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A Trindade na Perspectiva da História

da Salvação

The Trinity in the perspective of salvation history

La Trinidad en la perspectiva de la historia de la salva-


ción
Clézio Ubiratã da Rosa

RESUMO
Em preparação

Palavras-chave:

ABSTRACT
In preparation.

Keywords:

RESUMEN
Em preparación.

Palabras clave:

53
[Edição original página 47] finitivamente as interpretações
gnósticas sobre a Trindade como here-
Dentro da língua portuguesa é difí- sias. A formulação do credo niceno, em
cil falarmos em Trindade e compreen- 325, era a seguinte:
dermos o verdadeiro sentido da palavra.
A primeira impressão é a existência de "Cremos em um só
três pessoas da divindade que se rela- Deus, Pai onipotente, cri-
cionam, entre si, no projeto divino de ador de todas as coisas vi-
salvação da humanidade. Porém, o cris- síveis e invisíveis; e em
tianismo é herdeiro da teologia judaica, um só Jesus Cristo, o Filho
essencialmente monoteísta, aceitando a de Deus, gerado pelo Pai,
revelação de Deus na história de Israel. unigénito, isto é, da subs-
Ao longo da história da Igreja, para tância do Pai, Deus de
ajuizar o sentido das questões sobre a Deus, Luz de Luz, Deus
Trindade, entre os séculos IV e VI, fo- verdadeiro do Deus ver-
ram convocados concílios que definiram dadeiro, gerado não feito,
o relacionamento entre as pessoas trini- de uma só substância com
tárias. o Pai, pelo qual foram fei-
Primeiramente, o Concílio de tas todas as coisas, as que
Nicéia, em 325, - controvérsia entre estão no céu e as que es-
Ário e Atanásio, sobre a igualdade da tão na terra; o qual, por
natureza do Filho com o Pai, ou preva- nós homens e por nossa
lece a posição de Atanásio a respeito da salvação, desceu, se en-
igualdade do Filho com o Pai. carnou e se fez homem e
O Concílio de Constantinopla, sofreu e ressuscitou ao
em 381, onde as idéias de Macedónio - terceiro dia, subiu ao céu,
o Espírito Santo é subordinado ao Pai e e novamente deve vir pa-
o Filho - são condenadas. Segundo este ra julgar os vivos e os
Concílio, o Espírito Santo é colocado na mortos: e no Espírito San-
mesma categoria do Pai e do Filho. to."1
O Concílio de Éfeso, em 431,
condena as idéias de Nestório que recu-
sava o termo theotokos (mãe de Deus)
aplicado à virgem Maria, porque isto pa-
recia exaltá-la indevidamente.
O Concílio deCalcedônia condena
o monofisismo que interpretava como
existindo duas naturezas na pessoa de
Cristo, a saber, uma divina, outra hu-
mana. 1
BETTENSON, H. Documentos da Igreja Cris-
Por fim o // Concílio de tã. São Paulo: ASTE, 1967, 370. O credo es-
Constantinopla, em 553, condena de- tá na página 55.

Clézio Ubiratã da ROSA. A Trindade na perspectiva da historia da salvação 54


[Edição original página 47/48] lica e apostólica; confes-
Após as controvérsias acima rela- samos um só batismo para
cionadas, o credo Niceno-Cons- a remissão dos pecados.
tantinopolitano II, em 553, define a Esperamos a ressurreição
doutrina da Trindade, confirmando as dos mortos e a vida do sé-
decisões conciliares anteriores. culo vindouro."2

"Cremos em um Deus, Mesmo com as definições concilia-


Pai todo-poderoso, criador res a respeito da Trindade, com o correr
do céu e da terra, de to- do tempo, a Igreja do Ocidente perde a
das as coisas visíveis e in- característica do Deus Trino, a ponto de
visíveis; e em um só Se- Bruno Forte, no início do seu livro, le-
nhor Jesus Cristo, o vantar a pergunta: "Será um Deus cris-
unigénito Filho de Deus, tão, o Deus cristão?"3
gerado pelo Pai antes de Partindo dessa pergunta, procura-
todos os séculos. Luz da se resgatar na história o verdadeiro
Luz, verdadeiro Deus de Deus cristão. Dentro do axioma propos-
verdadeiro Deus, gerado to por Kal Rahner "A Trindade econômi-
não feito, o qual, por nós ca é a Trindade imanente."4 Forte de-
homens e por nossa salva- senvolve o seu trabalho dentro da busca
ção desceu dos céus, foi histórica da Trindade.
feito carne do Espírito Outro trabalho interessante, e que
Santo e da virgem Maria, parte do mesmo axioma de Rahner, é o
e tornou-se homem, e foi da Maria Clara Lucchetti Bingemer, pu-
crucificado por nós sob o blicado pela Revista Eclesiástica Bra-
poder de Pôncio Pilatos, e sileira (Março de 1986), dentro da
padeceu e foi sepultado e perspectiva feminina da Trindade. Aqui,
ressuscitou ao terceiro dia os livros da História da Igreja Cristã se-
conforme as Escrituras, e rão a fonte de pesquisa para uma me-
subiu aos céus e assen- lhor compreensão a respeito da Trinda-
tou-se a direita do Pai, e de para os
de novo há de vir com gló-
ria para julgar os vivos e
os mortos, e seu Reino 2
Idem. página 56.
não terá fim; e no Espírito
3
Santo, Senhor e FORTE, B. A Trindade como História, pag.

vivificador, que procede do 66.


4
RAHNER, K. Apud Forte. II Dio Trino como
Pai, que com o Pai e o Fi-
Fondamento Originário e transcedente de la
lho conjuntamente e ado- Stória delia Salvezza. O axioma, acima refe-
rado e glorificado, que fa- rido por Rahner, não desconhece a transce-
dência de Deus. Porém, parte da imanência
lou através dos profetas; e que podemos conhecer, a revelação de Deus
na Igreja una santa, cató- na história da Salvação. O que transcende à
história, se torna especulação.

Revista Caminhando, v. 3, n. 2, p. 53-62, 2010 [2ª ed. on-line; 1ª ed. 1986] 55


nossos dias. nos indica que a possibilidade de buscar
o Deus Trino é olhar a sua revelação na
O Deus Cristão história da salvação da humanidade.
Partindo desse pressuposto, Forte é le-
Inicio esta pesquisa repetindo a vado para dentro da história. O mesmo
pergunta de Bruno Forte: "Será o Deus faz Bingemer na busca da face feminina
cristão o Deus dos cristãos?" de Deus.
Tentando responder essa pergunta, Um e o mesmo Deus se revela, o
Forte procura na história da Igreja o Pai pelo Filho no Espírito Santo. Isso a-
significado da Trindade, para resgatar o contece quando compreendemos ser a
exílio do Deus cristão no Ocidente. A Trindade revelada na história da salva-
maioria dos cristãos professam no seu ção parte da Trindade imanente. A cor-
credo o Deus Trino, porém, na prática respondência entre a economia e a
de sua vida religiosa são monoteístas. imanência é visível na pessoa de Jesus
Isso distancia o pensamento teológico Cristo, afirmada pela teologia paulina
da práxis do cristianismo no Ocidente. nas suas cartas (II Cor 1.19 ss; Cl
Resquício da influência de duas civiliza- 1.15). O relacionamento do Pai, Filho e
ções; o judaísmo e o greco-romanismo. Espírito Santo na história da salvação
nos dá possibilidade de conhecermos o
[Edição original página 48/49] verdadeiro Deus Trino.
O maior problema eclesial (um de-
As grandes sistematizações teológi- safio para a teologia) é trazer de volta a
cas do Ocidente, Agostinho e Tomás de Trindade para a fé vital, dentro da espi-
Aquino, tentam explicar a Trindade, par- ritualidade dos crentes e dos teólogos. A
tindo da concepção de essência una do partir dessa fé na Trindade toda a exis-
Deus Trino. Esse esforço de conciliar as tência cristã deve ser vivida e repensa-
pessoas da Trindade sem um referencial da.
histórico concreto da revelação divina na Dentro das constatações feitas, po-
história humana, reduz a Trindade a demos identificar a revelação trinitária
uma espécie de teorema celeste que a de Deus somente na história da salva-
condiciona como doutrina monoteísta ção, relatada na Escritura, conforme de-
prévia, sem conseqüências efetivas so- termina o Credo Niceno-
bre o plano da concepção de Deus e da Constantinopolitano. Partindo dessa a-
salvação dos homens. firmação, constatamos que Deus se re-
Rahner formula um axioma de vela a partir do evento da libertação dos
grande profundidade: "A Trindade eco- escravos do Egito. A saída dos escravos
nômica é a Trindade imanente."5 Isto (Êxodo) em direção à Terra Prometida
provoca significativas mudanças, bus-

5
FORTE, B. A Trindade como História, op. cit. Pais da Igreja no séc. IV-VI a dispensação
pag. 15 Economia é como denominavam os do ato que nos salva.

56 Clézio Ubiratã da ROSA. A Trindade na perspectiva da historia da salvação


cando, com a ajuda do povo da terra, do para salvar a todos do exílio do Reino
estabelecerem uma sociedade igua- de Deus. Forte coloca que no evento
litária. Com o passar do tempo se esta- pascal cristão é aue a revelação de Deus
belece a monarquia. O ideal de uma so- se faz mais nítida. Deus Pai é amor. Na
ciedade igualitária corre o perigo de história da salvação cabe sempre ao Pai
perder o valor original, ocasionado pela a iniciativa do amor; o amor do Pai é o
nova situação econômico-sócio-político e amor manancial; o amor do Pai é a ori-
religiosa existente. Surgem os profetas. gem da Trindade. A tradição da fé vei-
Posteriormente, vem o exílio babilónico cula a absoluta liberdade e gratuidade
permanecendo um resto de povo na ter- do amor do Pai. "Deus ama desde sem-
ra prometida. O Novo Testamento nos pre e para sempre."7 O amor de Deus é
traz, no relato pascal, uma Nova Aliança eterno, sem princípio e fim, e esse amor
que é estendida a toda a humanidade. A o faz intervir na história da humanidade,
libertação preparada por Deus é revela- não para ditar normas morais ou infligir
da no Filho, e consolidada na vinda do castigos, porém como aquele que ama e
Espírito Santo no Pentecostes, o que corrige o caminhar dos pecadores por
possibilita a compreensão da Trindade amor.
plena do cristianismo. Dentro dessa vi- Bingemer, na perspectiva feminina
são buscarei entender as pesquisas de de Deus, procura o lado feminino da
Forte, na perspectiva da história, e a vi- Trindade a partir dos profetas do Antigo
são de Bingemer, na perspectiva femini- Testamento, onde existem referências
na da história da salvação.6 ao cuidado de Deus para com o povo
que permitem falar de Deus como Pai e
[Edição original página 49/50] Mãe. Uma das palavras mais usadas é
rahamim (útero materno), o lugar onde
a própria vida é recebida em semente,
O Pai
acolhida, protegida e alimentada para

A revelação do Pai começa com o que possa desenvolver-se e sair a luz. O

evento Pascal no Egito. O libertador se rahamim é o Amor de Deus em direta

identifica como o "Eu Sou o que ouve o comparação com o amor de mãe que se

clamor do meu povo e vim tirá-lo da es- comove e experimenta compaixão pelo

cravidão" (Ex 7.15). Na Páscoa cristã, o filho de suas entranhas, dando origem a

Pai por amor ao mundo entrega Seu Fi- uma gama de sentimentos maternos, a

lho (Jo 3.16). Ninguém conhece o Pai a bondade, a ternura, a paciência e a

não ser pelo Filho (Mt 11.27). Quem vê compreensão que é prontidão para per-

a mim, vê o Pai (Jo 8.9). O Pai é aquele doar.

que ama o Filho e ama a humanidade a Dentro das colocações levantadas

ponto de entregar à morte o Filho ama- sobre a revelação do Pai na história da

6 7
BINGEMER, M. C. L. A Trindade a partir da FORTE, B. A Trindade como História, op. cit.
Perspectiva da Mulher. Op. cit. pág. 83 pág. 93

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humanidade notamos algumas conota- que fazemos do objeto de nossa pesqui-
ções que podem ser questionadas. Ao sa será sempre mediada pelos conheci-
que parece, Forte dá ênfase a uma mentos que previamente adquirimos e
perspectiva masculina de Deus. Aquele internalizamos. É muito difícil sermos
que não muda o seu plano de resgate totalmente objetivos numa pesquisa.
da humanidade, apesar do clamor do Fi-
lho, o leva até o fim. O que parece um O Filho
certo autoritarismo, o Soberano Senhor
é identificado com os valores masculinos A história do Filho é o momento
de uma sociedade patriarcal. central para toda a teologia cristã, e es-
Na perspectiva feminina, o Deus ta história tem sua interpretação a partir
identificado com o útero materno, o da ressurreição do Filho, um elo muito
amor desinteressado, a ternura, a com- forte com a ressurreição da natureza
paixão e a compreensão maternal.8 comemorada na primavera pelos povos
Essas colocações nos levam a for- nômades-pastoris. Todo o Novo Testa-
mular uma pergunta. mento foi escrito a partir da ressurreição
Não ficam essas constatações a de Jesus Cristo. O império da morte foi
respeito do Pai, projeções antro- vencido, e ele será destruído totalmente
pomórficas de ambos os lados? na segunda vinda do Cristo. O Amor do
Essa indagação é importante, pois Filho é que fez ser obediente ao Pai, até
temos hoje o instrumental da psicologia o fim (Gl 2.20). Foi Ele que ressuscitou
junguiana, onde o ânimus e a anima e se mostrou vivo aos discípulos (Mc
(que significam o lado masculino e o 16.; Mt 27.). Foi Ele que soprou sobre
feminino do ser humano) convivem no toda a carne o Espírito Santo, recebido
psique do homem e da mulher. Essas do Pai (Jo 20). Ele não existe para si,
comparações usadas nas Escrituras pe- mas para o Pai e para os homens e mu-
los profetas, comparando o Amor de lheres. O Pai o enviou ao mundo para
Deus para com o povo, podem ser pro- abrir o caminho ao Reino de Deus entre
jeções de seu lado feminino ou compa- os seres humanos. Deu a sua vida para
rações do profeta ao ver como as mães cumprir o projeto divino de salvar a
tratavam seus filhos. humanidade.
Quando buscamos entender algu- Jesus viveu para o Pai, morreu em
ma coisa, partimos do horizonte cultural obediência a Ele na cruz por amor aos
e, podemos dizer, sexual a que perten- exilados do Reino de Deus, pecadores e
cemos. A interpretação errantes do Pai. Ressurgiu acolhendo o
dom do Pai, o Amor, e o difundiu sobre
[Edição original página 50/51]
toda a terra. É confessado como Senhor,
Filho de Deus, Verbo encarnado, o Sal-
vador e o Bom Pastor que conduz as o-
velhas errantes ao seu redil.
8
BINGEMER. A Trindade a Partir da Perspec-
tiva da Mulher, op. cit. pág. 83.

58 Clézio Ubiratã da ROSA. A Trindade na perspectiva da historia da salvação


Jesus Cristo pertence manidade, tanto no relacionamento pes-
contemporaneamente ao mundo de soal como no social, são perdoados. To-
Deus e ao mundo dos homens, os dois dos são convidados a nascer de novo,
horizontes se fundem na pessoa de Je- que significa a busca de uma nova hu-
sus.o Cristo. O Amor do Pai gera o Filho manidade.
no amor à humanidade. Essa história de O nascer de novo se caracterizava
salvação revela a imanência da Trinda- com a ruptura de uma série de tabus da
de. sociedade judaica da época. Uma das
Bingemer acrescenta alguns traços mais evidentes é a questão da mulher,
femininos na pessoa de Jesus Cristo.9 O considerada social e religiosamente infe-
Jesus histórico, relatado nos Evange- rior, por não ser circuncidada. Por isso,
lhos, é mostrado como iniciador de um ela não fazia parte da Aliança com Deus,
movimento itinerante e carismático. e
Esse movimento admitia homens e
mulheres numa comunhão fraterna, co- [Edição original página 51/52]

locando-os em igualdade, sendo que na


época a mulher era considerada inferior pela sua condição biológica de mulher, a
ao homem. O movimento de Jesus é di- sua penetração no santuário era veda-
ferente do movimento de João Batista da, mesmo para participar dos atos reli-
que dava ênfase ao arrependimento e a giosos. Ela era obrigada a rigorosos pre-
busca de uma vida ascética. Também ceitos Oe purificação. Carregavam toda
diferente do movimento de Qumran,10 uma carga pejorativa como filhas de
onde somente homens são admitidos. O Eva. É neste contexto que a prática de
movimento de Jesus é caracterizado pe- Jesus se mostra inovadora. O seu rela-
la pregação de igualdade dos seres hu- cionamento com as mulheres chega a
manos no Reino de Deus, e não exclui surpreender os discípulos (Jo 4.27). É
pessoas de quaisquer condições sociais, dado comum nos quatros Evangelhos
homens, mulheres, crianças. Todos são que as mulheres faziam parte ativamen-
convidados a participarem da vida a- te do grupo que seguia Jesus. Posteri-
bundante oferecida por Jesus, e o convi- ormente, o batismo cristão integra a
te é estendido a justos e pecadores. No mulher na missão da Igreja.
Reino de Deus, todos os desvios da hu- Ao concentrarmos o olhar na pes-
soa de Jesus, buscamos, através da psi-
cologia junguiana, compreender a ani-
ma do Mestre. Jesus embora fosse ho-
9
BINGEMER. A Trindade a partir da Perspec- mem e predominava o modo masculino
tiva da Mulher, op. cit. pág. 88.
10
Qumran, comunidade religiosa localizada à
de ser, integrou o lado de sua dimensão
margem noroeste do Mar Morto, pertencen- feminina. Os Evangelhos nos mostram
te a seita judaica dos essênios. O mosteiro
Jesus como um homem que não apre-
de Qumran foi ocupado pela comunidade na
metade do século II até o ano 31 antes de senta o tão decantado pudor masculino
Cristo, e, depois do começo de nossa era,
da época. O Mestre é capaz de falar du-
até sua violenta destruição no ano de 68,
pelos romanos. ramente com os fariseus e os discípulos,

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mas se compadece dos pequeninos, dos Amor do Pai e do Filho no Espírito Santo.
doentes, dos pecadores e da mulher a- É o Dom do Amor.
dúltera condenada pela hipocrisia dos Esse dom do amor aue é vínculo da
seus acusadores. Ele também chora a unidade entre o Pai e o Filho -amor que
morte de seu amigo Lázaro e sente as emana do Amante e é acolhido pelo
dores pela rejeição por parte de Jerusa- Amado - torna-se a terceira pessoa da
lém. Trindade.
Todo o feminino em Jesus, feito O Espírito Santo é Deus com o Pai
ternura, compaixão e misericórdia infini- e com o Filho, Um com Eles no plano do
ta, foi demonstrado na cruz onde o seu ser divino da eterna história de Amor. O
momento de maior amor foi dar a vida Espírito Santo é o Amor que jorra do Pai
pelos amigos e inimigos. Podemos afir- e derrama sobre o Filho que recebendo-
mar que na segunda pessoa da Trinda- o, torna-se um com o Pai e por isso,
de, Jesus em sua vida entre a humani- também, dele procede o Amor.
dade, suas palavras, sua práxis e sua O maior Dom do Espírito Santo é o
pessoa demonstra a divinização tanto Amor (I Cor 13.1 ss). A abertura de
do masculino, auanto o feminino. Este Deus para a humanidade, revelada no
ato pertence ao núcleo mais profundo Filho e confirmada no Espírito
do Mistério do Amor divino encarnado.
Concluindo a questão sobre o Filho, [Edição original página 52/53]

essas contribuições das fontes de pes-


quisa possibilitam um melhor entendi- Santo se dá no Amor. O Espírito Santo
mento da Pessoa de Jesus na história da se coloca na comunidade de fé como o
humanidade. A fusão de horizontes Paráclito, aquele que a defende e a con-
masculino e feminino enriquecem a vi- sola, na ausência física de Jesus. O A-
são sobre a Trindade. mor de Deus revelado por Jesus e con-
cretizado na ação do Espírito Santo (Jo
15.9).
O Espírito Santo
Na perspectiva feminina,11 " o Espí-
rito Santo possui acentos maternais bem
O Espírito Santo penetra na história
claros. Ele não nos deixa órfão (Jo
da Trindade no início da criação (Gn 1.1
14.18), nos consola, nos exorta e con-
ss). Percorre o Antigo Testamento inspi-
forta como uma mãe carinhosa (Jo
rando os patriarcas e profetas. Aparece
14.26). Ensina-nos a balbuciar o nome
no Novo Testamento no Batismo de Je-
do Pai aba (Rm 8.15), e o nome do Se-
sus, porém, a partir do Pentecoste, o
nhor Jesus Cristo (I Cor 12.3), e nos en-
Espírito Santo substitui o Jesus histórico
sina a orar como convém (Rm 8.26). Po-
na vida da comunidade cristã e abre o
rém, devemos tomar o cuidado de não
relacionamento entre as pessoas para a
liberdade do Amor. A dolorida separação
da cruz ér substituída pela comunhão no
11
BINGEMER. A Trindade a Partir da Perspec-
tiva Feminina, op. cit. pág. 98.

60 Clézio Ubiratã da ROSA. A Trindade na perspectiva da historia da salvação


fazermos um dualismo no Espírito como horizontes diferenciados, mas se apro-
o existente entre os sexos masculino e ximam a medida que os horizontes se
feminino, mas encontrar, inspirado no fundem na luta pelo Reino de Deus.
amor divino, a verdadeira integração en- A busca maior é a de encontrar o
tre o homem e a mulher. A falsa ima- Amor trinitário na comunidade cristã. A
gem de um Deus monoteísta e masculi- partir desse encontro é que poderemos
no do Ocidente a respeito da Trindade é estendê-lo aos oprimidos pela nossa so-
que separou homens e mulheres do pro- ciedade individualista e discriminadora
jeto inicial a respeito do Reino de Deus. (Jo 3.16-18).
Hoje, procuramos ver a Trindade como a Algumas diferenças encontradas
revelação plena de Deus na comunidade dentro das perspectivas propostas, que
de homens e mulheres unidos pelo amor não ficaram muito claras, são mais
fraternal, acolhendo os desvalidos, os compreensíveis a partir da psicologia
espoliados deste mundo, o órfão, a viú- junguiana. Quem melhor se aproxima da
va, o pobre e o estrangeiro. É na comu- dimensão masculina e feminina da Trin-
nidade cristã que eles encontrarão o úl- dade é Leonardo Boff, 13 profundo co-
timo e derradeiro lugar de aconchego, nhecedor da psicologia junguiana.
ternura e proteção. Hoje, é muito difícil caracterizar a-
tributos masculinos ou femininos a um
Concluindo dos sexos somente. Ao tentarmos definir
características de cada sexo, podere-
Analisando o tema da Trindade a mos, facilmente, cairmos em ideologia
partir de horizontes masculinos e femi- machistas ou feministas.
ninos, aparando algumas arestas, surge
a necessidade de repensarmos constan- [Edição original página 53/54]

temente conceitos com os instrumentos


de que dispomos no final do século XX. Outra dificuldade encontrada para

A teologia, hoje, faz uma aproxi- uma teoria mais profunda sobre a Trin-

mação da Trindade dentro da compre- dade é: como pode o finito tentar expli-

ensão que o maior Dom divino é o A- car o que é infinito? Seria como um grão

mor. de areia querer explicar todo o oceano a

O pano de fundo para os trabalhos partir do que é revelado a sua volta.

de Bruno Forte e Maria Clara L. Binge- Mesmo com o avanço do olho humano

mer e a síntese desse ensaio é o axioma por meios eletrônicos, mais distante se

de Kal Rahner:" A Trindade econômica é torna o Universo das galáxias nunca an-

a Trindade imanente". 12 Procurei não tes imaginado. Sempre correremos o

somente deter-me nas teorias sobre o risco de reduzir, apesar de todo o esfor-

axioma, mas procurar compreender a ço feito, o Criador de todas as coisas ao

nova visão da teologia contemporânea modo de nossa pequena visão

sobre a Trindade. Creio que as diferen- antropomórfica.

ças encontradas nas fontes, partem de Ao falarmos de Trindade, temos


que aceitar a revelação da mesma feita

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na história humana como ponto de par- BINGEMER, M. C. L. A Trindade a partir
tida para a nossa compreensão. Reco- da perspectiva da mulher. Rio de Ja-
nhecermos que o revelado do Deus neiro, REB vol. 46 fase. 181, Março de
Trino não foi plenamente alcançado pela 1986.
humanidade, o Reino de Deus. Essa BOFF, L. A Santíssima Trindade é a me-
proposta de Amor, que Deus estende a lhor comunidade. Rio de Janeiro, Edi-
todos, só será pleno quando encarnado tora Vozes, 1988.
na comunidade cristã. Esse fato propor- BETTENSON, H. Documentos da Igreja
cionará a verdadeira revelação do Deus Cristã. São Paulo, Ed. ASTE 1967, 370
cristão ao mundo inteiro. p.
Urge abrirmo-nos ao Amor de Deus CAIRNS, Earle E. O cristianismo através
que é derramado em nossos corações dos séculos. São Paulo, Edições Vida
pelo Espírito Santo. Quando esse Amor Nova, 2° eáição 1988. 328 p.
encher os nossos corações e transbordar Forte, B. A Trindade como história. São
em nossas comunidades, de fé, as dife- Paulo, Ed. Paulinas, 1987. 212 p.
renças serão quebradas criando novos GONZALES, J. L. Uma história ilustrada
relacionamentos humanos. Aí começa- do cristianismo. São Paulo,
remos a entender mais claramente o Editora Vida Nova, 1980. Vol. 1-5
mistério da Trindade. HAGGLUND, B. História da teologia. Por-
to Alegre, Ed. Concórdia, RS 1981.
HAMMAN, A. Santo Agostinho e seu Tem-
po. São Paulo, Ed. Paulinas, 1989

Bibliografia

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