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EH

estudos históricos

71 | Revolução de 30

ISSN 2178-1494 | 2020


estudos históricos

EH69
71 Humanidades
Revolução de 30
Digitais

ISSN 2178-1494
Estudos Históricos, volume 33, número 71, set.-dez. de 2020. Rio de Janeiro: Centro de Pesquisa e
Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas, 1988
Quadrimestral
Resumos em português, inglês e espanhol
Editada e distribuída pela Editora Fundação Getulio Vargas
ISSN: 2178-1494.
1. História 2. Historiografia 3. Periódicos 4. Ciências Sociais 5. Economia e Sociedade.
I – : Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas
CDD 981.005
CDU 981(051)

E-mail: eh@fgv.br
Endereço na internet: http://www.fgv.br/cpdoc/revista
Endereço postal: Fundação Getulio Vargas/CPDOC
Secretaria da Revista Estudos Históricos
Praia de Botafogo, 190, 14º andar, Rio de Janeiro 22.523-900 RJ
Produção Editorial: Zeppelini Publishers
H estudos históricos 71 Revolução de 30
Rio de Janeiro, vol. 33. n 71, p. 445-667, setembro-dezembro 2020
o

Editorial

Revolução de 30 | 445
30 Revolution
Revolución de 30
Marco Aurélio Vannucchi

Colaborações Especiais

A leniência e Vargas: falas da História | 448


The Leniency towards Vargas: the narratives of history
La indulgencia hacia Vargas: los discursos de la historia
Elizabeth Cancelli

Contra o liberalismo e o comunismo: uma democracia autoritária | 469


Against liberalism and communism: an authoritarian democracy
Contra el liberalismo y el comunismo: una democracia autoritaria
Marly Vianna

O reino social de Cristo e a constituição orgânica da nação: das encíclicas de Leão XIII ao pensamento católico
brasileiro do início dos anos trinta | 489
The Christ’s Social Kingdom and the Nation’s Organic Constitution: from Leo XIII’s encyclicals to the Brazilian Catholic thought of the
early thirties

El Reino social de Cristo y la Constitución orgánica de la nación: desde las encíclicas de León XIII hasta el pensamiento católico brasileño
de inicio de los años treinta

Andrei Koerner

ARTIGOS

Revolução nas políticas públicas: a institucionalização das mudanças na economia, de 1930 a 1945 | 511
The revolution in public policies: the institutionalization of changes in the Brazilian economy, from 1930 to 1945
Revolución de las políticas públicas: la institucionalización de los cambios en la economía brasileña, de 1930 a 1945
Antonio Lassance
Cidadania regulada e Era Vargas: a interpretação de Wanderley Guilherme Dos Santos e sua fortuna crítica | 539
Regulated citizenship and the Vargas Era: the interpretation of Wanderley Guilherme dos Santos and his critical fortune
La ciudadanía regulada y el periodo Vargas: la interpretación de Wanderley Guilherme dos Santos y su fortuna crítica
Marcelo Sevaybricker Moreira e Ronaldo Teodoro dos Santos

Alberto Pasqualini e Getúlio Vargas: revisitando interpretações | 559


Alberto Pasqualini and Getúlio Vargas: reexamining interpretations
Alberto Pasqualini y Getúlio Vargas: revisitando interpretaciones
Douglas Souza Angelii

Insurgentes incendeiam a cidade da Bahia. O Quebra Bondes e a Revolução de 30 | 579


Insurgents set fire to the city of Bahia. The tramway riot and the October Revolution of 1930
Los insurgentes queman la ciudad de Bahia. El motín de tranvía y la Revolución de Octubre de 1930
Antonio Luigi Negro e Jonas Brito

O Código Eleitoral de 1932 e as eleições da Era Vargas: um passo na direção da democracia? | 600
The 1932 Electoral Code and the Vargas Era’s elections: a step toward democracy?
El Código Electoral de 1932 y las elecciones de la Era Vargas: ¿un paso hacia la democracia?
Jaqueline Porto Zulini e Paolo Ricci

Das armas às urnas: a participação dos coronéis da Bahia na Revolução de 1930 | 624
From guns to ballot boxes: the role of coron els from Bahia in the Revolution of 1930
De las armas a las urnas: la participación de los coroneles de Bahía en la Revolución de 1930
Eliana Evangelista Batista

Os anos trinta nas memórias e no arquivo de Paulo Duarte: uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas | 644
The 1930s in Paulo Duarte’s memoirs and archive: a political culture of opposition to Getúlio Vargas
Los años treinta en las memoria y los archivos de Paulo Duarte: una cultura política de oposición a Getúlio Vargas
Carolina Soares Sousa

ERRATA | 667
E d i t o r i a l

Revolução de 1930

1930 Revolution

Revolución de 1930

Marco Aurélio VannucchiI*

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942020000300001

Escola de Ciências Sociais, Fundação Getulio Vargas – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
I

*Editor convidado. Professor da Escola de Ciências Sociais, Fundação Getulio Vargas (marco.vannucchi@fgv.br).
https://orcid.org/0000-0002-6481-8720

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.445-447, Setembro-Dezembro 2020 445
Marco Aurélio Vannucchi

A Revolução de 1930 e o regime instalado a partir de então foram examina-


dos nas décadas de 1960 e 1970 por um conjunto de autores que nos le-
garam uma valiosa visão abrangente. Pertencentes às primeiras gerações de cientistas sociais
profissionalizados no Brasil, esses autores realizaram trabalhos de grande fôlego empírico
e densidade teórica. Uma parte significativa dessa produção derivou de doutorados cursa-
dos nos pioneiros programas de pós-graduação em Ciências Sociais do país ou em presti-
giadas universidades estadunidenses e europeias. Os historiadores chegaram mais tarde a
esse campo de estudos, e apenas na passagem para a década de 1980 sua produção tomou
volume. Constituída por trabalhos de alto nível acadêmico, a historiografia acerca da Era
Vargas empenhou-se pouco em oferecer análises generalizantes. Ainda assim, contribuiu para
o conhecimento mais aprofundado de determinados aspectos do período, destacadamente as
condições de vida, a organização política e o relacionamento com o Estado dos grupos subal-
ternos urbanos. Não tendo sido capaz de oferecer uma interpretação de conjunto alternativa
à literatura proveniente das Ciências Sociais, a historiografia fez alguns reparos pertinentes
e matizou determinadas análises. O artigo de Elizabeth Cancelli, publicado nesta edição de
Estudos Históricos, faz um inventário dessa produção.
A grade de leitura que recorre ao livro de Barrington Moore (1967) para compreender
o significado histórico da Revolução de 1930 e a natureza do regime varguista continua a pro-
var sua grande capacidade heurística. Assim, 1930 constitui um marco decisivo na passagem
da sociedade tradicional (agrário-rural) para a sociedade moderna (urbano-industrial). Tratou-
-se de incentivar o desenvolvimento do capitalismo brasileiro cuidando para que a ordem so-
cial fosse mantida a mais preservada possível. O Estado, que já atuava na Primeira República
como agente de amparo à cafeicultura, alçou o seu intervencionismo na economia a outro
patamar e passou a dar guarida a um leque mais amplo de interesses. A política econômica
de Vargas é estudada no artigo de Antonio Lassance.
Há um bloco de artigos que exploram tensões, impasses e soluções criadas no âmbito
da modernização conservadora, premida entre a necessidade de, por um lado, atrair e, por
outro, de controlar os trabalhadores das cidades. A postura ambivalente do Estado pós-1930
perante a questão social é explorada tanto no artigo de Marly Vianna quanto no de Marcelo
Sevaybricker Moreira e Ronaldo Teodoro dos Santos. Já o artigo de Andrei Koerner e o de
Douglas Souza Angeli analisam as elaborações ideológicas que enfrentaram a questão da
extensão de direitos aos pobres. Antonio Luigi Negro e Jonas Brito demonstram a capacidade
de ação política dos de baixo, que colocava em risco a revolução pelo alto no Brasil. Pros-

446 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.445-447, Setembro-Dezembro 2020
Revolução de 1930

seguindo a apresentação deste número da revista, há um trio de artigos que oferecem uma
contribuição importante para a compreensão da reestruturação do poder político a partir de
1930. Jaqueline Porto Zulini e Paolo Ricci vislumbram o Código Eleitoral de 1932 como um
recurso de poder a serviço do novo regime, enquanto Eliana Evangelista Batista investiga a
incorporação de chefes locais baianos ao compromisso que se formou em torno de Vargas.
Finalmente, Carolina Soares Sousa, ao centrar-se na figura de Paulo Duarte, ilumina o mo-
vimento de aproximações e distanciamentos de parte da oligarquia paulista em relação ao
governo central.

Referências bibliográficas
MOORE, B. Social origins of dictatorship and democracy. Beacon Press: Boston, 1967.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.445-447, Setembro-Dezembro 2020 447
C O L A B O R A Ç Ã O E S P E C I A L

A leniência e Vargas: falas da História

The Leniency towards Vargas: the narratives of history

La indulgencia hacia Vargas: los discursos de la historia

Elizabeth CancelliI*

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942020000300002

Universidade de São Paulo – São Paulo (SP), Brasil.


I

* Professora doutora livre-docente pela Universidade de São Paulo (cancellie@gmail.com)


https://orcid.org/0000-0002-7511-9423
Artigo recebido em 01 de maio de 2020 e aprovado para publicação em 03 de julho de 2020.

448 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.448-468, Setembro-Dezembro 2020
A leniência e Vargas: falas da História

Resumo
Este artigo analisa correntes historiográficas que se debruçaram sobre os anos Vargas. Seu ponto de partida
é o de que análises estruturais advindas fundamentalmente das Ciências Sociais acabaram por desenvolver
uma visão leniente sobre esse período da história. Perspectivas críticas a essas interpretações contrapuseram-
se às teorias da modernização e sua sucedânea teoria da dependência, e questionaram, do ponto de vista
teórico, a precedência da questão social como questão política. Mudanças de paradigmas de análise cru-
zaram as fronteiras dos limites nacionais, do etnocentrismo e da visão regional de história, da dependência e
das disputas palacianas das elites políticas.
Palavras-chave: Era Vargas; Historiografia; Questão Social; Fascismo.

Abstract
This paper analyzes different historiographical perspectives focused on the Vargas’ regime. Its starting point
is that structural analyses derived mainly from the Social Sciences ended up developing a lenient view of this
historical period. Critical analyses of these interpretations were opposed to the modernization theories, and
its successive dependency theory, questioned, from a theoretical point of view, the precedence of the social
question as a political issue. The changes that those new paradigms brought to historiography crossed the
limits of national boundaries, ethnocentrism, and the regional view of history, dependence and the disputes
of political elites.
Keywords: Vargas Period; Historiography; Social question; Fascism.

Resumen
Este artículo analiza las corrientes historiográficas que se han centrado en los años Vargas. Su punto de parti-
da es que los análisis estructurales derivados principalmente de las Ciencias Sociales terminaron desarrollando
una visión indulgente de este período de la historia. Análisis críticos de estas interpretaciones se opusieron
a las teorías de la modernización, y su sucesiva teoría de la dependencia, y cuestionaron, desde un punto de
vista teórico, la precedencia del problema social como un problema político. Los cambios en los paradigmas
de análisis cruzaron los límites de las fronteras nacionales, del etnocentrismo y de la visión regional de la
historia, de la dependencia y de las disputas palaciegas de las élites políticas.
Palabras clave: Era Vargas; Historiografía; Cuestión social; Fascismo.

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Elizabeth Cancelli

No mortal can keep a secret. If his lips are silent, he chatters


with his fingertips; betrayal oozes out of him at every pore.
Freud (1956, p. 77-78)1. 

E m 1964, o historiador norte-americano Robert Levine chegou ao Brasil para conduzir a


pesquisa do doutorado que cursava com Stanley Stein na Universidade de Princeton. Era
o ano do golpe de Estado, e tocar neste assunto sensível, o legado varguista, era um proble-
ma nas terras brasileiras2. Levine defendeu em 1970 sua tese The Vargas Regime: the critical
years, que foi imediatamente publicada pela Columbia University Press. Tentou-se por duas
vezes que a tradução de Raul de Sá Barbosa ganhasse as livrarias no Brasil, mas a censura do
regime vetou a publicação. Somente em 1980, a Nova Fronteira trouxe a público o livro do
historiador (Levine, 1980).
O trabalho de Levine era inovador por várias razões. Em primeiro lugar, explorava o
acervo de documentos de forma intensa, articulando, no sentido de chegar a análises políticas
mais profundas, a riqueza de material aos relatórios e observações de época que coletou. Já
no capítulo inicial (“O quadro social e ideológico”), por exemplo, a primeira nota de referência
faz alusão ao artigo de Agnes Waddell de 1931 publicado na Foreign policy reports (Levine,
1980: 59), associando-o aos despachos da embaixada brasileira nos Estados Unidos. Levine
cruzou fontes oficiais brasileiras com o acesso privilegiado a acervos oficiais e particulares no
país, além de ter feito muitas entrevistas. Priorizou, pela primeira vez na historiografia, arqui-
vos policiais, o que lhe permitiria conclusões inéditas.
Em segundo lugar, o trabalho inovava ao sustentar a análise em tradição acadêmica
fortemente ancorada nos princípios das teorias sociológicas do desenvolvimentismo dos
anos 1950 — tradição à qual Florestan Fernandes, fortalecido pelas publicações de seus
orientandos, era um dos maiores expoentes no Brasil. Nesses trabalhos, um dos pressupos-
tos fundamentais de análise era a contraposição do que convencionaram classificar de so-
ciedades modernas e sociedades tradicionais3. Nessa perspectiva, sua bibliografia de apoio
vinculava-se a trabalhos como o de Albert Hirschman (Journeys toward progress: studies
of economic policy making in Latin America, 1963), o de Jacques Lambert (Requirements
for rapid economic and social development, 1963), o de seu orientador Stanley Stein (The
Brazilian cotton manufacture: textile enterprise in an underdeveloped area, 1850–1950,
1957) e na coletânea de Irving Horowitz (Revolution in Brazil: politics and society in a de-
veloping nation, 1964), por exemplo4. Eram trabalhos caudatários do fundamento de que a
estabilidade democrática era uma decorrência da modernização e da industrialização, como
preconizara Seymour Martin Lipset em seu Some social requisites of democracy, de 1959.

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A leniência e Vargas: falas da História

Além da matriz norte-americana, os trabalhos de Florestan Fernandes, como Pattern and


rate of development in Latin America e o clássico Mudanças sociais no Brasil, de 1960, fo-
ram informando os fundamentos de análise de Levine sobre a sociedade brasileira no século
XX. É recorrente em sua bibliografia a remissão a autores de formação uspiana, como Bres-
ser Pereira, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni e Paul Singer. Alguns economistas,
outros sociólogos, mas todos caudatários da tradição modernizante.
Em terceiro lugar, o trabalho de Levine era inovador porque se calcava em pressu-
postos relativamente novos nas análises sobre o Brasil do período, em particular nas te-
ses construídas por Samuel Huntington desde a segunda metade dos anos 1950. Huntin-
gton criticava a premissa praticamente consensual dos teóricos da modernização de que
ela, a modernização, invariavelmente levaria à democratização: inspirados em Weber,
tais teóricos acreditavam em uma espécie de recorrência evolutiva do desenvolvimento
do capitalismo, buscando na modernização a instituição de um ethos que transformaria
essas sociedades tradicionais, suas elites e suas gentes. Em linhas gerais, Huntington
advogava que, nos países tradicionais, os processos de modernização não levavam à de-
mocracia, mas à grave instabilidade política, na medida em que novos segmentos sociais
emergentes nessa modernização fariam pressão por espaço político, fator que geraria,
ademais, insegurança. Em Political order in changing societies, texto que Levine tinha
como referência, Huntington afirmava:
O que foi responsável por essa violência e instabilidade? A tese principal deste livro é que essa
violência e instabilidade foram em grande parte produto de rápidas mudanças sociais e da
rápida mobilização de novos grupos em direção à política, juntamente com o lento desenvolvi-
mento das instituições políticas. “Entre as leis que regem as sociedades humanas” […] A ins-
tabilidade política na Ásia, África e América Latina deriva precisamente do fracasso em cumprir
esta condição: a igualdade de participação política está crescendo muito mais rapidamente do
que “a arte de se congregar”. Mudanças sociais e econômicas — urbanização, aumento da al-
fabetização e educação, industrialização, expansão da mídia — ampliam a consciência política,
multiplicam as demandas políticas, ampliam a participação política. Essas mudanças minam as
fontes tradicionais de autoridade política e as instituições políticas tradicionais; elas complicam
enormemente os problemas de criação de novas bases de associação política e novas institui-
ções políticas que combinem legitimidade e eficácia (Huntington, 1968: 5, tradução livre)5.

Embora Huntington esteja aqui chamando a atenção para a necessidade de entender


a instabilidade gerada pela modernização econômica no pós-guerra, o quadro teórico de
análise é o de que a modernização em países sem tradição democrática geraria instabilidade.
Citando James Madison, o autor sentencia:

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Elizabeth Cancelli

“A grande dificuldade reside nisso: primeiramente você deve permitir que o governo controle
os governados; e, em seguida, obrigá-lo a se controlar”. Em muitos países em processo de
modernização, os governos ainda são incapazes de desempenhar a primeira função, muito
menos a segunda. O problema principal não é a liberdade, mas a criação de uma ordem pública
legítima. Os homens podem, claro, ter ordem sem liberdade, mas eles não podem ter liberdade
sem ordem. A autoridade tem que existir antes que possa ser limitada, e é a autoridade que é
escassa nos países em modernização onde o governo está à mercê de intelectuais alienados,
insubordinados coronéis e estudantes rebeldes (Huntington, 1968: 5, tradução livre)6.

A questão estava agora assim posta: não era absolutamente estranho que para pro-
mover a modernização se recorresse a regimes que garantissem, em primeiro lugar, a ordem,
a estabilização. Assim, a maior inovação do livro de Robert Levine residia justamente na
formulação de seu problema: tentar entender a dinâmica política que teria garantido o passo
gerador dessa modernização, a instalação da indústria de base. Ou, como diria Levine ao fim
da introdução:
Vargas consolidou o seu poder, silenciando fontes potenciais de oposição, e sacrificando liber-
dades civis a fim de assegurar a estabilidade política e a unidade nacional [...] O temor de que
grupos identificados com a ordem anterior a 1930 voltassem ao poder obcecava a tal ponto a
classe média que ela abriu mão gostosamente dos luxos da democracia em troca de um gover-
no forte num quadro autoritário (Levine, 1980: 32).

Ou mais adiante, quando ele cita Hélio Jaguaribe: “O processo — observou um bra-
sileiro — era a contrapartida política da substituição das importações” (Levine, 1980: 256)7.
Para entender “o processo”, o estudo de Levine centrou-se não só na dinâmica
do desenvolvimento industrial do Brasil, mas especialmente na movimentação e no com-
portamento das elites e das classes médias emergentes — exemplares do novo ethos
político capitalista, inovadoras em relação à sociedade tradicional e que, como sugere
o autor, seriam capazes de abandonar o “constitucionalismo liberal das oligarquias”. O
foco de análise nas classes médias era, então, fundamental porque, associadas à bur-
guesia emergente, elas promoveriam o nacionalismo econômico e o desenvolvimento do
país, num reformismo de mudanças progressivas contra as oligarquias dominantes. Por
essa razão, Levine ia buscar uma bibliografia que oferecesse suporte à compreensão da
dinâmica de tal modernização, ocorrida sob a bandeira do nacionalismo. Assim, Levine
utiliza-se da produção de Florestan Fernandes e Jacques Lambert, Fernando Henrique
Cardoso, Octavio Ianni e das teses de doutoramento de Warren Dean e de Richard Morse,
este já com livro publicado8. Como o chileno Luis Ratinoff, a tese de Levine era a de que
o nacionalismo dessas classes médias foi importante como força de pressão — chegando

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A leniência e Vargas: falas da História

elas a ser progressistas — até consolidar suas vitórias (empregos públicos, serviços de
saúde e educação, direitos de trabalho etc.). E mais, o nacionalismo desenvolvimentista
de Vargas (leia-se modernização/substituição de importações) teria abafado as vozes
contrárias ao autoritarismo político (Levine, 1980: 259).
Considerando tais pressupostos, Levine buscava, nos “anos críticos de Vargas”
(1934–1938), compreender a base fundacional do Estado Novo. Isto porque o interregno
(supostamente democrático) entre o governo provisório e o período um pouco além da de-
cretação do Estado Novo, em 1937, teria sido de instabilidade política e, portanto, anterior
à implantação de um regime capaz de iniciar o processo de industrialização9. De forma que o
que Levine — bem como grande parte dos autores que baseavam suas análises nas teorias
da modernização e posteriormente na teoria da dependência — chama de “populismo” de
Getúlio era a implementação de uma controlada política urbana distributiva10. Para o autor,
a instabilidade política estaria instaurada de maneira intensa na vida política e expressava-se
nos embates da esquerda, da direita, da frente de oposição (Aliança Nacional Libertadora —
ANL), passando por políticos liberais da Primeira República (ou “oligarquias” — sic), pelos
tenentes e pelo Partido Comunista do Brasil (PCB), findando com a insurreição integralista de
1938. O “maquiavelismo” e o “populismo” de Vargas residiriam, justamente, na habilidade
em estabilizar os atores políticos.
Na procura de ordem e de estabilidade, fundamentais para que o regime implemen-
tasse seu projeto de modernização, Levine traz uma quarta grande inovação: a importância
que o aparato repressivo e a censura tiveram na estabilização do regime. Assim, articula-os
não na perspectiva de que os desmandos criminosos da atuação policial correspondessem aos
desvios de caráter da personalidade de Filinto Müller, mas como parte desse projeto de estabi-
lidade política. De fato, para desconforto da maior parte da historiografia sobre Vargas, Levine
afirma que, assentado em forte aparato de repressão e propaganda, Getúlio definitivamente
não fora um “pai dos pobres”, já que sua política de “direitos sociais e trabalhistas” era,
na verdade, a maneira de controlar esse processo de modernização sem mudar a estrutura
social ou a concentração de renda. Essa “revolução incompleta de Vargas”, dizia ele em livro
posterior, era consequência desse processo de modernização e das características pessoais de
exercício de poder do ditador (Levine, 2001)11.
Mesmo que suas matrizes teóricas estivessem presas ao que a área de Ciências Sociais
via como legítimo ou correto para pensar o Brasil, e até mesmo para entender as ditaduras
latino-americanas nos anos 1960 e 1970, Levine abria perspectivas ao recorrer à certificação
documental para, ao menos, tentar colocar por terra o “mito Vargas”. Seria de esperar, por
isso, que a tese de Levine tivesse grande repercussão no país.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.448-468, Setembro-Dezembro 2020 453
Elizabeth Cancelli

Entretanto, seguindo em grande parte o arcabouço das teorias da modernização e,


como frisado, de sua consequente teoria da dependência, o trabalho de Boris Fausto, mesmo
carente de pesquisa documental, e talvez justamente por isso, tornou-se referência de inter-
pretações sobre a Era Vargas. (A primeira das muitas edições de A Revolução de 30: história
e historiografia foi publicada em 1970 pela Editora Brasiliense.) Sobre ele, Ângela de Castro
Gomes diria 38 anos depois:
[...] Fausto irá revisitar o período da Primeira República, sustentando sua futura tese que será
reafirmada na coleção História da Civilização Brasileira: com os episódios de 1930, o Brasil não
viverá nem uma revolução burguesa, nem uma revolução das classes médias, como sustenta-
vam as interpretações correntes. Tal episódio deveria ser explicado em outra chave: a dos con-
flitos regionais intraoligárquicos, que vinham agitando a década de 1920 e envolvendo novos
atores no jogo da política republicana (Gomes, 2008: 23).

E mais adiante:
A Revolução surge então, fundamentalmente, como produto da questão política do regionalis-
mo, o que se constitui numa das mais significantes conclusões e contribuições do livro (Gomes,
2008: 33).

[...] De forma sintética Fausto lembra que afirmar a Revolução de 1930 como produto “de uma
frente difusa em equilíbrio instável”, reunindo dissidências oligárquicas e setores militares, além
do apoio das classes médias e até do operariado, não respondia à questão de quem substituiria
a hegemonia da oligarquia cafeeira. Então, assume o conceito de “Estado de Compromisso”,
tomado de Francisco Weffort, como a melhor resposta possível. Por essa razão, procura fixar
os principais elementos da proposta interpretativa escolhida: como nenhum dos grupos que
participam do movimento oferecesse legitimidade ao Estado, abre-se um “vazio de poder”, o
que conduz a um compromisso entre as várias frações de classe e “aqueles que controlam as
funções do governo”, sem vínculo de representação direta (Gomes, 2008: 35).

Há dois pontos-chave na interpretação de Boris Fausto: as críticas às teses dualistas


presentes em “sociedades dependentes latino-americanas” e às teses de que 30 teria sido
uma revolução das classes médias urbanas. Para Fausto, 1930 não foi uma revolução burgue-
sa, mas um acontecimento marcante por colocar fim à hegemonia do capital cafeicultor — daí
o advento do Estado de Compromisso, espécie de licença interpretativa ancorada na teoria da
dependência e no recurso a Gramsci, apontando para a necessidade de estabilização social.

A questão política
Ainda em 1972, Gláucio Soares publicou na Revista Mexicana de Sociología resenha
bastante negativa sobre o trabalho de Fausto:

454 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.448-468, Setembro-Dezembro 2020
A leniência e Vargas: falas da História

Espero que seu autor prossiga seu trabalho de pesquisa, coletando novas informações e
novos dados que são indispensáveis, utilizando-os de maneira sistemática. A informação
factual apresentada não constitui novidade, é errática e selecionada pelo autor. Outro con-
junto de informações, como trechos de discursos, poderia ser retirado das mesmas fontes
para ilustrar posições radicalmente diferentes. No meu entender, a tarefa de pesquisa está
longe de completa e requer imaginação metodológica de todos os que pretendem estudar
o problema. A diferença entre a execução e a não execução dessas pesquisas pode ser
a diferença entre substituir uma série de mitos por outros ou substituir os mitos por um
trabalho científico (Soares, 1972).

Pouco depois, em 1978, numa análise abertamente crítica às teorias da moderni-


zação, Maria Sylvia de Carvalho Franco, em trabalho sobre o Instituto Superior de Estudos
Brasileiros (ISEB), ia um pouco além na avaliação dos parâmetros teóricos estruturantes de
análises como a de Fausto. Tratando das miragens do jargão científico, ela postulava que o
autoritarismo vinha, com a utilização de definições indemonstradas, disfarçado de revolução
social, construindo uma realidade em que nação, comércio e indústria se antropologizam
como sujeitos da história, na mira do progresso, teleologicamente, em direção à ordem capi-
talista. Segundo essas definições, tais premissas teriam tornado possível esquecer a crítica às
ideologias e sua historicidade, inocentando-as (Franco, 1978: 115 e 209). Diria mesmo, em
2011, explicitando suas críticas, que
Na produção desse ideário, a Faculdade de Filosofia não saiu de mãos limpas ou vazias: ela ofe-
receu um pensamento diverso do produzido pelo ISEB, certamente menos vinculado à prática
política, mas não faltou na tarefa de fornecer o substrato doutrinário para o desenvolvimentis-
mo e suas reformas. [...] Tomou então grande vigor a teoria da dependência, que se encarregou
de apontar as teias de aranha do marxismo, repentinamente tornado obsoleto e necessitando
revisões, face às novas formas assumidas pelo capitalismo, notadamente o desaparecimento
das determinações de classe. Mais outra faceta da apologia do progresso, cuja propaganda
atravessou novamente a sociedade (Franco, 2011).

O texto de 1978 tornava públicas as críticas que Maria Sylvia vinha fazendo ao grupo
em torno de Florestan Fernandes e do qual ela, no início, fizera parte, até que profundas di-
vergências teóricas a tivessem afastado. Ela e Marilena Chauí externaram, em livro conjunto,
a maneira crítica como uma gama expressiva de pensadores vinha-se posicionando intelectual
e politicamente em várias universidades brasileiras. Tratava-se de um rompimento, especial-
mente com as representações acadêmicas:
• presas à valorização dos mitos de identidade nacional (fossem quais fossem);
• de uma pseudoincompletude burguesa;

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.448-468, Setembro-Dezembro 2020 455
Elizabeth Cancelli

• da procura dos tipos ideais weberianos, do ethos das classes médias e da burgue-
sia;
• da aposta em modelos de desenvolvimento econômico como explicação do mun-
do dos homens;
• da busca desenfreada e incessante de um standard de comportamento para o
homem brasileiro;
• da história brasileira como carecendo de organização e consistência próprias, ex-
plicada sempre com base no vazio, naquilo que ela deveria ser, mas não é.

Ou seja, as autoras apontavam para uma historiografia de rompimento com as repre-


sentações que buscavam nos “males do passado” as justificativas intelectuais e políticas para
projetos de Brasil12. Na Apresentação de Ideologia e mobilização popular, Marilena Chauí
(1978)13 chama atenção, de forma incisiva, para o fato de que encontrara, na bibliografia
relativa à Primeira República, uma impressionante similaridade de abordagens. Em sua quase
totalidade, os estudos se distanciavam da análise dos sujeitos (e, portanto, do discurso e da
ação dos homens) para se aterem aos predicados (àquilo que resulta da ação dos sujeitos,
como, por exemplo, o Estado). Chauí concluiu que, em virtude dessa inversão, existiam eixos
permanentes nas análises e que, nelas, a história do país resultaria da combinação:
• conflituosa das querelas da luta de classe dominante, incapaz de hegemonia;
• do despreparo e imaturidade da classe operária, sempre manipulada;
• do radicalismo inoperante das classes médias, sempre rebocadas;
• e do peso do capitalismo internacional avançado sobre o passado periférico.
(Chauí, 1978: 22).

A historiografia teria construído uma história não do que foi, mas do que “teve de
ser”. Essa, digamos assim, anomalia historiográfica — a do que teve de ser — ter-se-ia
constituído sobre um arcabouço conceitual que parte do que falta. Condicionantes que, do
ponto de vista da pesquisa, a nosso ver, apontam para a procura da comprovação do que
deve vir a ser. É dessa forma que se torna possível a construção das categorias de tardio,
retardado, atrasado, de despreparado e imaturo e de ideias fora do lugar14. Tais postulações
subentendem o estabelecimento não só de um parâmetro de modernidade, mas também de
um encadeamento histórico evolutivo, de uma linha do tempo em direção a alguma coisa.
De forma avessa à tradição historiográfica, resultado de anos de trabalho em arquivos
no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, Paulo Sérgio Pinheiro enfrentou a questão política
dos anos Vargas de forma a privilegiar projetos políticos, suas heranças e as estratégias de

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A leniência e Vargas: falas da História

poder de atores sociais. Mesmo tendo centrado seus estudos nas estratégias do PCB para o
movimento de 1935, a metodologia transdisciplinar — para usarmos nomenclatura contem-
porânea — utilizada pelo autor ao analisar o acervo documental ressalta a miopia do PCB em
relação à centralização do poder em Getúlio, à manipulação dos sindicatos, à formação de
um estado policial e de seu aparato de repressão e à força do corporativismo. Para Pinheiro,
Vargas enfatizara o recrudescimento dos abusos cometidos pelo Estado, no Brasil, durante o
período anterior ao Estado Novo: prisões arbitrárias, tortura, execuções e deportações e as
recorrências ao Estado de Sítio. A historiografia, aponta ele, tratava com enorme leniência os
anos de poder de Vargas até o golpe que ele mesmo arquiteta em 1937. Segundo Pinheiro, e
concordamos com ele, o governo provisório de 1930–1934 já era uma ditadura — interrom-
pida por um brevíssimo período que seria retomado pelo golpe de 1937 (Pinheiro, 1991: 269)
O trabalho de Pinheiro fazia emergir um incômodo aos historiadores: estaria a leniên-
cia historiográfica assentada na forma pela qual a questão política fora negligenciada pela
questão social? Ou, disfarçada de revolução social, como sublinharam Maria Sylvia e Chauí,
assentada em pressupostos teleológicos de que a esfera pública fora esvaziada e mascarada
pela questão social? Ou seja, o exercício de poder, o caráter ditatorial teria, de certa forma,
sido redimido?
É notório, a esse respeito, a forma com que a contracapa da primeira edição de A Re-
volução de 1930 de Fausto já inscrevera historiograficamente como a questão política cederia
terreno a este novo lugar, o da questão social:
A política de marginalização pura e simples, realizada pelas velhas classes dominantes, não
tinha mais condições de se sustentar. Se na plataforma da Aliança Liberal já se encontravam
os traços de um maior interesse pelo chamado problema social, as agitações operárias dos pri-
meiros anos da década de trinta acabaram por “sensibilizar” o governo em definitivo (Fausto,
1970: contracapa, grifo nosso).

Na virada dos anos 1970/1980, alguns autores realizaram, ultrapassando os limites da


conceituação de populismo de Fausto, uma renovada interpretação histórica sobre a Era Var-
gas — embora mantivessem a mesma chave teórica do autor. A chave de interpretação não
partia mais do “populismo”, mas ia além dele. Houve aqui a preocupação em resgatar a luta
e os avanços da classe trabalhadora, ou de suas lideranças, como lutas contra uma espécie
de “liberalismo excludente”! O princípio interpretativo partira principalmente das postulações
de Wanderley Guilherme dos Santos em A práxis liberal no Brasil: dever-se-ia ficar atento aos
diversos tipos de autoritarismo e, em particular, ao autoritarismo instrumental. “O Estado
Novo”, diz ele, “deu forma ao Estado forte pretendido pelos autoritários instrumentais”:

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Elizabeth Cancelli

Os trabalhadores urbanos foram reconhecidos como membros plenos da sociedade civil, por-
tadores de demandas legítimas, embora os canais de articulação fossem autorizados e patroci-
nados pelo governo. Uma mistura paradoxal de medidas econômicas liberalizantes, associadas
ao aumento da intervenção regulatória nas relações sociais, e complementadas por ocasionais
e intermitentes políticas de redistribuição” (Santos, 1978: 50).

Adiante, Santos conclui a sequência “lógica” de pensamento que marcaria profunda-


mente a historiografia brasileira:
Somente depois da crise de renúncia de Jânio Quadros, com João Goulart no poder, é que uma
espécie de autoritarismo instrumental tentou se firmar no cenário político brasileiro. Sua meta
não era, entretanto, a liberalização da sociedade, nem mesmo da economia — mas, ao contrá-
rio, os objetivos visados pela nova versão do autoritarismo instrumental eram a intervenção do
Estado, o nacionalismo e o maior avanço possível em direção ao socialismo. (Santos, 1978: 50).

Nessa sequência, essa interpretação do passado não só legitimava o primeiro perío-


do Vargas (1930–1945) pelo reconhecimento que teria dado à classe trabalhadora15, como
prenunciava sua interpretação teleológica sobre a história política do Brasil até o golpe de
1964. Na verdade, segue uma interpretação, vigente nos anos 1970, sobre o surgimento e
a consolidação de uma nova forma de dominação autoritária: a coalizão de militares, bur-
guesia e burocracia estatal. Coalizão que fez surgir um novo tipo de autoritarismo, diferente
dos anteriores, que não tinha na oligarquia fundiária sua base. Seria fruto de nova etapa de
modernização. Uma modernização que não fortalecia as instituições, mas visava conter a luta
de classes em meio à crise econômica pela qual passavam países “periféricos”, vítimas de
um modelo estrutural de acumulação16. Aqui, Guilhermo O’Donnell cunharia o termo “Estado
burocrático autoritário”. O período Vargas não seria esse tipo de ditadura instrumental, já que
teria reconhecido o trabalhador urbano como “portador de demandas legítimas”.
Em 1982, a editora Zahar lançou Estado Novo: ideologia e poder, de Lúcia Lippi, Môni-
ca Velloso e Ângela da Castro Gomes (Lippi, 1982: 8). A proposta do livro vinha ao encontro
das referidas postulações de Wanderley Guilherme e das que Bolivar Lamonier formulara em
1974:
O paradoxo da mobilização autoritária é precisamente este: a fim de ativar grandes massas, o
poder é obrigado a criar símbolos que, se efetivamente comunicados, estabelecem o contra-
ponto para que elas se “objetifiquem” e se constituam subjetivamente como grupo. Não quero
dizer com isso que tal processo se dê com facilidade, pois ele é obviamente dependente da
organização de estruturas organizacionais e de atividades concretas e recorrentes (Lamounier,
1974: 86).

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A leniência e Vargas: falas da História

O estudo das representações dos anos 1930 tornara-se assim fundamental, pois aden-
trar a simbologia tornava possível afastar o regime de “uma identificação aparentemente
óbvia com o fascismo”, como era dito. Partia-se do princípio de que um quadro comparativo
ou de confronto com outros regimes só poderia ser possível se “tivermos claro o que foi a
proposta deste, quais suas metas e objetivos e de que modo se construiu a integração de dife-
rentes segmentos sociais em um projeto comum, autoritário e nacionalista” (Lippi, 1982: 8),
numa espécie de contexto de modernização em curto prazo em que o Estado forte fosse capaz
de conter o ritmo das demandas sociais (Lippi,1982: 28). O sentido inovador do Estado Novo17
— o “projeto político-ideológico extremamente bem articulado” — residiria, sobretudo, no
convencimento acerca da preeminência de uma nova ordem, centrada no fortalecimento do
Estado” (Velloso, 1982: 71), capaz de “sua dimensão mais inovadora: o enfrentamento da
questão social” (Gomes, 1982: 115).
Um parágrafo de um dos capítulos mais citados do livro, O redescobrimento do Brasil,
de Gomes, deixa clara a perspectiva de inovação que estaria, para essa tradição de pensa-
mento, sendo articulada na Era Vargas:
A condenação da liberal democracia acarreta uma rejeição ao conceito e também ao próprio
termo. É interessante observar que, no caso do Estado Novo, a mesma condenação à demo-
cracia-liberal vem acompanhada pelo esforço sistemático de recuperação da “democracia” por
oposição ao liberalismo (Gomes, 1982: 145-146, grifo nosso).

Os três trabalhos que compõem o livro de 1982 eram fruto de pesquisas cuidadosas e
de alto padrão. Procuravam desvendar não só as linhas mestras de pensamento político na Era
Vargas, com o estudo das revistas Cultura Política e Ciência Política, mas debruçavam-se sobre
os principais ideólogos do regime. Ao fazê-lo, colocavam um novo desafio à frente: recompor
a democracia varguista (!) por meio da cidadania adquirida pela conquista de direitos sociais,
graças à atuação de dois atores políticos “com laços profundos”: a classe trabalhadora e o
Estado. Esse movimento de conquista social seria chamado de “invenção do trabalhismo”:
o trabalhismo seria o resultado de um grande projeto político-ideológico de “participação
política que conceituava cidadania, democracia, política” (Gomes, 1988: 11).
Retomando o que vínhamos argumentando, a definição da cidadania baseada na
questão social tornou-se alvo de profundas discordâncias historiográficas, postuladas, como
vimos, por Pinheiro, Franco e Chauí, por exemplo. O comportamento massificado, o regime
de opressão, a repetição de slogans, a aposta na máquina de propaganda, a unicidade nacio-
nalista, a criação de inimigos, a concepção orgânica de sociedade, a soberania absoluta do
Estado, a liderança carismática, o salvadorismo político e o papel da polícia foram analisados

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.448-468, Setembro-Dezembro 2020 459
Elizabeth Cancelli

por correntes historiográficas que não só eram críticas às teorias da modernização e sua
sucedânea teoria da dependência, mas também questionavam, do ponto de vista teórico, a
precedência da questão social como questão política por excelência. Ou seja, a análise his-
tórica debruçava-se sobre a vida ativa, discurso e ação, como fundadores de projeto político.
Nesse sentido, como discurso e ação, essência da esfera pública, revelou o caráter do projeto
político da Era Vargas.
Para seguir adiante em seu fazer historiográfico, esse conjunto de pesquisas afastou-se
das Ciências Sociais e buscou na História e na Filosofia Política a parceria teórica para pensar
as vigas ideológicas e de ação do Regime Varguista e de suas estratégias de dominação. O
uniformismo e o conformismo pregados pelo regime como estratégia de domínio, especial-
mente por meio do nacionalismo e do desaparecimento do indivíduo, receberam uma leitura
crítica embasada na constatação de que o regime apagara a distinção entre polis (esfera
pública) e o oikos/idion (esfera privada). Ou, como diria Roberto Romano (1981: 22-23) em
Conservadorismo romântico: origem do totalitarismo:
A relativização absoluta do indivíduo, e sua inserção numa comunhão coletiva, assegurada
pela propaganda e pelo trabalho dos intelectuais orgânicos, mostrou os limites das experiências
comunitárias realizadas em larga escala no plano político: o fantasma da unidade social sempre
termina por apagar as diferenças no interior da vida pública, à força do silêncio ou da repressão
física direta sobre os oponentes.

Nessa linha, Carlos Alberto Vesentini e Edgar de Decca escreveram A revolução do


vencedor, publicado em 1976. Os autores criticam a apropriação pela historiografia do marco
“1930”, demonstrando, com a análise de discursos de época, como esse marco se constituiu
em divisor de uma periodização histórica fruto da memória política do vencedor. Um exercício
de poder que refez a história política do Brasil, dando a 1930 o status de um novo começo,
de transição, de ruptura “do domínio oligárquico”, sem que a historiografia se desse conta de
que se tornara refém dessa memória do vencedor:
Essa construção supõe certo conjunto de temas, daí derivados, que a bibliografia em geral e a
historiografia em particular consideram objeto de estudo. Assim, temas como política oligár-
quica, fatos tipo revolução de 1930 e revolução de 1932, atores como oligarquia e os tenentes
continuam sendo exaustivamente examinados, embora a maior parte desses trabalhos não
tenha se preocupado com a crítica da ideia que substantiva essa refinada construção (Decca e
Vesentini, 1976: 62).

O artigo pressupunha a presença de movimento operário múltiplo, de uma popula-


ção urbana politicamente ativa, de uma industrialização não circunscrita à “artificialidade”,

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A leniência e Vargas: falas da História

ao “atraso” tecnológico ou às plantas industriais com baixa concentração de capital fixo e


formas de trabalho não assalariado que se compatibilizavam com o capital ou mesmo com a
industrialização. Mais ainda, não assumia o termo “velha” da Primeira República — discur-
sividade do vencedor, dos que tinham como projeto político antagonizar-se ao “liberalismo
decadente” e daí se autoproclamarem “revolucionários”.
Foi Stella Bresciani quem ampliou a discussão com uma crítica ainda mais aguda: o
fato de a historiografia não só estar se apropriando do marco, mas da construção ideológica
que fez o vencedor. Ela revela o que chamaria de “a problemática da relação entre o movimen-
to da História e a fala da História”. A fala da História de fato não interroga o movimento da
história, sua construção ideológica (Bresciani, 1977: 10), mas se alimenta dela. Construir um
novo trabalhador, responder aos anseios da classe trabalhadora e transformar cada um desses
trabalhadores em cidadão consciente, promover os recursos para questões vitais, construir
a verdadeira nação e a verdadeira democracia, iniciar um novo marco na história, criticar o
ideário liberal como inábil e excludente, construir uma democracia sem “ideias importadas”
e, acima de tudo, ingressar em um novo tempo, o tempo da democracia-autoritária, são cons-
truções ideológicas que Bresciani identifica em Oliveira Vianna, um dos principais ideólogos
do regime, e que foram incorporadas pela historiografia: “A disputa é travada, pois, entre
conceitos — ao de estado democrático-liberal é contraposto o conceito de estado democráti-
co-autoritário” (Bresciani, 1977: 19, grifo nosso).
Muitos anos depois, Bresciani voltou a discutir a apropriação que a historiografia faz
dos lugares-comuns de um leque expressivo de “intérpretes do Brasil”. Publicado em 2005,
O charme da ciência e a sedução da objetividade: Oliveira Vianna entre intérpretes do Brasil
resgata chavões do pensamento brasileiro: as premissas de inadequação do povo, de sua ig-
norância/sabedoria, sua inconsciência, “bestialização”, de ser belo e grotesco e a necessidade
da presença política de lideranças sensíveis, firmes e pragmáticas — como os “autoritários
instrumentais” de que fala Wanderley Guilherme. Um aprisionamento, portanto, da historio-
grafia e das Ciências Sociais a pressupostos acabados e aceitos que perpassam as representa-
ções históricas, literárias e políticas do Brasil18.
Se nas falas da História os lugares-comuns comprometeram o aparato teórico das
análises, Kasumi Munakata voltou-se, em extensa pesquisa, para a legislação trabalhista que
questionava a defesa do caráter de “cidadania adquirida” pelos trabalhadores com a outor-
ga de direitos sociais supostamente ocorrida durante o período getulista; recupera, então, a
crescente legislação estatal que na verdade controla o mundo do trabalho, absorve as anti-
gas conquistas operárias e elimina qualquer possibilidade de conflito de classe (Munakata,
1981: 72 e segs.). Munakata analisa a aceitação do movimento liderado pelos comunistas

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Elizabeth Cancelli

do controle do mercado de trabalho pelo Estado e a derrota dos trabalhadores corporificada


com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) (Munakata, 1981: 102 e segs.). A opção do
corporativismo, de que Vargas fará uso como um dos primeiros atos de governo, seria no in-
tuito de buscar leis reguladoras do trabalho (Munakata, 1981: 64). Todo o espaço social passa
a ser ocupado pelo Estado, cabendo-lhe, também pela absorção dos sindicatos, redefinir as
relações de igualdade dos indivíduos perante a lei (capital e trabalho).
É nesse particular que gama substancial de trabalhos sobre a chamada Era Vargas
se desprendeu das teorias da modernização e da psicologia de interesses, e voltou-se para
a investigação sobre as representações da modernização, do demiurgo, do pai dos pobres,
dos saberes, das famílias, da política de massas; questionou o tipo de fontes que vinha sendo
utilizado, o aporte teórico e seus pressupostos de pesquisa: o “populismo”, o “trabalhismo”,
o “compromisso”, o “povo”, o “atraso”, o “partido”. Essa ruptura teórica, pode-se dizer,
abandonou a teleologia, o cunho nacionalista, os esquemas interpretativos e a absorção de
pressupostos político-partidários à fala historiográfica. Fugiu, enfim, dos grandes determi-
nismos estruturais e sistêmicos e da ressurreição integral do passado, da história evolutiva,
“prolongamento da linha de desenvolvimento do passado reconstituído” (Burguière, 2001:
365), e voltou à história complexa, numa resistência à apologia do desenvolvimento. Essa his-
toriografia analisaria projetos políticos, seus discursos e sua ação, rompendo com a tradição
da procura de “modelos de análise” e da “aplicação explicativa de teóricos”. O pressuposto
das investigações passou a ser a diversidade e não a desigualdade, o suporte teórico reflexivo
não pôde nem se constituiu com base no atraso, mas na medida em que se deixou surpreen-
der pela documentação e pelo discurso19. Daí, por exemplo, ter encontrado a brutalidade, a
força e a violência do totalitarismo como formas de controle das massas, a manutenção do
regime e da propaganda, o controle social, a implementação do Estado dual (um da Lei, outro
das prerrogativas), o medo, a criação de inimigos, o controle nas ruas, a censura. Estudou o
papel da polícia no regime e o papel do terror. Em suma, desvelou a deificação da questão
social como a questão política por excelência.
Essa historiografia alternativa construiu uma outra fala da História20. Tratou de trazer
a complexidade e a interconectividade da história da humanidade para analisar os Estados,
as instituições, os processos, as crenças e as redes que se formam e transcendem os espaços
politicamente definidos como espaços nacionais; não no sentido de colocar a nação em um
contexto mais amplo, mas de buscá-la relacionando-a com seu tempo (Keohane e Nye Jr.,
1970/1971; Krasner, 1983). A análise tanto da política como da produção de ideias sobre
política pressupôs, por isso, o abandono da teleologia e de noções que limitavam, por sua
conceituação, a premissa de que atores nacionais figurariam como espécie de outsiders histó-

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A leniência e Vargas: falas da História

ricos (Chalmers, 1993): muito mais pacientes do que homens capazes do discurso e da ação,
como enfatiza Arendt ao pensar a condição humana, ou seja, a própria história (Arendt, 1983:
34)21. Esse outro tipo de fazer historiográfico foi possível justamente em decorrência de uma
mudança de paradigmas de análises em que se cruzam as fronteiras dos limites nacionais, do
etnocentrismo e da visão regional de história, da dependência e das disputas palacianas das
elites políticas.
Nessa outra fala, as vigas ideológicas dos anos Vargas foram analisadas como forma
de esvaziamento da esfera pública, parte de um discurso futurístico de sociedade que suprimiu
o presente e ofereceu, em troca, a ilusão de uma sociedade do avenir, num regime que, afinal
de contas, se sustentou no significante mestre da ideologia de seu tempo: o fascismo22. Não
há leitura peculiaríssima de E. P. Thompson que possa modificar esse fato23. Por fim, não são
necessários vetores de definição do conceito de fascismo (partido único, militarismo, impe-
rialismo etc.) para entender a Era Vargas. Uma leitura refinada da documentação, teórica e
empiricamente aliada à distância que nos dá o tempo, mostra-nos caminhos.

Notas
1 Dora: fragment of an Analysis of a Case of Hysteria (1956). Tradução livre: “Nenhum mortal
pode guardar um segredo. Se os lábios estão em silêncio, falam as pontas dos dedos; a traição
lhe escorre por todos os poros”.
2 Na longa preparação para desencadear o golpe de Estado em 1964, dizia-se que uma
substituição para a fé e para os valores morais estaria sendo achada ou no materialismo do
comunismo ou na “dedicação nacionalista ao sangue e à terra”, ou seja, ao nacionalismo
exacerbado, como preconizado pelos herdeiros de Getúlio (Torres apud Cancelli, 2017: 97).
3 São as teorias liberais do desenvolvimentismo, cujo epicentro foi primeiramente a escola
de Sociologia de Chicago, depois acompanhada, especialmente, por Columbia e Harvard.
Notabilizaram-se não só pela aposta na democratização por meio da modernização e da
industrialização para o combate à miséria e ao totalitarismo, como pelo rechaço ao ensaísmo,
com forte investimento na pesquisa empírica e na construção de teorias, métodos e técnicas
de investigação em torno de temas candentes e fundamentais para os estudos sobre o de-
senvolvimento, a democracia e seu consequente combate ao que classificaram como regimes
totalitários.
4 Outros expoentes foram Richard Morse, em suas pesquisas sobre a industrialização em São
Paulo, e Thomas Skidmore, em texto que explora o experimento brasileiro da democracia
(Politics in Brazil: 1930–1964: an experiment in democracy). Tal texto acabou traduzido como

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Brasil: de Getúlio a Castelo (1930–1964), revelando o aspecto evolutivo das “transforma-


ções” políticas brasileiras.
5 No original: “What was responsible for this violence and instability? The primary thesis of
this book is that it was in large part the product of rapid social change and the rapid mobili-
zation of new groups into politics coupled with the slow development of political institutions.
‘Among the laws that rule human societies’ […] The political instability in Asia, Africa, and
Latin America derives precisely from the failure to meet this condition: equality of political
participation is growing much more rapidly than ‘the art of associating together’. Social and
economic change — urbanization, increases in literacy and education, industrialization, mass
media expansion — extend political consciousness, multiply political demands, broaden poli-
tical participation. These changes undermine traditional sources of political authority and tra-
ditional political institutions; they enormously complicate the problems of creating new bases
of political association and new political institutions combining legitimacy and effectiveness”.
6 No original: “The great difficulty lies in this: you must first enable the government to control
the governed; and in the next place oblige it to control itself”. In many modernizing countries
governments are still unable to perform the first function, much less the second. The primary
problem is not liberty but the creation of a legitimate public order. Men may, of course, have
order without liberty, but they cannot have liberty without order. Authority has to exist before
it can be limited, and it is authority that is in scarce supply in those modernizing countries
where government is at the mercy of alienated intellectuals, rambunctious colonels, and rio-
ting students
7 O autor cita aqui: Hélio Jaguaribe, The dynamics of Brazilian Nationalism. A análise também
está ancorada no trabalho de Luis Ratinoff, The new urban groups: the middle classes.
8 Especificamente: Florestan Fernandes e Jacques Lambert, Le Brésil. Structure sociale et
institutions politiques; Octavio Ianni, Indústria e desenvolvimento social no Brasil; Fernando
Henrique Cardoso, The industrial elite; Warren Dean, São Paulo Industrial Elite, 1890–1960;
Richard Morse, From community to metropolis: a biography of São Paulo, Brazil. A diretriz
teórica de Fernandes ficou conhecida como sociologia do desenvolvimento.
9 Industrialização periférica, ou desenvolvimento do capitalismo retardado ou tardio, como o
período ficou largamente conhecido.
10 Na historiografia, as vertentes que endossam a chave populista como explicação para o
“Estado de Compromisso” pós-1930 e a “política de massas” partem, na maioria das vezes,
do trabalho de Francisco Weffort, Raízes sociais do populismo em São Paulo, de 1965, e de
seus textos de 1967 e 1978. Entre historiadores, destacam-se os trabalhos de Boris Fausto

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sobre a Revolução de 30. Sobre o conceito de “populismo” no Brasil, Gomes dá um panorama


interessante para nossa discussão (Gomes, 2001: 17-53). As formulações de Gino Germani e
Torquato de Tella, base de incorporação da terminologia nas Ciências Sociais, partiam justa-
mente da premissa de que o populismo ocorria em situações de transição, do atrasado para o
moderno. Para uma crítica à utilização do “Estado de Compromisso” e às peculiaridades do
país, ver Munakata (1984).
11 A publicação nos Estados Unidos foi em 1998. Para Levine, Vargas não tinha ideologia.
12 Nessa gama, a crítica ia dos pensadores do ISEB e da Comissão Econômica para a América
Latina e o Caribe (CEPAL), passando por Florestan Fernandes, Celso Furtado, Sérgio Buarque
de Holanda, Boris Fausto, Fernando Henrique Cardoso e Fernando Novaes até os chamados
“modernistas”, como Paulo Prado.
13 Para entender o pensamento do integralismo dos anos 1930, Chauí fez uma análise dos
trabalhos que, historicamente, vinham tentando interpretar os anos 1920 e 1930.
14 Nessa perspectiva, do que não está no seu lugar, os trabalhos de Roberto Schwartzman,
Ao vencedor as batatas, e o de José Murilo de Carvalho, Os bestializados da República, apre-
sentam uma espécie de complementaridade.
15 Embora o trabalho de Wanderley Guilherme dos Santos fosse de 1978, já em 1975 Paulo
Sérgio Pinheiro indicava e lamentava essa tradição que não só encarava o período republicano
anterior a 1930 como de trevas, como apontava a irrelevância do movimento operário antes
da outorga varguista (Pinheiro, 1975: 10).
16 Essa tradição de interpretação tem em O’Donnell seu maior expoente.
17 Ao falar sobre o movimento operário no Brasil, Michael Hall faz uma observação interes-
sante sobre o caráter peculiar na história: “Acho que todas as historiografias nacionais ten-
dem a considerar a experiência do seu país como única e peculiar, embora haja uma insatis-
fação crescente entre os historiadores com esse tipo de abordagem” (Fontes; Macedo, 2016).
18 Sobre o livro de Bresciani, ver Cancelli (2006).
19 Como chama atenção Michael Foucault ao longo de sua obra.
20 Citamos como importantes nessa bibliografia: Edgar de Decca, O silêncio dos vencidos;
Carlos Alberto Vesentini, A teia do fato: uma proposta de estudos sobre a memória histórica;
Alcir Lenharo, A sacralização da política; Maria Luiza Tucci Carneiro, O antissemitismo na Era
Vargas (1930–1945); Elizabeth Cancelli, O mundo da violência: a polícia na Era Vargas; Eliana
de Freitas Dutra, O ardil totalitário e a dupla face na construção do Estado Novo; Daniel Bar-
bosa de Andrade Faria, O mito modernista.

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Elizabeth Cancelli

21 Segundo Arendt, somente duas atividades são políticas: a ação e o discurso, e delas nasce
a esfera dos negócios públicos.
22 Há uma crítica um tanto ligeira a essa historiografia feita por Ângela de Castro Gomes
em uma apresentação de livro de Jorge Ferreira, um dos grandes defensores do trabalhismo,
do governo Jango como redentor da classe operária e do “liberalismo excludente”. Nessa
crítica, tanto Gomes como Ferreira dizem que as análises são reducionistas. Para Gomes, para
entender Vargas e o “povo” (sic), sobre as questões da repressão e da propaganda política,
“trata-se de considerá-las teórica e empiricamente equivocadas para dar conta do fenôme-
no que está sendo examinado, considerando-se sobretudo seus desdobramentos através do
tempo”! (Gomes, 2005: 10). Nesse livro, Ferreira chega a afirmar que “afinados com os es-
quemas sociológicos dos teóricos do ‘totalitarismo’ (sic), alguns autores aproximam o governo
Vargas dos regimes políticos de Hitler e Stalin (sic) (Lenharo, 1986; Cancelli, 1993)” (Gomes,
2005: 15).
23 Sobre a importância da documentação para reconstruir a história do movimento operário
no Brasil, fruto de leitura aprofundada de Thompson, ver Hall e Pinheiro (1979; 1981).

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468 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.448-468, Setembro-Dezembro 2020
C O L A B O R A Ç Ã O E S P E C I A L

Contra o liberalismo e o comunismo:


uma democracia autoritária

Against liberalism and communism: an authoritarian democracy

Contra el liberalismo y el comunismo: una democracia autoritaria

Marly Viannai*

http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942020000300003

Universidade Federal de São Carlos – São Carlos (SP), Brasil.


I

*Professora aposentada da Universidade Federal de São Carlos.


https://orcid.org/0000-0003-0067-9052
Artigo recebido em 1º de maio de 2020 e aprovado para publicação em 03 de julho de 2020.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.469-488, Setembro-Dezembro 2020 469
MARLY VIANNA

Resumo
Tratamos dos primeiros 15 anos do governo Vargas, de sua legislação trabalhista e de sua atitude diante da
valorização do trabalho e do trabalhador. A partir da análise das lutas do movimento operário, da pesquisa
em jornais, programas e documentos de Vargas, verificam-se seus objetivos: o de elaborar uma legislação
trabalhista, que contempla e submete os trabalhadores; o de forçar os empresários a respeitarem tal legis-
lação, tendo como objetivo obter paz social, a verdadeira democracia, que só poderia ser mantida pondo fim
ao liberalismo e governando por meio do centralismo autoritário, a que chamava de democracia autoritária.
PALAVRAS-CHAVE: o primeiro governo Vargas; legislação trabalhista; lutas operárias; liberalismo;
autoritarismo.

Abstract
We deal with the first 15 years of the Vargas government, its labor legislation and attitude toward the valori-
zation of work and workers. From the analysis of the struggles of the workers’ movement, from the research in
their newspapers and programs and from Vargas documents, its objectives are verified: that of drafting labor
legislation, which contemplates and submits workers; to force businessmen to respect such legislation, aims
to achieve social peace, true democracy, which could only be maintained by putting an end to liberalism and
governing through authoritarian centralism, which he called authoritarian democracy.
KEYWORDS: the first Vargas government; labor legislation; workers’ struggles; liberalism; authoritari-
anism.

Resumen
Nos ocupamos de los primeros 15 años del gobierno Vargas, de su legislación laboral y de su actitud hacia
la valorización del trabajo y del trabajador. A partir del análisis de las luchas del movimiento obrero, del exa-
men de su prensa, de sus documentos programáticos y de documentos de Vargas, vemos que sus objetivos
consisten en: redactar la legislación laboral, que contempla y presenta a los trabajadores; obligar a los em-
presarios a respetar dicha legislación, con la finalidad de imponer la paz social, “la verdadera democracia”,
que solo podría mantenerse poniendo fin al liberalismo y gobernando a través del centralismo autoritario, a
lo que denominaba democracia autoritaria.
PALABRAS CLAVE: el primero gobierno Vargas; legislación laboral; luchas obreras; liberalismo; autori-
tarismo.

470 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.469-488, Setembro-Dezembro 2020
CONTRA O LIBERALISMO E O COMUNISMO: UMA DEMOCRACIA AUTORITÁRIA

INTRODUÇÃO

N umerosos e importantes trabalhos já foram escritos sobre a chamada “Era Vargas”.


Destaco os estudos de Ângela de Castro Gomes, Dulce Pandolfi e Maria Luiza Tucci
Carneiro, entre muitos outros. Minha contribuição para a discussão sobre o tema — sempre
inesgotável — é enfocar o que considero aparentes contradições do governo Getúlio Vargas.
Por um lado, foi um governo que estabeleceu uma ditadura durante quase oito anos. Embora
não pense que a ditadura já estivesse implícita no movimento que em outubro de 1930 levou
Vargas ao poder, o autoritarismo sempre esteve presente no governo Vargas — como de resto
em todos os governos do país —, cuja implantação deveu-se bastante ao apoio dos tenentes,
com seu ideário autoritário e elitista. A instauração do Estado Novo deu-se graças ao apoio
militar, agora do alto oficialato, este não só autoritário e elitista como simpatizante do nazi-
fascismo. Por outro lado, o Estado Novo foi uma ditadura popular, com o apoio da maior parte
do movimento operário e sindical (que Getúlio organizou, fortaleceu e subjugou), de boa parte
do funcionalismo público (que o governo organizou) e com o respaldo das Forças Armadas.
A proposta getulista era a de construção de uma grande nação, com independên-
cia econômica e paz social. Do ponto de vista econômico, poder-se-ia ainda pensar em um
capitalismo autárquico, uma vez que o imperialismo ainda não dominara completamente a
produção, mas esta é outra discussão. Do ponto de vista político e social, muito mais voltado
para o social do que para o político, prometia ser uma “sociedade democrática”, para Vargas
sinônimo de harmonia entre as classes, que só poderia ser conquistada por meio de uma
centralização autoritária. Só o autoritarismo poderia permitir a necessária centralização para
a conquista de uma sociedade supostamente democrática, quer dizer, que atendesse, contro-
lada pelo governo, às reivindicações de todas as classes.
O pensamento norteador do governo Vargas foi uma mistura, ou melhor, uma con-
vergência entre o positivismo, autoritário, e as posições também autoritárias de ideólogos,
principalmente Oliveira Vianna, que pregavam e justificavam uma “ditadura democrática”.
Para fazer a nação crescer e destacar-se no mundo seria preciso proteger todas as clas-
ses, com maior atenção aos até então desatendidos: os trabalhadores. Para isso, seria preciso
acabar com a “anarquia” de reivindicações de grupos; atender a todos, acabando com oposi-
ções de classe; seria preciso disciplina e obediência: “Os povos só progridem e expandem-se
quando os indivíduos (...) se conduzem no sentido, não da afirmação de si mesmos, mas da
abdicação de si mesmos; abdicação que se expressa no espírito de disciplina e no dever de
obediência” (Vianna, 1952: 17, grifos do original). A paz social, absolutamente necessária,
só poderia ser garantida, portanto, pelo governo autoritário, porque, sem tal autoridade cen-

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.469-488, Setembro-Dezembro 2020 471
MARLY VIANNA

tralizadora, a anarquia imperaria. Mas essa autoridade seria para construir a “verdadeira
democracia” que só poderia ser mantida por ela. Para Vargas e seus ideólogos, a democracia
não era o governo do povo, e sim um governo para o povo, na construção de uma paz social
só conseguida e mantida pela ditadura.
Seria preciso ajudar a classe operária a viver com dignidade, mas colocada em seu
devido lugar, o de membros inferiores da sociedade (segundo o positivismo). E seria preciso
ajudar os patrões a entenderem, pela obrigação de cumprir a legislação trabalhista, que só
fazendo concessões à classe operária seria possível, perdendo poucos anéis, manter todos os
dedos. Tentava-se invisibilizar a real contradição entre democracia e autoritarismo, ou dita-
dura, o que expressava exemplarmente os limites do liberalismo brasileiro. O autoritarismo
sempre existiu na sociedade brasileira, revestido agora de maior sagacidade na conquista
de apoio popular. Por isso a acolhida das esdrúxulas formulações de Oliveira Vianna sobre a
importância de uma “democracia autoritária”.
O período dito liberal da Primeira República só foi liberal para as classes dominantes
e parte das camadas médias urbanas, então em crescimento e quase sempre ligada por laços
familiares aos donos do poder. O movimento de 1930 pretendeu reformular toda a política
brasileira e dar atenção aos trabalhadores, mas, fosse no período revolucionário — o mais
liberal deles — ou constitucional ou ditatorial, os limites foram os mesmos: conter a classe
operária, ou pela força ou pela cooptação. Sem querer igualar liberalismo e ditadura, o que
quero salientar é que: um ou outro tipo de governo só poderá ser entendido a partir de uma
análise de classe.

Tentativas de organização da
classe operária na Primeira República

A classe operária, desde que surgiu, sempre lutou pelos seus direitos, e o número de gre-
ves em São Paulo confirma isso (Simão, 1966). As reivindicações eram principalmente
de redução de horas de trabalho, higiene nos locais de trabalho e nas moradias, aumentos
salariais, proibição de trabalho de menores e redução da jornada para crianças e mulheres.
Se as reivindicações eram as mesmas, as perspectivas de organização e os métodos de luta
diferiam conforme os grupos que as lideravam. O objetivo de mencionar aqui as lutas e orga-
nizações operárias antes de 1930 é o de embasar a discussão das atitudes dos trabalhadores,
mais tarde, em relação à legislação trabalhista de Vargas, mostrando as dificuldades de terem
ganho nessas lutas, maiores ainda para se organizarem e principalmente para conseguirem a
unidade da classe.

472 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.469-488, Setembro-Dezembro 2020
CONTRA O LIBERALISMO E O COMUNISMO: UMA DEMOCRACIA AUTORITÁRIA

Os socialistas

E ntre os propagandistas de ideias socialistas, já no final do século XIX, início do século


XX, havia pessoas oriundas da classe operária, como os gráficos José Veiga e França e
Silva, e o anarquista Mariano Garcia, operário da indústria de cigarros e depois jornalista, mas
a maior parte destes pioneiros pertencia às camadas médias urbanas, como os professores
Vicente de Souza e Eugênio Borba, o jornalista Gustavo de Lacerda, o advogado Evaristo de
Moraes e os médicos Estevam Estrela, Silvério Fontes, Sóter de Araújo e Carlos Escobar. Estes
três últimos formaram em Santos, em 1889, um Círculo Socialista que, para Astrojildo Pereira,
teria sido a mais antiga organização socialista de que se tem notícias no Brasil (Pereira, 1962:
404). A 12 de dezembro do mesmo ano foi escrito o manifesto do círculo, divulgado pela
imprensa em 1902 (Partido Socialista Brasileiro). Esses pioneiros da difusão do socialismo no
Brasil estavam imbuídos das ideias positivistas e evolucionistas em voga à época.
Evaristo de Moraes assinala, em 1890, os surgimentos dos primeiros partidos socialis-
tas no Distrito Federal, em São Paulo e em Porto Alegre.
Em 1895, o Círculo Socialista de Santos transformou-se em Centro Socialista de San-
tos, que editou, por mais de um ano, um jornal quinzenal, A questão social, cujo primeiro
número apareceu a 15 de setembro daquele ano. Sem nenhuma dúvida, esse Centro Socialista
teve importância na história da organização da classe operária e na difusão de ideias socialis-
tas. O pensador francês Benoit-Malon, a grande influência ideológica no centro, dificilmente
poderia ser chamado de marxista.
A maioria dos partidos socialistas criados à época apelava com frequência para a carida-
de, a bondade e a justiça que, segundo eles, os patrões deveriam demonstrar para com os pro-
letários, os quais, por sua vez, deveriam ter espírito de tolerância e evitar “abalos subversivos”.
O que caracterizou os socialistas e os diferenciava dos anarquistas foi a ideia de um
socialismo conquistado na legalidade, daí a importância que davam às lutas eleitorais, aos
apelos à compreensão e à caridade dos industriais para com os trabalhadores e, muitas vezes,
à afirmação de não serem revolucionários. Ao constatar o reformismo dos primeiros socia-
listas, é preciso entender a dificuldade, sem base de classe, de consolidar uma organização
revolucionária. Antônio Piccarolo, um dos fundadores do jornal socialista Avanti!, fala sobre
as primeiras tentativas de socialismo no Brasil:
Indivíduos vindos da Europa, especialmente da Itália, trazendo consigo a convicção e o ideal
socialista, procuraram transplantá-los no Brasil, fundando um partido socialista brasileiro. Pa-
rece perfeitamente ocioso dizer que estas tentativas encontraram sorte por completo negativa,
tendo a semente caído em terreno impreparado e contrário a todo desenvolvimento socialista.
(Piccarolo, 1932: 55-57)

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MARLY VIANNA

Os anarquistas: nem Deus nem mestre

G igi Damiani, anarquista italiano e com grande atuação no Brasil, definiu o anarquismo
como “a concepção de um futuro para a Humanidade que exclua todo princípio de
autoridade, de domínio e de exploração do homem pelo homem” (Damiani apud Leuenroth,
1963: 21).
Um ponto importante do anarquismo foi o repúdio ao parlamento e à ação eleitoral,
uma vez que desprezavam toda e qualquer ação política nos marcos da sociedade capitalista.
É importante frisar que os anarquistas não desprezavam a ação política, mas a entendiam
como ação direta — greves, manifestações, boicotes — e nunca pela atuação partidária e
eleitoral, que consideravam traição, por reconhecer e assumir os métodos da burguesia.
Nos primeiros anos do século XX, os anarquistas tiveram maior influência no movi-
mento operário, sendo responsáveis por intensa propaganda de luta em seu meio, por inter-
médio de inúmeros jornais e da organização dos primeiros congressos operários. Lutavam ba-
sicamente pelas mesmas reivindicações lançadas pelos primeiros grupos socialistas: jornada
de oito horas, aumento salarial, abolição de multas, regulamentação do trabalho de mulheres
e crianças, férias remuneradas, higiene nos locais de trabalho, moradias decentes etc. Não
admitiam, como vimos, ao contrário dos socialistas (e, mais tarde, dos comunistas), qualquer
organização de caráter político. Os anarquistas — os sindicalistas revolucionários, o grupo
mais atuante no Brasil — consideravam que o sindicato não tinha caráter político, e sim
reivindicativo, sendo por isso a única forma de organização que aceitavam porque somente
essa associação poderia unir todos os trabalhadores em torno de seus interesse, sem divisões
políticas e ideológicas e sem autoridades e hierarquias de mando.
Nos primeiros anos do século XX, os anarquistas tiveram papel fundamental na orga-
nização do movimento operário, não só pela propaganda em seu meio, por meio de inúmeros
jornais, como também pela organização de associações de resistência, pelo auxílio mútuo e
pela realização de congressos operários.
Foi imensa a contribuição de anarquistas portugueses, espanhóis e italianos no Brasil,
dentre os quais destaca-se Neno Vasco, uma das figuras libertárias de maior importância, aqui
e em Portugal, com grande atuação na imprensa anarquista, e teórico do sindicalismo revo-
lucionário. Chegou ao Brasil em 1901 e foi diretor do jornal O amigo do povo, que começou
a circular em 1902 na capital paulista. Logo a seguir lançou a revista Aurora. Escreveu nas
páginas do jornal A voz do trabalhador, onde discutiu as relações entre anarquismo e sindi-
calismo. De volta a Portugal, em 1911, manteve correspondência com os jornais anarquistas

474 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.469-488, Setembro-Dezembro 2020
CONTRA O LIBERALISMO E O COMUNISMO: UMA DEMOCRACIA AUTORITÁRIA

brasileiros. Seu principal livro foi A concepção anarquista do sindicalismo, publicado em 1923
e reeditado em 1984. Diz ele:
O que no sindicalismo é essencial é a organização e a ação de classe do proletariado, é o mo-
vimento sindical. Os operários, não porque têm conscientemente este ou aquele ideal quanto
à sociedade futura, mas porque são assalariados e precisam de lutar contra os patrões, agru-
pam-se em sindicatos (sociedades de resistência era muito mais apropriado), fora de qualquer
partido. (... dos) meios de ação direta são partidários todos os operários, sejam quais forem as
suas ideias políticas, sociais ou mesmo religiosas; e portanto todos se podem e devem reunir
nos sindicatos para o exercício dessa ação, fazendo cada um, cá fora, se quiser, parte desse ou
daquele partido político ou seita. (Vasco, 1984: 91, grifos do original)

Os anarquistas foram responsáveis por inúmeras greves e manifestações operárias, e,


se estavam longe de representar a maioria da classe, foram, sem dúvida, a parte mais atuante
dela. Por isso mesmo a perseguição que sofreram desde o início. O governo — os patrões —
os considerava estrangeiros malvados que traziam para cá ideias estranhas à boa índole dos
brasileiros. Não havia nenhuma base para considerar as lutas operárias como exóticas, mas
era essa a propaganda que se fazia.
É preciso assinalar a dificuldade de se tornar vanguarda política de uma classe que
começava a se formar, sem qualquer experiência de convivência social democrática ou de
organização, e que sofria uma repressão inacreditavelmente brutal: salários miseráveis, péssi-
mas condições de trabalho, a situação de crianças subnutridas e que praticamente dormiam
nas fábricas, bem como jornada de trabalho abusiva, prisões, espancamentos, deportações e
assassinatos. É preciso assinalar também as dificuldades de se constituir em um grupo político
importante, cujas lutas contribuíssem para a construção de uma consciência proletária. Com
sua presença e atuação, conseguiram todas as conquistas que obteve a classe operária na Pri-
meira República — poucas conquistas materiais, mas principalmente a luta pela construção
da dignidade da classe.

Os comunistas

O s fundadores do Partido Comunista do Brasil (PCB) vieram todos do sindicalismo revo-


lucionário, influenciados pela Revolução de Outubro na Rússia e convencidos de que
uma forte organização política era indispensável para a concretização não só da revolução so-
cialista, mas também para garantir conquistas para os operários. Afastaram-se do anarquismo
pela aceitação da necessidade de um partido político e na admissão de autoridades que co-
mandassem e coordenassem não só a vida partidária, mas a organização da futura sociedade

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.469-488, Setembro-Dezembro 2020 475
MARLY VIANNA

socialista. Por outro lado, sem o reformismo socialista, que buscava fundamentalmente vias
legais para a chegada ao poder, os comunistas admitiam a participação nas eleições.
O PCB foi fundado em março de 1922. Esse recém-fundado partido tinha pressa em
filiar-se à Internacional Comunista (IC), o que lhe daria a força e o prestígio de que carecia na-
cionalmente. Esse empenho em ser reconhecido pela organização internacional refletiu-se em
sua imprensa, como fica explicitado nas publicações da revista Movimento Comunista (Partido
Comunista do Brasil, 1922: 1). A recém-nascida imprensa comunista tratava muito pouco dos
assuntos políticos nacionais e a grande maioria dos artigos era de enaltecimento da União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e de reproduções de artigos de comunistas russos.
No que diz respeito à Revolução de 1930, o PCB lavou as mãos, dizendo que não
tomava partido em uma luta que só dizia respeito aos dois imperialismos: o inglês, que re-
presentaria os interesses agroexportadores, e o norte-americano, representante dos interesses
industriais.
O trabalho dos comunistas para influir nos meios operários foi intenso, mas sempre
muito reprimido. Lutaram pela melhoria de vida da classe operária: os socialistas, pela via
eleitoral e pela organização de partidos políticos da classe; os anarquistas, batalhando pelos
mesmos direitos a partir da organização sindical e pela ação direta; os comunistas, que, com
o mesmo programa, aceitavam as duas formas de luta. Os patrões não respeitaram parte
considerável do pouco que a classe conquistou, por meio de movimentos grevistas.

Lutas de classe na Primeira República

N o Congresso Operário de 1906 — “manifestou-se uma forte corrente favorável à for-


mação de um partido político operário; mas a corrente anarco-sindicalista predominou
ali de maneira irredutível, com o seu visceral preconceito ‘antipolitico’”. (Pereira, 1976: 34)
Apesar de o congresso não ter sido principalmente de anarquistas, foram as posições
destes que predominaram.
As péssimas condições de vida e trabalho dos operários, seus salários miseráveis, um
passado cuja única tradição de trabalho era a escravidão, grande contingente de mulheres e
crianças nas fábricas têxteis, a falta de qualquer histórico de organização e a brutal repressão
que sofriam, por um lado, assustavam a classe, cuja maioria arriscava o emprego e convivia
com a ameaça de expulsão do país, de prisão e, algumas vezes, de assassinato. Basta lembrar
a Lei Adolfo Gordo, que determinou a expulsão, em 1907, de mais de 100 trabalhadores
estrangeiros grevistas, número que aumentou muito entre 1908 e 1921. Em 1923, o mes-
mo senador Adolfo Gordo reviveria a mesma lei, chamada então de “Lei Infame” ou “Lei

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CONTRA O LIBERALISMO E O COMUNISMO: UMA DEMOCRACIA AUTORITÁRIA

Celerada”. Houve também a internação na Clevelândia, para onde Artur Bernardes enviava
seus opositores, a grande maioria trabalhadores grevistas, principalmente anarquistas. Poucos
voltaram vivos de lá (Samis, 2002).
Os debates parlamentares sobre direitos trabalhistas mostram o pensamento dos in-
dustriais: nenhum direito para os operários, que deveriam — eles e suas reivindicações — ser
tratados como casos de polícia. Quem pesquisou a ideologia de nossos industriais de 1919 a
1945 foi Marisa Saenz Leme.
Apesar de terem participado da Conferência de Paz de Genebra, em 1919, e terem
aceito alguns de seus princípios sobre a questão social, tal aprovação dos representantes
brasileiros em relação a esses direitos foi apenas formal (Leme, 1978: 103-104).
As poucas leis trabalhistas aprovadas na Primeira República não foram cumpridas pe-
los patrões. O grande medo deles era que fosse tornado realidade o projeto do Departamento
Nacional do Trabalho, pois com ele os operários poderiam ter algum direito, pelo menos o
de fiscalizar o cumprimento das leis estabelecidas. “Para os empresários a mediação entre
patrões e operários deveria continuar a cargo do Chefe de polícia, o que lhes permitia maior
controle sobre as relações de trabalho” (Leme, 1978: 133, grifo da autora). Nada melhor para
mostrar como eram considerados o trabalho e os trabalhadores na Primeira República — um
caso de polícia.
A reprodução das discussões sobre a Lei de Férias, proposta em 1926, não deixa dú-
vidas sobre o dito acima. Como sempre, o argumento era o de que qualquer benefício traba-
lhista desestruturaria a indústria (da mesma forma que o final da escravidão seria a derrocada
econômica do país.). Entre inúmeros argumentos estapafúrdios, dizia-se que o operariado não
necessitava de férias e que a execução da lei teria como consequência a sua desorganização
moral e social. Tais afirmações decorrem das concepções que os industriais adotavam quanto
ao caráter do trabalho proletário, que, por ser de natureza braçal, era visto como de qualida-
de inferior. O empregado do escritório era um intelectual que trabalhava com o cérebro. Já o
operário era um trabalhador braçal cujo cérebro não gastava energias (Leme, 1978: 117-118).
Diziam os patrões que seria ilógico que o cerebral fosse equiparado, na lei, ao não
cerebral: “Os lazeres, os ócios, representam um perigo eminente para o homem afeito ao
trabalho, e nos lazeres ele encontra seduções extremamente perigosas, se não tiver elevação
moral para dominar os instintos subalternos que dormem em todo ser humano” (apud Leme,
1978: 119).
Que fará um trabalhador braçal durante quinze dias de ócio? (...) tendo tomado férias (...)
compelido pela lei? (...) Ele não tem o culto do lar (...) e procurará matar suas longas horas de

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MARLY VIANNA

inanição na rua (...) O proletariado é, pois, um elemento da coletividade que as férias estraga-
rão. (apud Leme, 1978: 120)

E por aí seguem seus argumentos de que, apesar de absurdos e de todas as lutas ope-
rárias, foram vitoriosos e os operários, demitidos, encarcerados ou expulsos do país.
Além da luta econômica pelas suas necessidades básicas, os trabalhadores exigiam a
valorização do trabalho e o reconhecimento de sua dignidade profissional e humana. E foi a
legislação trabalhista, com o reconhecimento formal dos direitos do trabalhador e a dignifica-
ção do trabalho, que levou ao apoio popular ao governo Vargas.

Uma democracia autoritária para levar em conta


o social e valorizar o trabalho

A leitura da obra de Oliveira Vianna deixa claros seu elitismo e suas ideias autoritárias. Em
seus escritos políticos, critica acerbamente o liberalismo, e o faz a favor do autoritaris-
mo. Agora bem, a meu ver, as críticas que faz ao liberalismo da Primeira República, embora
tenham base, são demagógicas e falsas, porque as soluções propostas para superá-las não
o são. O liberalismo da Primeira República era um liberalismo para as classes dominantes,
enquanto os direitos dos trabalhadores eram caso de polícia. A proposta de Oliveira Vianna de
um caminho supostamente alternativo não era propriamente uma terceira via, pois defendia o
sistema capitalista, mas um capitalismo administrado, que garantiria a paz social e, portanto,
segundo ele, a verdadeira democracia.
Oliveira Vianna dizia que o liberalismo não correspondia às necessidades de toda a na-
ção e o criticava desde suas origens, desde os enciclopedistas, vendo na Revolução Francesa
a mãe de todos os seus males (Vianna, 1952: 15).
Para organizar uma nação que pudesse ser realmente grandiosa, seria preciso centra-
lismo e disciplina, e um dos nossos maiores problemas era o fato de que os industriais brasilei-
ros, em seu liberalismo individualista, não estavam preparados para isso (Vianna, 1952: 73).
As ideias de um importante ideólogo do primeiro período varguista tinham inúmeros
pontos de convergência com as posições autoritárias do positivismo com as quais o gaúcho
Vargas comungava, admirador que era das ideias autoritárias de Júlio de Castilhos. Era preci-
so acolher todas as classes e camadas da sociedade, evidentemente de diferentes maneiras:
dando os privilégios aos cérebros da sociedade — os industriais e os intelectuais —, mas pro-
tegendo os membros dela, seus braços e pernas, os trabalhadores. O que Vargas preconizava
era a paz social, a harmonia entre as classes, que deveria ser gerida pelo governo, mesmo que
descontentando, por vezes, as classes dominantes e cooptando ou reprimindo com brutalida-

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CONTRA O LIBERALISMO E O COMUNISMO: UMA DEMOCRACIA AUTORITÁRIA

de os subalternos que não se submetessem às benesses do “Pai dos Pobres”. Seria impossível
organizar sem autoritarismo o que seria a verdadeira democracia. Para Vargas, a democracia
não era o governo do povo, mas para um povo domesticado e só poderia ser “dada” se con-
trolada por intermédio do autoritarismo. Daí o aberrante conceito de “ditadura democrática”.
Queria fazer com que a classe operária vivesse com dignidade, mas colocada em seu lugar,
subalterno, na sociedade. Longe se estava de abandonar a ideia de dominação de classe, mas
tratava-se de impor tal dominação de forma a evitar qualquer descontentamento maior dos
trabalhadores. Era preciso evitar a todo custo movimentos revolucionários — e a Revolução
Russa e a IC mostravam que o perigo era real.

Os ganhos materiais

D epois de intensas lutas na Primeira República, poucas com sucesso, os operários co-
meçaram, depois de 1930, a ter algumas garantias, dadas pelo governo, por meio da
legislação trabalhista. Os anos de 1931 ao Estado Novo, em 1937, apesar de representarem
alguns ganhos, foram mais de gestação das incipientes medidas em prol dos trabalhadores.
Como Marisa Saenz Leme assegura, a elaboração das leis trabalhistas deu-se entre 1930 e
1934, mas a ênfase nelas só ocorreu no Estado Novo, como a regulamentação do salário mí-
nimo, a organização da Justiça do Trabalho, a instituição do ensino profissional e de refeitórios
nas indústrias (Leme, 1978: 151). Por exemplo, o decreto que estava sendo discutido sobre o
salário mínimo só foi anunciado e passou a vigorar a parti de 1º de maio de 1940. A Justiça
de Trabalho só foi regulamentada a 02 de maio de 1939. Houve ainda a regulamentação da
jornada de 08 horas de trabalho diárias e a proibição do trabalho noturno para as mulheres.
A Lei de Férias, o Código do Menor e as Leis sobre Acidente de Trabalho, que vinham
da Primeira República sem serem cumpridas, foram regulamentadas em 1934, assim como as
comissões mistas de arbitramento e conciliação, já em 1932. Mas não o foram tranquilamen-
te, pois as vantagens dadas aos trabalhadores continuavam a ser contestadas pelos patrões.
Os industriais paulistas conseguiram, em novembro de 1932, um retrocesso em relação ao
trabalho infantil. A legislação considerava como infantil o menor de 14 anos, mas os patrões
conseguiram baixar a idade para 12 anos. Da mesma forma, conseguiram equiparar o teto
de trabalho para jovens entre 14 e 18 anos, que fora estabelecido em 6 horas diárias, ao
dos adultos, de 8 horas diárias (Leme, 1978). “Apesar dos protestos patronais, entretanto, o
governo acabou impondo-se e vencendo a resistência dos empresários em aceitar a instituição
do salário mínimo” (Leme, 1978: 151).

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MARLY VIANNA

A valorização do trabalho

T ão ou mais importante do que a Legislação Trabalhista foi a retórica valorização do


trabalho e do trabalhador da Era Vargas. Desde o início de seu governo, Vargas colocou
o trabalhador, a legislação trabalhista e a dignidade (submissa) do trabalho como fundamen-
tais. Vejamos alguns poucos trechos de seus discursos, todas as citações foram retiradas de
discursos transcritos em As diretrizes da Nova Política do Brasil
Não é demais repetir que a legislação trabalhista, tal como a entendemos, tem por objetivo dar
ao trabalhador de todas as classes um padrão de vida compatível com a dignidade humana e
as conquistas sociais e políticas de nosso tempo.

Nenhum governo, nos dias presentes, pode desempenhar a sua função sem satisfazer as justas
aspirações das massas trabalhadoras. (...) Ninguém pode viver sem trabalhar; e o operário não
pode viver ganhando apenas o indispensável para não morrer de fome.

Além de reconhecer direitos básicos que, naquele contrato (de trabalho — MV) assistem ao
trabalhador, a legislação atual visa dar-lhes condições de vida compatíveis com a dignidade
humana, elevando-lhes o nível cultural, assegurando-lhe habitação condigna, cuidando da me-
lhoria de sua alimentação, garantindo-lhe um salário vital e facultando-lhe participação efetiva
nos negócios públicos, através de organizações sindicais. (Vargas, 1942: 226-227, 229)

Ângela de Castro Gomes, em seu precioso livro A invenção do Trabalhismo, mostra


como os trabalhadores tornaram-se figurantes centrais na política pós-30. O mais importante,
diz Ângela, foi a valorização do trabalho e da dignidade do trabalhador, pois o Estado tentou
construir um projeto de identidade operária.
O valor fundamental do trabalho — como meio de ascensão social e não de saneamento
moral — e a dignidade do trabalhador são o eixo em torno do qual se conta sua comunicação
com a sociedade e como o mundo da política. O estatuto do trabalhador é o que dá identidade
social e política ao homem brasileiro, fato magistralmente materializado na carteira de trabalho
e pela definição da vadiagem como crime. A cidadania, fundada no gozo dos direitos sociais
do trabalhador e no reconhecimento das associações profissionais — ambos tão almejados e
demandados pela classe trabalhadora durante décadas —, é sancionada com a articulação de
um projeto político entre Estado e classe trabalhadora que, ao se efetuar, constrói estes dois
atores que assim se conhecem e reconhecem. (Gomes, 2005: 27)

Os ganhos dos trabalhadores não só foram materialmente reais como atenderam às


mais caras reivindicações da classe: Vargas falava com frequência sobre o reconhecimento da
dignidade do trabalho. Mas houve um preço a pagar: a adesão aos sindicatos controlados
pelo Ministério do Trabalho Indústria e Comércio (MTIC).

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CONTRA O LIBERALISMO E O COMUNISMO: UMA DEMOCRACIA AUTORITÁRIA

Estado Novo

O s primeiros cinco anos da década de 1930 foram palco de intensas lutas políticas. A
classe operária e os novos grupos burgueses, assim como os setores médios urbanos,
queriam participar das mudanças no poder que ocorriam no período pós-revolucionário e
apresentavam suas plataformas, políticas e/ou reivindicativas, propondo diferentes caminhos
para alcançar seus objetivos.
No Brasil, o nazifascismo teve inúmeros adeptos na década de 1930. Por todo o país
organizavam-se grupos de extrema-direita que se juntaram quase todos na Ação Integralista
Brasileira (AIB), fundada a 07 de outubro de 1932, sob a liderança de Plínio Salgado. Os
integralistas apoiavam o governo provisório de Getúlio, do qual queriam participar. O próprio
presidente Vargas demonstrou, naquela época, simpatia pelo fascismo, rejeitando o liberalis-
mo e cercando-se de figuras conhecidas por suas posições de direita, como os generais Góis
Monteiro, João Gomes, Pantaleão Pessoa e Eurico Gaspar Dutra, e o sinistro chefe de polícia
Filinto Strubing Müller. O tempo passava sem a convocação de uma Assembleia Nacional
Constituinte que levasse o país de volta à legalidade constitucional.
A revolta paulista de julho de 1932, apesar de fracassada, resultou na convocação da
Assembleia Constituinte, e em julho de 1934 a Constituição foi votada e Vargas, eleito, pelo
voto indireto, presidente constitucional.
Apesar da adesão da maioria dos trabalhadores à política varguista, anarquistas e
comunistas continuaram a lutar pela manutenção das mesmas conquistas, mas com inde-
pendência de classe, quer dizer, sem a tutela do Ministério do Trabalho. Durante os anos do
governo revolucionário, que vão da vitória da Revolução de 1930 à Constituição de 1934, e
quase todo o ano de 1935, as lutas sociais aumentaram e suas organizações foram criadas e
fortalecidas, destacando-se a Aliança Nacional Libertadora [ALN] (28 de março a 11 de julho
de 1935). Uma situação que o governo não aceitava. Menos de uma semana depois do lança-
mento da aliança, a 4 de abril, o governo decretou a Lei de Segurança Nacional. De qualquer
maneira, foram anos de intensa movimentação política na sociedade.
Nesse período já são manifestas as intenções de Vargas de angariar o apoio da classe
operária submetendo-a às diretrizes do governo, mas o movimento popular representado
pela ANL contrapunha-se a esses planos e apoiava as reivindicações operárias, mantendo
sua independência de classe. Por isso mesmo a ANL teve seus dias contados, como mostram
as provocações do final de junho de 1935 (Vianna, 2011: 173). O anticomunismo esperava
apenas um pretexto para manifestar-se plenamente e ele foi dado em novembro de 1935, com
o chamamento à tomada de quartéis.

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MARLY VIANNA

A ANL foi o maior e o mais importante movimento popular do Brasil, arregimentando


um sem-número de organizações, e seu fechamento encerrou a etapa mais democrática que
o país já viveu. Concordo com a colocação de Tucci Carneiro (1999: 328) de que, com as der-
rotas da grande frente democrática de 1935, a ANL consolidou-se o autoritarismo no Brasil,
cuja base foi o anticomunismo. Vargas já se aproveitara dos levantes de novembro de 1935
para fortalecer seu poder e intensificar a repressão. Antes do Estado Novo, no final de 1935,
foram criados a Comissão de Repressão ao Comunismo e, em setembro de 1936, o Tribunal
de Segurança Nacional, além da decretação do estado de sítio.
A perseguição não só aos comunistas, mas aos considerados simpatizantes, aos li-
berais e aos democratas foi brutal, desde o final de 1935. Na segunda metade de 1937, os
comunistas que não foram mortos estavam presos ou dispersos e desorganizados. Vargas
sabia disso. Seu grande problema eram as eleições, marcadas para março de 1938, que se
aproximavam. O paulista Armando de Salles Oliveira, candidato favorito à presidência, estava
longe de ser um democrata, mas disputava o poder dentro dos mecanismos liberais constitu-
cionais. O problema é que Vargas não estava disposto a deixar o poder e, para manter-se nele,
recorreu outra vez ao anticomunismo e aos militares.
Os anos de 1936 e 1937, ainda no período constitucional, foram de extremado antico-
munismo. O Estado Novo foi, no querer e no dizer do governo, uma “democracia autoritária”
que, apesar da brutal repressão ao comunismo e aos liberais progressistas, não perdeu o
apoio da classe operária. Esta, se teve ganhos (e foram muitos), perdeu, pelo menos tempo-
rariamente, sua liberdade.
Nunca será bastante enfatizar o poder das classes dominantes em nosso país, que
não admitem conquistas das classes trabalhadoras, por menores que sejam — a não ser
que sejam outorgadas por um alto preço e sempre mantidas dentro de limites impostos pelo
capitalismo selvagem.
No Brasil, é preciso não confundir nosso chamado liberalismo com democracia. Houve
períodos de maior espaço político para manifestações populares, mas estas foram reprimidas
conforme se fortaleciam. Foi assim nos primeiros anos 1930 e foi assim no início dos anos
1960.
O liberalismo brasileiro sempre impôs um limite à atuação das classes subalternas e
por isso mesmo não vejo como muito esclarecedor opor, “em relação à classe operária”, o
liberalismo da Primeira República à ditadura varguista. São duas formas de comando das clas-
ses dominantes e diferentes formas de a classe operária reagir a esses poderes. Só de maneira
estapafúrdia poder-se-ia considerar liberalismo e ditadura como “farinhas do mesmo saco”.
Não se trata disso. Trata-se de considerar que, dado o tipo de liberalismo existente na Primeira

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CONTRA O LIBERALISMO E O COMUNISMO: UMA DEMOCRACIA AUTORITÁRIA

República, para as classes subalternas a ditadura implantada por Vargas não trouxe maiores
prejuízos, e sim alguns benefícios.
A Constituição de 1891 ignorou os direitos sociais dos trabalhadores. Sem acreditar
no liberalismo, sem base teórica sobre o socialismo e sem conhecimento sobre o país, a
classe operária se via dividida entre os grupos que diziam representá-la e que brigavam entre
si. Quando falamos da importância dos anarquistas na Primeira República e da influência
comunista mais tarde, sem que isso deixe de ser verdade, a esmagadora maioria da classe
era apática, sem partido e, em termos de arregimentação, os chamados sindicatos amarelos
tinham maior número de adeptos.
Vários autores, entre os quais me incluo, e com destaque para o citado livro de Ângela
de Castro Gomes, percorreram a formação da classe operária — socialistas, anarquistas e
comunistas — e sua busca de identidade como classe, discutindo suas ideologias e propostas
de organização. Fica claro, por esses estudos, que, com todas as suas lutas na Primeira Re-
pública, muitas derrotas, poucas conquistas e feroz repressão, a ditadura varguista não teve
para a classe operária o mesmo significado que para as camadas médias urbanas e para os
poucos membros das esferas dominantes. Por isso, não creio que ajude manter a discussão
sobre se a classe operária aceitou passivamente ou não a cooptação feita por Vargas e as
benesses que conseguiu submetendo-se. Em primeiro lugar, é preciso entender qual a visão da
classe sobre o liberalismo anterior a 1930 e a ditadura que viria anos depois. A classe operária
tinha vivenciado um liberalismo que tratava suas reivindicações como caso de polícia e viu-se
diante de uma ditadura que lhe dava direitos e, inclusive, obrigava os patrões a respeitá-los.
Por outro lado, não será correto afirmar que a classe operária simplesmente submeteu-se
aos ditames do governo. Aceitou os benefícios recebidos, mas não passivamente. As lutas da
classe não desapareceram, embora estivessem amortecidas, por algum tempo, pela incrível
repressão que se seguiu às insurreições de novembro de 1935 e que tinham se consolidado
com o fechamento da ANL e depois com o Estado Novo. E tanto continuou suas lutas, que mal
surgiram ares de liberdade, por pouco tempo, no final da guerra, ela reapareceu com suas rei-
vindicações independentes e suas organizações foram se fortalecendo, até o golpe de 1964.
De qualquer maneira, a ditadura getulista seduziu a classe, ao apontar que o libera-
lismo até então vigente ignorava o social. E a propaganda anticomunista ajudou a afastar
os operários do socialismo. Getúlio propôs uma outra via para o capitalismo: a “democracia
autoritária”, ou uma “ditadura democrática”.
O que considero mais importante na política varguista foi a valorização do trabalho
e do trabalhador. A construção positiva da identidade do trabalho no Brasil era muito difícil
porque nosso trabalhador não contava, em seu passado, com uma época de liberdade —

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MARLY VIANNA

aqui o passado era a escravidão, o trabalho era “coisa de negro”. Por isso a valorização do
trabalho e a dignificação do trabalhador calaram fundo no movimento operário. A dificuldade
da luta que forja a identidade do trabalhador era tão grande, que o líder anarquista Neno
Vasco escreveu:
A população brasileira tem ainda como predominantes os elementos incultos, provenientes
do trabalho agrícola, de caráter colonial, com ressaibos de escravatura recente; e a esses ele-
mentos juntam-se, nos estados de imigração — os do Sul, especialmente — camadas novas
e móveis, das quais apenas uma parte se fixa, quase sempre sem se adaptar inteiramente. (...)
são, em grande parte, constituídas por trabalhadores rústicos, saídos de regiões atrasadas e
miseráveis. Os imigrantes têm, em geral, um escopo único: o amontoamento de um pecúlio
para regressar à pátria. (Vasco, 1963: 102-103)

A propalada valorização do trabalhador, mais do que os benefícios recebidos, deu


prestígio a Vargas entre os operários, e não foi mero acaso que ele tenha voltado em 1950
eleito elo povo e tenha sido glorificado como “o pai dos pobres”.
É verdade, como diz Ângela de Castro Gomes, que,
Vencido o período de reconstitucionalização e dos seus múltiplos ensaios políticos e dimen-
sionada a experiência inicial do Ministério do Trabalho, fechou-se com vigor o espaço para
qualquer tentativa de encaminhar o processo de constituição da classe trabalhadora a partir dos
próprios trabalhadores. (Gomes, 2005: 30-31)

A valorização do trabalho era cantada em músicas populares. Getúlio afirmava que


o fundamental do Estado era garantir os direitos sociais. Já que direitos sociais e paz social
eram garantidos, não seriam necessários direitos políticos, como o respeito aos três poderes.
Os direitos políticos seriam para reivindicar direitos, mas, uma vez concedidos, estes deixavam
de ser necessários.

Violência e propaganda

F azendo parte da repressão, em um seu aspecto mais disfarçado, o Estado ditatorial pro-
moveu “o controle sistemático das massas, articulado através de um plano orgânico e
racional, de cunho nacionalista” (Carneiro, 1999: 333). Queimaram-se livros às centenas,
ao mesmo tempo em que se falava da criação de um Brasil moderno e de um novo homem.
As prisões e as torturas não só aniquilaram centenas de militantes democratas como
geraram um medo que se entranhava no cotidiano das pessoas — era nisso que o governo
apostava para domesticar o povo. Combinada a esse medo, a propaganda manipuladora.

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CONTRA O LIBERALISMO E O COMUNISMO: UMA DEMOCRACIA AUTORITÁRIA

Além da censura do Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP (dirigido por Lourival


Fontes), havia toda a propaganda, típica do nazismo, dirigida à juventude e exaltando-a.
Nesse sentido, o incentivo à educação física foi fundamental para as práticas disciplinares.
Para isso, muito serviram cerimônias cívicas, sendo criado todo um calendário de comemora-
ções (Parada, 2009). Uma das mais importantes foi a “Parada da Raça”, que reunia jovens
estudantes desde a escola primária para um desfile civil, pouco antes do 07 de setembro. O
civismo incentivado nas escolas era uma apologia ao Estado Novo e a Vargas. Eram distribuí-
dos para as crianças livros com a biografia de Vargas, retratado em histórias em quadrinhos
como um herói. Vargas era o herói que protegia o povo dos malefícios e do perigo comunista,
e isso também justificava o controle policial e a repressão.
Para que se tenha uma pequena ideia do caráter da propaganda, cito o título de
alguns artigos da revista do DIP, Estudos e conferências. Alguns números foram inteiramente
dedicados à juventude e à importância da educação física, como os de dezembro de 1941 e
fevereiro de 1942. Mas a tônica era a louvação a Getúlio Vargas.

“Falta alguém em Nuremberg”

E ste é o título do livro em que o repórter David Nasser (1966) narra as torturas cometidas
pela polícia de Filinto Müller e que eram de pleno conhecimento de Getúlio Vargas. Se-
gundo Elizabeth Cancelli, o aparelho policial do governo Vargas vinha sendo cuidadosamente
montado desde 1933 (Cancelli, 1993: 50), sendo que já em 1931 Batista Luzardo trouxera
técnicos policiais de Nova York “para organizar o serviço de combate ao comunismo da polícia
do Distrito Federal” (Cancelli, 1993: 83). E logo depois da derrota das insurreições de novem-
bro de 1935 começaram as negociações para efetivar a colaboração entre a polícia brasileira
e a Gestapo (Cancelli, 1993: 87), o que não impediu que membros da famigerada polícia
nazista estivessem presentes na prisão de Harry Berger e começassem a torturá-lo ainda no
carro que o levava à prisão — e à loucura.
O delegado especial de Polícia, capitão Afonso Henrique Miranda Correa, recebeu de
Heinrich Himmler, líder da SS e chefe de Polícia do III Reich, um dos maiores criminosos de
guerra nazistas, a ordem de Primeira Classe da Cruz Vermelha (Cancelli, 1993: 90).
A entrega de Olga Benário, grávida de sete meses, aos nazistas, para ser assassinada,
foi de responsabilidade de Vargas, de Filinto Müller e também e principalmente da última
instância a que se recorreu para evitar sua extradição, os ministros do Superior Tribunal Fe-
deral. Dos onze ministros, apenas três votaram contra a entrega de Olga à Gestapo: Carlos
Maximiliano, Eduardo Espínola e Carvalho Mourão.1

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MARLY VIANNA

CONCLUSÃO

O autoritarismo não era novidade em nossa sociedade. Passamos 400 anos tratando ou-
tros seres humanos como se fossem bichos (semoventes). Uma sociedade desde sem-
pre discriminadora, elitista e, consequentemente, altamente repressora. Os exemplos disso
são inúmeros e seria longo citá-los. Depois da escravidão, a classe operária foi tratada como
grupo inferior: os pés e os braços que serviam ao cérebro (ou que eram comandados pelo cére-
bro) — a elite no poder. As tentativas não só de subverter a ordem vigente, mas de conseguir
melhorias no nível de vida e nas condições de trabalho foram sempre brutalmente reprimidas.
O Estado Novo, conseguindo o apoio submisso da classe operária e controlando a desmedida
exploração dos trabalhadores, consolidou maneiras de pensar e de atuar dos donos do poder,
agora cooptando boa parte das classes subalternas para a aceitação da ideologia dominante.
E os grupos democráticos que tentavam mudar a situação não foram capazes de criar uma
contraideologia que chegasse ao coração das massas.
A repressão e a propaganda fizeram com que qualquer manifestação contrária ao
governo, qualquer crítica ao presidente-ditador fosse considerada solerte trama comunista,
de traidores da pátria a serviço de Moscou. A propaganda anticomunista se mantém até hoje
como fio condutor de todos os reacionários.
O que pretendo enfatizar é o fato de que a discussão condenando os operários como
se tivessem se submetido sem mais à política varguista ou, ao contrário, como se tivessem se
oposto valentemente a ela é uma discussão que não nos ajuda a avançar. É preciso pergun-
tar quem eram esses operários, qual sua situação de vida, como foram tratados na Primeira
República, o que realmente perderam, o que realmente ganharam com a política trabalhista
de Vargas. Ganharam muito, sem dúvida, e muitos aceitaram Vargas como pai protetor, sem
críticas, só com agradecimentos. Não perderam tanto, uma vez que, mesmo dentro dos sindi-
catos governamentais, continuaram lutando por sua independência. De qualquer forma, a dis-
cussão quase sempre gira em torno da aceitação ou não de vantagens materiais conseguidas.
Ângela de Castro Gomes ressalta o poder do falado reconhecimento da dignidade individual e
profissional do operário e de seu reconhecimento como ator político. Cabem aqui as palavras
de E. P. Thompson, sobre as discussões em torno do reconhecimento apenas de necessidades
econômicas, o que considera, “em última instância, uma definição capitalista da necessidade
humana” (Thompson, 2000: 11).
Esta definição da necessidade, em termos materiais econômicos, tende a impor uma hierarqui-
zação que privilegia insuficientemente outras necessidades: as necessidades de identidade, as

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CONTRA O LIBERALISMO E O COMUNISMO: UMA DEMOCRACIA AUTORITÁRIA

necessidades de identidade de gênero, as necessidades de respeito e posição social entre os


próprios trabalhadores. (Thompson, 2000: 11-12)

Thompson enfatiza ainda a necessidade de se levar em conta não só as relações de poder


como “encontrar as razões da sem-razão social” (Thompson, 2000: 12). Acho que isso ainda nos
falta para entender o apoio da grande maioria dos operários ao ditador Getúlio Vargas. Entender
essa “sem razão” nos ajudaria a compreender, hoje, embora em um cenário histórico bastante
diferente, a atitude de inúmeros trabalhadores ou, simplesmente, do chamado “povão”.
Vargas foi deposto a 29 de outubro de 1945. Se por um lado era difícil manter o Estado
Novo depois da participação do Brasil na guerra em defesa da democracia, o ambiente de
distensão política e de práticas democráticas durou pouco. O discurso de Winston Churchill
em 5 de março de 1946, em Fulton (quando cunhou o termo “cortina de ferro”), deu início à
Guerra Fria e em pouco tempo o partido comunista — que havia obtido quase 10% da vota-
ção nacional nas eleições de dezembro de 1945 — foi colocado fora da lei, tendo, em maio
de 1947, seus parlamentares os mandatos cassados.
A utilização da propaganda anticomunista foi — é — tão forte, que nem o governo
JK, considerado um “oásis de democracia”, nem o de Jango foram capazes de legalizar o PCB.
O golpe militar de 1964 utilizou a mesma surrada propaganda anticomunista, solidificada nos
anos 1930 e com o Estado Novo.
A legislação trabalhista varguista, atrelando o movimento operário e sindical ao Mi-
nistério do Trabalho, com tudo que se possa criticar nela, está sendo desmontada hoje pelos
donos do poder agroindustrial. Temos, hoje, o país com as maiores diferenças sociais. Em
nenhum outro lugar do mundo a distância entre pobres e ricos é tão grande. Talvez essa seja
a maior discriminação repressora de nossa sociedade “liberal-democrática”. Para isso contri-
buíram a eficácia da propaganda e a manipulação do anticomunismo durante o Estado Novo,
que banalizou as práticas violentas e desumanas de que padecemos até hoje.
A tragédia da pandemia que assola o mundo na hora atual — e brutalmente o Brasil
— mostra as absurdas diferenças sociais do país, com mais de 40 milhões de pessoas neces-
sitando dos 600 reais mensais para sustentar suas famílias.

NOTA
1 Votaram pela entrega de Olga aos nazistas: Bento de Faria, que foi o relator, Plínio Casado,
Edmundo Lins, Hermenegildo de Barros, Laudo de Camargo, Costa Manso, Octávio Kelly e
Ataulpho de Paiva.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.469-488, Setembro-Dezembro 2020 487
MARLY VIANNA

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488 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.469-488, Setembro-Dezembro 2020
C O L A B O R A Ç Ã O E S P E C I A L

O reino social de Cristo e a constituição


orgânica da nação: das encíclicas de Leão
XIII ao pensamento católico brasileiro do
início dos anos trinta*

The Christ’s Social Kingdom and the Nation’s Organic Constitution:


from Leo XIII’s encyclicals to the Brazilian Catholic thought of the
early thirties

El Reino social de Cristo y la Constitución orgánica de la nación:


desde las encíclicas de León XIII hasta el pensamiento católico
brasileño de inicio de los años treinta

Andrei Koerneri**

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942020000300004

*Este artigo é resultado de pesquisas iniciadas no estágio sênior no IHEAL da Universidade Paris 3, no ano acadêmico de
2015–16, com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Agradeço ao prof. Olivier
Compagnon o acolhimento no Instituto e o apoio à realização da pesquisa.

Departamento de Ciência Política, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas – Campi-
I

nas (SP), Brasil.


**Professor associado do Departamento de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade
Estadual de Campinas (DCP/IFCH-Unicamp), presidente do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec) e pes-
quisador do Grupo de Pesquisa em Direitos Humanos, Democracia, Política e Memória do Instituto de Estudos Avançados
da Universidade de São Paulo (GPDH-IEA-USP) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os
Estados Unidos (INCT-INEU).
https://orcid.org/0000-0002-4354-9963
Artigo recebido em 01 de maio de 2020 e aprovado para publicação em 15 de julho de 2020.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.489-510, Setembro-Dezembro 2020 489
ANDREI KOERNER

Resumo
O artigo apresenta a estratégia e a doutrina da Igreja Católica para a construção do reino social de Cristo no
pontificado de Leão XIII e no de Pio XI. O objetivo é oferecer o contexto institucional e as condições políticas
dos argumentos de Alceu Amoroso Lima em prol de uma constituição orgânica da nação, projeto que orientou
as demandas dos católicos brasileiros na Assembleia Constituinte de 1933–34. A pesquisa utilizou fontes
bibliográfica e documental, e foi realizada análise contextual e conceitual dos materiais trabalhados.
PALAVRAS-CHAVE: Análise política do pensamento jurídico; História constitucional; Constituição de
1934; Estado de direito.

Abstract
The article talks about the Catholic Church’s strategy and doctrine to build Christ’s Social Kingdom during the
pontificates of Leon XIII and Pius XI. The aim is to offer a political context for Alceu Amoroso Lima’s argu-
ments in favor of a Nation’s Organic Constitution, the project that guided Brazilian Catholics’ demands in the
1933–4 Constituent Assembly. The research used bibliographical and documental sources, in addition to a
contextual and conceptual analysis of the material researched.
KEYWORDS: political analysis of juridical thinking; constitutional history; 1934 Brazilian Constitution;
rule of law.

Resumen
El articulo presenta la estrategia y la doctrina de la Iglesia Católica para la construcción del reino social de
Cristo en el pontificado de León XIII y de Pio XI. El objetivo es ofrecer el contexto institucional y las condiciones
políticas de los argumentos de Alceu Amoroso Lima a favor de una Constitución Orgánica de la Nación, un
proyecto que orientó las demandas de los católicos brasileños en la Asamblea Constituyente de 1933–4. La
investigación utilizó fuentes bibliográficas y documentales, y fue realizado un análisis contextual y conceptual
de los materiales trabajados.
PALABRAS CLAVE: análisis político del pensamiento jurídico; historia constitucional; Constitución de
1934; estado de derecho.

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O reino social de Cristo e a constituição orgânica da nação: das
encíclicas de Leão XIII ao pensamento católico brasileiro do início dos anos trinta

INTRODUÇÃO

A Revolução de 1930 é um marco político de mudança nas instituições políticas brasi-


leiras, pelas amplas reformas que se promoveram no Estado e no direito, que foram
traduzidas no modelo social da Constituição de 1934. Desde meados dos anos 1910, pelo
menos, publicistas colocaram em debate o constitucionalismo liberal diante da questão social
e de sua percepção de desordem política e moral da República. Eles mobilizaram referências
diversas, segundo suas preferências intelectuais e posições políticas, entre as quais a doutrina
social da Igreja.
Este artigo não propõe discutir a atuação dos católicos na política republicana, as rela-
ções institucionais do clero brasileiro e do Vaticano ou do laicato brasileiro e dos movimentos
católicos europeus. O objetivo é explorar as relações entre a estratégia pastoral da Igreja com
as suas doutrinas sobre o Estado e a Constituição e sua adoção pelas lideranças católicas
brasileiras no início dos anos trinta.
O artigo explora o tema em três momentos. A primeira seção apresenta a doutrina do
reino social de Cristo nas encíclicas do papa Leão XIII (1878–1903) e as propostas constitucio-
nais do integralismo cristão de La Tour du Pin. A segunda expõe as reformulações doutrinárias
no pontificado do papa Pio XI diante do fascismo. Na terceira, são apresentados de forma
contextualizada os argumentos de Alceu Amoroso Lima, líder do laicato brasileiro, no início
dos anos trinta sobre o Estado corporativo-cristão e a constituição orgânica da nação. Foram
utilizadas fontes bibliográficas e documentais, e foi realizada análise conceitual e contextual
dos materiais trabalhados.

Estado e corporativismo na doutrina social


da Igreja no final do século XIX

Q uando iniciou o seu pontificado em 1878, Leão XIII encontrou a Igreja numa situação
difícil. Com a unificação da Itália, o Estado papal perdeu os seus territórios e viu re-
duzidos seus domínios aos da cidade de Roma. O papa não era mais um chefe de Estado, e
seu estatuto nas relações diplomáticas tornou-se indeterminado. Consolidou-se na França o
republicanismo anticlerical, e, na Alemanha, Bismarck promovia a Kulturkampf para enfra-
quecer o partido católico. O socialismo emergia em vários países, tal como fora simbolizado
pela Comuna de Paris de 1871. Os católicos perderam espaço cultural para seus adversários
positivistas, liberais ou socialistas.
O papa Pio IX (1849–1878) reiterou a posição intransigente de confrontação com os
Estados e o laicismo. Adotou-se o princípio da infalibilidade papal, reforçaram-se os controles

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ANDREI KOERNER

doutrinários e institucionais sobre o clero e sua ação pastoral (Mayeur, 1980: 52; Pollard,
1996: 70). Ele procurou transformar a Igreja numa força política internacional coordenadora
das correntes que se opunham ao liberalismo e ao anticlericalismo (Kaiser, 2007: 12-20).
Leão XIII favoreceu a acomodação com os regimes liberais, ao mesmo tempo em que
continuava a unificar a Igreja, ampliando a capacidade de iniciativa e comando do Vaticano, de
controle sobre o clero e de incitação dos fiéis. Ele redefiniu as posições dos católicos na política e
na sociedade ao admitir o governo representativo e o Estado de direito, de modo que os católicos
poderiam usar as liberdades para defenderem a Igreja e seus direitos. Os fiéis deveriam atuar no
mundo moderno e engajarem-se na questão social. Seguindo a tradição intransigente, a Igreja di-
fundiu a religião e a virtude cristã no Estado e na sociedade, para realizar o reino social de Cristo na
Terra (Kaiser, 2007: 19; Mayeur, 1980: 53-55). A Rerum Novarum, a mais influente das encíclicas
de Leão XIII, constituiu o início dos esforços do papado durante a primeira metade do século XX
para desenvolver, por meio de uma longa série de encíclicas e declarações públicas, uma doutrina
católica compreensiva com questões políticas e sociais (Conway, 1997: 23).
A estratégia visava disputar a hegemonia cultural na sociedade. A Igreja não mais se
entrincheirava na defesa da restauração da unidade teológico-política para que os Estados
reconhecessem a legitimidade da religião católica. Combinavam-se a atuação negociadora e
conciliadora do Vaticano no plano diplomático, o uso de influência, os contatos com os gover-
nantes e as pressões deles e a atuação parlamentar. Adotaram-se ações coletivas, públicas e
de massa, que se estendiam do domínio espiritual para muitas áreas da vida social e cultural,
promovendo uma ação evangélica para a defesa da religião e a direção da sociedade. O clero
e os fiéis eram incentivados à ação pastoral para defenderem e propagarem a fé. Ela era pro-
movida nas instâncias de decisão política, nos espaços públicos e nos locais de trabalho tanto
quanto nas organizações de saúde, educação e assistência e nas relações privadas da família
providas por religiosos. Investia-se na formação de elites com a criação de universidades e
centros de estudos. Ao mesmo tempo, do ponto de vista interno, a Igreja organizava-se como
uma “monarquia absoluta da fé católica”, com administração hierárquica, produção e difusão
de doutrina e exigência de obediência estrita de sacerdotes e fiéis. Com Pio XII (1939–1958)
atingiu-se a mais alta capacidade do papa no controle da hierarquia, do culto e da fé, com a
expulsão de dissidentes (Conway, 1996: 13; 1997: 3, 18).
O clero e os intelectuais católicos elaboraram doutrinas para definir e difundir o seu
programa. Eles colocaram-se em relação polêmica com teorias laicas e redefiniram-nas de um
ponto de vista cristão, de modo a serem adequadas ao diagnóstico do tempo presente e serem
operacionais para a ação do clero, do laicato e dos governos.

492 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.489-510, Setembro-Dezembro 2020
O reino social de Cristo e a constituição orgânica da nação: das
encíclicas de Leão XIII ao pensamento católico brasileiro do início dos anos trinta

A doutrina pontifícia do catolicismo social

L eão XIII definiu a nova doutrina numa série de encíclicas que proclamavam o ideal de
instauração de uma ordem social cristã. Apresenta-se a seguir a maneira como essas
encíclicas criticavam a sociedade existente e programavam o governo da multiplicidade, apre-
sentando os fundamentos da boa ordem, dos quais destacam-se as bases da autoridade polí-
tica e a abordagem da questão social. Elas implicavam um ethos dos católicos para o governo
de si mesmos e dos outros e uma forma de subjetivação política1.
A causa das crises da sociedade da época era a quebra da unidade entre o espiritual e
o temporal. Ela tivera início com a Reforma, com a pretensão de o conhecimento ser baseado
na única razão individual, que rejeitou a autoridade da Igreja e afastou toda revelação e or-
dem sobrenatural (IDC, QAM, IMD). Com o esquecimento das verdades supremas, produziu-se
uma falsa civilização, com governos fundados em falsos princípios do direito. Os conflitos se-
riam incessantes em razão da sede por inovações e das heresias, e os governos seriam fracos
por ser a soberania do povo fundamento frágil e sem consistência para a autoridade política.
Sem Deus como princípio para o comando do povo e da multidão, os governos tornavam-se
incapazes de obter a obediência para manter a segurança pública e a ordem e enfrentavam o
estímulo perpétuo às paixões populares, crescentemente audaciosas (IDC, QAM, DIU, IMD).
As encíclicas inovavam ao proclamar a indiferença da Igreja em relação à forma de governo,
que deveria ser adequada ao gênio, às tradições e aos costumes de cada povo. Mas a escolha
do governante pelo grande número não lhe conferiria o direito de soberania (DIU). Desse
modo, abria-se a porta para a participação dos católicos na política e a aproximação da Igreja
com os governos republicanos, desde que os regimes fossem cristãos.
O progresso da indústria aumentou as desigualdades e os conflitos. Os operários orga-
nizaram-se num ambiente propício à expansão, “como uma peste”, de falsas doutrinas, como
o niilismo, o comunismo e o socialismo. Elas atentam aos fundamentos da sociedade e “sujam
toda carne, desprezam toda dominação e blasfemam toda majestade” (DIU, QAM, RN).
Leão XIII promoveu, em 1879, a filosofia de Tomás de Aquino e o método escolástico
como as bases da doutrina católica. Era um conhecimento que uniria o saber divino e humano
e permitiria o apoio mútuo entre razão e fé, podendo orientar e corrigir a filosofia e a ciência.
A escolástica não seria obstáculo às ciências naturais, porque assumia como elas que a inte-
ligência só pode elevar-se a partir das coisas sensíveis. Se as ciências observam o mundo e os
fatos corpóreos, a fé orienta-as para reconhecerem a natureza das coisas corpóreas e buscar
as leis a que elas obedecem, os princípios de que decorrem, a ordem que têm entre elas e a
unidade na sua variedade, a mútua afinidade na sua diversidade. Era uma doutrina sã para

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ANDREI KOERNER

ensinar os princípios da liberdade, da autoridade e do governo paternal dos soberanos, da


obediência e da caridade dos súditos e para dobrar espíritos rebeldes e obstinados (AEP).
As descobertas das ciências e os progressos da indústria seriam incentivados pela Igreja na
medida em que contribuíssem para a verdadeira prosperidade, que não desvia o homem de
Deus e dos bens celestes (IDC).
Sobre a origem da sociedade, adotou a teoria da sociabilidade natural dos seres hu-
manos. Eles se reúnem movidos pela lei natural, ou a vontade de Deus, que lhes deu as capa-
cidades para criarem a família, os grupos e a sociedade civil. O Estado surgia para ordenar a
sociedade civil e deveria reconhecer, respeitar e proteger os seus direitos. Todo agrupamento
necessitava de um chefe que, tomando Deus como modelo e regra, estabelecesse a justiça e
levasse os homens à unidade para a harmonia e a utilidade comum (RN).
As relações entre Estado e Igreja eram de complementaridade e direção. A Igreja era
uma sociedade perfeita, distinta e superior à sociedade civil, visto que tinha fim mais elevado
e nobre. Cabia-lhe guiar os homens para as coisas celestes e decidir tudo o que tocava à
religião, mesmo nas coisas terrenas, no que não deveria ser limitada pelos depositários do
poder político. Desse modo, o Estado cristão tinha como obrigação santificar o nome de Deus,
favorecer e proteger a religião, cobrindo-a com a autoridade das leis, além de nada estatuir
contra a sua integridade. Deveria ainda estimular que os cidadãos atingissem o bem supremo
e santo. A liberdade de pensamento e expressão deveria ser limitada, e reservava-se o culto
público à Igreja Católica, a única religião verdadeira, tolerando outras religiões e admitindo
seus cultos conforme as circunstâncias (DIU, IMD).
A solução da questão operária estaria na restauração dos costumes cristãos, conforme
o ensinamento da Igreja e a caridade cristã. A propriedade não poderia ser socializada, pois
era direito natural, alcançado pelo trabalho. As desigualdades seriam naturais e inevitáveis,
mas as classes deveriam basear-se na fraternidade para minimizar os conflitos e melhorar a
condição dos pobres (RN).
A solução da questão operária dependia da cooperação da Igreja, do Estado e das
próprias classes. A Igreja provia a instrução da verdade, com os preceitos da justiça, da frater-
nidade e da salvação, e atuava por suas instituições de educação, beneficência e assistência.
O Estado, ordenado segundo a constituição cristã, provia o bem comum, a justiça e a salvação
de todos. Para isso, deveria coordenar a ação comum de todos os implicados na questão ope-
rária. A ação prudente dos governantes visaria alcançar uma ordem social da qual brotasse
espontaneamente e sem esforço a prosperidade, tanto pública como particular, de caráter
material e moral. Realizava a justiça distributiva, ao cuidar igualmente de todas as classes de
cidadãos, que deveriam contribuir de forma proporcional e diferenciada aos encargos públi-

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O reino social de Cristo e a constituição orgânica da nação: das
encíclicas de Leão XIII ao pensamento católico brasileiro do início dos anos trinta

cos. A equidade completaria a justiça, para que todos recebessem o suficiente para viver, sem
sofrer na miséria, e o que pudesse melhorar sua sorte. A salvação era visada pelo Estado ao
exercer a sua autoridade à imitação de Deus, que protege todos, dando atenção especial aos
fracos e indigentes, fazendo reinar a ordem e a paz (RN).
Patrões e operários deveriam atuar conjuntamente para aliviar a indigência e aproxi-
mar as classes. A encíclica Rerum Novarum não precisa um modelo para as associações, mas
coloca alguns princípios. As corporações do passado deveriam ser adaptadas às condições da
época. Tanto as sociedades de operários como as mistas eram bem-vistas em modalidades
como socorro e previdência, sindicatos, círculos de estudos, patronatos. O Estado deveria pro-
teger as associações sem intervir no seu governo interno. Estas deveriam ter a religião como
norte, para proporcionar o maior aumento possível dos bens do corpo, do espírito e da fortuna
e orientar seus integrantes à salvação. Os encargos e as funções de operários e patrões de-
veriam ser bem proporcionados, e suas reclamações arbitradas por homens prudentes e ínte-
gros, tirados do seu próprio seio. As associações tinham o dever de proporcionar trabalho aos
seus integrantes e evitar que eles caíssem na indigência. Deveriam ter um fundo de reserva
para enfrentar os acidentes, a doença, a velhice e os reveses da fortuna (RN).
A doutrina era vantajosa pela legitimidade que conferiria ao Estado. Ele dava dignida-
de mais que humana ao poder político, tornando o dever de obediência dos súditos obrigação
religiosa e a resistência ao governo crime de lesa-majestade humana e divina. A religião
oferecia um motivo mais elevado e eficaz para obter a obediência: o sentimento de dever e
o temor a Deus que levavam os homens à submissão. A Igreja possuía o segredo de exercer
sua potência sobre os espíritos, ao fazê-los inclinar as próprias vontades: os súditos criavam
vínculos não só de deferência mas de afeição, que era para toda coleção de homens a melhor
garantia de segurança. Eles proibiam-se a indocilidade e a revolta, persuadidos de que resistir
ao poder do Estado era recusar Deus (DIU e IMD).
Os príncipes deveriam tomar Deus como modelo, exercendo o poder para a vantagem
de governantes e governados, enquanto estes representariam sua obediência a Deus por meio
dos reis. O direito de rebelião seria proibido, e a única causa de resistência seria contra precei-
to manifestamente contrário a preceito divino, cuja obediência seria contrária a Deus. A Igreja
atuaria como mediadora perante os turbulentos e moderadora do excesso dos príncipes (DIU).
Os operários cristãos seriam unidos em associações para colocá-los no caminho da salvação,
tal qual os seus antepassados (RN).
Os católicos deveriam aderir ao ensinamento dos pontífices, fazer profissão pública de
sua fé, guiar-se pelo julgamento da Sede Apostólica, conformar-se às suas decisões e ajudar
a Igreja a propagar a doutrina. Precisariam ser ativos fiéis tanto nos seus negócios privados

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.489-510, Setembro-Dezembro 2020 495
ANDREI KOERNER

como em público. Eles deveriam levar toda a constituição à forma cristã proposta como mo-
delo (IDC).
Em suma, as encíclicas de Leão XIII definiram uma estratégia para a promoção da
ordem política e social cristã, mas deixaram em aberto suas posições sobre a forma de Estado
e os regimes políticos. A encíclica Rerum Novarum posiciona-se pela legislação social e inter-
venção estatal, mas não define uma forma de organização para os sindicatos e as corporações
nem assume as considerações sociológicas do catolicismo social.

Constituição e regime corporativo


no integralismo cristão de La Tour du Pin

D esde meados do século XIX, os católicos estavam divididos sobre questões políticas e
sociais, cujo cerne estaria nas relações entre forma de Estado, regime político e corpo-
rações. Defendiam, por exemplo, corporações medievais, confrarias religiosas, patronato na
organização de empresas, sindicatos operários e corporações mistas, em Estados monárqui-
cos ou republicanos, com governos parlamentares ou corporativistas (Aubert, 1992; Conway,
1996; 2003; Levillain, 1997; Mayeur, 1980; Misner, 1991).
O integralismo cristão visava difundir a religião em todas as esferas da vida social para
a instauração do reino social de Cristo. Essa corrente foi promovida pela União de Friburgo,
uma rede de legitimistas de quatro países (França, Suíça, Itália e Áustria). Seus integrantes
haviam participado do Comitê de Genebra, serviço de imprensa criado com o apoio de Pio IX
no início dos anos 1870 para difundir a política papal entre líderes políticos e jornais católicos
europeus. Eles mantiveram uma rede informal transnacional de aristocratas católicos depois
da extinção do comitê em 1878 e participaram do Comitê Romano de Estudos Sociais, criado
em 1882 para preparar a encíclica social. Em 1884, fundaram a Union internationale catholi-
que d’études sociales et économiques, em Friburgo, que existiu até 1891 (Kaiser, 2007:20-2;
Levillain, 1997: 117-119; Misner, 1991: 203-204).
Eles tinham uma teoria organicista e integralista da sociedade, estruturada por um
regime corporativo, que se definia como “o modo de organização social que tem por base
o agrupamento dos homens segundo a comunidade de seus interesses naturais e suas fun-
ções sociais, e por coroamento necessário a representação pública e distinta desses distintos
organismos” (apud Bedouelle, 1997: 251-252). Queriam adaptar os grupos profissionais da
cristandade medieval às condições da grande indústria, mas esse era um plano de longo
prazo que precisava do apoio do aparato estatal. No curto prazo o Estado deveria remediar
os efeitos do liberalismo pela legislação do trabalho e por um tratado multilateral. O papa

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O reino social de Cristo e a constituição orgânica da nação: das
encíclicas de Leão XIII ao pensamento católico brasileiro do início dos anos trinta

seria colocado como um árbitro, para mostrar a influência positiva da moralidade cristã nos
negócios internacionais (Aubert, 1992:17-18; Misner, 1991: 204-207).
O marquês La Tour du Pin foi uma das principais referências teóricas da União de
Friburgo. Desde o início dos anos 1870, colaborou com contrarrevolucionários e procurou
organizar trabalhadores na França. Com a adesão (ralliement) da Igreja à república em 1892,
seu grupo perdeu espaço e aproximou-se da Action Française (AF) (Misner, 1991: 203).
Du Pin colocou a restauração da ordem social cristã como meio, forma e objetivo para
mudar a sociedade. Ela deveria ser reformada segundo as normas da religião, restaurando-se
o prestígio e o papel da Igreja, regulando-se os costumes e colocando-se limites à liberdade
religiosa, uma vez que “o mal só é livre e admitido na sociedade em que o bem é suspeito e
acorrentado”, em que os dissidentes seriam tolerados, com o mesmo estatuto que os estran-
geiros (Du Pin, 2017: 213-214). Baseava suas propostas em sua experiência como senhor
consciente dos deveres, no sentimento religioso com que discernia os desígnios de Deus e
no conhecimento histórico aplicado aos campos moral, social e econômico (Du Pin, 2017: 4,
200-201, 469).
A ordem deveria fundar-se na fraternidade cristã, em que os indivíduos se viam como
parte de classes cujo status era reconhecido por normas tradicionais, por meio do qual con-
cebiam sua liberdade em termos de direitos e deveres recíprocos no interior de cada classe e
entre as classes da sociedade. Liberdade significava a proteção de uma autoridade em virtude
de um pacto quase tácito. A carta não era imposta nem outorgada, mas comumente consen-
tida como expressão da autoridade e da liberdade (Du Pin, 2017: 444-449).
A via para restaurar essa ordem não seria uma nova revolução nem o retorno ao
absolutismo monárquico, mas a retomada da via histórica da civilização cristã. A restauração
juntaria tradição e progresso, este no sentido de adaptação às necessidades da época, para
reconstituir a sociedade religiosa, a doméstica e a profissional (Du Pin, 2017: 123-124, 213,
468). A restauração não seria obra de um dia, pois a produção da constituição nacional orgâ-
nica resulta de fatores providenciais e temporais que atuam continuamente. Eles constituem
a lei de vida da nação que sustenta a permanência de certo espírito, de uma constante visão
ou face social. A nação é um ser que vive durante séculos, uma individualidade dotada de
caracteres espirituais permanentes, fixados pelo tempo. A lei de vida da nação é o seu direito
histórico, que, tal como sementes antigas, contém em si uma potência generativa que eclode
em condições favoráveis (Du Pin, 2017:444-445, 459-461).
A nação é uma totalidade concreta formada por partes complementares que exercem
funções sociais próprias. O pertencimento à nação não resulta de manifestação expressa da
vontade do indivíduo, mas do consentimento daqueles que exercem funções sociais no seu

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ANDREI KOERNER

corpo. Ele não implica direitos de liberdade opostos à autoridade, mas a complementaridade
de direitos e deveres próprios a cada corpo e reconhecidos reciprocamente por eles.
Du Pin formulou um projeto constitucional que integrava o regime corporativo à or-
ganização do Estado. Não cabe aqui expô-lo detalhadamente, mas destacar alguns de seus
pontos relevantes. Dada sua visão histórica da nação, ele rejeitava o poder constituinte, acres-
centando que, se o povo se considerasse capaz de criar o seu governo, teria a pretensão de
exercê-lo, tornando inútil a obra dos séculos pela qual se criaram as instituições (Du Pin,
2017: 486). A representação corporativa seria adaptada às condições econômicas da socieda-
de atual para transportar na ordem política o bloco dos elementos orgânicos atuais do corpo
social (Du Pin, 2017: 265, 472).
Os direitos de cidadania política ativa não seriam reconhecidos aos indivíduos pelo
simples fato de sua existência, mas seriam direitos de coletividade, fundados na função social.
Além da produção de riquezas, seriam representados os corpos morais, culturais e religiosos,
o próprio príncipe e os corpos da administração que exercem a função de governar (Du Pin,
2017: 125).
A corporação, um agrupamento natural, seria organizada pela função social, incluindo
todas as partes da produção: os donos do capital, os empreendedores e os trabalhadores. Para
os indivíduos, a associação seria facultativa, mas as associações teriam por lei caráter público
e obrigatório. Seria reconhecido um direito próprio a cada membro da associação profissional
quanto a esta no Estado, e do Estado em relação a ela. Indivíduo, associação e corporação
teriam estatutos próprios, com seus direitos e deveres combinados para harmonizarem-se e
reforçarem os seus laços de solidariedade. Assim, o regime corporativo compreenderia o con-
certo entre a iniciativa privada, os poderes públicos e os da Igreja (Du Pin, 2017: 16-23, 141).
A direção do corpo social tinha duas funções distintas: a de governo e a de represen-
tação. A primeira, exercida pelo príncipe, governo ou poder público, poderia ser individual ou
colegiada, em cargos por título hereditário ou por eleição. Ela compreendia os poderes legis-
lativo, executivo e judiciário, reunidos nas mãos do príncipe mas distintos no seu exercício. A
representação participava do governo de duas maneiras: pelo consentimento e pelo controle.
Ela tinha duas bases distintas — a da propriedade e a do todo, a nação — e era organizada
em câmaras separadas. A primeira representava os interesses da propriedade, controlava o
uso dos recursos públicos e aprovava os projetos de lei que envolviam interesses particulares.
Era eleita por colégios eleitorais e voto censitário dos contribuintes, divididos em três classes:
grandes, médios e pequenos. A outra câmara representava a nação, aprovava os projetos de
interesse geral e era formada por representantes das corporações profissionais (profissões
liberais, industriais e agrícolas), de coletividades sociais (corpos da Igreja, das universidades,

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O reino social de Cristo e a constituição orgânica da nação: das
encíclicas de Leão XIII ao pensamento católico brasileiro do início dos anos trinta

de juristas) e por representantes do Estado indicados pelo príncipe. Os projetos do governo


poderiam apenas ser aprovados ou recusados com sugestões de emenda, mas não poderiam
ser emendados pelas próprias câmaras. Os assuntos de interesse dos corpos do governo en-
quanto administração pública não eram objeto de consentimento das câmaras. Haveria ainda
uma espécie de Alta Corte de Justiça para o controle da conformidade das leis como a cons-
tituição orgânica da nação.
Por fim, La Tour du Pin traçou um roteiro para a restauração da autoridade e a recons-
tituição dos seus órgãos. Por meio da restituição em princípio da autoridade do príncipe e sua
assunção ao poder, ele enquadraria os militares, controlaria os cofres públicos e notificaria
outras potências. Instalaria o ministério, nomearia governadores, neutralizaria os opositores
por estado de sítio, estabilizaria a administração pela confirmação dos funcionários em seus
cargos, anistiaria os implicados para a pacificação nacional. Ao mesmo tempo editaria as
leis orgânicas, financeiras e repressivas e criaria novos órgãos do Estado para, finalmente,
reconstituir os conselhos e restaurar as câmaras de representantes, que só poderiam deliberar
e votar depois que o Estado estivesse organizado. Num momento posterior, as câmaras seriam
reunidas em Estados Gerais para sancionarem as instituições criadas ou pronunciarem-se so-
bre grave questão de interesse nacional (Du Pin, 2017: 481 ss).
Em suma, o modelo de Du Pin atribuiu uma noção orgânica, histórica e espiritual à
nação, separou as funções de governo e de representação e combinou o caráter público das
corporações e associações profissionais com a liberdade de associação dos indivíduos. O seu
roteiro era o de um governo que rompia com a ordem liberal, assumia o poder e instaurava
pelo alto o Estado integral-corporativo e que usava o poder estatal para institucionalizar a
nova ordem. Salazar e os militares adotaram roteiro semelhante para impor o Estado Novo
português (v. Koerner, 2020). Alceu Amoroso Lima adotou em parte o modelo, mas não o
roteiro, pois os católicos brasileiros não tiveram papel relevante na Revolução de 1930 nem
tinham condições, ou pretensão, de assumir a direção política para a construção da nova
ordem política brasileira.

A renovação do corporativismo e do
nacionalismo católico na década de 1920

A estratégia global da Igreja seria continuada, com alterações, pelos sucessores de Leão
XIII até Pio XII. Mantiveram-se grupos de atividades sociais e culturais, sindicatos e
partidos políticos, com variações de presença em função das condições dos países (Mayeur,
1980: 98; Conway, 1996: 19).

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ANDREI KOERNER

Na Itália, Pio X fundou, em 1905, a Ação Católica, uma organização de laicos dirigida
pelo clero, e relaxou a interdição à participação dos católicos na política. Depois da Primeira
Guerra, vingaria o Partido Popular Italiano (PPI), dirigido pelo padre Luigi Sturzo. Era um parti-
do de massas, não confessional e independente da autoridade eclesiástica. Seu programa era
da linha tradicionalista, defendendo um Estado limitado e descentralizado, que respeitasse os
organismos naturais e os direitos da pessoa humana; um órgão de representação corporativa,
a representação proporcional e o voto feminino. Denominava-se popular por recusar o indi-
vidualismo e representar a opinião nacional animada pelos valores cristãos (Conway, 1997;
Mayeur, 1980: 97, 110-101; Pollard, 1996: 78). O advento de Pio XI é fatal ao PPI, pois ele
tinha reservas em relação ao partido e preferia a Ação Católica (AC). Apoiava os fascistas em
troca de uma concordata com o Estado italiano e pressionou o PPI a entrar no governo, com
o que o partido entrou em crise até ser dissolvido com os demais em 1926 (Mayeur, 1980:
114; Pollard, 1996: 82).
Na França, a Terceira República promoveu a laicização, e a Igreja reafirmou sua po-
sição intransigente. Ao mesmo tempo, desde o caso Dreyfus, os católicos aderiram à AF,
movimento monarquista nacionalista, antiliberal e antissemita, liderado por Maurras. Mas
este assumia postura política não religiosa, e seu mariage de raison com os católicos acabou
com a condenação de Pio XI em 1926. Jacques Maritain, filósofo tomista integrante da AF,
tomou partido da Igreja e justificou a condenação papal com o argumento de que os católicos
deveriam priorizar a ação espiritual à política. Maritain era tributário do catolicismo social e
corporativista, propugnando uma nova civilização cristã comunitária e personalista em vez
da restauração da unidade teológico-política da Idade Média e da direção espiritual direta da
Igreja na sociedade. Seus argumentos do início dos anos trinta seriam consolidados em Hu-
manismo Integral, de 1936, em que definiria a nova cristandade como uma civilização profana
inspirada pelo cristianismo.
Depois da Primeira Guerra, os países europeus enfrentaram as dificuldades da re-
construção e os riscos de revolução comunista, por meio de novos esquemas de decisão
governamental concertada e de intervenção econômica, que institucionalizaram na prática
esquemas corporativistas. Propugnavam-se modelos corporativistas com diversas orienta-
ções ideológicas, naturalmente muito distintos (Pasetti, 2016: 39-45). Com a ascensão do
fascismo e sua difusão internacional, este passa a ser aceito como um modelo bem-suce-
dido. A organização corporativa estatal seria a melhor maneira de dirigir a economia e a
sociedade nacional, permitindo a direção política e a composição dos interesses sociais pela
técnica jurídica sem as incertezas dos governos parlamentares (Pasetti, 2016: 132-133;
152-153). O clero entusiasmava-se por regimes autoritários, com poder central forte e or-

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O reino social de Cristo e a constituição orgânica da nação: das
encíclicas de Leão XIII ao pensamento católico brasileiro do início dos anos trinta

ganização pública das corporações, tais como o fascismo italiano e os regimes de Portugal
e da Áustria (Conway, 1997: 15).
O Vaticano teve relações complexas com o fascismo, dado que havia afinidades ideoló-
gicas e de interesses de classe entre eles. Mas o governo fascista instrumentalizou o apoio da
Igreja e tentou controlar suas atividades (Conway, 1997: 63-65; Pollard, 1996: 82).
Pio XI assumiu em fevereiro de 1922 e priorizou negociações diretas com os chefes
de Estado. Ele visava concluir concordatas para garantir os direitos da Igreja e proteger os
interesses dos católicos sem depender de atuação parlamentar dos partidos. Ao mesmo tem-
po, mantinha a combinação de centralização do clero e controle das congregações religiosas
(Conway, 1997: 40; Mayeur, 1980: 106). A sua encíclica inaugural, Ubi Arcano Dei Consilio,
de dezembro de 1922, definiu o projeto de um reinado social de Cristo na Terra. Em Quas
Primas, de dezembro de 1925, instituiu o culto ao Cristo-rei, em que este teria primado no
plano espiritual e direito de soberania no temporal, exercendo-a indiretamente.
Pio XI visava transformar as prioridades defensivas da Igreja no século XIX numa or-
ganização apostólica comprometida com a recristianização da sociedade. Ele promoveu a
expansão da AC, cujo apostolado visava a defesa da Igreja, conquista das almas, inserção no
Estado e pressão sobre os governos. Incentivavam-se formas místicas de culto popular e ado-
taram-se novas formas de ação de massa, como peregrinações, procissões e manifestações,
que reafirmavam a proeminência pública da fé católica. As manifestações eram afastadas dos
partidos e temas políticos e concentravam-se em questões espirituais e sociais, como campa-
nhas contra pornografia, proselitismo entre trabalhadores, glorificação da maternidade e da
família (Conway, 1996: 22; 1997: 40-42; Mayeur, 1980: 106-107).
Depois do Pacto de Latrão em 1929, aumentaram os atritos entre fascistas e católicos.
Em 1931, Mussolini dissolveu a juventude católica, e Pio XI respondeu com a encíclica em
italiano Non Abbiamo Bisogno, apontando o fascismo como Estado totalitário. Em setembro
de 1931, eles chegaram a um compromisso que permitiu a operação de grupos da AC desde
que sua atividade fosse puramente espiritual.
A encíclica Quadragesimo Anno (QA), publicada em maio de 1931 a título de celebrar
os 40 anos da Rerum Novarum, explicitou a competição da Igreja com o fascismo pela direção
da sociedade. A QA definiu a propriedade e o trabalho como bens individuais e sociais, que
numa parte devem ser retribuição do trabalho para satisfazer as necessidades da família e a
formação do patrimônio e noutra parte destinar-se-ia à realização do bem comum. Determinou
a função social da propriedade, as finalidades da empresa, os critérios para a acumulação da
capital e as bases do salário justo. Criticou o liberalismo e o socialismo como partes simétricas
do mesmo problema, como é comum em documentos católicos. A livre concorrência produziria

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ANDREI KOERNER

a competição exacerbada entre empresas, grupos políticos e Estados, cujos efeitos perversos
eram a concentração capitalista, o nacionalismo e o imperialismo. Esse processo criou os seus
antagonistas: o proletariado, o ódio de classes e o socialismo. Assim, concentração de capital
e agravamento da luta de classes demandam o mesmo remédio: instituições estatais para
instaurar a ordem pública, dirigir a economia e controlar os conflitos entre as classes.
As corporações instauram um vínculo de união dos indivíduos, pela sua proximidade
no trabalho. A esse respeito, a encíclica distanciou-se do fascismo, ao defender a liberdade de
associação para os trabalhadores poderem escolher as formas que iriam se associar. O corpo-
rativismo estatal fascista teria como vantagens a colaboração pacífica das classes, a repressão
aos socialistas e a moderação dos conflitos por uma magistratura especializada. Mas havia o
risco de substituição do Estado aos interessados, burocratização das corporações e sindicatos
e sua destinação a objetivos políticos mais do que à construção de uma ordem melhor. Esta
seria alcançada apenas com a colaboração dos católicos e a presença da Igreja nas corpo-
rações e nos sindicatos. Mas a restauração só viria pela cristianização da vida econômica,
voltando-a à salvação, orientada pela justiça e a caridade cristãs. A precondição geral para a
boa ordem era a renovação do espírito cristão nos costumes que seria alcançada pela união
dos católicos e pela ação com os próprios interessados.
Assim, Pio XI promoveu o cristianismo como via exclusiva para regenerar a sociedade
e, por exclusão, destoou diante de pretensões análogas dos fascistas. Investiu na ação dos ca-
tólicos na sociedade para promover mudanças culturais de longo prazo. Reconheceu o papel
do Estado para promover a harmonia social por meio da gestão da economia e da organização
corporativa, com a devolução de poderes a outros grupos sociais, preservando a liberdade de
associação. A QA foi a mais importante encíclica de Pio XI e teve impacto imediato por redefi-
nir o corporativo católico diante das novas condições econômicas e políticas. O corporativismo
tornou-se o ponto focal da retórica política católica e foi adotado por toda a Europa como
solução para a Crise da Grande Depressão (Conway, 1997: 62-63).

Os católicos e a reorganização do Estado


brasileiro no início dos anos trinta

D epois da Revolução de 1930, lideranças católicas adotaram formas de ação política que
adaptavam a estratégia da Igreja à sua percepção das condições locais. A Constituição
de 1891 estabeleceu a separação entre Igreja e Estado, diante da qual o clero reclamou os
direitos do povo católico, apesar de os governos não terem promovido políticas de laicização
e a Igreja manter seus espaços tradicionais (Beozzo, 2007: 346). O clero considerava que a

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O reino social de Cristo e a constituição orgânica da nação: das
encíclicas de Leão XIII ao pensamento católico brasileiro do início dos anos trinta

Rerum Novarum não se aplicava ao Brasil, um país agrícola, pois referia-se aos conflitos na
sociedade industrial (Arduini, 2015: 39). Depois da Guerra, o clero cooperou ativamente com
o governo e apoiou a gestão de Bernardes, mas as suas propostas na reforma constitucional
de 1926 fracassaram. Assumiram o discurso de renovação nacional e promoveram manifes-
tações públicas. No Primeiro Congresso Eucarístico Nacional, em 1922, no Rio de Janeiro,
propuseram a criação de associações laicas e círculos operários e iniciaram a campanha para
construir o monumento ao Cristo redentor. Nesse ano foi criado o Centro Dom Vital (CDV), que
se seguia à revista A Ordem, publicada desde o ano anterior. Seus dirigentes tinham vínculos
fortes com a direita europeia, dado que Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima eram
filiados à AF até a condenação papal (Reis, 1998: 159). Nos anos seguintes assumiriam um
estridente discurso nacionalista, antiliberal e autoritário para reconstruir a sociedade cristã.
A Igreja brasileira não tinha posição uniforme em relação à Revolução de 1930, mas
líderes do CDV opuseram-se ao movimento e apoiaram a Revolução Constitucionalista de
1932. A Igreja tinha estratégia própria — fazer pressão popular sobre o novo governo, con-
solidar a sua unidade interna e coordenar a ação dos laicos (Beozzo, 2007: 362). Assim,
sucederam-se suas iniciativas: em maio de 1931, fizeram um ato público de consagração de
Aparecida como padroeira do Brasil e em outubro inauguraram o Cristo Redentor. Dom Leme
consagrou a nação ao coração sacratíssimo de Jesus, que o reconheceria para sempre como
seu rei e senhor. Criaram-se novas associações de laicos, estudantes, operários, professores,
que resultariam na Ação Católica Brasileira, de 1935, além de institutos de ensino superior.
Depois de adotarem uma atitude cautelosa e conflituosa, os líderes católicos aliaram-
-se a Getúlio Vargas, o que determinou as suas escolhas políticas. Participaram de comissões e
cargos do Governo Provisório e deixaram de organizar um partido católico, alternativa malvis-
ta pela hierarquia e com limitadas chances de sucesso (Beozzo, 2007: 372; Cava, 1976). Em
compensação, organizaram em 1932 a Liga Eleitoral Católica (LEC), para atuar nas eleições
para a Constituinte, e colocaram a pauta mínima dos católicos a ser assumida por partidos ou
candidatos em troca de seu apoio com os eleitores. A pauta dos católicos não se posicionava
sobre a forma de Estado e o regime político, pois concentrava-se no vínculo entre o temporal
e o espiritual: a cooperação entre Estado e Igreja, a proibição do divórcio, a liberdade de sindi-
calização, a reserva aos católicos de posições sobre educação e assistência social, a legislação
social e o combate ao socialismo2.
A LEC recebeu a anuência de partidos e candidatos, incluídos os que participaram do
Governo Provisório. Os católicos atuaram massivamente nos estados, e sua campanha teve
sucesso na eleição. A Constituição de 1934 incorporou os pontos da pauta e outros temas
defendidos pelos católicos, o que é atribuído pelo CDV como sua vitória. Ele a considera o re-

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ANDREI KOERNER

conhecimento dos direitos da nação católica que seria o início da restauração do cristianismo
(Arduini, 2015: 107-119; Beozzo, 2007: 379).
Alceu Amoroso Lima foi o principal líder político e intelectual do laicato católico brasi-
leiro naqueles anos. Ele editou a revista A Ordem, dirigiu o CDV (1928–1966), a LEC, presidiu
a Ação Católica Brasileira (1934–1945). Foi central no combate da direita católica à Escola
Nova e ao fechamento da Universidade do Distrito Federal (Galvão, 2017). Desde antes de
sua conversão ao catolicismo em 1928, assumia um nacionalismo agrário que valorizava a
terra e as tradições contra a sociedade laica e urbana, mantendo uma proximidade crítica com
o pensamento de Alberto Torres (Reis, 1998: 103, 117).
Destacou-se nos seus escritos a espiritualização do tempo e da memória. Ele olhava
ao espírito do passado para “buscar a essência do que fomos, e nunca o modelo do que de-
vemos ser” (Lima: 637 apud Reis, 1998: 125). Narra sua trajetória, confundindo-a com a da
sua geração, cujo ceticismo, diletantismo e desinteresse político foram abalados pela Primeira
Guerra e pela Revolução Russa3. Teriam se afastado da ideia do tempo para a da eternidade
e se engajado numa cruzada de moços para reconstruir a ordem social e espiritual (Medeiros,
1978: 232-234).
Em seu pensamento político e suas propostas constitucionais, Lima combinava argu-
mentos das autoridades eclesiásticas e do integralismo católico: o Estado ético-corporativo,
com uma constituição orgânica da nação para a construção de uma nova civilização cristã. Em
Introdução ao Direito Moderno — O Materialismo Jurídico e suas Fontes (1933), ele criticou
os socialistas e lhes contrapôs o direito integral medieval. O materialismo seria sua redução a
instrumento do poder político, dado o esquecimento das fontes espirituais do direito. Só have-
ria duas saídas: aniquilar o direito pelo egoísmo e a força ou restaurá-lo na sua integralidade
pura, recuperando-se a fonte eterna e imutável de toda justiça (Lima, 1933: 303).
Em Política (Lima, 1999 [1931]), elaborou uma teoria do Estado com bases doutri-
nárias do tomismo. Ali estão presentes elementos comuns nesse campo, como a ciência
construída pela união necessária entre a razão e a fé (Lima, 1999: 54)4, a definição de
política como atividade para promover o governo da sociedade pelo Estado, que deve
buscar as finalidades mais altas da civilização (Lima, 1999: 30-31), e a sociedade como
união moral de muitos em busca do bem comum, criada naturalmente. O Estado seria
uma sociedade perfeita no plano temporal, cuja autoridade viria de Deus, numa unidade
composta para o bem comum, cuja base seriam as famílias e outros grupos sociais. Ele
figuraria ao lado da Igreja, a outra sociedade perfeita espiritual e, portanto, mais alta
(Lima, 1999: 79-81). Seria institucionalizado o papel da Igreja de direção espiritual da
multidão de povos política e culturalmente heterogêneos para fazer surgir uma cultura

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O reino social de Cristo e a constituição orgânica da nação: das
encíclicas de Leão XIII ao pensamento católico brasileiro do início dos anos trinta

autêntica (Lima, 1999: 155-156). As propostas eram baseadas nas idéias do filósofo
Jacques Maritain)5.
Num livro sistemático de ciência política, surpreende o tratamento sucinto do tema dos
regimes políticos. O autor desvia a discussão dos regimes particulares, colocando apenas que
eles não são estruturas arbitrárias de governo, mas compreendem a concepção geral de vida
da sociedade. Portanto, eles devem ser adequados às condições da sociedade, voltarem-se a
finalidades justas, serem capazes de dar a todos uma parte no poder e serem sólidos (Lima,
1999: 222-223).
Sobre a reorganização constitucional do Brasil, seria orientada por um quádruplo ideal:
a formação de uma população homogênea física e psiquicamente; a manutenção da unidade
nacional, sem perda de sua variedade; uma autoridade forte para organizar o Estado como
protetor dos direitos e propulsor dos deveres e do progresso material e moral; a promoção
do bem comum de acordo com a índole do povo brasileiro (Lima, 1999: 221-222). A nação
brasileira era católica, e a Igreja pleiteava o reconhecimento desse vínculo para que pudesse
agir na sociedade segundo o modelo da AC de Pio XI (Lima, 1999: 158). Dado o vínculo, a
LEC não atuava como partido mas como movimento para defender as bases morais da nacio-
nalidade (Lima, 1999: 286).
Lima publicou as posições do CDV e da cúpula da Igreja perante a Revolução de 1930,
afirmando que seus objetivos eram limitar os conflitos e promover a agenda para a regenera-
ção da nacionalidade. Já em dezembro de 1930, apresentaram seis pontos para a nova Cons-
tituição, que seriam incluídos mais tarde na pauta da LEC (Lima, 1936: 34-37). Nos textos
seguintes, são recorrentes os temas das encíclicas: o combate ao laicismo, a distinção entre
integralismo e fascismo, a regeneração dos costumes, a cooperação do Estado e da Igreja, a
nação católica e a ação social evangelizadora.
A Constituição não era apenas a manifestação da vontade da maioria política, mas
deveria ser expressão da “realidade orgânica do povo” (Lima, 1936: 50). A solução não era
transplantar outras experiências sociais, pois a única saída racional e cristã seria reintegrar
as leis constitucionais na realidade da nação, superando a “dissociação entre o Estado e a
Nação, entre o Poder e a Opinião, entre a Lei e o Fato”. A conformidade da Constituição com
a alma da nação seria a cooperação entre Estado e Igreja. As leis do Estado, tendo de ser a
emanação da realidade nacional, não poderiam contradizer os princípios racionais, a natureza
da nacionalidade nem as exigências morais do cristianismo (Lima, 1936: 86-87, 93). Em ou-
tros termos, o Brasil só seria justo quando o Estado viesse a espelhar a nação católica (Lima,
1936: 151). O essencial não era o regime político nem se resolvia pela ação política, mas pela
ação espiritual (Lima, 1936: 63-66).

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Apesar da rareza das referências, as sugestões do CDV sobre o regime previram uma
organização administrativa descentralizada e um governo nacional composto de duas câma-
ras: política e corporativa. A primeira teria caráter deliberativo, composta de representantes
eleitos metade por sufrágio individual e metade por sufrágio profissional. A segunda teria ca-
ráter consultivo e seria composta de representantes dos grupos econômicos, administrativos,
culturais e morais. Haveria um Conselho Consultivo composto dos presidentes dos órgãos
federais e homens de alta reputação indicados pelo Supremo Tribunal e o Presidente da Repú-
blica. Este seria eleito pelos três órgãos de cúpula e proibida a reeleição, a não ser por ¾ dos
sufrágios (Lima, 1936: 89-90). Lima defendia, num ponto não incluído no documento da LEC,
que o direito de voto fosse dos “chefes de família” (que incluía mulheres economicamente
independentes), os únicos que seriam titulares do direito político de voto, em função de que
era a família a base da sociedade (Arduini, 2015: 90-91). As sugestões incluíam outros pontos
sobre a organização da economia em bases corporativas e a ordem espiritual com a unidade
espiritual da nação com a religião e os direitos da Igreja.
A LEC atribui à nova Constituição o sentido de uma vitória da providência divina, que
velava pelo Brasil, e do trabalho do seu grupo. A atuação dos católicos na vida pública teria
feito os parlamentares compreenderem que o Brasil só seria justo se o Estado espelhasse a
nação católica. A quebra das barreiras impostas pela laicidade representava a transição de
um Estado individualista e agnóstico para um Estado ético-corporativo, e era a oportunidade
para fazer germinar uma nova civilização cristã. Essa seria a responsabilidade dos católicos
nos próximos anos (Lima, 1936: 150-153).

CONCLUSÃO

A presentaram-se a estratégia e doutrinas da Igreja no final do século XIX e suas variações


na Europa dos anos vinte e no Brasil dos anos trinta sobre o reino social de Cristo e a
constituição orgânica da nação. A seguir faz-se uma análise geral do processo.
Desde os anos 1860, o clero é reorganizado, assumindo forma burocrática com defi-
nição clara de papéis, estrutura hierárquica e controle centralizado sobre as opiniões e ações
dos seus integrantes. Nas relações com os Estados, as concordatas delimitam as relações
institucionais do Estado e da Igreja, distinguem as esferas espiritual e temporal e definem
formas de cooperação. As concordatas asseguram à Igreja a legitimidade de sua ação pastoral
na sociedade, e ela pretende ter papel reservado — se não o monopólio — em políticas da
família, saúde, assistência e educação. Nesses campos, organiza instituições que promovem
o pastorado dos fiéis.

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O reino social de Cristo e a constituição orgânica da nação: das
encíclicas de Leão XIII ao pensamento católico brasileiro do início dos anos trinta

Encíclicas, cartas pastorais e outros documentos tornaram-se de uso frequente, rea-


lizando a comunicação direta do papa com o clero, que as transmite aos fiéis. A Igreja pro-
moveu uma ação evangélica de massas pela qual o clero e os laicos organizaram os fiéis a
fim de educá-los e treiná-los para o proselitismo militante. Promoveram-se, além de partidos
políticos, vistos com desconfiança, organizações de laicos que assumiam diversas formas,
que são englobadas pela AC. A Igreja produziu eventos para tornar visível sua presença no
espaço público e promoveu expressões místicas da fé, que alcançaram as próprias nações
proclamadas católicas.
As corporações foram centrais nessa estratégia, pois elas atravessaram os diferentes
domínios. Elas tinham comum o caráter de “encarnações”, com uma ideia que as organizava
e orientaria seus partícipes para realizarem finalidades espirituais. Num sentido lato, Igreja,
Estado, empresas, associações, sindicatos e entidades culturais eram corporações, enquanto
num sentido restrito elas eram espaços de encontro de produtores, patrões e empregados.
Elas eram esquemas ou dispositivos em que se objetivavam institucionalmente as relações
entre os homens para a produção da fraternidade cristã e, portanto, subjetivarem-nos en-
quanto fiéis. Assim, a corporação intermediava os espaços institucionais dirigidos pelo clero
e as ações do laicato na evangelização de massa. Noutra direção, a corporação vinculava o
sujeito com a autoridade política, com os seus grupos sociais, distribuía justiça e disciplinava
os indivíduos, preparando-os para a obediência e a perseverança.
Por fim, as doutrinas ocupavam-se da produção de verdade. Elas tinham alguns pontos
em comum: a prioridade do Evangelho como critério de verdade; o conhecimento baseado na
combinação entre experiência, sentimento da fé e razão; a proposta de envolver ou completar
a ciência com um saber mais global, metafísico ou religioso. O mundo natural, criado, reger-
-se-ia segundo regras postas pelo criador, e sua ordem guardava relação, de subordinação ou
analogia, com o sobrenatural; o ser humano seria naturalmente sociável, o que o levaria à
família e aos grupos sociais, que antecederiam, lógica e cronologicamente, o Estado.
As doutrinas não se colocavam no campo filosófico ou teológico da representação
da autoridade política e da jurisprudência, mas nos saberes sociológico-históricos em debate
com as ciências humanas e sociais. Mas elas assumiram um ponto de vista externo, que
ultrapassava o real e o histórico, para oferecerem um diagnóstico englobante da origem e
do destino das sociedades. Eles colocavam o social como domínio, mas ele é composto de
fatores naturais e sobrenaturais, que se entrelaçam nas relações e situações concretas. Elas
ofereciam uma explicação sobrenatural e afetiva para o vínculo comunitário que teria fundado
a sociedade e a nação. Colocaram a autoridade política para além da tradição e do progresso,
situando sua legitimidade na soberania divina. Defenderam que as políticas tinham o objetivo

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.489-510, Setembro-Dezembro 2020 507
ANDREI KOERNER

de ensinar a paciência e salvar a alma para além de reconhecerem a liberdade e promoverem


o bem-estar material.
No plano jurídico constitucional, o discurso católico tinha alguns pontos característi-
cos. A soberania popular era substituída pela origem divina da autoridade e pela origem natu-
ral das sociedades; a nação era uma unidade espiritual homogênea; a organização estatal era
pluralista e secundária em relação às organizações sociais naturais. A representação política
não traduzia a autorização ou vontade do povo, mas o seu consentimento às decisões dos
governantes. O dirigente máximo não era submetido à lei, mas havia relação de confiança
e subordinação à autoridade com os governados. Desse modo, os direitos pré-políticos eram
reconhecidos e defendidos, mas não oponíveis à autoridade, pois esta era a garante do bem
público e teria o papel de defender e proteger os indivíduos e as coletividades.
Em suma as doutrinas católicas desenvolveram teorizações próprias do direito social e
conformaram uma estratégia política que ativou a mobilização popular para produzir aquies-
cência e integração. Apesar de suas incompatibilidades aparentes, a sua combinação com o
liberalismo e a democracia não era impossível, como veio a ocorrer nas décadas seguintes.

NOTAS
1 Quod Apostolici Muneris (QAM), 1878; Inscrutabili Dei Consilio (IDC), 1878; Aeterni Pa-
tris (AEP), 1879; Diuturnum (DIU), 1881; Immortale Dei (IMD), 1885; Rerum Novarum (RN),
1891. Os textos das encíclicas estão disponíveis em: https://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/
encyclicals.index.html. Acesso em: 17 abr. 2019.
2 O programa da LEC está transcrito em Beozzo (2007).
3 Sobre os impactos da Primeira Guerra no Brasil, ver Compagnon (2013).
4 Nos parágrafos seguintes as remissões entre parênteses referem-se a esse livro.
5 Sobre a recepção da obra de Maritain no Brasil, ver Compagnon (2003).

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A R T I G O

Revolução nas políticas públicas:


a institucionalização das mudanças na
economia, de 1930 a 1945

The revolution in public policies: the institutionalization of changes in


the Brazilian economy, from 1930 to 1945

Revolución de las políticas públicas: la institucionalización de los


cambios en la economía brasileña, de 1930 a 1945

Antonio LassanceI*

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942020000300005

Escola Nacional de Administração Pública – Brasília (DF), Brasil.


*Pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Doutor em Ciência Política pelo Instituto de Ciência
Política da Universidade de Brasília (UnB). Professor da Escola Nacional de Administração Pública (Enap) (antonio.las-
sance@ipea.gov.br).
http://orcid.org/0000-0003-0647-4963
Artigo recebido em 1º de maio de 2020 e aprovado para publicação em 07 de julho de 2020.

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Antonio Lassance

Resumo
O artigo analisa os legados da Revolução de 1930 por um novo ângulo: o das políticas públicas. Para tanto,
estabelece um recorte sobre as políticas econômicas lançadas desde 1930, evidenciando o fio de Ariadne des-
sas transformações. A metodologia combina, de forma inédita, história serial e análise com foco em políticas
públicas, tendo como fonte básica os decretos presidenciais, buscando impressões digitais do presidente
nessas mudanças. Conclui-se que mudanças mais significativas só ganharam impulso na virada para os anos
1940, a ponto não só de reorientar a política econômica, mas de se criar uma nova economia política.
Palavras-chave: Revolução de 1930; Economia brasileira de 1930 a 1945; Políticas públicas; Era
Vargas; Economia política.

Abstract
The article analyzes the legacies of the 1930’s Revolution from a new angle: that of public policies. To this
purpose, it establishes an outline of the economic policies launched since 1930, showing the Ariadne’s thread
of these transformations. The methodology combines, in an unprecedented way, serial history, and policy-fo-
cused analysis, having presidential executive orders as the basic source to look for fingerprints of the president
in these changes. We conclude that more significant changes only gained momentum at the turn of the 1940s,
to the point not only of reorienting economic policy, but of creating a new political economy.
Keywords: 1930’s Revolution; Brazilian economy from 1930 to 1945; Public policy; Vargas Era; Political
economy.

Resumen
El artículo analiza los legados de la Revolución de 1930 desde un nuevo ángulo: el de las políticas públicas.
Con este fin, establece un recorte de las políticas económicas lanzadas desde 1930, mostrando el hilo de
Ariadne de estas transformaciones. La metodología combina, de una manera sin precedentes, la historia
serial y el análisis con foco en las políticas públicas. Los decretos presidenciales son la fuente básica para
buscar huellas dactilares del presidente en estos cambios. Llegamos a la conclusión de que los cambios más
significativos solo cobraron impulso a fines de la década de 1940, hasta el punto no solo de redireccionar la
política económica, sino de crear una nueva economía política.
Palabras clave: Revolución de 1930; Economía brasileña de 1930 a 1945; Políticas públicas; Era
Vargas; Economía política.

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Revolução nas políticas públicas: a institucionalização das mudanças na economia, de 1930 a 1945

Introdução

A té hoje, é impossível compreender o Brasil sem alguma remissão à Revolução de 1930


e, mais especificamente, às transformações empreendidas pelas presidências de Getúlio
Vargas de 1930 a 1945. Ao mesmo tempo, por paradoxal que possa parecer, praticamente
inexistem estudos que analisem o “conjunto da obra” da Revolução de 1930 do ponto de
vista de suas políticas públicas.
Essa lacuna se explica em parte pelo fato de que a produção de políticas públicas no
período que vai de 1930 a 1945 é bastante intensa, complexa e abrangente, compreendendo
inúmeras áreas. Os dados gerados por cada uma das políticas daquela época representam um
volume gigantesco de informações, um big data cujo manuseio exige mais que uma técnica
de análise de dados. Há questões complexas, de ordem teórico-metodológicas, atinentes à
própria construção do objeto da Revolução de 1930 como grande usina de políticas públicas
e de redesenho do Estado brasileiro.
Some-se a isso que, quando o aparato teórico-metodológico sobre políticas públicas
se disseminou como campo de análise importante entre pesquisadores brasileiros, sobretudo
a partir dos anos 1990, a historiografia sobre a Revolução de 1930 já havia sido desenvolvida,
em grande medida, sem dedicar atenção a essa questão.
Para dar o devido tratamento a esse gigantesco acervo que são as políticas públicas da
Revolução de 1930, este artigo promove dois recortes metodológicos fundamentais. O primei-
ro é o de debruçar-se sobre a política econômica do período, elemento tradicionalmente tido
como definidor de até que ponto aquele momento pode ser considerado como revolucionário.
O segundo é o de selecionar, como fonte desse objeto de análise, a produção normativa pre-
sidencial, principalmente os decretos-lei e decretos regulamentadores. Justificaremos adiante
essa escolha com base no referencial institucionalista histórico e na análise com foco em
políticas públicas. Apresentaremos também uma metodologia própria de história serial para
estudar essa produção normativa de maneira adequada.
Além de se extrair conclusões importantes sobre a Revolução de 1930, abre-se uma
janela metodológica de convite a futuros estudos comparativos sobre outros períodos da his-
tória brasileira, não apenas em termos da política econômica, mas de suas políticas sociais e
do processo de construção do Estado.

Revolução?

E ste artigo não discute a priori qual a adequação do termo “revolução” ao período que vai
de 1930 a 1945, embora reconheça a pertinência do debate travado na historiografia.

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Antonio Lassance

Melhor do que perguntar se o regime instaurado em 1930 foi ou não uma revolução, faz mais
sentido questionar que tipo de revolução ele de fato promoveu, se é que promoveu, e como o
fez. Ajustando a pergunta, melhor que indagar quão revolucionária foi a Revolução de 1930,
mais vale inquirir sobre o que há de revolucionário em 1930.
Além disso, embora sejam notórias as grandes mudanças ocorridas no país naquela
década e até a metade dos anos 1940, é preciso verificar se e como elas podem ser atribuí-
das ao governo que então comandava o país ou a fatores endógenos à economia. Em suma,
pergunta-se: em que medida Vargas e seus sucessivos governos foram os responsáveis por
implantar alterações estruturantes e sistemáticas nas políticas públicas que pavimentariam
grandes mudanças de longo prazo?
No caso da transformação econômica, a pergunta que se faz não é sobre o quanto o
país alterou sua matriz produtiva naquela época, mas sim em que ponto essa transformação
teve alguma conexão genética com decisões presidenciais que propiciaram que ela ocorresse
em escala.
Um dos mais longos e exaustivos debates sobre a Revolução de 1930 é justamente
o da natureza, do timing e da intencionalidade das mudanças na política econômica rumo à
industrialização. Essa discussão clássica é feita em geral enfatizando as variáveis macroeco-
nômicas, como a política fiscal, de comércio exterior e de moeda e crédito, terminando com
um inventário de eventuais erros e acertos.
Entre economistas, por um bom tempo perdurou o consenso sobre a industrialização
ser um efeito colateral da política de proteção ao café. De fato, a tese remonta ao trabalho
do engenheiro e industrial Roberto Simonsen, que consagrou a explicação clássica segundo a
qual, desde a década de 1910, a política de desvalorização cambial, que tornava nosso café
mais barato no mercado internacional, também redundava em crescimento da indústria local.
Mais exatamente, dizia que “muito mais do que qualquer proteção tarifária, exercem acen-
tuada influência sobre o nosso crescimento industrial a crescente desvalorização de nossas
taxas cambiais e o rápido aumento de uma população que se vai cada vez mais educando”
(Simonsen, 1939: 23).
Esse ponto focal da discussão sobre indústria e desenvolvimento tinha relação direta
com os embates que Simonsen travava contra os adeptos de uma suposta vocação eminente-
mente agrária do país. Simonsen também propunha, com planejamento e intervenção estatal
nacionalista, rebater a estratégia de liberalização e internacionalização – em termos que se
tornariam emblemáticos em sua controvérsia contra Eugênio Gudin (Simonsen e Gudin, 2010).
Nas décadas de 1950 a 1970, a controvérsia foi levada a novo patamar. Em meio ao
confronto entre desenvolvimentistas (como Celso Furtado, 1959) e liberais (Peláez, 1968), im-

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Revolução nas políticas públicas: a institucionalização das mudanças na economia, de 1930 a 1945

perava amplo consenso de que não havia exatamente uma intencionalidade industrializante
das presidências de Vargas.
Esse consenso só seria quebrado, paradoxalmente, na segunda metade dos anos
1980, quando ficou patente a crise do modelo de substituição de importações e no momento
em que o intervencionismo estatal passou a ser duramente questionado. O trabalho de Fon-
seca atribuirá intenções industrializantes a Vargas desde sua primeira presidência (1930 a
1934), com base em discursos do presidente e em uma nova estrutura do Estado que é criada
para promover a indústria (Fonseca, 1989; Fonseca e Salomão, 2017).
Antes de Fonseca, Draibe já havia não apenas demonstrado a intencionalidade da in-
dustrialização como também feito referência a fatores político-institucionais que normalmente
eram periféricos ao debate centrado em aspectos macroeconômicos ou na retórica presiden-
cial (Draibe, 1985). Ao contrário de Fonseca, Draibe apontava que a política deliberadamente
nacionalista, estatizante e industrializante de Vargas era um produto tardio da Revolução de
1930. O projeto de industrialização não havia se mostrado consistente antes de o Estado
Novo estruturar o aparelho econômico da planificação, com prioridades alocativas e a criação
de um órgão coordenador central, o Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP).
Draibe via esse projeto consubstanciado no Plano Especial de Obras Públicas e Aparelhamento
da Defesa Nacional (de 1939) e no Plano de Obras e Equipamentos (1943).
Embora as perspectivas de Draibe e Fonseca tenham lançado novas luzes sobre um
dos pilares que justificam a alcunha dada à “Revolução de 1930”, conforme se verá ao longo
deste artigo, sem uma visão que se aprofunde não só sobre fatores político-institucionais
gerais, mas desça ao nível das políticas públicas, é impossível desenovelar o fio de Ariadne da
longa metamorfose econômica operada naquela década.

Referencial de análise

P olíticas públicas são a política por outros meios. Elas representam a forma concreta pela
qual se organiza a governança administrativa e regulatória do Estado para a solução de
problemas coletivos. É em torno dessas soluções que o Estado legitima e exerce sua autorida-
de de modo permanente, como rotina.
O regime político-institucional de 1930 consagrou um novo e dilatado padrão de go-
vernança presidencial e, concomitantemente, um também novo e dilatado regime de políticas
públicas. Com as canetadas de atos normativos unilaterais — decretos-lei, decretos regula-
mentadores e a própria Constituição de 1937 —, o presidente concentrou prerrogativas tanto
para criar e reformar políticas públicas quanto para montar a estrutura organizativa necessária
para colocá-las em marcha — e o fez em profusão.

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Qualificaremos como instituições as “regras do jogo” que definem como atores, or-
ganismos estatais e organizações civis participam da política e das políticas públicas (North,
1990). Essa participação decide que incentivos, restrições e eventualmente punições con-
formam o cerne das políticas públicas. Consideraremos as políticas públicas também como
instituições, na medida em que ditam regras que passam a valer quando acionadas sob o
comando dos organismos do Estado e que, como resultado, premiam coalizões governantes e
prejudicam/punem coalizões opositoras (Hacker e Pierson, 2014; Pierson, 2006).
Conceituaremos como regime de políticas públicas o arranjo institucional e orga-
nizativo de uma política pública, como no caso da política econômica, tomada aqui como
subsistema de políticas. É a montagem e a coordenação de um conjunto de subsistemas de
políticas públicas que conformam um regime de políticas públicas (Howlett, 2009; Jochim
e May, 2010). O regime consolida uma lógica de organização e orientação de políticas
pela preferência sistemática por alguns instrumentos e recursos de políticas. Por exemplo,
quando se estabelece uma norma que institui um benefício, trata-se de um instrumento de
política. Quando se cria um organismo para operacionalizar essas normas, trata-se de um
recurso de política.
Administração pública será aqui definida como o uso da autoridade estatal de forma
direta. O Estado administra aquilo de que dispõe autonomamente, com suas regras e funcio-
nários próprios ou contratados do setor privado, mas sob seu comando direto.
Em contraste à administração, abordaremos a regulação em referência ao campo de
incidência da autoridade pública sobre o qual o Estado não atua diretamente. Essa atuação,
ao contrário, é realizada por cidadãos, famílias ou empresas, mas ocorre disciplinada por regu-
lamentos estatais, em maior ou menor medida. São as políticas públicas que estabelecem que
atividades são desenvolvidas diretamente pelo Estado, por meio da administração pública, e
quais são atribuídas à regulação privada e mediante que escopo, mais amplo ou mais restrito.

O poder da caneta: por que analisar decretos?

D ecretos são o instrumento básico do poder presidencial para atuar de forma unila-
teral. Mesmo em períodos democráticos, a produção unilateral de normas funciona
como termômetro dos padrões de governança presidencial e da produção de políticas públicas
(Howell, 2003; Moe e Howell, 1999; Skowronek, 1982).
Com a Revolução de 1930, o uso intenso de poderes unilaterais, na forma de de-
cretos e decretos-lei, tornou-se uma faceta ostensiva de uma governança presidencial mais
centralizada e discricionária. Sem partidos, sem Congresso e sem qualquer contraposição

516 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020
Revolução nas políticas públicas: a institucionalização das mudanças na economia, de 1930 a 1945

relevante do Judiciário, o presidente decidia sem estar sujeito a um sistema efetivo de pesos e
contrapesos. Salvo pelo período de 1934 a 1937, Vargas governou basicamente por decretos
e decretos-lei.
A produção normativa unilateral diz, no detalhe, em que medida um presidente trans-
forma sua agenda de políticas públicas em um legado. Pelos atos oficiais, os presidentes
orientam a burocracia governamental a como traduzir suas decisões em ação prática, por
meios administrativos ou regulatórios.
Os decretos certamente não resumem tudo o que acontece em um governo, mas fun-
cionam como impressões digitais das decisões tomadas e do ritmo em que são implementadas
e complementadas por decisões supervenientes. Em regimes democráticos, se as leis são as
certidões de nascimento de muitas políticas (embora muitas já nasçam diretamente por decre-
tos), a carteira de identidade dessas políticas é dada pelos decretos.
Enquanto em regimes democráticos os atos unilaterais são mediados politicamente
pelo Legislativo e moderados constitucionalmente pelo Judiciário, em regimes autoritários
ou francamente ditatoriais, esses meandros institucionais são mitigados ou eliminados por
atalhos unilaterais, ou seja, por simples canetadas. Em uma ou outra situação, atos unilate-
rais como os decretos denotam ser bons indicadores da ação presidencial realmente levada a
cabo, tenham eles passado por meandros democráticos ou sido obra de atalhos autoritários.
Os atos normativos dão “cara” às políticas e aos programas a eles associados. De-
cretos ditam as normas pelas quais os agentes públicos e privados vão pautar-se; criam ou
redefinem órgãos públicos para implementá-las; nomeiam os burocratas que estarão à frente
de suas ações; alocam, suplementam ou contingenciam o orçamento e liberam recursos.
Os decretos não movem as políticas, antes as consagram. São um retrato das decisões
tomadas pelo presidente. Portanto, a pesquisa que fundamenta este artigo não é orientada
primordialmente pelas fontes, mas antes pelo objeto. É a construção do objeto e a pergunta
de pesquisa que definiram o tipo de fonte mais adequada a uma história serial da política
econômica da Revolução de 1930.
Os decretos revelam-se assim um bom indicador do que os presidentes fazem, com
que prioridade, em que áreas, com que recursos e com que nível de autoridade, de delegação,
de consistência, de resiliência e até de ambiguidade.

Metodologia: uma história


serial da Revolução de 1930

H istória serial é uma abordagem historiográfica que dá tratamento a determinadas fon-


tes para que produzam informações em série, ou seja, categorizáveis e comparáveis

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020 517
Antonio Lassance

– eventualmente, mas não necessariamente, de forma quantitativa (Barros, 2011; Chaunu,


1970; Furet, s/d).
Por meio da serialização, é possível formular uma história analítica, escrita com base em
interpretações não apenas sobre a repetição e a variação desses dados. Mais importante é entender
o que essas repetições ou variações dizem quanto ao comportamento dos sujeitos da história e
das transformações sociais que eles empreendem em uma longa duração. A serialização ajuda a
perceber o que é episódico e o que é persistente; o que é novidade e o que é continuidade. Permite
também perceber como uma novidade se torna ou não continuidade, no longo prazo.
Delimitar pela cronologia o objeto em análise é um requisito metodológico básico à
pesquisa, mais ainda à história serial (Barros, 2011: 47-51). Metodologicamente, convencio-
na-se aqui como Revolução de 1930 o período delimitado pelos marcos cronológicos que vão
de 3 de outubro de 1930 a 29 de outubro de 1945. Em 3 de outubro de 1930, iniciava-se o
movimento armado que afastaria o presidente Washington Luís e impediria, antecipadamen-
te, a posse do presidente eleito, Júlio Prestes. Em seu lugar seria empossado, em 3 de novem-
bro daquele ano, Getúlio Dornelles Vargas (1882–1954). Vargas só deixaria a presidência em
29 de outubro de 1945, deposto por uma coalizão civil-militar.
É sobre esse período (1930 a 1945) que se concentrará a análise das políticas públicas
e seus impactos. A partir de 1946, mesmo considerando que a Revolução de 1930 deixou
marcas profundas nas instituições políticas e na organização do Estado brasileiro, é notório
que ali se abriu outro contexto e uma nova moldura institucional da República.
Cabe também destacar que o uso dessa metodologia não comunga da suposição de
que a história serial suplante e prescinda de formas tidas como mais tradicionais de investi-
gação histórica. Também não entende que a história serial promova um fetichismo das fontes
ou um neopositivismo quantitativista. Como lembra Braudel, o esforço de analisar um período
histórico por diferentes ângulos supõe evitar “escolher uma destas histórias com a exclusão
das outras” (Braudel, 1965: 272).
A perspectiva aqui adotada não envereda em uma oposição binária entre métodos
quantitativos e qualitativos. Qualquer quantificação a ser feita sobre essa série de dados só
é possível se precedida por um tratamento qualitativo, pela categorização dessa produção
institucional conforme áreas de políticas públicas e pela qualificação de seus instrumentos e
recursos criados.
Ao contrário do que foi a história serial em algumas experiências, a quantificação e
mesmo a categorização só fazem sentido se de fato ajudarem a serializar, ou seja, a sequen-
ciar processos, demonstrando a conexão lógica e propriamente genealógica entre iniciativas
prévias e resultados posteriores. Serializar é menos a tarefa de empilhar grandes volumes de

518 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020
Revolução nas políticas públicas: a institucionalização das mudanças na economia, de 1930 a 1945

dados em um labirinto de informações do que o desafio de desnovelar o fio de Ariadne de


longas trajetórias.
A questão está em ajustar as fontes mais aderentes ao tipo de problema e de pergunta
de pesquisa que se pretende. Nesse sentido, compartilha-se a percepção, inscrita no Manifes-
to pela História, de que uma história serial pode ser profícua quanto a mostrar continuidades
e especificidades ao longo do tempo (Armitage e Guldi, 2014: 121). A Revolução de 1930 é
pródiga em inovações que tiveram continuidade e podem ser serializadas.
Com o tratamento devido, a base de dados permite fazer com que as decisões presi-
denciais sejam inventariadas, agrupadas e avaliadas em perspectiva longitudinal, de acordo
com seus atributos institucionais e escolhas preferenciais. De modo apropriado, a história das
políticas públicas da Revolução de 1930 ganha vida, e a trajetória da institucionalização de
sua política econômica pode ser elucidada.
A metodologia adotada levantou toda a produção institucional unilateral do presiden-
te Vargas, de 1930 a 1945, e as classificou conforme as seguintes categorias (de acordo com
Lassance, 2013):
• Atos de inovação institucional: são aqueles que criam novas regras, portanto são
inéditos. Representam novidades em sua essência, pelo menos em relação aos
governos anteriores;
• Atos de mudança incremental: promovem alterações substantivas, mas parciais,
em regras cujo arcabouço básico remonta a inovações já estabelecidas e que per-
manecem em vigor;
• Atos de gestão: são meramente executórios, operacionais, às vezes, até rotineiros
— por exemplo, a nomeação e a exoneração de funcionários ou a decretação de
ponto facultativo. Não instituem regras, apenas as cumprem;
• Atos de coordenação: instituem forças-tarefa, grupos de trabalho, comitês, fóruns,
câmaras, conselhos;
• Atos de relações exteriores: são os que estabelecem pactuações com outros países
ou organismos internacionais1.

Os atos de inovação institucional e mudança incremental foram analisados separada-


mente. Para as políticas públicas, esses são atos matriciais. São as inovações e as mudanças
incrementais que conformam as políticas públicas realmente levadas adiante por um governo,
com suas prioridades ou ênfases. São matriciais por serem atos fundadores ou reformuladores
de políticas públicas. Criam, modificam ou detalham a concepção e a forma de execução de
políticas e seus respectivos programas governamentais.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020 519
Antonio Lassance

Metamorfoses das políticas ao


longo da Revolução de 1930

G etúlio Dornelles Vargas exerceu a presidência em contextos político-institucionais muito


distintos. De 1930 a 1934, foi um presidente dotado de plenos poderes, sem oposição
congressual e sem partidos. De 1934 a 1937, foi um governante eleito de modo indireto por
um Congresso constituinte no qual detinha maioria.
Paulatinamente, a partir de 1935, mas de modo absoluto, a partir de 1937, passou
a impor-se como presidente de um regime de exceção: primeiro, sob o pretexto de combate
aos efeitos da “Intentona Comunista” de 1935 e, depois, com poderes unilaterais ostensivos
— e novamente sem partidos, sem Congresso e sem Judiciário que o confrontasse. Por essa
razão, a análise de políticas públicas deve estar atenta a essas variações do enquadramento
político-institucional varguista.
Decretos-lei e decretos regulamentares dispõem de assuntos muito diferentes, têm
regras de governança e de gestão (implementação) bastante distintas e não se prestam à
mera contagem indiscriminada de suas frequências. Embora possam ser quantificados em
categorias comuns, não apresentam a mesma importância entre si. Para que se tornem inte-
ligíveis, lança-se mão da serialização para entender não como tais atos se acumulam, e sim
como se conectam.
É possível notar que a produção institucional unilateral de Vargas varia muito ao longo
da Revolução de 1930. A produção de decretos tem saltos em períodos em que o presidente
concentra um conjunto maior de poderes unilaterais, justamente porque passa a assumir por
completo as funções legislativas do país.
Para submeter a análise a um teste de estresse em contextos diametralmente distin-
tos, o Gráfico 1 apresenta a trajetória de toda a produção normativa varguista, não apenas
os atos de política econômica, incluindo a última das presidências de Vargas (1951 a 1954).
A longa trajetória dos quase 20 anos em que Vargas exerceu a presidência (15 deles entre
1930 e 1945 e 4, incompletos, em seu último mandato) mostra-se fortemente afetada pelas
mudanças nos contextos político-institucionais e por um fator exógeno de grande impacto: a
II Guerra Mundial.
A partir de 1930, os atos de gestão avolumam-se em função de um crescimento da
atividade governativa como um todo. Eles revelam claro decréscimo justamente a partir de
1934, quando o Congresso retorna à atividade. De novo a trajetória de crescimento da ati-
vidade governamental, aferida pelo termômetro dos decretos publicados, ganha contornos
hipertrofiados a partir da ditadura de 1937. O pico desse perfil mais encorpado da produção
de normas chega ao ápice no período que coincide com a entrada do Brasil na II Guerra

520 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020
Revolução nas políticas públicas: a institucionalização das mudanças na economia, de 1930 a 1945

Gráfico 1 – Produção normativa unilateral do presidente Getúlio Vargas (1930–1954).


CO: atos de coordenação; RE: atos de relações internacionais; II: inovações institucionais; MI: mudanças incremen-
tais; GE: atos de gestão.
Decretos e decretos-lei de Vargas no período da Revolução de 1930 vão de 5 de novembro de 1930 a 30 de outubro
de 1945. Embora Vargas tenha sido empossado a 3 de novembro de 1930 e destituído a 29 de outubro de 1945,
seus primeiros decretos principiam e encerram-se nessas respectivas datas. 
Fonte: com base em dados de pesquisa de decretos, decretos-lei disponíveis em: 
<https://www2.camara.leg.br/busca/?o=relevance&v=legislacao&colecao=S&expressao=&palavraschave=&ape-
lido=&primeiraementa=&corpododocumento=&numero=&ano=&tiponormaF=Decreto&tiponormaF=Decre-
to-Lei&di=05-11-1930&df=30-10-1945&origensI=&origensF=&situacao=> Acesso em: 17 ago. 2020.
Dados e gráfico com acesso aberto (open access) em: <https://bit.ly/Lassance2020_Vargas≥.
Elaboração do autor.

(1942, sendo 1943 o ponto máximo dessa trajetória). A crise política que se instala em 1953
e atravessa o ano de 1954, culminando com a tentativa de golpe e o suicídio do presidente
(24 de agosto de 1954), lançam sinais de uma atuação deliberada de Vargas de confrontar o
cenário adverso com a intensificação de seus atos unilaterais.
Embora os atos de gestão sejam os mais corriqueiros, se lançarmos uma lupa sobre
o comportamento da produção unilateral do presidente em atos de criação (inovações) ou
alteração de políticas públicas (mudanças incrementais), o que se revela é um comportamento
extremamente similar (Gráfico 2). O grau de semelhança é notável, principalmente em termos
de mudanças incrementais.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020 521
Antonio Lassance

Gráfico 2 – Inovações institucionais e mudanças incrementais das presidências de Getúlio Vargas (1930–1954).
II: inovações institucionais; MI: mudanças incrementais.
Decretos e decretos-lei de Vargas no período da Revolução de 1930 vão de 5 de novembro de 1930 a 30 de outubro
de 1945. Embora Vargas tenha sido empossado a 3 de novembro de 1930 e destituído a 29 de outubro de 1945,
seus primeiros decretos principiam e encerram-se nessas respectivas datas. 
Fonte: vide Gráfico 1.
Elaboração do autor.

A trajetória analisada denota que é essa produção matricial que impulsiona atos de
gestão em larga escala, a cada período. Afinal, são as políticas e os organismos criados, re-
criados ou ampliados para geri-las que produzem esses atos mais comuns em profusão. Fica
evidente uma conexão genealógica entre iniciativas prévias e resultados posteriores, em que a
ação governamental lança uma inovação e, depois, a incrementa com variações que se valem
do arcabouço instituído.
Daí em diante, ocorre uma verdadeira dependência à trajetória (ou path dependence,
conforme David, 1985; Pierson, 2000; Mahoney e Schensul, 2006), em que as políticas estru-
turadas com base nesses atos matriciais se sustentam com atos de gestão e de coordenação,
que os retroalimentam até que demonstrem algum sinal de esgotamento e necessidade de
alteração. Nesse ponto, inicia-se uma trajetória distinta, marcada por um conjunto de inova-
ções.
Em conjunturas críticas, situações excepcionais são usadas pelos presidentes como
justificativas para tomar atitudes inéditas e lançar propostas originais, até mesmo porque
muitas vezes as alternativas tradicionais deixaram de existir. Quando determinados padrões
de governança e certos tipos de instrumentos e recursos — administrativos e regulatórios —

522 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020
Revolução nas políticas públicas: a institucionalização das mudanças na economia, de 1930 a 1945

são considerados obsoletos, sua saturação passa a ser vista não só como ineficaz, mas até
perversa, na medida em que parecem ser apenas recursos desperdiçados.
Quando os problemas passam a ser processados por alguma concepção alternativa
tida como mais consistente, geram-se novas soluções organizadas na forma de novas políticas
públicas. Ou seja, embora os governos não se furtem eventualmente a lançar mão de decisões
baseadas em tentativa e erro, eles se inclinam por opções sobre as quais tenham alguma
informação acerca de seus possíveis impactos, de modo que diminua o grau de incerteza
das iniciativas que encampam. É em busca desses sinais que se verificará em que medida e
quando há uma revolução na política econômica dos anos 1930. Não apenas quando e como
ela se iniciou, mas também por que meandros evoluiu (modificou-se) e quando se completou,
não mais como esboço, mas como arcabouço de política pública.

A trajetória da política econômica


na primeira presidência (1930–1934)

D e 1930 a meados de 1934, em meio aos efeitos avassaladores da Crise de 1929, a


prioridade da política econômica varguista recaiu sobre a agricultura e as políticas
fiscal, monetária e de comércio exterior (ou aduaneira), conforme Gráfico 3.

Gráfico 3 – Atos de administração pública da política econômica (1930–1934).


Atos restritos a inovações institucionais e mudanças incrementais. Os atos de gestão, como decretos orçamentários,
estão excluídos dessa contagem e das dos gráficos seguintes. Estão incluídos como do ano de 1933 os decretos que
vão até o fim deste primeiro mandato de Vargas, até meados de julho de 1934.
Decretos e decretos-lei de Vargas no período da Revolução de 1930 vão de 5 de novembro de 1930 a 30 de outubro
de 1945. Embora Vargas tenha sido empossado a 3 de novembro de 1930 e destituído a 29 de outubro de 1945,
seus primeiros decretos principiam e encerram-se nessas respectivas datas. 
Fonte: vide Gráfico 1.
Elaboração do autor.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020 523
Antonio Lassance

Se definida em campos mais agregados, percebe-se que a política econômica tinha


um perfil ainda bastante tímido. Orientava-se para a tentativa de equilíbrio das contas públi-
cas, contrariamente a uma opção macroeconômica expansionista, que resultaria em ampliar
o déficit público, mas que se poderia reverter em uma retomada econômica. A exceção era
o estímulo produtivo sobretudo ao setor agrícola, e não ao industrial ou comercial (aliás, às
expensas destes dois setores). Fica também patente uma atenção muito menor à melhoria de
infraestrutura (ferrovias, portos, estradas e telégrafos).
A prioridade à agricultura reflete-se nos decretos voltados a proteger a economia do
café. Ainda em 1930, assim que o governo se instala, o governo provisório transforma o
Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio em, simplesmente, Ministério da Agricultura,
criando também a nova pasta do Trabalho, Indústria e Comércio (Decreto nº 19.448/1930).
Não apenas o surgimento do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio é a grande
novidade. A partir de então, o órgão passa a gestar significativa mudança nas relações entre
capital e trabalho (Gomes, 1999). Sob a tutela do Estado, entra em cena, paulatinamente, a
legislação trabalhista que redundaria na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943,
e na criação da justiça do trabalho, em 1941. Contudo, em termos de política econômica, a
verdadeira novidade é a primazia ainda maior que adquire a agricultura.
Ao fim do ano de 1931, um indicador mais importante do peso da agricultura é o
Decreto nº 20.760, que estabelece um novo convênio entre a União e os estados produtores
de café para a compra e a queima de grandes quantidades do produto, de forma que garanta
o preço internacional em patamares vantajosos.
Enquanto o convênio do café se torna o centro imediato da política econômica nesse
momento de crise aguda, ainda não se vê qualquer traço de política industrial deliberada por
parte do governo, salvo alguns esboços rudimentares.
A política econômica da primeira presidência Vargas mostra o uso de mais instrumen-
tos administrativos do que regulatórios (Gráfico 4). De 251 decretos e decretos-lei editados,
189 eram decretos matriciais de administração pública e 62 regulatórios. Portanto a regulação
era apenas cerca de um terço da atividade presidencial na produção de políticas públicas.
Nestes, sim, a ênfase recaía sobre comércio e serviços, secundados pela indústria. Ou seja,
outra prova dos privilégios com que contava a agricultura era sua quase absoluta falta de
regulação, vis-à-vis os demais setores. A agricultura também foi mantida isolada da incidência
da legislação trabalhista, restrita às áreas mais urbanizadas.
Esse padrão de governança evidencia uma concepção econômica ainda bastante ape-
gada aos antigos cânones e reativa às circunstâncias. Ainda em meio aos efeitos da Crise de
1929, os ministros da Fazenda de Vargas persistiram com uma política econômica de padrão

524 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020
Revolução nas políticas públicas: a institucionalização das mudanças na economia, de 1930 a 1945

Gráfico 4 – Atos regulatórios de política econômica (1930–1934).


Decretos e decretos-lei de Vargas no período da Revolução de 1930 vão de 5 de novembro de 1930 a 30 de
outubro de 1945. Embora Vargas tenha sido empossado a 3 de novembro de 1930 e destituído a 29 de outubro
de 1945, seus primeiros decretos principiam e encerram-se nessas respectivas datas. 
Fonte: vide Gráfico 1.
Elaboração do autor.

absolutamente ortodoxo, com o objetivo de que o país mantivesse o selo de bom pagador,
à procura de novos empréstimos internacionais. Em um contexto totalmente adverso, bus-
cava-se reeditar a fórmula dos funding loans, ou seja, os empréstimos de longo prazo e de
rolagem anual da dívida (Abreu, 2002; 1989; Cachapuz, 2001; Dean, 1969; Reis, 1934; Silva,
Cachapuz e Lamarão, 2004; Wirth, 1970)2.

A trajetória da política econômica na segunda


presidência (1934–1937)

A té o fim da segunda presidência de Vargas, que se encerraria com o golpe de 1937, a


política econômica se manteve praticamente inalterada. Seu governo apenas passou
a dar mais atenção à agenda de infraestrutura (Gráfico 5) com decretos que visavam capila-
rizar os correios e telégrafos. Outra variação é na política fundiária. O presidente começa a
utilizar-se do estoque de terras para o estímulo à expansão das fronteiras agrícolas. Todavia,
é a partir de 1934 que Vargas sinaliza uma mudança de rota em prol de uma maior industria-
lização, sem perder o foco prioritário na agricultura. Aliás, seria uma característica da política
econômica varguista enquadrar as chances de industrialização do país como dependentes
da agricultura. Ao mesmo tempo, Vargas apontava que a pujança da agricultura dependia

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020 525
Antonio Lassance

Gráfico 5 – Atos da administração pública na área econômica (1934–1937).


Decretos e decretos-lei de Vargas no período da Revolução de 1930 vão de 5 de novembro de 1930 a 30 de
outubro de 1945. Embora Vargas tenha sido empossado a 3 de novembro de 1930 e destituído a 29 de outubro
de 1945, seus primeiros decretos principiam e encerram-se nessas respectivas datas. 
Fonte: vide Gráfico 1.
Elaboração do autor.

de sua modernização, com a mecanização e a transformação de seus produtos para a escala


industrial.
Mesmo posteriormente, como em 7 de maio de 1943, Vargas exemplificaria essa con-
cepção em um discurso sobre a necessidade de industrialização como estratégia de amparo
à própria agricultura:
Já não é mais adiável a solução. Mesmo os mais empedernidos conservadores agraristas com-
preendem que não é possível depender da importação de máquinas e ferramentas, quando uma
enxada, esse indispensável e primitivo instrumento agrário, custa ao lavrador 30 cruzeiros, ou
seja, na base do salário comum, uma semana de trabalho. (apud Ianni, 1971: 73).

Na segunda presidência, cresce a quantidade de atos regulatórios, especialmente so-


bre a atividade comercial (Tabela 1), muitos com objetivos fiscais. Não se trata, porém, de uma
novidade, mas da persistência de um antigo padrão de gestão da política fiscal que extraía
recursos sobretudo do consumo e do comércio de exportação, e não da renda e da proprieda-
de. Recursos que seriam gastos, para além de manter a própria maquinaria do Estado, para
financiar a agricultura, especialmente, o café.
Todavia, algumas mudanças são perceptíveis e importantes. O Decreto nº 24.636/1934
reestrutura e robustece o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, que também passa a ter

526 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020
Revolução nas políticas públicas: a institucionalização das mudanças na economia, de 1930 a 1945

Tabela 1 – Atos de regulação econômica (1934–1937).

Política 1934 1935 1936 1937 Total %


Comércio e serviços 263 5 2 0 270 95,74

Indústria 11 0 0 1 12 4,26

Total 274 5 2 1 282 100


Atos restritos a inovações institucionais e mudanças incrementais. Os decretos de gestão, como por exemplo os
orçamentários, estão excluídos dessa contagem.
Fonte: vide Gráfico 1.
Elaboração do autor.

seu orçamento ampliado. Outra inovação ocorre com a criação do Conselho Federal do Comér-
cio Exterior (CFCE), em ato ainda editado na presidência anterior (Decreto nº 24.429, de 20 de
junho de 1934), mas que ganharia relevância a partir do segundo mandato e, ainda mais, da
terceira presidência (Estado Novo). Diretamente subordinado ao presidente da República e con-
gregando governo e empresários, o conselho é considerado o primeiro organismo estatal com
funções específicas de formulação de política e planejamento econômico (Rezende, 2010: 7).
Esse é o momento em que Vargas arquiteta sua guinada nacionalista e estatizante,
firmando as bases da industrialização. Contudo ela só se implementa de modo efetivo a partir
da virada da década de 1930 para a de 1940 do século passado.
Duas mudanças são cruciais. A primeira é o Código de Águas (Decreto nº 24.643/1934),
com o qual Vargas abriu a possibilidade de intervir no domínio econômico para o aproveitamento
das chamadas “quedas d’água” para a geração de energia elétrica. A outra, também em 1934
(nos últimos instantes de seu primeiro mandato), é o Decreto nº 24.642, que institui o Código de
Minas. Vargas estatiza o subsolo e reserva as riquezas minerais para a exploração pelo governo.
O ato viabilizaria o modelo de negócio estatal da companhia Vale do Rio Doce. Na prática, por
meio desses atos, o presidente transferiu o potencial hidráulico e a propriedade do subsolo do
domínio da regulação para o da administração estatal. Essas seriam condições necessárias, mas
ainda não suficientes para uma grande mudança no perfil econômico nacional.

A trajetória da política econômica


na terceira presidência (1937–1945)

A produção normativa presidencial durante a ditadura do Estado Novo tem um crescimen-


to considerável já antes do ingresso do Brasil na II Guerra. Contudo se verifica que a
indústria não conta com uma participação significativa (Tabela 2). Da mesma maneira, é parca

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020 527
Antonio Lassance

Tabela 2 – Atos da administração pública na área econômica (1937–1941).

Políticas 1938 1939 1940 1941 Total %


Correios e telégrafos 0 0 0 0 0 0,00
Estradas e rodagem 0 1 0 2 3 0,98
Urbanização 0 0 1 2 3 0,98
Energia 0 1 0 4 5 1,64
Portos 1 1 1 3 6 1,97
Indústria 3 0 3 7 13 4,26
Ferrovias 1 1 2 11 15 4,92
Comercial e aduaneira 3 8 1 5 17 5,57
Monetária e cambial 6 8 6 4 24 7,87
Fundiária 5 8 6 9 28 9,18
Comércio e serviços 9 3 8 20 40 13,11
Agricultura 8 6 12 15 41 13,44
Fiscal 31 25 27 27 110 36,07
Total 67 62 67 109 305 100
Consideram-se como atos de 1938 os ocorridos desde a instauração do Estado Novo, em novembro de 1937.
Atos restritos a inovações institucionais e mudanças incrementais. Os decretos de gestão, como por exemplo os
orçamentários, estão excluídos dessa contagem.
Fonte: vide Gráfico 1.

a atenção à infraestrutura, à exceção das ferrovias. Elas representam o grande esforço do


governo nessa matéria. Mais uma vez, a agricultura é o centro das atenções.
É a partir da terceira e última presidência de Vargas no período de 1930 que o CFCE
desenha uma nova política econômica que resultaria, no período seguinte (1942–1945), na
prioridade em implantar indústrias de base capazes de projetar o desenvolvimento de amplo
parque industrial no país.
Outra inovação importante para a formulação, a governança e a gestão da política
econômica é o DASP (conforme enfatiza Draibe, 1985), criado pela Constituição de 1937 e
regulamentado em decreto a partir de 1938. Embora muito associado, stricto sensu, à orga-
nização burocrática e à governança presidencial, é o DASP quem elabora o primeiro plano
quinquenal do país (Plano Especial de Obras Públicas e Reaparelhamento da Defesa Nacional,
1939–1943). Mais que isso, a atuação do departamento rivalizava com funções do próprio
Ministério da Fazenda, inclusive na elaboração do orçamento.

528 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020
Revolução nas políticas públicas: a institucionalização das mudanças na economia, de 1930 a 1945

O Gráfico 6 evidencia um avanço significativo na produção de atos normativos dedica-


dos à indústria, em mesmo patamar da política agrícola. A produção institucional em matéria
fiscal, assim como nos demais períodos, colocava-se como a mais ativa, o que é compreensí-
vel. Eram justamente inovações ou mudanças incrementais destinadas à ampliação da base
arrecadatória para viabilizar o funcionamento do Estado e a irrigação das políticas desenvol-
vidas naquele período.
Os atos de regulação também se expandem, sobretudo sobre comércio e serviços (Ta-
bela 3). Isso decorre das restrições do período, que se tornaram críticas a partir da guerra.
Como sempre, a regulação sobre comércio e serviços é sobretudo restritiva. A teimosia em

Gráfico 6 – Atos da administração pública na área econômica (1942–1945).


Decretos e decretos-lei de Vargas no período da Revolução de 1930 vão de 5 de novembro de 1930 a 30 de
outubro de 1945. Embora Vargas tenha sido empossado a 3 de novembro de 1930 e destituído a 29 de outubro
de 1945, seus primeiros decretos principiam e encerram-se nessas respectivas datas. 
Fonte: vide Gráfico 1.
Elaboração do autor.

Tabela 3 – Atos de regulação econômica (1942–1945).

Políticas 1942 1943 1944 1945 Total %


Agricultura 5 4 5 1 15 16,13
Comércio e serviços 35 10 8 11 64 68,82
Indústria 5 2 2 5 14 15,05
Total 45 16 15 17 93 100
Atos restritos a inovações institucionais e mudanças incrementais. Os decretos de gestão, como por exemplo os
orçamentários, estão excluídos dessa contagem.
Fonte: vide Gráfico 1.
Elaboração do autor.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020 529
Antonio Lassance

penalizar o consumo e as atividades liberais certamente explica a aversão de setores de classe


média e de grande parte das elites comercial (incluída aqui a imprensa) e financeira a Vargas.
Com a escassez da economia de guerra e as imposições da ditadura, magnificadas pelas
questões de segurança nacional, esses setores estariam mais fortemente regulados pela au-
toridade estatal.
A indústria também passou a ser uma atividade mais regulada, em sentido restritivo. Algu-
mas fábricas foram até mesmo encampadas e comandadas por militares, naquele período. Contu-
do, o setor definitivamente conquistara um status elevado, próximo ao da agricultura, não apenas
na política econômica, mas também na economia política varguista. Basta ver a proeminência que
um antigo adversário de Vargas, Roberto Simonsen (1889–1948), assumiria a partir de então.
Mesmo assim, a montagem de um novo regime de política econômica ainda estava en-
gatinhando. É bom lembrar que o campo da macroeconomia sequer estava conformado antes
de Keynes consolidar sua teoria geral, em 1936. Sua disseminação entre a comunidade epistê-
mica – acadêmica, governamental e de empresários – (Heclo, 1978) sequer estava enraizada,
salvo casos excepcionais (Rueschemeyer e Skocpol, 2017). Boa parte do que se reproduziu
por aqui se inspirava não exatamente em teoria econômica, mas no efeito-demonstração de
alguns países de capitalismo tardio que alcançavam industrialização acelerada. Exemplos que
se tornariam notórios sobretudo a partir da segunda metade da década de 1930.
Além de ideias inovadoras, essenciais para orientar decisões alocativas que pudessem
ser justificadas como corretas e fossem “embaladas para presente” para convencer atores
políticos e econômicos importantes, faltava algo ainda mais básico: financiamento. Com as
severas restrições do crédito privado internacional, essas condições só estariam disponíveis
quando Roosevelt e seus new dealers erigiram instituições que canalizaram recursos de coo-
peração técnica e financeira, como o Export-Import Bank (Eximbank), e facilitaram a troca de
expertise (Hogan, 1987).
Isso explica por que apenas ao fim dos anos 1930 ocorre uma revolução na política
econômica brasileira. Só então estariam reunidos ingredientes necessários e suficientes: uma
nova teoria econômica, exemplos bem-sucedidos de outros países e um interesse dos Esta-
dos Unidos em financiar a lealdade do Brasil. A reviravolta só acontece pela pressão de uma
coalizão formada por arautos da indústria nacional e sintonizada com a estratégia de defesa
formulada pela corporação militar.

Conclusões

P ara além da questão sobre a intencionalidade da transformação econômica promovida


pela Revolução de 1930, há uma lacuna no debate sobre a institucionalidade das re-

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Revolução nas políticas públicas: a institucionalização das mudanças na economia, de 1930 a 1945

viravoltas que aquela década provocou. Essas mudanças, embora anunciadas pelo discurso
presidencial e esboçadas em planos, só eram de fato operacionalizadas pela instituciona-
lização de políticas públicas e seus respectivos aparatos administrativo e regulatório. A
Revolução de 1930 tem um imenso genoma ainda por ser mapeado em suas mais diversas
políticas.
Para se compreender o processo de industrialização como algo que superou fatores
meramente endógenos à dinâmica econômica, é preciso elucidar em que medida e por que
meios Vargas, em seus sucessivos governos, foi responsável por implantar alterações estrutu-
rantes e sistemáticas nas políticas públicas, pavimentando grandes mudanças que persistiram
no longo prazo. Até hoje, a literatura sobre o tema, salvo raras exceções, pouco evidenciou
como a criação não apenas de aparatos burocráticos e planos de desenvolvimento, mas de
regras, com incentivos e restrições, e a construção de uma governança da autoridade pública
sobre algumas variáveis econômicas essenciais se mostraram decisivas para a industrialização
brasileira.
Nos anos 1980, as pesquisas de Draibe e Fonseca lançaram um novo olhar e diminuí-
ram várias lacunas desse debate. Mas ainda que tenham trazido fatores político-institucionais
para o centro das controvérsias, não se aprofundaram na análise de políticas públicas. Sem
isso, é impossível responder a uma pergunta-chave: por que essa guinada econômica só ga-
nhou corpo quase uma década depois de 1930?
Neste estudo, viu-se quando, como e por que o regime de 1930 de fato promoveu
uma revolução na política econômica brasileira. Com a metodologia de análise serializada
da produção normativa unilateral, mostrou-se como se desenrolou o fio que teceu uma nova
política econômica com as digitais do presidente Vargas.
Evidenciou-se também como e por que a política econômica demorou a engatar
mudanças mais significativas. Em seu início, o governo provisório estabeleceu uma po-
lítica conservadora. Isso perdurou, ainda que as intenções de manter o país com o selo
de bom pagador não se revertessem em maiores chances de obtenção de empréstimos
internacionais. Todavia, enquanto mantinha uma política econômica ortodoxa, Vargas
induziu mudanças que fariam soprar ventos de uma nova economia política, acalentada
não só por novas concepções econômicas, mas pela pressão de novos atores que entra-
vam em cena.
Atos regulatórios como o Código de Águas e o Código de Minas foram pontos de vira-
da cruciais que evoluíram lenta e cautelosamente antes de dar lugar a inovações e mudanças
incrementais mais amplas e à construção de um aparato estatal mais robusto, do ponto de
vista do controle de algumas variáveis econômicas essenciais. Essa reorientação se deu de

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020 531
Antonio Lassance

forma combinada (e não em contradição) com a agricultura. Mesmo com a economia de guer-
ra, Vargas patrocinou a indústria, mas manteve a agricultura em seu pedestal de atividade
econômica prioritária.
A partir de 1942 e 1943, a industrialização já não era apenas uma agenda, e sim parte
de um esforço de guerra considerado necessário à própria sobrevivência do país. Em janeiro
de 1941, com o Decreto-Lei nº 3.002, quando o presidente criou a Companhia Siderúrgica
Nacional (CNS), deu-se um grande salto para a industrialização, por meio de uma indústria
de base estatal.
Como se sabe, a CSN foi o fator decisivo para a posterior adesão do país à coalizão
liderada pelos Estados Unidos contra o nazifascismo. Portanto não foi a entrada na guerra que
induziu a industrialização. Foi a industrialização que definiu a participação brasileira na guer-
ra. A ordem dos fatores é essencial para explicar por que o Brasil tirou vantagem do contexto
de guerra, ao contrário de outros países.
A economia de guerra, por si só, é um argumento frágil. Fosse a guerra, automati-
camente, uma variável propulsora da nacionalização, da estatização e da industrialização,
além do Brasil, vários outros países teriam experimentado os mesmos resultados — o que
não foi o caso. Do mesmo modo, a guerra, em certa medida, pode ser um fator limitador da
industrialização, dado o cenário de restrição de fatores produtivos. Portanto, por mais que
seja coincidente, a guerra, como variável exógena, não é explicação suficiente sobre o surto
industrializante brasileiro nos anos 1940. Não há sequer uma correlação direta, pois houve
avanço da indústria nos anos que precederam a eclosão do conflito.
Com o Decreto-Lei nº 4.352, de 1º de junho de 1942 (antes da oficialização da entrada
na Guerra), Vargas criou a Companhia Vale do Rio Doce, grande estatal siderúrgica. Comple-
tava-se uma das grandes transformações que podem ser atribuídas à Revolução de 1930.
A CSN e a Vale, amparadas pelo instrumento da nacionalização do subsolo e do potencial
hidrelétrico, seriam as pontas de lança para um processo que mudaria a economia de patamar,
a partir dos anos 1940.
Também fica patente que não foi a ditadura do Estado Novo que garantiu a mo-
dernização da política econômica. Vargas contou com poderes unilaterais exacerbados
desde 1930 até meados de 1934, e isso não ocorreu. Parte das inovações mais impor-
tantes veio do período de abertura (1934–1937). E os fatores que facilitaram essa mo-
dernização não ocorreram por causa da ditadura, mas apesar dela. Tanto que, terminada
a Guerra, o regime ditatorial se desestabilizou. Militares, industriais e parte expressiva
da classe média, que haviam sido essenciais ao Estado Novo, tornaram-se seus mais
aguerridos opositores.

532 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020
Revolução nas políticas públicas: a institucionalização das mudanças na economia, de 1930 a 1945

Ao longo do período de 1930–1945, houve não exatamente uma guinada, mas a


montagem paulatina, sujeita a vários percalços, de um novo regime de política econômica.
Isso foi precedido pela conformação de uma nova economia política, o desenvolvimentismo.
Mais que uma política macroeconômica, o desenvolvimentismo constituiu de fato uma eco-
nomia política por representar, ao mesmo tempo, uma concepção econômica empunhada por
uma coalizão de atores, fundamentada pela teoria econômica e sustentada por um arranjo
institucional, com seus instrumentos e recursos de políticas públicas garantidos tanto pelo
Estado brasileiro quanto pela aliança que se estabeleceu com os new dealers que financiaram
parte expressiva de nossa industrialização.
Apesar dos avanços fincados nos anos 1940, a agenda da economia política do de-
senvolvimentismo permaneceu incompleta. Foi retomada apenas na presidência de Vargas de
1951 a 1954. São dessa última presidência, por exemplo, o Banco Nacional de Desenvolvi-
mento Econômico e Social (BNDES — 1952) e a Petrobras (1953). A Companhia Nacional
de Álcalis, criada em 1943, só foi realmente instalada na presidência de Juscelino Kubitschek
(1956–1961). Também a Eletrobras, idealizada em 1954, entrou em operação apenas na
presidência de João Goulart (1961–1964).
Esses presidentes deram sequência ao legado varguista, sob circunstâncias distintas.
Mas essa já é outra história.

Notas
1 Os atos de relações exteriores não foram contabilizados porque eles significam a
adesão a pactos e tratados internacionais cujas consequências são depois devidamente
transpostas para outros atos, principalmente decretos de regulamentação. Assim, eles se
tornariam redundantes com outros atos. Além disso, muitos desses atos dizem respeito
à criação ou à extinção de embaixadas e consulados e a atos de gestão da política de
pessoal diplomático, ou à acreditação de diplomatas estrangeiros.
2 O funding loan firmado em 1931 estendeu-se até 1934, sendo substituído por novo
acordo de rolagem e amortizações conhecido como “esquema Aranha”. Na prática, ele
deixou de ser um funding, pois não obteve dinheiro novo, isto é, a contratação de no-
vos empréstimos. Em 1939, uma moratória brasileira da dívida interromperia também
os pagamentos, rompendo definitivamente com os compromissos dos funding loans
anteriores.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020 533
Antonio Lassance

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Revolução nas políticas públicas: a institucionalização das mudanças na economia, de 1930 a 1945

Anexo

Roteiro metodológico

O tratamento empírico dado à produção institucional das sucessivas presidências de Ge-


túlio Vargas, de 1930 a 1945, segue a linha traçada por Lassance (2013), com acrésci-
mos de metodologia de tratamento de história serial para o big data das políticas públicas da
Revolução de 1930 em dados manuseáveis, conforme o seguinte roteiro:
1. A produção de atos presidenciais unilaterais, principalmente decretos-lei e de-
cretos, mas também a Constituição de 1937 (ela, em si, um ato unilateral), foi
coligida de acordo com os marcos temporais de início e fim dos sucessivos man-
datos do presidente Getúlio Vargas na Revolução de 1930. Portanto, reuniram-se
todos esses atos editados de 3 de novembro de 1930 a 29 de outubro de 1945.
As fontes dessa produção são os dados abertos disponíveis no portal de legislação
da Presidência da República (Brasil, 2020);
2. Desses atos, selecionaram-se aqueles relacionados à política econômica e expe-
didos pelo presidente da República com a chancela dos ministérios da Fazenda;
Viação e Obras Públicas; Agricultura; Trabalho, Indústria e Comércio. Também
foram incluídos os artigos da Constituição de 1937, em matéria econômica;
3. Cada ato normativo foi disposto em uma tabela com a identificação de data,
tipo (decreto-lei, decreto, Constituição), numeração do ato e ementa. O uso das
ementas foi uma solução para expor o ato normativo de forma sintética em uma
única célula da tabela;
4. Essa base de dados textual foi então submetida a sucessivas rodadas de classifi-
cação para refinamento analítico. A primeira delas consistiu em categorizar cada
ato conforme a função estatal (administração pública ou regulação);
5. Em seguida, os atos foram tipificados em subáreas de política econômica: fiscal,
agrícola, monetária e cambial, indústria, fundiária, comércio e serviços, energia,
ferrovias, comércio exterior e aduana, portos, estradas e rodagem, urbanização,
correios e telégrafos etc.;
6. Os atos foram então tipificados conforme representassem inovação institucional
(II), mudança incremental (MI), ato de gestão (GE), de coordenação (CO) ou de
relações internacionais (RI);
7. Finalmente, classificaram-se os atos conforme distribuíssem predominantemente
incentivos ou restrições/sanções/proibições. Essa diferença e o equilíbrio no uso

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020 537
Antonio Lassance

desses recursos institucionais, indutores ou coercitivos, são cruciais para esclare-


cer como um tipo de padrão de governança presidencial se consolida em um regi-
me de políticas públicas. É essa diferença entre incentivos e restrições que permite
avaliar em que medida uma intensificação de atos que incidem sobre determinada
política (como no caso da economia) representa a indução ou o freio à expansão
de determinadas atividades.

538 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.511-538, Setembro-Dezembro 2020
A R T I G O

Cidadania regulada e Era Vargas:


a interpretação de Wanderley Guilherme
Dos Santos e sua fortuna crítica

Regulated citizenship and the Vargas Era: the interpretation of


Wanderley Guilherme dos Santos and his critical fortune

La ciudadanía regulada y el periodo Vargas: la interpretación de


Wanderley Guilherme dos Santos y su fortuna crítica

Marcelo Sevaybricker MoreiraI*


Ronaldo Teodoro dos SantosII**

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942020000300006

Universidade Federal de Lavras – Lavras (MG), Brasil.


I

*Cientista político (marcelomoreira@ufla.br)


https://orcid.org/0000-0002-3255-5532

II
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
**Cientista político (ronaldosann@gmail.com)
https://orcid.org/0000-0002-0125-7700
Artigo recebido em 03 de abril de 2020 e aprovado para publicação em 15 de julho de 2020.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.539-558, Setembro-Dezembro 2020 539
Marcelo Sevaybricker Moreira e Ronaldo Teodoro dos Santos

Resumo
Pretende-se avaliar a fortuna crítica do conceito de cidadania regulada, formulado por Wanderley Guilherme
dos Santos, no intuito de apontar como esse se tornou categoria central nos esforços do pensamento político
brasileiro em entender a ordem política e social posterior à Revolução de 1930. Por um lado, esse conceito
permitiu identificar algumas ambiguidades da chamada Era Vargas e continuidades e rupturas entre esse
período e a ditadura militar (1964–85), além de dilemas e possibilidades da redemocratização do Brasil,
por outro, tendeu a idealizar certos casos nacionais de modernização, quando comparados aos países de
modernização mais tardia.
Palavras-chave: cidadania; Revolução de 1930; Estado; classe trabalhadora; modernização conser-
vadora.

Abstract
It is intended here to evaluate the critical fortune of the concept of regulated citizenship, formulated by
Wanderley Guilherme dos Santos, in order to point out how this became a central category in the efforts of
Brazilian political thought in understanding the political and social order after the Revolution 1930. On the
one hand, this concept allowed to identify some ambiguities of the so-called Vargas Era and continuities and
ruptures between that period and the military dictatorship (1964-85), in addition to dilemmas and possibilities
for the redemocratization of Brazil, although, on the other hand, it tends to idealize certain national cases of
modernization, when compared to countries of later modernization.
Keywords: citizenship; Revolution of 30; State; working class; conservative modernization.

Resumen
Se pretende aquí evaluar la fortuna crítica del concepto de ciudadanía regulada, formulado por Wanderley
Guilherme dos Santos, con el fin de señalar cómo éste se convirtió en una categoría central en los esfuerzos
del pensamiento político brasileño por comprender el orden político y social posterior a la Revolución de
1930. Por un lado, este concepto permitió identificar algunas ambigüedades de la llamada Era Vargas y con-
tinuidades y rupturas entre ese período y la dictadura militar (1964-85), además de dilemas y posibilidades
para la redemocratización de Brasil, aunque, por otro, tiende tendió a idealizar ciertos casos nacionales de
modernización, en comparación con países de modernización posterior.
Palabras clave: ciudadanía; Revolución de 1930; Estado; clase obrera; modernización conservadora.

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Cidadania regulada e Era Vargas: a interpretação
de Wanderley Guilherme Dos Santos e sua fortuna crítica

P or mais de 50 anos, o carioca Wanderley Guilherme dos Santos (doravante deno-


minado de WGS) manteve-se atuante como importante intelectual brasileiro. For-
mador de várias gerações de cientistas políticos, participante da última geração do Instituto
Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), fundador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio
de Janeiro (IUPERJ), fundador e ex-presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação em
Ciências Sociais (ANPOCS), autor de mais de 30 livros, além de inúmeros artigos e capítulos
de livros, WGS é um dos poucos entre seus pares que dispensa apresentação.
Não obstante sua importância, a obra de WGS carece ainda de uma análise paciente e
sistemática. O presente trabalho não tem a pretensão de suprir essa lacuna. Ocupar-nos-emos
aqui tão somente em analisar o potencial hermenêutico do conceito de cidadania regulada,
elaborado por ele no livro Cidadania e justiça (1979), bem como a recepção que esse conceito
teve por parte da comunidade acadêmica. Partimos da hipótese de que esse conceito tem
fortes afinidades com diversas teses de interpretação do Brasil a respeito do processo descrito
usualmente como modernização conservadora, processo, este, relacionado a um conjunto de
transformações profundas pelas quais passou o país a partir da Revolução de 1930. Ainda
que não tenhamos condição de explorar com profundidade essas afinidades, procuraremos,
ao longo do trabalho, mencioná-las, a fim de indicar elementos que julgamos importantes do
pensamento político brasileiro contemporâneo.
Para realizar esse objetivo, o presente trabalho está dividido em três seções. Na pri-
meira, apresentaremos alguns traços gerais da obra de WGS para “localizar” o conceito de
cidadania regulada na sua trajetória intelectual. Na segunda parte, trataremos das principais
características desse conceito tanto no livro em que ele originalmente aparece quanto em
obras posteriores. Na terceira seção, destacaremos as principais avaliações críticas e os usos
desse conceito por outros estudiosos da realidade brasileira, bem como sua inserção nos es-
forços do pensamento político brasileiro em compreender a Era Vargas e a sua projeção sobre
os séculos XX e XXI.

BREVE INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO


DE WANDERLEY GUILHERME DOS SANTOS

A obra de WGS é, decerto, muito extensa para ser avaliada metodicamente no espaço
de um artigo. Todavia, com o propósito de introduzir o leitor nessa obra e baseados em
um quadro analítico panorâmico (Moreira, 2020), dividimos seu pensamento em três fases,
diferenciadas em função das temáticas e da abordagem predominante em cada uma delas.

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Marcelo Sevaybricker Moreira e Ronaldo Teodoro dos Santos

Uma primeira fase (1962–1963) é marcada pela sua participação no ISEB, com fortes
críticas à ideologia nacional-desenvolvimentista (dominante entre a maioria dos isebianos),
às posições dominantes na esquerda brasileira (principalmente aquelas vinculadas ao Partido
Comunista Brasileiro) e às ideologias autoritárias, de diferentes matizes. Além de poucos
artigos, o autor publicou alguns livros a essa época, tal como Introdução ao estudo das con-
tradições sociais no Brasil (Santos, 1963), última publicação do ISEB antes do seu fechamento
pelos militares, que confiscaram a obra. Anterior a esse livro e dois anos antes da deflagração
do golpe, WGS escreveu um panfleto político no qual conclamava as forças populares a se uni-
rem contra o golpe em curso no país. Quem dará o golpe no Brasil? (Santos, 1962), fascículo
da coleção “Cadernos do Povo Brasileiro” (promovida pelo ISEB em associação com o Centro
Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes), ficaria na memória nacional como
uma espécie de texto visionário a respeito dos eventos que marcaram nossa história. De modo
geral, os textos de WGS desse período são marcados pelo caráter crítico, fundamentado em
certa leitura marxista, quanto às interpretações da realidade brasileira, e ainda não configu-
ram uma análise eminentemente política, uma vez que as variáveis explicativas utilizadas por
WGS são mais de natureza sociológica ou econômica. Nessa primeira fase, temas dominantes
dos períodos subsequentes — como partidos, competição política, estabilidade democrática
e políticas públicas — ainda não eram centrais.
Uma segunda fase, de 1967 a 1988, inicia-se formalmente com a publicação dos
seus conhecidos artigos sobre a imaginação política brasileira que, entre textos de outros
intelectuais, contribuíram para fundar o campo do pensamento político brasileiro (Lynch,
2013). Sobre os escritos dessa fase, cinco aspectos merecem ser destacados. Primeira-
mente, pode-se observar o esforço em ressaltar a especificidade da dinâmica política, dis-
tinguindo-a da esfera socioeconômica, pois as instituições políticas passam, destarte, a
ser empregadas como variável independente dos fenômenos estudados, como é o caso
paradigmático da sua tese de doutorado (defendida em Stanford, em 1969, e publicada
como livro posteriormente — Santos, 1986). Nela, WGS formulou inusitada hipótese so-
bre o golpe de 1964, segundo a qual ele teria sido um resultado direto de uma “crise de
paralisia decisória”, que combinava elevada fragmentação da representação no Congresso
com radicalização político-ideológica e alta rotatividade ministerial. Essa tese representava
importante contraponto às análises existentes sobre o golpe, que o concebiam como decor-
rente de fatores econômicos e sociais, compreendendo as instituições políticas como mera
variável dependente.
Outro ponto a ser destacado é que nos textos do segundo período já se constata a uti-
lização sistemática de metodologias empíricas na investigação do fenômeno político, típicas

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Cidadania regulada e Era Vargas: a interpretação
de Wanderley Guilherme Dos Santos e sua fortuna crítica

da matriz de ciência política estadunidense, com a qual WGS teve contato nos anos 1960. Um
conjunto de indicadores e técnicas de pesquisa estatística compõe, pois, as obras dessa fase.
O terceiro ponto de inflexão entre a primeira e a segunda fase refere-se ao fato de
WGS incorporar muitas teorias, hipóteses e conceitos da moderna ciência política, o que não
ocorre nos textos da primeira fase. Tal característica não é incomum para as primeiras gera-
ções de cientistas políticos brasileiros, e não pode ser tomada, de partida, como sinônimo de
subserviência intelectual.
O quarto e último traço importante dos escritos da segunda fase é a adoção do auto-
ritarismo como objeto de estudo privilegiado. Nesse contexto, a ordem autoritária inaugurada
em 1964 procura ser compreendida à luz de nossa tradição de pensamento e prática auto-
ritárias, particularmente do período do Estado Novo, como é o caso do livro aqui estudado
— Cidadania e justiça. Há que se notar uma evidente linha de continuidade entre os textos
iniciais desse período que investigavam os pensadores brasileiros denominados de “autoritá-
rios instrumentais” (Santos, 1978a) e seus textos finais, da terceira fase, que continuarão a
examinar a dinâmica autoritária nacional por oposição à democrática, a ser, afinal, fundada1.
O quinto aspecto dessa segunda fase é que, subsidiariamente e sobretudo nas obras do fim da
década de 1980, o tema da transição democrática ganha saliência na obra desse autor, como
é o caso do livro Poder e política (Santos, 1978b), que contém uma palestra sua, proferida no
Senado acerca da estratégia de “descompreensão política”. É razoável pensar que esse autor,
bem como outros intelectuais do país, a partir do contexto da “abertura lenta, gradual e se-
gura” promovida por Geisel, se apresentasse como estudioso especializado e como intelectual
público compromissado com a redemocratização do Brasil. Nesse sentido, alguns textos desse
período diagnosticavam que, em função do processo de modernização levado a cabo pelos
militares, o país se transformara profundamente entre 1960 e 1980.
No capítulo de uma obra que reunia alguns cientistas sociais brasileiros, WGS anuncia-
va “A pós-revolução brasileira”: as condições sociais brasileiras nos anos 1980 eram bastante
distintas das condições que precederam o golpe de 1964, bem como seriam os resultados
políticos desses dois processos. A ordem da cidadania regulada estava sendo contestada. Ava-
liando os vinte anos de militarismo no Brasil, ele afirma que os chefes de governo do período
foram responsáveis por um processo de modernização conservadora, gerando várias conse-
quências inesperadas. Embora não possa ser atribuído apenas aos militares, o fato é que, até
1984, o país havia passado por um processo de urbanização, industrialização e crescimento
econômico, deixando de ser uma sociedade tradicional, marcada pelo “compadrio” e pelo
“clientelismo” para tornar-se uma sociedade “aberta, porosa e fluida” (Santos, 1985: 255).
O autor destaca então o crescimento de associações comunitárias, o maior número de greves

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Marcelo Sevaybricker Moreira e Ronaldo Teodoro dos Santos

no país, a sindicalização dos trabalhadores do campo, um maior número de organizações


profissionais e empresariais e a formação de uma nova classe média estatal, evidenciando o
anacronismo do sistema autoritário.
O quinto e último aspecto relevante dessa segunda fase do pensamento de WGS re-
fere-se à sua adesão declarada à democracia, embora a própria democracia ainda não cons-
tituísse objeto de discussão sistemática por parte do autor. Nos textos do primeiro período,
esse compromisso já existia, mas sempre ao lado da crítica de orientação marxista acerca dos
limites da democracia liberal. Democratizar o país, nos textos da segunda fase, estabelecia-se
já em um imperativo normativo para WGS.
Uma terceira e última fase da sua obra, compreendida pelo período 1990–2019 (quan-
do o autor falece), é caracterizada pela discussão da democracia brasileira, seus avanços e
impasses, e do descompasso entre os ganhos institucionais e os atrasos sociais. Em Razões da
desordem (Santos, 1993), por exemplo, WGS diz que o Brasil parecia ter superado de fato o
interregno autoritário, consolidando, aqui, uma sociedade civil complexa e com eleições regu-
lares, idôneas e competitivas. A esses traços evidentes de modernização, restava, no entanto,
explicar por que a democracia brasileira não funcionava adequadamente. Ao contrário do que
dizia a quase totalidade dos analistas àquela época, WGS compreendia que o problema não
estava propriamente nas instituições políticas, mas na falta de cultura cívica. Contra também
os que diagnosticavam uma crise de governabilidade nos anos 1990 (e defendiam, pois, uma
reforma do Estado), o autor apresentava outra explicação para a dificuldade governativa bra-
sileira. Para ele, o principal dilema da Nova República consistia num “híbrido institucional”
aqui instaurado: por um lado, “uma morfologia poliárquica, excessivamente legisladora e re-
gulatória” e, por outro, um “hobbesianismo social pré-participatório e estatofóbico” (Santos,
1993: 79). Como em um estado de natureza, a fragilidade das normas de convivência produz
desconfiança generalizada, prevalecendo, então, os códigos privados de comportamento. O
resultado desse estado de natureza é uma “cultura cívica predatória”, com um padrão de
interação social de soma zero, quando bem-sucedida, ou de soma negativa, quando fra-
cassada. Não eram, portanto, as reformas políticas (tais como a do parlamentarismo, muito
acalentada nos anos 1980 e 1990, ou a do voto distrital, defendida mais recentemente) que
iriam resolver os principais problemas da sociedade brasileira. Muito ao contrário: elas pode-
riam gerar efeitos imprevistos por muitos, ainda que antevistos pelos grupos que viam seus
privilégios ameaçados com a democratização da sociedade brasileira, como denuncia o autor
em Regresso (Santos, 1994). Rotatividade e intensa disputa para os cargos eletivos, elevadís-
sima inclusão político-eleitoral (com a retirada das barreiras que impediam o voto dos pobres,
mulheres, iletrados, e com a incorporação na polis do demos das regiões Norte, Nordeste e

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Cidadania regulada e Era Vargas: a interpretação
de Wanderley Guilherme Dos Santos e sua fortuna crítica

Centro-Oeste), entre outros fatores, compunham o que ele chamava de “expansão cívica”,
processo que teria rompido definitivamente com a cidadania regulada e com o padrão oligár-
quico de reserva de poder, prevalecente na história do Brasil republicano.
Feita a apresentação do conjunto da obra de WGS, passemos à análise de Cidadania
e justiça e de outros textos nos quais se discute a cidadania regulada.

O CONCEITO DE CIDADANIA REGULADA E A ERA VARGAS

E m Cidadania e justiça, WGS avalia os impactos diferenciais dos esforços do regime pós-
1964 em implementar reformas nas políticas sociais. Reconstruindo historicamente a
legislação brasileira sobre política social, WGS afirma que no século XIX reinava uma total
ausência de leis sobre proteção social, combinada, em compensação, a um princípio lais-
sez-fairiano de não regulamentação das profissões. O Estado brasileiro, como boa parte dos
países à época, mantinha-se reticente no tocante à intervenção do poder público nos proces-
sos acumulativos.
Com a Revolução de 1930, inaugura-se uma nova ordem na política brasileira que per-
maneceria até a década de 1980, a saber: a ordem ou a cidadania regulada. O Estado brasilei-
ro começa, então, a interferir diretamente na esfera da produção e na questão social. Se isso
significou, por um lado, um avanço em comparação ao vácuo institucional anterior (uma vez
que a criação de vários direitos trabalhistas coibiu os excessos do processo de produção), por
outro lado, reforçou a possibilidade de o Estado conter as pressões do operariado (domesti-
cando, assim, seus sindicatos mais combativos). Em certo sentido, as relações de trabalho que
se resolviam privadamente passaram agora a ser reguladas e decididas pelo aparato estatal.
A legislação trabalhista passava a premiar aqueles segmentos inseridos na ordem regulada
por meio de incentivos e benefícios sociais, punindo, ao mesmo tempo, aqueles trabalhadores
e organizações sindicais não regularizados e não inseridos no novo marco institucional. O
aspecto determinante seria a vinculação das políticas sociais, concernentes ao problema da
equidade, ao processo de acumulação:
Por cidadania regulada entendo o conceito de cidadania cujas raízes encontram-se, não em um
código de valores políticos, mas em um sistema de estratificação ocupacional, e que ademais,
tal sistema de estratificação ocupacional é definido por norma legal. Em outras palavras, são
cidadãos todos aqueles membros da comunidade que se encontram localizados em qualquer
uma das ocupações reconhecidas e definidas em lei (Santos, 1979: 75, grifos do autor).

Isso significou que o reconhecimento da cidadania dependia do reconhecimento for-


mal por parte do Estado da profissão exercida pelo indivíduo. Todos que exerciam profissões

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Marcelo Sevaybricker Moreira e Ronaldo Teodoro dos Santos

não reconhecidas por lei, como os trabalhadores rurais e domésticos, tornaram-se pré-cida-
dãos, criando, assim, barreiras à entrada na arena política e estimulando um comportamento
de submissão política ante o Estado.
Ao considerar o estado social da nação após o golpe de 1964, WGS demonstra que as
desigualdades sociais entre regiões aumentaram substantivamente e revelaram também ser
cumulativas, haja vista que uma região ou um indivíduo carente de um recurso normalmente
é carente dos demais. Assim, apesar de avanços específicos na política social (como a criação
do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL), que estendeu aos trabalhadores
do campo o sistema previdenciário), WGS é categórico em afirmar que a política social dos mi-
litares não alterou, em essência, a ordem regulada dos anos 1930, mantendo-se a cidadania
“destituída de qualquer conotação pública e universal” (Santos, 1979: 104).
Em texto posterior, WGS pondera que, desde a Revolução de 1930, a justiça ficou
submetida, por meio da “obediência aos princípios integradores da cidadania regulada”, à
“maximização da eficiência do mercado” (Santos, 1981: 183). Diz ele: “Nenhum governo
pós-45 tomou qualquer iniciativa mais consistente e sistemática no sentido de alterar os prin-
cípios da cidadania regulada e da obediência à eficiência do mercado econômico” (Santos,
1981: 183). Nesse sentido, medidas como a Lei nº 4.725 (1965), sobre a fixação dos salários
profissionais e o piso salarial, e o estabelecimento do Fundo de Garantia por Tempo de Ser-
viço (FGTS) violavam os princípios da justiça procedural. Em contrapartida, iniciativas como o
Programa de Integração Social/Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PIS/
PASEP) e o FUNRURAL operavam segundo uma forma diversa da lógica da ordem regulada,
na medida em que desvinculavam os benefícios dos azares de cada indivíduo de melhor se
alocar no mercado. Criado em 1963, mas viabilizado apenas em 1971, o FUNRURAL ainda se
diferenciava dos seguros sociais por não ser uma arrecadação tripartite, ficando os trabalha-
dores do campo dispensados de contribuir com a previdência. Essa orientação redistributiva
também comparecia no PIS/PASEP, criado em 1970, uma vez que o beneficiário não precisava
contribuir para o fundo que o beneficiaria. Relativizado o efeito contributivo-corporativo des-
ses benefícios, tais políticas mantinham-se, no entanto, bem distantes da equidade universal
que o conceito de cidadania regulada almejava alcançar. Desse modo, tais iniciativas não
representavam para WGS uma ruptura significativa da ditadura civil-militar com a cidadania
regulada, que, no geral, mantinha preservada sua estrutura:
Como dissemos anteriormente, todas as características fundamentais da ordem regulada pro-
duzida pela iniciativa pós-30 permanecem em vigor, por exemplo, a legislação sindical e previ-
denciária. Os extensos controles promulgados pelo Estado brasileiro pós-30 sobre o movimento
sindical permanecem em vigência, assim como permanecem em operação os princípios da legis-

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Cidadania regulada e Era Vargas: a interpretação
de Wanderley Guilherme Dos Santos e sua fortuna crítica

lação previdenciária que fazem os benefícios da previdência social, com exceção da assistência
médica, proporcionais à contribuição passada, sendo esta uma função do salário percebido
(Santos, 1981: 184-185).

Confirmava-se, ademais, um padrão da política nacional: a associação entre política


social e autoritarismo. Como parte de uma estratégia política, o regime repetia a política
do Estado Novo de conceder direitos sociais como compensação pela restrição dos direitos
políticos e como meio de aquiescência das massas insatisfeitas, ausentes nos processos de
formulação das políticas públicas. O golpe de 1964 é interpretado como um momento de
conflito entre a ordem regulada e a democracia eleitoral:
Após pouco menos de 20 anos de prática de democracia relativa, esta revelou-se incompatível
com uma ordem de cidadania regulada. Por esta ou aquela razão, os diversos grupos sociais
foram incapazes de contratar novas formas institucionais de administrar o processo de acu-
mulação, por um lado, e os parâmetros de equidade, por outro. Dada a resistência da ordem
conservadora da cidadania regulada, o conflito resolveu-se pelo rompimento da democracia
limitada. No contexto do presente estudo, tal é o significado do movimento militar de 1964
(Santos, 1979: 82).

Com a cidadania regulada, consagrou-se a desigualdade no acesso às políticas sociais,


na medida em que se vincularam os benefícios sociais às contribuições passadas e ao salário
recebido, de modo que, quem era mais bem remunerado, tinha mais benefícios. Por meio des-
se arranjo institucional, o Estado brasileiro pôde dar uma solução eficaz ao problema da regu-
lação da esfera da produção: criou-se uma política que, por um lado, evitava a exacerbação
das iniquidades sociais (impedindo que elas se tornassem uma ameaça à ordem) e, por outro
lado, embora se propusesse uma política de equidade, não comprometia, todavia, o processo
de acumulação capitalista em relação ao qual o próprio Estado é dependente.
O caso brasileiro sugere, destarte, uma via complexa de modernização, na qual as
identidades políticas são formadas sem a mediação dos partidos e antes mesmo da cons-
tituição de uma ordem propriamente liberal, de modo que os atores envolvidos no conflito
distributivo procuram vocalizar suas demandas não por meio da participação e da compe-
tição partidária, mas pela influência direta sobre parte da burocracia estatal, que arbitra a
disputa. Esse processo produziu três consequências perversas, diz WGS. Em primeiro lugar, a
submissão do operariado em relação à burocracia estatal. Em segundo lugar, a irrelevância
dos partidos políticos, instituições fundamentais nas democracias. Nesse caso, o “corporati-
vismo subdesenvolvido”, padrão político no qual o conflito social está dissociado do processo
partidário, dificulta a criação de “um sistema bem desenvolvido de segurança mútua” (Dahl,
2005, p. 53-54), fundamental para o funcionamento democrático, na medida em que essas

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garantias estabilizam o sistema político. A terceira consequência é a própria utilização das


políticas sociais a fim de compensar a participação limitada e a baixa competitividade política.
Se, no caso de muitos países do capitalismo central, como descrito no livro clássico de T. S.
Marshall (1967), os direitos sociais contribuíram para uma maior integração política, no Brasil,
significaram mais um obstáculo à institucionalização política.
Sem menosprezar essas consequências nocivas, WGS via ceticamente aqueles que pro-
metiam uma modernidade ao país, no fim do século XX, por fazer ruir o legado da Era Vargas,
sob a justificativa de ele ser corrupto, clientelista etc. Ao contrário, para Santos, era impres-
cindível expandir o Estado mínimo brasileiro, isto é, os direitos fundamentais à cidadania.
Apesar de ter gerado a cidadania regulada, o varguismo resolveu quase ao mesmo
tempo dois dilemas fundamentais da ordem social moderna, a redistribuição das riquezas e
a ampliação da participação política, dilemas, em geral, solucionados aos poucos. A maior
dificuldade em se solucionar concomitantemente os problemas da integração nacional, da
participação política e da redistribuição é que a criação de uma ordem liberal promoveria a
continuação do domínio exclusivo dos oligarcas, como ocorria na Primeira República, como
denunciara Oliveira Vianna (Santos, 1978a). Assim, a via da modernização clássica, inician-
do-se pela integração nacional, seguida da ampliação da participação política e, por fim, da
redistribuição (sequência adotada pelos países desenvolvidos), não foi possível para o Brasil.
A esse respeito, WGS formulara a influente interpretação de Oliveira Vianna, para quem, na
ausência de um sistema partidário liberal competitivo no país, a intervenção autoritária do
Estado sobre a sociedade seria um recurso instrumental à transição “mais rápida [...] a uma
sociedade liberal” (Santos, 1978a: 102-103). Essa associação entre o conceito de cidadania
regulada e sua condição autoritária instrumental posicionava Vianna a meio caminho dos
autoritários integralistas e da tradição liberal doutrinária brasileira.
Mesmo considerando as heranças negativas do varguismo na política nacional, como
o corporativismo subdesenvolvido, a cidadania regulada e o autoritarismo, WGS conclui que
essa tradição criou condições mínimas para o surgimento da democracia brasileira, institucio-
nalizando gradualmente a competição política e incluindo politicamente setores antes margi-
nalizados. Quando o número de competidores é restrito e o eleitorado, em sua maioria, vive
na zona rural, ele se encontra basicamente dependente dos clãs familiares que competem nas
eleições, como denunciara Vianna. À medida que ele se expande e passa a residir nas cidades,
tornando o eleitor um anônimo, a dinâmica oligárquica acaba.
Em síntese, quando se considera toda a produção científica de WGS, percebe-se que
a discussão sobre a cidadania regulada se situa em um momento específico do seu pensa-
mento, aqui denominado de segunda fase. Embora não tenha sido um conceito negado pelo

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Cidadania regulada e Era Vargas: a interpretação
de Wanderley Guilherme Dos Santos e sua fortuna crítica

autor posteriormente, não foi utilizado por ele com frequência. Em uma coletânea de textos,
Décadas de espanto e uma apologia democrática (Santos, 1998), WGS reúne ao fim do livro
de 1998 três capítulos (1, 2 e 4) de Cidadania e justiça. Ao fim dele, redige uma “notícia
bibliográfica” na qual justifica que, passados vinte anos da publicação de Cidadania e justiça,
seria necessário aprofundar a pesquisa sobre a evolução das políticas sociais no país, o que o
levou a não autorizar uma quinta edição desse livro que já se tornara um clássico do pensa-
mento político brasileiro.

CRÍTICAS E USOS DO CONCEITO DE


CIDADANIA REGULADA NA INTERPRETAÇÃO
DA COSMOLOGIA VARGUISTA

N esta seção, analisaremos inicialmente alguns textos que se propõem avaliar critica-
mente o livro Cidadania e justiça. Em seguida a esses primeiros textos de crítica, pas-
saremos à análise de outros trabalhos que se apropriam do conceito de cidadania regulada.
Maria Kerbauy (1980: 165) foi quem resenhou pela primeira vez o livro supramencio-
nado, entendendo-o como “uma contribuição extremamente significativa para as políticas
públicas, dado não apenas ao crescente interesse entre os cientistas políticos pelo tema,
como também ao incipiente desenvolvimento do mesmo no Brasil”. A autora salienta o ganho
analítico obtido por meio do conceito de cidadania regulada, como instrumento de análise das
políticas sociais do regime militar. Para ela, a comparação entre os períodos de 1930–64 e de
1964–79 revela mais descontinuidade do que permanência: “A dimensão política da cidada-
nia entra em recesso, com a violação da ordem democrática de 1964” (Kerbauy, 1980: 167).
Além disso, ela nota que, segundo WGS, como não há uma teoria elaborada a respeito de
política social no Brasil e como a análise desse tipo de fenômeno envolve um conjunto grande
de dificuldades, a abertura democrática configurava uma necessidade moral para a análise
científica da justiça social brasileira.
A segunda resenha que Cidadania e justiça recebeu é de autoria de Luciano Oliveira
(1981). O texto reitera o caráter laudatório do escrito e os pontos destacados por Kerbauy
(1980), compreendendo que, além da obra ser “útil para se pensar a crise atual da previdên-
cia”, é também “estimulante para se continuar a luta pela abertura política” (Oliveira, 1981:
121). Contudo, o mérito da obra, na sua opinião, é ter formulado um conjunto de definições
e de distinções que ajudariam a compreender questões prementes de sua época, como as
relativas às ações destinadas à acumulação de riquezas, às compensatórias (que objetivam
minorar problemas sociais decorrentes da acumulação) e às redistributivas (orientadas para

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Marcelo Sevaybricker Moreira e Ronaldo Teodoro dos Santos

redistribuição de renda e outros benefícios). Tanto pela resenha de Oliveira (1981) quanto
pela de Kerbauy (1980), percebe-se que o livro foi compreendido à época como um escrito
inovador — no campo de estudos sobre política pública — e que serviu como instrumento de
crítica às políticas sociais e à própria natureza repressiva do regime militar.
O artigo de Fábio Wanderley Reis (1991), “O tabelão e a lupa”, avalia criticamente
a ideia proposta por WGS, situando-a como exemplo típico das deficiências presentes nas
ciências sociais brasileiras. Primeiramente, a proposta de adjetivar a cidadania como regulada
pressuporia alguma forma de cidadania alternativa, outro tipo de prescrição de direitos e
deveres sem regulação estatal (o que, na opinião de Reis, é precisamente o contrário do que
ocorreu ao longo da história). Em segundo lugar, o texto de WGS tomaria por idiossincrático
“o mecanismo ocupacionalmente estratificante [...] que corresponde à categoria do seguro
social” (Reis, 1991: s.p.), de acordo com o qual os benefícios são calculados em proporção à
contribuição dada por cada segurado, o que ocorre em qualquer democracia. Em terceiro lu-
gar, Reis (1991) avalia que o livro confunde os planos descritivo/explicativo com o normativo,
ou seja, a tarefa de analisar objetivamente um caso concreto de construção de direitos e deve-
res com a tarefa de denunciar a cidadania regulada pelo Estado brasileiro (e que consagraria
diferenças oriundas do mercado). Em quarto lugar, Reis (1991) assegura que historicamente o
Brasil não é um caso excepcional de combinação entre autoritarismo e promoção de políticas
sociais, como demonstra, por exemplo, a experiência alemã sob o comando de Bismark. Por
fim, argumenta que a associação entre manipulação ideológica e dinâmica corporativa (pre-
sente na ideia de tutela sobre os trabalhadores e seus sindicatos) é apenas presumida, mas
não propriamente comprovada por WGS.
Em texto posterior, “Cidadania democrática, corporativismo e política social no Brasil”,
Reis (2000) volta a polemizar com cidadania regulada, asseverando que essa categoria se fun-
damenta num preconceito contra as práticas corporativistas. Ao lado da ideia marshalliana da
cidadania como reconhecimento de certo status de direitos do indivíduo (sobretudo por meio
da distribuição dos direitos sociais), Reis (2000) assevera que o que se configurou em muitas
nações foi uma espécie de mercado político, de acordo com o qual se estabelece alguns limites
e soluções para o problema de conciliar democracia (igualdade) e capitalismo (acumulação).
Assim, em relação à ideia de cidadania, que envolveria certa ambiguidade decorrente de se
assumir um elemento comunitário (solidariedade) e outro conflituoso (interesses), o neocorpo-
rativismo teria surgido como uma solução histórica, forjando uma esfera extraparlamentar em
que a burocracia passa, legitimamente, a arbitrar os conflitos entre capital e trabalho, regu-
lando os sistemas de direitos. Trata-se de solução absolutamente comum em que o corporati-
vismo e o Welfare State “surgem como consequência da própria dinâmica da democracia e de

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Cidadania regulada e Era Vargas: a interpretação
de Wanderley Guilherme Dos Santos e sua fortuna crítica

sua lógica de mercado político” (Reis, 2000: 371). Assim, o que WGS denomina de cidadania
regulada, na opinião de Reis (2000: 373), nada mais é do que o “desaguadouro natural” do
mercado político, do processo de desenvolvimento em que nem a opção revolucionária (fim do
capitalismo), nem a opção autoritária (segundo a qual os interesses do capital se afirmariam
por meio da violência) se concretizam. Reis (2000) argumenta que, contrariamente ao que é
sugerido por WGS, é necessário construir um Estado de bem-estar social com algum grau de
paternalismo na promoção de justiça social, e não simplesmente denunciar o corporativis-
mo como um mal. Nas condições brasileiras, antes da emergência do cidadão, é necessário
garantir a existência de clientes do Estado. Do contrário, a narrativa da cidadania regulada
levar-nos-ia a imaginar a criação de uma ordem cidadã fora ou contra o Estado, ao invés de,
realisticamente, apontar os caminhos para se expandir a própria regulação criticada.
Deixando de lado as críticas que a ideia de cidadania regulada recebeu, passemos à
análise de algumas de suas apropriações. O que fica evidente é uma relativa abundância de
trabalhos acadêmicos que adotam essa ideia como referencial teórico, sobretudo por meio de
aplicações a contextos específicos, por exemplo: seguridade social (Teixeira, 1985), condição
social dos trabalhadores rurais (Morais, 2011) e urbanos e de sua organização sindical (Jesus,
2010), políticas públicas de saúde (Sarreta, 2009) etc.2. Além dessas “aplicações” pontuais,
cabe avaliar dois outros “usos” importantes desse conceito.
Primeiramente, cumpre lembrar o conhecido livro Cidadania no Brasil: o longo ca-
minho, de José Murilo de Carvalho (2002), no qual ele destaca que, sem uma cultura repu-
blicana e com uma sociedade politicamente desmobilizada, a ordem da cidadania regulada
(estabelecida a partir das políticas sociais de Vargas) produziu “um vício” nacional presente
em pleno século XXI: “a tradição de maior persistência acabou sendo a que buscava melho-
rias por meio de aliança com o Estado, por meio de contato direto com os poderes públicos.
Tal atitude seria mais bem caracterizada como ‘estadania’” (Carvalho, 2002: 61). Cumpre
observar que a noção de estadania salienta apenas os aspectos negativos da intervenção do
Estado sobre a sociedade, (ao passo que, no conceito de cidadania regulada, a ambiguidade
dessa intervenção, com seus efeitos positivos e negativos sobre a sociedade brasileira, é pre-
servada), de modo que a reflexão de Carvalho (2002) parece se indispor mais com o tipo de
aproximação entre sociedade e Estado do que em considerar se essa proximidade teria ou não
favorecido a redução de desigualdades sociais.
Outro aspecto presente nos estudos que se apropriaram do conceito de cidadania
regulada diz respeito à pouca valorização das inflexões políticas que ocorreram entre o Estado
varguista e a dinâmica social implementada no pós-1964. A exemplo do que se pode verificar
no argumento de Santos (1979), estudos influentes, como o de James Malloy (1977), voltado

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Marcelo Sevaybricker Moreira e Ronaldo Teodoro dos Santos

ao sistema de previdência social, e de Teixeira (1985), central à análise da reforma sanitá-


ria brasileira, identificaram um continuum teórico e político entre o chamado corporativismo
populista, inaugurado nos anos 1930, e o regime burocrático-autoritário, predominante no
pós-1964. Com variações de ênfase, o traço histórico invariante do período que se estende
de 1930 aos anos 1970 consistiria na estratificação de direitos e na regressividade do gasto
público no campo social. No caso dos trabalhos voltados à reforma sanitária, o legado da
cidadania regulada, e, portanto, da própria Era Vargas, teve como entendimento síntese o
sentido corporativo e segmentado da assistência à saúde, um obstáculo à universalização
pretendida. Como parte da crítica, observava-se que nos anos 1970 esse legado corporativo,
até então de corte estatizante, estaria se renovando ao favorecer o aprofundamento da oferta
mercantil da atenção à saúde, propiciando elevadas taxas de acumulação de capital via estru-
tura médico-previdenciária pretérita.
A exemplo de James Malloy (1977), outros brasilianistas da década de 1970 pro-
duziram influentes análises acerca do processo político institucionalizado a partir de 1930.
No geral, compreenderam-no como estruturas históricas duradouras de autoritarismos, es-
tatização corporativa e patrimonialista. Trabalhos como Interest conflict and political change
in Brazil, de Phillippe Schmitter (1971), Authoritarian Brazil: origins, policies, and future, de
Alfred Stephan (1973), ou ainda o livro organizado por David Collier, The new authoritaria-
nism in Latin America (1979), obtiveram forte penetração no plano nacional. Exemplos dessa
influência podem ser identificados na prestigiada tese liberal da dependência, de Fernando
Henrique Cardoso e Enzo Faletto (1975), e no livro Bases do autoritarismo brasileiro, de Simon
Schwartzman (1982). Como observado por Santos e Guimarães (no prelo), tais intérpretes
formularam, na perspectiva do liberalismo político, forte crítica à herança social varguista,
pavimentando a compreensão de que a redemocratização brasileira exigia um quadro de
reformas estatais direcionadas a uma franca abertura às forças e aos interesses do moderno
capital estrangeiro e nacional3.
Não obstante as interpretações que tomam as cinco décadas que se seguiram à mon-
tagem do complexo corporativo institucional iniciado nos anos 1930 como um ciclo históri-
co resiliente, é possível localizar diversas mudanças em sua regulação político-institucional
(Boschetti, 2006). Nessa arquitetura regulada da cidadania, aspectos como a participação de
trabalhadores em Conselhos do Estado e a frente dos Institutos de Aposentadoria e Pensão,
além da abertura ao capital privado da assistência à saúde do trabalhador (como presente
no Decreto-Lei nº 200, de 1967), conformam, sem dúvida, momentos importantes das trans-
formações introduzidas pelos governos militares. Em que pese a documentação apontando
a transição de um desenho “público estatal corporativo” de direitos de cidadania para um

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Cidadania regulada e Era Vargas: a interpretação
de Wanderley Guilherme Dos Santos e sua fortuna crítica

modelo “corporativo privado mercantil” (Santos; Guimarães, no prelo), pós-1970, não se


identificam questionamentos em torno dos usos do conceito de cidadania regulada. Isso evi-
dencia que muitos analistas, imersos na conjuntura da redemocratização dos anos 1980,
continuaram a perceber o pós-1964 como extensão das bases políticas de 1930. Por essa
leitura, ainda que o golpe tenha se dado contra o maior herdeiro do varguismo, João Goulart,
a intervenção militar não foi interpretada como um movimento de interdição ao ascenso de di-
reitos que se expandiam em torno da herança getulista. Também é interessante observar que,
para a geração de analistas localizados após 1964, as críticas à Era Vargas convergiam com
o movimento mais amplo de descrédito das teses nacional-estatistas que guiaram o período
anterior. Como aponta Juarez Guimarães (2018: 510), em um primeiro momento:
Houve quem contasse a história de 1964 como um fim inevitável e historicamente necessário
de um ciclo chamado de populista ou nacional-desenvolvimentista, fruto de uma determinação
econômica estrutural mais ampla do capitalismo (Immanuel Walerstein). Ou mesmo como um
desfecho ineludível das contradições imanentes da aliança populista (Octávio Ianni). Ou ainda,
das injunções do modo de inserção do Brasil frente à dominação imperialista (em seu pluralis-
mo, as teorias da dependência de Ruy Mauro Marini, Theotônio dos Santos e Andrew Gunder
Franck). Houve quem centralizasse a explicação nas ilusões do PCB [Partido Comunista Bra-
sileiro] em uma revolução democrática-burguesa, antifeudal e anti-imperialista, que levariam
a uma expectativa frustrada de um posicionamento nacionalista da burguesia brasileira (Caio
Prado Júnior).

Em seu sentido comum, tais explicações seriam verdades parciais, ocupadas em loca-
lizar os motivos da interrupção à republicanização democrática brasileira. Com o passar do
tempo, as apreciações acerca do legado varguista apresentaram significativas variações, e, na
entrada para a década de 1990, distintas reflexões da experiência sociopolítica pré-1964 co-
meçaram a ganhar espaço. Trabalhos como os de Jorge Ferreira (2001) e Lucília Neves (2001)
expandiram a compreensão das lutas forjadas entre 1946 e 1964, trazendo à tona uma refina-
da compreensão das agendas do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do Partido Trabalhista
Brasileiro (PTB), suas correntes internas, lideranças e vínculos com movimentos sindicais.
Avançando nessa chave interpretativa, ou seja, na valorização de uma história social
da formação dos direitos na chamada Era Vargas, Ângela Gomes (1988) repõe a noção de
trabalhismo em contraponto à difundida expressão do populismo utilizada para caracteri-
zar a experiência social pós-1930. Temas correlacionados à condição regulada da cidadania
varguista, como cooptação e manipulação, seriam confrontados com investigações que re-
velariam feições da palavra operária talhadas ao longo das primeiras décadas do século XX.
Nesse sentido, uma polêmica que se estabeleceria em relação à formulação e aos usos da

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Marcelo Sevaybricker Moreira e Ronaldo Teodoro dos Santos

cidadania regulada de WGS seria o lugar que a participação popular e trabalhista assumiria
na história republicana brasileira, contestando sua redução a uma dimensão menor nesse pro-
cesso. Com A invenção do trabalhismo4, Gomes (1988) desloca as conclusões unilateralmente
depreciativas que acompanham a reafirmação dos direitos sociais no Brasil, abrindo outro
sentido interpretativo para a herança social e sindical varguista, como a Justiça do Trabalho e
a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). As forças sociais que se organizaram em torno do
projeto democrático anunciado pelo nacional-desenvolvimentista, vigente de 1946 a 1964,
não seriam um apêndice da propalada república populista. Adotando a perspectiva da história
social, Gomes (1988) documentaria que a Justiça do Trabalho e o corpo de direitos estrutura-
dos na CLT podiam evidenciar antes a institucionalização de bandeiras operárias que a pura
cooptação dos segmentos populares.
Em trabalho mais recente, Adalberto Cardoso (2010) procurou solucionar o enigma
das persistentes desigualdades brasileiras e o papel da Era Vargas em relação a elas. Segun-
do ele, o projeto varguista de cidadania regulada representou para os trabalhadores uma
esperança de inclusão na ordem nacional e um momento fundamental para a construção
de um Estado de bem-estar brasileiro. A cidadania regulada constituiu historicamente uma
promessa inédita de inclusão social que, na medida em que impactou as expectativas dos
atores sociais, trouxe também consequências para a sociabilidade capitalista em formação.
Cardoso (2010) pondera que o grande ganho analítico desse conceito foi reconhecer a ci-
dadania como um processo em aberto, de acordo com o qual se o indivíduo tivesse sua pro-
fissão reconhecida, passava a ter o status de cidadão. Curioso notar que o argumento desse
autor destoa parcialmente do de WGS, pois, enquanto este pensava a cidadania como
possibilidade (de inclusão e exclusão), aquele o compreende como promessa. Para Cardoso,
a cidadania regulada não criou uma divisão clara entre incluídos e excluídos, mas um conti-
nuum que fazia da inclusão uma promessa para o trabalhador brasileiro, a depender do seu
grau de carências de recursos. Além de um continuum, a cidadania regulada representava
também uma possibilidade real de direito: se antes da década de 1930 a conquista de direi-
tos esbarrava na Constituição de 1891, para a qual a interferência estatal na questão social
era ilegítima, a partir da Era Vargas, para ser cidadão, bastava ao trabalhador brasileiro
encontrar os meios para ser reconhecido pelo Estado. Assim, independentemente de ter
sido ou não outorgada, disjunção que organizou o debate nas ciências sociais, “fato é que
[...] a legislação social foi apropriada pelos trabalhadores, e a “cidadania regulada” não era
outra coisa senão o modo dessa apropriação em seu processo mais miúdo, mais cotidiano”
(Cardoso, 2010: 791-792, grifo do original). Sua avaliação reconhece um potencial cívico
na cidadania regulada que gerou, entre outros efeitos, um gigantesco fluxo migratório do

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Cidadania regulada e Era Vargas: a interpretação
de Wanderley Guilherme Dos Santos e sua fortuna crítica

campo rumo às cidades, como decorrência da “atratividade dos direitos”, bem como a
expectativa de acesso a melhores serviços públicos de saúde, educação e aposentadoria
(Cardoso, 2010: 795). Esses direitos assegurados pela ordem regulada passaram a valer
como um mínimo civilizatório, um parâmetro para avaliar qualquer contrato de trabalho,
até mesmo no mercado informal.
Em boa medida, a força dessas interpretações desloca o cânone explicativo das ciên-
cias sociais no Brasil acerca da chamada Era Vargas, permitindo-nos concluir que existem
pelo menos duas grandes tradições interpretativas em torno de categorias como populismo,
trabalhismo, desenvolvimentismo e nacionalismo. No vértice dessas tradições, o conceito
de cidadania regulada ocupa, como vimos, uma condição reveladora da complexidade do
chamado varguismo. Destarte, o conceito de cidadania regulada, desde que foi apresenta-
do, há mais de quarenta anos, foi razoavelmente incorporado como uma narrativa plausível
acerca da construção da ordem social brasileira. Mais do que ter suscitado críticas mais
diretas (com exceção dos artigos de Reis), ele parece ter servido, em um primeiro momen-
to, como marco teórico para localizar os limites da formação sociopolítica brasileira de se
inserir no almejado mundo democrático. Já nos anos 1990, talvez mesmo por configurar
um momento agudo de desconstrução aberta das instituições fundadas na ordem varguista,
além do distanciamento histórico em relação ao regime de 1964, o eixo analítico tornou-se
mais atento à complexidade política do período. De todo modo, ante os desafios do tempo
presente, parece plausível sustentar que, como categoria de análise, a cidadania regula-
da não parece ter esgotado sua contribuição histórica à problematização da Era Vargas.
Precisamente porque o próprio legado varguista se encontra, mais que nunca, em franco
processo de disputa de sentidos.
Talvez o grande potencial analítico do conceito de cidadania regulada seja pre-
servar a ambiguidade do processo histórico brasileiro, segundo o qual ganhos do ponto
de vista cívico não excluíram certas perdas, particularmente no que tange à limitação do
sindicalismo e ao processo de consolidação do sistema partidário brasileiro. Ao acom-
panhar a fortuna crítica de cidadania regulada nos vários caminhos interpretativos do
pensamento político brasileiro, compreende-se que a Era Vargas diz mais do que um
momento de fundação da ordem social, política, econômica e institucional brasileira.
Sua força consiste em nortear por gerações, e prossegue na atualidade, as expectativas
normativas do que venha a ser reconhecido no disputado sentido da democracia brasilei-
ra. Ao que tudo indica, esse passado continuará lançando a sombra do seu voo sobre a
ventura política brasiliana, em que a reposição inusitada de desafios clássicos ficará ao
encargo das reflexões atentas no futuro que se abre.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.539-558, Setembro-Dezembro 2020 555
Marcelo Sevaybricker Moreira e Ronaldo Teodoro dos Santos

Notas
1 Cumpre aqui uma pequena digressão: como nota Renato Lessa (2010), ao contrário da
ciência política estadunidense que, no seu contexto de fundação, convivia em seu país com
uma (ou algo próximo a uma) democracia eleitoral de massas, no Brasil, os founding fathers
da moderna ciência política vivenciavam aqui uma autocracia, o que ajuda a compreender a
relevância dessa temática na intelectualidade do período.
2 Esses trabalhos foram identificados por meio de sistema de busca do site Biblioteca Ele-
trônica Científica Online (SciELO), que também sugere outros estudos que usam esse conceito.
3 A importância das análises neocorporativistas para interpretar o legado varguista, como se
propõe o conceito de cidadania regulada de WGS, pode ser localizada em (Santos e Guima-
rães, no prelo).
4 Primeira tese de doutorado defendida no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de
Janeiro (IUPERJ) e orientada, é importante frisar, por WGS.

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A R T I G O

ALBERTO PASQUALINI E GETÚLIO VARGAS:


REVISITANDO INTERPRETAÇÕES

Alberto Pasqualini and Getúlio Vargas: reexamining interpretations

Alberto Pasqualini y Getúlio Vargas: revisitando interpretaciones

Douglas Souza Angelii*

DOI: http://doi.org/10.1590/S2178-14942020000300007

Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Porto Alegre (RS), Brasil.


I

*Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (douglasangeli@hotmail.com).


http://orcid.org/0000-0001-6540-9358
Artigo recebido em 27 de abril de 2020 e aprovado para publicação em 13 de julho de 2020.

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Douglas Souza Angeli

Resumo
O objeto deste artigo se centra nas relações políticas entre Alberto Pasqualini e Getúlio Vargas, com o
objetivo de rediscutir interpretações relativas ao Partido Trabalhista Brasileiro baseadas na dicotomia ex-
istente entre a ala doutrinária e a ala pragmática, então personificadas nas figuras de Pasqualini e Vargas.
Com base no cruzamento e na análise de fontes primárias (correspondências e jornais), o presente artigo
percorre o histórico de aproximações e afastamentos entre ambos. A análise inicia-se nos anos precedentes
ao Estado Novo e passa a examinar a atuação de Pasqualini na candidatura de Vargas às eleições de 1950,
com vistas a superar a chave explicativa que resumia sua atuação ao papel de doutrinador, em oposição
ao pragmatismo político de Vargas.
Palavras-chave: Alberto Pasqualini; Getúlio Vargas; Partido Trabalhista Brasileiro.

Abstract
The focus of this study is the political relationships between Alberto Pasqualini and Getúlio Vargas, with which
I seek to (re)discuss interpretations regarding the Brazilian Labor Party (Partido Trabalhista Brasileiro) based on
the dichotomy between the doctrinaire and the pragmatic wings respectively represented by Pasqualini and
Vargas. By cross-referencing and analysis of primary sources (such as correspondence and newspapers), this
article walks through the history of approximations and distancing between the two individuals. Said analysis
starts in the previous years of the New State Order (Estado Novo), to then turn to examine the role played by
Pasqualini in the candidacy of Vargas during the 1950’s election, seeking to overcome the traditional expla-
nation that reduced his performance to the role of indoctrinator, in opposition to the political pragmatism of
Vargas.
Keywords: Alberto Pasqualini; Getúlio Vargas; Partido Trabalhista Brasileiro.

Resumen
Son objeto de este artículo las relaciones políticas entre Alberto Pasqualini y Getúlio Vargas, con el objetivo de
rediscutir interpretaciones sobre el Partido Laborista Brasileño basadas en la dicotomía entre el ala doctrinaria
y el ala pragmática que se personificaban en las figuras de Pasqualini y Vargas. A partir del cruce y análisis de
fuentes primarias (correspondencia y periódicos), se desglosa el histórico de aproximaciones y alejamientos
entre ambos actores. Dicho análisis se inicia en los años anteriores al Estado Novo, pasando a examinar la
actuación que tuvo Pasqualini en la candidatura de Vargas en las elecciones de 1950, con el objetivo de
superar la tradicional explicación que reducía dicha actuación al papel del adoctrinador, en contraposición al
pragmatismo político de Vargas.
PALABRAS CLAVE: Alberto Pasqualini; Getúlio Vargas; Partido Laborista Brasileño.

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ALBERTO PASQUALINI E GETÚLIO VARGAS: REVISITANDO INTERPRETAÇÕES

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A lberto Pasqualini (1901–1960) foi um político natural do Rio Grande do Sul, vereador
em Porto Alegre entre 1936 e 1937, membro do Departamento Administrativo do
Estado entre 1939 e 1943, secretário de Interior e Justiça entre 1943 e 1944. Em 1946, in-
gressou no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), pelo qual foi candidato derrotado ao Governo
do Estado em 1947 e em 1954. Em 1950 foi eleito senador, exercendo mandato entre 1951
e 1955, destacando-se como relator do projeto de lei que culminou na criação da Petrobras.
Ficou conhecido como o teórico do trabalhismo. Em diferentes momentos, sua trajetória se
cruza com a de seu ilustre conterrâneo Getúlio Dornelles Vargas (1882–1954).
Este artigo é resultado da pesquisa de doutorado realizada no Programa de Pós-Gra-
duação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que gerou a tese “O
candidato do povo: as campanhas eleitorais de Alberto Pasqualini e a construção do eleitor
na experiência democrática (1945-1954)”. Para o estudo das três campanhas eleitorais dis-
putadas por Pasqualini no PTB, desfolharam-se diversas camadas de interpretações em que
se cruzam a memória política, os estudos realizados no âmbito da ciência política na década
de 1980 e a historiografia mais recente sobre o tema. Para compreender a atuação política
desse senador gaúcho, deve-se ir além das categorias de teórico, doutrinador, ideólogo. Nes-
se esforço, foi fundamental refletir sobre as relações entre Pasqualini e Vargas em diferentes
momentos, também antes do Estado Novo.
O objetivo do presente artigo é apresentar uma visão menos dicotômica da atuação
de ambos. Na referida tese, realizou-se um esforço de compreender como Alberto Pasqualini
se inseria nas práticas políticas de seu tempo, havendo a necessidade de romper com outros
rótulos que embasaram as interpretações sobre o trabalhismo, especialmente no Rio Grande
do Sul: a dicotomia entre pragmáticos e programáticos, personificada na relação entre Getúlio
Vargas e Alberto Pasqualini1. Em torno dos dois protagonistas, grande parte dos estudos an-
teriores havia consolidado esquemas interpretativos para compreensão do trabalhismo, que
serão revistos neste artigo e contrastados com o uso de fontes elementares.

O teórico do trabalhismo

E m sua tese sobre a política no Rio Grande do Sul entre 1930 e 1964, Carlos E. Cortés
aborda os papéis exercidos por Loureiro da Silva2, José Diogo Brochado da Rocha3 e
Alberto Pasqualini, todos sob a influência de Getúlio Vargas, na construção do PTB nesse
estado. Para Cortés (2007), Pasqualini passou a ser o líder ideológico do PTB, contribuindo
com Vargas no papel de “filósofo do partido”, algo necessário para a legitimidade doutrinária

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Douglas Souza Angeli

e para diferenciar o partido da “politicagem” do Partido Social Democrático (PSD). O autor


classifica Pasqualini como um idealista, enquanto Loureiro é tratado como o “organizador”
do partido e José Diogo como um político que, diferentemente de Pasqualini, “contribuiu
com seu apelo populista” e com “um dom para organizar bases políticas” (Cortés, 2007:
193-194). Essa visão do autor fica sintetizada na seguinte afirmação: “Deixando Loureiro da
Silva e José Diogo para organizar o PTB gaúcho e Pasqualini para escrever poemas ideológicos
em prosa, Vargas voltou para o Rio de Janeiro para assumir sua cadeira do PSD no Senado”
(Cortés, 2007: 194, grifo do autor).
É preciso salientar que, quando Carlos Cortés se refere à atuação de Pasqualini no
período anterior ao Estado Novo, concebe-a de maneira distinta da imagem de “filósofo”
e “idealista” que constrói sobre a atuação do político no trabalhismo. Cortés (2007: 124)
demonstra como Getúlio Vargas se valeu de Pasqualini para sabotar os planos de Oswal-
do Aranha — que pretendia reconciliar o governo estadual de Flores da Cunha com o
governo federal4. Para o autor, Alberto Pasqualini e Loureiro da Silva foram os principais
defensores de Vargas na luta contra Flores (Cortés, 2007: 191). A maneira de conceber
o papel de Pasqualini no PTB, contrastando com a concepção acerca da participação de
Loureiro da Silva e de José Diogo no mesmo processo, provavelmente está relacionada
à fonte utilizada por Cortés: em grande medida, o autor embasa seus argumentos em
entrevistas realizadas com lideranças políticas na segunda metade da década de 1960.
Como Vargas havia morrido em 1954, Pasqualini em 1960 e Loureiro em 1964, dos
principais envolvidos na construção do PTB no Rio Grande do Sul restava apenas José
Diogo, entrevistado pelo autor em 1967. É perceptível, no texto de Cortés, a construção
narrativa do entrevistado, marcada pelas dissenções no PTB que culminaram com sua
saída do partido após perder a indicação como candidato a governador para Pasqualini,
com apoio de Vargas, em 1954.
Miguel Bodea escreveu aquela que, provavelmente, é a obra mais conhecida sobre
o trabalhismo no Rio Grande do Sul: Trabalhismo e populismo no Rio Grande do Sul. Com
grande impacto nas obras posteriores, o autor esquematizou o surgimento do PTB gaúcho por
três vertentes consideradas com base em suas origens distintas:
• A corrente sindicalista, oriunda do queremismo e da ala trabalhista do PSD;
• A corrente doutrinário-pasqualinista, originária da União Social Brasileira sob a
liderança de Alberto Pasqualini;
• A corrente pragmático-getulista, formada por políticos oriundos do PSD e que
ingressam no PTB sob orientação de Getúlio Vargas (Bodea, 1992: 20-28).

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ALBERTO PASQUALINI E GETÚLIO VARGAS: REVISITANDO INTERPRETAÇÕES

Quando analisa os diferentes papéis exercidos no trabalhismo por Vargas e Pasqualini,


é o de teórico que cabe ao último, e Bodea considera que havia uma divisão de tarefas entre
ambos, o que gerava uma “complementaridade conflitiva” em três âmbitos:
• Na estratégia política global, entre o projeto político nacional, que caberia a Var-
gas, e o projeto de construção do partido, que caberia a Pasqualini;
• Na divisão geográfica, entre a liderança nacional de Vargas e a liderança regional
de Pasqualini;
• Na divisão das funções político-partidárias, entre o papel de estrategista político,
que caberia a Vargas, e o de doutrinador e teórico, que caberia a Pasqualini (Bo-
dea, 1992: 140, grifo do autor).

Nessa concepção, o projeto trabalhista era ambivalente, pois enquanto tendia a “mo-
bilizar as massas ao nível da sociedade civil” (Bodea, 1992: 186), buscava também uma polí-
tica de compromisso no âmbito da sociedade política e do Estado. É nessa ambivalência que
o autor situa o relacionamento (conflitivo, porém complementar) de Pasqualini e de Vargas:
enquanto Pasqualini atuava principalmente na esfera da sociedade civil, privilegiando, portan-
to, o aspecto da “mobilização das massas”, Vargas atuava sobretudo ao nível do aparelho de
Estado e da sociedade política, promovendo uma política de alianças e de compromisso entre
as classes subalternas e um setor modernizante das elites (Bodea, 1992: 186)5.
Essa divisão de tarefas também é explicada por Bodea (1992: 188) em um “padrão de
evolução histórica mais ampla das lideranças gaúchas”, em que o autor destaca desde as re-
lações entre Borges de Medeiros e Getúlio Vargas até as relações entre João Goulart e Leonel
Brizola. Analisando a forma como Miguel Bodea insere Vargas e Pasqualini em uma tradição
que tem origens no positivismo e busca legitimar João Goulart e Leonel Brizola como herdeiros
do trabalhismo e dessa tradição, Igor Gastal Grill (2008: 205-206) afirma: “Bodea sustenta a
continuidade e a relevância do projeto ao qual é filiado [...]. Ao conceber a ‘tradição política’
como depositária de uma história regional ímpar e a complementaridade positiva entre ‘prá-
xis’ e ‘formulação teórica’ afirma a sua posição nessa genealogia”6.
Mesmo em trabalhos recentes, percebe-se a absorção da imagem de teórico do tra-
balhismo em relação a Pasqualini. Em sua tese de doutorado, Roberto Bitencourt Silva (2012)
analisa a trajetória de Alberto Pasqualini considerando-o um intelectual. Para ele, Pasqualini
“consiste em expressão de um típico caso da relação estabelecida entre os intelectuais e a
política, potencialmente capaz de suscitar uma reflexão pertinente às eventuais influências do
pensamento na vida política cotidiana” (Silva, 2012: 24-25). Procurando compreender Alber-
to Pasqualini como um intelectual e remetendo à obra de Max Weber, o autor destaca como

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uma dimensão importante na relação entre os intelectuais e a política aquela concernente


às tensões e aos dilemas de natureza ética: “Tal fenômeno tende geralmente a se manifes-
tar, pois a lógica que orienta a perspectiva e o fazer intelectual é distinta da que impera na
orientação do sujeito que exerce um papel político stricto sensu” (Silva, 2012: 78-79, grifo do
autor). Isso leva o autor a reforçar a ideia de uma dicotomia entre Vargas e Pasqualini: “As
divergências entre os setores alinhados a Pasqualini e a Getúlio foram, sobretudo, de natureza
politicamente comportamental. Potencialmente relacionadas aos distintos modus operandi
que tendem a caracterizar a atuação política dos intelectuais e dos políticos profissionais”
(Silva, 2012: 215, grifo do autor).
O autor entende Pasqualini como um intelectual que exerceu o papel de ideólogo e de
especialista (experto) do trabalhismo: ideólogo por ser produtor e disseminador de uma visão
ética, política e social do mundo; especialista por ser formulador de propostas e programas so-
cialmente reformistas (Silva, 2012: 104)7. O ambiente no qual se deu a atuação de Pasqualini
no PTB nas campanhas eleitorais de 1947, 1950 e 1954 possuía, certamente, o conflito entre
as éticas da convicção e da responsabilidade, conforme concebido por Max Weber (2011).
Pasqualini, porém, não pode ser visto como alguém de um fazer distinto ao da política e que
com ela lida, e sim como um político que se formou e atuou em um meio onde quem se dedica
à política como vocação sofre pressões éticas e “se compromete com potências diabólicas”
(Weber, 2011: 152).

A obra de Alberto Pasqualini

A lberto Pasqualini foi formulador de ideias políticas e sociais incorporadas aos programas de
suas candidaturas pelo PTB. Formado na Faculdade de Direito de Porto Alegre e professor da
mesma instituição, Pasqualini detinha um capital intelectual que lhe permitia formular propostas para
os problemas de seu tempo, e o fez de maneira bastante original. Conforme Luiz Alberto Grijó (2007:
85), Pasqualini foi reconhecido como um dos poucos membros do PTB que se “dedicaram a elaborar
e difundir princípios fundamentados em disciplinas como a Filosofia, História, Sociologia e mesmo a
Teologia que sustentassem linhas de ação coerentes para os seus militantes e simpatizantes”. O autor
salienta duas influências básicas em Pasqualini: sua origem relacionada com “o mundo colonial ita-
liano” e com os valores pregados por religiosos católicos na sua formação cultural e escolar, podendo
ser considerado um “tradutor dos conteúdos da chamada doutrina social da Igreja para as disputas
político-partidárias inauguradas no Brasil depois da queda do Estado Novo” (Grijó, 2007: 91-94).
Os escritos de Alberto Pasqualini formam uma obra bastante fragmentada e dispersa,
resultado dos contextos e ambientes institucionais em que foram produzidos, concernentes

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ALBERTO PASQUALINI E GETÚLIO VARGAS: REVISITANDO INTERPRETAÇÕES

quase todos ao meio político, e não ao meio acadêmico. O livro Sugestões para um programa
e o discurso de Pasqualini editado no livro com o manifesto da União Social Brasileira, ambos
de 1945, são publicações relacionadas ao contexto de abertura política no fim do Estado
Novo. Nesse mesmo contexto, Pasqualini publicou no jornal Correio do Povo boa parte de
seus artigos, relativos à sucessão presidencial e ao caráter do processo que dava início a um
novo regime político no país. Outro grande conjunto de artigos na imprensa situa-se entre o
fim da campanha eleitoral de 1947 e a campanha eleitoral de 1950, período em que Pasquali-
ni, mesmo sem mandato, consolidou sua inserção no PTB, sendo esses os artigos que, em sua
maioria, tratam do trabalhismo e, entre 1949 e 1950, da candidatura de Vargas à presidência.
Foi também nesse ínterim que Pasqualini lançou sua principal obra: Bases e sugestões para
uma política social (1948).
A maior parte dos textos escritos por Pasqualini, contudo, são discursos e artigos
reunidos posteriormente, como as coletâneas organizadas por Pedro Simon no Senado:
Alberto Pasqualini: obra social e política — 4 volumes (Simon, 1994), Alberto Pasqualini —
textos escolhidos (Simon, 2001) e Atualidade de Alberto Pasqualini (Simon, 2010). Essas
coletâneas, editadas a partir da década de 1980, foram tentativas de dar coesão a uma
obra dispersa e marcada por contingências políticas diversas. Os quatro volumes organi-
zados por Pedro Simon em 1994 são representativos do esforço de dar um encadeamento
coerente aos textos de Pasqualini, incorrendo naquilo que destaca Diego Orgel Dal Bosco
Almeida (2015: 24): a atuação anterior a 1945 aparece, em visão retrospectiva, como uma
“espécie de preparação para seu posterior ingresso ao PTB”. Como exemplo disso, o volu-
me 1 da coletânea lançada em 1994, que abrange o período de 1929 a 1945, é nomeada
de Bases do Trabalhismo, e os textos de 1944 e 1945 incluídos na seção intitulada Funda-
mentos da doutrina trabalhista8.
Ao se dividir os textos reunidos por Pedro Simon (1994), é possível perceber a origem
distinta de cada um e o tipo de publicação que predomina em cada fase da trajetória de Pas-
qualini. Nota-se que os artigos, como referido anteriormente, concentram-se no período do
Estado Novo — sendo a maior parte do ano de 1945 — e no interregno entre as campanhas
eleitorais de 1947 e 1950. Este último período é também o de maior número de entrevistas,
seguido da época em que exercia o mandato de senador. Quanto aos discursos, são em maior
número provenientes do mandato de vereador (1936–1937) e de senador (1951–1955): seis
no primeiro e nove no segundo. Além disso, 15 discursos foram proferidos no calor das cam-
panhas eleitorais de 1934 (2), 1947 (4), 1950 (5) e 1954 (4). Percebe-se, portanto, o peso das
disputas políticas e, especialmente, das campanhas eleitorais, no conjunto que foi classificado
como obra social e política de Alberto Pasqualini.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.559-578, Setembro-Dezembro 2020 565
Douglas Souza Angeli

Antes do Estado Novo, a primeira aproximação

A atuação política de Alberto Pasqualini não se limitou ao trabalhismo, havendo uma trajetória
pregressa. Assim, o rótulo de teórico do trabalhismo não dá conta de compreendê-lo em
perspectiva histórica, como afirmou Almeida (2015). O autor produziu uma tese sobre a atuação
política de Alberto Pasqualini no Partido Libertador, especialmente no mandato de vereador em
Porto Alegre (1936–1937), e no Estado Novo, analisando a forma como o protagonista utilizou
os dividendos políticos advindos da atuação nesse período para sua inserção e consolidação como
liderança no PTB após 1945. Assim, buscou compreender Pasqualini para além do teórico do tra-
balhismo, percebendo-o como detentor de um reconhecimento público advindo de sua atuação
anterior a 1945, o que permitiu sua projeção política posterior como doutrinador e teórico do
trabalhismo e a ressignificação de suas ideias a partir da adesão ao PTB (Almeida, 2015; 2019).
Apesar de Pasqualini ter tomado parte na chamada Revolução de 19309, a relação
direta com Getúlio Vargas somente teve início quando Pasqualini passou a exercer mandato
de vereador em Porto Alegre e a galgar espaços na direção do Partido Libertador. Rafael
Saraiva Lapuente (2017) estudou o processo de ruptura do acordo de pacificação política no
Rio Grande do Sul, o chamado modus vivendi firmado por Flores da Cunha e seu Partido Re-
publicano Liberal (PRL) com a oposição reunida na Frente Única Gaúcha (a FUG, composta do
Partido Libertador e do Partido Republicano Rio-Grandense — PRR), abarcando o período de
1934 a 1937. Houve, por um lado, a crescente hostilidade até o rompimento final entre Flores
da Cunha e Getúlio Vargas — às vésperas da decretação do Estado Novo —, e, por outro, a
aproximação entre Vargas e dissidentes da FUG (em que estava Alberto Pasqualini) e também
do PRL (a dissidência liberal, em que estava Loureiro da Silva). Naquele contexto, a ação de
Pasqualini se fez notar em, ao menos, três momentos-chave:
• No início de 1936, quando Vargas sondava os descontentes com o pacto entre
Flores da Cunha e a oposição, Pasqualini, então vereador em Porto Alegre pelo
PL, aproximou-se de Vargas pela primeira vez10 e atuou como um dos políticos que
mantinham contatos entre dissidentes tanto da FUG quanto do PRL, informando
o presidente sobre as “sondagens” acerca da implementação de um plano para
a derrubada do acordo político no Rio Grande do Sul (Lapuente, 2017: 185-186).
Lapuente (2017) cita uma carta de Pasqualini a Maurício Cardoso, liderança do
PRR, e transcreve o plano (anexo à carta) sem autoria; sobre o plano, pode-se
afirmar que se Pasqualini não foi o autor ou um dos autores, tinha pleno acordo
sobre ele e empreendeu esforços para executá-lo. O plano está no arquivo do Cen-
tro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC)

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ALBERTO PASQUALINI E GETÚLIO VARGAS: REVISITANDO INTERPRETAÇÕES

(GV c1936.04.08/1). Pasqualini menciona o plano em carta enviada a Vargas em


11 de março de 1936: “[Maurício Cardoso] aprova o plano de ação esboçado no
esquema do qual V. S. tem cópia”11;
• Na segunda metade de 1936, Pasqualini e Loureiro da Silva conversaram sobre a
criação de um partido para congregar a dissidência liberal do PRL e a ala antiflo-
rista da FUG, “caso não conseguissem ser maioria dentro de suas agremiações”
(Lapuente, 2017: 245);
• Após um período de ataques da bancada antiflorista, liderada por Loureiro da Sil-
va na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Oswaldo Aranha retornou ao
Brasil e tinha como uma de suas prioridades atenuar a crise política em seu estado
natal, convencendo os dissidentes liberais a estabelecerem uma trégua até abril
de 1937. Concomitantemente, Pasqualini iniciou uma série de entrevistas contra
Flores da Cunha na imprensa do Rio de Janeiro, aumentando a crise. Conforme
Lapuente, não é difícil perceber a jogada de Vargas, articulado com Pasqualini, ao
permitir a publicação das entrevistas justamente quando Oswaldo Aranha tentava
apaziguar a dissidência: “Não pode ser descartada a possibilidade de a atitude de
Pasqualini ter sido calculada. Pois, caso ele tivesse feito as declarações na impren-
sa do Rio Grande do Sul, seria o governo estadual que teria o poder de permitir ou
vetar” (Lapuente, 2017: 285).

Em suas conclusões, Lapuente (2017: 347) destaca os dividendos obtidos pelos políti-
cos que se aproximaram de Vargas: “Tanto dissidentes quanto frenteunistas seriam recompen-
sados por Getúlio Vargas pelas batalhas travadas contra o florismo. Eles obteriam a ocupação
de cargos importantes dentro da política regional, com o rateio de secretarias, durante o
Estado Novo”. Carlos Cortés (2007: 151-152) afirma que, logo após a decretação do Estado
Novo, Vargas encarregou seu irmão Benjamin e o libertador Batista Luzardo de institucionali-
zarem a aliança com os dissidentes do PL, PRR e PRL como “nova máquina política do gover-
no”. O que combina com a análise que Almeida (2015: 88) faz para o caso da participação
de Alberto Pasqualini no Departamento Administrativo do Estado do Rio Grande do Sul e sua
atuação à frente da Secretaria de Interior e Justiça: não eram os aspectos essencialmente téc-
nicos que estavam em jogo na ocupação desses cargos, em que pese Pasqualini combinar sua
liderança política a conhecimentos técnicos e administrativos. Conforme o autor, a passagem
de Pasqualini por esses cargos entre 1939 e 1944 “rendeu-lhe alguns dividendos políticos
vinculados ao gradual aumento de seu reconhecimento público, bem como de seus projetos e
de suas ideias” (Almeida, 2015: 89).

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Ao buscar explicar o sucesso das principais lideranças políticas de uma geração ante-
rior — como Getúlio Vargas, João Neves da Fontoura, Oswaldo Aranha, Maurício Cardoso,
Lindolfo Collor e outros, a chamada “geração de 1907” —, Grijó (1998) destaca aquilo que
caracterizou tais trajetórias: o domínio de lógicas variadas (jurídica, burocrática, institucional,
jornalística, dos combates militares) e a reconversão de recursos previamente detidos. Para o
autor, isso também explica o sucesso de Maurício Cardoso e Lindolfo Collor, que não tinham
origens sociais diretamente vinculadas ao mundo da estância, como Vargas, Aranha e outros,
nem os recursos sociais dos grupos familiares dos demais, mas também puderam ascender
politicamente “adquirindo recursos próprios ao investimento no jogo político como os de
relações sociais e os culturais e escolares” (Grijó, 1998: 237). Grijó (1998) também destaca
a importância de situações bem aproveitadas por esses políticos no início de suas trajetórias:
a campanha eleitoral de 1907, para os casos de João Neves, Getúlio Vargas e outros, a
militância política nas escolas superiores, como no caso de Oswaldo Aranha, a atividade na
imprensa, no caso de Lindolfo Collor, uma bem-sucedida banca de advocacia e docência do
direito no ensino superior, como no caso de Maurício Cardoso, constituíam vias de acesso aos
círculos partidários e, no caso do PRR, “a oportunidade de mostrarem-se capazes de arcar
com o peso das tarefas ou empreendimentos valorados como adequados e mesmo necessá-
rios para integração e aceitação no número destes partidários com possibilidades de obter
cargos ou posições de destaque” (Grijó, 1998: 148).
Em relação a Alberto Pasqualini, também é possível considerar como pontos principais
de sua trajetória aqueles que lhe permitiram adquirir recursos políticos e o domínio de lógicas
variadas e reconvertidas em capital político: o seminário dos jesuítas, a atividade docente no
Ginásio Anchieta, o curso na Faculdade de Direito, a atividade docente na mesma instituição,
a banca de advocacia. Foi o contexto de desestabilização do governo Flores da Cunha e a
aproximação da dissidência da Frente Única com Getúlio Vargas, especialmente entre 1936 e
1937, como abordado anteriormente, que forneceu a oportunidade bem aproveitada por Pas-
qualini de prestar serviços políticos a Vargas e consolidar sua posição como liderança política
regional. Isso possibilitou a ocupação de cargos na estrutura estadual durante o Estado Novo
e a aquisição de competências no plano administrativo, que somou à experiência legislativa
como vereador.

Pasqualini e Vargas: interpretações

Q uando Miguel Bodea (1992) concebeu a formação do PTB do Rio Grande do Sul con-
siderando três vertentes distintas (a sindicalista, a doutrinário-pasqualinista e a prag-
mático-getulista), estava referindo-se às origens distintas de cada um dos setores que seriam

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ALBERTO PASQUALINI E GETÚLIO VARGAS: REVISITANDO INTERPRETAÇÕES

a base da construção do partido. Ao atentar para as trajetórias de lideranças como Alberto


Pasqualini, José Vécchio12, Loureiro da Silva e José Diogo Brochado da Rocha e os conflitos
entre elas, percebe-se as demarcações geradas pelos diferentes caminhos que as levaram ao
convívio no PTB. O problema está na utilização dessas categorias como chaves explicativas
para a compreensão da atuação dessas lideranças no partido. Tais categorias foram cristali-
zadas em seguida por Lucília de Almeida Neves Delgado (1989), para quem seriam duas as
tendências atuantes no PTB: os getulistas ou pragmáticos, ligados especialmente ao Ministé-
rio do Trabalho, e os doutrinários ideológicos, entre os quais estava Alberto Pasqualini. Mais
tarde, a autora inseriu no esquema os pragmáticos reformistas, que atuaram sobretudo a
partir da metade dos anos 1950 e teriam amalgamado em sua prática características das duas
alas anteriores. O expoente desse grupo seria João Goulart (Delgado, 2013: 178)13.
Uma crítica importante a essa abordagem surgiu na obra de Maria Celina D’Araújo
(1996: 170): a dificuldade residiria em trabalhar com a clivagem ideológica versus o prag-
matismo, como “se isso fosse um traço peculiar do PTB ou uma característica desviante da
vida política”. Para a autora, a luta interna que se travou no PTB acabou definindo sua ação
política: “o nacionalismo no PTB não foi incompatível com o empreguismo, nem o reformismo
foi antítese de clientelismo ou de atrelamento ao Estado. Ao contrário, foi bem-sucedido no
partido e nas urnas quem conseguiu unir essas estratégias” (D’Araújo, 1996: 170). Recente-
mente, a dissertação de Maura Bombardelli (2016) sobre a trajetória de Fernando Ferrari no
PTB apontou dificuldades de se compreender a inserção desse político no partido com base
nas categorias utilizadas por Bodea (1992) e Delgado (1989). Isso levou a autora a discutir a
dicotomia entre programáticos e pragmáticos: tais categorias estavam presentes no discurso
político após 1954 e foram utilizadas como recurso para, no caso de Ferrari, se legitimar no
enfrentamento contra João Goulart na luta interna do PTB (Bombardelli, 2016: 199).
Tais críticas reforçam a ideia de que houve absorção de categorias do discurso político
por uma parte da historiografia, conformando uma interpretação acerca do PTB baseada na
dicotomia entre os pragmáticos e os programáticos (ou doutrinários), simbolizada nos con-
flitos entre João Goulart e Fernando Ferrari, a partir da metade da década de 1950, e antes,
nos conflitos entre Getúlio Vargas e Alberto Pasqualini. Com isso, no vocabulário dos estudos
sobre o trabalhismo, com algumas exceções, Vargas tornou-se sinônimo de pragmático e
Pasqualini sinônimo de doutrinário.
A tese defendida por Silva (2012) teve como foco a trajetória política de Alberto Pas-
qualini. O autor insere a atuação de Pasqualini no contexto de controvérsias e tensões no PTB,
acompanhando a sua atuação política no meio partidário e no Senado Federal (1951–1955).
Silva (2012: 54) salienta o papel doutrinador de Pasqualini, destacando a posição central

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desempenhada pelo político gaúcho nas atividades doutrinárias na fase de formação e estru-
turação do PTB. O autor atribui importância acentuada ao conflito existente entre o pragma-
tismo getulista e o idealismo pasqualinista. Assim, Silva (2012) diferencia-se da abordagem
defendida por Bodea (1992), para quem houve uma divisão de tarefas na qual Getúlio Vargas
desempenharia um papel no âmbito do Estado e Alberto Pasqualini no da sociedade civil.
Conforme Bodea (1992: 140), a dimensão essencial do relacionamento entre Vargas e Pas-
qualini não se situa no confronto entre duas tendências políticas distintas ou rivais, mas na
dinâmica dessa divisão de tarefas, como mencionado anteriormente.
Laura Vasconcellos (2009) retomou, em sua dissertação sobre o trabalhismo de Pas-
qualini, os argumentos de Miguel Bodea. Para a autora, Pasqualini sempre se mostrou mais
idealista do que Vargas no tema das alianças políticas, pois, mesmo carecendo de apoio nas
eleições, ele hesitava em receber e dar apoio a partidos ou a políticos que não estivessem
em consonância com os ideais trabalhistas, enquanto o ex-presidente, ao contrário, era mais
pragmático (Vasconcellos, 2009: 76). Contudo, a autora busca dar conta, em certa medida,
da prática política de Pasqualini: “Sua memória e seu discurso de homem puro e idealista
contrastam com uma prática política que em muito pouco destoava da maneira como Vargas
concebia a política e a história do Brasil” (Vasconcellos, 2009: 70). A autora conclui:
Apesar de ressaltar toda a elaboração doutrinária e teórica de Pasqualini, e de destacar a sua
peleja em transformar o PTB num partido com maior densidade teórica, não podemos deixar
de esclarecer também [...] que Pasqualini, apesar de todo o discurso e querelas com Vargas, foi
homem de confiança de Getúlio e do PTB. Grande parte de suas colocações e questionamentos
jamais deixou de ser meramente figura de retórica, sem jamais se traduzir numa prática política
efetiva. (Vasconcellos, 2009: 99)

Haveria então uma relação harmônica e combinada entre suas ações? Há motivos para
também não aceitar esse argumento, levando à necessidade de compreender essa relação em
sua complexidade e as circunstâncias que propiciaram que os caminhos de Vargas e Pasqua-
lini se cruzassem em diferentes momentos. Miguel Bodea, ao defender a ideia de divisão de
tarefas entre Vargas e Pasqualini, trouxe alguns indicativos importantes que, embora possam
resultar, nesse momento, em prejuízos ao argumento de Bodea, demonstram como as relações
entre ambos, com seus recuos e aproximações, dão-se em diferentes momentos e concernem
a objetivos circunstanciais — e assim colaboram com o argumento defendido no presente
artigo. Destacam-se alguns momentos da relação Vargas-Pasqualini observados por Bodea
(1992: 165-168):
• Na fase de acordo entre a União Social Brasileira (USB) e o PTB, em 1945, o
conflito deu-se quando Pasqualini e as lideranças sindicais do PTB não aceitaram

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ALBERTO PASQUALINI E GETÚLIO VARGAS: REVISITANDO INTERPRETAÇÕES

apoiar a candidatura de Eurico Dutra (PSD) conforme a orientação de Vargas. Na


sequência, o PTB não seguiu a orientação de Vargas de constituir uma aliança
com o PSD para as eleições estaduais de 1947;
• Na campanha eleitoral de 1946/1947, houve uma “desconfiança mútua”, pois
Vargas apoiou Pasqualini como candidato a governador pelo PTB, mas se dedicou
pouco à campanha no Rio Grande do Sul, buscando manter a ruptura com o PSD
apenas no âmbito regional. Por sua vez, Pasqualini evitou referências a Getúlio
em seus pronunciamentos;
• Na campanha de 1950, Pasqualini, candidato a senador, assumiu a defesa de Var-
gas, havendo “pleno entrosamento” entre ambos, em uma fase em que “Getúlio
privilegia o PTB como instrumento básico de seu retorno ao poder” (Bodea, 1992:
160);
• Após a vitória em 1950, Vargas buscou recompor a aliança com o PSD e sua
base de sustentação nas elites. Nesse momento, Pasqualini e grande parte dos
trabalhistas gaúchos estavam insatisfeitos com o governo e, especialmente, com
a pouca participação do PTB. Pasqualini fez até mesmo pronunciamentos críticos
ao governo na tribuna do Senado;
• No momento de confronto crescente com a oposição, entre 1953 e 1954, coin-
cidindo com a nomeação e posterior demissão de João Goulart no Ministério do
Trabalho, ocorreu uma reaproximação de Pasqualini com Vargas — que o apoiou
como candidato a governador em 1954 em detrimento dos demais postulantes
“mais pragmáticos e moderados”14.

Deixando de lado a dicotomia dos rótulos pragmático e doutrinário, e recorrendo a al-


gumas fontes, é possível perceber a relação entre Vargas e Pasqualini de forma mais aprofun-
dada. Como exemplo, tem-se a posição de Pasqualini com relação à candidatura de Getúlio
Vargas em 1950.

Pasqualini, Vargas e as eleições de 1950

E m 29 de dezembro de 1949, o Correio do Povo reproduziu entrevista concedida por


Alberto Pasqualini à Folha Carioca. Nela, o comentarista político do periódico ressaltou
que Pasqualini liderava, no PTB, “a corrente ideológica que se bate pela formação de uma
verdadeira consciência, de um programa, e não pela mística transitória de um chefe”. Assim,
após um período intenso de pregação do trabalhismo por meio de artigos e entrevistas, ini-
ciado depois da campanha eleitoral de 1947, a imprensa já traçava um perfil de Pasqualini

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Douglas Souza Angeli

operando com a categoria teórico do trabalhismo, como fica claro no seguinte excerto: “Pas-
qualini não pertence ao número dos que veem no PTB apenas a sombra protetora, patriarcal
e eleitoral de Vargas. [...] Pasqualini é o teórico-filósofo do trabalhismo brasileiro”. Segundo a
matéria da Folha Carioca, Pasqualini defendia que, caso se lançasse a candidatura de Getúlio
Vargas à presidência, seria necessário um pacto entre o PTB e o Brigadeiro para garantir a
realização das eleições. O redator concluiu: “Pasqualini não é dos que acham que não há mais
clima para golpe no Brasil. Ele sabe que ele poderia ser criado. Daí a ideia no sentido de que
dos entendimentos atuais resulte uma garantia da realização das eleições no dia fixado”15.
No mês seguinte, Ivete Vargas16 enviou carta ao seu tio-avô Getúlio com um recado
de Pasqualini: “Acha que o senhor deve se candidatar, mas deve correr o mínimo de risco.
Portanto deve se tratar da organização do partido, da propaganda doutrinária e deve se fazer
uma campanha superior sem ataques pessoais e sem demagogia”17. Ivete Vargas também
informou a Getúlio sobre a conversa de Pasqualini com o deputado Prado Kelly, da União
Democrática Nacional (UDN): “Tem conversado muito com o Prado Kelly e ambos convêm que
não se deve fazer ataques ao que passou. A UDN fará uma campanha cordial em relação a
nós, sem alusão à ditadura ou ao que passou”. E concluiu o recado de Pasqualini, que achava
imprescindível que Getúlio desse instruções nesse sentido aos companheiros, retomando os
argumentos defendidos na entrevista à Folha Carioca: “Assim agindo seremos duas forças
paralelas defendendo a legalidade. Caso contrário, nos estraçalharemos criando ambiente
para o golpe”18.
Curiosamente, há anotações de Getúlio Vargas destinadas ao presidente nacional do
PTB, Salgado Filho, em maio daquele ano, com recomendações para um entendimento com
a UDN sobre o tipo de campanha política a ser executada por ambos os partidos: “Combi-
nar com a UDN, enquanto partido de oposição, fazer com o PTB uma campanha política de
cordialidade, sem ataques pessoais, nem referências ao passado”. As anotações de Getúlio
expressam exatamente o que havia sido recomendado por Pasqualini, prevendo dar instruções
aos petebistas para que a campanha se procedesse assim. E repete o argumento presente na
entrevista de Pasqualini e na carta de Ivete Vargas: “Seremos duas forças paralelas agindo
serenamente, no sentido de oposição ao candidato do Catete”19. Getúlio não detinha o mo-
nopólio das estratégias políticas, tampouco Pasqualini tinha sua ação circunscrita ao aspecto
programático.
Pouco tempo antes das anotações referidas, porém, outra carta de Ivete Vargas re-
velou divergência entre os interesses de Getúlio e de Pasqualini. Ivete não havia, até então,
convivido muito com seu tio-avô, mas atuava politicamente desde a campanha de Dutra, em
1945, a pedido de Getúlio. No início de 1950, passou uma temporada na fazenda de Itu, em

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São Borja. Na carta de 30 de abril, fez a seguinte observação: “A minha estadia aí anulou
todo um longo trabalho de Pasqualini, que me doutrinara durante meses. Voltei novamente
queremista apenas e mandando o trabalhismo, com toda a sua filosofia política, plantar fa-
vas”20.
Os meses se seguiram e a candidatura de Vargas foi se consolidando. Em carta envia-
da ao “prezado amigo” Getúlio, em 8 de julho de 1950, Pasqualini ressaltou a necessidade
de se fixar claramente quais eram os objetivos do trabalhismo, para evitar explorações e
deturpações quando a campanha eleitoral atingisse maior intensidade. Dizia Pasqualini: “Se
a campanha eleitoral for colocada apenas em termos de prestígio pessoal, um eventual insu-
cesso poderia ser um desastre. Se, porém, o senhor for o líder de uma orientação social, de
uma ideia [, ...] a perda de uma eleição em nada poderia abalar o seu prestígio”. Pasqualini
segue em suas sugestões a Vargas:
Ao senhor, particularmente, creio que não conviria, por maiores que sejam as probabilida-
des de triunfo, apostar e arriscar tudo nesta parada. Uma vitória política nem sempre se
traduz por uma expressão eleitoral, numa contagem material de votos, e, muitas vezes,
não valeria a pena consegui-la com o sacrifício daquilo que deve ser o objetivo dessa vitó-
ria. Veja, apenas, Presidente, nestas palavras o reflexo da intenção sincera de quem deseja
seu nome cada vez mais engrandecido, mas, ao mesmo tempo, resguardado de eventua-
lidades e surpresas que uma política primária, como a que se pratica em nosso país, pode
preparar (grifos do autor)21.

A resposta de Getúlio aparece em carta remetida à sua filha Alzira Vargas em 14 de


julho, na qual menciona haver incumbido Manuel Vargas de transmitir pessoalmente sua
resposta a Pasqualini: “Eu não vou fazer campanha doutrinária de trabalhismo e sim um
programa objetivo de administração. Campanha para vencer, com aliados que não são do
partido e com o povo em geral”. Apesar disso, a resposta de Getúlio a Pasqualini oferecia uma
perspectiva em caso de vitória: “Se vencer, Pasqualini será incumbido de rever o programa do
PTB e de reorganizá-lo sob as bases programáticas”22.
Ivete Vargas havia incentivado a aproximação de Getúlio com Pasqualini. Em uma das
missivas, a seguinte observação chama a atenção: “O Pasqualini tem uma vontade imensa
de ser seu representante pessoal na convenção, caso o senhor não venha. Ele me disse que
iria a Itu para o senhor dar os rumos do discurso e ele faria o discurso, acrescentando o sal e
a pimenta necessários”23. Getúlio Vargas não compareceu à convenção nacional do PTB, mas
seu discurso foi irradiado diretamente de São Borja e sua voz pôde ser ouvida nas caixas de
som instaladas no Palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro — então capital federal. Na ocasião,
Alberto Pasqualini discursou aos convencionais:

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Estamos agora na segunda etapa do trabalhismo. A legislação social do governo do presiden-


te Getúlio Vargas outorgou as garantias jurídicas ao trabalhador, a sua carta de alforria. [...]
Vamos agora iniciar a segunda fase que é dar maior amplitude à legislação social, estendendo
seus benefícios, sobretudo os da previdência social, a todos os trabalhadores. [...] Getúlio Var-
gas é novamente chamado para realizar essa segunda etapa [...]. Sua candidatura não tem,
portanto, um sentido negativo e demagógico; não é dirigida contra ninguém, não tem os olhos
voltados para o passado, porque nos interessa apenas o futuro24.

Em 10 de agosto de 1950, a executiva estadual do PTB do Rio Grande do Sul, sob a


presidência de João Goulart, definiu o nome de Alberto Pasqualini como candidato ao Senado,
indicado por Getúlio Vargas. Como candidato ao Senado, Pasqualini teve mais uma vez sua
imagem pública associada à de Getúlio Vargas e avançou ainda mais na defesa de Vargas, ao
contrário da postura assumida por ele mesmo na campanha anterior. Como nos indicou o co-
mentário de Ivete Vargas sobre ser queremista, o “queremismo” dessa vez se concretizava em
uma candidatura de Vargas sob a sigla do PTB. Sobre isso, Pasqualini afirmou em discurso na
campanha eleitoral: “O queremismo é o trabalhismo representado e explicado através de uma
figura humana; o trabalhismo é o queremismo na sua expressão racional. [...] O queremismo
é a fé. O trabalhismo é a razão. Mas, a razão e a fé não se excluem, antes se completam”25.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

N o seu conjunto, as relações políticas entre Getúlio Vargas e Alberto Pasqualini foram
interpretadas de maneiras distintas. Em uma vertente, haveria uma dicotomia entre
ambos, baseada em modi operandi distintos e antagônicos, relativos ao caráter pragmático do
primeiro e doutrinário/programático do segundo. Em outra, as ações de ambos se combina-
riam não de modo antagônico, mas gerando uma complementaridade — embora conflitiva,
segundo Miguel Bodea — em que o aspecto doutrinário de Pasqualini legitimaria o partido
liderado pragmaticamente por Vargas. Um caminho alternativo consiste em não aceitar total-
mente a ideia da complementaridade conflitiva proposta por Bodea, em razão da divisão de
tarefas que relega a Pasqualini o papel monocórdico de doutrinador e a Vargas o monopólio
da estratégia política.
Com base nesse exemplo da atuação de Alberto Pasqualini na candidatura de Getúlio
Vargas em 1950, foi possível retomar e considerar um dos aspectos presentes na noção de
divisão de tarefas proposta por Miguel Bodea: a complementaridade conflitiva entre o projeto
político nacional de Vargas e o projeto de construção do PTB por Pasqualini. Diferentemente
de Vargas, que possuía uma estratégia dual de articulação política (envolvendo PSD e PTB),
Pasqualini teve no PTB seu instrumento fundamental de implementação de reformas sociais a

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partir de 1946 (Bodea, 1992: 152). Essa tensão esteve presente na candidatura de Vargas em
1950 e no modo como Pasqualini se inseriu no apoio a ela.
As fontes analisadas impõem limites ao caminho que aposta no antagonismo entre
Vargas e Pasqualini e na dicotomia entre as práticas de ambos. É possível perceber que, indo
além da simples dicotomia entre pragmáticos-getulistas e programáticos-pasqualinistas, a
relação entre Vargas e Pasqualini se dá em um complexo processo de recuos e aproximações e
em alianças afetadas pelas contingências e que não dizem respeito somente às estratégias de
Vargas, mas ao próprio projeto político de Pasqualini e aos seus objetivos circunstanciais com
relação ao jogo político. Desde o momento inicial da relação entre ambos, é possível perceber
esse movimento pelo qual se coadunam os objetivos em comum e os interesses próprios de
cada um.

NOTAS
1 Recentemente, dissertações e teses defendidas no âmbito da pós-graduação em história
em instituições do Rio Grande do Sul revigoraram o debate sobre o trabalhismo. Essas contri-
buições estão sintetizadas especialmente na obra organizada por Carla Brandalise e Marluza
Harres (2017).
2 José Loureiro da Silva (1902–1964) foi prefeito de Porto Alegre durante o Estado Novo
e ingressou no PTB em 1946, liderando a migração de políticos oriundos do Partido Social
Democrático (PSD) para a sigla trabalhista no Rio Grande do Sul.
3 José Diogo Brochado da Rocha (1904–1981) foi militar e diretor da Viação Férrea do Rio
Grande do Sul durante o Estado Novo, eleito deputado federal pelo PSD em 1945, migrou
para o PTB, sendo eleito deputado estadual em 1947 e deputado federal em 1950.
4 Pasqualini era filiado ao Partido Libertador, que formava Frente Única com o Partido Repu-
blicano Rio-Grandense (PRR) desde 1928. Após a Revolução Constitucionalista de 1932, que
contou com a adesão de grande parte da Frente Única, o interventor Flores da Cunha fundou
o Partido Republicano Liberal (PRL). À medida que se acentuava a dissenção entre Flores da
Cunha e Getúlio Vargas, este último estabelecia contatos com lideranças da Frente Única
Gaúcha (FUG) visando a uma aliança e ao enfraquecimento de Flores, incentivando a atuação
de Pasqualini, pelo lado do Partido Libertador, e de Loureiro da Silva, pelo lado da dissidência
liberal (no PRL), ambos em forte oposição ao governo estadual (Cortés, 2007: 122-128; Grijó,
2007: 89).
5 Os termos estão grifados para destacar a origem conceitual da interpretação de Bodea, que
se embasa na leitura do teórico italiano Antonio Gramsci (1891–1937). Em obra que Bodea

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menciona, Gramsci (1968) concebe a luta política indo além dos interesses de classe: embora
cada partido seja expressão de determinado grupo social, admite-se a possibilidade de o
partido exercer uma função de arbitragem entre os interesses do grupo e de outros grupos.
6 Miguel Bodea (1948–1988) formou-se em economia por Cambridge e era mestre em ciên-
cia política pela Universidade de São Paulo (USP), com a dissertação, publicada em 1992, Tra-
balhismo e populismo no Rio Grande do Sul. Foi assessor parlamentar do MDB na Assembleia
Legislativa do Rio Grande do Sul na década de 1970 e assessor de Leonel Brizola no Rio de
Janeiro na década de 1980 (Grill, 2008: 198-199).
7 O embasamento está nas formulações de Norberto Bobbio sobre os tipos de intelectuais,
inclusive quanto à obediência a éticas diferentes (com origem na discussão weberiana): os
ideólogos seguindo a ética da convicção — fiéis a certos princípios a qualquer custo – e os
expertos seguindo a ética da responsabilidade — tendo o dever de levar em conta os meios
adequados e suas consequências (Bobbio, 1997: 76).
8 É importante ressaltar que Alberto Pasqualini somente ingressou no PTB em 1946. Nos dis-
cursos, artigos e entrevistas anteriores a 1946, não há referências ao trabalhismo, havendo,
até mesmo, um distanciamento com relação a Getúlio Vargas (Bodea, 1992: 26; Silva, 2012:
102; Almeida, 2015: 109).
9 Foi major fiscal do 11º batalhão provisório “João Pessoa” no cais do porto de Porto Alegre.
Acervo de Alberto Pasqualini – Prefeitura Municipal de Ivorá/RS (AAP-PMI). Pasta 01.
10 O primeiro volume do Diário de Getúlio Vargas (1995: 472) menciona Pasqualini pela
primeira vez entre 24 e 26 de janeiro de 1936: “Recebi, uma noite, à insistência de Lulu Ara-
nha [Luís Aranha, irmão de Oswaldo Aranha], o Pasqualini, com quem conversei longamente
sobre o acordo do Sul”.
11 CPDOC GV c1936.04.08/1. AAP-PMI– Pasta 27.2.
12 José Vecchio (1909–1994) foi um líder sindical e um dos fundadores do PTB no Rio Grande
do Sul.
13 Delgado menciona Gláucio Soares (1973), para quem haveria três facções distintas no
PTB: os sindicalistas pelegos, os doutrinários e os pragmáticos-getulistas. A autora entende,
no entanto, que os grupos eram apenas dois, tendo em vista que “os sindicalistas pelegos
eram também pragmáticos-getulistas” (Delgado, 1989: 59).
14 Loureiro da Silva e José Diogo Brochado da Rocha (Bodea, 1992: 168).
15 O SR. ALBERTO Pasqualini e os problemas brasileiros. Correio do Povo, Porto Alegre, 29
dez. 1949, p. 14.

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16 Cândida Ivete Vargas Tatsch (1927–1984) era sobrinha-neta de Getúlio Vargas, intelectual
e jornalista, ingressou no PTB em 1945, sendo eleita deputada federal em 1950.
17 A carta consta no sistema de buscas do CPDOC como “sem assinatura”. Comparação
com outras cartas permite identificar Ivete Vargas, sobrinha-neta de Getúlio, como remetente.
18 CPDOC-FGV. GV c 1950.01.00/5. Carta sem assinatura contendo recomendações de Al-
berto Pasqualini para Getúlio Vargas. Jan. 1950.
19 CPDOC-FGV. GV c 1950.05.00/3. Notas políticas de Getúlio Vargas para Salgado Filho.
Maio 1950.
20 CPDOC-FGV. GV c 1950.04.30. Carta de Ivete Vargas a Getúlio Vargas. 30 abr. 1950.
21 CPDOC-FGV. GV c 1950.07.08. Carta de Alberto Pasqualini a Getúlio Vargas. 08 jul. 1950.
22 CPDOC-FGV. AVAP vpu e 1946.01.02. Carta de Getúlio Vargas à Alzira Vargas do Amaral
Peixoto. 14 jul. 1950.
23 CPDOC-FGV. GV c 1950.07.00/3. Carta de Ivete Vargas a Getúlio Vargas. Jun. 1950.
24 AFIRMA o Sr. Alberto Pasqualini que a candidatura Vargas não é dirigida contra ninguém
e nem constitui um desafio. Correio do Povo, Porto Alegre, 18 jun. 1950, p. 32.
25 A VOCAÇÃO política do Rio Grande. Importante conferência do Sr. Alberto Pasqualini no
Cine-Teatro Glória em Alegrete. Correio do Povo, Porto Alegre, 10 set. 1950, p. 10.

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578 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.559-578, Setembro-Dezembro 2020
A R T I G O

Insurgentes incendeiam a cidade da Bahia.


O Quebra Bondes e a Revolução de 30

Insurgents set fire to the city of Bahia.


The tramway riot and the October Revolution of 1930

Los insurgentes queman la ciudad de Bahia.


El motín de tranvía y la Revolución de Octubre de 1930

Antonio Luigi NegroI*


Jonas BritoII**

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942020000300008

Universidade Federal da Bahia – Salvador (BA), Brasil.


I

*Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pós-doutorado no Centro de


Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) e professor do Departamento de História da
Universidade Federal da Bahia (UFBa) (negro@ufba.br).
http://orcid.org/0000-0001-7253-355X

II
Universidade Estadual de Campinas – Campinas (SP), Brasil.
**Doutorando em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), bolsista da Fundação de Amparo à Pes-
quisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo nº 2017/08502-6) (brito.jonas@outlook.com).
https://orcid.org/0000-0001-6567-4717
Artigo recebido em 30 de abril de 2020 e aprovado para publicação em 03 de julho de 2020.

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Antonio Luigi Negro e Jonas Brito

Resumo
A partir da análise do Quebra Bondes, protesto ocorrido em 4 de outubro de 1930 contra as companhias Linha
Circular e Energia Elétrica, firmas encarregadas dos bondes, elevadores, planos inclinados, eletricidade e telefo-
nia de Salvador, o artigo questiona a costumeira representação da elite baiana de placidez social ou controle
da população durante o processo “mudancista” — “outubrista” — em 1930. Nossa intenção estratégica é
integrar a pesquisa sobre a Bahia na macronarrativa histórica com termos distantes das perspectivas que a
enquadram como um lugar atrasado ou marginal no processo político brasileiro. Para nós, a Bahia aparece
muito e desde o começo da Revolução de 30. Legalista no início, o estado aderiu aos vitoriosos (sem resistir).
Neste artigo, a Bahia, contudo, não é vira-casaca: é, antes, lugar atravessado pela possibilidade da ação popular
direta, pela presença de sertanejos armados por seus patrões, pela conspiração civil e militar e, por fim, pelas
forças oligárquicas aliadas a São Paulo. Em particular, o artigo aponta para a força popular no enfrentamento de
obstáculos reais, tanto as hierarquias sociais quanto as distâncias existentes entre os pontos da cidade onde agi-
ram os insurgentes. Examina como o quebra-quebra foi percebido em termos raciais e não teve sua paternidade
reivindicada por nenhuma força operante no movimento revolucionário, talvez porque tenha projetado sobre a
antiga capital do Brasil a caraça de malvadezas do bicho-papão da horda negra.
Palavras-Chave: Revolução de 30; Bahia; Motim; Trabalhadores; Racismo.

Abstract
Based on the analysis of a streetcar riot that took place on October 4, 1930 against the Companhia Linha Cir-
cular ande Energia Elétrica, both firms in charge of trams, elevators, inclined planes, electricity and telephony in
Salvador, the article examines the usual representation of the Bahian elite of social placidity or control over the
population during the October Revolution of 1930. Our strategic intention is to integrate the research on Bahia
into macro historical account in terms that differ from the perspectives that frame it as a backward or marginal
place in the Brazilian political process. For us, Bahia appears a lot and since the beginning of the revolution.
Legalist in the beginning, the state has joined the victorial rebels without resisting. In this article, Bahia, however,
is not a turncoat: it is rather a place fractured by the possibility of direct popular action, by the presence of men
armed by their bosses, by the civil and military conspiracy and, finally, by the oligarchic forces allied to São Paulo.
In particular, the article points to the popular force facing real obstacles, either the social hierarchies or the exist-
ing distances between the areas the city where the insurgents acted. It examines how the riot was perceived
in racial terms and why its authorship was not claimed by any operating force in the revolutionary movement.
Keywords: October Revolution; Bahia; Riot; Workers; Racism.

Resumen
A partir del análisis del “rompe-tranvías”, protesta que tuvo lugar el 4 de octubre de 1930 contra las com-
pañías Linha Circular e Energia Elétrica, empresas encargadas de los tranvías, ascensores, planos inclinados,
electricidad y telefonía en Salvador, el artículo cuestiona la representación habitual de la placidez social o el
control de la población durante el proceso revolucionario en 1930. Nuestra intención estratégica es integrar
la investigación sobre Bahía en la macronarrativa histórica en términos muy alejados de las perspectivas que
la enmarcan como un lugar atrasado o marginal en el proceso político brasileño. Para nosotros, Bahía aparece
mucho y desde el comienzo de la Revolución de 1930. Legalista al principio, se ha unido a los rebeldes vence-
dores sin resistir. En este artículo, Bahia no es un traidor: es más bien un lugar atravesado por la posibilidad de
la acción popular directa, por la presencia de peones armados por sus jefes, por la conspiración civil y militar y,
finalmente, por las fuerzas oligárquicas aliadas a São Paulo. En particular, el artículo señala la fuerza popular
para enfrentar los obstáculos reales, tanto las jerarquías sociales como las distancias existentes entre los
puntos de la ciudad donde actuaron los insurgentes. Examina cómo se percibía el motín en términos raciales
sin su paternidad reclamada por fuerza revolucionaria ninguna.
Palabras clave: Revolución de Octubre; Bahia; Motín; Trabajadores; Racismo.

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Insurgentes incendeiam a cidade da Bahia. O Quebra Bondes e a Revolução de 30

E m 1947, em réplica ao ex-ministro da Justiça Viana do Castelo, Aluísio de Carva-


lho Filho discordou de, antes de 24 de outubro de 1930, terem “todos os gover-
nos estaduais” ruído, “do Espírito Santo ao extremo norte”. Carvalho Filho afirmou que, na
Bahia, as autoridades permaneceram coesas, “cumprindo sua missão”. O povo em Salvador
“não perdera o sentido da ordem”, apesar dos “tumultos”, concentrados sobre a empresa
estadunidense Electric Bond and Share Company (Ebasco), firma concessionária dos serviços
públicos de transporte e energia (Carvalho Filho, 1968: 6-8). Nos anos 1980, o banqueiro Cle-
mente Mariani apontou de novo para essa coesão, arrodeada na candidatura do governador
da Bahia Vital Soares à vice-presidência da República (em chapa encabeçada pelo governador
de São Paulo Júlio Prestes). “Nem se falava em revolução”, garantiu. Um “Quebra Bondes”
foi “abafado pela polícia”. Ao deporem o presidente Washington Luís no Rio, entregou-se a
administração estadual ao comandante da Região Militar, e aí “chegaram os revolucionários”.
Quando desocupada de soldados, “a Bahia inteira se retraiu”. E “foi isto a revolução na
Bahia” (Lima, 1986: 88).
Esclarecendo que, nessa época, Bahia e Salvador designavam juntos a capital sote-
ropolitana, este artigo questiona essa representação altaneira da elite baiana de placidez ou
controle da população durante o processo “mudancista” — “outubrista” — em 1930. Nosso
objetivo imediato é identificar as incertezas da Revolução de 1930, tendo em mira o Quebra
Bondes, protesto ocorrido em 4 de outubro contra as companhias Linha Circular e Energia Elé-
trica, firmas subsidiárias da Ebasco encarregadas dos bondes, elevadores, planos inclinados,
eletricidade e telefonia1. Como revelou Luís Sant’Ana, embora a Bahia tenha permanecido leal
a Washington Luís até o fim, o motim — na receosa alusão do cônsul dos Estados Unidos —
projetou sobre a antiga capital do Brasil a caraça de malvadezas do “bicho-papão da horda
negra” (Sant’Ana, 2010: 92).
Em segundo lugar, ao questionarmos a negativa do teor turbulento e popular da
Revolução de 30, examinamos as forças políticas e sociais envolvidas no protesto social,
as relações com os grupos e classes sociais atuantes no movimento revolucionário e a
acomodação nos planos estadual e nacional. Nossa intenção estratégica é integrar na ma-
cronarrativa histórica a pesquisa sobre a Bahia em termos distantes das perspectivas que a
enquadram como um lugar atrasado ou deslocado. Em livro sobre as imagens da revolução,
a Bahia não só aparece no fim, mas também aparece pouco (eram certamente desconheci-
das as fontes visuais do protesto popular em Salvador). De três retratos, dois são de missas
rezadas em prol do triunfo mudancista (Murakami, 1980: 167-169). Diversamente, a Bahia

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Antonio Luigi Negro e Jonas Brito

aparece muito e desde o começo. Neste artigo, a Bahia — já em conflito aberto desde a
segunda jornada pública e nacional da revolução — não é vira-casaca, não é lugar que
adere a fato consumado sem desempenho de relevo. É, sim, lugar atravessado pela possi-
bilidade da ação popular direta, pela marcha de sertanejos armados por seus patrões, pela
conspiração civil e militar e, por fim, pela proeminência nacional de suas forças oligárquicas
aliadas a São Paulo. Noutro livro, lê-se que a Bahia foi previsivelmente “pega no lado
errado da cerca” (Borges, 1992: 43), isto é, com o seu governador eleito vice-presidente
na chapa encabeçada por Júlio Prestes. Deixando de lado o equívoco do juízo sobre dois
lados (um certo, outro errado), este artigo aponta para a força popular no enfrentamento de
obstáculos reais, tanto as hierarquias sociais quanto as distâncias mesmo existentes entre
os pontos da cidade onde agiram os insurgentes.
O Quebra Bondes aconteceu em instante delicado da Revolução de 30. A luta armada
tinha acabado de começar no Rio Grande do Sul, em 3 de outubro. No Norte, teatro das ope-
rações onde estava encaixada a Bahia, a revolução estourou na Paraíba depois da meia-noite.
Com o levante noticiado na imprensa vespertina de Salvador do dia 4, sua deflagração na
Bahia era incerta. Apesar de a conspiração existir, permaneceu retraída nos quartéis. O movi-
mento não era público e notório nas ruas, muito menos no dia a dia da população. Não houve
canhoneio nos fortes, também não houve movimentação de soldados ou tomada de posições.
O motim, então, não foi precedido pela conclamação do povo pela tropa. Bem menos conhe-
cido ainda era o desfecho do processo apenas iniciado, momento muito diferente de quando
aconteceram os empastelamentos e confronto sucedidos no fim, quando a multidão em São
Paulo e no Rio já sabia que havia uma revolução nas ruas, enxergava os lados e a vitória dos
rebeldes podia ser dada como certa.
Em acréscimo, embora nossas pesquisas nos incitem a explorar as pistas indiciárias
do peso da Bahia no complô conspiratório contra a Presidência da República, vamos deixar
de lado esse seu papel no drama outubrista para analisar a multidão plebeia das ruas, ne-
gra e operária. Para nós, o Quebra Bondes foi mais uma demonstração da surpreendente e
impactante presença da classe trabalhadora na História do Brasil. Na trama tenentista sob o
comando de Juarez Távora (Lopes, 2014), a Bahia, apesar de dobrar com Vital Soares a chapa
de Júlio Prestes, também figurava nos planos da luta revolucionária logo no dia 4, objetivo,
contudo, irrealizado (Silva, 1980: 49). Mesmo assim, os insurgentes mostraram ser capazes de
abalar a cidade em poucas horas, sem a certeza do ascenso de uma revolução em todo o país.
Foi a sua energia que ligou a Bahia aos fronts pernambucano e paraibano, sem o comando
ou apoio militares.

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Insurgentes incendeiam a cidade da Bahia. O Quebra Bondes e a Revolução de 30

Contudo, exceção à queixa dos prejuízos, o pós-30 faz referência ao Quebra Bondes
como explosão de vândalos numa sociedade tradicional de ordem, placidez e de longo con-
vívio e amizade entre famílias poderosas e de bem. No seu próprio tempo e lugar, nem os
tenentes, nem o poder estadual situacionista, tampouco a oposição quiseram assumir a pater-
nidade pelo movimento. Por isso o título faz referência a insurgentes, e não a revolucionários.
Pelos termos descritores visíveis na materialidade das evidências históricas, os insurgentes são
os descalços, o “zé-povinho”, a horda negra2. No convívio cotidiano, sua simples presença
já amedrontava. Tremores são evidentes, por exemplo, nas lembranças do filho do chefe de
polícia Madureira de Pinho. Em sua autobiografia, ele se lembrou, “logo que nos mudamos
para lá” — o rico bairro da Vitória —, assaltou-lhe “o ruído surdo dos atabaques”. Sobres-
saltavam “muitas de minhas noites”. Diziam “ser o eco de candomblés que batiam na baixa
da Graça. Isso e o uivo dos cães anônimos me perturbavam muitas noites de sono!” (Pinho,
1974: 51).
Perceber as negativas da classe dominante quanto ao caráter desconcertante da Revo-
lução de 30 e evidenciar aquilo que a perturbava nos permite questionar a representação cole-
tiva da nossa sociedade como um lugar sem diferenças raciais ou tensões de classe, cuja razão
de ser é um nacionalismo protagonizado por sábios homens brancos, que negam a existência
de raças e classes. Analisamos então a linguagem reveladora dos horizontes de classe e das
concepções racistas dominantes na Bahia e no Brasil, assim como a estrangeira. “Esta carta
diz que a senhora não é um desses repórteres sensacionalistas. Ótimo”, alegrou-se o ministro
Osvaldo Aranha perante a antropóloga Ruth Landes, em 1938. “O Brasil precisa ser corre-
tamente conhecido”, afirmou, apontando especialmente para a “situação política”. Ciente,
pela carta, dos planos dela de estudar os negros da Bahia, Aranha garantiu que o “atraso
político” tinha tornado “esta ditadura necessária” (o Estado Novo), explicada “perfeitamente
pelo nosso sangue negro” (Landes, 2002: 41).
Se algum grupo tivesse querido se valer do descontentamento popular para dirigir a
insurgência contra a ordem em vigor, a História da Revolução de 30 seria bem diferente do
elitismo racista de Osvaldo Aranha. Na Imagem 1, na praça principal do poder político da
Bahia, onde os trâmueis davam a volta para o transporte de passageiros, vê-se à esquerda
a joia art déco da engenharia mundial, o elevador Lacerda, então recentemente aberto ao
público (sucedâneo do antigo elevador da Conceição, sobre a ladeira homônima, cujo sobe e
desce se transferiu em parte aos elevadores).
A revolta foi uma forma de se chocar de frente com a deterioração das condições de
trabalho e, portanto, de sobrevivência. A populaça se constituía de trabalhadores que pre-
cisavam de cada dia para sobreviverem. Assalariados ou informais, “o fato de serem gente

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Antonio Luigi Negro e Jonas Brito

Imagem 1 – A praça do elevador Lacerda no dia seguinte ao Quebra Bondes.


Fonte: Getty Images 515143184, adquirida em 26/4/2020.

urbana” — como escreveu João Reis a respeito da greve dos ganhadores de 1857 — evidenciava-se
na “sua importância para o funcionamento da cidade, inserida num mercado de trabalho
monetarizado”, o que “explica em parte o estilo de resistência escolhido” (Reis, 1993: 29).
E parece-nos que o ícone erguido em praça pública não foi o fantasioso bicho-papão. Outra
figura foi descarregada das nuvens perto do terreiro de Jesus, sem necessidade de pai ou
mentor intelectual. Entre a noitinha e a madrugada, os protestos do dia 4 em Salvador se es-
palharam do centro histórico para o subúrbio de Itapagipe (estações e oficinas), Dique (usina)
e Retiro (pedreira). Segundo perícia policial, saquearam, apedrejaram e incendiaram usinas,
escritórios, os elevadores Lacerda e Taboão e o Plano Inclinado do Pilar. Só um automóvel,
mais de 80 bondes (65% da frota), aparelhos elétricos e telefônicos foram destruídos pela ira
e força muscular da multidão. O Instituto Luso Brasileiro e a antiga casa do Barão de Cotegipe
arderam em chamas na Cidade Baixa e no Bonfim, respectivamente. Na praça Castro Alves,
verificou-se ataque à sede própria do jornal A Tarde (outro prédio art déco então inaugurado),
que tinha apoiado o anúncio de aumento de preços. O prejuízo às subsidiárias da Ebasco foi
calculado entre um e dois milhões de dólares3.
O quebra-quebra foi resposta aos abusos de um cotidiano de descontentamentos. Era
grande a insatisfação contra a carestia, o aumento nos preços em 1929 e a má qualidade dos
serviços de eletricidade, comunicação e transporte, em grande parte causada pela ausência
de conservação e capacidade do sistema operado pelas companhias Circular e Elétrica. Contra

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Insurgentes incendeiam a cidade da Bahia. O Quebra Bondes e a Revolução de 30

os telefones, encontramos poucas reclamações, embora nelas conste serem comuns ligações
com demoras, erros e interrupções. O serviço piorara desde a inauguração, com o número de
aparelhos por telefonista tendo passado de 120 para 400 (A Tarde, 16/4/1927; 26/7/1927)4.
Já o fornecimento de energia registrava síncopes, chegando a prejudicar a circulação de bon-
des (O Imparcial, 30/5/1926; A Tarde, 1/3/1929 e 28/6/1929). Postes podres e eletrizados,
cabos de força rompidos e sua proximidade com fachadas prediais ocasionavam acidentes,
choques e curtos-circuitos (O Imparcial, 18/6/1926; A Tarde, 13/7/1929). Um carregador foi
morto por cabo aéreo na Preguiça, ao colocar a cabeça pelo óculo do depósito em que tra-
balhava em 1926, mesmo destino de empregada doméstica na janela da residência de seus
patrões da Cruz do Pascoal (Diário de Notícias, 19/3/1926; A Tarde, 7/3/1930).
Os cartões postais do lugar — seus ascensores (Lacerda, Taboão) e planos inclinados
(Gonçalves e Pilar) — não davam vazão ao fluxo entre as cidades Alta e Baixa, formando-se
filas nas horas de pico, sob sol, chuva e, pior, com o risco de o camarim paralisar, aumentan-
do a espera, a fadiga, a irritação e apreensões (Diário de Notícias, 10/2/1926; O Imparcial,
29/4/1926 e 16/5/1926; A Tarde, 17/11/1926, 8/5/1928 e 28/6/1929). A superlotação nos
bondes era cotidiana e, por outro lado, veículos particulares e de praça eram poucos e ca-
ros (Diário de Notícias, 10/3/1926; O Imparcial, 16/5/1926). Portanto, as diferentes classes
compartilhavam os trâmueis em espaços concorridos, não no sentido de serem objeto de
desejo, mas no sentido de serem disputados corporalmente. Exemplo de costume racializante
dissimulado na inexistência de lei segregacionista, a praxe interditava o acesso aos bancos
por parte de passageiros descalços (passageiros negros, em outras palavras) ou sem colarinho
e gravata, sendo a parte traseira franqueada for all, a popular “cozinha”. Os estribos deviam
ficar livres (A Tarde, 20/8/1929). O excesso de lotação fornecia a chance para a quebra das
hierarquias e suas regras espaciais de primeira e segunda classes, renovando as tensões.
Homens bem ou mal trajados ocupavam os estribos, incomodando os demais passageiros,
especialmente as mulheres, que iam sentadas (brancas ou bem-vestidas) (A Tarde, 19/9/1928,
27/12/1928, 16/7/1929, 23/3/1929, e 20/11/1929). Cumprindo o seu papel de dar voz aos
incômodos da elite, nota de jornal se queixa das “cozinheiras imundas” (A Tarde, 26/6/1929).
“De roupas engorduradas e temperos malcozidos” — a negra “senta onde bem lhe aprouver,
constrangendo [...] quem lhe ficou junto do mocó” (A Tarde, 20/8/1929). Além da crítica à sua
roupa de trabalho, que os patrões talvez não fornecessem nem deixassem lavar e estender em
suas residências, a baiana é alvo de descompostura preconceituosa, haja vista já ser notória a
sua maestria com temperos (Romo, 2010).
O excesso de passageiros aumentava o risco de acidentes, em geral ocasionados pela
falta de conservação, sem falar nos malogros dos incautos. Era comum os ocupantes do estri-

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bo baterem em postes, caindo em choque, zonzos ou desfalecidos, sob risco de atropelamen-


tos por outros carros (A Tarde, 17/11/1926, 21/12/1926, 3/6/1927, 8/4/1930, 7/5/1930). Os
descarrilamentos eram particularmente aterradores em bondes lotados e nos declives das fa-
mosas ladeiras da Bahia, como a da Soledade (A Tarde, 24/5/1927, 16/6/1927 e 21/8/1928).
Entre os acidentes mais comuns, estavam as quedas no desequilíbrio de pongas e despongas,
ginástica de “moleques” trabalhadores, que entregavam embrulhos, merendas e gazetas (A
Tarde, 10/2/1927, 19/3/1928 e 15/8/1930). Excitado pela visita de príncipe hospedado no
palácio da Aclamação, Miguel Calmon Sobrinho, ao despongar, caiu e teve a perna ferida
pela roda do bonde. Prática masculina que cultivava a destreza física, pongar era ginástica
de meninos de classes diferentes. O motorneiro, porém, tratado conforme a hierarquia social,
foi detido de pronto, mesmo sem nada a ver com o costume da meninada. Magnânimo, o
pai do fidalgo, o então governador Góis Calmon, mandou relaxar a prisão (Calasans, 1986:
56). Os atropelos eram a maioria das ocorrências, com vítimas entre idosos, crianças e adultos
cujo ofício era desempenhado diariamente, prestadores de ofícios manuais vários (O Impar-
cial, 4 e 5/6/1926; A Tarde, 2/8/1927, 11/2/1928, 28/9/1928; 15/1/1930; Diário da Bahia,
28/9/1926).

Inseguros e caros, incômodos e disputas

T anto a Circular quanto a Elétrica foram adquiridas pela Ebasco no início de 1927, ge-
rando a expectativa de melhorias nos serviços prestados (A Tarde, 11/4/1927). Foram
prometidos a automatização do telefone e reparos emergenciais nas termoelétricas de Salva-
dor, na hidroelétrica de Bananeiras em São Félix, onde um novo e maior açude seria cons-
truído. Também houve a promessa de reformar o Lacerda e os planos inclinados Gonçalves e
Pilar, abrir ramais no Cabula e na Liberdade, afora botar mais carros nos trilhos (A Tarde, 3 e
25/8/1927; 4 e 28/8/1928; 24/12/1928; 18/2/1929). Em troca, os empresários barganharam
a retirada de contrapartidas exigidas à Circular e à Elétrica, a exemplo de confiar seus bens
ao município ao término da concessão e da construção de um bom matadouro no Retiro. Os
preços dos serviços, para variar, precisavam ser majorados, disseram5.
A carestia se agravou com a cobrança dos múltiplos trechos das viagens de bonde.
Logo que um primeiro lote de trâmueis passou a rodar, o preço da passagem por trecho
duplicou. Assim, os passageiros dos bairros proletários da Liberdade e Itapagipe, além do
reajuste do trecho, desembolsavam mais porque tinham cerca de três trechos para pagar
(A Tarde, 24/1/1927, 9/2/1928, 18/7/1928 e 15/9/1928). As dores de cabeça não para-
ram aí. A tudo isso preexistia o velho problema do troco, em vigor nos bondes, planos e
elevadores, objeto de reiteradas queixas em 1929 (O Imparcial, 14/4/1926 e 16/5/1926;

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A Tarde, 29/4/1927; 13/4/1929; 3/7/1929). Chegou-se a suspeitar de a falta de troco ser


malversação da Circular para extorquir os passageiros (A Tarde, 25/7/1929). O conflito não
ficava só na disputa pelo dinheiro miúdo, valores risíveis aos olhos de qualquer engenheiro
estadunidense residente na cidade. Nesses problemas de troco ou tráfego, condutores e
motorneiros eram referidos pelos repórteres e usuários como “malcriados”, vezeiramen-
te identificados por sua “carapinha” preta. Do outro lado, havia alguém “estrangeiro”,
“cavalheiro”, “distinto”, “pessoa respeitável” ou “senhora” e “senhorinha”, “famílias”
(O Imparcial, 25/5/1926; A Tarde, 29/4/1929; 10/2/193; 21/2/1930). Duas ocorrências em
abril de 1929, em bonde da Barra e noutro da Graça, dão nitidez a essas diferenças. No
primeiro, o condutor, “pardavasco velho”, “feições talhadas a foice”, travou “violenta dis-
cussão” com uma “senhora de trajes modestos” e “modos acanhados”. No da Graça, o
empregado da Linha Circular dirigiu “graçolas pesadas” a “cavalheiros estrangeiros” inte-
ressados em informações sobre horários (A Tarde, 29/4/1927).
Vistas de longe ou de cima, as compridas filas eram chamadas de “piolhos-de-cobra”,
outro nome para lacraia (A Tarde, 3/8/1927). Era aí onde agiam fura-filas e ocorriam empur-
rões. Nos bondes, o que começava com uma discussão entre passageiro e empregado da Cir-
cular poderia virar uma discussão coletiva entre clientela e firma (A Tarde, 12/7/1929). Nisso
poderia ocorrer quebra-quebra se o impasse esquentasse e a polícia não aparecesse logo. Em
abril de 1927, passageiros de um bonde superlotado para Brotas altercaram, na rua J. J. Sea-
bra, com os funcionários que se recusavam a baixar o estribo esquerdo. Quando o condutor
se ausentou para pedir instruções ao telefone, começou o apedrejamento. Foi preciso piquete
de cavalaria para suprimir o protesto (A Tarde, 26/4/1927). Logo depois, um conselheiro e
um deputado estadual conseguiram que o prefeito impusesse à Circular o já reiteradamente
solicitado bonde extraordinário para Brotas (A Tarde, 27/4/1927).
Em setembro de 1928, o motorneiro de um trâmuei irritou os comparecentes para
um enterro quando avisou que não desceria superlotado até a Baixa de Quintas, onde, além
do cemitério por destino, ocorriam deslizamentos. Contatado por telefone, o delegado ten-
tou resolver o problema com a Circular. Nesse ínterim, o carro foi destruído. Os passageiros
deslocaram-se para a Soledade para quebrar o bonde do horário, mas foram obstados por
soldados despachados às pressas (A Tarde, 25/9/1928). Irmandades da Igreja com cemitérios
em Quintas solicitaram à Circular melhor serviço funerário (A Tarde, 25/9/1929). Em maio de
1930, na Soledade, repetiu-se o apedrejamento de um trâmuei, parado por desentendimento
com o fiscal. Sem a polícia por perto, exigiam a partida do bonde, freado por causa do risco
de choque com veículo que subia a estrada da Liberdade, que não comportava mão dupla.
Conforme o jornal, o ataque foi iniciado por um “pretinho” (A Tarde, 23/5/1930).

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Antonio Luigi Negro e Jonas Brito

À medida que os efeitos da Grande Depressão se instalaram e espalharam, mais as


empresas faltaram, por um lado, com seus compromissos de investir, conservar e reparar, hon-
rando o acordo de fornecer serviços de qualidade à população. Por outro lado, reajustes não
faltaram. Atingida uma meta prevista nos termos contratuais, novos preços eram baixados.
Após a reabertura do Lacerda em setembro de 1930, o preço aumentou em 100%. A isso se
somou o anúncio de melhor telefonia com tarifas 200% mais caras, levando a insatisfação
aos comerciantes (A Tarde, 27/8/1930)6. Logo em seguida, fecharam os planos inclinados
do Gonçalves e Pilar, alongando as filas, espaços de sociabilidade entre baianos (A Tarde,
3/9/1930). Então, apesar de a joia rara da engenharia mundial ser nova e boa, milhares de
usuários se apertavam na hora do corre-corre e empurra-empurra porque os planos inclinados
não funcionavam.
A documentação disponível enfatiza a falta de coerção como fator de incentivo e difu-
são. De fato, o livro do proeminente professor Luís Henrique Dias Tavares, que está pontilhado
de inúmeros conflitos resolvidos a bala pela polícia, não faz sua vezeira anotação sobre a
chegada de piquete da Força Pública, com mortos e feridos ao término. Mesmo assim, o autor
dá notícia da ação policial na confrontação com o jornal A Tarde e no fim do quebra-quebra,
quando a repressão aparece para dissolver grupos dispersos (Tavares, 2008: 382). Por sua
vez, o cônsul dos Estados Unidos Lawrence Briggs observou que os empregados da Circular
e da Elétrica não as protegeram direito, pois, só depois de destruídas, eles contactaram o
Consulado e a Força Pública. Também conforme o seu relato, o secretário de Segurança Pú-
blica Madureira de Pinho ordenara à polícia que não interviesse nem disparasse, se não fosse
atacada. Seu medo era o 19º Batalhão de Caçadores reagir à intervenção policial e lançar a
Bahia no complô. Desconfiando da infiltração tenentista, que de fato havia, o secretário não
queria ver o batalhão fora dos quartéis, podendo distribuir armas à população7. O governador
interino Frederico Costa era tido como alvo fácil de qualquer levante, até mesmo policial, o
que pode ter reforçado sua cautela8. É importante lembrar que as ordens dadas à polícia foram
praticamente simultâneas à confirmação dos alertas da irrupção da luta armada no Recife.
O filho do secretário de política recorda-se de seu pai ter perdido o cargo dias depois. Pediu
demissão ao saber da nomeação de Pedro Gordilho, delegado especial incumbido de comba-
ter o mudancismo. Sua “reputação” de “violência e arbitrariedade” ressoava o seu comando
em batidas conhecidas pela truculência (Pinho, 1974: 94).
Os protestos começaram nas obras da firma Christiani & Nielsen, contratadas pela
Ebasco no Plano Inclinado Gonçalves. Conta-se que uma aglomeração se formou contra o uso
desrespeitoso da bandeira brasileira, estendida entre tapumes, supostamente pelos gringos,
sendo isto a gota d’água. A firma e um operário assumiram a responsabilidade, mas isso não

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Insurgentes incendeiam a cidade da Bahia. O Quebra Bondes e a Revolução de 30

aplacou o descontentamento, como foi dito depois de tudo consumado9. Decerto, esse é um
indício a ser considerado seriamente, no sentido de se perceber no ar a raiva que provocava
o serviço ruim cobrado caro por estrangeiros. Uma segunda possibilidade a ser considerada
é a da flâmula ter servido como bandeira de luta. Defendendo o verde-amarelo, os presen-
tes formaram um primeiro grupo no qual nação, classe e raça puderam fermentar e se unir.
Nos jornais publicados posteriormente, o grupo Christiani & Nielsen eximiria a si mesmo de
responsabilidades e também aos contratantes estadunidenses. Admitiu que uma bandeira do
Brasil fora estendida, mas para secar ao sol e pelas mãos dos brasileiros, tentaram dizer (A
Tarde, 6/10/1930).
Na biografia de Giocondo Dias, apesar de ele, àquela altura, já estar em vias de ser
declarado convertido ao comunismo, não há pretensão de ligar o motim ao Partido Comunista
Brasileiro (PCB). Giocondo, que entregava o jornal carioca A Nação no porto, encarregava-se
de vendê-lo perto do “charriot”, como era elegantemente chamado o Plano Inclinado Gon-
çalves. Nem de graça, em diversas vezes, conseguia passar a folha ao povo. Seja, mesmo
assim, sublinhado que, como todo lugar de concentração, o ponto servia para a agitação
partidária (Falcão, 1993: 34). Para Briggs, o motivo eram os preços da Circular e da Elétrica. E
os funcionários estaduais também estavam com salários atrasados, efeito da Quebra da Bolsa.
O cônsul apontou também para a propaganda comunista, mas não lhe deu crédito. Embora
considerasse o conflito da bandeira um “pretexto”, forneceu a junção entre “insatisfeitos” e
“agitadores”. Foram os protestos que alegavam que o país era desprezado pelos gringos que
permitiram aos exaltados convencerem os descontentes a arregaçar as mangas e fazer alguma
coisa10. A combustão entre proselitismo e descontentamento se desdobrou em “grupos” em
marcha na cidade, “fazendo uma suposta demonstração patriótica”11. Segundo Jacira Primo
(2017), essa manifestação, já se tendo afastado das obras, denunciou na praça Rio Branco
o ultraje à bandeira e se dissolveu no Terreiro de Jesus, dada a presença da polícia. Contudo,
depois, um grupo compacto formou-se no Terreiro de novo, onde apedrejamentos tiveram
lugar perante um delegado. Como não houve repressão, as depredações passaram para os
largos Ramos de Queiroz e Rio Branco, atingindo outros pontos até o fim do dia (Diário de
Notícias, 5/10/1930).

“Degeneração”

E m 1934, o historiador Borges de Barros afirmou em livro que, sem “chefe” para “fazer
estalar” o movimento revolucionário na noite do dia 4, o levante do 19º Batalhão de
Caçadores foi abortado. Com os militares de braços cruzados, os planos parecem ter ficado
nas mãos apenas dos civis. A “ação popular” — embandeirada — “degenerou” em Que-

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Antonio Luigi Negro e Jonas Brito

bra-Bondes (Barros 1934: 563). A degeneração, já que assim foi escrito, ladeia o registro
de Briggs sobre a maioria dos manifestantes consistir em “trabalhadores negros descalços”
liderados por estudantes, advogados e jornalistas. São, respectivamente, os suprarreferidos
“insatisfeitos” e “agitadores”. A suposta liderança, ao perder a condução do protesto para
aquela base apenas recrutada para marchar e obedecer, e que não devia levantar o braço em
sua defesa, assiste à “degeneração” daquela jornada de luta, premeditada para ser “patrió-
tica”. Naquele reduzido mundo do ensino superior brasileiro da década de 30, a mocidade
estudantil eram os rapazes das boas famílias baianas. Além de brancos, eram bem tratados
por serem oficiais em potencial do Exército, o que atenuava sua repressão pela polícia12. Isso
instruía a cautela do secretário Madureira de Pinho, evitando assim o impulso de largar a
polícia em cima do povo, para não fragilizar sua posição no flanco da competição política com
os aliancistas soteropolitanos. Coincidentemente, foi do reagrupamento do protesto em frente
da faculdade de Medicina, no terreiro de Jesus, que partiu a primeira pedra.
Professores aliancistas da faculdade podiam ter em seus pupilos as ordenanças
para conclamar o povo a se juntar à tropa em luta (assim pensavam), para o que con-
tavam com a agitação panfletária, na imprensa, dos jornalistas. Tavares (2008: 382)
comenta a rede de tenentes, médicos e seguidores do ex-governador Seabra, oposta
à chapa eleita Vital Soares e Júlio Prestes. Os usuários insatisfeitos com a Circular e a
Elétrica, em sua maioria trabalhadores, dirigindo-se à área dos elevadores e dos bondes,
podem ter encontrado no fervor de estudantes e doutores a bandeira do quebra-quebra,
uma multidão cívica contra a Circular. Enquanto os chefes civis não eram rendidos pelo
varonil comando militar, a autoridade sobre a populaça virou o comando da populaça, o
que explica o estilo de resistência escolhido. Na edição de 22 de novembro de 1930, em
duas palavras a revista francesa L’Illustration resumiu: “ação direta”. E o cair da noite
revelou (apesar da escuridão) o sujeito capaz de assumir o papel de rebeldia pautado
pelo estilo de batalha de rua adotado. Durante o fim do século XIX e o início do XX, a
elite baiana se atormentou ao ver navios carregados de proletários europeus tendo São
Paulo por destino, a ela cabendo, segundo fonte analisada por Wlamyra Albuquerque
(1999: 38), a “maior partilha” do “pernicioso elemento”. Também o entrudo era rebai-
xado como “pernicioso brinquedo” (Silva, 2018: 27). Adicionalmente, futebol, bodoque,
jogos de azar e o “perniciosíssimo” jogo do bicho eram como chagas na pele do noturno
bicho-papão (Soares, 2019: 54, 57, 63). Na greve geral de Salvador em 1919, temeu-se
a difusão das “ideias perniciosas do anarquismo” entre os trabalhadores da construção
civil, contágio identificado no regresso do militante negro e libertário Eustáquio Marinho
(Guimarães, 2012: 137).

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Insurgentes incendeiam a cidade da Bahia. O Quebra Bondes e a Revolução de 30

Com o Recife divido numa luta que durou cerca de três dias, os militares rebel-
des do Norte não partiram para uma guerra de movimento sobre a Bahia, manobra já
dificultada pelas grandes distâncias do caminho. Com a capital soteropolitana tomada
pela multidão plebeia, o setor civil retraiu-se. O Quebra-Bondes foi uma das primeiras
manifestações populares de rua — talvez a primeira de todas —, no rastilho do es-
topim de um processo político de ruptura vitorioso depois de 20 dias. Quando ocorreu,
não havia nem mesmo um movimento revolucionário publicamente instalado. Dife-
rentemente, a multidão no Rio e em São Paulo, quando foi às ruas, já tinha um palco
revolucionário para atuar e, por isso mesmo, foi alvo da cobertura de fotorreportagens
nos jornais. Tão distante da revolução como também evidência de sua possível força, o
motim mostrou a turbulência da plebe na praça de Salvador e deixou claro, quer para
a situação ou oposição baianas, quer para os tenentes do Exército, como o movimento
popular podia ser desafiador, levando a trama e as disputas aos limites do imprevisível
e do descontrole. Mesmo após estreia retumbante, a Bahia seria posteriormente eleita
pelo presidente Washington Luís para confrontar as colunas rebeldes vindas do Norte.
Nessa posição, o estado não podia se arriscar a ser abalado pela ressurgência da insu-
bordinação proletária.

As cinzas do dia 5 e as jornadas seguintes

O s episódios do dia 4 mostraram que manifestantes podiam abalar a cidade, ameaçar


estrangeiros e destruir o sistema de transporte. Se uma revolução estalasse, garagens,
usinas, veículos, ascensores e todo o resto poderiam não só cair sob seu controle, mas tam-
bém se transformar em quartéis ou barricadas. Prudentemente, nos dias seguintes, a cidade
receberia tropas despachadas por coronéis para combater qualquer insurgência. Pondo de
lado a brutalidade, Gordilho apelou às associações operárias pela criação de batalhões civis.
No dia 13, o governo federal situou em Salvador o comando das operações contra os rebeldes
do Norte, despachando embarcações militares e tropas do Exército. Essa concentração de
forças não retomou as posições já assumidas pela marcha tenentista após a tomada do Reci-
fe, mas preveniu um golpe e a reincidência de motins, dando alívio às autoridades baianas e
diplomáticas. O embaixador dos Estados Unidos pediu ao chanceler Otávio Mangabeira que
conservasse em Salvador número de tropas suficiente para dar segurança aos estrangeiros (A
Tarde, 14 e 16/10/1930)13.
Contudo, a Bahia continuaria intranquila no intervalo entre o rescaldo das cinzas dos
bondes queimados e a queda do governo no Catete. O quebra-quebra minou o poder público
pelo medo e emulação que inspirou nos dias seguintes entre os civis. Conforme o Diário de

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.579-599, Setembro-Dezembro 2020 591
Antonio Luigi Negro e Jonas Brito

Notícias, a população ficou atônita com a explosão popular, acabando por perder a confiança
na solidez das autoridades (Diário de Notícias, 10/10/1930), descrença que por si só era um
embaraço à manutenção da ordem. Mas o medo não atingia a todos, pois a polícia flagrou
rebeldes concentrados na rua Silva Jardim, combinando de queimar o elevador do Taboão —
em plena luz do dia (A Tarde, 9/10/1930).
Briggs notou nervosismo entre seus conterrâneos, por causa não só dos distúrbios
recentes, mas do sentimento “antiamericano” na “classe baixa”14. Para o cônsul, era uma
situação difícil, pois os estadunidenses não falavam português, não conformavam uma grande
colônia nem possuíam um rol extenso de amigos entre os brasileiros, sendo recém-chegados
nas obras da Circular e da Elétrica15, aí inclusa a nova barragem de Bananeiras. Assim, dado
o estreito contato social, devem ter pressentido xenofobia nos locais de trabalho. De fato,
Briggs não deixou de mencionar a presença em Salvador de líderes grevistas demitidos das
obras, ao tratar das causas possíveis para o protesto do dia 416. O cônsul da Grã-Bretanha
em Recife, William Mackness, relatou que, desde a constituição do governo revolucionário,
técnicos e administradores britânicos eram agredidos e ameaçados em conflitos sucedidos em
duas fábricas têxteis. Uma greve seria articulada na ferrovia britânica Great Western17.
Mais que isso, Briggs a certa altura admite o risco de, em Salvador, as tropas partirem
para repelir os rebeldes e o poder público perder o controle sobre a classe baixa18. O cônsul
inquiriu sua Embaixada, solicitando cruzador da Marinha dos Estados Unidos para socorrer
os estadunidenses em caso de necessidade, idêntica demanda do cônsul do Recife19. Consul-
tado, o secretário de Estado de Herbert Hoover mostrou-se reticente, sugerindo aos cônsules
negociarem com outros diplomatas e autoridades brasileiras a criação de zonas neutras onde
acomodar os estrangeiros. Lembrou ainda o recurso a embarcações mercantes como refúgio20.
O Departamento de Estado preocupava-se com a possibilidade de desagradar o governo bra-
sileiro (Smith, 2009: 184), que certamente encararia a aproximação de um cruzador como
falta de crédito à sua capacidade de restaurar e manter a ordem.
Briggs reuniu-se com o cônsul alemão, o francês Léon Hippeau e o britânico John Bell
para elaborarem plano de evacuação conjunta dos estrangeiros em caso de repetição de dis-
túrbios como o Quebra-Bondes. Hippeau observaria em relatório a Paris que a xenofobia era
contra os estadunidenses e que os negócios franceses não seriam prejudicados21. Bell diria o
mesmo ao Foreign Office sobre os interesses britânicos, acrescentando que os membros da co-
lônia que mais conheciam o país só viam perigo em caso de bombardeio de Salvador. Os dois
cônsules, diplomaticamente, não se negaram a cooperar. Diferente de Hippeau, para Bell a
xenofobia era geral, pois as classes baixas nem sempre distinguiam entre alemães, britânicos,
franceses e estadunidenses22. Mais difícil era diferenciar o inglês estadunidense do britânico,

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Insurgentes incendeiam a cidade da Bahia. O Quebra Bondes e a Revolução de 30

tornando “ingleses” farinha do mesmo saco dos “americanos”, o que talvez explique a maior
sensibilidade de Bell em relação à xenofobia.
Briggs dirigiu novo e urgente pedido de cruzador militar a 17 de outubro, depois de
tropas do Exército e polícia serem deslocadas para repelir os rebeldes em Alagoinhas, ficando
Salvador policiada pelos trabalhadores da capital e interior recrutados para Gordilho23. Esse
contingente, sob as ordens do novo secretário de polícia, não inspirava confiança em Briggs e
— ato contínuo — os cônsules britânico e alemão dirigiram-se aos seus governos com o mes-
mo pedido24. É óbvio que, no seu cálculo, a capital estava militarmente mal amparada pelas
forças legalistas. Tendo penetrado o território baiano em duas colunas, a marcha tenentista
recebia coordenadas diretas de Aracaju, onde estava localizado o quartel-general comandado
por Juarez Távora. Blefando ou dizendo a verdade, mas mostrando o perigo percebido por Bri-
ggs acerca tanto da retirada das tropas regulares da capital quanto da falta de controle sobre
a classe baixa, Gordilho informou à Circular que descobrira plano de outro quebra-quebra,
alertando a firma para que não dispusesse de tropas regulares25.
Nessa altura, a guerra de movimento era substituída pela guerra de posição. A re-
volução espremia as forças legalistas sem afã de se engajar em combates, ao passo que a
Presidência se enfraquecia. Evidentemente, a tomada do poder se daria no Rio, onde estava o
Catete, e em São Paulo, de onde viera o presidente eleito. A Bahia, caso se convertesse mes-
mo em fortim da legalidade, podia, contudo, conter o avanço dos rebeldes no Norte e assediar
o território mineiro. Se a luta se alongasse, talvez fossem entregues no porto parte das armas
prometidas pelo secretário de Estado estadunidense ao governo brasileiro. As preocupações
do cônsul Briggs em Salvador eram outras. Ele estava desinformado desse apoio, soube dele
pelos jornais e caracterizou tais notícias como propaganda “antiamericana”. Conversadas nas
ruas, as novidades poderiam alimentar a impopularidade dos estrangeiros, alertou26. Ele, con-
tudo, notou o boato sobre cruzador estadunidense destinado à Bahia para impedir a chegada
dos rebeldes e o rebateu em seguida27. A atitude indica a persistência de sua preocupação
com a xenofobia.

Getúlio intervém na Bahia


Nos dias que marcaram a transição de regime em Salvador, as ruas foram ocupa-
das pela inflorescência, pública e à luz do dia, do apoio à revolução. No porto, viam-se
fundeadas embarcações das nações amigas: Estados Unidos, Alemanha e Grã-Bretanha.
Reservadamente, Hippeau atribuiu a essa ostentação a não ocorrência de ataques aos
estrangeiros nem às suas propriedades28. Improvisaram-se passeatas, comícios, desfiles e
outras manifestações indicativas da adesão aos rumos dos acontecimentos. Sob o fervor

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.579-599, Setembro-Dezembro 2020 593
Antonio Luigi Negro e Jonas Brito

do civismo, também circularam petições e panfletos reivindicatórios da encampação da


Circular e da Elétrica, com passageiros afirmando que o preço dos bondes era de 100 e não
200 réis. Muitos circularam sem pagar29. Como dito, se a Revolução de 30 tivesse ressoado
o clamor popular aceso no Quebra-Bondes, replicando a rebeldia demonstrada pelo povo
baiano, seu desfecho seria mais ebuliente e com efeitos bem diversos. Em algum ponto de
seus cálculos dissimulados, racializantes e classistas, repercutir a ação popular deve ter sido
julgado pernicioso, por assim dizer.
O problema dos serviços públicos indica como os interventores federais percebiam
o papel da revolução na Bahia. O aliancista e engenheiro Leopoldo Amaral anunciou ter
encarregado especialista de examinar os contratos de luz, água e transporte30. Ele decretou
a baixa dos aluguéis, o que inspirou a criação do Partido Popular João Pessoa, organizador
de comícios e passeatas com inquilinos exigindo respeito à lei. De sua parte, “tipos de bar-
raqueiras baianas que nunca saíram à praça pública, a não ser para acompanhar procissão e
para ir à Lapinha, ao Bonfim, ou para fazer Carnaval” participaram de uma passeata contra
a Portella Passos & Cia., sublocatária de barracas no Mercado Modelo (Diário de Notícias,
13/1/1931). O interventor renunciaria em meio ao antagonismo dos senhorios, que encami-
nhariam a Getúlio abaixo-assinado encabeçado pelas irmandades da Igreja, proprietárias de
inúmeros imóveis. Dado que Vargas tinha sido instalado no poder com os pareceres de nada
consta e nada a obstar das altas cúpulas militares e eclesiásticas, era hora de fazer política
palaciana. O chefe do governo provisório, que tinha tirado do armário a farda de militar, era
apto para entender cristalinamente o pleito das irmandades.
Para substituir Amaral, Távora e os tenentes preferiam um nome militar. Não foram
atendidos pelo presidente, que apontou o médico Artur Neiva em fevereiro de 1931. Oriun-
do de família tradicional, o nome foi bem recebido pela alta sociedade (Diário de Notícias,
5/2/1930). Deixando de lado o decreto supracitado, bem como a revisão dos contratos com
as concessionárias, Neiva acreditava ser tarefa do novo regime uma administração eficaz.
Com um governo favorável aos Estados Unidos e aos políticos perdedores31, concentrou-se em
reorganizar a lavoura e reequilibrar o orçamento32, realizando cortes de despesas, o que gerou
desemprego. Entre as insatisfações acumuladas contra sua gestão, estava a insensibilidade
em relação à situação da Circular e da Elétrica33. Neiva renunciaria numa situação semelhante
às ocorrências do dia 4, isto é, manifestações, comícios e passeatas nas ruas indicavam a
iminência de uma quartelada. Com Neiva ainda no cargo, essas manifestações apregoavam
nomes para a sucessão e contaram com o Partido Popular João Pessoa (Freitas, 2010: 111)
(A Tarde, 17/8/1931)34. No dia de sua queda, realizou-se manifestação pela permanência de
Pimenta da Cunha na Prefeitura (A Tarde, 17/8/1931), que desde a posse deixara claro seu

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Insurgentes incendeiam a cidade da Bahia. O Quebra Bondes e a Revolução de 30

desagrado com o contrato sobre serviços públicos com as concessionárias privadas (A Tarde,
24/2/1931).
No Recife, o cônsul Mackness percebia indícios de o mudancismo ser encarado como
oportunidade para trabalhadores fazerem reivindicações. Os 200 empregados da Pernambuco
Tramway & Power engajaram-se na luta armada, mas o estímulo das reivindicações esten-
dera-se aos trabalhadores em geral35. Na Bahia, algo equivalente pode ter ocorrido com o
quebra-quebra do dia 4, pois logo depois da formação do novo governo ocorreram ensaios
de greves, sobretudo nas companhias estrangeiras, isto é, na ferrovia Leste, nas docas e na
empresa Circular, com o jornal governista de manifesto apoio aos empregados dos bondes.
Briggs acusou o primeiro interventor, Leopoldo Amaral, de difundir boatos contra os Estados
Unidos para legitimar a revisão do contrato36.
Por ocasião da queda de Neiva, participaram ao cônsul que o interventor renunciara por
ter medo do “bicho-papão da horda negra”. Homens e mulheres famélicos, “apáticos” e “ig-
norantes” teriam perdido para o exílio os seus chefes, isto é, situação estadual deposta, ficando
assim disponíveis à manipulação, feita agora pelos adversários de Neiva. Eram ainda inclinados
a descontar seus problemas nos estrangeiros, principalmente na Circular e na Elétrica37. Trazido
a lume pela pesquisa de Sant’Ana (2010: 93), esse relato de Briggs revela seu olhar racializante,
bem como as ansiedades desencadeadas nele, pela revolução, mas também em seus informantes
(burgueses, funcionários de carreira) e — hipoteticamente — em Neiva. O pressuposto de o exílio
ter colocado uma malta de capadócios à disposição de um novo chefe encaixa-se harmonicamente
ao modo como Antônio Calmon exercia sua liderança política nas ruas de Salvador. Conforme Cala-
sans (1986: 37), Antoninho — como era chamado na “boca do povo” — tinha “cheiro de povo”.
Para os adversários era a “negrada de Antoninho Calmon”, com quem o chefe permanentemente
interagia por meio de uma microeconomia de pequenos favores. Na medida em que o dispositivo
militar não compareceu na hora marcada e a agitação acadêmica perdeu o controle sobre a mul-
tidão, o estilo de resistência adotado foi o da batalha de rua, que, óbvio, bem pode ter sido o da
capoeiragem, para botar para correr quem se opusesse ao seu caminho.
O apelo a racializantes termos descritores da realidade não acabou quando, enfim, Var-
gas encontrou em Juracy Magalhães o interventor de que necessitava para enquadrar a Bahia
no processo mudancista. Comentando a revolta paulista de 1932, o cunhado do ex-chanceler
Mangabeira criticaria o novo chefe político por despachar não só “desocupados, flagelados”,
mas também “jagunços” para combaterem os constitucionalistas na guerra civil, fazendo da
Bahia “África antiga”, donde o interventor retirava “escravos para a chacina”. Afora o paralelo
tênue que pode ser extraído desse trecho — a Bahia volta a fornecer contingentes de seres
humanos para servirem à resolução de uma questão em São Paulo (como havia sido com o

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.579-599, Setembro-Dezembro 2020 595
Antonio Luigi Negro e Jonas Brito

tráfico interprovincial) —, as correspondências de Mangabeira fazem alusão a Juracy como o


“feitor”38. Por sua vez, Juracy entraria em rota de colisão com o prefeito Pimenta da Cunha, en-
tão no auge de suas disputas com a Circular e a Elétrica, ladeado por choferes, proprietários de
pequenas empresas de ônibus e do “zé-povinho”39. Mais uma vez, o problema do transporte
público dá a chance para percebermos a presença popular em barganhas eleitorais.
Expomos a hipótese de que, no dia 4 de outubro de 1930, em Salvador, o protesto social
tenha escalado diante da ausência da polícia e da retração da hierarquia sociorracial. Seus alvos
concretamente traduziram a insatisfação contra as desigualdades sociais exacerbadas pela Crise
de 29 e contra o acesso à cidade e seus serviços públicos. O quebra-quebra conferiu à revolução
vitoriosa um significado específico, isto é, o clamor pela escuta das reclamações dos canteiros
de obras, bondes, elevadores, residências e bairros. Dos ascensores, a esperança poderia esten-
der-se às docas; dos bondes, às locomotivas ferroviárias. “Deus nos livre dessa gente, senhora
de nossa terra, por direito de assalto”, escreveu um padre a Mangabeira sobre os tenentes que
depuseram o “pobre Neiva”. “Andamos assustados e sem recurso de fuga, em plena estação
política da febre de mau caráter, agravada pela ‘peste russa’, que nos traz aterrorizados”40.

Notas
1 Sobre a eletricidade na Bahia, conferir Rebouças (2018).
2 PINHO, E. [Correspondência]. Destinatário: Otávio Mangabeira. Salvador, 21 maio 1932. 1
carta. Publicada em Sampaio (2012: 340).
3 Inquérito Policial de dano à Companhia Linha Circular, 6/10/1930. Arquivo Público do Es-
tado da Bahia (APEB). Briggs ao Department of State (DOS), 25/10/1930. National Archives
and Record Administration (NARA). Record Group (RG) 84; Hippeau ao Ministère des Affaires
Étrangères (MAE), 10/10/1930. Center des Archives Diplomatiques de Nantes (CADN). 57PO
- 1 - 8.
4 O trabalho da pesquisa arquivística se define, como aliás nos é ensinado, pelo fichamento
in loco, sendo registrado o jornal e sua data completa.
5 Sobre as empresas de serviços públicos na Bahia e sua relação com as autoridades, ver: Saes
(2010) e Cunha (2011).
6 Para uma panorâmica histórica sobre o crescimento urbano de Salvador, ver Sampaio (2005).
7 Os conspiradores do batalhão já haviam despertado a atenção de Pinho (Freitas, 2010: 55).
8 Briggs ao DOS, 25/10/1930. NARA. RG 84.
9 Briggs ao DOS, 25/10/1930. NARA. RG 84.
10 Briggs ao DOS, 25/10/1930. NARA. RG 84.

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Insurgentes incendeiam a cidade da Bahia. O Quebra Bondes e a Revolução de 30

11 Briggs ao DOS, 25/10/1930. NARA. RG 84.


12 Briggs ao DOS, 25/10/1930. NARA. RG 84.
13 Washington ao DOS, 10/10/1930. NARA. RG 84.
14 Briggs a Washington, 8/10/1930. NARA. RG 84.
15 Briggs ao DOS, 31/10/1930. NARA. RG 84.
16 Briggs a Washington, 25/10/1930. NARA. RG 84.
17 Mackness ao FO, 8/10/1930. FO 371-14200.
18 Briggs a Washington, 10/10/1930. NARA. RG 84.
19 Washington ao DOS, 9/10/1930. NARA. RG 84.
20 DOS a Washington, 9/10/1930. NARA. RG 84.
21 Hippeau ao MAE, 10/10/1930. CADN. 57PO-1-8.
22 Bell ao FO, 13/10/1930. TNA. FO 371-14202.
23 Briggs a Washington, 17/10/1930. NARA. RG 84.
24 Bell ao FO, 18/10/1930. TNA. FO 371-14201.
25 Briggs ao DOS, 25/10/1930. NARA. RG 84.
26 Briggs a Washington, 18/10/1930. NARA. RG 84.
27 Briggs ao DOS, 25/10/1930. NARA. RG 84.
28 Hippeau ao MAE, 4/11/1930. CADN. 57PO - 1 - 8.
29 Briggs ao DOS, 31/10/1930. NARA. RG 84.
30 Briggs ao DOS, 12/12/1930. NARA. RG 84.
31 Briggs ao FO, 25/8/1930. NARA. RG 84.
32 Neiva a Lima, 11/3/1931. CPDOC. Arquivo Hermes Lima. HL 31.03.11 c.
33 Figueiredo a Távora, 11/9/1931. CPDOC. Arquivo Juarez Távora. JT pdf 1930.12.08.
34 Santos a Távora, 24/8/1930. CPDOC. Arquivo Juarez Távora. JT pdf 1930.12.08.
35 Mackness ao FO, 8/10/1930. TNA. FO 371-14200.
36 Briggs ao FO, 20/12/1930. NARA. RG 84.
37 Briggs ao DOS, 22/8/1931. NARA. RG 84.
38 Pinho a Ester e Mangabeira, 17 e 23/9/1932. Publicadas em Sampaio (2012: 391-394).
39 Pinho a Mangabeira e Ester, 21/5/1932. Publicada em Sampaio (2012: 340).
40 Tapiranga a Mangabeira, 9/10/1931. Publicado em Sampaio (2012: 228).

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.579-599, Setembro-Dezembro 2020 597
Antonio Luigi Negro e Jonas Brito

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Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.579-599, Setembro-Dezembro 2020 599
A R T I G O

O Código Eleitoral de 1932 e as eleições


da Era Vargas: um passo na direção da
democracia?*

The 1932 Electoral Code and the Vargas Era’s elections: a step toward
democracy?

El Código Electoral de 1932 y las elecciones de la Era Vargas: ¿un paso


hacia la democracia?

Jaqueline Porto ZuliniI**


Paolo RicciII***

http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942020000300009

*Agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) o financiamento parcial desta pesquisa
(Processo n. 2017/19828-0 e Processo n. 18/23060-2).

Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, Fundação Getulio Vargas – Rio de Janeiro (RJ),
I

Brasil.
**Professora de Ciência Política (jaqueline.zulini@fgv.br)
https://orcid.org/0000-0001-6153-7328

II
Departamento de Ciência Política, Universidade de São Paulo – São Paulo (SP), Brasil.
***Professor do Departamento de Ciência Política, Universidade de São Paulo (paolo.ricci.usp@gmail.com)
https://orcid.org/0000-0003-2920-4536
Artigo recebido em 20 de abril de 2020 e aprovado para publicação em 7 de julho de 2020.

600 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.600-623, Setembro-Dezembro 2020
O Código Eleitoral de 1932 e as eleições da Era Vargas: um passo na direção da democracia?

Resumo
Como interpretar o Código Eleitoral de 1932? Ele introduziu medidas consideradas fundamentais para am-
pliar a participação política e viabilizar a eleição das oposições, adotando voto secreto, representação propor-
cional, voto feminino, voto obrigatório e Justiça Eleitoral. A literatura costuma apontar o Código como um
progresso das instituições brasileiras rumo à democracia. Esse artigo propõe uma interpretação alternativa.
Analisando o contexto da concepção dessas regras e o impacto delas nas eleições de 1933 e 1934, argumen-
tamos que o Código Eleitoral de 1932 atendeu aos interesses do governo autoritário que buscava legitimar
a Revolução de 1930 nas urnas.
Palavras-chave: Código Eleitoral de 1932; Era Vargas; eleições; autoritarismo eleitoral; competição
política

Abstract
How to interpret the Brazilian Electoral Code of 1932? It introduced measures considered fundamental to
expand political participation and adopted the secret vote, proportional representation, women’s suffrage,
mandatory voting, besides creating an Electoral Court. The literature usually points to the Code as a progress
made by Brazilian institutions toward democracy. This article proposes an alternative interpretation. Analyzing
the context behind the design of these rules and their impact on the 1933 and 1934 elections, we argue that
the 1932 Electoral Code served the interests of the authoritarian government that sought to legitimize the
1930 Revolution at the box office.
Keywords: 1932 Brazilian Electoral Code; Vargas Era; elections; electoral authoritarianism; political
competition

Resumen
¿Cómo interpretar el Código Electoral de 1932? Este código introdujo medidas consideradas fundamentales
para expandir la participación política y permitir la elección de oposiciones, adoptando el voto secreto, la
representación proporcional, el voto femenino, el voto obligatorio y la Justicia Electoral. La literatura gener-
almente apunta al Código como un progreso realizado por las instituciones brasileñas hacia la democracia.
Este artículo propone una interpretación alternativa. Analizando el contexto del diseño de estas reglas y su
impacto en las elecciones de 1933 y 1934, argumentamos que el Código Electoral de 1932 sirvió a los inter-
eses del gobierno autoritario que buscó legitimar la Revolución de 1930 en las urnas.
Palabras clave: Código Electoral de 1932; Era Vargas; elecciones; autoritarismo electoral; competen-
cia política.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.600-623, Setembro-Dezembro 2020 601
Jaqueline Porto Zulini, Paolo Ricci

INTRODUÇÃO

E m 24 de fevereiro de 1932, o Governo Provisório instaurado após a Revolução de 1930


e chefiado por Vargas decretou um Código Eleitoral para regular as eleições de 1933. Na
época, o Código foi aclamado pelo então Ministro da Justiça, Mauricio Cardoso, como “carta
de alforria do povo brasileiro” (Correio da Manhã, 1932: 4). A imprensa também o festejou
porque viu nele a possibilidade da “reintegração do país no regime legal” (A Noite, 1932: 1),
associando-o a um projeto nacional “rumo à constitucionalização” (A Federação, 1932: 3).
O conteúdo das medidas incorporadas pelo Código representa um marco na história das insti-
tuições eleitorais brasileiras: adotaram-se o voto secreto, a representação proporcional, o voto
feminino e o voto obrigatório, além de se terem criado a Justiça Eleitoral e a representação
das classes profissionais.
Como interpretar a organização de um Código Eleitoral desse porte? Eis a questão
central deste artigo. A tendência tem sido avaliá-lo tanto pela percepção mais genérica de
que as novas regras eleitorais representavam um “progresso” em relação à Primeira República
(Kinzo, 1980; Leal, 1997; Nicolau, 2012; Sadek, 2010) quanto pelo entendimento de se con-
figurar um progresso rumo à democracia (Lamounier, 2005; Schwarcz e Starling, 2015). Não
se trata de negar os avanços formais desenhados pela reforma, mas de contextualizá-los. Tais
interpretações podem até ser válidas para dar fundamento teórico à ideia de que houve uma
mudança no governo representativo, mas não é possível desconsiderar o que concretamente
estava em jogo na época. Estudos conduzidos sobre governos autoritários mostram que a
decisão de reescrever as regras eleitorais não coincide necessariamente com o interesse real
dos governantes em tornar o regime mais aberto e participativo (Gandhi, 2009). Convém
considerar a possibilidade de se interpretar o Código Eleitoral de 1932 à luz da imprescin-
dível legitimação visada pelo Governo Provisório para se firmar como regime distinto do seu
predecessor. Nesse propósito, exploramos duas razões para a adoção do Código Eleitoral,
desconectadas de intenções democráticas. A primeira refere-se à derrota do grupo de revolu-
cionários interessado em manter um governo autoritário sem eleições e à vitória dos que idea-
lizaram a legitimação do novo regime defendendo o governo representativo. A segunda diz
respeito à manutenção de uma competição política que continua apelando à fraude eleitoral.
Dados introduzidos na segunda seção revelam como o Governo Provisório estimulou a ação
direta dos interventores na organização de partidos estaduais, buscando melhor desempenho
eleitoral dos revolucionários. A terceira seção reporta evidências para as eleições de 1933 do
recurso aos instrumentos de controle do eleitor e dos agentes envolvidos no processo eleitoral,
repetindo a falta de imparcialidade tão criticada na Primeira República. Diante de tudo isso,

602 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.600-623, Setembro-Dezembro 2020
O Código Eleitoral de 1932 e as eleições da Era Vargas: um passo na direção da democracia?

o artigo conclui que o regime inaugurado pela Revolução de 1930 pode ser enquadrado na
categoria dos autoritarismos eleitorais (Gandhi, 2009). A expressão é facilmente explicável:
de um lado existiam novas regras eleitorais conferindo legitimidade aos novos governantes e,
de outro, a interferência maciça do governismo sobre o processo eleitoral.

Legitimando o novo regime por meio de eleições

H á pelo menos duas décadas a historiografia fez uma autocrítica quanto ao endosso me-
cânico do discurso dos ideólogos autoritários do Estado Novo. Reconheceu-se que o
empenho dos revolucionários em positivar a imagem do “novo” Estado às custas da descons-
trução da experiência política anterior, partindo da criação da emblemática alcunha de República
“velha” em meados de 1931, contaminou a forma como a literatura clássica retratou a Primeira
República (Gomes e Abreu, 2009). A conscientização dos historiadores sobre o peso da ideologia
embutida nos escritos dos revolucionários que serviram como fontes para intérpretes posteriores
seguirem reproduzindo diagnósticos pessimistas do passado republicano refletiu a influência da
chamada Nova História. Aquela máxima de Jacques Le Goff (1990), segundo a qual todo “docu-
mento é monumento” no sentido de resultar do esforço de se impor ao futuro uma pretensa ima-
gem do passado, inspirou a relativização de alguns estereótipos da Primeira República1. Ainda é
incipiente uma discussão historiográfica análoga no caso dos anos 1930–1937, cuja cobertura
continua amplamente respaldada pelo discurso político da época e o conhecido mantra da ne-
cessidade de moralização eleitoral entoado pelos revolucionários como justificativa para o golpe
de 1930 e seus desdobramentos. Contudo, o Código Eleitoral materializou, antes, a derrota de
uma visão diferente, que preferia manter um governo autoritário sem eleições.
No imediato pós-revolução, várias correntes disputavam um projeto de Estado para o
Brasil. Para simplificar o contexto, podemos qualificá-lo em termos dicotômicos. De um lado
estavam os tenentes, unidos pela defesa da centralização das funções administrativas e da
permanência da ditatura “como meio de sanear costumes e de redefinir os ideais da nação”
(Gomes, 1980: 28)2. De outro, encontravam-se as elites políticas estaduais, em sua maioria
velhas oligarquias republicanas, que lutavam para manter a estrutura federativa e o governo
representativo. A aprovação do Código Eleitoral de 1932 não deve ser lida como uma vitória
da segunda corrente sobre a primeira. Tratou-se da decisão tomada pelo Governo Provisório
de constitucionalizar o regime visando à legitimação popular. Na prática, faz mais sentido
considerar o Código como a “grande obra” do Poder Discricionário exercido provisoriamente
por Vargas (Lopes, 2019).

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.600-623, Setembro-Dezembro 2020 603
Jaqueline Porto Zulini, Paolo Ricci

Governantes autoritários podem reformar as instituições buscando legitimar-se peran-


te o povo (Morgenbesser, 2014; Schedler, 2006), mas sem por isso aceitar um jogo democrá-
tico. A decisão de introduzir novas regras levaria em conta as consequências de não fazê-lo
(Gandhi, 2009). No caso do Governo Provisório, defender uma mudança nas regras eleitorais
condizia com a missão emblemática de renovação das instituições representativas diretamen-
te encampada desde a campanha da Aliança Liberal e apropriada pelo discurso revolucionário
para justificar o golpe de 1930. Desertar do compromisso de moralizar as eleições não signi-
ficava apenas perder credibilidade popular, mas também se indispor com parte das elites que
apoiaram a Revolução como uma fase transitória para preparar a restauração liberal.
A vitória da corrente interessada em legitimar o regime pela via eleitoral foi gradual e
ocorreu por etapas. O ano de 1929 marcou a primeira delas, associada à campanha presiden-
cial. Durante o lançamento da candidatura, Vargas anunciou que seu programa de governo
visaria:
• testar “por experiência a obrigatoriedade do voto”;
• dar garantia efetiva ao voto secreto;
• incorporar o “sistema da representação proporcional, adotada, hoje em dia, pelas
legislações mais avançadas do mundo” (Jornal do Comércio, 1929: 4).

Na prática, tópicos que retomavam propostas erguidas havia anos, frequentemente


chamadas em causa para legitimar a mudança no padrão eleitoral.
O voto obrigatório emergia como solução para a alta abstenção que caracterizava
as eleições na Primeira República. Em suas páginas costumeiramente críticas ao modo de se
votar, O Malho clamava em 1924: “Todo cidadão que se preze deve alistar-se eleitor! Ao voto
obrigatório! Avante!”. Também o voto secreto era quase um senso comum, considerado o
passe para um possível mundo onde o eleitor votaria livre de pressões (Schlegel e Nóbrega,
2019). Quando a Aliança Liberal encampou o voto secreto, retomou a defesa pela cabine de
votação: um ambiente fechado onde o eleitor poderia, em segredo, colocar em um envelope
a cédula do partido de sua preferência3. A fórmula eleitoral frequentemente ocupava os noti-
ciários dos jornais. Para as eleições legislativas, comentaristas e políticos da época bradavam
a adoção da representação proporcional, retomando os argumentos de Joaquim Francisco de
Assis Brasil, o célebre autor de Democracia representativa (1893), em defesa da representação
das minorias. Por fim, existiam associações organizadas desde o Império que se mobilizavam
em prol do voto feminino (Pinto, 2003).
A segunda etapa que definiu o processo de apropriação das ideias reformistas reivin-
dicadas desde a Primeira República foi justamente a criação de uma comissão encarregada

604 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.600-623, Setembro-Dezembro 2020
O Código Eleitoral de 1932 e as eleições da Era Vargas: um passo na direção da democracia?

de redigir as novas regras eleitorais. O Decreto nº 19.684/1931 nomeou para essa comissão
o próprio Assis Brasil, João Chrysostomo da Rocha Cabral e Mário Pinto Serva — todos es-
pecialistas em matéria eleitoral. Cabral havia publicado Systemas eleitoraes do ponto de vista
da representação proporcional das minorias em 1929, e Serva habitualmente assinava artigos
no Diário Nacional em prol das reformas e ainda lançara O voto secreto ou a organização de
Partidos Nacionais em 1927. Considerando-se os precedentes, a composição da comissão
sinalizava claramente para uma posição reformista.
Observa-se no andamento da reforma eleitoral que daria vida ao Código de 1932 a
terceira etapa do processo que culminou na vitória do projeto reformista. A princípio, os traba-
lhos da comissão estenderam-se. O Código Eleitoral foi outorgado a 24 de fevereiro de 1932,
após mais de um ano de instalação da comissão. Nesse período de elaboração das novas
normas eleitorais, a maioria dos jornais da época apoiava a necessidade das reformas. Aliás,
uma das críticas principais direcionada à comissão era da demora da edição de uma lei que
permitisse a reconstitucionalização do país. A comissão Assis-Cabral-Pinto apresentou um
anteprojeto em agosto de 1931, inspirado na lei eleitoral do Uruguai (a Lei de Registro Cívico
Nacional, de 1924). A imprensa fez questão de enfatizar o ponto: “Dos duzentos e vinte e
dois artigos da lei uruguaia mais de cento e oitenta foram traduzidos para o anteprojeto bra-
sileiro” (Correio da Manhã, 1931b: 4). O texto foi duramente criticado por sua complexidade
e considerado de difícil execução, ficando engavetado até dezembro daquele ano, quando
um defensor da reconstitucionalização do país assumiu o Ministério da Justiça no lugar de
Oswaldo Aranha. Trata-se de Mauricio Cardoso que, dois dias após a posse, indicou mais sete
jurisconsultos para integrarem a comissão de reforma eleitoral (Correio da Manhã, 1931a: 1).
Dali em diante, sem a presença de Assis Brasil, procedeu-se a uma revisão célere e substantiva
daquele anteprojeto de reforma eleitoral apresentado em 1931. Cerca de dois meses depois, a
comissão finalizou seu trabalho e Vargas pôde outorgar o Código Eleitoral. Vale frisar: isso se
deu a 24 de fevereiro de 1932, antes de São Paulo deflagrar a Revolução Constitucionalista. A
outorga do Código atestava a derrota de quem pregava contra a convocação de eleições para
a Constituinte. Nomeadamente, uma derrota para os tenentistas que continuavam engajados
pela manutenção da ditadura.

Organizando a eleição:
criando partidos e mobilizando eleitores

E leições são um risco também em regimes autoritários, que precisam elaborar estratégias para
suplantar uma possível incerteza dos resultados e condicionar a própria permanência no poder.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.600-623, Setembro-Dezembro 2020 605
Jaqueline Porto Zulini, Paolo Ricci

Nesta seção tratamos da primeira estratégia adotada pelo Governo Provisório para enfrentar as dis-
putas à Constituinte de 1933 e, sucessivamente, às Assembleias Legislativas estaduais de 1934, a
saber: a organização de novos partidos criados pelos interventores (Gomes, 1980; Pandolfi, 1980).
O Governo Provisório esperava que os interventores encabeçassem o processo de organização
partidária (Pandolfi, 1980: 380), alistando o maior número de eleitores e assegurando o maior
comparecimento possível no dia da eleição para viabilizar a vitória dos revolucionários nas urnas.
No caso das eleições constituintes, o processo de organização dos partidos políticos
foi abrupto. A menos de três meses da outorga do Código Eleitoral, foi fixada a data das
eleições que definiriam os 214 deputados constituintes para 3 maio de 19334. Entretanto, os
preparativos para as eleições atrasaram por causa do levante da Revolução Constitucionalista.
A maioria dos partidos surgiu depois do fim desse conflito, constituindo-se a poucos meses de
maio de 1933. O comprometimento dos interventores com as demandas do Governo Provisó-
rio em relação ao estabelecimento dos núcleos partidários de defesa da Revolução nos esta-
dos variou bastante, embora na maioria dos casos se tenha formado um partido aglutinando
os revolucionários de 1930. Parte dos interventores desempenhou papel mais proativo no
processo de criação dos partidos. Os jornais cobriam diariamente esse processo. Em janeiro, o
Diário de Notícias anunciava que se estavam formando novos partidos “sob o olhar vigilante
dos interventores e nos moldes dos ‘partidos situacionistas’” (Diário de Notícias, 1933a: 2).
Outros interventores preferiram manter certa distância e uma minoria não conseguiu centrali-
zar a iniciativa, perdendo completamente o controle dos rumos das facções políticas sob seu
território. Alguns exemplos ilustram bem as diferentes reações.
Primeiramente, vale retomar a postura de dois interventores que decidiram ter prota-
gonismo na organização partidária. Juraci Magalhães, interventor da Bahia (1931–1935), foi
um deles. Cearense e militar, Magalhães assumiu um estado de poucos adeptos da revolução
e sofreu a oposição do Partido Republicano da Bahia, que vocalizava a demanda local por
um interventor baiano e civil. Para dar conta da responsabilidade de alavancar um partido a
tempo das eleições constituintes, o interventor apelou para uma composição com as antigas
oligarquias do interior do estado. Em fins de janeiro de 1933, acercou-se do apoio de repre-
sentantes políticos de vinte municípios do vale do rio São Francisco, que assinaram o chamado
“pacto sertanejo” em Juazeiro, para sinalizar o desejo de “esquecer completamente todas as
velhas dissensões partidárias ou pessoais, acatando a vontade do tenente Juraci Magalhães”
(Diário da Noite, 1933: 12). Por trás dessa coligação, semeava-se o Partido Social Demo-
crático da Bahia, fundado pouco tempo depois sob a égide do interventor, considerado seu
capitão. Tanta confiança na lealdade dos seus correligionários levou Magalhães até a rechaçar
o adiamento das eleições constituintes, cogitado justamente por conta da pausa que a Revo-

606 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.600-623, Setembro-Dezembro 2020
O Código Eleitoral de 1932 e as eleições da Era Vargas: um passo na direção da democracia?

lução Constitucionalista significou para os preparativos eleitorais. Questionado, o interventor


foi taxativo: “Não demos aos adversários um pretexto de que eles tanto carecem. As eleições
vão realizar-se a 3 de Maio. A vitória da Revolução vai ser esmagadora. A opinião nacional
está inteiramente ao nosso lado: entre o presente e o passado, escolhe o presente” (Jornal
do Comércio, 1933: 4).
O outro caso diz respeito à experiência do interventor de Pernambuco, Carlos de Ca-
valcanti Lima (1930–1934). Proprietário do Diário da Manhã publicado no estado, Cavalcanti
Lima engajou-se no propósito de assumir a vanguarda da organização partidária em Pernam-
buco e fez do jornal uma espécie de diário oficial da interventoria, também para arregimentar
eleitores ao partido que organizara, o Partido Social Democrático de Pernambuco. Desde 18
de janeiro de 1933, o seguinte cabeçalho passou a compor sucessivas edições do jornal:
CIDADÃOS! A defesa de vossos direitos políticos, a resistência em prol dos legítimos interesses
da sociedade brasileira, estão em vosso comparecimento às eleições de 3 de Maio próximo. Se
a Revolução iniciada em 1930 vos assegurou livre determinação política, abrindo novos hori-
zontes aos destinos nacionais, a Evolução, que não pára, vos garantirá a continuidade dessa
conquista. Alistai-vos eleitores do Partido Social Democrático de Pernambuco, cumprindo assim
vosso dever e sustentando os ideais revolucionários triunfantes. (Sede do Partido: Avenida Rio
Branco, 126, 1o andar) (Diário da Manhã, 1933: 3, grifos do original).

Assim como Juraci Magalhães, Cavalcanti Lima também afastou a possibilidade de


adiamento das eleições constituintes, enfatizando a importância de se cumprir com o “com-
promisso formal e solene que manda realizar as eleições constituintes em maio próximo (Diá-
rio da Manhã, 1933: 3)5.
Da parte daqueles interventores que buscaram manter atitude mais neutra e distante
do processo de organização partidária, observa-se nítida discordância ideológica quanto aos
propósitos da Revolução. A posição que ocupavam deveria ser transitória e descomprometi-
da com qualquer militância partidária, exatamente para assegurar a ocorrência de eleições
constituintes sob um ambiente livre de fraudes e coação governamental, tão criticadas pelos
revolucionários como ponto alto da desmoralização do passado eleitoral republicano. Mais
dois casos ajudam a entender o ponto. Um deles refere-se ao comportamento de Carneiro de
Mendonça, interventor do Ceará (1931–1934). Até o jornal criado pelo Governo Provisório
para vocalizar os objetivos da Revolução admitiu que, mesmo com a fundação de um partido
apoiador do seu governo por iniciativa dos elementos liberais e revolucionários do estado, en-
tre eles a corrente liderada pelo ex-interventor Fernandes Távora, Carneiro de Mendonça man-
teve “intransigentemente o seu propósito de se alhear da política”, esquivando-se “de qual-
quer influência nesse movimento de nucleação de forças políticas” (O Radical, 1933a: 12).

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.600-623, Setembro-Dezembro 2020 607
Jaqueline Porto Zulini, Paolo Ricci

Tudo não passaria de um conflito entre a orientação oficial para os interventores promoverem
a formação de partidos nos estados e as convicções pessoais de Carneiro de Mendonça:
Essa atitude [de Carneiro de Mendonça] não implica de nenhum modo discordância com os
elementos revolucionários que tiveram a iniciativa dessa arregimentação partidária. Correspon-
de, sim, a um ponto de vista pessoal [...], o sr. Carneiro de Mendonça julga do seu dever, por
força da própria coerência das suas atitudes, conservar-se, até o termo natural da sua missão
transitória, à frente dos destinos do Estado, estranho a qualquer formação partidária (O Radi-
cal, 1933a: 12).

Retrata-se na mesma situação Maynard Gomes, interventor de Sergipe (1930–1935).


Fiel aos seus princípios, ele teria preferido “colocar o governo acima e alheio às competições
partidárias” (Jornal do Brasil, 1933: 8). Ainda assim, tanto em Sergipe como no Ceará um
partido estadual acabou aglutinando os revolucionários de 1930 e apoiando o interventor em
exercício, funcionando, na prática, como o partido do interventor.
Por fim, apenas dois estados se encontram naquela situação mais rara na qual os
interventores não conseguiram centralizar a organização de partidos “oficiais”, isto é, orga-
nizados para funcionar como paladinos da Revolução nos estados. Trata-se do Maranhão e
do Rio de Janeiro. O controle da política maranhense se revelou problemático para o Gover-
no Provisório desde a Revolução. Indicativo disso era o fato de Vargas ter nomeado outros
três interventores antes de chegar a Seroa da Mota (1931–1933), que administrou o estado
durante os preparativos para a Constituinte. Seroa da Mota teve de lidar com o facciosismo
e acabou incapaz de assumir as rédeas de um partido oficial no Maranhão, desafiado pelo
ex-interventor Reis Perdigão (1930–1931), que chamou para si a responsabilidade de criar
o Partido Revolucionário Maranhense (O Imparcial, 1931: 1). No Rio de Janeiro, o inter-
ventor Ari Parreiras (1931–1935) também não conseguiu liderar a formação de um partido
que unificasse os revolucionários no estado. Parreiras foi um dos muitos líderes tenentistas
que compareceram à solenidade de fundação da União Cívica Nacional (UCN), a coligação
integrada pelas correntes revolucionárias com o propósito de fomentar a instauração de um
partido nacional (Correio da Manhã, 1933a: 3). Fazia cerca de três meses que o interventor
buscava promover uma política de acomodação dos revolucionários de diversas matizes do
estado em torno de um eixo comum, chegando a convocar quarenta deles para uma reunião
destinada a eleger “uma comissão de cinco membros com a incumbência de organizar uma
facção política, da qual o interventor fluminense, como administrador, seria o mandatário”
(Diário de Notícias, 1933b: 3). Nasceu, assim, o Partido Socialista Brasileiro que, no en-
tanto, escanteou a interventoria a ponto de Parreiras não apadrinhar nenhum dos partidos
fundados no estado.

608 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.600-623, Setembro-Dezembro 2020
O Código Eleitoral de 1932 e as eleições da Era Vargas: um passo na direção da democracia?

Cabe analisar alguns dados para se poder dimensionar o quanto o Governo Provisório
foi bem-sucedido na estratégia de contar com os partidos criados pelos interventores para
concorrer às eleições constituintes de 1933 e, posteriormente, às eleições de 14 de outubro de
1934, realizadas sob as mesmas regras eleitorais para selecionar os novos deputados federais
e os componentes das assembleias constituintes estaduais. A Tabela 1 identifica o nome dos
partidos dos interventores e seu respectivo desempenho eleitoral em termos do percentual de
cadeiras conquistadas nas eleições de 1933 e 1934. Considerou-se como partido do interven-
tor aquele partido organizado diretamente pelo interventor estadual em exercício (a exemplo

Tabela 1 – Desempenho eleitoral dos partidos dos interventores nas eleições de 1933 e 1934

Eleições de 3/5/1933
Estado
Partido do interventor Cadeiras conquistadas (%)
AC Legião Autonomista Acreana 0
AL Partido Nacional de Alagoas 100
AM União Cívica Amazonense 75
BA Partido Social Democrático da Bahia 90,9
CE Partido Social Democrático do Ceará 40
DF Partido Autonomista do Distrito Federal 60
ES Partido Social Democrático do Espírito Santo 75
GO Partido Social Republicano de Goiás 100
MA - -
MG Partido Progressista 83,8
MT Partido Liberal Mato-Grossense 75
PA Partido Liberal do Pará 100
PB Partido Progressista da Paraíba 100
PE Partido Social Democrático de Pernambuco 88,2
PI Partido Nacional Socialista 75
PR Partido Social Democrático do Paraná 75
RJ - -
RN Partido Social Nacionalista 25
RS Partido Republicano Liberal 81,3
SC Partido Liberal Catarinense 75
SE Partido de Republicano de Sergipe 75
SP Partido da Lavoura 9,1
Continua...

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.600-623, Setembro-Dezembro 2020 609
Jaqueline Porto Zulini, Paolo Ricci

Tabela 1 – Continuação
Eleições de 14/10/1934

Estado Cadeiras Cadeiras


Partido do interventor conquistadas conquistadas nas
na CD (%) Assembleias (%)
AC Legião Autonomista Acreana 0 Não aplica*
AL Partido Republicano de Alagoas 75 80
AM Partido Popular do Amazonas 100 80
BA Partido Social Democrático da Bahia 70,8 69
CE Partido Social Democrático do Ceará 36,4 40
DF Partido Autonomista do Distrito Federal 80 83,3
ES Partido Social Democrático do Espírito Santo 75 64
GO Partido Social Republicano de Goiás 75 66.7
MA Partido Social Democrático do Maranhão 28,6 43,3
MG Partido Progressista 71,1 70,8
MT Partido Liberal Mato-Grossense 25 45,8
PA Partido Liberal do Pará 77,8 70
PB Partido Progressista da Paraíba 100 90
PE Partido Social Democrático de Pernambuco 78,9 66,7
PI Partido Nacional Socialista 80 70,8
PR Partido Social Democrático do Paraná 66,7 66,7
RJ - - -
RN Aliança Social 40 84
RS Partido Republicano Liberal 70 65,6
SC Partido Liberal Catarinense 66,7 54,8
SE Partido Republicano de Sergipe 25 46,7
SP Partido Constitucionalista 64,7 60
*O Território do Acre elegeu deputados à Assembleia Nacional Constituinte e deputados federais em 1934, mas não
tinha uma assembleia estadual em 1934; CD: Câmara dos Deputados.
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (1933; 1934).

dos casos baiano e pernambucano supracitados), ou que aglutinava revolucionários apoiado-


res da interventoria (situações como as do Ceará e de Sergipe).
Os dados revelam dois resultados importantes para qualificar o desempenho eleitoral
dos revolucionários nas urnas. Em primeiro lugar, destaca-se um padrão de continuidade do
partido do interventor em 1934, sob a mesma nomenclatura criada em 1933, observada em
16 das 22 interventorias. Isso significa que a maioria dos interventores fez jus às expectativas

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O Código Eleitoral de 1932 e as eleições da Era Vargas: um passo na direção da democracia?

do Governo Provisório e logrou a construção de agrupamentos políticos estáveis, até mesmo


em uma conjuntura adversa, considerando-se a alta rotatividade dos interventores na época
(Pandolfi, 1980). Em segundo lugar, os dados mostram a variação no desempenho eleitoral
dos partidos dos interventores. Tanto em 1933 quanto em 1934, a maioria desses partidos
cumpriu o esperado e fez mais da metade das cadeiras que disputou. De fato, raras vezes
os partidos dos interventores perderam as eleições. Foi o caso do Acre (em 1933 e 1934),
do Ceará (1933 e 1934), do Maranhão (1934), do Mato Grosso (1934), do Rio Grande do
Norte (1933 e 1934), de São Paulo (1933) e de Sergipe (1934). O insucesso nesses casos
deve ser mais bem entendido. Para além dos casos citados em que o interventor se esquiva
da disputa partidária, é fundamental explorar a força das oposições. Talvez o caso mais claro
seja o do Ceará, em que a Liga Eleitoral Católica (LEC), vinculada à Igreja Católica, vence as
duas eleições nacionais6. Entretanto, há uma inovação notável perante o padrão da Primeira
República: as oposições conseguem eleger alguns representantes. Assim, não se reproduz
aquela exclusão das oposições típica do esquema das “bancadas unânimes” arquitetado pela
política dos governadores e tão condenado pelos próceres da representação proporcional (Ric-
ci e Zulini, 2014)7.
A pergunta imediata que se coloca diante dessas vitórias parciais dos partidos dos
interventores é o que estaria por trás delas. Considerando-se que a literatura normalmente
aponta o caráter mais livre das eleições na Era Vargas em comparação com a Primeira Repú-
blica, uma hipótese a se aventar interpretaria as vitórias dos partidos dos interventores como
produtos de processos eleitorais com maior participação eleitoral e menor compressão gover-
namental. Afinal, o Código Eleitoral de 1932 criou incentivos institucionais para concretizar
ambas as características, na medida em que estabeleceu o alistamento obrigatório na expec-
tativa de diminuir a abstenção, e adotou também o voto secreto junto com a Justiça Eleitoral,
visando suplantar os tradicionais mecanismos de pressão sobre o eleitorado. Avaliemos, por
enquanto, o contexto da participação eleitoral, deixando para a terceira seção a questão das
condições do exercício do voto.
Quando o Código introduziu o alistamento obrigatório, estabeleceu para ele duas
possibilidades diferentes e criou exigências sem precedentes no Brasil. Quanto às possibili-
dades, ficou definido que o alistamento poderia ser realizado ex officio ou por iniciativa do
cidadão. No primeiro caso, os chefes das repartições de determinadas categorias profissionais
(magistrados, professores, comerciantes, reservistas do exército, liberais com diploma científi-
co) eram obrigados a fornecer para o juiz eleitoral a lista dos cidadãos qualificáveis ex officio
informando a profissão, a nacionalidade brasileira, a idade e o endereço de residência desses
cidadãos. Tratava-se de um tipo de alistamento mais centralizado, pois se dava em grupo,

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Jaqueline Porto Zulini, Paolo Ricci

mantendo-se o controle sobre determinadas categorias profissionais. Os chefes de repartições


funcionavam como um atalho, pois as suas declarações quanto às características dos funcio-
nários tinham autoridade legal. No segundo caso, o alistamento era individual e cada cidadão
interessado em se tornar eleitor precisava requisitar a sua qualificação eleitoral. Isso significa
que o cidadão precisava provar a maioridade, a nacionalidade brasileira, estar quite com o
serviço militar e ainda reconhecer a sua firma. Para finalizar o processo de alistamento, todos
os cidadãos qualificados ex officio ou por conta própria deveriam comparecer ao cartório elei-
toral e entregar pessoalmente três fotografias. Na época, itens de luxo e que até então não
faziam parte das exigências para o alistamento no Brasil.
Durante a elaboração do futuro Código Eleitoral, os jornais apontavam justamente o
custo criado pelas novas medidas de alistamento e temiam que elas atrasassem a restauração
liberal. O Jornal do Brasil, por exemplo, condenou veementemente o formato do alistamento:
“o que pode haver de mais caro e complexo, em matéria de organização eleitoral” (Jornal do
Brasil, 1931: 5). Até entre os autores do anteprojeto do Código Eleitoral não havia consenso
quanto ao modo de se fazer o alistamento. Mário Pinto Serva se afastou dos trabalhos da co-
missão por discordar da opinião de Assis Brasil e João Cabral nesse ponto e chegou a afirmar
em entrevista que o alistamento proposto pelos seus pares era “inviável [...], impondo uma
despesa de mais de cem mil contos por ano” (Jornal do Brasil, 1931: 5).
Será que as novas regras de alistamento mudaram algo em comparação ao passado
na Primeira República? Para responder à pergunta, exploramos alguns dados sobre a natu-
reza do eleitorado, que permitem comparar as eleições de 1933 e 1934 com a última e mais
renhida eleição da Primeira República, ocorrida em 1930. A Tabela 2 apresenta as taxas de
crescimento do eleitorado alistado para as eleições de 1933 e 1934 em relação ao eleitora-
do alistado em 1930. Taxas acompanhadas de sinal negativo significam que o tamanho do
eleitorado alistado diminuiu. Além disso, a tabela reporta a diferença do comparecimento
eleitoral em pontos percentuais de 1933 e 1934, sempre com referência a 1930. Diferenças de
comparecimento eleitoral com sinal negativo indicam diminuição do comparecimento eleitoral
em pontos percentuais.
Os dados retratam dois cenários relevantes. Em primeiro lugar, observa-se que o elei-
torado diminuiu entre a Primeira República e a Era Vargas. Nas eleições constituintes de
1933 houve recrudescimento de quase 50% do eleitorado em relação a 1930. A princípio,
uma situação contraintuitiva, considerando-se que o Código Eleitoral de 1932 adotou o alis-
tamento obrigatório e o voto feminino (por si só, uma inovação com capacidade de dobrar
o eleitorado). Contudo, o encolhimento do eleitorado em 1933 teve conexão direta com o
estouro da Revolução Constitucionalista, que retardou a organização dos tribunais eleito-

612 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.600-623, Setembro-Dezembro 2020
O Código Eleitoral de 1932 e as eleições da Era Vargas: um passo na direção da democracia?

Tabela 2 – Crescimento do eleitorado e diferença no comparecimento eleitoral entre a Primeira


República e a Era Vargas

Crescimento do Crescimento do Diferença no Diferença no


Estados* eleitorado em1933 eleitorado em 1934 comparecimento em comparecimento em
(em %)** (em %)** 1933 (em %)** 1934 (em %)**
AL -33,85 -3,10 25,0 1,7
AM -77,32 -48,92 49,3 53,9
BA -59,98 -18,54 4,5 7,5
CE -75,59 -39,53 9,2 -1,6
DF -41,35 -5,98 44,1 36,6
ES -38,96 6,75 17,6 20,5
GO -32,59 40,93 -3,2 -9,2
MA -79,72 -25,52 14,9 4,5
MT -59,87 -0,05 2,3 13,6
MG -51,76 -17,79 27,9 16,6
PA -68,43 -49,07 12,3 3,4
PB -52,13 -16,97 16,2 -16,5
PR -65,33 -36,11 19,8 20,7
PE -40,84 4,85 18,6 13,3
PI -68,42 23,65 22,4 15,0
RJ -58,62 -5,61 28,2 26,0
RN -29,28 76,81 25,1 14,4
RS -37,14 -11,02 3,2 -13,6
SC -51,98 17,90 11,3 23,0
SP -42,11 3,45 16,4 6,9
SE -18,33 58,95 25,7 24,3
BR -50,21 -9,78 18,7 10,3
* Excluímos o Acre porque durante a Primeira República não havia eleições para esse território, sob administra-
ção do estado do Amazonas. **Os indicadores de 1933 e 1934 foram calculados fazendo referência às eleições
de 1930.
Fonte: Os números brutos relativos ao eleitorado alistado em 1930 encontram-se no Diário do Congresso Nacional,
de 21 de maio de 1930, p. 545. Para 1933 e 1934, as informações constam dos boletins do Tribunal Superior Elei-
toral de 13 de julho de 1934 e 22 de fevereiro de 1936, respectivamente.

rais e dos próprios partidos políticos, sobrando pouco tempo para se alistarem os eleitores.
Como antecipado, entrou em consideração a hipótese de adiar as eleições constituintes sob
o argumento da escassez de tempo hábil para se promover o recadastramento eleitoral nos

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Jaqueline Porto Zulini, Paolo Ricci

moldes das novas regras criadas em 1932. No final, o Governo Provisório preferiu afrouxar as
regras de alistamento estabelecidas pelo Código Eleitoral e editou o Decreto nº 22.168, em
dezembro de 1932. As medidas de emergência apontadas no decreto estendiam o alistamen-
to ex officio aos membros de sindicatos registrados pelo Ministério do Trabalho (art. 2o, letra
h) e dispensavam a coleta de impressões digitais onde não houvesse serviço de identificação
datiloscópica, para efeito de apresentação tanto dos requerimentos ex officio (art. 4o, § 2o)
quanto dos requerimentos a pedido do próprio cidadão (art. 6o, inciso I). Estes últimos ainda
ficavam desobrigados de prova de quitação do serviço militar (art. 5o, parágrafo único, letra
a). Mesmo assim, não foi possível alistar eleitores em proporções equivalentes à de 1930. Os
dados para as eleições de 1934 mostram que houve aumento dos alistados, mas em número
ainda inferior ao de 1930.
Daí o segundo cenário relevante revelado pelos dados, que diz respeito ao aumento
do comparecimento eleitoral na Era Vargas com relação a 1930. Houve acréscimo de 18,7
pontos percentuais em 1933, enquanto em 1934 o aumento foi de 10,3 pontos percentuais
relativamente a 1930. Isso mostra que, embora existissem menos eleitores alistados para as
eleições de 1933 e 1934, eles tenderam a comparecer mais para votar. Cabe pontuar que
provavelmente os valores do comparecimento relativos a 1930 se encontram superestimados.
A tabela anterior valeu-se de dados oficiais, entretanto, parece que as chamadas eleições “a
bico de pena”, no sentido de que os resultados eleitorais eram fabricados na ponta da caneta
(da “pena”) quando, de fato, ninguém votou, configuraram o padrão da Primeira República.
Em síntese, a diferença entre a Primeira República e a Era Vargas com respeito à participação
eleitoral consiste no aumento do comparecimento. Esse dado reflete a atuação das máquinas
partidárias, que precisavam alistar e mobilizar amplamente os eleitores. Tanto os partidos dos
interventores quanto os de oposição investiram na mobilização eleitoral. Qual, então, a outra
explicação para o bom desempenho dos primeiros?

Ganhando a eleição: a fraude eleitoral

M ostramos, até agora, que a primeira estratégia adotada pelo Governo Provisório para
assegurar um bom desempenho eleitoral foi entregar aos interventores estaduais a
montagem dos novos partidos nos estados e cobrar deles a mobilização dos eleitores. En-
tretanto, como também as oposições estavam engajadas nesse processo e tinham as suas
chances aumentadas com a adoção da representação proporcional pelo Código de 1932, tor-
nava-se necessário recorrer a outros meios para garantir a vitória. Daqui em diante trataremos
da segunda e mais decisiva das estratégias utilizadas pelo Governo Provisório para vencer

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O Código Eleitoral de 1932 e as eleições da Era Vargas: um passo na direção da democracia?

nas urnas: a interferência dos partidos nas fases eleitorais, do alistamento até a contagem
dos votos. A literatura tem qualificado como fraude eleitoral todo ato realizado pelos agentes
legalmente encarregados de conduzir o processo eleitoral que viole as regras previstas para
a realização das eleições, do alistamento até a diplomação dos eleitos (Schedler, 2002). Dis-
tanciando-se de uma visão normativa, que julga a fraude sob o aspecto de desvirtuamento da
verdade eleitoral, a historiografia latino-americana mostrou o quanto tais práticas refletiam a
disputa de poder no século XIX e nos princípios do século XX (Sabato, 2018). Na época, par-
tidos disputavam o controle dos agentes encarregados de conduzir o processo eleitoral, como
membros das comissões de alistamento, mesários, juízes locais etc., uma burocracia eleitoral
também observada na Primeira República (Ricci e Zulini, 2017).
O discurso reformista por trás da outorga do Código Eleitoral em 1932 apelava para
a necessidade de combater essas práticas. Boa parte dos intérpretes que supôs a eficácia do
Código na redução dos níveis fraude eleitoral destacou os papéis específicos de duas medidas
combinadas como determinantes desse resultado: a adoção do voto secreto, paralelamente
à criação da Justiça Eleitoral (Kinzo, 1980: 80; Sadek, 2010: 27). Contudo, experiências de
outros países já mostraram que ambas as invenções não tiveram efeitos automáticos. O caso
mexicano ilustra como a entrega da supervisão das eleições para órgãos judiciários não su-
plantou as interferências político-partidárias imediatamente (Eisenstadt, 2003). Também ficou
provado que a adoção da cédula oficial de votação nos Estados Unidos visando tornar o voto
secreto, ainda durante o século XIX, estimulou o surgimento de novas fraudes eleitorais: pas-
sou-se a pagar para os eleitores permanecerem em casa no dia da eleição, ao invés de pagar
para fazê-los irem votar (Cox e Kousser, 1981).
Para verificar se os políticos encontraram novas formas de fraudar as eleições após
1932, sistematizamos as 886 alegações de fraude formalizadas contra as eleições de 1933 e
publicadas pelos boletins do Tribunal Superior da Justiça Eleitoral, a instância responsável pelo
julgamento de todos os recursos provenientes dos Tribunais Regionais Eleitorais8. Desse total,
observamos dois padrões principais. O primeiro abarca 375 (42,3%) alegações, referindo-se
à inobservância de formalidades burocráticas, como omissões ou erros no registro de todos
os procedimentos previstos no Código para se conduzir a eleição, a exemplo de ausência de
assinaturas nos papéis eleitorais ou irregularidades na escolha dos mesários. As denúncias
de violação do segredo do voto representam o segundo padrão, que engloba 363 (41%) das
alegações de fraude9.
Essas denúncias de violação do segredo do voto são o melhor reflexo da adaptação
dos políticos às novas regras. O Código Eleitoral de 1932 não encarregou o governo da pro-
dução e distribuição de um modelo padrão de cédula oficial. A produção e a distribuição

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.600-623, Setembro-Dezembro 2020 615
Jaqueline Porto Zulini, Paolo Ricci

das cédulas aos eleitores continuavam a cargo dos próprios partidos políticos, resultando em
tamanhos e formatos diferentes, facilmente identificáveis. Para contornar o problema e asse-
gurar o segredo do voto na seção eleitoral, o Código estabeleceu a existência de um espaço
fechado (denominado de cabine indevassável) onde o eleitor entraria, a sós, para inserir a
cédula eleitoral do seu partido no envelope oficial opaco (a chamada sobrecarta) oferecido e
numerado (seriado de 0 a 9) pelo mesário. Como todo eleitor precisava assinar a lista de pre-
sença da seção, que era sequencial, a numeração seriada das sobrecartas permitia ao mesário
ter controle do número de sobrecartas por ele distribuído sem, porém, conseguir reconstituir
a votação de cada eleitor. As alegações de fraude que denunciam a violação do voto secreto
enfatizam quatro desvios principais às regras. O mais citado é a não correspondência entre
o número de sobrecartas encontradas na urna e o número de votantes consignado na ata
da seção eleitoral, alvo de 151 alegações de fraude relativas a 15 estados, além do Distrito
Federal. Na sequência, destacam-se 95 denúncias, distribuídas entre 13 estados, quanto à
numeração ou rubrica irregulares das sobrecartas. Impugnou-se, por exemplo, a eleição em
uma seção de Curralinho, no Pará,
porque, efetivamente, as sobrecartas foram a princípio numeradas seguidamente, e depois,
riscados os números, numeradas em séries. Ainda mais, acompanhando a urna, veio uma folha
de votação, sem ser enviada pelo juiz, da qual consta a numeração seguida dos eleitores que
votaram, coincidindo assim a numeração das sobrecartas com a lista referida, ocasionando,
portanto, a violação do sigilo do voto (Tribunal Superior Eleitoral, 1933: 2567).

Em terceiro lugar, encontram-se 77 denúncias de violação do voto secreto relacionadas


a problemas na remessa dos papéis eleitorais ou das próprias urnas aos tribunais regionais.
Por fim, o último desvio principal às regras criadas para instituir o voto secreto aparece em
36 alegações de fraude que apontam o uso de sobrecartas fora dos padrões previstos pelo
Código. Os casos mais extremos acusavam desde o emprego de sobrecartas de cores e di-
mensões diversas, a exemplo do que se passou em Minas Gerais, segundo o relato de um
candidato sem partido, até o uso de sobrecartas não opacas, como os fiscais na Legião Auto-
nomista Acreana denunciavam ter ocorrido em algumas seções de Juruá10. No Espírito Santo,
o Tribunal Superior julgou procedente o protesto do Partido da Lavoura e anulou as eleições
capixabas por se valerem de sobrecartas “transparentes ou translúcidas, violando de modo
inequívoco o sigilo absoluto do voto, decorrendo daí a coação sobre o eleitorado” (Tribunal
Superior Eleitoral, 1933: 2581). O Partido Evolucionista, em Santa Catarina, conseguiu o mes-
mo feito com a anulação das eleições no estado por causa de sobrecartas não suficientemente
opacas. Aliás, uma perícia encomendada pelo Tribunal Superior da Justiça Eleitoral constatou
a maior transparência das sobrecartas utilizadas no estado de Pernambuco comparadas às do

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O Código Eleitoral de 1932 e as eleições da Era Vargas: um passo na direção da democracia?

caso capixaba (Correio da Manhã, 1933h: 2). Nem por isso, porém, as eleições pernambu-
canas foram anuladas. Tudo considerado, há evidências suficientes de que a fraude eleitoral
continuava fazendo parte da competição política na Era Vargas11.

Implicações

T oda análise de marcos históricos corre o risco de reproduzir a narrativa que os catapultou
a uma posição de destaque na memória coletiva. A interpretação do Código Eleitoral
de 1932 é prova disso. Como se tratou de uma reforma ampla, que instituiu boa parte dos
atuais pilares da democracia representativa brasileira, a literatura tende a reconhecer nas
novas regras eleitorais o compromisso dos revolucionários de 1930 com aquele persuasivo
discurso sobre a necessidade de moralizar os costumes políticos e o eleva ao posto de divisor
de águas na trajetória do país rumo à democracia. Retomando, porém, a dubiedade do pro-
cesso que levou à outorga do Código em 1932 e os resultados das eleições de 1933 e 1934,
emerge a conveniência da reforma eleitoral para as elites revolucionárias legitimarem o novo
regime. A adoção do Código, com reformas tão abrangentes, representou uma resposta dos
revolucionários a quem questionava a legitimidade da Primeira República por causa da frau-
de eleitoral generalizada e da baixa participação popular. Na prática, porém, a democracia
eleitoral não estava em pauta (Ricci, 2019). O Governo Provisório manteve-se focado em as-
segurar a vitória da Revolução nas urnas e afastou a possibilidade da incerteza dos resultados
eleitorais instruindo a organização de partidos políticos pelos interventores e, em último caso,
admitindo o recurso à fraude. Em linha com as experiências de outros autoritarismos eleito-
rais, buscava-se “o princípio do consentimento popular, mesmo que o subvertam na prática”
(Schedler, 2006: 121, tradução nossa). Do ponto de vista dos resultados eleitorais, tudo correu
de forma conveniente ao regime. Para o pesquisador, torna-se crucial entender o que acon-
teceu após a outorga do Código, tendo em vista as eleições de 1933. Precisamos ter cuidado
com os momentos preparatórios que antecedem a primeira eleição pós-revolucionária. Vários
atores entram em cena. Partidos, interventores, organizações sindicais, a Igreja Católica, vel-
hos oligarcas; todos eles deveriam ser levados em conta neste processo de reconstrução das
alianças políticas estaduais.
Há dois desdobramentos importantes para futuras pesquisas. Em primeiro lugar,
cabe repensar o papel dos partidos políticos antes da 1945. O estudo das eleições na
Era Vargas desvenda o protagonismo dos partidos em alistar eleitores, distribuir cédulas e
instruí-los a votar. Quando os partidos foram omissos nessa tarefa, o governo perdeu a elei-
ção. Isso significa que a questão se tornou a de mobilizar um contingente eleitoral cada vez

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Jaqueline Porto Zulini, Paolo Ricci

maior. Resta entender melhor quem dos partidos dos interventores exerceu essa tarefa na
prática, e que provavelmente não se fiava apenas na figura do coronel ou do chefe político
local. Também importa compreender as oposições que ganham em 1933 e 1934. Quais as
suas estratégias?
O segundo desdobramento é sobre a fraude eleitoral. Já é tempo de pensá-la para
além do tema do desvirtuamento da verdade eleitoral e associá-la a um mecanismo de compe-
tição política. Estudos recentes sobre as eleições na Primeira República têm evidenciado que
a fraude escondia um jogo complexo e articulado entre os vários componentes da burocracia
eleitoral encarregada de conduzir as eleições. No limite, a fraude eleitoral constituía a sine
qua non da competição política (Ricci e Zulini, 2017). A análise das eleições no Brasil da Era
Vargas mostrou uma readaptação dos mecanismos usados pelos partidos para ganhar as
eleições. Não adianta bradar os aspectos formais do Código e desconsiderar a atuação dos
agentes políticos naquelas eleições.

Notas
1 Um balanço do estado da arte sobre a política na Primeira República encontra-se em Fer-
reira e Pinto (2017).
2 Sabe-se das várias subdivisões existentes no movimento tenentista (Carvalho, 2005; Conni-
ff, 1979; Drummond, 1986). Para os propósitos deste trabalho cabe apenas frisar que os
tenentistas tinham prioridades diferentes daquelas das elites políticas estaduais.
3 A cédula oficial de votação para as eleições presidenciais foi aplicada apenas em 1955. An-
tes disso, os próprios partidos ficavam encarregados de fabricá-las e distribuí-las aos eleitores.
4 Decreto nº 21.402, de 14 de maio de 1932 (BRASIL, 1932).
5 Diário da Manhã (PE), Edição n. 1764, “A agitação em torno do pleito de maio”, 16/02/1933,
p. 1. A esses dois casos poderíamos acrescentar o do Rio Grande do Sul, onde a atuação de
Flores da Cunha foi fundamental na criação e organização do Partido Republicano Liberal
(PRL). Para uma análise da atuação do partido nas eleições de 1933, ver, por último, Lapuente
(2018) e Rangel (2001).
6 A organização da LEC, os atores envolvidos na construção do partido, assim como as prá-
ticas eleitorais entre 1933 e 1934, foram analisados recentemente na dissertação de Janilson
Rodrigues Lima (2020).
7 O significado de oposição no contexto pós-revolução não equivale a um posicionamento
expresso contra o Governo Provisório. Poucos partidos vocalizaram um discurso reacionário,
como se passou em Goiás, com os Caiados promovendo o Partido Democrático; na Bahia,

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O Código Eleitoral de 1932 e as eleições da Era Vargas: um passo na direção da democracia?

com João Seabra lançando a coligação “A Bahia ainda é a Bahia”, e em São Paulo, com a
Chapa Única formada pela fusão de antigos membros do Partido Republicano Paulista com os
integrantes do Partido Democrático.
8 A fonte traz recursos contra as eleições em todos os estados, à exceção da Paraíba, por
motivo desconhecido.
9 Os demais casos referem desde alegações de fraude no alistamento até apuração parcial
das eleições.
10 Ver Boletim Eleitoral, n. 127, de 30 de agosto de 1933, p. 2615, e n. 141, de 18 outubro
de 1933, p. 2838.
11 Outra fonte confirma essa visão. A análise de 42 notícias veiculadas pelos jornais nos pri-
meiros 30 dias após o pleito de maio de 1933 revela que as expectativas sobre o voto secreto
foram frustradas. Apesar de alguns reconhecerem os avanços do Código, avaliava-se que o
voto secreto fora amplamente violado, fosse pela violência, coação generalizada, fosse pelo
uso de estratagemas específicos, como cédulas em papel cartolina, sobrecartas transparentes
e até ausência da cabine indevassável. Essas noticias encontram-se nos seguintes jornais:
Diario de Notícias (1933a, 1933b, 1933c, 1933d, 1933e, 1933g, 1933h, 1933j), Correio da
Manhã (1933b, 1933c, 1933d, 1933e, 1933f, 1933g), A Batalha (1933a, 1933b, 1933c,
1933d, 1933e), A Noite (1933), Jornal de Recife (1933a, 1933b, 1933c, 1933d, 1933e), A
Federação (1933a, 1933b), Diario Carioca (1933a, 1933b, 1933c), O Radical (1933b, 1933c),
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Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.600-623, Setembro-Dezembro 2020 623
A R T I G O

Das armas às urnas: a participação dos


coronéis da Bahia na Revolução de 1930

From guns to ballot boxes: the role of coron els from Bahia in the
Revolution of 1930

De las armas a las urnas: la participación de los coroneles de Bahía en


la Revolución de 1930

Eliana Evangelista BatistaI*

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-149420200003000010

Instituto Federal da Bahia – Salvador (BA), Brasil.


I

*Doutora em História Social pela Universidade Federal da Bahia (eliana25d@hotmail.com).


https://orcid.org/0000-0003-3598-9093
Artigo recebido em 01 de maio de 2020 e aprovado para publicação em 13 de julho de 2020.

624 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.624-643, Setembro-Dezembro 2020
Das armas às urnas: a participação dos coronéis da Bahia na Revolução de 1930

Resumo
Este artigo discute a participação dos coronéis do interior da Bahia na Revolução de 1930, desde a campanha
da Aliança Liberal até a centralização do poder federal no estado, sob o governo de Juraci Magalhães, no ano
de 1933. Com base na análise de cartas, telegramas e jornais da época, demonstra-se como esses homens
do interior, que antes conduziam com armas sua atuação política, na Primeira República, passaram a utilizar
as urnas após a vitória do movimento revolucionário de outubro de 1930, num constante processo de aco-
modação política que marcou o governo Vargas na Bahia.
Palavras-chave: Revolução de 1930; Bahia; Oligarquias.

Abstract
This paper discusses the role of colonels from the inland cities of Bahia in the Revolution of 1930, from the
Liberal Alliance campaign to the centralization of federal power in the state, ruled by Juraci Magalhães, in
1933. Based on the analysis of letters, telegrams, and newspapers of the time, it demonstrates how these
men from the countryside went from using guns, in the First Republic, to ballot boxes after the success of
the revolutionary movement of October 1930, showing the constant process of political accommodation that
characterized the Vargas government in Bahia.
Keywords: Revolution de 1930; Bahia; Oligarchies.

Resumen
Este artículo analiza la participación de coroneles en el interior de Bahía en la Revolución de 1930, desde
la campaña de la Alianza Liberal hasta la centralización del poder federal en el estado, bajo el gobierno de
Juraci Magalhães, en 1933. Basado en el análisis de cartas, telegramas y periódicos de la época, se demuestra
cómo la acción política de estos hombres del campo, liderados por las armas, en la Primera República, fue
reemplazada por las urnas, tras la victoria del movimiento revolucionario de octubre de 1930, en un proceso
constante de acomodación política que marcó al gobierno Vargas en Bahía.
Palabras clave: Revolución de 1930; Bahía; Oligarquías.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.624-643, Setembro-Dezembro 2020 625
Eliana Evangelista Batista

Introdução

N a madrugada de 24 de outubro de 1930, a chamada Primeira República (1889–


1930) chegava ao fim no Brasil. O movimento que deslocou as tradicionais oligar-
quias do epicentro do poder (Ferreira; Pinto, 2014: 408) é frequentemente revisitado, tanto
para compreender a abordagem do tema no debate intelectual da época (Oliveira, 1978)
e as transformações que ocorreram na sociedade e no Estado após a ascensão de Getúlio
Vargas ao Executivo, quanto para entender as razões que levaram grupos heterogêneos
a recorrer às armas para derrubar o situacionismo (Fausto, 1995), tal como analisa este
artigo, ou, ainda, questionar o acontecimento como marco de ruptura da história política
do país (De Decca, 2004).
Antes de 1930, a distribuição desigual do poder conferia aos estados uma diferen-
ciação em termos de organização política e econômica. Entre os seis estados mais fortes,
São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia — que
reuniam bancadas numerosas e/ou economias relativamente autossuficientes —, havia um
pacto oligárquico cuja estabilidade era frequentemente comprometida, dadas as alianças e
acomodações feitas e desfeitas ao sabor das circunstâncias. Pela fragilidade, a renovação do
pacto político entre esses estados, que ocorria a cada sucessão presidencial, não foi capaz de
assegurar a longevidade da Primeira República, que se esgarçou completamente ao longo da
década de 1920 (Viscardi, 2019: 52-59).
Assim, o lugar da Bahia em 1929, quando se organizava no Brasil a Aliança Liberal
para concorrer com a chapa Getúlio Vargas/João Pessoa às eleições majoritárias contra
Júlio Prestes/Vital Soares, era de relativo destaque. Além de ocupar um dos ministérios do
governo de Washington Luís (1926–1930), a Bahia barganhou o posto da vice-presidência
na sucessão do Executivo. O pacto político que a colocava ao lado do Catete foi forjado com
o sacrifício das rivalidades entre as principais lideranças estaduais. Ratificado em 1930, na
Convenção dos Municípios, o acordo não se mostrou capaz de neutralizar todas as fissuras
existentes entre as oligarquias, de modo que, passadas as eleições, quando despontou o
movimento revolucionário em 3 de outubro de 1930, havia no estado grupos que se alinha-
vam em campos opostos.
Na Bahia, o movimento revolucionário foi organizado sob três perspectivas: a primeira,
sob orientação de Juarez Távora, envolvia principalmente os militares; a segunda, sob orienta-
ção e apoio de conspiradores do Rio de Janeiro, abrangia principalmente civis, a exemplo de
Antônio Maciel Bonfim, que veio a ser secretário do Partido Comunista; a terceira, sob controle
das oligarquias baianas do interior e apoio do governador de Minas Gerais (Batista, 2018: 23).

626 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.624-643, Setembro-Dezembro 2020
Das armas às urnas: a participação dos coronéis da Bahia na Revolução de 1930

Ao que parece faltou uma ação coordenada entre esses núcleos de conspiração para que o
movimento fosse bem sucedido, razão pela qual a Bahia pareceu estar, até o desfecho do
movimento, em completa solidariedade com a ordem constituída (Sampaio, 1998: 224).
Apesar das aparências, cartas, telegramas e jornais do período revelam intensa mo-
vimentação à margem da legalidade e testemunham a participação dos coronéis do interior
na conspiração. Com relevante papel, pela quantidade de eleitores de que dispunham e que
definiam os resultados dos processos eleitorais, eram esses coronéis que davam sustentação
política às agremiações partidárias na Bahia. Além do quadro de eleitores, controlavam a
economia, ocupando importante lugar na balança comercial do estado, que dependia ainda
da produção agrícola dos municípios. Impactados pela Crise de 1929 e pela soma de impostos
cobrados pelo governo, não havia motivos para recusar, por completo, uma plataforma liberal
que prometia solução para as suas inquietações.
Com a vitória revolucionária, abriu-se um longo caminho para a recomposição dos po-
deres, que na Bahia passou pelo desarmamento e desgaste de alguns redutos coronelistas. As
relações marcadas por numerosos conflitos que se estenderam por toda a década de 1920 en-
tre o governo estadual e a política local foram alteradas, promovendo-se a institucionalização
entre essas esferas de poder, por meio da inserção dos chefes políticos locais nas agremiações
partidárias. O recurso às armas, usual na república deposta, deu lugar a outras formas de
combate, entre elas a disputa do poder por meio das urnas.

Os coronéis e a campanha pela Aliança Liberal na Bahia

P ara Consuelo Sampaio (1998: 205-218), a campanha pela sucessão presidencial em


1930 quase não despertou interesse na Bahia, ficando à sombra da campanha para
sucessão do governador do estado, que ameaçava pôr fim à acomodação estabelecida por
acordos recentes entre as principais lideranças políticas regionais. No plano nacional, não
havia razões para as elites políticas aderirem a um movimento que ameaçava destituir do
poder os seus membros mais representativos (Silva, 2011: 23). Assim, como o situacionismo
não dispensou a devida atenção à campanha para as eleições presidenciais de março de 1930,
deixou o campo aberto para a atuação da oposição.
O ex-governador José Joaquim Seabra (1877–1942), que esteve à frente do Executivo
estadual entre 1912 e 1916 e 1920 e 1924, esforçou-se em divulgar o programa aliancis-
ta na capital e em alguns dos municípios do estado. Alijado do poder desde o término do
governo, em função de sua vinculação com a Reação Republicana, quando foi candidato à
vice-presidência na chapa encabeçada por Nilo Peçanha, em 1922, que perdeu as eleições

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.624-643, Setembro-Dezembro 2020 627
Eliana Evangelista Batista

para Artur Bernardes, Seabra aderiu à plataforma da Aliança Liberal, em 20 de setembro de


1929. Participou, como representante da Bahia, da convenção nacional destinada a indicar os
candidatos liberais à presidência e à vice-presidência da República, respectivamente Getúlio
Vargas e João Pessoa, e foi também escolhido presidente honorário da comissão executiva da
Aliança Liberal (Batista, 2018: 520).
Na Bahia, a campanha da Aliança Liberal foi intensificada no mês que antecedeu
as eleições. Segundo informações veiculadas em 6 de fevereiro de 1930, no jornal carioca
Correio da Manhã, que apoiou a Aliança Liberal, os primeiros discursos foram realizados em
Salvador, nos dias 5 e 6 de fevereiro daquele ano. O tempo demasiadamente curto para rea-
lizar comícios em todos os municípios levou a uma divisão dos caravaneiros aliancistas no
estado. De um lado, cobrindo a zona do São Francisco, ficaram responsáveis os aliancistas
Carlos Machado e Dário Crespo, deputados do Rio Grande do Sul, que viajaram por toda a
região em trem especial ao lado de representantes baianos, a exemplo de Nelson Carneiro.
De outro, José Joaquim Seabra, que ao lado de João Neves excursionou por diferentes
cidades, a exemplo de Ilhéus, Cachoeira, São Félix, Itabuna, Feira de Santana e também
Juazeiro e Alagoinhas.
Além das caravanas oriundas da capital, havia uma mobilização em prol da Aliança Li-
beral por iniciativa de alguns coronéis do Vale do São Francisco. O programa liberal encontrou
sustentação em lideranças políticas do interior e, entre as razões para isso, localizam-se as
disputas regionalistas. O desequilíbrio entre os estados, com a força excessiva de uns amea-
çando absorver os demais, figura como um dos principais fatores explicativos da crise política
e econômica de 1929 e como lastro do movimento aliancista e revolucionário de 1930 (Lima
Sobrinho, 1975: 54).
O ano de 1930 revelaria esse desequilíbrio entre os estados da Bahia e de Minas
Gerais. Na Bahia, o conflito começou com a disputa eleitoral no município de Carinhanha,
no sudoeste do estado, e evoluiu rapidamente para um violento confronto com o estado
vizinho. Em fins de 1928, quando o segundo mandato de intendente do coronel João Du-
que expirou, ele concorreu ilegalmente a um terceiro. Como ele mesmo era o presidente da
junta eleitoral que confirmava as eleições, não foi difícil reconhecer a sua própria vitória.
O reconhecimento foi rejeitado por Vital Soares (1874–1933), governador da Bahia entre
1928 e 1930, que concedeu a vitória, atestada pelo Senado baiano, ao rival, coronel João
Alkimin (Pang, 1979: 198-200).
João Duque não aceitou a intervenção do governo baiano, tentando impedir a pos-
se do coronel Alkimin e, junto a alguns aliados de Minas Gerais e da Bahia, a exemplo de
Franklin Lins de Albuquerque, Pilão Arcado e Chico Leóbas, de Remanso, abriu luta contra o

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Das armas às urnas: a participação dos coronéis da Bahia na Revolução de 1930

governo e seu protegido. Por outro lado, Alkimin também recorreu aos parentes do norte de
Minas Gerais e aos amigos na Bahia. Assim, a luta extrapolou as fronteiras do estado e serviu
como uma espécie de termômetro para as eleições presidenciais, uma vez que os governado-
res dessas unidades federativas apoiavam candidatos diferentes e queriam mostrar a sua força
política sobre o Vale do São Francisco (Pang, 1979: 198-200).
No jogo político das oligarquias estaduais, seria uma derrota para Vital Soares
o fato de Duque e seus companheiros mineiros derrotarem Alkimin. Cabe lembrar que
a eleição de Antônio Carlos em Minas Gerais (1926–1930) marcava uma renovação na
política, pois ele defendia uma plataforma de governo que passava, necessariamente,
por mudanças nas regras eleitorais (Viscardi, 2019: 299). Portanto, em termos políti-
cos, o presidente de Minas Gerais confrontava-se abertamente com o da Bahia, aliado
do governo central.
Entre novembro e dezembro de 1929, diversas cartas foram trocadas entre Vital Soares
e Antônio Carlos. A imprensa de ambos os estados repercutiu o conflito. Em apoio ao governo
da Bahia, o presidente Washington Luís teria ordenado a um representante da Procuradoria
Federal que indicasse João Duque, Franklin e Leóbas como culpados de um crime que ocorreu
em Carinhanha. Com a indicação, a Força Pública de Minas Gerais retirou João Duque da
Bahia. Dado o apoio do governo mineiro ao grupo de João Duque, Vital Soares empregou a
Força Pública para punir os coronéis daquela região, razão pela qual esse homens não preci-
saram de muita persuasão para apoiar a Aliança Liberal, que chegaria à Bahia apoiada por
Seabra, ao final de 1929 (Pang, 1979: 198-200).
Assim, as dissidências regionais eram fortalecidas pelas dissidências oligárquicas entre
os estados. Minas Gerais, por exemplo, tinha o objetivo de golpear a hegemonia da oligarquia
cafeeira do estado de São Paulo, apoiada pela Bahia. Além das disputas regionais, o conhe-
cido descontentamento de uma parcela de produtores e comerciantes diretamente atingidos
pela Crise de 1929 era razão suficiente para justificar o alinhamento de chefes municipais da
Bahia com a Aliança Liberal. Nos primeiros meses de 1930, esse desentendimento foi larga-
mente divulgado pela imprensa (Batista, 2018: 83).
O descontentamento das oligarquias passou à conspiração. Com a vitória de Júlio
Prestes/Vital Soares, o cenário político ganhou novos contornos. Nos bastidores, os coronéis
armavam seus jagunços, os militares conspiravam com os Tiros de Guerra, e o governo
empenhava-se em organizar a resistência com a Força Pública do Estado, ponto estratégico
tanto para os aliancistas quanto para o governo central, pois ligava os estados do Nordeste
aos do Centro-Sul, ligação esta fundamental para que o movimento ou a sua contenção
tivessem sucesso.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.624-643, Setembro-Dezembro 2020 629
Eliana Evangelista Batista

A conspiração revolucionária dos coronéis na Bahia

C onforme veiculado pela imprensa, a exemplo da edição de 4 de maio de 1930 do jornal


carioca A Batalha, que se prestava à oposição baiana como espaço de denúncia na
capital do país, tão logo os resultados eleitorais de março começaram a ser divulgados, nu-
merosas contestações foram encaminhadas aos juízes acusando o pleito de mais uma fraude,
mesmo após o reconhecimento da esmagadora vitória da chapa Júlio Prestes/Vital Soares.
Com o resultado, os políticos da Bahia ligados à situação ocuparam-se em definir o candidato
a futuro governador. É provável que os grupos que estiveram à frente da Aliança Liberal no
estado tenham sido sondados a participar do movimento de conspiração revolucionária nesse
período, pois, indiferentes aos resultados das urnas, ou muito motivados por eles, os aliancis-
tas e os militares continuavam conspirando.
Na Bahia, as primeiras conversas sobre o movimento armado que estava sendo organi-
zado no Sul e no Sudeste do país deram-se no mês de fevereiro de 1930, durante a passagem
dos tenentes Juraci Magalhães, Jurandir Bizarria Mamede e Agildo Barata por Salvador, quan-
do de suas transferências do Rio de Janeiro para a Paraíba, portanto, antes mesmo do pleito
eleitoral. Além de Seabra, receberam apoio dos médicos Eduardo Bizarria Mamede e Átila do
Amaral e dos engenheiros Alípio Viana e Leopoldo Amaral, que havia presidido o Comitê da
Aliança Liberal na Bahia (Tavares, 2008: 381-382).
No âmbito militar, assumiu a liderança do movimento o tenente Joaquim Ribeiro Mon-
teiro, que era sergipano, mas estava àquela época servindo no 19º Batalhão de Caçadores,
em Salvador. As instruções de Juarez Távora, responsável pelo levante no Nordeste do país,
chegavam por meio de contatos telegráficos, cartas e de Eduardo Bizarria Mamede, que via-
java regularmente à Paraíba para colher informações. Essas cartas foram compiladas em im-
portante obra organizada por José Calasans. De fevereiro a maio de 1930, os contatos foram
recorrentes, e, nas missivas enviadas ao líder do movimento na Bahia, Joaquim Monteiro
esclarecia questões referentes ao momento político, buscando, nas contradições e na degra-
dação da República brasileira, as justificativas para a organização do movimento (Silva, 1981).
Nessas cartas, Joaquim Monteiro revelava o quão difícil e perigosa era a associação
com civis no estado. Uma das razões era o seu desconhecimento acerca das lideranças locais,
uma vez que era de Sergipe e não mantinha relações políticas na Bahia. Ainda assim, pela
análise que fazia da conjuntura, julgava que na Bahia seria bem acolhido o movimento no
meio civil (Silva, 1981).
Seguindo instruções recebidas de Juarez Távora, Joaquim Monteiro deveria preparar
a Bahia para neutralizar a influência do governo central em toda a zona que se estendia da
Bahia até o extremo do Nordeste, impedindo por todos os meios que ele retirasse de lá quais-

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Das armas às urnas: a participação dos coronéis da Bahia na Revolução de 1930

quer recursos bélicos para reforçar a sua defesa contra a operação do Centro-Sul (Silva, 1981).
Havia, no entanto, a previsão de que poucos núcleos militares se disporiam a tal movimento.
Quanto aos civis, esse número era ainda mais reduzido. Se já estava difícil reuni-los na
conspiração revolucionária, com o afastamento de Luís Carlos Prestes dos tenentes que apoia-
vam o movimento, em maio daquele ano, o próprio articulador da revolução da Bahia, o te-
nente Joaquim Monteiro, considerou a possibilidade de descontinuar as articulações, abrindo
um intervalo de conversas com Juarez Távora. Antes, porém, passou-lhe informações acerca
das ligações feitas dentro do estado.
Como se observa das missivas, as ligações entre militares e civis eram subterrâneas.
Joaquim Monteiro afirmava ter sido apresentado a dois civis de confiança absoluta na Bahia:
“um chefe sertanejo podendo dispor de cerca de 500 homens (segundo informações que
necessitavam ser confirmadas por um agente de confiança) e outro contando com elementos
esparsos na capital” (Silva, 1981). Segundo indicou, o primeiro era ligado a Seabra, e o se-
gundo a Moniz Sodré, dois nomes que defenderam a Aliança Liberal na Bahia.
A indicação da existência de dois chefes sertanejos envolvidos na conspiração cobra
uma reflexão sobre a atuação política de algumas lideranças do interior. No período, Horácio
de Matos (1882–1931), das Lavras Diamantinas, e Franklin Lins de Albuquerque (1881–
1944), de Pilão Arcado, estavam entre os coronéis de maior prestígio na Bahia, por conta de
suas atuações na Revolta Sertaneja, que ocorrera em 1919 (Batista, 2018: 53).
No ano de 1915, quando enfrentava dificuldades para exercer seu mando no inte-
rior da Bahia, Seabra promoveu uma reforma na Constituição Estadual e passou a usar a
nomeação dos intendentes como forma de concentrar poder em suas mãos. O município
era a base de poder do coronel (Leal, 2012), e a reforma provocou reações, levando a sérios
conflitos entre as forças políticas locais e a Força Pública da Bahia. O presidente Epitácio Pes-
soa (1919–1922) interveio, encaminhando emissários que negociaram diretamente com os
coronéis. Estes, por sua vez, só cessaram fogo após assinarem acordos vantajosos, que lhes
garantiram domínio sobre amplas regiões (Sarmento, 2011: 180).
O prestígio adquirido pela Revolta Sertaneja foi intensificado com a passagem da
Coluna Prestes na Bahia. O movimento tenentista sufocado em 1922 ressurgiu em 1924,
em reposta ao autoritarismo do governo de Artur Bernardes (1922–1926). Em março de
1926, atravessou as fronteiras da Bahia, onde batalhões civis foram subvencionados pelo
governo federal para combatê-lo. Do contingente reunido, os batalhões de Horácio de
Matos e Franklin Lins de Albuquerque foram os mais afamados pelo papel que tiveram na
perseguição aos revoltosos (Melo, 1989: 105-117). Com esse prestígio, a balança do poder
na Bahia só poderia ser equilibrada com o reconhecimento dessas forças que atuavam no

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Eliana Evangelista Batista

interior, e isso justifica os recorrentes conflitos com o Executivo estadual ao longo dos anos
vinte (Sampaio, 1998: 199).
Não se sabe exatamente se Franklin Lins era o chefe sertanejo indicado por Monteiro
nas cartas endereçadas à Bahia. Apesar de não parecer que ele mantivesse relações de subor-
dinação com Seabra, é conhecida a sua atuação em favor dos revoltosos (Batista, 2018: 57).
Além dele, outros nomes podem ser elencados: João Duque, de Carinhanha, Rotílio Manduca,
de Remanso, Durval Marinho Paes, de Angical, Deraldo Mendes, de Vitória da Conquista,
Mário Teixeira, de Caetité, e o coronel Rabelo, de Bom Jesus da Lapa, foram coordenados
pelo coronel Herculano Leite, da Força Pública de Minas Gerais, nas atividades relacionadas
à conspiração. A estratégia do governo mineiro ao cooptar as oligarquias da Bahia consistia
em enviar Franklin Lins e seu exército para Salvador, a fim de tomar o governo do estado, en-
quanto Duque desceria lentamente o rio para acabar com os focos de resistência de coronéis
recalcitrantes (Pang, 1979: 204).
A defesa de Minas Gerais também dependia da guarnição das fronteiras com a Bahia.
Em testemunho sobre a organização dessa defesa, Virgílio de Melo e Franco assegurou que
Mário Brant e Odilon Braga, secretário de Segurança Pública, trabalhavam na capital de Minas
Gerais “articulando o movimento não só dentro do estado como também no sertão da Bahia,
por intermédio dos chefes João Duque e Rotílio Manduca” (Franco, 1980: 67).

Às armas: os coronéis em defesa


da Revolução de outubro de 1930

N o dia 3 de outubro de 1930, o movimento revolucionário irrompeu no Sul do Brasil.


Onze dias depois, o jornal carioca Correio da Manhã veiculou informações sobre o
combate que o governo federal vinha fazendo às investidas dos revoltosos na Bahia. Entre
as ações, destacava-se a arregimentação de coronéis que deveriam ocupar o norte de Minas
Gerais para impedir o avanço dos revolucionários mineiros sobre o Rio de Janeiro. Havia tem-
pos que o presidente desconfiava que os mineiros estavam usando o porto de Caravelas, na
Bahia, para importação de armas. A invasão seria coordenada por Francisco Rocha, e os civis,
em sua maioria, liderados por Horácio de Matos, que no dia 8 de outubro teria recebido um
pagamento de seis contos para as despesas militares (Pang, 1979: 208).
Porém, com as sucessivas vitórias dos revolucionários nos estados do Nordeste, o
plano de invasão a Minas Gerais foi cancelado, transferindo-se todo o aparato para conter
as tropas dissidentes e resguardar a capital da Bahia. De acordo com informações veicula-
das pelo O Jornal em 1º de novembro de 1930, Ponta de Areia e Caravelas, no litoral sul da

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Das armas às urnas: a participação dos coronéis da Bahia na Revolução de 1930

Bahia, haviam sido tomadas no dia 10 de outubro e estavam sob ordens de tropas mineiras
desde então.
A região de Caetité e Guanambi, próximas a Minas Gerais, em pouco tempo tam-
bém estariam sob o comando dos coronéis revolucionários. Mário Teixeira, agricultor e
industrial daquela região, vinha mantendo contato com os políticos de Minas Gerais para
criar as condições para a revolução sair vitoriosa no sudoeste do estado. Segundo revelou
o Diário da Bahia em 20 de dezembro de 1930, os primeiros contatos foram realizados por
Carneiro Baptista Neves, advogado de Caetité e professor de Guanambi. Por intermédio
dele, Mário Teixeira procurou os mineiros Olegário Maciel, Artur Bernardes, Mário Brant
e Cristhiano Machado, mantendo relações com eles por meio de cartas e telegramas para
ajustar os pontos do assalto.
De acordo com relatos dos vitoriosos ao jornal, o primeiro assalto foi feito no dia 11 de
outubro de 1930, quando Mário Teixeira ordenou ao capitão Ovídio Santos e a João Belarmino
que fossem a Espinosa, na fronteira com Minas Gerais, portando cartas, a fim de estabelecer
ligações entre as forças mineiras e a coluna do Nordeste. No dia 16 de outubro ocupou a
estação telegráfica de Guanambi e marchou para Caetité. Ali, recebeu telegrama de Pedro
Lago (1870–1958) pedindo que reconsiderasse o seu posicionamento e solicitando que com-
batesse em favor do governo. Negou. No dia 19, afirmou ter montado um Comando Geral em
Guanambi, e. no mesmo dia, Carneiro Neves tomou Urandi, ocupando a estação telegráfica.
Paralelamente, Lindolpho Nunes tomava sem resistência o município de Monte Alto,
Leite Filho ocupava Riacho de Sant’Anna, e o próprio Mário Teixeira telegrafava a João Duque
e ao capitão Querino pedindo que tomassem Carinhanha e Bom Jesus da Lapa. De acordo
com a matéria do Diário da Bahia, Anísio Teixeira teria ido a Guanambi em missão governa-
mental para demovê-lo. Ao mesmo tempo, Mário Teixeira recebia ameaças de Horácio de Ma-
tos, que anunciava um ataque às suas tropas, mas seu plano para a tomada desses municípios
foi executado sem objeções.
Em entrevistas divulgadas pelo jornal carioca Diário de Notícias em 26 de novembro de
1930, Agildo Barata e outros militares envolvidos no movimento deram informações a respei-
to do contingente que enfrentaram na Bahia. Para os entrevistados, eles enfeixavam cerca de
400 homens da polícia, 600 jagunços de Horácio de Matos e de Geraldo Rocha, num conjunto
denominado Batalhão Patriótico das Lavras Diamantinas, e 180 praças do 21º Batalhão que
fugiram de Recife quando a revolução estourou.
O compromisso de Horácio de Matos com Washington Luís era de formar seis ba-
talhões, totalizando 3 mil homens até o final de outubro de 1930. No dia 18, um total de
500 homens chegava à cidade de Cachoeira, no Recôncavo, para serem incorporados às

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Eliana Evangelista Batista

forças legalistas alojadas na cidade de Alagoinhas, que guarnecia a capital do estado, mas
a promessa quanto à quantidade não pôde ser cumprida em função dos desentendimentos
e receios que se fizeram presentes entre Horácio de Matos e os demais coronéis do interior
(Pang, 1979: 210).
Franklin Lins de Albuquerque também enviou um contingente para Alagoinhas ao tem-
po em que seguia com mais 630 homens para Juazeiro. Diferentemente de Horácio de Matos,
a sua posição era duvidosa. Não se tem certeza se ele servia ao governo, aos revolucionários
ou a ambos, tendo em vista que foi um dos maiores recrutadores das hostes da Aliança Liberal
e, por outro lado, hipotecou solidariedade ao presidente por meio de telegrama. Pang afirma
que, para os revolucionários, a estratégia era que ele atacasse Salvador quando a cidade
estivesse nas mãos da unidade avançada. Porém, em Alagoinhas, Franklin Albuquerque não
entrou em luta com exército aquartelado, numa demonstração de que estava “negociando
com os dois lados”, visando obter vantagens de quem vencesse (Pang, 1979: 211).
Telegramas trocados entre Jurandir Mamede e Juarez Távora em 22 de outubro de
1930 revelam o avanço do movimento. As tropas lideradas por Juraci Magalhães chegaram
às fronteiras do norte da Bahia. Um dia depois, Jurandir Mamede atravessou o São Francisco
com destino a Juazeiro, e, na mesma data, seguia para Alagoinhas um batalhão de volun-
tários arregimentados por Gileno Amado em Itabuna (Arquivo Juarez Távora. FGV/CPDOC.JT
dpf.1930.05.00). À medida que o governo da Bahia desistiu de atacar Minas Gerais, o que te-
ria dispersado essas forças, elas dirigiram-se, coordenadamente, para Alagoinhas, onde após
uma batalha ocorrida no povoado de Capianga, receberam-se notícias de que o presidente
Washington Luís havia sido deposto, pondo fim às lutas (Pang, 1979: 213).
A posição dos coronéis do interior na tomada do estado da Bahia é controversa, pois
aparece tanto ligada ao governo quanto aos revolucionários. João Duque, por exemplo, foi
acusado mais tarde de ter recebido dinheiro para arregimentar jagunços, alguns dos quais
presos em Alagoinhas. Apesar das contradições e do pragmatismo político dos coronéis que
via de regra ficavam ao lado da situação, são notórias as ações subterrâneas e cautelosas
em favor da Revolução de 1930. Conforme asseguramos, matérias veiculadas pelo Diário
da Bahia entre os meses de julho e setembro daquele ano dão conta do descontentamento
dos produtores do interior do estado em relação ao governo de Vital Soares (1874–1933),
vice-presidente eleito, que manteve os impostos criados pelo ex-governador Góes Calmon
(1924–1928) e ainda decretou a cobrança de novos. A lavoura e os produtores estavam no
cerne da crise oligárquica da Bahia, que, em 1930, era essencialmente agrícola.
Não existiam no estado grandes empresas estrangeiras. Assim, a maior riqueza estava
concentrada na agricultura, na pecuária e em pequenas indústrias distribuídas pelo interior

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Das armas às urnas: a participação dos coronéis da Bahia na Revolução de 1930

do estado. Ainda que tivesse sofrido uma baixa crítica na produção do cacau, do fumo e do
açúcar, os seus principais itens de exportação agrícola, era a produção nos redutos desses
coronéis que mantinha a balança comercial favorável para o estado (Almanak Laemmert,
1930: 226-362).
Sob essa perspectiva, é possível desenhar um quadro da oligarquia baiana em
dissenso e, diante disso, o acolhimento, de bom grado, de um movimento revolucionário
que viesse a mudar o estado de velhas coisas e assegurar a permanência de outras. Havia
razões numerosas para o congraçamento entre os revolucionários e essas forças produ-
toras do interior do estado.

O desarmamento dos coronéis na Bahia

V encida a revolução, as primeiras medidas editadas por Leopoldo do Amaral, primeiro in-
terventor federal da Bahia (novembro de 1930 a fevereiro de 1931), determinaram, en-
tre outras coisas, a extinção do mandonismo e do coronelato no interior. Seguindo as diretrizes
revolucionárias, para o engenheiro aliancista, a depuração da oligarquia deposta só seria en-
cerrada com a desarticulação de seus correligionários do interior. Assim, segundo publicação
do jornal baiano A Tarde em 13 de novembro de 1930, era preciso desarmar os chefes locais,
inclusive aqueles que teriam apoiado o movimento. Por essa razão, ao passo que tomava
as medidas necessárias à organização administrativa do estado, os vitoriosos organizavam
o combate e desarmamento dos coronéis do interior. Ainda no dia 1º de novembro, data da
posse de Leopoldo do Amaral (1893–1965), um representante já havia sido designado para
mediar a entrega das armas de Horácio de Mattos. Começava assim a “profilaxia social dos
sertões baianos” (Arquivo Juarez Távora. FGV/CPDOC.JT dpf.1930.05.00).
De novembro de 1930 a março de 1931, militares vitoriosos varreram o Médio São
Francisco, desarmando e prendendo lideranças políticas locais (Lins, 1979: 18). Mesmo que o
interesse fosse identificar as armas e o dinheiro usados para combater a revolução, bem como
os homens beneficiados pelo governo de Washington Luís, desde os primeiros momentos da
profilaxia social houve uma seleção. Não foi por outra razão que Juraci Magalhães, que se-
cretariava Juarez Távora em suas atividades de vice-rei do Norte, questionou: “políticos marca
Madureira Francisco Rocha devem ser deixados liberdade ou presos? [...] Julgo conveniente
manter coronel Lopes dada sua profissão de fé revolucionária” (Arquivo Juarez Távora. FGV/
CPDOC.JT dpf.1930.05.00).
Juraci Magalhães assegurou estar agindo com excesso de tolerância, mas já havia
pedido ao general Collatino a publicação de uma nota alertando que a tolerância não deveria
ser interpretada como fraqueza. No processo de desarmamento, registraram-se mortes e al-

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Eliana Evangelista Batista

gumas prisões, a exemplo da de Marcionílio Souza Tranquilino, do município de Maracás, de


quem se apreendeu cerca de 5 mil armas entre revólveres, pistolas, fuzis, mosquetes e rifles
e 70 mil tiros.
A situação de Horácio de Matos recebeu atenção especial. Segundo o coronel Facó,
a opinião pública colocava Horácio de Matos em situação privilegiada. Por um lado, ele teria
assumido o compromisso de depor as armas em caráter diplomático; por outro, alguns chefes
sertanejos que assumiram o mesmo compromisso, como Franklin Lins de Albuquerque, Leó-
bas, Marcionílio Tranquilino e outros, estavam presos ou mortos, e a palavra dos vitoriosos
passava a ser questionada. Segundo os oficiais, a autoridade de Horácio de Matos estava mui-
to abalada, mas a sua prisão pelo compromisso assumido poderia ser vista como acoimada
má-fé, com consequências graves antes do desarmamento de sua gente. A situação era deli-
cada, pois não se cogitava a soltura dos presos, mas era preciso encerrar as negociações com
Horácio de Matos, respeitando as cláusulas preestabelecidas, a fim de evitar uma convulsão
social (Arquivo Juarez Távora. FGV/CPDOC.JT dpf.1930.05.00). O cenário era muito delicado,
mas, no final de dezembro daquele ano, a situação com Horácio de Matos parecia resolvida,
e ele publicou boletins convidando seus amigos para entregarem as armas no município de
Lençóis. Após o desarmamento, Horácio de Mattos foi preso, vindo a ser assassinado em
Salvador, em maio de 1931.
O desarmamento enfraqueceu os coronéis do ponto de vista militar, mas no ponto de
vista político ocorreu o inverso. A partir de então, verificou-se investimento maior na política
partidária e na luta parlamentar por parte desses grupos. Para algumas regiões do interior da
Bahia, como o Baixo-Médio São Francisco, a Revolução de 1930 restabeleceu antigas lideran-
ças e consagrou o modus operandi dos coronéis, que continuaram sendo chefes locais e base
de sustentação do novo governo (Melo, 1989: 101-110).

Às urnas: os coronéis e a organização


partidária para as eleições de 1933

A centralização do poder após a Revolução de 1930 não passava apenas pelo desar-
mamento dos coronéis no interior dos estados. Exigiam-se também profundas modifi-
cações nas instituições que davam sustentação a esse poder. Com base nisso, o governo que
emergiu em 1930 tratava de ocupar os postos de mando nos municípios, reduto tradicional
dos coronéis. No quadro da política vigente na Primeira República, o município constituía o
principal obstáculo a um governo centralizado. No governo provisório, o papel do município
continuava exigindo cuidados. Antes da nomeação de Juraci Magalhães para a interventoria
da Bahia, por exemplo, o posto foi assumido por Leopoldo do Amaral (novembro de 1930/

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Das armas às urnas: a participação dos coronéis da Bahia na Revolução de 1930

fevereiro de 1931) e Artur Neiva (fevereiro de 1931/julho de 1931). Ambos enfrentaram forte
crise política, tendo o último encabeçado uma reforma administrativa que visava minar as
forças municipais. O interesse era dividir os limites políticos dos coronéis ao extinguir ou ane-
xar determinadas localidades. As tensões geradas por essa proposta demonstram a força que
detinham e que levaram à renúncia de Artur Neiva.
Assim, um dos principais objetivos da escolha de um oficial para assumir o governo
baiano, após o fracasso de dois civis no posto de interventor federal, era pôr fim às disputas
políticas que resistiram às armas vitoriosas de 1930 e implementar o programa revolucionário
que em 11 meses acumulou conflitos, confrontos, boatos, mortes e perseguições políticas.
Por isso, entende-se que a indicação de um nome de alguém indiferente aos bastidores da
política doméstica para dirigir o estado, a exemplo do que ocorreu com Juraci Magalhães em
setembro de 1931, serviu para aplacar os ânimos e garantiu o sucesso da implantação de
parte do novo programa de governo na Bahia. Foi, portanto, uma manobra política de Vargas,
que percebeu de imediato que a crise instalada entre os produtores e as lideranças políticas do
estado não permitiria que um grupo remanescente da república deposta dirigisse a revolução
na Bahia.
Juraci Magalhães chegou ao estado um pouco antes de a Revolução de Outubro com-
pletar um ano. Um jovem de 26 anos, com apenas sete meses de experiência em serviços ad-
ministrativos, adquirida como auxiliar de Juarez Távora na sua tarefa de organização política,
administrativa e social dos estados do Nordeste, o cearense que comandou uma das brigadas
que invadira a Bahia no ano anterior chegava ao porto de Salvador, no dia 19 de setembro de
1931, para representar o governo federal no estado e tentar encerrar uma etapa conturbada
do processo revolucionário: a interventoria de civis na Bahia.
Ainda que compartilhasse as ideias dos demais interventores dos estados vizinhos,
que haviam recentemente criado o Bloco do Norte visando assegurar os interesses da região e
apoiar o governo Vargas se este deliberasse o prolongamento da ditadura, Juraci Magalhães
não hesitou em organizar seu lastro eleitoral na Bahia e cedo perscrutou os baianos da capital
e do interior para a formação de uma base política. Ainda em janeiro de 1932, viajou para
14 municípios, com o objetivo de construir bases de sustentação do seu governo no interior
do estado, sobretudo porque na Bahia, nesse período, o peso dos eleitores rurais e as forças
políticas regionais ainda definiam os resultados eleitorais. De acordo com Paulo Silva, essas
investidas no interior resultaram na formação de aliados fiéis e na aquisição, por parte de
Juraci Magalhães, de notável conhecimento dos problemas do sertão (Silva, 2011: 29).
A essa altura, muitos coronéis já haviam sido reinvestidos nas chefias dos seus respec-
tivos redutos. Conforme destacou Wilson Lins, eram homens que haviam deitado raízes no

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Eliana Evangelista Batista

chão fecundo da afeição popular, em suas comunidades, razão pela qual foram aproveitados
pelo tenente. Ao investigar essa reabilitação política dos coronéis no ano de 1932, Lins afir-
mou que “foi tal o papel desempenhado por esses chefes, na nova ordem política instalada
no país, que será uma injustiça dizer que eles aderiram à Revolução, já que a Revolução é que
havia aderido a eles” (Lins, 1979: 20).
O apoio que Juraci Magalhães recebeu do interior do estado foi fundamental para
o fortalecimento do governo provisório de Vargas. No ano de 1932, quando despontou em
São Paulo o Movimento Constitucionalista, facções políticas da Bahia desalojadas do poder
em 1930 ou descontentes com os rumos do novo governo, a exemplo de Seabra, que se
afastou dos vitoriosos ainda em maio de 1931, organizaram-se em apoio a São Paulo. Além
dos estudantes da Faculdade de Medicina, havia focos de descontentamento com o governo
constituídos no interior do estado. Juraci Magalhães reprimiu violentamente essas manifesta-
ções de solidariedade com o apoio, mais um vez, de lideranças municipais, como Franklin Lins
de Albuquerque, que em carta encaminhada a Juarez Távora em 15 de agosto de 1932 dizia
estar a postos para atender ao chamado de Juraci Magalhães, podendo arregimentar de 8 a
10 mil homens “com pequena demora e dois mil prontos para marchar no primeiro momento”
(Arquivo Juarez Távora. FGV/CPD OC.JT dpf.1930.05.00).
Para as lideranças desarmadas havia muita dificuldade para garantir apoio ao estado
de São Paulo, por isso temia-se que mais uma vez elas fossem socorridas pelas forças mi-
neiras. Em carta encaminhada a Otávio Mangabeira (1886–1960), ex-ministro das relações
exteriores do governo deposto, que se encontrava no exílio, o baiano Euvaldo Pinho relatou
que, se houvesse possibilidade de um homem político de prestígio seguir para o interior da
Bahia, estava certo de que haveria um levante, principalmente porque lideranças das Lavras
Diamantinas desejavam vingar a morte de Horácio de Matos (Mangabeira, 2012).
Em 1932, o coronel João Duque e outros do Vale do São Francisco estavam novamente
em contato com lideranças mineiras, especialmente Artur Bernardes, que mantinha simpatias
com a revolução paulista. Juraci Magalhães foi notificado da mobilização pelo serviço de in-
formação e, contando já com o apoio de vários outros coronéis, a exemplo do Franklin Lins de
Albuquerque, pôs fim aos planos de aproximação entre João Duque e Bernardes, impedindo
que a Bahia saísse em apoio a São Paulo.
As lutas pela recomposição dos poderes eram intensas. Ainda ao final de 1932, co-
ronéis de diferentes municípios baianos lançaram um documento definidor da política no
interior do estado: o manifesto dos políticos sertanejos. De acordo com matéria publicada
no jornal Diário da Bahia em 29 de novembro de 1932, era Franklin de Albuquerque quem
liderava o grupo político do interior. Em entrevista ao jornal, o então representante das Lavras

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Das armas às urnas: a participação dos coronéis da Bahia na Revolução de 1930

Diamantinas afirmou que desde o início do ano vinha organizando-se um movimento de coe-
são das forças políticas da região sanfranciscana. Segundo ele, não havia no estado, dentro
de qualquer partido político, a comunhão de vistas como a que imperava entre os sertanejos
do São Francisco. Tal como assegurou, todo aquele esforço estava destinado a apoiar Juraci
Magalhães, com ou sem constituinte.
A Coligação Sertaneja, como veio a ser conhecida a reunião dessas lideranças, foi
transformada num instrumento de ordenação política formalizada entre os coronéis do in-
terior do estado. Ao todo, a Bahia abrigou seis coligações. Além da Coligação Sertaneja
destacaram-se também a União dos Municípios do Nordeste Baiano, situada em Alagoinhas,
e a Associação Social e Política Municipal, situada em Senhor do Bonfim. No conjunto, reivin-
dicaram ao interventor o poder de arbitrar dissensões partidárias e pessoais e constituíram-se
formalmente como órgão deliberativo para questões territoriais entre municípios, chegando
a outorgarem-se funções de intervenção no desenvolvimento econômico e social (Machado
Melo, 1989: 96-107).
Assim, embora Consuelo Sampaio tivesse afirmado que a divisão da Bahia era
uma estratégia política de Juraci Magalhães para governá-la, com a subordinação dos
coronéis que seriam disciplinados pelo Partido Social Democrático (PSD), que só viria a
constituir-se em início de 1933, não se pode perder de vista o poder de articulação desses
coronéis, liderados, como ficou explicitado na matéria, por Franklin Lins de Albuquerque.
Afinal, data desse período a maior vigência política de alguns desses homens, a exemplo
daqueles do Baixo-Médio São Francisco. O próprio Lins de Albuquerque mudou-se para
a capital do estado e adquiriu um veículo de imprensa para melhor conduzir a política: o
jornal O Imparcial.
Em carta endereçada a Getúlio Vargas no final de janeiro de 1933, Juraci Magalhães
relatou ao governo provisório os passos que foram dados para a fundação do PSD na Bahia,
segundo ele, uma assembleia constituída de 346 representantes municipais e distritais, “ve-
lhos chefes sertanejos, muito dos quais nunca tinham comparecido a uma reunião política e
outros jamais tinham vindo à capital” (Magalhães, 1982: 236).
A estratégia adotada por Juraci Magalhães para a fundação do partido oficial na Bahia
foi marcada pelos princípios básicos da política da Primeira República, “compensando a ade-
são dos coronéis, com a concessão de benesses e favores que o poder lhe permitia” (Sampaio,
1992: 92-93). Essas concessões, por sua vez, precisam ser lidas como um reconhecimento da
força e da organização desses coronéis. Wilson Lins diria mais tarde: “Foi tal o papel desem-
penhado por esses chefes na nova ordem política instalada no país, que será uma injustiça di-
zer que aderiram à revolução, já que a Revolução é que havia aderido a eles” (Lins, 1979: 20).

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Eliana Evangelista Batista

Dulce Pandolfi também identificou a interventoria de Juraci Magalhães como aquela,


entre as demais dos estados do Nordeste, que mais se distanciou dos princípios defendidos
pela Aliança Liberal e justificou essa conciliação com os setores oligárquicos baianos por ser
a Bahia o estado onde eles detinham mais força política, mesmo depois do desarmamento
levado a cabo logo após a revolução (Pandolfi, 1980: 354).
O alinhamento dos coronéis do interior a Juraci Magalhães justifica-se também pe-
las características do sistema de governo centralizador adotado após a Revolução de 1930.
Além do desarmamento das oligarquias locais, adotou-se uma legislação na qual os prefeitos
passaram a ser nomeados e assistidos por um Conselho Consultivo. Estabeleceu-se também
“um sistema de recursos que subia do prefeito ao interventor e deste ao chefe do governo
nacional”, retirando a autonomia do município (Leal, 2012: 94).
Dentro desse novo modelo, o alinhamento com o interventor federal no estado era a
única maneira de lideranças políticas do interior conseguirem melhorias para os seus respec-
tivos redutos, uma vez que as arrecadações municipais eram ínfimas. No entanto, é preciso
destacar que a emergência de um Estado forte esteve intimamente relacionada a um jogo de
poder, e a sua consolidação não foi imediata. No pós-1930, o Estado ficou representado por
diferentes grupos sociais, o que significava estar assentado num equilíbrio de forças contradi-
tórias visivelmente insustentável (Weffort, 1980: 44).
Assim, nos primeiros anos após a Revolução de 1930, grupos políticos e econômicos
com interesses e ideias por vezes conflitantes buscaram (re)conciliações. Por meio dos inter-
ventores, Vargas tentou unificar as forças estaduais, integrar os estados na revolução e im-
plementar o projeto revolucionário, visando à centralização política (Gomes, 1986: 30). Estes,
por sua vez, na correlação de forças com grupos políticos e econômicos locais, e até mesmo
com grupos sociais de menor força política, não raro precisaram recorrer à reconciliação e a
acomodações políticas, obtendo sucesso à medida que atendiam a algumas exigências desses
grupos, sem o que jamais teriam condições de dar suporte ao projeto centralizador de Vargas.

Conclusão

P ara Aspásia Camargo, o pacto agrário que se renovou após 1930 não era “simples re-
sultante de poder residual das oligarquias”, mas um acordo deliberado que eliminava
alguns de seus recursos políticos enquanto ampliava outros. Assim, o processo de centrali-
zação política que esvaziava, em parte, o poder de determinadas oligarquias, destruindo as
suas manifestações de autonomia, operava-se “com a ajuda desse mesmo poder oligárquico,
graças às cisões que dividem internamente as elites regionais e que as levam a competir pelos
favores do Estado”. Essa predisposição aos acordos seria habilmente utilizada pelo poder

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Das armas às urnas: a participação dos coronéis da Bahia na Revolução de 1930

central na Bahia, no caso, Juraci Magalhães, e permitiu-lhe “substituir as velhas máquinas


oligárquicas da República deposta por outras mais permeáveis aos novos objetivos nacionais
dentro de uma estratégia global de centralização política” (Camargo, 1983: 15).
As associações de municípios na Bahia podem ser vistas à luz desse conturbado pro-
cesso. O apoio dado pelos coronéis e produtores do interior ao novo interventor não pode
ser lido apenas como subordinação, tampouco como puro e simples adesismo à revolução.
Muitos desses homens estiveram dispostos a negociar, mas a negociação foi também pautada
por eles. Percebe-se que não coube apenas a Juraci Magalhães, quase um ano após a vitória
revolucionária, chegar à Bahia e convencer os coronéis do interior a apoiar a sua gestão do
estado, tal como parecem querer nos convencer os seus livros de memória (Magalhães, 1982).
O contrário pode servir como uma via alternativa para entender o sucesso que ele teve como
interventor no estado.
O processo de reconciliação entre Juraci Magalhães e as oligarquias locais, bem
como as concessões decorrentes desse processo, certamente foram o que conferiu ao PSD
a maioria dos votos nas eleições de 1933, visto que o poder de barganha da oposição era
infinitamente menor. Somente resgatando as atuações desses homens do interior é que
podemos ter um quadro mais completo da Revolução de 1930 na Bahia e, por extensão,
em todo o Brasil.

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A R T I G O

Os anos trinta nas memórias e no arquivo


de Paulo Duarte: uma cultura política de
oposição a Getúlio Vargas

The 1930s in Paulo Duarte’s memoirs and archive: a political culture


of opposition to Getúlio Vargas

Los años treinta en las memoria y los archivos de Paulo Duarte: una
cultura política de oposición a Getúlio Vargas

Carolina Soares SousaI*

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-149420200003000011

Escola do Legislativo do Estado de Goiás – Goiânia (GO), Brasil.


I

*Doutora em História pela Universidade de Brasília (carolina_soaressousa@hotmail.com)


https://orcid.org/0000-0001-5519-471X
Artigo recebido em 1º de maio de 2020 e aprovado para publicação em 8 de julho de 2020.

644 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.644-666, Setembro-Dezembro 2020
Os anos trinta nas memórias e no arquivo de Paulo Duarte:
uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas

Resumo
Este artigo tem como objetivo o estudo da atuação política de Paulo Duarte no grupo político de Armando
de Salles Oliveira. Priorizaremos seu protagonismo no jogo político regional e nacional nos anos trinta, com
destaque para os meses que antecederam o golpe de novembro de 1937. Como se trata de um grupo der-
rotado, a memória histórica construída acerca dessa experiência ignorou sua especificidade e incorporou-a
no discurso homogeneizador e continuísta que conflui e deságua na Era Vargas. É em São Paulo, com o
pensamento e ação de Duarte e de seu grupo político, que será desenvolvida com maior expressividade uma
cultura política de oposição ao varguismo.
Palavras-chave: Paulo Duarte; anos trinta; cultura política; história; memória; arquivo.

Abstract
This essay aimed to study the political performance of Paulo Duarte, within the political group of Armando
de Salles Oliveira. We intended to focus on his role in the regional and national political game in the 1930s,
highlighting the months leading up to the November 1937 coup. As it is a defeated group, the historical
memory created on this experience has ignored its specificity and incorporated it into the homogenizing and
continuous discourse that has come together and flowed into the “Era Vargas”. It is in São Paulo, with the
thought and action of Duarte and his political group, that a political culture of opposition to “varguismo” was
developed with greater expressiveness.
Keywords: Paulo Duarte; 1930s; pollical culture; history; memoires; archive.

Resumen
Este artículo tuvo como objetivo estudiar el desempeño político de Paulo Duarte, dentro del grupo político
de Armando de Salles Oliveira. Dimos prioridad a su papel en el juego político regional y nacional en los
años treinta, destacando los meses previos al golpe de noviembre de 1937. Como es un grupo derrotado, la
memoria histórica construida sobre esta experiencia ignoró su especificidad y la incorporó al discurso homo-
geneizador y continuo que se unió y desemboca en la “Era Vargas”. Es en São Paulo, con el pensamiento y
la acción de Duarte y su grupo político, donde se desarrollará con mayor expresividad una cultura política de
oposición al “varguismo”.
Palabras clave: Paulo Duarte; años treinta; cultura política; historia; memoria; archivo.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.644-666, Setembro-Dezembro 2020 645
Carolina Soares Sousa

INTRODUÇÃO

A pós o fim do regime do Estado Novo, a memória da revolução de 1930 e dos anos que
compreenderam a política de Getúlio Vargas seguiu em permanente construção. Im-
pressiona a quantidade de relatos memorialísticos sobre o período. A visão de que a revolução
de 1930 se consumou somente com o golpe de novembro de 1937 foi amplamente difundida
pelos próceres do Estado Novo, entre eles políticos, intelectuais e militares que buscaram
legitimar o regime com tal discurso. Para os grupos políticos que se sentiram prejudicados e
tiveram seus projetos afetados, o passado precisou ser cortado, costurado, recortado e recos-
turado quantas vezes fosse necessário, em busca de um sentido de orientação sobre os papéis
desempenhados durante o largo período, de 15 anos, em que Vargas permaneceu no poder. A
preocupação com a gênese do golpe de novembro de 1937 surgiu no fim da década de 1930,
quando a fala “oficial e oficiosa” (Borges, 1998) procurou construir a ideia de que a ruptura
em novembro de 1937 era uma consequência já projetada pela ruptura de outubro de 1930,
um caminho natural e inevitável. Em 1937, o discurso dos vitoriosos ofuscava a existência
de diferentes projetos que disputaram o jogo político entre a revolução e o golpe, conferindo
ainda modernidade ao projeto político varguista (Pandolfi, 2003).
Se para o senso comum a chamada Era Vargas ainda é vista como um bloco coeso,
em que os fatos estão ligados, encadeados numa sequência lógica de acontecimentos,
para a historiografia tal abordagem já está devidamente superada. Os 90 anos da revo-
lução de 1930 encontram, hoje, produção historiográfica dedicada aos diferentes grupos
que compuseram aqueles anos, com abordagens variadas, desconstruindo a perspectiva
homogeneizante do projeto político vencedor. Ainda nos anos 1980, Carlos Alberto Ve-
sentini (1997) defendeu importante tese, A teia do fato, alertando para a necessidade da
desnaturalização de uma memória histórica que legitima e justifica o vencedor; impedindo
a percepção do vencido, compreendendo que o que fica retido na memória histórica, como
resíduo, não são apenas agentes políticos, mas projetos, estes sim os grandes vencidos. Um
desses projetos envolve o caso de São Paulo, acertadamente classificado pela historiadora
Vavy Pacheco Borges (1979) como a “história de uma esperança e de muitos desenganos”,
e continua a suscitar questionamentos sobre o jogo político daquele período e sobre como
foi possível Vargas estabelecer uma articulação com os grupos políticos predominantes,
permanecendo no poder por longo período.
Os itinerários do grupo político de Armando de Salles Oliveira, os armandistas, der-
rotados com o golpe de novembro de 1937, foram marcados fundamentalmente por quatro
momentos do jogo político nacional. Os três primeiros momentos são: de apoio a Getúlio

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Os anos trinta nas memórias e no arquivo de Paulo Duarte:
uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas

Vargas durante a Revolução de 1930, de oposição entre 1930 e 1932 — com a Revolução
Constitucionalista — e, novamente, de apoio com a ascensão de Armando de Salles Oliveira
à interventoria de São Paulo, de 1933 a 1936. Entretanto, o quarto momento da relação será
marcado por novo distanciamento, traduzido na declarada oposição a Vargas, com a candi-
datura de Armando de Salles Oliveira à presidência da República para o pleito que ocorreria
em 3 de janeiro de 1938. Trata-se de posição de confronto por parte da elite política paulista
armandista, que tem como desfecho o golpe de novembro de 1937, estendendo-se por todo
o exílio de Armando de Salles Oliveira e outro membro importante do grupo, Paulo Alfeu Jun-
queira Duarte. É em São Paulo, com o pensamento e a ação de Paulo Duarte e de seu grupo
político, que uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas será desenvolvida com maior
expressividade. Nesse sentido, não estamos lidando apenas com ações de oposição política
exercidas por Paulo Duarte e pelos demais membros do grupo, expressada em atuações loca-
lizadas em determinado período, mas sim com uma cultura política de oposição desenvolvida
por meio dos ressentimentos compartilhados com relação a Getúlio Vargas, representando um
fator de agregação e de sentimento de solidariedade no interior de um grupo político (Zioli,
2010). No caso de Paulo Duarte, a visão negativa da presença de Vargas como homem públi-
co ordenou o sentido de sua militância política e de sua vida. Duarte manteve inalterada sua
posição de oposição e buscou compreender e explicar as razões da aproximação de membros
do seu grupo, como Armando de Salles Oliveira, com Vargas (Sandes, 2012).
Em 1936, Paulo Duarte e Armando de Salles Oliveira acreditavam ser possível vencer
o pleito eleitoral marcado para janeiro de 1937 e organizar o país com base em um projeto
político oriundo de São Paulo. Encontramos tais aspirações no empreendimento memoria-
lístico e arquivístico realizado por Paulo Duarte, a fim de construir uma memória histórica
que justificasse a derrota de seu grupo político e projeto. As memórias registradas por Paulo
Duarte e o arquivo político por ele organizado constituíram fontes importantes para a com-
preensão do pensamento do grupo político aglutinado em torno da liderança de Armando de
Salles Oliveira. A escolha por Paulo Duarte como porta-voz do grupo armandista ancorou-se
em meu argumento em defesa de outra possibilidade de leitura das experiências políticas
ocorridas após a revolução de 1930, uma leitura que prioriza os grupos políticos que tiveram
seus projetos derrotados.

PAULO DUARTE: MEMÓRIA E ARQUIVO

P aulo Duarte iniciou a escrita do seu projeto memorialístico na segunda metade da década
de 1960, e a nova onda ditatorial que assolava o país com o golpe de 1964 pode ter ser-

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.644-666, Setembro-Dezembro 2020 647
Carolina Soares Sousa

vido de impulso para lembrar os acontecimentos da década de 1930 e a violência estado-no-


vista. Intitulado como Memórias, o trabalho resultou em nove volumes, com cerca de três
mil páginas contemplando sua vida pessoal e política, publicados entre 1974 e 1979. A em-
preitada teve auxílio de um arquivo político, cuidadosamente reunido, guardado e organizado
pelo próprio memorialista ao longo de sua vida. O termo arquivo político foi usado por
Paulo Duarte já no prefácio de seu primeiro volume de memórias (Duarte, 1974). Entendemos
que o arquivo é político não apenas porque é formado de documentos pessoais, mas também
porque reúne documentos de outros membros de seu grupo, documentos públicos e, sobretu-
do, porque são registros políticos. O material revela preocupação em construir uma memória e
posicionar-se politicamente sobre os acontecimentos vividos e testemunhados. Uma questão
impulsionou-me a pesquisar o empreendimento memorialístico e arquivístico de Paulo Duarte:
de que modo o seu arquivo contempla uma memória particular sobre sua trajetória e a de seu
grupo, possibilitando outra leitura para os embates políticos dos anos trinta? A primeira coisa
que precisamos fazer é localizar as ações políticas efetivas de Paulo Duarte e compreender a
dimensão de seu esforço em arquivar.
A historiadora Marli Hayashi (2010) comparou Duarte a Dom Quixote, alguém que
passou sua vida brincando de sonhar sonhos impossíveis. Entre esses sonhos, estavam o
Departamento de Cultura, o Instituto de Criminologia, o Museu do Homem Americano, a
Revista Anhembi e o Instituto de Pré-História. Alguns projetos ficaram apenas no plano
de aspiração, outros chegaram a ser executados, mas foram interrompidos, provocando
uma frustração que fica aparente em seus relatos. Nas memórias de Duarte, há grande
destaque ao seu envolvimento com o grupo político de Armando de Salles Oliveira du-
rante a década de 1930. Este tinha conseguido ascender ao governo de São Paulo como
interventor, indicado por Getúlio Vargas. Com essa ascensão e a fundação do Partido
Constitucionalista1, o grupo começa a se consolidar no cenário político nacional. A rela-
ção de Duarte com o grupo possibilitou que parte de seus projetos fossem realizados, mas
é também a responsável pela interrupção de outros. Ainda mais, é importante destacar
que foi com a idealização desses projetos que Duarte teceu uma impressionante rede de
sociabilidade com intelectuais e políticos de sua época. Se o vínculo com a comunidade
política do jornal O Estado de S. Paulo2 o colocou na mira do governo Vargas, provocando
seus dois exílios, também possibilitou sua participação em episódios da vida cultural e
política paulista. Essa ligação pode ser considerada uma expressão de sociabilidade que
Jean-François Sirinelli (2003) chamou de “sensibilidade ideológica ou cultural comum”,
em torno da qual um grupo de intelectuais ou políticos se organiza, partilhando dos
mesmos projetos.

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Os anos trinta nas memórias e no arquivo de Paulo Duarte:
uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas

Todo grupo de intelectuais organiza-se também em torno de uma sensibilidade ideológica ou


cultural comum e de afinidades mais difusas, mas igualmente determinantes, que fundam uma
vontade e um gosto de conviver; São estruturas de sociabilidade difíceis de apreender, mas que
o historiador não pode subestimar (Sirinelli, 2003: 257).

No prólogo do primeiro volume de suas memórias, Raízes profundas (1974), Duarte


escreveu as “Razões de defesa por ter vivido”, justificando a necessidade de relatar determi-
nados episódios por ele vivenciados. Para o memorialista, apenas uma vida de ações, coerente
com o posicionamento político daquele que resolve escrever suas memórias, era digna de ser
contada. A sua vida, sem falsa modéstia, deveria ser objeto de uma escrita memorialística:
Muita gente não precisava nem de escrever memórias. São amnésicos ou, melhor, deviam ser
amnésicos, mas isso no sentido de possuir e não no de ter perdido o próprio passado. Por-
que não têm o que contar ou nem o devem contar. Vida confidencial ou insípida, medíocre,
vegetativa ou inconfessável, ou nem nada de interessante a não ser maldades ou manhas,
complementos ou atributos. Outros não as escrevem para não lembrar coisas que, no próprio
interesse, devem mesmo ser conservadas em silêncio. O passado faz medo ou desagrada a
muitos (Duarte, 1974: 1).

Mas somente uma escrita memorialística, ancorada em lembranças, não era suficiente
para garantir o caráter de verdade e cientificidade que Duarte almejava. Ainda mais, não
era suficiente para contestar a versão do projeto político vencedor. Uma documentação sóli-
da, rica em diversos personagens, auxiliaria da forma necessária. Duarte começou a guardar
documentos com maior cuidado após o primeiro exílio sofrido, consequência da derrota dos
paulistas na revolução de 1932. A consciência de poder perder tudo em pouco tempo o fez
ter cautela extremada e carregar seu arquivo político, sempre em construção, durante seu
segundo exílio. Ao realizar pesquisa no Fundo Paulo Duarte3, foi-nos possível perceber algu-
mas preocupações importantes e reveladoras. O zelo em guardar cartas, documentos, diários,
resultou em vinte e duas pastas divididas em vida pessoal, política, produção intelectual,
recortes de jornais, entre outros. No esforço de organizar o passado em documentos, seus e
de seus pares, Paulo Duarte revela a vontade de que sua memória individual seja lida como
memória coletiva, a memória do grupo. O memorialista também organizou dossiês políticos
sobre Armando de Salles Oliveira, a campanha eleitoral de 19374, o Partido Constitucionalis-
ta5 e Ademar de Barros. Tantos documentos de terceiros revelam uma troca entre lembranças
pessoais e acontecimentos vividos pelo grupo político de O Estado de S. Paulo durante os anos
trinta. Lembrando Halbwachs (2004), há acontecimentos que modificam a existência de todos
os membros de um grupo político, oferecendo a todos um ponto de referência em comum. É
assim que Duarte relata a experiência vivida pelo grupo nos anos trinta.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.644-666, Setembro-Dezembro 2020 649
Carolina Soares Sousa

A narrativa memorialística de Paulo Duarte é frequentemente interrompida pela apre-


sentação de cartas trocadas entre seus pares, para que possa melhor esclarecer e, o mais
importante, comprovar o que está sendo narrado. No arquivo, as cartas estão divididas entre
“correspondências enviadas”, “correspondências recebidas” e “correspondências de tercei-
ros”. Armando de Salles Oliveira, por exemplo, correspondeu-se principalmente com Vicente
Ráo, Vivaldo Coaracy, Antônio Mendonça e Arnon de Mello, membros de seu grupo político
e fundamentais no desenvolvimento da campanha eleitoral para a presidência no ano de
1937. O uso dessas correspondências é seu suporte documental, balizando a organização de
uma memória. Nesse sentido, Paulo Duarte defendia que, ao contrário do tradicionalmente
praticado,
a verdadeira história não é contada pelos documentos oficiais, mas pela correspondência e os
diários deixados por grandes figuras, testemunhas exatas de acontecimentos ou nomes notá-
veis na política e na literatura, como Saint Simon, por exemplo, cujos quase duzentos cadernos
de memórias levantavam a época neles contidas (Duarte, 1974: 2).

Sob tal perspectiva, e mobilizado pela proposta de escrever a verdadeira história de


sua época e de sua vida, que parecem dele indissociáveis as correspondências de seu arquivo
pessoal representam a principal fonte, exaustivamente apresentada, dos seus nove tomos de
memórias. O uso da correspondência pessoal, bem como de um conjunto de cartas de mem-
bros do grupo armandista, revela-nos os objetivos e o modo como Paulo Duarte construiu e
organizou suas memórias, integradas às de seu grupo político e intelectual. Nelas encontra-
mos a construção dos projetos e trajetórias do grupo (Gomes e Schmidt, 2009: 7). Há a visível
preocupação em conferir visibilidade à sua atuação política nos complexos acontecimentos
dos anos 1930–1945. Por que Paulo Duarte documentou suas experiências pessoais e po-
líticas, constituindo um acervo de tamanho considerável e que tem servido para alimentar
pesquisas e fundamentar estudos a respeito da história política de São Paulo e do Brasil?
Pensamos na importância desse material para fundamentar análises sobre a atuação do grupo
político do qual Paulo Duarte foi integrante aguerrido e sobretudo um “guardião” da memória
de tal atuação, que ele reputa como a “verdade” acerca das experiências vividas naquele
período turbulento de nossa história. Em um projeto memorialístico, história e memória traba-
lham juntas, revelando-se como um esforço de construção de um lugar de memória. O arquivo
não teve apenas a função de armazenar organizadamente a documentação cuidadosamente
recolhida, reunida e guardada por Paulo Duarte ao longo de sua vida. Mais que isso, o arquivo
conta sua história. O passado arquivado e relatado em suas memórias poderia ser “recupe-
rado” tal como ocorreu e devidamente comprovado pelas fontes ali organizadas. Arquivo,

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Os anos trinta nas memórias e no arquivo de Paulo Duarte:
uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas

memória e história confundem-se, entrelaçam-se, imbricam-se nesse exercício de preservação


de um acervo, de montagem de um cenário, de escrita da “verdadeira” história.
Em 1970, Paulo Duarte encontrava-se mais uma vez com sérias dificuldades financei-
ras e negociou com o reitor Zeferino Vaz a venda de sua biblioteca e a doação de seu arquivo
para a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Após sua morte, o arquivo seguiu pri-
meiro para o Arquivo Central do Sistema de Arquivos (Siarq) e, posteriormente, em agosto de
1994, para o Centro de Documentação Alexandre Eulalio (CEDAE), onde se encontra hoje em
dia, juntamente com a biblioteca, ambos catalogados por Duarte. Uma visão de seu legado
documental tornou-se possível após a aquisição do arquivo pelo CEDAE, onde foi constituído
o Fundo Paulo Duarte. Aqui a noção de legado está de acordo com as reflexões de Luciana
Quillet Heymann (2005b): os processos de selecionar e reunir os documentos que devem ser
guardados, seus e de seus pares, e de constituir um arquivo que fale em nome do grupo,
revela que Paulo Duarte não quer apenas ser lembrado, mas sim intervir em qual história será
preservada sobre sua atuação política. Ao vender a biblioteca para a Unicamp, exigindo que
o arquivo ficasse nela para que não corresse o risco de se dispersar (Duarte, 1974), Duarte
reconhece-se em suas memórias como peça importante da história de São Paulo e do Brasil
durante os anos 1930, cuidando para que seu legado e sua interpretação dos fatos passados
fossem preservados. Seu arquivo deve ser tomado como objeto histórico, capaz de revelar um
projeto político e um ideário comum ao seu grupo. Nesse sentido, o Fundo Paulo Duarte e os
nove tomos de memórias funcionam como agentes de mediação entre o passado, o presente
e o futuro. Entretanto, é importante ressaltar que a produção de um legado não depende ex-
clusivamente da intenção do indivíduo que quer ser lembrado (Heymann, 2005a), tanto que o
legado de Getúlio Vargas foi explorado exaustivamente enquanto outras trajetórias políticas
foram relegadas ao esquecimento.
Cientes dos embates e disputas entre memória e história, e também de suas relações
e intercessões, não buscamos neste artigo verificar a “verdade” dos relatos de Paulo Duarte.
Procuramos justamente apreender o uso que ele faz do discurso da memória para lembrar,
precisar e legitimar sua história acerca de sua atuação e localização na política. Nossa preo-
cupação é com a análise crítica das memórias de Paulo Duarte, tentando compreender como
ela guarda um propósito. Interessa-nos, assim, apreender seu modo de ver a experiência
política sua e do grupo político do qual fazia parte, o que incluiu conhecer as suas condições
de produção, sinalizadas na cultura política da década de 1930 nos jogos de poder, nas
linguagens compartilhadas, nas estratégias de luta e de atuação, nos significados conferidos
às experiências vivenciadas e às narrativas produzidas sobre elas, já que foram dispostas em
imenso arquivo e expressas em cerca de três mil páginas. Apreender a memória histórica cui-

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dadosamente construída por Paulo Duarte oferece outra leitura para o jogo político paulista e
nacional durante os anos trinta.
O prólogo “Razões de defesa por ter vivido”, que abre os nove tomos de memórias de
Paulo Duarte, é bastante revelador dos propósitos do autor. Como avalia Beatriz Sarlo (2007:
51), “o discurso da memória transformado em testemunho tem a ambição da autodefesa:
quer persuadir o interlocutor presente e assegurar-se uma posição no futuro”. Parece-nos ser
esse o caso de Paulo Duarte no que diz respeito às suas memórias sobre sua atuação política
no seu grupo: tem a “ambição da autodefesa” e também a de persuadir o interlocutor pre-
sente, de assegurar para si um lugar na história.
A seguir, para tentar compreender como Paulo Duarte lida com a construção de me-
mória histórica sobre sua atuação e a atuação de seu grupo político, escolhemos tratar de
um dos episódios que marcaram as memórias de Paulo Duarte, aferindo os relatos com os
documentos encontrados no arquivo: o golpe de novembro de 1937. É ao golpe desferido por
Getúlio Vargas que Paulo Duarte atribui a responsabilidade pela interrupção e frustração de
seus projetos com o grupo político de Armando de Salles Oliveira. O projeto político do grupo
foi iniciado logo após a revolução de 1932, quando Armando de Salles Oliveira foi indicado
por Getúlio Vargas para assumir a interventoria de São Paulo. Consistia em transformar São
Paulo numa espécie de vitrine do que seria o Brasil sob a gestão do grupo político armandista.
Paulo Duarte registra em suas memórias, fiado em documentos reunidos em seu arquivo,
ideias discutidas por seu grupo político sobre o modelo de Brasil que queriam desenvolver. En-
tretanto, as eleições presidenciais marcadas para janeiro de 1938 moveram a roda da história
e as cartas da política paulista foram, novamente, embaralhadas.

O golpe de novembro de 1937


nas memórias de Paulo Duarte

E ntre 1936 e 1937, a campanha política para eleger Armando de Salles Oliveira presidente
do Brasil estava intensificada. O cenário eleitoral ainda contava com os candidatos José
Américo de Almeida, apoiado pelo Partido Republicano Paulista, e Plínio Salgado, da Ação
Integralista Brasileira6. Ilka Stern Cohen (1997: 189) apontou que o grupo político de Salles
Oliveira arquitetou uma estratégia de campanha eleitoral na qual se buscava disseminar um
modelo de governo capaz de retirar o Brasil da crise política em que se encontrava. Crise,
essa, creditada a um suposto “perigo vermelho”, “perigo verde” e a uma possível “volta à
ditadura” conduzida por Vargas. Paradoxalmente, ao defender seu projeto político, forjado
em um modelo capaz de salvar o Brasil, o discurso armandista aproximava-se do discurso de

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Os anos trinta nas memórias e no arquivo de Paulo Duarte:
uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas

defesa do regime do Estado Novo quando instalado, ou seja, aproximava-se do seu maior
opositor, Getúlio Vargas.
Quando os membros do grupo armandista foram surpreendidos com a notícia dos
planos de Getúlio Vargas para cancelar o pleito eleitoral e permanecer no poder, decidiram
não mais recuar e iniciaram uma oposição explícita, aprovando uma carta redigida por Arman-
do de Salles Oliveira que denunciava a possibilidade de um golpe de Estado. Ao fazer isso,
rompiam o silêncio político até então praticado em relação ao que o grupo considerava des-
mandos do governo Vargas. No entanto, era tarde para agir e resistir, já que o golpe os pegou
de “surpresa” e sem consolidar as alianças ensaiadas e anunciadas ao longo da campanha
política praticada naquele ano (Duarte, 1977). O grupo descobriu que se encontrava isolado
nesse pesado jogo contra o governo Vargas, sem o necessário apoio político e militar. Não
é nosso objetivo no espaço deste artigo detalhar as alianças políticas que levaram ao golpe
da perspectiva da historiografia, mas sim apresentar a visão de Duarte em suas memórias a
respeito do acontecimento, principalmente nos dias que antecederam o golpe.
Apesar de Paulo Duarte afirmar que o evento surpreendeu a todos, o próprio jornal
O Estado S. Paulo, desde setembro de 1937, publicou artigos insinuando um possível movi-
mento continuísta por parte do governo Vargas. Uma hipótese que podemos levantar para
desconstruir a ideia de assentimento ou silêncio diante da atuação de Vargas é pensar que o
grupo armandista usou como estratégia para combater um possível golpe a intensificação da
campanha eleitoral. Entretanto, o crescente apoio à candidatura de Armando Salles Oliveira e
da campanha eleitoral não foi suficiente para assegurar que a sucessão presidencial ocorresse
democraticamente; pelo contrário, acelerou os planos continuístas de Vargas que, ao sentir-se
ameaçado, contra-atacou, articulando o golpe de Estado.
O tema do debate sucessório surgiu pela primeira vez nos diários de Getúlio Vargas,
vinculado aos comentários públicos feitos pelo governador constitucional do Rio Grande do
Sul, Flores da Cunha. Desde a instalação do governo provisório, os gaúchos estavam frustra-
dos com a política centralizadora adotada por Vargas. Tal postura não estaria de acordo nem
com as práticas tradicionais nem com a plataforma apresentada e defendida pela Aliança
Liberal em 1930, em prol da qual os gaúchos haviam lutado e colaborado para retirar o pau-
lista Washington Luís do poder (Camargo, 1989). No arquivo de Duarte se encontram cartas
trocadas com Armando de Salles Oliveira sobre um possível apoio de Flores da Cunha à sua
candidatura. Getúlio Vargas até mesmo registrou em seu diário alguns encontros com Arman-
do de Salles Oliveira durante o ano de 1937. Nas ocasiões, tentou dissuadi-lo da candidatura,
revelando seu temor por uma vitória paulista.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.644-666, Setembro-Dezembro 2020 653
Carolina Soares Sousa

Ao escrever Ofício de trevas, seu sexto volume de memórias, publicado em 1977, Pau-
lo Duarte, contemporâneo dos desfechos do golpe de 1937, relembra a campanha eleitoral de
Armando de Salles Oliveira, deflagrada em concomitância à ação dos militares e do governo
varguista7 direcionada para o golpe. Segundo seu relato, a movimentação do Exército foi deci-
siva para a deflagração do golpe e não a antecipação da sucessão presidencial:
Sempre os militares inquietando a nação num momento em que se dava a prova mais segura de
que nada perturbava a calma do País, que apenas manifestava seu entusiasmo pelas próximas
eleições. [...] Chego a pensar se, antes de meter o ombro a qualquer importante problema
nacional, como quer Armando de Salles Oliveira, se devia, primeiro, reeducar e disciplinar o
Exército. Mas quem será capaz de pôr o guizo no pescoço do gato? (Duarte, 1977: 1).

Para Duarte, ainda que muitos políticos soubessem sobre o que estava prestes a acon-
tecer quanto aos rumos políticos do país, os mesmos estavam presos “aos nós apertados
com que Getúlio Vargas sabia manietar os seus asseclas” (Duarte, 1977: 2), entre eles os
militares, que estariam servindo aos interesses do chefe do governo federal. A avaliação do
memorialista sobre o papel dos militares é simplista, colocando-os, a princípio, apenas como
marionetes de Vargas, no entanto sabemos que a participação dos militares, por intermédio
de Góes Monteiro e o General Dutra, foi fundamental para a elaboração e a deflagração do
golpe de novembro de 1937. Vargas também serviu ao interesse dos militares.
Dos “asseclas”, Paulo Duarte excluía Armando de Salles Oliveira, visto por ele como
um “estadista” e não um político submisso com quem compartilhava um projeto político de
dominação nacional. Armando de Salles Oliveira era considerado um político de visão, que sa-
bia dar “passos largos”, pragmático. São esses atributos que Paulo Duarte utiliza para expli-
car, convenientemente, a composição do grupo paulista com Vargas. Seria apenas uma tática
do jogo, um caminho para alcançar o pretendido, no caso, a sucessão presidencial. Já outros
políticos seriam “desavergonhados”, na avaliação de Paulo Duarte, haja vista o silêncio da
Câmara diante da mensagem de “estado de guerra” encaminhada a ela por Vargas em 1937:
Assim, permaneceram eles firmes e indiferentes ao futuro e aos resíduos da própria dignidade
que ainda lhes sobravam quando, ao amanhecer de 2 de outubro de 1937, antes de voltar o
país da surpresa dos primeiros boatos, chega à Câmara dos deputados a mensagem de Getúlio
solicitando o estado de guerra (Duarte, 1977: 2).

O estado de guerra foi decretado no início de outubro pelo prazo de três meses, o
período que faltava para a execução da eleição presidencial, evidenciando tratar-se de medida
cuja pretensão era a de cercear a propaganda política, como denunciaram os oposicionistas
a Vargas. Segundo Duarte, o líder paulista na Câmara Valdemar Ferreira subiu novamente à

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Os anos trinta nas memórias e no arquivo de Paulo Duarte:
uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas

tribuna alegando a inconstitucionalidade do pedido, que só podia ser admitido em caso de


grave comoção interna, situação que não se verificava no Brasil naquele momento. O depu-
tado também denunciou o Plano Cohen8 e prosseguiu divulgando algo mais que estava para
acontecer:
Há ainda um aspecto gravíssimo que é preciso repisar, diz Valdemar Ferreira. Até pelos cor-
redores da Câmara certos arautos asseguram: não haverá eleições a 3 de janeiro; o mandato
do presidente da República será prorrogado e o dos deputados também. Há um programa de
subversão que está sendo friamente executado. “É preciso denunciá-lo ao País” — Valdemar
alteia a voz — “e eu tomo sobre mim a responsabilidade de denunciá-lo!” — diz Valdemar
Ferreira numa tempestade de aplausos. — “E o programa vai ser executado por etapas. Hoje é
o estado de guerra. Se não o votarmos será a dissolução da Câmara. Mas dissolvida será ela de
qualquer maneira. Os fatos confirmarão o que acabo de dizer e faço votos, os melhores votos,
para que seja desmentido o que anuncio (Duarte, 1977: 2).

O deputado Valdemar Ferreira defendia que o governo deveria prestar as devidas in-
formações ao Poder Legislativo para que os deputados pudessem se posicionar em relação
à situação enfrentada. Além disso, a Câmara também deveria ser informada dos termos da
representação militar, pois só assim teria condições de votar, fundamentada e conscientemen-
te, o estado de guerra. Todavia, a maioria dos deputados permaneceu em silêncio, “nesse
diapasão, num ambiente de silêncio perplexo. O silêncio dos covardes” (Duarte, 1977: 3).
Para Duarte, o país havia sido apanhado de surpresa, não havia nenhum indício de comoção
interna que de fato justificasse o pedido, daí a posição cautelosa e desconfiada daquele de-
putado da oposição. O que parecia seriamente ameaçado naquele momento era o regime que
vigorava, possibilidade que foi contida com a declaração do estado de guerra pelo período de
três meses, ou seja, até a data marcada para as eleições.
Ao relembrar os acontecimentos que precederam o golpe de 1937, Paulo Duarte des-
taca a primeira “rachadura no bloco político de Armando de Salles Oliveira”, sinal visível do
processo de seu enfraquecimento político e da fragilidade dos acordos políticos e dos apoios
firmados, mas não cumpridos. Além disso, ressalta a incoerência do pedido de estado de guer-
ra apresentado pelo Ministério da Justiça na figura de José Carlos Macedo Soares, cujo discur-
so, até então, afirmava justamente o contrário, que reinava a “mais absoluta calma” no país:
Há poucos dias o ministro da Justiça declarava em S. Paulo que o País estava na mais absoluta
calma e que não havia nada que justificasse qualquer inquietação. Apenas três dias depois,
surge esse estranho e misterioso relatório dos ministros militares e é o mesmo ministro da
Justiça que, encaminhando-o, solicita o estado de guerra! E um pedido dessa ordem vem de-
sacompanhado de qualquer documento! Onde está essa alegada comoção intestina? Comoção

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intestina é coisa que se vê e sente, é coisa palpável, e o país inteiro só dela toma conhecimento
por uma notícia enviada pelo ministro da Justiça ao Parlamento e desacompanhada da menor
prova (Duarte, 1977: 3).

Mas as denúncias e apelos dos constitucionalistas não surtiram efeito no sentido de


angariar apoio por parte dos políticos e tampouco dos militares. No Senado, o projeto para a
decretação do estado de guerra foi aprovado por 22 votos contra três, dados por Paulo Mo-
rais Barros, Cesário de Melo e Jerônimo Monteiro. Esses três políticos, segundo Paulo Duarte
(1977: 6), “não se haviam submetido ao terrível processo de emasculação moral”. Aprovado
o projeto, Getúlio Vargas imediatamente baixou o decreto que declarava o estado de guerra
pelo prazo de 90 dias em todo o território nacional, sob a alegação de “comoção intestina
grave”, articulada no país com a finalidade de subverter as instituições políticas e sociais.
Com o decreto, suspendiam-se todas as garantias públicas e privadas, que era finalmente o
que se tinha em vista com a declaração do estado de guerra. Nessa suspensão, evidenciava-se
o projeto varguista de continuar no poder sob o argumento de que necessitava de tempo e
dessas condições excepcionais para realizar as reformas exigidas para a modernização do
país. Durante 90 dias o Brasil permaneceria, na avaliação de Paulo Duarte (1977: 6), “no rol
das nações politicamente mais atrasadas do mundo, sob uma medida de exceção”, algo que
somente uma ameaça de invasão estrangeira ou a máxima calamidade interna poderia justi-
ficar, mas que foi declarado com base em justificativa infundada, sem o peso exigido para tal.
As cisões, traições, recomposições e alianças começaram a surgir, redesenhando os
cenários políticos nacional e paulista. Afirmava-se que o governador de São Paulo, Cardoso
de Melo Neto9, apesar de ter sido antigo membro do Partido Democrático e de ter aderido
posteriormente ao Partido Constitucionalista, preparava o seu rompimento com Armando de
Salles Oliveira. Tudo indicava que, no caso de um golpe de Estado, Cardoso de Melo Neto per-
maneceria à frente do governo paulista com o apoio de Alcântara Machado. Vargas entregaria
a ele a direção da política em São Paulo. Duarte registrou que o próprio Fábio Prado já havia
alertado a todos sobre essa possível traição:
“O Cardoso”, dizia ele, “fatalmente acabará brigando com o Armando. Em primeiro lugar, por-
que ele anda furioso com a intromissão dos agentes diretos do Armando em seu governo” — o
que era verdade — “e, em segundo lugar, um governador de Estado por muito digno que seja
quer fazer o seu governo e não governar dirigido de longe pelo seu antecessor, embora essa
direção fosse apenas para não quebrar uma linha política preestabelecida” (Duarte, 1977: 8).

Percebemos que Armando de Salles Oliveira também intervinha na administração do


governo que ele entendia estar subordinado a ele. Todavia, mesmo diante da decretação

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Os anos trinta nas memórias e no arquivo de Paulo Duarte:
uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas

do estado de exceção, Armando de Salles Oliveira ainda não se dava por vencido. Em 6 de
outubro, o candidato paulista anunciou uma caravana à Bahia. De acordo com Paulo Duarte
1977), como o norte era a região estratégica de José Américo de Almeida, candidato de
Getúlio Vargas, o paulista Armando de Salles Oliveira planejava ir não apenas à Bahia, mas
também estenderia sua viagem a Pernambuco, ao Maranhão e à Paraíba, regiões de domínio
getulista10, “para cutucar a onça na sua própria toca” (Duarte, 1977: 9). Essa disputa acirrada
é objetivamente identificada por Getúlio Vargas, que faz uma precisa avaliação do momento
político atravessado pelo país após a decretação do estado de guerra: o de complicação do
panorama político. Nos seus registros, o presidente assinala o seguinte:
(13 a 15/10/1937) O panorama da vida política no Brasil vai se complicando. Os partidários dos
dois candidatos começam a vacilar. O Sr. Armando Sales, perdida a esperança na vitória, pensa
delegar poderes ao governador do seu estado para tratar com o de Minas a escolha de um
terceiro candidato. Na Câmara, uma certa corrente de opinião trata da prorrogação dos man-
datos. Entre os militares, há um certo grupo partidário do Sr. Armando Sales que disfarça sua
atitude, manifestando-se contrário às medidas tomadas pelo governo. O ministro da guerra,
porém, prepara com decisão a marcha dos acontecimentos. Assinei dois decretos requisitando
as polícias militares de São Paulo e Rio Grande (Vargas, 1995: 74).

Com efeito, com o decorrer dos dias e da campanha eleitoral, a situação política do
país, que permanecia em estado de guerra, complicou-se intensamente. Em 19 de outubro, o
governo federal requisitou, isto é, colocou à disposição das forças federais, a Força Pública de
São Paulo e a Brigada Estadual do Rio Grande do Sul. Tratou-se de enérgica e rápida reação
do governo Vargas contra uma possível união armada entre São Paulo e Rio Grande do Sul. Tal
iniciativa provocou uma reação até então inesperada por parte de Flores da Cunha: o governa-
dor rio-grandense renunciou e buscou refúgio em Montevidéu, no Uruguai. Era a atitude que
o governo Vargas esperava. Afinal, o lugar do ferrenho opositor, Flores da Cunha, foi ocupado
pelo interventor nomeado por Vargas, o general Daltro Filho. Este, finalmente, “conseguiu um
governo estadual!”, comentou Paulo Duarte, que criticava Dutra desde a Revolução de 1930,
alegando que ele teria interesse em ascender ao poder a qualquer custo. A União Democrática
Brasileira agiu imediatamente. Três dias após a fuga de Flores da Cunha, requereu ao Tribunal
Eleitoral o registro da candidatura de Armando de Salles Oliveira como candidato à presidên-
cia da República. Entretanto, o homem forte da oposição a Vargas em seu projeto continuísta,
Flores da Cunha, já estava no exílio.
O ambiente político era, pois, de grande inquietação, com a intriga no seio do Exército,
as pressões dos tenentistas, dos partidários de José Américo de Almeida, da oposição dos pau-
listas, insistindo e disseminando a propaganda política da candidatura de Armando de Salles

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Oliveira. Os boatos eram de que não haveria eleições em 3 de janeiro; falava-se também na
prorrogação do mandato do presidente da República — boatos que se intensificaram quando
alguns círculos políticos ligados ao candidato José Américo de Almeida anunciaram a retirada
de sua candidatura. Não obstante esse movimento de debandada, Armando de Salles Oliveira
seguiu firme em sua campanha política, com o apoio do grupo d’O Estado de S. Paulo e a
simpatia de um grupo de militares que disfarçava sua posição de apoio à candidatura paulista,
“manifestando-se contrário às medidas tomadas pelo governo Vargas” (Duarte, 1977: 74).
Não por acaso, por ocasião das eleições para a sucessão presidencial, o jornal O Es-
tado de S. Paulo voltou a publicar em seu interior o “Jornal do PC”, uma espécie de caderno
político do Partido Constitucionalista que havia sido criado na época das eleições para a
Assembleia Estadual Constituinte, em 193411. Fonte importante para pesquisa da cultura
política paulista nos momentos que antecederam o golpe, o caderno era reproduzido também
em outros grandes jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro12. A campanha eleitoral seguia e,
não fossem os planos que estavam sendo articulados concomitantemente a ela por parte do
presidente Getúlio Vargas, alguns dias depois outro presidente seria escolhido para governar
o país.
Paulo Duarte comenta os bons resultados numéricos conseguidos graças à campanha
eleitoral realizada pelo Partido Constitucionalista. Os dados até aquele momento eram de 850
mil eleitores que se haviam alistado para votar. O alistamento eleitoral da população apta a
votar era uma das bandeiras defendidas pelas caravanas que o Partido Constitucionalista
realizou com Armando de Salles Oliveira pelo país durante a campanha eleitoral. No arquivo
de Paulo Duarte há registros de que essas caravanas percorreram a Região Nordeste, onde
Salles Oliveira não tinha grande apoio em razão da candidatura de José Américo de Almeida.
No entanto, como a campanha eleitoral foi precocemente interrompida, o plano de percorrer
todo o território nacional com as caravanas, divulgando o programa político do partido e o
pensamento de Armando de Salles Oliveira, não pôde ser completamente executado.
No pesado jogo político do momento, uma viagem do deputado Negrão de Lima13
ao Nordeste do país causou ainda mais inquietação em Paulo Duarte em razão dos objetivos
associados à iniciativa. Na avaliação dele, a viagem daquele deputado à região tinha em vista
negociar apoio para a prorrogação do mandato de Getúlio Vargas:
Ao que parece, a missão de Negrão de Lima foi a de propor, a troco de vantagens políticas e
pessoais, aos governadores de Estado, a prorrogação do mandato do presidente da República,
dilatação por mais seis anos do dos demais governadores, dissolução da Câmara e do Senado
e dos legislativos, estaduais, criação de uma câmara corporativa e de um conselho de técnicos
que funcionará junto aos ministérios. Puro fascismo, mas Getúlio é apenas um caudilho, esse

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Os anos trinta nas memórias e no arquivo de Paulo Duarte:
uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas

negregado fenômeno sul-americano, herdado dos espanhóis. O que ele quer é permanecer no
poder. Não tem nenhum gosto ou predileção por este ou aquele regime, desde que seja ele o
chefe, o presidente, o ditador, o rei, o imperador, o dono (Duarte, 1977: 53).

Paulo Duarte faz também uma avaliação percuciente do que ele entende por preten-
sões continuístas e caudilhistas de Getúlio Vargas. Na leitura do memorialista, o objetivo de
Vargas seria exclusivamente o exercício do poder, sem simpatia por esse ou aquele partido ou
candidato, sem predileção por este ou aquele regime. Com tais propósitos e interesses, Vargas
atuava disposto a chegar a acordos que lhe fossem convenientes, como o que havia sido feito
com os governos estaduais. Daí enviar o deputado Negrão de Lima para negociar com os
governadores, sem que o presidente ficasse comprometido. Em 8 de novembro, José Carlos
Macedo Soares demitiu-se do Ministério da Justiça, alegando cansaço. “Cansaço ou remor-
so?”, perguntava-se Paulo Duarte. Afirmava-se que era por causa do suposto golpe de estado
tramado por Getúlio Vargas com o apoio dos militares e de Francisco de Campos14. Esse co-
nhecido jurista, fundador da Legião Revolucionária em Minas Gerais e, ao que tudo indicava,
vinculado ao integralismo, foi o novo ministro da Justiça de Vargas. Segundo a avaliação de
Paulo Duarte, a saída de José Carlos Macedo Soares não significou grande desfalque nas for-
ças do governo federal, mas sua substituição por Francisco Campos foi uma importante virada
no jogo político. Paulo Duarte refere-se à entrada de Francisco Campos como uma guinada no
jogo político porque foi o novo Ministro da Justiça que, em nome de Getúlio Vargas, articulou
o apoio de Plínio Salgado e dos integralistas ao golpe de novembro de 1937. Para convencer
Plínio Salgado de que apoiar Vargas era o melhor caminho, Francisco Campos garantiu que o
integralismo seria a base da futura organização ditatorial que se almejava construir. Logo em
seguida à nomeação de Francisco Campos, os constitucionalistas se reuniram na casa de Ar-
mando de Salles Oliveira, no Rio de Janeiro, com integrantes da União Democrática Brasileira,
com o intuito de fazer deliberações sobre qualquer possível golpe ou perturbação da ordem.
A atmosfera estava pesada.
No dia seguinte, o jornal de oposição paulista, Correio Paulistano, publicou artigo
dizendo que a candidatura de Armando de Salles Oliveira estava morta, mas que teria
seu atestado de óbito no dia 3 de janeiro, já que as eleições se realizariam, sim, “porque
há a assegurá-lo a palavra o chefe da Nação e das mais altas autoridades das Forças
Armadas, que não hão de querer o soçobramento da nacionalidade na desordem e na
anarquia” (Duarte, 1977: 52). Os constitucionalistas, apesar dos boatos de golpe, tinham
razões, embora frágeis, para manterem algumas esperanças quanto à possibilidade das
eleições. Ainda na véspera, Armando de Salles Oliveira havia recebido a informação de
que um golpe de Estado estava iminente. Todavia, o grupo militar de oposição, formado

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.644-666, Setembro-Dezembro 2020 659
Carolina Soares Sousa

por Eduardo Gomes e outros chefes militares, buscou tranquilizá-lo, afirmando que não
havia nenhum ambiente para golpes, não conseguindo, porém, convencê-lo. Afinal, seus
informantes haviam confirmado que um golpe estava sendo tramado. Ele decidiu então
escrever o manifesto que, na tarde do mesmo dia 9 de novembro, foi lido na Câmara e no
Senado; ou seja, jogou sua última cartada.
Segundo Duarte, no âmbito das eleições, o ambiente era aparentemente pacífico, pois,
mesmo depois da decretação do estado de guerra, a campanha eleitoral fazia-se em nível
intenso e sem que qualquer incidente tivesse sido registrado. Daí a ingenuidade ou dificul-
dade em acreditar num possível golpe de Estado, mesmo diante das medidas extraordinárias
adotadas pelo governo federal. Não haveria aí, por parte de Duarte e dos armandistas, uma
falta de visão política? Afinal, as medidas excepcionais que o governo federal tomou contra
os Estados demonstravam que não se tratava efetivamente de prevenir-se contra uma ameaça
comunista, que era, de fato, inexistente. Na avaliação de Duarte, a medida era um artifício
legal para o exercício de um grave desmando, que prorrogava os mandatos e mantinha Getú-
lio Vargas na presidência da República. Também podemos avaliar o registro de Paulo Duarte,
a surpresa diante de um golpe iminente, como uma ingenuidade conveniente, uma vez que
políticos paulistas também participaram das medidas que acabaram por distanciar o país de
uma eleição democrática. Diante desse quadro, Salles Oliveira redigiu o manifesto, denuncian-
do o golpe que estava sendo articulado sob o regime de exceção do “estado de guerra”. Lido
no dia 9 de novembro na Câmara e no Senado, o manifesto provocou alguma comoção, sem
conseguir, no entanto, cumprir a intenção de seu autor: convencer a maioria dos parlamenta-
res a aderir à proposta armandista.
Assim, o dia 10 de novembro amanheceu calmo em São Paulo, “mas logo no fim
da manhã começou a escurecer” (Duarte, 1977: 77). Os boatos tomaram conta do país.
Falava-se sobre um golpe de Estado e também sobre um golpe por parte do Exército contra
Getúlio Vargas. Apenas à tarde vieram as primeiras notícias concretas. “A realidade era a
mais melancólica”: os militares, ao invés de “falharem”, haviam se aliado a Getúlio Vargas. O
Parlamento foi fechado no fim da tarde. O chefe do governo central falou ao início da noite.
Paulo Duarte comentou o discurso de Vargas, encerrando seu capítulo de memórias a respeito
dos acontecimentos que antecederam o golpe do Estado Novo:
O seu discurso foi de um cinismo ímpar. Os militares que o apoiaram e os políticos que o se-
guiam ou aderiam à última hora ficariam rubros de vergonha se neles houvesse brio pessoal,
civil ou militar. Só mesmo um país em pleno esfacelo poderia tolerar semelhante mistificação.
Mas tolerou e iria tolerar por oito longos anos de escuridão política, moral e mental (Duarte,
1977: 77).

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Os anos trinta nas memórias e no arquivo de Paulo Duarte:
uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas

As memórias narradas por Paulo Duarte constroem seu compromisso com a defesa dos
ideais constitucionalistas e democráticos do grupo político armandista e, sobretudo, um compro-
misso antivarguista, embora o grupo tenha atuado na administração de uma interventoria indi-
cada por Getúlio Vargas. Em vez de fazer a crítica dessa participação no mínimo questionável de
seu grupo político, que optou por fazer uma aliança com Getúlio Vargas, Paulo Duarte significa
tal relação como “imperativo” de sobrevivência ou de afirmação do grupo político armandista.
A percepção a respeito dos membros de seu grupo político, principalmente de Júlio de Mesquita
Filho e de Armando de Salles Oliveira, só mudaria durante o exílio. A expectativa de luta e vitória
contra Getúlio Vargas foi frustrada diante da excessiva cautela de seus companheiros. Mas algo
que Duarte não avalia é que a expectativa foi também minada pela força de cooptação de Ge-
túlio Vargas, de sua base de apoio político e militar. Num movimento imperativo e pragmático,
políticos e militares escolheram transigir, negociar e aderir aos planos varguistas para poderem
sobreviver, algo a que o grupo paulista não estava disposto naquele momento.
Com o regime do Estado Novo, veio a perseguição política aos seus opositores e Paulo
Duarte foi obrigado a enfrentar seu segundo exílio15. Partiu rumo à Alemanha, já dominada
pelo nazismo, desembarcando no porto de Hamburgo em dezembro de 1938. Poucos dias
depois deixou a cidade de Hamburgo, passando por Colônia, Mannheim, e de lá seguiu para
Paris, onde viveria pelos próximos quatro meses. Foram também para o exílio político alguns
de seus companheiros da jornada política dos últimos cinco anos, período em que os pau-
listas estiveram à frente do governo de São Paulo, os membros do conhecido grupo político
armandista, mencionado ao longo deste texto. Eram eles: Armando de Salles Oliveira, Júlio de
Mesquita Filho, Luiz Piza, Otávio Mangabeira, Mário Brandt e Paulo Nogueira Filho. Esse gru-
po reduzido será o responsável por algumas ações tomadas contra a ditadura estado-novista
durante o tempo do exílio. Ações que também serão relatadas por Duarte em suas memórias
e documentadas para a constituição de seu arquivo.

A CULTURA POLÍTICA DE OPOSIÇÃO A GETÚLIO


VARGAS NAS MEMÓRIAS DE PAULO DUARTE

P autados pelas reflexões feitas, tomando como exemplo os relatos que Paulo Duarte fez
dos episódios que antecederam a deflagração do golpe de novembro de 1937, entende-
mos que a constituição de um arquivo e de uma produção memorialística ancorada naquele
suporte nos indica que havia, da parte de Paulo Duarte, o desejo de ser lembrado, de ter um
lugar assegurado na história do período de 1930–1945 e, até mesmo, a ambição de auto-
defesa na avaliação que faz de sua atuação nos acontecimentos políticos do período. Nesse

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.644-666, Setembro-Dezembro 2020 661
Carolina Soares Sousa

sentido, a correspondência privada, artigos escritos em periódicos a respeito da atuação de


um grupo em determinado período, discursos políticos, dossiês temáticos organizados, entre
outros, constituem “um tipo de documento que combina exercícios de produção do “eu” e de
persuasão política dos outros “e de si mesmo” (Gomes e Schmidt, 2009: 42).
Assim, com base na leitura das memórias produzidas por Paulo Duarte e nas consultas
aos documentos do arquivo do memorialista, procuramos localizar seu desejo de persuadir o
leitor, e a si mesmo, acerca de sua atuação política durante o governo de Getúlio Vargas (1930–
1945) em dois pontos: o primeiro afirma sua trajetória profissional e pessoal como importante
para a história do período e para e desenvolvimento do país; o segundo afirma sua coerência
política e fidelidade de revolucionário, pois ele lutou ativa e incansavelmente contra Getúlio
Vargas e, se não obteve sucesso, foi unicamente em razão da incapacidade de outros membros
de seu grupo, que não se comportaram como verdadeiros revolucionários. No primeiro ponto,
novamente identificamos sua vontade de assegurar seu lugar na história, ao ressaltar a “gran-
deza” do seu papel político e social. No que diz respeito ao segundo ponto, o da “ambição de
autodefesa”, a tentativa de justificar a participação em um governo que teve políticas de apro-
ximação com Getúlio Vargas. Nos dois, o ponto comum de conexão é o viés antivarguista, sem
concessões, constituindo, portanto, uma cultura política de oposição a Vargas, que deveria ser
passada para a história por meio das memórias e do arquivo. Foge dos nossos objetivos remon-
tar ao período do exílio durante o Estado Novo, mas ressaltamos que Paulo Duarte faz questão
de registrar e documentar as ações propostas e articulações para reações contra Getúlio Vargas,
situando-se no campo político de franca, intransigente e explícita oposição ao varguismo.
A memória de luta contra Getúlio Vargas, constantemente chamado de ditador por Duar-
te, percorrerá a escrita do memorialista ao longo dos nove tomos e expressará o sentimento de
ressentimento também em relação aos outros membros do grupo armandista. O ressentimento,
expressão dessa autodefesa, aparece nas memórias tanto no período que antecede o golpe de
novembro de 1937, quanto no período posterior a ele. Paulo Duarte, ao fazer autoavaliação de
sua participação nos projetos do grupo, considera-se como parte importante dele, como peça
importante de todo o esquema de luta contra o varguismo. Ao ressaltarmos o viés antivarguista
presente nas memórias e arquivos de Paulo Duarte, pareceu-nos ser essa a sua vontade ao
desvincular as ações do grupo político armandista do governo Vargas, ao demarcar a posição
política do grupo. É preciso lembrar, porém, que Paulo Duarte, embora afirme ter sido contra
qualquer aproximação do grupo com Vargas, acabou cedendo e apoiando Armando de Salles
Oliveira em sua decisão de compor com o governo central, exercendo, a propósito, cargos na
administração pública nesse momento. Paulo Duarte tinha Salles Oliveira como uma liderança e,
apesar de eles nem sempre estarem de acordo, as decisões deste último eram respeitadas. Nesse

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Os anos trinta nas memórias e no arquivo de Paulo Duarte:
uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas

sentido, é visível sua autodefesa quanto ao apoio a Salles Oliveira quando este se aproximou de
Getúlio Vargas. Fazendo posteriormente a autocrítica e crítica do grupo, e conhecendo o desfe-
cho da história do grupo político paulista, ele procurou justificar tal aproximação e fazer a crítica
aos posicionamentos tomados por Salles Oliveira, cruciais para o desfecho do jogo político, com
a derrota do grupo e a efetivação do golpe de 1937.

Notas
1 O Partido Constitucionalista foi fundado em fevereiro de 1934, após a extinção do Partido
Democrático e as dissidências do Partido Republicano Paulista.
2 Refiro-me ao grupo de Armando de Salles Oliveira como comunidade política do jornal
O Estado de S. Paulo pelo envolvimento de seus membros com o periódico. Armando de Salles
Oliveira era casado com Raquel de Mesquita, filha de Júlio de Mesquita, diretor do jornal.
Paulo Duarte foi redator nesse veículo e correspondente internacional durante seu segundo
exílio, em 1938.
3 Este artigo é resultado da pesquisa de pós-doutorado que realizei no Fundo Paulo Duar-
te, com o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), sob a orientação da Professora Maria Stella Martins Bresciani.
4 O dossiê a respeito de Armando de Salles Oliveira e sua vida política é composto de cartas
trocadas entre o político e alguns membros do grupo armandista e políticos aliados, sobretudo
com Vivaldo Coaracy, Arnon de Mello e Otávio Mangabeira. Contém ainda artigos jornalísti-
cos e documentos referentes à organização da campanha presidencial de 1937.
5 O dossiê sobre o Partido Constitucionalista está composto principalmente de recortes de jor-
nais publicados durante a atuação do partido, entre fevereiro de 1934, data de sua fundação,
e novembro de 1937, data de sua extinção mediante o golpe do Estado Novo.
6 Para um quadro mais amplo sobre a campanha eleitoral, o debate entre os candidatos, as
alianças políticas estabelecidas e as estratégias de campanha do candidato Armando de Salles
Oliveira, ver: Sousa, 2016.
7 O dossiê sobre a campanha eleitoral encontra-se no arquivo. A pasta contém cartas, planos
estratégicos e recortes de jornais.
8 De acordo com Paulo Duarte (1977), já era conhecido que o Plano Cohen não passava de
“balelas anônimas que o Partido Integralista atribuiu aos comunistas e foram entregues às
altas autoridades militares (não foram entregues, estas; as altas autoridades militares colabo-
raram na forjicação desses documentos, levada a cabo por um oficial integralista, o tenente
Mourão)” (Duarte, 1977: 2).

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Carolina Soares Sousa

9 Cardoso de Melo Neto assumiu o governo de São Paulo por indicação de Armando de Salles
Oliveira, que deixou o posto para lançar sua candidatura à presidência do país.
10 Todo o planejamento da visita de Armando de Salles Oliveira ao Norte e Nordeste do
país encontra-se no arquivo Paulo Duarte. O projeto de promoção do candidato incluía uma
excursão da Grande Companhia Paulista de Comédia pelas capitais do norte e do nordeste.
A excursão da companhia teria a finalidade de apresentar um espetáculo de caráter “nacio-
nalista, econômico e político”. De acordo com o documento de planejamento da excursão:
“um dos pontos principais de uma campanha política em favor de uma candidatura paulista
é o de convencer-se o Brasil de que o Estado de São Paulo deseja firmemente a unidade na-
cional. Assim, destruir-se-á a pecha de separatista atribuída ao povo paulista, intriga política
que será, fatalmente, uma das grandes armas a ser empregadas contra São Paulo durante a
campanha” (Arquivo Paulo Duarte, PD/ASO, pasta 37, n. 228).
11 Durante a campanha eleitoral para a Assembleia Estadual Constituinte, em 1934, o cader-
no “Jornal do PC” era publicado diariamente. Já para a campanha às eleições presidenciais,
teve publicação semanal. Para mais informações a respeito da campanha estadual de 1934,
ver: Sousa, 2012.
12 No Arquivo Paulo Duarte se encontram documentos referentes à articulação entre o jornal
O Estado de S. Paulo, que publicava o caderno Jornal do PC, e outros jornais de São Paulo e
do Rio de Janeiro. Possivelmente o Partido Constitucionalista encomendava matérias pagas
nos jornais e também a publicação semanal do Jornal do PC. No Rio de Janeiro, o responsável
pela articulação com a imprensa era o jornalista Vivaldo Coaraci, membro do grupo arman-
dista. O jornal A Batalha era um dos que apoiavam a campanha armandista no Rio de Janeiro
(Arquivo Paulo Duarte, PD/ASO, pasta 37, n. 201).
13 Francisco Negrão de Lima, deputado federal por Minas Gerais entre 1935 e 1937.
Em outubro de 1937 teve início o que ficou conhecido como Missão Negrão de Lima,
que consistia em uma viagem do deputado às regiões Norte e Nordeste para contatar
os governadores dos seus estados, comunicando-lhes os pontos básicos de uma possível
mudança institucional e sondando suas posições a respeito de um possível golpe de
estado (Ferreira, 2007).
14 Francisco Campos foi consultor geral da República entre os anos 1933 e 1937, sob o
governo Vargas. Em 1936, a pedido deste, começou a elaborar a Constituição que seria ins-
taurada com o golpe de 1937.
15 O primeiro exílio enfrentado por Paulo Duarte foi com o fim da Revolução Constituciona-
lista de 1932.

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Os anos trinta nas memórias e no arquivo de Paulo Duarte:
uma cultura política de oposição a Getúlio Vargas

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666 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.644-666, Setembro-Dezembro 2020
E R R A T A

No artigo “Preservar, demolir, construir ou ocupar a creche Ninho Jardim Condessa


Marina R. Crespi: de todos os riscos, o risco”, DOI: 10.1590/S0103-21862016000100007,
publicado no periódico Estud. hist. (Rio J.) v. 29, n. 57, p. 107-128, Apr. 2016 .

Página 125
Onde se lia:
Segundo a advogada Juliana Hereda, responsável pela defesa dos sem-teto, a dura-
ção da ocupação poderia ser considerada um sucesso,12 não devido ao reconhecimento dos
direitos à moradia, da infância e adolescência, mas à lentidão do Judiciário e às falhas do
processo, a partir das quais o Centro ganhou tempo.
Leia-se:
Segundo a advogada Juliana Avanci, responsável pela defesa dos sem-teto, a dura-
ção da ocupação poderia ser considerada um sucesso,12 não devido ao reconhecimento dos
direitos à moradia, da infância e adolescência, mas à lentidão do Judiciário e às falhas do
processo, a partir das quais o Centro ganhou tempo.

Página 126
Onde se lia:
12 Entrevista concedida pela advogada Juliana Hereda, do Centro Gaspar Garcia, à
autora em 15 de setembro de 2014.
Leia-se:
12 Entrevista concedida pela advogada Juliana Avanci, do Centro Gaspar Garcia, à
autora em 15 de setembro de 2014.

DOI: 10.1590/S0103-21862016000100007erratum

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 33, nº 71, p.667, Setembro-Dezembro 2020 667
autor xxxxxxx, autor xxxxx

dclxviii Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol X, nº XX, p.1-20, mês-mêes ano

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