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30/05/2019 Formação da Alma e do Caráter Nacional: Ensino de História na Era Vargas

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Print version ISSN 0102-0188On-line version ISSN 1806-9347
Journal
Rev. bras. Hist. vol. 18 n. 36 São Paulo 1998
SciELO Analytics
http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01881998000200006
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Formação da Alma e do Caráter Nacional: Ensino de
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História na Era Vargas
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Katia Maria Abud
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Resumo
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Desde que a História se estruturou como disciplina escolar, a formação e o
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fortalecimento do sentimento de identidade nacional foi um dos objetivos de
seu ensino. A questão da identidade nacional brasileira se colocava com
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muita força entre intelectuais e educadores brasileiros da primeira metade
deste século. Entre estes últimos, os que participaram dos órgãos pú-blicos More
educacionais procuraram fazer com que a História fosse um veículo para
suas idéias, que foram incorporadas pelos programas e pelos manuais
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escolares. Ao incorporarem tais idéias, os programas da disci-plina e os
livros didáticos deram especial importância à formação do povo brasileiro, à
integridade territorial e administrativa do Brasil, bem como à unidade
cultural do Brasil.
Palavras-chave: Identidade Nacional; Livros Didáticos; Era Vargas.

Abstract

Since History has been structured as a school matter, the formation and strenghtness of a national identity
feeling became the main goal of its teaching. The issue of brazilian identity was always a problem among
intelelectuals and professionals in the first half of this century. The ones who were a part of public organizations,
used History as a vehicle to their ideas, that were incorporated by programs and school manuals. These programs
and manuals gave a special highlight to brazilian people's formation, Brazil's territorial integrity as well its cultural
unity.
Key words: National Identity; School Books; Vargas' Era.

Desde as primeiras décadas do século XX, a questão da formação da nacionalidade e identidade nacional
brasileira vinha ocupando espaços na produção intelectual e política do país. Os intelectuais brasileiros tinham
suas raízes nas camadas dirigentes, como afirmam Daniel Pécault e Joseph Love1, muitos deles participavam das
instituições republicanas, como parlamentares, técnicos, diretores de órgãos de cultura e outros. Nessas
instituições do Estado, nas quais atuavam os intelectuais, aquelas idéias teriam o veículo apropriado para sua
difusão e implementação na sociedade, e portanto na educação, pois a burocracia estatal legisla, regulamenta e
controla o trabalho pedagógico. Há um discurso do poder que se pronuncia sobre a educação definindo seu
sentido, forma, finalidade e conteúdo2.

Já em 1915, Alberto Torres indicava a formação de uma consciência nacional como uma das tarefas mais
urgentes a ser realizada pelos intelectuais3. A idéia do desenvolvimento do sentimento de identidade nacional
espalhou-se pela sociedade brasileira por meio da formação de associações, como a Liga de Defesa Nacional,

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dirigida por Olavo Bilac, de literatura e de publicações como a Revista do Brasil, além de fundamentar
movimentos políticos como o tenentismo e culturais, como o modernismo. As idéais sobre a formação da
consciência nacional que vicejavam no período entendiam que esta necessariamente deveria passar pela
consciência das elites.

Nacionalismo e pensamento autoritário caminhavam juntos no Brasil. O liberalismo era apontado como uma idéia
exótica, que refletia campanhas políticas européias e norte-americanas e que, no Brasil, não significava nada
além do caudilhismo local ou regional4, sendo a política vista como um mecanismo alheio à sociedade e
perturbador da ordem5. A concepção de realidade e de sociedade, que se originava do nacionalismo e do anti-
liberalismo, levava à responsabilização do Estado pela formação da nacionalidade e pela direção do povo. Este era
considerado simplesmente como "massa" que deveria ser orientada a seguir as elites, verdadeiro motor das
transformações pelas quais o Brasil deveria passar para chegar ao desenvolvimento.

Francisco Campos, ideólogo do autoritarismo e Ministro da Educação do governo provisório, órgão criado após o
golpe liderado por Vargas, afirmava que "as transformações não se operam pelas ações das mentalidades
primitivas, mas pela influência das ciências e das artes, de filósofos, pesquisadores, engenheiros, artistas (...)"6

Intelectuais envolvidos com as questões educacionais também não escondiam a crença na liderança das elites.
Fernando de Azevedo, o redator do Manifesto dos Pioneiros da Educação, no Inquérito sobre a Instrução Pública,
manifestou sua convicção na necessidade de se priorizar a educação das camadas dirigentes, que deveria
anteceder a educação do povo. A anterioridade da educação da elite era necessária porque ela seria seguida
pelas massas7. Outro educador conhecido que deixou bem claras suas convicções autoritárias foi Lourenço Filho,
que destacou a ligação entre a política de segurança e a política de educação, "pois no fundo trata-se de uma
única e mesma política: a dos mais profundos interesses da nação"8. Os interesses do Estado e da Educação
conjugavam-se, na medida em que os indivíduos seriam instruídos nas formas conservadoras de ação e
representação.

Os órgãos de instrução teriam um papel fundamental na formação da consciência nacional. E dentre seus
elementos, destacavam-se os objetivos que competiam à História. A História tem sido considerada por excelência
a disciplina formadora dos cidadãos. François Furet nos lembra que, no momento de sua introdução como
disciplina escolar, interessava formar com seu ensino uma ciência social geral, que desse aos alunos a noção da
diversidade das sociedades do passado e o sentido de sua evolução9. Cabia às forças dirigentes a escolha do
passado, de acordo com seus interesses. A disciplina deveria ser o estudo da mudança e, já no final do século
XIX, era um método científico e uma concepção de evolução. O homem caminhava rumo ao Progresso e à
Civilização, guiado pela Nacionalidade, por isso a História se revelaria como a genealogia da nação, procurando
identificar as bases comuns, formadoras do sentimento de identidade nacional. Assim, a História se desenvolveu
buscando o fortalecimento do Estado, conformação material da Nação10. Muito embora Furet refira-se à disciplina
na França do século XIX, sua análise pode ser transposta para a situação do Brasil do século XX.

Os programas de ensino de História continham elementos fundamentais para a formação que se pretendia dar ao
educando, no sentido de levá-lo a compreender a continuidade histórica do povo brasileiro, compreensão esta
que seria a base do patriotismo. Nessa perspectiva, o ensino de História seria um instrumento poderoso na
construção do Estado Nacional, pois traria à luz o passado de todos os brasileiros, e teria "(...) o alto intuito de
fortalecer cada vez mais o espírito de brasilidade, isto é, a formação da alma e do caráter nacional"11. O
programa de 1931 deixa evidente que isso estava bem claro para os legisladores, pois reconheciam que

conquanto pertença a todas as disciplinas do curso a formação da consciência social do aluno, é nos
estudos de História que mais eficazmente se realiza a educação política, baseada na clara
compreensão das necessidades de ordem coletiva e no conhecimento das origens, dos caracteres e
da estrutura das atuais instituições políticas e administrativas12.

As listas de conteúdos, sua distribuição pelas séries da escola secundária, as orientações para o trabalho
pedagógico elaborados pelas instituições educacionais durante o período em que Vargas governou, traduziam a
preocupação oficial e as discussões que perpassavam os meios intelectuais brasileiros. Mais do que isso, eram um
instrumento ideológico para a valorização de um corpus de idéias, crenças e valores centrados na unidade de um
único Brasil, num processo de uniformização, no qual o sentimento de identidade nacional permitisse a omissão
da divisão social, a direção das massas pelas elites e a valorização da "democracia racial", que teria
homogeneizado num povo branco a população brasileira.

Desde 1925, ano da Reforma Rocha Vaz, os programas de ensino secundário eram formulados pelos professores
catedráticos e aprovados pelas congregações do Colégio Pedro II e dos estabelecimentos estaduais de ensino
secundário, que haviam obtido a equiparação àquele, após o cumprimento de uma série de formalidades. As
escolas equiparadas deviam adotar, sem nenhuma modificação, a seriação de matérias estabelecidas para o
Pedro II, cabendo-lhes apenas a elaboração de programas próprios.

A Reforma Francisco Campos, de 1931, estendeu a equiparação aos colégios mantidos pelos municípios,
associações ou por particulares. Os programas e métodos de ensino, porém, seriam produzidos pelo próprio
Ministério. Eliminava-se desse modo a atribuição dos ginásios estaduais de elaborassem seus próprios programas,
acentuando a centralização uniformizadora do ensino secundário. Paralelamente, foi organizado um sistema de

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inspeção federal do ensino secundário, aprofundando ainda mais o controle exercido pelo governo central. Os
programas e as respectivas orientações metodológicas foram organizados por comissões formadas pelos órgãos
públicos educacionais e, segundo Guy de Hollanda, são até hoje desconhecidos os nomes dos que elaboraram os
programas de História13.

Neles, o conteúdo estava disposto por série e procurava abranger a História Geral, do Brasil e da América. Tais
programas vigoraram até 1942, quando reforma promovida por Gustavo Capanema, novo ministro da Educação,
mudou a grade curricular atribuindo uma maior carga horária às matérias do campo das humanidades.

Concebidos durante a Era Vargas, os programas de História elaborados pelas comissões constituídas pelo
Ministério da Educação, após as duas reformas, traziam implícitas as grandes questões que faziam o pano de
fundo das transformações que se estabeleciam no período.

Em 1931, com a elaboração, pelo Ministério da Educação, do primeiro programa para as escolas secundárias, já
com a seriação unificada, a História Geral e do Brasil passaram a constituir uma única disciplina: a História da
Civilização, incluída nas cinco séries do curso secundário. Com isso, o ensino de História ganhava em carga
horária, pois no regime escolar que vigorou até 1931, o conteúdo da História Universal e da História do Brasil
estavam divididos em apenas três das cadeiras obrigatórias, o que no novo sistema correspondia a apenas três
séries. Gradualmente, por meio de vários atos legais, a História do Brasil adquiriu autonomia, quando a Reforma
de 1942 restabeleceu em caráter permanente a separação entre a História Geral e do Brasil, aumentando
consideravelmente a carga horária da disciplina no curso ginasial.

No entanto, a relação dos conteúdos distribuídos pelas cinco séries do curso secundário fundamental e
posteriormente diminuídas para quatro séries, demonstravam um interesse profundo nas instituições
administrativas e nas formas utilizadas por Portugal para organizar a Colônia, considerado o primeiro momento
da formação do sentimento nacional brasileiro.

Os programas eram periodizados fazendo uso das épocas consagradas pela historiografia clássica; no caso da
História Geral e quanto à História do Brasil a periodização era a mesma que o Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro havia estabelecido a partir das sugestões de seus sócios que discutiam como deveria ser escrita a
História do Brasil. Considerando a História como a genealogia da nação, esta se iniciava com a História da
formação de Portugal e os grandes descobrimentos, que incluíam o Brasil no processo civilizatório. Nas Instruções
Metodológicas, que acompanhavam os Programas e orientavam os professores para o exercício de sua prática
pedagógica, destacava-se a importância da História como um instrumento para o desenvolvimento do patriotismo
e do sentimento nacional. Esse fato fica bastante evidenciado nos livros didáticos publicados de acordo com os
programas oficiais, sobretudo nos capítulos que tratavam especificamente da formação do sentimento nacional
brasileiro.

Desde os programas do Colégio Pedro II alguns fatos que evidenciavam a preocupação com a formação nacional
ocupavam lugar destacado no ensino de História. Três pilares alicerçavam a unidade nacional brasileira: unidade
étnica, unidade administrativa e territorial e unidade cultural. Os eixos em torno dos quais os programas se
estruturavam tinham significados relacionados à formação do Estado Nacional: a formação do "povo brasileiro", a
organização do poder político e ocupação do território brasileiro.

O tratamento dispensado pelos programas e pelos livros didáticos a temas que enfatizavam a formação do
sentimento nacional e aos heróis que construíram a nação é sintomático da importância do assunto. Ao lado da
unidade geográfica, construída pelos conquistadores portugueses em diferentes momentos, em diversas regiões
da faixa litorânea e pelos bandeirantes, que levaram o poder colonial português para as regiões do interior,
impunha-se a formação de uma "população diferente, mesclada, fruto de três elementos diversos que se
aceitaram e se confundiram"14, como ensinavam os livros didáticos. Assim, os assuntos indígenas,
compreendidos como estudos etnográficos, abriam, na maior parte das vezes, os volumes de História do Brasil.

A busca das origens do povo brasileiro, personificação da nação, articula a referência a uma comunidade singular,
com aspectos que lhe são característicos e que se origina de três outros povos, dos quais a base seria formada
pelo português, com quem no Brasil teria aportado a civilização. O "silvícola brasileiro" era apresentado ainda
com os traços que o Romantismo havia lhe dado: um aspecto heróico, de um povo que já havia desaparecido, a
quem os manuais se referiam exclusivamente no passado: "Apreciavam os adornos, (...) e cobriam seu corpo
(....) andavam nus"15. Dispensava-se ao índio, um dos vértices do triângulo étnico do Brasil, um tratamento que
eliminava a sua existência contemporânea.

O índio, objeto dos livros didáticos, era ainda o nativo encontrado pelos portugueses no século XVI, não o índio
degradado pela conquista européia, que persistia em sobreviver, nos séculos posteriores. Esse índio não poderia
ser uma das raízes, mas poderia simbolizar as nossas origens do "bom selvagem", mitificado nas páginas de José
de Alencar, Gonçalves Dias e de outros escritores indianistas. Esse "selvagem" com código de honra medieval, de
físico semelhante ao homem branco, seria o índio de quem os livros didáticos falavam, como se já estivesse
completamente desaparecido e sem nenhuma relação com seus vilipendiados descendentes, nossos
contemporâneos.

O componente de nobreza da nossa formação viria do índio, que não teria aceito a escravidão, que enfrentava
bravamente os obstáculos da floresta e os inimigos. Historiadores de renome, como Alfredo Ellis Jr., professor
catedrático de História do Brasil na USP, afirmavam que no Planalto de Piratininga, onde se localiza São Paulo,
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havia se formado uma "sub-raça superior, a planaltina", resultante do cruzamento entre portugueses e índios16.
Essa sub-raça superior tinha por oposição a mestiçagem "híbrida" do Nordeste, onde, do cruzamento dos
senhores de engenhos com suas escravas, havia surgido uma sub-raça inferior, constituída de mulatos que
tendiam a desaparecer, pois enquanto híbridos, eram pouco prolíficos. Resta lembrar que Alfredo Ellis Jr. foi autor
de livros didáticos...

Por isso tudo, os livros didáticos, de acordo com a orientação dos currículos, dedicavam significativo espaço aos
primeiros habitantes, abordando o tema inspirados nas linhas das publicações de Instituto Histórico e Geográfico
do Brasil. Os textos davam grande importância às origens dos habitantes da América pré-colombiana, à
distribuição dos grupos pelo Brasil e ao seu estágio cultural no momento do encontro com os portugueses.
Procurava-se valorizar a produção indígena encontrada na pesquisa arqueológica, "que mais parecem produto da
indústria adiantadíssima de povos civilizados do que artefatos de bárbaros"17.

Ao outro elemento formador do brasileiro, dominado pelo colonizador, o negro, os livros dedicavam pouco espaço
como objeto de Etnografia/Antropologia. Ele sempre era tratado como mercadoria, produtor de outras
mercadorias. Enquanto ao índio se conferia o estatuto de contribuição racial, os livros didáticos salientavam a
importância do africano para a vida econômica do país, mas procuravam mostrar que a negritude estava sendo
diluída pela miscigenação:

Em conseqüência da maior robustez física do elemento europeu, da imigração do mesmo, da extinção


do tráfico de escravos há quase um século e do efeito das leis da hereditariedade no crescimento
demográfico de nosso país, tem sido cada vez maior o embranquecimento do nosso povo18.

O não reconhecimento do contingente negro na constituição física da população brasileira levava a erros de
informação quanto à composição dessa mesma população, que era apontada pelos livros como
predominantemente branca, tendo por base pesquisas realizadas pelo Museu Nacional:

(...) segundo Roquette Pinto (...) a constituição antropológica do povo brasileiro era:

Brancos ...............51%
Mulatos ...............22%
Caboclos .............11%
Negros.................14%
Índios.....................2%.19

Ao buscar a unidade étnica, tratando como majoritariamente branco o povo brasileiro, ignorando a presença dos
africanos, presença esta que nos tornaria inferiores, de acordo com as teorias racistas que se estenderam pelo
mundo na primeira metade deste século, o ensino de História, nos programas e nos textos didáticos, procurava
satisfazer o pensamento de nossas elites e contemplar o primeiro e mais importante dos elementos com os quais
formaríamos a nossa identidade: a formação do povo brasileiro. Nessa perspectiva, enfatizava-se, ainda, a
influência que os africanos e índios teriam exercido na nossa formação cultural, isto é, na língua, na culinária e
nas "superstições", como os livros chamavam as religiões de origem africana.

Os cultos de origem africana, tratados como superstição, constituíam um obstáculo para o entendimento da
unidade cultural, cujos pontos de apoio básico se concentravam na língua portuguesa, falada em todo o território
e na religião católica. Por isso todos os programas de História do Brasil assinalavam a importância dos padres da
Companhia de Jesus e de algumas outras ordens religiosas católicas na colonização. O programa de 1931 trazia
em seqüência dois tópicos destinados a tais assuntos na sua listagem de conteúdo para a quarta série do curso
secundário: "A transmissão da cultura européia: início da literatura e da artes brasileiras. A Igreja no Brasil: sua
organização e influência; a visitação do Santo Ofício e a Inquisição"20. "Os jesuítas e a catequese" era a sexta
unidade do programa de História do Brasil para a 4ª série, elaborado em 194021.

Os livros didáticos destacavam a importância da catequese, que dera aos índios, ao mesmo tempo, o cristianismo
e a civilização européia, ao alfabetizá-los na língua portuguesa. Pandiá Calógeras em sua Formação Histórica do
Brasil celebrava a "colaboração cordial do poder civil com a Igreja"22, o que era visto também pelos livros
didáticos como um fato altamente benéfico. Considerava-se que se Cabral havia descoberto o Brasil, os jesuítas o
haviam fundado, pois

(...) homens superiores, espartanos de fé e atenienses de cultura, exerceram influência nos


primórdios da civilização brasileira, como elemento moral e de refreamento do espírito materializado
do colono que via diante de si unicamente seus interesses e seus apetites"23.

Mais ainda, os jesuítas teriam salvado a "civilização" ao conseguir, com seus aliados, rechaçar os tamoios
confederados e firmar a paz de Iperoig, evitando assim que os índios destruíssem vilas portuguesas, já instaladas
nas terras conquistadas.

Todos os movimentos históricos que implicaram na expansão da dominação colonial portuguesa e na implantação
de uma unidade cultural fundamentada na civilização européia eram apresentados de uma forma altamente
positiva pelos programas e textos didáticos, que deram alto valor e grandiosidade à obra de bandeirantes que
teriam estendido o território muito além da linha de Tordesilhas. Com isso, teriam sido criadas as bases do
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sentimento nacional fundamentado na integridade territorial, mantida após a Independência. Nesse aspecto, os
manuais demonstram até um certo ufanismo ao comparar o processo de Independência do Brasil ao das Colônias
Espanholas da América, que se fragmentaram em vários países. O destaque dado à administração colonial
portuguesa justificava-se porque tal sistema soubera manter unida toda sua possessão, configurando a unidade
do "território nacional".

Essa concepção pragmática da História como disciplina escolar, servia à formação do cidadão ideal para o estado
centralizado, que tinha como um dos seus objetivos neutralizar o poder das oligarquias regionais, formando o
sentimento nacional brasileiro. Sentimento este que teria como fundamento a raça, a língua e a religião, e um
território com uma única administração.

Notas
1 LOVE, J. A locomotiva: São Paulo na federação brasileira.1889-1937. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982, passim.
[ Links ]

PÉCAULT, D. Os intelectuais e a política no Brasil: entre o povo e a nação. Trad. Maria Júlia Golwasser. São Paulo,
Ática,1990, p. 72. [ Links ]

2 CHAUÏ, M. de S. "Ideologia e educação". In Educação e Sociedade. São Paulo, nº 05, 1980, pp. 24-40.
[ Links ]

3 TORRES, A. O problema nacional brasileiro. São Paulo, Ed. Nacional, 1933, p.179. [ Links ]

4VIANNA, e F. J. DE OLIVEIRA. Populações meridionais do Brasil: História, organização e psicologia. 5ª ed., Rio
de Janeiro, José Olímpio Ed., 1952, passim. [ Links ]

5 TORRES, A. op. cit., p. 183.

6 CAMPOS, F. Educação e cultura. Rio de Janeiro, José Olímpio, 1940. passim. [ Links ]

7AZEVEDO, F. A educação pública em São Paulo: problemas e discussões. Inquérito para o Estado de São Paulo
em 1926. São Paulo, Pioneira, 1927. [ Links ]

8Apud: CARDOSO, I.R. A universidade da comunhão paulista. São Paulo, Cortez/Autores Associados, 1981, p.
231. [ Links ]

9FURET, F. "A História na cultura clássica". In A oficina da História. Trad. Adriano Duarte Rodrigues. Lisboa,
Gradiva, s/d., p. 133. [ Links ]

10 Idem.

11PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro,
Imprensa Oficial, 1936, p. 13. [ Links ]

12 HOLLANDA, G. de. Um quarto de século de programas e compêndios de História para o ensino secundário
brasileiro. 1931-1956. Rio de Janeiro, INEP/Ministério da Educação, 1957, p. 18. [ Links ]

13 Apud: HOLLANDA, G. de. op.cit., p.16.

14 TAPAJÓS, V. História do Brasil. 12ª ed., São Paulo, Cia Ed. Nacional, s/d. [ Links ]

15GOMES, A. História do Brasil para a quarta série fundamental. 2ª ed., São Paulo, Edições e Publicações Brasil,
1941, p. 49. [ Links ]

16 Ellis Jr. publicou suas pesquisa sobre a formação da população do Planalto de Piratininga num livro intitulado,
na primeira edição, de Raça de Gigantes, e nas edições subsequentes, de Primeiros Troncos Paulistas.

17 Ladislau Neto, Apud: MAGALHÃES, B. de. História do Brasil para a segunda série dos cursos clássico e
científico. 2ª ed., Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves/ Editora Paulo de Azevedo Ltda., 1955, p. 34.
[ Links ]

18 MAGALHÃES, B. de. op. cit., p. 50.

19 GOMES, A. op. cit., p. 216.

20 Programas de 1931 (Curso fundamental). In HOLLANDA, G. de. op. cit., p.279. [ Links ]

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21 Idem, p. 285.

22 Apud: GOMES, A. op. cit., p. 121.

23 GOMES, A. op. cit., p. 125.

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