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3. A posse do ser é o fim de toda a acção problema de saber o que nos permite dar a seres diferentes o
mesmo nome de ser, fazer entrar estados diferentes numa
particular mesma consciência e, através das relações diferentes entre tal
objecto e tal estado, conceber que entre o que é e o que
pensamos possa haver ao mesmo tempo uma distinção e uma
Quando dizemos que o ser é presente ao eu e que o próprio ligação. Por detrás de todas as questões particulares que
eu par- ticipa no ser, enunciamos o tema único de toda a podemos pôr-nos, o problema do ser e do eu é o único que nos
meditação humana. É fácil de ver que este tema é de uma interessa profun- damente: percorremo-lo em todos os sentidos,
riqueza infinita. É o fundamento de todos os nossos acossamo-lo de todos os lados, esperando encontrar no fim
conhecimentos particulares que nele se encontram qualquer situação privilegiada na qual, esquecendo todos os
antecipadamente envolvidos: mas eles são para nós apenas ensaios infrutuosos que preencheram a nossa vida,
meios para realizar, numa espécie de nudez, a confrontação da encontraremos a sua razão de ser, tomando consciência tanto da
nossa própria in- timidade com a intimidade mesma do universo. sua essência quanto do seu lugar no universo.
É evidente que a presença do ser deve ser objecto de uma Aparentemente, uma tal busca não pode fazer progresso
intuição e não de uma dedução: pois não se poderia encontrar algum: é que não pode senão aprofundar-se e alargar-se. Pois é
um princípio mais alto de onde pudesse ser derivada. Todas as da presença do ser que partimos: mas ela não é ainda mais do
deduções se apoiam sobre ela, se cumprem nela e encontram que uma experiência confusa e que devemos analisar; esta
nela a sua verificação. Mas ela é ao mesmo tempo o fim de análise comporta uma série de operações, no decurso das quais a
todos os nossos passos particulares, de todas as operações do nossa personalidade se vai constituir; e assim que esta descobrir
pensamento e da vontade. Pois cada uma delas não pode bastar- a sua verdadeira essência, unir-se-á de novo ao ser, mas desta
se a si mesma: não tem para nós valor a não ser que, através da vez num acto inteligível no qual a experiência inicial encontrará
sua mediação, possamos obter uma posse do ser, na qual se a sua explicação e a sua perfeição.
resolve e que a torna, doravante inútil. O indivíduo tem uma tal confiança em si mesmo que,
Sem dúvida, nunca conseguimos apreender o ser senão quando se perde, é sempre porque a fantasia da sua imaginação
numa das suas formas individuais. Sem dúvida, a consciência ou o seu gosto das construções abstractas o impedem de manter
nunca nos dá mais do que um dos seus estados momentâneos. um contacto assaz estreito com a realidade. É então necessário
Sem dúvida, ainda, ad- mitindo que a consciência seja capaz de voltar sem cessar a esta experiência do ser na qual obtemos, ao
entrar em relação com o ser, é de tal estado de consciência que é mesmo tempo, todos os nossos materiais e todas as nossas
preciso mostrar a coincidência com tal forma de ser. Mas cada provas. Não obstante, é uma experiência puramente espiritual:
uma destas observações, das quais não pode- mos não consiste em determinadas operações do pensamento, que devem
reconhecer a verdade, implica a solução de um problema mais ser necessariamente adequadas, dado que esgotamos todo o seu
vasto e sobre o qual é impossível passar em silêncio: é o conteúdo no momento em que as realizamos e que podemos, de
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cada vez, verificar a sua verdade, quer dizer a sua eficácia. E demasiado larga e confundi-lo com um dos objectos aos quais se
esta experiência pura é ao mesmo tempo uma criação, pois a aplica, mas dos quais se distingue. Inconvenientes deste género
contemplação do ser é indiscernível do movimento pelo qual o não se produzem quando se trata do ser: pois o ser é sempre
nosso espírito se engendra a si mesmo. presente todo inteiro, e não há um único carácter nem um único
elemento do real que lhe possa escapar, que não constitua um
seu aspecto e que não caia sob a sua jurisdição.
4. A descoberta do Eu contém já a Suponhamos agora que a experiência do eu é primitiva e
indepen- dente.. Então, é-se naturalmente convidado a
descoberta do Ser considerar o eu como sendo a origem mesma das coisas; e é
preciso exigir dele que faça es- forço para engendrar esse ser
total do qual, pensando-se, tirava já o seu ser limitado. Mas é
Nunca encontramos o eu numa experiência separada. O que
pedir-lhe para refazer ao contrário o caminho que acaba de
nos é dado primitivamente não é um eu puro anterior ao ser e
percorrer. Ora, esta empresa tornou-se impossível: o eu está
independente dele, mas a existência mesma do eu, ou ainda o eu
doravante condenado a ficar fechado nos seus próprios limites;
existente, o que sig- nifica que a experiência do eu envolve a do
se tem a ilusão de engendrar o ser, é apenas porque se tinha
ser e constitui uma espécie de determinação desta.
estabelecido nele anteriormente.
Mais ainda, o eu não pode ter a intuição do seu próprio
Não é através de uma dilatação do eu que se fará com que
pensamento senão aplicando o seu pensamento a um objecto. E
este se reuna ao ser, se dele se separou anteriormente. Mas se o
este objecto, se bem que estando em relação com este
eu é, desde a origem, anterior ao ser, tornando-se cada vez mais
pensamento, não se confunde com a sua operação: torna-a
interior a si mesmo, poderá esperar descobrir o mistério do seu
possível, mas distingue-se dela e num certo sentido opõe-se-lhe.
próprio advento, a lei se- gundo a qual deve colaborar na ordem
O objecto do pensamento e o seu acto estão compreendidos
universal e tornar-se o obreiro do seu destino individual.
ambos no interior do mesmo ser. Limitam-no, mas de um modo
Isto não pode impedir os espíritos que têm mais
que é próprio de cada um deles. É mesmo uma condição de toda
profundidade metafísica, do que ternura psicológica para
a participação, que estes dois termos contrastem de antemão, a
consigo mesmos, de atingir o cume desta emoção que
fim de precisamente poderem seguidamente pôr-se de acordo.
sentimos todos no nosso encontro com o ser, através da simples
Assim, a própria noção de ser é muito mais clara e fácil de
descoberta da sua presença, mais ainda do que através da
apreen- der do que a do eu. Pois o eu escapa-nos logo que
consciência de nele participar.
tentamos fixá-lo: é móvel e evanescente; é que está em
progresso incessante e constitui- se somente pouco a pouco;
tememos sempre dar dele uma definição demasiado estreita e
confundi-lo com um dos seus elementos, ou uma definição

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esteja no ser, uma vez que fora do ser nada há e por
consequência nenhum pen- samento nem objecto de pensamento
algum. Mas é também evidente que o ser ultrapassa
5. O Conhecimento está ao mesmo nível do infinitamente o nosso pensamento, e se não todo o pensamento,
Ser pelo menos o nosso pensamento actual, a fim que este se possa
enriquecer sem interrupção. Se guarda sempre um carácter lim-
itado, é para ter acesso, através de uma iniciativa pessoal à
Se encontrássemos o eu numa experiência inicial, simples e totalidade do ser, que por consequência não deve jamais cessar
capaz de se bastar, compreenderíamos sem dificuldade que o eu de o transbordar.
fosse em seguida impotente para sair de si mesmo. Desde então Assim, a consciência não se distingue do ser do qual
nenhuma forma do ser seria conhecida senão na sua relação com exprime um aspecto senão pelo carácter finito deste mesmo
o eu, e seria o próprio ser que se tornaria necessariamente um aspecto que dele nos revela. A consciência é interior ao ser e não
estado do eu e por consequência uma aparência. inversamente. Mas se o ser não pode ser atingido senão na sua
Mas supõe-se então implicitamente que a existência de relação com uma consciência, a necessidade de pôr a existência
qualquer objecto de pensamento é uma irradiação do sujeito mesma dessa consciência, assim que esta se nos revela, coloca-
pensante. No entanto, se não se esquecer que pôr a sua própria nos imediatamente no coração do próprio ser: a teoria do
existência é, para o ser pensante, situar-se a si mesmo no ser conhecimento tem por objecto analisar este facto prim- itivo,
sem condição, compreender-se-á porque é que os objectos de mostrar a sua possibilidade e as suas condições. Pode-se prever
pensamento que põe por relação consigo gozarão no entanto da desde já que o tempo, no qual o conhecimento se manifesta,
mesma existência plenária que ele deveria ante- riormente ter deve bas- tar para dar conta da maneira como o nosso
atribuído a si mesmo. Pode-se dizer que lhes comunica essa pensamento está ligado ao ser que, no entanto, o ultrapassa:
existência ao mesmo tempo que lhes é devedor reciprocamente obriga-nos a distinguir entre o nosso pensamento actual, que é
da sua existência própria, dado que sem eles o seu pensamento ele próprio um ser, e o nosso pensamento em potência, que dele
não encon- traria modo de se exercer. Enquanto aparências do não difere senão no seu exercício, e que, se fosse plenamente
sujeito, ocorrem na existência absoluta do mesmo modo que o exercido, coincidiria com o ser puro.
próprio sujeito. Para resumir o que precede nalgumas fórmulas simples,
É que, com efeito, na ordem lógica, o pensamento não pode diremos que o ser não pode em grau algum ser considerado
apare- cer senão como uma especificação do ser que o engloba, como um modo do pensamento, dado que o próprio pensamento
se bem que, na ordem psicológica, o ser não possa revelar-se- deve ser previamente definido como um modo do ser. Imagina-
nos senão através do pensamento que se limita para se pôr ao se vezes demasiadas que o pensamento, pondo-se a si mesmo,
nosso alcance. põe o carácter subjectivo de tudo o que pode ser: mas, para se
É evidente que nada pode haver no pensamento que não pôr, é necessário que ponha primeiro a sua existência, quer dizer
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a objectividade da sua própria subjectividade.
Assim o conhecimento participa no ser, se bem que nos
ofereça uma forma imperfeita e inacabada. É necessário para a
explicar, não adossá-la a um ser transcendente que permaneceria
para ela decisiva- mente misterioso, mas, inscrevendo-o no
interior do ser, pondo-o ime- diatamente ao seu nível. Dizendo,
como faz o idealismo, que não con- hecemos senão a nossa
representação, evoca-se implicitamente a ideia de uma realidade
de uma outra ordem que nos seria inacessível: não é, como se
pensa, exaltar a representação, é chamá-la sem cessar à hu-
mildade impondo-lhe um carácter radicalmente ilusório. Não se
lhe pode restituir a sua verdadeira função senão fazendo-a um
modo do ser: é competente para o conhecer porque se distingue
dele pela sua limitação e não pela sua natureza.