A pessoa humana

A Pessoa. através da acção (acto autónomo e livre fundado nos valores morais). é um ser aberto ao outro. singularidade e dignidade a pessoa é um fim em si mesma. irrepetível como pessoa).O que é o Personalismo? Corrente filosófica que procura evidenciar a singularidade irrepetível de cada ser pessoal e do relacionamento interpessoal. . circunstanciada a um tempo e a um espaço. tudo o resto é um meio. à imagem de Deus. Procura evidenciar: o facto de que toda a pessoa tem uma subjectividade essencial (é estruturalmente interioridade inviolável e único. Esta concepção da pessoa tem por base a reflexão bíblico-teológica e antropológica cristã. da comunicação e da comunhão. e. construtora da história e da cultura. com ela. Pela sua originalidade. sublinhando a natureza dialógica do ser humano e a sua singularidade pessoal no diálogo.

interroga-se sobre o que é e o que deve ser. A pessoa está mergulhada na natureza. no seu interior. É criadora. irrepetível. dos outros indivíduos da sua espécie. a uma espécie. um ser singular. . distinguindose. quando dizemos “pessoa” referimo-nos a um ser que é infinitamente mais do que o seu corpo consente. É um ser racional que reflecte sobre si mesmo e sobre as suas próprias acções. mas com o seu corpo. para o conhecer é preciso entrar em relação com ele. inconfundível e insubstituível. como qualquer outro animal. A pessoa não é somente alguma coisa (objecto). cativá-lo e deixar-se cativar por ele. De qualquer forma. único (singular) e unitotal. encontrar-se com ele. mas alguém (sujeito). enquanto indivíduo animal. num determinado espaço e tempo. por um determinado conjunto de características corpóreas. Todo o ser humano pertence. é.Elementos antropológicos 2. Para além do seu corpo e das características individuais.1. fazedora. não a partir do seu corpo. sobre o que faz e o que deve fazer. A pessoa humana é um sujeito situado. E neste sentido também é única: não só porque é diferente de todas as outras pessoas (singular) mas também porque o seu agir é único. É ser encarnado.

segundo os seus critérios e a sua existência. Por outro lado. Somos herdeiros da tradição. Sem deixar de ser eu. através do intelecto a pessoa chega ao universal. este conhecimento é sempre humano.2.2. ao abstracto. Conhecer. dando-me conta (incrivelmente) que me estou a pensar. penso de mim. Relacionando-se com o mundo apreende-o. interpreta-o. à verdade das coisas. reflecte sobre ele. A pessoa é alguém que conhece. Para além do conhecimento sensitivo e imaginativo. . o Homem vive na história e a história influencia-o. reflectir e compreender é realizar uma mediação entre o passado e o presente. Contudo. O ponto mais alto desta reflexão e deste conhecimento é a capacidade de reflectir-se a si próprio. universaliza-o. pensar-se a si mesmo. que não são simples informações mas vida dos outros e que nós assumimos como nossa própria vida. talhado e à medida de cada um.

que sentido tem o agir. em virtude do seu ingresso no universo moral». É o próprio Homem que. Contudo. Contudo a liberdade pressupõe a vontade. A pessoa constitui-se a «si-mesma» em liberdade. pelas suas opções. pelas suas decisões fundamentadas no conhecimento e nos valores. de forma consciente e responsável. O mundo não é apenas uma realidade para ser conhecida e contemplada. . opta livremente e cria a sua forma de vida no mundo. mas um meio que contribui para a realização pessoal do ser humano. mas também para ser humanizada. liberdade não é só agir sabendo o que se está a fazer! Liberdade implica perceber porque se está a agir de determinada maneira. qual o fim que se pretende atingir. do mesmo modo que humaniza também o Homem. autonomia e responsabilidade própria.2. Deste modo a liberdade não é um fim.3. e até à própria existência humana: «Ser homem consiste em converter-se num ser trans-natural. que valores me regem no agir. entendida como força interior que dá sentido ou significado ao agir moral. A liberdade faz parte da existência humana. da existência de cada pessoa concreta.

A pessoa revela-se na comunhão interpessoal. neste sentido. Esta relação não só possibilita a palavra e o amor. O eu a que se refere está ali quando disse eu. por excelência. não é somente sentimento afectivo-psicológico mas. Revela-se ao outro. Quando o ser humano diz eu. do gesto. mas requer necessariamente também expressar-se na palavra e no amor. sobretudo. como expressão de si. o ser da palavra e do amor. do olhar e do amor entra em relação com o outro e com as coisas. significa compreender e reconhecer o valor original presente no outro diferente de mim. E a pessoa é. refere-se a um dos dois. «Não existe nenhum eu em si. senão só o eu da palavra básica eu-tu e o eu da palavra básica eu-isso. Através da palavra.4. Ela interpela à espera de uma resposta e responde à interpelação do outro – ela é dialogal. amor. Ser eu e dizer eu é a mesma coisa». Não é possível ficar indiferente: ou o aceito ou o rejeito. A partir do momento que o outro se apresenta diante de mim. interpela o outro e sente-se interpelada. .2. e a sua presença me interpela. Também quando diz tu ou isso está presente um e outro eu das palavras básicas. exige-me que o reconheça e o ame.

tudo faz parte do seu interior e a ele recorre quando cansado. incomunicável. do qual partem todas as iniciativas e ao qual se referem todas as experiências: digo sempre eu como. e faz com que a pessoa se descubra na diferença do outro. Ver o Homem como pessoa não é só olhá-lo. é ver nele um mistério de que não se pode apropriar ou dispor. eu estudo. A pessoa é interioridade. as suas memórias. todas as suas vivências. pessoa indica o centro da própria individualidade pessoal. ser interpelado e responder. Encontrar o outro.2. A pessoa não se esgota na relação. eu durmo. mas possui uma interioridade de que a relação é expressão: o eu interior guarda em si mais do que comunica ou faz. a pessoa é uma realidade que provoca espanto. mas sobretudo admirá-lo pela sua originalidade e profundidade de ser único. as suas reflexões íntimas. Neste sentido.5. é segredo. o euinterioridade. A pessoa é um mistério que nunca pode ser revelado totalmente: por isso é que não se torna enfadonha. eu trabalho. é sempre encontrar-se com um outro diferente de mim. Há sempre algo que no encontro com o outro permanece indizível. Por outro lado. o que provoca a alteridade. . A pessoa é segredo! E é no segredo que Deus fala.

A pessoa é um ser comunitário. ajuda-a a crescer e pede-lhe que contribua para o crescimento de todos. Nela nasce. ao valorizar aquele que temos à nossa frente. age. por seu lado. e relaciona-se de tal forma que dá lugar a um nós. acolhe-a.2. . vive. O Homem experimenta-se. Esse nós surge ao viver um projecto comum. ao integrá-lo nos nossos projectos. aprende. a um próximo. ao comungar com ele. Porque existe no tempo e no espaço. A comunidade. ao abrirmo-nos a ele para reconhecê-lo e acolhê-lo. relaciona-se. educa-a. assim. sem deixar de ser eu. a pessoa é moldada por uma determinada cultura de uma determinada comunidade. referindo-se a um tu.6. cresce. O outro não é um mero semelhante mas um próximo.

mas é-lhes anterior e possibilita o encontro e a comunhão interpessoal. Por outro lado. O Homem não se contenta em permanecer fechado em si mesmo: anseia um ideal. apontando para um mais além.7. a pessoa ultrapassa-se constantemente. A pessoa manifesta um carácter sagrado e transcendente. Neste sentido a realidade da pessoa é uma realidade sagrada. uma realidade que não vem de si nem de outro. uma finalidade última. Manifesta-se sobretudo no facto de não se poder dispor dela. A pessoa reconhece-se como uma realidade criada. anterior a si mesma. .2. a vida é-lhe dada. A sua vida é continuidade da vida. de não se poder usá-la simples e racionalmente como meio.

a comunidade. que se encontram. mas uma pessoa). que inter-agem. O NÓS. que se relacionam. que dialogam. resulta do encontro entre pessoas que se reconhecem mutuamente livres. O outro é um TU com quem me relaciono (não um objecto. . na sua relação com o outro (TU) e na criação de laços de comunhão colectivos (NÓS). que se amam. que partilham.Concluindo A humanidade realiza-se no indivíduo/pessoa (EU). Isto implica abertura ao outro naquilo que ele é e pressupõe solidariedade e fraternidade… É num TU que me identifico como um EU.

Isso pressupõe encontro. 2.º Que Imagem de homem identificamos na cultura ocidental? Pontos de contacto e de separação com a perspectiva antropológica cristã.º Parecer geral do grupo sobre os conteúdos/conceitos apresentados.Para reflectir 1. conhecimento. intimidade. 3. partilha. … Consideram esta visão antropológica .º O Personalismo cristão apela constantemente à relação amorosa do eu com o tu em ordem a um nós (comunhão). diálogo. doação.

dá-se (contra-dom). O Homem: criado e criador «Deus disse: “Façamos o homem…”. O mundo é dom e missão – não é só natureza mas história! A criação tem o seu ponto mais alto Em Jesus de Nazaré. ama e dá valor às coisas que cria. por amor. e. desejando cria. “Façamos” refere-se ao dom de um Tu pessoal que intencionalmente cria. 1. 28). multiplicai-vos. Filho de Deus. como co-criador. interpelando-o a amar como Ele ama. Em . «Sede fecundos. O Homem recebe-se e recebe o mundo como dom. 26-27) A noção fundamental da criação é a da relação amora que Deus criador tem com a sua criatura predilecta. O Homem compreende-se a si mesmo como “partner” de Deus no progresso da criação. enchei a terra e submetei-a» (Gn.…» (Gn. homem. e volta o seu rosto para a sua criatura.Dois elementos bíblico-teológicos 1.1. O Criador é um Deus pessoal que. Deus criou o homem. Deus faz do Homem seu “partner”. 1.

a quem convida para uma aliança. imagem e semelhança de Deus «“Façamos o homem à nossa imagem. A pessoa. Deus viu tudo o que tinha feito: e era tudo muito bom» (Gn. 2.2. a quem Deus dirige um mandamento (Gn. como nossa semelhança. Por outro lado. 26-27. o Homem tem uma especial dignidade e superioridade em relação às outras criaturas.1. 1. que lhe advêm do facto deste ser interlocutor de Deus.1. o Homem aparece como sujeito de consciência e liberdade com quem Deus dialoga e de quem Deus espera acolhimento e colaboração.31) Nada no cosmos é comparável ao Homem! Desde o ponto de vista bíblico. . 16). Deus criou o homem à sua imagem.…. 28. E o Homem encontra o sentido para a vida neste diálogo de “partner” com Deus. …”.

a pessoa realiza-se como imagem de um Deus Trinitário revelado por Jesus Cristo na dimensão comunitária: na relação com o outro reflecte-se a perfeição divina. Desde o princípio criou-os “homem e mulher”. e a sua união constitui a primeira forma de comunhão entre pessoas. 20)]. No Novo Testamento. com os outros e para os outros (à imagem de Deus). diferente da relação com as outras criaturas. ser em comunhão. o Homem descobre-se como ser em relação.Criado homem e mulher. É. imagem de Deus porque é co-criador [simbolicamente nomeia os outros animais (Gn. A Pessoa não foi feita para estar só mas em comunidade. 2. . também.

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