A pessoa humana - Sec UL7

A pessoa humana

Esta concepção da pessoa tem por base a reflexão bíblico-teológica e antropológica cristã. singularidade e dignidade a pessoa é um fim em si mesma. com ela. da comunicação e da comunhão. A Pessoa. e. construtora da história e da cultura.O que é o Personalismo? Corrente filosófica que procura evidenciar a singularidade irrepetível de cada ser pessoal e do relacionamento interpessoal. circunstanciada a um tempo e a um espaço. através da acção (acto autónomo e livre fundado nos valores morais). é um ser aberto ao outro. sublinhando a natureza dialógica do ser humano e a sua singularidade pessoal no diálogo. Pela sua originalidade. tudo o resto é um meio. Procura evidenciar: o facto de que toda a pessoa tem uma subjectividade essencial (é estruturalmente interioridade inviolável e único. . à imagem de Deus. irrepetível como pessoa).

único (singular) e unitotal. não a partir do seu corpo. interroga-se sobre o que é e o que deve ser. Para além do seu corpo e das características individuais. cativá-lo e deixar-se cativar por ele. para o conhecer é preciso entrar em relação com ele. num determinado espaço e tempo. distinguindose. É ser encarnado. Todo o ser humano pertence.1. é. enquanto indivíduo animal. mas alguém (sujeito). A pessoa não é somente alguma coisa (objecto). mas com o seu corpo. encontrar-se com ele. irrepetível. E neste sentido também é única: não só porque é diferente de todas as outras pessoas (singular) mas também porque o seu agir é único. no seu interior. De qualquer forma. inconfundível e insubstituível. por um determinado conjunto de características corpóreas. como qualquer outro animal. . É criadora. É um ser racional que reflecte sobre si mesmo e sobre as suas próprias acções. A pessoa está mergulhada na natureza. dos outros indivíduos da sua espécie. sobre o que faz e o que deve fazer. quando dizemos “pessoa” referimo-nos a um ser que é infinitamente mais do que o seu corpo consente. um ser singular.Elementos antropológicos 2. A pessoa humana é um sujeito situado. a uma espécie. fazedora.

penso de mim.2. Para além do conhecimento sensitivo e imaginativo. universaliza-o. reflectir e compreender é realizar uma mediação entre o passado e o presente. dando-me conta (incrivelmente) que me estou a pensar. O ponto mais alto desta reflexão e deste conhecimento é a capacidade de reflectir-se a si próprio. este conhecimento é sempre humano. Por outro lado. . à verdade das coisas. interpreta-o. o Homem vive na história e a história influencia-o. Relacionando-se com o mundo apreende-o. ao abstracto. Conhecer. Sem deixar de ser eu. através do intelecto a pessoa chega ao universal. reflecte sobre ele. Contudo. talhado e à medida de cada um. pensar-se a si mesmo.2. Somos herdeiros da tradição. que não são simples informações mas vida dos outros e que nós assumimos como nossa própria vida. segundo os seus critérios e a sua existência. A pessoa é alguém que conhece.

que valores me regem no agir. autonomia e responsabilidade própria. do mesmo modo que humaniza também o Homem. de forma consciente e responsável. pelas suas decisões fundamentadas no conhecimento e nos valores. . opta livremente e cria a sua forma de vida no mundo. Deste modo a liberdade não é um fim.2. e até à própria existência humana: «Ser homem consiste em converter-se num ser trans-natural. entendida como força interior que dá sentido ou significado ao agir moral. pelas suas opções. A pessoa constitui-se a «si-mesma» em liberdade. mas também para ser humanizada. em virtude do seu ingresso no universo moral». da existência de cada pessoa concreta. Contudo. Contudo a liberdade pressupõe a vontade. É o próprio Homem que. A liberdade faz parte da existência humana. O mundo não é apenas uma realidade para ser conhecida e contemplada. liberdade não é só agir sabendo o que se está a fazer! Liberdade implica perceber porque se está a agir de determinada maneira. qual o fim que se pretende atingir. que sentido tem o agir. mas um meio que contribui para a realização pessoal do ser humano.3.

significa compreender e reconhecer o valor original presente no outro diferente de mim. Quando o ser humano diz eu. refere-se a um dos dois. mas requer necessariamente também expressar-se na palavra e no amor. neste sentido. o ser da palavra e do amor. Esta relação não só possibilita a palavra e o amor. «Não existe nenhum eu em si. Ela interpela à espera de uma resposta e responde à interpelação do outro – ela é dialogal. Também quando diz tu ou isso está presente um e outro eu das palavras básicas. Revela-se ao outro. A partir do momento que o outro se apresenta diante de mim.2. como expressão de si. não é somente sentimento afectivo-psicológico mas. por excelência. Não é possível ficar indiferente: ou o aceito ou o rejeito. interpela o outro e sente-se interpelada. Ser eu e dizer eu é a mesma coisa». amor. A pessoa revela-se na comunhão interpessoal. O eu a que se refere está ali quando disse eu. e a sua presença me interpela. E a pessoa é.4. do olhar e do amor entra em relação com o outro e com as coisas. sobretudo. senão só o eu da palavra básica eu-tu e o eu da palavra básica eu-isso. do gesto. Através da palavra. exige-me que o reconheça e o ame. .

A pessoa não se esgota na relação. as suas reflexões íntimas. a pessoa é uma realidade que provoca espanto. eu durmo. do qual partem todas as iniciativas e ao qual se referem todas as experiências: digo sempre eu como. é sempre encontrar-se com um outro diferente de mim. as suas memórias. . A pessoa é interioridade. incomunicável. mas sobretudo admirá-lo pela sua originalidade e profundidade de ser único. Ver o Homem como pessoa não é só olhá-lo. o euinterioridade.2. o que provoca a alteridade. A pessoa é segredo! E é no segredo que Deus fala. eu estudo. Encontrar o outro. e faz com que a pessoa se descubra na diferença do outro. Há sempre algo que no encontro com o outro permanece indizível. ser interpelado e responder. é segredo.5. tudo faz parte do seu interior e a ele recorre quando cansado. A pessoa é um mistério que nunca pode ser revelado totalmente: por isso é que não se torna enfadonha. Neste sentido. todas as suas vivências. eu trabalho. Por outro lado. é ver nele um mistério de que não se pode apropriar ou dispor. mas possui uma interioridade de que a relação é expressão: o eu interior guarda em si mais do que comunica ou faz. pessoa indica o centro da própria individualidade pessoal.

A comunidade. O Homem experimenta-se. . a um próximo. ao integrá-lo nos nossos projectos. age. Nela nasce. por seu lado.6. ao valorizar aquele que temos à nossa frente. cresce. sem deixar de ser eu. a pessoa é moldada por uma determinada cultura de uma determinada comunidade. Esse nós surge ao viver um projecto comum. assim. ao abrirmo-nos a ele para reconhecê-lo e acolhê-lo. relaciona-se. O outro não é um mero semelhante mas um próximo. ao comungar com ele. acolhe-a. Porque existe no tempo e no espaço. aprende. e relaciona-se de tal forma que dá lugar a um nós. educa-a. vive. A pessoa é um ser comunitário.2. referindo-se a um tu. ajuda-a a crescer e pede-lhe que contribua para o crescimento de todos.

a vida é-lhe dada. anterior a si mesma. A pessoa manifesta um carácter sagrado e transcendente. Manifesta-se sobretudo no facto de não se poder dispor dela. mas é-lhes anterior e possibilita o encontro e a comunhão interpessoal. Por outro lado. O Homem não se contenta em permanecer fechado em si mesmo: anseia um ideal. uma finalidade última. . uma realidade que não vem de si nem de outro.2.7. A sua vida é continuidade da vida. Neste sentido a realidade da pessoa é uma realidade sagrada. a pessoa ultrapassa-se constantemente. apontando para um mais além. A pessoa reconhece-se como uma realidade criada. de não se poder usá-la simples e racionalmente como meio.

a comunidade. O NÓS. na sua relação com o outro (TU) e na criação de laços de comunhão colectivos (NÓS). que se amam.Concluindo A humanidade realiza-se no indivíduo/pessoa (EU). . O outro é um TU com quem me relaciono (não um objecto. resulta do encontro entre pessoas que se reconhecem mutuamente livres. que se relacionam. Isto implica abertura ao outro naquilo que ele é e pressupõe solidariedade e fraternidade… É num TU que me identifico como um EU. que partilham. que se encontram. que dialogam. que inter-agem. mas uma pessoa).

Isso pressupõe encontro.Para reflectir 1. doação. conhecimento.º Que Imagem de homem identificamos na cultura ocidental? Pontos de contacto e de separação com a perspectiva antropológica cristã. diálogo.º O Personalismo cristão apela constantemente à relação amorosa do eu com o tu em ordem a um nós (comunhão). 2.º Parecer geral do grupo sobre os conteúdos/conceitos apresentados. 3. … Consideram esta visão antropológica . intimidade. partilha.

O Homem compreende-se a si mesmo como “partner” de Deus no progresso da criação. Filho de Deus. 1. por amor.…» (Gn. 1. Deus faz do Homem seu “partner”. “Façamos” refere-se ao dom de um Tu pessoal que intencionalmente cria. 26-27) A noção fundamental da criação é a da relação amora que Deus criador tem com a sua criatura predilecta. desejando cria. O Homem: criado e criador «Deus disse: “Façamos o homem…”. «Sede fecundos. O mundo é dom e missão – não é só natureza mas história! A criação tem o seu ponto mais alto Em Jesus de Nazaré. homem. O Homem recebe-se e recebe o mundo como dom. e. enchei a terra e submetei-a» (Gn. O Criador é um Deus pessoal que. interpelando-o a amar como Ele ama.1. multiplicai-vos. ama e dá valor às coisas que cria. Em . dá-se (contra-dom).Dois elementos bíblico-teológicos 1. Deus criou o homem. 28). e volta o seu rosto para a sua criatura. como co-criador.

1. 2.1. 26-27. 1. imagem e semelhança de Deus «“Façamos o homem à nossa imagem. Deus viu tudo o que tinha feito: e era tudo muito bom» (Gn. …”. Por outro lado. A pessoa. o Homem tem uma especial dignidade e superioridade em relação às outras criaturas. E o Homem encontra o sentido para a vida neste diálogo de “partner” com Deus. Deus criou o homem à sua imagem. . a quem Deus dirige um mandamento (Gn. que lhe advêm do facto deste ser interlocutor de Deus.31) Nada no cosmos é comparável ao Homem! Desde o ponto de vista bíblico. 16).…. como nossa semelhança.2. a quem convida para uma aliança. 28. o Homem aparece como sujeito de consciência e liberdade com quem Deus dialoga e de quem Deus espera acolhimento e colaboração.

20)]. e a sua união constitui a primeira forma de comunhão entre pessoas. também. . diferente da relação com as outras criaturas. No Novo Testamento. Desde o princípio criou-os “homem e mulher”. A Pessoa não foi feita para estar só mas em comunidade. imagem de Deus porque é co-criador [simbolicamente nomeia os outros animais (Gn. o Homem descobre-se como ser em relação. 2. É. com os outros e para os outros (à imagem de Deus). ser em comunhão. a pessoa realiza-se como imagem de um Deus Trinitário revelado por Jesus Cristo na dimensão comunitária: na relação com o outro reflecte-se a perfeição divina.Criado homem e mulher.

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