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O Trabalho Intelectual

Conselhos para os que estudam


e para os que escrevem
Jean Guitton
 
 
 
 
 
 
 
 

Editado, Revisado e parcialmente retraduzido por


Lucas Félix de Oliveira Santana
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Copyright © 2017. Todos os direitos reservados.


Copyright
Esta é a primeira edição brasileira de Le Travail Intellectuel, livro de Jean
Guitton, publicado na França em 1951.

Este volume foi produzido e editado por Lucas Félix de Oliveira Santana, com
base na tradução portuguesa de Raúl de Carvalho e M.S. Lourenço
(originalmente publicada pelo Editorial Logos, de Lisboa, em 1959).

Embora a referida tradução tenha sido utilizada, mediante autorização do atual


detentor de seus direitos autorais — Deus o abençoe! —, como ponto de partida,
esta publicação constitui um trabalho independente, embora derivativo.

O texto-base foi amplamente modificado, em grande parte retraduzido do


original em francês, e no que ainda se conserva a semelhança inicial, foram
feitas correções, acréscimos e aprimoramentos.

Por tudo isso, como nova produção, esta edição encontra-se protegida pelas leis
e tratados internacionais de copyright, sendo que o editor reserva-se todos os
direitos que lhe cabem.

Não são feitas objeções ao fair use de trechos do presente livro com fins de
aprendizado, mas qualquer emprego remotamente comercial ou mais extensivo
requer autorização por escrito do editor.

Qualquer uso não-autorizado desta obra resultará em sanções jurídicas e


inúmeros aborrecimentos previstos em lei.

Sejamos, portanto, sensatos...


Sumário
Prefácio
Capítulo 01: Observando como os outros trabalham
        I. A privação
        II. O trabalho dos homens de Letras
        III. O trabalho do artista
        IV. Homens de guerra; homens de Estado
        V. Regressos de outubro e de novembro
        VI. A espiritualidade do ofício
        VII. Conclusão
Capítulo 02: A preparação dos trabalhos
        I. O ponto de aplicação
        II. A distinção das tarefas: ocupação e trabalho
        III. Amizade dos lugares, vizinhança dos seres
        IV. A contribuição do desfavorável
Capítulo 03: O esforço profundo
        I. A preguiça
        II. O vai-e-vem entre o fato e a idéia
        III. “Dai-me uma alavanca.”
        IV. As fronteiras, passagens, analogias
Capítulo 04: O monstro e seu repouso
        I. A conspiração do tempo
        II. Nasceu-nos um monstro!
        III. O monstro em plena luz
        IV. O sono da Esposa
Capítulo 05: A ordenação das nossas idéias
        I. Do monstruoso ao lúcido
        II. A doutrina do parágrafo
        III. “Nevermore”
        IV. Parêntesis pedagógico
        V. Notas e parágrafos
        VI. O trabalho do trabalho
Capítulo 06: A leitura enquanto enriquecimento do eu
        I. “Rejeita a sede dos livros!”
        II. Saber cessar a tempo
        III. Ter os seus livros de cabeceira
        IV. O romance e a história
        V. Os livros de verdade pura
        VI. Os livros de religião
Capítulo 07: Germes e resíduos
        I. Os cadernos de cabeceira
        II. Os que nunca escrevem
        III. A rosa-dos-ventos
        IV. Sinopse
Capítulo 08: Fichas, notas e aulas
        I. O exemplo de Stendhal
        II. Mobilização e desmobilização
        III. Como classificar?
        IV. Apologia do ditado
        V. Como tomar notas?
        VI. O uso das cinzas
Capítulo 09: Redação e estilo
        I. A ligação entre o conteúdo e a forma
        II. O estilo e a economia do esforço
                III. Que o excelente custe menos esforço que o
medíocre
        IV. Estilistas e redatores
        V. Conselhos a um estudante
Capítulo 10: O trabalho no estado de fadiga e de sofrimento
        I. O trabalhador enclausurado
        II. O esforço sem esforço
        III. A cópia, remédio contra a angústia
        IV. Conselhos de um enfermo
        V. A noite do espírito
Capítulo 11: Fragmentos de uma carta a um jovem de nosso
tempo
Notas
Prefácio
“As verdades mais preciosas são aquelas que se descobrem em último
lugar; mas as verdades mais preciosas vêm a ser os métodos.” —
Nietzsche

Este pequeno livro de conselhos completa um outro, A Nova


Arte de Pensar, publicado na mesma coleção.01 O seu
propósito é semelhante: nasceu de um mesmo sentimento
de profunda amizade pelos estudantes, sobretudo por
aqueles que sofrem dos males causados pela
desorganização e pela solidão. Ele tem por objetivo ajudá-
los no seu trabalho; aspiraria, pois, a libertá-los de toda e
qualquer impressão de inferioridade ou de angústia.

Mas também este livro dirige-se a todos aqueles que,


apesar da barafunda da vida moderna, não renunciaram
ainda a ler, a escrever, a pensar.

E sem esquecer os já formados — dado que, no que diz


respeito ao conhecimento, ao estilo e à linguagem todos
nós somos aprendizes; e, como dizia Goethe, é bom que se
aprenda a fazer a coisa mais insignificante da maneira mais
grandiosa.

***

É fácil observar como é raro que um professor, na juventude


do aluno, ensine-o a trabalhar. Indica-lhe, o professor, um
enunciado do exercício; aprecia, valoriza os seus trabalhos;
e vez ou outra — e cada vez menos, à medida em que o
saber aumenta — propõe-lhe certas correções, aponta-lhe,
num modelo criado pelo próprio professor, o que teria
convido fazer. Mas quanto à maneira como ele fez, sobre
isso ele pouco ou nada lhe diz; a aprendizagem é deixada à
mercê do acaso ou da inspiração. É dessa inexperiência
sobre a maneira como fazer que resulta, em grande parte, a
impressão de desânimo que muitos retiram de seus
estudos.

De resto, e sucessivamente em cada etapa da vida, é


imperfeito o uso que fazemos de nossa energia mental. Tão
abundante ela é, essa energia, que não nos passa pela
cabeça preocuparmo-nos com o seu emprego! No entanto,
com o mesmo esforço, se a aplicássemos melhor,
obteríamos tanto mais benefício — quanto as nossas
existências não ganhariam em suavidade e plenitude caso
de nossa parte houvesse um pouco mais de arte e de
paciência!

É verdade que a existência do savoir-faire é incomunicável,


tendo cada um de arranhar-se em suas próprias silvas... Mas
não me esqueço do auxílio que recebi, outrora, de obras que
tratavam do método no trabalho, das quais recebi a
inspiração que me levou a tentar completá-las escrevendo
este livro.02

Que o leitor não procure aqui por receitas extraordinárias.


Eu apenas reavivo idéias simples que creio presentes nas
mais antigas tradições da pedagogia de meu país. Por aí se
verá como, seja qual for o assunto de que se trata, é
necessário que o espírito aprenda a concentrar-se e a
encontrar o seu ponto de aplicação; e como, para que
amadureça, o espírito deve dar o tempo ao tempo, não se
negando ao repouso e aos “intervalos” de descanso; e de
como o espírito precisa se exprimir para se conhecer, já que
conteúdo e forma são inseparáveis (e é por isso que falarei
sobre o estilo); e se verá, por fim, que não há estado em
que o ato de pensar seja impossível (e é por isso que falarei
sobre o trabalho do espírito nos estados de fadiga e de dor).
O que me guiou ao escrever este livro de auxílio foi o que
recordo daquelas turmas de aprendizes trabalhando no
ateliê de um professor de desenho. Este não procede como
procedem os professores de Letras ou de Ciências. Vê-se
como ele opera: Exercita-se cada aluno a seu modo diante
do modelo ou de obras inimitáveis. De vez em quando, os
alunos ouvem o mestre resmungando entre eles; depois, eis
que toma o lugar de um dos alunos e vai corrigir ali, à sua
vista, os seus esboços. Ora, no meu entender, tais métodos
têm mais valor que todos os cursos do mundo. De minha
parte, eu teria preferido passar — como fizeram os Tharaud
— um único dia no ateliê de Barrès a seguir durante meses
os cursos de licenciatura na Sorbonne.

E é por essa razão que — de acordo com a idéia de


Descartes, que, antes de explicar o seu método, contou-nos
a sua história — eu farei referência a algumas alturas da
vida que me fizeram redescobrir as regras imutáveis da arte
de trabalhar. No caso do leitor não estar disposto a passar
por experiências semelhantes, é claro que esses conselhos
não serão mais que poeira e cinza.

Devo dizer, em conclusão, que as regras que aqui são


sugeridas não convirão, talvez, a todas as famílias do
espírito. Não foi minha intenção ser completo, mas sim e
unicamente fazer-me útil para aqueles a quem estas
páginas são de antemão destinadas.
Capítulo 01: Observando como
os outros trabalham
“Nunca considerei a minha ação e toda a minha obra senão
simbolicamente, e foi-me indiferentíssimo saber se fazia panelas ou
pratos.” — Goethe

I. A privação
A insatisfação em face da pedagogia de nossas primeiras
idades é um sentimento honroso e necessário. Uma
pedagogia perfeita não teria valor algum para formar um
homem, o qual tem necessidade de que se seja ao mesmo
tempo bom e mau para com ele de modo a atingir o seu
tamanho. O vício de uma educação sistemática é o de não
produzir senão um homem-criança, como o são na maior
parte das vezes os filhos primogênitos, talvez mesmo como
o seria Émile. Demos portanto graças aos céus pelos
defeitos, pelas lacunas de nossos primeiros mestres, sem o
que não teríamos possibilidade de nos corrigir. O contraste é
a condição de uma experiência original. Um mestre instrui-
nos por aquilo que nos dá. Estimula-nos por aquilo que a ele
lhe falta e que nos solicita a sermos o nosso próprio mestre
interior.

É raro que disponhamos, a meio da vida, de um período de


repouso e tempo livre que nos permita rever
pormenorizadamente a primeira etapa, de modo a que a
julguemos com um espírito maduro e a recomeçarmos os
nossos estudos pelo alfabeto. E torna-se melhor ainda
quando essa tomada de consciência é acompanhada de
privações. Muitas pessoas deste século, depois do célebre
ano de 40, na solidão da província, na vida clandestina, na
prisão, na emigração, no exílio, conheceram esses períodos
de retomada da infância. Eu gostaria de contar-lhe o que,
sobre o que é o trabalho do espírito, me ensinaram cinco
anos de reclusão.

Uma das primeiras características de semelhantes situações


é esquecer-se nelas de tudo o que até então se nos
afigurava extremamente necessário e ficar-se assim
reduzido à atenção, à memória, a um pequeno número de
passatempos. É isso que me leva a pensar, em primeiro
lugar, que os livros não são indispensáveis, que um
diminuto número deles deve ser em todo o caso suficiente
— sei disso por ter visto viver um pensador cego. A nossa
civilização, hipersaturada de conhecimentos e processos de
conhecer, proporciona ao homem tantas máscaras e tantos
falsos apoios que ele já não distingue entre o que sabe e o
que ignora. A prova de que sabemos determinada coisa —
disse-o Aristóteles — é a de que a podemos ensinar. Avaliei
naquela ausência de livros e de anotações quão pouco
sabiam os mais sábios — mas esse pouco, quando tirado de
suas entranhas, ensinavam-no eles bem.

O primeiro inverno passou-se sem caneta nem tinta; pouco


papel e nem sequer uma mesa isolada, um canto tranqüilo,
mas sempre aquele vai-e-vem quotidiano da vida
doméstica; em suma, o trabalho numa cozinha, onde tantas
e tantas crianças pobres estavam recolhidas, com o caderno
onde se escrevia em meio à barafunda do cuidado do lar e
com a atenção obrigada a habituar-se a isso e libertar-se do
barulho. Os objetos foram-nos entregues um por um, com
longos intervalos. Se a caneta, os cadernos, os livros nos
tivessem sido entregues juntos, teríamos de novo nos
fechado na abundância.

Tal existência cativa punha à prova os diversos tipos de


cultura adquirida na escola. Eis homens de vinte a
cinqüenta anos, presos na força da vida e desfrutando
desse bem que os homens procuram sempre e quase nunca
encontram: o descanso. Dias inteiros sem ocupação alguma
e que eles podiam consagrar a instruírem-se, se assim o
quisessem. Cada nação caracteriza-se pelo que constrói
com mais vontade: os ingleses, um clube; os poloneses, um
exército ou o seu germe; os russos, um povo; os
muçulmanos, um lugar de oração. Quanto a nós, o que
germinava era uma escola, o embrião de uma universidade.
Tamanha é a ânsia do povo francês pelo saber metódico.

Na juventude, trabalha-se sozinho. A vida permite-nos


também observar o trabalho dos outros. No entanto, o ser
que trabalha não deseja ser observado; ele sem dúvida tem
razão para esconder-se por ocasião daquelas atitudes que o
revelam e que ele teve tantas dificuldades em aprender.
Mas os artífices têm menos pudor, e é conveniente, como o
fazia notar Descartes, observar os trabalhos mais simples,
descobrir-lhes os laços de parentesco. Cada um de nós é
como um turbilhão: quer arraste diante de si grãos de areia,
quer cristais de ouro, tem a mesma figura do sopro. O acaso
ou o costume fez-nos escolher determinada profissão, ou
determinado modo de realizar qualquer coisa; não seria
bom que nos víssemos sob um outro aspecto? Dizermos: “se
fosse oleiro, como procederia?”; “como governaria, no caso
de ser Chefe de Estado?”, e fazendo assim para salvarmos
em nós o homem universal, em ter-se o espírito acima de
nossa obra e de todas as obras. Somos muito menos
diferentes uns dos outros do que pensamos. Uma vez
mobilizados como artilheiros, o camponês ou o advogado
ficam admirados por tão facilmente aprenderem e agirem.
Em conclusão, as nossas ocupações valem pelo espírito e
pela ordem interior que pomos, quer nelas quer em nós
próprios, ao realizá-las. E não existe senão uma só ordem,
assim como não há mais que um só espírito e uma só fé.
II. O trabalho dos homens de Letras
Eu mal conhecia o preceptor. Que grandeza desconhecida
nessa raça, provinciana pelas raízes, intelectual nas suas
primeiras folhas. Trata-se de um recém-chegado ao reino do
saber. Sente-se bastante orgulhoso por isso, e no entanto
cheio de inquietação porque receia que o padre ou o
contabilista lhe arrebatem esse bem recentemente
adquirido e que proporciona liberdade. Mas o que o
preceptor conseguiu alcançar mais que qualquer outro
foram as virtudes terrenas aplicadas à cultura do espírito.
Aprender é para ele um trabalho que não pode ser
prazeroso em si mesmo.

Quão poucos dentre nós aprenderam uma língua, na idade


adulta, sem terem ido ao estrangeiro? É que, para aprender
uma língua, é necessário passar por operações
constrangedoras: recitar versos, fazer certos exercícios
graduais que implicam uma bela quantidade de querer. Será
por essa razão que as origens de todos os preceptores são
mais laboriosas? Será porque, estando habituados a dar
disciplinas rígidas às crianças, eles têm a sagacidade ou o
orgulho de primeiro que tudo sas impor?

Nunca os vi trabalhar como principiantes, mas sim com a


paciência do lenhador, a sua lentidão, a sua
implacabilidade, a sua perseverança — e sempre com essa
caligrafia que é de se homenagear. O tempo que os padres
consagravam aos preceitos religiosos e esse mesmo gênero
de fervor recitativo passavam-no eles — era visível —
ocupados no trabalho intelectual considerado como um
ofício do espírito. Pelo contrário, o que muitas vezes lhes
faltava era um certo abandono de seu ser, um certo circuito
distendido da linguagem, um pacifismo da vontade.
O trabalho intelectual exige duas qualidades contrárias: a
luta contra a dispersão do espírito — o que só se consegue
se nos compenetrarmos disso — mas também um certo
desprendimento em relação a esse trabalho, pois o espírito
deve alcançar a sua altura, ser mantido — como dizia
Étienne Pascal — num nível superior ao de nossa obra. Entre
nossa intelectualidade, seja ela laica ou eclesiástica, essa
segunda virtude muitas vezes parece ser preguiça.

Os preceptores, como os padres, são tão afincados, quando


querem aprender, que na maior parte das vezes ficam mais
possuídos por aquilo que sabem do que possuem-no e
governam-no. Pelo mesmo motivo existe uma curiosa
diferença entre a sua maneira de ser e a sua cultura. Deixe-
os entregues ao seu bom senso, à sua experiência familiar:
tudo o que nessas condições dizem é bem pensado e bem
expresso; mas eles cerram-se na idéia de que a ciência ou a
filosofia são muito obscuras quando se pretende explicá-las.
O gênero de auxílio que Henriette Renan prestou a seu
irmão, ensinando-lhe a falar com naturalidade, ninguém é
capaz de prestá-lo ao sair da escola, eu costumava pensar.

III. O trabalho do artista


Seria proveitoso para nós intelectuais considerar o trabalho
do artista. Os estudantes ignoram-no. E a razão dessa
ignorância está em que a pedagogia trata precisamente de
anular na criança o gosto pelo trabalho das artes,
desordenado na aparência, para que aprenda os horários, as
regras, os bons hábitos. Mas quando se chega à idade
adulta só há vantagem em conhecer outras maneiras de
trabalhar, diversas das que caracterizam quer as das aulas
na escola, quer as das primeiras idades.

***
Os artistas, os pintores, os arquitetos ocupavam, no campo
onde fôramos confinados, um lugar deveras pitoresco: uma
lavanderia transformada em sala de trabalho e decorada
com pinturas; parecia que eu presenciava ali o nascimento
de Afrodite saída das espumas, e bem assim muitas outras
façanhas. O tanque fora tapado e transformado numa
enorme mesa, boa para os arquitetos. Eu admirava-lhes o
trabalho, que tantos ensinamentos proporcionava sobre o
que é obra da vontade e do espírito, neles tão próximos. É
verdadeiramente impossível fazer obra de arquiteto sem
aderir fortemente a uma hipótese, hipótese essa que tem a
sua grandeza, as suas facilidades tanto como as suas
inevitáveis lacunas; e, nesse sentido, a decisão de levá-la
adiante é, também, um sacrifício.

Não se pode desejar tudo ao mesmo tempo; se se opta por


uma fachada, é necessário sacrificar na parte de trás do
prédio, tendo em troca de disfarçar os aspectos piores. O
partido que o arquiteto toma encontra-se em outros
domínios: desejar também é não desejar. E, assim, resigna-
se aos seus limites, sem o que não existe ação possível. A
catedral de Notre-Dame é uma escolha entre um grande
número de soluções todas elas realizáveis, escolha essa
proveniente de uma vontade criteriosa.

Um outro proceder igualmente típico dos artistas é que, em


geral, eles não são capazes de trabalhar senão sob o
entusiasmo do último momento; é somente a urgência que
os obriga a entregarem o trabalho feito. Se não lhes
cumprisse “realizar um projeto”, creio que eles nunca fariam
nada.

O admirável, no caso do arquiteto, é o trabalho puramente


geométrico das últimas horas, o qual, paralisando a
inspiração, desenvolvendo a escolha, dessa vez
efetivamente feita, traduz, sobre imensas folhas úmidas de
aquarela, e com medições exatas, precisamente o que
servirá ao construtor e ao pedreiro, e de onde surgirá a obra
em três dimensões, capaz de resistir ao raio e ao desgaste
do tempo, e de ser, em cada um de seus aspectos, um
prazer para os olhos.

Todos nós deveríamos, eu dizia, imitar esses sólidos artistas,


jamais nos contentarmos com projetos vãos, pelo contrário,
afastá-los de nós, como também fazem os militares na
guerra até o momento de executar ordens extremamente
precisas. O aluno deveria fazer uma cópia o mais limpa
possível, com uma acentuação e uma pontuação exatas, e o
escritor deveria publicar-se, deixar-se ver de perfil e de
costas, assim como uma mulher elegante cuja toillete é
perfeita em seus detalhes. Na verdade, tanto o arquiteto
como o homem de guerra são forçados a isso, pois sem essa
última perfeição o combate interrompe-se ou a casa cai.

Isso leva-me também a falar dos atores, como tantos o


campo produziu, desconhecidos e sublimes. Não eram
alunos do Conservatório aqueles que, embora não fossem
oficiais, honravam os Stalags.03 Mas eles possuíam outras
qualidades, que faltam muitas vezes aos profissionais: o
conhecimento dos costumes sociais obtido por herança, a
cultura, o tempo à sua disposição, a vida monástica, o
sofrimento, o desejo de ajudar e não de tornar-se famoso,
numa aplicação total, durante meses, ao seu papel. Era isso
que lhes permitia atingir a essência da arte dramática, a
qual não consiste na gesticulação espetacular, mas sim
numa facilidade de simpatizar de corpo e alma com a
condição do outro homem que o ator representa.

Li que tanto Molière como Shakespeare deviam uma parte


de seu gênio ao fato de terem vivido em companhia dos
atores de suas peças, e que tinham criado a sua obra em
meio à confusão, no fervor e na pressa, experimentando as
falas de suas personagens entre um público reduzido. Seria
preciso viver na familiaridade de um grupo onde existisse
uma amizade quase conventual na pobreza radical, e sem
preocupações de sucesso, para compreender que escola de
amparo, de amor e de arte constituía esse gênero de
existência.

Não se tratava de representar sobre um palco improvisado,


mas sim de construir um teatro, servindo-se de tábuas em
mau estado, com cenários e guarda-roupa feitos a partir de
descartes, de ensaiar (embora mal alimentado), e ainda de
fazer compreender a diversos auditórios não as facilidades
de uma peça moderna, mas os segredos de uma peça
clássica ou simbólica, como por exemplo Noite de Reis,
Santa Joana ou O Anúncio Feito a Maria.04

Vendo trabalhar esses “companheiros de time” que incluíam


um arquiteto, um militar, um padre e vários outros, eu
observava como a arte primária da comédia encerra tantas
outras, e como não há melhor exercício para aperfeiçoar a
memória, órgão do entendimento, para ligar o espírito ao
corpo, para obter um trabalho, um esforço absoluto e no
entanto regozijante. Penso que a mensagem de um trabalho
como esse deveria poder transportar-se, tanto quanto
possível, por toda a parte. O trabalho nunca se realiza
melhor do que num conjunto, porque cada um furta-se à
angústia, ao orgulho do isolamento, e aproveita o trabalho
dos outros.

Mas também observei que alguns desses grupos não tinham


de companhia de teatro senão a aparência, tal como muitas
vezes sucede às sociedades deste mundo, porque os atores
não passavam de autômatos de um encenador ou de figuras
secundárias à personagem principal: tratava-se, assim, de
um mero affair, não de amor. Nesse último caso ninguém
brilhava em cena, e nem sequer se chegava a conhecer o
nome dos atores.

Dever-se-iam tanto quanto possível reinstaurar, eu dizia,


esses grupos de trabalho em comum. Antigamente não
tínhamos suficientemente a preocupação de ensinar às
crianças a trabalhar em conjunto em torno de um centro de
interesse bem escolhido. É então notável como a altivez
própria do ser-humano, em vez de se debruçar sobre o seu
trabalho pessoal, lança-se à obra comum, e que nisso
experimenta uma alegria cheia de beleza e dignidade, sem
a impressão de superioridade que nos isola e entristece.
Lembro-me de, em outra época, quando estava ensinando
soldados analfabetos, ter perguntado a um deles o que era
isso a que se chamava coragem. Ele aprumou-se e disse-
me: “A coragem é quando um diz aos outros: ‘Atenção,
rapazes, eis o que se vai fazer...’”. Trabalho de equipe, onde
cada um encontra auxílio nos outros, e onde acontece
também, como em toda companheiragem, que um verifica
o que é necessário fazer e o outro executa: a cada um a sua
função.

IV. Homens de guerra; homens de


Estado
O convívio com os homens de guerra poderia também
ensinar muito aos trabalhadores do espírito. Não considero
aqui os métodos de trabalho, sempre práticos no exército,
eficientes, breves, que são testemunho do cuidado de ligar
os espíritos num molde comum, para que cada um possa
ser substituído imediatamente por outro. Um só
estrategista, desde que favorecido pelo gênio, põe em ação
um exército. Isso implica o trabalho de todos e um método
impessoal, que eleva os medíocres e anula as diferenças. O
exército é uma escola de pensamento coletivo, eficaz.
Nenhuma ocupação, no entanto, é mais favorável ao
pensamento que a das armas, pela alternância das
empresas mais arriscadas com períodos de ócio absoluto,
pela presença do perigo, do imprevisível e dos acasos, pela
diversidade de ocupação que nela se encontram. É uma
vida muito livre, onde a imaginação, refreada por muitas
medidas de disciplina, tem toda a disponibilidade para se
entregar a vários sonhos, onde a responsabilidade se
alimenta da negligência, como acontece àquele que ignora
o dia de amanhã, que tomou o seu partido do pior e que
sabe de antemão que não falhará.

Eis no que a ocupação militar é uma imagem do trabalho


intelectual: o segredo, em ambos os casos, está, eu creio,
em obrigar-se a certas aplicações bastante exatas mas
deixar-se ampla margem, em entregar-se a direções nítidas
mas contar com o acaso, em não saber nunca onde se
chegará mas estar certo, todavia, de que lá chegará.

Para o trabalhador do espírito puro, seria precioso ter um


amigo entre os proletários, ou entre os burgueses que
arriscam a vida. O inconveniente das vocações intelectuais
é que os erros cometidos nesse meio não ferem nem o
próprio coração nem a própria honra; muitas vezes mesmo,
como observava Descartes, são esses erros que nos
proporcionam a glória. O sapateiro que conserte mal a sola
de um sapato tem a vantagem de ser punido: o cliente não
voltará mais lá. Nos trabalhos de puro espírito
comprometemo-nos, geralmente, sem nada arriscarmos. E
tenho pensado muitas vezes que o que muitos saboreiam
na liberdade de suas opiniões é a certeza de que não terão
de responder com o corpo aos seus pensamentos.

É certo que as coisas podem se passar de outra maneira;


nesse caso o trabalho do espírito nos recordará a
semelhança que existe entre a espada e a pena. Nesse
espírito, o velho Renan pretendia que a ocupação de
marinheiro de um torpedeiro viesse a ser a profissão dos
grandes idealistas, “aos quais proporcionaria”, dizia ele, “a
possibilidade de tranqüilamente sonhar neste mundo,
exceto quando fosse preciso obrigá-los às horas heróicas
com quatro ou cinco possibilidades de não retornar”.
Encontra-se nessas observações o princípio da nobreza: os
que tinham a vantagem de ser duques sustentavam que o
seu sangue estava sempre à disposição do rei.

Acrescentarei ainda algumas notas sobre o proveito que tirei


da convivência com os homens do exército.

Causa espanto, quando convivemos com monges, padres,


oficiais, ver a extrema liberdade de seus pensamentos sobre
assuntos de que no entanto fazem profissão de fé. Maurois
deu-nos belos exemplos nos Silences, no Lyautey.05 Um
puro intelectual, pelo contrário, nunca sabe criticar sem
irreverência. Quando se professa está-se mais à vontade
para distinguir, desapaixonada e serenamente, aquilo que
afasta da Origem.

A vida no exército renova, mais do que qualquer outra, as


aplicações do espírito, rejuvenescendo-o muito mais. Em
nossas profissões liberais praticamos quase sempre as
mesmas coisas, do que resulta esgotarmos e extinguirmos a
possibilidade de adquirimos experiência. Os nossos
exércitos modernos, sempre em trabalho de parto, obrigam
o militar, mesmo que ele seja um general, a sentar-se nos
bancos de instrução para aprender um novo ofício. Os
americanos têm razão ao pensar que se pode mudar de tipo
de existência várias vezes, nascer aos quarenta anos,
começar aos sessenta e acabar na escola.

To find out what you cannot do


And then to go and do it,
There lies the golden rule.06

Havia também nesse isolamento futuros Conselheiros de


Estado, inspetores de finanças, diplomatas em potencial,
que formavam um “bando” sob a direção de um camarada
de carreira. Esse bando reunia-se ao redor de uma pia
análoga ao tanque dos artistas e transformada numa
grande mesa — o que leva a pensar que o primeiro
instrumento de trabalho (quer seja de arquiteto, de
estrategista ou de diplomata) é uma mesa onde se possa
ficar à vontade.

Os concursos, por meio dos quais tem-se acesso aos cargos


do Estado, hão de ser sempre a mesma coisa: pedem
menos os conhecimentos que uma certa facilidade em
expôr, discursar, persuadir. De modo que se poderiam
facilmente encontrar naquele círculo áulico os traços de
nossa tendência romana para atender mais à forma que ao
conteúdo, “essa forma impura”.

Depois, como entre as pessoas da sociedade, o uso da


alusão, que é tão útil à prosa quanto a metáfora o é para a
poesia. À medida em que o nível da atividade progride (do
engenheiro para o diplomata, por exemplo) em extensão,
aumentam o alcance, a densidade, a sutileza da alusão. O
obstáculo estaria em não se falar mais senão por gestos,
meios-sorrisos ou olhares rápidos.

Para os que servem ao Estado, a dificuldade do trabalho do


espírito deriva da existência de um Direito escrito. Entre o
espírito deles e o concreto interpõe-se uma tal quantidade
de noções, de textos e de questões prévias, que deles
exige-se, ainda mais que o saber, a engenhosidade. São
obrigados a julgar uma situação, examinado-a não tal qual
ela é, mas aplicando-lhe um texto que lhe é anterior, que
não tinha sido feito para ser ajustado a tal situação. É um
hábito que ninguém adquire na juventude, e que, no
entanto, bem poderia constituir objeto de exercícios, mesmo
nas primeiras idades.

Para nós, as Letras e as Ciências são as únicas disciplinas


suscetíveis de formar um espírito jovem, e pensamos que os
estudos de Direito, se bem que, no seu início, sejam
análogos ao tipo de estudos secundários, devem ser
ensinados só depois dos exames finais do liceu. Há no
Direito uma fonte de experiência capaz de formar a razão e
de a iniciar no que é justiça. Se os franceses carecem de
senso cívico, isso é devido talvez a nunca se lhes ter dito
nada nas primeiras idades sobre o que deveria entender-se
por Direito.

V. Regressos de outubro e de
novembro
As vicissitudes fizeram-me vir encontrar, por ocasião de
meu regresso, uma classe do ensino secundário; desejo
contar ainda o que ali aprendi. Trata-se de uma feliz
experiência e que geralmente só os religiosos podem fazer:
tornar outra vez ao princípio. Seria necessário desejá-la
ardentemente, e que o coronel descesse a sargento ou o
engenheiro a contramestre, com a condição todavia de que
isso fosse feito sem mágoa, evitando as conseqüências do
despeito.

Para nos formarmos de novo, o ideal seria que já na metade


de nossas vidas tivéssemos de ensinar um rapaz inteligente
(ou melhor, como já dizia Ernest Legouvé, um aluno de
dezesseis anos), fazendo isso sem abdicarmos das
responsabilidades de nosso cargo; ensinar-se-ia tudo e ver-
se-iam as afinidades.
Bossuet tinha quarenta e três anos quando foi preceptor do
filho do rei. Homem de igreja, ignorando as coisas do
mundo, foi obrigado a aprender, para ensinar ao infante, o
Direito, a física, a fisiologia. Reviu as partes esquecidas do
que aprendera de história, numa idade em que se sabe
enfim o que a história nos diz.

Por vezes vou assistir a exames fáceis como os exames


finais do liceu ou o “brevet” a fim de por esse modo sondar
as profundezas do que ignoro. Qual de nós, entre os
catedráticos, tiraria brilhantemente o seu certificado de
estudos? E quando faço essa pergunta, acontece-me dizer
sempre para mim: “Seria eu sempre capaz de responder às
perguntas que faço aos meus alunos?” A diferença entre o
adulto e o jovem consiste em que este não possui o poder
de interrogar que, unicamente, dava-se o Menino Jesus
perante os doutores.

A aula, com as suas horas reguladas por convenção, cuja


ordem é tão exata como o sol, constitui uma boa disciplina.
Pacifica, graças aos seus movimentos regulares, ao seu
ritmo litúrgico, aos enormes silêncios da atenção. Diverte
pelo que nela se alterna, pelos seus heróis estudiosos, pelos
seus cábulas indescritíveis, tão agradáveis de observar, e
também pela boa quantidade de alunos que ficavam no
meio-termo, pacíficos cordeirinhos dominados por algum
carneiro.

É verdadeiramente erudita e doutrinal, com o estrado, a


escrivaninha e o quadro-negro, que é o altar-mor. Eu
gostava de escrever a giz, no quadro, provérbios cheios de
verdade, simples e essenciais, com os quais eu mesmo
aprendia.

A aula liga-nos ao Estado pela visita inesperada do diretor,


que vem fazer discursos autorizados, ou pela visita (bem
rara) do inspetor geral — então passa sobre a bela e
sonolenta província um sopro vindo do bairro latino e do
ministério.

Depois de uma ausência de quinze anos, voltei para


encontrar a minha classe secundária na mesma, como se
fossem as mesmas personagens representando os mesmos
papéis, até o de chefe da turma ou o de “encarregado da
lareira” — que, durante o inverno, queimava o mesmo
carvão no antigo fogão da sala. Dir-se-ia que nenhum
progresso, assim como nenhuma regressão, seria capaz de
tocar a velha estrutura da aula onde estavam bem à vista
as tradições dos jesuítas, o espírito do imperador e os
nossos hábitos laicos. Apenas o antigo tambor desaparecera
para dar lugar a um toque mais imperioso: um sino de
igreja.

A sala que eu ocupava era das mais pobres que se pode


haver. As vidraças tinham desaparecido durante o
bombardeamento da cidade e sido substituídas por papelão,
o que escurecia a sala, embora se estivesse numa região de
muita luz. O diretor explicou-me que os pedaços de papelão
tapando as janelas eram excelentes para impedir os olhares
das mulheres, lançados do cimo de suas casas, entre duas
vassouradas, e ainda mais as olhadelas dos alunos.
Estabelecida num antigo convento de monges, era bem
uma sala napoleônica, guarnecida de alguns alunos
indolentes, preparados nesse dormitar perpétuo, que não é
lá muito desagradável...

Eu tentava reformar os meus métodos; perguntava-me o


que podia eu fazer por eles e por mim, tendo em conta a
minha melhor preparação e a ignorância radical deles, a sua
justa aspiração de serem admitidos ao bacharelado e a
necessidade que tinham de uma autêntica cultura. Tornava
a encontrar por toda a parte a mesma dificuldade habitual:
de um lado, programas bastante pesados e, como
compensação, hábitos enfadonhos.

Havia tardes de verão em que eu próprio me surpreendia ao


ouvir a minha voz, mastigando sobre filosofia — o que não
me impedia de pensar em outra coisa. As sábias canetas
faziam, de vez em quando, ruídos que lembravam o canto
das cigarras; os espíritos dos alunos arquitetavam sonhos
mais coloridos que os meus. Para que todos
despertássemos preferia distraí-los, conversar com eles,
contar-lhes mesmo qualquer passagem de minha vida; mas,
logo que se começava a trabalhar, fazíamo-lo
exaustivamente. Ficava atento, a fim de interromper ao
menor sinal de fadiga. Toda a turma deve trabalhar
plenamente, ou então descansar — a isto estão
condenadas, tal como demonstrarei, muitas das nossas
empresas.

Como é lamentável visitar uma “sala de estudo” depois da


hora do “recreio” — que, entre nós (pelo menos para os
mais crescidos), não consiste em praticar esportes mas em
dar sonolentas voltas num campo cultivado onde brincam
os pequenos. Estudo? Certamente, mas nunca ninguém se
colocou ao lado deles para ensinar-lhes a se servirem de um
dicionário, a redigir; eles não se dedicam senão aos
problemas de matemática — e copiando os resultados do
colega que tiver sido mais hábil.

Sei muito bem que uma inovação radical no mundo dos


repetidores e mestres do internato, se dignos, implicaria
uma reforma geral do sistema. Nós soubemos organizar
admiravelmente as aulas: pusemos à disposição dos alunos
de dez anos um conjunto de catedráticos que, em outros
países, ensinariam nas faculdades. O concurso que concede
a cátedra à universidade e que nos dá o direito a uma
existência medíocre é dos mais difíceis que existem. Desse
modo, os alunos não se poderiam lamentar: fez-se-lhes uma
concessão excelente, sem que eles, aliás, se apercebessem
disso, nem eles nem os pais, cada vez mais indiferentes aos
estudos dos filhos. Mas os professores só estão no liceu
durante as horas em que dão aulas. Depois, o aluno interno
fica só; era então que ele deveria ser ajudado.

Tentava abolir em mim essa regra aristocrática que orienta


todos os professores jovens: não dar a aula senão para os
melhores. É preciso pensar nos piores, eu me dizia, cansado
de ter de mudar tudo quando informado da visita do
inspetor, cuja função é só a de fazer falar os melhores e, por
aí, julgar o trabalho do ensino. Procurei sempre abrir os
cérebros fechados, os cérebros rudes, pensando que, se
obtivesse qualquer resultado com os alunos medianos, os
melhores nos seriam dados por acréscimo. Sócrates falava à
gente pequena de Atenas e surgiu Platão.

A minha idéia era ensinar pelos processos mais simples, a


fim de obter rapidamente um resultado compensador. Pouco
corrigia os exercícios, aborrecendo-me fazer nas margens
riscos a lápis vermelho, que ninguém relê. Mas procurava,
na redação, um erro que fosse significativo; chamava então
o aluno para à parte lhe ensinar a regra violada, e nunca
mais consentia que ele o repetisse. Ou salientava ainda na
sua redação o que havia de belo, a passagem prometedora
(que quase sempre se encontra), para que ele soubesse do
que era capaz e soubesse tomar como exemplo a si próprio
em seus momentos mais felizes. Procedemos mal exibindo o
erro, como se todo o dever fosse de cálculo ou de
ortografia: também se poderia, ao invés, vencer o mal pelo
bem.

Que felicidade poder ver nos colégios uma cabeça apagada,


lenta, um pouco manhosa, tornar-se bela pela limpidez do
olhar, conservando todavia a insolência necessária em
nossa livre época.

VI. A espiritualidade do ofício


Encontrei-me um dia numa faculdade da província que fui
surpreender em plena crise de crescimento. Hoje em dia as
faculdades já não estão abertas desde logo aos finalistas do
liceu. Entra-se nelas só depois de um ano de propedêutica,
exame que se faz na própria faculdade e cuja preparação
permite que as inteligências mais jovens se iniciem nos
métodos do Ensino Superior. Como acontece com toda a
moeda, o curso dos liceus está desvalorizado. Foi necessário
inventar uma outra iniciação, a abrir o Ensino Superior, que
vai dessa forma parecer-se com uma grande Escola.

No ano propedêutico, nenhuma opção tem lugar. Os deveres


são ali obrigatórios. Excelente reforma a que põe finalmente
em ação a idéia profunda de que a iniciação é indispensável
a todas as coisas belas, que é preciso saber esperar à porta,
prolongar o noivado, retardar a hora decisiva. O
inconveniente da propedêutica é o de não ter uma rigorosa
disciplina e o de dar ainda muita liberdade aos espíritos
jovens. Mas, para o estudante sensato e desejoso de
trabalhar, isso constitui um intervalo perfeito, no qual ele
pode medir, aperfeiçoar os seus métodos e entrar na cela
do conhecimento de si próprio. Este livro dirige-se sobretudo
aos propedeutas.

Daqui por diante teremos o estudante isolado, obrigado a


entregar-se a si próprio, e liberto daquelas obrigações que,
no fundo, facilitam o trabalho. Em geral ninguém se inclina
sobre o trabalho próprio, o qual depende mais do acaso que
o trabalho do liceu. Quanto maior é a faculdade, menos
possível é o aconselhamento. É preciso portanto que o
estudante aprenda por si, que resista aos maus conselhos, à
dissipação das tentativas, ao atordoamento causado pela
nova matéria; que se concentre, discipline-se, que, entre a
abundância do que se lhe propõe, ele procure definir o
estreito domínio da matéria a que mais particularmente irá
visar.

Seria útil que se formassem, então, hábitos de trabalho em


comum, cérebros, equipes, onde cada um lucraria com o
trabalho dos outros. Mas o trabalho intelectual não está
organizado, e as inteligências jovens dispersam-se. Na
realidade, os estudantes, por falta de recursos, são
obrigados agora a arranjarem uma ocupação anexa; é
provável que o tipo de estudante dispondo de seu tempo
livremente venha a se tornar cada vez mais raro.

Podiam-se modificar os horários dos cursos, ocupando eles


a quinta-feira toda, a tarde de sábado e as noites dos dias
de semana. Desse modo, a juventude poderia trabalhar e
estudar simultaneamente. Pode-se, entretanto, perguntar
que gênero de esforço intelectual é possível quando se
trabalhou o dia inteiro num escritório ou no comércio ou
tendo sido vítima dos alunos de um internato.

Como quer que seja, o estudante dos nossos dias é mais


responsável; ele conhece melhor quanto vale o tempo. É
obrigado a pensar em métodos, a fim de tirar o máximo de
rendimento do pouco tempo que lhe foi concedido.

VII. Conclusão
Sob cada um de seus aspectos, o trabalho intelectual tem
relações com a vida profunda. A intelectualidade não
deveria separar-se da espiritualidade. Sei bem que
perdemos o sentido dessas relações entre a inteligência e a
alma. Sofre a nossa época da separação, que consentiu,
entre a técnica e o espírito. Conservamos a mentalidade de
escravo: distinguimos os deveres da profissão, os quais são
para muitos o meio de assegurar a sua subsistência, dos
prazeres do ócio, pelo qual nos é dado gozar da liberdade
pura.

É forçoso reconhecer que, nas profissões desumanizadas da


indústria, bem como de certas grandes empresas, nos
gestos mecânicos e monótonos, nenhum espírito se pode
alojar. O que importa é dar-se de corpo e alma à máquina e
ao público, por um espaço de oito horas, como num sonho
automático. Prestamo-nos a isso, sem nisso pôr a mínima
parte de nosso ser, a não ser aborrecimento e esforço.

Graças a Deus, as profissões ainda têm setores livres. E


boas profissões há que são em si mesmas como ministérios,
no sentido etimológico de métier. A profissão de intelectual,
mormente na fase do estudante que investiga, figura entre
as mais livres e as mais belas que se podem propor aos
jovens no primeiro esplendor de sua vida. É notório que ela
se pareça, por certas analogias profundas, com a do
camponês, e penso que Virgílio, nas Geórgicas, tenha
pressentido essa correspondência. Ela sem dúvida passou
despercebida aos redatores dos Evangelhos, que de modo
algum eram escritores, se bem que tenham sido
verdadeiros modelos na arte de dizer muito em poucas
palavras.

Mas quantas e quantas parábolas enigmáticas se poderiam


facilmente transpor — como o notara Gratry ao escrever As
Fontes — para dar regras ao trabalho do espírito, ao estilo e
à inspiração. Exemplos: o grão de mostardeira, a menor das
sementes, que, uma vez semeada, cresce silenciosamente
até se tornar uma árvore para as aves do céu; ou aquele
semeador que troca a maior parte de suas sementes por
uma que dá cem; ou aquela seara onde o joio se encontra
tão misturado ao trigo que preciso é esperar pela ceifa para
apartá-lo; ou, ainda, o conselho de deixar repousar a terra,
que “frutifica por si mesma”.

Em certo sentido, as reflexões que se seguem não são mais


que glosas sobre esses princípios primários. O trabalho do
campo, tal como o do marinheiro ou o do soldado, contém
em si um alimento para a alma: não se trata senão de pô-lo
em relevo. Assim também quanto aos estudos voluntários.

Ingressum instruas
Progressum custodias
Egressum impleas

Essa prece de S. Tomás poder-se-ia traduzir assim: “Vela


pela preparação, vigia os progressos, recolhe os frutos”. Ela
nos indica o ritmo deste pequeno livro, cujo objetivo é o de
fazer com que nos deixemos transportar pelo ritmo do
espírito humano no que toca ao esforço intelectual. Afigura-
se-nos que esse movimento é o de uma onda que se
prepara, sobe, cresce e rebenta por fim, deixando traços na
areia.
Capítulo 02: A preparação dos
trabalhos
I. O ponto de aplicação
Parece que o primeiro conselho a dar ao que trabalha é o de
procurar penetrar primeiramente no conhecimento de si
próprio, e tal não consiste em apertar a cabeça entre as
mãos e mergulhar no abismo interior onde nada se vê, mas
sim em fazer passar pela memória aquilo que se fez no
decurso da última semana, em enumerar as horas em que
efetivamente se trabalhou, em tomar consciência do que se
perdeu e do que se ganhou. Um tal balanço das nossas
forças é bem necessário porque as idéias mais fátuas são as
mais difundidas, fazendo com que os programas de ensino
acreditem que o nosso saber pode ser enciclopédico.

A idade escolar ensina a falar por alusão do que ignoramos.


É a arte suprema do retórico, e que lhe permite ter como
certos muitos êxitos. Mas, homem feito, continua seguindo
esse regime de espírito, que não é tão desagradável como
pode-se pensar. No dia em que se está seguro de não mais
se poder ser interrogado a respeito do que se ignora, fica-se
então definitivamente tranqüilo: poder falar já nos basta.
Com algumas leituras, os silêncios, os ataques bruscos a
certos pontos de antemão preparados já nos julgamos
capazes de fazer frente ao mundo.

Desse modo, necessário seria ter lido tudo, e aquele que


ignora desonra-se. Ora, contabilizando as horas disponíveis
de um dia normal, e se pusermos de lado o sono, os
cuidados higiênicos, as deslocações, os deveres,
apercebemo-nos de que muito pouco tempo resta para o
trabalho do espírito, mesmo para o que a ele se consagra,
tendo em vista o trabalho radical, que mobiliza as nossas
forças mais profundas.

Basta que tenhamos estado juntamente com um intelectual


em alguma prisão para notarmos que ele, em suma, pouco
possui de conhecimentos à sua disposição imediata, tendo
de recorrer aos livros ou a um longo exercício preliminar. A
diferença entre a sua inteligência e a do comum dos
indivíduos consiste na utilização feita, com elegância, do
que sabe. A isso ele se adapta maravilhosamente.

Benrubi publicou um livro sobre as entrevistas com que


Bergson o honrou ao longo de um período de cerca de 30
anos.07 E o que a mim mais me impressionou nessa obra foi
observar como um espírito invulgar adaptava uma única
resposta a variáveis questões. Goethe faria a mesma coisa
com Eckermann.08 Quem pensaria em criticá-los por isso? O
valor de um espírito não está tanto na sua ciência (há os
dicionários ao alcance da mão) como na posse de hábitos
perfeitos que lhe permitam adaptar o seu saber e os seus
princípios à singularidade de casos sempre novos e,
inversamente, julgar que proveito pode tirar do que lhe é
oferecido pelo acaso.

É observando o trabalho de um artista que melhor se


discerne essa mistura de riqueza e pobreza que é o quinhão
que cabe a todo ser encarnado. É impressionante ver como
os retratos que um pintor faz de pessoas não obstante
diferentes parecem-se misteriosamente uns com os outros.
É que a arte procede do encontro (por intermédio da obra)
de uma alma com uma realidade singular. Não foi
examinando os inumeráveis objetos que o pintor agiu, foi,
sim, escolhendo e considerando aqueles com os quais se
sentia de antemão em acordo. E esses mesmos problemas,
reproduzia-os ele na sua luz própria. Por essa razão é que
aos verdadeiros artistas lhes interessa bem pouco que a
matéria seja nobre, excepcional; mais satisfação lhes dá um
tema à primeira vista insignificante. Observa-se o mesmo
nos santos.

O que há de extraordinário na obra de Proust é o caráter tão


desnudado de interesse do que ele transfigurava;
recordações como as têm todas as crianças sensíveis,
ocupações de mundanos desocupados... A sua habilidade
consistiu em compreender que, quanto mais banal fosse o
assunto, tanto mais o talento se evidenciaria, e que um
afastamento tão visível tornaria sensível ao leitor a própria
operação da arte, tão agradável de ver palpitar sob a obra
como se fosse a sua respiração.

***

Os grande homens não são de uma essência diferente da


nossa. Assim como seria bom realizar as coisas difíceis
como se fossem fáceis, e pôr uma ardente atenção nos atos
mais simples, assim também, observar a atividade dos
seres dotados de gênio ilumina todos os nossos modestos
empreendimentos.

Preparar uma dissertação de bacharelado ou de


licenciatura, trabalhar numa redação em francês, escrever
poemas que ninguém mais lê — tudo isso que um jovem
espírito pode tentar é, no fundo, da mesma natureza
daquilo que faz um grande escritor. E eu até diria que o
homem novo tem as suas vantagens em relação ao homem
amadurecido: o tempo disponível, a confiança radical em si
próprio e a ausência dos movimentos de dúvida que
prejudicam sempre.

Mas o que acima de tudo deve ser lembrado é aquela


grande regra de vontade que aconselha a escolher e a
persistir. Todo o método, dizia Descartes nas suas Regras,
consiste “na ordem e disposição daquilo para onde é
necessário dirigir a ponta do espírito, a fim de
apercebermos ali qualquer verdade”.

O espírito é uma potência perplexa; logo que


definitivamente sabe o que é que deve de preferência
interessá-lo e em que sentido deve orientar a sua ponta,
fica em parte consolado. O peso mais duro para a alma é
não se saber o que é necessário fazer. O que tomou um
partido pode vir a sofrer pela perda de seus bens ou pela
resistência das vontades que lhe são hostis, mas não mais
sofrerá de incerteza.

Além disso, aquilo a que se chama espírito não é senão a


qualidade da atenção, e não é sem razão que se compara a
atenção a uma ponta (acies mentis, dizia Descartes) ou,
ainda, que a figuremos por um cone virado ao contrário. A
atenção será tanto mais forte quanto mais se mobilize e se
concentre. Essa é uma verdade simples, mas que o nosso
gênero de vida, a nossa educação, a nossa preguiça nos
fazem desprezar.

O trabalho intelectual, tal como nos permitimos praticá-lo


por rotina, parece-se com aquela “batalha paralela” da
velha estratégia: não se escolhia o lugar onde mais
necessário fosse o esforço, batalhava-se de igual modo e
com igual esforço em toda parte; assim também, agora,
queremos saber tudo. A batalha-manobra, concebida como
uma aplicação total do esforço sobre certos objetivos
previamente definidos, evoca a concentração da atenção
sobre o âmago de um determinado problema.

Dizia Napoleão:
Há muitos bons generais na Europa, mas eles vêem
demasiadas coisas; eu, vejo apenas as concentrações e
ataco-as, certo de que os acessórios cairão em seguida
por si próprios.

E mais:

Tudo se torna simples, fácil, determinado, nada é vago


quando se estabeleceu de há muito, e com autoridade
superior, o ponto central de um país. Sente-se quanta
segurança e quanta simplicidade proporciona a
existência desse ponto central.

Ou ainda:

Não é com um grande número de tropas, mas com


tropas bem organizadas e disciplinadas que se obtêm
êxitos na guerra.

Isso implicaria, para o trabalho intelectual, em máximas


como estas: Saiba selecionar. Não procure perceber tudo.
Agarre-se a um só ponto e dê piruetas ao seu redor.

II. A distinção das tarefas: ocupação e


trabalho
Isso implica também que se distingam nitidamente as fases
do repouso, da preparação e da execução. Nunca se deveria
deixar que essas fases se misturassem; não se deveria ficar
satisfeito com esse vago trabalho que não é nem a paz nem
a aplicação, e com o qual contentam-se tanto os alunos
como os burocratas.

No exército, períodos enormes de inação dão


inesperadamente lugar à excitação febril de uma ação
intensa e breve, depois do que vem de novo a tranqüilidade.
O manual de educação física, disciplina essa que obriga a
agir sabiamente, diz que o professor deve exigir dos
ginastas quer um esforço prolongado, quer um repouso
total. “Não há nenhuma situação intermediária”. Não se
regressa ao que já está decidido. Levemo-lo, sim, ao seu
termo. Depois disso, só se contam os mortos.

A regra de ouro do trabalho intelectual pode traduzir-se


assim:

Não tolere nem o semi-trabalho nem o semi-repouso.


Doe-se por inteiro ou descanse absolutamente. Que não
haja nunca em você mistura dos gêneros!

Essa mistura condena muitas das nossas tarefas escolares.


Entre num liceu ou num colégio, no quarto de um
estudante, no escritório de um homem de negócios, e verá
sempre essa regra violada.

As aulas entorpecedoras, a caserna sombria, as horas de


presença, tudo contribui para contrair esse semi-trabalho
que avilta a substância do tempo e não dá alegria nem no
trabalho nem no repouso. Pobre espécie pensante!

Perguntei certa vez a um diretor de estudos: “Mas por que


razão, afinal, o senhor prescreve-lhes tantas horas de
estudo?” Sincero, o homem respondeu-me: “Uma sala de
estudo é mais fácil de administrar que um recreio”.

E dizia Simone Weil:

A atenção é um esforço, o maior dos esforços talvez,


mas é um esforço negativo. Por sua natureza não
comporta a fadiga. Quando o cansaço se faz sentir, a
atenção quase não é possível, a menos que se esteja já
bastante habituado. Então, o melhor é descansar,
procurar um escape, para depois, um pouco mais tarde,
recomeçar — descontrairmo-nos e contrairmo-nos,
como se inspira e se expira.

A atenção de que fala Simone Weil é bem o estado mais


perfeito, o mais doce, ao qual a alma é contrária, bem mais
que a carne se opõe à fadiga. É uma atitude de espera pura
de espírito, que não se precipita para uma verdade
aparente, mas que está disposto a recebê-la. Simone Weil
diz-nos que as contradições nas versões, as absurdidades
na resolução dos problemas de geometria, têm origem na
gula da atenção, que não sabe sossegar-se e esperar.

Certa gente finge estar doente para evitar atos de


verdadeira paciência ou coragem. Assim também há quem
se esconda sob a aparência de um excesso de trabalho para
evitar a atividade que lhes é odiosa ou a inação que os
colocaria em face daquilo que na realidade são. “Já não sei
para que lado me voltarei...”, “não durmo senão seis
horas...”; como seria melhor ouvir dizer: “Alegro-me com o
meu trabalho”, “tenho tempo para o descanso”.

Cumpriria, pois, distinguir entre a ocupação, que é uma


atividade na qual o cerne do espírito pode distrair-se, e o
trabalho aplicado, no qual nos entregamos, embora o
menos possível. Só esse último, que comporta alegria e
sofrimento interligados, como toda a virtude do ser total,
deveria merecer o duro nome de trabalho.

Payot tinha razão ao dizer: O tempo do verdadeiro trabalho


é curto. E refutava os casos dos grandes trabalhadores
conhecidos das Letras, mostrando que muitas vezes aquilo
a que eles chamavam trabalho consistia numa obra de
confusão, de agitação regrada, de torpor erudito, em suma,
no que forma a trama de toda a existência mundana e que
se resume nessa bela palavra ocupação.
Payot fala-nos de Zola e de Flaubert; apresenta-nos esses
centauros passando dez horas seguidas trabalhando — não
que eles fizessem um esforço contínuo, mas porque ou
tinham sabido mecanizar a sua operação ou porque
devaneassem em busca da melhor palavra. O seu
verdadeiro trabalho estava, então, no exercício da
degustação, o que demanda muito tempo sabiamente
perdido e muita indolência: a contenção estragaria tudo.

Mas não confundamos os gêneros. As ocupações diárias ou


o discernimento não são trabalhos, no sentido absoluto que
eu dou a essa palavra, o qual implica uma mobilização
completa do ser. Tratar-se-ia, para os principiantes, pelo
menos, de nunca se enganarem a si próprios, chamando
esforço ao que não é senão a caricatura, o treino ou a
preparação. Acender as velas não é rezar a missa.

Deveríamos nos esforçar em descobrir quais são as horas


divinas, aquelas nas quais a atenção está num estado de
lucidez, de penetração, de coincidência com o eu mais vivo.
Determinar as horas de paz ativa, o seu número, a sua
duração, o seu ritmo, o seu regresso, depois fazer girar o
nosso trabalho ao redor delas. Nunca permitir que nessas
horas nos deixássemos prender pelas ninharias deste
mundo. Revolucionar o nosso horário (levantando-nos às
seis horas ou, pelo contrário, deitando-nos à meia-noite), a
fim de fazer girar o nosso trabalho ao redor das horas
sagradas, e nunca essas horas ao redor de nosso trabalho.

Isso é que seria acertado, dispormos de nosso tempo, o que,


ai de nós, é tão raro. Mas o espírito desse programa pode
ser conservado totalmente. E deve-se, para se evitar o
excesso de atividade, determinar quais são as horas de
frescor, ocupá-las no que é mais urgente, ou no mais
pesado, ou no que é mais santamente agradável — pôr
nelas esse dom do homem que se chama “o seu possível”...
e deixar o resto a Deus, para que o suplemente.

Sobre esse ponto, os caracteres são diversos. Há os que


trabalham melhor de manhã: levantam-se ao romper da
aurora ou antes da aurora. Constituía, para o moralista
antigo, uma regra sem exceção trabalhar com prazer e
interesse nas primeiras horas do dia; as ordens religiosas
conservaram esse princípio. Mas na vida moderna, onde
tudo começa tão tarde, é bastante difícil que alguém deite-
se, como os frades, com o crepúsculo.

São as noites que oferecem a maior solidão, o maior


conforto e mistério, o que implica num levantar tardio
depois do repouso reparador. Além disso, os temperamentos
nervosos, que abundam cada vez mais neste mundo, muitas
vezes não encontram o verdadeiro sono senão ao princípio
da manhã e as manhãs são-lhes pesadas, porque a
readaptação do espírito ao corpo produz-se lentamente
neles.

É necessário saber, ainda, que a qualidade das atenções é


diferente: raras são as atenções ao mesmo tempo plenas e
constantes que se podem manter por duas horas seguidas.
O Apocalipse fala de um tempo de silêncio no céu, e
Bossuet fazia notar que esse tempo tem a duração de meia-
hora; convém contar com ainda menos sobre a terra!
Depois de vinte minutos, tudo se complica, muitas vezes,
num espírito cansado e que trabalhe, assim, contra si
próprio.

Mas aquele que não exercer a atenção senão durante dez


minutos — como Montaigne, que possuía um espírito
intuitivo: “o que não vejo à primeira vista”, dizia ele, “vejo-o
muito menos ainda persistindo nisso” —, esse poderia ainda
fazer muito se renovasse o seu esforço, como os remadores
que descansam um instante após cada movimento do remo.

O que importa é cada um conhecer-se e aceitar-se; e ter


medido as suas forças, como se em verdade se tratasse de
um aparelho; é saber regular a atenção, conhecer os
momentos do dia em que se está em sua inteira posse e os
momentos em que ela cessa ou em que deva refazer-se por
meio do repouso, da alternância ou da diversão.

Essa curva de nossa duração íntima, nós deveríamos tê-la


bem presente, assim como para o piloto transoceânico as
informações meteorológicas.

III. Amizade dos lugares, vizinhança


dos seres
Ao aproveitamento do tempo corresponde o do lugar e das
proximidades. Basta interrogar para perceber sobre esse
ponto a diferença dos costumes: uns têm necessidade de
uma atmosfera superpovoada de livros, de documentos e de
uma falta de ordem sobre a qual a sua inspiração, como
dizia Hugo, “acocora-se”. E outros têm não menos
necessidade de uma ordem feita de privações e de vazio,
não tendo consigo senão o necessário. Para alguns, como
para Rilke, é necessário um pequeno apartamento, exíguo e
monástico, e um ambiente que a nós nos pareceria
insignificante, mas no qual eles mergulham interiormente; e
outros, ao contrário, como Sertillanges, necessitam da
planície, das montanhas ou do mar. A preparação do
trabalho exige um recanto e, mais ainda, uma atmosfera.

Creio que o primeiro cuidado a se ter deve ser o de


encontrar um refúgio, um recanto, e isso pode-se fazer até
na prisão. Organizar a gruta; escolher um lugar tal que tudo
nele seja paz e iniciação. Se esse apartamento estiver
organizado com luxo, que esse luxo seja sóbrio. Se estiver
organizado pobremente, que essa pobreza esteja cheia de
símbolos. “Não tolere nada junto de si”, dizia Ruskin, “que
não lhe seja útil ou que você não ache belo”. Essa regra,
aplicada, num quarto de trabalho, aconselha a várias
condenações.

E é bom saber de que lado vem a luz. Os raios oblíquos da


tarde podem ter a sua virtude, ou a luz da manhã, ou a que
se filtra, no verão, através das persianas. Assim também
com a lâmpada, e sobretudo o abajur, que cria um cone de
claridade de que se pode escolher o modo.

Desde que lhe seja possível, procure uma outra pessoa, ao


mesmo tempo resistente e reflexiva, que o ajude a controlar
os seus pensamentos, assim como o confidente da tragédia.
E é sem dúvida difícil encontrar um colaborador bastante
dócil, bastante refratário também, para, assim, ser a melhor
parte de nós próprios projetada no exterior.

Foch teve Weygand, sem o qual ele não teria conseguido ser
ele mesmo. Muitas vezes interroguei o general Weygand
sobre o gênero de ajuda que ele prestava ao seu chefe. Era,
em suma, segundo a sua modéstia, em grande parte um
serviço de admiração, análogo ao de um ser amante.
Porque a admiração que alguém possa ter por nós dissipa
as nossas dificuldades.

Um secretário, um aluno calado, uma esposa silenciosa


podem nos preencher essa função tão necessária.
Encontram-se sempre os auxílios que merecemos ter. Quem
não tem, trabalhando ao seu lado, um colega que se pode
chamar, um gato que se estira e que fixa nos seus os olhos
inumanos dele, uma criança que dorme ou um estudante
que pede solução para enormes problemas, inexistentes
para você?

IV. A contribuição do desfavorável


Quando lemos a biografia de muitos homens (de todos,
talvez, desde que a narrativa seja sincera), notamos que as
condições de sua infância, de sua educação ou de sua vida
não os predispunham para o que realizaram. Não foi por
causa dessa educação, foi apesar dela muitas vezes que
eles puderam desenvolver-se. Uns não tinham livros;
escondiam-se para aprender... Isso leva a pensar no
significado da palavra propício; sabemos nós alguma vez o
que não é propício?

Muitas vezes acontece que o elemento mais favorável não


falta. É porque a falta do objeto exterior faz surgir no centro
de nós próprios um impulso que o substitui; é o eu
substituindo a coisa, é o gênio. Todas as vezes que
substituímos um objeto por um auxílio vindo de nosso
interior, estamos no caminho da renovação de nós próprios
e do mundo. De modo que nunca é necessário lamentarmos
demasiado os que se lamentam de falharem, desde que
eles tenham feito o juramento de perseverarem.

E é preciso partir antes que tudo esteja pronto, sem o que


ninguém jamais se prepararia o bastante para coisa alguma.

Contaram-me no Languedoc que Renouvier fora acometido


por uma espécie de surdez que se atenua logo que se faça
um ruído ao seu redor; a esses doentes era preciso falar ao
som abrupto de um tambor. Nada melhor, ao que parecia,
que ir com Renouvier ver passar o trem na pequenina
estação da cidadezinha de Prades: o tumulto desse quarto
de hora era propício à comunicação. Vários processos de
entendimento sofrem de um paradoxo análogo. É-lhes
absolutamente necessária uma ocupação contrastante.
André Vincentaire, o herói de Patrice de La Tour du Pin,
todas as vezes que pratica a Contemplação Errante,
trabalha mesmo nos cafés, porque, diz ele, “se não sou
corajoso aqui, quando o seria?”

É sempre bom estarmos sós quando trabalhamos, longe do


barulho, fora do barulho. E, contudo, sei ainda, a esse
respeito, que alguns têm necessidade de uma certa
cadência exterior e, por vezes, de um rumor confuso; a
multidão ajuda-os; as pessoas que passam, o ruído da louça
ou de crianças, tornam-se-lhes tão úteis que, uma vez
privados desse acompanhamento, não poderiam trabalhar.
E era essa talvez a idéia de Descartes, que fugia do campo,
onde aparecem sempre vizinhos inoportunos que é
necessário aturar, preferindo ao campo a grande cidade
holandesa com o espetáculo dos trabalhos humanos e com
uma atividade diversamente registrada. Anatole France
dizia: “O tumulto é-me necessário; quando estou só, leio;
quando sou perturbado, não posso ler, então escrevo”. E
Valéry cantou o auxílio que poderíamos encontrar no
movimento de um porto.

As condições mais favoráveis nem sempre são as melhores,


tanto desperdiça o homem aquilo que possui em
superabundância. Como explicar que os universitários, cuja
ocupação é aprenderem a pensar e a escrever, produzam
menos obras duráveis que esses amadores que escrevem à
maneira clandestina de descontração? Maurois era
industrial; Duhamel, médico; Valéry, na altura de sua
melhor produção, empregado da Agência Havas; Claudel,
um diplomata, que bem poderia dizer, como Lamartine, que
a poesia não lhe tomara mais tempo que a oração ou a
respiração; Thibon, um agricultor; Guillaumin, um camponês
que lavrava e ceifava; outrora, Descartes afirmava ter feito
as suas principais descobertas em pleno campo; Spencer
era engenheiro; Cournot, reitor; Maine de Biran — esse
meditador puro —, subcomissário e deputado. O próprio
espetáculo da tolice, estúpido e tão recorrente, como o
oceano ou o vento, deve poder nos ajudar.

Uma ocupação regular, que não exija uma excessiva tensão


mas que obrigue a manifestar atitudes sem nelas pôr a
alma, como, por exemplo, a função de oficial subalterno ou
de professor secundário, serve a muitos de sustento e de
repouso para o trabalho de espírito.

Dizia Novalis:

Quanto mais o espírito quer ser tranqüilo e ativo, mais


lhe é necessário procurar ocupar-se ao mesmo tempo
de coisas insignificantes. É como um fio negativo que se
deixa arrastar pela terra, para poder ser mais
positivamente ativo e fecundo.
Capítulo 03: O esforço profundo
I. Preguiça
Delacroix confiou a Baudelaire: “A arte é uma coisa tão
ideal, tão fugidia, que os instrumentos nunca são
apropriados o bastante, nem os meios expeditivos o
bastante”. Suponhamos que, na medida do possível,
concluamos essa preparação. Encontramo-nos, agora, com
a matéria que nos foi proposta: leitura, trabalho de
composição ou de redação, artigo, seqüência de romances;
no fundo, todos os trabalhos do espírito se assemelham.

Então as tentações começam a surgir e realizam-se:


procurar por uma caneta, ler um jornal, escutar os sons do
mundo; referir-se aos precedentes, recordar-se da última
guerra; telefonar; imitar a um mestre ou a si próprio, sonhar
com as férias, delegar um trabalho a seus subordinados;
fumar, redigir uma notícia, recorrer a lugares-comuns,
encolerizar-se; esperar pelo momento da inspiração,
recomeçar, interromper-se, abandonar...

É bom nomear todos esses equívocos diabólicos, e sem


dúvida que não se pode escorraçá-los todos, e alguns
entram até na contextura dos nossos deveres, mas convém
conhecer-lhes o rosto para evitar que eles se camuflem.

Aqui, como sempre que se trata de esforço, as potências


ligam-se para nos estorvarem, tanto aos melhores como aos
medíocres. O que provoca a força de uma tentação não são
os desafios do mal, mas o sorriso do bem que está ali
misturado. Por isso mesmo é que é preciso precipitar e
suprimir, tanto quanto se possa, a preparação. Não há nada
de preliminar ao esforço ou ao amor.

II. O vai-e-vem entre o fato e a idéia


Mas em que consiste o esforço intelectual? Creio que esse
esforço consiste em passar de um plano a um outro plano. A
inteligência tende a se conservar no plano das puras idéias
ou no plano dos puros fatos. Na verdade, o que unicamente
seria digno de absorver a atenção seria o fato iluminado por
uma idéia; ou seja, a idéia encarnada no fato. Todo o
espírito das ciências reside nisso.

O puro fato não tem existência. O que deve ser objeto de


nossa pesquisa não é o fato puro, é, sim, o fato na medida
em que ele nos transporta a uma lei geral. E, do mesmo
modo, uma lei pura e abstrata não é concebível: a lei deve
sintetizar uma multidão de fatos.

Num desenho não existe qualquer linha geral; existe a curva


deste nariz, a inflexão daqueles lábios, a ondulação
daquelas colinas no horizonte que eu procuro fixar. Se se
tratasse apenas de recopiar certo tipo de linha conhecido e
aprendido, isso não provocaria qualquer esforço, a não ser o
de traçar. Mas o artista faz mais que apenas lembrar-se.
Procura representar certa linha particular, da qual ele tem a
idéia de que ela não existirá duas vezes.

Certa feita um professor de Retórica reduziu todas as


questões atuais e possíveis a cinco grandes tipos. Ensinava
aos seus alunos esses cinco grandes tipos; e no dia do
exame bastava, depois de refletir, ver se se tratava do tipo
A ou do tipo C; procedendo assim, atingia-se o alvo. Sei de
professores de matemática que procedem da mesma
maneira; e não haveria razão para censurá-los se os seus
discípulos se esforçassem para adaptar o tipo geral ao caso
sempre novo que lhes fora proposto; essa adaptação é o
resultado da habilidade e o testemunho que se tem do
espírito.

Na arte militar observa-se também essa tendência


negligente de reduzir um caso concreto a qualquer
esquema antigo que se estudou na escola. A verdade e o
valor não estão nesse artifício que é o universo absoluto do
método. Dizia Foch, na Escola de Guerra:

Ponhamos de lado esses esquemas automáticos,


retenhamos princípios gerais, depois apliquemos esses
mesmos princípios ao caso novo e inédito, posando-nos,
sem cessar, o problema da finalidade, problema que o
cérebro tanto despreza.

Essas verdades da arte da guerra vêm-se encontrar de novo


na arte de viver; e os exames, que são batalhas figuradas,
falham-se ou perdem-se por estratagemas semelhantes.
Quantos candidatos não reprovam porque não
compreenderam o ponto, por não terem adaptado o seu
conhecimento ao assunto, uma vez este compreendido, por
terem se servido de um esquema ou de um tema sem
aplicarem-no ao que se perguntava, em suma, por terem
fugido ao esforço? Os insucessos a que chamamos “pouca
sorte”, na maior parte das vezes são devidos aos nervos ou
à abdicação.

Quando exprimo o que penso por palavras, ou, ainda,


quando escrevo, qual é a natureza desse esforço? É
evidente que tenho antes de tudo uma idéia obscura e
global do que vou dizer, sem o que nunca poderia começar.
Mas essa idéia global não é um plano detalhado, nem é uma
análise feita de antemão, cujos compartimentos vazios
iriam se enchendo pouco a pouco com as palavras. Ela, a
idéia global, intervém como um sopro, que vai levantar
poeiras; como um ímã, que magnetiza a limalha; como um
braço estendido indicando uma direção.

E quando essa frase sem palavras pronuncia-se em nós sem


ruído de fonemas, os fonemas afloram subitamente aos
lábios. Na realidade, isso é um pouco mais complexo ainda,
porque a palavra, uma vez pronunciada, pela sua
consonância, pelas associações de imagens e de idéias que
ela traz consigo, propõe-nos correções, adições ou
metamorfoses que, sem suprimirem o modelo interior, vêm
contudo modificá-lo em mais de um ponto, precisá-lo e
enriquecê-lo. De modo que é à medida em que vamos
falando que conhecemos cada vez melhor o que
precisávamos dizer, que é, por vezes, bem diferente do que
projetávamos afirmar inicialmente.

Pensemos nesses audazes que, à maneira de Jaurèz ou de


Ed. Herriot, se lançam na aventura da palavra, que
começam a frase, como nós todos a começamos na vida
corrente, sem saber como ela se desenvolverá, de que
margem ela se aproximará. Esses profissionais da palavra
sabem que as primeiras sílabas da frase constroem um
andaime flexível, e que, para evitar a interrupção ou a
hesitação, é preciso que elas se deixem guiar
indolentemente pelo ritmo da frase, com a atenção
parcialmente concentrada sobre a idéia, sobre os vocábulos
e suas assonâncias, num sonho lúcido que nada poderia
destruir, porque se acaso eles pensam demasiado na idéia
as palavras hesitam, o fonema perde as suas asas, o orador
já não é mais que um professor; e se eles deixam-se levar
em demasia pelas associações, arriscam-se a serem
transportados para fora de suas idéias.

O mesmo se passa com o escritor, cuja frase tem tanto mais


valor quanto menos for escrita de antemão e quanto mais
utilizar as contingências da linguagem. Na poesia, onde a
rima é um processo de invenção, é a palavra que chama
uma outra palavra que lhe responda, como uma cor chama,
na paleta, uma outra cor, não porque uma tal cor exista na
paisagem, mas porque ela se casa com a precedente por
afinidade ou por contraste. Nisso a poesia não é diferente
da prosa e mesmo da oratória. Ela faz-nos lembrar que a
arte de descobrir, no esforço intelectual, reside nesse vai-e-
vem que nos leva do plano dos vocábulos ao das
significações ou das intenções, num ajustamento constante.

É recomendável este conselho que ouvi um mestre dar a um


estudante que perguntava como escrever em sete horas a
sua dissertação:

Passe a primeira hora considerando os termos da


matéria, calculando-os, pesando-os, entrechocando-os e
definindo-os bem: seria raro que a questão proposta não
saísse dessa confrontação. Depois, assegure-se de uma
direção geral, faça um esquema, que é mais
conveniente que um plano; e entregue-se
impetuosamente à redação; verá em certos momentos
as idéias surgindo por si próprias. E se lhe disserem que
a sua ordem é imperfeita, responda que uma outra
ordem também o seria.

É essa a maneira de resolver o famoso problema do


rascunho da cópia final. Nunca pensei que fazer um
rascunho nas horas contadas do exame fosse uma boa
economia. Mais vale refletir primeiro e lançar-se à vontade
na aventura da escrita.

A obra da natureza é aquela em que forma e substância


provém de um mesmo gesto. A obra da vida obedece a esse
mesmo ritmo. Os projetos são necessários, e os sucessos
são para os que preconceberam algo durante muito tempo.
Mas um projeto deve ser flexível e disponível, pronto para
curvar-se, restringir-se ou a ampliar-se segundo e conforme
as ocasiões, os obstáculos e os desvios. Os homens de ação
participam de sua vida ao mesmo tempo em que a dirigem.

Esses exemplos, que cada um encontra à sua volta,


significam que o esforço habita uma zona mediana, que é
aquela onde a idéia desce de sua morada para se encarnar
num detalhe, num caso, numa realidade; que é também,
inversamente, aquela onde o dado chama a idéia, na qual
ele adquire um significado. Esses dois movimentos, de
subida e descida, são a respiração da inteligência.

É verdade que não se está muito avançado no marco que


assinala o conhecimento desses grandes princípios. O difícil
da arte está na execução. Não se pode ensinar a ter
espiritualidade; mas pode-se dizer para que ponto é preciso
voltar o olhar a fim de que o espírito nos visite.

III. “Dai-me uma alavanca.”


Onde encontrar o ponto de aplicação? “Dai-me uma
alavanca!”, dizia Arquimedes. “Dai-me, sobretudo, um
ponto de apoio para nele aplicar a alavanca — e ela
funcionará”. Em todas as coisas, necessário seria procurar
esse ponto de apoio, uma fenda pré-descoberta e onde
bastaria ajustar a alavanca, como fazem os lenhadores da
floresta que, uma vez firmado o seu separador09 nas fibras
do carvalho, quase que resolveram o seu problema: o resto
é trabalho de machado, de força e de corte.

Encontramo-nos no limiar do mistério do espírito. Como


explicar a perspicácia que esse indivíduo possui e que falta
àquele? Por que um vê de repente essa junção, enquanto
que outro a procura desesperadamente? E como explicar
também que certo indivíduo tome subitamente um mau
partido e, em lugar de talhar o carvalho segundo a sua
fibra, impõe-lhe um corte mecânico, enquanto outro
aproveita o traçado natural da composição? Por que essas
existências dissipadas em projetos absurdos, e em
contrapartida existências silenciosas, que parecem emanar
da força, mais silenciosa ainda, que renova as coisas?

Eu conheci um rapaz que fazia o desespero de seus pais


porque não era capaz de entender a matemática; o pai
desse rapaz via o seu brasão desonrado: ele era de um
antigo aluno da École Polytechnique. Só que eu achava-o
incapaz de ensinar o filho. Os erros de cálculo pareciam-lhe
revelar estupidez e ser uma vergonha para a família.
Consultaram-me. Não conheço os arcanos da matemática
mas tenho a vantagem de saber por que razão sou fraco
nisso. Os meus primeiros mestres nunca me explicaram do
que se tratava, por onde se impunha arpoar as questões,
que o mistério das matemáticas era aparente; um dos
segredos dessa ciência, pelo menos nos seus começos,
consiste, penso, em nunca se querer aprofundar, em aceitar
com surpresa. O erro está em procurar-se demasiado;
eliminemos, simplifiquemos, substituamos as incógnitas por
símbolos; façamos como se o problema estivesse já
resolvido. Pratiquemos o simples dever do momento
presente. Tomemos as coisas por um outro viés. Durmamos
e voltemos no dia seguinte. Tal é a moral do geômetra. Mas
isso não o sabe ninguém, quando se está na escola.

Podemos também servir-nos da experiência alheia. Nós não


somos os exploradores de terrenos virgens; os que nos
precederam traçaram os caminhos, repararam as pontes. É
provável que os “pontos de aplicação” tenham sido já
marcados por eles no mapa. Lembro-me da espécie de
terror que experimentei outrora quando foi preciso estudar
para a licenciatura toda a filosofia de Platão. Os nossos
professores indicaram-nos as edições, os livros de Platão
aparecidos nos últimos vinte anos — e vários deles eram
escritos em língua estrangeira. Depois, puseram-nos em
guarda contra os resumos e os textos selecionados, contra a
consulta aos manuais. Nisso eles não estavam errados. Mas
se tratava de estudar Platão no prazo de alguns meses,
compostos de dias de vinte e quatro horas, em que o sono,
a alimentação, outras leituras, outros trabalhos e até
mesmo o descanso tinham os seus direitos. O espírito
guiou-me ao encontro de um professor que tinha horror às
convenções. Fui vê-lo ao fim da tarde; ele recebeu-me numa
biblioteca transbordante de livros, onde reconheci os
batalhões cerrados das obras de Platão. Disse-lhe o que ali
me levava:

— Devo ler tudo?

— Ah, pobre rapaz, evite-o a todo custo!

— Mas então, — repliquei-lhe, — não devo ler nada?

— Evite-o mais ainda!

Fez-me ver que Platão fora já lido e relido por escritores que
o estudaram; que devia fazer um índice das passagens
citadas por esses escritores e sublinhar quais eram as
passagens mais freqüentemente citadas, esses
promontórios, essas frases, ou melhor, esses cumes de
onde a vista poderia à vontade estender-se sobre os mais
diversos domínios. Uma vez localizados esses cumes,
aconselhava-me a permanecer neles, a regressar de vez em
quando a tais textos; a fazer disso a minha liturgia; que
visse finalmente a sua luz irradiar sobre o contexto que os
rodeava, assim como sobre o diálogo estabelecido ao redor
desse contexto, sobre as passagens vizinhas e análogas,
sobre as monotonias e as depressões, sobre as passagens
mais obscuras e quase impenetráveis, em que, no entanto,
não era impossível, depois desse estágio prolongado em
alturas inacessíveis, lançar alguma luz. Admira nesse
conselheiro a ausência de hipocrisia.

Nunca será demais repetir esta bela regra natural: caminhar


em tudo do conhecido para o desconhecido.

IV. As fronteiras, passagens,


analogias
Notei também que é preciso imitarmos os geólogos, quando
eles observam com cuidado o ponto onde duas camadas
distintas se encontram justapostas. As transições, as
suturas, as passagens, os momentos em que “isto” deixa de
ser “isto” para ser outra coisa; os períodos de origem ou de
metamorfose são significativos. Experimentamos muito
bem, quando escrevemos, o sentimento de que o mais
difícil não é termos assuntos ou idéias, mas sim ligar dois
assuntos ou duas idéias por uma passagem que não seja
artificial. O poder do artista manifesta-se nessa capacidade
para as transições. E a natureza é desesperadamente
artista sob esse ponto de vista, ela que nos oculta as
mediações e as passagens sob uma aparência de
continuidade. Instalar-se numa sutura é ter a possibilidade
de penetrar em algum segredo da criação.

Na história, os períodos que fascinam o espírito e facilitam o


seu trabalho são os períodos de transição e de revolução. O
estrategista aconselha que se ataque um exército de
adversários aliados no ponto de junção de suas forças. O
mesmo se passa na batalha cujo objetivo é a verdade do
ser. É pelas junções, ligações e articulações que melhor
discernimos as partes subjacentes.
Sabe-se que, em filosofia, são também as articulações, as
conjunturas, o mais instrutivo: por exemplo, quando da
matéria parece emanar a vida, quando da animalidade do
macaco parece sair a humanidade. Nas origens se esconde
o que nos importaria acima de tudo conhecer.

Quantos ensinamentos se poderiam tirar de uma única


experiência que seria retomada, recomeçada sob diversos
aspectos ao longo de uma existência! É isso, sem dúvida, o
que significa o famoso preceito: nisso pensar sempre.
Tenhamos em vista aqueles pintores que incessantemente
retomam o mesmo tema, desenham o mesmo rosto ou a
mesma árvore, e que nunca desesperam de atingir, no
singular que lhes foi oferecido em profusão, o universal.

O instinto do gênio consiste em reparar nas coisas


singulares que contêm em si o universal em potência e que
são suscetíveis de dar-nos, graças ao acréscimo pela
analogia, muitos outros conhecimentos. Se estudarmos o
modo de trabalhar de Pascal, não há dúvida de que o que
nos admirará acima de tudo nele será esse poder de
escolher os pontos onde “a natureza imita-se a si própria”,
essas figuras de onde podemos tirar um grande número de
propriedades que nos servirão em outros domínios: assim
são as seções do cone, o triângulo aritmético, a experiência
de Puy-de-Dôme, tantos e tantos fatos extraídos da ordem
humana, tais como o divertimento, a contradição, as
variações da justiça... Escolher uma morada, um ponto, uma
situação, sulcá-la de incertezas e de questões postas
interminavelmente, aprofundar esse domínio, atribuir-lhe,
por sua curiosidade e pelo jogo das semelhanças, as
dimensões do ser integral, é essa a substância da cultura,
pelo menos daquela a que o homem pode se propor em sua
curta existência.
A cultura não consiste em nos dispersarmos sobre todo o
saber superficial, nem em nos circunscrevermos a uma
única especialidade; consiste, sim, em cavarmos no lugar
onde estamos até que encontremos a galeria escavada pelo
nosso vizinho e percebamos então a convergência de todos
esses esforços. Isso impõe um espírito, um desejo comum;
implica, também, que se fale o mesmo gênero de
linguagem.

Consideremos uma circunferência e suponhamos algum ser


inteligente, porém pontual,10 a que é dada a missão de
conhecer essa figura sobre a qual está inscrito. Designemos
esse ser por a. Um primeiro método para conhecer será o
de seguir o circuito da circunferência, em percorrer todos os
seus pontos. É esse propriamente o método enciclopédico,
aquele que escolhemos sempre em primeiro lugar, por
causa de nossa avidez de conhecimentos e da satisfação de
passarmos adiante sem aprofundarmos, pelo qual quinze
anos de escola nos infiltraram a paixão. Mas a pode
percorrer o seu círculo e nem sequer saber que reside e
circula sobre seu círculo. Demos agora a esse ponto a um
pouco de intuição e aplicação; dotemo-lo de uma potência
de esforço e perseverança. Então, ele escolherá
imediatamente um ponto da circunferência, fará ali um
traçado dirigido para o centro; seguirá um raio na direção
do ponto de onde os raios emergem; atingirá (demos-lhe
todas as possibilidades) o centro O. A partir do que ele
compreenderá que participa de um círculo; terá mesmo a
alegria de poder produzir esse círculo. Essa é a imagem das
duas espécies de saber, das quais uma, a da tentação,
dispersa-nos à superfície, numa agitação sem fim, arranca-
nos de nós próprios e do ser, convencendo-nos de que tudo
difere de tudo, e a outra das quais, pelo contrário, reconduz-
nos ao centro e demonstra-nos, com encanto e paz, a
semelhança que liga as partes da experiência.
Capítulo 04: O monstro e seu
repouso
I. A conspiração do tempo
O esforço de que tratamos no capítulo anterior não pode ser
mantido. É uma das características de todo o trabalho
humano ser necessariamente imperfeito. Nas grandes
coisas tanto como nas pequenas, ao exercício sobrevém
uma espécie de abandono. Empreender, interromper: eis
duas ações que seriam bem difíceis se a natureza não se
encarregasse disso por nós, dando-nos o desejo e depois a
fadiga e o esquecimento.

É compreender mal o espírito considerá-lo apenas quando


está em ação e em estado de esforço e de expressão.

Se fôssemos mais circunspectos em relação a nós próprios,


se soubéssemos observar-nos no conjunto dos nossos
estados, surpreender-nos-iam os grandes espaços do tempo
que parecem lacunas do ser, as zonas inúteis, os pequenos
abismos alojados no seio da consciência. A noite aconselha,
o espírito disciplina-se e amadurece, à custa do tempo
simplesmente. A vantagem do repouso está em evitar a
desproporção.

Todo o trabalho obriga à concentração do pensamento sobre


um só ponto. Mas esse ponto não é necessariamente o
ponto principal. E se o fosse, por uma feliz possibilidade,
nós nos afastaríamos dele depressa. Cada golpe de enxada
afasta-nos do centro, ensurdece-nos, cobre-nos de
escombros, de destroços e de poeira. Do mesmo modo,
cada ato de atenção fremente contrai-nos: exige de nós um
esquecimento momentâneo de tudo o que não é urgente e
imediato; crispa-nos; perturba um equilíbrio. Certamente
que não deveremos desprezar os espíritos atentos, mesmo
se o objeto de sua atenção for reduzido. Toda precisão é
vitória. Mas é necessário lembrarmo-nos de que toda
atenção particular comporta um risco, se ela não se
acompanha de uma atenção geral, e esse último ato é
vizinho ao repouso, porque exige um descanso da
inteligência e até mesmo da vontade. Napoleão tinha o
poder de adormecer à vontade, fechando, como ele dizia,
todas as suas gavetas. Sustentava que é útil poder dormir
em pleno combate. Quando as disposições foram tomadas,
quando as ordens foram dadas e os resultados não puderem
por enquanto manifestar-se, correr-se-ia o risco de “perder a
cabeça” ou nos ofuscarmos com um acontecimento parcial.
O sonho pacifica essas agitações, deixa as forças intactas, o
cérebro fresco. Depois da distensão, a tensão realiza-se
melhor. Descartes tinha por regra não trabalhar senão
quando as suas forças estavam reunidas e após longo
repouso.

O repouso tem um outro fruto, que é a maturação. Muitas


das obras escritas pelos nossos contemporâneos carecem
do que poderia chamar-se a terceira dimensão. Vemos ali
pensamentos vulgares e que são como que pintados à
superfície do espírito: é que eles não foram ordenados no
tempo, o qual lhes teria conferido a perspectiva e o relevo.
Dizia Goethe a Eckermann:

Quando se é jovem não se vêem as coisas senão por


uma só perspectiva; uma grande obra, pelo contrário,
exige uma pluralidade de perspectivas e é nisso que se
fracassa.

É por essa razão que Goethe tinha o costume de trazer


consigo as suas obras durante bastante tempo, e o de
abandoná-las, retomá-las e exprimi-las, enfim, o mais tarde
possível, só quando a sua existência as tivesse penetrado. É
preciso notar que todo o adiamento num trabalho do
espírito bem empreendido “é a possibilidade de um fruto
maduro”.11 Nos seus cadernos, Sainte-Beuve anotara, num
dia de amargura: “Amadurecer! Amadurecer! Endurece-se
em certos assuntos, apodrece-se em outros; não se
amadurece”. De tal modo é verdade ser difícil conduzir uma
idéia, um projeto, um sentimento, até chegar a esse grau de
desenvolvimento desabrochado que é a maturação. O
tempo prepara os acabamentos. Faz tombar o que não
estava na essência dos nossos pensamentos; age por meio
da depuração do acidental. Trabalha ainda de um modo
positivo, ao fazer germinar o que não estava ainda senão
em estado de semente.

II. Nasceu-nos um monstro!


Creio que uma das leis do bom artesão é saber em tudo
separar as fases. Já fiz referência à vantagem que há em
não misturar o repouso com a aplicação, mistura que vai ter
como resultado essa espécie bastarda de semi-trabalho que
faz com que, passando muito mais horas nas escrivaninhas,
não obtenhamos os mesmos resultados que o fleumático
anglo-saxão. E é um bom conselho aquele de dividir tanto
quanto se possa o trabalho intelectual em três tempos: o da
confecção do monstro, o do repouso dirigido, o do
acabamento pela busca da perfeição. Este capítulo trata das
duas primeiras fases.

A expressão monstro é tomada de empréstimo do


vocabulário de Maurice Barrès. Os Tharaud escreveram,
sobre seus modos de agir, uma página admirável. O melhor
será transcrevê-la aqui na íntegra:
Naquele gabinete de Barrès, onde passei tantos dias,
passei por uma experiência que poucos escritores
conheceram. No caso dos pintores, é corrente
trabalharem no ateliê de um mestre. O aluno aprende
ali um ofício, processos, regras sobre as quais depois ele
poderá refletir, sendo-lhe sempre lícito aceitá-las ou
rejeitá-las a seu grado. Uma disciplina desse gênero não
existe para os literatos. É que na arte do pintor, como
na do escultor, há uma parte de técnica que, ao que
parece, não tem equivalente no trabalho literário. Mas
essa não é senão uma aparência. Na literatura há
também técnicas, métodos que é útil conhecer e
aprender com outro, sob pena de perdermos um tempo
infinito a descobri-los por nós próprios ou de ignorá-los
para sempre. Só que é bastante raro que a sorte nos
coloque na condição de assistir, como me ocorreu, ao
trabalho de um grande escritor. Um escritor,
normalmente, ama a solidão e não pode suportar uma
presença estranha perto de si. E por outro lado, um
jovem imagina de bom grado que vai perder o seu gênio
se freqüentar a escola. Idéia falsa essa, assim o creio,
porque a verdadeira originalidade desenvolve-se no seio
de uma cultura e não a partir do nada, e o talento,
quando existe, não pode extrair de um tal intercâmbio
senão facilidades para se descobrir a si mesmo.

Para mim, o gabinete de Barrès foi esse ateliê. Ele não


me ensinou o que não se pode ensinar, a invenção, a
descoberta, tudo o que resulta do inconsciente, mas
ensinou como nos podemos colocar no estado mais
favorável para organizar a obra de arte. Chegando à sua
casa, eu tinha a idéia absurda da obra-prima que jorra
de um golpe e por milagre do espírito. Eu não
acreditava senão na inspiração. Nada de mais
esterilizante, nada que favoreça mais a preguiça:
Renunciamos constantemente ao nosso trabalho;
ficamos sempre à espera de não sei que estado de
graça e de iluminação, não cremos jamais ter o
bastante das disposições necessárias. O tempo passa e
não fazemos nada. Tinha eu também essa idéia, não
menos estúpida, de que não se podia avançar no
trabalho se se deixasse atrás de si terras incultas,
partes inacabadas. E como o meu débil gênio não
conseguia tirar de si próprio, à primeira investida,
capítulos perfeitos, irritava-se e atirava as minhas
tentativas para o lixo. Sem cessar regressava ao
princípio. Em vez de voltar o espírito para a proa do
navio, olhava sempre para a popa... Nenhuma
intuitividade, nenhuma liberdade, mas uma
tranqüilidade precária pelo que já escrevera e uma
espécie de pavor pelo que me restava fazer. Em
resumo, era um estado de febre, de vontade contraída,
de esforço constante rumo a não sei que absoluto, que
ora vinha dar em descontentamento e no cesto dos
papéis, ora numa redação seca e dura, com fragmentos
que me encantavam por um momento, e que, no
minuto seguinte, não me pareciam mais que retórica e
bravura.

O que de grande, de inestimável Barrès me ensinou foi


a modéstia no trabalho. Por essa lição nunca saberei
como lhe agradecer. Não que eu tenha reconhecido o
benefício imediatamente. Eu fiquei primeiro
escandalizado, mas com a prática minhas idéias
mudaram bastante.

Ah! Sem dúvida, ele não acreditava na obra de arte que


sai, toda ornada, do cérebro de Júpiter, com o elmo e a
lança. A primeira apreensão de um assunto era nele
desconcertante, em virtude de sua humildade. Não
havia a seus olhos nem princípio, nem meio, nem fim.
Havia somente, à sua frente, uma vasta matéria
caótica, cujas formas desenhavam-se vagamente na
bruma. À medida em que algumas partes desprendiam-
se das trevas, ele traçava-lhes rapidamente os
contornos. Havia às vezes indicações breves, uma
palavra, um traço apressado, mais um clarão que um
pensamento, um sinal que marcava que naquele lugar
ele tinha de procurar; de tempos em tempos, vinham
indicações precisas, e aqui e ali, como na caça, um
ramo quebrado a indicar o caminho, uma promessa de
retorno. Tudo isso era classificado a partir de afinidades
incertas, em pastas de diversas cores, que se enchiam
pouco a pouco de tudo o que lhe traziam os minutos
felizes de sua meditação.

Esses minutos felizes, eram durante a noite um


momento de insônia (ele sofria muito disso) nessa hora
perigosa em que o espírito está ao mesmo tempo tão
perto do pensamento desfeito, do pesadelo do
apocalipse, tão perto também de uma idéia nova,
jamais ainda abordada ou apercebida, e que não chega
senão de pés descalços nas trevas; esse instante, longe
de deixá-lo fugir, de abandoná-lo ao nada, Barrès retia-o
quando passava; ele pegava, sobre a mesa posta perto
de sua cama, o lápis e o papel que colocava ali todas as
noites, e no escuro anotava, com uma letra que ele mal
podia decifrar pela manhã, uma dessas frases ainda
banhadas do mistério do sono e que o dia afugenta...
Eram, enquanto ele escutava um falatório no quarto,
uma idéia jorrada subitamente do devaneio secreto que
ele não largara na antecâmara junto com o sobretudo, e
que garatujava a lápis num pedaço de papel ou no
verso de um envelope... Eram o espólio que ele
reportava dos longos passeios que fazíamos juntos em
Paris, até Mirabeau ou Charnes.
No fim daqueles passeios muitas vezes me aconteceu o
seguinte. Após termos caminhado por duas ou três
horas falando sobre todo o tipo de coisas, porque ele
gostava de falar enquanto passeava, era raro que, de
volta ao seu gabinete, antes de se entregar ao trabalho,
ele não anotasse num caderno — seus cadernos
guardados no armário loreno — ou então numa folha
solta, se se tratasse de seu trabalho em curso, uma
série de impressões ou idéias que se tinham formado
nele. O que ele anotava assim era quase sempre
estranho à conversa que tínhamos tido juntos. Havia
coisas que secretamente tinham-se interposto entre nós
sem que eu me tivesse dado conta. Elas não se
revelavam a mim senão pelas notas que ele redigia
quando nos encontrávamos sentados em face um do
outro à sua escrivaninha. Numa ocasião em que me
admirei, disse-me ele: “Esse é o meu dom.”

Uma parte inteira do trabalho, e a mais misteriosa,


fazia-se assim fora de seu gabinete, sem que a sua
vontade interviesse senão para orientar-lhe o espírito
numa certa direção, como acontece que adormecer
sobre certas idéias nos imponha um sonho à noite. “Eu
não faço as coisas”, dizia, “são as coisas que se fazem
em mim.” Todas essas descobertas felizes, esses
achados de seu inconsciente ou de seu pensamento
claro, iam distribuir-se aqui e ali nas pastas coloridas.
Tudo era recolhido, captado; nada se podia perder
daquilo que lhe passava pelo espírito. E esses trechos
esparsos, de qualidade muito diferente, onde as páginas
brilhantes punham em evidência outras bastante pobres
e às vezes rasas, acabavam por constituir uma massa
considerável e informe, que ele designava com um
nome que lhe convinha às mil maravilhas. Chamava-lhe
ele “O monstro”.
Um monstro! Mas o monstro estava lá. Uma realidade
hirsuta, mas na qual nos apoiávamos.

Conservaremos esse vocábulo barresiano, monstro,


pensando em segredo que as Letras nos dão exemplo de
um monstro que se deve ao gênio: os Pensamentos de
Pascal. Com efeito, os Pensamentos não são senão a
recolha bastante mal reunida de tudo o que deveria
aparecer em perfeição nessa obra, e que não apareceu.
Pascal, como bom observador que era, anotava o que lhe
ocorria ao espírito: uma pista, uma palavra, uma expressão
que se lhe tinha apresentado sem ser procurada e da qual
ele queria conservar esse lampejo do acaso que não se
encontra duas vezes. Pascal prendia nesse laço certos
desenvolvimentos contínuos que eram como que
fragmentos vindos do futuro (um braço, um torso, um
esboço de uma cabeça — e penso aqui no ateliê de Rodin);
neles punha, também, idéias de planos, de ordem, entre as
quais não escolhia por enquanto, para que a obra não
coagulasse cedo demais. Pascal entregava ao seu monstro
notas de leitura, referências. E ele tampouco negligenciava
em, como deve fazer um bom trabalhador, ali lançar
algumas reflexões sobre a arte de escrever e a experiência
que lhe advinha de seu trabalho. Tal como o camponês, que
geme quando lavra, e com um gemido que dir-se-ia
necessário ao labor do arado, Pascal anotava as suas
amarguras, as suas preces, “as suas humilhações, por meio
das quais ele se oferecia às inspirações”. Tudo lá estava,
nessa mistura confusa de vida que encontra o seu sentido
no âmago das crises. Procedendo assim, Pascal não se dava
conta de que contribuía mais para a língua e o pensamento
do que faria mediante uma obra levada à perfeição, e que
esses “fragmentos” seriam mais capazes de instruir que
uma obra perfeita na aparência. Desse exemplo inimitável,
retenhamos, ao nosso nível escolar, o ensinamento de que o
monstro resulta de uma redação que se faz esforçando-nos
por escrevermos logo que o assunto se apresente, e, valha
ele pouco ou muito, livres do espírito de incerteza e de
voltar atrás.

É certo que, para redigir assim, é preciso usar de coerção


para consigo próprio, preceder-se, antecipar-se, ir para além
do que julgamos saber ou poder. Na maior parte das vezes
ignoramos as nossas riquezas: sabemos mais que julgamos
saber. Um monstro nasce da dor.

Mas existe uma diferença infinita entre o pior dos rascunhos


e a idéia pura inexpressa. Esse monstro será para nós uma
argila original. Não se avalia suficientemente a vantagem de
ter uma primeira matéria resistente à qual se pode aplicar.
Porque é mais fácil corrigir, rasurar, retomar, que fazer,
inventar, criar. A frase mais insignificante vale mais que o
papel branco. Balzac conhecia essa lei. Esperar pela
inspiração é uma operação vã. O dever consiste em pegar
na matéria e sujar as mãos.

Alain cita o seguinte conselho de Stendhal:

Ainda em 1806 eu esperava pelo instante de inspiração


para escrever... Se por volta de 1795 eu tivesse falado
sobre meu projeto de escrita, qualquer homem sensato
ter-me-ia dito: “Escreva todos os dias durante uma hora
ou duas. Com ou sem inspiração.” Essas palavras ter-
me-iam feito empregar dez anos de minha vida, gastos
tolamente à espera da inspiração.

III. O monstro em plena luz


O monstro deve necessariamente apresentar-se sob a forma
de um esboço? Conheço um amigo que nunca teria tido a
audácia de sacudir a sua preguiça de escrever se não se
tivesse deixado tentar por um lápis bem afiado, uma folha
de papel branco e se não tivesse começado com
displicência; publicou o seu manuscrito na província, numa
modestíssima revista. Assim teve o gosto, dizia ele, “a
satisfação de se ver publicado sem ter o receio de ser lido”.
Ele foi astuto para consigo próprio, ciente de que o desejo
de perfeição nos paralisa e se esteriliza na idéia da
excelência.

Mas, por vezes, há vantagem em criar o seu monstro em


plena luz, e eu gostaria de confessar um outro processo
que, às vezes, me tem auxiliado nos langores da escrita.
Compro um caderno de bom papel; trato de lhe pôr uma
capa, como nos missais. Por vezes, vou ao ponto de, apesar
dos sorrisos dos mais próximos, espalhar uns ligeiros laivos
de aquarela azul ou malva, ou dessa cor amarelada que é a
dos muros e dos rostos velhos. Depois, imponho a mim
mesmo escrever nesse pergaminho sem uma única
emenda, como se recopiasse de memória uma obra já
terminada. Por que é o espírito auxiliado por esse método
paradoxal? É que, assim, a atenção é forçada a ser digna.
Como sabemos que não voltaremos atrás, decidimos
friamente não termos remorsos, e corrigimos o passado não
a ele voltando, mas recomeçando: deixemos que os mortos
enterrem seus mortos.12 Era Hugo quem dizia que a melhor
maneira de corrigir um livro consistia em escrever um outro
que o suplantasse. O mesmo se pode dizer em relação a
uma frase. Aplique esse processo, faça dele um sistema, e
compreenderá, sem dúvida, a maneira de escrever de um
Montaigne, de um Saint-Simon; mais recentemente, de um
Péguy, de Alain, de Claudel, em suma, desses escritores
sempre ativos, que deixam a pena correr, confiando-se a ela
como a um cavalo, perdoando-lhe os pinotes e os desvios,
conquanto que ele tenha sangue. Nem a todos pode-se
aconselhar esse método; é bom, todavia, obrigar-se por
vezes à perfeição. O excelente, disse-o Henri Rambaud,
custa menos que o medíocre.

Já por vezes refleti que essas duas maneiras de esboçar


correspondem aos dois procedimentos do escultor: O
primeiro deles é o que aconselha a talhar a argila e a dar-
lhe uma forma à força de moldagem e de palpação; no caso
do escritor, trata-se de entrar em contato com a linguagem,
depois tatear como a mão do escultor luta com a terra, que
simultaneamente resiste e sugere. O segundo procedimento
é o do escultor que se atira a um bloco de mármore e que
extrai desse bloco uma forma. Nesse caso não se parte de
uma massa que varia sob a nossa mão e que a cada
momento corre o risco de ser transformada e destruída:
temos perante nós uma matéria resistente, inviolável, e que
não admite retoques. Quando você trabalha o mármore,
você deve pensar que a figura já existe, e que você tem,
menos que a inventar, de descobri-la e libertá-la, véu após
véu, como se ela dormisse no fundo da pedra — e talvez
seja essa a razão por que Michelângelo nos legou tantas
formas adormecidas.

IV. O sono da Esposa


Mas uma vez nascido o monstro, é conveniente imitar o
semeador: ir embora e deixar agir esse silencioso
cooperador das nossas iniciativas: o tempo.

A composição está relacionada ao tempo; é o tempo que


compõe em nós. Gide, em seu Diário, faz sobre esse ponto
observações preciosas:

A composição de um livro, considero-a eu de primeira


importância, e penso que é pela ausência de
composição que peca a maior parte das obras de hoje...
Vou dizer-lhes qual é o cerne desse meu pensamento: o
melhor é deixar a obra compor-se e ordenar-se por si
própria, e sobretudo não a forçar. E também tomo essa
palavra na inteira acepção que lhe dão os horticultores:
chama-se cultura forçada a uma cultura que obriga as
plantas a um florescimento prematuro. Creio que o
maior defeito dos literatos e dos artistas de hoje é a
impaciência; se eles soubessem esperar, a sua matéria
compor-se-ia lentamente por si própria nos seus
espíritos, por si própria se despojaria do que a
embaraçasse. Desenvolver-se-ia à maneira de uma
árvore... É pela composição que um pintor aprofunda a
sua tela. Sem composição, a obra de arte não teria para
apresentar senão uma beleza superficial.

Nesse período, vazio na aparência, realiza-se um trabalho.


Após a criação do monstro, subsistem no espírito várias
direções de pensamento, preocupações, impressões de
lacunas, esquemas procurando-se a si próprios e, como diria
Bergson, “dinâmicos”. O espírito daquele que procura está
repleto de questões, de idéias de trabalho, de projetos
esboçados, de itinerários, de atitudes de espera, porque o
espírito não dorme. “Eu dormia, mas meu coração velava”,
dizia a Esposa.13 E é verdade que em seu sono uma mãe
não dorme, posto que um simples suspiro da criança a
acorda. Esse estado de semi-vigília e semi-sono é o repouso
de que falo, quer dizer, a disponibilidade paciente.

Para melhor simbolizar esse estado de espírito, faço uso, às


vezes, de pedaços de cartão com números no canto direito
(1, 2, 3, 4 etc.) e que são dispostos verticalmente numa
caixa de acordo com o seu tamanho. A cada um desses
números é ligado um eixo de pensamento, e ficou
convencionado que tudo o que se encontrar que tenha
relação com esse respectivo eixo — notas, esboços, artigos
lidos, cortes, rasuras — será colocado à sombra desse
cartão. Tudo isso displicentemente — estamos no período do
repouso, em que o espírito deve permanecer acolhedor,
livre e distraído. Quem faz esforço, dizia Alain, trabalha
contra si.

Todas as partículas de poeira têm o seu valor, quando são


assumidas pelo turbilhão. Leibniz quase nada desprezava. O
que lhe permitia poder tudo acolher era o fato de que o seu
pensamento tinha, como uma roda luminosa, uma multidão
de raios ao redor do centro: esses raios eram essas direções
latentes, essas expectativas que são a alma da atenção.

A indigência reside no espírito e não nas coisas: se


tivéssemos Idéias, quantas coisas não veríamos?...

Cada eixo de pensamento é uma promessa e uma


esperança, porque nos torna merecedores do acaso. Os
acasos são inumeráveis. Todas as vezes que se cruzam duas
séries independentes, há, diz-se, acaso. Se se aceita essa
definição, perceberemos que o acaso é constante, porque
somos nós mesmos uma dessas séries e o mundo é uma
outra. A nossa vida interior desenrola-se sem referência ao
universo. Os que nos falam não conhecem os nossos
desejos, o nosso passado, nem a maneira pela qual esse
passado vem à superfície; eles ignoram tudo o que nos
constitui. E, contudo, acontece que um gesto, uma palavra,
um acontecimento tomam, nessa discussão interior, um
significado que só a nós diz respeito. O mesmo acontece na
vida do espírito. Quando há problemas corajosamente
postos, trabalhos iniciados, projetos, nessa altura os
incidentes, as conversações, as leituras (mesmo as que não
dizem respeito diretamente ao objeto dessa atenção
latente), tudo então vem nutrir, trazer-nos o complemento
e, por vezes, a resposta.
Como fica-se calmo, tendo-se fixado os eixos, ao abandonar-
se ao sono da Esposa, dormindo e velando em espírito,
prestes a levantar-se para acudir ao menor ruído das idéias!
Capítulo 05: A ordenação das
nossas idéias
“I prefer commencing with the consideration of an effect.” — Edgar Allan
Poe

Virá, enfim, o dia em que será necessário produzir. Esse


momento é penoso. Poucos o suportariam, se a necessidade
não os obrigasse. Foi bom que Balzac tenha sido crivado de
dívidas: sem isso, as suas produções adormeceriam nele,
em vez de virem a construir-se em livros. Se não fôssemos
obrigados a trazer à luz a nossa maré interior, nunca se
exprimiria nada. É um grande penar dar-se um corpo ao
pensamento, “crucificarmo-nos à caneta”, como Lacordaire
aconselhou a Ozanam.

É bom ser coagido pela obrigação limitada pelo tempo; é


até mesmo útil que nos falte o tempo necessário. Os alunos
são mais felizes do que julgam, nas aulas ditas de
“composição”. Quando a hora toca e lhes vem lembrar o
inexorável fim, os que não se deixam perturbar recebem
uma excitação que lhes é propícia. Na vida ordinária, é
muitas vezes difícil subordinar-se a esses limites, tanto mais
que nunca se sabe quando um trabalho do espírito está
concluído. “Não conheço obras terminadas”, dizia Valéry,
“não sei senão de obras abandonadas”. É deveras bom que,
num dado momento, o fruto indeciso desprenda-se da
árvore. E o editor que conseguiu arrancar de Valéry o
original de O Cemitério Marinho (a respeito do qual o autor
deplorava, aos seus amigos, a falta de maturidade), tal
como o que arrebatou de Bergson o manuscrito do Duas
Fontes, prestou um serviço às Letras e às suas vítimas.
I. Do monstruoso ao lúcido
Examinemos como se pode fazer passar um rascunho do
monstruoso ao lúcido — problema esse que Pascal teve,
morrendo a tempo, o gênio de evitar. Somente um talento
reconhecido por todos, um heroísmo, uma santidade
manifesta conferem valor ao esboço; os outros seres têm a
obrigação de conjugar e concluir — coisa que não se pode
conseguir senão pela ordenação de cômputo, de hierarquia.

Assentemos logo de início que não existe uma ordem


perfeita: A toda e qualquer disposição das matérias poder-
se-ia preferir uma outra e justificá-la com motivos razoáveis.
Trata-se, apenas, de não nos deixarmos perturbar pela idéia
do mais perfeito e de elevar a um grau maior de nitidez o
plano que se apresenta ao nosso espírito.

Para isso, releia as suas notas, discernindo as que se


referem ao mesmo assunto. O pensamento é musical, supõe
temas que perdem e se retomam. Mas como conhecer os
nossos próprios temas?

Você classificará as suas notas por seções, a exemplo do


que os editores fizeram com os manuscritos de Pascal.
Chegado a esse momento, você terá criado arquipélagos,
aglomerações de idéias.

Suponho que você tenha discernido quais os temas


fundamentais. Convém, agora, que os disponha segundo
uma ordem.

A ordem é uma estrada real que vai do simples ao


complexo, do conhecido ao desconhecido, do que é
admitido por todos até ao que só as inteligências mais
perspicazes admitem.
Existe um modo de ver se as partes de uma composição
estão ou não dispostas com ordem. Consiste ele em
perguntarmo-nos se não se pode completar cada uma das
partes com a fórmula: Há ainda mais. Se eu fosse professor
de Retórica, eis o Sésamo que ensinaria em primeiro lugar
ao pequeno povo estudantil.

Mas será preciso mais alguma coisa. Eu bem sei que nossos
contemporâneos, em sua maioria, não observam a regra a
que vou me referir e que, até aqui, era tão inelutável quanto
a delicadeza. Dispensam-se desse trabalho de ordenação,
entregam aos leitores os seus conglomerados. Chegamos
mesmo a vê-los fazendo entrega na tipografia de uma
massa aurífera... — a ausência de alíneas judiciosamente
dispostas, de parágrafos distintos, dá bem idéia ao leitor
que é inútil procurar as ligações entre as idéias. Ou então,
pelo contrário, o autor entregará a sua obra em fragmentos,
negligenciando as idéias intermediárias e as passagens,
como se se tratasse de publicar apenas os vestígios. É certo
que o talento é superior às regras, e é libertando-se delas
que se manifesta. “Ó gramáticos!”, dizia Claudel, “nos meus
versos não procureis o caminho, procurai o Centro!”. E,
contudo, para nós pedagogos, é-nos permitido dar
preferência às disciplinas antigas, que aconselhavam a
punir-se (a castigar-se, dizia-se), cortar tudo o que não seja
necessário, exprimir tudo o que seja indispensável. Tratar-
se-ia não de exibir o seu discurso interior nem de deixar
falar senão os oráculos, mas de se parar a meio caminho
entre o contínuo da página sem alíneas e o descontínuo das
máximas lacônicas.

II. A doutrina do parágrafo


Por vezes acontece ao professor de se perguntar por que
motivo a redação de um aluno, apesar de excelente, traz a
marca de uma existência jovem. Nada nela está omitido;
poder-se-ia extrair dela frases em tudo dignas de um
escritor. Que falta, no entanto, nesse trabalho? E qual é a
diferença existente entre o que o espírito humano pode
produzir, aos cinqüenta anos ou aos dezesseis anos, sobre
um mesmo assunto?

Certamente que aos estudantes não falta talento ou gênio.


O infortúnio é que eles têm demasiadas idéias, que não
sabem escolher uma só e desenvolvê-la: é como se a
natureza quisesse compor uma árvore que fosse
simultaneamente abeto, carvalho e bétula, e não pudesse
resignar-se com as espécies.

A abundância é também o defeito de muitos livros: tudo se


diz; nada sobressai. E nossos jovens são desculpáveis numa
época como a nossa, que vê uma virtude de maturidade nas
confusões e nas febres da adolescência. Conhecemos
romans-fleuves14 que são dignos de admiração, e decerto
que é necessário mais destreza para levar a bom termo
uma obra de três mil páginas que para cinzelar trinta
sonetos: os Miseráveis chamam mais a atenção que os
Troféus.15 Deve-se no entanto notar que o que contribui por
vezes para escolher, malgrado seus limões, o gênero fleuve
é a impotência que se sente de ser fonte, quer dizer, de
compor, concentrar e escolher: entregamos ao leitor o todo
da inspiração, o líqüido e as impurezas.

Assim, o trabalho que se deve aconselhar à juventude não


consiste só em recolher idéias ou informações e amontoar
frases sobre frases, mas, ao contrário, em escolher uma
idéia e desdobrá-la, como um tecido, completamente. Era
esse trabalho que outrora ensinava a Retórica. E sem
dúvida que imiscuía-se nela muita pedantaria e
obscuridade. Estaria ela, no fundo, desprovida de razão?
A nova Retórica dever-se-ia purificar do inútil, como
Descartes purificou a lógica e a álgebra, reduzindo-as a
alguns princípios. Tinha Descartes razão em dizer que o
excesso de regras é uma desculpa para a preguiça. O
espírito, sempre ardiloso e pronto para encontrar uma
desculpa, adota métodos rigorosos e resoluções heróicas
com o fim de se dispensar de observá-las, dizendo para
consigo: “Essas regras são demasiado intensas para mim e
verdadeiramente impraticáveis”. O difícil na vida, se
queremos fazer nela algum progresso, é se decidir por uma
prática simples que seja de aplicação quotidiana, depois
permanecer nela durante meses. Era segundo esse ponto
de vista que eu procurara por um exercício fácil o bastante
e rico em conseqüências, ao qual poderíamos, talvez,
reduzir a Retórica.

Uma das melhores oportunidades de minha vida foi a de, no


meu décimo sexto ano, ter podido admirar um livro que se
chamava Do Método Literário e que tinha por subtítulo
“Diário de um professor numa classe do primário”. O autor
era um professor do liceu Hoche, em Versalhes, o senhor
Bézard. Não sei se a livraria Vuibert, onde foi editado,
vende-o ainda, mas daria bom dinheiro para tornar a
encontrar um exemplar que me recordasse conselhos tão
úteis.16 Assistia-se, ao lê-lo, a uma aula da primeira série,
assim como quando, depois de se ter levantado a cobertura
de uma colméia, vêem-se as abelhas fabricando mel. Jamais
o senhor Bézard propunha uma regra sem que
demonstrasse imediatamente a aplicação dela, ainda que
fosse de imperfeita e medíocre aplicação, porque o livro
assentava, em parte, nas reflexões e trabalhos de seus
alunos. O que, em minha opinião, prejudica muitos dos
livros de preceitos é que eles não nos oferecem senão
coisas perfeitas; o texto de um concursado não ensina
quase nada, o modelo é demasiado inacessível. Havia, no
livro de Bézard, admiráveis modelos: cópias de alunos
corrigidas um pouco por ele; mas deparava-se também com
frutos medíocres, próprios para acalentar e dar confiança.
Lá estavam os diálogos entre professor e aluno, transcritos
ao vivo; lembro-me de uma visita do inspetor geral durante
uma explicação de La Fontaine em que Bézard mostrava
como era difícil para um inspetor geral conseguir uma justa,
uma eficaz intervenção; o inspetor de Bézard conseguiu-o.

O que Bézard ensinava era a tomar notas, a redigir fichas


que fossem utilizáveis por toda a vida. Tivesse eu seguido
os seus conselhos, hoje teria um tesouro: nenhum de meus
antigos esforços se teria perdido. O que os estudos têm de
mais desanimador é observar que os conhecimentos nunca
são assimilados, que não se conservam, que não se
agregam uns aos outros num desenvolvimento contínuo e
substancial. Ah, se eu soubesse! Se eu tivesse seguido
Bézard!... As raras vezes em que segui os seus conselhos
quanto à arte de tomar notas, fui recompensado: passados
trinta anos, as fichas elaboradas segundo as suas regras
ainda me servem.

Bézard ensinava, a propósito de tudo, a teoria do parágrafo.


Tinha-a aprendido com os normalistas da grande época,
com Taine, Prévost-Paradol, Brunetière. Podê-la-ia
reencontrar em Ravaisson, Lachelier. P. Bourget, assim
como, também, num A. France. É ela a lei a que obedece
todo o trabalho de composição; podemos, sem dúvida, nos
afastar dela: e devemo-lo fazer, à medida em que
avançamos e que a Escola pesa cada vez menos na nossa
vida. Em tudo é preciso renunciar às regras, se se quer
chegar a tomar cada um o gosto de sua arte. Mas um tal
afastamento das regras pressupõe que as possuímos, visto
que as ultrapassamos.

Falo aqui para aqueles que principiam; mas proponho


exercícios análogos aos avançados, aos da primeira fileira,
às primeiras vozes, dos quais vêem-se as perfeitas
recapitulações, se querem manter o vigor do início.

A doutrina do parágrafo, quando bem compreendida,


proporciona a maneira de escrever bem, de expôr bem,
assim como ler bem e obter proveito prolongado das nossas
leituras, por meio de anotações duradouras. E o maior
serviço que se pode prestar a um jovem é ensinar-lhe esse
método, como fazia Bézard durante a primeira e a segunda
séries.

Funda-se essa doutrina num princípio claro e preciso, mas


que depressa esquecemos no ato de expôr. Esse é o caráter
limitado e oscilatório de toda a atenção. A embocadura da
atenção é exígua: cumpre verter o elixir gota a gota. O
espírito é dispersivo; a atenção faz lembrar um farol, que
brilha por uns momentos, depois se extingue e volta a
brilhar. É possível que ela se relacione, no seu exercício,
com o movimento da respiração, que vai e vem. Para nos
fazermos compreender, é necessário, pois, decompor, tanto
quanto possível — dizer apenas uma coisa de cada vez.
Mais ainda: cumpre repetir. Um professor de línguas dizia-
me que considerava um vocábulo verdadeiramente sabido
pelos seus alunos só quando esses o tinham esquecido e
reaprendido nove vezes. Em todos os casos, para exprimir
um pensamento é necessário depurarmo-lo e discernir, quer
os aspectos que o objeto desse pensamento comporta, quer
os princípios que lhe são implícitos e que um tal
pensamento pressupõe. Tais aspectos e tais princípios, uma
vez conhecidos, precisamos expô-los um a um. Ver costurar,
enquanto se trabalha, é bom: fará lembrar que tudo, no
trabalho e na vida, faz-se ponto por ponto, para citar aqui a
frase de Mme Valmore, que Sainte-Beuve reporta.

A dificuldade, em matéria de ensino, de exposição ou de


apologia, é a de se repetir sem dar a impressão de que se
repete, porque tanto gostam o ouvido e o espírito de
reencontrar sob uma forma nova o que se lhes depara
(tenha-se em vista o exemplo das rimas) quanto detestam
eles o regresso ao idêntico. Foch, nas suas conversas
particulares, confessava que a arte do comando na guerra
consistia em manter, contra todos os ventos e marés, a
mesma ordem, mas mudando de cantata, de modo que as
tropas tivessem sempre a idéia de alguma novidade, sem o
que não tardaria a apoderar-se delas o desespero. E bom
seria nunca deixar de encontrar idéias diferentes, para
assim enganar o tédio de combater ou morrer. Goethe
expôs idéias comparáveis; e Bergson também. Repetir
diversamente, tornar a dizer a mesma coisa com outras
palavras, essa será sempre a regra da arte de falar aos
homens. Dizia misteriosamente Pascal que a ordem da
caridade, essa ordem sem aparência de ordem que ele
admirava nos Evangelhos, consistia na digressão sobre cada
ponto que diga respeito ao fim, para que sempre o
tenhamos à vista.

Partindo daí, eu ensinava aos alunos que o segredo de toda


a arte da expressão estava em dizer a mesma coisa três
vezes. Anunciamo-la; desenvolvemo-la; e, por fim,
resumimo-la, de uma só vez. Após o que passamos a outra
idéia. E os meus alunos desse tempo tinham transposto
esses preceitos numa canção:

Diz-se o que se vai dizer.


Diz-se-o.
Diz-se o que se disse.17

Canção essa que eu deixava entoar em cadência — e


lembro-me de um diretor que, aparecendo quando a canção
ia no fim e ouvindo martelar-se com força por trinta vozes
sonoras:
Diz-se o que se disse...

não ousou ir mais longe e deu meia-volta, estupefato. Era,


contudo, um preceito útil, tão raramente aplicado, tão
eficaz.

Tão convencido estava eu, pressentindo que a marcha de


regresso é o verdadeiro movimento do pensamento, de que
a arte consiste em transformar as intuições em conclusões e
de que a última coisa a se descobrir é o pensamento inicial,
que o que ensinava em primeiro lugar às crianças era a
escrever numa página em branco, embaixo, a frase de
conclusão, que devia começar com FICA ASSIM DEMONSTRADO
QUE...

O processo que consiste em reverter o trabalho natural do


espírito — partir do fim que nos propomos a atingir e
remontar depois aos princípios — é o que Edgar Allan Poe
recomenda e diz praticar, nas páginas que escreveu sobre a
filosofia da composição.18 Ele chama a atenção para a
forma como Dickens compusera um de seus romances:
mergulhara o seu herói num sem número de dificuldades,
compondo assim um segundo volume; escrevera a seguir o
primeiro volume, para por meio dele preparar e explicar o
segundo.19 E Poe observa que um autor deve conhecer o
desfecho antes mesmo de pegar na caneta.

III. “Nevermore”
Nada de mais instrutivo que essa página onde Edgar Allan
Poe nos narra como compôs a balada do Corvo. Esse
espírito tão consciente de seus meios punha na poesia a
preocupação de um engenheiro mecânico. Tratava-se de
obter sobre o leitor um certo efeito. E, posto isso, Poe
perguntava a si próprio qual o símbolo preferível a todos os
outros. Estabelecendo que o símbolo do corvo era o que
melhor correspondia aos fins do poema, determinou o
número de versos que um tal texto deveria ter para que
produzisse a mais densa impressão poética. Escolheu
também os ritmos que eram os mais favoráveis a produzi-la.
Em especial escolheu a palavra que se devia tomar como
um leitmotiv, como a chave musical do texto. Devia, assim,
ser uma palavra plena de um sentido profundo e
melancólico, suficientemente sonora para agradar,
suficiente curta para ser retida e aguardada,
suficientemente longa, e atenuada o bastante para imergir
na memória como um eco compassado. Razões todas elas
que o fizeram procurar pelo lado da sílaba OR, mas de um
or atenuado, langoroso, preparado por sílabas mais
amortecidas, o que enfim o fez preferir:

NEVERMORE.

IV. Parêntesis pedagógico


O leitor me desculpará por propor-lhe a folha que dito aos
aprendizes no início do ano — não exatamente no início:
para que uma lição seja proveitosa, é necessário que a
vítima tome consciência de sua mediocridade por meio de
fracassos bem sentidos; não é senão depois de três quedas
que se tem direito a uma lição de marcha.

Do mesmo modo que uma casa se compõe de pedras,


uma dissertação compõe-se de parágrafos.

Um parágrafo é o espaço compreendido entre duas


alíneas. Um parágrafo deve ter de quinze a vinte e cinco
linhas.
Onde se encontra a cabeça do parágrafo, isto é, a parte
diretriz e motora? Resposta: na cauda. O termo do
parágrafo é também o seu final, e é no fim que se deve
colocar a frase que dele resume a idéia.

Isso nos sugere qual o bom método para fazer um bom


parágrafo. Consiste ele em tomar uma folha de papel
em branco e escrever nela, três linhas antes do fim: É
assim que...; ou, alternativamente: Por aí se vê que...;
digamos que...; de onde se conclui que...; portanto...;
pode-se, portanto, dizer que...; em suma...; em
resumo...; numa palavra...; em conclusão...;
resumamos...; ninguém negará que...; concordaremos
em que... Essa fórmula fará apelo à conclusão do
parágrafo: frase lapidar, saliente, simples, clara, por
vezes brutal, às vezes também um pouco paradoxal. Em
função dessa frase, construiremos o resto.

À conclusão do parágrafo deve corresponder a


introdução. A frase introdutora anuncia o que se segue:
“Como acabamos de ver...; vejamos agora se...”.

Vou ditar-lhes, a seguir, um parágrafo bastante típico.


Iremos buscá-lo no Riso, de Bergson, na página 3:

Eis o primeiro ponto para o qual chamo a atenção.


Não há cômico fora do que é propriamente humano.
Uma paisagem poderá ser bela, graciosa, sublime,
insignificante ou feia, mas não será risível. Rir-se-á
de um animal, mas porque se terá surpreendido
nele uma atitude de homem ou uma expressão
humana. Rir-se-á de um chapéu, mas o que é
ridículo, nesse caso, não é o pedaço de feltro ou de
palha, é a forma que os homens lhe deram, é o
capricho humano a que ele se amoldou. Pergunto a
mim mesmo como é que um fato tão importante na
sua simplicidade não obrigou a uma atenção mais
fixa dos filósofos. Vários definiram o homem como
um “animal que sabe rir”, porque, se qualquer outro
animal nos faz rir, ou qualquer objeto inanimado, é
sempre por uma semelhança com o homem, pela
marca que o homem imprime nele ou pelo uso que
dele o homem faz.

Gostaria de assinalar, neste momento, como um


sintoma não menos digno de nota, a insensibilidade
que geralmente acompanha o riso...

Bergson desenvolve largamente esse pensamento,


depois do que conclui:

O cômico exige, pois, para produzir todo o seu


efeito, que seja como uma anestesia do coração.
Dirige-se à inteligência pura.

Como fabricar um parágrafo, como fazer brotar as idéias


de um solo árido? É o que vou dizer-lhes.

Há três modos de argumentar:

1º: A priori;

2º: A posteriori;

3º: A contrariori.

Assim, suponhamos o assunto seguinte: “A riqueza não


faz a felicidade”.

1º: A argumentação a priori consiste em tirar a


proposição que se quer estabelecer de proposições mais
gerais, admitidas por todos e de onde ela deriva a título
de conseqüência. É a argumentação socrática.
Um exemplo:

A felicidade de um ser não pode se encontrar numa


coisa estranha à natureza do homem, logo... etc.

A felicidade é um estado psíquico que resulta de


uma idéia; ora, a riqueza é, já de si, impotente para
proporcionar essa idéia. Não é, de modo nenhum, a
riqueza que faz a felicidade, é a idéia da riqueza.

A argumentação a priori é difícil, porque a escolha do


primeiro princípio é delicada. Além disso, ela tem acima
de tudo um valor lógico. Muito mais fácil é a
argumentação a posteriori.

2º: A argumentação a posteriori consiste em tomar


exemplos, fatos, casos concretos e experimentados,
fragmentos da realidade, experiências, anedotas.

Um exemplo: Creso.

A esse respeito, é preciso notar que não é a quantidade


mas a qualidade dos exemplos que prova. Os espíritos
pequenos operam pela quantidade. Os grandes espíritos
operam pela qualidade e aprofundamento. Escolhem
entre todos os exemplos possíveis um exemplo
significativo e sondam-no até o fim. Contudo, depois de
ter analisado um fato típico, é conveniente mostrar que
se conhecem muitos outros que lhe são conformes.
Chama-se essa figura de retórica, alusão. Falando por
alusão, economiza-se a nossa ciência, mostra-se a
nossa inteligência, abrem-se perspectivas. Enfim, toda a
alusão agrada ao leitor.

Essa argumentação pelos fatos requer um esforço de


memória e de análise, e desperta sempre o interesse do
leitor — como diz Sante-Beuve, não se pinta senão por
detalhes —, mas ela não o prende pelas entranhas. É
bem outra a argumentação a contrariori.

3º: A argumentação a contrariori consiste em introduzir


uma objeção, em desenvolvê-la com ânimo e discernir
em seguida:

a) A parte de verdade que ela contém, que é uma


verdade aparente ou secundária;

b) A parte de erro.

Um exemplo:

Dir-se-á que a riqueza põe ao alcance do homem o


meio de satisfazer todos os seus desejos — por
conseguinte ser feliz?

Sem dúvida que a riqueza permite satisfazer as


necessidades materiais, ou mesmo estéticas...

Mas, nesse caso, não é a riqueza que dá a


felicidade, é a virtude.

Noutros termos: a riqueza aumenta as nossas


generosidades, não a nossa generosidade.

A argumentação a contrariori é ao mesmo tempo a mais


cativante para o leitor e a mais fecunda para o autor.
Ela põe em jogo a finura do espírito e ajuda a traçar a
linha delicada que separa o que nos parece justo do que
nos parece falso. Ela permite até realçar o que no falso
há de justo, quer dizer, a parte de verdade contida, a
nosso ver, na idéia de nosso adversário.

Não acreditemos, todavia, que devamos aplicar esses


três métodos a cada parágrafo. Eles são comparáveis a
andaimes necessários que cumpre ter sempre no
espírito e sempre esquecer.

V. Notas e parágrafos
Essa teoria do parágrafo, para ser fecunda, deve estar
apoiada na teoria da “nota” ou, como nós dizemos, da
“ficha”. Encontrá-la-emos mais freqüentemente no capítulo
seguinte. Notemos que o que era excelente em Bézard é
que ele ensinava, ao mesmo tempo, a redigir parágrafos e a
tomar notas. O mesmo princípio servia nos dois casos —
agradável economia.

Uma ficha útil, feita a respeito de uma leitura, deveria ser


um parágrafo em esquema. Uma nota não deveria conter
senão uma única idéia, tal como o parágrafo. Essa idéia
deveria, por sua vez, ser posta em evidência, antes no topo
da folha que embaixo. Deveria ser desarticulada em duas ou
três idéias adjacentes, ou apoiada em um ou dois exemplos;
isenta de quaisquer fórmulas, se possível. Ler é, desse
modo, tirar de uma obra cinco ou seis fichas organizadas
em torno de algumas idéias mais salientes.

Esse método de resumir tinha vantagens múltiplas.


Obrigava os espíritos jovens a procurar sempre a essência
das coisas, a elevar-se a idéias gerais — mas que não eram
idéias abstratas, posto que estavam apoiadas em textos ou
em fatos —, que tinham o caráter de, por acréscimo, lançar
luz sobre outros fatos, conhecidos ou desconhecidos. Era
retornar ao método natural do espírito humano. Chegava-se
ao ponto de conservar em nosso poder um pequeno
estoque de parágrafos possíveis, podendo vir a ser
utilizados em diversas composições e dissertações —
espécie de reserva estratégica que podia ser dirigida no
curso do combate, a fim de auxiliar um setor deficiente.
O método da ficha organizada e o do parágrafo organizante
entreajudam-se e completam-se. O primeiro ensina a atingir
a unidade através da multiplicidade: ensina a resumir; o
segundo ensina a chegar à multiplicidade a partir da
unidade: ensina a desenvolver. Ora, resumir e desenvolver
são as duas fases de uma mesma operação, tal como a
inspiração e a expiração são os dois momentos do ato da
vida.

Dever-se-ia habituar os novatos a fazer essas duas


operações em conjunto, de acordo com o conselho dado por
Taine ao seu sobrinho Chevrillon:

Aqui tens o processo que é para mim mais útil para


escrever e sobretudo para reescrever, para converter
em obra definitiva um esboço demasiado complexo, um
pouco hermético e desconexo. Traço o quadro analítico
das matérias (que encabeça cada um de meus
capítulos) e traço-o não ao começar ou depois de ter
terminado mas sim à medida em que vão sendo escritas
cada alínea ou parágrafo — numa só linha, que é o
resumo mais exato e preciso que sou capaz de fazer. É
necessário interrompermos o nosso trabalho várias
vezes até se encontrar essa linha resumidora; porém,
uma vez encontrada, ela mostra-nos os exageros a
suprimir na alínea, as lacunas a preencher, as faltas de
lógica, de clareza, de ordem, porque tudo, na alínea,
deve convergir para o resumo. Mais que isso, esse
resumo nos sugere os resumos do parágrafo seguinte, e
todos esses resumos dão-nos, em seu conjunto, o
essencial do capítulo seguinte.

Esse era, a bem dizer, o mérito de um resumo, que não se


encontra tanto em dar-nos a substância do que já tínhamos
pensado como em orientar-nos rumo ao que pensaremos; o
bom resumo é um instrumento de prospecção.
VI. O trabalho do trabalho
Disse Valéry:

Não amo senão o trabalho do trabalho: Os começos


aborrecem-me, e desconfio que se possa aperfeiçoar
tudo o que resulta do primeiro golpe. O espontâneo,
mesmo excelente, mesmo sedutor, nunca me parece
ser suficientemente meu.

É verdade que essa busca da perfeição por meio da rasura é


um prazer, e no entanto acontece que a vista se fatigue e
se turve, e que, atormentada, borre a sua cor. A verdadeira
maneira de corrigir é dormir e recomeçar no outro dia, como
se observa em Homero, onde se fala dos heróis que se
deitam todos ao anoitecer e saúdam os dedos de rosa da
aurora.

Além disso, é preciso dizer que, no homem, o perfeito


resulta de um contraste, que o mau é necessário ao bom,
assim como a madeira da lira às cordas da lira; que é
preciso, enfim, não negar à crítica a parte que lhe pertence.

Posteriormente à morte de Thibaudet, Bergson escreveu:

Quando um livro de duzentas páginas contém dez que


são instrutivas, sugestivas, deveríamos agradecer ao
autor e fazer de conta que o resto não foi escrito. Os
melhores dentre nós sabem que as suas idéias
reputadas de mais belas foram acolhidas entre outras
que lhes eram inferiores e que, de modo nenhum
semelhantes, passaram com as melhores. Eles
simplesmente tiveram a sensatez de guardar o bom
para si. A sua superioridade consistiu em terem se
apercebido a tempo, onde eram medíocres, de sua
mediocridade.
Calarmo-nos, logo que não se diga nada que vale a pena.
Esse preceito abrange a criança e o velho. O silêncio
daquele que se abstém de falar é um silêncio instrutivo e
sonoro.
Capítulo 06: A leitura enquanto
enriquecimento do eu
I. “Rejeita a sede dos livros!”
“Rejeita a sede dos livros”, disse Marco Aurélio, “para que
não morras com sussurros, mas com serenidade”.

Coisa singular é observar as convenções às quais os


homens renunciam ao falarem eles de suas leituras.

A crer no que dizem, teriam lido todos os livros que citam:


os escritores clássicos (escusado será dizê-lo), os últimos
laureados, os livros estrangeiros... Um cálculo revela,
contudo, que a capacidade de ler é restrita, exceto para
aqueles cuja profissão é serem críticos e que sabem
apreciar o conteúdo de uma obra depois de a terem
estripado. Descontai da vida humana as ocupações, os
aborrecimentos, os acidentes, e pouco tempo fica para a
leitura. Quem lesse dez livros por ano, e que o fizesse ao
longo de meio século, nunca ficaria conhecendo senão uma
parte mínima do que contém a mais pobre biblioteca de sua
cidade. E contar dez livros bem lidos num ano não será
talvez muito? E quem sabe se esse leitor regular, ao fim de
trinta anos, não experimentaria ainda mais prazer em reler
os livros que lhe tinham agradado na sua juventude que em
abordar outros novos?

Felizmente, os livros são como os países que nos são


estrangeiros e todas aquelas províncias da França que
nunca pudemos visitar. Não precisamos percorrê-las
minuciosamente para conhecê-las, para formarmos uma
idéia justa e que é o suficiente. As descrições de um
viajante honesto dispensam-nos disso, sobretudo se ele é
nosso amigo e se observou tudo com o nosso critério.
Eduardo VII, que, como todos os homens públicos, não lia
nada por falta de tempo, punha-se ao corrente de tudo o
que se imprimia no seu reino; enquanto fumava, enquanto
cortava o cabelo, enquanto fazia a barba... atormentava
com perguntas um leitor, até que tivesse uma idéia clara
sobre uma obra. É, no fundo, o bom método: interrogar,
ouvir a resposta, nunca permanecer passivo.

Uma romancista fez a seguinte confidência a um amigo:

Peço-lhe que não mencione isto... mas gosto


principalmente das vinte primeiras páginas de um
romance e das vinte últimas; a parte intermediária
refaço-a eu mesma, fantasiando-a.

O primeiro livro de Marcel Proust foi uma tradução de


Ruskin. Ora, Proust sabia bastante mal o inglês, e descreve-
nos, apoiando-se no texto de Ruskin,

essas páginas indecifráveis para ele, e de que no


entanto percebia o sentido em toda a sua profundeza.

Era o próprio Proust que dizia:

Não há melhor maneira de chegar a tomar consciência


do que nós próprios sentimos que experimentar recriar
em si o que sentiu um mestre. Nesse esforço profundo,
é o nosso pensamento que, como o dele, nós damos à
luz...

Num bom livro há também um certo número de


obscuridades, e, para o leitor, isso é bom; porque o que nós
julgamos ter compreendido à primeira investida que fizemos
fica-nos para sempre opaco e desconhecido. Perante um
livro de gênio, a primeira impressão produzida no espírito do
verdadeiro leitor deveria poder resumir-se mais ou menos
assim: “Sim, é belo, mas é também difícil”.

II. Saber cessar a tempo


Os escritores espirituais, que falaram da maneira de ler um
livro para dele extrairmos o alimento de nossa alma,
aconselham a parar de ler assim que a alma se sinta
atingida. E a mais bela imagem que se pode fazer da leitura
é a daquela mulher que Corot pintou e que sonha ou
contempla, tendo na mão um livro em que ela repousa um
dedo. No fundo, o que o escritor deseja é terminar numa
alma. Ele nos oferece entrelinhas, margens, para que
escrevamos as nossas idéias entre as dele. Nada é mais
comovente que um livro aberto na mesma página sob um
olhar atento, enquanto se espera pelo ruído da folha que
não se volta.

Decerto que se se parasse a cada passagem que nos


agrada nunca se leria nada. Conta-se que um Padre do
deserto, desejando meditar sobre o Pater, nunca tinha
passado, depois de alguns anos, além da frase: “Pai
Nosso...”, que contém tudo. Todavia, para bem compreender
um livro, convém lê-lo integralmente, de uma ponta à outra,
apreender-lhe o ritmo, para que as parcelas que
escolhermos permaneçam na luz do Todo. Descartes dizia
que da maior parte dos livros, “quando se leram algumas
linhas e se prestou atenção aos índices, estão totalmente
conhecidos”, tendo sido o restante acrescentado chartae
implendae, para encher o papel. E o senhor Lavelle, que
retoma essa idéia, diz também que todo o livro está pesado
de matéria conjuntiva. No que, acrescentaria eu,
assemelha-se à criação, onde o que liga ocupa mais lugar
que aquilo que nutre ou que atua.
É aconselhável também, para que um livro tenha todo o seu
poder de excitação, que ponhamos nele o som da voz, a
nossa e por vezes a de um outro. Diz-se que os antigos,
mesmo quando estavam sós, liam em voz alta. A leitura
cursiva, rápida, com os olhos e sem articulação, é uma
invenção moderna, e a Igreja romana, antiga nisso, proíbe
os padres da leitura do breviário com os olhos. O hábito de
ler só com os olhos, que tão precioso é e tão bem se ajusta
à prosa, torna-nos insensíveis à poesia e até mesmo a esse
ritmo que é a poesia presente na prosa.

III. Ter os seus livros de cabeceira


O proveito de um bom livro está em instigar a penetrar na
experiência de um outro ser — o que raras vezes se
consegue neste mundo, mesmo quando se tratam das
pessoas que nos são mais próximas. Como atravessar essas
trevas de costume e de pudor! Muitas vezes as pessoas que
nos cercam, não tendo sabido condensar a sua experiência
por deficiência de linguagem, são para nós como se não
tivessem nada para nos dizer. O livro coloca-nos no centro
de um espírito que nos é estranho; a sua própria essência
ele no-la oferece. Necessário seria que tivéssemos
experimentado escrever, para sabermos que emendas, que
interrupções supõe uma única página escrita, quanta
matéria se reduz, quantas coisas aproveitáveis
desaparecem em benefício da ressonância das que ficaram.
E mesmo que um livro não faça alusões à vida íntima de um
homem, poucas são as páginas que não suponham algum
segredo.

Um verdadeiro livro escreve-se por necessidade, tal como


uma verdadeira leitura é a que fazemos num estado de
espírito de fome e desejo. E assim como é aconselhável
evitarmos ler se não sentimos um apelo para isso, do
mesmo modo deve-se evitar escrever livros se não tivermos
a convicção de que temos para transmitir algo que ninguém
pode dizer por nós. Isso não significa, no entanto, que todas
as páginas de determinada obra sejam novas, pessoais.
Nunca um livro é por igual atraente ou interessante; ele
comporta, tal como a vida quotidiana de que é o
precipitado, partes enfadonhas, artificiais e frias, que são a
condição mesma dos vôos de inspiração.

Vem então a idéia de pegar em facas e reunir os “trechos


selecionados”, ou a de resumir, como fazem os americanos
com o seu digest. Mas é fácil ver que os digests roubam de
um livro todo o seu sabor; é como se reduzíssemos os
alimentos a pílulas. Quanto aos “trechos selecionados”,
diminuindo o terreno, a atmosfera e o ambiente
transformam uma flor viva em flor seca — e ousam oferecê-
la a uma criança, a um estranho! É preciso conformarmo-
nos com o que um livro tenha de bocados fracos, de
exageros, de repetições, ou, pelo contrário, de lacunas, de
elipses e muitos outros defeitos.

É freqüente que os melhores livros, os que têm sido mais


copiados, tenham grandes defeitos, como acontece com a
Bíblia e com Platão. De resto, todo aquele que conhece a
gênese de um livro, que mediu a diferença que vai da
inexatidão do manuscrito à certeza jamais fixada do livro
confiado à tipografia e entregue, na realidade, aos maus e
aos bons, esse tem piedade pelos livros e perdoa muito.

Todos os que lêem gostam de tornar a ler uma mesma obra,


de fazer um sacrifício e comprá-la, de mandar encaderná-la,
de tê-la, dia e noite, bem perto do lugar onde sonham. Há
uma grande diferença entre o livro que nos é emprestado e
o livro que é nosso. A leitura implica que possamos saber,
numa obra, onde estão aquelas páginas que mais se amam,
e que as encontremos sem custo. Levado ao extremo, não
se haveria de ler senão um único livro na vida, como faziam
os antigos Judeus, um grande número de Cristãos, como o
fazia Monsieur de Saci, para quem a leitura de Santo
Agostinho bastava, por si só, para responder a Pascal. Vários
livros, por sua natureza bastante incertos, poderiam ser
iluminados se resolvêssemos lê-los durante toda a nossa
existência e procurando neles a interpretação das nossas
experiências de vida. Às vezes admiramo-nos de que Hegel
ou Marx tenham esse privilégio, mas a obscuridade, a
massa, as lacunas são — tal como a concisão das máximas
— condições favoráveis para que um leitor possa localizar
num livro a imagem de suas idéias. Um livro difícil é aquele
onde pomos o melhor de nós mesmos ou no qual nos
empenhamos como em nenhum outro.

Os livros que convém termos sempre à cabeceira são


aqueles que, a qualquer momento, podem nos proporcionar
um conselho ou um movimento favoráveis; aqueles que nos
elevam, pela descrição de uma vida exemplar; aqueles que
nos contam a existência de um homem semelhante a nós e
que, por isso, nos resgata, como, por exemplo, Montaigne;
esses livros fazem com que participemos de outras
existências, de outros ambientes e de outras épocas; os
livros que resumem tudo; os que se diriam cânticos. O livro
mais belo é talvez aquele que não foi escrito para ser lido,
que não é publicado senão depois da morte de seu autor,
que não foi manchado por nenhum desejo de agradar, que
possui a qualidade de um testamento. É bom que um livro
seja antigo o suficiente para que ele não se ligue de
qualquer modo aos nossos pensamentos sobre o presente e
nos faça sentir que aquilo que, nesse momento, nos
emociona é provisório.

Livros há que abrimos quase todos os dias. E há, também,


outros que quase nunca abrimos, que contudo existem, e
que nós sabemos que poderíamos encontrar. Parecem-se
com aquelas pessoas que nunca vamos visitar mas que nos
fazem bem simplesmente porque existem, e que sabemos
que não teríamos senão de abrir a porta para visitá-las. O
nome de um autor, um título sugestivo, e é às vezes quanto
basta.

E, como em todas as coisas, o preceito contrário tem a sua


verdade, quase que igual, eu direi: Escolha para você, como
seu livro de cabeceira, o que foi escrito pelo seu adversário
mais incisivo, como o foi Montaigne para Pascal, Sêneca
para Montaigne. Bom é conservar perto de nós os seres
insolentes que fazem despertar as partes fracas de nosso
eu e que nos obrigam a procurar argumentos, alguém que
vê preto onde nós vemos branco, para que assim avalie-se
melhor o que se sabe ou se corrijam as nossas incertezas.

IV. O romance e a história


Sempre os homens apreciaram ler estórias, sabendo de
antemão que eram fictícias, porque nelas viam uma
verdade mais íntima, mais vasta, mais próxima de seus
corações que a verdade dita histórica. Os que têm prática
de narradores poderiam esclarecer-nos: eles sabem que o
esforço que é preciso para contar é mais difícil que o esforço
para constatar fatos ou para desenvolver idéias puras. Exige
as mesmas qualidades que as do observador e do homem
de idéias, mas levadas a um grau mais vivo. Não se pode
narrar sem dar aos sentimentos de suas personagens uma
densidade que eles não têm na vida quotidiana, sem
modificá-los, exagerá-los ou restringi-los, sem ajustar os
acasos melhor que o faria a própria vida. Procedendo assim,
está-se no caminho da verdade. No fundo, a arte de contar
é a de Deus, na medida em que Deus predestina, isto é, no
sentido de que ele, o narrador, cria os acontecimentos à
medida das pessoas, em meio à aparente negligência e aos
seres e às coisas; porque o narrador deve também possuir
certo ar distraído quanto ao que conta, certa candura, certa
fleuma a propósito do que diz de terrível ou comovente, em
suma, certa negligência que é o atributo da soberania; só
ele é que sabe como é que aquilo acabará. E, como ele
sobrevive e relata, quem o ouve pressente que a coisa não
acabou de todo mal.

O resultado é o de seduzir o ouvinte, contando-lhe uma vida


análoga à sua, porém superior em colorido, tal como se
observa na história de Abraão ou na de Ulisses. Do mesmo
modo, um romance está tanto pior definido quando limita-se
a dizer (como no Petit Larousse) que ele é “une histoire
feinte écrite en prose où l‘auter cherche à exciter l‘intérêt
par la singularité d‘aventures extraordinaires”.20 A
imaginação dos romancistas não inventa o real; ela é um
gênero de observação mais arrojada. Disraeli, depois de
cada uma de suas experiências políticas, escrevia um
romance que se destinava menos aos leitores que a si
próprio; procurava ele compreender, pela ficção, o que
acabava de lhe acontecer e que sonhara mas não
conhecera naquele sonambulismo que é uma ação intensa.
Se Disraeli tivesse tido os dons de Balzac, os seus livros
teriam enriquecido a humanidade mais que o fizeram as
suas gestões. De resto, a maior parte das ações grandiosas
foi realizada pelos seus autores para que um dia pudessem
ser contadas, como dizia Joinville, “nos aposentos das
damas”.

Precisamos ler os romances para conhecermos o sentido de


nossa vida e da vida dos que nos rodeiam, e que o
embotamento do quotidiano nos esconde; precisamos lê-los
para penetrar em meios sociais diferentes do nosso e para
neles encontrarmos, para além da diferença dos costumes,
a semelhança da natureza humana; para estudarmos, como
se fosse num laboratório, os problemas fundamentais, que
são os do pecado, do amor e do destino, e isso de forma
concreta e sem as transposições da moral; enfim, para que
enriqueçamos a nossa vida com a substância e a magia de
outras existências.

Não é sem razão que os maiores sucessos estão reservados


aos que sabem contar, tal como o assinalam os nomes de
Homero, de Cervantes ou de Hugo. Somos obrigados a
reconhecer que, nessa matéria, o talento é raro. Cada época
registra o aparecimento desses homens hábeis, que sabem
como reportar à página seguinte a solução do problema
apresentado na página precedente; mas esse não é senão o
mecanismo do conto; o difícil é saber introduzir, nessa
máquina de perpétua relação, uma verdade, um caráter,
uma semente de mistério.

O nosso tempo faz intervir a filosofia no romance, tal como


outrora nele se inseria a moral e a casuística do coração.
Afastamo-nos, assim, da regra essencial do gênero, que
consiste em não ter outro fim confesso que não seja o de
contar e de nos proporcionar prazer. Sem dúvida que a
moral e a filosofia irradiam uma bela narrativa, mas as
personagens não deverão mais pensar nisso, e o próprio
autor, para que os protagonistas não pensem que estão
sendo vistos e que representam.

***

Também a história deve ter um lugar nas nossas leituras.


Aqui o interesse está relacionado ao que ocorreu de fato. O
ideal seria que o que realmente produziu-se e que em
seguida é narrado revelasse ser por acréscimo do interesse
do romance, coisa que só acontece naquilo a que
chamamos precisamente “a pequena história”. Na grande
história, os acontecimentos devem subordinar-se à sua
própria lei e não à da arte. Toda história é necessariamente
austera, digamos mesmo enfadonha, no que se parece com
as ciências descritivas. Toda história é feita de ligações de
acontecimentos, de enumerações, de datas, de pormenores
postos no mesmo plano que as linhas do cume, igualando-
se o que é importante e o que não é, tal como se verifica
até mesmo em Tácito, esse historiador não obstante tão
artista. Mas os leitores de história devem possuir o mesmo
gênero de paciência do historiador, a paciência do vivente.

É preciso dizer que os bons livros de história (aqueles que


em nossos dias dirigem-se ao grande público) recolhem e
condensam os acontecimentos. Levam eles à mais alta
expressão essa aceleração do fluir do tempo imanente a
todo o livro de história, por mais longo que ele seja. O
historiador permite-nos assistir a uma vida humana no
período precipitado de algumas horas; força-nos a
presenciar vários séculos, num só olhar. E não há dúvida de
que os eruditos não se atrevem a fazer dessas sínteses.
Acontece em nossos dias que os escritores-historiadores
entregam-se às suas longas paciências e alcançam a
notoriedade só por isso, o que não pode acontecer nos
domínios das Letras ou das Ciências. Mas o público não
deixa de ter razão em reclamar dos historiadores de livros
breves e densos. Os eruditos é que não têm razão em não
ocuparem os seus ócios em produzi-los. O que o público
instruído pede ao historiador não é a exatidão de cada
pormenor, é sim a verdade patente num longo
desenvolvimento.

V. Os livros de verdade pura


Também convém que, de vez em quando, se leia um livro de
Ciência despojado de tecnicismo, conquanto que o
entendamos, e sem ter esse cuidado especial de tudo
compreender que estraga toda leitura. Não há ficção que
substitua esse alargamento da visão que nos é dado pelo
conhecimento da matemática, da física ou da biologia.

É notável que um livro de ciência, quando não é de


geometria, não dura mais de trinta anos. O conhecimento
que se nos afigura ser o mais verdadeiro é o que mais
depressa desacredita-se; nada envelhece mais depressa
que uma obra de constatação ou de erudição, publicada no
começo do século: basta uma pequena descoberta para
torná-la caduca para sempre, ao passo que a poesia e a
filosofia não envelhecem. É que nesses trabalhos exatos
que compõem a ciência ou a crítica entra uma grande
quantidade de símbolos, ao passo que a observação da
natureza humana ou o pensamento puro atingem de uma
vez um elemento substancial. Como é estranho que os
gregos antigos pareçam-nos nascidos ontem e que nos
mostrem os contrastes do homem, do ser, da política, e não
sabendo nada do que nós hoje sabemos! Zola é antigo ao
lado de Homero, e Bergson, diante de Platão.

O que desagrada nos livros de pensamentos deve-se em


parte à língua abstrata em que eles estão escritos. Neles
não se fala de Cálias,21 mas da humanidade, ou melhor, da
essência, da matéria, da relação... Parece que os filósofos
substituem os objetos reais e conhecidos por fantasmas
opacos criados pelo espírito. E é bem verdade, como fiz
notar anteriormente, que é muito mais fácil fazer uma
dissertação que escrever um conto, porque o estilo abstrato
é uma música interior que se engendra facilmente ela
mesma. Há certas línguas, como a germânica, que são tão
próprias para a criação de abstrações que um alemão, seja
o que for que ele enuncia, parece pensar, ao passo que não
faz senão construir uma frase. Mas outras línguas há, como
a grega ou a francesa, em que as palavras abstratas são
vizinhas o bastante do uso comum para que guardem ainda
o sabor do concreto, e suficientemente transparentes
todavia para designar o interior de uma coisa e a
semelhança oculta que a une com as outras coisas.
Observamos isso ao lermos Descartes, Malebranche,
Ravaisson, Valensin ou Lavelle. Este último chega até a
dizer que as palavras abstratas agem nas almas
miraculosamente pela virtude exclusiva de sua presença.

De resto, não vamos crer que, para bem compreendermos


um filósofo, seja preciso procurar nele sempre um sistema
ou uma verdade pura. Alain — que sabia ler tão bem, e que
melhor ainda ensinou a ler — ensinava que deveríamos por
vezes ler Kant como se lêssemos Montaigne ou Proust. Fazia
ele notar que nem os filósofos nem os romancistas dizem-
nos o que pensam, os primeiros pela razão de que julgam
ter o dever de ocultá-lo, e os segundos, porque são eles
como que levados por sua narrativa; faz-se necessário, pois,
usar o elemento surpresa para com todos eles e procurar
por aqueles momentos de esquecimento em que se traem.
Nos livros de pensamento puro — de que são exemplos a
Ética ou A Evolução Criadora22 — esconde-se, sob a
aparência de um sistema, uma experiência humana
individual, levada à mais alta generalização. E, na nossa
época, acontece que um filósofo possa escolher
indiferentemente, para se exprimir, quer o tratado, quer o
romance, quer o filme ou o teatro. Na realidade, todos os
gêneros de expressão deveriam poder transpor-se
reciprocamente. É interessantíssimo procurarmos num
romance a sua respectiva filosofia, ou a história íntima
oculta sob toda a abstração.

VI. Os livros de religião


Pode-se perguntar o que seria feito da fé, não tivesse ela
por sustentáculo uma determinada Escritura. O primeiro
objeto que a religião consagra é um texto. A religião ensina-
nos a ler, esclarece-nos que o que existe de belo e de
verdadeiro numa obra não provém do autor dela: um crente
pensa que a Bíblia foi escrita pelo infinito, para ele. Sustenta
mesmo a idéia (irrefutável) de que, se o Espírito inspirou
Isaías, esse mesmo Espírito escolheu também este
momento, este versículo, com o qual se depara, como que
por acaso, para dele receber um socorro e como que uma
segunda inspiração.

O benefício de um livro de religião ou de mística não está


reservado somente aos que têm fé. Todo o homem é
religioso, na medida em que tem capacidade de atenção e
de silêncio. Tem-se já muitas vezes notado a semelhança
que há entre a atenção e a oração. Essa semelhança é
esquecida pelos dois partidos, posto que os crentes deixam-
se arrastar por orações sem atenção, e os descrentes
contentam-se com atos de atenção sem oração.

O espírito da religião não está tão afastado como parece do


da ciência, quando esta procura progredir.

Dizia Novalis:

A elevação é o mais excelente meio que eu conheço


para evitar os conluios fatais. Por exemplo, a elevação
de todos os cidadãos ao nível do nobre, de todos os
homens ao gênio, de todos os fenômenos ao estado de
mistério...

Em nossa civilização a Bíblia é o livro por excelência. O que


é aqui admirável é que não se trata de modo algum de um
livro, mas de uma coletânea de todos os gêneros de livros,
salvo o abstrato. Contém ela, num pequeno volume, todas
as espécies de fala, desde o código ao cântico de amor,
passando pelos provérbios calmos, os prantos, as revoltas,
as parábolas, as narrativas sangrentas e impassíveis.
No fundo, se acaso fiz-me compreender, a arte de ler bem
consiste em compor cada um para si próprio uma segunda
Bíblia — ler a primeira com inteligência, e a segunda, que é
nossa, com fé.
Capítulo 07: Germes e resíduos
“Nunca se sabe se se caminha sobre uma semente ou sobre um detrito.”
— A. de Musset

I. Os cadernos de cabeceira
Uma vez, fazendo retiro em alguma cela, encontrei em cima
da mesa um caderno de papel branco onde estavam
impressas estas palavras do Evangelho: “Recolhei os
pedaços que sobraram para que nada se perca”.23 Assim
falou Jesus após a multiplicação dos pães. Por que é que,
depois de um gesto de uma tal amplitude, ele aconselhava
a juntar os restos? São os exegetas ou, mais ainda, talvez,
os místicos, quem nos deve dar a saber... Mas que um tal
texto é rico de sentido para guiar o trabalho do espírito, isso
é bastante claro. Depois da iluminação, sempre passageira,
é preciso reunir os fragmentos. Idéia que, aliás, desde a
vida escolar até à hora da morte, é comum e de aplicação
quotidiana; mesmo crianças, estamos já na posição do
testante: temos de pensar no porvir, precisar, formular a
essência do que vai acontecendo, defendendo-a de um
esquecimento irremediável.

Como podemos reduzir a sinais o trabalho do espírito, fixar


o pensamento dos outros e o nosso, para que possamos
repensá-lo, revê-lo e praticá-lo, sobre aquilo que tínhamos
uma vez conhecido e amado, nesse movimento de regresso
que é o conhecimento? Lamartine dizia: “Dá um espelho à
tua vida”,24 e diariamente anotava o que fazia.

É um hábito feliz o de ter um diário que não será jamais


visto e de assim escrever apenas para si e para os anjos.
Ainda em vida, alguns escritores ilustres (como Gide,
Maurois, Marcel, Green) publicam os seus diários; assim,
vão-se rodeando de amigos silenciosos, porque hoje
gostamos do que nos chega de um autor com todo o frescor
da inspiração, ainda sem correções nem formalismos. Mas
qualquer um pode ter o benefício de um diário, por pouco
que o queira. É um conselho que eu dou aos jovens, para
em segredo irem preparando esse húmus, onde mais tarde
encontrarão não só o conhecimento de si mesmos como
também materiais já trabalhados pelo seu espírito.

Há um certo pudor que impede que escrevamos os nossos


próprios pensamentos: é dar-lhes, pensamos, uma
roupagem que permite que outros os vejam; por isso,
muitos preferem escondê-los, ou redigi-los em folhas que
rasgarão logo em seguida. Depois, acontece muitas vezes
que, tendo-se escrito num caderno algo que se acreditou
ser o mais apropriado, se perceba alguns anos depois o
quanto essas notas eram banais. Se bastasse ser sincero
para ser original, todos seríamos artistas!

Eis porque aquele cujo pudor o inibe pode começar


copiando páginas de autores que lhe tenham agradado, as
sentenças, os versos, as cadências que lhe tenham sido
úteis, e por vezes encorajar-se, nas margens das páginas, a
falar para si. Assim, podem-se entremear esses extratos
com acontecimentos de sua vida, lugares, visitas etc. Mais
tarde é muito agradável ter pontos de referência para
ajudar a memória. O “livro da razão” dos nossos
antepassados era assim: cada existência tinha um lugar
assinalado.

A vantagem desses cadernos, agendas, “livros da razão”,


diários, ou qualquer outro nome que se lhes dê, é de
permitir, “após longos esquecimentos”, como disse Virgílio,
a agradável operação da memória. Relembrar não é o
mesmo que lembrar, assim como ressentir não é o mesmo
que sentir. O prefixo re introduz a idéia de uma ação do
espírito que regressa ao ato, tal como a reflexão sobre a
atenção, o que, conforme o caso, corrompe ou aperfeiçoa.
Ressentir degrada o sentimento, mas relembrar impede que
a recordação passe, à maneira de um sonho; fixa-a ao
presente e tinge-a com a alma inteira. Faz de uma simples
lembrança todo o alimento da vida interior.

Os hebreus, durante os vinte séculos que prepararam a


nossa era, fizeram outra coisa além de recordar? A sua
oração consistia muitas vezes em relembrar a sua história,
trágica e maravilhosa; Jacó pensava em Deus, lembrando-se
de Deus na história de Isaac e de Abraão — Deus tinha-Se
deixado ver nos incidentes dos patriarcas, e, singularmente,
no momento da vocação e da morte. Newman dizia que
Cristo manifesta-se pela operação da memória.
Aparentemente ausente deste mundo, onde não obstante é
enquanto ato, ele aparece, como em Emaús, na evocação. E
isso é um símbolo; aqueles que o nome Cristo assusta
podem se situar: o sentido de nosso destino, o
conhecimento profundo de nós mesmos, que nos é ocultado
pelo “peso” de nossa vida, são-nos tanto mais claros quanto
os recordamos com inteligência e amor.

Ao reler um diário que tenha dez anos de idade, e ainda


mais se tiver sido escrito antes das grandes mudanças de
era que nossa geração conheceu (antes de 1914, no tempo
da doçura de viver; antes de 1939, no tempo em que a
palavra liberdade tinha ainda um sentido pleno),
reencontra-se uma parte passada, pacificada e completa de
sua própria vida — parte que tem, como tudo o que está
fechado para sempre, o seu luxo, a sua ordem e a sua
beleza. Avistam-se mesmo as “figuras” do que vai
acontecer-nos mais tarde, as primeiras “situações”, os
temas de alegria, de surpresa e de dor que já se
apresentaram várias vezes no passado e que, sem dúvida,
ainda se reencontrarão no decorrer da vida. Talvez também
as “figuras” dos nossos últimos momentos?

É impossível dar exemplos pessoais, fora o que as Letras


autorizam. Uma vez, estudando as Confissões de Santo
Agostinho, fui surpreendido pelo seu caráter profético,
antecipando acontecimentos de antes da conversão. Se ele
tivesse um “diário” de sua vida (como aliás é possível que
tivesse), teria podido, ao lê-lo pelos seus quarenta anos,
encontrar ali os primeiros esboços do que iria acontecer-lhe
mais tarde. Considerando a sua conduta de jovem Bispo, ele
verifica que é ainda o mesmo para ceder a tendências,
tentações, sonhos e imagens, tal como o era na
adolescência — identidade que o faz acreditar num mal
constante e original. Essa tomada de consciência de nossa
identidade pode ser produzida pela avaliação quase
automática dos comportamentos que tenhamos tido (bons,
medíocres ou maus), pela procura dos traços, das pegadas
e dos vestígios de nós próprios. Que prazer saboreamos
num romance senão o de assistir ao desenvolvimento de
um destino imaginário, de contemplar nas primeiras partes
os presságios e no fim as realizações, depois medir
secretamente a sua semelhança? Mas somos tão pouco
amigos de nós mesmos que não procuramos fazer ao único
ser real o que nos dá prazer admirar em seres imaginários.

Acontece também que, quando relêem-se os traços de seu


próprio passado, se vê mudar o seu significado.
Compreende-se assim que, para Proust, a infância na
Normandia e a morte de sua avó não tenham tido o mesmo
significado, de acordo com o momento de sua vida que os
ressuscitava. E, por exemplo, no momento de sua própria
morte, se ele tivesse relido a morte de Bergotte ou a de sua
avó, teria encontrado algumas antecipações. O caderno de
1914, relido em 1939, tem um certo sentido; relido em
1945, tem outro; em 1959 terá outro. Isso nos leva a afirmar
que o passado, apesar de seu caráter imutável, tem uma
argila bastante úmida, capaz de assumir diferentes formas,
segundo o nosso estado de alma no momento presente.

Disse Max Jacob:

Tome notas todos os dias, de maneira clara, legível, com


as datas meticulosamente apontadas. Se eu tivesse
feito o diário de minha vida quotidiana, hoje teria o
Dicionário Larousse. Uma palavra que se ouve, e eis
toda uma atmosfera reconstituída! Ah, tudo o que se
perde! Tantas pérolas perdidas. Escreva o diário de sua
vida:

Hoje, 22 de junho, estudei os ossos da perna. A


minha porteira disse: nos bancos deposita-se
dinheiro a conta-gotas. O professor X tem um nariz
comprido, como o de Francisco I, acaricia a barba e
faz o que pode para agradar aos alunos etc. Li tal
livro sobre tal assunto. Aprendi tal coisa. Almocei
com fulano (o seu retrato). Passei pelo tribunal.
Julgava-se tal questão (relatar a questão).

É evidente que se nos preocuparmos em não deixar escapar


nada do que se vê, como Alphonse Daudet, obteremos a
matéria para vários romances. Um dos segredos de alguns
romancistas é de nada deixar escapar; para eles não há
migalhas, não há realidades insignificantes. Assim como
também para um pensador, para quem não há idéias que
não sejam talvez um pensamento.

II. Os que nunca escrevem


Todavia há espíritos de uma outra família para quem o ato
de escrever desgasta e dispersa. Eis como um deles mo
descrevia:

Quando escrevo, creio descarregar meu pensamento e


expulsá-lo de mim para torná-lo comum; privo-o de vida
e de movimento. É por isso que não tomo notas em
conferências; ouço, deixo-me divagar; por vezes admiro,
e quando, subitamente, compreendo (opa!), é para
sempre. O papel e a caneta me impediriam de pensar.
Por outro lado, quando escrevo, é naquela caderneta
que o senhor vê ali: escrevo uma data, uma fórmula, um
ponto de referência inigmático que me permitirão
evocar o passado. É certo que não tenho exame algum
para fazer, que ninguém me fará perguntas e que,
sobretudo, não me dedico ao ingrato trabalho de ser
autor. Basta-me o que penso, e reparei que, em todas as
coisas, a forma me instruiu mais que o conteúdo. Quase
pouco me importa o que se diz: o que me leva a pensar
é o modo de dizer ou de pensar, é a forma que envolve
o conteúdo. A “maneira” moderna não me agrada; ou,
mais ainda, permito-me afirmar que os modernos (por
exemplo, “os existencialistas”) não têm “forma”: julgam
atingir-nos com as próprias coisas! Eu sou da escola
antiga, que toma as coisas como quase indiferentes e
não se interessa senão pelo que está até um pouco à
margem da questão. Nesse caso, e assim, por que
deseja que eu tome notas e possua cadernos? Eu
sempre pensarei suficientemente.

Esse método, que não exige da caneta senão que registre o


essencial, sob a forma de aforismo ou de máxima, não se
deve desprezar: é o método dos Antigos e dos Reis, é o
método de Salomão e de Davi. Não é utilizado nesta nossa
época superficial, onde qualquer rapaz saído do liceu deseja
publicar um livro. Em nossos dias, um livro é uma
excrescência; para fazer um livro é preciso apenas saber
encher o papel; outrora era o contrário, sugeria-se o
máximo com o mínimo.

Conheci um outro amigo, educado pelo pai na prática dos


negócios públicos e privados e que era perito na arte de
governar. Passou pela ociosidade e pela inspeção de
finanças, as duas prisões que, antes da École
d’Administration, formam os nossos políticos. Via-o
trabalhar e preparar-se, pensar, formar-se e desenvolver-se.
Só escrevia quando era indispensável. Onde quer que
estivesse, formava-se ao seu redor como que um pequeno
Conselho de espíritos sólidos e amigos, a quem dava os
eixos do debate e depois escutava os depoimentos,
procurando sempre as críticas mais rudes; sugeria que se
fizesse o que ele próprio teria podido fazer, mas escondia-se
e desaparecia como o céu atrás da tempestade. Não lia
jornais; mandava que lhos lessem e resumissem. Nunca
fazia conferências, mandava-as fazer. Via vantagem em
filtrar-se através de outro espírito, como um ministro que
escuta o seu chefe de gabinete. Cheguei a vê-lo, quando lia
ou quando refletia, escrevendo em folhinhas de papel,
embriões de frase. E, todavia, rasgava esses papéis. Como
lhe tivesse perguntado a razão desse trabalho de Penélope,
respondeu-me que sempre que se tem um texto escrito,
fica-se prisioneiro desse texto, tal como era, segundo ele,
Poincaré, o inadaptável. Para ele era melhor formar idéias
densas, suscetíveis de serem modificadas segundo as
ocasiões, sem a escravidão ou a inquietação de estar
sempre limitado pelas notas.

Também me lembro de uma experiência semelhante,


quando estava no ensino secundário. Pelo fim do ano
aconteceu-me que perguntei aos alunos qual tinha sido, de
todas as minhas lições, aquela de que eles se lembravam
melhor. Disseram-me que apenas se lembravam de uma
única aula, dada em fevereiro, numa data que eles
precisaram. Fiquei estupefato: tinha sido a aula menos
preparada, para a qual não havia professor e que me
obrigaram a dar. Apenas tinha tirado algumas idéias de meu
coração.

Tendo visto viver um ministro inglês, observei métodos


semelhantes: lia raramente coisas contemporâneas e dava
a sua preferência a um debate sobre qualquer leitura, com o
cuidado de fazer falar os outros, sem nunca arriscar
movimentos que o identificassem. Quando, por uma
questão de cortesia, ou deveres de seu cargo, era obrigado
a emitir uma opinião, pronunciava-a clara quanto à forma,
mas obscura e “reservada” quanto ao conteúdo, para não
chocar os ânimos e para se abrigar na dupla face do futuro.
Lembro-me de tê-lo visto, quando estava no Ministério dos
Assuntos Estrangeiros, e numa ocasião muito grave, passar
desdenhosamente diante dos jornais: “Nunca leio um
jornal”, disse ele; “como se pode ser verdadeiro quando
escreve-se todos os dias e sem cessar?”

Os Antigos não escreviam. Os sábios de Israel não


escreviam. Jesus nunca escreveu, salvo uma vez, no chão,
quando falava com a mulher adúltera. Sócrates também
não escreveu. O camponês, o marinheiro, o soldado, o
contemplativo, não escrevem. Deus inspira, mas não
escreve.

III. A Rosa-dos-ventos
Essas breves considerações sobre métodos contrários
àqueles que eu proponho permitem-me abordar agora
processos correntes e comuns, que consistem em deixar
sempre um traço duradouro do que se pensou. É aqui que
eu vejo duas razões diferentes para coligir os nossos
pensamentos:
A primeira é ajudar a atenção, dando-lhe um estímulo que a
impede de desviar-se. Escrever é necessário a muitos
espíritos, para pensar. O fato de escrever obriga a estender
para fora o que se esconde dentro. Ao mesmo tempo,
permite que nós façamos resumo e orientação. Se a palavra
pronunciada é agradável, a frase escrita é-o muito mais.
Escrever dá-nos do mesmo modo a certeza de que aquilo
que se passou permanecerá, para nós e para os outros.
Consola-nos da sensação de evanescência, imanente ao ato
furtivo de pensar.

O fato de escrever modera-nos, também, porque o


pensamento marcha depressa demais: atinge a distância de
uma extremidade a outra, saltando por cima dos intervalos.
Escrever impõe também o uso de palavras antigas,
sobrecarregadas por vezes de uma ortografia bizarra, que
constitui, afinal, o seu luxo. O respeito pelas palavras e pela
sua grafia afasta-nos de um exercício solitário, no que se
tornaria o ato de escrever, para trazer-nos a um aspecto
mais humano, para os costumes e as praxes da ortografia;
isso desenvolve a bela virtude do controle.

Enfim, o ato de escrever liberta-nos; ele nos alivia do peso


que dá a impressão do inefável e do inexprimível. Como é
bom ter uma caneta na mão e com ela usar o poder
magnético da pontuação! O primeiro gesto do tirano é
impedir que se escreva, como vimos em 1940.

***

O que é incontestável é que as notas não devem ser


multiplicadas. Não me refiro às notas que se registram em
vista de um trabalho de erudição. Littré, quando elaborava o
seu dicionário, devia ter tantas fichas quanto eram as
acepções das palavras. Mas o estudante não tem,
normalmente, de realizar um trabalho desse gênero
beneditino, para o qual seria preferível a constituição de
uma equipe, com um exército fiel de batedores e de
auxiliares. O que pedimos ao nosso espírito é que produza
com o auxílio de outros espíritos uma obra onde ponha sua
marca. É por isso que eu digo que as fichas devem ser em
pequeno número: imagem das nossas recordações, que
também devem ser escolhidas e sucintas, se desejamos
permanecer uma alma.

Devemos desconfiar de toda aquisição se ela não reporta a


aquisições anteriores, se ela não é assimilada, como diz a
linguagem, isto é, tornada semelhante àquilo que já
possuíamos. Um conhecimento que não se possa ligar a
outros conhecimentos e fazer corpo com eles parece-me
mais prejudicial que útil. Um conhecimento que não se pode
aparentar com o gênero de conhecimentos que amamos,
que não tem nenhuma proporção, nenhuma relação,
nenhuma semelhança conosco, não será vantajoso — eu
falo dos conhecimentos da segunda fase de nossa vida,
uma vez passados os exames e os concursos, porque na
primeira fase tudo tem de ser bem triturado; mas, mesmo
nessa idade, é necessário escolher, tanto quanto se possa,
aquilo que se assemelha com o nosso íntimo e que nos
agrada.

Apliquemos essas regras às notas e concluiremos que uma


nota útil será aquela que corresponda ao gênero de
informações de que mais necessitamos e que, ao mesmo
tempo, reflita a imagem de nosso espírito. A mais perfeita
será aquela que terá o máximo de utilizações possíveis no
futuro: quer dizer, aquela que for mais polivalente para
entrar num grande número de composições. O nosso maço
de notas deve ser parecido com o soldado da Guarda: é
uma reserva que temos ao nosso alcance e perto de nós,
para utilizar quando a sorte do combate é adversa. E a
melhor guarda é aquela que pode intervir, aqui ou ali, nas
mais variadas circunstâncias.

É por isso que eu apreciava colocar nas notas indicações


sucintas, que eu chamava de rosa-dos-ventos, onde
estivessem previamente indicados os diversos usos que se
poderiam fazer. Eis, por exemplo, uma das notas que me
serviram certa vez em minhas aulas sobre a moral; tinha-a
redigido enquanto lia um estudo sobre a evolução do
Direito; dizia respeito ao empréstimo com juros, tal como
era praticado na Idade Média:

Esse tipo de empréstimo era condenado pelos teólogos,


partindo do princípio de justiça de que “exigir um lucro
pela prata que se emprestara era abusar do pobre”, o
que na altura era inegável, uma vez que o ouro e a
prata não tinham valor próprio. Autorizavam-se os juros
apenas em três casos: quando o lucro cessava (lucrum
cessans); quando aquele que emprestava era atingido
por um dano (damnum emergens); quando, enfim,
corria o risco de não reaver o seu dinheiro (periculum
sortis). As condições econômicas modificaram-se, a
exceção tornou-se regra, o que era injusto tornou-se
justo — não que os princípios de justiça tenham-se
modificado, mas porque a prata adquiriu valor.

Eis o resumo das idéias e dos fatos contidos nessa nota. A


rosa-dos-ventos (no alto, à direita) tem as seguintes
palavras: Desenvolvimento, Uso, aplicação, Regra, exceção,
Moral e Sociologia, Idéia de justiça. Isso indicava como as
informações contidas naquela nota podiam ser utilizadas
conforme os campos de batalha desconhecidos que são as
lições e as dissertações.

A experiência prova que é difícil encontrar fatos-idéias


suficientemente ricos para serem capazes de nos ajudar em
caso de emergência. Eu observei que em toda matéria (e
mesmo em Gramática) dar um exemplo é uma operação
muito incômoda e no mais das vezes evitada. Falta de
notas, portanto, de notas significativas, dinâmicas,
variáveis. Notas escritas em papel bastante resistente e em
sentido horizontal, porque assim é mais fácil de consultar.
Notas contendo apenas, cada uma delas, uma única idéia,
sustentada por um ou mais fatos, ou por apenas um fato
repleto de um ou vários significados. Notas com uma ou
várias palavras axiais. Datadas, para sabermos em que
altura as tomamos. Com referências exatas a respeito do
livro onde encontramos o fato ou a idéia e de preferência
com nomes próprios em caracteres de imprensa. Notas
legíveis, pontuadas, transmissíveis como herança,
provisórias e eternas.

IV. Sinopse
Encontrei um amigo meu, educado num colégio, que me
disse:

De todo o meu tempo no colégio, conservei um hábito


afortunado: quando quero aprender qualquer coisa,
retomo o sistema dos quadros sinópticos e das divisões
em colchetes.

Um quadro caligrafado, com palavras escritas em


vermelho ou sublinhadas, que se vê e revê depois de ter
sido feito por nós mesmos (notei que o quadro sinóptico
feito por um outro não dá o mesmo fruto). Esse quadro
faz-nos aprender e compreender ao mesmo tempo.
Presta os mesmos serviços que o gráfico na geometria
ou em estatística. Permite ver as coisas com um só
olhar. Apresenta ainda uma grande vantagem sobre o
livro escolar, que diz as coisas uma após a outra, sem
que se julguem suas proporções e suas relações.

Os meus quadros sinópticos, uma vez feitos,


permaneciam meus companheiros; eu os pendurava na
parede e apreendia-os com um olhar distraído. Em
particular, eu tinha toda a gramática alemã, por
conselho de meu professor, num único quadro sinóptico.
Ora, se um único quadro servia para toda a gramática
alemã, imagine como esse método é rico!

Naturalmente, para fazer uma sinopse, é preciso


simplificar, mas simplificar é procurar pela essência, e,
junto com a arte de desenvolver, que é a sua inversa, a
arte de simplificar é a arte escolar, que deveria aplicar-
se durante a vida inteira.

Se na sua idade o senhor ainda deseja aprender (e aos


cinqüenta anos ainda aprende-se com alegria),
empenhe-se no quadro sinóptico. Assim, para aprender
história, comece por estabelecer uma cronologia
sinóptica (sem muletas, caminhe sozinho!); disponha o
papel em várias colunas: uma para os fatos militares,
outra para diplomacia, uma terceira para países
estrangeiros, quarta para acontecimentos religiosos,
quinta para as grandes renovações artísticas, a sexta
para as descobertas da ciência... O senhor verá como,
na idade madura, uma cronologia desse gênero pode
ensinar coisas novas. As linhas de influência estão
traçadas, apenas é preciso sublinhá-las. Assim, muitas
vezes nota-se a parte do acaso nessas coisas. Mas
também a das correspondências, e, como uma pequena
invenção científica que nos passou despercebida, ao fim
de certo tempo traduz-se numa batalha e perturba os
impérios.
Para a geografia uso um processo semelhante. Se
pretendo estudar a Bretanha, em vez de fazer um único
mapa, como fazia antes, e no qual escrevia tudo, faço
uma série deles um tanto grosseiramente (porque não
interessa a exatidão absoluta: cada contorno deve ser
estilizado), cerca de dez ou doze. Num, ponho, por
exemplo, as costas e os cursos de água. Noutro, as
cidades e as grandes estradas. Noutro, as florestas.
Noutro, o itinerário do exército de Patton. Que interesse
tem esse sistema? Tem este: cada um de meus mapas
representa um pensamento. Cada pensamento é um
fato esclarecido e correspondido por uma idéia: porque,
por sua vez, a cada uma dessas faço também
corresponder um princípio que se encontre facilmente.
Mas, insisto, a sinopse, como o gráfico, não é útil se for
a sinopse de outra sinopse. Aqui, todavia, cada um deve
ser o seu próprio mestre e aluno.
Capítulo 08: Fichas, notas e
aulas
I. O exemplo de Stendhal
Stendhal começava por resumir uma obra, depois
interpunha no resumo algumas páginas em branco onde
acrescentava os seus comentários; mas verificou que esse
método tornava as suas notas demasiado visíveis. Quer se
faça história, poesia ou literatura, são necessárias fontes
que em nossa época devem-se ocultar. Stendhal inventou a
ficha. De acordo com Jean Prévost, que sigo nestas linhas, a
ficha oferece aos historiadores modernos

o meio de pulverizar em fragmentos, numa linha, numa


data, num só fato, os textos de que eles se servem; de
facilmente juntar as fontes, e, em lugar de um mosaico,
obter cores melhor fundidas; eles, os historiadores
modernos, não precisam de muito espírito para
parecerem mais pessoais.

Essa observação pareceria malévola, se o leitor obedecesse


à hipocrisia comum, segundo a qual uma obra do espírito
não se obtém pelo trabalho. Mas sabemos muito bem que
uma obra de arte é muitas vezes uma hábil transposição,
enriquecida com diferenças várias, onde o gênio, é certo,
coloca a sua marca.

Na minha linguagem, uma ficha é apenas uma nota


classificada verticalmente. A classificação vertical tem
vantagens. Permite dominar a matéria, dar-lhe mais ordem,
alterar facilmente as divisões, torná-la, enfim, mais móvel,
mais semelhante ao espírito, com todas as suas
vivacidades. Mas para que a nota torne-se a ficha são
necessárias algumas precauções.

O formato das fichas deve ser sempre o mesmo, desde a


juventude até à morte. Pouco importa no fundo o formato,
desde que seja sempre igual. Porque, classifiquem-se suas
fichas em caixas de cartão, de madeira ou de ferro, nada é
mais inútil que uma ficha que não obedeça (ao menos
verticalmente) ao formato comum. Imaginemos a utilidade
que teria, num combate, um projétil que não fosse conforme
ao calibre. Quidquid non juvat obstat.25 Portanto, urge
adotar, e o mais cedo possível, o dito formato — e conservá-
lo para sempre.

Penso dever propor um segundo princípio, embora menos


indispensável: é que a ficha ideal é aquela que, em
qualquer ocasião, pode ser facilmente colocada no bolso, ou
levada num fichário. E sei que se escolhe segundo o formato
bibliográfico internacional.

Não se acreditaria no quanto pode entrar, de substância,


numa notinha. Se o espaço falta, toma-se uma segunda
ficha, semelhante à primeira, que se passa a designar pelo
algarismo 2 — e assim sucessivamente. Podia escrever-se o
Discurso do Método em fichas dispostas umas após as
outras.

Uma nota tomada com cuidado deveria poder servir aos


nossos amigos e aos nossos descendentes. Se fôssemos
muitos a adotar o mesmo formato, se nos obrigássemos a
escrever legivelmente, como se tivéssemos de entregar o
texto, para publicar, na mesma noite, o trabalho em comum
seria possível. Não acredito nada num trabalho que consista
em pensar em conjunto. Quando se quer instruir-se, cumpre
fazer-se discípulo. O pensamento dispersa-se nos diálogos, e
para que a discussão seja útil é necessário que se discuta
com um contraditor sincero e perspicaz — e, mesmo nesse
caso, creio que valeria mais a correspondência entre ambos.
Ou, ainda, com um amigo íntimo, mas, nesse caso, vale
mais o silêncio de ambos. Podem-se, porém, emprestar
livros, compartilhar lições e beneficiar-se das informações
alheias.

Aconselho que se carregue sempre um fichário com as


dimensões estabelecidas segundo o formato escolhido para
toda a vida. Garante-se a vantagem de captar a palavra, a
observação, a inspiração passageira, sem outro trabalho
que apanhá-la no ar. A idéia chega-nos como o dia do Juízo
Final: de repente. Uma fórmula, uma linha, uma data, um
pormenor, um algarismo, muitas vezes não é preciso mais
para resumir tudo ou para colocar tudo em risco. O destino
de um homem consiste às vezes no fato de ter um cartão
com seu nome no bolso e dá-lo àquele ou àquela que
procurava. O espírito é fugidio; não se repete: se não se
retém o oráculo, no momento em que ele sopra, estará para
sempre perdido. É preciso nunca esquecer que o que nos é
oferecido nesse instante não nos será proporcionado de
novo. O que em determinado momento omitimos, omiti-lo-
emos para todo o sempre. Ora, graças ao fichário, se anota-
se uma linha, é para sempre. Nunca será preciso recopiar, o
que é um trabalho sempre pesado. Voltando para casa,
determinar-se-á o lugar da nota na classificação. O instante
em que se toma a nota corresponde, sem dúvida (e
durantes muitos anos talvez...), ao instante de seu uso.
Essas pequenas técnicas visam à economia de tempo e
fazem com que, no momento que passa, desça um pouco
de eternidade.

II. Mobilização e desmobilização


Gostaria de citar o conselho que me foi dado, em 1926, por
Félix Boillot, professor na Universidade de Bristol, o qual
tinha passado a sua vida meditando sobre os métodos do
trabalho intelectual. Dizia ele:

A maneira de se criar um método é muito simples.


Consiste em analisar, sistematicamente, como tínhamos
trabalhado até o dia de hoje. Deve-se analisar, uma a
uma, todas as fases de nossa vida intelectual e fazê-lo
até os últimos pormenores — isso num espírito de
severidade inexorável, como se tivéssemos de pagar
muito caro (e realmente pagamos muito caro!) para
descobrir faltas e sugerir modificações. Para isso temos
de desprezar o amor próprio e, o que é mais raro, ter
força de vontade.

Quanto ao senhor Félix Boillot, depois de uma prospecção


minuciosa do que se fazia nas grandes empresas industriais
de França e da América, na diplomacia, nos Estados Maiores
do Exército das diversas nações, tinha conseguido chegar a
um método próprio de trabalho, eliminando as perdas de
tempo e os esforços inúteis. Em particular, tinha refletido
muito sobre a invenção da imprensa, por Gutenberg, cuja
história contava assim:

Johannes Gutenberg, que era por natureza laborioso e


engenhoso, atormentava-se com o fato de não
encontrar uma maneira para copiar um livro sem ter de
recorrer ao trabalho da pena, que apenas lhe permitia
copiar um livro de cada vez. Havia já um século que os
holandeses tinham inventado a gravura; com um
furador, sulcava-se um bloco de madeira, de maneira a
fazer sobressair as linhas do desenho ou da palavra que
se desejava reproduzir. Depois, escureciam-se essas
linhas e apertava-se o bloco de madeira contra uma
folha de papel branco. Gutenberg sonhava com esse
processo. Era bastante difícil aplicá-lo na reprodução de
livros: quantos blocos de madeira não seria necessário
gravar! Mesmo para um livrinho pequeno, que despesa!
E esses blocos, uma vez gravados, não serviriam nunca
mais para reproduzir outros livros! “Mas”, pensou
Gutenberg, “e se se decompusesse esse trabalho? Se,
em vez de gravar os meus caracteres num único bloco,
eu gravasse cada letra num bloco independente?
Depois, alinharia e ajustaria esses pequenos blocos,
cada um com as vinte e quatro letras do alfabeto, e
então poderia imprimir uma página qualquer, e tendo-a
imprimido, em mil ou dois mil exemplares,
desmobilizaria cada uma de minhas letras; poderia em
seguida remobilizá-las para compor outras palavras,
outras linhas, outras obras. E, no fundo, nada se opunha
a que eu reproduzisse assim todos os manuscritos do
mundo, em tantos exemplares quanto eu quisesse.”

Félix Boillot tinha concebido uma idéia análoga. Dizia ele:

De que são feitos os livros e os seus capítulos? De que


se compõem mesmo os nossos pensamentos? De
pensamentos elementares, de fatos ou de expressões,
de dados ou de idéias. Esses elementos estão ligados
uns aos outros, e é tão impossível desligá-los como era
impossível, antes de Gutenberg, dissociar os elementos
de uma gravura. Mas suponhamos que decomponho os
meus pensamentos em elementos de pensamento;
suponhamos que destino, para cada pensamento, uma
folha de papel, com as dimensões de uma carta de
baralho; ser-me-ia possível, uma vez feito esse trabalho,
desmobilizar os elementos do pensamento ou da
informação que serviriam ao meu trabalho, fazê-los
regressar aos seus lugares (à maneira dos combatentes
que se libertaram), quer dizer, classificá-los numa
ordem artificial qualquer (alfabética ou cronológica);
depois, remobilizá-los, quando for necessário e na
medida em que tal me for útil. Assim, quando fizer uma
leitura, com o fim de me instruir, em vez de tomar todas
as minhas notas num único caderno, ou numa folha de
papel, decompô-las-ei e multiplicá-las-ei, como
Descartes, “em tantas parcelas quanto se possam”, e
destinarei a cada nota indecomponível uma ficha. No
alto dessa ficha, colocarei uma indicação fácil de ler,
que se referirá ao assunto; por vezes uma palavra
basta. E depois, após uma leitura de uma hora, verifico
que em vez de ter escrito duas páginas de caderno,
redigi uma dúzia de fichas.

III. Como classificar?


A classificação das notas obedece a um princípio muito
simples: Uma nota está bem classificada quando se
encontra rapidamente. O melhor método de classificação
seria aquele que nos permitisse encontrar em dez segundos
uma nota qualquer redigida há dez anos. É claro que isso é
possível apenas para certos espíritos, e assim o melhor
método é o do simples registro. Não se devem classificar as
notas se não se tem um temperamento ordenador: porque a
classificação, como todos os atos de elegância e de luxo,
não tolera a mediocridade. É preferível nada classificar, a
classificar mal. De resto, existe uma classificação natural e
necessária, que é a do tempo e a da cronologia. Se não é
metódico, permita-me que lhe diga: “Não violente a sua
natureza. Escreva como lhe apetecer. Lembrar-se-á, todavia,
que tal nota foi tomada em 1789, na altura de sua estadia
na Bastilha, ou em 1848, durante a Revolução e encontrará,
facilmente, o caderno de 89 ou a gaveta de 48”.

Para confundir os sistemáticos, contarei, na surdina, uma


história verdadeira. Eu tinha uma admiração tão grande
pelas obras do pe. Lagrange que fui visitá-lo em Jerusalém.
Muitas de suas obras pressupõem uma documentação
vastíssima, que se manifesta nas notas e, por vezes, nas
notas às notas: por exemplo, os quatro blocos de granito
que são os comentários aos Evangelhos. Tudo isso foi
alimentando a minha curiosidade de saber como ele
trabalhava. Imaginava-o rodeado de caixas cheias de fichas.
A realidade era muito diferente: o pe. Lagrange tinha
apenas um caderno de formato grande onde tinha escrito,
sem ordem alguma, os textos que desejava citar. Não vi
nenhuma ficha: tudo estava no caderno. Era o método de
Tillement, de Duchesne e, sem dúvida, de todos os velhos
historiadores. Uma boa memória vale mais que uma boa
classificação. Mas para aqueles que desconfiam de sua
memória, a ficha bem classificada é necessária. E, como
muitas vezes não se pode pensar em classificar fichas
segundo uma ordem racional, a melhor ordem provisória é
sempre ou a alfabética ou a cronológica. O interesse das
fichas é que pode modificar a sua ordem quando se desejar:
apenas é preciso misturá-las ou trocá-las. E essas
modificações de classificação constituem um trabalho fácil
para as horas vagas.

Os espíritos absolutamente sistemáticos desejarão adotar


os princípios da classificação decimal, que pode servir a
toda classificação. Encontrá-la-ão em algum livro mais
técnico que este.

Uma vez as notas classificadas, pode ser agradável e útil


fazer com que algumas se sobreponham, usando
pedacinhos de cartão ou de aço leve — aquilo a que nós
franceses chamamos pares.26 Por exemplo, pode-se
destinar um “par” azul para as fichas mais importantes, ou
para aquelas que, numa série de textos já classificados por
ordem histórica, se referem a uma idéia comum. Esses
meios de sinalização permitem dar a um mesmo conjunto
de fichas eixos diferentes, imitando assim a ordem da
natureza, que nunca é linear, mas múltipla. Cada coisa,
cada ser, cada circunstância, pertence a várias séries; o
nosso artifício impõe-lhe uma única seriação, começando
pela palavra, essa cadeia sonora, de som único, que obriga
os nossos pensamentos a um desenvolvimento retilíneo. As
fichas móveis convidam já a quebrar essa ordem e a
recompô-la diferentemente. Os “pares” permitem, sem
modificar a ordem provisoriamente estabelecida, preparar
outras séries e outras mobilizações possíveis.

Pode-se adotar outro processo sem ser o da ficha vertical.


Muitos, aos quais a ordem mete medo e que são artistas por
natureza, preferem as pastas, que têm a vantagem de
recolher longas notas, artigos de imprensa etc. A nota breve
elimina o contexto, e o contexto é, muitas vezes,
indispensável.

De qualquer maneira, não é suficiente usar tal ou qual


processo para pensar, porque o pensamento é um sopro tão
sutil, tão raro, que não se dispõe nunca de meios suficientes
para prepará-lo, para suscitá-lo, torná-lo agradável,
multiplicar-lhe os efeitos, transmiti-lo a um grande número
de espíritos. A virtude da economia aconselha a procurar,
sem cessar, os meios de facilitar o esforço. Félix Boillot
dizia-me, às vezes, que uma de suas regras era: “Fazer,
fazer imediatamente”. Regra bastante militar, acrescentava
aquele veterano.

IV. Apologia do ditado


Será necessário, agora, falar das aulas e das conferências,
considerando-as na perspectiva do ouvinte e de sua
memória. Quais são as condições mais favoráveis para que
o ouvinte de uma aula fixe, de uma maneira durável e
sólida, o que lhe é deveras ensinado? Porque o prazer de
ouvir e a vaga euforia que provêm de uma conferência
artisticamente elaborada não bastam para que se aprenda.

Quando eu era professor, apreciava um exercício reputado


absurdo: o ditado. Certamente, o ditado constitui na maior
parte dos casos o mais odioso dos métodos. Contudo, as
aulas não podem estar sempre em estado de efervescência.
Socratizar fatigava Sócrates e Mênon. Admiro as turmas
novas, mas me pergunto se os professores e os alunos
poderão fazer correr o trem por muito tempo. É preciso
prever, após o galope, o trote e mesmo o passo até ao saco
de aveia. Cinco minutos de ditado oferecem essa vantagem.
No ditado, encontra-se um ritmo que nos prende, um
adormecimento doce e fecundo, análogo àquele que
fornecem as coisas monótonas. As preces vocais, sempre,
sempre recomeçadas, são um ditado ao qual submete-nos
Deus, para que Ele nos acalme.

Eu cuidava de não ditar senão os textos mais belos, ou


então pensamentos que se escapavam meus lábios já
formados e inteiramente armados, como Minerva de Júpiter;
assim, os alunos sabiam que o que eles copiavam valia a
pena reter na memória. Eu também cuidava de jamais ditar
longamente e de interromper o exercício para fazer
reflexões adjacentes, algumas que desejaria profundas,
outras alegres e prazerosas, mais ocasionais (à la
Montaigne, em suma, embora ele, inversamente,
preenchesse sua imaginação copiando belas citações
extraídas de autores latinos). Eu tinha por regra jamais
prolongar muito e de parar ao primeiro sinal de tédio.
Observadas essas precauções, encontrei sempre satisfação
em ditar. Quando o texto era de um dos grandes, verificava
que não havia melhor maneira de amá-lo que acariciá-lo
com a voz, de montá-lo e desmontá-lo na memória sonora.
O ditado obriga a um tom quase litúrgico, a diversos ritmos
de voz. Repete-se, muitas vezes, a mesma coisa, o que é
uma maneira de enraizá-la bem em si, de apresentá-la ao
espírito sob diversas perspectivas. Tudo isso é feito com o
acompanhamento de um barulhinho de canetas
azafamadas, com uma olhadela sobre aquelas cabeças
jovens, inclinadas e submissas. Por vezes, há alunos mais
vivos, que acabam um pouco mais cedo e que ficam com a
caneta no ar; há alunos mais calmos, que estão sempre um
pouco atrasados, sempre inclinados sobre o vizinho para
copiar a passagem que falta. Eu tinha por princípio dar a
pontuação — “vírgula, ponto e vírgula, vírgula e um
travessão...” — para que meus alunos tivessem um
descanso e sobretudo para que aprendessem a arte de
pontuar, para mim mais importante que a ortografia —
porque, no fundo, a ortografia decorre da memória,
enquanto que o sentido da diferença entre o “ponto e
vírgula” e “dois pontos” provém do pensamento. E pensar
vale mais que se recordar.

Os textos ditados, sempre que possível, eram destacados


para um caderno à parte, de papel mais robusto, com capa
mais limpa ou mais adornada. Esse caderno tornava-se o
símbolo daquilo que devia ser conservado apesar de todas
as vicissitudes e passar como um testamento a outros filhos
do homem.

Sinto que me afasto aqui dos caminhos atuais da


Pedagogia, onde inventar é melhor que conservar — mas
calo-me e espero que a experiência faça regressar o
pedagogo à velha prática.

V. Como tomar notas?


Ousarei dizê-lo? Nunca gostei da maneira ordinária de dar
aulas, que consiste em falar enquanto os alunos “tomam
nota”. Estou certo de que, a menos que o professor fale com
uma extrema lentidão (como era o caso de Bergson), é
impossível escrever enquanto ele fala, porque a caneta não
anda tão depressa quanto a palavra. Acontece, portanto,
que não se escuta bem o que ele diz, ocupado, como se
está, em escrever tudo e quase de uma maneira ilegível;
lêem-se essas anotações muitas vezes à noite, ou nunca, ou
antes da prova. Ninguém procura discernir o texto, mas
apenas assegurar-se daquilo que não se encontra nos livros
e que será matéria de exame. Se se é generoso,
emprestam-se essas garatujas a qualquer infeliz que não
tenha podido assistir à aula, o que pode ser o começo de
uma intimidade, de uma profunda amizade ou de um
casamento — mas não será nunca uma via de
conhecimento. Estou certo de que se Pascal tivesse falado,
mesmo as palavras mais insignificantes teriam sido como
oráculos. Mas Pascal não ensinava nos liceus nem nas
faculdades.

Esse exercício de tomar nota, tal como se pratica na maior


parte dos nossos estabelecimentos de ensino, e que é, julgo
eu, recomendado pelos inspetores, parece-me
contranatural. Uma vez que não se pode, salvo no caso da
taquigrafia, acompanhar o orador, então, sempre atrasado
um tempo, escreve-se a última frase ao mesmo tempo que
se ouve a que começa naquele momento. Essa divisão da
atenção não pode dar bons resultados. É certo que o
inconveniente é atenuado pela prática e que o hábito
enfraquece muitas das nossas coisas absurdas. Mas
encontra-se também o gênero de professor eloqüente, mais
orador que poeta, que diz três ou quatro vezes a mesma
coisa: então, escrevendo apenas algumas frases, obtem-se
no entanto uma aula bem acompanhada. O ideal seria
imitar Henri Poincaré, que ouvia a aula de braços cruzados e
com os olhos semicerrados, mas repeti-la-ia logo em
seguida, se fosse preciso. Isso porque ele captava “acima
de tudo a ordem, ainda mais importante”, dizia, “que os
próprios elementos”. É necessário, quando ouve-se uma
aula, procurar nela mais que o que se encontra num manual
qualquer. O professor não é uma vitrola; não é também um
disco; não é um livro feito voz. Pelo menos, se ele é assim,
não é um mestre, e então bastará ouvi-lo com paciência ou
comprá-lo numa livraria.

Mas se a palavra do mestre é mais que a escrita, é porque


ela comporta uma plenitude de si no momento mesmo, e,
portanto, inquietações, fervores, suspensões, achados e
hesitações diversos. Os jovens párocos e professores que
iniciam as suas carreiras têm medo de hesitar, de procurar
uma palavra, de ter um instante de incerteza; e, para fazer
frente a esse risco, aprendem de cor os seus sermões ou
escrevem as suas conferências. Não percebem que, fazendo
assim, assegurando-se contra os acidentes do discurso,
renunciam ao charme e à utilidade da palavra. Um sermão
recitado ou radiodifundido pode converter?

Não acredito que se assistam às conferências só para ver o


domador ser devorado pelas panteras do medo e da
timidez. Mas nunca haveria um prazer suficientemente
profundo no circo se não soubéssemos que o acrobata
poderia dar um passo em falso ao longo da corda, e que, na
Sorbonne, o professor poderia não saber mais o que dizer.
Assim se explica a sedução que exercem aqueles mestres
que aparecem sem uma anotação sequer, que colocam as
luvas e a bengala em cima da mesa, que apagam a luz da
escrivaninha. Os mais requintados chegam mesmo a fazer
citações exatas. Diz-se: “A frase, se bem começada,
assentar-se-á?”. Ela finda e ela recomeça. Pode ser isso
abusar do prazer de falar? E é raro que uma aula assaz
prestigiosa conserve sempre a mesma substância quando é
despojada da fosforescência dada pela palavra. Os
aplicados, os lentos e os densos retomam aqui a vantagem.
Tenho observado que um ligeiro defeito de linguagem pode
ser um adjuvante a mais para manter a atenção nas aulas,
desde que se tenha conseguido adotá-lo e que conserve um
certo sabor particular: o ligeiro balbuciar de Valéry, a suave
aspiração de Bergson, a dificuldade de Brunschvicg, o
automatismo retórico de Blondel; tudo isso era necessário à
sua verdadeira eloqüência. Ser nisso bem-sucedido é
habituar as pessoas aos nossos defeitos, e no limite fazer
com que elas os desejem, como um álcool. Não têm razão
os principiantes, quando se perturbam de falar mal: apenas
se lhes exige que sejam eles próprios. O que o público não
perdoa é o artifício; perdoa as faltas desde que não se
procure ocultá-las. De resto, todos somos homens.

Digo isso como um parêntesis, para incitar os jovens


professores a afastarem-se um pouco de suas anotações e a
“deixar-se levar com o que vier”, na bela expressão de Louis
Lavelle. Não quero dizer com isso que não se tomem notas.
Deve-se salientar tudo o que é fato, data, citação, fórmula,
sobretudo quando é impossível encontrá-lo em qualquer
outra parte. E quando um mestre insiste nesses
pormenores, é-lhe recomendado, como ao automobilista
que se aproxima de uma escola, adotar um tom menos vivo,
aproximar-se da atitude um pouco majestosa daquele que
dita.

Há matérias (as ciências, a história, por exemplo) em que a


aula falada é sempre a primeira edição de um livro a
publicar — e por isso deve-se então registrar tudo. Permito-
me dizer que Hamelin preparava tão bem as suas lições, e
que era, por outro lado, tão mau leitor, que os seus alunos
da École Normale dispensavam-no de falar e copiavam os
seus admiráveis cadernos. Tudo isso era para o bem de
todos: Hamelin não se fatigava e os seus alunos estavam
certos de possuir um texto inédito e perfeito, onde
poderiam encontrar, mais tarde, idéias para os seus futuros
cursos. O caso de Hamelin é verdadeiramente um caso-
limite: aquele em que a perfeição da preparação da lição se
incompatibiliza com a lição enquanto conferência. Não
acredito que se possa imitar Hamelin. O que se procura
numa aula é a comunicação do pensamento, é o espírito e
não a letra, por si mesma quase sempre estéril. E mais
ainda que a palavra (que cada vez mais se encontra no
rádio), o que se procura ver é a pessoa na sua integridade,
e vê-la com os olhos, através dos gestos, das maneiras e
das fraquezas que ela tem. Tomar notas, na aula, só de vez
em quando, como ponto de referência; o que é preciso é
deixar-se invadir pela vida do pensamento. Depois, uma vez
chegado em casa, reproduzir toda a lição; escrevê-la numa
linguagem clara e concisa — eis como seria a melhor
maneira de seguir um curso na faculdade, nas matérias
que, evidentemente, não são de erudição mas apenas
decorrentes do bom gosto pessoal.

É claro que com um tal método é impossível assistir a doze


aulas por dia, mas apenas a duas ou três por semana. Que
proveito! Assim como distinguimos ocupação e trabalho,
assim também devemos distinguir as aulas dadas por
professores das aulas dadas por mestres. Para as aulas
vulgares, poder-se-ia adotar uma espécie de taquigrafia; e o
segundo método ficaria reservado apenas para as lições
raras e magistrais.

VI. O uso das cinzas


Montaigne nota em algum lugar, com razão, que “as
próprias cinzas, elas têm o seu valor”. Não se deve nunca
jogar fora o que é resíduo, escumalha, apara, mas somente
recolhê-los — dessa decomposição pode nascer a vida. Nós
vemos a semente nutrir-se de corrupções; a terra arável é
feita do que se encontra em similar putrefação. Em seus
próprios detritos, a árvore encontra o seu próprio húmus.

Penso que cada um deve conservar numa gaveta os seus


próprios restos, tudo o que está quase ou já putrefato,
quero dizer: os borrões, o caos, tudo o que se possui de
informe. Quando esses esboços contém pensamentos
provenientes de nosso âmago, quando traduzem o esforço
de nosso ser para conseguir a expressão perfeita, quando
“estão contidos num momento feliz”, não devem ser
esquecidos, nem queimados em holocausto. É necessário
ter respeito pelo espírito que habita em nós, mesmo quando
se é um aprendiz ou um aluno bem aplicado. Em todos nós
balbucia o Verbo.

Além de que se é graciosamente influenciado por esse


antigo “eu” que, com o tempo, tomou uma distância tal que
parece “outro”, e há alegria em saber que nada do que
procede de nós se perdeu. Esses fragmentos poderão entrar
em conjuntos muito mais elaborados. Não existe sempre
uma grande diferença entre os trabalhos da juventude e as
obras da maturidade, ou entre as atenções da adolescência
e os pensamentos da idade madura. O que fermenta na
juventude apresenta excessos, falta de destreza; adivinha-
se o exagero, a escola ou a imitação; mas tudo o que é
autêntico tem o caráter de um germe. É preciso dizer-se ao
jovem: “Não jogues fora; escreve, conserva o que escreves
em segredo; isso ajudar-te-á mais tarde nas tuas
composições; estará à mercê do tempo, a arte purificá-lo-á,
com a autoridade que a idade confere pelo simples fato de
ser idade”. Os velhos dizem o mesmo que os jovens, desde
que sejam perspicazes: o que numa boca jovem é
impertinência, na boca de uma pessoa de idade é já
sabedoria. A história da literatura tem-nos mostrado muitas
vezes que a obra de uma vida teve afinal a sua primeira
aparição num audacioso ensaio da juventude. Pensemos no
Futuro da Ciência, de Renan, e no Ensaio Sobre as
Revoluções, de Chateaubriand.

Assim, cada um poderia fazer para si o que o Antigo


Testamento era para o povo hebreu: uma série de cadernos
onde estivessem resumidas as lições, os rascunhos,
trabalhos, anotações, alguns poemas, bons conselhos,
alguns cânticos mais secretos e difíceis de mostrar (como o
Cântico dos Cânticos, na Bíblia). Aos trinta e cinco anos
decretaria que o livro de sua juventude encerrara-se, que
tinha sido inspirado, e, ao relê-lo em fragmentos, no cair da
noite, até à idade madura, inspirar-se-ia a si mesmo.
Capítulo 09: Redação e estilo
“A beleza do mundo é tal que dizermos bem o que nele se encontra, ou
mesmo designá-lo com exatidão, basta para formar um bom estilo e para
fazer um bom livro.” — Joubert

I. A ligação entre o conteúdo e a


forma
Uma grande parte de nosso esforço consiste em obter a
expressão, seja oral ou escrita. É nisso que consiste a arte
de vender, de persuadir, de amar, de governar; e talvez até
a de convencer-se a si mesmo. Nos conquistadores não se
sabe, muitas vezes, o que devemos admirar mais, se a
vitória, se a maneira como falam da vitória. E mesmo em
nossos dias, o grande chefe é ainda um grande orador.

Sempre me perturbei com esse poder atribuído à palavra


mesmo aos olhos daqueles que dizem desprezá-lo. Ainda há
cem anos, o objetivo supremo dos estudos era preparar
para os discursos. Era-se encaminhado através da
aprendizagem das línguas com as quais homens antigos
tinham-se exprimido e procurava-se imitar os seus grandes
discursos.27 Atualmente, por algumas boas razões e por
outras tenebrosas, a arte da expressão tende a desaparecer.
Aprende-se-a menos, julgando-se que o essencial não é
falar, mas saber, e que aquele que sabe, por acréscimo,
falará bem. Isso seria verdade se não houvesse uma ligação
profunda entre o pensamento e a linguagem. Essas duas
formas de nosso ser encontram-se numa relação tão íntima
que não se pode progredir numa sem o apoio da outra. Com
razão, diz-se mal da linguagem vazia e balofa; o gênero
oratório já não é suportável às sensibilidades de nosso
tempo, longe dos pretórios, dos parlamentos, das igrejas.
Mas acontece que nada de válido se lhe substitui, e que os
jovens, cheios de idéias e de pensamentos, são, muitas
vezes, incapazes de comunicá-los.

A crise do ensino secundário e superior resulta em parte da


incapacidade da juventude para utilizar a linguagem. Não é
que seja necessário regressar à velha “eloqüência”; o que é
necessário é conservar o que nela havia de válido, dando-
lhe formas novas, adaptadas às condições do espírito
moderno, mais rápido, mais vivo, mais sincero, que procura
mais cedo pela essência.

Alguns imaginam que a forma se acrescenta ao conteúdo,


como um ornamento, de onde resultaria que a exigência da
forma seria um tanto “mundana” e facultativa e que o
principal seria ter o conteúdo. As Ciências dão o conteúdo,
as Letras dão a forma. Portanto, a rigor, podem-se dispensar
as Letras. Essa visão pressupõe uma completa ignorância
do que é a composição, trabalho que só as Letras ensinam.
Compor é ordenar o pensamento, procurando as partes, os
momentos e as etapas. Compor é pensar, se é verdade que
o pensamento não se distingue de sua ordem e de seu
número interiores.

Por outro lado, quando se escreve ou quando se expõe, não


basta falar à razão dos outros. Também cumpre atingir o
ponto onde a razão se revitaliza e de onde provém a própria
ordem. Falar ao “coração” é uma operação difícil. Quem dirá
as regras dessa arte? Pascal, que tentou procurá-las,
observou que, afinal, não existem, se não se trata de
experimentar as próprias frases em seu coração. É o mesmo
conselho que, à sua maneira, dava Flaubert, quando dizia
para se pronunciar em voz alta a frase que acabava de se
escrever. Procurar a composição é aproximar-se da verdade.
Exprimir-se é aproximar-se do belo. E é preciso nunca
esquecer que essas duas operações formam um conjunto,
porque o belo é um meio de se atingir o verdadeiro, bem
como este se irradia naturalmente no belo. Compor já é
procurar um equilíbrio, uma proporção e portanto a beleza.
Exprimir-se é querer traduzir pela linguagem uma verdade
mais íntima ainda que a da ordem interior, e mais
semelhante à verdade da existência dos seres, considerados
neles próprios. Thierry-Maulnier disse justamente que uma
obra é tanto mais rica de significado quanto mais estilo ela
tem, “o trabalho do estilo não sendo senão a operação que
consiste em preencher de sentido a linguagem”. Buffon
também já fizera notar, numa frase que se pode atribuir
igualmente a Valéry ou a Flaubert:

Todas as belezas intelectuais que se encontram num


belo estilo, todas as relações de que ele é composto,
são outras tantas verdades, tão úteis e talvez mais
preciosas para o espírito público que aquelas que
podem constituir o cerne da questão.

***

O estilo é enfim a marca que o trabalhador coloca em sua


obra. Não basta que uma obra faça pensar em seu objeto
para que ela seja humana; é preciso que tenha uma relação
com o seu autor e que nos faça, por transparência,
adivinhar o seu rosto. Isso é verdade mesmo para as obras
da ciência — porque há diversas maneiras de apresentar
uma mesma ordem de coisas. E eis porque o estilo não se
confunde com a correção da linguagem e porque as
incorreções podem ser belas, desde que não procedam da
ignorância mas de um movimento do espírito que se
desvela. O estilo está relacionado com a duração e a
repercussão dos acontecimentos na nossa existência
psicológica e moral. Os únicos clássicos que ainda lemos
não são aqueles que nos dizem as coisas mais verdadeiras,
mas aqueles cuja linguagem guardou o traço de seu eu.

Essas observações também têm um alcance no ensino da


língua pátria. Elas desaconselham a divisão tenaz entre os
exercícios da forma e os do conteúdo, nomeadamente a
famosa “correção francesa ‘palavra-por-palavra’” ou a
separação demasiadamente grosseira entre as negligências
do rascunho e a versão definitiva. O trabalho literário, em
qualquer fase que se considere, não se pode decompor em
dois momentos, de que o primeiro seria a procura da
verdade e o segundo a tradução dessa verdade numa
linguagem correta: é num mesmo e único esforço que forma
e conteúdo devem sair do caos e da indolência. E acontece
muitas vezes que o conteúdo deriva da forma, como
adivinha-se pelas confidências dos poetas. Como o nosso
poder sobre as idéias é menor que o que temos sobre as
palavras (porque as idéias são em menor número, abstratas
e desencarnadas), o que acontece mais freqüentemente é
que é com o apoio das palavras que fazemos saltar a idéia.
Isso implica que, quando a criança ainda não tem idéias, o
melhor serviço que se lhe pode prestar é povoar a sua
memória com formas belas, embora para ela ainda vazias. A
condição exigida para se ser original é a de saber bem uma
linguagem, quer dizer, ter se apropriado de estruturas
antigas. Eis aí porque toda a instrução clássica e mesmo
formal obriga muitas vezes o aluno a aprender sem
compreender, um ensino, enfim, que se destina apenas à
memória auditiva. E com certeza que se devem fazer
despertar as sensações, formar a iniciativa, ajudar mesmo a
apalpar as coisas; mas seria preciso que a criança fosse um
gênio juvenil para adivinhar que o exercício mais útil é
aquele que ela mais apavora: aprender de cor. No entanto,
se o filho do homem não tem uma ou duas línguas à sua
disposição, mais tarde não desfrutará do mundo. Será como
um cego, porque possuirá as coisas sem possuir o Verbo,
que é a luz das coisas.

***

Como ensinar a linguagem à criança? Com que gênero de


exercícios se deve ir assimilando uma língua?

Nos antigos e nos modernos tratados da arte de escrever


encontram-se muitos conselhos. A melhor das regras, como
em qualquer outra matéria de arte, é o contato com os
modelos, freqüentar os mestres; é a impregnação.

II. O estilo e a economia do esforço


Quando procura-se deslindar o princípio geral de onde
podem-se tirar as regras do estilo, nota-se que a maior
parte dessas regras funda-se no desejo de agradar.

A primeira condição para agradar é evitar a fadiga dos


órgãos, evitar o aborrecimento. Por exemplo, se condena-se
uma certa maneira de escrever por ser confusa, isso no
fundo é porque a claridade da expressão facilita o trabalho
da inteligência; se gostamos de um estilo cadenciado e
periódico, é porque a cadência, o período e o ritmo
permitem ao leitor, através da forma, ir pressentindo as
idéias e diminui o esforço necessário para compreender.
Inversamente, quando alguns estilistas, como Montesquieu
e Baudelaire, aconselham a escrever em cadências ímpares,
é porque uma cadência muito regulada adormece o espírito
— a surpresa encanta-o e a ruptura do ritmo cria a surpresa.
De modo que as duas regras precedentes, ainda que
pareçam opostas, explicam-se, todavia, por uma mesma lei:
o problema é sempre o de se adaptar às condições nas
quais opera a inteligência num ser encarnado e cujo sistema
nervoso é bastante delicado. A arte do estilo consiste em
percurtir esse sistema como o arco percute as cordas do
violino. É preciso nunca esquecer que a energia mental é
limitada e que todo o esforço inútil diminuirá em algum
outro ponto o esforço necessário. Se o estilo adapta-se a
essas necessidades, a euforia que ele proporciona
comunica-se do ouvido do leitor ao seu espírito, e é essa
euforia que lhe permite abraçar a idéia sem ser ofuscado
pela mediação da linguagem. Ou então, no caso de se deter
na linguagem, não será senão para desfrutar de sua
conformidade com o pensamento e para admirar-se, como
num encontro improvável, de um feliz acaso e, como se diz,
de uma alegria. É tão raro que haja consonância entre os
nossos pensamentos, frutos solitários do espírito, e as
palavras da linguagem humana, tão mal feitas para os
pensamentos!

III. Que o excelente custe menos


esforço que o medíocre
Se o estilo é a pessoa traduzida para fora e o movimento do
pensamento tornado sensível, ele aproxima-se,
singularmente, da palavra. Ora, a palavra seria impossível
se não existisse previamente um plano do que se deseja
dizer. Por outro lado, fala-se bastante sob emoções súbitas,
por exemplo quando replica-se subitamente a um amigo ou
a um adversário.

Eis porque é aconselhável, passada a idade escolar (e às


vezes mesmo nessa idade), não se esforçar demais na
expressão. A palavra reveste-se naturalmente do
pensamento, salvo naqueles que, por convenção ou por
decência, impõem-se falar diferente do sentem. Assim, tem-
se tanto mais chances de escrever bem quem se coloca na
disposição daquele que improvisa sob efeito de um
sentimento muito vivo — a irritação, por exemplo. Um dos
maiores estilistas atuais confidenciou-me que para escrever
era-lhe necessário fingir o fel. É verdade que um homem
fora de si tem sempre estilo! O mesmo se aplica aos que
falam pouco, após longo silêncio; suas palavras tornam-se
então provérbios. Quando Pascal discutia, era, foi-nos dito,
com tal exaltação que o julgavam sempre encolerizado.
Ainda o mesmo com Bonaparte — ou Stendhal, seu
imitador. Tenho em mente, mais que eles, o evangelista
Marcos, que imagino que devia escrever “irado”, como ele
nos apresenta tantas vezes o Senhor: “iratus est Jesus”.

Esses exemplos deviam instruir-nos, nós que caminhamos


sobre trilhas humildes. Teremos então de renunciar às
regras tão necessárias dos primeiros tempos e de sempre: o
plano, o rascunho, a emenda. Ou antes, será preciso
considerar a emenda, o rascunho e o plano de outra
maneira.

Nada de plano previamente estabelecido, que impede a


expansão do espírito e que faz com que o trabalho da
imaginação assemelhe-se ao do funcionário, ocupado em
tapar todos os buracos. Não se trata de fazer um plano, mas
de determinar um eixo, coisa totalmente distinta. O eixo é
um plano de vida; o plano, um eixo de morte. Pascal,
quando expôs pela primeira vez seu projeto de apologia,
tinha proposto um plano, mas reconheceu que o plano mais
perfeito deve ser apagado diante de um outro
desenvolvimento, aquele que procede de um espírito livre e
penetrado por seus pensamentos. “Escreverei os meus
pensamentos sem ordem”, disse então, “e talvez com
alguma clareza. Essa é a verdadeira ordem, e que marcará
sempre a minha exposição pela sua desordem”.

Para encontrar essa segunda ordem é necessário um certo


esforço, mas esse esforço é de um gênero bastante
diferente daquele que abordei a propósito da composição. É
uma tentativa de reunião interior, de sinceridade consigo
próprio, juntamente com um horror ao banal, ao que já foi
dito. É necessário assumir um tom. Esse esforço de
sinceridade total é incompatível com a emenda, que retorna
no mesmo instante ao que fora escrito. Nesse sentido
assemelha-se à indiferença do monstro: mas agora trata-se
de um monstro desejado, lúcido, saído das entranhas.

***

Pode-se perguntar se esses métodos não podem ser


transportados para as aulas. É bom aprender a redigir, mas
compor à moda antiga não nos dá a alegria do ato de
escrever e arrisca mesmo a desencorajar muitos talentos.
Creio que deveríamos ter também, às vezes, exercícios de
improvisação. Alain formava os seus alunos nesse jogo da
escrita concisa e com um firme objetivo. Se a frase sai mal,
volta-se a redigi-la na linha seguinte. Volta-se a redigi-la,
não se corrige, tal como na vida humana onde o regresso ao
passado é impossível. Goethe não gostava de retoques nem
de reformulações. Dizia a Eckermann: “Pode passar a ser
outra coisa, mas não melhor”. Era também o método de
Péguy. Um de seus condiscípulos em Sainte-Barbe, o sr.
Buriot, dizia-me que, estando perto dele durante os exames
de composição francesa, via-o, uma vez dado o assunto,
debruçar-se sobre os braços cruzados, que lhe serviam de
travesseiro. Dormitava durante a primeira hora, deixando
compor seu espírito ao redor do tema, à maneira de um
germe fecundado pelo repouso; depois acordava e, com sua
letra clara e formidável, redigia sem qualquer revisão, como
o lavrador que cava um sulco no solo com o arado e com os
bois.

Nada é mais difícil que começar. Já não me espanta que


jamais tenham me ensinado os começos. Em todas as
coisas, a idéia de começar promove de início uma certa
angústia, depois uma certa preguiça e enfim o orgulho ou o
desespero. É preciso evitar, a todo o custo, a idéia de que se
vai começar. É preferível continuar ou recomeçar. Quanto à
arte de acabar, é simples: interrompe-se. Deve-se imitar
Waldeck-Rousseau, que nunca assinalava o fim de seus
discursos, ao ponto de o regente musical exclamar: “Com o
presidente, nunca se sabe quando se deve começar a
Marselhesa”.28

Stendhal deixou-nos várias fórmulas dessa nova Retórica.


Nos planos e nos rascunhos preferia o método de passagens
indutoras. Gostava de começar por fragmentos
perfeitamente escritos, muito mais que com introduções.

Dizia Jean Prévost:

Essas notas estimulam a imaginação, enquanto o plano


a tortura. Um plano é uma coisa que é preciso respeitar,
que se completa com pormenores, obrigando a recorrer
à memória, que portanto mata a imaginação. Enfim, o
plano não tem ligeireza, fornece uma matéria pesada e
informe que é necessário erguer. A nota perfeita oferece
todo um conjunto de pormenores: ao redor dela forma-
se uma cristalização. Encontrar alguns fragmentos
perfeitos, reuni-los numa obra que conserve sempre o
mesmo nível — eis o verdadeiro método do poeta.

Analisando o gênero de esforço que a súbita redação desses


fragmentos exige, Jean Prévost faz precisamente notar que
a sua natureza é inteiramente diferente da do rascunho:

Se, para o escritor que se corrige, o grande esforço vem


após o primeiro jato, para aquele que improvisa o
esforço coloca-se antes do instante de escrever... Uma
obra de uma outra arte, uma anotação pessoal, um
fragmento de outra qualquer obra retida pela
imaginação, exaltam as sensações e as impressões,
para as quais o ato de escrever é uma resposta. Essas
excitações propõem ao espírito um nível que é preciso
manter ou ultrapassar. Dado um la a ária aparece.
Nunca encontramos Stendhal a começar: antes, pelo
contrário, retoma e continua. O mesmo em música, com
Haydn ou Bach que só improvisam bem com variações.

Outras vezes Stendhal traduzia, recopiava, relia uma página


já escrita, um antigo rascunho, uma página antiga de seu
diário; ou então descrevia uma obra de arte, ou uma
gravura. Pensava também que a procura da concisão, o uso
da interrupção e do salto, é que conduzem ao estilo e à
elipse em todas as coisas. Dizia também que a simplicidade
do estilo deve aumentar à medida em que a obra se
aproxima do fim: “Para o fim de um livro devem-se suprimir
os por assim dizer e outros rodeios do gênero”. “O meu
espírito é um preguiçoso que deseja poder encostar-se a
qualquer coisa mais fácil do que compor”. Sempre que
pode, Stendhal rejeita a deliberação, a angústia. “O grande
segredo de Stendhal”, confia-nos Gide, “sua grande malícia,
é escrever de uma vez (...), daí algo alerta e enervante,
discordante, súbito (...). Está-se perdido quando se hesita”.

***

Ainda outros conselhos: o estilo deve ser mitigado. É a velha


regra da ascese. Criar é renunciar à capacidade infinita de
possibilidades para não reter senão uma só. Mas ao redor
de cada uma das criações, que são finitas, o artista, tal
como a natureza, deixa uma imagem do indefinido; na cor,
isso obtém-se pelo halo, pelo desbotamento, por uma certa
indecisão voluntária do desenho; na poesia, pelas palavras
puras e vagas; na fala, pelos olhares e os silêncios; no
estilo, pela alusão, pelas formas do condicional, pelos
atenuantes da afirmação, como “sem dúvida,
suficientemente, talvez, num certo sentido”. Os Gregos
tinham várias palavrinhas que indicavam as nuances e as
atenuações. Não existem nas outras línguas, e quando
aparecem é em formas pouco acentuadas e demasiado
ligeiras. Eis o que contribui para a perfeição da língua grega
na expressão do pensamento.

IV. Estilistas e redatores


O estilo compreende a arte de redigir. E para redigir é
necessário estender e diluir as proposições, ocupar o
espaço, encher o papel branco de signos. Não é preciso ter
passado muito tempo na aula de redação para perceber que
certos espíritos jovens que, talvez, teriam sucesso com o
aforismo são absolutamente inadequados para a redação:
estariam mais inclinados a imitar César em vez de Cícero.
Se a dissertação parece-lhes insípida, não é porque não
tenham idéias ou até mesmo fórmulas: o que lhes falta,
sobretudo, são palavras para desenvolver a idéia que
pretendem expôr.

Muitas vezes tenho pensado que deveria se distinguir


melhor a arte de escrever da arte de redigir. Voltaire dizia
justamente:

O Telêmaco teve alguns imitadores, mas os Caracteres


de La Bruyère tiveram muito mais. É mais fácil fazer
pequenas pinturas que nos emocionam rapidamente
que escrever uma obra extensa que ao mesmo tempo
agrada e instrui.29

É possível que Voltaire tenha recomendado o seu próprio


talento.
La Bruyère é um admirável “estilista”, mas mas não é um
“redator”; Fénelon redige de um modo perfeito, mas não é
propriamente estilista. Valéry é o tipo mesmo do estilista.
Gide será sobretudo “redator”.

Na arte da pintura, há momentos em que não há senão de


se cobrir espaço — por exemplo, se fazeis um céu, um
lençol sem dobras, uma penumbra. E é o mesmo quando se
escreve um livro de pensamentos ou um romance; muitas
páginas não estão ali senão para acalmar o espírito ou
prepará-lo para o que virá mais tarde. O primeiro exercício
que eu gostaria de propor a alunos dóceis seria o de lhes
ensinar a cobrir, quer dizer, a redigir lugares-comuns. Na
vida em sociedade exige-se uma certa delicadeza, o que
nos leva a ter de sustentar longos diálogos, vazios de
interesse, sem interromper nem ser indiscreto. E no entanto
é necessário que o céu do pintor seja belo, que aquelas
páginas um tanto vagas leiam-se com interesse e que os
diálogos em sociedade sejam sinceros. Aí está uma parte da
arte de falar, de escrever e de pintar. O ofício dos religiosos
é admirável no fato da salmódia ajudar nos momentos em
que a oração é mais difícil. Deve-se procurar esse
equivalente nas outras atividades da vida. Diria mesmo
“para escrever páginas que devem apenas ocupar papel:
deixe a caneta correr, não importa onde, não importa como,
evitando tudo o que for vulgar e procurando ser sincero até
o fundo”. E eu diria também ao pintor: “cubra esse espaço,
mas não com cores sem brilho”. E ao homem da sociedade:
“diga o que quiser, desde que seu pensamento seja
indulgente”.

Se se quisesse aconselhar a um jovem escritor, cumpriria


sugerir-lhe que se exercitasse primeiro em conectar, em
passar, em contar, em deixar-se levar pelo movimento de
sua caneta. Imitaria assim o movimento da vida, que não
abunda muito em acontecimentos nem em crises, mas que
nunca é mais ela mesma que quando passa, ligando tudo a
tudo, continuando. Devia-se escrever tal como se elabora
uma carta ou como se fala em família. Uma palavra chama
a outra.

Essas associações, umas felizes, outras infelizes, que ora se


ligam, ora se desligam, levam o espírito a escolher naqueles
acasos os que têm mais valor. Os “pensamentos” ocorrem-
nos livremente e sem que se pense neles. A atenção não se
deve fixar nos conceitos e não se deve ter a pretensão de
ser original, mas antes de encadear as frases umas nas
outras, de ligar nas palavras o seu valor, e de estar
secretamente vigilante aos seus jogos e às suas cópulas.

É necessário que o bom escritor seja comum e no entanto


raro, monótono e surpreendente, nivelado e por vezes
abrupto. É o mesmo que dizer que é necessário imitar a
natureza, que se nos apresenta com os seus dois
temperamentos, de ser simples, sólida, firme e todavia de
fazer aparecer, após uma curva na estrada, algo admirável.
Cada escritor deve ter à sua disposição palavras que ame
muito particularmente, que se tornem a sua própria
identidade, e com elas relacionar as suas frases. Os nossos
alunos sentir-se-iam aliviados se lhes permitíssemos a
repetição. Dizia o cavaleiro de Méré:

César estava persuadido de que a beleza da linguagem


depende mais do uso das melhores palavras que da
utilização da diversidade, e se estava satisfeito com
31
uma expressão, despreocupava-se das outras.30

Muitos pensam que se escreve tanto melhor quanto mais se


faz difícil de compreender e empregam-se termos que não
são inteligíveis senão para “iniciados”. E é verdade que a
obscuridade da linguagem produz um efeito quase religioso:
convida-nos a um esforço de compreensão, e nós sabemos
que todo esforço paga à vista. Mas nada nos assegura de
que uma página obscura, por acréscimo, tenha
profundidade. Conheci um professor de filosofia que redigia
primeiro uma lição inteligível. Depois, salpicava-a com o que
ele chamava de “a obscuridade necessária”, sem o que, em
sua opinião, a sua mercadoria não excitaria o entendimento
dos grandes alunos. Ele tinha muito mérito. Eu suspeito que
a obscuridade não seja a última roupagem e como que o
véu de uma idéia, mas seu estado primeiro e definitivo.
Nasce-se, morre-se obscuro. Aquele que recebeu de Deus o
dom da confusão das idéias, que se console e que use essa
oportunidade. Arrisca ser reputado profeta, ter prestígio,
discípulos, igreja. A obscuridade que se sofre em segredo
como doença perigosa, a partir de certa altura é adorada
por alguns homens e assim passa-se a sacerdote de uma
religião cuja origem é a própria doença.

Mas a técnica da obscuridade não se aprende na escola. Até


agora, pelo menos, a escola tinha de nos ensinar a exprimir
tudo o que se dissimula. A pergunta constante do mestre ao
aluno é: “O que você quis dizer?” O ideal do mestre, no
Ocidente, consiste em preparar um diálogo entre os
homens. E a conversação pressupõe que se possa a
qualquer momento saber o que o outro nos disse. Se
ouvimos conversar dois Obscuros, observamos que cada um
espera em silêncio que o outro comece.

Um conselho útil para principiantes é: “Escreva na primeira


pessoa. Estará mais perto do verdadeiro estilo se disser ‘eu’
que se disser ‘se’”. E acontece que há romancistas que
escrevem primeiro o seu romance como uma longa
confidência, antes de reescrevê-lo impessoalmente. É sem
dúvida porque a palavrinha “eu” (tão odiosa, no dizer de
Pascal, que todavia dizia “eu odeio”) obriga a
compromissos. Para inspiração igual, há mais estilo quando
se contesta que quando se afirma, mais quando se está
irritado que quando se está calmo, quando se lamenta mais
que quando se sorri, mais quando se descrevem abismos.
Negar é mais claro, como fazem os Concílios.

V. Conselhos a um estudante
Eis o que escrevi a um estudante que me pedira auxílio para
resolver um problema de linguagem:

Deve-se escrever como se falaria se se falasse bem. E


isso supõe duas práticas contrárias: Uma é a de supor
diante de si um aluno ignorante, mas inteligente, com o
qual se converse, fazendo-o honrar seus pensamentos
como um jardim ou um museu que o mandasse visitar.
Era um hábito de Fénelon falar sempre a algum
Telêmaco, o que explica um pouco a sua clareza.
Descartes, que é um bom escritor por causa das
ligações que estabeleceu, torna-se melhor ainda quando
se dirige a uma rainha. O mesmo se diga de Renan,
quando escrevia a Henriette. Montaigne tinha começado
a escrever os seus Ensaios sob a forma de cartas
dirigidas à Mme d‘Estissac; S. Francisco de Sales limitou-
se, para compor seu livro Filotéia, a recolher as cartas
que tinha escrito à Mme de Charmoisy. O pensamento é
uma confissão. E não existe estilo sem um certo esforço
para tirar de si o que não ousa aparecer. Mesmo no liceu
é preciso tentar ligar ao nosso íntimo tudo o que se diz
ou se escreve e encontrar aquela junção onde a
pergunta de um outro torna-se a sua pergunta. Isso
realiza-se, quase sem esforço, na confidência. E eis
porque a regra ideal seria a de se dirigir, como Sêneca e
Jerônimo (e talvez Plotino), a uma mulher.

Para compensar o que essa regra tem de emoliente, eu


aconselharia a observar, nos diálogos com seus amigos,
e mesmo no colóquio que você tem consigo mesmo,
uma certa correção de linguagem. Não é jamais sem
prejuízo que se deixa abandonar a termos vagos e
excessivos; melhor seria falar em gíria, que no fundo é
uma linguagem poética. Não deveis nunca dizer
“formidável”. É salutar fazer um ligeiro esforço, mas
sem pedantismo, para escolher a palavra menos
inadequada. Sede elegante sem parecê-lo, mesmo nas
palavras mais simples. É isto o que quero dizer: tende a
preocupação de escolher.32

Assim, escrevendo como fala e falando um pouco como


gostaria de escrever, você chegará a ser igual a si
próprio, e no dia em que tiver de escrever ou falar em
público, terá menos problemas de expressão a se
colocar.

Perguntais também se se deve corrigir e, nesse caso,


como fazê-lo — questão moralmente insondável! Creio
que, quando tivermos escrito uma página, devemos
suprimir o que resulta de um esquecimento das regras e
aquilo que, ao contrário, resulta de uma aplicação
excessiva dessas regras. A negligência e a afetação são
as duas tentações que nos impedem de sermos
naturais.

Para corrigir com um certo êxito, nos nossos escritos ou


na nossa vida, é necessário um retrocesso. Temos de
esperar que aquilo que proveio de nossa intimidade
pouco a pouco vá se tornando estranho e longínquo.
Deveríamos imitar as parteiras, que deixam a criança e
tratam da mãe. Tratar da mãe significa: acalmar-se,
nutrir-se, consentir nas mediocridades inevitáveis. Que
importa que a criança seja imperfeita: ela está ali, ela
grita. A vida é mais que o alimento e o corpo é mais que
o agasalho.
Quanto ao estilo filosófico, sobre o qual também me
fazeis algumas perguntas, ele exige um esforço
suplementar de precisão e de ligação. Diga-se: “E mais
exatamente; quer dizer; a saber...”, e que se mostrem,
como aconselha Julien Benda, as relações (“porque, em
conseqüência, ora... é porque”). Mas a filosofia deve ter
também o seu mistério: o estilo filosófico o introduz pela
dúvida, pela elevação ou pela imagem, às vezes
também por uma modulação toda abstrata, como se vê
em Platão, S. Tomás e Malebranche. Mas a nossa época
prefere os aforismos... ou as impressões de massa.
Capítulo 10: O trabalho no
estado de fadiga e de
sofrimento
“Empregou um ano inteiro preparando-se da maneira que as outras
ocupações lhe permitiram — recolhendo os mais diversos pensamentos
que lhe chegavam.” — G. Périer, a propósito da doença de Pascal

I. O trabalhador enclausurado
Eu falei até agora do trabalho no estado de saúde. Nesta
nossa época de perturbações e de esgotamento, todavia, é
raro que uma pessoa encontre-se nas condições que mais
favorecem esse trabalho. Parece, portanto, que o homem
atual tem de descobrir como poderá ainda perseguir sua
vocação em meio a obstáculos.

O trabalhador intelectual é, dentre todos os trabalhadores,


aquele que menos necessita da saúde, ou mesmo de
repouso, até mesmo de condições propícias. Mal se imagina
o que poderia fazer Rembrandt se não tivesse telas, ou
Beethoven se não tivesse instrumentos. Mas Descartes
esteve durante muito tempo enfermo, fechado num quarto
enfumaçado e privado de livros; Pascal tem a sua melhor
obra nos papéis que, enquanto doente, ia rabiscando.
Pense-se em Marcel Proust, asmático, agonizante, que não
podia escrever sem sufocar um pouco, num quarto
enfumaçado pelas inalações, sem outra escrivaninha a não
ser os seus próprios lençóis. Pode-se perguntar, a propósito
de Pascal e de Proust, se a saúde os ajudou tanto como a
doença. A necessidade de aproveitar todos os minutos, a
angústia de não poder terminar os cortes, os
esquecimentos, os gemidos, os clarões súbitos que
acompanham o sofrimento do corpo, tudo isso excita o
espírito. Epicuro também era um doente, sentado num
jardim, que se levantava de vez em quando para anotar um
pensamento qualquer; Lucrécio era-o ainda mais. São paulo
escrevia “atribulado por todos os lados, mas não esmagado,
(...) prostado por terra, mas não aniquilado”.33 Nietzsche,
refletindo sobre a raiz do ser, perguntando-se o que era a
doença, via nela um meio de realização.

Será preciso renunciar ao trabalho no estado de fadiga e de


dor, como nos intervalos de um ligeiro sofrimento? É claro
que o sofrimento agudo e a miséria absoluta não permitem
o ato da atenção. Mas as provações desta vida têm ritmos e
suspensões onde pode-se abrigar ainda uma ação da alma,
com a condição de não definir a ação pelo esforço
intelectual.

II. O esforço sem esforço


A vontade descrita nos manuais, aquela de que os
pregadores e os moralistas têm razão em nos falar, é um
poder que, tendo se decidido, mobiliza os músculos, recusa
as idéias contrárias, persevera nessa recusa e nessa
concentração. Mas a esse gênero de ação do consciente
sobre o consciente justapõe-se, e por vezes substitui-se,
uma ação do consciente sobre o inconsciente e do
inconsciente sobre o consciente, que se realiza de uma
maneira totalmente diversa. É um esforço de não-esforço.
Trata-se sobretudo de evitar essa inversão do esforço, quase
fatal em toda tensão prolongada.

Chega um momento em que o esforço que se aplica a um


obstáculo exterior suscita um obstáculo interior mais
insidioso que o outro e que cresce sem parar, muito mais
ainda quando se tenta resisti-lo, como se vê com o gago. Os
moralistas, que estudaram o mecanismo da tentação,
sabem-no bem. Ser tentado é estar-se às voltas com uma
imagem que se sente que irá agir sobre as nossas
glândulas. É evidente que uma certa maneira de orientar o
esforço para dissipar a imagem corre o risco de intensificá-
la. O corpo não conhece a diferença entre o sim e o não.
Dizer: “Não tenho medo, não quero ter medo desse projétil
que passa” é aumentar imagens que nos são adversas. Não
querer tremer nos momentos de medo aumenta o
estremecimento. Irritar-se para não ceder à tentação é
dispor-se a ceder ainda mais depressa. É por isso que se
pede a Deus para não ser tentado e não para resistir, ato
muito difícil. O velho Coué dizia em sua linguagem, quanto
a mim geométrica demais para meu gosto, que “quando há
uma luta entre a imaginação e a vontade, a imaginação
aumenta ao quadrado da vontade”.

Essa lei da inversão dos esforços mal dirigidos é uma das


mais profundas de nossa vida psíquica. Admiro-me de se
falar tão pouco nela e de nem se saber ensiná-la. Quando,
apesar de excelentes guias e de uma boa vontade sincera,
não fui capaz de aprender uma arte simples (a geometria ou
a equitação, por exemplo), foi porque os meus mestres
ignoravam esse princípio da inversão. Contraía-me em cima
do cavalo ou no teorema e o resultado era a queda ou a
ignorância. Era preciso trabalhar com descanso. “Riam,
riam”, dizia o duque de Nemours aos seus filhos, quando
via-os dar um passo em falso no carrossel. Conselho que
Joana d‘Arc dava também ao gentil duque. Bergson contava
aos seus amigos que existem duas maneiras de aprender a
montar cavalo. A primeira é a maneira comum: dor,
irritação, injúrias, esforço, arranhões, enfim, nada falta
nesse estilo; não creio que seja inteiramente má, pelo
menos para um grande número. A outra maneira é a de
simpatizar com o movimento do animal, tornando-se tão
flexível e mole quanto possível, evitando perturbar esse
animal flexível, abandonando-se, como dizia Bergson, à
“graça da equitação”, como se ela já nos tivesse sido dada.
É provável que o primeiro método, um dia, acabe por levar-
nos ao segundo, como se vê na aprendizagem da valsa ou
de línguas estrangeiras. É certo que para um dia merecer
fazer qualquer movimento (e também o da virtude) sem
esforço é preciso ter feito muitos esforços.

Eu não me atreveria a indicar esse método de não-esforço


aos professores do jardim de infância. Mas na idade
adolescente, na idade do homem, na idade artista e
sobretudo na idade dos sofrimentos, ele não é mais do
mesmo. Ademais, esse esforço para não fazer esforço é de
uma dificuldade rara, como, em comparação com as outras
virtudes, o esforço do abandono.

A arte do não-esforço consiste em nunca deixar a vontade


irritar-se, retesar-se; em imitar os seres da natureza; em
deixar-se ir de qualquer maneira; em “poupar a sua
vontade”, como disse Montaigne, o que consiste em não
querer senão o que é empregado bem e no momento
conveniente, lembrando-se de que a vontade, enquanto
energia vital, também se fatiga e também se dissipa.

Existe um estado de pensamento abandonado, um pouco


vago, um sonho meio-acordado, que é propício à memória,
à invenção e também à escrita. É sem dúvida aquilo que
Descartes chamava de admiração e que colocava antes do
amor, como sendo a condição do amor e a sua primeira
realização. Esse esforço é louvável, mas não tem um efeito
útil e salutar, segundo a profunda idéia do cristianismo,
senão quando se realiza num meio providencial, que
acompanha e consome, que se chama a Graça e que é o
contrário mesmo do esforço. Pela Graça a melodia da
cadência pode reinar em nós; a Graça permite, ao indivíduo,
evitar os impulsos da vontade, as idéias fixas, as obsessões.
Sem a Graça o esforço da natureza é vão, e agrava mesmo
o estado anterior. Que seria a consciência do pecado sem a
Graça? Seria ocasião de vertigem e de precipitação naquilo
que se receia. Em todas as coisas a atitude mais favorável é
a de em tudo imitar a Graça ou a ela assemelhar-se.
“Novalis”, dizia Maeterlinck, “sorria às coisas com uma
indiferença muito terna, olhava o mundo com a curiosidade
delicada de um anjo desocupado”. É esse gênero de olhar
que Rafael aconselhava, quando dizia que, ao pintar, não se
deve pensar em nada, “tudo então sai melhor”. Talvez,
nesse caso, o desenho fique um pouco descontínuo, mas
evitam-se os reforços prejudiciais; tem-se mais liberdade
para ser pessoal. “O correr da pena”, como diz a expressão,
o sonho... Tudo vem dele. O segredo de criar é em muitos
casos a capacidade de sonhar e de ordenar os seus sonhos.

III. A cópia, remédio contra a


angústia
Se assim é, pode-se prosseguir com o estudo em períodos
de fadiga e de doença. A fadiga não impede o sonho, e
basta um lápis afiado num bloco de notas para registrar o
traçado de um sonho ou de uma idéia, sem pensar muito na
sua forma, o que auxilia o sonho e lhe auxilia em libertá-lo.
A angústia também se pode utilizar, basta escrevê-la um
pouco descontraidamente para que se atenue e desapareça.

Copiar é uma operação ainda mais fácil, e que pode


agradar-nos muito nos momentos de inferioridade. Ninguém
pode copiar sem se incorporar; mas há uma maneira de
copiar ainda mais repousante que a cópia propriamente
dita, e que consiste em copiar apenas o mais geral, sem
nunca fazer uma reprodução (como uma máquina ou um
aluno sonolento poderiam fazer), mas intercalando
margens, modificando algumas expressões, acariciando o
texto (sempre com displicência). Essas cópias são
vantajosas porque nelas encontra-se a si mesmo sem
inquietude, evitando o obstáculo que é de ter de começar,
escolher um assunto, encontrar as expressões. O nosso
pensamento é induzido a um sonho cujos restos subsistem e
onde estamos certos de que são belos e proveitosos. Os
grandes autores não tinham medo de fazer assim; na cópia
que Rembrandt fez da Ceia de Leonardo, o grupo de
apóstolos permanece, mas os movimentos são
simplificados. Rembrandt aproxima de Cristo os grupos que
estão à direita e à esquerda; substitui os equilíbrios
horizontais dos grupos extremos por silhuetas assimétricas.
É ainda a composição de Leonardo, mas com movimentos
novos, mais humanos e mais barrocos.

Acho que se poderiam desenvolver mais esses métodos de


livre reprodução. Mas pensamos que nos desonra ter
dependências, transposições. Uma parte de nossa arte
consiste em ocultar o que está por baixo. Cedo demais
excitamos os alunos a escrever por eles mesmos, como se
fossem Aristóteles ou Descartes — que aliás não temiam
resumir, tomar emprestado. Quem ousaria passar como
trabalho de dissertação imitar, ou parafrasear, ou refazer,
recompondo, um trabalho lido? Eu vi Bellessort trabalhar na
tradução, para Budé, da Eneida: ele procedia com três
traduções abertas debaixo de suas vistas, e, após ter lido o
texto latino e tê-lo feito “passar por seu órgão declamador”,
lançava o olho aos seus predecessores: “Que disse Delille?”
“Que disse Charpentier?” E muitas vezes ouvi-o injuriá-los
por não terem restituído o ritmo virgiliano que, sem o apoio
deles, talvez também ele nunca descobrisse.

Gide disse com razão:

Um grande homem não deseja senão uma coisa: tornar-


se o mais humano possível, ou, dizendo melhor: TORNAR-
SE BANAL...E, coisa admirável, é assim que ele se torna
mais pessoal, enquanto que aquele que procura a
humanidade por ela mesma não se torna senão
particular, bizarro, defeituoso... Posso citar a palavra do
Evangelho? Sim, porque não penso alterar o seu
sentido:

Pois aquele que quiser salvar a sua vida [a sua vida


pessoal], a perderá, mas o que perder sua vida por
causa de mim, a encontrará [ou, para traduzir mais
exatamente o texto grego, “a tornará realmente
viva”].34

Eis porque veremos que os grandes espíritos nunca


receiam as influências, antes, ao contrário, procuram-
nas com uma espécie de avidez que é como a avidez de
ser.

A doença, a fadiga, certos estados de vazio e de ausência,


tais que qualquer um pode conhecer em meio a seus dias,
tornam mais fácil esse estado de disponibilidade e de
docilidade, essa procura por uma influência, isto é, por um
fluxo orientado segundo o sentido de nosso fluxo e
ajudando-o a se desenvolver. Quando escrevemos uma
obra, não desejamos um leitor que tenha o espírito
desocupado o bastante para realmente nos ler e deixar-se
impregnar silenciosamente? O estado de semi-doença, o
jejum, a prisão, a convalescença convêm particularmente
para isso. A permanência num campo de prisioneiros ou
num sanatório foi, para muitos dos nossos contemporâneos,
o meio de reencontrar o ócio amado pelos Gregos, e que
não é verdadeiramente produtivo se não é acompanhado de
sofrimento.

***
Eis o conselho de um médico a doentes do pulmão não-
febris:

Por gentileza, irmãos adoentados, não “matem” esse


tempo que é tanto mais precioso quanto é curto, não o
passem inteiro jogando baralho, ouvindo alguma
insipidez radiofônica ou folheando um semanário. Quem
quiser empregá-lo encontrará o meio — trabalho, senão
com as mãos, ao menos com os dedos, trabalho do
espírito. O “rendimento” dessas horas aplicadas com
perseverança numa tarefa é por vezes surpreendente; e
por mínimo que seja, vocês ficarão com o gosto e a
alegria do trabalho, seu “potencial” de atividade não se
achará, no dia da cura, completamente descarregado.
Enfim, sua vida moral encontrará um apoio
indispensável nesse hábito conservado de esforço.

Certamente, nem sempre as pessoas gravemente doentes


podem alcançar a continuidade no trabalho. Sua obra está
submetida a uma interrupção perpétua. E é por isso que
Vauvenargues e Joubert preferiram falar por máximas;
Nietzsche, tal como Pascal, não escreveu senão por
fulgurações. Mas esses fragmentos provindos do sofrimento
nos ensinam muito mais.

IV. Conselhos de um enfermo


Conhecemos vários autores destituídos de toda a força e
que marcaram tanto quanto os fortes, porque a verdadeira
força é a do espírito. A abundância é virtude de ensino,
como se vê nos Padres da Igreja, dos quais a posteridade
conservou as “conversações”, segundo o sentido da palavra
sermo. Mas há também aqueles a quem a doença votou à
concisão. Tomo emprestado de um dos membros dessa
raça, que passou a vida inteira gravemente doente após os
excessos de aplicação da juventude, Henri de Tourville,
estes conselhos que ele dava aos seus amigos quando
queixavam-se de nada poder fazer externamente:35

Desde 27 de dezembro que estou acamado, tomado


pela gripe e pela anemia, numa incapacidade quase
total de trabalhar. Façam o trabalho de vocês
casualmente. Reservando o tempo para restaurar as
forças, bem estupidamente, deixando o espírito à
vontade, de licença, recolhendo para si mesmo os
conhecimentos que podem não obstante chegar ao
pensamento, em tudo isso se realiza uma tarefa muito
boa e que servirá mais tarde. Ocupem-se apenas de
alguns estudos fáceis e agradáveis, que se possam
abandonar e retomar vez ou outra, e alternadamente;
tome o que lhes faz sorrir e deixem o resto; ao fim de
algum tempo, seu avanço não terá sido mal, e vocês
terão aproveitado alguns apanhados. O que lhes
recomendo aqui é que tenham um projeto de estudo
atraente, fácil de agarrar e de largar, e que se apodere
do espírito de vocês, não de modo a sobrecarregá-lo,
muito pelo contrário, para conservar o suspense sobre
algo interessante quando estiverem aborrecidos com
tudo. E, para encontrar esse projeto de estudo, basta
não procurá-lo, porque o esforço estragaria o encanto.
De resto é preciso ter mais de um; três ou quatro não
seriam demais, um seria pouco demais; a diversidade é
com efeito um grande recurso: cumpre não se sentir
atado a uma só tarefa.

Preparem em primeiro lugar o melhor instrumento de


trabalho, que é a liberdade plena, a disposição toda
nova das faculdades, agora bem descontraídas, bem
repousadas, bem desabrochadas. Não se castiguem
quanto ao que as circunstâncias lhes permitem mais ou
menos fazer; não se sintam infelizes ao pensar que
poderia levar dez anos ou mais, e um pouco mais aqui,
um pouco mais acolá. Apreciem sua nova tarefa por ela
mesma. E que ela já lhes seja, por ela mesma, uma
satisfação satisfação poderosa e repousante.
Desfrutem, assim, para vocês mesmos, sem se magoar
muito por não poderem fazer participar todo o mundo
nessa alegria íntima, como gostariam. O primeiro ponto
conduz ao outro. Como não se sentiria a ação enérgica
de um homem que vive plenamente sua existência
pessoal e que parece carregar em si todo um mundo
onde ele exulta e se expande?

***

Nunca se sabe em que ponto, de que forma, a que tempo é


que um pensamento, uma obra, uma palavra deve atingir
sua conclusão e seu florir. Os que crêem insistem muito
nesses temas do florescimento sempre retardado e
desproporcional de nossos mínimos atos; consideram cada
um deles como a radícula de um pequeno arbusto
escondido na terra e que não crescerá senão depois desta
vida. Essa idéia faz sentido mesmo para aquele que não
pode estabelecer uma tal relação com a eternidade, e que
tem de se contentar com a imagem do eterno que é o
mistério do futuro. Não sabemos quando e como germinará
o grão de pólen que é o meu presente, qual será o futuro
dessa palavra que pronuncio, desse gesto que faço. Um
amigo, que nunca descartava nada de sua correspondência,
que classificava tudo, mesmo o insignificante, assim
respondeu à crítica que lhe fiz: “Saberei jamais? Pode-se em
absoluto saber o que é significativo e o que não é? Pode ser
que, dentro de quinhentos anos, esse aviso de falecimento,
que me recuso a jogar fora, permita a um historiador
reconstituir os nossos costumes. O que não daríamos para
possuir textos tão insignificantes como esse sobre os
romanos ou os egípcios!”
São necessários pensamentos desse gênero para nos
tranqüilizar nos momentos em que nos cremos perdidos.
Desde que estejamos presentes de alma ou por voto, nada
é jamais destituído de sentido; tudo pode receber mais
tarde um significado. É mesmo notável que o sucesso
imediato é um mau sinal; a obra que obtem repentinamente
o seu significado corre o risco de esgotar no presente furtivo
a possibilidade de alcançar outros sentidos. O póstumo tem
mais peso e também mais valor, cercado, como está, pela
presença morta do autor, que supomos também lendo e
auxiliando os nossos pensamentos. Se não houvesse
deveres para com os nossos, se pudéssemos passar sem a
crítica e sem o elogio, se estivéssemos suficientemente
certos de não dependermos do tempo e de exprimir a
eternidade do homem, valeria a pena dar aos nossos
escritos a honra do póstumo e confiá-los ao notário. Porque
apenas o fim dá o verdadeiro sentido do princípio, os
últimos escritos esclarecem os primeiros e os últimos atos
da vida iluminam tudo. A morte de Chénier é uma fonte de
caráter poético de sua obra. E, nos nossos últimos
pensamentos (como se vê hoje os casos de Saint-Exupéry e
de Simone Weil), há a potência dos sacramentos e das
últimas vontades.

V. A noite do espírito
De resto, em todos os trabalhos do espírito, encontram-se
sempre momentos de depressão e de sofrimento.

Na idade escolar, a dor do trabalho é em grande parte


exterior ao trabalho — refere-se mais ao constrangimento,
ao medo, a uma certa forma de rivalidade, à incerteza de se
conseguirem os diplomas. E também as alegrias são no
mais das vezes da mesma ordem exterior — obter um
prêmio, uma recompensa, atrair para si o sorriso da mãe e o
contentamento de alguns. Pode-se progredir na ciência e ter
mesmo vários sucessos na escola sem amar o estudo mas
apenas as coroas que o pedagogo fabricou para a excitação:
mesmo em Port-Royal, tinha-se a obrigação de distribuí-las.

Quanto mais se progride, mais os desgostos do trabalho


tornam-se íntimos; de resto, é a lei do sofrimento, quando
ele dura — ao desenvolver-se, tudo se interioriza.
Certamente que o pensamento de concurso subsiste
obscuramente e sob sua forma mais insidiosa, que é a
competição consigo próprio, o desespero de ser o seu
próprio desigual. A isso juntam-se ainda as dificuldades do
trabalho intelectual solitário: a sua monotonia, os seus nós,
a sua morosidade; a experiência da exata verdade ou da
exata expressão tão raramente atingida; o sofrimento da
alma por ver triunfar os falsos valores e desconhecidos os
autênticos; a dificuldade de ter autoridade sobre seu próprio
espírito; as próprias escolhas que nos são cada vez menos
impostas pelos outros ou pelas circunstâncias e que cumpre
encontrar em si mesmo. Acrescento ainda o sentimento que
tinha o Eclesiastes e a Imitação da vaidade de tudo o que é
escrito (fora do domínio das constatações), a crescente
precariedade do mundo que nos envolve e onde nos
lançamos, e, ainda, a lei que obriga a que a maior parte das
sementes se perca e que apenas germine a mais
improvável.

Existe ainda, para os trabalhos intelectuais, uma fonte de


inquietude que lhes é própria e que decorre do fato de não
haver em nós um padrão para julgá-los. Uma roda, se está
bem feita, agrada-nos e prova que está bem feita quando
rola; o microscópio eletrônico reassegura o inventor da
mecânica ondulatória. Mas uma tese sobre o nada ou um
poema bastante belo, em que se sustentam e o que nos diz
que serão preservados na década seguinte? Ainda bem que
o público não é admitido para ouvir as discussões de um júri
erudito diante de trabalhos muito originais ou muito
medíocres. Se um aluno visse a caneta de um mestre oscilar
entre um 9 e um 11, e visse o seu destino estremecer
naquele débil momento, exigiria dos poderes que
impusessem a dupla, a tripla correção. Exigiria que se
substituísse ao julgamento a estatística — no que estaria
equivocado. Não é sábio querer escapar às incertezas da
condição humana, àquela parte de probabilidade que existe
em todas as coisas. Mais vale ter sondado antecipadamente
e aceitado.

O que é mais belo, no trabalho intelectual (e mesmo na


escola, tão carregada de convenções), é que o trabalho do
espírito é o espelho e o prelúdio daquilo que será mais tarde
largamente ministrado na vida. O aluno que tenta e que
desespera, o que fracassa depois de ter procurado
longamente, o que é incompreendido pelo professor ou que
não o compreende, tudo isso ensina a existência, ainda
mais que o cálculo ou a gramática. Ocorre o mesmo, e
sobretudo, com o estudante solitário, sem obrigações fixas
nem ajudas freqüentes e que é obrigado a disciplinar a si
próprio. É raro ver os pedagogos insistirem nessa
semelhança entre a escola e a existência, que no entanto é
para mim o segredo fundamental de toda a pedagogia —
para que serviria estudar se o estudo não nos preparasse
para as leis cheias de exceções, para as alegrias
sombreadas pelas tristezas, para os acasos que aparecem
como constelações enigmáticas, sobre as quais é preciso
que haja um certo domínio? Muitas vezes a matéria dos
nossos estudos é fútil — a que benefício pode servir, diz-se,
fazer um exercício de latim, posto que não se falará nunca o
latim? Raciocínio que se poderia estender a quase tudo nos
pormenores de nosso trabalho. Só se pode vencer esse
estado de espírito atribuindo um valor absoluto ao ato da
atenção, à perfeição formal, ao esforço de um dia, digo-lhe
com o pensamento de que todo ato de atenção, de suporte,
toda busca pela perfeição minúscula, externa a toda
recompensa e a todo resultado, encontra em si mesmo sua
recompensa. Uma alma poética ora me compreenderá.

É isso mesmo que Simone Weil nos transmite esta


mensagem com toda a autoridade de sua experiência:

Se com uma verdadeira atenção procura-se a solução


de um problema de geometria, e se ao fim de uma hora
ainda não se avançou nada em relação ao começo, ter-
se-á, contudo, avançado durante cada minuto dessa
hora, numa outra dimensão mais misteriosa. Sem que
se sinta, sem que saiba, esse esforço, aparentemente
estéril e sem frutos, lançou mais luz na alma. O fruto
será encontrado um dia, mais tarde, na prece. Sem
dúvida, também será reencontrado, por acréscimo, num
domínio qualquer da inteligência, talvez de todo
estranho à matemática (...). Um conto esquimó explica
assim a origem da luz: “Um corvo que, na noite eterna,
não podia encontrar o alimento desejou a luz e a terra
iluminou-se.” Se existe verdadeiramente o desejo, se o
objeto do desejo é verdadeiramente a luz, o desejo da
luz produzirá a luz (...). Os esforços inúteis do cura
d‘Ars, durante os longos e dolorosos anos em que
aprendeu latim, deram o seu fruto em sua maravilhosa
faculdade de discernimento, com a qual ele percebia a
própria alma dos penitentes por detrás das palavras
deles ou mesmo de seus silêncios.

É assim que o trabalho intelectual, no todo como nas partes,


e da infância abecedária à velhice, ensina essa operação
perpétua ligada ao tempo deste mundo, que faz com que o
momento da semeadura não seja o da ceifa.

Lá onde se semeou cumpre, todavia, esforçar-se em crescer


e em florir. E esse onde significa este instante, este meio,
este dia, este ambiente, estes limites. Ainda que apenas
corrigíssemos uma de nossas frases para torná-la mais
exata, que apenas disséssemos uma única palavra que
pudesse fazer outro espírito pensar melhor e então agir
melhor, ainda que tivéssemos feito nossos conhecimentos
avançarem senão num grau infinitamente pequeno, mesmo
assim teria valido a pena, teria sido o suficiente, se em
qualquer uma dessas etapas tivermos tocado a nossa alma.

SENDO DADO QUE, fórmula dos problemas de geometria, que é


aplicável também ao problema do homem e ao uso do
tempo: O que te é dado neste momento, aceita-o, melhora-
o, aprofunda-o. Então, tu viverás.
Capítulo 11: Fragmentos de
uma carta a um jovem de nosso
tempo
Antes de fechares este livrinho, permite-me, meu jovem
amigo, qualquer que seja a tua raça, o teu país ou a tua
religião, acrescentar ainda alguns pensamentos...

Se os capítulos precedentes têm um sentido, ele é, como já


te disse, o de confortá-lo. Duvidas de ti. Não tens razão
nisso. Poderás fazer o que quiseres, se o desejares
realmente e com tenacidade. Na tua idade, a expressão dez
anos assusta. Pois eu te digo que dez anos não são nada.
Repara no que aprendeste dos dez aos quinze anos; faz o
cálculo do que poderias ainda aprender se tu quisesses, ou
se para isso fosses compelido, como se faz ao rapazinho da
escola.

A perfeição não está longe de ti. Quanto tempo se perde a


procurar o melhor livro, o melhor método, o melhor amigo!
Um velho professor respondeu um dia a um aluno que lhe
perguntava qual era o melhor manual: “Meu amigo, é esse
que você tem”. E poderia acrescentar-se que o melhor
momento é este, que este é o melhor ambiente, que o
melhor pensamento é este que neste momento te acode.

Não procures, portanto, o melhor. Mas àquilo que nesse


momento está entre as tuas mãos, ao que fazes
presentemente, imprime, com a aplicação do espírito, essa
dignidade de ser o melhor.

Não guardes para amanhã o que se pode fazer hoje; mas,


ao mesmo tempo, não deixes de remeter para amanhã tudo
o que não pode entrar na estreita capacidade do presente.
O que equivale a dizer: “ocupa com algo pequeno a ponta
de tempo que passa e repele para o infinito teu desejo”.

Aceita todos os teus limites. O limite dá a forma, que é uma


condição de plenitude.

***

E, todavia, é necessário que tu passes pelo laminador da


Escola, e, se nasceste em França, pelos concursos. Acede a
esse jogo necessário, mas conserva-te sempre fiel a ti
mesmo.

O que interessa é que tu permaneças acima desse teu


trabalho e que ele te sirva para a tua formação. Por isso,
penso que há apenas um conselho a dar-te, sempre
incompreendido ou travestido, e que vale até o fim:
“Procura a verdade. Diz apenas o que julgas saber, cala-te a
respeito de tudo o mais. Exprime-te com sinceridade e
recusa as construções com floreados. Desce ao puro, ao
profundo, ao autêntico. Se acontecer que, uma vez
encontrada a verdade, tenhas de comunicá-la, fá-lo-á da
maneira mais conforme à toda verdade interior”.

***

Ama apenas o que é verdadeiro, e, por causa desse amor,


evita a companhia exclusiva de pessoas inteligentes, não
procures com excessiva freqüência o teu semelhante;
encontrá-lo-ás suficientemente, para que seja necessário
procurá-lo. No nosso mundo moderno, o que muitas vezes
se chama inteligência é unicamente uma certa
sensibilização do espírito para o que é demasiado sutil para
ser apreendido pelos instrumentos normais do
conhecimento: assim, a idéia abstrata, o ideal afastado da
prática, ou ainda o paradoxo, o matiz difícil... Esse exercício
não é fácil, antes, pelo contrário, vai cansando. É preciso
que o espírito esteja com disposições particularmente
receptivas, que esteja ávido do absoluto, ou do excepcional
ou do raro, que se torne suscetível, ingrato e em certas
coisas apaixonado. No fundo, a natureza intelectual é hiper-
sensível, ainda que com uma certa aparência fria e
imparcial. Assim, repararás que os intelectuais suportam
mal a crítica, ainda que gostem muito de criticar, mesmo os
mais calmos e mais positivos (pensa em Descartes ou em
Pasteur). Para se conservar, o homem inteligente tende a
viver apenas com os aduladores. Entre pessoas de espírito,
dever-se-ia freqüentemente recolher palavras deste gênero:
“Enganei-me. Você tinha razão. Tenho de reconsiderar”.
Verás como essas expressões são raras nas conversas das
pessoas inteligentes.

Outro perigo. A inteligência deveria adaptar-nos a tudo, uma


vez que ela é, precisamente, a capacidade de ser tudo. É
preciso reconhecer que muitas vezes também é ela que nos
limita e nos endurece. Péguy, que elogiou tanto a leveza,
sente-se muitas vezes pedante. Mas, na França, o horror de
ser tomado como um pedante pode provocar um
pedantismo às avessas: Conheci espíritos muito finos, que
não empregavam senão palavras grosseiras; dogmáticos
que se disfarçavam atrás de um sorriso perpétuo; pessoas
famintas de verdade pura que não podiam falar senão com
ironia e dando-se o ar de não acreditar em nada.

Perguntei-me, muitas vezes, observando o que se passa:


por que é que os grandes escritores de nosso país não
passaram pela Faculdade de Letras, por que é que mesmo a
arte, a ciência e até a religião foram muitas vezes
renovadas ou por espíritos pouco cultivados ou por pessoas
provenientes de outras especialidades? A razão não está,
com certeza, na falta de competência das pessoas que
preparam esses grandes concursos. Para o ensino, sei que
as melhores vocações encontram-se entre os jovens
franceses, no duplo aspecto de inteligência e de energia
incansável. Por que é que, pela vida afora, vai-se verificando
que eles se tornam autômatos e imitadores da juventude
passada, como se se preparassem por toda a vida para
aqueles famosos concursos? Não se sobrecarregam
demasiadamente os jovens? Há alguma razão para definir o
valor de um homem aos dezoito anos, pela habilidade, pela
rapidez e pela sorte? Protesto contra esse sistema francês,
que vai queimando os jovens, que, ao mesmo tempo que
lhes promete a terra, esgota-os; que impede, muitas vezes,
a alegria de criar formas e até a de apreciar bem aquelas já
descobertas por outros. O método dos ingleses feito mais
sob a medida da pessoa humana, permite mais repouso,
não obriga à rivalidade (exceto em alguns esportes
inofensivos), atrasa o tempo da especialização. E assim, na
idade mediana e produtiva da vida, o inglês não fica
marcado pelas rugas de sua juventude, que, ao contrário, o
sustenta e oxigena.

O ideal seria começar cedo com um professor competente,


aprendendo tudo o que é verdadeiramente indispensável
para dominar uma especialidade, evitando assim os
embaraços inúteis do princípio; depois haveria o tempo livre
para percorrer segundo a inspiração. Eis o serviço que o
mais velho dos Broglie prestou ao seu irmão Louis, quando
este, após os seus exames de história e de estudos
medievais, voltou-se subitamente para as matemáticas e
para o estudo dos quanta: estava, portanto, livre de todo o
período escolar, que apenas faz sofrer e que impede um
espírito jovem de se começar a manifestar. O mesmo, mas
em outro aspecto, com Cézanne: só lhe tinham ensinado a
servir-se da tela, das cores e dos pincéis, e talvez uma hora
tenha bastado para tudo isso; o resto aconteceu com ele
mesmo diante da natureza da Provença, que foi o seu único
mestre.
O principal é fazer o que aconselhava o velho Eclesiastes:
dar-se à alegria no trabalho, fazer com que a alma se alegre
em meio ao trabalho.

FIM
Notas
01. O autor refere-se à coleção a que o original em francês
pertencia. No Brasil, A Nova Arte de Pensar foi publicado
pela Edições Paulinas. (Nota do Editor)

02. Tenho em mente, nesse caso, principalmente as obras


Le Travail Intellectuel et la Volonté, de Payot, e, sobretudo,
A Vida Intelectual, de Sertillanges. (Nota do Autor)

03. Campos de prisioneiros, em alemão. O termo é


contração de Stammlager, por sua vez forma abreviada de
Kriegsgefangenen-Mannschafts-Stammlager. (N.E.)

04. Peças de William Shakespeare, George Bernard Shaw e


Paul Claudel, respectivamente. (N.E.)

05. Os Silêncios do Coronel Bramble, primeiro romance de


Maurois, e Marechal Lyautey, biografia de Hubert Lyautey
escrita por ele. (N.E.)

06. Descobrir o que você não consegue fazer / Então ir e


fazê-lo, / Eis aí a regra de ouro. Versos de “A paradox?”,
poema de James Kenneth Stephen, publicado em Lapsus
Calami, and Other Verses, Cambridge, 1898. (N.E.)

07. Guitton refere-se ao livro Souvenirs sur Henri Bergson,


por Isaak Benrubi. Paris: Delachaux & Niestlé S.A., 1942.
(N.E.)

08. Cf. Conversações com Goethe nos Últimos Anos de Sua


Vida. 1823-1833, por Johann P. Eckermann. São Paulo:
Unesp, 2016. (N.E.)
09. No original, départoir. Trata-se de uma ferramenta em
formato de L, cuja lâmina é introduzida no vinco da madeira
para que o cabo possa ser utilizado como alavanca,
permitindo parti-la sem grande aplicação de força. Não
encontrando equivalência direta em nosso idioma, traduzi o
termo para separador. Em italiano, a ferramenta chama-se
coltello da scandole; em inglês, froe (também grafada frow)
ou shake axe; em alemão, Schindelmesser. (N.E.)

10. O autor usa o adjetivo francês “ponctuel”, que tem os


mesmos significados de nosso “pontual”, mas no sentido
especial de “algo representado como um ponto”. (N.E.)

11. “(...) est la chance d‘un fruit mûr”. Verso de Valéry,


muito conhecido. (Nota dos Tradutores)

12. Mateus, 8:22. (N.E.)

13. Cântico dos Cânticos, 5:2. (N.A.)

14. Um “roman-fleuve” (literalmente, “romance-rio”) é um


conjunto ou série de romances que compartilham temas,
personagens ou cenários, mas em que cada romance possui
uma estória independente, podendo ser lido isoladamente
ou fora de sequência. Como exemplo na literatura francesa
temos a conhecida Comédia Humana, de Balzac: um
conjunto de quase cem romances, novelas e contos com
algumas personagens recorrentes. Em Busca do Tempo
Perdido, de Proust, muito embora seus sete volumes sejam
hoje considerados um único romance, já foi tido como o
roman-fleuve definitivo. (N.E.)

15. O autor refere-se, respectivamente, ao romance clássico


de Victor Hugo, Os Miseráveis, e a Les Trophées (“Os
Troféus”), coletânea de poemas parnasianos de José-Maria
de Heredia publicada por Alphonse Lemerre. (N.E.)
16. Esse livro cuja leitura Guitton considerou uma das
melhores oportunidades de sua vida, De la Méthode
Littéraire: Journal d’un Professeur dans une Classe de
Premiere, escrito pelo professor Julien Bézard, há muito que
passou para domínio público, podendo ser obtido
gratuitamente na Internet. (N.E.)

17. No original: On dit qu‘on va la dire / On l‘a dit / On dit


qu‘on l‘a dit. (N.E.)

18. As menções feitas neste capítulo a Edgar Allan Poe


(incluindo a epígrafe) referem-se a seu ensaio “A Filosofia da
Composição”. Cf. Poemas e Ensaios, São Paulo: Globo Livros,
2009. (N.E.)

19. Pequeno equívoco de Guitton: Poe cita Dickens, que fala


desse método de composição como tendo sido usado por
William Godwin na escrita de seu Calleb Williams. Não há
referência ao próprio Dickens ter empregado tal recurso,
entretanto. (N.E.)

20. “Uma estória fictícia escrita em prosa, na qual o autor


pretende excitar o nosso interesse valendo-se da
singularidade de aventuras extraordinárias”. (N.T.)

21. Referência a Cálias III, de Atenas, conhecido por ter


dissipado sua imensa fortuna com sofistas e com diversões
variadas a ponto de reduzir-se à pobreza e, eventualmente,
à mendicância. Ele figura em alguns diálogos socráticos.
(N.E.)

22. Respectivamente, Ética a Nicômano, de Aristóteles, e A


Evolução Criadora, por Bergson. (N.E.)

23. João, 6:12. (N.E.)


24. “Faz como eu: dá um espelho à vida. Marca uma hora
para registrar as tuas impressões, em silêncio, durante o
exame de consciência... É belo fixar essas alegrias que nos
escapam, ou aquelas lágrimas que nos desceram pelo rosto,
para reencontrá-las alguns anos mais tarde e exclamarmos:
‘eis porque fui feliz! Eis porque chorei!’ Isso dá-nos a
instabilidade dos sentimentos e das coisas...” (N.A.)

25. Do latim: “Tudo o que não ajuda atrapalha”. Guitton


alude a uma máxima de Quintiliano: “Obstat (...) quidquid
non adiuvat”, isto é, “tudo aquilo que não é auxílio constitui
positivamente um estorvo”. Cf. Quintiliano, Instituição
Oratória, Volume 3, Livro VIII, § 61: Sâo Paulo: Unicamp,
2016. (N.E.)

26. No original, “cavaliers”. Em sua versão contemporânea,


são aqueles pequenos pedaços de adesivo colorido, colados
nas margens de páginas que se queira assinalar. (N.E.)

27. Antes de desprezar esses métodos de formação, cumpre


ler, no primeiro volume das Obras de Sainte-Beuve,
recentemente publicadas pela Pléiade, os trabalhos do autor
como retórico. Pode-se dizer que Sainte-Beuve, aos
dezessete anos, já possuía seu instrumento de análise,
graças à prática, não obstante artificial, dos discursos.
(N.A.)

28. Cf. Siegfried, Savoir Parler en Public, pág. 186. (N.A.)

29. Esse trecho de Voltaire foi extraído de seu livro Le Siècle


de Louis XIV, capítulo 32; as obras a que ele se refere são,
respectivamente, Les Aventures de Télémaque, escrito pelo
arcebispo Fénelon, e Les Caractères ou les Mœurs de ce
Siècle, por La Bruyère. (N.E.)

30. Tendo sido perguntado a diversos escritores quais as dez


palavras que consideravam mais belas, eis algumas
respostas que encontrei numa revista antiga: Maurois
respondeu: silêncio, ordem, beleza, melancolia, encanto,
sorriso, terno, frágil, honesto, cordial; François Mauriac
respondeu: infância, sono, madrugada, sangue, torpor,
tempestade, Anunciação, cinza, pó, alegria; Paul Valéry:
puro, dia, ouro, lago, cume, só, onda, folha, nascente,
flauta. (N.A.)

31. Estas são as palavras da nota anterior no texto original


em francês. Maurois: Le Silence, l’Ordre, la Beauté, la
Mélancolie, le Charme, le Sourire, Tendre, Fragile, Honnête,
Amical; François Mauriac: Enfance, Sommeil, Aube, Sang,
Torpeur, Orage, Annonciation, Cendre, Poussière, Joie; Paul
Valéry: Pur, Jour, Or, Lac, Pic, Seul, Onde, Feuille, Mouille,
Flûte. (N.E.)

32. Todo esse parágrafo ecoa a advertência feita por


Sócrates a Críton, de que “a imprecisão da linguagem, além
de ser um defeito em si mesma, faz mal à alma.” Cf. Platão,
Fédon, apud Giovanni Reale, O Saber dos Antigos, São
Paulo: Loyola, 1999. (N.E.)

33. II Coríntios, 4:8-9. (N.E.)

34. O texto citado sendo, naturalmente, Mateus 16:25. Os


trechos entre colchetes são inserções do próprio Gide. (N.E.)

35. O texto que segue foi composto com fragmentos de


várias cartas. (N.A.)