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CAPÍTULO I

TRAJETÓRIA
DO PENSAMENTO
GEOGRÁFICO

Objetivo Geral

Compreender que os diversos momentos pelos quais a Geografia


passou estão engendrados aos contextos históricos da
humanidade, percebendo que a Geografia atual expressa os
anseios daqueles que defendem uma nova proposta de
encaminhamentos teórico–metodológicos para essa área do
conhecimento.
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A GEOGRAFIA: SEU OBJETO DE ESTUDO C


Seção 1 A
P
Í
Objetivo específico:
T
· Perceber que a controvérsia existente sobre o objeto da Geografia U
tem gerado práticas pedagógicas equivocadas, refletindo no
desinteresse do aluno pelo seu entendimento.
L
O
Ao longo dos tempos, a Geografia vem sendo utilizada pelas pessoas,
desde aquelas que viveram nos períodos mais remotos da nossa história até as I
que vivem nos dias atuais, embora a maioria delas nunca tenha se dado
conta disso.
O termo Geografia é bastante antigo. Os primeiros povos a fazerem
registros sistemáticos acerca dessa ciência foram os gregos, graças a sua intensa
atividade comercial, realizada ao longo do mar Mediterrâneo, o que lhes
permitiu conhecer povos de diferentes lugares. Ao mesmo tempo, essas
viagens exigiam conhecimentos cada vez mais apurados sobre a Terra, pois
era preciso transitar com maior segurança pelos locais por onde se
aventuravam conhecer.
A origem da palavra Geografia está relacionada, portanto, aos gregos,
que a criaram: Geo = terra; grafia = escrita, descrição. Ressaltamos, porém,
que esses conhecimentos iniciais pouco têm a ver com a Geografia que é
considerada atualmente, embora “os trabalhos de pensadores e escritores
gregos, relativos à forma e dimensão da Terra, aos sistemas de montanhas, ao
tipo de clima e à relação entre o homem e meio constituíram importantes
subsídios para o conhecimento geográfico que se desenvolveria bem mais
tarde”. (KOZEL,1996:11)
Essas primeiras informações se encontravam dispersas em diversas
obras e, até o final do século XVIII, correspondiam a relatos de viagem,
relatórios estatísticos, estudos históricos, filosóficos, compêndios de
curiosidades sobre lugares exóticos e outros documentos de diferentes tipos,
muitas vezes confusos, imprecisos e envoltos em crendices e lendas.
A expansão da atividade comercial e a difusão da fé religiosa
entre os povos, a partir do século XI, estimulavam o espírito
aventureiro dos italianos, portugueses, espanhóis e árabes, que
visavam a atingir lugares cada vez mais distantes. A sistematizaçãodos
conhecimentos, porém, apresentava um caráter meramente quantitativo

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Geografia
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e descritivo a respeito das impressões das viagens, além das suas limitações
técnicas e das influências da igreja, que não lhes possibilitavam avançar muito.
Foi somente durante o processo de constituição do capitalismo que
esses conhecimentos geográficos foram sendo organizados de forma mais
precisa e, no início do século XIX, o trato com as questões relativas à Geografia
“A s s i m ,
já apresentava um caráter de cunho científico. Era necessário conhecer, por
passou-se exemplo, a extensão real do planeta, a dimensão e a forma real dos continentes
dos relatos para obter uma idéia do conjunto terrestre. Nessa época, algumas terras
ocasionais
aos le- ainda não haviam sido visitadas, mas já havia consciência dos contornos gerais
vantamen- da superfície das terras existentes. Por outro lado, a apropriação de um
tos mais
técnicos; determinado território exigia o conhecimento dos elementos ali existentes e,
das expe- portanto, a ampliação dos conhecimentos locais que a Geografia poderia
dições ex-
ploradoras
lhes oferecer.
às expedi- Era necessário, ainda, representar os fenômenos observados, além de
ções cien-
tíficas. O localizar os lugares que iam sendo conhecidos, e isso só foi possível com o
interesse aperfeiçoamento das técnicas cartográficas. A difusão do comércio, pelos
dos Es-
tados le-
mais longínquos recantos da Terra, exigiu mapas e cartas cada vez mais
vou ainda precisos. O cálculo das rotas, a orientação das correntes e dos ventos, a
à fundação
de institu-
localização correta dos portos foram fundamentais para o sucesso das viagens
tos nas marítimas.
metró-
poles, que Embora o emprego dos conhecimentos geográficos tenha sofrido
passaram a significativo avanço, a sua sistematização continuava de forma descritiva e
agrupar o
material
fragmentada, com enfoque na enumeração de dados e observação dos
recolhido, elementos físicos ou naturais, sem dar a devida importância às questões sociais
como as e, portanto, voltadas aos interesses do capitalismo, o qual necessitava dessas
sociedades
geográficas informações para se expandir.
e os escri-
tórios co-
O objeto de estudo da Geografia era ainda indefinido para muitos
loniais. A autores e, conforme destaca MORAES (1999:13), ainda hoje trata-se, para
geografia muitos, do estudo da superfície terrestre.
da pri-
m e i r a Essa concepção de Geografia se perpetuou por muitas décadas no
metade do
século XIX
meio geográfico mundial e brasileiro e, infelizmente, ainda persiste entre
foi, fun- alguns geógrafos e professores que a difundem entre seus alunos nas salas de
damental-
mente, a
aula.
elabora- Em sua trajetória, muitos foram os estudos e as formas de abordar os
ção desse
material”. conhecimentos geográficos que procurassem clarear melhor a questão do
(MORAES, objeto de estudo da geografia. Conheceremos, nas próximas seções, os
1999:36)
principais percursos seguidos por essa disciplina e os seus desdobramentos
como ciência.
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A GEOGRAFIA TRADICIONAL C
Seção 2 A
P
Í
Objetivos específicos: T
U
· Reconhecer o caráter descritivo e naturalista da Geografia tradicional,
percebendo-a como um instrumento a serviço da burguesia e do L
poder instituído; O
· Perceber que a neutralidade impregnada nessa corrente teórico-
metodológica da Geografia reduz o seu campo de análise,
impossibilitando-a de contribuir com a transformação das condições I
sociais do mundo atual. C o m o
mero ob-
s e r v a d o r,
A tão conhecida Geografia tradicional possui, no positivismo, o seu ao cientista
caberia a
fundamento teórico-metodológico. É nos postulados dessa corrente teórica tarefa de
que o pensamento geográfico tradicional ergue suas bases e continua catalogação,
enumeração,
alimentando os discursos de alguns geógrafos e professores em sala de aula. classificação
e descrição
Essa Geografia apresenta uma característica extremamente exaustiva, dos fatos
na medida em que se restringe a apresentar compêndios enumerativos, de referentes
forma descritiva e catalogada. Essa forma de estudar quase nada contribui ao espaço.
Essas tare-
para a compreensão do espaço e da forma como ele foi e está sendo fas seriam
(re)produzido e, muito menos, ajuda a perceber qual é o papel ocupado importantes
para a com-
pelo homem no processo de sua organização. preensão
do espaço
Um aspecto importante a ser destacado diz respeito ao profundo no seu con-
naturalismo impregnado nessa concepção: a consideração/visão do homem junto, se a
como um elemento a mais na paisagem, como apenas um dado do lugar, Geografia
tradicional
como mais um fenômeno da superfície terrestre. Essa perspectiva não se li-
naturalizante busca explicar o relacionamento entre o homem e a natureza, mitasse
apenas a
sem se preocupar com a relação entre os homens, ficando as relações sociais isso, desc-
fora do seu âmbito de estudo. onsiderando
as relações
Uma outra idéia presente em suas formulações, e que indiretamente entre os
se vincula a esse fundamento, é a de que a Geografia é uma ciência de homens e
destes com
síntese. Nesse caso, a Geografia seria uma culminância de todo o a natureza,
conhecimento científico, que relacionaria e ordenaria os conhecimentos além de
ignorar a
produzidos por todas as demais ciências. Assim, tudo aquilo que acontece historicida-
na superfície da Terra seria passível de integrar o estudo da Geografia. Essa de dos
fenômenos.
forma de conceber tal ciência representa uma maneira de encobrir a
vaguidade e a indefinição do objeto defendido por essa concepção positivista.

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Geografia
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Também é conveniente ressaltar, nessa discussão, os dualismos


presentes no pensamento geográfico tradicional: Geografia Física x
Geografia Humana; Geografia Geral x Geografia Regional; Geografia
Sintética x Geografia Tópica; e Geografia Unitária x Geografias
Especializadas. Nessas dualidades, ou se dá ênfase aos fenômenos humanos,
ou aos naturais; ou se trabalha com uma visão global do planeta, ou se
avança na busca da individualidade de um dado lugar; ou se analisa, em
nível superficial, a totalidade dos elementos presentes, ou se aprofunda o
estudo, apenas, de uma classe de elementos (Op. Cit.,1999).
O mais grave é que essa Geografia foi sendo incorporada ao trabalho
de muitos geógrafos, de maneira não crítica, cujas afirmações são tomadas
como verdadeiras e não podem ser questionadas. Tal atitude se justifica no
receio de que a crítica aos seus posicionamentos poderia ruir a “autoridade”
da Geografia, além de, principalmente, comprometer os projetos de quem
domina e necessita das informações coletadas por essa Geografia neutra,
que não questiona, não critica e, portanto, não transforma a realidade então
posta. Dessa forma, essa Geografia positivista e acrítica, que não contesta,
exerce, antes de tudo, a função de legitimar o poder soberano, a quem não
Ratzel,
Humbolt e
interessa a reflexão, os questionamentos e as críticas à realidade social.
R i t t e r
justificam a
As primeiras colocações, em se tratando de uma Geografia
necessidade sistematizada, são fruto da obra de dois autores prussianos ligados à
de colocar aristocracia: Alexandre von Humbolt e Karl Ritter, considerados como os
os conheci-
mentos da pais da Geografia.
Geografia a
serviço do A Alemanha foi o país que sediou, no século XIX, todo o eixo principal
Estado para, da elaboração geográfica. Foi nesse país onde apareceram as primeiras
principalmen-
te, facilitar à
cátedras dedicadas a essa disciplina, bem como vieram de lá as primeiras
sua expan- teorias e as primeiras propostas metodológicas. Enfim, foi lá que se formaram
são terri- as primeiras correntes desse pensamento.
torial. É
nessa pers- Um outro representante da Geografia tradicional é Friedrich Ratzel.
pectiva que
as formu- Seus discípulos partiram de suas colocações para constituir o que passou a
lações de se denominar “escola determinista” de Geografia, ou doutrina do
R a t z e l
foram em-
“determinismo geográfico”. Os autores dessa corrente orientaram seus
pregadas estudos por máximas, como: “as condições naturais determinam a História”
por essa ou “o homem é um produto do meio”, empobrecendo muito as formulações
corrente e
colocadas a de Ratzel, que falava em influências, não em fatores determinantes.
serviço do
projeto de Uma outra corrente que partiu das formulações de Ratzel foi a
defesa e chamada “escola ambientalista”. Essa corrente representa um determinismo
conquista
de terri-
atenuado, sem visão absoluta. A natureza não é mais considerada como
tórios. fator determinante, mas como suporte da vida humana, ou seja, a concepção
naturalista é mantida, mas sem a causalidade mecanicista.
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C
Outro importante representante da Geografia tradicional é Vidal Essa Geo-
grafia não é,
A
de La Blache. Na segunda metade do século XIX, o autor fundou a escola
francesa de Geografia, conseguindo deslocar para esse país o foco da discussão
portanto,
uma Geo-
P
geográfica, até então sediado na Alemanha, que tinha em Ratzel o seu grafia da
sociedade,
Í
principal responsável. dos ho- T
Apesar de ter imprimido um caráter mais humano à análise geográfica, mens, mas é
La Blache não rompeu totalmente com a visão naturalista ao defender a do Estado,
em defesa
U
“necessária neutralidade do discurso científico”, ou “a Geografia como uma de seus in-
teresses.
L
ciência dos lugares, não dos homens”. Essa proposta é uma forma de
descomprometer o homem com a prática social e dissimular o conteúdo
Naquele
momento
O
ideológico de Vidal. em que os
Estados

Para refletir....
urgiam pela
sua expan-
I
“Vidal de La Blache acentuou o propósito humano da Geografia, são territo-
vinculando todos os estudos geográficos à Geografia Humana. rial, foram
buscar, na
Entretanto, esta foi concebida como um estudo da paisagem; daí o Geografia,
homem se interessar por suas obras e enquanto contingente numérico, as informa-
presente numa porção da superfície da Terra. A Geografia vidalina ções que
fala de população, de agrupamento, e nunca de sociedade; fala de necessi-
tavam para
estabelecimentos humanos, não de relações sociais; fala das técnicas
concretizar
e dos instrumentos de trabalho, porém não de processo de produção. o seu ideal.
Enfim, discute a relação homem-natureza, não abordando as relações
entre os homens. É por esta razão que a carga naturalista é mantida,
apesar do apelo à História, contida na sua obra”. (Op. Cit.p.72)

Muitos geógrafos, posteriores a Vidal de La Blache, foram


influenciados pelas suas formulações, resultando num farto número de
discípulos que desenvolveram a proposta lablachiana em toda sua
potencialidade.
Enquanto que na Europa a sistematização da Geografia já havia
alcançado um certo desenvolvimento, na América, essa ciência começava a
se desenvolver somente a partir de 1930, quando os Estados Unidos
chegavam a ser um dos centros mundiais da produção geográfica.
Richard Hartshorne, um renomado geógrafo americano, é, sem
dúvida, quem encontrou maior repercussão na Geografia americana. Sua
proposta manteve a essência da Geografia tradicional, ao propor uma
Geografia unitária e sem um objeto próprio de estudo, encarregada de
abordar fenômenos variados e estudados por outras ciências, mas, esse
geógrafo abriu a perspectiva de trabalhar com um número muito elevado
de elementos, o que acabou imprimindo uma versão mais moderna aos
estudos geográficos.
Hartshorne encerrou, por um lado, as derradeiras tentativas de se
postular uma Geografia tradicional.
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Geografia
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A RENOVAÇÃO DO
RENOVAÇÃO
PENSAMENTO GEOGRÁFICO
Seção 3

Objetivos específicos:
· Entender que a renovação do pensamento geográfico é fruto das
profundas alterações ocorridas nas bases econômicas e sociais
contemporâneas, deixando a descoberto as fragilidades da Geografia
tradicional;
· Compreender que o compromisso assumido pela nova corrente do
pensamento geográfico é mais voltado às questões sociais e, portanto,
o que mais defende as transformações da realidade atual.

Veremos, nesta seção, que, graças às alterações nas bases econômicas


e sociais ocorridas no mundo, os caminhos trilhados pela Geografia
começaram a seguir novos rumos e alcançaram grande parte dos geógrafos,
que passaram a defender o seu rompimento com a Geografia tradicional.
As certezas e verdades, até então inquestionáveis, se desgastaram e geraram
a busca de novas propostas que conduzissem a uma liberdade maior de
reflexão e ação. Essa nova postura ascendeu o debate sobre o objeto, o método
e o significado da Geografia (MORAES, 1999).
Em meados da década de cinqüenta (1950), as manifestações de
negação e de rompimento com a Geografia tradicional já eram comuns nos
meios geográficos e se desenvolviam com maior intensidade nos anos
seguintes. As razões que explicam esse fato são encontravam nas alterações
da base social que estruturara os fundamentos da Geografia tradicional e
que alcançavam maior vigor na década de setenta (1970).
O desenvolvimento do capitalismo havia tornado a realidade mais
complexa, provocando, por exemplo, o surgimento das megalópoles como
resultado de uma urbanização que atingia níveis assustadores. O meio rural
também sofria profundas transformações, advindas da industrialização e
mecanização da atividade agrícola. O lugar, articulado e intricado numa
rede de relações, já não se explicava em si mesmo. Vivia-se o capitalismo das
transnacionais, dos transportes e das comunicações globais. Esses fatores,
apenas para citar alguns, defasaram o instrumental de pesquisa da Geografia,
implicando numa crise em suas técnicas tradicionais de análise.
Para atender às novas exigências, fazia-se necessário criar novas
possibilidades de análise, pois a simples descrição e representação dos
fenômenos terrestres já não davam mais conta de apreender a complexidade
da organização do espaço. Assim, novas técnicas passaram a ser empregadas
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C
pela Geografia, como: sensoriamento remoto, as imagens de satélites, o A
computador, entre outros, bem como novos métodos de análise e compreensão
do espaço.
P
Í
Como resultado dessas profundas alterações nas bases econômicas e
sociais, o próprio fundamento filosófico sobre o qual se assentava o pensamento T
da Geografia tradicional havia desmoronado. “Esta disciplina permanecia U
como o último baluarte do positivismo clássico. Este havia sofrido críticas
internas e renovações, das quais a Geografia passou ao largo” (MORAES,
L
1999:96). Agora, era preciso mudar, pois os conhecimentos geográficos já O
não podiam estar sustentados por essa concepção filosófica que já não atendia
às necessidades do momento.
Essas razões forneceram as bases formais para a crítica ao pensamento I
geográfico tradicional e foram as condutoras do início de renovação do
pensamento geográfico.
Entretanto, se a insatisfação em relação às propostas tradicionais atingia
a maioria dos geógrafos, os níveis de críticas variavam bastante. Todos
concordavam com o afastamento do positivismo clássico, porém não existia
uma unidade de pensamento e havia uma grande controvérsia a respeito do
que poderia substitui-lo. As teorias científicas e os posicionamentos filosóficos
que cada um começou a seguir foram os mais antagônicos e variados. Nessa
perspectiva, surgiram autores diversos que, de acordo com seu nível de
questionamento, foram imprimindo maior enfoque àqueles pontos que
melhor introduzissem sua proposta.
Observamos, assim, que o movimento de renovação geográfica foi
abrangendo um leque muito amplo e diversificado de concepções de mundo
por parte dos autores. O rompimento com a Geografia tradicional gerou,
por um lado, uma unidade de postura e, por outro, o aparecimento de novas
e variadas perspectivas metodológicas de análises do espaço.
Nesse contexto, desenvolve-se a Geografia Crítica, a qual defende
objetivos e princípios comuns, mas convive com propostas díspares. Isso, no
entanto, não reduz o conteúdo dessa área; ao contrário, enriquece as discussões
e produções nesse vasto e tão importante campo do conhecimento.
Assim, é nessa contradição, nesse conflito e confronto de idéias que os
conhecimentos vêm se construindo. Observamos que quando há unidade
de pensamentos, sem questionamentos, debates e discussões nascem poucas
propostas e, por isso mesmo, pouco acenam para a transformação da realidade
atual. O mundo não é harmônico, nem tampouco as relações sociais o são.
Nessa perspectiva, a apreensão do mundo, enquanto desigual e conflituosa,
só pode acontecer se questionada em diferentes enfoques de análises.

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Geografia
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Surgiram, portanto, aqueles que se restringem a fazer uma crítica à


insuficiência da análise tradicional, sem, contudo, demonstrar a preocupação
com seus fundamentos e com a sua base social e tampouco abordam os seus
compromissos sociais (MORAES, 1999).
Por outro lado, o movimento de renovação do pensamento geográfico
conta ainda com aqueles autores que defendem uma postura mais crítica
frente à Geografia existente, à realidade, à “ordem” constituída. Desse
postulado, advém a Geografia Crítica, que rompe com a Geografia
tradicional. Os autores filiados a essa corrente se posicionam por uma
transformação da realidade social, pretendendo utilizar seus conhecimentos
como uma arma no combate ao poder hegemônico do Estado e às injustiças
sociais, pensando na Geografia como um instrumento de libertação do
homem.
Essa Geografia Crítica defende objetivos e princípios comuns, mas
também convive com propostas díspares. Isso, no entanto, não reduz o
conteúdo dessa área; ao contrário, enriquece as discussões e produções nesse
vasto e tão importante campo do conhecimento.
Yves Lacoste foi o autor que formulou a crítica mais contundente e
extremista à Geografia tradicional, ao escrever : A Geografia serve antes de
tudo para fazer a guerra. Segundo esse autor, o saber geográfico manifesta-se
em dois planos: a “Geografia dos Estados-Maiores” e a “Geografia dos
Professores” (Lacoste, in MORAES,1999). Para ele, esta primeira Geografia
sempre esteve ligada à prática do poder, uma vez que pode fornecer
informações que facilitem as estratégias de domínio num dado território.
Por outro lado, segundo esse autor, a “Geografia dos Professores, se aqui for
considerada a tradicional, tem dupla função: primeiro, mascarar a existência
da ‘Geografia dos Estados-Maiores’, apresentando o saber geográfico como
algo neutro e inútil, tornando-o desinteressante para a maioria dos alunos;
segundo, levantar, de uma forma camuflada, dados para a ‘Geografia dos
Estados-Maiores’ ”. Dessa forma, os professores fornecem informações
precisas sobre os mais variados lugares da Terra, sem despertar suspeitas,
pois se trataria de um conhecimento apolítico.
Na realidade, a Geografia Crítica abre um leque bastante extenso de
defensores, com posturas diversas, mas com o mesmo propósito: o de colocar
a Geografia no combate e busca por melhores condições sociais.
Essa nova proposta tem, entre seus maiores representantes, o renomado
geógrafo Milton Santos. Em suas obras, esse autor afirma que o processo de
produção espacial deve ser o objeto das análises geográficas, reconhecido
25
C
em cada manifestação concreta, na perspectiva de uma Geografia A
mais atuante, a que considera o espaço como um lugar de luta. P
Ressaltamos que a obra de Milton Santos é uma das mais amplas e
acabadas da Geografia Crítica. Í
Observamos que, muito embora as escolas e alguns livros T
didáticos divulguem um discurso geográfico crítico e renovador, U
atualmente, ainda presenciamos, na realidade escolar como um L
todo e na prática do professor, especificamente, um ensino
tradicional. Infelizmente, a realidade confirma que esse ensino, O
que quase nada contribui para a formação cidadã do estudante,
ainda persiste em muitas de nossas escolas. I

*.*.*.*.*.*0*.*.*.*.*.*
ATIVIDADE 1 - Reflexão sobre a Geografia que é estudada nas
escolas.

1- Ao ler o capítulo 1, você deve ter recordado de alguns de seus professores


e dos ensinamentos recebidos durante as aulas de Geografia, não é mesmo?
Analisando seriamente essas lembranças, responda:

a) Os seus estudos, nessa área do conhecimento, se aproximavam mais


da Geografia tradicional, ou o movimento de renovação geográfica já
havia influenciado a metodologia desenvolvida por seus professores?
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b)Qual a importância que você e seus colegas atribuíam a essa disciplina?


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c) Como professor, você pretende adotar os mesmos procedimentos


teórico-metodológicos desenvolvidos por seus professores? Por quê?
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Comentário
Comentário:

Nenhum ensino é neutro. Ao desenvolver um estudo junto a seus alunos, o professor traz
consigo os seus conhecimentos, a sua opção teórico-metodológica, que vêm impregnados de intencionalidades,
mesmo que não se dê conta disso. No percurso do ato pedagógico, portanto, o professor deve ter a clareza
de que a sua opção exercerá, provavelmente, fortes influências na formação cidadã de seus alunos.

PARA SABER MAIS


Caro colega,

Você dispõe de ótimas opções para saber mais. Para isso,


visite os seguintes sites:

http://www.geocities.com/geografiaonline/Concepcao.html
http://www.rainhadapaz.g12.br/projetos/geografia/
links_geografia.htm
http://sites.uol.com.br/ivairr/oqueegeo.html
http://sites.uol.com.br/ivairr/lablache.htm
http://sites.uol.com.br/ivairr/demageon.htm
http://sites.uol.com.br/ivairr/ritter.htm
http://sites.uol.com.br/ivairr/humboldt.htm
http://sites.uol.com.br/ivairr/christofoletti.htm
http://sites.uol.com.br/ivairr/ratzel.htm
http://sites.uol.com.br/ivairr/tuan.htm