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COMO NOS COMUNICAMOS?

- Dan Sperber

Comunicarmo-nos. Nós, seres humanos, o fazemos o tempo todo, e na


maioria das vezes sem perceber. Falamos, ouvimos, escrevemos, lemos — como
você está fazendo agora mesmo — ou desenhamos, fazemos mímica, dizemos
que sim com a cabeça, apontamos, damos de ombros, e, de alguma maneira,
conseguimos que os outros entendam nossos pensamentos. E claro, há momentos
em que encaramos a comunicação como algo difícil e até impossível de
alcançar. Entretanto, comparados com outros seres vivos, somos incrivelmente
bons nisso. Outras espécies, se é que se comunicam, têm um repertório diminuto
de sinais que são usados para afirmar repetidas vezes coisas como: “Este é meu
território”, “Perigo, corra!” ou “Pronto para o sexo”.
Comunicar-se é a tentativa de fazer com que alguém compartilhe seus
pensamentos — bem, pelo menos parte deles. Mas como podemos compartilhar
pensamentos? Pensamentos não são coisas que vivem soltas em campo aberto,
não podem ser fatiados como bolos ou usados coletivamente como ônibus. São
assuntos extremamente particulares. Os pensamentos nascem, vivem e morrem
dentro de nossos cérebros. Eles nunca saem realmente de nossas cabeças (apesar
de falarmos como se saíssem, mas trata-se de uma metáfora). A única coisa
produzida por uma pessoa para que outra a veja ou ouça é o comportamento e os
vestígios que ele deixa: movimento, barulho, gravetos quebrados, manchas de
tinta etc. Essas coisas não são pensamentos, elas não “contêm” pensamentos
(essa é mais uma metáfora) , no entanto alguns desses comportamentos ou
rastros servem para representar pensamentos.
Como é possível que ocorra esse tipo de comunicação? Existe uma velha
história — data, pelo menos, do tempo do filósofo grego Aristóteles — que
indubitavelmente você já ouviu várias vezes. O que torna a comunicação
possível, diz a história, é uma linguagem comum. Uma língua como o inglês é
um tipo de código em que sons são associados a significados e vice-versa. Então,
se Jill quer comunicar algo a Jack, ela procura em sua gramática mental um som
associado ao significado do que deseja comunicar e produz esse som para que
Jack o escute. Jack, então, procura em sua gramática mental o significado
daquele som em particular. Dessa forma ele pode decifrar o que Jill tinha em
mente. E claro que todo esse processo é automático e inconsciente (exceto nos
momentos em que não conseguimos encontrar as palavras, e a busca por elas
acaba se tornando dolorosa). Graças a essa conversão dupla — a codificação dos
significados em sons e a decodificação desses sons em significados —, Jill e Jack
podem compartilhar um pensamento. Bem, “compartilhar” ainda pode ser uma
metáfora, mas agora pelo menos sabemos como entender isso claramente. Será
que sabemos?
A velha história do “nos comunicamos graças a uma linguagem comum” é
simples e inteligente. Seria uma excelente explicação, se fosse verdadeira. Na
verdade, tal história é verdadeira na maior parte dos processos de comunicação
entre os animais. Abelhas e. macacos têm seus próprios códigos rudimentares e,
seja lá o que comunicarem, o fazem através de codificação e decodificação.
Não ocorre o mesmo conosco, seres humanos. De fato, temos línguas ricas e
muitos outros códigos secundários também, mas — e nesse ponto aquela velha
história cai por terra—conseguimos nos comunicar muito além daquilo que
codificamos e decodificamos, e não apenas eventualmente, mas o tempo todo.
Portanto, o fato de termos uma linguagem é, no máximo, apenas parte da
história.
Deixe-me exemplificar. Imagine que você está matando tempo num
aeroporto. Há uma mulher sentada num banco próximo e você a escuta dizer ao
companheiro dela: “Está atrasado”. Você já escutou e até mesmo pronunciou
essas palavras inúmeras vezes. Você sabe o que elas significam? Certamente.
Mas você sabe o que a mulher quis dizer ao pronunciá-las naquele momento?
Pense nisso. Ela poderia estar se referindo a um voo que sairia ou chegaria
atrasado. Ela poderia estar se referindo a uma carta que esperava ou ao atraso na
chegada da primavera. Ela poderia nem estar falando de algo especial; poderia
estar apenas constatando que já era final de tarde, ou de noite, ou que algo estava
atrasado em sua vida. E mais, “atrasado” sempre se refere a algum horário ou
expectativa; alguém pode estar atrasado para o almoço mas adiantado para o
jantar. Portanto, ela deve ter dito “atrasado” em relação a algo, mas o quê?
Eu poderia me alongar em considerações, mas deve estar claro que, apesar
de saber perfeitamente o que as palavras pronunciadas pela mulher queriam
dizer, você não sabe o que ela queria dizer. Curiosamente, o companheiro dela
não parece confuso. Ele parece tê-la entendido. E se você parar para pensar verá
que, muitas vezes, era você a pessoa que escutava “Está atrasado”, e entendia
exatamente o que o interlocutor queria dizer. Você não teve que pensar sobre os
vários significados possíveis da frase “Está atrasado”. Será essa frase um caso
especial? De modo algum. Qualquer frase em inglês — francês ou suaíle — pode
ter significados diferentes em diversas ocasiões, e serviria para ilustrar o que
acabei de dizer.
Por isso, os linguistas acharam necessário fazer distinção entre “significado
da sentença” e “significado pretendido pelo interlocutor”. Os linguistas são os
únicos interessados no significado das frases em si. Para o resto de nós, o
significado da sentença é algo para o qual normalmente não estamos atentos. E
algo que usamos inconscientemente como um meio de atingir a nossa verdadeira
finalidade, que é entender as pessoas e nos fazermos entender. O significado
pretendido pelo interlocutor — o que realmente nos interessa — sempre vai além
do significado da sentença: é menos ambíguo (apesar de poder ter suas próprias
ambiguidades) ; mais preciso em alguns aspectos e, frequente- mente, menos
preciso em outros; tem um rico conteúdo implícito. O significado da sentença
nada mais é que um esboço. Nós chegamos ao significado pretendido pelo
interlocutor ao completarmos esse esboço.
Como chegamos ao significado pretendido através do significado da
sentença? Como materializamos o esboço? Nos últimos vinte anos, ou algo
próximo disso, tem se tornado óbvio que para captar o significado do interlocutor
usamos inferências. Inferência é apenas o termo usado pelos psicólogos ao se
referirem ao que comumente chamamos de “raciocínio”. Como o raciocínio, a
inferência consiste em partir de algumas considerações iniciais e chegar, através
de uma série de passos, a uma conclusão final. Os psicólogos, entretanto, não
estão apenas sendo pretensiosos ao utilizar uma palavra mais incomum. Quando
a maioria de nós se refere ao raciocínio, logo pensamos em um processo mental
ocasional, consciente, difícil e até, por vezes, lento.
O que a psicologia moderna demonstrou é que algo parecido com o
raciocínio acontece permanentemente — de forma inconsciente, indolor e
rápida. Quando os psicólogos falam sobre a inferência, estão se referindo,
primeira e principalmente, a essa atividade mental constante. Eis, portanto, a
forma como os psicólogos e linguistas da atualidade veem a maneira como uma
pessoa entende o que outra tem a dizer. Quando alguém lhe diz algo — por
exemplo, “Está atrasado” —, primeiro você decodifica o significado da sentença
e depois infere sobre o significado daquilo para o interlocutor. Tudo isso, no
entanto, acontece tão rápido e de maneira tão fácil que parece ser um processo
imediato e que não requer esforço.
Como, então, poderíamos rever nosso entendimento sobre a comunicação
humana? A primeira resposta é permanecer o mais perto possível da velha teoria
sobre codificação e decodificação. Numa versão atualizada, ela pode ser mais ou
menos a seguinte: o que torna a comunicação possível é a existência de uma
linguagem comum, como sempre dissemos; entretanto, dada a inteligência
humana, você não precisa codificar tudo o que quer dizer, ou codificá-lo de
maneira exata, para ser entendido. Você pode esperar que seus ouvintes infiram
o significado completo do que quis dizer através de um conhecimento prévio da
situação, somado ao que você acabou de pronunciar. Por que dizer “O voo de sua
mãe chegará atrasado, e tão atrasado que não poderemos esperar por ele mais
nem um minuto. Eu lhe disse que deveríamos ter ficado em casa”, quando “Está
atrasado!” com a entonação correta pode conter toda essa informação e até
mais? O papel da inferência na comunicação é ser o ponto opcional do qual se
extraem significados adicionais. Tudo de que realmente precisamos para nos
comunicar é uma linguagem comum, mas a inferência nos fornece
procedimentos rápidos e atalhos eficientes demais para serem deixados de lado.
Muitos psicólogos e linguistas aceitam essa versão atualizada da velha história.
Outros não. Na tentativa de entender o tipo de inferência envolvida na
comunicação, alguns de nós viramos essa velha história de ponta-cabeça.
Atualmente achamos que a comunicação humana é primeira e principalmente
uma questão de inferência, e que a linguagem é o ponto opcional. Aqui vai a
nova versão.
Há um milhão de anos, suponhamos, nossos ancestrais não possuíam nenhum
tipo de linguagem. Um deles — vamos chamá-lo de Jack—estava observando
uma ancestral — vamos chamá-la de Jill — colhendo pequenas frutinhas. O que
Jack compreendeu do que Jill fazia? Ele pode ter considerado o comportamento
dela apenas uma sequência de movimentos corporais, ou então um ato
intencional, talvez com o objetivo de colher amoras para comer. Entender o
comportamento de um animal inteligente como um ato intencional é,
geralmente, muito mais esclarecedor e útil do que considerá-lo mero
movimento. Mas será que nossos ancestrais eram capazes de identificar
intenções por trás dos comportamentos uns dos outros?
Você tem que ser duplamente inteligente para enxergar a inteligência no
outro. Você precisa da habilidade de representar, na própria mente, as
representações mentais de outras criaturas. Você precisa, em outras palavras, ter
a habilidade de cogitar representações das representações, o que, em nosso
jargão, chamamos “metarrepresentações”. A maioria dos animais não possui
nenhuma capacidade de fazer metarrepresentações. No mundo que enxergam
não existem mentes, apenas corpos. Os chimpanzés e outros parentes próximos
do ser humano parecem ter uma capacidade rudimentar de fazer
metarrepresentações. E, no que
diz respeito a Jack, aposto que ele percebeu muito bem as intenções de Jill, e
não apenas seus movimentos. De fato, ele provavelmente era dotado o suficiente
para deduzir, a partir do comportamento de Jill, não apenas a intenção dela como
também uma de suas crenças: a de que aquelas frutas eram comestíveis.
Se você é capaz de deduzir as crenças de outras pessoas através da
observação de seu comportamento, pode se beneficiar do conhecimento dessas
pessoas e descobrir fatos dos quais você não tem experiência direta. Jack poderia
não saber que as frutas eram comestíveis, mas ver Jill colhendo- as deu-lhe uma
boa razão para acreditar que eram. Mesmo sem o uso da língua ou da
comunicação, pode ser possível descobrir os pensamentos de outra pessoa e
torná-los seus.
Ao mesmo tempo, Jill era tão inteligente quanto Jack. Ela percebeu que ele a
observava, e sabia que deduziria algo sobre seu comportamento. Ela pode ter
gostado de Jack e ficado feliz, pois seu comportamento serviria a dois propósitos:
dar a ela o alimento e a Jack uma informação. De fato, talvez Jill nem precisasse
das frutinhas e seu objetivo principal ao colhê-las fosse mostrar a Jack que eram
comestíveis. Mas pense bem: talvez ela odiasse Jack e, sabendo que aquelas
frutinhas eram venenosas, estivesse tentando enganá-lo! Nós estamos nos
aproximando da comunicação verdadeira, com todos os seus artifícios, mas a
língua ainda não entrou em cena. Existe outra grande diferença entre a tentativa
de Jill de informar ou enganar Jack e a comunicação humana comum. Esta se dá
abertamente. Por outro lado, naquele caso Jack não conseguiria perceber que Jill
está tentando alterar os pensamentos dele.
E se Jack entender que a verdadeira intenção de Jill ao colher frutas é
mostrar-lhe que elas são comestíveis? Se confiar em Jill, ele acreditará; caso
contrário, não. E se Jill achar que Jack capta sua verdadeira intenção? Bem, nesse
caso, um leque enorme de possibilidades é aberto! Se Jack percebe que a
intenção de Jill é informá-lo, ela poderia então falar abertamente sobre isso. Jill
não precisa mais colher as frutas. Tudo o que tem de fazer é mostrar a Jack que
ela quer que ele saiba que as frutas são comestíveis. Pode, para tanto, lançar mão
de símbolos.
Jill poderia, por exemplo, olhar para as frutas longamente e depois mover os
lábios, ou poderia fazer uma mímica como se as comesse. Jack se perguntaria:
“Por que ela está fazendo aquilo?”. Uma vez que percebesse que ela agia
daquele modo para o bem dele, não seria difícil deduzir sua intenção, ou, em
outras palavras, o que ela queria dizer com tudo aquilo. Isso é manifestamente
comunicação, no entanto ainda sem a presença da língua. Tudo o que Jill faz é
dar dicas sobre sua intenção, e tudo o que Jack faz é deduzir qual é a intenção, a
partir das evidências fornecidas. Nenhuma daquelas dicas é linguística, nem
mesmo semelhante a um código.
Para criaturas capazes de se comunicar através de inferências ou deduções,
como nesse caso, uma língua seria tremendamente útil. Palavras são ainda
melhores do que mímica quando se trata de colocar ideias na mente das pessoas.
Se Jill tivesse sido capaz de pronunciar comida, ou bom, Jack poderia ter deduzido
sua intenção (o significado completo daquela intenção) através do
comportamento verbal tão facilmente quanto o fez através da mímica. Com uma
linguagem mais rica, Jill poderia ter evidenciado coisas com significados mais
complexos. Na verdade, naquela época, nossos ancestrais não falavam.
Entretanto, a capacidade que tinham de se comunicar através de deduções criou
um ambiente onde a língua surgiria como uma grande vantagem, e assim evoluiu
no ser humano a capacidade de desenvolvê-la.
A nova versão da história é, portanto, que a comunicação humana é o produto
da capacidade humana de realizar metarrepresentações. A habilidade de realizar
deduções sofisticadas sobre os estados mentais do outro evoluiu em nossos
ancestrais como um meio de entender e predizer o comportamento alheio. Isso,
por sua vez, abriu a possibilidade de se agir abertamente para que os
pensamentos fossem revelados aos outros. Como consequência, criaram-se
condições para o desenvolvimento da língua. Esta tornou a comunicação por
deduções imensamente mais eficiente. Não mudou seu caráter. Toda a
comunicação humana, lin- güística ou não, tem caráter essencialmente dedutivo.
Se fornecemos dicas de nossas intenções colhendo frutinhas, fazendo mímicas,
falando ou escrevendo — como acabo de fazer —, confiamos basicamente na
capacidade dos outros de deduzir o que realmente queremos dizer.

DAN SPERBER é pesquisador sênior do Centre National de la Recherche


Scientifique e da Ecole Poly technique de Paris. Juntamente com o linguista
britânico Deirdre Wilson, escreveu Relevance: Communication and Cognition,
onde desenvolvem um enfoque controverso e perturbador sobre a comunicação
humana, e Relevance Theory, que vem inspirando muitas pesquisas inovadoras. É
também autor de Rethinking Symbolism e On Anthropological Knowledge.