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TRADUÇÃO FIEL: A QUEM? A QUÊ? POR QUÊ?

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Lenita M. R. Esteves*
RESUMO
Este trabalho focaliza o problema da fidelidade do tradutor face às suas obrigações -- nem
sempre compatíveis entre si -- para com o texto, com possíveis imposições do autor, com a
editora e com... a teoria.
Palavras-chave: tradução; fidelidade; compromisso; semelhança;

1. Fidelidade, Autoria e Responsabilidade.

Considero que não se pode falar de tradução sem falar em fidelidade. Na verdade,
é a própria noção de fidelidade que dá fundamento ao conceito de tradução. Por enquanto,
definirei a fidelidade como uma espécie de compromisso de semelhança. O texto traduzido
precisa ter pelo menos algum aspecto que o assemelhe, que o aproxime do texto original.
Caso isso não se dê, o texto traduzido não poderá ser classificado assim. E não é difícil ver
como as próprias pessoas que produzem traduções mais “livres”, as chamadas traduções
“criativas”, logo se adiantam em classificar o produto de seu trabalho como “recriação”,
“transcriação”, etc. Mas, mesmo assim, essas traduções menos “coladas” ao original, que
chegam até a receber outro nome, precisam, de alguma maneira, manter um compromisso
de semelhança com o texto de partida.
Quando assumimos um compromisso, empenhamos nossa palavra em relação a
alguma coisa. É interessante pensar como, na tradução, o tradutor dá a sua palavra,
empenha a sua palavra, não apenas no sentido assumir um compromisso, mas também no
sentido de fornecer a sua palavra para a construção de um texto que não é seu. Mas, se um
texto é feito de palavras, como pode um tradutor não ter alguma relação de posse com o
fruto de seu trabalho?

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Este trabalho é a transcrição aproximada de uma palestra ministrada em 1995 aos alunos do Centro
Universitário Ibero-Americano. Posteriormente, o texto foi publicado no volume 5 da Revista Estudos
Acadêmicos. As referências são as seguintes: Estudos Acadêmicos Unibero: Compêndio de Produção
Acadêmica da Faculdade Ibero-Americana. São Paulo, SP, Brasil. (Estudos Acadêmicos, 5, 1997, p. 64-71).

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Essa relação de posse, de autoria, subjaz sempre à noção de fidelidade e, a ela
subjazendo, a povoa de elementos paradoxais. Para entendermos melhor essa relação de
posse de um tradutor para com o seu texto, proponho que recorramos à noção de plágio,
com a qual temos contato freqüente devido a acusações de apropriação indébita, seja no
campo da música popular ou na comunidade científica, por exemplo. Em suma, plagiar é
escrever um texto (musical ou não) que guarda uma certa quantidade de semelhanças com
um outro texto já produzido. O crime está no fato de que o plagiador age como se o texto
fosse seu, quando na verdade tal texto é apenas uma cópia (que, no caso da lei do plágio,
não precisa ser perfeita) de um outro texto já existente. Cometendo tal crime, o plagiador
se transforma em um apropriador indébito de um objeto que não lhe pertence.
O tradutor é uma espécie de plagiador, mas ocupa uma posição diferente. No seu
caso, o texto que produz deve guardar semelhanças com um outro texto, e isso levado ao
máximo da possibilidade. Quanto mais semelhanças, tanto melhor. Só que o tradutor
assume a posição de não ser o dono desse texto que, paradoxalmente, foi escrito por ele. O
crime, no caso do tradutor, consistiria na traição, ou seja, em não guardar um certo número
de semelhanças com o texto original. Nesse ponto, tradutor e plagiador ocupam posições
radicalmente opostas: o êxito de um é o crime do outro, e vice-versa.
Mas se analisarmos a analogia a partir de um outro ponto de vista, poderíamos
também dizer que ambas as atividades, a tradução e o plágio, são muito parecidas, ou seja,
no sentido de que as “cópias” produzidas nunca são perfeitas. Aliás, o que caracteriza uma
cópia é a sua não-perfeição. Se um plagiador fizer a cópia perfeita de uma canção, por
exemplo, ele estará apenas repetindo essa canção. O plágio precisa de certa forma ser
disfarçado. Precisa ter elementos que o façam um pouco dessemelhante em relação ao texto
plagiado. E esse fato nos leva direto à questão do original.
O conceito de “original”, e também o de “fidelidade”, têm sido, nos últimos
tempos, questionados e rearticulados nos estudos em teoria da tradução. O termo “original”
deriva do termo “origem”, que nos faz pensar na criação. Um autor cria um texto, mas esse
texto só será chamado de “original” quando dele for feita uma tradução. Nesse sentido, a
necessidade se conceitualizar o que seja um original nasce juntamente com a tradução.

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Mas o conceito de “original” também traz uma outra conotação, a de originalidade,
ou seja, um texto “original” é um texto inédito, diferente, inventivo, que não se iguala a
nenhum outro. Se pensarmos assim, a fidelidade a um original consiste justamente em não
escrever esse original. Reproduzir o inigualável seria uma grande contradição.
Tradicionalmente se considera que uma tradução não deve ser original, embora a grande
quimera alimentada nessa atividade seja justamente a de que a tradução seja o original. A
tradução não deve ser inventiva, surpreendente, inovadora. Ela deve repetir, de alguma
maneira, a inventividade de um texto original. Mas existe uma necessidade de que essa
repetição seja de algum modo diferente e inferior. A inferioridade da tradução garante o
valor, a inventividade e a autonomia de um texto original. Por isso é importante pensarmos
nos aspectos políticos que subjazem à noção de tradução. O fato de as traduções serem
consideradas, em sua maioria, imperfeitas, não é um fato que devamos aceitar sem maiores
questionamentos. Há determinações políticas e éticas por trás dos conceitos de autoria, de
tradução e, por conseqüência, de fidelidade. E essas determinações se transformam através
das épocas.
O estatuto assumido por um texto original é uma construção cultural relativamente
recente. Na época de Shakespeare, por exemplo, não havia preocupação com o direito de
posse sobre um texto, pois não havia a instituição dos direitos autorais. É justamente por
isso que há tantas controvérsias quanto à autoria de certos trechos de suas peças (ver
Esteves, 1992). Como ninguém recebia provento algum por ter escrito um texto, era muito
comum na época de Shakespeare a prática da colaboração: vários autores escreviam um
mesmo texto. Esses textos eram plagiados, copiados e adaptados sem que ninguém fosse
punido por isso. Daí a prova de que a noção de original é o produto de uma cultura,
determinada por questões mercadológicas surgidas em uma época relativamente recente.
Um outro exemplo pode ser encontrado em autores que, ao escreverem textos,
atribuíam sua autoria a algum autor estrangeiro. Um caso, apresentado por Rousseau (citado
por de Man 1979: 296-7), é o de Montesquieu que, em Le Temple de Gnide, escreve um
prefácio onde afirma que essa obra foi traduzida de um manuscrito grego. Assim,
Montesquieu se protege contra possíveis acusações de frivolidade e licenciosidade. Como o
autor do manuscrito grego é desconhecido, a responsabilidade, no caso de Montesquieu fica

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no mínimo abrandada. Vemos então que o conceito de autoria, além de acarretar
privilégios, também acarreta responsabilidades. O tradutor, tomado no sentido tradicional
de um agente invisível, se desobriga de qualquer responsabilidade em relação ao texto que
produz. Ele não tem o status de um autor, mas também não tem as responsabilidades deste.
Ainda sobre as determinações políticas, ideológicas e mercadológicas que estão
por trás da noção de autoria, apresento um exemplo muito interessante, mais recente. José
Antonio Arantes (1994: 300-301)) nos conta uma história surpreendente, que foi batizada
nos círculos acadêmicos de “O Escândalo de Ulysses”. Esse escândalo teve início em 1977,
quando o neto e herdeiro do espólio de James Joyce, Stephen Joyce, propôs ao acadêmico
alemão Hans Walter Gabler o preparo de uma edição corrigida de Ulysses. A idéia era
chegar ao romance tal como teria sido escrito por Joyce, sem os erros das sucessivas
edições. Foi criado um conselho por esse mesmo Stephen Joyce, do qual fazia parte, por
exemplo, Richard Ellman, o mais respeitado biógrafo do autor. Richard Ellman e outros
estudiosos começaram a questionar se o alemão Gabler, sem o conhecimento necessário da
língua inglesa, seria a pessoa certa para empreender tal tarefa. Questionaram também os
métodos do editor alemão que, com a ajuda dos mais avançados computadores, estaria se
perdendo num intrincado cotejo de manuscritos, textos datilografados, provas tipográficas e
várias edições de Ulysses. O exaustivo e custoso trabalho de Gabler resultou na introdução
de cerca de cinco mil alterações ao texto de Ulysses que Joyce vira publicado, alterações
que iam desde mudanças na pontuação e substituições de palavras até mudança de nomes
de pessoas reais da Dublin de 1904.
As objeções dos acadêmicos caíram no vazio, e quase todos se retiraram do
conselho. A polêmica se acirrou e veio a público quando o texto corrigido passou do meio
acadêmico para o meio editorial. O Ulysses de Gabler saiu em 1986, com toda a
parafernália da mídia internacional, mas foi bombardeado pelo acadêmico John Kidd, da
Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos. Em 1988, Kidd contestou, no New York
Review of Books as alterações de Gabler e também seus métodos de cotejo. Gabler, por sua
vez, ignorou as críticas. O texto “corrigido” vendia aos milhões em todo o mundo.
Segundo José Antonio Arantes, são identificados alguns motivos que levaram
Stephen Joyce, o neto de James Joyce, a propor ao editor alemão uma edição corrigida do

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Ulysses. O mais grave deles é que Stephen Joyce visava a um alongamento do período em
que ainda estariam vigentes os direitos autorais sobre a obra. Os direitos autorais sobre
Ulysses deveriam expirar em 1o. de janeiro de 1992, e assim Stephen Joyce deixaria de
lucrar com a venda de exemplares da obra. Apenas uma edição substancialmente nova
justificaria em termos legais a renovação dos direitos autorais. Caso contrário, a obra cairia
em domínio público. Dessa forma, vemos que uma obra literária, um intocável objeto de
arte, não é tão intocável assim, estando também sujeita a determinações tão mundanas
quanto as determinações mercadológicas.
Voltemos à questão da não-perfeição das cópias. Por que será que uma tradução,
na qualidade de cópia de um “original” nunca é perfeita? Ou, pelo menos, não é perfeita
eternamente? Na minha opinião, justamente pelo estatuto de cópia que a tradução tem.
Costuma-se dizer que as traduções envelhecem, e o original não. Mas como um texto do
século XVII pode ser mais atual que uma tradução desse mesmo texto feita há apenas vinte
anos? Se aceitarmos que traduções diferentes, realizadas em diferentes épocas e contextos,
conferem a esse texto do século XVII colorações diversas, está respondida a questão, que
não consistia na verdade em nenhum enigma. Assim, uma tradução teria as “marcas” da
época em que foi produzida. Mas e o original, por que ele não teria essas mesmas marcas?
E, no caso de uma tradução fiel, como seria possível recuperá-las?
Se pensarmos na diversidade de culturas, estilos e épocas a que um tradutor está
exposto, a fidelidade, definida aqui como esse compromisso de semelhança, poderia chegar
ao limite de uma impossibilidade. Como um tradutor pode querer reproduzir ou retratar
uma época e uma cultura das quais ele não fez parte?
A semelhança e a originalidade são conceitos que se enriquecem se levarmos em
conta o que se chama de intertextualidade (ver, por exemplo, Barthes, 1979). Um texto está
prenhe de possibilidades de relações com outros textos, um texto remete o leitor a outros
textos. E nesse infinito remeter, redes de semelhanças vão sendo construídas ao longo das
épocas. O tradutor estará inserido nessas redes e será influenciado por diversas delas. E se
pensarmos na existência dessas redes de semelhança, o próprio caráter de originalidade de
um texto original vai perder a sua força. Ser original é uma coisa difícil, talvez até
impossível. Um texto não está isolado e diz respeito a outros textos, sempre.

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Mas sendo ou não um produto cultural que reflete uma determinada época, o certo
é que a noção de texto original existe e vigora na nossa época. Dizer que esse conceito é
relativo não é dizer que ele não exista e não seja determinante na nossa prática de tradução
atualmente.

2. A fidelidade na Teoria e na Prática

Após falar um pouco da fidelidade em termos gerais, gostaria de dar umas


pinceladas nessa questão em termos mais específicos. A fidelidade, além de ser um
conceito que muda através das épocas (sendo que nem existia em certos períodos), é
também um compromisso que se modaliza de diferentes maneiras, das quais vou dar uns
poucos exemplos. Além da fidelidade ao autor ou à obra original, existem outras fidelidades
que devem ser mantidas, por exemplo, em relação aos editores. Sempre em nome de uma
fidelidade ao autor, os editores muitas vezes nos impõem procedimentos que são contrários
às nossas concepções a respeito do texto original. Mas como o próprio termo diz, essas
imposições nos forçam a repensar nossa fidelidade em relação ao original e muitas vezes
modificá-la. Em alguns casos a concepção que o próprio editor tem do que seja fidelidade
parece bastante equivocada.
Uma experiência recente que tive pode ilustrar bem a questão. Eu deveria
traduzir o livro Allegories of Reading de Paul de Man. Nesse livro, o autor faz um estudo
sobre quatro autores, a saber, Rilke, Proust, Nieztsche e Rousseau. Logo no prefácio,
ficamos sabendo que alguns capítulos foram escritos originalmente em francês e depois
traduzidos pelo próprio autor para a edição em língua inglesa. No caso de Rilke, por
exemplo, os textos analisados são poemas, e Paul de Man apresenta cada poema em língua
alemã e depois nos dá uma tradução sua para o inglês, fazendo ressalvas quanto à
traduzibilidade de tais poemas. Nesse caso, a tradução deveria fazer o mesmo, apresentando
o poema em alemão e a sua versão para o português. Quanto a isso, haveria dois
procedimentos possíveis: eu poderia fazer uma tradução da tradução de Paul de Man, o que
eu julgaria mais certo, ou procurar alguma versão já existente daquele texto para o

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português. As duas hipóteses foram rejeitadas pela editora, que incumbiu-se de procurar um
outro tradutor que fizesse a versão direta para o português.
Na análise que Paul de Man faz da obra de Proust, é apresentado um trecho de
um de seus livros, já traduzido pelo próprio Paul de Man. Nesse caso, como tradutora, eu
deveria apresentar a versão em francês e uma tradução para o português, que não deveria
nem se basear na tradução de Paul de Man e nem reproduzir a tradução para o português já
existente. A editora também se incumbiria de procurar um tradutor do francês que fizesse
esse trabalho.
No caso de Nietzsche e Rousseau, a coisa se complicou um pouco, pois o
próprio Paul de Man alterna seu procedimento, às vezes apresentando trechos da obra de
Nietzsche traduzidos para o inglês por ele mesmo, e outra vezes fornecendo uma tradução
já existente.
O que me chamou a atenção foi não só a postura da editora, mas a postura do
próprio Paul de Man em relação à tradução. Para um autor tão preocupado com as minúcias
do texto, com a etimologia das palavras, como pode ser tão inocente um processo de
tradução? E é possível ver como esse autor, tão consciente das determinações retóricas que
estão em ação nos textos, não questiona a atividade da tradução ou a parcialidade de suas
próprias traduções.
Há notas de rodapé em que Paul de Man deixa explícita a sua postura não
questionadora quanto à tradução. Por exemplo, na nota 20 do capítulo 7, o autor diz: “faço
uma tradução livre que tenta explicar a versão francesa, que é mais elegante, embora mais
elíptica” (p.146). Embora Paul de Man apresente logo em seguida a versão do referido
trecho em francês, sua atitude de dizer que vai explicar o texto em francês parece estar nos
comunicando que o modo como se escreve um texto pode ser isolado do que ele veicula, o
que Paul de Man parece estar todo o tempo negando. Na nota 16 do mesmo capítulo de
Man define o significado de um termo: “Rousseau diz “des premiers Instituteurs”, o que
pode soar críptico na tradução. O significado se refere aos homens ‘primitivos’ como os
“primeiros” inventores que instituíram a linguagem” (p.145). É claro que essa definição de
Paul de Man, que restringe outros possíveis sentidos, é coerente com a argumentação que

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ele está construindo, senão ele não a teria feito. Mas, em momento algum ele parece estar
alerta para tal fato.
Essa sua atitude também transparece se colocarmos a pergunta: se ele se propõe
a traduzir os trechos das obras e assume a responsabilidade sobre sua tradução, juntamente
com as conseqüências que ela possa acarretar para o desenvolvimento de seus argumentos,
por que não uniformizou os procedimentos, fazendo a tradução de todos os trechos?
A editora, da mesma forma, parece não ter certeza do que pensa a respeito de
fidelidade e de tradução. Por que substituir a tradução do próprio autor do livro por uma
outra, se é óbvio que em muitos pontos os termos escolhidos por esse autor, as opções que
ele fez no ato tradutório, refletem a sua leitura desses textos e portanto têm mais chances de
ser condizentes com o argumento que ele desenvolve? E, se é feita a opção por essa
substituição, por que não substituir a tradução feita por Paul de Man por uma outra que em
geral é considerada como uma tradução de qualidade?
Se o problema é que o meu texto, que seria baseado na tradução de Paul de
Man, resultaria na tradução de uma tradução, o que o distanciaria do original, por outro lado
essa tradução da tradução teria, sem dúvida, mais chances de estar mais próxima da leitura
que Paul de Man faz do texto do que uma outra tradução que não levasse essa sua leitura
em conta. Uma outra tradução, mesmo se considerando fiel e imparcial, poderia se
distanciar do argumento do autor e até contradizê-lo.
No caso dos estudos da obra de Nietzsche e Rousseau, Paul de Man nos fornece
as informações sobre quem foram os tradutores de referidos trechos, e afirma
explicitamente que fez algumas ligeiras modificações em favor de uma consistência
terminológica. Ora, se o autor fez ligeiras modificações em uma tradução que ele próprio
escolheu (e é claro que essa escolha não foi aleatória), por que eu deveria enxertar à minha
tradução trechos que não foram traduzidos nem por mim nem por Paul de Man e que, por
isso mesmo, poderiam necessitar de modificações não tão ligeiras assim?
Levando tudo isso em conta, optei por traduzir a partir do texto de Paul de Man,
deixando explícito esse procedimento para o leitor, em notas de rodapé. Mas nada garante
que os editores irão aceitar e apoiar minha decisão.

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Um outro exemplo de determinações feitas pelo editor pode ser minha
experiência na tradução de O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien. Quando comecei o
trabalho, deparei-me, logo no início, com interjeições do tipo: “Good heavens above!” ou
“Lor’ bless you”, as quais traduzi, numa primeira instância, o mais literalmente possível,
com expressões em português do tipo: “Céus!” e “Benza Deus!”. O editor, ao ler minha
tradução, fez a observação de que o autor, católico ferrenho, tinha construído em seu livro
um mundo totalmente imaginário e dissociado do universo e do vocabulário católicos.
Nesse caso, eu deveria evitar expressões como “Benza Deus!”, por exemplo. Tal
observação é fruto da leitura que esse editor fez do livro, e pode ser questionada. É certo
que “Lord” pode não se referir a Deus, mas fica difícil pensar em um “heaven” que não
esteja associado ao céu católico.. Se em português temos o termo “céu” para firmamento e
para “céu” em oposição a “inferno”, o mesmo não acontece na língua inglesa, na qual
existem os termos “heaven” e “sky”. É certo que as acepções possíveis para qualquer um
dos termos em qualquer uma das línguas podem ser inúmeras, mas a leitura do editor é
questionável, embora no caso de minha tradução a autoridade desse editor tenha
estabelecido que essa é a leitura correta.
Esse fato ajuda a reiterar o que já foi dito antes: apesar de uma tradução ser
fruto da leitura que o tradutor faz do texto original, essa leitura não é exclusivamente sua, e
não o é em mais de um nível. É claro que o tradutor participa de uma cultura e de um
conjunto de crenças que são partilhados por ele e as pessoas com quem convive. Por outro
lado, mesmo que o tradutor não interprete este ou aquele termo de determinada forma,
existe a chance da influência do editor que, por ser o patrão, impõe a sua leitura.
Outro impasse surgiu em relação aos nomes próprios. Em geral, quando se faz
uma tradução, não se traduzem nomes próprios, que são mantidos em sua forma original.
Porém, no livro com o qual eu estava trabalhando, os nomes eram provocadoramente
traduzíveis: parecia que eles queriam informar algo sobre os personagens. Adotei então,
numa primeira instância, o procedimento de não traduzir os nomes próprios, e quando estes
fossem considerados muito “significativos”, fazer uma nota de rodapé sugerindo uma
interpretação. Por exemplo, um dos personagens secundários se chama “Proudfoot” e tem
os pés notoriamente grandes. Esse nome seria até fácil de traduzir, mas existem outros

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como “Baggins” e “Bracegirdle” que, traduzidos, não teriam a mesma leveza dos termos em
inglês. Senti a necessidade de uniformizar a tradução. Se os nomes próprios fossem
traduzidos, então todos deveriam ser traduzidos. O que, numa primeira tentativa, resultou
num texto desagradável à leitura. Encontrei então, nas notas de rodapé, uma solução
cabível. Mas o editor disse que as notas tornariam o texto “pesado” e que tais elucubrações
não eram bem-vindas nesse tipo de livro. Resolvi então adotar a seguinte estratégia: os
nomes próprios muito “significativos” seriam traduzidos e os outros não, em detrimento da
uniformidade do texto.
Problema semelhante aconteceu com os nomes de pontos geográficos, rios,
montanhas, vales, etc. Existe no livro um rio que se chama “Brandywine” e uma região
denominada “Gladden Fields”, cortada por um outro rio do mesmo nome, ou seja, “Gladden
River”. Traduções possíveis para tais termos em português seriam, correspondentemente,
um termo em português que acoplasse “brandy” e “vinho” e, no segundo caso, “Campos
Alegres”. As soluções adotadas pela tradução portuguesa, por exemplo, são justamente
“Brandevinho” e “Campos Alegres”
Nesse ponto, aconteceu uma coisa que me fez viver um novo tipo de fidelidade
ao autor. No decorrer da tradução, a editora me enviou, por intermédio de um revisor que
tinha grande conhecimento a respeito da obra, um texto onde o próprio autor, Tolkien, dava
instruções a respeito da tradução desses nomes próprios. Pude então constatar que foi
desenvolvido ali um trabalho de invenção filológica bastante acurado, e que dificilmente o
tradutor descobriria a verdadeira origem desses nomes fictícios sem essa “mãozinha” do
autor.
The Lord of the Rings é um livro que conta as aventuras de um hobbit, ser
imaginário criado pelo autor, que se envolve com criaturas mais ou menos sobrenaturais
que ele, por exemplo, elfos, gnomos, anões, magos, entidades maléficas com grandes
poderes além do humano, etc. A cada povo corresponde uma língua diferente: os elfos têm
uma língua, os anões têm outra, e assim por diante. O autor teve o cuidado e a paciência de
realmente “criar” tais línguas, e uma região ou um rio, por exemplo, tem pelo menos três
nomes que são citados mais ou menos com a mesma freqüência no decorrer da narrativa. E

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como a narrativa é longa, somando mais de 1200 páginas, essa profusão de nomes complica
muito o trabalho do tradutor.
No contato com esse texto escrito por Tolkien, que orientava sobre a tradução
dos nomes próprios, tive muitas surpresas, pois vários dos nomes que pareciam
provocadoramente traduzíveis referiam-se a coisas que jamais eu teria imaginado.
“Brandywine”, por exemplo, é o nome de um rio, mas esse nome não tem, na etimologia
construída pelo autor, nenhuma relação com “brandy” ou “wine”, e sim é uma corruptela de
“Baranduin”, um nome da língua dos elfos, criada pelo autor, e que quer dizer “rio
comprido da cor do cobre”, e não tem nada a ver especificamente com “conhaque” ou
“vinho”. A expressão “Gladden Fields” não se relaciona com o termo “glad”, como se
poderia pensar. Na intenção do autor, “glad” ou “gladden” corresponde à íris, a flor de lis,
tão comum nos escudos e insígnias medievais. A expressão se origina então em glaedene,
do inglês arcaico. Aliás, traduzir “gladden fields” por “campos alegres”, como fez a
tradução portuguesa, cria uma inconsistência para a história, já que tais campos foram alvo
de uma das mais sangrentas batalhas de toda a narrativa. A minha tradução optou então por
traduzir os termos “Brandywine” e “Gladden Fields” e “Gladden River” por “Brandevin”,
“Campos de Lis” e “Rio de Lis”, respectivamente.
Dessa forma, estabeleceu-se entre o autor e eu uma espécie de contato
metalingüístico, no qual esse autor revela seu desejo de controle sobre a sua obra, definindo
o modo como uma série de termos devem ser traduzidos. Por outro lado, fiquei pensando
que um leitor em língua inglesa, que não tivesse contato com esse texto “metalingüístico”
de Tolkien, provavelmente nem teria idéia de todo esse artifício de criação de línguas, e
provavelmente interpretaria o termo “Brandywine”, por exemplo, como uma referência a
certas características das águas desse rio que supostamente se assemelhariam a “brandy” e
“wine”. Nesse sentido, a tradução acabou resultando num produto que é mais realista que o
rei, sendo mais explicitamente fiel ao autor do que o próprio texto original. Digo
explicitamente porque, no prefácio à tradução, há uma menção a esse texto
“metalingüístico” de Tolkien, e também à adoção, na tradução, das sugestões do autor.
Concluindo, podemos dizer que a fidelidade é uma noção relativa, e que se
modula de variadas formas conforme a situação em que está o tradutor. Do mesmo modo,

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elementos externos podem influir na fidelidade de um tradutor, mesmo a despeito dele.
Assim como um autor não tem controle sobre a sua obra, apesar de alguns autores, como é
o caso de Tolkien, tentarem ao máximo garantir esse controle, o tradutor não tem controle
sobre o texto que produz, mesmo antes de ele estar finalizado. No caso de determinações
feitas por editores, julgo que se deve buscar um espaço de negociação, de diálogo, para que
o tradutor possa expor suas idéias. O mesmo se aplica à relação tradutor/revisor. O ideal é
que tradutor e revisor “conversem” e troquem idéias a respeito do texto. Isso acontece em
alguns casos, mas não é regra. A regra é que o tradutor perca seu texto de vista após
entregá-lo aos editores. Não é sempre que a editora reenvia o texto para o tradutor, para que
este possa julgar as interferências ou sugestões do revisor. Julgo que um trabalho em
equipe, com diálogo e negociação, pode produzir uma tradução mais rica e com menos
falhas.

Costuma-se dizer, na área da tradução, que a teoria não auxilia a prática em
nada. Mas quando se fala em tradução e quando se faz tradução, há sempre uma teoria
subjacente, mesmo que não tenhamos consciência disso. Se, na prática, o tradutor sabe que
a fidelidade é uma noção relativa, que se constrói de modos diversos dependendo da
situação em que se encontra, a teoria que se refere a essa prática deve ser condizente com
ela.
Eu já fazia traduções (em sua maioria de textos técnicos) há algum tempo
quando tive o primeiro contato com a teoria, o que não quer dizer que não eu tivesse eu
mesma uma teoria. Esse primeiro contato aconteceu num curso oferecido pela Unicamp, do
qual participei como aluna especial.
Nesse curso ouvi coisas que condiziam com as minhas opiniões sobre a
tradução. Ficou claro para mim, desde o início, que a teoria da tradução passava por uma
espécie de reforma, uma revisão que apontava caminhos que não haviam sido trilhados
antes. Mesmo correndo os riscos de uma atitude redutora, tentarei resumir em poucas linhas
quais eram as novidades, quais eram esses novos caminhos apontados para o teórico da
tradução. As conclusões a que chegávamos durante o curso, baseadas nos textos que líamos,
eram as de que a tradução não é uma atividade de segunda categoria, o tradutor não é um

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necessariamente um traidor e a fidelidade é uma noção relativa. “Fidelidade” sempre exigia
um complemento: a quem, a quê, por quê? Ao mesmo tempo, o tradutor não deveria e nem
poderia ser um agente invisível. A invisibilidade do tradutor, embora seja uma das outras
quimeras alimentadas nessa área, é praticamente impossível. Nada poderia soar mais
agradável aos ouvidos de um tradutor, tão mergulhado nessa metafísica da traição e tão
pouco reconhecido por seu trabalho. Talvez a sedução da teoria exercida sobre mim tenha
começado aí. Resolvi então prestar o exame para o curso de mestrado, e atualmente estou
iniciando a redação de minha tese de doutorado em tradução.
Em minha tese de mestrado, a base teórica para o desenvolvimento de meus
argumentos foi o pós-estruturalismo, em conjunto com a desconstrução, principalmente
representada pela figura de Jacques Derrida. Derrida escreve sobre muitas coisas, sempre
tendo como pano de fundo uma crítica à metafísica ocidental que, desde Platão, cultua uma
verdade transcendental, a verdade última, que a filosofia vive o tempo todo a buscar, e na
qual todo o conhecimento deve ser baseado. Derrida fala também em vários textos sobre
tradução, e uma de suas afirmações mais citadas é aquela que define a tradução como uma
transformação: “uma transformação regulada de um texto por outro, de uma língua por
outra” (1972:30).
A noção de tradução como transformação é muito interessante e serve a vários
fins. Inclusive serve ao fim de provocar as mais acirradas críticas contra si própria. Essa
citação foi usada de várias maneiras, e não se pode dizer que tenha sido usada sempre com
o mesmo rigor. Essa proposta para se definir a tradução, até certo ponto revolucionária,
chegou a dar margem a uma certa interpretação segundo a qual a desconstrução e o pós-
estruturalismo estariam pregando o “vale-tudo” em tradução, afirmando que uma tradução
pode ser qualquer coisa.
Na minha concepção, como tentei deixar claro no início desta reflexão, se fosse
permitido esse “vale-tudo”, estaria descaracterizada qualquer noção de tradução, já que toda
tradução assume alguma espécie de compromisso de semelhança. Se quisermos utilizar a
definição de Derrida, o ideal é que prestemos atenção a esse outro termo: segundo o autor,
a tradução não é uma transformação qualquer, mas uma transformação regulada. E essa
regulação não é imposta apenas por diferenças culturais ou de época, mas é também uma

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regulação de uma língua pela outra. Se as línguas são diferentes, se elas têm estruturas
diferentes, uma tradução vai sempre realizar alguma espécie de transformação, mas isso não
implica que ela possa realizar qualquer coisa e ainda continuar se chamando tradução.
É justamente porque existe essa diferença entre as línguas que existe tradução.
A tradução é fundada numa diferença, e o grande paradoxo que se instaura aí é que ela
almeja uma semelhança total, a perfeição. As conseqüências de tal proposta para a prática
da tradução são amplas e se inserem nos mais variados campos. Se não há significados
estáveis e petrificados, se essa semelhança perfeita é inatingível, o tradutor se torna
desobrigado do fardo da traição inevitável. Ele poderá opinar e negociar a respeito das
decisões que toma em seu trabalho. Na mesma direção, se o tradutor não é um agente
transparente e invisível, ele pode e deve aparecer cada vez mais, conseguindo dessa maneira
melhores condições de trabalho e remuneração.
Em contrapartida, o tradutor também se encontra numa posição de maior
responsabilidade pelo que produz. A partir do momento em que se aceitar de forma geral a
idéia de que o tradutor interfere no texto que traduz; que, em resumo, ele não é invisível, ele
assumirá também responsabilidades mais sérias em relação a esse texto. O que aconteceu
tempos atrás com a noção de autoria pode ser aplicado para a tradução. Se o tradutor
interfere no texto que produz, o que considero inevitável, ele também é um pouco
responsável por ele. É preciso que se tenha um rigor, um cuidado ao traduzir que muitas
vezes não se tem. Assim como a tradução não pode ser qualquer coisa, o tradutor não pode
ser qualquer tradutor. Nesse sentido, os pressupostos que o pós-estruturalismo assume para
a tradução trazem melhores condições não só para o tradutor, mas também para a qualidade
das traduções.
Dessa forma, não se pode dizer que essa teoria é estéril e não traz frutos para a
prática do tradutor. Teoria e prática estão intimamente ligadas, alterando-se e se
transformando constantemente.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARANTES, José Antonio. “E Palavras sem Fim”. In: BURGESS, Anthony


Homem Comum Enfim. Trad. José Antonio Arantes. São Paulo: Companhia das Letras,
1994.
BARTHES, Roland. “From Work to Text”. In: Harari, Josué V . Textual
Strategies. Ithaca: Cornell University Press, 1979.
De MAN, Paul. Allegories of Reading. New Haven and London: Yale University
Press, 1979.
DERRIDA, J.”Semiologia e Gramatologia” in Posições trad. Maria Margarida
Correa Calvente Barahona Lisboa: Plátano Editora.(ed. original francesa pela Minuit,
Paris, 1972)
ESTEVES, Lenita R. “Algumas Faces e Fases de um Original Shakespeareano”.
Trabalhos em Lingüística Aplicada. Campinas: UNICAMP, vol. 19, p. 99-104, 1992.

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