. Com o objetivo de
e institucional, baseado sistematizar os estudos,
Lixo e efluentes industriais pesquisadores estão de-
em informações concre-
podem contaminar o Guarani senvolvendo o macrozo-
tas para a gestão integra-
da, sustentável e ambi- neamento do SAG, levan-
ental do SAG. do em conta característi-
vernamentais. Somente no Brasil, exis- cas como o nível de pro-
As atividades do projeto têm sido tem 55 instituições representadas e fundidade do aqüífero em diferentes
coordenadas, de forma conjunta, pelo integradas. Essa complexa organiza- locais; grau da qualidade química das
Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, ção permite sistematizar os trabalhos águas; potencialidade aqüífera (a ca-
por meio de suas respectivas Secre- técnicos e científicos, tais como cole- pacidade de vazão varia entre um mi-
tarias Nacionais de Meio Ambiente. ta de dados, instalação de instrumen- lhão de litros por hora até a improduti-
Segundo o secretário geral do PSAG, tos de aferição e análise hidrogeológi- vidade ou inacessibilidade do reser-
Luiz Amore, “a extensão para fins de ca e química dos poços, definição das vatório em determinadas zonas); ca-
2008 nos permitirá chegar com uma áreas de recarga e descarga e análise racterísticas geológicas; condições
contribuição ao conhecimento cientí- da potabilidade da água. geotermais, definidas pela temperatu-
fico e técnico sobre o Sistema Guara- ra das águas, que são aproveitadas para
ni absolutamente inédita. O Progra- A elaboração de relatórios e estudos o turismo hidrotermal e indústrias.
ma de Ações Estratégicas, produto fi- de caso vem consolidando informa-
nal do projeto, poderá incorporar mui- ções sobre as características e o po- A partir dos dados obtidos até agora,
to mais informações, transformando-o tencial do aqüífero e fornece subsídi- calcula-se que, aproximadamente,
em uma ferramenta muito útil à ges- os a atividades mais específicas, como 90% do aqüífero é coberto por rochas
tão do aqüífero pelos quatro países”. explica o secretário de Recursos Hí- basálticas, que mantêm as águas na-
dricos do Ministério do Meio Ambi- turalmente protegidas. Essa proteção,
O início das atividades do PSAG ocor- ente, João Bosco Senra, responsável no entanto, não garante a potabilida-
reu com a implementação de projetos nacional do PSAG: “Foi criado o Fun- de da água confinada, em virtude da
piloto, localizados em quatro áreas crí- do de Cidadania para fomentar proje- presença de altos índices de sulfatos
ticas (hot spots) com características di- tos da sociedade civil com o tema e outros componentes químicos (ver
versificadas de cada região. No Brasil, ‘Educação ambiental e divulgação dos boxe: “Os mitos”).
foram escolhidas as cidades de Ribei- conhecimentos sobre o Sistema Aqü-
rão Preto (SP), onde o aqüífero é a prin- Na parte menor do reservatório (cerca
ífero Guarani’, visando à conscienti-
cipal fonte de abastecimento da po- de 10% da área), surgem as chama-
zação sobre a proteção e o desenvol-
pulação da cidade, e Santana do Li- das zonas de afloramento, que borde-
vimento sustentável do Aqüífero.
vramento (RS), em virtude da pouca pro- jam o aqüífero. “Como são mais rasas,
Além disso, o projeto apóia a tramita-
fundidade do reservatório, por ser área a perfuração de poços é facilitada. Em
ção da resolução do Conselho Esta-
de recarga e por concentrar atividades alguns casos, esses locais já foram
dual de Recursos Hídricos de São Pau-
poluentes. No Uruguai, a cidade de Ri- explorados há quase cem anos”, es-
lo, que pretende criar áreas de restri-
vera foi incluída, pois apresenta caracte- clarece o geólogo José Machado.
ção à perfuração de poços tubulares
rísticas semelhantes a Santana do Livra- profundos em Ribeirão Preto. Tam- Tais características estimulam a per-
mento, e a cidade de Salto, por ser con- bém editamos um Manual de Perfu- furação desordenada de poços arte-
siderada área crítica e importante região ração de Poços Tubulares Profundos sianos, tanto clandestinos como ca-
turística com exploração das águas ter- no SAG, a fim de ordenar e controlar dastrados, o que traz prejuízos ambi-
mais. Por esse mesmo motivo (uso geo- a perfuração de poços”. entais ao aqüífero. Ao serem desati-
termal), Concórdia, na Argentina, cons-
vados, esses poços servem como
ta no plano piloto, e também a cidade
dutos condutores de diversos tipos
paraguaia de Itapuá, pois é importante O risco de de resíduos para o interior do manan-
área de exploração agrícola.
contaminação cial. Somente no Estado de São Pau-
As Unidades Nacionais de Execução lo, estima-se que há cerca de mil po-
do Projeto de cada país e suas res- O papel estratégico dos mananciais ços desativados. Como esse número
pectivas coordenações nacionais ar- subterrâneos para o sistema hídrico só tende a aumentar, os riscos de po-
ticulam os órgãos federais e estadu- do país confere ao Aqüífero Guarani luição do reservatório se ampliam
ais com as associações da sociedade um lugar fundamental no desenvol- consideravelmente.
civil, institutos técnicos e científicos, vimento socioeconômico nacional.
Porém, apesar desses danos locais,
universidades e organizações não-go- Basta lembrar que, segundo dados do
não existe, segundo o geólogo Erna-
Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 46 Senac e Educação Ambiental
ni Rosa Filho, da Universidade Fede- químicos são rapidamente lumes de água e não ado-
ral do Paraná, o risco de poluição de decompostos, mas boa par- tam nenhuma medida de
todo o manancial: “Acreditar na con- te deles pode permanecer no prevenção de impactos
taminação generalizada do reservató- meio ambiente por até 300 ambientais.
rio mostra total desconhecimento anos, comprometendo os re-
sobre a geometria e a geologia do servatórios de águas subter- Aldo Rebouças confirma
Guarani”, garante o geólogo. Como râneas. que a iniciativa privada é
boa parte das águas do SAG é uma das principais con-
compartimentada, isso impede que sumidoras das águas
os resíduos se desloquem e sejam Captação Aldo Rebouças: subterrâneas e, desse
transferidos para outras áreas do re- crítica à superexplo- modo, responsável por
servatório. Além dessa barreira inter- excessiva ração do reservatório boa parte da perfuração
na, algumas substâncias não conse- de poços: “Apesar de as
guem alcançar as águas subterrâneas Além da possibilidade de águas subterrâneas corresponderem
em virtude da profundidade, ou per- contaminação ambiental, outro as- à segunda maior quantidade de água
dem seu potencial tóxico com a bio- pecto preocupante da perfuração potável na Terra, elas sempre foram
degradação, fotodecomposição ou desordenada de poços é a captação deixadas para a iniciativa privada, que
termodecomposição. excessiva das águas. “A demanda por utiliza os poços como quer, para abas-
água subterrânea vem crescendo tecer hotéis de luxo, condomínios e
No entanto, se a poluição generalizada substancialmente no Brasil, em fun- perímetros irrigados”, constata.
está descartada, o risco de contamina- ção de as águas dos rios serem de
ção local é uma realidade em áreas qualidade duvidosa”, explica o pro- No Estado de São Paulo, onde a água
onde o reservatório é mais suscetí- fessor de Geociências da Universida- subterrânea possui bom grau de po-
vel – áreas de pouca profundidade e de de São Paulo (USP), Aldo Rebou- tabilidade, há mais de 2 mil poços ati-
de formações geológicas menos den- ças, especialista na questão do uso e vos localizados nas bordas do aqüífe-
sas. Nessas regiões, a presença de da conservação das águas subterrâ- ro. Em toda área de ocorrência do re-
lixões, aterros químicos e sanitários, neas no Brasil. servatório no país, estima-se que cer-
efluentes industriais e o uso intensi- ca de 20 mil poços tubulares estão
vo de agrotóxicos em altas concen- Em virtude da boa qualidade da água ativos, servindo tanto ao setor priva-
trações, como nas lavouras de cana- e da falta de controle por parte do do como ao consumo particular: abas-
de-açúcar, provocam danos ambien- poder público, o setor privado vem tecimento de condomínios, irrigação
tais ao manancial. Esse é o caso, por recorrendo intensamente às reservas e consumo animal na agropecuária,
exemplo, de importantes cidades do subterrâneas, por meio de empresas aproveitamento geotermal nas indús-
Estado de São Paulo, como Ribeirão perfuradoras. Segundo estudos, só no trias, hospitais, hotéis e clubes como
Preto e São José do Rio Preto. Paraguai existem mais de 4.700 em- em Araçatuba (SP), Francisco Beltrão
presas que oferecem esse serviço. (PR), Chapecó (SC) e Piratuba (SC).
O alerta consta do documento de in- Em relação ao Brasil, a Associação
trodução ao Plano Nacional de Recur- Brasileira de Águas Subterrâneas O principal problema dessa intensa
sos Hídricos: “A gravidade da conta- (Abas) apresenta um dado inquietan- atividade de perfuração, praticada por
minação está relacionada à toxidade, te: entre 80% e 90% das empresas empresas e particulares, é o fato de
persistência, quantidade e concentra- perfuradoras do Estado de São Paulo não estar sendo considerada a rela-
ção das substâncias que alcançam os são clandestinas. O problema é que, ção entre o volume extraído de água
mananciais subterrâneos”, adverte o freqüentemente, essas empresas não e o potencial de recarga do aqüífero,
documento. De fato, alguns produtos seguem padrões científicos de per- o que provoca a superexploração lo-
furação, ou seja, captam grandes vo- cal do reservatório. Para evitar esse
processo, as melhores áreas de per-
furação “não deveriam possuir mais
do que 300 a 400 metros de espes-
sura de basalto sobre o Guarani. Nes-
sas áreas, deve-se atentar ao compro-
metimento de parte do reservatório,
quando é extraída mais água do que
entra no reservatório como recarga do
aqüífero”, explica o geólogo Ernani
foto: Marcio Fernandes / Ag. Estado

Rosa.

A forma como as águas vêm sendo


captadas também é uma preocupa-
ção de Aldo Rebouças: “Devemos
evitar que os poços no meio urbano
captem o lençol freático, tendo um
selo sanitário na boca do poço. Tam-
bém deve-se evitar que os níveis de
bombeamento desçam muito além
Só em SP, há mais de 2.000
de um terço da espessura da camada
poços ativos sobre o reservatório
aqüífera na área, a qual deverá ter fil-

Senac e Educação Ambiental 47 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


tros em toda sua extensão”, alerta o do Conselho Nacional de Recursos Hí- diretor de Projetos e Articulação da
especialista. dricos e da Unidade Executiva do PSAG, Secretaria de Recursos Hídricos do
alerta: “Devemos evitar o domínio de Ministério do Meio Ambiente, Julio
Medidas como a desinfecção e o tam- organizações internacionais na tomada Thadeu Kettelhut, reforça o papel dos
ponamento dos poços desativados e de decisão sobre o destino das águas facilitadores locais. Esses profissio-
a utilização do selo sanitário dos po- do Sistema Guarani. Sabemos de inú- nais apóiam, entre outras ações, o Pla-
ços ativos (vedação do espaço entre meras ameaças que envol- no de Gestão Local, além
o revestimento do poço e a parede vem a privatização desse re- de iniciar um processo de
da perfuração) são soluções técnicas curso para fins de sanea- capacitação dos recursos
que também já deveriam estar sendo mento e agricultura”. humanos.
utilizadas corriqueiramente.
A questão do uso do aqüí- O intuito é fortalecer os
fero para a agricultura em quadros de gestão exis-
A gestão local grande escala tem gerado tentes, garantindo a inte-
desde já muita polêmica. gração e a facilitação lo-
das águas Como é sabido, países po- cal das atividades relaci-
pulosos como China, Ín- onadas ao projeto piloto
As medidas implementadas em nível dia, Paquistão e México e a continuidade da ges-
nacional são fundamentais para o uso enfrentam sérios proble- tão local pós-projeto.
compartilhado do aqüífero, mas seu mas de abastecimento de “São técnicos com expe-
Andréa Carestiato:
aproveitamento sustentável depen- água. Nesse cenário, im- "Exportamos de graça riência específica nos as-
de da gestão local das águas e do portar grãos brasileiros é as águas do aquífero" suntos de gestão local,
equacionamento de vários interesses. uma forma de “importar”, pública e integrada dos
Ou seja, o gerenciamento desse ma- por via indireta, as nossas reservas recursos hídricos subterrâneos e na
nancial não passa só por decisões téc- de água, pois a produção de uma to- participação social nesse processo”,
nicas, mas também políticas. nelada cereal consome mil toneladas analisa Kettelhut.
Em relação a esse último aspecto, a de água.
Na mesma direção, João Bosco Senra
bióloga Andréa Carestiato, membro “Hoje, exportamos destaca que, para a proteção e o uso
de graça as águas sustentável do SAG, os programas de
do SAG na forma educação ambiental, a divulgação dos
da soja, pois seu conhecimentos básicos adquiridos e
custo de produção incentivos à participação pública na
não está contabili- gestão são ações relevantes, bem
zando a água ne- como a inserção do tema “águas sub-
cessária para viabi- terrâneas” nos planos diretores muni-
lizar a safra. Portan- cipais e planos de bacias.
to, os países im-
portadores da nos- Essa estratégia também está contem-
sa soja, por exem- plada no Programa Nacional de Águas
plo, consomem in- Subterrâneas, que ressalta a impor-
diretamente nos- tância da mobilização social na ges-
sas reservas hídri- tão das águas subterrâneas e superfi-
cas se benefician- ciais, visto que toda sociedade neces-
do e deixando para sita da interação equilibrada dos dois
nós, em vez da tão sistemas. A implementação dessas
propalada riqueza atividades depende da participação
do agronegócio, local, mas devem estar incorporadas
todos os custos às estratégias macrorregionais. “A
ambientais e hu- gestão do aqüífero é e continuará
manos que têm sendo local, mas, sem dúvida, tam-
gerado inúmeras bém será integrada. O Programa de
foto: Sebastião Moreira / Ag. Estado

distorções sociais Ações Estratégicas estabelecerá um


e econômicas”, marco de gestão coordenado, harmo-
enfatiza Andréa nizando políticas hídricas e instrumen-
Carestiato. tos de gestão entre os quatro países.
Deve ser enfatizado que a Constitui-
Com o objetivo de ção Brasileira define que o domínio
apoiar os interes- das águas subterrâneas pertence aos
51% da população ses e a soberania estados e, dessa forma, são estes os
captam água dos nacional e fortale- responsáveis pela sua gestão no Bra-
reservatórios cer o controle local sil”, afirma João Bosco Senra.
subterrâneos, em relação às
águas do Guarani, É preciso lembrar, entretanto, que
incluindo o Guarani
o coordenador na- está em análise na Comissão de Cons-
cional do PSAG e tituição, Justiça e Cidadania do Sena-

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 48 Senac e Educação Ambiental


do Federal uma Proposta de Emenda
à Constituição, a PEC 43/2000, que
pretende transferir a domínio das
águas subterrâneas dos estados para
o governo federal, com a alegação de
que não há controle do conhecimento
Os mitos
técnico sobre as águas subterrâneas. Pesquisas recentes
apresentam novas pos-
Para alguns especialistas, além de
sibilidades de uso sus-
poder prejudicar a gestão local do aqüí-
tentável do reservatório
fero, a PEC se baseia num argumento
e desfazem alguns mitos,
considerado falho, pois estão sendo
como, por exemplo, o fato
disponibilizados projetos e estudos por
de o SAG ser totalmente
meio do projeto PSAG e por diversos
transfronteiriço. Embora
institutos de pesquisas, universidades, Mapa: Publi- suas águas sejam encontra-
técnicos e pesquisadores. “No âmbito cação “Aqüí-
fero Guarani das no subsolo de quatro países,
da Câmara Técnica de Águas Subter-
– Uma verda- com volume aproximado de 40
râneas do Conselho Nacional de Re- deira integra- mil quilômetros quadrados,
cursos Hídricos, houve discussões ção dos países
do Mercosul Aquífero Guarani em alguns locais o reservató-
sobre o tema. A grande maioria dos
(2004)” Limite da Bacia rio não ultrapassa as frontei-
representantes dos estados, junto com Geológica do ras nacionais. A constituição
a sociedade civil e usuários que com- Paraná
geológica do Aqüífero Guarani
põem esse conselho, foram contrários
compartimenta as águas em
à PEC”, admite Senra.
enormes blocos, na forma de sub-reservatórios nem sempre
Paralelamente ao impasse legislativo, intercomunicáveis.
novos estudos estão sendo divulga-
dos, e movimentos em prol do Siste- Esses dados são apresentados pelo geólogo da Universidade Fede-
ma Guarani continuam ocorrendo. ral do Paraná, José Machado Flores da Cunha: “As rochas que com-
Para evitar interferências na tempera- põem o SAG atravessam, sim, fronteiras. Entretanto, novos estu-
tura e vazão dos poços termais, na dos têm demonstrado que, em muitos locais, suas águas não são
área turística de Concórdia-Salto, o transfronteiriças, como ocorre com os estados de São Paulo, Minas
PSAG estabeleceu a distância míni- Gerais, Goiás e Paraná. Em Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul,
ma de 2 mil metros entre perfurações apenas pequenas parcelas do aqüífero poderiam apresentar um com-
de novos poços. Já em Ribeirão Pre- ponente transfronteiriço. Já entre o Uruguai e a Argentina, existe
to, Luiz Amore explica que “o Comitê uma clara conexão entre as águas na região de fronteira”, explica.
de Bacia do Pardo aprovou o zonea-
Estudos estratigráficos mostram que as águas do reservatório es-
mento de poços em áreas completa-
tão contidas entre as fraturas das rochas e no interior de rochas
mente restritas, com medidas de con-
porosas, formadas de areia e argila, que atuam como esponjas e
trole, para evitar o aprofundamento
retêm o fluxo das chuvas provenientes das áreas de recarga –
do cone de depressão de 60 metros,
locais por onde o aqüífero é reabastecido. Por isso, suas águas não
observado na zona central da cidade”,
estão distribuídas na forma de um enorme lago ou mar subterrâ-
diz o secretário geral do projeto.
neo. “O Aqüífero Guarani não é constituído apenas por uma unida-
de hidroestratigráfica, mas é um sistema que integra rochas porta-
doras de água, que têm idades que somam um intervalo de mais
O arcabouço legal de 100 milhões de anos. Portanto, são esperadas diferenças signi-
ficativas entre as rochas que o compõem”, constata José Macha-
A gestão das águas do reservatório
do, em sua tese de doutorado, que investiga as características do
depende, necessariamente, de pes-
aqüífero no Rio Grande do Sul.
quisa e estudos técnicos, mas a ur-
gência em definir estratégias de ge- Pelo fato de o SAG ocorrer de modo descontínuo e apresentar
renciamento pode comprometer aná- características próprias em cada região, seu potencial é muito vari-
lises mais precisas. Como defende o ável. Um aspecto extremamente importante é quanto à potabili-
geólogo Ernani Rosa, só é possível dade da água, pois cerca de 50% das águas do aqüífero são salo-
ter um real controle público do aqüí- bras, possuem altos níveis de sulfatos, flúor e sódio, ou apresen-
fero se houver um conhecimento apro- tam grande variação de temperatura, podendo chegar até 60ºC.
fundado de sua geometria. “Lamen-
tavelmente, apenas em alguns locais Outro fator relevante é a profundidade irregular do manancial. Em
esse conhecimento existe. Falar de algumas regiões, há zonas de afloramento do reservatório, como
gestão e política internacional, como no interior do Estado de São Paulo; em outras, porém, a profundi-
acontece atualmente, é colocar a car- dade varia entre 50 e 1.900 metros. Tais características inviabili-
roça na frente dos bois”, argumenta. zam economicamente, nesses locais, a extração da água para a
indústria, agricultura, abastecimento humano ou consumo animal.
De acordo com um relatório apresen-
tado em julho de 2006, na 58a Reu-
nião da Sociedade Brasileira de Pro-

Senac e Educação Ambiental 49 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007


Como surgiu o
Aqüífero Guarani?
João O reservatório começou a ser formado a partir da era Mesozóica (cerca
Bosco de 248 milhões de anos atrás), quando várias camadas de solos areno-
foto: Arquivo MMA

Senra: "A sos e vulcânicos foram sendo sedimentadas, ao longo dos 1,2 milhão de
gestão do quilômetros quadrados do aqüífero. Durante 100 milhões de anos, a
aquífero é constante deposição de solos criou enormes reservatórios formados
local, mas por rochas porosas, compostas de arenito e argila, que absorviam as
também águas das chuvas, dos lagos e dos rios de planícies.
será
integrada" Como o reservatório subterrâneo é um corpo d’água “vivo”, absorve
e movimenta as águas provenientes da superfície, em imensos blo-
gresso da Ciência (SBPC), sobre o cos de rochas argilosas e areníticas, descarrega suas “águas invisí-
tema "Aqüífero Guarani: Oportunida- veis” em rios, nascentes e lagos, e mantém o ciclo das águas em
des e Desafios do Grande Manancial permanente equilíbrio.
do Cone Sul", ainda faltam conheci-
mentos mais detalhados sobre o re-
servatório. O documento afirma que
muitos dos desafios em relação ao das no solo e se movimentam lenta-
de Recursos Hídricos (CNRH), que
aqüífero estão diretamente relaciona- mente em direção às nascentes, lei-
aprovou, em março de 2006, o Pro-
dos à falta de conhecimento das suas tos dos rios, lagos e oceanos (as zo-
grama Nacional de Recursos Hídricos
características hidráulicas e hidrogeo- nas de descarga).
(PNRH), o Sistema Nacional de Ge-
químicas (desafios técnico-científi-
renciamento de Recursos Hídricos e
cos) e da capacidade da sociedade e
o Programa de Águas Subterrâneas.
dos estados de se organizarem para o Uso sustentável
Além dessas medidas, o governo fe-
gerenciamento sustentável dos re-
deral criou, em 2000, a Agência Naci-
cursos do manancial (desafios insti- Passados oito anos de estudo siste-
onal de Águas (ANA), responsável por
tucionais). mático do Aqüífero Guarani, consta-
implementar o PNRH. Todas essas
A conclusão é que a integração entre entidades estão vinculadas ao Con- ta-se que ainda há um longo caminho
a gestão local e o conhecimento ci- selho Nacional de Meio Ambiente a ser percorrido para que sejam defi-
entífico é o modo mais eficiente de (Conama) e ao Ministério do Meio nidos os seus limites, suas caracte-
garantir o aproveitamento racional e Ambiente. Com esses marcos insti- rísticas e seu real potencial. Em virtu-
compartilhado do reservatório. “Atu- tucionais, a água adquiriu o estatuto de da complexidade ambiental e so-
almente, a melhor forma de se discu- de bem público, sendo um direito ina- cioeconômica que envolve todos os
tir o tema dos aqüíferos, em especial lienável e prioritário para a sobrevi- aspectos relacionados ao manancial,
o Guarani, é por meio da participação vência humana. seu uso não pode ser deixado à pró-
da sociedade civil, por meio dos co- pria sorte. Trata-se de um bem públi-
As águas subterrâneas são conside- co e, como tal, deve ser aproveitado
mitês de bacia hidrográfica”, diz An-
radas reservas estratégicas, tanto no de forma sustentável e integrada pe-
dréa Carestiato.
Brasil como no resto mundo, e isso los quatro países que detêm esse re-
Mas, segundo a bióloga, a urgência vem incentivando políticas públicas curso natural em seus subsolos.
no processo de gestão executado voltadas ao seu consumo sustentá-
pelo PSAG deu margem a alguns en- vel, como o Programa de Águas Sub- Ainda há muitas divergências em
ganos. “O projeto teve início sem con- terrâneas, elaborado em 2001, pelo relação à forma como esse bem
vidar a sociedade civil para participar governo federal. O documento pro- deve ser utilizado, mas o certo é que
desde seus primórdios e se transfor- põe diversas medidas de sustentabi- a gestão local do aqüífero reforça a
mou num processo internacional lidade, pois as águas contidas no sub- participação social e garante a so-
complexo na busca de entendimen- solo representam a parcela mais len- berania nacional dessas águas. Da
to entre os quatros países envolvidos. ta do ciclo hidrológico e a principal mesma forma, não se pode ignorar
O Brasil está muito à frente dos ou- reserva de água disponível, pois ocor- que são fundamentais uma maior
tros países em termos de gestão dos rem em volume muito superior ao da divulgação das informações relati-
recursos hídricos, e o projeto deveria superfície. vas ao manancial e um sério traba-
ter valorizado isso”, critica Andréa. lho de educação ambiental nas po-
Dados do IBGE ampliam a importân- pulações do seu entorno. Desse
De fato, o Brasil possui uma comple- cia das “águas invisíveis” pela revela- esforço coletivo – que envolve téc-
xa legislação para controlar e gerir ção de que 90% das lagoas, lagos e nicos, cientistas, lideranças políti-
suas águas subterrâneas e superfici- rios brasileiros são abastecidos por cas, sociais e comunitárias – de-
ais. A Lei das Águas (Lei Federal 9.433 esses reservatórios. Assim, ao con- pende a preservação de um recur-
de 1997) criou diversos organismos trário da opinião comum, as águas so natural tão importante como
institucionais para dar conta dessa gi- subterrâneas não estão paradas, pois este, não só para as atuais como
gantesca tarefa: o Conselho Nacional recebem a carga das chuvas infiltra- para as próximas gerações.

Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 50 Senac e Educação Ambiental


Senac e Educação Ambiental 51 Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007
Ano 16 • n.1 • janeiro/abril de 2007 52 Senac e Educação Ambiental