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ISSN ELETRÔNICO 2316-381X

A PROTEÇÃO ÀS RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA A PARTIR DA INSERÇÃO DE


CONTEÚDOS SOBRE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL NOS CURSOS JURÍDICOS
Ilzver de Matos Oliveira1 Manuella Maria Vergne Cardoso2
Kellen Josephine Muniz de Lima3

RESUMO
O presente artigo discutirá a importância da edu- sistente intolerância aos cultos afro-brasileiros a
cação patrimonial na preservação da religiosidade abertura de um espaço para a educação patrimo-
de matriz africana no Brasil. Diante desse objeti- nial nos cursos jurídicos é um importante passo na
vo, discutimos o conceito de educação patrimo- construção de uma educação multicultural e para
nial, de comunidades tradicionais e de religiões a preservação e o respeito das tradições religiosas
de matriz africana. Exemplificamos a importância de matriz africana no Brasil.
do tema com o debate sobre a obrigatoriedade do
estudo da história e cultura afro-brasileira e afri- Palavras-chave
cana no currículo de escolas e universidades e
com a polêmica decisão judicial que recentemen- Educação Patrimonial. Educação Jurídica. Religiões
te definiu que candomblé e umbanda não eram de Matriz Africana. Preservação das Tradições Afro-
religiões. Assim concluímos que diante da per- -Brasileiras.

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ABSTRACT
This article will discuss the importance of heritage intolerance African-Brazilian cults opening a space
education in preserving religiosity of African origin for heritage education in law courses is an important
in Brazil. Given this goal, we discuss the concept step in building a multicultural education and the
of heritage education, traditional communities and preservation and respect for the religious traditions
religions of African origin. We exemplify the impor- of African origin in Brazil.
tance of the issue to the debate on the mandatory
study of history and African-Brazilian and African KEYWORDS
culture in the curriculum of schools and universities
and the controversial court decision recently deter- Heritage Education. Legal Education. Religions of
mined that Candomblé and Umbanda religions were African Origin. Preservation of African-Brazilian Tra-
not. Thus we conclude that in the face of persistent ditions.

RESUMEN
Este artículo discutirá la importancia de la educación rancia persistente a los cultos afro-brasileños, que la
en la preservación del patrimonio religiosidad de ori- apertura de un espacio para la educación del patrimo-
gen africano en Brasil. Teniendo en cuenta este objeti- nio en los cursos de derecho, es un paso importante
vo, se discute el concepto de la educación patrimonial, en la construcción de una educación multicultural y la
comunidades y religiones de origen africano tradicio- preservación y espeto a las tradiciones religiosas de
nales. Ejemplificamos la importancia de la cuestión origen africano en Brasil.
para el debate sobre el estudio obligatorio de la histo-
ria y la cultura afro-brasileña y africana, en el plan de PALABRAS CLAVE
estudios de las escuelas y universidades, y la decisión
del tribunal de controversia recientemente determina- Equidad de la Educación; La enseñanza del Derecho;
ron que Candomblé y Umbanda religiones no lo eran. Las religiones de origen africano; La preservación de
Así llegamos a la conclusión que delante de la intole- las tradiciones afro-brasileña.

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1 INTRODUÇÃO 2 PERSEGUIÇÃO ÀS RELIGIÕES


O presente trabalho pretende analisar a impor- DE ORIGEM AFRICANA NO BRASIL
tância e a relação entre a inserção de conteúdos
sobre educação patrimonial nos cursos jurídicos e a Em Ramos (1940), a ideia de culto fetichista,
preservação das tradições religiosas de origem afri- baseado em elementos míticos, envolto em se-
cana no Brasil. gredos e mistérios, acompanha desde sua origem
as religiões afro-brasileiras, e é mesmo apontada
Partimos da ideia de que os principais espaços como a sua maior marca. Mandarino (2007, p. 97)
de formação de estudantes e profissionais do direito destaca que a crença na magia, representada pe-
têm sido os tradicionais cursos jurídicos, com suas las religiões afro-brasileiras, e em sua capacidade
metodologias e esquemas de ensino pouco varia- de produzir malefícios por meios ocultos e sobre-
dos de um curso para o outro, quando analisamos naturais pode ser encontrada no Brasil desde os
o conjunto de instituições que no Brasil oferecem tempos da Colônia. Para a autora, a crença popu-
esse tipo de formação. Assim, com disciplinas cria- lar no Brasil, ainda hoje, atribui a determinadas
das para abordar os conteúdos legais dos diversos pessoas o poder de causar o mal, doenças ou até
ramos do direito: civil, penal, constitucional, tra- mesmo a morte a outras, e isto, da mesma forma
balho, processual, previdenciário, tributário, entre que trouxe fama para os sacerdotes e ampliou o
outros bem conhecidos, resta pouco espaço para número de adeptos nos cultos afro-brasileiros,
outras temáticas, sobretudo algumas importantes serviu, também, como motivação para a atuação
e recentes temáticas obrigatórias por determinação repressora de juízes, promotores, advogados e po-
legal, como é o ensino da história e da cultura dos liciais a tais cultos.
africanos e dos afro-brasileiros estabelecido pela O Estado, desta forma, irá se fazer presente nos
Lei 10.639 de 2003 e pelo Estatuto da Igualdade assuntos acerca da magia e intervindo de forma
Racial, Lei 12.288 de 2010. aguda no combate a feiticeiros e macumbeiros,
criando instrumentos reguladores, criando juízos
especial e pessoal especializado. Mais do que isso,
Assim, diante desse quadro, neste artigo pre- em alguns casos, fornecerá a própria denúncia. [...]
tendemos inicialmente compreender os aspectos Essa função do Estado permanece até hoje, mas,
relevantes que circundam a experiência histórica de 1890 a 1940, com as reformulações introduzidas
das religiões afro-brasileiras com o sistema de jus- no Código Penal, o aparato político se instituciona-
lizou e passou a ser usado com mais intensidade
tiça nacional. Nessa parte nos debruçamos sobre o como instrumento de repressão. As perseguições
estudo histórico e atual da amplitude da liberdade eram levadas a cabo, em sua maioria, através de
religiosa experimentada pelos cultos de origem afri- denúncias da população que muitas vezes sentia-
cana, as perseguições, repressões e estratégias de -se incomodada pelos batuques que se arrastavam
até altas horas em dias de grandes obrigações. [...]
luta contra a intolerância desses grupos religiosos As religiões afro-brasileiras eram e continuam sen-
etnicamente identificados. do vistas como curandeirismo, magia negra, explo-
ração de credulidade pública e exercício ilegal da
Posteriormente empreenderemos análise dos con- medicina, estando os seus praticantes incorrendo
em crimes previstos no Código Penal. O Código Pe-
ceitos fundamentais para este trabalho: educação pa- nal de 1890 incriminava não só o curandeiro, mas,
trimonial e comunidades tradicionais de matriz afri- também, o feiticeiro, juntamente com outras cate-
cana. E, por fim, adentrarmos no debate educacional gorias, como espíritas e cartomantes. (MANDARI-
e jurídico sobre a preservação e o respeito às tradi- NO, 2007, p. 97 e 100).
ções religiosas afro-brasileiras.

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A repressão policial foi uma constante na história -brasileiro da Bahia, a Coleção Museu de Magia Negra
dos terreiros3. Marina de Mello e Souza (2007, p. 115 do Museu da Polícia do Rio de Janeiro, estudada por
e 116) diz que os templos afro-religiosos e os seus sa- Maggie (1975, 1979, 1992), e o reduzido acervo do
cerdotes foram importantes polos de organização das Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, se cons-
comunidades negras e por conta disso até meados do tituem em doações das Secretarias de Segurança
século XX foram perseguidos pela polícia, tanto pelo Pública e foram apreendidas durante ações policiais
tipo de prática ali exercida, normalmente relacionada nos terreiros, inclusive durante cultos e processos de
a “forças diabólicas”, quanto pelo medo que os ritos iniciação religiosa.
das comunidades negras despertavam, como tam-
bém pelo fato de que, por serem espaços de reunião Relatos orais dos mais antigos e registros histó-
de muitos negros, apresentavam-se como ameaça ricos destacam que os templos afro-religiosos eram
potencial à ordem estabelecida, pois a religiosidade, obrigados a ter registro nas Secretarias de Segu-
sendo uma maneira de lidar com as adversidades da rança Pública, como se criminosos fossem. Além
vida, proporcionava, com o auxílio dos sacerdotes, a desse registro, os terreiros, para realizarem suas
resolução de problemas do cotidiano, a construção cerimônias, necessitavam de uma licença concedi-
de comunidades negras na sociedade brasileira e das da pelo órgão policial, ou pela Prefeitura, mediante
suas identidades. o pagamento de taxas. Isso perdurou em Sergipe,
por exemplo, até o final da década de 1960, quando
Amaral (2007) diz que na segunda metade do Sé- as Federações de Cultos Afro-Brasileiros e de Um-
culo XIX os sambas, batuques e divertimentos dos banda substituíram a polícia no controle sobre os
negros costumavam ser tolerados pelos senhores de terreiros (DANTAS, 1984).
escravos e pela sociedade com o objetivo de se evi-
tar maiores rebeldias e desde que não perturbassem A ignorância e o desconhecimento sobre a cultura
a ordem. A autora diz que os divertimentos públicos negra e sua origem eram apontados como algumas
permitidos ou incentivados eram de origem católica, das motivações principais para estas ações opresso-
tais como os festejos das irmandades de negros, ou ras. Talvez por estas razões a existência de poucos re-
os que tinham fins pedagógicos, como as congadas, gistros arqueológicos deste período de perseguição,
que objetivavam mostrar aos negros a conversão ao uma vez que segundo alguns autores, dependendo
cristianismo, ou o Lambe-sujo, que tinha por objetivo das motivações para a opressão aos cultos afro, polí-
ensinar a inevitável derrota dos quilombolas diante do ticas ou não, teremos uma determinada característica
homem branco. de acervo. Para Maggie (1992), o tipo de perseguição
política, como ocorrida no Quebra do Xangô em Ala-
No Nordeste, especialmente, por ser o espaço des- goas, como não é baseado na ignorância deixou para
ta investigação, e em outras partes do país, muitas pe- este Estado um legado de relíquias de origem africana
ças relacionadas com os cultos, que hoje integram o de elevado valor artístico, histórico e econômico.
acervo de museus, tais como a Coleção Perseverança
(Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas), na cida- Em Sergipe o panorama político do Novo Regime
de Maceió, objeto de estudo de Duarte (1974, 1985) e de 30, é retratado por Mandarino (2007) a partir dos
Lody (1985), do Museu Estácio de Lima, em Salvador, estudos de Costa Dantas (1983) e a autora defende
atualmente pertencentes ao acervo do Museu Afro- haver uma relação especialmente entre o segundo
3. Defendemos neste trabalho que a repressão policial e dos órgãos do siste- mandato do Tenente Augusto Maynard (1942-1945)
ma de justiça aos cultos afro-brasileiros ainda é um traço marcante da cultu- e a maior visibilidade das perseguições aos cultos
ra jurídica nacional, e que se ela não é explícita como outrora, apresenta-se
a partir de formas sutis e veladas de negação de direitos dos afro-religiosos. de origem africana em Sergipe. A principal razão

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apontada é que o Tenente não permitia qualquer diziam que “na época não se podia acender sequer
tipo de atitude que pudesse vir a desestabilizar seu uma vela para um santo” (AGUIAR, 2002). Ressalte-
governo (AGUIAR, 2002). -se, entretanto, que o período histórico descrito foi
caracteristicamente marcado por intensa repressão
Diferentemente de outros Estados onde a déca- às reivindicações da classe trabalhadora, e esta,
da de 1940 representou o período final da repressão por via de consequência era composta em sua gran-
aos cultos africanos e o início de um momento mais de maioria por populares adeptos das religiões de
tranquilo para as manifestações religiosas afro-brasi- matriz africana, daí a política de intolerância a tais
leiras, em Sergipe é exatamente neste período que a cultos. É o que reflete Janaína Couvo Teixeira Maia
opressão é ampliada. Mandarino (2007) destaca que o (1998) ao dizer que a repressão estava presente em
Decreto nº 10/264 de 25 de agosto de 1942, de alguns todo o país desde o período da escravidão e não
meses após a posse do Tenente Augusto Maynard, estava voltada apenas para as religiões africanas,
transformou o Pelotão de Cavalaria da Polícia Militar mas a qualquer espécie de revolta organizada pelos
de Sergipe em Esquadrão, com o objetivo de manter a escravos ou negros livres.
ordem pública. Era esse Esquadrão o responsável pela
perseguição aos terreiros, baseados na lei do silêncio, Principal pesquisadora da cultura e religiosida-
pela proibição do tráfego pelas ruas após as 22 horas de africanas em Sergipe e umas das principais do
e pelo enquadramento dos que eram assim considera- país, Beatriz Góis Dantas (1988) discute as acusa-
dos “inimigos da ordem”: bêbados, prostitutas, joga- ções que serviram de pretexto à perseguição poli-
dores e “macumbeiros”. cial aos terreiros do Nordeste durante a Primeira
República e a década de 1930. Para a autora, acu-
O período de 1937-1945 em Sergipe será marcado pela sações revelam pontos de tensão na sociedade e
presença de três interventores (Eronides de Carvalho,
Milton Azevedo e Augusto Maynard) que irão imple-
constituem-se em atos políticos, na medida em que
mentar uma política ostensiva de repressão às casas pretendem a eliminação de concorrentes, e no cam-
de cultos que se encontravam instaladas no Estado. Se po da religião, onde as disputas entre diferentes
em 1934 estas para funcionarem como já foi dito, pre- agências religiosas remetem às lutas propriamente
cisavam de um registro e do pagamento de uma taxa à
Secretaria de Segurança Pública, neste momento irão
políticas que se desenvolvem no âmbito da socieda-
ser perseguidas por ordem do próprio Governo, que des- de global, acusações constituem um tema sempre
conhecendo o princípio de liberdade de culto promul- recorrente (DANTAS, 1988).
gado pela antiga Constituição, perseguirá a todos sem
trégua. [...] Passadas inicialmente as manifestações A oposição que historicamente se constrói entre
causadas pela Guerra, as mobilizações das massas ten- religião e magia/feitiçaria, a primeira tida como
deram a diminuir, pelo menos entre 1943-44, enquanto manifestação legítima do sagrado e a segunda,
se desenvolvia a conscientização contra o regime auto- como manipulação ilegítima e profana, desliza ge-
ritário. É neste momento que os candomblés de feitorio ralmente da classificação para a acusação. Através
e as religiões afro-brasileiras já estabelecidas no Estado dela se desqualificam práticas, crenças e agentes
de Sergipe, irão passar por momentos de maior coerção. religiosos. Desse modo, a religião dos vencidos, ou
A necessidade de manter a ordem e o regime a qualquer dos grupos estruturalmente inferiores no interior
custo irá recrudescer as investidas contra os adeptos. de uma sociedade, são sempre reduzidas à magia,
(MANDARINO, 2007, p. 115). feitiçaria e superstição. Isso aconteceu com os afri-
canos transportados para o Brasil como escravos e
Assim, a ideologia autoritária e repressiva do persistiu no período pós-abolicionista em relação
aos negros livres. Com efeito, uma das acusações
Estado Novo repercute na relação entre os cultos mais frequentes aos terreiros de Candomblé duran-
de origem africana e o governo em Sergipe, de te a Primeira República era a prática de feitiçaria.
modo que chegamos até a encontrar registros que (DANTAS, 1988).

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A acusação de feitiçaria, em Dantas (1988), não Dantas (1988) ressalta que nessa época os cultos
apenas desqualificava social e simbolicamente prá- afro-brasileiros eram vistos como uma questão que
ticas e crenças correntes entre as camadas popula- oscilava entre o crime e a anormalidade, uma vez
res, sobretudo entre os negros, como também as jo- que a interpretação da possessão pela via psiquiá-
gava na ilegalidade. A acusação assumia assim um trica continuava em vigor, tendo passado da mera
caráter coercitivo muito forte, pois se de um lado histeria como pensado por Nina Rodrigues para com
estigmatizava, de outro permitia o uso do aparato Arthur Ramos ser alçada ao status de um “fenômeno
policial do Estado contra os terreiros acusados de muito complexo, ligado a vários estados mórbidos”
centros de feitiçaria, prática ilegal segundo a legis- (RAMOS, 1951, p. 244).
lação da época.
Diante desse contexto é que ganha força como
Dantas (1988) observa dois momentos históricos processo educativo da massa atrasada, a instalação
distintos sobre este processo de acusação contra os do Serviço de Higiene Mental nas Escolas do Rio de
cultos afro-brasileiros: o primeiro, sob a égide do Có- Janeiro associada à pesquisa nos “morros”, nas “ma-
digo Criminal de 1830, que não incluía a persegui- cumbas” e nos “centros de feitiçaria” e sua apresen-
ção aos feiticeiros, pois, segundo a autora, embora tação como um “trabalho de largo alcance higiênico
a religião dos negros fosse vista como feitiçaria, não e educacional” (RAMOS, 1951, p. 27). Assim, abre-se
sentiram os legisladores brasileiros necessidade de espaço para um novo argumento: em nome da Psico-
controlá-la por meio da lei enquanto vigorou a escra- logia, os intelectuais tentavam libertar os cultos do
vidão; o segundo momento, quando os negros já es- controle policial, para submetê-los ao controle “cien-
tão livres e, sob a vigência do Código Penal de 1890 tífico” dos centros psiquiátricos. Mas a oposição entre
passam a ser incriminados não só o curandeiro, mas religião e magia, com a ideia de o Candomblé mais
também o feiticeiro, juntamente com outras catego- “puro” ser, sobretudo, religião por oposição à Macum-
rias como espiritistas e cartomantes. ba, Catimbó etc., voltados para a magia, não se esvai,
e vai ser retomada mais tarde e bastante desenvolvida
Embora não faça alusão aos negros, o que iria de pelo sociólogo francês Roger Bastide (1971).
encontro à cidadania recém adquirida com a abo-
lição e à igualdade assegurada pela Constituição,
a repressão legal surgia como uma tentativa de ga- Essa tentativa de separação entre sacerdote e
rantir aos que dominavam as leis, o controle sobre feiticeiro remete ao esforço desenvolvido pelos in-
os negros livres, cujos centros de culto localizados telectuais no sentido de mostrar o Candomblé como
sobretudo nas cidades, constituir-se-iam em nú-
cleos virtuais de perigo e “desordem”. (DANTAS,
verdadeira religião, por oposição à magia, particular-
1988, p. 165-166). mente à chamada preconceituosamente de “magia
negra”, pois se reconhecia que “a feitiçaria era ilegal
Assim, nesse contexto legal e com a tentativa de no Brasil e também que não havia lugar para ela na
retirar do foco do sistema penal uma parte dos cultos atmosfera amável do Candomblé da Bahia” (LANDES,
de origem africana, é que alguns intelectuais inicia- 1967, p. 233). Também foi a dicotomia magia-religião
ram estudos sobre as religiões dos negros no Brasil, que fundamentou o pensamento dos juízes nos casos
tentando, em nome da ciência, delimitar os elemen- analisados por Scrhitzmeyer (2004), como analisare-
tos que distinguiam o que era religião, relacionada à mos posteriormente.
pureza africana, do que eram a magia, cultos miscige-
nados e sincretizados, tudo na tentativa de se alcan- Também Edison Carneiro, em seus trabalhos ini-
çar a legitimação e a legalização dos terreiros “africa- ciais na década de trinta, incide nessa diferenciação
nos mais puros”. (DANTAS, 1984). entre religião e magia, associando esta aos cultos

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“misturados” e aquela, aos terreiros nagôs mais afri- além do apoio dos cientistas e pesquisadores, tal
canizados. O charlatanismo e a exploração impera- como relatamos anteriormente, os terreiros passa-
vam, segundo ele, nas sessões de caboclo, escala ram a ampliar suas estratégias de defesa: inicial-
final do continuum construído por Artur Ramos e mente, começaram a se registrar como sociedade
adotado por Edison Carneiro, tendo como ponto de civil; depois, passaram a criar entidades que busca-
partida o nagô. Diz ele: vam congregar todos os terreiros.
No Recife, a legalização dos candomblés fora
O espiritismo, influindo sobre os candomblé afro-ban- conseguida por meio do Serviço de Higiene Mental
tos produziu as atuais sessões de caboclo da Bahia, que funcionava como entidade que, se não substi-
último degrau na escala dos candomblés, espécie de
ponte para adesão completa do negro banco ao cha-
tuía de todo o controle da polícia, ao menos inter-
mado baixo espiritismo. Nestas sessões de caboclo mediava essa relação. Na Bahia, o reconhecimento
exerce-se a medicina mágica, base provável do fenô- da legalidade dos terreiros ganha novo impulso em
meno social do curandeirismo no Brasil. (CARNEIRO, 1937 com a criação da União de Seitas Afro-Brasi-
1981, p. 235 e 238). leiras da Bahia, entidade criada pelos intelectuais
com o apoio do famoso terreiro nagô Axé-Opô-Afonjá
O curandeirismo era prática ilegal e, assim, ao para congregar os templos de origem africana no Es-
tentar criar uma legalidade para os “africanos pu- tado (DANTAS, 1988).
ros”, desqualifica e deslegitima os demais cultos, im-
pingindo-lhes práticas de curandeirismo e feitiçaria. O amplo e fluído segmento afro-brasileiro passou a ser
Esse ponto de vista aparece bem explicitado em outra visto como internamente diferenciado e dividido entre
os que fazem religião e os que também praticam ma-
passagem, onde o autor compara as mães-de-santo gia/feitiçaria. Nessa classificação, a origem (africana-
nagôs aos pais-de-santo caboclos: -nagô, banto ou indígena) e a ortodoxia (puros e mistu-
rados), categorias nativas adotadas pelos estudiosos,
Vários destes pais jamais sofrerão o processo de fei- eram critérios importantes e levam os intelectuais e
tura de santo. São pais sem treino, espontâneos, dis- fixar-se na análise dos traços culturais que permitiam
tantes de orgânica tradição africana - os clandestinos determinar a fidelidade dos terreiros às suas origens.
do desprezo nagô [...]. São esses pais que mais tem Desse modo, os terreiros mais africanizados, os nagôs
concorrido para a desmoralização dos candomblés, mais puros são recortados e alçados à posição de ver-
entregando-se á pratica do curandeirismo e da feiti- dadeira religião. Através dessa aliança, os cientistas
çaria - por dinheiro. Os casos .de curandeirismo e de tentam conseguir para os terreiros africanos mais
feitiçaria nos candomblés nagôs e jejes são raros, mas, puros não só legitimidade, mas, também legalidade
quando ocorrem, se limitam a praticas mágicas inócu- e, consequentemente, maior liberdade de atuação.
as, no máximo um chá de plantas medicinais ou um (DANTAS, 1988, p. 145).
despacho (ebó) para Exu, na encruzilhada mais próxi-
ma. (CARNEIRO, 1967, p. 130). Em Sergipe essa pureza é requerida pelos se-
guidores dos cultos aos orixás da cidade de Laran-
Assim, vemos como a inexistência de mecanis- jeiras, especialmente os da Casa Ti Herculano4,
mos jurídicos que permitissem a legalização dos
4. Herculano foi um africano que chegou a Laranjeiras na condição de
terreiros os levou a desenvolver, junto com seus inte- escravo, alforriou-se e como liberto conseguiu reunir um bom patrimônio
lectuais apoiadores, teorias antropológicas e psico- material. Ganhou visibilidade na sociedade local, sobretudo como chefe
religioso na tradição nagô. Ao morrer em 1907 tinha reunido um patrimô-
lógicas que de alguma forma os protegessem diante nio considerável avaliado em dois contos e 66 mil réis, muito acima dos
das arbitrariedades dos policiais. E quando em 1934 padrões dos pobres da localidade à época, nesse patrimônio se incluía a
casa onde residia e onde estava sediado o terreiro nagô que ele dirigia.
os terreiros foram obrigados a ter registro nos De- A Casa de Ti Herculano remonta à segunda metade do século XIX, e foi o
partamentos de Polícia para funcionarem, numa ten- segundo espaço em que se organizaram os cultos coletivos de matriz afri-
tativa de contrabalançar essa imposição do registro cana em Laranjeiras, seguindo a Casa de Ti Henrique, hoje desaparecida.
A Casa foi herdada pela viúva Bernarda Barbosa e os santos de Ti Hercu-
policial e libertar-se do estigma de clandestinidade, lano passaram aos cuidados dos seus descendentes. O cargo de chefia

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ligados ao Terreiro de Santa Bárbara Virgem, re- aí organiza, em 1937, a União de Seitas Afro-Brasi-
formado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e leiras (LANDES, 1967) e o Segundo Congresso Afro-
Artístico Nacional (IPHAN). A Irmandade Nagô de -brasileiro realizado em 1937.
Laranjeiras se autodenomina a única pura do Bra-
sil, por manter as raízes africanas da mesma for- Assim, fecha-se o ciclo das espécies de acusações
ma em que foram trazidas até a atualidade. Essa
impingidas às religiões afro-brasileiras: 1) a acusação
tradição nagô começou a se formar na cidade na
metade do século XIX quando lá conviviam diver- de feiticeiros, relacionada ao campo da religião, do-
sas formas religiosas, como o islamismo africani- mínio explorado, sobretudo pela Antropologia; 2) a
zado dos malês e o catolicismo. acusação da possessão como estado patológico, liga-
da ao campo de estudo da Psiquiatria; e 3) diante da
Foi a partir da Casa de Ti Herculano que a religião necessidade sentida pelo Estado de um controle mais
dos nagôs se estendeu para localidades vizinhas efetivo da massa negra, emerge a nova acusação: de
onde havia concentração e africanos cultuadores de comunistas, atrelada à Política.
orixás, por isso que ele é tido como um espaço de
afirmação identitária e responsável principal pela Nas duas primeiras espécies de acusação a ci-
rede de solidariedade e afinidades que englobava ência se julgava competente para questionar a va-
africanos e seus descendentes em busca de um lu- lidade da repressão policial, colocando-se como a
gar na sociedade (IPHAN, 2011). instância capaz de fornecer critérios para isolar os
sacerdotes dos feiticeiros e os anormais dos mis-
Nos anos 1930, entretanto, segundo Dantas tificadores e exploradores, e assim uma parte dos
(1988), os intelectuais passaram a não se limitar a cultos afro-brasileiros, os mais “puros” colocavam-
observar, descrever e interpretar os cultos, e começa- -se fora do alcance da polícia, pois suas práticas,
ram a deles participar, às vezes como ogãs e tentam segundo o aval dos cientistas, era religião e não
intermediar as relações com a polícia. Na conjuntu- constituíam infrações às leis.
ra política da primeira metade da década de 1930 e
sobretudo no clima de movimentação vivido no Nor- Entretanto, com a nova acusação de comunismo,
deste, nesse período em que a atuação do Partido esses “nichos”, frequentados habitualmente por ne-
Comunista resultou em levantes que atingiu a região, gros e brancos pobres e também por alguns intelectu-
alguns desses intelectuais eram vistos com descon- ais, que com eles estabeleceram alianças, apareciam
fiança pelo Governo. aos Governos – autoritários e ávidos por ordem e aves-
sos e assustados com os movimentos das camadas
No Recife, Ulisses Pernambucano, o idealizador populares – como particular¬mente perigosos e isso,
e organizador do Serviço de Higiene Mental, líder mais uma vez, passou a legitimar a repressão policial
do grupo de estudiosos de Xangô que tentava o contra os terreiros brasileiros.
“controle científico” dos cultos pela via psiquiátri-
ca, é preso em 1935 sob a acusação de comunista Mas, para complementar a explicação sobre as
(CERQUEIRA, 1978). O mesmo ocorre com Edison motivações para as perseguições aos cultos de origem
Carneiro, estudioso dos candomblés da Bahia, que africana, segundo Dantas (1988, p. 162-165) é preciso
do grupo foi transmitido a Umbelina Araújo, que, no início do século XX, ressaltar que a década de 1930, também, foi o período
passou a realizar parte dos ‘festejos’ em sua casa – o Terreiro de Santa
Bárbara Virgem – na Rua da Cacimba. Contudo, a Casa de Ti Herculano
de formulação do mito da democracia racial e do que
permanece como casa matriz e espaço referencial da tradição nagô de alguns autores como Fry (1977) chamam de período
Laranjeiras. A restauração da Casa de Ti Herculano desencadeou um pro- de “domesticação” das diferenças raciais brasileiras,
cesso de conhecimento sobre um personagem vinculado à religiosidade
afro-descendente na cidade de Laranjeiras. afinal era preciso criar mecanismos de controle dos

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negros “que poderiam utilizar suas diferenças cultu- 3 O CASO MPF X GOOGLE LTDA. E A
rais expressas sobretudo na religião, canalizando-as
para melhorar sua situação sócio-econômica e alterar POLÊMICA SOBRE O QUE É E O QUE
relações de poder secularmente estabelecidas” (DAN-
TAS, 1988, p. 162).
NÃO É RELIGIÃO NO BRASIL
Os atos de repressão e desconsideração às re-
É naquela década, ainda, argumenta Dantas ligiões de atriz africana no Brasil não podem ser
(1988), que as manifestações culturais subalternas, considerados apenas coisas do passado. Recente-
tais como o carnaval, as escolas de samba, a música mente, por exemplo, gerou grande polêmica nacio-
popular e a umbanda, passam por um intenso proces- nal uma decisão judicial proveniente do processo
so de apropriação pelas classes dominantes hege- nº 0004747-33.2014.4.02.5101 e escrita pelo Juiz
mônicas e até mesmo de ressignificação. Danças de Eugenio Rosa de Araújo, Juiz Federal Titular da 17ª
origem africana, por exemplo, passam a ser designa- Vara Federal no Rio de Janeiro, resultado de uma
das de folguedos folclóricos e atreladas agora como Ação Civil Pública ajuizada pelo Ministério Público
elementos representativos de uma cultura nacional, Federal em desfavor do Google Brasil Internet LTDA.
não mais negra ou africana, como prega a teoria da com o objetivo de ver retirado do sistema Google ví-
democracia racial. deos em que membros da Igreja Universal do Reino
de Deus aviltavam as religiões afro-brasileiras, seus
Diante do crescimento e propagação dos cultos símbolos, ritos e seus sacerdotes.
de origem africana, passa a ter destaque no ce-
nário nacional a atuação da polícia na repressão A decisão do Juiz negou o pedido de retirada dos ví-
aos cultos afro-brasileiros. Em Sergipe, Mandarino deos da internet sob o fundamento que no caso concre-
(2007) destaca que no período de maior repressão to somente existiu uma concorrência entre os direitos
aos cultos de origem africana, na transposição fundamentais e não uma violação aos direitos de liber-
do governo entre Eronides de Carvalho e Augusto dade de consciência e liberdade de crença, bem como
Maynard, não são encontrados registros jornalís- o de proteção às suas liturgias, dentre outros como o
ticos sobre perseguições a cultos afro-brasileiros. direito de liberdade opinião, de reunião e de religião.
Só a partir do final da década de 1940 e durante a
década de 1950 é que são encontradas notícias de Ainda neste contexto a decisão aduz que o can-
jornais sobre a posição da sociedade sergipana em domblé e a umbanda não contêm os traços necessá-
relação a tais cultos. É este período que coincide rios de uma religião: um texto base (corão, bíblia); es-
com a democratização do país e com o início do trutura hierárquica; e, ainda, um deus a ser venerado.
processo organizativo dos templos afro-brasileiros
em Federações. Desse breve apanhado da decisão, surgem algu-
mas indagações: seria certo então concluir que só
Assim, diante do aqui exposto fica evidencia- é religião aquela manifestação que possui textos-
do como que as religiões de origem africana fo- -base tradicionais expressos, escritos e formais? É
ram historicamente alvo de diferentes modelos possível a definição de religião por um membro do
de acusação e perseguição. Em cada Região ou Poder Judiciário?
Estado ela se apresenta com peculiaridades, mas,
de modo geral traz a marca da atuação Estatal no Inicialmente, observamos no caso uma ausência
controle do estranho e do supostamente perigoso de interpretação extensiva do termo religião, já que
para a ordem estabelecida.

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a própria Constituição no seu artigo 5º, inciso VI, ga- forma da lei, a colaboração de interesse público (inci-
rante a liberdade de crença de forma plena sem que so I), estabelecendo-se um pacto de separação entre
em momento algum estabeleça restrições ou solicite o Estado e a Religião.
um texto base para a caracterização de uma religião.
Cabe ressaltar, também, que a Constituição de for-
Em seguida, ressaltamos que a supracitada deci- ma clara em seu artigo 5º, inciso XVI, garante o direito
são indica que os vídeos constantes no Google não à liberdade de reunião como uma forma legítima de
são uma ofensa às liberdades públicas e tão pouco liberdade para circulação de ideias seja ela de cunho
colocam em risco a prática cultural das manifesta- social, religioso, político dentre outros.
ções afro-brasileiras. Mas, fato é que a Constituição
Federal dispõe de normas que ao mesmo tempo criam Assim, a veiculação de vídeos que vilipendiam a ima-
tanto o dever de não discriminar (discriminação ne- gem das religiões afro-brasileiras e sua manutenção
gativa) como o dever de igualar (discriminação posi- pelo Poder Judiciário sob o argumento de que se trata
tiva). Assim quando invocamos o termo “laico”, que é de manifestação da liberdade de expressão, reflete a
utilizado no preâmbulo da Constituição para informar perpetuação de uma realidade cultural preconceituosa
que o Brasil não possui uma religião específica e que em relação às religiões de matriz africana no Brasil.
todas as religiões – vale dizer, independentemente de
ter ou não texto-base – serão tratadas de forma igua- Em momento algum em nossa Constituição o cons-
litária, queremos dizer que todas merecem respeito e tituinte autorizou a violação de direitos fundamentais.
proteção do Poder Público. A violação à liberdade de crença não pode ser asse-
gurada pela liberdade de expressão. Aliás, qualquer
O constituinte assegurou no artigo 5º a liberda- forma de violação a direito de outrem já desconstitui e
de de consciência e de crença, “sendo assegurado deslegitima a situação como manifestação da liberda-
o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, de de expressão. Quando a Constituição de 1988, aduz
na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a a liberdade de expressão em seu artigo 5º, IV,V,X,XIII
suas liturgias” (inciso VI), logo possibilitou a ma- e XIV, em momento algum é permitido a utilização do
nifestação livre quanto à religião escolhida, bem direito de opinar contra alguém ou algo de forma a di-
como impôs proteção à promoção livre da religio- minuí-lo. O que se almeja é a constante busca por um
sidade desejada. instrumento de divulgação e difusão da informação de
forma democrática e não discriminatória.
O ordenamento jurídico brasileiro desde a primeira
Constituição republicana (1891) adota o modelo lai- Com a era da informática cada vez mais se torna
co, ou seja, não possui uma religião especifica o que difícil controlar o fluxo de informações que são pos-
permite a prática indiscriminada de qualquer tipo de tadas nas redes virtuais, contudo o sistema jurídico
religião, crença, culto e etc. A partir do momento que deve buscar alternativas legais para tentar minimi-
o constituinte decidiu pela laicidade o Estado passou zar essa avalanche de noticias, vídeos, posts, scraps,
a não estabelecer, não interferir e não participar dos dentre outros instrumentos aparentemente inofensi-
atos relativos à religiosidade, conforme preconiza o vos, mas, severamente lesivos à honra e imagem de
artigo 19, CF, que veda à União, Estados, Municípios determinados indivíduos ou grupos, como as comuni-
e ao Distrito Federal estabelecer cultos religiosos ou dades tradicionais de matriz africana. Essa é a parcela
igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funciona- de contribuição que o judiciário pode dar ao processo
mento ou manter com eles ou seus representantes educacional em prol da proteção e preservação do pa-
relações de dependência ou aliança, ressalvada, na trimônio cultural afro-brasileiro.

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4 EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E DO ENSINO nação, à memória dos diferentes grupos formadores


da sociedade brasileira, e no artigo 210 que “serão
JURÍDICO NA PROTEÇÃO DAS TRADIÇÕES fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamen-
CULTURAIS E RELIGIOSAS AFRO-BRASILEIRAS tal, de maneira a assegurar formação básica comum
e respeito aos valores culturais e artísticos, nacio-
Mesmo com todos os avanços identificados no nais e regionais”.
âmbito da educação nos últimos anos com a emer-
gência de leis, órgãos e regulamentações voltados a Em janeiro de 2003 foi sancionada a Lei 10.639
discussões como etnia, raça, gênero, sexo, diferen- que alterou a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de
ças, identidades, diversidades, regionalidades, entre 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Na-
outros temas importantes, um assunto ainda perma- cional, para incluir no currículo oficial da Rede de
nece pouco abordado nesse campo: a educação para Ensino a obrigatoriedade da temática “História e
a preservação do patrimônio cultural. Cultura Afro-Brasileira”. Tais alterações surgiram
como uma forma de implementar ações e políticas
A educação patrimonial é interpretada por Horta educacionais permanentes que auxiliassem na for-
(1999, p. 6) como “um processo permanente e siste- mação de uma consciência do papel do povo negro
mático de trabalho educacional centrado no Patrimô- na nossa sociedade.
nio Cultural como fonte primária de conhecimento
e enriquecimento individual e coletivo”. Nas normas A lei tornou obrigatória a inclusão do estudo da
educacionais brasileiras, nos poucos momentos em História da África e dos Africanos, a luta dos negros
que há referência explícita e direta ao termo “edu- no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na for-
cação patrimonial”, a exemplo do Manual Operacio- mação da sociedade nacional, em todos os conteúdos
nal de Educação Integral, onde são traçados os ma- programáticos oriundos dos estabelecimentos de
crocampos do Programa Mais Educação do Governo ensino fundamental e médio, oficiais e particulares,
Federal, ela é conceituada como um mecanismo de como forma de resgatar a importância dos africanos
incentivo à produção artística e cultural dos estudan- e dos afro-brasileiros na formação do Brasil. E poste-
tes, de possibilidade de reconhecimento e recriação riormente, por meio do Parecer do Conselho Nacional
estética de si e do mundo e de valorização do patrimô- de Educação nº 03/2004, que estabelece as Diretrizes
nio material e imaterial. Curriculares Nacionais para a Educação das Relações
Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura
Para o documento do Ministério da Educação, a Afro-Brasileira e Africana estabeleceu que tais deter-
educação patrimonial tem por fim “promover ações minações servissem para todos os níveis de ensino:
educativas para a identificação de referências cultu- Reconhecimento requer a adoção de políticas educa-
rais e fortalecimento dos vínculos das comunidades cionais e de estratégias pedagógicas de valorização da
com seu patrimônio cultural e natural, com a perspec- diversidade, a fim de superar a desigualdade étnico-
tiva de ampliar o entendimento sobre a diversidade -racial presente na educação escolar brasileira, nos
diferentes níveis de ensino. (BRASIL, 2004, p. 3).
cultural” (MEC, 2013, p. 14-15).
E ainda determinou:
De forma indireta, a Constituição Federal de 1988 Para tanto, os sistemas de ensino e os estabeleci-
inseriu o conceito de patrimônio cultural, aduzindo mentos de Educação Básica, nos níveis de Educação
a proteção de bens individualmente ou em conjunto Infantil, Educação Fundamental, Educação Média,
Educação de Jovens e Adultos, Educação Superior,
desde que portadores de referências à identidade, à
precisarão providenciar: (BRASIL, 2004, p. 13).

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Assim é que nesse trabalho defendemos que não tentando apresentar nossa contribuição para esse de-
obstante a existência de medidas legislativas e po- bate em torno da preservação das tradições religiosas
líticas públicas educacionais que visam incentivar afro-brasileiras por meio da educação patrimonial no
a colaboração mútua entre Estado e sociedade civil ensino jurídico.
para a preservação e a salvaguarda dos patrimônios
culturais imateriais, tais políticas ainda não são sufi-
cientes para transformarem o quadro de persistente 6 CONCLUSÃO
desrespeito, desconsideração e de violação de direi- A discussão central relativa à necessidade de po-
tos de algumas manifestações culturais, sobretudo líticas educacionais que incentivem a formação de
em relação àquelas enquadradas fora do eixo cultural uma corrente educacional efetiva no que se refere à
hegemônico, como são, por exemplo, as originárias do preservação do patrimônio cultural dos povos afro-
continente africano e que aqui, no continente ameri- -brasileiros já é realidade no Brasil. E, como principais
cano, foram transformadas e atualizadas em expres- instrumentos oficiais desta promoção, destacamos o
sões culturais afro-brasileiras e muito mais que isso, artigo 210 da Constituição Federal, os Parâmetros
alçadas em âmbito constitucional a status especial, Curriculares Nacionais (PCN), a Lei nº 10.639 que al-
como o foram as denominações religiosas de matriz terou a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que
africana, hoje protegidas na Constituição sob o manto estabelece as diretrizes e bases da educação nacio-
do princípio da liberdade de expressão religiosa. nal, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensi-
no a obrigatoriedade da temática “História e Cultura
Tais denominações religiosas, e seus seguidores, Afro-Brasileira”, e o Parecer CNE/CP 3/4, sem esque-
hoje elementos que compõem o conceito de comu- cer o Estatuto da Igualdade Racial.
nidades tradicionais de terreiro estabelecido pela le-
gislação nacional, historicamente eram identificadas Em relação ao tratamento dado às religiões afro-
como folclore, não como religião, justamente por pro- -brasileiras constatamos que embora possuam uma
virem das camadas populares da sociedade, por con- tradição milenar, no Brasil permanecem incompreen-
gregarem entre seus adeptos estratos sociais inferio- didas por muitos, exemplo recente, foi a decisão do
res, como negros, escravos e libertos, e por praticarem Magistrado citada no corpo deste trabalho.
ritos e cerimônias considerados bárbaros e primitivos,
entre outros aspectos muito bem abordados em im- Deste modo, defendemos que é dever dos cursos
portantes estudos como os da antropóloga sergipana jurídicos a assunção da responsabilidade em promo-
Beatriz Góis Dantas e os de Reginaldo Prandi, entre ver medidas de valorização e de difusão da cultura e
outros estudiosos das tradições religiosas de origem da pluralidade de nossa formação étnica e religiosa,
africana em nosso país, que analisaremos a seguir com vistas à construção de um país que possua uma
com o objetivo de traçar um panorama conceitual e educação pautada no respeito e no pluralismo cultu-
caracterizador dessas denominações religiosas que ral para buscar a concretização do ideal de justiça so-
compõem o rico e diverso campo religioso brasileiro, cial, de igualdade e de democracia.

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e Terra, 1981. SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil africano.
2.ed. São Paulo: Ática, 2007.

1. Doutor em Direito PUCRio. Mestre em Direito – UFBA. Professor Pleno do


Mestrado em Direito da Universidade Tiradentes. Vice-líder e pesquisador
do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Direitos Humanos – UNIT-CNPq.
E-mail: ilzver@gmail.com
2. Mestranda em Direitos Humanos pela Universidade Tiradentes. Pós
Graduada em Direito Público (Constitucional, Administrativo, Tributário e
Fazenda Pública) – Uniderp/Lfg. Professora de Direito Civil e do Trabalho
da Faculdade Fasete. Estudante do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas
de Direitos Humanos – UNIT-CNPq. E-mail: manuellavergne@hotmail.com.
3. Advogada, Membro da Comissão de Igualdade Racial da OAB-SE, Es-
pecialista em Direito Civil e Processual Civil e Graduada em Direito pela
Recebido em: 22 de Julho 2014
Universidade Federal de Sergipe. Estudante-pesquisadora do Grupo de
Avaliado em: 1 de Agosto de 2014 Pesquisa Políticas Públicas de Direitos Humanos – UNIT-CNPq. E-mail: kel-
Aceito em: 2 de Agosto de 2014 len_muniz@yahoo.com.br

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RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA E A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA
RELIGIONS OF AFRICAN ORIGIN AND RELIGIOUS INTOLERANCE

Isabel Soares Campos


Rosane Aparecida Rubert

Vol. XI | n°22 | 2014 | ISSN 2316 8412


RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA E A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Isabel Soares Campos1


Rosane Aparecida Rubert2

Resumo: Este artigo aborda questões relacionando a Antropologia Jurídica e a Antropologia da


Religião, criando uma conexão entre estas áreas por meio da temática religiosa. Este tema se insere
em uma discussão mais ampla sobre a relação entre o Estado-Nação e a liberdade religiosa, em que
o Estado a partir do principio da laicidade, assume o papel de regulador da diversidade das
manifestações religiosas, operando a partir de determinadas noções do que é religião, que não
necessariamente são apresentadas de forma explícita. Assim, adota-se como objeto de estudo as
diversas manifestações de intolerância em relação às religiões afro-brasileiras dentro do campo
religioso como em relação ao espaço público e os aparatos do Estado. O motivo de o meu estudo
ter como foco a intolerância religiosa foi trazer para a pesquisa acadêmica a importância da
interface entre o estudo antropológico e o campo jurídico, a partir da elucidação dos conflitos do
campo afro-religioso.

Palavras chaves: Intolerância religiosa, Religiões afro-brasileiras, Espaço público, Estado.

Abstract: This article discusses issues relating to Legal Anthropology and the Anthropology of
Religion , creating a connection between these areas through religious theme . This theme is part of
a broader discussion about the relationship between the nation state and religious freedom in the
state from the principle of secularism , assumes the role of regulator of the diversity of religious
expression , operating from certain notions of what is religion , which are not necessarily given
explicitly . Thus, if adopted as the object of study the various manifestations of intolerance towards
african - Brazilian religions in the religious field and in relation to public space and state apparatuses
. The reason for my study have focused on religious intolerance was to bring academic research the
importance of the interface between the anthropological study and the legal field , from the
elucidation of conflicts of african - religious field.

Keywords: Religious intolerance, African-Brazilian religions, Public space, State.

INTRODUÇÃO

No Brasil, o campo afro-religioso é marcado por um contexto histórico de busca por


reconhecimento perante o Estado desde a instauração da República até a contemporaneidade. Este
processo está veemente atrelado ao controle sanitarista e higienista, ao discurso raciológico, concepções
presentes nos dispositivos jurídicos, alguns embates com o campo ambiental e conflitos advindos do próprio
campo religioso. Assim, para abarcar a discussão sobre a intolerância religiosa em relação às religiões afro-
brasileiras, exponho brevemente este processo de legitimação através da interface entre o campo do direito

1
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas – UFPel
2
Professora Doutora do Departamento de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas – UFPel.
RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA E A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

e da antropologia, criando uma conexão entre estas áreas por meio da temática religiosa. Este tema se
insere em uma discussão mais ampla sobre a relação entre o Estado-Nação e a liberdade religiosa em que o
Estado, a partir do principio da laicidade, atua regulamentando as diversas manifestações religiosas no
espaço público conforme determinadas noções do que é religião, as quais não são explícitas. Portanto, neste
trabalho foi levado em consideração o impacto de cada um desses discursos e práticas na deflagração de
casos de intolerância religiosa em relação às religiões de matriz africana.
A pesquisa foi realizada na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, e um dos objetivos deste trabalho
foi compreender como parte do campo religioso afro-brasileiro de Pelotas percebe a intolerância religiosa,
através de entrevistas com agentes e membros destas religiões e quais são as mais recorrentes formas de
manifestação da intolerância religiosa no contexto local por meio de um ensaio etnográfico.
O método etnográfico é um meio utilizado pela antropologia para realizar a descrição dos
significados de algum determinado grupo social, deste modo, a etnografia atua enfatizando um fenômeno
social particular. Para obter uma descrição densa de um fenômeno social é necessário realizar entrevistas
em profundidade com o grupo social pesquisado, praticar a observação, analisar o discurso dos informantes,
investigar os detalhes dos fatos, e por fim interpretar os significados e as práticas sociais. Assim, no processo
de etnografia privilegiei a realização de entrevistas, em razão de se tratar de um tema delicado para
realização de observação participante, até porque os casos de intolerância acontecem de forma imprevisível,
sendo difícil acompanhá-los diretamente. Dessa forma, priorizei os discursos e interpretações que os
próprios agentes constroem sobre fatos ocorridos, de forma a inscrevê-lo em uma narrativa etnográfica e
torná-lo acessível para um público que transcende a comunidade religiosa estritamente falando (GEERTZ,
1989).
A pesquisa tenta contribuir para a construção de conhecimentos que traduzam para o campo do
direito as diferentes lógicas de ação e cosmologias que fazem parte da sociedade brasileira, a qual se
caracteriza por ser multiétnica, mas que ao mesmo tempo se sobressai um ordenamento jurídico
universalizante. Outro objetivo do estudo foi pesquisar por meio de revisão bibliográfica as diferentes
maneiras com que o próprio Estado brasileiro, no decorrer da história, promoveu e legitimou os processos
de intolerância religiosa, bem como identificar os diferentes discursos construídos no decorrer da historia,
de cunho étnico-racial, científicos, legais, religiosos que buscam justificar as ações de intolerância religiosa.

CAMPO AFRO-RELIGIOSO E AS RELAÇÕES COM O ESTADO

Desde o período Colonial e Imperial do Brasil, observa-se a manutenção de relações diretas entre o
poder político e a religião católica, sendo esta a religião oficial nestes períodos. O próprio Código Criminal do

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ISABEL SOARES CAMPOS, ROSANE APARECIDA RUBERT

Império de 1830 punia: “A celebração, propaganda ou culto de confissão religiosa que não fosse a oficial
(art. 276)” (SILVA Jr., 2007, p. 308). Este Código punia diretamente os negros, fossem eles escravos, livres ou
libertos, visto que uma forma de controlar as suas vidas era impor a cultura ocidental, incluindo a religião
católica, desconstituindo suas referências culturais africanas. Contudo, os negros escravizados ou livres
mantinham suas manifestações culturais de diversas formas, inclusive, preservando regras e condutas
próprias relacionadas às religiões. Segundo Roger Bastide (1974), mesmo existindo essa resistência da
cultura africana, as religiões de matriz africana sofreram impactos do contato com outras culturas, sendo
recriadas no Novo Mundo, tendo de se posicionar de diferentes formas de acordo com a região e de se
adaptar aos diferentes contextos, acarretando no sincretismo com outras religiões.
Assim, é no ano de 1889 quando se proclamou a República no Brasil que teremos o marco de
introdução do principio de laicidade do Estado, onde há a separação formal entre o Estado e a Igreja
Católica. Isso significou a inserção do Brasil em ideários da modernidade, caracterizada por novas ideias
referentes à moralidade, a ética, entre outras, sendo também a fase histórica em que surge o Estado-Nação
com o papel de formador dos sujeitos-cidadão, o qual tem como ação relevante a secularização do espaço
religioso. E como aponta Giumbelli (2008, p. 81), “a presença do religioso na sociedade está sempre
relacionada com os dispositivos estatais, apesar ou por causa da laicidade”.
Foi na Constituição de 1891 que se aboliu formalmente o conceito de religião oficial e se
proporcionou a liberdade a qualquer tipo de crença. Entretanto, diversas religiões existentes no Brasil, que
tiveram um caráter diferente da religião católica, sofreram perseguições, discriminações e preconceitos
tanto no espaço público como no meio estatal e policial. As religiões chamadas mediúnicas, nas quais se
encontram o espiritismo, umbanda, batuque, candomblé, entre outras, foram as que mais sofreram ataques
intolerantes, pois as suas atividades e práticas não eram reconhecidas pelo Estado como tendo um estatuto
de religião, tal como este a concebia (MONTERO, 2006; GIUMBELLI, 2008). Deste modo, veremos que esta
“liberdade religiosa” concedida pelo Estado republicano, não se proporcionou de uma forma tão simples,
pois o Estado necessitava enquadrar todas as formas de religiosidades, diferentes da matriz cristã, existentes
naquele período numa mesma concepção de “religião”. Sendo assim, tanto os praticantes do espiritismo
como das religiões afro-brasileiras usaram como estratégia se enquadrar na noção de “religião” por meio do
argumento que suas práticas eram realizadas sem fins lucrativos, obedecendo ao princípio da caridade.
Deste modo, como apontam Giumbelli (2008) e Montero (2006), o formato que essas religiões passaram a
assumir, especialmente nas suas manifestações rituais, foi o resultado do enquadramento que o Estado
impôs.
Em relação à legitimidade das práticas mediúnicas (contempladas, principalmente, pela religião
espírita e as religiões afro-brasileiras) perante o Estado, autores como Giumbelli (2008), Maggie (1992),
Montero (2006) apontam diversas dificuldades de manifestação destes cultos no espaço público, pois

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RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA E A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

veremos que as atuações intolerantes serão acionadas tanto pelos aparatos estatais – jurídicos e policiais –
quanto pela própria medicina e o controle sanitarista. Estas ações repressivas eram mais severas e rigorosas
quando se tratava de manifestações culturais de origem africana, pois era uma época em que as teorias
raciológicas constituíam um consenso. Segundo Mariano (2007), “na segunda metade do século XIX, a
escravidão e o racismo- incluindo o racismo cientifico- resultaram em franca perseguição religiosa ao
candomblé e punição a seus seguidores” (MARIANO, 2007, p.126).
O caráter racista das perseguições às religiões de matriz africana é evidente se considerarmos que
no Código Penal de 1890 (vigente até 1942), previa-se também a punição: ao crime de capoeiragem (art.
402); ao crime de vadiagem (art. 399); ao crime de curandeirismo (art. 158); ao crime de espiritismo (art.
157). Este Código Penal com os artigos 156, 157, 158 é muito importante para compreendermos a relação da
legislação com as formas religiosas e suas práticas. Entre os “Crimes contra a Saúde Pública”, consta o
seguinte: “Art. 157: Praticar o espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talismãs e cartomancias, para
despertar sentimentos de ódio ou amor, inculcar cura de molestais curáveis ou incuráveis, enfim, para
fascinar e subjugar a credubilidade pública” (GIUMBELLI, 2003, p. 254).
Estes três artigos (156, 157, 158) do Código “tiveram até o início do século um tribunal especial – o
Juízo dos Feitos da Saúde Pública” (MAGGIE, 1992, p. 43). A partir da década de 20, a expressão “baixo
espiritismo” (associado ao curandeirismo, espiritismo, magia) começa aparecer nos registros policiais,
geralmente associados à acusação do exercício ilegal da medicina e também ao lado de outras categorias
como: “macumba”, “candomblé”, “magia negra”. Yvonne Maggie constata que essas acusações contra
práticas mediúnicas eram realizadas a partir de um critério moral, que relacionava os acusados dessas
práticas diretamente ao mal. Segundo meu entendimento da pesquisa da Maggie (1992, p. 22), a repressão
estatal em relação às manifestações espíritas e afro-religiosas contra a “crença na magia e na capacidade de
produzir maléficos por meios ocultos e sobrenaturais”, ajudou a constituí-las e defini-las. Isso reforça a visão
de Kant de Lima de que “O direito aparece como um caso privilegiado de controle social, não só para reprimir
comportamentos indesejáveis, mas também como produtor de uma ordem social definida. A instância
jurídica não só reprime, mas produz” (LIMA, 2009, p. 9).
Já na década de 40, com o novo Código Penal, os centros espíritas voltam a sofrer repressões por
parte do Estado, o qual impõe regras para o funcionamento dos centros e uma das regras era o centro ter
sede própria e não permitir a “possessão” (ou manifestações sonambúlicas) durante as sessões públicas. Isso
mostra como o Estado além de impor regras, determinava as formas ritualísticas, pois normatizava as
“atividades das sociedades espíritas a partir de uma lógica que garantisse, tal como determinava a
Constituição de 1937, a adequação do espaço religioso às ‘exigências da ordem pública’” (GIUMBELLI, 2003,
p.274).
Na atualidade preconceitos e perseguições persistem mesmo após a nova Constituição Federal de

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1988, na qual se reitera o princípio de laicidade do Estado. É nesta Constituição de 1988 que se assegura o
direito de liberdade a qualquer culto e/ou religião, ao mesmo tempo em que proíbe em seu art. 19, inciso I,
que o Estado estabeleça alianças ou relação de dependência com qualquer culto e que embarace o
funcionamento de culto de qualquer natureza. Deste modo, é com o art. 5°, VI, dos direitos e garantias
fundamentais, que se consagra a liberdade de crença, a liberdade de culto e de organizações religiosas.
Ademais, o Código Penal Brasileiro de 1940 com a Lei nº 9.459/1997, considera crime a prática de
discriminação ou preconceito contra religiões, como aponta no artigo 203; também consta no mesmo Código,
no capítulo I Dos Crimes Contra o Sentimento Religioso, art. 208, punição ao ultraje a culto e impedimento
ou perturbação de ato a ele relativo4.
O reconhecimento das manifestações afro-brasileiras pelo Estado através da Constituição Federal de
1988 ocorreu especialmente com os artigos 2155 e 2166, produto de intensa mobilização do movimento
negro, o qual estava se reorganizando neste período e que exigia do Estado reparação pelos séculos de
escravidão e, consequentemente, uma reavaliação do papel do negro na historia brasileira.
Uma elucidação desta luta por reconhecimento do Estado foi a efetivação do primeiro
tombamento de um terreiro, localizado no estado da Bahia. O tombamento do terreiro Casa Branca mostrou
o reconhecimento da importância das manifestações culturais das camadas populares, reconhecendo o
candomblé como um sistema religioso fundamental à constituição da identidade de uma grande parcela da
sociedade brasileira. Neste caso também foi solicitado uma “reparação às perseguições e a intolerância
manifestadas durantes séculos pelas elites e pelas autoridades brasileiras contra as crenças e os rituais afro-
brasileiros” (VELHO, 2006, p. 240).
Contudo, atualmente, apesar destes dispositivos constitucionais, observa-se a persistência de
manifestações qualificadas como sendo de intolerância religiosa, principalmente, contra as religiões de
matriz africana. Assim, como aponta o jurista Silva Jr. que “na cidade de São Paulo ainda hoje nenhum
templo de candomblé tem assegurada a imunidade tributária, os ministros não conseguem obter inscrição no

3
Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
Pena: reclusão de um a três anos e multa.
4
Art. 208 - Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática
de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso:
Pena - detenção, de 1 (um) mês a 1 (um) ano, ou multa.
Parágrafo único – Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à violência.
5
Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e
incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.
§ 1º - O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes
do processo civilizatório nacional.
6
Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em
conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos
quais se incluem.
§4º - Os danos e ameaças ao patrimônio cultural serão punidos, na forma da lei.
§5º - Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos.

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RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA E A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

sistema de seguridade social e os cartórios se recusam a reconhecer a validade dos casamentos celebrados
no candomblé” (SILVA Jr., 2007, p. 315).
Além disso, ressurgiu nas últimas décadas manifestações de intolerância contra estas religiões no
próprio meio religioso com advento das religiões neopentecostais. Estas religiões se utilizam dos meios de
comunicação para divulgar a ideia de que a grande causa dos males deste mundo é atribuída à presença do
demônio, o qual está associado aos deuses das religiões afro-brasileiras (ORO, 2007). Isso acontece
especialmente com a linha designada “povo da rua”, “que foi associada inicialmente ao diabo cristão e
posteriormente aceita nessa condição por uma boa parcela do povo-de-santo, principalmente o da
umbanda” (SILVA, 2007, p. 11). Contudo, atualmente, uma das ações repressivas mais pertinentes por parte
dos neopentecostais se dá no espaço político, no qual políticos evangélicos criam leis para inviabilizar as
práticas das religiões afro-brasileiras (SILVA, 2007).
No ano de 2003, no Rio Grande do Sul, por pressão de políticos evangélicos e com o apoio das
sociedades protetoras dos animais, foi criado o Código Estadual de Proteção aos Animais, acionado na
tentativa de restringir os sacrifícios praticados nos rituais de batuque e/ou umbanda. “Um parágrafo
especifico do código, que não foi aprovado por pressão dos religiosos afro-brasileiros, vedava a realização de
cerimônia religiosa que envolvesse a morte de animais” (SILVA, 2007, p.17). Dessa forma, acrescentou-se
posteriormente na nova lei que “não se enquadra nessa vedação o livre exercício dos cultos e liturgias das
religiões de matriz africana” (GIUMBELLI, 2008, p. 88). A necessidade de defesa contra estes ataques tem
gerado um reordenamento no próprio campo afro-religioso, “assim, nos últimos cinco anos, alguns
movimentos de defesa das religiões afro-brasileiras têm sido criados e, no âmbito jurídico, ações legais têm
sido impetradas pelos babalorixás e ialorixás contra pastores e/ou suas igrejas” (SILVA, 2007, p.19). Deste
modo, representantes de religiões afro-brasileiras organizaram em 2002 a Comissão de Defesa das Religiões
Afro-Brasileiras (CDRAB), no mesmo ano a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) instaurou uma
Comissão de Relações Étnicas e Raciais (CRER), a qual realizou diversos fóruns, seminários com a temática da
intolerância religiosa, resultando numa coletânea, organizada por Vagner Gonçalves da Silva, com artigos
escritos por profissionais de diversas áreas das humanas, intitulada: “Intolerância Religiosa – Impactos do
Neopentecostalismo no Campo Religioso Afro-Brasileiro”, a qual significou um grande progresso na área das
humanas.
A partir desta reflexão geral sobre o campo religioso afro-brasileiro e a marcante intolerância
religiosa enfrentada por estas religiões, o foco da pesquisa está na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, a
qual é uma cidade historicamente caracterizada pela escravidão de africanos e afrodescendentes, tornando-
se ao longo do tempo, um local com muitos atributos da cultura africana. Por este motivo a cidade,
atualmente, contempla um grande número de adeptos e de casas afro-religiosas. Conforme a declaração do
presidente da Federação Sul Riograndense de Umbanda e Cultos Afro-brasileiros, em entrevista realizada

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nesta pesquisa, há aproximadamente 400 casas de religião vinculadas a esta organização. É importante
destacar que as religiões afro-brasileiras do Rio Grande do Sul se dividem em umbanda, linha cruzada (ou
quimbanda) e batuque (ORO, 2002; CORRÊA, 2006). De acordo com Ávila (2011), no estado os centros de
umbanda chegam a 5% das casas de religião, a linha cruzada ou quimbanda chegam a 85% e o batuque
chegando a 10% do total de 30 a 40 mil casas de religião.

BREVE MOSAICO DE CASOS DE INTOLERÂNCIA

Deste modo, apresento no ensaio etnográfico as entrevistas com cinco interlocutores


representantes da religiosidade de matriz africana em Pelotas relatando casos de intolerância religiosa
sofrida por eles ou por outros representantes religiosos. Busquei direcionar a atenção para o desenrolar
desses acontecimentos, se chegou ou não a passar por processos policiais e judiciais, caso sim, como a
justiça se posicionou perante o caso. Outra preocupação foi identificar os discursos acusatórios contra essas
religiões, os argumentos dos praticantes nos seus processos de defesa e os impactos dessas experiências
sobre suas vidas nas várias dimensões: pessoal, profissional e religiosa. Além deste ensaio etnográfico,
exponho uma tabela com dez casos de intolerância religiosa em relação às religiões afro-brasileiras ocorridos
em Pelotas, bem como fora da localidade e do estado, para demonstrar que o fenômeno em estudo
extrapola o âmbito local. No entanto, não apresento esta tabela neste artigo, pois, além desta ser extensa,
procurei privilegiar a etnografia.
Assim, no decorrer da pesquisa foram analisados seis casos de intolerância relatados pelos cinco
representantes entrevistados7, sendo que apenas um caso será apresentado toda a sua trajetória e seu
desfecho, uma vez que este acontecimento teve grande repercussão na sociedade pelotense, o qual
acompanhei durante a pesquisa por meio de entrevista, análise de materiais na mídia e processos judiciais.
Os outros casos igualmente significativos para o desenvolvimento deste trabalho, mas não tão visibilizados
na mídia local como este que apresentarei. Destes casos de intolerância religiosa, dois - tanto o caso do Bàbá
Eurico da casa “Ilé Axé Nagô Oluorogbo” de Batuque de Nação Nagô, como o caso do presidente Joab Bohns
da Federação Sul-Riograndense de Umbanda e Cultos Afro-Brasileiros - estão mais voltados a conflitos entre
a intensa negociação com a vizinhança e com o poder público. Sendo que a causa destes constrangimentos,
por meio de uma percepção dos próprios atores sociais, é o preconceito religioso dissimulado. De acordo
com os relatos de Joab, os conflitos gerados por preconceito religioso são ocasionados pela desigualdade de
poder entre acusadores e acusados (praticantes dos cultos afro-brasileiros) no acionamento do aparato

7
Foram entrevistados cinco representantes das religiões de matriz africana, tendo sido contatada mais uma, mas que não houve
tempo para realizar a entrevista. Apresento os interlocutores conforme a ordem cronológica das entrevistas: Bàbálorixá Eurico; Joab
Luis Bohns – Presidente da Federação; Mãe Gisa de Oxalá; Pai Guterres (Mano) de Oxalá; e Pai Flávio de Xangô.

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jurídico, o qual se presta a inúmeros tipos de manipulação. Outro fator reclamado por ele é o não
reconhecimento, por parte dos órgãos de Estado, do poder regulatório das associações de religiões de
matriz africana.
Os outros casos de intolerância religiosa expostos no meu trabalho também foram ocasionados pelo
preconceito religioso, bem como pelo preconceito racial, mas diferentemente dos outros dois casos citados,
estes passaram por processos judiciais. Assim, no caso da Mãe Clara de Iansã8 percebe-se a intolerância
religiosa no âmbito social fundamentada em preconceitos de cunho racial referidos às práticas religiosas de
matriz africana, as quais apresentam dificuldades de serem reconhecidas perante o Estado e por falta de
conhecimento da cosmologia afro-brasileira tanto por parte do Estado como pela sociedade. O mesmo
ocorreu com o caso do Pai Flávio de Xangô9, que em razão da intolerância religiosa sofreu denuncias da
vizinha evangélica em vários órgãos e cabe salientar que isso ocorreu não só por dificuldades de
reconhecimento do Estado, mas, sobretudo em razão desta intolerância advir dos conflitos gerados no
campo religioso neopentecostal.

MÃE GISA E O CASO DO BARÁ DO MERCADO

Após este breve resumo de casos de intolerância religiosa em relação às religiões afro-brasileiras que
acompanhei nesta pesquisa, apresento um episódio que ganhou grande visibilidade na cidade de Pelotas
que foi o caso do Bará do Mercado, no qual foi realizado um ritual de assentamento do Orixá Bará por duas
mães de santo, Mãe Gisa de Oxalá da Casa Espírita Assistencial Afro-brasileira Caboclo Rompe Mato Reino de
Xangô e Oxalá (CEAAB) de nação cabinda e Joyce de Xangô representante da Sociedade Beneficente São
Jerônimo.
O caso de intolerância religiosa sofrido por Mãe Gisa e sua família de santo foi deflagrado com uma
matéria publicada no jornal local, Diário da Manhã, no dia 28 de junho de 2012. A reportagem noticiava
sobre um ritual “africanista” com sacrifício de animais, ocorrido no Mercado Público da cidade no qual
estavam presentes duas sociedades religiosas e o vereador Ademar Ornel, na época candidato a reeleição. A
reportagem estampava uma foto em que constava em primeiro plano a Mãe Gisa e sua família de santo,
sendo que alguns membros desta coincidem com sua família consanguínea.

8
Caso ocorrido em julho de 2010 na cidade de São Lourenço do Sul, próxima de Pelotas, sofrido pela Mãe Clara de Iansã da Casa
Associação Africanista OyáNiqué Caboclo Rompe Mato, de Nação Cabinda, na qual Pai Mano de Oxalá é seu padrinho. O caso foi
relatado pelo Pai Mano, pois não consegui contatar Mãe Clara para a entrevista. Segundo Pai Guterres, Mãe Clara obteve resultado
favorável, porém seu centro atualmente encontrara-se fechado em razão dos conflitos com a vizinhança.
9
Pai Flávio de Xangô é de Nação Cabinda da casa Abassa Africano D’Xangô e C.E.U Xangô das Matas localizada em Pelotas. O
processo judicial sofrido pelo Pai Flávio foi aberto no dia 18 de dezembro de 2009, sendo que somente no ano de 2012 que o
processo produziu um resultado favorável para Pai Flávio, o qual, até o momento, apenas aguardava a última instância do processo
que já estava Porto Alegre para ser indenizado pela sua ex-vizinha.

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O episódio passou a ter um caráter de intolerância quando o Blog Amigos de Pelotas, por meio de
reportagem assinada pelo jornalista Rubens Filho, na época também candidato a vereador pelo PCdoB, que
caracterizou o ritual como uma “chinelagem da grossa”. Segundo ele: “Os corpos dos animais foram
enterrados na área do Mercado Municipal, que está sendo restaurado. Objetivo do ritual foi, segundo o
jornal, restabelecer o bará (proteção) ao lugar e para que o local, que será reinaugurado em breve, ‘tenha
sucesso’”. Em postura de desaprovação do que aconteceu, o jornalista prossegue: “Chinelagem (palavra boa
esta para algumas coisas) é pouco para descrever o que se passou, mas dá uma ideia da idade mental e
cultural dos realizadores da barbárie” (trecho retirado do blog).
A reportagem originou uma série de comentários, a maioria dos quais concordando com o ponto
de vista do jornalista e anônimos, cujos discursos acentuavam os seguintes aspectos: o ritual causaria danos
maléficos para toda a comunidade local; o sacrifício de animais é associado à barbárie e selvageria,
caracterizando atraso cultural, crueldade com animais e crime ambiental; a realização de ritual religioso em
espaço público fere o princípio de laicidade do Estado. Nos comentários chamam-se os integrantes dessas
religiões de ignorantes, sendo que alguns sugerem que eles realizariam também, secretamente, sacrifícios
humanos.
Em julho de 2012, circulou nas redes sociais e na mídia um manifesto denominado “Manifesto
contra a banalização e o desrespeito à religião de matriz africana e afro-umbandista em Pelotas”, o qual teve
o apoio de intelectuais de diversas áreas, de representantes religiosos de matriz africana, bem como de
entidade de defesa e proteção da Tradição de Matriz Africana e Afro-Umbandista, os quais apresentaram e
fundamentaram uma justificativa de cunho histórico, cosmológico e antropológico para ritual ter sido
realizado no Mercado Público.

Salienta-se que no Mercado Público do município ocorria a comercialização de africanos


escravizados durante o sistema escravagista em Pelotas. É nesse contexto que foi realizada
a cerimônia Afro no Mercado Público, em respeito à memória dos afrodescendentes que
foram vendidos nesse espaço público (trecho retirado do Manifesto).

Segundo trechos retirados da justificativa do manifesto10, o assentamento do orixá Bará, o qual se


traduz como “Aquele que sustenta a vida”, no Mercado central, tem como objetivo “fazer com que as coisas
se dinamizem e produzam prosperidade para todos (as) comparado à força física” daqueles escravos
africanos que edificaram a “economia fundante da hoje Pelotas”.
Em seguida, Mãe Gisa foi chamada pelo Ministério Público. Para audiência ela levou a autorização
da Prefeitura para realizar a cerimônia religiosa no Mercado Público da cidade, bem como levou consigo um

10
Manifesto Contra a Banalização e o Desrespeito à Religião de Matriz Africana e Afro-Umbandista em Pelotas. Ver em:
<http://mantodeoxala.blogspot.com/2012/07/manifesto-contra-banalizacao-e-o.html>.

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texto do professor e teólogo Jayro Pereira de Jesus (Membro do Comitê Nacional da Diversidade Religiosa da
Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República) justificando a realização da cerimônia religiosa.
No dia da audiência, além do advogado de defesa, outra mãe de santo, a Iyalorixá Sandrali de Oxum
(Conselheira Representante do Povo de Terreiro no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do Rio
Grande do Sul) e o teólogo de religiões afro-brasileiras Jayro de Jesus a acompanharam para auxiliarem na
sua defesa. Mãe Gisa, com o apoio destas pessoas, explicou para o Promotor de Justiça (Paulo Roberto
Gentil Charqueiro) o fundamento da religião afro-brasileira e o significado do assentamento do Orixá Bará no
Mercado Central de Pelotas. Na audiência também esclareceram que na religião não há o sacrifício de
animais, e sim, a sacralização:

No ritual religioso, houve a sacralização de animais, que passam por um processo de


insensibilização, mediante a ingestão de ervas que produzem princípios ativos dessa
natureza. Isto significa dizer que os animais não sofrem. Todos os adeptos são contra os
sofrimento dos animais, depois de sacralizados são partilhados com a comunidade. Tais
práticas se inscrevem em uma dinâmica cultural civilizatória dos Povos Africanos trazidos
compulsoriamente para o Brasil. [...] Esclarece que se os animais a serem sacralizados
11
estiverem e/ou sofreram maus tratos, não podem ser utilizados no ritual .

A ideia de se fazer o ritual do Bará do Mercado, partiu da Mãe Gisa e de outra mãe de santo,
Sandrali de Oxum do Ilê Aiê Orixá Iemanjá, a qual ajudou Mãe Gisa no processo jurídico. O vereador Ademar
Ornel, que se coloca como representante das religiões afro-brasileiras no poder legislativo municipal, ao
tomar conhecimento das intenções de Mãe Gisa, informou a ela que havia outra mãe de santo interessada
em fazer o mesmo ritual e sugeriu que fizessem a obrigação afro-religiosa juntas. Deste modo, Mãe Gisa
procurou a mãe de santo indicada pelo vereador, Joyce de Xangô representante da Sociedade Beneficente
São Jerônimo.
Depois de a Prefeitura autorizar a realização desta cerimônia religiosa, Mãe Gisa e Mãe Sandrali,
representantes da RENAFRO (Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde) na cidade, encaminharam
os procedimentos para o ritual. Durante a cerimônia Mãe Joyce tirou umas fotos do ritual, nas quais estava
exposta a família de santo de Mãe Gisa, que concordou com o procedimento a titulo de se ter um registro
histórico do acontecimento. No entanto, este não foi o entendimento de Mãe Joyce, que sem autorização de
sua companheira, divulgou as fotos para o jornal.
Após a reação negativa provocada pela divulgação indevida das imagens pelo Diário da Manhã e
que resultou na abertura de um processo pela Promotoria Pública, Mãe Joyce desapareceu, bem como sua

11
Termo de Declaração. Referente a audiência realizada na 1ª Promotoria de Justiça Especializada de Pelotas. Fotocopia do
documento gentilmente cedida pela Iyalorixá Gisa de Oxalá.

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casa de religião não foi encontrada. Ao que tudo indica os esclarecimentos prestados por Mãe Gisa, Mãe
Sandrali e o teólogo Jayro de Jesus, foram considerados satisfatórios pela Promotoria. Em relação ao Diário
da Manha, acordou-se que como medida reparatória este cederia uma coluna nas suas edições para fins de
esclarecimento da sociedade pelotense sobre os fundamentos destas práticas religiosas. Além disso, o jornal
publicou uma extensa matéria sobre o trabalho social realizado no âmbito do CEAAB, de forma que Mãe
Gisa fosse o menos possível prejudicada junto aos patrocinadores destas atividades pela difamação sofrida.
Na ocasião da entrevista, a família consanguínea e de santo estavam em processo de consulta junto a um
advogado para outras possíveis medidas reparatórias.
Portanto, observando este caso, pude perceber que as práticas religiosas de matriz africana,
principalmente os rituais que envolvem sacrifícios de animais, são as que mais repercutem na mídia, nas
redes sociais, bem como na sociedade envolvente. Em razão deste acontecimento, tive outra percepção que
foi em relação ao processo histórico da cidade, na qual a influência cultural africana foi sendo anulada,
enquanto que a cultura europeizada prevalece. Assim, observou-se que quando ocorre algum evento afro-
religioso em espaços públicos, como o caso do Mercado Público, a sociedade pelotense não percebe a
manifestação cultural de origem africana como esta fazendo parte da história da cidade, retomando um
passado histórico marcado por repressões e estigmas negativos em relação a estas manifestações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No transcorrer do trabalho até aqui apresentado foi realizada uma breve apresentação do universo
da intolerância religiosa sofrida por membros e adeptos das religiões afro-brasileiras. Assim, no decorrer
desta pesquisa, procurei demonstrar as diversas formas de manifestação da intolerância em relação à
presença afro-religiosa no espaço público, trazendo para a reflexão um conciso aporte teórico que está
relacionado a este tema.
Através desta reflexão teórica, percebi que desde a instauração da república em que prevalecia
formalmente o princípio da laicidade (separação entre Estado e Igreja), o Estado não usou da
imparciabilidade para regulamentar a diversidade de manifestações religiosas de matriz não-católica e de
legitimá-las para se expressarem no espaço público. Assim, observou-se que estas regulamentações até
meados da década de 1940, motivadas por princípios raciológicos e sanitaristas resultaram em valores e
dispositivos normativos, expressos, por exemplo, na categoria “baixo espiritismo”, que desqualificavam as
religiões afro-brasileiras nos planos moral e religioso, e que legitimavam ações de cunho repressivo por
parte do aparato estatal e policial.

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Contudo, a partir da década de 1980, observaram-se alterações no plano normativo e político,


principalmente com a instauração da nova Constituição Federal em 1988, a qual legitima as manifestações
afro-brasileiras, inclusive com os artigos 215 e 216, citados anteriormente. Assim como também teremos a
proteção, na forma de lei, as manifestações religiosas, inclusive as religiões afro-brasileiras, assegurando a
liberdade de consciência e de crença, bem como o livre exercício dos cultos religiosos e a proteção aos locais
de culto e a suas liturgias. Embora exista avanço na legislação brasileira, que legitima as manifestações afro-
religiosas, estas ainda sofrem constrangimentos por parte de autoridades públicas, de políticos e de
representantes e adeptos de outras religiões para se expressarem no espaço público e para suas práticas
religiosas serem reconhecidas perante o Estado.
Considerando os casos de intolerância religiosa que de certa forma acompanhei durante a
pesquisa, por meio de entrevistas com cinco interlocutores que passaram por constrangimentos e
analisando materiais na mídia e processos judiciais, percebi que a intolerância religiosa se manifestou de
diversas formas em diferentes esferas sociais. Pude observar também, principalmente com os casos que
passaram por processos jurídicos, como os conflitos estão sendo levados para várias instancias jurídicas, se
consolidando cada vez mais uma jurisprudência favorável às religiões de matriz africana que pode ser
tomado como efeito de um diálogo cada vez mais estreito que vem se dando entre Direito e Antropologia.
Assim, por meio desta correlação da Antropologia da Religião com a Antropologia Jurídica
podemos compreender que as religiões não se configuram de forma única, assim como na sociedade há
diversos grupos com suas especificidades culturais, na religiosidade ocorre o mesmo processo. Portanto, o
Estado, bem como os aparatos jurídico e policiais, precisa estar informados dessa diversidade cultural
brasileira, a qual está presente na religiosidade, assim como em outras diferentes formas de manifestações
culturais. Deste modo, o novo estudo do direito, conhecido como pluralismo jurídico, sendo um produto da
coletividade, tenta atender essa multietnicidade, essa diversidade cultural, bem como o pluralismo religioso
brasileiro.
Sendo assim, o motivo pelo qual o meu estudo teve como foco a intolerância religiosa em relação
às religiões de matriz africana, foi trazer para a pesquisa acadêmica a importância da interface entre o
estudo antropológico e o campo jurídico, trazendo a elucidação dos conflitos do campo religioso em relação
ao ser reconhecimento perante o Estado. Através da análise destes conflitos, percebi como a religiosidade
afro-brasileira ainda luta por um reconhecimento nos espaços jurídico e sociais e como isto está diretamente
vinculado à luta do movimento negro por igualdade social, sem discriminação e sem preconceito racial.

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